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INTRODUÇÃO

Este trabalho é uma análise exegética da Escritura registrada no Evangelho


de Marcos 10.13-16. Esta se encontra localizada na seção caracterizada pelos “três
anúncios da paixão”. Trata-se da maior parte dos ensinamentos sobre a conduta dos
discípulos e as exigências da fé em Cristo. O discipulado acontece a caminho para
Jerusalém e, o ensino principal é a verdadeira revelação do Filho de Deus, que
contrariava as expectativas messiânicas da época.
À luz deste contexto temático, o segmento proposto compreende
ensinamentos de Jesus acerca do Reino de Deus. Neste relato, a criança torna-se
uma ilustração da catequese quanto às condições para a entrada no Reino. A
inclusão das crianças no Reino, feita por Jesus, é revolucionária e inverte as escalas
de grandeza de seu tempo. Portanto, a reflexão sobre o vocábulo “criança” tem
fundamental relevância no estudo da passagem em questão, através do gesto
destoante de três figuras presentes neste relato: as pessoas que as conduziam até
Jesus, os discípulos e o próprio Cristo.
A compreensão geral da perícope alude à criança como uma ilustração da
inclusão e cidadania do Reino de Deus. Na análise sobre o dito profético, procurar-
se-á apresentar respostas bíblico–teológicas de questões como: Qual a condição
para a entrada no Reino? Qual a implicação da inserção da criança no Reino no
contexto eclesiológico? Como identificar a criança como uma ilustração das
características do cidadão do Reino? Quais os desdobramentos dos ditos de Jesus
relatados no v.14 e 15 quanto à teologia marcana?
Para compreender as cláusulas afirmativas da declaração de Jesus, este
trabalho será desenvolvido na perspectiva da hermenêutica reformada e limitar-se-á
a seguir a ordem natural de uma interpretação histórico gramatical: no cap. 1,
questões introdutórias serão trazidas à luz para facilitar a compreensão do
argumento; nos capítulos 2-5 será analisado a perícope em sua especificidade à luz
da comparação sinótica, na tentativa de descobrir qual o enfoque dado pelo
evangelista; no cap. 6 a argumentação será feita sob os pontos identificados na
própria estrutura gramatical do texto; na Conclusão, este trabalho pretende desatar o
“nó gramatical” e trazer ao leitor alguma orientação extraída da passagem escrita.
4

1. Contexto Histórico Geral

1.1 Título

À semelhança dos demais Evangelhos, o segundo na disposição literária


bíblica é uma obra anônima. Segundo Bruce, a coleção dos quatros documentos era
originalmente conhecida como “O Evangelho”, isto é, um único evangelho
apresentado em quatro narrativas distinguidas por seus respectivos autores. 1 O
termo grego euangge,lion (evangelho) atribuído ao escrito marcano, à luz do Antigo
Testamento e dos documentos cristãos mais antigos, as cartas de Paulo, anuncia a
promessa de boas novas, apresentando a esperança de Deus para o seu povo na
pessoa de Jesus, o Cristo (Rm 1.1, 9,15; I Co 15.1).
O título “Evangelho segundo Marcos” 2, aparece em todas as antigas listas
canônicas e em muitos manuscritos arcaicos. Provavelmente, foi adicionado quando
os Evangelhos foram reunidos e houve a necessidade de distinguir a versão de
Marcos dos demais evangelhos. 3

1.2 Autoria

Em geral, há consenso de que Marcos seja o autor do segundo Evangelho.


As questões que norteiam este assunto baseiam-se nas evidências internas do
documento e na tradição antiga.
As evidências externas comprovam a autoria marcana. A tradição da igreja
antiga atribui o segundo Evangelho a Marcos, colaborador de Pedro. Os pais
primitivos tais como Papias de Hierápolis (140 d.C.), Justino Mártir (150 d.C.), Irineu
(185 d.C.) e Clemente de Alexandria (195 d.C.) são enfáticos acerca de tal

1
BRUCE, F. F. Merece Confiança o Novo Testamento? 2 ed. São Paulo, Vida Nova 1990. p. 31.
Taciano de Roma, em 170 d.C., produziu uma narrativa única dos quatro Evangelhos chamada
“Harmonia dos Evangelhos”, historicamente conhecida como DIATESSARON, que durante muito
tempo serviu a Igreja Assíria.
2
O título “Segundo Marcos” do ponto lingüístico denota o mesmo que “Evangelho de Marcos”. Julius
Schniewind. O Evangelho Segundo São Marcos. São Bento do Sul, União Cristã, 1989. p. 14.
3
D. A. Carson, Douglas J. Moo, Leon Morris. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo, Vida Nova,
1999. p.102.
5

alegação.4 Papias, a única testemunha independente, refere-se a Marcos como o


5
“interprete de Pedro”. Marcos, como testemunha ocular, reflete a natureza
esporádica das narrações feitas oralmente por Pedro, o que é esclarecido pela falta
de ordem e certas omissões. 6 Outro argumento acerca da autenticidade da autoria
marcana, é percebida na tendência existente na igreja primitiva, no segundo e
terceiro séculos, em atribuir autoria apostólica a livros que aleivosamente a
reivindicavam, principalmente a apóstolos proeminentes, o que não é o caso de
Marcos.
Embora as considerações internas não contribuam para uma identificação
plausível da autenticidade marcana, a evidência da posição de Marcos como
“interprete de Pedro” compreende que a simplificação da ordem cronológica dos
acontecimentos registrados em Marcos reflete a narração dos mesmos fatos por
Pedro no livro de Atos dos Apóstolos (At 3.13-14; 10.36-43). 7
No tocante a Marcos, sabe-se que era proveniente da comunidade primitiva
de Jerusalém (At 12.12). João, cognominado Marcos, era filho de Maria que
abrigava em sua casa a comunidade cristã, para onde Pedro fugiu depois de
8
escapar da prisão. Inicialmente, Marcos acompanhou Paulo e Barnabé na primeira
viagem missionária (At 12.25; 13.5), separando-se deles mais tarde (At 13.13;
15.37). Em alguma ocasião posterior, Marcos encontra-se novamente em
companhia de Paulo (Fm 24; Cl 4.10; II Tm 4.11), e em I Pedro 5.13 é mencionado
junto a Pedro na Babilônia.9

4
Broadus David Hale. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. 3 ed. Rio de Janeiro, Juerp, 1989.
p. 74.
5
As informações de Papias acerca do segundo Evangelho estão registradas na obra de Eusébio,
primeiro entre os historiadores da igreja em “História Eclesiástica (seção III.39.15). Russel Norman
Champlin, João Marques Bentes, “Evangelho de Marcos”, em Enciclopédia de Bíblia: Teologia e
Filosofia. Vol 4. São Paulo, Candeia, 1991. p. 122.
6
Werner Georg Kümmel. Introdução ao Novo Testamento. 2 ed. São Paulo, Paulus, 1982. p. 113.
7
BÍBLIA. Português, Bíblia de Estudo de Genebra, São Paulo, Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do
Brasil, 1999. p. 1145.
8
Quanto à autoria do segundo Evangelho, muitos estudiosos atribuem a um autor desconhecido.
Eduardo Lohse considera “difícil conceber que um homem de Jerusalém poderia desconhecer a
situação topográfica desta”. Cf. Eduard Lohse. Introdução ao Novo Testamento. 4 ed. São Leopoldo,
Sinodal, 1985. p. 143.
9
A palavra Babilônia é uma provável referência a Roma pela influência do latim no texto grego e pela
provável referência aos membros da igreja de Roma.
6

1.3 Canonicidade10

Não há contradições quanto à confirmação do Evangelho de Marcos no


Cânon. Em meados do século II, o termo “Evangelho” foi utilizado pela primeira vez
11
por Justino Mártir, para designar os relatos canônicos do ministério de Jesus. A
princípio, os quatro evangelhos constituíam uma unidade integrada, agregados,
provavelmente, após o término do evangelho joanino. 12
A idéia de um Evangelho quadripartido, mas integrado por um só Espírito, era
reconhecido na Igreja em geral. Somente na segunda metade do século II, é que o
termo “Evangelhos” foi empregado no plural. Destarte, classificados através dos
critérios básicos de canonicidade13, os três primeiros evangelhos, a partir do século
dezoito, foram denominados sinóticos14 (o que tem a mesma visão ou perspectiva),
15
pela similaridade em estilo e conteúdo.

1.4 Data

O Evangelho de Marcos não oferece qualquer indicação clara quanto à


datação do documento. As evidências primitivas se contradizem quanto ao período.16
10
No curso da investigação da evolução dos evangelhos, surgiram vários enfoques que forneceram
contribuições distintas e relevantes para o problema das origens e desenvolvimento dos evangelhos.
Dentre esses enfoques destacam-se: A Crítica da Forma (Formgeschichte), que procura determinar a
natureza e o conteúdo da tradição oral, classificando as unidades individuais do material escrito dos
evangelhos, de conformidade literária e o uso comum na igreja primitiva; a Crítica das Fontes, que se
dedica à investigação escrita na produção dos evangelhos, ou seja, o uso de “fontes” que os
evangelistas empregaram na compilação de seus evangelhos, e a Crítica da Redação
(Redaktionsgeschichte) que concentra-se nas contribuições literárias e teológicas dos autores dos
evangelhos em unidades completas. Para um estudo mais acurado sobre o assunto ver Carson. Op.
Cit., p. 21.
11
Carson, Ibid., p. 53.
12
BRUCE, Op. Cit., p. 31.
13
Segundo Miranda, estes critérios adotados para acabar com os ensinamentos heréticos que se
propagavam na igreja primitiva, correspondem “ao valor intrínseco do livro e a crença de que foi
escrito por um apóstolo ou por um discípulo do apóstolo, representando, assim, o ensino dele ou a
sua tradição evangélica”. Osmundo Afonso Miranda. Estudos Introdutórios nos Evangelhos
Sinóticos. São Paulo, Cultura Cristã, 1989. p. 40.
14
Quanto ao problema denominado sinóticos ver Apêndice.
15
Este termo foi empregado, primeiramente, por Griesbach em 1776, ao atribuir o nome de sinopse a
uma publicação do texto paralelo dos três primeiros Evangelhos. Kümmel. Op. Cit., pp. 74-75.
16
Estudiosos que conferem uma data remota a escrita de Marcos argumentam que atribuir uma data
no final dos anos 50 d.C., conflita com as tradições mais antigas de que Marcos foi escrito depois da
morte de Pedro. Entre os pais primitivos constata-se uma contradição. Irineu, por exemplo, disse que
o Evangelho foi escrito após a morte de Pedro, enquanto que Clemente de Alexandrina registra uma
escrita anterior. Dessa forma, as evidências mais antigas não são de todo unânimes sobre o assunto.
7

O tempo da escrita de Marcos é um problema entre a maioria dos estudiosos que


argumentam em favor de datas que variam entre 40 d.C a 70 d.C. 17 Dentre as
hipóteses apresentadas, a mais provável remonta na data no final dos anos 50 a 60
d.C.
O argumento em favor dessa teoria encontra-se na credibilidade das tradições
de que o evangelho foi escrito em Roma com base na pregação de Pedro. O
principal argumento em favor dessa data procede do relacionamento entre Marcos e
Lucas-Atos, em que Lucas empregou o evangelho de Marcos na produção de suas
respectivas obras. Admite-se, geralmente, que os escritos lucanos foram concluídos
em torno de 62 d.C., quando termina a narrativa de Atos. 18 Logo, a data mais tardia
para o término do evangelho de Marcos seria em 60 d.C. 19

1.5 Local e Destinatários

Em contraste com outras questões que envolvem o evangelho de Marcos,


parece geralmente aceito pelos estudiosos de que este evangelho foi escrito em
Roma. O próprio livro fornece indícios neste caso. Marcos citou as palavras
proferidas por Jesus em aramaico, ajuntando-lhes à tradução esclarecimentos
20
acerca de diversos costumes correntes entre os judeus.
De modo alusivo, elucidou expressões gregas com seus equivalentes latinos,
além de outros termos técnicos ventilados pelo autor, no que tange à informação
acerca de Simão de Cireneu “pai de Alexandre e de Rufo” (15.21), que
evidentemente eram conhecidos em Roma (Rm 16.13). 21 Após a reconciliação com
Paulo, Marcos reaparece nas epístolas paulinas como um amigo e consolador que a
pedido de Paulo, é enviado a Roma “pois me é muito útil para o ministério” (II Tm
4.11). Outro argumento favorável a essa teoria, consiste na associação de Marcos
com Pedro (I Pe 5.13).22

Hale. Op. Cit., p. 76.


