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Relato de Caso Habilidades comunicativas verbais no desenvolvimento

Case Report típico de linguagem – relato de caso

Camila Mayumi Abe1 Verbal communication skills in typical language


Andreza Carolina Bretanha1
Amanda Bozza2 development: a case series
Gyovanna Junya Klinke Ferraro2
Simone Aparecida Lopes-Herrera3

Descritores RESUMO

Fonoaudiologia O objetivo do estudo foi verificar as habilidades comunicativas verbais utilizadas por crianças com desenvolvi-
Linguagem infantil mento típico de linguagem de 6 a 8 anos de idade. Participaram deste estudo 10 crianças de ambos os gêneros
Desenvolvimento da linguagem na faixa etária de 6 a 8 anos, sem alterações de linguagem. Foi gravada uma amostra de interação de cada
Comunicação criança com um adulto (pai e/ou mãe) em vídeo com 30 minutos de duração. As gravações foram transcritas
Comportamento verbal na íntegra e analisadas pela pesquisadora e por outra fonoaudióloga treinada para o cálculo de fidedignidade e
posteriormente analisadas por um protocolo de análise de habilidades comunicativas verbais com categorias que
incluíam habilidades dialógicas, de regulação, narrativo-discursivas e não interativas. Em seguida, a frequência
de utilização de cada categoria de habilidade comunicativa verbal foi analisada (cálculo de porcentagem) por
cada participante. Todas as crianças utilizaram maior número de habilidades dialógicas e de regulação, seguidas
das habilidades narrativo-discursivas e não interativas, mostrando que crianças na faixa etária estudada estão
preocupadas em dar sequência ao diálogo, o que demonstra o caráter mais dialógico da interação de crianças
com desenvolvimento típico, quando expostas a situações de interação espontânea com um adulto familiar.

Keywords ABSTRACT

Speech, language and hearing sciences The aim of the current study was to investigate verbal communication skills in children with typical language
Child language development and ages between 6 and 8 years. Participants were 10 children of both genders in this age range
Language development without language alterations. A 30-minute video of each child’s interaction with an adult (father and/or mother)
Communication was recorded, fully transcribed, and analyzed by two trained researchers in order to determine reliability. The
Verbal behavior recordings were analyzed according to a protocol that categorizes verbal communicative abilities, including
dialogic, regulatory, narrative-discursive, and non-interactive skills. The frequency of use of each category of
verbal communicative ability was analyzed (in percentage) for each subject. All subjects used more dialogical
and regulatory skills, followed by narrative-discursive and non-interactive skills. This suggests that children in
this age range are committed to continue dialog, which shows that children with typical language development
have more dialogic interactions during spontaneous interactions with a familiar adult.

Endereço para correspondência: Trabalho realizado no Departamento de Fonoaudiologia, Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade
Simone Aparecida Lopes-Herrera de São Paulo – USP – Bauru (SP), Brasil.
Departamento de Fonoaudiologia FOB- (1) Programa de Pós-graduação (Mestrado) em Fonoaudiologia, Faculdade de Odontologia de Bauru, Univer-
USP sidade de São Paulo – USP – Bauru (SP), Brasil.
Al. Octávio Pinheiro Brisola, 9-75, Bauru (2) Curso de Fonoaudiologia, Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo – USP – Bauru
(SP), Brasil, CEP: 17012-901. (SP), Brasil.
E-mail: lopesimone@gmail.com (3) Departamento de Fonoaudiologia, Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo – USP
– Bauru (SP), Brasil.
Recebido em: 12/7/2011 Conflito de interesses: Não

Aceito em: 15/10/2012

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Análise pragmática de crianças 77

