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ELISABETH LUKAS

“A força desafiadora do espl-


rito” é um conceito-chave da logote-
rapia: o homem, em razão de sua dl.
mensão espiritual pode enfrentar
qualquer situação na vida, descobrin-
do o sentido de todas as situações e
dando-lhes resposta,
O princípio terapôutico que
Frankl e seus discípulos desenvolve-
ram enraíza-se na convicção de que
o indivíduo não está abandonado hs
circunstâncias, mas que pode moldás
-las com responsabilidade. Esse lra-
ço fundamental marca também a vas
riedade de métodos de tratamento
da logoterapia, Não ne trata de pras
ticar o desmascaramento psíquico,
mas de apelar para o emprego de
forças espirituais na resistência con-
tra a enfermidade e a autodestruição,
A Autora, Elisabeth Lukas, é doutora
em filosofia o psicóloga clínica com
larga experiôncia profisslonal e dos
cente (na Universidade Ludwlg Maxis
milian, de Munique, RFA), presiden-
te da "Sociedade Alemã de Logotos
rapia” e diretora tóonica do “Inall-
tuto Sul-Alemão de Logoterapla”, Ea-
te Instituto oferece formação logoto-
rapêutica adicional a especialistas,
como também aconselhamento e tras
tamento a pessoas necessitadas, Faz
parte de um conjunto a que parten-
cem também o “Instituto de Logoto-
rapia integrativa de Hamburgo” 0 o
“Instituto de Logoterapla e Palcolos
gia do Trabalho" (Blelefeld, AFA),
Francisca Gôngora

Endereço: Dr. phil, Elisaboth Lukas


Geschwister-Scholl-Platz 8
8080 Fúrstonfaldbruck

ooo
(bei Múnchen)
Munique (Alemanha)

Editora “Edições Loyola


Capa:
INDICE

Apresentação à edição brasileira ...........ccccccco.


Prefácio 11

Primeira Parte

A IMAGEM DO HOMEM SEGUNDO


A LOGOTERAPIA

Título original Classificação e axiomática da Logoterapia ........ 19

Ha
Von der Trotzmacht des Geistes. Menschenbild und Methoden as
Esclarecimentos sobre ontologia dimensional ....
der Logotherapie Dialética de destino vs. liberdade .........cccc.. 35

= co
O Verlag Herder, Friburgo em Brisgóvia, 1986
Consciência, “órgão de sentido” .........ccccco.. 41
Dialética de susceptibilidade vs. integridade ..... 46

ma
Revisão Dialética de orientação ao prazer vs. orientação

o
Silvana Cobucci RO SENBIAON o ac o ue Dn era 51
Intervalo para um estudo de caso ................ 59
Edições Loyola Interpretação bidimensional e tridimensional do
Rua 1822 n. 347 CS Eojoaliol gs cn o 64
04216 — São Paulo — SP
Dialética de caráter vs. personalidade ............ Ha
Caixa Postal 42.335
04299 — São Paulo — SP . Autoconhecimento ou trato consigo mesmo? ..... 78
Tel.: (011) 914-1922

Segunda Parte
Loopoldianum Editora
Hi Euolidos da Cunha, 241
PABX (0192) 37-3435 MÉTODOS DA LOGOTERAPIA
2» SANTOS, 8P — Brasil
, Teoria da neurose segundo Viktor E. Frankl ..,.. 85
06
UONOLA, Bão Paulo, Brasil, 1989
Gênese das neuroses de ansiedade ,,,...., aii RRE
as
3, Sobre a cura das neuroses de ansiedade .........
4. O perigo do caráter neurótico compulsivo .......
OR Flistenias falta desamor Discada
6, Salvacan pela renúncia sa E
To Um conceito multidimensional contra manias ... APRESENTAÇÃO
8 . Para evitar lesões iatrogênicas ..........cccciico
9 . Acompanhamento terapêutico de doenças somato-
Bonitas Dn as Re 148
10. Para superar os reveses da sorte ................ 158
11. Neuroses e depressões noogênicas ............c.. 166
12. Como surgem os distúrbios do sono e os distúr-
DIOS SEMUGISD a ao pas a DA io pac dE ni na 179
13. Uma receita contra o egocentrismo .............. 185
14. Prevenção e acompanhamento terapêutico ulterior 192 O aparecimento no Brasil da obra da psicóloga vienense
197 Elisabeth Lukas é um serviço mais do que científico, huma-
15 Comorávaliar a vida ea e,
no, de Edições LOYOLA (São Paulo) e LEOPOLDIANUM
Editora (Universidade Católica de Santos).
Terceira Parte Na verdade, nos círculos da difusão de idéias e da pu-
blicação de livros — a editoração — nem sempre se leva em
devida conta o fato de quando um tema de ciência ou cul-
PERSPECTIVAS COMPLEMENTARES tura intelectual é veiculado na área limítrofe do allzumensch-
DA LOGOTERAPIA liches, do “humano, humano demais”. Para que sensibilizar-
-se, dizem, com o que há de mais ou de menos na categoria
Experiências com a Logoterapia no trabalho clínico do humano, tão defasada e hoje tão desprovida de referen-
(cri netersileines) rs SO o cial? Para que acercar-se dessa área com preocupações sal-
Corpo—Alma-—Espírito (Paul Heinrich Bresser) vacionistas, ou curativas, ou mesmo valorativas? Para que
Notas serviço, quando a ciência basta e não pressupõe mais nada? —
Tal o pessimismo pragmático.

O livro que acaba de assomar à ribalta para tomar posi-


ção naquela área tão controvertida do espaço humano — do
que está aquém, ou além, ou acima, ou abaixo — não versa
um tema qualquer, mas faz análise da imagem do homem
e, decididamente, propõe sua valoração por uma das psico-
terapias. Não será pretender muito?
Entre nós, já o verbete do Dicionário de Psicologia (Her-
der-LOYOLA, em 3 volumes, São Paulo, 1982; 2º vol. p. 336)
apresentava, assinado pelo psiquiatra espanhol J. López Ibor,
o método psicoterapêutico da logoterapia, mais dirigido à
superestrutura noética do indivíduo, ao nível mental moti-
vante (ativo), onde os “níveis noéticos da personalidade” são
multi-estimulados para que o indivíduo possa descobrir o
7
significado (sêntido) de sua vida: ele é confrontado com o Existência (entendam-se o Eu e os fatos pessoais), o sentido
logos de sua Existência. Donde, outro verbete (1º vol., p. da vida, das circunstâncias etc. Enfim, se o problema de ler
544), assinado por F. C. Schubert (“análise existencial”), a do leitor é medido pelo problema do sentido, imagine-se a
nos informar que o método é não só de tratamento, mas importância dos dois problemas quando o sentido que se
também de pesquisa, método antropológico e terapêutico, busca é o do leitor mesmo, o homem, a Existência!
inspirado em M. Heidegger, mas desenvolvido por Viktor E. Nossos leitores — os estudantes, alunos e professores
Frankl e também por ele denominado “logoterapia”. interessados nas Ciências Humanas, e os homens e mulhe-
Nos escritos e na atividade deste cientista doublé de filó- res de qualquer idade empenhados em “apreender” o sentido
sofo encontram-se todas as garantias contra possíveis suspei- de seus problemas, isto é, achar soluções — vão ser agrada-
tas de fragilidade teórica ou de ineficácia prática, e as caute- velmente surpreendidos ao lerem um LIVRO que deverá, exa-
las contra cabotinismos logosóficos. É, em primeiro lugar, tamente, despertá-los para a “leitura” da própria imagem hu-
um método sério de investigação. Mas ninguém precisa abes- mana, como se fosse um manual de metalinguagem existen-
pinhar-se com a postura terapêutica de seus adeptos. É um cial, mas que é algo muito melhor: um manual de vida.
dado de fato que as terapias, ou atividades de cura, acom- O livro de Elisabeth Lukas é este manual teórico-prático,
panham todo o percurso humano, ninguém está isento de duplamente útil para ensinar essa “leitura”.
mazelas, todos têm necessidade de cura, desde a infância. “Leitura” de quê? Responde nosso manual: da Existên-
Afinal, é a cura do “humano, humano demais”. Esta cura as- cia, vinculando desde o início o problema do conhecimento
senta-se sobre a Vontade de Sentido, que não reflete mera (buscar sentido) com o problema da imagem do homem (eu-
postura de acadêmicos, mas é uma formulação genial de um femismo que abrange o Eu do homem, uma Existência, uma
achado tão velho quanto a religião, a filosofia e as práticas Consciência/Vontade de Sentido), uma natureza “lógico-ati-
psicológicas. Não é de hoje que o “demasiadamente humano” va” destinada a querer/buscar sentido em si e em tudo o
vem, de um modo ou de outro, sendo associado ao conceito mais. “Leitura” portanto existencial.
gêmeo da Aybris segundo a poesia trágica; mas é sobretudo
“Ler” de que modo? — Diz o manual: usando na prática
hoje que ele se debate quase opressivamente face ao chama-
do “vazio existencial”, ou “frustração existencial” — que é o princípios inspirados naquela mesma imagem (não unilate-
ral, acrescentamos nós, mas bifacial — logos énylos/logos
ponto de partida da logoterapia para a cura pelo preenchi-
énergos (ativo). A leitura do código logoterápico é a do pró-
mento do vazio.
prio código de cura da condição humana real, segundo a me-
Mostrar a “análise existencial” e o uso do método logo- dida da imagem do homem, constituindo a categoria do hu-
terapêutico como próposta para o mundo contemporâneo — mano... e do demasiadamente humano.
e sabemos que esta proposta obteve êxito espetacular (sinto-
Neste manual teórico-prático aprende-se, portanto, a
mática, nos Estados Unidos, a difusão do livro de Viktor
“mensagem” e o “modo” de ler a mensagem. Aprende-se que
Frankl, À procura de sentido, com reflexos até no conhecido
“comics” do cãozinho Snoopy...) — não é nossa preocupa-
logoterapia é cura para a vida no “confronto com o logos da
Existência”, com o sentido da verdade do homem.
ção. O que pretendemos em particular com a tradução do
livro de Elisabeth Lukas, principal representante hoje da lo- Há em toda esta aprendizagem de leitura pelo método
goterapia, é trazer uma contribuição de peso para que aque- logoterapêutico, para se obter o sentido do homem e da vida,
la idéia e aquela prática tenham uma larga aceitação tam- um mundo de inspiração e de propostas para os responsáveis
bém entre nós, brasileiros. pela educação da juventude e pela Educação Permanente do
nosso povo. Por isso, sentido é também direção, orientação
Pretendemos, assim, no pórtico desta Edição, acenar
no rumo de um caminho, de uma mudança, até mesmo da
com uma grata surpresa para os leitores. O leitor médio,
superação de situações estagnadas ou deterioradas.
que está habituado a ler as mais diversas matérias, vai afinal
aprender a “ler” neste livro o próprio “livro” da natureza
humana, interpretar melhor a imagem do homem — a men- Dois motivos justificam o título original da obra, man-
sagem — aí descrita, para, então, procurar o sentido da tido na Edição Brasileira — “a força desafiadora do espíri-

8 9
to”, um velho conceito-chave da logoterapia desde seus pri-
meiros traços, esboçados por Viktor E. Frankl há meio sécu-
lo. Significa que “o homem, por força de sua dimensão es-
piritual, pode encontrar sentido em cada situação da vida e
dar-lhe resposta”. Por outro lado, convém, desde o início,
pôr em destaque o termo “espírito”, cuja extensão se escla- PREFÁCIO
recerá a partir das exposições da Autora: o leitor percebe
que é a Existência (concreta), o Eu, a Consciência, ou seja
(apesar da aparente contradição), o Espírito Inconsciente
(Geist).
Finalmente, releve o leitor brasileiro, as peculiaridades
da obra. Embora o estilo de nossa Autora seja bastante didá-
tico e comunicativo, e faça ela recurso a muitas e excelentes
ilustrações no texto, foi também preciso lançar mão, aos pou-
cos, de uma terminologia científica e técnica, com que aliás
o leitor logo irá familiarizando-se. Ela faz também largo uso - “A chave para conhecer a essência da vida consciente da
alma está na região da inconsciência” Com esta sentença
da linguagem axiológica; e isso se deve ao fato de estar vul-
garizado, no espaço alemão, muito mais do que entre nós, O inicia Carl Gustav Carus (1789-1869) seu livro sobre a alma
vocabulário em torno do conceito de “valor” (Weri) — a (Psyche, 1846). Lê-se hoje com fregiiência que Sigmund Freud
adjetivação “de valor”, expressões como experiência de valor, (1856-1939) descobriu o inconsciente para a psicologia e a psi-
fixação de valor, valoração, valorizar, avaliar... Convém lem- coterapia. Porém, há que volver à história da cultura para
brar, ainda, que “caráter”, numa acepção tradicional para a constatar que, na continuidade da reflexão e do pensamento
Autora, nunca é um conceito ético, e está em contraposição humano, sempre foi “vista” e reconhecida como realidade
com o conceito de “personalidade”, este sim, sempre ético. insofismável uma esfera do psíquico desprovida de consciên-
cia, não iluminada pelo projetor de nossa consciência. Na
verdade explicava-se distintamente essa esfera com a ajuda
E se os esforços editoriais têm também um “sentido”,
da representação plástica de nossos conceitos: ou se pensa-
este será o de estabelecer um encontro proveitoso com os
va, e se pensa, num campo da consciência coordenado, su-
leitores. bordinado ou superordenado a ela, ou se fala também de
José de Sá Porto uma “profundeza” no íntimo da alma, algo “existente” por
trás dos conteúdos de consciência, algo que se dá a conhecer
Tradutor
em sua ação sobre a consciência.
Sempre que se fala do interior do homem, ou melhor,
do seu mais íntimo, trata-se do fundo radical primariamente
inconsciente da alma, o ponto nuclear daquilo que é pro-
priamente humano. Fora da consciência opera uma base
principal de processos biológicos que só em limitada pro-
porção penetra nossa experiência consciente, mas desenca-
deia correntes e vibrações capazes de influir e que influem
incalculavelmente em nossa consciência.
Acrescenta-se o imenso tesouro das impressões oculta-
das à consciência, das lembranças e das ilusões, que não
deixam de ter influxo sobre o processo da consciência, Mana

1
LO
há também os pressupostos diferenciados das capacidades tas todas as dimensões da experiência de valor são interpre-
criadoras e autoformadoras que “dormitam em nós”, e há tadas por ele através da dinâmica instintual (triebdyna-
as forças do espírito. O todo — e o detalhe muito mais — misch).
faz parte do nosso inconsciente. Nele também está sempre
o fundamento do que constitui o mistério do homem, o O conceito de inconsciente, extraordinariamente “redu-
cionista” (restritivo; em todo caso, setorial), segundo Freud,
enigma do ser individual, o propriamente humano, portan-
to a essência do homem e de nossa humanidade. Porque exis-
necessita de completar-se e ampliar-se até as esferas das
forças inconscientes, portanto das que se fazem perceber
te este humano, o humano no homem, e só porque ele exis-
te, é que nossas reivindicações dos direitos do homem e da no mais íntimo do homem — que funcionam em compasso
dignidade humana encontram sua apropriada justificativa. com o jogo dos impulsos. Na profundeza da alma não apenas
Dentro do sistema religioso de valores é ainda nesse caráter a libido impulsiona o seu arbitrário jogo mas localizam-se
humano que se encontra o “elemento divino no homem”. aí vários e muito diferenciados impulsos primitivos e emo-
ções d'alma que constituem e põem em marcha o conjunto
Por que estamos aqui abordando esses tópicos? — Tra- da vida e o centro da elaboração de experiências vitais —
ta-se de um encaminhamento ao conceito de espírito que foi conjunto este sempre carregado de conflitos, mais ou me-
acolhido no título deste livro e deverá ser conduzido de nos antagonista mas também em grande parte auto-regula-
modo sistemático até o final. Mas antes de tudo trata-se de dor! Se a situação da alma irá desembocar numa evolução
esclarecer o significado do conceito de inconsciente. A teo- bem sucedida e feliz, ou ao contrário num fracasso e talvez
ria do inconsciente, de Sigmund Freud, não é uma descober- numa tragédia, depende, por um lado, de muitos fatores
ta “no” homem, mas sim uma criação “de” Freud. Isto pre- (internos e externos), e por outro lado, de forças indepen-
cisa ser aqui explicado em primeiro lugar. Freud imaginou dentes que formam a vida e podem superar os reveses da
o modelo do Trieb (drive, impulso), a teoria do aparelho sorte. Numa condição em que instintos e necessidades estão
psicológico, a doutrina do desenvolvimento da libido, espe- presos à natureza, os caminhos da satisfação humana de ne-
cialmente o complexo de Édipo, e também o conceito de. cessidades (e também da dignidade humana) estão sempre
narcisismo (pormenorizadamente, mas na verdade mais em subordinados a um espaço de liberdade. Mas para achar “em
termos enaltecedores do que críticos, no livro Psychologie liberdade” esse caminho certo é preciso prestar atenção na-
des XX. Jahrhunderts [= psicologia do séc. XX], vols. 2 queles processos, existentes em nosso interior, que assomam
e 3: “Freud e a continuação”, Munique, 1976). Na medida à consciência como manifestações do senso moral interior
em que existam na base dessas criações psicanalíticas tam- ou como percepções da alma. Além disso, está em jogo tam-
bém experimentos, e portanto “achados” esclarecedores, aí bém conservar abertura para o que diz nossa razão, com
se tratará simplesmente de setores, de aspectos particulares, seus critérios de autocompreensão e de compreensão da
ou de constelações de casos isolados. Aproximadamente,
vida, para experimentar toda a força viva daquilo que Franki,
estes não apresentam uma justificativa da reivindicação ge-
já em 1949, colocava no centro de suas preocupações psico-
ral do pathos (pseudo) científico, tornado moda, com que a
terapêuticas como a força desafiadora do espírito e a von-
teoria psicanalítica é defendida, em parte pelos psicanalistas tade de sentido. Está em jogo a orientação para um horizon-
de modo muito ortodoxo, ou por seus seguidores, de modo
te de valor, trata-se da liberdade do homem, radicada na
muitas vezes mais superficial-formal. Para difusão da psica-
consciência da responsabilidade. Mas não se trata de conteú-
nálise, na verdade, muito favorece o vento em popa da vul-
garização popular-científica e a jornalística. Quase sempre dos de fé, nem de fé missionária. Não se trata de salvação
da alma, e sim da saúde da alma, se bem que ambas as in-
o método psicanalítico degenera em pura interpretação, e O
respeito pelo homem, que os psicólogos de antanho, até o
tenções não se excluam, mas na melhor hipótese até se com-
tempo de Carus, ainda tinham, põe-se totalmente a perder. pletem,
Vem a propósito que Freud — e assim fica também claro Se na vida aparecem envolvimentos problemáticos e se
quanto elemento humano se desperdiça com ele — se consi- se manifestam insuportáveis os sofrimentos internos e opres-
derava “um dos piores inimigos da religião”. Afinal de con- sões de angústia e desespero, se cai o homem em situações

12 13
externas de sofrimento, ou não consegue superar Os reveses seu sofrimento interior e sobre as possibilidades de supera-
da sorte — é válido, então, prestar ajuda eficaz, a fim de ção, acha-se em grande parte em harmonia com o modo de
tornar não só visíveis mas utilizáveis na prática as fontes compreensão do homem, a imagem do homem e as perspec-
de auto-regulação, instaladas e encobertas nas “profundezas” tivas psicoterapéuticas que Viktor E. Franki apresentou
da alma. Nesse trabalho, não se trata de fazer análise do sob a denominação de “logoterapia”, ilustrou e documentou
fatalismo dos impulsos, segundo a perspectiva voltada ao com estudos de casos. Frankl entende também este seu con-
passado, mas em primeiro lugar de chegar a alcançar uma, ceito como “análise da existência”. Originariamente falava ele
“fixação de fins” prospectiva (voltada para a frente), uma em “cura d'almas médica” (1: edição do livro com esse tí-
reorientação interior, e, com isto, uma realização propícia da tulo, 1946). Na prática, fazia-se referência a uma psicotera-
vida e do sentido. pia orientada ao sentido, uma ajuda para se achar o cami-
nho do sentido, ou uma abertura das fontes de compreen-
Perdeu-se em grande parte a compreensão do sentido são do sentido, no homem. Assim, firmou-se também a idéia
de nossa vida. A frustração existencial poderia ser a causa de que o homem não é só servo de seus instintos, ou prisio-
extremamente difusa do sofrimento, em nosso tempo. Mui- neiro de suas angústias e compulsões, mas que também lhe
tos de nossos contemporâneos sofrem unicamente pelo fato é disponível a liberdade de encontrar o caminho para uma
de viverem, ou de lhes serem impostas exigências de vida. integração, cheia de sentido, de tudo que é humano. Neste
De resto, todo problema da vida pode também ser visto co- sentido são humanos não em último lugar todos os instintos
mo crise de compreensão de sentido. Quem tem problemas e angústias, na medida em que não resultam de uma enfer-
sexuais, não só perdeu muito de sua naturalidade como tam- midade do espírito.
bém não acha; muitas vezes, 0 essencial da compreensão de
sentido em sua vida. Quem se extraviou por outros impas- Trata-se de superar a “psicologia sem espírito”, despa-
ses neuróticos ou busca saída no álcool ou nas drogas, para char as estreitezas racionalistas da imagem do homem na
ele alguma coisa de sua compreensão de sentido da vida sem psicologia, revalorizar o homem como personalidade ético-
dúvida está perdida. Alguns poucos sofrem com suas aber- -espiritual, e ao mesmo tempo opor ao sofrimento humano
rações; aí também é difícil prestar auxílio. Mas se se pro- e à condição psíquica de sofrimento — as forças do Espiri-
curam conselho e ajuda, será proveitoso e tem utilidade o tual bem compreendido, ou seja, a força desafiadora do es-
patrimônio do pensamento de Viktor E. Frankl. pírito.
Uma perspectiva terapêutica tão bem fundamentada de- A esta altura, gostaria de fazer uma recomendação.
ve aparecer nas condições atuais da psicoterapia como um Os leitores que se confiarem à direção inteligente, tão huma-
progresso substancial, mesmo que sob o ângulo histórico na e engajada quanto clara e vivaz de Elisabeth Lukas, terão
muita coisa tenha sido apenas redescoberta ou apenas Te- sem dúvida oportunidade de vir a conhecer melhor o homem
elaborada. e a si mesmos; descobrirão caminhos que são adequados
O que foi expresso de modo claro e didático por emi- para ajudá-los a sair de impasses neuróticos, das fixações
nentes pensadores, na história da humanidade, com relação psicopáticas e atitudes de abatimento, até mesmo da situação
aos fins da realização da vida e da superação do sofrimen- de vazio interior — com a convicção de que “Minha vida tam-
to, em parte no estilo conciso dos aforismos ou das imagens bém tem (novamente) sentido”.
elucidativas e consistentes, em parte em obras de alto teor
intelectual — poderá sem dificuldade incorporar-se ao qua- Paul H. Bresser
dro, aqui esboçado, de uma compreensão do homem, como
Professor universitário,
também “valorizar-se” na prática terapêutica quotidiana.
psiquiatra e psicólogo
Muito do que os grandes educadores da humanidade, que
foram os Estóicos, até Friedrich Nietesche ou Martin Buber,
de religião mas também os poetas Colonia, RFA,
e não só os fundadores
clássicos, disseram e escreveram sobre o homem, sobre o janeiro de 1986

14 15
primeira parte

À IMAGEM DO HOMEM
SEGUNDO A LOGOTERAPIA
l
CLASSIFICAÇÃO E AXIOMÁTICA DA LOGOTERAPIA

Na medida em que todo mal-estar e miséria


de hoje se reduzem a um sentimento de vazio
ou falta de sentido, é preciso sair a campo
contra esse vazio de sentido levando uma dou-
trina de sentido.
Viktor E. Frankl

Que é logoterapia?
Logoterapia é, em seu aspecto principal, uma forma de
psicoterapia, criada pelo psiquiatra e neurologista vienense
Viktor E. Frankl. Ela pode ser classificada, em meio à va-
riedade atual de métodos de cura, sob dois pontos de vista.

1.º) De acordo com W. Soucek, a psicoterapia de Viktor


Frankl é chamada a “Terceira Escola de Psicoterapia de Vie-
na”, enquanto se deve considerar a psicanálise, de Sigmund
Freud, a “Primeira Escola de Viena”, e a Psicologia Indivi-
dual, de Alfred Adler, a “Segunda Escola de Viena”,
Uma fórmula simples serve para destacar cada uma das
três orientações:
Sigmund Freud descobriu, no homem,
a vontade de prazer;
Alfred Adler descobriu
a vontade de poder,
e Viktor E. Franki,
a vontade de sentido.

Na realidade, esses são apenas slogans simplificados que


não podem levantar a pretensão de fazer justiça a cada uma

19
dessas orientações da psicoterapia. Representam puramen- técnicas da “psicologia humanística”, como vem sempre su-
te auxílio mnemotécnico para acentuar de modo particular blinhando Viktor Frankl. A saber, ela não reconhece a auto-
as áreas típicas de investigação. As teorias abrangentes de -realização como a meta mais alta da existência humana, con-
Freud concentravam-se na vida instintiva do homem, em cujo forme foi declarado unanimemente pelos defensores da “psi-
ponto central está o impulso sexual (a tendência ao prazer) cologia humanística”, mas contrapõe-lhe a, autotranscendên-
e cuja repressão passa a ser fonte de distúrbios psíquicos. cia do homem. O que se quer dizer com isso, ainda há que
discutir-se; por enquanto deve-se ter presente que a logote-
Adler investigou, antes de tudo, a relação do indivíduo
rapia, certamente sob condições, pode ser levada a fazer
com o ambiente social e deduziu o desejo de poder do sen-
parte da “psicologia humanística”, mas ao mesmo tempo ul-
timento de inferioridade e de sua supracompensação, Frankl,
trapassando-a.
finalmente, vê no homem um ser que quer moldar sua vida
significativamente, ou seja, segundo um sentido, e poderá Novamente, aqui há uma fórmula simples para destacar
adoecer psiquicamente se for frustrada esta sua “vontade as diferenças — segundo a classificação norte-americana —
de sentido”. dos três grandes agrupamentos de psicoterapias. A saber:

2º) Segundo certos compêndios norte-americanos, a a psicanálise considera o homem


logoterapia é classificada como “third force” (= terceira for- um “ser ab-reagente”;
ça) da psicoterapia, e portanto também como uma terceira
orientação, mas num sentido um pouco diferente. É que nos a terapia do comportamento considera o homem
Estados Unidos a “psychoanalysis” passa por ser a “first um “ser reagente”;
force” (primeira força), a “behaviortherapy” como “second
a logoterapia considera o homem
force” (= segunda força) e a “existential psychiatry” como
“third force” (= terceira força). Ou seja: psicanálise, tera- um “ser agente”.
pia do comportamento e psiquiatria existencial, sendo que
esta última tornou-se conhecida na Europa com a denomina- Evidentemente, esses são também meros siogans sim-
ção de “psicologia humanística”, termo criado por Charlotte plificados, um jogo de palavras mnemotécnico que consiste
Biúhler. Sob esta expressão alinham-se em suprimir cada vez um prefixo. Ab-reagir representa a di-
muitas técnicas mo-
dernas de psicoterapia, como, por exemplo, psicoterapia do nâmica dos impulsos (drives) com que prevalentemente se
diálogo, terapia da Gestalt, psicodrama, análise transaciônal ocupa a psicanálise; reagir, os mecanismos de condiciona-
etc. A logoterapia é também fregiientemente entendida como mento e de aprendizagem que a terapia do comportamento
parte da “psicologia humanística”. Embora seja este o caso essencialmente discute; e o livre poder de agir evoca o axio-
mormente nos Estados Unidos, ela se distingue fundamental ma da liberdade da vontade no homem, muito tarde aceito
mente, num ponto essencial de sua conceituação, de todas as na psicologia e só examinado a fundo na logoterapia.
O gráfico dos dois esquemas de classificação serve pa-
ra ilustrar a idéia de que as três escolas de psicoterapia
Quem desse modo estabelece para si a meta de Viena são, lado a lado, bastante equivalentes, ao passo
da auto-
realização não se dá conta que a classificação norte-americana mostra uma nítida evo-
ou esquece que o ho-
mem, afinal, só pode realizar-se na medida em que lução estatística de tendências. É que, enquanto a psicanáli-
realiza um sentido — fora, no mundo, e não em si se nos Estados Unidos atualmente passa mais e mais a se-
mesmo. Em outras palavras, a auto-realização pri- gundo plano, e enquanto a terapia do comportamento ocupa
va-se da fixação de um fim na medida em que se apre- uma posição média, a “psicologia humanística” “inunda o
senta como um ejeito secundário daquilo que eu mercado com a variedade de suas extensões terapêuticas, se
chamo a “autotranscendência” da existência huma- assim podemos expressar-nos. Dela faz parte, não lhe per-
na. (Frankl, 1) tence de todo, a logoterapia, que, como foi mencionado, dis-
tingue-se numa perspectiva básica essencial.

20 21
var um ritmo de desenvolvimento de cerca de dois decênios
que, para a logoterapia, é, com relativa tardança, assinalado
em 1980,* mas faz supor que será ela a introduzir-nos ao
Logoterapia
século 21, no espaço médico-psicológico.
1870-1937 A isto se referia o que Giambattista Torello certa vez
Escolas de entendia dizer — que a logoterapia seria o último sistema
psicoterapia Psicologia Individual completo na história da psicoterapia. “Completo” neste con-
de Viena texto significa que a logoterapia apóia-se como arte de curar
1856-1939
numa imagem completa do mundo e numa imagem comple-
Psicanálise ta do homem. Ela é como que sustentada por três colunas,
e, se queremos dar nome a cada uma delas, seria, conforme
Frankil:
a partir de 1980

Logoterapia Liberdade da vontade — Vontade de sentido — Sentido da vida


Frankl e discípulos
axioma não axioma axioma
Psicologia Humanística (verificável)
Moreno, Allport, Maslow, Biihler,

Rogers, Boss, Perls, Cohn e outros Duas dessas “colunas” são axiomas, e portanto são pres-
supostos de todo o sistema do pensamento e não dependem
conhecida a partir de 1940
de prova; a terceira “coluna”, porém, refere-se a um dado
Classificação
de fato totalmente verificável e repetidamente demonstrado
norte-americana
Terapia do Comportament s : em muitos estudos científicos. É aquela “vontade de senti-
P Watson, Wolpe, Eysenck,
P ss da psicoterapia do” tão originariamente própria do homem que a logotera-
Skinner,
pia, “terceira escola de Viena”, descobriu por primeiro, como
Tumer, Lazarus, Bandura, Kanfer e outros vimos atrás, em nessa primeira fórmula geral.
conhecida a partir de 1920
Vamos examinar cada uma das três “colunas”.
Psicanálise
Freud e discípulos 1. A reflexão sobre o axioma da “liberdade da vonta-
de” vem já de milênios. Filósofos e pensadores de todas as
épocas vêm colocando a questão — de que modo o homem

* Frankl escreveu suas obras mais importantes depois da II


Guerra Mundial, e elas obtiveram grande ressonância, especialmen-
| As datas ao lado das Escolas de Viena referem-se ao nas- te nas universidades norte-americanas. Além disso, seu livro “Man's
Search for Meaning” (=0O homem em busca de sentido) tornou-se
cimento e morte de seus fundadores, enquanto é de obser- um dos sucessos mais populares nos Estados Unidos. Mas levou
var que Viktor E. Frankl celebrava o seu 80º aniversário algum tempo para começar a impor-se, nos círculos especializados,
em pleno vigor no momento da publicação deste livro (1986). à utilização prática da logoterapia, Nesse sentido deu-se o primeiro
As datas na classificação americana, ao contrário, não impulso no 19 Congresso Mundial de Logoterapia, em San Diego,
são California (1980).
idênticas às datas de vida de cada um dos representantes e
No espaço de língua alemã foi o 3º Congresso Mundial de Logo-
da fundação, mas apresentam uma maneira simples de torapia, realizado na Universidade de Ratisbona (1983), que desper-
co-
nhecer o momento a partir do qual determinado pensamen- tou o interesse dos especialistas alemães.
to terapêutico começou a generalizar-se. Podemos aqui obser- Os quatro Institutos de Logoterapia existentes no espaço alemão
são: Hamburgo (1982), Bielefeld e Viena (1983), e Munique (1985).
22
23
é realmente “livre”. De acordo com a concepção da logote-
rapia, a liberdade da vontade é dada a cada homem pelo Em outras palavras, sentido é algo objetivo, e isto é
menos potencialmente. Obviamente, ela pode em tempos so- não somente expressão de minha concepção do mun-
frer restrições por doença, imaturidade, senilidade etc., o do privada e pessoal, mas também o resultado de
que em nada altera sua potencialidade fundamental. Segue- investigação psicológico-experimental. Max Werthei-
-se dai: mer, um dos fundadores da Psicologia da Gestalt,
A logoterapia fez expressa referência ao fato de que é inerente
a toda situação um caráter de exigência, mesmoO
é uma psicologia não determinista. sentido que a pessoa, confrontada com essa situação,
tem de realizar. Segundo ele, as “exigências da si-
O conceito do homem segundo a logoterapia está tuação” têm de ser abordadas como “qualidades
apoiado em três colunas — a liberdade da vontade, objetivas”. O que eu chamo vontade de sentido che-
a vontade de sentido, e o sentido da vida. A pri- ga q ser, me parece, uma compreensão da estrutura.
meira delas, a liberdade da vontade, está em opo- James C. Crumbaugh e Leonard T. Maholick deji-
sição q um princípio que caracteriza a maior par- nem vontade de sentido como capacidade propria-
te das abordagens atuais ao homem, a saber, o mente humana de descobrir estruturas de sentido,
determinismo. Na verdade, porém, está em oposi- não só no real mas também no possível. CFrankl, 3)
ção somente ao que costumo chamar pandetermi-
nismo, porque falar em liberdade da vontade não 3. O axioma do “sentido da vida” leva as convicções
implica, de qualquer maneira, um indeterminismo logoterapêuticas à expressão de que a vida tem um sentido
a priori. Afinal, liberdade da vontade significa liber- incondicional e que, também, não o perde de maneira ne-
dade da vontade humana, e a vontade humana é a nhuma. Na verdade o sentido da vida pode às vezes fugir à
vontade de um ser finito. A liberdade do homem compreensão humana. O caráter significativo, ou de sentido
não é estar livre de condições, mas, antes, estar da vida, é algo entranhado no homem que sente cada vez O
livre para tomar uma posição em quaisquer con- que é novo, éalgo que se faz pressentir. Segue-se daí:
dições que porventura o cerquem. (CFrankl, 2)
A logoterapia
é uma concepção positiva do mundo.
2. A “vontade de sentido” está no centro do conceito
logoterapêutico de motivação; este conceito quer dizer que sem
Não há situação na vida que realmente seja
é profundamente inerente a todo homem uma tendência
para o sentido e a busca do sentido. Esta orientação ao sen- sentido. Atribui-se isto ao fato de que Os aspectos
tido consiste numa parte “interior” (tendência para a reali- aparentemente negativos da existência humana —
em particular aquela tríade trágica que reúne so-
zação do sentido) e numa parte “exterior” (caráter signi- podem ser
frimento, culpa e morte — também
ficativo, ou de sentido, da situação), ambas as quais se numa realização,
transformados em algo positivo,
aproximam mutuamente. Se a orientação humana ao sentido o deles com atitude e postura
se se vier ao encontr
for reduzida por doença, imaturidade, senilidade etc., o que correta. (Frankl, 4)
pode acontecer, trata-se, geralmente, mais de uma perturba-
ção de percepção da parte “exterior” e menos de uma dimi- Conforme o gráfico seguinte, cada “coluna” correspon-
nuição da parte “interior”, a qual, como motivação primária de a um dos elementos disciplinares 'essenciais da logotera-
do homem, sempre permanece, mesmo em caso de doença. da vontade” é O fundamento da imagem do
pia: “liberdade
Segue-se daí: homem, e assim lhe fornece também os fundamentos antro-
ponto
pológicos; a “vontade de sentido” é ponto angular e
A logoterapia de sua ciência de curar ,e represe nta por isso 0
de partida
é uma psicoterapia centrada no sentido. que perten-
princípio psicoterapéutico; é o “sentido da vida”,

aa 25
Logoterapia como um doente ser tratado, operado etc., pelo médico; e de certo
poderia até deixar-se morrer. Não se pode demonstrar cien-
tificamente que um prolongamento da vida seja uma vanta-
ANTRO- PSICO- gem para ele; ao contrário, em face da superpopulação da
POLOGIA À TERAPIA FEEDS terra, uma argumentação puramente científica poderia ter
para ele um resultado muito negativo. E perigoso colocar em
dúvida esse axioma, porque poderia rapidamente recrudes-
A
imagem Ro homem
4
ciência da cura
4
imagem fo mundo |
cer a idéia de “vida sem valor”, que nega às pessoas idosas,
deficientes ou esquizofrênicas o direito à vida. É intocável
LIBERDADE VONTADE SENTIDO o axioma do valor da vida; na logoterapia ele é ainda com-
DA VONTADE pletado com os componentes da natureza significativa da
DE SENTIDO DA VIDA
vida.
Mais controvertido é sem dúvida o outro axioma da lo-
goterapia — a liberdade da vontade, no homem. Mas mesmo
quanto a isso, toda psicoterapia deve ao menos pôr-se de
acordo sobre uma certeza básica, isto é, de que o paciente
é capaz de mudança. Sem este pressuposto todo esforço te-
rapêutito certamente seria de antemão sem sentido; ele não
ce à imagem do mundo e à filosofia da logoterapia, o cará-
tem que ser demonstrado, mas sim explicitado.
ter significativo incondicional da vida, dado em toda situa-
ção humana.
Certamente a logoterapia e a análise existencial
No presente compêndio nós nos ocuparemos principal-
mente procedem da prática clínica; mas é inevitável que
das possibilidades da logoterapia como ciência de
curar, não obstante seja indispensável, para o sucesso de sua ambas desemboquem numa teoria metaclínica como
metodologia, conhecer, pelo menos em destaques, os traços a que se acha implicitamente na base de toda psi-
fundamentais da imagem do homem que ela adota: assim coterapia; e teoria quer significar visão, ou seja,
como é indispensável visão de uma imagem do homem. Deste modo fe-
apresentar a imagem do mundo da clínica
logoterapia, cha-se o circulo, tanto mais que a prática
na prevenção e no trabalho de acompanhamen-
to ulterior para assegurar uma aliás sempre está enormemente determinada e in-
redução na quota de recaída
dos antigos pacientes. Pretendo introduzir minha fluenciada pela imagem do homem que o médico
exposição traz ao atender seus clientes, por pouco que seja
sobre a teoria da neurose segundo a logoterapia com uma
breve sistematização controlada. De fato toda psicoterapia tem lugar sob
de seus fundamentos antropológicos, e
fazê-la terminar um horizonte a priori. Na base sempre há uma con-
com uma vista d'olhos à sua estruturação
filosófica. cenção antropológica, por menos que tenha cons-
ciência da psicoterapia. (Frankl, 5)
Antes, porém, de explicar a imagem do homem na logo-
terapia, temos ainda de esclarecer uma questão que não raro
é colocada. Trata-se de saber até que ponto é científico o sis-
tema de pensamento que assenta sobre dois axiomas (inde-
monstráveis). Há que referir não só o fato de qualquer psi-
coterapia ter seus axiomas específicos, como também o de
toda medicina enquanto ciência da saúde — e não um setor
de pesquisa — precisar de ao menos um axioma. Que é pre-
cisamente o seguinte: “A vida vale ser conservada”, Consi-
dera-se que sem este axioma não haveria razão alguma para

26 247
de, interesse prático e artístico, pensamento criativo, religio-
2 sidade, senso ético (“consciência moral”) e compreensão
do valor. ro
Se classificarmos os seres vivos da terra por sua partici-
ESCLARECIMENTOS SOBRE ONTOLOGIA pação nas diferentes dimensões
tes atribuições, em que formas mínimas de transição
do ser, obteremos as seguin-
ficam
DIMENSIONAL inteiramente no terreno da possibilidade:
plantas, animais, homens
— = corpo
animais, homens ——> corpo, psique
homens ———> corpo, psique, espírito

Conclui-se que a dimensão espiritual é a dimensão pro-


priamente do homem, “especificamente humana”, também
chamada, na logoterapia, dimensão noética, por derivação
A imagem do homem segundo a logoterapia traduz-se da palavra grega nous, noetos (= espírito, mente). As outras
na ontologia dimensional de Viktor E. Frankl. De acordo duas dimensões, que o homem partilha com os animais —
com ela, o homem é um ser tridimensional. As três dimen- dimensão somática e dimensão psíquica — estão muito bem
sões são: somática, psíquica e espiritual. Não é uma teoria conjugadas na logoterapia, e para diferenciar-se são designa-
de três estratos, porque as dimensões penetram perfeita- das dimensões subnoéticas.
mente umas nas outras, assim como as três dimensões do
espaço, comprimento, largura e altura, penetram-se recipro-
camente. Não se poderia por exemplo afirmar que a dimen-
são espacial “largura” começa onde a dimensão “compri- elevação acima
mento” acaba. Assim é também na ontologia dimensional: do campo
em cada parte do ser humano tocam-se uma na outra todas psicofísico no
as três dimensões. Viktor Frankl fala em “unidade apesar noético
da variedade”,

Dimensão noética
A dimensão somática define-se da maneira mais simples:
nela coordenam-se todos os fenômenos corporais do homem. confluência das
Ela abrange o fundamento celular orgânico do homem as- duas dimensões
sim como sua estrutura vital fisiológica, inclusive subnoéticas no
os proces- campo psicofísico
sos químicos e físicos que dela fazem parte.
Dimensão somática
Dimensão psíquica entende-se a esfera da existência do
homem com suas disposições, sensações, impulsos, instin-
tos, esperanças, desejos, aspirações etc. A esses fenômenos Como a logoterapia se ocupa particularmente da dimen-
psíquicos juntam-se também os talentos intelectuais do ho- são noética do homem, emprega-se às vezes a seguinte for-
mem, padrões de comportamento mulação:
adquiridos, costumes
sociais. A logoterapia é
Na dimensão espiritual localiza-se a tomada de posição, li- uma psicoterapia do espiritual.
vre, em face das condições corporais e de existência psíquica,
Acham-se aí as decisões pessoais da vontade, intencionalida- A esse respeito, a logoterapia distingue-se nitidamente
das restantes escolas de psicoterapia, que dirigiram sua
28
29
atenção mais para a dimensão psíquica do homem, A logoterapia esforça-se por evitar essas falhas ao con-
dedican-
do-se ao esclarecimento do instintivo subliminar, ou siderar o espiritual como a dimensão própria (propriamente
à his-
tória da aprendizagem e do desenvolvimento do homem dita, se bem que não única) do homem e ao levantar a ques-
.
Todos os resultados aí recolhidos, experimentalmente tão — se, e como, se pode cultivar a influência do espiritual
com-
provados de antemão, concordam evidentemente, mas sobre as outras dimensões para fins de cura. Por isso, não
ainda
a nível bidimensional. O mérito da logoterapia foi ter integra negligencia de modo nenhum as outras dimensões e reser-
-
do a terceira dimensão do homem na psicoterapia, que, va-se a participação na pesquisa para saber até que ponto
an-
tes de Viktor E. Frankl, tinha sido literalmente uma psico- as forças espirituais no homem podem contribuir:
terapia “sem espírito”.
a) ao remédio de frustrações espirituais, :
b) àa correção de quadros mórbidos de doenças psí-
Em nosso esquema dimensional resulta da tridimen-
quicas, E
sionalidade do homem que o que é propriamente
c) ao alívio de sofrimentos (psico)somáticos.
humano só pode manifestar-se quando ousamos en-
trar na dimensão do espiritual. O homem só é vi- Para isso ela está em condições de mostrar o trabalho
sível como tal na medida em que incluirmos esta de cerca de cingiienta anos de investigação do qual já foram
terceira dimensão na meditação sobre o mesmo: colhidos alguns resultados muito importantes. Enquanto a
só então deparamos com o homem como tal. En- psicologia atual descobria principalmente “dependências
quanto a vida vegetativa do homem, sem mais, po- psíquicas”, a logoterapia trazia à luz numerosas indepen-
E de ser explicada ainda na dimensão corporal, e sua dências espirituais”; enquanto a psicoterapia atual analisa-
" vida animal, a rigor, ainda dentro da dimensão do va “simulações neuróticas”, a logoterapia registra “engaja-
Psíquico — a existência humana como tal, a exis- mento existencial”. De tudo isso segue-se:
tência espiritual pessoal, não bate certo com esta A logoterapia
bidimensionalidade, ela não se ajusta a este “nivel”
é uma psicoterapia complementar.
do puro psicossomatismo. Nela, neste nível bi-
dimensional, o homo humanus, ao contrário, pode Ela na realidade combina com a maior parte dos mé-
ser quando muito projetado. Efetivamente, a natu- todos não-logoterapêuticos porque estes em sua grande
reza do que chamamos projeção consiste em fazer maioria trabalham a nível mais baixo da existência do ho-
que uma dimensão sempre seja sacrificada, que, mem, ao passo que a logoterapia, como foi exposto, acres-
justamente, sempre se é projetado na dimensão se- centa a entrada nova para a dimensão espiritual.
guinte mais baixa. O quadro seguinte mostra a posição da logoterapia do
Esta projeção tem duas consegiiências: ponto de vista da ontologia dimensional. Há métodos psico-
ela, primei-
ro, conduz ao equivoco; e, segundo, a contradições.
“direção espiritual” tradicional,
No primeiro caso, a razão dessa consegiiência é a Logoterapia
seguinte circunstância: o diferente reproduz-se de
dimensão (“cura d'almas” pastoral)
modo igual numa mesma projeção; no segundo caso, noética Psicologia Métodos
a razão é, de novo, dada no seguinte fato: uma e q Humanística cognitivos
mesma coisa em diferentes projeções reproduz-se de Psicoterapia Psicanálise,
modos diferentes. (Frankl, 6) diRiEnsãO tradicional terapia do comportamento

