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Marx e o problema da revolução operária na França de 1848


CARLOS PRADO*

Resumo
Na França, o processo revolucionário de 1848 proporcionou a queda da
Monarquia de Julho e a ascensão da II República, que não perdurou e foi
sepultada pelo golpe de Estado de Luís Bonaparte em dezembro de 1851.
Marx encontra a origem do bonapartismo na incapacidade política
demonstrada pela burguesia e pelo proletariado para governarem o Estado de
acordo com seus interesses de classe. O objetivo do presente texto é discutir a
crítica que Marx lança sobre a atuação política do proletariado francês durante
as jornadas de fevereiro e junho de 1848.
Palavras-chave: Revolução; Classe Operária; Socialismo Utópico.

Abstract
In France, the revolutionary process of 1848 brought the fall of the July’s
Monarchy and the rise of the Second Republic, which did not last and was
buried by the coup d’Etat of Louis Bonaparte's in December 1851. Marx finds
the origin of Bonapartism in disability policy demonstrated by the bourgeoisie
and the proletariat to govern the state according to their class interests. The
aim of this paper is to discuss the criticism that Marx throws on the political
activity of the French proletariat during the days of February and June 1848.
Key words: Revolution; Working Class; Utopian Socialism.

*
CARLOS PRADO é professor do departamento de História da UFMS.
No início de 1848, a Ambos os textos escritos
sociedade francesa no calor dos 105
enfrentou uma grave acontecimentos, mas com
crise política. A uma profunda crítica
burguesia e o política pautada na
proletariado marcharam análise da luta de classes.
pelas ruas de Paris e
As revoluções de 1848
juntas derrubaram o
proporcionaram a queda
governo de Louis
da Monarquia de Julho e
Philippe, instaurando um
a ascensão da II
governo provisório. A
República francesa, mas
Monarquia de Julho caiu
esta teve uma vida breve
diante das jornadas de Karl Marx (1818-1883) e foi sepultada pelo golpe
fevereiro e abriu de Estado de Luís
caminho para a construção da II Bonaparte em dezembro de 1851.
República francesa. Assim, como em Depois de quase quatro anos de lutas,
1789, no período da Grande Revolução, debates e conflitos políticos, a república
a França ocupava um lugar de destaque sucumbiu diante das baionetas do
no cenário político europeu. No prefácio sobrinho de Napoleão. Em uma
para a terceira edição Alemã de O importante passagem de A guerra civil
Dezoito Brumário, Engels afirma: “A na França, Marx (2011, p. 56) observa
França é o país em que, mais do que em que o Estado bonapartista “era a única
qualquer outro lugar, as lutas de classe forma de governo possível em um
foram sempre levadas ao seu termo momento em que a burguesia já havia
decisivo”. (apud MARX, 2000, p. 12). perdido e a classe operária ainda não
Marx, atento e participante de todo esse havia adquirido a capacidade para
processo acompanhou de perto o governar a nação”.
desenrolar dos conflitos e da luta de Marx encontra a origem do
classes em todos os países onde a bonapartismo na incapacidade
revolução se anunciava pelas mãos da demonstrada pela burguesia e pelo
classe operária, em especial a França. proletariado para governarem e
Suas considerações sobre o processo organizarem o Estado de acordo com
revolucionário francês de 1848 estão seus interesses de classe. Em As lutas de
registradas em duas obras fundamentais: classes na França, Marx observa logo
As lutas de classes na França1 e O na abertura do texto que “todos os
Dezoito Brumário de Louis Bonaparte2. parágrafos mais importantes dos anais da
revolução de 1848 a 1849 levam a
1
epígrafe: Derrota da Revolução!” (1986,
Entre 1848-1850, Marx escreveu quatro artigos
p. 49). Essa passagem, assim como todo
sobre o desenrolar da luta política na França que
foram publicados na revista de Neue Rheinische o texto deixa evidente o sentido
Zeitung. Anos mais tarde, em 1895 esses artigos contrarrevolucionário da política
foram publicados em um livro com o título de As burguesa que se consagrou vitoriosa.
lutas de classes na França (1848-1850). Marx ainda acrescentou um comentário
2
O 18 Brumário foi escrito em 1852, a partir de
vários artigos que haviam sido encomendados
por Joseph Weydemeyer, para a apresentação de publicação mensal, Die Revolution, cujo
um seminário político em Nova York. Todavia, o primeiro número consistia na publicação integral
seminário nunca se realizou, mas, surgiu então, dos artigos de Marx sobre o Coup d´Etat do
na primavera daquele mesmo ano uma sobrinho de Napoleão Bonaparte.
