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Protegida

pelo Bilionário


Yule Travalon

“Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados:
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir,
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.
Pois da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa
poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros
que se embalam ao sol,
Assim também desce até as vossas raízes e as sacode em seu apego à terra.

[...]

O amor nada dá senão de si próprio


e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Pois o amor basta-se a si mesmo.

[...]

E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar
dignos, determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo senão o de atingir a sua plenitude”.


“O Amor” de Khalil Gibran em “O Profeta”.
LIGA LITERÁRIA


A demora para o lançamento desse livro se deu por diversos motivos. Eu o
já tinha em grande parte pronto desde maio, mas uma série de desventuras me
atingiram. Então peço perdão pela demora e torço para que cada página valha à
pena a espera.
Esse livro é sobre muitas coisas. Amizade, amor, companheirismo,
confiança, entrega e dedicação são algumas delas. Ah, tem a conspiração
também. Espero que você possa captar ao menos uma delas. E se emocione com
essa narrativa que, devo admitir, me fez chorar todas as vezes em que a reli nos
últimos meses.
Agora os agradecimentos.
Aos meus amigos que estiveram ao meu lado nos dias difíceis e que me
deram grande suporte.
A G. R. Oliveira que me lembrava que esse livro existia, mesmo quando
eu não tinha mais forças para escrever. Obrigado pela amizade e por acreditar em
minha literatura.
Preciso agradecer a todos pelo apoio, principalmente as minhas divas
literárias (Anne Krauze, Katherine Laccom’t, Evy Maciel, Anne Marck) que me
estenderam a mão nos livros anteriores e tem servido como referência para
aprimorar os meus romances.
Aos meus outros amigos autores (Tom Adamz, Josiane Veiga, R. B.
Mutty, Bárbara P. Nunes, Nana Simons, Kamila Cavalcante, Lety Friederich e
Marcia Reis MacEvan) com quem dividi boas risadas, ideias, veneno e uma boa
porção de verdades, hahaha! Passar pela escuridão dos últimos tempos foi mais
fácil com vocês.
Aliás, sem a minha revisora Daniela Vazzoler nada disso seria possível.
Com todo carinho e comprometimento ela me estendeu a mão e cuidou do
material para que ele chegasse num tom elevado em suas mãos. Dani, obrigado
por se preocupar e se importar comigo.
E, é claro, o motivo de eu ainda escrever: as minhas leitoras.
Agradeço a espera e o carinho que vocês têm pelas minhas obras. Sem
vocês nada disso faria sentido. Espero que curtam essa nova fase de romances
que se passarão em Nova York e depois retornaremos para o nosso tão amado,
sofrido e conspiratório Brasil.
Como de costume registrarei os nomes de vocês aqui como demonstração
do meu carinho, lembrança e agradecimentos:
Para as minhas amadas leitoras Charmaine Heringer, Chris Campos, Lu
Maccari, Elisângela Rocha, Flavia Adriano, Maria Eduarda Dornelles, Fabiana
Sousa, Cristiane Reis, Tai Carvalho, Vania Cristina, Vanessa Santos, Débora
Knob, Edna Nascimento, Eliszsb, Andrea, Regina, Eva Figueira, Rosana,
Fernanda Faustino, Yka Nick, Adri Balan, Claudia Rejane dos Santos, Risia
Moura, Dany Sousa, Wuly Vieira Martins, Maria São Pedro Souza, Mariana
Cristofolete, Nidiegy, C. L, Rebeca de Arruda, Kimberly Kelly, Roberta Natasha
Cezario Vieira, Bia Fernandes, Fabiana Carvalho Leme, Lú Oliveira, Mary
Oliveira, Nathália Novikovas, Cleomara Alves, W. F. Endlich, Pri Assis, Karina
Altobelli, Solaine Chioro, Rose Oliveira, Lais Pereira e todas as outras que não
consegui encontrar o nome.
Vocês fazem parte dos meus motivos para continuar a escrever.
E enquanto estão lendo isso, eu já estou correndo para o próximo livro!
Um grande abraço!

Yule.
Sumário

Sumário
Sinopse
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Epílogo
Ficha Técnica
Sobre Yule
Sinopse

Beatriz Rodrigues é uma mineira que foi para Nova York em busca do
sonho americano. O resultado? Tudo o que conseguiu foi ser uma imigrante
ilegal, com medo de ser encontrada e deportada a qualquer instante.
Esgueirando-se pelos cantos durante o dia e stripper pela noite, Beatriz se tornou
“Sabrina”, objeto de desejo dos homens poderosos que frequentam o La Chica, o
clube noturno onde se apresenta. Bia nunca encontrou motivos para aceitar as
propostas indecentes que recebia até Héctor Mitchell lhe oferecer muito mais do
que um Green Card, uma conta gorda e a independência que ela tanto almeja.
Héctor Mitchell é um bilionário muito cobiçado pelas mulheres da elite
nova-iorquina, mas ele não passa mais do que uma noite com elas; ninguém é
capaz de prendê-lo, o amor é apenas um fantasma e o mundo um mar de
oportunidades. Obsessivo por controle, Héctor vê as coisas saírem do controle
quando seu pai, o CEO da Mitchell & Smith entra em coma e seu testamento é
aberto: Héctor é o único herdeiro e beneficiado de todos os bens e o cargo
presidencial da empresa familiar, isso se conseguir provar que pode ter um
relacionamento sério e duradouro, sem traições ou escapadas por mais de um
ano.
Bia se sente tentada com a proposta de Héctor, mas é um perigo
inesperado que a leva aos seus braços. Ao decidir protegê-la, Héctor sabe que
terá de abrir, pela primeira vez, as portas do seu mundo: seus segredos, sua
verdadeira face... e o seu bem mais precioso: Anthony, seu filho acamado, cheio
de problemas e doente.
Poderia um casamento por contrato se tornar uma amizade, paixão ou até
mesmo um amor?
Beatriz e Héctor estão prestes a descobrir.
Capítulo 1
Beatriz Rodrigues

Eu vim para os Estados Unidos com um sonho.
Queria mostrar aos meus pais e às pessoas que duvidaram de mim que eu
era capaz de ter o mundo aos meus pés, se eu quisesse. Sair do Brasil era um
sonho desde criança, a América do Norte sempre me pareceu uma terra de
oportunidades; e aqui estou eu, em Nova York.
Mas o que eu consegui?
Não um Green card, muito menos um visto para ser estudante ou
trabalhar.
Vivo na ilegalidade há alguns meses.
No início consegui sobreviver limpando casas e privadas para famílias
abastadas, mas agora eu realmente ganho um dinheiro considerável para poder
ajudar minha família no Brasil.
O mundo está em crise? Não para quem ganha em dólar, baby.
Permita que eu me apresente, por favor.
Eu me chamo Beatriz Rodrigues, tenho 22 anos, sou natural do interior
de Minas Gerais e venho de uma família muito conservadora, simples e
tradicional.
Desde pequena eu sempre quis ser famosa, ou pelo menos “viver bem”
em uma cidade estonteantemente grande. Sempre foi o meu desejo que ao olhar
para fora da janela houvesse mais do que mato, vaca e montanhas; no lugar deles
seria bom se tivesse o mundo moderno, digital, o verdadeiro século XXI: eu
queria a cidade grande.
São Paulo não foi o suficiente. Vivi lá por menos de um ano só para
juntar dinheiro e vir “passar as férias” em Orlando, que foi o lugar onde eu
limpei muita bosta. Digo, muita casa de gente rica. E suas privadas também.
Então eu conheci o senhor Brown, dono de um clube noturno em NY que
gostou muito de mim e tentou de todas as formas me levar para cama e não
conseguiu.
E foi assim que eu, a moça de uma família simples do interior de Minas,
veio parar no clube de strip-tease mais badalado das noites nova-iorquinas: “La
Chica”.
Agora sim eu vivo a vida que eu sempre quis.
Tudo o que preciso fazer agora é fugir da polícia e de qualquer um que
possa me deportar, desviar o meu caminho dos traficantes que insistem para as
garotas venderem drogas no clube e pela cidade para tirar um dinheiro extra e
não me meter em encrencas.
Até agora isso tem sido fácil.
Ganho muito bem como stripper e busco manter minha saúde mental.
Por detrás da “Sabrina Lopes” a carioca que seduz, dança e às vezes
deixa os atrevidinhos gostosões passarem um pouco dos limites, existe a “Bia”, a
garota do interior, sonhadora, que não precisa mais viver em um quarto mofado
no fundo da casa de alguém. Ou limpar bosta.
Pequeno passo para a Bia, grande passo para a humanidade, ou algo
assim.
Agora vivo em um apartamento com duas companheiras de trabalho,
guardo dinheiro para pagar uma faculdade no futuro – elas custam bem caro aqui
– e continuar vivendo em busca do meu tão sonhado visto permanente que me
permitirá ser cidadã americana de uma vez por todas.
— Você não tem medo, Beatriz? Que eles te deportem? — Hillary, minha
colega de apartamento e trabalho, passa óleo em meu corpo para que eu fique
logo pronta para subir ao palco.
Antes que eu abra a boca, Clair, minha outra colega, me interpela:
— Pelo menos ela tem um plano B. Se tudo der errado e eles chegarem
perto de deportá-la, ela tem o Brown, que a pediu em casamento. Se ela se casar
com ele conseguirá o visto e todos os problemas acabam. Afinal de contas,
dinheiro você tem, certo, Bia? — ela me encara com seus grandes olhos azuis.
Sorrio timidamente e continuo concentrada em minha maquiagem.
— Por que você não se casa com o Brown? Tudo bem que ele é velho,
mas tem tanto dinheiro... — Hillary não se conforma que eu esteja “deixando
aquela grande oportunidade ir embora”.
— Ele quer que eu tenha um filho — olho para elas no espelho.
Nunca conversamos sobre isso antes, mas agora que temos mais
intimidade, depois de três meses morando juntas, creio que já podemos dividir
isso.
— Dá o filho para o homem! — Clair ri e bate em meu ombro.
Eu não queria ter filhos. Pelo menos não com o Brown.
Embora eu tivesse absoluta certeza que nunca faltaria nada para mim e a
criança e que nunca mais eu precisaria trabalhar em toda a minha vida, a oferta
não era mais tentadora do que a minha liberdade.
O meu direito de ir e vir era sagrado.
Eu tinha essa vontade gritante em meu interior: de ser livre, de ser
solteira e independente. Casamento, filhos e compromisso me davam arrepios!
— Vocês são tão idiotas! — termino de me maquiar e Hillary para de me
besuntar.
— Ele é um coroa boa pinta, nunca nos deixou faltar nada e parece gostar
de você. O que ele sempre diz a ela antes de entrar no palco, Clair? — Hillary se
vira para a amiga.
— “Você é a minha estrela, vá para o palco e faça chover dinheiro” —
ela tenta imitar a voz e trejeitos do homem.
Acabamos rindo e a luz vermelha do camarim se acende, isso é um sinal
de que precisamos nos apressar, pois nosso show já vai começar.
Hillary e Clair me ajudam a vestir o macacão preto de látex e também
colocam a máscara de mulher gato em mim sem que eu destrua a maquiagem.
Calço as botas pretas altas e dou uma última checada no espelho antes de sair.
— Eu me casaria com o Brown se fosse para conseguir o Green Card,
mas felizmente nasci em Connecticut — Clair é a primeira a sair.
— Bom, eu sou apenas uma estudante universitária ganhando a vida —
Hillary retoca meu batom e dá de ombros.
— Ele é meu plano B, gente, isso significa que sim, ele é uma
possibilidade. Mas eu estou concentrada em outra coisa agora.
— Ah, você tem um plano A! — Hillary enfim percebe.
— E você é a universitária, não é? — debocho.
Hillary me belisca e confere no espelho se está pronta para ir ao salão
divertir os ricões, bilionários, CEO’s das grandes empresas de NY e da América
em geral. Eles vêm todos parar aqui para ter um show, uma noitada inesquecível
e saborear o doce pecado que o La Chica pode oferecer.
— Qual o seu plano A? — ela pergunta.
— Me virar sozinha. Sou uma mulher independente, cheguei aqui
sozinha e vou sobreviver sozinha! — estufo os peitos, empino a bunda e saio.
Não sem antes ouvir minha colega disparar em minhas costas:
— Aqui é a América, baby. Ninguém sobrevive sozinho.

Héctor Mitchell

Isso é arte. Silhuetas bem desenhadas, peitos avantajados, bundas gordas
e suculentas, famintas, corpos que foram preparados para encher os olhos e fazer
a imaginação vagar pelo lugar até encontrar um alvo.
Eu tinha muitos alvos.
Foderia todas, se possível em fila, seria um deleite deixá-las anestesiadas
e implorando por mais.
Ouvir, como já ouvi diversas vezes, que elas que deveriam me pagar para
serem devoradas por um macho de verdade. Mas eu faço questão de pagar,
dinheiro aqui não é problema.
Alex, meu assistente, se encolhe enquanto passa pelas garçonetes, parece
que nunca viu mamilos na vida. E elas balançam, insinuam, mostram que dariam
tudo para levar um garotão como ele para as salas mais reservadas.
— Você é um frouxo — começo a rir quando ele se senta ao meu lado.
— De todos os lugares que poderíamos nos encontrar, um clube de strip-
tease?
— Não “um clube de strip-tease” meu caro, o melhor do país! Quem
sabe, de toda a América! — levanto o copo de whisky e sinto o líquido atiçar
meu paladar. Ele só perde para aquelas bundas.
Aceno cem dólares para Valerie, uma das garotas mais experientes da
casa. Ela prontamente vem em minha direção, fica entre minhas pernas e começa
a dançar sensualmente enquanto fica de joelhos. Agarra meus joelhos com as
unhas e sobe, devagar, encarando-me como se fosse me devorar ali mesmo.
— Héctor — Alex, o estraga prazeres, me chama.
— Você é uma boa menina — acaricio o rosto de Valerie e indico para
que ela se levante.
Antes que ela saia eu coloco a nota de cem dólares dentro de sua
calcinha, não sem antes espalmar sua bunda e vê-la sair remexendo e me
olhando à distância.
— Héctor — a voz de Alex mostra preocupação. — Seu pai entrou em
coma e o testamento foi aberto! — ele me repreende.
Continuo a olhar para frente, distraído pelos corpos femininos. Para que
os olhos parem de formigar, dou um gole generoso na bebida ardente e faço a
garganta pegar fogo.
Viro o rosto para o lado oposto de onde está o rapaz franzino e
engravatado, fungo o nariz e só retorno para a posição anterior quando sei que
meu rosto transparece apenas a satisfação de estar naquele antro de perdição. Ou
seja, permanece indiferente, analítico e sério.
— Me desculpe — sua voz sai mais cordial. — Eu não quis... eu não
quis...
Ergo a mão para calá-lo. Ele insiste:
— Sei que você está sofrendo do seu jeito — sua mão toma coragem para
pousar em meu ombro, mas rapidamente ele a recolhe, escora as costas no
estofado e finge que vai se entreter com as garotas.
Foi por isso que eu contratei esse garoto. Ele tem uma fragilidade
humana que me faz lembrar do Héctor adolescente.
Na verdade, não foi por isso. Contratei doze secretárias antes. Nenhuma
delas resistiu. Eu muito menos. Foi consensual, barulhento e destruidor.
Sério, precisaram reformar a minha sala depois de uma das sessões com
Caroline. Ah, Caroline...
Mas o meu pai sempre foi linha dura. Ele queria o filho perfeito, um
homem exemplar, o estereótipo de que colocaria a empresa e a família em
primeiro lugar sem titubear.
Eu sempre optava pelas mulheres. É como dizem, a carne é fraca. Bom, a
minha fica bem dura. E sedenta. E incontrolável.
Diminuo o aperto da gravata preta, mas não abro o paletó. Continuo a
assistir o show e vigiar Alex de canto.
— Pode falar. Ele deixou tudo para minha mãe e indicou Geoffrey para
CEO — pego a garrafa de whisky quando ela passa e coloco uma dose no copo,
deposito ele na bandeja e viro a garrafa.
Alex treme. Evita me olhar.
— Fala, homem! — bato com o punho fechado no espaço vago entre
nossos corpos no sofá.
— E-e-ele... — o maldito gagueja. Torna tudo mais difícil.
A minha família junto com a família Smith são donas de uma das
maiores empresas de energia da América. Dinheiro, poder e seu pai de 75 anos,
um dos donos do império, em coma não são boas combinações. A família Smith
há tempos já queria abocanhar nossa parte.
E agora era a hora...
Meu pai me disse incansavelmente que eu era imaturo para um homem
de trinta anos, e que dificilmente conseguiria manter a Mitchell & Smith sob
controle, principalmente em um mercado como o nosso.
Ainda assim eu sempre fui seu braço direito, seu confidente e amigo.
Sempre estive ao seu lado, sempre me entreguei e dei minha vida por ele,
tentando imitá-lo de todas as formas possíveis.
Mas como todo Aquiles, eu tenho um calcanhar.
E esse calcanhar tem corpo, boca, seios, bunda... e está vestida em látex
hoje.
— Boa noite, senhor Mitchell — ela se vira felinamente, mostrando suas
curvas. Sabe que com isso consegue tirar 100 dólares de mim com mais
facilidade que nossa grande América do Norte em subjugar países de terceiro
mundo.
— Boa noite, Sabrina — meu lábio quase treme.
Meus olhos são mais felinos do que a fantasia, eu a encaro como se meu
único intuito fosse fazê-la gritar e perder os sentidos.
Sabrina e eu temos sido bons estranhos há algumas semanas. Já temos
um nome pelo qual chamamos um ao outro, ela sabe que eu facilmente esvazio
meus bolsos quando a vejo dançar, e eu sei que ela quer levar uns tapas.
E é esse espaço de suposições e imaginação que torna tudo mais
interessante.
— Espero que se divirta essa noite — ela se curva, seus lábios ficam
próximos do meu rosto, e eu coloco três notas generosas entre seus peitos.
Então ela se afasta sensualmente, fazendo as nádegas subirem e descerem
conforme caminha e vai seduzir outro ricaço.
Bato com o dorso da mão no peito de Alex, que quase coloca os bofes
para fora.
— Céus! — ele se dobra e tenta respirar.
— Responda-me quando assim lhe for solicitado — pego a garrafa e
sorvo o líquido enquanto acompanho a ladra de minha atenção seduzir outro
cara.
— O testamento... o testamento... — ele tenta lembrar.
— Mas ele não morreu, certo, Alex? — o olho de canto.
— Ele está em coma — meu secretário tenta regular a respiração. — Mas
até que esteja em plenas faculdades mentais, faz valer seus direitos registrados.
— Certo — deixo os lábios colados na boca da garrafa, pronto para ouvir
o veredito.
— E-ele... — Alex retorna a gaguejar e eu estou pronto para lhe dar umas
pancadas.
Ele pede um minuto, tira a gravata e se abana, tenta respirar, mas parece
uma missão impossível. Então seguro com força no colarinho da camisa branca e
arranco o primeiro botão, assim ele puxa todo o ar que pode para os pulmões.
— O senhor Mitchell deixou tudo para você.
Embora eu escute, aquela informação paira no ar e me deixa ainda mais
distraído.
— Também o indicou para o cargo de CEO da Mitchell & Smith — ele
revela.
Aquilo sim é surpreendente.
Fico dividido entre as palavras do meu pai e aquela ação tão inesperada.
Embora fossemos extremamente próximos e exatamente por sermos, eu sabia
que ele deixaria tudo para a minha mãe e indicaria o Geoffrey, o desgraçado do
filho do senhor Smith que já havia falecido e há anos queria o cargo para si.
Mas aquele cara, o Geoffrey, não tinha condições de dirigir uma
pastelaria, veja lá a nossa empresa.
— Meu pai ensandeceu — foi minha conclusão e novamente virei a
garrafa para tomar no gargalo aquele líquido. — Perdeu o completo juízo. Vou
pedir para que revejam esse maldito testamento.
— O testamento foi escrito há dez anos e ratificado a cada três meses, a
última vez em que foi ratificado foi há duas semanas — Alex revelou.
— Só pode estar brincando — pendi a cabeça para trás.
— Mas para que o desejo do senhor Mitchell seja realizado, tem uma
condição.
Ah, aí está! A pegadinha!
— O que? — pergunto, sem esperança alguma.
— Seu pai escreveu que gostaria de vê-lo superar a sua fraqueza com
mulheres...
— Novidade...
— Então a condição é que você se case.
— Nem fodendo — disparo logo.
— Ou tudo será da família Smith.
Engasguei e cuspi a bebida, chamando a atenção das pessoas que
estavam mais próximas. Encarei Alex e ele se afastou subitamente e se encolheu,
na ilusão de que se manteria seguro.
— Tudo o que? Dinheiro? Propriedades? Açõ...?
— Tudo — ele respondeu e se manteve daquele jeito estranho. — A sua
mãe pediu que eu o encontrasse e o levasse até ela, ela quer conversar contigo.
— É lógico que ela quer conversar comigo! — alterei um pouco a voz.
O meu pai tinha perdido o juízo? Eu que bebia e ele que ficava trêbado?
Que situação de merda!
— Levanta, Alex, vamos!
— “Vamos”? — ele prontamente se colocou de pé.
— Dar um jeito nessa merda!
Capítulo 2
Beatriz Rodrigues

Mais uma noite: mais quinhentos dólares.
Às vezes eu tiro mais, às vezes muito menos.
Em todos os casos a primeira coisa que eu sempre faço pela manhã é
depositar metade do valor na conta bancária da minha mãe.
A Beatriz Rodrigues é bem diferente da Sabrina.
A começar pelas roupas: gosto de sair com blusa de frio e jaqueta, calça
jeans e em alguns raros casos moletom ou até pijamas, afinal de contas, estamos
em NY e aqui é você quem constrói seu estilo!
Meu estilo varia entre: “sou uma jovem estagiária de uma revista de
moda” e “é o que tem para hoje”.
Também sou tímida.
É, eu sei, surreal pensar que uma stripper é tímida, mas eu sou. Na arte
de flertar eu sou uma porta sem fechadura. E quando homens – ou mulheres –
ficam me olhando demais, eu apresso o passo e saio correndo quando posso, vai
que é a polícia e eu vou ser deportada?
Também sou virgem.
Ok, ok, é essa a hora em que você desacredita completamente em mim e
desiste do que eu tenho a dizer. Mas se alguma coisa pode ser levada em
consideração, digamos que eu não sou virgem, por que o Bob, meu fiel
companheiro de luta, um vibrador de tamanho modesto e velocidade e
intensidade fora do comum, já me ajudou com isso.
Sério, eu enquanto Beatriz nem sei o que fazer.
A Sabrina não. Ela é ousada, sabe fazer poses, mexer a bunda, andar
sensualmente, seduzir os homens com apenas um olhar que mescla o “sou
inocente” com “me deixe satisfazer seus desejos”.
O que separa a Sabrina da Beatriz é uma máscara. Ela é a personagem
perfeita.
E, é claro, contas a pagar, boletos próximos de vencer e aluguel.
Enquanto as outras garotas saem com clientes, transam com eles e
repetem a dose, eu sou “intocável” – e talvez por isso eu seja tão valiosa.
Todos desejam a Sabrina, todos sonham em tê-la, justamente porque
ninguém pode passar dos limites com ela.
— Bom dia! — cumprimento um dos homens que frequenta o La Chica e
saio rindo ao notar que ele sequer sabe quem eu sou sem toda aquela fantasia.
Por que é isso o que eu sou: uma fantasia. Sem rosto, o corpo sempre
bem delineado, um objeto, um sussurro perverso, um desejo que jamais será
saciado e por isso volta, volta e volta...
Nenhum homem ali dentro, exceto Brown, viu meu rosto. E eles nunca
diriam que uma garota vestida com calça jeans, jaqueta preta e cabelo rabo de
cavalo poderia ser a maior fantasia noturna deles.
Empurro o carrinho de compras e continuo a namorar os produtos das
prateleiras, nossa, como eu gostaria de comer algumas coisas... mas para manter
esse corpinho eu preciso abrir mão dos meus desejos. Então ao invés de pote de
sorvetes, biscoitos e massas, o que ocupa espaço em todo o meu carrinho de
compras são frutas, carnes e alguns iogurtes lights.
— Eu já estou a caminho — uma voz grossa, firme, que abençoa meus
ouvidos me chama atenção.
Sigo o som pelo corredor e paro alguns passos antes da grande prateleira
de cereais acabar. Eu o vejo.
Um homem alto, ombros largos, vestido formalmente e com o celular do
ano colado no rosto em uma ligação. Seu punho tatuado com uma caveira me faz
suspirar, sua barba bem desenhada e que deixa seu rosto ainda mais sério do que
aparenta me faz esquecer onde estou e o que é que estou fazendo.
Os olhos azuis acinzentados olham firmemente para frente, o maxilar
está rígido, ele parece irritado.
— Não, o Anthony não vai vir — ele diz com firmeza. — Mas podemos
ir visitá-lo se a senhora quiser.
Debruço-me no carrinho e o assisto.
O senhor Héctor Mitchell me faz suspirar.
E é ele que sempre me dá as melhores gorjetas.
E deveria ser eu a pagar para ter aquele homem se insinuando para mim.
A Sabrina é atrevida, ela vai até ele, pega uma nota alta e sai o mais
rápido possível, por que até a coragem tem limites... ele tem cara de poucos
amigos, e aquele terno tão justo ao corpo mostra que ele é mais forte do que eu
imaginei. Como eu podia encarar um homem daquele? Ele me deixava sem ar
só de encará-lo.
É exatamente quando imagino o senhor Mitchell me tocando e se
aproximando que crio juízo e a Sabrina sai de perto o mais rápido possível.
Mas o que eu, uma garota comum posso fazer? Apenas ficar aqui, presa
no encanto do corpo, da postura, da voz... resta-me assisti-lo, debruçada no
carrinho, vendo-o ser minha fantasia da manhã... enquanto talvez, numa
possibilidade improvável, eu seja a dele à noite.
Quero dizer, eu não, a Sabrina.
Esse é o mal de vestir uma personagem. Você nunca vai descobrir se o
homem dos seus sonhos está interessado em você mesma ou na fantasia.
Olha só o tamanho daquela mão. Olha o tamanho daquele sapato. Olha o
volume dentro da calça azul marinho. Olha como ele... olha como ele olha pra
mim.
Nossos olhares se cruzam e eu fico íntegra, por que sou apenas uma
pateta que parou para assistir o homem dos sonhos conversar no celular. Sei
quem ele é, e ele não faz ideia de quem eu sou, e isso é até divertido!
— Devo chegar em meia hora, quarenta e cinco minutos no máximo —
ele vigia as horas no relógio de pulso e continua a me encarar.
E essa é a minha vida. Ser uma mulher sem visto nos EUA pela manhã e
um brinquedo sexual intocável pela noite.
Pego meu celular que vibra no bolso.
— Onde você está? — a voz de Clair indica que ela está em apuros.
— Estou no Walmart, por quê?
— Preciso de dinheiro.
— Você recebeu ontem à noite e é apenas manhã! O que você fez com o
dinheiro? — odeio usar essa voz de mulher responsável, mas o que mais eu
poderia fazer? Dar dinheiro que não.
— É urgente. Caso de vida ou morte — ela diz desesperada.
— Em casa conversamos — desligo o celular.
O senhor Mitchell vem até mim, com passos lentos, olhos fixos nos
meus, um jeito sério e compenetrado, da mesma forma como fica em sua
poltrona lá no clube. E eu sorrio, por dentro gargalho, é bem divertido esbarrar
com esses caras no mundo real e poder olhar para eles sabendo que sou sua doce
perdição.
E o senhor Mitchell é uma perdição também.
— Bom dia — ele diz como quem introduz uma conversa com um
desconhecido para perguntar onde é a seção de bebidas.
O maxilar masculino fica rígido, o olhar sempre beira entre a indiferença
e o modo análise, o simples fato desse homem respirar em cima de mim, traz a
sensação de que o ar ficou um pouco mais caro e valorizado. Ele exala um
cheiro, uma presença, e tem um olhar que me diz que eu não sou nada.
E ainda assim ele me deu bom dia.
— Bom dia — respondo, a língua implorando para lamber os beiços.
— O seu rosto é lindo, Sabrina — ele aperta o meu queixo com o polegar
e dedo indicador. — Não devia escondê-lo.
E ao dizer isso, ele segue até o fim do corredor, onde encontra seu fiel
escudeiro que vi no clube na noite anterior.
Sei disso porque acabei de dar uma virada de pescoço sem mexer o corpo
tipo a Samara do Chamado.
O cara acabou de descobrir a identidade secreta do Batman.
E tudo o que consigo fazer é assistir enquanto ele se vai e nem olha para
trás.
Mas eu me lembro bem o quanto ele me encarou no fundo dos olhos e
pareceu enxergar através de mim.
Agora estou chateada comigo mesma por ter sido descoberta – e com
medo, é lógico – e também excitada por sentir seu toque.
Droga!

Héctor Mitchell

A minha mãe me abraça com demora e não faz menção de me soltar.
Eu não a culpo. Deve ter dormido aqui e só Deus sabe como é ruim
passar a noite em um hospital e assistir o amor da sua vida envolto em aparelhos,
sem grandes esperanças de tê-lo de volta.
— Anthony deveria estar aqui — é o que ela me diz depois de quase
cinco minutos abraçados.
— Eu senti a sua falta também, mãe — eu a solto devagar, mas ainda
seguro suas mãos.
— Rebecca veio com marido e filhos, Laurel veio com o namorado, por
que você não trouxe o meu neto? — ela bate o pé no chão.
Rebecca e Laurel são minhas irmãs, a primeira é a mais velha, a segunda
a mais nova. E Anthony, se ainda não ficou claro, é o meu filho de onze anos.
Sim, eu tive um filho aos vinte e dois.
— Sabe há quanto tempo ele não sai da mansão e vem para cá? — eu a
olho de cima a baixo para constatar se ela está bem e está. Minha mãe tem uma
saúde invejável. — Ademais, ele está com a Amanda, está seguro e bem.
— Ele nunca saiu — ela torce o nariz e se afasta, quando cito a Amanda,
parece mais tranquila. — Você deveria tirá-lo da redoma de vidro que o protege,
ao menos para dizer adeus ao avô — ela evita me olhar.
— Não seja dramática, mama, o pai vai sair dessa — tento confortá-la
com o meu sorriso, mas ela permanece com o olhar distante.
— Espero que ele saia! — sua voz sai exasperada. — Pelo contrário
perderemos tudo!
— Mama...
— Seu pai sempre foi esse homem genioso, bom com o dinheiro e
maluco. Completamente perturbado das ideias! — sua voz continua naquele
nível alterado.
— Mama! — dessa vez eu rio ao invés de repreendê-la.
Ela olha para as paredes, os aparelhos, depois o meu velhinho ali,
deitado, sereno, numa paz que ele merecia, mas não daquela forma.
Meu pai trabalhou desde muito jovem e nunca parou. Não me permitiu
substituí-lo por que não cansava de gritar aos quatro cantos que eu não estava
pronto.
E agora me colocava contra a cruz e a espada: ou eu ficava pronto ou
perderíamos tudo.
— Sejamos realistas, Héctor — minha mãe me encarou, não como uma
mãe olha para o filho, mas como dois adultos que sabem que podem perder toda
a fortuna que têm se encaram. — Ele zombou de nós. Deu-lhe uma missão
suicida.
Fico em silêncio e me aproximo devagar da cama, passo a palma da mão
pelo braço do meu pai.
— Eu me pergunto até hoje se você foi capaz de amar a Serena! — sua
voz sai amarga.
— Eu amei a Serena — sussurro e olho todo aquele aparato tecnológico,
chega a ser intimidador. — Ela me deu a coisa mais preciosa do mundo...
— Mas ela morreu no parto — sua voz não melhorava, parecia que ela
estava jogando tudo em minhas costas. — E você que já não era problemático o
suficiente, se tornou isso!
— Mama... — balanço a cabeça negativamente.
— Seja sincero, Héctor — ela segura em meu braço. — Você? Se casar?
Você sabe de quanto dinheiro estamos falando? Você sabe quantos bens, ações e
o que o poder sobre a empresa significam? Mesmo que você arrume uma mulher,
eles vão ficar de cima. Vão vigiá-lo. Vão desenterrar seus podres, mostrar que
você vai a bordéis, cassinos, zonas! Deve até ter se tornado ateu!
Percebo que sou forte o suficiente porque seguro o riso. Seria pior se eu
risse. Mas ainda é ruim.
— Mas você aceitaria? Um casamento arranjado? É apenas um ano, Héc
— ela segura em meu braço agora com carinho. — Apenas 365 dias. É pouco
tempo. Talvez ele acorde antes... — sua voz agora sai esperançosa. — Meu
Deus, pelo que estamos sendo punidos?
Respiro fundo, minha cabeça está cheia de coisas nesse momento.
Primeiro o meu pai, dá pena vê-lo nesse estado.
Ele era um homem enérgico, nem parecia ter mais de cinquenta, ainda
tinha fôlego para viver pelo menos mais três décadas! E vendo-o assim, percebo
o quanto o amo e o decepcionei. Que por vezes não abri mão de meus vícios
para ao menos iludi-lo e mostrar-lhe que eu era sim um bom filho, ou ao menos
tentar.
Não era sobre mim. Era sobre ele.
Eu era o único filho homem e ele cobrava muito de si por não ter “me
criado direito”. Éramos muito próximos, muito mais do que minhas irmãs
gostariam de ter sido com ele... e tudo o que eu fiz foi frustrá-lo.
Em segundo lugar, minha mãe, que não me deixava ter um momento a
sós com meus próprios pensamentos. Falava de dinheiro, joias, do quanto meu
pai havia sido estúpido e por que ele queria nos punir daquela forma...
E em terceiro lugar, é claro, o meu filho, Anthony. Nasceu prematuro,
não pude pegá-lo no colo, a mãe se foi... com medo de perdê-lo como perdi
Serena, eu o protegi do mundo, de tudo e de todos, criando-o longe de toda a
loucura e efervescência da grande cidade.
Ao menos Amanda, uma antiga amiga minha e de Serena, se dispôs a
cuidar dele. Desde então não tenho muito com o que me preocupar.
— Se eu arranjasse uma boa mulher, Héc, sei que uma de boa família não
vai funcionar, então que seja uma da zona mesmo — a voz da minha mãe saiu
amarga nessa parte. — Uma qualquer, desse tipinho que você gosta... você não
acha, Héc? Você não faria um esforço por nós? Por seu pai? Por Anthony?
Céus, como eu daria qualquer coisa para ter um segundo a sós com
minha própria cabeça.
— Tudo bem que temos dinheiro para viver com alguma dignidade por
um tempo... — ela já mudou o foco.
O “por um tempo” que ela está dizendo se refere aos milhões de dólares
que cada um de nós tem por “esforço próprio”. Não se indigne a comer esse
drama dela!
— Mas ainda assim... é o Geoffrey... ele vai ficar com o império e todo
nosso dinheiro...
— Mãe — pigarreei e depois soltei o chamado em forma de trovão.
Ela se calou e ficou me espiando, minha mãe nunca fora uma mulher
religiosa, mas tive a impressão de que ela estava apegada a um terço.
— Eu já tenho uma mulher em mente — revelei.
Minha mãe quase deu um grito de vitória, mas se conteve, graças ao bom
Deus e ao bom senso.
— Que ótimo!!! Meu Deus, minhas preces! Minhas preces! Foram
atendidas!
— Não comemore agora.
— Por quê? — a felicidade se foi da mesma forma como veio.
— Por que não basta que eu a tenha em mente, ela precisa aceitar.
— Ah, ela vai aceitar — minha mãe torceu o nariz. — Ela é uma mulher,
e deve ser uma dessas, uma qualquer. Você é um homem bem nascido, rico,
futuro dono de um império do ramo de energias! Quem ousaria te rejeitar?
Ela é uma mãe, vê? São todas assim.
— Estamos no século XXI, mãe, não no XVI.
— E o que você quer dizer com isso?
— Que ela pode rejeitar, ela tem escolhas.
— É a Amanda, não é? — ela fica até esperançosa. — Sei que vocês
dois...
Eu a interrompo com um olhar sério. Ela se afasta e começa a confabular
consigo mesma como seria ter Amanda como nora.
— Você a conhecerá no tempo certo.
— Estamos sem tempo, Héctor!
Volto a olhá-la de forma austera e me despeço do meu pai, após fazer um
longo cafuné em sua cabeça grisalha.
— Então deseje-me sorte.

Capítulo 3
Beatriz Rodrigues

Saí mais cedo de casa para o trabalho por dois motivos: primeiro Clair
que me decepcionou em um nível estratosférico.
Ela me contou, após ser muito pressionada, que ela havia se metido com
coisa errada, estava com uma dívida grande que precisava pagar e os traficantes
a estavam forçando a pegar mais drogas para vender para seus clientes.
O segundo foi porque o senhor Brown me intimou a comparecer ao La
Chica antes da hora.
— Diga-me que você tem boas notícias — bufei assim que cheguei ao
bar, um ambiente com um longo balcão, um palco principal e vários sofás com
seus próprios pole dances.
O senhor Brown apagou o cigarro e me degustou com os olhos.
— Você não sabe o quanto fica sexy vestida assim e irritada.
— Assim como?
— Jaqueta de couro, jeans...
— Brown, não vem com esse papinho — bati com a bolsa no balcão e
sentei no banco que tinha um curto encosto para as costas. — Por que me
chamou?
O senhor Brown não era muito bom com as palavras, não quando tinha
outros interesses, o que era seu caso comigo. Era melhor apenas pagando ou
dando ordens, conversar de igual para igual era uma tarefa que ele não
dominava bem.
— Você pensou em minha proposta?
— Não tive tempo — menti. Não queria perder aquele emprego e sabia
que ele poderia ser a denúncia que faltava para cortar minhas asas.
— Tudo bem — seu rosto transparecia derrota.
Sejamos justos aqui, pelo menos. Brown era uma boa pessoa.
E embora eu precisasse desconfiar de suas intenções para me auto
preservar, eu sabia que de alguma forma ele gostava de mim e não queria me
fazer mal.
— Durante esses três meses em que você esteve aqui no La Chica eu não
a obriguei a nada. E eu te falei, homens importantes vieram atrás de você, te
assistir e te desejar... políticos, grandes empresários, religiosos — ele arqueou a
sobrancelha. — Eu nunca a obriguei a nada...
— “Mas”... — antecipei logo o “x” da questão.
— Ofereceram uma boa quantia por um show particular. Apenas meia
hora. Você fica com a metade, é mais do que você tirou todos esses meses. Ou
até mesmo poderia tirar em anos.
Foi a minha vez de arquear a sobrancelha. De quanto dinheiro estávamos
falando?
— Eu sou obrigada a fazer algo nesse show? — encolhi os ombros e
olhei ao redor.
— Só o que você quiser...
— Tudo bem — balancei os ombros e fiquei menos tensa. Incorporar a
Sabrina me fazia relaxar. E tudo o que eu queria era espairecer e fugir de
problemas que nem meus eram. — Quando é o show?
— Agora — ele me encarou como se isso tivesse ficado claro desde o
início. Não tinha.
Felizmente uma mulher prevenida vale mais do que cem homens – uma
desprevenida, distraída e com labirintite aguda equivale a uns dez ou vinte
deles.
Eu já estava banhada, perfumada e pronta para matar. Afinal de contas,
quando se tratava de ir ao La Chica eu precisava estar a caráter para fechar
qualquer negócio.
E eu saberia controlar a situação nesse show particular.
Bom, eu não, mas a Sabrina conseguiria qualquer coisa.
— Vou me arrumar — peguei a bolsa e me dirigi ao camarim.
— Você sabe que sempre poderá contar comigo e com o clube — Brown
ficou para trás.
No camarim coloquei toda a indumentária de Catwoman e incorporei
Sabrina. Saí de lá poderosa, indomável, segura.
Brown indicou qual das salas privê estava o ilustre convidado e eu já
entrei com a voz sedosa, manhosa, jeito de mulher que sabe fazer um pouco de
tudo sem nunca ter feito nada.
— Boa noite, senhor. Garanto que serão os trinta minutos mais
proveitosos de sua vida — entrei na sala escura, uma meia luz indicando o palco.
Caminhei felinamente e me sentei no palco, voltando-me inteiramente
para aquele milionário que havia pago bastante por meu tempo.
— Boa noite, Sabrina — sua voz me arrepiou toda. Era ele.
— Senhor Mitchell — estendi a mão e liguei o abajur que ficava diante
dele e assim pude ver seu rosto másculo.
Ele abriu um sorriso de canto, as covinhas de seu rosto ficaram salientes.
Mordisquei o lábio e recolhi a mão para o colo. Ou tentei.
Fui puxada para cima da mesa e quando meu coração desacelerou e
minha concentração voltou 100%, percebi que estava deitada de barriga para
cima, com um homem sentado diante de mim, os cotovelos em cima dos
próprios joelhos, as mãos unidas, o queixo no punho.
O senhor Mitchell me encarava como se eu fosse um banquete servido.
— Você prefere quando te chamam por Sabrina ou por Beatriz?
Meus olhos se arregalaram, os dele foram fechando.
Eu estava acabada!

Héctor Mitchell

A assisti se levantar cautelosamente, assustada, e se sentar na mesa,
virada para mim. Naquele instante eu não via a desinibida e novo ícone sexual
da Nova York noturna e secreta, mas a menina por detrás da máscara.
— Você não parece tão confiante agora — analisei.
Sabrina ergueu os olhos timidamente, parecia que haviam roubado seu
personagem. E que inferno, ela ficava muito melhor assim.
Por detrás da máscara que comumente era a mulher jovem e poderosa,
cheia de si e que tinha poder para negar a qualquer homem, agora eu podia ver
sua verdadeira face. Uma garota, apenas uma garota. Parecia ter sido pintada por
um artista muito apaixonado no êxtase de seu amor.
— O que o senhor quer?
Ela tentou recuperar a pose, mas era difícil. Impossível, para dizer a
verdade, ainda mais diante de mim. Altivo, sério e com pose de dono do mundo,
sentei-me com os caras que governam o mundo. E mesmo que eu tentasse
reproduzir a postura intimidante, eu não podia esconder que por detrás daquela
armadura eu era apenas... um fã.
Tantos corpos e mulheres pela noite, todas elas cheias de cirurgias,
silicone e escondidas em armaduras de falsas belezas e conteúdo artificial... mas
aquela garota era um poço de beleza genuína.
Ela tentava ser selvagem, forte, imitar uma pose que chamava a atenção
no primeiro olhar, mas para quem tivesse a curiosidade de encarar-lhe nos olhos
para além da bunda e seios, dava para perceber que aquela não era exatamente
ela.
Era sim uma parte deliciosa de um todo, mas não era ela.
— Você ainda não me respondeu. Prefere Sabrina ou Beatriz? — tornei a
perguntar.
Ela respirou fundo. Livrar-se daquela máscara foi como deixá-la nua. Ela
sabia quem eu era – quem não saberia?
Mas eu também sabia quem ela era.
Tinha ido a fundo em tudo o que poderia saber sobre a jovem Beatriz
Rodrigues da bela terra chamada Brasil, lá no sul da América.
Como eu já disse, sou apenas um fã. Com poder aquisitivo, bons
detetives e interesse.
— Beatriz — ela decidiu e me encarou com seriedade.
— Dia ruim? — ofereci meu copo com whisky e gelo.
Ela pegou e examinou. Passou os lábios pela borda do copo, seu batom
ficou por lá. Cheirou o aroma caliente da bebida e deu um gole. No segundo
seguinte virou o rosto e cuspiu tudo, tossiu bastante.
— Um dia péssimo — ela limpou a boca com o braço. — Descobriram
minha identidade secreta e a minha colega de apartamento está envolvida com
drogas com gente muito perigosa. Acho que é um modo da vida dizer que não é
dessa vez, melhor voltar para o Brasil e tentar na próxima encarnação.
Permaneci sério, altamente concentrado em seus lábios enquanto se
moviam. Peguei o copo de volta e saboreei o líquido enquanto a olhava, sem
demora.
Desde o primeiro instante em que a vi, percebi que Beatriz era o tipo de
mulher que precisava ser analisada com muita paciência, pois os detalhes se
perdem, e quando os detalhes se perdem, não sobra mais nada.
— Estou aqui para resolver os seus problemas — ofereci a bebida
novamente.
Ela recusou, mas se sentiu tentada a pegar o copo.
No jogo da vida a parte que brinca com dinheiro, sexo e poder é
exatamente sobre isso: não importa se no fim se aceita ou recusa, o importante é
ficar tentado.
— Vai fazer o quê? Me dar um milhão de dólares e um Green Card? —
ela debochou.
— Eu já dei os um milhão de dólares — cruzei as pernas e a fitei com
seriedade, mesmo sob seu olhar de descrença. — O Green Card pode ser
negociável.
— “Negociável?”
Viu? Tentada.
— Assim como você, senhorita Beatriz, eu também tenho os meus
problemas. Mas eu me esforço em como resolvê-los e é por isso que estou aqui.
— Eu posso resolver os seus problemas? — foi a vez dela cruzar as
pernas.
Não me restava opção além de abrir o jogo.
— Sou herdeiro de...
—... Uma mega empresa responsável por energia — ela completou e me
encarou como se soubesse o suficiente para me intimidar ou impressionar.
— O que a senhorita não sabe é que meu pai é um homem sádico e
descompensado da cabeça, embora um excelente pai — fiz uma pausa para
beber. — E em seu testamento ele me deixa tudo. Não deixa para minha mãe ou
irmãs, não deixa para nenhum outro membro da família, apenas para mim. E ri
da minha cara quando coloca na cláusula que eu devo me casar para receber tudo
o que me é de direito. E ficar junto com essa pessoa por pelo menos um ano.
— E o que você pretende fazer? — ela se curvou e repousou os braços
nas coxas.
— Eu estou aqui, não estou?
Era uma pergunta retórica e ela apenas me fitou.
— E o que você quer de mim?
Beatriz descruzou as pernas e deslizou as mãos pela roupa de látex que
deixava seu corpo tão bem desenhado.
— Quero te oferecer o seu Green Card.
Beatriz riu, fiquei em silêncio enquanto ela se divertia.
— Você só pode estar brincando...
Permaneci com minha face austera.
— Mesmo que nos casemos, o Green Card não vai sair na hora. Eu ainda
vou precisar esperar um bom tempo para que tudo se ajeite.
— Burocracia para um homem como eu é um mero detalhe. Posso
garantir que ao fim de um ano você terá seu visto permanente e uma conta
bancária gorda para aproveitar sua experiência na América.
Ela mordisca o lábio e abaixa o rosto, dá brecha para mostrar que
consegue pensar na proposta. Está tentada, vê?
A palavra secreta que abre caminhos é: tentação.
Beatriz olhou ao redor, mexeu um pouco nos dedos, evitou me olhar por
um longo tempo.
— Preciso pensar.
E eu não precisava de mais nada.
— Pense também que não precisará mais viver clandestinamente, com
medo de ser deportada a qualquer instante...
— Mas como você...?
— Eu fiz o meu dever de casa — me levantei e arrumei a roupa para que
ficasse acertada ao corpo. — Faça o seu — entreguei-lhe um cartão com meu
número.
— Eu vou ter um cartão de crédito sem limites? Poderei viajar livremente
pelo país? Vou ter que dormir com você? — ela disparou as perguntas.
Normal. Isso mostrava que ela já começara a fazer o dever de casa.
Que garota eficiente.
Pisei em cima da mesa, o sapato social preto italiano repousado no
espaço vago que suas coxas deixaram ali e inclinei meu corpo para poder
examiná-la de perto. Dessa vez não apertei seu queixo com os dedos, mas com a
mão. Toquei seu lindo rosto, subi os dedos até a nuca e a assisti se contorcer em
leves espasmos quando eu a massageei.
— Cartão de crédito sem limites, sim. Viajar livremente pelo país?
Certamente, você será a minha mulher, não uma prisioneira. E dormir comigo?
Não, infelizmente não — a olhei de cima abaixo.
— Não?
— Infelizmente eu me sinto desconfortável em dividir a cama enquanto
durmo — tirei minha mão de sua nuca. — Mas se você quis perguntar se vamos
foder com força, como dois animais selvagens que você sabe que somos...
Ela abriu bem os olhos, assustada.
— Pode apostar que sim.
Capítulo 4
Beatriz Rodrigues

Mesmo que não precisasse mais trabalhar aquela noite – ou a semana, o
mês, quem sabe o ano –, cumpri o meu turno para não deixar o senhor Brown na
mão.
Afinal de contas, Clair e Hillary não apareceram. Então as outras garotas
e eu tivemos de suprir aquela falta, embora aquela noite não fosse tão badalada
quanto as outras.
— Você precisa parar com isso ou eu te mato — Valerie murmurou em
meu ouvido.
Virei-me, devagar, para encará-la.
Valerie era a antiga “estrela que fazia chover dinheiro” antes da minha
chegada. Uma mulher loira, cheia de cirurgias, com uma expressão que não dava
para decifrar se ela estava com raiva, tendo um orgasmo ou com metade da cara
paralisada.
— Parar com o quê, Valerie? — perguntei.
— Roubar meus clientes — ela resmungou. — O mundo pode ser
perigoso, Sabrina. Não torne as coisas mais difíceis do que já são.
Revirei os olhos e até desisti de ir dançar para um cliente, ao que ela me
empurrou, passou na minha frente e caminhou até o ricaço.
Todos os homens que frequentavam o La Chica eram ricos e poderosos,
mas poucos deles eram realmente atraentes. E entre os atraentes, Héctor era sem
dúvidas o top 1 da lista.
Com aqueles olhos acinzentados, ombros largos e a mão tão firme e
generosa, ele me fazia suspirar sem sequer ter tido a oportunidade de ter uma
intimidade a mais comigo. E isso já era o suficiente para me deixar hipnotizada.
O resto dos homens, em comparação com ele, era tipo um time de
segunda classe, os reservas. Ricos, poderosos, cheios de ego e atrevidos. Mas a
presença era incomparável, Héctor fazia o salão parar quando entrava.
Por que ele queria justamente eu para aquele contrato de casamento?
— Vai lá — Valerie voltou e sua voz saiu amarga. — Eles querem você.
Encarei o homem rechonchudo e o calvo. Abri o meu melhor sorriso e
dei um passo à frente.
— Eles sempre querem você — Valerie murmurou às minhas costas, num
tom intimidador.
Após dançar para aqueles dois homens nota 2 e encantar os outros que
estavam no clube, consegui que Brown me liberasse mais cedo. Ele me entregou
um cheque de meio milhão de dólares e eu o guardei dentro do bolso da calça
jeans e voltei para casa, tarde da noite, de táxi.
A rua estava deserta, tudo estava silencioso, não havia uma estrela no
céu.
Era realmente isso o que eu queria para a vida? Dançar para homens não
tão atraentes e vê-los querendo passar dos limites comigo?
Ok que uma vez ou outra apareciam um Kevin, Derik ou Héctor da vida,
mas eles eram mais a exceção do que a regra.
O que era melhor para mim?
Assim, distraída e dividida em pensamentos, entrei no prédio de sete
andares que era habitado por pessoas de classe média e subi para o quinto andar
onde era meu apartamento.
Tirei a chave da bolsa antes de sair do elevador e andei pelo longo
corredor até chegar na porta da minha casa que estava aberta.
— Alguém em casa? — perguntei assim que fiquei diante da entrada. —
Oi? — meti a cabeça porta dentro.
Consegui manter a calmaria externa, embora por dentro eu estivesse em
pânico.
Tudo estava revirado.
A cozinha americana que dividia o cômodo com a sala estava uma
verdadeira zona: fogão revirado, geladeira caída no chão, máquina de lavar
roupas depredada. Sofá? Televisão? Vasos de planta? Falemos de restos, de
sobras deles...
E para receber meu diploma de louca pirada, entrei.
Devagar, bem de fininho, um pé de cada vez.
— Hill? — sussurrei, atenta ao redor. — Clair?
Revirei a bagunça na bolsa e tirei o aparelho de dar choque de dentro
dela e me preparei para dar uma descarga elétrica em alguém, mas ninguém
apareceu.
— Clair? — tornei a chama-las. — Hill...?
Ao chegar no quarto de Clair, vi seu corpo no chão, ensanguentado.
Cambaleei para trás e assumi toda a sanidade que me restava: saí dali o
mais rápido que pude.
Me joguei dentro do elevador e apertei o botão para descer
freneticamente.
Repentinamente o corredor que antes era apenas um corredor, se tornara
uma cena de filme de terror.
Fiquei tensa, mal conseguia pensar no que estava ocorrendo, eu só
conseguia bater com o dedo no botão de descer, desesperada para sair dali.
Quando a porta se abriu, me joguei com toda a força dentro e dei graças a
Deus quando a porta se fechou e comecei a descer.
No térreo, segui meu caminho sem olhar para trás.
Abracei a bolsa contra o meu corpo, aproveitei para tirar documentos e
celular de dentro dela e colocar tudo no bolso, o resto era mero detalhe.
Andei rápido, virei duas esquinas e quando eu estava prestes a pegar o
aparelho de choque ao perceber que estava sendo seguida, senti uma mão forte
segurar em meu braço.
Quase apaguei minha amiga.
Hillary tremia e olhava para os lados, assustada.
— Eles vieram... — ela olhava para todos os cantos.
Fui puxada para um beco, devo confessar que fiquei com mais medo do
que antes. Hillary se agachou e escondeu o rosto entre as pernas.
— Eles vieram e a mataram...
Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer. Só alisei seus cabelos e olhei
ao redor.
— Eles sabem que nós trabalhamos no La Chica — foi difícil entender
porque ela se atrapalhava nas próprias palavras.
— E o que tem isso? — me agachei.
— Eles sabem... eles sabem onde nos encontrar...
— Quem são eles? E porque eles iriam atrás de nós? — eu precisava
entender.
Era pior ficar no escuro ou saber o que estava ocorrendo?
— Me conta, Hill! Você está bem? Fizeram algo contigo?
Ela ficou catatônica, balançando o corpo para frente e para trás, parecia
uma criança.
Eu a chacoalhei, não me agradava ficar ali na rua, as noites de Nova York
são comumente frias e não é uma boa opção para duas mulheres ficarem
sozinhas assim...
— Quem são eles? — insisti.
— Os caras que deram as drogas para ela... eles vieram cobrar a dívida...
eles a... eles a...
— Eu vi — poupei o seu sofrimento de me contar.
— Eles sabem que trabalhamos no La Chica — ela voltou a repetir o
disco.
— E o que tem eles saberem que trabalhamos lá?
Hillary ergueu os olhos e me encarou, atemorizada.
— Eles acham que nós ajudávamos a Clair.
Merda. Ferrou tudo.
— Ela pegou muito com eles, era uma dívida de cinco dígitos... era
dinheiro de verdade...
Dei um passo para trás.
— Eles vão vir cobrar de nós também! — ela não chorou, mas continuou
naquele estado deplorável.
— Hill, precisamos sair da rua. Não podemos nos esconder em um beco
— olhei ao redor e como não vi nenhum táxi passando, eu mesma chamei numa
rápida ligação.
— Para que fugir? Eles vão nos encontrar!
— Hill! — a balancei com força. — Precisamos sair daqui!
— Mas as maquiagens caras... as roupas...
— Esqueça isso, mulher! — eu a levantei e a empurrei contra a parede.
— Eu tenho experiência em fugir, ok? Vou tirar a gente dessa!
Eu nem sabia se ia conseguir me livrar daquela merda, mas eu precisava
acalmá-la de alguma forma.
— O táxi já está chegando... você me sugere algum lugar para irmos?
Ela ficou quieta, olhando para o vazio.
Quando o carro chegou, eu abri a porta dos fundos e a joguei. Cuidado
não é bem meu sobrenome, então sim, ela bateu com a cabeça, mas coisa boba.
Joguei três notas de dez dólares no colo do taxista e disparei:
— Dirija para o mais longe daqui, por favor.

Héctor Mitchell

Era tarde da noite e eu ainda tinha uma dezena de documentos para ler e
assinar. Nada do celular tocar, nada de uma novidade concreta sobre minha
proposta... Beatriz era uma mulher bem difícil e parecia que queria se manter
intocada.
Fazia bem em fugir de mim. No lugar dela eu também fugiria.
Assim, concentrei-me na papelada em cima da mesa até que o celular
tocou.
Embora eu tenha ficado ereto e calmo por fora, por dentro o coração
retumbou com força, pareceu ficar cada vez mais difícil respirar.
Mordi meus dentes, aquele péssimo hábito, e vi a mandíbula ficar rígida
no reflexo que eu tinha bem diante de mim.
Mas não era ela. Que decepção.
— Oi, Amanda — atendi sem muito ânimo, ainda assim era preciso.
— Está ocupado?
— Eu sempre estou. O que houve? Anthony está bem?
— Sim, dormiu feito um anjo. A febre está passando... — ela respirou
fundo. — Você pode abrir a porta para mim?
O quê? O que ela estava fazendo aqui?
Estiquei todo o corpo e caminhei vagarosamente até a porta e a
destranquei. Tudo o que vi foi a parede do corredor ornamentada com um quadro
de um artista latino americano e as luzes acesas.
Coloquei a cabeça para fora da porta e...
Fechei os olhos e afastei o rosto quando vi Amanda diante de mim. Mas
ela foi mais rápida e me roubou um selinho, depois avançou contra o meu corpo,
já desabotoando minha camisa branca.
— Ei — eu a repreendi e segurei com firmeza em suas mãos, afastei-as
em seguida. — O que você faz aqui?
— Senti saudade — ela disse com simplicidade.
Não era tão simples assim.
— Amanda, você me ligou mais cedo dizendo que Anthony estava
doente e que precisava cuidar dele. Agora está aqui? O que deu em você? — não
mudei a expressão de repreensão.
— Eu precisava de você — ela disse de um jeito manhoso que acreditava
quebrar o meu gelo.
Nunca quebrou, eu que fingi porque precisava me aliviar.
Novamente ela avançou. Sua mão macia apertou o volume em minha
calça e fez menção de entrar, mas eu permaneci intacto de pé, sem permitir que
seus joguinhos me tirassem a concentração.
— Fiquei sabendo que você tem uma decisão importante a tomar — ela
revelou.
— É verdade.
— Estou aqui para ajudá-lo a tomar essa decisão — ela sorriu.
Não apenas sorriu. Desceu a alça do vestido preto, as duas, na verdade, e
empurrou a veste para baixo. Analisei seu corpo como um raio-x precisa fazer e
nada mais que isso. Então ela buscou uma retórica mais convincente: tirou o
sutiã.
— Entenda, Héc — ela falou, manhosa. — Eu preciso de você — ela
desceu o vestido ainda mais.
Eu não estava exatamente pronto para a tréplica. Mas o celular ajudou.
— Alô — coloquei o aparelho contra o meu rosto.
— Hora ruim? — a voz feminina me fez suspirar mais do que aquela
nudez.
— Para você, não — mantive toda a minha seriedade enquanto Amanda
tentava abrir o meu zíper. Ela estava mais atirada do que de costume, o que havia
acontecido com essa mulher?
— Eu preciso de você — Beatriz disse ao telefone.
Olhei para o ar-condicionado. Não podia ser ele. Mesmo de camisa
social, colete e paletó eu senti um arrepio profundo em minha espinha. Os pelos
em meu braço rapidamente ficaram eriçados e senti até que minha pupila dilatou.
Olhei ao redor, atento, rapidamente caminhei de volta para o escritório,
peguei minha carteira e o sobretudo em cima do cabide e ignorei Amanda que
ainda tentava se insinuar.
— Onde eu te encontro?
— Vou passar o endereço por mensagem. Se puder vir rápido, eu
agradeço — sua voz me preocupou. Ela parecia assustada e acuada, isso me
deixou ainda mais ágil.
— Já estou à caminho — fechei a porta de casa atrás de mim e entrei no
elevador.
Capítulo 5
Héctor Mitchell
Dois dias depois.

Uma miscelânea de sentimentos tomou conta de todos nós, familiares,
membros do alto escalão da Mitchell & Smith e acionistas. O meu pai, Gregory
Mitchell, havia sido um CEO para ninguém colocar defeito. Conseguia satisfazer
os desejos do mercado, dos membros do conselho e das diversas famílias
envolvidas na empresa.
O seu coma inesperado e seu testamento inescrupuloso deixou todos em
frenesi e assombro.
Qual era o futuro de uma das maiores empresas de energia do mundo?
— Héctor — Geoffrey apertou a minha mão, com ar de quem havia
vencido uma aposta que sequer havia sido feita por mim.
Nos conhecíamos muito bem. E se eu era uma opção ruim, ele era a não
opção.
Embora eu gastasse o meu dinheiro e tempo livre com mulheres, bebida e
desfrutando o mundo, Geoffrey gastava o dinheiro que não era dele e envolveu a
empresa em diversos escândalos por ser um riquinho mimado que nem era o
primeiro na linha de sucessão.
Meu pai queria me humilhar, não havia outra explicação.
Dizer que ia deixar tudo para aquele pedaço de merda caso eu não
aceitasse suas condições? Isso era demais. Meu pai tinha perdido o juízo.
— Geoffrey — mantive uma expressão blasé, enquanto ele parecia se
divertir.
Não sei com o quê.
— Seu pai zoou contigo, hein — ele cochichou em meu ouvido. — O
bom disso tudo é que você já pode me entregar tudo de bandeja e assim
mantemos uma relação mais amistosa.
— Você tem o pau minúsculo que as mulheres devem usar uma pinça
para poder pegar, se é que mulheres são realmente a sua praia, e nem por isso
estou jogando na sua cara — o fitei rapidamente enquanto a voz saía suave e
sem interrupções.
Ele grunhiu. Não esperava nada diferente de um animal como esse.
— As suas piadinhas não vão te salvar agora.
— Imagina que triste viver com um pau tão pequeno — voltei-me para
Alex, que estava atrás de mim. — Deve vir daí essa vontade de querer provar o
tempo todo alguma coisa que ninguém sabe o que é. Freud explica — caçoei e
voltei minha atenção para a mesa.
Todos estavam vestidos solenemente de preto. Os advogados da empresa,
dos Smith e do meu pai conversaram demoradamente até que nos abençoaram
com sua ilustre presença.
A minha mãe, irmãs, membros do conselho e o clã Smith ocupavam o
grande espaço, metade estava sentada comigo à mesa, a outra espalhada pela
sala, fofocando, distraindo-se, conspirando, não sei o que faziam e não me
interessava.
Amanda, por alguma razão, também estava ali. Embora um amontoado
de pessoas estivesse entre nós, percebi que ela queria manter contato visual. Só
nesse instante me lembrei de que ela estivera em minha casa anteriormente, mas
quando voltei ela não estava mais lá.
— Cof cof — o senhor Theodore Greeves, um homem calvo, feição
corroída pelos anos de vida e caráter duvidoso pelos anos de trabalho, o
advogado da empresa, sentou-se em sua cadeira e chamou-nos.
Todos se agruparam ao redor da mesa, sentando-se ou ficando de pé e
aguardaram o veredito.
— O finado senhor Smith concordou que a liderança da empresa estava
assegurada no senhor Gregory Mitchell, que tinha bons contatos dentro do
governo e amizades sólidas no mercado. E a família concorda que a vontade do
finado senhor Smith deva prevalecer...
Minha mãe comemorou. Hora errada.
— Entretanto, o senhor Mitchell propôs um desafio. Reconheceu, sim,
que seu herdeiro tem capacidade para dirigir a Mitchell & Smith, contanto que
ele fosse capaz de apresentar um relacionamento sólido e duradouro, sendo
específico, um casamento. E que esse durasse ao menos um ano. Como o
testamento foi ratificado há duas semanas, o senhor Mitchell sabia que seu
herdeiro não era casado e não era de seu conhecimento qualquer relacionamento
sério que o senhor Héctor Mitchell tivesse na época ou agora.
Geoffrey soltou um sorrisinho que o deixou ainda mais ridículo.
— O conselho interno votou...
Geoffrey estufou o peito.
— E concordaram que o senhor Mitchell é sim preparado para dirigir a
empresa.
O idiota se encolheu. Parecia o pauzinho murcho que ele uma vez nos
enviou por engano no grupo de Whatsapp do conselho da empresa.
Sério, se eu perder tudo para esse babaca eu não respondo por mim.
— O senhor se sente apto a dirigir essa empresa, senhor Mitchell? —
Theodore me examinou por detrás dos óculos fundo de garrafa.
— Eu nasci apto — respondi.
Geoffrey imitou minha fala com os lábios e fez uma cara de retardado.
Veja bem quem o meu pai quer colocar na direção da empresa... só pode
ser piada.
— Diga-nos, senhor Mitchell, então, quando o senhor nos apresentará a
senhora Mitchell, sua futura esposa? — Theodore me olhou de forma mais séria
que a anterior.
— É, Héctor, diga-nos quando você, essa máquina de profanação e
fornicação, vai se adequar aos padrões tradicionais, conservadores e
monogâmicos e mostrar-se, assim, apto para cumprir os desejos do seu pai e
dirigir a empresa e ficar com a grana? — Geoffrey lançou suas palavras a mim.
O ignorei.
Amanda, que agora não estava mais escondida no meio do grupo de
pessoas, me flertou. Encarou-me profundamente e se insinuou enquanto eu me
preparava para discursar diante dos ilustres membros da Mitchell & Smith.
— Senhoras, senhores — me levantei após cumprimentá-los. — Eu
estive ao lado do meu pai nos momentos mais difíceis e decisivos da Mitchell &
Smith. Eu pude aprender, descobrir e treinar a liderança diversas vezes quando
ele viajou para a Europa, África e Oriente; eu dirigi as finanças dessa empresa e
junto com o conselho — apontei para os responsáveis que imediatamente se
sentiram honrados em serem mencionados. — Mais do que triplicamos o nosso
patrimônio.
Geoffrey revirou os olhos.
— Estamos no século XXI, a era da informação rápida, onde o mundo
está com os olhos em nós, ainda mais aqui, no mundo livre. Todos estão de olho
na Mitchell & Smith que hoje é o parâmetro de qualidade em energia e tem
apostado cada vez mais em energia sustentável e levado tecnologia para os
países de primeiro e terceiro mundo...
— Encurta o discursinho, você ainda não é o CEO — Geoffrey foi
imaturo, como lhe era característico.
— Agradeço a confiança em mim e eu prometo que não irei decepcioná-
los — terminei o discurso e me sentei.
Fui aplaudido. Não pelo meu principal concorrente.
— Sim, Héctor, corta o lero lero. Quando você irá nos apresentar a
mulher? Sem mulher, sem cargo e dinheiro — ele foi curto e grosso.
Amanda jogou os cabelos loiros para trás e se insinuou um pouco mais.
Hora errada.
— Desculpem-me o atraso — a porta da sala se abriu.
Uma mulher de 1,70 de altura, cabelo castanho-acobreado ondulado
jogado para o lado e olhos grandes e chamativos entrou. Um vestido preto justo
valorizava as suas curvas, trazia consigo uma bolsa fina de mão e caminhava em
direção à mesa como se fosse a própria professora de etiqueta e postura.
Os que estavam de pé se afastaram para abrir caminho e deixa-la passar,
seu perfume de jasmim roubou o olfato, ela secou a boca de todos e encheu a
minha de água; a cada passo que dava fez com que as moças se encolhessem e os
homens se estufassem cada vez mais.
— Espero não tê-los feito esperar — ela parou diante da mesa e me
encarou.
— Não esperamos, amor. Você chegou na hora certa.
— Ótimo — seu salto bateu contra o chão conforme vinha em minha
direção, ocupando todo o silêncio deixado pela mudez da surpresa de geral.
Nos encontramos do outro lado da mesa, suas mãos acariciaram meus
ombros e desceram até a gravata, apertando-a levemente.
— Senhoras e senhores, eu tenho a honra e satisfação de lhes apresentar
essa peça única, exclusiva e rara, feita sob medida e encomenda.
— Para! — ela bateu de leve em meu peito.
— Beatriz Rodrigues — enchi a boca para falar.
Olhei para Geoffrey como quem podia debochar do pau pequeno e a
derrota dele naquele dia numa mesma fração de segundo.
Ah, como era deliciosa aquela sensação!
Enchi a boca para coroar o bolo com a cereja:
— Também conhecida como “minha mulher”.

Beatriz Rodrigues
Dois dias atrás.

Eu queria ter tido mais tempo para decidir sobre a proposta do senhor
Mitchell.
Mas quando dei por mim, tudo o que havia ao meu redor era uma amiga
paralisada pelo choque, o medo de ter homens em minha cola e nenhum lar além
do quarto de um hotel 3 estrelas.
Liguei para o senhor Mitchell que me atendeu, foi muito atencioso e
prontamente me encontrou em seu apartamento em Long Island, fui levada lá
por um de seus motoristas particulares.
— Veio fechar o acordo, espero — foram suas primeiras palavras quando
nos vimos.
Ele estava impecavelmente bonito, apenas com a camisa branca social
que deixava seus músculos marcados e seu ar de que cada minuto perdido
comigo era muito valioso, por isso precisávamos fazer valer à pena.
Eu não o deixaria esperando.
— Vim fechar o acordo — disse de uma vez.
Com um sorriso de canto, o senhor Mitchell me entregou uma taça de
cristal com bordas douradas.
Antes que ele abrisse a champanhe, o interrompi.
— Há mais uma condição.
— Diga-me.
— Preciso que proteja uma amiga minha... e eu — encolhi os ombros.
— Protegê-la? — ele veio, econômico com os passos, não com o
charme.
Deu a volta ao meu redor, encarando-me de perto.
— Juro que não fui eu quem começou o problema, mas não vale à pena
julgar a culpada, por que ela está... ela está... — comecei a olhar o vazio.
— Ela está o quê? — sua voz grossa me tirou do transe.
— Morta — tapei a boca após dizer.
O senhor Mitchell escorou o corpo no sofá preto e me encarou com
seriedade. Seu olhar era tão duro e fechado que me deixavam paralisada e
extasiada, sem saber o que fazer, além de encará-lo suplicando ajuda. Ao
perceber que eu estava petrificada ali de pé ele estendeu sua mão, segurou firme
em meu braço e me puxou para si.
Fiquei entre suas pernas, o olhar preso no chão, rememorando tudo o que
eu havia visto no antigo apartamento.
— Eu cheguei em casa e ela estava morta... ela me disse que havia pego
algumas drogas para vender para uns clientes, mas depois Hillary e eu
descobrimos que ela pegou muito mais, não conseguiu pagar, pegou outros tipos
de droga, também não vendeu... então eles a mataram — tapei a boca e comecei
a soluçar.
O senhor Mitchell abraçou a minha cintura com uma mão e a outra foi
para minhas costas, puxou-me para si.
Seu corpo grande, quente e protetor me tranquilizaram de imediato.
— Eles acham que Hillary e eu estamos envolvidas... mas nós...
— Shhh! — ele pediu e encostou o nariz na maçã do meu rosto, que
rapidamente enrubesceu, senti-a queimar.
— Eles vão nos procurar e nos matar... e nós não temos nada a ver com
isso... eu não posso voltar para o clube, pois eles sabem que podem nos
encontrar lá, tampouco retornar para aquela região... minha vida acabou!
Seus dedos se tornaram mais fortes ao redor do meu corpo e eu fiquei
perdida entre a sensação do choro e o calor que era quase sufocante. Estar
grudada naquele homem estava me deixando quente, sem ar.
— Eu vou proteger a sua amiga e você — a voz grossa murmurou ao pé
do meu ouvido. Me arrepiei toda.
— Obrigada — pousei as mãos em seus ombros.
— Mas preciso que você assuma o papel da minha mulher
imediatamente — esse novo sussurro deixou minhas pernas bambas.
— Estou aqui para isso — me prontifiquei.
— Mas eu preciso de mais do que teatro, Beatriz — ouvir aquele nome
murmurar meu nome fez-me virar os olhos e imaginar coisas... — Fazer esse
casamento de mentira funcionar será difícil, principalmente com olhos sedentos
pela minha riqueza em cima de nós dois...
— Eu vou ser toda sua — falei. Eu tinha escolha?
— Então você tem a minha palavra de que nada acontecerá a você ou sua
amiga — seus dedos apertaram minha pele, mas depois liberou a pressão e
deixou-me afastar.
Fiquei confusa.
— Você não me quer? — toquei seu rosto. — Agora?
Mitchell me encarou como se estivesse lutando contra si mesmo. Eu
ainda não conseguia decifrá-lo ou entende-lo... ele parecia impenetrável. Um
homem forte, poderoso, certamente cheio de segredos, e que ao mesmo tempo
que me deixava louca, me deixava confusa. Seus dedos em meu corpo
demonstravam alguma coisa, mas seus olhos tão sérios e indiferentes eram um
grande mistério.
— Não. Não agora. Você merece descanso e colocar os pensamentos no
lugar. Tudo ao seu tempo...
Concordei. Foi bem gentil da parte dele pensar um pouco em mim
naquele momento.
— Quando nos casaremos? — perguntei.
— Quando você estará pronta para se casar? — ele devolveu, sua voz
grossa tão próxima do meu ouvido que eu precisei segurar em seus ombros para
não me perder e deixar as pernas fraquejarem.
— Quando o senhor quiser — concluí.
— Você é muito boa nas respostas — ele me avaliou, sua mão pesada
praticamente cobriu o lado direito do meu rosto, seus dedos foram passeando até
chegar em minha nunca. — Providenciarei o seu cartão de crédito ilimitado, sua
liberdade e tudo mais que for necessário — Mitchell disse como um verdadeiro
homem de negócios.
Bom, eu não era uma mulher de negócios. Eu era o tipo provocadora que
aprendera em poucos meses a fazer os homens ficarem loucos.
— Eu farei tudo o que o senhor quiser, senhor Mitchell.

