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E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL


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CURSO
“INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL”
COM PROFESSOR BRUNO MAGALHÃES

SINOPSE

As motivações para o estudo independente se relacionam à

noção de vocação (A.-D. Sertillanges) e de sentido da vida (Viktor

Frankl). É preciso evitar as motivações inconsistentes ou ilusórias,

que não dão vitalidade ao estudante e ameaçam torná-lo presa de

constantes retrocessos. Ter uma boa noção dos objetivos possíveis (e

de seus próprios objetivos) é essencial para construir seu programa

de estudos. O planejamento dos estudos deve ser constantemente

revisto, conforme você vai avançando. A idealização costuma

distanciar o estudante de sua própria realidade e de suas reais

capacidades. A aquisição de virtudes como auxílio à delimitação de

seus objetivos. Retomando o que ficou sedimentado na segunda

aula, é o momento de você começar a conhecer seu potencial e


suas reais necessidades. Problemas com a distorção da ideia do

homem que “se faz a si mesmo”através dos estudos. A modéstia/

humildade é uma forma de alcançar seu máximo. O gênio e o

homem comum. O papel da sorte.

BONS ESTUDOS!
INTRODUÇÃO

Essa é a segunda aula do nosso curso de introdução à vida

intelectual. Depois de definir o que é essa tal vida intelectual, delimitar

o nosso território, é o momento de prosseguir nessa trajetória. Acontece

que entre a compreensão do que seja essa atividade de estudo e o efetivo

ingresso nessa atividade há um caminho em que muitas pessoas acabam

empacando e a minha pretensão com esta aula é ajudar você a escolher. No

começo, a sugestão é que você escolha um propósito dentre aqueles que

eu vou sugerir aqui para conseguir seguir a trajetória dos seus estudos com

maior eficiência e com maior propósito.

Para os fins desta aula, diferenciarei propósito e motivação.

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PROPÓSITO E MOTIVAÇÃO
O propósito é o objetivo, é a meta, é aquilo que você quer alcançar,

é a pessoa que você quer ser, é o assunto que você quer dominar, é o autor

com quem você quer ter intimidade intelectual. Resumindo: é a sua meta.

Da metade da aula em diante, descreverei seis alternativas, seis caminhos

possíveis, que me parecem os mais razoáveis. Você pode inventar um

sétimo, oitavo, claro, a lista não é exaustiva, mas considero que são esses seis

caminhos os mais usuais para as pessoas começarem a estudar. A sugestão

que eu faço é que você anote os seis, medite sobre os seis e entenda, defina,

qual deles se aplica melhor ao seu caso.

E a motivação, embora possa parecer a mesma coisa, designa

melhor a força interna, a vida interior que surge no estudante quando ele
tem claramente definido o seu propósito.

Muitas pessoas ficam se agarrando em problemas justamente

porque não têm claramente um propósito. Lembram-se daquela imagem

da sala de espera? A pessoa não entra na sala da festa, não entra no

banquete, não entra no jantar porque, ou ela não se acha digna — acontece

isso também — ou ela não sabe o que fazer lá dentro. Então ela permanece

em busca de um assunto e os assuntos que nos atormentam em maior

número e maior constância são os problemas: é o barulho da minha casa, é

a minha família que não ajuda, é chegar em casa cansado. Muitas pessoas

são assim, gostam de se entreter com problemas porque, na verdade, em

muitos casos, falta uma meta clara.

Meu avô, na simplicidade dele, costumava dizer que pobre não tem

tempo para ter conflito psicológico e ele se colocava nessa classe. Dizia que

não tinha tempo de ter conflito psicológico porque a vida tinha de seguir

adiante. Essa concepção pode parecer um pouco reducionista, mas o que

ela tem de verdade é a mesma verdade que há naquela teoria de Abraham

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Maslow1 na qual uma pirâmide que hierarquiza as necessidades indica

que, enquanto a pessoa está ali dedicada aos problemas vitais — no bom

português, quem está passando fome e quem está desempregado — não

tem tempo de abrir o livro de Mário Ferreira dos Santos2 para se deleitar

com as teorias. A pessoa tem de se dedicar a suprir as necessidades vitais

dela primeiro, para depois caminhar em direção às outras atividades e aos

outros bens mais supérfluos ou menos vitais.

A questão a é a seguinte: quando você e se você elegeu um propósito

de estudos que aparece a você como vital, logo — é quase um silogismo

— você não terá tempo, você não terá energia suficiente para perder com

distrações e com problemas, que, por mais reais que possam ser, reduzem

muito quando você está olhando para a sua meta clara e livremente

escolhida.

Então, a primeira tese desta aula é justamente esta: o propósito dos

seus estudos livremente eleito e claramente expresso, dará unidade aos

seus esforços, e reduzirá o potencial dispersivo dos elementos opositores.

Então a ideia é que você fixe um propósito, dos que eu vou sugerir, e, em

alguma medida, também comece a medir o potencial do seu exército:

quanto de combustível você tem para caminhar nessa vida de estudos. Seja
modesto neste começo, mas seja veraz. É tão errado você fixar uma meta

muito alta além das suas capacidades, como é errado você ter um potencial

definido e ter uma falsa humildade e ficar ali, como diz o padre Sertillanges3,

em trabalhinhos esparsos e em leituras soltas. A sugestão aqui é que você,

na verdade, utilize a técnica dos atiradores, que quando tem um alvo muito

distante, têm de mirar um pouquinho acima do alvo, porque eles contam

1  Abraham Harold Maslow (1908-1970) através da imagem de uma pirâmide estabeleceu uma hierarquia de ne-
cessidades na qual da base para o topo é estabelecida tal hierarquia. Na base da pirâmide residem as necessidades
fisiológicas, tais como respiração, comida, água, etc. No segundo patamar estão os bens relacionados à segurança,
como segurança do corpo, do emprego, da moralidade, da saúde. No terceiro patamar estão itens relacionados a
amor e relacionamento, amizade e família. No quarto patamar estão os bens relacionados à estima, tais como au-
toestima, confiança, respeito dos outros, etc. Apenas no topo estão os problemas relacionados à realização pessoal,
como a moralidade e a criatividade.
2  Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) foi um filósofo, tradutor e escritor brasileiro, autor de prolífica obra e tam-
bém desenvolvedor da Filosofia Concreta.
3  Antonin-Gilbert Sertillanges (1863-1948) foi um filósofo e teólogo francês. Neste curso o professor faz muitas
referências a sua obra conhecida no Brasil como A Vida Intelectual.

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com a força da gravidade, que vai mudar a trajetória do projétil. Então, mira

um pouco acima ou, para usar também aquela imagem do Grande Sertão

Veredas4, quando você quer cruzar um rio a nado, você mira num lado, mas

você vai chegar um pouco depois, porque a correnteza naturalmente vai te

levar para o outro lado.

Então, quando você for fixar as suas metas, leve em conta a gravidade,

a correnteza, porque como diz Riobaldo, viver é muito perigoso e nem

sempre nós conseguimos alcançar exatamente o ponto em que vamos

chegar. Isso quer dizer que, se você mirar muito baixo, você chegará mais

baixo ainda. A meta tem de ser um pouco audaciosa, mas tem de levar

em conta o seu estado de vida e, usualmente, as pessoas se agarram a

problemas que poderiam ser vencidos com essa direção clara.

Por exemplo, eu trouxe aqui alguns exemplos de problemas, não

porque eu queira ficar fixados neles, mas para que você vá identificando

esses problemas na sua vida, alguns aqui talvez você nem tenha ainda

percebido e vai entendendo, ou vai aferindo, no seu caso, vá testando, se

um propósito claro e forte, apetecível no seu caso, tem sido capaz de reduzir

o potencial de prejuízo desses problemas.

