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MATERIAL DE APOIO

CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL


IIº SEMESTRE

1. Constituição: Perspectivas Introdutórias

Generalidades

O Constitucionalismo em que se cristaliza o humanismo político dos séculos XVII


e XVIII trouxe no seu bojo, como programa essencial, o princípio da soberania nacional
e o imperativo da existência de uma Constituição escrita como instrumento de definição
e limitação da autoridade pública.

A ideia de Constituição veio a ganhar força quando foi associada às concepções


iluministas, com o liberalismo político representando a ideologia revolucionária do século
XVIII. O triunfo das ideias liberais dá-se com as Revoluções dos séculos XVII, na
Inglaterra, e XVIII, nos Estados Unidos e na França, quando se afirmam os direitos
fundamentais e a não-intervenção arbitrária do Estado.

A partir da segunda metade do século XVIII, inspirado na filosofia sócio


contratualista existente especialmente durante os séculos XVI a XVIII, compreendeu-se
a necessidade da elaboração de uma Constituição escrita, baseada no pacto social, de
maneira que ela significasse uma verdadeira expressão contratual da sociedade, devendo,
por isso, ser clara, objectiva, racional e firme, de modo a representar um princípio de
maior protecção contra possíveis e prováveis deformações de carácter autoritário,
arbitrário.

A primeira Constituição escrita, criada pelo Poder Constituinte e em termos


similares aos que actualmente são conhecidos, surgiu em 1787, nos Estados Unidos, tendo
por base a teoria do contrato social. É bem de ver, contudo, que antes da revolução
americana, e, por conseguinte, bem antes dessa primeira Constituição escrita, todas as
treze colónias americanas já tinham as suas cartas constitucionais. Com a independência
dessas colónias, depois transformadas em Estados soberanos, foram publicados
documentos formais como a Declaração de Direito do Estado da Virgínia, de 12/06/1776,
e a de Massachussets, em 1780, tomada como principal modelo da Constituição Federal
americana. Depois disso, a Constituição se tornaria uma instituição política que tinha por
objectivo a delimitação do Poder, sendo que esta delimitação se operava, de maneira

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extrínseca pela garantia dos direitos naturais, e de maneira intrínseca, como decorrência
da adopção do princípio da separação de poderes, conforme explicitado pela Declaração
dos Direitos do Homem, de 1789.

Segundo Norberto Bobbio, o Estado moderno, liberal e democrático surgiu da


reação contra o Estado absoluto. Para Bobbio, o problema fundamental do Estado
constitucional moderno, que se desenvolve como uma antítese do Estado absoluto, é o
dos limites do poder estatal.

Conceito de Constituição:

Constituição é o conjunto de normas jurídicas fundamentais que definem a


estrutura, os fins e as funções do Estado, a organização, a titularidade, o exercício e o
controlo do poder político e fiscalização do acatamento das normas constitucionais1.

Em outras palavras, a Constituição é conjunto de normas jurídicas superiores que


determina a criação de todas as demais regras que integram o ordenamento jurídico
estatal. Segundo Kelsen “o ordenamento jurídico não é, portanto, um sistema jurídico de
normas igualmente ordenadas, colocadas lado a lado, mas um ordenamento escalonado
de várias camadas de normas jurídicas”.

Classificação da Constituição

Quanto à forma: escrita e não escrita

1) Constituição escrita: é o conjunto de regras codificado e sistematizado em um


único documento para fixar-se a organização fundamental.6 Caracteriza-se por ser
a lei fundamental de um povo, colocada no ápice da pirâmide das normas legais,
dotada de coercibilidade.
2) Constituição não escrita: é o conjunto de normas constitucionais esparsas,
baseado nos costumes, na jurisprudência e em convenções. Exemplo:
Constituição inglesa.

1
Sousa, Marcelo Rebelo de (1979), Direito Constitucional, Lisboa,p.41.

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Quanto à forma de elaboração: dogmáticas e históricas

1) Constituição dogmática: é aquela que se nos é apresentada de forma escrita e


sistematizada, por um órgão constituinte, a partir de princípios e ideias
fundamentais da teoria política e do direito dominante em uma determinada
sociedade.
2) Constituição histórica é aquela que resulta da história, dos costumes e da
tradição de um povo.

Quanto à origem: promulgadas (democráticas e populares) e outorgadas

1) A Constituição promulgada, também chamada de democrática ou popular:


é aquela fruto do trabalho de uma Assembleia Nacional Constituinte, eleita pelo
povo com a finalidade da sua elaboração. Exemplos: A Constituição Angolana de
2010.
2) Constituição Outorgada é aquela estabelecida através da imposição do poder,
do governante, sem a participação popular.
3) Constituição Pactuada: É aquela que expressa compromisso entre duas forças
ou mais forças políticas opositoras. Exemplo: A Lei Constitucional de 1992, que
resultou do consenso entre o MPLA e a UNITA.

Quanto à estabilidade: imutáveis, rígidas, flexíveis e semi-rígidas

1) Constituição imutável: é aquela onde é vedada qualquer modificação. Essa


imutabilidade pode ser, em alguns casos, relativa, quando prevê a assim chamada
limitação temporal, consistente em um prazo em que não se admitirá qualquer
alteração do legislador constituinte reformador.
2) Constituição rígida: é aquela escrita, mas que pode ser alterada através de um
processo legislativo mais solene e com maior grau de dificuldade do que aquele
normalmente utilizado em outras espécies normativas.
3) Constituição flexível: é aquela em regra não escrita e que pode ser alterada pelo
processo legislativo ordinário, sem qualquer outra exigência ou solenidade.
4) Constituição semi-rígida ou semi-flexível: é aquela que pode ter algumas de
suas regras alteradas pelo processo legislativo ordinário, enquanto outras somente
podem sê-las por um processo legislativo mais solene e com maior grau de
dificuldade.

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Quanto à sua extensão e finalidade: analíticas (dirigentes) e sintéticas (negativas,
garantias)

1) Constituição analítica: é aquela que examina e regulamenta todos os assuntos


relevantes à formação, destinação e funcionamento do Estado. É também chamada
de Constituição dirigente porque define fins e programa de acção futura.
2) Constituição sintética: é aquela que prevê somente os princípios e as normas
gerais de organização do Estado e a limitação do seu poder através da fixação de
direitos e garantias fundamentais para o cidadão. Exemplo: a Constituição dos
EUA. A Constituição brasileira é, destarte, formal, escrita, dogmática,
promulgada, rígida e analítica.

Princípios de Hermenêutica Constitucional

A hermenêutica estabelece princípios para se interpretar as regras constitucionais, que são


os seguintes:

a) Princípio da Supremacia da Constituição;


b) Princípio da Unidade da Constituição;
c) Princípio da Imperatividade da Norma Constitucional;
d) Princípio da Simetria Constitucional;
e) Princípio da Presunção de Constitucionalidade das Normas Infraconstitucionais.

a) Princípio da Supremacia das Normas Constitucionais

As normas constitucionais são, sempre, superiores às demais normas não


constitucionais, ou infra-constitucionais. A norma não constitucional, ou inferior,
somente se torna válida na medida em que é feita em estrita obediência ao procedimento
legislativo que lhe é adequado e que, também, preserva o fundamento básico da
supremacia das normas constitucionais que não admite a existência de normas jurídicas
conflituantes. Isto quer dizer que, sob o ponto de vista normativo, a Constituição
representa o ápice de uma figura piramidal de hierarquização da norma jurídica.

b) Princípio da Unidade da Constituição

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As normas constitucionais devem ser interpretadas de modo a se evitar qualquer
tipo de contradição entre si. Isto porque “a Constituição não é um aglomerado de normas
constitucionais isoladas, mas, ao contrário disso, forma um sistema orgânico, no qual cada
parte tem de ser compreendida à luz das demais”. J.J. Gomes Canotilho ensina que “este
princípio obriga o intérprete a considerar a Constituição na sua globalidade e a procurar
harmonizar os espaços de tensão existentes entre as normas constitucionais a concretizar”.
É por meio dessa visão unitária que fica consagrada a interdependência entre as normas
constitucionais.

c) Princípio da Imperatividade (ou da Máxima Efetividade) da Norma


Constitucional

Sendo a norma constitucional de ordem pública e de caráter imperativo, emanada


que é da vontade popular, o intérprete deve-lhe conferir o máximo de efetividade no
momento de sua aplicação. Para Rui Barbosa a hermenêutica da norma constitucional
devia ser a mais ampla possível, pois para ele “nas questões de liberdade, na inteligência
das garantias constitucionais, não cabe a hermenêutica restritiva”.

d) Princípio da Simetria Constitucional

Este princípio postula que haja uma relação simétrica entre as normas jurídicas da
Constituição Federal e as regras estabelecidas nas Constituições Estaduais, e mesmo
Municipais. Isto quer dizer que no sistema federativo, ainda que os Estados-Membros e
os Municípios tenham capacidade de auto-organizar-se, esta auto-organização se sujeita
aos limites estabelecidos pela própria Constituição Federal. Assim, pelo princípio da
simetria, os Estados-Membros se organizam obedecendo ao mesmo modelo
constitucional adotado pela União. Por este princípio, por exemplo, as unidades
federativas devem estruturar seus governos de acordo com o princípio da separação de
poderes.

e) Princípio da Presunção de Constitucionalidade das Normas


Infraconstitucionais:

Segundo este princípio, todas as normas jurídicas infra-constitucionais possuem a


presunção de constitucionalidade até que o controle judicial se manifeste em contrário.

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Trata-se, portanto, da presunção juris tantum, posto que a norma infraconstitucional
possui eficácia jurídica até que se prove o contrário. Este princípio decorre do próprio
Estado de Direito, da separação de Poderes, pois é a própria Constituição que delega
poderes ao Poder Legislativo para editar normas ordinárias, infra-constitucionais, que lhe
dão plena operatividade, e o Legislativo assim o faz na convicção de que está a respeitar
a Constituição, na presunção de que as leis que elaborou e que foram promulgadas são,
efetivamente, constitucionais, devendo a quem argui a sua inconstitucionalidade perante
o Poder Judiciário provar o vício que alega, e a declaração de inconstitucionalidade das
normas ordinárias somente deve ocorrer quando afastada toda e qualquer dúvida quanto
à sua incompatibilidade com a Constituição.

Poder Constituinte

É o poder de elaborar as normas constitucionais, a faculdade de um povo definir


as grandes linhas do seu futuro colectivo através da feitura da Constituição. É o poder que
em sentido amplo abrange a produção de todas as normas constitucionais, incluindo as
de origem consuetudinária. Em sentido estrito, traduz apenas a elaboração das normas
constitucionais escritas que são a trave mestra do ordenamento jurídico.

O Poder Constituinte pode ser:

 Poder Constituinte Originário


 O Poder Constituinte Derivado ou poder de revisão

1) Poder Constituinte Originário: é o poder que funda o Estado. O poder que cria
uma Constituição ex-novo para um Estado que nunca a teve ou já não a tem em
virtude de uma desagregação social.

Segundo Emmanuel de Sieyès, o Poder Constituinte Originário possui três


características:

1. Inicial: por não existir antes dele qualquer poder que lhe sirva de fundamento;
2. Autónomo: por ser independente, só a ele competirá decidir se, como e quando
elaborar a Constituição; e
3. Omnipotente: por não estar subordinado a nenhuma regra de fundo ou forma.

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2) O Poder Constituinte Derivado ou poder de revisão: é o poder de rever a
Constituição existente para corrigir imperfeições ou colmatar lacunas ou para
adaptar à evolução da sociedade.

A Legitimidade do Poder Constituinte

Entre o Poder e a Legitimidade existe uma relação de eficácia, isto é, o poder será
tanto mais consentido quanto mais legítimo se mostrar, necessitando o Estado ou, àquele
que o possuí de o alargar ou, de pelo menos manter a sua base de apoio. Terá para isso,
que desenvolver um conjunto de actividades que, tendo em vista a prossecução de certos
objectivos, consigam congregar à sua volta o maior número de elementos da
colectividade.

O Poder Constituinte Originário está sujeito não só a limites formais (maioria,


órgão previsto em legislação específica ou no regimento da Assembleia Constituinte),
como a limites materiais. Tem limites quanto à validade, ou seja, tem que respeitar uma
ordem de valores anteriores à Constituição e que são os pilares morais da própria
civilização, que resultam desta e não da natureza humana como pretendiam os neo-
jusnaturalistas como Radburch e Vecchio. E limites de legitimidade deve respeitar o
sentimento dominante na sociedade a que se dirige. Não basta a Constituição ser válida,
deve ser também legítima, ou seja, deve estar de acordo com os interesses e as aspirações
do povo. O que não significa que exista um consenso de todos os membros da sociedade,
mas antes de sintonia dos critérios de justiça com os valores, ideias enraizados no mundo
do ser social. Não existindo um processo de legitimação eleitoral da Assembleia
Constituinte, a interpretação fiel dos mais legítimos anseios do povo, é condicionada pelas
estruturas económicas, políticas e sociais dominantes na sociedade e pelos valores que
elas prosseguem.

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Sistemas de Governo: Asserções Teóricas

 Generalidades:

Sistema de Governo: o Sistema de Governo é visto como o modo pelo qual os


diferentes órgãos do aparelho político são divididos e distribuídos, mormente o Executivo
e o Legislativo, e como os governos desempenham as suas competências no âmbito de
um sistema institucional2.

Para o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Sistema de Governo “é a forma que


obedece a estruturação dos órgãos do poder político soberano do Estado, envolvendo o
elenco desses órgãos, a sua composição, o processo de designação, o estatuto dos
respectivos titulares, a sua competência em geral e a sua inter-relação funcional, em
particular, o modo de funcionamento e as formas de controlo da sua actuação3.

De modo geral, a bibliografia relevante refere que, o sistema de governo identifica


os mecanismos de distribuição horizontal do poder político e, consequentemente, o modo
como se articulam os Poderes do Estado, notadamente o Executivo e o Legislativo. Como
se sabe, são dois os modelos dominantes no mundo: o parlamentarismo e o
presidencialismo. Mais recentemente, consolidou-se em alguns países uma fórmula
híbrida, que combina elementos dos dois sistemas clássicos. Trata-se do
semipresidencialismo, modelo que apresenta duas particularidades: os poderes do
Parlamento são limitados e o chefe de Estado não desempenha apenas funções
cerimoniais ou simbólicas, titularizando poderes próprios e efectivos45.

Para o Professor José António Fernandes, o principal elemento dos Sistemas políticos é
a sede do Poder, e todo o processo político se traduz essencialmente numa luta pela sua ocupação

2
Cf. Pasquino, Gianfranco (2010) Curso de Ciência Política. 2ª edição, Cascais:P rincipia
3
Cf. Sousa, Marcelo Rebelo de (1984) O Sistema de Governo Português antes e depois da Revisão
Constitucional, Congnitio, p.12.
4
www.institutoideias.org.br: Instituto Ideias; Instituto de Direito do Estado e Acções sociais, p.2
5
Importa referir, que os sistemas de governo variam em função da realidade histórico-política do
país, podendo existir com o mesmo tipo de sistema de governo, mas com características diferentes:
Exemplo: França-Portugal e Alemanha Inglaterra

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e manutenção. No entanto, há que distinguir a sede do exercício da sede de apoio, e esta
da sede efectiva ou real.