Héctor Mitchell
Dois dias depois.

Ao entrar no escritório do diretor executivo – vulgo CEO – da Mitchell &
Smith, vi Beatriz de costas. Estava escorada no grande vitral que mostrava o
mundo civilizado lá fora, cheio de cores, tecnologia e transeuntes.
No último andar daquele prédio alto era realmente prazeroso ver o
mundo lá embaixo, fazia tudo parecer pequeno diante do que o império
representava.
— É aqui que você vai passar os seus dias? — sua voz doce me
perguntou.
— Sim.
— Se eu soubesse que era tudo isso, tinha exigido mais. Sabia que era
algo grande, mas olhando daqui, faz parecer que meus pensamentos eram
pequenos demais... — ela finge um resmungo, depois vira o rosto apenas o
suficiente para me olhar. — É só brincadeira, tá?
Colei o corpo em suas costas e dedilhei seus braços, depois o baixo
ventre, subi cautelosamente até os seios.
— Peça-me qualquer coisa, senhorita Rodrigues, estou aqui para atendê-
la à altura de que fui atendido.
Beatriz pendeu a cabeça para trás, deixando-a em meu peito. Sua bunda
farta começou a me deixar duro, pois a balançava suavemente em minha virilha.
— Quando chegar a hora certa talvez eu saiba o que pedir...
— Vai bancar a misteriosa? — murmurei em seu ouvido.
Beatriz fez menção de se afastar, então eu a segurei com ainda mais
firmeza. Minha palma da mão subiu um pouco mais além dos seios e foi se
fechando levemente em seu queixo.
— O que eles estão falando do casamento? — ela mudou de assunto,
seus olhos grandes e cobiçosos, refletidos no vidro, fitavam os carros do ano
passando pela avenida.
— Não me importa. Agora estou mais concentrado na lua de mel...
Beatriz riu e ronronou, rebolou com mais força, deixando a situação
impossível; rangi os dentes pela dor da ereção na calça justa e agarrei sua
cintura, trazendo seu rabo grande para amaciar meus espasmos.
— E o que decidiu sobre a lua de mel? — ela provocou. Sua voz mudou,
seus olhos encararam os meus pelo reflexo e ela abriu um sorriso de mulher de
negócios.
— Poderia começar aqui — sugeri.
— Por mim tudo bem — ela jogou a bolsa de mão em cima da cadeira e
virou-se para mim.
Levantei-a do chão e a deixei sentada em cima da mesa principal, de
pernas abertas, subindo aquele maldito vestido apertado até suas coxas grossas.
Meu dedo, que buscava saciar parte do desejo, friccionou contra a
calcinha de renda e depois a arrancou com um puxão.
— Você é deliciosa — as palavras escaparam da minha boca.
Massageei suas carnes ritmicamente, acompanhando os gestos que seu
rosto fazia e aumentando o ritmo conforme Beatriz parecia se perder no toque.
— Você não sabe o quanto esperei por isso — revelei.
Não havíamos sentado para definir os pormenores do acordo. Tudo o que
sabíamos era que eu tinha interesses e ela também. E para fazer aquilo
sobreviver por um ano – malditos e deliciosos 365 dias – teríamos de fazer sexo.
Muito sexo. Foder até que estivéssemos minimamente saciados.
E eu era insaciável.
Tudo foi espontâneo e natural. Eu fiquei com vontade, pois ela me
provocou.
Ela mesma puxou o beijo e se entregou em minha boca. Começou tímida,
curiosa, mas se acostumou com minha intensidade, os chupões na boca e a
língua recebendo carinho.
Quando senti que ela estava menos tensa e mais entregue, agachei-me,
com os olhos fixos em seu rosto de total surpresa e mostrei que a língua podia
fazer carinho em outros lugares.
Beatriz segurou a mesa com força, jogou o corpo para trás e abriu as
pernas um pouco mais.
Meti o rosto e a boca entre suas pernas, lambuzando-me com aquele
delicioso sabor que sonhei noite após noite ao ser provocado pelo seu andar e
dança sensual.
Suguei seu clitóris e o chupei devagar, intensamente, arrancando-lhe
suspiros que só aumentavam.
Minhas mãos agarraram suas coxas e eu a deitei na mesa, deixando-a
mais à vontade e dei-lhe uma palmada na bunda quando a virei de lado.
— Você está bem? — perguntei.
— É um bom começo — ela respondeu manhosa, do jeito que eu
gostava.
— Você está toda molhadinha, Bia — meus dedos espalharam toda a
umidade pela região, aproveitei para excitá-la, deixa-la louca, em frenesi.
— Eu... eu... — ela tentou dizer, mas se perdeu com o meu toque.
— Você precisa me deixar molhado também, assim fica mais fácil — a
provoquei.
Ela se virou devagar na mesa e deu de cara com o meu pau já em riste,
babão, escorrendo o pré-gozo.
— É grande... — ela examinou o pau e depois me olhou.
— Por isso você precisa ser uma boa menina e deixar ele bem molhado,
para ele entrar fácil, deslizar melhor e não te machucar... — fiz uma massagem
em sua nuca, aproveitei para puxá-la sorrateiramente para perto do membro.
Beatriz arregalou os olhos conforme se aproximava. Ao estar diante do
meu pau ficou muda, sem saber o que fazer.
— Vai dizer que nunca viu um pau na vida? — brinquei e o balancei,
fazendo-a rir, pareceu diminuir um pouco da tensão.
— Mas é muito grande... vai machucar de qualquer jeito... — ela
constatou.
— Então é melhor deixar ele bem molhado, neném — terminei de
empurrá-la finalmente em direção ao seu prêmio.
Beatriz esfregou os lábios vermelhos na glande e abriu uma pequena
fresta na boa para beijá-la. A língua, curiosa, saiu da boca e com a ponta dela
sentiu a maciez do início do membro.
Ela gostou. Colocou toda a glande na boca e sugou sem parar,
aumentando os chupões, deixando-me quase sem o controle das próprias pernas.
— Vai com calma — pedi e tirei a cabeçona do pau de sua boca molhada.
— Desculpe... estou um pouco nervosa... e ansiosa... — ela desviou o
olhar.
— Por quê? — foi instintivo.
— Por que... nada... só estou — ela achou que conseguiria desviar do
assunto segurando em meu membro e masturbando-o.
Eu a impedi, embora parecesse uma boa pedida.
— Diga-me — rosnei.
— É que... bem... não tivemos tempo para conversar, mas...
— Você adora enrolar, não é? — apertei seu queixo.
— Sou virgem — ela revelou.
Aquilo esclareceu muita coisa e tornou tudo mais interessante.
— Virgem? — lambi os beiços.
— Não zombe de mim! — ela rapidamente cruzou os braços e se sentou
na mesa.
— Não estou debochando — abracei sua cintura e a puxei para mim,
tirando-a da mesa.
Pressionei seu corpo contra o móvel e encostei a ponta de nossos narizes,
era engraçado vê-la “de cima” e ficar com o rosto voltado para baixo.
— É sério... eu sou... — ela mordiscou o lábio inferior.
Levei meus dedos indicadores e do meio por entre suas pernas.
— Tudo bem, eu acredito em você — tentei acalmá-la. — Não há pelo
que ficar tensa ou preocupada... você não quer?
— Eu... eu...
— Você está inchada, neném — soprei em seus lábios. — Toda
molhadinha, coração acelerado, retina dilatada... seu corpo sabe que quer, sua
mente que a está deixando perdida...
Ela concordou.
Rebolou em cima dos meus dedos, segurou firme em meu peito e
empurrou o quadril para baixo, como se assim meus dedos pudessem penetrá-la.
Mas não iam, não assim.
— Calma — voltei a soprar em seus lábios. — Calma...
Tirei-a do chão e a deitei novamente na mesa. Abri suas pernas e coxas e
esfreguei a glande inchada, doendo de tão dura, louca por seu corpo, para fodê-la
de uma vez, depois de tantos dias preso em seu encanto...
Mas ela era virgem, porra. Não merecia a selvageria, não nesse instante.
— Mostre para mim como você se toca — pedi.
Ela ficou confusa no início. Mas depois perdeu um pouco o temor e
começou a se tocar lentamente, aumentou a intensidade conforme se sentia mais
empolgada, até que grudou suas costas na mesa e começou a remexer-se.
Entre seus dedos ágeis e as mordidas que sua boca dava nos lábios como
se fosse arrancá-los, esfreguei a cabeçona do meu caralho entre os dedos, no
frenesi de sua vontade animal, acabei penetrando superficialmente suas carnes
inchadas e sedentas, mas me contive.
Controlei-me o máximo que pude para deixa-la à vontade e não a vi tensa
em nenhum outro momento.
Ela se remexeu, gemeu demais e quando estava prestes a ter seu
orgasmo, eu afastei seus dedos e meti a glande em sua boceta, num vai e vem
rápido, o dedo indicador e do meio ágeis em massagear o clitóris, mas não fui
até o fim.
Beatriz liberou seu líquido e perdeu o ar, eu não parei de empurrar a
glande e manter apenas ela no entra e sai, até que foi a minha hora de explodir.
— Vista-se, pois temos um almoço familiar para ir — tirei o lenço do
meu terno para dar-lhe.
— Você... você não... — ela ficou confusa, era perceptível. — Obrigada
— murmurou.
Após assisti-la se limpar superficialmente, vi que ainda havia um pouco
de seu líquido escorrendo.
Enfiei o rosto novamente entre suas pernas e suguei tudo o que restava e
depois segurei em seu pescoço e subi seu corpo escultural para encará-la.
— Não tenha tanta pressa, Bia. Ainda teremos 365 dias.
Capítulo 6
Beatriz Rodrigues

Com o senhor Mitchell fora da sala, me recompus da melhor forma que
pude.
A parte interna das coxas formigava. As pernas fraquejavam ao dar
alguns passos.
A mente não conseguia pensar em outra coisa que não fosse aquela
vontade difícil de controlar, aquela sensação deliciosa que meu corpo guardava
de ter sido tocado, chupado e inicialmente penetrado.
Voltei a encarar o mundo lá fora, segurei no vidro para me manter de pé e
mesmo na tentativa de me distrair, era difícil me livrar da ideia insana de sair
dali, procura-lo pelos corredores e cada andar e sentar com força naquele pau
gigante.
— Eu perdi o juízo — precisei admitir.
Peguei o celular para conferir como Hillary estava, só assim eu ia me
distrair.

Héctor Mitchell

— Você não havia dito que tinha uma noiva! — minha mãe me olhou dos
pés à cabeça.
— Quando nos encontramos pela última vez eu não tinha.
— Ah, então eram apenas namorados — ela buscou a resposta mais
simples para dar aquele assunto como encerrado.
— Digamos que eu era expectador dela.
— Expectador? — ela me avaliou com olhar clínico.
— É, expectador.
— Como um admirador?
— Exatamente isso, mãe.
— Oh, parece algo com o que podemos lidar — ela bateu a palma da
mão em minhas costas e caminhou em frente. — Bom, eu até estava me
acostumando na ideia de ser Amanda, mas... bem... Vamos, onde está a moça?
Suas irmãs já se adiantaram e foram para o restaurante!
— Ela precisou de um tempo para ligar para os pais ou algo do tipo.
— Ela é mexicana? — seu olhar foi severo.
— Brasileira, mãe.
Ela fez uma cara azeda. Mas se eu confirmasse sua ideia de que Beatriz
era mexicana, sabia que ela enfartaria ou fingiria um enfarto só para mostrar o
quão má era aquela ideia.
— Se o seu pai não morrer e acordar, quando ele acordar, eu mesmo o
mato!
— Mama!
— Vou trocar a pílula azul dele por veneno! — ela puxou a bolsa e saiu
pela portaria.
Beatriz chegou alguns minutos depois, andava devagar, vinha acanhada,
passos lentos, mas o rosto erguido, os ombros para fora, um jeito altivo de
desfilar.
— Onde está todo mundo?
— Foram na frente, vamos — estendi meu braço.
Ela olhou, olhou novamente e repetiu a ação uma terceira vez. Então eu
passei seu braço por dentro do meu e a puxei para fora dali.

Beatriz Rodrigues

Hillary estava bem. Bom, se podemos dizer que uma pessoa que só
conseguia ficar deitada, assistindo qualquer coisa na televisão e se entupindo de
chocolate para manter a sanidade está bem, Hillary na verdade estava ótima.
Fizemos uma rápida chamada e eu pude vê-la, suas olheiras, seu olhar
vazio, o temor eminente no menor sinal do vento batendo na janela.
Preferi desligar e me concentrar em meu trabalho ali: ser a mulher de
Héctor Mitchell.
Fomos para um restaurante grã-fino em Manhattan e lá pude rever a
família Mitchell, que eu havia visto por foto e estudado seus nomes.
A moça mais serena, de olhar calmo e jovial era Laurel, a irmã mais
jovem de Héctor. A de feição mais severa e enérgica que imitava bem o tom da
mãe, era Rebecca, a irmã mais velha, que o tempo todo dava ordens aos filhos
para que se mantivessem no controle.
A senhora Mitchell, embora de feição severa e amarga, me olhou com
certa gentileza e acho que até esboçou um sorriso quando me viu.
Os outros eram os filhos de Rebecca, seu esposo, o namorado de Laurel e
dois irmãos da senhora Mitchell, um homem e uma mulher já idosos e muito
calados.
— Linda família — os elogiei quando sentei ao lado de Héctor.
— Bom, eis o momento tão esperado. Família, essa é a minha mulher.
Bia, essa é a minha família.
Acenei e primeiro os mais jovens acenaram de volta, depois Laurel,
então a mãe e Rebecca. Os outros dois idosos eu não tinha certeza, mas seria
bom chamar a emergência, pois não pareciam muito vivos.
— Quando vão casar? — Laurel perguntou, muito simpática.
— Eu aviso quando tudo der certo.
— E o que seria dar errado? — Rebecca arqueou a sobrancelha.
— Os preparativos... montar uma pequena e modesta cerimônia...
organizar casamentos pode ser demorado e difícil. Bom, nunca casei... — tive de
rir ao fim da frase.
— Não seja boba — a senhora Mitchell limpou a garganta com a água
que estava em seu copo. — Temos dinheiro, você não precisará se preocupar
com nenhum detalhe. Contrataremos os melhores para montar o casamento do
ano!
— Ela disse que queria algo simples e modesto, mama — Laurel a
repreendeu.
— Mas somos os Mitchell. Nada é simples e modesto para nós — ela foi
severa e mais uma vez engoliu a água.
— Pretendem passar a lua de mel onde? — Laurel voltou a me encarar.
Gostei dela, pelas fotos dava para perceber que era simpática, mas
pessoalmente era quase um anjo em minha vida, ela me fez sentir menos tensa
em meio a tantas caras amarradas.
— Em nossa mansão no Hamptons — Héctor prontamente respondeu, eu
o olhei.
— Não é cedo demais para...? — a senhora Mitchell pareceu
desconfortável.
— Não, não é. A mansão é grande e Beatriz poderá conhecer a praia, as
mansões de grandes artistas, quem sabe até encontre com alguns deles...
A senhora Mitchell não pareceu muito feliz com a ideia e eu não entendi
o porquê. De toda sorte, continuei a sorrir e assentir com a cabeça para tudo o
que Héctor dizia.
— Não viajarão? — Laurel perguntou.
Os adolescentes comemoraram quando as entradas chegaram, salada
fresca com frutos do mar. Vinho branco foi servido para os adultos, soda foi
servida para os mais jovens.
— Não. Tenho muito trabalho pela frente, não vou sair daqui. Sei que
Geoffrey não se dará por vencido e tentará algo e preciso estar aqui e pronto,
quando ele tentar.
— Nosso pai perdeu o juízo... — Rebecca usou um tom fúnebre.
— Discordo — Laurel, que esbanjava uma leveza na alma, a
interrompeu. — Acho que foi um pedido genuíno e desesperado para que o Héc
parasse de ser sugado pelo mundo e se voltasse para a família...
— Ah, Laurel, sempre tão romântica — Rebecca a reprovou.
— A propósito, como se conheceram? — a senhora Mitchell encarou
Héctor. — Não me recordo de que tenha dito.
— Eu não disse, ninguém perguntou.
— Então estou perguntando agora. Como se conheceram?
— Em um show.
— Ah, Beatriz gosta de rock’n roll? — a senhora Mitchell pareceu
menos azeda e isso significa que não me olhou como se fosse me fatiar com a
faca que tinha em punho.
— Não, mãe. A conheci em um clube de strip-tease — Héctor esclareceu.
A mulher cuspiu a água na cara da neta. A menina se levantou às pressas
e correu para o banheiro.
— Ela devia estar perdida, devo imaginar, e buscou ajuda no lugar
insalubre.
Héctor riu.
— Mãe, Beatriz é a stripper mais requisitada das noites nova-iorquinas.

Héctor Mitchell

Minha mãe ficou mais branca do que já era. Embora a maquiagem fosse
de primeiro mundo e imitasse um leve rosado em suas bochechas, nem mesmo a
qualidade e valor exorbitante impediram de que ela perdesse a cor.
— Uma stripper? — ela me encarou secamente.
— Se preciso passar tanto tempo assim com alguém e serei vigiado como
se estivesse com um cinto de castidade nas bolas, a melhor escolha não seria me
casar com alguém que me interessa e facilmente ofusca qualquer mulher?
— Uma stripper? — foi a vez de Rebecca perguntar, já que após minha
fala ficou um silêncio constrangedor no ar.
— A riqueza da nossa família está nas mãos de uma... stripper? — minha
mãe engoliu em seco.
— Por isso é tão importante que a conheçam, a tratem bem e convivam
em harmonia. Afinal de contas, teremos muito tempo para convivermos.
— Héctor, é apenas um ano! Um ano! — Rebecca me repreendeu. —
Aceitasse uma mulher qualquer que a mama quer te empurrar há anos! Uma
stripper? A Amanda, coitada! A Amanda!
— Quem é Amanda? — Beatriz me encarou, confusa.
Eu sabia bem o porquê Rebecca dizia isso. Era muito mais cômodo para
todas elas acreditar que a melhor solução era me manter com alguém que elas
sabiam que podiam controlar e que tentaria, de todas as formas, me controlar.
Mas se eu ia me casar – pela segunda vez –, que fosse com alguém
estonteante e que não tivesse nenhuma ligação com minha família.
Se possível que deixasse todas elas de cabelo em pé e com a sensação de
que estavam pisando em ovos.
Bom, prazer, essa era Beatriz.
— Uma stripper que tem nome. Beatriz. A minha mulher.
Todos pegaram suas taças com o vinho branco e sorveram o líquido.
Minha mãe entregou a taça para o neto e quando minha sobrinha chegou, ela deu
a garrafa para a garota.
— Você e o seu pai perderam o juízo e decidiram arruinar essa família!
— minha mãe rosnou.
— Mama! — tentei advertí-la, mas seu temperamento forte era como
vendaval: quando vinha era difícil conter.
— Você e a sua stripper vão colocar tudo a perder!
— Estão monetizando a palavra stripper? Vocês não param de dizê-la —
Laurel pegou a garrafa da mão de Jessi e encheu a taça. — Se estiverem:
Stripper, stripper, stripper, stripper e stripper. Ah, só mais uma vez: stripper.
Agora que já preenchemos a cota, dos males o menor, Beatriz me pareceu uma
moça bem simpática e de boa índole.
— E pelo menos não é mexicana — Rebecca torceu o nariz.
— Meu Deus, onde está o muro que aquele homem nos prometeu? —
minha mãe murmurou e abaixou o rosto.
— O que disse, mama?
— Eu disse que se é essa a nossa opção, resta-nos aceitar. Poderia ser
pior, muito pior — ela começou a olhar para as outras pessoas sentadas no
ambiente.
É, poderia ser pior, como uma imigrante vivendo ilegalmente no país.
Ou uma pessoa caçada por traficantes que mataram a colega de
apartamento.
Mas eu não daria esse gostinho a ela.
— E a sua família colombiana vem para o casamento? — minha mãe foi
rude, como lhe era de costume.
— Brasileira — Laurel a corrigiu.
— Não sei... meus pais são do interior, nunca viajaram de avião... e uma
longa viajem do Brasil para os Estados Unidos pode ser um pouco traumatizante.
— Certamente — ela concordou, mas de um jeito rude. — Melhor que
fiquem lá na Argentina mesmo.
— Brasil — Laurel revirou os olhos.
— Que seja — ela limpou os lábios com o guardanapo. — Eu realmente
tinha esperanças de que conseguiríamos sair dessa com facilidade... mas o seu
irmão provou que perdeu completamente o juízo. Melhor seria entregar tudo a
Geoffrey de uma vez e poupar a humilhação.
Pude perceber o desconforto de Beatriz. Eu estava acostumado com
aquele gênio forte desde criança, mas ela tinha caído de paraquedas no meio da
guerra.
Segurei em sua mão que estava em seu colo e a apertei com doçura. Ela
me olhou, meio tristonha e surpresa com meu gesto inusitado, então eu tentei
usar a minha expressão mais encorajadora. Mostrar-lhe que eu estava ali com ela
e que tudo ficaria bem.
— Sinto muito por isso — sussurrei.
— Tudo bem — ela sussurrou de volta.
— Tente se esforçar um pouco — minha mãe tornou a chamar nossa
atenção, aumentando o tom de voz. Dessa vez, dirigiu-se a Bia. — Toda uma
família depende de você. Lembre-se disso dia e noite. E talvez assim, pela
misericórdia de Deus, você não destrua essa família.
— Não deixarei que use esse tom com a minha mulher — rosnei.
— Ela é uma puta.
— Stripper — a corrigi. — E agora, minha mulher — fui firme. —
Respeite-a.
Minha mãe virou o rosto. Bia apertou a minha mão por debaixo da mesa.
— Essa família depende de mim, exclusivamente de mim. Se algo deve
ser exigido, deve ser exigido de mim. Não permitirei que usem esse tom
novamente com a minha mulher, tampouco que tentem constrange-la,
inferioriza-la ou zombá-la, quer seja diante de mim ou não! — ralhei.
Minha mãe parecia ter a resposta pronta na ponta da língua, e quer saber,
eu também.
— No fim, tudo pertence a Geoffrey ou a mim. E como herdeiro de
absolutamente tudo farei com que a respeitem pelo bem ou pelo mal. E espero
que possamos viver em harmonia durante todo esse tempo.
Minha mãe fingiu que sequer tinha escutado aquilo e puxou uma
conversa qualquer com Rebecca. Os meus tios continuaram com aquele olhar
vazio e os adolescentes ficaram chamando a atenção do pai.
— Você gosta mesmo dela, não é? — Laurel chamou minha atenção.
— Como chegou a essa conclusão?
— Você nunca enfrentou a mama assim — ela riu.
— Cedo ou tarde eu teria de enfrenta-la. E a hora chegou.
— E tudo ficou mais fácil porque você gosta dela — ela tornou a
observar.
— Pode apostar que sim — respondi.
Capítulo 7
Beatriz Rodrigues

— Um o quê, minha filha? Um bilionário? — minha mãe grita ao
telefone.
Preciso afastar o aparelho do meu rosto e aperto os olhos para me
recuperar do zumbido agudo que fica no ouvido.
— Como assim você liga da noite para o dia e diz que vai casar? E com
um bilionário? — minha mãe tenta abaixar o tom da voz, o que aqui significa
dizer que ela continuou falando alto, mas sem estar com a boca grudada no
aparelho.
— Mamãe, calma, é difícil de explicar — massageio minhas
sobrancelhas com as pontas dos dedos.
— O que houve? — escuto a voz do meu pai ao fundo.
— Beatriz vai casar. Com um tal de bilionário — minha mãe repete a
informação como se aquilo fosse uma espécie de mantra.
— É cantor sertanejo isso? — meu pai puxa os “erres” nas palavras.
— Héctor, mãe. O nome dele é Héctor Mitchell — tento corrigi-la.
— Não é cantor sertanejo, é o tal do Michel — minha mãe claramente
está conversando com o meu pai, depois retorna sua atenção para mim. — Com
o quê esse homem trabalha? Ele é um homem de bem? Beatriz Rodrigues dos
Santos, no que você está se metendo, minha filha? Você está em apuros? — ela
parece farejar meus problemas lá de Minas.
— Não, mãe, eu estou bem, calma — minto e engulo em seco. — O
Héctor é um grande empresário do ramo energético, pesquise sobre ele no
google, seu nome é Héctor Mitchell.
— Marcos, liga o google para mim! — minha mãe chama o meu irmão.
— Um homem chamado Michel num tempo desses não pode ser coisa boa!
— Ligar o quê? — ouço a voz do adolescente ao fundo.
— O google, liga o google!
— O notebook, a senhora quis dizer — Marcos responde de um jeito
ranzinza.
— Ah, garoto! Liga o google! — ouço o barulho de um tapa.
— Tá bom, mainha!
— Pesquisa sobre um tal bilionário, Héctor Michel — ela diz esbaforida
e respira fundo contra o aparelho.
— Mitchell, mãe — eu a retifico.
— “Mitîeu” — ela repete.
Aguardo na linha, impaciente, enquanto minha mãe pesquisa sobre meu
repentino noivo e volta a gritar em meu ouvido:
— Uai, que homem é esse, Beatriz?
— O cara com quem eu vou casar — respondo com um sorriso no rosto e
a língua limpando os lábios, como se ela pudesse ver.
Há um breve silêncio, depois ouço minha mãe pedindo à Marcos para
que clique em outras imagens.
— Meu Deus, ele é bonitão! — ela conclui.
— Ele é sim.
— E bilionário! — ela diz em exaltação.
— Tá, mamãe, todo mundo já entendeu que o Héctor tem muito dinheiro.
Vocês vêm para a festa de casamento ou não?
— Você tá maluca, minha filha? Eu mal viajo de ônibus, veja lá de avião!
— certamente ela fez o sinal da cruz e olhou para a imagem de Nossa Senhora
nesse momento. — Quando vocês vêm para cá?
— Ih, mãe, vai ser difícil... Héctor é um homem muito ocupado — me
refugio nas ocupações dele para não ter de dizer em voz alta que moro
ilegalmente no país e se for para ir ao Brasil, será em deportação, isso sim.
— E como você conheceu esse bilionário?
— Héctor, mamãe. O chame de Héctor.
— O Héctor bilionário — ela repete, parece que deu erro no disco rígido
e agora fica repetindo essa palavra. — Como se conheceram?
— Digamos que eu era funcionária de um lugar que ele frequentava. E
assim nos conhecemos e nos aproximamos...
— E quando vai ser essa tal festa de casamento?
— Semana que vem.
— Já??? — ela berra em meu ouvido, meus tímpanos pedem piedade.
— Já, sim. Peço a sua bênção, mãe.
— Ela está pedindo minha benção para casar com o bilionário — minha
mãe fala para o meu pai, pelo visto.
Meu Deus, quando será que ela vai se acostumar com o nome do homem
e não com o dinheiro dele? Também, foi culpa minha, eu comecei a ligação
dizendo que tinha uma surpresa, que estava noiva e que ia me casar com um
bilionário... minha mãe deve estar contando os zeros que fazem uma pessoa
bilionária até agora.
— Seu pai disse que aprova. Mas ele tem que vir no interior de Minas
depois, por que a gente não vai para esse lugar aí não! Não tem como ir de
ônibus — ela conclui.
— Tá bem, mamãe.
— Você está se comportando aí nessas Américas do Norte, né? Tudo está
bem?
Olho para Hillary de soslaio e vejo a minha amiga grudada na televisão,
gemendo a qualquer sinal de ligação e balançando o corpo para frente e para trás
lentamente. Ela está se recuperando de todo o choque, ainda falta muito para
ficar com a cabeça no lugar, mas pelo menos parou de surtar e agora sente que
está segura.
— Está sim, mamãe — minto. — Eu te amo e amo muito o papai.
— Nós também te amamos.

Héctor Mitchell

A tela preta do celular ligou. Mais uma mensagem.
“Me diga que tudo isso não passa de uma brincadeira. Você não vai se
casar com uma prostituta, vai, Héctor?”
Minha mãe ainda não aceitou o fato de que Beatriz é a mulher que
escolhi.
Desde o nosso último encontro há quatro dias, ela tem plantado moças da
alta sociedade nova-iorquina no meu prédio, no meu trabalho, até nos
restaurantes que frequento.
As mulheres se insinuam, mostram que tem bastante interesse e que
podem ser boas candidatas para passarem 365 dias casadas comigo ou pelo
menos até o meu pai acordar e rir da minha cara.
Mas Beatriz não é uma opção descartável. Há algo especial nela.
A tensão entre nós é algo genuíno, uma fagulha que chispa e incendeia
dentro de mim, que tira minha completa atenção dos meus afazeres e me faz
pensar que não seria tão mal viver com uma pessoa por tanto tempo.
Uma eternidade, na verdade, um ano com uma única mulher parece
suicídio. Mas ela faz parecer que vai passar voando.
Desde que éramos “bons desconhecidos” havia algo especial entre nós
dois, eu só não sabia o quê.
Ela não se insinuava, jurava amores ou tentava me convencer de nada. Só
pegava meu dinheiro, raramente me deixava tocar em seu corpo e me provocava
com o olhar, como se uma noite com ela valesse toda a minha fortuna e ainda
assim eu teria que lhe dever alguns milhões.
— Eu preciso saber o que você quer — ouço uma voz fora da minha
cabeça.
— Eu quero fodê-la. Com muita força — continuo olhando para o vazio.
Alex pigarreia alto, chega a tossir e esbugalha os olhos.
O padre, o organizador da cerimônia e o meu fiel escudeiro me encaram
entre a completa surpresa e julgamento. O organizador de cerimônia me olhou
com parcimônia, então gostei ainda mais dele.
— Beatriz quer uma cerimônia simples, discreta, apenas a minha família
e amigos íntimos — pigarreio e sou o mais objetivo possível.
— Seriam quantas pessoas?
— Cinquenta pessoas, no máximo — dou o ar de seriedade e importância
que esse detalhe merece.
— Bem íntimo mesmo — o homem anota numa prancheta e começa a
fazer cálculos.
— O seu pai esperou muito por isso — o padre Anselmo diz, dirige um
sorriso paterno e gentil a mim. — Ele aguardava o dia em que você superaria os
seus próprios demônios, seu passado trágico e se abriria ao amor saudável mais
uma vez.
— Ela é stripper, padre — pouso a mão no ombro dele.
Se é para decepcionar um homem de Deus, que seja de imediato.
— Uma... uma... uma o quê, meu rapaz? — o padre fica perdido.
Assim, Alex e eu deixamos um organizador com sua prancheta fazendo
cálculos de pessoas, comida, espaço e etc, e um padre falando sozinho – ou
possivelmente com Deus –, completamente pasmado.
— Você é excêntrico. Eu fico me perguntando, por que não uma
secretária que é de confiança? Uma das moças que se arrastam e correm atrás de
você desde os encontros às cegas? Por que não uma moça direita, de família
tradicional? Por que não a Amanda? Há anos você confiou o seu filho a ela,
vocês têm um caso, até onde sei. Por que não ela?
— Por que agora eu sou o dono desse império — o encaro sem expressar
nenhum sentimento. — E sou o chefe da minha família e da empresa — o
analiso como olhar, julgando-o por questionar minhas ações. — Essa mulher
mexe comigo.
— Mexe com você?
— Ela tenta se cobrir de uma malícia, uma maldade e uma
hipersexualidade que claramente não a pertencem... ela... é pura...
— Pura? Uma stripper? Uma...?
— Ela até é virgem — murmuro.
Alex quase caiu. Um homem adulto, de pé, sem nada atrás para fazê-lo
tropeçar e se desequilibrar.
— Não brinca — ele riu em desdém.
— Ela é única de tantas formas — cruzei os braços. — Ela é inocente...
— Inocente?! — ele não esconde o choque.
— Inocente. Exatamente o oposto de tudo o que eu sou.
Capítulo 8
Beatriz Rodrigues

Recebi os advogados de Héctor no apartamento que ele havia me dado.
Li nosso acordo diversas vezes e fiquei muito mais tranquila em perceber que
todas as minhas exigências estavam asseguradas ali.
Ele não fazia nenhuma exigência esdrúxula e deixava claro e bem
sublinhado que me protegeria acima de qualquer coisa e não permitiria que eu
sofresse abusos físicos, psicológicos ou de quaisquer outros tipos. Isso foi a
cereja do bolo.
Fiquei nervosa, sim, no dia em que o vi avançar em meu corpo.
Ter outras mãos que não as suas em seu corpo pode ser bem invasivo a
primeira vez e eu me assustei.
Mesmo no “La Chica” haviam limites, e eu era a fantasia de todos
aqueles homens porque podia provocá-los e eles nunca podiam passar dos
limites estabelecidos.
Eu sabia que uma hora ou outra eu teria de perder a minha virgindade “de
verdade” ou “de modo convencional/tradicional”, mas como toda boa garota de
interior, eu esperava que fosse especial.
Na sala dele em cima da mesa não parecia nada especial. Mas eu fiquei
ofegante, molhada, quando o vi se afastar quase implorei para que acabasse
comigo de uma vez.
Mas ele me respeitou, conseguiu segurar seu próprio instinto, dar um
passo atrás e mostrou que tudo ocorreria ao seu tempo.
Foi assim que Héctor começou a se tornar especial.
Eu tinha medo, sim, de me casar por contrato e acabar sendo abusada ou
sei lá quais coisas horríveis podem ocorrer em situações do tipo.
Mas o contrato deixava claro: sem abusos psicológicos, sexuais ou de
quaisquer outros tipos.
Deixava, obviamente, claro e sublinhado também que o sexo não era
opcional. Como a mulher de Héctor eu precisava cumprir todas as funções que
me fossem designadas, inclusive essa.
O pouco que eu conhecia dele me deixou confiante de que nada ruim iria
acontecer.
Eu assinei.
Deixei minha rubrica, devolvi uma das cópias para seus advogados e
recebi meu cartão ilimitado. Guardei aquilo na bolsa como se fosse uma joia
rara.
— Não teria sido melhor se casar com o Brown? — Hillary decidiu soltar
sua inquietação.
Percebi que ela guardava algo de mim, que queria me questionar isso há
um tempo, então deixei que fizesse sem pressão.
— Por que você pergunta isso? — retruquei.
— Ele não é um homem tão refinado quanto o Héctor, mas poderia nos
proteger. E nós já o conhecíamos, sabíamos de sua índole... você tinha certeza
que com ele não haveriam abusos, só teria de lhe dar um filho...
— Eu não sei se quero ter filhos — cruzei os braços. — Não sei se estou
pronta para ser mãe — torci o nariz.
— Mas amiga, esse era o valor para seu green card!
— Achei a proposta de um ano de casada com um cartão sem limites e
outras mordomias muito mais tentadoras — desabafei.
Na verdade era muito mais do que isso. Héctor era bonito, tinha aquele ar
de homem moderno, da grande cidade, empresário bem-sucedido e chefe de
milhares de pessoas. Assim como aparentava ter um jeito bruto, selvagem e
indomável como um homem do interior.
Ele me dava calafrios. Ele me deixava acordada de noite pensando em
como seria bom ultrapassar os meus medos e me entregar...
— Mas o Brown...
— Hillary, estou começando a achar que quem tem interesse no Brown
aqui é você.
Hill vira o rosto e finge que nem falei com ela, fica vidrada em sua série
sobre assassinatos.
— Depois da sua festa de casamento vamos morar nos Hamptons? — ela
me chama minutos depois, como se eu já tivesse esquecido as últimas partes da
conversa.
— Sim, ele tem uma mansão de luxo por lá. Você vai se comportar, hein!
Nada de bancar a maluca!
— Meu Deus, que coisa absurda... um dia estávamos no Brooklyn
dividindo apartamento e agora vamos ser vizinhas de celebridades...
— Pois é... um dia estávamos nós três, juntas, trabalhando em um clube
noturno e não sei em que momento as coisas desandaram — me empertiguei no
sofá.
— Clair precisava de dinheiro... ela começou a se meter com coisa
errada... — Hillary disse num tom infantil, até se encolheu. — Você acha que
eles estão atrás de nós? Será que ainda corremos perigo? Quando você saiu para
ir ver o senhor Mitchell, sentiu que tinha alguém te perseguindo? — ela foi
disparando as perguntas uma atrás da outra.
— Fui escoltada por seguranças, não tive tempo para sequer ver as
pessoas ao meu redor.
— E sobre o casamento? — ela decidiu mudar bruscamente de assunto.
— Está animada?
Animada não era bem a palavra... mas eu estava mais segura sobre tudo.
Casando-me com Héctor eu deixaria de estar na ilegalidade. Teria dinheiro para
poder usufruir da vida nos EUA e estaria totalmente protegida e resguardada. Eu
me sentia em paz, ou pelo menos, em processo de estar em paz.
Ouvi o barulho de nova mensagem no celular e o peguei para conferir.
Era Héctor.
“Me informaram que está tudo pronto para a festa de casamento, assim
que quiser conferir tudo e ver se é do seu agrado, me avise. Quero te ver.”
— É o seu dono? — Hillary provocou.
— Ele não é o meu dono — retruquei.
— Ele te faz assinar contrato e tudo. Deve ter feito umas exigências bem
malucas.
Pior que não havia. E isso me deixava totalmente intrigada.
“Quando quiser é só vir me buscar” eu enviei.
“Estou a caminho” foi o que recebi.
— Pois é. Algemas, chicotes, mordaça, ser suspensa... essas coisas que
homens poderosos querem com moças virgens — falei.
— Eu sei, eu assisti Cinquenta Tons de Cinzas, miga — Hillary concluiu
e continuou presa à televisão.

Héctor Mitchell

Coloquemos verdades na mesa. Beatriz era estonteante de látex e
máscara, com aquele ar de não ter pudores e estar disposta a tudo.
Mas de jaqueta de couro e calça jeans ela me deixava sem ar.
O rosto tão calmo, o olhar que escondia um leve sorriso, o jeito doce e
educado como se comportava diante de mim como se ainda fossemos bons
desconhecidos e estivéssemos num eterno flerte... eu não precisava de muito
mais.
Depois de alguns anos, loucuras, pessoas e atos artificiais, tudo o que eu
queria era algo real.
E Beatriz era o tipo de pessoa real que eu estava procurando há muito
tempo.
— Um lugar para cinquenta convidados, você havia dito? — sua voz
ofuscou até mesmo John Legend.
Pisquei algumas vezes e redobrei minha atenção no trânsito.
— Exatamente como você sugeriu — encontrei seus olhos e esbocei uma
tentativa de sorriso, devo ter falhado miseravelmente. Aquele ato não me era
comum, então forçar um sorriso me fazia enrijecer ainda mais o rosto e ficar
ainda mais sério.
De alguma forma estranha, ainda assim, ela percebeu, ou eu acho que ela
percebeu, que eu tentei, pelo menos.
— Obrigada — suas maçãs do rosto cresceram e coraram.
— Vamos fazer disso algo fácil para nós dois — as palavras saíram
totalmente formais.
Chegamos ao local onde ocorreria a festa, mas rapidamente fui avisado
que o endereço havia sido trocado para outro salão de eventos.
Irritado e com vontade de esbravejar com Alex, pedi que Bia ligasse sem
parar até que ele atendesse. Não houve resposta.
— Vai ver aconteceu algo... um vazamento, um problema... — ela tentou
justificar o erro dos outros para me acalmar.
— Chamo isso de incompetência — tive de pontuar. — Como foi a
conversa com a sua família?
Beatriz pareceu levemente tensa. Começou a apertar os dedos e olhar de
um lado para o outro.
— Estão animados, mas não poderão vir — ela se virou bruscamente em
minha direção. — Mas querem te conhecer, perguntaram quando você irá...
— Encontrarei uma forma de ir ver os negócios no Brasil e os visitarei —
minhas palavras não pareceram deixa-la menos tensa. — Aconteceu algo? Sua
amiga está bem?
— Ela está, de verdade. Tudo está bem.
— Você parece meio... alterada — não consegui encontrar uma palavra
mais adequada.
— Impressão sua.
Não demoramos muito para chegar ao novo salão. Já no estacionamento
eu quis bater com a cabeça no volante tamanha a raiva daquela mudança
inesperada. Alex havia me garantido pela manhã que tudo estava pronto e agora
tudo havia mudado às pressas?
— No contrato — Bia roubou minha atenção. — Falava sobre não haver
abusos, de nenhum tipo...
Tirei o cinto de segurança e voltei-me em sua direção, para dar-lhe
completa atenção.
— Sim.
— E não especificava quando ou como teríamos que fazer... você sabe...
— Hum.
— Então como vai ser?
— Como vai ser o quê? — arqueei a sobrancelha.
— Você disse que haveria sexo selvagem ou algo assim. E no contrato
não especificava quando eu seria obrigada a fazer sexo com você...
— Por que você não precisa ser obrigada — concluí.
— Então... bem... quando vamos fazer? — ela virou o rosto para a janela.
— Quando você quiser fazer — concluí, parecia bem óbvio para mim.
— E... bem... hum, quanto a você? Quando você vai querer fazer?
— Eu quero fazer desde a primeira vez que te vi, três meses atrás.
Agora sim ela ficou vermelha. De verdade.
— Devo confessar que me surpreendi. Pensei que... você sabe... por
causa dos filmes e livros eu encontraria um contrato pormenorizado, cheio de
detalhes sobre algemas, levar palmadas, ser suspensa, vendada... — ela se
encolheu. — Essas coisas...
— E você queria que essas coisas estivessem no contrato? — retruquei.
Beatriz abriu a boca para falar, mas preferiu ficar quieta. Apertou as
costas contra o banco e olhou para o lado oposto.
Eu, por minha vez, busquei o outro lado da sua face e a puxei de volta
para mim, para que nos encarássemos.
— A vida é como um jogo de cartas — eu a informei. — Todas as cartas
estão na mesa. Ou nas mãos dos jogadores. E eles jogam como é conveniente.

Beatriz Rodrigues

Era difícil encarar os olhos de Héctor.
Fora da personagem eu era muito mais sem graça e menor do que
gostaria.
Eu simplesmente ficava tímida, engessada, não sabia bem o que dizer ou
como agir... eu precisava controlar isso com urgência. Insinuar-me com um
“outro eu” que criei dentro da minha cabeça e pude exercitar no La Chica era
moleza.
Mas mesmo quando eu buscava a Sabrina dentro de mim, com Héctor,
era difícil.
E ele continuava ali, sério, analítico, compenetrado. Os olhos fixos nos
meus, seguindo cada movimento que meu rosto fizesse, sua respiração parecia
querer roubar a minha e suas palavras me deixavam meio zonza.
— E o que é conveniente para você? — perguntei.
Droga, quase um minuto para formular uma pergunta e eu fui logo para a
merda do óbvio!
A mão de Héctor se fechou em concha em meu rosto e me acariciou
lentamente. Fechei os olhos, presa naquele toque que começava doce e
rapidamente se tornava intenso, como o nascer de uma explosão.
— Eu já vi a Sabrina algumas vezes — ele disse. — Seria conveniente
ver a Beatriz, a minha mulher, e viver bem com ela por um ano. Eu tenho todas
as cartas em minhas mãos, bebê. Então todas as possibilidades estão na mesa. A
não ser que você queira fazer restrições, já adianto que meu jogo é sem
restrições.
O arrepio foi real. Percorreu toda a espinha.
A mão forte de Héctor me puxou e eu fui, cega, em sua direção. Senti seu
cheiro refrescante em minhas narinas e quase tremi quando seu lábio veio de
encontro ao meu. Tentei segurar em seu rosto, mas imediatamente ele prendeu
minha mão contra o banco junto com o meu corpo.

Héctor Mitchell

Beatriz deu um salto do banco, eu apenas virei o rosto com toda a calma
do mundo.
Alex bateu freneticamente contra o vidro do carro, os olhos
esbugalhados, já prevendo a carta de demissão.
Quando nossos olhares se cruzaram ele parou de bater contra o vidro e se
afastou. Abaixei a janela sem pressa e aguardei suas palavras.
— Não me demita! — foi o que saiu de sua boca.
— Isso é um pedido ou uma ordem? — retruquei.
— Não me demita? — ele tentou mudar o tom.
— Desembucha, Alex! — quase dei um soco no volante.
— Foi a sua mãe, é óbvio.
Beatriz e eu nos entreolhamos. Depois nos voltamos para Alex que deu
novos passos para trás e sussurrou, de longe:
— Ela quer um casamento faraônico.

Beatriz Rodrigues

— Mama! — Héctor rosnou tão alto que eu me arrepiei toda.
Sua voz ecoou por aquele salão faraônico de proporções surpreendentes e
ornado com peças de ouro, cristais finos e joias raras.
Enquanto seguia Héctor, embasbacada pelo lugar, vi a senhora Mitchell
coordenando duas dezenas de pessoas, indicando onde os arranjos de flores
deveriam ficar quando chegassem e reagrupando a posição das cadeiras.
Sério, o pouco que andei eu já havia visto pelo menos uns quatrocentos
lugares.
— O que está havendo? — Héctor inquiriu.
— Preparativos de um casamento — sua mãe respondeu com sequidão,
sequer o olhou.
— O meu casamento — ele retrucou.
Ela ficou em silêncio, continuou a apontar para os ajudantes como queria
a ornamentação.
— “Cinquenta lugares”? — ela debochou. — Cinquenta lugares é o que
minha irmã precisa de convidados.
— A senhora não tem o direito — Héctor respirou fundo e manteve-se
firme.
— Não tenho? — ela se virou devagar. Olhos fortes, tão firmes quanto os
dele, sem medo de peitá-lo. — O dinheiro é meu.
— Meu — ele a corrigiu prontamente.
— Seu. Até a prostituta trouxer o caos a essa família e entregar tudo a
Geoffrey de mãos beijadas. Pense da seguinte forma, Héctor, essa é a nossa
despedida do maravilhoso mundo dos poderosos onde estamos inseridos. Vamos
gastar pelo menos 10% de todo o dinheiro. Não o veremos depois.
— O dinheiro não é seu para decidir isso — ele se manteve firme e
calmo, sua postura era invejável.
E eu ali, a “prostituta”, entre uma mulher que estava em seu direito em
ver sua fortuna escorrer das suas mãos para a incerteza de um casamento
arranjado, e o meu defensor.
Nunca imaginei que alguém me defenderia assim.
— Héctor, você vai se arrepender amargamente disso. Não duvido das
suas qualidades para administrar a empresa, mas se casar com uma rameira?
Uma... uma... vagabunda?
Esbugalhei os olhos.
— Stripper — Héctor disse com tanta calma que até eu me assustei. — A
minha mulher.
— A sua mulher não tem família, deve ser uma coitada de rua, por isso
você quer humilhar nossa família e exigir que só hajam “cinquenta convidados”?
não poderei usufruir da fortuna do meu marido? Pelo menos uma última vez? —
a mulher continuava afiada.
Héctor se virou para mim.
Quer saber? Estava na ponta da língua.
“Héctor isso é um erro, sua mãe está certa. Você não precisa confiar
numa completa desconhecida que pode fazer sua fortuna desaparecer. Escolha
outra pessoa, uma de boa família, case-se com ela. Qualquer mulher se sentiria
honrada em ser sua, e eu não mereço esse privilégio. Por favor, aceite minha
quebra de contrato e não me puna. Só me permita ir...”
— Olhe ao redor — suas palavras ao chegarem aos meus ouvidos me
fizeram até esquecer o que se passava em minha cabeça.
Ele andou ao meu redor, o terno caríssimo tocando minha jaqueta preta e
barato. Seus olhos claros com uma calmaria invejável. E eu ali, bobona, no meio
daquela guerra familiar sem saber o que fazer além de encontrar boas desculpas
para ir embora.
— É essa a festa de casamento que você quer? — ele murmurou.
O salão era lindo. Devia ter custado os olhos da cara.
As mesas, cadeiras, a prataria e as ornamentações... vasos, estátuas, até
mesmo os arranjos de flores artificiais como “teste de cor” deviam valer mais do
que tudo o que tinha em minha conta – e olha que eu havia acabado de receber
meio milhão.
Era o sonho de qualquer mulher.
Mas não o meu. Não naquelas circunstâncias.
Se fosse um casamento envolvendo amor verdadeiro, uma conexão e
cumplicidade, eu aceitaria. Não seria louca de negar!
Mas eu precisava admitir que a senhora Mitchell estava certa em uma
coisa: eu era a desconhecida, a intrusa, a tesoura que facilmente cortaria o fio de
toda aquela tapeçaria.
— Como você não sabe que ela não foi contratada pelo Geoffrey para te
destruir? Como você é estúpido em permitir que uma mulher possa ter domínio
sobre você?! — ela rosnou enfurecida contra as costas dela.
Eu pude ouvir sua voz. Não pude vê-la.
Héctor se colocou diante de mim e a tampou. Segurou com as duas mãos
em meu rosto e ergueu meu olhar em sua direção.
Ele me olhou daquele jeito imponente e exalou toda a masculinidade que
tinha só naquele olhar. Precisei mordiscar o lábio.
E o movimento não foi sutil o bastante. Seu dedo polegar desceu para
meus lábios e os pressionou como se quisesse entrar em minha boca. Eu
aceitaria.
— É essa a festa de casamento que você quer? — ele repetiu.
— Não acho que preciso de uma festa de casamento — foi uma luta
poder dizer isso, a respiração mal saía. — É um casamento arranjado e eu não
quero tirar mais dinheiro da sua família...
— Você sabe que será seu dinheiro também, de alguma forma — ele
murmurou.
Vamos esclarecer uma coisa. Ter homens jogando notas de cem dólares
por te ver mexer o corpo dá uma sensação quase de orgasmo, pois você se sente
valorizada.
Mas ver que um homem te coloca à frente da própria fortuna e te trata
como ser humano... isso sim... isso mexeu comigo.
— Eu acho que você deveria escolher uma outra... — tentei dizer. Que
fique registrado que eu tentei.
Héctor pressionou o dedo polegar em meus lábios e me impediu de
continuar.
Seu rosto, a moldura e quadro mais belos que eu já havia visto na vida, se
aproximou. Sua boca tomou a minha sem permissão e se antes eu estava sem ar,
agora eu não conseguia sentir o chão.
Fiquei na ponta dos pés e quase desmaiei ao sentir aquela mãozona me
agarrar pela nuca e me puxar contra o corpo musculoso, quente e confortável.
Eu ficaria presa naquele abraço uma eternidade ou duas, se pudesse.
Tão zonza, tão atrapalhada, tão perdida em meus pensamentos fiquei, que
quando aquele beijo intenso e lento terminou, eu ainda continuei o raciocínio.
— uma outra mulher... — soltei e tentei me recompor. Era difícil.
— Héctor, você não...! — a mãe esbravejou.
— Diga-me o que você quer — ele exigiu, rouco, os olhos sérios e um
jeito quase ranzinza de me encarar.
Eu quero você?! O que eu diria numa ocasião dessas? “Me tome por
inteira, me chame de sua e me faça esquecer o que viemos fazer aqui”?
— Acho que teremos muito o que comemorar quando a fortuna for sua
definitivamente, sem preocupações ou contratempos... quando eu não for mais
um perigo para você, sua família e seu dinheiro — foi a minha resposta.
— Você é o tipo de perigo que eu faço questão de enfrentar, senhorita
Rodrigues.
Me senti lisonjeada. E acesa.
— Não haverá festa — Héctor anunciou em voz alta.
Todos os que trabalhavam ali pararam imediatamente.
— Você não tem o direito de fazer isso comigo. Consigo mesmo, Héctor!
— a mãe disse enfurecida. — Olhe para você. Olhe para ela! Você não consegue
ver? Está estampado na cara dela, Héctor?
Ele se virou para mim e semicerrou os olhos. Se eu achava que antes
disso ele estava me analisando, agora eu aprendi o que era ser observada.
Os olhos acinzentados de Héctor percorreram todo o meu corpo, dos pés
calçados em botas pretas até os cabelos num rabo de cavalo despojado. Eu estava
longe de ser a mulher ideal, o padrão grã-fino que qualquer um podia esperar.
Fora isso, aproveitadora era uma coisa que eu estava longe de ser.
Silenciosamente Héctor se virou para a mãe e a encarou daquele jeito de
quem está no controle e não precisa se exaltar, por que sabe o que está fazendo.
— Você é cego, como o seu pai — ela esbravejou. — Eu farei tudo,
absolutamente tudo para impedir esse casamento!
— Eu sei que vai — ele a respondeu numa tranquilidade incomum.
— Ótimo, então prepare-se!
— Eu já me preparei — Héctor aumentou o tom de voz para chamar-lhe
a atenção, uma vez que sua mãe deu-lhe as costas.
Ela se virou calmamente e o encarou, como se estivesse pronta para
cuspir sua última ameaça.
Antes que a fizesse, a voz dele a ofuscou:
— Foi por isso que Bia e eu já nos casamos, há alguns dias.
Ele a desarmou de um jeito que ela não esperou.
Eu guardei essa informação comigo, não disse aos meus pais, nem
mesmo a Hillary porque ele pediu. Mas agora, pelo visto, já era uma informação
de domínio público.
— Não há mais nada a ser feito a não ser escolher um lado ao qual ficar
— Héctor caminhou calmamente até a mulher incrédula, assustada,
completamente impotente diante do fato.
— Você destruiu essa família, Héctor — ela foi resoluta.
— Beatriz agora faz parte da família — totalmente diferente dela, Héctor
não se alterou. Manteve o tom equilibrado e o olhar sereno, mesmo
confrontando-a. — E agindo dessa forma, é você quem está destruindo a família.
A tréplica não veio. A mulher somente saiu dali, furiosa, deixando um
rastro amargo para trás.
— Obrigada — foi tudo o que consegui dizer quando ele ficou ao meu
lado.
Senti sua mão em minha cintura puxar-me para próximo ao corpo grande
e quente. Encostei a cabeça o suficiente para escutar seu coração bater bem
acelerado.
— Não agradeça. Eu prometi que ia te proteger de qualquer coisa. E de
qualquer pessoa. Só estou cumprindo a minha parte desse contrato.
Capítulo 9
Héctor Mitchell

— Sua mãe me ligou ontem, tarde da noite — Amanda me informa.
Usa um vestido preto muito justo ao corpo e com pedrarias que vão do
ombro esquerdo até a cintura ao lado direito, como uma faixa. Por mais que use
óculos escuros, sei que seus olhos verdes me espionam e parecem mostrar uma
aflição que ela é incapaz de conter.
— Espero que ela não a tenha incomodado — sou econômico com as
palavras e vejo minha lista de tarefas no tablet.
Mal assumi o comando da empresa e já tenho reunião com o pessoal do
governo.
— Ela nunca incomoda... ela só está preocupada — sua mão toca em
meu braço.
Continuo a passar todas as informações que preciso no aparelho
eletrônico, e ergo a sobrancelha ao perceber que terminei de conferir como será
o meu dia e ela ainda não me soltou.
— Minha mãe sempre está preocupada. E se estamos falando de
dinheiro, digamos que ela deve estar entre a completa histeria e a síncope.
— Ela o ama, Héctor, e quer preservar a sua família.
— Eu sei.
— Se sabe, porque se casou com aquela mulher sem avisar? Sabe o
impacto que isso traz para a vida de todos os...
— Amanda — seu nome sai de minha boca e percebo que ela estremece
e me olha como um cãozinho perdido. Não faz jus ao seu estilo, Amanda gosta
de ser fatal, é extremamente segura e sexy, sempre me deixou desconcertado
com seu decote e me envolveu por um período com suas insinuações. Mas
agora... ela era apenas isso. Um erguer de sobrancelhas. — Pensei que houvesse
pedido para me encontrar por causa do Anthony.
— É por causa do Anthony! — ela ratificou.
Respirei aliviado, imaginando que não havia perdido meu tempo.
— Como assim você pretende apresenta-la ao garoto?
— Ele é meu filho.
— Héctor, é um casamento de fachada. Com duração limitada.
— O que você quer dizer?
— Anthony não precisa ser iludido agora, logo agora que tem
apresentado melhoras. Ele tem evoluído, tem estado menos depressivo, menos
dependente de remédios... ele estava reagindo bem a tudo até que descobriu, eu
não sei como, que você iria se casar novamente e...
— E? — a palavra escapou de minha boca como um sopro.
— Ele saiu fora do controle. Está muito mal. Adoeceu. E não quero ser
eu a dar a notícia de que você já se casou e está tentando substituir a mãe dele...
— Ninguém irá substituir Serena — rosnei, não contive a minha fúria. —
Ela era única — falei, mais para mim mesmo do que para ser ouvido. — Beatriz
não se casou comigo para tomar o lugar de alguém, mas para ser a minha
mulher.
Amanda era péssima em fingir. Mesmo com os óculos escuros eu
acompanhei o movimento de seus olhos indicando desprezo. Sorri por dentro,
umedeci os lábios e entreguei o tablet para Alex.
Apenas nesse instante percebi que o carro já havia parado e não era por
causa do trânsito. Já estamos na Mitchell & Smith.
— Sua mãe disse que haviam mulheres mais aptas para o papel —
Amanda não perdeu a oportunidade, disse quando eu saí do carro.
Coloquei a cabeça dentro do veículo e a fitei no fundo dos olhos.
— Eu a escolhi entre todas as que estavam aptas.
— Mas ela...
— Amanda — novamente a chamei, sem alterar o tom da voz, e a vi
estremecer. — O seu papel é preparar e cuidar do meu filho. Se não se sente
apta, está dispensada.
— Eu estou apta! — ela respondeu prontamente, mostrando-se ofendida.
Ela estava ofendida, é claro. Não por meu questionamento de sua
capacidade, é óbvio.
— Então prepare Anthony. Ele irá conhecer a Beatriz.

Beatriz Rodrigues

— O que a mulher de um bilionário faz? — Hillary coçou os lábios com
a colher com que comia sorvete.
— O que a mulher de um homem faz? — devolvi a pergunta com bom
humor.
— Ele não te deu instruções?
— É claro que ele me deu instruções — encostei o corpo na pia.
Imediatamente me lembrei de nossa conversa.
Héctor me entregou um tablet onde manteríamos contato e eu receberia
todos os comandos necessários para o dia a dia. Quando e onde iríamos almoçar,
reuniões, encontros e festas onde eu devia me fazer presente e situações em que
eu precisava comparecer à empresa para fazer sala e aparecer na frente dos
advogados para atestar de que estávamos juntos e tudo estava bem.
— E em meio a esse roteiro, quando vocês vão ter tempo só para vocês?
— ela colocou uma colherada generosa de sorvete de baunilha na boca.
— Hum... bem, não há essa informação no “roteiro”. É apenas um
contrato. Eu sou como uma atriz, uma garota de programa, que tem programas
agendados para um ano.
— Tá, e quando vocês fodem? — Hillary riu.
Eu fechei o pote de sorvete e a repreendi com o olhar.
— Quando ele quiser — tentei a resposta mais segura.
— E quando você quiser?
Um arrepio subiu pela espinha. Fiquei paralisada com aquela pergunta. E
quando eu quisesse? Eu tinha a liberdade de ir até ele? De saciar meus desejos?
— Eu... bem, eu...
— Você não pode transar com outros caras, certo? — Hillary fez uma
pausa. — Como se você transasse... — ela gargalhou.
Minha vontade foi pegar o pote de sorvete e jogar nela.
— E nem ele pode com outras mulheres. Mas o Héctor é um homem
cobiçado, com mulheres da alta classe ao redor dele feito abutres... e se
acontecer? E se ele...?
— Se ele quebrar o contrato, perde tudo — um gosto amargo veio a
minha boca.
Até mesmo pensar naquilo era ruim por diversos motivos.
Primeiro que eu sentiria que falhei em algo, mesmo que até então, em
tudo que eu havia lido com cautela, eu não tinha a obrigação do sexo. Como o
próprio Héctor disse, aquele assunto era como “ter todas as cartas nas mangas”.
Segundo que se ele perdesse tudo eu estava ferrada em uma escala
Richter difícil de se medir. Eu seria presa, deportada, ou sei lá mais o que
poderia acontecer nessa altura do campeonato.
— E me diga, por que diabos você se casou secretamente e não me
contou?
— Por que fizemos uma troca. Héctor me protegeria de tudo a partir de
agora e eu seria a mulher que ele precisava.
— E você está se sentindo protegida?
— Bom, tem quatro homens no corredor. Mais quatro lá embaixo. Sem
falar nos que eu sequer identifiquei — tive de balançar os ombros. — Você está
melhor? Também se sente segura, Hill?
— É, eu estou... — ela abriu o pote de sorvete e deu uma nova colherada.
— E, céus, como comer é bom, amiga!
Rimos juntos e continuei a preparar o meu café.
— Mas e quanto a ele... — a voz de Hillary roubou minha atenção, mas
não parei preparar meu café da manhã.
— O que tem ele?
— Você está sendo a mulher que ele precisava?

Héctor Mitchell

—... Alguns engenheiros de Xian, Pequim e Xangai virão no próximo
final de semana para mostrar os resultados de nossas pesquisas aplicadas lá na
China — Douggie, o chefe do departamento de Relações Públicas terminou de
me contar a novidade enquanto voltávamos de uma reunião com os homens do
governo. — O pré-relatório parece muito satisfatório, você deveria estar feliz —
sinto a palma da sua mão bater em minhas costas.
— Eu estou, obrigado, Douggie.
Nos despedimos antes mesmo de encontrar o elevador. Puxo o tablet que
carreguei comigo o dia inteiro só para ter notícias dela. Nenhuma notificação.
Eu deveria entrar em contato? Visitá-la? Ver se tudo está bem e em
ordem?
Sabia que ela tinha almoçado com representantes dos centros de caridade
que fazíamos doações, mas depois disso não tive nenhuma notícia de Beatriz.
Até mesmo o chefe de segurança não me atualizava. Seu último relatório
era das 17h e já eram 19h.
— Tudo certo por aqui? — perguntei para Mike, o recepcionista do meu
andar, quando passei por ele.
— Tudo certo, chefe.
— Mike, se você já terminou, pode ir para casa.
— Obrigado, senhor. Até amanhã!
Contei os passos até chegar à porta da minha sala. Aproveitei para
observar as molduras com fotos do meu pai com os presidentes anteriores dos
EUA, com outros governantes de países em que tínhamos atuação e outros
homens importantes. Em algumas havia a minha ilustre presença. Eu realmente
sentia falta de tê-lo por perto, dividir as conquistas e ter um pouco de seu amor
paterno.
Embora nos desentendêssemos quando o assunto era mulher, meu pai era
acima de tudo meu melhor amigo. E essa sensação de tê-lo e ao mesmo tempo
não tê-lo perdido era asfixiante.
Entrei na sala escura e nem fiz questão de ligar as luzes. Eu só precisava
pegar uma pasta com alguns investimentos da Mitchell & Smith para me
atualizar durante a noite e pronto.
Não precisei de muito para perceber que havia algo errado por ali.
Estalei o dedo e as luzes da sala ligaram imediatamente.
Ah, sim, faltava a minha cadeira, ela não estava atrás da mesa. Onde essa
maldita cadeira havia...
Minha cabeça girou lentamente pela sala até encontrar a poltrona
presidencial no centro da sala.
Sentada nela havia uma bela mulher de grandes olhos brilhantes, usando
um robe preto de renda com um laço frouxo em frente ao corpo.
— Boa noite, senhorita Rodrigues.
— Boa noite, senhor Mitchell — seus olhos brilhantes se abriram e um
sorriso felino se formou em seus lábios.
— Você sabe que também é a senhora Mitchell, não é? — deixei a pasta
com os documentos em cima da mesa.
— Pode apostar que sim.
— Fiquei preocupado, você se esqueceu de me atualizar do seu
paradeiro. Como foi o seu dia? — já me adiantei desabotoando a camisa social
de mangas longas em meus pulsos.
— Chato. Mas ele ainda não terminou — ela se remexeu devagar na
cadeira, esfregando aquela bunda grande em minha cadeira.
Merda. Como era linda. De látex, de couro e jeans, de renda... nua.
Ficaria ainda mais linda em mim. Pulando, chorando, implorando por um
pouco de ar.
— Senhor Mitchell? — sua voz, meu feitiço favorito, me tirou do transe.
— Hum?
— Como foi o seu dia?
Naquele instante tentei puxar da memória qualquer informação do dia,
nada veio. Foi como abrir armários pesados que no fim estavam vazios.
— Começou a ficar interessante.
Capítulo 10
Beatriz Rodrigues

O coração não veio só na boca. O senti em meus pés, pelas pernas, coxas,
no quadril, mãos, braços, seios, pescoço e acima de tudo, na boca.
No fim, meu corpo era só coração.
Héctor sequer havia me tocado, na verdade, estava se aproximando
vagarosamente como um predador encurralando a presa, e já me faltava ar.
Diferente de mim, ele não se despiu. Veio todo monumental com sua
roupa elegante e cara, foi para trás da poltrona presidencial parou ali.
Quase soltei um gritinho quando a mão forte de Héctor desceu pelo couro
da cadeira e depois senti o calor em meu ombro, meus seios, até ver seus dedos
habilidosos desfazerem o laço do robe de renda. Suspirei, perdida entre a
vontade e o completo medo que o desejo poderia me proporcionar.
— Você está impecável. Parece uma obra de arte, deve ser até pecado
tirá-la dessa posição e despí-la — sua voz veio de encontro ao meu ouvido, bem
pertinho, fazendo-me ronronar contra a poltrona.
— Não faça o bom moço. Eu sei que você não se importa com pecados
— tive de rir, mas era de nervoso.
— Você está certa — as mãos fortes de Héctor voltaram a subir pelo meu
peitoral, quando chegaram rentes ao meu pescoço pararam.
Aguardei suas palavras finais feito sentença, mas a corrente elétrica que
percorreu meu corpo não foi devido a sua voz, mas seus dedos, que
massagearam meu trapézio, ombros e pescoço.
Quase desmaiei, me senti dopada, completamente perdida com a
sensação daquela mão forte pressionando, massageando e empurrando e
puxando minha pele.
— Você é bom nisso — confessei.
— Tenho atributos melhores.
Ver a cadeira girar e parar em frente àquele homem escultural foi de tirar
o fôlego. Não soube o que fazer.
Héctor, entretanto, me ajudou.
Agarrou o robe de renda e me puxou para ficar de pé, depois me prendeu
contra a parede e avançou. Senti o corpo forte do homem me pressionar e já me
perdi nos pensamentos mais impuros que eu poderia ter.
Eu o queria. Eu tinha medo, era novo, um homem avançando todos os
passos comigo era assustador. Mas Héctor me passava segurança, eu me sentia
verdadeiramente excitada, e o clima entre nós era muito prazeroso. Eu não me
sentia boba em ser Beatriz Rodrigues e me despir. Eu me sentia forte. Era uma
face minha que eu havia guardado ou ignorado. Era bom saber que eu tinha
aquele lado.
— Se significa alguma coisa para você, eu me preparei psicologicamente
— ri feito uma boba. — E, não é a Sabrina que está diante de você, essa noite.
Apenas a Bia.
Raras vezes vi Héctor sorrir. Vê-lo sorrir com os olhos, definitivamente,
nunca vi.
Foi singelo, pude ver que ele se sentiu feliz e eu fiquei muito mais
aliviada.
Terminei de me despir por completo e tateei seu rosto.
Em resposta, quase de imediato, Héctor segurou a minha mão e a
empurrou contra a parede.
Então beijou-me com força, afogando-me em seus lábios, testando os
limites de meu coração, prestes a explodir.

Héctor Mitchell

Eu me senti a droga de um adolescente.
Que primeiro se sente constrangido, depois não pode evitar ficar
excitado, e então, cego, não racionaliza, avança, vai junto com seus instintos,
vivendo o animal que há dentro de si.
Beatriz libertou algo avassalador em mim.
Eu havia prendido a fera desde a primeira vez em que a vi e não pude tê-
la.
Deus, ofereci tanto dinheiro para o senhor Brown, mas ele disse que não
dependia dele, só dela.
Sonhei, imaginei, esmurrei paredes por não tê-la. Como uma mulher
podia ser tão difícil?
Agora ali estávamos nós. Ela entregue aos meus chupões, eu entregue ao
seu corpo.
Minhas mãos, feito mãos de adolescente, foram com fome, com
intensidade, na ânsia de senti-la, de viver aquele instante como se o mundo
pudesse acabar ali mesmo. E minha respiração, ofegante, denunciava o quanto
eu estava faminto por Beatriz.
Abracei-a pela cintura e beijei-a como se fosse perde-la naquele mesmo
instante. Foi tão verdadeiro e intenso que abri uma pequena fresta das pálpebras
para ver como ela havia reagido. E ela sorria. Tão calma, serena, quase
petrificada. Mas sorria.
O que diabos estava acontecendo comigo?
Era apenas uma mulher. Eu já não era adolescente ou virgem há muito
tempo... por que eu sentia falta de ar? Por que ela estava me deixando bobo?
Tirei o paletó, depois a levantei e a deixei com as pernas envoltas em
minha cintura. Enquanto beijava seus seios, seu baixo ventre e cintura
desabotoei a camisa social e a abandonei no chão.
Foi esse contato entre nossos troncos nus que me esquentou de vez e me
deixou louco.
Agarrei-a pela nuca, entre a vontade de massageá-la, domá-la e deixa-la
toda descabelada.
Abocanhei seus seios com vontade, olhando-a fixamente enquanto a via
se contorcer, esfregar-se contra a parede, rebolar em meu colo como se tivesse
perdido o controle do próprio corpo.
Céus, isso era muito bom.
Entre os chupões e as fricções com a língua em seus mamilos, Beatriz
desceu do meu colo, completamente sem ar, agarrada ao meu corpo, suas unhas
cravadas em minha pele e sua voz fraca chamando pelo meu nome.
Éramos, nós dois, naquele instante, dois adolescentes descobrindo algo
novo.
Aproveitei para respirar por um segundo, e nesse um segundo ela se
ajoelhou, abriu o meu zíper e colocou o meu pau para fora.
Engoli em seco, depois bati com os punhos na parede ao sentir a boca
quente e macia em meu membro. Precisei esticar o pescoço, respirar fundo e
suspirar.
Beatriz me provou, ali, que não era só minha imaginação. Ela sabia e
estava me deixando louco mesmo.
— Beatriz... — eu a chamei, não sei bem o porquê.
Em resposta, senti sua voracidade. Ela me abocanhou, me chupou com
intensidade, me obrigou a me curvar contra a parede e recuperar o fôlego.
Abaixei o rosto para conferir – se é que havia algo para conferir – e lá
estava ela, olhando para mim, uma cara de quem sabia que não era inocente e
não ia parar com aquilo tão cedo.