oportuno sobre a tragédia proletária ao (1824-30). A monarquia restaurada
afirmar: “Mas o que sucumbia nessas rezou a cartilha conforme havia 106
derrotas não era a revolução, eram os determinado o Congresso de Viena, que
tradicionais apêndices pré- estabelecia algumas sanções militares e
revolucionários” (1986, p.49). Aqui, já econômicas para a França. Foram
aparece uma importante crítica à atuação justamente essas sanções e limitações ao
política operária que guiada por uma crescimento e expansionismo econômico
direção e um programa não que impulsionaram a burguesia a lutar
revolucionários acabaram sendo em 1830 ao lado de Louis Philippe, o
derrotados. “rei-burguês”. Conhecido como
Monarquia de Julho, o reinado de Louis
Em O 18 Brumário, Marx também faz Philippe trouxe grande desenvolvimento
uma importante crítica a essa ação para a burguesia, mas apenas para uma
equivocada do movimento operário na parcela da burguesia, aquela conhecida
condução da luta política. Ele observa como aristocracia financeira.
que o proletariado: “Lança-se em parte
para experiências doutrinárias, bancos de A partir de 1830, a aristocracia
troca e associações operárias, isto é, para financeira passou a controlar o Estado,
um movimento no qual renuncia a compunha as assembleias, regia as leis,
revolucionar o velho mundo (...)” (2000, dispunha dos principais cargos e de
p. 26). Fica mais uma vez demonstrada a todos os benefícios que estas relações
crítica de Marx à direção operária que poderiam render aos seus cofres
não possuía um programa autônomo e privados. Enormes quantias que eram
independente. arrecadadas pelo Estado se
transformavam em grandes
O objetivo do presente texto é discutir a
oportunidades para negócios
crítica que Marx lança sobre a atuação
fraudulentos, contratos falsos, desvios de
política do proletariado durante as
toda espécie. Tratava-se de uma
jornadas de fevereiro e junho de 1848.
sociedade corrompida, na qual o suborno
Buscaremos enfatizar as suas
e a corrupção eram as palavras de ordem
considerações sobre as posições políticas
do grande escalão. Segundo Marx (1986,
da classe operária, em especial, sua
p. 53): “A monarquia de julho não
crítica acerca da Comissão de
passava de uma grande sociedade por
Luxemburgo. A hipótese que
ações para a exploração da riqueza
defenderemos é que a classe operária
nacional da França”.
ainda estava imatura politicamente e,
guiada por reivindicações abstratas e Ao controlar os principais cargos do
ilusórias, concepções vinculadas ao governo, a aristocracia financeira
socialismo utópico, não foi capaz de especuladora assegurava um enorme
traduzir a realidade material, recusando- enriquecimento à custa do Estado. Essa
se a romper com a ordem burguesa e classe parasitária não produzia nada, não
com a lógica da produção capitalista. criava valor, não criava mercadorias,
A queda da monarquia de Julho apenas se apossava da riqueza alheia por
meio de seus negócios escusos. Com o
Após a queda do Império Napoleônico, orçamento do Estado francês em suas
em 1815, a França caiu novamente nas mãos, essa parcela da burguesia
mãos da monarquia dos Bourbon. enriquecia rapidamente. Mas se por um
Primeiro veio o reinado de Louis XVIII lado, essa classe privilegiada lucrava,
(1815-24) e posteriormente Carlos X por outro lado, a burguesia industrial e
as classes não possuidoras arcavam com A Comissão de Luxemburgo e as
a manutenção do Estado. 107
Oficinas Nacionais
Não tardou para que as classes não Durante os levantes de fevereiro, a
dominantes se rebelassem contra esse burguesia industrial, a pequena
saque constante aos cofres da nação. “A burguesia e a classe operária lutaram
burguesia industrial via seus interesses juntas pela queda do regime corrupto da
em perigo; a pequena burguesia estava aristocracia.3 Essas diferentes classes
moralmente indignada; a imaginação apesar de estarem em posição opostas na
popular se sublevava” (MARX, 1986, p. estrutura econômica da sociedade, se
54). A indústria francesa não recebia uniram por um objetivo em comum:
investimentos ou créditos, dessa forma, derrubar a Monarquia de Julho e
assistiu seu crescimento estagnar. Por construir uma nova república na França.
