Você está na página 1de 37

univeRsidade:

teRRitÓRio
indígena!

semana dos Povos indígenas 2021 - 18 a 24 de aBRil


Fotografia: Acervo pessoal
Revisão: Daniela Silva Huberty
Projeto gráfico e diagramação: Cristina Pozzobon
Capa e ilustração: Daiane Silva Barbosa
Tiragem: 35 mil exemplares
Gráfica: Impressos Portão

Colaboradores/as
Alana Keline Costa Silva Manchineri
Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó
Francisco Oro Waram
Jaciele Nyg Kuita Fideles
José Márcio Xavier de Queiroz
Leonardo da Silva Gonçalves
Walderes Coctá Priprá

Em www.comin.org.br você encontrará mais materiais para aprofundar esta


temática. Caso queira falar conosco, entre em contato pelo e-mail:
formacao@comin.org.br

Conselho de Missão entre Povos Indígenas - COMIN


Fone: 55 51 3590-1440

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

U58 Universidade : território indígena! / organização Edson Kayapó, Kassiane Schwingel. – Porto
Alegre : COMIN : Fundação Luterana de Diaconia, 2021.
36 p. : il. ; 21 cm.

ISBN 978-65-992277-1-4

1. Ensino superior - Indígenas - Brasil. I. Kayapó, Edson. II. Schwingel, Kassiane.

CDU 378 (=1.81-82)

(Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo – CRB 8/10213)


Organização
Edson Kayapó
Kassiane Schwingel

univeRsidade:
teRRitÓRio
indígena!

Fundação Luterana de Diaconia


Porto Alegre - RS
2021
Povos indígenas e univeRsidade:
teRRitÓRio em disPuta
Refletir sobre a presença indígena na inúmeras dificuldades e permanecer nela,
universidade é também pensar sobre como e também é retomada de um território
a universidade chega aos espaços territoriais importante para a memória indígena e
que, historicamente, sempre foram dos po- para as perspectivas de futuro, retomando,
vos indígenas e sobre como ainda está no inclusive, um espaço que é de direito tam-
imaginário social que este não é um lugar bém para os povos indígenas.
de direito das pessoas indígenas. Mesmo A entrada das primeiras pessoas indíge-
sendo poucas vezes dito, é importante re- nas em universidades aconteceu a partir da
conhecer que a universidade, assim como a década de 1970, muito baseada em trajetó-
escola de educação básica, é mais uma parte rias individuais ou com apoio de organiza-
de um projeto de colonialismo que buscou ções não governamentais e religiosas. Com
acabar com a diversidade, propagar uma toda a luta do movimento indígena, foram
história única e, por muito tempo, voltou-se possíveis significativos avanços na Consti-
totalmente para as elites. tuição Federal de 1988, o que trouxe outra
A formação escolar e os processos perspectiva para a relação do Estado para
seletivos de ingresso nas universidades com os povos indígenas. A pressão do movi-
excluem os povos indígenas em, pelo mento indígena fez com que, na década de
menos, dois aspectos complementares: a) 1990, estudantes indígenas acessassem o
a formação escolar para as pessoas indíge- ensino superior através de convênios entre
nas está precarizada em seu funcionamen- a Fundação Nacional do Índio (Funai) e uni-
to e b) a formação escolar e os processos versidades privadas ou comunitárias, sendo
seletivos para ingresso nas universidades esses convênios ainda propostas isoladas e
não têm levado em consideração as espe- não políticas públicas.
cificidades e conhecimentos desses povos. Como política pública específica, foi
Mas, então, por que povos indígenas instituído, em 2008, o Programa de Licen-
estão na universidade? ciatura Intercultural Indígena (PROLIND),
A resposta para essa pergunta está focado na formação de docentes indígenas
relacionada ao que tem sido a vida dessas para atuação nas escolas de educação bási-
pessoas no Brasil: resistência e retomada. É ca das comunidades indígenas. Em 2012,
resistência ir para a universidade, enfrentar as políticas de ações afirmativas ganham
4
corpo no Brasil com a Lei de Cotas (Lei nº os altos custos das mensalidades.
12.711/2012), que prevê reserva de vagas Diante da complexidade do tema e das
para estudantes oriundos e oriundas da inúmeras problemáticas nele observadas,
rede pública de educação e para estudan- refletiremos sobre a resistência e a retoma-
tes negros e negras e indígenas, amplian- da nas universidades conhecendo a cami-
do o acesso a cursos de outras áreas do co- nhada de sete indígenas: Alana Manchineri,
nhecimento e não somente na formação Aline Kayapó, Francisco Oro Waram, Jaciele
de docentes. Nyg Kuita, Leonardo Werá Tupã, Márcio Pa-
Segundo o censo do ensino superior romeriri e Walderes Coctá Priprá.
no Brasil (2018), apresentado pelo Ins- Organizamos o material em três par-
tituto Nacional de Estudos e Pesquisas tes: os desafios que as pessoas entrevis-
Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), tadas destacam para entrar e permanecer
57.706 indígenas têm matrícula em na universidade; as formas como elas têm
diversos cursos superiores, sendo que, buscado superar essas dificuldades e o
desse total, 42.256 estão em instituições porquê de permanecerem nesse espaço;
privadas de ensino superior – fato que de- e sua proposta de uma universidade que
monstra o grau de dificuldade da maioria contemple os povos indígenas. Desejamos
de estudantes indígenas, pois, além dos que este material permita refletir sobre o
preconceitos, da estereotipização e dos espaço da universidade para que ele seja
impactos em residir nas cidades, grande cada vez mais diverso, coletivo e acolhedor
parte dessas pessoas tem que arcar com para todos e todas!

