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Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô

Valentin Tomberg

Arcano I

O Mago

“O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não


sabes de onde vem nem para onde vai – assim acontece
com todo aquele que nasceu do Espírito”. (Joao 3,8)

"Nessa noite feliz,


Eu me mantinha sozinho, ninguém me via.
E eu não via nada
Para me guiar, senão a luz
Que brilhava no meu coração"
(São João da Cruz, Cântico da Alma, estrofe III)
Caro Amigo Desconhecido,
As palavras do Mestre citadas acima serviram-me de chave para abrir a porta da
compreensão do primeiro Arcano Maior do Tarô: "O Mago", que é, por sua vez, a chave
de todos os outros Arcanos Maiores.

Por isso e’ que eu as coloquei como epígrafe para esta carta. E assim, em seguida, citei
uma estrofe dos "Cânticos da Alma" de são João da Cruz, porque ela tem a virtude de
despertar as camadas mais profundas da alma, para as quais é preciso apelar, quando
se trata do primeiro Arcano do Tarô e, consequentemente, de todos os Arcanos Maiores.

Porque os Arcanos Maiores são símbolos autênticos, isto é, eles sao "operações
mágicas, mentais, psíquicas e morais" que despertam novas noções, idéias, aspirações
e sentimentos, o que significa dizer que eles exigem uma atividade mais profunda do que
a do estudo e a da explicação intelectual. E e’ desta forma, num estado de profunda
contemplacao – e cada vez mais profunda – que eles deveriam ser abordados.

Quando alguém medita sobre os Arcanos do Tarô, as camadas profundas e íntimas de


sua alma se tornam ativas e dão seus frutos. É pois necessária esta "noite" da qual fala
são João da Cruz, na qual a alma "se mantém em segredo" e na qual deve atirar-se toda
vez que medita sobre os Arcanos do Tarô. E trabalho que deve ser realizado na solitude
(isolamento) que convém aos solitários (reclusos).
Os Arcanos Maiores do Tarô não são nem alegorias nem segredos; porque as alegorias
são, com efeito, a representação figurativa de noçoes abstratas; quanto aos segredos,
são fatos, procedimentos, práticas e doutrinas quaisquer que alguém guarda para si, por
um motive pessoal, embora possam ser compreendidos e praticados por outros, aos
quais seu dono não quer revelá-los.

Os Arcanos Maiores do Tarô são símbolos autênticos. Eles ocultam e, ao mesmo tempo,
revelam seu sentido na proporção da profundeza do recolhimento da pessoa que os
medita. O que eles revelam não são segredos, isto é, coisas ocultadas pela vontade
humana, mas arcanos, os quais sao algo bem diferente.

Um Arcano é aquilo que alguém necessita "saber" para ser fecundo em determinado
domínio da vida spiritual. E’ aquilo que deve estar ativamente presente em nossa
consciência – ou mesmo em nosso subconsciente – para nos tornar capazes de fazer
descobertas, de gerar novas idéias, de conceber elementos artísticos novos. Numa
palavra, para nos tornar fecundos em nossos esforços criativos, e isso em qualquer
domínio da vida espiritual.

O Arcano é um "fermento" ou uma "enzima" cuja presença estimula a vida espiritual e


anímica do homem. E sao os símbolos os portadores desses "fermentos" ou dessas
"enzimas" que os comunicam – se o receptor estiver mentalmente e moralmente apto a
recebê-los, isto é, se ele estiver "pobre de espírito" e não sofrer da doença espiritual mais
grave: a suficiência (auto-complacencia).
Assim como o arcano é superior ao segredo, o mistério é superior ao arcano. O mistério
é mais do que um "fermento" estimulante. Ele é um evento espiritual comparável ao
nascimento ou à morte física. E’ a mudança total da motivação espiritual e psíquica, ou
completa mudanca do plano da consciência.

Os sete sacramentos da Igreja são as cores prismáticas da luz branca de um único


Mistério ou Sacramento, conhecido como o Segundo Nascimento, o qual foi ensinado
pelo Mestre a Nicodemos naquela conversa iniciática noturna com ele (narrada em Joao,
3).

E’ isso que o Hermetismo Cristão entende por "A Grande Iniciação".

Não é necessário dizer que ninguém inicia os outros, se entendermos por "Iniciação" o
Mistério do Segundo Nascimento, ou O Grande Sacramento.

A Iniciação vem do alto e tem o valor e a duração da eternidade. Esta Iniciacao e’ operada
de cima e tem o valor e a duracao da eternidade. O Iniciador está no alto, e aqui em
baixo só se encontram condiscípulos e estes se reconhecem no “amor que têm uns aos
outros” (Joao XIII).

Não existem mais “mestres”, porque existe somente um Mestre, que é o Iniciador que
está no alto. Sem dúvida, sempre existem mestres que ensinam suas doutrinas e
tambem iniciadores que comunicam alguns de seus segredos a outros, que se tornam,
por sua vez, "iniciados" - mas tudo isso não tem nada a ver com o Mistério da Grande
Iniciação.

Por esta razao o Hermetismo Cristão, enquanto iniciativa humana, não inicia ninguém.
Entre os hermetistas cristãos, ninguém se arrogará o título e as funções de “iniciador” ou
de “mestre”. Porque todos são condiscípulos, e cada um é mestre de cada um, sob algum
aspecto – como cada um é discípulo de cada um sob outro aspecto.

Não podemos fazer mais do que seguir o exemplo de santo Antão, o Grande, que:

"se submetia de boa vontade aos devotos ascetas) que ia visitar e se instruía junto
deles na virtude e na ascese de cada um. Contemplava em um a amabilidade, em
outro a assiduidade à oração; neste via a paciência, naquele o amor ao próximo; em
um observava as vigílias, em outro a aplicação à leitura; admirava um pela sua
constância, a outro por seus jejuns e por seu sono sobre a terra nua. Observava a
mansidão de um e a magnanimidade de outro; em todos notava a devoção a Cristo e o
amor mútuo. Assim, satisfeito, voltava para seu eremitério, condensando e se
esforçando por exprimir em si mesmo as virtudes de todos..." (Vida de santo Antão por
santo Atanásio, Meyer Westminster, 1950, pag 21.).
E’ esta a mesma conduta que deve ser aplicada pelo hermetista cristão no que se refere
aos conhecimentos e às ciências – naturais, históricas, filosóficas, filológicas, teológicas,
simbólicas e tradicionais – que se resume em aprender a arte de aprender.
Ora, são os Arcanos que nos estimulam e. ao mesmo tempo, dirigem-nos na arte de
aprender. Nesse sentido, os Arcanos Maiores do Tarô são uma escola completa e
inestimável de meditação, de estudos e de esforços espirituais – uma escola magistral
na arte de aprender.

