Você está na página 1de 242

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

INSTITUTO DE ARTES

RICARDO HENRIQUE MARQUES DA SILVA

MANDALA DE CONEXÕES:
CULTURA DE PAZ, YOGA E ARTES
NA UNIVERSIDADE ABERTA À TERCEIRA IDADE

São Paulo
2019
2
RICARDO HENRIQUE MARQUES DA SILVA

MANDALA DE CONEXÕES:
CULTURA DE PAZ, YOGA E ARTES NA UNIVERSIDADE ABERTA À TERCEIRA
IDADE

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao


Instituto de Artes da Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como
exigência parcial para a obtenção do grau de
Licenciado em Arte-Teatro.
Orientadora: Professora Mestra Maíra Gerstner
Co-Orientadora: Professora Doutora Lilian
Freitas Vilela

SÃO PAULO
2019
4
RICARDO HENRIQUE MARQUES DA SILVA

MANDALA DE CONEXÕES:
CULTURA DE PAZ, YOGA E ARTES NA UNIVERSIDADE ABERTA À TERCEIRA
IDADE

Trabalho de conclusão de curso aprovado como requisito parcial para obtenção do


grau de licenciado em Arte-Teatro no curso de Graduação em Licenciatura em Arte-
Teatro, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho” – IA-UNESP, pela seguinte banca examinadora:

___________________________________________
Profa. Mestra Maíra Gestner
Instituto de Artes da UNESP – Orientadora

___________________________________________
Profa. Dra. Lilian Freitas Vilela
Instituto de Artes da UNESP – Co-orientadora

São Paulo, ____ de _________________ de 2019


6
AGRADECIMENTOS

Eu vou dizer, eu vou dizer,


Mas antes vou agradecer
Pelo calor de cada irmão
Pelo carinho e união
Eu agradeço, eu agradeço
De todo o meu coração
(Vinicius Rocha)

Agradeço à minha mãe e ao meu pai, por acreditarem em minhas


potencialidades e em reconhecerem em mim desde cedo o gosto pelos estudos e pela
vontade de adquirir conhecimentos, e também de compartilhá-los. Agradeço a vocês
por todas as oportunidades que me proporcionaram ao longo de toda a vida, e por
serem exemplos da integridade, da persistência e da força que tenho buscado cultivar
em meu interior.

Agradeço aos educadores e educandos que me auxiliaram a ser quem sou.


Todos aqueles que foram verdadeiros comigo e me permitiram ocupar o meu lugar de
aprendiz e de estudante das belezas da vida.

Agradeço às minhas mestras e mestras, pela inspiração e pela força extra que
me forneceram para que eu pudesse nesse ano de 2019 me dedicar à estruturação
de tantos projetos e, ao mesmo tempo, permanecer me cuidando.

Agradeço ao yoga e às artes por existirem em meu caminho como pontes, como
linguagens, como portais. Esses estudos práticos me permitiram a conexão com
milhares de pessoas nos últimos anos aqui no Brasil.

Agradeço à minha psicóloga Rose, por ter me acompanhado durante sete anos
do período de graduação e por sempre ter acreditado em mim.

Agradeço às forças da natureza que a cada dia se fazem mais presentes em mim.
8

“Vamos crescer mais um pouco


Mais doces e menos duros
Maduros e puros
Maduros e puros”
Isabela Firmino1

“Soy un niño salvaje, inocente, libre y silvestre


Tengo todas las edades, mis abuelos viven en mi.
Soy hermano de las nubes, solo sé compartir,
Sé que todo es de todos, y que todo está vivo en mi.
Mi corazón es una estrella, soy hijo de la tierra,
Viajo a bordo de mi espíritu, camino a la eternidad".2
Alberto Kuselman y Chamalú

1
Hino ritualístico da linhagem do Santo Daime, composto por Isabela Firmino, amiga e colega de
profissão. Conheci essa canção em outubro de 2018, cantando-o em Itapecerica da Serra, na
Sagrada Casa dos Peregrinos de Gaya

2
Conheci essa música em rituais de rezo e rodas de mantras, na versão cantada por Titi Oda Nazca.
De acordo com o pesquisador Wilson Eduardo Jansasoy, da Universidad Pedagógica Nacional da
Colômbia, “Niños salvaje, expresa la cosmovisión desde el nacimiento del hombre andino en su
territorio letra dice “soy un niño salvaje, inocente libre y silvestre, tengo todas las edades, mis abuelos
viven en mi”. Jorge dice que el pensamiento, la visión es diferente cuando un hombre crece rodeado
en este entorno, donde todo es bonito y fresco, el sonido de las flautas invitan a recorrer el
pensamiento de los antepasados. El respeto por la vida y los seres viven allí.” (JANSASOY, 2018,
p.107)
“O Yoga tem uma mensagem para o corpo humano; tem uma
mensagem para a mente humana e tem uma mensagem para a
alma humana; serão os jovens habilidosos e inteligentes
capazes de transmitir esta mensagem adiante não só pela Índia,
mas também por todos os cantos do mundo?”

Swami Kuvalayananda3

3
Citação retirada de slides do curso de formação em yoga na Humaniversidade, coordenado pelo
professor Gerson D´Addio da Silva, em aula de introdução à filosofia do yoga. Swami Kuvalayananda
foi um estudioso dedicado a estudar o yoga nas ciências, de maneira que hoje ele é considerado o
principal expoente do yoga científico, assim como pioneiro nessa abordagem. Não encontrei a
referência bibliográfica exata dessa citação.
10

Como toda flor floresce e toda juventude


foge da velhice, assim floresce cada etapa de vida,
floresce toda sabedoria e também toda virtude
a seu tempo; e elas não durarão para sempre.
A cada chamado da vida, o coração tem de estar
pronto para a despedida e para os recomeços,
e entregar-se a novas ligações com coragem e sem tristeza.

Em cada recomeço existe uma magia,


que nos protege e nos ajuda a viver.
Nós devemos atravessar espaço por espaço,
sem nos apegarmos a nenhum como uma pátria.
O espírito do mundo não quer nos amarrar e limitar,
ele quer nos erguer degrau por degrau.
Mal nos sentimos domiciliados num círculo de vida
e confiantemente adaptados a ele, ameaça-nos a estagnação.

Só quem está preparado para a partida e a viagem,


pode fugir ao hábito que paralisa.
Ele também nos enviará, na hora da morte,
os novos espaços.
O chamado da vida nunca cessará...
Então, coração, diga adeus e recupere-se.

Hermann Hesse - Stufen (Degraus)4

4
Citação retirada do início do livro “As Crises da Vida como Oportunidades de Desenvolvimento”
(1995, Editora Cultrix), de Rüdiger Dahlke.
Criando União (Namastê)

O meu caminho é lindo


Como é o seu caminho, meu irmão
Tão lindo quanto sua essência
Fonte da luz da criação

O meu caminho tem o brilho


Como brilha a luz no coração
E ilumina junto às estrelas
Que compõem a constelação

No caminho eu sou o filho


Da Mãe Terra e do Pai Sol
São eles quem me ancoram
Para eu realizar minha missão

No caminho eu sigo pleno


Sinto cada sensação
Não me prendo aos pensamentos
Eu sigo nessa direção

Sigo criando o meu caminho


Para elevar a vibração
Poder sentir de verdade
Amor com grande emoção

Amor puro e verdadeiro


Da mais forte intenção
Que vem guiar nosso caminho
Para nós criarmos união

Ser parceiro e ter amizade


Em fraterna dedicação
Meu irmão lhe dou a mão
Para nós criarmos união
Meu irmão me dê a mão
Para nós criarmos união

Ricardo Henrique - Outubro de 20155

5
Esse hino é um dos meus poemas musicais que compõem um hinário chamado “Namastê”, com
mensagens de paz e harmonia. Esse, em específico, foi inspirado a partir de uma reflexão minha
sobre o significado deste importante mantra (namastê), que se resume em “a divindade que habita
em mim saúda a divindade que habita em você”.
12

Que todos nós estejamos protegidos e unidos.


Que todos nós estejamos nutridos e unidos.
Que todos nós trabalhemos juntos
Unindo as nossas forças pelo bem comum da Humanidade.
Que nosso saber seja luminoso e realizador.
Que jamais nos desentendamos.
Que haja paz, paz, paz perfeita.
DEDICATÓRIA

Dedico esse trabalho, em primeiro lugar, às educandas e educandos da UNATI


que estiveram presentes nos encontros de yoga em 2019.
Faço uma menção especial à querida professora Eliane Bambini Gorgueira
Bruno, que hoje se encontra no céu iluminando todos nós com sua sabedoria e amor.
A presença de Eliane em minha vida durante a graduação foi de imensa importância,
pois ela olhou em meus olhos e confiou em meu potencial como educador e como ser
humano. E, sem dúvida, ela deixou para todos nós que ficamos o convite para que
nos fortaleçamos a cada dia na senda da educação, na missão de educar com amor.
Dedico esse trabalho à grande amiga Mayara Gabaldi Sampaio, que foi minha
grande parceira de caminhada durante a graduação, em quase oito anos de amizade.
Você foi minha grande alegria na UNESP em todos esses anos, e essa alegria me
ensinou muito sobre a leveza na vida e sobre a superação das dificuldades que
aparecem no caminho. Obrigado por ter sido uma companhia incrível e uma amiga
exemplar. Estaremos sempre juntos.
Dedico também aos meus queridos amigos e colegas de profissão:
Pedro Falco, educador tão especial e amigo querido que tanto me ajudou e me
incentivou a ser eu mesmo e a prosseguir, com fé e coragem.
Luciana Amorim, que me ensinou lições de paciência, força de vontade, amor e
dedicação.
Ana Paula Springer, querida amiga com quem compartilhei o sonho de mudar os
rumos da vida e iniciar os estudos em artes. Amo muito você e sua alegria de viver,
sua coragem de buscar e sua leveza no coração. Conte sempre comigo.
Ana Caroline Piques, que há dez anos me ajuda a ser eu mesmo na caminhada
espiritual, na superação dos desafios e na expansão do amor interior para expandir
paz ao mundo.
Katarine Carvalho, por ser uma imensa inspiração para mim. Um grande
educadora, uma grande artista, um grande Ser. Sempre amigos.
Bruna Maya, eterna amiga sonhadora, de força sem igual, com quem compartilho
sonhos há tantos anos.
Roberta Quintero, amiga e colega que tanto torce por mim e tanto me incentiva
a ser quem sou. Estou sempre ao seu lado.
14

Juliana Aragão, Giovanni Peixoto, Andrea Nagamine, Beatriz da Matta, Lorenzo


Galardinovic e todos os meus colegas de LAT, BAC, BLAV e música que torceram por
mim e que iluminaram meus momentos na UNESP.
Fernanda Lombardi e Beatriz Canolo, por serem tão sorridentes e amorosas
comigo, e por me ajudarem a prosseguir na sustentação de uma visão de mundo cheia
de amor fraterno e afeto.
Queridas Marli Batista, Marisa Alves, Meire Cris (do IFT), Janaína (assistente
social da UNESP), Vera Cozani e Tatiana (técnica de iluminação do IA) que tanto
torceram por mim nas palavras, nos olhares, nos abraços e momentos
compartilhados. Obrigado por acreditarem em mim e abrirem portas para meu trabalho
na UNESP!
Clarissa Garcia, Fabiana Colares, Marcia, Paulo e todos os amigos da biblioteca:
adorei estar com vocês nesses oito anos! Muito obrigado por tudo!
Aos educandos da UNATI do ano de 2017, saudades daqueles que não encontrei
em 2019!
Aos educandos, mães, arte-educadores e terapeutas do ArtInclusiva UNESP,
com os quais tive a oportunidade de aprender de 2013 a 2015!
Aos professores do curso de Licenciatura em Arte-Teatro do Instituto de Artes
que me ajudaram a crescer e me fortalecer no caminho do yoga: Lucia Romano,
Marianna Monteiro, Kathya Godoy, Suely Master, José Manuel Lázaro, Carminda
Mendes André, Rita Bredariolli, Gabriel Bueno, e outros que eu talvez tenha
esquecido. Muito obrigado pelas aulas e por tudo!
À querida Ana Kiyan, que me ensinou muito nas reuniões do ArtInclusiva e nas
postagens do facebook. Dedico essa obra também à Lu Bevilacqua e a todas as
terapeutas que estiveram comigo no ArtInclusiva.
À Afonsina e ao Edinho, por sempre me fazerem sorrir e por iluminarem nossas
manhãs e tardes no Instituto de Artes com a espontaneidade e a alegria eterna que
vocês têm!
A todos os meus professores de yoga: Gerson D´Addio da Silva, Oberom,
Fernanda Cunha, Dênis Pádua, Maurício Salém, Cristiane Zerbini, Maeve Vida,
Marcos Rojo, Patricia Andrade Varela Favano, Vitor Favano, Danilo Santaella,
Chandra Lacombe, Gabriela Montanher, Cris Pitanga, Raquel Peres, André (do Yoga
de Rua), Nair Rosa, Cinthya Audi, Bruna Maya, Juliana Figueira, Ludmilla Guedes,
Andrea Felice, Carolina Zoli, Ana Lygia, Drica Ribeiro, Arlene (aluna da UNATI e
colega de profissão), Cecilia Bianchini, Carol Menezes, Carla Haick, Jean Michel
Torres, Ananda Padma, Renata Von Poser, Amanda Lambert, Prem Madhuri, Caroline
Pontes, Luiza Savietto, Gilberto Basseto, Dhira Krishna e Bhadrinath Das.
Ao Templo Rosa Caridade e todas as trabalhadores e trabalhadores de lá que
me ensinaram a força da paz, o valor do amor e a importância da sabedoria! Estarei
sempre conectado a vocês, ensinando o que aprendi e revisando os conteúdos,
fazendo as lições de casa, arrebanhando as ovelhas e amando como a nossa querida
Dona Terezinha!
Aos amigos da Casa Jaya, por me impulsionarem a ser eu mesmo.
Aos queridos Daniel Moray, Israel Muniz, Isabela Firmino, Renato Sarreto, Valéria
Pontes, Márcio Araújo, Felipe Frezza e Vinicius Rocha, por alegrarem e inspirarem
tantos dias meus com seus hinos contagiados de força viva e dom da arte! Trilha
sonora do meu TCC! Aos Peregrinos de Gaya, por me acolherem nesses anos, e por
me ajudarem a sair da depressão e da ansiedade.
Ao querido Dori Edson, por aparecer poeticamente em minha vida e me
impulsionar a iniciar meus novos capítulos.
Aos meus alunos da Casa Paz, por me apoiarem em meu sonho e por viajarem
para os jardins internos da paz que juntos nós construímos em acolhimento e conforto.

À Maíra Gestner e à Lilian Freitas Vilela, orientadoras dessa pesquisa, que


estiveram comigo como bases aterradas e ao mesmo tempo conectadas com uma
força potente de vida. Que vocês continuem expandindo essa força em suas missões,
e que continuemos sempre conectados nas nossas caminhadas!

Aos educadores que aqui cito e com quem dialogo no trabalho, sobretudo Paulo
Freire, Tião Rocha, Rubem Alves e José Pacheco. E à mestra Amma, que é uma
grande referência de força, determinação e luz para mim. Espero que eu possa ir até
a Índia abraça-la em breve!

E, por fim, às crianças e aos animais, que precisam tanto de nossa voz e de
nosso empenho para que tornemos esse planeta uma casa mais habitável e
harmônica para que eles possam sentir mais paz e alegria.
16

RESUMO

Este trabalho de conclusão de curso propõe a reflexão teórico-prática sobre as


experiências vividas nas aulas da oficina “Yoga, Arte e Autoconhecimento”,
ministradas durante todo o ano letivo de 2019 dentro do projeto de extensão da
Universidade Aberta à Terceira Idade (UNATI) do Instituto de Artes da UNESP. Esse
é um projeto de grande valor dentro da referida instituição de ensino e de outras no
Brasil, por contribuir para a formação humanística de um público que tanto precisa de
atividades relacionadas à saúde, qualidade de vida, cultura e artes. Junto à realização
de aproximadamente 25 encontros até a presente apresentação da referida pesquisa,
foram realizados passeios externos à universidade. As aulas foram planejadas tendo
em vista o autocuidado, a afetividade e o acolhimento pedagógico. Nelas foram
realizadas uma série de atividades que abrangeram diversas linguagens artísticas e
muitos exercícios de hatha yoga, meditação e yoga restaurativo. O principal objetivo
deste estudo consiste em revelar os impactos positivos gerados nas vidas das
participantes das oficinas, de maneira a trazer sentido e vivacidade para cada pessoa
envolvida no projeto e também para o próprio projeto de extensão. Foram feitos
registros fotográfico, entrevistas com as alunas e com professores parceiros, além de
planejamentos de aulas e reflexões posteriores às aulas atreladas à pesquisa
bibliográfica em Cultura de Paz, educação, yoga e saúde. A união do yoga com as
artes originou, a partir desta obra, uma metodologia de ensino provisoriamente
denominada “Mandala de Conexões”. Trata-se de uma pesquisa qualitativa empírica.
Com a construção dessa comunidade de aprendizagem em âmbito universitário,
foram relatadas mudanças positivas a nível físico e mental, tal como a melhora de
sintomas ligados à ansiedade e nervosismo, maior disposição, sensação de bem-estar
e paz; relaxamento, alegria plenitude. A pesquisa bibliográfica abrange tais processos,
e indica que o ensino de yoga pode ajudar pessoas idosas ou na faixa dos cinquenta
anos ou mais – tanto mental quanto fisicamente, além de realçar a relevância da arte-
educação em sala de aula. O processo de pesquisa mostra que a transmissão do
conhecimento dessa filosofia indiana, ao ser associada ao compartilhamento de
conteúdos em artes pode contribuir para mudanças positivas no estilo de vida dos
educandos e incentivá-los a despertar a consciência corporal, a alcançar maior
compreensão acerca de si. Propõe-se, a partir deste trabalho, que educadores
utilizem princípios e atividades vivenciais em suas aulas, e que mais pessoas
aprendam e pratiquem yoga e busquem o contato com a paz, com a tranquilidade,
com a poesia e com a beleza da vida.

Palavras-chaves: Yoga. Hatha yoga. Cultura de Paz. Arte-educação. Terceira idade.


Idoso. UNATI. Universidade Aberta à Terceira Idade. Meditação. Pedagogia.
ABSTRACT

This final paper proposes a theoretical and practical reflection on the experiences of
the “Yoga, Art and Self-knowledge” workshop classes, taught throughout the academic
year of 2019 within the extension project of the Open University for the Third Age
(UNATI) of the Institute of Arts of UNESP. This is a project of great value within this
educational institution and others in Brazil, as it contributes to the humanistic formation
of an audience that so much needs activities related to health, quality of life, culture
and arts. Along with the holding of approximately 25 meetings until the present
presentation of this research, external tours out of the university were conducted. The
classes were designed with a view to self-care, affection and pedagogical reception.
There were a series of activities that covered a variety of artistic facets and many hatha
yoga, meditation and restorative yoga exercises. The main objective of this study is to
reveal the positive impacts generated in the workshop participants' lives, in order to
bring meaning and liveliness to each person involved in the project and also to the
extension project itself. Photographic records, interviews with the students and partner
teachers were made, as well as lesson planning and reflections after the classes linked
to the bibliographic research in Culture of Peace, education, yoga and health. The
union of yoga with the arts originated, from this work, a teaching methodology
provisionally called "Mandala of Connections". It is an empirical qualitative research.
With the development of this university-based learning community, positive physical
and mental changes have been reported, such as the improvement of symptoms
associated with anxiety and nervousness, greater disposition, a sense of well-being
and peace; relaxation, joy and fullness. Bibliographic research encompasses such
processes, and indicates that yoga teaching can help elders or those in their fifties and
older - both mentally and physically, as well as highlighting the relevance of art
education in the classroom. The research process shows that the transmission of
knowledge of this Indian philosophy, when associated with the sharing of content in
the arts can contribute to positive changes in learners' lifestyle and encourage them to
awaken body awareness and achieve greater understanding about themselves. It is
proposed from this work that educators use principles and experiential activities in their
classes, and that more people learn and practice yoga and seek contact with peace,
tranquility, poetry and the beauty of life.

Keywords: Yoga. Hatha yoga. Culture of Peace. Art education. Third age. Elderly.
UNATI. Open University for the Third Age. Meditation. Pedagogy.
18
20

SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO....................................................................... 24
1.1. - Sobre o trabalho aqui realizado
1.2. - Aulas de transformação
1.3. - Inspirações Teóricas
1.4. - Organização dos capítulos do trabalho

CAPÍTULO 2 - OBJETIVOS............................................................................31
2.1. - Sobre a ação/missão de pesquisar na área da educação
2.2 - Sobre minha história
2.2.1. - A Casa Paz
2.3. - O sentido da educação
2.3.1. - Rubem Alves
2.3.2. - Paulo Freire
2.3.3. - Tião Rocha
2.3.4. - José Pacheco
2.4. - O caminho do educador
2.5. - Comunidade de Aprendizagem
2.5.1. - Minhas primeiras recomendações para o sadhana
2.6. - Relato de uma experiência: Darcy
2.7. - Yoga em conexão com as artes
2.8. - Na tentativa de definir arte
2.9. - As aulas de yoga
2.10. - O posicionamento sustentado na leveza
2.11. - Relato de uma experiência: sobre não deixar a chama se apagar

CAPÍTULO 3 - METODOLOGIA...................................................................... 65
3.1. - Sobre os aspectos metodológicos dessa pesquisa
3.2. - Mandala de Conexões
3.2.1. - O nome
3.3. - Sobre as artes
3.4. - Como a arte e o yoga, entrelaçados, podem contribuir para a educação do Ser
3.5. - Doando e recebendo no fazer educativo
3.6. - Sobre a sintetização gráfica da Mandala de Conexões
3.7. - Paz, Amor e Alegria

CAPÍTULO 4 - UNATI.......................................................................................90
4.1. - Universidade Aberta à Terceira Idade
4.2. - Instituto de Artes da UNESP
4.3. - Oficina "Yoga, Arte e Autoconhecimento"
4.4. - UNATI como extensão universitária
4.5. - UNATI e a educação
4.6. - Relato de uma experiência: a aula do dia dos professores

CAPÍTULO 5 - YOGA........................................................................................98
5.1. - O significado do yoga
5.2. - O hatha yoga como principal ferramenta metodológica para as aulas da UNATI
5.3. - O yoga clássico de Patãnjali como importante referência pedagógica
5.3.1. - O Astanga Yoga de Patãnjali - Yoga de oito partes
5.4. - A Árvore do yoga
5.5. - Yoga restaurativa: uma técnica de interiorização
5.6. - Meditação com técnica e como estilo de vida: texto complementar sobre
dhyâna
5.6.1. - Aprofundando a compreensão sobre a meditação

CAPÍTULO 6 - EDUCAR PARA A LIBERDADE NA TERCEIRA


IDADE................................................................................................................125
6.1. - Relato de uma experiência
6.2. - Corporeidade e saúde na terceira idade
6.3. - A menopausa
6.4. - Tao Porchon-Lynch
6.5. - Corporeidade
6.6. - Sobre velhice e corpo
6.7. - Senescência
6.8. - Saúde na terceira idade
22

6.8.1. - Saúde física


6.8.2. - Outros aspectos relacionados ao corpo
6.8.3. - Saúde mental e emocional
6.9. - Pensamento de Hermógenes
6.10. - "Acertando o Passo"
6.11. - Nossos passeios

CAPÍTULO 7 - AS ARTES NAS


AULAS.................................................................................................................152
7.1. Danças circulares sagradas
7.1.1. Minha história com as danças circulares sagradas
7.1.2. Danças circulares e a Cultura de Paz
7.1.3. Danças circulares e a conexão com o corpo, com a arte e com a cultura
7.2. As mandalas em fios de lã, tecendo novos caminhos
7.3. Mantras, música e silêncio
7.3.1. As músicas de paz: presentes para o dia-a-dia
7.3.2. O silêncio
7.4. Relato de uma experiência: um momento especial de acolhimento
7.5. Maitri: bondade amorosa
7.6. Após tudo o que vivenciamos
7.7. As palavras
7.8. Relato de uma experiência
7.9. Aulas especias com professores parceiros

CAPÍTULO 8 - A CULTURA DE
PAZ.....................................................................................................................185

CAPÍTULO 9 - EDUCAR PARA A LIBERDADE COM TERNURA, ÉTICA E


RESPONSABILIDADE.......................................................................................190
9.1. - Lidar com dores e frustrações
9.2. - Autoconhecimento
9.3. - Educação, espiritualidade e transformação social
9.4. - Relato de uma experiência
9.5. - Colocar em prática
9.6. - Um olhar pedagógico, terno e afetivo
9.6.1. - As três qualidades do educador que almeja a transformação

CAPÍTULO 10 - CONCLUSÃO............................................................................207
10.1. - Conselho de um amigo educador
10.2. - Finalização e resultados
10.3. - Respire
10.4. – Despedida

APÊNDICE A........................................................................................................216

APÊNDICE B........................................................................................................220

REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................................228
24

Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e


engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que
o mundo mudou.
Margaret Mead

1. INTRODUÇÃO

1.1. Sobre o trabalho aqui realizado

Este é um trabalho de conclusão de curso sobre Yoga, Artes e Educação.


