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TERAPIA RACIONAL

EMOTIVA
COMPORTAMENTAL

Autora: Regina Beatriz Braga Montelli

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INTRODUÇÃO

A terapia racional emotiva comportamental (TREC), criada por Albert


Ellis, rompeu com o paradigma da psicanálise tradicional na década de
1950, influenciada por filósofos como Epicteto e Bertrand Russel.
Também teve influência da psicanálise, por meio da teoria de Karen
Horney: a “tirania do dever” e o desenvolvimento neurótico, as ideias
fixas e os dogmas (Dryden e Ellis, 1987; Rangé, 2007).

A TREC tem como foco as crenças irracionais que geram os sentimentos


e os comportamentos disfuncionais. A substituição das crenças
irracionais pelas crenças racionais correspondentes é feita por meio de
questionamentos e discussões sobre as demandas ou as exigências em
relação a si próprio, ao outro e ao mundo, para que haja mudança do
sentimento e, consequentemente, uma vida com mais qualidade,
flexibilidade e pautada na realidade.

A TREC diminui sofrimentos desnecessários, produtores de estresse e


psicopatologias (Ellis, 2004). Antecedeu a terapia cognitivo-
comportamental (TCC) de Aaron Beck, considerada TCC de segunda
geração, sendo o behaviorismo da primeira geração. Difere das terapias
denominadas de terceira geração (por exemplo, a terapia de aceitação
e comprometimento, de Steven Hayes) por elas focarem em estratégias
emocionais e na aceitação dos sentimentos, lidando com os
pensamentos sem questionamentos, com foco na maneira como nos
relacionamos com eles, sem tentar alterá-los diretamente.

As abordagens de terceira geração podem ser úteis para o tratamento


de pacientes mais comprometidos. Alguns pacientes relatam saber que
seu pensamento de que “algo ruim vai acontecer” é irracional, sentem-
se tolos por isso e continuam a não alterar o sentimento de medo. Ao
mesmo tempo, é importante saber quais crenças irracionais levariam a
sentimentos ruins e seus respectivos eventos ativadores para o sucesso
na terapia.

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SOBRE ALBERT ELLIS

Albert Ellis nasceu em 27 de setembro de 1913, em Pittsburgh, nos


Estados Unidos (EUA), e faleceu em 24 de julho de 2007, aos 93 anos de
idade. Em 2003, foi considerado, pela Associação Americana de
Psicologia (APA), o segundo psicólogo mais influente do século XX,
antecedendo Carl Rogers.

Ellis teve uma infância difícil. Seu pai viajava muito e era negligente em
relação aos filhos, assim como sua mãe, que tinha transtorno bipolar.
Ele dizia que ela era uma “tagarela” e não o ouvia. Filho mais velho, com
dois irmãos, assumiu a responsabilidade de cuidar deles. Teve diversos
problemas de saúde e, aos cinco anos, chegou a ser internado com
problemas renais.

Gostava de ler e, na vida adulta, passou a escrever contos, poesias e


livros de não ficção. Começou a escrever sobre sexualidade e se tornou
conselheiro dos amigos. Formou-se primeiro em Administração e,
posteriormente, em Psicologia na Universidade de Columbia, nos EUA.
Seguia a psicanálise de Karen Horney, mas logo percebeu que a linha
não tinha efeito nos clientes.

Muitos dos problemas pessoais de Ellis foram resolvidos por meio do


budismo e das filosofias de Epicteto, Marco Aurélio, Spinoza e Russell.
Assim, começou a desenvolver a terapia racional emotiva e, em 1953,
já não se considerava psicanalista. Em 1958, publicou seu primeiro
trabalho na revista Journal of General Psychology, intitulado
Psicoterapia Racional. Em 1959, fundou o Albert Ellis Institute of New
York, que existe até hoje (Rangé, 2007).

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A TREC é uma psicoterapia de ação orientada que ensina as
pessoas a examinarem seus próprios pensamentos, crenças e
atitudes, fazendo-as substituir aqueles que são autodestrutivos
por alternativas que melhorem a própria vida e,
consequentemente, a dos outros.

