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Jornalismo no Interior: um desafio diário


Autores
SILVA, Esdras Domingos da., MARTINS Salvador Lopes.
Titulação ou graduação
- Esdras Domingos da Silva
7o período de Comunicação Social: habilitação em Jornalismo
Pontifícia Universidade Católica em Arcos (PUC Minas Arcos)
Arcos/ MG
- Salvador Lopes Martins
7o período de Comunicação Social: habilitação em Jornalismo
Pontifícia Universidade Católica em Arcos (PUC Minas Arcos)
Arcos/ MG

O super-aquecimento da atividade jornalística nas grandes metrópoles, acompanhado


das crescentes inovações tecnológicas, sem que para isso sejam agregados novos campos
de trabalho para os profissionais da área, traz de volta um fenômeno comum em todo o
país, principalmente nas primeiras décadas do século passado: o êxodo.
Esse fenômeno, no entanto, não faz menção à migração da população rural para as cidades,
mas o inverso. Não é a população comum que agora perfaz o caminho. Os profissionais do
jornalismo, às voltas com a saturação do mercado e com a falta de perspectivas de
expansão das potencialidades de um jornalismo de qualidade, redescobrem o caminho para
o interior.
Neste encalço, entram em contato com um outro mercado, crescente, rico e em busca
de profissionalização. O contato com esse novo mercado coloca o jornalista frente a um
campo a ser desbravado. Com isso, ele descobre que fazer jornalismo no interior ainda é
um desafio, principalmente em um periódico diário.
Para Gastão Thomaz de Almeida, “até hoje, a imprensa interiorana se apresenta como
uma história dinâmica, um abre e fecha constante de jornais”. Isso porque os jornais são,
historicamente, atrelados aos executivos municipais. Com a mudança nos governos da
cidade, o tempo de vida dos jornais estava relacionado ao período da gestão desses
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administrações públicas. Para mudar este panorama, os jornais do interior têm investido em
tecnologia e, de forma mais tímida, na profissionalização de seus funcionários.
O jornal passou do modo de produção “artesanal” para a “imprensa industrial”. Pedro
Celso Campos, em seu texto publicado no Observatório da Imprensa, cita a dissertação de
mestrado de Isabel Siqueira Travancas, em que a autora fala que “o jornalismo hoje faz
parte da sociedade capitalista e o jornalista é um peça importante dessa engrenagem que
produz notícias”.
A identidade de uma região passa pela sua representação na mídia local. A
incorporação de elementos típicos da cultura local é uma forma de fortalecer esses traços.
Para João Carlos Correia, “ a identidade de regiões comporta a necessidade de mecanismos
de produção simbólica que contemplem o reforço do sentimento de pertença”.
O jornalismo regional pode, além de tornar representada a sociedade ou comunidade
local, ampliar o espaço democrático de discussão dos interesses vigentes. O resultado é que
a comunidade se torna agente da construção da nova mídia impressa local. Os jornais
impressos fazem, não com força de lei, como acontece com a TV, o caminho inverso de
colocar em pauta essas questões.
A proliferação de cadernos voltados às questões interioranas, como na recente
incorporação no Caderno Gerais do Estado de Minas, do termo ou adento Centro-Oeste é
um exemplo dessa ampliação. Para Gustavo Barreto, “valorizar a produção regional, não é
uma forma de preservação da cultura nacional nem o fortalecimento da democracia: é a
própria cultura nacional, dentro de uma democracia viva e participativa.”
Mas, força de vontade e idéias não são suficientes para manter um jornal diário. Em
Minas Gerais, de acordo com a Associação dos Diários do Interior (ADI-MG), dos
oitocentos e cinqüenta e três municípios, apenas dezessete têm um periódico que circule
todos os dias, um total de vinte jornais diários no interior do estado. A maior concentração
de jornais no estado está na região Sul, com cinco diários. Isso mostra uma tendência
nacional, em que os veículos de comunicação impressa com maior circulação encontram-se
no Sul do país. As cidades com mais de um jornal diário estão mais próximas do eixo Rio-
São Paulo.
Dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ), apontam que há mais de dois mil
jornais no país. Só em Minas Gerais, são quinhentos e quatorze. Para o professor de
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jornalismo Pedro Celso Campos, constitui, inclusive, um amplo mercado de trabalho para
os estudantes de comunicação social.