sua vez, a pequena burguesia e o Mas, uma vez alcançado esse primeiro
proletariado passavam por uma situação objetivo central, vieram os passos
econômica de grande instabilidade. A seguintes e os antagonismos sociais
aristocracia já era questionada e acusada entre os setores burgueses e operários
de corrupção por todas as demais foram postos em evidência. Se a
classes. revolução de fevereiro apareceu como
uma revolução fraternal, de comunhão
A insatisfação era geral quando a entre as classes oprimidas, não tardou
chamada Praga das Batatas e as más para que essa ilusão de harmonia social
colheitas de 1845-47 aprofundaram a caísse por terra.
crise e abriram caminho para a
revolução de fevereiro. Marx (1986, p. Após a queda de Louis Philippe, a
56) aponta que: “As devastações do primeira ação política do grupo vitorioso
comércio e da indústria pela epidemia foi a formação de um novo governo. O
econômica tornam ainda mais rei foi destituído de seu cargo assim
insuportável o domínio exclusivo da como a maioria dos membros que
aristocracia financeira”. A crise ocupavam o primeiro escalão do seu
econômica que provocou falências, regime. Era natural que o governo que se
demissões e fome, apenas acelerou o formava contasse com membros de todas
processo de questionamento e revolta as classes que lutaram pela vitória.
contra o domínio da aristocracia Todavia, Marx (1986, p. 57) salienta que
financeira. Essa crise empurrou a antes mesmo da república ser
burguesia industrial e a classe operária proclamada, “todos os ministérios já
às ruas. Sem condições de resistir, Louis estavam distribuídos entre os elementos
Philippe foi deposto e um governo burgueses do governo provisório e entre
provisório foi formado, dando início à os generais, banqueiros e advogados do
construção da II República Francesa. Le National”. Enquanto os setores da

3
“A população operária dos bairros do leste de
Paris tinha, é certo, grande participação política.
Combatera em 1830, 1832, 1834 e 1839, para
citar apenas nas sublevações mais importantes.
Era óbvio seu distanciamento da monarquia. Os
operários parisienses conheciam e liam as
publicações republicanas, que já começavam, no
entanto, a sofrer a concorrência da imprensa
socialista e comunista” (AGULHON, 1991, p.
30).
burguesia ocupavam os postos mais altos Assim, Louis Blanc e Albert tinham o
e mais importantes, o proletariado, por objetivo de encontrar a melhor maneira 108
sua vez, teve que se contentar com a de organizar o trabalho e melhorar a
participação de apenas dois membros: situação da classe operária. As sessões
Louis Blanc e Albert. da comissão deveriam se realizar no
Palácio de Luxemburgo, separada do
Se em 1830, a burguesia financeira se
governo central, que havia se instalado
uniu a Louis Philippe e impediu à
no Hotel de Ville. Os representantes da
instauração de uma república, em 1848,
classe operária foram afastados da sede
a república teve de ser proclamada, pois
do governo e teriam cada vez menos
estas eram as palavras de ordem que
influência nas decisões mais
vinha das ruas e foi em nome dela que a
importantes.
luta havia se constituído. O que a
república fez foi lançar para a órbita do Marx faz importantes críticas à
poder político todas as classes que Comissão de Luxemburgo, pois,
estavam excluídas desse jogo. Nesse enquanto o governo provisório,
processo, setores da burguesia e do composto por uma maioria burguesa,
proletariado que durante o governo de detinha as rédeas do Estado e controlava
Louis Philippe eram apenas toda sua administração, através dos
observadores, condenados a nulidade Ministérios da Fazenda, do Comércio,
política, passaram a serem classes das Obras Públicas, “os socialistas
atuantes, agentes ativos do processo tinham a missão de descobrir a terra
histórico. prometida, de pregar o novo evangelho e
Pressionado pela classe operária, o dar trabalho ao proletariado de Paris”
governo provisório editou um decreto (MARX, 1986, p. 59). O governo
que assegurava a existência dos provisório criou um órgão especial para
operários por meio do trabalho. O cuidar dos interesses da classe operária,
decreto tinha o objetivo de garantir mas deixou o mesmo totalmente
emprego a todos os cidadãos parisienses. esvaziado de poder real. A Comissão de
Todavia, a situação da classe operária Luxemburgo não tinham nenhum
continuou a mesma. A existência de orçamento e tampouco qualquer poder
trabalho não passou de uma promessa executivo. Com seu sarcasmo
que logo foi esquecida pelos dirigentes característico, Marx afirma que
burgueses. Foi nesse momento que a “Enquanto no Luxemburgo se procurava
classe operária voltou às ruas e realizou a pedra filosofal, no Hotel de Ville se
uma marcha com 20 mil cidadãos cunhava a moeda de curso legal” (1986,
exigindo uma nova organização para o p. 59).