edson KaYaPÓ
Indígena Kayapó do Amapá, doutor
em História da Educação e docente
da Licenciatura Intercultural Indígena
do Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA)
campus Porto Seguro/BA. Ativista
do movimento indígena brasileiro,
possui livros publicados e ministra
cursos e palestras com temáticas
indígenas.
5
6
ocuPando o teRRitÓRio
da univeRsidade
Antes mesmo de entrar na universi- quem vem direto das aldeias, é muito di-
dade, os povos indígenas já encontram fícil ingressar através do Enem, porque é
realidades bem diferentes em relação à muito destoante o que é ensinado, o que
educação escolar. No geral, as condições das não tem a ver com a qualificação dos pro-
escolas, materiais didáticos, estruturas e for- fessores indígenas, mas tem a ver com o
mação de docentes estão bastante aquém todo”. As provas de seleção são barreiras de
da escola demandada por esses povos. ingresso que acirram a entrada nas univer-
Ao narrar a memória do seu passado es- sidades para muitas pessoas, porém, para
colar,Francisco OroWaram sinaliza para uma indígenas, a superação da barreira é mais
série de dificuldades e para a precariedade desafiadora, uma vez que as condições na
da educação básica que se reproduz ao lon- linha de partida são absolutamente desfa-
go do tempo: “O material didático utilizado voráveis, já que as escolas onde estudaram
para ensinar era o chamado ‘módulos’, dis- são deficitárias e os processos seletivos não
poníveis para esse tipo de instrução, ou seja, contemplam suas especificidades.
levávamos os mesmos e estudávamos em Devido a essa falta de igualdade de
casa, sem nenhuma orientação pedagógica. oportunidade no acesso a uma educação
Esses módulos com conteúdos e conheci- básica que prepare para a entrada nas uni-
mentos não faziam parte do nosso contexto versidades e também pelo histórico proces-
de linguagem, eram desvinculados de toda so de exclusão cometido pelo país contra os
nossa realidade. A professora visitava as es- povos indígenas, as ações afirmativas para
colas indígenas das aldeias duas vezes por o ingresso de indígenas no ensino superior
mês, com objetivo de apenas aplicar as pro- são consideradas fundamentais.
vas. Muitas vezes, faltava combustível para a A respeito das ações afirmativas, Walde-
realização desses trabalhos, o que impedia res Coctá Priprá faz a seguinte consideração:
e dificultava a locomoção da professora até “O país nos deve, o Estado nos deve. E de que
a aldeia, prejudicando o ensino”. forma que eles vão pagar? Eles vão pagar des-
Alana Manchineri lembra que “para sa forma, nos dando acesso! E também não
7
é só nos dar o acesso, eles têm que nos dar Porém, mesmo com vagas específicas
a permanência também. Porque não é fácil para pessoas indígenas, ir para a universi-
morar lá fora”. Fica evidente que as pessoas dade não é uma decisão fácil em muitos
indígenas têm clareza sobre a dívida do Esta- povos. Márcio Paromeriri deixa evidente a
do brasileiro com os povos indígenas no que preocupação com as perdas ao afastar-se
tange ao ensino superior, assim como o fato da comunidade de seu povo: “O meu povo
de que não basta garantir a entrada dessas Boe Bororo é muito espiritualizado e ma-
pessoas na universidade. É necessária uma triarcal, ou seja, o indivíduo pertence ao clã
política que efetivamente não inviabilize a de origem de sua mãe. Por ser assim, todos
continuidade e conclusão dos cursos, o que são muito apegados à mãe e à família. E
significa, pelo menos, a concessão de progra- todos os ensinamentos culturais e espiri-
mas de bolsas e a realização de acompanha- tuais do Bororo precisam ser colocados em
mento pedagógico diferenciado para esses e prática para não se perderem”.
essas estudantes, levando em consideração Leonardo Werá Tupã relata o que acon-
suas necessidades específicas. tece nas comunidades Guarani Mbya no
É importante ressaltar que a Lei de Cotas momento de tomar a decisão de ingressar
para a entrada nas universidades não pode ou não na universidade: “Quando eu saí
ser vista como um ato de caridade do Estado da aldeia para estudar, houve uma discus-
brasileiro. Para que essa lei fosse proposta são na aldeia. Quando sai um aluno não é
e aprovada, precisou muito trabalho do uma coisa simples, a aldeia discute essas
movimento indígena. Foram anos de lutas coisas. Há famílias que acham que, quan-
de lideranças dos mais variados povos para do o aluno indígena sai da aldeia, ele per-
que esse espaço na universidade pudesse de a essência e também é muito perigoso
ser ocupado. Sobre o futuro dessas políti- dele ser corrompido pela sociedade, por
cas, Aline Kayapó diz: “É claro que nós não essas ideias do progresso que são muito
queremos cotas eternas! Por que, qual o chamativas. Então, por isso, algumas famí-
ser humano, em sã consciência, quer viver lias temem que a pessoa se perca e não
o tempo inteiro querendo chegar lá? Não, queira voltar pra aldeia”.
um dia nós queremos estar lá! Eu quero que Na prática da vida universitária, é bem
meus filhos consigam prestar um vestibular difícil viver a INTERCULTURALIDADE, pois
de igual pra igual com qualquer um por ter o conhecimento hegemônico sempre
tido condições de estudar”. se sobrepõe aos saberes originários e o

8
acúmulo de atividades acadêmicas deixa e modo de ser de cada povo. Se há algo
pouco tempo e espaço para que estudan- que parece perpassar o entendimento
tes indígenas dediquem-se à espirituali- de diferentes povos é o esforço que se faz
dade e às tradições dos seus povos. “Outra para transitar entre dois mundos, fortale-
dificuldade é em relação à religiosidade, cendo o “mundo” tradicional de seu povo
que pra nós é muito forte! Pra começar, para compreender o “mundo” não indí-
nós Guarani usamos o cachimbo, de ma- gena que se coloca como hegemônico. “A
deira ou de barro, e ele já não é bem visto universidade precisa compreender que
fora da aldeia. Nós tínhamos um espaço nós, estudantes indígenas, caminhamos
cedido pela universidade onde ficáva- o tempo todo em dois mundos. Como
mos alojados e lá podíamos usar nosso pessoa indígena contemporânea, a partir
cachimbo e fazer nossas cerimônias sem do meu nascimento, eu já sou obrigada a
constrangimento”, diz Leonardo. transitar entre esses dois mundos. E isso
Essas reflexões sobre a universidade pra nós é um desafio, é difícil compreen-
variam muito de acordo com o contexto der esses dois mundos. A colonização foi
tão ferrenha para nós que adormeceu
muitas coisas de nós,

inteRcultuRalidade:
do nosso próprio
mundo. En-
é mais que um diálogo de tolerância com o outro. Anibal tão, hoje,
Quijano (2010) apresenta o conceito de interculturalidade
crítica, que pode ser entendida a partir de uma ação política
de mudança na estrutura social vigente, revendo a história
colonizadora e seus resquícios e apontando para outra
direção, baseada em referenciais outros, que superem o
modelo hegemônico de pensar e fazer.
QUIJANO, Aníbal. La crisis del horizonte de sentido colonial/moderno/eu-
rocentrado. Revista Casa de Las Américas, n. 259-260, p. 4-15, abr./sep.
2010. Disponível em <http://www.casadelasamericas.org/publicaciones/
revistacasa/260/bicentenario.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2020.

9
eu preciso fazer esse caminho de volta, alimentação, moradia e transporte e pelo
me compreender para daí poder compre- esforço em sintonizar a vida universitária
ender o mundo dos brancos. Então é um com as tradições indígenas.
exercício duplo sempre. Essa dificuldade
é presente para a maioria dos acadêmicos
indígenas e explica boa parte da evasão, se ReconHeceR
das desistências”, observa Nyg Kuita. neste teRRitÓRio e
Os depoimentos de Márcio, Leonardo
e Nyg convergem no sentimento de temor
seR ReconHecido e
e no entendimento de que não é simples ReconHecida PoR
transitar com um pé na aldeia e outro na Quem estÁ nele
universidade. Estar na universidade pres-
supõe uma luta diária que está para além Embora estejamos falando da univer-
do cumprimento das atividades mera- sidade como um conceito de instituição,
mente acadêmicas, passando pelo enfren- sabemos que a forma como a presença
tamento de preconceitos, pela garantia de indígena é percebida e tratada varia muito

mÁRcio
PaRomeRiRi
(JosÉ mÁRcio
XavieR de
QueiRoZ)
Indígena Boe Bororo, natural
de Rondonópolis/MT.
Presidente da Academia dos
Saberes Indígenas do Brasil
(ASI).