Sou estudante de Licenciatura em Arte-Teatro do Instituto de Artes da UNESP e
resido em São Paulo desde o meu nascimento. Tenho 29 anos de idade, e sou
profissional da área educacional desde os 19 anos de idade. Na Universidade
realizo ações voluntárias em benefício da comunidade externa ao oferecer aulas
de Yoga e colocar-me na situação de pesquisador e arte-educador, unindo este
complexo sistema milenar de conhecimento oriental às diversas linguagens
artísticas existentes nas humanidades.
Em 2019, o meu foco acadêmico tem sido aliar aprendizagem, ensino,
pesquisa e estilo de vida na direção de ministrar aulas semanais de yoga para
pessoas na faixa etária dos 50 anos ou mais, na Universidade Aberta à Terceira
Idade da UNESP. E é essencialmente sobre esse processo de descobertas e
compreensões que esse trabalho de conclusão de curso se refere. O nome de
meu curso na UNATI é “Yoga, Arte e Autoconhecimento”.
Meu objetivo principal ao tecer essa obra é iniciar um processo de
amadurecimento reflexivo de um projeto que poderá servir como inspiração para
pessoas que estão envolvidas com Educação ou que têm interesse em aprender
mais sobre a temática aqui retratada. Como estou realizando minhas aulas no
mesmo período em relação à escrita do presente texto, tenho a intenção de
escrever parágrafos vivos e pulsantes que discorram sobre fatos, situações,
relatos e sensações sinceras, advindas de pessoas realmente valorosas na
direção da conquista de si próprias. Na direção de seu desenvolvimento como
seres humanos, aprendizes na eternidade.
Não tenho certeza se conseguirei me expressar da forma como a
Universidade gostaria em relação às normas formais de textualidade, entretanto
25

estou aqui trabalhando com dedicação e com muito amor, ternura,


responsabilidade e compromisso ético social..
Tenho uma personalidade prática e vivaz, e gosto muito de dar aulas e
compartilhar conhecimentos. Este é meu serviço no mundo, e o meu maior
prazer: ser educador. Acredito que tenho muito a aprender, embora já tenha
iniciado minha caminhada como professor já há uma boa quantidade de anos. E
sinto-me autêntico e genuinamente pertencente a esse coletivo de milhares de
educadores que sonham por um mundo melhor, e que acreditam que podem
transformar realidades em benefício daqueles que realmente necessitam. Por
isso cito Margaret Mead antes de iniciar essa apresentação. E por essa razão
que tenho tanto a agradecer.
Para aqueles cujos nomes estão acima nos agradecimentos: quero aqui
expressar a vocês o quão especial é a oportunidade de desenvolver um projeto
de cunho social destinado a pessoas maravilhosas. E cada educador que cruzou
meus caminhos, e cada educando que esteve em minhas aulas nesses 8 anos
de caminhada lecionando yoga – e matriculado na UNESP - foi realmente
importante.
Eu agradeço à vida por ter me presenteado com tantas amizades e com
tantas oportunidades enriquecedoras para que eu pudesse crescer, amadurecer,
superar desafios e chegar mais próximo daquilo que eu acredito: a felicidade. Eu
trilhei uma jornada extensa, que ainda está nos seus anos iniciais, mas já posso
reconhecer a beleza do caminhar, e sei com confiança e alegria que nasci para
ser educador, e compartilhar as sementes da paz e da alegria com aqueles que
encontro.
Tião Rocha, educador brasileiro que inspira tantos de nós, defende que as
pessoas estão no mundo para serem livres, para serem educadas e para terem
serem felizes e terem saúde. Ao unir yoga e artes, temos a expectativa de
avançar na conquista desses objetivos universais. É por isso que, ao estudar
esse casamento pedagógico, essa singela obra pode ser caracterizada como um
texto verdadeiro, que reflete a verdade e a autenticidade de momentos vividos
por pessoas sinceras e profundamente apaixonadas pela vida.
26

Parafraseando o Brhadaranyaka Upanishad6, ainda sobre a verdade:

Que, da simplicidade, possamos ser encaminhados para a profundidade


Que, da ilusão e da confusão humanas, possamos acessar a clareza
Que, dos medos assustadores da morte, possamos nos conectar com a
confiança na vida até o seu último instante – e, assim, aproveitá-la
Que, do irreal, possamos viver o real no momento presente
Que, da inércia, possamos honrar o valor do movimento a cada dia
Que, do saber oriental, possamos sorver o néctar do centramento e da
serenidade
Que, das sensações de dores, possamos acolher nosso corpo físico e
generosamente cuidá-lo com amor
Que, da ideia de separação que gera preconceitos e violência, possamos, em
yoga, sentir a união em relação a todos os seres vivos
Que possamos sentir paz. E que todos os seres sintam a paz.

OM LOKAH SAMASTHA SUKHINO BHAVANTHU7

6
asato ma sadgamaya
tamaso ma jyotirgamaya
mrtyor ma amrtam gamaya
(Brhadaranyaka Upanishad — I.iii.28)6
Esse mantra está contido no Brhadaranyaka Upanishad, uma das primeiras obras do yoga
clássico, e ele representa uma oração ao Guru, ao Mestre, ao professor de ensinamentos
espirituais.
De acordo com o site www.culturadapaz.com.br, “ a essência desse mantra é “Ó, Guru, me
ajude a me libertar de meus equívocos diversos sobre mim mesmo, o universo e Deus e me
abençoe com conhecimento verdadeiro.” (CULTURA DA PAZ, 2017, p.1)

7
Mantra clássico da tradição hindu, que significa “Que todos os Seres sejam felizes”
27

1.2. Aulas de transformação

Levante-se e estude
Só siga em desapego
Solidão para solitude
Caminho Verdeiro
(Chandra Lacombe, 2010)

“MANDALA DE CONEXÔES: CULTURA DE PAZ, YOGA E ARTES NA


UNIVERSIDADE ABERTA À TERCEIRA IDADE” é uma pesquisa empírica. É
um projeto prático, com planejamento e realização de aulas semanais da oficina
“Yoga, Arte e Autoconhecimento” durante o período letivo de 2019 e alguns
encontros extras.
As aulas foram iniciadas em 18 de março, e elas serão realizadas até
dezembro, sempre às segundas-feiras, das 14:00 às 16:15, com alguns
encontros extras e passeios. Essa presente obra trará informações coletadas até
o início de outubro, período limite para entrega do texto à orientadora Maíra
Gestner.
Desde o primeiro encontro as aulas aconteceram normalmente, sempre
com participantes ativos e comprometidos. Foram encontros férteis, com
bastantes conteúdos relevantes a serem explorados academicamente, de
maneira que profissionais de diversas áreas das ciências humanas e biológicas
poderiam somar em benefício das descobertas científicas aqui manifestadas.
Essa é uma obra viva, que relata o meu crescimento como ser humano e
como profissional, ao mesmo tempo em que meu auxilia a refletir de forma
criteriosa sobre os impactos destes encontros educacionais na vida de pessoas
tão especiais, buscadoras de si e da paz interior. É assim que posso descrever
as participantes da UNATI no ano de 2019.
Enraizadas no bem-estar e no respeito humano, minhas aulas estão
sendo, sem dúvida, transformadoras. E eu espero seguir por muitos anos com
essa intenção de espalhar as sementes do yoga pelo planeta, cada dia um pouco
mais maduro e pacífico.
28

Figura 3

1.3. Inspirações teóricas

O texto trará uma reflexão sobre pedagogia, arte-educação e novos


paradigmas no pensar e no fazer educacional. Dentro da literatura acessada, há
pensadores do yoga nascidos na Índia e no Brasil, clássicos e contemporâneos.
Há aqui a valorização de educadores brasileiros, portugueses e espanhóis –
filósofos, pedagogos, teólogos, mitologistas, teatrólogos, artistas, educadores
físicos e antropólogos. É cabível também mencionar que, ainda que aqui não se
toque profundamente nesta área, há uma inspiração teórica fundamentada na
visão junguiana de psicologia.
Recordo aqui os ensinamentos e estudos de Rubem Alves, José Pacheco,
Paulo Freire, Tião Rocha, Lia Diskin, professor Hermógenes, Regina Simões,
Ruy Cezar do Espírito Santo, Mirian Goldenberg, Elisabeth Maria Sene Costa,
Marilu Martineli, Gerson D´Addio da Silva, Xesús R. Jares, Hugo Assmann,
Reinaldo Soares, Gilberto Icle, Ítalo Calvino, Deepak Chopra, Patricia Walden,
Carl Jung, Joseph Campbell, Miila Derzett, Silene Sumire Okuma e Frédéric
Lenoir.
Há, nessa obra, citações de pesquisas relacionadas às artes e à terceira
29

idade de obras coletivas organizadas por Lucia Ribeiro, Celdon Fritzen e Janne
Moreira, Maria Candida Soares Del-Masso e Tania Cristina A. Macedo de
Azevedo,Serguei Tcherkasski, Sueli Souza dos Santos e Sergio Antonio Carlos,
Juarez Correia Bastos Júnio e Giulio Vicini.

1.4. Organização dos capítulos do trabalho

Após esse capítulo inicial, o qual introduz o leitor à pesquisa realizada - e o


contexto em que ela se apoia – há um capítulo sobre os objetivos pedagógicos
do trabalho, no qual me apresento como educador, conto um pouco de minha
história e disserto sobre os educadores que mais admiro. Nesta seção há
também uma declaração sobre minha visão acerca do significado da arte, e o
posicionamento que norteia meu ofício educador, o qual é fundamentado na
qualidade da leveza.
O terceiro capítulo traz informações sobre os aspectos metodológicos da
pesquisa, e apresentará a Mandala de Conexões, que é a metodologia que
desenvolvi com minhas experiências na área da educação, com yoga e as artes.
O quarto capítulo é sobre a UNATI (Universidade Aberta à Terceira Idade).
Ele clareia a importãncia da UNATI como extensão universitária do Instituto de
Artes da UNESP e também de outras instituições.
O quinto capítulo é o responsável por situar o significado e os princípios do
yoga como sistema de conhecimento. Nele explico sobre o significado do yoga
em sua constituição clássica, o hatha yoga como principal aparato metodológico
para as aulas, e disserto acerca dos principais detalhes sobre essa filosofia
milenar indiana.
No sexto capítulo trago informações relevantes sobre corporeidade e saúde
na terceira idade, trazendo à luz os saberes e os ensinamentos do professor
Hermógenes e de Tao Porchon-Lynch. Trago os conceitos de senescência,
normose, ansiedade e visceroptose. Tanto a saúde física quanto a saúde mental
têm relevância para o trabalho, e nesta etapa da pesquisa elas serão estudadas
com cuidado.
No capítulo sete escrevo sobre as linguagens artísticas nas aulas. Trago
informações sobre diversas vivências que fizemos, priorizando a escrita sobre
30

as danças circulares sagradas, as mandalas em fios de lã e os mantras e cantos


de paz. Ao final dessa parte do trabalho, compartilho a escrita com depoimentos
de minhas colegas de profissão Ana Lygia Teixeira, Nathalia Estima, Cecilia
Bianchini, Drica Ribeiro, Camila de Sá e Luciana Amorim.
No capítulo oito explico brevemente sobre o que é a cultura de paz e no que
consiste a educação para a paz.
No capítulo nove trago o conceito de pedagogia da ternura em união às
qualidades da responsabilidade e da ética educadora, explicitando minha visão
acerca da potência da educação libertadora em uma comunidade de
aprendizagem apoiada no respeito aos valores humanos e na Cultura de Paz.
Aqui preparo a obra à sua conclusão.
No capitulo dez, concluo o trabalho, com mais agradecimentos e um
compartilhamento íntimo dos vislumbres adquiridos durante a pesquisa, e
algumas sugestões que tenho a compartilhar.
Em seguida, para finalizar, coloco as referências bibliográficas e
filmográficas, alguns anexos e a galeria de fotos.
31

Capítulo 2. OBJETIVOS

2. 1. Sobre a ação/missão de pesquisar na área da Educação

O bom educador é aquele que cria um pedagogia própria,


autoral (e não fica apenas falando “entre aspas” e/ou citando pés de
página).
Tião Rocha

Penso que o estudo das Artes, assim como o estudo do Yoga – em âmbito
acadêmico e também fora dele – é um processo vivo, em transformação eterna,
tendo em vista a notável organicidade destes estudos que, além de teóricos e
científicos, também são completamente conectados aos processos criativos dos
seres humanos envolvidos. Esse é um dos principais motivos pelos quais
acredito que há muito conteúdo a ser explorado sobre esse casamento
metodológico que, como educador, ousei construir.
Identifico-me com educadores brasileiros que dedicaram-se não apenas
ao ato de lecionar, mas sobretudo à pesquisa aliada ao autoconhecimento em
seus próprios processos de autotransformação. Dessa forma, os educadores
Tião Rocha, Rubem Alves, Paulo Freire, Hugo Assman, Marilu Martinelli e Ruy
Cezar do Espirito Santo conseguiram inspirar a transformação de muitos outros
humanos que puderam testemunhar e/ou sentir o impacto de suas presenças e
obras. Posso acrescentar aqui o português José Pacheco e argentina Lia Diskin,
erradicados/habitantes atuais de nosso país.
Consigo achar uma semelhança nas obras desses professores quando
recordo seus feitos, quando leio suas palavras e quando reconheço a imensa
importância deles nos tempos atuais. Eles defenderam a educação para além
dos paradigmas, e desafiaram as normas tradicionais das pedagogias
tradicionais arraigadas nos formatos europeus ainda conectados às raízes da
32

Idade Média e Moderna. Eles conseguiram mudar seus locais de atuação,


impactaram nas artes, na política, na religião, na universidade, na psicologia e
em uma área ainda recente nas humanidades: a Cultura de Paz – sobre a qual
trarei maiores explicações no decorrer dos capítulos.
Rubem Alves, Tião Rocha, Paulo Freire Freire e José Pacheco gostam de
cunhar o termo “educador” em sobreposição ao termo “professor”. Para eles, é
essencial que saibamos reconhecer a potência daqueles que se comprometeram
a não apenas transmitir conteúdos dispostos ordenadamente em palavras nos
livros editados do século XX ou anteriormente. Educador é aquele que aprende,
pesquisa, experimenta, erra, busca melhorar, abraça, humaniza(-se), vivencia e,
por conseguinte, ensina. Dessa forma, ele não se contenta com pouco no seu
fazer educativo: ele quer que seu educando aprenda pela experiência, pelo
encantamento e pela troca humana.
Paulo Freire (o mais antigo de todos que citei), com seu inigualável
empenho em explicar a importância da alteração dos paradigmas e do “pensar-
fora-da-caixa”, cocriou junto aos seus parceiros exilados na Suíça em 1984 o
livro “Cuidado, Escola! – Desigualdade, Domesticação e Algumas Soluções”. Era
o fim do período ditatorial. Esse livro explica com poderosas imagens e poucas
palavras as consequências e os estragos do sistema educacional para com a
sociedade, evidenciando principalmente como as escolas corrompem a genuína
inocência das crianças. É de “Cuidado, Escola”, que temos a pulsante
postulação, a qual condiz perfeitamente com a crítica social que defendo:

"A Escola não nos ensina a falar uma língua estrangeira nem nossa
própria língua, não ensina a cantar ou a servir-nos de nossas mãos e
nossos pés; não ensina qual é a alimentação sadia: como conseguir
orientar-se no labirinto das instituições; de que modo cuidar de um
bebê ou de uma pessoa doente, etc. Se as pessoas não cantam mais,
mas compram milhões de discos em que profissionais cantam por elas;
se não sabem mais comer, mas pagam o médico e a indústria
farmacêutica para tratar dos efeitos da má alimentação; se não sabem
como educar os filhos, mas alugam os serviços de educadores
diplomados; se não sabem consertar um radinho ou uma torneira, nem
como curar uma gripe sem remédio, ou cultivar uma alface, etc…tudo
isso acontece porque a escola tem como objetivo inconfessável
fornecer às indústrias, ao comércio, às profissões especializadas e ao
Estado, trabalhadores, consumidores, clientes e administrados sob
medida. " (FREIRE & IDAC, p. 83, 1984)

As instituições educacionais atuais, salvo raras exceções, reproduzem o


33

funcionamento de uma engrenagem ditada pelo consumismo – como se a


educação pudesse ser tratada como um produto. Essa dinâmica já se alastrou
por todo o planeta, e hoje os educandos e educadores são comumente tratados
como pilares essenciais da geração de dinheiro, ao passo que em muitas
situações e em muitos ambientes, como por exemplo as escolas e as
universidades, seus valores e suas qualidades inatas são desconsiderados.
De forma sutil, mas genuína, a teoria e a prática desse trabalho dialogam
com essa crítica social iniciada por Paulo Freire. E agora tomo a liberdade de
falar um pouco sobre minha biografia, e sobre como minha visão de mundo
ganhou a vivacidade racional e o interesse pelos novos paradigmas de
pensamento, palavra e ação.

2.2. Sobre minha história

Figura 4

Desde minha adolescência questionei essa engrenagem quando senti na


pele a transição do ensino fundamental para o médio, na oitava série. Estudei no
Colégio Marista Arquidiocesano. Eu sempre fui um estudante muito dedicado,
mas até esse momento eu cultivava muitas características saudáveis da infância.
34

Eu brincava e tinha muitos momentos de tranquilidade e descontração. Mas as


coisas mudaram com as cobranças da escola que tão cedo queria me capacitar
para a aprovação no vestibular, com as festas de quinze anos e com as
mudanças rápidas nos hábitos de meus melhores amigos que foram buscar
álcool e cigarros para preencher algum vazio. Nada disso me atraia, então passei
por um período de muitos questionamentos, e me isolei de todos por alguns
meses. A rotina me deixava muito estressado. Foi nessa fase em que tive meus
primeiros sintomas de depressão e ansiedade mas, com um pouco de
consciência de que eu estava precisando de ajuda, pedi para meu pai me
matricular na academia da escola, e fui procurar atividades que aliviassem meu
estresse. E foi lá que pratiquei yoga pela primeira vez, justamente com o
professor Gerson D´Addio, que foi com quem estudei no curso de formação em
yoga. Nessa época, também conheci os Hare Krishnas do Centro Cultural
Vrinda, que me ensinaram o valor do vegetarianismo e me apresentaram à
cultura indiana .
Um outro lugar de real importância para mim nessa época foi a biblioteca
e a videoteca da escola, onde passava muitas horas do dia me deliciando com
publicações das diversas ciências humanas e com obras cinematográficas
diversas. Tornei-me cinéfilo aos 13 anos de idade, com admiração especial por
Woody Allen e Stanley Kubrick. Desde 2004, então, mantenho-me conectado ao
yoga, à meditação, aos hábitos saudáveis e com a vida orientada na direção do
bem-estar, com a visão direcionada àquilo que muitos chamam de
espiritualidade. Aos 16 anos comecei a construir um sentido para a vida,
acreditando que nasci com uma missão, e ela se relaciona com a educação e
com a comunicação.
O yoga sempre retornou para a minha vida. Utilizei as técnicas respiratórias
e meditativas que conheci no período do vestibular, e foi por isso que consegui
ótimos resultados. Ingressei na Universidade de São Paulo com 17 anos de
idade, logo após o fim do ensino médio, mas não era o momento certo para
concluir uma graduação. Escolhi ciências sociais e frustrei-me com a carência
de recursos pedagógicos que explorassem o corpo e a criatividade . Na minha
visão, eu era incentivado apenas a ler obras antigas, estudar para provas e
desenvolver uma visão de sociedade e política carregada de muita seriedade e
pessimismo, e isso me fez muito mal.
35

Mas aproveitei essa fase para praticar yoga no centro de práticas


esportivas e para me reunir com jovens de diversos cursos em uma sala da
Faculdade de Educação para discutir questões como ecologia, permacultura,
política, economia e sociedade. Foram os meus primeiros amigos na faculdade,
e eram todos vegetarianos e iogues. Eles eram iniciados na instituição Ananda
Marga, e devotos de Sri Sri Anandamurti, um líder humanitario e educador
indiano. Tive a sorte de ter sido convidado para participar de um retiro de yoga
na natureza, em Mogi das Cruzes, onde fui iniciado por um monge nessa
linhagem, e lá tive um primeiro contato com o veganismo, respiratorianismo, com
o sincronário da paz (inspirado no calendário maia), com documentos da
ONU/UNESCO como a Carta da Terra e com metodologias de convivência como
Comunicação Não-Violenta (CNV), Gaia Education e as danças circulares
sagradas.
Em julho de 2008, aceitei em cima da hora o convite para ir a ENCA
(Encontro Nacional de Comunidades Alternativas), em Aiuruoca (MG), no Vale
do Gamarra, um local maravilhoso escolhido por muitas pessoas para sediar
ecovilas e centros religiosos. E esse foi um grande marco em minha vida, pois
eu nunca havia sequer imaginado testemunhar tantas pessoas unidas para
celebrar a paz e discutir através de palestras e rodas novas possibilidades de
viver na Terra. Esse encontro foi o mais cheio dos últimos tempos: foram cerca
de duas mil pessoas que passaram por lá, e foi alí que “sofri” o maior choque de
realidade em minha jornada. Eu me perguntava se aquilo realmente existia, e
cheguei até a ficar com medo de nunca mais voltar para casa, pois o contraste
com relação a tudo o que eu havia visto e vivido até então era imenso.
Tive a (gelada) oportunidade de nadar pela primeira vez em uma
cachoeira, e pude conhecer pessoas de todas as idades nos corredores escuros
formados por árvores e barracas de camping e nas grandes rodas formadas para
que todos cantassem e celebrassem a vida, iluminados pela luz da lua, da
fogueira central e das lanternas dos acampantes. Vivi por alguns dias como
possivelmente muitos ancestrais nossos viveram, e isso foi inesquecível.
O ENCA é um encontro que acontece há mais de quarenta anos no Brasil
para reunir adultos e crianças que de alguma forma se identificam com o
movimento de difusão da Cultura de Paz em consonância com preceitos de
respeito à vida, que em alguns pontos se assemelham a momentos da história
36

do século XX como Woodstock que, de forma pioneira uniu a cultura hindu aos
chamados de paz no ocidente em um mundo ferido pelas guerras. Mas no ENCA
há regras estabelecidas e uma metodologia pré-estabelecida a todos, para que
haja harmonia e consenso, desde as escolhas alimentares até a distribuição de
tarefas para o bem-estar de todos que estão alí por aqueles 7 dias. E foi isso o
que me fascinou em relação a esse encontro, de modo que fiz questão de estar
presente em mais 6 reuniões nos anos seguintes.
Falo do ENCA pois ele serviu como um rito de passagem para mim há onze
anos, quando eu buscava incessantemente por um preenchimento em minha
vida, e uma compreensão melhor sobre o que estava fazendo no mundo. 2008
foi um ano decisivo, pois foi quando descobri que o mundo é muito maior do que
a educação, os livros e os meios de comunicação haviam me apresentado.
Decidi trancar o curso de Ciências Sociais e passei um tempo viajando pelo
Brasil. Conheci a Amazônia, o Rio Grande do Sul, terras do sul de minas e o
Ceará. Ao voltar, optei pela transferência para o curso de Pedagogia na USP,
ao passo que, antes desse processo ser efetivado, decidi enviar currículo à
Escola de Educação Infantil Ponto de Partida – onde trabalhei por um ano como
professor auxiliar e cuidador de uma criança com síndrome de Willians. Esse foi
o meu primeiro emprego. Tive aí a confirmação de que queria trabalhar com
educação, mas a tal engrenagem escolar me incomodava muito, e isso se
tornava evidente nas aulas do curso de Pedagogia. O que me trazia conforto era
a leitura de Jiddu Krishnamurti, José Pacheco, Rubem Alves e Paulo Freire. Por
causa deles, me tornei um crítico inquieto das instituições formais educacionais.
Por dois anos estudei teatro em um grupo universitário sediado na faculdade
de Engenharia da USP: o Grupo de Teatro da Poli (GTP). Era um grupo de
esquerda, com práticas inspiradas nos conhecimentos de Wilhem Reich, José
Ângelo Gaiarsa, Bertolt Brecht e Paulo Freire. Encenei duas peças lá, e esses
processos foram realmente intensos para minha formação humana.
Em 2010 e 2011 eu era um descontente estudante e admirador dos
referidos pensadores. Ainda não estava feliz, e então tomei a decisão de mudar
de ares e prestar o vestibular para ingressar no curso de Licenciatura em Arte-
Teatro do Instituto de Artes da UNESP a fim de ter a possibilidade de encontrar
melhores pontos de apoio aos meus estudos sobre Pedagogia, Arte e
Humanidade.
37

Não estava satisfeito com cursos puramente teóricos, cujas aulas me


conferiam uma sensação de insatisfação e impotência justamente por não poder
mover e perceber meu corpo e refletir sobre meu autocuidado. Como as aulas
de teatro que já havia feito em oficinas livres me permitiam acessar essa
potência, quis me aventurar nessa habilitação educacional para o ensino. Pois,
passei no vestibular com destaque já que na avaliação prática a maioria das
propostas abordavam o pensamento de Paulo Freire. E foi na UNESP onde
comecei a ensinar Yoga nas aulas de Corpo e Expressão Corporal, a pedido da
professora Marianna Monteiro, logo no primeiro ano de graduação (2012). Foi
assim que começou a minha caminhada como educador.
Todas essas vivências me ajudaram a ser quem sou, e a pensar minhas
aulas, meu espaço de yoga (a Casa Paz), e estruturar minha vida de uma forma
íntegra e conectada com aquilo que acredito que possa auxiliar as pessoas a se
sentirem mais vivas e menos presas ao sistema capitalista vigente, às hipocrisias
sociais e aos padrões limitantes de pensamento. As rodas do ENCA, com a
lembrança de seus cantos incríveis e dos olhares brilhantes que se cruzavam
estão no meu coração, e por isso, minhas aulas cultivam tais elementos. Há
leveza e inocência no que proponho, mas há um propósito claro de confrontar
alguns elementos que nos afastam de nossa real identidade. Com meu ofício,
ambiciono convidar aqueles que estiverem abertos a irem além da ilusão, aquilo
que na filosofia hindu é representado pela palavra e pela divindade maya – que
é justamente a entidade mitológica e a força exterior que faz com que as pessoas
se deparem com aquilo que é falso, mentiroso, irreal.
Com meus estudos em yoga, aprendi que, se estamos nos sentindo muito
tristes, descontentes, distantes de nossa alegria interior - e assim
permanecemos por um bom tempo – é porque há algo de errado, e uma
mudança deve ser iniciada a partir do impulso individual permeado de vontade e
amor próprio. É importante que a chama da vida volte a permanecer acesa, e
que ela não mais se apague. A alegria, a leveza, a pureza, a paz são a natureza
do Ser, são nossa real identidade, e faz parte da nossa caminhada se afastar e
se reaproximar dessas virtudes. Por isso, precisamos espalhar as sementes de
tudo aquilo que pode resgatar o ser humano do esquecimento daquilo que ele é,
da vida verdadeira.
Herman Hesse, em “Lektüre für Minuten obra que reúne alguns de seus
38

pensamentos escritos em cartas encontradas após sua morte redigiu o seguinte


excerto : ”Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso
abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma.
Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei
a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo”.
As palavras do autor alemão se aliam à minha percepção de que, ao ensinar
yoga e artes, estou auxiliando meus educandos a acenderem um pouco mais
suas próprias chamas e a encontrarem dentro de si mais algumas motivações
para brilharem. Assim como o sol todas as manhãs, de forma constante e
disciplinada, brilha e nos recorda que também podemos brilhar. Com yoga,
aprendemos que as mudanças vem de dentro, e que elas precisam acontecer.
Com as artes, recordamos que já fomos crianças, e que precisamos nos
expressar com cores, formas, imagens, possibilidades de movimento, silêncios,
falas ou sons. Unindo essas linguagens, podemos encontrar novos sentidos ao
viver, ou resgatar aquilo que antes ajudava nossa chama a permanecer acesa.
Gosto de dizer aos meus alunos que todos somos iogues desde a primeira
casa que habitamos: a barriga de nossas mães. Lá meditamos e fizemos yoga,
no ásana da postura do feto, por 7 a 9 meses, e pacientemente aguardamos a
chegada ao planeta. Alí respiramos com tranquilidade e nos mantivemos firme,
às vezes mudando um pouco de lugar, às vezes chutando. E confiávamos na
vida, ao passo que recebiamos toda a nutrição necessária em meio àquele
oceano de água morna, um pouco salgada, repleto de amor e afeto. Assim, quero
encorajá-los a acessarem a paz a partir do autoconhecimento e da própria
experiência nas aulas e no dia-a-dia. Espero que eles acreditem que a vida pode
ser boa, e que a felicidade é e sempre será possível.
Penso que, desde os 14 anos de idade, estou em uma busca incessante
por mim mesmo, embora eu já tenha me encontrado e eu já saiba o que vim
fazer no mundo. A sensação é de que eu não parei um instante sequer, e acho
que vou continuar caminhando até o fim dos meus dias. Sinto-me afortumado
por ter a consciência que tenho em relação às coisas do mundo, e é por isso que
gosto de atuar na área da Educação.

