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ESTUDO DE ENSINAMENTOS ORIENTADOS PELO NOSSO

PRESIDENTE NO CULTO MENSAL


(OUTUBRO/2020)

1. Insensibilidade em relação à religião – Alicerce do Paraíso, vol. 2

De acordo com o senso comum, servir em prol do bem-estar da sociedade ou


fazer feliz o próximo são boas ações e, por isso, apoiá-las e desejar colaborar é a
verdadeira natureza humana. Entretanto, por incrível que pareça, frequentemente vejo
pessoas, e não são poucas, que agem friamente com referência a essa questão.
Parece que, em seu íntimo, pensam da seguinte maneira: "Pouco me importa o bem
da sociedade e dos outros, isso tudo não passa de perda de tempo. O que interessa
sou eu e aquilo que me beneficia. Isso, sim, é ser inteligente.
De outro modo, é impossível ganhar dinheiro ou subir na vida." De fato, o mundo
é mesmo estranho, porque pessoas desse tipo é que são tidas como espertas.
Criaturas assim pensam de forma calculista e materialista quando se deparam
com algum sofrimento. Por exemplo, elas dizem que, no caso de ficarem doentes,
basta-lhes ir ao médico; em assuntos complicados, recorrer à força da lei; a quem não
lhes obedece, é suficiente repreender ou fazê-lo sofrer e, assim, elas vão resolvendo
os problemas da maneira mais simples possível. Como acham que, se estiverem bem,
não importa como estejam os outros, permitem-se fazer extravagâncias.
Ora, por não pensarem também no próximo, não são alvo de consideração
alguma. Os que se juntam à sua volta são apenas interesseiros e, por esse motivo,
quando a situação fica ruim, se afastam.
É natural que justamente tais pessoas vivam em meio a problemas e
reclamações. Por fim, tudo começa a ir mal. Quando fracassam, elas se afobam,
tentando recuperar-se por meio de seu ga23; forçam a situação, que já estava adversa,
e assim, acabam em um estado lamentável, chegando a não conseguir reerguer-se.
Exemplos como esses são muito frequentes na sociedade. Obviamente, pessoas
desse tipo não querem ouvir de forma alguma falar em fé. Elas dizem com desprezo:
"É um absurdo afirmar que existem divindades e budas que nem conseguimos
enxergar; isso não passa de superstição. Eles estão na imaginação humana. Eu
mesmo sou um deus. Por conseguinte, gastar tempo e dinheiro com tais coisas é o
cúmulo da tolice." Assim, elas nos ignoram completamente achando que a fé não
passa de consolo para covardes ou passatempo de quem não tem o que fazer.
Para nós, essas pessoas sofrem de insensibilidade em relação à fé.

8 de abril de 1950

23
Ga: palavra japonesa que significa literalmente "eu/ego". Refere-se ao temperamento humano, geralmente
utilizado para indicar egocentrismo, estar preso às próprias opiniões, impor seu ponto de vista, etc.