Ellis postulava que o sentimento do “neurótico” (termo usado na


psicanálise) está em acreditar na sua desesperança: geralmente, ele
aceita como verdade aquilo em que acredita e não pode mudar aquilo
que acha que não pode. Por outro lado, se as pessoas acreditam que
podem mudar, quase sempre conseguem colocar em prática essa
crença (Ellis, 1976).

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ORIGEM DAS PERTURBAÇÕES
EMOCIONAIS

As perturbações emocionais originam-se de três influências principais:

1. Tendências inatas de pensar, sentir e agir.

2. Circunstâncias ambientais e culturais nas quais a pessoa é criada.

3. Maneiras de agir escolhidas ou como a pessoa se condiciona ao


que experimenta.

Para Ellis, comportamentos neuróticos e atitudes irracionais são


aprendidos durante a infância, e existe a crença de que certas
condições, como receber amor e ter sucesso, são necessidades, ou seja,
precisam e devem ocorrer e, por outro lado, ficar frustrado, por
exemplo, não. "As pessoas que nos criam nos ensinam
comportamentos neuróticos. Mas também podemos aceitar ou,
ocasionalmente, rejeitar esses ensinamentos prejudiciais (Ellis,1976)".

Ellis considera essas ideias irrealistas e faz com que acabemos odiando
a nós e os outros, quando acreditamos nelas (Ellis, 1976).

O distúrbio emocional consiste essencialmente, portanto, em


proposições ou significados incorretos, ilógicos e não-
validáveis, em que o indivíduo perturbado acredita de modo
dogmático e sem discussão, e em relação aos quais
consequentemente se emociona ou age construindo sua
própria derrota (Ellis, 1976).

A dificuldade emocional surge quando mantemos as crenças


aprendidas na infância até a adolescência e a vida adulta. Algumas
crenças aprendidas nos sustentam, mas as irracionais, que não estão
pautadas na realidade presente, nos derrubam, por levarem a atitudes
derrotistas.

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Quantas vezes o indivíduo age por obediência a pensamentos e crenças
que foram ensinados, que ouviu repetidamente ao longo de sua história
de vida e que nem são realmente dele? A TREC veio com o propósito
de questionar essas crenças sabotadoras, substituindo-as por crenças
realistas, revertendo os sentimentos negativos para que a pessoa se
torne menos “afetável” por qualquer coisa (Ellis, 2004).

As crenças racionais geram estados emocionais negativos


equilibrados, como tristeza, mágoa, pesar, desprazer e
aborrecimento. Porém, as crenças irracionais produzem reações
emocionais perturbadas, como pânico, depressão, fúria etc.
(Rangé, 2007).

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DEMANDAS

Demandas são as exigências, as avaliações absolutistas que fazemos


em relação a nós mesmos, ao outro e ao mundo ou à vida de maneira
dogmática. Manifestam-se por meio de expressões como “tenho que”,
“deveria”, no sentido de obrigação, de algo inflexível, que não poderia
ser de outra maneira.

As demandas são as causas centrais e mais profundas da perturbação


emocional e comportamental do ser humano. Ellis usava o termo
musturbation, uma combinação de must (dever, necessidade,
obrigação) com masturbation (masturbação). Dessa mistura de
masturbação mental com “tenho quês” deriva um conjunto de
conclusões irracionais (Rangé, 2007).

A TREC tem como princípio mostrar aos pacientes que suas


demandas, exigências e insistências geralmente trazem
resultados de autossabotagem, enquanto seus desejos,
preferências e vontades trazem melhores resultados.
Geralmente, as pessoas não precisam ter aquilo que desejam e
podem suportar o que não gostam.

É importante que o terapeuta auxilie o cliente a trocar as exigências e


as necessidades por desejos e preferências, corrigindo suas
verbalizações. Veja alguns exemplos no Quadro 1.