2.2.1. A Casa Paz


39

Em 2016, junto à minha mãe, inaugurei o meu próprio espaço junto à minha
mãe Ivone. Nosso espaço se chama Casa Paz, e ele tem esse nome pois nossa
intenção é propiciar aos nossos clientes e alunos momentos de pacificação e
harmonia. Esse espaço está crescendo aos poucos e se fortalecendo como não
apenas um local onde as pessoas podem fazer práticas de yoga e meditação e
receber massagens, reiki e outras terapias, mas também como um centro de
estudos e vivências de autoconhecimento e Cultura de Paz.

Na Casa Paz tenho uma biblioteca com mais de 200 livros muito especiais,
uma cozinha simples onde preparo algumas receitas saudávies veganas, uma
sala de prática de yoga, duas salas para atendimentos terapêuticos com maca,
e muitos materiais para utilização nas aulas, além de alguns instrumentos
musicais e objetos lúdicos.

A Casa Paz é a realização de um sonho meu e de minha mãe, e eu espero


que possamos prosseguir com esse projeto por muitos anos. A oportunidade de
ter um espaço para mim, como educador, foi algo que me permitiu vivenciar
aprendizados inesperados em relação às questões que abrangem o ofício
empreendedor e também à postura educadora. Tive que lidar com muitas
questões burocráticas e também com a possibilidade de me aproximar de alunos
e parceiros profissionais de uma forma até então desconhecida por mim, e isso
me fez amadurecer bastante. E é por isso que compartilho com vocês essa
conquista, pois consegui materializar muitas ideias a partir desse projeto que se
tornou realidade com a ajuda de minha família, amigos e de toda a positividade
que abraçou minha vida nos últimos anos, apesar das dificuldades.
40

Figura 5

Figura 6
2.3. O sentido da educação

Disserto aqui acerca das ideias de Paulo Freire, Tião Rocha, Rubem Alves
e José Pacheco, aproximando-os de mim e de meus leitores. Desde já sigo
defendendo a importância da associação deste estudo prático ao amor, à
ternura, à responsabilidade e ao compromisso ético por parte do educador. É
com base nessas virtudes humanas que construirei as próximas páginas e
41

também as aulas da UNATI.

Figura 7

2.3.1. Rubem Alves

Com a finalidade de resumir em palavras meus pensamentos sobre


educação, vou transcrever um trecho do livro de crônicas “Conversas com quem
gosta de Ensinar”:

“Eu diria que os educadores são como as velhas árvores. Possuem


uma fase, um nome, uma “estória” a ser contada. Habitam um mundo
em que o que vale é a relação que os liga aos alunos, sendo que cada
aluno é uma “entidade” sui generis, portador de um nome, também de
uma “estória”, sofrendo tristezas e alimentando esperanças. E a
educação é algo pra acontecer neste espaço invisível e denso, que se
estabelece a dois. Espaço artesanal. (ALVES, 1981, p.13)

As palavras de Rubem Alves clareiam a importância da reflexão sobre o


fazer educacional em todos os âmbitos possíveis. É importante que nas
pesquisas universitárias haja um esforço por parte dos novos pensadores, que
incentivem e realcem a real função dos educadores na atualidade.
Todos já fomos alertados que os tempos atuais são críticos, e a natureza
está enviando os mais diversos sinais de seu desgaste em virtude do egoísmo
humano. Por outro lado, podemos voltar nossos olhos e atenções a notícias
42

felizes dos tempos atuais, tal como as que avisam que a meditação será parte
do plano de estudos em mais de 300 escolas na Inglaterra, ou que escolas
públicas e particulares em São Paulo já estão adotando o yoga como prática
regular em seus cronogramas. O atual Dalai Lama nos alertou ao dizer que: “Se
todas as crianças aprendessem meditação a partir dos 8 anos, acabaríamos com
as guerras no mundo em uma geração”. 8

Escutando esse chamado é que projetos como a Oficina “Yoga, Arte e


Autoconhecimento” estão se desenvolvendo em consonância com aqueles que
anteriormente caminharam, se transformaram e acreditaram na melhoria da
sociedade. Penso que, para fundamentar qualquer projeto educacional, é
essencial que seu idealizador tenha convicções enraizadas dentro de si que se
assemelhem ao vigor e ao empenho de Paulo Freire e José Pacheco quando
vislumbraram novas possibilidades de educação e ultrapassaram críticas,
discussões, desacordos e – em alguns casos – prisões políticas.

2.3.2. Paulo Freire

Figura 8
Paulo Freire defendia a criatividade, como aspecto vital da essência humana,
em contraposição às imposições desumanas da engrenagem sociopolítica que
sacrifica tantos sonhos desde os tempos industriais. Ele disse que a a tarefa
mais importante de uma pessoa que vem ao mundo é criar algo.
Na filosofia hindu e na tradição filosófica do Yoga Clássico e Moderno,

8
Frase retirada do site “Educação para a Paz”: https://educacaoparapaz.com.br/meditacao-e-
adotada-em-escolas-e-beneficia-criancas-e-adolescentes/
43

estudamos que a potência criativa é uma energia necessária e vitalizante,


condição essencial – para a saúde e para a felicidade. E é claro, Freire e todos
os educadores aqui referenciados nos encorajam a mudar as coisas e ir além
dos paradigmas impostos. Ele também dizia que a educação não transforma o
mundo, entretanto ela muda as pessoas que, por sua vez, ao reconhecerem a
sua real missão na Terra, podem modificar o mundo para melhor.
É com esse impulso que mantenho a iniciativa e busco expandir minhas
aulas, de modo democrático e ético, e me fortalecendo como arte-educador
instrutor de yoga e meditação. Com confiança e vontade, consegui construir dois
projetos complementares no campus da UNESP, ao iniciar minhas ações na
UNATI (2017 e 2019), e, anteriormente no projeto YOGA NA UNESP (2015 a
2017, e 2019) – onde ministrei yoga por mais de três anos na Universidade, para
os alunos e funcionários, e também para a comunidade externa.

Figura 9

2.3.3. Tião Rocha

O trajeto profissional de Tião Rocha, educador mineiro fundador do CPCD


(Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) foi também um grande fator de
motivação para minhas mudanças de rumos. Lembrava-me de sua indignação
sobre o meio acadêmico e o seu processo de autodesligamento da UFOP. Em
certo momento, ele percebeu que “(...) era hora de sair daquele lugar de
“ensinagem” em que estava, “que opera sob a lógica do eu te cito, tu me citas”
(ROCHA apud BASILIO, 2013, p. 4). Ele tinha clareza de que professor é quem
44

ensina, e educador é quem aprende, visão que vinha incomodando aos demais
da universidade. Ele se demitiu com uma ideia fixa: atuar em um lugar em que
pudesse ser um educador e, sobretudo, um aprendiz. ”

Depois de alguns anos ele construiu em conjunto com boas parcerias um


núcleo de educação popular e desenvolvimento local inspirado nas ideias
freireanas que valorizavam primordialmente a cultura local popular e os valores
humanos. Em pouco tempo, as ações idealizadas como as escolas debaixo de
um pé de manga por Tião já estavam beneficiando a vida de mais de 30 mil
pessoas na região do Vale do Jequitinhonha e Curvelo. Para ele, educação tem
uma relação direta com assumir-se humano e desconstruir-se em um processo
gradativo de quebra de padrões, o qual faz-se necessáriona direção de um
desenvolvimento local e, posteriormente global.
Tião Rocha acreditou em si e em seus ideais, e seguiu em frente para
trabalhar com o que realmente gosta. E saber de suas motivações, mas
sobretudo reconhecer a potência transformadora de suas ações (e criações)
sócioeducacionais foi essencial para que eu tivesse força e perseverança ao dar
continuidade aos meus projetos, sendo que o mais árduo e emocionante deles
foi e continua sendo tornar-me um bom educador.

Figura 10

2.3.4. José Pacheco

José Pacheco alega que a escola não é um edifício, mas sim as pessoas.
Tendo em vista a existência de um propósito naquilo que venho fazendo ao
45

democratizar o compartilhamento do conhecimento do yoga em espaços


públicos, posso inferir que estou estruturando a composição de uma escola, e
de um projeto ético, social e político.
“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para
a sua própria produção ou a sua construção.” (FREIRE, 1996, p.21). Ensinar,
pois, exige muita disposição e disciplina, sobretudo daqueles que sonham e
lutam para realizar ações inovadoras de acordo com princípios pautados nos
valores humanos e na Cultura de Paz.
Com José Pacheco aprendi muito, e sigo acompanhando seus vídeos,
suas publicações e projetos pelo Brasil. Ele decidiu vir morar no Brasil
justamente por considerar nossa nação um local de imensa potência para a
implementação de projetos educacionais. Minha admiração por ele cresceu ao
saber que ele também está envolvido com ações ligadas à sustentabilidade e
espiritualidade.

Figura 11

2.4. O caminho do educador


46

O ano de 2019 foi muito cansativo para mim, e precisei ter muita força de
vontade e perseverança para concluir meus projetos. Por tudo, e apesar de tudo,
a motivação da conclusão da graduação, e as minhas aulas na UNATI, foram o
fator determinante para que eu conseguisse enxergar sentido no meu viver atual
e no trabalho que faço. Em todas as vezes que eu cogitei desistir de alguma
importante atividade que faço, eu disse para mim mesmo (em pensamento): “- O
importante agora é você ganhar experiência, e aprender com as oportunidades
a ser um melhor educador e uma pessoa mais virtuosa”. E aqui agora estou,
escrevendo sobre isso.
Escolhi educar, portanto, optei por ser aprendiz. A cada aula, desde seu
planejamento até as semanas seguintes a alguns encontros, eu sigo aprendendo
com a experiência.E, ao ser também um profissional acadêmico em Educação,
escolhi pesquisar minha própria trajetória e a de meus educandos.

Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. [...] Enquanto


ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco,
porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar,
constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para
conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a
novidade (FREIRE, 1996, p.32)

O caminho é árduo, trabalhoso. De mãos dadas com aqueles que me


apoiam e que confiam em minhas potencialidades, eu me aventuro pela primeira
vez na jornada da dissertação acadêmica a fim de me conhecer como um
pesquisador.
Se, em uma mão eu seguro as artes e o yoga (minhas paixões), na outra
eu sustento as mãos de todos os educadores que olharam em meus olhos e me
disseram que vale a pena continuar, porque o meu servir é importante nesse
planeta. Ter conhecido esses agentes de transformação, e ter tido contato
literário com os autores aqui citados foi essencial para que eu tivesse força e
perseverança ao dar continuidade aos meus projetos e sonhos, sendo que o
mais árduo e emocionante deles foi e continua sendo tornar-me um bom
educador.

2.5. Comunidade de Aprendizagem


47

A UNATI, como um todo, pode ser considerada uma Comunidade de


Aprendizagem que, segundo José Pacheco, é uma ação educacional que supera
paradigmas e que pode ser realizada em ambientes diversos.

“ Para o educador, as Comunidades de Aprendizagem são “práxis


comunitárias baseadas em um modelo educacional gerador de
desenvolvimento sustentável. É a expansão da prática educacional de uma
instituição escolar para além de seus muros, envolvendo ativamente a
comunidade na consolidação de uma sociedade participativa.” (PACHECO,
2010)

Em alguns momentos do texto utilizarei o conceito de Comunidade de


Aprendizagem dentro dos próximos capítulos da obra, seguindo a inspiração de
Pacheco para conceituar algo que segue como um projeto e que tem a intenção
de se expandir, amadurecer. Esforço-me para fornecer e indicar leituras,
músicas e atividades para que as alunas possam desenvolver aquilo que a
filosofia iogue chama de sadhana (a prática diária da vida da pessoa, que é
desenvolvida aos poucos agregando os elementos recomendados pelo
professor e pela prática do yoga ) e ter um dia-a-dia mais conectado com aquilo
que vivenciamos em nossas aulas.
É de real importância para mim que aquilo que praticamos juntos na
segunda-feira seja também vivenciado nas casas de cada um, e até mesmo no
dia-a-dia em locais como espaço de trabalho, ou até mesmo na rua quando as
praticantes escolhem qual livro levar na bolsa e pensam em escutar algumas
canções enviadas pelo grupo de whatsapp no caminho de algum passeio ou
viagem.
A liberdade é algo que pode ser sentido, além de praticado mediante uma
lista de hábitos e disciplinas. A liberdade, dentro do contexto das filosofias
orientais, se cultiva no momento presente quando há introspecção e pausa,
quando o ser humano se vê em plenitude em sua solitude, e consegue equilibrar
o dar e o receber de maneira a priorizar também o cultivo de um tempo para si
mesmo. Sobre isso, a antropóloga estudiosa da terceira idade, Mirian
Goldenberg afirma que:

O tempo para si mesmas é visto como um bem valioso e escasso


que não podem mais desperdiçar. Para tanto, precisaram aprender a
dizer não para as obrigações, não para a opinião dos outros, não para
as demandas externas, não para tudo o que fere a liberdade
48

tardiamente conquistada. (GOLDENBERG, 2013, p. 70)

Queremos incentivar os alunos a sentirem e vivenciarem a liberdade. A


educação libertadora encoraja o educando a ser autêntico em suas escolhas. O
educador, com respeito e consciência, caminha na direção de incentivar os
educandos a uma autotransformação que seja sincera. Em grupo, esse processo
de mudança pode ser mais forte: um encoraja o outro. Esse é um dos grandes
motivos pelos quais o estabelecimento de uma comunidade de aprendizagem
presencial se faz tão importante para o público idoso, já que, ao testemunhar as
mudanças na vida do colega, um aluno pode receber referências férteis para
modificar pontos particulares em sua vida.

2.5.1. Minhas primeiras recomendações para o sadhana

Na UNATI, indico alguns livros que considero valiosos e tento incentivar os


alunos à leitura e ao empréstimo dessas obras. Fico tão feliz quando vejo o
esforço deles em visitar sebos e livrarias, e adquirir obras como “Relaxe
Simplesmente”, de Sarah Brewer e “Autoperfeição com Hatha Yoga”, do
professor Hermógenes. Recomendo leituras que encaminhem os praticantes à
prática, e os incentivem à construção de um dia-a-dia mais poético e saudável.
Em quase todas as aulas, levo folhas impressas com conteúdos escritos por
mim ou por autores consagrados dentro da literatura do yoga e também de áreas
relacionadas ao bem-estar e à saúde do idoso. Coloco também letras das
músicas e mantras que cantamos nas aulas. Peço aos alunos que organizem
essas folhas em uma casa e que leiam e releiam essas informações em casa.
Em quase todas as aulas eu solicito algumas tarefas simples para que eles
realizem como lições de casa. Pelo whatsapp envio músicas bonitas, e peço que
os alunos tentem não apenas escutá-las no dia-a-dia mas também compartilhá-
las com as pessoas que amam.
Peço aos alunos que pratiquem as técnicas de yoga em suas casas, e que
tentem manter o pensamento positivo durante todo o decorrer da semana.
Também relembro que, se eles precisarem de qualquer ajuda, podem contar com
os amigos da UNATI e comigo. O meu objetivo é, de fato, fortalecer os vínculos
e trazer mais acolhimento, confiança e bem-estar a todos. Durante o decorrer do
49

texto dissertarei melhor acerca de minhas intenções pedagógicas que se unem


aos conceitos de “cuidado”, “ternura”, “responsabilidade” e “libertação”.

Figura 12

Figura 13
50

Figura 14

2.6. Relato de uma experiência

Darcy, uma aluna muito especial, que desde o primeiro contato comigo
através das redes sociais mostrou-se muito aberta aos aprendizados do yoga,
me ensinou muito com suas falas e comportamentos: a cada semana ela estava
diferente, se sentindo feliz, e expressava isso. Após um pouco mais de um mês
de aulas, ela me disse que estava se sentindo diferente ao conseguir instaurar a
virtude da calma e da paciência em situações rotineiras como o trajeto dentro do
metrô bem cheio. Antes, ela se via contagiada pela impaciência e pela pressa,
mas o contato com o yoga lhe trouxe bastante serenidade. Vou aqui transcrever
um depoimento muito especial redigido pela própria Darcy, em que ela descreve
algumas sensações acerca de sua experiência no primeiro dia de aula da UNATI,
e que revela a nossa proximidade como educador e educando:
O que pode dizer um abraço? Quais palavras? Quais
sentimentos? Nada ou nenhum sentimento. Ou tudo e um
mundo de emoções.
Já abraçei tantas pessoas, mas no meu primeiro dia
do encontro do curso Yoga e Artes para 60+ da UNESP um
menino me abraçou. Disse: "querida" e me deu o abraço
que jamais irei esquecer. Sim, nunca ninguém me abraçara
daquele jeito até hoje, nos meus setenta e quatro anos.
Naquele momento eu me senti abraçada pelo meu filho,
minha mãe e por Deus. Sim, por Deus. Participei da aula,
mas chorei, quando aquele quase menino, pegou sua blusa
e fez com ela um travesseiro para mim.
(Depoimento de Darcy, por whatsapp, em 21/10/2019)
51

2. 7. Yoga em conexão com as artes

Para clarear neste texto o significado do yoga e, em seguida, conectá-lo


às artes, evoquemos aqui as ideias de Tião Rocha em seu texto “A função do
educador”, o qual está transcrito nos anexos deste trabalho. Neste artigo, o
antropólogo mineiro evoca a literatura de Eduardo Galeano em seu “O Livro dos
Abraços” (1989), explorando o conteúdo do conto “A Função da Arte/1”:

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o


para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de
areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus
olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que
o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando,
pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!” (GALEANO, 2002, p. 16)

Tião Rocha recorda a história de Diego e seu pai, Santiago, o qual levou
o filho para conhecer o mar – que estava no alto das dunas altas de areia. Após
uma longa caminhada, o filho testemunhou a beleza e a poesia da natureza do
oceano e, com gaguejos e tremores disse a seguinte frase a seu mentor: “-Me
ajuda a olhar”.
Podemos, de mãos dadas com Tião e Galeano, inferir que há um aspecto
valioso e único nas relações com o eu, com o outro e com o todo – inspirados
pelo encontro, pela reflexão e pela transformação interna que acontece quando
há a iniciativa individual em se permitir vivenciar algo novo, ou de se redescobrir
o que já é conhecido. Essa teia de conexões é algo proposto nas aulas de yoga.
O yoga quer conectar o indivíduo à sua melhor versão, ao seu real valor.
O pai, ao propiciar a experiência estética e sinestésica de apresentar o
mar a Diego, teve uma relevante função pedagógica diante dessa relação. Ele
agiu como um arte-educador.
As águas marítimas e a paisagem horizontal eram novidade, assim como
os sons, as sensações térmicas, as emoções e os pensamentos que foram
gerados.
Seguindo essa linha de pensamento, uma cena de filme, uma pintura ou
52

um áudio que remeta o som do mar poderiam também estimular os sentidos, mas
a ocasião foi mais intensa: uma experiência de corpo inteiro que, para
acontecer, solicitou entrega, vitalidade, curiosidade e confiança em todos os
envolvidos. É por essa razão que a arte entrelaçada à educação pode realmente
auxiliar nossa sociedade, já que ela toca profundamente os Seres que se
permitem vivenciar algo que tenha algum significado. Talvez esse significado
seja claro somente para o artista, ou talvez para aquele que testemunhe e
experimente também. Aprendemos com Tião Rocha que:

[...] para que esta educação se realize em toda sua plenitude, é


necessário que o pai ou o professor tome a iniciativa de levar o filho ou
o aluno a "descobrir o mar", a superar, juntos, as "dunas altas", e as
"alturas de areia". Ao fazer isto, o pai ou o educador estará re-
descobrindo o mar através do olhar do filho ou do aluno. Este
descobrir/redescobrir o mar juntos, significa reinventá-lo, reciclá-lo,
reapropriá-lo, renascê-lo. E, acreditamos que todo dia é dia de navegar
nos mares da vida e de passar este mundo a limpo para que todos nós
- pais e filhos, professores e alunos - sejamos, diuturnamente,
educadores e educandos do mistério e da mágica que é o viver.
(ROCHA, 1998, p. 3)

As artes e o yoga permitem que os encontros educacionais sejam poéticos,


vivos e repletos de novidades. As possiilidades de utilização de recursos
artísticos são imensas, e os conteúdos a serem trabalhados podem ser muitos.
Mas o mais importante é que haja união e parceria nessa relação
educador/educando, e que todos os envolvidos na comunidade de
aprendizagem estejam realmente abertos às mudanças e aos efeitos benéficos
que todas essas linguagem em união podem trazer a todos.

2.8. Na tentativa de definir arte

Para definir arte, vou utilizar como referência uma citação de Winnicott
inserida na publicação coletiva “Criar e Brincar: o lúdico no processo de ensino-
aprendizagem”, organizado por Maria Vitoria Campos Mamede Maia (2014).
Nesse livro a arte e a ludicidade na aprendizagem é explorada, e, no o capítulo
II, "Com dois riscos eu faço um guarda-chuva”: jogo e arte como instrumentos de
inclusão de crianças antissociais e dificuldades de aprendizagem, encontramos
essa reflexão sobre a palavra arte:
53

vem do latim ars, significa habilidade. Sendo, então, a habilidade de


desenvolver ações distintas e especializadas capazes de criar uma
visão peculiar do mundo, associadas à imaginação e à percepção
criativa. Esta, além de ser a fonte propulsora de criação e (re) criação
do mundo, é por meio da qual, “mais do que qualquer outra coisa, que
o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida (WINNICOTT, 1975
Apud MAIA, 2014, p.41)

As palavras acima assemelham-se à minha visão acerca dessa temática,


e reforçam em mim a ideia de que precisamos, como educadores, defender as
artes como conhecimentos que podem ajudar a humanidade a alcançar uma
compreensão melhor acerca da vida. A arte deve ser valorizada na educação,
na sociedade, de uma forma cuidadosa e digna, de modo a poder alcançar o
mundo inteiro sendo vista com respeito tal como todas as outras áreas do saber
humano.
Manuel Bandeira (2013) conceitua a arte como uma fada que transmuta,
que transfigura o mau destino. Ela é uma área do saber dotada de poder
transformador, e pode beneficiar as pessoas contribuindo para seu bem-estar,
ou trazendo novas visões, compreensões e esclarecimento. Sem dúvida, é
importante que haja critérios para que não se defina a arte como qualquer coisa,
e por isso dentro deste estudo podemos pensar na arte como uma experiência
individual e/ou coletiva que fortalece a conexão com os sentidos e que pode
gerar reflexões diversas para aqueles que a vivenciam, seja em contemplação,
seja em produção, seja em reflexão.
Jorge Larrosa Bondía explica que “A experiência é o que nos passa, o que
nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o
que toca. “ (BONDÍA, 2001, p.8) Dessa maneira, quando o educador propicia o
encontro e gloriosamente traz à ocasião um elemento artístico, ele ocasiona uma
experiência.

A palavra experiência vem do latim experiri, provar (experimentar). A


experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo
que se experimenta, que se prova. O radical é periri, que se encontra
também em periculum, perigo. A raiz indo- européia é per, com a qual
se relaciona antes de tudo a ideia de travessia, e secundariamente a
ideia de prova. (ibidem, p. 6)

E a arte é a ponte para que, na experiência, haja conexões entre mente e


54

corpo, pensamentos e sentidos, consciente e inconsciente, o antigo e a


novidade, os padrões estabelecidos e os novos paradigmas, a ancestralidade e
a tecnologia. É por isso que a arte é necessária, assim como a existência e a
valorização do educador – possivelmente o motivador de toda essa conexão.
Paulo Freire (1987), nos alertou que “ninguém educa ninguém, como tampouco
ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão,
mediatizados pelo mundo. ”
Sobre a arte-educação, aprendemos com Noemia Varela que:

Parece-me que o mais fundamental está em se arquitetar a


formação do arte-educador a partir do princípio que deva estar sempre
em desenvolvimento, na abordagem dos fenômenos da sorte, da
educação, da filosofia, enfim, do conhecimento teórico e prático que a
enriqueça e fale das conquistas do homem como ser inventivo, fértil
em sua imaginação e capacidade de construir o mundo. Que se forme
um arte-educador sempre a serviço do ser humano e não da instituição.
(VARELA, 1986, p. 26)

Jorge Larrosa ousa pensar a educação a partir da união dos termos


“experiência” e “sentido”. Sustentamos a existência da educação a fim de conferir
sentido ao que somos e ao que nos acontece e, na contemporaneidade, para
superarmos os vícios e as patologias de uma engrenagem caracterizada pelos
excessos de informações – os quais nos impedem de experienciarmos o
momento presente com verdade, beleza e prazer. O prazer natural da vida.
A natureza de quem somos, que é alegria, graça, espontaneidade e amor
fraterno. E é nesse ponto em que conseguimos visualizar o yoga como um pilar
oportuno de refúgio e de reflexão em meio às contradições sociais. O yoga
sempre fornece a experiência, o encontro e a conexão com os sentidos,
independentemente da quantidade de pessoas envolvidas.

