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ANJOS DE CARAMELADA
Lourdes Ramalho
QUADRO I

CENA 1

(Diretor entra.)

DIRETOR Professora! Profes... O que é isto?

PROFESSORA (Atarantada.) – Senhor Diretor, eu...

DIRETOR Mas o que é isto?

PROFESSORA É que nós...

DIRETOR O que aconteceu nesta sala? Onde estão os móveis? Por


que antes estava cheia e agora está vazia, pelada, peladíssima, peladérrima?

PROFESSORA (A tremer.) – Eu... nós... a gente...

DIRETOR Vamos, diga já o que aconteceu, logo hoje que estou


esperando a visita do Inspetor Escolar... Logo hoje que estou nervosíssimo,
aperreadíssimo, chateadíssimo! Vá, sua tonta, fale, sua burra!

PROFESSORA É que a gente estava... estava...

DIRETOR Cale a boca! Cale já a boca e conte tudo senão eu morro!


Como pode acontecer uma coisa dessa logo no dia de hoje? Roubaram todos
os móveis, não foi? Só pode ter sido! Logo hoje! Eu não digo que sou melado da
rã preta mesmo? Quem foi que roubou? Quantos ladrões?

PROFESSORA Senhor Diretor, eu... eu...

DIRETOR Sei! Não foi só um ladrão, foi uma corja, num caminhão!
Levaram tudo! E agora, chega o Inspetor, vê a desgraceira, escreve um baita
dum relatório, fecha-se a escola, me põe no olho da rua... ou até na cadeia...
podem até me matar e tudo por culpa sua, ouviu?
PROFESSORA Mas eu... por favor... escute...

DIRETOR Cale a boca! Você não fala nada e quer que eu escute!
Roubaram tudo, carteiras, bancos e você achou foi bom, achou ótimo porque vai
ficar sem trabalhar, vai ficar na panqueca, sem fazer nada, nadinha... E os
alunos, os mandriões, como vão adorar ficar sem aula, hein?

PROFESSORA Eles... nós...

DIRETOR Já sei, já sei, eles é que ajudaram os bandidos a colocar as


coisas no caminhãozão, gritando: “Leva, leva tudo, só assim a gente não vê mais
a cara daquele diretor, a barriga daquele diretor!” Mas deixa estar, jacaré, a coisa
não vai ficar assim! Se eu for preso, vai todo mundo junto! A senhora também,
porque agora mesmo eu vou chamar a polícia e vai todo mundo junto, no rolo.
Polícia! POLÍCIA!

PROFESSORA Por favor, por favor, eu posso explicar...

DIRETOR Cale a boca! Já sei que uma quadrilha de ladrões...

PROFESSORA Não... não foi uma quadrilha...

DIRETOR Quer dizer então que foi uma ES-QUA-DRI-LHA?

PROFESSORA Esquadrilha é de aviões...

DIRETOR E quadrilha é de dançar! Mas, ou uma coisa ou outra, o certo


é que vamos pagar pelo roubo!

PROFESSORA Mas não houve roubo!

DIRETOR Como não houve? E os móveis?

PROFESSORA Os móveis estão na outra sala. Os meninos arrastaram...

DIRETOR Os meninos? Os ladrões ou os fedelhos da escola?

PROFESSORA Nossos alunos! Hoje é Dia das Crianças e eles montaram


uma peça para comemorar.

DIRETOR Pregaram, é, pregaram uma peça no diretor. Porque eu não


dei ordem para comemorar porr... coisíssima nenhuma!
PROFESSORA Eles queriam fazer uma surpresa!

DIRETOR Surpresa? Fizeram! Quase me matam! Meu coração parou!


Ai! Meu coração parou! Não bate mais nadinha! Minha gente, eu morri! Ai, estou
morto e não sabia!

PROFESSORA O senhor botou a mão do lado direito do peito!

DIRETOR Deixe, não é de sua conta! Eu boto a mão do lado que quiser.
O coração é meu, a mão é minha, ora essa! Mas eu me vingo – vou botar toda
essa cambada de castigo!

PROFESSORA Não faça isso, Diretor... Hoje é o Dia das Crianças! E eles
arrastaram os móveis com tanto cuidado... Não estragou nada!