Beatriz Rodrigues

Eu havia feito um roteiro. Só era necessário fingir e dar-lhe prazer, sair
dali e me sentir com dever cumprido.
Simples, não?
Claro, tudo é simples quando está na cabeça.
Quando os corpos se encontram, as bocas se perdem e os corações
encontram um ritmo para baterem juntos, entretanto, a simplicidade cai por terra.
Minha tentativa desesperada de tentar fazer o meu papel tornou aquela
noite incrível.
— Você está me deixando louco — ouvi a voz de Héctor bem baixa.
Na menção que fiz de me levantar para escutá-lo melhor, ele me segurou
pela nuca e me aqueceu com seu corpo, guiou-me pela sala como se aquilo fosse
meramente uma dança.
Depois ouvi o barulho de todas as coisas na mesa caindo. E eu me sentei
naquele móvel gelado.
— Eu quero você — nunca fui tão assertiva. Para quem tinha medo,
aquilo era o atestado da completa coragem ou loucura da criatura.
— Você já me tem — senti seus dedos percorrerem meu rosto, meu
pescoço, até que seguraram com firmeza em meus seios.
No segundo seguinte, com o choque que percorreu meu corpo, me
estiquei toda. Senti a ponta da língua de Héctor me massagear em um lugar bem
sensível, na verdade, o lugar exato para me dar prazer.
Caí lentamente para trás até sentir a cabeça encontrar a mesa e o corpo se
perder nos chupões e nos avanços que a língua daquele homem era capaz de
fazer. E o que ela não era capaz de fazer, ele o fazia com os dedos.
— Meu Deus! — puxei meus próprios cabelos e fechei os olhos.
Fiquei perdida no transe, na delícia de sentir a boca dele me beijar com
tanta vontade, tanta intensidade que já era difícil sentir minhas pernas. Parecia
que da cintura para baixo eu estava anestesiada, imobilizada e principalmente:
pronta.
Tateei a mesa lisa em busca de algum apoio, no fim não encontrei. Tive
de fazê-la ranger com as unhas rasgando a madeira, tamanha a força. Primeiro
me mantive de olhos fechados, bem apertados conforme a dor lancinante me
tomava. Quando ousei abrir os olhos perdi ainda mais o ar.
Héctor devia estar acostumado a me ver nua ou toda apertada por uma
roupa de látex. Eu que não estava acostumada a ver seu corpo, sempre protegido
por aquelas vestes elegantes.
Seu peitoral era bem demarcado, musculoso, com pelos curtos e que
desciam pelo abdômen definido indicando o caminho da felicidade. E que
felicidade.
Uma torturante, lancinante e agridoce felicidade.
Mordi meu próprio lábio inferior na busca de aguentar aquela dor, quase
chorei ao perceber que conforme eu respirava parecia até piorar.
— Héctor — eu o chamei, não sei nem o porquê, mas chamei.
— Calma, bebê — ele se curvou diante de mim e o ar que restava em
meus pulmões foi embora.
Fiquei presa naquele rosto iluminado pela grande janela da cidade
tecnológica lá fora. Tateei seu rosto, o segurei pelo pescoço, em movimentos
completamente aleatórios, como se me faltasse oxigenação no cérebro para
entender aqueles comandos.
— Você precisa respirar — ouvi sua voz tão acolhedora e que me
aqueceu.
Senti uma de suas mãos em minhas costas e a outra abaixo da nuca, fui
de encontro ao seu corpo e o abracei. Não sei se era a decisão mais sábia pois
com isso senti a pressão de seu membro me rasgando ainda mais.
— Héctor — voltei a chama-lo, de um jeito mais desesperado.
— Respira — ele pediu.
Senti seu beijo em meu pescoço, lentamente seus lábios foram tocando
minha pele com mais intensidade, deixando chupões por onde quer que tocasse.
— Respire fundo, calma, confie em mim.
Eu o apertei contra mim, o desespero de não querer deixa-lo ir e ao
mesmo tempo a luta interna de querer me livrar daquela dor o mais rápido
possível.
— Tudo bem se você precisar de mais um tempo...
— Eu quero você agora — eu puxei seu rosto, em desespero, e beijei
seus lábios com ainda mais força.
O beijo foi uma boa válvula de saída para deixar a dor em segundo plano.
Um minuto depois daquela situação, em cima de seu corpo, próximo à grande
janela que mostrava a cidade lá fora, lá estava eu, rebolando em cima do homem,
deixando sua pele toda marcada com minhas unhas e completamente sedenta por
um pouco mais.
Bem, não tanto assim, mas pelo menos, um pouco mais dele.
Então fui reposta à mesa como um bom jantar e Héctor me devorou, sem
demora. Seus olhos acinzentados brilhavam com a pouca luz do ambiente e sua
mão forte contornava meu corpo sem parar, apertando-me, puxando-me para si,
fazendo-me dele.
Que sensação estranha.
Primeiro a completa dor e o desespero, depois a sensação de querer um
pouco mais e não fazê-lo parar, até me deixar anestesiada em cima da mesa
pensando o quanto seria bom repetir aquilo mais vezes.
— Agora pode ir mais forte — minhas bochechas arderam até o infinito
ao falar isso.
— Como? — Héctor retrucou.
Eu sabia que ele estava sendo gentil só para não me machucar. Mas agora
eu acho que aguentava um pouco mais...
— Você pode me dar mais, por favor?
Vi sua sobrancelha grossa se arquear. Sua mão segurou firme em minha
perna e me puxou para baixo, deixando o meu corpo ainda mais tenso ao fazer
seu pau entrar ainda mais.
— Você gosta de me surpreender — ele riu e tirou quase tudo, bem
devagar.
— Você é um cachorro — preparei as unhas contra a mesa. — Só acaba
comigo.
— Ah, repete isso — sua voz rouca pediu, a glande, inchada, esfregando
contra o meu clitóris.
— Acaba comi... — nem consegui terminar a frase.
Perdi todo o ar e só consegui gritar quando ele veio todo para cima de
mim. E quando eu digo todo, eu digo que no impulso que Héctor veio, ele
praticamente subiu na mesa e avançou contra meu corpo, devorando-o inteiro.

Héctor Mitchell

Que mulher louca.
E louco, na verdade, era eu quem estava. Não bastasse estar ali, sua voz
preenchendo meus pensamentos, sua imagem em minha cabeça, seu perfume me
envenenando... ela conseguiu ter minha completa atenção, devoção, minha
excitação real.
Beatriz mereceu cada beijo, cada gesto, cada tapa que levou naquela
bunda.
— Você vai precisar de uma nova mesa — ela avaliou, quando vestiu o
robe, arrastou-se pela sala e cobriu-se com o sobretudo preto feminino.
— Não, deixa ela aí — vi a mesa toda arranhada, parecia traquinagem de
criança. Talvez fosse. — Ela ficou mais bonita assim.
— Agora que meu dever está cumprido, vou embora — ela disse.
Eu me diverti em vê-la praticamente mancando de um lado a outro da
sala.
— Beatriz — eu a chamei. — Estive pensando... passamos pouco tempo
juntos até então... quer ir jantar comigo?
— Um jantar? — ela se assustou.
— Por que esse tom? — arqueei a sobrancelha. Terminei de vestir a
camisa branca.
— Eu não estou vestida adequadamente para um jantar! — ela protestou.
Tive que rir. Encontrei o paletó e o passei pelos braços.
— Diga-me onde quer jantar e eu ligo mandando fechar o local só para
nós dois.
Não sei porque ela fez uma cara de choque.
— Você está adequadamente vestida para mim. E é isso o que importa.
Capítulo 11
Beatriz Rodrigues

Em um grã-fino restaurante em West Village chamado Magnum
Imperium, Héctor e eu passamos por um salão completamente vazio de clientes e
funcionários enfileirados, olhando-nos como se fossemos os donos do mundo.
Bom, Héctor era, eu acho.
O maître nos levou até a mesa, numa varanda que dava vista para os
prédios cheios de cores da região, e assim ficamos, ele e eu, em um cúmplice
silêncio enquanto os cardápios eram apresentados e os garçons ficavam ao nosso
redor.
— O seu melhor champanhe, para começar, e traga algo afrodisíaco —
Héctor fechou o cardápio e entregou para um dos garçons.
Só assim tivemos um pouco de privacidade, respirei aliviada.
— Esse é o momento oportuno para nos conhecermos um pouco mais.
Deus, como aquele homem podia ser tão bonito? Nem parecia que estava
em cima de mim, todo suado, as veias sobressaltadas, o braço forte agarrando a
minha...
— Bia? — sua voz grossa me arrepiou.
— Sim — respondi prontamente.
Embora estivesse um pouco frio, abri o sobretudo e deixei parte do robe
de renda só para provoca-lo.
Devo admitir, era divertido ver seus olhos cintilando feito joias,
conferindo meus seios, depois subindo para meus olhos e fazendo o mesmo
movimento sem parar.
— O que os seus hábeis detetives não descobriram sobre mim que o
senhor precisa saber, senhor Mitchell? — atirei, me sentindo a última flor do
jardim.
— Os seus medos, sonhos, suas perspectivas de vida... por que a américa,
por que Nova York, por que o La Chica... são muitas perguntas... senhora
Mitchell.
Xeque-mate.
Ser chamada de “senhora Mitchell” me trouxe uma nova sensação nunca
antes experimentada.
Eu era uma mulher casada. Com um bilionário.
Um gostosão bilionário que havia me deixado praticamente anestesiada
e... bom, melhor parar por aqui.
— Não é uma história emocionante — eu o alertei.
— Ainda assim me fará enxergar uma nova faceta sua. E é tudo o que
quero.
Quando menos percebi descobri que estava sorrindo. Fechei o rosto e
olhei ao redor.
Esperei que a champanhe e taças fossem postas na mesa e a sopa ou
caldo de frutos do mar fossem colocados diante de nós.
Héctor rapidamente dispensou os garçons e voltou sua completa atenção
para mim enquanto me servia o champanhe.
— Eu nasci em uma cidade no interior do Brasil, uma família grande,
conservadora, mente fechada...
— E quis o destino que se tornasse stripper — ele me entregou a taça.
— Quis a ocasião e o medo de ser deportada que eu me tornasse stripper
— o retifiquei prontamente.
Ele anuiu e mostrou que queria ouvir mais.
— Eu me preparei para entrar em psicologia na USP, pelo menos, foi a
versão que dei para os meus pais. Sabe o que é a USP, certo?
— Sei — o senhor Mitchell sorveu o líquido bem devagar sem tirar o
olhos de mim.
— Mas eu preferi vir para cá, tentar a vida, buscar algo grande... fugir do
meu passado.
— Fugir? — ele disse a palavra com lentidão.
— Por que você não me conta algo inusitado sobre você agora? —
comecei a mexer em meu cabelo.
— Fui capitão do time de...
— É claro que você foi — murmurei.
— Desculpe-me? — Héctor arqueou a sobrancelha.
— Não, não, eu não estou duvidando de você, em hipótese alguma! Meu
tom foi mais no sentido: é claro que você foi capitão do time da faculdade, chefe
dos escoteiros, o primeiro aluno da classe, o garanhão da universidade, tipo
isso...
— É, pior que fui tudo isso mesmo — seus lábios formaram um fino
sorriso e ele terminou de beber o espumante. — Eu tive um filho.
Aquele assunto pairava no ar há alguns dias. Eu já ouvido a menção da
informação, mas aquilo nunca foi dito por ele.
E eu precisava deixar claro de imediato que o contrato dizia que eu tinha
de ser esposa, não mãe. Deus, eu não estava preparada para ser mãe!
— Com o amor da sua vida, aposto — chutei.
— Na verdade, não. Talvez — ele balançou os ombros. — Ela era a
minha melhor amiga. Ela queria ter um filho, escolheu o cara errado, um babaca
que a decepcionou, então me prontifiquei... eu também queria um filho.
— Nossa — não escondi a surpresa.
Eu já havia criado uma novela mexicana em minha cabeça e era isso?!
— Eventualmente nos apaixonamos, é claro — ele voltou a balançar os
ombros. — Mas eu continuava a sair com outras garotas e ela com outros caras...
— Que modernos...
— Ela morreu no parto — o tom daquilo foi amargo. Héctor me olhou
com seriedade. — Naquela noite o meu pai precisou da minha ajuda e eu fui
imediatamente ajudá-lo. Serena se machucou, ninguém nunca soube explicar
como, os médicos dizem que ela caiu. Mas ela conseguiu chegar ao hospital,
mesmo desacordada e teve o Anthony.
— Como ela conseguiu...?
— Amanda. Uma amiga dela.
— Huuuum — prolonguei a vogal enquanto balançava o espumante na
taça. — E Serena não conseguiu dizer o que houve? Mas o bebê...?
— Anthony nasceu prematuro, embora seja um campeão, sempre foi
muito frágil. E isso me machucou porque ele era meu filho e eu não estive lá
para ajuda-lo quando foi preciso...
Abri bem os olhos. Fora o estereótipo do homão que eu havia construído
em minha mente, parecia que havia um coração ali dentro.
— Eu me culpei e me culpo todos esses anos... eu poderia ter feito mais
por ele...
Se Héctor começou a me ganhar em nosso envolvimento anterior, agora
ele abocanhou um novo pedaço de mim. Eu realmente não imaginava que havia
um ser humano tão genuíno por detrás daquele rosto fechado, aqueles músculos,
aquela mão que enforca a gente e...
— Como ele está? — perguntei.
— Doente, como sempre — sua voz saiu meio embargada. — Anda
muito pouco, fala pouco, Anthony é extremamente antissocial, fechado em seu
próprio mundo...
— Autista? — cocei meu queixo.
— Não... só... depressivo e frágil...
Estendi minha mão e segurei no dorso da dele, tentei abrir o meu melhor
sorriso, não sabia se era o suficiente.

Héctor Mitchell

Eu nunca me abri a respeito de minhas fraquezas.
Dizer tudo aquilo deixou a minha garganta pesada, não era o clima que
eu queria criar. Mas isso era permitir que ela entrasse em minha intimidade e
enxergasse aquilo que eu não permitia a qualquer outra pessoa enxergar.
— Então é por isso que você tem esse ar superprotetor — ela analisou.
— Deve ser por isso — respirei fundo e comecei a tomar o caldo de
mexilhão e camarão. — Do que você estava fugindo? — voltei à questão não
respondida por ela.
Bia ergueu as sobrancelhas, completamente surpresa. Mexeu no caldo
várias vezes e olhou ao redor. Quando estava prestes a falar eu a interrompi:
— Não precisa, se não quiser.
Parece que tirei cem quilos de suas costas ao dizer isso.
— Espero que vir para a América tenha te colocado um passo mais
próximo de seu sonho.
— Eu acho que já realizei muitos sonhos — ela riu. — Meus e de outras
pessoas...
— Certamente realizou — limpei meus lábios com o guardanapo e rimos
juntos.
Bia até cuspiu o caldo de tanto que começou a rir e aquilo me contagiou.
Quando menos percebi estávamos rindo, feito dois idiotas, rindo de não
sei o quê. E ainda assim ela permaneceu com a mão em cima da minha.
— Preciso aproveitar a ocasião para entregar-lhe isso — com a mão livre
peguei uma caixinha dentro do bolso e coloquei em cima da mesa.
Abri a caixinha e mostrei as duas alianças de diamante.
Beatriz ficou paralisada, completamente sem reação, olhando do anel
para mim sem parar.
— Eu preferi que nosso casamento não fosse exposto antes para que
tivéssemos alguns dias de paz de tudo... imprensa, família, empresa, advogados,
Geoffrey... espero que esses dias a tenham ajudado a colocar a vida no lugar...
— Ajudou — sua voz saiu fraca. — Héctor... isso é... isso... não sei se
posso aceitar...
— Aceite — segurei em seu pulso com a mão esquerda e coloquei o anel
de casamento com a mão direita. — Foi feito para você. É único.
— Obrigada...
— Assim como você é única.

Beatriz Rodrigues

Meus lábios tremeram.
Eu não tive o casamento dos sonhos, regado a mil fotografias e
convidados chiques, um bolo gigantesco e todas as honrarias que a tradição
pede...
Apenas assinei documentos e pronto.
Receber o anel foi uma surpresa inesperada. Ainda mais aquele anel.
E ouvir aquelas palavras...
— Você é inconsequente — o encarei no fundo dos olhos. — Como você
é capaz de se casar logo comigo, Héctor? — pousei o queixo na mão que estava
escorada na mesa.
Ele riu tão gostosamente que foi contagiante. Abri o sorriso sem
perceber, novamente.
— Eu conheço todas as moças de bom partido de NY e de outros estados
também — ele disse, não como alguém que se orgulhava disso. — Herdeiras de
bilionários, CEO’s, políticos, burocratas, os donos do país...
— Aí você foi a um clube de strip tease e decidiu me escolher — eu ri.
— Mesmo que eu não pudesse ver seu rosto, eu sempre pude ver seus
olhos — ele disse e já fiquei com falta de ar aí. — Olhos de quem trabalhou
duro, precisou se esforçar bastante e sofreu para chegar aqui.
— Bem eu, mesmo.
— É, eu também — ele tornou a encher sua própria taça. — Por isso
você era a escolha perfeita.
— E você viu isso apenas vendo meus olhos? — coloquei a mão na
cintura.
— A bunda e seios marcados pelo látex ajudaram — ele engoliu a bebida
de vez.
Capítulo 12
Beatriz Rodrigues

Um mês e meio se passaram desde o meu casamento com Héctor, então a
bomba explodiu: nossa situação veio a público.
Fiquei feliz por termos esse curto tempo de sigilo para nos conhecermos
melhor, curtirmos um ao outro e viver sem a pressão do público e os olhares de
desconhecidos.
E como tudo que é bom dura pouco, numa bela manhã de quarta-feira eu
acordei e o prédio em que eu morava com Hillary estava cercado de paparazzi e
curiosos.
Os jornais anunciavam que o cobiçado bilionário, CEO da maior empresa
de energia do país, a Mitchell & Smith, havia se casado secretamente com uma
bela e misteriosa brasileira.
Ui, que gentis eles foram no epíteto.
Hillary, graças aos céus, estava melhor. O choque passou, o medo deu
lugar a segurança, devido aos oito homens fortes que ficavam dia e noite nos
resguardando e ela engordou uns quilinhos de tanto comer sorvete de baunilha.
— E se eles nos encontrarem?! — Hillary gritou pela casa após tirar a
cabeça de fora da janela.
Ih, despirou novamente...
— Bia, e se... e se...? — ela já começou a se descabelar.
Dei um tapa bem novela mexicana na cara dela para fazê-la voltar para o
presente.
— Amiga, respira. Sua maluca, não entra em pânico novamente! —
quase puxei meus cabelos.
— Agora entendi porque ele havia mantido o início desse casamento em
sigilo... ele queria te proteger não dos paparazzi... mas de ser encontrada por
aqueles bandidos...
E ela se julgava inteligente, coitada...
— Amiga, relaxa...
— Vamos dar o fora. Diga a ele que vamos viajar, vamos torrar todo esse
dinheiro indo de cidade em cidade por todos os Estados Unidos até o fim do seu
casamento!
Segurei nos ombros de Hillary e a chacoalhei. Jogar água gelada ou dar
um novo tapa poderia ser agressivo demais.
— Você não pode perder o controle novamente, calma! Você acha que
eles vão se meter com a gente sabendo de quem eu sou mulher?
Hillary não se sentiu satisfeita com a resposta. Começou a andar
desesperadamente em círculos.
Ela havia melhorado, paguei um bom psiquiatra para que ela fizesse
quatro sessões. Não sei o que o Dr. Blake fez com ela, mas nas últimas semanas
essa mulher estava nova em folha, parece que haviam apertado o botão
“reiniciar” da máquina.
Agora, com meu rosto na televisão, mais de cem câmeras apontadas para
a janela do meu apartamento e meu nome sendo veiculado aos quatro cantos do
mundo como a esposa de um magnata, Hillary voltava aos seus tempos
sombrios.
— O que você acha de irmos para o Hamptons?
— Quê? — ela me encarou, assustada. Acho que sequer me ouviu.
— Héctor tem uma mansão por lá, o local é bem grande, pelo que ele me
disse... é longe de tudo, a área é toda envolta em natureza, muitos seguranças,
afinal de contas, é lá onde o filho dele mora... você não se sentiria segura longe
disso tudo?
— É... sim, pode ser... — ela concordou.
— Tudo vai ficar bem, amiga. Vou ligar para o Héctor.

Héctor Mitchell

Dei tudo de mim para que aquela informação atrasasse para o público o
quanto fosse possível.
Mantive a rotina, não dei abertura para conversas que envolvessem o
meu estado civil, mas foi impossível impedir que a informação vazasse.
Todo o círculo interno e alto escalão da Mitchell & Smith sabia que eu
estava casado há quase dois meses. E era apenas a ele e aos advogados que
interessava meu estado civil.
Não sei como descobriram, mas a minha vida virou um inferno na quarta.
Eu mal conseguia dar cinco passos sem ser bombardeado com perguntas, com
flashs e o frenesi da notícia quentinha saindo do forno, e é claro, todos a queriam
em primeira mão.
Na noite da quarta Bia e eu conversamos, e eu concordei que seria bom
ela passar um tempo na mansão em Hamptons.
Não escondi que me sentia desconfortável com Hillary por lá, afinal de
contas, ela não era a pessoa mais equilibrada do mundo, até onde eu sabia. E o
meu filho vivia lá, eu não podia colocá-lo em perigo.
Na sexta fui com elas para a mansão.
Ela ficava bem afastada de tudo, sua extensão era admirável, um bosque,
um lago e um antigo jardim que não via flores há mais de dez anos ficavam em
volta da construção.
Hillary pareceu recuperar o juízo quando respirou o ar puro. Tirou os
sapatos, correu pelo gramado e foi de encontro ao portal de entrada onde uma
dezena de funcionários nos aguardava.
Bia e eu descemos do carro também, bem antes de chegar na mansão e
fomos caminhando. Cada momento que eu tinha com ela era incrível.
— Como está se sentindo?
— Estou bem. Ela que perdeu a cabeça — Bia riu, os dois braços
envolvidos no meu. — Confio em sua proteção.
Apertei seu queixo e beijei sua testa. Ela era uma boa menina.
— Faça com que ela se comporte. Aqui não é lugar para os surtos dela —
fui severo.
— Você tem a minha palavra. Se eu não conseguir controlá-la, prometo
que vamos embora.
— Você não precisa ir — rosnei.
— Ela é minha amiga... e ficou traumatizada... preciso cuidar dela.
— Entendo.
— Héctor — ela me chamou. Só de ouvir meu nome sair daquela boca
uma sensação estranha tomava conta do meu corpo. Sem perceber a trouxe para
mais perto do meu corpo. — Com meu nome sendo veiculado por todo canto,
não há nenhum perigo? Eu morava ilegalmente aqui até alguns meses...
— Eu já ajeitei tudo isso, calma — passei meus dedos pelos seus fios de
cabelo na nuca, acariciei seu pescoço devagar e a vi toda manhosa me abraçar.
O mundo parou naquele instante.
Ficamos presos naquele abraço ignorando o tempo, deixando-o escorrer
suas areias infinitas, sem nos incomodar com a espera que criamos.
Bia aproximou seus lábios do meu pescoço e eu inclinei a cabeça, bem
devagar para encontrá-la.
Se antes a sensação veio como um choque, agora foi como uma
punhalada. Meu sangue ferveu, me senti sufocado dentro do terno, precisei
conter minhas mãos porque estávamos à vista de uma dezena de empregados
curiosos na porta de entrada, e mais uma dezena de curiosos dentro da mansão,
olhando-nos pela janela.
— Obrigada — ela murmurou contra meus lábios. — Prometo que não
ofereceremos perigo nenhum para o seu filho.
— Seja bem vinda à casa, bebê — a apertei contra o meu corpo e depois
fiz algo difícil, algo que eu nunca imaginaria que doeria tanto.
Soltei-a do aperto e a vi ir na frente.
O coração apertou, a respiração embargou e meus dedos suaram frio.
Guardei-os nos bolsos da calça e segui para a construção.

Beatriz Rodrigues

Quando alguém te fala que tem uma “mansão” você imagina uma casa
bem grande. Mas nada, absolutamente nada havia me dado a verdadeira
dimensão daquela propriedade; era enorme.
A construção tinha dois andares, colunas brancas diante de si, janelas
gigantescas protegidas por cortinas de cor vinho. Os demais detalhes ficaram em
segundo plano, pois conforme me aproximei, me espantei com a postura das dez
pessoas que nos aguardavam.
Todos altivos e sérios, bem vestidos com um uniforme preto e luvas
brancas protegendo as mãos. Uma mulher com seus cinquenta anos de idade
com um coque bem firme estava à frente deles, ao seu lado, uma mulher alta,
loira, com um vestido preto que emoldurava suas curvas muito chamativas.
Aquela devia ser Amanda.
— Seja bem-vinda à mansão, senhora Mitchell — a mulher mais velha
veio em minha direção e me cumprimentou. — Eu sou Yone, a governanta da
casa, tudo fica aos meus cuidados. Espero que tenha feito uma boa viagem.
— Eu sou Beatriz — estendi a mão e apertei a dela. — Estava ansiosa
para conhecer o lugar!
— E nós para conhece-la — ela abriu um sorriso econômico,
praticamente inglês, que rapidamente se desfez. — Estes são o corpo de
funcionamento da mansão — ela apontou para as pessoas atrás de si. — A
cozinha, a limpeza, a segurança, as camareiras e os cuidados do senhor Anthony,
todos ao seu dispor.
— Muito obrigada, Yone. Espero não incomodá-los.
— Estamos aqui para servi-la, senhora Mitchell.
Embora econômica com o sorriso e muito centrada, Yone me pareceu
uma boa pessoa. Era uma mulher de cabelos pretos bem curtos, ondulados, não
aparentava cansaço, e tinha uma forma muito firme de me encarar.
— Senhor Mitchell — ela sorriu novamente ao cumprimenta-la, menos
econômica, ainda assim, o sorriso desapareceu bem rápido.
— Yone, cada vez que retorno você está mais jovem! Descobriu a fonte
da juventude? — Héctor se aproximou e a cumprimentou.
— É ótimo vê-lo também — ela olhou para Hillary com certo
desconforto.
— Essa é a minha amiga... ela ficará conosco enquanto eu estiver aqui.
Yone anuiu cuidadosamente, não sem olhar dos pés descalços da ex-
stripper até seus cabelos que sopravam junto com o vento. Piscou, virou o rosto e
encarou dois rapazes um tanto magricelas dentro do uniforme.
Eles rapidamente correram para o carro que havia parado a bons metros
de distância, pelo visto foram buscar a bagagem.
— Deseja conhecer a mansão, senhora Mitchell? — Yone me encarou.
— Seria um prazer — a acompanhei.
Subimos as escadas para chegar até a porta, e quando paramos diante
dela, vi a loira rebolar até Héctor.
Tocou-o no braço de um jeito bastante íntimo e demorou-se no beijo que
deu em seu rosto, quase escorregou em direção a sua boca.
Nesse momento foi instintivo. Dei um passo à frente, pronta para ir até
eles.
Meu sangue ferveu. Borbulhou. Eu senti que ia explodir.
Eu podia sentir isso? Não nos amávamos, não estávamos apaixonados,
pelo menos eu não sabia disso... mas tínhamos um contrato. Ele era meu, eu era
dele e não podíamos ser de mais ninguém!
— Onde está Anthony? — ouvi a voz séria de Héctor, fiquei feliz ao
perceber que ele não deu intimidade para aquela mulher, mas também não se
afastou dela.
Estavam tão próximos que... sei lá, podiam sentir a respiração um do
outro, imagino.
— Acordou indisposto. Dormiu pouco à noite, você sabe, Anthony não
gosta de mudanças... e trazer essa mulher para cá é o que eu chamo de grande
mudança, se me permite — ela jogou o cabelo e lançou-me um sorriso falso.
Cobra.
Vontade de pisar na cabeça dela.
— Ela é a minha mulher — Héctor a encarou por um segundo e depois
seguiu o caminho, vindo em minha direção. — A mansão também é dela agora.
Um alívio temporário veio até mim.
Que não durou muito.
Eu e a cobra traiçoeira trocamos um olhar singelo.
Que para quem nunca assistiu MMA na televisão, já advirto que termina
com muito sangue, pancadaria... e pelo menos um olho roxo.
Capítulo 13
Héctor Mitchell

Anthony dormia, então não me demorei no quarto. Conferi se tudo estava
em ordem, sorri bobamente ao notar que ele dormia tão serenamente que seria
pecado acordá-lo e segui para a biblioteca.
Abri a porta e pigarreei para indicar minha presença. Andei calmamente
pelo tapete vermelho, vistoriando as grandes estantes de madeira envernizada
que guardavam tomos, enciclopédias, livros antigos e modernos sobre todo tipo
de assunto, e encontrei um homem sentado em um dos sofás pretos.
— Peço perdão pela mudança de planos. Sei que você é um homem
ocupado, muito obrigado por vir.
— Não se desculpe, estou acostumado com mudança de planos — um
fino sorriso surgiu no rosto do homem.
Ethan Evans era o tipo de homem que eu não queria ter como inimigo.
Por debaixo daquele chapéu fedora preto e óculos escuros, estava o homem
responsável pela segurança, sigilo e armazenamento de dados e arquivos no
mundo online. Ele trabalhava protegendo os grandes bancos, o próprio governo e
empresas como a Mitchell & Smith.
Também era, por esse motivo, um bom hacker. Conseguia invadir
qualquer fortaleza, desvendar qualquer código, espionar qualquer mortal.
E tudo isso sendo cego.
— Como está Valentina?
— Está bem, obrigado por perguntar. E a sua Bia? — ele retrucou.
Minha Bia...
Como era estranho, novo e me dava um frio na barriga pensar assim...
— Espero que ela se sinta segura aqui — sentei-me diante dele em uma
poltrona. — Aliás, é para isso que estamos aqui. Para falar de segurança.
Ethan recostou-se no sofá e abriu um sorriso que beirava ao deboche.
— A mansão é impenetrável. Os meus homens garantiram que todo o
perímetro é seguro e sugeri para que seu chefe de segurança dobrasse o pessoal,
principalmente no turno noturno. Espero que não se importe.
— Uma decisão sua é como uma decisão minha — assenti. — Mas não é
sobre isso, não essa segurança — fiz uma pausa enquanto olhava ao redor,
aquele lugar me trazia boas lembranças. — Conseguiu descobrir o que aconteceu
naquela noite? A garota foi morta pelo tráfico mesmo?
Ethan respirou fundo.
— Héctor, é difícil assegurar isso. É de seu conhecimento que a minha
área não é mapeamento e construção de arquétipos para entender as práticas
criminosas de pequenos traficantes, mas eu diria que a coisa não era sobre
drogas.
— Era sobre o quê? — fiquei interessado.
— Eu não sei — ele disse aquilo com uma satisfação e paz de espírito
que me abalaram. Ainda bem que ele não podia ver minha expressão. —
Entretanto, isso pode nos colocar em novas pistas. Quem sabia sobre os termos
do testamento? Você já tinha em mente que queria casar com Beatriz naquela
época?
Não precisei pensar muito.
— Acho que... foi exatamente no dia em que eu propus o contrato a Bia...
— fechei o cenho. — Você não acha que...?!
— Quem sabia sobre os termos do testamento? — ele repetiu a pergunta.
— E quem sabia que você ia procurar a garota?
— Poucas pessoas. Terei de fazer uma lista. O que você suspeita?
Ethan puxou o próprio celular, colocou a digital e deu um comando para
que o aparelho abrisse um arquivo.
— Nada no FBI. Não foram os caras do governo, não foi queima de
arquivo.
— E sobre a Bia? — perguntei, preocupado e ansioso.
— Nada no FBI, também não havia nada no departamento de imigração,
mesmo antes de você me pedir para dar um jeito na situação dela.
Anuí calmamente.
— Não é coisa do governo — respirei aliviado.
— O tráfico tem um método para agir, Héctor. E a polícia, quando quer
incriminar os homens do tráfico, também tem um método para agir. Nem um,
nem outro.
— O que então?
— Héctor, acho que estamos lidando com assassinos de aluguel.
Só uma pessoa como Ethan podia pensar isso! Era loucura! Era absurdo!
Era surreal!
E extremamente possível.
— Então você precisa dos nomes de quem sabia do meu possível acordo
com a Bia?
— Vou atrás de todos eles. Hackeá-los. Pegar todas as mensagens,
ligações, conversas, e-mails, entrar em suas pastas pornográficas, vasculhar
absolutamente tudo. Voltamos à estaca zero. Mas os meus instintos dizem que
isso foi planejado. E que eles não queriam matar a tal stripper, a Clair. Eles
foram para matar a sua mulher, Héctor.
Arregalei os olhos e me levantei da poltrona.
Só a mínima ideia de perdê-la me subiu um horror que eu sequer me
lembrava a última vez de ter experimentado.
Na verdade eu até me lembrava.
— Confio em você. Faça o que for preciso.
Ethan se levantou e apertamos as mãos. O guiei até a porta da biblioteca.
— E, Héctor — ele me chamou. — Fiquei sabendo que uns
pesquisadores da China virão para entregar os resultados de algumas aplicações
que fizeram...
— Sim.
— Tem um espião entre eles. Problema nacional. Não vá ao encontro
deles, mas não desmarque. Deixe que tudo flua, mas falte a reunião. Os homens
do governo estarão lá para pegá-los.
— Certo — concordei e antes que ele fosse, segurei firme em seu braço.
— E o meu filho? — murmurei.
Ethan sorriu.
— Seu filho gosta de jogos de tiro, e tem pesquisado bastante nas últimas
semanas sobre como é ter uma madrasta — ele bateu a mão em cima da minha
de um jeito cordial. — Tem assistido muitas séries sobre famílias...
— Você acha que ele...
— Não acredito que seu filho seja um sociopata ou um desses garotos
que pega uma arma e mata todo mundo — sua expressão ficou séria. — Só acho
que Anthony precisa de uma mãe.
— Uma mãe?
— É. Mas os meus instintos dizem que ele ainda não descobriu isso.
Ethan bateu com a mão direita em meu ombro e foi embora.

Beatriz Rodrigues

— E esse é o seu quarto — Yone abriu a porta dupla e me apresentou um
quarto digno de um hotel cinco estrelas.
Meus olhos brilharam ao ver aquela cama gigantesca, o guarda-roupa
embutido na parede, a penteadeira, Deus, agora eu tinha uma penteadeira! O
quarto tinha vasos em cima de colunas, flores de todas as cores estavam dentro
dele.
Uma grande janela, com cortina cor de vinho aberta, mostrava um
chafariz aos fundos e uma estrada de tijolos que levava para um lugar atrás de
muros enfeitados com algum tipo de planta que os cobria, eu não sabia se era
uma trepadeira ou algo do tipo.
Caminhei pelo cômodo e me sentei na cama macia, joguei-me de costas e
já imaginei as deliciosas noites que eu dormiria ali feito um bebê...
Quando me recordei que Yone estava ali me sentei prontamente.
Vi então um quadro grande com uma pintura bem realista. Uma mulher
de cabelos negros e olhos fatais, grandes, esverdeados, lábios finos e bem
rosados. Na pintura ela estava nua e só aparecia sua cabeça, pescoço e seios.
Fixei meus olhos na pintura e Yone veio em minha direção.
— Meu Deus! Me desculpe, senhora Mitchell, eu havia pedido que
retirassem isso... — ela se apressou.
— Yone, espera — eu pedi. — Quem era ela?
Yone pareceu humilhada. Insistiu para retirar a pintura, mas eu impedi.
— Serena era pintora. Esse é um de seus autorretratos... — suas
bochechas coraram e ela continuou com aquele semblante de que iria ser
despedida a qualquer momento.
— Ela era linda.
Quando falei isso a mulher me encarou de um jeito diferente.
O sorriso não foi econômico como da primeira vez e seus olhos
brilharam.
— Ela era sim. Uma boa mulher. Esteve pouco tempo conosco, mas
iluminou essa mansão...
— E muito talentosa! — sorri para o retrato como se a própria Serena
pudesse ouvir meu elogio. — Onde estão as outras pinturas dela? — olhei ao
redor.
— Essa e outras três estão nesse quarto. As demais sumiram... ninguém
nunca descobriu o paradeiro...
Concordei.
— Você está me olhando de um jeito diferente agora, Yone... — nossos
olhos se encontraram e ela rapidamente desviou.
— Não, me desculpe, eu não deveria...
— Não, não se desculpe — falei com firmeza. — É que... você pareceu
levemente incomodada com a minha chegada...
— Senhora, eu...
— Yone, me escute, por favor — pedi. — Você é a governanta dessa
casa. Você estipula as regras, diz como as coisas funcionam e mantém tudo em
perfeita harmonia. Eu sei que sou a intrusa. Sei que estou invadindo o mundo de
vocês e...
— Senhora, me desculpe...
— Não, me escute — pedi de um jeito mais insistente. — Imagino que à
primeira vista você deva confabular que tipo de pessoa eu sou...
Ela respirou fundo, mostrando-se tensa.
— Eu sou uma moça do interior. Nasci numa roça, muita família ao
redor, acho que aprendi a tirar leite de vaca antes de escrever.
Yone riu e eu também.
— Sei cozinhar. Sei lavar roupas. Sei arrumar a casa também. Se precisar
de ajuda, por favor, me dê tarefas, eu quero me sentir útil aqui.
— Senhora Mitchell, essas tarefas não podem ser feitas por pessoas da
sua envergadura. Temos gente aqui para servi-la — Yone voltou àquela postura
de governanta.
— Eu sei e vocês estão de parabéns pelo trabalho — sorri com gentileza.
— Ainda assim preciso que saiba que estou às suas ordens. Não vim aqui para
fazer Serena ser esquecida ou reivindicar qualquer coisa... eu sou alguém como
você, alguém que está lutando para sobreviver e acha que está fazendo a coisa
certa...
Yone semicerrou os olhos. Percebi que ela ficou confusa e eu não a
culparia.
— Não sei o que falaram de mim ou o que vocês pensaram de mim... mas
estou aqui para acrescentar, não para subtrair. E por favor, Yone, por favor,
qualquer desentendimento, qualquer conversinha, qualquer diferença que
tivermos, eu imploro, resolva comigo.
— É claro, senhora — ela ainda usou um tom formal que me incomodou.
Mas eu não podia culpa-la. Era nítido que aquela era a verdadeira Yone, é
claro, com um ar de defesa.
Continuei a olhar distraidamente pelo lugar.
— Ouvimos falar que a senhora era stripper.
Quando nossos olhos se encontraram ela se esticou, ficou toda engessada,
evitou até me olhar.
— Eu era assim — tive de rir. — Meu trabalho era conquistar os
homens...
— E pelo visto conquistou um bem importante — ela retrucou.
— Héctor é mais do que um homem importante, sabe, Yone? Ele é um
homem excepcional.
Rimos juntas.
— Eu o vi nascer, crescer, ir para faculdade e se tornar esse homem
excepcional, sabia? — ela me olhou de uma forma mais meiga. — Vim trabalhar
aqui quando tinha apenas dezoito. Eu cuido dessa mansão há tanto tempo que
parece que ela faz parte de mim...
Não teve como não me emocionar, essa era eu, uma manteiguinha
derretida quando o negócio era o passado.
— Eu vi pessoas virem... irem embora... guardo tantos segredos, tantas
lembranças, vi gente nascer... e morrer...
Aquilo me arrepiou, confesso.
— E agora acha que viu uma usurpadora entrar pela porta da frente? —
eu a confrontei, mas de um jeito meigo. O sorriso permaneceu grafado nos
lábios.
— Sim, senhora eu tive essa impressão quando a vi pela primeira vez —
ela confessou.
— Espero poder provar no dia a dia que não sou essa mulher.
— A senhora não precisa provar nada — Yone veio e segurou em minhas
mãos. — Assim, olhando de perto, a gente que já viveu, percebe que a senhora
está longe disso.
— Me chame de Bia, por favor. Senhora é bem estranho.
— Bia — ela me chamou.
Não sei de onde ela tirou a coragem para dizer isso, mas eu fiquei toda
arrepiada e emocionada. Yone segurou com força em minhas mãos e não fez
questão de larga-las. Seus olhos marejaram em lágrimas e ela disse, quando num
sussurro e numa súplica:
— Cuide bem do senhor Mitchell e do garotinho dele.
Capítulo 14
Héctor Mitchell

Eu não podia ficar mais tempo na mansão, infelizmente. Embora fosse
final de semana, havia muito a ser feito na Mitchell & Smith e eu precisava
voltar.
Voltei para o quarto de Anthony e o encontrei dormindo, mais uma vez.
Sentei na cama por alguns minutos e consertei seu cobertor.
Até dormindo parecia comigo: dormia de lado, agarrado firmemente ao
travesseiro, o rosto praticamente escondido.
Deitei-me, por um minuto e olhei para o teto. Depois o abracei de lado e
encostei meu rosto em suas costas.
— Filho — murmurei, não sabia se ele me escutaria nos sonhos. — Papai
está muito feliz — tive de rir de mim mesmo, em que mundo eu diria aquilo em
voz alta? — Dê uma chance para Bia, sim? — beijei sua cabeça. — Espero que
ela mude os seus dias, como mudou os meus — orei.
Não quis abraça-lo com força para não acordá-lo, mas me demorei no
último beijo em sua cabeça e me levantei.
O fitei uma última vez antes de sair do quarto. Anthony continuava
dormindo feito um anjo. Não parecia o pré-adolescente que já dava um trabalho
danado.
Ao sair do quarto dei de cara com Amanda.
Na verdade, nos esbarramos.
Ela caiu em cima de mim e eu a segurei com firmeza.
— Desculpa, eu vim conferir se ele estava bem — ela prontamente se
explicou.
— Ele está sim. Ainda dorme — falei e já ia seguindo meu caminho.
— Você já vai? Quando volta?
— Na quinta ou sexta, aviso Yone e ela te repassará.
— Héctor — Amanda me chamou e segurou em meu braço. — Você tem
meu número, me ligue se precisar — e deu uma piscadela.
— Obrigado, Amanda. Ligarei sim, se for preciso — sorri.
Amanda avançou contra o meu corpo, aquela ação não me era
desconhecida, eu sabia bem o que ela queria.
Estava em seus olhos, em suas mãos que me seguravam tão sedentas, em
seus lábios que guardavam muitas palavras, mas que ela não tinha coragem de
dizer.
Eu lhe neguei aquele beijo.
Fui bastante racional naquele ponto.
— Eu não posso.
— Não pode ou não quer? — ela riu para amenizar o tom da pergunta.
— Eu não posso — ratifiquei. — E não quero — concluí.
— O que houve, Héctor?
Amanda e eu fomos amantes intermitentes por muitos anos.
Preenchíamos as necessidades um do outro quando era necessário e nada
mais.
Ela não era mais necessária, não isso.
Só não a mandava embora porque ela cuidava de Anthony como se fosse
sua própria mãe.
— Tudo bem — suas mãos foram para meu peitoral em cima do terno. —
Eu te espero. Eu sempre te espero.
Fiz menção de me aproximar e beijar a sua testa. Mas não senti que era
correto. Não comigo, não com ela, muito menos com Bia.
Anuí e dei-lhe as costas, segui meu caminho.
Bati três vezes na porta do quarto de Beatriz e ela não abriu. Girei o
trinco, a porta estava destrancada e enfiei a cabeça no cômodo.
Todo mundo naquela casa havia decidido dormir?
Entrei sem fazer barulho e prossegui no mesmo ritual do quarto de
Anthony.
Sentei-me na cama, a assisti dormir por alguns segundos, fitei o antigo
quarto de Serena e vi sua pintura.
Beatriz virou rapidamente e segurou com firmeza em meu braço.
— Que susto! — ela quase gritou.
— Eu não quis assustá-la — a olhei, preocupado.
— Tudo bem — ela disse ofegante. Sentou-se na cama e ficou encarando
o vazio.
— Teve um pesadelo? — tirei uma mecha de cabelo do lindo rosto e me
aproximei vagarosamente.
— Não... não exatamente... — sua voz sumiu quando recebeu o meu
beijo.
Puxei-a para cima de mim e rapidamente senti seus dedos curiosos e
traquinos entrarem em meu terno, beliscarem meus mamilos por cima da camisa
e ainda apertar o meu volume.
— E você é a garota tímida? — eu ri.
— Posso comprar um pole dance e colocar em seu quarto? — ela me
encarou com aqueles olhos pidões. Como eu negaria o mundo para essa
mulher?
— Ah... hum... é claro.
— Você vai ter uma surpresinha quando voltar — senti sua mão apertar a
minha coxa, então foi a minha vez de apertá-la, trazê-la para mim como se
nossos corpos pudessem se fundir naquele aperto.
— Para lembrar os velhos tempos, imagino.
Bia me deu um tapa no ombro.
— Velhos tempos? Não fazem dois meses! — ela gargalhou. — E eu
gosto de dançar! Me tira o estresse. E é uma boa atividade física.
— Compre o que precisar — pisquei o olho esquerdo. — Agora preciso
ir.
— Já? — ela fez um bico.
Senti minhas bochechas queimarem. Não contive o sorriso.
— Já — me esforcei para dizer, mal conseguia sentir as maçãs do rosto.
— Não faça essa cara, bebê. Logo estarei de volta.
Bia saiu do meu colo e me assistiu me recompor, levantar e me despedir.
— Você pode me visitar quando quiser, senhora Mitchell.
— Oh, ainda bem que você permite — ela foi toda irônica.
— Eu a aconselharia a ficar mais uns dias aqui, até os paparazzi darem
um tempo para sua imagem.
— Eles não vão dar. Acredite, no Brasil quando uma fofoca dessas
estoura... — ela revirou os olhos.
— Então só nos vemos daqui uma semana.
Bia voltou a fazer aquele bico. Dava vontade de pegá-la no colo.
— Sinta saudades.
— Eu já estou — ela cruzou os braços.
— E sobreviva — brinquei.
— Ah, eu já passei por coisas ruins, isso aqui vai ser moleza.

Beatriz Rodrigues

Após Héctor voltar para a parte movimentada da cidade, eu terminei de
conhecer a casa. Depois fui ver Yone e perguntar se ela precisava que eu fizesse
algo.
— De jeito nenhum, senhora! Tudo está em ordem!
— Ótimo. Então, em que posso ajudar? — insisti.
— Mas senhora, nós...
— Por favor, Yone, eu quero ajudar. Essa é uma oportunidade para que
eu possa conhecê-los.
— Eu não sei bem o que a senhora poderia fazer...
— Bia, lembra? Meu nome é Bia.
— Sim, senhora Bia... bom... eu...
— Yone, enquanto você pensa em algo, me diga uma coisa. Eu não vi o
filho do Héctor no almoço e ele ainda não saiu do quarto. Quando o verei? —
sentei-me diante dela.
— Bem, senhora, o garoto Mitchell não sai do quarto. Ele tem suas
refeições lá dentro.
— Sério? — não escondi minha surpresa. — E vocês não acham
estranho?
— Bom... tem sido assim por muito tempo. Então nenhum de nós
estranha.
— Hum... e o que ele gosta de comer? Eu poderia preparar algo especial
para o jantar dele, o que você acha?
Yone abriu um longo sorriso. Acho que ao perceber minha vontade com
Anthony ela ficou mais segura e feliz em me ter por perto ajudando e era só isso
que eu precisava.
Eu queria me sentir parte, me fazer presente, ajudar no que fosse
possível.
Então fomos para a cozinha e eu preparei uma lasanha à bolonhesa bem
suculenta. Como me senti enferrujada, pedi ajuda à minha mãe que prontamente
foi me guiando numa vídeo chamada.
Ela ficou completamente horrorizada ao perceber que a cozinha da
mansão era maior do que nossa casa no interior de Minas.
O lugar era realmente enorme.
Com forno a lenha, vários fogões, geladeiras, freezers e toda sorte de
aparato que uma cozinha precisa, parecia que estava equipada para uma festa de
gala com duzentos convidados.
E assim seguimos, minha mãe chocada, eu me sujando toda e trocando
figurinhas com Yone, Hillary sumida, provavelmente no quarto, e todos os
outros funcionários um tanto intimidados pela minha presença no início. Mas eu
os conquistei antes da lasanha sair do forno e é isso o que importa.
No jantar eu me sentei à mesa junto com Hillary e Yone que negou um
milhão de vezes e só se sentou porque eu não parei de insistir. Nenhum sinal de
Anthony.
— Ele não vem — Amanda se sentou à mesa junto com a notícia.
Deus me perdoe, por favor, mas eu não conseguia ir com a cara dessa
mulher.
— Tudo bem, eu levo para ele — me prontifiquei.
— Ele não quer — ela disse num tom completamente áspero e eu até
diria que deselegante. — Ele não quer vê-la e mandou dizer que “não quer
nenhuma merda vinda de você”.
Yone ficou boquiaberta.
— Ele é pré-adolescente, está com os hormônios à flor da pele, vamos
dar um desconto para o garoto — Amanda riu como se aquilo fosse uma
brincadeira de garoto e provou minha lasanha. — Urgh, ainda bem que ele não
quis isso mesmo, quem fez essa porcaria? — ela se levantou, jogou garfo, lenço
e tudo em cima do prato. — Preciso lavar a boca, licença.
Me encolhi na cadeira, completamente surpresa com a reação.
Havia ficado tão ruim assim?
Hillary não foi corajosa o suficiente para provar, então Yone foi a vítima.
Comeu com medo, mastigou devagar e quando engoliu deixou a palidez de lado
e abriu um sorriso gigantesco.
— Está maravilhoso, senhora... Bia.
— Será que a parte dela não ficou boa? — foi minha vez de provar.
Olha, não foi porque eu cozinhei, devo ressaltar que tive ajuda de mamãe
e a supervisão de Yone. A lasanha estava uma delícia!
— O pessoal não vem jantar? — perguntei à governanta.
— Oh, não, senhora... Bia — ela sempre enganchada na minha forma de
tratamento. — Os empregados não podem se sentar à mesa...
— Que horror. Quem disse isso? — perguntei-lhe.
Nos encaramos com demora. Pelo visto ela não sabia a resposta.
— Bom... tem sido assim desde... a idade média? — ela riu. — Desde a
época do Egito? — então rimos juntas. — Eu sinceramente não sei. Não é a casa
deles, é a casa dos Mitchell — ela justificou.
— A casa dos Mitchell que vocês passam mais tempo que eles? Ficam
aqui o dia todo e não podem se sentar nessa mesa gigantesca para jantar? Ora,
Yone, dê um desconto, não tem ninguém aqui, chame o pessoal para comer.
— A senhora está aqui. A senhora é a dona da casa — ela novamente
justificou.
— Então, como dona da casa, peço que eles venham comer, por favor.
— Senhora, tem certeza?
— Bia, só Bia — eu insisti. — Chame todos, por favor.
— Sim senhora.
— E, Yone, guarde um pedaço da lasanha que eu fiz, sim? Guarde para o
Anthony, caso ele mude de ideia...
Ela sorriu de um jeito meigo.
— É claro, senhora.
E assim, jantamos.
A mesa ficou cheia, todos provaram da própria comida que fizeram e nos
divertimos dividindo histórias do passado.
Contei que uma vez caí do cavalo, Yone lembrou o quanto gostava de
Serena e o quanto ela era gentil, não parou de me elogiar, dizendo que eu
conseguia ser mais gentil que ela. Achei meio forçado, mas ainda assim
agradeci.
No fim ajudei a arrumar a mesa e voltei à Hillary que estava no saguão
de entrada olhando por uma das grandes janelas.
— O que foi isso agora? — ela resmungou.
— O quê? — olhei pela janela.
— Não, não lá fora — seu tom ainda era resmungão. — Você.
Convidando essa gentinha pra comer na mesa com a gente, bancando a
empregadinha e cozinhando a comida preferida do moleque...
Mordisquei o lábio inferior. O que eu tinha feito de errado?
— Você é a mulher dele, porra. Não a empregada. Ele tem umas 7
cozinheiras, 10 pessoas para limpar a casa, 5 homens para carregar as coisas,
uns 30 seguranças... e você querendo se misturar?
— Não vejo o que há de errado — parei para pensar um pouco. — Eu
gosto de me sentir útil.
— Você está se diminuindo! Acorda, amiga, você é o topo da cadeia
alimentar aqui! Sequer deveria ter de encará-los. Eles são... empregados —
Hillary fez uma cara azeda.
Será que ela tinha esquecido que éramos strippers? Que era exatamente
assim que as outras pessoas nos enxergavam, ou até pior?
Me despedi de Hillary para não esquentar a cabeça e subi para o meu
quarto.
Troquei algumas mensagens com Héctor para garantir que ele estava bem
e contei a aventura do meu primeiro dia como senhora Mitchell naquela casa.
Ele só riu e disse que eu era uma gracinha e insistiu que eu não precisava
fazer aquilo.
Eu expliquei os meus motivos e ele concordou, mas pediu que eu
deixasse as pessoas trabalharem e fizesse pouco, muito pouco, quase nada.
E foi assim, após um dia exaustivo e de bom trabalho, aliás eu estava tão
feliz em fazer alguma coisa, que dormi.
Ou melhor, tentei dormir.
Acordei algumas horas depois com um barulho meio macabro.
Era uma espécie de lamento, vento, algo barulhento e ao mesmo tempo
atemorizante. Foi uma sensação horrível.
Escondi-me debaixo do edredom e quando o barulho cessou, corri para
ascender a luz.
Aí o barulho voltou e eu saí correndo para debaixo do edredom mais uma
vez.
Que diabos era aquilo?
Conferi no celular que era meia noite e meia. Que macabro. Que sinistro.
Que ódio! Não podia ter sido às nove, após o jantar? Que raiva!
Saí do quarto para ir até Hillary ver se ela também tinha escutado aquilo,
mas no meio do caminho quase morri do coração com o barulho.
Grudei as costas na parede e orei para Deus, pedindo que se fosse a hora,
que fosse rápido e sem muita dor.
Nada aconteceu.
— O que é isso? — murmurei.
Andei pela mansão escura, as poucas luzes que haviam eram as naturais e
vindas lá de fora que escapavam de pequenas frestas nas cortinas e iluminavam
alguns corredores.
Em algum momento, não sei quando, decidi seguir o barulho.
Foi loucura? Foi um momento de completa insanidade?
Eu não sei, só sei que fui.
E conforme eu me aproximava, a coisa ia se tornando menos vento e
lamento e algo mais compreensível
Daí eu quase morri do coração mesmo.
Vi uma janela entreaberta e o vento contra ela, o barulho do choque do
vento, a janela e o descanso da janela foi arrepiante. Pelo menos estava
explicado ali um dos motivos daquele furdunço todo.
Fechei a janela de forma apropriada e segui meu caminho de volta ao
quarto.
Agora era mais nítido, ouvi um choro.
Dei meia volta, ainda preocupada com minha própria sanidade, e segui o
som. Por que diabos eu precisava ir? Por que eu não voltava para o quarto,
colocava uma música para relaxar e dormia? Era mais forte que eu.
Segui por cinco longos corredores e só parei de andar quando escutei
com nitidez:
— Não me desobedeça! — a voz era feminina e muito firme.
— Não! — ouvi uma voz mais infantil.
— Não ouse agir contra mim, mocinho! Você entende as consequências!
Então a voz de choro retornou.
Não era choro de birra ou para chamar atenção. Era um choro de
desespero. Eu sabia muito bem como diferenciar aquilo.
— Quando eu voltar pela manhã espero ver esse prato vazio! — ela
ralhou.
Depois escutei uns estalos e o choro se intensificou.
O garoto fez um escândalo, gritou de dor.
Pensei, logicamente, que ele iria chamar pelo pai. Há algo mais comum
que isso? Mas ele não chamou. Só chorou.
Ao perceber que Amanda estava saindo do quarto, me escondi dentro de
uma das cortinas e rezei para que a aquela cobra não me visse.
E não viu.
Marchou, com seus tec tec de salto alto para longe dali, e me deu um
pouco de paz.
Bom, não tanta paz assim, afinal de contas, havia uma lamúria de partir o
coração no quarto.
E aí, o que fazer?
Ir embora, dormir e fingir que nada aconteceu? Entrar, ver se conseguia
entender a situação e conhecer Anthony?
E a pergunta que não quer calar: se eu era a “dona da casa” por que era
eu quem estava escondida atrás da cortina?
Que loucura.
Na dúvida, entrei no quarto.
Não fui educada, desculpe mãe, não bati na porta.
Girei a maçaneta e espiei pelo pequeno espaço que a porta me permitiu.
Vi duas luminárias lava, uma a cada lado da cama, que reproduziam uma
luz avermelhada no quarto que devo admitir, aquilo era sinistro.
Uma parte de mim pediu para fechar a porta do inferno e ir embora. A
outra parte me fez esticar o pé, entrar e fechar a porta.
O menino se escondeu debaixo do edredom.
Começou a chorar baixinho e conforme eu me aproximava, era nítido que
tremia.
Será que ele achava que eu era a Amanda?
— Oi — falei baixinho no tom mais reconfortante que pude, ainda abri a
mão como se estivesse dando “olá”. — Eu não sou a Amanda...
Isso fez o garoto parar de tremer, não de chorar.
— Vai embora!
Fiquei parada no mesmo lugar. Eu devia ir mesmo, estava invadindo a
privacidade dele. Mas era mais forte que eu!
— Tudo bem... eu só queria dizer oi...
— Já disse. Vá embora! — ele insistiu.
A rejeição. É claro que eu não esperava um abraço, um beijo de boas-
vindas e pulinhos de alegria. Também não esperava, é claro, o tom de desprezo
daquele menino.
— Eu já disse para ir embora! — ele tirou a cabeça debaixo do edredom
e me encarou, com fúria.
Respirava ofegante, os ombros subiam e desciam, as lágrimas escorreram
pelo seu rosto.
Preferi não imaginar como Anthony para me surpreender quando o visse.
E ele era a cara do pai e ainda assim me surpreendi.
Tinha a pele bem clara, os olhos acinzentados do pai, só que grandes,
bem mais inocentes, e é claro, úmidos. Era um tanto mais franzino do que eu
poderia imaginar de um filho de Héctor. Seu cabelo
Seu rosto estava vermelho, e dava para ver de onde eu estava que o
ombro estava demarcado, como se ele tivesse apanhado de cinto nas costas.
— Vá embora! — ele ordenou mais uma vez.
Anthony tinha que me perdoar, mas eu era a adulta. E não iria embora.
Não sem respostas.
— Eu me chamo Beatriz. Acho que você...
— Eu sei quem você é! — ele disse completamente nervoso. — Você
roubou o meu pai de mim!
Dei até um passo para trás. O quê? Eu o quê?
— Ele não me ama mais por sua culpa! — ele me condenou.
O garoto nem me aguardou falar.
— Ant... — tentei.
— Você é a mulher má que veio destruir tudo! — ele cuspiu.
Pegou o notebook que estava em cima da cama e jogou com toda a força
que pode contra mim.
Infelizmente, ou felizmente, o eletrônico caiu no meio do caminho.
Então Anthony e eu nos encaramos como dois pistoleiros do velho oeste
se encaram antes da partida para ver quem atira primeiro e acerta o outro.
— Se eu sou a mulher má, o que a mulher que fez isso com você é? —
perguntei-lhe.
Desarmado. Bang bang.
Anthony ficou completamente sem graça. Olhou para mim, abaixou os
olhos, depois olhou para o notebook caído.
Por um instante parece que sua fúria diminuiu.
Então foi a minha vez.
Eu dei um passo à frente.
— Não! — ele rangeu os dentes.
Nos encaramos. Como dois inimigos declarados da oitava série se
encaram no refeitório quando percebem que não importa o quanto se achem um
superior ao outro, ainda estudam, comem, usam o banheiro do mesmo lugar.
Dei mais um passo à frente.
— Eu a proíbo! — ele disse num tom bem autoritário.
Lembrava bem o pai.
— Você não vai me machucar! Não vai me machucar! Eu não permito!
Ele repetiu aquilo mais para si mesmo do que para mim. E enquanto isso
eu peguei o notebook do chão, coloquei na cama e me sentei ao lado dele.
Anthony e seus olhos gigantescos, só perdiam para os meus que eram
mais expressivos, me encarou como se eu fosse seu pior pesadelo. A pior mulher
do mundo. Como se quisesse ver o diabo com a camisa da seleção Alemã com 7
x 1 bordado atrás e não eu.
— Vai embora! — dessa vez ele não gritou, ele pediu. Como um pedido
de piedade.
Nossos corpos estavam afastados poucos centímetros. E, Deus, o garoto
tremia mesmo.
— Eu não vou embora, Anthony — tive de decepcioná-lo naquele
instante. — Eu não posso. Eu não quero. Eu não vim aqui tirar o seu pai de você.
Eu não vim aqui para destruir tudo. Eu não cheguei aqui, Anthony, para lhe
machucar — expliquei calmamente contendo as minhas emoções e o meu medo.
Ele continuou a tremer e me olhar.
Depois avançou contra mim.
Tudo o que fiz foi fechar bem os olhos e esperar a dor surgir de algum
lugar.
A dor surgiu.
Eram suas pequenas unhas cravadas em meus braços.
Anthony me agarrou de um jeito inexplicável. Me segurou como se eu
fosse o único apoio de sobrevivência em meio à tragédia do titanic e as águas
gélidas. Seu corpo veio para o meu colo em desespero, como se pedisse
absolutamente tudo, e eu me senti insegura, perguntando-me se eu podia dar o
que ele queria... ou precisava.
Ele chorou.
Era um choro que pedia socorro. Era desesperado.
Mas ele estava em meus braços, agarrado a mim, a cabeça escondida em
meu colo, o corpo tremendo.
— Me ajuda — ele implorou entre os soluços.
— Eu estou aqui — afaguei seus cabelos com ternura.
— Eu estou com fome — ele tremia.
Capítulo 15
Beatriz Rodrigues

Gostaria, de coração, dizer que Anthony parou de chorar e tudo ficou
bem.
O garoto não parou. Chorou, chorou, chorou tanto que eu fiquei sem
reação.
Por um tempo eu chorei junto a ele, fui levada pelo momento e as
lágrimas escorreram. Depois tentei me recompor, mas ele não se recompôs. Tudo
bem, ele precisava de tempo. Ficou agarrado a mim, na mesma posição e chorou
tudo o que tinha para chorar.
Aquilo levou muito tempo.
— Você precisa tomar água — olhei ao redor e vi uma jarra em cima de
uma mesa.
— Não — ele pediu e me impediu de levantar.
E voltamos à estaca zero, ficamos ali, em completo silêncio,
acompanhados esporadicamente de soluços, uma barriga roncando e a respiração
descompassada do menino.
— Eu fiz o seu prato favorito hoje e me disseram que você não queria
comer — falei no tom mais gentil que encontrei, por que se eu fosse repetir as
palavras que ouvi... — O que você jantou?
— Eu não jantei.
— E porque não jantou?
Anthony não me respondeu.
Deitou-se, de barriga para cima e fitou o teto.
Ele era orgulhoso demais, como o pai. Não daria o braço a torcer. Jamais
me pediria comida.
— Quer que eu traga a lasanha para você? — perguntei, um sorriso meio
bobo escapou, era bonitinho vê-lo segurando minha mão.
Ele fez que sim.
Quando fui me levantar ele me segurou, ficou dividido entre minha
presença e a fome.
— É rapidinho. Vou e volto num pulo, tá?
Ele demorou para decidir aquilo, mas me deixou ir.
Fiz o mínimo de barulho possível, só o maldito micro-ondas que fez
aquele apito chato quando esquentei a lasanha. Coloquei uma fatia generosa no
prato, enchi o maior copo que eu pude ver de suco e levei para o quarto do
menino.
Comer não é bem a palavra. Anthony devorou, pareceu que não via
comida há dias.
Comeu tanto que chegou ficar zonzo e deitou, meio estabanado e ficou
de olhos semicerrados.
— Você está cansado, não é? — perguntei.
— Uhum...
— O que você fez o dia todo?
— Dormi.
Que garoto esquisito, eu hein.
Agora era minha barriga que estava roncando e não tinha sobrado
lasanha por ali. Olhei ao redor e vi o prato com sopa que pelo visto ele havia se
negado a comer. Não era lá a comida aparentemente mais bonita que eu já tinha
visto na vida, ou a pior, mas podia competir pau a pau com a pior sim.
— Dorme, tá bem?
— Tá.
O menino tinha comido tanto que ficou num estado de hibernação.
— Se você quiser, amanhã eu volto, em um horário que ninguém nos
encontre, ok?
Ele fez que sim e dormiu segurando a minha mão.
Assim que o sono ficou mais pesado eu peguei aquele prato de sopa e
devorei igualmente porque estava com fome. E era fome mesmo, por que para
comer aquele negócio horrível eu realmente precisava estar faminta.
Deixei o prato de sopa vazio em cima da mesa e peguei o prato que era
uma vez uma lasanha e o corpo de suco e fui para o quarto, nem tive forças de ir
para a cozinha.
E aí sim eu dormi.

Héctor Mitchell

Beatriz não me respondeu.
Liguei dez vezes no sábado entre manhã, tarde e noite e nada.
Infelizmente eu tinha tantos compromissos que não podia voltar para a
mansão. Yone me tranquilizou, dizendo que ela tinha se esforçado bastante no
dia anterior e que tinha tirado o dia para descansar.
Mas então por que ela não me atendeu no domingo inteiro?
— Anda, Bia, me atende — bati o pé com firmeza no chão.
Nada. Absolutamente nada.
Anthony estava bem, a tal Hillary também, e ela dormia feito a bela
adormecida.
Que diabos?!
Na segunda eu estava pronto para ir à mansão averiguar o que tinha
acontecido.
Aí Beatriz me atendeu.
Yone a havia levado ao hospital, ela estava desidratada, muito mal,
tomando soro, não conseguia beber ou comer nada, parecia que sua garganta
estava fechada.
Fui às pressas ao hospital.
Ignorei os compromissos, deixei Alex e o vice-presidente da Mitchell &
Smith resolverem os problemas e fui ao seu encontro.
Beatriz estava pálida, parecia que tinha perdido uns cinco quilos, sua
expressão não era a das melhores.
— Posso ficar a sós com ela? — pedi e o médico respeito, tirou Yone e
Hillary da sala. — Você está bem? — segurei em sua mão.
Ela fez que sim.
Fui falar algo, meu lábio tremeu.
Eu não podia perde-la. Que merda. Logo agora que...
Logo agora que eu havia aberto um pedaço da minha vida, algo que
nunca confiei a ninguém desde Serena, ela tinha que me dar um susto desses?
— O que aconteceu?
— Eu não sei — ela falava com dificuldade.
E eu não iria força-la, de jeito nenhum.
— Bia, você não pode se esforçar. Eu já te falei, eu tenho muitos
empregados por esse motivo, são eles que fazem todo o trabalho. Não precisa...
Ela me interrompeu.
— Eu quis fazer algo especial para o Anthony.
Fiquei sem palavras.
Logo eu que tinha sido preparado para ter todas elas na boca.
— Fiz lasanha à bolonhesa — falei.
A emoção veio, não sei de onde, mas veio.
Eu era quem fazia lasanha à bolonhesa para ele, mas aquilo era há tanto
tempo, há dois anos, eu acho, foi a última vez que fiz...
Era o prato que a mãe dele gostava e vivia comendo durante a gravidez.
— E o que ele achou? — perguntei.
— Ele adorou — ela riu. — Comeu tudo.
Bia fechou os olhos. Era nítido que estava cansada.
Ao menos seus batimentos cardíacos mantinham uma certa frequência,
por isso não me preocupei.
— Vou deixá-la descansar — beijei o dorso de sua mão. Depois sua testa.
— Por favor, não seja cabeça dura, me obedeça. Não se esforce, ok? Você foi
para um lugar onde o vento é mais frio à noite, se esforçou muito, descanse e
tudo ficará bem.
— Obrigada, amor — ela disse e voltou a fechar os olhos.
Amor.
Ser chamado de amor.
A primeira vez depois de muitos anos.
De uma forma genuína, altruísta e inesperada.
Aquilo mexeu comigo muito mais do que ouvir meu nome sair da boca
dele, ter o prazer de vê-la e sentí-la gemer e se entregar a mim...
Foi único.
Fiquei ali mais uma hora, foi o máximo que eu pude, até que Alex me
ligou, desesperado, implorando para que eu fosse consertar algumas merdas.
Ossos do ofício.
Era difícil deixa-la na cama do hospital, mas eu sabia que ela estava em
mãos confiáveis. O Dr. Pietro foi meu colega na faculdade, pegamos uma
disciplina juntos, eu sabia que podia confiar naquele homem. Seu caráter sempre
foi muito íntegro e responsável, mesmo na fase mais louca da vida de um
universitário americano.
— Me avise qualquer coisa — eu encarei o homem de jaleco, os cabelos
loiros lambidos para trás. — Qualquer informação que fique entre mim, Bia e
Yone, ok?
— Certo.
Segurei no braço de Pietro.
— Ela está grávida? — arqueei a sobrancelha.
— Não, isso não. Mas ainda estamos testando o sangue para algumas
análises — ele disse da forma mais profissional possível.
— Certo. Me mantenha informado.

Beatriz Rodrigues

Onde eu estou?
Tem um homem vestido de branco aqui.
Ouço sua voz de um jeito embaçado, é confuso e esquisito.
O homem abre minha pupila e me irrita quando me força a encarar uma
luz bem forte. Faz isso com o outro olho.
Ainda assim me mantenho desacordada. Ou não, né, minha cabeça
parece funcionar, de alguma forma.
— Curioso — ele diz para o enfermeiro ao seu lado que toma nota de
tudo.
— O que é curioso, senhor?
— Ela foi envenenada — ele dá o diagnóstico. — Mas se todos comeram
da mesma comida aquela noite, o que causou isso?
— Não foi injetável? — o enfermeiro se aproxima, o médico o impede.
— Não há marcas no corpo.
O enfermeiro anota na prancheta.
— Mas quem fez isso realmente queria derrubar a senhora Mitchell.
Hein?! Me derrubar? Quem é que quer me derrubar?
Ah sim, só a minha sogra, a filha dela e mais uma porção de moças da
alta sociedade que eu destruí o futuro delas com o bilionário da área de energia.
Pouca gente para me preocupar.
— E o que é curioso? — o enfermeiro insiste.
— Como quer que essa mulher tenha sido envenenada, a dose seria capaz
de matar uma criança — ele diz.
Eu tô desacordada, mas tô toda arrepiada.
— Entendo — o enfermeiro anota na prancha.
— A senhora Mitchell é uma mulher muito forte e saudável, graças a
Deus. Aguentou o baque.
— Diremos alguma coisa a ela? — o enfermeiro questiona.
— Apenas ao senhor Mitchell — ele informa. — Um caso assim é grave
e ele precisa ficar a par. Providencie que a senhora Mitchell consuma muitas
vitaminas, vamos focar em vê-la reidratada.
— Certo.
— E — ele faz uma pausa dramática. — Vamos redobrar o cuidado com
qualquer alimento ou líquido que a senhora Mitchell venha a consumir aqui —
seu tom com o assistente é bem severo. — Se necessário, que alguém prove a
comida antes dela.
— Sim senhor — o enfermeiro se mostra espantado, mas termina de
preencher todas as informações.
No minuto seguinte o médico sai do quarto e eu volto a dormir
profundamente um tempo depois.
Só consigo me perguntar se Anthony está bem.
Capítulo 16
Beatriz Rodrigues

A minha recuperação demorou mais do que eu queria.
Ainda fiquei no hospital dez dias. E quando voltei para a mansão de
Héctor nos Hamptons, tive meio que uma recaída. Não sei se foi o clima, um
pouco do trauma ou sei lá o que me fizeram ficar de cama o dia inteiro.
E Héctor ficou comigo o dia inteiro, sentado ao lado da cama, me
observando, como se fosse meu próprio médico.
Ele garantiu que eu comesse, bebesse e me ajudou a ir ao banheiro.
Foi bem humilhante. Me senti bem envergonhada, devo admitir.
— Não foi para isso que você se casou comigo, não é? — tentei mascarar
a dor com uma pitada de humor.
— Do que você está falando? — ele retorquiu daquele jeito todo sério e
carinhoso.
— Não para cuidar de uma mulher doente — ri da minha própria
desgraça. — Você precisava de...
— Não seja boba — Héctor beliscou minha mão. — Você tem certeza
que não quer voltar para o hospital?
— Tenho.
— Eles te trataram bem lá, certo?
— Sim.
Héctor anuiu com cuidado, era visível que estava me analisando.
— Eu me casei com você porque vi algo especial. Uma incrível
desconhecida que poderia ser minha amiga e dividir coisas comigo.
Aquilo foi muito gentil da parte dele.
— E dividir significa abrir-se e contar segredos.
Concordei.
— Agora que estamos aqui, eu gostaria de te perguntar algo. Não me leve
a mal.
Arqueei a sobrancelha.
— Você usa drogas, Bia?
— Quê?
— Calma, não estou te acusando de nada.
— Não, é óbvio que não, minha colega de quarto morreu. Você não se
lembra?
— É, eu sei. E partindo desse pressuposto, antidepressivos. Você os usa?
— Não, não uso. Deveria?
Eu não conseguia ficar irritada ou tensa com ele. E também, o tom de
Héctor era menos inquisidor e mais preocupado. Ainda assim, lá no fundo,
ficava um sentimento amargo de estar sendo julgada por algo que eu não me
lembrava de ter feito.
— O médico acha que você teve uma overdose de antidepressivos ou foi
envenenada.
— Huuum...
— Você consegue se lembrar daquele dia? — ele questionou e eu fiz que
não. — Tem certeza, Bia?
— Só que eu levei lasanha para o Anthony e depois vim dormir...
Héctor concordou.
— Descanse.
— Eu não tentei me matar, Héctor — eu precisava dizer aquilo. Sei lá,
não sei se foi ele que deixou aquilo a entender ou se eu estava louca. — Eu não
tomei um monte de antidepressivos, não tenho nem receita para comprar esses
medicamentos...
Héctor segurou em minha mão com ternura e seu rosto veio em minha
direção.
— Eu confio em você.
— Obrigada.
— Não esqueça do que combinamos.
— Nada de me esforçar, pegar pego e ficar perambulando por aí a noite,
eu sei — fiz um bico.
— Boa menina. Você precisa se cuidar.
— Eu quero melhorar. Talvez assim você volte a me destruir igual aquela
vez — escapou e eu fiquei toda vermelha.
Héctor riu e começou a me fazer cócegas.
— Você sabe... eu não fiz mais, desde então... e estou com vontade —
segurei em seu braço.
— É. Eu também estou nessa abstinência.
Fiquei chocada quando ele revelou aquilo e acho que ficou bem nítido
em minha expressão.
— Acho que você sabe os termos do testamento do meu pai. Eu não
posso fazer sexo com outras mulheres.
— Estou chocada que você não deu um jeito de dar umas escapadas! —
ri, mas por dentro não estava rindo não.
— Eu perderia tudo se desse uma escorregada dessas — ele beijou minha
testa, aquilo me fazia sentir especial.
Então Héctor se levantou, eu sabia que ele precisava ir resolver coisas na
Mitchell & Smith.
— Imagino. Seu pai foi meio maluco, né? Um deslize e você perde toda a
fortuna e o cargo na empresa... — falei.
— Você faz parte do tudo também, Bia. Não se esqueça disso.
Ele me deu tchau e saiu pela porta.