Por isso, parece útil distinguir, no que respeita à sede do Poder, a sede do
exercício da sede de apoio, e esta da sede efectiva ou real do Poder:

A “sede do exercício” correspondente ao órgão ou conjunto de órgãos sem o


consentimento dos quais o Poder não está disponível, é a que mais interessa para
identificar o Sistema de Governo, na medida em que diz respeito ao próprio aparelho do
Poder; enquanto a “sede de apoio” diz respeito aos grupos, estratos sociais e classes, que
estão numa relação de obediência consentida com o aparelho do Poder, quer de uma
maneira activa, quer de uma maneira passiva, pelo que não constituem uma resistência
que implique o eventual uso da força, nem uma fonte de competição para ocupar o Poder,
e a “sede efectiva” concerne aos grupos ou órgãos que desfrutam da capacidade de
influenciar e, até, controlar o exercício do Poder, sendo sempre difícil a sua identificação.

A sede de apoio é uma noção que se torna clara ao examinar o funcionamento dos
sistemas políticos. A entrega da sede do exercício do Poder ao Partido maioritário é uma
conclusão decorrente do princípio da legitimidade democrática. Mas do ponto de vista
da física do Poder, é a entrega da sede do exercício ao partido que tem maiores
probabilidades de ver as suas decisões voluntariamente obedecidas, por ser o que
demonstra maior sede de apoio ou de adesão. Quer isso dizer, que a sede do exercício do
Poder anda de certo modo ligada à sede de apoio, visto que, se este deixar de manifestar,
quer de forma activa baseada na militância, quer de forma passiva baseada no alheamento
do processo e na obediência silenciosa, aquela dificilmente poderá continuar a exercer o
Poder, pelo menos nos regimes democráticos e pluralistas que prevêem a alternância da
sede e a mudança da ideologia. E esta sempre dependente da sede efectiva que,
geralmente controla a sede de apoio.

Todavia, no que respeita à classificação dos “Sistemas Políticos e de Governo”,


interessa sobretudo analisar o modo como está estruturado o aparelho do Estado, de forma
a descobrir onde reside a “Sede do exercício real” e ou “aparente do Poder”, isto é,
identificar a pessoa, o órgão ou conjunto de órgãos sem cujo consentimento o Poder não
está disponível.

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Geralmente, os textos constitucionais situam a sede do exercício do Poder em um
dos órgãos supremos do Estado, ao qual atribuem a responsabilidade de consentir quando
e em que circunstância o Poder deve ser exercido. É este o órgão que responde perante
o eleitorado pela política geral da governação do país, e é a sua preponderância em
relação aos outros órgãos de soberania que permite identificar o tipo de sistema de
governo. Acontece, por vezes, que as constituições colocam num determinado órgão a
sede do exercício do Poder, mas na realidade é outro órgão que assume a responsabilidade
de chamar a si a faculdade de coercivamente se fazer obedecer.

Não obstante os desvios desta natureza e, por conseguinte, a não correspondência


da sede real com a sede aparente do exercício do Poder, é aos textos constitucionais que
os estudiosos recorrem para identificar os Sistemas de Governo. E, conforme os
órgãos legalmente proeminentes do Aparelho do Estado são o Chefe do Estado
(Presidente da República), o Parlamento e o Governo/Executivo, ou a Assembleia
Parlamentar, assim nos encontramos perante “sistemas de governo presidencialistas” ou
“sistemas de governo parlamentares”, cada um dos quais com características próprias que
os tipificam. Entre os sistemas parlamentares e os sistemas presidencialistas, existem
sistemas mistos com pendor parlamentar ou presidencialista. Interessa-nos aqui analisar
os sistemas de governo de desconcentração de poderes, Parlamentar, Presidencialista
e Semi-presidencialista6.

Sistema de Governo Parlamentar (Modelo Inglês e Alemão)

 Perspectiva Histórica:

O Sistema de Governo Parlamentar teve a sua origem na Inglaterra, onde evoluiu


ao impulso da luta plurissecular, heróica, aspérrima, ininterrupta, da liberdade contra a
tirania, dos direitos do homem contra o despotismo dos monarcas.

Este Sistema de Governo resulta de uma evolução histórica, não sendo, assim,
uma criação teórica, não havendo obra ou autor que previamente traçou as suas

6
Fernandes, António José. (1995). Introdução à ciência política: Teorias, métodos e temáticas. Porto: Porto
Editora, p.150, 151.

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características e implementação. As suas características foram se delineando aos poucos,
durante séculos, até que se chegasse à forma precisa, sistematizada pela doutrina como
parlamentarismo7.

Em 1265, Simon de Montfort8, nobre francês, chefiou uma revolta contra o Rei da
Inglaterra, promovendo uma reunião com carácter de uma assembleia política. Em 1295,
o Rei Eduardo I oficializou estas reuniões, consolidando a criação do Parlamento. A partir
de 1332, começa a se definir a criação de duas Casas no Parlamento. Uma com os barões
(Câmara dos Lordes) e outra com os cidadãos, cavaleiros e burgueses (Câmara dos
Comuns).

Com a Revolução Inglesa (ápice nos anos de 1688 e 1689) e a expulsão do rei
católico, Jaime II, assume Guilherme de Orange e Maria, protestantes, e sua sucessora
Rainha Ana. Neste período, estabelece-se o hábito de convocação pelo soberano de um
Conselho de Gabinete. Em 1714, assume Jorge I, príncipe alemão de origem e educação.
Sem saber inglês, o monarca deixou de presidir as reuniões dos ministros. O mesmo
acontecendo com o sucessor Jorge II. Assim, o gabinete passou a deliberar de per si, com
a ausência do soberano. Discutidos e resolvidos os assuntos do governo; o membro mais
ilustre era incumbido de levar ao Rei suas resoluções, e, assim, foi surgindo a figura do
Primeiro-ministro. Neste período de mais de meio século, foi fixada definitivamente a
independência do Gabinete. O Rei reina, mas não governa, já que a administração do
Estado era feita pelo gabinete.

O Sistema Parlamentar na Grã-Bretanha evoluiu, entretanto, para um modelo em


que se pode questionar se o poder efectivo se centra no Parlamento, tal como se havia
pretendido inicialmente, ou se, pelo contrário, retornou para o Executivo, de tal forma
que é este que, de facto, “controla” o Parlamento. De facto, por efeito do sistema eleitoral
maioritário em círculos uninominais, o partido vencedor dispõe normalmente de ampla
maioria absoluta, o que, para além da estabilidade governamental, confere ao chefe do
Governo uma confortável autoridade sobre os deputados.

7
Luiz, André. (2010) Noções de Teoria Geral do Estado; Belo Horizonte, p.38
8
Simão IV de Montforte (1160 –1165), nobre franco – normando, Senhor de Montforte –l´Amaury, 5º.
Conde de Leicester, conde de Tolosa, visconde de Béziers, de Razés, de Albi e de Carcassona, é a principal
figura da cruzada contra os Albigenses.

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 O caso Alemão:

A República Federal da Alemanha é outro país europeu em que vigora o Sistema


de Governo Parlamentar, mas com grandes diferenças.

O poder executivo é encabeçado pelo Chanceler federal (Bundeskanzler), como


Chefe de Governo, equivalendo este cargo ao do Primeiro-Ministro de outros sistemas
parlamentaristas. O presidente federal ( Bundespresidente) exerce a função de Chefe de
Estado. O poder legislativo federal possui duas Câmaras: o Bundestag (Parlamento
federal) e o Bundesrat (Conselho federal).

O Chefe de Estado possui algumas atribuições executivas, mas o seu papel é


apenas simbólico. A Lei Fundamental (Grundgesetz) ou Constituição Federal
(Bundesverafassung) dá-lhe a competência de assinar acordos e tratados internacionais,
mas a política externa é da responsabilidade do Governo, chefiado pelo Chanceler federal.

O Presidente da República oficialmente nomeia e destitui ministros. Mas fá-lo


sempre a pedido do Chanceler federal, que também é indicado pelo Presidente,
respeitando sempre, no entanto, o desejo da maioria parlamentar. Os seus actos executivos
são, na prática, o cumprimento formal de decisões tomadas pelo Parlamento ou pelo
Governo.

Compete, igualmente, ao Presidente da República a nomeação e exoneração de


juízes federais, servidores públicos federais, e de oficiais e sub-oficiais das Forças
Armadas. Ele decide a concessão de indulto a presidiários e sanciona as novas leis
federais. Como Chefe de Estado, recebe e credencia embaixadores.

O Presidente da República não é eleito directamente, mas por um colégio eleitoral,


a Assembleia Nacional, que se reúne exclusivamente para este fim. Metade da
Assembleia é formada por deputados federais, e a outra metade por delegados escolhidos
pelas assembleias legislativas dos 16 Estados.

No Sistema de Governo Parlamentar alemão, o poder executivo convive


directamente com o legislativo, pois o Chanceler federal e os seus ministros são, em geral,
igualmente deputados e participam quase diariamente nas sessões plenárias.

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Desde a fundação da República Federal da Alemanha, em 1949, o Governo federal
sempre foi composto por coligações, devido à dificuldade de um único partido obter
maioria absoluta no Parlamento, mercê do sistema eleitoral proporcional. O costume é a
agremiação política da maior bancada buscar um parceiro para formar maioria, eleger o
Chanceler federal, e compor o Gabinete de Governo.

De acordo com o estabelecido na Lei Fundamental de 1949, um Chanceler federal


e o seu Gabinete só podem ser derrubados pelo Parlamento se já houver uma alternativa
de Governo. O mecanismo, a que se deu o nome de “moção de censura construtiva”, foi
criado devido à experiência da fracassada República de Weimar, instaurada em 1919, na
qual os partidos não se conseguiam entender e os governos eram muitíssimo breves.

a) Principais características dos Sistemas de Governo Parlamentar:

Independentemente da forma organizativa e funcional do Sistema e do Governo


Parlamentar, há um conjunto de elementos comuns que nos podem dizer se estamos
perante um Sistema de Governo Parlamentar. Estes elementos são os seguintes:

1) Não eleição do Chefe de Estado por sufrágio universal;


2) Dissolução do Parlamento pelo Chefe de Estado.
3) O poder executivo divide-se em duas partes: um Chefe de Estado, normalmente
exercido pelo Monarca ou pelo Presidente da República; e um Chefe de
Governo, exercido por um Primeiro-Ministro ou Presidente do Conselho de
Ministros;
4) O Chefe de Estado em regra exerce poderes formais, ao contrário do Governo que
dirige a acção do poder executivo, assumindo a administração política sob a
direcção de um Chefe de Governo (Primeiro-Ministro, Chanceler, Presidente do
Conselho de Ministros).
5) O Governo é formado no quadro parlamentar, ou seja: o partido ou coligação de
partidos que vença as eleições legislativas com maioria parlamentar, constitui o
governo9.
6) A entrada em funções do Primeiro-Ministro e do Governo é normalmente
precedida da aprovação de um programa de Governo pelo Parlamento;

9
Todavia, vale lembrar, que: se o partido vencedor não conseguir maioria absoluta os restantes partidos não
vencedores, podem constituir governo por via de uma aliança, como aconteceu em Portugal em 2016.

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7) Os membros do Governo, em regra, são deputados e, por isso, integram o
Parlamento.
8) O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Chefe do Estado, sendo o líder do partido
vencedor das eleições legislativas .
9) O Primeiro-Ministro e o Governo são responsáveis politicamente perante o
Parlamento e apenas se mantêm no poder se tiverem o apoio e a confiança
deste órgão. Quando o Governo já não dispuser da confiança do Parlamento, ver-
se-á na necessidade de se demitir. É esta responsabilidade política do Governo
perante o Parlamento que constitui o traço fundamental do Sistema Parlamentar,
pois faz com que o papel do Chefe do Estado seja reduzido.
10) Responsabilidade política10 do Governo perante o Parlamento;

Um dos maiores problemas do Sistema de Governo Parlamentar pode estar na


instabilidade dos executivos, principalmente se não houver maiorias parlamentares
estáveis. Para se superar estes problemas houve, em alguns países, um processo de
racionalização do sistema de governo parlamentar, de forma a torná-lo mais seguro e
funcional.

A Alemanha foi um dos primeiros países a fazê-lo, com a reforma constitucional


conhecida como a Constituição de Weimar, em 1919. Adoptou-se o conceito de moção
de censura construtiva, que estabelece que a moção de censura a um Gabinete tem de
estar sempre acompanhada de uma proposta que indique a um candidato para ocupar o
cargo de chefe do Governo. Com esta medida, assegurou-se que seja praticamente
impossível a dissolução do Parlamento e a queda de governos, podendo estes exercer as
suas funções até ao final das legislaturas que os suportam.

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A responsabilidade política que toca aos Ministros, no sistema parlamentar, não se confunde com a
responsabilidade criminal nem com a responsabilidade civil, as quais atingem os governantes por princípios
gerais de direito. A responsabilidade criminal é matéria de direito penal: pressupõe a prática de crime e
acarreta a aplicação de penas pecuniárias ou corporais. O Estado de Direito não prescinde do princípio da
responsabilidade criminal.

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b) Eleição do Presidente da República nas Repúblicas Parlamentares:

Nas Repúblicas Parlamentares, o Presidente da República pode ser eleito de forma


orgânica ou por sufrágio universal (em casos anomálos). Sendo a primeira a forma
tradicional de eleição, nas últimas décadas proliferaram os casos de eleição directa.

A eleição orgânica verifica-se quando o Chefe do Estado é eleito por outro órgão,
que em regra é o Parlamento. São casos típicos desta forma de eleição a Itália, em que o
Presidente da República é eleito pelo Parlamento (pelas duas Câmaras), devendo,
igualmente, participar nessa eleição delegados de todas as regiões pelos conselhos
regionais; a Alemanha, em que o Presidente da República é eleito pelas duas Câmaras do
Parlamento; e ainda, a África do Sul. Na eleição orgânica, o Presidente da República não
obtém legitimidade popular, em virtude de a sua escolha não advir do sufrágio universal.

c) Os Poderes Presidenciais em Sistemas Parlamentares:

Nas repúblicas parlamentares, o Presidente da República tem um papel activo,


mas reduzido, na vida política, desempenhando, basicamente, a função de representação
do país. Ele é o representante da unidade nacional, garante da Constituição e da
independência do Estado, bem como da integridade territorial do país. Apesar de serem,
em geral simbólicas e de representação, as competências do Chefe do Estado nas
repúblicas parlamentares são de uma grande importância no sistema político, porquanto
ele tem competências que visam assegurar o controlo do exercício político pelos órgãos
com funções políticas. No âmbito da sua competência de controlo, o Presidente da
República participa de diversas formas, no exercício das funções legislativas, executiva
e administrativa. Ele promulga os diplomas aprovados pelo Parlamento e pelo Governo,
embora não disponha, em geral, do poder de veto.