DIRETOR Estragou! Estragou o chão com o arrastamento!

PROFESSORA Depois varreram tudo direitinho...

DIRETOR Olhe aí – gastaram a vassoura! Há três meses não se varre


a escola pra não gastar a vassoura!

PROFESSORA Estava tudo sujo. Os móveis tinham um dedo de poeira. Os


bichinhos espanaram tudo!

DIRETOR Gastaram o espanador! Estroinas! Apártidas! Dilapidando o


tesouro nacional!

PROFESSORA Aí passaram... o pano molhado...

DIRETOR Pano molhado! O planeta ameaçado de sede e eles usando


pano molhado! Vamos, imbecil, conte mais depredações!

PROFESSORA Só usaram aquele livro velho, bolorento...

DIRETOR Livro velho? Diga, Dona Treme-Treme, que livro foi?

PROFESSORA Aquele livrão onde o senhor registrava os castigos dos


meninos... Estava rasgado, jogado a um canto... cheirando a xixi de rato...

DIRETOR Quem cheira a xixi de rato é você, com esse cabelão que
parece um ninho de macaco na cabeça!
PROFESSORA Ninguém usava mais. Estava todo escrito... era papel velho!

DIRETOR Papel velho se vende! Cometeram um crime, isto é, vários


crimes. Eu quero os nomes de todos os envolvidos. Ah, ainda bem que eles vêm
chegando – vou in-ter-ro-gá-los!

CENA 2

(Crianças entram.)

PINTO Fessora, venha arrumar a gente.

BELA Está na hora de me maquiar.

RICO Venha botar minhas botas e meu chapéu!

PROFESSORA Vão embora – saiam daqui!

PINTO Lá embaixo está cheio de gente pra festa!

DIRETOR Entrem, seus pestinhas, vamos ter uma conversinha!

PROFESSORA Saiam, não falem com ele! Saiam depressa!

DIRETOR Voltem!

PINTO Que vai e vem é esse? É pra sair ou pra voltar?

DIRETOR Venha cá! Como é seu nome, moleque?

PINTO Meu nome é Pinto.

DIRETOR Pinto? Será filho de alguma galinha?

PINTO Olhe o respeito!

DIRETOR Há tanta coisa que se chama “pinto”...

PINTO Qual é a graça?

DIRETOR Ou a desgraça? E você, como se chama?

BELA Meu nome é Bela.


DIRETOR Feia desse jeito?

PROFESSORA Não maltrate as crianças...

DIRETOR E elas não me maltrataram? Seu nome, pivete...

RICO Meu nome é Ricardo, mas me chamam de Rico.

DIRETOR Só se for de pena e bico. Seu pai é industrial?

RICO Não, senhor.

DIRETOR É latifundiário, empresário, político?

RICO É funcionário do Estado.

DIRETOR Um lascado que nem eu e ainda diz que é rico? Sabem que
vão ficar todos presos, nesta sala, pra nunca mais depredarem o patrimônio
público?

PROFESSORA Eles não fizeram nada!

DIRETOR Fizeram minha pressão subir a mil e descer a zero! E por


toda essa bagunça, vão ficar trancados! Boa festança e até amanhã! (Sai.)

BELA E agora?

PROFESSORA Não se preocupem. Alguém virá nos soltar. E enquanto


esperamos, vou contar uma história de Nossa Senhora, no Céu, preparando a
festa de aniversário de Jesus!

TODOS Oba! Conte, conte, conte.

PROFESSORA Era uma vez...


QUADRO II

CENA 1

(Na cozinha celeste. Nossa Senhora mexe um caldeirão enorme com uma
enorme colher.)

NOSSA SRA. Hoje é o aniversário de meu filho Jesus e os anjos saíram


para trabalhar! Preciso fazer bolinhos e caramelos para a criançada pobre da
Terra... e não tenho com quem contar! Ah! Tem São Pedro! Vou chamá-lo: “São
Pedro! São Peeedro! São Peeeeeeeeeedro!” Ah, o mouco velho não responde!
Não sei se ele é surdo de verdade ou de mentirinha! Já sei, vou fazer um
mosquitinho gritador e mandar gritar nos ouvidos dele! (Prepara, na mão, uma
coisinha invisível e sopra.) – Vai, mosquitinho, e sopra no ouvido daquele
dorminhoco! (Dá um sopro na mão e joga o mosquito no ar. Continua a mexer o
caldeirão.)