Jantei na cama mesmo, li um livro pelo kindle, presente do Héctor, e fui
pega pelo sono aos poucos.
Héctor praticamente me isolou, só Yone e ele podiam me ver por
enquanto, nem mesmo Hillary eu encontrei após retornar para casa.
Então, sozinha no quarto, sem ter com quem conversar, afinal de contas,
a pobre Yone precisava ter seu devido descanso, dormi.
Em algum momento da noite acordei assustada, num sobressalto me
sentei na cama.
Meus cabelos e os pelos que eu nem tinha se arrepiaram ao ver um vulto
na escuridão.
Então Anthony a lanterna do celular contra o rosto e foi aí que eu quase
morri.
— Você quer me matar de susto? — ralhei, mas num tom até carinhoso.
— Isso é horas de sair da cama?!
— Você disse que voltava “amanhã” e nunca mais voltou — ele disse.
Prendi a respiração e fiquei paralisada, a boca entreaberta, o semblante
completamente surpreso enquanto o fitava em seu pijama azul marinho com
naves espaciais e estrelas cadentes. Era uma noite bem fria aquela, as bochechas
do menino estavam bem rosadas, parecia cena de filme ou livro americano.
Se bem, que, estávamos na América.
— Eu tive uns contratempos...
— Eu sei.
Ficamos em silêncio nos encarando. Sem saber muito bem o que dizer
um ao outro.
— Quer que eu vá embora? — ele perguntou.
— Não, é claro que não. Vem cá.
— Eu não iria mesmo — Anthony deu de ombros. — Se você não
respeita a minha privacidade, eu não respeito a sua. Aqui é a América — ele
disse com o nariz empinado e subiu na cama.
Deitou e me abraçou, ficou grudado em mim.
E eu, feito uma tábua, fiquei parada, sem saber bem como reagir.
— Você precisa acordar que horas amanhã para ir à escola?
— Eu não vou à escola — ele explicou. — Meus tutores que vem até
mim.
Até parece que esse futuro CEOzinho vai para a escola junto com os
mortais, não é? Que burra que sou.
— Hum... E como foi esses dias por aqui? Comeu direitinho?
— Não.
— Não?
— Quando eu como, principalmente pela manhã, eu fico com muito
sono. Aí eu só acordo à noite, quando não tem mais ninguém acordado — ele
explicou.
Que curioso isso.
— Eu estou acordada à noite.
— Sim — ele me abraçou com muita força.
— E o que você tem feito então?
— Desde aquele dia eu fiz igual você. Eu roubo comida de noite, bem
escondidinho, para ninguém perceber — ele explicou. — E vou comendo
durante o dia. Jogo a comida que me dão no vaso. E finjo que durmo o dia
inteiro.
Gente, que menino inteligente! Fiquei chocada.
— Não é roubo se você é o dono da casa, não é?
— Você é a dona da casa — ele retorquiu, não pareceu muito confortável,
mas também mostrou que não era a pior opção.
— Então eu prometo que não vão te prender por roubar a comida da casa,
tá?
— Obrigado.
Abracei Anthony com força.
Eu nunca tive jeito com crianças, eu não sabia nem onde era o botão de
desligar quando era necessário. Mas era impossível não se compadecer um
pouquinho daquele menino.
— Aquela é minha mãe — ele apontou para o quadro.
Concordei imediatamente.
— Ela era muito bonita.
— Sim.
— Anthony, o que acha de irmos roubar comida lá embaixo agora?
— Eu já roubei a minha, mas eu vou para te ajudar, tá bom?
— Tá bom.
E ele me abraçou com muita força.
— Você gosta de abraços, né? — fiz um cafuné bem lento em sua cabeça.
— Antes de você eu não tinha ninguém para abraçar.

“Dois criminosos, um garotinho de dez ou onze anos e uma mulher em
fase adulta, desceram as escadas sorrateiramente. Olharam de um canto para
outro para ter certeza de que não seriam vistos e na ponta dos pés foram para a
cozinha.
Abriram uma das geladeiras e conferiram o que era apetitoso para
roubar aquela noite.
Até que a luz se acendeu”.
— Yone — suspirei aliviada, a mão no peito, ainda paralisada, estava até
me divertindo com a brincadeirinha com Anthony.
— Beatriz — ela abriu um sorriso de tranquilidade. — Escutei um
barulho e vim ver o que era...
— Ah, sim.
— Na verdade, acho que Yone também veio roubar comida — Anthony
avaliou.

E assim, três pessoas completamente diferentes se sentaram em
banquinhos na cozinha para comer; uma mulher com mais de cinquenta, eu com
vinte e dois, e Anthony com seus onze.
Yone preparou um chá e comeu cookies, eu me contentei com água e
uma das comidas em marmita que fora preparada especialmente para mim e
Anthony tomou um pouco de achocolatado quente e pegou no sono.
Era bom que ele dormisse mesmo, assim talvez conseguisse regular seu
horário.
— Sabe há quanto tempo ele não saía do quarto? — Yone me perguntou.
Eu não fazia a mínima ideia.
— Mais de seis meses.
Como aquele garoto tinha toda aquela construção ao seu dispor e ficava
trancado dentro do quarto por tanto tempo?
— E como era antes? — perguntei.
— Ele sempre foi muito introvertido, calado e recluso. Sempre oscilou
entre a biblioteca e o quarto, mas passava muito mais tempo na biblioteca — ela
explicou. — Infelizmente de uns meses para cá ele foi se isolando e isolando... e
quanto mais tentávamos nos aproximar, mais ele se afastava...
Concordei, aquilo era o suficiente para me fazer entender.
— Acho que você conseguiu mudar alguma coisa — ela me parabenizou.
Não era assim que eu enxergava.
Pelo menos, eu não queria aquela responsabilidade. Tinha medo dela.
— O que você quer dizer com isso?
— Você não reparou como ele olha para você?
Não, eu não tinha reparado.
— É como se... você pudesse entende-lo... como se pudesse ajuda-lo...
Todos nós já percebemos que Anthony não quer falar o que o aflige, mas de
alguma forma ele sentiu que você sabe o que é. Ele confia em você.
— Por que você acha isso, Yone?
— Oras, vocês dois estavam aqui antes de mim. Narrando algo como se
fosse uma historinha... — ela me mostrou o que queria dizer. — O menino
Mitchell não é como as outras crianças. Ele sempre foi muito adulto,
amadureceu muito cedo, ele não faria esse tipo de coisa... Parece que você
desperta o melhor nele...
Fiz que não.
Claramente isso a incomodou.
— O que há, senhora Mitchell?
Respirei fundo. Vigiei toda a cozinha para ter certeza que não havia mais
ninguém ali.
— Eu não sou capaz de despertar o melhor em ninguém. Muito menos
em uma criança...
— Bia... — ela segurou em minha mão.
Aquele foi o combo capaz de me desabar. Estar fragilizada após ter sido
envenenada, ser chamada pelo nome e ter alguém segurando minha mão. Pronto,
eu queria desabar. Mas não queria acordar Anthony.
— Eu preciso revelar que estou com um pouco de medo — fiz um bico e
engoli o choro.
Yone arqueou a sobrancelha, encarando-me de forma compassiva.
— Yone, algo muito errado está acontecendo...
— O quê, senhora Mitchell?
— Anthony claramente está sofrendo algum tipo de abuso...
Ela não pareceu nada surpresa. Só engoliu em seco e continuou a me
encarar.
— Então a senhora percebeu — ela murmurou.
Arregalei os olhos.
— Yone!!!
— Para a minha defesa, devo dizer que ela exercia um certo poder sobre
o senhor Mitchell — ela logo tratou de mostrar que não tinha nada a ver com
aquilo. — Ela tem estado no domínio de tudo há tantos anos que muitas outras
pessoas e eu já desistimos de lutar. É em vão.
— E você acha que eu tenho forças para lutar contra ela??? — continuei
com os olhos esbugalhados.
— Se me permite dizer, senhora Mitchell, a senhora cancelou o efeito
que ela tinha sobre ele — daí Yone abriu aquele sorriso inglês, bem econômico,
que dura menos de um segundo e se fecha novamente. — Me surpreende que
tenha percebido tão rápido...
Eu não queria, eu nunca havia dito aquilo em voz alta, mas...
— Eu também fui abusada quando criança.
A expressão da mulher de compassiva se tornou atemorizada, depois
retornou para um tom mais afetuoso. Ela se levantou e segurou em minha mão.
— Não foi abuso psicológico, foi... foi...
— Shhh — ela pediu. — Senhora Mitchell, a senhora deve descansar. Por
favor...
— Eu não posso permitir que essa criança seja abusada, Yone — eu a
encarei no fundo dos olhos. — Sabe o que eu fiz toda a minha vida depois que
abusaram de mim? Eu tentei fugir de tudo. Do passado. De mim mesma. Quando
me formei e consegui um dinheiro, eu fugi para São Paulo. Mas ainda assim eu
me sentia uma andarilha...
— Bia — ela me abraçou com força.
— Eu não consegui encontrar um lar em nenhum lugar que fui... eu tinha
nojo de mim mesma... me sentia imunda, pesada, desprezível... via todos os
homens aos meus pés e isso me machucava, só fazia pelo dinheiro, para poder
viver a ilusão de ter uma vida incrível e poder dizer que venci...
— Bia — ela tornou a chamar.
Eu nem percebi que estava aos prantos.
— Tudo bem — ela me abraçou. — Está tudo bem agora...
Continuei soluçando, presa naquele abraço que me deu um certo alívio,
lutando contra as lembranças que me levavam para o abismo.
Ser abusada por alguém tão próximo, alguém que deveria te defender e
na verdade se aproveitou...
— Tudo mudou em minha vida quando Héctor apareceu — desabafei. —
Desde o primeiro instante ele sempre me tratou como... gente.
— Ele é assim com poucos — ela pontuou.
— É claro que teve o lance de atração e tudo mais... mas... quando eu
estive com ele a primeira vez... — comecei a balançar a cabeça em negação. —
Foi como enterrar o passado e enfim sentir que eu não era mais suja, sabe?
— Bia — Yone me chamou. — Você é de longe uma das pessoas mais
incríveis que entrou nessa casa. O senhor Mitchell a escolheu e escolheu bem.
Deve ter sido a mão de Deus.
— Foi só o acaso — retruquei.
— Às vezes é bom ter um pouquinho de fé, Bia. E acreditar que mesmo
nas linhas tortas Deus desenha nossa vida.
Concordei.
— Pense que foi o seu passado tão dolorido que te trouxe aqui. No tempo
e lugar certo para impedir outros abusos... Pois só uma pessoa como você
poderia ser tocada e ter o poder de impedir. Então não se prenda mais às suas
dores...
— Você é muito boa com as palavras, Yone...
— Sabe, chega uma hora na vida que você percebe que tem quase a
obrigação de proteger os mais jovens ou pelo menos dar-lhes suporte, daquilo
que já aconteceu com você. E Anthony está aqui. Ele precisa de você. Todos nós
já tentamos, mas ela era mais forte. E não é mais. Não com você aqui.
— Obrigada pelas palavras, Yone.
— É o melhor que consigo às uma e meia da manhã, senhora.
Eu quis revelar a Yone, naquele instante, que Amanda havia tentado
matar o garoto. Por quê? Eu não sei. Mas ela havia tentado. Eu sabia disso. A
dose que ela tinha colocado naquela sopa era para derrubar o menino de vez.
Mas eu guardei aquilo comigo.
Capítulo 17
Héctor Mitchell

Eu dediquei toda a minha vida àquela empresa. E no cargo mais alto dela,
percebi que havia feito pouco, quase nada; a Mitchell & Smith precisava de mim.
Agora eu tinha que fazer o trabalho pelo meu pai e por mim. A jornada
era pesada, eu precisava estudar, ler, assinar os documentos, garantir que as
negociações fossem benéficas para todos os envolvidos, principalmente para as
duas famílias fundadoras.
Lidar com parceiros, pesquisadores e até mesmo o governo e seus
desafetos era fácil. Difícil era lidar com Geoffrey Smith.
Mal cheguei à minha sala na terça-feira, ouvi a porta se abrir e fechar
atrás de mim.
— Devo demitir a equipe de segurança — fiz aquela anotação em voz
alta e me virei para encará-lo.
— Você não pode me impedir de ir e vir dentro da empresa da minha
família — Geoffrey retrucou.
— Eu posso — umedeci os lábios e o olhei de cima abaixo. — Espero
que tenha um bom motivo para me atormentar a essa hora da manhã.
— Eu tenho — Geoffrey disse indignado.
— Pois não?
— Te atormentar a essa hora da manhã. Eis o motivo.
Revirei os olhos e me joguei na poltrona presidencial e o encarei com
todo o desdém que eu podia guardar em meus olhos, Geoffrey merecia cada gota
do meu desprezo.
— Você nunca se perguntou porque o seu pai me colocou como segunda
opção no testamento?
— Vai começar — comecei a mexer nos papeis, vi que era só bobagem
dele.
— Sei que não sou o mais capaz para dirigir a Mitchell & Smith. Mas
Gregory tinha uma dívida comigo, Héctor.
Continuei fingindo que ele não estava ali. Geoffrey puxou a cadeira em
frente à minha mesa e se sentou.
— Uma empresa não é só feita de um bom líder e seu braço direito que
tem talento para lidar com pessoas e fechar negócios — Geoffrey claramente
estava se referindo ao meu pai e a mim. — Também é feita do homem que fica
nos bastidores oferecendo jogos, distrações e prostitutas para nossos parceiros
nos encontros que a Mitchell & Smith fornece.
— Você não vale nada — murmurei.
— Investi uma grana pesada nas diversões secretas que a empresa
ofereceu para os grandes. E não fui ressarcido. Seu pai disse que ia me pagar
tudo em seis meses e eis onde chegamos: seis meses se passaram e ele não está
aqui.
— Espero que tenha a notinha fiscal — debochei.
Geoffrey respirou fundo, eu sabia que podia zoá-lo o quanto quisesse,
mas quando o assunto era dinheiro, aí estávamos falando de briga de gente
grande.
— Sabe o que não vale nada, Héctor?
— Estou ansioso para que você me ilumine — puxei um dos contratos
milionários que estava na pasta de prioridade para ler.
— Mulheres.
Foi mais forte que eu, levantei o rosto e o encarei por um segundo
inteiro. Depois tornei a voltar ao documento e cocei meu queixo com o dorso da
mão.
— Mulheres que fingem te amar e te iludem, dizendo que farão tudo por
você, quando na verdade elas só estão sendo bem pagas.
Ergui os olhos, mas mantive o rosto abaixado. A tensão no ar deixava
claro que aquela conversa não ia terminar bem.
— Eu o admiro, nunca escondi isso. Você é um mito, o rei do pedaço, o
astro, por onde quer que passe. Tem carisma, boa postura, sabe lidar com
dinheiro, pessoas...
— Obrigado.
— Mas tem um péssimo gosto para mulheres...
Deixei o documento de lado e escorei os cotovelos na mesa, o queixo nos
punhos fechados.
— É risível ver que você gosta de se prender em um conto de fadas. Esse
vazio que você tem por dentro, essa sensação de ser um merda, que você precisa
ocupar pagando mulheres para fazer o que quiser com elas... e elas se
aproveitam, é claro, por que mulheres são sanguessugas.
— Qual o teu problema, cara? — perguntei com calma para que ele
pudesse processar aquela pergunta super difícil.
— O meu problema, Héctor, é que eu sei a sua fraqueza. E eu tenho um
mapa de como te destruir. Você pagou uma mulher para ser a sua puta da vez por
um tempo e ela está sugando o teu dinheiro, até ter outra pessoa para sugar...
— Alguém como você?
— Pode apostar que sim — Geoffrey se levantou.
— Sabe, Geoffrey, eu sempre pensei que o seu problema era o pau
pequeno. Mas agora, olhando bem de perto, percebi o que há de errado com
você.
— Estou ansioso para ouvir — ele fez uma imitação porca de mim.
— Você é tão pequeno, tão infeliz, tão imaturo, que precisa levar as
pessoas a se rebaixarem para que possam estar em seu nível e assim você sente
alívio ao perceber que não é um inútil sozinho.
— Eu só quero o meu dinheiro.
— Ou?
— Ou as coisas vão começar a sair do controle, Héctor.
— Eu te admiro nisso e apenas nisso, Geoffrey. Você se comporta como
se não tivesse medo de morrer. Um homem corajosamente estúpido.
— Digo o mesmo de você. Seu pai. E aquela sua puta de merda.

Beatriz Rodrigues

Me recuperei aos poucos.
Para não dar bandeira de que algo estava fugindo do controle, Anthony e
eu continuamos naquela rotina em que fingíamos estar dentro do controle da naja
e nos encontrávamos de madrugada para comer, assistir algo juntos, ler uma
história de dormir ou só para ver como estávamos.
A minha maior preocupação era como provar que aquela mulher havia
atentado contra a vida do garoto.
Não vi como eu poderia fazer isso.
Então agi com cautela e deixei que os dias passassem, não sem vigiá-la
de perto, seguir seus passos e cuidar para que Anthony não se machucasse.
Quatro dias depois quando eu estava completamente recuperada, decidi
chutar o pau da barraca.
Se eu era realmente a dona da casa eu podia fazer o que quisesse, certo?
Abri as cortinas do quarto de Anthony assim que o sol nasceu e o vi dar
um pulo da cama.
— Espero que tenha dormido bem — fui até ele e me sentei na cama. —
As coisas serão diferentes agora, Anthony. Eu vou assumir o controle de tudo.
O garoto me olhou meio com sono, meio sem entender o que estava se
passando.
Pedi para que ele fosse escovar os dentes e lavar o rosto e o esperei fora
do quarto.
— O que está acontecendo? — ele saiu do quarto vestido de pijama.
— Vamos tomar café da manhã.
— Eu tenho uns biscoitos no quarto, podemos comer antes que ela
chegue.
Aquele ser era tão ruim que até dizer o nome pesava, por isso
evitávamos.
— Nada de biscoitos. Vamos tomar um café da manhã de verdade, vem
— segurei em sua mão e descemos para a cozinha.
As cozinheiras ficaram chocadas ao verem o jovem Mitchell de pé e na
cozinha, um lugar que elas imaginavam que ele nunca havia estado antes.
— Que surpresa agradável, senhor! — elas o paparicaram. — O que o
senhor quer comer de café da manhã?
Anthony me olhou, como se perguntasse o que eu sugeria.
O que eu sugeriria?
Fiquei de cócoras e o encarei de forma muito séria.
— Você me disse que tudo o que comeu nos últimos meses te fez mal,
certo?
Ele fez que sim com a cabeça.
— Eu ficava com muito sono e indisposto. E um pouco feliz também,
sem motivo aparente. Mas depois ficava triste de novo.
— A partir de agora você fará sua própria comida.
Ele arregalou os olhos.
— Não estou falando de nada complexo — segurei em suas mãos. —
Vou te ensinar a fritar ovos, cozinha-los, fazer torradas...
— E no almoço e jantar? — ele perguntou, curioso.
— Aí serei eu que farei sua comida. Mas a partir de hoje, nada de comer
apenas biscoitos, ok? Você precisa se alimentar com coisas saudáveis. Na dúvida
ou na preguiça vai comer uma fruta.
— Tudo bem — ele disse sem muita animação. — Você me ajuda a fritar
os ovos então?
— Sim, venha ver como é fácil.
Anthony já era crescido e deveria saber se virar sozinho. É claro que ter
tudo de mãos beijadas o deixou mal-acostumado, mas aquilo era para seu
próprio bem. Ele mesmo sabia que não podia confiar naquela mulher, muito
menos comer o que ela lhe dava.
E eu ia além nessa paranoia: e se outras pessoas ali estivessem
envolvidas com aquela mulher em machucar o menino? Eu precisava prepara-lo
e torna-lo independente.
— Viu como é fácil? — o parabenizei quando terminamos. — Você é
muito inteligente e esperto, aprende rápido. E agora, toda vez que sentir fome,
pode vir e preparar algo.
— Eu só vou tomar o leite ou a geleia que elas estiverem consumindo —
Anthony me confidenciou no ouvido.
— Você pega rápido as coisas.
No restante da manhã eu fiquei na biblioteca, assistindo de longe ele ter
aulas de matemática e biologia. Aproveitei para pegar alguns livros que eu
poderia ler sozinha e depois com ele na hora de dormir.
— Estou muito feliz que o jovem senhor Mitchell esteja bem acordado e
disposto hoje, senhora Mitchell! — o professor de matemática não escondeu sua
alegria. — Não o via assim há... seis meses, acho.
— Espero que seja assim de agora em diante — respondi.
— Posso dar-lhe uma sugestão?
— É claro, senhor.
— O senhor Mitchell e seu filho jogavam beisebol aos fundos da
propriedade. Ambos sempre gostaram muito, mas há tempos que não os vejo
praticar. Sei que poderia dar uma mãozinha para que isso voltasse a acontecer...
— Obrigada pela sugestão, farei isso sim.
Então passei a tarde procurando a bola e o taco de beisebol e não
encontrei em lugar nenhum.
Yone me confidenciou que Amanda havia jogado fora.
Então fiz questão de ir até uma loja de artigos esportivos e voltar, e ainda
que tenha sido uma viagem vapt-vupt, demorei algumas horas.
Quando voltei havia um clima estranho na casa.
Subi as escadas com certa pressa, corri pelos corredores, precisei tirar os
saltos para conseguir ir mais depressa, e vi aquele ser que não podia ser humano
tentando arrombar a porta do quarto de Anthony.
— O que você pensa que está fazendo? — larguei as sacolas e fui em sua
direção.
— Eu preciso entrar — ela me olhou como se não me devesse
satisfações.
Ah, ela me devia sim!
— E posso saber o porquê a senhorita precisa entrar?
— Já passou da hora do senhor Mitchell tomar seu medicamento. Ele fica
muito instável se não o toma.
— Certo. Bem, vejamos como eu te direi isso, Amanda... ele não vai
tomar medicamento algum.
— E quem disse isso?
— Eu. Não viu minha boca se movendo? — arqueei a sobrancelha.
— E com que autorização? Eu cuido desse menino desde quando ele
voltou do hospital onze anos atrás! Sou quase que como uma mãe para ele!
Ah, subiu um fogo dentro de mim...
Não fosse a educação que meus pais haviam me dado eu saía no tapa
com essa mulher.
— Eu sou a madrasta. Mulher do pai dele — respondi a altura. — Devo
valer um pouco mais do que a quase mãe — abri um sorriso de canto.
Amanda ficou roxa.
Saiu feito um trator, pronta para derrubar qualquer coisa que aparecesse
pela frente.
Mal coloquei a mão na maçaneta, a porta se abriu. Anthony me encarou,
meio pálido e assustado e espiou pelo corredor para conferir que ela já tinha ido.
— Você sumiu — ele mostrou que estava magoado, fechou a cara e foi se
deitar.
Eu entrei, fechei a porta do quarto e fui até ele.
— Comprei essas coisas.
— O que é tudo isso? — ele nem me deu atenção.
— Veja você mesmo.
Anthony o fez com lentidão. Pegou as sacolas com completo desinteresse
e espiou dentro delas o conteúdo esportivo. No segundo seguinte abriu um
sorriso gigantesco e já retirou a caixa que continha o taco de beisebol, a bola e o
par de luvas.
— Meu Deus! Meu Deus! — ele gritou, animado.
— O seu professor de matemática disse que você gos... — nem consegui
terminar de dizer. Ele voou para cima de mim com uma intensidade tão
assustadora que eu quase caí da cama.
Ficamos ali abraçados, eu completamente feliz por ter seguido o
conselho do professor de imediato e ainda mais feliz em ver a alegria daquele
menino transbordar.
Pode parecer bobagem, mas vê-lo sorrir daquele jeito era ver a primavera
do mundo.
— E eu comprei três kits. Um para você, um para seu pai e um para mim.
Anthony riu.
— Um era o suficiente. Uma pessoa segura o taco, a outra joga a bola e
outra fica atrás com a luva...
— Então vamos montar um time maior — sugeri. — Com Yone, Hillary
e algum amigo seu.
Anthony sorriu. Seus dedos pequenos deslizaram pelo meu braço até
encontrar a minha mão.
— Eu não tenho amigos — ele falou baixinho.
O ser humano sofre de algo engraçado que é a perspectiva.
Veja só, quando alguém padece de qualquer coisa, imediatamente se
inferioriza, pensa “nossa, como sou coitadinho, ruim, não sou útil” e começa a
girar em torno do próprio problema, como um cachorro correndo atrás do
próprio rabo.
O curioso é que quando outro ser humano vê esse alguém padecer,
mesmo que esse ser sofra da mesma coisa, ele não se concentra em girar em
torno do próprio problema, mas da solução.
Por isso é importante externar os problemas em voz alta para que alguém
escute.
Se você não é capaz de encontrar a solução, alguém será.
— O que você acha de sairmos coletando amigos por aí?
— Como assim? — ele ficou intrigado.
— A casa é muito grande... muita gente trabalha nela... será que não
vamos encontrar alguns amigos? — sugeri.
— Eu não quero ser amigo daquela mulher — Anthony deixou claro de
uma vez por todas que tudo tinha limite.
E eu concordava com ele.
— Mas e seu professor de matemática? Ele que sugeriu isso?
— O senhor Krabs? — ele fez uma careta.
— Foi o senhor Krabs que disse que seria legal ver você jogando de
novo. Disse que te fazia feliz. Será que isso não é um bom passo para ser um
amigo?
— Sim.
Eu achava engraçado que Anthony tinha isso de Héctor, eles sabiam ser
monossilábicos e ainda assim muito charmosos.
— Então amanhã, quando o senhor Krabs retornar, vamos perguntar a ele
se ele quer ser seu amigo?
— Sim. Mas se der errado eu falo que a ideia era sua.
Capítulo 18
Héctor Mitchell

Meu retorno à mansão no Hamptons seria na sexta-feira.
Seria, no passado, por que precisei retornar às pressas.
Em meio a uma reunião importante na quarta-feira, o celular chamou sem
parar. Como era Amanda eu apenas o silenciei e deixei que um dos diretores de
departamento continuasse sua exposição a respeito das pesquisas que havíamos
feito na Europa com algumas energias renováveis.
Ainda assim a tela voltou a se ascender uma, duas, três vezes.
Como era possível concentrar na reunião e ver aquilo, pedi licença e
atendi o celular, extremamente irritado.
O resultado foi o meu retorno às pressas à mansão.
Amanda pintou um cenário apocalíptico que lembrava bem o meteoro
extinguindo os dinossauros.
Ouvi absurdos, choro, grito, ela me assustou de verdade.
Disse que Anthony corria perigo, que estava sendo maltratado e obrigado
a fazer coisas que não queria, que estava sendo impedido de ver o médico e
outras coisas que me deixaram de cabelo em pé.
— Alex, se você não dirigir esse carro mais rápido eu irei demiti-lo.
— Senhor, se eu for mais rápido seremos multados — ele avisou.
Passei a viagem toda tentando ligar para Beatriz, mas ela não atendia.
Yone muito menos. Precisei dar espaço no nó da gravata porque já estava
ficando difícil respirar.
Quase saí do fundo do carro e meti o pé no acelerador.
— Já estamos chegando, senhor, calma.
— Corre, Alex, corre! — mandei.
O carro parou em frente à mansão e eu rapidamente saí do carro, com o
celular contra o rosto, ligando para Beatriz.
— Por favor, atenda esse telefone — pedi.
Subi as escadas e fui para o quarto dela. Nada. Vazio, cama arrumada,
tudo em ordem.
Caminhei em passos largos até o quarto de Anthony e me assustei ao ver
as cortinas e janelas abertas, o notebook não estava em cima da cama, mas na
mesa, as lâmpadas que ficavam ao lado da cama já não estavam ali.
Entrei, pé por pé e procurei qualquer coisa para ver se tinha algo errado,
mas tudo parecia perfeitamente normal. Aliás, normal até demais.
E pela janela eu pude ter a resposta de toda a minha tensão.
Lá estavam eles: Anthony, Beatriz, Yone e mais umas seis pessoas,
aparentemente divididos pela cor da roupa em dois times.
Anthony parecia animado, devo confessar que ao vê-lo daquela forma,
me perguntei quando eu tinha visto pela última vez o meu filho de pé.
Em todas as visitas que lhe fiz nos últimos tempos ele estava dormindo,
eu só ouvia péssimas notícias do médico, dizendo que ele estava muito doente,
frágil, que precisava de descanso e cuidados...
E ali estava ele, ignorando a medicina moderna, segurando um taco de
beisebol.
Prendi a respiração quando Yone jogou a bola. Eu a vi, em câmera lenta,
indo em direção a Anthony.
Quando ele acertou a bola em cheio eu vibrei.
— Isso! — comemorei com o punho fechado e no segundo seguinte
voltei a minha postura sóbria, completamente engessado e analítico, com um
sorriso guardado por vê-lo em tão boa forma.
Meu coração explodiu de alegria.
Uma sensação de paz, tranquilidade e realização percorreu minhas veias.
Pelo visto meu filho não estava tão doente assim como o médico dizia.
E dinheiro nenhum poderia pagar o sorriso dele ao pular freneticamente
por ter ganhado aquela partida.
Saí do quarto e retornei para o corredor, andei devagar, uma vez que o
Armagedom não tinha acontecido por ali, e cheguei no hall de entrada da
mansão. Vi um Alex completamente esbaforido e uma Amanda histérica.
— Aí está você! — ela gritou. — Alex não sabia me dizer onde você
estava! — ela se jogou em meus braços.
— Amanda, se recomponha — eu a ajudei a ficar de pé e me afastei. —
O que está havendo contigo? Perdeu o equilíbrio mental? — fechei o cenho.
— Héctor, você não faz ideia do que está havendo!
Ao invés de expor o que eu vi, preferi que ela falasse.
— O seu filho não toma mais os medicamentos, não come mais comida
saudável. Ela o enche de porcaria, ela o proíbe de se tratar, ela tem atrapalhado
os estudos, a rotina, o sono! Ela está acabando com o seu filho!
— Ela quem? — perguntei curioso.
— Como assim quem? A sua nova mulher!
— Ah, Beatriz — respirei fundo. Por um momento pensei que era Yone
que tinha perdido o juízo, e ao julgar do quanto a conhecia, ela era bastante
sensata. — Ela tem nome, se chama Beatriz — falei aliviado e apertei o nó da
gravata.
— Ela o coloca em sérios riscos, Héctor! Veja só, impediu o menino de
estudar hoje e o obrigou a ficar no sol! Você sabe que ele não pode se desgastar,
ele é um menino frágil.
— Vou examinar a situação de perto — falei.
Alex e Amanda me seguiram até os fundos da propriedade.
Andamos sem alarde, pelo menos, Alex e eu. Amanda veio resmungando
todo o caminho, apontando milhares de erros que estavam sendo cometidos, e eu
sinceramente não lhe dei ouvidos.
Quando chegamos até onde todos estavam, Anthony estava correndo
pelas bases, mas ao me ver, ele abruptamente parou.
O jogo continuou, pegaram a bola e jogaram pelas bases e assim ele
perdeu aquele turno.
No fim, todos pararam e me encararam, ficaram brancos feito papel.
Beatriz tentou acalmá-los e veio em minha direção.
— Você disse que só vinha sexta...
— Quis fazer uma surpresa — falei e toquei seu rosto. — Passou protetor
solar?
— Sim. E Anthony também. Na verdade, todo mundo — ela respondeu.
— Muito bem. Estão jogando há quanto tempo?
— Ah... muito tempo — ela riu, acho que preferiu não me assustar.
— Aquele é o senhor Krabs? — apertei os olhos para ver se conseguia
enxergar melhor.
— É, é sim — ela riu. Parecia uma criança pega fazendo coisa errada.
— Eu te disse, Héctor! Olha só essa bagunça! Isso é inadmissível! —
Amanda alterou a voz.
— É inadmissível, sim — concordei.
Ela continuou a resmungar e eu tirei o terno caro e a gravata. Abri os
botões do punho da camisa branca de mangas longas e dobrei até o bíceps.
Anthony ficou bastante assustado e sem reação.
— Inadmissível não me chamarem para jogar — ralhei.
— O senhor pode pegar o meu lugar! — Yone correu até mim. — Eu
tenho tanta...
— Negativo, Yone — coloquei a mão direita em suas costas, com a
esquerda eu já estava empurrando Bia. — Você vai jogar. Quero ver ganhar de
mim.
— Senhor Mitchell! — ela fingiu um tom de ofensa que não me
enganava.
— Onde conseguiram os tacos, as bolas e as luvas? — olhei para todo
aquele pessoal. — Oi, senhor Krabs — acenei.
— Senhor Mitchell — ele me cumprimentou.
— Eu comprei — Bia revelou.
— Você não cansa de me surpreender — massageei sua nuca e a vi se
contorcer lentamente.
— Aproveitei que fui para a rua e comprei outra coisa — ela sussurrou.
— O pole dance?
— Você se lembra disso?! — ela riu.
— Bebê, é só no que tenho pensado — apertei seu queixo. — Alex! — o
chamei. — Cancele tudo de hoje até sexta.
— Senhor? — Alex correu em minha direção, desnorteado.
— Cancele tudo.
— Mas senhor, temos uma reunião importante com o presid...
— Eu tenho um jogo com meu filho agora — o calei. — E depois tenho
assuntos com a minha mulher.
— Sim, senhor — ele puxou o celular e começou a fazer as ligações que
eram necessárias.
Fui até Anthony que estava travado no mesmo lugar desde que eu havia
chegado.
— Você está bem, campeão?
Ele fez que sim.
— Não quer ir descansar?
— Não.
— Posso jogar com vocês?
— É um jogo só para amigos — Anthony continuou me encarando.
Depois olhou para Bia e voltou seus olhos para mim. — O senhor quer ser meu
amigo?
O simples fato de escutar a voz dele me emocionava. Há muito tempo eu
já não sabia o que era ouvir o meu filho falar.
Comecei a me perguntar naquela fração de segundos como podíamos ter
ficado tão distantes um do outro mesmo tão próximos...
— Seria a coisa mais importante da minha vida — fiquei de cócoras e o
olhei.
Afaguei suas bochechas avermelhadas, ele respirava profundamente, não
sei se pelo cansaço ou qualquer outro motivo.
Anthony era exatamente como eu. Não sabia expressar seus sentimentos.
Não sabia abraçar, não sabia expressar amor, não sabia como manter contato
humano.
Culpa minha, é claro.
Eu esperei um abraço do meu filho, mas eu não era ninguém para cobrá-
lo.
Já naquela idade ele era muito formal, evitava qualquer tipo de
intimidade ou aproximação, até mesmo comigo.
Anthony me deu as costas e voltou para sua base.
— Só não perca! — ele avisou. — Quem perder vai fazer o jantar.

Beatriz Rodrigues

Os Mitchell venceram. Faziam uma boa equipe.
E quando eu digo os Mitchell, me incluo aqui, por que estava no mesmo
time que eles. Bom, pelo menos ali no jogo mostramos que podíamos formar um
bom grupo.
Héctor precisou resolver coisas urgentes então foi o primeiro a sair.
Eu fui com Anthony que parecia bastante inquieto.
— Você suou bastante. Acho que vai dormir a tarde toda — tentei puxar
conversa.
— Eu estou bem.
— Hum, e como foi? Agradeceu ao senhor Krabs por ele permitir que
hoje não fosse aula de matemática e você pudesse jogar?
Ele virou a cabeça e procurou o professor. O homem vinha bem lá atrás,
então ele acenou e gritou:
— Senhor Krabs, muito obrigado!
No segundo seguinte Anthony voltou a caminhar ao meu lado, inquieto.
— Você quer me dizer alguma coisa, Anthony?
— Sim.
— Então pode dizer — me preparei para a bomba.
Ele entortou a boca e continuou a caminhar, não disse nada. Começou a
chutar o ar e franziu o cenho.
— Você está bem? — segurei em sua mão e me abaixei.
Ele se preparou para me responder, no meio do caminho desistiu.
Deixou que Yone e senhor Krabs nos alcançasse e ultrapassasse, assim
como outros empregados da mansão e os seguranças.
Quando éramos os últimos por ali, Anthony me encarou com seus olhos
azuis acinzentados que brilhavam feito diamantes.
— Você acha que o meu pai gosta de mim? — ele tentou esconder com
todas as forças o quanto se sentia incomodado em perguntar aquilo.
A pergunta foi inusitada. A resposta era óbvia, mas a pergunta me
perturbou.
— É claro que o seu pai gosta de você, ele te ama — balancei sua mão.
— Ei, olha para mim — abri um sorriso e alisei seu rosto. — Você sabe quantas
pessoas existem no planeta terra?
— Sete bilhões, mas na Índia e na China continua nascendo muita gente
— ele disse, com aquele ar de menino inteligente, capaz de armazenar qualquer
conteúdo.
— E das sete bilhões de pessoas, e todas as crianças que vão nascer na
Índia, China e até mesmo aqui nos Estados Unidos, você é a pessoa mais
importante para ele. Ele te ama incondicionalmente, ele faria qualquer coisa por
você.
Anthony balançou a cabeça, mas não manteve contato visual comigo.
— O que foi?
— Nada.
— Por que essa pergunta, Anthony?
— Eu só queria saber — ele tentou se justificar. — Não conte a ele que
eu perguntei, por favor.
— Tudo bem, você tem a minha palavra — prometi com o dedo
mindinho.
— Eu confio em você. Você foi a minha primeira amiga.



Capítulo 19
Héctor Mitchell

Resolvi todos os compromissos pendentes e isso tomou todo o restante
do meu dia.
Eu realmente queria passar um tempo com Bia e Anthony, ainda mais
juntos, pelo visto eles haviam se dado muito bem e isso me deixava muito feliz.
Tomei um banho caprichado e vesti o roupão preto por cima do corpo e
fui conferir como meu filho estava.
Anthony dormia, como era de costume. Então entrei rapidamente,
arrumei a pouca bagunça que vi e saí para o quarto de Bia.
Já anoitecia lá fora, o tom azul escuro que cobria os céus e escurecia o
bosque e arredores da propriedade era algo que eu gostava. Vi as luzes externas
se ascenderem e conferi os seguranças pelas janelas conforme andei em direção
ao quarto de minha mulher.
Bati na porta uma, duas, três vezes, chamei-a, mas não tive respostas.
Então girei a maçaneta e abri a porta do quarto suavemente, preocupado
em não acordá-la.
Bia não estava dormindo.
A luz elétrica estava desligada, mas inúmeras velas iluminavam o
ambiente. Quer fosse no chão, em cima dos móveis e pelo batente das janelas,
pequenos focos de luz se uniam para construir um ambiente bruxuleante, que
brincava com as sombras que dançavam junto com as chamas quando o vento
invadia o quarto pela fresta das janelas.
Bia também dançava.
Ela estava muito concentrada no que fazia, por isso fechei a porta atrás
de mim em completo silêncio e permaneci parado, assistindo-a.
Qualquer barulho que eu fizesse por ali não chamaria sua atenção, já que
ela estava com fones de ouvido sem fio.
Enquanto eu escolhia bem os passos para não pisar nas velas e chegar à
cama para sentar e assistir o show particular, Beatriz se mantinha envolvida nos
movimentos bem calculados.
Era bonito ver como seu corpo se esticava, as curvas ficavam mais
salientes, a pele brilhava de suor pelo esforço. Suas mãos agarraram o mastro,
subiu até chegar quase no teto e começou a girar suavemente como se não se
importasse com a gravidade ou tivesse medo de altura ou cair.
Era isso que me deixava hipnotizado nessa mulher.
E vê-la apenas com um top que cobria seus seios e um short minúsculo
me deixavam ainda mais vidrado em ser sua plateia. Muito mais que expectador,
aliás. Seu homem.
Beatriz ficou ofegante ao tentar acompanhar a letra da música enquanto
descia e tornava a subir, cortava o ar e se dobrava como se fosse de elástico.
Numa dessas descidas eu peguei o celular em cima do travesseiro e
pausei a música.
Ela escorregou rápido até o chão e caiu sentada, meio atordoada, olhou-
me como se eu fosse um fantasma.
— Há quanto tempo está aí?
— Tempo o suficiente para querer entregar algumas notas de cem — abri
um sorriso de canto.
Bia esticou o braço e se levantou apoiada no mastro. Pousou as costas no
objeto e sorriu também.
— Você não sabe o quanto estou feliz...
— Por me ver dançar?
— É claro, isso sem dúvidas — me levantei e dei alguns passos em sua
direção, quase patinando pelos espaços vagos onde não haviam as velas. — O
que eu vi hoje mais cedo foi...
— Quebra total das regras, imagino.
Coloquei o dedo em sua boca para calá-la. Beatriz abriu os lábios e o
engoliu.
Essa mulher sabia me deixar maluco de verdade.
Ela chupou o meu dedo enquanto sua pupila crescia conforme meu rosto
vinha em sua direção até nossas respirações se enfrentarem.
— Você não cansa de me surpreender — murmurei.
— Então porque você não me surpreende um pouco? — ela soltou o meu
dedo e riu.
Já que o dedo estava molhado, nada mais justo do que invadir o top dela
e beliscar seu mamilo com certa intensidade que fez Bia pender a cabeça para
trás e depois se curvar em minha direção, as mãos em meus ombros, as unhas
descendo pelo roupão.
— O que você quer? — perguntei.
— Esquece, você não aceitaria — ela fez um sinal negativo com a
cabeça, tirou os fones e jogou na cama.
— Peça — murmurei.
— Desde que nos conhecemos eu sempre danço para você.
— É, você era uma stripper — pontuei.
— Dance para mim — foi a vez dela aproximar seu rosto e morder o
meu lábio inferior.
— Eu não sei dançar — retruquei de imediato.
Bia riu e continuou me olhando.
— O que é tão engraçado? — segurei em seu queixo e não permiti que
desviasse o rosto e se explicasse.
— Você sabe dançar — ela disse como se fizesse parte da banca
examinadora do meu trabalho de conclusão da faculdade.
— Eu sei, senhorita Rodrigues? — ri.
— Eu sou a senhora Mitchell, esqueceu? — suas unhas invadiram meu
roupão e arranharam meu peitoral.
Merda. Como aquilo era bom.
Poder ouvir, poder sentir, vê-la me encarar tão assustada e ao mesmo
tempo arriscando explorar algo novo.
— Me abrace — ela pediu.
Eu a embalei em meu corpo, os braços por cima de seus ombros, quase
que cobrindo-a. Senti suas mãos ao redor da minha cintura e seu corpo se mover
bem devagar.
— A forma como o seu corpo se mexe quando está tão perto... e até
dentro do meu — ela diminuiu a voz na última parte. — É um tipo de dança. E
você é bom nisso. Você sabe rebolar, mover o tronco, mexer o corpo... e faz tudo
isso sem perceber.
— E vai querer o que mais? Que eu suba no pole dance? — ri.
— Se seus bracinhos forem fortes o suficiente você pode até tentar — ela
ergueu o rosto e moveu as sobrancelhas.
— Garota, não me provoque.
Beatriz se soltou dos meus braços e caminhou até a cama, pegou o
celular e colocou uma música para tocar pelo aparelho.
— Vai, eu sei que você está louco para dançar para mim.
— Eu estou louco para te foder.
— No fim é quase a mesma coisa — ela tirou o short devagar e ficou
nua, cruzou as pernas no segundo seguinte. — A única diferença será a distância
dos nossos corpos.
— Não sei se sou bom nisso de dançar.
— Ainda bem que você tem uma profissional para ajuda-lo, não é, senhor
Mitchell?

Beatriz Rodrigues

Eu queria provocá-lo, isso era fato.
Ver Héctor me encarar e começar a mover os braços devagar e depois o
corpo me deixou um tanto surpresa e com vontade de rir. Era realmente bem
engraçado.
Aí ele tirou o roupão e ficou só com a box preta.
Aí sim a coisa ficou séria e eu suei frio.
Os músculos do bíceps se contraíram quando ele segurou firme no poste
e girou devagar enquanto tentava se equilibrar e manter-se no ar.
Foi desengonçado e extremamente sexy, ainda mais por poder ver seu
corpo todo esculpido a luz das velas.
— Uau — quase aplaudi.
Héctor não demorou muito para ficar confiante e fazer umas acrobacias
mais difíceis que me deixaram de queixo caído. Depois imaginei que por praticar
esportes e ter muita força aquilo devia ser algum tipo de alongamento muito
comum para seu corpo.
Mas a dança deu lugar para a minha total concentração em seu corpo
desenhado se contraindo e suando devagar, deixando os músculos cada vez mais
inchados e o corpo brilhando.
— Ok, você é forte mesmo — me dei por vencida.
Era para ser divertido e eu poder dar boas gargalhadas, mas ele me
deixou sem palavras e excitada.
E completamente tensa quando pisou com os pés bem firme no chão e
começou a vir em minha direção.
— Ah, você não vai dançar mais? — fiz um bico.
Héctor afagou meu rosto com a palma de sua mão e ficou em pé em cima
da minha coxa, o abdômen todo desenhado dançando tão perto de mim, seu
cheiro amadeirado tomando conta do quarto e de meus pulmões, meus olhos
tentados a encará-lo e ao mesmo tempo ver de perto cada milímetro daquele
corpo. Corpo não, obra de arte.
— Eu estou dançando para você, bebê — ele murmurou.
Comecei a gemer a partir daí.
Já não controlava a respiração, o corpo repentinamente começou a ficar
dormente e minhas mãos foram tomadas pelas dele, maiores e mais fortes,
obrigando-me a sentir os músculos enquanto Héctor começava a dançar cada vez
mais perto, roçando em cima de mim, espalhando seu calor, seu cheiro, seu
desejo em minha pele.
— O que foi? — ele ainda teve a cara de pau de perguntar.
— Você me deixa louca.
— Você quem pediu...
— Então não para — abracei-me ao seu corpo e senti os braços de Héctor
me puxarem.
Agarrei-me ao pescoço daquele homem e fui transportada pelo quarto até
o pole dance onde ele me deixou e começou a dançar ao meu redor, como uma
serpente encantando a flauta.
Suas mãos me enfeitiçaram, arrancando o meu top, segurando-me com
firmeza no pescoço e fazendo-me recuperar os sentidos, despertando meu corpo
com toques, puxões, apertos e beliscões.
Foi difícil não me entregar. Nossos corpos eram ímãs que se atraíam.
— Faz aquilo de novo — ele murmurou, sua mão praticamente cobrindo
metade do meu rosto.
Chupei seu dedo indicador dessa vez enquanto o encarava e sentia seu
corpo se esfregar no meu na tentativa de ascender alguma fagulha. A fogueira já
estava pronta, alta e se espalhando.
Héctor abriu um sorriso safado quando seu dedo escorregou da minha
boca e passeou pelo meu corpo até chegar em um lugar que me fez estremecer.
Primeiro me apoiei em seus ombros, perdida naquela massagem firme,
intensa e prazerosa que ele me oferecia.
— Héctor — gemi, cravei as unhas em sua pele e fui puxando devagar.
— Foi você quem pediu para que eu dançasse — ele me confidenciou
em um novo sussurro.
O corpo reagiu em espasmos, a respiração ficou cada vez mais
embargada, o baixo ventre começou a queimar. Era sede, era fome, era uma
vontade dele que depois de ser despertada só podia ser saciada tendo-o por
inteiro, sentindo-o como se fosse a primeira vez.
Estiquei as mãos para trás e assim que me segurei no poste, subi devagar,
puxando-me para cima. Abracei-o pela cintura e o deixei envolvido em mim, o
som de fundo agora era mero detalhe, por que nossos corpos pareciam ter uma
sintonia própria.
— Você me faz querer ser sua... inteiramente sua... — murmurei.
— Bebê, eu não sei se você percebeu — Héctor riu e segurou em meu
queixo. — Você já é minha.
Ele desceu a sunga box e eu senti bem entre minhas pernas aquele
volume.
Cada vez que ele esfregava o corpo para cima e me fazia sentir seu pau
em minha virilha eu mordia meu lábio, me contorcia, pronta para implorar se
fosse preciso.
Héctor se agachou e eu desci junto com ele, vi mexer no bolso do roupão
e no minuto seguinte ele já estava com o preservativo em si.
Quando seu corpo voltou a subir e eu subi junto, senti o meu baixo ventre
mais do que arder.
Meu corpo voltou a se contorcer com força e apertei os olhos conforme
sentia toda a pressão vir para dentro de mim e seu corpo firme me embalar,
arrancando-me o ar que eu economizava nos pulmões.
Arfei, condenada pelo meu próprio prazer, envolvida em minha luxúria e
domada por aquela força que controlava meus movimentos e reivindicava meu
corpo como seu.
Dessa vez Héctor foi intenso desde o início e nossos corpos se moveram
realmente como numa dança.
Senti sua cintura se remexer bem devagar conforme me penetrava,
minhas mãos abandonaram o apoio no pole dance e encontraram suporte em seu
pescoço, fazendo-me abraça-lo e envolver-me única e exclusivamente em seu
corpo quente, duro e meu.
Quase soltei um urro quando o vi segurar firmemente em meu seio e
leva-lo a boca. O chupão foi tão demorado e intenso que ele tapou a minha boca
e silenciou meu grito.
— Não acorde a casa toda — ele pediu.
Nem mesmo na dança eu me remexia e me contorcia tanto. Também, eu
precisava me movimentar em cima daquele corpo para aproveitar cada parte. E
era delicioso sentir os músculos do meu homem, seu corpo quente e coração
acelerado, suas mãos famintas me deixando marcas vermelhas e terminando de
me anestesiar com a forma que me fodia sem parar.
Como já não era o bastante ficar suspensa no ar apenas apoiada nele e
sentir meu corpo arder por dentro, Héctor começou a me massagear sem parar e
na primeira oportunidade que encontrei para gemer fui silenciada novamente,
mas por seus lábios.
Minha boca foi consumida em vários chupões, me perdi em seus braços
nas diversas formas de prazer e fui sentindo a respiração falhar de uma forma
mais intensa até que meu corpo todo estremeceu e eu me agarrei completamente
a ele, já não sentia as pernas e estava zonza.
Não bastasse ter tido um excelente orgasmo, Héctor deitou-me na cama e
veio por cima de mim, pressionando-me contra o colchão, cobrando cada gota de
sanidade que ainda me havia restado, dividido entre a forma como rebolava em
cima de mim, friccionando em minha virilha e por todos os meus nervos, assim
como era intenso nas estocadas e não parava até perceber que eu já estava
completamente sem ar.
Mesmo após terminarmos aquela deliciosa dança, custamos a nos
desgrudar.
Ficamos agarrados assistindo o coração um do outro desacelerar e
quando isso aconteceu assistimos as velas se apagarem uma a uma até que
restasse apenas o brilho da noite invadindo o quarto.
— Diz alguma coisa! — pedi e ri de nervoso.
Já estávamos nos encarando no escuro há dez, vinte ou trinta minutos... o
tempo já não passava de uma mera ilusão enquanto estávamos juntos.
— Você é perfeita.
Era difícil rebater uma argumentação tão bem embasada.
— Obrigada por me proteger e cuidar de mim — deslizei as mãos pelos
braços de Héctor. — Há muito tempo eu não me sentia assim...
— Assim como?
— Como se estivesse em casa. No meio da família...
A penumbra do quarto não conseguiu esconder o sorriso de Héctor. Ele
sabia ser charmoso até no escuro.
— E a que eu devo agradecer? Por você ter trazido um pouco de vida de
volta para essa casa?
— Só estou cumprindo o meu papel.
— Você sabe cumprir seu papel muito bem então — Héctor voltou a me
abraçar, me senti espremida em seus braços. Não havia do que reclamar.
— Antes de você ir, posso te fazer uma pergunta?
— Faça.
Fiquei um pouco mais naquele aperto e depois me soltei bem devagar,
bem manhosa como ele dizia que eu costumava ser, peguei o celular e desliguei
a música, comecei a mexer em um aplicativo.
— Acho que você e Anthony ficaram um pouco afastados nos últimos
tempos...
— É, ficamos.
— Por que ficaram afastados?
— É uma longa história...
— Sem pressa, Héctor, eu tenho a noite toda.


Capítulo 20
Beatriz Rodrigues

O final de semana passou bem rápido e na noite de domingo Héctor
precisou retornar para suas obrigações.
Pensei que depois do jogo de beisebol Anthony e Héctor se
reaproximariam e eu não entendi porque não os vi juntos depois disso.
Quando perguntei a Héctor sobre Anthony ele respondeu que o filho
dormia. Isso três vezes. Achei bem estranho.
Na noite de domingo fui visitar Anthony no quarto, já não precisava ser
de forma sorrateira, eu pouco ligava se Amanda nos encontraria.
— Pensei que estivesse dormindo...
— Eu lendo — ele abaixou o livro e me encarou.
— O seu pai veio te ver três vezes. Disse que nas três você estava
dormindo...
— Devo ter cochilado — ele respondeu rapidamente e voltou para o
livro.
— Anthony, você se lembra do que me perguntou na quarta-feira? —
Sentei-me na cama e o encarei.
Ele se fez de desentendido e continuou a ler.
— Você me perguntou se eu achava que seu pai gostava de você...
Ele prendeu a respiração e passou uma página do livro, fingindo que não
estava prestando atenção no que eu dizia. Infelizmente o corpo dele dizia o
contrário, repentinamente ele ficou tenso, paralisado na cama, começou a virar
as páginas como se isso fizesse o tempo passar mais rápido.
— Ainda estou curiosa para saber de onde vem essa pergunta — comecei
a fazer cócegas no pé dele por cima da coberta. — Mas eu vou esperar que você
me diga de livre e espontânea vontade, ok?
Anthony abaixou o livro e me encarou por alguns segundos. Quando
estava pronto para retornar a sua leitura de vinte páginas depois do que estava
lendo, eu tomei seu livro.
— Ei! — ele reclamou.
— Já passou da hora de dormir — tive de ser a adulta da vez. — E eu te
trouxe isso — entreguei-lhe um pequeno celular.
O celular era simples, não tinha nada de atrativo como os das últimas
gerações, mas havia algo valioso nele.
— Você viajou da pré-história para buscar isso? — ele riu.
— Mais ou menos... tem algo gravado aí, quero que escute quando se
sentir confortável, ok?
Seus olhos brilhantes me encararam um tanto assustados.
— Boa noite e durma bem. E se precisar de mim, o meu número é o
primeiro nesse celular.
— Você precisa mesmo ir?
— Preciso. Nada de passar a noite acordado, você tem um dia atarefado
amanhã. Quando eu sair, tranque a porta.
— Tudo bem.
Aproximei-me do seu rosto e dei-lhe um beijo na testa.
Não foi ensaiado, eu sequer havia pensado em fazer isso, foi um gesto
mecânico e quando percebi que assim o fiz, saí praticamente petrificada do
quarto.
Não sem antes conferir que Anthony estava um tanto desconcertado e
atônito com aquele aparelho antigo em mãos.
E talvez ele ficasse ainda mais assustado com o que escutaria.

Quatro dias antes.

— Anthony nasceu prematuro — Héctor me encarou. — Eu perdi a
Serena naquela noite e não pude pegar o meu filho por muito tempo. Eu só podia
vê-lo, tocá-lo com o dedo às vezes e remoer em mim o fato de que eu nem podia
ter o meu filho em meus braços e protegê-lo de tudo ao redor. Ele era muito
frágil e doente, eu tinha medo de estragar tudo, então respeitei o protocolo desde
cedo...
— E conforme ele cresceu? — perguntei.
— Haviam outros problemas, Bia...
— Anthony tinha problemas?
— Não, o meu pai — Héctor ficou bem mais sério nesse momento. — Eu
tinha um filho e um pai para cuidar. Ambos doentes.
Segurei em sua mão nesse instante.
— Eu me tornei braço direito do meu pai e vivi para a Mitchell & Smith
desde o dia em que percebi que tudo poderia desmoronar se eu não estivesse por
perto para cuidar das coisas... e, sim, devo admitir que talvez tenha
negligenciado um pouco o crescimento de Anthony... mas eu não o queria no
centro da cidade, eu o queria o mais longe possível, protegido, tendo tudo o que
precisava e sendo educado pelos melhores professores que o dinheiro pudesse
pagar.
— Você se preocupava com ele — falei.
— Eu o amava desesperadamente, Bia. Mas sem saber o que fazer... eu
tinha medo de me aproximar e de alguma forma fragiliza-lo ainda mais ou
adoecê-lo...
— Você não faria isso...
— É o efeito do mundo em que eu vivo. Todos ficam doentes. E eu
queria Anthony longe de tudo para preservar o melhor nele. Fazê-lo crescer
diferente de mim, melhor do que eu, melhor do que todas as pessoas que compõe
o meu mundo.
— Eu não entendo.
— Um dia você vai entender — Héctor abriu um sorriso gentil.
— E você gosta dele? Do Anthony? — perguntei.
Essa era a parte que ficaria gravada para que ele escutasse.
— Eu nunca entendi o que era amor incondicional até vê-lo pela primeira
vez. A sensação de que eu faria qualquer coisa por ela e o amaria de qualquer
jeito. Eu não sabia que o amaria tanto... ele foi e sempre será a melhor parte de
mim. Quando eu o vejo é como ver a minha própria história e me faz pensar
naquilo que eu luto todos os dias para que ele não precise ver e passar pelas
coisas que eu passei.
— O professor Krabs disse que vocês jogavam beisebol antigamente...
— O meu pai deu de presente para Anthony a bola, o taco e a luva. Eu
nunca gostei muito de beisebol, não é bem a minha praia, mas ele parecia tão
fissurado naquilo quando ganhou de presente que eu me senti intimado a ensiná-
lo e jogar com ele. Foi uma forma que encontrei de passar um tempo junto com
ele. Eu sempre tive a impressão de que meu filho se esquivava de mim, se
afastava em silêncio... mas quando jogávamos conseguíamos deixar isso de lado
e nos divertíamos muito.
— O que você acha que o Anthony precisava ouvir de você? Se você
pudesse dizer-lhe algo hoje, o que diria?
— Eu... pediria perdão por não ter conseguido expressar todo o amor que
sinto por ele. Acho que falhei nas demonstrações de amor. Sabe, eu era um
adolescente idealista e jurava para mim mesmo que seria totalmente diferente do
meu pai. Eu estaria presente, faria tudo junto com o meu filho e acompanharia
cada passo dele ao invés de dizer que o amo através de dinheiro e bens
materiais... e no fim, cá estou eu, repetindo as mesmas merdas que o meu pai
fez.
— Não seja tão severo consigo mesmo.
— Mas eu sonhei que tudo seria diferente. E idealizei como seria a vida
do Anthony. Eu queria me fazer presente e ser o melhor amigo dele... mas aí eu
cresci... e vi o mundo... e tudo o que eu consegui tirar disso foi afastar meu filho
do centro do mundo para preservá-lo das coisas que o ser humano é capaz de
fazer pelo poder. E nessa besteira acho que nos afastamos... e eu não sou o
melhor amigo dele.
— E como seria ser o melhor amigo dele?
— Ah, eu era o melhor amigo dele quando ele disse as primeiras palavras
— Héctor riu. — E quando ele aprendeu a andar... Eu também era o melhor
amigo dele quando ele fazia xixi na cama e não conseguia dormir porque tinha
medo de ter pesadelos e reviver as imagens que o inconsciente dele fabricava...
Eu também era o melhor amigo dele quando chovia forte e relampejava, ele tem
muito medo disso. Mas eu espero que quando essa tempestade que assola nossas
vidas passar eu possa voltar a ser o melhor amigo dele, nem que para isso eu
abdique da posição que eu ocupo.
Héctor parecia bem seguro do que dizia.
— Eu não acho que você precise abdicar da posição que ocupa para
poder ser o melhor amigo dele, Héctor...
— Eu precisaria — ele disse com firmeza. — E eu abdicaria. Por que eu
o amo e eu faria qualquer coisa pelo meu filho.
— Obrigada por ser tão sincero comigo — falei e apertei o botão para
encerrar a gravação.
— Eu sinto que com você aqui posso me reaproximar de Anthony e
recuperar algo que nunca tivemos...
— Isso só depende de vocês dois.
— Eu sei que sim. E eu farei a minha parte para que isso possa se
realizar.
— Héctor, quando você disse que era idealista e queria fazer diferente do
seu pai e acabou se tornando como ele... o que você quis dizer exatamente? —
perguntei, não escondi que fiquei curiosa com aquela parte.
— É uma longa história — ele riu. — E ficarei te devendo essa parte por
hora.

Héctor Mitchell
17 anos atrás.

O senhor Terence Smith era um homem muito ocupado.
Por isso eu queria ser rápido para não tomar seu tempo.
A Mitchell & Smith possuía na época todo um andar em um prédio no
centro financeiro de Nova York em Lower Manhattan. Era de lá que o senhor
Smith coordenava as coisas com os grandes empresários e homens de poder da
cidade e do país.
Quando a secretária do sócio do meu pai abriu a porta de madeira, o vi de
costas para mim, encarando a grande janela de vidro que dava visão para os
maiores prédios da cidade.
Assim que coloquei o primeiro pé na sala, Terence virou-se para mim
com um grande sorriso.
Era um homem alto e andava curvado, apoiando-se em uma bengala. Os
cabelos já eram ralos, tinha a testa grande e um olhar que passava confiança e
inspiração.
— Veja só se não é o jovem herdeiro dos Mitchell — ele me
cumprimentou e indicou com a mão a cadeira onde eu deveria me sentar.
— Obrigado, senhor Smith. Mas não irei me demorar, preciso ser breve.
Com um aceno de cabeça e um sorriso paternal ele permitiu que eu
continuasse.
— Perdoe os meus modos. Com o senhor está?
— Bem, meu rapaz. Não se preocupe com os gracejos — ele sorriu e
repentinamente colocou o lenço branco em frente aos lábios e tossiu. — Quando
chegar à minha idade perceberá que homens como nós se importam cada vez
menos com as introduções, eles querem logo ir ao ponto crítico.
Concordei mesmo me sentindo desconfortável de estar diante do homem.
Eu havia ensaiado cada palavra. Sabia tudo o que era necessário dizer.
Mas era uma tarefa árdua enfrentar o senhor Smith, ainda mais porque ele era
um bom homem, quase um segundo pai.
— Meu pai foi o seu braço direito por muitos anos — comecei.
— Desde a faculdade — Smith apoiou-se na bengala como se aquela
fosse uma lembrança muito boa.
— E agora tem sido o CEO da Mitchell & Smith...
O homem concordou e ergueu a sobrancelha, atento às minhas palavras.
— Gostaria que repensasse e exonerasse o meu pai — eu disse, meio
trêmulo, meio desconfortável. Devia ter ensaiado mais vezes aquelas palavras
em voz alta.
— Meu rapaz? — Smith não escondeu a completa surpresa. Andou em
minha direção e fitou-me bem de perto. — O que houve?
— Sei que são amigos, mas não sei se meu pai tem lhe confessado
algumas coisas...
— Quais coisas?
— Eu amo a minha família e espero que entenda que é por essa razão que
venho até o senhor pedir-lhe isso — expliquei. — O meu pai sempre foi ausente,
mas nos últimos tempos ele praticamente não aparece mais em casa.
O senhor Smith me encarou como se eu lhe narrasse uma história que ele
conhecia de cabo a rabo.
— Eu o segui. Sei que ele sai com strippers, dorme com acompanhantes
de luxo, se droga — aquelas últimas palavras foram bem pesadas para mim.
O meu pai era o meu herói, o meu ícone máximo de poder e exemplo.
Vê-lo ceder a todas as fraquezas da carne massacravam o herói que eu
enxergava nele.
— Creio que tantas responsabilidades tem sido demais... A empresa vai
bem, o problema não é a atuação profissional dele, por que ambos sabemos que
o meu pai é bom no que faz.
— Concordo — Smith foi econômico e continuou apoiado na bengala.
— Mas a família está caindo aos pedaços — suspirei. Tirar aquilo do
peito foi difícil, mas um alívio sem descrição. — Ele não é próximo de minhas
irmãs... a minha mãe prefere não vê-lo... agora que estou pronto para ir à
faculdade, tenho medo do que pode ocorrer... tenho medo de que as coisas saiam
do controle.
Terence Smith concordou.
Para aqueles que o conheciam, sabiam que respirar no mesmo ambiente
que ele era como ficar mais valorizado.
O homem foi braço direito de dois presidentes, era amigo pessoal e sócio
do meu pai.
Eu não sabia se aquilo me ajudaria ou prejudicaria. Se o senhor Smith
olharia para mim como uma pedra no meio de seus negócios bilionários ou
entenderia meus reais motivos.
— Todos nós pagamos um preço pelo poder — foi o que ele disse após
andar ao redor da mesa, conferir as horas no relógio de pulso que estava em cima
dela e voltar-se para mim. — Você entende que seu pai não é uma pessoa
comum, não é, Héctor?
Concordei, mas eu tinha ressalvas e estava pronto a dizê-las.
— Pessoas comuns vivem vidas comuns. Pessoas como nós vivem toda a
amplitude do que é viver. Nós somos insubstituíveis. E isso pode gerar
sentimentos, visões, sensações e comportamentos bem curiosos sobre o que é
viver...
— Então tudo bem ele viver uma vida sem significado contanto que
duplique os lucros da empresa? — provoquei.
Eu sempre fui destemido e não tinha medo de peitar quem quer que
fosse, o senhor Smith sabia disso.
O sorriso gentil foi uma demonstração de que ele sabia que aquele era eu.
Terence Smith caminhou até a grande janela de vidro, dando-me as
costas.
— Venha cá, meu rapaz — ele me chamou com tranquilidade. — O seu
pai ergueu esse império junto comigo. Eu não teria conseguido, se não fosse por
ele. Mas como pode ver, eu estou muito velho. Gregory não é mais o braço
direito de ninguém, agora ele é quem comanda. E é ele quem precisa de um
braço direito.
— Eu não...
— A melhor forma de ajudá-lo é permanecer ao lado dele e protegê-lo de
si mesmo.
Os olhos claros e cansados do senhor Smith me fitaram.
— Alguém capaz de enxergar as fraquezas deve ser capaz de enxergar as
qualidades também e com isso aprender a erguer a partir das forças que encontra
no outro, não é mesmo? — ele bateu com a mão direita em minhas costas.
— Senhor Smith, eu...
— Héctor — sua voz ao chamar meu nome me calou de imediato. —
Curioso como o tempo é. Você pediu para vir aqui hoje... justamente hoje... e eu
tinha algo inadiável para lhe dizer...
— Sim?
— Geoffrey é um garoto problemático.
Ah, que bom que ele tinha percebido que o filho era um descompensado!
— Se o poder destrói pessoas que tem a cabeça no lugar como o seu pai,
o que ele faria com Geoffrey?
Preferi não comentar.
— Coisas terríveis — ele mesmo completou. — A índole duvidosa e as
ações completamente hostis de Geoffrey revelam o tipo de pessoa que ele é com
a ilusão de poder. Imagina se ele de fato o tivesse.
— O senhor é o pai dele, então pode dizer isso com propriedade — falei
sério.
O senhor Smith riu.
— Quero que você me substitua — ele deu o veredito.
— Quê? — me virei abruptamente e o encarei. — Senhor?
— Escute-me — ele disse calmamente. — Existe, Héctor, muito mais do
que você pode imaginar. Segredos que as paredes desses grandes prédios
escondem, aliados e inimigos nos corredores dessa grande nação e fora dela, e
uma luta silenciosa pelo poder.
Arregalei os olhos.
— Ajude o seu pai, Héctor. Não o culpe ou o julgue agora. Algo grande
está acontecendo e o seu pai tem lutado para manter não apenas você e sua
família, mas toda uma nação sob controle. Então seja amigo dele e divida o
fardo. Você perceberá que o caminho é difícil, tortuoso e acima de tudo
perigoso.
— Senhor Smith — segurei em seu braço e arregalei os olhos.
Prendi a respiração.
Um avião atingiu uma das torres gêmeas. Ela explodiu bem diante dos
meus olhos.
Dei um passo para trás, mas o senhor Smith me segurou firmemente e me
manteve bem onde eu estava.
— Nós somos os descendentes dos Pais Fundadores dessa nação, Héctor
— ele disse com calma, como se nada tivesse acontecido. — Eles nos legaram
apenas uma responsabilidade: tornar essa nação grande. E é isso o que nós
fazemos.
— Eu não entendo — continuei paralisado, encarando a destruição, a
fumaça preta, o desespero.
Quando o senhor Smith me ofereceu seu copo de whisky um novo avião
bateu na outra torre.
Engoli em seco.
— O que acontece, Héctor, quando uma nação bélica vive em meio a
paz?
Eu não conseguia pensar. Eu vi as duas torres caírem.
Foi a primeira vez que bebi algo alcoólico na vida, o líquido desceu
queimando tudo, inclusive o meu medo, mas eu ainda tremia.
— Ela cria guerras — o senhor Smith murmurou. — Ela precisa
produzir guerras para sobreviver, para se manter como grande potência. Mas não
como o valentão que ameaça a qualquer um e é violento sem motivo... É preciso
ser o herói. E para ser o herói, é necessário construir, encontrar ou inventar um
vilão.
Terminei de beber aquele líquido e fiquei zonzo, perguntando a mim
mesmo se tudo o que eu vi tinha mesmo acontecido.
— A guerra, a fome, o desespero, a pobreza... — o senhor Smith disse de
um jeito inspirador. — Todos eles são lucrativos. E quando um bom cenário é
construído, nós não precisamos fazer absolutamente nada para convencê-los de
que a guerra é fundamental. Eles mesmos defenderão o sistema e lutarão por
nós. É para isso que eles existem.
— Isso tudo havia sido programado? — perguntei, mais para mim
mesmo do que para ele.
E se eu tivesse me atrasado vinte minutos? E se eu ainda estivesse por ali
onde as torres caíram? Eu teria morrido.
— Quando chegar a hora, quero que me substitua em algo grande,
Héctor.
— Grande como o quê?
— A grande organização que mantém o mundo funcionando. Ocupe o
meu lugar em troca de manter a minha família em segurança. Você tem esse ar
superprotetor que me inspira confiança. Eu jamais colocaria Geoffrey a frente de
algo grande assim.
— Uma sociedade secreta? — novamente perguntei mais para mim do
que para ele.
A resposta do senhor Smith foi um sorriso gentil e então ele se afastou
apontando para a porta.
Como mágica, a secretária entrou desesperada, encarando-nos como se
tivesse visto o inferno e o diabo.
— Senhor! Senhor! Está tudo bem por aqui? — ela mal conseguia falar,
estava afogada no próprio desespero.
O senhor Smith só balançou a cabeça como se fosse um senhor de idade
caduco que não conseguiria raciocinar tudo o que estava acontecendo e
murmurou para que ela trouxesse água.
A mulher saiu correndo, aos berros.
— Viu como “eles” são? — o senhor Smith riu.
— E o que nos diferencia deles? — perguntei.
— Nós somos insubstituíveis, Héctor — ele piscou o olho. — Eles são
peças em um tabuleiro...
Olhei pela janela o rastro de destruição, caos e morte.
O pouco que pude raciocinar de minhas palavras e das palavras do senhor
Smith, entendi o porque ele não se espantou das coisas que contei do meu pai.
Ele sabia o que estava acontecendo. E não se importava nem um pouco.
O preço pelo poder era ficar louco e buscar amparo em qualquer coisa
que anestesiasse o corpo, como aquele líquido que queimava dentro de mim e
me deixava quase dopado do desespero, choque e tristeza em ver vidas sendo
tiradas assim.
Era o preço de ser insubstituível.
— Nós somos os inventores, mantenedores e donos do jogo, meu rapaz.
Capítulo 21
Beatriz Rodrigues
Algumas semanas atrás.

