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A Europa dos Estados Absolutos e a Europa dos


Parlamentos
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2.1. Estratificação social e poder político nas sociedades da Antigo Regime

2.1.1. Uma sociedade e ordens assente no privilégio

Entre o século XVI e o fim do século XVIII, a Europa vive uma época que os

historiadores designam por Antigo Regime.

Embora englobando múltiplos aspetos de vida das populações, é na esfera político-social

que esta designação melhor se concretiza, transpondo-nos para o tempo das monarquias

absolutas e de uma sociedade hierarquizada em ordens ou estados.

A ordem corresponde a uma categoria social definida quer pelo nascimento quer

pelas funções sociais que os indivíduos desempenham.

Confere aos seus membros determinadas honras, direitos e deveres

A cada ordem corresponde um estatuto jurídico próprio e os seus elementos

distinguem-se pelo traje e pela forma de tratamento.

São três as ordens ou estados em que basicamente se divide a sociedade de Antigo

Regime: o clero, a nobreza e o Terceiro Estado (ou povo).

Esta estratificação mantém vivos muitos dos privilégios e atributos que se atribuíam às

ordens.

No entanto, com o correr dos séculos, as ordens foram-se fracionando numa pluralidade

de grupos diferenciados, cada um com o seu estatuto próprio.


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O clero ou o primeiro estado

O clero mantém-se como o estado mais digno, porque é o mais próximo de Deus. Ele

é o primeiro estado da nação, usufruindo de numerosos privilégios:

 Está isento de impostos à Coroa, bem como da prestação de serviço militar;

 Não está sujeito à lei comum, mas sim ao Direito Canónico e são julgados em tribunais

próprios;

 Pode conceder asilo aos fugitivos;

 Não é obrigado a doar as suas casas aos soldados do rei.

Ordem privilegiada, o clero é também uma ordem rica.

Grande proprietário de todos o tipo de bens, o clero recebe ainda os dízimos (décimos

de Deus) e muitas outras “ofertas” dos crentes que pastoreia.

Sendo o único estado que não se adquire por nascimento, o clero aglutina elementos

de todos os grupos sociais, desde príncipes a humildes camponeses.

O alto clero constitui-se com os filhos-segundos da nobreza e agrupa todo um

conjunto hierarquizado de cardeais, arcebispos, bispo e seus séquitos.

Vive folgadamente no luxo e, já que os seus membros recebem uma educação

esmerada, desempenha cargos na administração e na corte.

Já o baixo clero, geralmente oriundo das gentes rurais, partilhava da vida simples dos

mais desfavorecidos.

Competia-lhe:

 Oficiar os serviços religiosos;

 Orientar espiritualmente os paroquianos;


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 Orientar a escola local.

Muito ou pouco instruído, o certo é que o pároco representava a disciplina e a jurisdição

eclesiásticas e a igreja continuava a ser o centro da aldeia.

Quanto ao clero regular, há muito que perdera o importante papel de agente de

desenvolvimento económico que tivera na Idade Média.

No entanto, o seu número nem por isso deixou de aumentar, particularmente na

Península Ibérica.
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A nobreza ou segundo estado

A nobreza é, de facto, a ordem de maior prestígio.

É ela que cede ao clero os seus membros mais destacados e que ocupa na

administração e no exército, os cargos de poder.

Desfruta de um regime jurídico próprio que lhe garante a superioridade perante as

classes populares.

Embora senhora de grandes propriedades, está também isenta do pagamento de

contribuições ao rei, exceto em caso de guerra.

As velhas famílias cuja origem nobre mergulha no passado constituem a nobreza de

sangue ou nobreza de espada.

Desde sempre dedicada à carreiras das armas, a espada é o seu símbolo.

Apesar de unidos pelo mesmo orgulho na antiguidade das suas linhagens, os membros

da nobreza de sangue subdividem-se em categorias diversas e hierarquizadas.

 No topo, ficam os príncipes, duques e outros pares do reino que,racorte convivem de

perto com o monarca;

 No polo oposto, situa-se a pequena nobreza rural, que só a custo consegue viver, com

dignidade, dos rendimentos do seu pequeno senhorio

A esta velha nobreza veio-se juntar uma nobreza administrativa, destinada a satisfazer as

necessidades burocráticas do Estado.

A ocupação de cargos públicos de destaque por juristas de origem burguesa forçou o rei

a conceder-lhes um título, compatível com a dignidade das funções que desempenhavam.

Esta nobreza de toga, de início olhada com desprezo pelo velha aristocracia, não tardou

a fundir-se com ela pelo casamento.


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Terceiro estado

O terceiro lugar desta sociedade tripartida é ocupado pelo povo ou Terceiro Estado.

É, de todas, as ordem mais heterogénea.

À cabeça do Terceiro Estado encontram-se os homens de letras, muito respeitados pelo

saber que adquiriram nas universidades.

Estão divididos em diversos grupos hierarquicamente ordenados, conforme a importância

da função que exercem.

Seguem-se os financeiros e os mercadores, profissionais de reconhecida utilidade a

quem a riqueza adquirira estatuto e respeito.

Respeito mereciam também alguns ofícios superiores, como o de boticário, joalheira,

chapeleiro, “mais ligados à atividade mercantil do que ao trabalho manual”.

Todos estes homens podem utilizar o título de burguês e, embora em escalões

diferenciados, constituem a elite do Terceiro Estado.

Vêm depois aqueles cujo trabalho “assenta no corpo”.

Em primeiro lugar, os lavradores que têm terra própria ou de renda.

Abaixo deles, os que desempenham “ofícios mecânicos”, ou seja, os artesãos.

Seguidos dos mais humildes de todos os trabalhadores, aqueles que executam trabalho

assalariado e, muitas vezes, incerto.

Depois de hierarquizados todos os que produzem, restam aqueles que não cumprem a

função social do Terceiro Estado, isto é, que não trabalham:

 Mendigos, vahabundos e indigentes são os mais desprexíveis membros da sociedade de

ordens.

Praticamente todos os elementos do povo pagam impostos e, com as poupas exceções


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dos que possuem rendimentos, vivem do seu trabalho.

A maior parte é constituída por camponeses (cerca de 80% da população).


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A Diversidade de Comportamentos e de Valores. A Mobilidade Social.

A diferenciação social deveria refletir-se no comportamento dos indivíduos e no

tratamento que os outros lhes dispensavam.

Por isso, cada estrato tinha as suas insígnias e os seus distintivos.

 Os nobres usavam a espada e adornavam-se com os tecidos mais ricos;

 Os bispos exibiam o anel e o báculo;

 Os clérigos eram facilmente reconhecidos pela tonsura e pela batina preta;

 Batina usavam também os doutores, licenciados e bacharéis.

Esta diversidade de estatuto está plenamente consignada no exercício da justiça.

Clérigos e nobres estão isentos de penas vis, como o açoite e o enforcamento.

Em compensação, os seus crimes são punidos com pesadas multas pecuniárias e, em

caso de pena máxima, são executados por decapitação.

Porém, mesmo nesta estrutura rígida, onde tudo parece previsto, a mobilidade social

existe e, a longo prazo, o Antigo Regime salda-se por uma ascensão do Terceiro Estado e pela

decadência dos critérios sociais baseados no nascimento.

Trata-se, no entanto, de um processo lento.

Foi o dinheiro que abriu à burguesia os caminhos que conduzem ao topo.

Senhora de grandes fortunas, a burguesia procurou os meios de superar o estigma que

pesava sobre os novos-ricos.

Encontrou-os no estudo, na dedicação aos cargos do Estado e no casamento. ´

Falámos já que a nobreza de toga, oriunda do Terceiro Estado e elevada graças ao

desempenho de cargos administrativos que, muitas vezes, consolidava a sua ascensão social

através do casamento.
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O sentido de superioridade da velha nobreza não conseguia resistir à atração que lhe

despertavam as grandes fortunas e casava filhos e filhas com elementos da burguesia,

recuperando, deste modo, as suas finanças.

A sua diferente postura perante a vida e a sociedade que ditou o percurso da nobreza e

da burguesia.

 A primeira, agarrada a privilégios antigos e comprazendo-se sinais exteriores da sua

superioridade, foi lentamente decaindo;

 A segunda, adotou uma postura combativa, alicerçado no trabalho e no mérito pessoal,

que lhe abriu as portas da ascenção social e do poder.


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2.1.2. O absolutismo régio

O vértice da hierarquia social é representado pelo rei.

Nos séculos XVII e XVIII, o poder real atingiu o auge da sua força.

Ao rei foram atribuídos todos os poderes e toda a responsabilidade do Estado.

A legitimidade deste poder supremo só poderia ser encontrada na vontade de Deus.

Dela provinham, por escolha e dádiva, não só a autoridade real como as qualidade

necessárias aos exercício de tão pesado cargo.


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Os fundamentos do poder real

Foi o clérigo Bossuet quem teorizou os fundamentos e atributos da monarquia absoluta.

Procurou legitimar o estilo de governação de Luís XIV, modelo de todos os reis absolutos

e, até, do próprio Absolutismo.

Segundo Bossuet, o poder real conjunta quatro características básicas:

 É sagrado, porque provém de Deus que o conferiu aos reis para estes o exerçam em seu

nome.

Daqui decorre que atentar contra o rei é um sacrilégio e que se deve “obedecer ao

príncipe por princípio de religião”.

Mas esta origem divina do poder real se o torna incontestável também lhe impõe limites,

pois os reis devem honrar o poder que Deus lhes deu, usando-o para o bem público.

 É paternal. Por isso, o rei deve satisfazer as necessidades do povo, proteger os fracos e

governar brandamente, cultivando a imagem de “pai do povo”;

 É absoluto, uma vez que o príncipe deve tomar as suas decições com total liberdade.

O rei assegura, com o seu poder supremo, o respeito pelas leis e pelas normas da

justiça.

 Está submetida à razão, isto é, à sabedoria, visto que Deus dotou reis de capacidades

que lhes permitem decidir bem e fazer o povo feliz

Escolhidos por Deus, os monarcas possuem certas qualidades intrínsecas:

 Bondade;

 Firmeza;

 força de caráter;

 Prudência;
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 capacidade de previsão.

São elas que asseguram o bom governo.


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O exercício da autoridade. O rei, garante da ordem social estabelecida.

O rei absoluto concentra em si toda a autoridade do Estado:

 ele legisla;

 ele executa;

 ele julga.

Uma vez que as suas ações estão legitimadas por si próprias, os monarcas absolutos

dispensam o auxílio das outras forças políticas.

 Em França, os Estados Gerais, reuniram-se pela última vez (antes da revolulção) em 1614-15;

 Perto do fim do reinado de Luís XIV, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Torcy, considera-os

“abolidos”, visto não sev reunirem há perto de cem anos;

 Em Portugal, as Cortes não reúnem uma única vez durante o céculo XVIII.

Mas, na verdade, nenhuma instituição foi abolida.

Nem os Estados Gerais, em França, nem as Cortes, em Portugal.

Abolir qualquer instituição seria uma afronta aos privilégios estabelecidos que ao rei cabia

preservar.

Na cerimónia de coroação e sagração, segundo ritos e fórmulas antigos, o rei jurava

manter o reino em direito e em justiça.