Ora, a psicoterapia não é pobre de equívocos e contra-. psíquica Métodos de (treinamento autógeno,
dições, com suas muitas orientações diferentes — ainda ho- relaxação ioga, hipnose)
je ela se abate gravemente ao peso das consegiências de
Medicação,
projeções inadmissíveis em meio às quais o que há de mais Rendas injeção electrochoque
humano no homem veio a perder-se,
somática
350 31
terapêutico-psiquiátricos que são aplicados em campo so-
mútico, como os psicofármacos ou os eletrochoques; há ou- O homem apresenta, por conseguinte, um ponto de
tros que são aplicados no psíquico, como as clássicas for- intersecção, um cruzamento de três estratos do ser:
mas de psicoterapia — psicanálise e terapia do comporta- somático, psíquico e espiritual. Essas três eatnadaa
mento; e há os que se localizam em campos intermediários. não podem ser bastante adequadamente separa as
A estes pertencem as técnicas de relaxação, como o treina- uma da outra. Seria falso dizer: o homem compõe-
mento autógeno, ou a ioga, ou os métodos de hipnose e su- -se” do somático, psíquico e espiritual — pois ele é
gestão, os quais lançam uma ponte entre o terreno somáti- unidade e totalidade — mas dentro desta unidade e
co e o psíquico. A “psicologia humanística” e os desenvol totalidade o espiritual no homem “compõe-se com
vimentos ulteriores da terapia (cognitiva) do comportamen- o somático e o psíguico. É isto o que chamei anta-
to, ambos tendem, já, sobre a esfera psíquica, na direção da gonismo noopsiquico. Enquanto o paralelismo pst-
dimensão noética. Contudo, até agora somente avançaram cofísico é inevitável, O antagonismo noopsiquico é
no terreno particular espiritual do homem a tradicional facultativo: ele é sempre só possibilidade, pura o
“direção espiritual”, parte da “cura d'almas” pastoral — tencialidade — mas uma potencialidade para a qua
que na verdade passou um tanto ao segundo plano na gran- sempre se poderá apelar, e se deverá, e sem dúvida
de crise religiosa do nosso tempo — e a logoterapia, como
do lado médico. Trata-se sempre de apelar para a
sistema de cura, “força desafiadora do espirito” como eu a chamei,
contra a aparentemente poderosa condição psicofi-
O quadro acima torna claro que a logoterapia não tem
a pretensão de curar todos os sofrimentos sica. (Frankl, 7):
do homem.
É óbvio que sempre se deve ajudar o paciente no nível em
que se dá o seu distúrbio, e pode mesmo ser que um pacien-
terapia a grande chance de sua “potência” antagônica. São
te tenha de receber tratamento igualmente nas três dimen-
os critérios: destino e liberdade; susceptibilidade e integri-
sões. Mas, para estarmos preparados a dar esse tratamento
totalizante, nós precisamos de métodos de cura que vêm a dade; orientação ao prazer e orientação ao sentido; e cará-
ser usados ter.e personalidade.
dentro da dimensão noética do homem, e é a
logoterapia que preenche esta lacuna. Ao lado deste plano, porém, está ainda outra intenção.
Do que foi dito até agora resulta inequivocamente que a
Dessas explicações resulta quanto é importante poder
logoterapia não adota nenhuma atitude de oposição as ia
distinguir uma da outra, a segunda e a terceira dimensões
tações de outras escolas. É inevitável, porém, que ela esteja
— a dimensão psíquica e a dimensão noética — e não mis-
turar uma com a outra. (A primeira dimensão do homem, a em decidida contradição com todas aquelas teorias psico-
dimensão somática, em comparação quase nunca cria obscu- lógicas que negam fundamentalmente a dimensão noética
ridades.) Quem realmente quer compreender a logoterapia do homem. Pois, uma negação da dimensão noética impor-
deve fazer-se consciente do “antagonismo noopsíquico” que ta, forçosamente, na atribuição de todos os fenômenos espi-
em consegiiência de suas teses caracteriza a natureza huma- rituais ao psíquico, e esta redução da terceira dimensão a
na. Está em jogo nada menos do que a chance de uma com- segunda produz, conforme a concepção da logoterapia, uma
posição fecunda entre psique e espírito. caricatura crítica do homem, e esta não só torna pouco
digna de fé a epistemologia da psicologia e da psicoterapia,
De um “antagonismo noopsíquico” resulta que a dimen- ao paciente.
como pode também provocar danos
são psíquica e a dimensão noética do homem não estão
simplesmente lado a lado, mas se relacionam uma com a Neste comentário aos quatro critérios de distinção en-
outra, e às vezes estão em oposição uma à outra. Nos ca- tre espiritual e psíquico no homem, farei ver ainda os o
pítulos seguintes eu pretendo, usando quatro critérios de dis- passes ideológicos que surgem da redução de um ao outro,
tinção, examinar um pouco mais a fundo os dois aspectos isto é, se o humano for derivado do sub-humano. Por en-
da existência humana, a fim de tornar transparente à psico- quanto damos apenas os nomes desses “becos-s em-saída ”:

32 33
a) Negada a liberdade do homem, o homem deve ser

b) do O de ver a “autonomia da existência espiri-


3
a ia e psicólogo vê mais o “automatismo
aparelho psíquico-susceptível” (8)——— > nsi
cologismo; E o e DIALÉTICA DE DESTINO vs. LIBERDADE
ec) subestimando a orientação do homem
ao sentido
ele cai na tentação de interpretar qualq
uer motivo
como expressão de uma secreta neces
sidade com-
pulsiva -—— reducionismo;
d) negando 7 a personalid
i ade d e cada um, indiv
indi idual
DES ele logo está pronto para julgar todos
os
omens de acordo com o tipo de caráter a
que per-
tencem— >» coletivismo.
A psicologia científica começou sustentando uma tese
a di E E = determinista, a de que a “infância determinava, como desti-
o GR a o redução “errônea no, a vida inteira do homem. Podia-se explicar esta maneira,
“PSIQUE” “ESPÍRITO” NR Ro a de pensar pelo naturalismo do final do século 19; era, na,
A | destino liberdade ; = época, uma tendência comum aos nossos círculos culturais
— pandeterminismo o sentimento de andar-se à deriva. Na segunda metade do
B | susceptibilidade integridade psicologismo século 19 tiveram lugar muitas descobertas que fizeram nas-
C |orientação ao orientação ao ; reducioni cer esse sentimento de dependência e abandono. Antes de
prazer sentido como tudo, os progressos da astronomia, que pela primeira vez
D | caráter personalidade Colinas trouxeram a consciência da infinitude do universo cósmico,
onde a terra parece um grão de areia sem importância.
Apoiavam a nova imagem do mundo os conhecimentos so-
bre relações de classes sociais e de estruturas sociais tão
engrenadas que o indivíduo passava a assemelhar-se a uma
minúscula roda dentada numa irresistível maquinaria. No
século 20 o sentimento de andar-se à desgarrada foi novamen-
te estimulado pelo rápido desenvolvimento da técnica, quan-
do tiveram origem modelos robotizados com os quais o ho-
mem se identificou. Compreendia-se o homem mais e mais
como “unidade” programada, como alguém que, desde a
infância — ou mesmo desde a vida no corpo materno —
reagia sucessivamente, à maneira do autômato, aos influ-
xos armazenados.
Podem ser considerados como movimento de oposição
a este auto-retrato os filósofos existencialistas (Kierkegaard,
Scheler, Heidegger, Jaspers, Sartre, Marcel), os quais na
verdade se dividiram em dois campos — os. mais afirmati-
vos da vida e os mais negativos da vida. Todos eles porém

35
a) Negada a liberdade do homem, o home
m deve ser
consi
Ra derado um joguete do destin o——> pandet
er-

b) ano de ver a “autonomia da existência espiri


-
3
ual-integra”, o psicólogo vê mais o “auto
matismo
Er
de um aparelho psíquq ico-suscen
eptível
tível”” (8)—— >» psii
DIALÉTICA DE DESTINO vs. LIBERDADE
c) subestimando a orientação do homem
ao sentido
ele cai na tentação de interpretar qualq
uer motivo
como expressão de uma secreta necessidade com-
pulsiva —— reducionismo;
d) negando a personalidi ade d e cada um, indiv
indi idual
mente, ele logo está pronto bara julgar
todos os
homens de acordo com o tipo de carát
er a que per-
tencem—>» coletivismo.
A psicologia científica começou sustentando uma tese
determinista, a de que a-infância determinava, como desti-
no, a vida inteira do homem. Podia-se explicar esta maneira.
a di Ea = =
e o a Guta redução errônea
“PSIQUE” “ESPÍRITO” Doi End a de pensar pelo naturalismo do final do século 19; era, na
A | destino liberdade = época, uma tendência comum aos nossos círculos culturais
——— pandeterminismo o sentimento de andar-se à deriva. Na segunda metade do
B | susceptibilidade integridade psicologismo século 19 tiveram lugar muitas descobertas que fizeram nas-
C |orientação ao orientação ao reducioni cer esse sentimento de dependência e abandono. Antes de
prazer sentido Rar tudo, os progressos da astronomia, que pela primeira vez
D | caráter personalidade Coloaans trouxeram a consciência da infinitude do universo cósmico,
onde a terra parece um grão de areia sem importância.
Apoiavam a nova imagem do mundo os conhecimentos so-
bre relações de classes sociais e de estruturas sociais tão
engrenadas que o indivíduo passava a assemelhar-se a uma
minúscula roda dentada numa irresistível maquinaria. No
século 20 o sentimento de andar-se à desgarrada foi novamen-
te estimulado pelo rápido desenvolvimento da técnica, quan-
do tiveram origem modelos robotizados com os quais o ho-
mem se identificou. Compreendia-se o homem mais e mais
como “unidade” programada, como alguém que, desde a
infância — ou mesmo desde a vida no corpo materno —
reagia sucessivamente, à maneira do autômato, aos influ:
xos armazenados.
Podem ser considerados como movimento de oposição
a este auto-retrato os filósofos existencialistas (Kierkegaard,
Scheler, Heidegger, Jaspers, Sartre, Marcel), os quais na
verdade se dividiram em dois campos — os. mais afirmati-
vos da vida e os mais negativos da vida. Todos eles porém

35
consideravam o homem não só como um ser
“lançado à mo se tem causas que possam ter sido fruto de escolha. Mas
vida”, mas como um ser que, depois de “lança
do à vida” como o “ter ansiedade” não é produto de escolha, no mo-
tem de encontrar por si próprio a sua verdadeira
entidade, mento de sua aparição é destino. Em contrapartida Dia
assim reconquistando o princípio de ação. terceira dimensão, na esfera do espiritual, a decisão sobre
A logoterapia
tem suas raízes originárias nessa filosofia da como se reagir à ansiedade — se levá-la a sério, se ed
existência, es-
pecialmente em sua forma afirmativa da vida . por cima, se fugir dela, se a ela resistir. Havendo aí possi

Por influência lidade de escolha, há por conseguinte liberdade.


dos filósofos existencialistas na logotera-
pia, chegou-se a uma retomada de consciência Notamos: não se é livre de ansiedade, mas de permane-
do elemento
liberdade espiritual do homem, não certamente de uma cer livre apesar da ansiedade.
li-
berdade imune de quaisquer influxos, mas da liberdade
para
tomar posição por parte sua, em face de todos 2) Exemplo da “injância infeliz”
os influxos,
para afirmá-los ou negá-los, para segui-los ou rejeitá-los.
Quem teve uma infância infeliz não está livre a E
consegiiências, mas é livre de tomar certas Ainda
Nós não negamos de modo algum a vida instinti- cemos pais que dizem: “Eu levei pancadas, por a E
va, o mundo das pulsões no homem. E assim como fazer outra coisa, quando estou com Tava, senao DO
não negamos o mundo exterior, tão pouco negamos cada...”, e de outros pais, que dizem: Como eu ap ae
o mundo interior... O que acentuamos é o fato de em criança, gostaria que os meus filhos vende me :
que o homem, como ser espiritual, não somente se Por isso, não vou educá-los com pancadas...
encontra em oposição ao mundo — o mundo cir-.
cunstante como o mundo interno — mas toma po- A educação é sem dúvida nenhuma um importante fa-
sição em face dele, e que sempre vode de algum mo- tor de influência, mas ela não é tudo. A partir de certo es
de amadurecimento há para cada homem liberdade a
do “adaptar-se” ao mundo, pode de algum modo
“comportar-se”; e que justamente car-se a si mesmo, e esta auto-educação já não depen: e Ro
este comportar- e-
-Se é algo livre. Tanto em face do mundo natural e do “querer de seus pais” quanto pelo contrário de Sua
ve-ser que ele experimenta como seu próprio. CF'r
do ambiente social (meio exterior) como em face
do mundo interior vital psicofísico (ambiente inte-
rior), o homem toma a cada momento a posição 3) Exemplo de “ações instintivas”
de
sua existência. (Frankl, 9) a
O animal não pode agir contra os seus instintos.
do por exemplo está com fome e avista al nto de a
Em que importa, concretamente, quer parte, ele é impelido a atirar-se para devorá- o. E
esse conceito de liber-
dade? Vamos examiná-lo com mem, ao contrário, pode estar com fome (destino) no Ea
três exemplos,
tanto pode oferecer a um companheiro o último pedaço
1) Exemplo da “ansiedade” pão que possui (liberdade).

A ansiedade (na medida em que, Assim o homem mostra-se como aquele ser que no
agora, não se trata
daquela inquietação existencial por uma vida a realizar, com de em liberdade por suas condições de destino, e, fazen E
sentido), angústia, medo, é um sentimento desagradável, por- ainda tem de ser responsável por suas respostas. a vi so
tanto algo psíquico, que pertence à segunda dimensão
do não-determinista da logoterapia acarreta, aceitação A A
homem. (Que o sistema vegetativo, portanto ponsabilidade e esta acarreta, em cadeia lógica, culpa
a primeira di-
mensão, é fortemente ligado com ela, não será aqui levado dade.
em conta.) Tudo que acontece nesta segunda dimensão está
fora de escolha no momento exato do seu acontecer — mes-

36 37
Destino Liberdade
(passado; condições biológicas,
(dentro da 3º dimensão: mente o comportamento de uma pessoa. Segundo Franki, o
psicológicas e sociais; dentro da atos da vontade e atitudes internas,
2º dimensão: instintos, impulsos, tomadas de posição em face do homem não é vítima, mas ao contrário co-plasmador do seu
disposições) destino. Infelizmente a “ideologia da vítima” está muito es-
passado, em face de condições
biológicas, psicológicas e sociais) palhada na psicologia, isto é, a tendência, no homem, para
Ce ms? a absolvição da culpa através da declaração de dependência.
num dado momento não existe Levianamente afirma-se, por exemplo, que um assassino ti
num dado momento existem nha que matar em razão de um sentimento de ódio reprimi-
nenhuma possibilidade de escolha possibilidades de escolha do longamente, e que ele próprio seria uma vítima do seu

I
não há responsabilidade
I sentimento, ou seja, daquelas circunstâncias que provoca-
ram o seu sentimento de ódio.* A logoterapia tem certeza
de que, através de tais interpretações, o homem é degradado
há responsabilidade
a um ser bidimensional (o que, talvez, seja a mais dura

não cabe nenhuma escolha


I
pode caber uma escolha "errada"
“condenação” de um assassino!), pois, na
pessoa em questão toma, a nível do espiritual,
a apenas
posição
te do destino e também diante de si mesmo e de seus sen-
dian-
a

| |
timentos de ódio.
Somente onde se crê ter de agir com um ser impelido
por condições internas e circunstâncias externas, controla-
inculpabilidade* possibilidade de culpa
do por forças inconscientes, patologizado por aa
Onde existem possibilidades de escolha, deve-se tam- desti
sados, numa palavra, com uma vitima entregue ao seu
bém responder pela escolha feita, e pode também acontecer aí é que tal ser será absolvido de toda culpa
no — somente
que seja feita uma escolha não correta, ou “errada”. Embo- mas ao preço de uma interdição espiritual.
e de todo erro;
ra conceitos como “correto” ou “errado”, “bom” ou “mau”, é considerado um boneco sem
É o caso em que o homem
na maioria das vezes, sejam evidentes ao senso ético, eles
vontade, um “homo”-autômato, outro produto de heredita-
são geralmente difíceis de definir. Por isso, na logoterapia
riedade e meio, inevitavelmente submetido a suas condições.
são substituídos pelos conceitos “mais ou menos significa-
Precisamente esta afirmação está na base do pandeterminis-
tivos” (= com sentido), a saber, por referência a um senti- a
mo, que cometeu o erro de não deixar nada escapar a
do concreto. Culpa seria, por exemplo, definida como “es- interpretação determinista (11). De fato, porém, sempre tica
colha contra o sentido”. aberta uma pequena margem de espaço pessoal de realiza-
ção da vida humana, que não está comprometido. O peque-
A humanidade chegou a um máximo de consciên-
no saldo de não-predictividade, de indeterminação, do ho-
cia — de saber, de ciência — e a um máximo de res- mem, pode ser demonstrado cientificamente tão bem quanto
ponsabilidade; mas ao mesmo tempo chegou a um influenciam o destino humano.
as relações que
mínimo da consciência de responsabilidade. O ho-
mem de hoje sabe muito — mais do que nunca — A logoterapia torceu a velha posição determinista do pro-
e é também responsável por muita coisa — muito blema que faz o homem ser determinado, e perguntou, sem
mais do que nunca; mas o que ele sabe menos do
que nunca é ser responsável. (Frankl, 10) * Esta crítica não se refere, evidentemente, a casos em que ea
te incapacidade de culpa por causa de uma psicose, delete, o
A logoterapia só limitadamente admite desculpas psi- sim, a casos como o seguinte exemplo típico: Um sueco de ato
cológicas. Em sua foi absolvido em razão de um grave complexo de mãe, como io e
opinião um destino nunca explica total- A e
após ter estrangulado a mulher e esfaqueado os dois filhos.
tiça mandou-o para uma instituição psiquiátrica de onde su
* Como, em face do nosso passado, não temos escolha para mo- depois de poucos meses. Foi buscar 0 dinheiro do seguro de na
dificá-lo, não podemos ser culpados dele, o que nada diz sobre se de sua mulher e levou uma bela vida com a amiga por cujo motiv'
nele nos tornamos culpados, isto é, no tempo em que tinhamos pos- esposa e filhos o estorvavam...
Sibilidades de escolha!
39
precedentes, de onde vem aquele não-eliminável saldo de in-
determinação que resta ao homem, na doença como na ne-
cessidade?... Ora, ele vem do espiritual no homem! Á
Finalmente, graças à sua dimensão noética, o homem
poderá resistir ao seu destino, tomar distância de suas con-
dições internas, fazer oposição às suas circunstâncias exter- CONSCIÊNCIA, “ÓRGÃO DE SENTIDO”
nas e colocar-se em condições segundo o modo de sua esco-
lha. Em nível psíquico esta liberdade não é realmente dada:
ninguém pode escolher o seu estado geral de saúde. Ansieda-
des, agressões, sentimentos impulsivos não são passíveis de
rejeição. Não podemos anular os condicionamentos, nem
recusar os costumes sociais; não se suprimem os limites ao
talento, não, pelo menos, a um dado momento. Quem reduz
o espiritual ao psíquico, como faz q pandeterminismo, priva
o homem de sua auto-responsabilidade e o entrega ao seu no
Tomamos conhecimento do antagonismo
destino. o e liber E
apoiando-nos até agora na dialé tica de destin
Que representa isso tudo para a psicoterapia homem , como e E
prática? Assim, o “condicionalismo” psíquico do
Inteiramente simples: se admitimos a liberdade espiritual, (= de destino), defronta-se com o o
mento fatalístico
nto livre. Na
mesmo no enfermo psíquico, também devemos respeitá-la. dicionalismo” espiritual do homem, seu eleme
Quer dizer: o paciente compartilha — contanto que sua di- ou dos eleme ntos de destin o, conta m-se
esfera do fatalístico,
conscientes e e
mensão espiritual seja disponível — a responsabilidade de o campo emocional, movimentos internos
sua cura, e ele tem também a liberdade de destruir-se a si dizag em, e todos e sos É
conscientes, experiências de apren
próprio. E muito difícil para o médico ou o terapeuta ocu- ade, por outro lado, EE Aee a
mes; na esfera da liberd
par-se disso, e evidentemente eles tentarão tudo para ajudar, es e postu ras intern as, OS atos de aa e
campo das atitud
mas afinal de contas a cura não é algo “factivel” (que se as aspirações. Acham-se em contraste o que é p
e todas
faz), ela pode apenas ser estimulada, e depende das forças psíquica e o que é por escolha espiritual,
imposição
de cura, internas, do corpo e da psique, e da disposição do Ra E
espírito à saúde, De uma liberdade bem definida (liberdade para iÉ
de algo!) deriv ávamo s ainda a aa
não imunidade de co
Por isso, diz uma das regras gerais básicas do procedi- dade e a capacidade de culpa do homem. Mas a cadeia
mento logoterapêutico: segiiências lógicas ainda não está no fim.
de escolha,
Deve-se oferecer ajuda, Como a liberdade pressupõe possibilidades
o), ou não, no
mas não se deve tirar a responsabilidade! assim uma escolha significativa (com sentid a
vo ou pd
supõe o conhecimento de algo “significati
este coni a
Infelizmente diz-se, muitas vezes, que na psicoterapia ao tivo” (com ou sem sentido) e para atingir
“órgã o” especi al no organismo
contrário não se oferece auxílio nenhum (talvez porque o to há necessidade de um
terapeuta queira permanecer não-diretivo, ou recolher-se, mano, a saber, a consciência (moral).
por assim dizer, atrás de uma parede impenetrável), en-.
sentido, e
quanto, por outro lado, retira-se toda responsabilidade ao Não apenas se deve mas se pode achar
paciente, atribuindo todos os seus distúrbios a alguns con- condu z o home m em sua busca. aiii
a consciência
flitos internos ou externos, e isto o define como sua vítima a, a consc iênci a é um órgão de sentid o. Po E
palavr
impotente. A logoterapia oferece, sim, ajuda concreta, mas como capacidade de rastrear o e i-
ser definida
a responsabilidade permanece com o paciente, e singular, que está oculto em cada situa-
do, único
ção. CFrankl, 12)

40
41
precedentes, de onde vem aquele não-eliminável saldo de in-
determinação que resta ao homem, na doença como na ne-
cessidade?,.. Ora, ele vem do espiritual no homem! ha
Finalmente, graças à sua dimensão noética, o homem
poderá resistir ao seu destino, tomar distância de suas con-
dições internas, fazer oposição às suas circunstâncias exter- CONSCIÊNCIA, “ÓRGÃO DE SENTIDO”
nas e colocar-se em condições segundo o modo de sua esco-
lha. Em nível psíquico esta liberdade não é realmente dada:
ninguém pode escolher o seu estado geral de saúde. Ansieda-
des, agressões, sentimentos impulsivos não são passíveis de
rejeição. Não podemos anular os condicionamentos, nem
recusar os costumes sociais; não se suprimem os limites ao
talento, não, pelo menos, a um dado momento. Quem reduz
o espiritual ao psíquico, como faz o pandeterminismo, priva
o homem de sua auto-responsabilidade e o entrega ao seu do antagonismo noopsíquico
Tomamos conhecimento
destino. destino e ue
apoiando-nos até agora na dialética de
do homem, como ele-
Que representa isso tudo para a psicoterapia prática? Assim, o “condicionalismo” psíquico
Inteiramente simples: se admitimos a liberdade espiritual, no), defro nta-s e com o “incon-
mento fatalístico (= de desti
mesmo no enfermo psíquico, também devemos respeitá-la. do home m, seu eleme nto livre. Na
dicionalismo” espiritual
de destino, contam-se
Quer dizer: o paciente compartilha — contanto que sua di- esfera do fatalístico, ou dos elementos
nos conscientes e e
mensão espiritual seja disponível — a responsabilidade de o campo emocional, movimentos inter
sua cura, e ele tem também a liberdade de destruir-se a si apre ndiz agem , e todos os costu-
conscientes, experiências de E
próprio. E muito difícil para ó médico ou o terapeuta ocu- dade, por outro lado, a ap
mes; na esfera da liber
os atos de vonta
par-se disso, e evidentemente eles tentarão tudo para ajudar, campo das atitudes e posturas internas, é por
mas afinal de contas a cura não é algo “factível” (que se Acham-se em contraste o que
e todas as aspirações.
faz), ela pode apenas ser estimulada, e depende das forças psíquica e o que é por escolha espiritual.
imposição
de cura, internas, do corpo e da psique, e da disposição do rdade para algo, e
De uma liberdade bem definida (libe
espírito à saúde. ainda a responsabili-
não imunidade de algo!) derivávamos
Por isso, diz uma das regras gerais hásicas do procedi-, dade e a capacidadede culpa do homem. Mas a cadeia de con-
mento logoterapêutico: segiiências lógicas ainda não está no fim.
de escolha,
Deve-se oferecer ajuda, Como a liberdade pressupõe possibilidades q
o), ou não,
mas não se deve tirar a responsabilidade! assim uma escolha significativa (com sentid não-s ignif ica,
ifica tivo ou
supõe o conhecimento de algo “sign pes
atingir este
Infelizmente diz-se, muitas vezes, que na psicoterapia ao tivo” (com ou sem sentido) e para hu-
contrário não se oferece auxílio nenhum (talvez porque o de um “órgã o” espec ial no organismo
to há necessidade
terapeuta queira permanecer não-diretivo, ou recolher-se, mano, à saber, a consciência (moral).
por assim dizer, atrás de uma parede impenetrável), en-.
achar sentido, e
quanto, por outro lado, retira-se toda responsabilidade ao Não apenas se deve mas se pode
busca. Numa
paciente, atribuindo todos os seus distúrbios a alguns con- a consciência conduz o homem em sua
de senti do. Pode
flitos internos ou externos, e isto o define como sua vítima palavra, à consciência é um órgão
como capacidade de rastrear o senti-
impotente. A logoterapia oferece, sim, ajuda concreta, mas ser definida
que está oculto em cada situa-
a responsabilidade permanece com o paciente. do, único e singular,
ção. (Frankl, 12)
41
40
um terrorista afirmar que para ele tem sentido atirar bom-
bas. Mas tal “sentido para ele” é um mero modo de falar.
que
Ao contrário, trata-se do “sentido em si”, de um sentido
resulta do fato concreto, ou da situação . Atirar bombas para
Liberdade espiritual causar danos a homens inocentes não tem sentido, por mais
que isto convenha aos planos de “alguém”. E possível, na-
dei-
pressupõe turalmente, que o puro juízo, a partir do fato concreto,
xe muitas vezes em aberto a questão, e que ocorram erros.
Errar é humano. Todavia a orientação ao caráter objetivo
possibilidades de escolha do sentido é o melhor critério para decisões de consciência
que nós homens possuímos.
donde se segue Para melhor entendimento do fato de que uma coisa
tão subjetiva como a consciência possa rastrear algo tão
objetivo como o sentido da situação, oferecemos uma com-
a responsabilidade paração com a bússola:
pela escolha feita

donde se segue

- Eai
-N
a possibilidade de culpa
(escolha de algo não-significativo, e (o que objetivamente
ou sem o sentido) Eros tem sentido)
ss Dai

que pressupõe

o
" re m MA s
/ avisos" da consciência

o conhecimento daquilo que é


significativo” e do "não-significativo" (o rastreamento subjetivo)

e que implica
O Norte seria o que objetivamente tem sentido; a bús-
sola, o órgão que corresponde ao sujeito, e a agulha da bús-
a existência do "órgão de sentido"
consciência sola seria o “instrumento de aviso”, consciência. Quer dizer
nu-
que a consciência de dois homens que se encontrassem
ma mesma situação absolut amente igual — o que pratica-
mente não existe — deveria dar o mesmo “aviso”, caso um
O que a consciência descerra para o homem é sempre deles não errasse. Sem dúvida, esta é apenas uma considera-
um sentido Objetivo que conserva e aumenta os valores no ção teórica, porque duas situações de vida nunca são idênti-
no
mundo, e não um sentido subjetivo a serviço da satisfação cas, nem no curso de vida de uma e mesma pessoa, nem
das próprias necessidades. Seria muito perigoso limitar de- de duas ou mais pessoas comparadas entre si. Frankl qualifi-
cou como “único e singular” o sentido a ser sempre encon-
visões de consciência exclusivamente à percepção do que
“manifesta sentido” subjetivamente. Neste caso, poderia trado,

43
14
Abstraindo do fato de que a consciência pode enganar-se pessoa idosa, um cego, aparecem na pista, a consciência
dar marcha. Como vemos, à consciência orienta-se
(a agulha da bússola não apontaria o Norte), todo homem proíbe
tem liberdade, evidentemente, de agir contra sua consciên- para o sentido da situação, o superego, para as leis preseri-
cia (com a bússola à mão, ir para o Sul), pois a liberdade tas e transmitidas.
na dimensão noética é também uma liberdade em face da sugeriu a atraente tese de que
Sobre isso Viktor Frankl
consciência. Provavelmente isso acontece com muito maior na história da humanidade po-
certas rupturas da tradição
fregiiência do que um aviso errado da própria consciência
deriam ser atribuídas à diferença crescente entre o super-
mas a decisão contra a consciência tem também o seu pre-
ego e a consciência pessoal. Ele cita O exemplo da escravi-
ço: o “Norte” fica a uma distância sempre maior! A psico-
terapia ensina que numerosas doenças psíquicas remontam
dão que na antiguidade foi, durante séculos, “amaldiçoada”
nada menos do que a remorsos de consciência — não estar pelo superego, na população, e correspondia a uma norma
aprovada. Entretanto, na consciência pessoal de muitos ho-
em harmonia com a consciência impede o homem de en-
mens permaneceu, subliminar e ativo, o remorso que um
contrar a paz.
dia saturou-se e encontrou sua expressão definitiva da abo-
- Na psicologia a consciência foi por muito tempo cir- lição da escravatura. Partindo desta tese, parece-me lógico
dizer que hoje nos encontramos numa ruptura de tradição
cunscrita ao “superego”, o que, para Viktor Frankl, não
é admissível. O superego representa a quantidade de nor- semelhante, com respeito a uma outra antiquíssima norma
mas e costumes aceitos, a consciência moral transmitida, e do superego: a defesa da pátria. A defesa do território de
origem é enraizada profundamente no homem, suas raízes
que foi “inculcada” às novas gerações pelos pais, mestres e presen-
mergulham no reino animal. Apesar disso, hoje, em
demais modelos. A consciência, ao contrário, é uma “inteli- de nenhum
que nasce do espiritual, e que ça de armas mortais que não esbarram diante
gência pré-moral do valor”,
todo homem traz em si intuitivamente, o seu senso ético, e obstáculo, está em gestação um novo malestar, uma ques-
tão de consciência, que entra em conflito com a norma do
que não pode ser inculcado, nem necessita, porque pertence
Se um criminoso quisesse superego. Na época dos foguetes atômicos, o que é mais sen-
à base existencial do homem.
escusar-se por sua consciência não ser suficientemente de- sato, deixar a pátria indefesa, ou armá-la cada vez mais?...
senvolvida, se deveria com lógica contestar-lhe que, se o seu Na psicoterapia, em todo caso, conhece-se claramente a
superego podia estar mal desenvolvido, sua consciência po- problemática do superego, e esta distingue-se inteiramente
rém “fala” como a de todos os outros homens. * das autênticas questões de consciência. Um paciente que se
Em geral o superego corresponde à consciência. Um atormenta com o que “as pessoas” pensam dele ou dizem
dele está espreitando o seu superego. Alguém que no pro-
roubo, por exemplo, infringe a moral e é rejeitado pela cons- está em
cesso de decisão luta pelo sentido do fato concreto
ciência de uma pessoa. Mas pode haver situações em que a
consciência até aprova um roubo como algo que “tem senti- diálogo com a sua consciência.
do”, por exemplo, para salvar da fome os próprios filhos.
Se se quiser de novo recorrer a uma comparação, se poderia
dizer que o superego aprendeu as normas do motorista,
parar em sinal vermelho e seguir em sinal verde. Se a rua
a percorrer está totalmente vazia, a consciência pessoal na-
da terá a opor quanto a passar o cruzamento mesmo em si-
nal vermelho. Mas se de repente, mesmo em sinal verde, uma

" Mesmo que num quadro mórbido de histeria se possa suspeitar


de certa “insuficiência do senso ético”, isto não significa que o his-
férico não tenha nenhum senso ético: talvez ele, para distinguir a
vos de qua consciência, se esforce em torno de uma minúcia mais di-
Poll de que para os outros... (cf, também p, 124),
45
m
volveu no recém-nascido. Existe também no homem, enfra-
quecido pela idade ou por lesão cerebral, apenas pressiona-
2 da para o fundo por fatores biológicos perturbadores. Exis-
te no esquizofrênico, mesmo que limitada por impedimen-
tos neuroquímicos; e igualmente no. homem dominado pe-
las drogas ou paralisado por influxos artificiais. Somente o
DIALÉTICA DE SUSCEPTIBILIDADE fato de que existe dimensão espiritual em cada caso, pelo
vs. INTEGRIDADE menos potencialmente, garante a dignidade intocável de ca-
da homem.
Deve-se naturalmente admitir que o específico humano
de um ser vivo ofusca-se perceptivelmente com a falta con-
creta, progressiva, do espiritual. Assim, uma criança peque-
na, um homem totalmente embriagado ou um débil mental
a custo se distinguem de um animal mais desenvolvido,
porque a liberdade espiritual, a capacidade humana de de-
cisão e a responsabilidade lhe foram drasticamente redu-
zidas. Entretanto, uma diferença naquela potencialidade,
Viktor Frankl parte do ponto de vista de que podem que não se perde, continua na existência de uma dimensão
adoecer as dimensões somática e psíquica do homem, mas que se estende ao outro lado da saúde e da doença (ou da
não a dimensão noética. Em suas obras ele não fala em doen- inteligência e da falta de inteligência), mesmo que, tempo-
cas mentais do “espírito” (= “Geist”) quando menciona psi- rária ou permanentemente, não possa ter expressão através
coses. Para ele, psicoses são enfermidades psíquicas prima- das outras dimensões do ser.
riamente somatogênicas; hoje esta idéia, depois dos inter-
Tiram-se daí conclusões exatas para verificar indicação
mináveis debates entre os especialistas, nos últimos decê-
e contra-indicação de tratamento logoterapêutico. Onde a di-
nios, foi-se confirmando progressivamente. Assim, cabe tam-
mensão noética de um homem estiver completamente blo-
bém ao psicótico uma dimensão espiritual integra, ainda que
queada, aí não há mais possibilidade alguma de auxílio
parcialmente ou temporariamente não lhe seja disponivel,
por estar bloqueada e recoberta de processos mórbidos psi-
logoterapêutico. (Mas onde falha a liberdade espiritual, todo
o ser do homem está em questão, então podemos dizer: os
cofísicos.
pré-requisitos para um tratamento logoterapêutico só se
distinguem dos pressupostos de uma existência verdadeira-
Quem conhece porém a dignidade, a incondiciona- mente humana através do pedido de ajuda do cliente e da
da dignidade de cada pessoa individual, tem respei- competência do aconselhador.) Em toda parte aliás pode
to incondicional pela pessoa humana — e também haver trabalho logoterapêutico, portanto também, dentro de
pelo homem enfermo, pelo doente incurável e, ainda, certos limites, com crianças, com menores, e mesmo com
velo doente mental incurável. Na verdade não exis- pessoas senis, retardados mentais e psicóticos, conforme a
tem doenças “do espirito”. O “espírito”, a própria franquia de sua liberdade espiritual que, muitas vezes, como
pessoa espiritual, não pode cair doente; ela está, ain- ensina a experiência, é maior do que se supõe.
da, por trás da psicose, quando a custo é “visivel” O quadro a seguir torna claro que há dentro da dimen-
até mesmo ao olhar do psiquiatra. (Frankl, 13)
são psíquica (e o mesmo diga-se também da dimensão
somática) gradações qualitativas. São os muitos mati-
A dimensão espiritual do homem é, portanto, imperdií- zes entre “doente” e “são”, ou entre “anormal” e “normal”.
vel, ela sempre existe, porque representa o que é especifica- Cada um de nós encontra-se, em qualquer tempo e lugar,
mente humano. Está adormecida na criança ainda não de- entre os extremos deste continuum, seja quanto à sua di-
senvolvida, assim como a linguagem que ainda não se desen- mensão psíquica quanto à somática.

46 47
r da
ln gn Integridade co e o espiritual; é o que caracteriza em geral o palpita
humana — o processo de interação entre O susceptível
(2º dimensão: o psíquico (3º dimensão: o espiritual vida
pode adoecer) não pode adoecer) e o integro.
Err reg a CT sr Consideremos o que acontece se se negar que algo pos-
sa ser íntegro embora se afaste da norma, que há verdade
gradação qualitativa disponibilidade quantitativa da doença, e há sofrimento apesar da saúde. Conti-
apesar
entre entre
nuamos com a visão de que o homem aparece como uma

|
doente ... são
|
não disponível
máquina mais ou menos necessitada de conserto, cujos des-
vios em conjunto ou são
são sintomas de doença.
fraquezas funcionais da norma ou
Quem não funciona como de cos-
anormal ... normal (bloqueado) ... disponível tume ou como se espera dele, está doente — esta é uma fór-
a em mui-
mula muito simples, que infelizmente está ocultad
|
se gravemente doente,
|
se não disponível, ou
tas hipótes es psicoló gicas. Assim, um
versa com o seu terapeuta não está exatam
pacient e
ente
ente
que em con-
entusia
que
sta,
procu-
tem “resistência contra ele”; ou um descont
ou anormal completamente bloqueado ”; ou um
ra saber o sentido de sua vida, tem “autoagressões

| | | artista que luta pelo aperfeiçoamento completo de um


jeto criador, tem “complexos de inferioridade”
todas
.
as
Chegam
realiza
pro-
os
ções
nenhuma contra-indicação contra-indicação ao ponto de uma discriminação geral de
ões hu-
para a logoterapia para a logoterapia espirituais, um hiperdiagnóstico de todas as express
no homem algo além da saú-
Dentro da dimensão espiritual, ao contrário, estão em manas que não admite haver
não
jogo disponibilidades quantitativas entre os extremos — de e da doença, suscitando discussões de conteúdo que
etadas simplesmente como produt os de
“nlenamente disponível” /“inteiramente bloqueado”. Mas en- podem ser interpr
origem, cO-
quanto no terreno psíquico (e mesmo somático) uma grave “história psicológica ou psicopatológica desde a

E
mo o psicologismo e o patologismo, afim a este, que culti-
enfermidade, ou anormalidade, não é de modo algum con-
tra-indicação para o procedimento logoterapéutico, já a per- vam esta tendência, gostariam que fossem.
da da disponibilidade da dimensão espiritual significa de

name
fato uma contra-indicação a ser levada a sério, a única con- nada mais vê do que
Em toda parte o psicologismo
tra-indicação para a logoterapia aplicada. Essa exclusão delas não quer admitir outra
máscaras; por trás
completa da dimensão espiritual — ainda que não de sua neuróticos. Tudo lhe aparece
DD coisa que motivos
potencialidade! — existe na idade infantil, bem como em inautêntico, impróp rio. Arte, como quer fazer crer,
casos de perda de consciência, graves lesões orgânicas do não seria “afinal nada mais do que” fuga diante da
cérebro, perda completa da realidade, diminuição crônica vida ou do amor; religião, nada além de medo do
da personalidade, e semelhantes, homem primitivo às forças cósmicas. Os grandes
Assim, deixamos de lado o que se subtrai à influência criadores espirituais são, então, rejeitados como neu-
logoterapêutica. Mas perguntamos, em contrapartida, qual róticos ou psicopatas. Aliviando q respiração, po-
o campo em que a semente da logoterapia pode cair mais de-se finalmente admitir, de acordo com esse “des-
produtiva. Representam indicação para o procedimento lo- mascaramento”, através de um psicologismo “des-
goterapêutico todos os problemas e todos os distúrbios so- mascarador” que, por ex. Goethe “propriamente”
máticos e psíquicos que têm ressonância no espiritual, e to- era um neurótico. Esta orientação do pensamen-
das as frustrações do espírito que fazem eco no psíquico e to não vê o que é próprio, isto é, ela não vê propria-
no psicossomático. Onde a logoterapia entra em ação, aí se mente nada. (Frankl, 14)
trata sempre de um processo de interação entre o psicofísi-
49
48
Se, como foi apresentado, todo pensamento e agir hu-
manos são analisados de acordo com seu valor doença, por
é
outro lado insinuou-se erro do pensamento que consiste
em projetar fenômenos a partir do espaço espiritual para o
plano do psicológico. Com isso nega-se, ao mesmo tempo,
toda a latitude da individualidade humana, pois toda pecu-
liaridade individual é afinal um desvio de norma. Entretan-
DIALÉTICA DE ORIENTAÇÃO AO PRAZER
to, no espiritual, em que seus portadores são a criativida- vs. ORIENTAÇÃO AO SENTIDO
de, a intuição, a autenticidade e a coragem — a individuali-
dade está pronta para escolher, apesar da doença ou mesmo
a partir da doença, uma forma pessoal de organização da
vida. Forma esta que, de sua parte, não é expressão do que
está doente no homem mas do que permanece intacto nele.
No terreno psicofísico, ao contrário, vale realmente a regra
— que cada desvio do normal é “sintomático”, a saber, é
sintomático para sua susceptibilidade à doença.
Assim como o pandeterminismo priva o homem de sua A logoterapia distingue-se das outras orientações de psi-
liberdade e responsabilidade, assim o psicologismo aniquila coterapia mais pelo seu conceito de motivação. Este põe em
todo o espaço para a autenticidade e a individualidade auten- questão toda a “filosofia da felicidade”. Até agora “felici-
ticamente humana. dade” era revestida de termos psicológicos: a satisfação de
necessidades. Mas em consideração da dimensão noética do .
homem, felicidade significa satisfação interior do sentido.
O homem por sua natureza existencial tem por tarefa o en-
contro de um sentido, e por isso está preparado para su-
portar renúncias em vista do encontro do sentido. O bem-
-estar somático ou psíquico exerce um papel subordinado
admirável na busca do sentido, enquanto um fracasso dessa
tarefa não pode ser compensado por nenhum bem-estar psi-
cofísico, por mais bem articulado que seja — e isto é fácil
de observar na prática psicoterapêutica.
Mas como explicar a mudança na interpretação do con-
ceito de felicidade? Para responder a esta pergunta devemos
relacionar o desenvolvimento da ciência da psicologia com
o desenvolvimento econômico dos países industriais em nos-
so século.
A primeira metade deste século — que é o século tam-
bém do nascimento da psicologia — foi ensombrada por
graves períodos de calamidades. Alternaram-se crises econô-
micas, desemprego em massa e guerras mundiais. É com-
preensível que os homens deste tempo desejassem só à li-
bertação das necessidades quotidianas. Eles pensavam ser
felizes simplesmente suprimindo as aflições constantes da
luta pela sobrevivência, com as humilhações, obrigações e
renúncias inerentes.
E oil
Se, como foi apresentado, todo pensamento e agir hu-

6
manos são analisados de acordo com seu valor doença, por
outro lado insinuou-se erro do pensamento que consiste
em projetar fenômenos a partir do espaço espiritual para o
plano do psicológico. Com isso nega-se, ao mesmo tempo,
toda a latitude da individualidade humana, pois toda pecu-
liaridade individual é afinal um desvio de norma. Entretan-
DIALÉTICA DE ORIENTAÇÃO AO PRAZER
to, no espiritual, em que seus portadores são a criativida- vs. ORIENTAÇÃO AO SENTIDO
de, a intuição, a autenticidade e a coragem — a individuali-
dade está pronta para escolher, apesar da doença ou mesmo
a partir da doença, uma forma pessoal de organização da
vida. Forma esta que, de sua parte, não é expressão do que
está doente no homem mas do que permanece intacto nele.
No terreno psicofísico, ao contrário, vale realmente a regra
— que cada desvio do normal é “sintomático”, a saber, é
sintomático para sua susceptibilidade à doença.
Assim como o pandeterminismo priva o homem de sua A logoterapia distingue-se das outras orientações de psi-
liberdade e responsabilidade, assim o psicologismo aniquila coterapia mais pelo seu conceito de motivação. Este põe em
todo o espaço para a autenticidade e a individualidade auten- questão toda a “filosofia da felicidade”. Até agora “felici-
ticamente humana. dade” era revestida de termos psicológicos: a satisfação de
necessidades. Mas em consideração da dimensão noética do .
homem, felicidade significa satisfação interior do sentido.
O homem por sua natureza existencial tem por tarefa o en-
contro de um sentido, e por isso está preparado para su-
portar renúncias em vista do encontro do sentido. O bem-
-estar somático ou psíquico exerce um papel subordinado
admirável na busca do sentido, enquanto um fracasso dessa
tarefa não pode ser compensado por nenhum bem-estar psi-
cofísico, por mais bem articulado que seja — e isto é fácil
de observar na prática psicoterapêutica,
Mas como explicar a mudança na interpretação do con-
ceito de felicidade? Para responder a esta pergunta devemos
relacionar o desenvolvimento da ciência da psicologia com
o desenvolvimento econômico dos países industriais em nos-
so século.
A primeira metade deste século — que é o século tam-
bém do nascimento da psicologia — foi ensombrada por
graves períodos de calamidades. Alternaram-se crises econô-
micas, desemprego em massa e guerras mundiais. É com-
preensível que os homens deste tempo desejassem só a li-
bertação das necessidades quotidianas. Eles pensavam ser
felizes simplesmente suprimindo as aflições constantes da
luta pela sobrevivência, com as humilhações, obrigações e
renúncias inerentes.
50 51
ela tornou-se necessário fazer uma revisão da imagem psico-
Século XX lógica do homem. É que o homem não só deve saber de que
1950 1980 vive: ele deve também saber para que vive, como Viktor
1900
Frankl por primeiro reconheceu. O homem não necessita
Ed somente de meios de vida, mas também de um fim. A tímida
E 5 a
pi
eng pergunta de outrora — “Que faço eu para viver?” — que
Tempos de necessidade sempre punha em movimento os homens em severas épocas
de necessidade, voltou em tempos de bem-estar e soou de
repente não menos tímida: “Vivo eu: para fazer o quê?”
A vida com segurança e com oferta de variado conforto
Tese: j tid transformou-se em evidência, mas o para-quê da vida trouxe
Felicidade= libertação da necessidade ves desmentiga
o legado de novas perguntas inexplicadas. *