INTRODUÇÃO entre 6 e 8 anos de idade. Optou-se por essa faixa etária para
minimizar a interferência do processo de aquisição de lingua-
A pragmática estuda o funcionamento da linguagem em gem no levantamento proposto das habilidades comunicativas
meio a situações e comunicação. Refere-se ao conjunto de verbais, visto que, crianças com desenvolvimento típico, nesta
regras que explicam ou regulam o uso intencional da lingua- idade, estão em fase final de desenvolvimento da linguagem ou
gem(1). As habilidades comunicativas referem-se à capacidade já desenvolveram suas habilidades pragmáticas.
do indivíduo em participar de uma sequência interativa de atos Para seleção das crianças, realizou-se uma triagem fo-
de fala, tendo como objetivo o intercâmbio comunicativo. Desta noaudiológica constituída de entrevista com os pais e uma
forma, a competência comunicativa refere-se à habilidade em sessão de observação da criança por uma fonoaudióloga, para
fazer uso da linguagem como um instrumento efetivamente que fosse garantida a ausência de indicadores ou sinais de
interativo com outros contextos sociais. Esta competência alteração da audição, fala e/ou linguagem, sendo este um cri-
envolve a intenção comunicativa, independente dos meios tério de exclusão da amostra.
utilizados para a comunicação(2,3). Os indivíduos analisados foram selecionados entre as crian-
Estas habilidades podem ser divididas em: habilidades de ças de uma escola de ensino regular de um município do interior
conversação, narrativas e não interativas. As habilidades de de São Paulo e a participação destes foi voluntária, sendo que
conversação compreendem as habilidades em respeitar a orga- os pais e/ou responsáveis dos participantes foram esclarecidos
nização sequencial, em reparar falhas na conversação, em usar sobre os objetivos e métodos da pesquisa e sobre seus direitos
a linguagem para estabelecer e variar papéis sociais e também de preservação de identidade. Todos assinaram um Termo de
as habilidades para compreender e produzir uma variedade Consentimento Livre e Esclarecido. Os procedimentos foram
de atos de fala; as habilidades narrativas são compostas pela devidamente submetidos e aprovados pelo Comitê de Ética
habilidade de interpretação do significado das histórias e pela em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Odontologia de Bauru,
habilidade de contar histórias segundo regras de organização, da Universidade de São Paulo (FOB-USP), sob protocolo
enquanto as habilidades não interativas dizem respeito ao uso número 068/2009.
da linguagem para o pensamento e solução de problemas, o Para realizar a análise do perfil pragmático das crianças
papel da linguagem no estabelecimento da própria identidade, foi realizada uma gravação de 30 minutos de cada criança em
o jogo e a metalinguagem(4,5). interação com um dos pais (pai ou mãe). Foi dada preferência
Estudos sobre o desenvolvimento das habilidades pragmáti- ao adulto (pai ou mãe) que ficasse a maior parte do tempo com
cas são recentes na Fonoaudiologia quando comparados a outros a criança (interlocutor habitual), para minimizar a variável de
estudos sobre o desenvolvimento morfossintático, semântico e familiaridade com o interlocutor.
fonológico(5). Existem poucos estudos sobre pragmática que Os procedimentos foram realizados em uma sala de aten-
abordem o desenvolvimento típico de linguagem e estes priori- dimento individual na Clínica do Curso de Fonoaudiologia da
zam a descrição das habilidades de comunicação de crianças em FOB-USP. A sala foi projetada para atendimentos clínicos,
fase de desenvolvimento de linguagem(6,7) ou são realizados com para que não houvesse interferência de sons externos. Na sala,
crianças com quadros de alterações na linguagem(7-9). a criança e seu interlocutor ficaram sentados em colchonetes e
É evidente a importância de estudos que abordem a ca- dispostos ao seu redor estavam materiais lúdicos selecionados
racterização de habilidades pragmáticas, comunicativas, de quanto à faixa etária e gênero. A seleção dos materiais lúdicos
crianças com desenvolvimento típico que forneçam parâme- foi realizada com o objetivo de que fossem estimuladas todas
tros comparativos necessários ao diagnóstico e intervenção as habilidades comunicativas em cada uma das gravações.
fonoaudiológicos. A escassez de pesquisas que focalizem o Esses brinquedos/jogos foram selecionados na brinquedoteca
desenvolvimento típico das funções pragmáticas da linguagem, da instituição na qual foi realizada a pesquisa, respeitando a
com consequente elaboração do constructo teórico da área(4,10), idade e o gênero das crianças participantes.
justifica a realização deste estudo. Quando se pretende carac- Uma filmadora foi montada em tripé de forma a abranger
terizar o desenvolvimento típico de uma habilidade ou função a situação interativa da qual participavam o adulto e criança e
da linguagem deve-se ter como critério que todas as demais para que se realizasse o registro em vídeo sem a presença e/ou
funções apresentem-se dentro dos critérios estabelecidos para interferência de terceiros. A pesquisadora dava a instrução para
a normalidade. Desta forma, escolheu-se avaliar crianças em fi- que adulto e criança permanecessem sentados no colchonete
nal, ou completude do processo de aquisição da linguagem oral, para que a filmadora pudesse registrar a interação e que os dois
de modo a minimizar a interferência de processos de aquisição brincassem de forma a utilizar os materiais lúdicos disponíveis
de linguagem no levantamento das habilidades comunicativas. que desejassem por 30 minutos, sendo que, ao final deste tempo,
O objetivo deste trabalho foi caracterizar as habilidades a pesquisadora voltaria para desligar a filmadora.
comunicativas verbais utilizadas por crianças de 6 a 8 anos de Após a coleta, as gravações foram transcritas na íntegra e de
idade, com desenvolvimento típico de linguagem. forma literal, sendo feita a classificação das habilidades comu-
nicativas verbais da díade comunicativa (pai-criança ou mãe-
APRESENTAÇÃO DOS CASOS CLÍNICOS -criança), segundo o Protocolo de Habilidades Comunicativas
Verbais – HCV(4,10).
Foram estudadas dez crianças (meninos e meninas) com No referido protocolo são enfocadas as habilidades co-
desenvolvimento típico de linguagem. A faixa etária variou municativas verbais, descritas em 25 categorias, sendo estas