Em relação à política externa, ele tem por competência a ratificação dos


tratados internacionais; a nível interno, compete-lhe declarar o estado de necessidade
constitucional, embora, em geral, o faça por proposta governamental ou com
assentimento do Parlamento. O Presidente da República decreta também os indultos, a
comutação das penas, e a concessão de ordens honoríficas, no âmbito da sua competência
de prerrogativa, numa reminiscência das monarquias.

15
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Finalmente, incumbe ao Presidente da República a competência de
intermediação política, que se concretiza no seu poder de convocação ordinária das
Câmaras, na convocação de eleições gerais, na dissolução do Parlamento no final da
legislatura, assim como na nomeação do chefe do Governo e dos ministros. Todavia, a
sua margem de discricionariedade política nessas matérias é, por via de regra, assaz
reduzida.

Sistema de Governo Presidencialista (Modelo Americano)

 Perspectiva Histórica:

Contrariamente ao Sistema Parlamentar, que é fruto de uma longa e empírica


construção e sedimentação, o sistema presidencialista está longe de ser o resultado de um
processo de produção natural, sendo um produto de laboratório. O Sistema de Governo
Presidencialista foi idealizado pelos norte-americanos, na Convenção de Filadélfia, e
consubstanciado na Constituição Federal de 1789. Foi uma solução de cunho prático, uma
experiência coroada de êxito e que serviu de inspiração para os outros países da América
do Sul.

O presidencialismo não resultou de um longo e gradual processo de elaboração,


mas sim de uma criação americana do século XVIII, tendo resultado da aplicação das
ideias democráticas, concentradas na liberdade e na igualdade dos indivíduos, na
soberania popular, conjugadas com o espírito pragmático dos Pais Fundadores do Estado
norte-americano11. Assim, criou-se um sistema que, consagrando a soberania da vontade
popular, adoptando-se ao mesmo tempo um mecanismo de governo que impediria a
concentração de poder, tal como teorizaram Locke e Montesquieu.

A Constituição Norte-americana12 estruturou o poder político e o judicial tendo


em atenção as preocupações de se assegurar os «checks and balances», muito em virtude
da experiência vivida no período anterior à Convenção de Filadélfia13.

11
Luiz, André. (2010) Noções de Teoria Geral do Estado; Belo Horizonte, p.41
12
O poder político foi organizado pelos Pais fundadores da Constituição recorrendo à experiência inglesa
do início do século XVIII. No «Act of Settlement» de 1701, determinava-se a incompatibilidade entre o
exercício de actividades parlamentares e executivas.
13
Araújo, Raul (2009), Carlos, O Presidente da República no Sistema Político, Casa das Ideias, p.83.

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IIº SEMESTRE
a) Características do Sistema de Governo Presidencialista

1) Eleição do Chefe do Estado por sufrágio universal


2) O Presidente da República exerce as funções de Chefe do Estado e Chefe do
Executivo
3) Os Deputados não fazem parte do Parlamento
4) O Chefe do Estado não pode dissolver o Congresso, nem o Congresso pode
destituir o Presidente (salvo em caso de “impeachment”).
5) Nestes sistemas opõem-se fundamentalmente dois órgãos: um encarregado de
delinear, mediante a função legislativa, as linhas gerais da acção política (o
Parlamento); o outro com a incumbência de dar a execução às leis (o Presidente).
Ambos de carácter representativo, independentes quanto à origem e ao exercício
dos poderes que constitucionalmente lhes cabem.
6) É um Sistema tipo de
7) O Presidente da república tem poder de veto: Os projectos aprovados pelo Poder
Legislativo, exceptuando-se as raras hipóteses de competência exclusiva deste,
devem ser remetidos ao Presidente da República para sua sanção, que é a
manifestação da sua concordância. Se considerar o projecto inconstitucional ou
inconveniente pode vetá-lo, negando a sanção e comunicando ao Legislativo o
veto;
8) É um Sistema tipico das Repúblicas
9) O presidente da República não pode ser destituido por razões políticas (que não
configurem crimes no conceito específico da lei penal).

b) Os Poderes do Presidente da República nos Sistema Presidencialista:

No Sistema de Governo Presidencialista, o Presidente da República acumula as


funções de Chefe do Estado e de Chefe do Executivo. Nesta qualidade, ele concentra um
conjunto de poderes extremamente importantes, tornando – o o centro do Sistema
Político, dirigindo a política interna e externa, para além de possuir importantes poderes
no domínio militar, sendo o “Comandante em Chefe” das Forças Armadas14.

14
Ibid, p.91

17
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Compete ao Presidente da República a definição da política do país. Para o efeito,
ele forma o seu Executivo sem a intervenção do Parlamento (excepção feita aos Estados
Unidos da América, em que o Senado aprova previamente os candidatos propostos pelo
Presidente). No plano da política externa, o Chefe do Estado negocia e aprova os tratados
internacionais, competindo ao Parlamento a sua ratificação.

Já no domínio militar, e na qualidade de Comandante-Chefe das Forças Armadas,


a ele compete decidir as intervenções armadas no interior e exterior do país. No plano
legislativo, o Presidente da República tem o poder de veto político e possui, igualmente,
o direito de dirigir mensagens ao Parlamento e ao país, influenciando, desta forma, a
actividade do Parlamento.

A principal característica do sistema de governo presidencial é a separação


efectiva dos poderes, não tendo o Presidente da República o poder de dissolução do
Parlamento, nem podendo o Parlamento destituir o Chefe do Estado por razões de ordem
política. Sendo ambos eleitos, nenhum tem o poder de decidir sobre o mandato do outro.
Por isso, nada garante que o Presidente detenha uma maioria parlamentar favorável. Se a
não tiver, terá de negociar com a maioria parlamentar a aprovação do orçamento e das
leis.

No caso de o Parlamento ser eleito de acordo com um sistema de eleição


proporcional, a fragmentação parlamentar pode conduzir à necessidade de constituição
de verdadeiros governos de coligação, à maneira dos sistemas parlamentares, como
sucede em vários países da América Latina, como, por exemplo, o Brasil.

c) Responsabilidade e “impeachment”

O Presidente da República, no Sistema Presidencialista, é responsável


criminalmente pelos seus actos funcionais. Não se trata de uma particularidade do sistema
governamental, pois a irresponsabilidade criminal só se compadece com a monarquia de
direito divino. A possibilidade de “impeachment” ou sujeição do Presidente a
responsabilidade criminal é efectivada por deliberação do Congresso, por maioria
qualificada de dois terços15.

15
Cfr. Neto, Miguel Alfredo Malufe. Teoria Geral do Estado p. 253

18
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
O que não existe no sistema presidencial é a responsabilidade política, a qual
consiste no seguinte: os membros do Poder Executivo (no sistema parlamentar), quando
cometem erros graves, quando procedem abusivamente ou revelam incompetências são
interpelados pelo Parlamento, e se não apresentarem uma defesa ou justificação
satisfatória, perderão a confiança do Parlamento. Sem essa confiança, não poderão
continuar no exercício das funções executivas. Embora um Ministro não tenha cometido
qualquer crime, especificamente, nem lhe seja aplicada qualquer pena corporal ou
pecuniária, fica sujeito ao processo de responsabilidade política, tão-somente para o fim
de ser afastado da função. Se o acto foi aprovado ou ratificado pelo Gabinete, a acusação
pesa sobre o Primeiro-Ministro, e a responsabilidade abrange todo o Ministério. A
apuração da responsabilidade política é preventiva, enquanto o processo penal é de
natureza repressiva.

A responsabilidade criminal do chefe do Executivo, no sistema presidencialista, é


apurada e julgada pelo chamado processo de “impeachment”. A acusação é feita na
Câmara dos Deputados, e, se procedente, será julgada:

a) Pelo Supremo Tribunal Federal, se o caso for de crime comum;


b) Pelo Senado, se for de crime funcional

O processo de “impeachment”, segundo o juízo de alguns autores clássicos como


Story e Campbell Black, é de natureza exclusivamente política (não criminal).

Todavia, consideramos que a função política e criminal encontram-se


indissociavelmente no processo político de “impeachment”. Para o Professor Lauro
Nogueira, o processo de “impeachment” é político porque visa especialmente retirar do
poder um mau funcionário; porque não tem como propósito primordial uma punição;
porque não impõe uma pena propriamente dita, não traz como consequência, na sua
aplicabilidade, a perda de liberdade e porque é exercitado por dois corpos políticos. É
criminal porque, afinal, queira-se ou não se queira, aplica uma pena. A perda da função
pública é uma pena, embora de carácter acessório. Logo, o processo de “impeachment”
envolve um aspecto criminal, sem embargo de preponderar o aspecto político. De modo
geral, podemos depreender que o “impeachment” é o castigo à idoneidade, a punição ao
abuso de confiança, o castigo à indignidade, à negligência, à má gestão dos negócios
públicos.

19
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IIº SEMESTRE
Sistema de Governo Semi-Presidencialista (Modelo Francês)

 Origem histórica

O Sistema Semipresidencialista tem a sua origem na V República francesa e, no


meio académico, foi inicialmente autonomizado, na categorização dos sistemas de
governo, por Maurice Duverger no seu livro "Échec au Roi" de 197816. O modelo
semipresidencialista surge como uma alternativa que busca reunir as qualidades dos
sistemas, “ditos puros,” evitando ao máximo os seus vícios, por exemplo: concentração
de poderes numa só figura, possibilidade de crises institucionais entre o executivo e o
legislativo (presidencialismo), ou instabilidades governativas (parlamentarismo).

a) Características do Sistema de Governo Semipresidencialista

Este sistema é caracterizado pela existência de um Chefe de Estado eleito por


sufrágio universal e por um Primeiro-Ministro que é o chefe de Governo, nomeado pelo
Presidente saído da maioria do Parlamento. Por isso também é conhecido na literatura
como “dual-executive regime”. O Chefe de Estado partilha funções executivas, preside
ao Conselho de Ministros, possui direito de veto e pode dissolver o Parlamento. No
semipresidencialismo, o poder executivo é partilhado.

O Governo é formado pelo Primeiro-Ministro, que o chefia, e pelos Ministros, que


são nomeados pelo Presidente da República sob proposta do Primeiro-Ministro, de acordo
com os resultados das eleições legislativas. É, um misto de parlamentarismo e
presidencialismo, há uma bicefalia, pois existe um Presidente da República eleito por
sufrágio universal, secreto e periódico que pode ou não presidir o Conselho de Ministros
(França e Angola até 21 de Janeiro de 2010), havendo o risco de coabitação com o
Primeiro-Ministro, nomeado mediante os resultados das eleições legislativas (artigo 187
da CRP) 17.

16
Cf. Novais, Jorge Reis. (2007) Semipresidencialismo, vol. I, Coimbra, Almedina, p.64 e 71
17
Pinto, João. (2013) in Invstitia: Democracia e Estado de Direito. Revista da Faculdade de Direito da
Universidade Independente de Angola, p. 132.

20
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IIº SEMESTRE
Características Gerais dos Sistemas de Governo:

O Constitucionalismo Angolano

As constituições dos Estados africanos tinham sido elaboradas com inspiração em


tradições legais e sistemas de valores que nunca foram enraizados em África. Os poucos
autores e estudiosos africanos envolvidos neste processo tinham sido “assimilados” à
Europa Ocidental ou, alternativamente, aos valores soviético-socialistas.

O socialismo marxista tornou-se a força conceptual dominante de análise da


realidade dos nacionalistas africanos. Todavia, o socialismo marxista africano regeu-se
sempre com métodos de governo pouco claros, incapaz de consolidar-se originando
Sistema Semi-
Variáveis Sistema Presidencialista Sistema Parlamentar Presidencialista
1º Designação do Sufrágio orgânico ou Sufrágio Universal
Chefe de Estado Sufrágio Universal (processo hereditário)

O Chefe de Estado não faz


2º Composição do O Chefe de Estado é o O Chefe de Estado não faz parte do Governo, existindo
Governo Chefe do Governo parte do Governo um Primeiro-ministro
O Governo depende do
3º. Responsabilidade O Governo é independente A formação, funcionamento Parlamento quanto à sua
política do Governo: do Parlamento quanto à e subsistência do Governo formação e subsistência
formação e subsistência. dependem do Parlamento.
4º. Dissolução do O Chefe de Estado não O Chefe de Estado pode
Parlamento: pode dissolver o dissolver o Parlamento, a O Chefe de Estado pode
Parlamento. solicitação do Chefe do dissolver o Parlamento
Governo.
Os membros do Governo Os membros do Governo Os membros do Governo
5º. Separação de não pertencem ao fazem parte do Parlamento: não pertencem ao
poderes e de Parlamento, e vice-versa. Colaboração permanente Parlamento, e vice-versa.
funções: entre os dois órgãos.
Julga o Primeiro-Ministro Julga o Primeiro-Ministro
6º. Papel do Julga o Chefe de Estado. e a acção do Governo. e a acção do Governo ( e
eleitorado: eventualmente o Chefe de
Estado.)
7º. Sede aparente do Presidente da República. Parlamento. Presidente da República
poder:
convulsões internas com sucessivos golpes de Estado, arrastando os países para crises
económicas agudas, violando sistematicamente os direitos e garantias da sociedade civil,

21
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
consagrados nos princípios Constitucionais confusos, e, por conseguinte, confundindo o
papel do Estado18.

Na sua apreciação acerca dos elementos comuns dos sistemas constitucionais


instituídos pelas primeiras Constituições dos países africanos de língua portuguesa, o
Professor Jorge Miranda destaca os seguintes elementos19:

a) Concepção monista do poder e institucionalização de partido único


b) Abundância de fórmulas ideológico-proclamatórias e de apelo às massas populares;
c) Empenho na construção do Estado – de um Estado director de toda a sociedade;
d) Compreensão acentuada das liberdades públicas, em moldes autoritários e até, em alguns
casos, totalitários;
e) Organização económica de tipo colectivizante;
f) Recusa de separação de poderes a nível da organização política e primado formal da
assembleia popular nacional.

É nesta base que a maior parte dos Estados africanos viu construir os seus sistemas
de poder político, numa via de sistemas monopartidários, cujo poder repousa no pedestal
centralista. Sobre esta perspectiva afirmou Raymond Aron, «num sistema de partido
único, o Estado é partidário e inseparável do partido que tem monopólio da actividade
política legítima»20.

Era entendimento dos governantes que, tanto o facto de os países terem alcançado
as suas independências nacionais há poucos anos, como o facto de coexistirem unidades
políticas “hostis”, constituídas pelas potências colonizadoras, constituíram
condicionantes que pouco espaço deixavam para o pluralismo político ou mesmo para a
descentralização administrativa. Hoje, como refere Thomashausen, a tarefa
constitucionalista consiste assim no encontro de soluções que podem fomentar a
integração nacional, ao invés da criação de identidades negativas, baseadas na rejeição
daquilo que possa ser visto como alheio ou “inimigo”. A capacidade geradora do
consenso dos cidadãos sobre as grandes metas do futuro é o que determina o sucesso das
sociedades modernas.

