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O Hibridismo na Educação Básica

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“O HIBRIDISMO NA EDUCAÇÃO BÁSICA”


Renato Casagrande
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INTRODUÇÃO
Até pouco tempo atrás, mesmo com resultados ainda bem distantes do esperado, principalmente
quando nos comparamos com os países da OCDE (Organização para a Cooperação de Desenvolvimento
Econômico), a escola e os educadores ainda viviam talvez em um mundo onde as mudanças, muitas vezes,
eram transferidas para frente e quando realizadas eram retardatárias e lentas. Havia muita dificuldade para
a escola sair do padrão concebido e estruturado desde a Revolução Industrial. Costumávamos dizer que
tínhamos uma escola do século XIX, um professor do século XX e um aluno do século XXI. Assim, a escola
praticamente continuava com seus padrões tradicionais, adiando para amanhã a mudança.
A formação de professores, principalmente a inicial (curso de Pedagogia e licenciaturas) sempre
se concentrou no lado acadêmico, em detrimento da prática do professor em sala de aula. As licencia-
turas estavam muito mais focadas na formação de matemáticos, biólogos ou historiadores do que de
fato em professores das disciplinas de Matemática, Biologia e História. As universidades há tempos são
acusadas, na sua maioria, de falta de diálogo com a escola e de focar a formação dos licenciados muito
mais na preparação de pesquisadores do que de professores.
Com a pandemia da Sars-CoV-2 (COVID-19), professores que não tinham a mínima noção e nem
interesse em interagir com seus alunos por meio de tecnologias, se viram ameaçados na sua função. O
computador que entrou pela porta dos fundos na escola, agora, num formato de smartphone, tablets,
notebook, em poucos dias, tornou-se o maior aliado dos educadores.
A educação foi profundamente atingida pela pandemia de COVID-19. Milhões e milhões de crian-
ças, adolescentes e jovens de todo o mundo tiveram aulas interrompidas e passaram a estudar de for-
ma remota, numa conjuntura bastante desafiadora.
Segundo estudos do Banco Mundial, a pandemia aumentou a desigualdade de aprendizado e
pode ter levado a uma redução global da proficiência média no Programa Internacional de Avaliação
de Alunos (PISA) de cerca de 16 pontos na escala do teste da Organização para a Cooperação e Desen-
volvimento Econômico (OCDE) – equivalente a um pouco menos de meio ano escolar de aprendizado.
Estudos feitos por pesquisadores norte-americanos, constataram uma redução do conhecimento
adquirido, por estudantes norte-americanos, na comparação com o conhecimento que esses alunos de-
senvolveram em um ano escolar regular (sem a interferência causada pela pandemia). Assim, o vírus
Sars-CoV-2, provocou uma grande perda para a educação brasileira e do mundo.
No Brasil, temos os resultados de um pesquisa realizada, em 2020 (ano em que a pandemia pa-
ralisou as escolas), pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)1, os alunos do ensino fundamental 2 deixaram
de aprender o equivalente de 14% (no cenário mais otimista) a 72% (no cenário mais pessimista). Para
o ensino médio, no cenário otimista, os alunos tiveram um prejuízo no aprendizado em cerca de 15% e
no cenário pessimista em torno de 72% .
Mas, não foram só perdas que tivemos. O vírus também ocasionou uma mudança drástica nas
rotinas dos professores e, também, nas rotinas das escolas. Do dia para a noite os professores foram
levados a repensar todas as estratégias de ensino. As tecnologias de informação e comunicação - TIC´s
-, que sempre tangenciaram o ambiente educacional, passaram a ser fundamentais para permitir que a
educação não parasse.
Professores da educação básica e mesmo da superior foram forçados a usarem as novas tecnolo-
gias em suas aulas. E o que é mais surpreendente: gostaram e aprovaram. Sim, não são poucos os pro-
fessores, os mesmos que pestanejavam que encontraram novos sabores em suas aulas.

1 FGV FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS - Perda de aprendizado no Brasil durante a pandemia de covid-19 e o avanço da desigual-
dade educacional. São Paulo, 25 de novembro de 2020.

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Com mais propriedade os professores começaram a perceber as contribuições fantásticas que


as tecnologias podem oferecer à educação, assim como faz há tempos em praticamente todos os
setores da sociedade. Entre tantas outras possibilidades, passaram a utilizar os motores de buscas
inteligentes, a partir de comandos verbais que utilizam a comunicação natural e a tradução multilin-
gual simultânea. Também passaram a utilizar em suas aulas textos com hyperlink, que têm permitido
a qualquer momento que seus alunos se desloquem para lugares ou para o contato com informações
diversas. As aulas se tornaram mais atraentes a partir do uso do áudio e do vídeo, permitindo, tam-
bém, que os materiais e programas acessados possam ser baixados e editados, de acordo com as
necessidades de cada aluno ou professor.
O professor passou a viver um processo de quebra de paradigmas, de redução de estigmas e pre-
conceitos e passou a encarar uma nova forma de ensinar, não mais centrada na sala de aula e nem nos
métodos de ensino até então utilizados com relativo sucesso. Aquilo que era proclamado já em estudos
de um ensino mais personalizado, em que o aluno se torna protagonista do seu processo de aprendiza-
gem, encontra um novo espaço de desenvolvimento.
Outro fator que se impôs com a crise da COVID-19 foi a mudança do papel do aluno de sujeito
passivo para sujeito ativo, visto que um dos modelos de aula não presencial mais bem sucedido é aque-
le que tem combinado atividades dos professores ao vivo, aulas gravadas, indicações de vídeos, textos,
músicas e outros recursos e o desenvolvimento de projetos por parte dos alunos, inclusive de forma
cooperada com outros colegas por meio e com o auxílio das novas tecnologias de comunicação.
Essa mudança vai ao encontro de estudos realizados pelo pesquisador Scott Freeman e um grupo
de colegas professores da Universidade de Washington, que revelaram que abordagens de ensino que
transformam os alunos em participantes ativos, em vez de apenas ouvintes, reduzem consideravelmen-
te as taxas de reprovação em função de uma aprendizagem mais efetiva.
Não tem mais sentido jovens se deslocarem de um canto para outro e se amontoarem em salas de
aulas com até 100 alunos (realidade em muitas IES) para assistirem suas aulas. Estudos e pesquisas têm
mostrado há tempos que o futuro da educação, que hoje já é o presente, é o hibridismo. Alunos assis-
tem aulas e fazem atividades não presenciais e também têm momentos presenciais com professores e
colegas. Essa junção da presencialidade e não presencialidade tem dado bons resultados na educação
superior, principalmente nas grandes IES e agora avança a passos largos em todas as instituições de
educação superior, de ensino médio e até do fundamental.