2. O que é a verdadeira civilização? – Alicerce do Paraíso, vol. 1

Acredito que minha palestra é bastante original. Pretendo tratar de assuntos que
nunca foram abordados. Até porque não haveria necessidade de eu vir de Atami até
aqui para apresentar o que outras pessoas já disseram. Desejo expor aquilo que ainda
não foi divulgado.
Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que as pessoas afirmam que a cultura da
atualidade é avançada ou que estamos na Era da Cultura, confundindo, desse modo,
os conceitos de cultura e civilização. Na verdade, cultura e civilização são coisas
diferentes. Civilização é um mundo ideal, sem nenhuma selvageria. Já a cultura é o
estágio intermediário da selvageria para atingirmos a civilização. Tanto que o
ideograma ka (化) da palavra bunka (文化 ―cultura‖) é o mesmo utilizado para
expressar algo provisório. Observando a humanidade de hoje, notamos que ela está
fascinada por essa cultura, achando que ela é o que há de melhor e que, fazendo-a
progredir, o mundo se tornará um lugar prazeroso de se viver. Contudo, o mundo
civilizado a que eu me refiro, é diferente daquele que as pessoas têm em mente.
O que é a verdadeira civilização? Em poucas palavras, refere-se
necessariamente a uma época em que a humanidade tenha toda a garantia de uma
vida segura. Todavia, conforme o Sr. Suzuki26 disse há pouco, hoje existem coisas
realmente perigosas e temíveis, como a bomba atômica, as armas biológicas, o Juízo
Final etc. Isso é terrível porque é uma época em que a segurança à vida está
ameaçada. Isso não é um mundo civilizado. Hoje, estamos na era da cultura, isto é, na
fase de transição da selvageria para a civilização.
O que vou falar agora não é sobre cultura, e sim, sobre civilização, ou seja, o que
vem a ser isso. As doenças e as guerras são as que mais põem nossa vida em risco.
Se vivêssemos uma época sem guerras e sem doenças, teríamos garantia de
segurança à vida, e este seria o verdadeiro mundo civilizado. Já estamos na época em
que devemos caminhar em direção a esse mundo. Daí a razão de ser do lema da
Igreja Messiânica Mundial: a construção do mundo isento de doença, pobreza e
conflito, lembrando que a guerra é o conflito em maior escala.
A doença é a origem desses três infortúnios. Costuma-se entender como doença
aquilo que provoca dores, coceira ou outras reações, interpretando-a sempre no
sentido físico. Todavia, não é bem assim. Há dois tipos de doenças: doenças físicas e
doenças espirituais. Dizem que, este ano, a disenteria, a tuberculose e outras doenças
contagiosas aumentaram bastante e, por esse motivo, as pessoas estão
amedrontadas. Entretanto, se hoje não se consegue sequer resolver as doenças
físicas, não será possível formar um mundo civilizado nem mesmo daqui a centenas
ou milhares de anos.
Quanto à pobreza, sua causa é a doença física. Experimente investigar o motivo
da pobreza de uma pessoa. Invariavelmente, é a doença. São casos como a perda de
emprego devido à enfermidade ou a impossibilidade de trabalhar pela mesma razão. A
doença em si e mais a falta de recebimento do salário constituem uma dose dupla de
sofrimento, que se reflete negativamente não só no próprio doente, mas também em
parentes e amigos.
A causa das guerras também é a doença. Trata-se da doença espiritual. É
comum utilizar a expressão ―fabricantes de guerras‖, para denominar aqueles que as
causam e, observando a História, encontramos inúmeros exemplos. Esses indivíduos,
que recebem o título de heróis, têm força e inteligência; mas, no fundo, sofrem de uma
espécie de doença espiritual. Por essa razão, torna-se necessário erradicar não só a
doença física como também a espiritual. Quanto à doença física, as pessoas
acreditam que é possível curá-la através da medicina e se esforçam nesse sentido,
mas não há nada que resolva a espiritual. Para isso, só existe um meio: a religião.
Poderão dizer que, na teoria, isso pode ocorrer, mas surge a dúvida: conseguir-
se-á, na prática, erradicar ambos os tipos de doenças? Sim, através do Johrei, ao qual
o Sr. Suzuki se referiu há pouco. O Johrei extinguirá as doenças físicas e espirituais.
Dessa forma, surgirá o mundo civilizado.
Observando o estado em que se encontra a humanidade e a cultura, concluo que
isto não é civilização. Pelo contrário, a selvageria aumentou enormemente. As guerras
de hoje são muito mais terríveis do que as da época selvagem. Sendo assim,
podemos afirmar que aquilo que atualmente se chama de cultura ou civilização – que é
alvo da ilusão e gratidão da humanidade – na verdade, não passa da parte externa.
Analisando seu conteúdo, veremos que é selvagem, ou melhor, semicivilizado e
semisselvagem.
A impressão que eu tenho é que a cultura contemporânea assemelha-se a uma
bela mulher, vestida com um bonito traje, mas que, quando tira a roupa, se revela
corroída pela sífilis.
Por conseguinte, afirmo que a Igreja Messiânica não é apenas uma religião. Se
fosse possível resolver os problemas do ser humano com a religião, eles já teriam sido
sanados, pois, até o presente, apareceram importantes líderes e fundadores de
religiões, filósofos, grandes homens etc. É verdade que o ser humano progrediu e que
restam poucos grupos que permanecem em um estágio primitivo. Ele conseguiu que
tudo se tornasse mais belo e expressasse mais cultura.
Todavia, ainda não foi possível garantir a segurança à vida porque as religiões
que surgiram até hoje, não possuíam força suficiente. Elas tiraram a humanidade do
estado primitivo e a conduziram à cultura, mas não conseguiram levá-la à civilização.
Falemos das maravilhosas descobertas. Entre elas, há aquelas que são utilizadas
para o mal ao invés de serem empregadas para o bem. Por exemplo, a bomba
atômica pode matar vinte milhões de pessoas de uma só vez. Já a energia
correspondente à porção do tamanho da ponta de um dedo, se fosse utilizada para o
bem, faria funcionar trens ou automóveis por muitos dias. Mesmo o avião, se for
utilizado como meio de transporte, não existe nada mais rápido e útil; porém, se usado
para lançar bombas, não há máquina mais temível. Esta é a cultura científica que
progrediu até hoje. Contudo, falta algo muito importante e, devido a isso, tende-se a
fazer mau uso das coisas. Este é o sofrimento da humanidade. O ponto fundamental
para que as coisas sejam utilizadas para o bem, é a alma. Transformando o mal em
bem, tudo será utilizado em prol deste e, assim, um mundo maravilhoso se
estabelecerá. Jesus Cristo referiu-se a esse mundo com a expressão: ―É chegado o
Reino dos Céus.‖ Buda Sakyamuni, por sua vez, afirmou: ―Após a Destruição da Lei
Búdica, aparecerá Miroku Bossatsu, e surgirá o Mundo de Miroku.‖ Só que ele afirmou
que isso ocorreria após 5,67 bilhões de anos. Acredito, entretanto, que ele quis apenas
referir-se aos números 5, 6 e 7. Se realmente estivesse profetizando algo para daqui a
5,67 bilhões de anos, ele não estaria em seu juízo perfeito, pois não faz nenhum
sentido prever algo para um futuro tão distante. Nessa época, a humanidade já teria
passado por uma mudança tão grande que nem seria possível imaginar. Os
messiânicos conhecem bem o significado dos números 5-6-727. Caso eu fosse explicá-
lo, isso me tomaria bastante tempo e eu não poderia falar sobre o assunto principal.
Com relação à profecia de Jesus Cristo, eu penso que, ao invés de dizer: ―É
chegado o Reino dos Céus‖, ele poderia ter dito: ―Vou construir o Reino dos Céus.‖
Naquela época, contudo, o mundo ainda não havia alcançado o estágio necessário
para isso, ou seja, o progresso da cultura ainda era insuficiente para a construção do
verdadeiro mundo civilizado. Portanto, não havia como ser diferente.
No entanto, a cultura material progrediu, chegando ao nível em que se encontra
atualmente; o progresso foi tal, que se estendeu ao mundo todo. O que eu estou
dizendo pode ser ouvido através dos modernos meios de comunicação, nos quatro
cantos do mundo. Os transportes se desenvolveram tanto, que é possível ir de avião
até os Estados Unidos em apenas um dia. Dessa forma, o progresso da cultura
material já atingiu o ponto em que estão preenchidas quase todas as condições
necessárias ao mundo civilizado. Entretanto, para que algo seja utilizado para o bem,
a alma é fundamental, apesar de ela ainda não ter atingido esse ponto. Então, é
necessário que a humanidade cultive esse tipo de alma e, para tanto, é preciso que ela
seja alertada.
Com tal intuito, escrevo o tempo todo a esse respeito, e os fiéis frequentemente
têm lido.
A propósito, há cerca de seis meses, comecei a escrever um livro intitulado ―A
Criação da Civilização‖. Meu objetivo com essa publicação é esclarecer que a
civilização atual não é a verdadeira civilização e, abordando vários temas como
medicina, política, educação, arte e outros, vou mostrar o que é o verdadeiro mundo
civilizado. A parte que se refere à medicina já está quase pronta, mas tenciono
escrever, ainda este ano, sobre as outras áreas. Quando o livro estiver concluído,
pretendo traduzi-lo para o inglês e tomar providências para que ele seja lido por
professores universitários, cientistas, enfim, por intelectuais do mundo inteiro. Vou
enviá-lo também ao comitê do Prêmio Nobel, o qual, acredito, no início, não o receberá
bem, pois o comitê é constituído por grandes especialistas formados pela cultura
materialista. Todavia, como se trata de um livro que aborda justamente aquilo que
importantes estudiosos estão buscando, acredito que os integrantes da comissão não
deixarão de entendê-lo e exclamar: ―É isso mesmo!‖ Assim, poderiam conceder-me
dez ou vinte Prêmios Nobel. Portanto, quando o livro for publicado, eu gostaria que
todos os japoneses também o lessem.
Dessa forma, paralelamente a esse trabalho, temos o Johrei, por meio do qual as
doenças se curam a contento. Entretanto, ele não cura apenas as doenças: ele cura o
mal da alma. Em termos mais claros, ele retira o mal, que é a natureza animalesca, ou
seja, a maneira de pensar se transforma. Isto é, dissolve-se a parte má e aumenta-se
a parte boa.
Dessa forma, todas as pessoas passam a praticar o bem, sentem a necessidade
de fazer o bem.
Costumo dizer aos nossos fiéis que as pessoas da atualidade estão sempre
pensando em praticar o mal. Mesmo que não estejam pensando em fazê-lo, acham
que é bobagem fazer o bem, que tal prática só traz desvantagens e que se devem
fazer as coisas para tirar vantagens, mantendo as aparências. Contudo, devemos
pensar ao contrário. Faço esta afirmativa porque já houve época em que eu também
não pensava em praticar o bem. Achava melhor viver da forma mais proveitosa
possível. Gradativamente, porém, comecei a ter melhor compreensão sobre Deus
através da fé e vi que estava totalmente equivocado. Então, passei a querer praticar o
bem e sempre buscava um meio para tal. Estava sempre procurando fazer algo em
benefício das outras pessoas, algo que as deixasse felizes e satisfeitas. Com essa
atitude, minha sorte melhorou. Antes de me dedicar exclusivamente à fé, nas ocasiões
em que me preocupei em fazer o bem, só me ocorreram coisas que me deixavam feliz.
Sendo assim, comecei a imaginar o quanto seria benéfico se eu pudesse levar isto a
todas as pessoas.
À medida que eu ia acumulando tal tipo de experiência, comecei a ter plena
compreensão de que realmente Deus e o demônio existiam.
A partir daí, fui submetido a uma fase de aprimoramento espiritual. Com a
ocorrência de vários milagres, pude compreender a grande missão que me era
destinada. Foi assim que instituí a Igreja Messiânica Mundial e estou desenvolvendo
minhas atividades.
Outro ponto que eu gostaria de abordar é o Juízo Final, do cristianismo, e a
Destruição da Lei Búdica, profetizada por Buda Sakyamuni. Apesar de muitos líderes e
fundadores de religiões terem feito profecias semelhantes, tratarei apenas dessas
duas.
O que vem a ser o Juízo Final? Olhando apenas a expressão ―Juízo Final‖, tem-
se a impressão de que Enma, juiz do Mundo Espiritual, se manifestará neste mundo
para fazer o julgamento, mas não é isso. É um ponto de difícil entendimento para os
não fiéis, mas existe aquilo que chamamos de Mundo Espiritual. O mundo onde vemos
e sentimos a matéria, é o Mundo Material. No interior deste, há o Mundo Espiritual e,
entre eles, o Mundo Atmosférico, que já é conhecido. Todavia, o Mundo Espiritual é
desconhecido. Conforme citei há pouco, referentemente à passagem da era da
selvageria para a era da cultura, e desta para a era da civilização, o Universo obedece
a uma constituição tripla: Mundo Material, Mundo Atmosférico e Mundo Espiritual. Há,
ainda, os ciclos do mundo: assim como existe alternância entre o claro e o escuro,
entre o dia e a noite no espaço de vinte e quatro horas, há essa mesma alternância no
espaço de um ano. O claro e o escuro em um ano podem ser comparados ao verão e
ao inverno, respectivamente. Aliás, os raios solares são mais fortes no verão e mais
fracos no inverno, ocasionando o contraste entre o claro e o escuro. E existem
períodos idênticos no espaço de dez e de cem anos. A História registra épocas de paz
e de guerra, que correspondem ao claro e ao escuro. Refiro-me, portanto, a esse
ritmo. Igual período existe no espaço de mil e de dez mil anos.
Até agora, estávamos na escuridão, no período das trevas; vamos passar para o
período da luz, da claridade. Então, a palavra 文明 (bunmei, ―civilização‖) contém o
ideograma 明 (mei), que quer dizer ―claridade‖. Por outro lado, a palavra 文化 (bunka,
―cultura‖) contém o ideograma 化 (ka), que expressa algo provisório e, por isso, não é
adequado. Quando alcançarmos este período, tudo o que existia na era das trevas
passará por uma organização e limpeza. Eu costumo utilizar as expressões ―Mundo da
Noite‖, ―Mundo do Dia‖, ―Cultura da Noite‖, ―Cultura do Dia‖... Muitas coisas da Cultura
da Noite não serão mais necessárias. Por exemplo, durante o dia, não precisamos de
lâmpadas.
Da mesma forma, aquilo que pertencia à Era da Noite se tornará desnecessário e
será destruído.
Julgamento é a separação do que é do dia e do que é da noite. O que for
desnecessário, ficará guardado ou será destruído. A partir de agora, o que for do
Mundo do Dia, será gradativamente criado.
O que se sucederá quando o Mundo Espiritual se tornar claro? Vejamos o ser
humano. Nele, entre a matéria e o espírito, há uma parte líquida, que corresponde ao
ar, algo como vapor d’água. Ela está presente em grande quantidade no corpo
humano. Assim, o ser humano apresenta uma constituição tripla; dela, faz parte o
espírito, que também poderia ser chamado de alma. A alma pertence ao Mundo
Espiritual.
Tornando-se claro este mundo, aqueles cuja alma não corresponder à claridade,
terão suas nuvens espirituais removidas a fim de poder alcançar essa claridade.
Entretanto, essa remoção não se dará de maneira deliberada. A purificação vai ocorrer
naturalmente: o que está sujo, precisa ser limpo. À medida que o Mundo Espiritual vai
clareando, as pessoas com a alma suja passarão por uma limpeza. O sofrimento é
isso. O princípio da doença também está inserido nessa explicação, através da qual é
possível compreendê-lo muito bem.
Até agora não se conhecia o espírito, ou ainda, sua existência era menosprezada.
É uma questão de alma que o Sr. Tokugawa28 mencionou há pouco. A atuação da
alma é algo muito forte, muito grande.
Ontem, fui visitado por uma pessoa que eu não via há cerca de um ano. Apesar
disso, anteontem, sua imagem veio à minha cabeça, e pensei: ―Como ela estará
passando?‖ No dia seguinte, como ela veio me visitar, eu disse para mim mesmo: ―Ah,
o espírito dela veio antes!‖ Digamos, por exemplo, que o Sr. Tokugawa pense: ―O Sr.
Matsunami tem escrito muito.‖ Então, este sonen29 vai até o Sr. Matsunami, entra em
seu corpo e se aloja em sua cabeça. Aí, a imagem do senhor Tokugawa vem à mente.
É como se você pensasse em alguém e ele aparecesse. Em suma, isso é o elo
espiritual, que, neste caso, é o fio condutor do sonen.
É muito interessante interpretar as questões amorosas por meio da atuação dos
elos espirituais. Todavia, no momento, meu objetivo não são as questões amorosas. O
assunto se tornará mais claro para os senhores se ingressarem na nossa fé. O amor é
muito bom, mas as paixões desregradas quase sempre acabam em tragédia. A melhor
maneira de compreender tudo isso é conhecer o lado espiritual e a existência dos elos
espirituais. Isso merece toda a nossa atenção, pois tem relação com vários problemas
e situações da sociedade. É dito que, por trás dos problemas, sempre há mulheres. Ou
ainda, que por trás de um incidente, sempre existe uma mulher. Na verdade, isso se
refere às paixões desenfreadas. Se compreendermos isso, será possível eliminar
grande parte das tragédias e dos males sociais, mas vamos deixar este assunto por
aqui.
Conforme eu estava dizendo há pouco, a questão é o espírito. No momento em
que as nuvens espirituais começarem a ser purificadas para corresponderem à
claridade, se isso se restringir a doenças, ainda estará bom. Caso contrário, se esse
processo se intensificar, dentre outras coisas, as pessoas não resistirão e acabarão
morrendo. O fato de a doença vir aos poucos é bom. Se viesse de uma só vez, seria
fatal. O Juízo Final é isso. Por essa razão, pouco a pouco, o Mundo Espiritual vem
clareando. Se ocorresse de uma só vez, as criaturas perderiam suas vidas. Haveria
mortes em massa. Deus quer evitá-las e, por conseguinte, manda avisos. É vontade
d’Ele que a humanidade seja avisada e salva. E Ele me ordenou que fizesse isso. E é
o que estou realizando.
Buda Sakyamuni e Jesus Cristo fizeram profecias como ―a chegada do Reino dos
Céus‖, a vinda de um mundo melhor. Eles foram os profetas, e eu sou o realizador.
Deus me ordenou que eu realizasse essa profecia, ou seja, que eu construísse o
Paraíso Terrestre, isento de doença, pobreza e conflito. Entretanto, eu não preciso
empreender qualquer esforço, pois não sou eu que faço, é Deus que providencia tudo.
Cabe a mim realizar as coisas que se mostram à minha frente.
Isso é muito fácil, mas exige uma enorme responsabilidade. Provavelmente, em
toda a história da humanidade, não houve ninguém incumbido de uma missão maior
que a minha. Dessa maneira, as profecias de Jesus Cristo e Buda Sakyamuni
começam a fazer sentido; se elas não tivessem possibilidade de ser concretizadas,
seriam falsas.
E falsas profecias significam mentiras. Contudo, seria impossível pessoas tão
magníficas terem mentido. Por conseguinte, mais cedo ou mais tarde, era preciso que
alguém tornasse tais profecias realidade, e o incumbido foi eu. De fato, é complicado
falar sobre um empreendimento de tamanha grandeza. Não me referi, até hoje, ao
assunto justamente por ser extremamente delicado falar sobre algo tão ousado.
Todavia, a época em que a Era da Noite se transforma em Era do Dia, se aproxima
cada vez mais. Por essa razão, para salvar as pessoas, é preciso que o maior número
delas tome conhecimento disso, o quanto antes. Assim sendo, hoje é a primeira vez
que falo diante de um público tão numeroso.
Isso se assemelha ao episódio do Dilúvio citado há pouco pelo Sr. Suzuki. Havia
um homem chamado Noé, que recebeu o seguinte aviso de Deus: ―Virá um grande
dilúvio em breve que atingirá uma grande parte da humanidade. Salve o máximo de
pessoas que puder.‖ Assim, Noé fez um grande alarde, mas quase ninguém acreditou
em suas palavras. Somente sete pessoas as aceitaram como verdadeiras.
Somadas a ele, totalizaram oito pessoas que acreditaram. Quando pensou no que
fazer, Deus ordenou: ―Construa uma arca!‖ A arca de Noé tinha o formato de uma
noz30. Ela tinha esse formato, pois na hora do dilúvio, animais ferozes e grandes
cobras iriam subir no barco. E, para se proteger desse perigo, a arca foi feita assim.
Depois de algum tempo, começou a chover. Há duas versões a respeito: uma diz
que choveu durante quarenta dias seguidos; outra, que foram cem dias. Fossem
quarenta ou cem, o que interessa é que choveu durante vários dias consecutivos. A
água foi subindo cada vez mais até transformar-se em dilúvio. Salvaram-se apenas os
que estavam na arca. Aqueles que se encontravam em barcos comuns ou que
escalaram as montanhas, acabaram perecendo; estes últimos, devorados pelos
animais ferozes. Somente oito pessoas se salvaram, e dizem que os representantes
da raça branca são seus descendentes.
Em linhas gerais, acredito que essa história não é errada.
No Japão, temos a lenda do deus Izanagui-no-Mikoto e da deusa Izanami-no-
Mikoto. Conta-se que, em pé sobre a ponte Ame no Ukibashi31, os dois deuses
abaixaram suas espadas, agitando-as em círculos na superfície da água e, assim,
surgiram as terras. Trata-se, certamente, da ocorrência de uma grande enchente.
Já de acordo com o xintoísmo, houve a ação da maré alta e da maré baixa. A
maré baixa é o recuo das águas, e Izanami-no-Mikoto encarregou-se disso. O
aparecimento das terras deveu-se à maré baixa, fazendo emergir o que estava
submerso. Penso que essa ocorrência corresponde à época do Dilúvio.
Segundo o livro do Apocalipse e outros textos, João Batista faria o batismo pela
água e Jesus Cristo, o batismo pelo fogo. O batismo pela água já se deu através do
Dilúvio. Agora, está para vir o batismo pelo fogo, um extraordinário acontecimento que
tem muitos outros sentidos.
Entretanto, como o meu tempo já está se esgotando, vou parar por aqui.

Palestra de Meishu-Sama no Hibiya Public Hall, Tóquio


22 de maio de 1951

26
Shogo Suzuki, discípulo de Meishu-Sama e um dos pioneiros da expansão da Igreja no Japão.
27
Segundo Meishu-Sama, os algarismos 5, 6 e 7 simbolizam, respectivamente, os elementos fogo, água e terra,
e sua combinação representa a atuação de Miroku Bossatsu.
28
Musei Tokugawa (1894-1971), escritor e radialista japonês.
29
Sonen: Palavra japonesa comumente traduzida como ―pensamento‖, a qual não se limita ao ato de pensar
racionalmente. Seu significado abrange o sentimento, a vontade e a razão.
30
Noz: fruto da espécie Ginkgo biloba.
31
Ame no Ukibashi: Ponte mitológica que une o Céu e a Terra segundo o Kojiki (coletânea de histórias
mitológicas do Japão).