O menor sinal de ócio me incomodava.
Eu admirava Hillary por conseguir ficar em paz sem fazer nada. O
simples fato de ficar no silêncio da biblioteca, sala de jantar ou sala de tv eu
ficava louca e já queria encontrar algo para fazer.
— Eu já disse que você mais parece uma empregada do que a dona da
casa?
— É, já deve ter dito umas dez vezes, Hill — tive de rir.
— Você não pode só deitar, descansar, abrir uma champanhe ou até
mesmo comprar uma passagem para Paris e ir aproveitar? Por que fica caçando
coisas para fazer? Eu não entendo! — ela me acompanhava feito minha sombra
e só reclamava.
— É só uma forma de retribuir o que Héctor está fazendo por mim.
— E o que ele está fazendo por você? — ela riu.
— Me mantendo longe da loucura que a imprensa quer fazer, me
protegendo daqueles criminosos que estão atrás de nós e sendo um cara legal
comigo. Aliás, você não acha que deve algo a ele?
— Amiga, você é bilionária agora. Cartão sem limites, dezenas de
empregados, uma mansão que é tipo um hotel 5 estrelas. Por que diabos você
está com luvas e está mexendo na droga desses escombros?
Olhei ao redor e me senti um pouco sem esperança.
Após um mês enchendo o saco de Yone e procurando em todos os cantos
da mansão, não encontramos a chave do antigo jardim que ficava bem guardado
atrás de grandes muros de pedra e cobertos por galhos secos.
No fim Yone e eu concordamos que ao invés de perdermos tempo em
busca dessa chave, era melhor chamar um profissional que fizesse uma nova
chave. Foi isso o que fizemos. E cá estava eu, no meio dos escombros do que
devia ter sido um jardim.
Peças de gesso quebradas em cima de pedras, nenhum sinal de verde,
árvores secas quase caindo aos pedaços e antigos móveis que deviam ter valido
milhares um dia que não pareciam servir nem mesmo para alimentar uma
fogueira.
— Eu não entendo você — Hillary bufou. — O cara te deu casa, comida,
roupa lavada, dinheiro e liberdade. E tudo o que você faz é tentar cuidar do
molequinho depressivo e agora quer cuidar da droga do jardim que eu ouvi
dizerem que a esposa dele cuidava.
— O que tem?
— Amiga, você é a garota de programa dele.
— E daí? — arqueei a sobrancelha e voltei a tirar todos aqueles destroços
da frente para ver se conseguia pelo menos chegar no centro daquele lugar.
— Para de tentar ser da família dele. Não vai rolar. Quando o contrato
acabar ele vai te chutar. Ele só precisa de você para garantir que a herança não vá
para o psicopata. E agora que o contrato está valendo e devidamente registrado,
por que você está se incomodando em tentar agradá-lo? No fim ele só vai te
descartar, então aproveita.
Hillary estava equivocada.
Em nenhum momento eu pensei “vou me aproximar de Anthony, cuidar
de algumas coisas da casa e tentar reformar o jardim porque quero que Héctor
veja valor em mim”. Ele quem pediu para que o contrato fosse feito, ele me
escolheu, ele que foi até o fim nisso.
Eu não precisava provar nada, tampouco que ele visse qualquer tipo de
valor em mim, porque pelo visto ele já havia visto.
Essa era eu e era apenas isso. Eu nasci na roça, sempre tive de ajudar os
meus pais e embora eu tivesse um deslumbre pela cidade grande e tecnologia,
viver em Nova York me deixou saturada. O mínimo vestígio de natureza, tarefas
e um pouco de sentimento familiar aqueciam meu coração.
Eu podia estar em Paris? Até no Japão, se eu quisesse.
Mas eu estava ali, no antigo jardim da mansão.
Que na verdade Yone havia me dito que servia como campo de golpe
também, pude perceber isso vendo umas hastes com bandeirolas puídas no chão
e buracos próximo delas.
— O tempo está passando e você tem aproveitado pouco — ela
reclamou.
— Acredite se quiser, eu estou aproveitando agora — quase dei pulinhos
de alegria quando cheguei no meio do lugar. Era praticamente do tamanho de um
campo de futebol.
— Olha, eu não vou te ajudar não. Se você quer perder seu tempo com
isso... perca. Eu vou assistir tv.
— Ok, Hillary, a gente se vê mais tarde.
Hillary nunca mais retornou ao jardim desde aquele dia.
Eu, entretanto, tirei duas horas por dia, todos os dias, para visitar o lugar.
Yone pediu para que dois funcionários me ajudassem, por que haviam
coisas realmente pesadas por ali. Gastamos praticamente uma semana inteira
amontoando os lixos em cantos e no fim, quando já havíamos dado um sinal de
esperança ao local, chamei um caminhão para que tirasse dali todo aquele
entulho.
— Tem certeza de que quer que tudo isso vá para o lixo, moça? — o
dono do caminhão perguntou.
— Você acha que tem como reformar algo? Algum banco? Alguma
estátua?
— Não, infelizmente não — ele disse com pesar. — Mas achamos uma
maleta de couro que talvez seja do seu interesse.
— Uma maleta? — perguntei curiosa, não tinha visto nada do tipo.
— Tivemos que cavar ao redor de um tronco de árvore e suas velhas
raízes, encontramos uma maleta enterrada.
— Certo, pode levar tudo e deixe a maleta.

Naquela noite antes do jantar Yone e eu nos encontramos. Eu lhe mostrei
tudo o que havíamos feito no local e ela ficou bastante emocionada em ver que
havia um sinal de esperança para o jardim.
— Agora só falta reavivar o lugar... plantar algumas coisas... colocar um
gramado — seus olhos brilhavam.
— Estou ansiosa para isso, Yone, mas lhe chamei aqui por outro motivo.
— Qual, Bia?
— Eles encontraram essa maleta. Está bem desgastada, vê? Mas está
lacrada e parece que tem algo dentro. É leve — balancei a maleta. — Parece
papel.
— Será que a senhora encontrou os desenhos da senhora Mitchell? — ela
perguntou, muito feliz, depois arregalou os olhos. — da Serena. Perdoe-me,
senhora Mitchell.
— Tudo bem, eu não me importo com essas nomenclaturas — sorri com
gentileza e isso pareceu tirar um fardo de suas costas. — Há possibilidade. Então
precisamos abrir com cuidado para não destruir nada. Será que a chuva, o sol e o
tempo no geral não destruíram as obras?
— Só saberemos após abrir a maleta — ela disse com esperança.
— Envie a maleta para o chaveiro que abriu a porta do jardim e veja se
ele consegue abrir sem causar danos, ok? Peça para que tenha o máximo de
cuidado e demore o quanto precisar, eu só não quero que estraguem o que tem
aqui dentro.
— Certo, senhora Mitchell.
— Obrigada, Yone. Daqui umas semanas espero te mostrar um lindo
jardim.

Tempo atual.

De todas as visitas que eu esperava receber por ali, aquela foi a mais
inesperada.
Anthony passou pela grande porta velha e desgastada e a fechou atrás de
si. Olhou os muros internos cobertos pela trepadeira seca que dava um ar
macabro e fez uma careta, depois olhou ao redor e sorriu ao ver o espaço limpo,
cheio de canteiros, vasos, algumas cercas ao redor das árvores que estavam
sendo tratadas.
— Eles colocaram grama! — ele disse animado e veio até mim. — O que
você está fazendo?
— Você já terminou suas aulas de hoje, Anthony? — não deixei de
cobrá-lo logo de cara.
— Sim — ele uniu as mãos atrás do corpo e olhou ao redor.
— Estou preparando esses vasos para plantar algumas flores e ervas.
Coloquei uma porção generosa de terra fertilizada e depois as sementes,
fechei-as e molhei um pouco. Coloquei os vasos de flores ao redor das árvores,
as ervas eu organizei em um canteiro.
— Por quê? — ele fez uma careta.
— Hum... — esqueci de tirar a luva e cocei o rosto, acabei me sujando.
Anthony prendeu a respiração e deu um passo para trás.
— Você vai ficar doente! — o seu tom de voz fazia parecer que o mundo
vai acabar. — Você não pode se sujar!
Caí na risada e tirei a luva, limpei o rosto e olhei para ele, agraciada por
sua inocência.
— É apenas terra.
— É sujo — ele retrucou.
— A gente vive em cima dela — foi meu contra-argumento.
— Mas ela causa doenças — ele tremeu.
— Não causa não, vem cá — o chamei.
Anthony demorou para vir até mim, mas eu insisti tanto que ele veio.
Com passos tímidos e um olhar temeroso ele se aproximou e se agachou quando
indiquei que devesse fazer isso.
— Você deveria plantar essas aqui enquanto eu cuido das árvores.
— Não é mais fácil arrancar elas? — Anthony torceu o nariz. — As
árvores parecem velhas e cansadas... secas... seria melhor tirá-las...
Entreguei-lhe as luvas e ele custou para calçá-las.
— É isso o que fazemos com coisas velhas e cansadas? Simplesmente
jogamos fora? — perguntei com doçura.
— Parece a coisa certa a se fazer. Quando sai um celular de última
geração a gente joga o antigo fora ou até mesmo doa para os menos afortunados
— ele explicou.
Concordei para mostrar que ele devia mesmo expor sua opinião, isso
fazia muito bem.
— Mas será que com a natureza é assim, Anthony? A gente
simplesmente joga fora ou doa? — fiz um cafuné em seus cabelos
engomadinhos.
— Eu não sei. Tem muita natureza no mundo — ele comentou. — E
quando tem muita coisa de algo, há pouco valor. As coisas só têm valor quando
são raras.
Fiquei de pé e o encarei de cima, peguei a terra fertilizada e caminhei até
a árvore mais próxima. Ele me acompanhou, claramente inseguro de ficar
sozinho com os vasos.
— Se tem tanta natureza no mundo e ela nasce sozinha, por que você
gasta tempo plantando essas coisas? — ele quebrou o silêncio.
— Você está muito afiado hoje! — terminei de colocar a terra nos
buracos que havia feito superficialmente ao redor da árvore.
— Obrigado.
— A vida é meio misteriosa, sabe?
— Por isso a gente estuda biologia.
— Sim, por isso também — tive de rir. — Bom, eu gosto de flores. Elas
são delicadas, precisam de muita atenção e cuidado para nascerem e se
manterem vivas. Elas não nascem de imediato, então precisam de dedicação,
com isso nós trabalhamos paciência, persistência e foco. Paciência porque o
resultado leva tempo. Persistência porque não adianta regar um dia e ficar outros
sem regar, é preciso fazer com frequência e saber que a recompensa virá. E foco
porque se você regar demais pode acabar estragando. Assim como se não regar...
— Mas no fim elas podem nascer sem a sua ajuda, não é? A natureza se
encarrega sozinha.
— É claro. Mas o que custa dar uma mãozinha para a mãe natureza?
Anthony ainda não parecia muito convencido. Voltamos para onde
estávamos os vasos e ele ficou me encarando.
— Você ouviu o áudio que eu te dei no celular?
Ele tirou o aparelho com fones do bolso e depois o guardou, fez que sim
quando olhou ao redor e constatou que não tinha mais ninguém ali.
— Você sabe o que tem no áudio?
— Sei. Eu ouvi.
— Quantas vezes?
— Hum?! — ele abriu bem os olhos, como se tivesse sido pego no crime.
— Quantas vezes ouviu?
As bochechas dele ficaram rosadas, era bem bonitinho de ver. Anthony
tapou as maçãs do rosto com as palmas da mão e começou a dar palmadinhas.
— É o frio do início da primavera — ele se justificou.
— Você não precisa se desculpar por ter sentimentos — voltei a me
agachar e comecei a colocar terra nos vasos com as mãos mesmo.
— Você vai ficar doente assim! — ele segurou em meu braço.
— Eu já fiz muito isso, desde bem pequena... nunca fiquei doente.
Anthony também se agachou e foi abrindo os pacotes de semente e me
entregando.
— Eu não sei quantas vezes ouvi. Eu dormi ouvindo — suas bochechas
ficaram ainda mais coradas.
Aquilo era ótimo! O meu sorriso ficou gigante.
— É gostoso ouvir que é amado, não é?
— É.
— O amor é igual a arte de plantar, Anthony. É preciso ter cuidado,
dedicação, persistência, foco, paciência... eu amo cada pedacinho de trabalho
que eu fiz por aqui. Desde a limpeza, colocar a grama, preparar os vasos, colocar
as sementes... e quando elas nascerem e florirem eu vou amar tanto! Vai ser tão
lindo!
— E quando morrerem? — ele evitou me olhar. — Você joga fora?
— Aí a gente replanta. Usa o que morreu como adubo. Faz novas flores
nascerem, torna tudo verde outra vez e cuida para que viva o máximo que puder,
até que siga o ciclo... As coisas orgânicas não são como as coisas eletrônicas.
Não dá simplesmente para descartar e jogar fora... sempre é possível
reaproveitar, fazer brotar de novo, renascer... se não tiver jeito a gente busca
outra forma de continuar o jardim. Com outras flores, outras cores, outros
cheiros... mas sempre com o mesmo amor, carinho, paciência, foco e persistência
de antes.
Anthony não discutiu aquilo. Só balançou a cabeça e enfiou as mãos no
saco de terra fertilizada e repassou para os vasos.
— O que foi? Perdeu o medo de ficar doente? — me aproximei um
pouco mais dele e o imitei.
Anthony coçou o rosto, e desastrado igual eu, acabou se sujando.
— Não — ele tirou os fones do bolso e colocou nos ouvidos.
Pedi permissão e peguei um dos fones e coloquei no meu ouvido
esquerdo.
— Você sabe quando as flores vão nascer? — ele perguntou bem alto
para tentar ofuscar a voz do pai no ouvido.
— Não, eu não sei. Mas eu vou continuar cuidando de tudo até que elas
possam nascer.
— Você pode me chamar para te ajudar na próxima vez.

Capítulo 22
Beatriz Rodrigues

Yone me acordou com uma notícia maravilhosa: a mala havia voltado
aberta e sim, haviam pinturas de Serena dentro. Me senti enfim vingada naquela
caça ao tesouro que desde a infância nunca dei sorte.
— São tão bonitas — Yone comentou, tirando as pinturas dobradas de
dentro da mala e as abrindo com todo o cuidado.
As pinturas foram dobradas dentro de plásticos, parecia realmente que
alguém ou até mesmo a própria Serena as havia lacrado e escondido na mala.
— Como isso foi parar naquele jardim?
— Ela pintava no jardim — Yone apertou os olhos. — Agora parece
bastante óbvio que lá era o lugar certo para encontrar essas pinturas!
— Bom, não naquela zona que estava... — ajudei-a a abrir os plásticos
com todo o cuidado. — Ela não assinava as pinturas?
Yone olhou por toda a extensão dos desenhos que iam desde uma
reprodução do jardim e propriedade até torres caindo, havia uma onde havia um
piso xadrez atrás de duas colunas de cores opostas, e até mesmo uma que ou era
o próprio Anthony – como a mãe devia tê-lo imaginado – ou o Héctor mais
jovem.
— Tem números — Yone apontou.
Sim, haviam números.
Na pintura da parede havia o número 0. Depois seguiam-se os números
nas demais pinturas.
— Será que ela numerou por ordem cronológica?
— Não, algumas das primeiras parecem ter traços mais trabalhados —
Yone vigiou por cima dos meus ombros. — Agora preciso voltar aos meus
afazeres, senhora Mitchell.
— Bia — a corrigi, mas mantive minha atenção nas pinturas. —
Providencie alguns quadros para colocarmos elas, sim, Yone?
— Sim, senhora — ela saiu com um sorriso gigante e eu continuei
olhando as pinturas.
Levantei-as com as mãos para enxerga-las melhor, e através da
luminosidade advinda da janela, pude ver algo escrito. Não era inglês, tampouco
qualquer outra que usasse o alfabeto. Também não parecia uma língua oriental.
Era peculiar.
— O que é isso? — perguntei para mim mesma.
— Você não sabe... — Hillary entrou no quarto e eu quase morri do
coração. — O que é isso? — ela olhou todas as pinturas espalhadas na cama,
escrivaninha, cômoda...
— Sua mãe não te ensinou a bater? — reclamei, a mão no peito, o
coração disparado.
— Ai, Bia, eu não acredito que você continua tentando reviver essa
múmia — Hillary cruzou os braços.
Naquele momento eu não quis dividir com Hillary o que eu havia
percebido nas pinturas.
Só as dobrei, guardei nos plásticos e enfiei na mala novamente, tranquei-
a e joguei debaixo da cama.
— Isso, essa é a minha amiga! Deixa essa mulher ser esquecida, amiga!
— Já tomou café, Hillary?
— Não. Vamos logo! A gente até pode assistir o pirralho fazendo a
própria comida. Você acredita que ele está cozinhando? — ela riu. — Parece que
pegou a mesma doença que você, quer fazer as coisas... o que há de errado com
vocês?!
Meus olhos desceram dos seus pés e subiram para sua cabeça, julgando-a
severamente.
— Pode descer que eu já vou.
Dei-lhe as costas e aguardei que ela saísse do quarto.
Após me vestir adequadamente e conversar com Héctor pelo celular e
ouvir que ele sentia minha falta, eu desci para tomar o meu café.
Passei o restante da manhã na biblioteca procurando livros de símbolos
para encontrar algo parecido com o que vi nas pinturas e decifrar.
Poderia ser a assinatura dela, é claro. Mas era diferente em cada pintura.
Infelizmente não achei nada, mas pude acompanhar Anthony em suas
aulas de história e literatura, ele era realmente um garoto muito inteligente.
Quando o professor foi embora, Anthony ficou ao pé da escada me
olhando deslizar os dedos pelos livros nas estantes superiores.
— Você pode cair — ele disse naquele tom monótono que eu havia
aprendido a gostar.
— Estou há horas procurando um livro e não encontro — expliquei.
— Se for Eu, Robô está no meu quarto — ele tentou ajudar.
— Não, esse não — tive de descer e não escondi a frustração.
— Você parece chateada.
— Estou um pouco, sim. Acho que vou tirar o restante do dia fazendo
algo produtivo, porque o ócio me perturba.
Eu também não podia ficar em casa, porque ficar olhando aquelas
pinturas sabendo que tinha algo a ser desvendado e não ter capacidade para fazê-
lo ia me deixar aflita.
— Acho que vou ver o seu pai agora à tarde. Você quer vir?
Anthony deu um passo para trás.
— Não.
Aquele não seco e monossilábico foi carregado de um temor que eu
sequer entendi.
— Não está com saudades dele?
Anthony desviou o olhar e começou a olhar os livros.
— Tudo bem, eu digo a ele que você mandou um oi — afaguei seus
cabelos. — Se comporte e se cuide, ok?
— Eu nunca saí daqui — Anthony me encarou com aqueles olhos
grandes e curiosos. — Não que eu me lembre, ao menos.
— Sério? Nem para ir ao médico?
— Ele vem aqui. O médico, o alfaiate, os professores, os donos de loja de
computadores... — ele recitou um a um, me cansei só de acompanhar a lista.
— Por quê? O seu pai não deixa?
— O mundo lá fora tem muitos germes — ele explicou. — E eu sou um
menino muito frágil — Anthony inclinou o rosto para o lado esquerdo e
começou a ler os títulos dos livros que estavam atrás de mim.
— Você adoeceu depois que me ajudou a plantar as flores?
— Não.
— E quando jogou beisebol lá fora, adoeceu?
— Não — ele voltou a me encarar.
— Será que você ainda é um menino muito frágil? Será que já não está
na hora de ir lá fora? — perguntei animada.
— O mundo lá fora ainda parece ter muitos germes — ele pensou alto e
depois me chamou com a mão para que eu me abaixasse. — E dizem que as
pessoas que andam pela Wall Street não têm nenhum senso de moda — ele
arregalou os olhos.
Aquele menino era uma figurinha rara de álbum.
— E, Amanda não me deixa sair.
— Mas se você quiser ir, eu deixo — falei com segurança. — Afinal de
contas você irá comigo, eu cuido de você.
— Não sei se eu estou pronto — Anthony me deu as costas e foi saindo.
— Diz pro meu pai que eu mandei um oi.
— Tudo bem. Se cuida! — me despedi.
Tudo o que fiz foi tomar um bom banho e me vestir adequadamente para
ir ver Héctor na Mitchell & Smith. Joguei um sobretudo por cima da camisa
branca e calça jeans e entrei no carro, disse o destino e desbloqueei a tela do
celular para avisar Héctor que eu estava indo.
Não disse a Hillary que eu ia sair, então tomei um susto quando
subitamente a porta do carro se abriu. Mas não era ela.
— Eu vou dizer oi pessoalmente — Anthony disse quase sem ar.

Héctor Mitchell

Geoffrey estava de braços cruzados e olhos semicerrados fingindo que
estava no controle da situação.
Estávamos na sala de reuniões da Mitchell & Smith com a ilustre
presença de meus irmãos do Templo de Nova York. Derick Von Gran, o Mão
Oculta, estava sentado ao meu lado. Raras vezes ele se sentava na ponta da mesa
quando eu me fazia presente por respeito. Era, como eu, alto, atlético, com cara
de poucos amigos. A juba longa amarrada em um coque e a barba muito bem
alinhada.
— Estamos te dando a oportunidade de dizer a verdade, Geoffrey. Se
levamos um julgamento como esse para dentro da Ordem, você sabe das
consequências.
— Eu não tive nada a ver com o assassinato da stripper — Geoffrey
continuou firme em sua defesa.
Ethan tinha sérios motivos e evidências para acreditar que Geoffrey havia
mandado executar a antiga colega de quarto de Bia. Só precisávamos saber o real
nível de ameaça dele agora.
— Escuta aqui — Adrian Cavalieri bateu com o punho na mesa. — Você
sabe com quem você está lidando?
— Sim, senhor Cavalieri — Geoffrey tentou manter a calma, mas não
escondeu que tinha medo de Adrian.
E ele precisava ter medo mesmo.
Geoffrey era envolvido com drogas, não foi difícil descobrir isso.
Adrian era um italiano muito esquentado, dava para ver sangue em seus
olhos, e como Derick e eu, ele era extremamente controlador. Isso porque era
chefe do crime organizado de toda a Nova York, nada acontecia naquela cidade
sem que ele soubesse. E se acontecia, o próprio Adrian ia atrás de quem
desestabilizasse sua “ordem”.
— Eu vou cortar os seus dedos — Adrian falou com calma. — Um a um,
até que você confesse.
— Tortura — Ethan Evans riu. — Agora sim estamos em clima de
Guerra Fria mesmo. Aguardo ansiosamente a parte em que colocamos militares
no poder dos países da América Latina.
— Já ficou bem claro a todos nós que se Héctor não cumpre o
testamento, o beneficiado é você. Então ele escolheu a noiva e repentinamente
ela é atacada e uma de suas colegas mortas — Derick recitou aquilo como se
estivesse lendo um relatório. — Ethan encontrou provas de que você anda
espionando algumas coisas na Mitchell & Smith, e que o seu pessoal tem
traficado em locais proibidos.
Adrian deu um novo soco na mesa e apontou o dedo indicador para
Geoffrey.
— Nova York saiu do caos de criminalidade porque a minha família
colocou ordem na bagunça que isso era. E isso inclui nada de drogas perto de
escolas, hospitais, ou até mesmo de restaurantes que são frequentados por
adolescentes. Tem uma escola de periferia perto daquele prédio — Adrian
fuzilou Geoffrey com o olhar.
Geoffrey me lançou um olhar de misericórdia.
— Eu não sabia que a garota era a escolhida do Héctor. Como iria saber?
— Geoffrey quase aumentou o tom da voz, mas o meu olhar de indiferença, o
olhar de Derick de análise e o de Adrian de que estava disposto a separar o
crânio da cabeça de Geoffrey o fez mudar de ideia. — Sim, eu estou de olho nos
assuntos da Mitchell & Smith. A empresa também pertence a minha família,
esqueceram? E eu concordo com o conselho e com o meu falecido pai, Héctor é
o cara mais apto a dirigir isso aqui. Eu afundaria a empresa no instante em que
meu nome fosse anunciado como CEO
Arqueei a sobrancelha, surpreso por ouvir aquelas palavras vindas dele.
— E eu posso garantir que esse tráfico clandestino não tem nada a ver
comigo ou com os meus caras. Só vendemos para grandes empresários, tipo o...
— Geoffrey me encarou.
Era claro que ele ia dizer o nome do meu pai. Mas tudo o que ele disse
foi:
—... Deixa para lá.
— Ethan, me dê o bisturi de corte ou o alicate — Adrian cruzou os
braços.
— O que eu fiz? — Geoffrey soltou aquilo em um tom de súplica.
— Não vou permitir que fale assim diante dos Homens Livres que
lideram este país pelas sombras — seus olhos chamuscaram.
— Ele está dizendo a verdade — precisei intervir.
Todos ficaram surpresos, Geoffrey mais ainda.
— Não foi Geoffrey — respirei fundo.
— E como você sabe disso?
— Ele é um otário? É. Tem o pau pequeno? Sim. Não serve para nada?
Com certeza — me diverti um pouco. — Mas Geoffrey é filho do Terence Smith
— quando falei o nome do pai dele, tanto Derick quanto Adrian me encararam
com profundo respeito. — E Terence era um homem íntegro, leal aos seus
irmãos e acredito que seria incapaz de criar um filho que traísse os seus.
Ele fez um “obrigado” com os lábios e virou o rosto.
Derick estava pronto para contra-argumentar com toda a classe e pompa
que tinha, mas Alex invadiu a sala de reuniões.
— Senhor!
— Alex, eu disse que não queria ser interrompido!
— Eu sei, senhor, mas é que estão te ligando da mansão há muito tempo!
— ele se posicionou ao meu lado e me entregou o celular.
— Eu não posso ficar com qualquer aparelho eletrônico quando estou
com os meus irmãos — o encarei com frieza.
— Eu sei, senhor, eu peço perdão, mas é urgente.
Peguei o celular e vi que já tinha alguém na linha.
— Oi — dedilhei a testa.
— Héctor, graças a Deus! — Amanda estava desesperada. — Por que
demorou tanto em atender?
— Não te devo explicações — fui seco e encarei Derick que riu.
— O seu filho sumiu!
— Já olhou pela mansão toda? — respirei fundo.
— Já! Ele e aquela sua mulherzinha simplesmente desapareceram!
— Então não vejo porque tanto alarde. Se ele está com Bia, deve estar
bem — concluí.
— Mas Héctor, o seu filho não pode... — desliguei o celular e entreguei a
Alex. — Não me interrompa novamente, principalmente se for a Amanda.
— Sim, senhor.
— Ligue para Beatriz e pergunte se Anthony está com ela. Se não estiver,
mande todo o meu pessoal caçá-lo pela mansão. Pare a droga dessa cidade se for
necessário, quero que fechem tudo — olhei para Adrian. — Nada vai funcionar
até meu filho for encontrado.
— Esse é o Héctor que eu conheço — Derick levantou o copo de whisky
e bebeu.
— Quer que eu ligue para o meu pessoal? Podemos fechar as estra...
— Obrigado, Adrian — o interpelei. — Por enquanto não, não vamos
gerar esse alarde e caos até sabermos onde Anthony está.
Alex saiu da sala e Geoffrey continuou a nos encarar com um misto de
pavor e a segurança mentirosa que tentava transparecer.
— Não quer cancelar esse julgamento e ir atrás do seu filho? — Ethan
perguntou.
— Se ele está com a Bia, está bem — respirei fundo e peguei o meu copo
na mesa, sorvi o líquido com rapidez, sentindo-o aquecer minha garganta. —
Você é inocente, Geoffrey — eu decidi. — Pode sair.
Geoffrey se levantou com cuidado e andou calmamente até a porta,
quando não estava mais em nosso campo de visão, ouvimos passos rápidos.
— Podemos interrogar o pessoal dele ou colocá-los em campo para ver
se encontram algo sobre a morte daquela tal Clair.
— Eles podem forjar provas ou ocultá-las, caso as tenham — Adrian
avisou.
— É, eu sei. Por isso vamos vigiá-los — voltei-me para Ethan. — Esse é
o seu trabalho.
— Já está feito — ele acenou com a cabeça.
— Como uma garota dessas morre e o corpo simplesmente desaparece?
Nada na polícia, nada nos arquivos secretos... onde diabos o corpo dessa garota
foi parar? — Derick rosnou.
— Vamos descobrir, eu garanto — falei.

Beatriz Rodrigues

Foi engraçado ver Anthony todo encolhido e assustado no meio da
multidão.
Fiquei ao seu lado todo o tempo e dei-lhe a mão para que se sentisse
seguro.
O mundo fora da mansão era cheio de cores, pessoas e situações
artificiais. Eu não queria expor o menino a nenhum perigo, só queria dar-lhe
força e incentivá-lo a ultrapassar um pouco suas barreiras.
Como ele veio comigo, nossa primeira parada foi num hospital grã-fino
onde Anthony foi submetido a uma bateria de exames. Depois fomos comprar
algumas roupas e eu fiquei maravilhada ao vê-lo vestido de mini-CEO.
E foi assim que Anthony e eu chegamos na Mitchell & Smith, eu vestida
de forma comum com um sobretudo por cima do corpo, e Anthony de terno e
gravata, cabelo todo engomado e aquele olhar frio que imitava o do pai.
Quando chegamos no andar onde era a sala de Héctor e o elevador se
abriu, demos de cara com três homens junto com ele.
Eles pararam de conversar imediatamente e nos encararam, Héctor muito
surpreso, os outros com um sorriso no rosto.
— Esse é o seu filho? — o homem com jeito de italiano perguntou para
Héctor.
Saímos do elevador, quero dizer, eu tive de empurrar Anthony porque ele
estava um tanto engessado, e ficamos parados esperando Héctor vir até nós.
Ele não tirou os olhos do filho enquanto se aproximava.
— O que vocês estão fazendo aqui? — ele abriu um sorriso de canto e
continuou olhando o garoto, bastante surpreso e admirado.
— Eu disse que estava com saudades — expliquei. — Pelo visto, não era
apenas eu... — abaixei os olhos para indicar Anthony.
— Ah, eu também estava com saudades, dos dois — ele sorriu e segurou
na mão pálida do filho.
— Anthony tem algo importante para te dizer — bati nas costas de
Anthony.
Héctor ficou de cócoras para ficar da altura do filho.
— Oi — Anthony acenou.
Capítulo 23
Héctor Mitchell

As palavras simplesmente sumiram da minha mente.
Há umas semanas tudo o que eu tinha era um filho acamado, apático e
que se cobria debaixo das cobertas como se tivesse medo de sair do quarto.
A alegria de vê-lo de pé, rodeado de pessoas e agindo normalmente como
se nunca estivesse estado doente me trouxe uma alegria que só foi comparada ao
saber que um dia eu seria pai.
— Está tudo bem? — os grandes olhos de Bia me fitaram, era nítido que
ela estava preocupada.
Segurei em suas mãos e puxei-a ao meu encontro.
— Você faz tudo ficar ótimo — murmurei e a apertei contra mim.
Estávamos no Magnum Imperium, o meu restaurante favorito. Despedi-
me dos meus irmãos e fui com minha família passar um tempo juntos. Alex
também acabou vindo e ficou de vigília com Anthony que pela primeira vez
estava fora de casa e parecia muito curioso com tudo o que seus olhos podiam
ver e suas mãos alcançar.
— Não está bravo? Deve ter recebido mil telefonemas dizendo que
raptaram seu filho... — aquela voz manhosa de Bia parecia ir além dos meus
ouvidos.
Entrava em minha pele, alcançava meu coração, fazia cada parte do meu
corpo ficar atenta, desperta, sedenta. A abracei mais forte.
— É, ouvi coisas do tipo... mas como me disseram que ele estava com
você, achei que ele não corria perigo.
Ela ergueu o rosto e sorriu. Beijei sua testa e continuei a acompanhar as
ações de Anthony que estava olhando um casal aristocrata jantar.
— Levei Anthony para fazer uns exames...
Arqueei a sobrancelha.
— Ele tem um médico particular.
— Eu sei. Queria uma segunda opinião. Espero não ter feito besteira.
Respirei fundo. Não queria ouvir notícias ruins. Depois de onze anos eu
ainda não havia me acostumado com elas.

Beatriz Rodrigues

Abri a bolsa e procurei as declarações feitas pela bateria de médicos que
passei Anthony.
Como paguei muito caro, disse que tinha pressa e precisava que eles
dessem algumas declarações sobre o estado da saúde dele.
Entreguei os papeis a Héctor ciente de que o resultado poderia abalá-lo.
Eu não sabia os resultados e só poderia confirmar que tinha feito merda
esse tempo todo... mas meus instintos diziam que não havia nada de errado com
aquele menino, pelo menos, não em respeito a saúde.
— Você pode abrir? — ele devolveu o envelope.
— É claro — sorri e abri o envelope.
Percebi que a respiração de Héctor ficou pesada e seu olhar
completamente tenso.
— Quer saber? Esquece. Vamos ficar com o laudo do médico particular
dele, afinal de contas, ele acompanha o Anthony desde que ele nasceu... —
quase rasguei o envelope com tudo dentro, mas Héctor segurou a minha mão
com firmeza.
Foi a minha vez de suspirar.
O que eu estava fazendo?
Por que eu estava me metendo em um assunto que não me dizia respeito?
Talvez Hillary estivesse certa. Eu só deveria aproveitar a colônia de
férias, satisfazer o meu bilionário protetor e esperar o contrato acabar para ter
uma vida de rainha solteira na terra do tio Sam.
Algo gritava dentro de mim, entretanto. Provavelmente a lembrança do
choro do garoto que era como um pedido de socorro.
Era tudo o que eu precisava na infância... alguém para me ajudar...
— Abra — ele disse.
— Ok — expirei e puxei os papeis.
— É só que... — sua voz me fez tremer, eu já estava tensa e ouvir a voz
dele tão perto me desestabilizou. — Não é fácil ouvir toda a vida que meu filho
está perto da morte... e eu tenho a porra de todo o dinheiro do mundo e isso não
basta... — Héctor continuou a olhar o filho que já estava com um sorvete nas
mãos.
Aquilo era realmente estranho. Algo não se encaixava nessa história.
— Ok, vejamos, eu pedi que eles escrevessem de forma bem clara, sabe?
Eu citei os problemas que o médico particular de Anthony disse que ele tinha e
pedi que não usassem linguajar médico porque éramos leigos...
— Ok.
— Bom, aqui diz...

Héctor Mitchell
Onze anos atrás

O meu carro parou atrás da ambulância diante da mansão nos Hamptons.
Respirei fundo enquanto assistia os médicos retirando a incubadora com
todo o cuidado do mundo e andavam calmamente até a porta da mansão, para
levar o meu filho para dentro de casa.
— Por que você ainda está tenso? Agora você pode ficar junto do seu
filho — Amanda passou as mãos em meu braço.
— Isso não muda o fato de que o médico disse que a situação dele pode
piorar a qualquer instante...
— Ao menos você fez tudo o que podia fazer. E ele está em casa.
— Sem a mãe — engoli em seco.
Amanda me abraçou, mas continuei com as mãos no volante, os olhos
acompanhando a equipe médica levar aparelhos e toda sorte de aparato
farmacêutico que fosse necessário em qualquer urgência.
— Você precisa que eu te relaxe? — Amanda falou bem perto do meu
ouvido.
— Você é sempre muito atenciosa — afaguei seu rosto com demora e a
encarei.
Entre Amanda e eu não havia muito mais do que sexo, mas eu me sentia
vazio, carente e um tanto deprimido com a perda de Serena.
Mantê-lo por perto foi uma forma que encontrei para estancar a dor da
perda e a ameaça de perda.
Ainda assim eu não me sentia completamente feliz.
Anthony era pequenininho, havia aberto os olhos só uma vez, e era bem
quieto. Desde que nasceu não pude pegá-lo no colo em nenhum momento, ele
era frágil demais. Aliás, pegar no colo seria demais, ele praticamente cabia nas
palmas das minhas mãos.
Meu quarto foi transformado em um quarto de hospital.
A minha cama fora colocada colada na parede e a incubadora no centro
do quarto rodeada do aparato tecnológico, um armário com medicamentos e uma
poltrona confortável onde eu passei boa parte dos meus dias.
Eu era pai solteiro aos 22.
Não bastasse um pai problemático para cuidar, agora eu tinha um bebê
que ninguém sabia me dizer se iria sobreviver.
Às vezes eu encostava minha mão na incubadora como se pudesse tocá-
lo e sorria.
No início Anthony deixou a palidez de lado e foi ficando cada vez mais
rosadinho, se mexia pouco e não chorava.
Eu acompanhava as enfermeiras, com completa inveja delas, vendo-as
cuidar do meu filho.
Fiquei dentro daquele quarto por dias, assistindo-o como se fosse a
televisão, eu não queria perder nada.
— Você está pronto? — prendi a respiração quando a enfermeira me
disse essas palavras.
Arregalei os olhos e impedi que o ar fosse de encontro aos pulmões como
se isso pudesse fazer o mundo parar.
Balancei a cabeça suavemente.
Ela sorriu e me chamou com a mão.
— Com cuidado — ela disse e me entregou Anthony enrolado em um
cobertor. — Segure a cabeça dele assim...
— Oi, campeão — a voz quase falhou. — Você está cada dia mais forte
— toquei suas mãos com o dedo indicador. — Um dia você vai ser mais forte
que eu — sorri e apertei os olhos, sentindo-os formigar.
A enfermeira sorriu e saiu, o médico entrou com uma prancheta na mão.
— Como está, senhor Mitchell?
— Bem — tentei falar suavemente, cada vez que as palavras saíam da
minha boca Anthony franzia a testa e apertava os olhos.
— Espero que entenda que a situação do seu filho é delicada.
— Sim, eu entendo. E agradeço por terem considerado trazê-lo para a
mansão... — sorri.
— Senhor Mitchell — o homem me encarou com seriedade. — O seu
filho pode não sobreviver nas próximas semanas.
O sorriso foi se apagando. Engoli um gosto amargo.
Quem diria que a melhor parte de mim seria tão pequena e viveria fora de
mim?
Doía saber que eu poderia perde-lo a qualquer instante.
— Mas ele parece estar crescendo e engordando um pouco... — tentei me
sentir seguro naquilo que eu havia acompanhado.
— Sinto dizer que Anthony não tem respondido bem aos medicamentos
— ele olhou na prancheta.
— Use outros — encarei-o.
— Estamos fazendo o nosso máximo...
— Não, não estão. Se os remédios não funcionam, eu banco novas
pesquisas para inventarem o remédio que vai curar o meu filho do que quer que
ele tenha.
— A vida é uma coisa delicada, senhor Mitchell... — o médico segurou
em meu ombro e espiou Anthony em minhas mãos. — E imprevisível também...
— Diga logo o que quer dizer.
— Não quero ser pessimista, mas se o seu filho crescer...
— Ele vai crescer.
— Ele será uma criança que demandará cuidados... será frágil... a
imunidade dele é baixíssima e...
— O meu filho nasceu — fui áspero. — E vai sobreviver. Nem que eu
precise trocá-lo por um médico mais eficiente.
Ele engoliu em seco e se afastou.
— Darei tudo de mim, senhor Mitchell — ele rapidamente saiu do
quarto.
O medo de perdê-lo ficou grafado em mim.
E desde cedo eu me cansei de notícias ruins.
Eu queria pelo menos uma vez na vida ouvir algo que me desse
esperança.
Construí minha própria esperança sozinho.
Os médicos disseram que Anthony não passaria do segundo mês... depois
disseram que ele não conseguiria falar... que teria algum distúrbio psicológico...
não conseguiria andar... a baixa imunidade o faria pegar qualquer doença...
Nunca desisti de Anthony.
Seria como desistir de mim.

Beatriz Rodrigues

Comecei a ficar mais tensa que ele.
Li rapidamente as linhas da declaração, atenta às porcentagens, gráficos e
informações médicas. Fiquei surpresa que conseguiram fazer aquilo em tempo
hábil, mas o que o dinheiro não conseguiria?
— Bom... ele precisa tomar algumas vitaminas e acompanhamento
psicológico, sim — procurei quaisquer outras informações importantes, mas não
encontrei. — Aqui diz que Anthony parece um garoto bastante saudável.
Héctor, que estava de olhos fechados, os abriu bem devagar.
— Ei, relaxa — segurei em sua mão — Ele é forte e saudável... deve ter
problemas de falta de vitaminas, como algumas crianças, nada grave.
Héctor concordou devagar.
Antes que ele pudesse falar algo, o garotinho de olhos azuis bem grandes
e bochechas rosadas ficou entre nós dois com a taça de sorvete em mãos.
— Como está o soverte, filho? — Héctor tentou puxar assunto.
— Gelado — Anthony levou a mão direita até a bochecha. — Alex é
meio frouxo — ele olhou de mim para o pai.
— É? O que te faz pensar isso? — Héctor perguntou, interessado.
— Ele anda de uma forma vacilante e quando se debruça no balcão fica
todo jogado para frente, molenga — ele fez uma careta e mexeu a colher no
sorvete. — Ele é muito inseguro.
— Quer ir para casa, Anthony? — perguntei.
— Eu gostei daqui — ele espiou pela grande vitrine que mostrava a rua
lá fora. — É multicolorido. Parece uma árvore de natal. E as pessoas se vestem
como se tivessem perdido o bom senso — ele analisou. — Gostei.
— Então não quer voltar para a mansão? — Héctor perguntou.
— Lá não é tão colorido — ele deu uma nova colherada no sorvete e
depois colocou a mão na bochecha. — Meu cérebro parece um iglu.
— Ok, então você vai conhecer onde o papai mora por aqui — Héctor
falou.
— Se a Bia puder ir — Héctor olhou para mim. — Ela é minha amiga, eu
gosto dela. Me sinto seguro.
— É claro que a Bia estará lá — Héctor anuiu devagar.
— Só espero que a casa não esteja desarrumada e não tenha muitos
germes — Anthony saiu na frente com o nariz empinado e os ombros para fora,
como se fosse o próprio pai.
Capítulo 24
Héctor Mitchell

Carreguei Anthony no colo porque ele dormiu no meio do caminho. Ele
já não era tão pequeno quanto da primeira vez que o peguei. Era grande, pesado
e mesmo com onze anos ele era o meu bebê.
Bia veio logo atrás com sua bolsa, um sorriso fácil escapava em seus
lábios, ela só tomou a frente quando foi para abrir a porta do apartamento.
— Ainda bem que tinha um elevador. Imagina subir todos esses andares
carregando ele — Bia se divertiu.
Só tive tempo para acompanhar seu bom humor quando deitei Anthony
no sofá. Ele virou para o encosto do sofá e protegeu a cabeça com o braço,
continuou a dormir.
— Você fica tão fofo quando olha para ele ou cuida dele... — Bia
segurou em minha cintura. — Quem diria que você tem um coração?
— Acredite, passei metade do meu tempo nos últimos anos olhando e
cuidando dele — tirei o terno preto e cobri meu filho.
Bia suspirou e se sentou no braço do sofá.
— Quero te pedir desculpas.
— Desculpas? — umedeci os lábios.
— Hoje não deve ter sido a primeira vez que te ligaram avisando que seu
filho foi raptado por uma maluca — sua voz começou tensa, depois ela deu um
risinho no final. — Eu não queria causar isso, espero que entenda que...
— Bia — caminhei até ela. Cada passo fez meu coração bater mais forte.
— Sei que você seria incapaz de fazer mal ao meu filho. Afinal de contas, você é
amiga dele, não é?
Rimos juntos. Suas pernas ficaram entre as minhas e eu a abracei contra
o meu tronco.
— Acho que chegou a hora de Amanda ir embora. O papel dela acabou.
Bia arregalou os olhos.
— Eu não...
— Relaxa — a apertei mais forte contra mim. — Ela devia ter ido
embora há muito tempo. Anthony e eu não precisamos mais dela.

Beatriz Rodrigues

Aquelas palavras significavam o mundo para mim.
Eu não queria dividir minhas suspeitas sobre Amanda para não parecer
ciumenta ou conspiratória. Não queria pressioná-lo porque talvez eu não tivesse
voz o suficiente para peitá-lo nisso.
— Acho que só precisamos de você agora — Héctor terminou de
amolecer meu coração.
Fechei os olhos, meus dedos agarraram a camisa social com força e uma
paz invadiu todo o meu ser.
Eu não queria ser a outra, desestabilizar o lar dele e fazê-lo tomar
escolhas difíceis.
Eu só queria curar o que podia ser curado. Ajudar no que podia ser
ajudado. E retribuir tudo o que ele havia feito por mim.
— Infelizmente eu tive de me ausentar da vida do meu filho durante os
últimos seis meses — Héctor suspirou alto. — Parece que esses seis meses
foram uma eternidade e mudaram a nossa relação...
— Pare de se culpar pelo passado. Você tem todo o presente e o futuro
pela frente — foi a minha resposta. — Vocês podem recomeçar. Sempre é
possível recomeçar.
— Graças a você, sim — ele beijou a minha testa.
— O que aconteceu seis meses atrás que você precisou se afastar,
Héctor?
Héctor se afastou subitamente e não olhou para trás.
Anthony acabou acordando meio atordoado, olhou ao redor espantado
por estar em um lugar desconhecido e se sentiu mais tranquilo ao ver um grande
quadro na sala, uma pintura dele mais novo.
— Estou em casa? — ele perguntou, admirado.
— Está sim — segurei em seu pé e balancei bem devagar.


Héctor Mitchell
6 meses atrás.

— Você é horrível nisso — meu pai foi ranzinza enquanto eu fazia o nó
de sua gravata preta.
No fim ele bateu as mãos nas vestes pretas e colocou sua máscara. Virou-
se completamente para as duas colunas que ficavam diante a entrada da sala de
reunião do Grande Templo e deu um passo à frente para entrar junto com os
outros irmãos.
Os irmãos entraram, ele ficou.
Veio até mim e me encarou enquanto eu colocava a minha máscara.
— Você deveria ser o cara que comanda tudo por aqui, A Mão Oculta...
não se contentar em ser o segundo no comando...
— Gosto de ser o secretário — sorri com gentileza.
— Smith era o secretário. Foi ele quem lhe delegou essa tarefa que não
faz jus ao seu verdadeiro poder — ele me bajulou, não sei se para arrancar
informações ou o quê. — Você tem potencial para mais! Na idade do Anthony eu
já estava te preparando para...
— Não mencione o Anthony — rosnei.
— Filho — meu pai segurou em meus ombros e me encarou com
seriedade. — Ele é o seu sucessor, é o seu filho. Já passou da hora de protege-lo,
ele pertence à Ordem, ele precisa ser treinado para...
— Basta — rosnei. — Não permitirei que meu filho viva a vida que eu
vivi — me afastei.
— Espero que recupere o juízo um dia — meu pai foi em direção a porta.
—Até lá temos assuntos maiores para resolver — ele balançou sua capa e entrou
na sala, descontente.
Massageei as têmporas e respirei fundo, estressado com tantos assuntos
para resolver.
Derick Von Grant, Mão Oculta da Ordem, desceu as escadas quando não
havia mais ninguém no hall, a não ser eu. Seu longo cabelo loiro escuro estava
dividido em duas partes: a mais alta presa em um rabo de cavalo, a mais baixa
solta descendo pelos ombros.
Ao parar diante de mim ele consertou a própria máscara e asseou a barba,
entregou-me o livro de capa de couro preta que era a ata de todas as reuniões
desde a fundação do Grande Templo que datava desde a fundação da cidade de
Nova York.
— Não quis atrapalhar a reunião de família — ele tentou ser simpático.
— Deveria — contrapus.
— O seu pai está certo, Héctor — Derick me olhou de igual para igual.
— Você seria um líder melhor do que eu.
— Você tem estado tanto tempo ao redor dos políticos que já fala como
eles — provoquei.
— Eu sempre te admirei, desde a faculdade. Você protegeu aquele
nojento do Geoffrey quanto todos queriam linchá-lo por ser um babaca e gerar
conflito entre os irmãos da fraternidade... e ainda mais por tentar criar seu filho
longe do olho do furacão, quando todos aqui só pensam na continuidade de seus
legados...
— O meu legado é permitir que meu filho viva bastante e sem peso na
consciência — fui sincero.
— E é por isso que seria o melhor líder — Derick assentiu. — Entre
primeiro, por favor.
Entrei, passei pelo chão xadrez preto e branco e me posicionei em meu
lugar, ignorei todas as reverências que os irmãos do templo me fizeram.
Derick entrou depois, marchou devagar até a mesa diretora e também
ignorou as reverências.
Ele rapidamente começou a reunião e se sentou. Foi minha vez de
prosseguir com a leitura da ata da reunião passada, e aprovada, dei baixa nela e
prosseguimos.
— Meus irmãos, filhos dos Pais Fundadores e membros do Egrégio
Grande Templo da Ordem Illuminati de Nova York — foi assim que ele
começou, como era de praxe. — Agradeço que tenham escutado o meu chamado
e vindo a mim, como bons filhos que são.
Nas dezenas de cadeiras estavam os donos do estado. Todos aqueles que
faziam a economia girar e tinham poder político estavam ali. A minha família era
representada pelo meu pai, eu representava a família Smith. Era um duplo dever.
Derick respirou fundo e olhou nossos colegas de mesa, éramos em cinco,
cumprimentou-os rapidamente e desculpou-se por estar aéreo.
— Como todos nós sabemos, estamos atentos às transformações
mundiais desde o fim da última década por um motivo especial. A China e a
Rússia passaram por um rigoroso inverno e as previsões dos mais consagrados
economistas era de que com o passar dos anos, quando saíssem desse inverno,
eles teriam terra e mão de obra hábil para ultrapassar a nossa economia. A China
principalmente.
Após anotar o passo a passo da ritualística comecei a anotar o discurso de
Derick.
— Com terra, mão de obra e alianças formadas por todo o mundo,
poderemos ser ultrapassados em breve e essa não é mais uma previsão, mas uma
realidade. Em 2001 para fazer a máquina funcionar e ter uma justificativa
plausível para a guerra, além de nos aproximar da fronteira dessas potências que
correm conosco para ser a cabeça do primeiro mundo, foi uma decisão acirrada
desse e de todos os outros Grandes Templos dos Estados Unidos, que
começássemos uma guerra. Uma guerra pelo poder, pela soberania, pelo status e
acima de tudo, pela segurança do Ocidente. Além de que, diferenças à parte, o
futebol americano e a corrida imperialista são os esportes favoritos de todos nós.
Todos riram e trocaram conversa paralela naquele instante.
Derick era extremamente carismático, por isso era um excelente líder.
Eu era apenas o cara fechado que tentava proteger a todos da influência
que o poder poderia lhes causar.
— Para colocar em xeque o poder e a influência de nossos concorrentes
no que diz respeito à nossa segurança nos países vizinhos, perturbamos de forma
constitucional os poderes democráticos para ter o controle político,
principalmente da América Latina e enfraquecer suas alianças com os antigos
países comunistas.
Aquilo foi comemorado por todos.
— E como todos sabem, já estava sendo negociado há um tempo que o
nosso exército no Iraque retornasse para casa e ele retornou em fevereiro — ele
pontuou tudo calmamente para que todos acompanhassem. — O que eu digo
agora é de extremo sigilo e importância inexorável, um segredo de estado. O
nosso exército irá retornar para o oriente.
— Para o Iraque? — um dos irmãos perguntou.
— Precisa ser naquela região, próximo à fronteira Russa. Eles têm Cuba
aqui, precisamos de uma “Cuba” lá. Um ponto estratégico de guerra que possa
servir de canal para nossas ações, para que a guerra não se aproxime de nosso
território.
— E como conseguimos essa informação? — um antigo irmão muito
conservador perguntou.
Derick o respondeu com um olhar retórico que dizia tudo e mais um
pouco.
— Estamos espionando o presidente? — o homem se levantou, insultado.
— Ele é um de nós, sabia o preço do poder — Adrian Cavalieri, o mestre
do templo, tomou a palavra.
— Todos eles eram um de nós — Ethan Evans riu, só nesse instante que
percebi que ele estava ali, no canto. — Sabem como o jogo funciona.
— Essa espionagem dos Democratas...! — o irmão conservador se
levantou e alterou a voz. — Perseguição política!
— Metade dos irmãos aqui são Republicanos — Ethan retrucou, com
todo o desdém do mundo. — A parte mais insensata, conservadora e atrasada,
obviamente, mas a democracia é isso aí.
Derick bateu com o martelo três vezes e todos se calaram.
— No Grande Templo estamos acima das divisões de Republicano e
Democrata. Aqui somos todos irmãos, descendentes dos Pais Fundadores dessa
nação. Respeitem o espaço sagrado construído pelos nossos ancestrais com luta,
glória, poder e honra!
Todos se calaram e Derick me encarou.
— Pode registrar a discussão, é sempre bom lembrar que os anos passam
e eles ainda brigam como universitários que acabaram de se politizar.
Concordei e voltei a anotar.
— O presidente vem buscando o melhor lugar para posicionar as tropas,
o Iraque é a possibilidade mais óbvia, mas acabamos de sair de lá. O intuito é
criar o clima de Guerra Fria, impor respeito e mostrar que estamos prontos para
ir com tudo, é como um aviso para que saibam que não estamos de brincadeira.
A inteligência do governo estuda, no momento, qual justificativa usar. Precisa
ser algo mais sentimental e invasivo que apenas “os terroristas”. Precisa ser algo
que faça o mundo esquecer o nosso poder bélico e pense “eles mereceram”.
— Poderiam invadir a Turquia — um dos irmãos sugeriu.
— Já fizemos aquela interferência na Turquia — outro retrucou.
— Afeganistão — outro chutou.
— Já estamos em guerra no Afeganistão — eu revirei os olhos.
— Nepal.
— Colado na China? Não se lembra do Vietnã?
— Pelo amor dos Pais Fundadores, não vamos falar do Vietnã.
— Síria — uma voz chiou.
Todos se calaram e olharam para o meu pai.
— São todos terroristas por ali — ele concluiu.
— Contanto que não derrubem mais um prédio de Nova York que matem
todos os comunistas e terroristas — o velho conservador ralhou e se sentou.
— Não cabe a nós decidir onde será o próximo canal de ataque. Isso já
está sendo decidido. O meu papel é vir aqui e tornar claro e transparente todo o
processo e assegurá-los de que a guerra não se aproximará de nosso território.
— A Rússia vai revidar se chegarmos tão perto — meu pai comentou
alto. — Sem falar da Coréia do Norte. Alguém precisa parar aquele homem e
mostrar que não estamos no colegial, a conversa é séria aqui.
— É a oportunidade do nosso presidente mostrar a quem ele é leal —
Derick fez um aceno com a cabeça. — E é a nossa contribuição para a nossa
valiosa indústria da guerra onde todos nós e nossas famílias saem ganhando. Foi
assim na Primeira, Segunda Grande Guerra e nas atuais intervenções como no
Iraque e Afeganistão.
— Por que sempre é preciso um Republicano para colocar ordem na
casa? — um dos antigos irmãos chiou. — Reagan, Bush, agora o Trump... Vocês
democratas ficam tão preocupados com a imagem que tem que sempre fazem o
país decair na economia e perder sua credibilidade e soberania internacional.
— Claro, porque o cara de doritos era a melhor opção — outro revirou os
olhos.
— O muro! Queremos saber do muro! — outra voz surgiu no escuro.
— Às vezes eu me pergunto se estou no sanatório — Derick respirou
fundo e murmurou.
— Então permita-me te responder — limpei os lábios e encarei os
homens poderosos que nos rodeavam: — Estamos.
Eu nunca entendi a tranquilidade do senhor Smith ao ver as torres
gêmeas caírem.
Até estar no seio do poder e ver a cara de todos aqueles homens, tão
calmos quanto o senhor Smith, já visualizando os bilhões em suas contas devido
a guerra e os problemas que surgiriam com ela.
Esse era o preço da guerra.
—... Menos a do Vietnã, que não foi tão lucrativa — um deles lembrou.
— O próximo que falar “Vietnã” dentro do Templo será expulso! —
Derick rugiu.


Capítulo 25
Beatriz Rodrigues

Héctor não estava brincando.
Na sexta-feira Amanda foi embora. Não sem se despedir, é claro.
Ouvi as batidas na porta do quarto e meu sexto sentido me disse quem
era e o que queria.
Guardei as pinturas de Serena na mala e a joguei debaixo da cama, abri a
porta o suficiente para que ela me visse e não dei espaço para que entrasse.
— Pode comemorar — ela destilou seu veneno.
— Não tenho o que comemorar, só ficar aliviada — respondi com
franqueza.
— Aliviada de não haver mais concorrência para você nessa casa? —
Amanda debochou.
— Sinceramente, Amanda, eu nunca te vi como concorrência. Por que
para ser minha concorrente você precisaria fazer o que eu faço pelo menos
razoavelmente. E nós duas sabemos que você está muito abaixo disso — foi a
minha vez de destilar o meu veneno, só que com classe.
Amanda ficou vermelha. Inflou os peitos, encheu as narinas e quase
gritou.
— Ele vai te descartar, como fez comigo! — seus olhos ficaram rígidos,
vermelhos. — Passei onze anos da minha vida me entregando, me dedicando,
dando tudo de mim! O tempo chegará para você também. Você não passa de uma
esposa de mentirinha com quem ele tem passado tempo agora, mas um dia ele
vai te chutar daqui.
Foi a minha vez de inflar os peitos e encher as narinas.
— Amanda, seria menos desgastante você sair pela porta da frente sem
precisar ouvir algumas coisas, mas eu te direi todas elas.
— Diga — ela riu.
— Eu não te conheço, não sei de onde você vem ou para onde você vai.
Mas o que vejo é que você é superficial. Nunca se interessou verdadeiramente
pelo Héctor, só pelo que ele podia te oferecer. E nunca gostou do Anthony, você
aterrorizava, maltratava e envenenava o menino!
Amanda arregalou os olhos.
— É, eu sei — abri um sorriso de canto. — E não, não precisei contar a
Héctor. Eu não precisei te pintar como a bruxa que é para que ele te mandasse
embora da vida dele e do filho. Eu só precisei fazer em três meses o que você
não fez em onze anos.
Um tapa teria doído menos.
— Eu ouvi o Héctor, o deixei confortável para que ele se abrisse e
dissesse o que estava preso, eu entendi o que era importante para ele, assim
como ele sabe o que é importante para mim e o ajudei a superar algumas coisas
do passado. Aliás — umedeci os lábios, rindo por dentro. — Héctor me teve por
inteira. A verdadeira eu. E eu me entreguei a ele como eu sou, não para tentar
agradá-lo. E não sou eu que estou indo embora agora.
— Como ousa?
— Eu não sei o que diabos você fez com o Anthony, mas ele está se
recuperando. Está ficando independente, forte, cada vez mais esperto. Diferente
de você, eu não permiti que eles criassem dependência por mim por puro
comodismo. Eu permiti que eles pudessem dar seus próprios passos e serem
independentes de mim. E assim, quem sabe, no dia em que eu sair por aquela
porta por vontade própria, talvez eles me peçam para ficar. Não para ir.
Amanda me deu as costas e saiu apressada.
— Não vá muito longe, Amanda! Quando eu descobrir o que você fez
com Anthony todo esse tempo, a polícia e eu vamos bater na sua porta!
Ela sequer olhou para trás.

Héctor Mitchell
— Acho que não estou acreditando no que estou vendo.
O jardim parecia outro lugar.
Aprisionado dentro de muros tão altos e abandonado há quase uma
década o local era inabitável. Por vezes eu quis arrumar tudo, reconstruir o lugar,
torná-lo lindo de novo, mas eu não tinha tempo.
E aquele jardim merecia muito mais do que uma dezena de operários
reconstruindo o lugar.
Aquele amplo espaço fora palco de reuniões do Grande Templo e era o
lugar favorito de Serena.
— Como você fez tudo isso? — Encarei Bia.
— Um pouquinho a cada dia... juntar o entulho... jogar fora... preparar a
terra... plantar as sementes... bom, o ócio me deprime, então tive que arranjar
algumas coisas para fazer.
— Mas não precisava.
— Eu queria. Gosto de cuidar da natureza, já te disse que nasci no
interior. Espero que tenha gostado. Considere como um presente. Quando eu me
for, espero que esse lugar possa te fazer lembrar um pouco de mim.
— Quando você for? — perguntei, interessado.
— Quando o contrato acabar — Bia cruzou os braços e olhou ao redor.
Aquela ideia me deu uma sensação terrível de incerteza.
De repente um ano ao lado dela pareceu como uma semana.
O tempo havia passado voando desde que nos casamos. E sua companhia
nunca fora pesada, desgastante ou pedante.
Bia, na verdade, era refrescante. Me surpreendia o tempo todo com lados
seus que eu sequer poderia ter imaginado.
— E se eu pedir para você ficar?
Tive a sensação que Bia parou de respirar.
Ela ficou petrificada olhando para frente, o barulho da estátua jorrando
água começou a ficar alta devido ao nosso silêncio.
— Mas uma hora eu vou ter que ir embora, certo, Héctor? Não posso
ficar aqui para sempre... — ela cruzou os braços.
— Por que não?
Bia virou o rosto suavemente, estava corada, evitou o contato visual
quando percebeu que eu a encarava apreensivo.
— Prefiro ir embora no ápice do que ver você se cansar de mim e ficar
aqui feito um quadro velho ocupando espaço na parede — ela voltou a olhar para
frente.
Segurei em seu ombro e me aproximei com lentidão até abraça-la por
trás. Encostei o queixo em cima da cabeça de Bia, que riu com a situação.
— Todo dia contigo é o ápice, Bia.
— Hum...
— Você me despertou outras fomes que vão além do sexo. A fome de me
sentir vivo, cuidado, atendido, a fome de querer cuidar, proteger, ajudar, dar o
meu melhor, redescobrir alguns talentos...
— Como dançar pelado em volta de velas... — ela riu.
— Ou só admirar o seu trabalho impecável no jardim... em Anthony... e
em mim...
— Quando você fala assim parece grande coisa...
— Mas foram grandes coisas. Antes de você esse lugar... era só uma
mansão onde vivíamos e dormíamos.
— E o que ela é agora? — ela provocou.
— Algo que lembra um lar.
Tateando seus ombros, trouxe-a para mim e a beijei.
Com todo o ardor e calor que eu guardava e não queria mais esconder.
Era uma sensação estúpida, adolescente, floreada pelos hormônios,
medíocre para uma pessoa como eu.
A vontade de ser dela, de tê-la só para mim, de viver aquele sentimento
até que ele me deixasse extasiado, anestesiado, dizimado em meus próprios
pedaços.
O frio na barriga, o calor no peito, o suor nas mãos, a certeza de que eu
estava apaixonado.
— Bia — a chamei.
— Sim — ela continuou de olhos fechados, os lábios entreabertos, pronta
para um novo beijo.
— Me desculpe, acho que eu não serei capaz...
— Capaz de quê? — ela abriu os olhos.
— De deixá-la ir embora.



Capítulo 26
Beatriz Rodrigues

Enfim tudo estava em ordem e eu não podia estar mais feliz.
Nada mais me afligia e o medo não era mais opção. Não que eu superei a
morte de Clair, mesmo que não nos conhecêssemos tão profundamente, perde-la
foi um choque. Mas agora eu não me sentia mais uma estranha no ninho.
Uma profunda sensação de pertencimento tomou conta de mim.
Quando realizei que enfim me sentia em casa, em família, ao invés de
uma esposa de contrato, enfim eu pude me sentir aliviada.
Héctor me fez sentir realmente amada e suas palavras me balançaram.
Não haviam cinco meses desde o início do contrato, mas uma hora eu
precisaria pensar sobre ir embora.
E ouvir da boca dele que seria difícil me deixar ir embora ascendeu uma
fagulha estranha dentro de mim.
Me joguei na cama com um largo sorriso, completamente perdida
naquele conto de fadas e extasiada em saber que não havia mais Amanda ali para
atormentar Anthony e tentar competir comigo não sei em quê.
Não havia mais perigo. Tudo caminhava para um final feliz.

Héctor Mitchell

Ethan me entregou um HD externo com tantos áudios que fiquei zonzo.
Fiz uma careta e coloquei o objeto na mesa.
— Você jura que terei tempo para ouvir tudo isso?
— Foi o que me perguntei quando peguei todos os arquivos de áudio que
o notebook do seu filho captou — Ethan abriu um sorriso de escárnio. —
Felizmente Anthony é um menino quieto, não gosta de falar. A maioria das
coisas que ouvi são dele em jogos online gritando ou lendo em voz alta.
— Então não deve ter nada de importante — olhei o relógio no pulso,
depois a tela do celular. — Derick e Adrian estão atrasados.
— Você parece tenso — Ethan suspirou. — Quando eu olho para você,
seu semblante fica tenso.
Arqueei a sobrancelha e o encarei, assustado.
O sorriso de escárnio de Ethan foi crescendo. Acabamos rindo juntos.
— Às vezes você me assusta — cocei os olhos com os dedos indicadores.
— Alguém tem que trazer o bom humor — Ethan mexeu nos óculos
escuros e olhou para o vazio. — Você anda tenso ultimamente — ele retornou ao
assunto. — Tem a ver com o seu filho? A Beatriz? A Amanda?
— Nada disso, você sabe.
Ethan ficou sério repentinamente.
— Héctor, você não pode se culpar.
— É difícil dormir a noite — eu disse com simplicidade.
— Sua empresa trabalha com energia nuclear. Sempre foi assim. As
pesquisas feitas pelo Smith e depois pelo seu pai deram novos rumos às bombas
nucleares. Vocês fazem isso junto com o governo. Se o maluco usa isso para
destruir países...
— Eu me pergunto: e se fosse o meu filho? Sabe, e se bombas
explodissem no Hamptons de madrugada? Eu não consigo dormir, Ethan —
soprei todo o ar que pude.
— Essa foi a desculpa que o Smith te deu, não foi? “Continue as
pesquisas, use a ideia de energia renovável só para encobrir o que estamos
fazendo aqui, vamos revolucionar tudo pelo bem maior. Pense no seu filho. É
para protege-lo”.
Conforme as palavras saíam da boca de Ethan eu arregalei meus olhos.
— Como você...?
— Eu conhecia o Smith — Ethan cruzou os braços. — Ele que fez a
minha sindicância para entrar na Ordem. Pergunte ao Ricardo Leão quando
encontrá-lo. Aquele cara era doente.
Concordei.
— Ricardo dizia que se você olhasse por muito tempo dentro das pupilas
do Terence, era possível ver o próprio diabo — Ethan coçou a testa. — Não
precisei ver para saber. A forma como ele usava as palavras, o mínimo pudor em
ser cruel... não me admira que o filho é problemático.
— Você diz como se meu pai fosse inocente. Ou como se eu não tivesse
nada a ver com isso — desviei os olhos para a janela que dava para a Wall
Street.
— Seu pai tem um bom coração, só se deslumbrou pelo poder — Ethan
tirou o celular do bolso e o passou lentamente em frente ao corpo.
Quando uma voz suave saiu do celular ao identificar uma garrafa
“Whisky” e depois “copo”, ele esticou o braço, pegou a garrafa como se pudesse
vê-la e colocou no copo sem precisar tocá-lo, ele tinha uma excelente noção de
espaço. E a sua tecnologia era uma mão na roda.
— E eu? — engoli em seco.
— O que dizer de Héctor Mitchell? — Ethan riu. — Você é exatamente
como na faculdade. Quer ser o pai de todo mundo, quer proteger cada um,
inclusive o Geoffrey.
— Acha que...
— Não acho que espionar seu filho seja algo ruim. Ele é o seu filho, está
na internet, nunca se sabe para quem ele pode entregar informações, ser
hackeado, ser vigiado por outras pessoas... É unânime que você deveria ser A
Mão Oculta da Ordem. Todos te respeitam — ele deu um gole no líquido. — E
tem medo de você, o que é bom.
Ethan mal terminou de falar, Derick e Adrian entraram na sala.
— Novidades? — perguntei para Derick.
— Esse clima de Guerra Fria é o protocolo, Héctor. Não há com o que
se preocupar — Derick garantiu e se sentou à mesa.
— Estou vigiando o Geoffrey e o pessoal que trabalha para ele. Um
movimento em falso e meus homens agirão — Adrian garantiu.
— Vocês considerariam que isso pode ser ação terrorista? Espionagem
industrial? Algumas peças não se encaixam — Derick escorou a cabeça nos
punhos cerrados.
— Nem sempre é culpa dos Russos, meu caro — Ethan falou.
— Às vezes o culpado pode ter olhos puxados — Adrian riu.
Voltamos todos a olhar para Derick, no caso de Ethan, ele virou o rosto
para o homem.
— Bom, depois que descobrimos que haviam indícios de que seu pai foi
envenenado, realmente ficamos paranoicos. E essa morte suspeita da colega de
casa da sua esposa não ajuda também...
— Não adiantou muito fazer uma lista de possíveis inimigos do Héctor,
assim como uma legião de nós o admira, isso deixa implícito que uma legião lá
do outro lado não deve gostar muito dele. E depois que descobrimos que um
espião chinês vinha no grupo de pesquisadores para a Mitchell & Smith... —
Ethan coçou o queixo.
— O que acham que eles estão tramando? — Adrian ficou tão impaciente
que se sentou.
— O ataque a Síria não vai ficar sem respostas — confabulei.
— Não foi você quem apertou o botão — Derick tentou ser otimista.
— Não, ele só é o CEO de uma empresa que finge trabalhar com energia
sustentável e tem pesquisadores em todo mundo, que na verdade são espiões e
roubam propriedade intelectual relacionado a energia nuclear. Ele é só o
engenheiro que pesquisou e ajudou a construir os novos modelos de bombas —
Ethan mostrou todo seu otimismo.
— Como Mão Oculta e chefe de todas as famílias é o meu dever manter
todas as famílias seguras, e isso inclui a sua — Derick me encarou.
— É — anuí sem expressar qualquer sentimento.
— Você contou a Beatriz que enviou alguns dos nossos melhores
atiradores para proteger a família dela no Brasil? — Ethan voltou a encher o
copo com whisky.
— Claro que sim. Depois lhe contei com o que realmente trabalho. Nos
beijamos e tudo ficou bem — foi minha vez de abrir um sorriso de escárnio.
Esperava que pelo tom Ethan conseguisse perceber minha intenção.
Em resposta ele fez uma careta.
— Vamos deixar a paranoia de lado e voltar à estaca zero — Ethan
rosnou.
— Novamente? — Adrian ficou consternado. — Droga, e se algo
acontecer nesse intervalo?
— Não vai. Quem quer que seja, sabe que estamos de olho. Não vai agir
— Derick se levantou. — E semana que vem temos golfe — ele fez um sinal
com as mãos que nos fez entender o que aquilo significava.
Ethan pigarreou.
— Vocês sabiam que no Brasil eles fazem um leilão ao invés de jogar
golfe? — ele perguntou.
— Parece sem graça — Adrian se levantou também. — Vou ficar de olho
no verme do Geoffrey — ele disse e saiu.
— Como está o seu pai? — Derick perguntou antes de sair.
— Está estável. Desde o momento em que descobrimos indícios de
envenenamento colocamos atiradores de elite por todo o hospital e alguns
agentes nossos na ala de enfermaria por lá. Só precisamos aguardar ele acordar e
descobrir o que realmente aconteceu. Talvez isso nos ilumine.
— A luz sempre vem — Derick se despediu.
— Héctor — Ethan me chamou a atenção.
— Sim?
— Talvez você queira ouvir os áudios mais recentes que coletei — ele
tamborilou os dedos na mesa e se levantou, colocou as mãos no bolso.
— O que eles têm de especial?
— Seu filho conversando com a nova madrasta — Ethan sorriu. —
Parece que ele não apenas descobriu, mas encontrou o que precisava.
— Não sei se quero invadir a privacidade deles assim — voltei a olhar
para o HD em cima da mesa, havia até esquecido que o objeto estava ali.
— Para pessoas como nós a privacidade é uma ilusão. Cada cidadão
desse mundo é um livro aberto em nossas mãos — ele pegou a garrafa em cima
da mesa após passar a mão com cuidado de um lado para o outro. — Vou ficar
com isso. É do estoque particular do Smith, não é?
— É. É sim. Pode levar.
— Ricardo e eu roubamos algumas após o desgraçado fazer a nossa
sindicância — Ethan abriu um sorriso de canto.
— Ele que me viciou nessa merda — falei, pisquei os olhos e vi
nitidamente a cena, muitos anos atrás, quando o líquido queimou todo o meu
corpo e me anestesiou após ter visto uma das piores cenas da minha vida.
— Tomara que ele esteja queimando no inferno — Ethan saiu balançando
a garrafa.
Capítulo 27
Beatriz Rodrigues

No final do domingo tive uma visita inesperada.
Após ter passado o dia com Anthony repassando alguns exercícios que
eu não fazia ideia de como resolver e sondar o que ele achava de ir para uma
escola, ter colegas, conhecer pessoas, voltei para o quarto e tentei mais uma vez
desvendar todos aqueles símbolos nas pinturas de Serena.
Definitivamente não eram a assinatura dela, mas seguiam um padrão.
Os símbolos se repetiam e já estava bem claro que eram frases.
Talvez citações de grandes pensadores do mundo...
Mas por que escrevê-las em símbolos?
Tomei um susto quando a porta do quarto se abriu de repente. Não era
Hillary que tinha o péssimo hábito de fazer isso... muito menos Yone, que
sempre batia antes de entrar.
Era a irmã mais nova de Héctor.
— Hey! Espero não estar atrapalhando! — ela disse, com a cabeça para
dentro do quarto.
— Não está. Ainda bem que não me pegou desprevenida... — ri de
nervoso.
— Desculpa — ela entrou e fechou a porta. — Você vai perceber que não
é hábito da minha família bater na porta, eles simplesmente saem entrando...
Que estranho.
— Laurel, não é? Me desculpa, é que não nos vemos há...
— Relaxe — ela abriu um longo sorriso e olhou as pinturas em cima da
cama. — Ah, você pinta?! — ela se aproximou devagar, não tocou em nada. —
São tão lindas!
— Não, não. São as pinturas da Serena — eu disse, perguntando-me se
ela tinha conhecimento das obras. — Estavam sumidas... tive a sorte de
encontra-las.
— Ah! — Laurel disse excitada. — Ouvi falar nelas, sim, faz muito
tempo! São relíquias da família!
— Sim... pretendo colocar todas em quadros e espalhar pela casa depois
de... — parei de falar subitamente.
Laurel balançou a cabeça, esperando que eu finalizasse a sentença.
— Depois de...?
— Bom... eu só estou tentando entender os símbolos que ela escreveu
atrás das pinturas.
— Não seria a assinatura? — Laurel tomou a liberdade de pegar uma das
obras e olhar sua parte traseira. — Hum... acho que não.
— Embora sigam um padrão, nunca são os mesmos símbolos — mostrei
o fundo de outra. — Ai, é bom falar disso com outra pessoa, Hillary não se
interessa por nada que me interessa.
Laurel concordou e continuou olhando a parte traseira das pinturas.
— Na verdade, eu tenho um motivo por não ter batido... — seus olhos
subiram dos símbolos para os meus olhos. — Minha mãe está a caminho — ela
comprimiu os lábios, como se me desejasse boa sorte.
— Curioso, eu nunca vi vocês por aqui... — falei alto.
— Ela não gosta daqui — Laurel voltou aos símbolos. — Meu pai se
encontrava com as amantes nessa mansão. Daí ela mandou derrubar tudo. Héctor
decidiu comprar do nosso pai e dar para o Anthony — ela cruzou os braços.
— Eita.
— Você olhou o fundo de todas elas? — Laurel perguntou.
— Olhei sim... — dessa vez fui eu que comprimi os lábios.
— Todas mesmo? — ela apontou para o quadro em frente à minha cama.
De repente me veio um estalo de “Eureka” que me deixou paralisada.
Como eu não havia percebido antes?
Jurava que tinha visto o fundo de todas as pinturas, mas de repente me
toquei que não. Faltava uma.
A que estava bem debaixo do meu nariz. Ou melhor, bem diante dos
meus olhos, todos os dias.
— Você é um g...!
Mal terminei a frase, a porta se abriu.
— Eu te disse — Laurel murmurou ao me olhar e segurou minha mão. —
Boa sorte! — ela desejou e saiu do quarto quando a senhora Mitchell escancarou
a porta.
A mulher parecia feroz.
Não faço ideia do que fiz para ofendê-la, mas pelo visto eu tinha atingido
seu pior lado.
Ela bateu a porta atrás de si e me encarou como se eu fosse uma criança.
Andou pelo quarto e espiou através da janela, depois cada perímetro do cômodo,
então parou diante de mim.
Eu nem liguei.
Permaneci encantada olhando o quadro diante de mim, ansiosa para
descobrir o que aquelas frases significavam.
Talvez fosse muita animação para nada. No fim, as frases poderiam ser
“ser ou não ser, eis a questão” ou “vencedores: vence dores”.
— Dormem em quartos separados — ela disse em voz alta, não sei se
estava falando comigo ou fazendo uma anotação mental.
Na dúvida balancei a cabeça.
— Que tipo de meretriz é você? — ela sibilou.
— Como? — permaneci sentada.
— Que tipo de mulher é você?
Era para eu me definir? Nunca consegui nem no Orkut.
— Me desculpe, senhora Mitchell, eu não entendo...
— O que é tudo isso? — ela apontou para as pinturas.
— Obras da Serena. Eu as encontrei — preferi não entrar em mais
detalhes.
A senhora Mitchell se aproximou da cama como se tivesse ojeriza do
móvel, de mim, do ar que respirávamos juntas.
Pegou uma pintura e a examinou de cima a baixo, depois outra, não foi
para a terceira, apenas viu panoramicamente tudo o que havia por ali e fez uma
cara azeda.
— Você não pode simplesmente entrar aqui e colocar a casa de cabeça
para baixo — ela começou, pelo visto, era por isso que havia vindo. — Afastou a
babá do meu neto... não permite que ele veja o médico que o acompanha desde o
nascimento... coloca os criados para jantar na mesa principal...
Até então só ouvi elogios, por isso sorri.
— Quem você pensa que é? — ela se aproximou de uma forma que me
amedrontou um pouco.
— Estou cuidando das coisas por aqui — foi a resposta mais simples que
encontrei. — Estou tentando construir um lar...
— Você não passa de uma meretriz barata que será enxotada quando meu
marido acordar — ela cuspiu as palavras. Foi aí que percebi que não era elogio
algum. — Você não é nada, nunca foi nada e nunca será nada — ela
praticamente recitou Tabacaria.
— Eu não entendo...
— Por isso vim aqui fazê-la entender — a senhora Mitchell mostrou-se
solicita.
Fiquei atenta.
— Você não passa de um objeto sexual que existe para ser usada e nada
mais. Não pode agir como a dona da casa, você não é a dona dessa casa. Os
criados devem ficar no seu devido lugar, você não deve interferir na vida do meu
pobre neto frágil, ele é instável, doente...
— Mas Anthony... — tentei explicar.
Ela riu.
— O que uma menina como você pode me dizer ou ensinar? — ela
cruzou os braços. — Escute calada.
Comprimi os lábios.
— O meu pobre neto já tem problemas suficientes, não precisa de uma
prostitua baixa e imoral como você para acabar com a pouca sanidade que lhe
resta. Pessoas como você só trazem a ruína e a desgraça, nada mais que a
podridão acompanha pessoas como você.
Abaixei o rosto. O que eu tinha feito de errado?
— Diga-me um valor.
— Quê? — levantei o rosto para encará-la.
— Qualquer valor. Um que seja o suficiente para que você faça uma
longa viagem e só retorne para assinar o divórcio quando assim for solicitado.
Meu Deus, tudo estava indo tão bem...
E de repente...
O que aconteceu?!
— Senhora Mitchell, eu...
— Meio milhão? Um milhão? — ela tirou um talão de cheques da bolsa.
— Cinco? Cinco é o suficiente?
Era muito dinheiro. De verdade.
Com cinco milhões de dólares eu poderia viver uma vida toda sem me
preocupar com trabalho ou até mesmo ter medo da crise no Brasil.
Com cinco milhões eu poderia comprar uma fazenda luxuosa em Minas e
dar aos meus pais a aposentadoria que eles mereciam após tantos anos de
trabalho...
— Dez?
— Senhora Mitchell, eu sinto muito, mas eu não posso aceitar.
Ela rasgou uma das folhas do talão, assinou e a estendeu para mim.
— Aceite.
— Eu não posso, eu...
— Você é descartável — ela cuspiu as palavras. — Não serve para nada,
não tem utilidade nenhuma. É apenas uma sortuda que caiu na vida fácil e
chamou a atenção do meu filho. É a fraqueza de homens como ele — ela franziu
a testa, mostrando as marcas de expressão com nitidez. — Buscam a selvageria,
a decadência, a imundice e podridão em prostitutas como você.
Não peguei o papel. Então ela o jogou em cima da cama.
— Assine um valor, qualquer valor, pegue o dinheiro e volte para o seu
terceiro mundo desgraçado. Aquela terra de gente mestiça, imunda e pobre —
ela empinou o nariz e deu-me as costas.
— Eu não sou essa mulher — murmurei.
— É claro que não — ela disse antes de sair. — Você é pior que um
bicho. Ao menos os bichos aprendem a obedecer. Então evolua da fase em que
está e obedeça.
E assim ela saiu.
Quando a porta se fechou eu tentei digerir tudo o que tinha acontecido.
E quanto mais eu tentava me lembrar das palavras da mãe de Héctor mais
enjoada eu ficava.
Deitei na cama, paralisada, perdida em meus pensamentos, consternada
por ter sido tratada assim, e preocupada com o que eu havia feito para merecer
aquilo.
Cada coisa que fiz não foi por mal, apenas a tentativa de me sentir em
casa e fazer com que Anthony e Héctor também sentissem que aquele era o lar
deles, não apenas o teto em que dormiam.
— Merda! — tapei o rosto e chorei amargamente.
Nenhuma palavra saiu além dessa.
Chorei e quanto mais eu chorava mais eu me sentia zonza, perdida,
nauseada.
E no meio do desespero e da raiva, abrindo os olhos marejados e turvos
para me castigar um pouco mais, eu vi o quadro com o autorretrato de Serena
olhando para mim.
Era como se ela quisesse me dizer alguma coisa, sempre pareceu.
E agora eu podia decifrar seus segredos.
Capítulo 28
Héctor Mitchell
Doze anos atrás.