10
de acordo com cada instituição. Entretan- soas indígenas não se reconheçam nessa
to, há aspectos que perpassam diferentes estrutura, fortalecendo a invisibilização da
falas indígenas de diferentes contextos, pertença delas nos espaços de construção
especialmente no que diz respeito a não de conhecimentos e, assim, contribuindo
se enxergarem neste espaço. para a perpetuação dos preconceitos e es-
O relato de Nyg demonstra o esforço tereótipos projetados por não indígenas.
de estudantes indígenas na busca de es- Para além da ausência da temática
tratégias para enfrentar e suportar o coti- indígena no currículo, é fala recorrente en-
diano hostil na universidade. No seu caso, tre estudantes indígenas o despreparo da
a indígena fez retornos à sua comunidade, universidade para lidar com a diversidade.
mesmo que isso significasse pausas no Leonardo, que foi aluno da Licenciatura
curso: “Então sempre foi isso de eu estar Intercultural Indígena da Universidade Fe-
retornando pra aldeia e eu sempre sen- deral de Santa Catarina (UFSC), reconhece
tindo que eu não pertencia ao espaço da que, para além do volume de atividades e
universidade, eu estava naquele espaço, dificuldades provenientes do curso, havia
mas não conseguia me entender nele. Eu outros inúmeros desafios: “A universidade
comecei a observar a estrutura do espaço, ainda não está preparada para nossa pre-
o que era a universidade e o que era mi- sença. O que muda um pouco as coisas
nha presença ali dentro”. são essas políticas de cursos diferenciados.
Essa dificuldade de se reconhecer Por mais que nós tenhamos trabalhado
como parte da universidade é resultado de essa política de não racismo, de igualdade,
uma série de fatores, como o ocultamento ainda é muito presente nas universidades
das pessoas indígenas e da temática indí- essas questões. A gente sente! As equipes
gena nos currículos. Alana lembra que “as das universidades precisam ser multidisci-
disciplinas que falam de nós [indígenas], plinares e ter um bom entendimento da
por exemplo, são optativas e só acontecem questão, pois elas fazem a diferença. Fora
se há um determinado número de inscri- dessa equipe específica do curso, tivemos
tos para ela. Então essa universidade pre- muita dificuldade para o diálogo. A univer-
cisa ser pensada em outra estrutura”. Ou sidade precisa ter essa consciência de que
seja, os currículos das universidades não lida com povos diferentes e isso precisa ser
dão conta das histórias, memórias e sabe- levado em conta sempre”.
res indígenas, o que faz com que as pes- Encontrar a universidade pensada para

11
um grupo hegemônico e vivê-la em seu dia universidade mais rica de conhecimento”.
a dia é um desafio que possibilita percep- A universidade mantém-se pratican-
ções próprias das pessoas indígenas sobre do o distanciamento entre teoria e prática,
esta instituição. Alana percebe a universida- fechada em si e virando as costas para as
de como “um apêndice do corpo todo que realidades, enquanto afloram os egos aca-
é uma sociedade. São poucos os projetos dêmicos nos departamentos. “Para além
que vejo que dos povos indígenas, esse modelo de
unem universidade não serve para ninguém! As
pessoas entram na universidade e saem
de lá robôs, saem de lá egoístas, ego-
EPIsTEMICÍDIO: centrados. Saem de lá com uma vaidade
destruição de algumas formas de tremenda que fere seu próprio espíri-
saber locais, à inferiorização de to, fere sua alma, faz as coisas serem
outros, desperdiçando-se, em nome muito mais pesadas e burocráticas”,
dos desígnios do colonialismo, a diz Aline. “Nós então, às vezes, nem
riqueza de perspectivas presente sabemos lidar com isso tudo, pois
na diversidade cultural e nas somos menos teóricos e muito
multifacetadas visões do mundo por práticos. E dentro dessa prática é
elas protagonizadas. inviável pensar em qualquer mí-
SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, nima possibilidade de não conver-
Maria Paula (Orgs.). Epistemologias do Sul. sarmos com a espiritualidade. Então,
Coimbra: Almedida, 2009. enquanto a universidade negar a espi-
ritualidade, vai negar os povos indígenas
e vai haver o EPISTEMICÍDIO. Um dos
teo- grandes problemas que a gente passa na
ria e prática universidade é o epistemicídio que não
social. Hoje, essa uni- consegue reconhecer nossos conceitos”.
versidade ainda é pedras colocadas Infelizmente, a universidade ainda é
ali, sem conexão com a sociedade. Talvez, o espaço onde muitas pessoas indígenas
se nós tivéssemos mais proximidade com não se sentem acolhidas, não se enxergam
os conhecimentos das pessoas que são nos currículos e seus conhecimentos não
ditas ‘não científicas’, nós tivéssemos uma são valorizados. Porém, a luta de estudan-

12
tes indígenas é para que, diariamente, esse sinalizando para tentativas de diálogos in-
cenário seja alterado. Leonardo coloca que terculturais. O desafio agora é transformar
“a universidade poderia ter, no conheci- as discussões e conceitos produzidos em
mento indígena, um grande aliado, pois vivências diárias a partir da universidade.
o conhecimento indígena já muito contri- Transformar e humanizar os espaços
buiu. É a universidade que está atrasada. acadêmicos em favor dos povos indíge-
Os conhecimentos indígenas fizeram parte nas é uma tarefa que exige vontade po-
da história da ciência e da própria universi- lítica e respeito por parte do corpo gestor
dade. Se pensar em unir os conhecimentos e docente e demais agentes formadores e
acadêmicos e os saberes indígenas, poderí- formadoras da universidade. É uma neces-
amos abrir novos horizontes, até na questão sidade para a inclusão e permanência de
da evolução humana, porque a gente não estudantes indígenas na vida acadêmica.
evolui sozinho”.
É recorrente,nas narrativas de estudan-
tes indígenas, a crítica sobre a forma como
as gRandes
a universidade teoriza sem diálogo com
o mundo real, fazendo com que muitos dificuldades
conceitos não se apliquem na vida prática. neste teRRitÓRio
Um exemplo é a interculturalidade. “Agora
muito se usa a palavra ‘interculturalidade’, Temos dito que a universidade ainda
mas eu não consigo assimilar ela”, diz Nyg. não está preparada para a diversidade e
“Não existe ainda uma interculturalidade não tem contemplado os saberes indíge-
entre a universidade e os povos indígenas, nas nos currículos e no cotidiano, o que faz
inclusive porque o conhecimento branco com que as pessoas indígenas não se sin-
sempre é sobreposto ao nosso. Por mais tam parte do todo na instituição. Para além
que se aceite as nossas colocações, a in- desse sentimento, o desconhecimento da
terculturalidade de fato ainda não existe! temática indígena na universidade reforça
Essa troca de saberes mútuos, essa recipro- preconceitos e cria situações tensas no dia
cidade, ainda não existe”. a dia de estudantes indígenas.
Nos auditórios das universidades, já Walderes viveu uma situação marcante
ocorrem debates sobre a presença indí- ao se apresentar como indígena para uma
gena e seus conhecimentos milenares, turma no decorrer das aulas. “Quando eu