trabalho e a formação de um Ministério Cabe aqui uma longa citação, na qual
especial para o trabalho. O governo Marx ele aponta as formas ilusórias
provisório não concedeu uma pasta pelas quais, Louis Blanc e sua comissão
ministerial aos representantes do almejavam satisfazer os interesses da
proletariado, ao invés disso, criou apenas classe operária:
uma comissão separada do poder
executivo, intitulada Comissão Especial Organização do trabalho! Mas o
para o Trabalho. trabalho assalariado já é a
organização existente, a organização
Essa comissão era presidida pelos dois burguesa do trabalho. Sem ele não
representantes operários que há capital, nem há burguesia, nem
compunham o governo provisório. sociedade burguesa. Um ministério
especial para o Trabalho! E os foi uma solução imediata e temporária.
ministérios da Fazenda, Comércio, Segundo Agulhon (1991, p. 49): “as 109
Obras Públicas, não são ministérios “oficinas de caridade”, já tentadas por
burgueses do trabalho? Junto a todos os regimes anteriores, consistiam
esses, um ministério proletário do
em obras públicas de importância
trabalho tinha de ser,
secundária, como o reparo e limpeza de
necessariamente, o ministério da
impotência, o ministério dos ruas e estradas, nivelamento e cultivo de
piedosos desejos, uma Comissão de terrenos baldios”. E acrescenta “Assim,
Luxemburgo. (1986, p. 59). o Estado poderia criar trabalho e
oferecer pequenas remunerações, até a
Enquanto a classe operária e seus líderes crise passar e serem restabelecidos os
gritavam a palavra de ordem de empregos no setor privado”. Com a crise
Organização do Trabalho, o trabalho já econômica de 1847, muitas empresas
estava organizado. Não se trata da foram fechadas, muitos operários
instalação de empregos temporários, perderam seus empregos e essas
essa é apenas uma forma ilusória e soluções eram uma maneira de ocupar e
enganosa. A estrutura do trabalho já remunerar os operários, afastando-os das
estava definida. Sua organização é o ruas e da revolução.
trabalho assalariado e livre. Trata-se da
forma burguesa de produção que Essas oficinas convocaram cerca de 100
mantém uma classe separada dos meios mil operários desempregados pela crise e
de produção, livre das condições pela revolução. O trabalho organizado
necessárias para o trabalho. Assim, a por essas instituições consistia em
única alternativa a classe operária dentro monótonas, cansativas e improdutivas
dessa estrutura é vender sua força atividades de terraplanagem. Por esse
trabalho em troca de um salário. Essa é a trabalho os operários recebiam um
organização burguesa do trabalho que já salário insignificante que mal cobria as
havia sido instituída e que não era despesas necessárias para mantê-los
questionada, não era colocada em pauta, vivos.
pelo contrário, era dada como natural e
Mesmo sem tocar na propriedade
imutável, aparecendo como uma forma
privada, ou seja, mesmo sem alterar a
intocável.
estrutura burguesa da sociedade, essas
Para os trabalhadores parisienses oficinas representavam a insatisfação da
desempregados e ameaçados pela fome, classe operária com a ordem capitalista.
o governo provisório, por meio do seu Marx (1986, p. 68) afirma que: “Não
Ministério das Obras Públicas instaurou pelo seu conteúdo, mas pelo seu título,
as Oficinas Nacionais que, segundo as Oficinas Nacionais encarnavam o
Marx, não se diferenciavam muito das protesto do proletariado contra a
Workhouses4 inglesas. Essas oficinas indústria burguesa, contra o crédito
não representavam nenhuma novidade e burguês e contra a República burguesa”.