2.9. As aulas de yoga

Ao serem professores de yoga, sejam compositores, sejam músicos,


sejam facilitadores do silêncio. Ofereçam mais do que prática,
proponham uma dança com o corpo inteiro, através da qual cada um
escute o ritmo e o silêncio do seu próprio coração.
Tales Nunes, no livro “Arte, Yoga e Liberdade

Yoga nos leva a olhar para dentro e movimentar reflexões a fim de


fortalecer corpo e essência ensinando o praticante a cultivar considerável
55

distanciamento em relação aos próprios pensamentos e ao excesso de


informações ao redor. Há método para isso, e são milhões de pessoas que há
séculos atestam sua eficiência.
Nos encontros e aulas de yoga, há uma comoção em conjunto que torna
a experiência um encontro, uma vivência. A experiência pode também ser
individual, ou uma aula particular (com apenas o profesosr e um aluno).
Independentemente da quantidade de pessoas, sempre será realizado um
trabalho de interiorização e dificilmente a pessoa finalizará a ação da mesma
maneira que iniciou. Sempre acontece o estabelecimento de um contato íntimo
na introspecção, um momento com o silêncio e com o autoconhecimento.
As aulas de yoga em grupo seguem uma estrutura didática singela.
Necessariamente o instrutor deve generosamente oferecer aos seus aprendizes
um ambiente de tranquilidade e harmonia, caso contrário a conexão proposta
pela filosofia não acontece. Há um procedimento padrão desde a chegada, e
dinâmicas que estimulam os sentidos biológicos sempre com a intenção de
conduzir o aluno a um estado de concentração e relaxamento. Na realidade, a
ideia é que, com o tempo, ele mesmo aprenda a conquistar essas metas e, por
conseguinte, a meditação.
Há a possibilidade de organizar sequências de músicas, de pensar temas
para cada aula, de utilizar elementos da dança (como danças circulares ou
conteúdos de consciência corporal ou somáticas), do teatro (como jogos ou
interações de grupo), das artes visuais (como desenhos ou confecção de
mandalas), da fotografia (como contemplar uma imagem), do cinema (como
exibir trechos de filmes inspiradores com temática compatível à prática), etc.
Dentro desse variado espectro didático, o professor pode também, caso
queira, optar por caminhos de aprofundamento de conteúdo, enviando ou
imprimindo textos complementares, indicando livros e filmes, propiciando ou
recomendando passeios e viagens. Tudo isso se relaciona com um elemento de
imensa importância na bagagem clássica do yoga e das filosofias orientais em
geral, que é o sadhana – palavra sânscrita que significa disciplina diária.
Hermógenes, no livro “Yoga para Nervosos”, afirmou que sadhana:

[...] apenas uma adaptação que visa à conquista da saúde, à


restauração da paz e a uma razoável dose de felicidade para o ser
humano vulgar e sofredor. Sâdhana é uma forma de viver orientada
56

para o encontro da paz, da perfeição, da beatitude, da libertação. É


caminho divinizante, que transforma em realidade todas as infinitas
promessas que há em cada ser humano. É a evolução do ser, através
do saber, do fazer e do amar sem egoísmo e, portanto, sem dissabor
ou limitação. (HERMOGENES, 2001, p. 109)

Orientado pelo seu professor, o estudante de yoga aprende o que é


essencial (e o que não é) para a composição de sua agenda diária e semanal
de práticas e hábitos, a fim de alcançar o objetivo final do yoga (e da vida, dentro
do pensamento iogue e de filosofias irmãs), que é a moksha, a libertação, ou
samadhi, a autorrealização. E, para que essa meta seja alcançada, é importante
que exista equilíbrio interior, paz e saúde no Ser.
Deppak Chopra (1987), nos ensina que o saúde é algo bastante amplo
ao dizer que “(...) além do bem-estar físico, mental e social, acrescenta-se o bem-
estar espiritual ao conceito de saúde. É uma condição na qual a pessoa
experimenta alegria e satisfação em viver, a sensação de plenitude e a
consciência de estar em harmonia com o universo que a cerca.”
O filósofo iogue brasileiro Tales Nunes, afirma que:

A existência é uma grande obra de arte na qual estamos


inseridos, experienciando o caminho com nosso corpo, nossas
emoções e nossa mente. Podemos ser artistas de nosso cotidiano,
nas perfeitas “imperfeições” da vida, transformando-nos e
transformando o mundo nos pequenos atos e situações que nos
surgem dia a dia. (NUNES, 2017, p. 24)

Saber viver na direção da saúde e da libertação é, então, o maior


aprendizado que o estudante de yoga pode adquirir. É cuidar de si sem se perder
em um mundo repleto de ilusões e confusões. É aprender a se amar, sempre em
movimento.
Jiddu Krishnamurti, importante filósofo indiano, mostrou ao mundo que
“Não é sinalde saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.”
Atualmente, o caminho para a saúde e o bem-estar se mostra mais claro e
acessível àqueles que buscam conhecimento e que almejam sentir-se
verdadeiramente em paz.

E para auxiliar seus educandos a terem rotinas mais felizes e saudáveis,


educadores advindos de diversos caminhos podem se apropriar dos
57

conhecimentos do yoga clássico e do hatha yoga como ferramentas


complementares aos recursos pedagógicos que habitualmente utilizam. É
importante que esses conhecimentos se expandam para todos os lugares e
pessoas que estiverem abertos a isso.
Técnicas de respiração e relaxamento, pausas para foco e centramento,
exercícios físicos indicados a todas as faixas etárias, leituras inspiradoras,
músicas de paz, etc. Tudo isso pode ajudar muitas pessoas.
Seguindo essa linha de pensamento, é cordial afirmar que professores
especializados em yoga (através de cursos de formação reconhecidos e
presenciais), podem explorar diante de sua bagagem cultural quais os
conteúdos ligados às artes passíveis de serem agregados às dinâmicas de suas
aulas, sempre com o objetivo de clarear os princípios e propósitos do yoga; sem
fugir do foco.
Com base nisso, defendo que seja possível então conectar as artes ao
yoga quando descobrimos, na aplicabilidade da docência, suas conexões e
despertamos insights sobre como essas linguagens podem propiciar a
experiência humana, o encontro e novas descobertas no campo do
conhecimento. Não só possível, mas também altamente recomendável.
Vejo o Yoga também como arte. Arte de fazer o indivíduo
reconhecer o belo em si mesmo. E como resistência. Resistência a
uma visão desencantada da vida. Nisso, arte e Yoga caminham juntos,
cumprindo funções afins tanto no âmbito de transformações pessoais
e sociais como na revelação do sagrado no íntimo de cada um.
(NUNES, 2017, p.19)

Ao praticar yoga e ao vivenciarmos a dança, a experiência do jogo


teatral e também da cena, a fruição estética, o desenho e a pintura, o cinema, a
fotografia, temos a oportunidade de entrar em contato com o belo, dentro e fora
de cada um de nós. Tales Nunes (2017, p. 20) poetizou que “Aquilo que é belo
é o que nos desarma, o que derruba nossas defesas em relação a nós mesmos
e ao mundo, o que nos sensibiliza. A arte e a natureza têm essa força.”
Rubem Alves diz que “A beleza tem um efeito embriagante. Quando a alma
é tocada por ela, a cabeça não faz perguntas. Tudo é êxtase, encantamento.”
(ALVES, 2003, p.13)
E é esse o propósito desse trabalho. Unir arte, yoga e natureza para
sensibilizar pessoas a caminharem na direção de suas próprias belezas, e
58

auxiliarem o mundo nesse período de tantas mudanças no planeta. E que as


mentes – esses tão agitados instrumentos do Ser – possam ser educadas,
silenciadas e harmonizadas naqueles que me leem e naqueles que participam
de minhas aulas.

Há uma simplicidade nas conexões pedagógicas que remetem à


ancestralidade. O yoga nasceu na floresta indiana, os conhecimentos dialogam
e imitam a natureza. As artes sempre estiveram conectadas com as formas, as
cores e os ritmos da natureza. Vivenciar essas linguagens nos conecta à nossa
origem como humanidade. Sem dúvida nossos antepassados mais antigos, os
quais habitam nossos corações, nossa história e nosso DNA, estavam
conectados à água, ao ar, á terra, ao fogo e ao éter, e cultivavam verdedeira
admiração por tudo o que a mãe natureza nos deu.
De todas as tribos antigas cujos membros reuniam-se ao redor do fogo ou
dançavam e cantavam suas manifestações em intenção de reverência à
natureza.
A arte, o encontro, o respeito pela vida, o amor à natureza e a expressão
genuína de quem se é. Desse ato conjunto, podemos refletir que “A alegria não
chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E
ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da
alegria.” (FREIRE, 1996, p 23). E, nesse texto e nas aulas sobre as quais ele se
baseia, recordaremos bastante da alegria.

Há um mistério no fazer educativo daquele que já se desprendeu das


certezas e que se entregou ao campo de infinitas possibilidades que é a mandala
de conexões da vida criativa. Educar, nessa compreensão ampla, em diálogo
com todos os que foram aqui citados, é fazer parte de um novo tempo e compor
a seleção do time dos acordados, aqueles que lutam diariamente pela melhoria
do mundo a partir da educação pautada nas relações:

"A fim de despertarmos para o mundo e participarmos de suas manifestações,


temos de sentir a alegria que nos permite estar em movimento constante em
direção de nossas realizações (...) Alegria traz saúde, amigos, conforto,
beleza, energias positivas, força, coragem, vontade de viver, generosidade;
proporciona enfim um tempo especial para nós mesmos e para os outros.
Quando decidimos fazer parte do time dos acordados, devemos tomar a
59

alegria como grande companheira e fazer dela nossa bandeira de ouro."


(GREGORI, p. 39, 1998)

Lembremos que, para a Organização Mundial da Saúde, a saúde não é


apenas a ausência de patologia, mas sim o estado de bem-estar físico, mental e
social. Aprendemos que tudo isso, de acordo com as escrituras orientais e com
todos os educadores que perpetuaram tal sabedoria, é união, é yoga, é o
caminho para moksha, é a vida que merecemos viver. Talvez estruturar a rotina
na direção austera de viver uma vida equilibrada seja uma arte, ou talvez as artes
e os momentos de pausa e respiração sejam essenciais para o humano
contemporâneo.
O importante é que o movimento não cesse, e que a busca prossiga. Por
aqui prosseguimos na jornada acerca dos encontros da oficina “Yoga, Arte e
Autoconhecimento” da UNATI. Que os textos e imagens aqui possam servir
como uma verdadeira experiência, algo que toque e que inove.
Que o amor, a conexão fraterna entre seres, o respeito, a cultura de paz
e a alegria da vida possam contagiar a textualidade formal aqui contida. E não
seria isso tudo o que os educadores dos novos tempos almejam?

2.10. O posicionamento sustentado na leveza

Esforce-se para amar as suas próprias dúvidas como se cada uma delas
fosse um quarto fechado, um livro escrito em língua estrangeira. Não procure,
por enquanto, respostas que não lhe podem ser dadas, porque ainda não
saberia pô-las em prática, vivê-las. E trata-se, precisamente de viver tudo. De
momento, viva apenas as suas interrogações. Talvez que, simplesmente
vivendo-as acabe um dia por penetrar insensivelmente nas respostas.
Rainer Maria Rilke

Para realizar essa pesquisa, precisei confiar no meu potencial; coloquei-me


na posicão de pesquisador de mim mesmo, e comecei meus estudos quando
olhei para as minhas dúvidas e questionamentos. Eu queria descobrir se as aulas
de yoga e artes realmente impactariam as vidas das minhas alunas, e se eu, com
a experiência adquirida, também me sentiria transformado. Essa era a minha
60

questão mais forte. Além disso, eu me permiti viver uma experiência


completamente nova ao unir escrita acadêmica, leitura de obras diversas,
trabalho voluntário e aquilo que considero como um compromisso social. Penso
que todo estudante universitário pode se dar a chance de atuar coletivamente
em projetos de extensão, na condição de aprendiz, de experimentador.
Minha pesquisa é empírica, qualitativa, baseada em minhas aulas (escritos,
fotografias, reflexões), em minhas alunas (depoimentos, áudios do whatsapp,
conversas, anotações minhas), e em minhas reflexões pessoais associadas a
todas as experiências profissionais que vivencio em onze anos de carreira. Com
o auxílio de minhas orientadoras, tenho buscado a cada capítulo conciliar minhas
potencialidades formais - no que concerne às exigências da graduação – ao
caráter poético de minha visão de mundo, e de meu ofício.

Se a pesquisa é, portanto, vida, mudança, transformação, recomeço,


esperança, podemos pensar de que maneira essas questões de vida se
fazem presentes nas universidades. Pois se a universidade é o local
privilegiado de elaboração de pesquisas, ela deve, então, estar conectada
com a vida concreta. Qual o desejo de conhecer sempre mais da realidade,
por parte de um professor refém de um contexto universitário/centífico que
pouco se relaciona com a vida concreta em sua complexidade e em suas
várias linguagens possíveis? Ensino, pesquisa, conhecimentos, saberes: a
universidade em geral, consubstanciada não só em suas políticas, mas
também na atitude educativa de seus professores, tem condições de trilhar
um outro caminho, que aproxime rigor e técnica com a autoconfiança de quem
sabe que o desejo de buscar/criar as respostas para as inquietações vem da
beleza do mundo, numa orquestração de linguagens e de saberes. (FRITZEN
& MOREIRA, 2011, p.25)

Sou um estudante de licenciatura em artes cênicas. O teatro está em minha


vida principalmente na forma como encaro os momentos em que me expresso
ao mundo, desde as roupas que escolho vestir às músicas que gosto de tocar
nas aulas. Muitas vezes gosto de caminhar pelas ruas ou me locomover em
transportes públicos com minha caixa de som portátil ligada ao som de mantras
e músicas tranquilas, com o intento de provocar uma alteração nos sentidos e
sensações das pessoas ao redor. Gosto de sorrir e abraçar as pessoas, até
mesmo quem eu não conheço. Já vivenciei muitas experiências performáticas, e
muitas delas foram embasadas nessa proposta de compartilhar alegria, leveza e
momentos de pacificação.
De todos os textos lidos no curso de Licenciatura em Arte-Teatro, aquele
que mais gostei foi “Seis propostas para o próximo milênio”, de Ítalo Calvino.
61

Especialmente o primeiro capítulo, em que o autor propôs a reconquista da


leveza na literatura e na sociedade.
O escritor pondera, citando Paul Valéry, que “A leveza (...) está associada
à precisão e à determinação, nunca ao que é vago ou aleatório. Paul Valéry foi
quem disse: “Il faut être léger comme l’oiseau, et non comme la plume” [É preciso
ser leve como o pássaro, e não como a pluma].” (Calvino, 1990, p. 15)
Com base nisso, declaro que minha escolha em difundir o conhecimento
do yoga, da meditação, das danças circulares, das mandalas em fios de lã, da
cultura de paz, etc, faz parte de um posicionamento político e de um movimento
de resistência perante tudo e todos que ainda desconsideram as referidas
linguagens como formas legítimas da expressão humana, vendo-as como
informações inúteis ou menos importantes. Sei que precisamos de tudo isso para
o viver, e que a melhor maneira de ensinar é, a partir de uma postura leve, porém
firme – com metas firmadas, mas com a intenção maior de direcionar os
educandos à liberdade, à moksha, à samadhi, à alegria.
Ainda sobre pássaros, Rubem Alves (2003, p. 20) declara em “ Um mundo
num grão de areia” que: " Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve
para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é,
precisamente, o seu segredo: a sua inutilidade: ele está além das maquinações
dos homens."

Acredito que, como arte-educador, nos momentos que preparo uma aula e
me proponho a realizá-la, estou me colocando à prova, na condição de atuar tal
como um exemplo para os alunos mas também como um ser tão disponível ao
aprendizado quanto eles. Ao ensinar esses saberes que posso caracterizar como
leves ou até mesmo sutis, estou contrastando-os com o peso do mundo, e, até
mesmo contrariando essa densidade.
Estando na UNATI, trabalhando com esse público tão especial, percebo que
estou trabalhando para aliviar a espessura daquilo que obscurece as palavras,
as imagens e as situações do mundo. Não é fácil assumir essa escolha, pois ela
exige muita disciplina e transparência de minhas posturas e de minhas escolhas,
entretanto esse foi o plano que decidi executar para fazer a diferença, e
transformar ao menos a mim. Quem sabe, posso contribuir para a transformação
daqueles que estiveram comigo em ao menos uma aula.
62

Toda vez que, juntamente aos educandos, espalho as sementes da paz na


UNESP, eu me pergunto se estou realmente honrando esse intento, e se estou
conseguindo de fato ter uma vida mais leve e tranquila. Essa foi uma outra
questão que me acompanhou durante todo esse ano: eu tentei levar o melhor de
mim, e tentei equilibrar minhas próprias densidades, preocupações e pesares.
Aliás, a escolha de dar as aulas na UNATI e pesquisar essa caminhada, foi uma
decisão embasada na leveza como critério. No começo, pensei que isso poderia
me preencher com um ar de renovação e simplicidade, ao fazer algo que eu tinha
certeza que conseguiria realizar – que estava dentro do meu alcance. E,
felizmente, eu estava certo.
A compreensão da leveza não é adquirida pelo conhecimento das plumas,
mas com o aprendizado do voo, mesmo após algumas quedas, e muitos medos.
Ela é uma escolha, e pode fundamentar um estilo de vida. Possivelmente, ela
pode ensinar sobre os segredos pássaros, daqueles que conhecem a felicidade
e a liberdade tão almejadas por todos nós, buscadores.
José Pacheco escreveu sobre os pássaros e a leveza em “Para Alice, com
Amor”, uma compilação de cartas para sua neta, as quais revelavam ideias e
sentimentos deste exemplar educador.

“A vida é uma história sempre inacabada a que podemos conferir


diferentes desenlaces. Basta que não nos confinemos aos estreitos
limites do entendimento das coisas e dos seres deste nosso tempo da
proto-história dos homens. Quando, depois de extintos os ecos do
tempo da história, os homens acederem à era do espírito, hão de
entender a fragilidade dos paradigmas que sustentavam as suas
ciências. Hão de reconhecer como aparentes as suas imutáveis
realidades. Hão de reconhecer a falsa moral de suas histórias, se
comparada com a doce amoralidade dos pássaros.(...) Onde,
antigamente, os homens idealizaram um céu de vida eterna para os
seus eleitos, havia pássaros. No lugar onde imaginaram situar-se o
trono dos seus deuses, não havia uma "pomba estúpida" à medida dos
seus medos, mas o espírito dos pássaros.” (PACHECO, p. 17, 2006)

Nessa pesquisa, pois, busco em uma linguagem simples expressar o


decorrer de um processo pedagógico enraizado em aspirações sinceras de um
educador que busca movimento e amadurecimento. É um registro de ações que
objetivaram o impacto positivo da realidade de um grupo de seres em aulas de
transformação. Nesses encontros, a proposta é que educador e educando
63

caminhem sempre juntos, e “o professor deverá ser mais criativo e aprender


com o aluno e o mundo”. (GADOTTI, 2000, p.107). Nesse trajeto, escrita e
atividade se apoiam mutuamente.
Segundo Eduardo Galeano,

“Escrevemos a partir de uma necessidade de comunicação e de


comunhão com os demais, para denunciar o que dói e compartilhar o
que dá alegria. Escrevemos contra a nossa própria solidão e a solidão
dos outros. Supomos que a literatura transmite conhecimento e atua
sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe; que nos ajuda a
conhecer-nos melhor para salvar-nos juntos.” (GALEANO, 1990, p. 7)

Ao escrever, estamos produzindo conhecimento àqueles que se abrem para


testemunhar nossos feitos e ideais. Em um tempo de redes sociais e golpes de
marketing pulsando instantaneamente em nossos olhares, é raro alguém
dissertar sobre o tempo lento das aulas de yoga em tardes em que o tempo
pausa para que haja descanso, acolhimento e descobertas. Em uma era de
ansiedades, crises de pânico e muitas confusões nas mentes humanas,
posicionar-se com amor e com retidão, é um ato de resistência.
Apoiando-me novamente no pensador uruguaio:

Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde
que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina
a divorciar a alma do corpo e a razão do coração. Sábios doutores de Ética e
Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventaram a
palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a
verdade. (GALEANO, 2002, p.98 )

Escrevo para harmonizar nossos ideais, nossos sentimentos partilhados, e


a magia de nossos encontros, e também para registrar na História a
oportunidade que tivemos de nos encontrar em meio a tantas opções e
possibilidades de uma tarde de início de semana.
E, por fim, escrevo pois tenho esperança de um dia voltar a manifestar a
pureza das crianças e dos poetas, e que esse florescimento seja de dentro para
fora. Sincero, e real.

2.11.. Relato de uma experiência: Sobre não deixar a chama se apagar

Fecho esse capítulo relatando um dia atípico em nossas aulas: 19 de


64

agosto. Nesse dia, o céu escureceu às três horas da tarde em virtude das
fumaças imensas causadas pelas queimadas na região amazônica. Todos
estranhamos o céu naquele horário. Por intuição, acendi uma vela logo no início
da aula, e deixei a vela na frente da turma, ao meu lado. Em alguns momentos,
eu pedi que todos focassem o olhar naquela chama, e refletissem sobre as
virtudes do fogo, e o seu calor. Ao fim da aula, cantamos o mantra Lokah
Samastah Sukhino Bhavanthu, que significa “Que todos os Seres sejam felizes”,
e visualizamos o planeta Terra e todas as pessoas que precisam de paz cobertas
por positividade.
Ao chegar em casa, a televisão estava ligada no noticiário informando
sobre a situação ocorrida, e sobre o o fenômeno que fez com “o dia virasse noite”
mais cedo naquela segunda-feira. Nesse momento, refleti sobre a importância
de termos nos reunido naquele momento e de nos mantermos firmes em nossa
disciplina semanal de fazer parte de um grupo em um lugar privilegiado, em
tempos duros de tristezas e de injustiças. Mas nós estávamos lá, fazendo a
nossa parte e entrando em conexão com a bondade e a clareza humana.
Tenho certeza que as alunas também refletiram sobre esse contraste,
essa dualidade luz/escuridão. Essa experiência clareia a intenção de meu
trabalho em manter a firmeza e a constância, apesar de todas as intempéries do
mundo externo. Busco cultivar a leveza e espalhá-la, estando consciente de que
é assim que poderemos equilibrar o mundo.

Paramahansa Yogananda, em seu livro “Paz Interior”, explica que a


conquista da virtude da equanimidade é derradeira para o crescimento do Ser.
Em sua obra, ele pede aos praticantes de yoga que busquem manter o
entusiasmo e a força interior apesar de quaisquer fatores externos, e que
procurem também não se apegar às alegrias passageiras do mundo. Sua
sugestão é que busquemos a calma para alcançar a liberdade, não deixando os
fatores externos nos tirarem do equilibrio.
É nessa compreensão interna que consiste a paz. Yogananda (2010,
p.89) afirma que “A prova da sabedoria de uma pessoa é sua equanimidade. As
pedrinhas que são jogadas no lago da consciência não devem fazer com que
todo o lago entre em comoção.”
65

O peso e a escuridão do exterior não podem influenciar a luz e a clareza


do interior. Esforço-me para ancorar a leveza e a calma nas mentes e nos
corações dos alunos, pois sei que isso se refletirá em seus pensamentos e
comportamentos no decorrer da semana.
Algumas alunas que atuam como professoras da rede formal de ensino,
como Vera Costa e Sônia Raquel, tentam adaptar as vivências que fazemos nas
segundas-feiras para suas aulas aulas na escola. Muitas participantes da oficina
estão compartilhando os mantras, as músicas, as técnicas de meditação, as
posturas restaurativas com seus amigos e familiares. E é assim que nosso
trabalho se expande e contagia mais pessoas: construímos uma corrente do
bem, espalhando coisas boas.

Moacir Gadotti (2011, p. 13-14), grande estudioso de Paulo Freire, escreve


que “A boniteza de ser professor é que, dependendo da educação que
realizamos, podemos contribuir para transformar o mundo “malvado” e “feio” num
mundo mais justo, solidário e sustentável “. E é essa a ideia: que possamos nos
manter positivos, firmes e atentos em contraposição às notícias ruins e à
hipocrisia que assola comunidades, ambientes e paisagens. Essa é uma
escolha, a meu ver, inteligente e reconfortante, que nos torna protagonistas de
nosso próprio tempo e que nos une às nossas qualidades mais valorosas.
66

Figura 15

Figura 16

Capítulo 3. METODOLOGIA

3.1. Sobre os aspectos metodológicos dessa pesquisa

E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois,


só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência
desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço.
Só esta é que é uma entrega real
Clarice Lispector

Para este trabalho, como já fora antes mencionado, a proposta é realizar


uma pesquisa qualitativa empírica que reflete sobre o andamento de minhas
aulas ministradas na UNATI, durante o período de março a outubro de 2019 (com
pausa de férias em julho). Para isso, será feito um registro escrito de cada aula,
tendo como base um planejamento prévio, os meus registros e percepções após
cada encontro. Esse texto foi enriquecido e clareado por anotações e gravações
67

das falas feitas espontaneamente pelos alunos e por entrevistas devidamente


registradas. Além disso, realizei bastantes fotografias e filmagens. Ao fim do ano
letivo será realizada uma exposição no próprio Instituto de Artes contendo
algumas obras visuais realizadas pelas alunas e por mim, e fotos que mostram
como forram nossos encontros.
Até o fim do ano terei realizado em torno de 30 encontros, mais os
passeios extras pré-combinados e uma oficina de curta duração de danças
circulares a ser realizada no fim de setembro e início de outubro para o mesmo
projeto.
As vivências semanais estão sendo pensadas conforme o curso e a
pesquisa progride, portanto, as aulas refletem na construção da pesquisa e esta,
por conseguinte, reflete na formulação dos encontros da oficina. Em suma, a
ideia é planejar as aulas, lecionar semanalmente, descrever o processo e refletir
sobre o que aconteceu.
Esforço-me para seguir os preceitos de Paulo Freire que, em Pedagogia
da Autonomia, propõe que:

“Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-


fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino contínuo
buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei,
porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando,
intervenho, intervindo educo e me educo.” (FREIRE, 1997, p.32)

Foi realizada uma pesquisa bibliográfica para a coleta de informações em


livros e estudos científicos como trabalhos de conclusão de curso de graduação
e pós-graduação encontrados na biblioteca do Instituto de Artes e em acervos
virtuais. Para complementar a busca por informações relevantes a fim de
desenvolver argumentos lógicos, eu aplicarei um questionário ao início e ao final
do curso e realizarei entrevistas elaboradas com o objetivo de aprimorar meu
material de estudo e enaltecer as reflexões sobre a questão estudada.
Cabe dizer que a pesquisa é embasada nas referências teóricas pelas
quais tenho um grande apreço e afeto - usadas como bases a fim de fundamentar
as ideias propostas com aquilo que já existe nas áreas de: pedagogia, educação
para a paz, Cultura de Paz, valores humanos, antropologia, saúde e bem-estar,
artes cênicas, arte-educação, e autoconhecimento na formação do educador.
Assim, almejo compilar ideias de autores que em sua trajetória dedicaram-se à
68

valorização de conteúdos ligados ao sensível, ao afeto, ao autoconhecimento, à


intuição e à Cultura de Paz. Creio que assim eu consiga avaliar com propriedade
acadêmica todo o trajeto do trabalho de conclusão de curso e também propor
soluções edificantes em sua conclusão.