OS PROBLEMAS MAIS COMUNS


O problema mais comum das pessoas que me procuram, a quem eu

dou aula pelo meu portal Travessias, é assim, é o campeão absoluto: falta

de tempo e cansaço. As pessoas têm de trabalhar, têm de se alimentar,

algumas não podem se dedicar à vida intelectual o tempo todo, então

chegam em casa cansadas, chegam em casa sem tempo, têm a família,

alguns têm filhos, enfim, é o problema universal de grande parte dos

estudantes.

Um segundo problema, também muito comum, é a desordem na

4  Obra de Guimarães Rosa. O treco em questão é o seguinte: “Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia
não vejo! — só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer
passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do
em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”

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sequência de leituras. As pessoas adoram uma lista de livros, em muitos

casos, para pendurar na parede ou pôr na gaveta. Porém, em muitos casos,

porque elas genuinamente estão perdidas, não sabem o que ler e o que ler

primeiro. Um propósito bem definido também ajuda você a organizar as

suas leituras.

Um terceiro problema: a pessoa não sabe ler com método. Eu vou

abordar um pouquinho disso na quarta aula deste curso.

O quarto problema: a minha família não ajuda, o meu namorado, a

minha namorada está jogando contra, os meus amigos só querem saber

de tomar cerveja. A pessoa não tem um ambiente social que a ajude a

estudar seriamente.

O quinto problema eu chamo de complexo de vira-lata: alguns alunos

meus que fazem parte das expedições literárias, que é um programa de

leitura comentada dos clássicos que eu conduzo, falam assim: eu vou ler o

livro do Mortimer Adler5 neste mês, mas eu vou pular o Dostoiévski6 porque

eu acho que não sou capaz de entender Crime e Castigo, então eu preciso

de uns anos para voltar e depois eu vou ler Crime e Castigo. Esse é um

complexo de vira-lata, a pessoa não se acha capaz de entender o autor.

Veja, é um programa de leitura comentada, o professor está ali para


ajudar, mas a pessoa, por algum motivo - não estou julgando ela -, não se

julga digna de entrar nesse ambiente. É um problema porque, por mais

complexo que seja o autor, você pode se aproximar dele devagarzinho —

como se diz em Minas Gerais — aos poucos, vai conversando com ele, e

consegue então ter uma intimidade com esse autor em pouco tempo,

desde que você tenha vontade suficiente de adentrar na obra. Então esse

complexo do vira-lata prejudica as pessoas até por um pouco de pompa, é

por isso que eu disse que vida intelectual afasta as pessoas, porque o sujeito

simples que não pode comprar livro, pensa assim: como vou entrar nesse

5  Mortimer Adler (1902-2001) foi um filósofo americano, educador e autor popular.


6  Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) foi um escritor, filósofo e jornalista, autor de romances de grande
importância para a literatura mundial.

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negócio? Como eu vou entrar nessa vida intelectual se tem tantas pessoas

com mais condições que eu, com mais tempo que eu. Ele se imagina num

ambiente meio competitivo e se afasta.

O sexto problema: um ambiente barulhento e dispersivo é também

um problema real, enfrentamos isso todos os dias em grandes cidades.

Quem tem vizinho problemático, pior ainda.

O sétimo problema, também muito comum: não encontrar

referências, professores e amigos com quem conversar sobre esses

assuntos e tirar dúvidas.

E, por fim, um problema também muito comum é a dificuldade de

aferir o rendimento. As pessoas querem saber se elas estão caminhando

bem, se elas estão rendendo nos estudos, se estão chegando próximas

àquilo que se espera delas. Fixar metas para você é um modo de conseguir

aferir o seu rendimento durante essa trajetória.

UM PROPÓSITO CLARO E DEFINIDO


E todos esses problemas podem ser reduzidos, sem dúvida nenhuma,

se você tiver um propósito claro. Propósito claro é um propósito que se

ajusta bem ao seu tipo de vida, com o qual você se identifica, é aquele
propósito que como que anda agarrado em você, aquele que você respira,

aquele que você se lembra sempre. Não é um propósito indefinido ou muito

abstrato, ou muito alto, ou muito ilusório.

E entrando então, nessa ideia de que o propósito tem de ser um

propósito concreto e próximo da sua vida, tem de ser real, tem de ser

verossímil, tem de parecer interessante e tem de ser apetecível a você, a

gente entra de cabeça no tema da vocação.

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VOCAÇÃO
E vocação — essa é uma das propostas da aula, das teses — é a

trajetória de vida pessoal e intransferível em que se atualizam as potências

do indivíduo. É uma trajetória que você decide trilhar, porque lhe parece a

trajetória mais capaz de ajudar você a se tornar a pessoa que você quer

e pode ser, se trata então de definir pela sua vocação onde você vai, mais

eficazmente, com maior proveito, investir as suas energias, o seu tempo,

a sua inteligência. E, especificamente em relação aos estudos, trata-se de

saber também que tipo de conteúdo você precisa absorver no começo, em

que ordem ler, tudo isso tem a ver com a vocação e com o aproveitamento

das suas energias e dos seus bens vitais.

A vocação é um tema complexo, falado por diversas pessoas em


diversas áreas, em várias abordagens. A abordagem que eu vou fazer aqui

também não é exaustiva e não é a única, mas me parece que existe uma

vocação do ser humano porque é ser humano. Essa é a pergunta que o

Antônio Abujamra7 fazia no seu programa: “O que é a vida, Fulano?” A

pessoa tinha de responder o que é a vida, essa pergunta é complexa, né?

O que é a vida e o que é o sentido da vida humana, o sentido geral da vida

humana, por que estamos aqui nesta existência?

Cada tradição, cada sociedade responde de um modo diferente a

essa pergunta. A tradição cristã, por exemplo, quem é cristão entende que,

bom, pelo simples fato de ser humano tem a vocação para a santidade,

é conhecer a Deus, amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo

como a si mesmo e se santificar, apesar das adversidades da vida e da nossa

inclinação ao pecado.

O budista, por exemplo, sei lá, a vocação do budista é encontrar a

iluminação. E outras vertentes do pensamento e outras religiões e outras

filosofias vão tentar fixar para o ser humano um propósito, uma vocação

7  Antônio Abujamra (1932-2015) foi um premiado diretor de teatro, ator e apresentador brasileiro. Ganhou des-
taque no programa Provocações, da TV Cultura, no qual fazia pergunta audaciosa aos seus entrevistados e, em
especial, pela repetição da pergunta O que é a vida? quando insatisfeito com a resposta do entrevistado.

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específica pelo fato de sermos seres humanos.

A vocação intelectual, a vocação para os estudos, a vocação para

caminhar em direção ao conhecimento, sabedoria, é um tipo de vocação

humana que atinge algumas pessoas, nem todo mundo tem vocação

intelectual. Nessa festa que eu mencionei como metáfora, algumas pessoas

são incumbidas de organizar a festa, enfim, de organizar os alimentos,

de limpar a mesa, de servir o cafezinho, de apresentarem as pessoas, são

muitas funções sociais e a atividade intelectual é de uma parcela das

pessoas, maior ou menor, não vou discutir aqui, mas não é todo mundo

que tem vocação para ficar sentado estudando, conversando, discutindo,

aprendendo, anotando, meditando, é um pouco cansativo e, se você não

tem afeição e vocação, você vai se cansar e se frustrar com maior frequência

do que se frustra aquele que tem vocação, porque é cansativo. É muito

recompensador, mas, sem dúvida, é cansativo.

Então, entenda, vocação geral que temos por sermos seres humanos,

da qual é espécie a vocação intelectual, e essa vocação intelectual me parece

que também há aqui uma divisão a ser feita. Existe uma vocação geral, que

atinge a todos aqueles que se aventuram na vida intelectual e para explicar

de que se trata, eu vou pedir ajuda do padre Antonin-Gilbert Sertillanges,


que é uma grande referência nestes estudos.