Mesmo em França, qualquer atropelo às leis fundamentais era olhado com desagrado e

condenação.

O rei torna-se, assim, o garante da ordem social estabelecida e é nessa qualidade que

recebe, das mãos de Deus, o seu poder.

Qualquer tentativa feita no sentido de a alterar é vista como um desrespeito do direito

consuetudinário e quebra do juramento prestado.


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A encenação do poder: a corte régia

Não foi o Absolutismo que inventou a corte, mas foi ele que a transformou no espelho do

poder.

Tal como Luís XIV é o paradigma do rei absoluto, Versalhes é o paradigma da corte real.

O grande palácio foi construído à imagem do Rei-Sol. Podia albergar “uma cidade inteira”.

Desde 1682, que aí coexistiam os serviços da governação e a movimentação da vida

galante.

Nobres, conselheiros, “privados do rei”, funcionários vivam na corte e para a corte,

seguindo as normas impostas por uma hierarquia rígida e uma etiqueta minuciosa.

Esta sociedade da corte servia de modelo aos que aspiravam à grandeza, pois

representava o cume do poder e da influência.

Ela era, em grande medida, a imagem que, do país, irradiava para o estrangeiro.

Luís XIV tinha um sentido notável para a propaganda.

“Nós não somos particulares, pertencemos inteiramente ao público”.

Por isso, a vida em Versalhes era, quotidianamente, uma encenação do poder e da

grandeza do soberano.

Cada gesto do monarca adquiria um significado social ou mesmo político e diplomático.

Todos estavam dependentes dele.

Todos esperavam, ansiosos, um convite para assistir ao levantar do rei, ao almoço do rei,

ao baile do rei.

O rei e a sua família representavam o poder em todas as circunstâncias e mesmo os

mais triviais atos do quotidiano se transformaram em cerimónias semipúblicas.


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2.1.3. Sociedade e poder em Portugal

A realidade francesa constitui o modelo da sociedade de Antigo Regime.

As estruturas sociais e políticos que aí vigoravam foram comuns a praticamente toda a

Europa.

No entanto, é possível distinguir, em cada país, particularidades próprias que o

individualizam.
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A preponderância da nobreza fundiária e mercantilizada

Em 1640, a nobreza portuguesa recuperou do golpe que lhe vibrara Alcácer Quibir.

Lisboa tinha, de novo, uma corte e Portugal um rei que não dividia com o país vizinho.

Foram os nobres que, arrojadamente, restauraram a monarquia portuguesa.

Este facto reforçou o papel político da nobreza.

Pelo menos até meados do século XVIII a nobreza de sangue manteve, quase em regime

de exclusividade, o acesso aos cargos superiores da monarquia:

 Comandos das províncias militares, presidência dos tribunais de corte, vice-reinados da

Índia e Brasil, missões diplomáticas.

Estes serviços permitiram:

 Garantir o usufruto dos bens da Coroa e ordens militares;

 Aumentar o património das grandes casas

O mesmo acontecia com os cargos ligados ao comércio ultramarino.

No nosso império, eles foram sempre usados para agraciar a nobreza que, na grande

maioria dos casos, pouco percebia de negócios.

Críticas a esta situação não faltaram.

Recebeu-as, no início do século XVI, o rei D. Manuel, que as não ouviu.

Bem posicionada na administração do Império, a fidalguia portuguesa junta os

rendimentos que tira da terra, dos cargos que exerce e das dádivas reais, àqueles que provêm do

comércio.

Por todo o Império os nobres enriquecem à custa das sedas da China, da canela de

Ceilão, dos escravos da Guiné ou do açúcar do Brasil.


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Fruto destas atividades, a nobreza mercantiliza-se, dando origem a um tipo social

específico:

 o cavaleiro-mercador.

Embora ligado ao comércio, o cavaleiro-mercador nunca foi um verdadeiro comerciante no

sentido económico e social do termo.

A mercancia foi sempre, para o nobre, um modo fácil de adquirir riqueza, uma atividade

complementar à sua condição de grande proprietário de terras.

Aplicava os seus ganhos na aquisição de mais terras ou, o que acontecia frequentemente,

desbaratava-se em artigos de luxo.

Deste modo, boa parte dos lucros do comércio marítimo português não frutificava nem

contribuía para o desenvolvimento de uma burguesia enriquecida e enérgica.

Pelo contrário, no nosso país a burguesia teve sérias dificuldades em se afirmar, atrofiada

pelo protagonismo excessivo da coroa e da nobreza.


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A criação do aparelho burocrático do Estado Absoluto

A concentração dos poderes obriga à sua organização.

Por isso, os monarcas absolutos sentiram a necessidade de reestruturar a burocracia do

Estado, redefinindo as funções dos órgãos já existentes e criando outros.

Embora dotados de razoável autonomia, todos estes órgãos atuavam sob o controlo direito

do rei, que neles delegava parte das suas competências.

Em Portugal, a reorganização do aparelho burocrático iniciou-se antes do advento da

monarquia absoluta.

De facto, em 1640, o país viu desarticularem-se os órgãos centrais de administração

pública.

O novo rei sentiu, pois, necessidade de criar estruturas que dessem andamento ao

expediente dos negócios do Estado.

É assim que D. João IV cria um núcleo administrativo central – as secretarias – e intervém

em áreas fundamentais como:

 a defesa (criação do Conselho da Guerra);

 as finanças (reforma do Conselho da Fazenda);

 a justiça (reestruturação do Desembargo do Paço)

Na segunda metade do século XVII, esta estrutura governativa foi-se aperfeiçoando e,

progressivamente, o rei tomou com mais firmeza as rédeas da governação.

O reforço do poder real esbateu o peso político da nobreza e conduziu também ao

apagamento do papel das Cortes como órgão de Estado.

Os três estados reuniram-se pela última vez em 1697.

Coube a D. João V encarnar, em Portugal, a imagem do rei absoluto.


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Grande admirador de Luís XIV, D. João V seguiu o modelo do governo pessoal do rei

francês.

Com a obsessão de tudo controlar, o monarca diminuiu progressivamente a capacidade de

decisão dos diversos conselhos transferindo-a para os seus colaboradores mais diretos – os

secretários, com quem reunia frequentemente.

No sentido de melhorar este núcleo, o rei procedeu, em 1736, à reforma das três

secretarias existentes, redefinindo as suas funções e alterando- lhes o nome.

Pesem embora os esforços feitos para a aperfeiçoa, em meados do século XVIII, a

máquina burocrática do Estado continuava pesada, lenta e insuficiente.

Os elementos de ligação com a administração local escasseavam e para a maioria dos

portugueses o rei e o seu poder não pareciam mais próximos do que nos séculos anteriores.

Por isso mesmo, “na época de D. João V, a instituição real está longe de subjugar o país”

e o absolutismo monárquico exprime-se, sobretudo, pela magnificência e pelo culto da pessoa

régia.
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O absolutismo Joanino

Em 9 de dezembro de 1706, quando subiu ao trono de Portugal, D. João tinha apenas 17

anos.

A História conhecê-lo-ia como D. João V, o Magnânimo.

O jovem monarca acalentava sonhos de grandeza para si e para o seu reino e as

circunstâncias foram-lhe favoráveis.

 O governo joanino correspondeu a um período de paz excecional abundância para os

cofres do Estado – coincidiu com a exploração das recém-descobertas minas de ouro e

diamantes do Brasil;

 Foi este ouro que, em grande parte, alimentou o esplendor real.

Naquela época, a imagem de Luís XIV impunha-se na Europa como modelo a seguir quer

no que respeita à autoridade com que dirigiu os negócios do Estado quer no que toca à

magnificência de que se rodeou.

O nosso rei procurou imitá-lo em qualquer dos dois aspetos.

Para além da recusa em reunir Cortes e do controlo pessoal que exerceu sobre a

administração pública, D. João V procurou sempre expressar a sua superioridade face à nobreza.

 Em 1728, não hesitou em banir da corte 30 dos seus elementos, terem desrespeitado um

oficial de justiça.

Tal como o Rei-Sol, D. João V realça a figura régia através do luxo e da etiqueta.

Adota-se a moda francesa, quer no traje, quer no cerimonial, quer na preferência pelos

grandes espetáculos.

Uma rígida hierarquização marca o protocolo da corte:

 todos ocupam um lugar definido de acordo com o seu título ou o cargo;


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 o rei tem sempre o lugar central.

É o centro das atenções e o centro do poder.

O D. João V completa a “vocação de grandeza” com uma política de mecenato das artes e

das letras.

O rei patrocina importantes bibliotecas, promove a impressão de variadas obras.

Paralelamente, chama para a corte os melhores artistas plásticos, custeia a aprendizagem,

em Itália, aos pintores portugueses mais dotados e empreende uma política de grandes

construções.

 Edificaram-se igrejas ou recobrem-se os seus interiores com o brilho da talha dourada;

 Contrói-se o Palácio Convento de Mafra.

Em termos de política externa, o rei procurou a neutralidade face aos conflitos europeus,

salvaguardando, no entanto, os interesses do nosso império e do nosso comércio.

Apesar disso, não se furtou à intervenção armada quando esta lhe podia proporcionar

prestígio internacional.

Foi assim que correspondeu ao pedido de auxílio do Papa e enviou uma poderosa armada

para combater os Turcos, que ameaçavam a Itália., em 1717.

Com o mesmo objetivo, o monarca não olhou a despesas para engrandecer as nossas

representações diplomáticas.

As numerosas embaixadas que enviou (a Viena, a Paris, a Roma, a Madrid, à China)

primaram pela pompa e pela prodigalidade:

 trajes sumptuosos;

 coches magníficos;

 distribuição de moedas de ouro pela população exaltaram no estrangeiro a imagem de


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Portugal e do rei magnânimo.

Em plena época barroca, o brilho e a ostentação significavam autoridade e poder.


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2.2. A Europa dos Parlamentos: Sociedade e Poder Político

2.2.1. A afirmação política da burguesia nas Províncias Unidas

Em 1568, impelidas por um forte desejo de liberdade política e religiosa, sete províncias

dos Países Baixos do Norte revoltaram-se contra o domínio espanhol.

À revolta seguiu-se uma longa guerra pela independência durante a qual nasceu e se

consolidou a República das Províncias Unidas.

Formada por sete pequenos Estados sob a hegemonia da Holanda, a nova república

edificou-se sob o signo da tolerância religiosa, da liberdade de pensamento e do valor do

indivíduo, num contraponto à rigidez e ao autoritarismo dos Estados tradicionais.


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A burguesia nas estruturas do Poder

A Repúblicas das Províncias Unidas era uma federação de Estados com uma estrutura

bastante descentralizada, o que multiplicava os cargos e as oportunidades de interferir na

governação.

Aos nobres cabiam, geralmente, as funções militares, recaindo a suprema chefia dos

exércitos – o cargo de Stathouder-Geral.

Por sua vez, um conjunto de ricas famílias burguesas dominava os conselhos das cidades

e das províncias.

Os chefes destas famílias encontravam-se, em geral, afastados dos negócios.,

consagrando-se em exclusivo às magistraturas.

Formavam um grupo à parte, uma espécie de elite governante, que se situava acima da

burguesia dos negócios.

Era esta elite burguesa que assumia a condução dos destinos da Província da Holanda e,

por via dela, de toda a república.