As aulas da UNATI são, em minha visão,importantes combustíveis para a


amizade e a curiosidade. Na oficina de yoga, todos os participantes cocriam um
ambiente de abertura às diversas possibilidades de aprendizado ao mesmo
tempo em que há foco e centramento. Esse é um dos principais motivos pelos
quais projetos semelhantes podem ser apoiados e implementados em
instituições educacionais, relacionadas às artes ou não.
A metodologia utilizada para as aulas segue um esquema semelhante:

 Os participantes chegam, sem pressa. Conversamos um pouco, nos


saudamos. Em seguida, todos se sentam para já iniciarmos a prática de Yoga
com uma breve conversa sobre o tema da aula e sobre o que faremos nas
próximas 2 horas . Solicito a todos que tentem chegar sempre alguns minutos
antes.
 Os temas das aulas são sempre relacionados com dois eixos temáticos
principais: Conexão com a Natureza ou Valores Humanos
 Escutamos e/ou cantamos uma canção relacionada ao tema da aula
 Realizamos uma prática de Hatha Yoga de 60 a 75 minutos
 Após o relaxamento da prática de Yoga, os participantes são convidados a
realizar uma atividade artística que tenha relação com a prática e com tudo o que
estamos estudando. Exemplo: confecção de mandalas em fios de lã, danças
circulares sagradas, assistir trecho de filme, pintura ou desenho temático que
auxilie na compreensão dos conteúdos de yoga e autoconhecimento, etc.
 Picnic Saudável nos 15 minutos finais
 Recados para a próxima aula
 Envio por grupo de whatsapp das músicas ouvidas nas aulas e links de
informações complementares

Todas as segundas temos nosso horário marcado na sala 503 do Instituto


69

de Artes. Chegamos, guardamos nossas bolsas, abrimos as janelas e deixamos


o espaço amplo para iniciar nossa aula. Após uma roda inicial de chegada,
começamos nossa prática de Hatha Yoga, em um ritmo tranquilo. Todas as aulas
sugerem um tema para reflexão, e cada encontro tem suas particularidades. Ao
final, proponho alguma atividade relacionada às artes, por exemplo, o canto de
uma música, um desenho ou a realização de uma dança circular. Em geral
compartilhamos alguns alimentos no final, no nosso picnic saudável.
Nas aulas há sempre espaço para o cultivo de conversas, e a atualização
de assuntos. Outros dois elementos essenciais são: o relaxamento e o
encantamento. Preparo as aulas com a intenção de compartilhar os
conhecimentos do yoga a partir destas duas forças motrizes, e acredito que
assim, de mãos dadas com a metodologia que estou desenvolvendo e que
denomino “Mandala de Conexões”.

3.2. Mandala de Conexões

Com relação aos aspectos metodológicos que fundamentam minha


proposta de entrelaçar o ensino, a fruição e a reflexão ligados às artes com o
yoga, é cabível explicitar que uma nova metodologia está sendo aqui pensada e
construída passo-a-passo com fundamentação em bases sólidas
contemporâneas.
Estamos no começo de um projeto, que também pode ser considerado
um processo criativo para mim, na condição de educador. Para Noemia Varela,
o ofício educativo em relação ao profissional da área deve:

Envolvê-lo também no processo criativo e, consequentemente,


levá-lo à sua forma particular de educar, operar – no tempo e no espaço
da sua vida – na construção da totalidade e unicidade de cada
educando, em harmonia com todos os demais fatores que contribuem
para o seu desenvolvimento (Varela, 2001, p. 185).

O meu projeto metodológico por enquanto tem o nome de “Mandala de


Conexões”, e ela intenciona capacitar o professor a fortalecer as dinâmicas e os
conteúdos de suas aulas com a experiência artística somada às técnicas de
yoga. Essa junção pode acontecer de diversas maneiras, e o que se configura
mais importante na transmissão desse conhecimento é que, além do
70

compartilhamento dos saberes culturais, haja um incentivo para que os


educandos possam levá-los para seu cotidiano, e que possam construir seu
próprio sadhana - sua disciplina diária que cuide do corpo, da mente e das
emoções e os auxilie a alcançar a felicidade e a libertação.
Acredito, com base nas experiências vividas, nos cursos realizados, nas
trocas com professores e também nas leituras feitas, que todo professor de yoga
possa se apropriar desse entrelaçamento de linguagens – assim como qualquer
professor de artes também possa se inspirar nessa proposta, utilizando-se de
recursos aqui sugeridos. Esse texto também pode incentivá-los a conhecer
melhor o yoga, convidando os leitores a iniciar ou aprofundar suas experiências
com yoga.

3.2.1. O nome

Escolhi o nome “Mandala de Conexões” pois o objetivo principal de todas


as minhas aulas é propiciar o resgate e a rememoração do silêncio interior e das
qualidades humanas em cada Ser. A conexão entre mente, corpo e emoções
que o yoga propõe. Um retorno ao lar, como o professor Hermógenes tantas
vezes falou e escreveu. A mandala é um símbolo que representa o centramento
e o resgate do foco. Todas as atividades nos são pensadas, planejadas e
selecionadas para auxiliar o aluno a acessar um estado introspectivo ou até
mesmo, o estado meditativo. De acordo com Maria Alice Proença, no livro
“Prática Docente”

“A palavra “mandala”,refere-se a uma imagem organizada ao redor de


um ponto central, que restabelece e conserva a ordem psíquica do ser
humano, no sentido de convergir o olhar e a lembrança interna para
um ponto em comum, algo que reúne, reequilibra, organiza emoções e
pensamentos de seus autores. “ (PROENÇA, 2018, p. 123)

Nas aulas que ministro, todas as linguagens artísticas convergem na


direção do yoga, que é o centro da mandala. Yoga representa conexão e
integração com a natureza e com a paz interior. A ideia principal é que os
educadores que se inspirem nessa proposta utilizem vivências artísticas diversas
em complementação ao ensino da filosofia e prática do yoga. Alguns exemplos
das vivências que realizo com frequência nas aulas:
71

 Danças circulares sagradas

 Histórias que valorizem os valores humanos, a simplicidade e a


conexão com a natureza

 Músicas populares brasileiras e de outras regiões do mundo, com


palavras pacíficas e amorosas

 Jogos e brincadeiras cooperativas que dialoguem com conteúdos das


artes cênicas, e que aproximem os participantes dos valores humanos,
como respeito, amor fraterno e não-violência

Ainda sobre mandala, no mesmo livro pesquisado, coloco aqui a conceituação


de Marie Pré (especialista em mandalas infantis), citada por Maria Alice Proença
no mesmo livro:

“Mandala é uma palavra sânscrita (antigo idioma indiano), que


significa círculo, circuito, uma representação geométrica da dinâmica
relação entre o homem e o cosmo. Em geral, designa toda figura
organizada ao redor de um centro, sejam quadrados, triângulos ou
outros. Não queríamos traduzir o vocábulo “mandala” porque seu
alcance transcende a noção de forma circular. De fato, toda mandala é
a exposição plástica e visual do retorno retorno à unidade pela
delimitação de um espaço sagrado e atualização de um tempo divino.
É um símbolo universal. Em todas as culturas do mundo as mandalas
guiam pesquisas e criações, tanto do sábio quanto do artista. (PRÉ,
2007 apud PROENÇA, 2018, p. 123)

Queremos, pois, retornar ao yoga: nosso principal espaço sagrado.


Queremos voltar para as sensações que sentimos quando estávamos na barriga
de nossas mães; sensações de paz e plenitude. Queremos cultivar o jardim
interior da nossa vida, e as artes nos apoiam nesse intento. O espaço sagrado
também é o nosso local de prática. Há acolhimento e ternura, para que todos
queiram voltar, e para que queiram vivenciar mais vezes na semana a
experiência do yoga.
Yoga é método, exige disciplina e vontade; e também é meta, propósito: a
autorrealização, a libertação, a saúde e o equilíbrio tão almejados para o corpo
e a mente do Ser. Todos os pontos da mandala querem encaminhar o Ser ao
yoga.
72

3.3. Sobre as artes:

3.4.
Sobre o ensino de artes, dentro dos Parâmetros Curriculares Nacionais,
transcrevendo citação do artigo “Abordagens triangulares: reflexões sobre a
aprendizagem triangular da arte”, de José Mineirini Neto:

“Os PCNs Arte, por sua vez, assim descrevem: A


aprendizagem da arte envolve distintos âmbitos de experiência para
abarcar o conhecimento artístico:
 a experiência de fazer formas artísticas incluindo tudo que entra em
jogo nessa ação criadora: recursos pessoais, habilidades, pesquisa de
materiais e técnicas, a relação entre perceber, imaginar e realizar um
trabalho de arte;
 a experiência de fruir formas artísticas, utilizando informações e
qualidades perceptivas e imaginativas para estabelecer um contato,
uma conversa em que as formas signifiquem coisas diferentes para
cada pessoa;
 a experiência de investigar sobre a arte como objetivo de
conhecimento, no qual importam dados sobre a cultura em que o
trabalho artístico foi realizado, a história da arte e os elementos e
princípios formais que constituem a produção artística, tanto de artistas
quanto dos próprios alunos” (BRASIL, 1997 apud MINEIRINI NETO,
2017, p. 31)

Os parâmetros propõem a ação criadora do educando em relação à prática


artística, à pesquisa e ao conhecimento de suas próprias habilidades e dons,
partindo da imaginação e dos recursos pessoais. Além disso, eles defendem a
importância da fruição artística e consideram a arte como uma área do
conhecimento importante em relação a elementos que se refiram à obra ou ao
artista.
Entretanto, arrisco exaltar outras funcionalidades do ensino de artes que se
mostraram notáveis em minha prática docente:

 A transmissão de conhecimentos artísticos pode trabalhar corpo e mente,


e auxiliar a criança, o adolescente e o adulto a ter uma maior
compreensão sobre suas emoções, sentimentos e pensamentos

 As aulas artes desenvolvem consciência corporal, e trazem múltiplas


possibilidades ao educando para que ele se expresse. Ao se expressar, a
pessoa se aterra, se sente vitalizada e mais consciente de si
73

 As aulas de artes conectam o educando à natureza, ao permitirem o


contato deste com cores, formas, sons, aromas, silênco, cenários
distintos, etc. Além disso, é cabível afirmar que as artes viabilizam um
contato com a subjetividade que outras áreas do conhecimento não
conseguem alcançar

 As artes fortalecem a consciência crítica do educando

 Nas aulas de artes há a possibilidade da execução de uma série de


vivências em roda. De acordo com Tião Rocha, educador brasileiro que
se debruçou sobre a constituição da Pedagogia da Roda: "A roda é
redonda, onde todos se veem, na roda não tem dono. No centro da roda
não há ninguém, só há as ideias junto com as pessoas. E roda produz
consenso, ela não faz exclusão" (PUC MINAS, 2018)

 As aulas de artes podem auxiliar o educando a encontrar em si qualidades


importantes com calma, coragem, prudência e equilíbrio mental e físico

 As artes se relacionam com todas as áreas do conhecimento, de maneira


que, todas as disciplinas escolares e acadêmicas podem se utilizar de
recursos artísticos para desenvolverem o compartilhamento de
aprendizados diversos

 As artes revelam o passado e o presente da humanidade, resgatam a


ancestralidade e auxiliam os educadores e educando a honrarem todas
as culturas existentes no Planeta

 As artes são muito importantes para o desenvolvimento das crianças

 As artes são muito importantes para a saúde, o aprendizado e o bem-


estar dos idosos

Sobre o casamento proposto na Mandala de Conexões; o qual traz as artes


em complementação ao ensino do yoga, pude concluir que:

 Essa é uma metodologia que viabiliza o encontro com o eu, com o outro
e com o ambiente ao redor. As atividades propostas podem ser em roda,
74

de maneira que os educandos podem sempre se olhar e se reconhecer


como semelhantes dentro de um círculo. De acordo com Álvaro Vieira
Pinto:

o encontro com o outro é fundamental para o encontro consigo mesmo.


Através do encontro com o outro nascem a subjetividade e a
intersubjetividade. Nasce a consciência de si mesmo como diferente
do outro. E na percepção dessa diferença, nasce também a percepção
da semelhança do que os aproxima (PINTO, 1989, p. 82)

Muitos professores de yoga, sem a utilização de recursos artísticos, podem


se sentir limitados quanto ao possível sucesso na assimilação de saberes, como
por exemplo, na memorização de nomes sânscritos ou traduzidos ou a correta
realização de um exercício respiratório ou uma postura.
Tomemos por exemplo, o exercício da árvore do yoga segundo o vislumbre
de Iyengar aqui registrado nas ilustrações do capítulo cinco. Por muitos anos eu
apenas mencionava verbalmente quais eram os oito eixos (angas) do yoga
clássico. Quando eu perguntava aos alunos se eles haviam memorizado os
nomes das referidas partes, nas aulas seguintes, eu percebia que não utilizava
o método apropriado; pois quase ninguém memorizava. Então, quando descobri
a sistematização gráfica da árvore, decidi criar essa dinâmica do desenho para
um período de meia hora – com a sugestão de acabamento e término para lição
de casa.
A árvore do yoga nos conecta com elementos muito importantes ao nos
trazer a imagem de um ser vivo com raízes profundas crescendo na direção da
luz, da iluminação. Ao desenhar as raízes e o tronco lembrando que eles
representam os dez princípios da filosofia do yoga, eu compreendo que posso
ser como a árvore, e posso me enraizar mais à Terra: ser mais forte em meu
caminhar. Minha relação com o eu, com o outro e com a vida inteira por ser
vitalizada.
Ao compreender o Astanga Yoga, o educando pode compreender muito
mais de si. Então, a arte, a cor, o desenho, a expressão livre – e todas as
dúvidas, questionamentos assim como as certezas e esclarecimentos geradas a
partir dessa atividade são bem-vindas, pois fazem pensar e podem transformar
a realidade do praticante.
Pensemos nas rodas de massagem que ocasionalmente realizo em minhas
75

aulas da UNATI, e também com outros públicos. Primeiro, inicio com uma
dinâmica de automassagem para depois convidar os alunos a escolherem uma
dupla para que um aplique massagem no outro. Em seguida, faço uma
intervenção incentivando que as duplas se aproximem dos outros participantes
e formem um círculo perfeito, de maneira que todos os participantes podem dar
e receber esse toque fraterno e carinhoso. A receptividade para esse exercício
é sempre muito positiva, pois há aqui o elemento-surpresa que faz com que haja
encantamento, abertura ao outro e também a plena presença de cada um. A
primeira vez que, como aluno, conheci esse exercício, foi nas aulas da
graduação em disciplinas como Jogos Teatrais ou Laboratório de Corpo e Voz.
É um recurso utilizado para assegurar confiança e cumplicidade nos membros
da turma que, felizmente, foi um sucesso nas aulas da UNATI.
Essa dinâmica também pode se configurar como mais um elemento
propulsor da compreensão dos yama e niyama: é importante estar em harmonia
consigo e com o outro; é importante estar conectado com aquilo que é real, que
é semelhante a mim (apesar das diferenças), com a amizade e com a alegria.
Na leitura do livro “Ética, Valores Humanos e Transformação”, li que:

Somos interdependentes. Cada um de nós depende do bem-estar


do todo, e assim sentimos respeito pela comunidade dos seres vivos,
pelas pessoas, pelos animais e pelas plantas, e pela preservação da
Terra, do ar, da água e do solo. Temos a responsabilidade individual
por tudo o que fazemos. Todas as nossas decisões, ações e omissões
têm consequências. (MARTINELLI & DISKIN et al, 1998, p. 77)

A prática de yoga começa com essa compreensão. Precisamos cuidar uns


dos outros. Eu sou importante para você, e você é importante para mim. A Terra
é nossa mãe e, se ela estiver em maior desequilíbrio, todos nós sofreremos com
essa situação.

Devemos tratar os outros como gostariam que os outros nos


tratassem. Assumimos o compromisso de respeitar a vida e a
dignidade, a individualidade e a diversidade, para que cada pessoa,
sem exceção, seja tratada humanamente. Devemos ter paciência e
uma visão positiva da vida. Devemos saber perdoar, aprendendo com
o passado, sem jamais nos tornarmos escravos de lembranças
odiosas. Abrindo nosso coração aos outros, devemos eliminar nossas
pequenas diferenças em prol da causa da comunidade mundial, pondo
em prática uma cultura de solidariedade e de relacionamento
harmônico. (ibidem)

Ou seja, é importante que despertemos nossas sensibilidades para cuidar


de nossas emoções, sentimentos e pensamentos. Precisamos nos empenhar
76

em olhar e focar no pólo positivo da vida, na beleza dos Seres, e na possibilidade


de se transformar e realizar o bem.

3.5. Como a arte e o yoga, entrelaçados, podem contribuir para a


educação do Ser

A arte e o yoga são áreas do conhecimento de imensa relevância, com


muitos conteúdos a serem trabalhados com os educandos. Para transmitir seus
conhecimentos é importante que haja estudo e dedicação, mas por serem
estudos práticos conectados com os ritmos da natureza, com a subjetividade e
com a ancestralidade, há maneiras singelas de ensiná-los, e também, de
conectá-los. De acordo com a educadora Madalena Freire:

[...] no processo de educar, o educador faz arte, ciência e política. Faz


política, quando alicerça seu fazer pedagógico a favor ou contra uma
classe social determinada. Faz ciência quando estrutura sua ação
pedagógica, apoiado no método de investigação científica. Faz arte,
porque se defronta com seu processo de criação, porque valoriza a
estética na sua prática educativa ao lidar com o imaginário e o inusitado
cotidianamente. A ação criadora envolve o estruturar, dar forma
significativa ao conhecimento. Toda ação criadora consiste em
transpor certas possibilidades latente para o campo do possível, do real
[...] (FREIRE, 2008, p. 64 - 65)

O educador que quer incluir os oprimidos, que pensa e age pelos direitos
daqueles que mais necessitam, que se doa um pouco mais além de sua carga-
horária fixa para realizar algo em benefício de alguém ou do planeta, se insere
no time dos lutadores da área da Educação.
São pessoas que acreditam, e que renovam com frequência suas esperanças
para prosseguirem no caminho, dando as mãos para outros que necessitam
desse apoio. Com carinho, dedicação e vivacidade o educador pode arquitetar
projetos impactantes, edificantes para seus educandos.

A união do yoga com as artes em sala de aula pode inspirar os educadores


a propiciarem muitas experiências educativas, que aliem teoria, prática,
autoconhecimento, introspecção e reflexão sobre o mundo. Com relação a isso,
evoquemos Ana Mae Barbosa:
77

O desejo de aprender e investigar é análogo ao desejo ficcional.


Através da arte, o sujeito tanto nas relações com o inconsciente como
nas relações com o outro, põe em jogo a ficção e a narrativa de si
mesmo. Nisto reside o prazer da Arte. Sem a experiência do prazer da
Arte, por parte dos professores (ou mediadores) e alunos, nenhuma
teoria de Arte/Educação será reconstrutora (BARBOSA, 2005, p. 292)

Tais experiências podem auxiliar o Ser a se conhecer melhor, pois as


linguagens artísticas e o yoga mobilizam as diversas potencialidades inatas do
Ser. Eles penetram no consciente e no inconsciente, e abraçam a subjetividade
humana, permitindo que haja fluidez na criatividade e na reconstrução de
pensamentos, palavras e ações.

As artes despertam sensibilidade e afetividade, e essa


subjetividade não só aprimorará o desempenho crítico e reflexivo,
como também atuará na ampliação de capacidade criativa e lógica da
pessoa [...] outra função educativa da arte é a utilização de seus
conteúdos – o conteúdo objetivo - a letra da música ou uma poesia, por
exemplo, e o conteúdo subjetivo – intuição, prazer, sonho, fantasia,
alegria (PETRAGLIA, 2011, p. 05).

As artes e o yoga, no que concerne à sua pesquisa e produção de


conhecimento na contemporaneidade, estão em constante transformação e
aprimoramento. São áreas do saber que estimulam nos alunos a curiosidade e
a consciência crítica, a vontade de pensar a partir de seu próprio impulso interior.

Não podemos deixar de fomentar e instigar em nossos alunos a


independencia crítica e crativa, proporcionando-os uma pedagogia na
qual o resultado seja oriundo de uma ação cultural direcionada à
libertação, retirando a consciência opressora que “habita” na
consciência oprimida, que tenta fixar a submersão da consciência, uma
vez que a “educação bancária”, não compactuando com a
problematização, e logicamente com a “educação libertadora”, faz com
que nossa consciência e intervenção crítica da realidade sejam
completamente extraídas da capacidade de pensar de nossos alunos.
(LUNA, 2007, p.7)

Além disso, é cabível afirmar que são portas de entrada para a difusão dos
princípios da Cultura de Paz e aplicação de dinâmicas de convivência, atreladas
aos documentos da ONU e UNESCO.
A ONU (Organização das Nações Unidas) e a UNESCO (Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura) são as principais
referências mundiais com relação às decisões sóciopolíticas relacionadas ao
combate à violência, à desigualidade social e às injustiças. É desses órgãos que
78

foi construído o conceito e o movimento denominado Cultura de Paz, sobre o


qual irei dissertar com maior profundidade no capítulo oito. Em dezembro de
2016, o yoga foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

“A UNESCO define a yoga como “uma série de posições,


meditação, respiração controlada, cântico de palavras e outras
técnicas concebidas para ajudar os indivíduos a construir a
autorrealização, apagar qualquer sofrimento que eles possam estar
vivendo e possibilitar um estado de liberação”. (NAÇÕES UNIDAS
BRASIL, 2019, p.2 ) 9

Diversos documentos importantíssimos como a Carta da Terra, a


Declaração Universal dos Direitos Humanos e os Objetivos de Desenvolvimento
do Milênio trazem importantíssimos tópicos a serem refletidos em sala de aula
por todas as idades. A ONU, com seus materiais de Cultura de Paz propõe rodas
de diálogo, leitura de textos e vivências para serem realizadas em sala de aula.
Na intenção de servir como um multiplicador dos conteúdos referentes aos
documentos do aparato da Cultura de Paz desenvolvidos por essas
organizações, podemos utilizar as nossas aulas de yoga e artes para explicar
aos alunos sobre a importância de tal movimento mundial, convidando-os a um
engajamento maior nessa causa, a da Cultura de Paz, que é de toda a
humanidade.

Figura 17

9
https://nacoesunidas.org/em-dia-mundial-assembleia-geral-da-onu-e-palco-da-1a-aula-de-
yoga-em-sua-historia/
79

A aplicação dessa proposta metodológica pode incentivar a criação


pedagógica de propostas inovadoras que podem futuramente ser exploradas
com maior embasamento científico, e sua comunhão pode ser adotada por mais
professores.
As linguagens artísticas e as manifestações ocidentais do yoga ainda
sofrem preconceito aos olhos de muitos profissionais tanto da área da saúde,
quanto das ciências humanas. Muitas pessoas não conhecem seu valor. Por
isso, o aprofundamento nessas áreas por parte de profissionais comprometidos
é realmente importante para que haja transformações benéficas na humanidade,
tendo em vista o potencial transformador dos saberes aos quais nos referimos
aqui.

[...] o espaço da arte-educação é essencial à educação numa dimensão


muito mais ampla, em todos os seus níveis e formas de ensino . Não é um
campo de atividades, conteúdos e pesquisas de pouco significado. Muito
menos está voltado apenas para as atividades artísticas. É território que pede
presença de muitos, tem sentido profundo, desempenha papel integrador
plural e interdisciplinar no processo formal e não formal da educação. Opera
como campo de transformação vitais, dando ampla visão, muito vigor, saúde
– à propría educação geral e aos que em seu espaço convivem e crescem na
dimensão do exercício efetivo e dinâmico de sua capacidade criadora”
(VARELA, 1986, p.13)

Em relação aos idosos: as aulas de yoga e todas as aulas de artes são


realmente acolhedoras e acessíveis para esse público . Podemos tomar como
exemplo a quantidade considerável de Universidades Abertas à Terceira Idade
no estado de São Paulo. Além disso, é cabível considerar o aumento do número
de idosos em instituições do Sistema Único de Saúde, em academias
tradicionais com musculação e natação, e também em estúdios de yoga. A
quantidade de profissionais que cuidam dos idosos (a exemplo dos gerontólogos
e cuidadores de idosos) também cresceu muito.
Esse público já não mais se integra à ideia da inserção no mercado de
trabalho e da “utilidade social” da produção, como mostra Regina Simões no
seu livro que veio da sua tese de mestrado “Corporeidade e Terceira Idade: A
marginalização do Corpo Idoso” falando sobre como se dão as reações dos
idosos e suas atitudes e interesses nas aulas por ela pesquisadas. Sobre a
pessoa que está na faixa etária dos 60 anos ou mais:
80

"-prefere os jogos com regras menos complicadas;


-dá ao amor um maior dimensionamento;
-interessa-se em organizar jogos que já façam parte
de sua experiência;
-sente satisfação em observar suas habilidades;
-sensível quanto ao que se pensa e sente sobre ele;
-responde fortemente aos elogios e encargos;
-necessita de comunicação afetiva;
-demonstra espírito competitivo
-dificuldade em realizar movimentos complexos;
-pode ser arrojado, imprudente;
-pode ser introvertido, inseguro;
-tem interesse em chamar a atenção;
-gosta de saber o como e o porquê das coisas;
-interessa-se para
explicações bem
detalhadas e claras; -
gosta de ser desafiado na
maioria das vezes.
Estas ações contemplam algumas restrições que o
envelhecimento impõe, mas também explicitam a
necessidade do idoso sentir-se parte integrante da
sociedade. A postura do idoso nas diferentes
situações mostra-nos que, em alguns momentos, ele
se sente socialmente marginalizado. No entanto,
algumas atitudes mostram que psicologicamente
sente a importância de estar comprometido com
toda a sociedade." (SIMÕES, 1994, p. 40 - 41).