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divididas em quatro grupos: habilidades dialógicas (HD), ha- o desvio normal, logo, pôde-se empregar o teste de análise de
bilidades de regulação (HR), habilidades narrativo-discursivas variância.
(HND) e habilidades verbais não interativas (HNI). Utilizou-se, então, o teste ANOVA para identificar se ha-
As HD são subdivididas em: início de turno (IT), manu- via concordância entre os perfis de utilização das habilidades
tenção de diálogo (MD), inserção de novos tópicos no diálogo comunicativas verbais das dez crianças avaliadas. Analisou-se
(NT), organização dialógica sequencial (OS), reparação de a distribuição da frequência de utilização das categorias que
falhas (RF), variação de papéis (VP), rotina social (RS) e ex- compreendiam uma determinada habilidade comunicativa
pressão de sentimentos (ES). A categoria (OS) é subdividida verbal, a fim de determinar se os perfis dos indivíduos faziam
em comentários (CM), respostas diretas (RD), imitação (I) e parte do mesmo grupo. Assim, valores de p maiores que 0,05
feedback ao interlocutor (FI). indicariam que as crianças apresentavam um mesmo perfil
Com relação às HR, pode-se categorizá-las em auto-regula- de uso das habilidades comunicativas verbais, utilizando de
tória (AR), direcionamento de atenção (DAT), direcionamento maneira semelhante as categorias de cada habilidade.
de ação (DAO), solicitação de objeto (SO), solicitação de A análise estatística descritiva das categorias foi realizada
informação (SI) e consentimento (CS). por meio do cálculo da média, mediana, desvio-padrão e in-
As HND são classificadas como relato de histórias ou acon- tervalo interquartil. Estes valores permitem identificar o perfil
tecimento (RH), reprodução de histórias (RPH), interpretação de crianças com desenvolvimento típico de linguagem para
de histórias (IH) e argumentação (ARG). cada categoria de habilidade comunicativa verbal. Da mesma
As HNI são categorizadas, no referido protocolo, em uso da maneira, os intervalos interquartis demonstraram como estava
linguagem para estabelecimento da própria identidade (LPI), distribuída a frequência de utilização de cada categoria. O in-
jogo simbólico (JS) e metalinguagem (ML). tervalo entre o primeiro e terceiro quartil mostrou a frequência
As HCV foram classificadas e categorizadas de forma quan- com que dada categoria foi utilizada por cinco crianças. O
titativa (por número e porcentagem) e qualitativa, para que se terceiro quartil identificou o que era esperado que 75% das
analisasse a frequência de utilização das mesmas, pelas crian- crianças apresentavam aquela faixa de utilização das categorias.
ças participantes das gravações. Para cada díade foi realizada Como resultados de toda a análise proposta, observa-se que
a avaliação interobservadores independentes (a pesquisadora a maioria das habilidades apresentadas pelas dez crianças da
foi o observador 1 e houve um outro observador treinado, o amostra era pertencente à categoria de habilidades dialógicas
observador 2). A concordância entre os observadores foi ana- (HD), seguida pela categoria de habilidades de regulação (HR),
lisada em cada uma das sessões para cada criança e calculada mostrando que as crianças mantiveram habilidades comunica-
pela técnica ponto-a-ponto, em que cada turno analisado pelo tivas interativas (dialógicas) de forma recorrente durante toda
observador 1 era comparado ao turno correspondente analisa- a interação (Tabela 1).
do pelo observador 2, aplicando-se, em seguida, a fórmula de As crianças utilizaram as habilidades comunicativas verbais
cálculo de concordância, que foi realizada dividindo o número (HCV) em proporções semelhantes, como mostram os valores
de concordâncias somado ao de discordâncias pelo número de p, o que pode ser notado comparando-se o percentual de utili-
concordâncias e multiplicando este resultado por 100. Foram zação de cada categoria entre as crianças (Tabela 1). Os valores
considerados fidedignos os dados com no mínimo 75% de percentuais apresentados nas tabelas deste estudo são impor-
concordância. tantes identificadores do perfil pragmático das crianças. Estes
valores indicam a frequência com que cada criança fez uso de
determinada categoria entre todas as que compõem aquela HCV.
Esta análise permitiu comparar as diferentes crianças segundo
o perfil de utilização destas categorias, ou seja, observa-se
O cálculo de fidedignidade das análises de todas as gra- que a criança 1 utilizou habilidades dialógicas 75 vezes du-
vações realizadas com dez díades analisadas mostrou que os rante a interação, enquanto a criança 4 utilizou as habilidades
dados podiam ser considerados fidedignos, já que todos os dialógicas 50 vezes, contudo, a frequência de utilização desta
índices foram acima de 75% de concordância, sendo a média categoria com relação ao conjunto das categorias das HCV foi
de concordância geral de 97,19%. Em seguida, as frequências é o mesmo para os dois casos (Tabela 1). O mesmo pode ser
de utilização das categorias compreendidas em uma determi- observado na categoria HR, que foi menos utilizada no discurso
nada HCV foram, então, computadas para realização da análise da criança 4, enquanto a criança 6 utilizou esta habilidade mais
estatística. vezes, entretanto, ambas apresentaram frequência semelhante
A análise estatística baseou-se nos testes de normalidade de utilização desta categoria, quando consideradas todas as
de Anderson-Darling e na Análise de Variância de Fator Único categorias da HCV. As categorias de habilidades narrativo-
(ANOVA) das amostras. No primeiro teste foi possível observar -discursivas (HND) e habilidades verbais não interativas (HNI)
se o uso das diferentes categorias que compõem uma habilidade foram pouco utilizadas por todas as crianças.
comunicativa verbal possuía uma distribuição normal entre as Dentre as HD, a categoria mais utilizada foi a de organi-
díades, ou seja, se cada categoria de uma determinada habili- zação dialógica sequencial (OS), seguida pela expressão de
dade apresentava uma distribuição normal de utilização entre sentimentos (ES). A porcentagem de uso das HD distribuiu-se
as crianças. O teste de normalidade indicou que a variação do similarmente entre as díades e as habilidades. A diferença
uso de cada categoria entre as crianças estava de acordo com média na frequência de uso de OS foi 5,66%, enquanto para