De facto, em virtude da sua pujança económica, a Holanda contribuía com mais de

metade das receitas da federação, cabendo-lhe escolher o Grande Pensionário – pensão que o

magistrado recebia como forma de pagamento.

Concluindo: ao poder centralizado do rei e à preponderância da nobreza opunham as

Províncias Unidas a descentralização governativa e o domínio da burguesia.


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A jurisprudência ao serviço dos interesses económicos: Grotious e a

legitimação da liberdade dos mares.

No fim do século XVI, os Holandeses irromperam decididamente pelos oceanos, que

exploraram em seu proveito, depressa se famililarizando com as grandes rotas comerciais do

Atlântico e do Índico.

As pretensões holandesas contrariavam direitos antigos, estabelecidos em favor de

portugueses e espanhóis.

 Em termos jurídicos, estes baseavam-se em bulas e doações sa bem como no Tratado

de Tordesilhas, assinado em 1494 – os dois países dividiam entre si os mares e as terras

de um mundo ainda por conhecer;

 Os direitos de Portugal e Espanha sobre a navegação e as terras descobertas eram, desde

há muito, desrespeitados pela concorrência e por outras nações europeias.

No entanto, a sua contestação jurídica só se instalou após 1602, na sequência do

apresamento da nau Santa Catarina pela Companhia das Índias Orientais holandesa.

A captura desta embarcação lusa suscitou um coro de protestos por toda a Europa.

Foi em resposta a estas críticas que Hugo Grotius elaborou uma série de textos jurídicos,

onde procurava legitimar a atuação da Companhia.

Um desses textos foi publicado em 1608, sob o título A Liberdade dos Mares.

Nele, Grotius rejeitava o direito das nações ibéricas à exclusividade das navegações

transoceânicas, alegando que os mares eram inesgotáveis e essenciais à vida, pelo que

constituíam propriedade comum de toda a Humanidade.

As teses de Grotius foram, naturalmente, contestadas por outros juristas, desencadeando

uma longa polémica, que constituiu uma das bases do Direito Internacional.

Quando o seu poderio comercial se consolidou, os Holandeses invocaram também o


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domínio de áreas reservadas de comércio.

A polémica desencadeada pelos escritos de Grotius ficou, porém, como o símbolo da

decadência dos impérios ibéricos, ultrapassados por um pequeno país em que a burguesia se

colocou à cabeça do Estado.


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2.2.2. A recusa do Absolutismo na sociedade inglesa

Na Inglaterra, o poder do rei foi, desde cedo, limitado pelos seus súbditos.

Deste modo, não é de estranhar que as tentativas para impor o Absolutismo tenham

sempre fracassado, dando origem a revoluções violentas que, em menos de meio século,

conduziram:

 à execução de um rei (Carlos I, em 1649);

 à deposição de outro (Jaime II, em 1689);

 à instauração de um regime republicano (1649-1659).


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A primeira revolução e a instauração da república

Quando, no século XVII, o Absolutismo se impôs na Europa, os soberanos ingleses,

reivindicaram também uma autoridade total. Esta atitude gerou tensões e conflitos com os

representantes parlamentares.

A malquerença entre o rei e o Parlamento agudizou-se no reinado de Carlos I.

Face às ilegalidade cometidas pelo soberano em matéria fiscal e de justiça, multiplicaram-

se os panfletos, discursos e petições dos parlamentares.

Em 1628, o rei viu-se forçado a assinar a Petição dos Direitos, em que se comprometia a

respeitar as antigas leis, não procedendo a prisões arbitrárias nem arrecadando impostos sem o

consentimentos dos ingleses.

Descontente, Carlos I dissolve o Parlamento e inicia um governo absolutista.

A tensão agrava-se e, em 1642, eclode uma guerra civil.

Em 1649, sob a influência de Cromwell, chefe da oposição ao rei, um Parlamento privado

de todos os seus elementos moderados condena Carlos I ao cadafalso.

Pouco depois, é abolida a monarquia e instaurada a república.

Iniciada em nome da liberdade, a república inglesa acaba em ditadura.

Cromwell, incapaz de tolerar qualquer oposição, encerra também ele o Parlamento e, sob

o título de Lord Protector, inicia um governo pessoal altamente repressivo.


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A restauração da monarquia. A Revolução Gloriosa.

Cromwell morre em 1658 e, pouco depois, é restaurada a monarquia na pessoa de Carlos

II.

Durante o seu reinado, as liberdades individuais dos ingleses são reforçadas por vários

documentos, entre os quais o Habeas Corpus (1679), lei que limita os abusos dos agentes

judiciais, proibindo detenções prolongadas sem que a acusação tenha sida devidamente

formalizada.

A Carlos II sucedeu ser irmão Jaime II.

Abertamente católico e autoritário, Jaime II depressa incorreu no desagrado dos Ingleses,

abrindo a porta às pretensões de Guilherme III.

Em novembro de 1688, Guilherme de Orange desembarcou triunfalmente em Inglaterra, à

frente de um exército em cujos estandartes se vitoriavam a religião protestante e o Parlamento.

Jaime II, sem apoiantes, abandonou o país.

Esta segunda revolução – a Glorious Revolution – menos violenta que a primeira,

contribuiu bastante mais para a consolidação do regime parlamentar.

Coroados em 1689, os novos soberanos, Maria e Guilherme de Orange, juraram

solenemente respeitar os princípios consagrados na Declaração dos Direitos.

 Este documento, que continua a ser o texto fundamental da monarquia inglesa, reitera os

princípios da liberdade individual.

Pouco depois, estas liberdades foram reforçados com a abolição da censura (1695) e o

direito de livre reunião.

Deste modo, em Inglaterra, o rei partilhava o governo com o Parlamento, segundo regras

claramente definidas, que protegiam os Ingleses de um poder absoluto.


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Locke e a Justificação do parlamentarismo

A forma decidida como os Ingleses rejeitaram o Absolutismo não pode explicar-se apenas

pelas tradições de liberdade.

Na Inglaterra do séxulo XVII, as barreiras sociais tinham-se esbatido e uma classe média

fazia já ouvir a sua voz e os seus ideais.

Formada pela burguesia de negócios e por ricos proprietários rurais, este grupo constitui a

base social em que se apoiou a luta pelo regime parlamentar.

Oriundo deste estrato social foi o filósofo John Locke a quem coube o fundamentação

teórica do parlamentarismo.

No seu Tratado do Governo Civil, publicado em 1690, Locke defendeu que os homens

“nascem livres, iguais e autónomos”, pelo que só do seu consentimento pode brotar um poder a

que obedeçam.

Esse poder resulta, pois, de uma espécie de contrato entre os governados e os

governantes, estabelecido com fins determinados.

 O primeiro destes fins é o de garantir a propriedade privada, Locke considera

indissociável da felicidade humana

Uma vez que todo o poder depende da vontade dos governados, estes têm o direito de se

insurgirem contra os príncipes que prejudicam gravemente o bem comum.

Harmonizando a teoria e a prática política, a obra de Locke contribuiu para o prestígio do

sistema parlamentar que, passada a instabilidade dos tempos, revolucionários, se consolidou.

Numa Europa dominada pelas monarquias absolutas, este sistema, em que o poder real

era claramente limitado pela lei, aparecia, aos olhos de muitos, como um modelo de liberdade e

um exemplo a seguir.
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Triunfos dos Estados e Dinâmicas Económicas

nos Séculos XVII e XVIII


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3.1. Reforço das Economias Nacionais e Tentativas de Controlo do Comércio

3.1.1. O tempo do grande comércio oceânico

Nos séculos XVII e XVIII, um punhado de nações reservava para si as ligações oceânicas:

Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra detinham a maior fatia do comércio internacional,

que gerava lucros extraordinários.

Estimulados pelos oportunidades que se lhes abriam, os mercadores europeus:

 criaram grandes companhias de comércio;

 desenvolveram novos mecanismos financeiros;

 orientaram todo o seu saber para a expansão dos negócios.

Gerar capital, investi-lo e aumentá-lo, privilegiando o grande comércio, tornou-se o motor

da economia europeia que entrou na era do capitalismo comercial.

Esta dinâmica económica, impulsionou a colonização da América, continente

subaproveitado, que adquire, então, um lugar de destaque nos circuitos comerciais europeus.

Os seus colonos cultivam açúcar, café, tabaco e algodão, criam gado, extraem ouro.

Estes produtos são enviados para a metrópole que, em troca, lhes fornece produtos

agrícolas, industriais e a tão necessária mão de obra escrava, trazida de África.

É assim que, à rota do Bojador, se junta uma rota atlântica que une a Europa, a África e a

América.

Eixo deste comércio triangular, o tráfico negreiro não parou de crescer, atingindo o seu

ponto mais alto entre 1710-1810.


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3.1.2. Reforço das economias nacionais: o Mercantilismo

A expansão do comércio transoceânico coincidiu com a afirmação das monarquias

absolutas, que viram no domínio das áreas comerciais e na riqueza que estas proporcionavam a

forma de aumentar o seu poderio.

Então, mais do que em qualquer época anterior, eram necessários capitais para custear a

magnificência dos príncipes, reforçar o aparelho de Estado e mobilizar exércitos que impusessem

a supremacia do país relativamente aos seus vizinhos.

Foi com este objetivo, de enriquecer o Estado e os seu cidadãos, que se estruturou e pôs

em prática a primeira doutrina económica da História – o Mercantilismo.

Os pensadores mercantilistas estavam firmemente convencidos de que a riqueza de um

Estado se media pela quantidade de metais preciosos que este possuísse.

Assim, toda a ação económica deveria ter em vista a canalização, para o país, de uma

parte significativa do dinheiro que circulava no comércio europeu.

Tal só seria possível se a balança comercial fosse favorável, isto é, se o valor das

exportações excedesse o das importações.

 Havia, pois, que produzir internamente o mais possível, de forma a reduzir o volume de

mercadorias importadas e, inversamente, incrementar as vendas ao estrangeiro.

Na lógica mercantilista, competia ao Estado tomar todas as medidas necessárias para

atingir este objetivo.

Estas medidas traduziam-se num apertado protecionismo económico que fomentava a

produção e salvaguardava os produtos e as áreas de comércio nacionais da concorrência

estrangeira.

Muito resumidamente, podemos dizer que a atuação dos governos se deveria pautar por
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três linhas fundamentais:

 O fomento da produção industrial, com vista a promover autossuficiência do país, bem

como a exportação de produtos manufaturados;

 A revisão das tarifas alfandegárias, sobrecarregando os produtos estrangeiros e

aliviando as taxas que pesavam sobre as exportações nacionais;

 O incremento e reorganização do comércio externo, de forma de proporcionar mercados de

abastecimento de matérias-primas e de colocação dos produtos manufaturados.

Embora comuns a todas as políticas mercantilistas, a aplicação destas medidas revestiu

formas diversas, consoante os países que as adotaram.

Assim aconteceu em França e em Inglaterra, os dois reinos europeus que, de forma mais

eficaz e coerente, seguiram esta doutrina económica.


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O Mercantilismo em França

Em França, o Mercantilismo impôs-se pela mão do Colbert, ministro de Luís XIV.