13
me apresentei, eu vi uma diferença. Na- dantes indígenas que deixam evidentes
quele dia, a gente tinha que apresentar um os sinais de preconceitos históricos da
trabalho e eles não queriam nem que eu fa- sociedade brasileira que, muitas vezes,
lasse! Eles pensavam: ‘Não, ela é indígena’. enxerga as pessoas indígenas como
Eu aproveitei esse momento pra questionar incapazes. “A universidade deveria nos
o que eles pensavam sobre as pessoas indí- receber muito bem, pois toda a interação
genas. Disse pra eles olharem minhas notas entre indivíduos de realidades diferentes
com a professora e verem que não tenho é um berçário natural de conhecimento.
notas baixas. Eu tenho a mesma capaci- Porém, não é isso que acontece, pois o
dade, possuo a mesma capacidade. Claro conhecimento obtido e colocado para ser
que quando eu entrei aqui eu não tinha passado aos alunos não admite outros
as mesmas experiências que eles, mas eu conhecimentos. Então o máximo que se
fui buscar. Fui buscar nos livros, busquei de consegue é concluir uma graduação ba-
alguma forma. A impressão que eu tenho seada nestes conhecimentos que se colo-
é que, depois que descobriram que eu era cam como hegemônicos. A subjugação é
indígena, virei um ‘bichinho de estimação’. uma marca registrada a todo acadêmico
É muito complicado!”. indígena”, afirma Márcio.
O imaginário coletivo de que a univer- Leonardo reforça a crítica à ideia da
sidade não é um espaço adequado para incapacidade indígena, que se apresen-
indígenas está presente nos diferentes ta em diferentes roupagens: “Dentro da
contextos, como relatou Walderes, que es- universidade, a gente encontra as mais
tuda no sul do Brasil, mas que podemos diversas pessoas, com vários pensamentos
perceber também no relato de Alana, que diferentes. Tem aqueles que defendem os
é do norte do país: “Aqui no Acre, nós so- indígenas, tem aqueles que acham que nós
mos 16 povos indígenas e você entra na somos coitadinhos e também aqueles que
sala de aula e tem uma pessoa indígena. acham que nós somos privilegiados. Sem-
Mas, os brancos não se dão conta disso. pre foi perceptível a ideia de que os indíge-
Então o primeiro impacto já é esse: olha, nas não estão preparados, não são capazes”.
chegou uma indígena na universidade. É Além das relações com colegas que
visível a percepção dos demais alunos de carregam grande carga de preconceitos,
que esse espaço não é nosso”. estudantes indígenas relatam as frequen-
São experiências narradas por estu- tes situações de constrangimento com do-

14
centes das instituições, como o narrado por do corpo docente em relação a estudan-
Nyg: “O preconceito estava sempre muito tes indígenas, seus povos e modos de ser,
presente, inclusive no curso de Ciências So- interferem fortemente no processo de en-
ciais. Nos primeiros dias de aula, um profes- sino e aprendizagem. Walderes exemplifi-
sor me perguntou se eu era ‘índia’ e, como ca: “Na Universidade Federal de Santa Ca-
respondi que sim, ele questionou o que eu tarina, nós temos, hoje, aproximadamente
estava fazendo ali, pois meu lugar era no 19 etnias do Brasil que estudam lá. Essas
meio do mato. Um professor de Sociologia 19 etnias não são conhecidas pelo próprio
do curso de Ciências Sociais!”. reitor, ele não sabe quem são esses povos.
Há situações de preconceito escan- Os professores, será que eles sabem quem
carado, como o questionamento citado são esses alunos? Há muitos alunos que
acima, e também há um grande desco- saem de uma realidade de aldeia pra ci-
nhecimento sobre a diversidade de povos dade e há um impacto muito grande. Na
e culturas indígenas. Esse distanciamento verdade, algo muito importante que pre-

WaldeRes coctÁ PRiPRÁ


Indígena da etnia Laklãnõ-Xokleng,
da Terra Indígena Laklãnõ de
Ibirama/SC. Professora indígena
por 12 anos, graduada em
Letras Português/Espanhol pela
Uniasselvi e em Licenciatura
Intercultural Indígena do
Sul da Mata Atlântica pela
Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC). Pós-graduanda
em História com a linha de
pesquisa em Etnohistória, História
Indígena e Arqueologia na UFSC.

15
entÃo você É
a aluna índia
da tuRma?

na veRdade,
PRofessoR, eu sou de
um dos mais de 305
Povos indígenas
do BRasil!

cisa ter é a vontade dos professores em co- tuguês. Que dirá quando vem algo em
nhecerem esses alunos, porque cada povo espanhol ou inglês! E essa coisa da lín-
é diferente do outro”. gua é fundamental para tudo, às vezes a
Outro grande desafio para estudan- gente entende uma parte e outras partes
tes indígenas que chegam à universida- não. Para nós, o português é muito aber-
de é o idioma, como ressalta Leonardo: “A to, não é muito direto. Diferente da nossa
primeira dificuldade que encontramos ao língua que é muito afirmativa, direta. Fi-
sair da aldeia é a própria língua, porque camos com muitas dúvidas!”.
estamos acostumados a falar sempre no As dificuldades de acessar a universi-
nosso idioma na aldeia. Na cidade, temos dade e enfrentar esse “novo mundo” não
que falar o português, mas ele é a nossa são as únicas. A permanência é outra ba-
segunda língua. A partir daí, as dificul- talha árdua que traz desafios de ordem
dades só aumentam. Temos dificuldade prática, como a questão financeira. Wal-
até mesmo de entender algumas coisas. deres, que fez sua primeira graduação
As tarefas, as aulas são sempre em por- em uma universidade particular, relata

16
algumas dessas dificuldades: “A gente ia mas de bolsas para permanência que visam
da aldeia pra cidade, a gente tinha que dar apoio financeiro para que estudantes
pedir carona, às vezes íamos a pé até uma indígenas se mantenham. Entretanto, os
vila próxima, cerca de 20 quilômetros, pra valores costumam ser bastante pequenos
aí pegar carona. Ou embarcava no ônibus para os custos das grandes cidades onde
às 16h30 para às 19h estar
na universidade. Várias ve-
zes não tínhamos dinheiro estudos alimentos
pra comer ou pra dormir,

X
várias vezes a gente dor-
miu em ponto de ônibus.
Enfim, foi bem sofrido para
estar estudando”.
Alana também coloca a
questão financeira como um
desafio para a permanência
na universidade. “Outro de-
safio é financeiro, porque o
estudante indígena precisa
trabalhar para seus custos,
para ter onde morar. Então o
permanecer na universida-
de é um desafio pra quem
está na federal, imagina pra
quem está nas outras uni-
versidades, que nem bolsa
não tem. E não adianta
somente acessarmos a uni-
versidade, mas permanecer
é fundamental”.
Em muitas universida-
des públicas, existem progra-