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Tabela 1. Habilidades comunicativas verbais apresentadas pelas crianças das díades de 1 a 10

HD HR HND HNI
Criança Total
n % n % n % n %
1 75 52,08 56 38,89 12 8,33 1 0,69 144
2 107 56,32 81 42,63 0 0 2 1,05 190
3 93 64,14 50 34,48 1 0,69 1 0,69 145
4 50 52,08 34 35,42 10 10,42 2 2,08 96
5 129 59,45 75 34,56 11 5,07 2 0,92 217
6 164 60,07 102 37,36 6 2,2 1 0,37 273
7 84 61,31 49 35,77 0 0 4 2,92 137
8 138 69,00 62 31 0 0 0 0 200
9 179 63,70 91 32,38 0 0 11 3,92 281
10 96 70,59 40 29,41 0 0 0 0 136
Estatística descritiva
Média 111,50 64,00 4,00 2,40
Mediana 101,50 59,00 0,50 1,50
DP 40,54 22,48 5,19 3,24
Q1 86,25 49,25 0,00 1,00
Q3 135,75 79,50 9,00 2,00
Valor de p 0,968
ANOVA (p≤0,05)
Legenda: HD = habilidades dialógicas; HR = habilidades de regulação; HND = habilidades narrativo-discursivas; HNI = habilidades verbais não interativas; DP =
desvio-padrão; Q1 = 1º quartil; Q3 = 3º quartil

manutenção de diálogo (MD) foi de 3,55%, sendo inferior nas Em relação às habilidades de regulação (HR), o maior valor
demais. Deve-se ressaltar que a OS é uma categoria de HD a encontrado nas dez crianças foi de solicitação de informação
parte, por ser formada por diversas subcategorias (Tabela 2). (SI), seguida pelo direcionamento de ação (DAO), o que
Dentro da categoria OS, há subcategorias, como apresen- demonstra que as crianças realizaram mais perguntas do que
tado na Tabela 3. Nesta, observa-se que a subcategoria mais regularam a atenção e a ação do adulto. A diferença média no
utilizada pelas crianças foi o comentário (CM), seguido da uso da habilidade auto-regulação (AR) foi de 11,45%, enquanto
resposta direta (RD). As diferenças mais acentuadas foram na SI foi 11,28%, no direcionamento de atenção (DAT) foi
quanto ao número de CM apresentadas por cada criança. As 10,78%, no DAO foi 8,80%, no consentimento (CS) foi 5,57%
demais subcategorias de OS não apresentaram grandes varia- e na solicitação de objeto (SO) foi 0,46% (Tabela 4).
ções criança a criança. Observa-se, que existiram variações na quantidade
Tabela 2. Habilidades dialógicas apresentadas pelas crianças das díades de 1 a 10