18
Cfr. Joseph Ki Zerbo, Para Quando África? p. 123.
19
Miranda, Jorge. (2013) in Revista da Faculdade de Direito da Universidade Independente de Angola.
Ivstitia, Democracia e Estado de Direito N.º1, p.9 e 10
20
Fernandes António Teixeira, A sociedade e o Estado - Sociologia das Formações Políticas, Edições
Afrontamento, 1997, p. 222 - 223.

22
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IIº SEMESTRE
A 1ª República de Angola (1975)

A 1ª República de Angola nasce mergulhada numa profunda crise política e


militar, situação que condicionou tanto o processo de transição política para a
independência, como as opções políticas e ideológicas que conformaram a primeira Lei
Fundamental do novo Estado africano, Angola21. Enquanto Movimento proclamador da
independência, a Lei Constitucional de 1975 adoptou um modelo de organização do
Estado marxista-leninista enquadrado na família constitucional de matriz soviética, cujas
linhas orientadoras foram enunciadas logo no discurso de proclamação da independência
e os objectivos enfatizados no artigo 1.º da LC/7522.

A Lei Constitucional de 1975

A Lei Constitucional da República Popular de Angola era, na sua essência, uma


constituição-programa, uma vez que era a concretização do programa do partido no poder,
o MPLA. Ela definia o novo Estado independente como tendo um conjunto de objectivos
políticos e ideológicos, explicitados ao longo do texto normativo.

No artigo 1º define-se como objectivo do Estado “ a total libertação do Povo


Angolano dos vestígios do colonialismo e da dominação e agressão do imperialismo e a
construção dum estado próspero e democrático, completamente livre de qualquer forma
de exploração do homem pelo homem, materializando as aspirações das massas
populares”.

À semelhança da esmagadora maioria dos Estados africanos, Angola assumiu-se


como um Estado unitário e centralizado. (art.4).

Era entendimento dos governantes que, tanto o facto de os países terem alcançado
as suas independências nacionais há poucos anos, como o facto de coexistirem unidades
políticas “hostis”, constituídas pelas potências colonizadoras, constituíram

21
Araújo, Raul Carlos Vasques. (2009) O Presidente da República no Sistema Político, Luanda, Casa das
Ideias, p.229
22
Almeida, Adão de. (2009) Autorizações Legislativas e Controlo Parlamentar do Decreto-Lei Autorizado:
O Caso Angolano, Coimbra, Almedina p.69

23
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IIº SEMESTRE
condicionantes que pouco espaço deixavam para o pluralismo político ou mesmo para a
descentralização administrativa.

Ao atingirem a sua independência, os Estados africanos criaram unidades políticas


novas, quer de ordem territorial, que de ordem jurídica.

Órgãos de Soberania na Lei Constitucional de 1975

A Lei Constitucional de 1975, não utilizava a expressão “órgãos de soberania”,


pois como já acima dissemos, a soberania era do povo, mas cabia ao MPLA, Partido –
Estado representá-lo. A sociedade não se diferenciava do Estado, era uma representação
forçada, era a razão de falar-se de órgãos de Estado que deve entender-se como de
soberania. No seu título IIIº “Dos Órgãos do Estado”, a LC/75 consagra cinco órgãos do
poder político:

1. O Presidente da República (capítulo I);


2. Assembleia do Povo23 (capítulo II);
3. Conselho da Revolução24 (capítulo III);
4. Governo (capítulo IV) e os
5. Tribunais (Capítulo V).

Interessa-nos aqui, olhar para os Poderes do Presidente da República e do


Conselho da Revolução:

 O Presidente da República (Artigos 31 e 32 da LC/75)

O Presidente da República é o ponto central do exercício do poder político. Não


era eleito por sufrágio universal, confirmando assim, o Sistema Monopartidário. Ele é o
Chefe de Estado e, nesta qualidade, é o representante máximo da “Nação Angolana.

O Presidente da República Popular de Angola é o Presidente do M. P. L. A.


O Presidente da República, como Chefe do Estado, representa a Nação Angolana.

23
Instituída em 1980, revisão de 11 de Agosto, com a extinção do Conselho da Revolução
24
Era um órgão provisório até à criação efectiva da Assembleia do povo, art.35, fazendo a vez da função
legislativa em conjunto com o Governo art.38:b);

24
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IIº SEMESTRE
O Presidente da República tem a seguinte competência específica:

a) Presidir ao Conselho da Revolução e orientar os seus trabalhos;


b) Dar posse ao Governo nomeado pelo Conselho da Revolução;
c) Declarar a guerra e fazer a paz, precedendo autorização do Conselho da
Revolução;
d) Dar posse aos comissários provinciais, nomeados pelo Conselho da Revolução
sob indicação do M.P.L.A.
e) Assinar, promulgar e fazer publicar as leis do Conselho da Revolução, os decretos
do Governo e os decretos regulamentares dos Ministros;
f) Dirigir a defesa nacional;
g) Indultar e comutar penas;
h) Indicar, de entre os membros do Conselho da Revolução, quem o substitua nas
suas ausências ou impedimentos temporários;
i) Exercer todas as restantes funções que lhe forem conferidas pelo Conselho da
Revolução.

O Órgão Legislativo: Conselho da Revolução

A Assembleia do Povo era definida como sendo o «órgão supremo do Estado»


(artigo 34º da LC), sendo deferida para legislação ordinária a fixação da sua composição,
sistema de eleição, competência e funcionamento. Até ao seu surgimento, instituiu-se um
órgão que se denominou de Conselho da Revolução (artigo 35º): «Enquanto não se
verificar a total libertação do território nacional e não estiverem preenchidas as
condições para a instituição da Assembleia do Povo, o órgão supremo do poder de
Estado é o Conselho da Revolução25».

O Conselho da Revolução que era presidido pelo Presidente da República (artigo


37º da LC) tinha as seguintes atribuições:

1. Exercer a função legislativa, que poderá delegar no Governo;


2. Definir e orientar a política interna e externa do país;
3. Aprovar o Orçamento Geral do Estado e o Plano Económico elaborado pelo Governo;

25
Lei Constitucional de 1975. Capítulo IIIº. – Conselho da Revolução.

25
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
4. Eleger e exonerar o Primeiro-Ministro e os restantes membros do Governo, sob indicação
do MPLA;
5. Eleger e exonerar os comissários provinciais, sob indicação do MPLA;
6. Autorizar o Presidente da República a declarar a guerra e a fazer a paz;
7. Decretar o estado de sítio ou o estado de emergência;
8. Decretar amnistia.

 O Governo (Artigos 39º., 40.º e 41º.

O Governo é constituído pelo Primeiro-Ministro, pelos Ministros e pelos


Secretários de Estado. O Governo é presidido pelo Primeiro-Ministro.

Incumbe ao Governo, como órgão executivo, conduzir a política interna e externa do


Estado, sob a orientação do Conselho da Revolução e do Presidente da República, e
superintender no conjunto da administração pública.

São atribuições do Governo, em especial:

a) Garantir a segurança das pessoas e bens;


b) Elaborar o orçamento geral do Estado e executá-lo após aprovação do Conselho
da Revolução;
c) Elaborar o Plano Económico e executá-lo após aprovação do Conselho da
Revolução.

O Governo poderá exercer por decreto a função legislativa que lhe for delegada pelo
Conselho da Revolução. Aos Ministros cabe regulamentar as leis do Conselho da
Revolução e os decretos do Governo.

 Tribunais: Órgãos Judiciais

A função dos tribunais era tratada em apenas dois artigos 44.º e 45.º, e não eram
vistos como verdadeiros órgãos autónomos por razões de natureza do próprio regime
político. Não havia claramente uma separação de poderes26.

26
Pinto, João. Direito Administrativo Angolano, UnIA, Luanda,p.75

26
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IIº SEMESTRE
O Sistema de Governo na Lei Constitucional de 1975

Variáveis Sistema de Governo Parlamentar (atípico)

1º Designação do Chefe de O Presidente do MPLA era o Presidente da República


Estado (eleição orgânica-não democrática)
O Governo era presidido pelo 1º Ministro que conduzia
2º Composição do a política interna e externa sob orientação do Conselho
Governo da Revolução. Art.s 39 e 40 LC75
O Governo é responsável politicamente perante o
3º.Responsabilidade Concelho da Revolução
política do Governo:
4º. Dissolução do O Chefe de Estado não pode dissolver o Conselho da
Parlamento: Revolução
Os membros do Governo não fazem parte do Conselho da
5º. Separação de poderes e Revolução.
de funções: *Não existia Separação de Poderes
Não existiam eleições. O Povo julgava a acção governativa
6º. Papel do eleitorado: do MPLA, sem no entanto existirem mecanismos de
expressão.

Podemos verificar que o sistema de governo estava marcado por uma forte
influência de tipo parlamentar, numa perspectiva de sistema de partido único. Era o
Conselho da Revolução que detinha todas as funções legislativas, e era ele que designava
o Primeiro-Ministro, os membros do Governo e os Comissários Provinciais, para além de
ser da sua competência definir e orientar a política interna e externa do país.
Era o Conselho da Revolução que detinha todas as funções legislativas e era ele
que designava o 1º Ministro, os membros do Governo, os Comissários Provinciais, para
além de ser da sua competência definir e orientar a política interna e externa do país.
Estávamos, assim, perante um modelo político em que o poder efectivo era detido
pelo MPLA, através da sua direcção colectiva, fosse ela o seu Bureau Político ou o Comité
Central.
Foi esta direcção colectiva que, com as posteriores alterações constitucionais
transferiu as suas competências em matéria de governação ao seu Presidente, Chefe de
Estado do Estado.
A Lei Constitucional da 1ª República Popular de Angola era, portanto, na sua
essência uma constituição-programa, uma vez que era a concretização do programa do
partido no poder, o MPLA.

27
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE

A Revisão Constitucional de 1991 e o Início da IIª República

O período que corresponde as décadas de 1970 a 1990 foi marcado por inúmeros
processos de transformações dos sistemas políticos, económicos e sociais, sobretudo no
Sul e Leste da Europa e na América do Sul, ficando conhecidos como “A terceira vaga
de democratização”. Estes processos não ficaram alheios ao continente africano onde
vários países, como Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Guiné-
Bissau, buscaram reordenar suas ideologias e seus sistemas políticos e económicos,
iniciando longos processos de transições de regimes autoritários para regimes
democráticos multipartidários27.

Em Angola, as alterações à Lei Constitucional introduzidas em Março de 1991,


através da Lei nº 12/91, destinaram-se principalmente à criação das premissas
constitucionais necessárias à implementação da democracia pluripartidária, à ampliação
do reconhecimento e garantias dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, assim
como a consagração constitucional dos princípios basilares da economia de mercado28.

A Revisão Constitucional de 1991 estendeu-se a todo o texto da Lei


Constitucional, introduzindo-se novos conceitos no ordenamento jurídico de
Angola:

1) Houve uma despolitização da Lei Constitucional, que foi expurgada de toda carga
ideológica. Assim, o conceito “Popular”, com tudo o que ele significava, foi retirado de
todas as designações desde logo do nome do país, que passou a designar-se apenas
República de Angola, em vez de República Popular de Angola. O mesmo se fez em
relação aos tribunais.
2) Consagrou-se Angola como um Estado Democrático e de Direito.
3) Procedeu-se à ampliação dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Muitas das
alterações resultaram de propostas apresentadas pela amnistia Internacional no seu
Memorando à Comissão Nacional para a Revisão da Lei Constitucional, de 6 de Fevereiro
de 1991:
a) Proibição da tortura e de outros tratamentos ou punições cruéis desumanos ou
degradantes;

32
António, Nelson Domingos. (2015) Transição pela transação: uma análise da democracia em Angola,
Luanda: PoloBooks, p130
28
Preâmbulo da Lei de Revisão Constitucional; Lei n. º 23/92, de 16 de Setembro.

28
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
b) Definição das garantias de defesa dos direitos fundamentais;
c) Reconhecimento constitucional das liberdades de expressão, de reunião, manifestação e
de associação;
d) Liberdade de organização profissional e sindical;
e) Liberdade de imprensa;
f) Reconhecimento do direito dos cidadãos de impugnarem e de recorrerem aos tribunais
contra todos os actos que violem os seus direitos fundamentais;

4. Reintrodução do cargo de Primeiro-Ministro, entidade que não era o Chefe de Governo,


mas o principal colaborador do Presidente da República na chefia do Executivo.
5. Transitoriamente, até à realização das eleições multipartidárias de Setembro de 1992, o
Presidente da República manteve a acumulação de funções de Chefe do Estado, Chefe de
Governo e Presidente do Parlamento.

Para já, importa frisar que a Revisão Constitucional de 1991 constituiu a primeira
fase do processo de transição democrática, que visou consagrar a liberalização política do
Sistema Político. Ela teve, tal como referimos acima, o objectivo imediato de criar um
espaço político que possibilitasse uma transição política pela via de reformas políticas
progressivas.

 A Revisão Constitucional de 1992

A Revisão Constitucional de 1992 é feita na sequência, por um lado da decisão do


partido no poder, MPLA, de realizar a segunda fase do que denominou de “Revisão ampla
e profunda” da Lei Constitucional angolana e, por outro lado, das decisões saídas dos
acordos de Bicesse. O Preâmbulo da Lei que aprova a Lei de Revisão Constitucional, Lei
n.º 23/92, de 16 de Setembro, faz a síntese dos objectivos almejados, dado que, pela
primeira vez na história de Angola, se iriam realizar eleições gerais multipartidárias, num
quadro democrático. Por esta razão, diz o Preâmbulo, que “A Revisão Constitucional
estava virada essencialmente para a classificação do sistema político, separação de
funções e interdependência dos órgãos de soberania, bem como para explicitação do

29
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
estatuto e garantias da Constituição, em conformidade com os princípios já consagrados
de edificação em Angola de um Estado democrático de direito”29.

 O Sistema de Governo na Lei Constitucional de 199230

A IIª República, apesar de iniciada com a Lei n.º 12/91, conheceu um novo
desenvolvimento constitucional com a aprovação da Lei n.º 23/92, de 16 de Setembro. O
Sistema de Governo aí estabelecido é, no seu preâmbulo, definido como sendo
Semipresidencialista, reservando ao Presidente da República um papel activo e actuante.

O Presidente da República de Angola possuía, segundo esse texto, um vasto leque


de poderes que visavam torná-lo num órgão fundamental do sistema de governo
angolano. A ele cabia, de acordo com o n.º 1 e 2 do art.º 56.º, definir a orientação política
do país, assegurar o funcionamento regular dos órgãos do Estado e garantir a
independência nacional e a integridade do país, acumulando três títulos: a) é o chefe de
Estado; b) é o Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança; c) é o garante da
Lei Constitucional de Angola.31.