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Quadro 1

TERAPIA RACIONAL EMOTIVA COMPORTAMENTAL: EXEMPLOS DE


DEMANDAS

Demanda em relação a SI MESMO: “Tenho que impressionar os outros”.


“Seria melhor se eu impressionasse os outros, mas não tenho que
Substituir por:
fazer isso.”
Algumas crenças revelam esse tipo de demanda, como a de ter
que ser perfeito, de não poder errar. Levam a pessoa a sentir culpa,
Comentário: a se rotular como incapaz, ficar paralisada por conta de tal rótulo
e, assim, construir sua própria derrota, “confirmando” sua crença
de incapacidade. Dessa maneira, pode chegar à depressão.
Demanda em relação AO OUTRO: “O outro me perturba, me deixa com raiva”.
Substituir por: “Fico perturbado porque lido com as pessoas com muita
seriedade.”
Comentário: Esse tipo de demanda em relação ao outro, de que este ame,
respeite ou satisfaça as nossas vontades, gera grande frustração,
raiva e hostilidade, pois responsabiliza o outro pela nossa própria
infelicidade. Algumas pessoas acreditam que, por meio da
aprovação dos outros, podem superar os sentimentos de
inferioridade, sendo que estes se originam da própria necessidade
de aprovação.
Quanto mais alguém pensa que tem que receber amor e afeto dos
outros, maior seu sentimento de inferioridade. O desenvolvimento
da autoestima se dá em bases instáveis, pois depende do outro e
demanda do outro. Assim, não há garantias.
Para Ellis, conseguir amor dos outros teria menos importância do
que optar pela busca do próprio prazer: “(...) em geral, conseguimos
a felicidade não ganhando a aprovação dos outros, mas
conseguindo solucionar, com nosso próprio esforço e
autodisciplina, as tarefas difíceis e os problemas” (Ellis, 1976).
Demanda em relação AO MUNDO OU À VIDA: “Eu tenho que acordar cedo para
trabalhar”.
Substituir por: “Vou acordar cedo para trabalhar”.

Esse tipo de demanda ocorre quando as condições sob as quais se


vive têm que ser fáceis e sem frustrações, pois, do contrário, o
Comentários:
mundo é um lugar horrível, inviável de suportar. A consequência é
achar que a vida é uma droga e postergar as tarefas que exigem
algum esforço e dedicação.
Essa crença pode levar às dependências químicas e
comportamentais como forma de esquiva da realidade, isolamento
e alienação e à busca pelo prazer imediato, já que não há tolerância
à frustração e a ideia é que o mundo tem que trazer apenas prazer,
e não dor.

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As demandas não levam a nenhum tipo de resultado esperado,
pois o simples fato de haver várias exigências não garante que
elas sejam satisfeitas. A Figura 1 traz um modelo do que as
demandas do indivíduo causam em relação a si mesmo, aos
outros e ao mundo.

Figura 1: Demandas.
Fonte: Montelli (2017).

Refutação ou discussão das


demandas
Há três maneiras de questionar/desafiar as demandas dos pacientes:

1. Pragmática: ajudar os pacientes a reconhecerem as


consequências práticas de suas crenças irracionais, que carecem

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de resultados satisfatórios. Demandar e exigir não fazem com que
obtenham o resultado esperado.
2. Lógica: ajudar os pacientes a identificarem sua
supergeneralização.
3. Empírica: mostrar aos pacientes que não há nenhuma evidência
para fundamentar suas crenças.

Derivados das demandas


As demandas contam com alguns derivados, formas de pensar
irrealistas e inflexíveis que podem ser expressas verbalmente. São
descritas como “terrevelização”, “não aguentoíte” e condenação global.
Saiba mais sobre cada uma delas!

“Terrivelização”
Do inglês awfulizing, caracteriza-se pelo uso de palavras como horrível,
terrível, catastrófico ao descrever algo. É o que acontece quando um
acontecimento é avaliado como mais do que 100% ruim (Rangé, 2007).

“Seria terrível se... ”; ”Isso seria a pior coisa que poderia


acontecer”; “Isso seria o fim do mundo”.