IT MD NT OS RF VP RS ES
Criança Total
n % n % n % n % n % n % n % n %
1 0 0,00 7 7,61 6 6,52 59 64,13 2 2,17 0 0,00 0 0,00 18 19,57 92
2 0 0,00 3 2,52 2 1,68 94 78,99 1 0,84 0 0,00 0 0,00 19 15,97 119
3 0 0,00 6 5,40 6 5,40 84 75,68 1 0,90 0 0,00 2 1,80 12 10,81 111
4 1 1,69 4 6,77 5 8,47 35 59,32 6 10,16 0 0,00 0 0,00 8 13,56 59
5 1 0,63 15 9,49 3 1,90 119 75,32 3 1,90 0 0,00 1 0,63 16 10,13 158
6 0 0,00 4 2,07 1 0,52 138 71,50 2 1,04 0 0,00 0 0,00 48 24,87 193
7 1 1,07 1 1,07 5 5,38 66 70,97 0 0,00 0 0,00 0 0,00 20 21,51 93
8 0 0,00 0 0,00 1 0,70 118 82,52 0 0,00 0 0,00 0 0,00 24 16,78 143
9 0 0,00 25 14,37 4 2,30 120 68,96 0 0,00 0 0,00 0 0,00 25 14,37 174
10 0 0,00 2 2,47 1 1,24 64 79,01 0 0,00 0 0,00 0 0,00 14 17,28 81
Estatística descritiva
Média 0,30 6,70 3,40 89,70 1,50 0,00 0,30 20,40
Mediana 0,00 4,00 3,50 89,00 1,00 0,00 0,00 18,50
DP 0,48 7,69 2,07 33,53 1,90 0,00 0,67 11,00
Q1 0,00 2,25 1,25 64,50 0,00 0,00 0,00 14,50
Q3 0,75 6,75 5,00 118,75 2,00 0,00 0,00 23,00
Valor de p 0,991
ANOVA (p≤0,05)
Legenda: IT = início de turno; MD = manutenção de diálogo; NT = inserção de novos tópicos; OS = organização dialógica sequencial; RF = reparação de falhas;
VP = variação de papéis; RS = rotina social; ES = expressão de sentimento; DP = desvio-padrão; Q1 = 1º quartil; Q3 = 3º quartil

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Tabela 3. Habilidades dialógicas de organização sequencial apresentadas pelas crianças das díades de 1 a 10

CM RD I FI
Criança Total
n % n % n % n %
1 23 38,98 24 40,68 1 1,70 11 18,64 59
2 49 52,13 30 31,92 1 1,06 14 14,89 94
3 48 56,47 13 15,29 6 7,06 18 21,18 85
4 27 75,00 6 16,67 0 0,00 3 8,33 36
5 82 68,91 20 16,81 0 0,00 17 14,28 119
6 116 82,27 24 17,02 0 0,00 1 0,71 141
7 55 70,51 23 29,49 0 0,00 0 0,00 78
8 99 89,19 12 10,81 0 0,00 0 0,00 111
9 98 70,00 41 29,29 0 0,00 1 0,71 140
10 83 86,46 13 13,54 0 0,00 0 0,00 96
Estatística descritiva
Média 68,00 20,60 0,80 6,50
Mediana 68,50 21,50 0,00 2,00
DP 32,01 10,20 1,87 7,59
Q1 48,25 13,00 0,00 0,25
Q3 94,25 24,00 0,75 13,25
Valor de p 0,987
ANOVA (p≤0,05)
Legenda: CM = comentário; RD = resposta direta; I = imitação; FI = feedback ao interlocutor; DP = desvio-padrão; Q1 = 1º quartil; Q3 = 3º quartil

apresentada por cada criança em cada HR. Nota-se uma varia- ocorrência foi a reprodução de histórias (RPH), seguida da
ção visualmente significativa de uso dentro da mesma habili- argumentação (ARG) (Tabela 5). As crianças 4 e 6 foram as
dade de uma criança a outra, pode-se observar tal variação pelo únicas a utilizarem as três categorias de HND (RPH, RH e
desvio padrão da tabela apresentada (Tabela 4). ARG). A diferença média no uso de RPH entre as crianças
Dentre as dez crianças, apenas quatro utilizaram as ha- foi de 35,41%, de RH foi de 18,63% e de ARG foi 8,4%.
bilidades narrativo-discursivas (HND), sendo que a maior As habilidades não interativas (HNI) foram usadas por oito