Eleito por sufrágio universal, directo e secreto (art.º 57.º n.º 1) por um período de
cinco anos (art.º 59.º), o Presidente da República detinha um vasto conjunto de poderes,
entre os quais se destacava o poder de definir a orientação política do país (art.º 56.º, n.º
2); o poder de dissolução do Parlamento (alínea e) do art.º 66); o poder de nomear o
Governo alínea a) e b) do artigo 66.º; poder de veto das leis (art. 60.º); o poder de presidir
e definir a agenda do Conselho de Ministros (alínea d) do artigo 66.º); ou o poder de
convocar referendos al. o) do art.º 66.º.

A bicefalia do poder executivo é assegurada pela existência de um Governo, que


tem pelo seu lado a missão de “condução da política geral do país”, para a qual detém um
lato conjunto de competências (art.º 110.º a 112.º), e que é constituído por um Primeiro-
Ministro, Ministros e Secretários de Estado (art.º 108.º, n.º 1).

29
Araújo, Raul Carlos Vasques. (2009) O Presidente da República no Sistema Político, Luanda, Casa das
Ideias, p. 263.
30
Feijó, Carlos Maria. (2007) in Revista de Negócios Estrangeiros: Publicação do Instituto Diplomático do
Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, p.29 e seguintes.
31
Ibid, 64 e seguintes

30
Pedro Quiriri
MATERIAL DE APOIO
CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
O Primeiro-Ministro, para além de propor ao Presidente da República os demais
membros do Governo al. b) do art.º 66.º, tinha por missão “dirigir, conduzir e coordenar
a acção do Governo” (art.º 114.º, n.º 1), competindo-lhe, por exemplo, coordenar e
orientar a actividade dos restantes membros do Governo (al. a) do art.º 114.º), bem como
representar o Governo perante a Assembleia Nacional a nível interno e externo (al. b) do
art.º 114.º. Em contrapartida, o Governo angolano deparava uma dupla frente de
responsabilização política, que se consubstanciava na possibilidade de tanto o Presidente
da República como o Parlamento, este através da aprovação de uma moção de censura
(al. f) do art.º 118.º), o poderem demitir (art.º 105.º, n.º 2).

Neste período, caracterizado pelo sistema de governo semipresidencialista, houve,


em dado momento, conflitos entre as competências do Presidente da República e do
Primeiro-ministro.

Quando chamado pelo Presidente da República a pronunciar-se sobre quem


deveria assumir a chefia do Governo, se o Presidente da República, se o Primeiro-
Ministro, a decisão do Supremo Tribunal foi clara: segundo a Lei Constitucional, o Chefe
de Governo é, em Angola, o Presidente da República. Argumentando que a articulação
dos arts. 68.º, 114.º, 117.º e 118.º, alínea c) da Lei Constitucional atribuem ao Presidente
da República a preeminência na cadeia de comando do executivo – e que lhe cabe,
portanto, poderes de direcção e chefia do Governo –, entendeu o Supremo Tribunal que
as funções do Primeiro-Ministro são as de mero coadjutor do Presidente da República.

Deste modo, a decisão do Supremo Tribunal de Angola, teve como efeito


transformar a diarquia executiva característica dos sistemas semipresidenciais
expressamente prevista no texto constitucional, num presidencialismo particular e
“anomalamente” forte, porque desprovido de um sistema adequado de checks and
balances.32.

32
Coutinho, Francisco Pereira, (2007) in Revista de Negócios Estrangeiros: Publicação do Instituto
Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, p.77

31
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IIº SEMESTRE
Caracterização do Sistema de Governo Angolano na IIª República

Variáveis Sistema de Governo Semipresidencialista (anómalo)


1º Designação do Chefe de Estado Sufrágio Universal directo (art.57) *

2º Composição do Governo O Chefe de Estado é o Presidente do Conselho de Ministros,


existindo também um primeiro-ministro (art.108) *
O Governo é responsável politicamente perante o Presidente da
3º. Responsabilidade política do República e a Assembleia Nacional. (Art.105) *
Governo:
4º. Dissolução do Parlamento: O Chefe de Estado pode dissolver o Parlamento. (art.66)*
Os membros do Governo não pertencem ao Parlamento, e vice-
5º. Separação de poderes e de versa. (art.107,82)*
funções:
Julga a acção do Governo e o Chefe de Estado.*
6º. Papel do eleitorado:
7º. Sede aparente do poder: O Chefe de Estado.*

 Síntese conclusiva:

Diferentes das outras revisões feitas ao longo da Iª República, nas revisões de 1991
e 1992, os legisladores constituintes não se limitaram em alterar a letra, mas também o
espírito da própria Lei Constitucional. Portanto, a observação feita em torno do Regime
Político e do Sistema de governo que vigorou em Angola na IIª República, permite-nos
chegar as seguintes conclusões:

1) A Lei Constitucional angolana de 1992 instituiu um sistema de governo


semipresidencialista, reservando um papel politicamente activo ao Presidente da
República, à Assembleia Nacional e ao Governo.
2) O Semipresidencialismo angolano apresenta-se como um sistema dualista, isto é, com um
executivo bicéfalo, na medida em que a função executiva é partilhada pelo Presidente da
República e o Governo;
3) Nessa estrutura bicéfala, cabe ao Presidente da República a definição da orientação
política do país e, por consequência, a assunção de um papel preeminente na cadeia de
comando do executivo, conclusão a que também chegou o Tribunal Constitucional;
4) O Presidente da República é o Chefe de Estado, simboliza a unidade nacional, representa
a nação (interna e internacionalmente), assegura o cumprimento da Lei Constitucional e
é o Comandante em Chefe das Forças Armadas Angolanas;

32
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
5) O Presidente da República possui um conjunto diversificado de poderes (próprios,
partilhados, de controlo e simbólicos) do qual se destacam: a nomeação do Primeiro-
Ministro, a nomeação dos demais membros do Governo, a exoneração do Primeiro-
Ministro e a demissão do Governo e a dissolução da Assembleia Nacional;
6) A Lei Constitucional de 1992 consagrou um Regime Político Democrático pluralista,
baseado na Democracia indirecta ou representativa; um Sistema Eleitoral de
Representação Proporcional para a eleição dos Deputados, e um Sistema de maioria de
duas voltas para a eleição do Presidente da República.

33
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IIº SEMESTRE
A CONSTITUIÇÃO ANGOLANA DE 2010 E O INÍCIO DA IIIª
REPÚBLICA

 Generalidades:

A Constituição Angolana de 2010 apresentou uma nova configuração do Sistema


Político Angolano quer ao nível do Sistema Eleitoral, como na clarificação formal do
Regime Político. Dentre estas questões, o Sistema de Governo foi um dos temas que mais
debates suscitou (no espaço público nacional e não só): Em Portugal, o Professor Vital
Moreira, denominou-o como “Presidencialismo superlativo”, dado que para si,
aproveitou-se a maioria parlamentar resultante das eleições legislativas de 2008 para
tornar o Presidente da República o Titular do Governo, dispensando a existência de um
Primeiro-Ministro e descartando também a dependência política do governo perante o
Parlamento33.

Carlos Feijó, que inicialmente distanciava o Semipresidencialismo como melhor


Sistema de Governo para Angola refere que com a aproximação do texto constitucional
– por via jurisdicional – à realidade social e política marcada por uma espécie de
“constante idiossincrática”, a melhor opção de sistema de governo para Angola é a
presidencialista. Por sua vez, Nelson Pestana – muito próximo do que sustentara o
Professor Vital Moreira, conclui que a adopção do actual sistema de governo foi o
consumar de um “presidencialismo extremo”34. Por seu lado, João Melo afirma tratar-se
de “um sistema híbrido”, cujas competências atribuídas ao presidente pela Constituição
são as próprias de qualquer sistema presidencial (mesmo de base parlamentar, como passa
a ser o nosso), em que o chefe de Estado e o chefe do Governo são a mesma pessoa.

A grande maioria dos autores apresentados tendem a classificar o Sistema de


Governo saído da CRA de 2010 como Presidencialista. Porém, questiona-se, se, com base
somente na observação da Constituição, o referido sistema será mesmo Presidencialista?
A constatação axiomática é de que o Sistema de Governo não é exclusivamente
parlamentar. Todavia, também não se adequa em exclusivo ao presidencial. O Professor

33
Pereira, Gilberto.(20013) O Desenho Constitucional e a Presidencialização do Sistema de Governo,
Working Paper #22, Observatório Político, publicado em 16/02/2013, . p.6
34
Cf. Pestana, Nelson. Sistema “Parlamentar-Presidencial” ou Presidencialismo Extremo? In: Angola
Brief, May 2011, V. 1 No 16. Disponível em: http://goo.gl/eTNby

34
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Jorge Miranda concorda advertindo que “o sistema de governo angolano, não sendo,
evidentemente, um sistema parlamentar, tão pouco se ajustaria ao modelo presidencial”.
Assim, as razões são encontradas na Constituição.

O Presidente da República nos Sistemas Político-Constitucionais

O Estado moderno está intimamente associado à existência de um Chefe de Estado


uninominal, entidade que constitui o mais alto representante público do Estado35. Nas
repúblicas, salvo situações anómalas, essa missão cabe ao Presidente da República.

Tradicionalmente, o Chefe de Estado, seja ele um Monarca hereditário ou um


Presidente electivo, possui pelo menos uma função moral de legitimação do Estado e
personifica a sua soberania e a sua continuidade institucional. No moderno Estado
Constitucional, o seu modo de designação e o seu mandato, bem como as suas funções e
atribuições, vêm, por regra, definidas na Lei Fundamental de cada país.

Ao longo da história, os poderes do Chefe de Estado têm variado com o


desenvolvimento e a transformação do Estado, dos sistemas políticos e das formas de
governo, e é com base na consagração internacional do moderno Estado soberano europeu
que melhor se pode compreender e estudar as funções e competências desta entidade.

Os modernos Estados soberanos europeus nasceram com os tratados de Vestfália


(1648), no epílogo da Guerra dos Trinta anos, e com eles surgiu e se desenvolveu a ideia
de Estado independente, e na sequência dela também a ideia de Nação e da formação e
consolidação das identidades políticas nacionais36.

Registou-se, também nessa época, a nível interno dos Estados, a consumação de


um processo de centralização do poder na pessoa do Rei e do Estado em desfavor da
dispersão das comunidades locais e dos senhores feudais; e, a nível externo, assistiu-se a
uma emancipação política dos Estados nacionais, designadamente os Estados
protestantes, em relação ao Papa, em Roma, e ao Imperador, em Viena.

35
Todavia, a história conhece numerosos casos de chefia política colegial ou colectiva, desde Roma
(duunviratos, triunviratos) até às modernas “juntas” (sobretudo militares), posando pelo “Directório” da
Revolução francesa (1795-1799), em que a função de Chefe do Estado era exercida colectivamente por
cinco “directores”. Todavia, são, em geral, situações transitórias ou efémeras.
36
Araújo, Raul Carlos. (2009).O Presidente da República no Sistema Político,

35
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IIº SEMESTRE
Todo esse processo histórico foi acompanhado pelo aprofundamento da teorização
das noções de soberania e de Estado, bem como, mais tarde, de Nação e de Estado
nacional.

O Presidente da República: O Titular do Poder Executivo

A existência de um Presidente da República constitui um corolário do princípio


republicano, isto é, da estrutura republicana do Estado. A mesma supõe a adopção de uma
forma republicana de governo e a rejeição de sistemas de governo assentes nos princípios
da hierarquia e do privilégio e na resultante distinção qualitativa entre monarca e
súbditos.37 Em sentido antagónico, entendemos que ela sugere um modelo organizatório
assente no governo do povo, pelo povo e para o povo como preconizava Abraham
Lincoln, assente na igual dignidade cívica e política de todos os cidadãos.

Em Angola, o exercício das funções de Presidente da República inicia-se com a


tomada de posse e o respectivo juramento (art.113,º, n.º1, da CRA). O mandato, tem a
duração de 5 anos.

Atendendo o Sistema de Governo com pendor Presidencialista, o Chefe do


Executivo é o Presidente da República, investido de um órgão auxiliar, o Vice-Presidente.
Este poder, resulta da dinâmica político-constitucional instituída pela Constituição de
2010.

Assim sendo, enquanto Titular do Poder Executivo, o Presidente da República


possui as seguintes competências:

a) Definir a orientação política do país, nos termos da Constituição;


b) Dirigir a política geral de governação do País e da Administração Pública;
c) Submeter à Assembleia Nacional a proposta de Orçamento Geral do Estado;
d) Convocar as eleições gerais;
e) Dirigir os serviços e a actividade da Administração directa do Estado, civil e
militar, superintender a Administração indirecta e exercer a tutela sobre a
Administração autónoma;
f) Definir a orgânica e estabelecer a composição do Poder Executivo;

37
Machado, Jónatas (2013) Direito Constitucional Angolano, 2ªedição, Coimbra editora, p.243

36
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IIº SEMESTRE
g) Estabelecer o número e a designação dos Ministros de Estado, Ministros,
Secretários de Estado e Vice-Ministros;
h) Definir a orgânica dos Ministérios e aprovar o regimento do Conselho de
Ministros;
i) Solicitar à Assembleia Nacional autorização legislativa, nos termos da presente
Constituição;
j) Exercer iniciativa legislativa, mediante propostas de lei apresentadas à
Assembleia Nacional;
k) Convocar e presidir às reuniões do Conselho de Ministros e fixar a sua agenda de
trabalhos;
l) Dirigir e orientar a acção do Vice-Presidente, dos Ministros de Estado e Ministros
e dos Governadores de Província;
m) Elaborar regulamentos necessários à boa execução das leis.

O Presidente da República e a Fiscalização Política ao Poder


Legislativo

O Presidente da República tem mecanismos de controlo e fiscalização política à


Assembleia Nacional, como é o caso do veto político, havendo, neste caso, a recusa de
promulgar um diploma aprovado pelo Parlamento, devolvendo-o para a reapreciação
(artigo124.º/2 da CRA). O diploma pode ser reformulado pelos Deputados ou não, por
via da confirmação do voto reapreciando-se com uma maioria de 2/3 dos Deputados em
efectividade de funções (artigo 124.º/3 da CRA).

O presidente da República pode, ainda, solicitar ao Tribunal Constitucional que o


aprecie se está em conformidade com a Constituição, por via da fiscalização preventiva.
Neste caso, suspendem-se os efeitos até que o Tribunal declare com força obrigatória
geral, os efeitos jurídicos da constitucionalidade e inconstitucionalidade. Trata-se de uma
dúvida do Presidente da República, recorrendo ao órgão judicial especializado e
desinteressado politicamente, nos termos dos artigos 124.º e 228.º/4, 229.º da CRA.

A auto-demissão do Presidente da República é um meio de co-responsabilidade


política da Assembleia Nacional, por factos políticos que impossibilitam um
relacionamento político-institucional saudável. Neste tipo de situação, há uma espécie de
37
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IIº SEMESTRE
censura do Presidente da República ao Parlamento, um poder legislativo que não coopera.
Aqui está a chamada responsabilidade política partilhada entre a maioria parlamentar e o
executivo do Presidente.