SÃO PEDRO (Chega gritando.) – Ai! Ai! Acuda, Senhora! Ai, ai!

NOSSA SRA. Que é isto, São Pedro, que barulho é esse?

SÃO PEDRO Barulho? Barulho uma ova! Barulho é o que estão fazendo
no meu ouvido! Acuda!

NOSSA SRA. É mesmo? E o que aconteceu?

SÃO PEDRO Parece que mil trovões vêm despencando do céu nos meus
ouvidos! É um barulho dos infernos!

NOSSA SRA. Que heresia é essa? Falar do Inferno no Céu?

SÃO PEDRO A senhora não está escutando nada? Nadinha? Nadica de


nada? Então a senhora está mouca, porque nos meus ouvidos a poluição sonora
está maior que tempo de eleição na Terra! Ai! Ai!
NOSSA SRA. Calma!

SÃO PEDRO Calma nada! Pimenta no... dos outros é refresco! Chame
Jesus pra fazer um milagre!

NOSSA SRA. Jesus anda endireitando os mundos tortos por aí...

SÃO PEDRO Então faça a senhora! Sopre no meu ouvido! Ai! Ui!

NOSSA SRA. Estou muito ocupada, não posso perder tempo.

SÃO PEDRO Não me negue esta caridade!

NOSSA SRA. O senhor negou meu filho três vezes.

SÃO PEDRO Mas ele me perdoou. Me acuda... senão eu me mato!

NOSSA SRA. O senhor já morreu há muito tempo.

SÃO PEDRO Sopre meu ouvido, me faça este favor...

NOSSA SRA. Então, um favor por outro.

SÃO PEDRO Um favor por mil... por mil...

NOSSA SRA. Fará tudo o que pedir?

SÃO PEDRO Tudo o que me ordenar! A senhora manda! Serei seu


escravo, mas pelo amor de Deus, sopre meus ouvidos!

NOSSA SRA. Certo. Eu sopro, mas o senhor faz tudo o que eu mandar!

SÃO PEDRO Palavra de honra!

NOSSA SRA. Os homens não têm palavra. Não vê os políticos? Prometem


uma coisa e fazem outra. Mas, vou ajudar. Venha cá! (Se aproxima do ouvido.)
– Mosquitinho barulhento! Suma na força do vento! (Sopra.) – Melhorou?

SÃO PEDRO Milagre! Que silêncio! Que paz! Agora posso ir dormir
tranquilo!

NOSSA SRA. De jeito nenhum!

SÃO PEDRO Já fiquei bom! Só estou com um sono...

NOSSA SRA. E a promessa?


SÃO PEDRO Que promessa?

NOSSA SRA. E a jura? E a palavra de honra?

SÃO PEDRO Que jura? Que palavra de honra?

NOSSA SRA. Esqueceu, foi? Vou colocar novamente o mosquito...

SÃO PEDRO Ah! Lembrei agora! O que a senhora pede?

NOSSA SRA. Eu não peço – MANDO!

SÃO PEDRO E o que a senhora MANDA?

NOSSA SRA. Venha me ajudar a fazer uns caramelos para a festa do natal
de meu filho.

SÃO PEDRO Caramelos? Os anjos já fizeram, os querubins já fizeram e


os serafins também. Tem doces demais!

NOSSA SRA. Mas eu não fiz. Vá buscar açúcar na despensa.

SÃO PEDRO Não tem mais. Os anjos fizeram suspiros para os tristes da
Terra.

NOSSA SRA. Pois vá buscar chocolate.

SÃO PEDRO Fizeram ovo de páscoa pras crianças da Terra.

NOSSA SRA. Vá buscar alfenim.

SÃO PEDRO Não tem mais nada, nada! A despensa está pelada!

NOSSA SRA. Pois vá tirar três baldes de leite das vacas celestes!

SÃO PEDRO (Saindo.) – Tem gente que pensa que Céu é só descanso.
(Voltando.) – E haja leite pra encher o caldeirão!