Tabela 4. Habilidades de regulação apresentadas pelas crianças das díades de 1 a 10

AR DAT DAO SO SI CS
Criança Total
n % n % n % n % n % n %
1 17 34 2 4 4 8 0 0 26 52 1 2 50
2 20 21,98 1 1,1 28 30,77 0 0 38 41,76 4 4,39 91
3 10 16,39 2 3,28 11 18,03 1 1,64 29 47,54 8 13,11 61
4 10 24,39 1 2,44 16 39,02 0 0 4 9,76 10 24,39 41
5 20 25 16 20 19 23,75 1 1,25 22 27,5 2 2,5 80
6 3 2,31 43 33,08 48 36,92 0 0 36 27,69 0 0 130
7 0 0 8 15,1 21 39,62 0 0 24 45,28 0 0 53
8 0 0 17 31,48 13 24,08 0 0 23 42,59 1 1,85 54
9 2 2,47 26 32,1 15 18,52 0 0 38 46,91 0 0 81
10 1 2,44 7 17,07 7 17,07 0 0 26 63,41 0 0 41
Estatística descritiva
Média 8,30 12,30 18,20 0,20 23,60 2,60
Mediana 6,50 7,50 15,50 0,00 26,00 1,00
DP 8,26 13,66 12,53 0,42 10,04 3,63
Q1 1,25 2,00 11,50 0,00 23,25 0,00
Q3 15,25 16,75 20,50 0,00 34,25 3,50
Valor de p 0,656
ANOVA (p≤0,05)
Legenda: AR = auto-regulatória; DAT = direcionamento de atenção; DAO = direcionamento de ação; SO = solicitação de objeto; SI = solicitação de informação;
CS = consentimento; DP = desvio-padrão; Q1 = 1º quartil; Q3 = 3º quartil

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Tabela 5. Habilidades narrativo-discursivas apresentadas pelas díades de 1 a 10

RH RPH IH ARG
Criança Total
n % n % n % n %
1 1 8,33 11 91,67 0 0,00 0 0,00 12
2 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0
3 1 100,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 1
4 2 20,00 7 70,00 0 0,00 1 10,00 10
5 0 0,00 8 66,77 0 0,00 4 33,33 12
6 1 16,67 4 66,66 0 0,00 1 16,67 6
7 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0
8 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0
9 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0
10 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0
Estatística descritiva
Média 0,50 3,00 0,00 0,60
Mediana 0,00 0,00 0,00 0,00
DP 0,71 4,22 0,00 1,26
Q1 0,00 0,00 0,00 0,00
Q3 1,00 6,25 0,00 0,75
Valor de p 0,294
ANOVA (p≤0,05)
Legenda: RH = relato de história ou acontecimento; RPH = reprodução de histórias; IH = interpretação de histórias; ARG = argumentação; DP = desvio-padrão;
Q1 = 1º quartil; Q3 = 3º quartil