17
normalmente estão estas instituições. Tam- que, na universidade, “colocam o homem
bém não há segurança em relação à con- no centro de tudo, o homem dominando e
tinuidade das bolsas, pois são programas querendo salvar a natureza e o afastamento
de governo e não uma política de Estado. de tudo que é sobrenatural. Mas, nós não
Por isso, há iniciativas de luta por moradia conseguimos conviver com esse tipo de pro-
universitária indígena ou Casa do Estudante dução de conhecimento científico, fere nossa
Indígena, por exemplo, em diversas univer- dignidade ancestral!”.
sidades, sendo encampadas pelos coletivos A universidade, com sua postura ain-
de estudantes. da fechada em relação a essa diversidade
A proposta de Casa do Estudante In- de pensamentos e interpretações e com o
dígena, para além do aspecto prático de preconceito ainda muito presente em seu
possibilitar uma moradia digna sem cus- dia a dia, acaba trazendo o sentimento de
tos para estudantes, também é pensada solidão para muitas pessoas indígenas que
como um espaço seguro para que as pes- lá estudam, como narra Nyg: “Uma coisa
soas indígenas possam manter seus ritos que eu vejo que adoece muito estudantes
e práticas, especialmente em relação à es- indígenas é a solidão. Até dentro da sala de
piritualidade. Como visto anteriormente, aula a gente não tem muita relação com os
Leonardo é incisivo sobre a dificuldade de colegas, no máximo duas ou três pessoas.
praticar a espiritualidade e os ritos indíge- Essa dificuldade de relacionamento com os
nas nos espaços universitários. não indígenas é um desafio quando você
A espiritualidade indígena é um aspecto vem direto da aldeia”.
muito forte para grande parte desses povos e, Alana enxerga a necessidade de supe-
ao mesmo tempo, é algo pouco compreendi- rar esse sentimento como um grande pro-
do no espaço da universidade.Assim como as cesso de resistência. “O meu sentimento é
práticas espirituais podem não ser bem vistas o seguinte: estou na universidade, num
pelas pessoas não indígenas, há também processo maior de resistência. Estou sem-
choques de concepções entre o que acredi- pre sozinha na minha turma. Somos qua-
tam as pessoas indígenas e o que defende a se sempre uma pessoa indígena em cada
universidade como instituição. Nesse sentido, sala”. Da mesma forma, Márcio lembra da
vale lembrar que a universidade está baseada sua trajetória: “Enfrentar a realidade de um
no “HUMANISMO”, diminuindo a importân- ambiente diferente, estranho e por muitas
cia da natureza e do imaterial. Aline explica vezes hostil não foi nada fácil”.

18
A hostilidade e a solidão citadas fazem dentro da universidade! Na UFSC temos 19
com que as pessoas indígenas não se sin- etnias, mas, se você perguntar em alguns
tam acolhidas no espaço da universidade, dos centros, eles dizem que ali não tem indí-
o que deixa evidente que a universidade gena. E mesmo tendo vários trabalhos que
não está preparada para recebê-las. Porém, a gente desenvolve dentro da universidade,
a postura de muitos e muitas estudantes in- que são vários, ainda somos muito invisibi-
dígenas tem sido a de seguir marcando as lizados. Mesmo fazendo o que pra gente é
diferenças para que a universidade aprenda muito, pra universidade é pouco. Parece que
a lidar com a diversidade. Um bom exem- temos que fazer muito mais pra ser vistos na
plo desse debate é a questão do tempo, universidade”, comenta Walderes.
citada por Nyg: “O nosso tempo indígena
é diferente. Demora, pois primeiro precisa-
mos entender a estrutura, entender essa
estrutura política e educativa que está ali
pra poder se compreender ali! [...] Eu acre-
dito que o grande número de evasão de
indígenas da universidade que nós
temos é porque somos cobrados
HUMAnIsMO:
Movimento intelectual que nasceu
igual aos brancos.Acaba não se res-
na Europa durante a renascença,
peitando esse processo de ama-
inspirado no mundo greco-romano
durecimento que é nosso, onde
clássico. Coloca os humanos como
vamos entender o momento de
centro do mundo, ressaltando
ir pra universidade. A educação
sua capacidade para a criação e
branca influencia muito nesse
transformação da realidade natural
sentido da pressão”.
e social. É um comportamento ou uma
Mesmo com todo o esforço
atitude que exalta o gênero humano
para marcar as diferenças e trazer
em detrimento dos elementos da
o modo de ser e os saberes indígenas
natureza.
para dentro da universidade, esse ainda
é um território onde pouco se reconhece a
presença indígena como parte do seu todo.
“Nós somos muito invisibilizados ainda

19
20
teRRitÓRio da univeRsidade
como esPaÇo de luta
Se, com todas as dificuldades e desa- genas. Walderes fala que “um dos anciões
fios de ser indígena na universidade, es- sempre nos dizia que deveríamos estudar
sas pessoas e grupos permanecem nesse porque até aquele momento que não tí-
espaço, é porque esses grupos têm criado nhamos acesso à universidade os brancos
estratégias para sobreviver nesse ambien- sempre massacraram os povos indígenas
te e provocar mudanças, mesmo que ain- com a caneta. No passado, foi diferente: ma-
da pequenas. É também porque há uma tavam e foram dizimando todos os povos
compreensão maior da necessidade de indígenas, inclusive o povo Laklãnõ. Então
ali estar, como explica Nyg: “Assim como agora temos que estar no mesmo patamar
nossos antepassados tiveram que engo- que eles, para que a gente possa sobreviver
lir tudo o que a colonização foi enfiando, a essas leis que existem aí”.
agora também os brancos vão ter que nos “A universidade é uma ferramenta e
engolir nas universidades. Não iremos sair um instrumento de luta e resistência inde-
mais dali. A universidade, hoje, é para nós pendentemente de você ser indígena ou
também um território indígena. Nosso cor- não”, percebe Aline. “Se você é uma pessoa
po é nosso território e onde eu estiver será que veio de família pobre, você é ensinado
um território indígena. Como diz o Ailton que a universidade e os estudos são uma
Krenak, ‘nossos mundos estão em guerra’, forma de galgar lugares mais altos na so-
estamos disputando território”. ciedade. Com os povos indígenas não tem
Para os povos indígenas brasileiros, a muito essa conotação de galgar lugares
luta por territórios é constante e algo que mais altos, mas única e exclusivamente
faz parte do cotidiano desde a infância, seja como uma resistência”.
para conquistar, manter ou protegê-los. Ao Porém, para que a universidade seja
perceberem a universidade como um terri- utilizada como ferramenta de luta, é muito
tório, reconhecem a importância de estarem importante também a reflexão e compreen-
nesse espaço e, através dele, conseguirem são sobre o papel que cada pessoa indígena
ter legitimidade frente às pessoas não indí- tem a cumprir estando nesse espaço. Nyg
21
explicita isso: “Ir para a universidade pode escolas indígenas já ter essa preocupação
servir para você adquirir o conhecimento de formar um cidadão indígena! Um cida-
dos brancos e dizer que ele é o que vale. Es- dão Kaingang que vai pra universidade se
sas pessoas que vão pra universidade ape- formar enquanto cidadão Kaingang e levar
nas para aprender o jeito branco são uma pra dentro da universidade seu posiciona-
preocupação, pois depois elas voltam pra mento e seu conhecimento”.
aldeia e querem aplicar isso lá, em um novo Portanto, é possível entender a for-
processo colonialista. Mas, também há uma mação universitária como possibilidade
galera que vai pra universidade pra reforçar de fortalecimento da formação política e
a valorização do nosso conhecimento, pois, identitária e, sendo assim, estudantes indí-
estando na universidade, nos colocamos genas têm muito a contribuir, tanto dentro
como alguém que também traz consigo da universidade como em outros espaços
um conhecimento. É uma luta! Essa univer- fora de seus muros. Francisco coloca essa
sidade, muitas vezes, não aceita nem nossa perspectiva ao afirmar que “nos dias atu-
presença, que dirá nossos conhecimentos. ais, a nossa visão como indígena é que po-
Por isso, é muito importante a educação das demos ingressar na política pública para

fRancisco
oRo WaRam
Professor indígena
do povo Wari do
subgrupo Oro Waram,
falantes do tronco
linguístico Txapakura,
de Rondônia.