“Daí a oportunidade de olhar mais de perto para este segmento, tendo em


vista a saturação dos grandes meios de comunicação voltados para políticas de
enxugamento de custos que sempre resultam em dispensa de profissionais,
optando-se pela terceirização (produção independente) ou pelo free-lancer,
que não envolve encargos trabalhistas”.

Produção no interior

No dia 11 de setembro de 2002, vários veículos de comunicação fizeram uma análise


do atentado terrorista ao World Trade Center. A notícia ganhou a primeira página do diário
“O Pergaminho”, jornal da cidade de Formiga, localizada à duzentos e vinte quilômetros
de Belo Horizonte, com uma população de aproximadamente 63 mil habitantes. No
periódico formiguense, havia uma entrevista com um músico do município que trabalhava
perto das “Torres Gêmeas”, na ocasião.
Os jornalistas do diário utilizaram um personagem conhecido pela a população para
fazer uma conjectura do mundo após os atentados do dia 11 de setembro de 2001. Os
diários interioranos contextualizam fatos nacionais e internacionais para que possam
publicar em suas páginas. Assim, conforme explica Gastão Thomaz, eles aproximam a
notícia do leitor, fazendo com que eles se sintam representados e inseridos na aldeia global
de informação.
Por um outro lado, a notícia veiculada na mídia impressa regional só terá projeção
nos grandes veículos de comunicação, se um agente pertencente à metrópole ou com de
influência nacional entre em choque com agentes locais ou com seu espaço geográfico. A
visita do presidente da república a uma cidade do interior será notícia nos jornais das
capitais e nos interioranos. Um exemplo é o encontro entre o Governador do estado de
Minas Gerais, Aécio Neves, e o presidente da república, Luís Inácio Lula da Silva, no ano
passado, em Varginha. A grande imprensa publicou a notícia sobre o encontro. Um dos
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diários da cidade, o jornal Correio do Sul, trouxe em sua capa a reportagem com os dois
políticos.
Mesmo assim, a imprensa do interior tende a ser opinativa e pouco imparcial. Isso
ocorre, entre outras coisas, porque o jornalista, conforme expõem Daniella Rubbo, Maria
Érica Lima e Maria do Socorro Veloso, está despreparado e não possui “um simples
arremedo de ética”.
O caráter opinativo, característico da mídia impressa interiorana, conforme já dito,
segue ditames pré-determinados que vão além do simples despreparo. Um dos elementos
que comprovam essa assertiva é o atrelamento dos periódicos regionais aos órgãos
públicos, e, de forma mais abrangente, ao poder executivo local. O resultado dessa
imparcialidade timidamente mascarada, é a produção de um jornal descompromissado com
o interesse público e servente, na sua linha editorial, de interesses que perpassam as
questões políticas e econômicas. A presença dos interesses políticos não é percebida
apenas na linha editorial dos jornais. Muitas vezes, autoridades do município ocupam
posições de chefia nos periódicos ou são seus proprietários. Para Daniella, Maria Érica e
Maria do Socorro, isso compromete a apuração e a edição, resultando em textos mal
escritos, inconclusos e débeis.

“Antes de mais nada é preciso conhecer de perto esse mercado ainda dominado
por muito aventureirismo empresarial, o que leva alguns meios acadêmicos a se
distanciarem dele, ao confundirem tal atividade como pura e simples
‘picaretagem’, isto é, um jornalismo voltado apenas para o faturamento, sem
distinção entre notícia e matéria paga, resultando em baixa credibilidade diante
do público, principalmente por causa das influências políticas, partidárias,
econômicas, religiosas e etc.” (Pedro Celso Campos, Observatório da Imprensa,
2000)