Preocupado com a grande quantidade de mercadorias que entravam no reino pela mão

dos Holandeses, Colbert pôs todo o seu empenho no desenvolvimento das manufaturas.

É precisamente a importância conferida ao setor manufatureiro, bem como a sua feição

altamente dirigista, que caracterizam o Mercantilismo francês – também conhecido por

colbertismo.

Com o fim de evitar as importações, Colbert:

 Introduziu novas indústrias, recorrendo à importação de técnicas e mão de obra estrangeira;

 Impulsionou a criação de grandes manufaturas.

Assim nasceram as manufaturas reais, que funcionavam como unidades- modelo de

produção.

Estas manufaturas, que tanto pertenciam ao Estado como a particulares, dedicavam-se

sobretudo ao fabrico de artigos de luxo destinados a fornecer a corte. Em troca de privilégios e

subsídios concedidos, o Estado tinha o direito de regulamentar minuciosamente a atividade

industrial:

 matéria-prima;

 Qualidade;

 horas de trabalho;

 Preços;

 tudo era controlado através de um corpo de inspetores criados para o efeito.

No que se refere ao comércio, Colbert investiu fortemente no desenvolvimento da frota


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mercante e da marinha de guerra.

Seguindo o modelo já experimentado pelo Holanda e pela Inglaterra, procedeu à criação

de grandes companhias monopolistas, às quais reservou os direitos de comércio sobre

determinada zona.

A estas companhias foi dado o poder de agir em representar o país, administrando e

defendendo os territórios coloniais para além dos direitos de comércio, detinham um grande

poderia militar.

O colbertismo representa a corrente mais dirigista de todo o Mercantilismo e foi o modelo

mercantilista mais adotado pelos países europeus.


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O sistema mercantil em Inglaterra

Em Inglaterra, as medidas de tipo mercantilista foram implementadas lentamente,

procurando resolver as dificuldades económicas que iam surgindo.

Assumiram, por isso, um caráter mais flexível, adaptando-se aos tempos e às

circunstâncias.

Para além desta flexibilidade, o mercantilismo inglês distingue-se pela valorização da

marinha e do setor comercial.

Tal como aconteceu em França, foi o poderio económico dos Holandeses que motivou as

medidas protecionistas mais fortes.

Só que, em Inglaterra, a concorrência holandesa fazia-se sentir sobretudo nas áreas dos

transportes marítimos e do comércio externo.

Entre 1651 e 1663, foi promulgada uma série de leis – os Atos de Navegação –,

destinadas a banir os Holandeses das áreas do comércio britânico.

Por determinação dos Atos de Navegação, todas as mercadorias estrangeiras que

entrassem em Inglaterra seriam obrigatoriamente transportadas em embarcações inglesas ou do

país de origem.

 De igual forma, reservou-se à marinha britânica a navegação de cabotagem e o

transporte para Inglaterra das mercadorias coloniais.

Para evitar fraudes, foi determinada a composição da equipagem dos navios sob pavilhão

britânico, que deveria ser constituída maioritariamente por nacionais do país.

Assim destruída a concorrência da Holanda, a frota mercante inglesa não encontrou

entraves ao seu crescimento, tanto mais que os Atos de Navegação foram complementados por

uma política de expansão territorial.


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O setor comercial foi ainda reforçado com a criação de grandes companhias de comércio,

às quais se concederam numerosos monopólios. A mais bem-sucedida foi a Companhia das

Índias Orientais.

Esta política protecionista surtiu os efeitos desejados:

 O poderio comercial e marítimo da Inglaterra consolidou-se, permitindo-lhe disputar o

primeiro lugar na cena económica internacional.


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3.1.3. O equilíbrio europeu e a disputa das áreas coloniais

Durante o Antigo Regime, as nações europeias aceitavam a ideia de que constituíam uma

comunidade regulada por um certo equilíbrio de poder.

Em termos simples, tal queria dizer que se procurava evitar que as relações internacionais

fossem dominadas por uma potência hegemónica.

No decurso dos dois séculos, o equilíbrio europeu foi particularmente frágil e mantido à

custa de numerosos conflitos.

Fosse por questões dinásticas, pretensões territoriais ou interesses económicos, o certo é

que a Europa viveu uma sucessão contínua de guerras.

A partir da segunda metade do século XVII, as motivações económicas estiveram na

origem da maior parte destes conflitos.

Sendo o comércio o setor da economia que movimentava mais capitais e produzia maiores

lucros, os soberanos aperceberam-se que o domínio comercial facilmente se transformava no

poderio militar indispensável ao engrandecimento do Estado.

Ora, dado que a generalização das medidas protecionistas tinham levantado grandes

entraves à circulação de mercadorias no circuito europeu, os olhares voltaram-se para as áreas

coloniais, que se tornaram o centro de acesas rivalidades.

Fornecedores de matérias-primas e produtos exóticos que se vendiam a bom preço, as

áreas sob o domínio europeu eram exploradas em sistema de exclusivo colonial pela respetiva

metrópole.

Este sistema permitia ao Estado dominador regular as produções e os preços sem ter em

conta a concorrência dos outros países.


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Daí a importância atribuída à constituição dos impérios coloniais, autênticos “impérios de

comércio”, essenciais à vitalidade económica das nações europeias.

Face à decadências dos Estados ibéricos, a disputa da supremacia no grande comércio

marítimo travou-se essencialmente entre a Holanda, a Inglaterra e a França.

Resumidamente, podemos distinguir, nesta luta, duas fases:

 A primeira, entre 1651 e 1689, apôs a Holanda e a Inglaterra.

Os dois países travaram entre si três guerra, no termos das quais a Holanda perdeu para a

Inglaterra as suas colónias americanas e parte das suas possessões no Oriente.

Estas guerras marcam o fim da hegemonia comercial holandesa, que durava há mais de

meio século.

 A segunda, que decorreu entre 1689 e 1783, foi marcado pela validade anglo-

francesa.

Materializou-se numa longa série de conflitos por questões de território, mercados e

abastecimentos de produtos coloniais.

Este período de tensões culminou na Guerra dos Sete Anos (1756-1763) que, iniciada na

Europa, rapidamente se estendeu aos territórios além- mar.

A guerra consagrou a vitória inglesa, reconhecida no Tratado de Paris. Por esse tratado:

 A França abandonou as suas possessões nas índias;

 Na América, cedeu à Inglaterra o Canadá, o Vale de Oaio e margem esquerda do rio

Mississípi;

 Em Afríca, as feitorias do Senegal;

 Entregou ainda a Lusiana à Espanha.

Foi assim que, após mais de um século de conflitos, a Inglaterra se tornou a maior
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potência colonial e marítima da Europa.

3.2. A Hegemonia Económica Britânica

A segunda metade do século XVIII foi, para a Inglaterra, um período de intensa

prosperidade económica.

A agricultura, a indústria, o comércio e a banca registaram um desenvolvimento notável.

Foram estes progressos que impulsionaram a hegemonia britânica sobre o Velho

continente e sobre o mundo colonial.


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3.2.1. Condições do sucesso inglês

Os progressos agrícolas

Foi no Norfolk que um grupo de grande proprietários (landlords) se empenhou em

rentabilizar as suas terras, pondo em prática novos métodos de cultivo.

O seu sucesso gerou uma onda de entusiasmo que mudou a face da agricultura inglesa.

O principal problema a resolver era o do esgotamento dos solos.

 O cultivo intenso de cereais, base da alimentação, cansa a terra e, se os nutrientes

não se renovam, as colheitas decrescem progressivamente.

Daí a necessidade de pousio e renovar a terra, a “nova agricultura” aperfeiçoou um

sistema de rotação de culturas que alternava as colheitas de cereais com as de leguminosas

(nabo) e as de plantas forrageiras (trevo).

Tal prática não só proporcionava o aproveitamento integral da terra como permitia uma

articulação perfeita entre a agricultura e a criação de gado – aspeto deveras interessante, uma

vez que o estrume era o único fertilizante de uso corrente.

Este novo sistema era incompatível com os tradicionais direitos de pasto comunitário que

obrigava a deixar aberto todos os campos onde, após as colheitas, o gado pastava livremente.

O campo aberto revela-se, pelo contrário, altamente prejudicial à rentabilização da terra,

pelo que os grande proprietários desencadearam um processo de vedações das suas

propriedades às quais anexaram, muitas vezes, baldios.


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Embora se tenham deparado com a resistência dos pequenos agricultores, as vedações

constituíam um elemento essencial à modernização da agricultura inglesa.

Nestes campos cercados selecionaram-se as sementes, apuraram-se as raças dos

animais. Eles foram “verdadeiros laboratórios de inovações agrícolas” que colocaram a Inglaterra

na vanguarda da agricultura europeia.

Assim, renovando, o setor agrícola viu crescer a sua produtividade, aumentando

substancialmente os recursos alimentares do país.

Esta abundância não só permitiu a canalização de mão de obra para outros setores

económicos, como impulsionou um intenso crescimento demográfico.


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O crescimento demográfico e a urbanização

O crescimento demográfico da segunda metade do século XVIII atingiu especialmente a

Inglaterra.

Estreitamente relacionado com a prosperidade do país, este fenómeno foi,

simultaneamente, um resultado e um fator do desenvolvimento económico:

 a abundância e a criação de postos de trabalho fazem aumentar a taxa de nupcialidade e

o número de nascimento, enquanto a morte regride;

 por sua vez, o crescimento populacional estimula o consumo e fornece mão de

obra jovem aos diversos setores de atividade.

Para além do crescimento demográfico, registou-se uma acentuada migração para os

centros urbanos que absorveram a mão de obra excedentária dos campos.

 entre 1750 e 1850, o número de habitantes das cidades triplicou.

Assim, enquanto no resto da Europa a urbanização progride lentamente, na Inglaterra

configura-se já a nova geografia humana que marca a era industrial..

Centro de toda esta vitalidade económica, Londres torna-se a maior cidade da Europa,

atingindo, no fim do século XVIII, cerca de um milhão de habitantes.


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A criação de um mercado interno

No século XVIII, pelo efeito conjugado do aumento demográfico e da urbanização, o

mercado interno britânico não cessou de se expandir.

Ao crescente número de consumidores juntava-se a inexistência de alfândegas internas

que encarecessem as mercadorias e dificultassem o seu transporte.

Criou-se, assim, um verdadeiro mercado nacional, unificado, onde os produtos e a mão de

obra podiam circular livremente.

Foi com o objetivo de diminuir os custos de circulação que a Inglaterra se empenhou no

melhoramento dos transportes.

 Tirando partido da boa rede hidrográfica que possuíam, os ingleses construíram um

sistema de canais por onde se expediam as mercadorias pesadas;

 Ampliaram a rede de estradas.

O desenvolvimento das vias de circulação:

 favoreceu a criação de um mercado nacional;

 Proporcionou a necessária ligação entre as regiões do interior e as cidades portuárias.


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O alargamento do mercado externo

Mau grado as medidas protecionistas dos Estados europeus, os produtos ingleses

impunham-se no continente, quer pela sua qualidade, quer pelo seu baixo preço.

Mesmo a França não conseguia resistir-lhes: quando, em 1786, os dois países acordam a

redução mútua de tarifas alfandegárias (Tratado de Eden).

Era, porém, dos mercados transoceânicos que os Ingleses retiravam os seus maiores

dividendos.