Neste caso, o mecanismo descrito no art.128.º/1 e 2 da CRA revela uma


particularidade: o Presidente demissionário pode concorrer às novas eleições
diferentemente na renúncia ou destituição que limita candidatar-se às próximas eleições
(artigo 128.º/4 da CRA), podendo ser uma estratégia que resulta de uma opinião pública
favorável ao demissionário, pois, prevê uma vitória do seu Partido face aos adversários
coligados ou como cabeça de lista que não dirige o Partido com a maioria, podendo
acontecer quando as elites políticas de um determinado partido com a maioria não tem
confiança no Presidente da República ou seu sucedâneo38 será contra natura um cabeça
de lista líder do partido da maioria parlamentar ser limitado abusivamente pelo
parlamento.

Parece-nos que é nisto onde o modelo governativo angolano é rico e paradoxal em


que o seu pendor presidencialista e parlamentar se equilibram, ou seja, verifica-se os
checks and balances, freios e contra pesos, nem do Parlamento nem do Presidente.
Quando o convívio é impossível, cabe ao Presidente da República clarificar a situação
por via da sua auto-demissão. Já o Parlamento só pode destituir o Presidente, mas com
um consenso de 2/3 dos Deputados em efectividade de funções e cabe ao Tribunal
Supremo julgar, absolvendo ou destituindo o Presidente o que não é fácil, pois, são órgãos
não pressionáveis politicamente.

Assembleia Nacional: O Poder Legislativo

O princípio democrático significa que todo o poder tem o seu fundamento na


vontade popular. Esse poder não é exercido directamente, mas sim de forma indirecta e
deliberativa, através dos partidos políticos, do direito de sufrágio e do mandato
representativo. Embora a soberania popular se exprima através de outros órgãos

É o caso de um cabeça de lista independente, “ herdeiro” político que não tem agremant das elites ou mesmo
conflito posterior a meio do mandato, exercício abusivo de mecanismos políticos que obstaculizam o
executivo por falta de solidariedade. Risco de perda da autoridade do partido face ao Chefe de Estado em
deriva ideológica, mas neste caso deve destituí-lo ou tolerá-lo.

38
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IIº SEMESTRE
constitucionais, a Assembleia Nacional é órgão democrático representativo (art.141.º,
n.º2, da CRA) por excelência de todos os angolanos.

É um órgão de soberania autónomo, colegial, permanente e unicameral, com


poderes de representação nacional. A autonomia deste órgão traduz-se no direito de auto-
reunião que lhe é reconhecido. A colegialidade significa que se trata de um órgão onde
as decisões são tomadas por maioria na ausência de consenso.

A Assembleia Nacional tem carácter permanente, traduzindo-se numa


continuidade institucional. Esta permanência como órgão constitucional de soberania não
fica prejudicada pelos elementos de descontinuidade material (continuidade de
legislatura) e de descontinuidade pessoal (concretizada na renovação periódica dos
Deputados em resultado do sufrágio).

Por sua vez, a representação nacional significa que os Deputados não representam
especificamente os interesses dos círculos eleitorais em que são eleitos, mas sim toda a
nação angolana (art.147.º da CRA).

Não existe, portanto, lugar para um mandato imperativo dos Deputados. Os


mesmos são chamados, por isso, a pensar no interesse nacional globalmente considerado,
isto é, na res publica, e não nos interesses particulares de grupos de cidadãos
territorialmente delimitados. Isto não significa, evidentemente, que os mesmos não
devam atender aos interesses dos cidadãos dos círculos eleitorais que os elegeram. Os
Deputados devem tomar esses interesses na devida consideração para que os mesmos
sejam devidamente integrados e ponderados no debate democrático cívico-republicano
que, partindo da consideração de todos os interesses particulares relevantes, procurará
transformá-los, pela via do diálogo e da deliberação, no interesse público.

Os Deputados têm, assim, um mandato individual e livre, embora se encontrem


sujeitos, naturalmente, às regras da democracia partidária. A doutrina fala, a este
propósito, num mandato imperativo partidário. As regras que presidem à disciplina do
mandato do Deputado procuram equilibrar estas duas realidades, do mandato individual
e da pertença a um partido político.

Assim, os Deputados podem abandonar o partido político a que pertencem sem


perder o mandato de Deputado, embora não possam mudar de partido durante o exercício

39
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IIº SEMESTRE
do mandato. Por outro lado, embora sejam inadmissíveis sanções legais para a violação
da disciplina de voto, são legítimas sanções aplicadas pelo partido aos Deputados que
desconsiderem as suas instruções39.

A legislatura tem a duração de 5 anos Parlamentares, designados por Sessões


Legislativas, que têm início no dia 15 de Outubro de cada ano (art.157,º.nos 1 e 2, da
CRA).

Um importante órgão da Assembleia Nacional é a Comissão Permanente. Esta


Comissão funciona: fora do período de funcionamento efectivo da Assembleia Nacional;
entre o termo de uma legislatura e o início de outra; nos demais casos previstos na
Constituição e na lei (art.156.º da CRA).

A Comissão Permanente é presidida pelo Presidente da Assembleia Nacional,


integrando ainda: os Vice-Presidentes da Assembleia Nacional; os Secretários de Mesa;
os Presidentes dos Grupos Parlamentares; os Presidentes das Comissões Permanentes de
Trabalho; o Presidente do Conselho de Administração; a Presidente do Grupo das
Mulheres Parlamentares; doze Deputados na proporção dos assentos parlamentares (art.
156.º, n.º 2, da CRA).

 São Competências da Comissão Permanente:

1) Exercer os poderes da Assembleia Nacional relativamente ao mandato dos


Deputados;
2) Preparar a abertura das secções legislativas;
3) Convocar extraordinariamente a Assembleia Nacional, quando haja a necessidade
de se analisar assuntos específicos de carácter urgente; acompanhar as reuniões
das Comissões de Trabalho Especializadas, Eventuais e Parlamentares de
Inquérito fora do período de funcionamento efectivo da Assembleia Nacional
(art.156.º, nº3, da CRA).
4) No termo da legislatura, a Comissão Permanente mantém-se em funções até à
abertura da reunião constitutiva da nova Assembleia eleita (art.156,º,n.º4,da CRA)

39
Machado, Jónatas (2013) Direito Constitucional Angolano, 2ªedição, Coimbra editora, p.254

40
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Competências e Funções da Assembleia Nacional

A Assembleia Nacional apresenta-se como órgão complexo e multifuncional. Em


primeiro lugar, assinala-se-lhe uma função electiva (art.163.º). A mesma desempenha,
para além disso, uma função de revisão constitucional art.161.º, al.a), operando como
poder constituinte derivado. Compete-lhe ainda o exercício da função legislativa,
Art.161.º, al. b) função de controlo e fiscalização política art.162.º, als. a), b), c), e
e). Cabe-lhe, igualmente, o exercício de uma função autorizante art.161.º,al. c), e 162.º,
al. d), havendo matérias que lhe são reservadas, em termos absolutos ou relativos
(arts.164.º e 165.º)40.

A Assembleia Nacional exerce funções políticas que se consubstanciam na função


legislativa, na função de controlo, na função de fiscalização e na função autorizante.

A função legislativa diz respeito à competência que este órgão possui no domínio
legislativo. Nos termos da Constituição a Assembleia Nacional tem competência
legislativa sobre todas as matérias, salvo as que estejam acometidas ao Presidente da
República. No âmbito do seu papel de controlo e fiscalização, de acordo com o princípio
da separação de poderes, a Assembleia Nacional exerce a função política de controlo não
apenas do Executivo mas também de outras esferas de actividade como a Administração
Pública.

A função de controlo é exercida através das seguintes actividades:

a) Receber e analisar a Conta Geral do Estado e de outras instituições públicas


definidas por lei.
b) Analisar e discutir a aplicação do estado de guerra, do estado de sítio ou do estado
de emergência velando para que os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos
estejam salvaguardados nos termos constitucionalmente estabelecidos;
c) Analisar, para efeitos de recusa de ratificação ou de alteração os decretos
legislativos presidenciais aprovados no exercício de competência legislativa
autorizada;

40
Machado, Jónatas (2013) Direito Constitucional Angolano, 2ªedição, Coimbra editora, p.255

41
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
d) Promover o processo de acusação e destituição do Presidente da República nos
termos constitucionalmente estabelecidos.

A função de fiscalização da Assembleia Nacional consiste:

a) No controlo da aplicação da Constituição e das leis;


b) Na apreciação dos decretos legislativos presidenciais a fim de verificar a sua
conformidade com as autorizações legislativas feitas ao Presidente da República;
c) Na avaliação, para efeitos de conversão em lei ou rejeição, dos decretos
presidenciais provisórios;
d) Na constituição de Comissões Parlamentares de Inquérito para a apreciação de
actos da administração e de empresas públicas, nos termos estabelecidos no
número seguinte da presente lei.

No exercício da sua função autorizante, compete à Assembleia Nacional:

a) Aprovar o Orçamento Geral do Estado


b) Aprovar para a ratificação e adesão os tratados, convenções, acordos e outros
instrumentos internacionais que versem matéria da sua competência legislativa
absoluta, bem como os tratados de participação de Angola em organizações
internacionais, de rectificação de fronteiras, de amizade de cooperação, de defesa
e respeitantes a assuntos militares;
c) Aprovar a desvinculação de tratados, convenções, acordos e outros instrumentos
internacionais;
d) Autorizar o Executivo a contrair e a conceder empréstimos, bem como a realizar
outras operações de crédito que não sejam de dívida flutuante, definindo as
respectivas condições gerais e fixar o limite máximo dos avales a conceder em
cada ano ao Executivo, no quadro da aprovação do Orçamento Geral do Estado.

A Fiscalização Política ao Executivo Angolano

Os instrumentos para o exercício da fiscalização política pelo Parlamento são os


que, de acordo com o Sistema de Governo adoptado em determinado país, estejam
alinhados para a realização desta tarefa.

42
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Nos sistemas de Governo em que exista a responsabilidade política do Governo
perante o Parlamento41, os mecanismos de fiscalização Política serão os adequados a
responsabilizar politicamente o Governo em caso de perda de confiança no Governo e no
seu Programa de governação.

Entretanto, não se pode confundir o conceito de controlo parlamentar com o de


responsabilidade política, porquanto são conceitos bem distintos, sendo o segundo uma
espécie do género mais vasto constituído pelo primeiro – o qual não incluiria como seu
elemento essencial nem uma decisão formal nem uma sanção. Existe fiscalização política
despida de responsabilidade política do Governo perante o Parlamento. Como, aliás,
refere Nuno Piçarra42, “afigura-se tão inexacto afirmar que sem efectivação da
responsabilidade política do Governo não há controlo parlamentar, como afirmar que
aquela não traduz o exercício de tal controlo”.

No mesmo sentido, ensina J.J Gomes Canotilho que “as funções de controlo (…),
ao contrário do que por vezes se afirma, não se identificam com os mecanismos
destinados a dar operacionalidade à relação de confiança parlamento-governo.

Quais são os mecanismos de fiscalização política no sistema de governo


angolano?

Interessa-nos aqui analisar os seguintes mecanismos de fiscalização: a


Interpelação, o Inquérito e as Audições:

1) A Interpelação Parlamentar
2) O Inquérito Parlamentar
3) A Audição Parlamentar

1) A Interpelação Parlamentar: Entenda-se por Interpelação Parlamentar, a


competência constitucional e legal conferida ao Parlamento para, querendo, convocar
membros do Governo e solicitar esclarecimentos sobre o exercício da função governativa
em matéria específica de política reservada para determinado sector da acção governativa.
Dito de outro modo, é o poder conferido ao Parlamento de questionar o Governo sobre as
medidas que este adoptou ou está a adoptar para prosseguir determinada atribuição.

41
Parlamentar e Semi-Presidencialista
42
Piçarra, Nuno, O Inquérito Parlamentar…,p.35

43
Pedro Quiriri
MATERIAL DE APOIO
CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Constitui uma forma de avaliar pontualmente o desempenho da acção governativa, isso
é, a sua conformidade legal, bem como os méritos desta mesma governação.

É um mecanismo de controlo típico de sistemas de Governo Parlamentar ou Semi-


presidencial, nos quais o Governo é politicamente responsável perante o Parlamento.
Traduz-se “em pedidos de informação e explicação aos diferentes ministros sobre o
funcionamento dos respectivos departamentos ou um sector particular da respectiva
actividade, com vista a provocar um debate geral, permitem aos deputados e ao
parlamento questionar, interpelar, criticar e pôr em cheque o exercício governamental”
No Sistema de Governo Angolano (Presidencialista-Parlamentar) não existe
responsabilidade política do Executivo perante o Parlamento. Ao abrigo desta
irresponsabilidade política, a fiscalização política por via da Interpelação Parlamentar é
incompatível com o sistema de Governo adoptado na Constituição angolana de 2010.

2) O Inquérito Parlamentar: O Inquérito Parlamentar é a competência reservada


ao Parlamento para verificar e controlar a conformidade legal dos actos emanados pelo
Governo, no desempenho das suas funções. O Inquérito Parlamentar é realizado por uma
comissão de inquérito, criada ad hoc, para investigar determinada situação alegadamente
irregular e que tenha sido de conhecimento oficial do Parlamento ou discutida numa das
suas sessões plenárias.

Estas comissões são dotadas de poderes de investigação e coercivos próprios da


autoridade judiciária, mas não idênticos, posto que não se trata de órgãos judiciais em
sentido estrito, mas de órgãos políticos, não podendo como tal substituir-se aos tribunais
e ao poder judicial43. É importante referir, que o Inquérito Parlamentar é um instrumento
de controlo político do Parlamento sobre o Governo que é transversal aos sistemas de
governo. Isso pressupõe que, independentemente do Sistema de Governo adoptado por
determinado país, o Inquérito Parlamentar, enquanto mecanismo de realização da
fiscalização parlamentar, não tem influência directa sobre o mandato do governo. Não
obstante, esta modalidade de controlo parlamentar encontra amparo constitucional, já que
a mesma atribui à Assembleia Nacional a competência para, no domínio da sua

43
Queiroz, Cristina, O Parlamento…,p.89

44
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
organização interna, constituir Comissões Parlamentares de Inquérito alínea c) do artigo
160.º da CRA.

