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Rui Jacinto (coordenação)


Colecção

1. Iberismo e Cooperação – Passado e Futuro da Península Ibérica


2. O Direito e a Cooperação Ibérica
3. O Outro Lado da Lua – Inéditos de Eduardo Lourenço
Centro de Estudos Ibéricos
4. Entre Margens e Fronteiras – Para uma Geografia das Ausências
e das Identidades Raianas
5. Territórios e Culturas Ibéricas O Centro de Estudos Ibéricos é uma asso-
6. Saúde sem Fronteiras
7. O Direito e a Cooperação Ibérica II
ciação transfronteiriça sem fins lucrativos,
8. O Interior Raiano do Centro de Portugal – Outras Fronteiras, Novos constituído pela Câmara Municipal da
Intercâmbios
9. Um Cruzamento de Fronteiras – O Discurso dos Concelhos da Guarda
Guarda, Universidade de Coimbra, Universi-
em Cortes dade de Salamanca e Instituto Politécnico
10. Territórios e Culturas lbéricas II
11. União Europeia, Fronteira e Território
da Guarda.
12. Existência e Filosofia – O Ensaísmo de Eduardo Lourenço

DINÂ MICAS
13. Abandono do Espaço Agrícola na “Beira Transmontana”
A ideia partiu do ensaísta Eduardo Lourenço
14. Educação – Reconfiguração e Limites das Suas Fronteiras
15. Escola – Problemas e Desafios na sessão solene comemorativa do Oitavo
16. As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa – Centenário do Foral da Guarda, em 1999,
Paisagens, Territórios, Políticas no Brasil e em Portugal

SOCIO ECONÓMICAS
17. Interioridade / Insularidade – Despovoamento / Desertificação tendo em vista a criação de um Centro de
18. Efeito Barreira e Cooperação Transfronteiriça na Raia Ibérica Estudos que contribuísse para um renovado
19. Patrimónios, Territórios e Turismo Cultural
20. A Cidade e os Novos Desafios Urbanos conhecimento das diversas culturas da
21. Vida Partilhada – Eduardo Lourenço, o CEI e a Cooperação Península e para o estudo da Civilização
Cultural
22. Falar Sempre de Outra Coisa – Ensaios Sobre Eduardo Lourenço EM DIFERENTES CONTEXTOS TERRITORIAIS Ibérica como um todo.
23. Metafísica da Revolução – Poética e Política no Ensaísmo de
Eduardo Lourenço
24. Paisagens, Patrimónios e Turismo Cultural Criado formalmente em Maio de 2001, o
25. Condições de Vida, Coesão Social e Cooperação Territorial CEI tem vindo a afirmar-se como pólo privi-
26. Paisagens e Dinâmicas Territoriais em Portugal e no Brasil –
As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa COORDENAÇÃO DE legiado de encontro, reflexão, estudo e
27. Espaços de Fronteira, Territórios de Esperança – Das RUI JACINTO divulgação de temas comuns e afins a
Vulnerabilidades às Dinâmicas de Desenvolvimento
28. Paisagens, Patrimónios, Turismos Portugal e Espanha, com especial incidência
29. Educação e Cultura Mediática – Análise de Implicações na região transfronteiriça.
Deseducativas
30. Espaços de Fronteira, Territórios de Esperança – Paisagens e
Patrimónios, Permanências e Mobilidades
31. Diálogos (Trans)fronteiriços – Patrimónios, Territórios, Culturas
32. Outras Fronteiras, Novas Geografias - Intercâmbios e Diálogos
Territoriais
33. Lugares e Territórios – Património, Turismo Sustentável, Coesão
Territorial
34. Andanças e Reflexões Transfronteiriças – Roteiro Miguel de
Unamuno – Eduardo Lourenço
35. Novas Fronteiras, Outros Diálogos – Paisagens, Patrimónios, Cultura
36. Novas Fronteiras, Outros diálogos: Cooperação e
Desenvolvimento Territorial
37. Pontes entre Agricultura Familiar e Agricultura Biológica
38. As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:
Cooperação e Desenvolvimento
39. Geografias e Poéticas da Fronteira - Leituras do Território

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IBEROGRAFIAS
DINÂMICAS SOCIOECONÓMICAS EM
DIFERENTES CONTEXTOS TERRITORIAIS

Coordenação:
Rui Jacinto

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IBEROGRAFIAS
Coleção Iberografias
Volume 40

Título: Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Coordenação: Rui Jacinto
Apoio à edição: Ana Margarida Proença
Autores: Aline Pascoalino; Ana Clara Ribeiro de Sousa; Ana Júlia França Monteiro; Ana Lúcia Cunha Duarte; Ana Paula Novais
Pires Koga; André Luiz Garrido Barbosa; Antonio Nivaldo Hespanhol; Bartolomeu Israel de Souza; Claudinei da Silva Pereira;
Débora Santana de Oliveira; Diogo Laércio Gonçalves; Dirce Maria Antunes Suertegaray; Fernando A. B. Pereira; Francisco José
Araújo; Giampietro Mazza; Helena Santana; Hellen Caroline de Jesus Braga; Igor Breno Barbosa de Sousa; Inocêncio de Oliveira
Borges Neto; Ivaldo Lima; Jânio Gomes do Carmo; Jéssica Neves Mendes; Joana Capela de Campos; João Lucas Grassi; José Aldemir
de Oliveira (em Memória); José Borzacchiello da Silva; José Sampaio de Mattos Junior; Juan Diego Lourenço de Mendonça; Karinne
Wendy Santos de Menezes; Leila de Oliveira Lima Araújo; Lucas Ferreira Rodrigues; Lukas Barbosa Veiga de Melo; Marcos Leonardo
Ferreira dos Santos; Messias Modesto dos Passos; Nadja Fonsêca da Silva; Nicola Fresu; Nilson Cesar Fraga; Norberto Santos; Paola
Verri de Santana; Pedro Manuel Tavares; Renata Maria Ribeiro; Ronaldo Barros Sodré; Rosangela Aparecida de Medeiros Hespanhol;
Rosário Santana; Rui Jacinto; Thaís de Oliveira Queiroz

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa: Sofia Travassos | www.sofiatravassos.com


Fotografia: Mohammad Moheimani “Irão, Transversalidades fotografia sem fronteiras 2019”

Impressão e acabamento: LOCAPE – Artes Gráficas, Lda.

1.ª edição: abril de 2021


Depósito legal n.º 481056/21

ISBN: 978 972 780 759 8


ISBN: 978 989 8676 26 9

Edição n.º 41040

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

Âncora Editora
Avenida Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 Lisboa
geral@ancora-editora.pt
www.ancora-editora.pt
www.facebook.com/ancoraeditora

O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos, não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e opiniões neles expressas.
A opção ou não pelas regras do novo acordo ortográfico é da responsabilidade dos autores.

Apoios:

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conhecimento sem fronteiras: dinâmicas socioeconómicas em diferentes
contextos territoriais
Rui Jacinto 9

Patrimónios e paisagens

Toponímia, identidade e processo de colonização do Rio Grande do Sul 15


Dirce Maria Antunes Suertegaray, Rui Jacinto e Inocêncio de Oliveira Borges Neto
Os diferentes processos por trás do nome dos lugares 49
Leila de Oliveira Lima Araújo
O toque dos sinos desenhando um outro olhar sobre a paisagem 61
Helena Santana e Rosário Santana
A geografia da Amazônia na obra de Samuel Benchimol 79
Hellen Caroline de Jesus Braga, Paola Verri de Santana
e José Aldemir de Oliveira (em Memória)
Análise da paisagem na área da Microbacia Hidrográfica do Córrego Lagoa, 95
situada no Município de Ouvidor, Estado de Goiás
Lucas Ferreira Rodrigues
Políticas Ambientais na Raia Divisória São Paulo-Paraná-Mato Grosso do Sul, Brasil: 113
estudo das áreas potenciais para a criação de corredores ecológicos
Diogo Laércio Gonçalves e Messias Modesto dos Passos
Análise da paisagem e possibilidade de uso para políticas públicas ambientais 131
no semiárido brasileiro
Bartolomeu Israel de Souza, Juan Diego Lourenço de Mendonça, Marcos Leonardo
Ferreira dos Santos e Lukas Barbosa Veiga de Melo

Políticas públicas, cooperação e coesão social

A democracia encurralada: antipolítica, antilaicidade e surto do irracionalismo 159


Francisco José Araújo
Questão racial: reflexões sobre memória, narrativas hegemônicas 169
e contra-hegemônicas no contexto brasileiro do século XX
Ana Júlia França Monteiro

Resistência, persistência e sobrevivência indígena: a Aldeia da Ponte, do Povo 185


Tapeba, no município de Caucaia, Ceará – Brasil
Karinne Wendy Santos de Menezes

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A tentativa de extermínio do território do Contestado e o massacre continuado do 203
patrimônio e da população tradicional cabocla: negação, invisibilidade, silêncio
e políticas públicas antiterritoriais, em Santa Catarina, Brasil
Nilson Cesar Fraga

Geografia das prisões 223


Giampietro Mazza e Nicola Fresu
A importância dos relatos de memórias para a reinterpretação social, política e 239
econômica dos processos históricos: o caso das mulheres portuguesas que
acompanharam os seus maridos nas guerras coloniais africanas
Thaís de Oliveira Queiroz
Políticas Públicas Educacionais: quais são os desafios para o desenvolvimento e 251
transformação da realidade brasileira?
Nadja Fonsêca da Silva
Qualidade da educação e indicadores sociais do Maranhão: um diálogo necessário 265
Ana Lúcia Cunha Duarte
Ética e estética no ambiente escolar: as competências socioemocionais 279
no ensino de Geografia
Débora Santana de Oliveira

Espaço rural e agricultura

A Calha do Rio Amazonas: dos Tupaius ao agronegócio 295


Messias Modesto dos Passos
Transpondo Águas e Vidas: as Vilas Produtivas Rurais e a transposição do Rio São 321
Francisco, Brasil
Ana Paula Novais Pires Koga e Messias Modesto dos Passos
Estratégias de desenvolvimento e suas implicações no campo: uma análise das 337
últimas cinco décadas no Maranhão - Brasil
Jéssica Neves Mendes, Igor Breno Barbosa de Sousa, Ronaldo Barros Sodré
e José Sampaio de Mattos Junior
A produção de alimentos na escala local: a horticultura em Álvares Machado – SP, Brasil 353
Rosangela Aparecida de Medeiros Hespanhol e Antonio Nivaldo Hespanhol
Heterogeneidade da horticultura comercial urbana no interior 367
do Estado de São Paulo – Brasil
Antonio Nivaldo Hespanhol, Claudinei da Silva Pereira, Rosangela Aparecida de
Medeiros Hespanhol, Jânio Gomes do Carmo e João Lucas Grassi

Cidade e património urbano

O discurso da paisagem urbana: entre a estética da periferia e a ética territorial 385


Ivaldo Lima
Da necessidade de um Observatório para o Património Mundial Português 405
Joana Capela de Campos e Norberto Santos

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As transformações do espaço público no entorno do Museu do Amanhã e sua 419
contribuição ao turismo urbano
Renata Maria Ribeiro e Ana Clara Ribeiro de Sousa
A Princesa de Portugal Joana de Áustria; da Outra Corte à criação do Mosteiro das 433
Descalças Reais, como centro espiritual e político das Mulheres Habsburgo, durante
a União Ibérica
Pedro Manuel Tavares e Fernando A. B. Pereira

Defesa e Religião no período colonial em Cabo Frio: memória, patrimônio histórico 455
e história local
André Luiz Garrido Barbosa
Políticas públicas e a gestão de cidades climaticamente sustentáveis no contexto 473
das mudanças ambientais globais: considerações sobre as cidades brasileiras
Aline Pascoalino
Cidade, arte e literatura: fragmentos sobre Fortaleza 495
José Borzacchiello da Silva

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Conhecimento sem fronteiras:
dinâmicas socioeconómicas
em diferentes contextos territoriais

Rui Jacinto
Centro de Estudos Ibéricos (CEI)
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

O Centro de Estudos Ibéricos (CEI), enquanto plataforma de intercâmbio cuja mis-


são é alicerçada no Conhecimento, na Cooperação e na Cultura, realiza ininterruptamente
o seu Curso de Verão, desde há duas décadas, projeto fundador com que inaugurou as
suas atividades e que constitui um evento emblemático entre as múltiplas iniciativas que
promove. Continuando a honrar o compromisso com os espaços mais débeis e excluídos,
designadamente os fronteiriços, o Curso de Verão é uma iniciativa de cooperação apostada
em difundir informação sobre os territórios e as culturas ibéricas.
A edição de 2020 conheceu um novo formato, virtual, motivado pela pandemia que
9 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
alterou radicalmente o curso normal das nossas vidas e o funcionamento das instituições,
da economia e da sociedade. Os princípios e os objetivos que sempre o nortearam, con-
tudo, permanecerem inalterados: (i) incentivar o diálogo entre saberes, investigadores e
parceiros do espaço ibérico, europeu, africano e latino-americano, particularmente entre
os países de língua portuguesa; (ii) identificar e valorizar os recursos do território, naturais
e humanos, materiais e intangíveis, enquanto fatores críticos e estratégicos do desenvol-
vimento (património cultural, paisagem, cultura, etc.); (iii) analisar comparativamente
dinâmicas económicas e sociais em diferentes contextos espaciais, estimulando a apresen-
tação e o debate de programas, iniciativas e boas práticas que concorram para a coesão econó-
mica, social e territorial; (iv) valorizar o trabalho de campo como estratégia pedagógica

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e de promoção do património natural e cultural, sobretudo o localizado em geografias e
contextos regionais mais remotos como são os do interior raiano.
O Curso, subordinado ao título genérico “Novas fronteiras, outros diálogos: cooperação
e desenvolvimento”, decorreu remotamente, nos dias 8 e 9 de julho, respeitando o figurino
das edições anteriores: comunicações apresentadas em painéis de debate, sendo o trabalho
de campo, por impossibilidade de ser concretizado fisicamente, reconvertido em visitas
virtuais, através de documentários, produzidos para o efeito. O formato adotado, apesar
de retirar a emoção que resulta dum contacto direto entre as pessoas e com os lugares,
baseou-se num novo modelo que permitiu alargar a participação e democratizar o acesso
ao evento. As perspetivas e potencialidades deste modo de comunicar aconselham que é
possível conciliar, em futuras organizações, o presencial com o virtual. O próprio trabalho
de campo, ativo e referência incontornável do Curso de Verão, foi reinventado para que
esta marca diferenciadora não ditasse a perda de identidade. Na linha de anteriores roteiros
manteve-se o espírito transfronteiriço e de cooperação, presente em anteriores iniciativas,
que havia proporcionado em 2018 um livro guia da viagem que reforçou a ligação entre
Coimbra, Guarda e Salamanca (Valentin Cabero, Rui Jacinto - Andanças e reflexões trans-
fronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço). Em 2020 produziram-se três
documentários relativos a viagens programadas onde seriam apresentados e debatidos, no
terreno, outros tantos temas, tendo como destino: Estrela (A Serra da Beira); Raia Central
(Fronteira e Património); Campo Charro (Paisagem além-fronteira).
Os títulos atribuídos aos diferentes Cursos de Verão refletem, com o correr dos anos,
subtis tendências evolutivas subjacentes às respetivas programações1. A fronteira, ora en-
carada como realidade ora entendida como metáfora, é uma permanência estruturante
transversal ao tempo. O debate sobre os espaços de fronteira impõe-se, naturalmente, por
imperativo ditado tanto pela geografia como pela inserção do CEI no território raiano
entre Portugal e Espanha. A fronteira, por vezes, assumida no plural, em outros casos,
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

recebe diversos atributos que revelam não ser possível confinar o conceito a um estr(e)
ito limite geopolítico, pois, enquanto realidade polissémica remete necessariamente para
problemáticas mais abrangentes.

1
Ao longo da última década os temas gerais dos Cursos de Verão foram: Novas fronteiras, outros diálo-
gos: cooperação e desenvolvimento (2020, 2019); Novas fronteiras, outros diálogos: património cultural,
cooperação e desenvolvimento territorial (2018); Lugares e territórios: novas fronteiras, outros diálogos
(2017); Espaços de fronteira em tempos de incerteza: pensamentos globais, ações locais (2016); Iberismo
e Lusofonia: paisagens, territórios e diálogos transfronteiriços (2015); Espaços de Fronteira, Territórios de
Esperança: velhos problemas, novas soluções (2014); Espaços de Fronteira, Territórios de Esperança (2013);
Fronteiras e Coesão Territorial (2012); Diálogos Ibéricos e Cooperação: terras, gentes, culturas (2011);
Patrimónios e Territórios Culturais: recursos, estratégias e práticas (2010).
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Fala-se em fronteiras ou em novas fronteiras tendo em mente que foram chamadas a
desempenhar diferentes funções ao longo dos tempos, sobretudo desde que se ensaiou um
progressivo apagamento, quiçá utópico, ou começou a assistir a um paulatino regresso
para impor o controlo mais apertado da circulação, fossem de migrantes ou, ainda mais
recentemente, do fluxo de pessoas por causa da pandemia. Entendida umas vezes como
linha e noutras como zona, a análise dos espaços fronteiriços, sejam os que são definidos
por fronteiras que dividem países, regiões ou diferentes áreas urbanas, destina-se a uma
compreensão mais fina e circunstanciada das debilidades económicas e sociais que afetam
estes territórios.
O facto de estarmos perante territórios periféricos a braços com uma progressiva
marginalização, fruto dum ciclo vicioso que perpetua tais fragilidades, justifica o debate
recorrente sobre fronteiras e coesão territorial. Sem esquecer aquela realidade nem as poten-
cialidades que encerram, a superação das amarras que continuam a correlacionar fronteira e
subdesenvolvimento também passa por ultrapassar este determinismo redutor encarando-os
como territórios de esperança. O Curso, inicialmente circunscrito à dimensão peninsular,
alargou progressivamente o seu âmbito a espaços de além-mar, foi ao encontro de terras,
gentes, culturas que se acolhem sob o manto do Iberismo e Lusofonia. A representação
significativa de investigadores oriundos do Brasil, presente nesta edição, monstra com
eloquência o caminho trilhado.
As duas décadas de existência dos Cursos de Verão foram resvalando para tempos de
incerteza cujos sinais se adensaram, realidade cada dia mais evidente e pesada ao ponto de
ter marcado impressivamente a sua história intrínseca. Um certo modo de ler e de estar no
Mundo a par dos novos problemas que se foram abatendo sobre os territórios de fronteira, sem
escurar a preocupação da investigação ter tradução na ação, tiveram forte influência na
programação. Estes novos problemas passaram a coabitar com velhos problemas preexistentes
agudizando uma tensão que conduziu a uma conclusão óbvia: a necessidade de encontrar novas

11 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


soluções para velhos problemas é tão verdadeira quanto os novos problemas não se combaterem
com velhas soluções.
O espaço (fronteiriço), o tempo (de incerteza) e o modo de agir (cooperação trans-
fronteiriça) definiram um campo imenso para encetar diálogos Ibéricos e cooperação, territórios
e diálogos transfronteiriços, aproveitar a virtuosidade entre cooperação e desenvolvimento,
cooperação e desenvolvimento territorial. O foco, apesar de centrado nos lugares e territórios,
nunca abdicou de explorar outros diálogos nem abordagens multiescalares cuja concretiza-
ção não perde de vista um slogan, pensamentos globais, ações locais, cuja utilização (re)corrente
acabaria por o banalizar. Ao longo destes anos acumulou-se um manancial ímpar de infor-
mação sobre recursos, estratégias e práticas implementadas em regiões de alguns países, onde

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se destaca Portugal, Espanha e Brasil, sobre paisagens, patrimónios, património cultural e
territórios culturais.
Estas referências desenham o pano de fundo temático que foi privilegiado nos en-
contros anuais de investigadores de diferentes países, problemáticas que os títulos das
diferentes publicações acabam por refletir2. A partir de temas abrangentes sugeridos para a
edição do Curso de 2020 foram organizados diferentes painéis que ajudaram a estruturar a
presente edição (Coleção Iberografias, Nº 40). Esta obra, que culmina uma década de pu-
blicações de trabalhos apresentados em eventos dinamizados pelo CEI, reúne vinte e nove
textos (29, sendo 23 oriundos do Brasil), agrupados em quatro apartados: (i) Patrimónios
e paisagens; (ii) Políticas públicas, cooperação e coesão social; (iii) Espaço rural e agricultura;
(iv) Cidade e património urbano.
Resta agradecer aos autores dos textos o contributo generoso e qualificado, preciosa
colaboração para um património coletivo que o CEI dignifica ao promover a sua difusão.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

2
O CEI publicou neste âmbito os seguintes títulos: Paisagens, Patrimónios e Turismo Cultural (Coleção
Iberografias, Nº 24; 2012); Condições de vida, Coesão social e Cooperação Territorial (Nº 25; 2012);
Paisagens, Patrimónios, Turismos (Nº 28; 2014); Diálogos (Trans)fronteiriços – Património, Territórios,
Culturas (Nº 31; 2014); Outras Fronteiras, Novas Geografias: Intercâmbios e Diálogos Territoriais (Nº 32;
2016); Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial (Nº 33; 2017); Novas
Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura (Nº 35; 2017); Novas Fronteiras, Outros
Diálogos: Cooperação e Desenvolvimento Territorial (Nº 36; 2018); As Novas Geografias dos Países de
Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento (Nº 38; 2019)
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Patrimónios e paisagens

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Toponímia, identidade e processo
de colonização do Rio Grande do Sul

Dirce Maria Antunes Suertegaray


Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS)

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

Inocêncio de Oliveira Borges Neto


Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Introdução

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do/ Universo…/


Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra/ qualquer, / Porque
eu sou do tamanho do que vejo/ E não do tamanho da minha altura (…)
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia/ E para onde ele vai/
E donde ele vem. / E por isso, porque pertence a menos gente,/ É mais livre
e maior o rio da minha aldeia.
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), O guardador de rebanhos
15 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Na constituição deste texto, toma-se como referência a toponímia relativa aos nomes
das cidades, que compõem o estado do Rio Grande do Sul (RS), Brasil, com o objetivo
de resgatar, pela nominação local, a história socioespacial da relação com a natureza, no
processo de ocupação deste estado.
Neste texto, não será feita uma análise no campo da linguística; trata-se de, a partir da
toponímia, refletir sobre a formação do espaço geográfico, enfatizando a designação dos
lugares e a intrínseca relação deste processo com as características naturais e com a ocupação
populacional. Para realizar este ensaio, o procedimento inicial foi, com base no conjunto dos

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municípios que compõe o estado do RS, selecionar aqueles, cujos nomes estão associados a
aspectos da natureza e da ocupação territorial. Essas denominações, em muitos dos casos, são
conexos às populações indígenas, que, originalmente, ocuparam o espaço.
Após esta seleção, procedeu-se à identificação do significado da palavra, associada às
características naturais e à busca por dados, referentes ao processo de ocupação destas ter-
ras, em diferentes fases do processo de colonização/ocupação. De posse destas informações,
foi proposta uma classificação das cidades, considerando nomes de lugares, que remetem
à matriz primordial e a qualitativos identitários, ou seja, relacionados ao modo incipiente
de formação do povoamento primitivo, bem como foi destacado um segundo grupo de
nomes, associado a condições naturais, a particularidades e a especificidades locais.
Na continuidade, com base nas coordenadas geográficas de cada uma das cidades,
foram elaborados mapas de distribuição, tomando, como referência, os mapas de relevo,
de vegetação e de divisão regional do estado, além de alguns dos trajetos, que expressam a
história econômica do estado.
O produto desta espacialização expressa, afora as características naturais, o processo de
ocupação do Rio Grande do Sul, explicitando, pelas denominações encontradas, áreas de
ocupação indígena, registradas em nomes, que permanecem preservados, na atualidade,
a ocupação espanhola/portuguesa, quando da constituição do território brasileiro, e, pos-
teriormente, o processo de ocupação, vinculado, sobretudo, às migrações alemã e italiana
nesta parcela de território.
A nosso ver, um estudo toponímico, comum a outras áreas do conhecimento, a
exemplo da História e da Linguística, constitui um caminho, entre outros, no sentido
de desencadear um processo de aprendizagem, que permite resgatar dimensões de análise
geográfica, como a realidade inseparável entre natureza e sociedade; o processo histórico,
como procedimento de compreensão do espaço geográfico, sobretudo, o evidenciado nesta
breve pesquisa; e os conflitos territoriais, no que se referem à posse da natureza e dos seus
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

recursos, processos plasmados na originária denominação dos lugares.

Toponímia e Território: o nome dos municípios do Estado do Rio Grande


do Sul

Sentia que estava a gostar do seu trabalho mais do que nunca, graças
a ele pudera penetrar na intimidade de tantas pessoas famosas, saber, por
exemplo, coisas que algumas faziam para ocultar, como serem filhas de pai
ou de mãe incógnitos, ou incógnitos ambos, que era o caso de uma dessas, ou
dizerem que eram naturais da sede de um concelho ou da sede de um distrito
16 //

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quando o que tinham era nascido num lugarejo perdido, numa encruzilha-
da de bárbara ressonância, se não fora antes num sítio que simplesmente
cheirava a estrume e a curral e que podia muito bem passar sem nome.
José Saramago, Todos os nomes

Toponímia: uma tatuagem no corpo da terra

No sentido amplo, toponímia consiste em um campo do conhecimento, vinculado à


linguística, que busca a interpretação do significado do nome dado a um lugar. Conforme
Houaiss (2001), constitui:

(...) parte da onomástica que estuda os nomes próprios de lugares; lista, relação
de topônimos; estudo etimológico e/ou histórico sobre os topônimos. (Compreende
diversas subdivisões, como corônimos, limnônimos, eremônimos, potamônimos;
livro (ou outro suporte) que contém tal relação ou estudo.

Para Dick, a toponímia pode ser entendida como “um imenso complexo línguo-cultural,
em que os dados das demais ciências se interseccionam necessariamente e, não, exclusi-
vamente” (Dick, 1990, p. 16). Constitui um caminho de análise, que permite uma cons-
trução interdisciplinar, que vem sendo resgatado, com o advento das análises culturais,
no terreno da Geografia, para uma compreensão do significado dos lugares e de suas
correspondentes nominações, dentro do contexto histórico.
Com este enunciado, fica evidenciada a possível interconexão entre Geografia (o
lugar), História (o período e o contexto de nominação) e Linguagem. Nesse sentido, con-
siderando o interesse deste estudo, que busca analisar a toponímia das cidades do estado
do Rio Grande do Sul, Brasil, pode-se, a partir de uma leitura prévia, informar que, para
um português, a denominação dos lugares, e a atitude dos brasileiros, em relação aos esses
17 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
nomes, é semelhante à que manifestam com a língua, em geral, e com o nome das pessoas,
em particular: uma expressão de criatividade, que parece ir além da gramática e doutros
cânones, que impõem normas e padrões mais restritos.
Sob outra forma de constituir uma concepção de toponímia, poderíamos dizer que, no
campo da Geografia, a legenda de um mapa, enquanto registro da denominação de lugares,
é o produto toponímico por excelência. Essa representação pode ser entendida, como o
nome, como uma tatuagem no corpo da terra, uma marca profunda e perene. Sendo assim,
o mapa expressa a distribuição dos lugares no território, uma vez que cada nome atribuído
tem um significado histórico e linguístico. Assim, num estudo desta natureza, a legenda
(denominação das cidades) constitui o tema, que permite construir a narrativa.

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A toponímia acaba por ser uma sugestiva forma de exprimir a semiótica e a semântica
do território. Na sua definição mais restrita, topos (lugar) e onoma (nome), esta dá voz ao
lugar e ao espaço e, em sentido mais amplo, à paisagem e ao território. O alto grau de resis-
tência dos topônimos em desaparecer leva-nos, pelas suas próprias marcas, ao entendimen-
to da construção do espaço humanizado, pois estes guardam uma relação com o tempo
lento da ocupação e da evolução do território e, portanto, com a comunidade e com as
raízes culturais², o que equivale a dizer que a toponímia é uma herança de indubitável sig-
nificado patrimonial, cujas marcas, ricas e expressivas, permanecem na paisagem agrária.
A desaparição e a classificação temática dos topônimos ‒ fitotoponímia, orotoponímia,
hidrotoponímia, zootoponímia e hagiotoponímia ‒ permitem uma explicação detalhada
do meio natural e do seu entorno. Embora tenha predominado o estudo linguístico, do
ponto de vista geográfico, os estudos sobre toponímias adquirem uma verdadeira capa-
cidade explicativa, que, certamente, poderia encontrar-se no conceito de geotoponímia,
dando ao termo uma dimensão complexa, diacrónica e interdisciplinar e ligando-se,
particularmente, ao estudo geográfico, tanto físico como humano.
Enquanto a toponímia maior reflete as formas de povoamento – os nomenclátor são
uma boa fonte –, a toponímia menor (caminhos, montes, ruas) fornece informação do
máximo interesse, para entender as circunstâncias e os estratos cronológicos de um ter-
ritório. Os mapas topográficos e cadastrais contêm uma rica memória, a este respeito.
Possivelmente, a vegetação e sua história são as que mais eloquentemente perduram,
na toponímia fossilizada. Na toponímia da Península Ibérica, por exemplo, convergem
as raízes pré-romanas, com um substrato autóctone (iberos, celtas, celtiberos, tartésios e
vacções) ou colonizador (Fernandes, 2016, p. 494).
Os lugares e, consequentemente, os estudos toponímicos, têm profundidades temporais
diferentes, consoante os continentes e os países. No continente europeu e, particularmente,
em Portugal, os lugares remetem a tempos mais longínquos, obrigando a tentar descobrir
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

ligações de nomes a outros povos, que habitaram tais territórios (suevos, romanos, árabes
etc.). A similitude do caso brasileiro prende-se, fundamentalmente, à permanência, ou à
sobrevivência, de nomes indígenas. A este propósito, Jean-René Trichet observa:

Na Europa ocidental, a interpretação das camadas toponímicas da Antiguidade


é da alta Idade Média presta-se ainda a várias hipóteses. Em França, sabemos que
vários tipos de topónimos de origem galaco-romano ou germânico, que deram ori-
gem a vários milhares de nossos nomes de comunas atuais, têm muitas vezes como
radical um nome de pessoa. (...) trata-se então de uma especificidade das sociedades
tradicionais europeias, nas quais a marca precoce do território pela autoridade ad-
ministrativa, com um objetivo principalmente fiscal, tem relevo sobre uma outra ló-
gica que era a fixação indígena dos nomes dos lugares. (Trichet, 1998, p. 180-181)
18 //

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Num dos capítulos da sua geografia cultural, que intitulou Nomear os lugares, qualificar
os espaços, Paul Claval trata do “batismo dos lugares”:

Não é suficiente de se reconhecer e de se orientar. O explorador quer conservar


a memória das terras que ele descobre e de os fazer conhecer a todos; para falar dos
lugares ou dos meios, ele não tem outros meios de proceder senão o batismo do
terreno e a elaboração dum vocabulário próprio para qualificar as diversas facetas do
espaço (…) (Claval, 1995)

As sociedades sedentárias e organizadas têm necessidade duma toponímia fixa. As


relações complexas não são possíveis, se os indivíduos ou os grupos não podem ser loca-
lizados e se os encaminhamentos não podem ser guiados por referências bem visíveis, na
paisagem. O poder de se apropriar das terras faz colocar sob os registos, sob os planos ou
sob os mapas as coleções de nomes dos lugares.
A toponímia é um traço de cultura e uma herança cultural e é marcada, muitas vezes,
por um grande conservadorismo: guardam-se, através da história, os nomes antigos, os
quais se modificam, somente, acompanhando a evolução da língua: a propriedade de
Viucytorius, Victoriacum, para os Galaico-Romanos, permanece, segundo as regiões,
Vitrac, Vitry ou Vitré. Se o sentido original dos nomes dos lugares se perde, é papel da
toponímia linguística reencontrá-lo.
Os nomes mudam brutalmente, em todo um espaço, às vezes, pela instauração dum
novo poder ou por uma invasão ou pelo triunfo de novos modos – por exemplo, havia o
hábito, na Idade Média, de dar um prenome germânico aos lugares, o que tinha efeitos
sobre a toponímia. Um pouco mais tarde, as aldeias, muitas vezes, antigas, receberam
nomes de santos, o que parece levar a crer que são de origem medieval.
Do mesmo modo, aos nomes dos lugares juntam-se os regionalismos. Estes traduzem a me-

19 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


morização, pelo grupo, duma mudança de escala na percepção do espaço. “Temos a consciência
da recorrência sobre um certo entendimento das mesmas paisagens” (Claval, 1995, p. 384).

Metodologia: ensaio duma tipologia e procedimentos cartográficos

A metodologia, a base deste processo de pesquisa, é resultado de uma investigação ini-


cial, englobando as cidades do Rio Grande do Sul, confrontada com o conhecimento sobre
a temática, relativo a estudos já realizados em Portugal. Esta análise preliminar mostrou uma
dispersão tão grande de topônimos, que nos levou, em primeiro lugar, a tentar encontrar
uma sistematização relativa, perante os significados tão díspares, apresentados pelos lugares.

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A partir desta investigação preliminar, foi proposto um caminho, definido, aqui, como
um ensaio de tipologia. Ensaio, uma vez que, ao longo do processo, a proposta inicial
poderá ser modificada, ampliada ou reduzida, conforme as definições das interpretações,
em cada lugar e em cada sub-região de análise. A partir das considerações detalhadas e
apresentadas no próximo item, as nominações previamente analisadas foram colocadas em
grandes grupos, obedecendo a sugestões de identificações mais específicas.

Nome dos municípios: ensaio duma tipologia

A análise toponímica, baseada nos nomes dos municípios do estado do Rio Grande
do Sul, mostra uma grande dispersão de topônimos, que nos levou, em primeiro lugar,
a tentar promover uma sistematização, que melhor os organizasse, considerando seus
significados díspares. Deixando de lado aqueles, para os quais não se conseguiu encon-
trar um significado plausível ou para os quais foi difícil fazê-lo, procurou-se promover
uma sistematização em grupos fundamentais, donde, com naturalidade, se destacaram
alguns subgrupos:

I. Os que parecem envolvidos num suposto determinismo, remetendo a acidentes


morfológicos, além dos que emanam da natureza ou de certas especificidades lo-
cais (monte, vale, várzea etc.), bem como à formação incipiente do povoamento
primitivo (estância etc.);
II. A base conceptual e ideológica, cujos exemplos de nomes deixam transparecer
pontos de vista e expetativas dos primeiros colonos, tais como as de alcançarem
um paraíso na terra, de terem, finalmente, acesso à terra, alegria, felicidade e bem-
-estar, entre outras;
III. O importante papel da religião, que se manifesta na presença e na ligação com a
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Igreja, através da prevalência dos nomes da região das Missões e a frequência com
que foram atribuídos nomes de santos aos lugares.

Com base nestes pressupostos, foi lançado um primeiro olhar sobre o nome das cidades
do estado do Rio Grande do Sul, em que foram privilegiadas três coordenadas principais:

1. Toponímia e matriz identitária, que inclui os nomes dos lugares, que remetem a
uma matriz primordial, inicial, ou a certos qualificativos identitários;
2. Rotas do povoamento primordial, que engloba os nomes dos lugares, que, de certa
forma, revelam a génese do povoamento e o processo de colonização, através do
nome de pessoas, de santos, de lugares portugueses ou datas históricas;
20 //

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3. Condições naturais, particularidades e especificidades locais, agregando nomes de lu-
gares, relacionados à biogeografia local, com as condições biogeográficas locais,
com a água ou com acidentes morfológicos.

Cabe observar que no presente trabalho, especificamente, serão analisados dados par-
ciais de um projeto em andamento, referentes aos itens Toponímia e matriz identitária e
Rotas do povoamento primordial. O item Condições naturais, particularidades e especificidades
locais terá uma análise mais específica e constituirá outro texto analítico.

Procedimentos cartográficos

Os procedimentos, para a elaboração dos mapas cartográficos, que fundamentam essa


investigação, estão embasados nas seguintes etapas:
1) Classificação das Toponímias e vinculação dos resultados à base cartográfica dos
municípios do Rio Grande do Sul;
2) Vetorização das bases cartográficas de regiões fisiográficas, das unidades geomorfo-
lógicas e da vegetação original, relativas ao estado;
3) Composição dos mapas, com a sobreposição das bases cartográficas: mesorregiões,
regiões fisiográficas, unidades geomorfológicas e vegetação original.

Após a classificação das toponímias dos municípios do Rio Grande do Sul, Brasil,
construída, a partir de pesquisa bibliográfica minuciosa, vinculou-se os resultados das clas-
sificações à base vetorial dos municípios do Rio Grande do Sul (IBGE, 2018), possibilitando
a segmentação das toponímias, conforme sua origem e classificação.
A vetorização dos mapas foi realizada com o auxílio do software ArcGis para as bases
cartográficas não encontradas, durante as etapas de pesquisa e de aquisição de dados

21 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


cartográficos, quais sejam:
– Regiões fisiográficas (UFSM/SEMA-RS, 2001);
– Unidades geomorfológicas (CEPSRM/UFRGS, 2001);
– Vegetação original (Secretária da Agricultura (SA)/DGC, 1983).

Para a composição dos mapas, foi utilizado o software Quantum Gis (QGis), com
quatro sobreposições:
– Mesorregiões (IBGE, 2018);
– Base adaptada/vetorizada de regiões fisiográficas (UFMS/SEMA-RS, 2001);
– Base adaptada/vetorizada das unidades geomorfológicas (CEPSRM/UFRGS, 2001);
– Base adaptada/vetorizada de vegetação original (Secretária da Agricultura – SA/DGC, 1983).

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Para cada base cartográfica foram feitos oito mapas, conforme a origem, a classificação
e a segmentação das toponímias, atribuídas na primeira parte do trabalho de mapeamento.
Esses mapas são aqui apresentados, consoante à análise, que se pretendeu realizar.

A toponímia do Rio Grande do Sul: identidade, processo


de colonização, condições naturais

Cada mapa que gravo na minha mente conduz-me a uma terra


imaginada. (…) Abandonar o lugar que amamos significa que ficamos
condenados a conviver com a nossa perda para sempre. (…) Enquanto
trabalhava pacientemente no seu mappa mundi ao longo dos anos, come-
çou a perceber o poder que os acontecimentos invisíveis têm de mudar o
curso da história. O que ele deixou claramente de mencionar, todavia,
embora essa noção se insira no seu texto até hoje, foi a ideia de uma
geografia invisível afectando a maneira como vemos os lugares.
James Cowan, O sonho do cartógrafo

Enquadramento geral: comentário e alguns apontamentos

A panóplia de nomes de lugares, com que nos deparamos, sem deixar de levar em
consideração os pressupostos enunciados, obrigou a uma análise mais fina e à definição
duma grelha mais apertada, para se proceder à análise. Este minucioso trabalho conduziu
à criação da forma de análise utilizada neste trabalho e que se passa a apresentar.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

1. Toponímia e matriz identitária: inclui os nomes de lugares, que remetem a uma


matriz primordial, inicial, ou a certos qualificativos identitários. Em muitos casos,
estamos perante um modo incipiente de povoamento, na sua formação primitiva,
primordial, cuja génese correspondeu a diferentes fases do processo de colonização.
Destacamos, como subgrupos: 1.1. Nome indígena; 1.2. Missão, pelo papel que
os missionários tiveram, em dado momento; 1.3. Sul, além de apontar para uma
referência matricial, revela a importância da Geografia; 1.4. Estrela/constelação;
2. Rotas do povoamento primordial: os nomes de alguns lugares revelam, de maneira
impressiva, a génese do povoamento e o processo de colonização do Rio Grande
do Sul, seja pela ocorrência de nomes de pessoas, de nomes de santos ou de nomes
de lugares portugueses, seja pela utilização de uma data histórica. Encontramos,
22 //

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ainda, nomes de lugares, associados a elementos fundamentais do povoamento
primordial (igreja, casa, fazenda, estância, vila etc.), à expetativa dos imigrantes,
que vinham em busca de redenção ou de encontrar o paraíso na terra (alegria,
redenção, encantamento, etc.) ou nomes, que remetem aos países de proveniência
dos emigrantes. Neste domínio, foram criados os seguintes subgrupos: 2.1. Elementos
fundamentais do povoamento primordial (igreja, casa, fazenda, estância, vila, etc.);
2.2. Nomes que se podem associar às expectativas dos colonos de encontrar a terra
da redenção, o paraíso (alegria, paraíso, etc.); 2.3. Antroponímia, nome associados
a pessoas (barões, bandeirantes, políticos, imigrantes, colonizadores, tropeiros, líderes
indígenas etc.); 2.4. Nome de santos; 2.5. Nome de lugares portugueses (da Portugal
continental); 2.6. Nomes da Imigração, que remetem à colonização, por imigrantes
provenientes de alguns países específicos; 2.7. Datas históricas.
3. Condições naturais, particularidades e especificidades locais: um número significativo
de lugares está relacionado à biogeografia local, quando coincidem com animais ou
com plantas, ou com as condições biogeográficas locais, em que se destacaram três
tipologias: (i) mato; (ii) condições biogeográficas locais: pinhal, coqueiral, mata;
(iii) campina, sertão, gramado. Os nomes relacionados à água foram agrupados
em três classes: (i) continental: rio, cachoeira, arroio, passo, ponte, lagoa, pântano;
(ii) porto; (iii) barra. Foram destacados, ainda, os nomes relacionados a acidentes
morfológicos (monte, morro, morrinho, vale, serra, planalto, cerro, chapada)
ou à Geologia (rocha, lajeado). Em algumas situações, as condições naturais,
bem como as particularidades e especificidades locais inerentes, que compõem
os nomes dos lugares transparecem e identificam um inequívoco sentimento
topofílico. Os subgrupos constituídos são os seguintes: 3.1. Biogeografia: ani-
mais; 3.2. Biogeografia: plantas; 3.3. Condições biogeográficas locais: mato;
3.4. Condições biogeográficas locais: pinhal, coqueiral, mata; 3.5. Condições

23 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


biogeográficas locais: campina, sertão, gramado; 3.6. Hidrotoponímia: rio, ca-
choeira, arroio, passo, ponte, lagoa, pântano; 3.7. Hidrotoponímia: porto;
3.8. Hidrotoponímia: barra; 3.9. Acidentes morfológicos: monte, morro, morrinho,
vale, serra, planalto, cerro, chapada; 3.10. Geologia: rocha, lajeado.

Após a classificação, uma primeira análise nos remete, em termos de quantidade, ao


Quadro 1, que apresenta a distribuição quantitativa dos nomes dos municípios, conside-
rando a classificação adotada. No total, foram levantadas informações para 495 municípios
do estado. Com base nesses dados, é possível observar que há uma distribuição, em certa
medida, equilibrada, entre as classes de topônimos. Entretanto, são destacáveis, no grupo
Toponímia e matriz identitária, o subgrupo Nome indígena, presente em 94 municípios;

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e a identificação Sul, presente em 49 municípios. No grupo Rotas do povoamento
primordial, o destaque é para Nome de pessoas (99), seguido de Nome de santos (66).
No grupo Condições naturais locais, os elementos constituintes da hidrotoponímia (62)
e a indicação de nome de plantas e de acidentes morfológicos (41) são os mais presentes.

Quadro 1. Número de nomes de municípios segundo


as classes de tipologias consideradas

Tipologias de nomes de lugares Nº

1. Toponímia e matriz identitária  


1.1. Nome Indígena 94
1.2. Missão 11
1.3. Sul 49
1.4. Estrela 2
   
2. Rotas do povoamento primordial  
2.1. Elementos fundamentais do povoamento primordial 39
2.2. O paraíso na terra 31
2.3. Nome de pessoas (Antroponimia) 99
2.4. Nome de santos 66
2.5. Nome de lugar portugueses 4
2.6. Imigração 22
2.7. Nome de data histórica 9
   
3. Condições naturais locais  
3.1. Biogeografia: animais 18
3.2. Biogeografia: plantas 41
3.3. Condições biogeográficas: mato 12
3.4. Condições biogeográficas: pinhal, coqueiral, mata 13
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

3.5. Condições biogeográficas: campina, sertão, gramado 16


3.6. Hidrotoponimia: Rio, Cachoeira, Arroio, Lagoa,… 62
3.7. Hidrotoponimia: Porto 1
3.8. Hidrotoponimia: Barra 7
3.9. Acidentes morfológicos: Monte, Vale, Serra 41
3.10. Geologia: Rocha, Lageado 23
   
0. sem atributo 4

Total Municípios 495

Fonte: elaborado pelos autores (2019)


24 //

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O Quadro 2 apresenta, em maior detalhamento, o quantitativo das indicações Sul e
Nome indígena. Em relação ao indicativo Sul (49), agregado ao Nome de santos, tem-
-se 15 topônimos (São Vicente do Sul, São Pedro do Sul etc.), seguido de topônimos,
que indicam demanda de terra e redenção (9) (Boa Vista do Buricá, Alto Feliz, etc.). Os
topônimos indígenas expressam uma relação muito forte com os constituintes naturais,
sobretudo, os vinculados às plantas (21), à água (17) e a animais (16).

Quadro 2. Número de nomes de municípios, segundo as classes de tipologias


consideradas, em que aparece a palavra Sul ou são topônimos indígenas

Nomes indí-
Tipologias (incluindo subgrupos) Sul (49)
genas (94)
     
1. Toponímia e matriz identitária    
1.1. Nome Indígena 6  
1.2. Missão    
     
2. Rotas do povoamento primordial    
2.1. Elementos fundamentais do povoamento primordial: 1 8
2.2. O paraíso na terra: em demanda da terra da redenção 9  
2.3. Antroponimia: nome de pessoas 1 8
2.4. Nome de santos 15 5
2.5. Nome de lugar portugueses 1  
2.6. Imigração 3  
2.7. Nome de data histórica 2  
     
3. Condições naturais locais    
3.1. Biogeografia: animais   16
3.2. Biogeografia: plantas 2 21
3.3. Condições biogeográficas locais: mato   4

25 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


3.4. Condições biogeográficas locais: pinhal, coqueiral, mata 2  
3.5. Condições biogeográficas locais: campina, sertão, gramado 1 3
3.7. Rio, Cachoeira, Arroio, Passo, Ponte, Lagoa, Pantano 2 17
3.8. Porto    
3.9. Barra   1
3.9. Acidentes morfológicos: Monte, Vale, Serra, Planalto 3 6
3.10. Geologia: Rocha, Lageado 3 5
  49 94

Fonte: elaborado pelos autores (2019)

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Importa considerar que levamos em consideração, apenas, os nomes dos municípios,
sem termos descido de escala, isto é, sem fazer uma análise mais pormenorizada da micro-
toponímia de dado lugar. Tomando a escala do lugar como referência, por exemplo, para
o município de Quaraí, num rápido levantamento dos topônimos locais, essa afirmativa
se verifica, isto é, as localidades do município são nominadas com a mesma lógica do en-
saio de classificação deste trabalho. Eis os exemplos: Cerro do Jarau, Salamanca do Jarau,
Coxilha de Santana, Sanga do Cerpa, Rincão da Serra, Saladeiro, Passo da Guarda, Sanga
da Areia, Areal, Japeju, Cati, entre outros.
O município de Quaraí, localizado à margem direita do rio de mesmo nome, na fron-
teira com o Uruguai, observa-se uma forte influência de termos originários do espanhol,
identificados em palavras, como: cerro, coxilha, Salamanca, saladeiro, etc. Da mesma
forma, ocorrem denominações indígenas (Jarau, Japeju, Catí), indicativos de nomes de
santos (Coxilha de São Miguel, São Diogo) e de nomes de pessoas (Jardim (sobrenome),
Soares Andreia, Sanga do Cerpa), apenas para citar alguns dos topônimos do município.
Este tipo de análise constitui outro aspeto igualmente interessante, a desenvolver, futuramente,
no âmbito de alguns estudos de caso.

Interessantemente, em uma escala maior, o mesmo princípio pode ser observado. Se


nos detivermos nas mesorregiões, os nomes atribuídos a estas unidades administrativas
replicam o que temos vindo a enunciar: Serra e Litoral (Serras de Sudeste, Litoral Lagunar)
e Campanha (Campanha Ocidental, Campanha Central, Campanha Meridional), de-
notando a importância da região na paisagem e na identidade estadual, além da forte
influência da Geografia na definição das coordenadas do Rio Grande do Sul (Nordeste Rio-
-Grandense, Noroeste Rio-Grandense, Sudoeste Rio-Grandense, Sudeste Rio-Grandense,
Centro Ocidental Rio-Grandense, Centro Oriental Rio-Grandense).
Os quadros apresentados mostram as principais tipologias criadas, os grupos e os sub-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

grupos definidos, para enquadrar a generalidade dos nomes das cidades das diferentes
mesorregiões administrativas do Rio Grande do Sul. Cada tipologia, individualmente ou
com outras, que lhe sejam afins, originaram mapas, que nos permitem analisar a dispersão
geográfica dos nomes das cidades.
Importa salientar, desde já, que há uma maior concentração de referências no Norte do
estado, devido aos processos de ocupação e de dimensionamento das propriedades: de maior
extensão, ao Sul (área de ocupação portuguesa, dividida em sesmarias, após o encerramento
dos conflitos com a coroa espanhola) e de pequenas propriedades, ao Norte, tendo recebido
os camponeses, provenientes das colonizações alemã (1825) e italiana (1875). Tais processos
geraram menor concentração de população, ao Sul, e maior concentração, ao Norte, e, con-
sequentemente, uma significativa concentração de cidades, na porção setentrional do estado.
26 //

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Toponímia e matriz identitária; a substituição de nomes indígenas por
nomes portugueses

O primeiro grupo foi constituído, relacionando nomes, que nos remetam à matriz
identitária do estado. Neste grupo foram incluídos os lugares com nomes indígenas e os
lugares com nomes compostos, que trazem missões ou Sul, associados a um nome principal
(Salvador das Missões ou S. Pedro do Sul, etc.).
Entre os topônimos que remetem à matriz primordial, que podemos considerar qua-
lificativos identitários, acabam por destacar, desde logo, três dimensões: a cultural (nomes
indígenas), a histórica (Missões) e a geográfica (Sul). Neste grupo, foram privilegiados os
nomes de lugares, que fazem referências identitárias, de cariz diferente, quais sejam: nomes
indígenas ‒ implicando uma reflexão, a respeito de como tais designações sobreviveram,
até à atualidade ‒, Missões e Sul.

Nomes indígenas

Os nomes indígenas podem ser considerados primordiais, originais, como acontece


nas regiões de todas as latitudes, em que tanto podem prevalecer como serem adaptados1.
Em Portugal, por exemplo, subsistem muitos nomes de lugares, cuja raiz denota a ascen-
dência de outros povos e de outras culturas, os quais ocuparam e, em dado momento,
colonizaram o atual território português. Algarve e Almeida são nomes de ascendência
árabe, exemplares dessa condição.
Os nomes indígenas estão distribuídos por todo o território do Rio Grande do Sul,
o que é indicativo de suas existências primordiais, embora diferentes grupos ocupassem

Muitos nomes índigenas foram substituídos por nomes portugueses, uma dentre várias medidas implementadas 27 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
1

nas sucessivas reformas administrativas impostas à colônia da América, de que se podem destacar: a transfe-
rência da sede do Governo Geral do Estado do Brasil, de Salvador para o Rio de Janeiro (1763); a extinção do
estado do Grão-Pará e Maranhão e sua incorporação ao Brasil (1772); e a incorporação das antigas capitanias
de Ilhéus, de Porto Seguro e de Espírito Santo à da Bahia (1750). Anos mais tarde, em 30 de abril de 1763, o
Marquês de Pombal havia de elaborar um documento, composto de 18 instruções, que continha as diretrizes
fundamentais, para a criação e para a gestão do território colonial. A instrução de número 17 tratava da necessi-
dade de transformar as aldeias em vilas e, também, de estimular o descimento de novos contingentes de índios
dos sertões, para a fundação de novas vilas, que deveriam adotar nomes de cidades e de vilas de Portugal: “17.
Ordena também S. Magestade que assim naquellas povoaçoens chamadas Aldeyas que já estão domesticadas,
como nas que de novo se estabelecerem com índios descidos; logo que estes se descerem no competente nu-
mero, se vão estabelecendo novas Villas e se vão abolindo nellas os bárbaros e antigos nomes que tiverem; e se
lhes vão impondo alguns outros novos de cidades e villas deste Reino” (RIGHB, 1916, p. 63). Como resultado
deste expediente, foram criadas outras seis vilas de índios, em Porto Seguro: Belmonte (1764), São Mateus
(1764), Prado (1765), Viçosa (1768), Porto Alegre (1769) e Alcobaça (1772).