Quanto à psicologia, não podendo auxiliar no que se O que parece evidente nesta problemática nada mais é
referia à necessidade externa, ela se concentrou na libertação que o antagonismo noopsíquico entre a segunda e a terceira
da necessidade interna. Seguindo a tendência geral, ela as- dimensões do ser humano, que se exprime cientificamente na
sumiu a tese da “felicidade através da libertação”, e se im- oposição — princípio homeostático e noodinâmica — e que
pôs como meta libertar os homens de inibições e impulsos queremos examinar a seguir.
internos, libertá-los do medo da autoridade e das imposi- O princípio homeostático, que tem sua inteira justifica-
ções de fora para dentro e, quanto possível, também da “má tiva em nível bidimensional do ser, nos diz que os impulsos
consciência”. “É teu dever, finalmente, pensar em ti mes- para ab-reação e as necessidades reclamam sua satisfação
mo!” — eis o primeiro mandamento da bandeira da psicolo-
para que o ser vivo chegue ao equilíbrio interno. O ser vivo,
gia, ensinando os que buscavam seus conselhos. a reivindi-
então, continuará em equilíbrio consigo até que u'a mais re-
car as próprias pretensões, recusar exigências e “viver” O
cente pressão impulsiva o coloque de novo em movimento.
direito de satisfazer necessidades.
A conservação do equilíbrio interno é, assim, a força moti-
Nada a objetar contra isso, e teríamos ainda hoje a cer- vadora primitiva a partir da qual a vida se realiza. Este é um
teza de trilhar o caminho da “felicidade” se na segunda me- princípio de auto-regulação que sem dúvida tem sua vali-
tade do século não se tivesse alterado radicalmente para me- dade no reino animal, mas não é tão simples transferilo ao
lhor a situação econômica nos países industriais. Gradual- homem, e isto se mostrou repetidamente em épocas de gran-

r=:
mente foi-se ampliando o bem-estar, e o homem moderno de acúmulo de necessidades (como até mesmo a época de
libertou-se de quase todas as necessidades tradicionais. Não eme afluência as traz consigo).
sofria fome, sobravam possibilidades de trabalho; desapa-
Por que para o homem, que é também ser espiritual,
reciam quase de todo os governos autoritários, e o lazer,
um equilíbrio dinâmico, corrigido de seu peso tara, signifi-
E

com numerosos divertimentos acessíveis a todos, tinha um


ca algo totalmente diferente de contentamento: significa, ao
crescimento descontrolado. O que a psicologia atual pôde
eliminar da “necessidade interna” foi sobrepujado pelo mi-
lagre econômico que eliminava a “necessidade externa”. Mas | * Certa vez, na Finlândia, onde eu tinha sido convidada a rea-
a esperada “felicidade” não vinha. Em seu lugar houve um lizar cursos de verão na Universidade Turku, ao expor esses pensa-
aumento indescritível de suicidas, de viciados em drogas e mentos fui informada de que o consumo de álcool se tinha elevado
delingiientes, e o conjunto de pessoas neuróticas, fracas- ao sêxtuplo desde a introdução do aquecimento central no país. É que
antes os domingos eram utilizados para colheita de lenha no bos-
sadas, mal-humoradas, profundamente saturadas, em toda
que, e desse modo estavam unificados o passeio da família, o exer-
parte. cício de aptidão, e uma ocupação razoável. Hoje basta apertar um
Hoje a velha tese de que felicidade é idêntica à liberta- botão f a casa está aquecida — mas, que fazer para ocupar o do-
necessidade está há muito tempo desmentida e com mingo
São da
6)

contrário, o vazio, aborrecimento, fastio, desorientação (a Evidentemente esta relação de tensão modifica-se de uma
que mais aspirar, se todas as necessidades estão saciadas?) situação vital para outra, e o mais das vezes o ambicionado
e frustração? Tudo isso há de ser avaliado muito criticamen- deve-ser não é completamente atingível, mas há orientação:
te, do ponto de vista da psico-higiene, porque, como é reco- para o agir humano. Vamos dar um exemplo disso. A situa-
nhecido, também se pode “morrer em gaiola de ouro”, defi- ção do ser de um moço é sua vida de estudante; a situação
nhar por falta de alegria de viver. do deve-ser, o fim por ele concebido de tornar-se um bom
médico, capaz de lutar contra a doença e a morte, no meio
de seus semelhantes. Todo o tempo em que o estudante se
Tanto mais podia cair no peso, quando a psico-hi- vê posto nesta relação de tensão, ele se entregará ao estudo
giene foi até hoje mais ou menos dominada por um
com intensidade e dedicação.
princípio errado, na medida em que se originava da
persuasão de que o homem necessita em primei- Se tentarmos avaliar o exemplo acima não noodinami-
ro lugar de paz interior e equilíbrio; seria a disten- camente mas homeostaticamente, deveremos partir do fato
são a qualguer preço. De reflexões e experiências de que esse jovem estuda para eliminar de si um desequi-
especiais, porém, resultou que o homem muito mais líbrio existente — algo na base de uma consciência forte-
do que de distensão precisa é de tensão: certa ten- mente reduzida — por ex. na esperança de alcançar, um
são, uma tensão sadia, dosada! Aquela tensão, por belo dia, já formado médico, em posição social mais eleva-
ez., que ele experimenta através da exigência de um da, uma autoconsciência melhor, com a qual seu equilíbrio
interno seria restabelecido. Na verdade, é mais do que ques-
sentido da vida, de uma tarefa que valha a pena
realizar; em particular, em se tratando de ser exigi- tionável que com essa interpretação pudéssemos motivá-lo
do um sentido da existência cuja realização é única
a um estudo engajado, porque só para levantar a própria
e exclusivamente reservada a este homem só, solici-
autoconsciência ninguém se debruça o ano inteiro em cima
tada dele, encargo dele. Esta tensão não é, do ponto de grossos livros nem se esforça ao máximo para prestar
exames enervantes.
de vista psíquico, nociva à saúde mas, antes, promo-
ve q saúde psíquica, tanto que ela — a noodinâmi- -* Do princípio da noodinâmica flui também sempre um
ca, como gostaria de chamar — constitui todo o ser valor proveniente do mundo exterior, como por ex. a cria-
do homem; pois, ser homem quer dizer estar em ção de uma obra, a fundação de uma família, a construção
tensão entre ser e deve-ser, irrevogavelmente e sem de um lar, a ocupação de um posto de trabalho, a melhora
regateio. (Frankl, 15) de uma situação política, e semelhantes — portanto um va-
lor ao qual se dirige o deve-ser — enquanto que o princípio
noodinâmica com o da homeóstase tem a haver-se exclusivamente com o pró-
Se confrontamos o princípio da
prio eu. E interessante que ambos colocam no homem um
princípio homeostático, vemos o homem num “arco de ten-
considerando-se ser um estado tipo de aspiração: no plano psíquico, a aspiração ao prazer
são entre ser e deve-ser”:
deve-ser exprime uma modificação por e o equilíbrio de impulsos no “mundo interior”; no plano
presente, enquanto o
espiritual, a aspiração ao sentido e à realização de valores
própria incumbência. O deve-ser portanto não provém de ne-
que seja imposta ao indivíduo, no “mundo exterior”. Segundo a concepção da logoterapia,
nhuma prescrição externa,
no homem são, na verdade, a última instância é a decisão;
mas do conhecimento de um fim com sentido que lhe pare-
a “vontade de sentido” é a sua motivação mais originária,
ca digno de realizar-se. Ele se molda subjetivamente na
consciência como uma tarefa inteiramente concreta que é sua motivação primeira.
exigida de alguém a partir de uma situação em que cada Na noodinâmica, depois que chega a uma superação do
qual se encontra. Quando se quer se pode declarar o ser ego, o homem tem que se apossar da capacidade de superar
Domo algo real e o deve-ser como algo ideal e tender o arco a si mesmo. Viktor Frankl chama esta capacidade — a capa-
noodinâmico, por conseguinte, entre realidade e idealidade. cidade de aqutotranscendência. (16)

" 55
boçou uma imagem do homem absolutamente egocêntrica
que para o homem de hoje, de qualquer modo um tanto in-
clinado ao egocentrismo, não é boa, e que também, neste
Orientação ao prazer Orientação ao sentido
unilateralismo, não está dirigida a um ser vivo essencialmen-
(2º dimensão: aspiração ao prazer (3º dimensão: aspiração à realização te espiritual, que portanto paira acima da natureza física
e à satisfação, aos "reforçadores” 'do sentido e à realização de e da psique.
e ao incentivo; à auto-realização) valores; dedicação a uma tarefa;
interesse pelas outras pessoas) Nada é porém ao mesmo tempo tão trágico e perigoso
quanto o descaminho do reducionismo, o qual, como “sub- |
produto” do velho princípio da homeóstase, leva ad absur-
em razão de um em razão de uma tensão dum todo motivo humano orientado ao sentido, ao tentar
desequilíbrio interno entre ser e deve-ser explicá-lo segundo o princípio do prazer. Ele é o niilismo
em roupagem psicológica.
Princípio homeostático Princípio da noodinâmica

|
estão em jogo exclusivamente
|
estão em jogo valores objetivos
A possibilidade, com base lógica, de negação do sen-
tido encontra-nos na efetiva realidade daquilo que
se chama niilismo. Porque a essência do niilismo
a própria pessoa e seu do mundo exterior
não consiste, como alguns pensam, em negar o ser;
mundo interior o ser — ou, melhor
ele não combate propriamente
| superação do ego dizendo, não o ser do ser, mas o sentido do ser.
E (em força da capacidade O niilismo de modo nenhum afirma que nada há na
egocentrismo de autotranscendência) realidade; ele afirma, ao contrário, que a realida-
de nada mais é do que aquilo a que ela for redu-
zida, ou aquilo de onde for deduzida pelo niilismo
A autotranscendência é considerada na logoterapia em sua respectiva concretização. (Frankl, 17)
(ao contrário da “psicologia humanística” — cf. p. 20
deste livro) como o mais alto grau de desenvolvimento da
existência humana. Ela é a capacidade “especificamen- De acordo com o reducionismo, por ex. o amor dos
te humana” de pensar e de agir acima de si mesmo, na pais nada mais é que a expressão do próprio narcisismo:
“existência para alguma coisa ou para alguém” (Frankl), eles satisfazem nos filhos o seu instinto parental. A amiza-
na dedicação a uma tarefa, ou no interesse pelos outros ho- de entre duas pessoas do mesmo sexo não é outra coisa
mens. Aqui se trata de uma coisa real, de pessoas por elas que uma bem sucedida sublimação das aspirações homos-
mesmas, e não meramente de objetos de satisfação da pró- sexuais de ambas. Assessores de desenvolvimento satisfa-
pria carência. zem com o seu trabalho a ânsia e o prazer de viajar; os
guardas ambientais satisfazem com sua ação um impulso
É bastante digno de nota que nenhuma outra escola de
idéia oculto de prestígio de que estão possuídos. E assim por
psicoterapia antes de Viktor Frankl tenha chegado à diante. Esse modelo de explicação, em sua negação de sen-
de que poderia tratar-se, para o homem, entre outras coi-
Todos os outros tido, só conhece motivos entre obtenção de prazer e evita-
sas, de algo existente fora dele mesmo.
de motivação giram em seu núcleo ção de desprazer; nele é inevitável que se venha a uma gra-
conceitos psicológicos
ve desvalorização de todos os ideais espirituais. Então, so-
em torno do eu, e visam à obtenção do prazer (Psicologia mente os momentos de prazer e os momentos de desprazer
Profunda), à obtenção de “reforçadores” e “unidades de ca- de
é que comandam a inteira vida humana. Mas, em fim
riela” (Psicologia do Comportamento) e finalmente à auto- di-
contas, deles surge a questão: não falta o alvo para onde
penlização (“Psicologia Humanística”). Sobre isto há que
rigir o rumo?
notar, erilicamento, que a psicologia não-logoterapêutica es-
57
“0
O reducionismo infelizmente vigora ainda através de um
sem-número de teorias psicológicas e psicoterapéêuticas, e se
perguntarmos como é possível chegar a tal “redução” da 7
imagem do homem (à redução de uma dimensão global, isto
É, a dimensão do humano), devemos então dar a mesma res-
posta/estereótipo: — através da projeção de fenômenos INTERVALO PARA UM ESTUDO DE CASO
noéticos ao plano subnoético, ou, com outras palavras, atra-
vés da projeção de fenômenos humanos ao plano sub-huma-
no. O reducionismo é um projecionismo e, com maior razão,
um sub-humanismo.
Na esfera espiritual o homem é aberto para o mundo
e orientado para a sua plenitude de valor; se, entretanto,
for projetado erradamente ao plano psicológico, ele repro-
duz para si apenas um sistema fechado de reações psicoló-
gicas, como Frankl demonstrou por meio de sua ontologia de caso foi escolhido para demons-
O presente estudo
dimensional: e então a autotranscendência do homem não é
trar que na prática psicológica é muitas vezes mais impor-
mais visível ao observador. No campo psíquico são de fato
tante impedir neuroses do que curá-las mais tarde. Por isso,
prazer e desprazer, impulso e satisfação do impulso, os
seja permitido, já neste passo, tecer algumas considerações
motores que fazem marchar o ser vivo, e isso dentro de uma
sobre a formação de neuroses, embora em capítulos poste-
hierarquia de necessidades tão complicada quanto leva ao detalhada da teoria da neurose
riores se faça a exposição
ápice da “auto-realização”. Mas a auto-realização ainda não
segundo Frankil.
ultrapassa o ego e fica por isso presa à regulação homeos-
tática do campo psicofísico. Talvez compreendamos ainda Antes de tudo, está fora de questão que as neuroses são
melhor por que a logoterapia tem fronteiras com a “psico- causadas por fatores múltiplos. Certas disposições básicas
logia humanística” e, antes, advoga a causa de uma “psico- encontram-se com influxos problemáticos da educação e do
logia humana”.* Se a satisfação da necessidade de um bem ambiente, pequenos desenvolvimentos falhos mostram con-
muito alto só puder ser explicada num sentido reducionista, segiiências graves e o mais das vezes têm lugar ocorrências
o homem desce (totalmente em sentido reducionista) ao ní- infelizes. Em todos os neuróticos, porém, podem-se obser-
vel do “macaco nu”, perdendo assim sua mais própria ca- var, fundamentalmente, duas características:
racterística — a orientação existencial ao sentido.
a) uma forte propensão à insegurança,
b) pensamentos “enganchados”.

Quanto a propensão à Quanto a pensamentos


insegurança: enganchados:

A dimensão espiritual no neuró- O neurótico não consegue livrar-


tico está ilimitadamente em dis-' -se de seus pensamentos cheios
ponibilidade; a inteligência igual- de dúvidas e devaneio; ele não
mente não é afetada, mas o neu- sabe dar um traço conclusivo em
rótico por assim dizer não con- nada que foi elaborado intelec-
fia em sua mente. Falta-lhe não tualmente. Ele gira mentalmen-
tanto a sanidade quanto a segu- te sempre em torno da mesma
rança por ser são. Ele duvida coisa, por isso faz de um “mos-
de tudo e antes de tudo de si quito um elefante”. Com respei-
* Abraham Maslow, o criador da teoria, da auto-realização, já to a isso, fala-se, em logotera-
mesmo; ele é profundamente in-
andado em anos deu razão a Viktor Frankl e admitiu que uma au- pia, de uma “hiperreflexão” que
lerrenligação só é possível através de uma realização de valor. seguro, até as camadas existen-

5H
59
O reducionismo infelizmente vigora ainda através de um
sem-número de teorias psicológicas e psicoterapêuticas, e se
perguntarmos como é possível chegar a tal “redução” da 7
imagem do homem (à redução de uma dimensão global, isto
é, a dimensão do humano), devemos então dar a mesma res-
posta/estereótipo: — através da projeção de fenômenos INTERVALO PARA UM ESTUDO DE CASO
noéticos ao plano subnoético, ou, com outras palavras, atra-
vés da projeção de fenômenos humanos ao plano sub-huma-
no. O reducionismo é um projecionismo e, com maior razão,
um sub-numanismo.
Na esfera espiritual o homem é aberto para o mundo
e orientado para a sua plenitude de valor; se, entretanto,
for projetado erradamente ao plano psicológico, ele repro-
duz para si apenas um sistema fechado de reações psicoló-
gicas, como Frankl demonstrou por meio de sua ontologia foi escolhido para demons-
O presente estudo de caso
dimensional: e então a autotranscendência do homem não é
trar que na prática psicológica é muitas vezes mais IMpor-
mais visível ao observador. No campo psíquico são de fato
tante impedir neuroses do que curá-las mais tarde. Por isso,
prazer e desprazer, impulso e satisfação do impulso, os
seja permitido, já neste passo, tecer algumas considerações
motores que fazem marchar o ser vivo, e isso dentro de uma
sobre a formação de neuroses, embora em capítulos poste-
hierarquia de necessidades tão complicada quanto leva ao detalhada da teoria da neurose
riores se faça a exposição
ápice da “auto-realização”. Mas a auto-realização ainda não
segundo Frankil.
ultrapassa o ego e fica por isso presa à regulação homeos-
tática do campo psicofísico. Talvez compreendamos ainda Antes de tudo, está fora de questão que as neuroses são
melhor por que a logoterapia tem fronteiras com a “psico- causadas por fatores múltiplos. Certas disposições básicas
logia humanística” e, antes, advoga a causa de uma “psico- encontram-se com influxos problemáticos da educação e do
logia humana”. * Se a satisfação da necessidade de um bem ambiente, pequenos desenvolvimentos falhos mostram con-
muito alto só puder ser explicada num sentido reducionista, seguências graves e o mais das vezes têm lugar ocorrências
o homem desce (totalmente em sentido reducionista) ao ní- infelizes. Em todos os neuróticos, porém, podem-se obser-
vel do “macaco nu”, perdendo assim sua mais própria ca- var, fundamentalmente, duas características:
racterística — a orientação existencial ao sentido.
a) uma forte propensão à insegurança;
b) pensamentos “enganchados”.

Quanto a propensão à Quanto a pensamentos


insegurança: enganchados:

A dimensão espiritual no neuró- O neurótico não consegue livrar-


tico estã ilimitadamente em dis-: -se de seus pensamentos cheios
ponibilidade; a inteligência igual- de dúvidas e devaneio; ele não
mente não é afetada, mas o neu- sabe dar um traço conclusivo em
rótico por assim dizer não con- nada que foi elaborado intelec-
fia em sua mente. Falta-lhe não tualmente. Ele gira mentalmen-
tanto a sanidade quanto a segu- te sempre em torno da mesma
rança por ser são. Ele duvida coisa, por isso faz de um “mos-
de tudo e antes de tudo de si quito um elefante”. Com respei-
* Abraham Maslow, o criador da teoria da auto-realização, já to a isso, fala-se, em logotera-
andado em anos deu razão a Viktor Frankl e admitiu que uma au- mesmo; ele é profundamente in-
seguro, até as camadas existen- pia, de uma “hiperreflexão” que
to-realização só é possível através de uma realização de valor.

58 as,
ciais, Por isso desconfia de si agrava cada crise ocorrente e to- -se fazer compreender sua saúde e não sua doença, porque
(“isto eu não posso”) e ao mes- da doença. a dúvida sobre sua saúde é certamente sua doença! (No psi-
mo tempo confia mal (“eu faço Este fato de se “ficar colado”
tudo errado”). Ele tem conhe- mentalmente tem com grande cótico dá-se o contrário: a este deve-se fazer entender sua
cimento da irracionalidade de probabilidade correlatos fisioló- doença, para que ele possa aprender a viver com ela...)
seus sentimentos, e apesar disso gicos. Em mensurações muito
deixa-se induzir a ceder a eles e finas de determinados potenciais, Por isso, em caso de depressões neuróticas que estão a
levá-los a sério. O neurótico es- provocados no sistema nervoso caminho propõe-se um aumento de cautela da parte do te-
tá sempre em fuga de qualquer central, é visível um modelo di- rapeuta. Toda superdose de terapia produz automaticamen-
coisa. mas este “qualquer col- ferente em sujeitos diferentes.
Em muitas pessoas a excitação
te um reforço da insegurança existencial (“eu preciso de
sa” sempre o alcança.
Por isso ele tem imenso desgos- após estimulação de isolados gru- ajuda, eu não consigo arranjar-me sozinho”) e um reforço
to consigo mesmo — até o ódio pos de células extingue-se mais da circulação mental em redor dos problemas na pessoa do
de si próprio, e este o torna de lentamente do que em outras. consulente — as conversas “orientadas ao problema” iriam
novo tanto mais inseguro. Quer precisamente bater no assunto doença. Por isso, é melhor
dizer: o neurótico mantém-se a si nesta fase encorajá-lo a confiar em si, a fim de conjurar o
mesmo doente! Ele se manobra
sempre num “círculo vicioso” do perigo da neurose.
pal pano e
qual não consegue escapar. Sobre
isso escreve Viktor Frankl:; “O I t l 4 Vejamos agora o exemplo-caso.
neurótico torna-se inseguro por Estímulo Estímulo
Um casal jovem procura um consultório de psicologia.
qualquer razão psicofísica, preci-
sa apoiar-se no espiritual de um Naqueles que têm extinção mais A mulher está grávida e foi mandada pelo médico de famí-
modo todo particular”, (18) lenta pode-se chegar facilmente lia a fazer exercícios de distensão. Durante o tempo em que
a uma “tensão de duração” se ela vai regularmente ao exercício o marido marca uma en-
os estímulos se sucedem uns aos
outros a breves intervalos. Es- trevista a sós com o psicólogo. O psicólogo, que aceita o en-
ta é uma das possíveis bases fi- cargo, é um logoterapeuta. A conversa toma o seguinte curso:
siológicas da neurose, Mas tam-
bém o neuro-vegetativo é mui-
tas vezes “mais excitável” nessas Paciente
pessoas do que em outras.
O marido está muito embaraçado e não entra no
assunto. Faz uma “conversação superficial”.
Propensão psicológica Propensão Jisiológica
de direção de direção
Logoterapeuta
Insegurança, ansiedade, pouca Tensão, excitação, crispação, Tea-
autoconsciência, aumento da ex- ção duradoura à estimulação, Desde o início pode-se observar insegurança no consu-
citabilidade. sensibilidade. lente. Não será diagnosticada uma neurose, mas registra-se
simplesmente o fato de uma “inibição inicial”. Como reage
a isso o logoterapeuta? Não é do seu feitio espremer alguma
Em resumo, podemos dizer: Sempre que está presente coisa de seus pacientes. Ele não se julga nem como um in-
num homem uma forte propensão à insegurança, associada divíduo que “tudo sabe” nem como alguém que “deve sa-
com uma tendência dos pensamentos a ficarem “engancha- ber tudo”. Por isso diz simplesmente: “Conte só o que você
dos” (ou à “hiperreflexão”), existe aí um perigo de neurose. gostaria de contar”.
Existem métodos logoterapêuticos para atenuar a am- (Este convite o mais das vezes tem um efeito paradoxal:
bos, entretanto, no início deve-se sempre instalar a “arma” a “freada” abre a “represa” e o consulente começa a desa-
psicoterapêutica mais fraca. Por que esta cautela? Atente- bafar. A frase, contudo, não é aproveitada em seu efeito
mos: a identificação de um homem inseguro consigo mesmo paradoxal mas reproduz o que o logoterapeuta honestamen-
como paciente necessitado de terapia deixa-o com maior ra- te tem a dizer. A responsabilidade pelo tema da conversa
são flonr neurótico! Ao homem em perigo de neurose deve- fica nas mãos do consulente.)

su 61
Paciente
Paciente

O marido conta que sofre uma dor no disco interverte- O marido diz que sim, Vai receber massagens especiais
bral e, nesse contexto, fala de diversas dores dorsais. e tratamento de ginástica para doentes. Depois faz-se uma
pausa.
Logoterapeuta Logoterapeuta
Evidentemente a dor nas costas tem algo a ver com a A “deixa” escapou, mas é preciso ficar atento. Com cal-
problemática em tela, embora sua discussão seja, para o psi- ma o consulente decide-se a revelar o seu problema.
cólogo, uma inadequada abertura de conversação, porque ele
é incompetente nesses casos de dor no disco intervertebral.
Sugere-se aqui a circulação mental em torno de uma coisa Paciente
que não deve estar ainda no ponto central da atenção (o se- O marido conta, encabulado, que durante o exercício de
gundo argumento sobre uma possível disposição neuróti- ginástica para doentes, teve excitação sexual diante das mu-
ca!). Com se reage a isso? Na melhor hipótese, escutando-se lheres que cuidam dele e ficou crispado e tenso. São pala-
em silêncio e dando-se ao consulente oportunidade para che- vras suas: “Eu não sou assim, eu não quero isso. Não me
gar indiretamente ao que é essencial. entendo mais. Amo minha mulher e não tenho intenção ne-
nhuma com outras mulheres. Será que estou sendo levado
inconscientemente para uma aventura? Isto me aflige e me
Paciente
pesa, e é para mim tremendamente desagradável”. Ao final,
O marido estende sua exposição sobre dor na coluna a ele menciona que está considerando a fuga dessa situação.
conteúdos médicos gerais. Ele está muito bem informado, “Com o maior prazer eu gostaria de interromper o trata-
ao que parece, e está perfeitamente a par de certas correla- mento, mas não sei como explicar isso ao meu médico e à
ções, como “guiar carro e curva da coluna vertebral” etc. minha mulher.”

Logoterapeuta
Surge mais um indício da insegurança do consulente:
o esforço para combater sua insegurança interna mediante
informações de fonte médica (e certamente também as psi-
cológicas). Esta tendência é fregiientemente encontrada em
neuróticos inteligentes, que leram uma quantidade de lite-
ratura, psicológica especializada, sem contudo poder nem mi-
nimamente ajudar a si próprios. Na verdade, não queremos
ser vítima do psicologismo e afirmar que todo aperfeiçoa-
mento médico-psicológico no fundo não seria outra coisa
que expressão da própria insegurança daquele que procura
um progresso. Pode perfeitamente haver aí, ou resultar dis-
so, um genuíno interesse no terreno da informação.
Em cada caso, a esse ponto do colóquio terapêutico
anuncia-se uma interrupção das prolixidades dos consulen-
tes. E conduzida de forma consequente com a pergunta: “Vo-
cê pode tomar alguma iniciativa contra suas dores nos dis-
cos vertobrais?”

62 63
co, e isto por boas razões. Em nosso caso-exemplo há tam-

ô
bém interações muito estreitas entre essas duas dimensões
no paciente: a ansiedade de expectativa (22 dimensão) pro-
duz diretamente o que se temia (na 1.º dimensão) e a entra-
da da coisa temida (1.2 dimensão) reforça logicamente a an-
siedade de expectativa (na 2º dimensão).
INTERPRETAÇÃO BIDIMENSIONAL E
TRIDIMENSIONAL DO CASO SOBREDITO
Perguntemos ainda, nos limites da imagem logoterapêu-
tica do homem: o que é dado fatal, por destino (como sem-
pre poderá ter origem) na situação atual do consulente?
Certamente a sobreexcitação psicofísica, a saber, no psíquico
a ansiedade e no físico o abaixamento do limiar de estímulo
sexual, E o que é livre? Certamente a atitude do homem con-
sigo, com sua mulher, com o amor simplesmente, e com
o problema de sua hipersensibilidade sexual. Uma rápida
vista ao quadro da p. 38 ensina que ele não é responsável
nem pelas erecções involuntariamente havidas nem pela an-
sua au siedade em face delas, mas sim por sua resposta espiritual
Relembremos a ontologia dimensional com
da p. 29. O que se oferec e, dec a essas coisas,
matização geométrica v ?
olhar do obser
três dimensões do ser do consulente, ao
Logoterapeuta
-se: baixo e
Na dimensão somática do marido acham
event ualme nte pode ser diminui e
miar de estímulo (que Nada mais é preciso mostrar ao consulente em réplica
vegetativos, E
através de causas psíquicas), ainda fatores sa em
ao seu pedido de ajuda. O marido não tem comando sobre
e (talvez) hormonais, que lhe o
rofisiológicos o que acontece em seu corpo; ele não escolhe para si as
Acrescente-se q =
mentos indesejáveis a erecção do membro. no sensações que terá. Mas é somente ele quem determina se, a
são “adequados”, certamente não
esses “momentos” partir da situação, aproveita a oportunidade para flertar
da natureza, o
tido da vítima, mas pelo menos no sentido e entrar na intimidade das mulheres, coisas tais; ou se se
certo clima sexual de estímulo. ap
é, contêm um distancia conscientemente de fatos carnais, considerando
que
etc.). de Pe
está despido, é tocado por mulheres jovens an : ama sua mulher e não tem intenção de enganá-la. É isto li-
exces siva, mas de modo algum
corporal é de certo berdade espiritual, sua decisão pessoal. Ele age em harmo-
-se: grande in- nia com sua consciência, e, naquilo que julgar ter sentido
Na dimensão psíquica do marido acham
mento s sexuais, So (significativo), sua ação será perfeita e não haverá motivos
segurança com respeito a seus senti
os inter nos de pe e : para inquietação. Qual a orientação a dar aqui? Nenhuma
dades de expectativa, mecanism
Em resumo, existe o perigo agudo “terapia”; ao contrário, o consulente, apesar de seu perigo
ção, e hiperreflexões.
neurose.
de neurose, será abordado e levado a sério como homem
são — o que diminui de golpe o perigo de neurotização. Um
claro teste-
Na dimensão noética do marido existe um “apoio no espiritual” lhe é oferecido ao ser sua atenção di-
mulher e quer conti nuar- lhe fiel. Não
munho: ele ama sua não rigida ao espaço de liberdade, onde sempre possui possibi-
e con ta
tem em vista uma aventura extraconjugal lidades de escolha e onde as utiliza. Em vez de temer tornar-
trata mento .
significativa a excitação acontecida no seu -se um “libertino sexual mascarado”, o que é naturalmente
Tendo presente mais uma vez o quadro da p. q sem sentido, mas o irrita e atormenta, ele deve orqulhar-se
somática e o por guardar, independentemente da situação de disposição
renos que na logoterapia as dimensões
do homem são facilmente concentradas no campo psicofi e pressão, o amor à sua mulher.

nd 65
Paciente em cujo domínio também cada um é tido como inculpado
Esta argumentação causa alívio momentâneo ao marido enquanto nada em contrário for demonstrado.)
(“então eu não sou anormal?”), ligada a um acréscimo de O tema da excitabilidade sexual não foi abordado ao te-
segurança (“estou totalmente seguro de minha intenção, não
lefone.
tenho nenhum interesse por aventuras”). Produz-se, além
disso, a transformação de um “falso sentimento de culpa” Paciente
numa verdadeira “consciência de responsabilidade”, e isto
juntamente com a mudança de visão, da esfera não-livre da Durante o telefonema o marido, de repente, saiu-se es-
vida para a esfera livre, refreia a propensão à hiperreílexão, pontaneamente: “A propósito, o assunto que eu uma vez
e desse modo se tornará a melhor profilaxia da neurose. lhe confiei, ficou acertado desde a nossa conversa. Meu cor-
po está reagindo em completa normalidade”.
O consulente agradeceu o colóquio e deixou o consultó-
rio tranqiiilo e fortalecido. Como interpretar essa admirável “cura pela não-tera-
pia”? O mecanismo interno de intensificação foi cancelado
Logoterapeuta pela atitude espiritual: “Eu não mando no que meu corpo
faz”. A insegurança foi abolida pela atitude espiritual: “Sei
Nunca se deve dar alta a um paciente muito bem o que quero ou não quero, estou com minha
mulher, não interessa o que acontecer”. Desapareceu a
a) sem se dar resposta às perguntas que ele trouxe,
ameaça de neurose e não se verificou a reação psicogênica
b) sem se dar esperança de alguma chance de melhora, do corpo. * Há que extrair uma importante doutrina, a sa-
c) sem se fazer alguma provocação às suas forças es- ber, que a esfera psicofísica do homem pode ser influencia-
pirituais. da por forças espirituais no sentido da cura.
Esta regra logoterapêutica também foi cumprida no ca- Arrisquemos, por contraste, na conclusão deste capítu-
so comentado. lo, ainda uma interpretação do estudo de caso segundo a
imagem bidimensional do homem. Não há aqui, nenhuma
Paciente dimensão noética do homem. Portanto todo o espiritual
deve ser projetado ao plano psíquico. Mas aí prevalece o
Depois do nascimento do filho, o casal enviou ao con-
sultório o anúncio e de lá recebeu um escrito de congratula-
ções. O marido, então, telefona para agradecer. * Eu consegui repetidamente com um único discurso semelhan-
tes “curas milagrosas” que em absoluto não são milagres, nem curas
em sentido tradicional mas simplesmente impedimentos de proces-
Logoterapeuta sos neuróticos pendulares. Assim é que, por exemplo, falou-me
uma de minhas alunas por causa de um distúrbio psicogênico
Para o aconselhador houve essa possibilidade de per- da fala. Por meses ela conseguia apenas sussurrar. Nós con-
guntar por telefone como vai o marido e tocar no assunto versamos juntas no estilo comparável ao estudo de caso, e na aula
do “problema especial”. Mas essa pergunta poderia por ou- seguinte ela veio para agradecer por ter achado de novo a voz. Pou-
cas semanas depois uma outra aluna pediu-me ajuda, porque fazia
tro lado repercutir em sua propensão à insegurança e à hi- seis anos que, depois de cada refeição, o bolo estomacal voltava e
perreflexão, e voltar a irritá-lo. (Que isto o irritou sobremo- ela com dificuldade tinha de tragá-lo de novo. Estava com uma in-
do é já prova bastante para sua disposição pré-neurótica, flamação crônica de gengivas por isso. Eu duvidei muito de poder
porque a maioria dos maridos geralmente não se preocu- ajudá-la no problema, mas falamos do seu espaço espiritual livre,
das possíveis atitudes diante dos fatos, e da sua responsabilidade de
pam com esse problema, que até nem se teria tornado pro- não se deixar desanimar por esse handicap. Depois das férias do se-
blema). Além disso, é um princípio da logoterapia conside- mestre ela me comunicou radiante ter “esquecido” cada vez mais o
rar cada um psiquicamente são, até que haja prova em con- seu problema, até achava que, por bastante tempo, já nenhum ali-
trário. (Observar a interessante analogia com a jurisdição, mento engulhava... Passou-se mais de um ano e nem um sintoma
nem outro reapareceu.

66 67
princípio homeostático, com a hipótese de que a libido verdade odeia sua mulher mais do que ama, deseja incons-
sexual do consulente seria suprimida, pressionaria por cientemente mulheres estranhas e que a mãe dele é culpada
descarga, pelo que ele dirigiria o desejo para outras mulhe- de tudo. Com este “saber” o terapeuta deverá mandá-lo pa-
res. O seu superego seria contra, conformando-se aos cos- ra casa. Em minha opinião, o mesmo depois deverá igual-
tumes e advertindo-o para a fidelidade. Para solucionar o mente assumir a co-responsabilidade sobre os fatos — se o
conflito, o marido forma a idéia de que ama sua mulher, o paciente brigar com a mulher, se lançar vilanias à sua mãe,
que num modelo reducionista “não é outra coisa que um ou se o filho esperado vier um dia a ser criado sem pai.
mecanismo de defesa”. Ele, assim, imagina amar sua mu- Foi demonstrado estatisticamente que quase 3/4 de
lher, que seu superego acalenta, mas continuaria com as todos os casamentos nos quais um dos cônjuges fez psica-
erecções inoportunas nas quais a libido reprimida se ex- nálise se dissolveram. Isto não verificaram os logoterapeutas,
pressaria como sintoma neurótico. mas os próprios psicanalistas, que comentam a sua estatís-
Pressuposta esta tese, ainda continuaria sempre aberta tica com a indicação satisfeita de que as mulheres que Lize-
a questão — por que o marido não se “satisfaz” com sua ram tratamento, e respectivamente os maridos, se liberta-
mulher — se nós já recorremos, para interpretação, ao mo- ram da opressão do parceiro. Sobre as crianças que, nisso,
delo homeostático da satisfação? perdem os pais, nada se diz. Eu não gostaria de ter isso em
minha consciência, mas numa imagem bidimensional do ho-
Quanto a isso, haveria mais variantes de explicação na mem não há lugar para “consciência”.
imagem bidimensional do homem. Uma seria simples: a
gravidez da esposa complicaria as relações sexuais. A outra Por cavalheirismo não quero omitir que também os psi-
seria mais fundamentada na Psicologia Profunda. Todo o canalistas por sua vez exercem sua crítica sobre os logote-
rapeutas. Em Albert Górres, famoso e velho mestre da psi-
problema remontaria, na história de sua origem, portanto,
canálise, pode-se ler a seguinte passagem:
a um trauma da infância do marido, falando estrictamen-
te, ao seu complexo de Edipo, que se originou quando ele “A importância do espírito não é totalmente desconhe-
descobriu em criança que devia compartilhar a mãe com o cida na psicoterapia. Existe a experiência de que a soltura
pai. Desenvolveu então um amor-ódio à mãe que o marido das algemas neuróticas não raro dá ao homem a possibili-
ainda hoje transfere inconscientemente à sua mulher, pelo dade de renovar descobertas de sentido esquecidas. Ele co-
que não poderia ter relações com ela de maneira satisfató- meça a perceber o que poderia ser digno do empenho de
ria. Mas, já que sua libido deverá “escoar-se”, volta-se ele todo o seu ser. E depois, há teorias e métodos psicoterápi-
para outras mulheres com quem não existam conílitos emo- cos que conservam essas experiências fundamentais de
cionais desse tipo, caindo porém em conflito com o seu sentido para aquilo que propriamente cura, como as de
superego... Viktor E. Frankl. Infelizmente, há por aí, muitas vezes, com
a atenção sobre sentido, determinação e fim da existência,
Neste esquema de interpretação a dimensão somática
uma certa negligência quanto aos fundamentos biopsiqui-
do homem, não há negar, está sempre presente mas desem-
cos dos impulsos e formas fatais de impulso. Além disso,
penha um papel secundário. O sintoma é entendido pura
ainda não está bem descrita a arte da provocação positiva
e simplesmente como expressão daquele desejo secreto e
de forças espirituais na psicoterapia. Aqui, a psicologia não
suprimido.
é bem versada”.*
Com os meios de argumentação científica mal se pode Os logoterapeutas respondem que se ocupam, continua-
verificar qual das duas imagens do homem está certa, a mente, com as interações de todas as três dimensões do
tridimensional, que a logoterapia utiliza, ou a bidimensio- homem (o que, como veremos com maior precisão na teoria
nal. Mas uma coisa é certa: a consequência terapêutica é
diferente para ambas. Um terapeuta que considera exata a
interpretação bidimensional irá possivelmente colocar no * Albert GÓRRES, in “Kennt dis Psychologie den Menschen?”
diva o consulente e “analisá-lo” até que saiba que ele em (= A psicologia conhece o homem?), Ed. Piper, Munique, 1978, p. 33.

68 69
da neurose, é de rigor para eles) e por isso também não
neglicenciam nenhuma, se bem que de fato colocam certa
ênfase no espiritual. E que o espiritual seja, na verdade, em
grande parte uma terra desconhecida epistemologicamente,
9
é correto; ele não é experimental, mal se deixa “mensurar”
no sentido tradicional. Não é ele talvez o elemento não-
“mensurável em geral no homem? DIALÉTICA DE CARÁTER vs. PERSONALIDADE
A dimensão do homem com a maior facilidade para a
pesquisa é sua dimensão corporal, na qual decorrem os pro-
cessos objetivos, que se abrem ao experimento científico.
Já na dimensão psíquica, a pesquisa dos processos subjeti-
vos aí decorrentes é só indiretamente possível, aproximada-
mente com auxílio de avaliações por testes psicológicos.
Mas se subimos para a dimensão espiritual, vem associar-se
ao fator subjetividade também o fator individualidade, o
qual permite unicamente uma descrição fenomenológica. Tomamos conhecimento do antagonismo noopsíquico
Nenhuma maravilha que a psicologia e qualquer outra das mediante três critérios: a) dialética de destino vs. liberdade,
ciências humanas “não se reconheça do espiritual”! b) dialética de susceptibilidade vs. integridade, e c) dialéti-
ca de orientação ao prazer vs. orientação ao sentido. Voltan-
do à tabela da p. 34, vemos que a imagem logoterapêutica
do homem assinala mais uma quarta particularidade dialé-
dimensã éti dai ae tica: d) dialética de caráter vs. personalidade. Trata-se do
dab eçhea sua descrição fenomenológica aspecto pessoal do espírito humano. Dois homens podem ter
processos individuais | é possível
o mesmo caráter mas nunca são iguais, nunca podem ser
trocados um pelo outro, são sempre indivíduos auto-respon-
CR sua avaliação por testes sáveis e autônomos. Na comunidade, em parceria ou no gru-
processos subjetivos [Ensinos é possível po, cada qual conserva sua individualidade; mas se renun-
imensã áti ndo cia a ela, como no caso dos famigerados fenômenos de mas-
dimentho so málica sua mensuração científica sa, perde provisoriamente a disponibilidade de sua dimen-
processos objetivos ( é possível são espiritual. Frankl define massa como “soma de seres
humanos despersonalizados”. (19)

Se há alguma instância que possa apresentar conheci- Caráter (psíquico) é um “ser criado”, corresponde a
mentos sobre a “provocação positiva de forças espirituais”, um tipo, a uma raça, a uma origem étnica (mentalidade),
essa instância é a logoterapia. é adquirido por hereditariedade e sofre influência do am-
biente. Pessoa (espiritual) é um ser “que cria”, distingue-se
do próprio caráter e também das disposições e até mesmo
das possibilidades de receber influência. A sentença usada es-
pontaneamente na logoterapia — “o indivíduo não tem que
encaixar tudo!” — é efetivamente uma norma essencial do
modo pessoal de reflexão.
Homens com disposições muito semelhantes e submeti-
dos a influências do meio quase idênticas podem seguir
caminhos completamente diferentes em suas vidas, como

70 7
da neurose, é de rigor para eles) e por isso também não
neglicenciam nenhuma, se bem que de fato colocam certa
ênfase no espiritual. E que o espiritual seja, na verdade, em
grande parte uma terra desconhecida epistemologicamente,
E
é correto; ele não é experimental, mal se deixa “mensurar”
no sentido tradicional. Não é ele talvez o elemento não-
“mensurável em geral no homem? DIALÉTICA DE CARATER vs. PERSONALIDADE
A dimensão do homem com a maior facilidade para a
pesquisa é sua dimensão corporal, na qual decorrem os pro-
cessos objetivos, que se abrem ao experimento científico.
Já na dimensão psíquica, a pesquisa dos processos subjeti-
vos aí decorrentes é só indiretamente possível, aproximada-
mente com auxílio de avaliações por testes psicológicos.
Mas se subimos para a dimensão espiritual, vem associar-se
ao fator subjetividade também o fator individualidade, o
qual permite unicamente uma descrição fenomenológica. Tomamos conhecimento do antagonismo noopsíquico
Nenhuma maravilha que a psicologia e qualquer outra das mediante três critérios: a) dialética de destino vs. liberdade,
ciências humanas “não se reconheça do espiritual”! b) dialética de susceptibilidade vs. integridade, e c) dialéti-
ca de orientação ao prazer vs. orientação ao sentido. Voltan-
do à tabela da p. 34, vemos que a imagem logoterapêutica
do homem assinala mais uma quarta particularidade dialé-
imensão noéti Ea Ee tica: d) dialética de caráter vs. personalidade. Trata-se do
A E aq sua descrição fenomenológica aspecto pessoal do espírito humano. Dois homens podem ter
processos individuais [: possível o mesmo caráter mas nunca são iguais, nunca podem ser
dimensão psíquica t trocados um pelo outro, são sempre indivíduos auto-respon-
sua avaliação por testes
sáveis e autônomos. Na comunidade, em parceria ou no gru-
processos subjetivos psicológicos é possível
po, cada qual conserva sua individualidade; mas se renun-
cia a ela, como no caso dos famigerados fenômenos de mas-
di ã áti RE pas
pa sua mensuração científica sa, perde provisoriamente a disponibilidade de sua dimen-
processos objetivos é possível são espiritual. Frankl define massa como “soma de seres
humanos despersonalizados”. (19)
Caráter (psíquico) é um “ser criado”, corresponde a
Se há alguma instância que possa apresentar conheci-
um tipo, a uma raça, a uma origem étnica (mentalidade),
mentos sobre a “provocação positiva de forças espirituais”,
essa instância é a logoterapia. é adquirido por hereditariedade e sofre influência do am-
biente. Pessoa (espiritual) é um ser “que cria”, distingue-se
do próprio caráter e também das disposições e até mesmo
das possibilidades de receber influência. A sentença usada es-
pontaneamente na logoterapia — “o indivíduo não tem que
encaixar tudo!” — é efetivamente uma norma essencial do
modo pessoal de reflexão.
Homens com disposições muito semelhantes e submeti-
dos a influências do meio quase idênticas podem seguir
caminhos completamente diferentes em suas vidas, como

70 7
Caráter Personalidade
(2º dimensão: soma das qualidades (3º dimensão: particularidade
Não só a hereditariedade e o ambiente fazem o ho- inatas e herdadas de um homem...) individual de uma pessoa
mem, mas o homem também jaz algo a partir de si “ane semenacar, eae rrenan? que resulta de sua autoformação
— o “homem”: q pessoa — “a partir de si”: a par-
o fato de pertencer,
tir do caráter. De tal maneira que se poderia dizer a correspondência de todas
sem livre escolha,
em acréscimo à formula de Allers — O homem tem a um tipo (constituição, raça...) as decisões vitais,
um caráter, mas ele é uma pessoa — completando: realizadas livremente
E torna-se uma personalidade. A pessoa que se é
ao distinguir-se de cardter, que se tem, e ao tomar faz os homens se inclinarem a ; | A E
uma posição em face deste, transforma-o e trans- determinados modos determina em última instância
forma-se continuamente, e “torna-se” personalida- de comportamento o comportamento de um homem

| |
de. (Frankl, 20)

sabemos por diversas pesquisas com gêmeos, que sempre não decisivamente decisivamente
trazem à luz do dia, ao lado dos traços comuns, também a Resumindo-se os critérios D e A da Tabela da p. 34, re-
diferente realização dos dotes de talento. Como exemplo sulta a equação de Frankl:
disso, passo a relatar o caso de uma família de ciganos que
há três gerações está nos arquivos de uma repartição de as- Liberdade em face do caráter = liberdade para a
sistência de Munique. Dos arquivos consta que, nos anos personalidade
45/55, havia na família nove filhos, e todos nasceram com
a mesma tara familiar, no mesmo ambiente criminal, e fo- A liberdade espiritual do homem implica sua possibili-
ram educados desde pequenos para o roubo. Desses nove dade de tomar distância em relação a si mesmo (às pró-
filhos um desenvolveu-se como homem honesto que até prias tendências e disposições de caráter), o que por outro
hoje não se meteu em conflito com a lei, aprendeu uma lado dá fundamento à humana capacidade de autodistancia-
profissão ordeira e fundou sua própria familia que é com- mento que, analogamente à capacidade da autotranscendên-
pletamente normal e sadia. No fundo, esse indivíduo des- cia, foi descoberta e utilizada com proveito, para fins de
mente toda a psicologia do desenvolvimento. Não se julgue cura, pela logoterapia. E porque, nesta capacidade de auto-
que eu esteja condenando os restantes oito filhos da famí- distanciamento se encontra um fenômeno antropológico fun-
lia cigana, pois eles tiveram um ponto de partida na vida damental da dimensão espiritual do homem, e porque esta
verdadeiramente penoso, mas eu sinto a maior considera- última não pode adoecer (conjeturamos aqui com o critério
ção para aquele nono filho. B da Tabela da :p. 34), é possível uma separação entre a
parte doente da psique de um homem e a parte sadia de sua
Ao contrário, passam frequentemente por minhas mãos
psique, juntamente com sua pessoa que não pode adoecer
casos de crianças que vêm de um pom lar e no entanto de- — a parte “sadia”.
senvolvem-se mal. No homem há de tudo isso, anjo e demô- Paciente
nio: o homem é o ser que fabrica foguetes mortíferos e ao
mesmo tempo faz campanha contra; é o ser que extermina
as espécies animais e ao mesmo tempo procura desespera- Parte sadia Parte
doente
damente salvá-las,.. tudo isso sempre está em cada um.
Ninguém exprimiu essa idéia melhor do que Viktor Franki, Definição:
que escreveu: “Que é o homem então? Ele é o ser que sem- parte “sadia” parte doente
pre decide o que é. Ele é o ser que inventou a câmara de = a zona parcial sadia — a zona parcial doente
da psique juntamente com da psique
gás, mas é também o ser que foi à câmara de gás de pé e a zona do espírito
com uma oração nos lábios”. (21) que não pode adoecer

72 73
O objetivo central da logoterapia é reforçar, ampliar a sem dúvida elementos de destino, podem nele paralisar ape-
parte “sadia” do homem e capacitar as forças aí enfeixadas nas uma zona parcial, nunca porém extinguir totalmente a
para medirem-se com a parte doente. dignidade do ser humano. Se só isto os nossos pacientes re-
cebessem de nossas palavras, já seria dado um grande passo
Processo terapêutico na direção da “cura”.
Restaria ainda por comentar o último ponto de conflito
em nossa Tabela da p. 34: o coletivismo. Sobre sua pericu-
Parte sadia ——p, a
losidade não é preciso trazer muitos argumentos, quando se
recorda qualquer um dos antigos estereótipos, como por

Em mira: elf Ea exemplo: “Os meridionais são preguiçosos”; “todos os gor-


dos são faladores”; ou “todos os ciganos são ladrões”. É o
o que é sadio, apoio e ampliação caso dos que fazem juízos e prognósticos das pessoas uni-
o que é íntegro! pela logoterapia camente por pertencerem elas a este ou àquele tipo, raça
ou caráter, ficando em situação cômoda o que pensa com
O gráfico esquemático indica a ampliação terapêutica da o vezo coletivista — não levar em conta a personalidade nem
parte “sadia” mediante a linha empurrada à frente, para a a responsabilidade pessoal do indivíduo. Ele esquece de
parte doente. Certamente pode-se argumentar que daria no certo que, na esfera psicofísica do homem, em sua consti-
mesmo se o indivíduo se ocupasse com a parte doente, co- tuição, já existem disposições e predisposições de origem
mo faz a psicoterapia em geral, e procurasse diminuí-la, ou genética, e que unicamente importa, em última análise, o
se procurasse ampliar a parte “sadia”, como a logoterapia que o indivíduo faz ou deixa de fazer com suas disposições.
faz. Mas de fato não é a mesma coisa. A diferença está em E como este fazer é um ato pessoal de realização que jamais
que o terapeuta num caso “olha” para o que há de doente pode derivar do fato de pertencer alguém, de qualquer ma-
no paciente, e noutro caso “olha” o que é íntegro e sadio neira, a um tipo ou raça, mas sim nasce do nous (= mente,
nele, espírito) — a tese coletivista não resulta correta: o homem
Quem conhece a fundo o ofício de terapeuta sabe o não é previsível, calculável, nem mesmo avaliável, em razão
quanto se irradia do terapeuta para o paciente, e quanto do seu caráter complexo.
essa irradiação serve para ativá-lo e pô-lo em marcha. O que
se irradia do terapeuta é simplesmente aquilo que ele mes- Mas o coletivismo não é perigoso somente em conside-
mo pensa, sente e percebe, a imagem que faz sobre a situa- ração dos juízos do meio social, mas também em relação
ção. E o que esta irradiação realiza é já, avaliando grosso à auto-apreciação. É uma das atitudes erradas agravantes,
modo, quase a metade de todo o processo da relação tera- talvez o erro do neurótico, acreditar que tem um caráter
pêutica. Se temos terapeutas que sabem do antagonismo determinado e por causa disso só pode-comportar-se em
noopsíquico do homem e em razão disto mantêm sob as conformidade com o seu tipo de caráter. É esta atitude er-
vistas, ao lado do elemento psíquico sadio, também a liber- rada que dá livre acesso à neurose, e não a eventual existên-
dade espiritual do paciente, a integridade fundamental de cia de disposição neurótica de caráter! O coletivismo, em
sua essência humana, sua orientação noodinâmica ao senti- suas diversas nuances, é importante exemplo para se saber
do e sua personalidade única, apesar de todos os distúrbios quais modelos teóricos resultam se o espiritual for reduzido
psíquicos e confusões existentes — teremos então, também, ao psíquico ou feito derivação dele.
mais cedo ou mais tarde, pacientes que não mais se entre-
gam, completamente, a seus distúrbios e confusões, porque Para chegar a uma conclusão neste difícil tema, gostaria
percebem (eles percebem por força da irradiação de seu te- de fazer a enumeração dos verdadeiros “becos-sem-saída”
rapeuta) que o homem, como nenhum outro ser vivo, sabe da psicologia, através de exemplos, mais uma vez passando
estar sobre si mesmo, decidir de novo a cada dia o que será em revista todos os perigos de projeções e interpretações
no dia seguinte, e que até as doenças mais graves, contendo inadmissíveis, e que nós já discutimos.