O Inquérito Parlamentar não se confunde com um a Interpelação pela seguinte


ordem de razões:

a) O Inquérito é efectuado por uma comissão especificamente criada para este efeito.
A Interpelação, por seu turno, é sempre realizada pelo Plenário Parlamentar;
b) Os Inquéritos destinam-se a apreciar os actos e as actividades do Poder Executivo,
da Administração Pública e das demais instituições públicas. As Interpelações
incidem essencialmente na apreciação do mérito da actividade governativa e não
apenas sobre a conformidade legal das suas acções;
c) Enquanto as Comissões Parlamentares de Inquérito dispõem de poderes de
investigação para apuramento dos factos que estiverem na base da sua criação, as
interpelações parlamentares resumem-se a debater determinado assunto da
actuação governamental;
d) Contrariamente às Interpelações, que são livres, feitas em Plenário da Assembleia
Nacional, com a possibilidade de intervenção de todos os Deputados e sem
necessidade de formalismo ulteriores, a instauração de inquérito parlamentar é
dependente de uma tramitação ritualizada legalmente estabelecida, carece de
criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito e apenas os Deputados que
integrarem a Comissão podem indagar as instituições e os seus titulares objecto
do inquérito parlamentar.

3) As Audições Parlamentares: Para efeitos do artigo 268.º do Regimento da


Assembleia Nacional (RAN), entendem-se por Audições Parlamentares, as reuniões
organizadas por Comissões Parlamentares para auscultar membros do Executivo,
funcionários ou especialistas de quaisquer áreas, para esclarecimento de assuntos de
interesse para os trabalhos parlamentares44. As Audições Parlamentares aos membros do
Executivo e de altos funcionários ministeriais, em obediência ao actual Sistema de

44
Contrariamente ao Inquérito Parlamentar, em que é criada uma comissão específica para a realização de
uma determinada tarefa, dentro de um prazo pré-determinado, a Audição não depende de criação de um
grupo de trabalho ad hoc para a executar.

45
Pedro Quiriri
MATERIAL DE APOIO
CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Governo, só podem ser realizadas mediante prévia autorização do Titular do Poder
Executivo e a pedido do Presidente da Assembleia Nacional.

Existem manifestas diferenças entre a audição e a interpelação parlamentar,


nomeadamente:

a) A Interpelação é realizada pelo Plenário, podendo todos os Deputados inscritos


apresentar questões aos membros do Executivo. A Audição é concretizada em
sede das Comissões de Trabalho Especializado e apenas os membros da Comissão
mencionada podem colocar questões às pessoas e instituições auscultadas;
b) A Interpelação é genérica, podendo abordar vários aspectos da acção governativa.
A Audição é específica, dirigida a um assunto em concreto;
c) A Interpelação é dirigida, em regra, aos auxiliares do Presidente da República
enquanto titular do Poder Executivo. A Audição pode ter como alvo auscultar não
apenas os membros do Executivo, como também funcionários ou especialistas de
quaisquer áreas.
 O Acórdão n.º319/13, de 23 Outubro, do Tribunal Constitucional

O Tribunal Constitucional da República de Angola no seu mais recente acórdão


(Acórdão n.º319/2013 de 9 de Outubro) verificando a constitucionalidade de diversas
normas inscritas no Regimento da Assembleia Nacional, alterou a configuração das
modalidades de fiscalização política no Sistema de Governo Angolano.

No entendimento deste Tribunal, a nova configuração constitucional introduziu


uma alteração substancial no sistema de governo e na natureza do Poder Executivo e que
o Sistema de Governo adoptado é agora de base presidencial e o Executivo é um órgão
unipessoal. Deste modo, não se podem aplicar ao actual sistema de governo angolano os
mesmos mecanismos de controlo e fiscalização que vigoravam com a Lei Constitucional
de 1992. Nesta conformidade, o Tribunal Constitucional considera que, nos termos da
Constituição da República de Angola, o Executivo não é politicamente responsável
perante o Parlamento, nem há uma relação de subordinação política do mesmo ao

46
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
Legislativo, e, em consequência, declarou inconstitucionais as seguintes normas do RAN:
alínea c) do artigo 261.º, o n.º 2 do artigo 261.º, os artigos 260.º, 269.º, 270.º e 268.º45.

Nesta ordem de ideias, a declaração de inconstitucionalidade é parcial, não afectou


a validade de todo o RAN, mas determinou a nulidade da alínea c) do artigo 261.º, o n.º
2 do artigo 261.º, os artigos 260.º, 269.º, 270.º e 268.º. Relativamente as Audições
Parlamentares, o mesmo Tribunal declara a inconstitucionalidade parcial do art. 268º do
RAN e sentencia que as Audições Parlamentares aos membros do Executivo e de altos
funcionários ministeriais, em obediência ao actual Sistema de Governo, só podem ser
realizadas mediante prévia autorização do Titular do Poder Executivo e a pedido do
Presidente da Assembleia Nacional.

SISTEMAS ELEITORAIS: Perspectivas Introdutórias

 Generalidades:

As eleições são processos institucionalizados para escolha de representantes


selecionados entre alguns ou todos os membros oficialmente reconhecidos de uma
organização. Gianfranco Pasquino considera as eleições livres, realizadas em prazo pré-
estabelecidos e significativos um dos aspectos fundamentais, “talvez o principal da
democraticidade de um Regime Político”.

O sistema eleitoral corresponde ao conjunto de regras estabelecidas por lei com


vista à definição do método a utilizar, em cada tipo de eleição, para converter o número
de votos em mandato46. Para Proença de Carvalho47, o sistema eleitoral traduz-se no
conjunto de regras, com a sua lógica e coerência internas, que vão determinar o modo de
eleição dos titulares dos órgãos políticos.

45
Santos, Onofre dos; Nunes, Elisa Rangel; Gouveia, Jorge Bacelar (2014) Direito de Angola, Luanda:
Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, p.173-174.
46
Amaral, Freitas Diogo. (2014) Uma Introdução à Política. Lisboa: Bertrand, p.357
47
Carvalho, Manuel Proença de. (2005) Manual de Ciência Política e Sistemas Políticos e Constitucionais.
Lisboa: Sociedade Editora,, p.119

47
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
 Classificação (ou tipologia) dos Sistemas Eleitorais:

Um determinado sistema eleitoral não assume as mesmas características nem


produz os mesmos efeitos nos diferentes Estados em que é aplicado. A criação de um
sistema eleitoral é condicionada pelo Sistema Político de cada Estado, o que quer dizer
que ele pode sofrer arranjos através da combinação dos vários elementos que o compõem.

Do facto de se moldar o Sistema Eleitoral em função da realidade social, económica


e política de um determinado Estado torna-se possível afirmar que existem inúmeros
sistemas eleitorais. Por esse motivo convencionou-se agrupar essa diversidade em
categorias, estabelecendo-se assim alguns critérios de classificação dos sistemas
eleitorais, tais como: a fórmula eleitoral utilizada, a combinação de vários elementos, a
escala de proporcionalidade, diferença de objectivos e de lógicas políticas a que
respondem, estática e dinâmica dos sistemas eleitorais, ou ainda, através dos princípios
de representação política. Desses critérios (e não só), originaram várias tipologias:
Maioritários e Proporcionais; Maioritários, Semi-proporcionais e Proporcionais;
Maioritário simples, Maioritários, Proporcionais e Mistos; Maioritário simples,
Maioritários a duas voltas, Voto alternativo, Voto de bloco e Voto partidário de bloco.

Devido a existência dessa grande diversidade dos sistemas eleitorais, maior parte
dos autores optam por distinguir duas “grandes famílias” de sistemas eleitorais: os
sistemas maioritários e os sistemas de representação proporcional48.

Até aos últimos anos do século XIX, a questão do modo escrutínio não levantou
grandes discussões. O mais difundido era o Sistema Eleitoral Maioritário de uma volta
que funcionava na Grã- Bretanha e nos domínios britânicos, na América Latina, na Suécia
e Dinamarca. Exceptuando estes dois últimos países, o resto da Europa continental
imitava o Sistema francês, quer dizer o Sistema Eleitoral Maioritário de duas voltas.
Entretanto, entre 1850 e 1900, os técnicos desenvolveram a ideia de um Sistema Eleitoral
de Representação Proporcional., adoptado na Bélgica em 1899 e na Suécia em 1908.
Este novo modo de escrutínio foi adoptado em toda a Europa continental entre 1914 e
1920. A própria França adoptou igualmente esse sistema em 1945, para o abandonar em
1958.

48
Martins, Manuel Meirinho.( 2008) Representação Política, Eleições e Sistemas Eleitorais. ISCSP,

48
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
a) Sistema maioritário a uma volta:

É o sistema mais antigo e que ainda hoje persiste na Grã-Betanha e nos Estados
Unidos. No sistema maioritário a uma volta, também conhecido como maioria relactiva,
pluralidade simples, maioria simples, ou ainda, o primeiro ganha tudo (first past the post,
em analogia a uma corrida de cavalos), “considera-se eleito, na primeira e única volta, o
candidato que obtiver maior número de votos, mesmo que só tenha tido a seu favor uma
maioria relativa”49. O eleito é designado por maioria relativa sobre qualquer outro
candidato, mesmo que esta maioria seja inferior á maioria absoluta (metade mais um) dos
sufrágios expessos. Quer dizer, o candidato que obtém na única volta, o maior número de
votos é eleito, seja qual for o número de votos obtidos pelos demais candidatos e
independentemente da percentagem de eleitores que hajam votado nele.

A principal característica deste sistema, refere Manuel Meirinho é a sua


simplicidade: a eleição depende do maior número de votos (maioria simples) não sendo
necessário que esse número seja superior ao total do conjunto de votos dos restantes
candidatos. Assim, depois da votação ter sido realizada e os votos contados, os candidatos
ou partidos com mais votos são declarados vencedores.

Este sistema, sublinha Meirinho por um lado: (vantagens)

1. Promove a estabilidade governativa, pois gera governos estáveis de


um só partido;
2. Gera oposições parlamentares coerentes e fortes, facilitando a sua
união para efeitos de alternativa real ao governo;
3. Encoraja os partidos a terem uma acção abrangente e integradora
das várias clivagens;
4. Favorece uma relação mais próxima entre eleitos e eleitores, o que
facilita a responsabilização dos representantes, e tende a valorizar os capitais
sociais e políticos individuais dos candidatos, uma vez que as opções de
escolha eleitoral se concentram em pessoas e não em partidos.
Mas, por outro: (desvantagens)

49
Amaral, Freitas Diogo. (2014) Uma Introdução à Política. Lisboa: Bertrand, p.358

49
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
1. Penaliza fortemente a representação dos pequenos partidos. A
eficácia do voto é garantida praticamente ao partido vencedor, o que gera
resultados muito desproporcionais;
2. Exclui as minorias da representação. Dificulta a representação
parlamentar feminina, por comparação com os sistemas de representação
proporcional;
3. É pouco sensível às mudanças de opinião pública, o facto dos
partidos serem bastante favorecidos na conversão dos votos em mandatos
significa que um apoio [político] reduzido pode, mesmo assim, produzir um apoio
representativo elevado;
4. O poder legislativo fica muito subordinado ao executivo já que os
deputados suportam o partido no governo.

b) Sistema maioritário a duas voltas:

A origem deste sistema remonta a 1958 com o colapso da IV república francesa e


com a instauração da V república, na sequência da eleição do general de Gaulle. Em
França, embora tenha havido um período de interrupção em que se tinha instaurado o
sistema de representação proporcional, o sistema maioritário a duas voltas foi reposto e
se mantém até os dias de hoje.

Este sistema, também designado de dois votos, segundo voto e de fica sai, pode ser
aplicado quer em eleições presidenciais, quer em eleições legislativas. Em eleições
presidenciais, a regra é que na segunda volta são admitidos os dois candidatos mais
votados na primeira volta e o mais votado vence. Em eleições legislativas, mais do que
dois candidatos podem disputar a segunda volta desde que ultrapassem determinada
cláusula barreira50

O sistema maioritário a duas voltas é mais comum em eleições presidenciais, onde


“na primeira volta, só são eleitos os candidatos que obtiverem mais de metade dos votos
válidos; à segunda volta, podendo concorrer os dois candidatos mais votados na primeira,
ganha o mais votado, que terá, em princípio, mais de metade dos votos”.

50
No caso francês, por exemplo, os candidatos que na primeira volta não tenham obtido mais de 50% dos
votos passam à segunda volta, desde que ultrapassem a cláusula barreira de 12,5% dos votos (MARTINS,
2008:254).

50
Pedro Quiriri
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CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO CONSTITUCIONAL
IIº SEMESTRE
A vantagem da segunda volta reside no facto de permitir aos eleitores exprimirem
a sua preferência sem votarem inutilmente. Com efeito, é apenas na segunda volta que os
partidos se reagrupam, de acordo com as suas tendências político-ideológicas, e que o
eleitor cujo candidato preferido se retirou da competição verá a sua escolha ditada não
tanto pela simpatia que tenha por um dos candidatos, mas pela hostilidade que ele nutre
pelos outros.

É por isso que é hábito, quando se refere ao Sistema Maioritário de duas voltas,
dizer-se que na primeira volta escolhe-se, e na segunda elimina-se, ou que na primeira
volta se vota “por”e na segunda “contra”. A existência deste modo de escrutínio leva os
partidos com tendências vizinhas a concluírem acordos, com vista aos seus eleitores
votarem no mesmo candidato na segunda volta.

Vejamos um exemplo: se houver três candidatos A-B-C, sendo os dois primeiros


de partidos de “direita” e o candidato C de um partido de “esquerda” e acontecer que na
primeira volta o partido A tenha 20% dos votos, o candidato B 25% e o candidato C
30% dos votos, quando se passar à segunda volta, os partidos da “direita” se quiserem
ganhar a eleição terão de se unir e orientar os seus eleitores no sentido de votarem no
candidato B, que é o que tem mais possibilidades de bater o candidato C.

Assim, todos os votos da “direita” na segunda volta, irão para um só candidato, o


que provavelmente ganhará as eleições, porque à partida poderá contar com 45% dos
votos do eleitorado…(hipótese)…

A escolha entre a volta única e as duas voltas depende, na prática, do número de


partidos existentes no país. Se há dois grandes partidos a concorrer às eleições, a volta
única basta; se há mais de dois partidos com probabilidade de ganharem as eleições a
segunda volta é indispensável. (no caso de eleições parlamentares ou legislativas).

c) Sistema Eleitoral de Representação Proporcional:

Nos últimos anos do século XIX desenvolveu-se nos países europeus um


movimento em favor da representação proporcional como modo de escrutínio para a
eleição das assembleias.

51
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
O objectivo dessa tendência era o de permitir que o parlamento em razão do seu
modo de eleição, fosse um reflexo mais fiel das correntes de opinião que se manifestavam
em cada país, estando estas assim, representadas nas assembleias em proporção do
número dos sufrágios que obtivessem.

O sistema eleitoral de representação proporcional caracteriza-se pela atribuição a


cada partido político de um número de representantes em correspondência com o número
de votos alcançados, ou seja, transmite a possibilidade dos representantes serem eleitos
na proporção dos votos obtidos51. É o caso das eleições para os Parlamentos de Angola,
Portugal, Espanha, Grécia, etc.

Na concepção de Léon Duguit, o Sistema Eleitoral de Representação


Proporcional é aquele que “assegura, em cada circunscrição eleitoral, aos diferentes
partidos, contando um certo número de membros, um número de representantes, variando
segundo a importância numérica de cada um”. Refere-se às eleições para as Câmaras de
Deputados52.