Mais de metade da frota britânica velejava em direção às Américas, inscrevendo-se nas

rotas de comércio triangular.

No caso inglês, o triângulo comercial que ligava os três continentes fazia- se:

 a partir dos portos de Liverpool, Londres, de onde os navios permanecem carregados

de armas de fogo, rum, tecidos grosseiros e quinquilharias, em direção ao África;

 aí, abasteciam-se de escravos, destinados às plantações e minas americanas;

 na América, adquiriam as produções tropicais (açúcar, café, algodão, tabaco), que depois

revendiam na Europa.

No Oriente, quer as responsabilidades da conquista, quer os direitos de comércio, foram

transferidos para a Companhia das Índias Orientais.

Tendo-se apropriado de rotas e tráficos e estabelecido um domínio territorial consistente, a


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Companhia enchia os seus navios com as sedas, as especiarias, os corantes, o chá, as

porcelanas e os panos de algodão indianos.

O domínio territorial britânico permitiu também o controlo das produções agrícolas (açúcar,

pimenta, açafrão, índigo, seda, algodão) que os britânicos exploraram consoante as suas

necessidades.

Para além do lucrativo comércio Ásia-Europa, os Ingleses misturaram-se nos circuitos de

trocas locais, o country trade.

Em finais do século XVIII, 85 a 90% das transações externas da Índia estavam nas mãos

da Companhia que, naturalmente, manipulava os preços a seu favor.

Este protagonismo nos circuitos locais deu aos Ingleses o primeiro lugar no porto de

Cantão.

 aí adquiriam sedas, porcelanas e chá;

 pagavam com tecidos e ópio indianos e com remessas de ouro e prata

Nos finais do século XVIII, o Oriente tornara-se, para a opinião pública inglesa, um símbolo

de abundância, de luxo e de poder.


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O sistema financeiro

A superioridade inglesa assentava, também, num sistema financeiro avançado – facilitador

do desenvolvimento económico.

Em Londres funcionava, desde o fim do século XVI, uma das primeiras bolsas de comércio

da Europa, onde se centralizavam os grandes negócios da cidade.

A Bolsa de Londres, criada como instituição privada, depressa foi reconhecida pelo

Estado.

Nela se contratava a dívida pública e se cotaram as primeiras ações da Companhia das

Índias Orientais.

Assim nasceu a bolsa de valores londrina.

A prosperidade da Companhia das Índias desenvolveu de tal forma o mercado acionista

que, em 1691, apareceram os primeiros títulos de empresas industriais.

A atividade bolsista foi um importante fator de prosperidade económica já que permitiu

canalizar as poupanças particulares para o financiamento de empresas, alargando assim o

mercado de capitais.

Adquirir títulos do Estado ou ações de uma companhia passou a ser uma forma de

aplicação do dinheiro que, gerando perspetivas de bons lucros, atrai numerosos investidores.

A operacionalidade do sistema financeiro foi reforçada em 1694, com a criação do Banco


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de Inglaterra.

Este banco estava especialmente vocalizado para realizar todas as operações necessárias

ao grande comércio:

 aceitação de depósitos, transferências de conta a conta, desconto de letras e

também financiamentos.

Além destas operações, o banco tinha ainda a capacidade de emitir notas.

A atividade do Banco de Inglaterra foi complementada pela de dezenas de pequenas

instituições – os country banks – que realizavam o mesmo tipo de operações.

Servindo de base à prosperidade do comércio e À gestão capitalista do setor agrícola, esta

estrutura financeira constituiu também o ponto de apoio da maior de todas as mudanças

económicas: a Revolução Industrial.


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3.2.2. O arranque industrial

O processo de industrialização iniciou-se em Inglaterra, na segunda metade do século XVIII,

sob o conjunto de vastos fatores:

 os avanços agrícolas;

 a dinâmica demográfica;

 o alargamento dos mercados;

 a capacidade empreendedora dos britânicos;

 o avanço tecnológico.

Nesta época, uma cadeia de inovações revolucionou a indústria.

A aplicação de um melhoramento técnico numa das fases de fabrico gerava quase de

imediato desequilíbrios na produção, que só podiam ser corrigidos através de novos inventos e

adaptações.

Um exemplo claro desta espiral tecnológica é-nos fornecido pela indústria têxtil que liderou

a arranque industrial inglês.


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A industria têxtil

Foi o aumento da procura, interna e externa, e a abundância de matéria- prima,

proporcionada pelas colónias, que impulsionaram os progressos no setor algodoeiro.

O ciclo terá começado com a invenção da lançadeira volante por John Kay.

Era um mecanismo simples que permitia aumentar a largura dos tecidos e multiplicava por

10 a produtividade do tecelão.

Uma vez fundida, não tardou que escasseasse o fio.

Uma nova máquina de fiar, a Jenny, veio solucionar o problema.

Inventada por J. Hargreaves, em 1765, permitia de uma só fiandeira trabalhar sete ou oito

fios ao mesmo tempo.

Mais tarde, esse número elevou-se para 80 fios, o que provocou um novo desequilíbrio

entre as duas fases produtivas.

A dinâmica assim adquirida repercutiu-se em novos melhoramentos, quer na tecelagem

(teares mecânicos), quer na fiação e na estampagem, gerando um aumento de produtividade e de

produção.

A simplicidade das primeiras máquinas têxteis e o seu reduzido custo permitiram o

estabelecimento inicial de pequenas empresas.

Tendo em conta os lucros elevados, as primeiras unidades industriais puderam crescer


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rapidamente.

Aplicados igualmente à indústria da lã, os progressos técnicos fizeram arrancar a

mecanização do todo o setor têxtil.

A metalurgia

O desenvolvimento do setor têxtil foi acompanhado pelo da metalurgia que, fornecedora

de máquinas e outros equipamentos, se tornava indispensável aos progressos da industrialização.

No início do século XVIII, Abraham Darby deu o primeiro passo para resolver o problema

do combustível necessário a este setor, utilizando, na fusão do ferro, o coque em vez do carvão

vegetal.

O uso do coque não exigia, como o carvão de madeira, o abate maciço de árvores.

A maior capacidade calorífica do coque, a aplicação de foles para ventilação dos altos-

fornos e outros melhoramentos introduzidos nas fundições permitiram melhorar a qualidade e

aumenta a produção.

O ferro, agora mais barato e mais resistente, começou a substituir, com vantagem, outros

materiais.

Corria ainda o século XVIII quando foi inaugurada, em Inglaterra, a primeira construção metálica:

 a ponte de Coalbrookdale

No século XIX, o crescimento deste setor intensificou-se:

 A partir da década de 1830, a metalurgia tornou-se no principal setor industrial.


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A froça do vapor

Em todo este processo de modernização, coube ao engenheiro escocês James Watt um

papel central.

Havia muito tempo que se procurava aproveitar a força expansiva do vapor como força

motriz.

No entanto, permanecia por resolver diversos problemas técnicos.

A máquina de vapor de James Watt constituiu o primeiro motor artificial da História.

Com ela foi possível mover teares, martelos, locomotivas, enfim, todo o tipo de

maquinismo que anteriormente dependiam do trabalho urbano.

A manufatura cedera lugar à maquinofatura:

 Um século depois da invenção de Watt, as máquinas de vapor efetuam volume de

trabalho que teria exigido anteriormente cerca de 40 milhões de homens


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Um tempo de mudança

Conhecidas como Revolução Industrial, as transformações tecnológicas ultrapassaram

uito o setor económico.

Elas criaram um novo mundo, profundamente diferente das sociedades tradicionais.

Como resultado desta revolução:

 Grandes vagas de camponeses migraram para as cidades, que cresceram negras do

fumo das fábricas, e se espraiam em bairros pobres, de habitação operária;

 Uma nova classe, a burguesia industrial, elevou-se ao topo da sociedade e do poder

político;

 Os transportes aceleraram-se e encurtaram distâncias, circular mercadorias, homens,

notícias, ideias e hábitos novos.

Pioneiras de todas estas transformações, a Inglaterra tomou a dianteira da Europa,

guiando-se em direção a uma época nova: a do capitalismo industrial.


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3.3. Portugal – Dificuldades e Crescimento Económico

Portugal partilha os destinos da Europa e as flutuações do seu comércio.

O século XVII passa no nosso país sob o signo das dificuldades económicas, que procura

resolver implementando medidas protecionistas.

Já o século XVIII mostra-se mais propício:

 a descoberta do ouro do Brasil, que marca o reinado de D. João V;

 No fim do século, a política económica do Marquês de Pombal dá os seus frutos.

Vive-se, então, um período de acentuada prosperidade.


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3.3.1. Da crise comercial de finais do século XVII à apropriação do ouro

brasileiro pelo mercado britânico

No século XVII, Portugal vivia sobretudo da reexportação dos produtos coloniais, tais

como o açúcar, o tabaco e as especiarias.

Ora, em meados do século XVII, os Holandeses, expulsos do Brasil, transportaram para as

Pequenas Antilhas as técnicas de produção de Açúcar e tabaco que tinham aprendido.

Estes cultivos rapidamente se generalizaram também aos territórios franceses e ingleses.

Deste modo, a Holanda, França e Inglaterra, que constituíam os nossos principais

mercados, passaram a consumir as suas próprias produções, reduzindo acentuadamente as

compras feitas em Lisboa.

Os efeitos negativos destas novas zonas produtoras, conjugados com a política

protecionistas de Colbert, desencadearam uma crise comercial grave.

Entre 1670 e 1692, época em que a crise atingiu o seu auge, os armazéns de Lisboa

abarrotavam de mercadorias sem compradores.

O excesso de oferta refletiu-se, de forma dramática, nos preços, que baixaram sem

cessar.

Esta grave crise privou Portugal dos meios necessários ao pagamento dos produtos

industriais que importava.


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Produzir internamente para que até aí se adquiria ao estrangeiro pareceu aos nossos

governantes a solução mais viável.

Os esforços foram, pois, no sentido do desenvolvimento das manufaturas.

O surto manufatureiro

Embora a ideia de industrializar o país estivesse já em preparação, foi o impacto da obra

Discurso sobre a Introdução das Artes no Reyno, de Duarte Ribeiro de Macedo, que deu o

impulso necessário ao arranque das manufaturas portuguesas.

Nesta política distinguiu-se, principalmente, D. Luís de Meneses, 3º conde da Ericeira.

Desde que assumiu o cargo, em 1675, este ministro, a quem chamaram o Colbert

português, procurou equilibrar a balança comercial do reino substituindo as importações por

artigos de fabrico nacional.

Neste sentido:

 Procedeu à contratação de artífices estrangeiros, sobretudo os ingleses, holandeses e

venexianos;

 Criou indústrias, às quais concedeu privilégios subsídios, como o vidro, de fundição de ferro e

de tecidos;

 Praticou uma política protecionista da indústria nacional, através da promulgação de leis

pragmáticas, que proibiam o uso de diversos produtos de luxo importados, tais como

chapéus, rendas, brocados, tecidos e outros produtos similares;

 Recorreu à desvalorização monetária com o fim de tornar o s produtos


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portugueses competitivos no mercado externo e, simultaneamente, encarecer os artigos que,

de fora, nos chegavam.