Caro Amigo Desconhecido, o Hermetismo Cristão não tem, pois, a pretensão de rivalizar
com a religião, nem com as ciências oficiais. Aquele que procurar nele "a verdadeira
religião", "a verdadeira filosofia", ou "a verdadeira ciência" estar’a procurando na direcao
errada. Os hermetistas cristãos não são senhores, mas servos. Eles não têm a pretensão
– neste caso, algo pueril – de elevarem-se acima da fé santa dos fiéis, ou ainda dos
frutos obtidos pelos esforços admiráveis dos trabalhadores da ciência, nem acima das
criações do gênio artístico. Os hermetistas não têm o segredo das descobertas futuras
das ciências. Eles ignoram, por exemplo, como todos, o remédio eficaz contra o câncer.

Eles reconhecem igualmente, e sem reserve, a superioridade de um Francisco de Assis,


- e de muitos outros - que era homem da fé chamada "exotérica". Eles sabem que cada
um que tem uma fé sincera é potencialmente um Francisco de Assis... Os homens e
mulheres de fé, da ciência e da arte são seus superiores vários pontos essenciais.

Os hermetistas o sabem e não se gloriam de serem mmelhores, de crerem mais, de


saberem mais ou de poderem mais. Não guardam em segredo sua prorpria religião, a
fim de substituírem as religiões existentes, ou uma ciência própria para substituírem as
ciências atuais, ou artes próprias para substituírem as belas-artes de hoje ou de amanhã.

O que eles possuem não comporta vantagens tangíveis ou uma superioridade objetiva
em relação à religião, à ciência e à arte; o que eles possuem é apenas a alma comum
da religião, da ciência e da arte. Em que consiste essa missão de conservar a alma
comum da religião, da ciência e da arte? Respondo com um exemplo.

Caro Amigo Desconhecido, sabes sem duvida que na Alemanha, na França e em outros
países muitos preconizam a doutrina chamada das "duas igrejas", a igreja de Pedro e a
igreja de João, ou das "duas épocas", a época de Pedro e a época de João. Sabes
também que essa doutrina ensina o fim – mais ou menos próximo – da igreja de Pedro,
ou do papado, seu símbolo visível, a ser substituído pelo espírito de João, o discípulo
amado do Mestre, aquele que, inclinado sobre seu peito, ouviu as batidas de seu
coração. Assim a igreja "exotérica" de Pedro daria lugar à igreja "esotérica de João", que
seria a da liberdade perfeita.
Ora, João, que se submeteu voluntariamente a Pedro como chefe e príncipe dos
apóstolos, não tornou-se seu sucessor depois de sua morte, embora tenha sobrevivido
a ele por muitos anos. O discípulo amado, que ouviu as batidas do coração do Mestre, é
e será sempre o representante e o guardião desse coração – e como tal não foi, não é e
jamais será o chefe ou a cabeça da Igreja. Porque como o coração não é chamado a
substituir a cabeça, do mesmo modo João não é chamado a suceder a Pedro. O coração
conserva bem a vida e a alma, mas é a cabeça que toma as decisões e que dirige e
escolhe os meios para a execução das tarefas do organismo todo – cabeça, coração e
membros.
A missão de João consiste em conservar a vida e a alma da Igreja – em viver até a
segunda vinda do Senhor. Por isso João nunca pretendeu e nunca pretenderá ter a
função diretiva do corpo da Igreja. Ele vivifica esse corpo, mas não dirige suas ações.

São Pedro e São Paulo - duas missões distintas


Ora, o hermetismo, a tradição hermética viva, guarda a alma comum da verdadeira
cultura. Insisto em acrescentar: os hermetistas ouvem – e, às vezes, compreendem –
o bater do coração da vida espiritual da humanidade. Eles nao podem fazer outra coisa
que nao viver como guardiães da vida e da alma comum da religião, da ciência e da arte.
Não têm nenhum privilégio em nenhum desses domínios; os santos, os verdadeiros
cientistas e os artistas de gênio são superiores a eles.

Mas eles vivem para o mistério do coração comum que bate no fundo de todas as
religiões, de todas as filosofias, de todas as artes e de todas as ciências passadas,
presentes e futuras. E, inspirando-se no exemplo de João, o discípulo amado, não
pretendem e jamais pretenderão exercer papel de direção na religião, na ciência, na arte,
na vida social ou na política; mas velam constantemente para não perderem nenhuma
ocasião de servir a religião, a filosofia, a ciência, a arte e a vida social e política da
humanidade e para que lhes seja infundido o sopro da vida de sua alma comum –
analogo `a administração do Sacramento da Santa Comunhão.

O hermetismo é – e é somente – um estimulante, um "fermento" ou uma "enzima" no


organismo da vida espiritual da humanidade. Nesse sentido, ele é em si mesmo um
Arcano, isto é, o antecedente do Mistério do segundo nascimento ou da Grande
Iniciação.

Este é o espírito do Hermetismo. E é nesse espírito que voltamos agora ao primeiro


Arcano Maior do Tarô.
Essa é a lâmina…

Taro de Marselha – 1760

Taro Eliphas Levi - 1854

Papus, 1889
Waite, 1910

Wirth, 1926

Mebes, 1937 Mouni Shadu, 1963


Em que consiste essa primeira lâmina?

O primeiro Arcano – princípio subjacente dos outros vinte e um Arcanos Maiores do Tarô
– é o da relação de esforço pessoal e da realidade espiritual. Ele está em primeiro lugar
na série porque quem não o compreender (isto é, quem não o entender na prática
cognitiva e realizadora) não saberá o que fazer com os outros arcanos, visto que é o
Mago que é chamado a revelar o método prático, válido para todos os arcanos.

Ele é o "Arcano dos Arcanos" no sentido de que revela o que é necessário saber e poder
para se entrar na escola dos exercícios espirituais constituídos pelo conjunto do jogo do
Tarô, a fim de que se tire algum beneficio dele.

De fato, o primeiro e fundamental principio do esoterismo (isto é, do caminhp da


experiência da realidade do Espírito) pode ser enunciado assim:

Aprendei primeiro a concentração sem esforço; transformai o trabalho em


jogo; fazei com que o jugo que aceitastes seja suave e que o fardo
que carregais seja leve!

Este conselho, ou mandamento, ou mesmo uma advertência, como quiserdes considera-


lo, é muito serio; ele é atestado pela sua fonte original, as palavras do Mestre: " O meu
jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt 11,30).

Examinemos as três partes do enunciado acima, a fim de penetrarmos o Arcano do


"relaxamento ativo" ou do "esforço sem esforço". Inicialmente, “Aprendei primeiro a
concentração sem esforço". Qual é o sentido prático e teórico desse enunciado?

A concentração, enquanto capacidade de fixar o máximo de atenção no mínimo de


espaço (Shiller disse que aquele que quer realizar algo de sólido e hábil deve concentrar
num ponto mínimo o máximo de. força); é a chave prática do êxito em qualquer domínio.
Neste ponto estão de acordo a pedagogia e a psicoterapia modernas, as escolas de
oração e de exercícios espirituais Franciscana, Carmelita, Dominicana e Jesuíta, as
escolas ocultistas de toda espécie, enfim a ioga Hindu antiga e todos os outros métodos.