Logo no começo do seu livro A Vida Intelectual no primeiro capítulo

ele diz:

“falar de vocação é referir-se àqueles que pretendem fazer do

trabalho intelectual sua vida, quer por disporem de todo o seu tempo para

dedicar-se ao estudo, quer por, estando comprometidos com ocupações

profissionais, reservarem para si como um feliz complemento e uma

recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito”.

Vamos trabalhar esse conceito dele aqui. Logo no começo a vocação

geral, que é daquele que pretende fazer do trabalho intelectual a sua vida.

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Ponto. Então, se você pretende fazer dos estudos algo essencial na sua vida,

bom, parece que você está caminhando então nessa direção. E ele traz aqui,

então, dois tipos de vocacionados: aquele que tem o tempo todo para

dedicar a isso, quer dizer, não tem uma outra atividade profissional alheia a

esse meio, aquele que se dedica profissionalmente aos estudos, e outros; o

segundo tipo de vocação intelectual, é aquele que estando comprometido

com alguma ocupação profissional faz desse caminho de busca pelo

conhecimento um feliz complemento e uma recompensa. Dois tipos.

Quando eu li essa palavra complemento na edição antiga da É

Realizações, fiquei um pouco encucado com isso porque a expressão

complemento não me parecia expressar exatamente o que o Sertillanges

estava querendo transmitir com a sua magnífica obra. Complemento me

parece ter a acepção de algo dispensável, algo que pode estar ali, pode não

estar, como uma sobremesa. Você almoçou, quer sobremesa? Às vezes

quer, às vezes não quer, vezes quer, às vezes não quer, é um momento ali

meio que supérfluo, digamos assim. E na edição nova que saiu, a edição

bilíngue, fui então vasculhar o termo original e eu vi que no texto original

está suplemento — supplement, em francês — e, muito curioso, fui ao

dicionário para tentar afinar um pouco o significado das duas palavras. No


dicionário Aurélio que consultei, complemento está, entre outras coisas,

como acabamento, como remate, como completamento.

Bom, não é uma má ideia, mas ainda me pareceu fraco. Se é

vocação intelectual, não pode ser apenas um acabamento, parece ter a

ver om a essência. E aí suplemento, como está no original francês parece

que encaixou melhor nessa edição do Aurélio. Suplemento, entre outras

definições que ele coloca lá neste verbete, é parte que se adiciona a um

todo para ampliá-lo, esclarecê-lo e aperfeiçoá-lo. E aí eu falei “Caramba! É

isso!”. Aquele que tem uma profissão, como eu, por exemplo, que trabalho

na área do Direito, e dedica parte de sua vida a essa vida de estudos,

bom, ele pretende geralmente, ampliar a sua própria vida, esclarecê-la e

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aperfeiçoá-la. Me pareceu muito mais condigna essa definição, essa ideia

de suplemento com o espírito geral do que o padre Sertillanges tem dito

aqui.

Então, fiquemos com essa ideia de que aquele que busca estudar

mesmo que não vá ser um professor, não vá ser um intelectual, não vá ser

um sábio, se faz isso a sério, tem essa pretensão de ampliar, de esclarecer

e de aperfeiçoar a sua vida, é um propósito muito digno esse que ajuda a

iluminar então os caminhos mais obscuros da nossa mente e da nossa vida.

Então, além desse sentido geral que acomete todos aqueles

que estão nessa via intelectual, me parece que também há um sentido

personalíssimo, quer dizer, aquele que é meu sentido, porque eu sou eu,

e aquele que é de cada um de vocês, porque cada um de vocês têm um

temperamento, têm uma história de vida, desejos diferentes, enfim, tem

um estado de vida diferente. Então, parece que há aí uma fórmula pessoal

a ser descoberta, desenvolvida e exercida em cada caso. Não adianta você

pegar um modelo muito alto ou diferente de você e ficar se inspirando e

teimando em seguir aquele modelo se ele não se ajusta a esse algoritmo,

a essa fórmula que você traz dentro de você, e esse sentido personalíssimo

me parece casar com a ideia que o Viktor Frankl8 coloca no seu precioso livro
Em Busca de Sentido, algo assim — eu fui buscar o livro lá em casa, mas ele

estava atrás da estante, eu não pude conferir essa redação que ele traz ali,

mas me ficou como o seguinte: “Vocação, sentido da vida, é aquilo que

só você pode fazer onde você está, é aquilo que só você tem capacidade

ou tem vocação, ou tem ideia ou está na hora certa, enfim, é aquilo que

só você pode fazer na sua família, no seu trabalho, onde quer que você

esteja, é aquilo em que você é insubstituível9”.

É um conceito um pouco difícil de meditar, porque parece que todo

mundo é o herói da sua família, do seu trabalho, não é bem essa ideia de ter

8  Viktor Emil Frankl (1905-1977) foi um neuropsiquiatra austríaco e fundador da Logoterapia. Foi reconhecido
mundialmente depois de ter relatado sua experiência nos campos de concentração nazistas.
9  FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. São Leopoldo. Editora Vozes. 2017. p. 133.

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um protagonismo exacerbado, me parece que não é por aí que ele caminha,

mas tentar meditar “Peraí, qual é a potência que está dentro de mim,

quais são meus talentos, quais são os talentos que eu tenho para iluminar

o ambiente que eu estou, para iluminar a atividade à qual me dedico, a

minha família, o meu trabalho, enfim, os meus estudos?”, qualquer coisa

assim que tenha a ver com a sua própria vida e que, de algum modo, é você

quem tem de fazer, se você não fizer, ninguém fará no seu lugar como você

faz. Não é? Isso me parece e indica, então, um caminho a seguir e nos ajuda

a discernir o nosso plano de estudo que vamos montar para o nosso caso

específico.

Os grupos de estudo são muito bons e acabam tocando algumas

afinidades. Isso é muito importante para quem está estudando. Estudar

sozinho é quase uma pena, quase um castigo, porque você descobre coisas

e não tem a quem comunicar, não tem com quem conversar. Fora o fato de

que, quando você está pensando sozinho, você costuma pensar algumas

bobagens que só aparecem como tais quando você fala para alguém.

Quantas vezes eu tive uma magnífica ideia e quando fui comunicar

a um amigo, à minha mulher, percebi a bobagem que era. Quando você

verbaliza, aliás este é o princípio da psicanálise, quando você verbaliza o


negócio, você percebe se aquilo tem alguma consistência ou não, mas enfim.

Só para dizer que estar num grupo de estudos, numa mesma comunhão,

é importante sim, mas a verdade é que cada pessoa tem a sua própria

vocação e cada pessoa tem o seu próprio propósito e descobrir qual é

essa vocação, qual é esse propósito, é a função desta aula, ajudar vocês a

descobrir esse propósito inicial pelo menos.

Daí, eu trago a próxima tese que é: no exercício da vocação ocorre o

encontro entre a potência e a oportunidade sob a atração do bem. Então

são três elementos aqui importantes, alguns eu já tratei na primeira aula e

também nesta.

O encontro da potência com a oportunidade significa, nada mais e

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nada a menos que, aquela inclinação ao conhecimento que eu mencionei

na primeira aula. Ela vai ganhando forma durante a sua vida, você começa

a entender “Peraí, essa fome de conhecimento é fome de quê?” É uma

potência que você tem? É uma inclinação, é um desejo que você tem pelo

conhecimento que vai ganhando forma na circunstância, no palco da sua

vida. Acontece que isso acontece sob a inspiração do bem, e aqui Platão,

mais uma vez, tem razão ao dizer que o que nos atrai é o bem, ainda que

nós escolhamos o mal, a gente só escolhe o que é mal porque nos pareceu,

de algum modo, o bem. Nossa inteligência é atraída pelo bem.