É diante dessa visão científica que quero possibilitar aos idosos a vivência
pacífica, amorosa, respeitosa e cooperativa das artes e do yoga, em um
casamento pedagógico que permita-lhes sentir alegria por fazerem parte de um
grupo e de um projeto fundamentado em raízes genuínas. Os mestres antigos
do yoga nos prometem a libertação, e nos pedem a disciplina e o firme
pensamento no momento presente.
Ao unirmo-nos com outras pessoas que estão em busca dos mesmos
objetivos, podemos nos apoiar em fortes inspirações a fim de prosseguirmos
em nossas práticas, e em nossos ideais. É por isso que a constituição de
comunidades de aprendizagem para idosos (e pessoas com 50 anos ou mais)
se faz tão importante em instituições educacionais.

Acrescento, também que as aulas são portas de entrada para a inserção


dos valores humanos através de recursos pedagógicos como jogos teatrais,
jogos cooperativos, danças circulares e brincadeiras que se apropriem do corpo
para a conquista de novos aprendizados em sala de aula. De acordo com Marilu
81

Martinelli, sobre a importância da educação que preza o corpo físico:

Conhecemos e experimentamos o mundo através do corpo. O mundo


exterior nos é revelado pelos nossos sentidos e o mundo interior, pela
expansão desses sentidos. A educação no nível físico visa antes de
mais nada preencher o vazio existente na consciência entre o corpo e
a mente. O físico educado desse modo será um adequado insrumento
de expressão de quem somos. A experiência do mundo tridimensional
e do mundo subjetivo e espiritual resulta na livre manifestação do ser
humano integral. A educação do físico passa por exercicios que
permitam um desenvolvimento de um corpo bem-proporcionado e
saudável pelo equilíbrio e canalização adequados das energias vitais.
A percepção interior desenvolve um sistema sensorial subjetivo de
atingir o universo do espírito e da criatividade com maior facilidade.
(MARTINELLI, 1998, p. 92)

Em muitas instituições educacionais, os educadores especializados em


tais áreas podem ir além dos paradigmas educacionais do século XX (ou antes),
e propor com maior liberdade atividades que remetam a conteúdos inseridos na
bagagem universal da Cultura de Paz.
Acredito que Educação não é – e não deveria ser - uma mera transmissão
de conhecimentos. É importante que defendamos a Educação como
compartilhamento de informação para a vida – algo que realmente auxilie na
transformação humana, e na preservação de tudo aquilo que é vivo. Podemos
pensar que as comunidades de aprendizagem possibilitam a existência de
núcleos de encontros nos quais são realizadas edificantes trocas humanas.

Mas, que devemos pensar da formação do arte-educador? Quais as


relações da arte com a educação que poderão melhor delimitar o lugar
e a natureza do processo de formação do arte-educador? O que dá
mais a pensar sobre esta questão e que ainda não foi pensado? Que
é necessário desaprender para encontrar o caminho mais sábio que
nos leve à elaboração mais rica do processo de formação do arte-
educador? (VARELA, 1986, p. 12).

São muitas as perguntas nesse caminho que entrelaça linguagens e que


abraça gente. Gente de verdade, que quer se encontrar, aprender e se conhecer
na direção da paz. Abrir a “Mandala de Conexões” é, para o arte-educador,
inaugurar um campo fértil para descobertas práticas, afinadas com a
personalidade e com a busca dele próprio. Em muitos momentos, precisamos
desaprender, errar, tentar novamente, e experimentar para ver compreender que
não é a melhor maneira.
82

3.6. Doando e recebendo no fazer educativo

Ensinar yoga e artes para a Terceira Idade na UNATI é uma experiência


rica em praticar a doação, não no sentido filantrópico ou caridoso, mas sim no
sentido de presentear, dar, ofertar; dádiva, presente. O educador pode entregar
o conhecimento aos indivíduos aprendentes, na confiança de que ao menos uma
parte de deles receberão o presente e saberão lidar com aquilo que foi recebido,
a fim de melhorar sua vida e as vidas de seus semelhantes.
O conhecimento do yoga é cultural e , por conseguinte, de toda a
humanidade – e viabilizar a difusão desse sistema filosófico-prático é abrir as
portas das mentes dos educandos para essa descoberta. Podemos tomar como
exemplo os mantras hindus, ou tupi-guaranis, ou tibetanos, ao serem ensinados,
podem expandir horizontes interiores daqueles que desconheciam tais
manifestações que podem ser sentidas e evocadas tanto no canto, quanto na
dança, quanto no pensamento e na vibração sonora. O conhecimento dos
mantras pode ensinar sobre aspectos que conectam a humanidade pela
simplicidade, pelo som e pela vida.
O ato compartilhar conhecimentos culturais oriundos dos povos antigos,
considerado por muitos algo supérfluo ou até mesmo inútil, pode também ser
considerado uma ação eficiente em prol da Cultura de Paz.
Há uma riqueza imensa em encontros educacionais não-formais,
desprovidos de vínculos institucionais em cursos profissionalizantes. Quem está
lá presente, está por espontânea vontade de aprender. Isso é gratificante, mas
ao mesmo tempo exige que eu, como professor, pense constantemente em
estratégias para que os alunos não faltem tanto, e não desanimem. É importante
incentivar os praticantes de yoga, de maneira a não se deixarem desestimular
em meio às condições e intempéries diversas do dia-a-dia. Posso considerar
essa a minha maior motivação em realizar a oficina “Yoga, Arte e
Autoconhecimento” para esse público da UNESP: eu sei que uma aula semanal
faz falta para aqueles que gostam de vir, pois é um local de paz, bem-estar e
harmonia, onde podem recarregar suas energias, descansar e refletir sobre
como podem prosseguir em suas caminhadas com mais fé e leveza.
Enquanto eu compartilho jovialidade e entusiasmo com meus alunos da
UNATI, eles me presenteiam com sabedoria, paciência e tempo. Eles estão
83

dispostos a estarem comigo e estão abertos a mais. E isso é realmente algo


único e especial . Com eles aprendo também a cultivar mais respeito em relação
a quem veio antes e trilhou passos na jornada que eu ainda não vivenciei. O arte-
educador e o instrutor de yoga presenteiam as pessoas com vida, com
jovialidade e com consciência, por estimularem as percepções dos diversos
sentidos humanos e por trabalharem corpo, mente e emoções nas vivências.
Eles fortalecem o potencial criativo das pessoas, recordando-as de seu ritmo
respiratório, de seus pensamentos positivos e da alegria que talvez estivesse
escondida há algum tempo, em alguma instância de si. É por isso que a Mandala
de Conexões existe, e persiste, e continua em movimento – ainda nascendo, e
sempre se aprimorando, tornando-se aquilo que almeja ser: um combustível para
a vida, uma motivação para o sorriso e para o descanso.

Essa obra e todos os trabalhos de campo que configuram essa pesquisa


estão sendo realizados em um momento de declínio político em nosso país. A
sociedade, em todos os setores, sofre com uma declarada desvalorização dos
valores humanos por parte dos principais líderes políticos; e a educação sofre
com um notável desmonte estratégico em um cenário configurado à serviço do
consumismo e da hipocrisia de poucos que querem dominar muitos.

O presidente eleito alegou desconsiderar a ONU e as contribuições desta


organização em diversos posicionamentos. É por esse fato e por tantos outros
que podemos notar um significativo retrocesso das instituições formais atreladas
ao poder político e ao combate à violência em todos os sentidos. E, diante disso,
acredito que este seja o momento certo para que mais profissionais da
educação, da saúde, das artes - e de todas as áreas - se comprometam a fazer
algo para a reconstrução de nossa dignidade. Estamos, cada um em suas
iniciativas, cocriando uma frente de resistência e luta, uma pedagogia da
esperança, uma força-tarefa que talvez nos faça retirar energias de onde nem
sabemos que temos.

Mas, fica aqui a pergunta: “Se não nós, quem?”, “Se não agora, quando?”
84

Figura 18
85

Figura 19
86

Figura 20

3.6. Sobre a sintetização gráfica da Mandala de Conexões

Escolhi a figura de uma flor com muitas pétalas para representar a


significação do método educacional que estou desenvolvendo nas aulas. A flor
representa a beleza, a poesia, o feminino e a própria meditação da árvore do
yoga. Ao centro da mandala, temos o yoga por duas razões:

 O aprendizado do yoga, como filosofia e prática, é o principal objetivo


pedagógico
 O yoga se conecta com todas as linguagens artísticas que virão em
complemento, como pétalas dessa flor.

O yoga é, também, a nossa referência e norte, para onde sempre


precisaremos nos lembrar de voltar caso isso seja esquecido. Ou seja, sempre
precisaremos nos voltar para a concentração, o silêncio, a postura firme e
confortável e a conexão com a positividade e a paz interior.

As pétalas internas trazem as palavras-chave que representam as


linguagens artísticas que trago para os encontros, de maneira que os alunos
entrem em contato com todas essas manifestações da criatividade e do
87

conhecimento humano. Elas são:

 Dança
 Teatro
 Artes Plásticas Visuais
 Música
 Poesia
 Literatura
 Fotografia
 Tecnologia
 Cinema
 Cultura

A partir da estrutura central da mandala, eu abri dez pétalas, cada uma


com sua importância. Quis separar literatura de poesia, e fotografia de artes
visuais, por exemplo, para destacar a minha maneira de utilização em relação a
cada um desses pilares dos saberes da arte. Gosto de trazer poesias, fotos,
frases, citações, desenhos, mandalas coloridas ou em preto e branco, cenas de
filmes e histórias edificantes.
Com o fim de exemplificar com maior clareza: quando trago uma cena de
filme ou uma reflexão ligada ao cinema, busco não me apropriar de conceitos
específicos de artes visuais para compartilhar conhecimentos que remetem
apenas a essa área de conhecimento, mas conectar aquele material de estudo
aos conteúdos do yoga a serem trabalhados em classe.
Que fique bem explicitado aqui que o foco pedagógico da oficina “Arte,
Yoga e Autoconhecimento” é o ensino do yoga e, por conseguinte, da meditação.
As artes complementam os estudos nos momentos de aula, e também nas lições
de casa que solicito.
As artes refinam a experiência dos educandos na direção da observação
de seus próprios pensamentos, do autocuidado com o corpo e mente, e na
conquista gradativa de um estado de concentração e meditação.

Sobre as pétalas maiores, que também são dez: concluo que, ao plantar
88

a flor do yoga em solo fértil e artístico, abrimos nossas mentes para refinar a
visão de mundo que já temos ou para recriar a compreensão sobre aspectos
específicos que permeiam a existência. As artes abrem espaço para novas
possibilidades na educação, por tocarem na subjetividade humana e auxiliarem
na conquista de uma consciência mais apurada sobre diversos temas.

 Meio Ambiente, Natureza e Ecologia


 Cultura de paz e Consciência Política
 Espiritualidade, Religião e Tolerância
 Saúde, Medicina e Educação Física
 Consciência, Autoconhecimento e Autocuidado
 Felicidade, Autorrealização e Confiança na Vida
 Educação, Transformação Social e Valores Humanos
 Encantamento, Humanidade e Diversidade
 Ancestralidade e História
 Inconsciente, Desconhecido e Incerteza

A flor do yoga, ao ser aberta, pode se expandir a todas essas direções;


suas pétalas irradiam cores e aromas diversos no que concerne ao saber. O
yoga é uma sabedoria viva, que exige uma reflexão sobre o que está passando
no momento presente e, por vezes, sobre o passado ou o futuro também. Como
já foi escrito aqui, o yoga beneficia tanto o corpo quanto a mente, e pode equilirar
emoções e pensamentos ao conferir ao praticante dedicado uma melhoria na
qualidade de vida.
O yoga é imenso, assim como outras filosofias orientais: o taoismo, o
budismo, o jainismo, o vedanta, a cultura africana conectada aos orixás, o
cristianismo, o xamanismo. O yoga é um vasto sistema de conhecimento, por ser
filosófico e prático e considerando que no mundo há milhões de individuos que
se beneficiam de suas técnicas, é indubitável que muitos tragam a sabedoria do
yoga como um complemento às suas visões de mundo e aos estilos de vida que
compõem.

As aulas de yoga abrem espaço para uma riqueza imensurável de


89

conhecimentos. Acredito que todos os profissionais da educação possam se


utilizar do yoga para aprimorar suas aulas, utilizando as técnicas iogues para o
conteúdo metodológico ou para auxiliar no ganho de concentração, foco e
relaxamento de seus educandos. Elementos como os prayanamas ou o
savasana podem ser utilizados em todas as instituições educacionais, sem a
necessidade de qualquer associação com a religiosidade hindu ou confusão com
misticismo ou mitologia. O yoga é acessível e pode ser ensinado a todos, desde
que a linguagem utilizada seja apropriada para o ambiente em que for aplicado.

3.7. Paz, Amor e Alegria

O elemento final da Mandala são as três palavras-chave que norteiam meus


propósitos e minha relação íntima com a educação:

 Paz

 Amor

 Alegria

A paz é o elemento comum na busca de todos os Seres. Todos, sem


exceção, buscam a paz. Muitos ainda não sabem como conquistar essa virtude,
esse estado interior, essa sensação, e podem se desvirtuar por caminhos
opostos, violentos. Entretanto, é ela aquilo que todos buscamos quando fazemos
o que amamos, ou quando lutamos para conquistar o que realmente queremos.
A Cultura de Paz é o nome que se dá, de acordo com a ONU/UNESCO a
um movimento que combate a cultura de violência, a qual era aceita
anteriormente em larga escala no planeta.
A educação para a paz Paz é um movimento pedagógico que ainda está
em desenvolvimento teórico e prático. Seu objetivo é a transformação social a
partir do estudo criterioso relacionado às razões pelas quais a humanidade se
envolve com a violência e da aplicabilidade de conteúdos e metodologias sociais
que permitam ao indivíduo a compreensão da importância da paz nos diversos
âmbitos da realidade. Paulo Freire foi um de seus pioneiros no Brasil, e isso pode
ser testemunhado a partir da leitura de seus discurso em Paris, em setembro de
90

1986, ao ganhar o “Prêmio UNESCO da Educação para a Paz”:


“De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes aprendi
sobretudo que a paz é fundamental, indispensável, mas que a Paz
implica lutar por ela. A paz se cria, se constrói na e pela superação de
realidades sociais perversas. A paz se cria, se constrói na construção
incessante da justiça social. Por isso, não creio em nenhum esforço
chamado de educação para a paz que, em lugar de desvelar o mundo
das injustiças o torna opaco e tenta miopizar as suas vítimas.”
(FREIRE, 2006, p. 388)

No yoga, cantamos e mentalizamos com frequência a palavra sânscrita


shanti, que significa paz. Após as práticas normalmente os professores de yoga
pedem aos alunos que mentalizem pessoas, animais e plantas em paz, e
também o planeta Terra.
O amor é a força e a virtude que gera todas as vidas, que cura e que
transforma a partir da bondade, da pureza e da verdade. O amor é um elemento
essencial para o sucesso na relação entre educador e educando, quando se
almeja um vínculo de respeito e ternura, o qual propicie a cocriação de um
ambiente de aprendizagem fértil. Paulo Freire (1981, p. 33-34), nos lembra que
“Não se pode falar de educação sem amor.“ No yoga, conhecemos o amor como
expressão de ananda, que é a própria felicidade manifesta em nossos
pensamentos, palavras e ações. No livro “Pedagogia da Ternura”, li que

“Não precisamos ter medo de expressar nenhum afeto da


forma como o sentimos, desde que seja verdadeiro para nós. O outro
há de percebê-lo. Desrespeitá-lo será uma exceção. As ações
amorosas são carícias que acalmam as dores alheias. As açções
amorosas são carícias que acalmam as dores alheias.” (FILHO, 2010,
p.27)

E com essas inspirações ganhamos mais coragem para agirmos com


amorosidade e caminhar na direção de acalmar as dores dos alunos, como
educadores, como iogues, como alguém que quer ser cada dia mais verdadeiro.
O amor é realmente um aprendizado imenso.
Em relação à alegria, inspiremo-nos na sabedoria de Rubem Alves (2004,
p. 55): “A educação não tem como objetivo preparar os alunos para ingressar no
mercado de trabalho. O objetivo é criar as condições possíveis para a
experiência da alegria.” Os encontros da UNATI são permeados por
contentamento, positividade e encantamento. Acredito que estes vórtices
sempre encaminham os educandos à alegria; e os convites para encontrá-la
91

interiormente são muitos. Para fechar esse capítulo vou transcrever o


depoimento da aluna Denise, em relação à comunhão do yoga e das artes nas
aulas:
Desde que iniciei o curso de hatha yoga com você, senti que
voltei a ter consciência corporal. E não só isso:a consciência de que
corpo e mente estão interligados a tal ponto que as disfunções e
doencas físicas afetam a mente, e vice-versa. Já de manhã, tenho
despertado de forma diferente, querendo esticar os bracos, as pernas,a
coluna vertebral e as articulações. A junção entre yoga e arte é perfeita,
porque nos remete ao bem e ao belo que nos desperta também para a
importância de cuidar dos sentimentos e da espiritualidade.

(Denise, por whatsapp, em 17/10)

A missão da educação (para Katarine Carvalho)

Aaaaahhhh educação
A canção do coração
Ensinamento Imensidão
Poesia e pulsação

A verdade e a intenção
De ensinar tantos irmãos
A descobrir quem eles são
A despertar para a missão

A missão de ser feliz


Essa é a função da educação
E praticar o que se diz
Cuidando bem de si
E todos ao seu redor

É a missão do educador
Espalhar a luz do amor
Transmitindo a informação
Aos seres que aqui estão
Todos os filhos do Sol

Educar com poesia


Toda hora e todo dia
Expandindo encantamento
Fazendo olhar pra dentro
A beleza do momento
O contato com a essência

A chama de consciência
Nunca vai ser apagada
É só seguir na senda
Nessa sua linda estrada
Uma vida abençoada

Outubro de 2019
92

CAPÍTULO 4: UNATI

“A Organização Mundial da Saúde, em 2009, estimou que 737 milhões


de pessoas tinham idade igual ou superior a 60 anos, sendo que
aproximadamente dois terços viviam em países desenvolvidos. De
acordo com o Instituto Brasileiro e Geografia e Estatística – IBGE, o
Brasil possui cerca de 19 milhões de idosos (60 anos ou mais),
representando 10% DA POPULAÇÃO BRASILEIRA. Estimativas
indicam, ainda, que esse contingente atingirá 31 milhões até o ano de
2025 e fará do país o sexto em número de idosos no mundo (IBGE).”
(COSTA, et al., in DEL MASSO & AZEVEDO, 2012, p.60)

4.1. Universidade Aberta à Terceira Idade

É importante que a literatura acadêmica acerca do referido projeto de


extensão seja ampliada, de forma a conferir um valor maior a esse trabalho tão
importante que consegue impactar vidas de pessoas que se encaixam na
referida faixa etária, mas também potencializa os talentos e dons dos estudantes
universitários que se voluntariam a lecionar e contribuir para essa causa.

O projeto Universidade Aberta a Terceira Idade desenvolve-se na


UNESP desde 1993, núcleos foram se constituindo nas unidades
universitárias, a procura pela comunidade é crescente e o projeto tem
se tornado consistente e originado inúmeros trabalhos acadêmicos,
entre eles: artigos, monografias, teses e resumos para congressos.
(ibidem, p.9).

Dentre os objetivos desse projeto nas universidades, destaca-se a


intenção em incentivar a integração social dos idosos na proposta prática de
favorecer o vínculo, a convivência, o diálogo e o estudo com os educandos. Além
disso, as universidades abertas nas Universidades públicas e privadas
intenciona conferir oportunidades de experiências diversas em um ambiente rico
93

em cultura e estrutura, de maneira a propiciar às pessoas da terceira idade o


senso de pertencimento em relação a um coletivo e a um espaço – ao que
podemos chamar de comunidade de aprendizagem.
A UNATI quer enaltecer a visão positiva do envelhecimento humano como
processo biológico e social, e ela se configura como um dos mais fortes e
presentes programas pedagógicos de extensão em diversas instituições de
ensino, tais como UNESP, USP, USC, UERG, PUC-SP, PUC-RS, UNIFESP, etc.
Nas diversas Universidades Abertas à Terceira Idade são oferecidos
cursos de atualização cultural. Isso é um prosseguimento do modelo de projeto
do psicopedagogo Pierre Vellas, da Universidade de Toulouse (França), nos
anos 70. (SOARES, 2018, p.113). Para ingressar, não há a necessidade de
prestar vestibular nem apresentar qualquer diploma ou certificado. No estado de
São Paulo, em universidades como a USP e UNESP, idosos podem também
acompanhar aulas de disciplinas de cursos de graduação de seu interesse.
A criação desses projetos é estabelecida pelo Artigo 25 do Estatuto do
Idoso, o qual determina que as instituições de ensino superior disponibilizarão
às pessoas idosas cursos e programas de extensão presenciais (ou EAD) com
atividades formais ou não-formais. O objetivo, de acordo com esse documento,
é oferecer uma continuidade educacional inclusiva e acolhedora para essa faixa
etária.

4.2. Instituto de Artes da UNESP

Em relação ao Instituto de Artes da UNESP, localizado em São Paulo, no


bairro da região centro-oeste denominado Barra Funda, é importante que seja
colocada aqui a particularidade do direcionamento científico colocado em prática
em pesquisa, ensino e extensão nessa escola. No IA temos graduação em
Bacharelado e Licenciatura em Artes Cênicas, Bacharelado e Licenciatura em
Artes Visuais e Bacharelado e Licenciatura em Música, além dos programas de
Pós-Graduação em artes, arte-educação e arte-terapia. Com essa oferta focada
nas linguagens artísticas, a UNATI tem assumido um caráter educativo destinado
ao compartilhamento de conhecimentos nesses setores – nos últimos anos
podemos listar muitas oficinas de cerâmica, gravura, expressão corporal, jogos
teatrais, xilogravura, estamparia, etc.
94

Em 2019 tivemos grande procura pelas oficinas de cerâmica e yoga.


Foram mais de dez pessoas em ambas, sendo que no segundo semestre
recebemos 25 matrículas para as aulas de yoga. As outras atividades, de longa
ou curta duração, tiveram aproximadamente quatro a seis inscritos - como a
dança e memória, gravura, tinta d´água, estamparia, artemídia e expressão
corporal e jogos.

4.3. Oficina “Yoga, Arte e Autoconhecimento”

O yoga chegou na UNATI em 2017 com minha iniciativa em aplicar aquilo


que eu já aplicava em minhas aulas para o público geral: a união das linguagens
artísticas e o Yoga. Fiquei apenas um semestre e tive aproximadamente dez
alunos inscritos. A resposta foi altamente positiva para todos os envolvidos. O
meu retorno ao projeto, que denomino como oficina de “Yoga, Arte e
Autoconhecimento” se deu no início de 2019 coincidindo com o meu retorno à
graduação após tê-la trancado por 1 ano e meio. Em 2019, esse curso tem sua
conclusão prevista para o início de dezembro – configurando-se como um curso
semanal de 8 meses de duração para aqueles que estiveram presentes desde
março.

4.4. UNATI como extensão universitária

De acordo com o artigo 1º do capítulo um do Regimento Geral da


Extensão Universitária na UNESP de 2012, um importante documento político-
pedagógico da própria Universidade Estadual Paulista, a extensão universitária
é:

[...] um processo educativo, cultural e científico, que se articula ao


ensino e à pesquisa de forma indissociável, e que viabiliza a relação
transformadora entre a Universidade e a sociedade. § 1º Dentro desta
concepção considera-se que a extensão universitária: I - representa um
trabalho onde a relação escola-professor-aluno-sociedade passa a ser
de intercâmbio, de interação, de influência e de modificação mútua, de
desafios e complementaridade; II - constitui um veículo de
comunicação permanente com os outros setores da sociedade e sua
problemática, numa perspectiva contextualizada; III - é um meio de
formar profissionais-cidadãos capacitados a responder, antecipar e
criar respostas às questões da sociedade; IV - é uma produção de
conhecimento, de aprendizado mútuo e de realização de ações
95

simultaneamente transformadoras entre universidade e sociedade;


(UNESP, 2012)

Com base nessa precisa conceituação, é importante destacar que, apesar


de todos os problemas estruturais que envolvem a lógica universitária, essa
vertente complementar ao ensino e à pesquisa fornece boas oportunidades para
a prática profissional dos graduandos, sobretudo para aqueles que estão
iniciando sua atuação como educadores. A relação teoria- prática é estreitada e,
com o amparo institucional da UNESP, muitos estudantes conseguiram
encontrar novos sentidos aos seus cursos e aos seus caminhos.
Durante minha trajetória acadêmica, eu fui bolsista do projeto de extensão
Artinclusiva UNESP, o qual acolhe estudantes de artes e pós- graduandos em
Arte-Terapia (com a orientação de uma psicóloga), para a realização de oficinas
artísticas direcionadas à população tida como deficiente intelectual. Eu participei
do projeto por 3 anos letivos e, a partir dessa vivência, adquiri experiência e
tornei-me um profissional mais seguro e capacitado. Pude compreender os
conceitos de inclusão, diversidade e acolhimento à luz da Pedagogia e de
preceitos introdutórios da Psicologia e da Arte-Terapia.
É cabível mencionar que as extensões asseguram uma visibilidade
favorável à Universidade e se configuram como uma porta de entrada para
pessoas que possivelmente não teriam a oportunidade de acessar esse
estabelecimento público de aprendizagem.
Em relação ao Instituto de Artes, são inúmeros os problemas encontrados
para a expansão das extensões universitárias. Desde 2012, foram diversos os
cortes governamentais direcionados às verbas que asseguravam a presença de
bolsistas dedicados aos projetos e também à contratação de mais professores.
Atualmente, os departamentos do IA estão carentes de profissionais, de verba e
de condições favoráveis ao crescimento de iniciativas que existem desde quando
o prédio do IA se encontrava no Ipiranga.
Atualmente (setembro de 2019), a própria UNATI está abandonada, com
apenas uma bolsista e um docente provisoriamente responsável. Infelizmente,
não é possível saber se o projeto irá continuar em 2020 Diante dessa conjuntura
marcada por atribulações políticas e por muitas mudanças que estão
acontecendo em nosso país é que essa pesquisa está sendo realizada. A partir
de agora a intenção será honrar a presença e a contribuição de todos que
96

incentivaram a realização da referida pesquisa. E que possamos legitimar e


perpetuar essa tão especial iniciativa acadêmica que dialoga com as diversas
áreas do conhecimento e que toca na profundidade dos valores humanos e da
beleza do Ser.

