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UNIDADE

2 FORÇAS EM AÇÃO

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Objetivos da unidade
Compreender as leis de Newton;

Relacionar as leis de Newton com a dinâmica do voo;

Analisar e compreender as quatros forças básicas que agem no avião


durante o voo;

Compreender conceitos relacionados ao movimento de uma força;

Analisar e compreender o conceito de binário e suas consequências para o voo.

Tópicos de estudo
As leis de Newton Movimento de uma força
Primeira lei de Newton O movimento de translação e
Segunda lei de Newton de rotação
Terceira lei de Newton Cinemática escalar para movi-
mentos angulares
As quatro forças básicas no avião O torque
Peso
Sustentação O binário
Tração
Arrasto
Aerodinâmica

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As leis de Newton
Nesta unidade, vamos falar so-
bre forças, em especial, aquelas
que agem durante o voo de um
avião. A identificação e compreen-
são dessas forças e de seus efeitos
são importantíssimas para o enten-
dimento da dinâmica do voo. Vamos
iniciar nossos estudos com os con-
ceitos básicos de Física sobre dinâ-
mica, que são as três leis de Isaac
Newton.
Depois, estudaremos como for-
ças de diferentes origens agem du-
rante o voo, e as quatro principais
forças. Por fim, voltaremos a concei-
tos mais fundamentais sobre o mo-
vimento das forças – sempre contex-
tualizando-os ao voo dos aviões.
As leis de Newton são um conjunto de leis que descrevem a dinâmica de
uma partícula. Historicamente, o estudo da dinâmica dos corpos se inicia,
formalmente, com Galileu Galilei e seu estudo sobre a inércia e o movi-
mento dos corpos. Porém, foi Newton que propôs a unificação e descreveu
a dinâmica de corpos de maneira completa e com rigor matemático.
Agora vamos estudar, em maiores detalhes, quais são as famosas leis
de Newton.

Primeira lei de Newton


Iniciaremos nosso estudo com a primeira lei de Newton, também conhecida
como lei da inércia. Enunciamos essa lei como “um corpo tende a permanecer
em repouso ou em movimento retilíneo e uniforme caso não haja forças exter-
nas agindo sobre esse corpo”.

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Para entendermos melhor esta lei, devemos estudar cada passo desse
enunciado. Antes de tudo, temos que ter em mente que a cinemática e a di-
nâmica dependem do referencial adotado. Assim, o conceito de movimen-
to retilíneo e uniforme e o de repouso também dependem da escolha
desse referencial. Vamos adotar como exemplo quando estamos viajando
em uma determinada rodovia. Se escolhermos como referencial o carro
em que estamos, os passageiros dentro dele estarão em repouso. Mas,
para uma pessoa fora do veículo, o carro e seus passageiros estarão em
movimento. Qual observação está incorreta? Nenhuma, pois a veracidade
das observações depende apenas do referencial adotado.
Assim, um objeto (corpo) é dito em repouso quando sua velocidade é
nula e, consequentemente, seu deslocamento também o é (dependendo
do referencial adotado). Por outro lado, um corpo está em movimento re-
tilíneo e uniforme quando sua velocidade é constante e não nula.
As situações descritas são válidas se sobre esse corpo não houver ne-
nhuma força externa agindo. Portanto, para que um corpo saia da con-
dição inicial, seja ela de repouso ou de movimento retilíneo e uniforme,
devemos aplicar uma força sobre ele para pô-lo em movimento ou para
pará-lo.
A primeira lei de Newton é de fácil observação prática. Como exemplo,
podemos citar o transporte terrestre. Para que o carro se movimente para
sair da garagem, é preciso que o motor realize uma força. Já para que pos-
samos parar o veículo em um semáforo, devemos pisar no freio e fazer
com que essa força atue nas rodas e pare o carro.
A Figura 1 nos traz outro exemplo da lei da inércia.
Nela vemos um carro com um objeto em seu teto
e nenhuma amarra. Quando o carro está em movi-
mento retilíneo e uniforme, o objeto se mantém gru-
dado ao teto. Contudo, se ocorre uma freada
brusca, a tendência do objeto é continuar
em movimento, já que o acionamento do
freio age sobre o carro, não sobre o ob-
jeto no teto, fazendo com que este caia na
frente do automóvel.