3. O materialismo cria o homem mau – Alicerce do Paraíso, vol. 1

Este título pode soar um pouco forte demais, mas não tenho como evitar, pois
corresponde à pura verdade. Segundo nosso ponto de vista, o materialismo, ou seja, o
ateísmo, pode ser considerado o pensamento mais perigoso que existe. Vejamos.
Falando abertamente, se Deus não existisse, eu agiria às escondidas, ganharia
dinheiro enganando o próximo habilmente; faria o que bem entendesse e, além de
viver uma vida de luxo, estaria numa posição de maior destaque na sociedade.
Entretanto, uma vez que me conscientizei da existência de Deus, de maneira
alguma sou capaz de proceder assim. Tenho de percorrer o caminho da retidão e
tornar-me alguém que deseja a felicidade das outras pessoas. De outra forma, jamais
poderia ser feliz e ter uma vida que valha a pena viver.
O que eu estou dizendo não é mera suposição. Segundo podemos ver através de
inúmeros exemplos que a História nos mostra desde os tempos antigos, por mais que
a pessoa prospere por meio da prática do mal, essa prosperidade não dura muito,
acabando por desmoronar. É um fato que deveria ser percebido facilmente, mas
parece que isso não ocorre. A sociedade continua sendo assolada por crimes graves
como assaltos, fraudes e assassinatos; casos de corrupção de pessoas que ocupam
posições sociais elevadas; notícias alarmistas que geram inquietação; incontável
número de crimes de pequeno e médio porte etc. Tudo isso nasce do pensamento
ateísta; por conseguinte, podemos dizer que ele é a verdadeira fonte dos crimes.
Está, pois, mais do que claro que só há um meio de eliminar os crimes deste
mundo: erradicar o ateísmo. Atualmente, porém, os intelectuais, as autoridades e os
educadores agem na contramão e, confundindo pensamento teísta com superstição,
esperam obter resultados apenas com apoio na lei, na educação, nos sermões etc.
Dessa forma, por mais que se esforcem com afinco, é natural que nada consigam. As
notícias publicadas nos jornais mostram isso claramente.
À vista disso, para purificar a sociedade de tais males, é preciso estimular
intensamente o pensamento teísta. Infelizmente, o Japão encontra-se em tal situação
que, quanto mais instruída é a classe intelectual, maior o número de ateístas.
Igualmente, é comum acreditar que ser ateísta é uma qualificação dos intelectuais e
dos jornalistas de modo que, quanto mais a pessoa enfatiza o ateísmo, mais
progressista ela é considerada. Por esse motivo, se não houver uma reviravolta, no
sentido de que os ateístas passem a ser vistos como ultrapassados, e os teístas, como
a vanguarda intelectual, a sociedade jamais se tornará alegre e feliz.

7 de maio de 1952

4. A defasagem do estudo – Alicerce do Paraíso, vol. 1

Em se tratando de estudo, existe o estudo vivo e o estudo morto. Isso soa


estranho, mas vou esclarecer o que isso significa. Estudar por estudar é estudo morto,
enquanto que estudar para aplicar na vida real é estudo vivo. O estudo pela busca da
Verdade, porém, é algo à parte e muito valioso. Vejamos, em primeiro lugar, o que é
estudo. Atualmente, em todos os níveis da educação escolar, os professores utilizam
os livros didáticos como dimensão vertical, e a prática, como dimensão horizontal38.
Esse método de ensino assumiu a configuração atual a partir do resultado de grandes
esforços e contínuos melhoramentos realizados por muitos eruditos. Logicamente,
novas descobertas e teorias surgiram e desapareceram, foram apresentadas e depois
descartadas, preservando-se apenas o que havia de valor nelas.
Aquilo que, em outra época, era considerado Verdade e respeitado como regra de
ouro, foi desaparecendo sem deixar nenhum vestígio, à medida que apareciam novas
teorias e descobertas que o superavam.
Existem, contudo, aquelas que se mantêm vivas e continuam sendo úteis à
sociedade. Tudo é definido pelo tempo.
Por esse motivo, embora tenhamos plena certeza de que hoje uma teoria seja
absolutamente verdadeira, inalterável e eterna, não podemos saber quando aparecerá
outra que a suplante nem quem o fará. No entanto, quando aparecem novas
descobertas, é natural que elas não se encaixem nos moldes das teorias tradicionais;
quanto menos se ajustarem, maior será seu valor. Resumindo, é uma quebra de
paradigmas, e quanto maior for esse impacto, maior será o seu valor.
Desse modo, se aquilo que pensávamos ser Verdade cair no esquecimento, é
porque surgiu outra Verdade superior àquela. É dessa forma que se processa o
contínuo desenvolvimento da cultura. Analisemos mais profundamente. Através dos
anos, o ensino tradicional se estruturou até atingir o que, em tese, seria uma forma
organizada. Contudo, o rápido avanço da cultura se distancia dessa forma estática
com uma velocidade surpreendente. Um dia desses, ouvi do presidente de uma
grande empresa o seguinte comentário: ―Mesmo que seja muito inteligente, alguém
que concluiu a universidade há mais de dez anos, hoje, muitas vezes, não consegue
lidar com questões práticas. Isso ocorre devido à grande disparidade entre o
conhecimento adquirido naquela época e o momento atual, ou seja, há uma
defasagem entre o estudo e o tempo. Isso se dá principalmente entre os técnicos.‖
Essas palavras vêm ao encontro daquilo que eu explanava, porque, como as teorias
têm como base a época em que foram criadas, ao longo do tempo, se não
acompanharem o progresso da cultura, desaparecerão. Exemplifiquemos.
Dizem que os políticos atuais se tornaram medíocres, o que significa dizer que é
difícil encontrar líderes de grande envergadura. Todo mundo sabe que os atuais
ministros de Estado têm capacidade limitada e se mostram ocupadíssimos em resolver
os problemas do momento; mas suas verdadeiras intenções são evidentes. Isso ocorre
porque, na atualidade, os políticos de nível ministerial são formados pelas
universidades federais e deixam-se levar facilmente pelas velhas teorias. Racionais
em tudo, eles não sabem que existe algo além da razão. É o mesmo que utilizar
carroça numa época em que existem carros, pois só aprenderam a conduzir aquela e
não sabem dirigir carros.
No geral, o estudo desenvolve a inteligência humana, formando, até certo ponto,
uma base, que corresponde ao alicerce de uma construção. É sobre esse alicerce que
se ergue uma nova construção, isto é, coloca-se em prática o estudo, este é
aprimorado e promove inovações. Assim, dá-se uma sintonia do estudo com o
contínuo progresso da cultura. E mais: ele vai além e cumpre o papel de liderança.
Isso, sim, é o estudo vivo. Recentemente, soube que o presidente Truman39, dos
Estados Unidos, por volta de 1921, era um comerciante de miudezas. Creio que foi
essa experiência de vida que o levou até onde ele chegou hoje.
Há mais de dez anos, proclamei uma nova teoria sobre a medicina; porém, tão
logo eu a publiquei em livro40, sua venda foi proibida pelas autoridades. Isso se deu
por três vezes, e como eu não pude fazer nada contra, desisti. O motivo é que minha
tese é contrária aos conhecimentos da medicina atual. Comparando a proporção dos
resultados obtidos pelo meu método com a da medicina atual, vemos que o meu é
dezenas de vezes mais eficaz. Além disso, não se trata de cura temporária, mas
definitiva. O que estou dizendo constitui a pura verdade, sem o mínimo exagero. No
prefácio do livro, eu até escrevi: ―Estou pronto para comprová-lo a qualquer hora.‖
Todavia, uma vez que as autoridades e os especialistas não deram a mínima atenção,
nada mais pude fazer.
O objetivo da medicina é curar todas as doenças e promover a saúde do ser
humano, prolongando-lhe a vida. Que objetivo poderia ter além deste? Por mais que
se preguem teorias, por mais que se aperfeiçoem as instalações e que haja
aparelhagens supersofisticadas, tudo isso será inútil se não corresponder ao referido
objetivo. Baseados apenas na divergência entre a minha teoria e a da medicina
convencional, as autoridades e os especialistas ignoraram a minha, sem ao menos
tentar examiná-la, revelando-se, portanto, verdadeiros traidores do progresso da
cultura. Como os governantes depositam absoluta confiança nessa medicina, só posso
dizer que o homem contemporâneo não passa de uma pobre ovelha indefesa.
Por que eu teria apresentado uma teoria tão ousada? Ora, se eu não tivesse
absoluta convicção, jamais a teria divulgado. Descobri uma grave falha na medicina,
que tanto se orgulha do seu progresso. Entre as grandes descobertas efetuadas até o
presente, nenhuma se compara à que eu fiz, porque não existe nada tão importante
quanto a solução dos problemas relacionados à vida humana. Enquanto a medicina
atual não despertar para essa grave falha, afirmo que ela não será uma existência útil
de fato.
Qualquer um percebe que, ao nosso redor, está aumentando o número de
criaturas sofredoras, acometidas de doenças graves causadas pelos tratamentos
errôneos. Diante disso, não conseguimos ficar indiferentes. No momento, porém, não
me resta outra coisa senão orar a Deus para que as pessoas despertem o quanto
antes.
30 de janeiro de 1950

38
Vertical e horizontal: são dois conceitos de Meishu-Sama muito semelhantes ao Yin e Yang. Vertical é estreito,
profundo, mental, espiritual, oriental etc. Horizontal é largo, superficial, físico, material, ocidental etc.
39
Harry S. Truman (1884-1972), trigésimo terceiro presidente dos Estados Unidos, cujo mandato foi de 1945 a
1953.
40
Refere-se ao livro A medicina do futuro publicado três vezes: em 28/9/1942, 5/2/1943 e 5/10/1943.

5. Religião, educação e política – Alicerce do Paraíso, vol. 5

Podemos dizer que, atualmente, o mundo está realmente repleto de males


sociais. Por toda parte, ocorrem fatos desagradáveis, uns após os outros, e a
intranquilidade das pessoas atingiu o ponto máximo. Portanto, precisamos fazer uma
reflexão profunda para sabermos onde se encontra a causa que levou a sociedade a
estar nestas condições. É evidente que a responsabilidade disso deveria ser assumida
pela Religião, pela Educação e pela Política, e a questão é saber em que ponto se
encontra latente o gravíssimo equívoco nessas três instituições.
A chave para a solução do problema está em conhecer claramente esse
equívoco. Vou apresentá-lo a seguir.
Em primeiro lugar, na área religiosa, com exceção do cristianismo, as demais
religiões tradicionais encontram-se muito defasadas em relação à nossa época. O
mesmo se diz a respeito do budismo, que surgiu há mais de dois mil e seiscentos
anos. Ele visava ao povo hindu e, por mais eminente que tenha sido Sakyamuni e por
mais profundos que foram seus ensinamentos, não há como ambos serem
condizentes com a realidade atual. Mais ainda quando a situação se refere à atual
sociedade japonesa. Os hindus daquela época entregavam-se diariamente às
meditações no interior dos bosques, lendo milhares de sutras para alcançarem a
verdadeira Iluminação espiritual. No entanto, para os homens atuais, que têm uma
vida atarefadíssima, isso é impraticável. Podemos dizer que a atual e lamentável
situação das religiões tradicionais de nada conseguirem fazer além de proteger os
túmulos96, é realmente uma consequência natural. Não temos outra forma senão
afirmar que esta situação crítica na tentativa de fazer apenas com que os
ensinamentos de Buda não sejam extintos, é realmente lamentável. Creio que
ninguém poderá me contestar quando afirmo que elas estão agindo fora do campo da
religião pelo fato de se valerem de atividades sociais como único meio de subsistência.
A seguir, vamos falar sobre a educação, que também se desviou muito do seu
caminho. Sem dúvida, o verdadeiro objetivo da educação é formar seres humanos
extraordinários. Naturalmente, são pessoas que se pautam na justiça e retidão e se
esforçam em prol do desenvolvimento do bem estar social. Embora a verdadeira
educação forme seres humanos que contribuem para a elevação da cultura, a
realidade atual nos mostra que até mesmo indivíduos graduados em instituições
universitárias cometem crimes e prejudicam a sociedade. Diante disso, é preciso que
alguma providência seja tomada.
Então, onde está o erro da educação? Ele reside na demasiada importância dada
ao materialismo. Sobre isso, temos dito incansavelmente que, se o materialismo não
caminhar com o espiritualismo, não será possível sequer cogitar em atingir o
verdadeiro objetivo da educação.
Entretanto, como se trata de um erro que vem de longa data, estamos
plenamente cientes de que enfrentaremos sérios obstáculos se tentarmos corrigi-lo de
uma hora para a outra.
O espiritualismo faz reconhecer a realidade do espírito, o que também significa
reconhecer a existência de Deus. Sem isso, ele não se teria constituído. Naturalmente,
a religião veio se encarregando disso até hoje, mas por falta de uma religião dotada de
força, não foi possível obter resultados plausíveis. Nossa religião surgiu nesse
momento, e justamente ela tornará possível tanto o reconhecimento do espiritualismo,
como o avanço simultâneo da religião e da ciência.
Dessa forma, nascerá um mundo de eterna paz, onde a humanidade poderá viver
uma vida celestial. Por mais que a cultura avance, se a felicidade não for proporcional
ao progresso, será necessário que a humanidade perceba o quanto antes que esse
fato se deve ao pecado de ter ficado exclusivamente fascinada pela cultura material.
No que concerne à política, sua situação também é calamitosa. Tomarei por base
exclusivamente o panorama japonês, que, mesmo sob o domínio militar estrangeiro, é
assaz medíocre. Sendo a política materialista, seu conteúdo torna-se ainda mais
inexpressivo. Podemos afirmar que são raros os políticos de visão ampla e que a
maioria se restringe às tarefas do dia a dia. A causa disso reside nas nuvens
espirituais, que encobrem a alma; portanto, nem mesmo os políticos conseguirão
realizar uma boa política, se não tiverem por base a fé. Já que as religiões tradicionais
não possuem tanta força, a única solução é o aparecimento de uma religião nova e
poderosa.