As oficinas não alteravam a lógica da
produção capitalista, não tocavam em
4
“Segundo a “lei dos pobres” inglesa só era sua estrutura, mas para a consciência
admitida uma forma de ajudas aos pobres: o seu
alojamento em casas de trabalho (work-houses),
imediata da classe operária,
com um regime prisional; os operários representavam uma alternativa ao
realizavam aí trabalhos improdutivos, domínio burguês.
monótonos e extenuantes; essas casas de trabalho
foram designadas pelo povo de “bastilhas para os Por sua vez, a classe burguesa também
pobres”. (MARX, 1986, p. 166). percebia nas Oficinas Nacionais uma
vitória da classe operária que não francesa foi pegar novamente em armas
poderia se tolerada. Assim, a burguesia e e ocupar as ruas de Paris. Foi nesse 110
a pequena-burguesia se voltaram contra momento que tiveram início as jornadas
as oficinas e logo partiram para o ataque. de junho e a luta decisiva entre a
“Uma pensão do Estado por um trabalho burguesia e o proletariado foi travada.
aparente: eis o socialismo! – Os proletários haviam conquistado a
resmungavam entre si” (MARX, 1986, revolução de fevereiro e se a burguesia
p. 68). As classes intermediárias da pretendia minar totalmente a influência e
sociedade que enfrentavam uma grave as pretensões da classe operária na II
crise econômica viam nessas “supostas
República, teria que vencê-la com as
maquinações comunistas” a culpa de sua armas na mão. O proletariado partiu para
bancarrota. O fim dessas oficinas seria a o ataque. Primeiro em 15 de maio
salvação do pequeno-burguês. quando invadiu a sede da Assembleia
A derrota de junho e o fim das ilusões Nacional, tentando intimidar os
parlamentares burgueses e dissolver a
Quando a Assembleia Nacional se Assembleia para constituir um novo
reuniu no início de maio, todas as governo. Foram contidos pela Guarda
classes que a compunham se voltaram Nacional e o resultado prático foi o
contra o proletariado de Paris. As encarceramento de todos os líderes da
frações da burguesia francesa classe operária, entre eles; Blanqui,
esqueceram as suas diferenças e se Albert, Barbés, entre outros.
uniram para combater a classe operária.
Marx (1986, p.71) aponta que “A Já sem seus líderes, sem uma
Assembleia rompeu imediatamente com organização concisa, sem um plano
as ilusões sociais da revolução de previamente traçado a classe operária
fevereiro e proclamou de modo retornou às ruas em 22 de junho com
terminante a república burguesa”. As uma formidável insurreição.5 Marx
medidas proclamadas pela Assembleia (1986, p. 72) aponta que essa jornada
foram claras. Em primeiro lugar, revolução foi uma “formidável
eliminou a Comissão de Luxemburgo insurreição em que se travou a primeira
que contava com os representantes do grande batalha entre as duas classes em
proletariado. Em seguida, rejeitou a que se divide a sociedade moderna”.
proposta pela criação de um Ministério Durante as jornadas de junho caiu a
Especial para o Trabalho. “A República máscara da revolução fraternal de
instaurada mostrava-se crescentemente fevereiro e revelou-se a violência da luta
hostil ao socialismo; mais tarde se de classes. A burguesia mobilizou o
tornaria abertamente conservadora e até exército, a Guarda Móvel e a Guarda
reacionária” (AGULHON, 1991, p. 65). Nacional para conter as manifestações
que em péssimas condições de luta
Mas o que a burguesia realmente almeja
era o fim das Oficinas Nacionais.
Finalmente, em 21 de junho, foi 5
“A revolta operária então iniciada, que entraria
publicado o decreto que ordenava que para a história com o nome de Jornadas de
todos os operários solteiros fossem Junho, teve como traço mais evidente a
expulsos à força das Oficinas ou espontaneidade. A palavra de ordem lançada por
alistados no exército. Diante desse Pujol era abstrata e romântica, mas motivação
social era bem concreta: os operários, que devido
ataque decisivo da classe burguesa à crise estavam desempregados e viviam de
organizada na Assembleia Nacional, a abono público, entraram em desespero quando o
única alternativa à classe operária abono foi suspenso” (AGULHON, 1991, p. 74).
resistiram bravamente, mas foram proclamação da república significava a
derrotadas.6 abolição das classes, o fim dos 111

A primeira fase da revolução que antagonismos sociais e dos interesses


antagônicos postos pelas condições
compreende o período de fevereiro a
materiais de vida.