O céu estava limpo, a noite estava tranquila, fazia frio em Nova York.
Meu carro cortou o vento em alta velocidade e eu segurei firme no
volante. Geoffrey se encolheu no banco e tateou todos os cantos que podia,
procurando um lugar para se apoiar.
— Isso, pode ir mais rápido, ainda não estamos na velocidade máxima —
ele ironizou.
— Cala a boca, Geoffrey — rosnei e continuei atento a estrada.
— É um incentivo, acredite — ele pareceu mais tranquilo quando
encontrou o suporte no teto do carro, apegou-se a ele. — É legal ver você
quebrar as regras, pelo menos uma vez. Você é tão certinho.
Revirei os olhos e continuei atento a estrada, preocupado em chegar o
mais rápido possível no lugar onde ele estava.
— Estamos indo para o lugar certo...? — Geoffrey voltou a falar.
— Você não pode ficar quieto só por um minuto?!
— Tá.
Conferi no gps que estávamos próximos ao bordel onde meu pai se
encontrava. Eu dirigia rápido porque recebi uma ligação de emergência, dizendo
que ele havia tido uma overdose ou algo do tipo.
Dirigi como se minha vida dependesse disso.
— Eu sei que você não quer ouvir a minha voz...
— Isso, fique quieto, Geoffrey.
—... Mas obrigado.
Fiquei menos tenso no momento.
Tudo o que eu não precisava naquele momento eram mais cobranças ou o
humor ácido do filho do Terence Smith que eu jurei proteger.
E aquele dia desgraçado foi carregado de sentimentos.
Primeiro precisei livrar Geoffrey de um linchamento.
Ele quis bancar o esperto e mexer logo com Derick von Grant e Adrian
Cavalieri, meus antigos irmãos de fraternidade e meus futuros irmãos da Grande
Ordem.
O resultado? Quando encontrei Geoffrey ele parecia uma pinhata: estava
de cabeça para baixo, suspenso pelos pés, mãos atadas, boca amordaçada e olhos
vendados. Um monte de valentões ao redor com tacos de beisebol completava o
cenário.
— Não tem de quê — respondi.
— Sabe... — quando ele voltou a falar tive vontade de parar o carro com
toda força só para assustá-lo, mas me contive a dirigir feito um louco. — A gente
sempre se safa...
Balancei a cabeça só para encurtar o assunto.
— Se eu roubo uma loja, destruo uma propriedade, ocasiono um
acidente... as pessoas dizem que só estou sendo jovem e rebelde, que preciso de
um psiquiatra ou um tempo... nós nunca somos punidos, só nos safamos...
Foi a primeira vez que ouvi uma coisa lúcida de Geoffrey. Pareceu até
um ser humano normal.
— É.
— Por isso eu faço isso — ele cruzou os braços. — Tiro vocês do sério,
deixo todo mundo louco, quero abalar as estruturas da merda toda — ele
confessou. — Por que vocês são iguais a mim. Nunca são punidos, só se safam.
Os únicos que tem coragem de me enfrentar como pessoa, como eu sou, não
como o herdeiro da Mitchell & Smith.
Concordei.
— Não que um dia eu irei ser o CEO da Mitchell & Smith — ele respirou
fundo. — Veja só o meu pai. Formou-se em honras, cdf, o prodígio da família...
o que ele se tornou? Um genocida racista e xenofóbico que repete para si mesmo
que faz o que faz “pelo bem maior”.
Geoffrey tirou o maço de cigarro do bolso e encontrou um cigarro
diferente ali dentro. Colocou na boca e procurou o isqueiro.
Foi aí que eu diminuí a velocidade e começamos a brigar, com o carro
em movimento, até que eu arranquei aquela merda da boca dele, abri a janela e
deixei para trás na estrada.
— Qual o seu problema? — ele pegou um cigarro normal e colocou na
boca.
Aproveitei para pegar o maço de cigarro e joguei pela janela também.
— Para com essa merda.
— É assim que eu anestesio a alma — ele suspirou. — Você bebe a droga
do whisky, todos vocês bebem. Eu que não sou bom o suficiente para pertencer a
essas sociedades secretas de merda, tenho outros meios. Bem mais divertidos e
alucinantes.
— Para com isso.
— Eles iam me matar — Geoffrey acendeu o cigarro e tragou, abriu a
janela do seu lado e soprou lá fora. — Assim como eu eles lidam de forma muito
ruim com a verdade.
— E você tem uma forma muito peculiar de dizer a verdade, não é? —
provoquei.
— Ainda assim não deixa de ser verdade. De nada adianta vestir essa
armadura de futuro da nação, “os descendentes prometidos dos Pais
Fundadores” que levarão essa terra para outro patamar... olha só como estão
nossos pais... pervertidos, doentes, em busca da perdição, quebrados, se
drogando... — ele cruzou os braços e me encarou para examinar como eu
reagiria.
Permaneci da mesma forma, atento a estrada e olhando-o de lado uma
vez ou outra.
— Nossos pais eram os melhores quando saíram das melhores
universidades. Olha a merda que se tornaram. Esse é o nosso futuro, Héctor.
— Gosto do seu otimismo.
— Por isso eu não posso ser um de vocês — Geoffrey riu. — Se sou uma
fruta podre agora, imagina se eu me tornasse membro das ordens secretas...
Parei o carro em frente a uma construção luxuosa onde os poderosos se
reuniam para se divertir.
— Fica aqui — mandei.
— Sem chance — ele jogou a bituca de cigarro pela janela. — Você me
ajudou, permita-me te ajudar.
— Fica aqui — o encarei com ferocidade, tirei a chave do carro e bati a
porta.
Com o meu pai no banco detrás desmaiado e numa velocidade acelerada
em direção ao hospital, Geoffrey permaneceu calado a maior parte do caminho,
talvez em respeito.
Mas ele não conseguia ficar calado.
— Você acha que um dia seremos iguais a eles?
Não respondi. Continuei a dirigir e conferia de meio em meio minuto o
estado do meu pai.
— Eu sim, talvez. Mas quero trabalhar no crime — Geoffrey riu. — Você
não. Assustou todo mundo com essa história de querer ter um filho...
O olhei de esguelha, indicando que ele deveria ficar calado.
— Confrontou sua mãe que queria te casar com umas gatas bem
importantes...
Já estava pronto para mandar ele ficar quieto.
— E aí apareceu com uma barriga de aluguel — ele riu. — Cara, você é
o meu herói. Eu aqui tentando quebrar as regras, chamar atenção, me
autodestruindo... e você enfrentando seus pais olhando-os no fundo dos olhos,
cara a cara, sem esconder quem é que dá as cartas.
Engoli em seco.
— Um dia eu vou ser tão bom quanto você... e se um dia você disser que
eu falei isso, direi que eu estava chapado — Geoffrey riu.
Eu sempre quis ser pai.
E sendo pai eu poderia encerrar toda uma tradição familiar e iniciar a
minha.
Claro que meus pais surtaram quando descobriram que meu filho não
seria herdeiro de uma outra fortuna, que não haveria união de clãs poderosos ou
coisa do tipo.
Era uma garota simples, de origem humilde, que aceitou ser minha
barriga de aluguel. Alguém que eu aprendi a ter carinho, cuidado e atenção sem
a obrigação de fazer por manter o status.
Nunca entendi porque eles não me deserdaram.
— Seu telefone está tocando — Geoffrey avisou.
Ignorei a chamada em meu bolso e continuei a dirigir.
— Falta pouco para chegar ao hospital. Eu retorno quando estivermos lá.
— É claro que eu não permitiria que você atendesse essa droga dirigindo
— ele enfiou a mão em meu bolso e tirou o aparelho, atendeu e colocou no viva-
voz.
— Mas que merda você...!
— Héctor? — uma voz feminina chamou do outro lado.
Fuzilei Geoffrey com os olhos, tive vontade de dar um sopapo nele só
para ver se assim ele recuperava o juízo.
— Oi, Amanda — falei sem muita animação. — Estou ocupado agora,
não posso te dar atenção.
— Héctor, onde você está?
Geoffrey segurou a gargalhada e eu diminuí a velocidade do veículo, já
havia me distraído, não dava para correr.
— Dirigindo. Fala.
— Héctor, você precisa voltar para casa.
— Amanda, eu estou do outro lado d...
— Héctor, a Serena morreu.

Beatriz Rodrigues

A porta do elevador se abriu.
Andei pelo longo corredor até chegar em casa. Vi a porta aberta e por
reflexo olhei ao redor.
— Alguém em casa? — perguntei.
Dando uma última olhada para trás no corredor silencioso, decidi entrar.
— Olá? — perguntei.
Meu coração bateu mais forte. Senti meus pelos se eriçarem.
Era como uma sombra atrás de mim. Algo estava me perseguindo.
— Hill? — chamei por minha colega de casa.
Assustei-me ao me deparar com tudo revirado: fogão e geladeira jogados
no chão, tudo quebrado, pratos, copos, alimentos...
— Clair? — chamei pela minha outra colega.
Enfiei a mão dentro da bolsa e só me senti satisfeita ao retirar dali o
aparelho de dar choque. Respirei fundo, empunhei o objeto e segui pelo corredor
que dava para os quartos.
Ao ficar diante do primeiro quarto que estava com a porta entreaberta, vi
um corpo estendido no chão, ensanguentado.
— Clair? — tentei identificá-la. — Hill? — estiquei a mão.
Quase cambaleei para trás, mas dessa vez fui mais forte.
Avancei ao corpo e segurei em seu ombro, virei-a para poder identificar
quem era.
Não era Clair.
Não era Hillary.
— Socorro — ela murmurou.
Era Serena.
— Bia? — senti uma mão pesada em mim.
Dei um pulo da cama, quase agarrei Hillary pelo pescoço e a derrubei no
chão.
— Jesus! — ela me jogou contra a cama e se afastou. — Calma!
Tentei respirar, uma sensação ruim e um enjoo maldito tomaram conta de
mim. Ofegante e presa naquela cena com uma nova personagem, tentei colocar a
cabeça no lugar.
— Você me assustou — tapei o rosto.
Olhei para a janela e me assustei. Sequer havia amanhecido!
Peguei o celular em cima da escrivaninha e conferi que eram três horas
da manhã.
— Céus, o que foi? Por que você me acordou tão certo?
— Bia — Hillary sussurrou. — Tem alguém lá fora. Tentou invadir meu
quarto pela janela. Acho que nos encontraram. Precisamos fugir.
Cocei os olhos e me dei um beliscão caprichado só para conferir se eu
estava acordada mesmo.
Era só o que me faltava: um pesadelo dentro de outro pesadelo.
— Deve ter sido só o vento, Hill... volte a dormir...
— Não. Eu vi. Eu vi nitidamente o rosto de um homem. E se forem eles,
Bia? E se eles nos acharam? Pode ser o nosso fim! — ela esbugalhou os olhos e
começou a andar em círculos sem parar.
Respirei fundo.
Hillary poderia estar falando a verdade, tudo bem. Mas eu precisava
ficar.
Eu não podia mais fugir. Eu estava cansada de fugir.
Eu ia encarar tudo de frente. Assim como Serena encarou.
— Você pode ir se quiser — precisei dizer com candura e sinceridade.
Hillary parou e fitou o vazio. Lentamente seus olhos me encontraram,
incrédulos. Ela mal conseguiu formular uma frase após ouvir minha negação.
— Posso não estar segura aqui — foi a minha sentença e condenação. —
Mas aqui é o meu lugar. Eu não vou a canto algum — me deitei.
— Você enlouqueceu! — ela avançou e me puxou pelo braço. — Não
estamos mais seguras! Precisamos ir!
— Hillary, eu preciso dormir. Amanhã Héctor tem um evento importante
e ele quer que eu vá. Preciso dormir, o dia será cansativo.
— Você deve ter esquecido o que eles fizeram com a Clair... não
entendeu que estamos em perigo? Que nos encontraram? — ela insistiu.
Eu fingi que Hillary era apenas uma miragem diante de olhos cansados.
— A casa está cercada de seguranças. Nada lá fora pode nos atingir agora
— me cobri com a coberta, bocejei e tentei voltar a dormir.
Eu juro que antes de mergulhar no sono novamente escutei:
— Os perigos não estão mais lá fora, Bia.
Capítulo 29
Héctor Mitchell

Em algumas ocasiões especiais a Ordem se reunia junto com suas
sociedades secretas satélites e membros proeminentes, ricos e poderosos do
cenário de Nova York para planejar em conjunto os novos rumos que
tomaríamos sobre determinados assuntos.
Nessas ocasiões as reuniões não aconteciam no Grande Templo,
tampouco eram formais, com rituais ou pompa.
O lugar escolhido, como de costume, era a antiga mansão de Terence
Smith nos Hamptons, onde ninguém mais morava.
A antiga mansão dos Smith que ficava próxima a minha havia se
transformado em um Quartel General reserva onde hospedávamos irmãos de
todo o país quando vinham a Nova York, fazíamos reuniões com empresários e
políticos do mundo e jogávamos golfe.
Toda área ao redor da mansão fora preparada para ser um campo de golfe
gigante, o tipo de desporte que agradava a ala mais antiga e conservadora da
Ordem.
Os homens mais velhos de vestes brancas e boinas, com empregados
carregando suas mochilas era a maior ala do Grande Templo de Nova York,
assim como os mais velhos eram a maioria em qualquer templo.
Pessoas como Derick, Adrian, Ethan e eu éramos uma seleta exceção.
A seleta exceção que recebera a incumbência de dirigir o templo sob as
vistas rigorosas dos antigos membros.
— Seu pai tem apresentado melhores, Mitchell? — o senhor Corby, um
velho magnata da comunicação me cumprimentou.
— Não está mais instável e isso significa uma melhora e tanto — apertei
a mão do homem e segui com Bia ao meu lado.
Apertei a mão em sua cintura e a encarei de lado, Bia continuou olhando
para frente. Alex, atrás de nós, carregava minha mochila com os tacos de golfe.
— Você anda quieta ultimamente — tirei uma mecha do cabelo de Bia de
frente do seu rosto e o coloquei atrás de sua orelha.
— Ah, me desculpe — ela abaixou os olhos. — Andei muito ocupada na
última semana... E você também teve assuntos muito importantes para resolver,
não quis incomodar.
— Você não incomoda — falei com firmeza.
Bia evitou me olhar.
Paramos diante da construção que era bem semelhante a minha mansão,
mas eu não tinha tempo para a nostalgia da arquitetura ou do lugar.
Estava tenso com a distância que sentia dela.
— Fiz algo que... — segurei em suas mãos.
— Não — Bia me olhou rapidamente. — Não, eu só fico tensa no meio
de tantas pessoas... ainda não superei o dia em que os fotógrafos e jornalistas
rodearam o apartamento... quase tive uma crise de pânico.
— Bia — a puxei ao meu encontro. — Não haverá fotógrafos ou
jornalistas aqui. Nada de celulares ou qualquer tipo de tecnologia. Fique
tranquila, não deixarei que nada a perturbe.
Bia esboçou um sorriso que se apagou da mesma forma que veio,
facilmente.
— Sei que acabamos de chegar — ela murmurou. — Mas eu já vi umas
três meninas do La Chica aqui...
Foi aí que entendi o que estava acontecendo.
Ela estava tensa também por ver as antigas colegas, mas principalmente
porque talvez tivesse medo que os homens que mataram Clair tivessem feito
contato com as outras meninas... e pudessem entregá-la, junto com Hillary que
estava paquerando alguns homens para ver se não ficava sozinha.
Pousei a palma da mão aberta em seu rosto pequeno e dirigi seu olhar de
encontro ao meu.
— Você está segura — afirmei. — Eu estou aqui.
Bia concordou.
— Vejam só se não é Héctor Mitchell! — Gaspard Hellix, um antigo
baba ovo do senhor Smith veio em minha direção. — Acompanhado da senhora
Mitchell, é claro — ele abriu um sorriso amarelo e cumprimentou Bia.
— Gaspard.
— Senhora Mitchell, sinto separar os pombinhos, mas preciso mostrar a
Héctor uma coisa de muita importância — Gaspard continuou a sorrir de forma
fácil.
— Sim, é claro — Bia se afastou e nos deu espaço.
— Lá dentro, senhor Mitchell — Gaspard colocou as mãos em minhas
costas.
— Fique calma, estou de olho em tudo — mexi os lábios e entrei na
mansão.


Beatriz Rodrigues

Eu estava animada para ir nesse evento importante com Héctor.
Fazer parte do mundo dele, conhecer as pessoas com quem ele se
relacionava e me aproximar de outras mulheres daquele meio pareciam a forma
correta e segura de me sentir parte de algo.
Para a minha surpresa eu conhecia todos aqueles homens. Todos
frequentavam o La Chica, dos mais velhos aos mais novos.
E quando pisei o primeiro pé fora do carro e vários pares de olhos me
fitaram a realidade pesou.
Enquanto Sabrina, no La Chica, eu estava protegida por uma máscara,
uma identidade, um fetiche. Eu era intocável.
Agora, como Beatriz, mulher de Héctor, eu estava exposta para aqueles
homens.
É claro que Héctor estava acostumado em caminhar em meio a multidões
e ser visto. Eu não.
— Ela não é aquela moça, aquela que dançava no La Chica...? — um
deles murmurou.
Engoli em seco e abaixei o rosto, arrastei os pés até Héctor ser roubado
de mim por mais um velho senhor que não poupou os olhares, a aproximação e o
sorriso canalha.
— Onde eu vim me meter? — massageei as têmporas e contornei a
propriedade.
Quase soltei um grito quando mãos femininas agarraram o meu braço.
Não bastasse ser o alvo de tantos olhares, eu me lembrava que ainda
corria perigo. E estar no meio daqueles velhos conhecidos desconhecidos me
trazia uma sensação claustrofóbica.
— Valerie — coloquei a mão no peito.
— Sabrina — ela sorriu.
Valerie era a stripper mais experiente e bem requisitada do La Chica...
até eu chegar. Como carne fresca eu roubei a atenção e me mostrei muito hábil
na dança, nos flertes e principalmente na arte de não permitir que aqueles
homens passassem dos limites.
Valerie e eu nunca nos demos bem.
— Beatriz, na verdade — tentei sorrir.
— É, eu ouvi falar — ela arqueou a sobrancelha. — Conseguiu fisgar o
cara mais gostoso e um dos mais ricos que iam ao clube. Depois de você ele
nunca mais foi o mesmo...
— O Héctor continua indo ao clube?
A simples ideia daquilo me deixou nauseada. Valerie pareceu se divertir
ao me ver franzir a testa e ficar tensa.
— Desde a última vez que você esteve lá, eu nunca mais o vi — ela
disse, quando já estava satisfeita o suficiente com a minha aflição. — O lance de
vocês é sério?
Levantei o dedo e mostrei a aliança. Valerie riu.
— Querida, eles dão anéis para todas nós. Nós somos as amantes dos
caras mais importantes de Nova York — ela puxou um espelho de mão da bolsa
e retocou o batom. — Ao invés das esposas, eles nos trazem para esses eventos
chiquérrimos que sempre acabam em muita bebida e sexo — ela pareceu se
divertir.
— Bom, eu me casei... — tentei me autoafirmar, mostrar que minha
situação com Héctor era mais do que ser amante.
— É, eu sei. Isso chocou a todos nós, acredite. Nós, meninas do clube, e
eles, os donos de Nova York.
Me aproximei um pouco mais, interessada, e olhei ao redor.
Todos continuavam a me encarar, tomavam vergonha na cara e
disfarçavam rapidamente quando eu fixava meus olhos neles e os seguia,
intimidando-os.
— Veja só, mesmo fora do clube, você ainda é o assunto favorito, não sai
da boca deles...
— Engraçado você estar conversando comigo aqui. Nunca nem me
olhava no clube — cruzei os braços.
Valerie guardou batom e espelho na bolsa e abriu um sorriso cínico.
— Você era só competição, querida. Nada pessoal, apenas negócios.
Você atrapalhava o meu lucro, agora eu sou a dona do pedaço novamente.
Concordei, feliz em saber que não tínhamos nenhum problema.
— Vai, me conta, valeu a pena se casar com o bonitão? — Valerie
esbarrou o ombro no meu.
Voltamos a caminhar em direção a um pequeno grupo que acompanhava
um dos velhos magnatas tentar lançar a bola o mais longe possível.
— Ah, não tenho do que reclamar. Héctor é bem maduro e
compreensível, e tem sido incrível conhecer o homem por detrás do corpo... por
que o corpo chama a atenção, é claro, mas ele é ainda mais surpreendente por
dentro.
— Nós mortais só pudemos conhecer o corpo — Valerie lamentou e não
gostei do tom dela. — Querida, não se iluda, todas as mulheres aqui já devem ter
montado naquele cavalo — ela me deu uma piscadinha. — E todas elas devem
querer te matar, por que você foi a escolhida, a única que o laçou. Deve ter algo
de especial.
Na verdade eu não tinha nada de especial.
Era só uma sortuda mesmo.
— Você sempre foi muito observadora, Sabrina — Valerie continuou. —
Deve ter percebido que qualquer uma dessas meninas te mataria para ter o
homem.
— Você tá muito vidrada nessa coisa de matar — a encarei de esguelha.
— Ai, Sabrina, vamos ser...
— Ei! — Hillary puxou o meu braço. — Te achei, até que enfim!
— Você disse que queria espaço para fisgar um desses ricões.
— É. Mudei de ideia. A maioria deles já está acompanhado, e por uns
trambolhos que é melhor nem mexer — Hillary e Valerie se confrontaram com o
olhar.
— Por favor, não vamos fazer uma cena aqui — murmurei.
O grupo que estava diante de nós começou a andar pelo campo em busca
da bola que voou pelos ares e ficamos só nós três.
— Minha companhia está indo, vou junto — Valerie sorriu com
elegância. — Antes de ir embora, faço questão de me despedir, Sabrina — ela
segurou em meu braço. — Boa sorte com o seu bilionário gostosão — ela deu
uma piscadela e saiu rebolando.
— Que naja — Hillary fez uma careta. — Senti o veneno de longe e vim
te socorrer.
— Obrigada — murmurei e me virei para olhar as janelas da mansão em
busca de Héctor.
Por onde quer que meus olhos alcançassem havia movimento, mas
nenhum sinal dele.
— Vem, Hillary, vamos encontrar um bilionário para você também.
— Nossa, amiga, seria o meu sonho!

Héctor Mitchell

Não havia nada de novo naquele assunto.
Normalmente esses encontros informais serviam para fortalecer nossas
alianças e confabular os próximos passos que cada membro da Grande Ordem
daria.
No lugar disso, uma dezena de homens de cabelos grisalhos estavam
irritados e preocupados enquanto nós, o grupo mais jovem, estava lidando muito
bem com a situação.
— A Rússia quer nos pressionar — Gaspard bateu com a mão na mesa,
alterado. — Logo eles! Logo eles! Não foram eles que fizeram o mesmo com a
Síria? Agora vão pagar de humanistas?
— Quando a água bate no bumbum é isso o que acontece — Ethan
ergueu o copo com whisky.
— Estamos sob controle — Derick tentou acalmar os ânimos. — A
Rússia tentou ser a nossa parceira para que não nos aproximássemos de sua
fronteira, mas no clima em que estamos só temos uma escolha: nos aproximar
cada vez mais e sermos uma ameaça real.
— Ninguém aqui tem medo dos ursos! — um velho senhor republicano
gritou. — Somos águias! Caçadores!
— Ah, eu gosto da Rússia — Adrian se divertiu.
Todos ficaram quietos e o olharam, horrorizados.
— Gosto do hino, da vodka e das putas — ele ergueu o copo.
Os homens brindaram e começaram a rir.
— E a China, novidades? — Gaspard se voltou a Derick.
Deixei que a conversa se tornasse som de fundo e me voltei para Ethan.
— Essa demora em obter respostas me incomoda. A minha mulher está
tensa, não está feliz, anda completamente distraída e com medo. Isso está longe
do que quero proporcioná-la, Ethan — resmunguei.
— Eu sei.
— Me machuca vê-la tão incomodada e distante... queria poder trazê-la
para essa sala, cuidar dela, não deixar que nada a atinja...
— Héctor, ela não é uma criança — Ethan cruzou os braços. — Sei que
seus instintos dizem que cobri-la com os braços e protege-la é a solução, mas se
você quer que um dia ela seja de verdade uma de nós, ela precisa se acostumar
com esse clima de perigo. Somos americanos. O clima aqui é de guerra fria,
sempre foi assim e sempre será.
— O que tudo isso quer dizer? — Adrian esticou o pescoço. — Você
pensa em...? — ele me direcionou um olhar incrédulo.
— Quando o contrato acabar quero que ela se case comigo, pra valer.
— É, meus irmãos... primeiro o Ethan, depois o Derick, agora Héctor.
Enfim eu sou o solteiro mais cobiçado de Nova York — Adrian comemorou.
— O que tem eu? — Derick colocou a cadeira entre Ethan e eu e encarou
Adrian por cima dos ombros de Ethan. — Por que toda essa animação? O mundo
em tensão e vocês felizes por...?
— Por sermos sortudos — Ethan ergueu o copo e eu o acompanhei.
— Muitos sortudos — brindei com ele.
— Então você vai mesmo levar a sério essa história de casamento? —
Derick franziu as sobrancelhas. — Não era você que não conseguia ficar três
dias com a mesma mulher porque enjoava do cheiro? Das conversas? Do jeito?
Não era você que se vangloriava por...?
— Tá, Derick, já entendemos — eu o repreendi. — Esse ainda sou eu, no
passado. O meu eu no presente é uma versão melhor.
— Esse é o efeito que as mulheres nos causam — Ethan sorriu. —
Aprimoram nosso melhor lado e pioram nossos demônios interiores. Se Deus
não as tivesse criado, nós não teríamos porque tomar banho, escovar os dentes
ou procurar guerra com gigantes que nem mesmo Napoleão ou Hitler
conseguiram invadir.
Ouvimos três batidas na porta.
Imediatamente Adrian se levantou, como mestre do Grande Templo ele
era como o chefe dos mordomos, precisava garantir que tudo estivesse bem e
receber os convidados.
Ele pegou um bilhete em cima da bandeja que um dos garçons carregava
e voltou a nós.
Entregou o papel a Ethan.
— E lá vamos nós para o bilhete em braile — Derick tamborilou os
dedos na mesa.
Ao fundo, os membros mais antigos da Ordem discutiam:
—... foi através dessas fake News que eles conseguiram colocar o cara lá
dentro. Isso prova o nível do poder desse cara, ele precisa ser cooptado, não
sabemos se no futuro ele usará de sua própria rede para fazer o mesmo e se
tornar presidente.
— Vocês, democratas, só estão com dor de cotovelo — outro riu.
— Eles nunca param com essa merda? — chiei.
— Ah, amigo, joga um “guerra de Secessão” lá no meio, senta e pega a
pipoca para ver o que é “não parar com essa merda” — Adrian riu.
— Héctor — Ethan virou seu rosto para mim.
— Sim? — fiquei curioso por ser chamado. Pelo visto o bilhete tinha
algo do meu interesse.
— O meu informante tem novidades sobre o seu caso.
Capítulo 30
Beatriz Rodrigues

Os homens que me aproximei e tentei apresentar Hillary na verdade
apresentaram interesse por mim.
Fiz a sonsa, dei dez passos para trás e segui minha vida fingindo que
nada tinha acontecido.
— Não esquenta, amiga, uma hora a gente encontra um ricão para você
— tentei consolá-la.
— Eu acho que nunca deveria ter saído do La Chica — Hillary cruzou os
braços.
— E você tinha escolha?
— É...
— Vem, vamos encontrar o Héctor. Vou convencê-lo a apresentar algum
solteirão para você.
— Você quer encontra-lo só para isso, não é? — Hillary provocou.
— Óbvio que quero ficar perto dele. Todos esses homens e olhares estão
me deixando desconcertada. Era mais fácil quando eu usava máscara, mas
agora...
— Tá, vamos atrás dele...

Héctor Mitchell

Saímos da sala de reunião, percorremos o corredor e descemos as escadas
até chegar a biblioteca.
Ethan foi o último a entrar e fechou a porta atrás de si.
Encontramos no lugar um homem vestido socialmente, diferente de nós
que estávamos todos com roupas brancas mais casuais.
— Certo, temos alguns minutos antes do nosso convidado chegar —
Adrian conferiu no relógio da parede.
— Estou ansioso pelas novidades — precisei confessar.
— É claro que está, senhor Mitchell — o informante de Ethan deu um
passo a frente e me cumprimentou. — Senhores, queiram se sentar.
Sem demora nos sentamos, eu particularmente me distraí olhando pela
grande janela alguns grupos espalhados pelo terreno, busquei Bia entre eles, mas
não a encontrei.
— A primeira suposição que tivemos, é claro, era que Geoffrey estava
metido nisso — o homem começou a explicar.
— Creio que esse assunto já tenha ficado resolvido.
— Ficou, senhor Mitchell. Então todos ficaram mais preocupados,
sugerindo que fosse retaliação de espiões russos ou chineses.
— Todos nós gostávamos dessa possibilidade, embora fosse perigosa —
Adrian salientou. — Então estávamos seguindo as pistas erradas?
O homem sorriu.
— Demoramos para conseguir imagens dos arredores do apartamento no
momento do crime. Mas não foram elas que revelaram coisas curiosas, já que
não haviam câmeras dentro do apartamento... e não conseguimos hackear os
eletrônicos que tinham câmera e fone, pelo visto foram todos destruídos — o
informante explicou.
Pousei o queixo no dorso da mão e cruzei as pernas, enfim minha atenção
havia sido captada.
— O caso era bastante simples de se resolver, na verdade. O mais
importante veio com as imagens posteriores ao crime, o que explica o sumiço do
corpo da stripper — o homem tirou um aparelho eletrônico do bolso e caminhou
em minha direção.
— Não podemos usar aparelhos eletrônicos em reuniões da Ordem —
Derick ralhou.
— Larga de ser o chato almofadinhas, Grant — Ethan cruzou os braços.
O informante de Ethan ligou o vídeo.
A gravação estava em alta velocidade. Foi possível ver Bia saindo da
casa e encontrar-se com Hillary nas sombras. Depois, no canto da tela, as horas
foram passando rapidamente até que a filmagem retornou a velocidade natural.
— Todos nós sabemos que uma hora ou outra quem comete o crime volta
à cena, só para garantir que fez tudo corretamente — o homem andou em
círculos.
Eu estava ansioso para descobrir como aquilo ia acabar.

Beatriz Rodrigues

— Merda! — ouvi uma voz familiar. Era Héctor, eu não podia estar
louca.
Do lado de fora enquanto contornava a casa parei diante de grandes
janelas que estavam bem acima de minha cabeça. Mesmo esticando os pés não
era possível conferir o interior do lugar.
Era a voz de Héctor, sem dúvidas.
Encostei o rosto na parede e aproveitei o silêncio para ouvir.
— A escolha é sua, amigão — era a voz de um dos amigos de Héctor.
— Odeio concordar com o Terence Smith, mas numa coisa ele estava
certo: na tradição. Nós somos insubstituíveis. As outras pessoas não. Ninguém
vai dar falta dela, só matar a stripper — ouvi uma voz que me lembrou o rapaz
italiano do dia em que levei Anthony ao escritório de Héctor.
Engoli em seco, o coração veio na boca.
— Vocês ficaram malucos — Héctor riu.
— Droga, Héctor, você queria provas, aí estão as provas. Todos nós
admiramos o fato de que você sempre foi o irmão protetor, cuidadoso e zeloso.
Mas vamos ser realistas agora: essa stripper precisa morrer — era
definitivamente a voz do italiano.
— Ela não era ninguém antes de você, Héctor. Você foi tolo ao leva-la
para casa e tentar protege-la. Ela é a criminosa — não consegui identificar de
quem era a voz. — E o seu filho? O tempo todo ela esteve em sua casa, você não
pensou por um instante o perigo que o seu filho corria?
— Estamos um pouco alterados agora — Héctor tentou acalmá-los.
— É queima de arquivo. Não é novidade, ela não será a primeira ou a
última. Faço isso sem fazê-la sofrer e rapidamente — a voz do italiano foi se
aproximando, quase saí correndo dali.
No fim ele só cobriu a janela com as cortinas cor de carmim.
— Ela esteve em sua casa, mexeu em suas coisas, esteve na droga do seu
jardim, só Deus sabe o que mais ela pode ter feito! Essa mulher é perigosa. E
não deve estar trabalhando sozinha, olha o quanto ela conseguiu sem mover sem
que déssemos conta!
— Você não pode ser o apaziguador agora, Héctor. Ela não é uma de nós.
Nunca será uma de nós, queira você ou não. Essa mulher não sairá desse lugar,
não com vida. Vou chamar os seguranças.
— Se a matarmos como vamos descobrir com quem ela trabalha?
— E se ela for uma espiã?
Fiquei zonza com tantas informações.
— Oi — quando Hillary apareceu, enfiei a mão na boca dela e a calei.
— Ela pode ser um grande risco para o seu filho, Héctor. Não importa
que você jurou proteger a stripper. Ela deve morrer. O seu filho é um de nós, ela
não.
— Certo, certo... — a voz de Héctor ficou abafada por um instante. — Só
permitam que eu tente esclarecer as coisas com ela e...
— Votação — alguém puxou e fez-se um silêncio solene. — Quem é a
favor de matar as duas stripper?
Hillary segurou forte em meu ombro, eu mal senti minhas pernas.
— Héctor, não votar significa votar a favor. Essas duas mulheres são
problema seu. Todos nós concordamos em cortar o mal pela raiz e acabar com
isso. Então vote.
— Tudo bem. Matem uma e deixem a outra viva para interrogarmos —
Héctor decidiu.
Eu não fiquei ali para ouvir o resto.
Não queria saber se era Hillary ou eu que ficaria viva.
Hillary segurou em minha mão e me puxou.
No começo corremos, mas quando percebemos que isso chamava muita
atenção começamos a andar apressadamente.
Um carro parou diante de nós e uma figura muito bem conhecida saiu
dele.
Um homem importante, muito bem vestido, terno e gravata. O criador e
CEO da maior Rede Social de todos os tempos.
— Hillary, esse é...?
— Vamos! Ele deve ser um deles! — ela acenou para o motorista que
havia nos levado até ali, deu uma desculpa idiota e me puxou para dentro do
carro.
— Preciso passar na mansão para pegar algumas coisas — murmurei.
— Não inventa merda agora — Hillary bufou.
— Meu cartão, meus documentos, passaporte... tudo está lá.
— Merda! — Hillary bateu com a mão no assento. — Moço, dá para ir
mais rápido?
— Sim, senhora.
Ao pegar a estrada o carro aumentou a velocidade. A mansão dos
Mitchell não era muito longe dali, rapidamente chegaríamos, eu pegaria só o
necessário e sumiria no mundo.
Eu precisava ir para um lugar onde nem Héctor nem seus amigos
pudessem me encontrar.
Novamente éramos fugitivas.

Héctor Mitchell

Estávamos no meio de uma discussão acalorada que envolvia os limites
de tirar a vida de pessoas e usar o “bem maior” para tal, quando ouvimos três
batidas na porta.
Paramos a conversa imediatamente e Adrian dirigiu-se até a entrada do
lugar para conferir o que era.
— Eu já disse, a jurisdição a respeito das strippers diz respeito a Madame
Lilith, devemos informa-la sobre o que está acontecendo — eu disse e Ethan
concordou comigo.
— Lilith está em Londres — Derick ficou distraído, olhando os livros
daquele lugar. — Precisamos resolver do nosso jeito...
— Precisamos considerar que... — Ethan já ia dizendo quando foi
interrompido.
Adrian pigarreou, colocou as mãos nas costas do homem que acabara de
chegar e o apresentou.
— Senhores, esse é Matthew Elliot Zimmerberg. Matthew, esses são os
seus futuros irmãos — ele abriu um sorriso cordial e empurrou o rapaz para
frente.
Ficamos em silêncio enquanto Matthew se aproximava com certa
timidez, um tanto engessado e tenso. Ele ficou diante de nós e nos encarou, um a
um.
— Sinto que estou atrapalhando algo... — ele uniu as mãos em frente ao
corpo. Era melhor que coloca-las nos bolsos.
— Não, sente-se, fique à vontade — Derick sorriu. — É apenas um
assunto de família.
— Nós somos uma grande família disfuncional que precisa de
intervenção psiquiátrica — Ethan acenou.
— Bom, eu sou bom em lidar com pessoas — Matthew balançou os
ombros.
— Certo. Sente-se, Matthew — indiquei uma cadeira para ele. —
Precisamos conversar.

Beatriz Rodrigues

O quarto de Hillary era bem mais distante que o meu, então ela correu
para pegar o que precisava.
Eu não precisava de muito. Peguei o cartão, algum dinheiro em espécie
que eu tinha guardado e meus documentos.
Olhei para a pintura de Serena uma última vez e todas as suas pinturas
em ordem numeral que eu havia decifrado.
Isso não tinha mais significado algum. Pelo menos não agora que meu
pescoço estava em jogo. Eu precisava fugir.
Esperei Hillary durante um minuto do lado de fora do quarto.
Quando cansei de ficar em pé parada, me mexi, fui na direção do quarto
dela.
Quase dei um salto para trás ao ver Anthony.
Ele parou diante de mim, no corredor, trazia consigo um livro.
— Você está suando — ele analisou e se desviou, continuou o caminho
como se nada estivesse acontecendo. É claro, para ele, nada estava.
— Anthony — eu o chamei.
Ele parou onde estava e virou o rosto devagar.
— Sua voz está meio alterada e você parece tensa — ele arqueou a
sobrancelha e me encarou como se pudesse ler minhas expressões faciais.
— Eu só vim buscar algo às pressas e preciso retornar para a festa —
tentei explicar, mentindo, é claro.
— Você não é boa mentindo — ele balançou a cabeça e continuou o
caminho.
— Anthony?! — voltei a chama-lo.
Não sabia o que dizer.
Aquela era provavelmente a última vez que nos veríamos. Eu queria me
despedir, mas não sabia como.
O menino sabia ler expressões, sabia quando eu estava mentindo,
analisava as pessoas só por diversão.
— Posso te dar um abraço?
— Pode, depois do banho — ele continuou a andar.
— Acho que não tenho todo esse tempo, Anthony...
Ele parou e bufou. Deu meia volta e arrastou os pés em minha direção,
abraçou-me e encostou a cabeça em meu abdômen.
— A sua luta em tentar me fazer vencer o medo dos germes é incansável
— ele murmurou.
— É, é sim — eu o apertei com toda a força que pude.
Quis chorar, mas isso só levantaria mais suspeitas.
Beijei sua testa e tive de convencer a mim mesma que precisava soltá-lo
e deixa-lo ir.
Que merda de adeus. Ele merecia coisa melhor.
Fiquei de joelhos e o encarei.
— Nunca se esqueça que seu pai te ama muito — esfreguei as mãos nos
olhos que ardiam. — E que eu aprendi a te amar também, do jeito que você é.
— Então tá bom — Anthony sorriu.
— E, me escute — segurei em suas mãozinhas. — Um dia, lá no futuro,
talvez você sinta muita raiva e ódio das pessoas que foram ruins com você. Mas
isso só vai alimentar algo ruim que há dentro de você. Nunca pare sua vida para
culpar os outros por terem sido cruéis contigo. Só seja feliz por ter amadurecido,
crescido, ficado forte e resistente. A vida não é sobre as cicatrizes e rachaduras
que as pessoas nos fazem... mas o que decidimos fazer com elas — o apertei em
meus braços com muita força.
Anthony correspondeu e dessa vez foi ele quem não quis me largar.
Acho que de alguma forma ele entendeu que eu ia embora.
— Agora, vá. Vá levar seu livro a biblioteca...
— Mais tarde conversamos?
— Sim.
Anthony me soltou e andou daquele jeito robótico e monótono que era
bem engraçadinho, segundos depois dele sumir, Hillary apareceu com duas
malas gigantes.
— Mas que diabos?!
— Eu vou. Mas não vou sem dar prejuízo.
— Hillary! — a repreendi.
— Ele não quer nos matar sem motivo? Então vamos dar um motivo para
esse babaca querer nos matar mesmo! Peguei algumas coisas de valor.
— Não compactuo com isso.
— Não foi você, fui eu, amiga. Agora vamos!
Ela saiu na frente, desengonçada, puxando duas malas gigantes atrás de
si. Estava toda suada e sem fôlego.
— Você não acha que ir com o motorista dele para o aeroporto não vai
tornar mais fácil que ele nos encontre? Uma hora dessas ele já deve ter avisado
ao Héctor... — eu disse esbaforida, tentando acompanha-la.
— Por isso chamei o Uber. E ele está quase aqui.
— Ok...
As pernas falharam, foi difícil sair da mansão. Aquele se tornou o meu
lar.
Não era esse o fim que eu queria.
Depois de dar o meu melhor, cuidar de tudo e transformar o lugar em um
espaço agradável não só para mim, mas para Anthony também, dar adeus de
forma abrupta me machucava.
Infelizmente não havia outra opção.
Era isso ou a morte...
— O Uber chegou, amiga. Vem!
— Espera — pedi.
Respirei fundo e olhei a frente da mansão.
Parecia que uma parte de mim ficava ali. Uma parte que eu nunca teria
de volta.
— Vem!!! — Hillary me puxou para dentro do carro.
Capítulo 31
Héctor Mitchell

O senhor Zimmerberg fez um incrível monólogo de vinte minutos sobre
porque o Grande Templo de Nova York deveria aceitá-lo.
E a qualquer expressão que fazíamos, seja de aprovação, admiração ou
desinteresse ele reafirmava o quanto tinha vindo do zero, o quanto havia
construído cada degrau de seu Império e que homens como nós deveríamos levar
em conta seu poder invisível nos dias atuais.
— Senhor Zimmerberg, nós somos a ala mais jovem da Grande Ordem
— eu o expliquei. — É claro que um CEO proeminente como você somaria nas
ações que fazemos. Mas a burocracia para ocupar o cargo é bem complicada.
— Não há aplicações — Ethan tentou explicar. — Normalmente
cooptamos os melhores membros das sociedades secretas, e o senhor não faz
parte de nenhuma que pudemos consultar.
— Admito que fui muito individualista nos últimos anos — ele
confessou.
— A ala mais velha da Grande Ordem tem um certo... — Ethan
umedeceu os lábios para ver se encontrava as palavras. — desconforto, com a
ideia de sua presença.
— Aceitar hackers já foi um grande passo. Aceitar o dono da maior Rede
Social, ainda mais numa época onde estamos obcecados por fake News e
eleições... — cocei o queixo. — Precisamos de um excelente argumento para
indicá-lo.
— O meu trabalho é limpo e estou em praticamente todas as casas agora.
Diferente de hackers eu não preciso invadir de forma ameaçadora. Quando as
pessoas aceitam os termos elas permitem que eu tenha seus dados, saiba onde
elas estão, o que estão fazendo, veja suas fotos, áudios, compras do cartão... —
ele retornou para aquele monólogo irritante. — Sei que há espaço para mim na
Grande Ordem.
Virei-me para Adrian.
— É hora de checar se algum parente do senhor Zimmerberg é membro
de uma sociedade secreta. Fraternidades secretas em Harvard contam pontos.
Adrian concordou e anotou a informação.
— Ele vai ganhar pontos com os republicanos, mas vamos deixar de lado
a história dos hackers russos pegando informações dos americanos e postando
em suas timelines assuntos que eles simpatizavam para construir a imagem do
Trump que lhes era palatável — voltei-me para Ethan.
— Vamos focar no jovem e brilhante Zimmerberg. Sua caridade, seu bom
perfil, sua repentina mudança de ateu para um rapaz que acredita que a religião é
algo bom, e desconsideraremos que em breve o senhor terá idade para se
candidatar a presidente e já disse que quer viajar toda a América para “conhecer”
— Ethan abriu um sorriso sádico, como se dissesse “estamos de olho em você,
senhor Zimmerberg”.
— Ah... é claro, parece bom... — o rapaz ficou paralisado.
— Senhor Zimmerberg, foi um prazer ouvi-lo — levantei-me e arrumei
meu paletó.
Todos os outros fizeram o mesmo e até suspiraram.
— Foi um longo e proveitoso diálogo — Derick foi cordinal.
— Monólogo, você quis dizer — Ethan murmurou.
Adrian levou o senhor Zimmerberg para conhecer a mansão e os ilustres
membros da Grande Ordem que estavam presentes e eu me voltei para os que
restaram na sala.
— Ele é um bilionário, CEO, é individualista, como todos nós — Ethan
tentou justificar.
— Mas para ser um dos irmãos é preciso trabalhar em grupo — consertei
minha gravata e os encarei. — Sim, senhores, podemos retornar ao assunto
anterior, por favor?
— É claro — Derick veio em minha direção. — Encontre Bia, não
levante suspeitas, deixe-a em um lugar isolado.
— Ok — concordei.
— Precisamos agir com rapidez, encontrar a outra stripper e neutralizá-la
antes que algo aconteça — ele voltou a dar os direcionamentos.
— Esse assunto morreu aqui, certo? — Ethan só queria garantir. —
Vamos estendê-lo para os outros irmãos?
— Em nenhuma hipótese, Ethan.
— Justo. Queima de arquivo padrão, ninguém viu, ninguém sentirá falta.

Beatriz Rodrigues

Hillary voltou aquele estado de meses atrás: paranoia, medo,
completamente perturbada.
Não conseguia conversar direito com o rapaz que dirigia o carro, estava
confusa sobre como prosseguir e não falava nada com nada.
Mexia freneticamente no celular, as mãos trêmulas, os olhos correndo da
tela para as construções fora do veículo.
— O que você sugere? Direto para o aeroporto? Vamos logo dar o fora
daqui? — tentei manter o equilíbrio e ser assertiva.
— Claro, parece uma excelente ideia — ela continuou a digitar
rapidamente. — Antes podemos passar em um lugar? Preciso pegar algumas
coisas e...
— Hillary, você já não está com coisas demais? — bufei.
— Vamos estar longe daqui antes de anoitecer, eu juro — ela garantiu.

Héctor Mitchell

— Nenhum sinal da Bia — voltei ofegante, mal conseguia respirar.
— Também não vi a tal Hillary — Ethan cruzou os braços.
O encarei por trinta segundos sem saber o que dizer, ao que Ethan abriu
um sorriso maldoso.
— Adrian não a encontrou, eu quis dizer.
— Nem uma, nem outra? — voltei a andar, em direção à frente da
propriedade dessa vez e Ethan me seguiu. — O motorista está ali.
O motorista estava sentado com os outros motoristas particulares dos
outros irmãos, estava bem inteirado na conversa.
Ouvi novos passos atrás de mim. Tive fé que Adrian viesse até mim
acompanhado de pelo menos uma delas.
Minha esperança morreu ao me virar e vê-lo com Derick.
— Valerie disse que as viu ir embora — Adrian parou diante de mim,
tentava recuperar o fôlego. — Essa é a hora que colocamos todos os carros atrás
delas e paramos Nova York? — ele abriu um sorriso singelo.
— Você sempre quis fazer isso — saí em direção ao meu carro, assoviei
tão alto que todos os motoristas pararam o que estavam fazendo e se levantaram.
— E quanto ao Zimmerberg? E os outros irmãos? Tínhamos assuntos a
tratar sobre... — Derick quis trazer o tom de responsabilidade para a conversa.
Eu tinha uma responsabilidade maior com Bia.
E não ia deixar que nada lhe acontecesse.
— Derick, foda-se o Zimmerberg e foda-se os outros irmãos e seus
assuntos urgentes — abri a porta do carro e me sentei, esperando Ethan e o
motorista entrarem logo.
— Senhor?! — o motorista entrou, o quepe caiu.
— Você viu para onde a senhora Mitchell foi? — perguntei num tom
inquisitorial que fez o homem tremer.
— Sim, ela foi para a mansão, senhor. Depois ouvi que iam para o
aeroporto... — o homem não conseguia colocar a merda da chave para ligar o
carro.
— Espero que não tenha medo da possibilidade de perder a sua carteira.
Quero ver você rasgar o asfalto — coloquei o cinto de segurança.
Ethan tateou o espaço para conferir se podia se sentar e assim o fez.
— Eu sinto muito por não ter previsto isso — Ethan pigarreou.
— Relaxa — respirei fundo. — Reconheço as suas ocupações e
estivemos muito preocupados com Anthony todo esse tempo...
— Mas estava na cara! Bem debaixo dos nossos olhos! — ele se culpou.
Tirei o aparelho eletrônico do bolso e dei play no vídeo uma vez mais.
— Era tão óbvio... — tapei a testa. — Clair não morreu.
Na gravação era possível ver a stripper saindo do apartamento dias
depois, de óculos escuros e sobretudo. Sua imagem foi captada, por acaso,
enquanto um jovem testava o celular com os colegas que estavam fazendo uma
batalha de hip hop.
— Elas estavam a um passo a nossa frente. Precisamos estar a sete passos
a frente delas agora.
— Considere feito — Ethan disse e respirou fundo.
Esticou a mão aberta como se pedisse para que eu parasse o que estivesse
fazendo.
Em seguida deu vários socos sem parar no banco do motorista.
— Por que você não está dirigindo? — ele rugiu.

Beatriz Rodrigues

Com vestidos brancos grã-finos, suados e meio sujos, Hillary e eu
caminhamos por um hotel de poucas estrelas, pelo visto, e entramos no elevador.
— Está aqui, eu prometo que será rápido.
— Espero que sim.
Fiquei tranquila porque definitivamente Héctor não me procuraria
naquele lugar.
O elevador subiu treze degraus, esperamos batendo os pés no chão, a
tensão ainda nos dominava.
— Para onde você pensa em ir?
— Não sei. Paris, Alemanha, Itália... só precisamos comprar as passagens
e usar esse cartão que o Héctor me deu antes que ele seja bloqueado.
— Sim, bem lembrado — Hillary pareceu ter um estalo. — Você pode
me ajudar a carregar essa mala?
— Sim.
Peguei a mala que estava relativamente pesada, sem entender para quê
levar tanta coisa consigo numa situação dessas.
Tudo o que peguei foi uma bolsa com documentos, cartões e dinheiro e
fugi. Deixei todo o restante para trás.
Quando a porta do elevador se abriu, me virei para conferir o que Hillary
estava fazendo.
— Mas que diabos?! — tomei um susto dos infernos.
Senti o pano branco pressionar contra meu nariz e boca e quando inalei
aquele cheiro impregnado ali me senti leve, zonza, até que desmaiei.
Tive a impressão de ter visto Clair no corredor fora do elevador.
Aí eu apaguei.

Héctor Mitchell

Ethan e eu fomos para o aeroporto internacional John. F. Kennedy, o
mais próximo de onde estávamos, levamos uma hora e alguns minutos.
Nesse meio tempo fizemos muitas ligações. Infelizmente não pudemos
acionar os irmãos do templo, o que seria uma mão na roda já que eram os
homens mais ricos de NY, mas Adrian me garantiu que acionou os chefes de
polícia, Derick me assegurou que todos os aeroportos estavam cheios de agentes
nossos e Ethan ligou para sua empresa para ver se conseguiam rastrear Bia ou
Hillary.
— O que o Adrian usou de argumento para parar os voos? Terrorismo?
— Ethan riu ao sair do carro.
— Eu sei lá — quando saí vi várias viaturas pelo local, o que me fez
respirar com mais calma. — Mas nenhuma Beatriz, Clair ou Hillary vão voar
essa noite, isso eu te garanto.
— Se você diz, eu acredito.
Ethan continuou no celular dando indicações de como rastrear as garotas,
demos todos os dados possíveis e ainda assim não tivemos grandes resultados.
O chefe de segurança do aeroporto junto com o capitão da polícia
garantiu que nenhuma mulher com esse nome havia embarcado e nos direcionou
a uma sala para conferirmos se alguma de nossas suspeitas estava ali.
Foi uma completa perda de tempo.
— Qual a chance que temos de encontrá-las agora? — tapei o rosto com
a mão.
— Ah, deve ser grande. Nova York tem o que? Quase nove milhões de
habitantes? Em meia hora a gente resolve isso — Ethan debochou.
Peguei o celular do bolso e o joguei longe, vendo-o estraçalhar no chão.
— A parte boa é que elas não vão sair daqui.
— Talvez tudo isso já estivesse planejado — eu quis quebrar o vidro do
carro de tanta raiva. — Talvez elas viajem de carro...
O que eu faria agora?
— Vamos nos ocupar em como resolver isso. Vá para a Mitchell &
Smith, nos encontramos lá mais tarde.
— Cara, eu não tenho cabeça. Por que eu não saí assim que descobri
isso? — se algo acontecesse a Bia eu ia me culpar para sempre.
— Em casos como esse os sequestradores pedirão dinheiro, então logo
Bia estará de volta — Ethan garantiu. — Ela vale alguma coisa viva e as
strippers só vão poder negociar se estiver tudo bem com ela. Até lá nos as
encontraremos. Elas não podem fugir.
— Nova York só tem quase nove milhões de habitantes... não podem
fugir mesmo...
— Hex, nós vamos fechar essa cidade com a cara dessas mulheres, se
necessário. No jornal da manhã, tarde e noite. Nos intervalos das séries, nas
timelines das pessoas, vamos sugerir recompensas maiores que as loterias dão.
Acredite em mim, elas virão a público por bem ou por mal.
— Você é péssimo em tentar me acalmar — reclamei.
— Só não faça nenhuma besteira agora.
— Certo. Vou para casa ver se Anthony está bem e o trarei para cá,
resolveremos os problemas da Wall Street
— Ótimo — Ethan tirou um dos aparelhos que carregava e colocou em
meu bolso. — Eu te ligo. E por favor, não assuste o pobre garoto, melhor que ele
não saiba de nada.
— Ethan, não importa o que aconteça, precisamos proteger a Bia — falei
com muita seriedade.
— Se eu não escutasse isso de você, saberia que tinha perdido o juízo.
— Não começa...
— Está tudo sob controle, Hex. Somos americanos. Temos especialidade
em lidar com strippers, reviravoltas, inimigos auspiciosos, situações de crise e
terroristas.
Capítulo 32
Héctor Mitchell

Nada estava sob controle.
Voltei para casa naquele dia para garantir que Anthony estava bem e ficar
próximo dele. Assim como os irmãos do templo, não o alarmei e não lhe disse
nada sobre Bia.
Na segunda-feira Anthony me acompanhou até a Mitchell & Smith.
Não tirei os olhos dele por um minuto sequer.
Todos os funcionários que nos viram ficaram impressionados em ver que
Anthony estava por ali mais uma vez.
Ele sempre me seguia, tímido, contando os passos, olhando ao redor e
quase se escondendo quando via muito movimento.
— Foi um final de semana conturbado, Mary. Os voos nos aeroportos de
Nova York simplesmente... — o jornalista narrava o atraso dos voos e a
segurança que havia quintuplicado.
Agora todos passavam por uma inspeção minuciosa, a documentação
realmente precisava estar em dia, tudo se tornou mais burocrático e lento.
Foi isso que Adrian e eu conseguimos fazer. Parar a cidade era divertido,
ilustrava bem o nosso poder, mas não era uma opção.
Percebemos que o clima ficaria tenso e os jornais começariam a falar de:
— seria um exercício militar, John? Você acha que após o bombardeio à
Síria é possível que terroristas...? — a jornalista jogou o pânico no ar.
— Você está com fome? — tirei meus olhos da tela do computador e
encarei Anthony.
— Não — ele disse com simplicidade, escondi meu espanto ao perceber
que ele não estava rodeado de aparelhos eletrônicos.
Sempre que eu via Anthony ele estava pelo menos com o celular, tablet,
notebook e videogame portátil, todos ligados, com suas telas multicoloridas
gerando informação.
O que eu vi foi o meu filho com três livros abertos diante de si e
digitando alguma coisa no notebook.
— Está tudo bem, filho?
— Sim.
— Onde estão seu celular, tablet e aquele console novo que você
ganhou?
— No apartamento.
— E por que não os trouxe?
— Bia disse que às vezes é bom se afastar um pouco da tecnologia. E eu
gosto de livros. O problema é que não vem o google instalado neles para
pesquisar algumas coisas — ele começou a passar várias páginas em busca de
alguma coisa.
Só concordei e voltei minha atenção à tela do computador.
Que merda.
Eu não conseguia me concentrar.
Me distrair parecia a única solução, para me ocupar e fingir que estava
tudo certo. E nada estava. Tudo estava fora do lugar.
Eu precisava trabalhar. Muita coisa dependia de mim.
Minha mente, entretanto, só conseguia se concentrar em perguntas como:
Bia estava bem? Quanto tempo iríamos demorar para encontrá-la? Onde ela
estava? Quando ela iria voltar? E será que ela estava sentindo saudades de
mim?
Por que eu estava.
— Você não vai estudar hoje?
— Sim. O senhor Krabs passou uma longa lista de equações — Anthony
disse de muito bom humor. — A senhora Fellington me pediu para escrever algo
sobre “O Jardim Secreto”.
— Ah — abri um sorriso. — Sua mãe gostava muito desse livro.
— Hmm — Anthony pegou o exemplar começou a folhear. — Bia
também. Bia gostava de jardins.
— Sim, eu sei — cruzei as pernas e girei a cadeira lentamente para ficar
de frente para ele.
— E ela pegava terra com as mãos, não tinha medo de ficar doente.
Soltei uma risada branda, não sei porquê.
Anthony levantou o rosto e me olhou até que a risada sumiu e eu voltei a
ficar sério.
— Eu só te vi sorrir duas vezes — ele respirou fundo e voltou para o
livro, muito concentrado. — A terceira hoje.
— É? Você conta as vezes que seu pai ri? — cocei o queixo.
— A primeira vez foi naquele dia do jogo de beisebol. Depois eu te vi
sorrir junto com a Bia. E agora.
Concordei. É, eu não era uma pessoa de ficar rindo por aí, mas achei
curioso ele prestar atenção nisso.
— Sorrir significa felicidade, a não ser que você esteja sorrindo de
nervoso, a Bia me disse. Que é um sorriso falso ou trágico. A Bia te faz feliz,
papai?
Quando Anthony tirou os olhos das fileiras de letras e me fitou, senti um
misto de saudade e dor.
Eu a queria de volta.
Eu precisava dela.
Repentinamente tudo parecia muito mais cinza, estranho e sem graça sem
Beatriz. Cada mínima coisa que ela fazia, que passava despercebida no dia a dia,
pesou como toneladas.
A ausência da preocupação se eu estava bem, o relatório de que Anthony
estava estudando, que ela me queria por perto e estava feliz por se sentir em
família...
— Sim, ela me faz muito feliz.
— Eu te faço feliz? — Anthony evitou me olhar, ficou meio paralisado
encarando a janela.
Tive de me levantar e ir até ele.
Em resposta ele se encolheu, continuou parado, mas os ombros cada vez
mais para frente e os olhos perdidos na sala.
Fiquei de joelhos ao lado dele e girei sua cadeira bem devagar até que
nossos olhos se encontraram.
— Você é o motivo pelo qual eu estou vivo — toquei seu rosto. — Você
mudou a minha vida antes mesmo de nascer e eu não me arrependo um só dia de
ter passado noites em claro só te observando crescer. Olha — estendi minhas
duas mãos abertas em sua direção. — Um dia você foi bem menor que esse
tamanho.
Anthony levantou as sobrancelhas.
— E quanto mais você cresce eu tenho motivos para ser feliz e te amar
independente de qualquer coisa. Você não só me faz feliz. Você é a minha
felicidade.
Por mais que eu odiasse aquela expressão, eu tive de dizê-la:
— Você é insubstituível, Anthony. O espaço que você ocupa em meu
mundo não pode ser ocupada por mais ninguém. Você é um campeão. E eu te
amo.
Anthony concordou com demora. Pareceu pensar bastante sobre algo,
mas me abraçou com força.
Foi a primeira vez em muito tempo que ele tomava uma atitude daquelas.
— Eu quero ir para a escola — ele disse, ainda no abraço. — Bia disse
que faria bem conhecer outras pessoas e fazer novos amigos...
Ele era meu bebê.
Era difícil tirá-lo da bolha que fui obrigado a colocá-lo e que depois me
acostumei.
— Se você quiser, faremos isso.
— Quando a Bia vai voltar?
Aquela pergunta ecoou dentro de mim.
Fechei os olhos, tentei prender a respiração e fingi que eu podia dar
aquela resposta com segurança e certeza.
Mas era feio mentir.
E eu não podia dar aquela resposta, eu me sentia inseguro, pela segunda
vez na vida, e no mar das incertezas.
— Ohana quer dizer família. Família significa nunca abandonar ou
esquecer — Anthony murmurou em meu ouvido.
— A Bia te disse isso? — era difícil encará-lo, ainda mais com os olhos
marejados de lágrimas. Mas tive de olhá-lo.
Anthony passou a mão em meu rosto, tocou em uma lágrima que desceu
e sorriu.
— Lilo e Stich — ele respondeu.
— Ah — balancei a cabeça, sem saber o que dizer. — Me desculpe...
— Você não precisa se desculpar por ter sentimentos — Anthony encheu
a boca para falar isso. — A Bia me disse isso no dia em que plantamos algumas
sementes no jardim.
Ele havia plantado sementes no jardim?
Quem diria?!
Bia se fazia presente mesmo na ausência. E era nessa ausência que todas
as dúvidas me eram arrancadas. Não apenas eu, mas toda a minha família tinha
se tornado melhor depois dela.
— O papai precisa fazer uma ligação. Continue estudando que eu já
volto.
— Você vai trazer a Bia de volta? — ele perguntou ansioso.
Não pude dar-lhe uma resposta, mas abri um sorriso de confiança.
Peguei o celular e liguei para Zimmerberg. Enquanto o telefone chamava,
Anthony me encarou de longe.
— Um dia o senhor vai me perdoar por eu ter matado a mamãe?

*

Zimmerberg não podia vir à Mitchell & Smith à tarde, apenas a noite.
Chamei Ethan, Derick e Adrian para discutir nossos próximos passos e
tentei perguntar a Anthony o que ele havia dito, por que eu não sei se tinha
escutado corretamente, mas ele não respondeu, ficou quieto o resto do dia.
— Adivinha quem veio dar suporte emocional para o melhor CEO da
família? — Laurel bateu na porta depois de entrar.
— Estava demorando! — fingi reclamar.
Larguei a pasta de documentos em cima da mesa e me levantei para
abraça-la.
— Como você está? — ele me abraçou forte.
Comecei a gesticular e procurar as palavras. No fim fiquei quieto e
suspirei.
— Oh! Olha só quem está aqui! — ela se surpreendeu. — Ele saiu da
mansão?
Laurel e eu fitamos Anthony dormindo nas duas poltronas que eu juntei
uma de frente para a outra.
— É a segunda vez que ele se aventura na cidade grande... — também
parei para admirá-lo. — Se eu te conheço bem, você sempre chega alguns
minutos antes da mãe.
— Você sempre foi o observador da família — ela balançou a cabeça.
— E ela vem para me dar suporte emocional também? — brinquei.
— Parece que não conhece a mãe que tem — Laurel cruzou os braços e
se escorou na minha mesa. — Enfim, me conte essa novidade! Era mais fácil
derrubarem mais prédios em Nova York do que Anthony vir para cá. O que
houve?
— Bia. Ela que houve — balancei a cabeça e dei a volta na mesa para me
sentar na cadeira presidencial. — Nada mais é o mesmo depois dela.
— Ela tem essa aura mesmo, por onde quer que passa ela ilumina as
coisas. Parece até que veio de ouro mundo — Laurel começou a mexer nas
canetas da mesa, olhou os quadros na parede e vigiou o resto da sala. — Você
não mudou nada. Ainda é a sala do papai.
— Exato. Ainda é a sala dele. Quando ele despertar, ele voltará a ser o
chefe.
— Você é cruel. Nem pensa na melhora dele, já quer torturar nosso
velhinho de novo! — Laurel gargalhou. — A vida dele era esse trabalho.
— Sim. Era o hobbie, o propósito, o fôlego da vida dele. Eu não mudaria
nada, seria tolice. Ele vai voltar e tudo estará no lugar.
— E quando Bia voltar tudo estará no lugar? — Laurel mordiscou o lábio
e me encarou.
— Desembucha. Quando você faz essa cara é porque...
— Mamãe foi a mansão há uma ou duas semanas...
Aquilo despertou o meu interesse. Não sabia disso.
— Ela deu um cheque em branco para a Bia.
— Para quê?
— Sei lá. Para ela comprar alguns vestidos Prada... viajar o mundo...
comprar uma Ferrari... abandonar você...
Engoli em seco. Minha mandíbula ficou rígida e meu rosto se contorceu
com toda a demora que me era de direito. Apertei os olhos e cerrei os punhos,
deixei-os parados no ar e os abaixei calmamente. Abri os olhos e a encarei.
— Não acho que ela aceitou — Laurel abriu um sorriso gentil. — Sei que
parece que ela fugiu com a amiga stripper... mas ela parecia tão interessada em
tudo, sabe? No jardim, no Anthony, nas pinturas da Serena que ela encontrou e
estava tentando desvendar o que estava escrito atrás... — Laurel parou um
instante para recuperar o fôlego. — Eu não acho que ela te deixaria.
— Por que eu ofereci um cartão ilimitado, um Green Card e outras
mordomias? — falei com aspereza.
— Não — Laurel foi simples. — Por que ela tinha um brilho no olhar, o
mesmo que o seu. Ela não era uma aproveitadora, na minha humilde opinião...
— Obrigado por acreditar nela.
— Também acredito em você. Sei que seus julgamentos não falham e
você escolheu a mulher certa para essa empreitada. Sei que oficialmente se trata
mais de negócios do que de sentimentos... mas pode falar, maninho, tem algo
rolando entre vocês.
— Você acha?
— Nem mesmo nós tínhamos tanta liberdade para estar perto do Anthony
— Laurel riu. — Ela se encontrava praticamente todas as noites escondido no
quarto dele. Sabia disso?
— Não...
— Ela me contou — Laurel ajeitou a bolsa no ombro e me deu tchau
com a mão. — Quer apostar quanto que assim que eu sair a mamãe vai entrar?
— É... conversamos demais... você me enrolou muito bem — segurei sua
mão e apertei. — Obrigado, Laurel.
— Obrigado nada, traz a minha cunhada de volta — ela me repreendeu.
— Não pense que você é o único beneficiário da presença dela. Beatriz e eu
somos as pessoas mais normais dessa família, não quero ter que ser a única, a
excluída novamente — ela ficou bastante séria e disse tudo o que precisava num
tom imperativo, como era de se esperar de uma Mitchell.
— Eu a trarei, eu juro.
Antes que Laurel pudesse dizer mais alguma coisa a porta se escancarou.
— Ninguém nessa família sabe bater antes de abrir a porta — Laurel
comentou e deu espaço no meu campo visual para que eu encarasse Rebecca
segurando a porta e minha mãe que entrou logo em seguida.
— Ah, ainda bem que estão reunidos. Precisamos conversar — minha
mãe tirou o casaco de peles e jogou em cima da mesa onde estavam as coisas de
Anthony.
— Também é bom te ver, mama.