74 75
ambos podem crescer, como pode aumentar o amor de um
Sempre que o neurótico fala de sua pessoa, do seu pelo outro; e que a mãe, em razão da dimensão espiritual
modo de ser pessoal, tende a agir desse modo como íntegra, tem a liberdade de transformar sua atitude para
se esse modo implicasse em não se poder fazer de com o filho em aceitação de sua existência como uma tarefa,
outro modo! Essa constatação torna-se quiomatica- significativa, de cujo cumprimento carrega a responsabili-
mente uma fixação, para ele apresentar um tipo dade, e que com esse cumprimento irá ao mesmo tempo
qualquer de caráter. Ele diz que é assim agora, que amadurecer, tornando-se uma nova personalidade.
tem agora esta ou aquela particularidade de cará-
ter e não pode agir de outro modo... Contudo o ho-
mem neurótico exprime-se não só por seu caráter
individual, velo Id, mas também por algo supra-in-
dividual, um coletivo existente nele mesmo — um
indejinido atuante nele e por ele... Neste sentido
deve parecer extremamente preocupante o fato de
que hoje em dia percebemos por toda parte que o
homem tende geralmente a reportar-se ao modo de
ser daquele grupo (classe ou raça) a que perten-
ce. Esta aparente autojustificativa é jacilitada pelo
outro fato de que cada vez mais lhe é posto diante
dos olhos o quanto ele é dependente de certas co-
letividades e quanto está sujeito ao influxo delas até
no concernente ao espiritual. (Frankil, 22) !

O ponto de partida dessas reflexões é o caso de u'a mãe


que espera um filho indesejado.
a) O pandeterminismo afirmaria que a rejeição do fi-
lho por parte da mãe conduz inevitavelmente à per-
turbação da relação mãe-filho por toda a vida
(—» “programação”);
b) o psicologismo afirmaria que se deu a gravidez in-
desejada em razão de desejos neuróticos e comple-
xos da mãe (——» “desmascaramento”);
c) o reducionismo afirmaria que toda a ação educativa
futura da mãe será expressão de seu Ódio inconscien-
te ao filho (——+ “desvalorização”);
d) o coletivismo afirmaria que o filho em sua vida fu-
tura apresentará as qualidades e modos de compor- |
tamento de toda “criança tipicamente não-amada”
(— “classificação”).

Para maior segurança, contudo, vamos verificar o que


a logoterapia teria a dizer a respeito disso tudo. Ela afir-
maria que tudo ainda está em aberto para mãe e filho; que

76 à 77
to-educação para algo, discussão com o eu pessoal, em

10 uso de liberdade e em
re sobre dois trilhos: realização de um
responsabilidade. Essa discussão
controle interior,
cor-
e
iniciação de um crescimento interior.
“Controle interior” é o pressuposto de quem se torna
AUTOCONHECIMENTO, OU O TRATO CONSIGO são, nos numerosos casos de doenças psíquicas, como neu-
MESMO? rose, mania, delingiúiência etc. e só pode ser exercido por
um movimento interno do espírito, que consiste em tomar
distância do eu para, dessa distância, reagir sobre o eu.
“Crescimento interior” é o pressuposto de quem permane-
ce são em todas as situações da vida, quando tem assegura-
da a aquisição da capacidade de realizar, capacidade de
amar e capacidade de sofrer. Isto só pode ser alcançado me-
diante o movimento do espírito que transcende o eu para
atender a um “apelo significante (= de sentido) da parte da
realidade” (Frankl). Como mostra o gráfico abaixo, o auto-
Quando se fez derivar do antagonismo noopsíquico a conhecimento revela puramente “movimentos internos” da
capacidade humana de distanciamento, foi anotada a pala- unidade Homem, enquanto o trato consigo põe em marcha
vra-chave que está no título: “trato consigo”. Este conceito “movimentos internos”, que conduzem acima do limiar do
define um alto objetivo pedagógico-terapêutico da logotera- ser humano. NB. S — Selbst (self, eu), equivalente a “auto”.
pia que para ela é mais importante do que o conhecimento
do eu. Certamente o autoconhecimento tem também sua
justa importância, relativa, na vida humana; contudo, não
pode nem deve tornar-se um fim: ele é, antes, um estágio
Autoconhecimento Trato consigo mesmo
de passagem a caminho de u'a meta além do eu. Encare-
cendo essa “fixação de fins além do eu”, a logoterapia tor- !
Por que o indivíduo ; Por que o indivíduo tem
na-se uma espécie de escola da vida que rompe o estreito
quadro psiquiátrico e desemboca numa geral “educação pa- se torna tal como é? / de permanecer tal como é?
| j
ra a responsabilidade”.
E Goa >
I eis
O autoconhecimento descobre o que a pessoa “se tor- Para compreender 1 Para adquirir o Para iniciar o
nou”, a referência ao Id, ao inconsciente instintivo, ao resul- processos internos 1 controle interior controle interior
!
tado da educação para alguma coisa: em suma, tudo que !

acontece sem intervenção livre. O autoconhecimento neces- !


I
sita da prontidão à auto-revelação e para isso empenha a I
ele necessita de ele necessita de ele necessita de
compreensão de processos psíquicos internos. O trato consi- I
I
go torna possível o elemento de transformação do eu, cor-
prontidão para
. “oa
I
!
capacidade de
.
capacidade de

responde ao que é referente ao eu: ele realiza o inconsciente


espiritual * e tudo que se oferece ao seu alcance. Ele é au- aauto-revelação |! autodistanciamento autotranscendência

* Viktor Frankl entende por inconsciente espiritual a fonte e


origem não-refletida e não-reiletivel do ético, erótico e patético na
vida humana: fé, amor, no sentido mais largo, e inspiração artística.
(Frankl, 23)

718 19
Que significa isso, praticamente, para a terapia? Ora, é em si mesmo — um sentido a cumprir no mundo. Causa es-
com esses elementos que se delimita o campo em que a lo- panto saber que existe no homem tanta reserva de forças
goterapia “deslancha” e se indicam os marcos por onde que normalmente não se manifestam, e que, ao simples aflo-
passam muitas de suas linhas metodológicas. rar de um forte elemento de sentido, abrem de repente suas
comportas. Mas é no mínimo igualmente espantoso o número
de problemas que conseguem solução quando não são con-
Uma psicoterapia humana, humanizada e rehuma- siderados com atenção, enquanto que jamais são resolvidos
nizada pressupõe que se possa atingir a autotrans- quando o indivíduo tenta desesperadamente resolvê-los. Por
cendência num instante e o autodistanciamento essas razões, na relação paciente/terapeuta o mundo exte-
num esforço de habilidade. (Frankl, 24) rior está sempre incluído como “terceiro sistema de refe-
rência”. Quer dizer: logo que se estabelece um relaciona-
mento pessoal de confiança, a) o logoterapeuta dirige a aten-
a) Marco do “autodistanciamento” ção do paciente para valores de sua esfera vital; b) e logo
O logoterapeuta mostra ao paciente onde estão suas ca- que a situação de saúde do mesmo permite, acompanha-o
pacidades ainda intactas e com estas alia-se contra suas mentalmente nesse rumo; c) isso refreia, desde o começo,
fraquezas psíquicas. Descobre a pista das forças de autopre- toda “problemática de transferência” e facilita substancial-
servação do paciente, incrementando-as com acerto. É inte- mente ao paciente o desligamento da terapia.
ressante observar que a medicina moderna esteja também Mundo exterior
cada vez mais ativando o sistema corporal de defesa de um
doente contra sua doença (basta pensar nos experimentos
com materiais de origem corporal, como interferon e inter-

O O)
ieukin, no combate ao câncer!). Depois de milênios de tra-
balho e investigação a medicina somática avançou até obter
o conhecimento de que o organismo do próprio indivíduo é Paciente Terapeuta Paciente a
o seu melhor médico, se lhe for dado um pouco de apoio.

ns
Mas a medicina psiquiátrica não necessita de milênios para Mundo exterior
compreender que também a “alma” do homem (mais exata-
mente: a pessoa espiritual no homem) seria o seu melhor
psicoterapeuta, se ela recebesse de vez em quando um peque-
no impulso. Ao contrário, a medicina psiquiátrica bem cedo
deverá chegar a essa convicção, para poder atalhar o aumen-
to epidêmico de homens do nosso tempo psiquicamente ins- Paciente Terapeuta
táveis, perdidos, degenerados, descorçoados. A logoterapia,
O trato consigo, que, Ra pode consistir não só:
por seu lado, esteve desde o começo convencida de que se
num “curar-se a si mesmo” como também num saudável
deveriam mobilizar em cada paciente, antes de quaisquer
“esquecer-se de si mesmo” se a situação o exige, traz consi-
outras, suas forças espirituais de autopreservação; e ela to-
go como “produto derivado” o auito-encontro, que parado-
ma a peito dar-lhes justamente o pequeno empurrão de que
xalmente nunca nasce do “autoconhecimento”. É que o au-
precisam,
to-encontro somente se há de conseguir no caminho onde
existe sentido. Quem busca a si mesmo, quem ambiciona
b) Marco da “autotranscendência” ver-se em todos os espelhos da psicologia, tão artificiais,
O logoterapeuta mostra ao paciente como é possível con- ainda, não encontrará a si mesmo — mas quem passa adian-
seguir pouco a pouco impor-se sobre as coisas — e, se pre- te e se dedica responsavelmente a uma tarefa com sentido,
ciso, sobre si mesmo. Mas isto somente resultará se o pa- chegará plenamente a si mesmo.
ciente também souber enxergar nas coisas — e, se preciso,

80 81
VidY 10901 YO SOCOLAN
oued epungas
segunda parte

METODOS DA LOGOTERAPIA
l
TEORIA DA NEUROSE SEGUNDO VIKTOR E. FRANKL

Vimos até agora o suficiente sobre a ontologia dimen-


sional de Viktor Frankl segundo a qual faz parte do ser hu-
mano completo, além da dimensão somática e da dimensão
psíquica, uma terceira, a dimensão noética, que na realidade
é a que torna possível o ser do homem — como um ser que
pode elevar-se acima das condições psicofísicas. Agora, exa-
minando a teoria da neurose segundo Frankl, encontramos
as causas das neuroses localizadas nas três dimensões. No
entanto, deve-se distinguir com muito cuidado causas de-
sencadeantes e efeitos, pois efeitos mórbidos podem ter ma-
nifestação numa direção do ser do homem totalmente di-
versa da que teriam numa outra em que foram desencadea-
dos ou causados. É o caso em que, precisamente nas neuroses,
os efeitos são muitas vezes tomados equivocadamente por
causas. Frankl compara este equívoco com o mar e o arreci-
fe. Se existe um arrecife em águas rasas, ele se torna visível
em maré baixa porque o nível das águas abaixa, mas O ar-
recife não é, por isso, causa da maré! Exatamente assim, diz
Frankl, são visíveis numa “maré” do sentimento vivo de
um homem tantos traumas psíquicos, mas, apesar disso, os
traumas não são totalmente causas da falta de alegria de
viver. Com o relacionamento dos três níveis do ser do ho-
mem resultam muitas ligações transversais que vão além do
simples esquema causa/efeito. Como já foi antecipado em
outra ocasião, trata-se quase sempre de um processo de in-
teração entre somático, psíquico e espiritual, especializan-
do-se a logoterapia em levar o influxo de cura a esse proces-
so de interação com meios espirituais.

85
A Tabela abaixo reproduz a classificação das neuroses roses noogênicas, que se podem definir como efeitos mórbi-
conforme a logoterapia, em que se distinguem cinco grupos: dos do espiritual no psíquico. Na medida em que se origi-
neuroses psicogênicas, somáticas, doenças psicossomáticas, nam do “vácuo existencial”, relacionado com as modifica
neuroses reativas e neuroses noogênicas. As neuroses psicogê-
ções sociais, elas são sociogênicas.
nicas são efeitos mórbidos do psíquico no somático e/ou psí-
quico; suas causas estão, pois, no psíquico. No caso das (pseu- Nos capítulos seguintes vamos dedicar-nos a cada tipo
do)neuroses somatogênicas, dá-se o inverso: elas são efeitos de neurose em traços gerais, mas de modo particular ao
mórbidos do somático no psíquico; suas causas estão, pois, princípio logoterapêutico que deverá ser apresentado neste
no somático. livro. Talvez se tenha percebido que não há reversão às neu-
roses noogênicas, portanto não há efeitos mórbidos do psí-
quico no espirito. Isto se prende ao fato de que o espiritual
Classificação das neuroses : - AS causas não pode adoecer, como sabemos mediante a dialética de
segundo Frankl acham-se no
susceptibilidade vs. integridade. É certo que o espiritual po-
Neuroses psicogênicas: são efeitos mórbidos do psí- psíquico de ser bloqueado ou estar parcialmente não-disponivel por
quico no somático e/ou psíquico causa de enfermidades ou deficiências no psicofísico, como
(Pseudo)neuroses somatogênicas: são efeitos mórbi- | somático em caso de graves lesões cérebro-orgânicas ou perturbações
dos do somático no psíquico (o mais das vezes psíquicas; mas, na medida em que transparece como espiri-
“doenças funcionais”) tual, através das outras dimensões do ser humano, é tam-
Doenças psicossomáticas: são : manifestações mórbi- somático bém íntegro, ou seja, está acima da saúde e da doença. Nu-
das no somático, desencadeadas por algo psíquico e ma outra Tabela usada por Frankl para esclarecimento da
psíquico questão, * nenhuma flecha atinge a dimensão noética, mas
Neuroses reativas: são reações mórbidas no psíquico somático uma das flechas sai dela, isto é, a que simboliza as neuroses
a algo originariamente somático ou psíquico (ou ou noogênicas que atuam no psíquico.
ao comportamento de um terapeuta: “neuroses psíquico
iatrogênicas”)
Neuroses noogênicas: efeitos mórbidos do espiritual noético
no psíquico (em relação com modificações sociais: efeito desencadeamento efeito ação
“neuroses sociogênicas”) (reação)

somático : +. : 4 | | :
Por tratar-se predominantemente de distúrbios funcio- psicogênico : cas ao f S
1 psicossomático |somatogênico reativa du
nais de tipo vegetativo e endócrino, pode-se nesses casos
psíg a | y » Y «É
* - I O

também falar em “doenças funcionais”. O caso das doenças siquico A


psicossomáticas é mais complicado. Aí sempre coincidem noogênico
dois fatos: o de uma debilidade física, ou pré-lesão, e o de sa
noético
1
|
uma carga psíquica ou um choque. Doenças psicossomáticas
são, por conseguinte, manifestações mórbidas no somático
desencadeadas por algo psíquico, e portanto suas causas
acham-se no somático e no psíquico. Constituem certa con- As neuroses psicogênicas, diferentemente, partem do ní-
trapartida as neuroses reativas, que são reações mórbidas vel psíquico e muitas vezes atuam no somático. (As neuro-
no psíquico, mas que podem ser desencadeadas tanto por ses compulsivas formam, no concernente, uma exceção, pois
elementos originariamente somáticos quanto também por seu campo de atuação permanece no psíquico.) Como as
elementos psíquicos; suas causas estão no somático ou no
psíquico. Contam-se entre elas, como forma particular, as
“neuroses iatrogênicas”, desencadeadas por um médico ou * A Tabela foi tirada do livro Theorie und Therapie der New
terapeuta (involuntariamente). Finalmente há ainda as neu- rosen, de Viktor E. Frankl (UTB 457) e, com a permissão do Autor,
ligeiramente modificada.

86 87
neuroses noogênicas não remontam a uma causa real de
doença mas simplesmente a uma frustração do espiritual, Em todos esses casos, tanto nas neuroses psicogê-
sua flecha está indicada em pontos interrompidos. Para as nicas como nas (pseudo)neuroses somatogênicas
doenças psicossomáticas a flecha está também pontilhada, — a logoterapia é eficiente, não no sentido de uma
porque estas não são causadas mas simplesmente desenca- terapia específica, mas no de uma terapia inespeci-
deadas pelo psíquico. A representação simbólica das (pseu- fica. Como tal, importa-lhe menos o sintoma do que
do)neuroses somatogênicas, por outro lado, segue o prin- a atitude do paciente ante o sintoma; pois dema-
cípio normal causa/efeito, ficando desta vez as causas na siadas vezes a atitude negativa em causa é o elemen-
esfera somática e os efeitos na esfera psíquica. Nas neuro- to propriamente patogênico. A logoterapia distingue
ses reativas, finalmente, as flechas de diferente direção indi- aí vários modelos de atitudes e tenta, do lado do
cam que no psíquico há reações de toda espécie: reações a paciente, produzir uma mudança de atitude; em
algo que vem do psíquico, reações a algo que vem do somá- outras palavras, ela é verdadeiramente terapia da
tico e por fim até mesmo reações que foram desencadeadas reorientação. (Frankl, 25)
de fora por uma “lesão iatrogênica” — a respectiva flecha
está pontilhada porque se trata, ao contrário, somente de Mas a propósito é preciso dizer que foram oferecidas
um desencadeamento. pela logoterapia menos técnicas limadas e sutilizadas do que,
Agora gostaria de deixar de lado por algum tempo a antes, normas da arte de improvisar que auxiliam o tera-
classificação das neuroses segundo a logoterapia, para em peuta a sintonizar sua terapia com a particularidade e as
seguida apresentar os métodos da logoterapia, estabelecer as necessidades de cada paciente,
oportunas ligações entre os quadros patológicos e os méto- Sabemos que a logoterapia não tem em mira principal-
dos de terapia a empregar. mente a investigação de causas de doenças psíquicas, mas
Na logoterapia conhecemos três grandes grupos de mé- sim o melhor modo possível de lidar com essas enfermida-
todos: intenção paradoxal, derreflexão e modulação de ati- des. Por conseguinte, em princípio, ela não é uma psicote-
tudes. Os dois primeiros conceitos provêm de Frankl, e são rapia da “descoberta” do desconhecido, e sim uma “explo-
por ele minuciosamente descritos em seus livros; o concei- ração” do terreno, mas que quer também descobrir o que
to de modulação de atitudes é proposta minha,* mas não no homem desperta forças vivas e sadias, mesmo que sua
vida esteja ensombrada de doença. Como em geral se acha
significa que eu o tenha inventado como método próprio.
Antes, procurei reunir num conceito várias técnicas de en- o que se procura, assim a logoterapia pode indicar uma sé-
rie de fontes de força, de natureza espiritual, das quais
trevista e procedimentos da logoterapia, como por ex. o
“diálogo socrático”, os “métodos do denominador comum”,
poderá o paciente servir-se a fim de ter o domínio de sua
vida. Uma dessas fontes de força é a capacidade humana de
da “conversação para achar sentido” etc., e a expressão “mo-
tomar distância de si mesmo (autodistanciamento), para
dulação de atitudes” pareceu-me apropriada para isso. Ela
cujo fortalecimento recorre-se ao método da intenção para-
se distingue claramente da “mudança de comportamento”,
doxal. Outra fonte é a capacidade humana de autotranscen-
uma proposta da Terapia do Comportamento, cnamando a
dência para cujo fortalecimento é apropriado o método da
atenção para o objetivo central da logoterapia: sua meta
derreflexão.
não é modificar o comportamento, mas mudar a atitude.
Com discussão mais aproximada desses dois métodos
se tornará rapidamente mais compreensível o que eles que-
* Pela primeira vez mencionada por Elisabeth Lukas num En- rem dizer. De modo breve pode-se dizer que a intenção
contro da Academia Católica de Friburgo, com o tema “Crise e te- paradoxal se distancia de desencadeantes psicogênicos, e
humanização da psicoterapia”, em maio de 1975, publicada em pri-
por esse meio torna-os ineficazes. Tais desencadeantes são
meira mão por Elisabeth Lukas no livro Auch dein Leben hat Sinn
(= Também tua vida tem sentido), Livraria Editora Herder, n. 825. em especial expectativas negativas, as assim chamadas “an-
1980). siedades de expectativa”, que têm a propriedade fatal pre-

88 89
cisamente de fazer acontecer a coisa esperada, no sentido Que a hiperreflexão esteja ligada a um cru egocentris-
de “selffulfilling prophecies” (= previsões que se cumprem mo, é coisa evidente: quem fica constantemente ruminando
por si), como dizem os americanos. suas grandes ou pequenas preocupações e indisposições não
consegue ver outra coisa a não ser a si mesmo; ele é um
O método da derreílexão, pelo contrário, reduz egocen- prisioneiro do seu bem-estar perturbado. Assim, se a inten-
trismo e hiperreflexão e seus efeitos. Eu poderia observar ção paradoxal se compromete com a expectativa demasiada-
que o fenômeno da hiperreflexão — que é um contínuo gra- mente ansiosa do negativo, a derreflexão engaja-se na luta
vitar do pensamento em redor de um problema, sem poder com a observação e sobrestimação mórbidas do negativo —
despegar-se de uma coisa — hoje estende-se largamente a ambos pontos de vista em que o homem moderno está mui-
preocupações ínfimas e exagera por demais muitas cargas to ameaçado.
psíquicas de maneira completamente supérilua. Se os ho-
mens de épocas anteriores, com sua labilidade psíquica,
eram mais inclinados a reprimir seus: problemas, os homens Intenção Paradoxal Derreflexão
de hoje tenderiam, antes, a hiperrefletir sobre os mesmos,
o que não é menos malsão. Pode-se para o caso imaginar os
dois fenômenos “repressão” e “hiperreflexão” como dois fortalece a capacidade fortalece a capacidade
pólos situados nas extremidades de um e mesmo continuum, de de
sobre a metade do qual está distribuída a atenção adequada autodistanciamento autotranscendência
para a solução adequada de um problema.
distancia-se de reduz
solução adequada desencadeantes psicogênicos egocentrismo e hiper-reflexão
repressão O O hiper-refiexão e torna-os ineficazes e seus efeitos
do problema

Partindo-se desse modelo, é lógico que deva haver mé- Modulação de atitudes
todos que, no caso da repressão, visem a trazer ao conscien-
te a problemática, e no caso da hiperreflexão deva haver incrementa a incrementa a
métodos que visem a deixar inconscientes os processos vi- "força desafiadora do espírito" “vontade de sentido"

y
tais objeto de excessiva atenção, como por ex. o método. da
derreflexão logoterapêutica.
melhora a atitude melhora a atitude
diante do negativo diante do positivo
Hoje não deveriamos mais insistir de nenhum modo e possibilita o domínio sobre ele e possibilita modos de hauri-lo
no ponto de vista de que a psicoterapia venha ao
paciente para torná-lo consciente, a qualquer pre-
ço; pois o psicoterapeuta só de passagem deve jazer
com que algo passe ao consciente. Ele há de fazer
O método da modulação de atitudes tem em sua grande
possibilidade de variação dois pontos principais. Como o
consciente o inconsciente só para afinal deixá-lo vol-
tar a ser inconsciente; ele tem a transferir a “po- termo mesmo indica, esse método quer ajudar o paciente a
melhorar sua atitude referente a algo, mas este “algo” não
tentia” inconsciente ao “actus” consciente — sem
nenhum outro fim, porém, que não seja afinal pro- necessariamente deve ser negativo, por mais que isto seja
duzir de novo um “habitus” inconsciente. O psico-
comum. A atitude de um homem em referência a algo positi-
terapeuta tem de restaurar a evidência em si de vo talvez seja também digna de melhora, por estranho que
performances inconscientes. (Frankl, 26)
isto pareça. Constituem este algo positivo certas condições
de vida marcantes, como talentos, dotes, meios financeiros,

Al
q"
amizades etc., em todo caso, condições de vida com as quais Vamos agora tentar unir umas e outros — os diversos qua-
o indivíduo poderia construir uma existência significativa e dros das doenças com os respectivos métodos de aplicação —
satisfatória, no entanto mantém apenas uma atitude correta. e para esse fim vamos servir-nos de um novo quadro es-
São conhecidos, infelizmente, na psicoterapia muitos casos quemático.
em que, apesar de boas condições de vida, vive-se uma exis-
tência sem alegria, prevalecendo o desânimo, o tédio e a
saturação, e surgem até mesmo idéias de suicídio. Os jovens
particularmente estão por vezes inclinados a não valorizar
o positivo que eles encontram, ou a não aproveitá-lo como
Intenção Paradoxal Derreflexão
fundamento de uma formação positiva da vida, e em vez
disso irritam-se de tal modo na crítica contra o negativo
que cedo só vêem em tudo o negativo, Mas também adultos
é utilizada é utilizada
querem cada dia espremer mais de suas vidas — de qual-
quer modo já confortáveis — perdendo assim toda alegria
de viver. Este comportamento foi incentivado pelo enorme
progresso técnico e luxo dos últimos decênios que criou fa- em em em
neuroses psicogênicas neuroses doenças
cilidades espetaculares mas nem sempre com os melhores
(ansiedade, compulsão) psicogênicas psicossomáticas
resultados para a saúde mental geral. Neste ponto é que o (distúrbios sexuais) e distúrbios do sono
método da modulação de atitudes tem aplicação utilíssima,
ativando a “vontade de sentido” que todo homem traz em si,
segundo a concepção da logoterapia, cuja ativação faz hau-
rir ao máximo de toda a profunda plenitude da existência. Modulação de atitudes
Mais difícil é, sem dúvida, conseguir uma boa atitude em face do positivo
em face do negativo
interior em face de um estado de coisas negativo. Há casos em
que só se tem como modificar essa situação através do de-
senvolvimento de outra atitude melhor. Mas há também é utilizada
|
é utilizada
outros em que não se tem como mudar absolutamente nada
do estado de coisas negativo, como por ex. nas doenças fisi- em para superação do em
cas, paralisias, amputações. .. ou em perdas dolorosas, como neuroses reativas sofrimento neuroses noogênicas
na morte de um parente. Entretanto, mesmo quando nada (histeria, mania, e depressões
mais pode ser modificado, sempre poderá ser livremente es- neuroses noogênicas
colhida a atitude em face do irremediável, e dela depende por iatrogênicas)
sua vez como dominar interiormente este irremediável. em em
O homem não pode sucumbir ao sofrimento, pois possui em (pseudo) neuroses reveses
si a “força desafiadora do espírito” que o capacita a trans- somatogênicas, irremediáveis
formar um mal irremediável numa obra humana e até num doenças físicas da sorte
triunfo humano, como Frankl provou na própria carne du- graves e psicoses
rante suas amargas experiências da guerra, que desde então
continua a transmitir aos outros homens sofredores como
mensagem de esperança.
Assim, tomamos conhecimento, em rápido esboço, da
O quadro acima mostra que a intenção paradoxal é utili-
classificação logoterapêutica das neuroses (cf. p. 86) e dos zada principalmente em neuroses psicogênicas e certamente
três grandes grupos de métodos da logoterapia (cf. p. 91). em neuroses de ansiedade e neuroses de compulsão. Mostra,

92 93
em seguida, que a derreflexão é utilizada igualmente em neu-

2
roses psicogênicas, a saber, em distúrbios sexuais psicogêni-
cos e em doenças psicossomáticas e distúrbios do sono. A mo-
dulação de atitudes em sua área de aplicação divide-se em
dois ramos, negativo e positivo. Em face do negativo, ela é
utilizada em neuroses reativas, por ex., histeria, mania e
lesões iatrogênicas, como também para superação do sofri- GÊNESE DAS NEUROSES DE ANSIEDADE
mento, quer seja causado por doença quer tenha causas for-
tuitas. Em face do positivo, aplica-se modulação de atitudes
no caso de neuroses e depressões noogênicas. Como vemos, os
cinço grupos de neuroses definidas por Frankl estão inte-
grados neste esquema: as formas psicogênicas, somatogêni-
cas, psicossomáticas, reativas e noogênicas. Nos capítulos se-
guintes vamos descrever com mais pormenores esses qua-
dros patológicos e mostrar diretrizes da prática logoterapêu-
tica para que o leitor possa receber disso tudo um ou outro
estímulo à reflexão em benefício próprio e no de outras Intenção paradoxal é uma discussão entre dimensão
pessoas. espiritual e dimensão psíquica do homem; é praticamente
um diálogo entre ambas. Uma debilidade psíquica precisa
ser superada pelo espírito. Por vezes a dimensão somática
também participa, mas só em função reativa. Se fatores fí-
sicos causais, que, portanto, produzem o efeito conjuntamen-
te, exercem um papel ativo no processo da doença (como por
ex. uma hipertireose), só com extrema cautela se utiliza a
intenção paradoxal, pois antes de tudo é com o auxílio da
medicina que se pode contar. As debilidades psíquicas, que
precisam ser vencidas pelo espírito, em primeiro lugar, de-
vem remontar a uma causação psíquica, isto é, a fatores emo-
cionais. Em geral, é esse o princípio da ansiedade de expecta-

tiva, que é interrompida mediante a intenção paradoxal.

Nas neuroses, basicamente, pode-se observar sempre um


processo circular, uma espécie de “círculo vicioso” em que
o doente está inevitavelmente envolvido. Primeiro, ele não
confia em si (nem nos outros), de antemão não espera nada
de bom; depois, vem o fracasso, o naufrágio, depois ele não
terá coragem para mais nada, e leva sua fraca autoconsciên-
cia repetidamente a cometer falhas, e destas diretamente de
volta ao enfraquecimento progressivo da autoconsciência.
Semelhantemente dá-se com o ciúme excessivo (mais uma
variante da neurose!) que faz, francamente, uma “pré-pro-
gramação” da perda da pessoa amada, uma perda que o
ciúme com maior força aumenta até o excesso; e assim por
diante.

94 95
em seguida, que a derreflexão é utilizada igualmente em neu-

2
roses psicogênicas, a saber, em distúrbios sexuais psicogêni-
cos e em doenças psicossomáticas e distúrbios do sono. A mo-
dulação de atitudes em sua área de aplicação divide-se em
dois ramos, negativo e positivo. Em face do negativo, ela é
utilizada em neuroses reativas, por ex., histeria, mania e
lesões iatrogênicas, como também para superação do sofri- GÊNESE DAS NEUROSES DE ANSIEDADE
mento, quer seja causado por doença quer tenha causas for-
tuitas. Em face do positivo, aplica-se modulação de atitudes
no caso de neuroses e depressões noogênicas. Como vemos, Os
cinco grupos de neuroses definidas por Frankl estão inte-
grados neste esquema: as formas psicogênicas, somatogêni-
cas, psicossomáticas, reativas e noogênicas. Nos capítulos se-
guintes vamos descrever com mais pormenores esses qua-
dros patológicos e mostrar diretrizes da prática logoterapêu-
tica para que o leitor possa receber disso tudo um ou outro
estimulo à reflexão em benefício próprio e no de outras Intenção paradoxal é uma discussão entre dimensão
pessoas. espiritual e dimensão psíquica do homem; é praticamente
um diálogo entre ambas. Uma debilidade psíquica precisa
ser superada pelo espirito. Por vezes a dimensão somática
também participa, mas só em função reativa. Se fatores fí-
sicos causais, que, portanto, produzem o efeito conjuntamen-
te, exercem um papel ativo no processo da doença (como por
ex, uma hipertireose), só com extrema cautela se utiliza a
intenção paradoxal, pois antes de tudo é com o auxílio da
medicina que se pode contar. As debilidades psíquicas, que
precisam ser vencidas pelo espírito, em primeiro lugar, de-
vem remontar a uma causação psíquica, isto é, a fatores emo-
cionais. Em geral, é esse o princípio da ansiedade de expecta-
Z
tiva, que é interrompida mediante a intenção paradoxal.

Nas neuroses, basicamente, pode-se observar sempre um


processo circular, uma espécie de “círculo vicioso” em que
o doente está inevitavelmente envolvido. Primeiro, ele não
confia em si (nem nos outros), de antemão não espera nada
de bom; depois, vem o fracasso, o naufrágio, depois ele não
terá coragem para mais nada, e leva sua fraca autoconsciên-
cia repetidamente a cometer falhas, e destas diretamente de
volta ao enfraquecimento progressivo da autoconsciência.
Semelhantemente dá-se com o ciúme excessivo (mais uma
variante da neurose!) que faz, francamente, uma “pré-pro-
gramação” da perda da pessoa amada, uma perda que o
ciúme com maior força aumenta até o excesso; e assim por
diante.

94 aa
produz

Como bem sabe todo clínico imparcial, é a ansieda-


de de expectativa não raro o elemento propriamente
patogênico na etiologia das neuroses, e isso de tal acontecimento processo circular ansiedade de expectativa,
forma que fixa um sintoma, de si fugaz e como tal Negativo da o acontecimento
inócuo, enfocando-se centralmente a atenção do pa- (“sintoma”) neurose de ansiedade poderá repetir-se
ciente em torno desse sintoma. (“fobia”)
O chamado mecanismo da ansiedade de expectativa
é familiar ao prático: o sintoma gera uma fobia
correspondente, a mesma fobia reforça o sintoma,
e o sintoma reforçado confirma ainda mais no pa-
ciente o receio da volta do sintoma. O paciente en- aca :
fi- so fixa
cerra-se no círculo vicioso que aí se fecha, onde (3) ã

ca recolhido como num casulo. (Frankl, 27)


lhe resta senão abandonar o vagão na próxima parada.
O modelo fóbico, assim, já está traçado: essa pessoa sim-
Nas neuroses de ansiedade o “círculo vicioso” aparece plesmente não suporta mais usar o metrô. Possivelmente
da seguinte maneira: um acontecimento negativo casual — logo deixará também de andar de ônibus, porque até nestes
o mais das vezes é um acontecimento traumatizante — ge- aparecem as mesmas ansiedades de expectativa, e afinal nem
ra a ansiedade, e numa próxima situação semelhante pode- os carros comuns; a ansiedade por medo ao enjôo generali-
rá o acontecimento repetir-se. Mas esta ansiedade de ex- za-se e limita sempre mais sua liberdade de movimento.
pectativa, por seu lado, faz o indivíduo ficar tão inseguro e
reagir tão crispado que o acontecimento temido volta de- Para estabelecer-se este processo circular de neurose
pressa a acontecer. Com isso o processo circular já está fe- concorrem muitos fatores, e são detectados precisamente os
chado, porque depois do regresso do acontecimento (ou seguintes:
“sintoma”), a ansiedade de expectativa cresce gigantesca-
1) certa disposição de caráter;
mente (até a “fobia”) e produz sempre mais o sintoma, tão
O prisioneiro de um tal 2) certa labilidade vegetativa;
logo surja a situação de ansiedade.
supostamente ainda poderá salvar-se com 3) um acontecimento traumatizante;
“círculo vicioso”
isto o entrega de vez 4) fraca autotranscendência.
o evitar essa situação angustiante. Mas
à sua neurose de expectativa, porque a ansiedade costuma
Coloquei no esquema acima esses números, referentes
generalizar-se, e quanto mais ele pretende evitar situações
aos quatro fatores, e gostaria de dar alguns esclarecimentos
angustiantes, tanto menos é capaz de resistência contra a sua
ansiedade. sobre cada um, a fim de evitar a impressão de que o modelo
de explicação exposto para neuroses de ansiedade seja de-
Examinemos esse contexto no exemplo de uma fobia masiado simplista.
de metrô. O indivíduo acidentalmente sentiu-se mal alguma
A disposição de caráter (1) que destina o indivíduo a
vez fazendo um percurso de metrô, talvez por causa da falta
todas as neuroses é marcada por duas características: por
de oxigênio em compartimento abarrotado de gente. Esse
uma propensão a tornar-se, o indivíduo, rápida e facilmente
passageiro parte para a próxima viagem de metrô já com
inseguro, e o fato de se lhe “engancharem” os pensamentos
grande mal-estar, porque fica pensando todo o tempo como
por quaisquer bagatelas, que não se conseguem desligar e
lhe será penoso e desagradável sentir-se mal de novo, e se
tiver de pedir um lugar para sentar-se etc. Fica tenso e cris-
pôr de lado. (Já tocamos neste assunto por ocasião da dis-
cussão do estudo de caso.) No exemplo com a fobia de me-
pado em razão desses pensamentos, percebe que se exprime
mal, banha-se em suor, o coração bate até o pescoço e não
trô, esta disposição de caráter foi a causa de ninguém ter

96 97
dito, após o primeiro aparecimento casual do enjôo, durante
c) acontecimentos que, ligados a um dano social (real
a viagem em referência: “Graças a Deus, passou”. E ponto
ou imaginário), e portanto representam por ex. si-
final. Tivesse sido este o caso, o processo circular em abso-
tuações ridículas, atuam vergonhosamente aos olhos
luto não teria prosseguido. Mas aqui plantou-se a inseguran-
das outras pessoas etc.
ça — também se poderia falar em falta de confiança radi-
cal — e induz a pessoa em questão a pensar: “Por amor de
Deus, isso no fim vai me pegar de novo da próxima vez!”
Como se vê, acontecimentos que se tornam a ignição ini-
cial de um processo circular de neurose de ansiedade são ca-
Associam-se a este pessimismo básico os pensamentos “en-
pazes de mexer com a parte substancial da vida de um ho-
ganchados”, e isto significa voltar a pensar ininterruptamen-
mem.
te e com medo na desagradável experiência do metrô. Am-
bas as coisas introduzem juntamente a perigosa ansiedade O quarto e último fator (4) é a fraqueza da autotrans-
de expectativa. cendência, que favorece a doença fóbica. Ela é responsável
pelo fato de vir a ansiedade a dominar. Quando alguém con-
Passemos ao fator (2). A labilidade vegetativa é respon-
centra inteiramente o espírito em conteúdos vitais significa-
sável pelo fato de a ansiedade de expectativa também poder tivos, a ansiedade de expectativa sofre maior ou menor per-
realmente provocar reações somáticas. Nem todo organismo
da de objeto, porque a atenção total do indivíduo também
participa. Se o indivíduo sofre angústia pela próxima via-
já não lhe pertence. Aquele, por ex., que na ida, para a esta-
gem de metrô, mas não obstante não se sente mal, o proces-
so circular pára, e a ansiedade vai também sumindo aos ção do metrô, em vez de ficar ruminando se durante o per-
poucos. Há entretanto combinações muito estreitas entre o curso irá sentir enjôo, pensasse intensamente em dar um
estado psíquico e o somático que em parte ainda não foram presente de aniversário à sua velha mãe, ele iria “esquecer”
estudadas pela ciência. Mas sabemos que elas existem. Basta de ter medo e viajaria sem problemas no metrô.
pensar no fato de mortes “sem causa” aparente, acontecidas Resumindo, consideremos em que ponto deste processo
entre membros de populações primitivas, que morrem subi- circular da neurose de ansiedade se pode agora entrar com
tamente em razão de feridas psíquicas (“maldição de pros- ação terapêutica para fazê-lo implodir.
crição”). Ou o trágico fenômeno, conhecido em nossas so-
ciedades, dos bebês desprezados, que muitas vezes até ces-
Quanto ao fator (1) da p. 97:
sam de respirar. Estes fenômenos implicam em neurose de
ansiedade na medida em que “a ansiedade reativa de expecta- A disposição de caráter de um indivíduo é modificável
tiva tranca-se numa prontidão vegetativa à ansiedade” (28), só em mínimo grau; exige muito tempo, um treinamen-
e dessa maneira poderá atrair diretamente o elemento te- to férreo e paciência (é objeto da Terapia do Compor-
mido. tamento).