Além da fuga do “jornalismo aventureiro”, uma das maneiras de desvincular o jornal


de interesses partidários, é a separação da sua redação do departamento comercial ou
responsável pela captação de assinantes. Para tal, deverá ser feito um exaustivo trabalho
nas duas frentes. Na redação, como não poderia ser de outra forma, pautar a apuração pelo
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apartidarismo e profissionalismo. No setor comercial ou de assinantes, faz-se necessário


um trabalho que vise dar amplitude ao trabalho feito no jornal, para que se consiga
assinantes em número suficiente para que o periódico mantenha sua independência e sirva
ao seu real patrão: o leitor.
Para Pedro Celso, isso exige bom planejamento administrativo e qualidade no
produto final. “O leitor dará preferência ao jornal bem feito, sério, isento, independente,
que está a serviço da comunidade, e não deste ou daquele grupo de poder.”
Um outro problema que atinge a qualidade da produção dos jornais do interior é o
monopólio da informação impressa. Para o jornalista Wilson Marini, a tendência de um
único jornal se verifica em várias cidades. As razões podem ser diversas, desde má
administração até a falta de investimentos para a consolidação de uma imprensa regional
forte. No entanto, o resultado final pode ficar aquém do esperado. A ausência da
concorrência pode comprometer o conteúdo editorial, pela ausência de veículos nos quais
possam ser traçados comparativos no espaço geográfico no qual o jornal se insere.

Tecnologia : o pontapé e o subaproveitamento

Os avanços tecnológicos na área da comunicação não estão restritos apenas às


metrópoles. Jornais do interior estão conectados à internet, a maioria tem gráfica própria e
o sistema de impressão é a cores. Um dos frutos do uso dessas inovações é a criação de
cadernos, que dão maior visibilidade e qualidade técnica aos periódicos interioranos.
Os repórteres trabalham com câmeras digitais, gravando as fotos em disquetes e
descarregando a imagem direto no computador. Os jornalistas, entre uma cobertura e outra,
são acionados pelo celular. A tecnologia, tanto nos grandes centros quanto no interior, vem
para facilitar e agilizar o trabalho do comunicador.

“A tecnologia moderna pretende tentar uma transformação total do homem e do


seu meio, o que por seu turno exige a inspeção e defesa de todos os valores
humanos. E pelo que respeita ao mero auxílio humano, a cidadela desta defesa
deve estar localizada na consciência analítica da natureza do processo criador
envolvido no conhecimento humano. Pois é nessa cidadela que a ciência e a
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tecnologia já se estabeleceram, quanto à sua manipulação dos novos meios.”


(McLuhan, no texto Visão, som e fúria)

Os jornalistas do interior acessam a internet para complemento de suas matéria,


atividade que até pouco tempo seria “caricata ou folclórica”. Dos vinte jornais diários de
Minas Gerais, onze têm sites na internet com atualização permanente. Porém, o simples
uso das tecnologias, incluam-se aí o maquinário usado na produção, como a própria
internet, na divulgação das notícias, não garante a qualidade gráfica ou mesmo textual do
produto jornalístico final.
A incorporação das inovações na mídia impressa regional parte, na maioria das vezes,
de um desejo de expansão que não se faz acompanhado de pesquisas sobre suas
características, ou mesmo das implicações resultantes do bom ou mau uso que se façam
delas. O resultado dessa ausência de pesquisa é, segundo Elias Machado, “um
subaproveitamento desses recursos e equipamentos, além do que contribui para a
manutenção de sistemas de produção obsoletos”. A aplicação dessas novas tecnologias,
como o uso de jornais on-line no jornalismo interiorano, poderá ocorrer com um melhor
resultado por meio de pesquisas feitas por academias de comunicação. O futuro do
jornalismo, inclusive o desenvolvido no interior, de acordo com Machado, passa pelo
refinamento dessas técnicas nos estudos produzidos pelas universidades.
A utilização dos novos meios tecnológicos obriga a uma sofisticação do discurso,
pois os mecanismos para veiculação da informação – a rede – impõem novas linguagens. O
texto do repórter, mesmo para a imprensa no interior, deve respeitar normas básicas para
um bom texto jornalístico, ou seja, deve ser conciso, objetivo e coerente.
O repórter do interior não pode firmar-se nas bagatelas da tecnologia. Pedro Celso
lembra que jornalismo de verdade não se faz apenas utilizando os mesmos recursos de
informática que usam em Tóquio, Paris ou Nova Iorque, “mas produzindo um jornal sério,
independente, bem-escrito e diagramado”.