crianças, sendo que a maioria teve apenas uma ocorrência de de 6 a 8 anos, também utilizaram a habilidade de comentá-
alguma habilidade desta categoria. rios amplamente, seguida pela resposta direta, demostrando
Verificando a estatística descritiva apresentada em todas as a preocupação das crianças em dar sua opinião e responder
tabelas, observam-se os perfis de utilização de cada grupo de as perguntas feitas pelo adulto, independentemente da idade.
HCV, pela análise da frequência de utilização das categorias Realizando a análise de todas as crianças nota-se o maior
que compõem cada HCV. Os perfis foram caracterizados pelos uso das habilidades dialógicas, demonstrando o caráter inte-
intervalos interquartis (1º e 3º quartil), das médias, medianas e racional da situação comunicativa em que as crianças foram
desvios-padrão. Os valores desta análise permitiram a identifi- inseridas. Neste estudo, o ambiente contribuiu para a ocorrência
cação e compreensão da distribuição do uso de cada habilidade de situações interativas, as crianças interagiram diretamente a
e categoria das HCV das crianças avaliadas descritas neste maior parte do tempo com o adulto, seja em atividades dialó-
estudo de caso. gicas ou regulatórias; até mesmo em atividades não diretivas
O valor p, resultante da aplicação do ANOVA realizada como, por exemplo, contando histórias (habilidades narrativo-
sobre o perfil de utilização das categorias componentes de -discursivas). As habilidades não interativas estiveram presentes
cada habilidade comunicativa verbal indica que, em todas as em apenas em algumas díades e, mesmo assim, não foram
análises, não houve diferença entre as crianças da amostra, ou frequentes durante a interação da díade nas gravações analisa-
seja, todas as crianças utilizaram as categorias de cada HCV das. Comparando-se estes dados com estudos realizados com
de modo similar, caracterizando-se assim um perfil pragmático crianças menores, observa-se que crianças com 3 anos, apesar
fidedigno. de utilizarem a mesma gama de habilidades comunicativas que
as crianças da amostra aqui apresentada, ainda fazem uso de
DISCUSSÃO turnos não verbais, o que não foi observado nas crianças deste
estudo. Crianças maiores mantêm diálogos não somente com
As crianças que compuseram a amostra deste trabalho apre- respostas de turnos simples, mas realizando também comen-
sentaram maior frequência de uso de habilidades dialógicas, tários com turnos compostos(6), sendo que crianças com desen-
seguidas de habilidades de regulação. Este perfil demonstra volvimento típico de linguagem de 4 a 5 anos apresentaram um
a preocupação das crianças em estabelecer uma atividade de perfil comunicativo similar ao das crianças deste estudo, tendo
diálogo e também em regular o comportamento do adulto. utilizado amplamente a habilidade comentário(7).
Nas díades apresentadas, as crianças utilizaram, dentre No grupo de habilidades dialógicas, a organização sequen-
as habilidades dialógicas de organização sequencial, prefe- cial dialógica foi a categoria mais utilizada pelas crianças,
rencialmente, a habilidade de comentários – corroborando os demonstrando que elas, na maior parte do tempo, deram con-
resultados obtidos por estudo(7) que, embora realizado com tinuidade ao que o adulto falava, em detrimento da inserção de
crianças menores, mostrou que crianças com desenvolvimento novos tópicos de conversação e início de novos turnos. O mes-
típico utilizavam amplamente a função comentário. No estudo mo foi encontrado em pesquisa anterior(5), que pontuou a troca
aqui apresentado, apesar das crianças estarem na faixa etária do tema da conversação pelas crianças em função, sobretudo,

CoDAS 2013;25(1):76-83
82 Abe CM, Bretanha AC, Bozza A, Ferraro GJK, Lopes-Herrera SA