Ainda de acordo com os preceitos do Mercantilismo, criaram-se várias companhias monopolistas,

às quais se deram privilégios fiscais:

 A companhia do Cachéu, parea o tráfico de escravos;

 A companhia do maranhão, destinada ao comércio brasileiro;

 Outras companhias que, a partir de Goa, operavam na África Oriental, na China e em Timor.
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A inversão da conjuntura e a descoberta do ouro brasileiro

Cerca de 1690, a crise comercial dá sinais de se extinguir.

Uma série de conflitos político-militares transforma as relações comerciais entre os países

europeus, prejudicando holandeses e franceses – os nossos mais diretos concorrentes.

As exportações portugueses saem, então, do marasmo em que se encontravam:

 Escoam-se os stocks dos armazéns, os preços das mercadorias coloniais elevam-se e,

em simultâneo, reativam-se as vendas dos tradicionais produtos do reino (sal, azeite e,

sobretudo, vinho)

A esta retoma comercial veio-se juntar a concretização de um velho sonho: a descoberta

de importantes jazidas de ouro no Brasil.

A esperança de que o subsolo brasileiro albergasse riquezas nasceu desde logo no início

da colonização mas, durante muito tempo, apesar das muitas expedições ou entradas, nenhuma

quantidade significativa de ouro se encontrou.

Estas expedições, na sua grande maioria de iniciativa particular, tiveram como centro São

Paulo – que, não tendo possibilidades de adquirir escravos negros, recorria ao apresamento e

comércio dos gentios.

Embora formalmente proibido pela lei, a captura destes escravos era rendosa o suficiente
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para motivar colonos e aventureiros que, organizados de forma paramilitar e empunhando um

estandarte – daí o nome de bandeiras dado a estas exposições – afrontavam os perigos do

sertão.

Foi a estas bandeiras e os seus bandeirantes que ficou a dever-se a descoberta de jazidas

de ouro, no último quartel do século XVII.

Inicia-se então um período de pesquisa intensa.

Entre 1693 e 1725, estes esforços foram coroados de êxito, descobrindo-se ricas jazidas

de ouro nos territórios de Minas Gerais, Mato Grosso, Góias, entre outros.

Uma súbita sensação de riqueza invadiu Portugal:

 Ao todo, na primeira metade do século XVIII, terão entrado no cerca de 500 toneladas

de ouro.

Contudo, o ouro brasileiro não se revelou um incentivo ao desenvolvimento económico.


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A apropriação do ouro brasileiro pelo mercado britânico

Á medida que a crise comercial se desvanecia, Portugal via-se novamente em situação de

poder adquirir, no estrangeiro, os produtos industriais necessários ao consumo interno.

Neste contexto, o país encontra, de novo, a sua vocação mercantil e o esforço

industrializador esmorece.

A incapacidade de fazer cumprir as Pragmáticas, bem como a fraca qualidade dos

produtos fabricados, concorreu também para a decadência das unidades industriais.

Em 1703, o projeto industrializador rece mais um golpe: a assinatura, entre Portugal e

Inglaterra, do Tratado de Methuen.

Nos termos deste acordo, os tecidos de lã ingleses e outras manufaturas seriam admitidos

sem restrições em Portugal, anulando, assim, as leis pragmáticas que os proibiam.

Em troca, os vinhos portugueses entrariam em Inglaterra pagando apenas dois terços dos

direitos exigidos aos vinhos franceses.

Um dos mais polémicos tratados da História, o Tratado de Methuen, foi, durante muito

tempo, responsabilizado pela derrocada da nossa indústria e pela subconsequente

preponderância britânica.
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Na realidade, o tratado não fez mais do que acelerar os processos já em curso.

Desde meados do século XVII que os Portugueses pagavam em benefícios económicos o

apoio da Inglaterra à causa da Restauração.

Os Ingleses encontravam-se, por isso, numa posição privilegiada para, num contexto de

abertura comercial, se apropriarem da maior fatia do tráfico português.

O Tratado de Methuen estimulou o crescimento das exportações dos vinhos, mas originou

uma dependência alarmante neste setor:

 Em 1777, o mercado britânico representava 94% das nossas exportações vinícolas.

Simultaneamente, o défice comercial com a Inglaterra atingia cifras alarmantes.

Este défice foi o maior caudal por onde se esvaiu a riqueza vinda do Brasil.

Calcula-se que, por esta via, cerca de três quartos de todo o ouro recebido tenha ido parar

às mãos dos Ingleses.


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3.3.2. A política económica e social pombalina

Em meados do século XVIII, quando as remessas de ouro brasileiro começaram a diminuir,

Portugal viu-se a braços com uma nova crise.:

 Debilidade da produção interna;

 Dificuldade de colocação, no mercado, dos produtos brasileiros;

 Excessiva intromissão das outras nações no nosso comércio colonial (supostamente

exclusivo);

 Défice crónico da balança comercial.

A crise e a consciência da nossa excessiva dependência face à Inglaterra coincidiram com

o governo do Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I.

O Marquês pôs em prática um conjunto de medidas tendentes ao reforço da economia

nacional.

Os grandes objetivos da política pombalina foram:

 a redução do défice;

 Anacionalização do sistema comercial português.


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Para isso impunha-se:

 diminuir a importação de bens de consumo;

 relançar as indústrias;

 oferecer ao comércio português estruturas que lhe garantissem a segurança e a

rentabilidade.

Seguindo máximas mercantilistas, Pombal impôs ao Estado e a si mesmo essa gigantesca

tarefa.

Em 1755, é criada a Junta do Comércio, ao qual passou a competir a regulação de boa

parte da atividade económica do reino.

Entre outras funções, a Junta encarregava-se de:

 reprimir o contrabando;

 intervir na importação de produtos manufaturados;

 vigiar as alfândegas;

 coordenar a partida das frotas para o Brasil;

 Licenciar a abertura de lojas e a atividade dos homens de negócios.

A nacionalização e a reorganização do comércio passaram também pela criação de

companhias monopolistas privilegiadas.

Entre estas companhias haverá que realçar, pelo sucesso obtido, as que operavam no

Brasil e também a Companhia das Vinhas do Alto Douro.

Em conjugação com estas medidas, Pombal dá princípio à revitalização do setor

manufatureiro, perseguindo os mesmos objetivos que haviam norteado o conde da Ericeira.

Assim, procedeu à revitalização das indústrias existentes e à criação de novas unidades.

Pertencentes ao Estado ou a particulares, todas as manufaturas pombalinas receberam


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privilégios (instalações, subsídios, exclusivos).

Consciente de que o progresso económico passava pela promoção social da burguesia, o

Marquês procurou valorizar a classe mercantil, conferindo-lhe maior estatuto e tornando-a mais

capaz.

Foi assim que, em 1759, se criou em Lisboa, sob a designação de Aula do Comércio, a

primeira escola comercial da Europa.

 A instituição destinava-se a fornecer uma preparação adquada a futuros comerciantes.

Em 1770, o grande comércio foi declarado “profissão nobre, necessária e proveitosa”,

conferindo à alta burguesia o estatuto nobre, que abria as portas de acesso a numersos cargos e

dignidades.

Igualmente se ficou a dever a Pombal o fim da distinção entre cristãos- novos e cristãos-

velhos (1768).

Terminado o poder discricionário dos inquisidores, inaugurou-se um período de

estabilidade e segurança para os homens de negócios que conseguiram um prestígio que, até aí,

nunca haviam gozado.


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A prosperidade comercial dos finais do século XVIII

Os resultados da política pombalina fizeram-se sentir de imediato.

 As áreas sob controlo das companhias prosperaram;

 Desenvolveram-se outros produtos coloniais (algodão, café e cacau);

 Em muito ramos da indústria, as produções internas substituíram as importações e

aumentaram também as exportações, para o Brasil, de produtos manufaturados da

metrópole

Nos decénios seguinte foi graças às medidas pombalinas que Portugal viveu a sua melhor

época comercial de sempre:

 entre 1796 e 1807, a balança comercial obteve saldo positivo.

Estes resultados foram também possíveis graças a uma conjuntura externa favorável.

 Guerras e revoluções afetaram o comércio francês e ingleses, contribuindo para

devolver a Lisboa um pouco da sua antiga grandeza como entreposto atlântico.


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Construção da Modernidade Europeia


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4.1. O Método Experimental e o Progresso do Conhecimento do Homem e da

Natureza

4.1.1. A revolução científica

No século XVII, a generalidade dos Europeus sentia o mundo como um lugar hostil e

imprevisível – o natural e o sobrenatural misturavam-se constantemente.

A intervenção de Deus, do diabo ou a simples conjugação dos astros servia de justificação

aos fenómenos naturais.

O próprio saber universitário estava impregnado destas superstições e pouco tinha

evoluído desde a Idade Média.

Apesar desta mentalidade dominante, um pequeno grupo de eruditos herdara do

Renascimento uma mentalidade crítica e o desejo de aprender.

Os Descobrimentos tinham inundado a Europa com descrições de terras e civilizações e

dado a conhecer novas espécie de fauna e flora.

Esta manancial de coisas novas estimulou o interesse pelo mundo natural e pelas
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realizações humanas.

Fruto deste interesse proliferaram pela Europa os “gabinetes de curiosidades”, onde se

acumulavam coleções de objetos e livros raros, de maquinismos, de plantas e animais.

Para além destas coleções privadas, organizavam-se várias associações científicas, onde

se tratavam debates, se faziam experiências e se divulgavam as descobertas mais recentes.

Foi neste ambiente propício que se desenvolveu o gosto pela observação dos fenómenos

e se tornaram mais sistemáticas as observações iniciadas no Renascimento.

Libertos do excessivo respeito pelos Antigos, estes sábios partilhavam entre si três ideias

fundamentais:

1. que só a observação direta conduz ao conhecimento da Natureza;

2. que esse conhecimento pode aumentar constantemente;

3. que o progresso científico contribui para melhorar o destino da Humanidade

Neste grupo de sábios contam-se grande nomes da ciência como Galileu, Kepler, Newton,

Boyle, Harvey.

Em conjunto, protagonizaram uma “revolução científica” que transformou profundamente

as antigas conceções sobre o Homem e a Natureza.

Impressionados com os erros grosseiros que constantemente descobriam nos tratados

das “autoridades”, os “experiencialistas” procuraram desenvolver um método que os guiasse nas

suas pesquisas, evitando o erro e as conclusões apressadas.

Este empenho conduziu à definição de regras que deviam guiar o pensamento e a

investigação científica.

Coube ao filósofo inglês Francis Bacon a primeira definição clara dos passos a seguir.

Bacon expôs as etapas do método indutivo, que considerou a única forma segura de
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atingir a verdade:

 observar os factos precisos;

 formular hipóteses explicativas;

 provocar a repetição dos factos através de experiências;

 determinar a lei, isto é, as relações que se estabelecem entre os factos.

Esta sistematização recebeu um novo contributo com os escritos de René Descartes.

Descartes procurou conceber uma forma estruturada de pensar, aplicável ao raciocínio em

geral e não só às ciências – pensamento racionalista.

Igual preocupação de rigor conduziu à utilização progressiva da matemática como

linguagem de expressão das leis e de todos os fenómenos quantificáveis, dando sentido ao

conceito “ciências exatas”.