“Não aguentoíte”
Do inglês I-cant-stand-it-itis, significa considerar um acontecimento
insuportável. Diz respeito a uma pessoa acreditar que não consegue
experimentar felicidade alguma se um acontecimento que não deveria

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ocorrer, de fato, ocorre. Indica baixa tolerância à frustração (Rangé,
2007).

“Não suporto isso”; “Isso é absolutamente insuportável”; “Vou


morrer se eu for rejeitado...”.

Condenação global
Caracteriza-se por avaliar todo o próprio self ou o de outras pessoas,
em vez de determinado comportamento em certas circunstâncias.
Quando refere-se a si mesmo, é denominada de autocondenação (self-
damning, em inglês).

“Sou um estúpido/desesperado/inútil/sem valor”; “Ele disse uma


mentira, então, ele é mentiroso”; “O mundo é perigoso”.

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CRENÇAS IRRACIONAIS

Por meio de estudos realizados com seus próprios pacientes, Ellis


levantou as principais crenças produtoras de perturbações emocionais,
que levam a sentimentos de inutilidade e falta de autoconfiança,
ansiedade exagerada, hostilidade e pouca tolerância à frustração. Veja,
a seguir, as principais crenças irracionais.

• Devemos ter a aprovação e o amor de quase todas as pessoas por


quase tudo o que fazemos.
• Temos que ser competentes, adequados e ter sucesso em
importantes aspectos; do contrário, nosso mérito e valor
diminuem.
• Precisamos nos condenar severamente por nossos erros ou maus
procedimentos.
• Devemos acusar os outros por mau comportamento e ficar
perturbados por causa de seus erros e suas tolices.
• Devemos pensar que, se algo afetou profundamente nossas vidas,
deve continuar afetando indefinidamente. Exemplo: certas
tradições que nos foram ensinadas pelos pais ou pela sociedade
devem nos influenciar de modo profundo.
• Se desejamos conseguir aquilo que valorizamos, devemos
consegui-lo; se não pudermos, tornamo-nos vítimas de uma
catástrofe. Não devemos adiar os prazeres por ganhos futuros.
• É mais fácil evitar do que enfrentar as dificuldades e as
responsabilidades da vida. Dessa forma, não nos frustramos
seriamente.
• Acontecimentos externos causam reações emocionais e,
portanto, não temos virtualmente nenhum controle sobre essas
emoções.
• Devemos nos preocupar sempre com as coisas potencialmente
perigosas ou prejudiciais, pois a ansiedade impedirá sua
ocorrência.

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Quando acreditamos que as coisas que preferimos ou desejamos que
acontecessem precisam ou devem acontecer, pensamos, sentimos e
nos comportamos irracionalmente, já que, geralmente, não podemos
mudar a realidade desagradável e não desejada. Ao encararmos com
sensatez uma situação detestável, tentaremos mudá-la ou aceitá-la,
caso não seja inalterável. A perturbação diante de tal situação leva ao
fracasso e podemos torná-la ainda pior (Ellis, 1976).

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O ABC DA MUDANÇA

Quando criou a TREC, Ellis utilizou uma estrutura bem simples para
conceitualizar os problemas psicológicos dos seus pacientes: o modelo
ABC (Dryden e Ellis, 1987), apresentado na Figura 2.

Figura 2: ABC da mudança.


Fonte: Montelli (2017).

No modelo ABC, “A” significa acontecimento desencadeador ou


ativador (em inglês, activanting event), “B” representa o que se acredita
ou pensa diante desse ativador, ou seja, as crenças (em inglês, beliefs),
e “C” são as consequências, respostas emocionais e comportamentais
que derivam de “B”.

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PAPEL DO TERAPEUTA

Mas como o terapeuta pode auxiliar o paciente em relação a cada um


dos três itens do modelo ABC? Saiba mais a seguir.