Por tudo e apesar de tudo, a educação vale a pena quando há sorriso,


afeto, ternura e aprendizado nos encontros. Há um valor imenso na oportunidade
de compartilhar conhecimentos com pessoas interessadas na Cultura de Paz,
na transformação de si e no reconhecimento das potencialidades do outro. É
importante que haja doação e entrega, sem ingenuidade, mas com consciência
política e pé no chão para caminhar atento e desperto. É por isso que a UNATI
tem um real valor para todos aqueles que algum dia já se doaram na direção de
fortalecer esse projeto. Que ele possa continuar forte por muitos anos. Esse é o
desejo de muitos.

É um privilégio poder trabalhar em pról do bem-estar de idosos que


precisam de cuidados, atenção, companhia, amor e partilhas alegres de uma
forma especial por já terem tantas histórias, crenças e forças junto de si. O
envelhecimento ensina a todos com profundidade, pois nos faz refletir sobre os
caminhos trilhados e, ao mesmo tempo, chama a atenção para o mais
importante: que é o caminho que já estamos trilhando. Aqueles que, como eu,
ainda não chegaram na velhice, podem aprender muito na convivência e nas
partilhas com os idosos. Aprendemos sobre nós mesmos, e descobrimos
também como podemos ser melhores cuidadores de pessoas, entendendo
melhor as necessidades de cada um, e que o tempo nos leva sempre a
precisarmos uns dos outros nas diversas fases da vida. Enquanto pisamos na
terra, sempre em movimento, rumo à nossa própria velhice, vamos crescendo e
aceitando os convites que a vida nos dá para respeitar e amar aqueles que mais
precisam desse carinho. Isso também é educação; a educação ganha um
sentindo de dignidade quando acrescida de crescimento interior ao integrar
valores humanos e pacificação. E compete a todas as instituições educacionais
honrem esses princípios, para que o mundo possa se tornar um local de
verdadeiro acolhimento e aprendizado.

.
97

Figura 21
98

4.5. UNATI e a educação

Na idade madura, é preciso dar continuidade à grande viagem da vida com


um barco que já registra, em seu casco, as marcas prévias de histórias e
memórias de navegações anteriores que não podem e não devem ser
descartadas. O horizonte que se descortina à frente só pode ser entendido a
partir das necessidades e características da embarcação que então navega,
da bagagem que leva e das experiências prévias acumuladas que emprestam
cores, luzes e sentidos à paisagem atual. Afinal, não se espera, apenas,
preencher o tempo livre; busca-se melhor qualidade e vida para os anos que
ainda estão por vir, para o restante da viagem. A velhice não é, e não pode
ser, um fardo a ser carregado por quem envelhece e por quem acolhe o idoso;
deve ser uma etapa de vida produtiva, prazerosa, de inevitável revisão do
passado e expectativas de futuro, de renovação, de renascimento, de
esperanças e, como tal, de aprendizagem. (PEREIRA, 2014 , p.22)

As palavras acima foram transcritas em virtude da imensa significância das


metáforas da embarcação e da viagem que a estudiosa Elizabeth Pereira utilizou em
sua obra para ilustrar a riqueza da Terceira Idade como período de autoconhecimento
e amor próprio.
Sobre o envelhecimento, Carl Jung afirmou que

O homem que envelhece deveria saber que sua vida não está em ascensão
nem em expansão, mas um processo interior inexorável que produz uma
contração da vida. Para o jovem, constitui quase um pecado ou; pelo menos,
um perigo ocupar-se demasiado consigo próprio, mas para o homem que
envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu
próprio Si-mesmo. Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o
Sol recolhe os seus raios para iluminar-se a si mesmo. (JUNG, 2000, p. 167).

Ao combinarmos artes e yoga, permitimos que o público da UNATI encontre


um espaço para sua expressão em equilíbrio com a introspecção e o ato reflexivo e
carinhoso de aprender e também compartilhar o que sabe, com pessoas que talvez
estejam em momentos semelhantes na jornada do viver.
A UNATI traz a oportunidade aos educandos e docentes acadêmicos de
tecerem relações científicas entre o campo da Educação e o da Gerontologia que é a
disciplina científica que propõe o aprofundamento do estudo da velhice como fase do
desenvolvimento humano.
Compartilho o pensamento de Elizabeth Pereira (2015, p.20), a qual defende o
direito de os idosos aprenderem constantemente e também de compartilharem o que
sabem com todas as outras gerações. É de imensa importância que o ciclo de troca
de saberes continue vivo e pulsante na vida de todas as pessoas, sem exceção. E
cabe às instituições pedagógicas honrarem esse direito não se esquecendo de
99

fornecer apoio e subsídios materiais à perpetuação das Universidades Abertas à


Terceira Idade, assim como à formação de professores especializados nessa área e
também o fomento à pesquisa sobre esse fazer educativo.

4.6. Relato de uma experiência: a aula do dia dos professores

A aula do dia 14/10 foi imensamente especial para mim; e esse foi um dos dias
mais especiais de minha vida, pois me senti amado e valorizado pelos queridos
alunos.
Nesse dia, nós chegamos e começamos a preparar as coisas para iniciar nossa
segunda aula da oficina de mandalas em fios de lã. Estávamos empolgados com as
mandalas que alguns colegas confeccionaram em casa, e com as próximas criações
a serem desenvolvidas. Quando me posicionei para começar efetivamente a aula, a
querida Darcy me gentilmente me interrompeu e solicitou a atenção de todo o grupo
para me entregar alguns presentes de todo o grupo pelo dia dos professores! Foi um
momento muito rápido, mas ao mesmo tempo emocionante. Senti como se eu
estivesse em um programa de televisão, pois logo percebi que aquilo havia sido
planejado por todos os participantes da oficina.
Ganhei chocolates gostosos, velas lindas, um origami maravilhoso em forma de
flor – uma rosa – confeccionado pelo querido Henrique, um gatinho chinês da sorte
que a prezada Sayaka me ofertou junto a bolachas doces japonesas, e dois cartões
com palavras maravilhosas de agradecimento e honras ao meu ofício como
professor. Na capa de um dos cartões, havia um desenho maravilhoso feito pela
aluna Simone Codo: nele estou sereno, em meditação, e atrás de mim o símbolo da
chama trina, sobre o qual sempre falo nas minhas aulas. Além disso, eles também
me presentearam com mais um envelope com uma quantidade de dinheiro para que
eu pudesse ter maior facilidade ao custear meus estudos e gastos gerais nessa
época do ano.
Eu me senti muito feliz, e abençoado. Fiquei realmente agradecido,
resplandecido, com muita energia e alegria. Essa ocasião foi um marco, pois foi o dia
da minha vida em que senti o quão vale a pena cultivar empenho e amor por um
projeto profissional e por um estudo prático. Serei eternamente grato a essa
gratificação maravilhosa que recebi.
Fiquei contente com a união do grupo e com essa habilidade coletiva de manter
100

essa surpresa em segredo para honrar essa data especial. Como é bom ver o grupo
se movimentando, se comunicando e fortalecendo vínculos! Durante todo o ano,
minha vida de prosseguir na UNATI só cresceu.
Na galeria de fotos, ao fim do trabalho, colocarei algumas fotos desse dia.
101

CAPÍTULO 5. YOGA

Yoga é um sistema integral de educação, não apenas do corpo e da mente


ou do intelecto. O Yoga educa e desenvolve a pessoa inteira – a cabeça, o
corpo e o coração.
(Swami Sivananda Saraswati)

5.1. O significado do yoga

A palavra yoga significa união, integração. Yoga (o termo deriva do radical


sânscrito “yuj”, que significa juntar, unir ou integrar.) O objetivo do yoga é integrar as
diversas partes que compõem o Ser: corpo, mente e emoções. É um sistema de
conhecimento que propõe a conquista gradativa de um estado de paz interna
mediante autoconhecimento e compreensão da vida.
Na Índia antiga, yoga se caracterizava como um darsana, uma escola viva de
estudos relacionados à existência, assim como o vedanta, o samkhya, entre outros.
O filósofo Patãnjali é conhecido por ser o primeiro sistematizador oficial em
linguagem escrita sobre o significado filosófico do yoga; ele conceitou yoga da
seguinte forma: “Yoga é o controle dos movimentos da mente” (ARIEIRA, 2017, p.
42). O trabalho do yoga, dessa forma, tem como meta o aquietamento mental e a
felicidade através da prática disciplinada de técnicas que sejam embasadas em
princípios específicos atrelados aos valores humanos.
Gloria Arieira, no livro “O yoga que conduz à plenitude”, ao destrinchar
filosoficamente os escritos de Patânjali, afirmou que:

Patãnjali diz que Yoga significa controle sobre as flutuações ou movimentos


da mente. A mente é uma sequência de pensamentos – vrti-pravâha. Esse
fluxo é natural e acontece por associação contínua (...) Ao entender a própria
mente, sua natureza básica e seu funcionamento particular, é possível ter um
comando sobre ela, direcioná-la com paciência, mas sem negligência, na
direção desejada. (ibidem, p. 43)

O filósofo e professor Hermógenes, em uma entrevista que realizou em 2009,


afirmou que “yoga é um meio, um processo de autotransformação pessoal. ” 10

Durante toda a sua carreira, ele defendeu que yoga é sentir-se bem, é quando

10
Entrevista assistida pelo youtube através do seguinte link:
https://www.youtube.com/watch?v=I-8JtUKmJz4
102

fazemos o caminho de volta para a origem, para casa, com as técnicas de


interiorização e a gradativa assimilação desse saber oriental.
A origem do yoga é muito antiga, atribuída em geral à figura mitológica de
Shiva - a divindade que detém o poder da destruição, da morte e da transformação.
De acordo com meu professor Gerson D´Addio em seu livro “Curso Básico de Yoga”:

“A história do Yoga perde-se no tempo, havendo evidências de que


este sistema filosófico-prático é tão antigo quanto a própria civilização
indiana. Claro está, contudo, que a princípio o Yoga era transmitido de mestre
a discípulo dentro da tradição oral e, portanto, os primeiros documentos
escritos que abordam o tema são provavelmente muito posteriores aos
princípios e técnicas que enfocam. ” (SILVA, 2009, p.34)

Quando começamos a praticar Yoga - em casa, na academia, no parque, na


universidade ou no espaço de yoga ou de terapias complementares - estamos nos
convidando a ter um contato mais profundo com nossa mente e com nosso corpo.
Partimos do estudo do movimento consciente do corpo em posturas confortáveis
conhecidas como ásanas, e delas reaprendemos a nos conectar com o ar que
respiramos de formas saudáveis, tranquilas e vitalizantes. Para isso, aprendemos a
respiração profunda e completa, os pranayamas (exercícios de controle do alento, dos
fluxos respiratórios) e a sincronizar respiração com o movimento, e também com o
silêncio.
Vamos assim, de acordo com nosso próprio ritmo e abertura, aprendendo a
observar a mente e os pensamentos, ao passo em que vamos nos percebendo mais
libertos de dores e desconfortos de quaisquer natureza. Nessa viagem, vamos
compreendendo o propósito e o significado do yoga: a diminuição dos fluxos mentais
e a gradativa e possível cessação da identificação com os pensamentos. As flutuações
da mente.
Os antigos mestres do yoga acreditavam que, iniciando e persistindo nesta
prática, é possível entrarmos em contato com a nossa real natureza, a qual em todos
os seres é colorida por amor, paz, fraternidade, bondade, contentamento, pureza e fé.
Nesse trajeto rumo à libertação, vamos aprendendo a conhecer a felicidade. Viver o
presente, aceitar o que é e o que está sendo, e amar a vida. Para isso praticamos a
meditação, mediante técnicas e reflexões. Meditamos a princípio como se
praticássemos uma atividade para depois tornar a meditação uma maneira de viver.
Sobre os benefícios do yoga nas palavras do indiano B. K. S. Iyengar, que foi
103

um dos mais importantes professores do mundo:

“O yoga traz presentes para você até mesmo na primeira prática.


Estes benefícios podem ser experenciados até mesmo pelos iniciantes, que
sentem alguma coisa começando a acontecer em um nível profundo em seus
corpos, em suas mentes, e até mesmo em suas almas. Alguns destes
descrevem os primeiros presentes como uma nova sensação de claridade,
leveza, suavidade, agilidade, calma, alegria ou deleite. O milagre é que,
mesmo após setenta anos, estes presentes permanecem crescendo para
mim. (...) Yoga liberta o potencial criativo da vida.” ´(IYENGAR apud AQUINI,
2010, P.10)

Quando agregado à vida cotidiana, o yoga pode auxiliar as pessoas a


reencontrarem sensações e qualidades que o dia-a-dia estressante possa ter
ofuscado. Os efeitos benéficos são perceptíveis desde a primeira aula, pois as
técnicas utilizadas regeneram gradativamente o sistema nervoso, e trabalham o
organismo como um todo.
Ainda que a regularidade de ao menos uma vez na semana seja recomendada
para a conquista dos ditos presentes conferidos pelo yoga – tal como Iyengar descreve
– a realização de aulas eventuais, ou a vivência ocasional de técnicas meditativas,
respiratórias ou de relaxamento pode também auxiliar a pessoa no gerenciamento do
estresse e na percepção individual da alteração das ondas mentais. É importante
recordar que o foco de qualquer prática de yoga é a meditação e o aquietamento dos
fluxos da mente.
“No ocidente utiliza-se o Yoga principalmente como um estilo de vida
saudável e voltado para a terapia, devido ao fato de a cultura ocidental ser
cientificista. Por promover uma homeostase psicofísica no indivíduo,
podemos concluir comprovadamente que a prática regular do Yoga é de
fundamental importância ao combate e prevenção do stress. Conforme
Battison (1998), muitos médicos ortodoxos recomendam o Yoga para seus
pacientes, porque o Yoga tem uma longa história de seus benefícios
terapêuticos na promoção da saúde e da qualidade de vida. ( BAPTISTA &
DANTAS, 2002, p. 17)”

5.2. O hatha yoga como principal ferramenta metodológica para as aulas da


UNATI

O eixo central da oficina de “Yoga, Arte e Autoconhecimento” é o hatha yoga,


o qual é o estudo prático dentro do universo do yoga que se preocupa com todas as
esferas do ser humano: corpo, mente e emoções. As práticas/aulas de hatha yoga
proporcionam ao praticante a experiência de momentos de bem-estar, contentamento,
autoconhecimento e de profundas sensações de paz. Tem em seu significado os
104

princípios de “força” e “vigor”, pois estimula as pessoas a despertarem seu potencial


interior de vitalidade e equilíbrio. Mas, de acordo com as escrituras antigas de Hatha
Yoga Pradipika, Gheramdha Samhita, Goraksha Shataka, esse despertar é intrínseco
a uma transformação advinda de um esforço violento, em virtude da disciplina que a
pessoa precisa desenvolver para alcançar o objetivo maior: a autorrealização.

“O Yoga é um complexo sistema de práticas espirituais, morais (disciplina) e


físicas que visam atingir a “autoconsciência” ou “autorrealização”. Hatha
Yoga, o sistema no qual grande parte do yoga ocidental é baseado, é
composto de diferentes elementos, tais como posturas (asanas), exercícios
de respiração (pranayama), relaxamento (yoganidra) e meditação (dharana).
(VORKAPIC & RANGÉ, 2011, p.2)

Antes do hatha yoga, cuja origem é associada ao período histórico do tantra


indiano (próximo de 1300 a 1700 d.C), ainda não havia sido desenvolvido na Índia um
aprendizado detalhado relacionado às posturas. O yoga era filosófico e destrinchado
por uma elite. Com o advento do hatha, milhares de pessoas acessaram essa filosofia
e puderam estudar em si seus efeitos e benefícios. De acordo com Georg Feuerstein
(1998, p. 472), “O hatha yoga é uma obra cuja força, vital e intrínseca ao corpo, é
usada para a transcendência do ego.”
Pratica-se hatha yoga partindo do corpo baseando-se fundamentalmente em
ásanas (posturas psicofísicas firmes e confortáveis), pranayamas (controle e
compreensão do alento, do fluxo respiratório), meditação (prática derradeira para a
conquista do silêncio e da serenidade) e relaxamento deitado.
De acordo com o professor Hermógenes, o hatha yoga atua sobre todo o
sistema humano e, por isso, caracteriza-se como um método terapêutico de real
eficácia. Ele testemunhou centenas de casos de pessoas que se recuperaram de
patologias com a prática do método. Um bom exemplo foi sua cura da tuberculose,
com uma rápida recuperação. Esse processo é retratado no longa-metragem
“Hermógenes – Professor e Poeta do Yoga” e nos livros “Autoperfeição com Hatha
Yoga” e “Saúde na Terceira Idade”. Esses são importantes materiais de estudo para
todos que almejam se aprofundar, os quais recomendo a todos os alunos.

Para se tornar instrutor de hatha yoga é necessária a realização de um curso


de formação com uma carga horária mínima de 200 horas diante da supervisão de um
professor capacitado. Entretanto, o que torna o instrutor realmente eficiente em sua
105

atuação profissional é a prática docente, assim como em qualquer outro ramo da


educação. Nas aulas, os instrutores podem se apropriar de propostas criativas e
expressivas, utilizando técnicas ou vivências conectadas às diversas linguagens
artísticas – como o trabalho realizado na referida oficina.
É essencial que as aulas acolham sempre iniciantes e também pessoas que já
têm conhecimento e experiência. O yoga é para todos, e o hatha yoga é, no século
XXI, a principal porta de entrada para que crianças e adultos possam acessar esse
conhecimento, pois se tornou parte do estilo de vida de milhões de pessoas.
Sobretudo nas grandes metrópoles, seu sucesso tem sido crescente nas academias
e, mesmo que o iniciante ou iniciado esteja buscando apenas benefícios físicos, é
muito difícil que a pessoa não se sinta mentalmente beneficiado pelas técnicas.
Em São Paulo, há projetos que introduziram o yoga em instituições carcerárias,
escolas formais e não-formais, centros culturais, hospitais e até mesmo focando em
pessoas de baixíssimo poder aquisitivo – em ações voluntárias que levam, além dos
exercícios, um café da manhã, para nutrir as pessoas que vivem em situação de rua.

O termo hatha yoga, de acordo com sua raíz sânscrita, representa a união
(yoga) do “sol” (ha) e da “lua” (tha), o equilíbrio dos dois grandes princípios ou
aspectos dinâmicos do corpo-mente, representados pelos hemisférios do corpo e do
cérebro. Sobre isso, B.K.S. Iyengar (2001, p. 29), afirma que ““Ha” significa “sol”, que
é o sol do seu corpo, ou seja, sua alma; “tha” significa “lua”, isto é, sua consciência. A
força solar não apaga, em contraponto com a energia da lua, a qual mensalmente se
torna minguante e assim, ciclicamente, volta à plenitude desde o vazio. “

A proposta do hatha yoga, então, é propiciar mediante esforço disciplinado e


respiração ritmada que corpo e consciência unam-se para que o praticante se aquiete,
e silencie.
Em um dos principais manuais antigos de hatha yoga, conhecido como
Gheranda Sanhita (séc. XVII), está escrito que o esse método é composto de
posturas, controle da respiração, inibicação sensorial, concentração, meditação e
êxtase, além de compilar diversas técnicas de autolimpeza orgânica – aspecto último
que se difere em relação ao yoga clássico e às linhagens mais antigas, que são o
Raja, o Bhakti, o Jñana e o Karma yoga 11.

11
Essas são as nomeações em sânscrito dadas aos 4 tipos de yoga de acordo com o Bhagavad Gita,
106

5.3. O yoga clássico de Patânjali como importante referência pedagógica

Em complementação ao hatha yoga, é importante que, nas aulas, haja um


embasamento filosófico sustentado no yoga clássico, conhecido como raja yoga, cuja
origem é atribuída ao sábio Patânjali. Suas documentações configuraram a primeira
sistematização escrita sobre o yoga. É dito que isso aconteceu entre 200 a.C, até 200
d.C.
Não se sabe ao certo se Patânjali foi uma pessoa ou um coletivo de filósofos.
De acordo com Gerson D´Addio da Silva: “Como um método, o yoga conquistou
reconhecimento oficial no seio da cultura indiana a partir da sistematização de
Patânjali, que compilou os notórios aforismos chamados de Yoga Sutras.” (SILVA,
2009, p. 41)

O obra de Patânjali propõe um profundo estudo da natureza da mente a partir


da sugestão para que se busque um estado de supressão dos redemoinhos mentais (os
pensamentos) como um caminho para que o humano possa acessar a compreensão
sobre qual é a sua real natureza. Então, de acordo com a referência clássica, yoga –
como meta - é a desidentificação consciente em relação à substância mental, e seu
objetivo é o acesso permanente à felicidade.
Yoga também pode ser visto como caminho, o método – que deve ser
disciplinado e pautado em princípios éticos – é árduo e pressupõe a vitória em uma
batalha travada interiormente, no campo mental de cada ser humano.

5.3.1. O Astanga Yoga de Patânjali – Yoga de oito partes

O sistema filosófico-prático de Patânjali foi disposto em uma metodologia de oito


etapas correlacionadas que ficou conhecida como Raja Yoga ou Astanga Yoga ou
yoga de oito (asta) partes (anga). Essa sistematização é um código de ética e isso
“evidencia-se no fato de os dois primeiros componentes serem yamas (abstinências,
comportamentos a evitar) e niyamas (observâncias, comportamentos a cumprir).”
(HERMÓGENES, 2004, p. 29).

o qual é considerado a bíblia hindu – um dos dos mais importantes livros dentro do aparato literário
dessa cultura. É recomendada a leitura do Gita para a compreensão mais aprofundada acerca do real
significado do yoga como filosofia.
107

Ao apresentar sua análise acerca da ética do yoga como escola conectada a outras
filosofias do oriente, Lia Diskin esclarece:

[...] a meta suprema dessas culturas é moksha, a liberdade ou liberação.


O Yoga propõe oito estágios para se atingir o objetivo, e o primeiro deles
constitui o exercício de cinco princípios de conduta, denominados yama. Esse
termo é traduzido por “restrições, proibições ou disciplina geral”, cuja
observância é promover um comportamento autocontrolado, altruísta e
firmado na busca do bem comum. (MARTINELLI & DISKIN et al, 1998, p. 69)

São cinco os yamas:

Ahimsa : não-violência, literalmente. O abandono do pensamento e da ação de


prejudicar os seres com violência. Ahimsa ficou conhecido pelas ações de Mahatma
Gandhi com seu posicionamento político favorável à paz e à independência da Índia.
Para esse importante líder humanitário: “O ahimsa (amor) não é somente um estado
negativo que consiste em não fazer o mal, mas também um estado positivo que
consiste em amar, em fazer o bem a todos, inclusive a quem faz o mal.” (Gandhi,
2004, p. 8).
A dieta vegetariana dentro da filosofia iogue é um aspecto importante dentro
de ahimsa, tendo em vista a violência envolvida em toda a engrenagem da produção
da carne para a alimentação humana.

Satya: ser verdadeiro, autêntico, sincero, conectando palavra, pensamento e ato. De


acordo com Paulo Freire, “É fundamental diminuir a distância entre o quese diz e o que
se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática” (FREIRE,
2003, p. 61). Essa fala do educador ilustra o significado do princípio de satya.

Asteya: não roubar, e nem querer adquirir aquilo que não lhe pertence. É uma
postulação que convida os praticantes a se distanciarem da necessidade de adquirir
algo que não lhe pertence, em relação tanto ao que é material quanto ao que é
ideológico. Em relação, por exemplo, às questões teóricas em uma pesquisa
universitária: é importante que sempre seja escrita a autoria das ideias e pensamentos
em um trabalho acadêmico.

Brahmacharya: no yoga clássico, significa celibato e restrição sexual até o ponto de


108

a pessoa estudar a abstenção dessa prática na sua vida. Na contemporaneidade, os


professores de yoga recomendam uma ressignificação esse termo para que os
estudantes possam compreendê-lo como controle do apetite sexual e de tudo o que
ele causa. É importante que o iogue cuide para não sustentar vícios, compulsões ou
descontroles em relação a essa tão importante área da vida.

Aparigraha: não cobiçar, não querer mais do que o essencial, não acumular bens
materiais e não sustentar compulsões em relação às compras, ao consumo e propostas
prejudiciais à vida dentro do sistema capitalista. De acordo com Diskin (1998, p.71),
“O apetite por coisas, a insaciabilidade por posses, é uma das características mais
marcantes do homem moderno. Esse apetite é alimentado pelos sistemas perversos
de propaganda e marketing que exploram essa “fraqueza” humana, procurando
transformar cada um de nós em consumidores costumazes.