Patânjali, em sua obra clássica sobre ioga, enuncia em sua primeira senteca a essência
prática e teórica da ioga – "o primeiro arcano" ou a chave da ioga – como segue:
"A ioga é a supressão das vacilações da substância mental" – ou, em outros termos,
a arte da concentração. Porque as vacilações da "substância mental" ocorrem
automaticamente. Esse automatismo nos movimentos do pensamento e da imaginação
é o contrário da concentração. Ora a concentração só é possível em uma condição
de tranquilidade e do silêncio, `as custas do automatismo do intelecto e da imaginação.
O "calar-se" precede, pois, o "saber", o "poder" e o "ousar". Por isso a escola pitagórica
prescrevia o silêncio de cinco anos aos principiantes ou aos "ouvintes". Ninguém ousava
falar antes de saber e poder, antes de ter dominado a arte de calar-se, isto é, a arte da
concentração.
A prerrogativa de "falar" pertencia àqueles que não falavam mais automaticamente,
movidos pelo jogo do intelecto e da imaginação, mas que podiam suprimi-lo, graças à
prática do silêncio interior e exterior, e que sabiam o que diziam – sempre graças à
mesma prática.

O silêncio praticado pelos monges trapistas e prescrito durante o tempo de "retiro", de


modo geral, a todos os que nele tomam parte, é somente a aplicação da mesma regra-
verdade: "A ioga é a supressão das vacilações da substância mental" ou ainda "a
concentração é o silêncio voluntário do automatismo intelectual e imaginário".

É necessário distinguir duas espécies de concentração, essencialmente diferentes. Uma


é a concentração desinteressada; a outra, a concentração interessada. A primeira é a da
vontade libertada das paixões, das obsessões e dos apegos escravizadores, ao passo
que a outra é o resultado de paixão, de obsessão ou de apego dominadores. Um monge
no recolhimento da oração e um touro enraivecido estão concentrados, um, porque está
na paz do recolhimento; o outro, porque está dominado pela raiva. Paixões fortes levam,
pois, a alto grau de concentração. Assim os ávidos, os avaros, os orgulhosos e os
maníacos denotam às vezes concentração notável. Na verdade, trata-se não
de concentração, e sim de obsessão.

A verdadeira concentração é ato livre na luz e na paz e pressupõe vontade


desinteressada e desapegada. Porque o fator determinante e decisivo da concentração
é o estado da vontade. Por isso a ioga, por exemplo, exige a prática do iama e do niiama
(iama são as cinco regras da atitude moral; niiama são as cinco regras da mortificação)
antes da preparação do corpo para a concentração (respiração e posturas), e a prática
de três graus da concentração como tal (dharana, dyana e sauradhi – concentração,
meditação e contemplação).

São João da Cruz e santa Teresa de Ávila não se cansam de repetir que a concentração
necessária para a oração espiritual é fruto da purificação moral da vontade.

São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila


E, pois, inútil o esforço para se concentrar, se a vontade está tomada por outra
coisa. As "oscilações da substância mental" jamais poderão ser reduzidas ao silêncio, se
a vontade não lhes infundir seu silêncio. É só a vontade silenciosa que torna efetivo o
silêncio do intelecto e da imaginação na concentração. Por isso, os grandes ascetas são
também grandes mestres da concentração.

Tudo isso é evidente. Contudo, o que nos ocupa aqui não é só a concentração em geral,
mas também e sobretudo a concentração sem esforço. Que vem a ser ela?
Considerai o equilibrista na corda. E evidente que ele está completamente concentrado,
do contrário, cairia por terra. Sua vida está em jogo, e só a concentração perfeita pode
preservá-la.

Acreditais, porém, que o seu intelecto e a sua imaginação se preocupam com o que ele
faz? Credes que ele reflete, imagina, calcula e planeja cada passo?

Se o fizer, cairá. Ele precisa eliminar toda atividade do intelecto e da imaginação para
evitar a queda; precisa "suprimir as oscilações da substância mental" para poder exercer
sua profissão. Durante seus exercícios acrobáticos, a inteligência de seu sistema rítmico
– respiratório e circulatório – substitui a do seu cérebro.

Trata-se, em última análise, de milagre – do ponto de vista do intelecto e da imaginação


– análogo ao de são Dionísio, apóstolo dos gauleses e primeiro bispo de Paris, que a
tradição identifica com são Dionísio Areopagita, discípulo de são Paulo. Ele teve "a
cabeça separada do corpo a machadadas, diante da estátua do deus Mercúrio, mas logo
se levantou, tomou a cabeça em suas mãos e, guiado por um anjo, caminhou longa
distância, da colina de Montmartre até o lugar onde hoje repousam os seus ossos por
escolha dele e da providência divina" (Jacques de Voragine, La Legende Dorée).

Ora, também o equilibrista, enquanto exerce o seu ofício, tem a "cabeça" – isto é, o
intelecto e a imaginação – separada do corpo e caminha de um ponto a outro, levando a
cabeça em suas mãos, guiado por outra inteligência, que age pelo sistema rítmico do
corpo.

Para o equilibrista, para o pelotiqueiro, para o mago, a arte e a habilidade, no fundo, são
análogas ao milagre de são Dionísio, porque, para ele, como para são Dionísio, trata-se
da transposição do centro da consciência diretiva da cabeça para o peito – do sistema
cerebral para o sistema rítmico.

O mago representa, pois, o estado de concentração sem esforço, isto é, o estado de


consciência no qual o centro diretor da vontade "desceu" (na verdade, "elevou-se") do
cérebro para o sistema rítmico e no qual as "oscilações da substância mental", reduzidas
ao silêncio e ao repouso, não entravam mais a concentração.
A concentração sem esforço – isto é, na qual não há nada a suprimir, e o recolhimento
se torna tão natural como a respiração e as pulsações do coração – é o estado de
consciência (do intelecto, da imaginação, do sentimento e da vontade) em estado de
tranquilidade perfeita, acompanhada do relaxamento completo dos nervos e dos
músculos do corpo. É o silêncio profundo dos desejos, das preocupações, da
imaginação, da memória e do pensamento discursivo.

Dir-se-ia que o ser todo se tornou como a superfície de águas tranquilas refletindo a
presença imensa do céu estrelado e de sua indizível harmonia. As águas são profundas,
e como são profundas – e o silêncio aumenta, aumenta sempre, e que silêncio! Seu
crescimento realiza-se por ondas regulares que passam, uma após outra, através de
vosso ser: uma onda de silêncio, seguida de outra onda de silêncio mais profundo, depois
outra onda de silêncio ainda mais profundo.

Já bebestes do silêncio alguma vez?

Se a resposta for afirmativa, sabeis o que é a concentração sem esforço.

No começo, o silêncio completo ou a "concentração sem esforço" duram instantes,


depois minutos, depois quartos de hora. Com o tempo, o silêncio ou a concentração sem
esforço se tornam o elemento fundamental sempre presente na vida da alma. É como o
ofício perpétuo na igreja de Sacré-Coeur de Montmartre, que se verifica enquanto em
Paris trabalha-se, circula-se, diverte-se, dorme-se, morre-se... E assim que o "ofício
perpétuo" do silêncio se instala na alma e prossegue até quando ela está em atividade,
trabalhando ou conversando.