2. ENSINO HÍBRIDO: PERSONALIZAÇÃO E TECNOLOGIA DA EDUCAÇÃO


Associada às questões da resistência e da falta de hábito ou da própria competência em lidar com
as novas tecnologias, na educação temos as questões econômicas. O mundo vive e viverá longas crises
e cada “tostão” a ser gasto ou investido pelos pais e alunos terá que ter um grande retorno. Assim, a
educação híbrida ou mediada por novas tecnologias também contribuirá muito. A educação, quando
produzida em escala, é muito mais barata. E a única ou a melhor forma de produzirmos em escala é com
o auxílio das tecnologias. Ela alcança os alunos em qualquer lugar e em qualquer hora.
Vivemos, e vamos viver por um bom período, a implantação do ensino híbrido na educação bási-
ca. O que já era uma tendência na educação superior em todo Brasil e em boa parte do mundo chegou
à educação básica.
Mas, antes de nos aprofundarmos no estudo da educação híbrida, é importante conhecermos
bem os conceitos e definições das novas expressões utilizadas na educação, tanto nas escolas quanto
nas universidades, e que causam bastante confusão. Nos referimos aos conceitos de educação a distân-
cia, educação mediada por tecnologias, atividades pedagógicas não presenciais e ensino remoto.

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Educação a distância, segundo definição elaborada pelo Ministério da Educação MEC (BRASIL, 2020)2
“É a modalidade educacional na qual alunos e professores estão separados, física ou
temporalmente e, por isso, faz-se necessária a utilização de meios e tecnologias de
informação e comunicação. Essa modalidade é regulada por uma legislação específica
e pode ser implantada na educação básica (educação de jovens e adultos, educação
profissional técnica de nível médio) e na educação superior.”

A Educação Presencial Mediada por Tecnologia, também segundo o MEC, “(...) permite a reali-
zação de aulas a partir de um local de transmissão para salas localizadas em qualquer lugar do país e
do mundo. Seus pressupostos imprescindíveis são aula ao vivo e presença de professores, tanto em
sala quanto no estúdio”.
Segundo o parecer do Conselho Nacional de Educação - CNE nº 5/2020, atividades que não estão
na modalidade presencial, são atividades realizadas (com mediação tecnológica ou não) para garantir
o atendimento escolar essencial durante o período de suspensão das aulas presenciais na educação
básica ou no ensino superior.
O ensino remoto pode ser considerado o conjunto de aulas realizadas fazendo ou não uso de
tecnologia. Tem como objetivo engajar os alunos em atividades educativas. Na maioria das vezes, são
aulas direcionadas pelos professores Exemplos: distribuição de material impresso, disponibilização de
videoaulas por TV, rádio e internet, e utilização de plataformas e aplicativos via internet.
O Centro para Inovação da Educação Brasileira – CIEB3, apresenta de forma sintética uma série de
estratégias para a implantação do ensino remoto. Resumidamente são elas:

Quadro 01: Estratégias de Ensino Remoto

- Transmissão de aulas por meio de canais de televisão.


- Desenvolvimento de conteúdos e compartilhamento em, por meio de perfis em redes sociais institu-
cionais (WhatsApp, Facebook, YouTube, , IGTV-Instagram, etc.).
- Apresentação de aulas ao vivo e online por meio de plataformas ou mesmo redes sociais.
- Compartilhamento de conteúdo e recursos digitais por meio pdf, games, vídeos etc.) em ambientes
on-line.
- Plataformas educacionais, também denominados de ambientes virtuais de aprendizagem com orga-
nização e disponibilização de conteúdos e avaliações pelos professores dos estudantes.
- Transmissão de aulas por meio de emissoras de rádio
- Encaminhamento à residência dos alunos, material impresso com conteúdo educacionais, permitin-
do a realização de atividades, pelos alunos, de maneira autônoma.

2.1 A educação híbrida


Pode-se definir o e nsino híbrido como uma metodologia que mescla atividades de aprendiza-
gem online e off-line e por isso é chamado de blended na língua inglesa. O aluno terá momentos em

2 BRASIL – MEC - Disponível em http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=12823:o-que-e-educacao-a-distancia.


Acesso em 20 jan. 2020.
3 CIEB-Estratégias de Aprendizagem Remota, disponível em https://aprendizagem-remota.cieb.net.br. Acesso em 10 jan. 2020.

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que poderá estudar sozinho e outros em que estará com os demais colegas, sendo por meio virtual
ou presencial. (PORVIR, 2013)4
É comum que a parte não presencial necessite de recursos digitais como auxílio nas atividades,
contudo o aluno tem mais autonomia na realização das atividades, podendo escolher como, quando,
onde e com quer irá estudar, enquanto que nas aulas presenciais, o professor conduz as atividades e as
interações entre os alunos. (PORVIR, 2013) 5
O ensino híbrido também pode ser compreendido como um programa educacional formal no qual
os alunos aprendem, por meio da educação não presencial (ensino on-line), com algum elemento de con-
trole do estudante sobre o tempo, o lugar, o caminho e/ou ritmo e também aprendem por meio da educa-
ção presencial (em um local físico supervisionado, preferencialmente na escola) e que as duas modalidades
estejam conectadas para fornecer uma experiência de aprendizagem integrada. (HORN; STAKER, 2015)6
Principalmente com o advento da pandemia, onde houve a necessidade de implantar o modelo
do ensino presencial combinado com o ensino não presencial, passou a se considerar o ensino híbrido
como a combinação de atividades e interações presenciais e atividades não presenciais com o uso de
tecnologia digital, ou ainda como a combinação de atividades off-line e atividades online. Assim, pode
ser considerado um modelo de ensino que possibilita mais a personalização do ensino,  pois facilita
combinação, de forma sustentada, do ensino online com o ensino presencial.
De acordo com José Moran7, no Ensino Híbrido “(...) o currículo é mais flexível, com tempos e espa-
ços integrados, combinados, presenciais e virtuais, nos quais nos reunimos de várias formas”, “(...) com
muita flexibilidade, sem horários rígidos e o planejamento engessado”.
No modelo híbrido, a ideia é que professores e estudantes possam ensinar e aprender em tempos
e locais variados.
A seguir vamos apresentar as 10 principais concepções norteadoras do ensino híbrido, levando
em consideração nessas concepções que quando foram propostas não tínhamos ainda vivido a experi-
ência do ensino híbrido com o advento da pandemia.