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Inércia A tendência do objeto é
permanecer em repouso
Movimento ou preservar seu movimento

Movimento

Movimento

Parada

Figura 1.Desenho ilustrativo da primeira lei de Newton: lei da inércia. Fonte: Adobe Stock. Acesso em: 09/03/2020.

Uma vez compreendida a primeira lei de Newton, passaremos à segunda


lei, que é a mais famosa de todas e traz a definição de força. Esse conceito é a
base fundamental de toda a unidade.

Segunda lei de Newton


Sem sombra de dúvidas, a segunda lei de Newton é a mais famosa das
três. Ela pode ser enunciada como: “a força aplicada sobre um corpo é dire-
tamente proporcional à taxa de variação temporal do momento”.
Ou seja, a força aplicada sobre um corpo é diretamente proporcional ao
produto de sua massa pela aceleração. Matematicamente, essa lei pode ser
expressa pela equação 1:
F⃗ = ma⃗ [N] (1)
Sendo:
F força
m massa inercial
a aceleração, ou seja, a taxa de variação temporal da velocidade

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Matematicamente a aceleração é expressa pela equação 2:

∆s
a⃗ = [m/s 2] (2)
∆t
Sendo:
a aceleração
Δs deslocamento
Δt variação do tempo
Devemos lembrar que estamos, mais uma vez, tratando de grandezas
vetoriais e, por isso, sempre devemos pensar na intensidade, direção e sen-
tido da força.
A Figura 2 representa uma situação ilustrativa em que forças de diferen-
tes intensidades agem sobre diferentes massas.

Muita força e pouca massa resulta em


grande aceleração

Pouca força e pouca massa resulta em


uma aceleração menor

Muita força e muita massa resulta em


uma aceleração menor

Pouca força e muita massa resulta em


pouca aceleração

Figura 2. Desenho ilustrativo da segunda lei de Newton. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 09/03/2020.

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Ao visualizarmos a Figura 2 e considerarmos que cada locomotiva entre-
ga a mesma força (indicada pela seta em vermelho) e que cada vagão tem o
mesmo peso, podemos ordenar a aceleração da seguinte forma: a primeira
situação é a que possui a maior aceleração; as duas situações intermediá-
rias possuem a mesma aceleração, que é menor do que a primeira; e a últi-
ma situação possui a menor aceleração de todas. Podemos fazer uma rela-
ção direta com a primeira lei, já que quanto maior a massa – e, neste caso,
estamos falando de massa inercial –, maior será a difi culdade de alterar o
estado desse objeto, seja para colocá-lo em movimento ou para pará-lo.
Vamos agora à terceira lei de Newton.

Terceira lei de Newton


Chegamos à última das três leis de Newton. Também conhecida como lei da
ação e reação, podemos enunciá-la como: “toda força exercida por um corpo
sobre outro corresponde a uma força contrária de mesma intensidade e dire-
ção, contudo, em sentido oposto”.
Matematicamente, temos a seguinte equação:

FAB = - F BA (3)

A terceira lei de Newton parece simples e de fato é. Contudo, há um ponto que


causa muita confusão: as forças agem sobre o mesmo corpo? A resposta é simples:
não. A terceira lei de Newton relaciona forças de intensidade e direções iguais, mas
com sentidos opostos e sempre em corpos diferentes.
A Figura 3 traz um exemplo da terceira lei de Newton.
Quando martelamos um prego em uma madeira, transfe-
rimos nossa força para o martelo que, por sua vez, exerce
uma força sobre o prego, fazendo com ele penetre na ma-
deira. Mas, ao pensarmos na terceira lei de Newton, o
prego também exerce uma força de intensidade igual
na cabeça do martelo. Afinal, você já deve ter notado
que, com o passar o tempo, a cabeça do martelo fica
“machucada” também.

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Força do prego no martelo

Força do martelo no prego

Figura 3. Desenho ilustrativo da terceira lei de Newton: ação e reação. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 09/03/2020.