O terceiro fator é o destino (3), que também de algum Quanto ao fator (2):
modo entra em tudo, e que, como desencadeamento de toda Pode-se estabilizar a labilidade vegetativa com medica-
fobia, representa um fato de origem que tem um peso bas- mentos e, eventualmente, com ginástica e esporte, sendo
tante grande para os sujeitos. Milhares de acontecimentos esta última indicação a melhor, quando vista a longo
passam por nós sem desencadear uma reação neurótica, mas prazo (é objeto da Terapia médica).
certos acontecimentos trazem em si essa ameaça de modo
todo particular como: Quanto ao fator (3):
a) acontecimentos ameaçadores de nossas vidas (por ex. O destino (= elemento fatalístico) não é modificável;
quedas perigosas, ataques de asfixia etc.;
pode, quando muito, tornar-se transparente (é objeto da
Psicologia Profunda). Mas, mesmo que se consiga ter
b) acontecimentos que despertam recordações doloro-
conhecimento e aceitação posterior do destino, o pro-
sas (por ex. um trauma de infância ou de situações
cesso circular neste passo poderá ter-se tornado autôno-
desagradáveis, sofridas no passado); mo e por isso continuar seu curso.
98
99
Quanto ao fator (4):

3
A qualquer momento se poderá fortalecer consideravel-
mente a autotranscendência do indivíduo, porque é um
potencial do espírito que como tal permanece não dani-
ficado pelo fato da doença. É aqui que a logoterapia tem
aplicação.
SOBRE A CURA DAS NEUROSES DE ANSIEDADE
Antes de entrarmos no modus operandi da logoterapia,
seja dita ainda uma palavra sobre possíveis combinações dos
diversos elementos da terapia. São oportunas tanto a com-
binação “intenção paradoxal |! treinamento do comporta-
mento” quanto a combinação “intenção paradoxal + medi-
camentos/esportes”. Por último a terapia somatopsíquica si-
multânea é rotulada por Frankl de “pinça terapêutica”.
Do esquema da p. 97 depreendeu-se o grave fato de
No espirito de uma terapia somatopsíquica é pre- que no processo circular da neurose de ansiedade o sintoma
ciso aplicar um lado da pinça terapêutica — capaz produz a fobia e a fobia fixa o sintoma. Chegamos à con-
de interromper e fazer explodir o círculo neuróti- clusão de que se deve antes de tudo atacar terapeuticamen-
co — sobre a labilidade vegetativa como o pólo te a ansiedade de expectativa subjacente à fobia, pois esta
somúático, e o outro lado da pinça terapêutica so- não só mantém o “círculo vicioso” em marcha, como tam-
bre a ansiedade reativa de expectativa, como o pólo bém estorva o desenvolvimento da autotranscendência do
psíquico. (Frankl, 29) indivíduo porque o obriga a pensar continuamente nela. Co-
mo, então, neutralizar a ansiedade de expectativa, como
A combinação “intenção paradoxal :+ análise do desti- poder expulsar o medo? Precisamente, só se o indivíduo sou-
no” ao contrário tem poucas perspectivas porque, depois de ber desejar com veemência o objeto temido. Porque medo
se estabelecerem as marcas do destino na vida, começa a e desejo se inibem reciprocamente e por isso se anulam re-
germinar um sentimento de não-liberdade própria que está ciprocamente. É simplesmente impossível ter medo da che-
em contradição com a consciência de liberdade espiritual, gada da noite e ao mesmo tempo desejar que finalmente
subsistente apesar de tudo, e com que a logoterapia opera. comece a anoitecer — isto produz uma “inibição recíproca”:
Além disso, o fato de um indivíduo ocupar-se com o passado o menos do medo e o mais do desejo neutralizam-se um ao
da vida agrava necessariamente a concentração sobre O eu, O outro em zero.
que precisamente enfraquece a capacidade de autotranscen-
dência — capacidade esta que, segundo a doutrina adotada Naturalmente, não é nada fácil desejar a coisa temida;
pela logoterapia, precisa ser fortalecida. isso só se consegue com uma forte mobilização espiritual, e a
reserva de forças de onde esta se pode haurir acha-se na
capacidade de autodistanciamento e no humorismo. Lembre-
mos ainda uma vez o paciente com fobia de metrô. Já a ca-
minho do metrô ele sofre a ansiedade do enjôo que se intro-
duz rapidamente. Mas passemos logo à ofensiva: ele não
gostaria nada de usar o metrô sem problemas! Não, diz ele
interiormente: “Um pouco de enjdo não seria nada mau; na
melhor hipótese, não importa que eu desmaie, entrando no
vagão, ao menos me é garantido um lugar para sentar, e vou

100 101
Quanto ao fator (4):

3
A qualquer momento se poderá fortalecer consideravel-
mente a autotranscendência do indivíduo, porque é um
potencial do espírito que como tal permanece não dani-
ficado pelo fato da doença. É aqui que a logoterapia tem
aplicação.
SOBRE A CURA DAS NEUROSES DE ANSIEDADE
Antes de entrarmos no modus operandi da logoterapia,
seja dita ainda uma palavra sobre possíveis combinações dos
diversos elementos da terapia. São oportunas tanto a com-
binação “intenção paradoxal |+ treinamento do comporta-
mento” quanto a combinação “intenção paradoxal + medi-
camentos esportes”. Por último a terapia somatopsíquica si-
multânea é rotulada por Frankl de “pinça terapêutica”.
Do esquema da p. 97 depreendeu-se o grave fato de
No espirito de uma terapia somatopsíguica é pre- que no processo circular da neurose de ansiedade o sintoma
ciso aplicar um lado da pinça terapêutica — capaz produz a fobia e a fobia fixa o sintoma. Chegamos à con-
de interromper e fazer explodir o círculo neuróti- clusão de que se deve antes de tudo atacar terapeuticamen-
co — sobre a labilidade vegetativa como o pólo te a ansiedade de expectativa subjacente à fobia, pois esta
somúático, e o outro lado da pinça terapêutica so- não só mantém o “círculo vicioso” em marcha, como tam-
bre a ansiedade reativa de expectativa, como o pólo bém estorva o desenvolvimento da autotranscendência do
psíquico. (Frankl, 29) indivíduo porque o obriga a pensar continuamente nela. Co-
mo, então, neutralizar a ansiedade de expectativa, como
A combinação “intenção paradoxal + análise do desti- poder expulsar o medo? Precisamente, só se o indivíduo sou-
no” ao contrário tem poucas perspectivas porque, depois de ber desejar com veemência o objeto temido. Porque medo
se estabelecerem as marcas do destino na vida, começa a e desejo se inibem reciprocamente e por isso se anulam re-
germinar um sentimento de não-liberdade própria que está ciprocamente. É simplesmente impossível ter medo da che-
em contradição com a consciência de liberdade espiritual, gada da noite e ao mesmo tempo desejar que finalmente
subsistente apesar de tudo, e com que a logoterapia opera. comece a anoitecer — isto produz uma “inibição recíproca”:
Além disso, o fato de um indivíduo ocupar-se com o passado o menos do medo e o mais do desejo neutralizam-se um ao
da vida agrava necessariamente a concentração sobre O eu, O outro em zero.
que precisamente enfraquece a capacidade de autotranscen-
dência — capacidade esta que, segundo a doutrina adotada Naturalmente, não é nada fácil desejar a coisa temida;
pela logoterapia, precisa ser fortalecida. isso só se consegue com uma forte mobilização espiritual, e a
reserva de forças de onde esta se pode haurir acha-se na
capacidade de autodistanciamento e no humorismo. Lembre-
mos ainda uma vez o paciente com fobia de metrô. Já a ca-
minho do metrô ele sofre a ansiedade do enjôo que se intro-
duz rapidamente. Mas passemos logo à ofensiva: ele não
gostaria nada de usar o metrô sem problemas! Não, diz ele
interiormente: “Um pouco de enjôo não seria nada mau, na
melhor hipótese, não importa que eu desmaie, entrando no
vagão, ao menos me é garantido um lugar para sentar, e vou

100 101
até recuperar um pouco do sono matinal interrompido, pois
meço, apenas por ter ouvido ou lido sobre este método em
eu me levantei cedo demais!”
algum lugar. Contou-me uma de minhas alunas, que conhe-
Que irá acontecer agora? Se o paciente de fato consegue ceu a intenção paradoxal em minha aula, o seguinte. Na in-
ter força para esse desejo paradoxal, nem que seja só por fância ela foi uma vez atacada por um cão e desde esse tem-
breve tempo, é certeza então que nada irá acontecer, abso- po tomou tal medo de cães que sempre mudava de calçada
lutamente nada, nem “um pingo de enjôo”. E que, se o indi- na rua quando via de longe um pedestre com seu cão no pas-
víduo quer sentir-se mal, não é nada fácil conseguir isso, seio lateral. Era por isso muitas vezes objeto de riso, e qua-
nem com a melhor vontade do mundo. Não lhe acontecerá se deixou de sair junto com as amigas porque não sabia co-
nenhuma tensão, nenhuma crispação que possa eventualmen- mo explicar seu caminho em ziguezague pela rua, de cá para
te provocar-lhe no cérebro uma anemia passageira. Ao con- lá. Durante as últimas férias de Natal ela tentou usar a in-
trário, se ele ainda sorri interiormente da idéia exagerada tenção paradoxal: ela se propôs passar, com desprezo da
e absurda de “desmaiozinho confortável, entre sonhos agra- morte, ao lado do primeiro cão que encontrasse e ao mes-
dáveis”, e sabe apreender o lado cômico desse absurdo, en- mo tempo falar a sós com ele. Passou a chamá-lo, interior-
tão sua circulação regula como nunca e o indivíduo relaxa mente: “Vamos, atreva-se, mostre os dentes, mostre o que
sorridente e bem distanciado de um enjôo psicogênico. Logo você sabe fazer!” Ela realmente fez a experiência e em pen-
que a ansiedade de expectativa for, por assim dizer, parali- samentos até falou com o cachorro estranho, quando tinha
sada mediante a intenção paradoxal, o sintoma deixa de já passado por ela. “Estou muito desapontada com você”,
comparecer. Desde esse momento, o processo circular cor- pensava, seguindo-o com a vista, “seu cachorro covarde, não
re na outra direção; não comparecendo o sintoma, o pacien- é capaz de nada, nem da mais mínima mordidinha!...” Fi-
te cobra ânimo, tem menos ansiedade, pode parodiar mais nalmente o medo de cães cedeu de repente, e quando, depois
facilmente os seus sentimentos de angústia... por outro la- de algumas semanas, eu falei sobre isso com essa aluna, ela
do, não aparecendo nenhum sintoma, ele cresce em seguran- me disse que nem pensava mais em cachorro, andando pela
ça, não espera de modo algum que lhe suceda um mal de- rua.
masiado; não precisa evitar situações ansiosas e imediata-
Perguntemos: qual é propriamente o mecanismo que
mente passa a movimentar-se de novo livre de angústia.
garante que a intenção paradoxal não atue sobre a realida-
Ninguém contesta que o uso deste método é a princípio de? Toda a discussão interna é algo assim como um “com-
muito difícil. Ao terapeuta é difícil achar as fórmulas para- bate de sombras por baixo da realidade”. De um lado há que
doxais corretas para o paciente e motivá-lo a dizê-las, tam- tratar com uma ansiedade irracional, isto é, não condizente
bém, interiormente. Numa problemática como a da fobia de com a situação. Embora, basicamente, seja possível alguém
metrô, recomenda-se ao terapeuta praticar o total in vivo, desmaiar ou ser mordido por um cão a qualquer momento,
isto é, viajar de metrô junto com o seu paciente e a cada é porém na vida do dia-a-dia improvável .que isso aconteça
estação lembrá-lo que, entre uma e outra, bem poderia ven- neste exato momento; por isso não é válido que o indivíduo
cer O prazo para um “desmaiozinho confortável”, e que ele fique eternamente preocupado. (Se alguma vez ele precisar
não deve deixar passar essa “ocasião para uma boa soneca”, se tratar de uma ansiedade realista, isto é, condizente com a
E também é difícil para o paciente arriscar-se ao procedi- situação, a intenção paradoxal seria despropositada. A nin-
mento proposto, porque sempre lhe resta a compreensível guém por ex. se recomendaria enfiar a cabeça numa jaula
suspeita de que a coisa temida possa comparecer, apesar do de tigre e pensar consigo, interiormente: “Vamos, morda!”)
desejo paradoxal. Somente quando tiver experimentado re-
Na neurose de ansiedade, portanto, existe uma angústia ir-
petidamente que isso não acontece, tomará mais coragem e
racional que, apesar da irracionalidade, de alguma forma
logo saberá ajudar-se a si mesmo até sem auxílio do tera-
atua sobre a realidade, produzindo sintomas (enjôo no me-
peuta.
trô) ou reações de fuga (mudança de pista na rua) etc.
Pode dar-se que alguém, completamente só — sem aju-
da de um terapeuta —, consiga ajudar-se por si desde o co- Por outro lado, o desejo paradoxal é igualmente irracio-
nal — poderia dizer-se: um absurdo se expulsa com outro

102
103
que a capacidade de rendimento, em situações normais de
Realidade
carga, na vida, modifica-se de maneira muito desigual. Em
muitos indivíduos ela vai abaixo consideravelmente, outros
pode atuar =
não atua são estimulados ao sucesso. Aqueles que sob carga têm que-
da de rendimento são também chamados “campeões mun-
diais de treinamento”, porque se assemelham a esportistas
que apresentam altíssimos rendimentos quando em condi-
ções neutras, mas ao tratar-se por ex. de uma competição,
falham. Descobriu-se agora que a queda de rendimento des-
Ansiedade Desejo ses “campeões mundiais de treinamento” é causada por uma
(irracional) (paradoxal) superelevada ativação do córtex cerebral sem controle, e esta

pra Ane
er superativação por
cionais de distúrbio
sua vez é condicionada por fatores
— leia-se: ansiedade.
emo-

"Combate de sombras por baixo da realidade" Com outras palavras, se se conseguir enganar a ansie-
absurdo — o desejo por sua vez não atua sobre a realidade, dade a curto prazo — mediante um “truque” — aí a su-
mas impede os efeitos do irracional na realidade. E isso, cer- perativação retrocede, a eletricidade negativa do córtex ce-
tamente porque, por seu exagero bem-humorado, ele não tem rebral aumenta, e com isso eleva-se também a capacidade
nenhuma chance de atuar por sugestão. As fórmulas parado- do indivíduo e desaparece o motivo para ansiedade. Mas é
xais não dizem: “... Não me importa que eu me sinta mal”, precisamente isso que a reação em cadeia cura, posta em
ou “... O cachorro vai certamente me morder” etc.: isso marcha pela intenção paradoxal.
seria uma auto-sugestão perigosa. Não. É preciso que o “de- Desejo paradoxal plano
sejo veemente” se harmonize com a própria fórmula que (=mobilização da capacidade de autodistanciamento) espiritual
provocou uma sã rebeldia para não mais ceder a angústias
mesquinhas e para fazer troça delas com uma virada ao hu-
morismo. diminuição dos fatores emocionais de distúrbio plano
Embora se saiba por que o desejo paradoxal não pro- (=afrouxamento da ansiedade de expectativa) psíquico
duz a coisa paradoxal desejada, por muito tempo não se
soube com precisão por que ele impede seriamente a coisa
temida. Medições experimentais recentemente realizadas no
retrocesso da superativação plano
Instituto de Psicologia de Viena, conduzidas sob a direção (=elevação da eletricidade negativa no somático
de Giselher Guttmann, trouxeram a possibilidade de um potencial de tensão contínua do córtex)

|
novo princípio de explicação do assunto. No Laboratório de
Investigação do Cérebro, de Viena, há um aparatoso equi-
pamento com auxílio do qual podem ser captadas de todo
o couro da cabeça do indivíduo oscilações de tensão de pou- progresso da capacidade de rendimento plano
cos milionésimos de voltagem. Isto permite observações do no sentido da ação bem-sucedida psíquico
potencial de tensão contínua no córtex cerebral como um (=ausência do sintoma)
indicador do respectivo nível de ativação. Aí se mostra que
uma elevação da eletricidade negativa é acompanhada de
fases de maior capacidade de rendimento. Quer dizer: sem- construção da autoconfiança plano
pre que o potencial de corrente contínua do indivíduo come- e da confiança fundamental espiritual
ca a mudar na direção do negativo, ela se torna “mais ca- (=base de uma sã realização da vida)
paz de rendimento” (10-20 microvolts fazem já enorme di-
O quadro esquemático reproduz ao lado dessa reação
ferença). Independente disso, sabe-se pela psicoergometria em cadeia o processo da interação aí existente, entre as três

104 105
O esboço indica algumas dessas consegliências de sinto-
dimensões do ser humano. Desse processo depreende-se que mas, como sentimentos de inferioridade, reações de fuga, fa-
a logoterapia, com seus métodos, tem aplicação no espiri- lha profissional, problemas familiares, depressões e estados
tual pelo fato de não poder este cair doente, com o fim de, de desespero, que, cada qual a seu modo, se transformam
— através das outras camadas doentes ou atingidas por dis- em causa de novas séries infelizes, tal que tudo se entrecru-
túrbios funcionais — construir de novo o espiritual e final- za e se atravessa.
mente criar saúde na estrutura global.
Considere-se todavia: se o paciente pegar de jeito o seu
O desejo paradoxal, é certo, deve ser utilizado oporiuna-
sintoma de neurose de ansiedade (ou de neurose de com-
mente, portanto antes que o paciente se enleie na situação
pulsão) mediante a intenção paradoxal, pouco a pouco tam-
de angústia, e não apenas quando ele já está envolvido. É que
bém as consegiiências de sintomas regredirão. Isto lhe traz
os fatores de distúrbio do plano psíquico e do somático
um desenvolvimento (psíquico) e este desenvolvimento tem
poderiam já ser tão poderosos que a força espiritual de dis-
tanciamento não seja mais suficiente para produzir um
paradoxo humorado. A “força desafiadora do espírito” é REC o)
grande — fantasticamente grande — mas tem limites. N
Diziamos que com a intenção paradoxal não acontece causa sint
intoma e Õ
senão a eliminação da ansiedade por um determinado tem- me Consegiiências
po, o que basta para eliminar o sintoma. Perguntamos: a in- D)——— (29) sd O sintomáticas
tenção paradoxal é simplesmente um método para demolição
de sintomas? Nas numerosas investigações sobre o contro-
le de eficácia deste método nunca se teve de apontar sinto-
mas substitutos. Isto se explica de dois modos distintos. Em
primeiro lugar, o paciente aprende a manejar independente-
mente esse instrumental, podendo por conseguinte ajudar-se p
ta

a Si mesmo cada vez mais, se a qualquer momento novas an- E


siedades irracionais vierem surpreendê-lo. Em segundo lu- E regride com o
gar, pergunta-se se é correta em geral a hipótese de que os [+] «
auxílio
me
da
tratamentos de sintomas provocam necessariamente reação intenção paradoxal
de sintomas substitutos. E, sem dúvida, simples demais o
<
E vo O
modelo segundo o qual uma causa conduz ao sintoma e que a Desenvolvimento
não se pode remover o sintoma sem remover a causa. Na o Consegiiências do
a e)
EE Cs Õ desenvolvimento
realidade existem em todo quadro patológico inteiras séries RES de O (psíquico)
de causas e efeitos, e todo sintoma transforma-se novamente
em causa para novas sequências.
sentimentos deEndate
a,
2 uai
Õ
Õ inferioridade one ;
reações de a O
causa sintoma dado Õ fuga Ea O também por seu lado consegiiências: progresso da autocon-
falha pt fiança, normalização profissional etc. Tudo
ap
isso em contra-
Ó profissional = partida poderá contribuir integralmente para que as causas
eventuais, que desencadearam interiormente a série de doen-
problemas EEE estu ças (traumas sofridos, por exemplo), sejam ao depois muito
O familiares a ep melhor superadas do que se isso tivesse sido tentado ainda,
depressão, Ri durante a existência da sintomática mais aguda da doença.
e) desespero ERian
ese Assim, a redução de sintomas é não só a “primeira ajuda” que
106
deve ter lugar na psicoterapia a fim de frear * imediatamen- radamente à situação carregada de angústia. Através disso
te as consegiiências negativas de sintomas, mas é até mesmo tudo dá-se um crescimento interior que, com uma luta pura-
um meio com o qual talvez se possam remediar as próprias mente racional contra a ansiedade, jamais seria realizável.
causas. É nada mais nada menos do que o começo da recuperação
da confiança fundamental. E isto constitui a melhor defesa
A disposição psicofísica e a posição social, ao lado contra qualquer perigo de neurose, mesmo quando ainda
da disposição vital, formam juntas a situação na- poderiam perdurar suas raizes.
tural de um individuo, mas esta não é o fator de Qual seja a “reorientação existencial” possível no decur-
decisão final. O último a decidir é, antes, a pessoa so de tratamento pela logoterapia, poderá sugerir o dese-
espiritual — a atitude pessoal em face da situação na- nho de um dos meus pacientes, que amistosamente me foi
tural. Mas quando se trata de uma atitude, sempre permitido publicar. Por anos ele sofreu de estados neuróti-
é possível também uma reorientação. Ora, a logote- cos, mau humor, angústia e obsessão, que lhe permitiam
rapia essencialmente trabalha sobre isso. Mas cer- apenas uma vida cheia de limitações. Até que conseguiu,
tamente não recorre às primeiras causas: ela se usando a intenção paradoxal, fazer frente às suas ansiedades,
dirige à última causa da doença. Não se interessa como representou no desenho abaixo...
por causas impropriamente ditas, isto é, não se in-
teressa por “condições” mas pela causa própria,
pela “causa” verdadeira da doença. Esta causa ver-
dadeira, contudo — dentre todas as “condições”
internas como externas, — está na tomada de po-
sição da pessoa do doente, e é a esta que sem dúvi-
da recorre e apela a logoterapia como à última ins-
tância, àquela que tem q última palavra, a palavra
decisiva. (CFrankl, 30)

Entretanto a intenção paradoxal é, afinal de contas, mais


do que um tratamento de sintomas. O paciente, com auxi-
lio do humorismo, eleva-se acima de si mesmo, já não está
entregue ao seu mundo psicofísico; ele se sente forte, pois
de fato demonstra coragem; apesar da ansiedade, ele pega
“o touro pelos chifres” e impõe-se conscientemente e delibe-

* A nenhum médico ocorreria, em caso de apendicite aguda,


aconselhar ao paciente fazer imediatamente exame minucioso dos
dentes. Os dentes cariados poderiam ser causa de insuficiente mas-
tigação das porções na boca durante as refeições, pelo que, os boca-
dos não mastigados, chegando ao estômago e em seu caminho se-
guinte, provocam distúrbios do apêndice. Com esse procedimento
médico, o paciente morreria em razão do rompimento do apêndice an-
tes de terminar o exame sobre o eventual estrago dos dentes.
Em psicologia, infelizmente, não é de modo algum evidente que
se tenha, primeiramente — não digo unicamente — de afastar e de |
aliviar a necessidade imediata, Quantos pacientes por isso já estão
desesperados com as consegiiências de sintomas, enquanto o seu psi-
coterapeuta ainda anda pacientemente à busca das causas possíveis
dos sintomas encontrados...

108 109
Consideremos primeiro o processo circular da neurose
compulsiva que por sua vez foi feito explodir com auxílio da
Á, intenção paradoxal. No começo está presente — como no
aparecimento da neurose de ansiedade — algo fatalístico: o
“incidente” compulsivo é, o mais das vezes, uma idéia total-
mente absurda de uma coisa monstruosa que o indivíduo
O PERIGO DO CARÁTER NEURÓTICO COMPULSIVO poderia executar; seria como atirar a criança pela janela,
enfiar uma faca na barriga do vizinho, ou empurrar na
frente do ônibus os transeuntes à espera na parada de
ônibus...
De onde provêm essas incidências, ninguém sabe; * des-
conhecemos em absoluto como se produz o “incidente”, até
mesmo na vida sadia. Não sabemos de onde o compositor
tira suas melodias e o inventor suas idéias. O destino do
neurótico compulsivo é, de qualquer modo, produzir repre-
Enquanto o neurótico de ansiedade, por sua estrutura sentações extraordinariamente inverossímeis, pessimistas,
de caráter, tende simplesmente à insegurança e a ter pensa- que dizem respeito a ele ou aos seus'modos de agir. (Por
mentos “enganchados”, na condição do neurótico compulsi- inverossímil que seja a idéia que nele venha a “incidir” —
vo se tem que tratar com uma disposição anancástica de ca- isso não é impossível. O impossível, isto é, O que é estranho
ráter que o impele ao pedantismo, ao fanatismo de limpeza ao real, só “incide” no psicótico, para quem a realidade vai
e às idéias escrupulosas. sendo perdida paulatinamente. Assim, poderia por ex. inci-
dir no psicótico, de repente, a representação de que ele se
ANSIOSO NEURÓTICO COMPULSIVO tenha transformado no diabo em pessoa — o que é fatica-
NEURÓTICO
mente impossível, enquanto pode “incidir” no neurótico
A insegurança básica e a hiper- O anseio básico de perfeição compulsivo por ex. a idéia de que ele tenha de repente um
fatos negativos le- cem por cento leva a uma exage-
reflexão sobre ataque e enlouqueça — o que, apesar da verossimilhança ex-
vam a ansiedades de expectati- rada ansiedade com os dio
va, que justamente ocasionam O e isto resulta ser o maior de- tremamente escassa, sempre é possível em qualquer homem;
negativo. feito. na verdade, por causa dessa verossimilhança muito pequena,
não vale a pena pensar mais nela.) Se um homem, agrava-
do com a carga de um caráter anancástico, não conseguir
Os dois têm em comum: levar a sério suas incidências compulsivas, tudo bem; mas
º atitude negativa de expectativa perante a vida, ai dele, se tentar avaliá-las, apesar de sua inverossimilhança
ao redor de si e ansiedade consigo,
de ameaça séria, e se tiver medo de que se realizem. É que
º ansiedade
ele luta contra a suposta ameaça, tentando evitá-la a todo
º tendência à exageração de coisas insignificantes.
custo — não tocar mais no bebê, jogar para longe de casa
O caráter anancástico é o caldo de cultura em que pode
crescer uma neurose de compulsão, mas não necessaria- * Sabemos pelo menos que elas não provêm de um desejo se-
mente. Se se contrai ou não a doença, depende da atitude creto. Seriamos muito injustos com o neurótico compulsivo se qui-
do indivíduo em face da sua predisposição de caráter, e a ati- séssemos atribuir-lhe o desejo secreto daquilo que ele teme, Seu
tude é essencialmente livre, portanto é também corrigível. No medo é verdadeiro, se não, o método da intenção paradoxal nada
compulsão, sempre deverá ter lu- poderia fazer em seu benefício. Considere-se quanto seria perigoso
tratamento de neuroses de para aquele que sofre temores compulsivos se fosse aconselhado a
gar em acréscimo, além do tratamento de sintoma, uma cor- prejudicar as outras pessoas, onde ele tivesse de “provocar um ba-
reção de atitude, para que o paciente se preserve das re- nho de sangue”, quando de fato há por trás uma oculta intenção de
caídas. morte! Mas não é este o caso.

110 of
induz à
todas as facas, deixar de usar o ônibus para não causar
mal a ninguém. Não só isso: ele passa a controlar se não há
nenhum objeto pontiagudo em casa, se o vizinho está são
e salvo em sua residência; ou reconstrói mentalmente por ho-
passou
ras a fio os caminhos por onde andou há pouco, se
ônibus etc. Ele busca, em princípio ,
ao lado da parada de ansiedade (medo) processo circular tentativa de assegurar
uma segurança cem por cento num mundo em que nada de que ela venha a da 100% (o sintoma
é seguro cem por cento. se tornar realidade neurose compulsiva compulsivo
(idéia compulsiva) vai fracassar)

Pode-se provar que o quadro clínico repetitivo, ti-


pico do neurótico compulsivo, pode reduzir-se a
uma insuficiência do sentimento de evidência, e a
compulsão de controle, a uma insuficiência de segu-
rança instintiva. Com razão E. Straus opinou que O mantém
neurótico compulsivo é caracterizado por uma aver-
são contra tudo que é provisório. Não menos ca- idéia incidente
racterística é, q nosso ver, uma intolerância a tu- absurda
do que é acessório. Quando se trata de conhecimen- a ansiedade fica abolida porque neutralizada pelo desejo
to, nada pode ser acessório, nada pode ser o, provisó- paradoxal, fica então igualmente abolido todo motivo de
rio quando se trata de decisão. AO contrári tudo
O neuró-
anseio por segurança e de comportamento de evitação. O pa-
deve ser definido e permanecer definitivo.
ciente corre de novo o risco de “arriscar uma chance” e ex-
tico compulsivo, porém, gostaria em grau máximo
modo é perimenta a sensação de que as coisas marcham totalmente
de evidenciar tudo — até o que de nenhum
sem perigo; ele na realidade não causa mal a uma mosca

np
demonstrável racionalmente, por exemplo, sua pró-
nem pensa em transformar em realidade uma das suas ima-
pria existência, ou até mesmo q realidade do mun-
indubitá- gens internas de horror. Isso lhe dá a segurança, de que
do exterior. Ora, o mundo exterior é tão
tanto necessita, de nunca duvidar de si, apesar do seu ser
vel quanto indemonstrável. CFrankl, 31)
escrupuloso.
; Tive um paciente que, quando sua filha trazia para casa
A tentativa para se assegurar um rendimento cem por
amigas para brincar, sempre lhe vinha a idéia de que pode-
cento vai, portanto, fracassar, e O comportamento de evita- ria ter toques imorais com as meninas, ou até, num momen-
ção do doente de compulsão só terá como consequência o to não vigiado, violá-las. Embora fosse homem profunda-
não mais experimentar a evidência de que seus “incidentes” mente honesto e de muita fé, esta visão terrível o perseguia
absurdos sejam realmente absurdos (o inverossímil total).
de tal modo que ele preferia trancar-se no escritório, sempre
Ele não tem mais facas em casa mas não sabe se não assas- que houvesse visita das jovens em casa. Naturalmente, nem
sinaria alguém caso tivesse uma faca. Todas as facas retira- a filha nem a esposa compreendiam.o seu comportamento
das de circulação também não oferecem juntas nenhuma ga- estranho; a filha acreditava que o pai achasse ruim ela tra-
rantia de que, afinal, não possa usar qualquer outro “instru- zer amigas, e a mulher o censurava por afastar-se do cum-
mento de homicídio”. Assim o medo da coisa temida fica primento da obrigação de pai, deixar os filhos fazerem o que
permanentemente ativo, embora a coisa temida não se rea- bem entendem. Houve brigas do casal e uma diminuição de
lize. rendimento escolar da filha. Com a minha orientação, O
Aqui tem aplicação o desejo paradoxal. Este consiste, paciente abalançou-se a sair de novo do escritório, com as
segundo padrão comprovado, em que nada “seja mais reco- colegas de sua filha brincando em casa, mas foi ao mesmo
mendável do que precisamente realizar a coisa temida”. Se tempo exortado à intenção paradoxal. Ao abrir a porta do

112 113
escritório lá estava ele a “petiscar no lanche da tarde com
umas duas garotas, tendo de compensar-se com as outras soas!) O que, por conseguinte, atormenta o neurótico com-
para o jantar”. Entre uma coisa e outra ainda “tinha de pulsivo como um pesadelo da possibilidade de fazer isso
ocupar-se um pouco com a filha” para “não ficar fora de pode em verdade acontecer com alguém que seja quase o
forma o resto da tarde”. Mas diante de Deus confiava tran- contrário do neurótico compulsivo: com o valentão ou com
quilo: “Ele sabia exatamente o que se passava no coração” o psicopata (ver à esquerda, no esboço ao lado). E este, por
e que o desejo paradoxal “imoral” não tinha nenhum outro sua vez, não tem medo, embora tenha agido bem em preocu-
fim que restabelecer a saúde mental (desejada por Deus). par-se um pouco mais.
Com esta receita todo o fantasma da neurose compulsiva (Pense-se nesta “tragicomédia”: quem fosse capaz de
desapareceu em poucas semanas e o homem continua hoje praticar aquelas ações incorretas, em geral não teria medo;
um pai amoroso e bom marido. e quem desesperadamente tivesse medo, não seria capaz de
Nas neuroses de compulsão podem-se empregar sem praticá-las!). Se, portanto, as fórmulas paradoxais encora-
reserva fórmulas paradoxais, pode-se aconselhar o pacien- jam o neurótico compulsivo na direção da “alegria do risco”
te a “jogar à toa pela janela os bebês”, ou “espetar os vizi-
nhos em fila” — todas, coisas que têm uma única conse- Falha
quência na realidade, isto é, que um pobre homem atormen-
tado fique livre de seu sofrimento. O neurótico compulsivo
jamais cometeria os males que teme, porque, em razão de
seu caráter anancástico, ele tenderia é para o perfeccionis-
mo: ele quer fazer tudo correto, absolutamente correto —
é este sem dúvida o seu problema, isto é, diante do sincero
desejo de fazer tudo bem, pratica ações afinal totalmente | |
erradas. Mas se, com a defesa da intenção paradoxal, houver I | > Ansiedade
a ee
regressão da doença, a tendência à ordem e ao comporta-
Leviandade Neurose
mento correto entrará novamente na normalidade; não se
dará o menor indício de descarrilhamento psicopático de a patas
natureza grave. : Alegria do risco, Superansiedade,
valentia, timidez,
A esta altura gostaria de lembrar a função em U da desinibição inibição
ansiedade que, de acordo com investigações mais exatas da
Psicologia Experimental, comprova que as falhas de um in- O neurótico compulsivo
divíduo na vida prática aumentam tanto no caso de alto teme o que
grau de ansiedade quanto no de baixo grau. Diz-se por ex,, pode acontecer
entre alpinistas, que propriamente só dois tipos de pessoas ao leviano!
estão em perigo de precipitar-se: os levianos que, mal equi-
pados e com qualquer tempo, querem tomar de assalto os
picos, e os ansiosos, que sobem por puro medo. e desinibição, elas simplesmente o empurram ao meio-termo
ponderado, e nunca o deixam cair no extremo oposto que
Ora, o neurótico compulsivo sem dúvida faz parte do de modo nenhum corresponde ao seu natural.
grupo dos ansiosos, medrosos, inibidos (ver, à direita no es-
boço da pág. ao lado). Mas os conteúdos de suas idéias Ao especialista no assunto impressiona o fato de existi-
rem paralelos entre a intenção paradoxal de Viktor E. Frankl
obsessivas poderiam, se tanto, tornar-se realidade entre pes-
soas extremamente levianas e desinibidas. (O indivíduo tem e o método da prescrição de sintoma, de Paul Watzlawick.
Abstraindo do fato de Frankl ter desenvolvido o seu méto-
que ser muito leviano e desinibido para maltratar as cole-
do nos 20 anos em que o chamado Grupo de Palo Alto cria-
gas da filha, ou muito furioso para apunhalar outras pes-
va no “Mental Research Institute” da Califórnia, na década
114
TES,
dade (a idéia compulsiva) — situação esta que a ansie-
de 60, a prescrição de sintoma, há também uma diferença sempre faz recrudescer, após o término da fase de
na técnica de procedimento. Nas neuroses de compulsão es- diga, terapeuticamente produzida (em referência aos sin-
sa diferença salta aos olhos de modo particular. Por exem- mas de compulsão).
plo, numa obsessão de limpeza, aconselha-se o paciente, de
“Vamos agora ao ponto em que se consegue “resolver”
acordo com a “prescrição de sintoma”, a lavar as mãos, em
neurose compulsiva mediante intenção paradoxal. Não
vez de vinte vezes por dia, lavá-las umas cem vezes por dia.
pode ainda, com isso, considerar efetuada a terapia, por-
Espera-se com isso que ele possa interromper o processo
— como já foi esclarecido — a atitude básica de um pa-
por efeito de fadiga e saturação, que de tal modo lhe tiram
te antigo em face da sua predisposição de caráter precisa
o prazer de lavar as mãos que ele pode cessar de fazê-lo. Se-
b atenção terapêutica. Sabemos que ele aspira à perfeição.
gundo a intenção paradoxal, contudo, o paciente é instruído
em pensamento, todas as bacté- le confere várias vezes as contas para ver se estão garanti-
a “convidar” delicadamente,
dumente corretas; ao sair de casa fica olhando várias vezes
rias de doenças do mundo a “tomarem lugar em suas mãos
e aí instalar-se”. Assim, “tira-se o vento das velas” (Frankl), À a ver se todos os aparelhos estão regularmente desliga-
corta-se pela raiz, ao ansioso, toda possibilidade de contágio,
e, com a superação bem-humorada da ansiedade, torna-se su- E Logicamente ele procura também o terapeuta perfeito,
pérflua a ablução anormal das mãos. quer a cura perfeita. Como porém nada é perfeito na vida,
tudo sempre fica um resto imperfeito, ele precisa apren-
A “prescrição de sintoma”, consequentemente, não exige a conviver com o acessório e o provisório. Deve com-
nenhum humorismo, nem exageração irracional nem auto-
nder que, por assim dizer, “não se há de querer que O
distanciamento espiritual; ela é sem dúvida um paradoxo, má o racional seja demasiado racional”, ou que às vezes
mas o ato espiritual da intenção não é realizado e a intencio- | preciso praticar ações discutíveis porque seria ainda mais
nalidade do homem está precisamente na “zona sadia” de e cutível não agir de modo nenhum. (32)
sua personalidade.
— O mesmo diga-se quanto à sua atitude consigo mesmo.
E! Os “incidentes absurdos”, sobrevindos à mente ocasio-
Intenção Paradoxal | Prescrição de sintoma
nlmente, são incluídos no quadro patológico, deve-se admi-
Zona | Zona tir que ele nunca será perfeitamente curado. Qualquer dia
| parcial sena
parcial aa pssa idéia compulsiva voltará a passar-lhe pela cabeça e de-
paga | doente
doente rerá bater-se com ela. Se, porém, a identifica como tal — e
/ Ma lisa Ma isso ele é totalmente capaz: todo homem sob ameaça de
jeurose não está de modo algum limitado cognitivamente!
Tenho medo Desejo | Faço Y Faço Y
precisamente | por medo até ficar “e a seguir usa a intenção paradoxal, ele terá um descan-
de X, por isso
faço Y X para mim | de X saturado O momentâneo. Talvez “incida” nele, após algum tempo,
im novo absurdo, e então irá até parodiá-lo novamente e
CEE | E 5
jm isso fazê-lo desaparecer. Esta é a melhor jorma de vida
| A discussão causa um retrocesso ível que lhe caiba achar. Nunca poderá simplesmente
A discussão causa O
conhecimento: X não acontece! de Y sem novo conhecimento ar crescerem suas idéias compulsivas; em brevíssimo
Por isso não preciso fazer Y. sobre o conteúdo X da ansiedade lempo elas de novo o envolveriam naquele processo circu-
[nr neurótico de cujo bojo a saída é tão terrivelmente difícil.
* Fazendo um balanço, devemos dar, de passagem, ao neu-
Na prática tudo leva a crer que a intenção paradoxal tico compulsivo conhecimento do seguinte: ele não é res-
acumula resultados de cura mais prolongados do que a insável por seus “incidentes” neuróticos compulsivos, mas
“prescrição de sintoma”, Atribuo isso ao seguinte: no caso da ulto responsável pelo modo como a eles reage! Dúvida faz
“prescrição de sintoma” não se chega a ter nenhum conhe- rte da doença, a atitude em face da dúvida, não.
cimento sobre o caráter inofensivo do temido conteúdo da
117
116
essa alegoria e não se preparasse para tomá-la a peito, fi-
nalmente,
Desejo Desejo
Eus Entretanto, todos devemos levar a sério — também nós,
paradoxal paradoxal Neurose
“não-neuróticos” — o fato de que há em nós impulsos que
á á temos de enfrentar, certamente devido à mesma liberdade
e responsabilidade de onde esses impulsos possivelmente

à st
“Idéias-incidentes absurdas"
de emanam.

sobrevindas ocasionalmente, em neurose se


e que desaparecem com o tomadas a sério
uso da intenção paradoxal...

Costumo, a esse propósito contar aos meus pacientes a


alegoria do jardineiro que, para conseguir um belo canteiro
de rosas, tem de arrancar toda erva má. Se, por negligência,
deixá-la crescer, depressa terá o mato, e isto lhe custará
consideráveis esforços para refazer o seu canteiro. Do mes-
mo modo, o paciente sob ameaça de neurose compulsiva de-
ve manter suas pequenas idéias absurdas sob “controle pa-
radoxal”: sua vida poderá então “florescer” e trazer alegria
como qualquer vida normal comum traz. Não sei de nenhum
paciente meu que não tivesse compreendido profundamente

Se representarmos o âmbito da fenomenologia das


neuroses psicogênicas na forma de uma elipse, a
ansiedade e a compulsão constituem como que os
dois pontos focais dessa elipse. São por assim dizer
dois fenômenos clínicos primitivos. E isto não por
acaso: as duas possibilidades básicas do ser huma-
no, “angústia” e “culpa” (o sentimento de culpa
desempenha certamente um grande papel na psico-
logia da neurose compulsiva), correspondem à an-
siedade e à compulsão. As condições ontológicas,
porém, dessas duas possibilidades, de onde portan-
to se originam angústia e culpa, são liberdade e
responsabilidade do homem. Só um ser livre pode
ter ansiedade e só um ser responsável pode tor-
nar-se culpado. Dai resulta que um ente, dotado do
ser-livre e do ser-responsável, possa ser condenado
a tornar-se ansioso e a tornar-se culpado. (Frankil, 33)

118
119
des de sentido não percebidas de modo nenhum. Trata-se da
2 atitude da pessoa espiritual em face do eu e em face do mun-
do exterior. Seria realmente um equívoco acreditar que o te-
rapeuta queira, com a aplicação desse método, “modular” a
atitude de um paciente: quem aí tem algo a modular, ou é pa-
HISTERIA, FALTA DE AMOR ra isso instruído, é o paciente! * Ele tem de ver claro que sua
atitude pode mudar e eventualmente deve mudar — por obra
de ninguém mais, a não ser ele mesmo.

Cada modulação visa a uma atitude mais sadia, melhor,


de valor ético mais alto, mais positiva; tudo isso são des-
crições que não podem ser definidas em geral mas são, no
caso concreto, realmente evidentes. Se um paciente diz de
si para si: “Eu simplesmente não sei criar nada, sou um
fracasso total!” isso não é nenhuma atitude otimista,
A discussão sobre como todos sabem. Como orientação global pode-se definir
) a necessária correçã
ção de atitudes
i no
neurótico compulsivo serviu de transição do método da in- boa a atitude “em favor da vida”, portanto contrária a tudo
que é destrutivo, depreciativo, mortificante. Definição ainda
tenção paradoxal para o próximo grande grupo de métodos
mais clara de atitudes sadias é a seguinte: são as que propi-
da logoterapia — a modulação de atitudes. ciam uma forte defesa contra as enfermidades psíquicas e
contra a forte carga psíquica nas situações de crise (em
INTENÇÃO PARADOXAL MODULAÇÃO DE ATITUDES que a defesa não se relaciona com enfermidades endógenas,
Neutralização de uma represen- antes é a carga em tais casos). Um terceiro ponto de vista é
Mudança de uma atitude
tação irracional negativa negativa para uma positiva que atitudes positivas soam em uníssono com consciência
pessoal.
Educação para a resistência Educação para a coragem
(contra a doença) e para o (apesar da doença) Para não insistir demasiadamente em aspectos teóricos,
humorismo e para a dignidade eu gostaria de dar, de passagem, dois breves exemplos de
Experimentação de algo que Reflexão sobre algo modulação de atitudes. O primeiro diz respeito a uma mãe
nunca (ou não mais) se tentou que não foi tanto (ou ainda não que por muitos anos sofreu de magreza, endócrina e de dis-
foi) objeto de reflexão túrbios de digestão. Finalmente conseguiu curar-se mas não
Crescimento interior através Crescimento interior sentia alegria e felicidade com a normalização das funções
de autodistanciamento através de autoformação digestivas; atormentava-se agora com O medo de que sua
filha viesse um dia a adoecer também e a sofrer os mesmos
No caso da modulação de atitudes, trata-se da atitude problemas digestivos. Como era perigoso transmitir essas
espiritual do indivíduo em face dos fatos positivos ou negati- expectativas negativas à filha — a coisa negativa esperada
vos que, ou são modificáveis, ou para cuja modificação é ne- poderia facilmente passar para ela — foi preciso encorajar
cessária uma outra atitude, ou que em si contêm possibilida- n mãe ao uso da modulação de atitudes. Foi-lhe aconselhado

Na medida em que efetivamente está n a base de uma As denominações dos métodos logoterapêuticos relacionam-se
*
neurose um fato qualquer fatalístico, se encontrará com todos os “rendimentos” a serem alcançados pelo paciente: o pa-
pera o doente — do ponto de vista logoterapêutico clente intencions, paradoxalmente o objeto temido, o paciente modu-
— q facilitação da atitude correta em face desse
ln sua própria atitude, o paciente derreflete determinados conteúdos
nobre os quais antes fazia hiperreflexão. Ao terapeuta, em todos esses
fato. CFrankil, 34) processos, somente cabe a “ação catalisadora” — ele os põe em
marcha,

120 121
o seguinte: “Não examine sua filha a qualquer sintoma de sim mesmo queremos empregá-la aqui um tanto por simpli-
doença; ao contrário, isso seria atrapalhar o seu desenvolvi- ficação. O quadro patológico foi, na época de Freud, forte-
mento sadio. Trabalhe de preferência sobre si mesma para mente ampliado, depois regrediu, e atualmente está de novo
acontecer com a sra. que um dia possa dizer: Quanto a mim, na ofensiva. Ele reúne em si elementos psicogênicos e reati-
ela pode ficar tranquila como eu confio nela!” A idéia da pos- vos, e baseia-se, semelhantemente às neuroses de compulsão,
sibilidade de ser um exemplo digno de imitação para a filha em determinadas particularidades de caráter. A histeria é
levantou o ânimo daquela mãe e impeliu-a não só a abando- de difícil abordagem à intenção paradoxal; * exigiria pra-
nar a superansiedade em face da filha mas também a repen- ticamente uma transformação na educação do homem total
sar melhor seu próprio comportamento e orientar-se por es- (Frankl), e isso somente logrará sucesso com uma série de
calas mais positivas. modulações de atitudes. E que o paciente deve ser levado,
por assim dizer, a renunciar livremente ao seu comporta-
O segundo exemplo refere-se a uma senhora de idade mento histérico.
que precisava internar-se numa clínica especializada para
uma pequena intervenção cirúrgica. Acontece que o marido Ora, quais são as particularidades de caráter do histéri-
tinha sido tratado dois anos antes na mesma clínica e aí fa- co? Tratando da neurose de compulsão (afora a insegurança
lecera, depois de grave luta contra a morte, fato que na épo- instintual), falávamos de uma insuficiência do sentimento
ca deixou-a, muito deprimida. Essa senhora resistia agora de evidência: na histeria, em comparação, podemos falar de
a internação porque associava com o hospital lembran- uma insuficiência do senso ético. Na Idade Média acredita-
ças muito dolorosas; mas não podia ser atendida em outro, va-se que as pessoas histéricas fossem “possessas do demô-
sendo aquele o único na redondeza qualificado para o seu nio”, seguramente uma descrição muito grosseira da condi-
caso. Neste dilema foi-lhe sugerida uma modulação de atitu- ção, que entretanto em sentido figurado contém um peque-
de. Com palavras cautelosas argumentou-se que o retorno no grão de verdade. No histérico existe de fato uma certa
ao local do adeus de seu marido, precisamente, lhe compor- fascinação pelo mal, uma alegria pelo negativo, uma inibi-
tava a chance de reconciliar-se nesse local com aquele adeus ção para fechar-se ao positivo.
e de fazer, uma vez por todas, a dor sofrida desaparecer na
Para o terapeuta isso significa que o restabelecimento
gratidão pela oportunidade que teve de acompanhar um da saúde ou a superação independente dos problemas da
ente querido até o fim de seus dias e de estar a seu lado nas
vida não é, incondicionalmente, a meta do paciente. Esse
horas mais difíceis. Não se pode mostrar mais eficazmente programa é, em sentido verdadeiro, a meta do terapeuta,
um verdadeiro amor; o hospital podia ser considerado real- em cujos esforços o paciente tomou parte formalmente, até
mente um memorial do grande amor de sua vida, lugar de
que a meta da terapia fosse aproximadamente atingida —
lembranças onde ela poderia entrar a qualquer tempo com
quando, então, o programa é de repente boicotado. Poderá
resignação e boa consciência. Depois da entrevista, aquela por ex. acontecer que o terapeuta auxilie o paciente a de-
senhora colocou-se sem oposição nas mãos dos médicos e sembaraçar-se de todos os seus achaques possíveis; e se lhe
poucas semanas mais tarde deixava a clínica, curada. diz finalmente: “Agora, por muito tempo não precisamos
Desses exemplos pode-se extrair, pelo menos vagamen- mais combinar nenhum prazo; agora você mesmo chega sa-
te, uma idéia do que fazer com as modulações de ati-
tudes. Voltemos mais uma vez ao quadro da p. 93 para nos-
sa orientação * Não é porque os sintomas não dependam de nenhuma ansie-
geral. Deixando as neuroses de ansieda- Se
dade de expectativa mas porque atuam como meios de pressão.
de e de compulsão (à esquerda, ao alto), agora passamos por ex. o neurótico ansioso desmaia, porque crispa-se todo com a
ao ponto mais próximo, às neuroses reativas (à esquerda, mera ansiedade por um possível desfalecimento, o histérico, então,
em baixo), que em geral contam-se entre as mais difíceis desmaia porque, por meio de tantos exageros, provoca consigo um
e têm seu maior desafio terapêutico na histeria. Infelizmen- desmaio para assustar os outros. O histérico, por conseguinte (di-
ferentemente do neurótico ansioso), intenciona. o desmaio, de qual-
te a palavra “histeria” tornou-se hoje um palavrão e por isso pode ser neutralizado com uma intenção para-
quer modo, e isso não
não é mais usada de bom grado na psicoterapia — mas as- doxal a mais,

122 123
tisfatoriamente a termo!” — ele recebe em resposta: “Se
você não me fixar logo um novo prazo, eu me tornarei rein-
Pode ser que a prontidão especial à sugestão, ou su-
cidente!” Ao invés, portanto, de gozar a estabilidade recon- também
gestionabilidade, desses indivíduos, como
quistada, o histérico irá sacrificá-la sem hesitação só para
sua prontidão à conversão — quer dizer, sua capaci-
obter a atenção do terapeuta. E ao invés de lhe ser grato dade para dar expressão corporal aos conteúdos psi-
por suas fadigas, tenta fazer chantagem — e temos aí a insu- patológicas somáticas — pode
quicos de condições
ficiência de sentimento ético!
ser que isto também represente compensações da
Viktor E. Frankl enumera três características típicas pobreza interior que distingue O histérico. Há ain
constantes do quadro patológico da histeria, a saber; da uma segunda caracteristica típica, a frieza inte-
rior, o cálculo frio, o fato de que no histérico tudo
1. inautenticidade; se apresenta como meio para o fim a serviço do
2. egoísmo doentio; egoísmo; e assim ele age sempre teatralmente, ele
3. natureza interesseira. pensa achar-se sempre em ação, e tudo nele ajinal
atua já encenado e pronto. (Frankl, 35)
Inautenticidade — significa que tais pessoas são profun-
damente pobres de experiências vitais, e isso produz o fa-
minto dessas experiências: até as experiências negativas são “desligar” e recuar, pois nem tudo se pode forçar. Assim
para este melhores do que nenhuma. Tais indivíduos dificil- entram em jogo, nos dois quadros de distúrbios, momentos
mente são capazes de alegria autêntica, amor autêntico, uma de chantagem. Enquanto o neurótico de ansiedade por sua
dor autêntica... tudo não passa de cenário para se realizar ansiedade, ou o doente compulsivo por sua idéia compulsi-
ou exprimir qualquer efeito; a doença também participa da va tentam extorquir modos de comportamento que em abso-
montagem teatral. luto não querem ter, O histérico, mediante seus sintomas
(por ex. “acessos” corporais), extorque aos outros homens
Egoismo doentio — significa que eles são inescrupulo- modos de comportamento que estes não querem ter. Com is-
sos, até mesmo acima dos próprios interesses. As pessoas so o histérico se torna extremamente desamado; quem pode,
histéricas querem continuamente manipular o seu ambien- de algum modo foge dele e procura evitá-lo por muito tem-
te, atrair sobre si a atenção dos outros, ou punir os outros
pela inobservância com que são tratadas, e quando essa as- Neurótico ansioso Histérico
sim chamada punição tiver de ser sua própria ruína. e neurótico compulsivo

Natureza interesseira — significa que tais indivíduos ar-


mam frequentes cenas teatrais, o mais das vezes para extor-
| |
não sabe fazer
não sabe correr
quir alguma coisa do próximo, e dificilmente devido a inte- nenhum risco nenhuma renúncia
resse por coisas mas exclusivamente em relação a pessoas.
E
Vemos que, enquanto o problema fundamental da neu-
rose de ansiedade e da neurose de compulsão consiste em ambas, coisas necessárias na vida!
que
|
o neurótico não quer correr nenhum risco e busca
|
a
qualquer preço segurança e proteção, portanto um preço
que lhe sai demasiado caro, — o problema fundamental do
histérico está em não saber fazer nenhuma renúncia e que- quer segurança quer receber todas
e proteção as atenções
rer receber as atenções do próximo a qualquer preço, até a a qualquer preço
um preço completamente inadequado. a qualquer preço