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diferentes áreas. Algumas toponímias, analisadas em maior detalhe, permitem avaliar e
reconhecer esses diferentes grupos, por exemplo, os (Jê) Kaingang (ao norte), os Tupi-
-Guarani (ao norte e ao centro) e os Tapes (originários dos Guarani) (em parte do litoral,
a oeste da Laguna dos Patos, na Serra dos Tapes, entre outros).
O número de topônimos indígenas não representa a denominação inicial, entretanto.
Muitos foram substituídos por outras denominações, ao longo do processo de ocupa-
ção do estado, seja no período da conquista, seja no período de colonização, estimulado
pela monarquia, seja, mesmo, na continuidade, com o processo migratório interno e, em
menor escala, externo. Conforme indicamos, são inúmeras as cidades, que permanecem
com o topônimo indígena, no estado do Rio Grande do Sul.
Ainda que, ao analisarmos a história individual de cada espaço ocupado, seja possível
perceber a troca de nome ou a substituição de nomes indígenas por nomes de pessoas
vinculadas aos colonizadores espanhóis e/ou portugueses da origem da ocupação. Ocorre,
também, a substituição dos topônimos originários por nomes de lideranças políticas locais,
por vezes, associadas à ocupação, via migração alemã e/ou italiana. São exemplos de nomes
indígenas preservados: Aratiba, Capivari do Sul, Carazinho, Erechim, Humaitá, Jaguarão,
Pelotas, Pirapó, Piratini, Tramandaí, Sananduva etc.
A Figura 1 traz o mapa da matriz identitária do estado do RS. Tal matriz é identificada
por três categorias: indígenas, missões e Sul (que consta da Figura 2).
Tomando como referência, inicialmente, a toponímia indígena, o mapa expressa uma
distribuição relativamente geral de municípios, ou seja, os indígenas, população original
deste espaço e que constituía três grandes grupos: jês, tupis-guaranis e pampianos, habi-
tavam amplamente o território. Enquanto os dois primeiros grupos habitavam o centro e
o norte (zona de mato) e o litoral do estado, os pampianos habitavam a parte sul. Os jês
e os tupis-guaranis viviam da coleta, da pesca e da agricultura, enquanto os pampianos
eram nômades e viviam da caça e da coleta. É possível que o nomadismo dos pampianos,
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

pelos territórios do Prata, e pelo menor contingente, em relação à população dos outros
dois grupos, não tenha favorecido à criação de grande número de núcleos populacionais,
comparativamente às regiões centro, norte e litoral, nas quais os grupos Jê e Tupi-Guarani
predominavam, em termos populacionais. Estes viviam em aldeias familiares, portanto,
gerando lugares de moradia, que constituíram pontos iniciais de ocupação.
Importa relembrar que, se olharmos o território com maior detalhamento espacial (na
microescala), a presença de topônimos indígenas é significativa, em toda a sua extensão.
Morros, serras, rios, espécies vegetais e animais têm vínculo muito forte com a população
indígena, seja no RS, seja em território brasileiro.
Cabe fazer referência, como um constituinte fundamental dessa condição indígena,
o aldeamento, em especial, dos indivíduos do grupo Tupi-Guarani, nas missões jesuíticas
28 //

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espanholas (NW do estado). Estas missões, aldeando esse grupo indígena, favoreceram à
criação de cidades e ao uso do topônimo Nomes de santos.
O mapa da Figura 1 expressa bem essa distribuição, mostrando a dispersão de topô-
nimos indígenas, em todo o território gaúcho, enquanto a concentração de cidades com
denominação Missões, à NW do estado, indica menor dispersão e registra a área de domínio
espanhol, no território do RS.

Figura 1. Mapa da toponímia e da matriz identitária dos municípios do RS,


a partir das categorias Nome indígena e Missões

29 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Fonte: elaborado por Borges Neto (2020), com base em CDC e IBGE

Missões

Esta classe, embora integre um número relativamente reduzido de lugares, foi criada,
pelo seu significado histórico e pelas repercussões, dentro do processo de ocupação do ter-
ritório do RS. A classe integra o nome de lugares, como: Salvador das Missões, São Paulo
das Missões, Santo Antônio das Missões, São Miguel das Missões, São José das Missões,
São Pedro das Missões, Palmeira das Missões, Dois Irmãos das Missões.

iberografias40.indb 29 23-03-2021 17:57:06


Contudo, as cidades que constituíram originariamente os Sete Povos das Missões
acabaram por ser integradas noutras categorias (Nomes de santos), pelos nomes que
assumem, designadamente: São Francisco de Borja, São Luiz Gonzaga, São Nicolau,
São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, Santo Ângelo Custódio.
Importa levar em consideração que as terras, que, hoje, constituem o estado do RS/
/Brasil, foram, desde os anos de 1600, espaços de conflito e de lutas por domínio ter-
ritorial. As missões jesuíticas, que promoveram o aldeamento de indígenas de origem
espanhola (expansão política via credo), viveram conflitos, até os jesuítas serem expul-
sos, pelos bandeirantes e pelos lusos, quando da passagem dessas terras para domínio do
Império português. Sete Povos das Missões (1682) ou Missões Orientais é o nome do
aldeamento de indígenas, fundado pelos jesuítas espanhóis, na Região do Rio Grande
de São Pedro, atual Rio Grande do Sul. As cidades atuais, que, em parte, correspondem
aos sete primeiros núcleos, apresentam nomes de santos e se localizam a NW do estado,
na região histórica, que dá o nome a uma das regiões fisiográficas mais antigas da divisão
regional do RS.
A presença marcante das missões nessa parcela do estado, observável, até hoje,
na paisagem, enquanto patrimônio histórico, através de suas ruínas (Ruínas de São
Miguel), fez com que essa antiga divisão regional do estado fosse a única a não receber
denominação fisiográfica (de acidentes naturais). Até hoje, os moradores locais se
denominam missioneiros.

Sul

A importância da Geografia na afirmação da identidade sulista começa, por estar pre-


sente no nome das mesorregiões. Nesse sentido, para além das toponímias categorizadas,
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

destaca-se a denominação das mesorregiões administrativas, que constituem uma das bases
regionais de análise desta classificação. As denominações revelam a origem toponímica,
vinculada ao nome do estado e à posição geográfica. São elas: Nordeste Rio-Grandense,
Noroeste Rio-Grandense, Sudoeste Rio-Grandense, Sudeste Rio-Grandense, Centro
Ocidental Rio-Grandense, Centro Oriental Rio-Grandense. A toponímia Campanha,
provavelmente, foi introduzida pelos espanhóis, para designar extensas áreas de campo e de
relevo relativamente pouco acidentado. São exemplos: Campanha Ocidental, Campanha
Central, Campanha Meridional.
30 //

iberografias40.indb 30 23-03-2021 17:57:07


Figura 2. Mapa da toponímia e da matriz identitária dos municípios do RS,
a partir das categorias Sul e Estrela

Fonte: elaborado por Borges Neto (2020), com base em CDC e IBGE

A Campanha compreende grandes extensões, ao sul do Rio Grande do Sul, com domí-
nio dos campos e das terras baixas, espaços de ocupação primordialmente indígena ‒ pam-
pianos. Estes eram identificados, mais especificamente, em dois grupos: o dos Charruas,
que habitava os campos dos atuais territórios do Uruguai, do nordeste da Argentina (es- 31 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
pecialmente, na Província de Entre Rios) e do sul do Rio Grande do Sul, no Brasil; e o
grupo dos Minuanos, que habitava os campos do sul do estado do Rio Grande do Sul,
bem como o Uruguai. Esta etnia empresta o nome ao forte vento Sudoeste, dominante
na Campanha do RS. Trata-se de um vento muito frio, que sopra do Sul do continente e
atinge o Rio Grande do Sul, após passagem de frentes frias ou em períodos chuvosos do
inverno ‒ Vento Minuano.

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Serras do Sudeste

O topônimo Serras de Sudeste diz respeito a um dos grandes compartimentos de rele-


vo da geomorfologia do estado, que se constitui de rochas do embasamento (ex.: granitos),
localizado a SE, em contato com o litoral, à leste. Empresta o nome para a divisão regional
de caráter fisiográfico, que constitui outra base de análise utilizada nesta pesquisa.
Destacam-se, ainda, os topônimos Litoral, associado à morfologia de contato entre o
continente e o mar, que, no caso do RS, se expressa como uma grande extensão de praia,
do norte ao sul do estado; e lagunar, área com presença de lagunas, feições hidrológicas,
que apresentam um canal de contato direto com o mar. Estas são constituídas de água
salobra ou salgada, uma vez que recebem a influência de retorno das águas do mar, através
do vento Sul, que adentra o canal de desembocadura.
O sul do Brasil expressa um processo de ocupação e de colonização diferenciado do
do restante do país, tendo sido ocupado, mais precisamente, após os anos 1700. Antes,
foi palco de conflitos entre povos indígenas, espanhóis e portugueses, pela posse da terra.
Destacam-se, nesta constituição, os açorianos, cujo legado é evidenciado na arquitetura,
na dança e na alimentação. Decorrente deste cruzamento étnico, acrescido do negro (es-
cravo), a identidade sulina se diferencia e se estende, para além da fronteira do Rio Grande
do Sul. Essa constituição étnica é denominada gaúcho e o território cultural gaúcho se
estende pelo Uruguai e por parte da Argentina.
Em relação ao RS, o gaúcho é, originalmente, o habitante do sul do estado (centro sul),
da região da Campanha (Pampa), domínio da vegetação de campo, das terras baixas
(coxilhas), da grande propriedade e da criação de gado de forma extensiva, na origem, em-
bora, hoje, outras características possam ser agregadas. A identidade sulista tem a sua cons-
tituição, em certa medida, no gaúcho. Agregam essa identidade os povos, que migraram
para o estado no processo de ocupação: os açorianos, os alemães e os italianos, entre outros.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

A hegemonia política dos fazendeiros (criadores de gado), em tempos recuados, expande-


-se, como identidade gaúcha (sulina) e os habitantes do estado do RS, na sua totalidade,
assumem o gaúcho como adjetivo gentílico. Essa identidade sulista pode estar revelada na
toponímia, mas, também, na denominação sul, que tem a ver com o seu nome, em relação
a uma outra cidade/irmã, ao norte. O próprio nome do estado serve de exemplo, pois,
conta-se, surgiu de um erro cartográfico: o nome teria vindo de um vilarejo, que demarcava
a área da foz do rio Grande, que não era uma foz, mas a lagoa (laguna) dos Patos2. Ou
seja, a origem do nome Rio Grande corresponde à barra da laguna dos Patos, reconhecida,

Dados obtidos do sítio: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/que-rios-inspiraram-os-nomes-do-rio-grande-


2

-do-sul-rio-grande-do-norte-e-rio-de-janeiro/.
32 //

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pelos colonizadores, como Rio Grande ou Mar de Dentro, devido a sua extensão e a sua
localização geográfica, em relação ao território ‒ Sul3.
Entre os inúmeros nomes associados a Sul tem-se os nomes de santos. Estes nomes
revelam uma dupla associação: o hábito de dar às cidades um nome de Santo, em geral,
denominado padroeiro, e a identificação Sul, que expressa a sua posição, no território
brasileiro, dando-lhe identidade espacial4.

Cruzeiro do Sul e Estrela

Estrela e Cruzeiro do Sul remetem ao céu do Hemisfério Sul, identificadas no mapa da


Figura 2 pelo topônimo Estrela. Estrela é uma denominação, que indica a presença da lua cheia
refletida em uma lagoa, confundida, pelos primeiros habitantes, com uma estrela cadente,
pelo clarão da lua. Esta interpretação revela uma das características do céu nestas latitudes, por
exemplo, nos meses de março e de abril, extremamente limpo de nuvens no RS, constituindo
parte da identidade sulina. Da mesma forma, Cruzeiro do Sul remete à constelação presente
no Hemisfério Sul e visível, em noites estreladas, ou seja, em noites de céu limpo de nuvens.
O mapa da Figura 2 expressa a distribuição dos topônimos Sul e Estrela. Observando
a distribuição daquele, fica evidenciada a sua presença, relativamente uniforme, no estado.
Há uma concentração maior do topônimo Sul no centro/norte, dada a maior concen-
tração de cidades na região. Por outro lado, é provável que essas cidades tenham recebido
denominações Sul, por conta de suas conformações políticas mais recentes ‒ grande
número delas, nas décadas finais do século XX.

3
Tão grande e tão bonita, que parece um mar. Assim é a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, a maior lagoa da
América do Sul, com quase 300 quilômetros de comprimento. As águas, ora doces, ora salgadas, formam lindas
praias, enfeitadas por coqueiros e por figueiras centenárias – um cenário paradisíaco, ainda pouco conhecido do
grande público e, talvez por isso, preservado. O curioso é constatar que o Mar de Dentro, como é conhecida a lagoa, 33 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
não tem patos e, na verdade, nem é uma lagoa, como explica Álvaro Machado, biólogo e técnico da Divisão de
Planejamento da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul: “O nome da região é herança de uma tribo indígena
que habitava o Rio Grande do Sul no início da colonização da Brasil, e que se chamava ‘patos’. E a lagoa é, na reali-
dade, uma laguna, sistema que se caracteriza pela ligação com o mar, por meio de estuários. O que induz a entrada
de água na lagoa não é o jogo das marés, e, sim, a quantidade de chuva e o vento, que empurra a água vinda do
mar para dentro”. Dados obtidos do sítio: http://redeglobo.globo.com/globoecologia/noticia/2012/02/lagoa-dos-
-patos-paraiso-das-aguas-escondido-no-rio-grande-do-sul.html.
4
São exemplos: Santo Expedito do Sul, São Valério do Sul, Santa Cecília do Sul, São Domingos do Sul,
Santa Bárbara do Sul, Santa Clara do Sul, Encruzilhada do Sul, , São Valentim do Sul, São Valério do Sul,
São Vicente do Sul, Santa Margarida do Sul. Mas, há, também, indicações de Sul com outros topônimos, as-
sociados às diferentes classificações deste texto. São exemplos: Encruzilhada do Sul, Paraíso do Sul, Palmares
do Sul, Morrinhos do Sul, Monte Belo do Sul, Lavras do Sul, Itatiba do Sul, Ipiranga do Sul, Caçapava do
Sul, Cachoeira do Sul, Campina do Sul, Bom Retiro do Sul, Ametista do Sul, Benjamin Constant do Sul,
Almirante Tamandaré do Sul, Benjamin Constant do Sul.

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Ao norte do estado do RS, durante as décadas de 1980/1990, ocorreu um grande
número de emancipações administrativas. A titulo de exemplo, destacamos as cidades da
Messorregião Noroeste Riograndense (5), região do estado de ocupação recente (início dos
1900) e que, durante as últimas décadas do século, promoveu inúmeras emancipações.
Tais cidades adotaram o topônimo Sul, por identidade sulina ou por oposição, em rela-
ção a uma outra, homônima. São exemplos: Esperança do Sul (1963), Tiradentes do Sul
(1992), Cristal do Sul (1988), Ametista do Sul (1995), Taguaruçu do Sul (1988), Trindade
do Sul (1987), São Domingos do Sul (1987), Santa Cecília do Sul (1996), São Valério do
Sul (1992), Tupanci do Sul (1992), entre outras.
No mesmo mapa, aparece identificada, com o topônimo Estrela, uma única cidade, que
foi assim denominada, em decorrência de uma luminosidade, que, na realidade, provinha da
lua. Uma outra cidade poderá ser associada a esta toponímia, muito embora tenha sido ca-
tegorizada, nesta classificação, como Sul. Trata-se da cidade de Cruzeiro do Sul. Sua origem
data de 18 de abril 1896, no início da construção da Igreja Evangélica São Gabriel de Estrela.
O nome de São Gabriel da Estrela foi substituído por Cruzeiro do Sul, em 1939.
Este constitui mais um exemplo de categorização, que poderia expressar diferentes
origens toponímicas. Na sua origem histórica, Cruzeiro do Sul levava um nome de Santo,
mas a mudança da denominação original nos leva a classificá-la na categoria Estrela5.

Processo de colonização: rotas do povoamento primordial

Elementos fundamentais do povoamento


A igreja, a casa, a fazenda, a estância ou a vila são algumas palavras utilizadas, para
nomear certos lugares, que nos parecem indelevelmente ligadas a certas especificidades ou
a características, que estiveram presentes na fundação de alguns aglomerados populacio-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

nais6. O povoamento, no processo de formação socioespacial brasileira, já mencionado, se


estabelece, com as ocupações espanhola e portuguesa. Nesse sentido, os nomes de algumas
cidades indicam elementos fundamentais ao povoamento, a exemplo das denominações
fazenda, estância, vacaria, rodeio, engenho velho e charqueadas. Estes topônimos remetem
às ocupações portuguesa e espanhola e à economia do período.

5
Dados obtidos do sítio: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/riograndedosul/cruzeirodosul.pdf
6
É isto que nos faz lembrar os nomes de lugares como: (i) Capela de Santana, Igrejinha; (ii) Caseiros, Sede Nova,
Fazenda Vilanova, Inhacorá (grande fazenda), Pouso Novo, Portão, Estância Velha; (iii) Engenho Velho,
Barracão, Sobradinho, Vacaria, Rodeio Bonito, Charqueadas, Viadutos, Estação, Linha Nova, Ponte Preta,
Esteio, Ronda Alta, Paverama, Tapes, Estrela Velha, Vila Flores, Formigueiro, Charrua, Canoas, Fortaleza
dos Valos, Canudos do Vale, Quatro Irmãos, Tapera, Guarani das Missões, Aceguá, Caiçara.
34 //

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A conquista do sul do Brasil tem, na sua origem, a implantação do gado bovino, trazi-
do pelos espanhóis e deixado a ocupar grandes dimensões desse território, com a finalidade
estratégica de posse. Conflitos e tratados se sucederem, e Espanha, através do Tratado de
Santo Ildefonso (1777), confirmou o Tratado de Madri e devolveu à Portugal a ilha de
Santa Catarina, ficando à Espanha a Colônia de Sacramento e a região dos Sete Povos.
Apenas no Tratado de Badajoz, entre Portugal e Espanha, em 1801, que os Sete Povos das
Missões (missões jesuíticas, à NW do estado) serão incorporados, definitivamente, à coroa
portuguesa. O gado, abandonado, se desenvolve xucro, e vai constituir, a partir da distri-
buição de sesmarias e de datas aos portugueses, pelo governo Imperial, a base política e a
base econômica de sustentação do território de Rio Grande de São Pedro, identificado na
denominação, que se expressa na toponímia das vilas e das cidades originárias.
Da mesma forma, as denominações de igreja e/ou de casas era bastante comum. Aquele
que recebia uma sesmaria dava início a um assentamento local, construindo uma casa e uma
capela/igreja. O mapa da Figura 3 apresenta a distribuição dessa categoria, em quatro represen-
tações de divisão regional, incluindo divisões socioeconômicas mais atuais e divisões físicas, em
unidades de relevo, de vegetação original e de regiões fisiográficas. Analisando a distribuição,
em relação a essas delimitações, verifica-se que tal categoria está presente nas regiões Sudoeste
e Sudeste, as quais, por sua vez, do ponto de vista da divisão fisiográfica, estão presentes no
Litoral, na Campanha e na Serra do Sudeste e nas Missões, áreas de cobertura original,
predominantemente de campo, espaço de ocupação portuguesa, espanhola e açoriana.
Estão presentes, também, nas regiões fisiográficas Encosta Inferior do Nordeste e Planalto
Médio, que correspondem à depressão Central e às escarpas do Planalto, sobretudo, ao longo
do baixo Jacuí e de áreas próximas a Porto Alegre (ao norte), espaços ocupados por indígenas
e por portugueses. Um exemplo é o topônimo Sobradinho, ou seja, um sobrado, em uma
estrada entre Rio Pardo [e] Soledade, onde havia uma casa de comércio. O Sobrado, na época,
era ponto de referência para os tropeiros, que levavam gado de Rio Pardo para Soledade”.

35 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Outro exemplo é Ronda Alta, local de repouso e de ronda do gado, pelos tropeiros, vindos
das Missões, em direção a Sorocaba/SP. Um terceiro exemplo é Barracão, ponto de passagem
de tropeiros, em que foi construído um local de pernoite, denominado Barracão.
Na continuidade, também podem ser exemplificados os topônimos de origem, as-
sociados aos imigrantes alemães e italianos. Um dos exemplos é Linha Nova, povoado
originário de imigrantes alemães, que receberam terras, em torno de picadas ou linhas, a
partir da década de 1840. Sua primeira denominação foi o nome alemão ‘Neu Schneiss’,
traduzido para o atual nome, devido à campanha de nacionalização da ditadura varguista”
É um dos municípios, cuja emancipação ocorreu nos anos 1990 (março de 1992)7.

7
Dados obtidos dos sítios: http://www.linhanova.rs.gov.br/web/historia e https://pt.wikipedia.org/wiki/Linha_Nova.

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Um segundo exemplo de cidade de origem alemã é a do topônimo Igrejinha. Este
lugar, inicialmente habitado por índios caingangues, conhecidos, na região, pejorativa-
mente, como bugres, foi espaço de colonização de alemães, em 1847. O povoado, ini-
cialmente denominado de Santa Maria do Mundo Novo, virou ponto de referência, em
razão da forte influência da Igreja, em toda a região, onde os ensinamentos cristãos davam
o apoio necessário aos recém-chegados imigrantes. No entanto, o topônimo Igrejinha
resultou do fato desta localidade ser ponto de passagem de tropeiros (atual rodovia
RS-020), os quais, em suas incursões pelo povoamento, ao visualizar a pequena igreja,
a denominaram Igrejinha8. O fato interessante é que a religiosidade dos migrantes, ele-
mento fundante e de aglutinação, que serviu como motivo toponímico inicial, rendendo
à povoação um nome de Santo, cedeu espaço a uma denominação resultante de outro
elemento fundante, a designação histórica, dada por um grupo externo ao dos habitantes
do espaço, os tropeiros.

O paraíso na terra: em demanda da terra da redenção

Muitos imigrantes partiam para o Brasil com expetativas positivas, normalmente associa-
das à possibilidade de virem a possuir terras e, assim, obterem a autossuficiência da família.
Assim, quando alguém migra, em especial, no caso dos migrantes alemães e italianos
chegados ao Rio Grande do Sul, no século XIX, em busca de melhores condições de vida,
em relação à vida sob crise, vivida em seus países de origem, a nominação dos lugares
ocupados expressa um sentimento afetivo. Este sentimento foi devidamente analisado na
obra Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Um objetivo
central dessa obra é estudar os sentimentos de apego das pessoas ao ambiente natural ou
construído, pois topus é uma palavra grega, que significa lugar, enquanto filo significa
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

amor, amizade, afinidade. Colocando o conceito, Yu-Fu (1980) se propôs a encontrar os


elementos universais das percepções e dos valores sobre o ambiente, por vários caminhos,
como identificar as respostas psicológicas comuns a todas as pessoas (derivadas da evolu-
ção biológica e da estrutura básica do cérebro), e, depois, mostrar que os mesmos tipos de
respostas se manifestam na cultura dos povos. Vê-se isso, quando ele afirma que “a mente
humana parece estar adaptada para organizar os fenômenos [...] em pares de opostos”
(YU-FU, 1980) e, mais adiante, comenta que todas as culturas pensam os fenômenos por
oposições binárias entre macho e fêmea, terra e céu, montanha e mar etc.

8
Dados obtidos do sítio: https://igrejinha.portaldacidade.com/historia-de-igrejinha-rs.
36 //

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Figura 3. Mapa das rotas do povoamento primordial:
povoamento primordial e demanda da terra da redenção

Fonte: elaborado por Borges Neto (2020), com base em CDC e IBGE

Embora as expetativas quase nunca tenham sido plenamente alcançadas, o desejo inicial
era enorme. Não se sabe se é certo ou se existe uma relação inequívoca entre a ansiedade
dos imigrantes e os nomes que encontramos, em muitos lugares do Rio Grande do Sul.
Contudo, não deixa de ser expressivo o número relativamente elevado de lugares, cujos
nomes apelam a um notório sentimento de felicidade9. O mapa da Figura 3 revela a distri- 37 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
buição desses lugares. Frise-se que sempre há uma concentração maior desses topônimos,
ao Norte, em relação ao Sul, pelo maior número de cidades.
No entanto, caberia levantar outras possíveis interpretações, comparativamente, em rela-
ção ao sul. É ao norte do estado que os topônimos representativos de sentimentos de prazer,
em relação ao lugar, estão presentes, associados, em parte, às cidades de origem das migrações

9
Alegria, Feliz, Progresso ou Vitória são alguns dos lugares, que denunciam sentimentos positivos: (i) Alegria,
Alegrete, Feliz, Soledade, Harmonia, Alvorada, Nova Esperança do Sul, Esperança do Sul; (ii), Eldorado do
Sul, Paraíso do Sul, Progresso, Triunfo, Bom Retiro do Sul, Bom Princípio, Bom Progresso, Nova Petrópolis,
Vila Nova do Sul, Nova Alvorada; (iii), Vista Alegre, Boa Vista do Cadeado, Boa Vista do Incra, Nova Boa
Vista, Boa Vista do Sul, Boa Vista das Missões, Horizontina, Boa Vista do Buricá, Pejuçara, Xangri-lá.

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alemã e italiana. Neste caso, podemos pensar que esse sentimento fazia parte dos migrantes,
ao chegarem, ainda que as dificuldades relacionadas e as promessas não cumpridas, por par-
tes dos governantes, ou as dificuldades naturais tenham trazido muitos problemas iniciais.
Observando a região norte do estado nos mapas representados e estabelecendo uma
comparação entre as toponímias, podemos observar que há uma concentração de topôni-
mos na Mesorregião Metropolitana, área historicamente inicial de colonização de lusos,
de alemães e de italianos, e um posterior direcionamento para NW, eixo de ocupação do
território do RS, a partir do esgotamento de acesso à terra nas regiões fisiográficas Encosta
Inferior do Nordeste e Planalto Médio (áreas de ocupação inicial, por alemães, nos vales,
e por italianos, nas encostas da Serra). Igualmente, com a migração interna dos filhos
dos pioneiros alemães e italianos, majoritariamente, novos núcleos de cidades vão surgir,
de forma mais concentrada, a NW do estado. Esta é uma das últimas parcelas do terri-
tório gaúcho, ocupada por populações não originárias. Esta região compõe uma área do
Planalto Meridional, recoberta de mato (mata subtropical subcaducifolia), que constituiu
a antiga região fisiográfica denominada Alto Uruguai, cuja denominação expressa o espaço
drenado pelo fluxo das águas do rio Uruguai nas proximidades da confluência de outros
dois rios, que lhe dão origem (Canoas e Pelotas).
Tudo parece indicar que a categoria Demanda de terra e de redenção constituí um
topônimo vinculado, e com grande expressão, ao processo migratório. São exemplos, as
cidades denominadas Esperança do Sul, Progresso, Boa Vista das Missões, entre outras.

Nome de pessoas

A classificação em si não revela, como outros estudos toponímicos, realizados em ter-


ritório brasileiro, já haviam indicado, que a nominação atual de uma cidade não conta,
necessariamente, a totalidade de sua história. Os nomes das cidades são modificados e
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

muitas, se não a grande maioria, revelam esse processo, em estudos sobre as suas histórias
particulares. Vejamos os exemplos de Osório, de Caxias do Sul e de Frederico Westphalen.
O povoamento do território de Osório teve início, quando alguns casais açorianos, pro-
cedentes de Laguna, se estabeleceram no sopé da Serra do Mar, próximo ao litoral, em terras
pertencentes a Manuel Pereira Franco. O município foi criado, com território desmembra-
do do de Santo Antônio da Patrulha, sob a designação de Conceição do Arroio, pela Lei
Provincial nº 401, de 18 de dezembro de 1857. Em 1934, o município teve o nome mudado
para Osório, em homenagem ao grande vulto da história pátria, nascido na região10.

10
Dados obtidos dos sítios: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/riograndedosul/osorio.pdf e
https://caxias.rs.gov.br/cidade.
38 //

iberografias40.indb 38 23-03-2021 17:57:08


Por sua vez, Caxias do Sul tem sua origem, quando a região era percorrida por tro-
peiros, ocupada por índios e denominada Campo dos Bugres (denominação pejorativa,
dada aos índios, pelos colonizadores). A partir de 1875, ocorreu a ocupação italiana, de-
corrente do processo de imigração para o Sul do Brasil, estimulado pelo governo Imperial.
Após dois anos de ocupação, pelos imigrantes italianos, o nome original é substituído por
Colônia de Caxias, tornando-se Caxias do Sul, no início do século XX, em homenagem
ao Duque de Caxias11.
Embora essa indicação de origem, vinculada ao Duque de Caxias, seja a mais comumen-
te encontrada, nas referências sobre a toponímia da cidade, nesta classificação, adotou-se o
topônimo Nome de Lugar Português para Caxias. Este topônimo tem seu primeiro víncu-
lo ao território brasileiro, no século XVII, durante a invasão francesa do Maranhão. Neste
conflito, entre franceses, indígenas e portugueses, estes, que ocuparam o território mara-
nhense, pelo interior, após a expulsão dos franceses, substituíram muito dos nomes das
aldeias indígenas por nomes portugueses. Várias denominações foram dadas à cidade de
Caxias (MA), ao longo de sua história, dentre as quais: Guanaré (denominação indígena),
São José das Aldeias Altas, Arraial das Aldeias Altas, Vila de Cachias e, finalmente, Caxias.
Frederico Westphalen, político e agrimensor, virou um nome próprio, que expressa a
origem da ocupação do atual Município de Frederico Westphalen, vinculada à coloniza-
ção do alto Vale do Uruguai, por refugiados da Revolução Federalista e, posteriormente,
por população de origem italiana, migrada internamente, a partir das chamadas Colônias
Velhas (origem da ocupação ítalo-germânica do RS) para as Colônias Novas, vindas,
principalmente, de Caxias do Sul e de Guaporé.
Uma análise mais detalhada dos nomes das cidades incluídas neste grupo permite con-
cluir que as suas designações apontam para pessoas de vivências aparentemente normais12,
pessoas com destaque social ou político13, pessoas que ocuparam cargos militares14. Outros
nomes de pessoas, que encontramos, a denominar alguns lugares, revelam, ainda, outros

39 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


aspetos marcantes da realidade socioespacial do Rio Grande do Sul, englobando pessoas
imigradas, de várias proveniências15, ou nomes de indígenas16.

11
Dados obtidos do sítio: https://caxias.rs.gov.br/cidade.
12
Cândido Godói, Carlos Gomes, Carlos Barbosa, Constantina, Vicente Dutra, Floriano Peixoto, Marcelino
Ramos, Mariano Moro, Paulo Bento, Severiano de Almeida, Paim Filho, Maximiliano de Almeida,
Machadinho, São Sepé, Novo Cabrais, Ciríaco, Osório.
13
Barão de Cotegipe, Dr. Maurício Cardoso, Getúlio Vargas.
14
Capitão, Almirante, Tamandaré do Sul, Tenente Portela.
15
Alemanha (Selbach, Nova Hartz, Brochier, Frederico Westphalen), Itália (Bozano, Chiapetta, Muliterno,
Vanini) ou outras proveniências (Roque Gonzales, Barros Cassal).
16
Ajuricaba (pessoa amável), Cacequi, Cacique Doble, Marau, Nonoai, Pareci Novo, Miraguaí, Parabé, Bagé.

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Nome de santos

Os nomes de cidades associados a santos remetem, de um lado, à ocupação espanhola


e portuguesa, de tradição católica, representada, no estado, pela presença dos Jesuítas,
que tinham como meta catequisar a população nativa (indígenas), tornando-os cristãos
e, com isso, desconstruir os pilares de suas sociedades originárias, e de outro lado, à forte
colonização italiana, cujo início ocorre, por volta de 1875. Estas comunidades também
apresentavam uma forte religiosidade católica, dado o seu país de origem.

Figura 4. Mapa de povoamento e antroponímia: nomes de pessoas e nomes de santos


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fonte: elaborado por Borges Neto (2020), com base em CDC e IBGE

Os colonizadores, sejam eles espanhóis, portugueses, alemães e italianos, populações


que constituem a base da formação da população do estado, na constituição de vilas, de vi-
larejos ou de freguesias portuguesas, geralmente, erguiam uma capela, como marco inicial
de ocupação do espaço, e seu nome era associado a um santo de devoção da comunidade
ou, mesmo, da liderança local.
A importância da igreja teria induzido à escolha de um nome de Santo, para um
elevado número de lugares, que foi agrupado numa outra tipologia, a ser analisada mais
40 //

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adiante. Contudo, a enorme proliferação de topônimos com nomes de santos não pode ser
interpretada, em absoluto, como efeito gerado pelo credo religioso, que esteve por detrás
do papel das missões (Dick, 1990)17.
As cidades incluídas neste grupo, com nome direto de um santo ou afim18, remetem,
de maneira geral, à origem da ocupação, associada a disputas entre as coroas portuguesa
e espanhola. São exemplos as cidades das missões jesuíticas: Santa Rosa, Santo Ângelo,
São Borja, ou à colonização portuguesa: Santiago, Santa Maria, Cruz Alta, São Jerônimo
e Soledade. Uma especificidade diz respeito a cidade de Santa Cruz, que surge de uma
concessão pelo “governo da Província em 1847, de uma sesmaria, onde, posteriormente,
foram demarcados os primeiros lotes, na Picada ou Linha Santa Cruz (antigo rincão de
Santo Antônio), destinados a imigrantes alemães”19.
Importa referir, ainda, duas curiosidades: o reduzido nome de lugares, cuja devoção é
dedicada a uma santa20, e, se a atribuição do nome se reveste de algum significado, ligado
à chegada ao lugar, como aconteceu com a descoberta das ilhas, por exemplo, ou ao ciclo
litúrgico anual. Por vezes, em relação ao nome de Santo de devoção, o vínculo é de uma
pessoa da família de moradores iniciais. Santo Antônio da Patrulha, por exemplo, é um to-
pônimo, cujo nome de santo foi dado pelo casal de fundadores, ao criar a igreja. Por outro
lado, Patrulha corresponde ao local de controle da circulação e de cobrança de impostos
sobre gado/rebanhos, vindos da Campanha, em direção à São Paulo e a Minas Gerais.

Rotas do povoamento primordial: nomes de lugares portugueses,


da imigração e datas históricas

Entre os nomes de cidades, que remetem a um povoamento inicial, nessa lenta sedimenta-
ção histórica e cultural de povos e de culturas, que se foram sobrepondo ou justapondo, ressal-
tamos duas coordenadas de interpretação: nomes de lugares portugueses e nomes da imigração.
41 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
No caso de nomes de lugares análogos aos nomes portugueses, cidades como Porto
Alegre, Braga, São Pedro do Sul e Caxias (do Sul) podem evidenciar sua origem portuguesa, pois
têm correlação direta com lugares do Continente de Portugal. É curioso não aparecerem
vários nomes de lugares, que remetam à região portuguesa dos Açores, pelo importante

17
Santo Ângelo, Santo Augusto, São Luiz Gonzaga, São Nicolau, São Valentim, São José do Ouro, São Jorge,
São Francisco de Paula, São José dos Ausentes, São Francisco de Assis, São Gabriel, São Jorge, São Francisco
de Paula, São José dos Ausentes, São José do Norte, Santiago.
18
Cruz-altense, Cruz Alta, Sagrada Família, Bom Jesus (ligados à migração lusa) e Soledade (originalmente,
Nossa Senhora da Soledade).
19
Dados obtidos do sítio: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rs/santa-cruz-do-sul/historico.
20
Sant’Ana do Livramento, Santana da Boa Vista, Nova Santa Rita, Glorinha, Candelária, Nova Candelária.

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papel protagonizado, na colonização de Rio Grande do Sul. A excepção recai sobre Santa
Maria, nome duma das ilhas açorianas.
Relativamente às quatro cidades, cujos topônimos evidenciam sua origem portugue-
sa, uma busca, em suas histórias locais, bem o demonstra. Todas as quatro têm, nos seus
primórdios, uma origem portuguesa. Caxias e Braga são nomes associado a portugueses
ilustres, Porto Alegre é uma substituição do antigo nome de Porto dos Casais (alusivo à
ocupação açoriana), feita pelo Coronel José Marcelino de Figueiredo, nascido em Bragança
e governador da Capitania de São Pedro do Rio Grande (atual Rio Grande do Sul) entre
1769 e 1780, e São Pedro, de ocupação portuguesa, expressa no nome o topônimo da
capitania, de origem portuguesa, portanto.
No caso específico da ocupação do RS por açorianos, o mapa da Figura 5 representa a
distribuição espacial das localidades ocupadas por migrantes açorianos.

Figura 5. Mapa de localização das cidades de origem açoriana


(Localidades do litoral do continente de São Pedro – 1780)
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fonte: Cleidirose da Silva et al. (2017, p. 187)


42 //

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A toponímia dessas 18 cidades, distribuídas ao longo do litoral e do vale do rio Jacuí,
além do Vale do Taquari e dos Campos de Cima da Serra (17), nesta classificação, se distri-
buem em: nomes de santos, nomes de elementos naturais, nomes indígenas, entre outros,
demostrando a observação anterior, da ausência de topônimos açorianos nas cidades gaú-
chas. Entretanto, o legado açoriano está marcado na constituição da identidade gaúcha, na
arquitetura, na dança, na música e na culinária.
Quanto aos nomes de localidades oriundos das migrações, como já referimos, tais to-
pônimos surgem do afluxo de pessoas de diferentes países da Europa (ou sugerem-no), com
destaque para os de origem italiana (12 topônimos)21, alemã (5)22, francesa (Colônia Rural
Santo Antônio/Pelotas), grega (Candiota, de Cândia), espanhola (Dom Pedrito, Santiago)
e, mesmo, russa (Campinas das Missões). As cidades listadas em rodapé têm sua origem na
migração, mas, não, necessariamente, foram classificadas nesta categoria, pois muitas delas
estão associadas a nomes de santos, de pessoas e/ou de condicionantes naturais.

Figura 6. Mapa das rotas do povoamento primordial:


nomes de lugares portugueses, da imigração e de datas históricas

43 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fonte: elaborado por Borges Neto (2020), com base em CDC e IBGE

21
Nova Roma do Sul, Nova Bassano, Nova Pádua, Garibaldi, Nova Bréscia, Sério, Bento Gonçalves, Caxias
do Sul, Farroupilha, Flores da Cunha, Veranópolis.
22
São Leopoldo, Novo Hamburgo, Nova Petrópolis, Gramado, Santa Cruz.

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Importa destacar um conjunto de lugares, cujos nomes decorrem, por uma qualquer
razão, de datas/fatos da história do país, em que se destacam: Tiradentes do Sul, Ipiranga do
Sul, Três de Maio, Independência, Centenário, Sete de Setembro, Dezesseis de Novembro,
Quinze de Novembro, Farroupilha.

Conclusões

O estudo sobre os topônimos das cidades do estado do Rio Grande do Sul, realizado
através de um ensaio de categorização toponímica, constitui um instrumento singular,
para uma análise da ocupação do sul do território brasileiro.
Através deste estudo, foi possível reconstituir a ocupação do espaço sulino, no contexto
das lutas por território, dos conflitos, da indicação da presença de grupos e de sua distribuição.
Uma análise de síntese permite concluir que é clara e demarcada a regularidade na
distribuição espacial da ocupação original do Rio Grande do Sul, através dos grupos in-
dígenas. Fica também evidenciado, pela toponímia, as diferentes formas de nominação:
enquanto a toponímia indígena expressa, predominantemente, a relação dos povos com a
natureza, na medida em que os topônimos indicam elementos ligados à terra, à água e à
vegetação, ou a espécies singulares, os topônimos espanhóis e/ou portugueses estão asso-
ciados a nomes de santos e/ou de pessoas, ocorrendo o mesmo com as denominações de
cidades dadas pelos migrantes, notadamente, alemães e italianos.
Ausências foram notadas, em relação a nomes de santas, em menor número do que
de santos, bem como são poucos os topônimos açorianos nas cidades por estes originadas,
registrando-se a manutenção da denominação indígena e/ou de origem portuguesa (santos
e elementos primordiais).
Reconhecemos, igualmente, que os topônimos não se mantêm, por razões étnicas, re-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

ligiosas e/ou de poder, posto que tais valores e contextos sofrem mudanças, ao longo do
tempo. Portanto, este estudo geográfico, a partir de topônimos, é revelador de presenças e de
ausências ou supressões, que poderão ser analisadas, em maior detalhe, na sua continuidade.
Por outro lado, num comparativo com topônimos portugueses, observa-se que há
uma relação estreita entre as categorias de topônimos de uso no Brasil e em Portugal e, sob
alguns aspectos, a exemplo da religiosidade e/ou da política, observou-se a supressão de
nomes indígenas, tanto neste como naquele território.
Percebe-se a validade de um estudo de topônimos, uma vez que, para além das cone-
xões necessárias para seu entendimento de espaço-tempo (memória) e de linguagem, fica
evidente a possibilidade da análise geográfica, através de características que lhe são fundantes:
o local/lugar, a distribuição espacial, as conexões e os contextos.
44 //

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45 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


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Anexo
Nome dos lugares, segundo as diferentes tipologias
Tipologias Municípios

1. Toponímia e matriz identitária


1.1. Nome Indígena Aratiba; Capivari do Sul; Carazinho; Carazinho; Erechim; Humaitá; Jaguarão, Pelotas;
Pirapó; Piratini; Tramandaí; Sananduva
1.2. Missão Salvador das Missões, São Paulo das Missões, Santo Antônio das Missões, São Miguel das
Missões, São José das Missões, São Pedro das Missões, Palmeira das Missões, Dois Irmãos
das Missões
1.3. Sul Santo Expedito do Sul, São Valério do Sul, Santa Cecília do Sul, São Domingos do Sul,
Santa Bárbara do Sul, Encruzilhada do Sul, Benjamin Constant do Sul
1.4. Estrela Cruzeiro do Sul, Estrela

2. Rotas do povoamento primordial


Capela de Santana, Igrejinha, Esteio, Ronda Alta, Paverama, Tapes,
Sede Nova, Engenho Velho, Barracão, Sobradinho, Fazenda Vilanova, Inhacorá (grande
2.1. Elementos fazenda), Pouso Novo, Portão, Estância Velha
fundamentais do
povoamento Estrela Velha, Vila Flores, Formigueiro, Caseiros, Charrua, Canoas, Fortaleza dos Valos,
primordial: igreja, Linha Nova, Canudos do Vale, Quatro Irmãos
casa, fazenda, estância, Vacaria, Rodeio Bonito, Charqueadas
vila
Viadutos, Estação, Ponte Preta,
Tapera, Guarani das Missões, Aceguá, Caiçara
Vitória das Missões, Eldorado do Sul, Redentora, Paraíso do Sul, Progresso, Triunfo, Bom
Retiro do Sul, Bom Princípio, Bom Progresso, Nova Petrópolis, Vila Nova do Sul, Nova
Alvorada
2.2. O paraíso na terra: em Alegrete, Alegria, Encantado, Feliz, Soledade, Harmonia, Alvorada, Nova Esperança do
demanda da terra da Sul, Esperança do Sul,
redenção
Vista Alegre, Boa Vista do Cadeado, Boa Vista do Incra, Nova Boa Vista, Boa Vista do Sul,
Boa Vista das Missões, Horizontina, Boa Vista do Buricá,
Pejuçara, Xangri-lá
Capitão, Almirante, Tamandaré do Sul, Tenente Portela, Barão de Cotegipe, Dr. Maurício
Cardoso, Getúlio Vargas
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Cândido Godói, Carlos Gomes, Carlos Barbosa, Constantina, Vicente Dutra, Floriano
Peixoto, Marcelino Ramos, Mariano Moro, Paulo Bento, Severiano de Almeida, Paim
2.3. Nome de pessoas Filho, Maximiliano de Almeida, Machadinho, São Sepé, Novo Cabrais, Ciríaco, Osório
Selbach, Nova Hartz, Brochier, Frederico Westphalen, Bozano, Chiapetta, Muliterno,
Vanini, Roque Gonzales, Barros Cassal,
Ajuricaba (pessoa Amável), Cacequi, Cacique Doble, Marau, Nonoai, Pareci Novo,
Miraguaí, Parabé, Bagé
Santo Ângelo, Santo Augusto, São Luiz Gonzaga, São Nicolau, São Valentim, São José do Ouro,
São Jorge, São Francisco de Paula, São José dos Ausentes, São Francisco de Assis, São Gabriel,
São Jorge, São Francisco de Paula, São José dos Ausentes, São José do Norte, Santiago
2.4. Nome de santos Sant’Ana do Livramento, Santana da Boa Vista, Nova Santa Rita, Glorinha, Candelária,
Nova Candelária,
Cruz-altense, Cruz Alta, Sagrada Família, Bom Jesus
Soledade (ligado à migração lusa; originalmente, Nossa Senhora da Soledade)
46 //

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2.5. Nome de lugares Porto Alegre; Braga, S. Pedro do Sul, Caxias (do Sul)
portugueses
2.6. Imigração - Alemã: Victor Graeff, Westfália, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Santa Cruz do Sul
- Itália: Nova Roma do Sul, Nova Bassano, Nova Pádua, Garibaldi, Nova Bréscia, Sério,
Caxias do Sul, Nova Prado
- Grécia (de Cândia): Candiota
- Portuguesa: Santa Maria, Rio Grande
2.7. Nome de data Tiradentes do Sul, Ipiranga do Sul, Três de Maio, Independência, Centenário, Sete de
histórica Setembro, Dezesseis de Novembro, Quinze de Novembro, Farroupilha.

3. Condições naturais: particularidades e especificadades locais destacadas


Capivari do Sul, Condor, Anta Gorda, Ararica
3.1. Biogeografia: animais Carazinho (peixe; indígina), Pirapó, Piratini, Tramandaí, Aratiba; Jacutinga; Jaguarão
(relativo a jaguar); Jaguari; Jaquirana; Maquiné; Muçum, Panambi, Sinimbu; Toropi.
Nova Ramada, Capão Bonito do Sul, Capão da Canoa, Capão do Cipó, Capão do Leão
Alecrim, Mostardas, Cidreira, Canela, Não-Me-Toque
Erval Seco, Erval Grande, Herveiras, Herval, Picada Café, Arvorezinha, Ipê, Três Palmeiras,
3.2. Biogeografia: plantas Butiá, Palmitinho
Guabiju, Gravataí, Caraá, Gaurama, Ibarama, Ibirapuitã, Ibirubá, Imbé, Ivoti, Putinga,
Sapiranga, Tucunduva, Tunas, Crissiumal, Sananduva
Cambará do Sul, Taquaruçu do Sul, Nova Araçá, Sapucaia do Sul
Mato Leitão, Relvado, Restinga Seca
3.3. Condições
biogeográficas locais: Muitos Capões; Capão Bonito do Sul, Capão da Canoa, Capão do Cipó
mato
Canguçu, Caçapava do Sul, Caibaté, Faxinalzinho, Ibiraiaras, Ilópolis, Taquara
3.4. Condições Mata, Derrubadas, Mato Queimado
biogeográficas locais: Pinhal, Pinhal da Serra, Pinhal Grande, Balneário Pinhal, Pinheirinho do Vale
pinhal, coqueiral, mata Palmeira (das Missões), Coqueiros do Sul, Palmares do Sul, Nova Palma
Campina das Missões, Campinas do Sul, Campo Novo, Campestre da Serra, Campos
3.5. Condições Borges, Campo Bom, Lavras do Sul, Erechim (campo indígina)
biogeográficas locais:
Gramado dos Loureiros, Gramado Xavier, Gramado, Maçambara (capim de pasto),
campina, sertão,
47 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
Erebango (campo grande)
gramado
Sertão, Sertão Santana
Três Passos1, Pantano Grande, Turuçu, Guaporé, Chuí, Entre-ijuis, Quaraí, Garruchos,
Camaquã, Colorado, Taquari, Mampituba, Catuipe, Guaporé
Arroio do Tigre, Arroio do Meio, Arroio dos Ratos, Arroio do Sal, Arroio do Padre, Arroio
Grande, Três Arroios
3.6. Hidrotoponímia: rio,
Rio Pardo, Riozinho, Rio Grande, Entre Rios do Sul, Rio dos Índios
cachoeira, arroio,
passo, ponte, lagoa, Cachoeirinha, Três Cachoeiras, Cachoeira do Sul
pântano, enseada Lagoa dos Três Cantos, Lagoão, Lagoa Vermelha, Lagoa Bonita do Sul, Pântano Grande,
Espumoso, Forquetinha, Novo Barreiro, Rolador, Rolante
Travesseiro, Três Forquilhas, Ijuí, Iraí, Ivorá, Jari, Xingu, Guaíba, Tabaí
Água Santa
3.7. Hidrotoponímia: porto Porto Alegre, Porto Xavier, Porto Lucena, Porto Mauá, Porto Vera Cruz

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3.8. Hidrotoponímia: barra Barra do Quaraí, Barra do Ribeira, Barra do Rio Azul, Barra Funda
Monte Belo do Sul, Morrinhos do Sul, Monte Alegre dos Campos, Santa Maria da Boca do
Monte, Montenegro, Morro Reuter, Morro Redondo
Cerro Grande do Sul, Cerro Largo, Cerro Grande, Cerro Branco, Cerrito
Colinas, Torres, Alto Alegre, Alto Feliz, Mormaço, Alpestre, Pedras Altas, Boqueirão do
Leão, Sarandi.
3.9. Acidentes Planalto, Chapada
morfológicos: monte,
morro, morrinho, Vale do Sol, Vale Real, Vale Verde,
vale, serra, planalto, Poço das Antas
cerro, chapada
Passo Fundo, Passo do Sobrado, Passa Sete, Pontão, Salto do Jacuí
Bossoroca
Três Coroas, União da Serra, Coxilha, Arambaré, Faxinal do Soturno, Dois Irmãos,
Sentinela do Sul
Giruá, Ibiaçá, Itaara, Cotiporã
Ametista do Sul, Cristal do Sul, Áurea, Minas do Leão, Cristal, Joia, Nova Prata, Esmeralda,
Hulha Negra
3.10. Geologia: rocha, Lajeado do Bugre, Dois Lajeados, Lajeado, Casca (lajedo fundo rio, liso), Terra de Areia
lajeado
Barra do Guarita
Itaqui, Itatiba do Sul, Itacurubi, Itapuca, Itati, Humaitá, Seberi
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Nota de fim:
1
Três Passos significa presença de água ou passagem de três rios. Sendo de colonização portuguesa, para garantir a presença
do Império na região, sempre disputada, com a Espanha. Foi criada em 1879.
48 //

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Os diferentes processos por trás do nome
dos lugares

Leila de Oliveira Lima Araújo1


Universidade Federal Fluminense, Brasil
Grupo de Pesquisa ETHOS: Geografia Política, Ética, Gênero e Sexualidade

A Toponímia ao estudar o signo toponímico, que é um signo linguístico, identifica e


indica o espaço geográfico. Normalmente, a nomeação de topônimos carece da impressão
sensorial e/ou sentimental do momento de denominação dos acidentes geográficos e lugares.
Desde a Antiguidade, estudiosos procuram definir a natureza das palavras - signo
linguístico. Para vários autores, o signo resulta em fundamentos diferentes, uma substância
sensível, uma representação da realidade que nos ajuda a entender o mundo.
Ao analisar geograficamente certos lugares não podemos prescindir o significado de
seus nomes. O homem estabelece conexão consigo mesmo, com os seus interlocutores e
a realidade local, por meio do topônimo, ao atribuir algum significado ao nome dado

49 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


aos lugares. Assim sendo, estes nomes podem fornecer elementos sensíveis sobre sua geo-
-história política, econômica e sociocultural.
Este ensaio, procura analisar a intencionalidade por trás do nome dos lugares, trazendo
à luz peculiaridades de localidades nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, no Estado do
Rio de Janeiro, Brasil, a saber: Gávea Pequena, Pequena África Carioca, e Portugal Pequeno.
Notadamente, estes lugares carregam em seus nomes a palavra “pequeno(a)”, que deno-
ta um espaço reduzido, restrito, minguado, como uma miniatura de outra localidade, que
indica a possibilidade de existir um outro lugar, com nome semelhante em maior escala.

