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Filosofia da linguagem (2) - As palavras e as coisas

Josué Cândido da Silva, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Filosofia da linguagem (1)

Filosofia da linguagem (3)

Filosofia da linguagem (4)

Filosofia da linguagem (5)


Filosofia da linguagem (6)

Filosofia da linguagem (7)

A relação entre as palavras e as coisas é objeto de um longo debate na filosofia. Seriam os nomes que damos aos seres
meras convenções ou seriam eles naturais e inerentes aos seres? Poderíamos chamar as mesas de cadeiras e as cadeiras de
mesas, por exemplo?

Muitos povos antigos consideravam o nome como parte indissociável do seu ser. O nome seria tão parte da pessoa como
suas mãos ou pés. Assim, o nome adquiria muitas vezes um caráter sagrado, cabendo ao indivíduo honrá-lo e defendê-lo.
Ainda hoje, em muitas religiões, realizam-se ritos que tentam atingir uma pessoa através da manipulação do seu nome.

Entre os cristãos, era comum mudar de nome após converter-se ao cristianismo como símbolo de uma nova vida.
Existem pessoas que acreditam que falando o nome da coisa a estamos chamando, como quando se fala da morte, por
exemplo. Há outras que acreditam que não se deve falar de pessoas mortas.

Será que o nome da pessoa é parte de sua identidade ou poderíamos ter um nome diferente que isso não faria diferença?
As pessoas se parecem com o nome que têm? Ou há pessoas que têm nomes que não combinam com elas?

Platão

Um diálogo interessante de Platão (428-347 a.C.) sobre o assunto aparece no "Crátilo". Platão inicia esse diálogo com
uma discussão entre dois personagens: Crátilo e Hermógenes. Crátilo afirma que Hermógenes não deveria se chamar
assim, já que "Hermógenes" significa "filho de Hermes" e para fazer jus a esse nome, Hermógenes deveria ser uma
pessoa rica e não estar em dificuldades financeiras, como era o caso do personagem.

Hermógenes, no diálogo, defende a posição do convencionalismo, isto é, que os nomes não têm nenhuma relação com as
coisas e são completamente arbitrários, podendo ser mudados segundo a nossa vontade. Já Crátilo defende a posição
naturalista de que a cada coisa corresponde o seu nome e conhecer o nome significa saber o que a coisa é.

Platão defende uma posição intermediária. Ele irá reconhecer que existe certo grau de convencionalismo, pois a mesma
coisa pode ser chamada por nomes diferentes nas diversas línguas. Por outro lado, as pessoas não poderiam ficar
trocando o nome das coisas à vontade, porque, nesse caso, a linguagem se tornaria impossível.
Ordem das coisas

Existe um limite para o convencionalismo, pois as palavras devem significar a essência daquilo que representam. Mesmo
que as palavras variem de uma língua para outra, em cada uma delas a palavra sempre representa a essência daquilo que
ela nomeia. Ela é um instrumento para representar a ordem das coisas.

Assim como existe uma ordem nas coisas, existe uma ordem na linguagem, que é tão mais verdadeira quanto melhor
representar a ordem das coisas. Por isso, é necessária uma crítica da linguagem para que ela se torne mais fiel como
instrumento para dar expressão à ordem natural das coisas. Tal tarefa cabe ao dialético, responsável por criar os nomes e
fazer com que a palavra possa exprimir em sons a ideia correspondente à essência da coisa.

Contrariamente à posição de Platão, o filósofo inglês Guilherme de Ockham (1285-1349) é um dos principais defensores
da doutrina conhecida como "termismo" ou "nominalismo". Segundo Ockham, o nome ou o termo "faz as vezes" do
objeto na proposição. Ele apenas substitui a coisa real, mas ele mesmo não tem nada a ver com a coisa que designa, é
apenas uma convenção que empregamos para nos referirmos às coisas.

Abstração

Somente os objetos singulares são reais. Como o número de palavras é limitado e o de objetos, infinito, uma mesma
palavra acaba tendo de designar um grande número de objetos. Quanto maior o grupo de objetos que a palavra designa,
mais abstrata ela se torna e mais vaga também. Por exemplo, eu posso ter uma ideia muito clara de quem seja André ou
Maria, mas a ideia de "humanidade" já não é tão viva em nossa mente. Disso se conclui que as palavras se prestam
melhor para se referir às coisas concretas e não para representar a essência (se é que ela existe), como pensava Platão.

Os termos abstratos seriam apenas construções de nosso intelecto, não estando de forma alguma nas coisas. Ou seja, as
coisas não têm uma essência a ser simbolizada através do termo, nós é que atribuímos uma essência para elas através do
processo de abstração.

Convenção versus essência

Percebemos determinadas características nas coisas e estabelecemos uma relação de semelhança entre elas. Por exemplo,
que determinados animais têm penas, bicos e são bípedes e os chamamos de aves. Essas características comuns estão
presentes nos indivíduos singulares e nós as abstraímos formando uma ideia geral que se aplica a um grupo de
indivíduos.

A "ave" em si, porém, não existe. O que existem são patos, galinhas e canários concretos dos quais chegamos à ideia
geral de ave. O único modo de saber se essa abstração é uma ideia verdadeira ou não é confrontá-la com o objeto real que
ela pretende representar.

Muitos outros filósofos se envolveram no debate sobre se a relação entre as palavras e as coisas é puramente
convencional ou a expressão da essência das coisas. Um deles, Pedro Abelardo (1079-1142), colocou o problema nos
seguintes termos: se todas as rosas do mundo desaparecessem, o nome "rosa" ainda assim continuaria tendo significado?
Por trás dessa questão se esconde a secreta relação entre as palavras e as coisas, além da teimosa recusa da linguagem em
ser mero veículo de expressão dos objetos ou das ideias dos sujeitos.

Josué Cândido da Silva, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é professor de filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz em
Ilhéus (BA).

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