Quadro 02: As 10 principais concepções norteadoras do ensino híbrido

1.A personalização do ensino e da aprendizagem, integradas ao uso de tecnologias digitais, oferecem


ao estudante a oportunidade de mover-se, gradativamente, para o papel de protagonista no processo
de construção de conhecimento.
2.Existem inúmeras formas de aprender e ensinar em uma sociedade predominantemente heterogê-
nea, que tem, à sua disposição, uma ampla oferta de recursos.
3.Para haver uma mudança na cultura escolar, é fundamental considerar os aspectos como o papel do
professor, a valorização da autonomia do aluno, a organização do espaço escolar, as novas formas de
avaliação e o envolvimento da gestão da escola.
4.A personalização do aprendizado é garantida pelos usos das tecnologias digitais nos mais diferentes
espaços escolares, trazendo como principais benefícios a motivação e a maximização do aprendizado.

4 PORVIR – Educação Híbrida - É a combinação do aprendizado online com o off-line. Disponível em https://porvir.org/ensino-
-hibrido-ou-blended-learning/. Acesso em 10 jan. 2021.
5 PORVIR – Educação Híbrida - É a combinação do aprendizado online com o off-line. Disponível em https://porvir.org/ensino-
-hibrido-ou-blended-learning/. Acesso em 10 jan. 2021.
6 Horn, Michel B. & Staker, Hearther. (2015). Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a educação. Porto Alegre: Penso.
7 MORAN, José: 2015, p.42 in BACICH, Lilian (org). Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre:
Penso, 2015.

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5.A ação docente é fundamental na organização e no direcionamento da proposta pedagógica, sendo


que. Professor deve assumir um papel de articulador e de coach para atender as demandas reais da
sala de aula.
6.Os espaços de aprendizagem, precisam ser organizados e adaptados com o objetivo de atender as
reais necessidades dos alunos. Eles podem ser ampliados por meio das tecnologias digitais, possibili-
tando vivencias compartilhadas.
7.A avaliação é um ponto nevrálgico a ser discutido na proposta de ensino híbrido, uma vez que é a
partir dela que as ações pedagógicas podem ser planejadas. É ela que possibilita a identificação do
caminho a seguir.
8.As tecnologias digitais são apresentadas como um recurso para a personalização do ensino, como
por exemplo, as plataformas adaptativas.
9.A gestão deve refletir sobre a importância de um projeto político pedagógico que contempla o uso
das tecnologias digitais amparado por uma metodologia adequada, não com fins em si mesmas.
10.A cultura escolar na era da educação digital deve refletir, por todos os atores envolvidos no proces-
so educacional, as diferenças entre modelos sustentados e disruptivos de implementação de tecnolo-
gias digitais procurando ressignificar a cultura escolar arraigada.

Entendendo essas concepções podemos avançar analisando os principais desafios a serem en-
frentados pelas escolas, pelos educadores e também pelas famílias na implantação do ensino híbrido e
também do ensino remoto, principalmente com o advento da pandemia que exigiu o desenvolvimento,
por parte das escolas e educadores, de novas modalidades de ensino, ampliando assim o conceito de
ensino híbrido na educação básica, principalmente.

2.2 Os desafios na implantação do ensino remoto e híbrido nas escolas


A implantação do ensino remoto e híbrido nas escolas impõe a elas uma série de desafios, difíceis
de serem solucionados, mas que precisam ser superados, sendo assim trazemos aqui cinco desses gran-
des desafios que as escolas estão enfrentando agora nessa implantação.

2.2.1 A escolha das tecnologias


Sabemos que as tecnologias de informação e comunicação funcionam como vetor condutor
no processo de ensino e aprendizagem remoto. Sem elas, esse processo torna-se muito mais difícil,
se não impraticável.
Hoje, existem no mercado centenas de boas soluções para se trabalhar com educação a distância.
Porém, a escola deverá avaliar, no mínimo, quatro aspectos no momento da escolha dessas tecnologias:
prazo de implantação, simplicidade de operação, robustez e custo.
O primeiro aspecto diz respeito ao prazo de implantação dos recursos tecnológicos. Normalmen-
te, qualquer solução tecnológica com recursos mais sofisticados requer um prazo maior de implanta-
ção, o que a torna inviável neste momento. As escolas não têm tempo para implantar plataformas tec-
nológicas que levem semanas ou meses para funcionar adequadamente. Qualquer solução que a escola
venha a adotar neste momento deve ser implementada rapidamente. Devemos lembrar que estamos
em voo e não temos tempo a perder.
O segundo aspecto diz respeito à simplicidade. De nada adianta uma solução encantadora e
completa se os professores e pais tiverem dificuldade de manuseio. Como já mencionado, as escolas

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não têm tempo e nem recursos apropriados para realizar um amplo processo de capacitação e orien-
tação de pais e professores no uso das tecnologias neste momento de isolamento e distanciamento
social. Portanto, a simplicidade no uso de tais ferramentas é requisito essencial no seu processo
de escolha. Por isso, muitos especialistas recomendam para este momento a incorporação de tec-
nologias que já são de uso cotidiano de pais e professores, como Youtube, WhatsApp, entre outras
ferramentas populares.
O terceiro aspecto a ser considerado diz respeito à robustez das tecnologias escolhidas. Todos nós sa-
bemos o quão irritante é utilizar softwares e plataformas tecnológicas que, de tempos em tempos, travam ou
emitem mensagens de erro. O que menos precisamos neste momento é de algo que não funcione direito.
O quarto aspecto está relacionado ao custo das tecnologias. Não se aconselha que as instituições
invistam muito dinheiro na aquisição de softwares e plataformas tecnológicas neste momento em que
não há ainda uma segurança da metodologia adotada. Possivelmente as tecnologias adotadas hoje
se tornarão inapropriadas num futuro próximo. Atualmente, existem dezenas de plataformas gratuitas
que poderão ser utilizadas com êxito na implantação do ensino remoto, independentemente da meto-
dologia ou metodologias adotadas.