Tudo isso tem a ver com vocação, o caminho que você vai seguir e

tem a ver com as escolhas que você precisa fazer para seguir adiante. E aqui

pode parecer que essa escolha se situa no âmbito da liberdade absoluta,

mas não é, você não é livre absolutamente para escolher o seu caminho. E

pode parecer estranho falar isso, para algumas pessoas que acham que são

livres para escolher o tipo de vida que vão levar, como vão agir. Na verdade,

tem uma ideia interessante do Ortega Y Gasset10, a metáfora que ele traz do

soneto. Ele diz que a cada momento a vida nos apresenta um soneto. Um

soneto, para quem não sabe, é uma forma poética fixa, o soneto clássico

tem quatorze versos, tem um número certo de sílabas, as sílabas rimam


umas com as outras, cada sílaba rima com o seu duplo, e é como, pensem

bem, você não escolheu onde você nasceu, não escolheu a sua família, não

escolheu o seu temperamento, você não escolheu quase nada, essa é a

verdade, né? E a cada momento a vida lhe apresenta treze versos já escritos.

Olha o drama, o soneto, de algum modo, é de sua autoria, mas alguém, a

vida, já lhe apresentou treze versos escritos, treze versos com a divisão

silábica correta , com as rimas corretas e a sua missão, ou seja, parte da

sua vocação é escrever esse décimo quarto verso conforme o conjunto.

Você tem de fazer isso rimar, você tem de acabar esse poema tornando-o

uma obra de arte. Isso também tem a ver com vocação e isso mostra que
10  José Ortega y Gasset (1883-1955) foi um ensaísta, jornalista e ativista político. Considerado o maior filósofo es-
panhol do século XX.

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a nossa liberdade existe, nós somos livres, mas ela é relativa nesse âmbito,

levando em consideração os elementos que você não escolheu e aqueles

poucos que pode ser que você tenha escolhido. Mas a verdade é que você

pode acabar com esse soneto, ou pode transformá-lo numa grande obra de

arte. Nisso você é livre absolutamente, para rasgar o soneto e jogá-lo no lixo

ou para se esforçar um pouco e empreender quais são as regras da vida, e

então, exercendo sua vocação, construir esse soneto o mais perfeitamente

possível.

E nisso você é atraído pela ideia do bem... o bem é algo apetecível

para você e até nisso é importante que você afirme o seu senso moral para

você não continuar errando tanto como todos nós erramos na escolha dos

bens que buscaremos.

Se tem uma coisa que eu gosto de fazer, algo com que gasto

um tempinho, é buscar testemunhos, ou autotestemunhos; eu leio

autobiografias em busca desses momentos, eu assisto aos vídeos em

busca desses momentos que são relatos em que pessoas nos contam o

momento em que a vocação delas lhes apareceu claramente. Por exemplo,

São Josemaria Escrivá11 relata que num dia específico, ele estava num retiro

em Madrid, dia 2 de outubro de 1928, ele tinha então 26 anos e foi ali então,
segundo ele relata, que viu o Opus Dei, ali que ele viu o que tinha de fazer na

vida. A partir dali ele começou a trilhar o caminho da sua vocação máxima

que foi fundar, então, a Obra.

Um outro exemplo, um clássico na verdade, é o de São Paulo. São

Paulo estava indo numa direção, no caminho de Damasco e o próprio Cristo

apareceu e mandou ele ir para um outra direção “Vá na cidade tal, procura

Fulano de Tal e a partir de agora a conversa é outra”, não pôde negar. A

partir disso, ele seguiu um outro caminho que foi de fato o caminho que

ele trilhou até o fim dos seus dias. Nessa ocasião ele encontrou com uma

clareza máxima a sua vocação.

11  São Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975) foi um sacerdote católico espanhol e fundador do Opus Dei.

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Descendo um pouquinho aí nesse degrau da humanidade, temos

também o próprio Julián Marías12. Julián Marías na sua autobiografia relata

um momento em que estava junto com colegas de faculdades, de estudo...

ele era aluno de Ortega Y Gasset; ele relata um trecho muito tocante em

que fala que todos ali tinham consciência da importância que era estar ali

estudando com Ortega y Gasset, naquela época da história da Espanha,

enfim, eles tinham noção da própria vocação e aquilo lhe deu a certeza de

que estava indo no caminho que aquecia o seu coração.

Descendo um pouquinho mais na escala, temos o exemplo de

Yamandu Costa13, violonista gaúcho. Em uma entrevista para o Canal Violão

Ibérico, ele relata que, quando tinha seis anos de idade, um amigo do pai

dele, o violonista argentino Lúcio Yanel14, foi tocar em Porto Alegre; assim que

chegaram, o show já tinha começado e o público estava silencioso, alguns

chorando, alguns alegres, atentos à música, e o pequeno Yamandu Costa,

nessa triangulação girardiana15, entendeu que era isso que ele queria fazer:

ele queria se comunicar com as pessoas assim. A vocação dele apareceu e

ele teve um longuíssimo caminho até transformar-se naquele em que ele é

hoje e ninguém duvida de que a vocação dele apareceu claramente como

a luz aos seis anos de idade.


Fato curioso: eu assisti a um show do Yamandu Costa com o Lúcio

Yanel na Lapa, Rio de Janeiro, com a minha esposa, e não sabia dessa história.

Descendo um pouquinho mais nessa escala, há também o exemplo

do Fábio Porchat16. Ele deu uma entrevista ao Rafinha Bastos17 naquele

programa 8 Minutos, e ele fala que fazia Administração aqui em São

Paulo e a turma dele foi no programa do Jô Soares18, ele não pensava em

12  Julián Marías (1914-2005) foi um filósofo espanhol considerado o principal discípulo de José Ortega y Gasset.
13  Yamandu Costa nasceu em 1980 é um violonista e compositor brasileiro.
14  Lúcio Yanel, nascido Frederico Nelson Giles, nasceu em 1946 e é um violonista, cantor, compositor, ator e fol-
clorista argentino.
15  Referência a René Girard.
16  Fábio Porchat de Assis nasceu em 1983 e é ator, diretor, dublador, produtor, roteirista, humorista e apresentador
de televisão.
17  Rafael Bastos Hocsman, popularmente conhecido como Rafinha Bastos, nasceu em 1976 é humorista, apre-
sentador, repórter, jornalista, empresário, roteirista e ato brasileiro.
18  José Eugênio Soares, mais conhecido como Jô Soares, nasceu em 1938 e é um humorista, apresentador de
televisão, escritor, dramaturgo, diretor teatral, ator e músico brasileiro.

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ser humorista de profissão de modo nenhum, mas ele tinha o hábito de

fazer alguns monólogos para apresentar à família no Natal, alguma coisa

assim para os amigos, bricar de ser ator, de ser humorista e tal, mas ele não

pensava em ser humorista de profissão. E um amigo dele cutucou ele e

falou “Fábio, manda um bilhete ao Jô Soares e quem sabe ele te chama lá

no palco para você falar essas coisas que você fala aí, Pô”. Ele foi lá, entregou

um bilhete a Jô Soares no intervalo, e Jô Soares o chamou para o palco. Era

um desconhecido, ele subiu lá meio assustado e ele conta que, enquanto

encenava, declamava algum monólogo dele - acho que era um diálogo, na

verdade, ele fazia um personagem e fazia o outro personagem - naquele

momento, ele viu que o pessoal começou a rir, o Jô Soares começou a rir, o

público começou a rir e ele entendeu ali, com esse lampejo da vocação, que

ele queria, então, fazer aquilo, fazer graça para as pessoas rirem e a partir

dali ele também conseguiu seguir essa vocação que lhe apareceu como

uma luz solar.

Agora, a gente não pode também romantizar muito a coisa, a

vocação nem sempre aparece com essa clareza solar na nossa vida, ela,

às vezes, aparece como um lento cozinhar em banho-maria e a certeza que

nós eventualmente venhamos a ter da vocação não nos aparece como


uma luz clara, mas assim como um calor que aquece o nosso peito e vai

nos indicando passo a passo que a gente está caminhando no caminho

certo.