maio representou o momento em que as
classes que lutaram juntas pela queda da “(...) no pensamento dos proletários,
Monarquia de Julho viveram em suposta que confundiam a aristocracia
harmonia. A revolução de fevereiro se financeira com a burguesia em
caracterizou por uma “idílica abstração geral, na imaginação dos probos
dos antagonismos de classe, uma republicanos, que negavam a própria
conciliação sentimental dos interesses de existência das classes ou a
reconheciam, no máximo, como
classe contraditórios, esse imaginário
consequência da monarquia
eleva-se acima da luta de classes” constitucional, (...) a dominação da
(MARX, 1986, p. 61). Assim, nesse burguesia fora abolida com a
primeiro momento o proletariado implantação da República” (MARX,
imaginou que poderia lutar ao lado da 1986, p. 61).
burguesia e que a construção da
república colocaria fim as contradições O proletariado de Paris acreditou que a
sociais existentes na França. Burguesia e república burguesa significava sua
proletariado haviam conquistado a emancipação social. Ainda imaturo
revolução de fevereiro e, na embriaguez politicamente não reconhecia os limites
do momento, a classe operária que a dominação burguesa impunha. “O
acreditava que os antagonismos haviam proletariado de Paris se deixou levar
desparecido com instalação da república. com agrado por esse enebriamento
Diante desse clima de conciliação, Marx generoso de fraternidade” (MARX,
(1986, p. 61) afirma que “A frase que 1986, p. 62). Mas com a constituição do
correspondia a essa imaginária abolição governo provisório, com a persistente
das relações de classe era a fraternité, a exclusão dos líderes operários das
confraternização e a fraternidade comissões dirigentes, com os boicotes as
universais”. reivindicações operárias, o clima de
fraternidade foi se transformando em
A Monarquia de Julho assistiu ao desconfiança e revolta até eclodir na
domínio exclusivo da aristocracia violência da luta de classe com as
financeira, uma parcela da burguesia que jornadas de junho. Após o massacre da
se dedicava as atividades comerciais e insurreição operária, a verdadeira face
bancarias. Na sua ingenuidade, a classe da república burguesia foi exposta. “Por
operária e seus líderes imaginavam que isso, o berço verdadeiro da república
com a queda de Louis Philippe, toda a burguesa não é a vitória de fevereiro,
burguesia havia deixado o poder e que a mas a derrota de junho” (MARX, 1986,
república era o terreno da igualdade, da p. 71).
liberdade e da fraternidade. Marx aponta
que para a consciência mais imediata a Depois do fracasso da Comissão de
Luxemburgo e da derrota nas jornadas
de junho, a classe operária só aparecerá
6
“Todas as pessoas que haviam sido socialistas na luta política como um apêndice da
foram acusadas de participação nas conspirações social democracia. Marx comenta: “Ao
e revoltas (...) A República fizera em abril suas
primeiras vítimas, em maio seus primeiros
deixar-se guiar pelos democratas diante
prisioneiros, em junho seus primeiros exilados” de tal acontecimento e ao trocar o
(AGULHON, 1991, p. 80). interesse revolucionário de sua classe
por um bem-estar momentâneo, os ideias utopistas em suas fileiras. Weeb
operários renunciaram à honra de se afirma que: 112
tornarem uma potência conquistadora” Para Marx, os sistemas utópicos não
(2000, p.78-79). A classe operária, que tinham mais lugar no cenário
não possuía um programa autônomo e político de meados do século XIX.
independente, se arrastrou atrás da O sistema de construção utópica
Montagne, abandonando a luta por tinha perdido toda a importância,
transformações verdadeiras. Essa todo valor prático e toda a
ausência de um programa próprio, justificativa teórica. Por esta razão,
manifestada numa profunda crise de esse último recurso do proletariado
organização política, foi um dos fatores às experiências doutrinárias é
decisivos para a ascensão do tomado como um indicador chave
de sua própria derrota terrível após a
bonapartismo.
insurreição de junho de 1848. (2002,
p. 248-249 - Tradução nossa).7
A crítica ao socialismo utópico
Segundo Webb, O 18 Brumário é uma
Os acontecimentos de fevereiro a junho obra fundamental para compreendermos
de 1848 serviram para evidenciar que o a crítica de Marx ao socialismo utópico,
socialismo doutrinário e utópico só pois o processo revolucionário de 1848
poderia conduzir o proletariado a colocará em cheque todas as concepções
fracassos. A partir dessas jornadas, ficou fantasiosas oriundas dos teóricos
claro que não haveria emancipação no utopistas. Essa corrente fantasiosa se
interior da ordem capitalista burguesa e esgotará nesse período diante do
que se a classe operária almejava amadurecimento da luta de classes,
libertar-se, seria preciso trilhar um evidenciando todos os seus limites.