Jornal Hikari nº 24, 27 de agosto de 1949

96
Meishu-Sama refere-se às seitas budistas que possuem cemitérios nos mesmos terrenos onde se
erguem os templos.

6. A respeito da incorporação espiritual14 – Alicerce do Paraíso, vol. 4

Embora eu venha alertando constantemente sobre os perigos da incorporação


espiritual, ainda há pessoas que continuam a praticá-la. É preciso que parem de uma
vez por todas. Vou explicar detalhadamente porque é algo inadequado.
De oitenta a noventa por cento dos casos, as incorporações são de espíritos de
raposa15, sendo que noventa e nove por cento desses espíritos são malignos. Por
esse motivo, é do seu instinto enganar as pessoas, não se importar em levá-las à
prática do mal e, mais do que isso, divertir-se com a situação. Assim sendo, dentre os
espíritos malignos, os mais ―qualificados‖ passam a se anunciar como divindades,
Nyorai, Bossatsu, Dragão16 etc. Ao incorporarem em alguém, ao mesmo tempo que
fazem com que a própria pessoa pense que é uma divindade, empenham-se para que
outras também acreditem. Por fim, a pessoa incorporada acaba se convencendo
completamente. Passa a querer ser idolatrada como um deus vivo e respeitada por
muitas pessoas, sendo comum entregar-se a uma vida de luxos. Eis a verdadeira
natureza do espírito de raposa.
Entre os espíritos de raposa, os mais experientes possuem considerável poder
sobrenatural. Ao incorporar em uma pessoa, eles conseguem saber tudo o que esta
pensa e, assim, passam a elaborar artimanhas de acordo com sua intenção. Por
exemplo, se a pessoa tiver o pensamento de ser venerada tal qual uma divindade,
esses espíritos incorporam nela e, sorrateiramente, começam a trabalhar nesse
sentido.
Como se sabe, a pessoa incorporada passa a proclamar que é a reencarnação de
alguma magnífica divindade, sendo que o caso mais frequente é denominar-se
Amaterassu-Oomikami. Ao mesmo tempo, os referidos espíritos procuram estabelecer
uma afinidade com a pessoa visada de maneira extremamente astuta, até mesmo
manifestando alguns milagres. É assim que homens e mulheres de bem acabam
caindo em ciladas. Isso tem ocorrido com frequência, na sociedade.
Todos os ―deuses da moda‖ que têm surgido em vários lugares são desse tipo.
Evidentemente, trata-se de espíritos de raposa bastante hábeis que acabam
enganando pessoas ingênuas.
Há, ainda, casos de pessoas que querem enriquecer a todo custo, e quando o
espírito de raposa incorpora, já conhecendo tal desejo, ativa a inteligência ardilosa
delas, fazendo-as ganhar muito dinheiro. Uma vez que esse espírito não escolhe os
meios, na maioria das vezes, as induz a cometer delitos. Por essa razão, apesar de
obterem sucesso temporário, acabam fracassando, havendo aquelas que vão até
parar na prisão.
No caso daqueles que querem seduzir mulheres, o espírito de raposa emprega
métodos muito bem elaborados e faz com que eles se aproximem da mulher desejada
e despertem-lhe o interesse, por meio de atitudes e palavras sedutoras. Há casos em
que podem até mesmo ser violentos, o que é perigoso. Por serem espíritos de animal,
não têm noção de bem e mal. Para eles, basta manipular o ser humano livremente, a
seu bel-prazer, como um bobo. Nesses termos, o espírito de raposa se coloca em um
nível acima do indivíduo. Trata-se de uma completa lástima para o ser humano, tido
como o senhor de todas as criaturas. Uma vez constatada essa realidade, creio que
ele não possa se orgulhar nem um pouco dessa condição.
Além dos espíritos de raposa, os de texugo, de dragão, de tengu maligno, entre
outros, podem incorporar e enganar o ser humano. O espírito de dragão maligno é o
mais temível. Por natureza, ele possui um poder extraordinário e muita inteligência.
Portanto, para ele é fácil manipular livremente o homem e, conforme o caso, não
se importa em ferir pessoas ou tirar-lhes a vida. Conforme me referi anteriormente, por
ocasião do incidente ocorrido no ano passado17, houve a atuação de muitos espíritos
de dragão maligno que agiram com extrema crueldade, a sangue frio. Diferentemente
dos espíritos de raposas, os dragões, que são dotados de capacidade intelectiva, e
uma vez que sua inteligência maligna atua, conseguem manipular livremente o
pensamento humano. Esta é a causa da maioria dos crimes hediondos, cometidos
friamente em nome desta ou daquela ideologia, e também dos males causados à
sociedade.
Comparados aos espíritos de dragão, os espíritos do texugo e os do tengu são
até insignificantes. No entanto, entre a maioria dos tengus, uns possuem força
espiritual e outros, erudição. Pessoas com essas qualificações são manejadas
livremente pelos tengus mais ambiciosos, que se empenham em fazer com que elas
se tornem famosas, prosperem e levem uma vida de ostentação. Assim sendo, casos
de incorporação de tengu são, desde a antiguidade, bastante comuns entre os monges
zen-budistas, estudiosos e fundadores de religião, mas são poucos aqueles cujo
sucesso se prolongue por muito tempo.
Até aqui abordei vários aspectos concernentes à incorporação, mas é importante
que os leitores estejam cientes que, mesmo as divindades malignas não praticam o
mal por força própria. Por trás delas, há um chefe que as controla. Este, sim, é o mais
temível. Perante sua força, a maior parte das divindades fica praticamente sem ação.
Ostensiva ou ocultamente, esse chefe das divindades malignas obstrui
continuamente as atividades da nossa Igreja. Principalmente, por representarmos uma
grande ameaça para tais divindades, quem está à frente dessa batalha contra nós é o
próprio chefe dos chefes. Esta é, de fato, a grande luta entre o bem e o mal.
Há um fator muito importante ao qual devemos ficar atentos. Trata-se do descuido
no qual incorrem os fiéis da nossa Igreja: eles ficam tranquilos, julgando que são
amplamente protegidos e que as divindades malignas não conseguem influenciá-los
tão facilmente. Essa forma de pensar abre uma brecha e permite que sejam possuídos
pelas mesmas. E o que é pior: caso haja, entre esses fiéis, pessoas de fé shojo,
quanto mais fervorosas elas forem, mais facilmente serão influenciadas. É por essa
razão que estou sempre advertindo para esse tipo de fé.
Enfim, quando a divindade maligna atua, ela apresenta argumentos lógicos
totalmente de acordo com o bem shojo, enganando com muita astúcia. Desta forma, a
maioria das pessoas não mede esforços, acreditando plenamente que se trata de um
bem. No entanto, já que a premissa está errada, quanto mais elas trabalham, piores se
mostram os resultados. Então, elas se precipitam cada vez mais. Chegando a esse
ponto, sem dar ouvidos aos conselhos recebidos, vão-se afundando cada vez mais.
Existem pessoas que, diante desse beco sem saída, acabam fracassando. Não
haveria problema se elas despertassem logo, mas quando isso não ocorre, ficam
completamente desorientadas e perdem até mesmo a proteção divina. Creio que
assim podem entender como é temerária a prática do bem de shojo. Eis o porquê da
minha habitual afirmação: ―O bem de shojo é o mal de daijo.‖
O que melhor revela uma pessoa de bem de shojo é o fato de ela sempre adotar
atitudes excêntricas. Isso é o que os espíritos malignos esperam que ocorra. Por essa
razão, seja no que for, jamais incorreremos em erro quando agimos de acordo com o
bom senso. O que as divindades malignas temem é o bom senso e,
consequentemente, eu sempre aconselho as pessoas a respeitá-lo. O número de
exemplos na sociedade para ilustrar o que digo é muito grande. Enquadram-se nesse
grupo, crenças, teorias e ideologias excêntricas, além de religiões mediúnicas. Com
frequência, são veiculadas notícias de problemas e transtornos causados à sociedade
por parte desses segmentos.
Do ponto de vista espiritual, podemos compreender claramente a razão de tais
ocorrências. Os espíritos de raposa, texugo etc., evidentemente são de animais e
estes se encontram abaixo do nível humano. Por conseguinte, se um indivíduo dirige
orações a espíritos de animais que vivem na terra, significa que sua posição está
abaixo da terra. Essa situação corresponde, em termos espirituais, ao fato de o ser
humano ter decaído ao mundo espiritual animal. Uma vez que todas as coisas do
Mundo Espiritual se projetam no Mundo Material, essa pessoa caiu ao Inferno. O
mesmo ocorre com a incorporação espiritual. Como a pessoa se torna um ―depositário‖
de animais, naturalmente desce ao mundo espiritual dos animais e acaba vivendo em
circunstâncias infelizes.
Mesmo em se tratando de espíritos de raposa, nem todos são malignos: alguns
são benignos e denominados espíritos de raposa branca. Após se regenerarem, esses
espíritos trabalham como mensageiros da divindade que protege o local onde a
pessoa nasceu, e são muito prestativos. Espiritualmente, as raposas possuem
peculiaridades diversas e, semelhantemente às que trabalham para o mal, as que
pertencem ao bem, possuem força considerável e realizam bons trabalhos.
Contudo, há exceções no caso de possessão por divindades18. Quando o
antepassado ou o espírito protetor guardião desejam comunicar algo importante,
atuam na pessoa temporariamente, dizendo apenas o estritamente necessário,
limitando o tempo e as palavras sem estender-se. Aproveitando a oportunidade, vou
ensinar a maneira de distinguir se a divindade é benigna ou maligna. As palavras
corretas ligadas às divindades jamais são prolixas. É dito somente o essencial de
forma simples e clara.
No entanto, em se tratando de espírito maligno, fatalmente se expressam mais do
que o necessário e ininterruptamente. Neste caso, não haverá dúvida que se trata de
espírito de raposa. Às vezes, poderá ocorrer o seguinte. O espírito protetor guardião,
desejando comunicar-se verbalmente com a pessoa, atua por meio do espírito da
raposa por saber que este tem facilidade de incorporar e falar a linguagem humana.
Em tais casos, o espírito de raposa poderá se expor além da conta, revelando sua
verdadeira natureza. Por esse motivo, devem acautelar-se ao máximo.

Jornal Eiko nº 133, 5 de dezembro de 1951

14
Título anterior: ―Incorporação e encosto‖
15
Espírito de raposa: as raposas, em japonês kitsune, são seres presentes na mitologia japonesa. As histórias as
descrevem como seres inteligentes e com capacidades mágicas que aumentam com a idade e sabedoria. Entre
estes poderes mágicos, a habilidade de assumir a forma humana — normalmente na forma de uma mulher.
16
Nyorai, Bossatsu, Dragão: são qualificações atribuídas às divindades, por exemplo: Komyo-Nyorai, Kanzeon-
Bossatsu, Dragão Dourado.
17
Segundo o livro Luz do Oriente, vol. 2, em 29 de maio de 1950, Meishu-Sama foi detido sob a suspeita de um
caso de suborno envolvendo a Igreja Messiânica Mundial. Foi libertado em 19 de junho do mesmo ano, após ter
sido duramente interrogado pelas autoridades.
18
Vide Ensinamento ―Possessão por divindades‖ – Alicerce do Paraíso, vol. 2.