1. Como identificar “A” (acontecimento desencadeador ou ativador)

Trata-se do acontecimento presente ou do próprio comportamento,


que ativa determinados pensamento e sentimento. Ele não existe em
um estado puro, mas interage com “B” e “C”. As pessoas colocam algo
de si mesmas nos “As”, como objetivos, pensamentos, desejos e
tendências fisiológicas (Dryden e Ellis, 1987).

O desejo de sair-se bem em um trabalho e não conseguir ativará


“Bs” e “Cs”.

O que deve ser feito?

Levantar com o paciente qual foi a situação em que ele se sentiu


perturbado e o que ativou essa perturbação (C).

Pedir para ele descrever a situação sem inferir. Assim, poderá encontrar
o acontecimento ativador (A).

Depois de identificar o “A” do seu paciente, é importante resistir a


qualquer tentação de desafiar “A”, mesmo que seja obviamente
distorcido.

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O terapeuta deve incentivar que o cliente assuma que seu "A" é
verdade. Isso permitirá a identificação da crença irracional "B"
mais tarde (Dryden, 2006).

Acompanhe, a seguir, exemplos de eventos ativadores ou


desencadeadores:

• Sofrer ameaça.
• Falhar; perder.
• Machucar alguém; quebrar com seus valores morais.
• Cair de nível social.
• Ser traído.
• Agir contra seus próprios valores (transgredir regra pessoal); ter
sua autoestima ameaçada.
• Ter um relacionamento ameaçado de rompimento.
• Não possuir o que é valorizado e ambicionado.

2. Como encontrar “C” (consequências emocionais,


comportamentais e cognitivas)

Quase sempre é mais fácil chegarmos aos “Cs”, antes mesmo dos “As” e
dos “Bs”, pois é mais fácil identificar os sentimentos e os
comportamentos primeiro.

As consequências vêm da interação entre “A” e “B”. Costumamos


relacionar “C” como consequência de “A” por reagirmos aos estímulos
ambientais. Quando “A” tem muito poder (terremotos, condições de
vida miseráveis, etc), tende a afetar profundamente “C”.

Quando “C” é uma alteração emocional (ansiedade, depressão,


hostilidade, etc.), a causante mais direta é “B”. Há também alterações

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emocionais que podem emergir de “A” muito poderosa (desastres
ambientais, guerras) e também de fatores do organismo, como doenças
e alterações hormonais, que podem causar as consequências “C”
(Dryden e Ellis, 1987).

Veja, a seguir, algumas das possíveis consequências (C) dos


acontecimentos ativadores listados acima:

• Ansiedade.
• Depressão.
• Culpa.
• Vergonha.
• Mágoa.
• Raiva.
• Ciúmes.
• Inveja.

O que fazer nesses casos?

O terapeuta pergunta ao cliente como se sentiu na situação em


questão. Ajuda a selecionar uma emoção negativa não saudável e, caso
existam várias, ajuda a identificar a principal.

O comportamento do paciente na situação descrita deve ser verificado,


perguntando o que ele fez. Tanto a emoção quanto o comportamento
a serem mudados devem ser disfuncionais (Dryden, 2006).

3. Descubra “B” (crenças irracionais)

Segundo a TREC, as pessoas têm inúmeras crenças sobre os


acontecimentos ativadores (A). Essas crenças exercem uma forte
influência sobre as consequências cognitivas, emocionais e
comportamentais (C). Mesmo que pareça que “A” causa “C”, quase
nunca isso é verdade, porque “B” serve como mediador entre “A” e “C”,
portanto, “B” causa “C”.

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As crenças racionais são responsáveis por comportamentos de
autoajuda. As crenças irracionais, por comportamentos disfuncionais,
autodestrutivos e de destruição da sociedade (Dryden e Ellis,1987).

O que deve ser feito? O cliente deve receber ajuda para entender que
reações perturbadas em "C" não são determinadas pela situação "A",
mas, em grande parte, por "Bs". Nas situações "Bs" estão as demandas
e seus derivados. A conexão entre "B" e "C" vai ser feita com ajuda do
terapeuta.

Ajude o paciente a conectar “B” e “C”. Acompanhe alguns exemplos.