Mas na vida é tão necessário saber conviver com a inse-


gurança, pois nem tudo se pode assegurar, quanto saber |
é"chantageado” pelo "faz chantagem” aos outros
próprio sintoma mediante sintomas
124
125
po, estabelecendo-se por fim a sua solidão. No fundo, con- tratava sempre da mesma mulher que com voz diferente de-
tam-se os histéricos entre os indivíduos mais carentes por- Ssempenhava os mais variados papéis dramáticos; uma mu-
que forçosamente desembarcam no isolamento. Prejudicam- lher que nem estava doente nem tinha uma filha, mas sim-
-se sem cessar e arrastam consigo outros para a desgraça. plesmente se entediava em casa e por isso se divertia com
O resultado é que eles recebem sempre menos atenções do suas chamadas telefônicas...
meio onde vivem, aquelas atenções que procuram atrair de-
sesperadamente. Encontramos aqui os três distintivos da histeria: a inau-
(Por outro lado, aqui se faz notar um pa-
drão tipicamente neurótico do tenticidade (pois a mulher não estava em situação de deses-
“círculo vicioso”!) pero), o egoismo (isto é, a frieza de sentimento em querer
Quanto aos componentes reativos de todo esse drama, divertir-se à custa dos outros), e o cálculo (porque a mu-
sabemos hoje que se acrescenta ainda à disposição de cará- lher soube simular bem a comédia e, ao que parece, perce-
ter do histérico mais um fator que fomenta a doença, que beu também que tinha pela frente uma conselheira pouco
é o ambiente de educação na infância. Em geral os pacientes experiente a quem podia “impingir” essas histórias de hor-
histéricos, como as crianças, tornam-se muito desleixados, ror). Afinal, o comportamento histérico é uma peça de
ou estragados com mimo; ambas, coisas que levam a efeitos vacuidade, porque essa mulher que telefonou, por ex., pode-
semelhantes. Crianças desleixadas o eram por renunciar a ria preencher o seu tempo com muito mais sentido. É, tam-
muitas coisas, mas como adultos não querem mais fazer bém, uma peça de desamor a incapacidade de levar a sério
nenhuma renúncia; crianças muito mimadas nunca apren- n aceitação das outras pessoas; e, evidentemente, existem in-
deram a renunciar a nada, por isso não sabem agora fazê-lo. divíduos que agem de tal maneira sem amor que, talvez, o
Explica-se por que a histeria na época de Freud foi tão de- seu comportamento doentio possa ser um último grito por
fendida: naquele tempo havia muitas crianças desleixadas amor!
— € por que a histeria se acha hoje de novo na ofensiva: é
que há também muitas crianças mimadas.
Fui certa vez convidada a falar numa organização de
aperfeiçoamento da “Dachverband”, secção principal da
Pastoral Alemã do Telefone, e ao perguntar aos participan-
tes o que eles mais recebiam como chamadas-problema, fi-
quei muito surpreendida por ouvir que eram na maior parte
“telefonemas de histéricos”. Para sublinhar esse testemu-
nho, alguém me informou sobre o que se passou com uma
jovem colaboradora da Pastoral do Telefone. Uma noite ti-
nha telefonado uma mulher contando uma história sem saí
da: ela era cancerosa, sofria dores alucinantes, o marido a
tinha abandonado, não agientava mais viver etc. A jovem
colaboradora tentou ao telefone consolar a mulher como me-
lhor pôde. Na noite seguinte, a mesma colaboradora esteve
de plantão, e ouviu uma mulher com voz totalmente dife-
rente da do dia anterior explicando que era a mãe da que
havia telefonado. Ela começou a soluçar forte e falou cho-
rando: “O que você disse ontem para a minha filha? Ime-
diatamente depois da conversa com você minha filha se ma-
tou!” A telefonista-conselheira sofreu em consegiiência um
colapso nervoso e até precisou do atendimento médico de
urgência, porque não conseguia se acalmar. Mais tarde outros
colaboradores da Pastoral do Telefone descobriram que se

126 127
mes, em vez de passar noitadas, e coisas semelhantes, e des-
6 se modo poderá realizar um grande conteúdo de sentido
quando um dia vier a possuir como médico o seu campo de
atividade precioso e responsável. Se, ao contrário, não esti-
ver pronto para fazer os pequenos sacrifícios da vida acadê-
SALVAÇÃO PELA RENUNCIA mica, orientando-se ao prazer do momento, isto é, ora vai
dançar, ora remar, ora trabalha num emprego, ora vagueia...,
então sua grande meta afasta-se a uma distância cada vez
maior e talvez ele venha a exercer um dia uma profissão to-
talmente contrária a sua vontade. Saber fazer uma renúncia,
cheia de sentido é, talvez, a chave da felicidade, e no caso de
muitas doenças como a histeria, e na problemática da mania
ou da vagabundagem, a chave da saúde. (O alcoólico que sabe
renunciar ao próximo copo está salvo, e assim também o cri-
Qual é o ponto de partida terapêutico da logoterapia? minoso que sabe renunciar à próxima ação ilegal.)
o histérico, basicamente, precisa desenvolver sua prontidão De volta à histeria: Vejamos o exemplo de uma neurose
a suportar pequenas renúncias. Isto, naturalmente, ele só faz cardíaca. Sempre que as coisas vão bem para a família e se
se souber para quê. E um para-quê lhe pode ser apresenta- festeja alguma coisa e todos estão alegres, a mãe tem um
do, pois existe na vida um nexo entre pequenas renúncias e ataque do coração. É claro que aí acabou a festa, todos se
grandes conteúdos de sentido. Acima das pequenas renún- sentem mal, foi-se a alegria, todos se apressam, se preocu-
cias necessárias os grandes conteúdos de sentido são de pam. Assim, o ataque já cumpriu o objetivo, ele dá à mãe
todo realizáveis, e esses grandes conteúdos por sua vez tor- "| satisfação momentânea de ter sido mais uma vez o cen-
nam possível como efeito acessório não tencionado aquilo tro da família. Resultado a longo prazo: os filhos vão em-
que chamamos felicidade. As muitas pequenas satisfações do bora mais cedo, o marido separa-se talvez de sua mulher,
momento, que resultam de não se poder fazer renúncia, ao
por fim acontece de verdade o ataque ao seu estado de saú-
contrário, fazem permanecer irrealizáveis os grandes con- e a mulher fica
de — pois, com o coração não se brinca —
teúdos de sentido, e isso arrasta consigo a infelicidade como
efeito acessório inevitável. sempre mais sozinha e mais amargurada.
Se alguém, por exemplo, estuda medicina, deve fazer * Esta catástrofe iminente deve ser esclarecida na terapia,
uma série de pequenos sacrifícios, preparando-se para os exa- não como censura mas por puro interesse pela paciente. Eu
Pequenas satisfações costumo dizer às minhas alunas que é preciso ser capaz de
Pequenas renúncias
do momento avisar o paciente: Gosto de você, mas não gosto de sua his-
feria! Separa-se aquilo que o indivíduo é daquilo que ele
tem, uma separação que, como já sabemos (cf. a citação da
possibilitam impossibilitam p. 72), tem importância na logoterapia.
Esta representa não só a distinção entre pessoa, que O
anciente é, e caráter, que o paciente tem, mas também a dis-
linção entre sentido e fins, que pode ser “vitalmente salva-
grandes conteúdos de grandes conteúdos de
=» 08 sintomas histéricos têm seus fins e permitem um ga-
sentido sentido
Nho a curto prazo, mas o fato de se estar livre de sintomas
tem sentido, e abre possibilidades. do ser: inteiramente no-
Vas: e enquanto todo ganho ou todo teré perdível, o ser É
efeito acessório: efeito acessório: lgO existencial e portanto algo imperdível.
128 felicidade infelicidade
129
Liberdade não é coisa que se “tem” — como qual- F ara ficar em segundo plano e ter interesse pela alegria
quer coisa que também se pode perder — mas “sou
outras pessoas. Esse caminho leva do ter ao ser.
eu” a liberdade. (Frankl, 36) ) talento dramático do caráter histérico pode, precisa-
te, ter um uso positivo em que o diálogo terapêutico
ce uma nova descrição de papéis e impõe ao paciente
Sintoma o estar livre de sintomas safio de assumir esse papel — por ex., por que não no
| de uma altruísta e digna de amor? Não se pense:
se ela desempenha um papel melhor, então o que é pre-
tem um fim tem sentido não é nenhum comportamento real atrás do qual esteja
ciente... Não é bem isso. Na histeria há passagens mui-
uidas entre partes conscientes e inconscientes, e entre o
serve para obter serve para a realização ' é autêntico e o inautêntico. Um dos maiores perigos é
prazer-a curto prazo, de uma nova | O paciente histérico se identifique tanto com um papel
mantém o desempenho identidade Ológico originalmente inautêntico que ele não possa mais
de um papel, a longo prazo, vencilhar-se do papel, mesmo que queira, porque os seus
omas se tornaram independentes. Pode perfeitamente
ntecer com a mãe, em nosso exemplo, que o coração de-
dá força sobre os outros dá força sobre si mesmo, is de algum tempo tenha arritmias verdadeiras, mesmo
e rr e ando ela menos queira. Mas se assim é, por que o pacien-
não há de identificar-se com um papel positivo onde este,
aumenta o ter. melhora o ser, sto a mais longo prazo, lhe rende muito mais atenções do
Mas: Ao contrário: o papel negativo lhe rendeu até agora, e isto ele (pacien-
todo ganho, todo ter o ser é imperdível, ) em algum momento deverá perceber? Com uma expres-
é perdível! até mesmo no passado! “um tanto exagerada se poderia dizer: Talvez falte ao his-
ico, por causa da deficiência do senso ético, o texto com
papel positivo, e é tarefa do terapeuta fornecer-lhe as
O que tem, então, em nosso exemplo, a mãe com neuro-
se cardíaca? Quando muito ela gozará de algumas horas de
atenções forçadas, por parte da família, e que ela irá perder. O que entretanto não é tarefa do terapeuta é tomar parte
Mas o que ela é? Uma mulher doente, de quem ninguém gos- | cenário montado pelo paciente. As pessoas histéricas gos-
n de terapias longas porque através das mesmas têm tudo
ta de se aproximar por medo da próxima cena histérica. E is-
so ela continuará a ser até o fim da vida, se não fizer uma
e precisam: elas estão no ponto central da atenção e têm
A ouvinte compreensivo. Se estão de mal com todo mun-
mudança radical de atitude, e mesmo depois de falecida se-
|, É O terapeuta às vezes o último homem que ainda se man:
rá sempre lembrada como a mulher doente de quem ninguém
m intensamente dedicado a elas. Para isso essas pessoas
gostava de se aproximar — o ser é eterno, até mesmo no
passado. entregam — não só dinheiro — mas tudo que ele queira
vir: desde as mais terríveis experiências da infância até
Mas qual tipo de ser humano poderia ser essa mulher? | sonhos mais selvagens ou fantasias sexuais. Mas nada
Deve-se falar com ela sobre isso na terapia. Poderia ser uma so resolve o problema. E se o terapeuta percebe que não
mulher e mãe digna de amor, de quem se aproxima com evado a sério como auxiliador, que não consegue impor-se
agrado qualquer membro da família, a cujo lado todos se m argumentos em favor do papel positivo, em favor de
sentem bem. Mas, ela deseja mesmo isso, no fundo do cora- a guinada do ter para o ser, em favor da renúncia com
ção? Se sim, o logoterapeuta poderá mostrar-lhe o caminho; Atido; se percebe que é mal-usado, apenas como meio para
mas este leva a renunciar às cenas dramáticas, exige pronti- fins, e que o paciente desvirtua a terapia, fazendo dela

130 131
* Enquanto um neurótico compulsivo, atormentado pela
uma ocupação de lazer, ou dando-lhe um falso sentido — dia de atentar contra si, jamais realizaria essa idéia (e por
ele deve, então, terminar com isso tudo. Não se pode ajudar jo pode ser aconselhado no sentido da intenção paradoxal
todo mundo mas pode-se pelo menos não causar danos a tentar “umas três vezes por dia saltar da janela” etc.) —
ninguém; e tomar parte no processo patológico da histeria 1 histérico existe de fato o perigo de um suicídio ou da
seria causar um dano.* Isto significa, concretamente, que tiva de suicídio. Contudo não é aconselhável que se dei-
uma continuação persistente do comportamento histérico torquir (conforme a fórmula de uma mulher ciumenta
da parte do paciente pode ser, para o terapeuta, um crité- jue, subindo ao peitoril da janela no oitavo andar, toda im-
rio de suspensão da terapia. (Isto não tem lugar em ne- prtante perguntava ao amigo, enfiado no quarto, se a ama-
nhuma outra enfermidade psíquica. No caso, estamos pró- pH. ..). Eu aconselho aos terapeutas e também aos familia-
ximos do terreno da “mania de terapia”, e a nenhum maniía- os que enfrentam uma situação dessas, a assegurar ao doen-
co se devem facultar os meios para sua mania!) lo duas coisas:
Terminando, ainda uma palavra sobre as ameaças de a) a certeza de que ele, o terapeuta ou o familiar, fica-
suicídio em, indivíduos histéricos. Muitas vezes não está na ria triste, ou sofreria, se o outro viesse a falecer
base dessas ameaças a crença num sentido da morte, mas, (“Eu vou chorar por você”). Dá assim a entender
antes, a crença na conveniência do desejo de morrer. Apesar que o paciente não é para ele coisa indiferente, mas
disso, impõe-se precaução, pois, afinal, nem mesmo o pa- tem o valor de um ser humano;
ciente histérico escapa à questão do sentido, e se a conve-
b) o fato de que o terapeuta ou o familiar não pode re-
niência do seu comportamento doentio resultar ilusória, to-
tirar dele a responsabilidade por suas ações. A res-
mará conta dele, completamente, a pobreza de sentido da
ponsabilidade resta unicamente sobre os ombros do
vida que leva até agora. de todas as ten-
paciente e precisa ficar aí, a despeito
tativas de atribuição de culpa por parte dele.
Assim como sabemos, desde Kant, que, de todo mo-
do, é absurdo questionar as categorias de tempo e A combinação das duas coisas é, ao meu ver, a melhor
espaço, simplesmente porque nunca poderemos pen- roteção preventiva contra as autolesões histéricas, porque
sar nem questionar sem pressupor espaço e tempo, “atende o desesperado grito por amor”, sem sacrificar a
assim também o homem. é sempre um ser com um iberdade espiritual e adulta de quem pede socorro.
sentido, por menos que o conheça; e um pressenti- — Fiz a experiência de ver, regularmente, uma semana an-
mento do sentido está também na base da “vonta- tes de tirar férias, alguns de meus pacientes sofrendo “ata-
de de sentido”, assim chamada na logoterapia. Quei- ques” e “quase à morte”. Traduzido, quer dizer: “Como te
ra ou não, negue ou não — o homem crê num sen- permites tirar férias sem deixar disponível um pouco de
tido, enquanto respirar. Mesmo o suicida crê num tempo para mim?”. Se parto logo, vou no mínimo viajar
sentido, se não da vida ou da sobrevida, então da ocupada e com peso na consciência. Só reconheço que
morte. Se ele realmente não acreditasse em ne- Imente tive muitas vezes na bagagem de férias uma ou
nhum sentido, em nenhum outro mais — não po- ra preocupação com um de meus clientes, mas ainda não
deria certamente mover nenhum dedo e executar Majei com peso na consciência. O histérico é um indivíduo
o suicídio. (Frankl, 37) com handicap emocional, sobre isso não há nenhuma dúvi-
da, mas ele pode responder por seus atos — e é isto precisa-
mente o que ele deve aprender.
* Hoje, por via de fatores sociogênicos, facilita-se o caminho a
este tipo de participação. Por um lado, o muito lazer induz as pes-
soas histéricas a preenchê-lo com terapia, e por outro, há muitos
terapeutas desocupados que estão prontos para esse tipo de “ocupa-
ção do lazer”. Resultado: u'a massa de homens com dano terapêu-
tico e o descrédito da psicoterapia.
133
132
“No caso do alcoolismo, entretanto, está provado que o

q o como o organismo assimila o álcool é hereditário, e


im também a tendência à mania (D. Goodwin, Universi-
je do Kansas). Encontram-se no sangue dos alcoólicos 2,3
putanediol, uma substância que não se encontrou nos não-
UM CONCEITO MULTIDIMENSIONAL CONTRA oólicos, mesmo quando tenham bebido um copo a mais.
MANIAS s ondas alfa do eletroencefalograma dos filhos de alcoóli-
| podem-se verificar diferenças em relação aos filhos de
o-alcoólicos.

2. Dimensão psíquica
* Apesar dos fatores constitucionais da tendência, a pro-
nsão à mania é o destino não predeterminado de um ma-
co. Cada homem traz em si, em definitivo, uma variedade
forças sadias de resistência. Mas se há também no plano
quico pontos fracos, o problema se torna mais critico.
Ainda não foi possível destacar das perspectivas logote- "que se multiplicam as reações psíquicas inconvenientes
rapêuticas de superação da histeria o tema das “neuroses je formam aquela parte perigosa “neurótico-reativa”, e esta
reativas”. Vêm a propósito também as neuroses iatrogêni- m forjar “círculos viciosos”. Estes reduzem imediatamen-
cas, que são objeto válido de reflexão, pois representam uma | a marcha ao plano somático, separando assim o físico do
doença completamente supériílua e evitável. Mas antes de síquico (Por ex., a reação de adormecimento das frustra-
ocupar-nos com isso e com o modo de impedir esse tipo de jes pelo álcool cria a fortiori frustrações etc.). A propósito,
doença, gostaria de mencionar ao menos de leve algumas já paralelos entre as manias e as alergias, ambas flagelos
idéias da problemática da mania, reconhecendo o fato de ) nosso
tempo.
que esta também em grande parte deve ser classificada sob
o termo genérico de neuroses reativas. A mania, seja em ra- * Há que deduzir da Tabela um fato — a debilidade psí-
zão da história de origem seja por sua reatividade a modelos uica nos maníacos transparece de preferência no campo
lazer e acaba numa fuga ao controle interior, enquanto
de desabituação, é um processo extraordinariamente com-
plexo de interação, o qual a ser tratado iria ultrapassar de ue nas alergias é de preferência no terreno da ação, dando
muito o plano deste livro. Mania Alergia
O mais das vezes as três dimensões do ser humano são
afetadas. = desejar o excesso = reagir ao déficit

siquicamente: somaticamente: | psiquicamente: somaticamente:


1. Dimensão somática
E excesso de excesso de
O organismo do doente maníaco (por ex. toxicômano)
reage ao meio tóxico (droga) de maneira diferente do
organismo do não-toxicômano. A consegiiência disto é que
"O maníaco deve evitar o tóxico pelo resto de seus dias para Atividade lúdica | Drogas, exigências, substâncias
televisão álcool crítica, respiráveis,
ter uma vida “normal”. (Infelizmente nem sempre é pos- comestíveis,
posses nicotina stress,
sível evitar; na mania de comer, por ex., logicamente não se contactáveis
“terapia comer carga
pode proibir o comer; na mania de remédios não se deve ex- sro) O OR

cluir que, no caso de doenças graves, é exigido tratamento


ss os cone) fis
MR Sissi

Da cena, pe
medicamentoso.)
lazer rendimento
134 135
expressão a uma hipersensibilidade. (De resto, também se a
sugestão” * que, utilizado em estado de distensão e
conhece nas alergias o fundo somático, que consiste numa
em nível subnoético, fortalece no paciente a E Sat
queda parcial do sistema E
imunológico próprio do corpo.) que poderá criar em si a força necessária. Felizmente Ê
sejo psíquico do excesso” diminui em proporç ão ao E
3. Dimensão noética de duração da sobriedade e porque a renúncia no inicio sa
Há muitas hipóteses sobre a fenomenologia da autodes- muito caro, o doente de mania, como o histérico, igualmente
deverá ser motivado pelo terapeuta para O desempenho li-
truição que com evidência total campeia na histeria, na doen-
ça da mania e na delingiiência. Freud referiu-se ao “instinto yre da renúncia.
da morte” no homem, que deveria explicar tanto as incon- Como toda renúncia precisa de um para-quê, e como a
cebíveis agressões para fora (delingiiência) quanto também problemática é, aliás, um produto acessório normal o
as não menos inconcebíveis agressões para dentro (mania) doença da mania (“Para que devo eu deixar de cd :
e suas formas mistas (histeria). Mas a representação de um para não dizer, O vazio em que a mania Se desenvo ve —
mecanismo simplesmente de autodestruição parece-nos pri- nova tarefa logoterapêutica está claramente indicada. a
mitiva demais para Ê
o ser humano. O espiritual no homem seu ponto focal é preciso criar a consciência, do sentido
deve dar o seu placet na me
a isso, aliás nenhum instinto tem auto- vida, ou seja, ampliar no doente o sistema, de valores
ridade tão grande: — e quando o fará? — Em minha opi- este ainda exista. No Capítulo sobre neuroses
dida em que
nião, será somente se o axioma ad
logoterapéutico do sentido noogênicas, que fazem quase a mesma exigência aos
(incondicional) da vida (cf. p. 21) não for mais reconheci- proceder de modo prátic
tas, se fará a experiência de como
do como válido. Da atitude espiritual — “em qualquer caso, no assunto.
tudo é absurdo” — é que provém o placet para a autodes-
truição. Rematando: o conceito acima deveria transformar-se em
assistência ao doente de mania mediante derreflexão (con-
Fazem parte, portanto, da complexidade da doença ma-
sultar o Capítulo sobre prevenção e acompanhamento tera-
níaca uma constituição somática de risco, um componente ao outrora ma-
pêutico ulterior), assistência que possibilite
neurótico reativo — que oscila entre hipersensibilidade e ex- da problemática da mania sua concen-
níaco afastar de vez
cesso — e, consegiientemente, muitas vezes, uma frustração
existencial (ou até uma neurose noogênica), que faz as víti- Conceito logoterapêutico multidimensional
mas da mania alcançarem um ponto de assistência ao doente de mania
em que simplesmente
concentram todo esforço, pois não vêem mais nenhum senti-
do. O resto é pura autodestruição. dimensão
A Privação e sobriedade permanente | ora nici
O conceito terapêutico, correspondentemente, deverá ser
estruturado segundo a pluralidade de dimensões. No que diz i
| Treinamento da vontade
vo p pela sugestão
g Ê ea
respeito à dimensão somática, não há outro caminho senão
O Estímulo à renúncia — psíquica
a privação vigiada pelo médico, acompanhada de sobriedade,
sem exceção, na medida em que esta É fisiologicamente pos- (ver também — Histeria)
Sível: os alcoólicos nunca mais poderão tomar álcool, nem D Colóquios para descobrimento de sentido, E E
um gole, os fumantes nunca mais poderão fumar um único construção e ampliação do sistema ás imensão
cigarro etc. Não compensa discutir se essa disciplina rigoro- pessoal de valores (ver também — Neurose noogênica noética
sa é sempre necessária, pois milhares e milhares de recaí-
das falam uma linguagem inequívoca. | Derreflexão (ver também — Prevenção e acompanhamento)

"Em apoio à força de perseverança neste arriscado pro- id imei


rimeira i
vez publicado no livro
i Auch dein Leben É hat
Lukas, Livra-
jeto, eu desenvolvi um tipo de “exercício da, vontade pela Sinn e ramibém tua vida tem sentido), de Elisabeth
ria Editora Herder, n. 825, 1980.
136 157
tração intelectual e dedicar-se inteiramente aqueles conteú-
dos vitais que, em virtude dos colóquios para descob
rimento
de sentido, foram por ele conhecidos e afirmados
tc
seus”.
2”
como ô
Uma aluna minha da United States International Uni-
versity, em San Diego, conseguiu provar ao cabo de PARA EVITAR LESÕES IATROGÊNICAS
investigações cujos resultados reuniu depois em for-
ma de dissertação, que 90% dos casos crônicos de
alcoolismo grave, por ela examinados, apresentavam
um pronunciado sentimento de ausência de sen-
tido. E tanto mais compreensível que Crumbaugh,
com uma logoterapia de grupo voltada para a frus-
tração existencial, pôde mostrar, em casos de
alcoolismo, êxitos maiores do que no quadro dos
grupos de controle, que foram tratados com méto-
dos convencionais de terapia. Apresentando o esquema de um conceito logoterapêuti-
co Sor de assistência ao doente de mania Cp.
Analogamente dá-se com a dependência de droga. Se pouco o raio de ação da modulação de
137) ultrapassamos um
temos de acreditar em Stanley Krippner, o sentimen-
atitudes, pois só o ponto C e o ponto D do mencionado RA
to de ausência de sentido está na base de 100% dos con-
ma têm de ser acrescentados a esse método. O ponto
casos. Isto é, em 100% dos casos para a questão —
ta com a terapia médica e a profilaxia; O ponto B, com a ss
Se nesses casos nem tudo acontece sem sentido — a noterapia (uma metodologia não-logoterapéutica mas que p
resposta é afirmativa... É também compreensível eo
de muito bem crescer com processos logoterapêuticos);
que Fraiser, que dirige na Califórnia um centro de
ponto E, com o método logoterapêutico da derreflexão.
reabilitação para dependentes de droga, e lá introdu-
eiu a logoterapia, assinalou não a quota média de A seguir, como foi anunciado, vamos submeter as neu-
sucessos mas a quota de 40 por cento. (Frankl, 38) * roses iatrogênicas a um exame mais acurado, a fim de con-
cluir o tema das “neuroses reativas”, e retornamos do nos-
so excursus por outros métodos, passando de novo a movi-
mentar-nos no meio do grupo das modulações de atitudes.

De que modo chega a formar-se uma” configuração aa


peculiar como é a neurose iatrogênica, uma, forma pior Ea
provocada por comportamento terapéutico errado? si
de saída é a tendência, muitas vezes indicada, de ara a
lmeaça de neurose a se tornarem inseguras rápic á E
mente. Acresce uma certa fé de autoridade, que hoje de ce E
ú menos difundida do que em tempos idos, mas, RE
nação com uma influenci abilidade reforçada e uno EA a E
* Na Alemanha há, atualmente duas organizações para fraque: e
to clínico de doentes com mania de droga (toxicômanos)
tratamen- opinião própria, põe a descoberto a mesma
trabalha de acordo com a concepção logoterapêutica:
em que se eu”, É como num cabo elétrico cujo isolamento é tão E
a Clínica do ca E
Dr. Heines, em Bremen-Oberneuland, e a Teen Challen
ge Farm, em vário que em muitos pontos o fio aparece, Em Rs
Velden/Vils. é n observação impensada, ou desajeitada, de um médico O

138 139
tração intelectual e dedicar-se inteiramente
dos vitais que, em virtude dos àqueles conteú-
colóquios para descobrimento
ô
de sentido, foram por ele
conhecidos e afirmados como
“seus”,

Uma aluna minha da United Stat


es International Uni-
versity, em San Diego, consegui
u provar ao cabo de PARA EVITAR LESÕES IATROGÊNICAS
investigações cujos resultados reun
iu depois em for-
ma de dissertação, que 90% dos
casos crônicos de
alcoolismo grave, por ela exam
inados, apresentavam
um pronunciado sentimento de ausência de sen-
tido. É tanto mais compreensível que Crum
com baugh,
uma logoterapia de grupo voltada para
tração a frus-
existencial, pôde mostrar, em
alcoolismo, casos de
êxitos maiores do que no quadro
grupos de controle, que fora dos
m tratados com méto-
dos convencionais de terapia. o esquema de um conceito RREO
Apresentando
Analogamente dá-se com a depe co multidimensional, de assistência ao a E a Rb
ndência de droga. Se o EE
temos de acreditar em Stanley Krip 137) ultrapassamos um pouco o raio de ação
pner, o sentimen- atitudes, pois só o ponto C e o ponto D do O Ea
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casos. Isto é, em 100% dos de 100% dos ma têm de ser acrescentados a esse méto o E CASO.
casos para a questão —
Se nesses casos nem tudo acon
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que Fraiser, que dirige na Cali À r com processos logoterapé )
fórnia um centro de loBoteripêutico da derreflexão.
reabilitação para dependentes de droga, e No o a é stddo
eiu a logoterapia, assinalou não lá introdu-
a quota média de A seguir, como foi i
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sucessos mas a quota de 40 Dor
cento. (Frankl, 38) * roses iatrogênicas a um exame e E nor
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mente. Acresce uma certa fé de autoridade, que hoje Ri
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* Na Alemanha há atualmente
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- opinião própria, põe a descoberto a doa Ro E
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trabalha de acordo com a conc que se u”. É2 como num cabo elétrico cujo isola a
enção logoterapêutica: a Clíni
Dr. Heines, ca do o E
em Bremen-Oberneuland, ea
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é a observação impensada, ou desajeitada, de um
138
139
terapeuta por trás da qual esteja talvez uma
imagem discutí-
vel do homem e à qual se dá uma reação neurótica: Os erros mais fregiientes do comportamento terapeéu-
está
pronto o “curso circuito”. tico:
No Capítulo sobre dialética de I — Mostrar mais interesse por distúrbios do que pe-
destino vs. liberdade to-
mamos conhecimento de uma regra fundamental do proces-
la esfera vital integra.
so logoterapêutico que diz: II — Tomar ao trágico as realidades do paciente tra-
zidas pelo destino.
Deve-se oferecer ajuda, III — Fazer prognósticos negativos que não sirvam ao
mas não se deve tirar a responsabilidade. objetivo de uma advertência.
IV — Dar a conhecer um diagnóstico que não é expli-
No caso de lesão iatrogênica, ocorreu o contrário: o cado em relação à sua importância,
paciente não encontrou nenhuma ajuda mas uma possibili- Y — Calar no momento errado.
dade de remover sua responsabilidade, o que introduz um VI — Dar espaço a interpretações inconsideradas e a
desenvolvimento trágico. Sempre foi costume argumentar
— mesmo entre
hipóteses sem segurança.
especialistas de primeira ordem — que na
vida psíquica humana, “ao lado da enorme massa do in-
consciente, há apenas a tênue camada do consciente”, Quanto a I
por
isso se deveria duvidar da responsabilidade do homem
e, no Um interesse predominante do terapeuta pelos distúr-
caso particular, do neurótico. Sobre isso Viktor Frankl
opi- bios do seu paciente reforça a identificação do paciente con-
na que a idéia dessa servil relação do eu ao Id seria
compa- sigo como homem enfermo e, a partir desta autocompreen-
rável à idéia de que um juiz idoso e enfraquecido não
estaria são negativa, o paciente produz ainda mais distúrbios psí-
em condições de condenar um réu atlético. Mas, assim
como quicos.
o poder judiciário não consiste na força bruta,
assim tam-
bém o eu, livre para decidir, tampouco pode ser domina
do Podemos nós dar um sentido ao homem de hoje,
pelas poderosas forças instintuais, pois ele é livre,
ele se de- existencialmente frustrado? Temos de alegrar-nos
cide livremente para dominá-las.
se não foi tirado o sentido ao homem de hoje, por
Pacientes que, em razão de um tratamento psicotera-
parte de uma endoutrinação reducionista. CFrankl,
pêutico, foram induzidos direta ou indiretamente 39)
a capitular
diante de seus conflitos e complexos inconsciente
s e a pôr Exemplo: U'a mãe procura um psicólogo porque O fi-
de lado sua liberdade e responsabilidade espiritual,
são víti- lho faz com má vontade as tarefas de casa, além de ter ela
mas, de acordo com a concepção logoterapêutica, de graves outras questões de educação. O psicólogo informa-se da his-
lesões iatrogênicas (e em particular os histéricos
são infe- tória do desenvolvimento da criança desde o nascimento, e
lizmente muito susceptíveis a isso). Para preve
nção contra procura fatos patogênicos salientes, Se a mãe relata, que 0
esse perigo organizei uma lista dos seis mais fregiientes er- filho quando bebê chorava muito, ele abana a cabeça signi-
ros terapêuticos. Ela poderá preservar o especi
alista dos licativamente; uma: queda da criança aos quatro anos inte-
“escolhos iatrogênicos” e abrir os olhos do pacien
te para o ressa-o particularmente, e ao ouvir que cá e lá há brigas
fato de que, se ele tem direito ao “auxílio que
cura”, não o com os irmãos, ele anota as informações com o maior cuida-
tem a receber de mão beijada, para tudo e cada
coisa, uma do. Assim, leva a mãe da criança a considerar implicitamen-
excusa de dinâmica instintual. Vamos apresentar
a lista com te o filho um “caso/problema”, e talvez ela voltará para
brevidade. casa com maior preocupação com a criança, ou até rejeição,
do que quando veio. k
Evidentemente, pode ser que existam relações entre
dados anamnésticos e a situação das tarefas de casa na fa-
140
141
mília, entretanto esses nexos deverão ser cuidadosamente ce a ninguém sem deixar vestígios, mas quem nos garante
verificados. Antes de tudo, é importante questionar também que não possa também resultar em alguma mudança posi-
sobre as disposições positivas da criança, sobre as horas
de tiva? A autocompaixão, porém, é um terreno estéril em que
harmonia em família, e coisas semelhantes. Uma sondag nada se produz.
em
sobre o lado especificamente negativo na vida de uma ea
soa é um levantamento de dados decididamente hostil e um Quanto a III
contra-senso que somente deprime, porque em sua unilate-
i
ralidade só traz à luz do diaia inconve Ea A carga de um vaticínio negativo é que o mesmo estimu-
niên cias e rouba a es ã
perança. la mecanismos de feedback e de intensificação interna pelos
quais é levado imediatamente à realização, pois já não está
mobilizada nenhuma “força desafiadora do espírito”. Com
Quanto a II
efeito, homens pessimistas dão ensejo ao pessimismo, pois
Tomar ao trágico as realidades de origem fatal reforça até sua atitude negativa de expectativa atrai o negativo. Mas
a autocompaixão do paciente, confirma-o no papel passivo o inverso não é válido, isto é, que uma ocasião de pessimis-
de uma “vítima de suas circunstâncias” e paralisa sua pron- mo produza homens pessimistas. Ao contrário, uma ocasião
tidão a colaborar dentro do processo de convalescença. de pessimismo verdadeiro é muitas vezes O momento crítico
para uma sadia reação de desafio.
Dificilmente houve em qualquer outro lu i
stress do que em Auschwitz, e justamente E am Se o desejo é o proverbial pai do pensamento, a an-
desaparecido do terreno as doenças psicossomáticas siedade é a mãe do acontecimento, leia-se — do
típicas, que geralmente são tidas como condiciona- acontecimento da doença. (Frankl, 41)
das por stress. (Frankl, 40)
Exemplo
Exemplo:
Um alcoólico cujo acompanhamento posterior eu tinha
Uma pessoa busca conselho por causa de sua falta de assumido, estava sem beber há um ano e meio, mas não con-
autoconfiança, e de passagem menciona que alguns anos seguia encontrar nenhum emprego. Finalmente foi-lhe ofe-
atrás, sofrera um acidente de automóvel e que teve de ser recida uma colocação de baixa remuneração num escritório.
retirado dos destroços do carro pelos bombeiros. O terapeu- O médico de quem ele recebia regularmente orientação acon-
ta, em consequência, fica colado no tema “acidente” e atri selhou-o a não aceitar a posição, alegando o motivo — “Se
bui muito peso a este. Ele diz que um choque dessa nature- você ficar frustrado depois, vai voltar a beber de novo!”.
za pode ter repercussão no inconsciente por muito tempo le-
Em minha opinião essa declaração causou perigosa
e pede ao paciente para reportar-se lá interiormente mais no paciente; de fato, quem “saberia preserv ar
são iatrogê nica
uma vez e relatar-lhe o que sentiu naquele momento do de- de toda frustração em sua vida? Ela
uma pessoa qualquer
sastre do carro etc. E assim, ele leva o paciente à idéia de e
terá com certeza, por centenas de vezes, desgostos, penas
que o acidente de carro poderia ser o responsável por suas a vida reserva ; e depois? Depois (confor -
preocupações que
dificuldades atuais, e ao mesmo tempo volta a encarecer-lhe
me o prognóstico médico!), resta pegar a garrafa. ..? Não,
as ansiedades, sendo que as duas atitudes produzem juntas ser estabelecida. Todo homem é capaz
essa regra não pode
uma nova base de angústia. Possivelmente, após o colóquio antigo
de suportar frustrações sem apelar para a droga; e o
à noite, o paciente vá dormir mal, ou vá acordar banhado razão deve dominar -se, se não, estará
alcoólico com maior
em suor, ou semelhantes. O
perdido. Por isso eu O aconselhei com insistência a pegar
O que se ganha com isso é nada menos que uma insegu- emprego e a deixar corajosamente que as frustrações venham
rança a mais, totalmente desnecessária, que dificilmente vai frente, sem medo delas e sem namorar O álcool nem por
em
contribuir para levantar a autoconfiança do paciente. Sem um instante. A evolução seguinte deu-me razão: o nomem é
dúvida, podemos aceitar que um acidente grave não aconte-
hoje sadio e muito satisfeito por não ser nenhum “caso social”.

142 143
Quanto a IV Quanio a V
Karl Kraus cunhou a sábia sentença: “Uma das
enfer- O terapeuta que se esconde atrás de uma máscara im-
midades mais difundidas é o diagnóstico”,
frase que tem penetrável de onde nada dele transparece ao paciente não
também sua validade na psicoterapia. Se expres
sões como realiza o tipo do “encontro homem a homem”. Se ele ainda
psicose esquizo-afetiva” ou “síndrome de borderline” apare-
cem diante de pacientes sem ser explicado responde com silêncio, contraditas ou retrovisões às per-
ao menos o que guntas inquietas do seu paciente, facilmente resultará neste
Isso significa para seu futuro, suas perspectivas
de cura etc. um sentimento de incompreensão ou abandono, e isto se
=> nascem nessas pessoas perturbações e confusões mentai
s, presta mais para tirar do que para dar apoio moral.
porque os pressentimentos, na maior parte ainda
negativos,
entram para o rol da insensatez à medida que chega
m a elas.
Naturalmente, nem sempre se pode poupar os Em certas circunstâncias calar pode ser tão pre-
doentes de
saberem que estão doentes. Apesar disso, muito judicial como falar demais; isto é, quando o médico
importa
como sabem e o que lhes é dito sobre sua doença. anda com demasiados segredos... (Frankl, 43)

Devo confessar que de nenhum modo estou conven-


cido de que o saber a respeito de quaisquer Exemplo
doenças
também representa, em qualquer caso, uma coisa Há muitos anos levei um filho pequeno ao clínico geral
saudável. (Frankl, 42) devido a uma erupção cutânea no peito. Depois de várias
horas na sala de espera pudemos entrar. Despi o meu filho
Exemplo & O médico examinou a erupção. Depois, sem nada dizer,
| Certa vez sentou-se à minha frente uma pacien sentou-se à escrivaninha, passou receita, me entregou e sus-
te que surrou que a parte da pele doente deveria ser friccionada de
tinha recebido quatro diferentes diagnósticos
de quatro te- manhã e de noite com a pomada prescrita por ele. Fiquei
rapeut as diferentes, e fazia comigo uma
iva última tentat realmente aborrecida, pois afinal uma mãe quer saber de
para saber O que realmente havia de errado
com ela que tipo de erupção se trata, no filho, donde provém, quais
Os diagnósticos trazidos eram: depressão endóg
ena depres- As perspectivas de cura. Desde esse dia pude compreender
são reativa, enfermidade Psicossomática
e neurose. Por trás se sente um paciente que ao psicólogo tem de
de tudo estava o seu desespero por ter sido bem como
despedida duas de perguntas cujo sentido não enten-
vezes num tempo relativamente curto, ao responder um montão
que ela reagira no fim, sai da entrevista sem re-
com maior nervosismo e distúrbios de completamente, e que,
de sono. Achava tam-
bém que devia ser culpa sua se tinha tanto ceber um único esclarecimento da situação.
azar, ou talvez
não tinha a cabeça muito certa”. Os diver de informações de retorno ao pa-
sos diagnósticos O terapeuta é devedor
em nada contribuíram para minorar seu desesp linguagem adequada ao seu nível de
ero. clente, informações em
- Para trangiilizá-la eu expliquei que, em entendimento. Metáforas plásticas podem também ser pro-
vista da situa-
ção, eram totalmente compreensíveis tanto veitosas para demonstrar o sentido mais profundo de deter-
sua infelicidade
como os distúrbios de sono. De nenhum modo
era doente minadas instruções. Eu fiz a experiência de que se podem
psíquica, mas devia cuidar de sua hipersensi realizar coisas extraordinárias com os pacientes, e que eles
bilidade, pois
esta poderia envolvê-la de fato em indisposiç He portam corajosamente se, com modos inspirados no hu-
ões neurótico-
-depressivas. A paciente precisava de uma
prevenção contra mano, forem levados a compreender por que se deva exigir
neurose em forma de um aconselhamento se o terapeuta se encobre com O
à coragem, ou de deles isto ou aquilo. Mas
umas férias para derrefletir (ela voou para escuta, não estranhe se vier
passar uns dias manto do silêncio e se fecha na
no Egito, o que lhe fez muito bem)
e de uma leve correção à encontrar resistência por parte deles.
de atitude profissional — nada mais,
para de novo estabili-
zar-se completamente.

144 145
Quanto a VI
com lâminas de navalha; a um outro, que era locutor noti-
As interpretações formam de per si um capítulo trágico, closo de rádio, fez-se crer que ele tinha escolhido essa pro-
pois em nenhum outro terreno a jovem ciência da psicotera- fissão somente para satisfazer seus impulsos exibicionistas
pia cometeu mais erros do que neste. As más interpretações, — são todos artifícios terapêuticos arriscados, que rapida-
o mais das vezes, são ligadas a desvalorizações em sentido mente degeneram em lesões iatrogênicas.
reducionista, isto é, assestam o golpe e arrebentam uma coi- de “reação
Quanto o homem moderno seja susceptível
sa sem lhe dar um reparo.
ao negativo”, e portanto de reações da esfera corpo /alma,
pode-se deduzir de um estudo de Horst Merschein (Universi-
Há idiotas que, em geral, só resultaram idiotas por- dade de Essen), que pesquisou sobre o “contágio” de certas
que um psiquiatra, um dia, tomou-os por idiotas. doenças através da televisão. No dia seguinte a cada deseri-
(Frankl, 44) ção de quaisquer sintomas de doenças na televisão multipli-
cam-se nos consultórios médicos e clínicas novas consultas
Exemplo de pacientes exatamente com os mesmos sintomas de doen-
Para mostrar o que há de absurdo e perigoso em mui- cas — não fruto de imaginação, mas sim verdadeiros! se o
tas hipóteses psicológicas, vai narrado neste passo o que indivíduo refletir na força dessas influências mentais, fica-
uma revista especializada trazia a respeito da tendência es- rá consciente da enorme responsabilidade que reside na di-
tatística de que atualmente um número cada vez maior de reção terapêutica da entrevista.
pessoas prefere esquiar na neve espessa a correr nas pistas,
ou realizar excursões. Dizia: “A passagem por uma encosta
de neve espessa recentemente formada satisfaz o impulso de
defloração profundamente enraizado no subconsciente do
homem”. Esse impulso hoje ficaria frustrado porque quase
não há mais donzelas virgens, e por conseguinte dá-se a ab-
“reação onde se possa ainda “ser o primeiro”, penetrando-se
pois na neve intacta...*
Deixando totalmente de lado o evidente ridículo da afir-
mação, também deve ser vista a tendência de desvalorização
que lhe é inerente. Conforme esta, não se sobe à montanha
por causa da beleza da montanha, por causa da experiência
de uma natureza imperturbável, da cintilação dos raios do
sol nos cristais brancos, da respeitosa serenidade da paisa-
gem distante, ou da soberba visão do pico nevado — não,
nada disso, unicamente para liberar a pressão de um im-
pulso secreto, efervescente, a fim de fazer reinar novamente
no interior da alma a calma homeostática... Como é mes-
quinha essa interpretação e indigna de um homem!
Precisamos portanto ser céticos em todas essas inter-
pretações. Engana-se quem pensa que os terapeutas de fama
sejam invulneráveis. A um paciente meu conhecido insinuou-
-se um complexo de castração após ter ele um dia sonhado

* Ernest Dichter, psicólogo americano, pesquisador de motivos.

146
147
As (pseudo)jneuroses somatogênicas, que Ra

9 tomo distúrbios funcionais e separa rigorosamente


Doses, acarretam no psíquico certas condições de ER
e
e
A

mal-estar. Podem ainda subdividir-se em quatro o o


seudoneuroses basedowóides, addisonóides es na ps E
ACOMPANHAMENTO TERAPÉUTICO DE DOENÇAS m como em síndromes vegetativas das quais há a i e E
SOMATOGÊNICAS licotônicas e as vagotônicas. De acordo com sua e Ns cgi aê
necessária a medicação correspondente para serem
das as causas somáticas, e juntamente com elas os efeitos
i
icos. É importante que o processo patológico sejaja de
O onte como somatogênico, donde se caio EE
somente pode ter lugar um tratamento logoterapéu as
Qquena modulação de atitude, um pouco de Na pa ne
xnl) no quadro de uma terapia simultânea somatopsíquica.