7. Elos espirituais – Alicerce do Paraíso, vol. 2

Até agora, a expressão "elos espirituais" tem sido pouco utilizada, talvez por
ainda não se conhecer sua importância e também pelo fato de eles serem invisíveis e
mais rarefeitos que o ar. Entretanto, não se deve menosprezar a influência que eles
exercem tanto nas coisas como no ser humano. Os elos espirituais são a causa da
felicidade e da infelicidade humana. Em sentido amplo, influenciam até mesmo a
História. Portanto, é imprescindível que as pessoas conheçam seu significado.
Antes de mais nada, quero esclarecer que minha explicação sobre os elos
espirituais é Ciência, Religião, e também, um conhecimento que existirá no futuro. O
princípio da relatividade, os raios cósmicos e todas as questões referentes à
sociedade e ao indivíduo: enfim, tudo se relaciona com os elos espirituais. Vejamos a
relação existente entre eles e o ser humano.
Tomemos como exemplo o próprio leitor. Não se pode calcular quantos elos
espirituais estão ligados a ele. Podem ser poucos, dezenas, centenas ou milhares. Há
elos espirituais grossos e finos, compridos e curtos, corretos e incorretos, que
constantemente exercem alguma influência e provocam mudanças no ser humano.
Portanto, não é exagero dizer que o homem se mantém vivo graças aos elos
espirituais.
Entre estes, o mais grosso é o que existe entre um casal; a seguir, o que existe
entre pais e filhos, entre irmãos, entre tios e sobrinhos, entre primos, amigos,
conhecidos etc. tornando-se, nessa ordem, cada vez mais fino. Creio que as
expressões "laços de afinidade" e "vínculos de afinidade ", usadas desde a
antiguidade, referem-se aos elos espirituais.
Os elos espirituais sempre se modificam, tornando-se grossos ou finos. Quando
há harmonia entre o casal, ele é grosso e brilhante; quando os cônjuges estão em
conflito, ele torna-se mais fino e perde o brilho. O mesmo se verifica entre pais e filhos,
entre irmãos etc. Da mesma forma, novos elos podem se formar quando se fazem
novos amigos e, principalmente, quando se começa um namoro.
Chegando o namoro ao ápice, o elo espiritual entre o casal torna-se infinitamente
grosso e a troca de sentimentos, intensa: não apenas sensações agradáveis e sutis,
como também sentimentos de tristeza e saudade são transmitidas entre eles. Ao final,
o elo espiritual é potencializado ao extremo a ponto de uma separação não ser mais
possível. Conforme todos sabem, nesse caso, mesmo que uma terceira pessoa tente
convencer do contrário, além de não obter nenhum resultado, fará aumentar ainda
mais o calor da paixão. Quando duas pessoas se amam, é como o polo positivo (yang)
e o polo negativo (yin) em eletricidade, que geram a energia elétrica ao entrarem em
contato; nesse caso, o elo espiritual passa a ter função de fio elétrico. Tempos atrás,
extinguindo espiritualmente o polo positivo (yang), salvei duas estudantes que,
envolvidas num amor lésbico, estavam a um passo de cometerem duplo suicídio.
Consegui que a moça que representava o polo positivo voltasse à normalidade em
cerca de uma semana. Esfriado o ardor da paixão, a outra também voltou à
normalidade.
Dessa forma, o elo espiritual entre pessoas que não têm laços de
consanguinidade pode ser rompido, mas não é possível romper o que existe entre
parentes consanguíneos. No caso de elos espirituais entre pais e filhos, existe um
ponto ao qual se deve prestar atenção: como eles sempre estão pensando uns nos
outros, há um reflexo mútuo, e a índole dos filhos sofre a influência da índole dos pais,
por intermédio do elo espiritual.
Portanto, se os pais desejam melhorar os filhos, em primeiro lugar devem
melhorar o próprio espírito. Frequentemente, vemos pais que repreendem os filhos,
apesar de eles próprios não terem uma conduta adequada. Isso surte pouco efeito, e o
motivo é o que acabamos de expor. Muitas vezes, entretanto, nós nos perguntamos:
por que pais tão maravilhosos têm um filho delinquente? A verdade é que esses pais
são boas pessoas por interesse e apenas na aparência, mas a alma está nublada, e
isso se reflete no filho. No caso de dois irmãos, em que um é bom e o outro é mau, o
motivo tem relação com vidas passadas ou com os pecados dos pais.
Vou começar explicando pelo princípio da reencarnação. O ser humano, após a
morte, vai para o Mundo Espiritual, isto é, nasce naquele mundo. No budismo, isso é
chamado de "ir para nascer".
A partir da perspectiva do Mundo Espiritual, isso faz sentido. Ali se efetua a
purificação das impurezas e dos pecados cometidos no Mundo Material, e os espíritos
que atingiram certo grau de purificação voltam a nascer neste mundo, ou melhor,
reencarnam. Todavia, há aqueles que foram maus em vida e, no momento da morte,
devido às penalidades imputadas e a outros motivos, se arrependem e compreendem
que não se deve praticar o mal de forma alguma. Ao reencarnarem, fazem o firme
propósito de se tornarem virtuosos na próxima vida e se dedicam enormemente ao
bem. Vemos, pois, por este princípio, que, embora alguém seja muito bom nesta vida,
na encarnação anterior pode ter sido um grande perverso.
Existem, ainda, muitas pessoas que não acreditam na vida após a morte e, por
isso, depois que morrem, não conseguem viver em paz no Mundo Espiritual. Pelo
apego à vida, reencarnam antes de estarem suficientemente purificadas. Assim sendo,
devido ao fato de lhes restarem impurezas e pecados de vidas passadas, ocorrem
ações purificadoras nesta vida. Por tais ações serem sofrimentos, o fato de uma
pessoa ser desafortunada, apesar de ser boa desde que nasceu, é devido a isso.
Gostaria de apresentar, a seguir, um fato marcante relacionado à reencarnação.
Há crianças que nascem com feições de velho e só dois ou três meses depois é que
tomam feições normais de bebê. Isso se verifica por se tratar da reencarnação de
idosos. Quem já viu casos assim, haverá de concordar comigo.
Voltando ao assunto da influência dos pais sobre os filhos, temos o caso do
reflexo dos pensamentos e sentimentos incorretos dos pais sobre um dos filhos, o qual
se torna mau, ao passo que a consciência - o lado bom - se reflete no outro filho e, por
isso, este se torna bondoso.
Ocorre também, com frequência, o seguinte. Quando os pais acumulam fortuna
ilícita, os antepassados, cientes de que se não acabar com essa fortuna a família não
terá prosperidade, escolhem um descendente e fazem com que este gaste todo o
dinheiro como água, até acabar com a fortuna da família. Na verdade, quem foi
escolhido como filho esbanjador está desempenhando o importante papel de salvar a
família.
Desconhecendo essa verdade, as pessoas acham que tal filho é um desvirtuado
que acabou com a fortuna dos pais. Contudo, na realidade, ele é digno de pena.
O ser humano está ligado por elos espirituais não só aos parentes e amigos
vivos, mas também aos que se encontram no Mundo Espiritual. Existem, ainda, o elo
espiritual que se liga às divindades do bem, e aquele que pertence às divindades do
mal. Evidentemente, as divindades do bem estimulam a prática do bem e as do mal, a
prática do mal. O ser humano é manejado constantemente pelo bem ou pelo mal.
O espírito que foi purificado até certo ponto no Mundo Espiritual é escolhido como
espírito protetor guardião, o qual protege a pessoa confiada à sua guarda, por meio do
elo espiritual. Ou seja, quando ela está sujeita a um perigo iminente, o espírito protetor
guardião emite-lhe um aviso de perigo e tenta salvá-la. Como exemplo disso, podemos
citar o caso de uma pessoa que vai embarcar em um trem mas que, por ter se
atrasado ou por algum outro impedimento, não o pega, tomando o trem seguinte. Aí,
ocorre um desastre com o trem que ela não tomou, e muitos morrem ou ficam feridos.
Isso se dá graças ao trabalho do espírito protetor guardião, que conhece
antecipadamente o destino de quem lhe fora confiado no Mundo Material e procura
avisá-lo, utilizando-se de vários meios.
A quantidade de elos espirituais varia de acordo com o grau de influência da
pessoa. Vejamos exemplos de pessoas que os possuem em grande número. Numa
família, o responsável possui elos com familiares, empregados, parentes e amigos.
Tratando-se do presidente de uma firma, este possui elos com todos os funcionários.
Se for pessoa pública, por exemplo, representante de bairro, subprefeito, prefeito,
governador, primeiro-ministro, presidente ou monarca, todos possuem elos espirituais
com aqueles que estão sob sua administração ou governo. Quanto maior a influência
da pessoa, maior o número de seus elos espirituais. Sendo assim, o caráter de um
líder deve ser nobre, pois, se sua alma estiver nublada, isso se refletirá sobre grande
número de pessoas, atuando maleficamente sobre suas ideias. O primeiro-ministro de
um país, por exemplo, deve ser uma pessoa de caráter ilibado e de muita sabedoria.
Caso contrário, o pensamento dos cidadãos se degrada, a moral relaxa, o número de
criminosos torna-se cada vez maior e a responsabilidade de tudo isso caberá aos
governantes. Os educadores, em especial, cientes de que seu caráter se reflete sobre
os alunos por meio dos elos espirituais, devem tornar-se pessoas dignas de exercerem
com honradez essa profissão, procurando constantemente polir a alma.
Especialmente os religiosos, como o fundador de uma religião, seu presidente e
seus sacerdotes, devem ter em mente que, por serem reverenciados como divindades
por grande número de fiéis, sua alma possui um notável poder de influência sobre as
pessoas. Se praticarem atos condenáveis, aproveitando-se de sua posição, tais atos
se refletirão no conjunto dos fiéis, e a decadência dessa religião será inevitável.
Casos como esses são do conhecimento de todos. No entanto, os elos espirituais
não se limitam aos seres humanos. As divindades também se ligam aos seres
humanos por meio dos elos. A diferença é que os elos que nos chegam das
divindades são de luz intensa. Em geral, os elos dos seres humanos são fios cinza-
claro, sem luz, sendo que os de pessoas de alma elevada são de luz tênue. Quanto
mais perversa for a pessoa, mais escuros serão os elos. Comumente, ao se escolher
amigos, deseja-se que eles sejam boas pessoas, pois, misturando-se com o bem, o
ser humano torna-se bom, e misturando-se com o mal, torna-se mau, devido ao reflexo
dos elos espirituais.
Mesmo entre as divindades, há as do bem e as do mal. Uma vez que os elos
espirituais das divindades do bem são de luz, ao reverenciá-las e orar constantemente
a elas, o ser humano tem sua alma purificada.
Já dos espíritos malignos, ao invés de luz, a pessoa recebe influências maléficas,
que corrompem suas ideias, e ela acaba tornando-se infeliz.
Portanto, ao professar uma fé, é essencial discernir se a divindade dessa fé é ou
não benigna. Mesmo entre as divindades do bem, a intensidade da luz varia de acordo
com a hierarquia divina. Quanto mais elevada ela for, maior será o número de milagres
entre os fiéis, pois a luz dos seus elos espirituais é muito mais forte.
Acima, expus resumidamente o significado dos elos espirituais relacionados ao
ser humano. Contudo, devo dizer que os elos espirituais atuam não só nos humanos,
mas também nas demais coisas. Por exemplo: a casa onde residimos, os objetos que
apreciamos e sempre usamos, entre os quais roupas e acessórios e, principalmente,
as coisas que mais estimamos, possuem conosco um elo espiritual mais grosso.
Numa antiga revista de pesquisas parapsicológicas dos Estados Unidos, foi
publicada uma reportagem sobre uma senhora que tinha uma capacidade misteriosa:
pelos objetos, ela identificava a fisionomia, a idade e as ações mais recentes do seu
dono. Quando olhava fixamente para o objeto, a imagem do dono surgia estampada
nele como uma fotografia devido aos elos espirituais. Por intermédio desse exemplo,
podemos perceber como é sutil e misteriosamente profunda a atuação dos elos
espirituais.
Ultimamente, têm sido realizadas pesquisas científicas sobre os chamados raios
cósmicos, os quais, a meu ver, são os elos espirituais que unem a Terra aos outros
astros. Na verdade, a Terra mantém o equilíbrio no espaço graças aos elos espirituais
dos astros ao seu redor, que a atraem. Esses elos, cujo número é incalculável -
milhões ou bilhões - penetram até o centro da Terra.
Aproveitando a oportunidade, vou explicar rapidamente a relação entre o céu e a
Terra. Eles parecem dois espelhos, refletindo um ao outro. Há dois tipos de corpos
celestes: os luminosos e os escuros. Por não ter luz, o corpo celeste escuro não é
visível aos olhos humanos.
Ano a ano, no entanto, esses corpos celestes se tornam luminosos e aumentam
de número. Por que eles se transformam em corpos luminosos? É porque existe no
Universo a ação de endurecimento de matérias. Ao atingir o máximo de enrijecimento,
o corpo celeste começa a brilhar. É por esse princípio que o mineral mais duro
existente na Terra - o diamante - é o que mais brilha. Portanto, na época da criação do
nosso planeta, o número de corpos luminosos era tão pequeno quanto o das estrelas
no alvorecer. O aumento do número de corpos luminosos no céu cresce
proporcionalmente ao aumento da população na Terra, pois eles refletem um ao outro
como dois espelhos. Portanto, não se pode mensurar o quanto a população humana e
o número de corpos luminosos aumentarão no futuro. Frequentemente, os astrônomos
descobrem novos astros, mas o que realmente ocorre é a transformação de um corpo
escuro em corpo luminoso, o qual passa a ser percebido pelos olhos humanos. Os
meteoros nada mais são que a desintegração de corpos celestes, e os meteoritos são
fragmentos oriundos disso.
Além dos grandes corpos celestes, como Júpiter, Marte, Saturno, Vênus e
Mercúrio, existe uma infinidade de outros, de tamanhos grande, médio e pequeno, e
todos exercem influência sobre o planeta Terra e a humanidade. Assim, da mesma
forma que existem os cinco grandes planetas citados, em cada época, existem cinco
personalidades mundiais. Também acho interessante comparar o ser humano aos
astros e, referindo-se a personalidades renomadas, falar em "aparecimento ou queda
de uma grande estrela".
A História registra que, no Ocidente, houve uma época em que a astrologia se
tornou bem popular, e os sacerdotes a utilizavam para analisar as doenças, para ver a
boa e a má sorte, a felicidade ou a infelicidade etc. Na China, por exemplo, a ciência
da adivinhação também tomava por base os nove planetas. Penso que não foi sem
motivo que os antigos tinham interesse pelos astros.
Existe a teoria que há vida no planeta Marte, mas isso é um equívoco. No meu
entendimento, existem seres vivos somente no planeta Terra, que é o centro do
Universo. Posto que tudo existe em prol da humanidade, é preciso refletir sobre o
quanto o ser humano é elevado.