Nesse ponto é importante, muitas pessoas ficam pressionadas

para encontrar a sua vocação sob o nome de uma profissão socialmente

validada. Esse é um grande problema, né? Se você pegar alguns escritores,

por exemplo, Drummond19, T.S. Eliot20, enfim, vários escritores, Machado

de Assis21, a vocação deles inegavelmente é a vocação literária. O legado

que eles deixaram, segundo seus próprios relatos, eles se encontravam na


19  Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro.
20  Thomas Stearns Eliot (1888-1965) foi um poeta, dramaturgo e crítico inglês. Destaca-se o fato de ter sido laurea-
do com o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.
21  Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) foi um escritor brasileiro considerado por muitos críticos como o
maior autor da Literatura Brasileira.

17
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
atividade literária, porém, todos eles tinham profissões burocráticas. T.S.

Eliot, por exemplo, se não me engano, era bancário, Drummond e Machado

de Assis batiam carimbo o dia inteiro, não há como negar que a profissão

deles, por melhor que eles a tenham exercido, não era propriamente a

vocação de vida deles. Então, não confundir nome de profissão com a sua

vocação. Às vezes as coisas se juntam, e é bom que se juntem, às vezes,

não. Às vezes a sua vocação é exercida fora da sua profissão formal, às vezes

parcialmente coincidente.

Eu tive aulas com o professor Luiz Gonzaga de Carvalho Neto22

aqui em São Paulo, aulas presenciais entre 2008 e 2010; ele morava no

Paraná e vinha todo sábado dar aula para a gente aqui, eu morava em

Campinas e vinha para assistir à aula dele durante o sábado. E, num certo

semestre, estávamos lendo e comentando o De Anima de Aristóteles.

Eu estava preocupado na época, não me lembro bem por que, com uma

ideia equivocada na cabeça de que a vocação de uma pessoa somente é

despertada quando a pessoa presenciava alguém exercendo aquela mesma

vocação. Eu estava com a ideia de que havia alguma ressonância aí quando

você via alguém que era vocacionado no mesmo sentido que você e eu

perguntei para ele: “Professor, imagina um garoto que tenha vocação, sei lá,
para ser um gênio matemático, que tem potencial de um gênio matemático,

mas ele nasceu lá no interior do interior de Minas Gerais, e o professor de

Matemática dele é também de Português, de Ciências, de Artes, ou seja,

não tem uma vocação para a Matemática propriamente”. E eu perguntei

um pouco ingenuamente: “Esse garoto não vai conseguir despertar o

seu potencial para ser um gênio da Matemática ali naquele município no

interior do interior de Minas Gerais, ele nem vai saber o que é isso porque

ele não vai ver ninguém fazendo algo parecido, como é que ele vai saber

esse caminho, né?” Eu nunca vou esquecer a resposta que o professor Luiz

Gonzaga me deu, que foi a seguinte: “Ninguém nasce para ser matemático,

22  Luiz Gonzaga de Carvalho Neto é um professor brasileiro de cosmologia, filosofia e religiões.

18
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
ninguém nasce para ser advogado, juiz de direito, nós nascemos para ser

gente, nós nascemos para sermos humanos, esse é o nosso dever, a gente

nasce para ter a altura da humanidade e, eventualmente, a gente encontra

um caminho para ser gente, para sermos humanos, em uma profissão

com o nome socialmente validade, e às vezes não, às vezes encontramos

a nossa vocação num caminho inédito”.

Não me lembro se é Göethe ou Ortega Y Gasset, tão citado aqui,

quem disse que gênio é aquele que inventa a própria profissão. É um pouco

por aí, né?

Tem um livro infantil, mas muito sério, indico para quem se interessa

pelo assunto, que se chama A Elefantinha que não queria elefantar de

Angelina Bulcão. Ele trata desse assunto, de uma elefantinha que batia

a cabeça com os papéis, os whys que lhe eram apresentados. Ela acabou

fazendo o seu próprio caminho e se realizando sendo elefanta, sim, mas

não elefantando como todo mundo queria que ela elefantasse. É um livro

interessante, tocante, que pode despertar em muitas pessoas, pode retirar

de algumas pessoas, esse medo que elas têm de caminhar por caminhos

ainda não trilhados, caminhos que ainda não aparecem muito claros para

elas.
Então, a sugestão para você que ainda está um pouco perdido é

começar a pensar sobre estes assuntos. Quando foi que você começou a

se interessar por estudar? Quais são as suas facilidades? Esse é um bom

indicativo. Ficar batendo cabeça também nas leituras não é um bom sinal.

Enfim, você tem de se conhecer para conseguir investir as suas energias

com maior proveito.

Também a esse propósito é interessante que você faça, se não

fez ainda, o tal do necrológio. É uma expressão muito corrente, alguns

fizeram, outros não. Necrológio é o seguinte: é o relato que você vai fazer

pressupondo que você chegou, consumou, a sua vida, você chegou a ser a

pessoa que você planejou ser. O necrológio é um texto que um amigo seu,

19
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
você vai eleger um amigo seu, real ou hipotético, mas que te conheça, que

te conheceu até o fim da sua vida. Então você morreu e o seu amigo vai

relatar para um terceiro amigo, que já não o via há um tempo, quem você

foi até a morte, a pessoa em quem você se transformou.

Esse relato é importante porque é a imagem discursiva dos seus

anseios mais profundos. Pensem bem, é a imagem discursiva, quer dizer,

é um tradução dos seus anseios mais profundos. A gente quase nunca

imagina, eu pelo menos tenho esse hábito de esquecer um pouco de meditar

sobre isso, vai ficando um pouco no fundo da consciência, meditar sobre

nossos anseios mais profundos e, como se trata de uma vida inteira, você

vai ter morrido a vida inteira acesa. Quais são seus anseios mais profundos?

Você tem de meditar sobre isso e buscar traduzir, numa imagem discursiva,

quer dizer, num texto, o que é isso. E, para fazer essa tradução, você tem

de conhecer as duas línguas. Conhecer a língua da sua interioridade, seus

anseios, então você vai ter de perscrutar, investigar isso melhor e vai ter de

escrever isso num texto, num texto que tenha unidade, num texto que seja

belo — e essa é a segunda linguagem que você deve conhecer, a fim de que

seja capaz de dar unidade e beleza a este texto. Uma imagem discursiva é

uma imagem que tende a ser uma, é por isso que ele é importante, porque
tem de ser um texto, ele tem de ser curto, não pode ser um tratado, ele tem

de ser um texto curto no qual você se identifique, cuja imagem você goste

de contemplar. Tem de ter os pés na realidade, pode ser um pouquinho

ambicioso, como eu disse, temos de mirar um pouquinho acima da meta,

mas ele é importante porque é uma imagem claramente identificável da

vida que você quer levar e, se você não planejar, ninguém fará isso por você,

você será um átomo solto no ar como diziam alguns filósofos fracassados

da Grécia Antiga.

Então essa imagem é importante para que você consiga unificar seus

desejos e propósitos em torno de algo que é facilmente verificável e você

pode voltar, e deve voltar, a esse texto de tempos em tempos, que a vida vai

20
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
mudando e você vai descortinando algumas fantasias que lhe pareceram

bastante interessantes, então você volta ao texto quatro ou seis meses

depois e vê que, bom, aquilo que eu coloquei lá não era bem aquilo, não

faz muito sentido, era uma ideia que passou pela cabeça, mas, na verdade,

não é bem isso, não é isso o caminho que quero seguir. Então você vai lá,

retifica, ninguém precisa saber, e você retifica e vai então construindo a

pessoa que você quer e pode ser sem muita fantasia, sem grandes ambições

heroicas, mas enfim, caminhando o seu caminho conforme as suas forças

lhe permitem.