22
discutir o futuro do nosso país e defender e poder agir sobre ela, propondo políticas
também os nossos direitos na legislação públicas e assessorando as lideranças e
brasileira, no que diz respeito ao reconhe- comunidades indígenas, é um dos benefí-
cimento e garantia dos direitos”. cios que a universidade pode proporcionar
Muitas pessoas indígenas que estão para os povos indígenas. E, para além dos
cursando o ensino superior ou que já con- aspectos práticos da luta indígena, estar
cluíram são chamadas por suas comunida- no ambiente acadêmico é uma importan-
des para assessorar, inclusive as lideranças, te oportunidade de reescrever a história
pois, ao terem transitado nesses espaços brasileira a partir do olhar indígena, uma
não indígenas, conseguem colaborar nas vez que a nossa história está repleta de
compreensões e traçar estratégias conjun- lacunas, invisibilidades, silêncios e gene-
tas que estejam afinadas com os projetos ralidades sobre estes povos.
societários dos povos interessados. Leo- Com autoria e protagonismo das
nardo cita seu próprio exemplo: “E para a pessoas indígenas, poderemos rein-
aldeia isso traz maior segurança, pois sinto terpretar a história oficial e tirar estes
que sou muito procurado pela liderança povos do lugar de objetos da história
para perguntas sobre as coisas de fora. Me para sujeitos históricos e, com isso, mu-
sinto quase que uma assessoria da comu- dar também o que as escolas ensinam.
nidade. Quando há uma reunião fora, por Sobre essa temática, Márcio lamenta,
exemplo, eu sou procurado para apoiar, não pois, segundo ele, “é notória a observa-
somente pela minha aldeia, mas também ção de temáticas educativas construídas
por outras. Acho que essa é uma contribui- na ótica colonialista que simplesmente
ção que a gente pode dar pra aldeia, usando prenderam os indivíduos e os povos in-
as informações a mais que a universidade dígenas no passado. Os indígenas e suas
nos trouxe e o sistema dos não indígenas”. ações estão sempre no passado, como se
Ter a formação superior para colaborar já não existissem mais povos indígenas
nas lutas indígenas, tendo sua competên- e seus indivíduos no Brasil”.
cia reconhecida e legitimada por todos e Segundo Leonardo, “ir para a univer-
todas (indígenas e não indígenas), é o que sidade é fundamental para reescrever a
se espera de quem consegue fazer da uni- história indígena, que está muito detur-
versidade uma ferramenta. Compreender pada. E quem precisa fazer isso somos nós
como funciona a sociedade não indígena mesmos. São essas histórias deturpadas

23
que geraram essas visões que as pesso- Alana afirma: “O movimento indígena
as têm sobre nós: que somos selvagens, é uma engrenagem que me faz permane-
que somos ultrapassados. Essas pessoas cer e continuar buscando estar na univer-
não conseguem enxergar nossos valores sidade, estar produzindo para que a gente
culturais, tradicionais”. tenha mais produções teóricas com o olhar
Portanto, a universidade pode vir a ser indígena. Porque a universidade está cheia
uma possibilidade concreta de protago- de estudos antropológicos de pessoas não
nismo e autoria indígena, um lugar que indígenas sobre indígenas e, nesse sentido,
colabore na reescrita da história, trazendo estamos reescrevendo a história a partir da
os pontos de vista, as ciências e saberes in- nossa ótica. Pra mim, eu tenho uma univer-
dígenas para o mundo acadêmico. sidade que é o movimento indígena e outra
que é a universidade da academia”.
A participação no movimento indíge-
na é mais uma característica do modo de
Resistência, ser estudante indígena na universidade,
Enfrentamentos como conta Nyg, que também teve dificul-
e movimento dades para concluir cursos anteriores na
universidade devido às faltas frequentes
indígena
às aulas para estar no movimento. “Esse
fortalecendo processo de ingressar no movimento in-
estudantes dígena que me construiu a pessoa dentro
da universidade, entender o meu papel
Para que seja possível avançar cada vez na universidade. Hoje, eu vejo que eu não
mais na transformação da universidade, consegui concluir nenhum desses cursos
muitas estratégias têm sido pensadas e porque eu também participava do movi-
parcerias construídas. Embora, em algum mento e aí não conseguia fazer as duas
momento, possa ter existido o temor de coisas, muitas vezes eu faltava e os profes-
que a universidade afastaria a juventude sores não compreendiam”.
indígena das lutas e do movimento, hoje o A falta de compreensão por parte do
movimento indígena é peça fundamental corpo docente das universidades sobre o
para o fortalecimento dos e das estudantes envolvimento de estudantes indígenas com
indígenas nas resistências e retomadas. o movimento de luta é um desafio, espe-

24
cialmente porque toda a contribuição que Outra estratégia de resistência usada
essas pessoas dão para o movimento não é por muitos grupos tem sido a formação de
considerada válida para a sala de aula. Então, parcerias com outras pessoas e grupos na
ao mesmo tempo em que a participação do própria universidade. Como afirma Aline,
movimento indígena provoca as faltas em “isso também é importante porque nós não
sala de aula, além de outras demandas que somos sozinhos, nós não vamos vencer essa
estudantes indígenas têm que dar conta, batalha sozinhos. Estamos lá e precisamos
também é esse mesmo movimento indíge- entender que é importante também que
na que dá sentido à presença na universida- os pretos estejam dentro da universidade,
de, permitindo enxergá-la como importante que é importante a agroecologia estar na
ferramenta. A insistência nessa atuação e nas universidade, é importante ter indígenas
relações diretas entre teoria e prática tem sido que estudem Direito, é importante ter indí-
uma estratégia dos coletivos de estudantes genas que se formem como pedagogos...
para superar as dificuldades e começar a Porque são essas pessoas que serão as for-
transformar a universidade. madoras de uma nova sociedade”.

alana Keline
costa silva
mancHineRi
Acadêmica de Biologia pela
Universidade Federal do
Acre (Ufac), comunicadora
indígena da Coordenação
das Organizações Indígenas
da Amazônia Brasileira
(COIAB), integrante da rede
de jovens comunicadores da
bacia Amazônica (COICA) e
membra da MATPHA.

25
Ou seja, é importante reconhecer a te, especialmente dentro da universidade.
universidade como o local onde as novas É como se você estivesse em um campo de
lideranças indígenas e não indígenas guerra, que você precisa ir olhando aonde
estão sendo preparadas, pois são esses você está pisando pra não deixar correr
grupos que estarão na linha de frente das água abaixo o que foi conquistado”.
transformações sociais, qualificando-as, Esse exercício constante de reflexão
inclusive, para que reconheçam as lutas já possibilitou avanços em muitas po-
e demandas indígenas, colaborando na líticas e programas dentro de algumas
construção de uma sociedade diversa e universidades, como nos casos de pro-
com equidade. Fazer parcerias é funda- gramas que contam com aulas realizadas
mental, mas estar vigilante em relação por sábios e sábias indígenas. Também
a elas e seus significados também, pois, os cursos específicos são considerados
como lembra Nyg, “a educação ainda é muito importantes, sendo a Licenciatura
colonial. Aceitar certos termos que nos Intercultural Indígena a maior experiência
colocam é aceitar o colonialismo. Nós neste sentido, como relata Leonardo: “Eu
temos que tomar muito cuidado e fazer ingressei na universidade através de uma
esse exercício de reflexão constantemen- política diferenciada, com a criação de um

leonaRdo
WeRÁ tuPÃ
Liderança Guarani Mbya, graduado
em Licenciatura Intercultural
Indígena pela Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC).