5 de setembro de 1948

8) A reencarnação – Alicerce do Paraíso, vol. 3

O tempo que o ser humano leva para reencarnar é bastante variável. E a causa
dessa variação é a vontade de cada pessoa. Por exemplo, no momento da morte,
quanto mais apego a este mundo a pessoa tem, mais cedo reencarna. Todavia, as
consequências não são boas. Uma vez que o local onde o processo de purificação se
realiza com maior rigorosidade é o Mundo Espiritual, quanto mais tempo o espírito lá
permanecer, mais purificado se tornará. E, quanto mais purificado estiver o corpo
espiritual ao reencarnar, mais feliz a pessoa será. Assim sendo, no caso de
reencarnação prematura, pelo fato de ainda restarem impurezas, o processo de
purificação deverá ocorrer após reencarnar neste mundo. Uma vez que o processo de
purificação neste mundo traduz-se em sofrimentos como doença, pobreza, infortúnio
etc., evidentemente, a pessoa terá um destino infeliz.
O fato de uma pessoa ser feliz ou não, desde o seu nascimento, na maioria das
vezes, deve-se ao que acabamos de expor. É preciso saber, portanto, que a felicidade
ou a infelicidade não são mero acaso, existindo motivos para tal.
Há outra causa para a variação do tempo de reencarnação. Quando familiares,
parentes e descendentes do falecido lhe prestam homenagens póstumas e oferecem
cultos de sufrágio, realizando-os com todo amor e sinceridade, ou quando se
empenham em somar virtudes praticando o bem, ajudando o semelhante com amor e
compaixão, ou ainda, quando trabalham em benefício da sociedade etc., tais práticas
contribuem para a aceleração do processo de purificação daqueles espíritos. Por esse
motivo, a expressão do amor e da devoção filial aos pais não deve se limitar ao
período em que estes se encontram neste mundo. Na verdade, expressar o amor e a
devoção após a morte deles, por meio de cultos e da soma de virtudes, é ainda mais
significativo. Em geral, costuma-se dizer: ―Quando os filhos desejam praticar a
devoção filial, seus pais já se foram‖, mas isso é porque se desconhece a realidade do
Mundo Espiritual. A reencarnação prematura explica-se não só pelo apego da própria
pessoa, como também pelo apego dos familiares. É frequente ver mães que
engravidam e dão à luz logo após a morte de um filho querido; nestes casos, isso
significa que houve uma reencarnação muito rápida devido ao apego delas em relação
ao filho que morreu. Normalmente, crianças que nascem nessas circunstâncias não
serão muito felizes.