A terceira lei de Newton é de grande importânca para os meios de transporte,


não sendo diferente para a aeronáutica. Afinal, as pás da hélice ou da turbina de
um avião movimentam o ar para trás para que o avião possa se mover para frente.
Uma maneira fácil de visualizar a situação é quando enchemos de ar uma bexiga e
soltamos. Ao soltar, a bexiga começa a voar justamente por conta da terceira lei. A
Figura 4 ilustra a situação da bexiga, mas com um tanque de ar.

Balão empurrando o ar Ar empurrando o balão

Figura 4. Desenho ilustrativo da terceira lei de Newton: ação e reação envolvendo fluidos. Fonte: Shutterstock.
Acesso em: 09/03/2020.

Uma vez compreendidas as três leis de Newton, vamos analisar as forças que
agem em um avião durante o voo.

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As quatro forças básicas no avião
Uma vez que já compreendemos o conceito de força e a importância de sua
ação sobre o movimento dos corpos, iremos estudar quais são as forças básicas
que agem em uma aeronave durante o voo. No jargão aeronáutico, temos as qua-
tro forças básicas que agem sobre o avião: peso, sustentação, tração e arrasto.
Para que possamos aprofundar nossa discussão, devemos inicialmente en-
tender os eixos de um avião. Temos o eixo longitudinal (row axis), ou seja, na
direção do bico para a cauda do avião; o eixo transversal ou lateral (pitch axis) na
direção de ponta a ponta da asa; e o eixo vertical (yaw axis) que se alinha com o
centro de massa do avião. A Figura 5 ilustra esses eixos em um avião.

l
dina
g itu
on
ol
Eix

Eix
ol
ate
ral

Eixo vertical
Figura 5. Eixos de rotação de um avião. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/03/2020.

É fundamental compreender e identificar esses eixos, pois as forças que


agem em um avião durante um voo estão relacionadas a eles. Quando pensa-
mos nas quatro forças básicas que agem no avião durante um voo, vemos que
o peso e a força de sustentação agem na direção do eixo vertical. Já as forças de
impulso (tração) e arrasto agem na direção do eixo longitudinal. A Figura 6 ilustra
os eixos e as forças que agem em cada um.

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Sustentação

T V
Arrasto Impulso (Tração)

Peso

Figura 6. As quatro forças que agem no avião. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 09/03/2020.

Peso
Vamos iniciar os estudos das quatro forças básicas do avião com a mais
intuitiva delas: a força peso. Ela pode ser enunciada como a “força exercida
sobre um corpo devido à força gravitacional da Terra”. A intensidade da força
peso é diretamente proporcional ao produto da massa dos corpos e à acelera-
ção da gravidade. Matematicamente, pode ser expressa por:

P⃗ = mg⃗ [N] (4)


Sendo:
P peso
m massa do corpo
g aceleração da gravidade
Devemos fazer algumas considerações. Primeiro, note a semelhança entre as
equações 4 e 2. Adotamos g = 9,8 m/s2 apenas na superfície da Terra, já que a acele-
ração da gravidade varia conforme a altitude e a latitude, tendo direção radial com
sentido para o centro da Terra. Assim, é umas das forças a serem vencidas para que
a aeronave possa voar. A força peso atua sobre o eixo transversal da aeronave.

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Para se ter uma ideia da complexidade do voo e dos cálculos envolvidos,
apresentamos a variação da aceleração da gravidade em relação à altitude e
à latitude. A variação da aceleração da gravidade em relação à linha do Equa-
dor e um dos polos, ou seja, de 0 a 90 graus, é de, aproximadamente, 0,5%.
Já para a variação de altitude entre 0 m, ou seja, ao nível do mar, e 11.000 m,
altitude média de um voo comercial, essa diferença é de, aproximadamente,
0,5%, totalizando a diferença de 1% na influência da aceleração gravitacional
sobre o avião e, consequentemente, sobre o seu peso. Além disso, na altitude
de 11.000 m o ar é mais rarefeito e a temperatura, constante, o que contribui
para a economia de combustível.