*

A minha mãe não tirou os olhos da grande janela da sala presidencial.
Após uma rápida examinada na sala e ver que ela estava impecavelmente
como sempre fora, ela me deu as costas e fitou o mundo debaixo de todos
aqueles andares, onde os transeuntes eram do tamanho de formiguinhas.
Ela gostava dessa sensação.
— Isso parece menos uma reunião de família e mais uma intervenção —
quebrei o silêncio.
— Uma excelente palavra: intervenção. Era isso que essa família
precisava há muito tempo.
— A intervenção dela em nossas vidas, é claro — Laurel se sentou no
braço de uma das poltronas onde Anthony estava dormindo.
Rebecca ficou de pé, guardando a porta, quieta.
— Pode falar, mama. Ilumine-nos — falei.
— Ah, eu tenho muitas coisas a dizer — ela respirou fundo. — Por onde
começo? Por onde começo? Ah, sim, seu péssimo gosto para mulheres fúteis,
um testamento de uma mente demente e uma aproveitadora que quer destruir não
apenas essa família, mas tirar toda a nossa fortuna...
— A mamãe avisou, Héctor. Por que você tinha que casar com essa
maldita mulher? — Rebecca ralhou. — Agora ela fugiu com a parceira de crime
e nos deixou em uma situação perigosa.
— Héctor, você tem um bom coração — minha mãe suspirou. Ainda
olhava o mundo lá fora. — Tão puro que se embrenha no mundo imundo e
perverso de mulheres como aquela Beatriz e ainda se sente cativado pela
víbora...
— Não fale assim dela — mandei.
— Ela fugiu! Entende em que situação ela nos colocou? Entende que se
os advogados da empresa pedirem para ver você e sua mulher nesse instante,
você não a tem para apresentar? O que isso nos torna?
— Falidos — Rebecca voltou a ralhar.
— Eu a encontrarei antes que descubram. Só contei para vocês porque eu
quero tornar tudo transparente. Expliquei o que houve e darei um jeito nisso
antes que qualquer outro perceba. Na dúvida, Beatriz continua na mansão nos
Hamptons e fim de assunto.
— Héctor, ela não vai voltar — minha mãe se virou para mim, de braços
cruzados. — Ela aguardou o momento certo para dar o bote. Esperou quase seis
meses para enfim desestabilizar as bases dessa família! Você pode não se
importar conosco, Héctor. Mas toda a fortuna? Entende que perderemos tudo
para o Geoffrey?!
— Eu entendo. Assumo as consequências. Darei um jeito nisso.
— Eu dei um cheque em branco a ela — minha mãe balançou a cabeça
negativamente. — Para que ela não criasse mais problemas, desaparecesse do
mapa e reaparecesse quando fosse solicitado, caso os advogados exigissem vê-la.
Sabe o que ela disse, Héctor?
— Estou ansioso para ouvir.
— Que aquela seria a carta de alforria dela.
Meus pensamentos pararam por um segundo e eu a encarei muito sério,
sem saber como reagir.
— Ela estava exausta de você. Do seu mundo perigoso. Disse até que não
aguentava mais fingir suportar o seu filho — ela continuou a fazer sinais
negativos com a cabeça. — Aquela maldita stripper só aguentou tudo porque
tinha benefícios e ao perceber que os perderia em seis meses, deu graças a Deus
por não precisar mais se humilhar para...
— Chega — mandei.
Minha mãe sorriu, satisfeita, ao perceber que havia me atingido.
E havia mesmo.
— Saiam, todas vocês, da minha empresa.
— Sua? — Rebecca riu.
— Saiam! — rugi.
Pela primeira vez vi as três assustadas, pálidas, trocando olhares
confusos.
— Vamos embora — minha mãe pediu para minhas irmãs. — Héctor
sabe que a verdade dói. E precisamos dar-lhe a chance de digerir a verdade. A
stripper não foi raptada, filho. Ela fugiu. É só ver as câmeras de segurança de
fora da sua mansão. Ela entrou de livre e espontânea vontade no carro, ninguém
a pressionou, ninguém exigiu, ninguém estava com uma arma apontada para a
cabeça dela.
— Eu mandei saírem — me levantei e apontei para a porta.
Laurel passou por mim e me abraçou.
— Fique forte — ela pediu.
Rebecca não me dirigiu a palavra, saiu depois de Laurel.
Minha mãe esperou que estivéssemos a sós e me olhou no fundo dos
olhos.
— Você colocou toda a fortuna dessa família em risco. E ajudou uma
prostitua a destruir essa família. Pelo bem maior, Héctor — ela pediu. — Se
algum de seus homens ou amigos encontrarem essa mulher e aquelas outras duas
strippers... — ela respirou fundo, suas narinas se encheram e seus olhos
mostraram-se vermelhos. — Mate-as.
— Tchau, mama.
— Se a fortuna e a família não são capazes de te convencer... — ela
segurou em meu braço. — Que o Bem Maior possa convencê-lo. Ou eu levarei
esse assunto diante os anciões da Grande Ordem e exigirei eu mesma que pelo
Bem Maior essas mulheres paguem com a vida pelo que fizeram conosco.
Você... eu... nós somos insubstituíveis. Essas putas não.
E assim como entrou, ela saiu.
Arrancou o casaco de cima da mesa arrastando com ele os livros e o
notebook de Anthony, jogou-o por cima do ombro e desfilou fora da minha sala.
Tive vontade de quebrar aquela porta e derrubar tudo dentro daquela sala.
A raiva, o rancor, a dor de escutar cada uma daquelas palavras... tudo isso
estava me corroendo por dentro.
E o pior, a única pessoa que eu podia me abrir, mesmo com todas as
minhas travas, era Beatriz. Eu só confiava nela para dizer o que eu estava
sentindo.
Mas ela não estava mais ali.
Antes de fazer qualquer coisa irracional e mais barulho do que já havia
sido feito naquele cômodo, procurei Anthony e conferi que ele não estava mais
deitado entre as poltronas.
Caminhei pela sala, meio cego e desesperado; absorto em meus
pensamentos, preocupado que dessa vez meu filho fosse o próximo a sumir.
O encontrei debaixo da minha mesa, com fones de ouvido, balançando o
corpo para frente e par trás.
— O que você está fazendo, filho? — estiquei a mão para pegá-lo.
Anthony, entretanto, não me permitiu tocar nele e ficou parado naquela
posição, olhando para o vazio.
— Me desculpe, eu não queria tê-lo acordado — afastei a cadeira
presidencial e me sentei diante dele. — Filho, você está bem?
Anthony balançou a cabeça e fez que sim.
— Você está tendo uma crise? — murmurei.
— Eu não sei — ele murmurou de volta.
Estendi a minha mão e a deixei suspensa no ar, diante dele.
— Eu estou aqui. E se você precisar de mim é só segurar em meu braço,
tá?
Anthony colocou as duas mãos em meu braço. Era nítido que seu corpo
estava tremendo, o coração parecia bem acelerado, ele tentava respirar, mas
parecia em choque.
— Tá.
— Olha pra mim — pedi. — Respira comigo — indiquei como ele
deveria fazer. Respirei bem devagar até encher os pulmões e depois soltei tudo
até o abdômen se esvaziar. — Respira com o nariz, solta pela boca.
Ele repetiu, meio desengonçado, mas conseguiu.
Sete minutos depois Anthony já não tremia mais.
Estava cansado, era nítido que seu sono havia sido interrompido e ele
havia tido algum tipo de choque ou tido uma crise emocional e estava paralisado
pelo medo.
— Ninguém precisa aguentar o fardo sozinho — afaguei seus cabelos. —
Juntos é mais fácil de lidar com a crise e superar qualquer coisa. Quando você
não for forte o suficiente sozinho, lembre-se que você tem a mim. Ok?
— Sim.
— Ótimo.
— E quando você não se sente forte o suficiente sozinho, você se lembra
da Bia, né papai? — Anthony segurou com força em meu braço.
— Eu penso em vocês dois — Respondi e Anthony suspirou, aliviado.
— Que bom. Eu também penso em vocês dois — ele disse como se
tirasse um peso de suas costas.
Capítulo 33
Héctor Mitchell

Bia piscou os olhos, fitava o teto, um sorriso escapava de seus lábios.
Sua mão tateou o colchão e passou pela minha coxa, depois o abdômen,
até encontrar a minha mão.
— 290 dias — ela murmurou feliz.
— Que diabos de contagem regressiva é essa? — rosnei.
— Para o fim do seu contrato — ela entrelaçou nossos dedos.
Fiquei sem ar. Era assim que eu ficava diante dela. Cada gesto, cada
pequeno movimento, até mesmo seu olhar mesmo quando não olhava para mim.
Bia me inspirava sentimentos que nem mesmo os grandes poetas
conseguiam dar conta.
Era uma tempestade frutífera e perigosa, cheia de vendavais e promessas
de colheitas... a síntese e a antítese. A contradição e a regra.
— Foram 90 dias felizes para você? — ousei perguntar.
Bia deitou de lado, o corpo virado para mim. Seus olhos expressivos
desceram pelo meu corpo, ela se aconchegou em meus braços e respirou fundo
contra meu peito.
— Se eu soubesse que um casamento de mentira seria assim, teria me
casado antes — ela se divertiu. — Embora eu sinta falta de trabalhar, fazer algo,
tem sido dias muito felizes. E devo isso a você.
— Não seja boba — a repreendi. — Você foi a minha escolha perfeita.
Bia riu e eu não entendi porque.
Raras vezes eu me permitia me abrir sobre meus sentimentos e ter como
resposta sua risada não me agradou.
— Eu estou pensando... já imaginou se todos os casamentos tivessem
data de validade como o nosso? Um ano... três anos... vinte anos... seis meses...
— O que tem de tão engraçado?
— Talvez as pessoas corressem contra o tempo — Bia se afastou um
pouco e me encarou. — Cuidariam do jardim... conheceriam melhor as pessoas
que estão ao seu redor e não se prenderiam ao que acreditam conhecer sobre
elas... se permitiriam viver mais, sabe? Descobrir novos prazeres, se entregar de
corpo e alma, viver intensamente crente de que essa é a maior oportunidade de
suas vidas. Não de serem felizes. Mas de descobrirem quem elas são quando tem
outra pessoa por perto 24 horas. E descobrir a felicidade nessa pessoa.
— Eu me enganei — respirei fundo. — Pensei que lindos fossem os seus
olhos, mas é tão mais bonito como você olha para as coisas.
Os lábios se expandiram e as covinhas do rosto dela ficaram demarcadas.
Aquilo me fez arder por dentro, um misto de felicidade e êxtase que procurei por
tanto tempo e nunca acreditei que seria bom o suficiente para encontrar.
Lá estava ela. Diante de mim. Deitada.
Bia voltou a rir.
— Tenho vontade de te dar uns tapas quando ri. Parece que ri de mim —
falei, tentando fingir uma chateação que era impossível manter.
— Dá — ela se virou e empinou a bunda para mim.
— Não faz isso — apertei os olhos e segurei a mão.
— Dá — ela começou a balançar a bunda para mim enquanto me olhava
por cima do ombro.
O estalo foi alto. E Bia se prendeu na cama. Olhou para a janela e depois
voltou seu corpo para mim, ainda ria.
— O que foi?
— Nova York é grande, né?
Fiz que sim.
— E no meio de toda essa gente... pessoas que só enxergam o que
querem de você e se concentram em sugar de você um fôlego de vida, a gente,
pelo menos eu, me sinto tão sozinha...
Toquei seu ombro e consertei a alça do sutiã. Voltei a me concentrar em
seus olhos e era impossível não sorrir com o olhar ao fita-la.
— Em um mundo tão grande onde a tecnologia deveria nos aproximar,
nos sentimos cada vez mais sozinhos... tudo se tornou tão artificial, plástico e
perfeito...
— E você ri de...?
— Pela primeira vez em muitos anos eu não me sinto mais só — seus
olhos brilharam. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. — É como se... você me
enxergasse como uma pessoa de verdade e não apenas como um corpo que quer
usar.
Bia respirou fundo.
— Você é o amigo mais verdadeiro que tive, acho — ele voltou a me
apertar em seus braços.
Eu a abracei como se nunca fosse soltá-la.
As palavras de Bia não me eram estranhas. Na verdade, era um
sentimento que eu carregava desde jovem.
— Eu sinto o mesmo por você, Bia — beijei sua testa.
A luz estava apagada e eu fitei o teto por alguns segundos. Quis fechar os
olhos para retornar para aquela cena que realmente acontecera e o sonho me
trouxera como um aperitivo do quanto eu fui feliz e não havia percebido.
Às vezes a felicidade é assim. Não parece grande coisa quando acontece,
mas depois de um tempo...
É como um retrato na parede com foto de família.
Pode não significar nada em um ou dois meses.
Um dia, anos depois, você passa na frente dele, o pega com carinho e
lembra do sacrifício de tirar a foto perfeita para capturar o tempo e o espaço em
um flash.
— Bia... — murmurei.
As duas mãos se estenderam pela cama vazia.
Olhei as notificações no celular e me sentei na cama. Definitivamente eu
não conseguiria voltar para aquele sonho. Eu queria poder morar nele.
Vesti o roupão púrpura por cima do corpo, abri a porta do quarto e
atravessei o corredor para o quarto ao lado.
Anthony dormia todo desajeitado em cima dos livros, fones nos ouvidos
e um velho celular agarrado em suas mãos.
Andei calmamente em sua direção e me sentei na cama para assisti-lo
dormir. Aquilo me acalmava.
— É por isso que você tem dores de cabeça frequentemente — reclamei.
O que ele ouvia estava tão alto que era possível ouvir de onde eu estava.
Tirei os fones dos ouvidos dele e encostei no meu.
— Eu nunca entendi o que era amor incondicional até vê-lo pela primeira
vez — era a minha voz, me surpreendi com isso. — A sensação de que eu faria
qualquer coisa por ele e o amaria de qualquer jeito. Eu não sabia que o amaria
tanto... ele foi e sempre será a melhor parte de mim. Quando eu o vejo é como
ver a minha própria história e me faz pensar naquilo que eu luto todos os dias
para que ele não precise ver e passar pelas coisas que eu passei.
Pausei a gravação.
Se minha mente em plena madrugada não me enganava, aquela havia
sido uma das conversas que eu tive com Bia.
Até nisso ela se fazia presente.
Havia deixado um rastro para que eu me lembrasse dela e quisesse
enlouquecer de vez por não tê-la por perto.
— Me desculpe por ter sido ausente nos últimos meses, filho — pedi,
mesmo que Anthony dormisse. Era um bom ensaio. — Eu te amo
incondicionalmente e farei de tudo para vê-lo feliz — afaguei seus cabelos com
ternura e cuidado para não acordá-lo.
Conferi as horas no celular e o coloquei ao lado de Anthony na cama.
Peguei os livros e os levei até a mesa de estudos e o cobri após conferir se o ar
condicionado estava em boa temperatura.
Saí do quarto meio pensativo, instigado e principalmente com saudades
de Bia.
Fui à sala e me sentei no sofá, abri a pasta de couro que eu levava ao
escritório todos os dias e encontrei nela o HD externo que Ethan havia me
entregado. Áudios e imagens dos aparelhos eletrônicos de Anthony capturados
pelas suas respectivas câmeras.
Levei o HD para o quarto e liguei o notebook em cima da cama. Eu
detestava que Anthony fizesse isso e lá estava eu com o aparelho na cama.
Conectei o HD ao notebook e abri a pasta cheia de áudios, imagens e
pequenos vídeos.
— Isso não a trará de volta, por enquanto — murmurei. — Mas a terei
um pouco comigo...
Tentei localizar na linha do tempo uma data aproximada dos primeiros
encontros entre Anthony e Bia. Era menos espionagem e mais saudades.
Vi alguns vídeos onde eles interagiam bem juntos, liam alguns livros e
comentavam sobre como imaginavam as cenas.
Em alguns áudios Anthony dizia o que estava aprendendo e Bia ficava
toda admirada e não parava de elogiá-lo.
Até que encontrei algo realmente curioso. Pelo visto, o primeiro contato
deles dois.
— Oi — era a voz de Beatriz. — Eu não sou a Amanda...
— Vai embora!
— Tudo bem... eu só queria dizer oi...
— Já disse. Vá embora! — Anthony foi ríspido. Eu nunca o tinha visto
assim. — Eu já disse para ir embora! — ele disse depois de um tempo.
Anthony tirou a cabeça de dentro da coberta e mostrou-se ofegante.
— Vá embora! — ele ordenou mais uma vez.
— Eu me chamo Beatriz. Acho que você...
— Eu sei quem você é! — ele disse nervoso. — Você roubou o meu pai
de mim!
Franzi a testa e pausei o vídeo. Eu realmente nunca tinha visto o meu
filho assim.
— Ele não me ama mais por sua culpa!
— Ant...
— Você é a mulher má que veio destruir tudo! — ele cuspiu.
Nesse momento a câmera ficou toda embaçada, um barulho de queda
surgiu e a câmera apontou para os pés de Bia.
— Se eu sou a mulher má, o que a mulher que fez isso com você é? —
ela perguntou.
— Fez isso o quê? — murmurei.
— Não! — ele rangeu os dentes. — Eu a proíbo! — ele disse num tom
autoritário.
— O que você está tentando fazer, Bia? — eu não conseguia ver a
imagem, aquilo abria para tantas interpretações...
— Você não vai me machucar! Não vai me machucar! Eu não permito!
Ouvir isso me deixou nervoso. Pausei o vídeo e abaixei o áudio para não
acordar Anthony e procurei fones de ouvido. Foi difícil, mas encontrei.
— Vai embora! — ele pediu.
— Eu não vou embora, Anthony — Bia disse. — Eu não posso. Eu não
quero. Eu não vim aqui tirar o seu pai de você. Eu não vim aqui para destruir
tudo. Eu não cheguei aqui, Anthony, para lhe machucar — ela explicou.
O resto era a voz de choro dele.
Aquilo me instigou ainda mais.
Nos vídeos seguintes Anthony e Bia se entrosaram, se aproximaram e se
mostraram cada vez mais amigos.
Então por que aquilo havia acontecido?
Obtive a resposta ouvindo o áudio anterior ao vídeo. Definitivamente
entendi a expressão “era o que você precisava ouvir, não o que queria”.
O que ouvi embrulhou o meu estômago e me deu asco, mas não parecia
de longe a raiz de todo aquele problema, apenas um dos galhos.
Voltei imagens, áudios e vídeos por meses até chegar próximo a época
que precisei me afastar de tudo e me dedicar única e exclusivamente ao meu
trabalho na Mitchell & Smith e viajar para o oriente.
Vi meu filho apanhando sem motivo. O vi fazer xixi na cama, coisa que
ele já não fazia há anos. Fazer cocô na própria roupa, coisa que ele nunca fez
depois de bebê.
Anthony tinha crises, surtos, simplesmente ficava perturbado “do nada”.
Aquele não era o meu filho.
O que haviam feito com o meu filho?
— Sabe porque o seu pai se afastou daqui? — a voz feminina perguntou.
Muitos meses atrás. Numa época em que Bia era apenas uma ilustre stripper que
eu visitava no La Chica em meus horários livres.
Anthony estava pálido, um tanto desanimado e sem muitas forças.
— Ele fica se lembrando dia e noite que você matou sua mãe quando
nasceu. Você é a causa pela qual sua mãe morreu e o seu pai não consegue viver
bem desde então — a voz feminina foi ficando cada vez mais próxima.
E conforme ela se aproximava, Anthony se encolhia.
— O seu pai não te abandonou por pena. Você sequer foi gerado por
amor. Foi apenas um capricho adolescente dele, você é literalmente o filho de
uma puta, uma vida que foi paga para te trazer ao mundo. Sem amor, sem
carinho, sem querer. Apenas dinheiro.
O rosto do meu filho se contorceu e ele começou a chorar. Eu não me
contive, paralisado diante daquela situação, não me restou nada além de chorar
também.
— Mas um dia vai vir uma mulher que o fará feliz. E ele poderá ter
filhos de verdade, com amor. Não uma criança doente e inválida como você que
sequer consegue andar direito! Você nunca foi amado ou desejado. Até mesmo
agora que ele se apercebeu do quão grotesco você consegue ser, seu fedelho,
Héctor já não consegue mais vir olhar no seu rosto, por que ele se pergunta por
que não te abandonou em um orfanato.
Uni as mãos diante do rosto, como se fizesse uma prece e continuei a
ouvir tudo aquilo.
Seguido de abusos físicos, machucados e depois muitos remédios que
faziam Anthony dormir por horas.
Nos vídeos e áudios seguintes não era diferente.
E aquela cena se repetiu até que meu filho estivesse completamente sem
cor, profundas olheiras, praticamente surtado.
Sozinho Anthony batia a cabeça na parede e tentava se machucar.
Gritava, chorava, se debatia na cama.
Lembro que foi me informado que sua janela fora soldada porque ele
tentara pular. E sua porta ficava trancada pelo lado de fora e ele não podia sair de
jeito algum.
Assisti tantos vídeos, ouvi tantos áudios, fiquei preso naquele inferno
grotesco até que percebi que eram sete horas da manhã e não mais duas e meia.
— Você não vai me machucar! — agora eu entendia a expressão de
Anthony.
Ele estava com medo, diante de uma completa desconhecida que fora
pintada como um demônio.
Ao que era quase arrebatador ouvir de Bia:
— Eu não cheguei aqui para te machucar.
Fechei o notebook, com vontade de jogá-lo pela janela e destruir metade
da junto.
Eu estava com sono, com raiva, meus olhos ardiam, meu coração fervia,
eu realmente estava fora de mim.
Os sentimentos foram se tornando intensos que senti falta de ar.
Eu havia perdido Bia e agora via ao vivo e a cores tudo aquilo com o
meu filho?
E eu tive sorte, pois aquilo não era nem mesmo um décimo do que havia
naquele HD.
— Papai — a voz de Anthony me chamou na porta.
— Sim, filho — respirei fundo, esfreguei as duas mãos no rosto e tentei
manter a pose de que nada estava acontecendo.
— Eu estou com fome — ele gemeu.
Aquilo foi um gatilho horrível.
Estiquei o pescoço e tentei guardar as lágrimas, mas elas começaram a
descer. Ouvir aquilo foi como rever as cenas onde meu filho ficava horas sem
comer e depois que comia dormia, ou quando era maltratado e recebia abusos
verbais ou físicos.
Eu não era mais forte. Não tinha mais como ser.
Abaixei o rosto, chorando entre as palmas das mãos, culpando-me por
tantas coisas que o único veredito possível era a morte.
Tomei um baita susto quando senti a mão de Anthony em meu braço.
Esfreguei o dorso das mãos nos olhos e deixei o rosto todo úmido, os
olhos certamente vermelhos pelo cansaço e pela ira.
— Eu também choro às vezes — Anthony sorriu gentilmente, os olhos
brilhando.
Aquele era o meu filho. Em seu melhor estado.
O rosto corado, bem mais gordinho que nas imagens onde estava magro e
debilitado. Os olhos grandes, brilhantes, as bochechas bem cheinhas.
— Vem cá — o peguei em meus braços. Tentei encará-lo com menos
severidade, que era algo natural do meu olhar, e o máximo possível de calor
humano que ainda me restava depois de terem me tirado tudo e mais um pouco.
Respirei fundo e não foi suficiente.
— Eu nunca vou te abandonar — aquilo foi o suficiente para não uma ou
duas, mas várias lágrimas escorrerem pelo meu rosto. — Você não é culpado de
absolutamente nada. Você foi esperado, desejado, amado, você é, foi e sempre
será todo o meu mundo. A sua mãe seria a mulher mais feliz do mundo se
pudesse te ter nos braços, mas infelizmente, por complicações que não tem a ver
com você, meu filho, ela não sobreviveu.
Anthony era novo, mas ficou nítido que ele entendeu o que estava
acontecendo.
De alguma forma ele percebeu que eu havia descoberto algo.
— Eu te amo. Eu sempre vou te amar. Independente do que digam, do
que pensem, do que te queiram te fazer acreditar. Você é parte de mim. Eu passei
noites em claro cuidando de você, dia após dia eu te vi crescer para além do
tamanho da palma da minha mão.
— Eu sei, papai — Anthony disse e me abraçou.
A única coisa que se comparava àquele abraço e aquelas palavras tão
inocentes de uma criança era o sorriso de Bia.
Quando ela olhava para o teto. Ria, do nada, e me deixava nervoso
porque eu simplesmente não conseguia entender a inocência.
A inocência de ser feliz, a inocência de acreditar, a inocência de deixar o
passado para trás e se reinventar.
— Eu sinto muito que coisas terríveis tenham acontecido a você na
minha ausência. Mas elas nunca mais acontecerão, filho. Nunca mais.
— Tudo bem — Anthony bocejou enquanto me apertava com seus
bracinhos. — Mas eu ainda estou com fome.
— É claro, é claro — me levantei com ele nos braços como se ainda
fosse um bebezinho e fomos para a cozinha. — Tem muita coisa na geladeira
que podemos esquentar e comer.
— Eu sei fazer panquecas — Anthony disse orgulhoso.
— Sabe? — perguntei admirado.
— A Bia me ensinou.
— Imagino que sim — concordei e o sentei em cima da mesa.
Abri a geladeira e tirei de lá tudo o que poderíamos fazer para o café da
manhã.
Era engraçado ter de me virar sozinho sem dezenas de empregados e
pessoas que faziam tudo por mim.
Naquele momento era como voltar para os velhos tempos: apenas
Anthony e eu.
E mesmo assim ficava uma lacuna, um espaço vazio, que já não podia
mais ser preenchido por apenas nós dois.
— Quando a Bia vai vir morar nesse apartamento? — Anthony
perguntou.
A sincronia de nossos pensamentos e sentimentos não podia ser mera
causalidade.
— Em breve, filho — foi a minha resposta.
Agora eu só precisava encontrá-la.
Capítulo 34
Héctor Mitchell

Todos os empregados da mansão no Hamptons estavam diante da
propriedade quando cheguei e desci do carro.
Aquele lugar nunca mudara, continuava sendo o mesmo desde que eu era
criança. Mas um clima estranho me recepcionou quando bati os olhos no lugar.
Faltava algo ou alguém. Era como se a luz, o calor, a vida que o lugar recebera
nos últimos tempos houvesse desaparecido.
E havia mesmo.
— Senhor Mitchell — Yone veio até mim e me cumprimentou. — Tudo
está em ordem, como o senhor pediu. Ninguém entrou nos quartos, deixei as
pinturas de Serena onde a senhora Mitchell deixou tudo originalmente.
— Obrigado, Yone.
— O senhor pode sentir falta de algumas peças da casa... foram levadas
pela tal Hillary — Yone torceu o nariz e me entregou a chave do quarto de Bia.
— Nada que ela roubou me interessa, a não ser a minha mulher — rosnei
e subi as escadas para chegar a entrada.
— E você, Anthony, como foi conhecer a cidade? — deixei Yone
conversando com meu filho e entrei na mansão.
Andei decidido, compenetrado, sem ligar muito se faltava de valor
durante o meu trajeto.
Marchei até o quarto de Bia, destranquei a porta, respirei fundo e entrei.
Ainda tinha o cheiro dela.
— Que droga — massageei as laterais da cabeça e caminhei até a cama.
Tive pouco tempo para me recompor. Deitei sobre o travesseiro que ela
descansou todas as noites, quis arrancar o forro da cama e levar comigo para o
apartamento... o que no fim não era má ideia.
Tirei o forro da cama e o dobrei.
Encontrei as pinturas em cima da escrivaninha junto com alguns papeis.
Laurel havia comentado sobre a obsessão de Bia não apenas com o
jardim, ou outros cuidados da casa, mas às pinturas de Serena que ela havia
encontrado.
Passei uma a uma as obras, eu as conhecia bem. E nunca havia parado
para notar os escritos atrás delas, pelo menos, quando eu as vi, não estavam ali.
“Foi um erro amá-lo. Era apenas um contrato” estava traduzido na folha
indicando a pintura de um pôr do sol onde tudo estava num tom azul
melancólico e dois pontinhos minúsculos em cima de um rochedo.
Não havia nada demais além de mensagens melancólicas nas belas
pinturas dela.
Até que eu encontrei uma que indicava que uma das pinturas precisava
ser rasgada para que se encontrasse o segredo.
— Que droga de segredo? — murmurei.
Encontrei um envelope debaixo de todas aquelas obras. Dentro dele um
cheque e não era recente. Remetia há doze anos atrás. Um valor altíssimo,
assinado pela minha mãe.
No envelope encontrei uma carta de Serena onde ela dizia que corria
sérios riscos e que recebera o dinheiro para abortar o bebê e desaparecer, caso
contrário, coisas ruins aconteceriam a eles dois.
Tive vontade de amassar aquilo, com raiva.
Que merda era aquela?
A carta continuava indicando as inúmeras ameaças, as vezes em que
Serena fora abordada dentro de casa por empregados que a alertaram de que seu
tempo estava acabando... mas que ela não queria ir embora.
Era isso.
Eu era culpado pela morte de Serena, pelas mazelas que meu filho sofreu
e agora pelo rapto de Bia.
Encontrei um cheque com data recente dentro de outro envelope. Vinha
acompanhado de um bilhete também.

“Héctor,
Se você encontrou esse bilhete, eu já não estou mais por aqui.
Sei que pode parecer estranho, mas entendo Serena. Nem mesmo
dinheiro, ameaça ou a turbulência poderiam me afastar de você.
Estar com você poucos meses foi como viver uma eternidade onde eu
podia ser inteiramente eu.
E cada momento valeu à pena.
Não se culpe.
Obrigada por despertar o melhor em mim. Por me ajudar a enfrentar as
chagas do passado sem saber de minha história. E por confiar o seu tesouro
mais precioso aos meus cuidados.
Assim como Serena, quando eu me for, não terei desaparecido.
Permanecerei, pelo menos num pequeno fragmento, contigo.
Bia”.

O gosto amargo voltava à boca.
Peguei todos os papeis pequenos e coloquei na pasta de couro, as
pinturas eu segurei com as mãos.
Tranquei o quarto de Bia e desci as escadas, onde encontrei uma dúzia de
homens atrás de um bem alto, de óculos escuros, chapéu fedora e sobretudo.
— Vamos varrer toda a casa — Ethan disse com segurança.
— Estarei no escritório — avisei e procurei Anthony pelo lugar.
Ethan fungou bem forte ao se aproximar de mim, fiz uma careta e o
empurrei.
— Você é um cão farejador agora? — reclamei.
— Só queria atestar que está sóbrio, sem efeito de drogas — ele sorriu no
fim. — É comum ceder a algo que anestesie a mente e o corpo em busca de
melhoras temporárias, você sabe...
— É, eu sei — reclamei. — Mas eu não sou o meu pai. E nem quero uma
melhora temporária. Eu quero a minha mulher — rosnei.
— Aí fizemos panquecas e sujamos toda a cozinha... — ouvi a voz de
Anthony vindo da cozinha.
Caminhei em passos largos até o cômodo e o chamei.
— Hora de ir, filho!
— Ah, ele não vai ficar? — Yone perguntou.
— Preciso leva-lo, Yone.
— Vocês estão precisando de algo lá no apartamento? Precisam que
eu...?
— Não, não, fique aqui. Mantenha tudo como está, por favor. Anthony e
eu vamos sobreviver sozinhos. Acho, até, que precisamos desse tempo juntos.
Yone abriu um fino sorriso e concordou.
— Vamos, filho? — o chamei.
Anthony deu adeus a Yone e se dirigiu ao carro.
— Obrigado por manter tudo como estava, Yone. Ethan veio rastrear o
local, pegar todas as imagens que precisa, trouxe uma equipe técnica para
estudar algumas coisas... volto assim que possível.
— Certo, senhor Mitchell. Espero que o senhor esteja bem.
— Vai ficar, em breve.
Da mansão no Hamtpons fui direto para o hospital onde meu pai estava
internado.
Ethan disse que eu teria uma surpresa ao chegar lá.
Não poupei tempo. Dirigi até o hospital e levei o meu filho no quarto
onde seu avô estava.
Eu já não podia mais poupá-lo da realidade. Anthony precisava sair,
enfim, da bolha que eu havia criado e ter contato com o mundo externo.
Já de cara ele ficou meio espantado ao ver homens de preto com armas
grandes guardando o corredor.
Quando entramos no quarto ele ficou quieto, se aproximou devagar e
examinou o avô, que estava de olhos abertos.
— Ele começou a responder a vários estímulos — a enfermeira
informou, animada. — É um avanço e tanto!
— Ele já está fora de risco? — era o que eu precisava saber.
— Não posso dar essa resposta nesse momento, mas assim que possível
lhe informarei isso, senhor Mitchell.
— Ok.
— Ele está dormindo? — Anthony perguntou.
— Deve ser algo parecido com isso — respirei fundo. — Quando ele
acordar, vamos perguntar-lhe como foi a sensação.
— Ele devia estar tomando a mesma sopa que eu — Anthony fez uma
careta. — Eu tomava e dormia por dias...
Meu pai tinha muitos problemas de saúde, já estava velho e bem
debilitado, além dos caprichos que ele fazia com drogas, bebidas, pílulas azuis...
— O que você disse, filho? — voltei-me para Anthony.
— A Amanda. Ela me dava aquela sopa que eu...
Concordei de imediato e dei-lhe as costas.
— Não saia daí — mandei e saí do quarto.
Chamei a enfermeira que ainda estava pelo corredor e ela veio a mim.
— Sim, senhor Mitchell?
— Quando ele começou a responder aos estímulos? — perguntei.
— Há uma semana, na verdade. Tentamos entrar em contato, mas...
— Obrigado — dei-lhe as costas e peguei o celular.
Procurei o número de Ethan no histórico e liguei para ele.
— Não sou o Sherlock Holmes, Hex. Não encontrei nada ainda. Dê-me
mais algumas horas e... — Ethan já começou a tentar se justificar.
— Ethan, quando descobrimos que meu pai estava sendo envenenado?
— Era uma possibilidade, no início, até que infiltramos um dos nossos no
hospital e tivemos a certeza... fazem um mês e meio talvez.
— E quando o nosso pessoal fechou o corredor? — perguntei.
— Um mês ou menos que isso. Aonde você quer chegar?
— Durante as minhas aulas após a sindicância Lilith me contava uma
história — fechei os olhos.
— Não era nenhum romance de banca, né? Sabrina... essas coisas... —
ele riu do outro lado.
— A Caverna de Platão — revirei os olhos. — Onde as imagens eram
projetadas na parede e eram tomadas como realidade. Mas na verdade elas eram
reflexo de algo que estava acontecendo fora da caverna.
— É. Meu síndico foi o Terence Smith, você sabe. Ele também me
contava a droga dessa história...
O termo “síndico” se referia aos nosso padrinhos e madrinhas dentro da
Grande Ordem, as pessoas que nos instruíram, que passaram seus conhecimentos
para nós, que foram nossos professores e cuidadores durante o nosso processo de
formação.
— Às vezes as ilusões podem se confundir com a realidade quando não
olhamos para o lado certo. Ficamos tão concentrados na projeção das imagens,
do que achamos que estamos vendo, que ignoramos a verdade...
— Que é...? — Ethan perguntou, ansioso, do outro lado.
— Que é o que ignoramos.
Eu me arrepiei.
Ouvi aquela voz feminina atrás de mim e me virei rapidamente.
— Que é o quê? Não ouvi — Ethan reclamou do outro lado da linha.
Engoli em seco e pisquei os olhos várias vezes para confirmar se
realmente estava vendo quem eu estava vendo.
— Lilith — murmurei.
Ela fechou a porta atrás de si e deu alguns passos à frente. Sorriu para
Anthony e espiou o meu pai em cima da cama.
— Estou de volta, meu bem — ela sorriu.

*
* *

Ninguém diria que Lilith tinha a idade que tinha. Qualquer um lhe daria
entre trinta e trinta e cinco anos.
Tinha um olhar jovem, uma pele bem cuidada, gostava de se trajar
daquele jeito estranho que lembrava uma cigana na maioria das vezes, mas como
estávamos em Nova York, aquilo era mais do que natural.
Adornada com muitas joias e com um olhar misterioso, a minha síndica
caminhou pelo quarto em um silêncio tão solene que pareceu que o tempo parou.
O andar, o movimento, cada gesto dela era silencioso. Diziam que ela
tinha poderes mágicos e era capaz de se teletransportar, desaparecer sem ser
vista, aparecer em lugares fechados do nada. Eu sabia que era pura verdade,
ainda mais porque ela fora a minha professora.
— Espero não ter atrapalhado sua ida a Europa — eu disse, admirado,
um tanto embasbacado em vê-la.
— Não atrapalhou — ela disse com firmeza. — Meus netos nasceram —
ela sorriu. — Precisei estar lá. Quando você tiver os seus, entenderá.
— Os filhos do Ricardo?
— Victor — ela fez um cafuné em Anthony que era totalmente avesso a
estranhos, mas Lilith tinha um certo encanto que nem mesmo meu filho era
capaz de resistir. — Deixe-me ver sua mão, querido — ela pediu.
Anthony estendeu.
Lilith olhou rapidamente a mão esquerda e a fechou. Deu umas
palmadinhas em cima do dorso dela.
— Guarde bem essa mão — ela sorriu de forma significativa e se voltou
para mim. — A linha da vida da mão do seu filho é bem longa e nítida para um
“garotinho doente” — ela resmungou.
Não entendi bem o que aquilo queria dizer e ignorei completamente.
— O que a traz aqui? Justamente aqui — cruzei os braços.
A mulher olhou para o meu pai em cima da cama. Seu andar era como
uma dança silenciosa, ela tinha gingado, tinha um quê de encanto quando se
movimentava. Onze anos após conhecê-la... e ela continuava intacta.
— Gregory foi o meu síndico — ela sussurrou. — Era amigo pessoal do
meu pai e foi ele o meu professor — ela voltou a me olhar. — Gregory e Terence
reconheceram o meu valor quando fui indicada para a Grande Ordem — ela
suspirou.
— Você consegue ver na mão dele se a “linha da vida dele é longa e
nítida” e se ele vai sair dessa? — provoquei.
Ela arqueou a sobrancelha, puxou a mão dele com toda a naturalidade do
mundo e demorou-se ali. Entortou a boca uma ou duas vezes e depois se voltou a
Anthony.
— Anthony, vá brincar no corredor — ela pediu.
Meu filho me encarou e eu concordei, então ele saiu.
— Eu tenho olhos por toda a Nova York — Lilith localizou a poltrona
que ficava em um canto do quarto e não demorou até se sentar nela, cruzou as
pernas e continuou a me encarar. — Posso não ter estado aqui nos últimos
meses, mas todos os meus olhos estavam e eu vi cada coisa que aconteceu.
— Quem precisa de uma bola de cristal ou cartas de tarot quando se tem
prostitutas a seu serviço, não é? — sentei-me na poltrona mais modesta que
ficava ao lado da cama do meu pai.
— Prostitutas... acompanhantes de luxo... strippers... mulheres que
queiram trabalhar na perigosa noite ou queiram ser meus olhos no mundo dos
homens poderosos de Nova York. Eu faço com que eles se apaixonem por elas, e
elas me devolvem com informações privilegiadas — ela disse.
— Só em Nova York? — ri e umedeci os lábios.
— Sou modesta e não irei me gabar — ela também riu e umedeceu os
lábios.
— Você sabe o paradeiro de Bia? Me dê uma luz — pedi.
— Eu sei — Lilith disse como se aquela informação fosse apenas mais
uma em meio a tantas outras, aliás, aquele pareceu um assunto bem
desinteressante para ela.
— Sabe? — arregalei os olhos.
— Sei onde está. Quem a raptou. O que quer fazer com ela...
Respirei fundo. Eu já era tenso por natureza, numa situação dessas
então...
— A ignorância é uma bênção, Héctor. Não saber traz paz. As pessoas
não são ignorantes da realidade e da verdade porque são ruins ou de mal
coração. Custa caro ver as coisas como são. Às vezes é mais fácil manter-se nos
aspectos mais primais da nossa espécie como elencar um herói que nos salve,
acreditar piamente em mentiras e permitir que o ódio e o medo seja alimentado
dentro de nós e nos sintamos capazes de mudar o mundo com mais ódio e medo
— Lilith disse tudo aquilo com tranquilidade. Eu sempre me perguntei como ela
podia.
— Já é tarde demais, Lilith. Eu já sei a verdade — suspirei.
— Sim, vejo em seus olhos — ela sorriu. — Você também não fez a
barba hoje cedo — ela notou.
Passei a mão no pescoço e senti, de fato, que meus cuidados não estavam
mais em dia como antes.
Também, como eu poderia ter cabeça para isso?
— Saber a verdade não basta. É preciso enfrentá-la — ela murmurou. —
E enfrentar a verdade pode nos fazer questionar nosso estilo do vida... nosso
passado... nossa existência... Ninguém quer isso. Só queremos achar um
culpado, elencar um bom solucionador e lavar as nossas mãos. Por isso as
pessoas continuam na caverna, não mais porque estão acorrentadas, mas por que
isso lhes traz paz...
— Uma paz sangrenta, violenta e hostil — completei.
— Ignorar a verdade faz bem a curto prazo. A longo, ela é capaz de
destruir uma nação. Um povo. O lado humano que habita dentro de nós e nos
resta, se nos resta — Lilith começou a mexer nos braceletes de ouro.
— Onde Bia está? — perguntei.
— Estava em um hotel bem chulo até ontem à noite — ela respondeu. —
Foi levada para um local, digamos, “mais confiável”. Diga-me, Héctor, os
irmãos do Grande Templo sabem o que aconteceu a sua mulher?
— Não. Seria um caos.
Lilith concordou e sorriu, como se aquilo quisesse dizer alguma coisa.
— Encontrá-la não será um problema — ela uniu as mãos em cima do
colo. — O depois disso que pode ser desafiador.
— Eu estou pronto. Eu sei o que preciso fazer.
— Admiro isso em você. Você foi submetido a provas para entrar no
Grande Templo e passou com honras.
— Eu nunca entendi isso — balancei a cabeça. — Em todas as provas eu
cheguei em último... — ri da minha própria desgraça.
— Geoffrey chegou em primeiro em todas — ela me fez lembrar. — Mas
ele não sabia o que estava fazendo. Derrubava os concorrentes, pregava peças,
impedia que eles avançassem... — quando ela disse aquilo foi como voltar onze
anos atrás. Eu podia ver e sentir tudo aquilo. — Você ficou para trás porque
tentou reerguer os participantes, ajudou-os a finalizar as provas e deu tudo de si
para que ninguém ficasse para trás.
— E isso é saber o que se está fazendo? — perguntei.
— Nunca dissemos que as provas eram sobre quem chega primeiro —
ela respondeu com simplicidade. — As provas sempre são sobre quem você é.
De repente muitas coisas fizeram sentido em minha cabeça.
— O que você pensou? Pensou que entrou no templo só porque o Smith
te indicou? E que ele moveu mundos e fundos para que você entrasse? — ela riu.
— Você é um homem poderoso e chegou onde chegou porque é capaz, tem bom
coração e bom espírito de liderança. Você sabia desde cedo que o jogo do poder
não é sobre ser maior ou mais poderoso que outro, mas ser maior e mais
poderoso do que você mesmo.
Lilith se levantou e eu também.
— Meu pai sempre deixou bem claro que eu não estava pronto e que eu
não era capaz de dirigir a Mitchell & Smith.
Dizer aquilo doeu.
Acho que por me abrir e sentir algo tão profundo por Bia e estar sensível
por não tê-la, tudo fazia meus olhos marejarem.
— Que merda! — praguejei.
— O seu pai só queria proteger o bebê dele — Lilith me encarou como se
aquilo fosse muito óbvio.
Eu fiquei paralisado.
— Gregory sabia o preço do poder e o que ele faz com as pessoas. Ele
queria, assim como você sempre quis, proteger o bebê dele do mundo perigoso,
sujo e amedrontador.
— Mas no fim ele não teve escolhas — resmunguei e funguei. — Aqui
estou eu. Como CEO, chefe de toda a família agora, no lugar dele.
— E ali está seu filho — ela olhou em direção a porta. — Longe da
mansão que o protegia, tão perigosa quanto o mundo violento e hostil que é fora
dela. Uma hora os pais entendem que não podem proteger seus bebês do mundo
— Lilith andou até mim e segurou em minhas mãos. — Uma hora os pais
aprendem que a melhor forma é preparar, fortalecer e ensinar seus filhos a como
não repetirem os mesmos erros que eles. O mundo pode continuar violento e
hostil, na verdade ele sempre foi. Mas nós, Héctor, passamos a eles nossa
experiência, nosso suor, nosso sangue, nossas noites mal dormidas, nossas
Ilíadas e Odisseias para que eles vivam melhor do que um dia nós vivemos.
Quase me ajoelhei perante ela. Mas eu conhecia bem Lilith e sabia que
receberia um chute por isso.
— O bebê cresceu — ela tocou as laterais do meu rosto. — Não apenas
esse bebê — ela sorriu e olhou para a porta. — E agora, munido das experiências
que viveu, ele precisa mudar o mundo — ela respirou fundo. — Mas é
impossível mudar o mundo...
—... se não mudamos a nós mesmos — completei a frase que ela sempre
repetia, todos os dias, durante nossas aulas.
— Eu estarei por aqui, quando precisar — Lilith soltou minhas mãos e se
afastou. — Você sabe onde me encontrar.
— Obrigado.
— Qual o destino do discípulo, Héctor? — ela me perguntou, já de
costas para mim, diante da porta, a mão na maçaneta.
— Superar a si mesmo. E quem sabe assim, superar o mestre — era a
resposta.
Lilith girou a maçaneta e já ia atravessando a porta quando eu a chamei.
— Lilith?! Você não disse o que leu na mão do meu pai — fiquei curioso
sobre aquilo.
Ela se virou calmamente, com um sorriso brando no rosto.
— Ele não vai mais querer ser o CEO quando acordar — ela respondeu
com simplicidade. — Vai ficar orgulhoso em ver que o filho dele agora vive,
sente e é o seu melhor. Seria grandioso trazer a sua mulher e Anthony aqui —
ela sugeriu. — Ele precisa vê-los. Os três. Juntos.
— Obrigado — agradeci.
Lilith parou na porta e antes de seguir seu caminho, virou o rosto
novamente.
— Ela está na mansão do Terence Smith, nos Hamptons.
— O quê?! — perguntei inconformado. Como era possível?
— A natureza das coisas é que elas terminam onde começam. E elas
normalmente começam onde terminam — Lilith sorriu.
Eu nunca imaginaria que ela estivesse naquele lugar. Era exatamente o
último lugar onde eu ousaria procurar.
E exatamente por isso fazia muito sentido que ela estivesse lá.
Me despedi do meu pai e liguei para Adrian enquanto descia no elevador
para a garagem no subterrâneo do hospital.
Bia voltaria para casa o quanto antes.
Capítulo 35
Beatriz Rodrigues

— Bia — ouvi a voz de Héctor. Era fácil estremecer ao ouvir meu nome
sair de seus lábios.
— Sim — respondi, de olhos fechados.
— Me desculpe, acho que eu não serei capaz...
— Capaz de quê? — perguntei, preocupada.
— De deixá-la ir embora.
Fiquei sem ar. Eu não sabia se seria capaz de ir embora e deixá-lo.
O toque de Héctor em meu rosto me fez fechar os olhos novamente.
Suspirei ao perceber que sua respiração ficou cada vez mais próxima.
Ele não precisava de argumentos bem elaborados para me fazer ficar.
Apenas aquele beijo era o suficiente.
Uma sensação anestésica tomou conta do meu corpo. Estar nos braços
dele parecia o suficiente para fazer o tempo parar e o espaço se tornar um mero
detalhe.
Nunca imaginei que pertencer a alguém fosse tão arrebatador, prazeroso
e libertador.
— Você faz com que eu me sinta... seu — Héctor murmurou.
A cena foi se distanciando até que me vi em fuga. Hillary e eu,
desesperadas, correndo para salvar a própria vida...
Até o momento em que tive a impressão de ter visto Clair... e apaguei.
— Como?! — acordei atordoada.
Ouvi o som da voz das duas discutindo em outro cômodo.
Eu estava amordaçada, vendada, algemada, que sensação horrível!
Grunhi, me contorci no chão, nada adiantou. Permaneci presa a escuridão
e sem movimentos.
— Não faça nada estúpido, Bia — Hillary pediu.
Como se eu pudesse fazer alguma coisa!
— Precisamos ir. Eles podem nos achar aqui.
O quê? Para onde? O que está acontecendo?
Senti mãos fortes, parecia um homem, que me ergueu do chão e me
carregou. Ouvi o som do elevador e antes que a porta fechasse, senti aquele
cheiro intenso, profundo, que ecoou por dentro de mim e me fez apagar.
Acordei.
Dia após dia senti aquela sensação que deixava o corpo cada vez mais
pesado até sentir todas as funções motoras se desligarem.
Minha boca estava seca. Meu estômago doía, era como se eu tivesse
levado uma porrada no baixo ventre. Fiquei dias vendada que abrir os olhos,
mesmo naquele quarto com pouca luz, trouxe uma nova dor. Uma que eu não
merecia.
— Onde estou? — murmurei.
Não havia ninguém ali.
Onde eu estava?
Não era sujo, os móveis eram luxuosos e havia muito espaço no lugar.
Estava limpo, não parecia de longe um hotel 3 estrelas.
— Acordou — uma voz feminina veio da escuridão, saiu pela porta e a
trancou.
— Volta aqui! — pedi. — Eu preciso de ajuda! — olhei ao redor. A voz
saiu fraca, debilitada, entreguei-me ao silêncio porque o corpo desidratado
pesou.
Meu rosto encontrou o chão gelado, meus olhos conseguiam distinguir
uma luz vindo por debaixo da porta do cômodo.
Que merda eu fiz?! Era Héctor que estava fazendo isso comigo? Eu tive
devaneios e vi Clair?
A porta se abriu.
Meus olhos conseguiram distinguir uma silhueta feminina, mesmo com a
pouca luz.
Cada vez que seu scarpin batia no chão, vindo em minha direção, meu
coração retumbava e eu me encolhia.
Ela parou diante de mim, não pude ver seu rosto. Se esperava que eu me
levantasse, iria desapontá-la, não tinha forças nem para ficar acordada.
— Espero que tenha sido muito bem tratada — havia um quê de
felicidade no tom da voz.
A mulher demorou poucos segundos diante de mim, se afastou em
seguida e sentou-se em algum lugar escuro da sala.
— Não entendo porque vocês nunca aceitam o dinheiro — agora seu tom
vinha carregado de desapontamento. — Vocês são mulheres da vida. Não tem
ideia do que é o amor e como esse sentimento puro é capaz de nos tornar fortes
para proteger a nossa família — ela suspirou.
— Por favor — era tudo o que eu conseguia dizer.
— Você não é mais do que uma mancha na história dos Mitchell — ela
resmungou, como se estivesse descontente com um prato de restaurante que veio
errado. — Nada que eu não possa lidar. Já enfrentei mulheres piores do que
você. Nocivas, perigosas, astutas. Mas você... — ela estalou os lábios, num “tsc,
tsc” que me fez gemer. — Por que cavou tão profundamente no passado? Quem
diabos você pensa que é? Não poderia ser essa puta suja que dorme com o meu
filho e o entretém para que ele se esqueça o quanto é fraco?
— Senhora Mitchell — implorei. Eu não fazia ideia do que essa mulher
iria fazer comigo.
Onde estavam Hillary e Clair?
Haviam me entregado a ela e fugido?
A mulher se levantou.
— Sim. Eu sou a senhora Mitchell. Diferente de você, uma aproveitadora
que pensa que pode desestruturar essa família — passo a passo ela caminhou até
mim.
Eu não sabia mais o que dizer.
Minha cabeça girava, meus lábios doíam, meu corpo estava fraco.
— Imigrante nojenta. Mesticinha imunda. Você nunca, nunca devia ter
saído da merda do seu país de terceiro mundo. Essa terra não foi feita para
pessoas como você. Pessoas como você precisam ir para trabalhos forçados até
a morte, alimentar a máquina, servir-nos e nunca nos dirigir a palavra.
Ouvi um som alto. Pensei que fosse um tiro. Num suspiro e gemido
entreguei-me ao choro. Sem grande drama e sem força, apenas lágrimas e a
sensação dolorosa do meu rosto se contorcendo.
— Irei garantir que você não destrua a única coisa que restou dessa
família: o dinheiro. A manterei aqui como garantia de que tudo ocorrerá bem
até que a minha fortuna esteja segura.

Héctor Mitchell

Adrian dirigia o mais rápido que podia e ainda assim eu insistia para que
ele pisasse naquele acelerador sem piedade.
Deixar Anthony com a família Cavalieri era uma medida de segurança,
ele estaria bem e protegido, longe de todo aquele caos, ele não merecia mais
nenhuma gota da loucura que tudo havia tomado.
Atendi Ethan assim que ele ligou.
— Zimmerberg encontrou a localização das strippers — Ethan avisou.
— Ah, agora ele encontrou? — tive que rir. — Agradeça e diga que da
próxima vez ele seja mais ágil. A tecnologia dele é incapaz de vencer uma rede
de espiãs que trabalham no boca a boca.
— Então você já está no rastro da Bia?
— Sim. Pegue seus melhores homens e os leve a mansão do Smith, por
favor — pedi.
— Aquele diabo mesmo depois de morto ainda nos inferniza — Ethan
praguejou. — Você acha que encontraremos homens armados ao redor?
— Se eu acho? — ri novamente. — Ethan, pare de fingir que desconhece
a minha mãe.
— Certo, quem chegar primeiro mata mais gente — Ethan deu um
assovio alto.
— Não se atreva! — Adrian rosnou.
— Ô Bella Ciao, relaxa, se conhecemos bem a mãe do Hex, vai ter gente
de sobra pra nós dois.
— A sua mira é péssima — Adrian provocou.
— Ninguém precisa de mira quando se tem uma metralhadora, cara.

Beatriz Rodrigues

Hillary e Clair entraram naquele cômodo e me levantaram.
Eu só conseguia balançar a cabeça negativamente, tentando entender o
que diabos estava acontecendo.
Clair havia voltado dos mortos? Como era possível?
Fui levada para a biblioteca, o mesmo lugar onde ouvi Héctor com os
amigos dizendo que precisavam dar um fim nas duas strippers. E que estúpida
fui ao pensar que ele se referia a mim!
Ele jurou me proteger. Eu confiava nele.
Foi um erro que me custaria caro.
— Eu pensei que fossemos amigas — encontrei forças para dizer isso.
Hillary olhou-me, não havia um pingo de sentimento em seu olhar. Seus
olhos estavam frios, rígidos, parecia me olhar como se eu fosse um animal ou
pior do que isso.
— Ninguém tem amigos nesse mundo — Hillary murmurou. — Você
não entende, não é?
— O que eu não entendo?
Minha cabeça balançava sem parar.
O que diabos essas pessoas tinham? Por que de repente parecia que eu
não conhecia ninguém?
— Clair... — me arrepiei ao vê-la.
Eu a vi. Ensanguentada, no chão, sem vida. Como era possível?
— A história se repete mais uma vez... — Clair sorriu. — A novata que
chama a atenção dos homens poderosos e acha que pode tê-los...
— Nós somos petiscos. Distrações. Não podemos amar esses homens.
Eles não estão a nossa altura. Eles pertencem a um mundo diferente do nosso,
Bia — Hillary completou. — Esses homens não nasceram para amar. Nasceram
para governar o mundo nas sombras, e nós somos seus brinquedos, que eles
usam para poder neutralizar a dor, aplacar o demônio interior e fazê-los esquecer
que são deuses em corpos humanos.
— Todo mundo perdeu o juízo — sussurrei para mim mesma.
Me arrepiei toda ao ouvir o scarpin batendo contra o chão.
A mãe de Héctor entrou no cômodo e pareceu muito feliz em me ver,
pela primeira vez.
Também, amarrada e jogada no chão, completamente suja, desidratada e
contorcida, seria estranho que ela não contemplasse com um longo sorriso.
— Por favor, senhora Mitchell...
Hillary e Clair se afastaram quando a mãe de Héctor ficou entre as duas,
a poucos passos de mim.
— Não implore. Não precisa ter medo. Eu não irei matá-la — ela disse
num tom piedoso. — Seria tolice. Eu perderia todo o meu dinheiro dessa forma.
Eu irei garantir que você viva para desejar nunca ter existido, pisado nessa terra
ou invadido a minha família.
— Eu não entendo... — eu ficava cada vez mais confusa.
A senhora Mitchell sorriu de um jeito maternal.
Meus dentes bateram um contra o outro quando a vi segurar a pistola e a
levantar.
Apertei os olhos com força e respirei pela última vez. Era chegado o meu
momento final e eu precisava aceitar que tudo tinha acabado.
— Diga ao Héctor que...
O tiro interrompeu minha voz.
Fez-se um silêncio e depois um segundo tiro.
O corpo cedeu ao chão. Não apenas um, dois.
Hillary e Clair estavam mortas. Dessa vez era real.
O cheiro da morte era inconfundível, preferi manter-me de olhos
fechados e esperar a minha hora, eu não queria ver mais nada.
— Eu tinha dezessete anos quando me casei — a senhora Mitchell
respirou fundo. — Meu pai, um homem muito poderoso, entregou-me a um
destino glorioso: casar-me, contra a minha vontade, com o filho de uma família
ainda mais poderosa que a minha. E juntos produziríamos filhos fortes, os donos
do novo mundo, herdeiros de muito mais que toda a Nova York... herdeiros do
poder americano.
Ai, Deus, agora eu tinha que escutar o passado da mulher!
— Essa é a tradição. Não há amor, não há consentimentos, só há a
obrigação de garantir que o império continue. De três filhos, eu só produzi uma
que realmente entende o significado de família, pureza e império. Os outros
dois... uma completa decepção...
Ao abrir os olhos vi a mulher coçando a testa com a arma. Jesus do céu!
— Héctor foi apresentado a tantas mulheres... — ela suspirou fundo. —
E só me decepcionou... — quando nossos olhos se encontraram eu pude ver que
estavam marejados, vermelhos, bem irritados. — Contratou uma barriga de
aluguel como pretexto de fugir de seus compromissos... e teve um filho fora da
tradição. Fora do casamento. Fora do que as nossas regras exigem.
Ela fez uma pausa onde procurou uma poltrona e se sentou.
— Serena deveria ter abortado... — ela murmurou mais para si mesma do
que para mim. — Gregory foi ver a puta particular dele naquela noite, eu sabia
que não podia confiar nela, então paguei outra mulher para que fizesse com que
aquele desgraçado tivesse uma overdose... então eu a matei...
Só nesse momento eu percebi que estava de cara no chão, tremendo, as
lágrimas não eram opção.
Eu não sabia o que era pior: ver que minhas antigas amigas haviam me
traído, ver que estavam mortas, ou assistir aquela mulher contando sua trajetória
de sociopata como se contasse uma história saída dos contos de fadas.
— Héctor sempre preferiu o pai, é igual a ele. Não pensou duas vezes em
ir salvá-lo, então tive a chance de matar Serena. Mas aquele monstro — ela
apertou a mão na arma e franziu a testa. — Aquele garoto não morre... uma
aberração... como pode sobreviver?! Ai, Deus...
— Ele não tem culpa — falei corajosamente.
A mulher me olhou como se tivesse lembrado que eu estava ali.
Estava tão presa em seu monólogo que havia feito daquilo um show
privado.
— Ele não é um Mitchell — seus olhos pareciam secos e sem vida. —
Assim como você não é.
Fiquei calada. Que espécie de mulher ela era?
— Gregory também teve filhos fora do casamento — ela disse com um
sorriso estampado no rosto. — Percebi que era forte quando matei aquelas
mulheres e suas crianças — ela parecia orgulhosa de si. — Aquilo me preparou
para enfrentar pai e filho e suas fraquezas. Dominados por prostitutas que com o
tempo destroem essa família... acabam com tudo... parece que a única que pensa
na tradição e nos bons costumes sou eu.
Me assustei ao ouvir o som de um tiro.
Não havia vindo da arma daquela mulher.
Foi seguido de outros disparados.
Fiquei perturbada, no chão, apertei os olhos como se aquilo pudesse me
proteger ou me poupar de alguma cena horripilante.
Nada poderia ser tão horripilante quanto ver o sangue de Hillary e Clair
se espalhando pelo chão.
— Mulheres como eu precisam ser fortes para consertar os rumos da
família — ela se levantou, imponente. — Se ao menos eles se relacionassem
com mulheres de bem... — ela balançou a cabeça num sinal negativo. — Não...
eles preferem as sujas... as imigrantes de sangue impuro... mulheres sem
ascendência, sem bons modos, sem valores...
E ela com certeza tinha valores.
— Mas estamos consertando essa nação, aos poucos — ela sorriu,
balançou a cabeça num sinal positivo nesse instante, para variar. — Nada que
um muro nas fronteiras não resolva e mais pessoas de bem armadas possam
cuidar de tudo. Limpar a escória do nosso mundo. Colocá-las em seu devido
lugar... — a mãe de Héctor andou em minha direção, e cada passo me fez tremer.
— Não me olhe assim, eu não sou um monstro... É só questão de opinião — ela
sorriu.

Héctor Mitchell

Os homens de Ethan haviam chegado primeiro. Ainda assim, estávamos
bem distantes de chegar a mansão.
Os tiros ocorriam bem antes da entrada no terreno. Adrian parou o carro
ao ver nosso querido amigo de sobretudo e chapéu gangster escorado em sua
metralhadora como se ela fosse uma bengala.
— É disso que eu estou falando, cara! — Adrian disse excitado. Bateu no
chapéu de Ethan, chapéu que ele deu ao amigo e ficou ao lado esquerdo dele.
— E nós achávamos que eram os chineses... — Ethan riu.
— Ou os russos — Adrian analisou o território com calma.
— Não, era só a minha mãe mesmo — fiquei ao lado direito de Ethan.
— Que mulher, hein meus amigos! Que mulher! — Adrian continuou
animado e seguiu em frente.
— Me atualize — me voltei para Ethan.
— Meus homens disseram que tem muita gente, todos espalhados pelo
terreno. Já derrubamos alguns. Preferi esperar pelo Cavalieri — Ethan disse num
tom amistoso. — Ele fica irritado quando há uma carnificina e ele não está no
meio.
— Algum sinal da Bia?
— Sim, claro. Eu mesmo a vi, estava tomando chá com a sua mãe.
— Que babaca! — resmunguei. — E essa merda aí? — bati na mão dele
que segurava aquele equipamento de guerra.
Por que aquilo não era apenas uma arma. Era um equipamento de guerra
mesmo.
— Ah, presente de casamento do Derick. Ele tem bom humor.
Ethan tirou a metralhadora do chão e começou a andar em linha reta.
— Você se lembra do que o Terence Smith dizia? — Ethan riu. — A
única maneira de resolver as coisas com skinheads, pessoas xenofóbicas,
neonazistas, racistas... qual é?
— Conversa — revirei os olhos.
Ele me mostrou a metralhadora.
— Exatamente. Esse é o nome do meu brinquedinho: “conversa”.
Capítulo 36
Beatriz Rodrigues

A calmaria cessou.
Se havia algum clima de segurança vindo da senhora Mitchell,
repentinamente ela ficou preocupada, vigiou as janelas, curiosa, para tentar
entender o que acontecia.
Os tiros que antes eram esporádicos se tornaram um verdadeiro faroeste.
— Me solta, por favor! — implorei.
O que eu faria caso as coisas saíssem ainda mais do controle? Aliás, tinha
como sair mais do controle?
— Acalme-se — ela engoliu em seco. — Tudo está sob controle.
Certamente os homens do Héctor estão tentando te resgatar, mas eles não sabem
o que lhes espera... — ela abriu um sorriso amarelo.
Soltei um grito quando a porta da biblioteca se abriu após um chute.
Um homem com touca preta no rosto foi arremessado para dentro da
biblioteca.
Ele rastejou, desesperado, vindo em minha direção. Um tiro o apagou.
— Vinte e oito a vinte e cinco — uma voz grossa contou vantagem.
— Não vou acreditar na sua contagem — o outro disse exasperado. —
Não vi nada.
— É claro. Você só saiu atirando feito um louco! Sequer mirou.
— Amigo, metralhadoras não foram feitas para mirar — o homem
abaixou a arma e farejou o local. — Que silêncio...
— Achamos! — o italiano gritou e guardou a arma no coldre.
— O que está acontecendo? — a senhora Mitchell perguntou, indignada.
— Eu é que pergunto — Héctor entrou na biblioteca, não trazia no rosto
a expressão de que estava feliz. — Que merda é essa?