Você acha que seus sentimentos...(C) foram determinados pelo


acontecimento... (A) ou por sua crença sobre... (A)?

O que você estava dizendo a si mesmo sobre... (A) que o levou


a sentir... (C)?

O que você estava demandando ou exigindo sobre... (A)que o


levou a sentir...(C)?

Quando você estava sentindo... (C) na... (A), você estava exigindo
que... ou estava querendo, mas não exigindo... (A)?

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DESAFIO DAS CRENÇAS
IRRACIONAIS (DEF)

Nos tópicos a seguir, serão abordadas algumas maneiras de questionar


as crenças irracionais (B) por meio de desafios (D) que levarão a uma
nova crença, mais adequada à realidade (E), e a novos comportamentos
e a sentimentos (F) mais adaptativos.

Disputa ou desafio (D)


Há várias maneiras de se questionar as crenças irracionais após sua
identificação em “B”:

• Essa crença ou esse pensamento o ajuda?


• Quais evidências confirmam seu pensamento?
• Quais evidências não confirmam seu pensamento?
• Isso é mesmo insuportável?
• O que de pior pode acontecer?

Novas filosofias efetivas (E)


São uma resposta racional para as crenças irracionais:

• Qual seria um pensamento alternativo que o ajudaria nesta


situação?
• Poderia substituir exigências por preferências, por avaliações
realistas, tolerar o que não gosta, não rotular a si e aos outros?

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Novos sentimentos e
comportamentos efetivos (F)

Incluem emoções negativas saudáveis, como decepção, preocupação,


aborrecimento, tristeza, arrependimento, frustração e novos
comportamentos funcionais. Emoções negativas saudáveis são as
emoções que nos incomodam, mas que estão coerentes com a situação
de vida atual. Estar triste diante de uma perda é saudável, deprimir ou
desesperar, por exemplo, não é.

Uma vez que a demanda do paciente seja identificada, refutada


e substituída por preferências ou desejos, deve-se verificar "F"
correspondente a "E". O Quadro 2 é um modelo de diário
ABCDEF para ser feito com o cliente durante a sessão e como
tarefa de autoajuda.

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Quadro 2

DIÁRIO ABCDEF

A B C D E F
Evento Crenças e Consequên- Desafio
ativador pensamentos cias Novas Novos
(que não o crenças e sentimentos
ajudam) pensamentos
efetivos

O que pensou? O que Desafie seus Ache um Como se


sentiu? pensamentos novo sente sobre
Por que e crenças! pensamento, isso agora?
O que pensou isso? O que fez? mais
aconteceu?
adequado,
efetivo e que
lhe ajude.

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OUTROS CONCEITOS

Além do que foi proposto anteriormente, na TREC o terapeuta deve


estar atento a alguns pressupostos importantes para orientá-lo em seu
trabalho. O Quadro 3 aborda alguns pressupostos importantes para a
orientação do trabalho terapeuta na TREC.

Quadro 3

PRESSUPOSTOS PARA ORIENTAÇÃO NO ATENDIMENTO COM TREC

Não importa quão negativo seja o comportamento do


paciente, o terapeuta deve aceitá-lo como um ser
Aceitação
humano que pode falhar, mas que não manterá seu
incondicional
comportamento disfuncional.

Autoestima implica dar-se um valor “x”, mas é


Autoestima versus impossível qualificar alguém globalmente. Todos
autoaceitação fazemos coisas boas e más e sempre podemos deixar de
fazer ou começar a fazer algo.

Culpa é disfuncional, pois supõe desqualificar-se como


pessoa e não o comportamento. Não dá chance para
Culpa versus
mudança, enquanto o arrependimento é a condenação
arrependimento
do comportamento, que é passível de mudança.

Hedonismo a curto Conflito que vem da necessidade de prazer imediato


prazo versus a longo relacionada à baixa tolerância a frustração e à
prazo dificuldade em esperar para obter gratificação futura.