2.2.2 O engajamento dos pais


A escola precisa ter os pais como fortes aliados do ensino remoto e híbrido. Todos sabem da im-
portância que o comprometimento dos pais tem no processo de aprendizagem de seus filhos. Se isso já
fica evidente no ensino presencial, em que os alunos estão todos os dias sob os olhos atentos dos pro-
fessores, imagine nas atividades remotas e híbridas, em que os alunos, em boa parte do tempo, estão
estudando e aprendendo em suas casas. Sem o apoio incondicional dos pais neste momento não tem
metodologia ou tecnologia que dê conta. As escolas que são muito próximas dos pais e mantêm um
relacionamento aberto e franco têm levado grande vantagem. Ter os pais como parceiros no processo
de ensino serve como sinalizador do que está dando certo e errado nesse processo.
A importância dessa parceria é inversamente proporcional à idade dos alunos. Quanto mais novos
eles são, maior será a relevância dos pais nesse processo. Assim, escolas de educação infantil ou que
trabalham com séries iniciais do ensino fundamental precisam ter apoio incondicional dos pais para
obterem êxito no ensino remoto e híbrido. Para isso, a escola precisa ter um canal permanente e eficaz
de comunicação com os pais, de forma a retroalimentar constantemente o sistema com críticas e suges-
tões sobre o método de ensino, de forma a ajustar e corrigir rapidamente os erros. Devemos lembrar
que, diante da inexperiência das escolas com a educação a distância, as metodologias serão implemen-
tadas e ajustadas por tentativa e erro, e quanto mais rápido ocorrerem os ajustes de rota, melhor.

2.2.3 O comprometimento dos professores


Sabemos que os professores são peças-chave no sucesso ou fracasso da implantação do ensino
remoto. De nada adianta ter uma metodologia de ensino remoto ou híbrido eficaz, tecnologias ade-
quadas e pais comprometidos se os professores não fizerem sua parte. Precisam ser verdadeiros heróis
nesse momento, pois precisam enfrentar grandes desafios, dos quais destacamos três.
O primeiro deles está diretamente relacionado ao uso das novas tecnologias. Todos nós sabemos
que o setor educacional, especialmente o de nível básico, sempre foi refratário e nunca soube lidar com
a incorporação de TIC´s em seu processo de ensino e aprendizagem. E agora, da noite para o dia, deverá
fazer essa incorporação, em que o professor será o grande protagonista desse processo.
O segundo desafio está relacionado ao tempo de preparação e execução das aulas. Planejar e
desenvolver uma aula remota dá muito mais trabalho do que uma aula presencial. A flexibilidade que o

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ensino presencial possibilita aos professores dá lugar, no ensino remoto e híbrido, a um grau maior de
sistematização. E uma aula estruturada e sistematizada requer, do professor, um planejamento maior, o
que, por si só, já exige dele mais tempo de trabalho. Além disso, a falta de habilidade no manuseio das
tecnologias, especialmente nos momentos iniciais de implantação do ensino remoto e híbrido, exigirá
dos professores maior dedicação e tempo para o seu uso.
Um terceiro desafio imposto aos professores tem a ver com sua exposição. Um professor, dentro
de uma sala de aula, é soberano. Ao fechar a porta da sala de aula ele se torna pleno, diante de uma
plateia pouco crítica. No ensino remoto, os professores não estão somente em contato com os alunos.
Estão expostos aos pais deles, sendo julgados constantemente. Um professor que ministra aulas para
alunos de séries iniciais normalmente tem formação em pedagogia, mas ensina conteúdos de toda
natureza. Durante uma aula ministrada de forma remota ou híbrida, ensina princípios de ciências físi-
cas a seus alunos, ao mesmo tempo em que está sendo avaliado por pais engenheiros, que têm pleno
domínio do assunto; ensina sobre comportamento humano e é avaliado por pais psicólogos e médicos
psiquiatras, e assim por diante. Possivelmente, qualquer tema que o professor venha a ensinar, haverá
pais especialistas, do outro lado do processo, o avaliando permanentemente.

2.2.4 A motivação dos alunos


Outro grande desafio que as escolas enfrentam neste novo momento da educação, diz respeito à mo-
tivação do aluno em relação às aulas remotas e híbridas. Sabemos que a escola, há anos, vem discutindo es-
tratégias de como trazer o aluno para o protagonismo do processo de ensino-aprendizagem. Aos poucos, o
aluno começou a ver a escola como algo ultrapassado e desconectado de sua realidade, especialmente nos
anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. Neste momento de ensino remoto e híbrido, esse
problema se acentua, pois agora as aulas concorrem diretamente com jogos eletrônicos, séries, desenhos
animados e outros recursos que normalmente estão à disposição nas suas casas. Como prender a atenção
das crianças e adolescentes quando eles não estão sob a fiscalização ou supervisão de um adulto?

2.2.5 O estabelecimento da metodologia


Muitos dos desafios anteriormente pontuados são minimizados quando há a implantação de uma
metodologia adequada de ensino remoto e híbrido. Quando isso ocorre, ganha a confiança dos pais, o
que melhora seu engajamento, traz segurança aos professores no trabalho e ajuda no processo motiva-
cional dos alunos.
Ao se pensar sobre aspectos metodológicos, várias questões devem ser analisadas: trabalha-se o
mesmo conteúdo que seria trabalhado presencialmente ou trabalha-se com parte dele? Adota-se uma
metodologia única para toda a escola ou trabalha-se com metodologias diferentes em função da idade
dos alunos? Trabalha-se com o mesmo material utilizado nas aulas presenciais ou adota-se um novo
material didático? Que tecnologias darão suporte à implantação da metodologia? Essas são apenas
algumas perguntas que precisam ser respondidas pelas escolas para construir a metodologia ou meto-
dologias a serem implantadas no ensino remoto ou no ensino híbrido.
Outro aspecto muito importante a ser considerado no planejamento metodológico é a avaliação
da aprendizagem. Num processo, principalmente no ensino remoto, essa avaliação torna-se muito mais
difícil. Por mais que adotemos jogos, quizzes e outras estratégias de avaliação disponíveis em plata-
formas na internet, sabemos que nada se compara à observação direta do professor em sala de aula.
O contato com o aluno, o fazer pedagógico do dia a dia do professor é ainda o método mais eficaz de
avaliação da aprendizagem.
Um dos aspectos centrais que conduz a discussão metodológica do ensino remoto ou híbrido diz
respeito à sincronicidade ou não das aulas, ou seja, se as aulas, neste período, devem ser trabalhadas de

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forma síncrona, ou seja, ao vivo, ou de forma assíncrona, com aulas gravadas. Ambos os modelos têm
suas vantagens e desvantagens, o que veremos a seguir.