Uma vez estabelecida essa "zona de silêncio", podeis haurir dela tanto para o repouso
como para o trabalho. Tereis então não só a concentração sem esforço como também
a atividade sem esforço.

E é isso precisamente que quer dizer a segunda parte de nosso enunciado:

Transformai o trabalho em jogo.

A mudança do trabalho, que de dever, se torna jogo, efetua-se em consequência da


presença da "zona do silêncio perpétuo", do qual se pode haurir, por uma espécie de
respiração íntima e secreta, a suavidade e o frescor que dão unção ao trabalho e o
transformam em fogo.

Porque a "zona de silêncio" não significa só que a alma, no fundo, está em paz, mas
também e mais ainda que ela está em contato com o céu ou com o mundo espiritual, que
trabalha junto com ela. Aquele que encontra o silêncio na solidão da concentração sem
esforço nunca está só. Ele nunca leva sozinho as cargas que deve carregar: as forças
do céu, as forças do alto o ajudam.
Assim a verdade enunciada na terceira parte da fórmula:
Fazei com que o jugo que aceitastes seja suave e que o fardo que carregais seja
leve, tornado-se experiência. Porque o silêncio é o sinal do contato real com o
mundo espiritual, e esse contato, por sua vez, gera sempre o afluxo das forças. É
esse o fundamento de toda mística, de toda gnose, de toda magia e de todo
esoterismo prático em geral.
Toda pratica esoterica se funda na regra seguinte:
É necessário ser um em si mesmo (concentração sem esforço) e unido ao mundo
espiritual (ter a zona de silêncio na alma), para que haja experiência espiritual reveladora
ou realizadora.

Em outros termos, quem quiser praticar alguma fórmula do esoterismo autêntico – seja
a mística, seja a gnose, seja a magia – deve ser mago, concentrado sem esforço,
movendo-se com despreocupação como se estivesse brincando e agindo com calma
perfeita.
Este, entao, e’ o ensinamento prático do Primeiro Arcano do Tarô. É o primeiro conselho,
mandamento e advertência concernentes a toda prática espiritual; é o ‫ א‬do "alfabeto"
das regras práticas do esoterismo. E como todos os números são apenas aspectos
(multiplos) da unidade, assim também todas as outras regras práticas ensinadas pelos
outros Arcanos do Tarô são apenas aspectos e modalidades dessa regra básica.

É esse o ensinamento prático do "Mago".

Qual é seu ensinamento teórico?

Ele corresponde em todos os pontos ao ensinamento prático, sendo o trabalho teórico o


aspecto mental da prática. Como este último procede da concentração sem esforço, isto
é, põe a unidade em prática, do mesmo modo seu correspondente teórico consiste na
unidade fundamental do mundo natural, do mundo humano e do mundo divino. O dogma
da unidade fundamental do mundo exerce em toda teoria o mesmo papel importante que
a concentração exerce em toda prática. Como a concentração é a base de todo sucesso
prático, também o dogma da unidade fundamental do mundo é a base de todo
conhecimento - sem ele, nenhum conhecimento é concebível.

O dogma da unidade da essência de tudo o que existe precede todo ato de


conhecimento, e todo ato de conhecimento pressupõe o dogma da unidade do mundo.
O ideal - ou fim último - de toda filosofia e de toda ciência é a VERDADE. Mas a "verdade"
não tem outro sentido que não seja a redução da pluralidade fenomenal à unidade
essencial - dos fatos às leis, das leis aos princípios, dos princípios à essência ou ao ser.
Toda procura da verdade - mística, gnóstica, filosófica e científica - postula a sua
existência, isto é, a unidade fundamental da multiplicidade fenomenal do mundo. Sem
essa unidade, nada seria cognoscível.

Como seria possível proceder do conhecido para o desconhecido - e esse é o método


do progresso no conhecimento - se o desconhecido não tivesse nada a ver com o
conhecido, se o desconhecido não tivesse nenhum parentesco com o conhecido e lhe
fosse absoluta e essencialmente estranho?

Quando dizemos que o mundo é cognoscível - isto é, que o conhecimento como tal existe
- afirmamos, com isso mesmo, o dogma da unidade essencial do mundo. Afirmamos que
o mundo não é um mosaico no qual está incrustada uma pluralidade de mundos
essencialmente estranhos uns aos outros, mas que se trata de organismo cujas partes
são governadas pelo mesmo princípio, revelando-o e deixando-se reduzir a eie. O
parentesco de todas as coisas e de todos os seres é a condição "sine qua non" de sua
possibilidade de serem conhecidos.

Ora, o parentesco de todas as coisas e de todos os seres reconhecido francamente gerou


um método de conhecimento que lhe corresponde de modo estrito, conhecido
geralmente pelo nome de METODO DA ANALOGIA: seu papel e alcance para a ciência
dita "oculta" foram mostrados de maneira admirável por Papus em seu Traité élémentaire
de Science Occulte. A analogia não é dogma ou postulado - a unidade essencial do
mundo o é - mas sim o método primeiro e principal (o alef do alfabeto dos métodos), cujo
uso permite fazer o conhecimento avançar. Ela é a conclusão primeira tirada do dogma
da unidade universal: uma vez que no fundo da diversidade dos fenômenos encontra-se
a sua unidade, de modo que eles são ao mesmo tempo diversos e um, seguese que eles
não são idênticos nem heterogêneos, mas análogos, enquanto manifestam seu
parentesco essencial.

A enunciação tradicional do método da analogia é bem tradicional. E o primeiro versículo


da Tábua de Esmeralda (Tabula Smaragdina) de Hermes Trismegisto:
"Quod superius est sicut quod inferius et quod inferius est sicut quod est superius ad
perpetranda miracula Rei Unius":
"O que está no alto é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o
que está no alto para realizar o milagre da Unidade".

É a forma clássica da analogia para tudo o que existe no espaço em cima e em baixo.
A fórmula da analogia aplicada ao tempo seria:

"Quod fuit est sicut quod erit, et quod erit est sicut quod fuit, ad perpetranda miracula
aeternitatis":

"O que foi é como o que será, e o que será é como o que foi, para realizar os
milagres da eternidade".
Tábua de Esmeralda (Tabula Smaragdina) e Hermes Trismegisto:
A fórmula da analogia, aplicada ao espaço, é a base do simbolismo tipológico, isto é, dos
símbolos que exprimem as correspondências entre os protótipos no alto e suas
manifestações em baixo; a fórmula da analogia aplicada ao tempo é a base do
simbolismo mitológico, isto é, dos símbolos que exprimem as correspondências entre
os arquétipos no passado e sua manifestação no presente.