1
Licenciada, Bacharel e Mestra em Geografia pela Universidade Federal Fluminense - UFF, Doutora em
Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Pesquisadora no Grupo de Pesquisa
ETHOS: Geografia Política, Ética, Gênero e Sexualidade da Universidade Federal Fluminense - UFF.

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Através de seus nomes, objetiva-se recuperar as referências de sua origem histórica,
geográfica, política, social, cultural, às raízes vinculadas ao poder e/ou a memória, a vi-
vência de fatores ideológicos, que como tal, permeiam ou dirigem o imaginário do grupo
social, e todas as implicações discursivas.

Toponímia: um diálogo

Desde Platão, existe a necessidade de adequação do nome dos seres, sabendo não ser
tarefa corriqueira, mas da comunidade. Os relatos bíblicos registram nomes de países,
regiões, reinos, montes, planícies, cidades (FAGGION, MISTURINI, 2014), dando
sentido e significado aos lugares, conforme cada cotidiano e experiência. Posteriormente,
o filósofo Leibniz dedicou-se a distinguir nomes comuns dos próprios. Wittgenstein,
percebe que os discursos entre as pessoas dependem de como são denominados os seres
do mundo real ou as entidades abstratas. Pierre Bourdieu investigou a violência sim-
bólica existente nos atos estatais para tornar legitima a lógica da nomeação dos luga-
res, produzindo representações do mundo social ao custo de remodelar a memória de
classes sociais mais baixas e falantes de línguas clandestinas e de dialetos (FAGGION,
MISTURINI, 2014).
Nas últimas décadas, pesquisadores das Ciências Humanas e Sociais têm concentrado
esforços na compreensão da linguagem com as relações de poder. Procuraram entender
o poder e a relação com os nomes atribuídos às paisagens históricas e contemporâneas.
Observaram que, em muitos casos, esses estudos estão relacionados à nomeação do silen-
ciamento colonial das culturas indígenas e negras, na glorificação dos ideais nacionalistas
através da nomenclatura de cidades e mapas topográficos, na concepção de paisagens ur-
banas neoliberais, na contestação da identidade e do lugar ao nível da nomeação das ruas,
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

bem como, na formação de normas mais ou menos fluidas de identidades pós-coloniais


(BERG, VUOLTEENAHO, 2009).
Os dicionários definem os topônimos como os nomes próprios dos lugares, bem
como sua origem e evolução. Alguns geógrafos e historiadores têm destacado que a orde-
nação administrativa da nomenclatura geográfica colabora na racionalização burocrática
do espaço ao longo da modernidade. Atribuem que o mapeamento de topônimos ajuda
nas projeções da produção de conhecimento a ser utilizado em um projeto geopolítico-
-científico de conhecimento do mundo, como parte de controle de seus espaços.
Os estudos de toponímia têm sido costumeiramente realizados pelas aborda-
gens histórico-culturalistas, feitas por geógrafos, historiadores e antropólogos culturais.
Utilizam antigos topônimos como fontes de pesquisa para a explicação dos caminhos nas
50 //

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cidades e no campo, nos hábitos de cultivo, valores culturais e religiosos presentes na pai-
sagem, dentre outros. Para muitos dos estudiosos o nome do lugar é um modo de comuni-
cação, um testemunho do contexto de origem, e suas transformações (DORION, 1993).
Em alguns estudos, existe a associação entre memória e relações sociais, outros
incutem as intenções do poder na nomeação dos lugares. Nesse sentido, abre-se a ques-
tão para pensar os motivos pelos quais certos topônimos aparecem como inocentes
para as pessoas e não como propulsores de signos carregados de poder para certificar o
sentido dos lugares. O que é contraditório, nos diferentes aspectos da nomeação dos
lugares precisa, assim, ser abordado, mediado, contestado e entendido no sentido e no
significado geográfico.
É preciso sublinhar que a afinidade entre toponímia e geografia não passa por uma
questão secundária. Existe o perigo de uma aproximação exclusivamente filológica, pois
o conhecimento deve ser direto tanto sobre o nome dos lugares como dos lugares. Assim,
é necessário entender que, o frequente conhecimento do território pode dar a chave do
significado para os seus nomes (DARBY, 1957).
A nomeação dos lugares envolve constante relações de poder, o que muitas vezes,
num estudo crítico de toponímia, sob a óptica do linguístico genuíno permanece ina-
dequado. Assim, advogamos para a não perpetuação de modelos simplistas para o en-
tendimento dos nomes dos lugares. Prescindimos que os fatos sociais e as intrincadas
inter-relações culturais e as tensas concepções de espaço precisam de maior rigor em sua
análise. Desse modo, os expedientes usados para a nomeação dos lugares estão presentes
em qualquer sociedade.
Diante do exposto, observa-se à necessidade de utilizar o conceito de lugar, por enten-
der que os lugares estão em todas as escalas da vida social, passando pelos microfenôme-
nos, como práticas diárias de trabalho e consumo, até os macrofenômenos relacionados
com a divisão internacional do trabalho, ambos constitutivos das relações sociais (BERG,

51 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


VUOLTEENAHO, 2009). Semelhantemente, cada lugar pode ser visto como particular,
único, ponto de sua interseção, um lugar de encontro, com momentos imaginados e arti-
culados em redes de relações e entendimentos sociais, conforme Massey (2008) analisou.
Os topônimos apresentam a habilidade singular de significar a existência social-
-discursiva efetiva. Sendo assim, na nomeação dos lugares existe a importante postura de
qualquer governo, seja ele no sentido simbólico ou prático do espaço social nas diferentes
escalas espaciais.
Entender a intencionalidade por trás do nome dos lugares, não é tarefa fácil. Tal ati-
tude passa pela compreensão da memória social, das relações de poder, das significações e
ressignificações dos espaços socialmente construídos, que servem como base de objeto de
análise para toponímia.

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Gávea Pequena

A palavra gávea origina-se da parte alta de um navio à vela. Na engenharia naval,


vem dos mastaréus que são dispostos acima dos mastros reais. O nome Gávea descrito,
inicialmente, com a chegada dos portugueses ao Rio de Janeiro, veio através de um monte
observado com forma de tina ou barriga, dando a ideia do lugar onde o marinheiro ficava
para realizar a observação através do navio. A partir daí a comparação com o monte ganha
sentido e significado, e passa a ser conhecido como Pedra da Gávea.
Posteriormente, o nome Gávea apadrinhou outros lugares na cidade do Rio de Janeiro,
como a Gávea Pequena e o bairro da  Gávea, ambos relativamente próximos da Pedra
da Gávea.
A Gávea Pequena, objeto de análise, é uma propriedade que foi erguida para atender
os fins da elite. Localizada no Alto da Boa Vista, na Estrada da Gávea, dentro da área do
Parque Nacional da Tijuca, um importante fragmento de Mata Atlântica, em processo
avançado de regeneração.
Ainda no início do século XIX, a região onde está localizada a Gávea Pequena, serviu
ao cultivo de café com a produção em larga escala, utilizando a mão de obra escrava e a
fartura de água da região. Segundo Martins (2008), foram plantados inicialmente 50 mil
pés, depois com a boa aceitação da lavoura, a produção foi ampliada gradativamente e logo
alçou a casa de 60 mil pés em poucos anos.
Posteriormente, com a decadência do cultivo, as terras foram desmembradas e, em
1916, parte delas foi vendida à Prefeitura do então Distrito Federal, Rio de Janeiro, quan-
do ainda era a capital federal. Inicialmente, havia o plano de transformar a propriedade de
131.000 metros quadrados de Mata Atlântica, em colônia de férias e prática de esportes.
Posteriormente, o destino da propriedade foi modificado e na década de 1930, a casa sede,
serviu como sede do Serviço de Extinção de formigas, para o combate da saúva.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Após alguns anos, a região do entorno da Gávea Pequena, despontou como endereço
de chácaras e casarões da elite nacional e carioca, o que foi possível após a chegada das
estradas que facilitaram o acesso, entre as décadas de 1940 e 1950.
No interior da casa sede da Gávea Pequena (com acesso restrito), a decoração é sóbria,
porém requintada. Possui algumas obras de arte, como quadro de Di Cavalcanti, na sala
de jantar. Dispõe de uma sala de cinema, sala de jogos, sala de estar com lareira e outros
ambientes internos. Na parte externa da casa, os jardins trazem a assinatura do renomado
paisagista Roberto Burle Marx, que adornam a piscina, capela e demais espaços.
A Gávea Pequena, com o passar dos anos tornou-se reduto do poder político e da
elite nacional. Os jantares e as festas celebraram acordos públicos e privados da elite, em
diferentes momentos históricos.
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Atualmente, a propriedade, institui-se como parte da história nacional e da cidade do
Rio de Janeiro, o que denota a sua importância como uma quase bicentenária construção.
Em razão da sua relevância histórica, o espaço da Gávea Pequena, residência oficial da cidade
do Rio de Janeiro, foi tombado em um ato administrativo realizado pelo poder público com
o objetivo de preservar o bem cultural, através do Decreto 8.074 – de 1° de setembro de
1988, e posteriormente a Lei 8.496/2019, a designou como patrimônio histórico.

Figura 1. Casa da Pequena Gávea

Fonte: Diário do Rio, 2017.

Pequena África Carioca

53 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Nomeada Pequena África Carioca, pelo compositor Heitor dos Prazeres e eternizada
por historiadores, o nome foi movido por uma construção histórica de intelectuais a partir
da década de 1980, cujas pesquisas buscavam compreender o papel social do negro, na
Zona Portuária da Cidade do Rio de Janeiro. Por outro lado, na década de 2000, o poder
público local apropriou-se de tal topônimo para promover os novos objetos da espacialidade
e enaltecer a cultura negra, para fins turísticos, numa área urbana que mescla rugosidades
(SANTOS, 2002).
A importante existência e vivência do negro no lugar, vem desde 1774, quando o atra-
cadouro da Praça XV foi substituído pelo Cais do Valongo, onde os africanos, vindos do
Congo e Angola, chegavam para ser escravizados. Com o passar do tempo, a experiência

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do negro e a representação afrodescendente foi se enraizando na região, por elementos
ligados a herança cultural e por meio do trabalho.
Durante décadas, observou-se que a ancestralidade negra foi invisibilizada nos espaços
dos bairros que formam a Pequena África Carioca, com: a Gamboa, Saúde, Santo Cristo,
Cidade Nova, Estácio, Catumbi, Lapa, Praça Mauá e um pedaço de São Cristóvão, onde,
hoje, é possível observar traços que carregam a relevante memória social.
Alguns dos espaços da Pequena África Carioca tornaram-se conhecidos, e atualmente,
são denominados como: Cais do Valongo, Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos,
Pedra do Sal, Largo de São Francisco da Prainha e Casa da Tia Ciata Espaço Cultural, por
conterem camadas de lembranças que reportam o comércio de escravos e a presença dos
ex-escravizados que chegaram de várias partes do país a procura de trabalho. Na capi-
tal, ainda na Primeira República, eles encontraram na estiva, a atividade remunerada e
desvalorizada, que remete à organização do trabalho da escravidão.

Figura 2. Largo de São Francisco da Prainha, 2017


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Foto de Matheus Aguiar


Fonte: Jornal da PUC Rio, 2017

No passado e na atualidade, por vários momentos, os projetos de intervenção urbanís-


tica estiveram presentes na região, onde advém desde os primeiros anos do século XX, pas-
sando da reforma Pereira Passos aos recentes projetos urbanísticos como o Porto Maravilha
de Revitalização (2009-2016), que buscou organizar a cidade para os grandes eventos es-
portivos, como a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016
54 //

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(ARAUJO, 2020). Os dois últimos projetos, ocasionaram a desapropriação de moradias,
expulsando de moradores tradicionais, numa estratégia de transformar o lugar em polo
turístico e de diversão no Rio de Janeiro.
A inclinação da região da Pequena África em influenciar a cultura local e do país está
presente desde o início do século XX. Na Era Vargas, durante o processo de criação de uma
identidade nacional, foi utilizada a concepção carioca de cultura, que estava diretamente
ligada ao negro daquela região (ALMEIDA, 2017). A cultura carioca tributa o cotidiano
dos negros da Pequena África, à história do samba veiculando as suas festas, tradições
culturais e religiosas. A importância histórica para a região relaciona-se também a in-
fluência das casas das tias baianas, com as festas religiosas e seus quitutes, como a Tia Ciata
(ARAUJO, 2020).
Diante disso, o espaço da Pequena África não pode ser creditado apenas as virtudes
narradas pelas festas e tradições culturais. A memória apagada e esquecida dos negros
que chegavam com doenças e eram abrigados nas Casas de Engorda, para serem ven-
didos, existiu. Muitos negros que não sobreviveram, tiveram seus corpos descartados
em valas rasas no Cemitério dos Pretos Novos, que recebeu esse nome justamente por
abrigar africanos que seriam escravizados. O modo de sepultamento, rompe com as tra-
dições ancestrais dos negros, demostrando a face agressiva e violenta da escravidão, que
trivializou a morte, no entendimento dos brancos da época, sobre o corpo e os objetos
dos africanos, ou seja, serviam ao descarte quando não eram mais produtivos naquela
sociedade (GUIMARÃES, 2011).
De região estigmatizada pela grande concentração de negros, no fim do século XIX, o
lugar tornou-se relevante para a moderna cultura carioca e, apesar do destaque que possui, é
importante desconstruir o conceito de “Pequena África” como algo bom, sem, contudo, apa-
gar a história do negro na cultura do Rio de Janeiro. É preciso considerar a diversidade que a
região da Zona Portuária teve e que resiste até os dias atuais, e relembrar também a história

55 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


de luta do povo africano.

Portugal Pequeno

O topônimo Portugal Pequeno, concedido a um trecho do bairro da Ponta D’Areia, em


Niterói, Rio de Janeiro, é recente e não foi criado diretamente pelos lusitanos que ali residiam.
Surgiu pela forte presença de imigrantes, principalmente portugueses, sua história local e vin-
culado ao projeto de revitalização do bairro, realizado no ano de 1998, quando a Prefeitura
Municipal de Niterói, pegou como gancho inicial o Encontro com Portugal, promovido pela
Secretaria Municipal de Cultura, em comemoração pelos 500 Anos do Descobrimento do Brasil.

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Na época, o planejamento envolveu a Prefeitura de Niterói, o governo português,
a comunidade local e várias instituições interessadas, para a recuperação do patrimônio
arquitetônico e urbano da área. O projeto envolveu a substituição do asfalto por parale-
lepípedos e a recolocação das pedras portuguesas no calçadão, além da pintura das casas à
beira-mar, que receberam novas cores.
Em sua origem, o bairro da Ponta D’Areia teve a sua economia ligada à pesca de
baleias. Era formado por um conjunto de casas à beira do cais e espremido entre o mar
e o morro da Penha. Ainda na primeira metade do século XIX, iniciou-se o processo de
industrialização com os estaleiros, que empregaram centenas de imigrantes em torno das
atividades ligadas à construção naval.
A fixação portuguesa aconteceu, principalmente, entre as décadas de 1870 e 1920,
revelada por motivos que passam pela rede solidária de parentes que já moravam no local,
e a oferta de empregos nos muitos estaleiros que ali existiam. A semelhança linguística
e de costumes com Portugal, a terra natal, também colaborou para atrair os portugueses
ao local.
Martins (2012), atribui a fixação dos portugueses na Ponta D’Areia, por ser contor-
nada pela Baía de Guanabara, concentrando características que propiciaram atividades
econômicas comuns em Portugal, como a pesca e a construção naval, e que esse foi outro
fator que serviu de estímulo para o estabelecimento de lusitanos por lá (MARTINS, 2012,
não paginado).
Segundo Rodrigues (2013), pelos motivos mencionados, a Ponta D’Areia, criou tam-
bém, no início do século XX, um comércio muito variado, a maioria de propriedade de
portugueses. Assim, o lugar se configurou como um espaço rico em história e singularidades,
diferenciado dentro da malha urbana da cidade.
Os espaços do bairro apresentam familiaridade com a paisagem arquitetônica de ou-
tros bairros ocupados por lusitanos, como por exemplo, os existentes da mesma origem nas
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

cidades do Rio de Janeiro, Salvador, São Luís etc. Os resquícios da imigração portuguesa
no local podem ser observados na paisagem através de alguns casarios, nos azulejos com
pinturas de santos católicos, que ainda adornam muitas moradias.
Em uma análise territorial do espaço do Portugal Pequeno, observa-se nos dias de
hoje, uma área residencial e um comércio pouco desenvolvido, sendo em sua grande maio-
ria formada por bares e lanchonetes. As casas antigas exibem um ar de abandono e, em
alguns casos, graves processos de deterioração. Nota-se ainda um píer, para ancorar pe-
quenos barcos de pesca e quiosques a beira da Baía de Guanabara, que, de longe lembra o
passado exitoso, composto por vários estaleiros ao qual permitia grande fluxo de pessoas e
constante movimentação diária ao lugar (RODRIGUES, 2013).
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Figura 3. Figura 4.
Bairro da Ponta D’Areia, década de 1940 Ponta D’Areia, 2012

Fonte: Labhoi - UFF Fotos de Eduardo Naddar


Fonte: Jornal O Globo, 2012

Associado aos fatores aludidos, acrescenta-se a escassez de pescado na Baía de


Guanabara, dado aos elevados índices de poluentes, a falta de embarcações de grande porte
e modernas, para realizar a pesca nas águas oceânicas.
Houve ainda, mudança nos hábitos profissionais, a morte de antigos moradores, bem
como, a migração de lusitanos para outros espaços da cidade, fazendo com que a antiga
colônia portuguesa já não exista.

Figura 5. Igreja Nossa Senhora de Fátima da Ponta d’ Areia, 2018

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Fonte: Jornal Casa da Gente, 2018

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O bairro parece viver hoje, uma fase de decadência. Todavia, constata-se a chegada de
novos moradores, sem legado direto com o lugar, mas que trazem consigo sua cultura e tra-
dições, incorporando-as às já existentes. Isso acaba por conferir elementos para construção
e reconstrução do espaço social, não só no sentido das edificações, mas e sobretudo no das
ressignificações simbólicas. A concretude de alguns eventos pode reafirmar o amálgama so-
cial que existe na Ponta D’Areia, como no caso da devoção pela Nossa Senhora de Fátima,
testemunhada pela tradicional festa da padroeira.

Considerações

Os topônimos revelam parte da geo-história de homens e mulheres que viveram em


diferentes períodos, com resistências e superações. Eles individualizam os lugares para o
funcionamento das sociedades, investindo-os de significados politicamente hierarquizan-
tes. Nesse sentido, os topônimos são implicados em processos espaciais de governamentali-
dade, como práticas hegemônicas importantes para os governos, sendo de forma simbólica
e prática na construção do espaço social em várias escalas espaciais.
Os métodos de nomeação quase sempre operam no caminho de outros processos
discursivos e materiais igualmente importantes para a prática do poder. Nesta relação a
recuperação da memória do nome dos lugares e o seu respectivo papel na cidade con-
temporânea, faz-se necessário no atual contexto de discursos e práticas de esquecimento,
principalmente dos grupos sociais subalternizados historicamente.

Bibliografia

ARAUJO, L. de O. L. Paisagem, Lugar e Memória: a Pequena África Carioca. As Novas Geografias


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

dos Países de Língua Portuguesa. Conhecimento, Cooperação e Desenvolvimento. Colecção


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BERG, L.; VUOLTEENAHO, J. Critical toponymies: The contested politics of place naming.
Londres: Ashgate, 2009.
DARBY, H. C. Place names and geography. The Geographical Journal, Reino Unido, 1957, n. 123,
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DORION, H. A qui appartient le nom de lieu? Onomastica Canadiana, 1993, v. 75, n. 1, p. 1-10.
FAGGION, C. M, MISTURINI, B. Toponímia e Memória: Nomes e Lembranças na Cidade.
Linha D’Água, São Paulo, v. 27, n. 2, p. 141-157, 2014.
GUIMARÃES, R. S. A Utopia da Pequena África: Os espaços do patrimônio na Zona Portuária
carioca. 2011. Tese (Doutorado em Antropologia), Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, 2011.
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MARTINS, A. L. História do café. 2 ed. São Paulo: Editora Contexto, 2008.
MASSEY, D. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
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Niterói. PragMATIZES, Niterói, ano 3, n. 5, set./2013. p. 43-67.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão emoção. São Paulo: HUCITEC, 2002.

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O toque dos sinos desenhando um outro
olhar sobre a paisagem

Helena Santana
Universidade de Aveiro

Rosário Santana
Instituto Politécnico da Guarda

Introdução

A paisagem sonora, termo usado por R. Murray Schafer, designa o “ambiente sonoro”,
o conjunto dos sons que nos cercam, e que são detentores, para quem os escuta, de um
significado e significação. Se o som é aquilo que o nosso aparelho auditivo perceciona, e
o nosso cérebro informa, correspondendo a uma vibração periódica regular audível, ele
pode ser gradável ou hostil, forte ou fraco, encontrando-se presente sem que o possamos
ignorar. Estamos rodeados de sons, sendo que, resultando da vibração de elementos físicos
do meio que, pela sua natureza, mudam constantemente, se mostram tanto de natureza
material, como imaterial. Neste sentido, e numa dialética que afere da sua importância e
61 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
relevância para o homem e a sua atividade ritual e artística, o sonoro produzido encontra-se
em constante mutação. Esta mutação surge fruto do desenvolvimento industrial e tecnológico,
mas também organizacional e vivencial, das sociedades contemporâneas.
O património natural e paisagístico modificou-se e, com ele, os sons que se ouvem e
que se geram. Foram-se também alterando as relações que se estabelecem entre o homem e
a natureza e, consequentemente, com o património nela contido. Não podemos esquecer
que os patrimónios, sejam eles materiais ou imateriais, desenham, também eles, as pai-
sagens sonoras. Esta ação faz-se pelas componentes físicas e imagéticas que concedem ao
ouvinte e ao compositor, ao artesão e ao artista, ao intérprete e ao ouvinte, mostrando que,
o que neles nasce, é passível de escuta e utilização, enfoque e criação.

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Neste sentido, pretendemos abordar a questão do património material e a sua relação
com as paisagens sonoras, delineando, a partir das regiões, formas e lugares, ritmos e tem-
pos que se descobrem em cada obra musical, a presença de determinados sons, os sons de
uma paisagem sonora detentora de significações outras que não somente a sonora e musical.
Tentaremos ainda verificar como estes surgem na obra de arte musical, contribuindo para
a inclusão e o estudo dos sons e da paisagem, nomeadamente no que concerne o som dos
sinos, o seu uso, o seu toque, e a sua relação com o meio, com o homem e com a sua arte.

Quando ouvimos o termo paisagem temos tendência, e corretamente, a pensar logo


numa extensão física de território que se abrange num lance de olhar. Os geógrafos colo-
caram certamente nesse pensamento um conjunto mais vasto de informações e interro-
gações que decorrem da sua formação; os geólogos outras e, os músicos, os escritores ou
os pintores, ainda outras. Se interrogarmos um escritor ou um pintor, pensará certamente
num género de literatura em particular, como as crónicas de viagem por exemplo; um
pintor, num género de pintura em específico, como a naturalista ou a primitivista, ou
quiçá, num conjunto de temas que mostrem cenas de uma natureza campestre. No caso
da música, deparamo-nos identicamente com um conjunto de informações, interrogações,
pensamentos e elocuções que nos direcionam automaticamente a géneros e correntes mu-
sicais específicas, mas também conteúdos, formas e ideais sonoros em particular, ou ainda,
ao pensar das atividades humanas, como portadoras de um referencial sonoro que se vê
necessário indagar, pensar, discutir e valorizar, de forma a concretizar a sua inclusão em
arte. Neste fazer, a nossa atividade pode incidir sobre diferentes ações humanas, rituais e
ritos, sejam de natureza religiosa ou profana, dos quais o toque dos sinos pode fazer parte,
representando um elemento da paisagem sonora que aqui queremos relevar.
O conceito de paisagem sonora (soundscape) tem sofrido inúmeras transformações
desde que Raymond Murray Schafer, na década de 70, esquiçou o neologismo, a partir
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

do conceito clássico de paisagem (landscape) (Schafer, 1997). Nessa constituição, não po-
demos perder de vista, ou ouvido para sermos mais precisos, que o elemento produtor
de som, o sino neste caso em particular, se constituiu um instrumento musical. Numa
configuração mais básica, o sino, instrumento portador de uma informação sonora pró-
pria, mostra-se no conjunto das suas possibilidades, tanto de forma individual, como em
conjuntos mais vastos e plenos de possibilidades sonoras, compositivas e interpretativas,
como é o caso do carrilhão.
O som, aquilo que o nosso aparelho auditivo perceciona, corresponde a uma vibração
periódica regular. Agradáveis ou hostis, fortes ou fracos, percetíveis ou não à audição hu-
mana, os sons encontram-se na paisagem sendo que os não podemos ignorar. Elementos
seus, estes sons resultam ainda da vibração de elementos físicos presentes no meio, que
62 //

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se transmutam face aos constituintes desse meio, dessa paisagem, surgindo de uma sua
enformação1. É do conhecimento geral que os patrimónios naturais se vêm alterando,
uma alteração fruto do desenvolvimento tecnológico e industrial que se vem processan-
do, procedimento que transforma os sons e as paisagens que deles advém. Desta forma,
e não conseguindo fugir a essa realidade, também não podemos ficar indiferentes a uma
sua transformação (Schafer, 1997). Em outro, também não podemos ficar indiferentes às
novas formas de arte, às diferentes correntes artísticas que procedem de uma conquista e
organização desse grande repositório de materiais que se concretiza em obra e num conjunto
de possibilidades criativas e artísticas que se mostra infindo.
Se enquanto homens nos percebemos rodeados de som, esta consciência fez com que
diversos autores, compositores e investigadores, produzissem conhecimento e obra alertan-
do para o facto. Lembremos o caso de Murray Schafer com a obra A afinação do Mundo,
ou as composições radicais de John Cage e as intervenções do Grupo Fluxos2. Em outro, o
som que se produz num determinado contexto apresenta diversos estratos de significância,
uma realidade que é necessário informar. Neste sentido, abordar a questão do património e
a sua relação com a paisagem sonora que dele se enforma, delineando, a partir das regiões,
formas e lugares, ritmos e tempos que dele se descobrem, uma proposta musical, mostra-
-se fundamental. No que concerne o usos dos sinos e a sua relação com o meio ambiente
em particular, pretendemos verificar da sua constituição e utilização no que concerne a sua
prática, ao nível da região da raia, mormente as regiões de Trás-os-Montes e das Beiras.
1
Neste sentido relevamos, por exemplo, a natureza dos instrumentos musicais, concebidos em função dos
materiais de cada região ou país. Saliente-se a especificidade da forma e constituição de uma flauta, do
tambor, por exemplo, em função do tipo de madeiras, metais, peles, de que o território dispõe.
2
Diversas são as obras de arte que englobam o uso de sons e de ruídos. No início do século XX surgem em di-
ferentes países e formas de arte propostas onde novos universos de som se mostram. Falamos do Futurismo
e das diferentes propostas técnico estéticas a ele associadas sejam na música, na literatura, na escultura ou na
pintura. Fruto do desenvolvimento tecnológico vimos, anos mais tarde, surgir a música concreta, eletrónica
e eletroacústica, onde diferentes sons e propostas sonoras se mostram igualmente válidas. No caso da música
concreta, o uso de sons concretos, ruídos provenientes da vivência humana ou de ações do homem sobre a 63 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
matéria, eram gravados, manipulados e variados através da aplicação de diferentes técnicas de manipulação
de fita, construindo-se obra a partir desses universos de som pré-gravados (vejamos as obras Symphonie
pour un homme seul (1949-50) de Pierre Schaffer e Pierre Henry ou Variations pour une porte et um soupir
(1963) de Pierre Henry, por exemplo). Simultaneamente, lembremos as propostas de obra de John Cage e
as ações do Grupo Fluxos, onde, para além do uso de ruídos e de instrumentos pouco convencionais, como
os brinquedos ou objetos da vivência humana (vejamos as obras 4’33’’ (1952), Radio Music, o conjunto de
obras intituladas Imaginary Landscape, Water Music (1952), Suite for Toy piano (1948) ou Living Room
(1940) de John Cage, por exemplo), eram propostas ações de rua como os Happenings e as Performances.
Estas ações e concretizações da ação humana enfocaram no uso do ruído e da sua importância para o
homem, a criação artística e a definição de novas paisagens de som. Consequentemente, diversos são os
estudos que se debruçam sobre esta temática – som/ruído; natural/artificial; paisagem sonora e a sua relação
com o homem. Neste sentido, são criadas obras que não só nos alertam para a presença massiva do ruído
em nossas vidas, como nos apresentam os sons do ambiente como elementos geradores de arte refletindo os
problemas das sociedades contemporâneas.

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O toque dos sinos desenhando um outro olhar sobre a paisagem

O meio onde nos produzimos enquanto seres vivos, seres físicos e emocionais revela-
-se constituído por diversos elementos que, de natureza material ou imaterial, comportam
diferentes ritmos. Evidenciam-se o ritmo da vida e o ritmo dos homens, os ritmos que
separam o dia da noite, o nascer do sol do ocaso, o ritmo do aparecimento das diferentes
estações do ano, ritmos que não obedecem ao ritmo imposto pelo homem, pelo relógio,
ou pelos calendários. Constituem os ritmos da natureza que nos concedem a beleza da
vida sem a imposição dos ritmos de uma sociedade industrial e do homem em particular.
Todos estes ritmos têm forte influência nas paisagens, nomeadamente na paisagem sonora
que os define, os forma e enforma continuamente. Existe um tempo, uma forma, um es-
paço e um lugar para todas as coisas: a luz e a escuridão, o trabalho e o descanso, o som e
o silêncio, e todos os ritmos que deles sobressaem e circundam o homem, os espaços e os
seres. Além destes ritmos, nomeadamente aqueles a que nos encontramos sujeitos, existem
ainda outros ritmos, como os biológicos tais que o ritmo regular e contínuo do bater do
coração, o ritmo da respiração, o ritmo das marés que, de natureza cíclica, são constantes,
mas, também, mutáveis. Ao nível da criação artística encontramos um conjunto de outros
ritmos aqueles que enformam esse fazer e que dependem do artista e do meio. Na criação,
mas também na fruição da obra, mormente a musical, não lhes podemos ficar certamente
indiferentes. Estes ritmos, diferenciados, definem tempos de natureza cronológica, psi-
cológica, onírica e musical, que se mostram ainda na literatura e na poesia, na escultura
e na pintura, e, em todas as formas de arte. Nela, a arte, se mostram os ritmos da vida e
dos homens, os ritmos do trabalho e de toda uma série de ações que obedecem a padrões
rítmicos bastante complexos que regem todas as ações da vida, da matéria e do homem
(Brelet, 1949)3.
Se os ritmos circadianos e sazonais são observáveis, não só na natureza como nos
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

meios urbanos, onde a vida pode ser regulada pelas atividades diárias, prenunciamos que
ao longo dos tempos, certas atividades da vida em comunidade nos fornecem um sonoro
que se mostra diferenciado e que delineia paisagens sonoras únicas e irrepetíveis. Neste
dizer, relevamos o toque dos sinos dos campanários das igrejas, as sirenes das fábricas e dos
bombeiros, a agitação sonora que se segue à chamada para o trabalho ou para os rituais,

3
Contudo, denotamos que o homem interfere com este ritmo quando não obedece aos ciclos naturais. Neste
sentido, devemos referir os ritmos que regem por exemplo os calendários agrícolas e o trabalho no campo.
Plantar e colher são ações que ditam os padrões sazonais nas paisagens sonoras dos campos. Ora esta relação
com a paisagem natural desapareceu consequência da urbanização e da movimentação populacional para as
grandes urbes na busca de trabalho nas unidades fabris, consequência da revolução industrial. Nesta revira-
volta social e organizacional aparecem ainda os ruídos provenientes da indústria e dos engenhos mecânicos,
dos quais realçamos o ruído do tráfego automóvel que mascara todos os outros.
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ou ainda o sonoro que se gera em situações de perigo ou de socorro iminente (Schafer,
1997). De notar ainda as diferenças que se nos apresentam nos sons que povoam as ruas,
resultantes dos diferentes horários a que circulam as populações e que demarcam regiões e
territórios onde a sua ação se desenvolve. Da mesma forma, as festas, sejam elas de caracter
religioso ou profano, ou outras atividades produzidas nestes ou outros contextos como
os de lazer, produzem sons e ruídos que nos importa considerar. Neste repositório, con-
sideramos não só os ruídos que se destacam no meio ambiente e que são produzidos pelo
homem nas atividades de festas e romarias, mas ainda o dos sinos e a sua importância para
as populações na definição dos ritmos das festas e da calendarização das diferentes ações
que estas comportam.
No que ao sino diz respeito, e durante todo o ano, sabemos que tocam para chamar
para a oração, para efetuar o toque das horas na torre sineira, para alertar para perigos e
para reunir as populações. Nas festividades religiosas destinadas a homenagear os diversos
santos padroeiros, os sinos são usados para chamar o povo para os ofícios religiosos e para
sinalizar os diferentes tempos da festa, nomeadamente o peditório, a alvorada, a missa ou
a procissão. No dia de Todos os Santos, os sinos são usados para assinalar este momento
importante para a comunidade religiosa que é o que concerne a finitude do corpo e a
existência da Alma. No dia de Ceia, o sino anuncia a Missa do Galo, e reúne a população
à volta do Madeiro na praça que rodeia a Igreja. Ao longo da Quaresma, o sino é usado
na Amenta das Almas para reunir as almas que necessitam de ser acalmadas no seu sofri-
mento, sendo que esta ação se realiza todas as sextas-feiras ou sábados pela noite dentro.
Durante a Semana Santa os sinos das Igrejas ficam silenciosos, mas surgem as matracas
para anunciar os serviços religiosos. Só no Sábado de Aleluia é que os sinos tocam para pôr
fim ao Jejum da Quaresma e anunciar a Boa Nova, a Ressurreição.
No que concerne as atividades profanas, os sinos tocam para assinalar a mudança de
gado nas pastagens, nas festas da transumância que ainda hoje se efetuam em algumas

65 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


regiões do nosso país, nomeadamente Alpedrinha e Sabugueiro. Em súmula, o sino tem
um papel de relevo no desenrolar de todas as ações civis e religiosas da população.

Desenhar a obra e a paisagem através dos elementos que a compõem

Os sons fundamentais de uma paisagem são os sons que resultam dos elementos ma-
teriais que a compõem nomeadamente a água, o vento, a holografia do terreno, mas tam-
bém dos seres que nela se produzem, sejam eles, vegetais ou animais, como os pássaros, os
insetos, ou mesmo o homem. Estes sons são os que caracterizam uma paisagem e os que a
definem do ponto de vista sonoro. Nela se inserem e são percebidos pelo homem de forma

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distinta, em função da sua capacidade de observação e significação do sonoro. São sons que
se destacam e que são ouvidos de forma consciente. Podemos, de entre os sons ouvidos, e
percebidos nos lugares onde nos inserimos, destacar sons tais que sinos, apitos, buzinas ou
sirenes. Estes sons podem estar organizados de forma a serem percebidos como mensagens
desde que os seus destinatários possuam o seu código de decifragem. Neste sentido, men-
cionamos os sons dos sinos, os apitos das fábricas, dos comboios, dos navios, as sirenes dos
bombeiros, da polícia e demais elementos produtores de sons que, quando inseridos num
determinado contexto, são transmissores de mensagem (Schafer, 1997). Existem ainda
aqueles sons que funcionam não só como mensagem ou código, mas que são próprios de
uma comunidade. Sons, formas de se manifestar, que pertencem a uma comunidade e que
são específicos daquele lugar e povoação. Destes destacamos não só os sons da vida tais que
o canto dos pássaros, dos insetos, das criaturas marinhas, dos animais, etc., como o som
de determinadas práticas e ofícios. Neste sentido, a paisagem sonora, seja rural ou urbana,
imprime ao ouvinte registos sonoros que resultam dos elementos que comporta, assim
como da forma como é adquirida e significada pelos seus ouvintes.
Se neste registro evidenciamos os sons da natureza que se regem, por outro lado, por
atitudes e práticas orientadas pelas leis da natureza, do homem e do meio ambiente, referen-
ciamos ainda a prática musical, e a música em particular, forma sonora onde o registo dos sons
produzidos se faz sempre de forma intencional. O compositor pensa a sua obra e ao compô-la
organiza os sons com vista a obter um resultado sonoro que quer propositado. Logo, podemos
pensar a música como um meio e ferramenta de ilustração das intenções, vivências e experi-
ências dos seus autores. Ela, ao se mostrar dinâmica e viva, evidencia, ao longo dos tempos, as
modificações dos hábitos, das práticas e dos lugares (vejamos o caso da música de transmissão
oral). Em outro, denota a capacidade preceptiva, informativa e formativa das gentes e dos
lugares. De referir que os músicos e os compositores vivem num mundo, um mundo real,
cercados de som que os atinge nas suas práticas e escolhas, bem como nas suas composições.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Os sons do meio ambiente podem ter significados referenciais, dando à paisagem


sonora uma outra força e um outro significado. Os sons nela contidos, não serão meros
eventos acústicos, sendo investigados como signos, sinais e símbolos acústicos. Um signo
é uma qualquer representação de uma realidade física. Neste sentido podemos referir não
só uma nota musical numa partitura, mas qualquer outro elemento que nos indique uma
ação, uma função, enfim que possua um significado que seja aceite por todos como único.
Assim, um signo não soa, apenas indica. Já um sinal é um som que tem um significado
específico e que, muitas vezes, estimula uma resposta direta. Neste contexto podemos re-
ferir o som de uma campainha de porta, o tocar de um telefone ou o toque de uma sirene.
Um símbolo já tem conotações mais profundas. Segundo Carl Gustav Jung (1964: 20-21),
66 //

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uma palavra ou imagem é um símbolo, “quando implica algo mais do que o seu significado
óbvio e imediato. Existe um aspeto inconsciente maior, que nunca é precisamente definido
ou totalmente explicado”. Já um evento sonoro torna-se simbólico quando desperta em
quem o perceciona emoções e pensamentos, além das funções sinalizadoras quando essa
função possui. Assim, o sino, e o seu toque, têm, no decorrer do tempo, perdurado com as
suas funções simbólicas, pois que se encontra associado a uma imensa diversidade de usos,
costumes, fazeres, intenções e emoções. A maior parte destes usos opera em dois sentidos
distintos. Podemos atribuir-lhe uma força centrípeta quando, o seu toque, tem como
objetivo reunir ou atrair a si os outros, ou uma força centrifuga, quando a sua função é a
difusão de uma mensagem, ou o afastar de si os outros. No entanto, nem todos os sinos e
os seus toques podem ser catalogados pela sua função. A história das civilizações mostra-
-nos que, já desde a Idade Média, e na Europa em particular, os sinos são usados, em
meio rural, para colocar em redor do pescoço dos animais, como forma de sinalizar a sua
localização. Da mesma forma, tanto os cavaleiros como as mulheres desta época usavam
pequenos sinos como adornos, os primeiros em redor das armaduras, e as segundas em
redor dos cintos4. De igual modo, são utilizados como adornos pelos bobos da corte, cuja
presença é visível na capa que se mostra adornada com pequenos sinos (Schafer, 1997).
No que concerne os sinos da igreja, estes têm uma importância crucial na vida do ser
humano. Para além das duas funções já referidas, o sino antecipa a fala do pregador, de
acordo com as palavras de São Paulo: “Eu me tornei como um metal sonante ou um cím-
balo tilintante”. A dureza do metal significa a fortaleza da mente do pregador, de acordo
com esta passagem: “Dei a ele uma testa mais dura que a sua própria testa”. O entrechocar
do ferro que, ao bater em ambos os lados, produz o som, denota a língua do pregador
que, com o ornamento da sabedoria, faz ressoar ambos os Testamentos. A batida dos sinos
denota que o pregador deveria, antes de tudo, combater seus próprios vícios e corrigi-los
para depois censurar os das outras pessoas. O elo pelo qual o badalo está ligado ou unido

67 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


ao sino é a meditação; a mão que ata o badalo denota a moderação da língua. A madeira
da estrutura na qual o sino está pendurado significa o madeiro da Cruz de Nosso Senhor.
O ferro que o liga à madeira denota a caridade do pregador que, estando inseparavelmente
lidado à cruz, exclama: “Longe esteja ela de mim para a glória, exceto na Cruz do Senhor”.
Os pinos que ligam a estrutura de madeira são os oráculos dos profetas. O martelo fixado
à estrutura pela qual o sino é tangido significa a mente reta do pregador, por meio da qual
ele atende rapidamente ao divino comando e, pelas frequentes batidas, o inculca nos ouvi-
dos dos fiéis”. (Durandus, Bispo de Mende citado por Morris 1959: 43-44) Atualmente,

4
De notar o uso ainda hoje de sinos, campainhas ou chocalhos nas vestes aquando da realização de cer-
tas festas, rituais e ritos, profissões; Encomendação das almas; La Moza de Ánimas (A Moça das Almas);
Entrudo; Paradas militares; Pastorícia; etc.

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o sino, e o seu toque, perdeu, em parte, a força e o simbolismo de outrora. Anteriormente
referenciado como um sinal da comunidade e um marco sonoro ligado ao culto cristão,
perdeu o seu simbolismo nos tempos modernos pela modificação da noção de tempo a
partir dos finais do século XIX aquando da Revolução Industrial.

Os sinos: origem, usos e funções

Os sinos e as campainhas acompanham o Homem desde tempos remotos, tendo esta-


do presentes nos momentos mais importantes da sua vida. Produzindo determinados sons,
com diferentes usos e funções, são indissociáveis dos ciclos vitais, não raro, assumindo
funções rituais e usos mágicos. Os sinos integram o conjunto dos chamados idiofones
percutidos (porventura os de origens mais antigas), na medida em que os sons são obtidos
graças a um batimento sobre o corpo vibrante, ação realizada com um objeto que pode-
mos considerar de estranho ao mesmo. No entanto, as formas atuais dos sinos mostram-se
bastante distintas das formas mais antigas ou primitivas, tal como as suas potencialidades
sonoras (e musicais). Com o advento do Cristianismo, aliou-se à sua função primordial de
reunião e comunicação, um carácter intrinsecamente sagrado, tornando estes instrumen-
tos, autênticos porta-vozes de uma linguagem que, de universal, se manteve até ao presen-
te. O que implicou, naturalmente, a criação de um processo de significados e significantes,
de modo a operar a respetiva sacralização (não raro procurando desvanecer funções rituais
de evidente origem pagã), sobretudo a partir da altura em que se tornou imperativo con-
gregar as comunidades em torno dos respetivos templos, bem como manter informadas
as pessoas sobre os seus deveres e obrigações religiosas, sobretudo os tempos/momentos
de oração. Porém, importa ter presente que os sinos não foram inicialmente aceites como
símbolos do cristianismo, sobretudo devido ao facto de na Grécia e em Roma estarem
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

profundamente associados a rituais pagãos e a práticas seculares (Vasconcelos, 2012)5.


Não se revela uma tarefa fácil a referência precisa à origem dos sinos, sendo frequen-
tes as divergências entre autores e estudiosos da matéria. Os mais antigos exemplares
que são conhecidos são de origem chinesa e datam do segundo milénio antes de Cristo,
sendo muito escassos os documentos que permitem recuar na sua ordenação cronológica.
De facto, apesar da reconhecida antiguidade no seu uso, em funções religiosas ou em
contextos lúdico-profanos, os espécimes conhecidos apresentam formas muito rudes e

5
O texto, de autoria do Pe. Thomás Gonçalinho, foi originalmente publicado no ano de 1932, e faz parte dos
Boletins Mensais do governo metropolitano do Exmo. Dom Miguel de Lima Valverde, Arcebispo de Olinda
e Recife entre os anos de 1922 a 1951, foi republicado pelo site “Direto da Sacristia” (http://diretodasacris-
tia.com), e faz parte da coleção de publicações da Biblioteca do Seminário de Olinda/PE.
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sons imperfeitos. São de referir, ainda, espécimes de origem assíria, reportados a cerca de
800 a.C., bem como alguns exemplares de origem egípcia e grega remontando a vários
séculos a.C. O uso dos sinos no Antigo Egipto esteve intimamente associado ao culto de
Osíris. Moisés, cuja educação decorreu entre a classe sacerdotal egípcia, foi o introdutor
dos sinos nos cerimoniais da religião judaica. A descoberta de espécimes mais evoluídos
provenientes destas civilizações revelou-se surpreendente, na medida em que apresentam
uma “forma elaborada e modos de afinação” que permite presumir tratar-se de “instru-
mentos pertencentes a um estado avançado de prática musical” (Tranchefort, 1980). Estes
instrumentos são ainda resultantes de um longo processo de evolução e refinamento em
termos organológicos. A chegada dos sinos à Europa registou-se através de Bizâncio. A
primeira notícia da sua utilização refere-se a Nola, na província de Campânia, na Itália6.
O uso dos sinos no culto cristão pode filiar-se na continuidade da utilização de diversos
instrumentos musicais, como os cornos de carneiro e as trompetas de prata citadas no Antigo
Testamento para o anúncio de um festim, ou as campainhas de ouro mencionados no livro do
Êxodo7. A palavra “sino” – que desde logo se confrontou com designações como nola, singram,
clocca e campana – consta pela primeira vez (ano de 515) numa carta do diácono cartaginês
Ferrandus ao abade de S. Eugípio. Tinha funções de chamamento, e na missiva refere-se como
sendo um instrumento “consuetudo beatissima monachorum”, ou seja, costume dos monges
santos. A partir do século V, os sinos surgem referenciados nos mais diversos textos, sendo
considerada primordial a função de chamamento. Esta função já surge evidenciada em textos
italianos: a abertura dos mercados era anunciada pelo toque de sinos instalados nos respetivos
edifícios e autores clássicos (Marcial, Plínio e Suetónio) referem o seu uso em balneários e
templos. Embora alguns missionários e mosteiros beneditinos já utilizassem sinos no decurso
dos séculos V e VI, a sua colocação nos templos cristãos foi decisivamente incrementada pelo
Papa Sabiniano, que, por bula do ano de 604, instituiu o toque de sinos nas horas canónicas8.

69 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


6
De facto, a instalação de sinos nos templos cristãos tem vindo a ser atribuída a S. Paulino (353-431), bispo de
Nola, que no ano da sua morte mandou instalar vários tintinabula de diferentes dimensões, feitos a partir de folhas
de cobre e de estanho, com a função de comunicar aos fiéis o distinto conteúdo das ecclesiae. Mas a atribuição
deste pioneirismo a S. Paulino não é rigorosa, na medida em que existem testemunhos sobre a colocação de sinos
em cavernames colocados nos adros da igreja, nos tetos dos templos ou numa árvore vizinha… Regressando a
Nola, tratava-se de um conjunto de sinos dispostos sob a forma de carrilhão (tintinabulum) (Vasconcelos, 2012).
7
De modo a puderem ser utilizados, os sinos, sendo considerados como vasos sagrados, destinados ao culto divino,
recebem uma bênção especial, que, pela semelhança que tem com o rito do Batismo, é vulgarmente chamado de
Batismo dos Sinos. Esta designação encontra-se já no século VIII. Contudo, é uma designação imprópria e não
se deve, de modo algum, confundir o sacramento do Batismo com a bênção dos sinos. De resto, a Igreja nunca
admitiu nos seus livros a designação de Batismo, mas sim a de Bênção (Vasconcelos, 2012).
8
A bula papal decretava que os sinos dos mosteiros – no interior dos quais acabariam por se instalar oficinas
e fundições, sobretudo nos beneditinos – deviam ser tangidos oito vezes ao dia, ficando tais momentos a ser
conhecidos como “horas canónicas”, correspondendo sobretudo a orações cantadas, mas também a salmos,
cânticos, hinos, lições, versetos e responsos (Vasconcelos, 2012).

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O seu toque significa também, em plena Idade Média, o início e fim de pausas na jornada de
trabalho dos monges, então os grandes impulsionadores da agricultura (Vasconcelos, 2012).

As origens da milenar tradição do uso e toque dos sinos nas aldeias, vilas e cidades,
é bastante antiga tendo ligação com o culto cristão e as práticas religiosas ligadas ao
cristianismo. O sino está ligado ao ato de chamar os fiéis para as celebrações litúrgicas, a
marcação dos tempos e dos deveres de oração ao longo do dia, ao anúncio de novas ou
de perigos, e a uma imensa panóplia de situações quotidianas. Nos dias de hoje, temos
ainda presente o toque dos sinos a chamar para ofícios litúrgicos específicos, nomeada-
mente a eucaristia, os funerais, as horas, entre outros. Podemos encontrar uma das suas
formas mais remotas num tipo específico de campainha que os sacerdotes judeus usavam
presas na orla das suas túnicas. Na sua forma mais simples, de pequenas campainhas, re-
monta a uma alta antiguidade9. A literatura e os escritos elaborados desde a antiguidade
mostram-nos que as campainhas eram conhecidas de quase todos os povos. As descober-
tas arqueológicas revelam-nos que escritores como Plutarco, Luciano – entre os gregos,
Plínio, Marcial, Suetônio, Sêneca – entre os latinos, já falavam do uso de campainhas.
O uso de campainhas não se resumia ao uso litúrgico, podendo ser ainda costume usá-
-las no pescoço dos animais (São Paulino de Nola), como forma de afastar os maus espí-
ritos, com a função de amuletos ou talismãs. Este costume, para muitos, supersticioso,
ainda hoje se encontra em determinadas regiões do país, nomeadamente aquele por nós
analisado. Como proteção contra os maus espíritos e o mau olhado, o uso de campai-
nhas e de sinos, é um costume que remonta aos fiéis dos primeiros tempos (São João
Crisóstomo). A este e outros usos profanos, devem-se juntar os usos religiosos10. Mas foi
sobretudo no Cristianismo que as campainhas (e, depois, os sinos) receberam um uso
quase exclusivamente religioso: convocar os fiéis aos atos de culto (Vasconcelos, 2012).
O modo de convocar os fiéis para os ofícios divinos não foi sempre o mesmo. Santo
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Inácio Mártir manda que os fiéis sejam chamados cada um em particular (Carta a
Policarpo). Isto não era difícil num tempo em que os fiéis eram pouco numerosos. Mas,
com o aumento do número de cristãos, este modo de convocação tornava-se praticamente

9
O estudo dos livros sagrados do Antigo Testamento mostra-nos que o uso remoto destas campainhas, foi
ordenado por Deus e remonta ao tempo de Moisés pois que no livro do Êxodo, se faz referência a que
“o senhor mandou que colocasse na orla da túnica de Aarão um certo número de campainhas de ouro
(cf. Êxodo XXVIII, 33-34). No que concerne este hábito, foram encontradas destas campainhas em
sepulturas hoje consideradas como pertencentes à época.
10
Conta Porfírio que havia na Índia uma espécie de religiosos que se reuniam ao toque de uma campainha
para orar. Em Roma, nas festas de maio celebradas pelos Arvales, eram usadas no culto dos lamures, nos fu-
nerais etc. Suetônio conta que Augusto rodeou de campainhas o tímpano do templo de Júpiter. Em antigos
templos pagãos, encontram-se campainhas como ex-votos.
70 //

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impossível. Anunciavam-se, então, ao Domingo, os dias, horas e lugares das reuniões que
se houvessem de celebrar durante a semana. Neste contexto, a prática de chamar pes-
soalmente, a cada um, restringiu-se aos retardatários, os quais eram chamados pelos cur-
sores,  proecones  ou monitores11. O uso dos sinos nos mosteiros remonta ao século VI.
Diversos documentos atestam o facto, de entre eles, o mais antigo é a Regula ad Virgines de
São Cesário de Arles, escrita por volta do ano 513. Dos mosteiros, os sinos passaram
para as igrejas paroquiais. Neste sentido, Gregório de Tours afirma que o seu uso era já
frequente no século VI na Gália. Quanto às ocasiões em que se tocavam, e de acordo com
uma passagem de Dom Leclercq: “Nos mosteiros, o sino regulava e marcava, de uma
maneira que todos compreendiam, os exercícios comuns, desde o despertar, o ofício, a re-
feição e o deitar, até aos menores incidentes da observância e às circunstâncias excepcionais
da vida”. À hora da morte, São Esturmio de Fulda12, mandou tocar todos os sinos do mos-
teiro para convidar os irmãos, assim avisados, a se colocarem em oração. À nona13, Begu14
tem conhecimento da morte da Abadessa Hilda15, pelo modo especial com que o toque
dos sinos foi efetuado e que soava desde um mosteiro até ao outro (Vasconcelos, 2012).
Nas igrejas paroquiais, o sino convocava os fiéis aos ofícios do dia e da noite: “Que todos
os sacerdotes competentes façam soar o sino das igrejas nas horas do dia e da noite, para
que, em seguida, celebrem os sagrados ofícios divinos e ensinem as pessoas a adorarem a
Deus”16. Por ocasião do assalto de Sens por Clotário II, o bispo São Lupo mandou tocar
o sino da igreja de Santo Estevão. Consta ainda que nos finais do século VIII, era uso se
tocarem os sinos para afugentar as tempestades e o granizo. Estes diferentes usos dos sinos
eram indicados em inscrições neles gravadas17.