caminho marchando separada da classe Webb observa que: “Marx lamenta o
burguesa. Não obstante, o proletariado fato de que o partido do proletariado
preso a concepções doutrinárias pensava revolucionário ainda estava envolvido
ser possível emancipar-se junto à por frases utópicas. E isso não foi uma
burguesia, sem revolucionar a sociedade, questão menor, de táticas partidárias
ou seja, pensava ser possível conquistar mesquinhas. Pelo contrário, foi uma
a emancipação dentro da ordem questão de profunda importância teórica
burguesa capitalista. Questionando as e política” (2002, p. 251 – Tradução
ações estratégicas da luta operária, Marx nossa).8 A posição fraternal do
observa que “o proletariado de Paris proletariado durante a revolução de
ainda não era capaz de sair dos limites
da república burguesa, a não ser nas suas
ilusões, na sua imaginação; como agia 7
“For Marx, utopian systems had no place in the
sempre e por toda parte a serviço da political landscape of the mid-nineteenth
república burguesa” (1986, p.71). century. Utopian system-building had lost all
importance, all practical worth and all theoretical
justification. For this reason the proletariat’s
Para avançarmos nessa discussão, torna- ultimate recourse to ‘doctrinaire experiments’ is
se necessário apresentarmos a taken as a key indicator of its own terrible defeat
interpretação de Webb (2002). No artigo following the June insurrection of 1848”.
8
intitulado The eighteenth brumarie as “Marx bemoans the fact that the party of the
the key to understanding Marx’s critique revolutionary proletariat is still engaging in
utopian phrasemongery. Nor was this a minor
to utopian socialism, ele evidencia que issue of petty party tactics. Rather it was an issue
uma das razões da imaturidade política of profound theoretical and political
do proletariado estaria na persistência de importance”.
fevereiro e a derrota em junho se deve socialismo utópico no interior da
em grande parte ao posicionamento organização da luta operária 113
equivocado da luta operária diante da desempenha um papel determinante.
conjuntura que se desenvolvia. Segundo
Barot, no artigo intitulado D`un
Webb: “(...) os proletários foram fugindo
Napoléon l`autre, compartilha da ideia
de uma resolução real de conflitos
de que a presença de concepções pré-
sociais, e foram optando por evocar um
revolucionárias foi determinante para a
inimigo distante através de ineficazes
derrota do proletariado em 1848:
voos fantasiosos” (2002, p. 249 -
Tradução nossa).9 A insurreição proletária de junho foi
uma resposta a consideração da
Para o autor, a diferença entre Marx e os Assembleia Constituinte de acordo
utopistas é que o filósofo alemão com aquelas utopias sociais do
descobriu as condições materiais para a proletariado que eram politicamente
emancipação do proletariado e que essa impróprias e desconexas com a
revolução é baseada nas condições reais realidade, utopias que
de vida. É nesse contexto que o definitivamente os deixaram cair.
pensamento utópico se torna reacionário, Certamente o proletariado não
pois não se baseia na compreensão do possuía uma arma teórica, por
essencial, eram pensadores do
presente, mas na fantasia, em ideias
socialismo utópico, com suas
abstratas e distantes das condições fraquezas científicas e tático-
materiais. Segundo Webb: “(...) eles estratégicas substanciais, que Marx
estavam enganando as massas (e, muitas e Engels analisaram mais tarde, por
vezes eles próprios), ao mesmo tempo exemplo, no Socialismo utópico e
em que estavam anunciando-se como científico (2007, p. 47 – Tradução
profetas” (2002, p. 250 - Tradução nossa).11
nossa).10 O autor deixa muito claro que o
O texto de Webb (2002) é importante proletariado não tinha um programa
para compreendermos as razões da revolucionário capaz de avançar na luta
derrota proletária em junho de 1848, contra a burguesia e sua república.
pois evidencia como a presença do Diante dessa fraqueza teórica se deixou
utopismo no interior do partido operário iludir e acreditou na possibilidade de
corroborou para o seu fracasso. Assim, a emancipar-se junto à classe burguesa.