Assim o mago é símbolo tipológico; ele nos revela o protótipo do HOMEM


ESPIRITO: Adão e Eva, Caim e Abel e, se quiseres, o "Cisma de Irschu" de Saint-Yves
d'Alveydre, ao contrário, são mitos; eles revelam os arquétipos que se manifestam sem
cessar na história e em cada biografia individual – são símbolos mitológicos pertencentes
ao domínio do tempo.
Essas duas categorias de simbolismo, baseadas na analogia, constituem, pela sua
relação mútua, uma cruz:

Eis o que escreve sobre o mito (isto é, sobre o simbolismo do tempo ou simbolismo
histórico, segundo a nossa definição) Hans Leisegang, autor de livro clássico sobre
a Gnose: "O mito exprime na forma de narração de caso particular, uma ideia eterna,
intuitivamente reconhecida por aquele que a revive na ação" (La Gnose, Payot, Paris,
1951, p. 42).

E eis o que diz dos símbolos tipológicos Marc Haven no capítulo sobre o simbolismo, em
seu livro póstumo Le Tarot (1937):
"As nossas sensações, símbolos de movimentos exteriores, não se parecem com eles
(isto é, com os fenômenos) como as ondulações da areia, no deserto, não se parecem
com o vento que forma os montículos e como o fluxo e refluxo das águas do mar não se
parecem com os movimentos combinados do Sol e da Lua.
Eles são os seus símbolos ...”

A opinião de Kant, de Hamilton e de Spencer, que reduzem os movimentos de dentro a


simples símbolos de realidade oculta, é mais racional e mais verdadeira (do que o
realismo ingênuo – nota do autor). A própria ciência deve resignar-se a ser apenas
simbolismo consciente de si mesma... Mas a simbólica tem alcance muito diferente.
Ciência das ciências, como a chamavam os antigos (Decourcelle, Traité des
symboles, Paris, 1806), e língua universal e divina, ela proclama e prova a hierarquia das
formas desde o mundo arquetípico até o mundo material e as relações que os unem;
numa palavra, ela é a prova tangível da solidariedade dos seres" (pp. 19, 20, 24).

Eis pois duas definições - dos símbolos do tempo ou dos mitos e dos do espaço ou da
correspondência dos mundos "desde o mundo arquetípico até o mundo material" –
formuladas, uma, por sábio alemão em Lípsia, em 1924, e, a outra, por hermetista
francês em Lion, em 1906 – que exprimem exatamente as idéias dos dois gêneros da
simbólica – o mitológico e o tipológico – que acabamos de apresentar.

A "Tábua de Esmeralda" visa somente ao simbolismo tipológico ou do espaço – a


analogia entre o que está "em cima" e o que está "em baixo". Por isso, é necessário
acrescentar-lhe, por extensão, a fórmula correspondente, que visa ao simbolismo
mitológico ou simbolismo do tempo, que encontramos, por exemplo, no livro do Gênesis.

A distinção entre essas duas formas da simbólica é inteiramente desprovida de alcance


prático; é à sua confusão que se devem atribuir muitos erros de interpretação das fontes
antigas, inclusive da Bíblia. Assim, por exemplo, alguns autores consideram a narração
de Caim e Abel como tipológica. Eles querem ver nela os símbolos das "forças
centrífugas e centrípetas" etc ( Guaita???). Mas a história de Caím e Abel é um mito, isto
é, exprime, na forma de narração de um caso particular, uma ideia "eterna", referindo-
se, consequentemente, ao tempo e à história, e não ao espaço e à sua estrutura. Ela nos
mostra que irmãos podem tornar-se inimigos mortais pelo fato de adorarem, do mesmo
modo, o mesmo Deus.

Essa história revela a fonte das guerras de religião; a sua causa não é a diferença de
dogma, de culto ou de rito, e sim unicamente a pretensão à igualdade ou, se preferirmos,
a negação da hierarquia. Temos aqui também a primeira revolução do mundo – o
arquétipo (o Urphänomen de Goethe) de todas as revoluções passadas e futuras da
humanidade, uma vez que a causa de todas as guerras e revoluções – numa palavra, de
toda violência – é sempre a mesma: a negação da hierarquia.

Essa causa já se encontra em germe num nível tão elevado como é o ato comum de
adoração do mesmo Deus por dois irmãos, e nisso está a revelação perturbadora da
história de Caim e Abel. E como os homicídios, as guerras e as revoluções continuam, a
história de Caim e Abel permanece sempre válida e atual. Ela é um mito e um mito de
primeira ordem.

O mesmo podemos dizer das narrativas da queda de Adão e Eva, do dilúvio e da arca
de Noé, da torre de Babel etc. Elas são mitos, isto é, são, em primeiro lugar,
símbolos históricos referentes ao tempo, e não símbolos que exprimem a unidade dos
mundos no espaço físico, metafísico e moral. A queda de Adão e Eva não revela uma
queda correspondente no mundo divino, no seio da Santíssima Trindade, e também não
exprime diretamente a estrutura metafísica do mundo arquetípico. Ela é acontecimento
particular da história da humanidade terrestre, cujo alcance só cessará com o fim da
história humana; numa palavra, ela é verdadeiro mito.

Seria errôneo, por outro lado, interpretar, por exemplo, a visão de Ezequiel,
o Merkabahi, como mito. A visão do carro celeste é revelação simbólica do mundo
arquetípico. Ela pertence à simbólica tipológica – o que, aliás, o autor
do Zohar compreendeu muito bem e, por isso, tomou a visão de Ezequiel como símbolo
central do conhecimento cósmico – segundo a regra da analogia, em conformidade com
a qual o que está em cima é como o que está em baixo.

Porque o Zohar conhece bem essa regra. Ele não só a usa implicitamente como também
lhe dá expressão explícita. É assim que lemos no Zohar (Waera, 25a): "O que está em
cima é como o que está em baixo: como os 'dias' de cima estão cheios da bênção do
Homem (celeste), do mesmo modo os dias daqui de baixo estão cheios da bênção por
intermédio do Homem (do justo)".
A India tambem tem a sua versão da máxima hermética. Assim a Vishvasâra
Tantra anuncia a fórmula: “O que está aqui está lá. O que não está aqui não está em
parte alguma” (Arthur Avalon. La Puissance du Serpent, p. 56).

O uso da analogia não se limita, contudo, às "ciências malditas" – a magia, a astrologia


e a alquimia – e à mística especulativa, sendo, a bem dizer, universal, porque nem a
filosofia, nem a teologia e nem a ciência podem prescindir dela.

Eis o papel que a analogia desempenha na lógica, que é a base da filosofia e das
ciências:

1) A classificação dos objetos segundo sua semelhança é o primeiro passo no


caminho da pesquisa pelo método indutivo. Ela pressupõe a analogia dos
objetos a classificar.

2) A analogia (o argumento por analogia) pode constituir a base


das hipóteses. Assim a famosa Hipótese Nebular de Laplace deve-se à
analogia que ele observou na direção do movimento circular dos planetas em
torno do Sol, do movimento dos satélites em torno dos planetas e da rotação
dos planetas em torno de seus eixos. Da analogia observada nesses
movimentos ele concluiu pela sua origem comum.

3) Diz J. Maynard Keynes em seu A Treatise on Probability (Tratado sobre a


probabilidade): "O método científico tem como objetivo descobrir os meios de
elevar o alcance da analogia conhecida até que ela possa, na medida do
possível, dispensar os métodos da indução pura" (p. 24).