OS CAMINHOS
E, agora a parte mais interessante da aula: é a sugestão dos caminhos,

então, que eu vou oferecer a vocês para que vocês meditem sobre eles e, se

quiserem a sugestão, elejam um deles e se fixem nele no começo, porque

eles vão fortalecer as suas energias e vão dar um direção aos seus estudos.

E um propósito bom, como eu disse, é um propósito com o qual você se

identifica. E a linguagem com a qual você o expressa, tem de ser uma

linguagem próxima do seu dia a dia, então de nada adianta você começar

a escrever o seu propósito numa linguagem muito rebuscada, porque não


vai ter identificação, não vai ter a química, você não vai lembrar dele, você

tem de lembrar dele no seu dia a dia, porque ele vai iluminar o seu dia a

dia, quando vierem os obstáculos, você se lembra do propósito. É para

isso que serve o ideal, para aquecer você, para iluminar o seu caminho e

permitir que você enxergue o que está acontecendo e possa suplantar os

obstáculos com mais facilidade.

Então, são seis caminhos. Os dois primeiros eu chamei de estados

preparatórios, eles não são propriamente um caminho intelectual, uma

busca vocacional, mas buscam preparar o indivíduo para entrar de fato

nesse ambiente, nesse banquete, nesse salão, onde a festa de fato acontece.

Talvez vocês estejam em um desses dois caminhos e talvez se identifiquem

21
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
com um deles.

O primeiro deles, que para fins didáticos eu chamei de Namoro, é

o caminho daquele que meio que caiu de paraquedas nessa história toda,

que já comprou um livrinho aqui, já sabe uma frase ali, gostou de um

documentário, viu um filme, conversou com um amigo, o tio desafiou no

almoço de família “você não sabe nada”, o cara está ali meio incomodado,

ele quer aprender alguma coisa. Bom, tem pessoas que não têm ninguém

na família que estude, os pais não estudam, os irmãos não estudam, não

têm nenhum amigo que estuda, muitos me relatam isso. Estão ali sozinhos,

no interior do país ou em cidades grandes, e não têm com quem conversar

sobre isso, então é natural que a pessoa passe um tempo ali namorando

a ideia. Entre avanços e retrocessos, essa pessoa fica um tempo ali

estacionada nesse namoro que não evolui para um noivado e, menos ainda,

para um casamento. Mas é um estado que pode ser importante porque

de nada adianta você entrar nesse ambiente sem noção do que se trata,

enfim, entrar despreparado. É um estado interessante em que você gosta,

por exemplo, de estar próximo de livros, porque você imagina que está, de

algum modo, progredindo, está se enriquecendo ali. O problema é que,

como diz padre Sertillanges, uma vocação não se faz com trabalhinhos
esparsos e com leituras soltas. Então, não é interessante que você fique

nesse estado de namoro por muito tempo, ou fica noivo, ou desata essa

coisa toda, porque há pessoas que ficam aí nesse ambiente, compra um

livrinho aqui, aí fica três meses sem abrir um livro, ficam nesse ambiente

três anos lutando contra uma possível vocação intelectual que nunca vai

chegar, a pessoa precisa se decidir, mas, seja como for, pode ser que você

esteja nesse estado e existem certos exercícios, enfim, existe algo que você

pode fazer para decidir avançar daí para um noivado, ou de fato deixar para

lá, ou ficar aí namorando a vida inteira. Ninguém vai ficar enchendo a sua

paciência por causa disso, vai ficar aí comprando livrinhos, vai se alimentar,

vai recarregar as baterias de alguma forma e, bom, pode até ser que isso

22
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
tenha algum efeito benéfico para você, mas saiba que é apenas um namoro.

O segundo estado provisório, que chamei de Noivado, é o estado

daquele que quer começar a ser gente, é o estado em que a maioria de

nós está. Nós não estamos ainda preparados para entrar num estudo

avançado de um tema profundo, não estamos preparados ainda para

encarar um filósofo complexo, então é preciso preparar o terreno, é preciso

correr atrás do prejuízo, suprir as falhas que a educação formal deixou em

nós e, basicamente aqui neste estado, trata-se de você investir na educação

literária e, aqui é minha concepção, estou aqui construindo um projeto, e na

educação em torno das três disciplinas do Trivium, que são a Gramática, a

Lógica e a Retórica. Parece que esse cardápio pode ajudar você a começar

a ser gente.

A expressão não pretende ser pejorativa, não é o julgamento de

ninguém, eu, poxa, passei por esse estado durante muitos anos, eu estou

saindo dele agora — parece-me —, começando a ser gente. Trata-se, então,

de você conseguir se comunicar com as pessoas e compreender o que elas

dizem. Uma pessoa saudável é capaz das quatro habilidades: ela sabe

falar, ouvir, escrever e sabe ler. Basicamente, trata-se de adquirir essas

quatro habilidades que vão então, habilitar você a começar a estudar


mais seriamente. Esse estado provisório pode durar alguns anos, não faz

mal que dure alguns anos. Pode ser que você se interesse por ficar nesse

estado e investir então, por exemplo, em estudos literários, você quer então

se especializar em ser a pessoa que consegue ler os livros com profundidade,

você pode ser o cara que quer se aprofundar na Retórica, na Lógica, na

Gramática, enfim. Pode acontecer, mas usualmente essas artes do Trivium

e a literatura servem como instrumento para um outro tipo de estudo que

vai variar conforme o seu gosto, temperamento e vocação.

Então esses são os dois caminhos preparatórios.

Os quatro outros caminhos são propriamente vocacionais, eu diria

assim. Dois deles têm uma ênfase intelectual e dois deles têm uma ênfase

23
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
existencial. São ênfases, os quatro são existenciais e intelectuais ao mesmo

tempo, não é possível dividir essas coisas em compartimentos estanques,

mas eles são sugestões que eu dou a você para começar. Você perceberá

ao final dessa aula que, bom, quem estuda a sério, estuda os quatro ao

mesmo tempo, leva os quatro caminhos, ou de modo paralelo, ou de modo

sucessivo, mas, para quem está começando, é preciso começar devagar,

com passos menores. Então, a sugestão é a seguinte:

A primeira sugestão de caminho destes quatro é daquele, e aí você

tem de decidir o que de fato você quer agora no começo. Há pessoas que

querem, por exemplo, aprender o máximo sobre um assunto específico “Eu

quero saber tudo sobre Revolução Francesa”, “Eu quero saber tudo sobre

Retórica, como foi a Retórica na Grécia, qual foi a contribuição de Górgias,

como é a Retórica hoje, que história é essa de Perelman23”, o cara quer saber

a história da retórica inteira, então ele tem um campo de trabalho imenso,

mas é um campo delimitado, é um assunto delimitado. Ou ele quer, ainda

neste mesmo caminho, saber tudo sobre um autor. Eu, anos atrás, fiquei

encucado, “eu quero saber tudo sobre Platão, eu vou ler Platão até exaurir as

minhas forças” e tenho feito isso de algum modo. Eu me interessei muito por

Platão, não sei explicar por que ainda, tenho algumas suspeitas, mas enfim,
foi o meu caminho aí, de algum modo. Então esse caminho é o daquele

que quer investir ou num assunto limitado, ou num autor específico e é

evidente que ninguém se especializa num assunto ou num autor, quer

dizer, ninguém faz isso a sério, a não ser que, como o padre Sertillanges

diz, também dê uma lambidinha nos assuntos adjacentes, então, para

estudar Platão, você tem de estudar um pouco dos pré-socráticos, saber

quem é Aristóteles, Sócrates, não é possível você ficar ali focado, a não ser

pessoas que não têm noção de o que é uma intelectualidade real, ficar

focado apenas num autor. É muito comum nas universidades, as pessoas

têm um certo pudor de falar qualquer coisa que não seja da sua área de
23  Charles Perelman (1912-1984) foi um filósofo do Direito e um dos mais importantes teóricos da Retórica no
século XX.