2.3 O que são aulas e atividades síncronas e assíncronas.


Antes de discutir as vantagens e desvantagens sobre métodos de aprendizagem síncronos e assín-
cronos é importante ter uma compreensão clara sobre esses dois temas. Uma aula ou atividade síncrona
é aquela em que o professor e o aluno participam ao mesmo tempo e no mesmo ambiente, nesse caso,
virtual. É também denominado por muitos como aula ao vivo. Já numa aula ou atividade assíncrona o
professor e o aluno estão desconectados temporalmente, ou seja, não estão trabalhando ao mesmo
tempo para que as tarefas sejam concluídas e o aprendizado seja realizado.
O grande benefício das aulas síncronas diz respeito ao engajamento dos alunos. Numa aula sín-
crona o aluno consegue tirar suas dúvidas em tempo real, ou seja, no momento que elas surgem. Isso
ajuda muito no processo de aprendizagem. Outro grande benefício proporcionado pelas aulas síncro-
nas é a possibilidade de promoção de momentos de socialização entre alunos e professores, na medi-
da em que eles podem se enxergar uns aos outros, dependendo da tecnologia adotada, compartilhar
informações, conversar sobre banalidades, etc. E isso é muito salutar para permitir que a conexão entre
alunos e professores não se perca neste momento de isolamento e distanciamento social.
Mas junto a esses benefícios as aulas síncronas trazem consigo desvantagens. Uma delas diz res-
peito à exposição de possíveis fragilidades no corpo docente da escola. Numa aula síncrona, se o pro-
fessor cometer um erro durante a aula, seja de conteúdo ou gramaticalmente em sua fala ou escrita, isso
poderá ser percebido pelos pais. Outra desvantagem, e que afeta aos pais dos alunos mais novos, é que
as aulas síncronas normalmente exigem que eles participem das atividades escolares de seus filhos, e
isso pode conflitar com suas atividades profissionais. Devemos lembrar que muitos pais que estão em
suas casas, neste momento, estão também trabalhando em home office.
As aulas assíncronas também têm suas vantagens e desvantagens. A grande desvantagem diz
respeito ao engajamento dos alunos. Não existem pesquisas ainda a esse respeito, mas há indícios de
que escolas que migraram de atividades assíncronas, no início da pandemia, para atividades síncronas
agora tiveram maior engajamento e participação de pais e alunos no processo do ensino remoto.
Apesar disso, as aulas assíncronas trazem consigo diversos benefícios, entre eles a possibilidade
de realizar um controle de qualidade do que é ensinado. Uma aula assíncrona tem características que se
assemelha a um processo industrial, no que diz respeito à temporalidade dos fatos. Entre a produção de
um bem numa indústria e a utilização dele pelo consumidor há um distanciamento de tempo e espaço,
o que possibilita criar controles de qualidade nessa lacuna, que garantem que o produto chegue às
mãos do consumidor sem defeitos. Similarmente, isso ocorre com aulas assíncronas. Uma aula gravada
por um professor pode passar por processo de avaliação, do próprio professor ou de outros profissio-
nais da escola, que traz garantias de que qualquer eventual equívoco cometido na gravação da aula
possa ser corrigido. Dessa forma, assegura-se que quando essa aula chegar ao acesso dos alunos, e por
consequência a seus pais, ela tenha sido avaliada e corrigida, se necessário.
Outra grande vantagem do método síncrono diz respeito à liberdade, tanto para professores e
pais, mas especialmente para alunos. O assincronismo permite que eles possam se dedicar às atividades
pedagógicas no momento que mais lhes convier. Além disso, o método assíncrono permite que os alu-
nos desenvolvam suas atividades de aula de acordo com o seu tempo e ritmo de aprendizagem, o que
sempre foi defendido pelos educadores, mas de difícil implementação nas aulas presenciais.
Diante dos fatos apresentados, fica evidente que não há receitas simples de construção de uma
proposta metodológica de ensino remoto ou híbrido para as escolas. É fundamental que elas integrem
momentos síncronos e assíncronos em suas propostas, num equilíbrio e dosagem nem sempre fácil de

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se estabelecer. Isso vai depender muito do perfil e da idade dos alunos a qual a escola se destina, das
tecnologias que os alunos têm disponível em suas casas, das condições socioeconômicas dos pais, da
proposta pedagógica da escola, entre outros fatores.
Dependendo do perfil da escola é possível que se necessite implantar mais de um modelo metodoló-
gico para dar conta de suas demandas. Uma proposta exitosa, implantada para os alunos do ensino médio,
possivelmente seria desastrosa se implantada, igualmente, para os alunos das séries iniciais do ensino fun-
damental. Isso torna o desafio maior ainda neste momento em que as escolas precisam atuar rapidamente.

3. INTEGRAÇÃO DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS AO CURRÍCULO ESCOLA


O aprendizado propiciado pelo ensino remoto ou híbrido é mais personalizado, mais dinâmico.
E, o mais importante, confere a pais e professores a possibilidade de acompanhar o processo de
aprendizado e engajamento do aluno. A partir dessas evidências, os educadores conseguem fazer
intervenções mais rápidas. Interessante notar que o contexto das aulas online – que levou a sala de
aula para dentro de casa, forçaram as famílias a acompanharem mais de perto o processo de educação
das crianças e adolescentes –, gerou uma aproximação maior. Os pais, hoje, podem assistir às aulas dos
professores, sabem o nível de engajamento dos filhos. Essa também é uma grande mudança! E é pouco
provável que os pais, no futuro, abram mão de ter essa proximidade. 
Há vários modelos de ensino híbrido, quando consideradas a presencialidade e não presencialida-
de, dos alunos nas aulas. É importante reforçar que no modelo híbrido, a ideia é que educadores e estu-
dantes possam ensinar e aprender em tempos e locais variados. Já, no ensino remoto faz uso somente
do ensino totalmente a distância, podendo ou não fazer uso das tecnologias digitais. No ensino remoto
não há momentos presenciais.
Na sequência são apresentados alguns modelos de ensino remoto e de ensino híbrido desen-
volvidos pelo Instituto Casagrande8. Cada modelo tem suas vantagens e desvantagens, bem como
complexidades e dificuldades de implantação. Cada escola deve analisar sua infraestrutura física, sua
infraestrutura tecnológica, recursos disponíveis pelos professores e alunos para escolher o modelo
mais adequado e que atenda ao processo de aprendizagem dos alunos, tanto em qualidade quanto em
abrangência de alunos. A escola ou sistema de ensino pode utilizar um modelo único ou combinar mais
de um modelo de ensino híbrido-remoto na sua proposta pedagógica.
1-Modelo Remoto Elementar: Esse modelo é totalmente remoto, onde não há encontros pre-
senciais com alunos e nem se faz necessário o uso de tecnologias digitais. Neste modelo a escola repas-
sa (normalmente via pais) material de estudo e atividades impressas de forma periódica aos alunos, os
quais deverão realizar seus estudos e desenvolver as atividades realizadas, segundo um cronograma
pré-estipulado. Esse modelo é chamado de elementar face à sua simplicidade e limitação. Foi um mode-
lo muito utilizado por escolas públicas no ano de 2020 para chegar até os alunos que não tinham acesso
a tecnologias digitais (computadores, celulares e tablets) para realizar seus estudos. Uma das grandes
vantagens desse modelo é a sua facilidade de implementação e à capacidade de atingimento de alunos
mais carentes que não tem acesso a tecnologias digitais. Porém uma das grandes desvantagens deste
modelo é a baixa interatividade entre professores e alunos, o que resulta em baixo engajamento por
parte deles. Essa limitação explica em parte a grande evasão ocasionada nas escolas que fizeram uso
somente deste modelo.
2-Modelo Remoto Síncrono: Este modelo também é totalmente remoto, porém aqui se exige o
uso de tecnologias digitais. Neste modelo o professor ministra e desenvolve as suas aulas ao vivo, via al-
guma plataforma de transmissão síncrona, normalmente como faria em sala de aula. Normalmente nes-