17
Carson. Introdução ao Novo Testamento. p. 108.
18
Robert H. Gundry. Panorama do Novo Testamento. 4 ed. São Paulo, Vida Nova, 1987. p 89.
19
Carson. Op. Cit., p. 110.
20
Willian Hendriksen. Marcos: Comentário do Novo Testamento. São Paulo, Cultura Cristã, 2003.
p.22.
21
Ibidem.
22
BÍBLIA. Português, Bíblia de Estudo de Genebra. p. 1145.
8

O testemunho externo de antigos pais da Igreja como Irineu, Eusébio,


Clemente de Alexandria entre outros, confirma as declarações de que o Evangelho
de Marcos foi escrito em Roma para os romanos. 23 Se Marcos o escreveu em Roma,
o que é provável, os fatos abordados anteriormente acerca do local da escrita,
fornecem exemplos que ilustram o fato de que o evangelho de Marcos não visava,
primariamente, leitores judeus, mas o mundo gentílico em Roma.

1.6 Propósito

O propósito supremo do autor está alinhado com o propósito de Deus em


revelar-se. Marcos procura alcançar esse alvo apresentando por escrito o
testemunho dos apóstolos a respeito dos fatos da vida, morte e ressurreição de
Jesus. Todo o evangelho é um argumento a favor da declaração de que Jesus é a
revelação definitiva de Deus, o qual, em seu Filho eterno, se integra na história da
humanidade: Jesus, o singelo mestre chegado da Galiléia (1.9), é o Cristo, o
Messias a quem desde séculos antigos esperava o povo de Israel (8.29; 9.41; 14.61-
62). O evangelista anuncia a presença de Jesus no mundo como sinal imediato da
24
vinda do Reino de Deus (1.14-15; 4.1-34).
Outro fator decorrente do propósito marcano advém da incipiente perseguição
das autoridades romanas que adquiria forças com a justificação de que “a lealdade a
25
Jesus Cristo e seu reino colidiam com a lealdade a César.” Neste período, o
crescimento sócio-econômico de Roma atraía imigrantes de diferentes etnias,
inclusive cristãos que traziam sua nova fé em Jesus Cristo. Contudo, os novos
convertidos adicionavam à doutrina cristã elementos de seu legado religioso,
dificultando o relacionamento entre crentes judeus e gentios, principalmente à
medida que os líderes das sinagogas denunciavam os judeus que abandonavam as
antigas tradições. Assim, “a adversidade étnica e as experiências religiosas
26
anteriores desses novos cristãos ameaçavam o cristianismo autêntico.”
Este fator contribuiu para a perseguição dos cristãos pelas autoridades
romanas. Estes eram identificados com as diversas correntes do nacionalismo
23
Hendriksen. Op. Cit., p. 22.
24
Dewey M. Mulholland. Marcos: Introdução e Comentário. São Paulo, Vida Nova, 1978. p. 16.
25
Ibid.
26
Ibidem.
9

judaico que surgira na Palestina, desde 6 d.C., em oposição à administração colonial


27
romana. Tais perseguições eram recentes em Roma e foram intensificadas
quando os cristãos foram acusados de terem provocado o grande incêndio de
Roma, durante a perseguição de Nero em 64 d.C. 28
Todos esses acontecimentos ameaçavam a continuidade da tradição oral
sobre Jesus de Nazaré, que pouco a pouco se debilitava e podia acabar por se
perder. Uma vez firmadas essas posições, permeadas por tensões internas e
ataques externos, pode-se imaginar os problemas que preocupavam o autor.
Este desígnio é, de igual modo, sustentado pela tradição antiga que, baseada
no testemunho de Eusébio, expressa que o segundo Evangelho foi escrito com
propósito pastoral, ou seja, na preservação da essência da pregação apostólica.
29
Logo, o interesse de Marcos passa não pela evangelização, mas confirmação.

2. Análise Gramatical

2.1 - Tradução do Texto Original

v.13 Kai. prose,feron auvtw/| paidi,a i[na auvtw/n a[yhtai\ oi` de. maqhtai. evpeti,mhsan
auvtoi/jÅ
v.14 ivdw.n de. o` VIhsou/j hvgana,kthsen kai. ei=pen auvtoi/j\ a;fete ta. paidi,a e;rcesqai
pro,j me( mh. kwlu,ete auvta,( tw/n ga.r toiou,twn evsti.n h` basilei,a tou/ qeou/Å
v.15 avmh.n le,gw u`mi/n( o]j a'n mh. de,xhtai th.n basilei,an tou/ qeou/ w`j paidi,on( ouv
mh. eivse,lqh| eivj auvth,nÅ
v.16 kai. evnagkalisa,menoj auvta. kateulo,gei tiqei.j ta.j cei/raj evpV auvta,Å

27
Ched Myers. O Evangelho de São Marcos. São Paulo, Paulinas, 1992. p. 96.
28
Segundo Champlin, Marcos tinha em mente os cristãos que eram “forçados a entrar na arena de
Roma para servirem de alimento as feras, pendurados em estacas para archotes, a sofrerem torturas
nos jardins do palácio de Nero, a fim de proporcionar entretenimento aos convidados pagãos, dentre
outros artifícios de sofrimento”. Champlin, “O Evangelho de Marcos”, em Enciclopédia de Bíblia:
Teologia e Filosofia. pp. 123-124.
29
Miranda. Op. Cit., p. 196.
10

v. 13 E traziam para ele criançinhas para que as tocasse, mas os discípulos os


repreenderam.
v.14 Jesus, porém, tendo visto, ficou indignado e disse–lhes: Deixai vir a mim as
criancinhas, não as impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus.
v.15 Em verdade vos digo: Quem não recebe para si o Reino de Deus como (uma)
criança não (de forma alguma) entrará nele.
v.16 E tendo tomado-as nos braços, abençoava (as) colocando as mãos sobre elas.

2.2 - Classificação das Palavras30

prose,feron – verbo indicativo, imperfeito, ativo, 3º p. plural de prosferw – trazer para,


levar para.
O imperfeito indicativo transmite a realidade de um ato concretizado no
31
passado no sentido contínuo. Trata-se de um imperfeito iterativo usado para
descrever uma ação costumeira do passado. Este verbo expressa um sentido duplo:
uma ação repetitiva e uma atitude de confiança e certeza das pessoas que
conduziam as crianças até Jesus.

a[yhtai – verbo subjuntivo, aoristo, média, 3º p. singular de a[ptomai – tocar.


O modo do subjuntivo empregado é deliberativo, usado para denotar um
desejo que expressa incerteza ou dúvida.32 O subjuntivo usado com a conjunção
ivv;na (para que) expressa propósito. Este propósito do toque é obter a benção de
Jesus (média intensiva).

evpeti,mhsan – verbo indicativo, aoristo, ativo, 3º p. plural de evpiti,maw –


repreender.
A forma verbal expressa a realidade de um ato efetivado no passado e que
não tornará a se repetir (aoristo). Trata-se de um aoristo constativo usado para
30
Nas classificações das palavras foram utilizados para pesquisa: Rienecker Fritz, Rogers Cleon.
Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. Trad. de Gordon Chown e Júlio Paulo T. Zabatiero.
São Paulo, Vida Nova, 1995; Willian Sanford Lasor. Gramática Sintática do Grego do Novo
Testamento. São Paulo, Vida Nova, 1986; Francisco Leonardo Schalkwijk. Coinê: Pequena
Gramática do Grego Neotestamentário. 7 ed. Minas Gerais, CEIBEL, 1994; The Analytical Greek
Lexicon. Catalog nº 6227. Michigan, Zondervan, 1975; Timothy Friberg, Bárbara Friberg (ed.). O Novo
Testamento Grego Analítico. São Paulo, Vida Nova, 1987.
31
Francisco Leonardo Schalkwijk. Coinê: Pequena Gramática do Grego Neotestamentário. p. 60
32
Ibidem. p. 126.
11

expressar uma ação em sua totalidade durante um período, quando essa atividade é
33
vista como um fato único. Corresponde à atitude de repreensão que os discípulos
imputavam aos que traziam as crianças a Jesus.

hvgana,kthsen – verbo indicativo, aoristo, ativo, 3º p. singular de a./ganakte,w – ficar


34
aborrecido, indignado. No aoristo ingressivo, começar a indignar-se.
No indicativo, o aoristo corresponde usualmente, ao passado. Neste caso,
trata-se de um aoristo ingressivo usado para indicar o começo de uma ação,
35
determinada pelo sentido do verbo. Portanto, não há uma idéia de ênfase sobre a
continuidade da ação. A indignação de Jesus é uma atitude temporária decorrente
da observação do lastimável episódio.

a;fete – verbo imperativo, aoristo, ativo 2º p. plural de a;fi,hmi – permitir, deixar.


O verbo no imperativo implica numa ordem imprescindível e necessária. É
uma ordem imbuída de um desejo enfático, dirigida comumente à segunda pessoa.
O imperativo aoristo indica uma ação simples pontilear. 36 É uma ordem expressa
para aquele momento oportuno. O aoristo ingressivo, neste caso, expressa que a
passagem deveria ser desobstruída e os discípulos deveriam permitir a aproximação
das crianças até Jesus.

kwlu,ete – verbo imperativo, presente, ativo, 2º p. plural de kwle,w – impedir.