11
Neste processo, era natural que usassem algum instrumento que, se não era uma campainha, fazia
as suas vezes. Segundo a Regra de São Pacômio, os monges eram convocados ao som da trombeta.
Noutros mosteiros, batia-se à porta da cela de cada religioso com um martelo (Cassiano). No mos-
teiro de Santa Paula, em Belém, as religiosas eram chamadas ao canto do Alleluia  (São Jerônimo) 71 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
(Vasconcelos, 2012).
12
Santo Estúrmio (m. 779) ou Sturmius foi um monge beneditino germânico, discípulo de São Bonifácio.
Em 744, sob a direção do mestre, Estúrmio fundou e foi o primeiro abade da Abadia de Fulda, que viria a
ser uma das mais importantes casas monásticas da Idade Média alemã.
13
Hora do Ofício Divino correspondente às 9h.
14
Santo do século VII, da Idade Média.
15
Também conhecida como Abadessa de Whitby, santa falecida em 680.
16
Capitularia de Carlos Magno, elenco de leis da época carolíngia.
17
É muito comum a gravação: “Laudo Deum verum, plebem voco, congrego clerum, defunctos ploro, pestem fugo,
festa decoro”. Outras vezes encontramos a inscrição: “Funera plango, fulmina frango, sabbato pango; Excito len-
tos, dissipo ventos, paco cruentos”; outras ainda: “Convoco, signo, noto, compello, concino, ploro, Arma, dies, horas,
fulgura festa rogos”; ou a gravação no sino do Mosteiro beneditino de Maredsous “Jubilans, sacra festa cano;/
Suplex longo procellas pello:/Plorans alumnis stratis bello/ Amicis, monachis, pacem rogo” (Vasconcelos, 2012).

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No que concerne a sua designação, os sinos receberam, ao longo dos tempos, vários
nomes. A referência mais antiga que os latinos efetuam do sino, vem do nome que lhe
atribuem, tintinnabulum  (às vezes,  tintinna), nome genérico que designava igualmente
as campainhas pequenas. Os gregos chamavam-nas kódones (singular: kódon) e assim os
vigias noturnos eram chamados kodonóphoroi por trazerem uma campainha. Mas o nome
próprio latino que serve para designar os sinos é – signum, assim chamado porque servia
para dar o sinal – signum. Encontramos esta designação já no primeiro quarto do século
VI18. Outras das designações utilizadas para se referirem ao instrumento é o de Campana,
designação que deriva, provavelmente, de Campânia, o nome de uma das regiões de Itália.
Esta justificação advém do facto de por esta região ser uma das primeiras onde existiram
Fundições de sinos e onde se começaram a fundir os sinos de maiores dimensões, pois que
nela existia bronze de excelente qualidade, inúmeras vezes referenciado na antiguidade
– aes campanum (cobre campanês). Encontramos esta denominação, de modo frequente e
generalizado, já no século VI. Encontramos também o nome campanum. Contudo este era
usado com menos frequência por parte dos locais. No norte da Gália e na região romana,
empregava-se a palavra clocca ou glogga19. Outra designação do instrumento é o de nola, já
conhecida no século II e que servia para designar os sinos de pequenas dimensões20.

Até chegarmos à forma e constituição que os sinos hoje possuem, percorreu-se um


longo caminho. A forma que hoje possuem foi adquirida na Holanda no decurso do
século XVII. Terá sido a partir do século XIII que se passou a colocar os sinos no alto
de torres instaladas com esse fim (campanários)21. A colocação dos sinos nos templos
determinou algumas modificações de natureza organológica. Os primeiros apresentavam
formas quadrangulares, mas, a partir do século VIII, com o abandono da utilização do
ferro, os sinos começaram a ser fundidos em bronze e a adquirir formas redondas, evo-
luindo para dois tipos fundamentais: tipo taça, pouco profundo e desprovido de badalo,
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

percutido de fora através de um martelo; e tipo profundo, cónico ou em forma de colmeia,


18
Na Regula ad Virgines de Cesário de Arles (escrita cerca do ano 513), lê-se: Quae, signo tacto, tardius ad opus
Dei venerit. Na Regra de São Bento (escrita entre 529 a 543), lê-se: Ad horam divini officii, mox ut auditum
fuerit signum, summa cum festinatione curratur (capítulo 43). Este nome era muito usado entre os visigodos e
encontra-se ainda hoje no Pontificale Romanum, parte II, título: De Benedictione Romanum, parte II, título: De
Benedictione signi vel campanae (Vasconcelos, 2012).
19
A biografia de São Sturmio de Fulda (780) informa que à hora da morte mandou tocar todos os sinos
(glogga) do mosteiro. Na de São Bonifácio, lê-se: Ecclesiae cloccum, humana non contigente manu, commotum
est (Vasconcelos, 2012).
20
Há quem o faça derivar de Nola, cidade da Campânia, porém não parece admissível, pois a sílaba no de
nola (sino) é breve, ao passo que a de Nola (cidade) é longa. Wetzer, com mais probabilidade, deriva-a do
céltico noll, nell, donde vem o inglês knoll, dobras os sinos (Vasconcelos, 2012).
21
De facto, embora o uso dos sinos nos templos cristãos tenha sido sancionado pelo Papa Sabiniano, só por
volta do século XI é que se começaram a construir torres sineiras.
72 //

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com parede convexa de espessura uniforme e provido de badalo no interior. Foi a partir
deste, de maiores dimensões, que se evoluiu para o atual modelo esquilonado, considerado
de origem holandesa22.

Os sinos na região da Raia / Nordeste Transmontano

Em Portugal, e num grande número de sinos da diocese de Miranda do Douro sur-


gem inscrições epigráficas que, em geral, invocam Jesus Cristo, Nossa Senhora, Deus ou
os santos padroeiros das localidades em cujos templos são colocados. As inscrições são
constituídas por motivos ornamentais (que normalmente servem de separador entre as
inscrições), bem como cruzes ou imagens. Geralmente apresentam-se nas zonas da terça
e do meio-pé – de cima para baixo podemos distinguir num sino cinco áreas: ombro,
terça, meio, meio-pé e pé, diferenciadas entre si por cordões ou bandas horizontais.
Normalmente, as inscrições são determinadas no contrato firmado entre os fundidores e
os sacerdotes, mordomos, confrades ou pessoas encarregadas de concretizar a encomen-
da. Uma das mais antigas em templos da Terra de Miranda, datada de 1626, está no sino
da torre direita (vista de frente) da Sé Catedral: Sanctus Deus, Sanctus Fortis, Sanctus Et
Inmortalis, Miserere Nobis.

A musicalidade dos sinos depende de um grande número de fatores, tendo a qualidade


da fundição do bronze uma importância decisiva. Os fundidores devem dominar as com-
plexas técnicas da fundição, trabalho que – apesar dos avanços tecnológicos e do elevado
nível dos conhecimentos científicos sobre a acústica dos sinos (área dominante da campa-
nologia, ciência que estuda os sons dos sinos) – continua a ser considerado uma verdadeira
arte. Atualmente, está bastante divulgada uma divisão dos sinos em dois tipos fundamen-
tais: moderno e antigo. O sino do sistema moderno, apresentando o mesmo peso que o
73 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
do sistema antigo, é mais baixo e mais largo na boca, sendo o respetivo som considerado
mais claro e timbrado. Cada sino tem uma nota musical característica, determinada pela
respetiva configuração geométrica e espessura da parte terminal do bojo ou curva na qual
percute o badalo ou martelo. O timbre e o som de um sino são verificados por um anali-
sador espectral eletrónico, obtendo-se o padrão de afinação pretendido através do recurso
à rebarbagem mecânica do respetivo interior. De acordo com a tradição cristã, os sinos
são afinados em cinco harmónicas: a nominal, a quinta da nota fundamental, a terceira

22
Importa referir que foi na época gótica que, na Europa Ocidental, o badalo se instalou definitivamente no
interior do sino, determinando o tipo esbelto e de perfil estilizado, designado por tulipa ou esquilonado, que
se impôs a partir do século XIV e que caracteriza a esmagadora maioria dos sinos dos templos ocidentais.

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menor da nota fundamental, a fundamental (nota da primeira oitava inferior ou abaixo) e
o bordão (nota da segunda oitava inferior ou abaixo). Nasce, assim, um conjunto de sinos
afinados, podendo ser utilizados individualmente ou combinando sinos de distintos sons
e tamanhos (carrilhão). Um sino pode ser tocado de diferentes maneiras, considerando o
movimento e o modo de percussão, que podem ter execução manual ou elétrica: sino
imóvel, percutido com badalo interior (badalada) ou com martelo (martelada ou ma-
traqueada); sino em movimento de vaivém (balanceado, dobrado ou bamboado) ou de
rotação completa (volteado).

No que concerne o seu toque, verificamos a existência de diferentes formas do mesmo


ser acionado. De forma singular, ou em conjunto com outros sinos, de formas e afinações
diferentes, produz toques que informam as gentes. Assim constituem-se os toques das Avé
Marias; contra as trovoadas; litúrgicos; de oração; repique; das almas ou o toque que revela
a morte e o ritual da extrema unção. O toque dos sinos desempenhava, e desempenha,
em algumas localidades, um papel relevante junto da comunidade, sendo que o toque da
manhã, designado toque das Avé Marias; o do meio-dia, o Angelus; e o do fim da tarde,
designado toque das Trindades; se mostram iguais, consistindo “em três grupos de três
badaladas simples e compassadas no sino grande do templo”.
O Toque das Avé Marias é uma prática puramente católica, consistindo na recitação de
orações ao som dos sinos, em três momentos muito importantes na vida das comunidades.
No que concerne o Toque contra as Trovoadas, acreditava-se que o toque incessante dos
sinos em dias de tormenta era eficaz para afastar relâmpagos e trovões. Segundo António
Maria Mourinho, as gentes parafraseavam o som da tintanubrada ou tentanubrada (como
era designado o toque): Reten-te, reten-te / Reten-te anubrada / Nun bengas tan cargada;
Bai-t’a cargar / A la tierra de Sayago / A la tierra de Sayago. Este toque foi admitido e fo-
mentado pela Igreja a partir do século XVI, de modo a contribuir para que as orações dos
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

fiéis aplaquem “a ira d’Aquele que dá preceitos às tempestades e sem a vontade do qual
nada acontece no Inverno”23.
O Toque Litúrgico representa um toque de chamamento para a missa, integrando os
toques de anúncio dos ofícios religiosos (horas divinas, ave marias, trindades, finados e
defuntos), constituindo um apelo à reunião e participação da comunidade. No contexto
das celebrações litúrgicas, a campainha substitui o toque do sino ou da sineta que antiga-
mente estava suspensa da parede, no interior do templo. O Toque de Oração encontra-se
mencionado num documento próprio. Numa pastoral dada em 3 de dezembro de 1750,

23
Além do toque contra as trovoadas, registavam-se outros toques funcionais: para reunir o gado, para reunir
o conselho da aldeia e para avisar da existência de fogo. Neste caso, o toque de fogo, era um toque a rebate,
do género do também usado em caso de ameaça ou perigo iminente para a comunidade.
74 //

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o bispo Frei João da Cruz “recomenda o exercício da oração e manda que os párocos a
façam em dias determinados ao povo congregado a toque de sino” (Abade de Baçal). Três
anos depois, o mesmo bispo refere a necessidade de oração “pelo menos de um quarto de
hora por cada dia do mês”, determinando que na igreja catedral “todos os dias (…) se dê
sinal com o sino”.
O Toque de Repique, ou toque repicado (também dito repiquete) acontece em pratica-
mente todas as ocasiões festivas, sendo a duração muito variável. É um toque glorioso e de
exaltação, puxando-se os sinos com cordas. Nas procissões, o repique festivo (a Molinera
é o mais expressivo e popular) deve ser dado na igreja principal pelo menos à saída e à
entrada da procissão e quando passe em frente de outros templos.
O Toque das Almas é realizado a horas distintas conforme os ciclos naturais das esta-
ções. No inverno realiza-se às 21horas e no verão às 22horas. Neste toque fazem-se ouvir
três badaladas espaçadas, apelando a que cada um, em sua casa, evoque os entes falecidos,
bem como todas as almas que se encontram prestes a deixar o Purgatório.
O Toque da Extrema-Unção é anunciado com cinco badaladas em cada um dos
sinos da torre sineira (primeiro no grande, depois no pequeno). O toque dá-se quando
o sacerdote se prepara para sair para a casa onde se encontra o moribundo, seguidas do
toque de repique da Molinera quando abandona o templo. Os cinco toques em cada
sino representam as cinco chagas de Cristo e o repicado informa que o Senhor está na
rua, o que é sempre uma ocasião de louvor e celebração24.

Com o decurso dos tempos, os tocadores de sinos das aldeias deixaram de subir as
íngremes escadas de acesso aos campanários – não raro, velhas estruturas de madeira que
foram apodrecendo, dando lugar a degraus em tubo de ferro galvanizado, nada fáceis
de vencer. Começaram, então, a usar-se cordas e correntes para possibilitar os toques
mais vulgares, realizados a partir do solo (toques fúnebres ou de chamamento para a

75 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


missa e pouco mais) ou a instalar-se sistemas elétricos (imobilizadores de badalos) com
martelos de toques programados. Os restantes toques que animavam a paisagem sonora
em distintas ocasiões estão praticamente esquecidos, permanecendo na memória cole-
tiva das gentes em quase completo silêncio. É um património adormecido, a caminho
do esquecimento, que nos remete para a justeza das palavras de Michael S. Rose: “Uma
igreja não deve ser apenas vista, mas também ouvida”. Algo que as modernas tendências
da arquitetura parecem estar a ignorar.

24
No Nordeste Transmontano, os sinos estão ainda presentes no toque das horas canónicas designadas: Prima,
Terça, Sexta, Nona, Vésperas e Bíblicas, Completas, Matinas e Laudes.

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Conclusão

Ao efetuar este trabalho, e na sequência de pesquisas anteriores no que concerne os


rituais cristãos e o uso do sino em terras da raia portuguesa e espanhola, podemos aferir da
sua pertinência e uso não só em tempos idos como nos tempos atuais. O sino sempre foi,
e será, pela sua presença nas paisagens e na vivência dos povos, um elemento de destaque
pela sua força tanto centrípeta como centrifuga. Em outro, cada terra tem o seu tocador
de sino, um elemento da comunidade que conhece a fundo o seu trabalho e o tipo de
toques adequados a cada época do ano, festividade ou anúncio a realizar. Na sua forma
de tocar pode indicar com uma precisão única as mais diversas situações, seja festividade,
as horas, a oração ou o aviso (perigo, nascimento, casamento, morte), chegando mesmo a
revelar pormenores nesse toque como sejam, e no caso do nascimento, a aldeia a que per-
tence o nado e o seu sexo. Pode ainda indicar se estamos perante um ofício religioso, uma
festividade, e qual o preceito a cumprir em termos de oração. Neste sentido, cremos que
o toque dos sinos se mostra um elemento sonoro da paisagem. Com grande relevo para a
população prevemos que o seu estudo e divulgação é importante para que não se venha a
perder enquanto saber e tradição de um local e de uma região.
Da mesma forma que o sino ainda hoje se encontra ligado a rituais da igreja católica
especialmente na altura da quaresma, cremos que a revitalização do seu toque poderá pro-
mover o renascer de um outro olhar sobre a paisagem e sobre as regiões, transformando-se
numa oportunidade de divulgação dos locais em termos de turismo e cultura popular. As
tradições, os rituais e os ritos, bem como os patrimónios material e imaterial, adstritos a
um determinado espaço geográfico e territorial, são percebidos, por todos os agentes cul-
turais, políticos e sociais, como fatores de desenvolvimento social, económico, artístico e
cultural, constituindo-se em ferramentas de animação e desenvolvimento, tanto comuni-
tário como territorial. No caso dos sinos e da sua prática ritual e artística, pensamos estar
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

frente a um património que urge preservar pois, a sua prática, permite que um conheci-
mento não se esvaia e um sonoro se extinga. Enquanto elementos produtores de som, mais
ou menos presentes no espaço de uma região, mostram-se no viés de uma prática que se
quer formada e informada. Esta prática exige um conhecimento dos rituais e ritos, práti-
cas e costumes, mas também uma vontade e uma exigência de si. Quem são os detentores
desse conhecimento e prática? Quem são aqueles que nos podem presentear com um
saber ritualista? Quem são aqueles que se podem dizer veículos de tradição?
Se a evolução permite que, e cada vez mais, se instrumentalize uma prática, não será
destituir o sonoro de uma gestualidade e intenção performativa que lhe advém do gesto, da
racionalidade, mas também da emotividade de quem toca? Não será destituir o sonoro e a
paisagem que ele cria, de uma componente humana, ritual e social de valor? Não será tornar
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fria a matéria, quando, pela sua natureza vibrante ela pode ser veículo de intenção e vida?
Assim sendo, cremos que o toque dos sinos se produz um elemento sonoro da paisagem
com grande relevo para a população e cujo estudo e divulgação se expõe importante para
que não se venha a perder um elemento da paisagem sonora do lugar. Da mesma forma que
o sino ainda hoje se encontra ligado a rituais da igreja católica, especialmente na altura da
quaresma, cremos que a revitalização do seu toque poderá promover o renascer de um outro
olhar sobre a paisagem e sobre as regiões, transformando-se numa oportunidade de divul-
gação dos locais e na sua promoção cultural e artística. Abordar a questão do património
material e a sua relação com as paisagens sonoras que dele se desprendem, delineando, a
partir das regiões, formas e lugares, ritmos e tempos, bem como a presença de determina-
dos sons, práticas, usos e costumes, onde os sinos desempenham um papel fundamental,
revelou-se para nós de cabal importância, sendo que o uso dos sinos e a sua relação com o
meio envolvente se faz ainda hoje pertinente e eficaz na região da raia portuguesa, denunciando
formas de ser e estar, fazer e dizer arte, rurais, mas, simultaneamente, urbanas.

Bibliografia

Brelet, Gisèle (1949). Le temps musical: essai d’une esthétique nouvelle de la musique. Paris: Presses
Universitaires de France.
Correia, Mário (2012). Toques de Sinos na Terra de Miranda. Âncora Editora. Fonte: https://www.
apagina.pt/?aba=7&cat=560&doc=14560 acedido a 6 de abril 2020, 14:14.
Jung, Carl Gustav (1964). O homem o seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Morris, Ernest (1959). Tintinnabula. London: Robert Hale.
Schafer, R. Murray (1997). A afinação do mundo. São Paulo. FEU. UNESP.
Tranchefort, François-René (1980).  Les instruments de musique dans le monde 1, Coll. «Points»
(n° Mu 5). Paris: Éditions du Seuil.

77 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Vasconcelos, Alex (2012). Sobre a origem e o uso dos sinos. https://www.wemystic.com.br/oracao-
-das-horas-vesperas-laudes-e-completas/ acedido em 6 de abril 2020, 14:37.

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A geografia da Amazônia na obra de
Samuel Benchimol

Hellen Caroline de Jesus Braga


Universidade Federal do Amazonas
Departamento de Geografia
Programa de Pós-graduação em Geografia
Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades na Amazônia

Paola Verri de Santana


Universidade Federal do Amazonas
Departamento de Geografia
Programa de Pós-graduação em Geografia
Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades na Amazônia

José Aldemir de Oliveira (em Memória)


Universidade Federal do Amazonas
Departamento de Geografia
Programa de Pós-graduação em Geografia
Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades na Amazônia

Introdução

79 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Interpretar a Amazônia tem sido um desafio e uma dificuldade que se impõe, em
parte, em decorrência da extensão territorial que ultrapassa os limites do espaço brasileiro.
A dimensão traz consigo, de um lado, a floresta e a grande bacia hidrográfica e, de outro,
as histórias, as crenças e os costumes, que não são únicos, mas específicos, caracterizando
a região pela rica biodiversidade, pelo acúmulo de tempos em espaços sobrepostos,
característicos da sociodiversidade.
Os acontecimentos no Brasil e no mundo refletiram-se direta e indiretamente no
modo como a sociedade produz e se apropria do espaço na Amazônia, resultando em di-
versos povos que se misturam e adentram-se pela região, devido aos processos econômicos,
às melhores condições de vida ou motivações outras, que determinam o fazer e refazer-se.

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Nesse processo, a população reconstituída recebe influência dos povos que já se faziam
presentes, havendo trocas de costumes para o construto cultural amazônico.
Diferentes intelectuais descrevem esses episódios, que se espraiam pela vasta região da
floresta e dos rios, das montanhas e das planícies. Há inquietações partindo de agentes
externos e dos participantes dos processos amazônidas. São intelectuais que buscaram e
outros que, hoje, buscam compreender essa região. São figuras que valem a pena interpretá-
-las e valorizá-las sem perder a capacidade da crítica, compreendendo seus escritos inseridos
e contextualizados nas histórias de cada tempo.
Ainda são escassos os estudos feitos sobre e a partir da Amazônia. A presente pesquisa
visa contribuir para o pensamento geográfico a partir de um autor amazônico que, não
sendo geógrafo, possui uma obra com vários traços geográficos e com escritos que apre-
sentam preocupações com a região. O nome relevante, com participação nos processos
políticos e econômicos, como empresário e Professor Emérito da Universidade Federal do
Amazonas, escritor de diversas obras chama-se Samuel Isaac Benchimol. Seus escritos in-
fluenciaram tomadas de decisões sobre o desenvolvimento da região e são referências para
a interpretação da Amazônia, especialmente no último quarto do século XX. O pensa-
mento do autor reflete as influências da sua trajetória intelectual em que são identificados
traços caracterizados como geográficos como a ênfase na categoria de análise região. Obras
dedicadas à Amazônia, relevantes para a formação do pensamento geográfico sobre uma
região, que abrange cerca de 60% do território brasileiro.
Samuel Benchimol, embora não tivesse formação na Ciência Geográfica, apresen-
ta profundo conhecimento sobre a Geografia da Amazônia, inclusive em diálogo com
noções geográficas como a de região. O trabalho divide-se em cinco partes: 1) Vida de
Samuel Isaac Benchimol; 2) Obra intelectual de Samuel Isaac Benchimol; 3) A Amazônia
descrita por Samuel Isaac Benchimol; 4) Os intelectuais contemporâneos a Samuel Isaac
Benchimol e 5) A noção de região na obra de Samuel Isaac Benchimol.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Vida de Samuel Isaac Benchimol

Samuel Isaac Benchimol, um grande pensador da Amazônia, nasceu em Manaus no


ano de 1923, de origem judaica, dos judeus-marroquinos vindos para o Brasil. Esse autor de
cerca de 107 trabalhos publicados era também advogado, empresário e acadêmico, e faleceu
em 2002. Foi empresário do grupo econômico familiar conhecido por Bemol, Bemol Farma
e Fogás, além de ser professor na Universidade do Amazonas. Ademais, assumiu cargos
empresariais de direção como: Vice-Presidente do Banco do Estado do Amazonas (Manaus-
-AM, 1957/1962), Diretor da Copam – Refinaria de Petróleo de Manaus (Manaus-AM,
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1962/1968), Diretor da Associação Comercial do Amazonas (Manaus-AM, 1945/1998) e
Presidente do Grupo Empresarial Bemol/Fogás (Manaus-AM, 1942/1998).
Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Amazonas, Manaus de 1941 a
1945, deu continuidade aos estudos com o curso de Pós-Graduação, stricto sensu, em
nível de Mestrado em Sociologia (major) com o trabalho Manaus: o crescimento de uma
cidade no vale amazônico, em Economia (minor), na Miami University, Oxford, Ohio, nos
Estados Unidos de 1946 a 1947. − Observa-se aqui um viés geográfico na pesquisa reali-
zada. Ainda, sobre sua formação, torna-se doutor em Direito pela Faculdade de Direito do
Amazonas, concurso público, Manaus, 1954.
Samuel Benchimol tem uma passagem pela Geografia, mesmo que pontual. Em 1941
foi professor de Geografia e História do Curso de Admissão da Escola Primária Professor
Vicente Blanco (Rua Miranda Leão), em Manaus. Em 1944 apresentou trabalho intitula-
do O Cearense na Amazônia – Inquérito antropogeográfico sobre um tipo de imigrantes. Prêmio
“José Boiteux” do X Congresso Brasileiro de Geografia (1944). 1.ª ed. Conselho Nacional
de Imigração e Colonização. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1946, 89 p., 2.ª ed. Rio de
Janeiro: SPVEA - Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, Coleção Araújo Lima;
1965, 87 p., 3.ª ed. Manaus: Imprensa Oficial, 1992, 304 p. Em 1946, o estudo denominado
O Aproveitamento das terras incultas e a fixação do homem ao solo foi publicado no Boletim
Geográfico, Conselho Nacional de Geografia, ano 4, n. 42, Rio de Janeiro, 1946, 38 p. Além
disso, foi sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB.
Em seus livros, o autor cita nomes como Friedrich Ratzel e Jean Brunhes, represen-
tantes clássicos da geografia alemã e francesa, respectivamente, deixaram pistas para sua
fundamentação alusiva à valorização da região amazônica, Brunhes tem como objetivo
compreender a complexidade do processo de produção do espaço dos homens e das
mulheres no mundo.

81 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Obra intelectual de Samuel Isaac Benchimol

Samuel Benchimol iniciou sua vida intelectual aos 18 anos, em 1941, quando ingressa
na Faculdade de Direito. O mundo vivia um período conflitante decorrente da segunda
guerra mundial (1939-1945) e, no Brasil, o Estado Novo estava sob o comando do pre-
sidente Getúlio Vargas, que mantinha o poder mediante a hipertrofia do Executivo, após
haver eliminado o Congresso e sobrepujado a ação do judiciário. A turma de Direito de
1941 se encontrava sob o impacto desse quadro político-ideológico. Manaus era uma
cidade pequena, começando a sofrer um processo de revitalização consequente da reativa-
ção dos seringais silvestres e do retorno do movimento imigrante, improvisado e caótico.

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Nesse período, Samuel Benchimol trabalhava como despachante de bagagens da Panair do
Brasil, conforme relata,

Relembro com saudade e emoção que nesse tempo eu era um humilde despa-
chante de bagagens da Panair do Brasil, exercendo funções no flutuante ao lado
do ‘roadway’ da ‘Manaus Harbour’, onde atendia aos passageiros dos hidroaviões da
Panair e da Pan American que transportavam a borracha dos seringais para o supri-
mento das Forças Aliadas na Guerra. (BENCHIMOL, 1977. p. 32,)

Em decorrência do grande fluxo migratório, Samuel Benchimol se interessa em reali-


zar uma pesquisa intitulada como O cearense na Amazônia apresentada posteriormente no
X Congresso Brasileiro de Geografia, esse momento é um marco em sua vida intelectual.
– Os nordestinos, em especial, os homens vindos do estado do Ceará, vieram trabalhar na
produção da borracha e viver na Amazônia brasileira.
Estudos sobre economia e sociedade da Amazônia estão presentes nos livros de
Benchimol. São trabalhos nos campos da economia política, da história, da sociologia e
como estamos demonstrando aqui, também da geografia.
De autoria do professor Samuel Benchimol várias obras merecem destaque neste
estudo, são elas: Estrutura Geo-Social e Econômica da Amazônia (1966), Amazônia um
Pouco-Antes e Além-Depois (1977), Romanceiro da Batalha da Borracha (1992), Amazônia:
a Guerra na Floresta (1992), Eretz Amazônia: Os Judeus na Amazônia (1998) e Amazônia:
Formação Social e Cultural (1998). Abaixo, algumas das capas destes títulos.

Figura 1. Capas de livros


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fonte: Acervo NEPECAB


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Ainda sobre alguns dos livros para o entendimento da Amazônia, convém comentar
exemplos específicos que demonstram a grande variedade de temas e questões trabalhadas
por Samuel Benchimol. É o caso do Petróleo na Selva do Juruá: o Rio dos Índios-Macacos
(1979), Amazônia 95: Paraíso do Fisco e Celeiro de Divisas (1996) e Comércio Exterior da
Amazônia Brasileira (2000).
No contexto da vasta obra, seguem-se livros citados pelo Benchimol, de autores in-
fluentes, na lista dos essenciais para se entender a formação social brasileira. Pensadores
como Gilberto Freyre através de Casa Grande e Senzala de 1933, Sérgio Buarque de
Holanda com o livro Raízes do Brasil de 1936, Celso Furtado, que escreveu Formação
Econômica do Brasil em 1959, estão entre as principais referências bibliográficas
de Benchimol.
Segundo Márcio Souza na apresentação do livro Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia:

Em Samuel Benchimol, a Amazônia não é apenas um espaço geográfico, ou um


cenário de conflitos históricos não resolvidos, mas um lugar de encontros humanos,
capaz de atrair as mais diversas etnias e grupos sociais que para ali se deslocaram e
foram construindo uma sociedade nova e diferente. Como historiador ele refaz a saga
dos nordestinos, dos árabes, dos diversos estoques europeus e asiáticos, finalmente,
dos judeus. (SOUZA apud BENCHIMOL, 1998, p. 3)

Samuel Benchimol apresenta uma vasta obra voltada em grande parte para à
Geografia da Amazônia. Procura abordar aspectos sociais e econômicos, uma vez que
se debruça sobre a análise dos povos que adentraram na Amazônia e que contribuíram
para a construção de sua economia. Deixa, portanto, uma compreensão da Geografia
abrangente e sintonizada com questões importantes da cultura, das dimensões e prá-
ticas sociais, bem como sobre a visão econômica de planejamento da Amazônia. São

83 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


textos que apresentam insights e indicações teóricos-conceituais importantes para a
discussão geográfica.
Ser geógrafo e ecologista social era um desejo e isso foi fundamental em sua vida,
conforme ele mesmo relata no livro Amazônia: Um pouco-antes e além-depois, “[...] Daí pra
frente, passei a formar e a firmar a minha imagem como economista, um pouco distante
da minha paixão de geógrafo e ecologista social” (BENCHIMOL, p. 428, 1977). Por isso,
podemos considerar que ele não apenas dedicou-se profissionalmente à Geografia, mas
conviveu com a Geografia. Sendo assim, deixa traços dessa visão de mundo apresentada
por meio de noções geográficas.

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A Amazônia descrita por Samuel Isaac Benchimol

A Amazônia, segundo Benchimol, aparece detalhadamente descrita juntamente na


visão política. No livro Amazônia: A Guerra na Floresta, escreve o pensamento de que
“o projeto amazônico deve obedecer a quatro paradigmas, isto é, deve ser economica-
mente viável, ecologicamente adequado, politicamente equilibrado e socialmente justo”
(BENCHIMOL, 1992, p. 17). Em outras palavras, Benchimol era um desenvolvimentis-
ta, mas um desenvolvimentista que defendia um desenvolvimento sustentável, ou como
preferia chamar: um desenvolvimento inteligente. Isso porque a floresta, os rios, os di-
ferentes povos que habitam a Amazônia estavam entre as preocupações desse estudioso.
Havia uma visão geopolítica da região amazônica brasileira, em especial, para os períodos
da economia da borracha e da ZFM – Zona Franca de Manaus.
Para entender a Amazônia brasileira no contexto do planejamento sob a ótica do de-
senvolvimentismo, Benchimol reconhece a existência da Amazônia Legal que, de acor-
do com o IBGE (2014), é composta dos seguintes estados da federação brasileira: Acre,
Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão.
Juntos somam uma área territorial de 5.088.668,44 km², reunindo 772 municípios.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fonte: IBGE. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/cartas-e-mapas/mapas-regionais/15819-


-amazonia-legal.html?=&t=downloads Acesso em 02/06/2020.
84 //

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A Pan-Amazônia segundo a concepção geopolítica do Tratado de Cooperação
Amazônica – 1978 também foi vista por Benchimol. Dela fazem parte o Brasil juntamen-
te com a Bolívia, o Peru, o Equador, a Colômbia, a Venezuela, a Republica de Guiana e
o Suriname. Isso revela Benchimol ter uma compreensão de um aspecto internacional
da Amazônia bem como o fato dessa região do Brasil fazer fronteira com vários países da
América do Sul.

Países que compõem o bioma amazônico.

Fonte: RAISG, mongahay.com, ONU, OTGA. In: COSTA, Camilla. Amazônia: O que ameaça a floresta 85 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
em cada um de seus 9 países? Londres: BBC News Brasil, 18 fevereiro 2020. Acessado em: 12/03/2021.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51377232.

Em Amazônia Formação Social e Cultural (2009), Benchimol busca entender a forma-


ção social brasileira, saber das origens dos amazônidas em particular. Procura explicar as
causas e analisar as transformações decorrentes da dinâmica migratória, enfim, apresenta
profundo conhecimento sobre a dinâmica demográfica e distribuição dos povos que for-
maram a população amazonense. Questões como as migrações, a formação das famílias,
o surgimento dos trabalhos e o empreendimento de novos negócios foram tratados com

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o cuidado de listar os nomes das pessoas, tendo feito muitas pesquisas inclusive em cemi-
térios das cidades da região. Nesses termos, o autor dedica capítulos a grupos como: 1) os
índios e os caboclos da Amazônia: uma herança cultural-antropológica; 2) Os portugueses
na colonização e no pós; 3) Espanhóis e galegos na descoberta e na conquista; 4) Influência
afro-brasileira; 5) Os nordestinos e os “cearenses” na Amazônia; 6) Os ingleses; 7) Os
judeus na Amazônia; 8) Contribuição sírio-libanesa; 9) Participação norte-americana;
10) Parceria dos italianos; e 11) Japoneses no agro e na indústria. Resumindo, uma geo-
grafia da população com viés cultural e econômico descrita minunciosamente é reveladora
da diversidade social existente na região.

Os intelectuais contemporâneos a Samuel Isaac Benchimol

Ao começar a escrever e publicar, tendo como marco o ano de 1946 no Congresso


Brasileiro de Geografia, Benchimol tinha diversos fatores antecedentes que contribuíram
para o momento da Amazônia contemporânea de sua época. Registrava a migração nor-
destina, os chamados “soldados da borracha” e o discurso do “vazio demográfico” para
justificar políticas desenvolvimentistas. Segundo Oliveira Júnior (2015), “a economia
da borracha estava em acelerado declínio e nem a promulgação do Plano de Defesa da
Borracha, um conjunto de medidas para a recuperação econômica da região que durou
cerca de 17 meses conseguiu salvá-la” (OLIVEIRA JÚNIOR, 2015, p. 571).
Esta medida política, conforme Oliveira Júnior, não fora eficiente em montar meca-
nismos funcionais para a execução do Plano de Defesa da Borracha. Porém, o conjunto de
medidas representou a primeira tentativa de imprimir racionalidade à ação federal através
de um programa de metas, mostrando, para aquele momento, um memorável avanço:
as modernas técnicas de programação econômica. A não execução do Plano provocou o
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

colapso na estrutura econômica de toda a região, ocasionando uma profunda depressão


econômica que durou trinta anos.
O Brasil entrava no caminho da industrialização, porém, a região amazônica permane-
cia à margem. A proposta política e territorial da ocasião buscava expressão característica
de um Brasil moderno. Trazer uma nova roupagem para a primeira década do nascente
século XX seria a solução. Os pensadores que eram professores, médicos, jornalistas e
outros se debruçaram sobre as pesquisas e discussões e discursos referentes às ques-
tões regionais. Os debates ocorridos eram em torno de temas como as desigualdades e as
diferenças regionais, étnicas e culturais, sociais, econômicas e políticas. Portanto, novas
questões foram inseridas nas reuniões, nos escritos dos intelectuais brasileiros, alusivos ao
“território vazio” (OLIVEIRA JÚNIOR, 2015, p. 571).
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O mito do vazio demográfico e dos espaços e povos isolados se transformam em políti-
cas de integração nacional e de povoamento. Nesse período, era incessante a busca por um
Brasil moderno, que tentava superar suas tradições econômicas e culturais. A Amazônia e
o Nordeste brasileiro se constituíam em desafios para as políticas públicas: eram a “região
isolada” e a “região problema”. Daí o líder do Estado nacional incentivar a migração nor-
destina para a Amazônia a fim de ocupar o “espaço vazio”. As novas dinâmicas no Brasil
que ambicionavam a modernidade alcançaram diretamente a Amazônia, posteriormente
chamada por Alberto Rangel, de o “inferno verde”, um território desconhecido, tendo
como base de modernidade a economia da borracha, que gerava altos e baixos sociais e
econômicos, da riqueza à pobreza, da ostentação à estagnação.
Samuel Benchimol era muito jovem quando vivencia os efeitos da crise de 1929. Em
1945, conclui o curso de Direito, em 1946, o tom nacionalista para o problema de estag-
nação econômica da Amazônia coloca-a presente em diversos debates e planos urgentes
de solução, com o objetivo de integrá-la à economia do país. Os intelectuais da época
buscavam refletir sobre os meios diligentes destinados a integrar a Amazônia ao Brasil. Os
principais pensadores desse período, que se envolveram nessas discussões, foram Djalma
Batista, Leandro Tocantins, Arthur César Ferreira Reis (SILVA et.al, 2019).
Principiando por Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993) após seus primeiros anos de
formação acadêmica, em 1928, torna-se redator-chefe do Jornal do Comércio, que pertencia
a seu pai. Posteriormente, inicia suas atividades como professor de História do Brasil em
Manaus, em seguida, foi exercer a política. Segundo Ribeiro (2015), Arthur Cézar foi um
agente social que participou das discussões para a construção de um projeto nacional que fosse

Capaz de retirar a Amazônia do atraso sociocultural ao qual foi submetida histo-


ricamente pelo extrativismo e integrá-la efetivamente no Brasil. [...] No argumento
de Arthur Cézar estão presentes as posições políticas acerca do papel que a Amazônia

87 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


tem no concerto de um projeto nacional de desenvolvimento comum aos intelec-
tuais da região. A integração da Amazônia constitui a solução para os problemas
que afligem grande parte dos setores dominantes, ansiosos para retirar a região da
estagnação econômica vivida após o boom da borracha, Arthur Cézar procurou ins-
titucionalizar suas formulações intelectuais sobre a Amazônia por meio do exercício
político de funções públicas estaduais e federais que exerceu da SPVEA, do INPA,
do Governo da Embrafilme e outras. (RIBEIRO, 2015, p. 72-73.)

Com a intenção de criar condições novas para o restabelecimento da economia do


Brasil, o Estado cria várias instituições a fim de dar suporte para o novo projeto. Referente
a Amazônia foi instituída a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da

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Amazônia (SPEVEA), criada pela Lei n°1806, de 6 de janeiro de 1953. Portanto, sua
contribuição nesse cenário dos anos 1950 visava à construção de uma consciência nacional
sobre os problemas nos quais a Amazônia estava imersa.
Djalma Batista (1916-1979), médico e intelectual da época, adentrou nas discussões
indispensáveis ao diálogo sobre os reveses da região amazônica. Em seu livro O complexo
da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento ele interliga diversos momentos da
história, economia, sociedade, política e da natureza amazônica, expondo a complexidade
da região a partir dos valores atribuídos a ela. Djalma Batista, conforme comenta Ribeiro
(2015), “desempenhara um papel relevante na disputa pelo poder legítimo de definir/con-
duzir o processo de desenvolvimento regional a partir de critérios científicos, que levassem
em consideração os valores culturais que definiam nossa identidade regional” (p. 83). Ele
não apenas focava em compreender os motivos da estagnação econômica local, como pro-
punha mudanças onde a região deveria se desenvolver com sustentabilidade, embasadas na
ecologia, economia e no social.
Leandro Tocantins (1919-2004), escritor jornalista intelectual e historiador da
Amazônia também entrou no bojo das discussões referentes ao planejamento de desen-
volvimento da região. Em seus dois livros autobiográficos expõe suas aspirações por ter
um cargo público e ser escritor. É nesse sentido que Tocantins retoma o discurso feito
por Getúlio Vargas, com o objetivo de realizar suas aspirações e estabelece ligação entre a
“órbita privada de sua trajetória e os processos de mudanças políticas institucionais e curso
no âmbito nacional.” (RIBEIRO, 2015, p. 169). Os que vivenciaram o período do extra-
tivismo da borracha encontram no Discurso do Rio Amazonas de Getúlio Vargas, a chave
para uma nova fase de compromisso do Estado brasileiro com o desenvolvimento regional
através de mecanismos institucionais federais. Leandro Tocantins retoma esse tema entre
sua história e as transformações estruturais vivenciadas pelo país nos anos cinquenta, ques-
tão que mais tarde o leva a escrever a obra mais conhecida: O Rio Comanda a Vida, 1952.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

No mesmo viés de pensamento desenvolvimentista, Samuel Benchimol participa das


discussões que efervesciam o país, principalmente a Amazônia, em busca de integrar a
economia regional ao restante do Brasil e sair da estagnação decorrente do extrativismo
ocorrido na época áurea da borracha. Esse intelectual busca em seus escritos e discursos
identificar os problemas da estagnação e apontar possíveis soluções para o crescimento
econômico e social da Amazônia. Faz questão de escrever sobre a importância dos imi-
grantes na participação da economia da Região, bem como, a influência da cultura entre
esses povos e os nativos. Outro ponto fundante de suas pesquisas era a descrição do quesito
natural, a fauna, a flora, a hidrografia, enfim, os recursos naturais que essa região poderia
oferecer. Defendeu o desenvolvimento sustentável, para um local onde deveria haver in-
vestimentos na educação, ou seja, na ciência, capaz de apresentar estratégias inteligentes
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para transformar os recursos naturais em economia inteligente para a Amazônia e assim
crescer o seu potencial econômico e social.
Todos esses autores buscavam mostrar-se interessados no movimento desenvolvimen-
tista da região amazônica, inclusive participando ativamente da política, como represen-
tante do povo. Buscavam contribuir com discursos, bem como, com textos publicados.
Porém, é notório que todos se empenhavam em buscar alternativas para a inclusão da
economia da Região com a do restante do Brasil.

A noção de região na obra de Samuel Isaac Benchimol

Para compreender a questão do estudo regional para Benchimol, cabe fazer um paralelo
com a evolução da Ciência Geográfica no Brasil, que naquele momento (início do século
XX), ainda estava se iniciando, considerando que foi na década de 1930 quando os primei-
ros cursos universitários de Geografia surgiram no país. Particularmente na Universidade
de São Paulo e no Rio de Janeiro através da chegada dos franceses Pierre Monbeig, Pierre
Deffontaines, posteriormente de outros nomes como: Leo Waibel, Francis Ruellan e
Emmanuel De Martonne, conforme aponta Ruy Moreira,

Pierre Deffontaines é o primeiro da série de geógrafos franceses convidados para


fundar os cursos universitários de Geografia no Brasil, vindo em 1934 para São
Paulo, com o fim de fundar o curso da UDF. Pierre Monbeig é o segundo na ordem
de sequência, vindo no ano seguinte, justamente para ocupar o lugar aberto por
Deffontaines. Leo Waibel chega posteriormente, vindo a convite direto para reali-
zação de trabalhos de pesquisa e orientação no IBGE. Francis Ruellan, por fim, é o
marco, junto a Emmanuel De Martonne, da fase mais propriamente inaugural da

89 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Geomorfologia brasileira. (MOREIRA, Ruy, 2010, p. 26-27)

Justifica-se a inclusão da categoria região nos estudos, porque marca a chamada


Geografia Clássica Francesa, conhecida como possibilista. A Amazônia era uma das regiões
de maior preocupação no que se refere ao ideário nacional, longe do centro político e eco-
nômico do Brasil. O desafio constituído para as políticas públicas, nesse período, era o de
planejar a região, com um novo conceito, diferente da região geográfica. De acordo com
Oliveira Júnior (2015), “Diferentemente da região geográfica, a região planejamento era
construída para dar suporte a políticas públicas que visavam o crescimento e o desenvolvi-
mento econômico, além da integração que buscava a unidade do território” (OLIVEIRA
JÚNIOR, 2015, p. 5.).

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A Geografia desse período se dava principalmente pelos métodos descritivos, de muita
importância para a consolidação da chamada ciência dos lugares, que teria de definir e
delimitar espaços regionais. O uso de métodos descritivos mostrava a caracterização físico-
-natural, contando qual era a riqueza natural, ou seja, a identificação das principais carac-
terísticas dos fenômenos naturais e humanos, fosse destruição, variação ou evolução do
tempo e do espaço. Por conseguinte, ficou a Amazônia apreciada sob o ponto de vista do
planejamento regional através do qual a região tornou-se um espaço de expansão da repro-
dução do modo de produção capitalista, onde prevaleceu a a ideia do capital, quando, na
verdade, o objetivo era inserir os padrões econômicos do Sul e Sudeste do país. Portanto,
quanto mais se buscava justificativas que mostrassem seu potencial físico-natural, mais
predominava a economia do restante do país.
A partir dos procedimentos desenvolvidos pelo naturalista Humbold e por Ritter,
a Geografia a priori se preocupava mais com os elementos da natureza do que com as
dinâmicas dos homens. Humboldt era um viajante e teve a oportunidade de descrever as
paisagens por onde passava. Ritter foi um dos pioneiros a procurar elaborar comparações
de relações causais, conforme aponta Lencioni (2009)

Ritter procedeu aos estudos regionais com o objetivo de identificar as indi-


vidualidades na totalidade. Diríamos: as individualidades regionais. Dizia que cada
continente continha numerosas totalidades e, também, constituía-se numa totalidade.
Por exemplo, ao estudar a África, divide-a em quatro unidades e cada uma em outras
unidades menores. (LENCIONI, 2009, p. 92.)

Segundo Lencioni (2009 p. 93), repartir um determinado espaço e depois juntar todas
as partes é apresentar uma totalidade. A relação homem e superfície terrestre é objeto de
estudo para Ritter. É nesse momento que a Geografia passa a ser conhecida como ciência
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

idiográfica, ou seja, a ciência que estuda os espaços. Como precursor de estudos regionais,
Ritter procurou desenvolver metodologicamente pesquisas, embasamentos que delimitas-
sem a área estudada, com características próprias, para posterior comparação com outras
áreas do globo terrestre.
Ainda no século XX, a Geografia foi influenciada pelas ideias de Darwin e pela filo-
sofia positivista, marcando-a definitivamente pela construção da teoria do determinismo
geográfico, que tratava da relação homem-meio, em que a natureza determinava ações
humanas. Essas ideias foram, por Lucien Febvre, atribuídas ao determinismo alemão de
Friedrich Ratzel. Seguindo a esta, outra escola surgiu nesse mesmo período, o possibilis-
mo, com Vidal de La Blache, é quando a noção de região foi considerada categoria de
análise para o estudo da Geografia. Esse era o cenário intelectual em que se encontrava
90 //

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Samuel Benchimol, onde a região foi vista pelo possibilismo como a síntese das relações
homem-meio.
A inquietação com a Amazônia e sua conjuntura econômica e social vinham sendo dis-
cutidas desde 1912, quando o governo formulou o Plano de Defesa da Borracha. Porém, foi
em 1940 que Getúlio Vargas, visando trazer a região amazônica para o pensamento nacional
e incluir a região em seu projeto de modernização do Brasil, fez um pronunciamento que
ficou conhecido como o “Discurso do Rio Amazonas”. No discurso, comparou a grandeza da
região com a dimensão dos problemas aqui existentes, ressaltando a necessidade de aumentar
o povoamento, crescer o rendimento da cultura humana, visto que o espaço amazonense era
imenso e tido como despovoado, precisando ser integrado à economia do território.
Nesses momentos de procura por um plano de melhorias para a região, Samuel
Benchimol produz diversos textos retratando pontos que julgava essenciais para se refletir
sobre a Amazônia. Assim elaborou o estudo sobre o papel dos imigrantes envolvidos pelo
local e partícipes na economia e na cultura da região. Outro fator que destacou em seus
escritos foi a grandiosidade da Amazônia, a sua imensidão quanto à fauna, à flora e aos
recursos naturais, bem como a participação de outros povos que adentraram na região a
fim de contribuir para o desenvolvimento econômico.
Elson Farias (2010), ao fazer uma análise referente a produção intelectual de Benchimol,
declara que ele teve o compromisso com a terra e o tema, a terra como dimensão cultural
da vida e quanto ao tema, como preocupação em desvendar o conhecimento. Então, terra
e tema, embora possamos interpretar como sendo a Amazônia, são aqui expressos com
sentidos diversos. A terra como o vivido, o ser da Amazônia; e o tema, sendo o conhecer,
o desvendar, compreendê-la em suas complexidades no/do mundo.
A obra de Samuel Benchimol é dedicada à Amazônia, embora seus estudos possam
ser válidos para todos os estados da região, ele não os aborda em sua totalidade, mas
destaca o Amazonas, Acre, Pará e Rondônia. Estados vivenciados pelo autor, com ênfase

91 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


nas descrições voltadas, sobretudo, para o Amazonas, buscando demonstrar as dinâmicas
socioeconômicas. A partir de discussões referentes à defesa da ideia de “desenvolvimento
sustentável”, Benchimol manifesta a necessidade de um crescimento econômico baseado
em políticas de atuação, capazes de manter a exploração nacional de recursos, porém que
esses fossem utilizados para melhores condições de vida.
Sobre a trajetória intelectual e pensamento de Samuel Benchimol, Silva et al (2019)
articulam:

Sua obra, vista em conjunto, sistematiza o desenvolvimento amazônico, coloca-


-o em perspectiva em suas multidimensionalidades e multitemporalidades. Além
disso, em seu pensamento reverbera a conversão dos debates e dos discursos sobre o

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desenvolvimento ao desenvolvimento sustentável; também acompanhou e tematizou
a problemática e a institucionalização da questão ambiental no Brasil e no Mundo.
Em linhas gerais, essa problematização geral sobre as condições e as possibilidades do
desenvolvimento representa o modo pelo qual apreendeu a questão regional em suas
articulações econômicas e políticas. (SILVA et al. 2019. p. 37.)

Ao discorrer sobre a análise da obra de Samuel Benchimol percebe-se que é como uma
construção deixada à mostra, pois descreve os passos e as tomadas para desenvolver suas
pesquisas, como se fosse “tijolo a tijolo”. Suas pesquisas voltadas para Amazônia visavam
mostrar uma análise ambiental e sociológica frente ao processo de planejamento para a
região. Algo que não é tão simples, uma vez que definir, delimitar, caracterizar, conceituar
uma região que ultrapassa os limites do país, em busca de diminuir suas desigualdades é
grande desafio. Acreditava em “uma ocupação inteligente da Amazônia”, contudo, que essa
só teria sucesso se houvesse um equilíbrio econômico, ecológico e social (BENCHIMOL,
1999, p. 9).
Em suma, a problematização geral sobre as condições e as possibilidades do desenvol-
vimento concebem o modo pelo qual entendeu a questão regional em suas articulações
econômicas e políticas com a nação. Deste modo, Samuel Benchimol buscou compreen-
der a Amazônia para formular uma estratégia amazônica, seguido de um equacionamento
dos problemas regionais e, é nesse viés, que são identificadas as noções de região, por conta
do momento em que viveu, e da evolução do pensamento geográfico no Brasil, propiciando
o debate referente a essa categoria.