Na definição de Harold Gosnell, “ é o sistema que visa assegurar um corpo


legislativo que reflita, com uma exactidão mais ou menos matemática, a força dos partidos
no eleitorado”. Este sistema “consiste em ser o único meio de representar todos os
interesses, todas as opiniões, em corporação do número de votos com que contam”.

O princípio de base da representação proporcional consiste em assegurar uma


representação das minorias em cada circunscrição eleitoral, na proporção exacta do
número de votos obtidos. O sistema funciona da seguinte maneira: cada circunscrição
eleitoral sabe, à partida quantos deputados pode eleger. Em cada circunscrição cada
partido apresenta-se às eleições com uma lista que comporta tantos nomes quanto os
lugares a preencher (número de deputados a eleger).

O escrutínio pode ser uninominal ou de lista. É uninominal quando cada


circunscrição eleitoral pode eleger um deputado; é de lista (plurinominal) quando cada
circunscrição elege vários candidatos que, geralmente, se agrupam por listas. O primeiro
supõe que as circunscrições eleitorais são exíguas; o segundo corresponde as grandes

51
Carvalho, Manuel Proença de. (2005) Manual de Ciência Política e Sistemas Políticos e Constitucionais.
Lisboa: Sociedade Editora,, p.121
52
Malufe, Miguel Alfredo. Teoria Geral de Estado, p.221

52
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
circunscrições eleitorais. A escolha entre o escrutínio de lista ou sistema uninominal
depende sobretudo da escolha entre a representação proporcional e o sistema maioritário.
Aquele não pode funcionar senão no quadro do sistema de lista.

SISTEMA ELEITORAL ANGOLANO

Distante da aspiração de uma visão ampla, envolvendo um alargamento


substancial aos diferentes elementos do processo eleitoral, a presente análise incidirá o
seu foco numa visão restrita do Sistema Eleitoral na Constituição Angolana de 2010, com
especial destaque a eleição do Presidente da República. Mas, ainda assim, a generalidade
da doutrina converge em torno da necessidade de clarificação conceptual, uma vez que,
em termos gerais, os Sistemas Eleitorais podem ser vistos em sentido amplo e em sentido
restrito.

No sentido amplo, a definição de Sistema Eleitoral envolve todos os aspectos


relacionados com o processo eleitoral, partindo do direito de sufrágio, passando pela
administração eleitoral, até chegar ao contencioso eleitoral. Em sentido restrito, “os
sistemas eleitorais determinam as regras através das quais os eleitores expressam as suas
preferências políticas, convertendo votos em mandatos parlamentares (no caso de
eleições legislativas) ou em cargos políticos (no caso de eleições presidenciais, por
exemplo) ”53.

O actual Sistema Eleitoral Angolano tem como alicerce a Constituição de 2010.


A nova Constituição em vigor, veio determinar um marco de viragem relevante, não
apenas porque pôs fim ao longo período de transição constitucional, iniciado em
1991/1992, mas também pelas substanciais alterações em diferentes domínios. Aqui,
interessa-nos reflectir sobre as principais alterações feitas ao modelo de eleição do
Presidente da República e dos Deputados à Assembleia Nacional:

No actual sistema eleitoral, os Órgãos de Soberania que exercem função política


já não são eleitos separadamente. Isto é, já não há, separadamente, uma eleição
presidencial e uma eleição legislativa, mas sim uma única eleição que a Constituição

53
Martins, Manuel Meirinho (2008) Representação Política, Eleições e Sistemas Eleitorais: uma
introdução, Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, p.186

53
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
denomina “eleições gerais”, através da qual são eleitos o Presidente da República, o Vice-
Presidente da República e os Deputados à Assembleia Nacional.

A consagração constitucional deste modelo de “eleições gerais” acarreta um


conjunto de consequências54:

a) Eleição de dois órgãos de soberania num único acto eleitoral;


b) Apresentação e avaliação conjuntas das candidaturas à “eleição presidencial” e à
“eleição legislativa”;
c) Escolha pelo eleitor de dois órgãos de soberania com um único voto para a eleição
do Presidente da República e dos Deputados à Assembleia Nacional, o qual
permite a identificação de ambos;
d) Obrigatoriedade de todos os partidos políticos apresentarem um candidato a
Presidente da República;
e) Obrigatoriedade de voto coincidente entre partido político e candidato a
Presidente da República e vice-versa;

 Modelo de Eleição Parlamentar na génese

Embora seja comum afirmar-se que existe um sistema eleitoral independente para
a eleição do Presidente da República (e do Vice-Presidente), a verdade é que em rigor, o
único sistema eleitoral relevante (não apenas por constar expressamente da Constituição)
é o sistema de representação proporcional, com base no qual são apurados os assentos
para cada partido e para cada coligação.

A escolha do Presidente República é mera consequência do modo de eleição dos


Deputados e do apuramento daí resultante. Por este motivo, apesar de tratadas de forma
constitucionalmente diversa, quer as candidaturas a Presidente da República, quer as
candidaturas a Deputados, o legislador constituinte admite que o nome do candidato a
Presidente da República encabece a lista de candidatos a Deputados para o círculo
nacional e, também permite, por essa via, que o candidato a Presidente da República seja,
alternativamente, um candidato a Deputado. No caso de o partido não vencer as eleições,
e tendo a lista para o círculo nacional obtido votos suficientes para tal, o cabeça de lista

54
Almeida, Adão de; Feijó, Carlos Maria, (2015) Constituição da República de Angola: Enquadramento
Dogmático: nossa visão, Vol. III, Lisboa: Almedina, p. 377

54
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
(então candidato a Presidente da República) ocupa, com naturalidade, o assento de
Deputado.

 Eleição do Presidente da República:

“É eleito Presidente da República e Chefe do Executivo o cabeça de lista, pelo


círculo nacional, do partido político ou coligação de partidos políticos mais votado no
quadro das eleições gerais”. Ao referir que é eleito o Presidente da República o cabeça-
de-lista, pelo círculo nacional, do partido político mais votado, não exigindo qualquer
maioria específica, a Constituição opta claramente por um sistema eleitoral de volta única,
isto é, basta que um partido político e o seu candidato obtenham mais votos que os demais
(maioria relativa), independentemente da diferença e da maioria percentual alcançada,
para ser considerado vencedor55.

Quanto a legitimidade do Presidente da República, esta não se põe em causa a


uma vez que ele é identificado claramente junto dos eleitores e todo o processo de
campanha eleitoral gravita em torno da promoção da sua imagem, tornando evidente,
entre os eleitores, que se vai eleger também o Presidente da República. Portanto, pode
variar o grau de visibilidade do cabeça de lista, quando comparado com o próprio partido,
mas essa questão não é um problema de falta de critérios que identificam a figura do
candidato, antes da estratégia ou do contexto político56.

 Fórmulas do Sistema Proporcional:

No que concerne às fórmulas do sistema proporcional de conversão de votos em


mandatos, explica-nos Martins consideram-se dois grupos de métodos: o das quotas em
maiores restos (Hare, Droop, Imperiali,) e o das médias mais altas (Hondt, Saint
Lague .).. Uma vez que a quota de Hare e o método de Hondt são as fórmulas adoptadas
por Angola, vejamos como estas se processam.

A quota de Hare requer a obtenção de um determinado número que funciona como


repartidor (quota) dos mandatos a partir dos votos expressos. Esse número é obtido pela
divisão total de votos apurados pelo número de mandatos a eleger. Posteriormente, os

55
Ibid, p.382
56
Pinto, João (2012) Sistema Eleitoral Angolano. in Revista da Faculdade de Direito, Universidade
Agostinho Neto Nº12

55
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
votos obtidos por cada partido são dividos pela quota, obtendo-se assim o número de
mandatos para cada partido. Restando alguns mandatos para serem distribuídos, estes são
atribuídos aos partidos, um por um, pela ordem decrescente dos maiores restos (maiores
casas decimais). O sistema eleitoral angolano define que sejam eleitos 130 deputados pelo
método de Hare, essa distribuição é feita da seguinte forma:

Tabela 1. Resultados eleitorais do círculo nacional nas eleições gerais de 2012


aplicados a Quota de Hare

Quota de Hare: 5 756 004 ÷ 130 = 44 277

Partido Votos (A) Quota (B) A÷B Maiores Restos Total de Mandatos

MPLA 4 135 503 44 277 93,40 x 94

UNITA 1 074 565 44 277 24,27 24

CASA-CE 345 589 44 277 7,81 x 8

FNLA 98 233 44 277 2,22 2

PRS 65 163 44 277 1,47 x 2

ND 13 337 44 277 0,30 0

PAPOD 8 710 44 277 0,20 0

FUMA 8 260 44 277 0,19 0

CPO 6 644 44 277 0,15 0

TOTAL 5 756 004 - 127 3 130

Fonte: CNE, 2012.

O método de Hondt, por sua vez, tem o nome do seu autor, o belga Victor d´Hondt,
professor de direito civil na Universidade de Gand que apresentou um projecto de lei eleitoral que
foi adoptado em 30 de Novembro de 1899. Neste método, explica-nos Carvalho (2005:123), os
totais de votos obtidos por cada lista são sucessivamente divididos por 1, 2, 3, ...n, em que n
representa o número de deputados a eleger, e os quocientes apurados são ordenados por ordem
decrescente (da sua grandeza em tantos termos quantos forem os mandatos a atribuir). O último
número assim obtido chama-se repartidor, número esse que dividindo o número de votos obtidos
por cada partido por esse repartidor, vai resultar na obtenção directa do número de lugares que

56
Pedro Quiriri
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IIº SEMESTRE
deve ser destinado a cada partido. O sistema eleitoral angolano estabelece que cada província
eleja 5 deputados pelo método de Hondt.

Assim, tomando como exemplo os resultados eleitorais da província de Luanda nas Eleições
Gerais de 2012, teremos:

Tabela 4. Resultados eleitorais da província de Luanda nas eleições gerais de 2012


aplicados ao método de Hondt

N (Deputados a eleger) = 5

Partidos / Coligações 1 2 3 4 5

Movimento Popular de Libertação de


MPLA 940 785 470 393 313 595 235 196 188 157
Angola

União Nacional para a Independência


UNITA 391 882 195 941 130 627 97 971 78 376
Total de Angola

Convergência Ampla de Salvação de


CASA-CE 203 212 101 606 67 737 50 803 40 642
Angola - Coligação Eleitoral

FNLA Frente Nacional de Libertação de Angola 18 766 9 383 6 255 4 692 3 753

PRS Partido de Renovação Social 12 572 6 286 4 191 3 143 2 514

ND-UE Nova Democracia União Eleitoral 4 800 2 400 1 600 1 200 960

CPO Conselho Político da Oposição 3 645 1 823 1 215 911 729

PAPOD Partido Popular para o Desenvolvimento 3 159 1 580 1 053 790 632

FUMA Frente Unida para a Mudança de Angola 3 122 1 561 1 041 781 624

Fonte: CNE, 2012. Tabela criada pelo autor.

Ora, classificando estes resultados eleitorais por ordem decrescente até ao 5º lugar, já que
se trata de cinco deputados a eleger, teremos: 940 785; 470 393; 391 882; 313 595; 235 196.
Obtemos assim o repartidor, que será o número 235 196. Por conseguinte, dividindo o número de
votos obtidos por cada partido pelo repartidor obtém-se diretamente o número de lugares que deve
ser destinado a cada partido.

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Tabela 4.1 Obtenção dos números de mandatos a partir do repartidor

PARTIDO / Nº DE
VOTOS OBTIDOS ÷ REPARTIDOR
COLIGAÇÃO MANDATOS
MPLA 940 785 ÷ 235 196 4
UNITA 391 882 ÷ 235 196 1
CASA-CE 203 212 ÷ 235 196 0
FNLA 18 766 ÷ 235 196 0
PRS 12 572 ÷ 235 196 0
ND 4 800 ÷ 235 196 0
CPO 3 645 ÷ 235 196 0
PAPOD 3 159 ÷ 235 196 0
FUMA 3 122 ÷ 235 196 0
Fonte: Elaborado pelo autor.

Neste exemplo, o partido UNITA embora tenha obtido mais de 1/3 dos votos conseguidos
pelo MPLA apenas conseguiu eleger 1 deputado e os outros partidos não conseguiram
representantes na província de Luanda, o que nos permitedepreender que estes partidos foram de
alguma forma penalizados. Todavia, como dissemos, trata-se de um método que privilegia as
médias mais altas, sendo que se outro partido tivesse os votos alcançados pelo partido MPLA,
alcançaria o mesmo número de mandatos.

 Exercícios:

Entre os vários sistemas referidos atrás, interessa para o nosso estudo o Sistema de
Representação Proporcional com o método de Hondt que, para os legisladores angolanos,
garante, de forma geral, uma representação justa, pois reflete com a maior exactidão possível a
relação das forças políticas.

O método de Hondt consiste em garantir a cada partido político ou coligação uma


representação, no parlamento, sensivelmente proporcional à sua real importância.

Exemplo: Suponhamos que numa província, que para este caso concreto é considerado
um círculo eleitoral, (Circulo Provincial) se apuram 200.000 votos expressos e que se vão eleger
cinco deputados. Os partidos concorrentes obtêm os seguintes votos:

Partido A Partido B Partido C Partido D


86. 000 votos 56. 000 votos 38. 000 votos 20.000 votos
 Resolução:
1. Divide-se o número de votos obtidos por cada partido político sucessivamente por 1, 2,
3, 4, 5, correspondentes ao número de deputados a eleger, obtendo-se o seguinte
quadro:

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Votos Partido A Partido B Partido C Partido D


1 86. 000 56. 000 38. 000 20.000
2 43. 000 28. 000 19. 000 10. 000
3 28. 00057 18. 666 12. 666 6. 000
4 21. 500 14. 000 9. 500 5. 000
5 17. 200 11. 000 7. 600 4. 000

2. Colocando-se estas médias por ordem decrescente até ao 5.º lugar, temos: 86. 000, 56.
000, 43. 000, 38. 000 e 28. 666. Este último número (28. 666) chama-se repartidor,
porque dividindo o número de votos obtidos por cada partido por este número obtém-se
directamente o número de lugares que deve ser destinado a cada partido político.

Partido A Partido B Partido C Partido D


86. 000: 28.666 = 3 56. 000: 28.666 = 1 38. 000: 28.666 = 1 20.000: 28.666 = 0

Com base nestes cálculos, o Partido A, obteve 3 deputados e o Partido B e C 1 deputado


respectivamente, sendo que o Partido D não obteve qualquer deputado.

Cálculo do Circulo Nacional:

1. Dividir o somatório de todos os votos obtidos, pelo número de Deputados a eleger no


Circulo Nacional: Exemplo: 200.000:130. O resultado desta divisão, deve ser o número
que cada Partido ou Coligação de Partido arrecadou.

Exemplo: 200.000: 130 = 1.538

86.000: 1.538 = 55

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Repartidor: é sempre o menor número dentre as cinco médias mais altas.

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