Profissionalização no interior
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O profissional formado em jornalismo sofre com as resistências dos proprietários dos


veículos de comunicação no interior. Apesar da instalação de universidades em cidades
longe das capitais, é lá que a maioria dos graduados em comunicação procuram sua
colocação no mercado. Ainda que a disputa por uma vaga exija qualificações que uma
cidade no interior não oferece, como experiências ao recém-formado, ele parte em busca de
uma colocação no competitivo e cada vez mais restrito mercado jornalístico metropolitano.
Nem mesmo o aumento do número de faculdades e universidades particulares nas
cidades interioranas, carentes da profissionalização de seus veículos de comunicação,
representaram, até aqui, em uma mudança efetiva e de grandes proporções na mentalidade
dos proprietários da mídia local. A capacitação acadêmica sem a mudança de postura da
imprensa regional frente ao novo profissional do jornalismo que se forma no seio de sua
terra, interrompe um trabalho anterior à sua formação e impede a mudança de perfil do
jornalismo regional, mantendo-o vicioso e amador.
Há proprietários de jornais interioranos que preferem e contratam alunos com outra
formação que não a jornalística. Uma das alegações para tal atitude é o alto custo do
profissional formado em jornalismo. A graduação mais encontrada nas redações dos
periódicos do interior são os formados em letras.
Proprietários alegam também que, apesar da formação acadêmica do jornalista incluir
disciplinas ligadas à redação, não há garantias de que o ele faça bom uso das técnicas a ela
relacionada. Já o graduado em letras traz em sua bagagem teórica uma formação específica
para o uso e ensino dessas técnicas, o que lhe confere maior domínio sobre a língua
portuguesa.
A prática de privilegiar, na mídia impressa regional, profissionais graduados em
outras áreas que não a jornalística, revela que o subaproveitamento das tecnologias
estende-se também à contratação de jornalistas formados. Esse detrimento revela, no
entanto, não o subaproveitamento desse profissional, mas a negligência de sua formação.
No produto final, que é o jornal, perde o leitor. Apesar de um texto escrito
corretamente pelo graduado em letras, sua formação não lhe garante o corpo teórico que
lhe dê as características necessárias para a produção da informação. Durante a formação
do jornalista, o graduando cursa disciplinas que poderão dar amplitudes para encarar
criticamente os problemas locais no qual o comunicador social está inserido. Além de
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escrever corretamente, cabe ao repórter uma apuração ética, contextualizada, seguindo


parâmetros e antevendo situações vivenciadas durante o curso, que acabam sendo
reproduzidas no contato direto com as fontes de informação.
A mídia regional também perde com a desvalorização do graduado em comunicação.
Um outro profissional que ocupe a função do jornalista estará mais suscetível às
intempéries da rotina jornalística. O formado em outras áreas terá menor traquejo no
contato com fontes e autoridades, colocando em risco a informação veiculada.
O jornalista que não consiga exercer a profissão na mídia local, mas que encontre
colocação nos jornais das capitais dará mais condições para que a mídia metropolitana
ingresse no interior. Essa contribuição do jornalista interiorano reflete a sua capacidade de
representar as comunidades mais afastadas dos grandes centros, suas carências, sua cultura,
resumindo, seus interesses. Quando negligencia esse potencial, a mídia local perde leitores,
anunciantes e credibilidade.
Na grande mídia impressa, fomentam-se os cadernos de cidades ou similares voltados
para o público interiorano. Um exemplo é o caderno “Agropecuário” do Jornal Estado de
Minas que tenta conquistar o leitor que não esteja nas intermediações capital mineira.
É importante que o aluno conheça a comunidade à que pertença. Mas isso só não é
suficiente. Conforme salienta Pedro Celso, o estudante de comunicação deve se informar
sobre a base de sustentação econômica do jornal que deseje fazer parte, para saber até onde
poderá exercer sua função com liberdade.

História sem memória

Os jornais interioranos têm uma outra importância que, aos poucos, deixa de ser
negligenciada: a da aceitação de sua colaboração na constituição dessa história e de sua
preocupação em resgatar, com o auxílio das novas tecnologias e de uma boa organização,
os documentos que registram os fatos constituintes de suas matérias, bem como os jornais
em que foram registrados.
Todo esse material forma, não só um precioso acervo de pesquisa para profissionais e
pesquisadores da história, como também um registro que aproxima o leitor do fato. O
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resultado é o resgate da memória do jornalismo e, por conseguinte, de documentos que são


ou podem se transformar em registros da história das comunidades representadas.
Porém, um mal que atinge a todos, apresentado pelo professor Gerson Martins, que é a
falta de memória na imprensa do interior, aos poucos vai sendo desmistificada, como há
muito se faz na grande mídia impressa.
Cabe aos jornais regionais organizar melhor seu acervo de pesquisa, documentos
impressos, em vídeo, áudio ou de qualquer outra natureza, bem como os jornais já
impressos, para consulta, registro e disponibilização, resguardados os interesses do jornal e
do público leitor, de forma a favorecer futuras pesquisas, trabalhos ou simples e necessário
registro histórico.