8 CASAGRANDE & CASAGRANDE, Modelos de Ensino Híbrido e Remoto, disponível em https://renatocasagrande.com/modelos-


-de-ensino-hibrido-remoto/ acesso em 21/01/2020.

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O Hibridismo na Educação Básica

te modelo, os alunos não têm conteúdo “sacrificado”, ou seja, todos os conteúdos previstos no currículo
são ministrados normalmente, pois todas as aulas são desenvolvidas normalmente como se fossem
presenciais. A diferença significativa aqui é que o professor, ao invés de ministrar a aula presencialmente
com todos os alunos, o faz mediante alguma plataforma digital. Mas todos os alunos assistem às aulas
ao vivo. Esse é o modelo que mais vem sendo utilizado no ensino superior por aquelas instituições que
não ofertavam cursos em EAD antes da pandemia. Esse modelo tem como vantagens a facilidade de
implementação e a alta interação com alunos, o que aumenta o engajamento deles. Traz como desvan-
tagem a exigência de boa internet por parte de alunos e professores, bem como a exaustão por parte
deles, devido ao tempo excessivo de atividades online.
3-Modelo Remoto Assíncrono: Este modelo também é totalmente remoto e requer o uso de
tecnologias digitais, porém nada é trabalhado de forma síncrona. O professor constrói o material de
estudo para os alunos (videoaulas próprias ou de terceiros, textos, material de apoio, atividades, etc.) e
disponibiliza em algum ambiente virtual de aprendizagem. Dessa forma, o aluno pode realizar os seus
estudos nos dias e horários que melhor lhe convém, acessando o ambiente virtual de aprendizagem. É
o modelo mais utilizado nos cursos superiores EAD. Tem como principal vantagem se adequar à rotina
familiar, pois alunos (e pais) podem programar o melhor horário para se dedicar aos estudos. Outra
grande vantagem que esse modelo traz consigo é a tendência de se ter um material melhor produzido.
A grande desvantagem desse modelo é a baixa interatividade com os alunos. Outra desvantagem a ser
considerada é em relação ao tempo de preparação das atividades. Quando se trabalha com preparação
de material para estudo assíncrono, normalmente o tempo de preparação é muito maior, o que exigirá
dos professores maior dedicação.
4-Modelo Remoto Síncrono-Assíncrono: Este modelo remoto combina aulas e atividades sín-
cronas com aulas e atividades assíncronas. Parte do conteúdo pode ser trabalhado sincronicamente (ao
vivo) e parte de forma assíncrona. Outra possibilidade é trabalhar os conteúdos totalmente de forma
assíncrona e utilizar os momentos síncronos para interação entre alunos, tira-dúvidas e discussão dos
temas apresentados assincronicamente. Este modelo elimina o problema da falta de engajamento dos
alunos quando o conteúdo é trabalhado totalmente de forma assíncrona, porém continua trazendo a
desvantagem de exigir do professor um tempo grande de preparação das atividades.
5-Modelo Híbrido Presencial Síncrono: Este modelo combina atividades presenciais na escola
com atividades não presenciais. Neste modelo, a escola deve subdividir as turmas em subgrupos, de
acordo com a capacidade das salas de aula, de forma a garantir o distanciamento mínimo exigido pelos
órgãos de saúde para evitar a proliferação do coronavírus. Se, por exemplo, uma turma tiver 30 alunos e
a sala de aula só comportar 10 para atender a esse distanciamento, a escola, para essa turma, deverá for-
mar três subgrupos. Em cada etapa (parte de um dia de aula, dia inteiro de aula, dias seguidos de aula)
um dos subgrupos de alunos vem para a escola para ter aula presencial e os demais subgrupos ficam
em casa. Os professores ministram as aulas na escola com a presença dos alunos que estão presencial-
mente e a mesma aula é transmitida, simultaneamente, em alguma plataforma dedicada a isso, para os
alunos que estão em casa, ou seja, todos os alunos assistem à mesma aula ao mesmo tempo. Em cada
etapa os subgrupos vão se alternando, permitindo assim que todos os alunos tenham parte das aulas
presenciais e parte das aulas recebidas de forma síncrona. A escola pode estruturar alguma forma de
retorno (perguntas, observações, questionamentos, etc.) dos alunos, em tempo real, que estão em casa.
O WhatsApp é uma tecnologia que pode ser utilizada para isso. Neste modelo o professor não repete a
sua aula para a mesma turma. Nas escolas que possuem mais de uma turma com o mesmo professor,
elas podem ser unificadas. Isso permitirá otimizar o tempo do professor. Esse modelo tem como pontos
positivos a alta interação com os alunos e a facilidade logística de implementação. O grande obstáculo
do modelo é a exigência de se ter, nas salas de aula, infraestrutura tecnológica que possibilite a trans-
missão, ao vivo, das aulas do professor. Outro ponto negativo é que o modelo é cansativo para os alunos
que estão em casa, pelo tempo de atividades online.