Se, como disse, pomos de lado as neuroses proviscii


Vamos dar novamente uma olhada mente e dirigimos o olhar às doenças físicas graves e ao
à nossa Tabela de.
orientação da p. 93 com que estamos procedendo coses, isso significa que saímos do âmbito do sofri
sistemati-
camente. Encontramo-nos em tema de hinda alterável para o do sofrimento prevalentemente inalte-
de atitu-. “modulação
des em face do negativo” e discutimos o trato ã
el. A logoterapiaj dá 4 grande atenção ao “homo patiens”,
pat :
terapêutico com.
as neuroses reativas com base em quadr a que sofre — e sofre sem dúvida um destino apa.
os patológicos de
histeria, mania e lesões iatrogênicas. O rúvel — porque, na concepção logoterapêutica, o médico
ponto seguinte do
programa seria sobre (pseudo)neuroses só até onde alívio
ainda houver e consolação.
somatogênicas. Co. * competente DRA
mo porém não há muito a dizer sobre F'rankl nesse casos fala em uma “cura, d'almas ia
elas, do ponto de
vista psicológico, gostaria simplesmente a “cura j
d'almas re ligiosa”, mas visa z cil
de defini-las em sen- o é bem
tido frankliano, e deixar um pouco de lado as neuroses para A doente grave ou ao homem que sofre um apoio espiritual
dedicar-me a um capítulo mais importante: vapaz de preservá-lo de cair no desespero.
o acompanha-
mento terapêutico de suporte das doenças físicas graves e
das psicoses. A todas elas, a saber, às (pseu
do)neuroses so- 1º) Vamos considerar primeiro os handicaps o
matogênicas, às doenças físicas graves e às psicoses, é co- físicas, como o câncer us Ro as
mum a somatogênese, quer dizer, a orig devidos a doenças
em patológica na di- uões, operações, paralisias j transversais etc; e sd
mensão somática do homem.
vista da “cura d'almas médica”. O organismo do Gentes is
É também possível que se trate de da pode manter com facilidade as funções vitais, se Ra
um efeito verda- nobrevier uma carga afetiva. Porque o estado de a
deiro, mas não do efeito do psíquico
sobre o somá- do homem depende, entre outras coisas, do seu es o Ee
tico, e sim, ao contrário, de um efeito do
somático vo (Frankl), e isto quer dizer que o doente ou o de e e
sobre o psíquico. Como sabemos, essas
enfermida- possui a melhor defesa possível do próprio corpo con a
des são, por definição, Dsicoses; no
particular, quan- doenças, em sua situação, na medida em que o seu a
do afinal falamos em (pseudo )neu
roses somatogê- de ânimo é bom. (As mães parecem adivinhar Rss sa cia
nicas, são predominantemente distúrbios funcio- o. esforçando-se para assegurar aos filhos doentes a
nais de natureza vegetativa e
endócrina, que por sposições, por exemplo, lendo para eles histórias alegres ao
vezes decorrem monossintomatica
nossintoma é
mente e cujo mo-
Dsíquico, excluindo-se naturalmente
ta do da cama.)
neste contexto a qualificação de Em princípio, porém, o estado afetivo somente pode
tais enfermidades
como psicóticas. (Frankil, 45) manter-se positivo se o doente, apesar da doença, experi-

148 149
menta a própria existência como uma coisa
que tem senti
do. É a quintessência de toda Querendo-se acompanhar terapeuticamente doentes =
“cura d'almas médica” que se
ocupa da atitude do paciente ves ou deficientes físicos, é preciso não perder de vista trê
em face da vida e ao seu sofri
mento, e ocupa-se do processo .
de escolha de sua percepção regras básicas:
espiritual. O que o doente perc
ebe como elemento central?
— A hipótese
ipÓ de| reivindicação
ivindicaçã deve ser a bandonada
Para todo doente ou deficiente há pelo os is (ela é muitas vezes mais forte do que
um espaço livre per-
dido (por ex. ele não pode andar) se pensa!)
e um espaço livre preser-
vado (por ex. pode andar de cade
ira de rodas). Ele fará a 2 — A percepção “espiritual” do doente deve ser dirigi-
escolha — qual dos dois modos
estará no centro de sua da para o espaço livre preservado (que é muitas
percepçã o “espiritual”. Se for a parte
perdida, ele se entris- vezes maior do que se pensa!).
tece, sente-se punido injustamente,
compara-se com os sãos,
e isto o deixa ainda mais triste, 3 — No espaço livre
i é preciso
iso apresentatar novasS pos-
e considera cada esforço sibilidades de sentido (aqui muitas vezes há mais
coisa sem sentido, que para
nada vale. Se, ao contrário,
parte preservada estiver no centro de sua percepçã a do que se pensa!).
ritual”, ele é grato pelo que lhe o “espi-
resta de abertura e ainda Se esses três passos forem dados, o doente terá E
vê que isso faz sentido.
qa de novo; não, talvez, a esperança de ficar são, ne o
Mas para ocorrer menos de poder levar pelo tempo restante uma E e a
uma escolha entre
percepções essas
na direção do espaço livre ainda tido, apesar da doença: e essa esperança há, o o a
preservado, deve ser aban- lhorar, como “sintoma concomitante » O seu estado a: j
donada pelo doente uma atitude que
muitos indivíduos to- e, com este, também o seu estado imunológico.
mam, infe lizmente, e que é: “Tudo está para
mim”. Mas na
realidade não há direito algum à reiv Um dos mais belos exemplos de modulação de atitudes
indicação de qualquer
coisa, nem de uma vida sã, ou de (no estilo do “diálogo socrático”) é dado por Frankl nn
uma vida longa, ou de uma
vida confortável. Ao contrário, a vida relato escrito do diálogo entre ele e um paciente que a
é uma permanente dis-
cussão das realidades. E à vida huma uma perna amputada, e que, depois da operação, se es A
na, como o ser que se
distingue pela dimensão espiritual
, cabe dar resposta a to- va por fazer os primeiros ensaios para andar (com uma p
das essas realidades. O doente físic na só):
o grave também há de
dar resposta à sua doença, como o deficiente à sua
cia; e a melhor deficiên-
resposta possível cada um irá Com a minha ajuda ele desceu da cama e começou,
te em seu espaço livre ainda pres busc ar somen-
ervado. (Há por ex., pes- como um pardal, a dar pequenos saltos com muito
Soas em cadeiras de rodas que esforço, sobre uma perna só. De repente rompe em
passeiam, praticam um es-
porte etc., dando respostas heró pranto, e aquele venerando e mundialmente famoso
icas ao seu destino, mas é
que tais pessoas mantêm no camp ancião que eu segurava com minhas mãos, chorava
o visual o seu espaço livre
ainda preservado; por outro de leve como uma criança. “Isto eu não vou supor-
lado, há outras que se enfiam
em casa e ficam “chocando” a tar — uma vida de aleijado não tem mesmo nenhum
sua perda!)
sentido”, gemeu ele. Fixeio nos olhos e perguntei in-
cisivamente, mas em tom de troça: “Diga, sr. presi-
4 própria vida é que traz pergunta dente, o sr. tem intenção de ser um corredor de
s ao homem. Ele
nada tem a perguntar ele é, antes curta ou de longa distância, pretende fazer a car-
, o interrogado da
vida, quem tem de responder reira do esporte?”” — Ele olhou espantado. a
à vida — ou melhor,
quem tem de co-responder à
vida, tomando a si a Prossegui: “Só mais tarde eu poderia compreender
responsabilidade da vida. (Fra
nkl, 46).
seu desespero e suas expressões de agora, porque Es
tão o sr. poderia ter perdido o prestígio, e sua vida
restante seria mera sobrevivência sem sentido para
O sr.: O sr. não interessaria mais, nem
como corredor Por isso, em psicoses a modulação de atitudes acaba
raso nem com corredor de fundo.
Mas para um ho- sendo outra regra nº 1: a hipótese da reivindicação não deve
mem como o S7., Que construiu uma
inteira vida do ger feita (nas doenças psicóticas, ela, em todo caso, é menor,
mais alto sentido, que atuou no camp devido ao desconhecimento da realidade, ligado com elas)
o profissional e
criou um nome, para um homem assim
, deveria a vi- mas o acoplamento psique/espírito deve ser afrouxado para
da simplesmente perder o sentido só
porque o sr que o “espírito” não se entregue completamente às figura-
perdeu uma perna?”. Aquele homem compreendeu ções de miragem da “psique”. Aqui se conta bastante com
imediatamente O que eu queria dizer,
e um sorriso o antagonismo noopsíquico do homem, que é de relevância
deslizou pelo rosto inchado de chora
r. (Frankl, 47) terapêutica.
A
|
é 2! ) Consideremos agora em segundo A logoterapia ao lado de (!) psicoses (jrancamen-
lugar as doenças
minto: graves de base somatogênica te não há uma logoterapia das psicoses) é essencial-
(“endógena”): as
e oses. Elas também significam uma consideráv mente terapia na parte que resta sã e é, propriamen-
el perda
espaço livre. De um lado, pende sobre te, o tratamento de atitude na parte que resta sã
as cabeças das
gerações, como a espada de Dâmocles, no doente em face da que ficou doente no homem.
a ameaça da tara he-
reditária. De outro lado, a doença pode manifestar-se intei- Porque a parte que resta sã não é susceptível de
ramente de repente, com ou sem desencadeantes doença e a parte que ficou doente não é capaz de
(stress psi
quico, inversões hormonais...) e sem possibilidade de o a tratamento (antes pelo contrário só é acessível a
-Se uma barreira. Acresce O perigo de um uma somatoterapia), no sentido de uma psicotera-
regresso, por ul
tos, de fases da doença que afetam consi pia (não apenas no da logoterapia!). (Frankil, 48)
deravelmente toda
Fanen
ennAlidadi: E finalmente existe, no caso da esquizofre-
Do E a progressão até a desintegração da per-
ER ecomposição mental Examinemos a possibilidade de modulação de atitudes
total. Em tudo existe
lerença em relação à doença puramente física. (“tratamento de atitude na parte que resta sã”) no caso das
o doente Com duas mais frequentes formas psicóticas de doença — a de-
ou o deficiente físico, podem-se abordar no conjun- pressão endógena e a esquizofrenia.
to as duas dimensões, noética e psíquica — se
ele Datena
ato Ea senda no Ceuta mencionado (a esperança
alize de
da com sentido) —, então, também seu estad ENDÓOGENA ESQUIZOFRENIA
psiquico geral é bom. Mas no doent o DEPRESSÃO
icóti i õ
noética e psíquica devem coação E Er A “miragem” da depressão en- Os fenômenos tipo “miragem”
no espiritual poderá haver percepção ap dógena consiste, como se sabe, | da esquizofrenia — que consis-
da PE a numa tristeza sem motivo, rigi-| tem em alucinações, distorções
mente se também no psíquico a triste
za não vier a enlou- dez psíquica, medo do futuro, | da realidade, sentimentos de mu-
quecer,
Neca digamos, A numa depre
p ssã ão endógena: dança de identidade, idéias de
0" . e isto
i é muito passividade, juntamente com au- |
E
É é
to-acusações completamente des- | perseguição etc. — não podem
cabidas: Esta miragem pode to- | mais ser identificados como tais,
davia ser identificada como tal | ao contrário da depressão en-
Doença Doença Não há que se revelar
física icóti
psicótica pelo doente, isto é, a ilusão emo- | dógena.
cional que ele experimenta po- ao esquizofrênico, em surto atual,
dimensão i E de ser identificada como ilusão. sua ilusão Como derradeira
foéica estreitamente em atitude positiva, afetadas A tristeza naturalmente não se possibilidade aqui ainda estão ao
acopladas: parcialmente/temporariamente alcance somente correções de ati-
acaba, mas sua atitude ante a
dimensão em atitude positiva, tristeza pode mudar. Frankl em- tude dentro da miragem — e
psíquica não afetadas prega repetidamente a metáfora isto implica que o terapeuta de-
estreitamente em seus livros, vendo a triste- ve introduzir-se no mundo men-
dimensão di opladass za entendida como uma nuvem, tal irreal do doente para aí de-
cuja passagem pode ser espera- sativar O que possa ser preju-
somática afetada afejadas

152 153
1) — Identificar a miragem (quanto possível) e contor-
da calmamente na certeza e na dicial a ele. Porque mesmo em nar ou desativar a ilusão por meio de atitudes cor-
confiança de que acima dela pai- seu mundo distorcido e limita-
ra inalterável o sol no horizon- do há, o mais das vezes, ainda retas;
te de sentido da vida. O doen- uma pequena margem do espiri- 2) — encorajá-los para uma resistência paciente nas fa-
te que souber imbuir-se dessa tual: e assim o doente pode ata- ses más e dirigir-lhes a atenção para as fases boas
atitude suportará sua tristeza car seus inimigos fictícios ou da vida;
psíquica muito melhor porque perdoá-los, e naturalmente a cau-
sabe enfrentá-la espiritualmente. sa do perdão será defendida. 3) — nas fases boas, apresentar possibilidades de sen-
(Como é produzida essa “nu- Ou ele poderá vociferar para to- tido a fim de que estas de algum modo ainda “ir-
vem” — hoje se sabe amplamen- do mundo suas idéias absurdas, radiem” sobre as fases más.
te. “Trata-se de uma falta tem- ou considerá-las segredo íntimo,
porária de determinados neuro- entre si e seu médico, e natu-
transmissores no cérebro, devido ralmente se terá de favorecer a Se forem dados esses três passos, embora não se possa
à qual o mundo do sentimento guarda do segredo, Com isso eliminar* o vexame da depressão temporária ou da perda
se embaralha. Uma das subs- não se estão fazendo, do ponto parcial da realidade, o paciente poderá, não obstante, levar
tâncias em falta pode ser subs- de vista médico, alterações exces-
tituída artificialmente pelo 5-HTP uma vida razoavelmente aceitável para ele. Evidentemente,
sivas, mas, na prática, seria
(hidroxitriptofan), a que muitos possível, num ou noutro caso, estas indicações não significam que se possa prescindir da
pacientes reagem bem, Isso tudo um doente ficar, mediante tais necessária medicação; a “cura d'almas médica” é uma ofer-
é válido porém somente para de- modulações de atitudes, com a ta adicional do médico, ou terapeuta, que vem a calhar se
pressões endógenas: no caso de
depressões reativas ou noogêni-
sua companhia habitual, em vez tudo o mais que é do dever do médico for assegurado.
de ter que ser internado.
cas as causas são outras, total.
mente diferentes!)
(Até onde remontam as idéias Como exemplo gostaria de citar uma de minhas pacien-
absurdas do louco,
se discute.
hoje ainda
Com grande proba-
tes que em 1980 me veio fazer uma consulta e faleceu em
bilidade trata-se de distúrbios de 1983. Tinha sido enviada por uma clínica de nervos e eu tive
metabolismo nas células nervo- o encargo de acompanhá-la depois da última fase de depres-
sas do cérebro.) são endógena. A doença já durava seis anos, desde sua en-
trada na menopausa: e desde essa época ela efetuou quatro
; Nas psicoses há de fato uma espécie de “barreira” psi- tentativas graves de suicídio. A quarta ocorreu de modo
cofísica ao sentido, motivo pelo qual se leva ao doente particularmente dramático: ela havia sido descoberta lite-
o apelo à “vontade de sentido”. No depressivo endógeno tal ralmente no último minuto pelo cão de um passante na es-
apelo intensificaria ainda mais os seus sentimentos de cul- pessura do bosque onde jazia inconsciente, intoxicada de so-
pa irracionais e inoportunos, e no esquizofrênico uma “von- níferos. Nos quase três anos em que esteve em tratamento
tade de não-sentido” poderia facilmente resulta do fato de comigo não aconteceu uma única tentativa de suicídio, e ela
ter ele dificuldade em distinguir sentido e não-sentido. veio a morrer de outra causa que nada tinha que ver com
Ao psicótico, ao contrário do neurótico, há de lhe ser dada nosso trabalho comum.
consciência de que está doente (e de que não é responsável maneira.
O trabalho terapêutico realizou-se da seguinte
por estar doente) e por esse motivo ele não tem nenhuma os mo-
Primeiro começamos a aproveitar intensivamente
outra tarefa senão suportar tudo isso com paciência ou dei- Ela trabalhava muito
mentos sãos, positivos da vida dela.
xar passar, mas ao mesmo tempo tem de ser feito um apelo
bem como costureira nos anos pós-guerra e eu a animei a
à “força desafiadora do espírito” — daquele “espírito” que
frequentar um curso de corte e costura que efetivamente lhe
também é capaz de provocar para esta doença espaços livres Ela produzia moldes para pes-
proporcionou muita alegria.
e fases sadias, e para esses espaços e fases ainda possibili-
dades de sentido.
* De modo nenhum se tentem eliminar sintomas psicóticos com
Se, por outro lado, quisermos resumir o trato com pa- ansiedades depressivas com nuan-
auxílio da intenção paradoxal! Nas
cientes psicóticos em três regras fundamentais, estas seriam ces de suicídio, ou nas paranóides, a intenção paradoxal é contra-in-
as seguintes: dicada sem exceção.

154 155
soas amigas e isso também trouxe belos contatos no campo O especialista, que o perigo
A esta altura anote-se, para
doméstico. Além disso, ela se inscreveu na ginástica para pes- endógenas, ocorre quan
máximo de suicídio, nas depressões
soas de idade que ela, a princípio hesitante, mais tarde do a fase má atinge a conclusão.
acompanhou bem.
A segunda medida que tomamos juntas foi um treina-
mento preventivo para o caso de voltar o vexame depres- Estado de ânimo normai
Depressão
sivo. Deixei claro que logo aos primeiros sinais, que Depressão
ela co- Sojesato
nhecia com exatidão, teria de recolher-se volunt
ariamente ao Perigo máximo de suicídio
hospital onde poderia ser ajudada a atravessar o
mau espa-
ço de tempo, por quanto possível, “consultando
o traves-
seiro”. Não era vergonha nenhuma estar fora de forma
por Os pacientes por um lado sentem-se sempre e
umas semanas; outras pessoas sofrem seu reumat
ismo, ou mente infelizes”, e por outro vêem regenerada pouco a pre
sua asma, e “você tem esta doença que você deveria co sua força de determinação (que estava paralisada no o
conside-
rar como se de vez em quando vai a tratamento” to ínfimo da fase depressiva), mas as duas situações j e
para de-
pois retomar sua vida diária normal. Era uma resultam numa perigosa combinação! Por isso, as
modulação
de atitude difícil para ela, pois estava habituada a
aplicar-se tente reduzir muito o cuidado médico-psicológico, Re jo
estimulantes ela mesma quando em estado depressivo, o ao fim da fase depressiva de um paciente por ca ae
que
cada vez a empurrava para o desespero. Até que afinal ele está melhor. O fim da fase é o ponto mais crítico e o
ela,
entendeu isso e aceitou rever a situação. o processo da doença, mas também o momento o e e a
Nossa terceira medida terapêutica consistia numa profi- aquela plenitude de valores da vida, dados integra. a o
laxia do suicídio. Tinha tempos sãos do paciente, pode ser de novo colocada
ela um filho quase adulto, e eu
pedi que por amor do filho preservasse a vida a todo custo. campo visual.
Não que ele ainda tivesse muita necessidade da mãe — pois
era bastante independente — mas por outra razão. Eu lhe
expliquei que os filhos de suicidas são sempre um tanto
ameaçados de tentar resolver os próprios problemas com a
mesma “receita”. É que para esses filhos está perdida a
evidência com que a gente vive, ou se esteja bem ou se esteja
mal; eles receberam um modelo de acordo com o qual viver
não tem absolutamente uma evidência, e esse modelo conti-
nua a influenciar mesmo em situações não constrangedoras.
Queria, então, a mulher que seu filho, num dia de afli-
ção, só brincasse com o pensamento de atentar algo contra
a vida? Não, não queria isso. Então eu a desafiei por assim
dizer a sacrificar-se pelo filho e naqueles momentos em
que
a vida não lhe parecesse de modo algum digna de viver, não
obstante tudo — pela segurança dele — fosse suportando.
A exortação foi-lhe ao coração e, como disse, mais nenhum
ato de desespero foi praticado, se bem que ela nos escasso
s
três anos de nosso trabalho comum precisasse ainda ir duas
vezes à clínica por causa das fases de depressãó (inevitá
-
veis). Em resumo, ela não só atravessou bem essas
fases
mas, creio eu, seus últimos três anos, apesar da doença,
con-
taram-se entre os mais realizados de sua vida.

156 157
ção? Talvez no conjunto eu não esteja satisfeito com minha

10 vida; não vejo sentido no que eu faço, piso num terreno fal-
so, não estou em harmonia com minha consciência, e se-
melhantes; não sinto a minha existência realizada com sen-
lido e por isso não sou feliz. Seria isso então fundamento
PARA SUPERAR OS REVESES DA SORTE ou razão para que as cargas psíquicas, como “pretextos dos
nborrecimentos”, possam influenciar de modo totalmente
negativo sobre minha saúde. As causas de ter eu apanhado
pripe são, exatamente como antes, os vírus sobre a mesa,
mas o fundamento para ser eu susceptível à gripe seriam as
minhas carências existenciais.
Analogamente, o inverso é válido. Quem tem fundamen-
to para permanecer são, em nada poderá atingilo o abor-
recimento por quaisquer bagatelas, pois sua base firme é o
aa imagem do “homo patiens”, com
as graves doenças sentimento positivo da vida. Por consegiiência o aborreci-
físicas e as psicoses, ainda não está mento não faz nenhum efeito em seu sistema de imunidade
concluída. Há reveses da
sorte que não consistem numa doença e possivelmente não vem a acontecer nenhuma infecção,
mas
perda — numa
a Tigor, uma perda de valor. Exemplos mesmo que haja na proximidade vírus causadores de gripe.
disso são amizades
rompidas, casamentos fracassados, Um exemplo excelente são as mães de crianças pequenas;
casos de morte de pes-
soas íntimas, carreiras profissionais termi elas em geral quase não caem doentes, pois têm fundamento
nadas, grandes de-
silusões,, erros irreparáveis, prejuízos materiais
etc. Tudo predominante para a permanência em saúde.
isso traz consigo uma frustração espiritual porq
ue os siste-
mas de valores estão sem dúvida consolidad
os na dimensão
noética. Mas as frustrações espirituais podem ter seus
efeitos Causas não são o mesmo que fundamento. Se o indi-
no Psíquico e no somático, por ex. o indivíduo entri
stece víduo corta cebola, lacrimeja. Suas lágrimas têm
= depressão psico-reativa), ou não tem apeti
te (= reação uma causa. Mas ele não tem fundamento algum, ou
Psicossomática). A frustração espiritual forne
ce a base à razão, para chorar. Se é infeliz e toma um gole de
tristeza; a tristeza é algo psíquico, o que por
sua vez influi whisky, será menos infeliz, e o whisky é causa disso.
no processo do alimentar-se e portanto sobre
o somático. Mas acabar com o fundamento ou razão de ser in-
Convém intercalar aqui um breve excursus feliz, isso vai levar muito tempo. (Frankl, 49)
sobre a di-
ferença entre “fundamento” e “causa” para
se compreender
O que segue. Suponhamos que sobre a
prancha da mesa à
minha frente se encontram vírus de gripe; Outro exemplo diz respeito ao fumar. O fumo é uma
ponho minha mão
aí e me contagio. Então os vírus são causa do câncer dos pulmões. Mas que fundamento ou razão
a causa de ter eu apa-
nhado gripe. O meu sistema de imunidade, tem o indivíduo para fumar tanto até cair doente? Pode ser
porém pode blo-
quear a infecção, se for suficientemente que nele exista uma disposição inata à mania; por outro
forte. Mas suponha-
mos que esteja enfraquecido porque lado devemos perguntar por que ele não procura conhecer
meu estado de ânimo é
ruim. (Que o estado de imunidade um fundamento, ou uma razão mais convincente para renun-
“pulsa junto” com o es-
tado afetivo, já sabemos.) Suponhamos clar à sua inclinação? Um fundamento para assegurar a saú-
ainda que eu venho
há, tempos me irritando. Tenho dific
uldades profissionais de? Em nosso exemplo o corpo de fato é apenas uma ima-
ou pessoais. À irritação tem então o efeito
de ser eu suscepti- gem especular da psique: o fumante faz algo que o prejudi-
Na à gripe. Mas por que aborrecer-me com qualq ca (recorrer ao fumo) e o corpo faz algo que o prejudica
la? uer bagate-
donde provém minha permanente insatisfaç
ão e irrita- (produzir células cancerosas), portanto o corpo segue sim-

158
159
plesmente a atituitude
de fundamental do s eu possuido
nc i r! Co Lembremos as três “colunas” em que repousa o edifício
a investigação de fundamentos e
motivos fundame lh das idéias da logoterapia (cf. o esboço da p. 26): a liberda-
ais (investigação que a logotera
pia se prop
pode ser mais decisiva do que o d escobri E ôs como meta) de da vontade, a vontade de sentido e o sentido da vida. Esta
das doenças. q mento das causas última “coluna”, o sentido da vida, pode ser achada, segun-
do Frankl, em “três estradas principais”: na realização de
pras Voltamos assim ao tema dos de experiência vital (vivência)
“reveses da sorte”, os in- valores criativos, de valores
a OE que apresentam não causas
mas muito mais fun- e de valores de atitude.
mentos dos distúrbios de saúde.
Nos casos de infortúnio
encontrammos uma saída, dife rent
e dos casos de
2

grav es físicas e psicóticas. i Uma análise fenomenológica da experiência vital


abit o cd imediata, não falsificada, como podemos apreender
Enfesmidade do “homem da rua”, simples e despretensioso, e pre-
Enfermidade Reveses da sorte apenas traduzir para a terminologia cienti-
ísica grave cisamos
psicótica (ou infortúnios) o homem — por força de sua
fica, revelaria que
vontade de sentido — não somente procura um sen-
fundamento
fundamento tido mas o encontra, e precisamente em três cami-
causa causa nhos. Em primeiro lugar, um dia ele vê sentido em
dos distúrbios do estado de saúde do paciente fazer ou criar alguma coisa. Vê, além disso, sentido
em vivenciar algo, em amar alguém; e ainda vê tal-
Nas enfermidades vez sentido numa situação de desesperança com que
físicas graves tanto há uma
mo há um fundamento
causa co- se defronta sem ajuda. O que importa é a atitude
do distúrbio do estado
de saúde do de um des-
paciente. A causa reside na lesão e a orientação com que vai ao encontro
orgânica, nas dores ou de- Só a atitude e a orien-
ticiências causadas; e o fundamen tino inevitável e inalterável.
to do fato de sentir-se mal de uma coisa de
O indivíduo que sofre uma grave enfermid tação permitem dar testemunho
ade física é a amea- que só o homem é capaz: no plano humano, rejor-
ça que dela provém. Durante a fase
de uma doença psicótica
hã pura mente uma causa do distúrbio
mar e transformar em realização o sofrimento.
do de saúde do esta
aquela que é “causadora” da doença (Frankl, 50)
no terreno neuroquimi-
Re a agentes nessa fase habitual
mente não percebem um
ento ou razão para se desesperarem
porq por sua doença, A realização de valores de atitude é, portanto, reservada
] ue
[ o seu pensamento sofre d emasiada
ii s inte
i ênci (ou imposta) de modo especial ao homem que se confronta
fenômenos-miragem”.
HE com um destino inalterável ao qual já é muito poder apre-
E Nas Vítimas de infortúnios, ao contrário, sentar-se com dignidade. Mas se ele o fizer, se assumir com
coexistem ra-
S OU motivos fundamentais de dor, e se queremos coragem seu sofrimento, sem iras nem queixas, ou sem de-
a terapia a essas Pessoas, é prec levar sabafar o seu aborrecimento contra os outros, ele então
iso ocupar-nos com seus fun-
damentos, O que há de com
um em todas essas razões realizará também algo de valor, e sua vida, que sofreu uma
damentais, como já foi sugerido f perda de valor, voltará a enriquecer-se de valor.
, é a perda de valores. “a
a a ano fazer essas pessoas infortunadas O destino inalterável, porém, em face do qual o homem
E que podem por sua vez trazer não pode fazer outra coisa senão tomar uma posição, ainda
para suas vi-
niorme a maneira como se com uma vez segundo Frankl, abre-se numa tríade, a “tríade trá-
portam frente à per-
da de valor e como a suportam —
valores novos que “com- gica”: “sofrimento, culpa e morte”. Todo homem sofre em
pensam num plano mais alto a perda algum momento; todo homem, de algum modo, torna-se cul-
sofrida. Isto soa mui-
to como filosofia, mas na prática é um método pado; e todo homem morrerá um dia.
viável.
160
161
Liberdade da vontade — Vontade de sentido — — Sentido da vida
vompaixão: ele exprime uma honesta e autêntica considera-
cão para com as capacidades do espírito humano, o qual
Valores Valores de pode transformar em triunfo até mesmo um tormento,
Valores de
criativos experiência vitalt | atitudeg** 2) Intitulei a segunda possibilidade mostrar sentido.
E assim que nos referimos à indicação de qualquer coisa que
tem sentido, ou qualquer bem que, apesar de tudo, está con-
Sofrimento — culpa — Morte tido no sofrimento da pessoa em questão. Este ponto deve
(Triade Trágica) ser tratado com muito cuidado; entretanto tal indicação sói
sor revelada por um observador mais facilmente do que pelo
pre ds isa E BE próprio paciente.
como proceder concretamen-
I edica” e na “cura d'almas psicológica”
E ne motivar pessoas atingidas por
a
“ . Eu, por exemplo, entretive certo dia um diálogo logote-
reveses da sorte aih ICd,

rapêutico com uma jovem que estava completamente deses-


pesaa modulação (em sentido psico-higiênico, às
o vezes ne- perançada de encontrar namorado. Num acidente de trânsi-
de sua atitude =— eu reuni quat
ro modos de pro- to ela havia sido catapultada de rosto contra o vidro de se-
imento que gostaria de denomina
r, de forma breve: pgurança da janela do carro e levava cicatrizes muito mar-
1) mostrar valor, vnntes pelas feridas dos cortes. (Isso foi em 1975, quan-
2) mostrar sentido, do a cirurgia plástica ainda não tinha atingido o desenvol-
3) mostrar resto, vimento destacado de hoje.) Em todo caso, ela não se arris-
4) mostrar perspectivas. tava quase a fregiientar as pessoas. Eu a aconselhei instan-
ltomente a fazer pouco caso do defeito. Disse-lhe na oca-
Para cada fórmula uma breve glão mais ou menos o seguinte: “Sim, você tem essas cica-
explicação, a seguir.
trizes e evidentemente sente-se infeliz. Mas há uma coisa
a gel “Aquilo que chamo mostrar
valor é simplesmente vom as cicatrizes que você precisa saber: elas são um ex-
É ad que uma, atitude Positiva, mais
aa corajosa, frente volente instrumento para se medir a grandeza interior de
s o negativo, é uma grandiosa
realização humana. um namorado, ou avaliar uma amizade. Quem não amar vo-
esta indicação a de que realmente muit
os pertencem ao vê por causa de umas cicatrizes, jamais seria digno do seu
Srupo dos que não se deixam “vencer” numa situação mor, e se você possui a beleza de uma artista de cinema,
ruim” mas suportam firmes e sem amargura
terável; e de que isso é verdadei o que é inal- quem amar você apesar das suas cicatrizes, esse ama você
ramente digno de reconhe- ronlmente”. Conforme o caso, pode ser bastante útil recorrer
cimento — pode servir de consolo
e ajuda. Este reconheci- à esse instrumento de teste.
mento supera de muito o puro sentimento de simpatia ou
3) Sob o título seguinte, que denominei mostrar res-
* Wal a sa
ter Bôckmann classificou os valores em “vinculado to, deve-se entender a indicação das chances positivas, cada
cial”, isto é, provenientes do encon s ao so-
jal”, LC tro com outros homens, ou d voz restantes além do sofrimento e que não foram por este
ope -
: “não-vinculados ao social” isto
é ari ulingidas. São chances sobre as quais o sofrimento de ne-
Ds, 1 u referentes a experiências da natur
-Orie
o ntierte : Leistungsm1 otivation (ef. Si nhum modo pode se estender. Trata-se praticamente da
und Mitarrbeit
bei erfiiiri
hrunga = = MoMotiva- “salvação do resto”, sem se querer substituir com o resto
cão do rendimento orientada para
o sentido e direção dê colabora
res, Ed, Enke, Stuttgart, 1980, p. 86).
SE O que foi perdido. Com referência a isso é preciso proceder
Ê : q
Elisabeth Lukas ampliou o conceito vom muita empatia. Por ex., não se pode dizer a uma mãe
de valores de atitude na
que acaba de perder um filho: “Ora, a senhora tem ainda
dois outros!” O que se pode realmente fazer é dirigir com
julto sua atenção para o fato de que os outros dois filhos
ninda precisam dela — tanto mais agora, depois do choque
162
165
Íli i ã ida: se tivéssemos
a a vida: ivé para tudo o um tempo eter-
totalmente
selalmen no
tesno desgosto: e
desgodio sbt 2 CS não teríamos nenhuma razão para agir aqui
Outro campo para utilização da idéia é o gerontológic E ngora. Mas como não temos esse tempo eternamente longo,
o, por isso é tão importante colher e realizar
Na velhice vai-se perdendo lentamente
muita coisa — esfe- Pes
ras de valor que se reduzem; aumen (lo sentido do dia de hoje, pois
ta o campo das coisas: amanhã poderia
inalteráveis; a vida, não se pode parecido.
viver mais uma vez nem
melhor realizar. Mas nem todas as dimensões humanas do
ser são afetadas na mesma medida. Enquanto A finitude do homem é dada antes de tudo na tem-
somática, a dimensão lidade de sua existência. Ela se põe defro
condicionada à idade, restringe-se nte em
e a dimensão psíquica perde cada vez mais a cada vez mais, Reno lano como mortalidade. Sabe
dimensão espiritual do homem ainda flexibilidade, a a te ela que é mos
cientes exemplos de homens que em avan
é explorável. Há suf o do homem: que forma de todo a responsabili-
O homen Que lose nora ade
nuaram admiravelmente ativos e realizar çada velhice conti- Endeno
am até mesmo obras Sr inaproveitadas todas as ocasiões de
famosas. Por isso deve-se fazer ver às pessoas que envelhe- ana DT aa valores, pois nunca lhe ocorreria fa-
cem que elas absolutamente
realização 4 ue pudesse fazer tão bem algum
tem-
não atingem o limite em todos 2er algo agora q
iri i m
o maisi tarde. Ora, em face da f initude temporal de e
76 de exparão até 6 e a Odo existência, é possível, com uma espécie de im
perativo categórico, provocar em toda a sua ia
ipa4) A última proposta que eu gostaria
trato com o “homo patiens” diz respeito às comprovar no
de tude a responsabil idade humana
imperativo: Age de tal modo como se como no seg
perspectivas a vivesses pela
partir das quais pode-se interpretar um ia Es ivesses feito
sofrimento. Tais segunda vez
perspectivas não pode m ser outorgadas
s ponde- e sim apena e aê sá ade Moo fazê-lo.
radas juntamente com o consulente. Para isso tudo tão mal quanto
reflexão sobre a
é útil levar à (Frankl, 51)
“tríade trágica” pensamentos inspirados
“logofilosofia”. na

Todo sofrimento é ao mesmo tempo impulso para um


processo de amadurecimento: o homem cresce no sofrimen-
to, e, para usar uma imagem, apre
nde a penetrar no fundo
partindo da superfície. Não que seja
desejável ao homem o
sofr imento, mas a partir dessa perspectiva
imento é o sofr
simplesmente mais aceitável. A culpa
, ao contrário, pode ser
considerada como um impulso para
a transformação interior
e a reparação. Nem sempre a repa
ração é possível no mes-
mo objeto de que o indivíduo
se tornou culpado, mas ela
oferece, retroagindo, possibilidade
de atribuir abundante
sentido ao passado. Sim, mesmo a
morte pode ser vista de
diferentes perspectivas. De certo modo, ela é até nosso estí-

* Infelizmente a sociedade ocidental


co demais, espiritualmente, das contemporânea exige pou-
pessoas idosas, deixando-as tornar
-se “espiritualmente entediadas”, -
e cuida delas puramente com a
previdência social. Era totalmente diferente em culturas
quando havia um “conselho de anciã anteriores,
os” (= conselho de sábios) que
compartilhava responsave lmente a gestão e o destino do seu povo.

164
de vida sem problemas. E isto pode ser a razão de as neu-
1 roses noogênicas terem ficado tanto tempo por descobrir
e diagnosticar, apesar de Frankl tê-las previsto com elarivi-
dência há decênios antes do desenvolvimento técnico-econô-
mico dos países industriais.
NEUROSES E DEPRESSÕES NOOGÊNICAS
Mas o homem “em busca de sentido”, para usar este
titulo de um livro, nas atuais condições sociais
somente pode sair frustrado! É certo que a socie-
dade de bem-estar, ou o Estado-providência, é ca-
vaz de satisfazer praticamente a todas as necessida-
des do homem, sendo muitas necessidades particu-
lares totalmente criadas pela sociedade de consu-
mo. Apenas uma necessidade ela não pode satisfa-
j Até aqui todas as nossas considerações faziam zer, e esta é a necessidade de sentido — a “vonta-
referên-
cla a superação de tristes realidades da vida.
Mas devemos de de sentido” própria do homem, como eu a cha-
familiarizar-nos com a idéia de que há també
m vexames mo, isto é, a necessidade, profundamente inerente
neuróticos em face de circunstâncias marca ao homem, de encontrar um sentido na vida, ou me-
damente favorá-
Es ca vida. As neuroses e depressões noogênicas lhor dizendo, em cada situação da vida — entre-
que se
É E nn oca des enelinenão nos últimos decênios são disso gar-se a ele e realizá-lo! CFrankl, 53)

Um olhar retrospectivo à nossa Tabela de A neurose noogênica é o caso de uma frustração existen-
orientação da
p. 93 ensina que continuamos a nos movim cial que se tornou patogênica; em outras palavras, trata-se
entar no “átrio
de entrada” do método logoterapêutico da modulação de de efeitos neuróticos de um mal-estar espiritual. Este mal-
atitudes, ao dedicar-nos agora novamente
ao grande tema «estar espiritual não é em si e de-per-si o elemento patogêni-
das neuroses” (que interrompemos depois co (e de modo nenhum o mórbido, pois o espiritual não po-
da breve defini-
cão das [pseudo Jneuroses somatogênicas), e
em especial de adoecer!); ele é, antes, uma fonte criativa de forças. To-
ao subtema das neuroses noogênicas. Enquanto do mal-estar sugere modificação de um qualquer inconve-
a logotera-
pia representa no caso das neuroses psicogênicas niente, e assemelha-se a um sinal de alarme que deverá
uma, tera-
pia inespecífica = e no caso das enfermidades transformar-se em impulso de correção. Na neurose noogê-
somatogêni-
cas e das endógenas somente poderá ser uma terapi nica sobrevém à frustração existencial uma certa “afecção
a de apoio
no sentido da “cura d'almas médica” — ela somatopsíquica” que exagera o mal-estar e paralisa o im-
é agora nas neu-
roses e depressões noogênicas a terapia especí pulso de correção: o negativo, que deveria produzir algo
fica pois “neu-
roses provenientes do espiritual exigem terapi positivo, continua assim preso em si mesmo e torna-se
a de origem
espiritual”. Lembremos aqui a definição frankliana doença.
de neu-
roses noogênicas que diz exatamente: “Nos casos em que
simplesmente estão na base etiológica da neuro Geralmente há uma “relação de exclusividade entre
se em ques- doença psíquica e necessidade espiritual” (Frankl); quer di-
tão um problema espiritual, um complexo moral
ou uma zer: deve-se fazer com muita precisão um diagnóstico dife-
crise existencial, fala-se em neurose noogên
ica”, (52) rencial, quando, por exemplo, uma depressão é um sintoma
Evidentemente aparecem ao lado dos confli mórbido (de natureza endógena ou reativa), e quando ela
tos morais
a problemas espirituais e crises existenciais é expressão de vigilância espiritual, na medida em que está
, particularmen-
e acumulados nos tempos de prosperidade e nos em sua origem uma frustração existencial em que não basta
períodos
um simples — “as coisas vão indo bem” — mas aspira-se a
166
167
do fato de
Ra vida: à realização de sentido. Apesar Perguntemos qual seria O resultado real
al . . E me “ a

dessa re-
Se XC. dade entretanto, o estado no poder satis fazer plenamen te todas
de necessidade/ um ser huma l do
qa pode desembocar na doença psíquica: então dei, as necessidades que teria, num corte
transversa
o a se pane na depressão noogênica.! a experiência vital
tempo — qual seria O resultado:
;
de Und Ótico
ICO de ansiedade gostaria
tari de livrar-se seria O contr ário, a experiên-
i de realização? Ou não
vazio sem fundo
» O histérico de extorqui r força, atençãã cia de um tédio abismal — de um
ora a qualquer preço e o “homo pabiene”” lamenta ã — do vácuo da existência?
o a dot a a o neurótico com este vácuo
noogênico não se Nós neurologistas nos conjrontamos
isso. Ele é completa:
sado, nada realment e = lhe importa.
t i
todo dia e nas visitas de consultório...
i : Exclui
Ono
cluindo-se
ce a pequen estava, aboleta-
aeee no de neuróticos noogênicos que se dlbdarat co Depois da expulsão do paraíso onde
próprios de
um vida de consciência, verifica-se que o quadro sinto- do e em segurança com seus instintos, nda segu
o homem teve de sofrer uma
mático médio do neuróti âni po um animal,
x PR - rótico noogênico é cara ui i ado pol perda, depois e além da dos instintos,
que é a perda
saturação, tédio e vazio interior. Não só, porta nto, uma perd a na dimen-
da tradição. so-
: ; também na dimensão
(Tédio
a
é a pe i
perda de interesse; entendá-se: interess e pe- são vital do seu ser, mas
om cial. Ora, a reação a esse vazio interior
consiste em
a-
assim chamadas na lingu
“neuroses noogênicas”,
gem logoterapêutica... (Frankl, 54)
Frustração existencial
do ele sem saber mais se
ções normativas” tradicionais, fican
sentimento interior nem
orientar com segurança nem pelo
Afecção somato-psíquica pela tradição.
NY A propensão
vorecida pelo
à hiperrejlexão
impacto do alívio
do homem
de
moderno
preocupações e
foi fa-
neces-
sentimento e sociais (disponibilidade repentina de bens
sidades vitais
— neurose Senuinento tempo de trabalho, assistência
devazio q +». crônico de materiais, redução maciça do
da
interior noogênica e pelo avanço generalizado
absurdo aos doentes e à velhice etc.)
se lavar róupa tempos
técnica. (Pense-se apenas que para
de um dia inteiro, en-
atrás era preciso cada vez O trabalho
O trabalho com o aperto
quanto que hoje pode-se executar
mão. É conveniente lembrar
de um botão e alguns golpes de
lavar roupa era diretamente com-
passividade, que o sentido do dia de
tédio permanente, enquanto só com es-
indiferença preensível à consciência das pessoas,
qual é mesmo O senti-
mentalidade o
forço se procura saber e se descobre ecer que OS
consumista, ainda acont
do hoje do dia livre ganho.) Pode da vida
caça ao prazer ados ” ao redor de um porquê
pensamentos “enganch
resposta. Não à toa
e da sobrevivência humana fiquem sem
ofere cidas aos homens
afirmou Ernst Bloch que hoje são
Edir co em toda neurose, também nas neuroses aquelas preocupações que eles teriam só na hora da norte
stao em jogo as características típicas da “pro- A periculosidade das neuroses € depressões noogênicas
É ensãoo à i ana RE e a “propensãão à hiperreflexão” bifurca-se em duas direções:
D ropensão à inse gurança com a per-
E e por parte do das chances positivas da vida
homem moderno progressista ER 1. a do não-aproveitamento
cas “informações do instinto” e também “A sociedade de afluência traz consigo
das “instru- (Frankl diz:

168 169
de idade, na RFA, tinham
a bundânci
ância i de
liberdad e que sem dúvida daria ocasião ., quatro jovens com cerca de 16 anos
medo do futuro”. Um casal
E e a ua sentido, mas na realidade só tirado a vida “por ansiedade e
o, tendo deixado uma carta de
s evidente o vazio existenci al, como n o) R jovem jogou-se de um prédi atômi-
sem foguetes
psiquiatras podemos observar nos casos da casa despedida que dizia: “Queríamos viver víamos mais ne-
não
GR
“neurose do domingo'
go”)”
)” (55): sen
e isso implica
i i ——y negli- cos e sem destruição do ambiente, mas aspirou gases
.*: uma moça
nhuma possibilidade para isso... vida e dela mes-
ue “não sabia o que fazer da
Sud as a Era 2 de escape porq
do E np ARE ÇÃO espiritual diante das de- e do trem, não, talvez,
ma”; um estudante atirou-se à frent
s ares, mas porque, apesar
+ das agressões (sem sentid porque tivesse tido problemas escol
berversões
Ro rsõe (sexuais) e do impulso
i de fuga para
E mundos ar-s e uma situação de de-
DA de suas boas notas, via “aproxim
É aginários (drogas, excessivo consumo da TV, seita estudos”. Este palanço per-
sespero depois do término dos
i eologias de desenvolvimento material... estão estreitamente liga-
): e isso in turbador mostra com clareza como
| plica ———s» ações falhas! de sentido e a “desvalori-
E a dos entre si o sentimento da falta
não é mais vivida como algo
zação da vida”, pois se a vida
as CORE NERR abaixo esclarece que a problemática — como se perde em valor, desapare-
| os com sentido, perde seu valor; e
Enganar ae inclui traços do “círculo vicioso”
ce a inibição de danificá-la.
S e ações falhas produze
psicológicos e clínicos
por sua vez provocam d esesperança e ansied Cuco q Entre pacientes dos consultórios
frequênc ia neuroses e depres-
turo, ) doisi fenôm
1 enos hojej observados n o mundo
add encontram-se hoje com muita
quê as vari adam ente com outros incô-
tornam invencível a frustração existencial. sões noogênicas, misturad
da que os pacientes não sa-
modos. Um dos sinais distintivos é
as que “têem” um mal-es-
neurose e depressão bem o que “têm”, eles sabem apen
noogênicas se em geral mal- humo rado s, pouco cooperati-
tar. Mostram- os terapeu-
para reagir, ou birrentos; fazem
vos, sem ânimo
tas sentirem desde o começo que não esperam muito de sua
nça da, vida sem
terapia... Na variante mais neurótica, a “doe
o indivíduo aos excessos mais
sentido” (Frankl) estimula
do prazer, que
] :
frustr ação
2 rocesso c abstrusos e o leva a uma busca incansável
i
depressiva, não
acaba em desprazer total. Na variante mais
para os pacientes; nada tem caráter
ações falhas existem “reforçadores”
pacientes são incapazes
finalístico. Em ambas as variantes os
|
ria saúde, são incapazes
| de apreciar e avaliar por ex. a próp
jar-se, e semelhantes, por
de dedicar-se a alguma coisa, enga
e em relação aqueles que so-
d esesperança e ansiedad
i e E o isso formam um forte contrast
do do com o futuro $ frem por algum dos reveses da sorte.
propriamente numa
A neurose noogênica não se baseia
perda dos instintos, quebra de valores que resul-
l da tradição, impacto do perda de valor, mas antes na percepção
a queixar-se de uma perda de va-
| alívio de preocupações tam em perda. (Quem tem dela!)
conhece valores, do contrário não se queixaria
lor
dos neuróticos noogê-
Ro No iaaa de 1984, falando sobre o quadro Unicamente o pequeno grupo limítrofe
a colis ões de valor, pos-
ogênica, na Universidad i nicos, cuja problemática reduz-se
se reali zam em comum, ou ao
pedi aos alunos, 5 entre o s quaisis foram dadas indicaçõ
de isi- sui idéias de valor que não
qual falha a percepção de
ao e o a Ca mesmo tempo, e com respeito à
r .

noogênica” — que ont stem Re per-


porém, em sua vida já não


E

E guinte recortes de jornai


Jor s relatando ato s de deses- prioridades de valor! Quem,
nenhuma estrutura de valor — e pos-
pero. Eles me trouxeram notícias de que naquela semana (1) cebe absolutamente
171
170
Sibilidades de sentido derivadas daí —, quem, por consegu
in- á ue há muito tempo aprendeu um instrumento musi-
te é “cego ao valor”, esse tem atrofiada em si a mais
impor- E e naqueE tempo gostava muito de tocar, tome, e
tante capacidade especificamente humana, a capaci
dade da o diálogo terapêutico, a resolução de renovar essa habi i-
autotranscendência. (Falta-lhe algo em que possa transce
n- dade e reservar de futuro uma parte do seu lazer para isso.
der sobre si mesmo!) E isto significa que toda a sua existên
- Só isso por exemplo já poderá libertá-lo do consumo passivo
cia é simplesmente posta em permanente questionamento.
de TV e levá-lo a uma atividade — talvez até dentro de um
A logoterapia não comete o erro de querer interpretar
grupo musical — que cria para ele acessos totalmente novos
todos os distúrbios na vida humana como “noogênicos
em à experiência de sentido.
última análise”, o que acarretaria uma nova parcial
idade na Uma outra possibilidade terapêutica é a busca de mode-
estruturação teórica, que precisa ser corrigida como
parcia- lo. O paciente é convidado a lembrar quantas pessoas Sa
lidade, precisamente, na logoterapia. Onde porém
uma frus- cidas, em sua opinião, levam uma vida realizada Rea: a i-
tração existencial — e isto quer dizer uma frustração
espiri- do. Geralmente ele sabe (com sentimentos de rea I
tual — põe a perder a saúde psíquica de um homem,
não se nomes pelo menos de algumas. Em consegiiência, po a
pode andar à busca de causas puramente psíquicas (algo a
partir do inconsciente discutir para saber por que ele atribui plenitude de senao
instintual), do contrário
estaria errando o alvo naquilo
o indivíduo às ditas pessoas. O que é particular e decisivo em seus esti :
que tem de mais legítimo
mais profundo como interesse humano e, terapeuticamen
e de vida? Saberia ele ver nelas este elemento? O que o impede
te, de imitá-las? Na procura de modelos adequados, pode ad
caindo no vazio, no sentido mais verdadeiro da palavra.
dicada, quase sem exceção, a ligação transversa Ed E
Mas como oferecer ajuda na crise noogênica? A logote-
ção e felicidade, a saber, o fato em si banal de que elicida
rapia vê nas neuroses noogênicas uma das poucas indicações não significa que “as coisas vão bem para alguém”, e nm
para se fazer a radioscopia minuciosa do passado de um pa- (É interessante notar que,
“alguém vai bem para as coisas”!
ciente. Houve para ele um tempo em que sua vida ainda lhe
quase sem exceção, são denominadas por neuróticos noogê-
parecia ter sentido? Como era então, que propósitos tinha, nicos — “portadoras” de vida com sentido — pessoas que
em que mais se interessava nesse tempo? Em analogia com bem tipicamente, são “boas para alguma coisa ou RE
a abordagem antropológica de pesquisa que Frankl chama de E:
guém”, e isso demonstra que esses pacientes, apesar
“análise da existência” e que “analisa” (56) a vida humana as dúvidas de sentido e frustrações de sentido, pressentem
em seu ser responsável central, deve-se realizar com o pa- inegavelmente o que é sentido!)
ciente uma espécie de “análise da vida” que o “analise” em
seu ser Aqui se oferece a transição para a procura de no
pessoal responsável e indague sobre conteúdos de
sentido originais, talvez sepultados no esquecimento, pelos para quem o paciente poderia ser importante, e que poderiam
quais ele de certo modo é ainda e sempre responsável. Quem precisar dele. Se não há ninguém que precise dele, algo não
vai bem, e ele deve abrir os olhos para o fato. Quem vive e
por exemplo recebeu no berço o talento musical, é responsã-
vel pelo que de criativo fizer brotar de si; quem teve uma vazio social, o assume corresponsavelmente, mesmo Ro
as circunstâncias a não lhe tornarem fácil encontrar saída do
rica formação escolar, é responsável pelo uso do seu saber,
como e onde torná-lo produtivo; ou, quem recebeu amor e vazio. A rigor, a fraqueza social de interação no comporta-
bondade de seu meio, é responsável pela transmissão desses mento do paciente faz-se transparente ao terapeuta: se o pa-
ciente o magoa, menospreza, boicota suas propostas etc., O
bens, e em que medida. deste modo, em nada con-
faz também com outras pessoas,
No curso desta investigação do passado da vida, tribuindo para a comunidade, o que recai sobre ele mesmo
em
“patrimônios” positivos e antigas estruturas de sentido como experiência de absurdo.
, apa-
recem pontos de referência ao presente que possibilitam
ao Vejo uma nova possibilidade terapêutica na realização
paciente fazer a revitalização e reorganização de conteúd
os. de exercícios de percepção de sentido, que consiste em fazê-
Estes, por motivo de sua familiaridade e solidariedade com
aqueles pontos, têm boa chance de ser promovidos los num sistema de caixas construídas para sensibilizar o pa-
à im- ciente com o respectivo “sentido do momento” . O paciente
portância de “conteúdos de vida”. Assim, pode ser
que al- deve habituar-se a fazer a pergunta por ocasião das peque-
172 173
nas decisões do dia-a-dia (e natu
ralmente das grandes tam- Da soma de muitas “decisões diárias”, tomadas do modo
bém, mas isso só se consegue com o
tempo:) O que existe Indicado, poderá aos poucos resultar, no paciente, uma nova
com o máximo de sentido? Ou: O que
é que mais tem senti- Wrientação fundamental ao sentido.
do? — Esta pergunta desdobra-se em
cinco outras:
Exemplos
1. Qual é o meu problema?
De (1) — Qual é o meu problema? — O problema de
O problema nunca poderá permanec
er vago e incompre- um paciente seria o próximo fim de semana, não sabe
ensível, mas deve ser concretizado
em fatos materiais a o que fazer nele; sente-se desanimado e não se interessa
fim de que se possa tomar posição
diante deles espiri- por nada (“neurose do domingo”).
tualmente.
De (2) — Qual é meu espaço livre? — O espaço livre do
2. Qual é meu espaço livre? paciente não se estende pelo fato da aproximação do
Como a pergunta supõe, é preciso
fim de semana (isto ele não pode impedir), nem tam-
afastar a atenção da bém porque ele não tem prazer em nada (os sentimentos
parte das realidades dada por destino,
e dedicá-la ao es- são dados fatalmente no momento exato de seu apareci-
paço de ação que permanece livre à pessoa
cia às realidades). Este espaço livre (em referên- mento). Ainda assim ele pode sempre decidir em tudo
de ação não deve que irá realizar no próximo fim de semana (inelusive
também permanecer vago, mas tornar-se consciente, em sua falta de ânimo).
3. Que possibilidades de escolha tenho De (3) — Que possibilidades de escolha tenho eu? — Pa
eu?
Dentro do espaço livre de ação exist ra responder a esta pergunta O paciente pode dar livre
em possibilidades de
escolha livre, por enquanto ainda curso à sua imaginação: ficar na cama rabujento, ler,
sem valoração, que
precisam ser reunidas mentalmente. fumar, ouvir música, dar uma saída, telefonar ou escre-
Isto é um exercício
de fantasia. ver para alguém...