23 e outubro de 1943

9) Constituição do Mundo Espiritual – Alicerce do Paraíso, vol. 2

Como explanei em outras oportunidades, o Mundo Espiritual está constituído de


três planos: Paraíso, Intermediário e Inferno, subdivididos em nove subplanos. A
diferença entre cada plano é determinada pela luz e calor. No plano mais elevado, a
luz e o calor são extremamente intensos; o Inferno, que é o mais baixo, caracteriza-se
por ser um mundo de escuridão e de ausência de calor; o Plano Intermediário situa-se
entre os dois e equivale ao Mundo Material. O fato de existirem pessoas felizes e
infelizes no Mundo Material ocorre porque elas estão em níveis condizentes com o
Paraíso e o Inferno.
No Paraíso mais elevado, ou seja, no Primeiro Paraíso, a luz e o calor são muito
fortes, os seres celestiais que lá habitam vivem quase nus. Poderão ter uma ideia
disso observando as imagens das divindades búdicas como Nyorai, Bossatsu e outras,
que estão representadas com poucas vestes. À medida que se desce para o Segundo
e o Terceiro Paraíso, a luz e o calor diminuem gradativamente. Suponhamos que um
espírito fosse elevado do Inferno direto para o Paraíso; ele seria ofuscado pela intensa
luz e, não suportando o sofrimento causado pelo calor, retornaria ao Inferno. Isso é
idêntico ao que se passa no Mundo Material: mesmo que uma pessoa seja promovida,
se a posição não lhe for condizente, ela sofrerá.
Em cada subplano do Paraíso Xintoísta, existe uma divindade que o rege. O
Primeiro Paraíso é regido por Amaterassu Oomikami - divindade do Sol; o Segundo
Paraíso, pelas divindades da Lua, Tsukiyomi-no-mikoto e Kamu-Sussanoo-no-mikoto;
e o Terceiro Paraíso, pela divindade Wakahimeguimi-no-mikoto.
O Mundo Espiritual Budista está em um subplano abaixo do Mundo Espiritual
Xintoísta, e seu nível mais elevado corresponde ao Segundo Paraíso Xintoísta, não
possuindo, portanto, o Primeiro Paraíso.
O Segundo Paraíso Budista é regido por Komyo-Nyorai (Kanzeon Bossatsu) e o
Terceiro, por Amida-Nyorai e Buda Sakyamuni. No Mundo Espiritual, também existem
as várias organizações religiosas: as treze seitas do xintoísmo sectário, as cinquenta e
seis seitas do budismo, assim como todas as suas ramificações. Em cada uma delas
existem suas divindades e seus respectivos fundadores. Por exemplo, no xintoísmo,
Okuninushi-no-mikoto, que rege a seita Taisha-Kyo; Kunitokotati-no-mikoto, a seita
Ontake-Kyo; as divindades Tohashira43, a seita Tenrikyo. No budismo, ocorre o
mesmo.
Amida rege a seita Shinshu; Daruma Daishi, a seita Zen; Kanzeon Bossatsu, a
seita Tendai etc. Os fundadores de seitas, como Kobo, Shinran, Nichiren, Dengyo,
Honen e outros, atuam como orientadores de cada uma delas. Assim, os espíritos das
pessoas que tinham religião durante a vida terrena, ao entrarem no Mundo Espiritual,
se filiam à organização à que elas pertenciam. Não se pode calcular o quanto são
mais felizes que os espíritos dos que não possuem uma crença, pois estes, por não
terem uma organização à qual se filiar, ficam perdidos e confusos. A expressão "ser
um espírito errante", que é utilizada desde épocas remotas, refere-se exatamente aos
espíritos descrentes que perambulam pelo Plano Intermediário.
Assim sendo, quem desconhece o Mundo Espiritual e não crê na vida após a
morte, ao passar para aquele mundo, não consegue um lugar tranquilo para viver e,
durante certo tempo, permanece atordoado.
Como exemplo, citarei um caso ocorrido há alguns anos. Soube que, durante uma
reunião de estudos de parapsicologia, o espírito do famoso romancista Roka Tokutomi
(1868 - 1927) manifestou-se por intermédio de um médium. Chamaram, então, a viúva,
a qual, pela maneira como o espírito falava e se comportava, confirmou que se tratava
do falecido marido. Fizeram-lhe perguntas, mas as respostas eram completamente
sem nexo. O motivo é que, em vida, ele não acreditava na existência do Mundo
Espiritual. Vemos que, mesmo pessoas que eram eminentes neste mundo como esse
escritor, no Mundo Espiritual acabam ficando em tal situação. Por conseguinte, as
pessoas, durante a vida terrena, precisam crer na existência do Mundo Espiritual e se
preparar para a vida após a morte.
Que tipo de lugar é o Paraíso, ou melhor, será que ele realmente existe? A
maioria pensa que isso não passa de fantasia dos homens da antiguidade, mas eu
tenho plena convicção da sua existência.
Há um episódio a respeito disso. Muito tempo atrás, um bonzo ilustre e um
estudioso discutiam sobre a existência do Inferno e do Paraíso após a morte. Ao final
do debate, o sacerdote concluiu que eles existem, e o estudioso, que não existem.
Enfim, alegando que, para ter certeza, não havia outro meio senão morrer, o religioso
sugeriu que ambos se matassem e, em vista disso, o intelectual se rendeu.
O assunto não é para brincadeira: o que o bonzo disse era verdade. Se existisse
a possibilidade de conhecer o Mundo Espiritual sem precisar morrer, seria uma grande
felicidade. Por esse motivo, gostaria de apresentar, a seguir, alguns fatos que pude
comprovar pelas minhas experiências.
Uma senhora de trinta anos, esposa do diretor de uma empresa, recorreu à minha
ajuda por estar gravemente enferma. Como já tinha sido desenganada pelo médico,
seus familiares me pediram encarecidamente que a salvasse.
Ela residia a cerca de quarenta quilômetros de distância, razão pela qual não me
era possível visitá-la com a frequência que o caso requeria. Por conseguinte, eu a
trouxe de carro imediatamente para minha casa. Pensando na possibilidade de ocorrer
o pior durante a viagem, pedi ao marido que também viesse junto. Eu, ao mesmo
tempo em que a amparava com uma das mãos, ministrava-lhe Johrei com a outra e,
assim, chegamos à minha residência sem qualquer contratempo.
De madrugada, a acompanhante da doente veio me chamar e corri para o quarto
onde ela se encontrava. Segurando minha mão com força, ela me disse: "Sinto que
algo vai sair do meu corpo e estou com muito medo. Deixe-me segurar sua mão.
Tenho o pressentimento de que vou morrer hoje. Gostaria que chamasse meus
familiares com urgência."
Telefonei-lhes em seguida e, quando eles chegaram de carro, acompanhados do
médico da firma do marido, já havia decorrido mais de uma hora. A essa altura, ela
estava em coma, com a pulsação fraca.
O médico examinou-a e disse que sua morte era questão de horas. No entanto, a
enferma continuou em estado de coma, rodeada pelos familiares, sem alteração do
quadro até a noite. Por volta das vinte horas, repentinamente, ela abriu os olhos e
começou a olhar à sua volta e, admirada, disse: "Estive num local tão bonito, que nem
sei como descrevê-lo. Era um jardim totalmente florido, onde se encontravam muitos
entes celestiais de rara beleza. Mais adiante, ao fundo, um senhor de ares nobres,
semelhante à figura de Kanzeon Bossatsu que se vê em pinturas sacras, olhou em
minha direção e sorriu. Ajoelhei-me em agradecimento e, justo nesse momento, acabei
despertando. Agora, estou me sentindo tão bem, como não acontecia desde que
adoeci."
No dia seguinte, ela não tinha mais nenhuma dor ou sofrimento; na verdade, ela
se restabeleceu por completo, restando apenas um pouco de fraqueza. Após
aproximadamente um mês, ela retornou ao seu estado normal. Esse exemplo nos
mostra que o espírito daquela senhora saiu do corpo por alguns instantes, foi até o
Segundo Paraíso Budista e lá teve seus pecados e impurezas purificados por Kanzeon
Bossatsu.
Outro exemplo. Uma jovem de aproximadamente vinte anos foi curada de uma
tuberculose pulmonar grave. Depois de aproximadamente um ano, teve uma recaída e
morreu. Então, fiz o sufrágio do seu espírito. Essa jovem tinha um irmão mais velho
problemático, que era beberrão e preguiçoso. Certo dia, dois ou três meses após o
falecimento da moça, ele estava sentado na sala e notou uma espécie de nuvem lilás
a alguns metros à sua frente, no alto. Essa nuvem começou a baixar devagar, e ele viu
sua falecida irmã em pé sobre a nuvem. Olhando bem, notou que seu semblante
estava mais belo do que quando era viva e que usava uma elegante vestimenta
semelhante aos quimonos da antiga nobreza. Ela, então, lhe disse carinhosamente:
"Eu vim aconselhá-lo a abandonar a bebida. Por favor, pense no bem da nossa família
e no seu próprio e deixe o álcool." Dizendo isso, desapareceu na nuvem lilás em
direção ao alto.
Decorridos alguns dias, aconteceu a mesma coisa, e o fato tornou a se repetir
pouco tempo depois. Na terceira vez, uma bela ponte curva, toda pintada de vermelho,
surgiu diante do rapaz, e a irmã, descendo da nuvem lilás, atravessou a ponte e lhe
disse: "É a terceira vez que venho. A partir de hoje, não terei mais permissão de Deus
para vir. Esta é a última vez." Novamente, aconselhou que ele abandonasse a bebida.
Depois disso, o fato não se repetiu. Evidentemente, nesse caso, a pessoa teve
temporariamente a capacidade da visão espiritual.
Este é um exemplo real que ilustra muito bem a descida de um habitante do
Paraíso ao Mundo Material. Outra observação interessante é o fato de que o referido
irmão não professava nenhuma fé e não tinha qualquer interesse por questões
espirituais. Portanto, como não havia influência do subconsciente, evidentemente,
aquela visão não foi fruto da sua imaginação. Foi sua mãe quem me contou essa
história.
O próximo exemplo é de um rapaz de pouco mais de vinte anos com uma doença
que não era do corpo físico, mas sim, que poderíamos chamar de espiritual. Nessa
época, ele estava perdidamente apaixonado por uma meretriz. A um passo da
consumação do duplo suicídio, consegui salvá-los milagrosamente. Foi por pouco,
pois, no bolso do rapaz, estava o veneno que ambos iam tomar. Levei-o para minha
casa e, ao iniciar o exame espiritual, um espírito de raposa44 se manifestou por meio
dele e disse-me que o havia influenciado para levá-lo ao suicídio. Em cerca de vinte
minutos, terminei o exame, não sem antes ter advertido aquele espírito. O jovem, no
entanto, continuava na mesma postura, de olhos cerrados, com as palmas das mãos
unidas à altura do peito (postura da pessoa durante o exame espiritual). Sua cabeça
estava inclinada para o lado esquerdo. Passados três ou quatro minutos, finalmente
abriu os olhos, mas continuou ainda com a cabeça inclinada, com ar de espanto e
disse-me: "Vi uma coisa misteriosa. Alguém ao meu lado estava tocando um
instrumento semelhante ao koto45, cujo som era indescritivelmente belo e refinado.
Encantado, eu olhava à minha volta e notei que estava em um lugar que me pareceu o
interior de um santuário muito espaçoso. No fundo, havia uma escada e, no topo
desta, uma cortina de bambu. Aí, o senhor, vestido com trajes litúrgicos xintoístas46,
subiu a escada suavemente e entrou no aposento, do outro lado da cortina." Então,
contestei: "Se você viu a pessoa de costas, não podia ter reconhecido quem era." Ele
replicou: "Não! Tenho certeza que era o senhor." E descreveu a indumentária:
ornamento de cabeça, túnica azul e calça vermelha. Ele teve a visão espiritual
temporária e pôde ver o Mundo Espiritual. Esse rapaz era funcionário de uma loja
comercial e, por não professar nenhuma fé, não tinha conhecimento em absoluto
sobre assuntos espirituais; por isso mesmo, acho que seu relato merece total
credibilidade. Ressalta-se que, à esquerda do lugar onde ele estava sentado, ficava o
Altar com a Imagem de Deus. Provavelmente, naquele momento, meu yutai47, que
estava no interior daquele santuário, apareceu para ele.
Os três exemplos citados poderão servir de referência para o conhecimento do
interior das edificações e dos jardins do Paraíso, e também de como seus habitantes
descem à Terra. Em seguida, vou descrever a situação do Paraíso búdico. Uma
virgem de dezoito anos serviu de médium, incorporando o espírito de um de seus
ancestrais, um samurai que falecera numa batalha travada há mais de duzentos anos.
Este guerreiro fora ardoroso adepto da seita budista Shingon48. Logo após sua morte,
portanto, passou a integrar a organização liderada por Kobo Daishi.
Em resposta às minhas perguntas, o espírito disse: "Quando cheguei a esta
organização, havia centenas de espíritos; mas, ano após ano, o número de espíritos
que reencarna é maior que o número de espíritos que ingressa nela, de modo que
agora só existem mais ou menos cem. Moramos em um grande mosteiro e não
executamos nenhum serviço propriamente dito. Passamos as horas apenas nos
divertindo: tocamos koto, shamissen49 , flauta, tambor e outros instrumentos musicais;
pintamos, esculpimos, lemos, caligrafamos, jogamos jogos de tabuleiro etc., ou nos
distraímos de outras maneiras semelhantes às existentes no Mundo Material. De vez
em quando, há palestras feitas pelo próprio Kobo Daishi ou por um respeitável bonzo,
cujo nome esqueci, e isso constitui a maior das alegrias para nós.
Parece que, às vezes, Kobo Daishi vai ao encontro de Buda Sakyamuni, que, por
sua vez, está em um subplano acima do Paraíso búdico, num lugar em que a luz é tão
intensa e ofuscante a ponto de quase não se conseguir olhar em sua direção.
Fora do mosteiro, há um grande lago em cuja superfície flutuam inúmeras folhas
de lótus, tão grandes que nelas cabem duas pessoas. A maioria é ocupada por casais,
que são levados aonde desejam ir sem precisar remar. Não há noite; é sempre dia, e a
claridade é um pouco mais branda do que a dos dias ensolarados do Mundo Material.
Os raios de luz são dourados e provocam uma sensação suave e agradável.‖
Em muitas oportunidades, ouvi os espíritos que habitam o Paraíso Búdico dizer
que se sentem enfadados quando já se encontram ali há muito tempo. Uma vez que
apenas se divertem o tempo todo, acabam ficando entediados; por isso,
frequentemente, eles me solicitam para serem remanejados para o Mundo Divino. Não
foram poucos os espíritos que transferi para este último, atendendo a seus pedidos.
Isso se dá devido ao fato de eles tomarem conhecimento de que o Mundo Divino
entrou recentemente numa fase de grande atividade e que todas as divindades e
espíritos estão extremamente atarefados.
Evidentemente, isso é causado pela aproximação do Mundo do Dia. Este é regido
pelos deuses, ao passo que o mundo da Noite era regido pelos budas.
Vejamos agora o Inferno. O mais baixo dos três subplanos do Inferno é um
mundo de completa trevas e escuridão, um local totalmente congelado. É chamado
pelos xintoístas de Fundo do Inferno; os budistas o denominam de Inferno de Frio
Extremo e, no Ocidente, simplesmente dão-lhe o nome de Inferno. O espírito que cair
aí fica sem ver nada durante dezenas ou centenas de anos; petrificado, permanece
completamente imóvel. Sua situação é tão lastimável que não encontro adjetivos para
descrevê-la.
Ao ouvir um espírito salvo desse local, fiquei horrorizado. O gélido Inferno50
retratado por Dante Alighieri na "Divina Comédia" não é nenhuma fantasia.
O subplano médio do Inferno é formado por locais conhecidos desde os tempos
antigos como Mundo das Lutas, Mundo das Bestas, Mundo dos Desejos Carnais,
Mundo dos Famintos, Montanha de Agulhas, Lagoa de Sangue, Inferno de Serpentes,
Inferno da Sala das Abelhas, Inferno de Formigas etc. Os encarregados de
supervisionar esses locais são criaturas semelhantes aos ogros ou demônios que
vemos nas pinturas sacras budistas, de cor azul ou vermelha. Os policiais e os
carcereiros que, em vida, foram extremamente violentos e cruéis, se transformam
nessas criaturas. Um dos castigos do Inferno consiste em espancar os espíritos com
barras de ferro cheias de espinhos. Segundo relatos dos espíritos, a dor é várias vezes
maior do que se fosse no corpo carnal. Isso talvez ocorra porque, sem a proteção
deste, os nervos são atingidos diretamente.
Darei mais alguns exemplos de sofrimentos no Inferno. A Montanha de Agulhas é
o local onde os espíritos são obrigados a andar sobre agulhas, e a dor que sentem é
indescritível.
O Inferno da Lagoa de Sangue é o lugar aonde, obrigatoriamente, vão os
espíritos das mulheres cuja morte foi motivada por gravidez ou parto51. Pelo que ouvi
de muitos espíritos, eles ficam submersos até o pescoço nessa lagoa, cujo ar se
encontra impregnado do cheiro de sangue. Ali existe uma infinidade de vermes que
sobem continuamente pelo rosto, provocando uma sensação horrível, e os espíritos
vivem a tirá-los incessantemente com a mão. Esse sofrimento geralmente dura mais
ou menos trinta anos.
O Inferno da Sala de Abelhas foi descrito pelo espírito de uma gueixa que
incorporou no empregado de um salão de beleza. O espírito é colocado dentro de uma
caixa onde mal cabe uma pessoa, e inúmeras abelhas picam todas as partes do corpo,
causando um sofrimento indescritível.
O Inferno do Fogo é para onde vão aqueles que morreram queimados ou se
atiraram na cratera de um vulcão. Vou relatar um caso a respeito disso.
Um homem de meia-idade que sofria de epilepsia causada por fogo me contou
que costumava despertar de repente, de madrugada. Então, enxergava labaredas a
alguns metros de distância e, quando elas chegavam bem perto, ele tinha convulsões
e perdia os sentidos; além disso, seu corpo apresentava febre altíssima. Ele disse que
esse problema teve início no ano seguinte ao Grande Terremoto52, razão pela qual se
pode concluir que o espírito que incorporava nele era de alguém que morrera
carbonizado no referido terremoto. Nesse sentido, a maioria dos espíritos daqueles
que morreram carbonizados, vítimas do recente bombardeio aéreo53, deve estar
evidentemente sofrendo no Inferno do Fogo. Por esse motivo, seus familiares não
devem negligenciar o sufrágio.
O Mundo dos Desejos Carnais é o Inferno em que os espíritos caem devido a
relacionamentos amorosos impuros e, para cada caso, há um sofrimento diferente. Por
exemplo: quando o casal se suicida por amor, os espíritos de ambos ficam grudados e
não podem se separar.
Isso é causado pelo sonen54 que tiveram de não se separar até à próxima
reencarnação. Os que se suicidam abraçados, ficam colados entre si e se arrependem
profundamente devido ao incômodo e à vergonha. Do mesmo modo, no caso de
incesto e de relações imorais entre mestres e discípulos etc., os espíritos ficam
grudados ao contrário; enquanto um permanece de pé, o outro fica de cabeça para
baixo. O incômodo, o sofrimento e a vergonha fazem com que os espíritos sintam
profundo remorso.
Diante do que foi exposto, poderão entender o grave equívoco daqueles que se
suicidam por amor acreditando que, após a morte, poderão, juntos, viver alegremente
no Paraíso. Pode-se, também, compreender que o Mundo Espiritual é realmente
imparcial.
É preciso saber, ainda, o que ocorre com os que são avarentos no Mundo
Material, apesar de possuírem muito dinheiro. Trata-se de pessoas materialmente
ricas, mas espiritualmente pobres. Passando para o Mundo Espiritual, elas se tornam
paupérrimas e, por ficarem numa situação de penúria, acabam se arrependendo
imensamente. Outras, porém, no Mundo Material, mesmo tendo um nível de vida
inferior ao da classe média, se contentam com o que têm, vivem o dia a dia com muita
gratidão e, sempre que podem, empenham-se na soma de atos meritórios, dedicando
em prol da sociedade e do próximo. Tais pessoas, ao entrarem no Mundo Espiritual,
tornam-se ricas e vivem felizes.
Contudo, existe outra causa para a ruína dos milionários. Há pessoas que não
desembolsam o dinheiro que deveriam despender e não pagam o que deveriam pagar.
Como isso constitui uma espécie de roubo, espiritualmente significa que elas estão
acumulando dinheiro furtado, a que se acrescentam juros. Consequentemente, na
prática, os bens vão diminuindo e, pela Lei Espírito Precede a Matéria, um dia essas
pessoas acabam arruinadas. Geralmente, o herdeiro de um milionário é esbanjador e
dilapida toda a fortuna da família. Temos visto esses casos com frequência; mas,
conhecendo o princípio acima referido, poderão compreender o motivo.
A decisão de se dissolver os poderosos conglomerados empresariais japoneses,
em decorrência da Segunda Guerra Mundial, teve a mesma causa. Esses
conglomerados não pagaram aos funcionários e operários a remuneração que lhes era
devida, e enriqueceram às custas do acúmulo desse dinheiro.
Com relação às taxas de rendimento de capital, sendo que a caderneta de
poupança, por exemplo, é o investimento mais seguro, deveria ter uma porcentagem
de lucros de mais ou menos 3%. Já os rendimentos dos títulos públicos, que são um
pouco menos seguros, deveriam ser de 3,5%; os dos fundos de investimento, de 3,8%,
e a compra e venda de ações, que envolvem mais riscos, de 4 a 5%. Com base no
critério exposto acima, se pensarmos racionalmente, considerando essas
porcentagens adequadas, a porcentagem justa de lucros do capitalista deveria ser de
7 a 8% ou até 10%. No caso de um lucro maior, o justo seria dividir a parte excedente
entre os trabalhadores. Contudo, a maioria dos capitalistas não mostra nenhuma
predisposição nesse sentido, pensando apenas em satisfazer sua ambição e em obter
o máximo de lucro. É por isso que eles temem os movimentos trabalhistas e sofrem
com problemas como o das greves.
Ora, apropriar-se do rendimento que deve ser distribuído aos trabalhadores
significa tirar-lhes dinheiro, ou seja, roubá-los. Por conseguinte, pelo fato desses
capitalistas se tornarem poderosos conglomerados empresariais por meio do acúmulo
de dinheiro roubado e de viverem no luxo e na ostentação, os Céus não perdoam.
Além disso, no Mundo Espiritual, os juros aumentaram tanto que agora tais
organizações estão sendo obrigadas a devolver o valor roubado, acrescido dos juros.
Na verdade, por terem cavado a própria sepultura, não há como culpar os outros. Em
contrapartida, se eles fizerem uma justa distribuição dos lucros com os trabalhadores e
somar atos meritórios empregando sua fortuna em prol da sociedade e do próximo,
serão respeitados por todos e prosperarão eternamente. Falemos sobre o subplano
mais alto do Inferno.
É o local para onde vão os espíritos que estão prestes a alcançar o Plano
Intermediário, após terem cumprido a pena no Inferno. A maioria dos trabalhos a que
estão submetidos é de natureza leve, como levar os alimentos oferecidos nos oratórios
e nas moradas dos ancestrais nos lares, ser portador de avisos e mensagens, dar
assistência a outros espíritos etc. A propósito, existe um ponto importante a saber a
respeito dos alimentos ofertados aos espíritos.
Mesmo os espíritos, se não se alimentarem, sentem fome. Contudo, em que
consiste esse alimento? O espírito serve-se da energia espiritual dos alimentos; ao
contrário do que se passa no Mundo Material, ele se satisfaz com uma quantidade
extremamente reduzida de comida, por exemplo, uns três grãos de arroz por dia.
Portanto, o alimento comumente oferecido nos lares é bastante para um grande
número de espíritos e ainda resta muito. As sobras são dadas àqueles que se
encontram no Mundo dos Famintos. Graças a esse ato virtuoso, os antepassados
dessa família elevam-se mais rapidamente.
Sempre que possível, devemos oferecer alimentos aos antepassados, pois, se
devido à nossa negligência, eles ficarem famintos e se verem forçados a roubar para
comer, consequentemente, cairão no Mundo dos Famintos ou encostarão55 em
animais, como cão ou gato, para satisfazer sua fome e acabarão descendo ao Mundo
das Bestas. Tal como diz o ditado: "Quem se junta aos porcos, farelo come", quando o
espírito humano encosta em algum animal, ele perde gradativamente a forma humana
e assume o aspecto desse animal. No caso da reencarnação, ele nasce como esse
animal cuja forma ele assumiu. Entretanto, diferentemente dos espíritos dos simples
animais, ele entende a fala humana. Existem cavalos, cães, gatos, raposas, tanuki56,
serpentes etc. que entendem a linguagem humana: trata-se da reencarnação desse
tipo de espírito. Após certo grau de aprendizado sob forma animal, o espírito volta a
reencarnar como um humano.
Devo chamar a atenção para o seguinte ponto: caso alguém seja acometido por
infortúnios após matar cobras, gatos etc., é porque se tratava de um espírito humano
sob forma de animal. Se não for esse tipo de espírito, não ocorrem infortúnios.
Existe uma cobra esverdeada chamada de aodaisho, que costuma viver por
várias gerações próximo das casas de famílias tradicionais. Ela é a reencarnação do
espírito de um ancestral em forma de cobra que está protegendo seus descendentes.
Se estes a matarem, o espírito do antepassado se zangará e aplicará punições, como
por exemplo, a ocorrência de falecimento na família ou sua decadência. Da mesma
forma, quando se destrói o Inari57 ou quando se descuida da realização de cerimônias
que vinham sendo realizadas tradicionalmente, é comum receber sinais de
advertência. Se isso não for percebido, pode ser até que ocorra o fim da linhagem
familiar. Por esse motivo, é muito importante ficar atento a tais fatos.
É grande o número de exemplos como estes; portanto, entre os leitores, sem
dúvida, deve haver quem tenha conhecimento de algum caso semelhante. Vou contar
uma experiência minha.
Certa vez, fui ministrar Johrei e, na casa, havia um cão de grande porte. O dono
me disse: "O comportamento deste cão é curioso. Nunca sai para a rua, vive a maior
parte do tempo na sala de estar e só se senta em almofada de seda de alta qualidade.
Se uma pessoa da família o chama, ele atende, mas o mesmo não acontece se for um
empregado.
Em relação à comida, também é cheio de luxo: jamais come qualquer coisa.
Entende perfeitamente a fala humana e não gosta de ficar na cozinha nem nos
aposentos inferiores; enfim, em tudo ele é idêntico a um ser humano." Então, dei a
seguinte explicação: "Este cão é um ancestral seu que desceu ao Mundo das Bestas e
reencarnou em forma de cão. Pela afinidade espiritual, passou a ser criado por sua
família. Por esse motivo, ele faz questão que lhe dispensem o tratamento devido a um
ancestral." Assim, a pessoa se sentiu satisfeita com a explicação.
O caso seguinte, também verídico, foi vivido por um dos meus discípulos há mais
de vinte anos. Ele tomou conhecimento de que uma senhora de meia-idade, residente
na cidade de Yokohama, estava sofrendo uma tortura incomum e, cheio de
curiosidade, foi logo visitá-la. Ela usava um pano branco em volta do pescoço, e qual
não foi a sua surpresa quando ela o tirou: havia uma cobra enrolada ao seu pescoço.
Essa cobra entendia a linguagem humana. Na hora das refeições, a referida senhora
pedia-lhe permissão para se alimentar, dizendo que limitaria a comida a uma ou duas
tigelas. Nesse caso, a cobra afrouxava a pressão; porém, quando tentava comer além
do prometido, o animal pressionava novamente e não a deixava comer de forma
alguma. Foi a própria senhora que lhe contou por que aquilo se sucedia. "Pouco
depois do meu casamento, minha sogra adoeceu, e eu não lhe dava comida para que
ela morresse logo. Em consequência disso, ela acabou morrendo praticamente de
inanição." E continuou: "Seu espírito foi tomado de grande ódio e, para vingar-se de
mim, reencarnou sob forma de cobra e me tortura desta maneira." E concluiu:
"Gostaria de alertar o maior número possível de pessoas sobre quão terrível é o
pecado e, assim, redimir-me um pouco que seja." Este era o seu mais profundo
desejo.
Há um equívoco na sociedade a respeito do emprego de animais no trabalho:
considerar que o animal é igual ao ser humano. A forma grosseira de lidar com os
animais pode parecer doloroso do ponto de vista humano, mas não é bem assim. Bois
e cavalos, por exemplo, até desejam esse tratamento e, por isso, propositalmente
caminham devagar para serem chicoteados. Correm, não por causa da dor, mas pelo
prazer do açoite. Entre homens e mulheres, existe uma anomalia sexual conhecida
como masoquismo, em que eles sentem prazer por meio de violência física. Isso é
motivado pelo encosto do espírito de animais como bois e cavalos, que gostam de
apanhar.
Para finalizar, acrescento uma explicação sobre o butsudan - oratório budista.
Seu interior reproduz o Paraíso búdico, para onde os antepassados são convidados.
No Paraíso búdico, a comida e a bebida são fartas, todos os tipos de flores
desabrocham, paira no ar um perfume agradável e ressoam as mais refinadas
músicas. Portanto, com base nessa imagem, mesmo que de forma singela, são
oferecidos alimentos, flores e incenso. Seguindo esse mesmo raciocínio, nos templos,
as batidas no mokugyo58 nos pratos de metal, bem como o som das flautas, têm o
efeito de música. O bater do sino na ocasião em que se oferece comida no butsudan
serve como um sinal para o Mundo Espiritual.