Assim, a ciência entrou na sua maioridade, permitindo ao Homem um conhecimento mais

profundo de si próprio e uma melhor compreensão da Natureza.


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4.1.2. O conhecimento do Homem

Apesar de aceite desde o Renascimento, a dissecação de cadáveres como base do

estudo do corpo humano continuava a não ser prática corrente.

E, no entanto, havia quase um século que o renascentista André Vesálio publicara uma

obra onde escrevia, de forma correta e exaustiva, a anatomia humana.

Porém, Vesálio fora condenado pela Inquisição. Assim se compreende o temor e o

cuidado com que Wiliam Harvey expõe, em 1628, as suas descobertas sobre a circulação

sanguínea.

Harvey concluiu que o coração e as suas contrações são a origem de uma corrente de

sangue que flui pelo corpo num circuito contínuo, regressando sempre ao ponto de partida.

Esta descoberta, considerada a mais importante da história da fisiologia, foi fortemente

contestada pelos seguidores de Galeno, que acreditavam que o sangue era absorvido pelos

tecidos e vísceras.
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As investigações de Harvey e o advento da era experimental deram um impulso decisivo

à ciência médica, que progrediu notavelmente.

O corpo humano passou a ser olhado como uma “máquina”, na qual todas as “peças” se

interligam de forma harmoniosa e cujo funcionamento pode ser desvendado..

O século XVIII levou este espírito ainda mais longe, acentuando a ligação entre a ciência

e a prática médica.

A multiplicação dos teatros anatómicos e a progressiva acumulação de conhecimentos

abriram, então, o caminho ao lugar de destaque que a medicina viria a assumir no conjunto das

ciências do século XX.

4.1.3. Os segredos do Universo

O lugar da Terra como centro de um universo limitado encontrava-se ssolidamente

estabelecido.

Negar esta certeza equivalia a pôr em causa a ordem do mundo e o lugar central que o

Homem nele ocupava. Implicaria, pois, uma autêntica revolução mental.

Coube a Galileu o papel de protagonista nesta revolução do conhecimento.

Em 1609, entusiasmado com os melhoramentos que tinha conseguido introduzir na

recém-inventada “luneta”,

Galileu pôs-se a observar os céus, meses a fio.

As suas observações vinham a corroborar a doutrina heliocêntrica defendida por Nicolau

Copérnico.

Inversamente, demonstravam a inexatidão da doutrina oficial, que colocava a Terra


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imóvel no centro da Universo, enquanto o Sol e os outros astros giravam à sua volta.

As conclusões de Galileu a favor do heliocentrismo tanto provocaram, por isso, uma onda

de entusiasmo, mas também uma onda de indignação e repúdio.

Anos depois, Galileu ousou publicar os seus estudos, publicando, em 1633, o Diálogo

sobre os Dois Principais Sistema do Mundo, o de Ptolomeu e o de Copérnico.

Acusado formalmente de defender “uma doutrina falsa”, Galileu foi julgado e condenado.

A repressão que se abateu sobre Galileu e a proibição do seu livro não conseguiram

deter os avanços da ciência:

 Johannes Kepler provara já que os planetas se movem numa elíptica, sendo possível

calcular a sua velocidade e posições relativas;

 Anos depois, Isaac Newton formulou a hipótese de um universo;

 Infinito, regulado pela “lei da gravidade universal”

Embora as suas conceções tenham sido julgadas “filosoficamente absurdas”, por muitos,

Newton foi enaltecido como o grande génio da sua época.


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4.1.4. O mundo da ciência

Nas primeiras décadas do século XVIII, o mundo da ciência estava já solidamente

estruturado.

As academias de carácter científico tinham aumentando exponencialmente e existiam já

nas principais capitais da Europa.

A publicação de boletins periódicos tornara-se corrente, permitindo a divulgação mais

rápida e barata dos estudos desenvolvidos.

Ligados a estas academias e a um número crescente de universidades, organizaram-se

laboratórios modernos, bem equipados com os instrumentos de observação e medida

desenvolvidos no século anterior:

 O telescópio, aperfeiçoado por Galileu;

 O barómetro;
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 O termómetro;

 O relógio de pêndulo – tornou mais exata a medição do tempo.

Estes e outros aparelhos conferiram maior rigor às investigações e desencadearam novas

e importantes descobertas.

Pouco a pouco, o gosto pela experimentação generalizou-se.

No fim do século XVIII, o público tinha-se apaixonado pela ciência, assistindo a sessões

experimentais e aos seus resultados.

Deste modo, o mundo natural separou-se, com nitidez, do sobrenatural e as razões de fé

deixaram de ser aceites como explicações credíveis dos factos da Natureza.

A astronomia, a física, a química, a biologia, a botânica, a medicina, tornaram-se ciências

autónomas.

Apoiado no método experimental, o conhecimento progrediu aceleradamente,

transformando o Mundo e a sua História.


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4.2. A Filosofia das Luzes

4.2.1. A apologia da Razão e do progresso

No começo do século XVIII, a elite intelectual europeia julgava-se a caminho de um futuro

melhor.

A crença no valor da Razão humana como motor de progresso rapidamente extravasou o

campo científico para se aplicar à reflexão sobre o funcionamento das sociedades em geral.

Acreditava-se que o uso livre da Razão conduziria ao aperfeiçoamento do Homem, das

relações sociais e das formas de poder político.

Em suma, a Razão seria a luz que guiaria a Humanidade.

Esta metáfora tornou-se uma referência corrente e a nova atitude face ao conhecimento.

O século XVIII ficou conhecido como “o século das Luzes”.


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Por Luzes ou Iluminismo designa-se, também, o conjunto das novas ideias que marcaram

a época.

4.2.2. O direito natural e o valor do indivíduo

A valorização da Razão, da qual são dotados todos os homens independentemente da

sua condição social, vinha estabelecer um princípio de igualdade que punha em causa a ordem

estabelecida.

Crescia a convicção de que, pelo simples facto de serem homens, todos os indivíduos

possuem determinados direitos e deveres que lhes são conferidos pela Natureza.

Este pensamento, base do direito natural, foi defendido pelos iluministas, que

consideraram o direito natural superior às leis impostas pelos Estados.

A ideia de um direito primários e universal tinha já sido enunciada, no século anterior, por

John Locke, mas foi com o Iluminismo que esta noção se consolidou, tendo-se definido

claramente o conjunto básico de direitos inerentes à natureza humana:

 O direito à liberdade;

 O direito de um julgamento justo;


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 O direito à posse de bens;

 O direito à liberdade de consciência – elemento indissociável de filosofia das Luze.

Afirmava-se, deste modo, a crença no valor próprio do indivíduo, que nenhum poder ou

governo tinham o direito de desprezar.

Pelo contrário, considerava-se que fora com o objetivo de defender os direitos naturais do

Homem e proporcionar a felicidade que as sociedades se tinham organizado e constituído o

poder político.

4.2.3. A defesa do contrato social e da separação dos poderes

A liberdade e a igualdade defendidas pelos iluministas pareceriam, à partida, em

contradição com a autoridade dos governos.

Como forçar um ser que tem o direito de dispor de si próprio à obediência?

Tal problema já tinha sido analisado por John Locke, que o solucionara através da ideia de

um pacto livremente assumido entre os governados e os governantes..

A questão foi retomada por Rousseau na obra O Contrato Social, em 1762.

Para além de reafirmar que o poder político deriva de um pacto ou contrato estabelecido

entre o povo e os seus governantes – o contrato social –, Rousseau reforça a ideia de que este

pacto tem por finalidade o estabelecimento de leis justas, fruto da vontade da maioria, e que a

obediência a essas leis em nada diminui a dignidade dos homens.

Eles permanecem livres, mantendo-se a fonte da qual emana toda a autoridade.

Assim, e uma vez que é do povo que provém todo o poder – soberania popular –, torna-se
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lícito derrubar um governo estabelecido, caso este não cumpra o mandato que lhe foi confiado.

A teoria do contrato social veio transformar radicalmente o estatuto do indivíduo no seio

da comunidade política:

 Da posição de mero súbdito, ao qual apenas competia obdecer , elevou-se à condição de

cidadão, a quem pertencem, também, as decisões políticas fundamentais.

Outras obra para o estudo do pensamento político das Luzes é O Espírito das Leis

(1748), de Montesquieu.

Montesquieu defende um governo monárquico, moderado e representativo, em que o

soberano se rege pelas leis e vê as suas atribuições limitadas pela separação dos poderes.

Formulada por Montesquieu, a teoria da separação dos poderes advoga o

desdobramento da autoridade do Estado em três poderes fundamentais:

 Poder legislativo, que faz as leis;

 Poder executivo, encarregado de as fazer cumprir;

 Poder judicial, que julga os casos de desrespeito às leis

A concentração destes poderes na mesma entidade equivale à tirania; só a sua

separação garante a liberdade dos cidadãos.

A teoria da separação dos poderes exerceu uma influência enorme nas revoluções

liberais, que a adotaram, como princípio básico, nas suas constituições políticas.
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4.2.4. Humanitarismo e tolerância

Os progressos do direito natural fizeram mais evidente a desumanidade com que, tantas

vezes, eram tratados os mais fracos e desfavorecidos.

Uma das áreas em que os atropelos à dignidade humana mais se fazia sentir era a do

direito pena, que mantinha vivas as correntes velhas práticas medievais.

A crueldade destas práticas mereceu aos iluministas a mais viva censura.

Em 1674, Cesare Beccaria publica Sobre o Delitos e as Penas, onde condena

veementemente a tortura nos interrogatórios, os métodos da Inquisição e a forma bárbara como

era cumpridas as sentenças.

Beccaria vai mesmo mais além, chegando a questionar a legitimidade da pena de morte.

Vozes como estas contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da fraternidade

humana.

A justiça suavizou-se em numerosos países, como a Suécia, a Dinamarca, a Áustria, a


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França ou a Prússia, onde Frederico II proibiu a tortura como forma de apuramento da verdade.

No século XIX, este humanitarismo desenvolveu-se conduzindo, por exemplo, à luta pela

abolição da escravatura.

Estreitamente ligada ao respeito pelo próximo, a tolerância religiosa foi outra das

bandeiras arvoradas pelas Luzes.

A constatação de que as tentativas de impor uma só fé tinham desencadeado as guerras

mais sangrentas sem, contudo, alcançarem o seu objetivo, reforçou a defesa de liberdade de

consciência como um dos direitos inalienáveis do ser humano.

Por tal, considerou-se não pertencer ao Estado o direito de interferência em matéria da

religião, remetendo esta para o foro íntimo dos cidadãos.

É assim que o pensamento iluminista advoga a separação entre a Igreja e o Estado.

Este espírito racional e aberto levou alguns filósofos a proclamarem o seu deísmo, isto é, a

crença num ser supremo, ordenador do Universo, que, após a Criação, não mais se revelou ao

Homem, fazendo sentir a sua presença unicamente na maravilhosa perfeição da Natureza.

Os deístas rejeitam as religiões nas quais veem a obra dos homens e não a de Deus.

Embora a maioria dos iluministas tenha permanecido fiel à Igreja Católica, todos se

ergueram contra a intolerância, o fanatismo e a superstição, nos quais viram as trevas e não a luz

irradiada pela Razão.