Ora, a "indução pura" se funda na simples enumeração, sendo essencialmente uma


conclusão tirada dos dados estatísticos da experiência. Assim poderíamos dizer: como
João é homem e morreu, Pedro é homem e morreu, Miguel é homem e morreu, assim
Podemos dizer que o homem e’ mortal. A força desse argumento depende do número
ou da quantidade dos fatos conhecidos pela experiência; a analogia, ao contrário,
acrescenta a ele o elemento qualitativo de alcance intrínseco das quantidades. Eis um
exemplo de argumento por analogia: André é formado de matéria, energia e consciência.
Como a matéria não desaparece com sua morte, mas somente muda de forma, e como
a energia não desaparece, mas somente se modifica, também a sua consciência não
pode simplesmente desaparecer, mas deve apenas mudar a sua forma e o seu modo
(ou plano) de atividade. Logo, André é imortal.

Este argumento funda-se na fórmula de Hermes Trismegisto: o que está em baixo


(matéria, energia) é como o que está em cima (consciência). Ora, se existe a lei da
conservação da matéria e da energia (se bem que a matéria se transforme em energia
e vice-versa), deve existir também, necessariamente, a lei da conservação da
consciência ou da imortalidade.

Hermes Trismegistus

Segundo Keynes, o ideal da ciência é encontrar meios para ampliar o alcance da


analogia conhecida até que ela possa dispensar o método hipotético da indução pura,
isto é, até que ela possa transformar o método científico em analogia pura, baseada na
experiência pura, sem elementos hipotéticos imanentes na indução pura.
Ora, é graças ao método da analogia que a ciência faz descobertas (passando do
conhecido para o desconhecido), enuncia hipóteses fecundas e busca um fim metódico
diretor. A analogia é seu começo e seu fim, seu alfa e seu ômega.

No que concerne à filosofia especulativa ou metafísica, o mesmo papel está reservado


à analogia. Todas as conclusões de alcance metafísico estão baseadas na analogia do
homem, da natureza e do mondo inteligível ou metafísico. Assim as duas autoridades
principais da filosofia mais metódica e mais disciplinada – a filosofia escolástica medieval
– santo Tomás de Aquino e são Boaventura (dos quais um representa, na filosofia cristã,
o aristotelismo, e o outro, o platonismo) não tó se servem da analogia como também lhe
atribuem papel teórico muito importante em suas doutrinas.

Santo Tomás propõe a doutrina da analogia entis, ou "analogia do ser", que é a chave
principal de sua filosofia. São Boaventura,em sua doutrina da Signatura rerum, interpreta
o mundo visível como símbolo do mundo invisível. Para ele, o mundo visível é outra
Escritura Sagrada, outra revelação ao lado da que está contida na Escritura Sagrada
propriamente dita.

"Et sic patet quod totus mundus est sicut unum speculum plenum luminibus
praesentantibus divinam sapientiam, et sicut carbo effundens lucem" (In Hexaem.,
II, 27) – "vê-se assim que o mundo inteiro é como um único espelho cheio de luzes
que apresentam a sabedoria divina, ou como uma brasa que emite luz".

Ora, santo Tomás e são Boaventura foram proclamados (por Sixto V, em 1588. e por
Leão XIII, em 1879) duae olivae et duo candelabra in domo Dei lucentia – "duas oliveiras
e dois candelabros resplandecentes na casa de Deus".

Vês então, caro Amigo Desconhecido, que podemos, tu e eu, declarar abertamente
nossa fé na analogia e proclamar em voz alta a fórmula da "Tábua de Esmeralda",
consagrada pela tradição, sem parecermos infiéis à filosofia, à ciência e às doutrinas
oficiais da Igreja. Podemos fazê-lo em sã consciência como filósofos, como sábios e
como católicos.

Mas a aprovação concedida à analogia não se detém aí: o próprio Mestre a sancionou
pelo uso que fez dela. Mostram-no tanto as parábolas como o argumento a fortiori que
ele usou em seu testemunho. As parábolas, que são símbolos ad hoc, seriam
desprovidas de sentido e utilidade se não constituíssem enunciados de verdades
analógicas expressas na linguagem da analogia e fazendo apelo ao sentido da analogia.

Quanto ao argumento a fortiori, toda a sua força reside na analogia, que é réu
fundamento. Eis um exemplo de argumento a fortiori empregado pelo Mestre:

"Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? Ou lhe dará
uma cobra, se este lhe pedir peixe? Ora, se vós que sais maus sabeis dar boas
dádivas aos vossos filhos, por razão mais forte o vosso Pai que está nos céus dará
coisas boas aos que lhe pedem" (Mt 7,9-11).

Temos aqui a analogia do parentesco terrestre humano e do parentesco celeste divino,


na qual se funda a força do argumento a fortiori ou "por razão mais forte", que, da
manifestação imperfeita, conclui por seu protótipo ideal. A analogia do pai e do Pai é a
sua essência.
A esta altura, pode surgir no leitor consciencioso um sentimento de mal-estar: "Eis muitos
argumentos e autoridades citados em apoio do método de analogia apresentado, mas,
e os argumentos contra esse método, bem como sua fraqueza e seus perigos?"
Devemos confessar sem rodeios e com toda a franqueza que o método da analogia
encerra aspectos negativos e perigos, erros e ilusões graves. Isso porque ele se tunda
inteiramente na experiência, e toda experiência superficial, incompleta ou falsa
naturalmente dá lugar a conclusões por analogia igualmente superficiais, incompletas e
falsas. Assim, usando telescópio de alcance insuficiente, os astrônomos viram em Marte
linhas retas e contínuas e concluíram, por analogia, que elas eram "canais" artificiais e
que Marte era habitado por seres civilizados. Com o aperfeiçoamento dos telescópios,
puderam observar que os "canais" não são contínuos, nem retilíneos. Em tais casos, o
argumento por analogia perde seu valor por causa do erro de experiência que lhe serve
de apoio.

Quanto às ciências ocultas, Gérard van Rijnberk publicou (na p. 203 de seu
livro Le Tarot) um quadro das "correspondências astrológicas do Tarô segundo
diferentes autores". Nele, na lâmina VII, "o Carro", por exemplo, corresponde ao signo
de Gêmeos (segundo Etteila), de Sagitário (segundo Fomalhaut), de Gêmeos (segundo
Shoral), de Sagitário (segundo autor anônimo), ao planeta Marte (segundo Basílides), ao
planeta Vênus (segundo Volguine), ao Sol (segundo Ely Star), ao signo de Libra
(segundo Snijders), ao planeta Vênus (segundo Muchery), ao signo de Câncer (segundo
Crowley) e ao signo de Gêmeos (segundo Kurtzahn).