26
curso diferenciado para três povos: Guara- comunidade e tempo universidade”.
ni, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng, aqui na Entretanto, pessoas indígenas não que-
UFSC. Essa política diferenciada para mim rem apenas cursos específicos de formação
foi fundamental! O curso é voltado para de docentes indígenas e, nesse sentido, as
os costumes, tradições, uma tentativa de políticas públicas precisam avançar para
adequar um curso da universidade com que as especificidades indígenas sejam res-
os costumes dos povos indígenas. Por isso, peitadas em todos os cursos da universida-
achei importante fazer. A língua indígena de. Para que essas políticas avancem, bem
também fazia parte e considero isso uma como as reflexões sobre os caminhos para
grande vitória para os povos indígenas. O alcançá-las, um importante movimento de
fato de ter professores indígenas atuando encontros tem acontecido entre estudantes
na universidade também foi mais um pon- indígenas. Há encontros entre estudantes
to para os povos indígenas, tínhamos um indígenas da mesma universidade, a nível
professor de cada povo. O fato do curso ser regional, estadual e nacional. Esses encon-
feito por etapas foi muito bom, com tempo tros são espaços de discussão, montagem

27
de estratégias de ação e de trocas de ex- ENEI, que é maior encontro que temos no
periências que visam fortalecer essa luta e Brasil, ele vem no sentido de organização
construir caminhos possíveis para avançar. política, é criado como uma organização
Nyg explica que “essa organização de política para debater as políticas afirmativas
estudantes indígenas surgiu no sentido nas universidades e pensar estratégias de
continuação dessa luta. O ENEI
também se propõe a pen-
sar as metodologias de
ensino para os povos
indígenas. Enfim,
trazer as questões dos
indígenas nas univer-
sidades”.
O Encontro Na-
cional de Estudantes
Indígenas (ENEI) é
realizado anualmen-
te, alternando pelas
diversas regiões do
país, e é concebido
como um poten-
cializador das ações
políticas dos coletivos
de estudantes indíge-
nas. Nyg ressalta: “A gente
de fortalecer a nossa presença na univer- observa a estrutura da universidade e ali
sidade, de visibilizar nossa presença na é um espaço político, é um espaço onde
universidade e de cobrar os nossos direitos se toma decisões políticas, as pessoas que
da universidade. E é muito interessante estão ali têm posição política. É importante
ver o amadurecimento dos estudantes nos apropriarmos desse espaço e desses
indígenas a partir dessa organização cole- mecanismos pra nossa defesa. Por isso,
tiva e organização mais política mesmo. O é fundamental essa organização dos es-

28
tudantes! Eu percebo, nessa caminhada, Uma comunidade não é necessariamente
um amadurecimento das discussões, um coletiva, nós temos comunidades egoístas,
amadurecimento das pessoas que estão temos comunidades perversas. Isso não sig-
envolvidas.Anualmente, vemos um avanço nifica que seja coletivo. O que faz com que
nas proposições, cada vez maior lucidez no nós não nos desliguemos da nossa vida
nosso projeto de futuro, no projeto de mun- originária é o nosso sentimento e nosso es-
do que temos pra nossas crianças. É um mo- pírito de coletividade. Não é a comunidade.
mento de fortalecer os compromissos com A comunidade gera em você um costume e
a coletividade, com aqueles que estiveram costume vai e vem. Mas, o que nos envolve
antes de nós. É um compromisso nosso originalmente, ancestralmente, é um sen-
com essa luta histórica! Estamos lutando timento de coletividade. Então esse senti-
para que a universidade seja um aliado e mento, quando estamos na universidade,
não um inimigo”. pode até dar a impressão para as pessoas
Esse vínculo e compromisso coletivo de que estejamos afastados, mas o senti-
talvez sejam os grandes diferenciais de mento coletivo não acaba assim”.
estudantes indígenas em relação a estu- A coletividade é oriunda da ancestrali-
dantes não indígenas, pois, normalmente, dade e a universidade não pode ser lugar
uma pessoa não indígena entra na univer- de desmonte dessa forma de pensar e
sidade buscando crescimento pessoal e in- agir indígena. “É esse sentimento coletivo
dividual. Porém, as pessoas indígenas que que nos acompanha até a universidade,
acessam a universidade o fazem através fazendo com que nós sejamos totalmen-
da luta que foi travada por muitas pessoas te capazes de produzir um conhecimento
que as antecederam e há reconhecimento epistêmico ancestral”, evidencia Aline. E,
desse esforço que foi coletivo. Para além do assim, a coletividade aparece como uma
aspecto prático da luta, há o sentimento de das maiores forças para que estudantes
pertencimento que vai além das comuni- indígenas sigam construindo caminhos
dades, como explica Aline: “Nós saímos de de sobrevivência e transformação dentro
um vínculo comunitário e vamos para uma e fora da universidade.
universidade, mas o nosso vínculo coletivo
não sai de nós. Comunitarismo são pessoas
agrupadas por um determinado motivo ou
causa comum, isso é estar em comunidade.

29
30
a univeRsidade Que se QueR:
teRRitÓRio do Bem viveR!
Descrever o que seria a universidade mesmo de braços abertos, igual eu sou
considerada ideal para os povos indíge- recebida aqui dentro da aldeia. Quando
nas é tarefa muito difícil, especialmente eu venho pra aldeia eu sinto que eu te-
levando em conta que temos mais de nho conforto, que eu sou dessa família.
305 povos diferentes no território que Me sentir acolhida de verdade dentro
hoje é o Brasil. Cada povo com suas da universidade! Uma universidade que
concepções, suas experiências e seus me desse acesso a tudo isso, a poder ir
contextos com demandas próprias. O falar com um professor sem medo do
que buscamos fazer, neste momento, professor me discriminar, sem medo do
foi reunir as ideias compartilhadas pe- professor me recriminar. Acho que a uni-
las sete pessoas indígenas aqui presen- versidade ideal seria isso!”.
tes e perspectivas de caminhos para se Outra direção apontada por Márcio,
construir este espaço universitário que e presente em várias falas de pessoas in-
aceite e valorize as pessoas indígenas, dígenas, está no reconhecimento das ci-
bem como se paute em seus valores e ências e saberes indígenas: “Em minha
conhecimentos. ótica racional, percebo, claramente, que
Ao pensar essa universidade que se se poderia sim haver uma junção de
quer ou a universidade ideal, foi inevitá- conhecimentos e protocolos ativos que
vel estabelecer comparações com a uni- garantissem essa interação de conheci-
versidade que temos. Fica evidente como mentos. Essa ação enriqueceria muito
o preconceito que se encontra na univer- ambos os lados, levando com isso os
sidade atual é marcante e, por isso, mui- saberes, os conhecimentos a outro pata-
to se falou na universidade que se quer mar evolutivo de expansão de mentes”.
como um espaço de aceitação. Walderes Leonardo também reforça a impor-
a define como um lugar que “realmente tância dessa nova forma de enxergar os
me aceitasse como eu sou. Como eu sou conhecimentos indígenas, colocando-
mesmo. Sem preconceito. Me aceitasse -os, inclusive, como de maior impor-