Enquanto que o verbo anterior denota uma ordem pontilear, o tom imperativo
deste verbo encontra-se no presente, indicando uma ação linear, ou seja, que o
acesso à presença de Jesus, a partir daquele momento, não deveria ser impedida às
crianças, mas permitida constantemente.

toiou,twn – adjetivo pronominal demonstrativo, genitivo, neutro, plural – de tal tipo,


de tal caráter.
O adjetivo pronominal demonstrativo, quando usado com o artigo tw/n (dos;),
37
como neste caso, significa “desse tipo”, “tais como estas”. Assim, aplicada ao texto
a expressão assume uma posição substantival e quer dizer “crianças desse tipo” ou
33
Lasor. Gramática Sintática do Grego do Novo Testamento. p. 47.
34
Fritz. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. pp. 86-87.
35
Lasor. Op. Cit., pp. 47-48.
36
Schalkwijk. Coinê: Pequena Gramática do Grego Neotestamentário. p. 70
37
Cf. Ibidem. p. 44.
12

38
“crianças tais como estas”. O genitivo de comparação refere-se, portanto, àquelas
crianças que naquele momento abençoou.

avmh.n – partícula sentencional.39 Os ditos de Jesus introduzidos por “amém” são


pronunciamentos escatológicos, a fim de conservar e transmitir fielmente as suas
palavras.40 É portanto, uma expressão de sua majestade e autoridade.

de,xhtai – verbo subjuntivo, aoristo, média, 3º p. plural de de,comai – receber, dar as


boas-vindas.
O subjuntivo é um modo que expressa possibilidade. Neste caso, o subjuntivo
hortativo, usado em exortações, denota o modo imperativo, pois está precedido por
um advérbio de negação mh..41 A conjugação verbal implica em uma ação única,
realizada no passado (aoristo constativo) e alude ao grau de probabilidade de sua
efetuação por qualquer pessoa (a'n, qualquer). A voz média permissiva indica que
Jesus ao fazer tal afirmação alude a uma atitude de recebimento por parte daqueles
a quem o reino é anunciado.

eivse,lqh| - verbo subjuntivo, aoristo, ativo, 3º p. plural de eivse,rcomai| - entrar.


Este verbo implica na conseqüência do verbo anterior de,xhtai (receba). A
atitude de recebimento compreende a entrada no reino. Indica, do mesmo modo,
uma possibilidade. O que difere do verso anterior é a voz, que faz uma afirmação
sobre o sujeito (intransitiva). É antecedido por dois advérbios de negação, ouv mh.,
que no modo subjuntivo, é usado para denotar uma negação enfática. Esta palavra,
portanto, é empregada metaforicamente para representar a entrada no reino.

evnagkalisa,menoj – verbo particípio, aoristo, média, nominativo, masculino, singular


de evnagkali,zomai– abraçar, tomar nos braços.

38
Fritz. Op. Cit., p. 87.
39
Friberg. Op. Cit., p. 141.
40
Uwe Wegner. Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia. São Leopoldo, Sinodal, São
Paulo, Paulus, 1998. p. 200.
41
Lasor. Gramática Sintática do Grego do Novo Testamento. pp. 37-38.
13

O ato de Jesus se expressa numa ação continuada em demonstrar seu amor


42
às crianças que, de modo singelo, dele se aproximavam. Isto é evidenciado em
outro episódio registrado por Marcos (9.36). Trata-se de um particípio adverbial, pois
indica algo relacionado à ação. O tempo indicado pelo particípio, aoristo constativo,
faz parte da ação do verbo principal. É seguido pelo pronome pessoal auvta. (os/as),
que define o sujeito do verbo: as crianças. Assim, Jesus, através deste gesto,
objetivava abençoa-las (média intensiva). Segundo Myers, este verbo é único no
Novo Testamento e, é empregado neste sentido somente em outras duas
passagens Lc 2,28 e Mc 9.36. 43

kateulo,gei – verbo indicativo imperfeito ativo 3º p. singular de kateuloge,w – desejar


o bem para alguém, abençoar.
Este verbo é composto pela preposição kata, (para baixo) e o verbo eulo,ge,w
(abençoar). O gesto de Jesus para com as crianças é verdadeiro. A benção é
dispensada do alto. O efeito da preposição no verbo composto é intensivo.
44
Abençoou-as de modo fervoroso, não de modo superficial, mas com ênfase. O
45
imperfeito retrata a ação repetida que ocorre somente neste episódio em Marcos.

2.3 – Crítica Textual

A opção feita pelo Comitê das United Bible Societies (UBS) da passagem em
análise, apresenta certa dificuldade na decisão da inserção de variantes. O aparato
crítico do The Greek New 46 traz duas variantes no verso 14, apresentadas como
possíveis à tradução; kai. ( e ) e kai. e.pitimh,saj (e tendo repreendido)47. A avaliação
dos critérios favorece a variante kai. ( e ). Esta se encontra geograficamente melhor
atestada, bem como, representada em todos os tipos de texto.
Considerando a preeminência das testemunhas sobre os demais grupos,

opta-se pela primeira variante, visto ser apoiada pelo códex Sinaítico ( a, o primeiro
42
O particípio adverbial é traduzido como um gerúndio. Cf. Schalkwijk. Coinê: pequena gramática do
Grego Neotestamentário. p. 86.
43
Ched Myers. O Evangelho de São Marcos. São Paulo, Edições Paulinas, 1992. p. 323.
44
Fritz. Op. Cit., p. 87.
45
Myers.Op. Cit., p. 323.
46
The Greek New Testament, 2 ed. Chicago, United Bible Societies, 1968.
47
Verbo particípio, aoristo, ativo, nominativo, masculino, singular.
14

lugar na lista dos mss. unciais do Novo Testamento, séc. IV), códex Alexandrino (A,
que data o inicio do século V), códex Vaticano (B, principal evidência da mais antiga
forma de texto do N. T.) e do códex Efraimita (C, um palimpsesto mais importante do
Novo Testamento escrito no século V), o texto Bizantino (Y), além das versões
p,h
siríacas Peshita e Heracleana (syr ), da cópita Saídica e Boaírica (cop sa,bo ).48 A
opção feita é relevante para a compreensão da perícope em análise, contudo, tal
variante, não apresenta dificuldades no desenvolvimento da análise teológica.

3. Análise Semântica49

O vocábulo paidi,on tem fundamental importância para a compreensão deste


relato quanto à coerência interna. Sua etimologia é uma forma diminutiva de pai;j
50
(criança, filho, jovem). Na LXX51 ou no grego secular, denota desde um recém-
nascido (Gn 21.7) a um jovem (Jz 8.14)52.
Nos Evangelhos a referida palavra possui o mesmo significado. É empregada
em João 16.21 para indicar um recém-nascido e em Marcos 5.39-42 para uma
53
criança de doze anos. Portanto, as crianças trazidas até Jesus poderiam ter de
zero a doze anos. A reação reprovatória dos discípulos quanto aos que conduziam
as crianças até Jesus implica em que tais crianças fossem jovens demais para
poderem tomar sobre si o jugo da Lei.
No dito do verso 14, Jesus refere-se às crianças no sentido literal da palavra.
Já no verso 15, Jesus emprega a palavra “criança” metafóricamente, aludindo ao
54
recebimento do Reino de Deus com a atitude de criança. Ao utilizar a criança
como ilustração do seu discipulado, Jesus não se refere à pureza infantil ou a

48
Wilson Paroschi. Crítica Textual do Novo Testamento. 2 ed. São Paulo, Vida Nova, 1999. pp. 43-
88.
49
Nesta seção analisar-se-á o conteúdo do texto em sua especificidade.
50
Colin Brown, “pai;j”, em COENEN, Lothar; BROWN Colin. Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento. vol I. Vida Nova, São Paulo, 2000. pp. 467-468.
51
Septuaginta.
52
O vocábulo jovem compreende na linguagem moderna um pré-adolescente com idade aproximada
de doze anos.
53
W. E. Vine, Merril F. Unger, Willian White Jr. “Criança”, em Dicionário Vine: O significado exegético
e expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro, CPAD, 2000. p. 520.
54
Ched Myers. O Evangelho de São Marcos. p. 324.
15

55
qualquer inserção de pecado. A razão porque o Reino pertence às crianças
independe de quaisquer qualidades subjetivas que possam ter, mas na sua condição
objetivamente incapaz.
Este contexto, conforme mencionado anteriormente, refere-se à questão do
ensino. O vocábulo maqhtai. (discípulos) é relevante no entendimento do tônus
teológico que perpassa a redação marcana. No Novo Testamento, os evangelistas
são os únicos que empregam a palavra legada do judaísmo helenístico, com um
arcabouço de referência maior. O chamado de Jesus aos doze não se trata de um
relacionamento de aprendizagem adquirido através do mero processo intelectual,
mas do sacrifício incondicional (Mt 10.37 Mc 3.31-35). 56 Embora empregado
especificamente aos doze, alude a todos os que manifestam ser seus seguidores,
permanecendo na sua Palavra (Jo 8.31; 13.35). 57
Na perícope em análise, assim como em repetidas passagens nos
Evangelhos, incidi a falta de entendimento da parte dos discípulos quanto à
catequese de Jesus. Isto se aplica não somente à própria mensagem (Mc 4.10-11),
às suas atividades (Mc 10.13, 10.48), ou ao alvo do discipulado (Mc 10.35), mas,
sobretudo, ao sofrimento de Cristo (Mc 14.47). 58 O ato de Jesus chama-los mostra a
distância que estão da verdadeira compreensão de seu messianismo. Aliás, durante
todo o itinerário de humilhação do Messias mostram-se apáticos à realidade da cruz.
Para o esclarecimento sobre a unidade do texto seja completa, faz-se
necessário analisarmos o segundo dito que é proferido por Jesus, em sua
especificidade; o verbo de,xhtai (receber). Seu emprego tanto no Antigo Testamento
quanto no Novo Testamento denota primariamente a disposição para receber a
palavra e a ação divina. Nas comunidades cristãs antigas, essa atitude de
recebimento ligou-se ao Reino de Deus. 59 Nesta sintonia, os verbos “crer” e
“receber” tornam-se sinônimos. Portanto, a fé corresponde ao acolher