5 de fevereiro de 1947

43
Tohashira: Segundo a Igreja Tenrikyo, Tohashira-no-Kami é a conjunção das dez divindades que regem os
diversos aspectos da natureza e da vida do ser humano.
44
Espírito de raposa: As raposas, em japonês kitsune, são seres presentes na mitologia japonesa. As histórias as
descrevem como seres inteligentes e com capacidades mágicas que aumentam com a idade e sabedoria. Entre
estes poderes mágicos, a habilidade de assumir a forma humana - normalmente na forma de uma mulher.
45
Koto: Instrumento musical japonês, com caixa de ressonância e 13 ou mais cordas de seda. É tocado sobre
cavaletes ou no piso.
46
Traje litúrgico xintoísta: Traje tradicional completo da nobreza japonesa utilizado pelos sacerdotes xintoístas,
conhecido como ikan-sokutai.
47
Yutai: Nomenclatura criada por Meishu-Sama e descrito da seguinte maneira por ele: "Pode-se dizer que é o
espírito do espírito. O yutai rege o corpo espiritual do mesmo modo que o corpo espiritual rege o corpo material.
Nesse sentido, pode-se dizer que o yutai é a verdadeira fonte da vida do ser humano. Portanto, uma vez que o
yutai habita no Mundo Espiritual, assim que o ser humano morre, seu corpo espiritual é atraído imediatamente
pelo yutai e se integra a ele. Essa integração é a mesma que o corpo material e o corpo espiritual tinham entre si
durante a vida terrena.
48
Shingon: seita budista fundada por Kobo Daishi (774 - 835), também conhecido como Kukai.
49
Shamissen: Instrumento musical japonês de três cordas e uma caixa de ressonância.
50
Gélido inferno: O lugar mais fundo do inferno de Dante Alighieri denominado por ele como Nono Círculo.
51
Nota: Meishu-Sama explica, em outra ocasião, que não são todas as mulheres que morreram nessa situação
que vão para o Inferno da Lagoa de Sangue, mas sim, aquelas que, durante a vida terrena, não professaram
nenhuma fé e tiveram muitos pensamentos, sentimentos e ações ligados ao mal.
52
Grande Terremoto: Refere-se ao forte terremoto ocorrido em 1923, na Região Leste do Japão, e que deixou a
cidade de Tóquio em cinzas, devido ao grande incêndio que ocorreu depois.
53
Bombardeio aéreo: Meishu-Sama se refere ao bombardeio aéreo que várias cidades japonesas sofreram no
final da Segunda Guerra Mundial.
54
Sonen: palavra japonesa comumente traduzida como pensamento, a qual não se limita ao ato de pensar
racionalmente. Seu significado abrange o sentimento, a vontade e a razão.
55
Encostar: Ação em que um espírito se aproxima de um ser encarnado para infiuenciá-lo, dominá-lo ou
satisfazer seus desejos e necessidades.
56
Tanuki: cão-guaxinim japonês. Conhecido também como um personagem do folclore japonês muito travesso e
alegre.
57
lnari: Vide nota de rodapé 29 no Ensinamento "Religiões e milagres".
58
Mokugyo: Instrumento de percussão de madeira usado para acompanhar a recitação de sutras budistas.

Todas as coisas existentes no Universo possuem uma utilidade específica para a


sociedade humana, ou seja, têm uma missão atribuída pelos Céus, e a arte não

10) A advertência dos antepassados – Alicerce do Paraíso, vol. 3

Os antepassados desejam a felicidade de seus descendentes e a prosperidade


de sua linhagem familiar. Por conseguinte, não negligenciam sua guarda um instante
sequer, para que não cometam erros e pecados ou para que não trilhem o caminho do
mal. Se um descendente, seduzido pelo demônio, pratica más ações, seus
antepassados provocam, por exemplo, acidentes, doenças etc. não só como
advertência, mas também para a purificação dos pecados cometidos. No caso do
enriquecimento ilícito por parte do descendente, ocasionam, por exemplo, um incêndio
ou outra forma de perda e, conforme o pecado, inflige-se também a purificação em
forma de doença.
O exemplo a seguir demonstra isso. Suponhamos que uma criança contraia um
simples resfriado, que, por meio do Johrei, seria facilmente solucionado. Mesmo
recebendo Johrei, não se verificam bons resultados. A criança tem vômitos constantes,
perda completa de apetite, acentuado enfraquecimento e, em poucos dias, acaba
morrendo. É uma situação estranha que se enquadra justamente no que dissemos
acima: a advertência dos antepassados. As causas podem ser várias, entre elas, o
fato de um pai ter um eventual relacionamento amoroso com outra mulher ou manter
uma amante, desviando-se da ética do casamento. Se esse pai não perceber na
primeira advertência, poderão ocorrer- lhe sucessivas perdas de filhos. Por um prazer
passageiro, ele sacrifica até mesmo seus descendentes queridos; trata-se, portanto,
de uma conduta condenável. Neste caso, os antepassados evitam sacrificar o chefe da
família por ser ele o seu arrimo e, sem outra alternativa, levam os filhos em seu lugar.
O seguinte caso é verídico. O chefe de uma família, homem de aproximadamente
quarenta anos, nunca havia rezado diante do butsudan119. Sua filha, preocupada,
conversou com um tio, irmão do pai, e transferiu o butsudan para a casa dele.
Pensando no futuro, o tio foi à casa do irmão e pediu-lhe que reconhecesse, por
escrito, a transferência do oratório, que havia sido transmitido por várias gerações e
que estava agora sob a sua guarda. O irmão concordou. Contudo, ao pegar a caneta,
iniciaram-se tremores nas mãos, sua língua contraiu-se e ele não conseguiu mais falar
nem escrever.
Tentaram vários tratamentos sem nenhum resultado e, por fim, foram a um
discípulo meu em busca de cura. Lembro-me de ter ouvido dele a história que a filha
desse homem lhe contara. No caso em questão, se a transferência fosse temporária,
não haveria problema.
Entretanto, os antepassados não admitiram que o butsudan fosse retirado
definitivamente da casa do primogênito, que, por tradição, deveria guardá-lo. Se
houvesse a transferência, a família se desestruturaria, podendo, então, ocorrer a
extinção da linhagem.

5 de fevereiro de 1947

119
Butsudan: oratório budista.

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