Héctor Mitchell

Os homens de Adrian estavam no terreno juntando os cadáveres e
procurando os fugitivos. Os homens de Ethan estavam vasculhando a mansão.
Todos nós ficamos chocados ao encontrar Geoffrey por ali, não do lado
errado dessa vez, ele rapidamente entrou na competição para ver quem acertava
mais pessoas como se aquilo fosse apenas um jogo.
E para homens como nós, era.
— Não ouse dar um passo! — a minha mãe preparou a arma e apontou
para Bia.
Eu dei um. Dois. Três. Seis. Todos os passos necessários até ficar entre
ela e a minha mulher.
— Você foi longe demais — seus olhos mostravam total desaprovação.
— Você está bem, amor? — voltei-me para Bia.
Bia ficou calada, não estava nas melhores condições, mas antes de tê-la
de volta em meus braços, eu precisava esclarecer algumas coisas inacabadas.
— Eu... eu estou... — ela gemeu.
Meus olhos novamente se encontraram com os da minha progenitora.
Eram detalhadamente parecidos, de um tom azul frio e ao mesmo tempo
brilhante como safiras lapidadas.
— Escolha bem as suas palavras — ela ameaçou.
— Terá de me matar primeiro, se quiser mata-la — desci a mão até
encontrar a dela.
Guiei a pistola pelo meu tronco até chegar em minha testa. Segurei tão
firme no cano da arma que ela nunca conseguiria desviar.
— Você tem matado essa família pouco a pouco em nome da sua moral,
dos seus bons costumes, e opinião. Sugou o melhor de nós, nos afastou, tornou
tudo inabitável, gelado, sem valor... tudo por que quer “proteger a família”.
— Sim, eu quero — ela retrucou, os olhos arregalados. — Proteger a
família de mulheres como ela. Proteger o nome dessa família de herdeiros com
sangue de gente sem história. Proteger essa família que descende de um dos Pais
Fundadores e que carrega não apenas o legado e o poder da nação, mas o futuro
dela.
Continuamos nos encarando. Parecíamos um espelho sem saber quem era
o reflexo um do outro.
— Esse é o futuro da nossa linhagem? Isso é o que você chama de
família? Vale a pena se rebaixar tanto por uma... uma... prostituta?
Eu quis esbofeteá-la. Céus, ela sabia trazer o pior de mim.
E o pior, eu não sabia que aquele era o inferno até conhecer o paraíso.
Por anos eu pensei que aquela era a verdadeira forma de se pensar e
viver, a forma correta de guiar a vida e me manter na linha, até perceber que eu
era rebelde.
Eu tinha fome da vida, eu tinha vontade do desconhecido, eu precisava
de um pouco de luz, lucidez e amor.
Anthony veio primeiro, onze anos atrás. Bia onze anos depois.
E só havia uma dor, uma culpa, uma mágoa em forma de mancha em
meu peito, por ter sido cego demais e não ter percebido as pistas no meio do
caminho.
— A tradição erra — foi a minha resposta. — Os Pais Fundadores dessa
nação perceberam isso. Não nascemos para ser colônia, mas para sermos livres...
— Ela não é livre! — minha mãe rosnou.
A mesma força que ela fez para direcionar a arma para Bia foi a mesma
que fiz para manter em minha testa.
— Ela sequer é americana! É uma colombiana nojenta, uma qualquer,
que veio para nossas vidas para nos tirar tudo!
— Ela é brasileira — mantive a minha calma. — Ela é a minha esposa. A
minha companheira. A mulher que eu escolhi para passar o melhor dos meus
dias. Ela me deu tudo o que essa família não pode me dar há anos. Ela me
devolveu tudo o que você me tirou. Ela reconstruiu a melhor parte de mim.
— Você e o seu pai são iguaizinhos... — o olho direito dela brilhou e
uma lágrima arrastou pelo seu rosto junto com a maquiagem. — Fracos e
incapazes de resistir a aproveitadoras. Renegando o sangue, o nome, a virtude e
a família para se entregarem a luxúria e o prazer momentâneo...
— Ela cuidou do meu filho. Ela cuidou da minha casa. Ela cuidou de
mim — foi a vez da minha lágrima descer. — Depois de me tirar tudo o que
tirou, como ainda ousa querer arrancá-la? Quando o seu coração se tornou isso?
Por que está cega de ódio por alguém que não te fez mal algum?
Minha mãe gaguejou, em busca de suas respostas.
— Bia não é a stripper que destruiu o seu casamento. Bia não é a stripper
que teve um filho ilegítimo com o meu pai. Bia não é e não será a stripper que
você vai matar junto com um filho...
Minha mãe arregalou os olhos novamente.
— Você teve a sorte de ter um filho muito ocupado e que se preocupava
com a saúde do pai... — respirei fundo. — Mas eu precisei olhar de longe para
enxergar tudo o que estava acontecendo...
— Você não entende que ela fugiu de própria vontade? — ela grunhiu e
apontou para a mulher loira morta no chão, a Hillary. — A stripper confirmaria!
Ela quem decidiu fugir! Ela colocaria tudo a perder! Eu não vou permitir que a
minha fortuna...
— Fique com a sua fortuna — murmurei. — Eu só quero a minha mulher
de volta e poder viver em paz com a minha família.
Senti a mão dela tremer.
Nem por um segundo pisquei ao sentir o bocal da pistola friccionando
contra a minha testa.
Minha mãe balançou a cabeça negativamente, o lábio inferior tremeu.
— Então é isso? Mais uma vez serei trocada por uma stripper? Você vai
renegar a sua mãe por essa mulher?
Antes que eu respondesse ela murmurou:
— O pai eu entendo... mas você? O meu filho?
Ela não me dava escolhas.
— Ele queria o divórcio — ela disse com rancor. — Eu nunca permitiria
essa mácula em minha família. Ele não me deixou escolhas.
— Todos nós sempre temos a chance de recomeçar, mãe.
— Não... Vocês homens sempre tem a chance de recomeçar. Nós... não.
Ao ouvir aquilo tive que agir rápido.
Ela tentou apontar a arma para si e eu a puxei de volta com ferocidade.
— Não! — ela gritou. — Me deixe ir!
— Essa é uma boa hora para se intrometer? — Adrian perguntou ao
fundo.
— Não — Ethan respondeu com segurança. — Ninguém pode se meter
em assuntos de família.
— Eu quero ir! — ela rugiu, entregou toda a sua força para controlar
aquela arma como se a sua sobrevivência dependesse disso... quando na verdade
era a sua morte.
— Não — rosnei de volta.
A arma dançou no ar mirando para o teto, um pouco mais para a direita e
um pouco mais para esquerda.
Até que o disparo derrubou o lustre e eu tomei a pistola de suas mãos.
— Acabou — respirei fundo, a mente atormentada por toda aquela
adrenalina.
Minha mãe colocou a mão na cintura e andou em círculos. Jogou-se na
poltrona e ficou de braços cruzados, como uma criança mimada.
Ethan pigarreou e deu um passo a frente.
— Como a senhora está, senhora Mitchell? — ele perguntou com
gentileza.
— Bem, como pode ver, eu não estou nada bem — minha mãe respondeu
sem encará-lo.
— Com todo o respeito que lhe devo, senhora, não me dirigi a sua pessoa
— Ethan respondeu com uma polidez que eu admirei naquele momento. —
Senhora Mitchell? — ele moveu o rosto cuidadosamente de um lado para o outro
até ouvir a voz de Bia.
— Eu estou no chão — ela avisou, então o rosto dele foi na direção exata
de onde ela estava. — Estou cansada e desidratada, mas bem... não fizeram nada
comigo.
— Nem com o bebê? — Adrian deu um passo a frente dessa vez.
Bia ficou calada, encarou o chão.
Eu me ajoelhei diante dela e a peguei em meus braços, não conseguiria
tirar suas algemas naquele instante, mas tirei as cordas que a atavam.
Ela evitou me encarar.
— Você... — a voz ficou embargada na garganta.
Foi difícil vê-la em um estado tão sub-humano. Mesmo que Bia
afirmasse que estivesse bem, as marcas, a roupa e a pele suja, os cabelos
desgrenhados e o rosto encardido não me davam essa impressão.
Encostei o queixo em cima de sua testa e deixei o ar escapar das narinas.
— Você foi embora e o meu mundo desmoronou — eu disse.
— Me desculpe.
— Não peça desculpas — eu disse num misto de indignação e comoção.
— Eu ouvi vocês falarem coisas... eu pensei que era melhor ir, mas... eu
não sei o que dizer... — Bia falava baixinho e de olhos fechados.
— Adrian, você poderia por gentileza pegar um pouco de água para a
minha mulher? — estiquei o rosto.
— É claro — ele disse e andou até a minha mãe. — A senhora irá me
acompanhar — ele indicou que ela se levantasse e fosse na frente.
— Então tá bem, só me indiquem a porta que eu saio — Ethan percebeu
que sobrou e foi guiado por Adrian para fora da biblioteca.
— Imaginar que algo pudesse acontecer a você e somente em pensar que
eu poderia te perder, fez com que minha vida rapidamente perdesse o sentido...
nada disso vale a pena se não tiver você, Bia.
Ela ficou quieta, o rosto ronronando lentamente em meu braço.
— E me desculpe por ter uma família disfuncional. Embora estejamos
estampados nas revistas como modelo de família Nova-iorquina estamos longe
de ser perfeita. Talvez estejamos longe até mesmo de ser uma família...
Ela riu baixinho.
— Mas você é a minha família. E se algo acontecesse a você seria como
perder o laço que une tudo. Eu nunca te faria mal e jamais poderei permitir que
qualquer outro mal lhe ocorra. Estava escrito no contrato, foi um pedido seu. E
eu iria em qualquer lugar para te resgatar, eu faria qualquer coisa para te ter de
volta e daria tudo o que tenho só para te manter em segurança.
Bia abriu os olhos e buscou as palavras que queria dizer. Desistiu no
meio do caminho diversas vezes.
— Não havia um bebê no contrato, então eu o quebrei.
— Bia... — a repreendi.
— Eu fui descuidada e idiota. Eu me deixei levar e... aconteceu. Junto a
isso tantas outras coisas ocorreram que... no fim de tudo parecia a coisa certa
fugir. Eu estava com medo da sua reação.
Era uma judiação deixar ela falar tanto. Ela precisava descansar.
— Não havia bebês no contrato. Tampouco o documento dizia que eu
gostaria tanto de você, mas realmente tanto, que eu viria a te amar. Então acho
que podemos repensar juntos algumas coisas desse contrato e tentar construir
uma família... funcional.
Bia voltou a rir.
Aquilo era o paraíso.
Eu não conseguia entender, mas era contagiante. Quando eu menos
percebia estava sorrindo também.
— Acho que conseguiremos lidar com essas novas situações que fogem
do contrato se decidirmos tudo junto.
— Se você dançar de novo para mim, eu posso pensar no caso — ela
disse. — Acho que se eu posso ser bilionária, você pode ser stripper — ela
provocou.
— Você não tem jeito... — me levantei, carregando Bia nos braços. —
Vou te levar para casa e vou cuidar de você até que esteja bem novamente.
Capítulo 37
Beatriz Rodrigues

Não sei por quanto tempo dormi.
Ao abrir os olhos senti o incômodo da luz forte invadindo minhas retinas.
Ao estabilizar a visão vi meia dúzia de pessoas de branco ao meu redor, me
examinando. Eu estava deitada, recebia soro no braço esquerdo, em meio
aqueles rostos desconhecidos encontrei um familiar.
— Onde estou? — encarei Yone.
— Em casa, senhora Mitchell. Não se esforce muito, continue a
descansar — ela pediu.
— Onde Héctor está? — o procurei pela extensão do cômodo.
— Aqui — ele murmurou, estava ao meu lado.
Seus olhos penetrantes se fixaram em mim, suas pupilas contornaram o
meu rosto e com um sorriso brando percebi que ele se sentiu satisfeito ao me
encarar.
— Você deveria estar trabalhando — bocejei.
— E estou. Você me dá muito trabalho — ele se divertiu, sua mão quente
subiu pelo meu braço até chegar ao meu queixo. — Como se sente?
— Muito bem, na verdade. Acho que acordei algumas vezes, mas estava
tão zonza que não me lembro de detalhes... — tentei me espreguiçar, o corpo
doía quando eu fazia movimentos muito bruscos. — Que pesadelo...
— Foi um pesadelo sim — Héctor suspirou. Fez um sinal para que todos
saíssem do quarto.
— Eu fui tão burra — fechei os olhos, irritada comigo mesma. — Eu não
deveria ter fugido... deveria ter confiado em você... — me culpei amargamente.
— Ei — Héctor cobriu a minha mão com a sua. — Já acabou, está tudo
bem...
A negação não ia embora. Eu estava desolada.
Nada daquilo teria acontecido se não fosse pelo meu lado impulsivo.
— Tudo aconteceu tão rápido... nunca imaginei que Hillary faria isso
comigo... ou que Clair ainda estava viva... Eu deveria, no mínimo, ter lhe
consultado sobre o que ouvi... mas fiquei tão assustada e...
— Calma — Héctor apertou a minha mão. — Você fez o que achou
necessário. E agora está aqui.
— Havia um homem com Hillary e Clair... — tentei me lembrar.
— Sim, o Alex — Héctor disse sem muita animação.
— O seu secretário? Aquele que ficava na sua cola o dia inteiro? — me
espantei. — Eu não pude vê-lo, tampouco pude ouvir a voz... me apagaram
completamente...
— Como boa cidadã americana, filha dos Pais Fundadores, a minha mãe
foi muito boa em infiltrar, manipular, sequestrar pessoas e achar que tudo estava
sob controle... — havia um sorriso contido nos lábios de Héctor. — As pessoas
podem perder o controle quando ficam com medo e entram em suas próprias
paranoias... e minha mãe tinha muito mais do que medos e paranoias. Ela tinha
muito ódio, um preconceito desmedido e um passado sombrio a esconder. Ela só
queria apagar os próprios rastros e causar um pouco mais de terror...
— Ela está bem? — perguntei.
Héctor suspirou novamente.
— Considerando que ela se permitiu ser domada pelo pior que havia
dentro de si e atentou contra a própria família, acho que não está bem. Mas está
segura, com muita saúde e ódio. Aguardando o julgamento que lhe espera.
— Julgamento? — perguntei, preocupada.
— É — Héctor deixou bem claro naquele tom monossilábico, que aquela
era toda a informação que eu teria. — Quando você descobriu que estava
grávida? — ele me encarou com mais seriedade que antes.
— Bom... eu... — me perdi nas palavras. — Não faz muito tempo... eu só
queria encontrar a melhor oportunidade para contar... no meio disso descobri os
segredos de Serena... fiquei um tanto que temerosa, na verdade...
— Engraçado que, você guardou tudo isso para si. Poderia ter me
contado tudo, o que descobriu nos quadros de Serena, o quanto cuidou de
Anthony e o que estavam passando quando eu não estava aqui... você fez muito
mais por essa família do que todos nós.
— Só fui eu mesma o tempo todo — garanti.
— E ainda te culparam por querer destruir essa família — Héctor
balançou o rosto enquanto riu. — Você está bem e fora de perigo. Nada
aconteceu ao bebê.
Fiquei aliviada. Era tudo muito recente, eu sequer queria entrar naquele
assunto porque era início de gestação, as coisas poderiam sair do controle, muito
mais do que já haviam saído...
Eu não podia esconder, entretanto, que estava muito feliz e aliviada com
a receptividade de Héctor a respeito disso.
— E o contrato? — perguntei.
— Esqueça o contrato — Héctor disse, muito sério. — Meu pai já saiu da
zona de risco, em breve deve acordar. Então decidiremos sobre que fim dar
àquele contrato, já que não estaremos mais casados por obrigação...
— Eu não me senti obrigada em nenhum momento — segurei em cima
da mão dele.
— Eu também não.
O sorriso de Héctor me trazia um alívio e uma calmaria que me foram
escassos nos últimos dias. Fechei os olhos para aproveitar aquela sensação e
senti a respiração dele se aproximar do meu rosto.
Seus lábios tocaram minha testa com doçura e sua mão afagou meu rosto,
fazendo-me suar debaixo daquele cobertor.
Da testa sua boca desceu para o meu nariz, assim ele pode sentir como eu
estava ofegante. Depois nossos lábios se encontraram e essa sensação foi tão
boa! Selamos nossas lábios com demora e ele ainda continuou agarrado a mim,
tornando o ato de respirar um completo descontrole.
— Nunca mais pense em fugir — ele pediu.
— Eu não vou a lugar algum, prometo — foi a minha vez de afagar seu
rosto.
— É bom que se recupere logo, Anthony disse que não vai entrar para a
escola até que você possa leva-lo. Ele confia muito em você.
— Eu me sinto honrada.
— Agora que você está um pouco mais desperta, devo avisá-la que tem
visita — ele avisou.
— Visita? Quem poderia ser?
A porta do quarto se abriu.
Esperei que qualquer pessoa entrasse por ali... O senhor Brown, Valerie,
até mesmo Anthony, ah, como eu queria vê-lo! Eu sentia muitas saudades
daquelas bochechas rosadas e aqueles olhos curiosos e muito rígidos feito os do
pai, que guardavam um coração tão mole e necessitado de afeto humano.
O impossível aconteceu.
Quase dei um pulo da cama ao ver a minha mãe e o meu irmão entrarem
no cômodo.
Aquilo foi surreal!
— Mas... como? — me perguntei. — Eu estou tendo alucinações?
Fiquei sem reação. Apenas vi os dois correndo em minha direção, cada
um ficou de um lado da cama e agarraram minhas mãos.
— Bia!!! — minha mãe disse animada e preocupada, só não me abraçou
com medo de acabar arrancando o soro.
— Como vocês chegaram aqui?
— Nossa, viemos numa cabine luxuosa — Marcos, o meu irmão, disse.
— Primeira classe! Minha primeira viagem de avião e vim para os states! — ele
se divertiu.
— Bia, precisei tomar tanto dramin... — a minha mãe fez uma cara azeda
só de lembrar. — O senhor bilionário foi muito gentil em nos trazer — ela foi só
sorrisos. — Fomos muito bem tratados e estamos sendo tratados como reis desde
que chegamos... mas, me diga, minha filha, o que houve com você?
Tive que filtrar as informações.
Se eu contasse que havia sido sequestrada pela minha sogra, enganada
por minhas ex-colegas de quarto e estava casada com um bilionário que ia me
ver em um clube de strip-tease talvez fosse muita informação para ela processar.
A saída foi responder-lhe dentro da zona de conforto.
— Ah... eu caí e peguei uma friagem... — menti.
Às vezes a mentira era a melhor saída, ela não precisava de muitos
detalhes.
— Eu sabia! Essa “Niu-orc” é muito gelada. E você deve sair por aí no
sereno! — ela se voltou para Héctor. — O senhor acredita que não me deixaram
trazer mel da roça? Nem um xarope, seu bilionário? Um dos dois resolvia isso aí
dela.
Héctor piscou os olhos, meio sem jeito, e me olhou de soslaio.
Havia até esquecido que ele não falava português e comecei a rir
freneticamente. Em seguida traduzi o que minha mãe quis dizer e ainda a corrigi:
— Héctor, mãe — eu ri. — O nome dele é Héctor.
— É, é sim — ela assentiu.
— Não é permitido embarcar com coisas líquidas — Héctor explicou. —
Nos tornamos muito rigorosos a respeito de viagens, ainda mais as
internacionais...
Novamente servi de intérprete, do inglês para o português dessa vez.
Minha mãe não queria deixar o assunto morrer, pelo visto, queria continuar a
conversa.
— É, desde a queda das torre, né seu Héctor? Gostei desse menino, é tão
alto e tão gentil — ela sorriu.
— É, ele é gentil sim — concordei.
— Bom, eu os deixarei a sós para matarem a saudade... — Héctor se
despediu. — E, Bia, os médicos voltarão em uma hora para conferir como você
está. Estarei na biblioteca com Anthony.
— Tudo bem. Obrigada — pisquei os olhos e o vi sair do quarto.
— Meu Deus, que homem grande! — minha mãe comentou.
— Mãe! — a repreendi.
— Ele sabe montar em touro? Ele tem cara de ser um daqueles cowboys
bem valente!
— É, de certa forma ele é sim — acabei rindo.

Héctor Mitchell

Anthony estava sentado em sua mesa de estudos na biblioteca, no fim da
sala, folheava um de seus livros de Guerra nas Estrelas. Ergueu o rosto quando
me viu entrar no local e o abaixou rapidamente.
Passei por Geoffrey e Ethan que estavam sentados no sofá, discutiam
coisas do passado. Não pararam quando entrei.
Anthony balançava os pés distraidamente e fechou o livro quando fiquei
ao seu lado, de pé.
Ele se virou lentamente e olhou para cima.
— Por que bebês não podem ter nomes como “C3PO”? — ele coçou o
queixo.
— Não parece o tipo de nome que pessoas se sentem confortáveis em
ter... — analisei.
— Chewbaca, então?
Puxei a cadeira acolchoada e me sentei ao lado dele. Passei as mãos por
debaixo dos braços dele e o trouxe para o meu colo como se ele ainda fosse um
bebê.
— Como você está se sentindo a respeito de ter um irmão ou uma irmã?
— É legal — Anthony disse após analisar com demora. — Parece que
temos muito dinheiro e pouca gente na família para gastar. Acho que quanto
mais gente, melhor — ele anuiu.
— Mas o que você sente aqui dentro? — coloquei a mão em cima do
peito dele.
— Eu tenho medo — Anthony revelou. — Mas se ele será filho da Bia,
acho que conseguirei ter menos medo com o tempo. Na aula de biologia o
professor disse que bebês mordem qualquer coisa. Não poderemos deixar que ele
entre na biblioteca até ter bons modos — Anthony foi firme nisso e respirou
fundo.
— Não vai ser só filho da Bia, mas meu filho também. Seu irmão ou
irmã. O que você pensa disso?
— Penso que bebês devem dar mais trabalho do que jardins — Anthony
começou a coçar o rosto. — E devem crescer mais devagar ainda... E devem ter
tantos germes! — ele cobriu o rosto, ficou vermelho só de pensar naquilo.
— Todos nós temos muitos germes, filho — beijei sua testa e o devolvi a
sua cadeira. — Termine a sua leitura e depois você pode ir ver a Bia, ok?
— Ok.
— Eu sinto muito por tudo o que aconteceu a você. Espero que possa
confiar em mim e me contar tudo, absolutamente tudo de agora em diante. Eu
nunca vou te deixar. E eu sempre estarei aqui para o que precisar. E espero que
você esteja aqui também quando eu precisar.
Anthony sorriu e concordou comigo.
— A Bia é bem simples, não é? Parece a única pessoa normal dentro
dessa casa — ele voltou a abrir o livro. — Deve ser por isso que você gosta tanto
dela — ele avaliou. — E eu gosto também. Tomara que o bebê seja tão normal
quanto, ninguém gosta de pessoas com complexo de superioridade.
— É, ninguém gosta — assenti. — E lembre-se: nada de sugerir nome de
robôs.
— Darth Vader então — Anthony se voltou para o livro e eu o deixei
com sua leitura para retornar aos adultos.
Sentei-me na poltrona que ficava diante do sofá e encarei Ethan e
Geoffrey.
— Como ela está? — Geoffrey quebrou o silêncio.
— Está bem, obrigado por se importar. E obrigado por ter respondido ao
meu chamado tão rápido aquele dia.
— Eu sei que você faria o mesmo por mim — Geoffrey disse de cara
amarrada.
— Quero novidades, Ethan — uni as duas mãos em cima do colo e cruzei
as pernas.
— Os membros do Grande Templo não querem tomar uma decisão final
até que o seu pai acorde, mas já adianto que se tudo ocorrer como planejado, a
sua mãe será internada em uma ala psiquiátrica para reprogramação.
— Reprogramação? — Geoffrey perguntou, curioso. — O que é isso?
— Lavagem cerebral — Ethan virou o rosto na direção dele. — Mesmo
que ela tenha cometido um crime contra a família, o que a faria pagar com a
vida, ela vem de uma ancestralidade muito respeitada. No pior dos casos será
reprogramada, enviada de volta a família original e as coisas seguem o curso —
Ethan disse aquilo num ar de desaprovação.
Ele e eu sabíamos que muitas atitudes advindas da Grande Ordem eram
perigosas e sem escrúpulos.
— As outras opções seriam cadeira elétrica ou uma boa e longa viagem
de ajuda humanitária na África e nunca mais voltar — Ethan suspirou.
Geoffrey não escondeu o horror em ouvir tudo aquilo. Desviou o olhar e
fitou a parede.
— Farei o que estiver ao meu alcance para que ela fique bem... — era
difícil encarar tudo aquilo. — Ainda não entendo como ela teve coragem para
fazer todas essas coisas... parecia algo tão distante de acontecer...
— O que você vai fazer agora? — Geoffrey perguntou.
— Vou gerir a empresa, é claro, mas vou cuidar da minha família em
primeiro lugar. Eles precisam de mim por aqui, ainda mais depois desse trauma
coletivo que sofremos.
— Coloca o Geoffrey para gerir a máquina — Ethan riu.
— Deus me defenda! — Geoffrey até se afastou. — Todo esse negócio
de subir ao poder na Mitchell & Smith era divertido enquanto era uma
competição... aquilo, me desculpe dizer, adoece a gente. O meu pai e o do Héctor
estão aí para não me deixar mentir.
— Vou encontrar uma forma de manter tudo em ordem por lá e por aqui,
até que meu pai esteja pronto para comandar tudo outra vez ou decida o que
deve ser feito. Gosto de gerir as coisas e estar à frente da equipe, mas eu tenho
uma equipe aqui também. A Mitchell & Smith vai durar por toda uma eternidade,
mas parece que cada segundo com a minha família é significativo e nunca mais
vai voltar. Preciso descobrir uma forma de estar com eles, viver cada momento e
fração de segundo com eles e não deixar que as coisas saiam do controle
novamente.
Ao fundo Anthony voltou a fechar o livro, guardou-o na estante de obras
de ficção e fantasia e saiu da biblioteca como se sequer estivéssemos ali.
— Ainda parece que ele nasceu ontem... — suspirei, encarando o rastro
invisível que meu filho deixou. — Preciso fazer dessa a melhor época da vida
dele.
— Sim — Geoffrey disse em seu tom fúnebre. — Depois ele não vai
mais se importar com nada além da universidade, ser o próximo CEO da
Mitchell & Smith ou ser o novo bilionário do pedaço. Daí o Grande Templo
tentará cooptá-lo, ele sentirá o peso do poder e vai viver girando whisky no
copo, assistindo strippers dançarem diante dele, perguntando-se por que a vida
perdeu todas as cores... até ser pai... ou conhecer uma mulher que mexa com
ele...
— Credo. Que medo de sua perspectiva de que estamos todos fadados a
repetir as merdas dos nossos pais — Ethan riu.
— Às vezes nos tornamos piores do que eles — Geoffrey pontuou.
— Não se depender de mim — assegurei. — O meu filho vai ter uma
família que o ame, que o faça se sentir capaz de enfrentar o mundo lá fora e
acima de tudo ele aprenderá a ser independente.
— E sobre a Bia? — Ethan puxou o copo de whisky e levou à boca. —
Você trouxe a família dela para cá... não tem medo de que ela vá embora com
eles?
— Após tudo isso não conseguiria imaginar nada melhor do que ela ter a
família por perto. Sei que assim ela irá se recuperar rápido. E, bom, se ela quiser
ir embora com eles... acho que me cabe respeitar a decisão dela. E talvez ir
embora também.
— Haha! Agora você está exagerando — Geoffrey bebeu também.
— Exagero seria viver mais um dia sem essa mulher.
Desde o dia em que Bia chegou em minha vida ela mudou tudo.
Eu só não sabia ou estava preparado de que em troca de protege-la de
todos os perigos, seria ela a me proteger de todos os meus fantasmas.
E me dar coragem o suficiente para encarar os maiores desafios.
— Você já parou para pensar que está há mais ou menos sete meses sem
ir ao La Chica ou outros clubes? — Ethan sorriu. — Não era você que dizia ter
alergia a casamentos? Que sequer conseguia imaginar viver uma semana com a
mesma mulher, veja lá a vida toda? O que aconteceu com esse homem, hein,
Héctor?
Cocei o queixo e por um instante me permiti olhar para trás. Homens
como eu só olhavam para frente, nunca para o passado, mas naquele momento se
fez necessário.
Vi cada cena em minha memória e não havia arrependimento.
Bia havia sido a minha escolha mais antiprofissional, pois eu deveria ter
escolhido uma mulher por quem eu jamais sentiria algo profundo. Entretanto, eu
não fazia ideia de que esse sentimento me tomaria de assalto e me traria os
melhores dias da minha vida desde Anthony.
— Eu me apaixonei — murmurei. — E quando a gente se apaixona, o
tempo passa rápido... ainda parece que foi ontem que a vi pela primeira vez e a
buscava dia após dia com sede, com fome, com saudade e vontade, como se ela
fosse o último fôlego civilizado em meio a barbárie...
— Ok, para mim já chega, estou meio enjoado desse papo — Geoffrey se
levantou e começou a andar pela biblioteca.
— Então você parou de fugir e ter medo dos seus próprios sentimentos?
— Ethan provocou. Para um ex-agente secreto do governo até que ele era um
bom psicólogo. — Você tinha medo de cometer os mesmos erros dos seus pais e
viver infeliz em um relacionamento falido...
— Eu percebi, uma hora, que se tomasse decisões diferentes das deles eu
não precisaria ter medo. O medo nos prende aos erros do passado — era o que
eu tinha a dizer. — E estou ocupado demais pensando no futuro. E pela primeira
vez não é o meu futuro ou o da empresa, mas o da minha família. Toda ela.
— Muito bem — Ethan se levantou. — Um homem apaixonado é um
homem com propósito. Tenho quase certeza que um dos Pais disse isso...
Enquanto Ethan se afastava em direção a saída eu parei para meditar
naquela frase.
Era exatamente esse o sentimento que eu tinha agora.
Pela primeira vez eu sentia algo inusitado, genuíno e transcendente.
Toda aquela dor e todo o amor que eu sentia se encontravam e formavam
um novo sentimento.
Bia me deu muito mais do que shows particulares, bons momentos de
conversa e amor...
Bia me deu propósito.


Capítulo 38
Beatriz Rodrigues
Duas semanas depois.

A minha recuperação foi rápida.
Claro que algumas marcas, principalmente emocionais, permaneceriam,
mas o meu corpo ficou mais resistente e todos os exames mostraram que estava
tudo bem comigo e com o bebê.
Meu Deus, que loucura! Como tudo isso pode ter acontecido?
A companhia da minha mãe e irmão me ajudaram a melhorar ainda mais
rápido. Héctor fez questão de pagar-lhes uma viagem para Orlando, já que
Marcos comentou que da próxima vez que viesse aos Estados Unidos ele
gostaria de conhecer os parques. Héctor decidiu pagar as viagens e as despesas
em Orlando e de lá eles voltariam para o Brasil.
E por mais estranho que possa parecer, fui eu que levei Anthony pela
primeira vez à escola, junto com o pai.
Era estranho pensar que ele nunca tivesse tido contato com aquele
ambiente, sempre cercado de tutores particulares e estudos em casa.
— Você acha que eles vão gostar de mim? — Anthony tremia, estava
nervoso.
Toda vez que crianças da idade dele passavam em sua frente ele fazia
uma careta e dava um passo para trás.
— Aprender em casa parece uma excelente ideia — ele deu meia volta.
Ajoelhei-me diante dele e segurei em seus ombros.
— Entrar em lugares novos com desconhecidos pode dar medo, sim. Mas
pense em todas as coisas incríveis que você pode aprender, sentir e conhecer
com outras pessoas.
— É, mas todos eles devem ter muitos germes. E eu esqueci o álcool em
gel — ele franziu a testa.
— Todos nós temos germes — tive de comentar. — Mas você não
aprendeu na biologia que nós fortalecemos nosso sistema imunológico com um
contato razoável com germes?
Anthony me olhou, incrédulo.
Bom, eu não sabia também se havia dado aquela informação
corretamente, mas o que valia era o ensinamento.
— É como a dor, cada dia a gente sofre um pouquinho para aguentar
fortes emoções no momento certo. Ou musculação, todo dia a gente levanta um
peso diferente para no fim emagrecer ou ficar forte. Pense assim, a cada dia você
conhecerá pessoas novas, viverá coisas novas, descobrirá coisas novas. E no fim
disso tudo, você pode não conhecer tudo sobre biologia, matemática e história...
mas vai ter aprendido e conhecido tanto sobre si!
Não sei de onde arranjei aquele discurso.
Em momentos de crise nós fazemos o que podemos.
Anthony inflou os pulmões e deu meia volta, ficando diante da porta da
escola.
— Você vem me buscar?
— É claro que sim, pode apostar. Você tem o meu número, se sair mais
cedo me ligue.
— Ok — Anthony andou alguns passos e parou.
— Não, não desista agora — pedi.
Ele voltou até mim e me abraçou, escondeu o rosto em meu moletom.
— Obrigado mãe — ele disse e se afastou rapidamente e começou a
desviar das outras pessoas como se fosse pegar algum tipo de doença quase
instantaneamente.
Quem diria. Eu que fugi, corri e tentei escapar de todas as formas de ser
mãe por achar que não podia cuidar de outra pessoa além de mim mesma, agora
seria mãe de dois.
Eu me arrepiei não por ter sido chamada de mãe, mas por me sentir mãe.
Naquele instante eu ri de mim mesma e percebi todas as faces que usei na
vida.
A pobre e indefesa Beatriz que foi molestada pelo tio, a Beatriz
aventureira em busca de si, a stripper Sabrina que estava em busca da vida
americana, a senhora Mitchell esposa de um bilionário, a amante, mulher e
melhor amiga de Héctor... e agora mãe.
Quantas outras faces uma mulher pode ter?
O que mais eu poderia viver?
Muita coisa. Todas elas. E eu tinha o alicerce mais seguro e
imprescindível para florescer e assumir novas faces: a minha família, toda ela.
— Vai ficar parada aí? — Héctor, o pai babão, não conseguia tirar os
olhos do filho.
— É, está na hora de ir, deixá-lo descobrir sozinho como é a vida —
voltei-me em direção a Héctor. — Podemos ir quando você estiver pronto.
Héctor segurou em minhas mãos e me guiou até seu corpo, aqueceu-me
em seus braços e ficou parado ali, comigo presa em suas mãos, até Anthony
sumir da vista.
— Os meus bebês crescem tão rápido... — ele suspirou.
— Seus bebês precisam crescer rápido porque um dia será a vez deles de
te proteger, de cuidar e zelar por você — respondo, sem perder a manha.
— Vocês já me protegeram de muitas coisas sem saber. E cultivaram
muitas outras dentro de mim.
Sinto o beijo no pescoço, não há como receber isso além de fechar os
olhos e sentir minha pele ficar cada vez mais quente.
— Nesse meio tempo você poderia ter viajado... ir conhecer a outra parte
da América que não viu... o velho mundo também não seria má escolha. Ao
invés disso...
— Eu fiquei — o interrompi. — Por que eu encontrei aqui tudo o que
precisava. Vários mundos, várias culturas e algo muito maior do que eu pensei
que merecia. Eu amo estar com você... com Anthony... viver em Nova York...
não sinto mais o incômodo que havia dentro de mim de sair em busca de algo
fora, por que já encontrei tudo aqui dentro.
— Eu também amo estar com você, Bia — Héctor encostou seu nariz no
meu. — Na verdade, eu te amo.
Posso jurar que já tinha ouvido ele falar isso alguma vez.
Aliás, a defesa que ele fez a meu respeito diante da mãe era uma grande
prova de amor.
De toda sorte, não havia possibilidade de não tremer na base ouvindo
aquilo.
— Também te amo, é recíproco e verdadeiro.
Héctor sorriu e nossos lábios se tocaram primeiro numa sutileza e
calmaria que deu espaço a um beijo intenso, carregado de seus puxões para unir
nossos corpos e o seu perfume me embebedando, deixando-me louca.
— Não sei se percebeu, estamos em frente a uma escola. E uma bem
conceituada — murmurei.
Ele arqueou a sobrancelha, não pareceu dar a mínima.
— Vamos para casa. O dia vai ser longo e temos muitas coisas a fazer.
— Sim, senhora Mitchell, vamos.

Héctor Mitchell

O meu pai acordou no início da noite de uma quarta-feira.
Estávamos lá Bia, Anthony e eu. Era a terceira vez que visitávamos
juntos o meu pai.
De início ele ficou atordoado, parecia saber onde estava e o rosto de
alívio ao nos encarar mostrava que estava bem. Mas tudo o que ele não
envelheceu nos anos em que esteve ativo e trabalhando incansavelmente pela
Mitchell & Smith ele envelheceu em seu período de coma.
— Quanto tempo se passou desde que eu estava nesse estado? —
felizmente ainda carregava seu tom rígido e ranzinza que parecia estar brigando
com quem falava.
— Uns sete meses — respondi de bom humor. — Uma boa licença
sabática para o melhor CEO que a Mitchell & Smith já teve.
Gregory Mitchell, meu pai, afastou o cobertor que o cobria e ficou
sentado na cama. Não conseguiu se levantar, imediatamente ficou desengonçado
e quase caiu no chão, tive de socorrê-lo.
— O senhor não toma jeito — o segurei e o deitei de volta.
— Quero ir embora daqui. Há tantas coisas para finalizar! — ele
resmungou.
— E o senhor não finalizará nada se decidir apressar o passo agora.
Descanse, pai.
— Pois já estou muito bem descansado! — ele disse irritado.
Sua face só abrandou o tom quando Anthony caminhou em sua direção.
Um sorriso bobo e honesto surgiu em sua face. Ele estendeu a mão e segurou na
menor de Anthony.
— Você agora sai da cama! Veja só, se há solução para Anthony, por que
não haveria para mim? — ele riu.
— Agora eu vou até para a escola — Anthony disse em seu tom
monótono, mas abraçou o avô com muito carinho.
Ficou com a cabeça deitada em cima do peito do velho senhor Mitchell e
não parou de fitá-lo.
— Eu também dormia bastante, no passado — ele comentou. — Tomava
uma sopa horrível.
— É, conheço bem essa história da sopa — meu pai disse num tom
alarmante. — E quem é essa, Héctor? — ele se virou para Bia, não escondeu a
estranheza ao encará-la.
— Essa é a Beatriz Rodrigues Mitchell, pai. A minha esposa.
— Hum.
— Não sei se o senhor se recorda, mas o senhor escreveu uma merda de
testamento...
— Eu sei as merdas que escrevi — meu pai devolveu num tom áspero.
— Ela é filha de alguém importante? Descendente de um dos Pais Fundadores?
De um grande bilionário da América? — ele manteve aquele tom nada amistoso.
— Bia é filha de dois brasileiros, do interior de...
— Minas Gerais — ela soprou no fundo.
— Isso. Minas Gerais. Não é filha de ninguém importante pelo seu
critério, tampouco descende deum dos Pais Fundadores ou de grandes
bilionários. Ainda assim ela é a mulher que eu escolhi para passar o resto da
minha vida.
— E você decidiu isso em... sete meses? — ele fez uma careta.
— O senhor deve imaginar como me sinto para dizer isso.
Ele balançou a cabeça suavemente.
— Beatriz — ele a chamou. — Poderia levar Anthony para fora do
quarto, por favor?
Bia concordou e chamou Anthony com a mão, ele foi e juntos saíram do
quarto.
O meu pai se sentou na cama e uniu as duas mãos em frente a barriga.
Ele respirou fundo, coçou os olhos com os dedos indicadores e olhou
pela janela.
— Preparativos de guerra — ele disse.
— Como? — perguntei, espantado.
— A guerra, meu filho. Me atualize.
— Ah, sim. Bom, nossa empreitada no oriente médio continua — cocei a
nuca, espantado por ele não tecer comentários sobre Beatriz. — O presidente
virá em pessoa para o Grande Templo explicar o que pretende.
— Sua digníssima mãe — ele elencou o próximo tópico.
— Algumas coisas aconteceram nesse meio tempo em que o senhor
entrou em coma. Mamãe decidiu que seria uma excelente ideia raptar a minha
mulher porque ela não é pura e de sangue próprio o suficiente.
— Bem a cara dela — ele fez uma careta. — Estou surpreso de que ela
não me matou. Vocês devem ter descoberto algo e infiltrado gente nossa no
hospital.
— É, fizemos isso.
— Muito bem. A empresa, então.
— Prosperando. Estamos fazendo o nosso trabalho, o de fachada e o
verdadeiro trabalho. Tentaram lançar espionagem industrial em cima da Mitchell
& Smith, mas o Ethan deu um jeito. Ele sempre dá.
— Deus abençoe o menino — ele sorriu, de um jeito áspero, mas sorriu.
— O senhor não perguntou nada sobre a Bia... — coloquei meu próprio
tópico na lista dele.
— O que devo perguntar sobre ela? — ele se espantou. — Você a
escolheu, uma completa desconhecida, sem histórico familiar sem peso e uma
pessoa que não tem fortuna para se juntar a nossa — ele puxou o controle da
televisão em cima da mesinha que ficava ao lado da cama.
— Parece um bom resumo de quem é ela — ironizei.
— Filho — meu pai segurou em meu braço. — Você a escolheu. Dentre
sete bilhões de desconhecidos você a escolheu. Eu não tive essa oportunidade.
Meus pais me obrigaram a casar com a sua mãe e você deve ter percebido que o
fim desse casamento não parece vir de nenhum romance. O que quero dizer é:
confio em você, em seus julgamentos e em seus sentimentos. Você é adulto e
está mais do que apto para tomar decisões sozinho. A última que tomou nos fez
receber Anthony na família, então você tem um bom histórico de decisões.
— Obrigado pai.
— Cuide bem dela, filho. Para que ela não tente te matar — ele riu.
— Até lá deve demorar uns anos... — brinquei e afaguei a cabeleira
grisalha.
— Espero que sim. Agora chame os meus advogados para encerrarmos
os pormenores do testamento e vamos retornar de onde paramos. Sinta-se à
vontade para desfazer o casamento, se quiser.
— Sim, senhor, irei chamar os advogados. Mas não irei desfazer o
casamento. Bia e eu conversamos e achamos que podemos fazer isso dar certo.
— Excelente — ele disse animado. — Depois marque um jantar para que
eu possa conhecer a Beatriz. E, pelo visto como ela é uma boa moça, talvez ela
tenha alguma amiga para me apresentar — ele tossiu e riu.
Mesmo de cama ele ainda queria dar trabalho.
— Pai, acredite em mim, as amigas da Beatriz são barra pesada.
Capítulo 39
Héctor Mitchell

Os dias continuaram os mesmos na Mitchell & Smith: reuniões com o
pessoal de risco para manter os assuntos sigilosos da empresa mascarados pelas
atitudes nobres, encontros com os poderosos de Nova York em nome do Grande
Templo e inúmeras entrevistas para os veículos de imprensa de todo o país: o
CEO substituto, Héctor Mitchell, agora era o CEO oficial da empresa.
Nada continuou o mesmo em mim. Tudo mudou.
A minha relação com Anthony voltou a ficar mais próxima. Era estranho
vê-lo longe de minhas asas, agora na escola, cheio de novas histórias e
resmungando dos colegas – de famílias bilionárias – que eram prepotentes e não
gostavam de se misturar com pessoas “inferiores”, ao que Anthony dizia sempre
com orgulho que sua mãe veio de um mundo diferente do nosso e era o melhor
exemplo para ele.
Bia tornou a minha casa um lar.
Da fuga dos romances e relacionamentos duradouros com pessoas que
me entediavam, encontrei uma peça única, rara, que tornava o cotidiano uma
novidade.
O jardim floriu, a mansão ganhou novos tons, tudo pareceu mais
caloroso, humano, não haveria outra palavra além de lar. O fato do meu filho e
eu morarmos naquele lugar nunca tornou ele o nosso lar e agora ele representava
isso e muito mais.
Abandonei os papeis diante dos meus olhos ao ouvir batidas na porta da
sala presidencial.
Beatriz recebeu a permissão para entrar e colocou o rosto para espionar
dentro do lugar, depois fechou a porta atrás de si e veio a mim com um sorriso.
— Você disse que queria me ver — ele asseou os cabelos, contornou a
mesa até me encontrar e me beijou.
— É, eu queria te ver — murmurei. — Sente-se.
Beatriz voltou a passar pela mesa e se sentou diante de mim. Tateou o
sobretudo escuro e desabotoou o primeiro botão, me desconcentrando
completamente ao me permitir aquela visão.
— Você é uma diaba — mordi o lábio e balancei a cabeça negativamente.
— Tenho novidades.
— Espero que boas.
Anuí com cuidado e empurrei o classificador preto na direção dela.
Bia franziu o cenho e sequer fez menção de pegar o classificador. Olhou-
me desconfiada e suspirou.
— Eu deveria?
— Sim, por favor — fiz um gesto com a mão para que ela tomasse o
objeto para si.
Bia puxou o classificador, mas não desviou o olhar do meu. Continuou a
me encarar ao pousar o objeto no colo, abri-lo e retirar dele uma porção de
documentos. Junto com eles o seu Green Card.
— Isso é?! — ela disse excitada.
— É sim — eu sorri.
Bia deu pulinhos na cadeira e vibrou com toda a felicidade do mundo.
— Eu até já havia esquecido! — ela disse emocionada.
— Não havia não — cocei o queixo e a admirei.
Sim, a admirei. Ficava tão bonita feliz, rindo, vibrando, pulando na
cadeira como se fosse uma adolescente.
— E esses outros papeis? — Bia folheou os documentos com certo
desinteresse.
— São os papeis do divórcio — expliquei.
Houve um breve e solene silêncio entre nós dois.
Beatriz ficou séria, encostou as costas na cadeira e puxou toda a
documentação para ler. Passou os olhos ligeiramente por tudo, mas manteve
aquele tom analítico e minucioso que carregava ao fitar algo.
— Só em caso de um dia você se cansar de mim — justifiquei.
Bia se levantou, não carregava a melhor das feições.
— Quero que se sinta livre. Para ficar. Para ir. Para fazer o que quiser.
— E o que você quer? — ela perguntou.
— Quero que seja minha. Que continue a ser minha. E eu vou ser para
sempre seu.

Beatriz Mitchell

A forma defensiva de Héctor agir às vezes me preocupava.
Ter os papeis do divórcio em minhas mãos era assustador – e eu cheguei
a pensar, meses atrás, que ter os documentos do casamento diante de mim eram
intimidadores.
A simples ideia de ter que ir embora me machucava. Era tão cedo! Havia
tanta coisa para fazer! Na mansão, com Anthony, na minha vida, na vida dele...
do nosso bebê...
Segurei os papeis do divórcio e caminhei sutilmente ao redor da mesa,
encaixei a papelada na linda máquina dele de picotar papel e fui para detrás de
sua cadeira presidencial, a puxei bem devagar, e quando havia um bom espaço
entre a cadeira e a mesa eu me coloquei diante dele.
Sentei na mesa, apertei o botão que cobriu todas as janelas da sala e
trancou a porta.
— Papeis de divórcio são para casamentos que não dão certo. O nosso
deu.
— Eu não diria em melhores palavras — Héctor provocou.
— Eu vou ficar — estufei o peito. Aproveitei para desabotoar mais um
botão.
— Você está perdendo uma excelente oportunidade de me fazer implorar
para que fique — ele contrapôs com um sorriso malévolo que desceu pelo meu
corpo e ficou cada vez mais malicioso.
— Implore — pedi com simplicidade.
Olhei satisfeita para a máquina de picotar que havia feito um serviço
impecável. Quando virei o rosto para vislumbrar Héctor, ele já retirava o terno
preto, a mão com a tatuagem estava sobre a gravata.
— Meu filho me disse que só me viu sorrir três vezes em toda a vida —
Héctor respirou fundo e se levantou.
Aquilo foi o suficiente para me fazer encolher os ombros e olhá-lo com o
pescoço esticado.
— O que sinto por você eu nunca senti antes. Não é apenas tesão ou
paixão, vai um pouco além do amor e da amizade... você é... — Héctor não era
um homem de hesitar, mas hesitou.
As palavras ficaram pendentes nos deliciosos lábios, ele ficou de joelhos
diante de mim e encostou a testa em meu joelho.
— Está tudo bem? — murmurei.
— O que eu sinto por você, Bia, é selvagem — Héctor ergueu a cabeça e
pude ver seus olhos azuis, feito safiras, brilhando para mim. Só para mim.
Um arrepio percorreu meu corpo ao sentir a mão forte dele subir
cautelosamente por minha perna, tocou com as unhas o meu joelho, para então
apertar a minha coxa e me obrigar a esticar o corpo e segurar a respiração.
Era como uma cobra de passeia e serpenteia pela presa até imobilizá-la,
domá-la e devorá-la.
— O que eu sinto por você, Bia, é algo inédito a cada dia, e já sinto isso
há mais de seis meses — a voz de Héctor era branda, completamente
galanteadora, e quando ele semicerrava os olhos e avançava contra mim eu só
tinha uma certeza.
Eu estava imobilizada, mesmo livre. Eu estava domada, mesmo sem
algemas e chicote. E eu ia ser devorada, como ele bem sabia fazer.
— Quero descobrir o que sinto por você — Héctor começou a desabotoar
o meu sobretudo de baixo para cima até que sobrou apenas um botão.
Sua sobrancelha se ergueu com entusiasmo ao perceber que eu estava de
lingerie.
— Sei que você prefere me ver de moletom e jeans — falei e tirei do
bolso minhas luvas de látex e a máscara. — Mas eu ainda sou uma stripper.
— A minha stripper — ele rosnou.
— Algumas coisas precisam mudar — sorri.
Na menor menção de colocar a máscara, Héctor segurou firme em minha
mão e subiu pelo meu corpo, a língua queimando ao tocar a minha pele, os
poucos pelos que eu tinha se eriçando ao sentir a barba, a pegada, a forma como
ele me puxava para si e me tinha na palma de suas mãos.
— Gosto de ver o rosto da minha mulher — ele me guiou para deixar a
máscara em cima da mesa. — Cada vez que você fecha os olhos e se delicia,
cada vez que você se perde em seus próprios pensamentos e seus olhos mostram
isso, cada vez que seu corpo corresponde a um toque meu...
— O que tem?
— Eu me sinto mais vivo — Héctor segurou em meu pescoço e me
beijou.
O chupão em meu lábio inferior me deixou perdida, não havia como o
corpo ficar tenso ou me prender com os pesos do passado.
Héctor me puxava para o agora.
Em sua boca carnuda e proibida o passado se dissipava lentamente como
uma tempestade de areia no deserto, permitindo-me sentir o oásis.
Héctor colocou a própria gravata em mim e a apertou feito uma coleira e
me guiou para sua cadeira presidencial.
Eu nunca havia me sentado ali. Dava realmente uma sensação
inimaginável de poder.
E o homem mais poderoso daquele prédio voltou a passear com a língua
pelo meu corpo, suas mãos deixaram os rastros do crime, desejo e loucura que
era tê-lo.
Se haviam quaisquer outras palavras que não fossem nossos nomes,
gemidos e coisas incompreensíveis, elas se perderam.
Héctor abriu as minhas pernas e avançou com sua boca quente e
molhada, arrancando-me como num conta gotas parte da minha sanidade.
Quando sua língua passava pelas minhas carnes e sua boca me chupava
com demora e sede eu tinha a sensação de sair do corpo e ser obrigada a retornar
a ele.
Segurei com firmeza nos cabelos de Héctor, não para guiá-lo, mas porque
era gostoso ter a sensação de controle sobre aquele homem. Quando na verdade
eu sabia bem que era ele quem estava no controle.

Héctor Mitchell

Parte de mim era fogo, tesão e êxtase espalhados pela sala. A outra parte
de mim eu coloquei na mesa após derrubar todos os objetos que ocupavam
espaço e nos impediam de continuar nossa dança pessoal.
Bia pareceu não querer largar o meu corpo.
Seus braços me apertaram, ela continuou a cavalgar forte, as unhas
cravaram em meu ombro, eu poderia reclamar, mas me distraí com seu lindo
corpo nu refletido no vidro da janela coberta.
De todas as coisas que senti na vida, aquela era assustadora e intrigante.
Sempre ouvi e soube todas as coisas que eu era. Um homem poderoso,
descendente dos Pais Fundadores, um bilionário desejado, um CEO competente,
um pai exemplar.
Nos braços de Bia eu era o que nunca fui.
Um garoto que precisa prender a respiração para não tropeçar ou se
desequilibrar diante da mulher que ama.
E despido de todos os títulos, de todas as honrarias e do peso de quem
sempre ouvi ser quem eu era, precisava admitir que ser o garoto, o homem dela,
o cara que a amava, era sem sombra de dúvida um dos melhores papeis da minha
vida.
E enquanto nossos corpos friccionavam como duas pedras lascadas em
busca do fogo primordial, na secreta dança que casais um dia encontram para
despertar o fogo invisível que habita dentro de si, eu sorri novamente por ver nos
olhos dela não apenas o garoto que eu era. Mas o homem que eu havia me
tornado e o homem que um dia eu viria a ser.
Parte de mim era o sorriso que despontava em meus lábios.
E a outra parte de mim correspondia não apenas com um sorriso, mas
com gemidos e aquele jeito doce que amansava a minha alma.
E partes à parte, eu me sentia, pela primeira vez, inteiro.
Capítulo 40
Héctor Mitchell

No Hall de entrada do Grande Templo de Nova York, Adrian, Ethan e eu
estávamos perfeitamente bem vestidos com nossos ternos pretos, insígnias no
peito e aventais na cintura. Cumprimentamos os honoráveis anciões que foram
os primeiros a chegar, junto a eles alguns emissários dos outros templos dos
Estados Unidos e depois nos ocupamos com os nossos irmãos, os membros do
nosso templo.
A casa estava cheia, todos conversavam animadamente, meu pai foi
paparicado por absolutamente todos que esbarravam com ele e entregavam-lhe
votos de boa saúde.
Adrian, que estava entre Ethan e eu, pigarreou e roubou a nossa atenção.
— Como está a sua stripper particular, também conhecida como sua
mulher?
— Bem — o encarei de imediato. — Ela passou por um momento difícil
onde queria ficar só. Eu dei o espaço que ela precisava, por um tempo. Depois...
— É, te conhecemos, sabemos que você é grudento e ficou em cima —
Ethan coçou as sobrancelhas.
— Brasileiras — Adrian suspirou. — Por que brasileiras?
— Não entendi a pergunta — tentei refletir sobre o que ele estava
falando.
— Todos vocês se casaram com brasileiras — ele explicou.
— Derick casou com uma russa — Ethan disse.
— Uma espiã russa — fechei os olhos em desaprovação. — Não falemos
disso, que dor de cabeça.
— Por que essa conversa agora? Quer que arranjemos uma brasileira
para você? — Ethan se voltou num tom inquisitorial para o amigo.
— Não. Estou muito bem assim. Ser o solteiro mais cobiçado de Nova
York é um título que carregarei por muito tempo e com muito orgulho.
— Mas porque você mencionou as brasileiras? Só Ethan e eu nos
casamos com... — quase completei meu pensamento.
Quase porque Ethan colocou a mão em meu peito e fez um “shhh!”
bastante sonoro que me fez esquecer do raciocínio e silenciou algumas pessoas
mais próximas a nós.
— O que foi? — Adrian rosnou.
— Sente esse cheiro — Ethan riu.
— Que cheiro?! — Adrian e eu perguntamos juntos.
— O olfato de vocês é horrível — Ethan nos mostrou sua reprovação e
cruzou os braços.
— Não sinto nenhum cheir... — antes de terminar de falar pisquei os
olhos duas vezes e os arregalei.
Pensei que nunca mais o veria.
Minha primeira reação foi dar um passo para frente e depois estender as
duas mãos em direção as mãos dele.
— Ricardo — soprei seu nome, só para ter certeza que era ele.
Ricardo Leão apertou as minhas mãos e sorriu de forma branda.
Todos sempre disseram que éramos bastante parecidos, inclusive na
fisionomia, os únicos detalhes que mudavam eram a cor de nossos olhos e o tom
de nossas peles.
— “O filho a casa torna” é o que dizem — Adrian veio em seguida e
segurou no ombro dele. — Que saudade, meu irmão. Como foi a sua missão
suicida?
Ricardo foi econômico no sorriso e ostentou a cicatriz que tinha do alto
da sobrancelha até abaixo do olho.
— “O que não mata, nos fortalece” — foi o que ele respondeu.
— É muito bom te ver. Seria ótimo encontrá-lo em outra ocasião, sem o
dever de nosso ofício, mas ainda assim, é muito bom ver que você voltou —
assegurei.
— Eu não ia perder isso por nada — Ricardo riu. — Além dessa “reunião
importante” estamos chegando perto da data das sindicâncias. Estou ansioso para
ver quem vocês indicarão para o Grande Templo e ver quem é capaz de passar
nas provas.
Não escondi o meu desgosto. Este ano nunca tivemos tão poucas
indicações que realmente valiam a pena. E o nome mais cotado, o Zimmerberg,
era controverso demais.
— Vou cumprimentar os meus honoráveis anciões e retorno depois para
ouvir as grandes notícias — Ricardo deu uma piscadela de olho.
— Héctor casou. Com uma stripper. Brasileira — Adrian encurtou a
novidade.
— Três irmãos do Grande Templo casados com brasileiras — Ricardo
riu. — Isso me parece uma conspiração — ele abriu um sorriso de canto e
segurou Ethan pelo braço. — Irei levar o mais debochado comigo, senhores.
Adrian encarou o relógio em seu pulso e respirou fundo.
— É chegada a hora. Preciso abrir a porta da sala de reuniões, fique aqui.
Ele mal disse isso e foi cumprir seu dever.
Eu permaneci ali, sozinho por apenas dois minutos, encarando as duas
colunas que ficavam diante do templo.
Voltei ao mundo real ao ver uma figura vestida de vermelho diante de
mim.
— Externe suas preocupações — ela sugeriu. — Traga suas dores à luz e
elas jamais poderão ser sombras.
Lilith quase me fez sorrir. Mas eu me contive e a reverenciei com
seriedade.
— Um dia Anthony estará aqui. E isso me preocupa.
— Ah, o futuro... — ela sorriu.
— É. O futuro. Ele me preocupa.
— É claro que sim. Buda dizia que só há dor no passado ou no futuro. No
presente nunca há dor. No presente temos tudo e somos tudo o que precisamos.
A insegurança ou expectativas do futuro e as mágoas ou lembranças do passado
são o que despertam a dor dentro de nós.
— Você não cansa de ser a melhor professora — eu disse em tom de
elogio.
— Não há professor se não há aluno. Não há trevas se não há luz. Não há
verdade se não há mentira. Os contrários formam a harmonia do universo.
Ninguém saberia o que é dia se não fosse a noite — ela tocou com gentileza no
dorso de minha mão. — E você encontrou o seu contrário. Um dia todos nós
encontramos. E geramos a harmonia do nosso universo interior.
— Isso é sobre Anthony?
— Isso é sobre você. No passado foi sobre o seu pai. No futuro será
sobre Anthony. Mas agora é sobre você. Você é o Grande Templo da sua própria
família. E um Grande Templo precisa de colunas, paredes, teto... mas ele seria só
uma construção burguesa e majestosa se não fosse pela chama sagrada que
habita dentro dele. E nós somos essa chama.
Lilith se afastou devagar e voltou-se para a porta.
A figura que surgiu diante de nós não nos inspirou nenhuma reação.
— Senhora Embaixadora do Mercado — foram os cumprimentos do
homem. — A Cavaleira Vermelha, Madame Lilith, A Cigana — ele ficou parado
diante do pilar branco que ficava em frente a porta do templo.
Lilith caminhou para fora do templo, ficou parada diante do pilar preto
que ficava em frente a porta do templo e estendeu a mão.
— Senhor presidente — ela disse sem esboçar sentimentos.
O homem estufou o peito, balançou o corpo para frente e para trás num
movimento quase imperceptível e levantou a sobrancelha.
— Dentro do Grande Templo eu sou apenas mais um irmão — ele sorriu
e apertou a mão dela.
— Então está convidado a entrar — Lilith tocou a mão do homem e
entrou primeiro, ele a seguiu.
— Héctor — ele me cumprimentou.
Eu retribuí o aperto de mão e permaneci ali parado feito uma estátua os
observando.
— Onde está a sua zeladora? Aquela estranha? — o homem se voltou a
Lilith.
— Está por aí.
— Antes de entrarmos — ele hesitou a dar mais um passo. — Gostaria
de perguntar-lhe algo e preciso da sua verdade.
— Pois não?
— Isso não é assunto do governo, mas do Grande Templo. Havíamos
selecionado alguns homens para serem informantes nossos do que ocorria no
Brasil. Um foi morto. O outro está preso. O que espionava de perto a presidente
continua no poder, mas não conseguiu completar a tarefa que demos.
Lilith permaneceu atenta.
O homem de cabelos louros e rosto alaranjado respirou fundo, de um
jeito debochado, como sempre transparecia.
— Isso tem a ver com o novo Embaixador de lá?
Lilith sorriu de uma forma quase maternal, algo que conseguia desarmar
qualquer um.
— Aquele país é uma situação delicada — o homem explicou. —
Podemos invadir e gerar guerra no Oriente porque ninguém se comove. O Iraque
não é cartão postal de canto algum, ninguém acorda e diz “vamos passar as
férias no Iraque”. Mas fazem isso com o Brasil. Por isso a situação é delicada e
precisamos tomar o que precisamos da forma mais... transparente possível.
Lilith ergueu as sobrancelhas como se desconhecesse o assunto.
— Queremos o petróleo — ele disse muito sério. — E ainda não temos
todo o petróleo que queremos— sua expressão se fechou, suas narinas se
inflaram, seus olhos pequenos pareceram crescer.
— Tudo ocorre no tempo certo.
— Não tenho tempo para a sua filosofia. Eu sou filho do Grande Templo
de Nova York. Eu carrego uma responsabilidade e quero ser conhecido como o
homem que mudou quadros importantes no mundo.
— É — tive de concordar com Lilith. — O futuro causa insegurança e
expectativas e isso causa dor...
O homem levantou a sobrancelha e me encarou, espantado.
— Como?
— Enviarei as suas reclamações aos Senhores do Mercado — Lilith se
colocou entre nós e sorriu. — Até lá, temos assuntos do Grande Templo a
resolver.
— Certo.
Seguimos para a sala principal de reuniões, a maior sala do lugar.
Quando entrei todos já estavam sentados em seus devidos lugares, a meia
luz se refletia suavemente pelo piso branco e preto. Sentei-me na mesa diretora
ao lado de Derick; Lilith se sentou atrás de nós, no grande trono que era
reservado para um cargo que ia além daquelas paredes, além de todas as
fronteiras.
Um minuto depois Adrian entrou e encaminhou o homem para o seu
antigo assento, onde ele assistiu o início da cerimônia, os repasses e algumas
questões de ordem antes que tivesse a palavra.
Ficou empertigado na cadeira, uma hora distraído, outra hora sem dar
muita atenção nos assuntos importantes que tínhamos na pauta.
E como de costume, quando teve a palavra, respirou como um Deus, e
sorriu e se movimentou como se fosse um verdadeiro showman, muito
debochado e cheio de caretas irônicas.
— É uma honra voltar para a minha casa, a minha loja, o meu Grande
Templo, onde o meu pai foi iniciado e eu carrego a ancestralidade — ele disse
todo pomposo e sorriu para sua plateia.
Todos corresponderam com olhares sérios e atentos.
— Nós somos a capital do mundo. Nós criamos o mundo contemporâneo
e nós o mantemos em pé. É daqui que saem as grandes decisões que mudam o
percurso de toda a humanidade e nós levamos a sério o fardo, o privilégio e o
legado deixado pelos Pais Fundadores dessa nação.
Adrian soltou um suspiro tão alto que precisei espetá-lo por debaixo da
mesa.
— Fui privilegiado e me tornei presidente. Não é do meu feitio me
explicar, mas é inconcebível que os irmãos do meu templo possam dizer que
conspirei com os russos para chegar onde cheguei. Isso não ocorreu. Eu dei voz
aos desejos do povo. Eles viram em mim a materialização de seus sonhos,
projetos e sentimentos não só sobre a nossa grande nação, mas sobre si mesmos.
— Me acorda quando ele terminar — Adrian murmurou.
— Nós iremos, juntos, reconstruir a nação do futuro. Deixar de lado esse
populismo de querer ajudar os mais pobres e focarmos naquilo em que somos
bons: na guerra, na soberania e na manutenção do sistema.
Meu pai encarava o homem com um misto de admiração e incredulidade.
Tive que repreendê-lo com o olhar quando ele começou a balançar a cabeça
negativamente em alguns momentos.
— É a nossa missão destruir de uma vez por todas o grande fantasma que
nos assolou no século passado. E impedir que a América seja infectada com a
doença que assolou nossos irmãos no oriente. Somos os iluminados, os mais
velhos e sábios. De colonizados a colonizadores. Inspiramos revoluções. Nunca
permitiremos que o mal triunfe sobre o bem. O bem maior é a coisa mais
importante que existe, e é com ele que colonizaremos o mundo e tornaremos o
mundo o quintal da nossa grande nação.
Ele recebeu apoio de diversos membros do salão que como num grito de
guerra mostraram concordar com seu discurso.
— Nós somos os detentores do verdadeiro poder. E se poder é petróleo,
ele é nosso.
Novamente gritos de concordância.
— Se imigrantes vem aqui e tentam roubar nosso poder, nós os
colocaremos em seu devido lugar.
O apoio só aumentou. Derick arqueou a sobrancelha e me encarou, meio
incrédulo.
— O mundo precisa saber que só há um senhor, e esse senhor é o Grande
Colonizador, munido do Bem Maior, que foi incumbido de iluminar todo o
mundo e subjugá-lo.
— Acho que dormi tempo demais e voltei para março de 1933 — Adrian
se consertou na cadeira.
— Chega de assistencialismo. Chega de vista grossa para os erros das
nações. Chega de empurrar os problemas com a barriga. Enfrentaremos o que
vier a frente e realizaremos o que nos foi legado, a nossa grande missão.
Ele fez uma pausa e inflou as narinas e o peito, antes mesmo de acabar
foi ovacionado de pé:
— Faremos a América grande novamente!
Epílogo
Héctor Mitchell
Oito anos depois.

Allen Rodrigues Mitchell, um garotinho de sete anos de idade, estava
sentado em sua mesa de estudos na sala presidencial da Mitchell & Smith,
rodeado de livros, canetas, lápis de cor e um tablet. Ele parecia um tanto
engessado, ereto na cadeira, o olhar bastante frio e impessoal. Com uma caneta
preta ele rabiscava o que deveria ser o nome e passava o papel para o lado
direito.
Segurei o sorriso e respirei fundo. O examinava da minha mesa de
trabalho e desviava o olhar antes que ele percebesse que estava sendo observado.
Era divertido e estranho ver o meu filho me imitar. Ele era perfeccionista
em cada trejeito. Sabia manter uma expressão neutra, sem emoções; quando
pegava o tablet e conferia a tela ele mordiscava o lábio inferior – coisa que eu
fazia quando a foto de nossa família aparecia em meu celular –, e mantinha
sempre uma postura de quem tem o tempo muito valioso.
— O que você está fazendo, filho? — quebrei o silêncio.
— Brincando — ele foi monossilábico, entortou o rosto para a esquerda e
fez um sinal de desgosto, amassou um papel em branco e jogou no lixo.
Novamente segurei a risada. Estiquei o pescoço para avalia-lo.
— Brincando de quê?
Allen voltou seus olhos azuis brilhantes para mim, suspirou bem devagar
e da maturidade de seus sete anos disse:
— De CEO.
Franzi a testa e imediatamente empurrei a cadeira para fora da mesa, para
observá-lo mais de perto.
— É? E você é CEO de quê?
— De uma empresa — ele disse como se aquilo fosse óbvio.
Era um atrevidinho, até mesmo com o pai.
— E o que a sua empresa faz? — insisti.
— Dinheiro — Allen voltou a rabiscar coisas abstratas no papel, ou o que
facilmente alguém chamaria de arte moderna, e com um quase sorriso de canto
passou o papel para a direita. — Acabei de fechar um contrato bilionário.
Ao terminar aquilo, o meu filho me encarou, piscou os olhos grandes e
bateu as mãos na mesa:
— O senhor não vai trabalhar não?
— Não. Vou brincar com você.
— O senhor brinca de CEO todo dia — ele balançou os ombros.
— Então poderíamos arranjar algo divertido para brincar — levantei-me
da cadeira, tirei o terno e o repousei na mesa.
Allen empurrou a cadeira para trás e procurou uma rota de fuga. Não
tinha como fugir. Ele tentou escapar por debaixo da mesa, mas eu o peguei pelos
braços e o coloquei sentado em meus ombros.
— Papai, eu não sou mais criança, eu sou o CEO — ele reclamou.
— Tá bom, mas vamos brincar de avião — saí correndo com ele pelo
escritório, Allen demorou, mas cedeu. Abriu os braços, começou a imitar o som
de uma turbina com a boca e se remexer em cima de mim.
— Turbulência! — ele gritou.
Tive de me agachar, segurei com firmeza nas pernas dele e comecei a
balançá-lo.
— Comando para a torre, comando para a torre, temos um problema
nesse avião. Ele é velho e está caindo aos pedaços — Allen riu um bocado.
— Ei! — reclamei.
— Mas esse piloto é muito competente e vai conseguir fazer um pouso.
Câmbio. Senhores passageiros, apertem os cintos, a descida vai ser com
emoção!
Continuamos a brincar até Beatriz chegar.
Ao abrir a porta ela se deparou com o filho já sem terno e calça, só de
sunga, e todo pintado de índio. Allen passou por ela e correu para fora do
escritório.
— Eu não vou perguntar o que aconteceu — ela fez uma careta e veio
para os meus braços.
— Oi amor. Só estava lembrando ao Allen que só se é criança uma vez. E
que ele precisa parar de imitar o pai engessado e começar a ser mais espontâneo
e divertido, tipo a mãe dele.
Bia entrelaçou seus braços ao redor do meu pescoço e descansou o rosto
em meu peito. Eu a apertei pela cintura e encostei o queixo no topo de sua
cabeça.
— Muito trabalho na clínica?
— Sim, muito trabalho. Preciso de férias. Devíamos tirar férias em
família de novo, as últimas foram três meses atrás.
— Marca um lugar no mapa e me avisa — a mantive presa em meus
braços por mais algum tempo até ter coragem de soltá-la. — Anthony está vindo
para cá também — avisei. — Recebeu a carta de Harvard.
— Ele foi aprovado? — ela se animou de repente.
— Não teve coragem de abrir a carta — escorei-me na mesa e me sentei.
— Disse que era melhor você abrir.
Bia franziu o cenho e rodeou a mesa, colocou a cadeira presidencial em
seu devido lugar e se sentou nela.
— Anthony tem um currículo impecável. E tem me ajudado na clínica
por dois anos, além de ter estagiado na empresa do Ethan Evans. Não entendo
porque ele seria recusado.
— Não será — me levantei e coloquei as mãos nos bolsos do paletó. —
Uma mãe formada em psicologia numa das melhores universidades do país, um
pai engenheiro, sem falar no sobrenome...
— Entendi, você acha que ele se sente inseguro — Bia analisou. — Mas
acho fofo que ele queira dividir esse momento conosco. Eu também dividi
quando apliquei e fui aprovada em psicologia.
Concordei.
— E como você se sente sobre ele ir para tão longe? — ela perguntou.
— Você é minha mulher ou minha terapeuta? — reclamei.
Bia colocou os pés com os saltos vermelhos em cima da minha mesa.
— Eu sou muitas coisas, senhor Mitchell.
— E boa em todas elas — consertei a gravata e caminhei devagar em sua
direção.
Eu sempre achei impossível amar alguém por muito tempo. Uma semana
era o suficiente para me enjoar das pessoas com quem eu saía. Mas com Bia algo
estranho ocorria toda vez que nos olhávamos.
Era como o risco de uma fagulha no meio da escuridão.
E lentamente os olhares se tornavam sorrisos.
E os sorrisos se tornavam respirações ofegantes.
E essa falta de oxigenação correta no cérebro nos empurrava para
algumas loucuras.
— Ele chegou! Ele chegou! — Allen invadiu a sala, nu, e correu para sua
mesa de estudos, onde se sentou e fingiu a mesma cara blasé do início.
Anthony entrou pela porta segundos depois. Estava vestido formalmente,
deixou a mochila em cima da poltrona em frente à mesa, tirou os fones de
ouvido e veio em minha direção, beijou o meu rosto e me abraçou.
— E o resultado? — perguntei.
— Vamos descobrir juntos, pai — ele se afastou e foi até Bia. — Aqui,
mãe, em suas mãos — ele entregou o envelope, esticou o rosto e encheu os
peitos de ar. — Estou pronto.
Bia rasgou o envelope sem cerimônias. Antes de tirar o conteúdo dentro
dele, Anthony se espantou ao encarar o irmão.
— O que você está fazendo?
— Brincando.
— E você está brincando de quê?
— De CEO.
— Allen, você está pelado.
— Eu sou o CEO, eu faço as regras — Allen protestou e voltou a rabiscar
os papeis diante de si.
Anthony balançou a cabeça negativamente. Ao voltar sua atenção para
Bia ele fez sinal para que ela parasse.
— Eu... eu não... eu não sei se...
— Filho — andei em sua direção.
— Eu não me sinto... eu não... — ele começou a gaguejar.
Bia se levantou, eu fui em sua direção e segurei em suas mãos. Anthony
me encarou, os olhos azuis bem assustados, o rosto bastante vermelho.
— Estou tendo um ataque de pânico — ele murmurou.
— Tudo bem. Sabemos lidar com isso, certo? — coloquei a mão em sua
cintura e o encaminhei para fora da sala. — Bia, fique de olho no CEO peladão.
— Vou ficar de olho sim.
Anthony e eu fomos para o hall que antecedia a sala presidencial. Fiz um
sinal para que o meu secretário saísse e nos deixasse a sós.
O direcionei para um dos sofás do lugar e me sentei na frente dele.
— Me diga o que está sentindo — segurei em seus braços.
— Eu não... eu... — Anthony começou a se atrapalhar com as palavras.
— E se... eu não... for suficiente?
— Como?
— E se eu não for suficiente para Harvard? Eu sou um adolescente com
ansiedade e síndrome do pânico, estou longe de ser um gênio como tio Ethan ou
um homem firme e decidido como você... E, você sabe que eu quero ir para a
escola de robótica, eu não quero fazer o mesmo curso que você, eu só...
— Shhh — apertei seus braços e o trouxe com cuidado até mim.
Anthony tremia. Uma vida inteira dessa forma não havia me preparado
para cada vez que ele tinha esses surtos, cada vez era como enfrentar pela
primeira vez todo aquele furacão.
— Primeiro que você é mais do que suficiente para Harvard. Você é
suficiente para Harvard, Oxford, Stanford, Cambridge... você é apaixonado pelo
que quer fazer, você se entrega de corpo e alma a tudo o que se propõe, tem um
bom coração e tem ajudado a sua mãe na clínica e estagiou para o Ethan. Eles
levam em conta o fato de você ser pró-ativo e envolvido em questões sociais.
Eu jamais diria para o meu filho que pelo histórico familiar e pelo
sobrenome ele seria aceito em qualquer universidade do mundo. Isso seria dizer
que ele era quem era apenas pela família e isso era, em grande parte, mentira.
Anthony se preparou, construiu uma trajetória impecável para poder ser
aprovado de primeira. E ele me pediu que eu não usasse minha influência para
facilitar as coisas eu dei a minha palavra.
— Eu confio em você. Você é mais do que suficiente — repeti.
— E se eu for aceito? Eu não quero te decepcionar, eu sei que deveria ser
o próximo presidente da Mitchell & Smith, mas eu não me vejo feliz aqui, pai.
Respirei fundo. Do jeito que os pais fazem quando veem seus filhos
crescendo e precisam dizer algumas verdades para eles.
— Anthony, olhe para mim — eu pedi. — Você não vai me decepcionar
por não seguir os meus passos. Siga o seu coração. Busque, acima de tudo, a sua
realização pessoal, não importa o que os outros achem. Busque o seu lugar no
mundo, e se não houver esse lugar, construa. Você nunca vai estar sozinho, você
tem a mim, a Bia, o seu irmão, os seus parentes, os seus tios...
Ele concordou.
— Não se preocupe com o que acontece depois de descobrir o que tem na
carta. Eu estarei aqui e nós vamos descobrir o que fazer juntos. Deixe o futuro
acontecer no tempo dele. No presente você tem a mim como apoio e isso basta.
— Obrigado pai — Anthony fechou os olhos e segurou em minhas mãos.
— Eu também fiquei bem ansioso na minha época — revelei. — É chato
ser avaliado pelos outros para poder seguir os seus sonhos.
— Sim.
— Mas os seus sonhos não dependem de Harvard. Você vai encontrar
uma forma de construí-los sozinhos, por que é isso o que fazemos desde o início
da humanidade, filho. Nós encontramos um caminho.
— Ok.
— Eu vou te visitar toda semana — já avisei.
— Pai... — ele me repreendeu.
— Você tem um bom coração, filho. Mesmo que te machuquem, mesmo
que tentem se aproveitar do seu bom coração, nunca permita que seu coração
endureça. Seja corajoso para enfrentar os obstáculos e gentil ao lidar com as
pessoas. Eu confio em você e confio na educação que te dei.
— Você pode me visitar quinzenalmente — ele riu, limpou as lágrimas
dos olhos.
— Toda semana e sem negociações — me levantei. — Quando você
estiver pronto, eu estarei pronto.
Anthony ficou sentado por mais um minuto. De olhos fechados ele ainda
parecia tenso e estava tentando se acalmar.
Era impossível não ver o tempo passando diante dos meus olhos.
O pequeno e frágil bebê dentro de uma redoma de vidro que todos diziam
que não ia sobreviver; a criança introspectiva e tímida que foi se abrindo aos
poucos para o mundo; o menino que foi machucado por alguém que deveria
protegê-lo e encontrou numa completa desconhecida forças para seguir e acabou
chamando-a de mãe e o adolescente que, como todo adolescente, era cheio de
paranoias, medos e inseguranças, mas também de uma coragem, uma ousadia,
uma firmeza e vontade do novo que os adultos jamais deveriam perder.
— Eu estou pronto — ele avisou e se levantou.
Ajeitei o terno dele e indiquei que devesse ir na frente.
Fechei a porta atrás de nós quando entrei e esperei alguma expressão de
Bia que revelasse o conteúdo da carta.
Ela nem tinha mexido.
— Prontos? — ela perguntou.
— Vamos estar prontos quando acontecer — falei.
Bia puxou o conteúdo de dentro do envelope e entortou a boca ao ler o
enunciado da carta e a decisão da aplicação.
Olhou para Anthony e depois para mim.
— Espero que você tenha dito a ele que iremos visita-lo todos os finais
de semana.
— Eu disse — garanti.
Bia concordou.
— Você foi aprovado, meu amor.
Anthony ficou completamente sem reação. Ficou ali, parado, os olhos
bem abertos. Esticou a mão para pegar a carta e conferiu a veracidade da
informação.
— Eu passei — ele disse, assustado.
O menino que eu ouvi a vida toda que não ia sobreviver, iria para
Harvard.
Recebi o seu abraço com muito carinho e afaguei seus cabelos. Bia veio
também e o abraçou ternamente.
Foi ela quem mudou tudo. Ela nos encontrou em um momento onde
estávamos machucados, sem esperanças e separados.
E esse era um de todos os momentos em que eu não podia imaginar que
existiria sem Bia, alguém por quem me apaixonei devagar, mas amei rápida e
perdidamente.
— Obrigado, família — Anthony agradeceu, apertado por nós dois.
O pelado também veio para o abraço e apertou a perna do irmão.
— Eu vou para Harvard também, não é, mamãe? — Allen perguntou.
— Vai sim filho — ela disse.
— Só daqui onze anos. E nem pense em crescer tão depressa! — eu pedi.

Ficha Técnica


1ª Edição – Julho de 2018

Direitos Autorais
Yule Travalon

Revisão
Daniela Vazzoler

Capa
Lucas Bernardes

Próximo Livro da Série
“Caçada pelo Mafioso”



Meus sinceros e profundos agradecimentos a você que leu até aqui.
Espero que essa história tenha mexido com você, assim como mexeu muito
comigo.
Obrigado por apoiar a minha literatura e aguardar esse lançamento <3
Sobre Yule

Yule Travalon escreveu, escreve e escreverá. Desenvolveu uma série com
temática de poder, política e conspiração com muito romance e erotismo em
2017: “Nas Mãos do CEO” em setembro, “Resistindo ao Passado” em
outubro e “Um CEO Em Minhas Mãos” em dezembro; além, é claro, do
polêmico e controverso “Café Coado na Calcinha – O Livro”.
“Protegida pelo Bilionário” inicia uma nova série de conspiração que se passa
em Nova York. O próximo volume se chamará “Caçada pelo Mafioso”.
Yule tem interesses voltados à escrita do erotismo, comédia, magia, política,
conspiração, existencialismo, filosofia amadora e psicologia. Ama recitar a
poesia de Florbela Espanca, ama assistir os filmes de Alejandro Jodorowsky e
ama acompanhar o movimento das estrelas.


E-mail para contato: yuletravalon@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/yuletravalon/

Table of Contents
Sumário
Sinopse
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Epílogo
Ficha Técnica
Sobre Yule