Considerações finais
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Conhecer um pouco da vida desse pensador da Amazônia, Samuel Isaac Benchimol,


permite melhor compreender a obra desse autor. A Amazônia descrita por Benchimol
abrange a cultura, a economia, a natureza e a geopolítica da região. Como supracitado,
ele se dedicou a escrever sobre a terra, como sendo o vivido, o ser da Amazônia, e o
tema, o conhecer, o desvendar, a busca por alcançar a Amazônia e suas complexidades
no/do mundo.
Identificar a presença de Benchimol no contexto dos intelectuais contemporâneos ajuda
a situar o conjunto de ideias entre os séculos XX e XXI. Todo este esforço aliado a uma
descrição sobre a Amazônia possibilita explicar a noção de região na obra de Benchimol.
Em sua obra, Benchimol apresenta a Geografia da Amazônia, demonstrando ter
deixado profundo conhecimento e contribuição para a Ciência Geográfica.
92 //

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93 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

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Análise da paisagem na área da Microbacia
Hidrográfica do Córrego Lagoa, situada no
Município de Ouvidor, Estado de Goiás

Lucas Ferreira Rodrigues1


Instituto de Geografia da Universidade Federal de Catalão
Universidade Federal de Catalão

Introdução

Este artigo objetiva fazer uma breve análise da paisagem na área da Bacia Hidrográfica
do Córrego Lagoa, situada no município de Ouvidor, Estado de Goiás, Centro-Oeste do
Brasil. Justifica-se esse estudo no fato de que a Bacia Hidrográfica é a responsável pelo
abastecimento público de água do município de Ouvidor, uma vez que a mesma carece
de estudos que alicercem o planejamento ambiental na área da microbacia. Esse estudo
pauta-se, primeiramente, em levantamentos bibliográficos utilizando-se de autores como
Ab’Sáber (2003), Nimer (1979), Klink e Machado (2005), Freires (2019), entre outros,
que falam sobre o Cerrado e suas produções hídricas; bem como em Bertrand (2004) que
apresenta a paisagem como uma combinação dinâmica de elementos físicos-ambientais, 95 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

entre o potencial natural e os usos socioeconômicos. Os dados secundários, que subsidiam


o potencial natural e a análise do uso da terra, foram obtidos na Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). Dessa forma, pôde-se analisar que a microbacia está numa área com variações
de cotas altimétricas entre 700 e 950m, que tem como dominante a classe de Latossolo
Vermelho Distrófico e Cambissolo Hápico Alumínico. A microbacia está situada em am-
biente de Cerrado, considerado um hotspot da biodiversidade mundial, contudo, mais da

1
Aluno do Programa de Pós-Graduação em Geografia/UFG/UFCAT. Membro do Núcleo de Estudos e
Pesquisas Socioambientais – NEPSA-UFCAT/CNPq.

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metade da área do Município está ocupada por áreas de pastagens, um terço por vegetação
primária, seguido de porções menores de usos diversos, como silvicultura, mineração,
agricultura, pivô de irrigação, sendo que o perímetro urbano da cidade de Ouvidor
correspondente apenas de 0,7% deste espaço.

Visando compreender a dinâmica de uma paisagem local, pauta-se no entendimento


do Cerrado, que é o segundo maior bioma do Brasil, estando localizado em sua maior parte
no Planalto Central (RIBEIRO; WALTER, 2008). Geograficamente, o Cerrado ocupa
22% do território brasileiro, além de ser considerado uma das últimas fronteiras agrícolas
do Planeta passiveis de serem implementadas para a produção de alimentos (BORLAUG
apud KLINK; MACHADO, 2005).
Nesse contexto, Ribeiro e Walter (2008) afirmam que a distribuição do Cerrado
no Brasil

[...] abrange como área contínua os Estados de Goiás, Tocantins e o Distrito


Federal, parte dos Estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso
do Sul, Minas Gerais, Piauí, Rondônia e São Paulo e também ocorre em áreas
disjuntas ao norte nos Estados do Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, e ao sul, em
pequenas “ilhas” no Paraná [...]. (RIBEIRO; WALTER, 2008, p. 156).

O termo Cerrado é utilizado para designar ambiente ‘fechado’, ou seja, o solo é cober-
to/fechado por gramíneas, constituindo-se em um conjunto de fitofisionomias (Savanas,
Matas, Campos e Matas de Galeria) que ocorrem na região do Brasil Central, sendo o
clima dessa região estacional, com um período chuvoso seguido por um período seco bem
definidos (KLINK; MACHADO, 2005; LIMA, 2011). Assim, de acordo Nimer (1979),
a região Centro-Oeste do Brasil apresenta uniformidade climática da circulação das massas
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

de ar, sendo os fatores climáticos estáticos.


O Cerrado é um espaço territorial marcadamente planáltico e dotado de solos, em
geral, mais ácidos, porém em posições topográficas e climáticas favoráveis, sendo compos-
to por áreas intermontanas e chapadões, constituindo-se em um espaço físico, ecológico
e biótico com cerca de 1,7 a 1,9 milhão de quilômetros quadrados de extensão territorial,
formando um dos grandes polígonos irregulares que compõem o mosaico paisagístico
brasileiro (AB’SÁBER, 2003).
A combinação desses fatores físicos, ecológicos e bióticos consegue ser aplicável a
grandes espaços, havendo, então, a recorrência das diversas fitofisionomias do Cerrado
(Cerradões, Campestre), o que contribui para o caráter constante e diversificado desse
conjunto paisagístico (KLINK; MACHADO, 2005).
96 //

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O Cerrado, no Estado de Goiás, vem passando por mudanças constantes em decor-
rência da dinâmica socioeconômica estar pautada nas atividades da pecuária, da agricul-
tura e/ou da mineração, acarretando transformações na paisagem ocasionadas pelas ações
antrópicas. Tais dinâmicas e atividades transformaram e transformam a paisagem desse
ambiente de forma significativa e constantemente.
Nesse sentido, o presente estudo busca fazer uma breve análise da paisagem na área da
Bacia Hidrográfica Córrego Lagoa, situada no município de Ouvidor, Sudeste de Goiás,
no que se refere ao uso da terra e dos recursos hídricos. Visando um olhar investigativo de
como a paisagem foi transformada nesse processo de ocupação e colonização do espaço,
construindo a história geográfica da região de estudo.
Numa análise comparativa, no que tange a esse mosaico paisagístico, que é o Cerrado,
pauta-se em Bertrand (2004), que entende o uso do temo Paisagem como sendo impre-
ciso vindo de seu utilizador, que por sua vez altera todo o seu sentido da palavra. Afinal,
“[...] é impossível achar um sistema geral do espaço que respeite os limites próprios para
cada ordem de fenômenos. Contudo, pode-se vislumbrar uma taxonomia das paisagens
com dominância física sob a condição de fixar desde já limites” (BERTRAND, 2004,
p. 144).
Num viés metodológico, de acordo com a proposta de estudo de Bertrand (2004),
nessas condições podem ser feitas análises dos locais a partir de delimitações, desde que
a limitação não seja considerada um fim, mas sim um meio de aproximar a realidade
geográfica para pesquisas de descontinuidades, no caso, as descontinuidades fisionômicas
presentes na área da referida bacia hidrográfica.
Nesse contexto, afirma-se que a paisagem exibe uma historicidade do local, dos
processos naturais contínuos e, posteriormente, o que agrega as formas de uma paisa-
gem é a ação antrópica. Assim, as paisagens como considera Ab’Sáber (2003, p. 09),
são analisadas à luz das mudanças quanto aos “[...] processos fisiográficos e biológicos,

97 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de
atuação de suas comunidades”. O autor ainda observa que os povos herdaram porções
de conjuntos paisagísticos, ecologias e paisagens, sendo, portanto, de todos a responsa-
bilidade na utilização consciente dessa herança única, procurando um equilíbrio fisio-
gráfico e ecológico.
Ainda segundo Bertrand (2004), é necessário reafirmar que a paisagem não é somente
o meio natural, e sim o local como um todo, sendo assim, abrange a ação antrópica no
meio, e como parte do meio.
Nessa concepção, para Pires (2018), os estudiosos do Brasil, na sua grande maioria,
ainda necessitam entender como as dimensões paisagísticas nas políticas públicas afetariam
a questão do ordenamento territorial, uma vez que o território ainda é visto apenas como

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fonte de recursos, e não como um espaço para ser planificado. Dessa forma, a criação
de uma Área de Proteção Ambiental (APA) objetiva minimizar os impactos da ação do
homem sobre uma determinada área de interesse para preservação, como por exemplo
uma bacia hidrográfica, numa tentativa de mitigação dos impactos socioambientais no
processo de ocupação e uso da terra.
A escolha do recorte espacial – o município de Ouvidor, situado no Estado de Goiás
– Brasil, justifica-se pela necessidade de produção de informações hídricas do Córrego
Lagoa, visando a auxiliar a tomada de decisões para uma melhor gestão hídrica e por
perceber que o tema necessita de maior notoriedade, visto a pouca informação que se tem
no Município.
Dessa forma, foram analisados os processos de ocupações no alto, médio e baixo curso
da microbacia, a partir de dados existentes no Projeto de criação da Área de Proteção
Ambiental – APA para o local, em implementação desde o ano de 2017 e, posteriormente,
a apresentação do quadro de uso e ocupação da terra a partir de análises concernentes ao
ano de 2020.

Caracterização geográfica da área em estudo

A Bacia Hidrográfica do Córrego Lagoa localiza-se município de Ouvidor, na região


Sudeste do Estado de Goiás – Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE, 2017), Ouvidor possui atualmente uma área de 413,78 km² ou
41.378 hectares, estando a uma altitude média de 825 metros.
Na área do município de Ouvidor (GO) há uma diversidade hidrográfica, como
Ribeirão Ouvidor, Córrego Lagoa, Córregos dos Cardosos, do São Miguel, Paraíso, do
Credo, Boa Vista, Barreiro, do Beco, dentre outros, compondo a margem direita dos Rios
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

São Marcos e Paranaíba, que são importantes para o lazer e exploração da economia local
(FREIRES, 2019).
Para uma maior percepção gráfica, a Figura 1 mostra a localização de Ouvidor em rela-
ção ao Estado de Goiás e ao Brasil. Percebe-se, também, a rede de drenagem no Município,
notadamente do tipo arborescente. A área urbana de Ouvidor está a Sudoeste da área mu-
nicipal, sendo que, na porção Sudeste, está o Rio Paranaíba, considerando-se que sua bacia
hidrográfica abrange 137 municípios no Estado de Goiás e Minas Gerais.
98 //

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Figura 1. Localização Geográfica e limites do município de Ouvidor (GO)

Fonte: Município de Ouvidor (2017). Org.: FREIRES, A. S. (2019).

Nesse contexto, o ponto de partida para a análise da paisagem local é o Córrego Lagoa,
onde parte do limite urbano de Ouvidor, encontra-se na área da microbacia hidrográfi-
ca. Atualmente, está em processo de efetivação uma APA que abrange a área da bacia do
Córrego Lagoa, situada na porção Noroeste de Ouvidor (GO), com aproximadamente
1.826,10 hectares, sendo que esta área compreende algumas propriedades particulares
(PREFEITURA MUNICIPAL DE OUVIDOR, 2017). 99 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Assim, de acordo com a Prefeitura Municipal de Ouvidor (2017),

A área proposta para a APA está inserida na bacia hidrográfica do rio Paranaíba e
de acordo com o Plano Estadual de Recursos Hídricos de Goiás (2015), está localiza-
da na Unidade de Planejamento e Gerenciamento dos Recursos Hídricos (UPGRHs)
dos rios Corumbá, Veríssimo e porção Goiana do rio São Marcos. Embora inserida
nesta UPGRH, a área da UC está localizada na micro bacia do Córrego da Lagoa,
inserida na bacia do ribeirão Ouvidor, afluente do rio Paranaíba (PREFEITURA
MUNICIPAL DE OUVIDOR, 2017, p. 14).

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A Figura 2, referente a dinâmica dos aspectos da hidrografia na área proposta para cria-
ção da APA – Ouvidor (GO), aponta a proximidade de outras microbacias hidrográficas
com a microbacia em estudo. Mostra também a margem esquerda, o Ribeirão Ouvidor,
na divisa natural com o município vizinho – Catalão (GO).

Figura 2. Aspectos da Hidrografia na área proposta para Criação da APA – Ouvidor (GO)

Fonte: Prefeitura Municipal de Ouvidor (2017).

A Figura 3 apresenta uma visão quanto aos aspectos da dinâmica hídrica no Município,
com todas as suas microbacias. Em destaque, grafado na cor azul escuro, identifica-se a mi-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

crobacia do Córrego Lagoa, demostrando a abundancia hídrica disposta no município de


Ouvidor (GO) e que se torna palco de atividades como agricultura, pecuária e indústrias
minerais, que promovem o desenvolvimento social e econômico local.

Como consta no projeto de criação da referida APA, estão presentes no local da mi-
crobacia processos mineralógicos registrados pelo Departamento Nacional de Produção
Mineral (DNPM). De acordo com a Figura 4, na área apontada para Unidade de
Conservação (UC) há processos exploratórios de cascalho, Fosfato, Nióbio, entre outros
bens minerais. Entretanto, não existem atividades de exploração acontecendo atual-
mente na área da microbacia do Córrego Lagoa. (PREFEITURA MUNICIPAL DE
OUVIDOR, 2017)
100 //

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Figura 3. Dinâmica Hidrográfica da Microbacia do Córrego Lagoa – Ouvidor (GO)

Fonte: EMBRAPA/ IBGE/ SIEG (2020). Org.: Costa. K. S e Anjinho. G. P (2020).

Figura 4. Processos do DNPM em curso para exploração mineral na área proposta


para criação da APA – Ouvidor (GO)

101 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fonte: Município de Ouvidor (2017).

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Pode-se afirmar que a paisagem fitofisionômica na área da Microbacia hidrográfica do
Córrego Lagoa está em processo de alteração a partir das atividades antrópicas, especial-
mente decorrentes dos processos de pecuária além de potenciais futuros de implantação de
exploração minerálica, necessitando de um acompanhamento ambiental rigoroso.

Materiais e métodos

Esta pesquisa pôde ser realizada por meio de levantamentos bibliográficos, que abor-
dam temas sobre o Cerrado e suas produções hídricas abordadas principalmente por
Ab’Sáber (2003), Nimer (1979), Klink e Machado (2005), Freires (2019), bem como a
apresentação da paisagem como uma combinação dinâmica entre o potencial natural e os
usos socioeconômicos abordado por Bertrand (2004).
Em segundo momento foi feita uma pesquisa documental sobre o Uso da Terra onde
foi consultado a EMBRAPA, IBGE, e Município de Ouvidor na qual foi consultada a
APA referente ao local de estudo, em que foram extraídas informações sobre a cobertura
vegetal que se estende ao logo do corpo hídrico e ainda informações sobre intenções de
extração de minerais mapeados em sua nascente.
Após a consulta bibliográfica e documental, foram realizadas pesquisas sobre o poten-
cial natural para a análise do Uso da Terra, a partir de uma coleta de dados que compre-
endeu visitas de campo na área referente a APA da microbacia em estudo para coletas de
imagens no mês de junho de 2020, que resultou no quadro de Uso da Terra.
Posteriormente, foi possível a concretização de uma analise local pontual, afim de
evidenciar pontos de atenção onde é necessária uma melhor gestão para o Uso da Terra e
programas ambientais para mitigação onde necessário, e comparações para uma possível
ampliação da vegetação natural.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
102 //

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Resultados e discussões

Como demonstrado nas seções anteriores, o levantamento de dados feito pelo


próprio Município de Ouvidor quanto ao Uso da terra, evidenciado na Figura 5,
apresenta o uso da terra com maior ocupação sendo a categoria Pastagem, dividida
em Pasto Limpo e Pasto Sujo, ocupando as duas subcategoria um total de 67,22%
da área microbacia. Seguido de Remanescentes/Regeneração de Vegetação Primária,
com 16,37%. A categoria Culturas Anual, com 11,61%. Em continuidade tem-se
as categorias de uso menores, como a Silvicultura (2,52%), Cultura Perene (0,04%),
Área Degradada (0,35%), Massa d’água (0,13%), Estradas (1,12%), Área Urbana/
Benfeitorias (0,64%).

Figura 5. Uso da terra – APA do Córrego Lagoa (2016)

103 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fonte: Prefeitura Municipal de Ouvidor (2017).

O Quadro 1, referente ao uso da terra na área especificada, mostra as classes de usos


mencionadas na Figura 5 – Uso da terra – APA do Córrego Lagoa, Ouvidor (GO) - 2016,
com imagens/fotos recentes obtidas no trabalho de campo realizado em junho de 2020,
para averiguar a situação atual da área, de acordo com o que está expresso na representação
gráfica dos dados referentes a APA, conforme a Figura 5.

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Quadro 1. Categorias de Uso da terra na Microbacia Hidrográfica
do Córrego Lagoa – Ouvidor (GO) - 2020

CLASSE DESCRIÇÃO/ IMAGENS


CARACTERIZAÇÃO

Utilizado em larga escala para


produção de carne bovina
nacional, para EMBRAPA (s/d),
este fazendo parte dos 95%
PASTO LIMPO
responsável pela produção, que
faz parte também dos 167
milhões de hectares utilizados
para este fim.

Para EMBRAPA (s/d), Pasto Sujo


em geral está associado a
polígonos, onde foram
desenvolvidas atividades causando
alteração da vegetação natural.
PASTO SUJO
Após o abandono destas, a
vegetação natural começou a se
restabelecer, apresentando-se
atualmente em vários estágios
sucessionais.

Com apenas 16,37% do local


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

ocupado pela microbacia com


remanescente/ Regeneração, está
caracterizada por um
REMANESCENTE/ remanescente de Floresta
REGENERAÇÃO Atlântica, que se mostra frágil
VEGETAÇÃO diante as perspectivas econômicas
PRIMÁRIA do Município, que passa por
atividades agrícolas, agriculturas,
pecuária, e exploração de mineral
(MUNICÍPIO DE OUVIDOR,
2017).
104 //

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Estas ocupam 11,61% da
ocupação do solo do Município
referente a Microbacia. O IBGE
CULTURA ANUAL (2017) afirma que Ouvidor – GO
conta com 2060 ha de lavouras,
sendo a anual responsável por
1974 desse total.

Esta prática corresponde a 4,1%


no total do Município de
Ouvidor – GO, segundo o IBGE
(2017). Sendo presente com
SILVICULTURA
2,52%, mais da metade desta
ocupação somente na Microbacia
do Córrego Lagoa (MUNICÍPIO
DE OUVIDOR, 2017).

As estradas ocupam 1,12%


dentro do perímetro da
Microbacia, responsável pelo
trânsito de moradores da área
rural, e também por direcionar
afluentes e sólidos para o curso
ESTRADAS
d’agua do Córrego Lagoa, esta
estrada por exemplo percorre
toda a extensão do médio curso, e
chega a duas zonas de captação
com fluxo direcionado para o
Córrego Lagoa.

105 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Área urbana advinda da ocupação
populacional, a estrutura da
cidade é diferente da zona rural,
ÁREA URBANA/
com maior contingente
BENFEITORIAS
populacional e maior quantidade
de estruturas para moradia além da
maior impermeabilidade do solo.

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A Área Degradada presente em
0,35% da APA é reflexo da ação
antrópica na remoção da
ÁREA
vegetação natural, e deixando
DEGRADADA
assim o solo exposto, vulnerável a
ações por exemplo de
voçorocamento.

A Massa d’água ocupa 0,13%,


sendo ela o Córrego Lagoa e
tributários, responsável pelo
abastecimento público de água e
MASSA D’ÁGUA
fonte de preocupação no futuro
no que diz respeito a manutenção
da qualidade dos recursos
hídricos.

Com 0,04% da ocupação da


Microbacia, a Cultura Perene está
presente no Município de
CULTURA
Ouvidor, segundo o IBGE (2017)
PERENE
existem 86 lavouras permanentes
dentro do total de 2060 ha.

Org.: RODRIGUES, L. F 2020. Dados de Campo (2020).


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

A categoria de uso Pastagem – Pastos Limpo e Sujo, abrange 67,22% da Microbacia e,


segundo a EMBRAPA (2020), insere-se no quantitativo nacional da classe de uso da terra
responsável pela produção de carne bovina do Brasil, sendo que, somadas todas a unidades
de pastagem brasileira, totalizam 167 milhões de hectares. Este tipo de uso da terra é preocu-
pante devido a abrangência na Microbacia, pois esta área de pastagem, que faz parte das duas
vertentes de captação natural de água das chuvas, ocupa os pontos de divisores de águas, não
esquecendo as zonas de transporte e deposição também ocupada pelas Pastagens.

A Foto 1 – Zona de captação / Divisor de Águas, mostra na paisagem, o uso da terra


na zona de captação que também é o divisor de águas referente a Microbacia.
106 //

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Foto 1. Zona de captação / Divisor de Águas do
Córrego Lagoa – Ouvidor (GO)

Foto: RODRIGUES, L. F. - Trabalho de campo, junho de 2020.

Percebe-se, então, poucas árvores e a vegetação rasteira é a fonte de alimento para o gado
na parte mais alta. Esta paisagem exibe a necessidade constante de “adequar o local” à ne-
cessidade antrópica, como afirma Ab’Saber (2003), o Cerrado suporta de cinco a seis meses
secos, e de seis a sete meses relativamente chuvosos. Com essa predominância de chuvas no
Cerrado, que vai de outubro a março, combinada com a ação antrópica, resulta geralmente
em carreamento elevados de sedimentos para os fundos de vale e, consequentemente, para o
corpo hídrico local, como mostra a Foto 2 (que exibe a zona de escoamento tendo também
a estrada da comunidade como condutora para o fundo de vale nas duas vertentes).

Foto 2. Zona de escoamento na Bacia Hidrografia do Córrego Lagoa – Ouvidor (GO)


– no detalhe, construção de bacias de infiltração às margens da estrada

107 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Foto: RODRIGUES, L. F. - Trabalho de campo, junho de 2020.

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Há uma tentativa de mitigação do problema por parte da Prefeitura Municipal de
Ouvidor, referente à construção de cacimbas para reduzir o fluxo de água e sedimentos,
reduzindo, então, a velocidade do processo de escoamento e assoreamento no Córrego
Lagoa. Esse projeto estende-se para toda a área da Microbacia.
Ao fundo do vale, na massa d’agua que é Córrego Lagoa, tem-se interferência direta das
ações antrópicas sobre o meio, gerando uma mudança continua da paisagem. A Foto 3 mostra
um trecho do Córrego Lagoa, onde é possível identificar visualmente trechos erodidos.

Foto 3. Talvegue do Córrego Lagoa – Ouvidor (GO)

Foto: RODRIGUES, L. F. - Trabalho de campo, junho de 2020.

A estrada da comunidade local, que corta a Microbacia e serve como base direcionado-
ra das águas da chuva, depositam no fundo os sedimentos que ao longo do tempo podem
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

vir a assorear o curso d’água, alterando o curso atual, que de acordo com a morfologia local
trás para mais próximo em direção da montante o curso d’água, começando então a inva-
dir a demarcação da propriedade privada mais próxima e que também pode vir a causar a
solapamento e perca da pequena produção rural a margem do local registrado.
Segundo Paz (2004), a necessidade do homem em “adequar o meio” à sua necessidade
tem como consequência a alteração no ciclo hidrológico. Como por exemplo barramento
de rios que altera o escoamento local superficial, e o desmatamento como outro fator de
diminuição de interceptação das águas da chuva, deixando os solos expostos, vulneráveis a
erosão, e direcionando os sedimentos durante o período chuvoso para o talvegue.
Assim sendo, a influência antrópica na dinâmica local da microbacia do Córrego
Lagoa pode resultar na perda de produção hídrica. A variação altimétrica de 50 m nas
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vertentes para sua base, faz o escoamento das chuvas fluir mais livremente e mais rápido
para o talvegue, carreando e depositando sedimentos, principalmente nas áreas desprovidas
de vegetação arbóreo-arbustiva.
Além da pastagem presente na paisagem da microbacia, tem-se também culturas
anuais, com 11,61% e remanescentes/regeneração de fitofisionomias de Cerrado, com
16,37%. Ressalta-se que remanescente e cultura anuais são próximos em quantidade de
composição da paisagem, com apenas 5% de diferença entre elas, mostrando como esses
dados são preocupantes, salientando a necessidade de políticas públicas de incentivo e
aumento da área de preservação.
Temos nesta situação agentes modificadores abruptos da paisagem, sendo naturais
e antrópicos, como a combinação de interesses do agronegócio e seus usos das terras e o
local que possui um corpo hídrico com vegetação natural escassa e diferença topográfica
significativa. Bertrand (2004) corrobora com isso ao afirmar que a Paisagem não é somen-
te a adição aleatória de elementos, mas sim o resultado de uma dinâmica complexa, assim,
instável de elementos, naturais e antrópicos, a interação torna a dinâmica da paisagem algo
único e em continua evolução.

Considerações finais

Conforme é evidenciada a alteração do meio pelo homem, às suas “necessidades” na


área da Microbacia Hidrográfica do Córrego Lagoa, que vem a ser uma exploração
predatória sem considerar a integração da paisagem a sua dinâmica natural do Cerrado,
alterando todo um sistema que, de acordo com Sales (2014), minimamente teve início há
65 milhões de anos e teve sua concretização aos 40 milhões.
Este trabalho observou que o Uso da Terra na área de preservação da microbacia do

109 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Córrego Lagoa, como as Pastagens (sujo e limpo) somam 67,22% de toda área de preser-
vação. Além da pastagem, existe também as culturas anuais, representando aqui 11,61%
também da área de preservação. Somando Pastagens e Culturas Anuais, temos 78,83% dos
100% da área de preservação da microbacia.
Remanescente/Regeneração de fitofisionomias de Cerrado está presente com apenas
16,37% em toda área corresponde a preservação da microbacia. Este dado é preocu-
pante frente aos quase 80% de Uso por ação antrópica com maior destaque, pois revela
a falta de implementação de políticas públicas até o presente momento para amplia-
ção desta área de fitofisionomias do Cerrado afim de tornar mais coerente o que tem
por Área de Conservação no local onde está instalado o corpo hídrico de importância
para o Município.

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Carecendo de uma melhor gestão pública sobre o local, para mitigar as dinâmicas
advindas do mal uso frente a composição natural, como assoreamento e processos de vo-
çorocamento no corpo hídrico constatado neste artigo pelas visitas de campo. Somando
estes fatores junto a declividade natural de 50 m dos interflúvios para o leito, e pela falta
de vegetação nativa que faz com que todas essas águas das chuvas se percam em forma de
enxurrada e não percolam no solo alterando a dinâmica do ciclo hidrológico.
Sem a vegetação para retardar a velocidade das águas da chuva, temos a ação potenciali-
zadora da velocidade de escoamento e carreamento de sedimentos, causando o assoreamento
do corpo hídrico e voçorocamento, processos estes vistos nas fotos ao longo do trabalho.
A velocidade com que essas águas vão para o nível de base local, tendo como ajuda as
estradas da comunidade, como na Foto 4, que cortam o lugar e direcionam para o Córrego
Lagoa todo o fluxo d’água.
A dinâmica da paisagem, como já afirmado por Bertrand (2004, p. 141), “[...] um
conjunto único e indissociável em perpétua evolução [...]”, mas cabe somente o homem
saber gerir seu espaço, sendo a água um bem estratégico e essencial a vida vegetal e animal.
Sendo a paisagem uma complexa dinâmica entre a ação antrópica e meio natural, esta
necessita de um planejamento pois, qualquer alteração no ambiente natural pelo homem
pode acarretar em sérias consequências frente a eventos climáticos. Portanto, esta pesquisa
reforça a necessidade de chamar atenção do poder público, em especial o Municipal, para
políticas públicas de preservação e ampliação da vegetação natural local, já que o presente
artigo avalia a paisagem local referente ao município de Ouvidor (GO).

Bibliografia

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Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

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iberografias40.indb 110 23-03-2021 17:57:13


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111 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

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Políticas Ambientais na Raia Divisória São
Paulo-Paraná-Mato Grosso do Sul, Brasil:
estudo das áreas potenciais para a
criação de corredores ecológicos

Diogo Laércio Gonçalves


FCT-UNESP, Presidente Prudente, São Paulo, Brasil

Messias Modesto dos Passos


FCT-UNESP, Presidente Prudente, São Paulo, Brasil

Introdução

Este artigo foi extraído da tese de doutorado homônima, e tem como objetivo central,
realizar um estudo sobre a cobertura vegetal na Raia Divisória São Paulo-Paraná-Mato
Grosso do Sul, analisando os fragmentos florestais, APP e Reservas Legais, associados aos
conflitos de uso e cobertura da terra, bem como às áreas atingidas por reservatórios arti-
ficiais de usinas hidrelétricas nos rios Paraná e Paranapanema, indicando possíveis área
potenciais para a criação de corredores ecológicos, tendo em vista as políticas ambien-
tais prevista na legislação brasileira. A metodologia envolve o estudo da paisagem na
perspectiva geossistêmica a partir do arcabouço teórico-metodológico do modelo GTP

113 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


(Geossistema-Território-Paisagem) proposto por Bertrand e do tripé geossistêmico com-
posto por Potencial Ecológico + Exploração Biológica + Ação Antrópica, considerando o
estudo global do meio ambiente a partir da geografia física. Além disso, a pesquisa recorre
à literatura presente na ecologia, especificamente no modelo ecossistêmico e na ecologia
da paisagem, para analisar o processo de fragmentação da mesma. Dentre as etapas de
procedimentos de pesquisa, destacam-se: a) a revisão bibliográfica sobre paisagem, geossis-
tema, biogeografia, ecologia da paisagem, fitossociologia, legislação ambiental e corredores
ecológicos; b) cartografia da temática para a caracterização do potencial ecológico da área
de estudo, utilizando bases cartográficas de órgãos oficiais (IBGE, ANA, DNIT, CPRM
etc.), e os dados de uso e cobertura da terra da coleção IV do projeto MapBiomas; c) traba-
lhos de campo com levantamentos fitossociológicos para analisar os fragmentos florestais

iberografias40.indb 113 23-03-2021 17:57:13


distribuídos ao longo da Raia Divisória, por meio de fichas biogeográficas e pirâmides de
vegetação. A partir dos dados produzidos, foram sistematizadas as informações por meio
de tabelas, gráficos, quadros, mapas e pirâmides que compoem a tese de doutorado, tendo
como conclusão a indicação das possíveis áreas potenciais para a criação dos corredores
ecológicos considerando as unidades geossistêmicas ao longo da Raia Divisória, na transição
dos biomas da Mata Atlântica-Cerrado.

Ao analisarmos as transformações na paisagem, trazemos a tônica da ação antrópica


sobre o meio natural, notadamente acentuada pelo modelo capitalista de produção. Com
este cenário, boa parte dos recursos naturais são substituídos paulatinamente pelas lavou-
ras, pastagens, áreas urbanizadas e demais tipos de cobertura da terra. Cenário este, que
vemos na à Raia Divisória São Paulo-Paraná-Mato Grosso do Sul. Sua localização estraté-
gica, insere-se no alto curso do rio Paraná, na zona de contato direto entre três unidades de
federação brasileiras (São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul), mais especificamente, no
encontro de um dos seus principais afluentes: o rio Paranapanema.
Ao mesmo tempo que o contato com os rios Paraná e Paranapanema transformou-se
no eixo de ligação entre São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, o modelo de ocupação
em cada uma das porções estaduais não se deu de maneira igual. Por se tratar de áreas
interioranas, o desenvolvimento de cada uma das regiões acompanhou o declínio de ativi-
dades agrícolas anteriormente importantes na economia brasileira, especificamente o café.
Com a escassez da malha ferroviária no interior, a Raia Divisória como um todo sofreu
um “atraso” em seu desenvolvimento econômico, comparando-se com outras regiões dos
referidos estados.
A porção paulista, popularmente conhecida como “Pontal do Paranapanema”, foi a
primeira a receber o desenvolvimento agrícola, motivado pela expansão da Estrada de
Ferro Sorocabana para o interior de São Paulo, sendo a última região a receber os trilhos.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Com o advento da ferrovia, o objetivo era substituir progressivamente as imensas áreas de


florestas típicas de Mata Atlântica interiorizadas para o cultivo do café, mas o declínio da
produção cafeeira, aliado à predominância de solos areníticos, não permitiu o desenvolvi-
mento desta cultura. Restou aos posseiros, a briga por extensos lotes de terra advindos da
grilagem de áreas desmatadas para pecuária extensiva.
No Paraná, o modelo de ocupação teve origem, a partir do investimento da Companhia
Melhoramentos Norte do Paraná (antiga Paraná Plantations), baseando-se na criação de im-
portantes centros urbanos como Londrina, Maringá e Umuarama e na divisão das terras em
pequenos lotes vendidos principalmente para imigrantes europeus e asiáticos que visavam a
produção do café. Paulatinamente, o modelo de ocupação paranaense incorporou o exemplo
paulista e a divisão em pequenos lotes deu lugar aos latifúndios e à pecuária extensiva.
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Destarte, o desenvolvimento da pecuária também penetrou no Mato Grosso do Sul
por vias paulistas, notadamente pela Companhia Diederichsen & Tibiriçá, responsável
pelo transporte de gado pelas estradas boiadeiras. Desta maneira, os extensos campos na-
tivos de ilex paraguariensis (erva-mate), erva explorada nesta região e comercializada com
diversos países da América do Sul até a década de 1940 pela Companhia Mate Laranjeira,
também foram progressivamente substituídos pela pecuária.
Com a pecuária extensiva vemos então a “padronização” nos modelos de ocupação em
cada porção estadual da Raia Divisória, baseado em pequenos núcleos urbanos e grandes
propriedades rurais. Atualmente a pecuária concorre lado-a-lado com o setor sucroenergé-
tico, com a criação de diversas usinas de açúcar e álcool, que transformaram boa parte da
paisagem de relevo relativamente plano e monótono em extensos canaviais.
Algumas outras tentativas de exploração econômica se deram nesta região, o caso mais
evidente foi da extinta CESP (Companhia Energética de São Paulo), empresa estatal per-
tencente ao Governo do Estado de São Paulo, que investiu milhões de dólares na cons-
trução de diversos empreendimentos hidrelétricos no interior do estado aproveitando o
potencial de seus principais rios. A obra mais notória é da Usina Hidrelétrica Engenheiro
Sérgio Motta, o maior investimento da empresa. Com uma área alagada de 2.250 km²,
a ousadia do empreendimento não se concretizou numa grande produção hidrelétrica,
muito pela sua localização em uma área de relevo relativamente plano.
Embora os empreendimentos da CESP tenham corroborado para a criação de novos
núcleos urbanos e, consequentemente, com o aumento da população, o desenvolvimento
da malha urbana na Raia Divisória estagnou-se nos últimos anos pela falta de oportunida-
des de emprego, esvaziadas pela produção agrícola monocultora e mecanizada. Resistem
alguns poucos pequenos produtores rurais assentados em projetos de reforma agrária,
frutos da intensa luta pela terra de movimentos sociais que ganharam notoriedade inter-
nacional desde os fins da década de 1980, especialmente na porção paulista, no Pontal

115 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


do Paranapanema.
Neste ínterim, com as notórias transformações ocorridas na paisagem ao longo dos
últimos anos e, consequentemente, a diminuição da cobertura vegetal para a produção
agrícola e pecuária na Raia Divisória, emerge também, uma diminuição significativa da
fauna e flora local, ameaçando o futuro das espécies remanescentes, tendo em vista o
processo de fragmentação dos habitats. Alternativas previstas na legislação ambiental bra-
sileira como: as Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais, são instrumentos
essenciais na preservação dos geocomplexos. Paralelamente, a restauração florestal com a
criação de corredores ecológicos conectando os fragmentos florestais remanescentes, pode
se tornar uma alternativa viável para o desenvolvimento sustentável da Raia Divisória
SP-PR-MS.

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Partiremos então como pressuposto a este trabalho, a análise sobre as políticas ambien-
tais na região da Raia Divisória São Paulo-Paraná-Mato Grosso do Sul, bem como a análise
biogeográfica da vegetação nesta porção do espaço geográfico, indicando possíveis áreas
potenciais para criação de corredores ecológicos com o intuito de garantir o fluxo gênico
das espécies de fauna e flora, tendo como aporte teórico-metodológico o sistema GTP
Geossistema-Território-Paisagem), proposto pelo geógrafo francês Georges Bertrand.
Desta forma, considerando este mosaico paisagístico formado por diversos geocom-
plexos que constituem a área delimitada, chamaremos para este trabalho de Raia Divisória,
a porção bem delimitada envolvendo: o Oeste do estado de São Paulo, o Noroeste do esta-
do do Paraná e o Sudeste do estado do Mato Grosso do Sul, formada por um conjunto de
bacias hidrográficas no alto curso do rio Paraná em especial da bacia do rio Paranapanema
em seu baixo curso (principal afluente do rio Paraná neste percurso), tendo como epicen-
tro o município de Rosana no Estado de São Paulo por sua localização geográfica na área
de confluência entre os dois grandes rios, constituindo-se numa região de contato imediato
entre os três estados (Figura 1).

Figura 1. Localização da Raia Divisória SP-PR-MS


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020


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Procedimentos metodológicos

Como procedimento metodológico, a organização deste trabalho foi estruturada em três


eixos principais: geográfico, ecológico e legal. O primeiro deles: o geográfico, é dotado pela dis-
cussão acerca da paisagem e do modelo teórico do geossistema, especificamente na perspectiva
da Geografia Física Global proposta por Georges Bertrand, sob o tripé: Potencial Ecológico
+ Exploração Biológica + Ação Antrópica. Com o intuito de discutir as transformações na
paisagem também refletimos sobre seu modelo de análise do meio ambiente estruturado a
partir de três conceitos/entradas que compõem esta análise global: O Geossistema (entrada
naturalista) o Território (entrada socioeconômica) e a Paisagem (entrada socioambiental).
Neste contexto, lançamos como proposta o mapeamento das unidades geossistêmicas
baseada no modelo tripolar Geossistema + Território + Paisagem de Bertrand, nos quais
identificaremos os principais geocomplexos existentes na Raia Divisória SP-PR-MS. Este
processo, parte de uma adaptação da metodologia utilizada por Salinas & Ramón (2013),
de uma delimitação semiautomatizada das unidades da paisagem, a partir do cruzamento
de tabelas (tabla cruzada).
Em cada uma das etapas, utilizam-se os componentes do geossistema para o cruza-
mento das informações até chegar a um mapa final. O cruzamento das tabelas foi efetuado
no ArcGis 10.2, utilizando a ferramenta tabulate área, inserindo as informações de cada
shapefile (camada vetorial) a ser cruzada. Como ponto de partida, partimos pelas informa-
ções do Potencial Ecológico, utilizando o Modelo Digital de Elevação (MDE) extraído
pelo SRTM com resolução espacial de 30 metros, a partir destes dados é possível extrair a
declividade e a hipsometria que ao serem cruzados formam o mapa de morfologia.
Nas etapas subsequentes, cruzam-se os dados de morfologia com o de clima
(IBGE,2002) e hidrografia (ANA,2017), compondo assim o mapa de Potencial Ecológico.
O mapa de Exploração Biológica, utilizou as informações de Pedologia e Vegetação, ambas

117 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


do RadamBrasil, atualizadas pelo IBGE em 2018. Por fim, os dados de uso e cobertura
da terra da Coleção IV do MapBiomas para o ano de 2017, compuseram a entrada Ação
Antrópica que com os outros cruzamentos, geraram o mapa de unidades de geocomplexos
na escala 1:250.000, conforme a ilustração da figura 2:
Paralelamente, tem-se a perspectiva da paisagem na visão ecológica, especialmente
pelo modelo ecossistêmico e da Ecologia da Paisagem, através do mosaico paisagístico
mancha-corredor-matriz. A partir deste apoio teórico-metodológico, podemos avaliar em
conjunto com a análise geográfica alguns dos processos resultantes da intervenção antró-
pica na área, tais como a fragmentação florestal e o efeito de borda. Como procedimento
metodológico, adotamos a análise dos fragmentos florestais da Raia Divisória pela extensão
para o ArcGIS, denominada Patch Analyst.

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Figura 2. Organograma do processo de elaboração do mapa
de unidades de geocomplexos Raia Divisória SP-PR-MS

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

Contemplando o aspecto legal, a partir dos dados de fragmentos florestais extraídos pelo
mapa de uso e cobertura da terra de 2017, confrontamos com as metragens de Áreas de
Preservação Permanente, estabelecidas pela legislação ambiental brasileira elaborando o mapa
de Incompatibilidade Legal, que indica as áreas e o grau de cobertura florestal ou de vegetação
de várzea dentro das APP, notadamente as de cursos d’água e suas respectivas nascentes.
Complementando as análises, utilizamos a proposta de Ramos et al. (1976), que pro-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

põem a divisão da paisagem em matrizes hexagonais do mesmo tamanho, criando uma


fishnet (grade) para toda área. Esta metodologia tem sido bastante difundida na ecologia
da paisagem e na biogeografia, especialmente na modelagem de corredores ecológicos,
indicando as localidades com menor incidência de fragmentos florestais dentro do raio de
cada hexágono.
Desta maneira, dividimos a paisagem da Raia Divisória em uma malha de 373 hexágonos
iguais de 50 km² no formato shapefile. Para isto, utilizamos a ferramenta Create Hexagon
Regions, também disponível na extensão Patch Analyst. A partir da análise dos fragmen-
tos florestais, estabelecemos uma escala baseada no percentual de cobertura florestal por
propriedade rural destinada para Reserva Legal na região da Raia (mínimo de 20%),
considerando também o cômputo da APP na complementação do percentual de RL em
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caso de áreas consolidadas variando de: muito baixo (até 5%), baixo (5 a 10%), médio (10
a 15%), adequado (15% a 20%) e preservado (acima de 20%).
A compilação dos mapas finais, se deu orientada pelo mapa de vulnerabilidade dos
geocomplexos no qual foram avaliados e reclassificados cada unidade de acordo com o
grau de antropização e a fragilidade natural do ambiente considerando os aspectos físi-
cos da paisagem (relevo, solo, ausência de cobertura vegetal etc.), no qual estabelecemos
quatro graus de vulnerabilidade variando de: muito baixa, baixa, média e alta, baseado na
metodologia de Bertrand (1968) e na Teoria Ecodinâmica de Tricart (1977).
Com este dado, aliado à avaliação dos hexágonos do ano de 2017, elaboramos o mapa
de prioridades para conectividade. Finalizando como proposta de planejamento ambiental,
diagnosticamos as potencialidades de ganho perante a adequação ao Código Florestal,
considerando a recomposição das Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal, indicando
um cenário atual e futuro para a paisagem da Raia Divisória SP-PR-MS.

Resultados e discussões

Como resultados temos, primeiramente, o diagnóstico da paisagem na Raia Divisória


a partir do mapeamento dos geocomplexos e da análise dos mesmos em trabalhos de
campo. O intuito deste mapeamento é fornecer o suporte ao planejamento ambiental
da área, especialmente no que concerne à definição das áreas potenciais para a criação de
corredores ecológicos.
Baseado na taxonomia das paisagens de Bertrand (1968), identificamos quinze uni-
dades de geocomplexos, distribuídas em 3 grandes agrupamentos geomorfológicos, sendo
estes: 1 - Cana Fluvial, Planícies Aluviais e Terraços Fluviais; 2 - Planalto Baixo e 3 - Planalto
Médio. Ressalta-se que este conjunto de informações sistematizadas no mapa é relativo à

119 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


escala 1:250.000 e, portanto, demonstra apenas um panorama baseado na análise regional-
-local que correspondente a IV e V grandeza dentro da proposta de Bertrand.
O geocomplexo I, refere-se à massa d’água dos grandes rios (Paraná e Paranapanema)
e dos represamentos para usinas hidrelétricas, além das lagoas naturais presentes na porção
sul-mato-grossense. Já o segundo geocomplexo, diz respeito àss áreas de planícies e terraços
aluviais compostas por vegetação tipicamente de várzea (formações pioneiras).
Nos geocomplexos III, IV e V, temos as áreas de planícies e terraços cobertas por
vegetação florestal típica da área de Mata Atlântica (Floresta Estacional Semidecidual)
em três níveis distintos: Aluvial (Fa), das Terras Baixas (Fb) e Montana (Fm). A unidade
de gecomplexo VI, por sua vez, caracteriza-se pela utilização das planícies e terraços para
atividades agrícolas, sobretudo a pastagem, predominante na Raia (Figura 3).

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Figura 3. Floresta Estacional Semidecidual Aluvial na Raia Divisória SP-PR-MS;
A: Cerâmica Vera-Cruz próximo ao rio Paranapanema em Teodoro Sampaio-SP
e B: na Ilha da Comissão Geográfica no rio Paraná em Rosana-SP

Fonte: Trabalho de Campo (2017 e 2019)

As áreas de planalto baixo com até 400 metros de altitude, destacam-se a maior parte
do relevo raiano, com colinas amplas de topos convexos à retilíneo. Os geocomplexos VII
e VIII, correspondem aos terrenos de vegetação savânica (Cerrado Brasileiro), presentes na
porção sul-mato-grossense da Raia em duas faciações, sendo estas: Savana Floresta (Sd) e
Savana Arborizada (Sa).
A unidade IX, representa as áreas de planalto baixo de Floresta Estacional Semidecidual
Submontana (Fs) (Mata Atlântica) tipo de vegetação mais comum na Raia. Ainda no pla-
nalto baixo, temos as unidades X e XI, que correspondem os geocomplexos antropizados,
sendo para áreas urbanas e por mosaicos de agricultura (culturas anuais e perenes e culturas
semi-perenes) e pastagem (pecuária extensiva).
Nas áreas de planalto médio, onde o relevo apresenta o predomínio de colinas
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

médias com topos aplainados e alongados e vertentes com perfis retilíneos a convexo
em altitudes acima de 400 metros, temos as demais unidades de geocomplexo. A uni-
dade XII, diz respeito as áreas de uso consolidado, enquanto as unidades XIII e XIV,
correspondem a distribuição de fragmentos florestais de Mata Atlântica e Cerrado,
neste tipo de relevo.
Finalmente, a unidade XV representa as áreas de relevos residuais formados pela
silicificação dos arenitos da formação Bauru, os quais apresentam os dois monumen-
tos geológicos da Raia Divisória: O Morro do Diabo em Teodoro Sampaio-SP e o
Morro Três Irmãos (Três Morrinhos) em Terra Rica, no qual temos a cobertura vegetal
de Floresta Estacional Semidecidual Submontana e Montana, como podemos visua-
lizar na figura 4:
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Figura 4. Relevos Residuais na Divisória SP-PR-MS:
A: Morro do Diabo em Teodoro Sampaio-SP. B: Morro Três Irmãos em Terra Rica-PR

Fonte: Trabalho de Campo (2020)

A partir do mapa de unidade de gecomplexos (Figura 5), para a definição das áreas
potenciais à criação de corredores ecológicos, definimos os graus de vulnerabilidade para
cada unidade. Esta reclassificação, leva em consideração todos os atributos de cada geo-
complexo, dando ênfase a três elementos principais no que concerne à visão tripolar entre
potencial ecológico, exploração biológica e ação antrópica, sendo estes, respectivamente: a
geomorfologia, a vegetação remanescente e o uso e cobertura da terra.

Figura 5. Unidades de Geocomplexos da Raia Divisória SP-PR-MS

121 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

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Com estes elementos é possível indicar as áreas mais sujeitas a processos de degradação
ambiental, tais como erosão e assoreamento que por consequência atingem diretamente o
funcionamento e a qualidade de vida dos organismos dentro daquele geocomplexo. Neste
quesito, as quinze unidades geossistêmicas subdividem-se em quatro graus de vulnerabi-
lidade, de acordo com a relação de equilíbrio e desequilíbrio entre os componentes do
geossistema, variando de muito baixa (para ambientes naturais), baixa, média e alta (para
ambientes antrópicos de acordo com as condições do relevo e o grau de antropização),
conforme a tabela 1:

Tabela 1. Graus de vulnerabilidade para cada unidade de geocomplexo

Unidades Grau de
Tipo Descrição dos principais processos atuantes
Geossistêmica Vulnerabilidade
I, II, III, IV, VII, Geocomplexos em equilíbrio, porém sujeitos a perturbações de acordo
VIII, XI, XIII, Natural Muito Baixa com o grau de antropização e as condições de vulnerabilidade
XIV, XV e V ambientais presente ao seu redor.
Geocomplexos em áreas de deposição aluvial, com relevos planos e
VI Antrópica Baixa predominância de solos hidromórficos. Terrenos com baixa atividade
erosiva, porém sujeito a inundações periódicas.
Geocomplexos em áreas de colinas amplas, com declividade predo-
IX Antrópica Média minantemente suave. Predominância de latossolos e argissolos,
respectivamente. Alta ação erosiva.
Geocomplexos de áreas urbanizadas, com forte ação antrópica e de
áreas de colinas médias, com declividade suave à ondulada. Relevos
X e XII Antrópica Alta
mais dissecados e com maior densidade de drenagem. Predominância
de latossolos e argissolos, respectivamente. Ação erosiva, muito alta

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

A partir da tabela, vemos que os geocomplexos naturais apresentam dinâmica estável.


Áreas com baixa vulnerabilidade indicam geocomplexos de uso antrópico, mas com pouca
ação geomorfológica, dada a topografia do relevo. As áreas de média e alta vulnerabilidade,
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

associam-se ao relevo mais rugoso com topografia levemente acidentada, o que influencia
nos padrões de densidade de drenagem, bem como no grau de suscetibilidade à erosão,
especialmente em adensamentos urbanos onde a pressão antrópica é constante.
Posteriormente, complementamos a análise da paisagem na Raia Divisória, conduzimos
um experimento sobre a fragmentação florestal ao longo das últimas décadas, conside-
rando intervalos decenais entre 1985 a 2017. Por esta análise, vemos as mudanças mais
recentes no uso e cobertura da terra da raia, especialmente pelo represamento dos rios
Paranapanema e Paraná para a construção de usinas hidrelétricas (UHE Rosana e UHE
Engenheiro Sérgio Motta, respectivamente).
Como interpretação, lançamos mão da metodologia utilizada pela ecologia da pai-
sagem, de matrizes hexagonais, nas quais subdividimos a paisagem em hexágonos iguais
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de 50 km². Pela interpolação dos dados de fragmentos florestais para os anos escolhidos
(1985, 1995, 2005 e 2017), estabelecemos uma escala baseada no percentual de cobertura
florestal por propriedade rural destinada para Reserva Legal na região da Raia (mínimo
de 20%), considerando também o cômputo da APP na complementação do percentual
de RL em caso de áreas consolidada variando de: muito baixo (até 5%), baixo (5 a 10%),
médio (10 a 15%), adequado (15% a 20%) e preservado (acima de 20%), como podemos
ver na figura 6:

Figura 6. Percentual de Cobertura Florestal por Matriz Hexagonal de 50 km²


na Raia Divisória SP-PR-MS (1985,1995, 2005 e 2017):

123 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

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Tendo em vista o cenário mais recente apresentado (2017), conduzimos nossa análise
final para a identificação das áreas potenciais para a conectividade via corredores ecológicos
(Figura 7), levando em conta critérios geográficos e ecológicos, dentre os quais: a vulnera-
bilidade dos geocomplexos, percentual de cobertura florestal e o grau de distanciamento
entre os fragmentos florestais.
A partir das análises feitas, indicamos as áreas potenciais em cinco níveis de prioridade,
sendo:

–– Baixa: para áreas com percentual de cobertura florestal relativamente preservada,


mesmo considerando o uso da terra no entorno e as condições do terreno. Esta área
restringe-se a uma parcela na porção sul-mato-grossense entre os municípios de
Anaurilândia e Bataguassu;
–– Média: para áreas com baixa cobertura florestal, porém com importantes geossis-
temas naturais de vegetação de várzea, que envolve boa parte da área da Área
de Proteção Ambiental Ilhas e Várzeas do Rio Paraná, além das áreas de savana
(cerrado) entre as bacias do córrego do Baile até o córrego Três Barras na porção
sul-mato-grossense;
–– Alta: localiza-se na porção paranaense em sua parte central na área que envolve a
bacia do ribeirão São Francisco até o ribeirão Coroa do Frade atingindo a região do
monumento geológico Três Morrinhos (ou Morro Três Irmãos) em Terra Rica-PR;
–– Muito Alta: importante áreas fragmentada, com áreas de baixo percentual de cober-
tura florestal que vai da porção paulista entre os municípios de Rosana e Euclides
da Cunha Paulista até a paranaense, envolvendo municípios como: Nova Londrina,
Diamante do Norte, Loanda, Guairaçá, Itaúna do Sul, Marilena e Terra Rica, onde
há a possibilidade de conexões entre núcleos de unidades de conservação como a
Área de Proteção Ambiental Ilhas e Várzeas do Rio Paraná e a Estação Ecológica
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

do Caiuá;
–– Extremamente Alta: áreas no entorno de unidades de conservação importantes como
o Parque Estadual Morro do Diabo e Estação Ecológica Mico Leão Preto, com
alta fragmentação e baixo índice de percentual de vegetação florestal. Alta vulne-
rabilidade nos geocomplexos presentes, especialmente pela rugosidade e topografia
do relevo.
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Figura 7. Prioridades para conectividade na Raia Divisória SP-PR-MS (2017)

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

A indicação das áreas potenciais pauta-se inicialmente na recomposição das Áreas de


Preservação Permanente, ao longo dos cursos d’água, especialmente das bacias hidrográficas
do entorno do Parque Estadual Morro do Diabo e da ESEC Mico Leão Preto na porção pau-
lista, área considerada de potencialidade muito alta para a criação de corredores ecológicos,
por ser a maior área de reduto da fauna e flora dessa porção do território da raia divisória..
Nas áreas com prioridade muito alta, temos a presença de outra unidade de conservação

125 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


importante: a Estação Ecológica do Caiuá, bem como de algumas áreas de reflorestamento
da CESP. No Morro Três Irmãos em Terra Rica-PR e adjacências, a criação de uma nova
unidade de conservação através de Área de Proteção Ambiental poderia contribuir para
ações socioambientais visando a perspectiva do desenvolvimento sustentável.
Os geocomplexos das extensas áreas de planícies e terraços dos rios Paraná e
Paranapanema, consistem predominantemente em áreas de média prioridade, uma vez
que já se incluem na unidade de conservação APA Ilhas e Várzeas do rio Paraná. O mesmo
se estende para a área mais estável localizada no Mato Grosso do Sul, que varia entre média
e baixa prioridade, o que indica um panorama de boa preservação, associada à manuten-
ção das APPs e RLs, especialmente pela sua importância como zona de transição entre os
biomas Mata Atlântica e Cerrado.