“Um marciano que desembarca na Terra e folheie um jornal tem o direito de


entender o que nele estiver publicado. Leitores que vivem neste planeta
freqüentemente não conseguem entender. Quando se trata de um assunto que se
arrasta por muito tempo no noticiário, os jornalistas esquecem de contextualizá-
lo a cada notícia que publicam. Não se pode partir do pressuposto que todos os
leitores lêem todas as notícias diariamente. Até porque não lêem mesmo. Mas
eles têm o direito de entender tudo que se publica. Isso não quer dizer que cada
notícia deva conter a memória completa das notícias anteriores sobre um
mesmo assunto. Mas o mínimo de memória ela deve conter, sim. Caso contrário
se tornará ininteligível para o leitor de primeira vez.” (Ricardo Noblat, A arte de
fazer um jornal diário, pp.74)

Para preservar e resgatar a memória dos jornais do interior, as academias de


comunicação devem elaborar projetos de pesquisas que visem a construção de um acervo
regional para que pesquisadores possam fundamentar melhor os seus trabalhos. Esse
serviço contribuiria para o conhecimento da história da região a partir da narrativa dos
fatos apresentada pelos periódicos.
No entanto, o sistema de ensino reforça o caráter de privilégio da grande imprensa
em detrimento da imprensa local. Incorporam, com assiduidade, na grade curricular,
trabalhos que têm nas grandes mídias impressas o foco de análise de discussão dos
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assuntos a serem pautados pelos próprios professores, fomentando no inconsciente


estudantil o desapego às questões locais. Isso se reflete na pouca busca pelos periódicos
nas cidades longe das metrópoles.

“O jornalismo terá tudo a ganhar com o aprofundamento das especificidades de


algumas formas de Comunicação Social que mantém, infelizmente, uma
situação marginal, sob o ponto de visão da consideração que lhes é dada
nomeadamente por parte das organizações profissionais e das instituições de
ensino.” (João Carlos Correia)

Um exemplo falho desse registro ocorre em Oliveira, cidade localizada no Sul de


Minas Gerais, a 180 quilômetros de Belo Horizonte, com uma população de 37.250
habitantes, onde o “Gazeta de Minas”, jornal mais antigo do estado, datado de 4 de
setembro de 1887, não deixa acessível para pesquisa, as edições do jornal, ficando restritas
aos seus profissionais.

Ética no jornalismo regional

É difícil falar sobre ética na imprensa regional quando ela ainda apresenta sintomas
de vinculação com os “donos do poder”. Porém, se o jornalismo interiorano quiser ganhar
a credibilidade dos leitores e o reconhecimento “glocal” terá que utilizar as mesmas
ferramentas dos grandes jornais sem menosprezar os interesses e as especificidades do
interior.
Não adianta que o homem se constitua um ser ético, se transforme em um
profissional ético, se o seu potencial for colocado a serviço dos veículos de comunicação
distantes da comunidade onde construiu a sua identidade. Dessa forma, restará ao interior
apenas o arremedo de ética que Daniella Rubbo, Maria Érica Lima e Maria do Socorro
Veloso preconizaram.
O jornalismo regional permanecerá, dessa forma, na condição de amadorismo,
condenado ao desvirtuamento de função, delegando a uns poucos a tentativa quase que
isolada de se fazer um jornalismo de qualidade. Dos poucos formados com colocação
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nesse mercado interiorano, salvam-se os assessores de comunicação. Com um pouco mais


de espaço na mídia regional, eles também sofrem com a contaminação do partidarismo,
prática comum na assessoria, vicejando como braços dos poderes empresariais e políticos
locais.