55
Este episódio tem sido vinculado ao batismo infantil em paralelo a João 3, no discurso com
Nicodemus, para comparar a entrada no reino com o novo nascimento. Colin Brown, Op Cit., 469.
56
D. Müller, “maqhth,j”, em COENEN, Lothar; BROWN Colin. Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento. p. 581.
57
W. E. Vine, Merril F. Unger, Willian White Jr. “Discipulo”, em Dicionário Vine: O significado
exegético e expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. p. 569.
58
D. Müller, ““maqhth,j”, em COENEN, Lothar; BROWN Colin. Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento. p. 586.
59
B. Siede, “de,comai”, em COENEN, Lothar; BROWN Colin (ed.). Dicionário Internacional de Teologia
do Novo Testamento. Vol II. p. 2527.
16

afirmativamente o domínio de Deus, pois o Reino de Deus é um dom que é


necessário receber como um presente de Deus.
Ao passo que a fé refere-se ao recebimento, este alude a basilei,a tou/ qeou/
(Reino de Deus). Este termo percorre ambos os Testamentos, focalizando o
propósito de Deus na história da humanidade. Através de seu ministério, Jesus
revela que o Reino é a atividade soberana de Deus em trazer a redenção e a
libertação aos homens e, todas as bênçãos da nova era da salvação. 60 Neste
sentido, o Reino deve ser compreendido e recebido como manifestação da livre
graça de Deus.61
À luz do contexto histórico do Antigo Testamento os discípulos representam o
remanescente fiel, povo do Reino, o verdadeiro Israel, e, consequentemente,
aqueles que recebem a presente oferta da salvação messiânica. 62 Na referida
passagem em questão, Jesus alude à abertura do Reino ao tomar a figura da
criança como exemplo das condições e critérios para a entrada no Reino de Deus.
A conexão entre as palavras de Jesus acerca do recebimento do Reino de
Deus e o ato de tomar nos braços uma criança, exemplifica o seu próprio
ensinamento. A palavra kateulo,gei (abençoava), significa dotar com poder benéfico,
que uma vez outorgada opera de modo incondicional e irrevogável. 63 Nas narrativas
veterotestamentárias o ato de abençoar (barak) exerce uma função especial, pois
demonstra, primeiramente, que a iniciativa de abençoar o ser humano encontra-se
em Deus (Gn 1.28).64 Iahweh, portanto, é o verdadeiro doador da bênção que
constitui um elemento essencial da aliança entre Javé e Israel.
Nos evangelhos sinóticos este ato possui um significado especial nas
65
perícopes Mc 10.13-16, Mt 10.1-16 e Lc 24.50-51. Neste episódio, Jesus ao
transmitir a benção aos pequeninos demonstra que sua atividade não se limita
somente aos adultos, mas abrange o homem em todas as etapas da vida.
4. Análise Literária
60
Julio Paulo T. Zabatiero., “basilei,a”, em COENEN, Lothar; BROWN Colin (ed). Op. Cit., p. 2050.
61
Ibidem.
62
George Eldon Ladd. Teologia do Novo Testamento.São Paulo, Hagnos, 2001. p. 102-103.
63
H. G, Link. “eulo,gi,a”, em COENEN, Lothar; BROWN Colin (ed). Dicionário Internacional de
Teologia do Novo Testamento. Vol I. pp. 208-209.
64
W. E. Vine, Merril F. Unger, Willian White Jr. “Abençoar”, em Dicionário Vine: O significado
exegético e expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. p. 26.
65
H. G, Link. “eulo,gi,a”, em em COENEN, Lothar; BROWN Colin (ed). Dicionário Internacional de
Teologia do Novo Testamento. Vol I.pp. 215-216.
17

4.1. Delimitação da Passagem

A delimitação dos textos do Novo Testamento serve como recurso para


demarcar o início e o fim da perícope a ser analisada exegeticamente. Para se
compreender corretamente uma passagem66, faz-se necessário, primeiramente,
delimitá-la, a fim de formar uma unidade com coesão e coerência textual. A
delimitação do segmento proposto, Mc 10. 13-16, pode ser realizada através dos
seguintes critérios:

4.1.1 – Análise de Conteúdo

a) Mudança de assunto – Marcos 10.1 anuncia a viagem de Jesus da Galiléia


para a Judéia a caminho de Jerusalém. Neste novo cenário, Jesus ensina
aos seus discípulos o verdadeiro significado do discipulado. O segmento
anterior (vv. 1-12) versa sobre o diálogo de Jesus com os fariseus quanto
à interpretação adequada da lei acerca do divórcio e a explicação restrita
aos discípulos posteriormente.
b) Mudança de auditório – O segmento, Mc 10.13-16, é um ensino de Jesus
aos doze. A transição para verso 17 marca o início do diálogo de Jesus
com o jovem rico, acontecendo, assim, a mudança de personagens.
c) Uso da partícula kai. – O evangelho de Marcos introduz grande parte das
perícopes com a conjunção coordenativa kai. (e), usando-a
abundantemente em todo o Evangelho. A partícula citada é encontrada no
início de Marcos 10.13, servindo, assim, como critério para a delimitação
da passagem.
d) Cesuras – Nas edições cientificas do Novo Testamento Grego 67, existem
espaços em branco que designam e demarcam a perícope como unidade
textual. Esses espaços são comumente chamados cesuras. As cesuras se
encontram entre 9.50-10.1 e 12-13, e delimitam a perícope.
66
Usaremos os termos passagem, segmento, e perícope como sinônimos para indicar uma parte do
texto.
67
The Greek New Testament, 4º edição Revisada (UBS) e pelo The Greek New Testament, 2 ed.
Chicago, United Bible Societies, 1968.
18

e) Estrutura interna – A passagem de Mc 10.13-16 oferece ainda como


critério de delimitação o ensino de Jesus aos doze, tomando como modelo
as crianças. Os versos seguintes contêm os ditos de Jesus concluído pelo
exemplo. Sendo assim, existe uma coesão na estrutura interna do texto
que servirá para a delimitação e estruturação do seguimento.
f) Coesão textual – Um texto se distingue pelo grupo de partículas, que
devido a algumas características próprias fazem com que haja unidade
textual. As palavras, expressões ou frases servem de elementos de
concatenação, fazendo a ligação entre elementos internos de um
segmento. A perícope de Mc 10.13-16 é um texto e, por isso, tem suas
particularidades que o distingue como tal. Portanto, os elementos que
fazem com que exista coesão textual na passagem citada são: kai. / i[na /
de. / ga.r / a'n /w`j. Existem também em Marcos 10.13-16, pronomes que
servem para retomar palavras que já foram mencionadas na própria
perícope como: auvtw/|/ auvtw/n/ auvtoi/j/ me/ auvta, / u`mi/n/ auvth,na.

4.1.1 – Análise das Versões

a) Pesquisa Cientifica68 - A maioria das versões pesquisadas apresenta seis


unidades distintas para o décimo capítulo de Marcos, onde se encontra
inserida a perícope em análise (vv. 13-16). As versões do texto grego
confirmam esta divisão. As seções aparecem na seguinte ordem: vv. 1-12; vv.
13.16; vv. 17-31; vv. 32-34; vv. 35- 45 e vv. 46- 52. Todas as versões
concordam entre si quanto à unidade do seguimento Mc 10. 13 -16, no
episódio de “Jesus e as crianças”. Observa-se, portanto, que as divisões em
68
Na delimitação da passagem foram utilizadas as seguintes versões: BÍBLIA. Português, Bíblia de
Estudo de Genebra, São Paulo, Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999; BÍBLIA.
Português, Bíblia de Estudo Almeida, São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1999; BÍBLIA.
Português, Pão Nosso de cada dia, 28 ed. Petrópolis, Vozes e Santuário, 1994; BÍBLIA. Português, A
Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 1987; BÍBLIA. Português, A Bíblia Sagrada, São Paulo,
Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 1995; BÍBLIA. Português, Bíblia Nova Versão Internacional,
São Paulo, Vida, 2002; BÍBLIA. Português, Bíblia Sagrada edição Pastoral, São Paulo, Paulus, 1990;
BÍBLIA. Português, Bíblia de Referência Thompson, São Paulo, Vida, 1993; BÍBLIA. Português, A
Bíblia TEB, São Paulo, Loyola e Paulinas, 1995; BÍBLIA. Português, A Bíblia na linguagem de hoje,
São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1988; BÍBLIA. Espanhol, Santa Bíblia, England, Sociedad
Bíblica Trinitaria 1989; BÍBLIA. Italiana, La Sacra Bíblia, edizione ufficiale della C.E.I., Roma,
Conferenza Episcopale Italiana, 1996; The Greek New Testament, 2 ed. Chicago, United Bible
Societies, 1968.
19

seis unidades, em concordância com a maioria das versões pesquisadas, dão


maior credibilidade na delimitação da passagem. A soma das partículas
apresentadas nos versos 13 a 16 pode ser corretamente analisada sem
nenhum acréscimo.

4.2. Natureza Literária

No decurso do tempo, a palavra “Evangelho” adquiriu um sentido adicional.


Era utilizada para designar um gênero literário, provavelmente, agregado ao uso que
69
Marcos faz da palavra em lugares proeminentes de sua obra (1.1, 14). O vocábulo
alude a um gênero literário que o distingue das demais categorias de composições,
incluindo elementos bibliográficos, dados históricos e geográficos. Trata-se,
portanto, de uma “narrativa com diferentes cenas entretecidas numa história
unificada, coerente e completa.” (Mulholland, 1978, p. 28).
A questão do gênero literário do Evangelho de Marcos ocupou a atenção de
estudiosos, especialmente, nos últimos dois séculos. K.L.Schmidt classificou os
relatos acerca do ministério de Jesus como “literatura popular”, e não como “obra
70
literária”. C. H. Dodd, a partir de uma perspectiva querigmática, propôs que os
Evangelhos continham um único gênero literário, correspondente à singularidade da
71
mensagem cristã. Outros, porém, objetavam que os Evangelhos deveriam ser
comparados às biografias do mundo greco-romano que combinam em uma obra
72
literária feitos extraordinários e ensinamentos memoráveis.
Uma vez que a atividade salvadora de Deus se deu no contexto de eventos
históricos, Marcos apresenta o seu evangelho na forma narrativa histórica. A riqueza
de detalhes gráficos é evidência de sua confiabilidade histórica. Ele compõe
cuidadosamente essa unidade literária a fim de alcançar a sua intenção teológica.

69
Uwe Wegner. Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia. 2 ed. São Leopoldo, Sinodal,
São Paulo, Paulus, 1998. p. 181.
70
Carson. Op. Cit., p. 53.
71
Ibidem.
72
As antigas biografias greco-romanas, embora possuam muitos elementos em comum com os
evangelhos, diferem por abranger obras de considerável adversidade. Cf. Carson. Introdução ao
Novo Testamento. p. 53.
20

A perícope de Mc 10.13-16 compreende o conjunto de todos os ditos de


73
Jesus denominado: gênero discursivo. Assim, o segmento pode ser classificado
como dito profético, introduzido pela partícula sentencial avmh.n (em verdade), com
conotação soteriológica.74 Marcos apóia suas palavras com o uso da figura de
linguagem como a comparação75, realizada através da partícula comparativa w`j
(como), e na estrutura da perícope utiliza-se do paralelismo culminativo. 76
Marcos, portanto, emprega certas técnicas que demonstram alguma perícia e
vocação literária ao entrelaçar temas biográficos e querigmáticos que transmitem
com perfeição a relevância de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Ao vincular
inextricavelmente a importância de Jesus para a Igreja, Marcos une a fé cristã à
realidade de acontecimentos históricos. 77

4.3 - Contexto Literário

O contexto literário tem como função apresentar o texto em seu contexto,


objetivando esclarecer o método teológico usado pelo autor. 78 Por didática o
contexto literário será dividido em dois aspectos e desenvolvido separadamente. Em
primeiro lugar tratar-se-á do contexto menor ou contexto imediato: “trata-se do
contexto literário imediatamente anterior e posterior ao texto.” (Wegner Hoefelmann;
1997, p. 90). Após o contexto maior ou temático, que investiga “a função do texto
dentro das unidades temáticas maiores nas quais os evangelistas inseriram a
perícope.” (Idem).