4. Uma De (4) — Uma delas tem o máximo de sentido... — O


delas tem o máximo de sentido. paciente, sem nenhuma influência “do terapeuta, deve
Agora a consciência, “órgão de senti admitir de má vontade que em sua situação a maior pos-
do”, é provocada a
“desempenhar o papel de detective” sibilidade de sentido seria, por ex. no fim de semana, es-
. Ela há de descobrir
alguma coisa que já está aí, * se puder em prim crever a K uma carta que há tempo tinha prometido,
no retirar o olhar: — a possibilidade
eiro pla-
com o máximo de tanto mais que X se alegraria sinceramente com isso.
sentido. (Não se leva em conta se ela ao mesmo tempo
dá prazer.) De (5) — ... eé a que eu quero realizar! — O paciente
é motivado a escrever essa carta no fim de sa mae:
9. Eéa que eu quero realizar! mo que não sinta O menor prazer nisso. Enquanto e
creve, ocorrem-lhe mais idéias do que esperava e, c :
O último passo do exercício é a afirmação tra sua expectativa, lhe sai uma bela carta. Em E
intencional
da coisa descoberta, a escolha decisiva do sentido. quência brota no paciente um leve sentimento de sa e
fação consigo e o faz passar um fim de semana a
* A imagem do mundo na logoterapi
Independentemente disso, abrem-se novas chances
a não é somente otimista sentido. Talvez o destinatário da carta responda com
mas também objetivista: partindo
do fato de que o sentido não é
inventado, este pode sempre ser achad amizade; talvez se desenvolva a partir daí um promissor
o porque objetivamente “aí es-
tá”: o sentido não está somente em nossa encontro de duas pessoas, que ajudará, a arrancar o pa-
consciência, o sentido está
no mundo,
ciente de sua frustração existencial.
174
175
que
Muitas vezes, apesar da falta de prazer, alguma coisa hs suas possibilidades. Mas seu problema é muitas vezes e
este setor, sua “fatalidade”, e não perceb
deve começar e por nenhuma outra razão senão que por ter ele vê apenas
caso do neurótico noogênico, ao contrário, O
| sentido; o prazer ou a alegria seguem-se durante aquela rea- mais nada. No
acima
lização de sentido, porque a satisfação acompanha toda ação horizonte de sentido está inteiramente aberto, mas
está uma espécie de véu através do qual ele não
com sentido. Ao contrário, dificilmente alcança a satisfação dos olhos
isso no “homo patiens” deve-se efetuar uma
o indivíduo que espera obter o prazer por uma ação com enxerga. Por
de que ele se
sentido — pode acontecer que espere eternamente. mudança terapêutica do ângulo visual a fim
nte de sentid o que ainda lhe está aberto,
volte para o horizo uma
Para conclusão deste capítulo gostaria de arriscar mais que no neurótico noogênico deve-se realizar
enquanto
um confronto. Tomamos conhecimento de dois grupos de reexploração de sua “força visual” espiritual.
problemas que na psicoterapia tradicional quase não são con-
siderados, embora altas percentagens da população estejam
se trata de darmos ao paciente um sentido de
aí reconhecidas. São o do neurótico noogênico e o do “homo Não
á-
patiens”. Por diferentes que sejam os pontos de partida de existência, mas única e exclusivamente de prepar
o sentido da existê ncia, de ampli ar por
| ambos, há contudo algo concordante entre ambos, isto é, que lo para achar
ele
| as possibilidades de sentido existentes em suas vidas não são assim dizer o seu campo visual, de tal modo que
de possib ilidad es
percebidas e por isso também não são aproveitadas. se aperceba do espectro completo
pessoais e concretas de sentido e de valor. (Franki,
57)
Horizonte de sentido

sua infe-
A atitude trágica que o “homo patiens” fixa em
de “tudo ou nada”, enquan-
licidade exprime-se em termos
do neurót ico noogên ico é em termos
to que a atitude trágica
é nada”. Se pudessem ser “modul adas” pelo me-
de “tudo
Ê
S nos essas duas atitudes, muito já se teria alcanç
ado.
Atitude crítica:
último lugar vale discutir como se devem manejar
| "Tudo ou nada” Em
origem das quais
|| Homo patiens as neuroses noogênicas ou as depressões na
nto uma neces sidade de cons-
está um conflito moral, e porta
é tomar a
ciência. Ora, o melhor que o terapeuta pode fazer
espiri tual do pacien te e impor -se a ele no pla-
Horizonte de sentido sério a luta
no espiritual. Isto não quer dizer que ele, o terapeuta, lhe
possa poupar a luta espiritual ou mesmo só por princípio
aliviála — pois o paciente deve impor-se a decisão de cons-
euta é somente
ciência inteiramente sozinho. Tarefa do terap
até aí, e fazer- lhe companhia human a durante
acompanhá-lo
á provocar
a jornada. Este acompanhamento sempre poder
sutis, menos plane-
Atitude crítica: no paciente modulações de atitude muito
es humanas,
“Tudo é nada" jadas como terapia do que induzidas como relaçõ
am um conhe cimen to mais cla-
Neuróticos &noogênicos modulações que lhe possibilit
€, assim, uma soluçã o de seus
ro do exigido aqui e agora
conflitos.
: Como ilustra o gráfico, o horizonte de sentido está par-
cialmente encoberto no caso do “homo patiens” — no pon-
to onde ele sofreu uma perda, aí existem restrições quanto
177
| 176
-..Se há pouco diziamos que o médico está obriga-
do, em dados casos, a responder a uma questão não
de condição mórbida mas simplesmente humana,
não como médico neurologista mas simplesmente
12
como homem, surge então a questão se e até onde
ele — como médico! — está autorizado a isso. Pois
o que é evidente aqui é a ameaça de outorga da con-
COMO SURGEM OS DISTURBIOS DO SONO E OS
cepção do mundo, pessoal, do médico, portanto de DISTÚRBIOS SEXUAIS
sua opinião privada, ao paciente... Mas não é, nes-
ta situação, tarefa do médico levar tão longe o seu
paciente que este chegue a compartilhar consigo a
concepção do mundo e da vida? e assim reencontre,
por própria responsabilidade, um novo caminho es-
piritual na vida? (Frankl, 58)

Gostaria ainda uma vez de recorrer ao quadro da p. 93


que nos vem servindo de guia metodológico da logoterapia.
Até agora temo-nos ocupado com dois dos três grandes gru-
pos de métodos da logoterapia: o “trato do homem consigo
mesmo” na intenção paradoxal, e a “atitude do homem em fa-
ce de algo que lhe diz respeito” na modulação de atitudes. Mas
O homem não só está em condições de se ver desde certa
distância e tomar posição perante si mesmo, como também
de se olhar acima de si mesmo: ele pode abranger-se com o
olhar, pois se ocupa espiritualmente de alguma coisa que
existe fora de si mesmo. Encarada do ponto de vista tera-
péutico, esta é a possibilidade de pôr de lado o próprio eu
junto com suas fraquezas e insuficiências, em vista de um
valor ideal por cuja realização o indivíduo cresce acima das
próprias fraquezas. Disto encarrega-se o método logotera-
pêutico da derrejlexão.

MODULAÇÃO DE ATITUDES DERREFLEXÃO


Mudar de uma atitude Mudar de um conteúdo mental
negativa para uma positiva egocêntrico para um orientado
ao sentido
Educação para a coragem Educação para o engajamento
(apesar da doença) e (além da doença) e para a
para a dignidade dedicação
Nova reflexão sobre alguma Ignorar alguma coisa que
coisa que mereça reflexão precisa ser ignorada
Crescimento interior " Crescimento interior mediante
mediante autoformação autotranscendência
178
179
-..Se há pouco diziamos que o médico está obriga-
do, em dados casos, a responder a uma questão não
de condição mórbida mas simplesmente humana,
não como médico neurologista mas simplesmente
12
como homem, surge então a questão se e até onde
ele — como médico! — está autorizado a isso. Pois
o que é evidente aqui é a ameaça de outorga da con- COMO SURGEM OS DISTÚRBIOS DO SONO E OS
cenção do mundo, pessoal, do médico, portanto de DISTÚRBIOS SEXUAIS
sua opinião privada, ao paciente... Mas não é, nes-
ta situação, tarefa do médico levar tão longe o seu
paciente que este chegue a compartilhar consigo a
concepção do mundo e da vida? e assim reencontre,
por própria responsabilidade, um novo caminho es-
piritual na vida? (Frankl, 58)

Gostaria ainda uma vez de recorrer ao quadro da p. 93


que nos vem servindo de guia metodológico da logoterapia.
Até agora temo-nos ocupado com dois dos três grandes gru-
pos de métodos da logoterapia: o “trato do homem consigo
mesmo” na intenção paradoxal, e a “atitude do homem em fa-
ce de algo que lhe diz respeito” na modulação de atitudes. Mas
o homem não só está em condições de se ver desde certa
distância e tomar posição perante si mesmo, como também
de se olhar acima de si mesmo: ele pode abranger-se com o
olhar, pois se ocupa espiritualmente de alguma coisa que
existe fora de si mesmo. Encarada do ponto de vista tera-
pêutico, esta é a possibilidade de pôr de lado o próprio eu
junto com suas fraquezas e insuficiências, em vista de um
valor ideal por cuja realização o indivíduo cresce acima das
próprias fraquezas. Disto encarrega-se o método logotera-
pêutico da derrejlexão.

MODULAÇÃO DE ATITUDES DERREFLEXÃO


Mudar de uma atitude Mudar de um conteúdo mental
negativa para uma positiva egocêntrico para um orientado
ao sentido
Educação para a coragem Educação para o engajamento
(apesar da doença) e (além da doença) e para a
para a dignidade dedicação
Nova reflexão sobre alguma Ignorar alguma coisa que
coisa que mereça reflexão precisa ser ignorada
Crescimento interior Crescimento interior mediante
mediante autoformação autotranscendência,
178
179
O tema da derreflexão foi pela primeira vez dado
(ue precisa adormecer e não pode, bloqueia já o “automa-
a pú-
blico por Viktor Frankl nos anos 1945/1950, na realidade co- tismo do adormecimento”. Logo se associa a isso uma hi-
mo método terapêutico individual para tratamento de dis- perintenção. O individuo afinal quer dormir, fica completa-
túrbios psicogênicos do sono e distúrbios sexuais. Sabemos mente nervoso por não dormir, olha para O relógio repeti-
entretanto que o mecanismo mórbido da hiperreflexão damente, pensa nas consegiiências da insônia no dia seguin-
pode
se relacionar quer com um sintoma isolado quer com tudo te etc. Ele revolve o pensamento sem parar em torno do seu
em geral que diz respeito ao próprio eu, havendo, ou não, problema de sono, e isto o mantém ainda mais acordado e o
determinados desencadeantes. * impede de adormecer.

A hiperreflexão mórbida diz respeito, portanto Mais uma vez torna-se agudo um processo circular de
neurose: quanto mais o indivíduo dorme mal, tanto mais
a) segundo Frankl, a um sintoma isolado: (a,) por ex. forte se torna sua hiperreflexão e hiperintenção do proble-
distúrbios do sono; (a,) por ex. distúrbios sexuais; ma do sono e tanto maior se torna o seu problema.
b) segundo E. Lukas, à atitude fundamental da vida em
geral, para a qual (b,)) há um desencadeante, a,) Distúrbios sexuais psicogênicos
(b,)
não há nenhum desencadeante. O ato sexual não suporta nenhuma hiperreflexão e hi-
Na segiiência gostaria de dar para os quatro casos uma perintenção: ambas impossibilitam de todo a consumação
breve descrição da formação de sintoma, antes de esboçar no do ato ou a experiência do orgasmo. A sexualidade humana
próximo capítulo os modos terapêuticos de procedimento. necessita da dedicação ao parceiro, a concentração no par-
ceiro. Um homem que durante o próprio prelúdio de amor
a;) Distúrbios psicogênicos do sono quer controlar se terá ou não erecção, ou uma mulher que
durante a própria união íntima observa se sente uma res-
Os distúrbios psicogênicos do sono são tanto menos sonância corporal — ele ou ela dificilmente sentirão alguma
curáveis quanto mais o paciente lhes prestar atenção. No coisa mais: a capacidade sexual de gozo não se deixa forçar.
momento em que alguém à noite, acordado na cama, pensa
. Q vitima de insônia tem sono o dia inteiro e an- o neurótico sexual luta por alguma coisa, eo
tes de ir para a cama já a empolga a ansiedade da faz na medida em que, mesmo em forma de potén-
noite sem sono; ela fica inquieta e excitada, e esta cia e orgasmo, luta pelo prazer sexual. Mas, infeliz
excitação não a deixa mais adormecer. Agora vai mente, quanto mais o indivíduo busca prazer, tanto
cometer o maior erro: fica à espreita do adormeci- mais o prazer se lhe escapa. O caminho para conse-
mento! Segue tensa, crispada, o que se passa consi- guir prazer e auto-realização leva a um auto-abando-
go; mas quanto mais concentra a atenção tanto me- no e auto-esquecimento. Quem acha que este caminho
nos é capaz de relaxar até o ponto de adormecer por é um rodeio, é tentado a escolher um atalho e visar
completo. Pois, sono não é outra coisa senão relaxa- ao prazer como uma meta. Só que o atalho irá dar
ção completa. Ela deseja conscientemente o sono. num beco sem saída. (Frankl, 60)
Mas sono também quer dizer mergulhar no incons-
ciente. Tudo que é pensar no sono e querer dormir
As consegiiências são impotência psicogênica, frigidez,
só serve para não deixar o indivíduo adormecer. insegurança no papel sexual etc., o que, por sua vez, acentua
(Frankl, 59) ainda mais o comportamento crispado durante o encontro
sexual, estabelecendo-se deste modo o distúrbio sexual.
* Como estender a problemática da hiperreflexão até as atitu- Observe-se de passagem que há outros mecanismos de
des fundamentais da vida em geral foi descrito por Elisabeth Lukas hiperreflexão semelhantes nos distúrbios psicogênicos da fala,
pela primeira vez no livro Auch dein Leiden hat Sinn (= Teu sofri-
mento também tem sentido), Ed. Herder, n. 905, 1981. nos distúrbios motores e do processo de alimentar-se, isto

180 181
é, em todas as atividades ou processos psicomotores que
são dependentes de qutomatismos não refletidos, cuja cons- estar que impossibilita o bem-estar real, e isto completamen-
tância e harmonia somente continuam preservadas enquanto te sem motivo ou razão evidente. Há pessoas que já de ma-
não forem objeto de reflexão. Na fala, por exemplo, deve-se nhã ao levantar-se ficam pensando se dormiram bem ou se
reparar naquilo que se diz e não no como se diz aquilo. No talvez tiveram um sonho mau. Na hora do desjejum pensam
momento em que o indivíduo observa os movimentos da lín- se a refeição lhes faz bem. Se vão ao trabalho, preocupam-se
gua e dos lábios na fala, logo cai na gaguez, porque o decur- em verificar se têm prazer no trabalho, e quanto mais re-
so automático da fala está perturbado. (É evidente que bem [letem nisso tanto menos têm prazer. Durante O trabalho
depressa se instala a ansiedade de expectativa, e ela vai fi- notam cada palavra menos considerada dos colegas, julgan-
xar a gaguez acidental num sintoma de neurose de ansieda- do que estes talvez as queiram ofender, e assim por diante.
de.) O mesmo acontece com o processo de alimentar-se, on- fisses indivíduos estão continuamente preocupados em que
de também se presta atenção naquilo que se come e não no as coisas lhes corram bem, e isto faz que as coisas lhes cor-
ram sempre mal! A simples espontaneidade de viver põenos
como se come aquilo. Quem quer controlar com precisão
seus movimentos de mastigação e deglutição, terá dificulda- a perder e reduz todo o mundo exterior a um puro espelho
de para engolir um só bocado. Outro excelente exemplo é a do seu estado de ânimo,
dança. Todo principiante sabe como é difícil prestar atenção O grande perigo dos quadros de sintomas em (b,) e (b,),
ao tipo dos passos recém-aprendidos e ao mesmo tempo não portanto de atitudes fundamentais da vida negativizadas,
sair do ritmo. O proficiente porém, que “esquece” as pernas bloqueadas e egocentradas por hiperreflexões, acha-se agora
e simplesmente se entrega ao som da música, fica automati- em sua relevância psicossomática. É que se produz através
camente no ritmo. dele um mal-estar permanente, que leva à eclosão de enfer-
Esses eram sintomas isolados. Passemos agora à hiper- midades adormecidas.
reflexão em atitudes fundamentais da vida em geral. O esquema a seguir deve evidenciar que nas enfermida-
des psicossomáticas sempre se juntam duas coisas: uma pré-
b,) Desencadeantes especiais
lesão corporal e um desencadeante psíquico.
Suponhamos que alguém tenha concluído sua formação
mas não encontra ainda emprego em sua profissão. Por isso,
Esquema de uma doença psicossomática
não mostra mais interesse, só fala do que teria sido se pu-
desse trabalhar na profissão, culpa todo mundo por sua si- » piora
desencadeante psíquico I a situação
|
tuação mas nada faz para modificá-la. Circula continuamen- E de imunidade
te com o pensamento em redor de suas aflições, bloqueando a

assim a busca de uma saída e as possibilidades de solução: ai

ele bloqueia sua própria flexibilidade. Ele mantém o statu a


ai

quo tão bem quanto a vítima de distúrbio de sono mantém ue A e a =


pré-lesão > O «4 piora E situação
sua insônia. afetiva
corporal eclosão da
O que é surpreendente na matéria é que esse “desenca- doença
deante de hiperreflexão” em nenhum caso precisa ser um
grave revés da sorte; mesmo as bagatelas sem importância
na vida de um homem podem assumir esta função patogê- Ouvi certa vez, numa jornada de aperfeiçoamento em
nica. torno do tema do “psicossomatismo”, uma comparação que
me impressionou. Comparava-se precisamente a pré-lesão
b,) Nenhum desencadeante corporal com a rachadura numa telha, e o desencadeante psí-
Nem sempre há desencadeantes para os mecanismos de quico com um temporal. Se ambos vêm juntos, quebra-se a
hiperreflexão. Há uma hiperreflexão em condições de bem- telha, mas não se pode afirmar que a rachadura sozinha é
causa disso — do contrário a telha se teria quebrado há mui-
182
183
to tempo — nem se pode afirmar que o temporal sozinho:
teria sido a causa
teriam quebrado.
— se não, todas as telhas do telhado se:
13
Um evento psicossomático, pois, decorre de tal modo
que o desencadeante psíquico faz piorar a situação afetiva
do indivíduo, piorando assim sua situação UMA RECEITA CONTRA O EGOCENTRISMO
de imunidade;
isto, juntamente com a pré-lesão corporal, de qualquer mo-
do existente, prepara a eclosão da doença. No caso de um
mal-estar permanente, o desencadeante psíquico é evidente-
mente supérfluo porque, então, a situação afetiva como esta-
do permanente é má, e o perigo de doença é realmente
grande,
Consideremos que defesa poderia haver contra enfer-
midades psicossomáticas? Somos impotentes diante de pré-
lesões orgânicas ou celulares; cada um de nós tem suas fra- de duas
O método da derreflexão basicamente consta
tament e a hiper-
quezas num ponto qualquer do organismo. Geralmente não partes, a saber, um Stop! que trava imedia
sinalei ro , que mostra E a
se podem escolher desencadeantes psíquicos; estes, em gran- reflexão patogênica, e um “poste
de parte, estão sujeitos ao jogo do acaso. Mas a situação afe- nova direçã o — positi va, volta
mo dos pensamentos numa
e não no ego.
tiva, e com ela também a situação de imunidade, podem re- para o mundo exterior, centrada no sentido
ceber influência por meios espirituais! E como um mal-estar no
— deve
permanente abre as portas a toda doença, a única defesa O Stop! é como uma espécie de proibição
sinaleiro” é, ao contrário, uma espécie e
possível é uma concentração espiritual sobre elementos po- rar. O “poste
dos dois ER
sitivos e ricos de vida do mundo exterior — é este ao mes- mandamento — não ignorar. Do conjunto
e. Atente -se: es aj Rê
mo tempo o segredo da derreflexão. A concentração — utili- no paciente uma correção de atitud
O pacien te corrig e sua expecta ia
zando mais uma vez nossa comparação — forma um teto da intenção paradoxal
da modul ação de atitud es corrig e Goa E
protetor de vidro sobre a telha danificada; o brilho do sol siosa, com ajuda
corrig e a se do dl
sem dúvida pode atravessá-lo, mas a tempestade deixa-o im- negativa, e com ajuda da derreflexão sie
ões — à expect ativa, o
passível. governada. Todas as três correç e
tude e a atenção — são atos espirituais que Tepresen
ele vive: a exp ps
A medicina psicossomática faz-nos compreender discussão entre o homem e O mundo onde
mundo para o hom da
muito menos por que o indivíduo cai doente do que tiva relaciona-se com o que val do
m para E m aê
por que o indivíduo continua com saúde... Com a atitude relaciona-se com o que vai do home Eca Das
respeito a isto a medicina psicossomática pode real- do, e a atenção relaciona-se com a pare
“pertence” ao homem, porque ele está “no mundo
mente nos dar preciosas indicações. Assim, ela se
transfere da esfera do necessário tratamento da espiritual.)
nos quan
doença para a esfera de sua possível prevenção. En- Vejamos o processo prático de derreflexão
tretanto, é claro que, onde houver um desencadea- descri tos. É preciso avisar que m e
quadros de sintomas
lexão são po
mento a partir do psíquico, deverá também haver variantes e variações do processo de derref
uma preservação a partir de lá. (Frankl, 61) síveis e muitas vezes até necessárias.

Uma concentração espiritual sobre a plenitude de senti- a,) Distúrbios psicogênicos do sono
do do mundo exterior estabiliza a situação afetiva e estabi- e ER
Para fazer funcionar o Stop! o paciente precisa
liza também a situação de imunidade, impedindo, desse mo-
do, grandemente as enfermidades psicossomáticas. formado de que, ao contrário da opinião corrente, é abso

185
184
to tempo — nem se pode afirmar que o temporal sozinho.
teria sido a causa — se não, todas as telhas do telhado se 13
teriam quebrado.
Um evento psicossomático, pois, decorre de tal modo
que o desencadeante psíquico faz piorar a situação afetiva
do indivíduo, piorando assim sua situação de imunidade; UMA RECEITA CONTRA O EGOCENTRISMO
isto, juntamente com a pré-lesão corporal, de qualquer mo-
do existente, prepara a eclosão da doença. No caso de um
mal-estar permanente, o desencadeante psíquico é evidente-
mente supérfluo porque, então, a situação afetiva como estar.
do permanente é má, e o perigo de doença é realmente
grande,
Consideremos que defesa poderia haver contra enfer-
midades psicossomáticas? Somos impotentes diante de pré-
“lesões orgânicas ou celulares; cada um de nós tem suas frar O método da derreflexão basicamente consta de a
quezas num ponto qualquer do organismo. Geralmente não partes, a saber, um Stop! que trava imediatamente a
se podem escolher desencadeantes psíquicos; estes, em gran» hip E
reflexão patogênica, e um “poste sinaleiro + que oh a
de parte, estão sujeitos ao jogo do acaso. Mas a situação afe- mo dos pensamentos numa nova direção — positiva, volta
tiva, e com ela também a situação de imunidade, podem re para o mundo exterior, centrada no sentido e não no ego.
ceber influência por meios espirituais! E como um mal-estar
permanente abre as portas a toda doença, a única defesa O Stop! éá como uma scie
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possível é uma concentração espiritual sobre elementos po- AA :
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sitivos e ricos de vida do mundo exterior — é este ao mes: E dai resulta


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mo tempo o segredo da derreflexão. A concentração — utili- no paciente uma,
zando mais uma vez nossa comparação — forma um teto dd jente corrige sua expectativa an-
protetor de vidro sobre a telha danificada; o brilho do sol:
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sem dúvida pode atravessá-lo, mas a tempestade deixa-o im. negativa, e com ajuda
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passível. governada. Todas as três correçõe s — à expectat iva, a ati-
lude e a atenção — são atos espirituais que ed a
A medicina discussão entre o homem e o mundo onde ele vive: a expecta-
psicossomática faz-nos compreender
muito menos por que o indivíduo cai doente do que tiva relaciona-se com o que vai do mundo para o homem,
por que o individuo continua com saúde... Com a atitude relaciona-se com o que vai do homem para É aa
respeito a isto a medicina psicossomática pode real- do, e a atenção relaciona-se com a parte do so es a
mente nos “pertence” ao homem, porque ele está “no mundo” de
dar preciosas indicações. Assim, ela se
transfere da esfera do necessário tratamento da espiritual.) E
doença para a esfera de sua possível prevenção. En- Vejamos o processo prático de derreflexão
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tretanto, é claro que, onde houver um desencadea- quadros de sintomas descritos. É preciso avisar que e
mento q partir do psíquico, deverá também haver variantes e variações do processo de derreflexão são Pp
uma preservação a partir de lá. (Frankl, 61) | píveis e muitas vezes até necessárias.
Uma concentração espiritual sobre a plenitude de sent a,) Distúrbios psicogênicos do sono
do do mundo exterior estabiliza a situação afetiva e establ:
liza também a situação de imunidade, impedindo, desse mo Para fazer funcionar o Stop! o paciente precisa ser a
do, grandemente as enfermidades psicossomáticas. formado de que, ao contrário da opinião corrente, é absolu-

18 4 185
tamente irrelevante o problema do quanto ra do livro. Ela ficava toda irritada quando não tinha sa
sono ele tenha à
noite, porque o corpo sente em cada caso a cesso. Mas sempre que queria concentrar-se no texto do
quantidade
mínima rigorosamente necessária de sono. Por livro, adormecia rapidamente...
isso o pacien-
te não deve ter nenhuma preocupação com fenôm
enos caren-
ciais, queda de rendimento etc., porque períod
os mais lon- Temos exigido expressamente do doente que ele
gos de sono inquieto sempre se alternam com outros “antes pense em tudo” e depois em dormir: com
de
sono profundo em que a quantidade de sono em falta é re- isso fica dito que não lhe estamos pedindo º afas-
cuperada. Ele, por conseguinte, simplesmente não tamento negativo de sua atenção do assunto “sono”,
deve afli-
gir-se por causa do sono. Ao contrário, ao acordar de noite, mas uma dedicação positiva do seu pensamento a
deverá dizer: “Que bom que estou acordado, isto me dá mais outros temas. (Frankl, 63)
tempo de vida — dizem que metade da vida se passa
dor-
mindo!”? (Pode-se observar aí um ligeiro paradoxo.) Quando se realiza num paciente uma o
piritual que se relaciona com alguma coisa an E ne
rente da problemática do sono, realiza-se também um E sa
A confiança, como que somente teórica no jato por
so de derreflexão e a seguir o paciente adormece autom
nós afirmado, de que o organismo está em condi-
ções de assegurar para si em cada caso a quantida- camente.
de de sono rigorosamente necessária, de nenhum
mo- a,) Distúrbios sexuais psicogênicos
do é suficiente para trangiiilizar nossos pacientes
de
insônia a ponto de não se introduzir nenhuma Nos casos de distúrbios sexuais (especialmente do dis-
com-
Riicação da insônia através da ansiedade de expecta- túrbio de potência) estabelece-se um Stop! bastante a a
tiva que em primeiro lugar constitui a insônia pro- saber, enuncia-se uma proibição de coito por tempo imita-
griamente neurótica. Antes pelo contrário, ensina- do. Com isso a intimidade sexual perde seu caráter de exi-
mos esses doentes a comportarem-se corretamen- gência, pois não é admitido forçar a união sexual, e fica a
te também durante o tempo em que não conseguem. sentido toda a observação pessoal crispada. Para esse fim
dormir: eles precisam então simplesmente relaxar instrui-se o paciente a explicar à sua parceira que, por mo-
O mais possível, pois a mera relaxação opera como tivos de saúde, lhe foi recomendada continência total provi-
um sono (mesmo breve ou superficial). (Frankl,
62) sória — o seu fracasso sexual por demasiada E
está assim eliminado. Em sequência. deve-se apresentar a
Quanto ao “poste sinaleiro”, é claro que não se modo intuitivo o rumo do “Sinaleiro”. O paciente ei a
pode se entregar completamente ao amor de sua parceira: E
dar a ordem de não pensar alguma coisa — isto
é, neste que ser afetuoso, dar-lhe atenção, tentar compreender a o
caso o problema do sono —; pode-se apenas propor
que ceira em toda a sua pessoa, entendê-la com amor em s
se pense alguma outra coisa! Por isso, tem sentido atribui
r unicidade e peculiaridade...
ao paciente, para o tempo sem Sono, pequenas
tarefas que
ele terá de cumprir mentalmente. Por exemplo,
refletir uma A sexualidade humana é sempre mais do que pura
vez mais sobre o dia, passando interiormente em revista os sexualidade, e isto na medida em que é expressão
principais conteúdos. Ou ainda elaborar
um plano detalha- de uma tendência de amor. Se não o for, não se
do para o próximo fim de semana,
realizará o pleno gozo sexual. Mesmo que não hou-
Certa vez propus a uma de minhas pacie
ntes, que vesse outras razões em favor disso, teriamos que lu-
era
uma leitora apaixonada, lesse, toda vez que
ia dormir, um
tar no interesse mais elevado possível, para que 0 po-
capítulo de livro até três páginas antes do fim, e então tencial humano inerente à sexualidade Seja esgo-
apa-
gasse a luz. Quando aparecessem os perío
dos sem sono duran- tado, isto é, seja haurida toda possibilidade de o
te a noite, ela teria a oportunidade de amor encarnar a relação mais íntima e pessoal en-
imaginar como o ca-
pítulo iria terminar, ou desenvolvêlo tre seres humanos. (Frankl, 64)
na qualidade de auto-

186 187
Como, de um lado, fica proibido o coito, e do outro, é exi-
gida uma dedicação de amor e afeto à parceira, realizando-se O que entendemos pela expressão “coletivização da
portanto uma concentração espiritual em outro ser humano psicoterapia”? Pensamos que seja a psicoterapia de
(ao invés de si mesmo), regenera-se automaticamente a ca- grupo. Ora, haveria a dizer no caso brevemente o
pacidade sexual, e a proibição do coito já não ser manti-. seguinte. A psicoterapia tem suas indicações; entre-
da pelo paciente a qualquer momento — e assim ao mesmo tanto não podemos esquecer que falta o objeto ade-
tempo desaparece seu distúrbio sexual psicogênico. Analo- quado à psicoterapia de grupo, pois seu objeto de-
gamente, o mesmo vale para os problemas de frigidez nas veria ser propriamente a “psique de grupo”, que
mulheres: quanto menor é a intenção de obter o orgasmo, porém inexiste em sentido estricto, ontológico. AS-
tanto mais cedo ele acontece. sim, pode-se dizer de toda verdadeira psicoterapia
que ela tem de se aplicar ao indivíduo como tal.
Resta-nos ainda tratar do problema da atitude funda- (Frankl, 65)
mental da vida a partir da qual o bem-estar próprio é obje-
to de constantes hiperreflexões. O Stop! no grupo de derreflexão é o acordo sobre uma
de
cláusula, uma condição acertada logo na primeira hora
b,) Desencadeantes especiais reunião do grupo. Combina- se com os participa ntes — e
naturalmente, conforme sua problemática, devem ser aptos
Se há um desencadeante especial, a
deve-se avançar uma para o grupo — que ninguém pode falar sobre assunto
modulação de atitude antes da derreflexão para ajudar o
gativo e que lhes diga respeito. Isto desmancha de um só gol-
paciente no momento da discussão espiritual com esse de- funesto de hiperreflexão, negativismo e egocen-
pe o conluio
sencadeante. Por exemplo, realizar entrevista com aquele trismo, pois, sendo permitido falar sobre qualquer tema, me-
paciente que não consegue exercer a profissão por motivos nos sobre assunto negativo que diga respeito aos participan-
técnicos de mercado de trabalho, ou sobre o modo de supe- tes, vêem-se estes obrigados a abandonar o conteúdo de hi-
rar os imerecidos reveses da sorte; dirigir a atenção para O perreflexão do seu pensamento pelo menos durante a hora
espaço livre restante, buscando com o paciente possibilida- de grupo, e a dedicar-se a outros conteúdos de “autotrans-
des de sentido. Depois, seria preciso acrescentar-se a todos cendência”.
os casos ainda um tratamento com derreflexão, do contrário Hiper-reflexão mórbida
o indivíduo está em perigo de reagir novamente com extre-

pe. as
ma hiperreflexão ao próximo fracasso, pequeno ou grande.
: : o
b,) Nenhum desencadeante diz respeito a : diz respei
um Ata isolado atitude fundamental da vida
A derreflexão, em atitudes fundamentais negativas da vi-
da (isoladamente ou na segiiência de uma modulação de ati-
tudes), é uma extensão do método de terapia individual que distúrbio distúrbio desencadeante nenhum
do sono sexual especial desencadeante

Ji mo ah
eu desenvolvi na terapia de grupo.

fos e o
Quanto a isso deve-se
observar que a terapia de grupo, segundo os logoterapeu-
tas, distingue-se muito sensivelmente de outras formas de
terapia de grupo, e isto sem dúvida não só porque não se a vontade de forçar a vontade de forçar
pratica no grupo nenhum “strip-tease psíquico”, mas tam- determinada função do corpo o bem-estar geral
bém porque a terapia de grupo nunca é considerada substi- istúrbi desta mesma
o distúrbio cau! sa o distúrbio
tutivo da terapia individual, antes pelo contrário, ela é encai- En função do mesmo -
xada cada vez num plano de terapia individual (cf. também
o próximo capítulo!). derreflexão como derreflexão
f como
terapia individual terapia de grupo
188 189
Os participantes, como a experiência ensina, pôem-se de reflexão. Também nunca pude de alguma forma verificar
acordo espontaneamente se a cláusula lhes é submetida, pois “fenômenos de privação”. O pressuposto é sem dúvida que
no fundo uns não querem ouvir lamúrias de autocompaixão se atente cuidadosamente para não admitir nunca a um gru-
por parte de outros. Concordam, portanto — e com isto rei po de derreflexão um paciente em quem existam deficiên-
na a calma. Nenhum deles, se quer atender ao Stop!, sabe cias inabordáveis, problemas insolúveis ou fatores de doen-
dizer coisa alguma; ninguém está em condições de pôr em. cas psíquicas — coisas que em primeiro lugar exigem uma
marcha uma conversação sobre algo positivo ou que não lhes ajuda terapêutica de outra natureza.
diga respeito. Esta calma, por outro lado, é sintoma, é um
A derreflexão é um ato de ignorar, mas ignorar alguma
indicador de que existe a tendência maciça à hiperreflexão,
coisa que possa ser ignorada e que, pelo refletir do indiví-
pois ela mostra quão profundamente os participantes do gru- se torne melhor e sim pior. Ao mesmo tempo tam-
duo, não
po estão implicados na ruminação de seus problemas. a derreflexão sempre é mais do que um ignorar, algo
bém
Agora cabe ao terapeuta montar o “poste sinaleiro” mais do que uma “manobra de rodeio”. Ela não só faz des-
com que ele oferece pequenos impulsos e sugestões. Po- viar o olhar de si próprio mas antes de tudo faz fixar a vista
de expor à consideração de todos um quadro que impres- em algo importante — que implica em estender O horizonte
sione e pedir-lhes associações de idéias. Poderá iniciar abor- espiritual, na reconstrução da autotranscendência e na des-
dando um tema, por exemplo, “vizinhos” ou “o verão pas- coberta de novas dimensões de valor e de sentido no pacien-
sado”, e recolher lembranças relacionadas com isto. Se um te. Já se chamou a atenção para o fato de que a logoterapia é
participante vier a infringir a cláusula e, por ex. passa a en- uma “psicoterapia descobridora”. Ela não se entrega à ilu-
toar uma longa fieira de queixas sobre seu vizinho, ele rece- são de um “mundo sadio”, de modo nenhum, mas procura
berá uma “tarefa extra”: deverá trazer para a próxima reu- conscientemente o que ainda há de sadio, o que pode se tor-
nião do grupo todos os elementos de amabilidade que pu- nar são num mundo não sadio, a fim de transmitilo ao ho-
der encontrar sobre essa pessoa. Com surpresa, quantos im- mem fatigado, extraviado, desesperado, e no entanto profun-
pulsos positivos vêm à luz, quantas boas intuições podem damente desejoso de salvação do íntimo d'alma.
ainda passar pelas camadas psíquicas da teimosia e do en-
durecimento! Depois de quatro ou cinco sessões do grupo,
pouco a pouco cede a forte tendência de hiperreflexão, e os
participantes começam a cooperar ativamente e com zelo.
Juntos descobrem um campo de realidades ao seu redor
carregado de sentido, começam a escrever “diários dos be-
los momentos” ou encorajam-se reciprocamente a usar suas
qualidades positivas e a pô-las à disposição da comunida-
de; controlam-se reciprocamente com vistas à cláusula. Esta
logo não será mais necessária, porque tudo precede a um sau-
dável processo de aprendizagem durante o qual se extingue
a supervalorização do negativo.

Vale a pena ainda observar o seguinte. Fiz até agora pa-


ralelamente a cada grupo de derreflexão a oferta aos parti-
cipantes de discutirem comigo, caso o desejassem, reais
problemas da vida que possam surgir eventualmente (aqui |
nenhuma “repressão” dá resultado). Mas quase ninguém re-
correu à oferta de entrevistas individuais ao lado de reuniões
de grupo, o que demonstra a diminuição da necessidade de
falar sobre problemas quando se realizam grupos de der-

190
191
da, suas causas e sua evolução, mas sim garantir uma coisa

14 totalmente diferente: — gostaria quase de dizer — uma fi-


losofia positiva da vida. Ela tem que dar imediatamente ao
antigo paciente uma força espiritual. (Lembremos a sábia
sentença de Viktor Frankl: “O neurótico, que se tornou in-
seguro por alguma razão psicofísica, necessita, de modo todo
PREVENÇÃO E ACOMPANHAMENTO TERAPÉUTICO
particular, da força de apoio espiritual” 18.)
ULTERIOR
De onde provém o grande perigo de recaída, especial-
mente nos casos de distúrbios neuróticos, é evidente: é a
estrutura neurótica de caráter que torna susceptíveis a me-
canismos de exagero e intensificação interna e ao apego ade-
sivo em coisas irrelevantes — atitudes como tomar ao trági-
co algo não-essencial, reagir espasticamente a fatos que ja-
mais justificariam essa reação. É a excitabilidade no psi-
quico bem como no vegetativo que cria problemas em vez
de resolvê-los.
No arremate deste pequeno manual de logoterapia, retor- do neurótico
O que resulta deste traço característico
nemos à nossa tese inicial, isto, é, que a logoterapia repousa Se forem reali-
sobre três colunas, (cf. p. 26) das quais duas são “portado-
como sugestão para a profilaxia da recaída?
zadas com ele entrevistas “orientadas ao problema”, ele vol-
res axiomáticos”. Na primeira parte do livro tomamos co-
tará a remoer mentalmente os seus problemas; não terá
nhecimento da imagem do homem, sustentada pelo axioma
como aprender que problemas fazem parte de uma vida in-
da “liberdade da vontade”. Na segunda, ocupamo-nos das ra-
teiramente normal e representam para o espírito humano
tificações da ciência de curar, orientada para o conhecimen-
antes desafios do que obstáculos invencíveis com os quais
to demonstrável, que consiste em ver na “vontade de senti-
o indivíduo forçosamente tem de topar. Não. Quem porven-
do” a motivação mais originária e própria do homem, Resta
tura tem de antemão a carga de uma estrutura neurótica de
o terceiro, o axioma absoluto do “sentido da vida”, que ali-
caráter, deve experimentar tudo o que puder — contra a
cerça a imagem do homem segundo a logoterapia, imagem
opinião própria de que não pode — para chegar a compre-
esta indispensável para a prevenção e o acompanhamento
ender como, dentro da verdade, ele tanto é livre quanto é
terapêutico e para a qual não se pode regatear um último
responsável, pois infelizmente faz parte do fatalismo neuró-
raio de luz.
tico que certas alegações de não-poder e de estar-doente sir-
Não é nenhum segredo que a taxa de reincidência de pes- vam aos fins do comodismo.
soas com enfermidade psíquica é alta, demasiado alta. A prá- de Logoterapia em Hartford,
Durante o 2º Congresso
tica psicológica e a médico-neurológica francamente vivem
Connecticut, EUA (1982), apresentei um programa de terapia
de clientes permanentes — não que isto lhes deva ser impu-
em quatro fases, em que somente a primeira fase visava a
tado a mal, mas não é seguramente do interesse da saúde
uma terapia individual, enquanto as outras três todas con-
pública. E preciso encontrar meios e métodos para liberar acompanhamento ou assistência posterior. Este
fluíam ao
os pacientes e fazê-los retomar o mais rápido possível sua foi muito bem aceito, por isso merece uma breve
programa
responsabilidade. Para isso necessita-se de uma espécie de menção.
cuidados preventivos que são introduzidos na convalescença
ou depois do amplo restabelecimento de cada paciente, e A 1: fase consiste no tratamento logoterapêutico — pu-
impedem que ele, num caso no mínimo desagradável, volte ro ou combinado — que é adequadamente indicado para o
novamente aos sintomas da doença. Esta assistência preven- quadro de sintomas. Como 2.º fase é oferecida a participação
tiva não deverá mais ocupar-se com a doença recém-supera- | num grupo de derreflexão para eliminar a tendência à hi-

192 193
perreflexão crítica que, em quase todos os pacientes, mesmo
ditação há de oferecer aquilo que Frankl quer dizer com a
depois do tratamento, ainda persiste subliminarmente. Su-
expressão “apoio no espiritual”, isto É, a consolidação do
ponhamos, por exemplo, que o indivíduo sofreu um distúr-
antigo paciente numa positiva filosofia da vida. Aqui não
bio psicogênico da fala e foi ajudado terapeuticamente na
se fala, absolutamente, nos altos e baixos da vida quotidiana
1.º fase. Pode, portanto, voltar a falar normalmente e ter alta
nem nas pequenas e grandes preocupações e cargas que ca-
da terapia. Mas, não ficará ele observando, ininterruptamen-
da qual traz consigo. O círculo de meditação trata de fazer
te, no segredo da vida de todo dia, se sua voz não tropeça
considerações sobre a vida em seus princípios básicos, e eu
novamente? Não entrará em pânico por um mínimo sinal de
sempre me surpreendi com o que de realmente profundo se
rouquidão? Não será justamente esta concentração constan- pode realizar na conversação com esses antigos pacientes.
te em seu problema antigo, sempre à espreita, a partir do
fundo do seu pensamento, que irá fazer ressurgir o proble- Aí se trata da questão do sentido do sofrimento, de
ma, mais cedo ou mais tarde? — O grupo de derreflexão po- relações entre o estado mental e a saúde; de sistemas pes-
de até certo ponto fazer parar esse mecanismo, porque o pa- soais de valor e questões de consciência, ou do fato inevitá-
ciente — como é já do nosso conhecimento — nele aprende vel de se ter que morrer. São conversações em que os parti-
a retirar a concentração de cima de si e pôr de lado todas cipantes amadurecem e crescem, ganham distância do que
as possibilidades negativas de sua vida, a fim de dedicar-se é desimportante e avançam para O que é verdadeiro. A ante-
as eventualidades positivas. cipação mental de possíveis situações de crise que, apesar
as
de tudo, podem ter sentido, ajuda-os a armar-se contra
resistir às frustraçõ es, em vez de
mesmas e, dado o caso,
No “Diário de um pároco da aldeia”, de Bernanos, responder com a doença. Ao contrário do grupo de derr