do seu foco de interesse, sendo que estas pareceram ser subs- estudada, sendo este o motivo pelo qual as comparações aqui
tancialmente coerentes nas suas participações no diálogo. discutidas foram, na maioria das vezes, realizadas com estudos
No presente estudo, as crianças mudaram o tema que esta- com populações de diferentes perfis e faixas etárias.
vam conversando, dando sequencia ao diálogo, de acordo com Sugere-se que pesquisas futuras abordem a correlação entre
a brincadeira que gostariam de iniciar. Dentre as subcategorias as habilidades comunicativas verbais, assim como das cate-
que compõem a categoria de organização dialógica sequencial, gorias e subcategorias enfocadas no estudo aqui apresentado,
as crianças utilizaram mais o comentário, prevalência esta a fim de compreender melhor as habilidades comunicativas
que foi também observada por outros pesquisadores(7,11-13) em verbais de crianças com desenvolvimento típico de linguagem
estudos similares. em situações comunicativas diferenciadas da aqui proposta.
As habilidades de regulação foram a segunda categoria
de habilidades comunicativas verbais mais utilizada pelas COMENTÁRIOS FINAIS
crianças. Dentre elas, as mais frequentes foram: solicitação de
informação e direcionamento de ação. Estes dados mostram Com base na amostra analisada, foi possível concluir que
que as crianças se preocuparam mais em solicitar informações crianças com desenvolvimento típico de linguagem na faixa
aos adultos e direcionar a atenção e a ação do mesmo do que etária de 6 a 8 anos apresentam o perfil pragmático com maior
se auto-regular. As habilidades consentimento e solicitação número de habilidades dialógicas e de regulação, demonstran-
de objeto tiveram baixa frequência em todas as díades, porém do o caráter dialógico da interação destas crianças com um
isto pode ter sido reflexo da situação de interação ser semi- interlocutor familiar.
-estruturada, na qual os brinquedos já estavam à disposição
da criança, não precisando de solicitação direta. A presença AGRADECIMENTOS
de auto-regulação em todas as díades mostra que as crianças
necessitaram focar sua atenção no que estavam fazendo du- À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
rante a interação. Paulo (FAPESP) pelo apoio financeiro a esta pesquisa em
Em poucos momentos os participantes da pesquisa utiliza- forma de bolsa de iniciação científica, sob o processo número
ram as habilidades narrativo-discursivas, fato possivelmente 2009/00682-9.
explicado pela questão das habilidades de narração serem
utilizadas para contar/relatar histórias, o que quase não foi
utilizado em situação lúdica espontânea (não direcionada), * CMA foi responsável pela coleta e tabulação dos dados e elaboração
como é o caso da amostra analisada, apesar de, na situação do artigo; ACB contribuiu com a revisão bibliográfica, coleta de dados e
elaboração do artigo; AB contribuiu com a coleta de dados e elaboração do
semi-estruturada em que foram realizadas as gravações, estarem
artigo; GJKF contribuiu com a análise dos dados e a elaboração do artigo;
disponíveis livros de histórias infantis e outros materiais que SALH orientou o desenvolvimento da pesquisa e elaboração do artigo.
davam margem às atividades narrativas.
Dentre as habilidades narrativo-discursivas, apesar de pouco
utilizadas, notou-se uma maior ocorrência da habilidade de REFERÊNCIAS
reprodução de histórias, o que indica que reproduzir histórias
é mais comum que relatá-las espontaneamente. As habilidades 1. Acosta VM, Moreno A, Ramos V, Quintana A, Espino O. Avaliação
da linguagem: teoria e prática do processo de avaliação infantil do
não interativas não foram frequentes nas díades visto que este
comportamento lingüístico infantil. São Paulo: Santos; 2003. p.279-80.
estudo privilegiou em sua coleta de dados situações interativas. 2. Mayor, A. La pragmática del lenguaje: consideraciones para la
No presente estudo, as crianças apresentaram perfil co- intervención. Leng Comun. 1991;7:17-21.
municativo com uso de habilidades que permitam estabelecer 3. Zorzi JL, Hage SRV. PROC: Protocolo de observação comportamental:
e dar continuidade à atividade comunicativa, demonstrando avaliação de linguagem e aspectos cognitivos infantis. São José dos
Campos (SP): Pulso Editorial, 2004
o caráter prioritariamente dialógico da interação de crianças
4. Lopes-Herrera SA. Habilidades comunicativas verbais em autismo de
com desenvolvimento típico, quando expostas a situações de alto funcionamento e síndrome de Asperger. [dissertação]. São Carlos:
interação espontânea com um adulto familiar. Universidade Federal de São Carlos - Centro de Educação e Ciências
A contribuição direta deste trabalho foi delinear as habili- Humanas; 2000.
dades comunicativas verbais de crianças com desenvolvimento 5. Bretanha AC. A influência da extensão do corpus linguístico no
levantamento do perfil comunicativo pragmático infantil [dissertação].
típico de linguagem em uma idade em que a aquisição das
Bauru: Universidade de São Paulo, Faculdade de Odontologia de Bauru;
habilidades pragmáticas em suas funções primordiais já se 2011.
completou. No entanto, deve-se ressaltar que a amostra de 6. Hage SRV, Resegue MM, Viveiros DCS, Pacheco EF. Análise do perfil
linguagem das crianças foi restrita às atividades lúdicas de das habilidades pragmáticas em crianças pequenas normais. Pro Fono.
interação espontânea, ou seja, o comportamento das crianças 2007 Apr;19(1):49-58.
7. Cervone LM, Fernandes FDM. Análise do perfil comunicativo de
poderia ser diferente em situações cotidianas, assim como se
crianças de 4 e 5 anos na interação com adulto. Rev Soc Bras Fonoaudiol.
pode também questionar se a criança apresentaria o mesmo 2005;10(2):97-105.
perfil ao interagir com um adulto não familiar, com outra 8. Tjus T, Heimann M, Nelson KE. Interaction patterns between children
criança ou em grupo. and their teachers when using a specific multimedia and communication
Há uma dificuldade em encontrar estudos na área sobre strategy: observations from children with autism and mixed intellectual
disabilities. Autism. 2001 Jun;5(2):175-87.
desenvolvimento típico e, principalmente, na faixa etária

CoDAS 2013;25(1):76-83
Análise pragmática de crianças 83

9. Miilher LP, Fernandes FDM. Análise das funções comunicativas discourse of normal and language-disordered children. J Speech Hear
expressas por terapeutas e pacientes do espectro autístico. Pro Fono. 2006 Disord.1982 Feb;47(1):57-62.
Dec;18(3):239-48. 13. Soares EMF, Pereira MMB, Sampaio TMM. Habilidade pragmática e
10. Lopes-Herrera SA, Almeida MA. O uso de habilidades comunicativas Síndrome de Down. Rev CEFAC. 2009;11(4):579-86.
verbais para o aumento da extensão de enunciados no autismo de alto
funcionamento e na Síndrome de Asperger. Pro Fono. 2008;20(1):37-42.
11. Barlow DH, Hersen M, Matthew N. Single case experimental designs:
Strategies for studying behavior change. 2nd ed. New York: Allyn &
Bacon, 1984.
12. Brinton B, Fujiki M. A comparison of request-response sequences in the

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