4.3.1- Contexto Imediato

73
Dibelius enquadra a finalidade dos ditos de Jesus em dois momentos: a) parenética, como
finalidade primordial, cuja função é oferecer orientações para o comportamento ético cristão; b) em
fornecer subsídios às comunidades acerca da natureza da pessoa de Cristo. Cf. Wegner. Exegese do
Novo Testamento: manual de metodologia. p. 198.
74
Wegner, Op. Cit., pp. 200-201.
75
A comparação é feita somente entre dois indivíduos ou objetos.
76
Segundo Wegner, o paralelismo culminativo é caracterizado por “desenvolver um pensamento
gradualmente, em linhas sucessivas, até chegar a um clímax”. Cf. Wegner. Op. Cit., pp. 91-92.
77
Mulholland. Op. Cit., p. 22.
78
Como já foi observado neste ensaio, o evangelista não é mero compilador de ditos, de tradições
orais, nem ao menos tem a pretensão de realizar uma simples biografia, mas traz no bojo de seu
relato influências teológicas.
21

A passagem de Marcos 10.13-16 tem como contexto imediato as perícopes


Marcos 10.1-12 e 17-31. Em Marcos 10.1, a partícula Kai evidencia a mudança de
cenário. Trata-se de uma série de ensinamentos localizados na Judéia, além do
Jordão, no caminho que levava Jesus a Jerusalém. Pela primeira vez na narrativa,
Jesus atravessa o limiar do Jordão, entrando no distrito da Judéia. Embora tenha
ficado implícito nas predições que Jerusalém era a meta desta longa caminhada,
Marcos somente o revela explicitamente em 10.32.
A discussão de Jesus com os fariseus em 10.2-12 assemelha-se muito ao seu
confronto anterior com estes (7.11ss). A discussão diz respeito, novamente, a
interpretação adequada da lei sobre assunto prático, no que tange aos limites legais
para o divórcio.
Ao formular a proibição recíproca em 10.11s, Jesus revela que o princípio de
igualdade, entre homem e mulher foi mantido, interpretando corretamente a lei
judaica que, a princípio, assegurava o direito de divórcio somente aos homens. 79
Compreende-se deste episódio que a associação feita por Jesus entre o casamento
e a criança não se refere ao fato da criança ser influenciada pelo divórcio. A relação
encontra-se na figura da mulher, que assim como a criança, representava a classe
social desfavorável.
Quanto à perícope posterior, Mc 10.17-31, Jesus aborda a inversão dos
valores do Reino. Enquanto que a mulher e a criança fazem parte do ministério de
Jesus, o homem rico representante da classe social favorecida não pode deixar seus
bens e seguir a Jesus. A condição de discípulo supõe que ele não seja guiado
unicamente pela Lei. O homem rico cumpre a Lei, mas falta-lhe seguir a Jesus. A
condição prévia dita por Cristo quanto à “renunciar seus bens” denota que são eles
80
que o impedem de atender o chamado de Jesus.

4.3.2 Contexto Temático

79
Myers. Op. Cit., p.322.
80
J. Delorme. Leitura do Evangelho segundo Marcos. 4 ed. São Paulo, Paulus, 1982. p. 106.
22

O contexto temático é o bloco que se encontra de 8.27-10.52 que mostra o


discipulado de Jesus, da profissão de Pedro aos anúncios e à aproximação da
paixão.81
“O essencial desta seção é que Jesus os vai (discípulos) instruindo
sobre as mais diversas questões teóricas e práticas, introduzindo todo o seu
ensino na passagem de sua morte e de sua ressurreição.” (Sicre, 1997, p.
72). 82

A confissão de Pedro (8.27-33) é um episódio central no começo desta seção.


O segredo de sua messianidade é interrompido pela própria indagação de Jesus aos
seus discípulos, que encontra resposta nas palavras de Pedro. Marcos mostra
através da declaração de Pedro e das opiniões omitidas pela multidão, que Jesus
83
não vê sua obra messiânica como vêem aqueles que o aclamam. A ordem de
silêncio acerca de sua messianidade é sinal de revelação importante que deve ser
preservada até que se cumpra sua missão de Filho do homem.
Esta seção é caracterizada pelos três anúncios da paixão, que perpassam o
bloco (8.30-33; 9.30-32; 10.32-34). Segundo Delorme, cada vez que Jesus anuncia
a paixão é para refrear uma confissão precipitada e, a seguir conclui com o
discipulado.84 Marcos apresenta Jesus introduzindo seus discípulos na compreensão
de sua pessoa, obra e missão. Nesta seção encontra-se a maior parte dos
ensinamentos sobre a conduta prática dos discípulos e sobre as exigências da fé em
Jesus.
Os vocábulos paidio,qen (infância; 9.21), paidion/paidi,wn (criança; 9.36-37) e
paidi,a/paidion (criança(s);10.13-16) têm fundamental relevância para a compreensão
desta unidade. Nas referidas passagens Jesus inverte as escalas de valores sociais,
tomando-as como modelos de seu ensino. Dessa forma, Jesus demonstra que a
criança é a maior expressão do discipulado.

81
Ibidem, p. 33.
82
Transcrevemos o texto: “Lo esencial de esta seccione s que Jesús los instruyendo sobre las más
diversas cuestones teoricas y práticas, insertando toda su enseñanza em el mensaje de su muerte y
de su resurrecccion”. J. L. Sicre. El Cuadrante: introducción a los evangelios. 3 ed. Navarra, Espanha,
editorial Verbo Divino, 1997.
83
Delorme. Leitura do Evangelho segundo Marcos. p. 28.
84
Idem. p. 26.
23

4.5 – Comparação Sinótica

A comparação sinótica procura descobrir qual é o enfoque dado pelo


evangelista em relação aos outros evangelhos sinóticos. Cada Evangelho e cada
evangelista possui sua particularidade. Assim, a comparação sinótica contribui para
a compreensão deste enfoque. A narrativa é apresentada nos três Evangelhos
sinóticos (Mateus 19.13-15; Marcos 10.13-16; Lucas 18.15-17) conforme mostra o
quadro comparativo:

Mateus 19.13-15 Marcos 10.13-16 Lucas 18.15-17


13 To,te proshne,cqhsan 13 Kai. prose,feron auvtw/| 15 Prose,feron de. auvtw/|
auvtw/| paidi,a i[na ta.j cei/raj paidi,a i[na auvtw/n a[yhtai\ kai. ta. bre,fh i[na auvtw/n
evpiqh/| auvtoi/j kai. oi` de. maqhtai. a[pthtai\ ivdo,ntej de. oi`
proseu,xhtai\ oi` de. maqhtai. evpeti,mhsan auvtoi/já maqhtai. evpeti,mwn
evpeti,mhsan auvtoi/jÅ auvtoi/já
14 ivdw.n de. o` VIhsou/j
14 o` de. VIhsou/j ei=pen( hvgana,kthsen kai. ei=pen 16 o` de. VIhsou/j
:Afete ta. paidi,a kai. mh. auvtoi/j( :Afete ta. paidi,a prosekale,sato auvta.
kwlu,ete auvta. evlqei/n pro,j e;rcesqai pro,j me( mh. le,gwn( :Afete ta. paidi,a
me( tw/n ga.r toiou,twn evsti.n kwlu,ete auvta,( tw/n ga.r e;rcesqai pro,j me kai. mh.
h` basilei,a tw/n ouvranw/nÅ toiou,twn evsti.n h` basilei,a kwlu,ete auvta,( tw/n ga.r
tou/ qeou/Å toiou,twn evsti.n h` basilei,a
tou/ qeou/Å
15 avmh.n le,gw u`mi/n( o]j
a'n mh. de,xhtai th.n 17 avmh.n le,gw u`mi/n( o]j
basilei,an tou/ qeou/ w`j a'n mh. de,xhtai th.n
paidi,on( ouv mh. eivse,lqh| basilei,an tou/ qeou/ w`j
eivj auvth,na paidi,on( ouv mh. eivse,lqh|
eivj auvth,nÅ
15 kai. evpiqei.j ta.j cei/raj 16 kai. evnagkalisa,menoj
auvtoi/j evporeu,qh auvta. kateulo,gei tiqei.j ta.j
evkei/qenÅ cei/raj evpV auvta,Å

Segundo a teoria das fontes,85 Marcos é a fonte para Mateus e Lucas. Desta
forma, as observações comparativas terão como ponto de partida o Evangelho de
Marcos.
Em primeiro lugar, o que deve ser respondido é qual o contexto que os
demais evangelistas inserem os relatos paralelos de Marcos 10.13-16. Mateus

85
Ver apêndice.
24

segue o testemunho de Marcos, e embora haja diferenças quanto ao texto como


peça literária elaborada, o contexto em que é inserido, ao menos o contexto menor
ou imediato, é o mesmo encontrado em Marcos. Sendo assim, a função de Mateus
19.13-15 dirige-se no mesmo caminho que Marcos 10.13-16.
A perícope anterior em Mateus alude a mudança de cenário seguida pela
interpretação da lei acerca do divórcio, e a posterior quanto a conversa de Jesus
com o jovem rico, iguais a de Marcos. Quanto a Lucas a ordem é diferente. Em
Lucas 9.51 há o relato de mudança de cenário, da Galiléia a caminho de Jerusalém,
correspondente ao de Marcos 10.1. A partir do verso 52, não há nenhum paralelo
marcano, o que ocorrerá somente a partir de Lucas 18.15-17. Segundo Morris,
Lucas não difere do propósito de Marcos, pois demonstra, de igual modo, que o
ministério de Jesus, a caminho da cruz, está voltado para o ensino dos discípulos. 86
No que tange ao particular da passagem. Tanto Mateus, Marcos e Lucas
iniciam o relato com linguagem narrativa diferente:
v.13) Os evangelistas evidenciam o objetivo dos que traziam as crianças até
Jesus: o toque. Mateus acrescenta as palavras ta.j cei/raj evpiqh/| (pusesse as mãos)
e proseu,xhtai\ (orasse), que resultaria na benção divina. O verbo ivdo,ntej (tendo
visto), em Lucas, é utilizado para expressar a observação dos discípulos na
introdução das crianças na presença de Jesus, enquanto Marcos utiliza o verbo
ivdw.n (vendo) para denotar a observação de Jesus na repreensão dos discípulos no
verso 14.
v.14) Lucas transforma a observação e indignação de Jesus pela atitude dos
discípulos em Jesus tê-los chamado “para junto de si”, não somente as crianças,
mas, também, aqueles que as conduziam. 87 Enquanto Mateus introduz o dito de
Jesus com a expressão ei=pen (disse), a mesma usada por Marcos, Lucas denota
uma ordem: le,gwn (dizendo).
v. 15 e 16) Enquanto Mateus suprime o verso 15, em Lucas há a supressão
do verso 16. No verso 16, somente Marcos retém a memorável informação de que
Jesus toma-as (crianças) nos braços e lhes abençoa.
4.6 – Diagramação