24
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
estudos. Na área do Direito, por exemplo, o pessoal é um pouco mais arrojado

nisso, a modéstia é um pouco menor, mas em outras áreas a pessoa tem

um medo de falar qualquer coisa em público sobre um assunto que ela não

estuda, parece assim, parece que ela vi invadir a área do outro, a porta do

lado é do colega, eu não posso invadir de modo nenhum. Mas a verdade

é que se você vai estudar, por exemplo, Revolução Francesa ou Primeira

Guerra Mundial, você vai acabar tendo de se aprofundar, de algum modo,

em outros assuntos relacionados a esse assunto principal. Então é o modo

de começar e também é o modo, se você quiser, de prosseguir seus estudos

trabalhando então os temas adjacentes com tendência à universalização,

mas enfim, é uma tendência.

Também, neste mesmo caminho, percebam que — é o tema

da quarta aula, mas — você, que vai estudar um autor específico, tem a

tendência de utilizar o método que o Adler chama de leitura analítica. E

você, por exemplo, que quer estudar um tema específico, vai utilizar mais

o método da leitura sintópica. Eu vou explicar isso melhor na quarta aula.

O segundo caminho é o daquele que tem a intenção de resolver

um problema intelectual ou prático. E o problema pode ser de qualquer

natureza que for, um problema que lhe incomoda há algum tempo. Aqui
também a ideia é que você não pegue um problema artificial, não pegue no

ar o problema a que você acabou de assistir no vídeo ou que te impressionou

numa discussão no Facebook e “agora quero saber”. A ideia aqui é você

saber meditar sobre problemas que sempre voltam a você, porque eles

indicam uma feição que você tem para enfrentar esse tema, que tem a

ver, então, com a sua própria biografia, com a sua circunstância, aquilo

que sempre te incomoda.

O ideal é que você se foque nesses problemas, se é que você vai

eleger essa sugestão.

Um outro problema: eu quero ser o melhor pai possível para os meus

filhos, eu quero educar meus filhos. Isso é, entre aspas, uma tarefa, digamos

25
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
assim, não é um problema eminentemente intelectual, é uma tarefa prática.

Para além do que você já traz da sua vivência, da sua experiência, o que é

muito importante, há um longo caminho a trilhar para talhar a sua pessoa

para ir conseguindo exercer essa função com melhores frutos.

O terceiro caminho que sugiro, e esse caminho é um pouco do meu, é

o caminho do qual mais eu gosto, pois, mais do que saber tudo sobre Platão,

eu invisto minhas energias em conseguir estabelecer uma certa amizade.

Pode parecer estranho isso, mas não é. Na verdade, é o caminho daquele

que quer ser íntimo de algum autor ou de alguns autores. Há aquela

clássica proposta, é uma brincadeira, mas é uma brincadeira interessante:

imagine uma conversa casual entre, por exemplo, Louis Lavelle24 e Platão,

ou Santa Teresa de Ávila25 e Santo Tomás de Aquino26, os dois estão sentados

conversando e convidam você para participar da conversa. Qual seria a sua

contribuição para esse ambiente? Não digo nem para o debate, porque

você não tem altura sequer para entender o que eles estão dizendo, mas é

um desafio você ter proximidade com essas pessoas. A proximidade nem

sempre vem apenas pelo intelecto, às vezes ela vem pela pele, você olha

para a pessoa e gosta da pessoa, isso gera uma intimidade imediata, mas a

brincadeira é essa: o que você teria a oferecer, por exemplo, numa conversa
entre Platão e Louis Lavelle? Você saberia, pelo menos, fazer perguntas a

eles sobre a obras deles?

Já é algo difícil fazer uma pergunta interessante, cabível, para Platão,

é um negócio que você tem de estudar bastante. É um desafio interessante

você querer se afeiçoar a certas almas, porque é aquela história: me diga com

quem você anda que eu te digo quem você é. Isso indica que a proximidade

entre as pessoas diz algo sobre quem você é. É o “Transforma-se o amador

na cousa amada”27, essa proximidade, essa intimidade, acaba moldando


24  Louis Lavelle (1883-1951) foi um filósofo francês considerado um dos principais metafísicos do século XX.
25  Santa Teresa de Ávila, conhecida também como Santa Teresa de Jesus (1515-1582) foi uma freira carmelita,
mística e santa católica com importantes obras sobre a vida contemplativa.
26  Santo Tomás de Aquino (1225-1274) foi um frade católico da Ordem dos Pregadores cujas obras tiveram
grande influência na teologia e filosofia posteriormente desenvolvida. Ficou conhecido como Doctor Angelicus,
Doctor Communis e Doctor Universalis.
27  Referência a um soneto de Luís de Camões.

26
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
um pouco a pessoa que você é, você acaba adquirindo um pouco da

forma mental dos autores. Isso é muito sério porque isso indica que você

tem de escolher bem as suas companhias intelectuais.

É curioso que esse caminho pode parecer o mesmo caminho

daquele que quer aprender tudo sobre um autor, mas não é verdade.

Recentemente, para dar uma aula, eu estudei durante algumas semanas

parte da obra do filósofo do Direito Alemão Carl Schmitt28, já falecido. E eu

percebi que Carl Schmitt congrega em torno da sua obra, pessoas dos mais

variados espectros ideológicos, tem desde a direita liberal até o esquerdista

psolista. Um autor que gera interesse em pessoas muito diferentes, mas eu

fui percebendo, lendo livros de comentários ao Carl Schmitt, assistindo às

aulas de Carl Schmitt pela internet, eu fui apurar ali o meu ouvido e pude

perceber que alguns estudiosos sabiam muito de Carl Schmitt, mas a minha

impressão é que eles não se sentariam na mesma mesa de Carl Schmitt,

pelas acusações a que se fazer a Carl Schmitt do envolvimento dele com

o nazismo, entre outras coisas. Na minha opinião, ele se livrou bem dessas

acusações, também é um autor interessantíssimo e muito fecundo para a

nossa época hoje, mas, a minha impressão é que alguns estudiosos de Carl

Schmitt sabem tudo dele, mas não querem muita amizade com ele.
Pode acontecer também de você, por exemplo, querer saber tudo

de Antônio Gramsci29, mas não o querer por perto, você não é amigo dele.

Então o primeiro caminho e o terceiro caminho são muito diferentes. O

terceiro caminho é mais existencial, porque se trata de você escolher as suas

amizades, você pode ser amigo de um autor se você tem afinidade com a

obra dele, com a forma mental dele, com as ideias dele, com os propósitos

dele, com as virtudes dele. E uma forma de ganhar proximidade com esse

autor, com essa pessoa humana que circunstancialmente não está aqui

agora, mas está por meio de seu representante excelso, que são os livros, é

28  Carl Schmitt (1888-1985) foi um jurista, filósofo político e professor universitário alemão.
29  Antônio Gramsci (1891-1937) foi um filósofo marxista, jornalista, crítico literário, linguista, historiador e político
italiano.

27
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
você estudar a obra dele, e, nesse caminho, você também vai abrir algumas

outras vertentes, com certeza, para estudar sobre, sei lá, virtudes, sobre

psicologia, aí é você quem vai eleger o seu caminho.