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4.2.5. A difusão do pensamento das luzes

A realidade que rodeava os iluministas era, em quase tudo, o oposto dos ideais que

defendiam.

A sua crítica virulenta à sociedade, ao poder político, à Igreja, desencadeou uma onda de

mal-estar nas esferas mais apegadas à tradição.

A oposição aos “filósofos” foi severa, quer na imprensa, quer na literatura, quer na

repressão que lhes moveram os poderes constituídos.

Foram numerosos os iluministas encarcerados ou exilados por delito de opinião, tal como

foram numerosas as obras colocadas no Índex ou lançadas à fogueira.

No entanto, a racionalidade das novas doutrinas bem como o entusiasmo e o brilhantismo

com que foram defendidas granjearam-lhes inúmeros admiradores, entre os quais importantes

figuras régias, o que contribuiu para a aceitação e credibilidade da filosofia das Luzes.

Colocadas no centro da vida intelectual da época, as propostas iluministas invadiram os


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salões aristocráticos, os clubes privados, os cafés mais populares.

No entanto, nenhum meio de difusão igualou a impacto da Enciclopédia ou Dicionário

Racional das Ciências, das Artes e dos Ofícios, cuja publicação se iniciou em 1751.

Apesar das numerosas proibições de que foi alvo, o projeto conseguiu, após 21 anos de

esforços, chegar ao seu termo.

Súmula das realizações dos séculos XVII e XVIII, os artigos da Enciclopédia permitiram

um contacto fácil e rápido com os avanços da ciência e da técnica e com o mundo das ideias do

Iluminismo.

4.3. Portugal – o Projeto Pombalino de Inspiração Ilumunista

Apesar da sua frontal oposição à teoria da origem divina do poder, a maior parte dos

filósofos iluministas acreditava nas virtualidades do regime monárquico.

Que melhor do que um rei culto, justo e empenhado no bem-estar dos súbditos poderia

contrariar os privilégios da nobreza ou a excessiva influência da Igreja?

A autoridade real era, pois, desejável se, iluminado pela Razão, o soberano a utilizasse

para afastar as trevas do obscurantismo.

Esta interpretação do pensamento iluminista forneceu uma fundamentalização racional

para o reforço do poder régio, suscitando a adesão de um grupo significativo de monarcas.

Ao mesmo tempo que abrilhantavam a sua corte com a presença de filósofos, os déspotas

iluminados entregavam-se, com entusiasmo, À reorganização dos seus reinos:

 A estrutura governativa, a vida económica, as relações sociais, a influência da Igreja, a

assistência, a instrução pública, tudo mereceu a atenção destes monarcas que, em tudo,

impuseram a sua vontade “esclarecida”


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Em Portugal, esta filosofia de governo materializou-se na ação governativo do Marquês de

Pombal.

4.3.1. A reforma pombalina das instituições e o reforço da autoridade do

Estado

Nos últimos anos do reinado de D. João V, a diminuição das remessas de ouro do Brasil e

a doença prolongada do rei desorganizaram a máquina governativa.

O descalabro financeiro, a inoperância das instituições e a corrupção dos seus oficiais

abatem-se sobre o reino e as suas colónias.


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A reforma das instituições

O novo ministro sentiu de imediato a necessidade de racionalizar o aparelho de Estado

para que o que empreendeu um vasto conjunto de reformas.

Em primeiro lugar, havia que pôr ordem nas finanças do reino, fortemente depauperadas,

quer pela referida diminuição dos proventos do Brasil, quer pela crise comercial, que, de novo, se

fazia sentir, quer pelo descontrolo nos gastos e na arrecadação de receitas.

Os esforços do Pombal para solucionar este estado de coisas resultaram na criação, em

1761, do Erário Régio, instituição moderna que permitiu a gestão completa e corrente das contas

públicas.

Paralelamente, Pombal empenha-se na reforma do sistema judicial, área nobre da

governação que se encontrava em grande descrédito.

Viva-se, quer em Lisboa quer na província, num clima de grande insegurança, gerado pela

impunidade da maioria dos roubos e assassinatos.

Com o intuito de resolver este problema, uniformiza o país para efeitos judiciais e anula os
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antigos privilégios judiciais da nobreza e do clero.

Em 1760, a reforma judicial culmina com a criação da Intendência-Geral da Polícia,

organismo coordenador de todo o sistema judicial.

A modernização dos sistemas administrativo e judiciário implicou a supressão de direitos

antigos e suscitou o desagrado dos grupos privilegiados que não souberam esconder a

animosidade que sentiam face ao ministro..

A submissão das forças sociais

A forma excessivamente dura como o ministro reagia a qualquer tipo de oposição

manifestou.se, pela primeira vez, em 1757, quando estalou, no Porto, um motim popular contra a

Companhia das Vinhas do Alto Douro.

Em 1758, um atentado contra D. José fornecerá o pretexto para uma repressão sem

paralelo, dirigida contra as principais casas nobres do país.

No processo que se seguiu, os réus foram considerados culpados e condenados à pena

máxima.

A violência com que foi executada a sentença encheu de horror o país e a Europa.

A partir de então, a nobreza não esboçou qualquer gesto de rebeldia contra o rei ou o

ministro que o representava.

As convicções religiosas que sempre demonstrou não impediram Pombal de considerar

inaceitável a independência de Igreja face ao poder civil.

Era outra força que se erguia dentro do Estado a obscurecer a autoridade do rei.
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Com o fim de reduzir a influência do clero, o Marquês procurou controlar o Tribunal de

Santo Ofício que, progressivamente, subordinou à Coroa

Instituiu, também, um organismo de censura estatal – a Real Mesa Censória – que tomou

para si as funções de avaliação das obras publicadas, até aí da competências dos inquisidores.

Alvo particular da animosidade do ministro foi a Companhia de Jesus.

Acusados de, em segredo, criarem um plano para se apossarem do Brasil e de outros

“crimes nefandos”, os padres jesuítas foram expulsos de Portugal e das suas colónias.

O braço de ferro com a Igreja teve o resultado pretendido:

 O clero português adotou uma atitude de obediência e respeito ao poder temporal do

monarca.

4.3.2. O reordenamento urbano

Muita da confiança que o rei nele depositava granjeou-a Pombal na altura do terramoto

que arrasou Lisboa, no dia 1 de novembro de 1755, no qual ruíram cerca de 10 000 edifícios.

No calor da tragédia, face a um rei desorientado, Pombal mostrou a sua valia e a sua

eficiência.

Logo no próprio dia do sismo, tomou as primeiras providências que levou a efeito para

“sepultar os mortos e cuidar dos vivos”.

Chamando a si a tarefa de reerguer a cidade, o ministro decidiu arrasar o que ainda

restava da zona atingida e proceder à sua reconstrução segundo um traçado completamente

novo.

No lugar de emaranhado de ruas, ruelas e becos, o projeto aprovado previa artérias

excecionalmente largas e retilíneas, inscritas numa geometria rigorosa.

Foram proibidos todos os projetos particulares de forma a preservar a unidade do

conjunto, bem como qualquer elemento exterior que sugerisse a condição social dos proprietários.
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O conjunto era do mais puro racionalismo iluminista.

Dominados pelo sentido prático das Luzes e pelas novas ideias de felicidade humana e de

harmonia com a Natureza, os projetistas adotaram soluções originais para a distribuição de águas

e para a drenagem dos esgotos, concebendo, até, um engenhoso sistema de construção

antissísmica.

Este, conhecido por “gaiola”, era constituído por uma armação de estacas de madeira que,

penetrando até aos alicerces, evitava a derrocada dos vários andares, em casa de ruína das

paredes.

Embora nada possa compensar o território que o terramoto destruiu, a Lisboa que se

ergueu dos escombros constitui um dos mais notáveis conjuntos urbanísticos da Europa e, talvez,

o maior legado que os 27 anos de governação pombalina transmitira às gerações vindouras.

4.3.3. A reforma do ensino

Considerando a ignorância o maior entrave ao progresso dos povos, a filosofia iluminista

colocou o ensino no centro das preocupações dos governantes.

Um pouco por toda a Europa foram tomadas medidas no sentido de alargar a rede de

instrução pública e de renovar, à luz das novas pedagogias, as antigas instituições.

Procurava-se, no fundo, melhorar a preparação dos futuros servidores do Estado, que se

pretendiam cultos e competentes.

Este espírito chegou a Portugal por via dos estrangeirados (portugueses que, habitando no

estrangeiros, contactaram de perto com os núcleos mais dinâmicos da cultura europeia).

Consciente do atraso português relativamente à Europa, os estrangeirados teceram duras

considerações sobre a realidade dos país, publicando livros que acabaram por influenciar as

decisões políticas.

Entre as obras que, diretamente, visaram as metodologias do ensino, conta-se as Cartas


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sobre a Educação da Mocidade, de Ribeiro Sanches (1759).

Foi talvez por inspiração direta de Ribeiro de Sanches que Pombal criou, em 1761, um

colégio destinado aos jovens de estirpe nobrem com o objetivo de os preparar para o

desempenho dos altos cargos do Estado.

O Real Colégios dos Nobres foi organizado de acordo com as mais modernas conceções

pedagógicas, mas o projeto não teve a adesão esperada.

Mais proveitos foram as medidas relativas à reestruturação geral do ensino, que

abrangeram todos os graus e todo o território nacional.

A expulsão dos jesuítas criou um vazio pedagógico que acabou por facilitar uma reforma

profunda.

Com o objetivo de levar as primeira letras a todo o país, foram criados postos para

“mestres de ler e escrever”.

Para os alunos que pretendessem prosseguir estudos, instituíram-se centenas de aulas de

retórica, filosofia, gramática grega e literatura latina, cujo conhecimento era imprescindível a quem

quisesse ingressar na universidade.

Dado o encerramento da Universidade de Évora, gerida pelos jesuítas, o país ficou

apenas com a Academia de Coimbra, onde o ensino não podia ser mais tradicional:

 Comentavam-se os velhos textos clássicos, excluindo totalmente o grande contributos

do experiencialismo.

Nomes como Descartes ou Newton era expressamente banidos do currículo, limitando-se

os estudantes a decorar as sebentas que iam passando de mão em mão.

Em 1768, um alvará real cria a Junta da Providência Literária que fica incumbida de

estudar a reforma da universidade.

Quatro anos depois, (1772), a Universidade recebe solenemente os seus novos estatutos.
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Estes configuram uma reforma radical:

 quer no que respeita ao planeamento dos cursos;

 quer no que toca às matérias e aos métodos de ensino, que para ser orientados por

critérios racionalistas e experimentais.

Para o apoio da lecionação organiza-se:

 um moderno e bem equipado laboratório de Física;

 cria-se um jardim botânico;

 cria-se um observatório astronómico;

 Cria-se um teatro anatómico destinado a apoiar o curso de Medicina.

O governo do Marquês de Pombal cobriu todo o reinado de D. José – 27 anos.


A subida ao trono de D. Maria I significou a desgraça do ministro que, desapossado dos

múltiplos cargos que exercia, se viu desterrado e perseguido.

Porém, com o passar do tempo, a obra do Marquês impôs-se por si mesma, conferindo ao

seu autor um lugar destacado entre os grandes vultos da História de Portugal.

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