86
Leon L. Morris. Lucas: introdução e comentário. São Paulo, Vida Nova, 1983. p. 168.
87
Willian Hendriksen. Marcos. Comentário do Novo Testamento. p. 485.
25

Kai.
prose,feron auvtw/| paidi,a
i[na auvtw/n a[yhtai\
de.
maqhtai. evpeti,mhsan auvtoi/j

a;fete ta. paidi,a e;rcesqai pro,j me(

mh. kwlu,ete auvta,(

tw/n ga.r toiou,twn evsti.n h` basilei,a tou/ qeou/Å

mh. de,xhtai
th.n basilei,an tou/ qeou/ w`j paidi,on(

ouv mh. eivse,lqh|


eivj auvth,n (th.n basilei,an)

kai.
kateulo,gei
evnagkalisa,menoj auvta.

tiqei.j ta.j cei/raj evpV auvta,Å

5. Contexto Histórico Específico

5.1 - Análise Sócio-Cultural

A relação que Jesus faz das crianças com o Reino, sua repreensão aos
discípulos, sua aceitação e acolhimento destas, permite-nos aludir ao fator sócio-
cultural da época de Cristo quanto à figura da criança. O termo aparece no
26

evangelho pela primeira vez em Mc 9.36 e vem embebida de uma forte conceituação
da cultura de seu tempo.
Nesse tempo, fosse a cultura romana ou judaica, a criança era uma simples
receptora passiva do ensino dos adultos, quando representava um aprendiz em
potencial. O ensino era uni-direcional, ou seja, do adulto para a criança e esta devia
ser moldada para tornar-se um ser humano integral. 88 Representavam o ponto mais
baixo da escala do status social e econômico, sendo excluídas do convívio
produtivo.89 Na cultura judaica, os meninos judeus só poderiam tomar sobre si a
responsabilidade de cumprir a lei aos treze anos, por isso foram consideradas
90
jovens demais para compreenderem o ensinamento de Jesus.
Do ponto de vista anterior referente ao divórcio, Marcos relaciona o fator
casamento com as crianças. Isto porque, as mulheres, assim como as crianças,
escravos (pagãos), surdos, cegos e deficientes mentais eram sempre associados a
91
uma categoria inferior. Estes eram considerados não entidades, desprezados e
não contados.

5.2 – Sitz im Lebem

O texto não traz qualquer indicação a respeito do cenário em que se passa


este episódio. Com base no indicativo da perícope que o antecede, em 10.1, supõe
-se que este incidente ocorreu em uma casa na Peréia (10.10), durante a viagem de
Jesus e os doze, da Galiléia para a região de Jerusalém. 92
A coesão textual entre as duas perícopes (10.1-12 e 1013-16) interligadas
pela conjunção kai. (e), presume-se que tal acontecimento ocorreu
subseqüentemente ao outro, ocupando-se Mc 10.13-16 do mesmo ambiente
anterior, na ocasião em que Jesus explica particularmente aos discípulos o diálogo
com os fariseus. Tal afirmação passa pela conjectura de que os discípulos estariam
à porta de uma casa ao repreenderem veementemente os que traziam as crianças
até à presença de Jesus.
6. Análise Teológica
88
H. Ruedi Weber. Jesus e as crianças. São Leopoldo, Sinodal, 1986. p. 35ss.
89
Myers. Op. Cit., p. 316.
90
Mulholand. Op. Cit., p. 158.
91
Émile Morin. Jesus e as Estruturas de seu Tempo. 4 ed. São Paulo, Paulus, 1988. p. 56.
92
Hendriksen. Ibid.p. 486.
27

O objetivo deste segmento do trabalho exegético é esboçar os pontos básicos


da teologia que se originam do texto de Marcos 10.13-16. Considerando a
classificação e análise gramatical das palavras e a estrutura do texto já apresentada,
será esboçada uma sistematização dos temas teológicos que servirão para o
entendimento da referida passagem.
Na explanação será feita a opção de alistar os temas e em seguida discorrer
sobre suas implicações e desdobramentos a partir da passagem de Marcos. Cada
um dos termos certamente está tomado por conceitos bíblicos-doutrinários-
teológicos que abrirão os caminhos para a teologia do texto. Faz-se necessário
salientar que a divisão a seguir é meramente didática e servirá de auxilio na
elucidação da perícope.
A compreensão geral da perícope alude à criança como uma ilustração da
inclusão e cidadania do Reino de Deus. O primeiro aspecto refere-se à inclusão do
Reino de Deus. A partir deste tópico o roteiro fica delineado da seguinte forma:

a) A confiança do acolhimento -
Kai. prose,feron auvtw/| paidi,a i[na auvtw/n a[yhtai\ oi

b) O erro da exclusividade -
de. maqhtai. evpeti,mhsan auvtoi/já

c) A abertura do Reino -
ivdw.n de. o` VIhsou/j hvgana,kthsen kai. ei=pen auvtoi/j\ a;fete ta. paidi,a

e;rcesqai

pro,j me( mh. kwlu,ete auvta,( tw/n ga.r toiou,twn evsti.n h` basilei,a tou/

qeou/Å

Quem foram as pessoas que conduziram as crianças até Jesus não se sabe.
Provavelmente pais, mães ou irmãos. Mas o fato é que permanecem anônimos. O
28

texto não nos esclarece quanto a isso. A persistência e confiança desses é deduzida
pela forma verbal (prose,feron) utilizada por Marcos.
O que sabemos é que queriam levar as crianças até Jesus, pois criam que a
sua benção era insubstituível aos pequeninos. Acreditavam que a criança tinha um
valor e um lugar no Reino e no discipulado. Zelaram pelo desenvolvimento integral
dos menores, inclusive o mais necessário de todos, o espiritual. São figuras
destoantes da maioria de sua época.
De igual modo o texto omite a idade das crianças. A palavra usada no grego
para crianças é usada em João 16.21 para indicar um recém-nascido e em Marcos
5.39-42 para uma criança de doze anos. Portanto, as crianças trazidas poderiam ter
de zero a doze anos. Assim, tais crianças dependiam do ato de confiança de seus
condutores para serem conduzidas até Jesus.
Entretanto, o que se destaca nos condutores das crianças até o Senhor é o
gesto de confiança que demonstram em Cristo. A conjunção i[na (para que)
demonstra que tal ato tinha um propósito: obter a benção de Jesus. Este mesmo
objetivo é demonstrado nos demais evangelhos sinóticos (Mt 19.13-15; Lc 18.15-17).
Muito provavelmente, se não todas, uma grande parte daquelas crianças não
compreendessem integralmente o significado de receberem a imposição das mãos
de Jesus, nem mesmo a importância de sua oração e benção.
Tais pessoas demonstram, ao contrário do grupo dos doze, que o discipulado
está efetivamente cumprindo seu propósito. Compreendem que Cristo aceita e inclui
as crianças no Reino. O Reino não é um privilégio dos adultos, que podem
responder por seus atos. E como a porta do Reino nos escandaliza! Ela permite
entrar um criminoso (Lucas 23. 42-43), por exemplo, mas está fechada para um
mero religioso (Mateus 23:13). O que isso significa? Simplesmente que a graça está
em ação, que obras meritórias humanas são insignificantes, que o Reino e a
Salvação sejam para um adulto ou criança é dádiva exclusiva de Deus.
Isso implica dizer, que as condições para a entrada no Reino não é a fé, nem
o arrependimento, mas a eleição, a aceitação e o acolhimento de Jesus. E isso
independe se para uma criança ou para um adulto. Obviamente, para os adultos, a
resposta com fé e arrependimento acontece conseqüentemente à regeneração, pois
sua capacidade de discernimento assim os conduz. Mas, tal fé e arrependimento
29

não são a causa da salvação. “Isto significa que antes que o homem possa crer ele
precisa ser regenerado.”93 (João Alves dos Santos, 1999, p. 91).
O que os pais estão declarando quando apresentam seus filhos ao batismo?
Embora se confesse, no contexto protestante, que o batismo não é para a salvação,
há implícito na apresentação dos filhos ao batismo uma declaração de confiança
exclusiva em Jesus para a salvação e em nada mais.
Estão dizendo que crêem na promessa de Gênesis 17.7: “Estabelecerei a
minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações,
94
aliança perpétua para ser o teu Deus, e da tua descendência.” Estão fazendo uma
declaração evangélica e reformada, que não confiam na fé, nem mesmo no
arrependimento, mas em Cristo e em sua obra expiatória.
Se uma pessoa em idade adulta entra no Reino não o faz por que creu, mas
crê por que foi regenerado. A criança está no Reino por causa da eleição e
acolhimento de Jesus, a única condição indispensável para a salvação. A
incapacidade de pertencer ao Reino não está no fato da fé, mas da eleição. Assim, a
aceitação de Jesus é um demonstrativo da inclusão e acolhimento que permeiam o
conceito de Reino de Deus.

Ao passo que os anônimos demonstram um gesto de confiança e


compreensão do discipulado, os doze demonstram rejeição e uma compreensão
embebida pelos conceitos da cultura de seu tempo. O verbo empregado para
descrever a atitude reprovatória dos discípulos (evpeti,mhsan) é o mesmo utilizado
em Mc 4.39, em que Jesus repreende o vento, e de Mc 8.32-33, no conflito entre
Pedro e Jesus, implicando em uma ação enérgica a tais indivíduos. 95 O sentido
básico da palavra é o de impor uma timh (penalidade) epi (sobre).96
A relação que Jesus faz das crianças com o Reino, sua repreensão aos
discípulos, sua aceitação e acolhimento destas, alude ao fator sócio-cultural da
época de Cristo. Nesse tempo, fosse à cultura romana ou judaica, a criança era uma

93
João Alves dos Santos, “Os que Morrem na Infância: São Todos Salvos? Uma Avaliação Teológico
– Confessional Reformada”, em Fides Reformata, Ano IV, Nº. 2, 1999. Julho-Dezembro. p. 91.
94
BÍBLIA. Português, Bíblia de Estudo de Genebra, São Paulo, Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do
Brasil, 1999.
95
Larry W. Hurtado. Marcos: Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo, Vida, 1995. p.180.
96
Hendriksen. Marcos: Comentário do Novo Testamento. p. 486.
30

simples receptora passiva do ensino dos adultos, representavam o ponto mais baixo
na escala do status social e econômico e eram excluídas do convívio produtivo.
Nesse contexto, embora não aceitável, é perfeitamente compreensível a
reação reprovatória dos discípulos em relação aos que conduziam as crianças
(provavelmente os pais ou os responsáveis por estas crianças como já mencionado
acima). Tal repreensão que os discípulos imputam aos que traziam as crianças é,
em última análise, uma reprodução do contexto em que viviam.
Parecem dizer que Jesus tinha coisas mais importantes para fazer. As
crianças não absorveriam o discipulado ou quem sabe até atrapalhariam os que
desejassem aprende-lo. Ao contrário, Jesus demonstra que as crianças são a
própria ilustração do discipulado. E que se queriam entendê-lo deveriam observá-
las. Em outro episódio registrado por Marcos é exatamente o que Jesus faz, ao
tomá-las nos braços e referir-se a elas como exemplo perfeito de suas palavras
(9:33-37).
Este fato alude ao erro da exclusividade. Embora, a princípio, Jesus
proclamasse a promessa do Reino a Israel, em virtude de ser este o povo escolhido
97
de Deus, esta foi recebida pela fé por um grupo seleto: os discípulos. Estes se
tornaram o verdadeiro Israel, o remanescente fiel, destinados a exercerem a função
de regentes do Israel escatológico, e consequentemente representantes de todos
98
quanto aceitam a presente oferta da salvação messiânica. Assim, Jesus inaugura
uma nova era, revelando o Reino de Deus e oferecendo aos pobres, pecadores,
humildes de espírito.99 Contudo, a concepção messiânica dos discípulos durante
todo o itinerário de humilhação do Messias está consolidada na expectativa
messiânica judaica, ou seja, para a nação de Israel.
A rejeição dos discípulos à classe estigmatizada pela sociedade judaica
como, por exemplo, cegos, coxos, paralíticos, mulheres, crianças, gentios, incidi na
falta de entendimento quanto ao ensinamento de Jesus. Durante seu ministério
Cristo demonstra que o Reino de Deus não é exclusivista e abrange de igual modo,
a todos quantos não possuem preeminência na sociedade israelita. E de que forma
Cristo o faz? Utilizando-os como modelos de seu ministério.