“Para o repórter, que na maioria das vezes não tem nada a ver com as tais
mutretas, é uma humilhação profissional sem tamanho. É às favas a
integridade moral do jornalismo, talvez, o princípio mor da profissão, que é
calcada permanentemente na credibilidade com o público. O resultado
imediato é a prática de um jornalismo oficialesco, preguiçoso, acostumado a
ouvir o prefeito ou o secretário, mas que poucas vezes ouviu alguma
reclamação de um popular. E que jamais se daria ao trabalho de fazer uma
reportagem investigativa. Com o tempo, o repórter se embrutece
intelectualmente, porque perde o entusiasmo com a profissão e porque, quase
sempre, ganha muito mal. É esse jornalismo, ‘bem-educado’, com jornais que
são autarquias das prefeituras, o que tem vicejado no interior.” (ABREU,
2002)

A ética no jornalismo, inclusive interiorano, só conseguirá ser implantada nos


periódicos quando houver a conquista de liberdade dosada à responsabilidade. Alguns
jornais têm investido na busca de profissionalismo e amadurecimento para que conquistem
a credibilidade do seu público. Os periódicos fazem pesquisas para saber a opinião do
público-leitor. Outros, como o diário O Pergaminho, incluem colaboradores de renome
nacional, como Gilberto Dimenstein, Rubem Alves, Frederico de Mendonça e Murilo
Badaró. O jornal formiguense ainda inclui no seu processo de democratização a figura do
ombudsman com liberdade na escrita sem interferência da direção do jornal.
Na mídia regional, a proximidade com as fontes torna o jornalista mais suscetível ao
contato com as autoridades locais, o que facilita a corruptibilidade do mesmo. Isso ocorre
porque nas cidades interioranas as pessoas têm mais acesso umas às outras devido ao
pequeno espaço geográfico. Porém, um distanciamento editorial entre o repórter e os
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agentes do poder poderá facilitar que o jornalista cumpra o seu papel sem ferir os preceitos
éticos.

“O jornalista deve, acima de tudo, buscar a verdade dos fatos. O jornalista


precário que possui a perspectiva do publicitário, até mesmo porque recebeu
sua designação de ‘jornalista’ por um consentimento dos amigos, não tem
qualquer compromisso com a verdade. Não tem critérios para estabelecer a
verdade dos fatos. Sua ‘verdade’ é dependente do ângulo em que observa os
fatos e dos mimos que recebe diariamente. Essa situação do jornalismo nos
centros regionais ou de menor porte resulta num jornalismo pobre, onde os
elogios aos amigos tornam-se corriqueiros. É o colunismo social de pior
qualidade travestido de jornalismo. A designação e a identidade jornalística se
transformam nessas situações em sinônimo de ‘jabá’, para usar um termo do
vocábulo do jornalismo.” (Gerson Martins, 2004)

Toda reflexão sobre a produção jornalística interiorana é válida. Partindo da idéia de


que a informação não pode ser privilégio deste ou daquele lugar, aqui se levanta a bandeira
de um jornalismo próprio para o interior. Ainda que se utilize de recursos jornalísticos dos
grandes centros, as particularidades do interior devem ser, não apenas respeitadas, mas
incluídas na pauta de um jornalismo ético e profissional. Os vícios comuns à produção até
aqui praticada não podem ser tidos como prática normal, apesar de comum e quase
consensual.
As palavras ousadia e profissionalismo podem ser conjugadas quando a ética permeia
a criatividade dos novos profissionais que desejem fomentar um campo do saber até então
amadoramente explorado. Dentro das redações ou mesmo fora delas, há ávidos jornalistas,
repórteres que buscam uma colocação no mercado local. Esses desejam buscar material
para que nas redações sejam produzidas as matérias que darão corpo à uma sociedade
particularmente desejosa de profissionalização, respeitabilidade e representatividade.
A migração do norte e nordeste para as grandes cidades não pode mais ser comparada
ao jornalista recém-formado, sem perspectivas no interior. O “pau-de-arara” da informação
não pode mais ser um ônibus intermunicipal ou interestadual que leva para fora de suas
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cidades os profissionais que poderiam fazê-las crescer e se desenvolver. Enquanto o local


torna mais vigoroso o global, o global torna mais homogêneo o local, tirando-lhe a
identidade e tornando-lhe repetidor, não só das técnicas, mas dos valores que o constituem
e o fazem único.

Referências bibliográficas

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Referências digitais
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