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Workshop Licenciaturas

6-Modelo Híbrido Presencial Assíncrono: Este modelo também combina atividades presenciais
com não presenciais. É muito similar ao Modelo Híbrido Síncrono, porém as aulas, ao invés de serem
transmitidas ao vivo, são gravadas. Assim, os alunos que estão presencialmente assistem às aulas ao
vivo, e os que estão em casa assistirão às mesmas aulas, gravadas em momento posterior. Faz-se ne-
cessário aqui a existência de alguma plataforma para disponibilizar as aulas gravadas aos alunos. Pelo
fato das aulas estarem gravadas, os alunos que assistiram às aulas presencialmente poderão assisti-las,
novamente, em outro momento, caso desejem. Este modelo tem praticamente as mesmas vantagens e
desvantagens do modelo anterior. Porém aqui a exigência tecnológica é diferente. Ao invés de necessi-
tar de internet para a transmissão das aulas presenciais, é necessário algum sistema de armazenamento
e disponibilização das aulas gravadas aos alunos.
7-Modelo Híbrido Presencial Replicado: Assim como os dois modelos anteriores, este mode-
lo também combina atividades presenciais com não presenciais e exige a criação de subgrupos de
alunos. Neste modelo, o professor separa parte dos conteúdos para ser trabalhado presencialmente
com os alunos e parte para ser trabalhado de forma assíncrona. A proporção do que é trabalhada
presencialmente depende essencialmente da quantidade de subgrupos. A parte do conteúdo que
o professor separou para ser trabalhado presencialmente, será ministrado para todos os alunos, de
forma alternada, ou seja, essa mesma aula é replicada, presencialmente, para todos os subgrupos.
Assim, todos os alunos assistem a mesma aula presencial só que em etapas (aulas, dias, semanas)
diferentes. As atividades assíncronas são trabalhadas de forma não presencial e poderão contemplar
videoaulas, textos, exercícios, avaliações. Essas atividades poderão ser encaminhadas para os alunos
de forma impressa (o que não exige do aluno tecnologias digitais) ou disponibilizados em algum am-
biente virtual de aprendizagem. Este modelo tem como vantagens a facilidade de implementação e
a não exigência de tecnologias digitais por parte dos alunos. A grande desvantagem desse modelo é
que prejudica os alunos que não conseguem ir às aulas presenciais, o que não acontece nos modelos
apresentados anteriormente.
8-Modelo Híbrido Presencial de Suporte: Neste modelo o professor trabalha com todos os con-
teúdos remotamente, seja de forma síncrona e/ou assíncrona, utilizando, possivelmente, um dos quatro
primeiros modelos aqui apresentados. O professor utiliza os momentos presenciais apenas para ativida-
des extracurriculares, de apoio pedagógico, de avaliação da aprendizagem ou em atividades de reforço
ou recuperação. Este modelo, além de não exigir complexidade no seu planejamento e na infraestrutura
tecnológica nas escolas, não prejudica tanto os alunos que não conseguem ir às aulas presenciais. Por
outro lado, vai exigir do professor um trabalho maior no planejamento das atividades e infraestrutura
tecnológica em suas casas e na dos alunos, dependendo da metodologia adotada por eles.
9-Modelo Híbrido Segmentado: Neste modelo o professor cria dois subgrupos, não necessa-
riamente de mesmo tamanho. Um subgrupo (A) é formado por alunos que tem preferência por aulas
remotas ou que não tenham condições de assistir aulas presenciais. Outro subgrupo (B) é formado por
alunos que podem e desejam ter aulas presenciais. Para o subgrupo A o professor trabalhará com todos
os conteúdos de forma remota utilizando, possivelmente, um ou mais dos quatro primeiros modelos
aqui apresentados. Para o subgrupo B o professor trabalhará todo o conteúdo de forma presencial. O
subgrupo B deverá ter um tamanho que permita que todos os alunos assistam às aulas presenciais
juntos e em segurança. Este modelo traz como desvantagem, para os alunos que assistirem às aulas
remotamente, as mesmas desvantagens de um dos modelos remotos aqui apresentados (dependendo
do modelo escolhido). Outro problema a ser considerado diz respeito à jornada do professor. Pelo fato
dele lidar praticamente com duas turmas distintas, a carga horária dele fica comprometida. Por fim, este
modelo poderá aumentar a desigualdade de aprendizagem dos alunos na turma, tendo em vista que os
alunos que assistirem às aulas presencialmente conseguirão, possivelmente, obter maior aprendizagem
em relação aos alunos que assistirem às aulas remotamente. Outro problema que poderá ocorrer é quan-
do o número de alunos que desejarem assistir às aulas presenciais for maior que a capacidade da sala.

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O Hibridismo na Educação Básica

10-Modelo Híbrido Pleno: Neste modelo não há a necessidade de criação de subgrupos, pois a
turma inteira pode assistir aula presencial juntos, ou seja, o número de alunos em relação ao tamanho
da sala de aula possibilita o distanciamento mínimo exigido pela área de saúde neste momento de pan-
demia. Nesta situação pode-se implementar os modelos híbridos tradicionais que exigem a presencia-
lidade simultânea de todos os alunos ou combinar com algum outro modelo aqui exposto. É o modelo
que deverá permanecer após passar este momento de pandemia.
Após essa mudança que a escola ainda está assimilando com a implantação do ensino remoto e hí-
brido e também com o uso mais adequado e eficaz das novas tecnologias no processo de aprendizagem
(considerada a era da educação 3.0), passaremos para uma nova fase, um novo marco na educação, cha-
mada de educação 4.0, essencialmente caracterizada pela chegada da inteligência artificial na educação.