CURIOSIDADE
O consumo do querosene de aviação (QAV) tem como principal variável o
peso da aeronave. Além disso, altitude, velocidade e temperatura também
influenciam na conta.
Tomando como base um Boeing 737-800 em voo de cruzeiro, o consumo de
QAV é de aproximadamente 2.200 kg/h (2.800 L/h). Sabendo que o tanque da
aeronave comporta até 21 toneladas de QAV, na conversão, cada quilo de QAV
corresponde a 1,28 L do insumo.

Sustentação
Sustentação é a principal força aerodinâmica que age durante o voo e é
ela que, de fato, permite que o voo aconteça. Podemos pensar na seguin-
te analogia: a sustentação é análoga à força de empuxo, que permite que
um navio fl utue. A asa é o principal elemento de sustentação da aeronave,
sendo que a força de sustentação age na direção do eixo
transversal e em sentido oposto ao peso.
Além disso, a sustentação é uma das forças que mais
causa controvérsia. Afinal, por que uma aeronave voa?
Qual descrição é a mais correta: a proposta por Ne-
wton ou por Bernoulli? Na verdade, se aplicarmos
ambos os conceitos para descrever o movimento
relativo do ar em relação às asas, chegaremos a
uma explicação mais completa.

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Quando o ar é defletido pela asa (e a asa tem certo ângulo em relação
ao eixo da aeronave), ele é acelerado devido à segunda lei de Newton. Por
conta da terceira lei de Newton, esse ar exerce uma força contrária nas asas
do avião, fazendo com que este seja “empurrado” para cima. Esse empurrão
é a força de sustentação.
Por outro lado, se pensarmos que a asa está em deslocamento em um
fluido (neste caso, o ar), dada sua geometria, as linhas de corrente acima da
asa estão mais comprimidas que as linhas abaixo. Assim, aplicando a equa-
ção de Bernoulli, temos que a diferença de pressão gerada é a responsável
pela força de sustentação. Dessa maneira, o mais correto é afirmar que a
força de sustentação tem origens distintas.
A Figura 7 ilustra as duas origens da sustentação, além de representar
as linhas de escoamento do ar pela asa. Deve-se notar que diferentes condi-
ções geram situações de turbulência.

Figura 7. Linhas de escoamento de um fluido por uma asa. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 09/03/2020.

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1
S= ρv2 AC s (5)
2

Sendo:
S força de sustentação
ρ densidade do ar
v velocidade do avião
A área de contato com o fl uido (no caso ar)
Cs coefi ciente de sustentação

Tração
A força de tração é exercida pelos propulsores instalados no avião. Em geral,
os propulsores são motores, como, por exemplo, os motores a hélice. Mais uma
vez vemos a terceira lei de Newton em ação, já que temos que o ar é puxado/
empurrado para trás e o avião é propelido para frente. Tal força tem sua direção
ao longo do eixo longitudinal do avião.

CURIOSIDADE
É possível eliminar as turbinas de um avião?
Segundo pesquisadores do MIT, a resposta é sim. E já iniciaram testes
em planadores com propulsão iônica. Em poucas palavras, propulsores
iônicos funcionam da seguinte maneira: moléculas energizadas ou íons
com carga negativa criados a partir de um intenso campo elétrico seriam
postos numa mesma direção, empurrando o planador na direção oposta.
Isso eliminaria as pás da hélice, diminuindo o consumo de combustível e
o barulho dos aviões. Claro, tudo isso ainda está longe de aplicações na
aviação comercial.

Arrasto
A força de arrasto é análoga à força de atrito exercida pelo ar ao longo do eixo
do avião. Portanto, podemos considerar que assim como a força peso, o arrasto
é uma força que “prejudica” o voo. Para entender o conceito de arrasto, devemos
compreender o princípio de Bernoulli, que pode ser definido como a aplicação
do princípio de conservação de energia para fluidos. É utilizado para descrever
o comportamento de um fluido que se move ao longo de uma linha. Bernoulli

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fez algumas considerações: primeiro definiu que se tratava de um fluido ideal,
ou seja, sem viscosidade e sem atrito, com densidade constante; além disso, ele
passava por um condutor fechado.
Nessas condições, podemos descrever a energia total de um fluido em um
dado ponto como a soma de três contribuições:
1. energia cinética, devido à velocidade do fluido;
2. energia potencial, devido à variação de altitude do fluido;
3. energia de fluxo, devido à pressão exercida sob o fluido.
Podemos equacionar o princípio de Bernoulli como:
v2 P
+ + gh = Constante (6)
2 ρ
Sendo:
V velocidade do fluido
g aceleração da gravidade
h Altura na região de referência
P Pressão ao longo da linha de corrente
ρ Densidade do fluido
A Figura 8 ilustra o princípio de Bernoulli. As duas áreas demarcadas em azul
claro devem ser constantes e iguais.