Aqui salta aos olhos a relatividade das correspondências obtidas pelo método analógico.
Ao contrário, a concordância das correspondências entre os metais e os planetas, obtida
pelo mesmo método, manteve-se nos autores antigos, medievais e modernos. Os
astrólogos gregos do século IV a.C., continuando a tradição babilônica, na qual o ouro
correspondia ao Sol e ao deus Enlil, e a prata à Lua e ao deus Anu, aceitavam as
correspondências seguintes: Ouro-Sol, Prata-Lua, Chumbo-Saturno, Estanho-Júpiter,
Ferro-Marte, Cobre-Vênus, Mercúrio-Mercúrio (E. J. Holmyard, Alchemy, Pelican,
Londres, 1957, p. 18). As mesmas correspondências que eram aceitas pelos astrólogos
e alquimistas da Idade Média o são ainda hoje por todos os autores de ciências ocultas
e de hermetismo (inclusive por Rudolf Steiner e pelos outros autores antropósofos), logo
também pelo Traité Élémentaire de Science occulte de Papus (Dangles, Paris,
reprodução integral na 7ª ed., p. 145).
Quarenta e quatro anos de estudos nesse domínio não me fizeram modificar em nada o
quadro das correspondências acima, muito ao contrário.
O método da analogia não é infalível, mas pode levar a descobertas de verdades
essenciais. Sua eficácia depende da extensão e da exatidão da experiência na qual ele
se apóia.

Voltemos agora ao arcano "O Mago".

A concentração sem esforço tem sua expressão tanto no conjunto da lâmina como em
seus pormenores; ela constitui seu arcano prático. Nela está expresso também o método
da analogia, da qual ela é ainda o arcano teórico. Porque, vista no plano intelectual, a
prática do método da analogia corresponde em tudo à prática da concentração sem
esforço. E essa prática se manifesta não como "trabalho", e sim como "jogo".

Com efeito, no plano intelectual, a prática da analogia não exige esforço algum; ou
percebemos e "vemos" as correspondências analógicas ou simplesmente não as
percebemos, nem "vemos".

Como o mago e o pelotiqueiro devem exercitar-se e trabalhar durante muito tempo antes
de atingirem a habilidade de concentração sem esforço, também aquele que usa o
método da analogia no plano intelectual deve adquirir longa experiência e acumular as
lições que ela comporta antes de atingir a faculdade de percepção imediata das
correspondências analógicas – antes de se tornar "mago" ou "pelotiqueiro" que se serve
da analogia dos seres e das coisas sem esforço, como que brincando.

Essa faculdade constitui parte essencial da realização da tarefa que o Mestre prescreveu
aos seus discípulos. "Em verdade vos digo: aquele que não receber o Reino de Deus
como uma criança, não entrará nele" (Mc 10,15).

A criança não "trabalha", ela brinca. Mas como ela é séria, isto é, concentrada quando
brinca! A sua atenção ainda é inteira e indivisa, ao passo que naquele que se aproxima
do Reino de Deus, ela já se torna inteira e indivisa. Nisso está o arcano da genialidade
intelectual: na visão da unidade dos seres e das coisas pela percepção imediata de suas
correspondências, pela consciência concentrada sem esforço.

O Mestre não quer que nos tornemos pueris; o que ele quer é que atinjamos a
genialidade da inteligência e do coração, que é análoga – não idêntica – à atitude da
criança, que só carrega fardos leves e que torna suaves todos os jugos.

O mago representa o homem que atingiu a harmonia e o equilíbrio entre a


espontaneidade do Inconsciente (no sentido de C. G. Jung) e a ação voluntária do
Consciente (no sentido do "ego" consciente).
Seu estado de consciência é a síntese do Consciente e do Inconsciente, da
espontaneidade criadora e da atividade voluntária executiva. É o estado de consciência
que a escola psicológica de C. G. Jung chama de individuação" ou de "síntese do
Consciente e do Inconsciente" (os dois elementos da personalidade) ou de síntese do si
mesmo (C. G. Jung e Ch. Kerenyi, Introduction à l'essence de la mythologie, p. 107).

N. do T. : Jung distingue "etre" o "eu" (moi) e o "si mesmo" (soi). Como daqui
para frente a expressão "si mesmo" reaparece muitas vezes, transcrevemos
um pequeno trecho, no qual o próprio Jung explica seu significado: "Se bem
que apenas o Ego seja o centro de minha esfera consciente, não significa
esse fato que o Ego seja idêntico à totalidade de minha psique, não passando
de um complexo entre vários outros complexos. Distingo, portanto, entre
o Ego e Si mesmo, em que o Ego é somente o sujeito de minha consciência,
e o Si mesmo é o sujeito de toda minha psique, inclusive do inconsciente.
Nesta acepção o Si mesmo seria uma grandeza (ideal) em que o Ego estaria
abrangido". (C. G. Jung, Tipos psicológicos, Zahar Editores, Rio de Janeiro,
1967, p. 448)

Essa síntese torna possível a concentração sem esforço e a visão intelectual sem
esforço, que são os aspectos práticos e teóricos da fecundidade nos domínios tanto
prático como intelectual.
Parece que Friedrich Schiller teve consciência desse arcano quando expôs,
no Spieltrieb ("impulso para o jogo"), sua doutrina da síntese entre a consciência
intelectual, que impõe fardos pesados – deveres e regras – ... e a natureza instintiva do
homem. O "verdadeiro" e o "desejado" devem, segundo ele, encontrar sua síntese no
"belo", porque é no belo que o Spieltrieb torna leve o fardo do "verdadeiro" ou do "justo"
e, ao mesmo tempo, eleva as trevas das forças instintivas ao nível da luz da consciência
(Schiller, Lettres sur l'éducation esthétique). Em outras palavras, aquele que vê a beleza
daquilo que reconheceu como verdadeiro não deixará de amá-lo – e, pelo amor, o
elemento de constrição desaparecerá no dever prescrito pelo verdadeiro: o dever se
tornará tendência. Assim o "trabalho" se transforma em "jogo", e a concentração sem
esforço tornar-se-á possível.

Mas o primeiro arcano, o arcano da fecundidade prática e teórica, embora proclame a


eficácia do jogo sério (o Tarô todo é jogo sério), contém, ao mesmo tempo, advertência
grave: há Jogo e jogo, há Mago e mago; por isso, quem confunde a falta de concentração
sem esforço e as correntes de simples associação mental com a visão sem esforço das
correspondências da analogia necessariamente se tornará charlatão.
O arcano do Mago é duplo, isto é, tem dois aspectos: coloca-nos no caminho que conduz
à genialidade e nos põe em guarda contra o perigo do caminho que conduz ao
charlatanismo.