4. EDUCAÇÃO 4.0: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA EDUCAÇÃO


A inteligência artificial, também conhecida como IA, pode ser considerada como um agrupamento
de várias tecnologias (redes neurais artificiais, algoritmos, sistemas de aprendizado, entre outros)
ou um conjunto de software, lógica, computação e disciplinas filosóficas para que os computadores re-
alizem funções que se pensava ser exclusivamente humana. Ou seja, todas essas tecnologias agrupadas
podem simular capacidades e ações (raciocínio, percepções das coisas, análise para tomada de decisão,
cálculos complexos com análise de resultados, etc.) até então desenvolvidas apenas pelas pessoas. Por
exemplo, o raciocínio, reconhecimento de expressões faciais, a percepção de ambiente e a habili-
dade de análise para a tomada de decisão.
A IA permite soluções tecnológicas de um modo considerado inteligente. A máquina ou o softwa-
re consegue aprender por si mesmo devido à sistemas de aprendizado que analisam grandes volumes
de dados, possibilitando a ampliação de seus conhecimentos.
Assim, a IA tem também como propósito estudar, desenvolver e empregar máquinas para reali-
zarem atividades humanas de maneira autônoma. Também está ligada à robótica, ao Machine Lear-
ning (Aprendizagem de Máquina), ao reconhecimento de voz e de visão, entre outras tecnologias.
Na educação, a inteligência artificial poderá ser uma grande aliada dos professores no processo
de aprendizagem dos alunos. Segundo o Professor Ronaldo Casagrande, um dos grandes problemas
enfrentados pelo sistema educacional é a forma como dispensa atenção aos diferentes ritmos de apren-
dizagem e peculiaridades de cada aprendiz.
A escola tradicional trata todos os alunos pela média. Alunos que têm dificuldade de aprendizagem
em determinados temas são atropelados pelo ritmo do professor. Já, aqueles que têm facilidade nesses
mesmos temas, tem seus potenciais subaproveitados, na medida em que o professor tem que dar atenção
àqueles com maior dificuldade. Independente do talento do aluno, todos aprendem (ou deveriam apren-
der) as mesmas coisas. Aquele aluno que tem um dom nato para as artes, e não tem aptidão para lidar com
números, é submetido aos mesmos conteúdos e ensinado da mesma forma que aquele que ama mate-
mática e ciências e rejeita as aulas de educação artística. A instituição de ensino não consegue tratar essas
desigualdades e reforçar os dons e talentos que cada aluno possui. O mesmo raciocínio vale para a forma
como os conteúdos são ensinados aos alunos. O aluno que é visual, ou seja, que aprende mais analisando
esquemas e lendo textos, é ensinado da mesma forma que aquele que é mais auditivo, ou seja, que apren-
de mais ouvindo. Sorte daquele aluno cujo método de ensinar do professor se ajusta a sua forma preferida
de aprendizagem. Realmente, sem o uso de tecnologias apropriadas, é muito difícil para os educadores
promoverem, em uma sala de aula, essa personalização do ensino.”
A inteligência artificial conseguirá, num futuro próximo, auxiliar nesse processo, principalmente
com o sistema de Tutoria inteligente, que pode auxiliar os alunos em seus processos de aprendizagem,

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Workshop Licenciaturas

fornecendo a eles instruções, orientações e feedbacks personalizados, sem ou com pouca intervenção de
seres humanos. Para o Professor Ronaldo, “(...) uma de suas características mais marcantes reside no fato
de que são capazes de responder ao estilo individual de aprendizagem do aluno, gerando orientações sob
medida. Funcionam como professores particulares, proporcionando ensino adaptado a cada aluno.”
Casagrande ainda destaca que os primeiros sistemas com tutoria inteligente têm origem na déca-
da de 70. Porém, face à limitação computacional da época, que impedia a incorporação de inteligência
artificial em sua estrutura, seu uso acabou limitado e seu potencial pouco aproveitado. Mesmo assim,
casos de sucesso foram registrados em várias escolas de ensino médio americanas, gerando resultados
significativos na aprendizagem de matemática.
Outro fato importante que merece destaque é que pesquisas em inteligência artificial passaram a ser
realizadas com objetivo de identificar as emoções das pessoas. Uma vez resolvida essa barreira, os tutores
inteligentes poderão atuar como professores particulares dos alunos. Assim, poderão estimular e desenvol-
ver criarão desafios nas áreas onde o aluno tem mais potencial e reforçarão a aprendizagem onde o aluno
sente mais dificuldade. Tudo isso com recursos alinhados a seu estilo de aprendizagem. Segundo Casa-
grande, ao capturar emoções, a tutoria inteligente terá condições de verificar os momentos em que o aluno
está entusiasmado com o assunto apresentado, cansado das atividades realizadas ou com sono. Essa é uma
tecnologia muito promissora e que poderá causar uma grande revolução na educação do futuro.

5. CONCLUSÃO
Como vimos, a educação vive tempos de experimentação e de quebra de paradigmas. Sem estig-
mas, preconceitos ou resistência, os educadores passaram a entender que podem dar passos largos em
direção a um futuro e com muito mais certeza de que conseguirão chegar “com qualidade” a lugares
que pelos métodos tradicionais nunca conseguiriam.
Apresentamos os diferentes conceitos das novas abordagens educacionais. São novas formas de
ensinar e de aprender. Precisamos admitir que há muitas incertezas, medos e desafios pairando no ar,
mas sabemos que de tudo isso vamos tirar grandes lições e evoluir em muitos pontos no que tange o
conhecimento e uso de novas tecnologias. É momento de aprendizado, é momento de reflexão, mas
também é momento de ação e de construção de novas rotas para a educação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CASAGRANDE, R. - É possível e muito mais eficaz utilizar todos os recursos tecnológicos disponíveis na
atualidade. In: Revista Escola Particular/SIEEESP – São Paulo: São Paulo, Jul./2020
CASAGRANDE & CASAGRANDE, Modelos de Ensino Híbrido e Remoto, disponível em https://renatoca-
sagrande.com/modelos-de-ensino-hibrido-remoto/ acesso em 21/01/2020.
CASAGRANDE & CASAGRANDE, Renato; Ronaldo – Educação a distância, apesar das turbulências, o voo
do ensino segue seu curso. Revista Presença Pedagógica, São Paulo/SP, junho/2020
CASAGRANDE, Ronaldo - Inteligência artificial e a educação além da curva Curitiba, PR, Instituto Casa-
grande, 2019.
FGV- FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS - Perda de aprendizado no Brasil durante a pandemia de covid-19 e
o avanço da desigualdade educacional. São Paulo, 25 de novembro de 2020.
HORN, MICHEL B. & STAKER, Hearther. (2015). Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a
educação. Porto Alegre: Penso.

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O Hibridismo na Educação Básica

MORAN, José 2015, p.42 in BACICH, Lilian (org). Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educa-
ção. Porto Alegre: Penso, 2015.
PINHEIRO, Rafael - Como será a educação pós-pandemia disponível em https://direcionalescolas.com.
br/como-sera-a-educacao-pos-pandemia/ acesso em 20/01/2020.
PORVIR – Educação Híbrida - É a combinação do aprendizado online com o off-line. Disponível em ht-
tps://porvir.org/ensino-hibrido-ou-blended-learning/, acesso em 10/01/2021.

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