ascensão do proletariado como classe Devido à ausência de uma arma teórica
dominante não dependia apenas de um que superasse o socialismo utópico, o
amadurecimento econômico, das proletariado não foi capaz de reconhecer
condições materiais ou do
desenvolvimento da indústria francesa,
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mas também, da superação de ideias que “L’insurrection prolétarienne de juin fut une
impunham limitações à luta do partido réponse à la consideration de l’Assemblé
constituante selon laquelle les utopeis sociales du
operário. Aqui, a persistência do prolétariat étaient politiquement impropres et
déconnectées des réalités, utopies qu’il fallait
définitivemente lasser tomber. Certes le
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“(…) the proletarians were evading a real proletariat ne possédait alors come arme
resolution to social conflicts, and were opting théorique, por l’essentiel, que les pensées du
instead to conjure the enemy away through socialisme utopique, avec leurs faiblesses
ineffectual flights of fancy”. scientifiques et táctico-stratégiques
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“(…) they were deceiving the masses (and consubstantielles, que Marx e Engels analysérent
often themselves) at the same time as they were plus tarde, par exemple dans Socialismo
heralding themselves as prophets”. utopique et socialisme scientifique”.
que a classe burguesa era sua adversária A leitura marxiana desse processo dá
e não sua aliada. ênfase aos aspectos subjetivos, destaca 114
inúmeras críticas ao socialismo utópico e
No artigo intitulado Marx diante da
critica a ausência de um programa
ditadura bonapartista, Antunes (2009)
independente e autônomo da classe
também compreende que a derrota da
operária, que tomada por ilusões e ideais
classe operária foi resultado da sua
abstratas pensava ser possível
inabilidade política. O autor afirma que
emancipar-se junta da república
o golpe de Bonaparte que colocou fim a
burguesa, sem revolução e ao lado da
II República Francesa foi “resultado da
burguesia. Marx discute e aponta
incapacidade demonstrada tanto pela
equívocos na atuação prática dos líderes
burguesia quanto pelo proletariado para
da classe operária, apresenta a
controlar o poder do Estado” (2009, p.
persistência de ideias utópicas e
57). Antunes encontra as raízes do golpe
de Louis Bonaparte na luta política, na demonstra como essas impossibilitaram
o rompimento da luta operária com a
incapacidade das classes de dirigirem
república burguesa.
diretamente a burocracia estatal, e
acrescenta: “O bonapartismo se funda,
em última instância, (...) na crise da Referências
direção do proletariado e na sua
AGULHON, Maurice. 1848: O aprendizado da
incapacidade para se constituir como república. Trad. Maria Inês Rolim. Rio de
classe verdadeiramente revolucionária” Janeiro: Paz e terra, 1991.
(2009, p. 63). Essas passagens
ANTUNES, Jadir. Marx diante da ditadura
determinam que a derrota de junho foi Bonapartista. In: Maisvalia, nº 6. São Paulo:
uma derrota política, fruto da precária Týkhe, 2009, p. 54 – 63.
organização da classe operária. Ao BAROT, Emmanuel. D`un Napoléon l`autre:
enfatizar a crise de direção, Antunes l´intelligibilité d`un étrange présent. In: MARX,
concorda com as leituras de Weeb e Karl. Le 18 Brumaire de Louis Bonaparte. Paris:
Barot, pois ambos enfatizam uma crise Le Livre de Pouche, 2007, p. 29-104.
posta por fatores subjetivos, postos pela MARX, Karl. A guerra civil na França. Trad.
própria organização da luta política pela Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2011.
ausência de um programa ______. As lutas de classes na França. São
revolucionário. Paulo: Global, 1986.
Considerações finais ______. O dezoito Brumário de Louis
Bonaparte. Trad. Silvio Chagas. São Paulo:
A interpretação que Marx apresenta em Centauro, 2000.
seus textos sobre as revoluções de 1848
WEBB, Daren. Here content transcend phrase:
ainda são pouco exploradas pela the eighteenth brumarie as the key to
literatura marxista. Trata-se de uma understanding Marx’s critique to utopian
análise de conjuntura fundamental para socialism. In: COWLING, M.; MARTIN, J.
debatermos inúmeros temas pertinentes (eds.) Marx’s Eigtheenth Brumaire: (Post)
às questões contemporâneas. Nessa modern Interpretations, London: Pluto Press,
2002, p. 243 – 257.
perspectiva, as jornadas operárias de
junho de 1848 e a leitura marxiana da
derrota da revolução, ainda é um tema Recebido em 2015-02-15
pouco explorado e que merecer maior Publicado em 2015-08-09
atenção dos estudiosos da obra de Marx.