Por fim, o quarto caminho possível, a quarta solução que eu ofereço

a vocês, que eu proponho a vocês, é daquele que estuda para adquirir

virtudes: “Eu quero ser uma pessoa melhor, eu quero ser um cara mais

bondoso, eu quero ser uma pessoa mais virtuosa, eu quero ser o melhor

funcionário onde eu trabalho”. Veja, eu até trouxe um livro do Santo Padre

Pio30 aqui, porque aqui também é preciso evitar confusões, né? Você quer

crescer nas virtudes, vai estudar para ser virtuoso, isso pode gerar mal-

entendidos, pode gerar confusões, né? Santo Padre Pio, por exemplo, que

ninguém diria que não é um homem virtuoso, em um trecho de uma carta

dele — eu vou ler um trecho curto e muito interessante —, esse livrinho aqui

é um livrinho de excertos de cartas dele, Uma Palavra de Luz: Florilégio do

Epistolário das Edições Loyola, e logo no ponto 2 há trecho de uma carta ele

diz

“A mim parece que o tempo passa rapidamente e que nunca é

suficiente para orar, tenho muito gosto pelas boas leituras, porém, leio bem

pouco não só por estar impossibilitado pelas enfermidades, como que,


abrindo o livro, depois de uma breve leitura, fico profundamente recolhido,

de modo que a leitura se torna oração”

Ou seja, o que quero dizer aqui, se é que isso já não está evidente para

as pessoas, é que as virtudes não se adquirem somente com os estudos,

a ideia aqui não é essa, não sejamos ingênuos a esse ponto, mas pode ser

que o que te impulsiona a estudar, é ser uma pessoa melhor: “Eu quero

me qualificar melhor para o meu trabalho, portanto, ser mais virtuoso no

ambiente em que eu trabalho” ou “Quero ser mais virtuoso na minha família,

30  Santo Padre Pio de Pietrelcina (1887-1968) foi um frade e sacerdote católico italiano da Ordem dos Frades
Menores Capuchinhos. Bastante conhecido pelos estigmas, mas também são reconhecidas muitas curas mila-
grosas.

28
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
como cidadão, como pessoa que atua perante as outras pessoas”, tudo isso

pode gerar também um plano de estudos muito interessante ao longo do

qual você vai eventualmente até mesmo mudar de propósito.

Esses quatro propósitos aqui não são exaustivos, você pode conceber

um quinto, um sexto, uma mistura de dois ou três, pois, como eu disse, a

pessoa que estuda a sério leva em conta esses quatro propósitos. No

entanto, para você que está começando, não vai se arvorar aqui, muito

corajoso, com muito ímpeto, a descortinar esses quatro caminhos porque

no começo é mais difícil, é interessante você focar num deles e começar

a explorá-lo aos poucos e, passo a passo, caminhando de um a outro até

conseguir, de fato, internalizar essas quatro intenções. Aí sim, me parece

que eles produzem frutos, de algum modo, esses caminhos possíveis para

quem está estudando, a ideia é que você consiga ter algo de concreto, algo

que você se lembre sempre.

AS TRÊS NARRATIVAS
Agora, eu não seria suficientemente honesto se eu não dissesse

a vocês que todas essas quatro vias ainda se submetem a uma razão

maior, a um porquê mais profundo, e aqui eu estou falando da ideia das


três narrativas de vida. Eu falei na primeira aula sobre os três âmbitos da

humanidade, sobre o homem como conhecedor, o homem como agente e

como fazedor, hoje em dia também está circulando a ideia das narrativas.

Quem fala muito sobre isso é o professor Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, as

narrativas humanas são, na verdade, os três propósitos que Platão fixou

para a cidade ideal: a narrativa do sábio, a narrativa do herói e a narrativa

do próspero. Então, a proposta aqui é que, quando você estiver pensando

sobre cada um desses quatro caminhos possíveis, você se pergunte: “Peraí,

eu quero ser amigo de Platão? Eu quero ser amigo de Santo Tomás de

Aquino? Para quê? Qual é o propósito maior disso aí? Por que eu estou

caminhando numa narrativa da sabedoria, o valor pelo qual eu quero me

29
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
consumir é a Verdade, ou o valor é o heroísmo, é o Bem, é a Bondade, é

a Justiça? Ou o valor é a Beleza? É a circulação de bens? É a utilidade? É

facilitar a vida das pessoas? Cada uma dessas três narrativas congrega um

número muito grande de pessoas e, quase certamente, você se localiza de

algum modo em uma das três, ou na fronteira entre uma e outra. Eu não

sou capaz de analisar cada caso, mas é possível que você se identifique

mais com uma via e menos com outra.

A sugestão é que você tenha essa fórmula de três, quatro, caminhos

possíveis, mas sempre se perguntando: para quê? Esse para que é

importante, nós vamos morrer um dia, nossa vida é limitada, a nossa energia

é limitada, nós vivemos e, ainda que nós não tenhamos a visão clara disso,

a nossa energia como que vai reduzindo, os nossos dias, nós somos, então,

como velas que se consomem. Um dia a vela apaga, e a vela se consumiu por

alguma coisa. A vela pode iluminar um ambiente de oração, pode iluminar

o altar, pode acontecer também de ela estar iluminando uma transação

comercial ligada ao tráfico de drogas.

Então, a pergunta que se faz é: Por que você está se consumindo? A

que ideal você está consumindo a sua vida? Está se gastando por alguma

coisa. É para buscar a verdade das coisas? É para buscar ser uma pessoa
melhor na relação com os outros, mais virtuosa? Ou você está buscando

algo relacionado ao mundo material? Você quer embelezar esse mundo,

você quer facilitar a vida das pessoas?

Cada um desses propósitos se localiza em uma dessas três narrativas

possíveis, e podem ajudar você a dinamizar ainda mais os seus estudos,

porque você vai conseguir encontrar ainda mais concretude quando

conjugar um desses quatro propósitos com um desses três objetivos da

vida humana. Aqui também é preciso não fantasiar muito porque, quando

se fala em narrativa do herói, as pessoas se confundem um pouco. Veja, o

soldado que se prepara todos os dias, acorda todos os dias se preparando

para a guerra, pode nunca ir para a guerra, pode acontecer de ele nunca

30
E-BOOK BP INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL
enfrentar uma batalha. Esse soldado se dedica boa parte da sua vida a

lustrar os sapatos dos sargentos, mas ele acorda todo dia se preparando

para guerra, se exercitando, conforme o protocolo do quartel, isso quer dizer

que ele exerce a narrativa do herói, sem dúvida. O importante aqui é você

ter dentro de si o princípio. Aquele comerciante modesto de uma mercearia

de bairro tem lá do seu lado uma agência bancária, do outro lado tem uma

agência de carros, do outro um McDonald, e ele lá, um comerciante modesto

que vende, sei lá, secos e molhados, bom, se ele conhece a sua atividade, se

ele conhece o fluxo das mercadorias, se ele está atento às demandas dos

clientes, que se modifica ao longo do tempo, claro, se ele entende um pouco

de contabilidade, bom, ele tem dentro dele o princípio dessa narrativa do

homem próspero e, pode até ser, se ele tem de fato esse princípio dentro

dele, que lhe seja oferecido - hipótese, né? - um hipermercado e em pouco

tempo ele consegue se situar naquele ambiente muito maior, muito mais

complexo que a pequena vendinha dele que vendia salsicha, e ser um

grande comerciante gerenciando esse grande supermercado, porque ele

tem dentro dele o princípio.

Então essa narrativa, não fantasie que você “ah, então eu tenho de

ser o máximo do máximo do sábio?” Não, comporta graus, então você pode
ter vocação para ser sábio? Tá, mas você pode ser um sábio menor, um

pequeno sábio. De todo modo isso é você exercer a sua narrativa na medida

em que você é capaz de exercê-la.

Então, é porque existem riscos de muita confusão em torno desses

três caminhos tradicionais que eu sugeri a vocês que escolhessem um

desses caminhos para começar. Me parece que eles são adequados para

cada um aqui eleger um, ou no máximo dois deles para começar e seguir

adiante nos estudos para eventualmente depois, ir mudando de propósitos

até, eventualmente, um dia, se for de fato a sua vocação, conseguir

internalizar esses quatro na sua atividade de estudos e alcançar então os

seus propósitos.

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Na próxima aula vamos falar sobre o campo do trabalho. Eu vou propor

algumas leituras, algumas disciplinas e alguns métodos de enfrentar esse

começo dos estudos através de um programa de estudo que você mesmo

vai montar para você.

É isso, muito obrigado e até a próxima.

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