NOSSA SRA. Vá buscar ovos das galinhas prateadas,

enquanto eu vou dando uma misturada!

SÃO PEDRO (Saindo.) – Só levando o meu bastão,

senão levo escorregão! (Voltando.)

E haja ovo de montão


pra dentro do caldeirão!

NOSSA SRA. Agora traga o mel

das abelhas mais queridas.

E vá e volte depressa

enquanto eu dou uma mexida!

SÃO PEDRO (Sai.) – Aqui eu trabalho mais

do que eu trabalhei na vida! (Volta.)

Estou de pernas doendo,

tanta subida e descida!

NOSSA SRA. Agora, as formas, depressa,

ponha junto ao caldeirão!

SÃO PEDRO Formas? Os anjos levaram,

todas, todas viajaram!

NOSSA SRA. Não tem mais forma nenhuma?

Não tem nada, nada, nada?

SÃO PEDRO Tem umas muito antigas,

já estão enferrujadas!

NOSSA SRA. Então traga. Venha logo

pra mexer o caldeirão...

SÃO PEDRO Eu mexer? Não aguento!

Entrou em ebulição!

NOSSA SRA. Mexa e mexa depressa,

pois assim a massa esfria!

SÃO PEDRO Estou velho e preciso


é de aposentadoria!

NOSSA SRA. O Padre Eterno é mais velho

e ainda está trabalhando!

Mexa, mexa com mais força,

a massa está borbulhando!

SÃO PEDRO Agora bote mais ovo,

a massa está bem fininha!

“Agora bote mais ovo”.

Serei alguma galinha?

NOSSA SRA. Mexa, mexa, mexa, mexa,

mexer é o que convém.

SÃO PEDRO Só que nesse mexido todo

eu me mexo também!

NOSSA SRA. Ponha agora leite e mel

senão a mistura espalha!

SÃO PEDRO Há pouco eu era galinha

agora sou vaca e abelha!

NOSSA SRA. Mexa à direita e esquerda,

depois esquerda e direita!

E mexa com toda a força,

pra ver se a massa ajeita!

SÃO PEDRO Depois de tanto mexido,

quando parar de mexer,

de tão fraco e combalido


me deito para morrer!

NOSSA SRA. Agora abaixe o fogo!

SÃO PEDRO Há muito que me apaguei!

NOSSA SRA. Pegue as formas, vá enchendo,

assim, assim, assim...

Continue, vou ajudando...

AAAAAtchimmmmmm!

SÃO PEDRO Ave Maria!

NOSSA SRA. AAAAATCHIM!

SÃO PEDRO Beba água fria!

O que está acontecendo?

A senhora espirrando

e as forminhas se mexendo!

NOSSA SRA. Mas que coisa engraçada!

Anjos de caramelada!

SÃO PEDRO Uma coisa igual a esta

nunca vi acontecer!

NOSSA SRA. Está com medo, velho Pedro,

e pensa logo em correr?

Vamos ver o que acontece,

o que eles têm a dizer!


CENA 2

(As crianças, feito anjos, começam a falar.)

ANJO I Que bonito é o Céu,

e que limpeza, que brilho!

NOSSA SRA. É a festa do aniversário

de Jesus Cristo, meu filho!

ANJO III Se a senhora quiser

podemos representar

um show muito divertido,

a cantar e a dançar!

ANJO I Teatro e tudo no mundo

a gente sabe fazer,

já estamos ensaiados,

se quiser é só dizer!

ANJO II Pra fazer o figurino,

dou por aí uma olhada,

de sucata, coisa velha,

a peça fica montada!

ANJO I Licença, vamos saindo

por aí a procurar

o que, para vestimenta,

a gente pode encontrar!


NOSSA SRA. Ora, vejam, foi milagre,

estou muito admirada,

fiz docinhos que viraram

anjos de caramelada!

SÃO PEDRO Minha Nossa, eu sou porteiro,

volto já pro meu lugar!

Não quero ver este Céu

virar de pernas pro ar!

NOSSA SRA. Carta branca! Vão mexendo,

procurem de todo jeito,

quero ver um espetáculo

bom, colorido, perfeito!