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Ao estimar os ganhos pela aplicação da Lei Federal 12.65/2012 (Código Florestal
Brasileiro), temos a condição de mensurar os ganhos ambientais atrelados ao exercício efetivo
da Legislação Ambiental Brasileira. Somente com a recomposição das APP, temos um acrésci-
mo de 237,62 km², o que corresponde a um ganho de 13,4 % nas áreas destinadas à floresta.
Seguindo também os dados de indicação de Reservas Legais fornecidos pelo Sistema
do Cadastro Ambiental Rural (SICAR), temos uma área total de ganhos ambientais de
800, 94 km² que correspondem a um acréscimo de 46,3% na composição das áreas de
fragmentos florestais. Ao todo, a área dos ganhos ambientais somadas APP e RL é de
1038,56 km², incidindo em um percentual de acréscimo de 60,04% na classe de florestas
na Raia Divisória, o que contabiliza 6,35% da área total da Raia em ganhos de preservação
ambiental, somente com o exercício da legislação ambiental, como podemos ver na tabela 2:

Tabela 2. Ganhos ambientais com a aplicação


da Lei Federal 12.651/2012 na Raia Divisória
Classe: Área em km²:
Vegetação de Várzea (2017) 444,89 km²
Vegetação Florestal (2017) 1729,34 km²
Recomposição de APPs 237,62 km²
Criação de novas Reservas Legais 800,94 km²
Total de áreas preservadas (2017): 2174,23 km²
Total de áreas preservadas com a recomposição das APPs e RLs (estimativa): 3212,79 km²
Ganho Total: 1038,56 km²

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

A efetividade desta proposta pelas políticas ambientais, agregaria à paisagem da Raia


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Divisória, maior conectividade entre os habitats naturais e, consequentemente melhor


fluxo entre as espécies nativas da fauna e flora, não só pelos corredores naturais (floresta
ciliar) como também com novos corredores ecológicos e stepping stones (trampolins), por
meio da criação de novas reservas legais.
Dada a importância da área elucidada no mapa de áreas prioritárias para conectivida-
de, tomamos por exemplo, o trecho da porção paulista entre as unidades de conservação
Parque Estadual Morro do Diabo e da Estação Ecológica Mico-Leão-Preto. A figura 8
ilustra este exemplo a partir da modelagem atribuída em duas fases, com o mapa atual e
futuro. Como pano de fundo das paisagens naturais, utilizam-se uma interpolação dos
dados mostrando a distância média entre os fragmentos o que indica maior ou menor
conectividade entre os mesmos de acordo com sua localização.
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Figura 8. Cenário atual e futuro, indicando o potencial de conectividade
em um recorte da porção paulista da Raia Divisória SP-PR-MS

Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

Algumas iniciativas por meio de Organizações Não-Governamentais já estão em


vigor nesta parcela da Raia, como é o caso do Projeto Corredores de Mata Atlântica,
executado pelo Instituto de Pesquisa Ecológica (IPÊ) no Pontal do Paranapanema desde

127 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


o ano de 2003. O projeto pioneiro na implementação de corredores ecológicos, tem
como pilares: o planejamento estratégico garantindo a sustentabilidade a longo prazo,
a disseminação das experiências e resultados obtidos divulgando as iniciativas referentes
ao projeto em nível regional, nacional e internacional e transformando as boas práticas
em políticas públicas visando o uso sustentável dos recursos florestais e hídricos desta
região (IPÊ,2020).
Ao todo, de acordo com as informações do IPÊ (2020), foram executados cerca
de 12 km de floresta e mais de 2,3 milhões de árvores que conectam as Unidades de
Conservação Parque Estadual Morro do Diabo e Estação Ecológica Mico-Leão-Preto,
como podemos visualizar na figura 9:

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Figura 9. Aplicação do projeto Corredores de Mata Atlântica
executado pelo IPÊ na região do Pontal do Paranapanema

Fonte: Instituto de Pesquisas Ecológicas (2020)


Org.: Diogo Laércio Gonçalves, 2020

No contexto interestadual, também emerge a iniciativa da Rede Gestora do Corredor


da Biodiversidade do rio Paraná. Criada no âmbito do projeto Ações de Governança
Participativa no Corredor de Biodiversidade do Rio Paraná (MMA-PDA Nº445MA),
o projeto é executado por consórcio pelo Instituto Maytenus (proponente) tendo como
parceria a APOENA, IPÊ, CESP, Mater Natura, Itaipu Binacional, Pró-Carnívoros e a
Secretaria do Meio Ambiente do Paraná e Instituto Ambiental do Paraná (SEMA/IAP).
A abrangência do corredor envolve não só a área da Raia Divisória SP-PR-MS, mas como
boa parte da bacia do alto rio Paraná, até a tríplice fronteira com Paraguai, na área da UHE
Itaipu Binacional e na Argentina no Parque Nacional do Iguaçu, ligando-se ao Corredor
da Biodiversidade das Araucárias.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

A participação na rede é aberta para todos os interessados no assunto, agregando setores


do: Estado, iniciativa privada, sociedade civil e instituições de ensino. Atualmente cerca de
36 instituições fazem parte da Rede Gestora do Corredor da Biodiversidade do rio Paraná,
entre o setor público, privado, público-privado e sociedade civil organizada. Por se tratar de
uma rede trinacional, a rede conta com a presença de órgãos ambientais e ONGs que atuam
em ambos países, tais como: World Wide Fund for Nature (WWF Brasil e Paraguai),
Fundación Vida Silvestre - Argentina, Pacto pela restauração da Mata Atlântica, Itaipu
Binancional (Brasil e Paraguai), Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio).
No âmbito da Rede, são realizadas reuniões e seminários anuais onde os diversos seg-
mentos se reúnem para propostas e indicação de áreas a serem restauradas ao longo da
área do corredor. Os encontros ocorrem em pontos distintos da rede a partir de parcerias
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com instituições ou unidades de conservação locais. Além disso, a atuação da rede se dá
de forma contínua pelo canal de comunicação online, via grupos de e-mail e WhatsApp.
No bojo do desenvolvimento desta pesquisa, a presença do pesquisador nas reuniões
e seminários da rede gestora, proporcionou discussões produtivas que contribuíram na
definição das áreas potenciais. Espera-se que a partir desta articulação, os resultados apre-
sentados pela pesquisa possam subsidiar ações de planejamento ambiental em diferentes
parcelas do corredor em sua abrangência dentro da Raia Divisória SP-PR-MS.

Considerações finais

Tendo em vista os resultados apresentados no artigo, embora o mesmo represente


apenas uma parcela da pesquisa de doutorado, temos um panorama geral sobre a paisagem
e ação antrópica sobre a Raia Divisória SP-PR-MS, especialmente nas últimas décadas. O
modelo de ocupação das terras, predominantemente o uso agropecuário, contrasta com a
diminuição da cobertura vegetal, trazendo desequilíbrios aos geocomplexos locais, dado a
fragilidade dos solos areníticos presentes na Raia.
No tocante a fauna e flora local, processos como a fragmentação dos habitats também
corroboraram para a diminuição das espécies nativas. Destacam-se as áreas alagadas pelas
usinas hidrelétricas da CESP, que inundou boa parte dos habitats de várzea presentes nas
planícies do rio Paraná, especialmente na porção sul-mato-grossense.
As consequências atreladas ao processo de fragmentação, faz emergir a necessidade de
ações imediatas para a reconexão destas paisagens, contribuindo para o fluxo gênico das
espécies de fauna e flora, aproveitando as potencialidades naturais exercidas pelo próprio
ambiente. A existência de unidades de conservação, sejam elas de proteção integral ou uso
sustentável como: o Parque Estadual Morro do Diabo, as Estações Ecológicas Mico Leão

129 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Preto e do Caiuá, exercem um papel fundamental na manutenção das espécies nativas.
Considerando o atual panorama das APP e RL, se faz necessário uma ampla discussão
com a comunidade envolvida, especialmente os produtores rurais, para que o diálogo
fomente ações de restauração florestal em áreas de APP e RL com uso consolidado, haja
visto que além da preservação da fauna e flora, o manejo e preservação destas áreas con-
tribuem para a sustentabilidade dos recursos hídricos disponíveis na Raia seja pelo rio
Paraná, rio Paranapanema e demais afluentes.
Ademais, áreas consideradas com maiores potencialidades de conectividade, principal-
mente pela existência de grandes fragmentos florestais em suas adjacências, podem servir
para a criação de Reservas Particulares de Patrimônio Cultural por parte dos proprietários
de imóveis rurais nestas localidades, agregando novas Cotas de Reserva Ambiental a estes

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proprietários que podem comercializá-las em bolsas de mercadorias no âmbito nacional ou
em sistemas de registro e de liquidação financeira de ativos devidamente autorizadas pelo
Banco Central do Brasil.
Em síntese, as propostas aqui pautadas devem ser analisadas e amplamente discutidas
com os órgãos públicos, prefeituras e consórcios municipais bem como a comunidade local.
Outra estratégia apoia-se na existência da Rede Gestora do Corredor da Biodiversidade do
Rio Paraná, importante espaço de debate e divulgação dos trabalhos que já se encontram
com ações efetivas no tocante à restauração florestal e a conexão das paisagens pelos
municípios da Raia Divisória em ambas a porções estaduais.

Bibliografia

BRASIL, Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis nos 6.938, de 31 de agosto de
1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis
nos 4.771, de 15 de setembro de 1965, e 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória no
2.166-67, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências - Lei Federal Nº 12. 651; Brasília
–DF, 25 de maio de 2012
BERTRAND, Claude & BERTRAND, Georges. Uma Geografia transversal e de travessias: o meio
ambiente através dos territórios e das temporalidades. Tradução Messias Modesto dos Passos.
Maringá: Ed. Massoni, 2009
BERTRAND, Georges, Paysage et géographie physique globale: esquisse méthodologique. Révue
Géographique des Pyrénées et du Sud-Ouest, Toulouse, v. 39, n. 3, p. 249-272, 1968
INSTITUTO DE PESQUISAS ECOLÓGICAS – Corredores da Mata Atlântica: Pontal do
Paranapanema – Disponível em : https://www.ipe.org.br/projetos/pontal-do-paranapanema/76-
-corredores-da-mata-atlantica. Acesso 02 de abril de 2019.
MMA/PDA-445 MA – Ministério do Meio Ambiente, Projeto Ações de Governança Participativa no
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Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

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RAMOS, A. et al. Visual landscape evaluation: a grid technique. Landscape Plann., 3: 67-88, 1976
TRICART, Jean. – Ecodinâmica - Rio De Janeiro, IBGE, Diretoria Técnica, SUPREN,1977.
130 //

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Análise da paisagem e possibilidade de
uso para políticas públicas ambientais no
semiárido brasileiro

Bartolomeu Israel de Souza


Grupo de Estudos do Semiárido, Departamento de Geociências, Universidade
Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa/PB, Brasil

Juan Diego Lourenço de Mendonça


Grupo de Estudos do Semiárido, Departamento de Geociências, Universidade
Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa/PB, Brasil

Marcos Leonardo Ferreira dos Santos


Unidade Acadêmica de Geografia, Universidade Federal de Campina Grande
(UFCG), Campina grande/PB, Brasil

Lukas Barbosa Veiga de Melo


Grupo de Estudos do Semiárido, Departamento de Geociências, Universidade
Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa/PB, Brasil

Introdução

É de conhecimento de todos a grande pressão antrópica sofrida pelos biomas brasi-


leiros, por ações como desmatamento, caça predatória, poluição, entre outros. Reforçar a

131 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


conservação dos ecossistemas com ações que promovam o uso sustentado de recursos na-
turais, havendo uma harmonia entre a política pública e os diferentes setores da sociedade,
se tornou um dos principais desafios no que tange ao meio ambiente.
Dentre estes, a Caatinga, único bioma inteiramente brasileiro, vem sofrendo um intenso
processo de modificação nas últimas décadas, fato conhecido e debatido por gestores e
pesquisadores. Tal situação se reflete nos solos, principalmente afetados pelos desmata-
mentos, queimadas e aumento da evaporação da água contida neles, que contribuem com
a aceleração do processo de desertificação (GARDA, 1996).
O déficit hídrico neste bioma, refletido numa hidrografia intermitente, é causado por
um sistema muito complexo de formação das chuvas, que ocorrem em poucos meses do
ano. Anos chuvosos se alternam irregularmente com anos de secas, e a situação é agravada

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pela variabilidade dos solos, com maior ou menor capacidade de reter as águas das chuvas,
e com a diminuição da vegetação (GARIGLIO, 2010).
A ocupação humana causa fortes efeitos na vegetação de Caatinga, que cedeu lugar a
plantações e pastos, além da introdução de espécies exóticas. Outra atividade predatória é
a retirada de lenha para construção de cercas e produção de carvão. Por fim, a criação de
bovinos e caprinos é outra atividade que exige muito dos recursos naturais do semiárido.
Esses fatores contribuem com o aumento das taxas de erosão e retirada de nutrientes dos
solos sem reposição (SAMPAIO, 2003).
O planejamento ambiental é delineado a partir da ideia de desenvolvimento equilibra-
do e sustentado, onde se realiza a convergência da qualidade do ambiente e da manutenção
dos ecossistemas com o progresso econômico e social das comunidades. Dessa forma,
uma das primeiras ações para a elaboração de uma estratégia regional ou nacional para a
conservação de ecossistemas é a identificação e o mapeamento de áreas prioritárias para a
conservação da diversidade biológica (MARGULES E PRESSEY, 2000).
A principal alternativa encontrada para minimizar esses problemas foi a criação de
áreas protegidas, que a princípio focava seus objetivos na conservação de espécies amea-
çadas de extinção, porém, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, em 1992, e a popularização de temas como o ecoturismo e o desenvolvi-
mento sustentável, contribuíram para a incorporação de uma nova perspectiva de criação de
áreas protegidas, uma forma de conservação da biodiversidade dentro de bases sustentáveis,
estimulando o uso racional de recursos naturais e o manejo de espécies (DIEGUES, 2000).
Na última década ocorreram grandes avanços nas pesquisas sobre a Caatinga e sua
biodiversidade, porém a necessidade de se atualizar e implementar as áreas prioritárias para
conservação é reforçada em razão do alto número de espécies de fauna e flora ameaçadas
e do aumento da taxa de desmatamento, que pode ser explicado pelo baixo número de
unidades de conservação (UC).
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Para Silva (2012) a degradação dos diferentes recursos naturais, a falta e/ou escassez
de pesquisas, planejamento e manejo das diversas técnicas de exploração então disponí-
veis, torna de fundamental importância os diferentes estudos integrados para que sejam
fornecidos diferentes subsídios para a identificação de áreas prioritárias para a conservação
da biodiversidade.
O processo de atualização das áreas prioritárias para a conservação indicou no Brasil
inteiro quais as de maior prioridade para conservação ambiental, assim como seu grau de
urgência governamental e sua importância biológica. O mapa das áreas prioritárias para
conservação visa contextualizar a área alvo e seu entorno imediato na priorização gover-
namental de conservação da biodiversidade (Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade - ICMBio, 2011).
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O crescente empenho com a proteção e gestão de áreas de conservação do meio ambiente
nos últimos anos, propiciou uma maior necessidade da utilização de técnicas de geoprocessa-
mento para auxiliar no monitoramento e gerenciamento dessas áreas, que pode ser utilizado
na gestão ambiental como ferramenta para monitorar áreas com maior necessidade de prote-
ção ambiental, acompanhar a evolução da poluição da água e do ar, além dos níveis de erosão
do solo e da ocupação indevida das áreas. A utilização do geoprocessamento vem auxiliando
de maneira significativa nas deficiências dos órgãos públicos responsáveis pela gestão am-
biental, principalmente preenchendo as lacunas existentes nos bancos de dados. Conseguir
fornecer informações de grandes áreas em pouco tempo torna essa ferramenta mais atrativa
para o uso no gerenciamento e monitoramento de áreas protegidas, como unidades de con-
servação, áreas prioritárias para conservação e recuperação, áreas de preservação permanente,
e até mesmo em locais que exijam um nível de detalhes maior, como as reservas legais.
O Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos
da Seca (PAN-Brasil) propôs em 2005 que as áreas protegidas deveriam recobrir, no míni-
mo, 10% das áreas semiáridas e sub-úmidas secas, por meio de unidades de conservação,
em um prazo de dez anos, considerando as áreas já identificadas como prioritárias para a
conservação da biodiversidade. Porém esse alvo ainda não foi atingido, e pode-se exem-
plificar esta situação com o estado da Paraíba. De acordo com a Superintendência de
Administração do Meio Ambiente (SUDEMA) o estado está muito abaixo da meta de
recobrimento do semiárido por unidades de conservação, pois as seis existentes equivalem
a 1,24% da Caatinga paraibana.
Dessa forma, este estudo tem como objetivo avaliar a situação atual da cobertura
vegetal na Bacia Hidrográfica do alto curso do rio Paraíba-PB/Brasil e identificar áreas
potenciais para direcionamento de políticas públicas nacionais e internacionais de
biodiversidade e conservação.

133 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Material e Métodos

A bacia hidrográfica do alto curso do rio Paraíba (Figura 1) está localizada na parte su-
doeste do planalto da Borborema, limitando-se, ao Norte, com a sub-bacia do rio Taperoá,
ao sul e a oeste com o estado de Pernambuco e a Leste com a sub-bacia do médio curso do
rio Paraíba. Drena uma área de 6.733 km² e seu perímetro possui 527,29 km, englobando
total ou parcialmente a área de 18 municípios distribuídos nas microrregiões do Cariri
Ocidental e Cariri Oriental do estado da Paraíba, que segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística – IBGE (2010) vivem 128.865 habitantes, resultando numa densidade
demográfica de 19,14 hab./km².

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Figura 1. Localização da Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.

Elaboração: Marcos Santos.

Possui grande importância ambiental, econômica e social, pois nela está presente a
nascente do rio Paraíba, maior corpo hídrico do estado (aproximadamente 380 km de
extensão) e responsável pelo abastecimento de importantes reservatórios. Além disso, o rio
Paraíba, em suas sub-bacias do médio curso e baixo curso, se estende por mais 22 municí-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

pios, que estão inseridos nas mesorregiões do Agreste Paraibano e da Mata Paraibana, até
seu deságue no Oceano Atlântico, entre os municípios de Cabedelo e Lucena.
O Cariri paraibano, local onde se insere o alto curso do rio Paraíba, é considerada uma
das regiões mais secas do país, e de acordo com a classificação climática de Koppen (1948),
está inserida no clima Bsh – semiárido quente com chuvas de verão. Este tipo de clima
se caracteriza por ter precipitação anual inferior a 500 mm, evapotranspiração potencial
anual superior à precipitação anual e temperaturas médias mensais acima de 18°C. Essa re-
gião tem temperaturas médias elevadas (aproximadamente 27°C), alto índice de radiação
solar e uma precipitação que tem sua maior concentração entre os meses de janeiro e abril.
Nesse ambiente, onde predominam espécies florísticas de clima seco, destacam-se algu-
mas áreas de vegetação úmida, conhecidas como Brejos de Altitude, e de acordo com
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Vasconcelos Sobrinho (1971) existem 43 brejos distribuídos nos estados do Ceará, Rio
Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Esses brejos não são áreas alagadas, mas sim flo-
restas úmidas de altitude, que variam entre 800 e 1.000 m aproximadamente, e na área de
estudo são encontradas particularmente no município de São João do Tigre, especialmente
na Área de Proteção Ambiental (APA) das Onças (LIMA, 2013).
Nessa região, assim como em todo bioma Caatinga, a vegetação assume papel de im-
portância em todos os aspectos, tanto de caráter econômico como de conservação, com
destaque para espécies frutíferas e medicinais, assim como suporte forrageiro, na exploração
da caprinocultura e bovinocultura disseminada por todo semiárido.

Coleta de dados em campo

Para que fosse efetivada uma posterior validação dos dados processados nos softwares
de SIG (Sistema de Informações Geográficas), a fim de se chegar aos resultados esperados
dessa pesquisa, foi imprescindível a realização de expedições na área de estudo, com o ob-
jetivo de coletar dados para a construção desta pesquisa, pois as informações geradas com
o uso das geotecnologias precisam de um confronto com a realidade, para que os produtos
gerados sejam mais confiáveis (TRICART, 1977).
Entre os meses de maio/2016 e maio/2017 foram realizadas seis expedições, que pos-
sibilitaram a coleta de informações em 73 locais, espalhados por todos os 18 municípios
que compõem a bacia hidrográfica, permitindo a observação de diferentes tipologias vege-
tais, pedológicas e de paisagens, além de variados níveis de degradação. Esse intervalo de
tempo permitiu que a obtenção dos dados ocorresse em diferentes meses, contemplando a
coleta tanto no período seco, quanto no chuvoso. Tais coletas foram realizadas com o uso
de câmera fotográfica e aparelho receptor de sistema de posicionamento global (Global

135 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Positioning System – GPS), possibilitando que informações referentes a aspectos paisagísticos
fossem colhidas na área de estudo.

Proposta de criação de áreas prioritárias para a conservação


da Caatinga

A escolha de áreas prioritárias de conservação é realizada pelo Ministério do Meio


Ambiente (MMA) através de reuniões técnicas, que conta com a participação de dezenas
de especialistas, representando as mais variadas instituições. São adotadas como áreas de
planejamento as bacias hidrográficas, que são mapeadas e delimitadas através do uso de

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imagens SRTM (Shuttle Radar Topographic Mission). A utilização de bacias hidrográficas
ocorre em função delas possuírem limites naturais, pela sua relevância como fator estrutu-
rador da organização espacial da biodiversidade na Caatinga, por possuírem marcos legais
já estabelecidos e pela sua importância em relação à determinação da disponibilidade de
água para a população humana que vive no semiárido (MMA, 2016).
Os grupos de trabalho formados pelos especialistas levam em consideração classi-
ficações internacionais e nacionais de espécies ameaçadas de extinção (ex. International
Union For Conservation of Nature – IUCN, Instrução Normativa 01/2014 – Lista CITES
e Portaria MMA 443/2014 e 444/2014 – Lista de espécies da fauna e flora brasileiras
ameaçadas de extinção), além das informações fornecidas pelos participantes dos grupos,
que utilizaram como principais justificativas para escolha dos parâmetros biológicos (anfí-
bios, aves, mamíferos, etc.) e ambientais, a saber: grau de ameaça de extinção das espécies
(criticamente em perigo, em perigo, vulnerável, ameaçada, quase ameaçada, dados insufi-
cientes), espécies ameaçadas por caça, pesca, por comércio ilegal, endemismo das espécies,
dependência de habitats especiais, espécie emblemática, espécie raras, espécies suscetíveis,
patrimônio espeleológico, representatividade das feições do relevo, representatividade de
ecossistemas chaves, porcentagem de Caatinga em cada estado.
Apesar da grande quantidade de dados utilizados para definição desses locais, foi verifi-
cado que na área de estudo desta pesquisa, pouquíssimos setores foram classificados como
prioritários de conservação, excluindo importantes localidades, como a APA das Onças
(maior UC do estado) e a região que compreende as nascentes do rio Paraíba (maior corpo
hídrico do estado) no município de Monteiro.
Indicar novas áreas potenciais como prioritárias para conservação através deste traba-
lho, na bacia hidrográfica do alto curso do rio Paraíba, tem como justificativa principal a
preservação de outros fragmentos florestais importantes, para os quais esse tipo de levan-
tamento, além do faunístico, é escasso nessa região. Dessa forma, o sensoriamento remoto
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

se transforma em importante ferramenta na sugestão de áreas desse tipo.


A vegetação da área foi mapeada e analisada por meio de técnicas de sensoriamento remo-
to, através do uso de imagens de satélite dos anos de 1988, 1999 e 2017, e do índice de vege-
tação soil adjusted vegetation index (SAVI). Além disso, as expedições realizadas mostraram a
atual situação dos locais, sendo parte importante na validação das informações geradas no SIG.
O sensoriamento remoto é uma das tecnologias que permite mapear a distribuição
geográfica da cobertura vegetal, com base em suas características fisionômicas, ecológicas
e florísticas, ajudando a definir as áreas prioritárias para conservação, alcançando a repre-
sentação da biodiversidade e condições ambientais da cobertura vegetal com o mínimo de
custo e tempo dos trabalhos de investigação, facilitando o monitoramento das transformações
ambientais (PONZONI, 2001).
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Identificação de áreas para criação de Unidades de Conservação

No Capítulo IV da Lei N° 9.985, de 18 de julho 2000, são descritos os critérios


para criação e implantação das unidades de conservação. Dentre esses critérios podem ser
destacados:

• A reivindicação pela transformação de uma determinada área em UC, que pode


vir de pessoas físicas, proprietários rurais, associações de moradores, cooperativas
extrativistas, Organizações Não Governamentais (ONGs) e empresas;
• No caso da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), uma categoria de
UC privada, a criação é feita por iniciativa do proprietário;
• Qualquer área natural, pública ou privada, com cobertura vegetal conservada, pre-
sença de mananciais hídricos, usada para visitação pública, utilizada para extração
de plantas medicinais e matéria prima para artesanato, com importância histórica
e/ou cultural para a sociedade, com abundância de flora e fauna nativa e/ou espécies
raras que não são mais vistas com frequência na região;
• Realização de estudos técnicos da flora e fauna, características físicas, características
socioeconômicas e situação fundiária; e a realização de consulta pública convocada
pelo Poder Público com o intuito de consultar a população local e do entorno para
que todos possam saber e opinar sobre a criação da UC.

O processo de seleção de áreas para criação de parte das unidades de conservação no


Brasil não foi fundamentado a partir de bases puramente científicas, principalmente da-
quelas criadas na década de 1980, pois muitas foram instituídas sem resistência por parte
dos governos estaduais, pelo simples fato de terem sido evitadas áreas de interesse social,
econômico ou político (PÁDUA 1981).

137 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Vale ressaltar que no processo de criação de UC’s o mapeamento das áreas prioritárias
para a conservação e o de remanescentes de cada bioma é consultado, a fim de selecionar
áreas para criação de novas unidades, priorizando as áreas de grande importância biológica,
e que estão sob forte pressão antrópica.
Basicamente, para se chegar aos resultados propostos, o método incluiu os seguintes
critérios: as áreas prioritárias para conservação mapeadas no alto curso do rio Paraíba, as
ameaças a biodiversidade existente nas áreas prioritárias para conservação, o tamanho dos
fragmentos, o nível de conservação da vegetação conforme o intervalo temporal (1988-
-2017), a presença de área de preservação permanente (APP) e a proximidade com áreas
prioritárias para recuperação, a fim das UC’s promoverem um serviço ambiental nas áreas
de seu entorno.

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Google Earth Engine (GEE)

Na metodologia, surge o Google Earth Engine (GEE), plataforma gratuita que armazena
imagens de satélite, organiza e disponibiliza, incluindo em seu acervo, dados com mais de
quarenta anos, além de novas imagens que são coletadas todos os dias. São utilizadas para
realizar análises científicas para que possam ser visualizados conjuntos de dados geoespaciais.
Para a realização do estudo foram utilizadas coleções de imagens dos satélites Landsat
5 e 8, sensores TM e OLI / TIRS, respectivamente, que são acessadas através de um catálo-
go público do Google, que contém uma grande quantidade de imagens georreferenciadas.
A maior parte do catálogo é composta por imagens com observação da Terra, incluindo
todo o arquivo Landsat, bem como arquivos completos do Sentinel-1 e Sentinel-2, mas
também inclui previsões climáticas, dados de cobertura do solo e de aspectos ambientais,
geofísicos e socioeconômicos. O catálogo é continuamente atualizado a uma taxa de quase
6.000 cenas por dia (GORELICK, 2017).
O GEE é uma plataforma de monitoramento de dados ambientais, que incorpora
dados da National Aeronautics and Space Administration (NASA), bem como do programa
Landsat. Após o Instituto de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos (USGS - United
States Geological Survey) abrir o acesso aos seus registros de imagens Landsat em 2008, o
Google viu uma oportunidade de usar seus recursos de computação em nuvem para permi-
tir que registros dessas imagens possam ser acessados e processados de seu sistema online.
Essa ferramenta ajuda na redução do tempo de processamento em análises de imagens
Landsat (HANSEN, 2013).
Para o uso do GEE nesta pesquisa, foi utilizada como base a metodologia aplicada por
Ghazaryan (2015), na qual foi realizado um estudo de caso, analisando áreas florestais no
Nordeste da Armênia, entre os anos de 1984 e 2014.
Na metodologia aplicada na presente pesquisa, por meio de linhas de comandos (script
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

- Anexo 1), foi utilizado o intervalo temporal de 1988 a 2017, que englobou todas as pas-
sagens realizadas pelos satélites entre 01 de janeiro e 30 de junho nos anos de 1988, 1999
e 2017, com percentual máximo de cobertura das nuvens com valor de 10%. O uso desses
parâmetros propiciou a utilização de 58 diferentes imagens, sendo 12 do ano de 1988, 24
de 1999 e 22 imagens do ano de 2017. A escolha destes anos se deve ao fato deles possuí-
rem alguns fatores que contribuem em resultados mais precisos, tais como a pluviometria e
a quantidade de imagens disponíveis. As informações das imagens utilizadas na confecção
dos mapeamentos propostos para este estudo, por meio do emprego do índice de vegetação
SAVI são apresentadas no Anexo 2.
138 //

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Resultados e discussão

Áreas com potencial para conservação da caatinga

As análises dos produtos gerados por meio do índice de vegetação SAVI, aliados a con-
servação dos fragmentos florestais na temporalidade sugerida nesta pesquisa, além das co-
letas de campo realizadas nos anos de 2016 e 2017, tornaram possível a indicação de locais
com potencial para serem indicados como áreas prioritárias para conservação da Caatinga.
Para atingir o objetivo deste tópico, foram confeccionados três produtos cartográficos,
a fim de analisar o comportamento da vegetação da área de estudo, através do aumento
ou diminuição da biomassa. Os produtos foram criados com o intuito de apresentar e
analisar a cobertura vegetal da bacia e atingir os resultados propostos. Os mapas gerados
para que seja analisada a área de estudo nos anos de 1988, 1999 e 2017 são apresentados
nas Figuras 2, 3 e 4, respectivamente.
Percebe-se nos produtos cartográficos algumas transformações ocorridas na região,
que aconteceram em razão de aspectos socioeconômicos e climáticos. É observado que ao
longo do período estudado, ocorreram alterações na biomassa, em grande parte da área
pesquisada, principalmente entre as décadas de 1980 e 1990.

Figura 2. Índice de vegetação SAVI com imagem de 1988


na Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba

139 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Elaboração: Marcos Santos.

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Figura 3. Índice de vegetação SAVI com imagem de 1999
na Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.

Elaboração: Marcos Santos.

Figura 4. Índice de vegetação SAVI com imagem de 2017


na Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Elaboração: Marcos Santos.


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Percebe-se nos produtos cartográficos algumas transformações ocorridas na região,
que aconteceram em razão de aspectos socioeconômicos e climáticos. É observado que ao
longo do período estudado, ocorreram alterações na biomassa, em grande parte da área
pesquisada, principalmente entre as décadas de 1980 e 1990.
Nas Figuras 2 e 3, é visto que na porção sul e sudoeste da área de estudo, que com-
preende os municípios de São João do Tigre, São Sebastião do Umbuzeiro, Zabelê e
Monteiro, que os valores de SAVI sofreram alterações. Tais transformações ocorreram
em razão da retirada da cobertura vegetal arbórea, substituída pelas pastagens plantadas
e nativas. Essa mudança no uso do solo é explicada pela crescente expansão da criação
de bovinos e caprinos no Cariri paraibano que ocorreu entre a década de 1980 e 1990,
conforme os censos agropecuários do IBGE (1970, 1980, 1990 e 2006) como pode ser
observado na Tabela 1.

Tabela 1. Criação de bovinos e caprinos no Cariri paraibano.

Período Nº de bovinos Nº de caprinos


1970 119.607 74.762
1980 153.181 166.863
1990 169.415 212.405
2006 123.803 304.105

Fonte: IBGE, adaptado de Souza (2008).

Outro fator a ser considerado na análise das Figuras 2 e 3, são os dados pluviométricos
na região, pois no intervalo temporal (1988-1999), que compreende as informações apre-
sentadas nos produtos cartográficos supracitados, houve grandes períodos de estiagem,
principalmente na década de 1990, quando ocorreram dois fenômenos El Niño (1990 -
1993; 1997 - 1998), classificados pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos

141 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


(CPTEC) como de forte impacto.
No evento ocorrido entre 1990 e 1993 as precipitações na estação chuvosa do Nordeste
foram de 28%, 13% e 63% abaixo da média em 1990, 1991 e 1993, respectivamente. Já
o El Niño de 1997 - 1998 foi considerado um dos mais intensos já identificados e seus
efeitos foram sentidos nas variações climáticas sobre o Brasil, com a região Nordeste sendo
atingida novamente com chuvas bem abaixo da média (CLIMANÁLISE, 1993). As afir-
mações acima são ilustradas na Tabela 2 através dos dados da Agência Executiva de Águas
do Estado da Paraíba (AESA), que apresenta o volume de precipitação no Cariri paraibano
entre os anos de 1994 e 2017.

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Tabela 2. Pluviometria no Cariri paraibano (1994-2016).

CARIRI OCIDENTAL CARIRI ORIENTAL


Desvio da Desvio da Desvio da Desvio da
Ano Observ. (mm) Média Históri- Média Históri- Observ. (mm) Média Históri- Média Históri-
ca (%) ca (mm) ca (%) ca (mm)
1994 514,9 -15,7 -96,1 497,8 3,8 18,0
1995 581,0 -4,9 -30,0 359,1 -25,2 -120,7
1996 515,3 -15,7 -95,7 365,8 -23,8 -114,0
1997 511,9 -16,2 -99,1 423,6 -11,7 -56,2
1998 180,2 -70,5 -430,8 124,5 -74,1 -355,3
1999 389,2 -36,3 -221,8 277,9 -42,1 -201,9
2000 646,1 5,7 35,1 698,3 45,5 218,5
2001 418,9 -31,4 -192,1 404,0 -15,8 -75,8
2002 567,5 -7,1 -43,5 469,2 -2,2 -10,6
2003 391,5 -35,9 -219,5 336,9 -29,8 -142,9
2004 778,7 27,4 167,7 783,8 63,4 304,0
2005 585,3 -4,2 -25,7 532,9 11,1 53,1
2006 637,1 4,3 26,1 386,5 -19,4 -93,3
2007 461,7 -24,4 -149,3 398,5 -16,9 -81,3
2008 777,5 27,3 166,5 650,7 35,6 170,9
2009 969,4 58,7 358,4 626,2 30,5 146,4
2010 672,2 10,0 61,2 569,4 18,7 89,6
2011 807,2 32,1 196,2 792,4 65,2 312,6
2012 139,3 -77,2 -471,7 215,5 -55,1 -264,3
2013 331,6 -45,7 -279,4 299,4 -37,6 -180,4
2014 450,3 -26,3 -160,7 368,0 -23,3 -111,8
2015 313,9 -48,6 -297,1 239,9 -50,0 -239,9
2016 309,2 -49,4 -301,8 248,7 -48,2 -231,1
2017 316,4 -48,2 -294,6 162,8 -66,1 -317,0

Fonte: AESA (2017).


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

A Figura 4 mostra a situação em 2017, na qual o Cariri paraibano entra no sexto


ano consecutivo de forte estiagem, com precipitações muito abaixo da média histórica
(Tabela 2), aliado a contínua e intensiva retirada de cobertura vegetal, observa-se que cerca
de 80% da bacia apresenta baixos índices de SAVI.
Por meio das Figuras 2, 3 e 4, é observado que alguns locais da área de estudo, apesar dos
diversos períodos de estiagem que afetam a região, se mantém com bons índices, é o caso de
locais inseridos nos municípios de Prata, Amparo, Ouro Velho, São Sebastião do Umbuzeiro
e São João do Tigre, além da porção oeste de Monteiro, que por manterem bons níveis de
conservação, merecem uma atenção maior dos gestores e pesquisadores ambientais.
A indicação de áreas com potencial para serem classificadas como prioritárias para
conservação da Caatinga, foi realizada neste estudo através do uso de ferramentas de
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geoprocessamento e da análise das Figuras 2, 3 e 4. Observam-se os locais que possuem
cobertura vegetal conservada. Os resultados obtidos nas visitas técnicas in loco, quando
foram notados outros atributos que enaltecem a importância dessas localidades para o alto
curso da bacia hidrográfica do rio Paraíba.
Dessa forma, foram indicados locais onde ocorreram a predominância das duas classes
que apresentaram os maiores valores de biomassa nos resultados apresentados nas Figuras 2, 3
e 4, e que foram validadas com as informações coletadas em campo. A Figura 5 apresenta os
locais com potencial para serem indicados como prioritários para conservação da Caatinga
ou que possam ser utilizados na ampliação das áreas já existentes.

Figura 5. Áreas com potencial para serem indicadas como prioritárias para
conservação da Caatinga na Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.

143 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Elaboração: Marcos Santos.

Após a elaboração da Figura 5, foram delimitadas quatro áreas com potencial para
serem incluídas como prioritárias para conservação da Caatinga no semiárido paraibano.
Juntas elas somam 1.529,61 km², o que corresponde a quase o dobro das áreas prioritárias
já existentes na área de estudo. Observa-se também que foram visitados 17 locais dentro
dessas quatro áreas, ajudando assim na validação dos produtos cartográficos gerados.
A área 1 está localizada no município de São João do Tigre, mais precisamente na Área
de Proteção Ambiental das Onças, possuindo 56,28 km², e está inserida em uma unidade de

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conservação de uso sustentável, onde são encontrados grandes fragmentos de vegetação
do bioma Caatinga, assim como do bioma Mata Atlântica (Mata de Brejo ou Brejo de
Altitude), esta última localizada em algumas áreas pontuais nas zonas serranas mais elevadas
(Figura 6). Esses fatores demonstram a importância da localidade dentro da bacia e para a
população da região.

Figura 6. Local visitado na área 1 (APA das Onças, 02/08/2016)


da Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.

Fotos: Marcos Santos.

A área 2 está localizada nas porções sul e sudoeste da bacia e engloba todo o território do
município de São Sebastião do Umbuzeiro e parte de São João do Tigre, possui 619,40 km²,
sendo grande parte deste território coberto por remanescente de vegetação nativa (Figura 7).
Destaca-se o município de São Sebastião do Umbuzeiro, que segundo Figueiredo (2016),
457,88 km² são de cobertura florestal, equivalente a 78% de seu território.

Figura 7. Locais visitados na área 2 (São Sebastião do Umbuzeiro, 03/08/2016)


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

da Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.

Fotos: Marcos Santos.


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Já a área 3 possui aproximadamente 231,62 km² e está dividida entre os municípios de
Monteiro e Zabelê, na qual compreende toda parte oeste do primeiro. Nessa delimitação é
proposta união com uma área delimitada pelo MMA como prioritária para conservação da
Caatinga, possuindo o código CA158 e prioridade de conservação classificada como “Muito
Alta”. Outro destaque que contribui e torna essa área propícia a ser transformada como prio-
ritária para conservação da Caatinga, deve-se ao fato da nascente do rio Paraíba, o maior do
estado, estar presente nessa região, no município de Monteiro, na serra da Jabitacá, fatores
que fortalecem a necessidade da conservação dos recursos naturais da região (Figura 8).

Figura 8: Locais visitados na área 3 (Serra da Jabitacá, Monteiro, 22/05/2016)


na Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.

Fotos: Marcos Santos.

Figura 9: Local visitado na área 4 (Sumé, 09/09/2016)


na Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba

145 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Fotos: Marcos Santos.

A área 4 possui 622,31 km² e é formada pelos municípios de Amparo, Prata, Ouro
Velho e parte de Sumé e Monteiro, e assim como nos outros locais citados, possui grandes

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fragmentos de vegetação nativa, que ocupam uma área considerável dos municípios onde
estão presentes (Figura 9). Nela encontra-se parte de uma área prioritária (CA 148) que
possui prioridade de conservação classificada como “Extremamente Alta”. Também deve-
-se ressaltar a presença da RPPN Fazenda Almas, importante propriedade rural e local de
pesquisas sobre a fauna e flora do Cariri paraibano, e segundo seu plano de manejo é a
mais antiga reserva particular do Estado, constituindo-se na maior reserva particular da
Paraíba e na quarta maior do Nordeste, possuindo 3.505 ha.

Áreas propícias para criação de unidades de conservação

Definir o tamanho das unidades de conservação é uma tarefa que implica em elevada
complexidade, fato ainda mais acentuado quando se sabe que parte dos estados localiza-
dos ao norte do rio São Francisco (Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará)
possuem levantamentos da vegetação limitados, sendo a situação da Paraíba das menos
conhecidas (ARAÚJO, 2005).
Para se chegar aos resultados desta seção, foi tomado como base as informações ilustradas
na Figura 5, sendo adicionada a hidrografia, para que se tenha uma visão da distribuição dos
corpos hídricos e consequentemente suas APP’s nas áreas mapeadas.
A ideia de gerenciamento de recursos hídricos a partir das bacias hidrográficas está
cada vez mais presente nas políticas públicas, uma vez que a presença da água é um aspec-
to fundamental em se tratando de ambientes semiáridos, tanto no que diz respeito às
questões ligadas a flora e fauna, como a conservação e uso desse recurso natural.
Souza (2003) afirma que na gestão dos usos da água, há uma maior complexidade
quando se trata de um ambiente semiárido sem a presença de um curso d’água perene,
nascentes, ou outra fonte de água naturalmente disponível o ano inteiro, sendo essencial
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

o desenvolvimento de pesquisas direcionadas às bacias e sua relação com o sistema antró-


pico que as envolvem, para que seja possível pensar concretamente em planejamento local
levando em consideração todas as características do sistema fluvial.
A vegetação é um importante indicador geoambiental, pois sofre influência dos fatores
climáticos, edafológicos e bióticos. Algumas variáveis (clima, geologia, geomorfologia, solo, hi-
drografia) podem sofrer o efeito da alteração na cobertura vegetal. Ela exerce importante papel
na estabilização dos geoambientes, visto que protegem o solo dos processos erosivos, facilita a
distribuição, infiltração e acúmulo das águas pluviais e influência nas condições climáticas do
ambiente. Quando ocorrem alterações na cobertura vegetal, direta ou indiretamente o ciclo
hidrológico é impactado, reduzindo a capacidade de infiltração e a acumulação natural desse
recurso nos aquíferos, causando impactos negativos sociais e ambientais (ALMEIDA, 2012).
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Com o uso adequado do sensoriamento remoto, e o cruzamento das demais informa-
ções, obtém-se uma maior compreensão dos diferentes níveis de conservação e degradação
dos ecossistemas objetivados. O resultado obtido com o SAVI leva a selecionar as principais
áreas e encontrar um ambiente favorável à conservação biológica (MEDEIROS, 2005).
Ressalta-se que este estudo pretende mostrar de forma mais detalhada a contribuição
das geotecnologias na questão ambiental e na sua gestão conforme os resultados obtidos
nesta seção (Figura 10), que indica alguns locais com potencial para se tornarem ambien-
talmente protegidos, na forma de unidades de conservação. Dessa forma, pode desempe-
nhar as funções de reservatórios de reposição da flora e fauna, ajudar a conservar os cursos
d’água, contribuir de forma direta e ampla na sustentabilidade ambiental, econômica e
social das terras localizadas dentro e fora das unidades de conservação.

Figura 10: Proposta para criação de unidades de conservação


e Áreas potenciais para serem indicadas como prioritárias para
conservação na Bacia Hidrográfica do Alto Curso do Rio Paraíba.

147 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Elaboração: Marcos Santos.

Analisando a Figura 10, é observada a indicação de quatro locais que apresentam


atributos para serem indicados como áreas propícias a serem transformadas em unidades
de conservação. Estão inseridos em áreas propostas como prioritárias para conservação da
Caatinga. A escolha desses locais se deve pelos seguintes motivos:

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• Área 1 – esta localidade já é decretada como unidade de conservação, porém de uso
sustentável. É sugerido uma delimitação mais detalhada dessa UC, com o intuito
de classificá-la como de proteção integral, pelo fato dessa região possuir grande
diversidade de espécies de flora do bioma Caatinga, assim como do bioma Mata
Atlântica, esta última localizada em algumas áreas pontuais nas zonas serranas mais
elevadas (LIMA, 2013). Associado à diversidade vegetal, existe também uma im-
portante presença de animais cada vez mais raros, a exemplo da onça parda, felino
de grande porte. Além disso, nessa área existem diversos sítios arqueológicos ainda
pouco conhecidos pela ciência (VASCONCELOS, 2009);
• Área 2 – neste local destaca-se a grande quantidade de remanescentes de vegeta-
ção nativa, que chega a se estender em 78% do município de São Sebastião do
Umbuzeiro, além da grande quantidade de corpos hídricos, indicando ser uma re-
gião com muitas nascentes, aumentando ainda mais a importância da conservação
desta localidade;
• Área 3 – trata-se de uma região com grande percentual de cobertura vegetal, além da
presença da serra da Jabitacá, um dos maiores maciços do planalto da Borborema, e
que atinge altitudes de aproximadamente 1000 metros, além de ser o limite natural
entre os estados da Paraíba e Pernambuco. Neste local se encontra a nascente do rio
Paraíba, o mais extenso do estado da Paraíba, com uma bacia hidrográfica que drena
uma área de 19.375 km²;
• Área 4 – a inclusão de uma UC neste local é justificada por estar localizada em uma
região de densa cobertura vegetal, além disso, apoia-se no fato de estar próximo de
duas áreas prioritárias para conservação da Caatinga (CA 148 e CA 158) e também
pela localização da RPPN Fazenda Almas, o que propicia a criação de corredores
ecológicos, ou seja, coloca em prática outra estratégia de conservação, a fim de
manter ou restaurar a conectividade da paisagem e facilitar o fluxo genético entre
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

populações, pois trata-se de uma proposta de gestão do território em escala regional


destinada a contribuir para o desenvolvimento sustentável.

Vale salientar que a simples ampliação e/ou criação de unidades de conservação não
conduz essas áreas aos objetivos para as quais foram designadas, sem que haja uma ad-
ministração que cumpra com suas obrigações, problemática existente nas unidades de
conservação da Paraíba, principalmente no que diz respeito a ineficiência em vigilância,
ausência de planos de manejo e zoneamento. Porém, se o gerenciamento ocorrer de ma-
neira adequada, a criação de novas UC’s e o manejo apropriado dessas áreas constituem
significativa contribuição para conservação da biodiversidade.
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Conclusão

A metodologia apresentada nesta pesquisa buscou através do geoprocessamento indicar


áreas com potencial a serem indicadas como prioritárias para a conservação da Caatinga,
uma vez que se torna necessário uma visão mais conservacionista nessa região, pois se trata
da área mais seca da Paraíba, possuindo a nascente do maior rio do estado, que atualmente
recebe as águas da transposição do rio São Francisco. O uso inadequado do solo pode
comprometer os recursos naturais necessitando assim de propostas de ordenamento de uso
compatíveis com as fragilidades do ambiente natural.
Pode-se constatar que o uso das ferramentas do geoprocessamento, aplicadas ao ma-
peamento da vegetação da bacia do alto curso do rio Paraíba, a partir do uso da aplicação
Google Earth Engine por meio do índice de vegetação SAVI, pode ser considerado bem
satisfatório no que se refere à análise da vegetação da Caatinga, sendo um importante ele-
mento na indicação dessas áreas. Os resultados alcançados indicaram quatro novas áreas
que somam 1.529,61 km² e que ao longo das últimas três décadas apresentam bons índices
de conservação.
Também foi possível indicar quatro novas áreas potenciais e que apresentam indicado-
res favoráveis para a criação de novas unidades de conservação na área de estudo ou receber
uma classificação mais restritiva, caso da APA das onças.
Ressalta-se que a simples criação de unidades de conservação não garante a efetiva
proteção do meio ambiente, tornando essencial o uso de novas estratégias de preservação,
além da realização de parceria entre os órgãos que compõem o Sistema Nacional do Meio
Ambiente e o órgão responsável pela UC nos procedimentos de gestão das UC’s.
O aprofundamento e prosseguimento desse tema é de grande relevância para a bacia
do alto curso do rio Paraíba, em função de toda a problemática ambiental dessa região
que acarreta em complicações no meio social. A pesquisa nessa temática pode possibi-

149 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


litar alternativas para o estabelecimento de novas áreas prioritárias para a conservação
da Caatinga e de unidades de conservação ou um gerenciamento mais intensivo nas
UC’s existentes.
Desta forma, este trabalho conseguiu identificar novas áreas com boa cobertura ve-
getal que permitem auxiliar no direcionamento de políticas públicas nacionais e inter-
nacionais de biodiversidade e conservação, possibilitando desde a ampliação de áreas
prioritárias para conservação já existentes na área de estudo à criação de novas áreas
protegidas ou mesmo corredores ecológicos que permitem melhor conectividade e fluxo
gênico para a fauna e a flora, com reflexos positivos diretos e indiretos para uma série de
serviços ecossistêmicos.