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TÉCNICAS EMOTIVAS E
COMPORTAMENTAIS

O Quadro 4 apresenta algumas das técnicas que podem ser utilizadas


pelo terapeuta na TREC.

Quadro 4

TÉCNICAS EMOTIVAS E COMPORTAMENTAIS

Nome da Técnica Definição


É um método para ajudar seu cliente a
praticar a mudança de sua crença
irracional para sua equivalente saudável
IMAGINAÇÃO RACIONAL-EMOTIVA
enquanto imagina a situação
perturbadora em questão. Esse método
ajuda a fortalecer sua convicção em seu
novo repertório de crenças racionais.*

RECOMPENSAS São técnicas de reforço


comportamental para alcançar
objetivos a longo prazo.

TREINAMENTO EM HABILIDADES É uma técnica que amplia o repertório


do paciente para que tenha recursos
de enfrentamento.
RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS Ajuda o cliente a desenvolver
estratégias para resolver questões
práticas de sua vida.
HUMOR É um recurso para ensinar o cliente a
não levar tudo tão a sério. Rir da
situação, nunca do cliente!

ROLE-PLAYING Representa situações com troca de


papéis.

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Nome da Técnica Definição
AUTORREVELAÇÃO Pode ser revelada pelo terapeuta, se for
pertinente ao contexto do cliente, uma
própria dificuldade passada em
determinado assunto, desde que já
tenha resolvido tal dificuldade.

TAREFAS DE AUTOAJUDA São necessárias para obter a mudança.


Exemplos: escrever um diário nos
moldes do ABC, ler, assistir a filmes,
exercitar a exposição a situações
fóbicas, usar experimentos para
comprovar resultados de
comportamentos alternativos e utilizar
práticas de relaxamento, meditação,
respiração, etc.
*Todo o processo ABC que foi feito com o cliente anteriormente deve ser refeito com ele de
olhos fechados, revivendo a situação “A” e as emoções “C” correspondentes às crenças
irracionais “B”. Em seguida, refaça o processo novamente, imaginando a mesma situação
ativadora “A”, mas com a nova crença efetiva “B” e a nova emoção “C” correspondente ou a
diminuição da emoção disfuncional.

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CONCLUSÃO

A TREC, proposta por Albert Ellis, foi construída na década de 1950


pela necessidade de se obter resultados eficazes em terapia. Suas
ferramentas, baseadas na filosofia e no budismo, mantêm-se atuais e
continuam sendo estudadas e aprimoradas.

A TCC de Beck, tema da próxima aula, surge a partir da TREC, com


alguns avanços — como o conceito das distorções cognitivas
(generalização, rotulação, catastrofização, filtro mental etc.). Essa
terapia foi desenvolvida a partir da década de 1960.

Para Ellis, as próprias pessoas contribuem com seus problemas


psicológicos pela maneira como interpretam os acontecimentos e as
situações. Entretanto, podem aprender habilidades durante a terapia
para identificar e desafiar suas crenças irracionais e ajudar a diminuir
as perturbações emocionais, a sentir-se melhor (ABC da mudança).

As práticas de autoaceitação, arrependimento, tolerância às


frustrações, entre outras, aliadas às técnicas de mudanças
comportamentais e à ideia de que há esforço para tais mudanças,
levam a pessoa a direcionar sua vida para onde deseja ir, em vez de se
deixar levar pelos outros ou por seus pensamentos disfuncionais para
qualquer lugar.

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REFERÊNCIAS

Dryden W. First steps in REBT: a guide to practicing REBT in peer


counseling. New York: Albert Ellis Institute; 2006.

Dryden W, Ellis A. Practica de la terapia racional emotiva. Bilbao:


Desclee de Brouwer; 1987.

Ellis A. Como conquistar sua própria felicidade. São Paulo: Best Seller;
2004.

Ellis A. Como viver com um neurótico: em casa e no trabalho. São


Cristóvão: Artenova; 1976.

Rangé B. Homenagem a Albert Ellis. Rev Brasil Ter Cogn. 2007


Dez;3(3).

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