31
tância para as pessoas indígenas: “Essa conhecimento do meu povo. Ele tem
universidade precisaria entender que fundamento, tem essência”.
nosso conhecimento está na natureza, Para além dos povos indígenas e
está na tradição milenar que temos, seus saberes, reconhecer outras ciên-
está com os mais velhos. Eu sinto que, cias e epistemologias é fundamental
hoje, o conhecimento indígena está para uma universidade transformada
sendo bombardeado, às vezes até sem e transformadora. Nyg nos lembra que
perceber que isso está sendo feito. Por a universidade como está hoje é parte
isso, nossa presença é importante para de um sistema de mundo que está fra-
contra-atacar. O nosso jeito de olhar o cassando: “Uma universidade que reco-
mundo e ver conhecimento e sabedoria nhecesse as epistemologias, as ciências
na natureza, na terra poderia trazer um todas que estão ali dentro, privilegiando
novo olhar que os não indígenas desco- o diálogo entre essas ciências. E isso não
nhecem. O conhecimento acadêmico, é o ideal apenas para nós indígenas,
pra mim, é secundário. O primeiro é o porque sabemos que esse sistema car-

nYg Kaingang
Acadêmica de Serviço Social
na Universidade Federal do
Paraná (UFPR), pesquisadora
indígena pelo Programa
de Educação Tutorial - PET
Indígena - Conexões Saberes/
UFPR, membra da Articulação
dos Povos Indígenas do Brasil
(APIB) e colaboradora da Rede de
Juventude Indígena (REJUIND).
32
tesiano/iluminista é um sistema falido. aliar teoria e prática, como descreve Ala-
Precisamos repensar novas formas de na: “Uma universidade ideal teria que
ciência, de diálogos entre ciências e re- ser como é com os povos indígenas, você
conhecer essas ciências invisibilizadas, aprende a caçar na prática. O teórico e
como dos povos indígenas, dos negros o prático junto. Seria uma universidade
e outros povos que não são parte dessa onde nosso conhecimento fosse utilizado
elite acadêmica, branca, europeia. Esse para ajudar o coletivo. Uma universidade
seria o ideal e é pra isso que a gente que tivesse mais as nossas caras, mais
luta! Entender que todos que ali estão colorida. Um espaço onde não precisás-
têm um pouco pra contribuir, não so- semos conviver com esses processos co-
mente adquirir conhecimentos”. lonialistas, onde há só pessoas brancas
A ideia de superar uma universida- mais velhas ditando o que é intelectual
de que não dialoga com a diversidade, e o que não é intelectual”.
que tem sido o retrato da elite brasileira, O protagonismo indígena é muito
aponta também para a necessidade de presente na proposta de uma univer-

aline ngRenHtaBaRe
loPes KaYaPÓ
Mebengokré e descendente do povo
Aymara – Peru. Escritora, pesquisado-
ra indígena, ativista no movimento
indígena nacional e no movimento
nacional de indígenas mulheres.
Fundadora do Wairaísmo – rede
ancestral filosófica que se vincula
à reflexão da resistência das indíge-
nas mulheres no Brasil. Acadêmica
do curso de Direito.

33
sidade ideal, seja na inclusão de suas der verdadeiramente quem somos”.
ciências, seja no reconhecimento das Refletindo sobre as práticas
pessoas indígenas como pesquisadores apontadas como necessárias para a
e pesquisadoras. Leonardo coloca que transformação da universidade ou
“na universidade ideal, a nossa construção de uma universidade com
história seria contada por novas bases, é fundamental pensar no
nós mesmos e as pesso- abandono das práticas colonialistas e
as conseguiriam enten- eurocêntricas. Como sugestão, Aline

Bem viveR:
É a tradução livre de modos de viver indígena, que nas línguas
dos povos originários soa como Sumak Kawsay (quíchua), Suma
Qamaña (aimará), Teko Porã (guarani). Para os estudiosos, é
uma novidade no início do século XXI, uma proposta que propõe
à sociedade a recuperação das condições de sua própria produção
e reprodução material e espiritual, superando a ruptura entre
homem e natureza promovida pela ideia de progresso iluminista.
Busca superar as contradições do capitalismo, do socialismo
e do comunismo, partindo do princípio de que crescimento
permanente é impossível. O Lema é “viver bem com menos”,
sendo que a nova sociedade deve ser construída levando em
consideração os povos originários e seus territórios, bem
como o meio natural que nos rodeia. Deve-se criar um novo
modelo de democracia e de economia, pautados nos princípios de
participação, solidariedade e respeito mútuo.
YAMPARA, Simón. O bem-viver como perspectiva ecobiótica e cosmogônica.
Tradução de Moisés Sbardelotto. IHU online: Revista do Instituto Humanitas
Unisinos, São Leopoldo, ano 10, n. 340, p. 19-22, ago. 2010.

34
coloca o “BEM VIVER” como a teoria tar a base da universidade atual, fun-
de base para a universidade: “A univer- dada no humanismo e racionalismo.
sidade ideal para os povos indígenas Aline explica que, “se a universidade
seria aquela que levantasse e vivesse atual é baseada nos ideais iluministas
os valores do bem viver! Não adianta de igualdade, liberdade e fraternidade,
ser indígena e não ser anticapitalista, a universidade que queremos precisa
não adianta ficarmos tapando o sol dar conta de mais três outros aspectos:
com a peneira para um mercado liberal diversidade, coletividade e espiritua-
que hoje fica lambendo nossas feridas lidade!”. Com isso, sai o ser humano
para vender as nossas marcas! É na do centro da universidade e entra a
universidade que surgem as mentes coletividade que compõe a vida! Abre-
pensantes, o que vai para o mundo lá -se espaço para a diversidade de com-
fora. Então não queremos mais uma preensões de mundo, diversidade de
universidade que reproduza esse sa- saberes e ciências, ampliando signifi-
ber epistemicida. É muito importante cativamente nossas chances de seguir
que se levante a bandeira do bem viver existindo enquanto humanidade e de
aqui nesse país que é tão diverso, di- maneira digna.
verso em pessoas e em natureza”. Talvez, no futuro, tenhamos uma
Para que isso seja colocado em prá- universidade transformada ou então
tica, é preciso trazer lideranças e pes- teremos universidades indígenas com
soas sábias dos povos indígenas para bases próprias em nosso país. Não
dentro da universidade, concedendo a sabemos exatamente quais caminhos
elas a titulação de Doutores e Doutoras estaremos trilhando nessa construção,
Honoris Causa e reconhecendo o saber mas, um caminho que já está sendo
que construíram no mundo e em suas percorrido e que não permite retroce-
vivências. É preciso reconhecer que a der, é a abertura da universidade para a
interculturalidade, tão defendida e de- diversidade de pessoas e a pluralidade
batida nas universidades, se dá também de concepções, saberes e ideias!
entre os povos indígenas e não somente
na relação com não indígenas.
Pensar uma universidade baseada
no Bem Viver é, antes de tudo, desmon-

35
univeRsidade:
teRRitÓRio
indígena!

semana dos Povos indígenas 2021 - 18 a 24 de aBRil

Você também pode gostar