V2 Δt = S2

p2 v2
V1 Δt = S1

p1 v2

A2
A1 h1 h2

Figura 8. Princípio de Bernoulli. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/03/2020.

Portanto, a dinâmica do fluido (ar) que é cortada pela asa do avião gera a for-
ça de arrasto. Assim, temos uma dependência muito parecida com as grandezas
físicas do princípio de Bernoulli. Matematicamente, temos que a força de arrasto
é dada por:

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1
R= ρv2 ACR (7)
2
Sendo:
R força de arrasto
ρ densidade do ar
v velocidade do avião
A área de contato com o fluido (no caso, ar)
CR coeficiente de arrasto

Aerodinâmica
A aerodinâmica é um dos ramos que estuda a influência do deslocamento
do fluido. Um exemplo clássico são os automóveis. Carros de corrida ou espor-
tivos vêm carregados de artefatos aerodinâmicos para que a força de arrasto
seja minimizada e utilizada a favor do desempenho. Se pensarmos em um ca-
minhão cujo objetivo não é ser veloz, mas, sim, carregar mais carga, ele não
deve ter um design que privilegie a aerodinâmica, contudo, como este é um
fator de economia, ele também deve estar presente.

Aerodinâmica
Sustentação

Sustentação

Impulso
Arrasto
(Tração)
Peso

Peso

tiva
ega
Sustentação

Sustentação

ãon
taç

Sustentação
ten

Arrasto
Sus

Arrasto
Impulso
Arrasto (Tração)
Sustentação

Figura 9. Comparação entre a aerodinâmica de um avião e a de um carro. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/03/2020.

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Movimento de uma força
Nesta seção, vamos voltar a estudar conceitos
físicos fundamentais, como o movimento gerado
por uma força em um corpo rígido. Tais movi-
mentos são classificados como translação e
rotação. O movimento mais geral possível é uma
combinação de translação com rotação. Vamos es-
tudar em detalhes esses conceitos, em especial, a rotação e toda a
cinemática e dinâmica que derivam deste movimento.
Iremos apresentar as definições de alguns conceitos básicos que são de
grande importância.
O que é um corpo rígido?
De uma maneira genérica, podemos definir corpo rígido como sendo
aquele que mantém suas partes integrantes fi xas durante o movimento de
translação e rotação. Aprofundando um pouco mais nessa definição, temos
um corpo rígido como um objeto idealizado que obedece à seguinte condi-
ção: a distância entre quaisquer dois pontos (ou partículas) que compõe
esse corpo é invariável sob a ação de quaisquer forças externas que nele
sejam aplicadas.
A Figura 10 ilustra a situação. Um corpo rígido hipotético sofre a ação de três
forças externas. Contudo, a distância
entre os pontos P e Q se mantém inal-
terada. Aqui faremos menção apenas
a corpos rígidos hipotéticos, mas mais Q

adiante vamos aplicar esses conceitos


d
a questões práticas de voo dos aviões.
Temos uma grande variabilidade P
de objetos que podem se conceitos
a como um corpo rígido. Aqui focare-
mos no avião, que pode ser conside-
rado um corpo rígido. Mas, por sim-
plicidade, vamos considerar outro
corpo rígido. Figura 10. Corpo rígido hipotético.

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O movimento de translação e de rotação
Agora que temos a definição de corpo rígido, podemos analisar como se
dá o movimento desse corpo no espaço. O movimento mais generalizado é
a soma da translação com a rotação. Para uma melhor compreensão, vamos
analisar os dois movimentos separadamente.
De acordo com a obra Dicionário Houaiss de Física, de Itzhak Roditi (2005),
podemos definir a translação como o “movimento de um sistema físico no qual
todos os seus componentes se deslocam paralelamente e mantêm as mesmas
distâncias entre si” (p. 195).