97
Ladd. Op. Cit., p. 101.
98
Ibidem, p. 103.
99
Julio Paulo T. Zabatiero., “basilei,a”, em COENEN, Lothar; BROWN Colin (ed). Op. Cit., p. 2050.
31

A falta de compreensão dos discípulos quanto à figura da criança é


claramente percebida no contexto temático da passagem. No recente episódio de
Mc 9.36-37 (paidion/paidi,wn), Jesus exemplifica através de uma criança que todos
quanto almejam recebe-lo e, consequentemente ao Pai, deveriam aprender a
focalizar a atenção a qualquer outra pessoa que, em sua fraqueza, necessidade e
humilde dependência, assemelha-se a uma criança.100
No contexto imediato referente ao divórcio, Marcos relaciona o casamento às
crianças, utilizando a figura da mulher, que representava, assim como as crianças, a
escória da sociedade. No episódio posterior, do homem rico 101, de considerável
posição social e proeminente favoritismo religioso, que para os discípulos o lugar
deste no Reino já estaria garantido, demonstra rejeição pela oferta da mensagem do
Reino.
Deste modo, ao passo que os representantes da marginalização social
demonstram compreensão do discipulado, os que possuem preeminência na
sociedade vigente demonstram rejeição. A atitude de Jesus é revolucionária. Ele
inverte as escalas de grandeza de seu tempo ao afirmar que o Reino pertence,
102
inicialmente, àqueles que ocupam uma posição social desfavorável. O gesto de
Jesus é esclarecedor e demonstra que o Reino não é exclusivista, mas também não
é universalista.
Se o Reino é inclusivo e abarca tanto adultos como crianças, não devemos
preferir um e preterir outro. Igualmente se misturam na dinâmica de um Reino
multiforme e gracioso. Se o Reino é inclusivo, e o é, não devemos pensar nas
crianças como o futuro da Igreja. Se no Reino fazem parte do presente, também na
Igreja, povo do Reino, são presentes e ativas.

O dito proferido por Jesus no verso 14, alude à abertura do Reino de Deus.
Neste encontra-se o ápice do relato, que reflete sua concepção sobre a criança e o
Reino. Seu gesto de inteira aceitação, responde afirmativamente à demonstração de
confiança dos que as trouxeram, entretanto, suas palavras e gestos desbancam a

100
Hendriksen. Op. Cit., p. 457.
101
Marcos pouco diz a respeito desse homem, senão que era rico e detentor de longo currículo de
observância religiosa. Somente Mateus 19.20 informação de que este homem era jovem e Lucas
18.18 o descreve como líder da comunidade judaica. Hurtado. Ibid.p. 181.
102
Morin. Op. Cit., p. 73.
32

rejeição dos discípulos e contraria as concepções vigentes de sua época sobre as


crianças, seu lugar na sociedade e no Reino.
A atitude de Jesus diante deste episódio é dupla. Indignou-se (hvgana,kthsen)
com os discípulos e os proibiu de impedir (mh. kwlu,ete auvta,) a chegada das
crianças a Ele (e;rcesqai pro,j me) e ao Seu Reino (basilei,a tou/ qeou/). O tempo verbal
utilizado por Jesus denota que tal impedimento não se referia somente aquele
momento oportuno, mas que estes, a partir de agora, possuem livre acesso a sua
presença. Já a atitude de Jesus para com as crianças é de defesa ( a;fete), pois
eram passivas e não podiam se defender do zelo dos discípulos.
Evidentemente as palavras de Jesus são mais de desaprovação pela rejeição
que os discípulos apresentam, do que propriamente uma promessa. Embora não
possamos descaracterizá-la como tal. Através deste episódio Jesus apresenta mais
um tópico do discipulado: seu ministério é abrangente e está aberto a todos quantos
recebem a Ele e sua mensagem.
No versículo 14 faz-se claro que há dois enfoques. Quando Jesus disse,
“Deixai vir a mim as criançinhas, não as impeçais”, Ele está falando literalmente
sobre as crianças presente. Mas quando continua “porque dos tais é o Reino de
Deus”, Ele parte para um nível figurativo, ou seja, estas e outras pessoas que
possuem as características das crianças. Assim, Jesus não se referia a todas as
crianças, como conjecturam alguns que defendem a salvação infantil
indistintamente, mas àquelas que naquele momento abençoou.
O adjetivo pronominal demonstrativo toiou,twn, que, quando usado com o
artigo tw/n significa “desse tipo”, “tais como essas”, Assim, aplicada ao texto, a
expressão quer dizer “crianças desse tipo” ou “crianças tais como essas”. 103 Esse
mesmo sentido é encontrado em Mc 9.36-37. Jesus se referia, portanto, às crianças
tais (toiou,twn) como àquelas que lhe foram apresentadas e não a um conceito
generalizado e indivisível.
Desse modo, na figura da criança, Jesus alude que o Reino de Deus está
aberto a todos aqueles que se encontram em condição de necessidade e confiante
dependência. Jesus, mais uma vez, inverte o status do Reino e destrói a idéia
hierárquica de proeminência e prestigio dos discípulos e da sociedade judaica. As
103
João Alves dos Santos, “Os que Morrem na Infância: São Todos Salvos? Uma Avaliação Teológico
– Confessional Reformada”, em Fides Reformata,. p. 101.
33

crianças não somente participam do Reino de Deus, mas constituem uma ilustração
de como se recebe esse Reino.104
Num segundo momento temos a criança como ilustração do cidadão do Reino
de Deus. As divisões deste segundo aspecto nos remetem aos seguintes tópicos:

a) A recepção do Reino -
o]j a'n mh. de,xhtai th.n basilei,an tou/ qeou/ w`j paidi,on(

b) O critério do Reino – ver Mt 13. 44-46, Lc 6.20 (del Pino, 14)


ouv mh. eivse,lqh| eivj auvth,na

c) O acolhimento do Reino -
kai. evnagkalisa,menoj auvta. kateulo,gei tiqei.j ta.j cei/raj evpV auvta,Å

O conceito que se apresenta de cidadão ou súdito do Reino de Deus tem


particularmente sua idéia retirada do versículo 15. A ênfase está no fato de que para
se receber o Reino, necessário é fazê-lo como uma criança, pois do contrário será
enfaticamente (de maneira nenhuma) impedida a entrada. O povo do Reino é, em
certo aspecto, uma expressão da inclusividade do Reino de Deus externadas no dito
de Jesus e, posteriormente entendida, como uma abertura missionária das
comunidades. É nesse sentido que aponta o texto de Marcos em que a criança
torna-se ilustração de como se receber o Reino de Deus. Não só a criança é
ilustração, mas publicanos e meretrizes são expressões práticas dessa realidade,
quando em Mateus 21.31, numa controvérsia de Jesus com os religiosos, é dito que
“publicanos e meretrizes entrarão antes de vós no Reino de Deus.”. 105
O primeiro aspecto que se alista é quanto à recepção do Reino. Ao pronunciar
que o Reino de Deus deve ser recebido como (w`j) uma criança não está dizendo
que seus discípulos devem ter “qualidades infantis”, mas que se almejam receber o
Reino de Deus devem faze-lo de maneira simples, com confiança genuína e

104
Ibidem.
105
Cf. Leonhard Goppelt. Teologia do Novo Testamento. 3º ed. São Paulo, Teológica, 2003. p.98.
34

humildade despretensiosa, tal qual uma criança recebe o que lhe é oferecido,
naturalmente, sem fazer qualquer reivindicação. 106
A ordem de Jesus implica em que o Reino de Deus pertence a todos aqueles
que em confiança humilde são como elas. Jesus toma a criança como exemplo de
seu discipulado por fazer parte do círculo de desprezo pelos que são menores e
mais fracos. A identificação com o Reino, portanto, consiste na ausência de poder e
necessidade de ajuda. Esta, portanto, é a característica do povo do Reino. Jesus
considera que o Reino de Deus não pertence aqueles que se acham dignos, ou
reivindicam ter méritos, pois Deus dá o seu Reino àqueles que dele nada podem
reivindicar. 107
Neste sentido, Jesus ilustra que o Reino de Deus é um presente, concedido
por Deus graciosamente, sem qualquer merecimento a todos quanto se assemelham
a atitude de uma criança, isto é, insignificantes e dependentes. 108 Essa idéia, de
igual modo, é expressa na perícope que se segue (Mc 10.17-31). No diálogo com o
homem rico, Jesus afirma que o Reino é dom de Deus e, portanto, ninguém pode
apoderar-se ou reivindica-lo.109 Este episódio ilustra pela segunda vez a inversão do
valores do Reino, elevando o “ultimo” ao “primeiro” lugar. A proeminência religiosa,
social ou econômica não são os requisitos para a entrada no Reino.
Donald Kraybill, em sua obra O Reino de Ponta-Cabeça apresenta as
inversões feitas pelos anúncios de Cristo sobre o Reino;

“Paradoxo, ironia e surpresa permeiam os ensinamentos de Jesus.