SÃO PEDRO Pois, Mãe de Deus, vou saindo,

não me responsabilizo

por loucuras que fizerem

estes anjos sem juízo!

ANJO II Vamos gente, dar um giro

e objetos procurar,

voltaremos num minuto,

a festa vai começar!

(Crianças saem.)

NOSSA SRA. Não sei, este céu é tão grande,

o que eles vão encontrar

pra fazer as tais roupagens


com que vão representar!

Lá se vão os peraltinhas,

ligeiros a procurar

coisinhas e mais coisinhas,

pegam aqui, acolá!

(São Pedro entra.)

SÃO PEDRO Senhora, a turbamulta

está fazendo escarcéu!

É um tal vira, revira,

estão acabando com o céu!

NOSSA SRA. Deixe os anjinhos, nenhum

mal deles nos há de vir,

e na festa de Jesus,

só querem nos divertir!

SÃO PEDRO Em menino não confio,

por isso eu vou atrás

a ver tim-tim por tim-tim

o que cada um deles faz!

(São Pedro sai.)

NOSSA SRA. São Pedro está cansado,

está velho, fraco, doente,

não confia nas crianças,

está ranzinza, impaciente!

Mas, olha, já estão vindo


de soldados disfarçados,

ai, como são bonitinhos,

ai, como são engraçados!

CENA 3

(As crianças entram ainda se vestindo.)

PINTO Este céu é a maior

sucata que conheci,

em todo canto tem coisas,

lindas como nunca vi!

ANJO II Senhora nossa madrinha,

nós vamos representar

brincadeirinhas da Terra

que as crianças brincam lá!

ANJO III Brincaremos de soldados

e eu serei o capitão!

Com esta espada na cinta

e este sinete na mão!

(Fazem fila e cantam.)

TODOS Bambalalão!

Senhor Capitão!

Espada na cinta,

sinete na mão!
Eu vi uma velha

com um bolo na mão,

eu dei uma tapa –

ela puf – no chão!

Capote vermelho,

Chapéu de galão!

Escravo cativo

não tem presunção,

de dia e de noite

dormindo no chão!

NOSSA SRA. Cantiga antiga

estão a cantar.

Coisas passadas

a relembrar!

TODOS Marcha, soldado,

cabeça de papel,

quem não marchar direito,

vai preso pro quartel!

Marcha, soldado,

cabeça de papelão,
quem não marchar direito

apanha de facão!

NOSSA SRA. Um, dois!

ANJOS – Feijão com arroz!

NOSSA SRA. Três, quatro!

ANJOS – Farinha no prato!

NOSSA SRA. Cinco, seis!

ANJOS – Galinha pedrês!

NOSSA SRA. Sete, oito!

ANJOS – Comendo biscoito!

NOSSA SRA. Nove, dez!

ANJOS – Lagartixa nos teus pés!

(São Pedro entra.)

SÃO PEDRO Ai! Lagartixa não!

Me subiu a lagartixa

dentro do camisolão!

(Todos fazem roda ao redor de São Pedro.)

NOSSA SRA. Pé de galinha!

ANJOS Galinha cheia!

NOSSA SRA. Pisou na areia!

ANJOS A areia é fina!

NOSSA SRA. Bateu no sino!

ANJOS O sino é de barro!

NOSSA SRA. Bateu no vigário!


ANJOS O vigário é valente!

NOSSA SRA. Bateu no tenente!

ANJOS O tenente é mofino!

NOSSA SRA. Bateu no menino!

ANJOS O menino é tolo!

NOSSA SRA. Bateu no besouro!

ANJOS O besouro...

NOSSA SRA. ... furou teu olho!

SÃO PEDRO Ai, meu olhinho! Os malvados me cegaram!

Cegaram pra eu não ver!

Mas eu vou contar! Vou denunciar!

ANJO I É invenção!

SÃO PEDRO Pois vou fazer uma comunicação!

Acuda, Senhora,

o céu foi roubado

por esses ladrões

que fingem ser soldados!

NOSSA SRA. Não admito que o senhor se expresse dessa

maneira com quem não merece!

SÃO PEDRO Senhora, estes traidores fizeram os chapéus

com o livro em que anoto os pecados

dos pecadores!