Infelizmente muitas vezes os professores de ocultismo seguem os dois caminhos ao


mesmo tempo, e o que ensinam contém elementos de gênio misturados com elementos
de charlatanismo. Que o primeiro arcano do Tarô sempre nos esteja presente como uma
espécie de "guarda do limiar", que ele nos convide a passarmos o limiar do trabalho e do
esforço para entrarmos na ação sem esforço e no conhecimento sem esforço, mas que
ele nos lembre também que quanto mais avançarmos além do limiar mais indispensáveis
serão o trabalho, o esforço e a experiência do lado de cá desse limiar para atingirmos a
verdade real. Que o Mago nos diga e nos repita cada dia:

"Perceber e saber, tentar e poder são coisas diferentes. Existem miragens em cima
e miragens em baixo: sabes somente o que é verificado pela concordância de
todas as formas da experiência em sua totalidade – experiência dos sentidos,
experiência moral, experiência psíquica, experiência coletiva de outros
pesquisadores da verdade e experiência daqueles cujo saber mereceu o título de
sabedoria e cujo querer foi coroado com o título de santidade. A Academia e a
Igreja estipulam condições metódicas e morais para aquele que deseja avançar.
Cumpre-as rigorosamente, antes e depois de cada incursão pela região que está
além do domínio do trabalho e do esforço. Se o fizeres, serás sábio e mago. Se
não o fizeres – serás charlatão!"...

Valentin Tomberg (1900-1973), russo-estoniano,

Valentin Tomberg nasceu em São Petersburgo em 27 de fevereiro


de 1900. Seus pais, de origem alemã do Báltico, ensinaram a ele
sua fé luterana. Ainda adolescente, ele foi atraído pela Teosofia e
pelos aspectos místicos da Ortodoxia Russa e atraído pelos
ensinamentos visionários de Vladimir Soloviev (1853-1900), que
ajudaram a reviver a reverência ortodoxa por Sophia, a hipóstase
da Santa Sabedoria. Tomberg conhecia o livro de Tarot de
Shmakov e, em 1920, encontrou alguns membros do grupo de
Mebes. Eles fizeram amizade com ele e o ensinaram a usar o Tarot
de Mebes como um sistema enciclopédico de ocultismo.

Durante a Revolução Bolchevique e a guerra civil subseqüente


(1917-23), a mãe de Tomberg foi morta a tiros por saqueadores
quando se aventurou nas ruas. Valentin fugiu com o pai e o irmão
mais velho para Reval (atualmente Tallinn) na Estônia. Ele
trabalhou esporadicamente como fazendeiro, farmacêutico e
professor. Em 1924, ele conseguiu emprego estável no serviço
postal da Estônia e começou a estudar religião e idiomas
comparados (hebraico, grego, latim, francês, inglês, holandês e
alemão) na Universidade de Tatu.

Em 1925, Tomberg ingressou na Sociedade Antroposófica


fundada por Rudolph Steiner (1861-1925); Otto Sepp era o
secretário geral da filial da Estônia. Em 1930, Tomberg estava
promovendo a Antroposofia por meio de palestras e ensaios, e a
Sociedade o nomeou para suceder a Sepp quando este morreu
em 1931. Steiner havia especificado 1933 como o ano da Segunda
Vinda de Cristo, que ocorreria no "reino etérico". Os crentes seriam
capazes de promover seu crescimento espiritual por revelações
imediatas do 'Ser-Cristo'. Tomberg se apegou a essa crença. Sua
série de ensaios, Estudos Antroposóficos do Antigo Testamento,
foi impressa em particular em 1933. Tomberg foi incentivado em
suas aspirações espirituais por sua esposa, Marie Demski, uma
mulher polonesa-francesa que havia morado na Rússia. Eles se
conheceram durante o exílio mútuo na Estônia. Seu único filho,
Alexis, nasceu em 1933.

Imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, Tomberg foi


convidado a se dirigir a grupos antroposofistas em Swanik, Bangor
e Roterdã. Durante os anos da guerra, no entanto, sua história fica
confusa. Ele foi forçado a renunciar à Sociedade Antroposófica.
Mas foi a expulsão porque ele estava se elevando sobre Rudolph
Steiner, ou porque ele estava elevando o cristianismo sobre a
antroposofia? Ele se mudou para Amsterdã, onde alguns dizem
que ele foi perseguido por nazistas. Em seguida, ele pode ser
rastreado até Colônia, tendo sido levado para lá pelos nazistas ou
levado para escapar dos nazistas (ou para escapar da ofensiva
dos Aliados contra os nazistas na Holanda). No final da guerra, ele
estava estudando direito na Universidade de Colônia, enquanto
bombas aliadas caíam naquela cidade. Podemos dizer com
certeza que ele deixou a Holanda para a Alemanha e que deixou
a antroposofia para o catolicismo romano.

Tomberg não queria mais um papel público. Em 1948, amigos na


Inglaterra o convenceram a trabalhar como tradutor na BBC;
baseado em Reading, ele ajudou a monitorar as transmissões
soviéticas. Aposentou-se na primeira oportunidade, em 1960, de
escrever e estudar, e viveu em reclusão com sua esposa e filho.
Ele morreu na ilha de Maiorca em 24 de fevereiro de 1973. Marie
Demski Tomberg morreu pouco depois. Seu livro inacabado, Pacto
do Coração, foi impresso postumamente. Inclui discussões dos
milagres de Cristo, dos dez mandamentos e do nome cabalístico
de Deus.

Tomberg escreveu Meditações sobre o Tarô, uma viagem ao


hermetismo cristão . Foi publicado anonimamente e
postumamente, como ele havia solicitado. O livro usa o Tarô de
Marselha como pretexto para ensinar a teosofia de Tomberg, que
ele diz ser uma tradição viva, a saber, a igreja esotérica de São
João (o 'coração' da Igreja), distinta da igreja exotérica de São
Pedro ( a 'cabeça' da Igreja). Segundo Tomberg, o hermetismo não
é uma seita ou uma escola, mas uma predisposição mística, que
ele espera que já o conecte aos seus leitores. Seu destino comum
é nutrir o cristianismo esotérico até que a Segunda Vinda de Cristo
esteja completa. O livro é principalmente inspirador e exortatório.
Tomberg é simpático ao misticismo não-cristão, principalmente
ioga, sufismo e cabalismo. Ele evita o rosacrucianismo, talvez
porque um de seus manifestos seminais - o Confessio - seja hostil
ao catolicismo. Ele diminui todas as religiões protestantes e ignora
Swedenborg. Ele condena o dualismo, seja zoroastriano,
maniqueísta ou gnóstico. Cada um dos trunfos do Tarô, de Le
Bateleur a Le Monde, envia uma 'carta' ao 'caro leitor
desconhecido'. O Louco (le Mat) é discutido na vigésima primeira
posição, imediatamente antes de Le Monde, ainda usando o
posicionamento estabelecido por Eliphas Levi. O magus francês é
às vezes citado, juntamente com outros ocultistas, em uma ampla
gama de místicos, teólogos, filósofos e estudiosos. Em sua
meditação sobre o cartão da morte, Tomberg inclui comentários
favoráveis sobre Gurdjieff e Ouspensky. As meditações sobre o
Tarô foram bem recebidas…. é elogiado por Antoine Faivre, o
notável historiador francês do esoterismo: 'Talvez não haja melhor
introdução à teosofia cristã, ao ocultismo, a qualquer reflexão
sobre o esoterismo do que esta obra magistral, não a de um
historiador, mas de um teósofo inspirado - uma ocorrência
bastante rara - que cuida de respeitar a história '.

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