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no município de São João do Tigre, PB, Brasil. In: X Congresso de Ecologia do Brasil. São
Lourenço (MG): Sociedade de Ecologia do Brasil.

iberografias40.indb 151 23-03-2021 17:57:26


Anexo 1

var region = ee.FeatureCollection(‘users/marcosleotecnogeo/Bacia_AltoCursoRioPB’);


// Get the geometry var region = region.geometry();
Map.centerObject(region, 8); //long, lat, zoom

var STD_NAMES = [‘blue’, ‘green’, ‘red’, ‘nir’, ‘swir1’, ‘temp’,’swir2’]; //Para Renomear
bandas

var cloud_thresh = 10; //Máscarar nuvens


var shadowSumBands = [‘nir’,’swir1’,’swir2’];
var cloud_filter = function(image) {
image = ee.Algorithms.Landsat.simpleCloudScore(image);
var quality = image.select(‘cloud’).gt(cloud_thresh);

var maskedImage = image.mask().and(quality.not());


image = image.mask(maskedImage);
return image;
};

var maskIncomplete = function(image)


{
var incompleteThreshold = -0.001;
var imageWhere = image.where(
image.select([0]).gte(incompleteThreshold)
.and(image.select([1]).gte(incompleteThreshold))
.and(image.select([2]).gte(incompleteThreshold))
.and(image.select([3]).gte(incompleteThreshold))
.and(image.select([4]).gte(incompleteThreshold))
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

.and(image.select([5]).gte(incompleteThreshold))
.and(image.select([6]).gte(incompleteThreshold)),10);

return image.mask(image.mask().and(imageWhere.select([1]).eq(10)));
};

//Formulas para calcular Índices Espectrais (NDWI, TGSI E SAVI)

var addIndices = function(in_image){

in_image = in_image.select([0,1,2,3,4,5,6],STD_NAMES);
in_image = in_image.addBands(in_image.normalizedDifference([‘nir’, ‘red’]).
152 //

iberografias40.indb 152 23-03-2021 17:57:26


select([0],[‘ndvi’]).toFloat());
return in_image;
};

var addSAVI = function(image) {


var savi = image.expression(
‘((1+0.1)*(b(“nir”) - b(“red”))) / (b(“nir”) + b(“red”) + 0.1)’).rename(‘savi’);
return image.addBands(savi);
};

var MSEC_PER_TIMESTEP = 60*365*2*60*24*1000;


var addDateBand = function(inImg){
var i =inImg.metadata(‘system:time_start’).divide(MSEC_PER_TIMESTEP).toFloat();
return inImg.addBands(ee.Image(i).select([0], [‘Date’]));

};

var shadowSumThresh = 0.3;


// Get image collection
var ImageCollectionL5 = ee.ImageCollection(‘LANDSAT/LT5_L1T_TOA’)
.filterBounds(region).sort(‘system:time_start’)
.filterBounds(region)
.map(function(img){
var filtered = cloud_filter(img).select([0,1,2,3,4,5,6],STD_NAMES);
filtered = maskIncomplete(filtered);
var sum = filtered.select(shadowSumBands).reduce(ee.Reducer.sum());
filtered = filtered.mask(filtered.mask().and(sum.gt(shadowSumThresh)));
return filtered;
});
var ImageCollectionL8 = ee.ImageCollection(‘LANDSAT/LC8_L1T_TOA’)
.filterBounds(region).sort(‘system:time_start’)
.filterBounds(region) 153 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
.map(function(img){
var filtered = cloud_filter(img).select([1,2,3,4,5,10,6],STD_NAMES);
filtered = maskIncomplete(filtered);
var sum = filtered.select(shadowSumBands).reduce(ee.Reducer.sum());
filtered = filtered.mask(filtered.mask().and(sum.gt(shadowSumThresh)));
return filtered;
});
var ImageCollection = ee.ImageCollection(ImageCollectionL5.
merge(ImageCollectionL8))

// Define years of interest

iberografias40.indb 153 23-03-2021 17:57:26


var startYear = 1988
var endYear = 2017

var VIs = (
ImageCollection
.filterBounds(region)
.filterDate(ee.Date.fromYMD(startYear, 1, 1), ee.Date.fromYMD(endYear, 1, 1).
advance(1, ‘year’))
.filter(ee.Filter.dayOfYear(1,365))
.map(addDateBand).map(addIndices).map(addSAVI)
)

var savi_1988 = VIs.select([‘savi’])


.filterDate(‘1988-01-01’, ‘1988-06-30’)
.mean()
.clip(region);

var savi_1999 = VIs.select([‘savi’])


.filterDate(‘1999-01-01’, ‘1999-06-30’)
.mean()
.clip(region);

var savi_2017 = VIs.select([‘savi’])


.filterDate(‘2017-01-01’, ‘2017-06-30’)
.mean()
.clip(region);

Export.image.toDrive({
image: savi_2017, //substituir pela imagem desejada
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

description: ‘savi2017’, //renomear como desejado


folder: ‘/gee_files’,
scale: 30,
region: region.geometry(),
maxPixels: 1e13,
});
154 //

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Anexo 2

DATA DE
N° ID DA IMAGEM ANO
PASSAGEM
1 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651988004CUB00 1988 04/01/1988
2 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661988004CUB00 1988 04/01/1988
3 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661988036CUB01 1988 05/02/1988
4 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651988036CUB01 1988 05/02/1988
5 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651988052CUB00 1988 21/02/1988
6 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661988052CUB00 1988 21/02/1988
7 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651988068CUB01 1988 08/03/1988
8 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661988068CUB01 1988 08/03/1988
9 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651988100CUB01 1988 09/04/1988
10 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661988100CUB01 1988 09/04/1988
11 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140651988141CUB00 1988 20/05/1988
12 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140661988141CUB00 1988 20/05/1988
13 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140661999043CUB00 1999 12/02/1999
14 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651999050CUB00 1999 19/02/1999
15 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661999050CUB00 1999 19/02/1999
16 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140651999059CUB00 1999 28/02/1999
17 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140661999059CUB00 1999 28/02/1999
18 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661999082CUB00 1999 23/03/1999
19 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651999082CUB00 1999 23/03/1999
20 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651999098CUB00 1999 08/04/1999
21 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661999098CUB00 1999 08/04/1999
22 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140651999107CUB00 1999 17/04/1999

155 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


23 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140661999107CUB00 1999 17/04/1999
24 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651999114CUB00 1999 24/04/1999
25 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661999114CUB00 1999 24/04/1999
26 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140651999123CUB00 1999 03/05/1999
27 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140661999123CUB00 1999 03/05/1999
28 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661999130CUB00 1999 10/05/1999
29 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651999130CUB00 1999 10/05/1999
30 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140651999139CUB00 1999 19/05/1999
31 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140661999139CUB00 1999 19/05/1999
32 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651999146CUB00 1999 26/05/1999
33 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661999146CUB00 1999 26/05/1999

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DATA DE
N° ID DA IMAGEM ANO
PASSAGEM
34 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52140651999155XXX01 1999 04/06/1999
35 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150661999178CUB00 1999 27/06/1999
36 LANDSAT/LT5_L1T_TOA/LT52150651999178CUB00 1999 27/06/1999
37 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82140652017012LGN00 2017 12/01/2017
38 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82140652017028LGN00 2017 28/01/2017
39 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82140652017044LGN00 2017 13/02/2017
40 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82140652017060LGN00 2017 01/03/2017
41 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82140652017076LGN00 2017 17/03/2017
42 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82140652017108LGN00 2017 18/04/2017
43 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017003LGN00 2017 03/01/2017
44 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017019LGN00 2017 19/01/2017
45 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017035LGN00 2017 04/02/2017
46 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017051LGN00 2017 20/02/2017
47 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017067LGN00 2017 08/03/2017
48 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017083LGN00 2017 24/03/2017
49 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017099LGN00 2017 09/04/2017
50 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150652017115LGN00 2017 25/04/2017
51 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017003LGN00 2017 03/01/2017
52 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017019LGN00 2017 19/01/2017
53 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017035LGN00 2017 04/02/2017
54 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017051LGN00 2017 20/02/2017
55 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017067LGN00 2017 08/03/2017
56 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017083LGN00 2017 24/03/2017
57 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017099LGN00 2017 09/04/2017
58 LANDSAT/LC8_L1T_TOA_FMASK/LC82150662017115LGN00 2017 25/04/2017
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
156 //

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políticas públicas,
cooperação e coesão social

iberografias40.indb 157 23-03-2021 17:57:27


iberografias40.indb 158 23-03-2021 17:57:27
A democracia encurralada: antipolítica,
antilaicidade e surto do irracionalismo1

Francisco José Araujo2


Universidade Estadual do Maranhão – UEMA

Dedico ao Prof. Ramiro Azevedo

Com a realização da primeira eleição direta para Presidente da República, após sucessivos
governos autocráticos, cujo início ocorreu com a ruptura institucional de 1964 liderada
pelas Forças Aramadas, o Brasil passou a experimentar o que é o seu mais longo período
de normalidade institucional e rotina eleitoral. No entanto, o sistema político foi paula-
tinamente afetado por crises e tensões institucionais frente a uma crescente diluição das
principais correntes pró-democráticas que concertaram a transição democrática negociada
e pelo desenho institucional do Estado – na sua condição federativa, republicana e demo-

159 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


crática, realizada pela Constituição de 1988. Essa Constituição também constitucionali-
zou inúmeras matérias, especialmente as vinculadas aos direitos de cidadania, o que tem
promovido tensões nas relações interinstitucionais, particularmente na estrutura tripartite
de Poder, fomentando uma ampla judicialização da política e acirrada disputa de com-
petências entre Poderes. Por outro lado, os sistemas partidário e eleitoral tem produzido
fortes efeitos sobre o sistema de governo corroborando para uma crescente vulnerabili-
dade na governabilidade, legitimidade e representação. No campo das relações sociais e
políticas mais amplas, o binarismo discursivo e de disputa eleitoral com foco no controle
1
Texto originalmente apresentado ao II Encontro Internacional de Sociologia, Política, Direito e História
Intelectual – EISPH. Nov. 2020-São Paulo – Brasil.
2
Professor Adjunto da Cadeira de Ciência Política da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA

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do poder Executivo, protagonizado pelo PT (Partidos dos Trabalhadores) e pelo PSDB
(Partido Social da Democracia Brasileira), que conseguiram estar à frente da Presidência
da República durante todo o período posterior aos mandatos de Collor e Itamar, a partir
de 2013 começou a perder força e foi colapsado com o impeachment da Presidenta Dilma
em 2016.
Este trabalho analisa o processo de dissolução da polarização PT versos PSDB e a
emergência de movimentos extrapartidários com reivindicações antipolíticas, antide-
mocráticas, antilaicidade e o proselitismo pela lacração como expressão de um surto
de irracionalismo.

A chegada da democracia

A saída do regime autoritário trouxe, pela via direta do voto, à frente do poder forças
de oposição ao antigo governo e que se identificavam como oposição ao regime autoritá-
rio, progressista ou de esquerda. Essa ascensão de forma dividida ao poder, como rivais,
protagonizada pelo PSDB e pelo PT, fortaleceu diversos setores que estavam desgastados
por alinhamento ao regime autoritário e a setores emergentes na política, mas cuja base
não é propriamente por identificação política, mas religiosa, corporativa e empresarial.
As amplas alianças construídas pelo PSDB e pelo PT possibilitam uma ampliação des-
ses segmentos e um aumento do custo político das alianças para formação de governo.
Contudo, o mais significativo desse processo foi o desgaste desses sucessivos governos
tendo em vista o ideário desses dois partidos. Eles acabaram canibalizando-se em favor
do crescimento de ideários antipolíticos, anticiência e irracionalismo. Ao invés de emer-
girem novos projetos de ampliação política e democrática, avolumaram-se forças opostas
a isso.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

A saída do período autoritário, com militares à frente do Poder, efetivou-se no formato


de “conciliação”.

“A ‘conciliação’, no Brasil nunca foi um arranjo entre iguais, mas o reconheci-


mento, por parte de um pólo social ou político menor, da primazia de outro pólo,
mediante algumas benesses e sobre o pano de fundo constituído pela exclusão da
grande massa da população. Em outras palavras, o fosso – econômico, social, cul-
tural e político – que, desde as origens, existiu entre grupos dominados, sempre foi
utilizado pelos primeiros para facilitar a própria reprodução desse fosso, através do
cooptação de elementos menos dominantes, ou mesmo tirados das camadas subal-
ternas”. (DEBRUN,1983, p. 72-73)
160 //

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Os opositores do regime no poder e a polarização corrosiva

A polarização forjada por PSDB e PT não conseguiu pôr em pautas projetos de trans-
formação capazes de romper com esse eixo de “conciliação”. A lógica do Poder não foi
conjugada a uma lógica de aprofundamento democrático para além do rito eleitoral e no
sentido de uma maior partilha do poder.
Ao invés do PSDB e do PT somarem esforços visando uma ampla agenda de reformas,
optaram por fazer alianças que mantivessem o outro na oposição. O desfecho é que ambos
definharam politicamente e deixaram um vazio. Quando o PSDB esteve à frente do poder
o PT conseguia fazer oposição, pois tinha uma verdadeira hegemonia no meio dos parti-
dos de esquerda e nos movimentos sociais. Quando o PT assumiu o governo houve uma
retração da oposição e dos protestos oriundos dos movimentos sociais. Essa retração desses
setores por alinhamento ao governo do PT possibilitou a emergência de novos movimentos,
distintos dos movimentos populares e identificados com o “petismo”.
A ausência de oposição e o congelamento sindical e dos movimentos sociais deram
condições a outros setores começarem a protagonizar protestos e serem agentes aglutina-
dores de reivindicações múltiplas, mas nitidamente marcadas por uma pauta de valores.
Essa pauta de valores pode ser sintetizada em três pontos principais: primeiro, uma postu-
ra contrária a ideais e valores de liberdade, racionalidade e cientificidade, um verdadeiro
surto irracional; segundo, um postura contrária à laicidade do Estado e da política, movi-
dos por um fundamentalismo “religioso” (fé sem razão), que buscava orientar as Políticas
Públicas sob uma perspectiva de dogmas religiosos; terceiro, antipolítica, porque, ao negar
a laicidade (neutralidade do Estado), negou a primazia do Poder político frente ao Poder
religioso; a também o pluralismo a invocar dogmas e negou a diversidade de ideias e,
óbvio, nega liberdade política, que deve ser vista primeiramente como poder de resistir, re-
sistir a um poder maior (SARTORI, 1994). Negou consequentemente todas as condições

161 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


de liberdade democrática ao buscarem afirmar a liberdade econômica e, ao mesmo tempo,
minimizando ‘a liberdade intelectual – a liberdade religiosa, científica e de imprensa – que
é essencialmente à democracia” (KELSEN, 1993).
Essa agenda de valores não é forjada como expressão da vontade geral da comunidade
cívica, enquanto resultado de um processo de debate e com garantia do contraditório, mas
estabelecido a partir de “notáveis da fé” e da “moralidade”. Isto é, não se põe à crítica e não
aceita a opinião pública democrática. Logo, qualquer ideia oposta é vista com uma coisa
do maléfica, satânica e pecadora: um inimigo.
Ora, essa movimentação tem um verdadeiro califado de “neopentecostais”, que atuam
como boss da fé e que projetaram seus interesses agora no núcleo do Poder político. Esse
projeto de poder despreza a institucionalidade política e buscar submetê-la a primazia da

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“religiosidade”. Isso também cresce sob uma profunda desvalorização e retração do pro-
tagonismo partidário junto à sociedade civil organizada. Verdadeira falha de mediação e
elaboração de uma visão particular visando o interesse geral ou em seu nome falar. Não
custa lembrar a relevância institucional na política:

O papel das instituições destinadas a salvaguarda dos direitos, portanto, é crucial, e


o curso da história de cada nação é fortemente influenciado pela capacidade de canalizar
e solucionar conflitos revelada por tais instituições. Dentre estas, os partidos políticos
e os sistemas partidários detêm posição de singular importância, na medida em que se
tornaram os canais mais visíveis para converter demandas difusas em projetos políticos
específicos.” (SANTOS, 2003, p. 185)

O sistema de partidos, o sistema eleitoral e o custo político

A sustentação econômica dos partidos criou uma existência partidária descolada da


legitimação popular, sem lastro de votos e sem prestar contas à população. Mantidos pelo
fundo partidário e podendo negociar quase sem limites coligações, até recentemente,
mesmo nas eleições proporcionais, desobrigou os partidos de responder eleitoralmente
por programas e princípios. Assim, os boss politics mais do que os policy-maker da política
formataram as candidaturas e as campanhas eleitorais como empreendimentos, elevando
seus custos e desequilibrando a competitividade. Por outro lado, por uma lógica tipica-
mente empresarial, o atendimento das demandas foi especializado para as tornar cada vez
mais segmentadas e atomizadas, visando constituir clientelas eleitorais mais fiéis (de maior
retorno eleitoral). A disputa pelo voto e em tal lógica de competividade eleitoral agudizou
o apelo de marketing nos programas e nas propostas.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

A aguda investida em resultado eleitoral foi criando uma inviabilidade de composição


de força que desse prosseguimento a uma ampliação da democracia para além do rito do
voto. Em que pese a significativa participação de eleitores, mesmo a dimensão eleitoral
foi institucionalmente sendo uma dificuldade à Democracia, retirando da representação
uma qualidade pública e orgânica, pois o interesse coletivo foi minado pela estratégia de
alimentar clientelas eleitorais. A própria ideia de apoio político se profissionalizou a ponto
do voto estar quase complemente monetarizado em seu volume. A arena da política virou
um mercado qualquer, onde grupos empresariais e de diversas organizações não-legais
começaram a empresariar candidaturas e a fazer circular uma forma de financiamento para
além dos requisitos legais. Esse fenômeno tem gerado um candidato sem compromissos
reais com os cidadãos, mas com o apoio político que o empresariou. Essas candidaturas
162 //

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não são propriamente corporativas, mas de negócios, uma espécie de investimento de
setores que buscar assegurar ganhos a partir do controle do poder, tendo como alvo os
recursos públicos. Isso, obviamente, cria uma cadeia de profissionais do cabo eleitoral
ao agiota até chegar às empresas. Aí, é bom situar, como a corrupção política parte dessa
quebra de confiança entre o que é confiado ao representante representar e o que ele de
fato representa, sem a qual as demais formas monetárias de corrupção não se sustentariam
dentro e fora do Estado.
A identificação do cargo político não tem mais elo com compromisso político no que
tange a responsabilidade com o interesse público. Cada um desses representantes passa a
representar a si mesmo, no que tange a projetos particularíssimos e supremacia do privado
sobre o público. Prevalece um jogo de atender desejos no que varejo como atendimento da
vontade de cada um (de todos).
Essa ausência de projetos para constituir uma identificação de vontade geral tem sido
um processo de crescimento de uma participação sem vínculo com a causa públicas, o que
fomenta lutas somente por identificações particulares numa segmentação da cidadania
que se retira de perspectiva o todos, exacerbando um direito isolado de só diferença, im-
pedindo uma ampla mobilização no que seria benefício comum. As pautas são muito mais
para identificar diferenças e particularidades distintas do que para aproximar interesses e
identificar o comum. A Política não é mais espaço para concerto, cooperação e mecanismo
de civilidade, mas como puro enfrentamento. Perde sua condição se sustentação da vida
como essencialmente plural, mas viável e producente, passa imperara uma visão de plu-
ralidade como rivalidades insolúveis. A negação e a não afirmação passam a tomar espaço
na sociedade com formas cada vez mais agudas de intolerância e incapacidade de diálogo.
O sistema eleitoral brasileiro institucionalmente sustentado pela Constituição da
República Federativa do Brasil (CRFB) 1988 minou a representatividade orgânica e criou
uma acentuada efetividade de legenda nas casas parlamentares, dificultando uma gover-

163 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


nabilidade pautada em pactuação de projetos. Tornou um imperativo alianças fisiológicas
e pautadas no spoils system. Irou um mercado de legenda de parlamentares a negociarem
apoio independentemente de programas de governo e conteúdo ideológico. Prática forte-
mente notada durante os governos de FHC e Lula, quando o leque de aliança sob o signo
da governabilidade desconsiderava qualquer critério, como se na política governar fosse
sem qualquer exigência de responsabilidade política. Ora, isso só colaborou para imprimir
uma visão de que não é necessário critério nem ressalvas a quem esteja à frente do poder.
Não há no que os diferenciar.
Esse fracionamento de interesse e insulamento dos mesmos tornou o espaço público
não mais de confronto de ideias e busca do melhor projeto, mas tão somente de afirmação
de posições fechadas em si mesmo. A arena do debate virou uma arena de xingamentos,

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expressão de ódio e fanatismo de facções emocionalmente rivais. Não apelo ao racional,
mas seu contrário.
O sistema partidário brasileiro com seu alto grau de partidos efetividade no parla-
mento tem dado inúmeros sinais de que serve para potencializar crises e abrir brechas para
ruptura institucional, porque eleva o custo político da formação de governo.

O otimismo jurídico político e a judicialização da política

A Constituição de 1988, apesar de seus avanços, não pôde e nem pode ser vista como
algo perfeito ou uma peça que não mereça reparos e ajustes, que acompanhe as mudanças
do tempo como bem frisava Maquiavel (2009): “mudança sempre deixa preparado o cami-
nho para a próxima”, para qualificar a dinâmica e a variação dos contextos. A Constituição
foi um elemento chave para o retorno à normalidade democrática (sempre e normal cheia
de riscos) e gerou um forte otimismo, que pode ser batizado jurídico/político. Esse oti-
mismo debandou para um ativismo legalista e uma dramática judicialização das relações
sociais, agudizando o litígio através de um volume enorme de ações sobre quase tudo.
Minaram-se todos os campos de entendimento e conciliação em prol da disputa judicial.
Por outro lado, ao passo que a Justiça foi mais acionada e mais presente sobre os conflitos
e demandas das demais instituições, o próprio judiciário para a desenvolver, no seu siste-
ma um ativismo judiciário, onde a toga preta da serenidade começou a ganhar brilho de
capa de super herói. Esse ativismo tem suas bases ideológicas no direito achado na rua e
no direito alternativo das décadas de 80 e 90 do século XX. No entanto, a fórmula que
parecia, no seu nascedouro, ter mão única em um sentido, passou a ser usada em todos os
sentidos. Trata-se especificamente da ideia de que, para fazer-se a justiça, o magistrado atue
no sentido de, pelo seu livre convencimento fundamentado, complementar a lei para fazer
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

justiça aos subalternizados. A crescente demanda ao judiciário e seu protagonismo cada


vez maior dos magistrados pelo grau de discricionariedade de que gozam, tem afetado di-
versas áreas dos Poderes constituídos, criando-se uma enorme judicialização da política. A
Política foi cada vez mais sendo ocupada por decisões não políticas. Isso não só na área da
disputa eleitoral, na justiça eleitoral, mas no que tange o exercício dos mandatos dos par-
lamentares e dos executivos, que infere sobre competências de poderes. Em que pese o or-
denamento jurídico só existir no âmbito de um Estado como vontade política. O processo
designado aqui de processo de “judicialização da política” não ocorre sem uma politização
do mundo jurídico, particularmente, no que tange ao caráter das disputas e identificações
ideológicas e partidárias, comprometendo a legitimidade da neutralidade do juízo e sua
independência. Virou uma “justiça de partes” que estabelece vencedores e ganhos, mas
164 //

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que fomenta a continuidade das tensões e dos conflitos. Tal fenômeno tem consequência
direta na institucionalidade jurídica como repositório de efetivação de garantias em um
Estado democrático de direito. O problema visível do sistema jurídico brasileiro como um
todo tem sido o grau de constitucionalização de diversos direitos, a ampla discricionarie-
dade dos magistrados e funcionamento do Supremo Tribunal Federal como integrante da
estrutura do judiciário (última instância) e corte constitucional, julgando casos concretos.

Legislativo com competência legal forte, mas com baixo protagonismo

Ao passo que o Poder legislativo foi substituindo o debate e o embate na sua própria
arena e, recorrendo ao judiciário, abriu uma via de intervenção do Poder judiciário sobre
o legislativo, acrescendo sua competência em termos de legislar. O STF, atualmente, não
só diz sobre a constitucionalidade ou não, mas define de pronto o que é legalidade nor-
mativamente. Tira da área da representação popular e legitimados pera soberania popular
decisões de ampla repercussão social e que, no mínimo, deveria estar na pauta da opinião
pública e forjada no debate das forças políticas eleita pela vontade popular.
O que parecia ser uma solução, diante do baixo comprometimento do legislativo com
suas próprias competências, virou um problema para o próprio Judiciário que acaba tendo
sua credibilidade sendo posta à corrosão das disputas de facções rivais, destituída de projetos
de natureza pública. Essa brecha tem levado a mais alta corte do país a ataques diversos,
provocando preocupações e temores sobre a condição de existência da democracia no Brasil.
Fica cada vez mais evidente que o designer constitucional do Estado brasileiro, como
um todo, apresenta falhas institucionais. O pacto político, que estabeleceu a configuração
do sistema político brasileiro logo após 1985 (a redemocratização), faliu e abriu um vazio.
Isso pode ser notado na ausência de alternativa política, projetos políticos com respalda-

165 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


dos e identificados pelos cidadãos com substantivos no que é o interesse público. Mais
precisamente: falta alternativa em termos de força política aglutinadora. A vida “política”
miserável é um termo para identificar a recusa por ideais universais e projetos políticos
amplos. Todo o interesse fica no particularismo e localismo.
Esse esvaziamento tem várias causas, mas particularmente destacamos uma polari-
zação montada massivamente no projeto de “poder pelo poder”, sem verdadeiramente
estabelecer uma agenda de reforma política capaz de romper privilégios e garantir maior
efetividade de cidadania. Não houve nenhuma ambição por mais democracia no que diz
respeito maior participação no poder, porque não houve engajamento e compromisso
para ampliar a participação de projetos e programas capazes de envolver a sociedade em
torno que questões essencialmente política e de interesse público. Além de ignorar questão

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substantivas como o da violência, segurança e o medo da população diante da crescente
criminalidade. Ao contrário disso: viu-se no decorrer das sucessivas eleições uma mani-
pulação institucional para garantir uma sobrevivência partidária e eleitoral sem maiores
compromissos com causas imperativas da sociedade.

O pós-Manifestações de 2013 e a emergência da antipolítica e surto


do irracionalismo

O que ocorreu em 2013 é essencialmente um cansaço diante do “paraíso”. Viveu-se


um longo período de estabilidade econômica e ampliação do consumo de bens não duráveis
por uma ampla parcela da população até então privado de tal consumo e tudo parecia que
estava resolvido no olhar dos que ocupavam o poder. O consumo aumentava, mas problemas
de Transporte, Saúde, Segurança e Educação persistiam.
O Brasil sediar a copa quando a economia já dava sinais de crise começou a desper-
tar em diversos segmentos uma indignação, pois os custos das obras e do evento soaram
como um insulto diante da qualidade de vida de milhões de brasileiros. Nesse momento
começou todo um ativismo de redes sociais, particularmente de classes médias e estudan-
tis, que não estavam ligados às tradicionais militâncias partidárias e dos partidos do no
poder, particularmente o PT. Daí começou um conjunto de convocatórias para manifes-
tações. A primeira manifestação com grande visibilidade foi pelo Movimento Passe Livre,
no caso, São Paulo. No rastro dessas manifestações, núcleos de corporações, ONGS e
diversos movimentos recém criados começaram a produzir suas pautas e a recrutar pes-
soas para as manifestações. Reivindicações foram-se diversificando, mas, a grosso modo,
tinham a indignação com a corrupção, com a falta de segurança, reforma política, com a
carga tributária.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

No momento em que as marchas assumiram um caráter amplo e com a participação


de famílias inteiras, os ataques de grupos mascarados começaram a ocorrer e a criar pânico,
enfraquecendo as marchas. Qual o real motivo desses ataques e quem os produziu? A partir
daí ficou em aberto o que e quem voltaria a levar as pessoas às ruas.
Havia uma gama de indignação quanto à situação política e condições de vida e isto
já estava provado. No momento em que a situação política do governo Dilma passou a
ser agravada, aliada a uma crise econômica, emergiu um movimento especificamente de
contestação contra o governo e a corrupção, que teve como um forte elemento de mo-
bilização as ações da Lava Jato (operações da Polícia Federal em combate à corrupção).
Logo que o governo Dilma foi-se tornando o principal alvo, o antipetismo consolida-
do há décadas foi ao encontro dos indignados e dessas frações agora identificadas com
166 //

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direita ou conservadores, falando-se de uma “nova política”. Entrou em cena o ativismo
dos Conselhos de Medicina, de policiais, federações patronais ou corporativas, setores
empresariais, setores religiosos “fundamentalistas”, lobbies de armas etc. Viu-se, então, um
afunilamento em termos de mote e objetivo, já bem diferenciado da pluralidade e ampli-
tudes das pautas de 2013. Surgiram os seus ideólogos com o discurso da autoridade em
detrimento da autoridade do discurso. As versões e opiniões de cunho moralista, na forma
de verdade absoluta, ortodoxia pautada em doutrina sem comprovações científicas, onde
a realidade é inventada pela doutrina nas tais “narrativas. Logo, o que importa é impor
uma verdade e cessar a voz do outro através da figura do lacrador. Isso faz o espaço do de-
bate público, em termos político, ser dissolvido e substituído por um enfrentamento por
rivalidades de discursos, que nada mais são que geradores de uma esterilidade de ideias e
de uma impossibilidade produção propositiva como concerto político. Acabou sendo uma
celebração do irracionalismo como sua cara negacionismo.
O impeachment da presidenta Dilma deu a chance singular para esses segmentos de
tentar chegar ao poder. A questão era quem seria colocado como peça eleitoral que pudesse
ser encaixado no processo de disputa. Bem, quem melhor incorporou a figura de anti e
combativo ao governo do PT foi o Bolsonaro, que, mesmo não estando organicamente
nesses movimentos nem participado dos atos iniciais, foi sustentado por todos esses se-
tores na disputa eleitoral. A sua vitória significou exatamente um esgarçamento para as
diversas expressões desse ethos composto por antipolíticas, antidemocráticas, antilaicidade
e o proselitismo pela lacração como expressão de um surto de irracionalismo. Ademais,
substituiu a massa do protesto, da mudança. Hoje as frações religiosas pautadas na teologia
da prosperidade material são instrumentos de arregimentação de votos e acertos eleitorais
mais organizados que os partidos políticos. Tal fato revela uma crise de mediação na nossa
democracia, tendo em vista que os partidos terceirizaram um dos seus principais papéis na
democracia representativa.

167 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Considerações Finais

A antipolítica foi agudizada no Brasil após as manifestações de junho de 2013, mesmo


que em seu nascedouro se encontrasse no estancamento do processo de redemocratização
causado pela normalização de eleições para todos os cargos e pelo otimismo jurídico/
/político com a Constituição de 1988. Parece um absurdo! Mas essas vias estranhas ao
primeiro olhar, mesmo que não intencionalmente, acabaram produzindo uma brecha por
onde diversos setores vieram a se manifestar em protesto contra a existência da própria
política. A emergência de tais movimentos representou um descompasso do establishment

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(de políticos profissionalizados) como insatisfações, descrença nas instituições políticas e
reivindicações legítimas. Os processos de decisão no âmbito do próprio Estado e governo
conformaram-se com um distanciamento da opinião pública e não reconhecimentos de
setores identificados com valores não assimilados politicamente. Essa não assimilação é o
potencial mais antipolítico que ganha esses movimentos, porque não mediados e inclusos
no processo de participação política, visam um atalho que nega a mediação. O que torna
mais propício o desejo de soluções sem contestação a partir de uma autêntica autoridade
(autoritarismo). Isto é, dispensando o contraditório da pluralidade.
As forças estabelecidas desde a virada do regime autoritário, findado em 1985, pouco
se renovaram tanto no que era oposição ou situação (em alternância). Essa baixa reno-
vação é tipicamente de densidade do conteúdo programático (causas) como discursiva-
mente no que eles proclamam ser suas identificações ideológicas. Nesse particular, da
esquerda à direita no Brasil, os grupos políticos e os partidos assumiram uma postura de
conveniência eleitoral e como foco em um projeto de “poder pelo poder”. Na verdade, os
termos esquerda e direita pouco dizem sobre identidade e qualidade política no Brasil atual,
principalmente quando são confrontadas suas práticas frente à devida responsabilidade com
a coisa pública.

Bibliografia

DEBRUN, Michel. (1983).A conciliação e outras estratégias. São Paulo: editora Brasiliense.
MAQUIAVEL, Nicolau. (2009). O príncipe. São Paulo: Golden Books.
KELSEN, Hans. (1993). A democracia. São Paulo: Martins Fontes.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. (2003). O Cálculo do conflito: estabilidade e crise na política
brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

SARTORI, Giovanni. (1994). A teoria da democracia revisitada: as questões clássicas, vol II. São
Paulo: Editora Ática.
168 //

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Questão racial: reflexões sobre memória,
narrativas hegemônicas e contra-hegemônicas
no contexto brasileiro do século XX

Ana Júlia França Monteiro


Doutoramento em andamento em Direitos Humanos
nas Sociedades Contemporâneas
Centro de Estudos Sociais – Universidade de Coimbra

Introdução

O presente artigo tem por objetivo discutir a construção da memória no contexto


da formação da questão racial e do movimento negro1 no Brasil. Nesse sentido, parte-
-se da tentativa de compreensão das narrativas por trás de discursos hegemônicos e
que, através de movimentos de resistência e afirmação de ativistas e intelectuais do
movimento negro, começa a ser reconstruída. Pretende-se explorar as dinâmicas entre o
movimento negro e os governos brasileiros, a construção de “heróis” na sociedade tanto
por parte do discurso de governo quanto desses movimentos, bem como das narrativas
construídas pelas correntes dominantes. Preocupando-se, especificamente, em como

169 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


estas podem tornar-se “hegemônicas” em um determinado contexto e, mesmo assim,
não conseguirem representar todos da sociedade.
Na primeira parte, propõe-se uma discussão sobre a construção de memória, nar-
rativas hegemônicas, elaboração do discurso da história e as relações de poder que
permeiam estas instâncias. De outro lado, propõe-se também, um movimento de des-
construção destas. Dessa maneira, a presente abordagem teórica serve de base para
o próximo ponto da reflexão: a afirmação de um movimento enquanto resistência.
Mais, a ascensão do movimento negro enquanto lidava como perseguição direta do

1
Denomina-se “movimento negro” uma série de movimentos sociais, que buscavam representação e afirmação
da identidade e das demandas da população afro-brasileira, especialmente os surgidos de forma organizada
no século XX.

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governo brasileiro, especialmente durante períodos autoritários. Além disso, também
será apresentada a ideia de que a história dominante é, na verdade, uma das muitas
possibilidades de narrativas que poderiam ter sido utilizadas e que são consequência
dessas relações de poder.
Na segunda parte, discutiremos a história da questão racial, do racismo e dos mo-
vimentos antirracistas no Brasil, além de trazer também a construção de diferentes
narrativas nesse contexto. A começar com o fim da escravidão no Brasil, com a figura
da Princesa Isabel, “A redentora”, como a pessoa que deu fim à escravidão no 13 de
maio de 1888, narrativa que dominava o pensamento logo após a abolição da escra-
vidão e, especialmente dos anos 1930 em diante, período no qual Brasil era pensado
como uma democracia racial. O processo escravocrata no Brasil foi e ainda é retratado
como menos cruel em comparação a outras colônias que também utilizaram a mão-
-de-obra escrava, narrativa essa que deveria ser intensamente questionada. Além disso,
o surgimento de movimentos antirracistas organizados submetidos a perseguições dos
governos, especialmente nas ditaduras possibilitaram a criação e desconstrução de fi-
guras, datas e narrativas dominantes ao abraçar raízes africanas e afro-brasileiras. Um
exemplo importante é a construção a Zumbi2 dos Palmares como um dos símbolos de
resistência e sua representação em oposição à princesa, bem como a escolha da memória
de seu assassinato, em 20 de novembro e consequente fim do Quilombo dos Palmares,
como o Dia da Consciência Negra que refuta o conto da princesa benevolente que
aboliu a escravidão.
O contexto de luta antirracista, resistência e afirmação de identidade(s) negra(s)
também possuía diversas construções e desconstruções em si, devido a sua inerente hete-
rogeneidade. E esse é o foco da discussão da terceira parte: a existência de narrativas hege-
mônicas e contra-hegemônicas e os espaços que as narrativas alternativas conquistaram. A
primeira deixa de ser a versão “universal” da história e a segunda passa a permear nas frestas
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

dos discursos “consolidados”, buscando alterações estruturais na forma como a história é


contada. No entanto, dentro das narrativas contra-hegemônicas, também existem certas
“verdades naturalizadas”, e esse é um dos pontos se propõe explorar. Mesmo com discursos
contra-hegemônicos que começam a ganhar destaque, ainda existem personagens e narra-
tivas importantes que não são mencionadas, narrativas que não alcançaram o espaço nas
narrativas dominantes das correntes contra-hegemônicas.

2
Zumbi dos Palmares foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares, uma comunidade de escravos
fugidos, no Nordeste do Brasil, região hoje do estado de Alagoas. Palmares tornou-se uma das mais
importantes resistências formadas por sujeitos antes escravizados, nos tempos coloniais (Silva, 2014).
Hoje, Zumbi representa a resistência contra a escravidão e é um dos personagens do período construído
enquanto Herói.
170 //

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As Teorias da Memória

Memória e História

Em uma de suas obras, Linda Tahiwai Smith (1999) propõe uma abordagem da his-
tória de forma a repensar algumas noções como, por exemplo, a ideia da história como
detentora de universalidade e totalidade, que segue uma ordem cronológica, que está asso-
ciada sempre à evolução humana e traz uma narrativa coerente e organizada em categorias
binárias. Além disso, ela problematiza a utilidade da história de comunidades indígenas,
em sua versão ocidentalizada, para elas próprias. Por vezes um testemunho oral ou hábito
passado por gerações, não são considerados fontes históricas, mas sim parte de tradições.
Outro ponto é que não se preocupam necessariamente com um “relato oral” ou com a
“nomenclatura genealógica da terra”, o foco é restaurar um mundo fragmentado, tentando
reconstruir sua existência e evitar que sua própria história seja apagada. No final, a história
não é mais do que um conto narrado por uma dominação específica (Smith, 1999). Nesse
sentido, é interessante pensar a história como esse instrumento de controle, que se constrói
e se destrói a todo o tempo, distanciando-se de sua percepção inicial.
Berthold Molden (2016) introduz o conceito das “guerras de memória”, sendo estas
relações competitivas entre narrativas hegemônicas e contra-hegemônicas (Molden,
2016). O autor também apresenta o conceito de “hegemonia mnemônica”, que engloba
tanto essas relações competitivas, quanto o que ele chama de “comunidades de lembrança
passiva”. Portanto, a história política é composta não apenas por narrativas hegemônicas e
contra-hegemônicas, mas também por lembranças passivas. A construção de um passado
é colocada como a verdade universal, a única versão possível dos fatos, e é criada com uma
narrativa hegemônica em mente que serve o propósito de lançar as bases do presente,
servindo a um projeto político específico. No entanto, esse fundamento que sustenta o

171 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


presente pode ser muito volátil (Molden, 2016)
A noção de uma narrativa «natural» ou «universal» na verdade explicita as manifesta-
ções de poder de um grupo governante sobre um governado e é, neste caso, o resultado de
um acordo geral entre as partes envolvidas que é alcançado por uma construção de fatos
históricos como uma continuidade e não por coerção (Gramsci apud Molden, 2016). Por
outro lado, o conceito de “contra-história” traz a noção de uma narrativa que não faz parte
da história “oficial” e se propõe a desafiá-la (Foucault apud Molden, 2016). Como afirma
Molden (2016, p. 129) “as relações mnemônicas de poder determinam uma (não) repre-
sentação da experiência social na memória cultural”, o que significa que essas relações de
poder que regem a sociedade estabelecerão as bases para o que será lembrado ou não e os
impactos no que essa sociedade percebe como memória e sua própria história.

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Nesse sentido, uma das possibilidades de lembrança na formação de um passado histó-
rico são as fontes orais. No entanto, relatos orais representam a versão dos eventos através
da memória de um único sujeito. Ainda assim, como afirma Portelli (1991), isso não
significa que sejam menos valiosos, pois permitem ir mais longe no tratamento dos fatos
e seu significado intrínseco. É comum, então, encontrar histórias divergentes a respeito
de um mesmo episódio. Além disso, a função que a memória desempenha na lembrança
serve a propósitos simbólicos, psicológicos e formais (Portelli, 1991). Pensando nisso, não
se trata de descartar a importância das fontes orais, mas sim de refletir que determinada
versão dos fatos, mesmo que baseada no depoimento de alguém considerado importante,
deve ser tratada com cautela.
Outro ponto de destaque na discussão de Molden (2016) é o uso da “teoria da
hegemonia mnemônica”, na qual ele afirma que qualquer símbolo do passado pode ser
usado de forma diferente por sujeitos diferentes, tornando-os capazes de se adequar ao
seu próprio propósito. Além disso, se alguém detém poder sobre a mídia, detém poder
sobre a difusão de narrativas que conseguem manter uma memória hegemônica. Ou
seja, o grupo dominante geralmente tem vantagens sobre o controle da mídia e isso
lhes dá o poder de marginalização de outros grupos ao assumir o controle da narrativa
(Fowler, 2007).
“Passados resistentes”
​​ são aqueles que conseguem sobreviver em oposição à narrativa
dominante e que, muitas vezes, trazem consigo compreensões que não se integraram às
narrativas hegemônicas (Foucault apud Molden, 2016). De acordo com Foucault (apud
Fowler, 2007), existiriam a memória da elite do poder, a memória popular e a contra-memória.
Portanto, essas memórias que não fazem parte do discurso principal, mas têm seu papel
dentro do quadro maior, poderiam ser expressas na ideia do subalterno Spivakiano e fazem
parte de uma estrutura onde as dinâmicas ainda não são manifestadas de forma coerente
(Molden, 2016). Um determinado governo vai escolher os símbolos e memórias que
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

deseja manter para se adequar ao seu próprio projeto político, no entanto, um mapa da
lembrança é muito mais complexo do que uma suposição binária de narrativas hegemô-
nicas versus contra-hegemônicas (Molden, 2016). A memória e sua construção devem ser
vistas além dessas narrativas, no entanto. Os líderes invisíveis, os símbolos nunca vistos,
as lutas do dia a dia e as narrativas que não podem se tornar competitivas porque con-
seguem ser esquecidas mesmo dentro de narrativas contra-hegemônicas, entretanto com
mais permeabilidade. Essa é uma das premissas deste artigo, a ideia de que mesmo com o
enriquecimento da visão histórica promovida pelos símbolos contra-hegemônicos, ainda
há camadas a serem desdobradas, e as narrativas contra-hegemônicas às vezes se compor-
tam como hegemônicas de acordo com o contexto.
Se um dos objetivos de Molden é que:
172 //

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“A teoria da hegemonia mnemônica nos mantém alertas para o fato de que a
narrativa mais dominante nunca é a única e pode nem mesmo representar a expe-
riência mais relevante. E pode servir de bússola através dos processos discursivos
labirínticos da memória, um terreno desorientador onde a produção do sentido
histórico é função do poder político” (Molden, 2016, p. 140)

Então, é válido pensar que uma vez que uma narrativa competitiva que não foi in-
corporada à oficial ganha espaço e promove mudanças, ela também pode desempenhar
o papel de hegemônica naquele novo contexto e aqui a teoria da hegemonia mnemônica
pode nos ajudar a pensar nessas narrativas como apenas uma das possibilidades que ofusca
outros subalternos.

O papel das narrativas na mudança social

Se existe uma narrativa dominante que é aceita como uma verdade “universal”, como
aponta Molden (2016), é difícil pensar a mudança social em termos de afirmação das
pessoas que são excluídas por causa dessa narrativa. Esse é o caso não só de governos
autoritários, onde não há espaço para questionar o poder hegemônico, mas também,
nos períodos em que encontramos a democracia, quem questiona o discurso nem sempre
consegue trazer suas narrativas contra-hegemônicas para a arena política, por causa da
aceitação geral da dominante. Dessa forma, há pouco espaço para mudança social.
Nesse sentido, a memória é uma construção influenciada pelas relações de poder dos
grupos e a principal característica de uma narrativa quando se discute a memória coletiva
é reunir e moldar períodos específicos que importam para um grupo (Benjamin apud
Fowler, 2007). No entanto, como a memória coletiva é frágil e grupos dominantes podem

173 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


representar mal ou parcialmente o passado, grande parte dele pode ser apagado, especial-
mente se controlarem os meios midiáticos principais. Porém, se isso for verdade, o mesmo
se aplica quando se pensa em memória e história e sua possibilidade de alterar, corrigir e
agregar à sociedade, em termos de mudança social (Fowler, 2007).
Mesmo assim, devemos nos questionar quem são os responsáveis ​​pela produção da
memória coletiva. No caso das narrativas dominantes, pode-se pensar no governo com um
projeto político próprio que produz e reproduz as memórias que vão moldar aquela so-
ciedade, cabendo à entidade responsável escolher os símbolos, as datas, os locais, os heróis
importantes os quais devem ser lembrados. Esses também são responsáveis por silenciar
os outros, mantendo os holofotes sobre aquilo que consideram mais importante para a
sociedade. O Estado tem seu papel, mas como entidade é constituído por pessoas e, mais

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frequentemente, apontaremos os governantes como aqueles que optam por manter algumas
memórias em detrimento das outras.
No entanto, um projeto político não é algo restrito ao Estado. Os movimentos sociais
também trazem consigo sua própria agenda e, se sua narrativa é contra-hegemônica, eles
também devem escolher o que trazer e o que não trazer. Ainda assim, quem é o responsável
pela construção do projeto político que visa desconstruir o dominante? Os movimentos
sociais costumam ser os responsáveis o​ ficiais por isso. Os que vão dizer que uma figura his-
tórica é importante ou não, que uma data deve ser relembrada em detrimento das outras
e, assim, passa a criar uma narrativa competitiva que servirá ao propósito de explicar fatos
passados, iniciando a desconstrução das que predominam visando mudanças sociais. É o
caso que procuro ilustrar aqui, com o papel do movimento negro na desconstrução das
principais ideologias a respeito da raça e das desigualdades raciais no Brasil.
De maneira geral, devemos pensar em como ocorre a produção da memória e quem
está por trás dela. A construção das lideranças determinadas tanto pela narrativa central
quanto pela contra-hegemônica, as narrativas que estão ausentes, que não chegaram às
principais contra-hegemônicas, o papel das mulheres negras, dos demais militantes e mi-
litantes que não chegaram a a posições de liderança, mas que definitivamente desempe-
nharam papéis importantes no movimento e como tudo isso consegue fazer parte de todo
um processo político no sentido de perceber uma narrativa principal “errada”, criando
uma poderosa narrativa contra-hegemônica capaz de desconstrução e transformação da
sociedade. Mas também o contexto da narrativa contra-hegemônica principal que pode
silenciar outras histórias e figuras importantes.

A questão racial e a construção de narrativas nos séculos XIX e XX


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Narrativas hegemônicas: a democracia racial

A escravidão foi oficialmente abolida no Brasil em 13 de maio de 1888, o que tornou


o país o último a fazê-lo no mundo. O processo de abolição levou anos e foi o resultado
de pressões internacionais, décadas de ideias abolicionistas e mudanças econômicas e não
uma preocupação objetiva com os sujeitos escravizados (Senkevics, 2011). No entanto, a
princesa Isabel, filha do imperador do Brasil, Dom Pedro II, ainda era chamada de “a re-
dentora” nos livros de história e representada como uma das heroínas da época, que havia
colocado fim à escravidão. Nesse sentido, sob o projeto histórico-político oficial, no Brasil,
o 13 de maio foi definido como o dia histórico oficial da libertação dos escravos, onde a
narrativa central passava a ideia de que teria sido um processo automático, o que apagava o
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contexto histórico no qual estava inserido: as motivações e as pressões às quais esse evento
estava sujeito.
Depois da abolição e dos desdobramentos políticos posteriores, surgiu a preocupação em
como construir uma nação em um contexto caracterizado por alta desigualdade e alta mis-
cigenação. A resposta colocou a raça no centro do debate no final do século XIX e início do
século XX. Porém, as ideias predominantes centravam-se em uma política de migração eugê-
nica que incentivava imigrantes europeus a virem ao Brasil para trabalhar com o objetivo de
resolver a questão da força de trabalho e, ao mesmo tempo, embranquecer a população, onde
o “brasileiro” seria representante dessa nova identidade cultural e racial, fruto da miscigenação
e também era o símbolo da resolução de qualquer desigualdade de cunho racial (Pereira, 2013,
pp.63-64). É importante destacar que, para “garantir” o desenvolvimento daquela sociedade,
o governo proibia a imigração de pessoas da África e da Ásia e a legislação não concedia vistos
para negros, na maioria dos casos, como é ilustrado pelo caso do advogado e editor de jornal
afro-americano, Robert Abbott, que teve seu visto negado várias vezes (Pereira, 2013, p. 64).
Nesse sentido, a narrativa principal, que influencia a compreensão do contexto brasileiro, é
que a própria miscigenação entre as raças que originaria uma “raça brasileira”, seria a redenção
do país, pensamento que foi alimentado por políticas oficiais durante o século XX.
O ideal de democracia racial derivou da teoria de Gilberto Freyre de que no Brasil
haveria uma democracia “social” e esta foi amplamente utilizada como ferramenta e ideo-
logia governamental ao longo do século XX (Thomaz, 2003). Na verdade, a democracia
racial tornou-se a narrativa hegemônica por décadas e prometia a superação de qualquer
desigualdade que ainda restasse das opressões advindas da escravidão. Também mascarou
a exclusão do negro da sociedade e funcionou como uma ferramenta ideológica que legi-
timou as desigualdades e impediu a transformação social da estrutura desigual na qual a
sociedade se baseava (Thomaz, 2003)
Essa narrativa foi muito bem utilizada pelo Estado e, consequentemente, permeou a so-

175 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


ciedade. O país era retratado dessa forma até a década de 1990 (Pereira, 2013, p. 38) e foram
décadas de resistência e afirmação do movimento negro para abalar e, eventualmente, começar
a mudar essa narrativa principal. Na verdade, o “combo” composto pela princesa Isabel como
“redentora”, o 13 de maio e a democracia racial invadiu e permaneceu no imaginário brasileiro,
definindo crenças muito fortes que ainda hoje são difíceis de enfrentar. Não fazia parte apenas
do discurso estatal em ditaduras, mas era retroalimentado dentro da própria sociedade, in-
fluenciando a percepção das desigualdades no país e como o movimento negro que surgia na-
quele século teve o papel de desconstrução dessa e de várias noções. A ideia de uma democracia
racial estava no próprio cerne da construção de uma identidade nacional brasileira. O fruto
dessa miscigenação de raças, “a raça brasileira”, era símbolo do que significava ser brasileiro e
marcava a construção de uma ideia moderna de raça (Pereira, 2013 pp. 41,81; Thomaz, 2003).

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No que tange a construção da narrativa hegemônica da democracia racial, é impor-
tante compreender que ela foi elaborada a partir da ideia de que a “miscigenação” das
raças ocorreria tanto biológica quanto culturalmente e, por esse motivo, seria inviolável.
Ou seja, como mencionado antes, representaria a própria essência da sociedade brasileira
(Pereira, 2013, p.73). Ou era esse seu intuito.
Ao colocar essa narrativa em cheque, o abalo teria como alvo as próprias bases funda-
cionais da ideia moderna de nação brasileira. E é justamente esse o papel do movimento
negro no século XX, a luta contra o mito de uma democracia racial e a afirmação de uma
identidade negra (Pereira, 2013, p. 84). Nesse sentido, a resistência negra tem o papel
de desconstrução de histórias vistas como fixas e universais. Para tanto, teve que trazer
seus próprios heróis em cena, reafirmar seguidas vezes suas próprias crenças, suas próprias
experiências. O que, dentro desse contexto, revelou-se uma tarefa muito complexa,
principalmente nos períodos das ditaduras.
Durante o Estado Novo, governo autoritário de Getúlio Vargas, além do forte controle
midiático sobre o rádio, que difundia o ideal nacionalista e a democracia racial, à luz do que
Fowler (2007) e Molden (2016) mencionaram, lhes conferia forte poder de controle da nar-
rativa, havia perseguições diversas aos símbolos e culturas afro-brasileiras. Encontros de samba
eram alvo da polícia, pois difundia-se a ideia de que não seria uma atividade de pessoas sérias
(Vianna, 1995). Na verdade, o samba era um estilo musical que teve suas origens dentro do
povo negro e, embora não houvesse perseguição direta aos negros, havia esse alvo indireto às
suas atividades e expressões culturais. Como visto anteriormente nesta reflexão, o governante
em um determinado momento escolhe quais eventos históricos - os símbolos - serão, ou não,
mantidos, configurando assim o projeto político do Estado (Molden, 2016). Portanto, nesse
sentido, durante a ditadura de Vargas, símbolos como o samba não eram considerados dig-
nos de serem mantidos, pois exaltavam a diferença, algo que não estava no plano autoritário
oficial e era perseguido para ser silenciado. Entretanto, durante a ditadura militar, entre os
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

anos 1960 e 1980, a abordagem era diferente. Devido ao forte uso da narrativa da democracia
racial, quem não estava de acordo, era automaticamente visto como subversivo. Essa aborda-
gem fazia parte política oficial de governo, tornando vulneráveis, no regime, os que lutassem
contra ela, como era o caso do movimento negro (Pereira, 2013, p. 222).