ANJO II O livro estava no lixo – jogado!

SÃO PEDRO No lixo estava muito bem guardado!


ANJO I As folhas soltas, sujas, mofadas!

SÃO PEDRO Estavam apenas duras, coladas!

ANJO II Também fediam a xixi de rato!

SÃO PEDRO Mentira! O xixi era de gato!

ANJO III E estavam já rasgadas! Ele fala sem razão!

SÃO PEDRO Eu quero de novo o livro

que essa cambada rasgou!

Já não sei mais quem é santo

e nem quem é pecador!

NOSSA SRA. Que bom! Assim todo mundo,

seja com véu ou sem véu

terá que ser perdoado,

entrar no reino do céu!

ANJOS (Dançando.) – Um, dois!

– Feijão com arroz!

Três, quatro!

– Farinha no prato!...

SÃO PEDRO Para, para, paaaara!

Descobri outro furto

deste “general mandão”!

É a espada de São Jorge

que ele segura na mão!

NOSSA SRA. São Jorge já não precisa

de espadas para brigar!


Vive no mundo da lua

e lá só faz viajar!

ANJOS (Continuam a cantar.) – Marcha, soldado...

SÃO PEDRO Para! Agora para de novo!

Tem outros furtos chegando!

Seu fedelho, tire as botas,

são elas de São Nicandro!

NOSSA SRA. Quem para agora é o senhor

com os ralhos e os desatinos,

não deixa ninguém quieto,

a arengar com os meninos!

SÃO PEDRO A senhora se oriente!

Veja se me dá razão!

Este sujeito roubou

o signo de Salomão!

NOSSA SRA. São Pedro, vá ver agora

se eu estou lá na esquina!

SÃO PEDRO O anel de Santa Angelina

está com esta menina!

NOSSA SRA. É espada, é bota, é signo

e agora são os anéis?

SÃO PEDRO E as sandálias de Moisés

eles carregam nos pés!

PINTO Que santo mais fuxiqueiro.


O que será que ele quer?

SÃO PEDRO Olhem o pau da bandeira,

o cajado de São José!

RICO Encontrei o pau jogado

num cantinho do porão!

SÃO PEDRO E o cordão de São Francisco

tá amarrado no pendão!

NOSSA SRA. Ó São Pedro, tenha dó,

deixe dessas picuinhas!

SÃO PEDRO E as penas dessas asas

foram de minhas galinhas!

Ficaram todas peladas

e vão morrer resfriadas!

E este pano – é o fim!

É a roupa de São Joaquim!

Que no altar se escondeu

nuzinho como nasceu!

BELA Licença eu pedi à mãe

pra fazer festa pro filho!

PINTO E quanto melhor roupagem,

da festa maior o brilho!

NOSSA SRA. Os anjinhos têm razão,

eu mandei-os procurar
pela sucata do céu

coisas para aproveitar!

SÃO PEDRO Pois, ou se dá a lição,

a esta corja – um castigo,

ou eu peço demissão...

saio do céu e... me intrigo!

NOSSA SRA. Nem castigo, nem lição

aos meus anjinhos vou dar.

Pegue a mala – dê o fora,

boto outro em seu lugar!

SÃO PEDRO Que é isso, Mãe de Deus?

Tá mouca? Não ouviu bem?

Eu disse “tá tudo certo”!

Vou até brincar também!

NOSSA SRA. Então entre já na roda

e vamos todos cantar!

Os arcanjos tocam harpa,

corneta, os querubins!

Os santos, violoncelo,

violino, os serafins!

Os anjos fazem a roda

a cantar e a dançar

com São João no reco-reco,

São Pedro no maracá!


TODOS Marcha, soldado,

cabeça de papel,

se não marchar direito

vai preso pro quartel!

Um, dois!

– Feijão com arroz!

Três, quatro!

– Farinha no prato!

Cinco, seis!

– Galinha pedrês!

Sete, oito!

– Comendo biscoito!

Nove, dez!

– Lagartixa nos teus pés!

SÃO PEDRO (Sacudindo a camisola.) – Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! Ai...

(São Pedro sai e todos correm atrás dele, em algazarra...)

FIM