Fazem nossas expectações se inverterem totalmente. O menor é o maior. Os
imorais recebem perdão e benção. Os adultos são tratados como crianças.
Os religiosos perdem o banquete celestial. Os piedosos recebem maldições.
As coisas não são ali conforme pensávamos que eram. Ficamos aturdidos e
perplexos. Admirados, damos um passo para trás. Deveríamos rir ou
deveríamos chorar? Por muitas e muitas vezes, fazendo o nosso mundo ficar
de ponta-cabeça, o reino nos surpreende.”110

106
Hendriksen. Ibid. p. 487.
107
Mulholland. Marcos: introdução e comentário. p. 159.
108
Ibidem.
109
Mulholland. Op. Cit., p. 159.
110
Donald B. Kraybill. O Reino de Ponta Cabeça. São Paulo, Cristã Unida, 1993. p. 22.
35

E, de fato, o que acontece no segmento da passagem em questão nada mais


é do que uma ilustração que confunde as idéias messiânicas do Reino de Deus.
Kraybill simplesmente relata isso com propriedade ao dizer que nossas expectações
se invertem totalmente. A criança, que era mais reconhecida como não entidade,
que nada portava e nem detinha, torna-se a alvissareira exemplificação dos que
recebem e como recebem o Reino de Deus.
O segundo aspecto da divisão proposta faz referência ao critério que é usado
para entrar no Reino. E isso é expresso numa condição, que é exatamente o tópico
já tratado da recepção do Reino como uma criança, o critério é anunciado quando
afirma que se assim não for “de maneira nenhuma entrará nele”. Há uma ênfase no
texto quando se repete a negação (ouv mh.), o que denota a seriedade do critério.
Pode-se inadvertidamente se criar uma idéia absurda e inaceitável de que o Reino
por ser inclusivo, também é universalista.
Este verso inicia-se com um pronunciamento escatológico (avmh.n) proferido
por Jesus e implica em uma condição exortativa. Enquanto que o primeiro utiliza-se
da voz média para denotar a probabilidade do recebimento da mensagem do Reino
por parte daqueles a quem é anunciado, o verbo que o sucede emprega a voz ativa,
numa afirmação feita pelo próprio Cristo. Se no primeiro momento cabe ao individuo
responder a este chamado com fé e arrependimento, o segundo, em conseqüência
deste chamado, compete a Cristo trazer o julgamento. Desse modo, a atitude
desses seguidores é necessária para a entrada no Reino, caso contrário, não
poderão, de forma alguma (ouv mh.), entrar no mesmo. O paralelismo de Mc 9.45;
9.47 esclarece que “entrar no Reino” significa “entrar na vida eterna”. Em
comparação com Mt 19.24,25, mostra que “entrar no Reino de Deus” significa “ser
salvo”.111
Qual, então, é a atitude ou característica da criança que retrata os
requerimentos para a entrada no Reino? São passivas e não possuem condições ou
méritos. É por isso que Jesus no verso 15 usa as palavras de,xhtai (receber) e
eivse,lqh| (entrar) no Reino. Entra-se no Reino com uma fé singela. Desse modo, a
falsa e sofisticada fé de um adulto, é comparada com a simples fé de uma criança.

111
Hendriksen. Op. Cit., p. 488.
36

O subjuntivo dos verbos supracitados dá a idéia de que são combinadas duas


idéias de Reino: o Reino presente é recebido e o futuro é introduzido. Nisto consiste
a declaração de que o homem que não receber o reino de Deus agora como um
presente, com a simplicidade de uma criança, não entrará nele quando for
finalmente estabelecido.
Esse assunto nos introduz no tema da presença do Reino, que não pode ser
esquecido ou desmerecido, já que o texto parece apontar nessa direção. Usa o
critério de mostrar que o Reino é tanto presente, quanto futuro 112. A posição
consensual que argumenta que “a presença do Reino é real, mas não completa” 113 é
que resgata a visão escatológica de Jesus sobre a presença do reino.

“Vivemos no período entre o advento do Messias Sofredor e o advento


do Messias triunfante. Esta escatologia em processo de realização, marcada
pela tensão entre o já e o ainda não, representa uma recuperação da
escatologia profético-apocalíptica do Antigo Testamento” 114.

Nessa perspectiva é que se refere Ladd ao dizer que “se há algum consenso
entre a maioria dos eruditos, este é que o reino é, em algum sentido, tanto presente
quanto futuro.”115 David Bosch ao refletir sobre os modelos neotestamentários de
missão, trata sobre o Reino de Deus afirmando que “o reinado de Deus não é
entendido como exclusivamente futuro, mas tanto como futuro quanto já presente” 116
Entretanto, evidentemente, que não se pode precisar ou dimensionar o presente e o
futuro do Reino de Deus, o que se cria a tensão entre o já e ainda não. Bosch afirma
ainda que esta tensão não precisa ser resolvida já que “no ministério de Jesus faz
parte da essência de sua pessoa e consciência...” 117.
112
Interpretações concernentes à presença do Reino passam por conceitos como de Johannes Weiss
que entendia que a visão de Jesus sobre o Reino era totalmente futura e escatológica. Semelhante
ao conceito de Albert Schweitzer na elaboração da “escatologia transcendente”. Por sua vez, C.H.
Dodd enfatizava a “escatologia realizada”, que minimizava o aspecto futurístico do Reino. J. Jeremias
defendia a posição do que chamou de “escatologia em processo de realização”. (Ver Ladd, Ibid.p. 56-
57).
113
René Padilla, Carlos Del Pino. Reino, Igreja, Missão. Goiânia, Seminário Presbiteriano Brasil
Central e Missão Oriente, 1998. p. 59.
114
Ibidem.
115
Ladd. Op. Cit., p. 57.
116
David J. Bosch. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. São
Leopoldo, Sinodal, 2002. p.53.
117
Ibidem.
37

Finalmente, faz-se alusão ao acolhimento do Reino. O Reino de Deus é


acolhedor, pois está aberto para a criança, a mulher e, inclusive, aos que rejeitam
entrar ou mesmo são impedidos de entrar pelo seu apego ao mundo e seus valores,
que é o exemplo do homem rico. Assim, o próprio contexto imediato da passagem
em questão esclarece essa realidade. Embora, seja inclusivo, não é universalista,
pois tem critérios ou exigências e, sobretudo, é desprovido de preconceitos raciais,
sexistas ou sociais.
O acolhimento do reino é bem percebido no fato de que após o ensino de
Jesus, é introduzido um ato que reflete a praticidade do discipulado: tomando as
crianças nos braços, impondo-lhes as mãos e as abençoando. A ênfase da bênção
divinal dispensada às crianças encontra-se na composição do verbo: kata, (para
baixo) e o verbo eulo,ge,w (abençoar). O modo fervoroso com que Jesus as
abençoou, denota que o gesto de Jesus para com as crianças é verdadeiro.
A dinâmica do discipulado, portanto, possui dois aspectos fundamentais, o
teórico e o prático. Jesus ensina falando e instrui fazendo. A doutrina de Jesus não é
verdadeira para Marcos porque Jesus a ensina; mas porque Jesus a vive e a realiza.
Assim o acolhimento do reino, é em nossa divisão que intenta ser didática, a
característica prática do ensino. Aqui, Jesus pratica o seu discipulado.

CONCLUSÃO
38

A exposição exegética do segmento proposto esclarece-nos o tema e a


motivação deste Evangelho. O tônus teológico dos versos analisados refere-se a
abertura do Reino de Deus. Na figura da criança, representante da escória social,
Jesus inverte o status do Reino incluindo-a.
Embora a passagem em questão seja utilizada para legitimar um conceito
generalizado e indivisível em defesa da salvação infantil, a análise exegética
demonstra que Jesus se referia não a todas as crianças, mas àquelas que naquele
momento abençoou. Concomitantemente a este pronunciamento Jesus apresenta os
critérios do Reino indicando que, embora, o Reino não seja exclusivista também não
é universalista.
Nos verbos “receber” e “entrar” são combinadas as idéias de um Reino
presente e futuro, apresentando a tensão e, ao mesmo tempo a dinâmica, entre o
“já” e “ainda não”. Os desdobramentos das implicações destes indicam o
estabelecimento presente do Reino e a esperança de sua consumação final.
O objetivo primário deste trabalho científico de escopo teológico é encontrar,
na prática, mensagens contemporâneas que advenham do texto bíblico. Seria inútil
a busca de respostas, se não aplicá-las à vivência comum e cotidiana da
comunidade eclesiástica.
Portanto, compreender que a entrada no Reino, isto é, a salvação, seja para
um adulto ou criança, independe da fé, do arrependimento ou obras meritórias, mas
da eleição. O Reino deve ser recebido como uma dádiva exclusiva de Deus, assim
como uma criança recebe um presente. A recepção da dádiva salvífica implica na
vivência do Reino futuro que será estabelecido na vida porvir.
Uma perspectiva eclesiológica dos conceitos bíblico-teológicos extraídos do
segmento podem ser aplicados no encorajamento dos pais à apresentação dos
filhos ao batismo. Zelar por essa doutrina, embora muito combatida e mal
compreendida, entretanto essencialmente bíblica, é desenvolver a compreensão
correta da dádiva do Reino de Deus, sua aliança e da confiança exclusiva que
devemos depositar em Cristo para a salvação.

APÊNDICE
39

Para explicar a relação literária dos três primeiros Evangelhos surgiu o


chamado: problema sinótico. Os estudiosos do Novo Testamento, em geral,
favorecem a teoria de que o evangelho de Marcos foi o evangelho original, e que
tanto Mateus quanto Lucas se utilizaram desse evangelho como esboço histórico.
Quanto à evidência interna dos textos sinóticos, os argumentos a favor da
originalidade do Evangelho de Marcos são de caráter literário. No estudo
comparativo dos sinóticos verifica-se que, quando um dos outros Evangelhos
assemelha-se a Marcos, o outro diverge. Este argumento assevera que “Marcos é
118
sempre apoiado por um dos outros dois quando há discordância.” Outra
proposição advém da presença do grego koinh, (comum), inferior à gramática e o
estilo de Mateus e Lucas. Embora Mateus e Lucas tenham se servido do esboço
histórico provido por Marcos, ambos trabalharam independentemente um do outro e
valeram-se de ensinamentos derivados de outras fontes informativas.
Schleiermacher foi o primeiro a propôr a existência de uma coletânea de
declarações de Jesus como uma das fontes dos evangelhos, devido a semelhança
de versículos empregados por Mateus e Lucas que não se encontram em Marcos.
Weisse retomou essa proposta como a segunda fonte principal da hipótese das duas
fontes: Marcos e “Q” 119. Na tentativa de oferecer, por meio da critica das fontes, uma
explicação mais abrangente para a origem dos evangelhos, B.H.Streeter defendeu a
existência de duas outras fontes além de Marcos e Q: “M”, informação peculiar ao
evangelho de Mateus, e “L”, informação peculiar ao evangelho de Lucas. 120
Embora as hipóteses apresentadas, quanto às demais fontes informativas
acrescidas ao principal esboço histórico promovido por Marcos, procuram oferecer
explicações para o relacionamento entre os evangelhos sinóticos, é preciso
considerar que o processo que deu origem aos Evangelhos foi complexo. Portanto,
nenhuma hipótese da crítica das fontes, por mais detalhada que seja, pode almejar
fornecer uma explicação plausível da situação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA. Português, Bíblia de Estudo de Genebra, São Paulo, Cultura Cristã e


Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
118
Carson. Op. Cit., p. 35ss.
119
A designação deriva da primeira letra da palavra alemã Quelle “fonte”.
120
Carson. Op. Cit., p. 35.
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