O movimento negro e a resistência

Um dos aspectos importantes em relação aos movimentos sociais são suas indigna-
ções, aquilo que os faz resistir e persistir. Infelizmente, o foco nessas indignações, não
é suficiente para que os indivíduos se convençam de que existe uma narrativa diferente
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que também explica esse contexto (Tarrow, 1994). O processo de persuasão desses
movimentos de que as desigualdades podem ser desafiadas dentro da luta contra narra-
tivas enraizadas em discurso central em pessoas geralmente passivas é uma tarefa árdua,
cheia de obstáculos, sucessos e fracassos. No entanto, coube aos movimentos sociais o
papel de enquadrar essas queixas de uma forma que sejam percebidas como injustiças,
apontando responsabilidades e soluções (Tarrow, 1994). Após a abolição e ao longo de
boa parte do século XX, o governo brasileiro não objetivava um debate de cunho racial.
Mesmo nos anos 80, com a transição do autoritarismo para um cenário democrático, a
pauta racial não era prioridade em em partidos de direita, nem de esquerda. Como disse
um militante do Partido dos Trabalhadores (PT), havia uma negação geral da questão
racial. E, embora algumas pessoas reconhecessem que era importante, a agenda prio-
rizava outros temas (Hanchard, 1994). Portanto, cabia ao movimento negro desafiar
esse contexto.
A história do movimento negro é parte importante da história brasileira e diz respeito
a toda a sociedade (Pereira, 2013, p. 38). Seu desafio na década de 1970 era lutar contra o
mito de uma democracia racial que estava tão arraigada no país. Para isso, muitos símbolos
da resistência negra como conhecemos hoje foram resgatados, como Zumbi de Palmares
e a data de seu assassinato, em 20 de novembro. A representação de uma identidade negra
começava a ser moldada e o movimento negro contemporâneo se estabelece mais parecido
com o que conhecemos hoje.
O Teatro Experimental Negro (TEN), estabelecido em 1944 por Abdias do
Nascimento, foi uma instituição que se baseava na afirmação da identidade negra e ia na
contracorrente da influência do “embranquecimento” imposta pelas políticas do Estado
brasileiro (Pereira, 2013, p. 73). A noção de raça, portanto, prevaleceu como objetivo
comum das lideranças negras e foi norteada pelos seguintes princípios: combate à desi-
gualdade racial na sociedade, valorização da diferença e construção de uma verdadeira

177 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


“democracia racial” (Domingues apud Pereira, 2013, p.84). O TEN também buscava pro-
mover a educação da população negra (Gomes, 2011) e, como afirma Nascimento (1978),
procurava desvendar a desigualdade racial e a segregação para a sociedade, bem como a
falta de iniciativas governamentais de integração da população negra.
Na década de 1970, começaram a surgir outras noções de movimento negro e
iniciou-se uma nova abordagem do tema, que procurava constantemente desafiar o
senso comum de uma democracia racial. Seu esforço se mostrava no sentido de res-
gatar uma identidade negra que havia se tornado invisível, mesclada e quase apagada
dentro do mito da democracia racial. Esses novos contextos possibilitaram a formação
de outras ideias, abrindo espaço para novas construções e significados para sua própria
história (Hanchard, 1994).

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Conquistando espaços: narrativas contra-hegemônicas

E os “heróis”?

Por muitas décadas a questão racial foi retratada como inexistente pelos poderes
dominantes. Se, como Smith (1999) apontou, a história é, aparentemente, sobre “auto-
atualização do sujeito humano”, então, nesta narrativa hegemônica, essa autoatualização
seria a criação de uma “raça brasileira”, uma categoria que, de acordo com o projeto
político vigente, seria melhor e mais desejada do que uma população mais escura, parte do
projeto de “branqueamento” da população. Além disso, o país era representado como uma
democracia racial, esta seria o equivalente de Smith a uma narrativa “coerente”; o 13 de
maio foi celebrado como o dia em que os escravos se tornaram livres e, como o “brasileiro”
seria símbolo de um novo povo, não haveria espaço para heróis negros. Mais, dentro das
dinâmicas de criação desse novo povo, fruto da miscigenação, ao focar em embranquecer
a população, há um violento apagamento da derme e da cultura negras.
Os movimentos de resistência e a afirmação do movimento negro conseguiram promover
uma mudança nessa linha de pensamento e, mesmo sob intensa perseguição, não deixaram
de denunciar desigualdades e lutar por reconhecimento. Não obstante, o processo de cons-
trução de heróis é bastante interessante e complexo. Por exemplo, Abdias do Nascimento,
um dos fundadores do Teatro Experimental do Negro - TEN, ex-deputado federal, pro-
fessor universitário e líder contemporâneo do movimento negro, em um dos depoimentos
trazidos no livro de Pereira (2013), é apresentado como sujeito negro elitizado, que deixou
o país e se tornou intelectual nos Estados Unidos. Por esse motivo, voltou com uma noção
distorcida do movimento, portanto, não era totalmente aceito, muito menos celebrado
enquanto liderança. Como citado anteriormente, as fontes orais podem nos confundir e a
imagem de Nascimento hoje é muito diferente daquela citada no depoimento e é uma das
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

figuras fundamentais da formação do movimento negro daquele período.


A questão racial molda o movimento negro no Brasil por meio de continuidades e des-
continuidades, ao longo do século XX. Em 1988, com o centésimo aniversário da abolição
da escravatura, foram realizadas muitas manifestações para reivindicar a verdadeira nature-
za daquela data, como a “Marcha contra a farsa da Abolição”. Em 1995, houve a “Marcha
Zumbi dos Palmares”, que obteve grande destaque aos olhos do Estado, tornando-se um
ato simbólico, no qual reivindicava-se a valorização de heróis negros e, assim, foram criados
símbolos próprios (Pereira, 2013 p. 305).
Outro ponto importante é a predominância de homens no movimento e na maioria
das narrativas. Onde estão as mulheres negras? Muitas vezes, na sociedade, o papel da
mulher é invisibilizado, pois muitos dos heróis são construídos a partir do masculino. Não
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é frequente que as mulheres sejam colocadas no centro, como protagonistas, apesar de
suas importantes contribuições históricas. De fato, houve figuras importantes que fizeram
parte do movimento negro ao longo do século XX, nomeadamente Benedita da Silva,
militante do movimento negro e deputada federal eleita; Dandara Zumbi, companheira
de Zumbi cuja história não está bem documentada, mas que desempenhou importante
papel como estrategista e conselheira em Palmares; Lélia Gonzalez, mulher negra feminista
que fazia parte do Movimento negro Unificado (MNU); Carolina de Jesus, escritora que
relatou a vida nas favelas; Laudelina de Campos Melo, fundadora da primeira Associação
de Empregadas Domésticas do país e que dedicou sua vida ao estabelecimento de direitos
para as trabalhadoras dessa profissão, mulheres negras em sua maioria; Maria Firmina dos
Reis, autodidata e professora negra que fundou a primeira escola mista do Maranhão, em
1880 (Crespo, 2016; Geledés, 2015; Juozepavicius, 2018; Pereira, 2012). Nessa discussão
sobre heróis é importante relembrar e afirmar o papel das mulheres negras construção
contemporânea dos movimentos antirracistas. A invisibilização de mulheres negras não
significa que não estivessem presentes na luta social. A luz das frentenegrinas, nome usado
para designar as mulheres da Frente Negra Brasileira (FNB), um dos primeiros movimen-
tos negros após a abolição, que se tornou o mais conhecido do período. Na FNB, havia
mulheres presentes no jornal “A Voz da Raça” e elas também estavam envolvidas com a
organização de eventos culturais. Não obstante, o movimento ainda era dominado por
homens e não havia mulheres em cargos de chefia. Mesmo que o movimento se preocupas-
se com as mulheres negras, sua posição era de que seu papel ainda estava profundamente
ligado à esfera privada, no cuidado dos filhos e da casa. Elas eram subalternizadas no movi-
mento e colocadas longe de cargos decisórios. Mesmo assim, algumas organizações foram
criadas, como as “Rosas Negras” e a “Cruzada Feminina” e a presença delas na Frente
Negra Brasileira foi decisiva para manter a coesão do movimento (Domingues, 2007).

179 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


Repressão e resistência: as narrativas hegemônicas.

A questão racial no contexto brasileiro nos séculos XIX e XX é estabelecida em uma


ordem linear e de uma narrativa mnemônica hegemônica explicitadas por Molden (2016). Ao
retratar a abolição da escravidão como o momento-chave, no qual os escravos se libertaram e
que, após esse momento, o país não teria que lidar com uma questão racial devido à narrativa
única da democracia racial, que pregava que a salvação do país seria a criação de uma “raça
brasileira”. Simbolismos como o 13 de maio, um dia especial em que todos devemos lembrar
que os escravos foram libertados (e não todo o processo político de pressões domésticas e
internacionais que levaram a um fim muito complexo e polêmico da escravidão), mas que em

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nada representava a luta dos sujeitos escravizados; ou a princesa Isabel, nomeada a redentora
por causa desse ato, porém cuja participação limitou-se à assinatura da Lei Áurea. A crença
em uma democracia racial que impediu questionamento e que impôs duras consequências
no desenvolvimento e integração da população negra na sociedade brasileira. Antes que se
pudesse pensar em integração, havia políticas de branqueamento, os sujeitos escravizados
recém-libertos eram relegados os trabalhos de menor remuneração, além de haver diversos es-
tereótipos negativos aos quais eram conectados. Portanto, qualquer contra-ataque nesse con-
texto se tornava mais difícil e, dessa forma, as desigualdades se aprofundaram cada vez mais.
Nesse sentido, na realidade retratada pela lente histórica do movimento negro, a demo-
cracia racial era desmascarada e apresentada enquanto mito. No período após a abolição da
escravidão, há a inserção de sujeitos que antes somente conheciam a ausência de liberdade,
cuja maioria não possuía educação formal e tinham que lidar com diversos preconceitos. De
um lado, as mulheres negras sofriam com a hiper-sexualização de seus corpos e, de outro,
homens negros eram vistos com preguiçosos ou vagabundos e, dessa forma, não possuíam as
ferramentas para se inserir no mercado de trabalho. Além disso, ao se pregar a narrativa da
democracia racial, essas mulheres e homens, tornavam-se invisibilizados aos olhos do Estado
e deixados à própria sorte (Fernandes, 1978; Pereira, 2013). As condições às quais foram
submetidos, levou à necessidade de formação dos movimentos negros ao longo do século
XX, contando com organizações como a Frente Negra Brasileira, o Teatro Experimental do
Negro e, mais tarde, nos anos 1980, o Geledés, grupo constituído por mulheres negras.
Apesar de trazerem abordagens diferentes entre si, especialmente no início do século,
essas organizações trouxeram muitas narrativas contra-hegemônicas que questionavam a de-
mocracia racial e a apontavam como aprofundadora da desigualdade racial. No contexto
dessas narrativas secundárias, houve confrontos, especialmente em governos autoritários.
Questionava-se o 13 de maio e a suposta liberdade garantida após o fim da escravidão, pois
sem educação formal e com uma política de integração falha (ou inexistente), era difícil pen-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

sar que fossem de fato livres. As relações de poder permaneceram as mesmas, o contexto é
que havia se reconfigurado. Também trouxeram suas próprias referências simbólicas: Zumbi
dos Palmares e o dia de seu assassinato, no dia 20 de novembro como símbolo de resistência
e dia para se pensar uma consciência negra, sendo esta, uma das datas mais importantes a
serem lembradas dentro do calendário do movimento negro. A afirmação de sua cultura, reli-
gião, música, folclore são atos políticos e são formas de desafiar a ordem dominante, abrindo
brechas para resistência e afirmação. O dia 20 de novembro é relembrado em várias partes
do país e, durante esse mês há muitas atividades no que tange o antirracismo e os debates de
inclusão. Nas últimas décadas, muitas leis aprovadas no congresso foram resultado direto de
seus próprios esforços em mudar a narrativa principal. Apesar de ainda ter força, a narrativa
da democracia racial não é tão forte quanto antes e abre espaço para os passados resistentes.
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As guerras de memória (Molden, 2016) são, aqui, o embate dessas narrativas trazidas pelo
movimento negro contra a arraigada democracia racial.
Também é importante destacar um outro aspecto: se as narrativas competitivas con-
testam uma narrativa principal, como é o caso do que foi levantado ao longo do século XX
pelo Movimento negro, também podemos pensar as narrativas contra-hegemônicas que,
por um motivo ou outro, não chegaram a superfície ainda e, de certa forma, se mantem
esquecidas. As contribuições do ativismo do movimento antirracista e de valorização e afir-
mação dos sujeitos racializados dentro do movimento negro são incomensuráveis. Desde a
elaboração de políticas públicas e projetos de lei que tornaram-se legislação no país, como
a lei 10.639/03 (Brasil, 2003), que torna parte obrigatória dos curriculos escolares o en-
sino de história africana e afro-brasileira e a lei 12.711/12 (Brasil, 2012), de cotas raciais
e para estudantes oriundos de escolas públicas quando da participação para concursos em
instituições federais. As décadas de pressões políticas e resistências tem rendido conquistas,
no entanto, resta ainda trazer à tona personagens que também merecem destaque, mas que
ainda não o obtiveram. O objetivo dessa comunicação, nesse sentido, é estimular a reflexão
sobre esses silêncios e esquecimentos. Trazer foco para outras narrativas subalternizadas
dentro do histórico do movimento negro e da população negra é resgatar outras “heroínas”
e “heróis” que também devem ter seu espaço reconhecido na história.
Em muitos aspectos, mais de cem anos após a abolição, pode-se dizer que a narrativa he-
gemônica agora tornou-se mais complexa com as diversas camadas de resistência e de reforço
do discurso hegemônico. Dessa forma a narrativa de que o Brasil é um país com profundas
desigualdades raciais e identidades racializadas teria se tornado hegemônica e superado o
mito da democracia racial. No entanto, é difícil pensá-los como uma substituição automáti-
ca e, conseqüentemente, outra verdade “universal”. Sendo assim, o discurso dos movimentos
negros, que ganhou espaço nos últimos anos, seria reflexo da resistência e resiliência incansá-
veis em trazer elementos extremamente importantes para começar um debate mais inclusivo

181 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


sobre a questão racial, do que o que foi feito no início do século XX. A proposta é sempre
olhar narrativas em geral, especialmente os discursos de “história universal”, com descon-
fiança e tentando complementar para uma versão mais rica dos fatos tentando ver quem está
por trás deles, quem são as coletividades que produzem a memória que se torna história.

Considerações finais

Ao se discutir o papel da memória em moldar história e como a sociedade em geral


percebe esses movimentos, fica nítido que esses contextos estão sujeitos às relações de poder
do mundo contemporâneo. Para exemplificar esses processos, foi escolhido trabalhar um

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pouco das dinâmicas de repressões e resistências sob as quais o movimento negro no Brasil
esteve sujeito ao longo do século XX, período no qual observou-se diversas iniciativas de
resgate e afirmação de identidade e cultura negras.
Em um movimento contrário ao pregado pelos projetos oficiais de governo, o movimen-
to negro e lideranças articuladas conseguiram ganhar espaço e trazer suas próprias narrativas
que desafiavam o mito da democracia racial, enfraquecendo-a. Mesmo assim, ao trazer suas
próprias narrativas contra-hegemônicas, há também um movimento de escolha do que vai
ser ressaltado. Sendo assim, também propôs-se uma reflexão sobre o resgate daquilo e
daqueles que teriam sido esquecidos dentro das próprias narrativas contra-hegemônicas, os
símbolos escolhidos sobre outros, a invisibilização de mulheres negras e aqueles que são elei-
tos “heróis” e os que não são. Na verdade, a própria heroicização de um sujeito já se demonstra
problemática, pois não traz uma pessoa e sim uma construção de um personagem.
Ao trazer essas perguntas, propõe-se um convite à investigação contínua das narrativas
competitivas subalternizadas, dentre os passados resistentes, que ainda não foram incor-
poradas ao discurso histórico principal. As narrativas que se propõe desvelar são aquelas
dos sujeitos dos bastidores, mas que também contribuiram para a formação e articulação
do movimento negro, da afirmação da população negra e suas demandas urgentes. Dessa
maneira, caminha-se para uma versão melhor e mais justa da memória, visto que se deve
pensar em “por quem” e “para quem” essa história é construída, o que vai ser lembrado ou
não e o papel das relações de poder nesses processos.

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Resistência, persistência e sobrevivência
indígena: a Aldeia da Ponte, do Povo Tapeba,
no município de Caucaia, Ceará – Brasil

Karinne Wendy Santos de Menezes


Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS/BR

Não posso respirar, não posso mais nadar / A terra tá morrendo,


não dá mais pra plantar / Se planta não nasce se nasce não dá / Até
pinga da boa é difícil de encontrar / Cadê a flor que estava ali? /
Poluição comeu. E o peixe que é do mar? / Poluição comeu / E o verde
onde que está? / Poluição comeu / Nem o Chico Mendes sobreviveu.
(Trecho da música Xote Ecológico, Luiz Gonzaga, 1989).

Introdução

O Povo Tapeba encontra-se presente no município de Caucaia, no estado do Ceará-


-Brasil, em aldeias que estão distribuídas em diferentes distritos, principalmente na área

185 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


urbana do município. Destaca-se nesse estudo, a Aldeia da Ponte, que tem parcela signi-
ficativa da Área de Proteção Ambiental do Estuário do Rio Ceará - Rio Maranguapinho,
uma unidade de conservação de uso sustentável, sobreposta em seu território.
Deste modo, o presente trabalho tem como objetivo principal discutir o uso da terra
na área protegida e no território indígena. Enfatiza-se também, a incoerência da super-
posição de territórios nesta área analisada e as deficiências da gestão pública da unidade
de conservação.
Em fevereiro e agosto de 2019, realizou-se trabalhos de campo com o Povo Tapeba e
com as lideranças da Aldeia da Ponte. Os encontros e as reuniões aconteceram na comuni-
dade da Ponte, também ocorreram percursos fluviais no rio Ceará. Essas atividades foram
essenciais para compreender o contexto e os modos de vida da população indígena.

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Ressalta-se que esta área protegida apresenta uma expressiva diversidade cultural
e importância, sobretudo, para os povos originários que vivem histoticamente neste
ambiente.
Os modos de viver dos povos originários apontam uma sustentabilidade ambiental,
mas no contexto do povo Tapeba, especificamente na Aldeia da Ponte, mostram contra-
dições. Entre as problemáticas vivenciadas por essa população indígena podemos citar as
carências de infraestrutura, saneamento básico, a ineficiência da coleta de lixo, habitações
em áreas de manguezais.
Os trabalhos de campo indicaram que os níveis de poluição nos rios Ceará e Rio
Maranguapinho impedem que os moradores da Aldeia da Ponte pratiquem atividades
pesqueiras em seu território, sendo necessário o deslocamento se deslocar quilômetros a
jusante do rio para conseguir pescar. Esta atividade é a sua principal fonte de sustento dos
moradores desta Aldeia, além da produção de artesanatos e serviços informais. Além disto,
os Tapebas ainda lutam pela regularização fundiária de seu território indígena.
Para a construção deste trabalho foram realizados levantamento bibliográficos,
visitações à órgãos de pesquisa estadual e municipal, assim como atividades de campo na
Aldeia da Ponte e na área de proteção ambiental, que contribuíram com a produção dos
materiais geocartográficos.
Neste contexto de investigação, pretende-se neste percurso, construir diálogos por
meio de fundamentos teóricos e metodológicos que influenciaram a elaboração desta pes-
quisa. Inicialmente, o artigo realiza uma discussão teórica sobre Geografia e questões
ambientais e em seguida aborda informações acerca da área de estudo.

A geografia e questão ambiental: resgate teórico


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Como uma ciência social, a Geografia permite à discussão e compreensão da relação


sociedade e natureza. Grangeiro (2012), enfatiza em seus estudos, a necessidade de apro-
fundarmos os debates que permeiam a questão ambiental, este é um caminho fundamental
a ser percorrido, para que os geógrafos elaborem uma nova proposta teórica-metodológica
para uma geografia física mais geográfica e crítica.
O surgimento da Geografia quanto ciência e filosofia surgiu na Grécia Antiga. A fi-
losofia neste período histórico incluída as artes, as técnicas e a ciência, já a Geografia,
de acordo com Cavalcanti e Viadana (2010, p. 11) estava “baseada em princípios esta-
belecidos de fundamentações teóricas, com aplicação por métodos adequados, a ciência
geográfica procura soluções para os problemas expostos pela sociedade”. Geografia não é
considerada uma ciência de primeira necessidade, mas sua importância advém da busca de
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entender os problemas enfrentados pela sociedade, enfatiza-se que este período que estava
marcado pelo descobrimento de novas terras, o novo mundo.
Segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2010, p.12) “durante a Idade Média, foram apro-
fundados e mantiveram-se os antigos conhecimentos gregos, e no período da Renascença
e ao longo dos séculos XVI e XVII, as viagens de exploração reavivaram o desejo de bases
teóricas mais sólidas e de informações mais detalhadas”.
Corroborando com Cavalcanti e Viadana (op. cit.), foi no período das viagens explo-
ratórias que surgiu a necessidade de aprofundar as bases teóricas e a produção de informa-
ções com maiores níveis de detalhes. A Geografia passou a ser reconhecida como disciplina
científica a partir do século XVIII. Ao longo do século XIX e XX, os conhecimentos
científico e instrumental produzidos aumentaram significativamente até o período atual.
No que se refere a história do pensamento geográfico, nota-se que os conhecimentos
teóricos e metodológicos utilizados ao longo dos séculos incluem em consonância com
Cavalcanti e Viadana (2010, p. 12) “os pensadores gregos, os sete sábios da Grécia antiga, os
filósofos pré-socráticos socráticos (naturalistas) com a descrição das escolas Jônica; Itálica;
Eleata e da pluralidade e seus constituintes e as contribuições do pensamento filosófico ao
estudo da natureza.”
Para esses autores, os filósofos procuraram explicar a natureza e seus fenômenos, devido
à expansão da filosofia, incluindo fenômenos relacionados ao homem e seu pensamento,
e contradições, principalmente em relação a teorias e métodos. Com a finalidade de evi-
tar essas contradições, os filósofos pré-socráticos criaram conceitos de ordem do mundo
(Kosmos) e de natureza (physis), e foi a partir desses conceitos que surgiram a cultura
ocidental, a filosofia, a ciência, enfim, a Geografia.
Deste modo, para compreender melhor a história do pensamento geográfico,
Mendonça (2005) afirma que podemos nos basear a partir de dois períodos distintos,
primeiramente, no século XIX e meados do XX, onde o conhecimento produzido mostra

187 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


a concepção positivista da realidade, como na análise de Augusto Comte; e o segundo mo-
mento, refere-se as décadas de 1950 e 1960 do século XX, e estende-se até o período atual.
Na evolução do pensamento geográfico, vários são os estudiosos que contribuíram
com a produção do conhecimento geográfico. Destaca-se Humboldt, que era naturalista,
e Ritter, filósofo e historiador, como os cientistas que fomentaram as bases desta ciência.
Enfatiza-se também as contribuições de Ratzel, que se destacou pela análise determinista
e La Blache, que diferente de Ratzel, propôs a corrente possibilista a partir de sua análise
regional, fazendo a inter-relação da sociedade com o meio natural, além das contribuições
de Emmanuel de Martonne, que aborda o que se entende por Geografia Física. Nota-se
também a importância de Reclus, pelo esforço de construir uma geografia de cunho
ambientalista (MENDONÇA, 2005).

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Immanuel Kant é outro filósofo que contribui grandiosamente para a ciência geográ-
fica, principalmente a geografia física. Segundo Ribas e Vitte (2008, p. 112) “para Kant, a
geografia (física) seria a única ciência apta a descrever a superfície da Terra em sua totalidade,
isto é, a descrever e representar a natureza enquanto um sistema.”
É preciso entender esse período histórico de surgimento da geografia, e o seu desen-
volvimento ao longo dos séculos, para compreender a Geografia Física, como um ramo
importante do conhecimento geográfico, e as dificuldades enfrentadas neste processo de
construção científica.
Suertegaray e Nunes (2000) salientam que a história da geografia física é bastante
remota, neste período os estudos sobre a natureza estavam divididos em duas disciplinas, a
primeira abordava a Física, estudando seus processos, e a segunda correspondia a Geografia
Física, que estudava a dinâmica dos elementos da natureza a partir de uma visão integrada
sobre o conceito de paisagem. Apesar dessa divisão, havia discordâncias nas concepções
sobre a Geografia Física, como afirmam as autoras.

A concepção de Geografia Física de Humboldt contrapõe-se às concepções de


Ritter (1982) quando, no ano de 1850, escreve sobre a organização de espaço na su-
perfície do globo a sua função no desenvolvimento histórico. E também à Ratzel, em
seu texto El território, la sociedad y el estado, de 1898/99, assim como à La Blache
(1982) (SUERTEGARAY; NUNES, 2000, p. 15).

Alexander Von Humboldt, no século XIX, foi um estudioso importante para a cons-
trução do conhecimento científico da época e para a geografia enquanto ciência, suas obras
englobavam diferentes campos científicos, sendo considerado um dos maiores naturalistas
deste período, despertando o interesse da sociedade.
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Na estrutura científica de sua época, Humboldt se destacou como naturalista,


abarcando os campos da zoologia, química, astronomia, sociologia, física, geologia
e botânica, mas foi à geografia que o prussiano dedicou especial atenção e é consi-
derado, até mesmo, um dos fundadores da geografia física (termo que empregava
diferentemente do contexto atual, e que às vezes constava como física terrestre ou
física do mundo) (NETO; ALVES, 2010, p. 31).

A história do pensamento geográfico possibilita o entendimento da dicotomia exis-


tente nesta ciência. A Geografia está dividida em dois ramos distintos: geografia física e
geografia humana. Apesar as diferenças de abordagens, existe um esforço por parte dos
geógrafos em fazer uma análise geográfica que supere as particularidades de cada campo
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especifico, e isto não é algo exclusivo da “física” ou da “humana”, mas nos estudos ditos
ambientais existe uma aproximação dessas discussões, de modo que podemos fazer um
estudo considerado, de certo modo, interdisciplinar.
É preciso que ocorra mudanças nos paradigmas para explicar a crise ambiental
ocorrida nestes últimos séculos, pois ela é resultante das contradições existentes no
modo de produção, que ocasionam problemas sociais e ambientais, como explica
Rodrigues (2011, p. 04) ao enfatizar que o rompimento de paradigmas “auxiliaria a
compreender o processo de produção de mercadorias e desvendar causas e agentes da
poluição do ar, do solo, das águas, bem como dos desmatamentos e da perda da bio e
sociodiversidades”.
Deste modo, Rodrigues (2011, p. 04) esclarece que a crise é provocada pelo modo de
produção e que a continuidade do paradigma significa “atribuir a origem dos problemas ao
consumo e aos consumidores, sem apontar o sucesso do modo de produção, que continua
a produzir mais e mais mercadorias e a obsolescência programada”.
Segundo Bernardes e Ferreira (2003), até o século XIX existia uma visão tradicionalista
da geografia que analisava a natureza como polos excludentes e como uma fonte ilimitada
de recursos naturais, pois as questões ambientais eram entendidas a partir do processo de
produção capitalista.

Até então se acreditava que o crescimento econômico não tinha limites e que o
desenvolvimento significava dominar a natureza e os homens. Entretanto, nos anos
60/70 percebeu-se que os recursos naturais são esgotáveis e que o crescimento sem
limites começava a se revelar insustentável. Neste contexto, emerge a necessidade de
se elegerem novos valores e paradigmas capazes de romper a dicotomia sociedade/
/natureza (BERNARDES E FERREIRA, 2003, p. 17).

189 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


O contexto científico é fundamental para o entendimento das diversas concepções
sobre a relação sociedade e natureza na geografia, e as relações interdisciplinares desta
ciência com outros ramos de conhecimentos científicos.
Gregory (1992) afirma que a geografia física absorve tendências internas e pressões
advindas, por exemplo, da geografia humana, não refletindo apenas a influência de outros
campos do conhecimento científico, como as ciências da terra, e isso é notável tanto nas
suas formas de desenvolvimento, quanto na construção do seu conteúdo.
No decorrer do século XX, devido ao método positivista, houve um enfraquecimento
das concepções acerca da Geografia Física. De acordo com Suertegaray e Nunes (2001,
p. 12) a partir dos anos 70 a geografia emerge com a questão ambiental na conjunção e na
complexidade e integram as discussões científicas, assim “este (re)encontro não é somente

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a conjunção dos constituintes da natureza (Geografia Física), mas é, antes de mais nada, o
(re)encontro com a “Geografia Humana”. ”

[...] O que queremos dizer é que a natureza assume importância analítica para
a ciência, isso s deve em grande parte à sua deterioração ou à sua importância na
construção de novos recursos e/ou mercadorias a partir, inclusive, de sua possível
reprodução e laboratório através da biotecnologia, exigindo estas temáticas, mas
recentemente uma concepção diferenciada daquela rotulada de Geografia Física
(SUERTEGARAY; NUNES, 2001, p. 16).

A partir da reflexão desses autores, nota-se que existe a busca de superar a dicotomia da
Geografia. Suertegaray e Nunes (op. cit.) ressaltam que a “Geografia Física versus Geografia
Humana neste momento histórico não pode ser confundido com o abandono do conhe-
cimento da natureza em Geografia”.
Entre as formas de entendimento das questões ambientais, que buscam a superação
da relação dicotômica existente na Geografia, está a concepção marxista. De acordo com
Bernardes e Ferreira (2003), a relação do homem com a natureza é sempre dialética, pois
o homem é um ser socialmente ativo, como nota-se na citação a seguir.

[…] põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporeidade,


braços e pernas, cabeças e mãos, para apropriar-se da substância natural em uma
forma utilizável para a própria vida. Na medida em que o homem mediante esse
movimento atua sobre a natureza exterior a ele e a transforma, modifica ao mesmo
tempo a sua própria natureza (Marx, in Schimidt, 1976, p. 76 apud BERNARDES;
FERREIRA, 2003, p. 19).
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Nesta mediação entre a sociedade e a natureza, o homem se naturaliza, enquanto a


natureza se humaniza. O espaço no capitalismo passa a ser não apenas condição, mas
também meio de produção, a produção como um processo pelo qual as formas da natu-
reza são modificadas. Assim, temos uma visão dialética sobre a natureza (BERNARDES;
FERREIRA, 2003).
Para Bernardes e Ferreira (2003) a sociedade passa por um processo de reorganização
neste início de século, e a questão ambiental busca retomar o seu sentido nas discussões
das relações sociedade/natureza. No século XXI há um esforço constante dos geógrafos,
ditos físicos ou humanos, para compreender a relação entre a sociedade e natureza, o que
demonstra uma tentativa de superar antigos paradigmas na ciência geográfica, e apesar de
todas as contradições existentes no modo de (re) produção do conhecimento geográfico.
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Grangeiro (2012) ao comparar as contribuições de cada ramo da geografia para os estu-
dos ambientais demonstra que não se trata de juntar a Geografia Física à Geografia Humana,
mas que estes estudos se complementam, apesar de não ser uma questão simples de adição.
Deste modo, Grangeiro (2012, p. 84) parte da prerrogativa que a geografia é uma
ciência social e que é necessário caminhar na direção de um diálogo interdisciplinar, e
utiliza como pressuposto que “a Geografia contribuirá de modo mais efetivo com os estu-
dos ambientais, se buscar compreender as transformações históricas e inter-relacionadas da
sociedade e da natureza, dialeticamente e em um processo de co-evolução”.
Ao fazermos a reflexão sobre a dicotomia da Geografia entende-se que este processo
também é uma reflexão sobre o método e as suas categorias de análise. Suertegaray (2000)
diz que “o termo ambiental pode ser entendido individualmente ou coletivamente, de
forma genérica ou naturalizada, ou como um ser social e historicamente construído.”
Deste modo compreende-se tendo como base Grangeiro (2012, p.77) que “a questão
ambiental precisa ser discutida com paixão pela vida, entretanto, sem passionalidades, sem
personalismos, com mais prudência, para além da que já se estabelece na retórica, mas
fundamentalmente, com ética em nossas práticas. E a esperança daqueles que descalços,
sentem o calor da terra”.
O próximo tópico apresenta a contextualização da área pesquisada, com ênfase na
relação entre o território indígena e a área protegida.

Contextualização da área: território indígena e a sobreposição da


unidade de conservação

A comunidade indígena Tapeba localiza-se no município de Caucaia, Região


Metropolitana de Fortaleza, capital do estado do Ceará, na região nordeste do Brasil. Esta

191 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


população originátia é contituída por 17 aldeias e estão distribuídas exclusivamente no
território do município de Caucaia-Ceará.
O povo Tapeba tem a Área de Proteção Ambiental (APA) do Estuário do Rio Ceará
– Rio Maranguapinho sobreposta ao território indígena, especificamnete na área que
corresponde à Aldeia da Ponte, às margens do rio Ceará.
A Área de Proteção Ambiental do Estuário do Rio Ceará – Rio Maranguapinho é
uma unidade de conservação de uso sustentável, com 3.892,44 hectares, localizada na
divisa dos municípios de Fortaleza e Caucaia, no estado do Ceará, criada no final da
década de 1990.
Inicialmente, esta unidade referia-se apenas ao Estuário do Rio Ceará, e compreen-
dia uma área de 2.744,89 hectares, sendo institucionalizada por intermédio do Decreto

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nº 25.413, de 29 de março de 1999, um ano antes da criação do Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza (SNUC).
Em 2018 houve a ampliação de 1.147,55 hectares da Área de Proteção Ambiental,
por meio do Decreto nº 32.761, de 16 de julho de 2018. Deste modo, esta unidade de
conservação passou a incorporar o Rio Maranguapinho, destaca-se que o Rio Ceará divide
a sua foz e planície fluviomarinha com Rio Maranguapinho.
A APA do Estuário do Rio Ceará – Rio Maranguapinho é uma unidade de conser-
vação estadual, e a sua ampliação foi concedida pela Lei Estadual 16.607, de 18 de julho
de 2018. De acordo com Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA), este é apenas
o primeiro trecho a ser incorporado na APA, a partir da criação do plano de manejo e da rea-
lização de estudos preliminares serão definidos outros trechos para inclusão na unidade.
Nas proximidades desta área de proteção ambiental, no município de Fortaleza, destacam-
-se também as comunidades dos Bairros Barra do Ceará e Vila Velha. Em Caucaia, nas
adjacências da APA habitam os moradores dos bairros Parque Leblon; Iparana, neste
último bairro destaca-se a comunidade Guaié, na planície fluviomarinha do rio Ceará.
A Área de Proteção Ambiental está submetida a grande pressão demográfica, e além de
seu valor ecológico, apresenta elevada importância para a sobrevivência das populações tra-
dicional e originárias, que tem a atividade pesqueira como sua fonte principal de sustento.
Faz-se necessário analisar a Aldeia da Ponte em diálogo com a área de proteção am-
biental, pois as decisões tomadas nesta instância podem influenciar direta e indiretamente
a comunidade indígena, principalmente no que se refere ao uso da terra.

Uso da terra e cobertura vegetal na APA do estuário do Rio Ceará

As diferentes tipologias identificadas no uso da terra da APA do Estuário do Rio


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

Ceará, foram associadas à cobertura vegetal da unidade de conservação. Assim, identificou-


-se na área de estudo: as Áreas Urbanas; Vegetação Padulosa Marítima de Mangue;
Vegetação Halofítica Gramíneo-Herbácea; Salinas Desativadas; Vegetação de Tabuleiro e
Agroextrativismo.

Áreas Urbanas

Segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (2015), aproxima-


damente, 90% da população do município de Caucaia é urbana, enquanto que Fortaleza
tem sua população 100% urbanizada.
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A estimativa atual é um produto do processo histórico de ocupação do estado do
Ceará. De acordo com Souza (2007), a partir do século XX, as transformações de
ordem econômica, social e do sistema de transportes foram responsáveis pelas mudan-
ças nas formas de organização do espaço urbano, com altos índices de crescimento das
populações urbanas.

[...] Desta forma, a crescente tendência à urbanização constatada na população


cearense através de intensas migrações do campo para as cidades. O crescimento
migratório está ligado diretamente às questões fundiárias e à incidência das secas que
atingem periodicamente o Ceará. (SOUZA, 2007, p. 13)

A autora supramencionada explica que, as problemáticas da economia rural tradi-


cional, contribuíram para o aumento das migrações do campo para a cidade, que tiveram
como principal destino à capital. Fato este que justifica, a partir deste período, o aumento
da pobreza na capital, devido à falta de moradia, infraestrutura, e a deficiência nos sistemas
de transporte, saúde, educação na cidade.
Souza (2007) explana que, o município de Fortaleza destaca-se não apenas pela alta
concentração da população urbana, mas também, por concentrar atividades político-
-administrativas, além das atividades comerciais, industriais, financeiras, portuárias, socio-
culturais e de lazer, e dos investimentos em infraestrutura, saúde e saneamento básico em
relação aos outros municípios do Ceará. O Poder Público atua como o principal agente
produtor do espaço urbano em Fortaleza e em sua região metropolitana, pois influencia nas
formas de ordenação destes espaços.
Passeios ecológicos, também são realizados frequentemente na Área de Proteção
Ambiental do rio como atividade de lazer pelos moradores do bairro Vila Velha, em
Fortaleza. Excepcionalmente, fazem-se percursos com a finalidade de pesquisa e/ou

193 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


monitoramento ambiental.

Salinas Desativadas

O manguezal do rio Ceará, historicamente, foi bastante degradado pelas formas de uso
e ocupação do estuário ao longo dos anos. A princípio, a madeira do mangue era utiliza-
da para a construção de casas, cercas, embarcações e combustível doméstico. A partir da
década de 1930, salinas foram instaladas na região, o que resultou na degradação de áreas
extensas de manguezais (SEMACE, 2005).

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A figura 1 refere-se a ponte sobre o rio Ceará, que liga os municípios de Fortaleza e
Caucaia. No percurso fluvial realizado nesta área, é possível visualizar antigas salinas
abandonadas na APA do Estuário do rio Ceará.

Figura 1. Ponte na divisão dos municípios de Fortaleza e Caucaia- CE

Fonte: MENEZES, K. W. S. (2016).

Na década de 1970, as salinas foram desativadas, mas a marca da degradação no solo


ainda é evidente. A construção da ponte sobre o rio Ceará também contribuiu para a ocu-
pação na área de proteção ambiental, sobretudo no município de Caucaia.
Áreas que anteriormente eram compostas por salinas, encontram-se ocupadas por
residências, principalmente nas últimas décadas. No bairro Vila Velha, em Fortaleza,
a expansão urbana é mais nítida, ocorrendo desmatamentos e ocupações em áreas de
conservação ambiental.
A ausência de esgotamento sanitário e o acúmulo de lixo interfere na qualidade hídrica
do estuário, os aterramentos e a construção da ponte, influenciaram a dinâmica hídrica e
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

sedimentar da planície fluviomarinha do rio Ceará (SEMACE, 2005).

Vegetação Padulosa Marítima de Mangue

A preservação do ambiente estuarino do rio Ceará é importante para a manuten-


ção do equilíbrio morfodinâmico do litoral e possui um papel ecológico-econômico
fundamental, por constituir o habitat natural de inúmeras espécies, principalmente
durante o ciclo biológico, além de fornecer as espécies proteção e, reter nutrientes
e sedimentos transportados pelo rio, e de auxiliar na proteção das águas e dos solos
(SEMACE, 2005).
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A planície fluviomarinha o rio apresenta peculiaridades naturais, como constantes os-
cilações de nível hídrico do subsolo e da superfície, altos índices de salinidade hídrica
e edáfica, e escassez de oxigênio no solo, apenas as espécies com adaptação fisiológica e
morfológica compõem a vegetação de mangue (SEMACE, 2005).
A figura 2 destaca o porte arbóreo das espécies de manguezais. Destaca-se também que
pesca artesanal é uma atividade econômica importante e bastante praticada pelas popula-
ções locais, que retiram seu sustento do estuário. Na figura 3 observar-se as embarcações
utilizadas pelos pescadores locais.

Figura 2. Porte arbóreo da vegetação Figura 3. Embarcações para pesca na


de mangue da APA comunidade Guaié, no rio Ceará

Fonte: MENEZES, K. W. S. (2016).

Segundo a SEMACE (op. cit.) o manguezal da APA do Estuário do Rio Ceará,


são encontradas as espécies Rhizophora mangle (mangue vermelho), Languncularia ra-
cemora (mangue branco), Avicennia germinans (mangue preto), Avicennia schaueriana

195 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


(mangue preto) e Conocarpus erectus (mangue botão), todas características das zonas
estuarinas do Brasil.

Vegetação Halofítica Gramíneo-Herbácea

Esse tipo vegetacional se diferencia da vegetação arbórea característica dos man-


guezais, ocorrendo o aparecimento de apicum e salgado. Conforme a SEMACE (op.
cit.) nesta formação herbácea, ocorre a presença de Batis marítima (bredo-de-mangue),
Iresine portulacoides (bredo-da-praia) e Sesuvium portulacastrum (bredo). Enquanto que
nas bordas do apicum, que podem apresentar arenosidade, encontram-se a Cyperus sp

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(capim-barba-de-bode) e Xyris sp (botão), em terrenos de afluentes fluviais surgem es-
pécies de maior porte, como a Achrostichum aureum (samambaia-do-mangue) e Thypha
domingensis (tabuba).

Vegetação Subcaducifólia de Tabuleiro

A vegetação subcaducifolia de tabuleiro, apresenta características fisionômicas arbóreas


e arbustivas. A conservação desta vegetação é fundamental para a recuperação de áreas
degradadas, e contribui para a diminuição dos processos erosivos no solo.
A vegetação subcaducifólia de tabuleiro apresenta elementos de mata seca, caatinga
e cerrado, os principais componentes florísticos arbóreo-arbustivos são o Anacardium
occidentale (cajueiro), Anacardium microcarpum (cajuí), Bauhinia ungulata (mororó),
Byrsonima crassifólia (murici), Commiphora leptophloeos (imburana), Curatella americana
(lixeira), Hymenea courbaril (Jatobá), Mouriri cearenses (manipuça), Ouratea fieldingiana
(batiputá) e Ximenia americana (ameixa). (SEMACE, 2005).
Utilizando como base a SEMACE (op. cit.), nas áreas degradadas, em estágio de regene-
ração ocorrem subarbustos de Manihot glaziovii (pinhão- branco) e Solanum paniculatum
(Jurubeba), e arbustos como Byrsonima crassifólia (murici), Coccoloba latifólia (coaçu) e
Croton sonderianus (marmeleiro).

Agroextrativismo

Conforme com a Semace (2005), nas proximidades do rios Ceará e Maranguapinho,


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

a influência da maré é menos significativa, havendo o predomínio na mata ciliar da


Copernicia prunifera, conhecida popularmente como Carnaúba. As carnaúbas encontradas
nas áreas de várzea do rio Ceará, são bastante utilizadas para o extrativismo pelas populações
locais. As queimadas também são praticadas constantemente nos carnaubais.
Com base nessas exposições, foi elaborado o mapeamento comtemplando o uso e a
cobertura vegetal na APA do Estuário do Rio Ceará (Figura 4), com a finalidade de indicar
a distribuição espacial da espacializar as informações apresentadas.
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Figura 4. Mapeamento participativo no uso e a cobertura vegetal na APA

Fonte: Elaborado pela autora.

Resistência Indígena: a Aldeia da Ponte, do Povo Tapeba,


em Caucaia, Ceará – Brasil

Na década de 1980, a Arquidiocese de Fortaleza iniciou o processo de retomada dos


territórios indígenas no Ceará, iniciando pelos Tapebas, em Caucaia.

197 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


O ressurgimento dos Tapeba se deu na década de 1980, mais precisamen-
te em 1984, quando a Arquidiocese de Fortaleza, através da Equipe de Apoio às
Comunidades Rurais, passou a atuar em Caucaia. Em 1985, a arquidiocese asses-
sorou a formação da primeira organização institucional da qual os Tapeba fizeram
parte, a Associação das Comunidades do Rio Ceará (ACRC), hoje denominada de
Equipe de Apoio à Questão Indígena da Arquidiocese de Fortaleza, que envolvia
tanto os índios, como os demais trabalhadores rurais locais, dando suporte a uma
luta comum aos dois grupos, pela terra (FREITAS, 2012, p. 13).

Historicamente a comunidade indígena enfrenta um processo de delimitação e luta


pela permanência e reconhecimento de seu território. Segundo Albuquerque (2017, p. 05),

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“no caso Tapeba, boa parte das áreas urbanas estão excluídas da delimitação da Funai, mas
não fora da terra indígena. Uma estratégia para tornar mais factível a demarcação, em face
das contestações judiciais).
Os modos de vida dessas populações tradicionais indicam uma sustentabilidade, mas
que se torna insustentável nesse contexto. Essas comunidades encontram-se inseridas em
áreas periféricas da cidade, alguns locais podem até ser considerados insalubres para a sua
sobrevivência, pois convivem com altos níveis de poluição, não utilizando mais o trecho
do rio mais próximo para a sua sobrevivência. Atualmente precisando se deslocar por
quilômetros a jusante para conseguir pescar.
Os conflitos existentes correspondem não apenas a poluição de suas águas, e a difi-
culdade de se manterem nessas áreas, também se revelam nos problemas de regularização
fundiária. Deste modo, a insustentabilidade indicada nesta área, condiz com a deficiência
da aplicação de uma política ambiental adequada e da falta de um conselho gestor que dê
voz aos comunitários.
Para contribuir com a compreensão da área, elaborou-se um material (Figura 5) que
destaca as ocupações e formas de uso presente na unidade em questão.
A Aldeia da Ponte argumenta que a qualidade da água do rio e os locais de pescas
foram alterados intensamente nas últimas duas décadas, devido principalmente, aos níveis
de poluição do rio Ceará e de seu principal afluente, o rio Maranguapinho, ou seja, a de
criação da unidade de conservação não mudou a realidade de um rio urbano, que está
submetido a grande pressão demográfica e usos indevidos durante o território protegido.
Segundo Bensusan (2006):

A Constituição Federal consolidou os direitos dos povos indígenas sobre as ter-


ras que tradicionalmente ocupam, evitando que essas populações sejam desalojadas
ou reassentadas. Ainda assim, persiste uma questão que contrapõe as terras indí-
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

genas às unidades de conservação: trata-se da sobreposição dessas áreas (Bensusan,


2006, p. 119).

Essa colocação de Nurit Bensusan é bastante pertinente para este estudo, pois a
unidade de conservação em questão, está sobreposta ao território indígena Tapeba. O
modelo de gestão implementado na APA do Estuário do Rio Ceará não protege a foz do
rio, e a sua ineficiência compromete os modos de viver desses povos que historicamente
ocupam essas áreas.
A comunidade indígena Tapeba, em especial, a Aldeia da Ponte, tiveram seus modos
de vida alterados ao decorrer do tempo e buscam resgatar através das lutas das pessoas da
comunidade que se reconhecem como indígena, suas características originárias.
198 //

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Figura 5. Carta-imagem com a área de proteção ambiental,
com destaque no território indígena e ocupações na unidade

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Fonte: Elaborado pela autora.

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Considerações finais

Acredita-se, com base nos depoimentos dos indígenas que habitam a Aldeia da Ponte,
que a Área de Proteção Ambiental é insustentável porque após 20 anos de sua institu-
cionalização a poluição e a contaminação do rio aumentou consideravelmente, causando
alterações na vida das populações e povos originários que dependem, principalmente da
pesca do rio para sobreviver.
No processo de dimensionamento desta unidade de conservação a foz do rio não foi
protegida. A gestão, de responsabilidade do estado do Ceará, e os usos que ocorrem nesta
unidade não estão completamente baseados nos preceitos da sustentabilidade e na legisla-
ção que rege a conservação ambiental, reflete, deste modo, a lógica existente na produção
capitalista do espaço, e ocasiona conflitos ambientais que se configuram no território,
demonstrando, sobretudo, a ineficiência da gestão e das instituições públicas.

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201 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

iberografias40.indb 201 23-03-2021 17:57:28


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A tentativa de extermínio do território do Contestado e
o massacre continuado do patrimônio e da população
tradicional cabocla: negação, invisibilidade, silêncio e
políticas públicas antiterritoriais, em Santa Catarina, Brasil

Nilson Cesar Fraga


Pesquisador do CNPq – PQ
Universidade Estadual de Londrina – Geociências
Universidade Federal de Rondônia – PPGG/UNIR
Coordenador do Laboratório de Geografia, Território, Meio Ambiente e Conflito
Coordenador do Observatório da Região e da Guerra do Contestado

O território do Contestado, localizado no Sul do Brasil, é formado por uma extensa


gama de variáveis que se permeiam e entrelaçam para dar origem a uma rede indissociável
de sistemas e ações que compõem o mundo onde vive uma população que vai da mescla
de indígenas, passando por caboclos e descendentes de migrantes de origem europeia. O
mundo que se modifica a partir da ação cotidiana resulta da ação de múltiplos agentes – de
ontem e de hoje – que buscam alterar o espaço original para criar uma realidade distinta
e, ao mesmo tempo, vivida pelas pessoas. Mas este território, longe de estar alheio à traje-
tória histórica brasileira, foi palco de guerras, lutas e disputas que formaram não apenas os
seus atuais limites, mas também sua configuração populacional e seu território cultural. A
figura 01 permite observar a região estudada e dominada pela cultura secular cabocla e a

203 // Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais


área da Guerra do Contestado.
Nessa vasta e importante região do estado de catarinense habitavam os caboclos e
caboclas que tinham um modo de vida que dependia da agricultura de autoconsumo,
como também da exploração da mata nativa por meio da retirada da erva-mate e criação
de animais, tais como porcos/suínos e gado. Ao se apossarem de terras devolutas, cons-
truíam suas casas com as próprias mãos, utilizando a madeira existente nos seus terrenos
de posse. Dentro da organização social de caboclos e caboclas, a simplicidade era visível
em seus chãos, pois havia também a criação de pequenos animais, como porcos e galinhas
e vacas/bois para retirada do leite. Fica evidente que a agricultura de autoconsumo era a
base da sobrevivência desse povo, uma vez que plantava as roças de feijão, abóbora, milho
e outros produtos de consumo, mantendo relações locais e regionais no sentido de troca

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do excedente e venda da erva-mate para empresários de Curitiba, Porto União da Vitória,
Canoinhas e Joinville, por exemplo (FRAGA, 2012).

Figura 1. Mapa da região do Contestado no Paraná e em Santa Catarina


– área do genocídio e domínio territorial caboclo.

Fonte: Fraga, Nilson Cesar, 2019.

Nessa vasta e importante região do estado de catarinense habitavam os caboclos e


Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais

caboclas que tinham um modo de vida que dependia da agricultura de autoconsumo,


como também da exploração da mata nativa por meio da retirada da erva-mate e criação
de animais, tais como porcos/suínos e gado. Ao se apossarem de terras devolutas, cons-
truíam suas casas com as próprias mãos, utilizando a madeira existente nos seus terrenos
de posse. Dentro da organização social de caboclos e caboclas, a simplicidade era visível
em seus chãos, pois havia também a criação de pequenos animais, como porcos e galinhas
e vacas/bois para retirada do leite. Fica evidente que a agricultura de autoconsumo era a
base da sobrevivência desse povo, uma vez que plantava as roças de feijão, abóbora, milho
e outros produtos de consumo, mantendo relações locais e regionais no sentido de troca
do excedente e venda da erva-mate para empresários de Curitiba, Porto União da Vitória,
Canoinhas e Joinville, por exemplo (FRAGA, 2012).
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No que se refere à expropriação do povo caboclo, Fraga (2010) pontua que, para explo-
rar as terras concedidas ao empresário estadunidense Percival Farquhar, a Brazil Railway
expulsou do seu domínio de terras todos aqueles que não tinham o título de posse da terra
a partir de 1911. Embora essa medida de expropriação fosse contra a Lei de Terras de
1850, “aos posseiros que ousavam se opo