Q Q

d d
Trajetória da translação
P P

Figura 11.Movimento de translação.

Já o movimento de rotação pode ser definido como um “movimento de


um sistema composto por uma ou muitas partículas ou de um corpo rígido
em que as distâncias entre as partículas permanecem inalteradas e todos os
pontos do sistema ou do corpo mantêm a mesma distância de um ponto fi xo”
(RODITI, p. 159, 2005).

FUNDAMENTOS DE FÍSICA 56

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Rotação

P
d
Q

Figura 12. Movimento de rotação.

Cinemática escalar para movimentos angulares


Nesta seção, estudaremos os conceitos de cinemática escalar para movi-
mentos circulares. Tais conceitos são análogos aos já estudados em cinemá-
tica; assim, temos que definir um sistema referencial no qual a rotação irá
acontecer. Uma vez feito isso, podemos descrever o movimento de rotação de
um corpo rígido. Iniciamos com a definição de posição angular.
Para determinarmos a posição angular de um corpo, devemos primei-
ramente estabelecer um referencial e uma linha de referência. Após isso,
analisamos geometricamente a posição da linha que equacionamos da se-
guinte maneira:
s
θ= [rad] (8)
r

Sendo:
θ posição angular
s arco percorrido
r raio desse círculo
Nessas condições, o ângulo medido está em radianos (rad), que não possui
dimensão, mas temos as seguintes condições de transformação:
Uma volta = 360º = 2π rad (9)

FUNDAMENTOS DE FÍSICA 57

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Desse modo, assim como no movimento de translação, podemos determi-
nar todo o movimento do corpo se soubemos o θ(t).
Um corpo que gira em torno do seu eixo de rotação e varia a posição de sua
linha de referência sofrerá um deslocamento angular dado por:
∆θ = θ2 - θ1 [rad] (10)
Sendo:
∆θ variação da posição angular
θ2 posição angular final
θ1 posição angular inicial
Há dois pontos importantes que devem ser ressaltados. Primeiro, é por
convenção que o deslocamento angular é positivo no sentido anti-horário e
negativo no sentido horário. Segundo, tanto a posição angular como o deslo-
camento angular são válidos para o corpo rígido como um todo e também para
cada uma de suas partículas.

EXPLICANDO
Assim como no movimento de translação, podemos definir as funções
horárias para o movimento circular. Observe:
Função horária:
ω = ω0 + αt (11)
Equação da posição:
1
θ - θ0 = ω0t + αt2 (12)
2
Análogo à equação de Torricelli:
ω2 = ω02 + 2α∆θ (13)

Assim como ocorre com a velocidade linear de um corpo, podemos definir


a velocidade angular de um corpo ou de um corpo rígido partindo da mesma
definição. Ou seja, a velocidade angular é a taxa de variação temporal do des-
locamento angular em um dado intervalo de tempo.
∆θ
ω= [rad/s] (14)
∆t
Sendo:
ω velocidade angular
∆θ variação da posição angular
∆t variação do tempo

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Uma vez que a velocidade angular de um corpo não é constante, este possui
aceleração angular que é definida pela equação:
∆ω
a= [rad/s 2] (15)
∆t
Sendo:
α aceleração angular
∆ω variação da velocidade angular
∆t variação do tempo

V
S
θ=r

v θ r
ω =r

ω = 2πƒ

Figura 13. Grandezas físicas relacionadas à cinemática rotacional. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/03/2020.

O torque
Definimos torque como uma ação de giro, ou seja, um movimento rota-
cional. Ainda podemos pensar no torque como uma torção. Ambas as ações
são exercidas sobre o eixo de rotação por uma força externa a ele. Portanto,
definir qual o eixo de rotação e analisar quais forças agem sobre o corpo
rígido é de fundamental importância para a compreensão do conceito. Um
exemplo clássico e de fácil visualização é a rotação de um parafuso por uma
chave de boca.

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alavanca
Braço da F

θ = 90º
F Força
θ r
r

Força

Torque = força x braço da alavanca

F F

Força
Força
r
r

θ
θ

Figura 14. Ação do torque em uma ferramenta simples. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/03/2020.

Quando a força F⃗ é exercida em um ponto do corpo rígido que se encontra a


uma distância r⃗ em relação ao eixo de rotação, temos que o torque é dado por:
τ⃗ = r⃗ × F⃗ [N/m] (16)
Sendo:
τ torque
r distância do ponto ao eixo de rotação
F força aplicada
Note que o torque é uma grandeza vetorial, sendo calculado a partir do
produto vetorial entre a distância e a força aplicada. Assim, quanto maior a
distância, maior será o torque para uma mesma força aplicada. Analisando a
intensidade do torque, chegamos à expressão:
τ = r . f . senθ [N/m] (17)
Sendo:
τ módulo do torque
r módulo do braço da alavanca
f módulo da força
θ ângulo formado entre a força e o braço da alavanca

FUNDAMENTOS DE FÍSICA 60

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Ao abrir uma porta, em geral, aplicamos uma força perpendicular ao eixo de
rotação, assim temos a máxima eficiência.

Torque
F
Força aplicada

Raio a partir do eixo

T = rF sen θ

T
r
Direção do torque F θ

Torque é um momento de força


que é uma força rotacional
T

Figura 15. Geração do torque e a regra da mão direita para a direção desse torque. Fonte: Shutterstock. Acesso
em: 10/03/2020.

O binário
Em um corpo rígido, podem agir as mais diversas forças ao mesmo tem-
po. E cada força que age sobre esse corpo gera um deslocamento, seja de
translação, seja de rotação. Assim, ao analisar o movimento de um corpo,
devemos considerar as seguintes questões;
1. Quantas forças agem no corpo? Lembrando que força é uma grande-
za vetorial e depende da sua intensidade, direção e sentido.
2. Quais os movimentos gerados, de translação ou de rotação? Se de
rotação, em qual eixo e braço há geração de torque?
Definimos o binário como um sistema particular de duas forças de
mesma intensidade, linhas de ação paralelas e sentidos opostos. Deve-se
ressaltar que as forças que compõem o sistema binário não irão gerar um
movimento de translação, mas, sim, de rotação.

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ASSISTA
Assista ao vídeo Binário de forças, que mostra uma expli-
cação ilustrada da ação do binário.

O binário irá, portanto, gerar um momento, que está representado pela


equação 18. Deve-se ressaltar que o vetor momento representa a tendência
de giro e é perpendicular ao plano das forças, ou seja, obedece à regra da mão
direita; além disso, ele é independente de um ponto de referência.
M 0 = r⃗ × F⃗ [N/m] (18)

O conceito de binário é importante para o voo de um avião, pois a criação


de forças de mesma intensidade, direção e sentidos opostos possibilita mano-
bras durante o voo, geradas em diferentes eixos pelos ailerons, flaps, profun-
dor e leme.

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Sintetizando
Caros estudantes, chegamos ao fim de mais uma unidade. Nela estudamos a
importância das três leis básicas da dinâmica, conhecidas com as leis de Newton,
que são: a lei da inércia, o conceito de força e a lei da ação e reação.
Na segunda seção, vimos como o conceito de força se aplica ao voo do
avião. Durante o voo, temos quatros forças básicas agindo aos pares segundo
o eixo em que atuam. No eixo longitudinal, temos o par tração-arrasto. A tração
impulsiona o avião para frente (ação e reação) e, contrariamente a ela, age a
força do arrasto. Já no eixo vertical temos o par força peso-sustentação.
Na terceira seção, voltamos a conceitos básicos e estudamos como as forças
são capazes de gerar movimento, seja de translação ou rotação. Quando ocor-
re rotação, aprendemos na geração do torque que a grandeza vetorial depende
da intensidade, direção e sentido da força aplicada e do braço de força, ou seja,
da distância entre o ponto de ação da força e o eixo de rotação adotado.
Por fim, voltamos a um caso particular de ação de forças sobre um corpo
rígido, o binário. Também estudamos a importância desse conceito para o voo
dos aviões, identificando-o como o principal agente de mudanças de direção e
manobras nas aeronaves.
Bons estudos!

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