Com a reflexão diária e a utilização dessa sabedoria, o praticante de yoga pode


aliar os yamas – que o ensinam a adotar uma postura equilibrada em relação à
sociedade, em convivência pacífica – aos niyamas, que são igualmente importantes
nessa sistematização clássica. Eles são princípios que conectam o praticante à sua
melhor versão e o auxiliam na manutenção de sua saúde mental e física. Podemos,
também, contabilizar os niyama em cinco atitudes, caracterizadas pelo
comportamento que cada um deve adotar em relação a si próprio, transformando
positivamente sua realidade (SILVA, 2007, p. 42-43).

Os niyamas são:

Saucha: purificação, pureza. É a ação conectada ao hábito diário de limpar o corpo


através de técnicas diversas que revitalizem o físico de forma eficiente. O praticante
também aprimora seus hábitos alimentares e aprende o valor do jejum, além de
aprender a equilibrar a nutrição dos elementos colocados no prato. Saucha também
se relaciona à purificação dos ambientes externos e da mente.

Santosha: contentamento, sentimento de gratidão e reverência à vida. Mente positiva


e ação benéfica a si e aos outros. Manter-se motivado e positivo. Evoco aqui
novamente o pensamento de Paulo Freire, que defende que o processo de “ensinar e
109

aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria” (Freire,
1997, p. 67) .Isso é santosha.

Svadhyaya: autoestudo fundamentado no ato de ler e analisar obras literárias


consideradas sagradas. Em svadhyaya, o iogue também se propõe a vivenciar o
autoconhecimento no dia-a-dia, baseando-se em fontes confiáveis de inspiração para
suas atitudes, palavras, pensamentos e ações. Esse pilar filosófico é um convite ao
autoexame permanente. Em relação aos educadores, podemos aqui citar Ruy Cezar
do Espírito Santo:

“O autoconhecimento é imprescindível para todo ser humano que busca viver de


modo íntegro, proveitoso e feliz. Para o educador, esse processo é fundamental a
fim de que possa cumprir um papel maior, transmitindo, junto com os conteúdos,
valores adequados aos seus discípulos” (ESPÍRITO SANTO, 2007, p. 104)

Tapas: disciplina e austeridade inteligente. O iogue sabe o que deve fazer diariamente
em relação ao seu sadhana, sua prática diária. É importante que ele não deixe a chama
da disciplina apagar em seu interior, e para isso ele precisa se esforçar
conscientemente para não se deixar levar pela preguiça, pelo desânimo e pelas
influências externas. Rubem Alves (1984, p.106) afirma que “é só do prazer que surge
a disciplina e a vontade de aprender”.
Sobre tapas, o filósofo iogue Tales Nunes, em seu livro “Yoga, Arte e Liberdade”,
afirma que “
O espaço de prática de Yoga, por mais que haja esforço sobre si
mesmo, disciplina, tapas, tem como objetivo fundamental a liberdade. O
propósito da disciplina é reconhecer as próprias barreiras, físicas e
emocionais, para então, perceber em si um lugar livre do precisar ser algo
além do que se é. Liberdade nunca é imposta, é descoberta.” (NUNES, 2017,
p.10)

Ishvara-Pranidhana: entrega a algo maior, ao absoluto, àquilo que se tem como


Divino, como superior. Ishvara-Pranidhana é a fé em si, ou no todo,
independentemente da crença. Mas, dentro da filosofia do yoga, é importante que
prevaleça essa atitude de entrega e a compreensão de que a vida não é simplesmente
motivada pelas conquistas materiais. O professor Hermógenes nos encoraja ao
aprofundamento em ishvara-pranidhana através do mantra que ficou conhecido em
todo o país através de sua voz e escrita: “Entrego,confio,aceito e agradeço.”
(HERMÓGENES, 2006, p.21).
110

Após os dois primeiros degraus do Astanga Yoga, podemos listar os outros seis.
É importante mencionar que esses passos não devem ser seguidos tal como uma
escada mas sim como uma espiral, tendo em vista que o praticante precisará sempre
retornar ao aprendizado de um para poder se aprofundar em outro. A imagem com
um caracol, inserida em uma das páginas seguintes, ilustra essa ideia.

Âsana: no ocidente, são a parte mais conhecida do yoga. São as posturas


psicofísicas, concebidas a princípio para fins meditativos (SILVA, 2009, p.43). A
palavra âsana significa assento, de maneira que todas as posturas foram elaboradas
para o aprendizado do iogue em construir a sua melhor postura meditativa, que para
alguns pode ser no chão e para outros na cadeira. Para que a posição seja realmente
um âsana, é imprescindível que hajaestabilidade, firmeza e conforto – e que em sua
execução, seja respeitado o princípio de relaxamento do esforço. Há sempre uma
pausa após a execução do exercício, para a assimilação sensorial do que foi feito.
O aprendizado do âsana também serve como exemplo para a vida diária. A
estabilidade solicitada pode ajudar na postura em pé ao caminhar, ou no melhor ajuste
físico ao dormir, por exemplo.
Vivenciamos o aprendizado dos ásanas - posturas firmes e confortáveis - para
que a energia vital circule em máxima potência por nossos corpos .Dessa forma,
gradativamente poderemos liberar todas as tensões, dores e desconfortos para assim
liberarmos a mente para a meditação e a conexão com o silêncio. A respiração
profunda, presente e harmoniosa é o carro chefe de nossas práticas. Ela nos ajuda a
entrar em harmonia com a dança da vida. Lembrar da pulsação da natureza.
É recomendado pela literatura antiga do yoga que sejam praticadas as posturas
iogues diariamente. Sempre de acordo com o próprio conforto, sem ultrapassar o
limite. A cada inspiração expandimos os pulmões e o corpo. A cada expiração, mesmo
que permaneçamos na postura, tentamos relaxar e, se possível, avançar um pouco
mais no ásana. A cada respiração, sentir a presença e a o bem-estar preenchendo
cada célula e cada área de nossos corpos e mentes.
É muito importante que sempre mobilizemos toda a região da coluna vertebral
diariamente. Em dez ou quinze minutos, realizando com presença uma postura de
extensão vertebral, uma outra de flexão (que compensa a anterior), uma postura de
torção lateral (algumas respirações para cada lado), outra postura de inclinação
111

lateral, outra postura de força e, se possível, uma postura semi-invertida ou invertida,


garantem saúde e vitalidade o suficiente para evitar diversas enfermidades e
estagnação energética. Tais posturas, somadas a um momento de aprofundamento
na respiração e na meditação silenciosa, são o suficiente para o início de uma prática.
Mas cada um tem liberdade para compor sua rotina de yoga da melhor forma.

Pranayama: o quarto passo é o aprendizado do controle do alento, ou seja, do fluxo


de inspiração e expiração acrescido de pausas gradativas entre suas etapas,
conforme o praticante adquirir segurança e experiência. Dessa forma, pranayama
auxilia o praticante no controle de seus fluxos internos a partir da respiração lenta e
consciente mediante o treino de técnicas específicas que alinham a energia vital e
regulam os aspectos biológicos, tais como os ritmos da circulação sanguínea e dos
batimentos cardíacos. Partindo do pressuposto teórico de que corpo e mente são
essencialmente conectados os pranayamas auxiliam na apaziguação dos turbilhões
mentais.
A palavra prana significa energia vital, a qual é a composição sutil de tudo o
que é vivo. Com a respiração lenta, a captação de prana cresce em concentração
celular, e o iogue adquire saúde e vitalidade.

Através dos exercícios respiratórios, feitos com muita concentração, da


flexibilidade e da meditação, as pessoas podem fazer uma ligação entre o
hemisfério direito (dominado) com o hemisfério esquerdo (dominante). Com a
interação destes hemisférios o ser humano se torna mais tranqüilo e consegue, com
persistência e desejo, alcançar um estado interno de autoconhecimento e
consequentemente de grande harmonia de suas emoções, desejos reprimidos e
demais sentimentos presentes em seu psiquismo. (BAPTISTA & DANTAS, 2002, p.
7)

De acordo com o professor Hermógenes (1988), no ocidente é comum que a


respiração seja considerada um fenômeno apenas psicológico, um procedimento
orgânico em que o organismo utiliza o oxigênio com o objetivo de efetuar as
transformações químicas essenciais para que o sangue possa distribuir nutrientes a
todas as células. Quando não há respiração mais, a pessoa morre.
Já, dentro da compreensão estudada no yoga há milhares de anos, a
respiração, em contrapartida, está além de ser considerada um fator fisológico, mas
também psicológico, emocional, e energético, ou, de acordo com a terminologia
sãnscrita, prânico. Ela auxilia o ser humano a entrar em contato com a vitalidade da
112

natureza. Com as práticas de yoga, torna-se clara a conexão entre o ritmo dos
pensamentos, o ritmo do coração e o ritmo respiratório.
Quando se configura a agitação mental e o desequilíbrio emocional, a
respiração torna-se mais acelerada e até mesmo desordenada, ansiosa. Quando há
calma e tranquilidade, a respiração se faz mais lenta, até mesmo pausada; consciente.
A funcionalidade do pranayama consiste quando o praticante controla
voluntariamente a respiração, mediante esforço psíquico e físico, tornando-a lenta.
Com isso, ele altera seu estado no momento presente e acessa a sensação de
harmonia interior. Com essas técnicas que compõem o quarto anga do yoga,
aprendemos a ritmar a nossa vida pela respiração consciente, e isso traz inúmeros
benefícios.
Ao aprender pranayama, o iogue utiliza mais espaço de sua área pulmonar e
aprende a fortalecer sua musculatura abdominal e torácica em lugar de aproveitar
somente o diafragma e a área superior próxima da região clavicular. Isso faz toda a
diferença.
A respiração começa sempre no momento da expiração, e é recomendado
àqueles que já tem certa experiência na prática, que acrescentem pausas depois da
expiração e da inspiração, com o fim de aprofundar na consciência do controle do
alento. A respiração do yoga é feita pelas narinas, e os mestres antigos recomendam
que o tempo da expiração seja mais prolongado que o tempo da inspiração, pois esse
procedimento é imprescindível para que o estado de calma seja acessado, e os
sintomas de ansiedade sejam eliminados.

Prathyahara: essa é a quinta etapa, que pode ser definida como o estágio em que
ocorre a abstração dos sentidos. Prathyahara acontece quando o iogue percebe que
os ruídos de fora, a temperatura desagradável ou os ambientes esteticamente
desorganizados não mais incomodam. Há técnicas que auxiliam a conquista desse
aprendizado, o qual contribui imensamente para conquista de dharana, a
concentração, que é o sexto anga. Micheline Flak (2008, p. 20) descreve essa parte
do yoga como “saber relaxar para manter um bom nível de energia”.

Dharana: é a seiva da prática iogue. É o ato de concentrar-se, e a qualidade de se


manter plenamente atento e concentrado no momento presente e naquilo que está
sendo feito. Toda a atenção é dirigida para um determinado ponto focal a partir do
113

momento em que houve a abstração dos sentidos. Para fortalecer dharana, podemos
propor atividades com música, com pintura de mandalas, danças com passos
repetitivos, confecção de artesanatos, etc.

Dhyana: é a meditação na prática. Ela ocorre quando a concentração chega em seu


grau máximo em relação ao foco escolhido, o qual pode ser uma palavra, um som,
uma visualização mental ou uma percepção sensorial de algum aspecto psicofísico –
por exemplo, a passagem do ar pelas narinas ou a contagem do tempo para inspirar,
pausar e/ou expirar. Gerson D´Addio (2009, p.43) afirma que a meditação
propriamente acontece “quando há uma identificação com o que se escolheu como
foco de concentração.”

Samadhi: é o grande objetivo do yoga, a autorrealização. O praticante chega em


samadhi quando sua consciência se apresenta em estágio permanente de
equanimidade, confiança e alegria. É quando a pessoa, apesar de tudo o que
acontece fora, consegue acessar uma compreensão clara e feliz acerca da vida e de
tudo o que acontece ao redor. De acordo com as escrituras iogues, para alcançar
samadhi, é necessária a prática diária dos sete angas anteriormente mencionados e
explicitados aqui.
[...] é o estágio último da prática e o próprio objetivo de toda esta
metodologia, quando se atinge a equanimidade da consciência, e com isto a
transcendência de sua condição ordinária, permitindo sua absorção na real
natureza do que se escolheu observar. Alguns autores o traduzem como
transconsciência, por tratar-se de uma percepção centrada na essência e não
nas aparências daquilo que se decidiu observar, indo além da consciência
que normalmente temos do mundo em nossas relações coditianas ordinárias
(PRABHAVANANDA, s/d apud SILVA, ibidem)

Micheline Flak e Jaques de Coulon escreveram o livro “Yoga e Educação –


Integrando corpo e mente na sala de aula”, e nele apresentaram os oito angas com a
figura de um caracol que “carrega em suas costas a espiral de Patãnjali” (FLAK &
COULON, 1985, p. 20):
114

Figura 22

Com essa metáfora, explicam que “o desbravamento de nossas


potencialidades se faz por etapas cuidadosamente programadas. A trajetória nos leva
de maneira imperceptivel mas segura, de fora para dentro, da mesma forma que a
espiral de nosso caracol.” (ibidem, p.19). Dessa maneira, assim como o caracol,
podemos lentamente, passo-a-passo, chegar à nossa meta carregando com
tranquilidade a responsabilidade de nossa evolução .
Vivendo à maneira iogue, é possível equilibrar peso e leveza em nosso
caminhar, com as qualidades valorosas da equanimidade e do centramento,
importantíssimos recursos que os iogues antigos nos incentivam a cultivar .
Micheline Flack e Jaques Coulon substituem as palavras sânscritas por termos
simples que podem ser comunicados às crianças e públicos que estão conhecendo a
filosofia. Sobre os oito passos:”

1. Viver juntos.
2. Eliminar as toxinas e os pensamentos negativos
3. Colocar-se numa boa postura
4. Respirar bem e manter a calma
5. Saber relaxar para manter um bom nível de energia
6. Como o raio laser, concentrar suas forças
7. Ampliar sua consciência
8. Colocar-se no mesmo comprimento de onda que a fonte de toda energia
(ibidem, p.20)
115

O conhecimento é espiralado, pois sempre vamos precisar retomar


cognitivamente os significados e os conteúdos aprendidos para galgarmos passos
mais firmes na estrada do autoconhecimento. E nas aulas de yoga, tudo isso é
revisado. As artes podem trazer mais clareza e ampliar o espectro de possibilidades
pedagógicas.
Micheline Flak defende que: “O ser humano, quando chega ao mundo, não está
terminado. A educação tem por objetivo desenvolver suas potencialidades para levá-
lo à compreensão de seu lugar na Terra e de seus vínculos com o Universo.” (ibidem)
Sobre o oitavo pilar, cito aqui Tales Nunes (2017, p. 128) em sua compreensão
poética acerca do propósito final do yoga (samadhi): “O sentido último da poesia do
Yoga, através de seu fluxo, é conduzir os pensamentos da mente à sua fonte original.
Todas as águas têm origem e destino no mar da consciência, sejam as águas de um
rio, da chuva ou de um lago.
Com esses princípios em mente, seguimos em nossa trajetória para
observarmos sua aplicação nas aulas .

Figura 23
116

5.4. A Árvore do yoga

Iyengar conseguiu alcançar a proeza de decifrar com poesia e arte a


complexidade daquilo que Patânjali sistematizou em seus sutras. Em sua obra, esse
professor indiano afirmou que:

Praticamente todo mundo conhece o yoga como filosofia ou caminho, mas


poucos são os que o conhecem também como arte. Por meio do yoga, o ser
humano entra em contato com a alma; nesse sentido yoga é uma arte
espiritual. Cada postura tem um formato geométrico e arquitetônico preciso;
por isso faz parte das belas-artes. O yoga proporciona saúde e felicidade ao
praticante; portanto, é ao mesmo uma arte utilitária e de cura. (IYENGAR,
2001 apud AQUINO, 2010, p.168).

Inspirado pela Árvore de Yoga, no primeiro semestre solicitei às alunas que


desenhassem de maneira livre esse esquema lúdico com todas as partes da árvore,
escrevendo ao lado suas observações e, se possível, as partes que compõem o
método. Essa é uma atividade utilizada em todas as minhas turmas e, sem dúvida, é
uma ótima ferramenta para a memorização do real significado do yoga.
Com essa atividade, foi estimulada a reflexão sobre quais são os valores inatos
que nutrem a vida humana, enraizando-a e dando sustentação na direção de seu
florescimento. Algumas das perguntas que solicitei junto à construção dessa obra
visual:

 Quais são as sementes que você quer espalhar pelo mundo?

 Quais são as suas raízes?

 Qual é a parte mais bonita da árvore e, em consequência, da vida?

 Minha árvore está realmente bem estruturada?

 Em que momento da vida aconteceu o meu florescimento, ou está sendo


agora? Ou será que essa fase ainda está para acontecer?
117

Abaixo você pode ver algumas das árvores do yoga que as alunas da UNATI
produziram:

Figura 24

Figura 25
118

Figura 26

Figura 27
119

Figura 28

Figura 29
120

Figura 30

5.5. Yoga restaurativa: uma técnica de interiorização

Existem vários caminhos e estradas que se complementam, como


diferentes tipos de práticas terapêuticas e de yoga, que tenham a alma como
propósito. Eu acredito que o Yoga Restaurativo é uma estrada para o destino
alma. Trata-se de uma estrada que comporta todos os veículos, pois o yoga
restaurativo é para todos. Costuma ser uma estrada mais gentil, mas
demanda entrega, permissão e compaixão por parte do viajante e do guia, o
professor. (PERES, 2014)

Em 2017, tive a oportunidade de iniciar os estudos em Yoga Restaurativa


através de cursos de especialização em São Paulo. Esse nome é inspirado na técnica
criada pela professora estadunidense Judith Hanson Lasater,a qual “(...) inspirou-se
em seus ensinamentos, redirecionando essa poderosa ferramenta para alívio de
estresse crônico e reabilitação de saúde usando a técnica que chamou de Relax and
Renew” (DERZETT, 2016, p. 15).
Judith foi aluna de Iyengar – o idealizador da metáfora da árvore do yoga – por
mais de quatro décadas. Ela apropriou-se da utilização dos props (equipamentos de
yoga, como mantas, blocos de madeira ou EVA, cintos para alongamento e
almofadões denominados bolsters), para ensinar yoga com posturas de relaxamento
profundo. Estes acessórios dão “ (...) suporte ao corpo, estimulando-o e relaxando-o
para o equilíbrio. (ibidem).
Em São Paulo há apenas duas professoras que ensinam essa metodologia de
121

hatha yoga: Miila Derzett, autora dos livros “Relaxe!” e “Super Descanso” e Raquel
Peres, com quem estudei.
Nas aulas da UNATI, tentei aplicar técnicas de yoga restaurativa mesmo com
a escassez de acessórios. Na sala de aula, temos apenas a parede e alguns
colchonetes. Quando pude, levei eye pillows (travesseiros aromáticos para óleos, que
servem como pesinhos somáticos para estímulos sensoriais), óleo essencial de
lavanda e algumas mantas pequenas em dias frios. Houve momentos em que precisei
pegar blusas minhas de frio para cobrir alunas. Uma delas, Darcy, sentiu-se muito
grata em relação a esse cuidado que tive. E esse é um dos princípios do yoga
restaurativa: o afeto, a compaixão. Para Derzett (ibidem , p.9), “a restaurativa pode
ser conceituada como uma prática de posturas passivas do yoga, envolvendo o aluno
em acessorios – os props – para que ele consiga alcançar o realxamento profundo
com proteção, conforto e o mínimo de esforço.”
Outros pilares importantes que, junto à compaixão, compõem um tripé
metodológico são: a observação cuidadosa e constante do instrutor em relação ao
estado do aluno na postura, e o suporte a este com os materiais utilizados, de maneira
a garantir que ele se sinta protegido.
De acordo com minha professora Raquel Peres,

O yoga restaurativo possibilita o percurso entre os vales mais


iluminados e as cavernas, por vezes, sombrias. A prática tem o poder de
despertar várias sensações e estimular sonhos, visões; é uma ramificação do
Hatha Yoga, cuja prática física permeia o corpo material e atinge camadas
mais sutis do indivíduo. (PERES, 2014)

Ao acomodar as alunas nas posturas passivas, estou propiciando momentos de


auto-observação e interiorização muito especiais em sala de aula. Essas técnicas,
segundo Miila Derzett e Judith Lasater, auxiliam na gradativa extinção de sintomas
advindos do estresse crônico, “como doenças somáticas e transtornos mentais, a
partir da resposta do relaxamento” (ibidem, p.21). Por isso insisto em separar no
mínimo 15 minutos em cada encontro para as posturas deitadas, sobretudo o
savásana, sobre o qual já dissertei aqui.
Tendo como base a noção de que permanência entre 8 e 20 minutos no savasana
leva o sistema nervoso a uma reconfiguração sensorial (ibidem, p.10), podemos eleger
esta como a técnica que mais valorizei dentre todas as vivenciadas nas aulas. É no
savasana que o sistema nervoso autonomo consegue gradativamente se adaptar a
122

um menor numero de estimulos sensoriais que gerem a resposta de luta-fuga ou


estresse e, por conseguinte, proporcionar conforto biopsíquico e sensações
revigorantes de paz e harmonia.
O relaxamento é o momento em que não há contrações ou tensões. No yoga,
aprendemos que, ao relaxar todos os músculos e fáscias, a mente pode silenciar. Os
professores de yoga estimulam que os pensamentos do praticante nas posturas
relaxantes sejam positivos e conscientes, pois esse é um momento de maior
sensibilidade no praticante: a mente se altera, transitando para o estado alfa – nível
de consciência cuja configuração viabiliza a possibilidade do pensamento chegar no
inconsciente. Um relaxamento profundo e verdadeiro pode auxiliar o praticante a se
aproximar de seu propósito conectado à conquista da paz.
Por isso, aconselho a todos que: pratiquem yoga restaurativa!

Figura 31

Figura 32
123

Figura 33

5.6. Meditação como técnica e como estilo de vida: texto complementar sobre
dhyâna

Como a árvore do yoga nos lembra, a parte mais bonita deste sistema é a
meditação. Em todas as aulas busco auxiliar as alunas a vivenciarem ao menos alguns
minutos de meditação sentada.
Não há apenas uma técnica de meditação, mas muitas. Elas se diferem na
duração e na aplicação prática – algumas são em silêncio, outras entoando ou
mentalizando mantras, etc. E todas elas podem trazer benefícios ao organismo,
sobretudo à saúde mental. São muitos os efeitos produzidos nas estruturas cerebrais:

Na prática, aumenta a atividade do córtex cingulado anterior (área ligada à


atenção e à concentração), do córtex pré-frontal (ligado à coordenação
motora) e do hipocampo (que armazena a memória). Também estimula a
amígdala, que regula as emoções e, quando acionada, acelera o
funcionamento do hipotálamo, responsável pela sensação de relaxamento.
(VEJA, 2013, p. 2)

De acordo com a referida reportagem, meditar diminui em 47% as


possibilidades de infarto em adultos. Os dados vêm da Associação Americana do
Coração, depois de terem feito uma pesquisa com pessoas na faixa etária média de
59 anos de idade, ao longo de nove anos. “Foi como se a meditação funcionasse
como um medicamento totalmente novo e muito eficiente para previnir doenças
cardiacas, afirma o fisiologista americano Robert Schneider, diretor do Center for
124

Natural Medicine and Prevention e responsavel pelo estudo. “ (ibidem) Esse é um


dentre centenas de casos pesquisados em âmbito acadêmico e hospitalar que
provaram a eficácia da prática da meditação quando incluída nas tarefas diárias ou
semanais.
Quando meditamos, favorecemos nossa imunidade, ao aumentar a atividade
cerebral e modificar a qualidade do pensamento na direção da positividade e da fé.
Tendo em vista a meditação ser conceitualmente caracterizada como o controle
consciente dos pensamentos, as técnicas meditativas podem auxiliar as pessoas
doentes em seus processos de recuperação e cura.

Figura 34

O advento da meditação, do yoga, da terapias complementares, do respeito às


diferentes crenças, e a união de tantos indivíduos pela paz em encontros e
celebrações para impulsionar a alegria, o amor e a fé estão transformando o mundo.
É importante que nos sintonizemos com esse momento de nossa humanidade, e
lembremos de que fazemos parte da construção de novos conhecimentos que, apesar
de novos, tem uma conexão plenamente fiel às sabedorias ancestrais. Por isso
estudos e metodologias como as dinâmicas da cultura de paz, as danças circulares
sagradas, o sagrado feminino e o masculino, entre outros, estão sendo a cada dia
mais valorizados e reconhecidos. Tudo isso tem o propósito de nos tornar mais
próximos do que realmente somos: pessoas que merecem a felicidade.
"- Eu sou um outro você". Era dito pelos Maias. "- Eu te vejo", é o cumprimento
125

dos zulus africanos. A resposta a essa saudação é "- Estou Aqui." Com os ancestrais,
aprendemos a nos olhar e relembrar no agora a beleza que há na criação, que tem
forma exclusiva em cada Ser. Namastê é a saudação que relembra que em mim e
em cada Ser há um qualidade luminosa que me une ao outro e a todos os seres e
que, independentemente de qualquer erro, apego ou defeito, eu recebo da vida todas
as oportunidades para ser feliz.
E a meditação é o caminho, o estilo de vida, ou o conjunto de uma ou mais
técnicas que vai me recordar disso, e manter a chama dessa recordação acesa. Nessa
terra de esquecimento é preciso se lembrar de manter essa chama acesa.
Meditamos para manter a mente tranquila, e também para aceitar suas
oscilações, e aprender a domá-las e, diante de nossa própria experiência, encaminhar
nossos pensamentos a uma frequência segura. Meditamos para nos tornarmos
mestres de nós mesmos. Meditamos para nos conectarmos ao silêncio e também à
sinfonia da natureza. Por isso a música e o som são reconhecidos como valiosos
instrumentos de cura, tendo em vista seu poder notável de harmonizar e centrar
nossos sentidos. Meditamos para lembrarmos de nossa verdade, a de que somos
parte da natureza, e de que temos todos os elementos dentro de nós.
Quando essa consciência estiver puramente fortalecida em nosso interior, não
teremos mais a necessidade de julgar, discernir, questionar excessivamente ou de
criar separação. Seremos pessoas criadoras de união, facilitadoras da paz e da
harmonia. Talvez você já seja, mas ainda não está plenamente consciente. Talvez
você já tenha essa consciência. Independentemente disso, a vida pede para que
continuemos meditando e nos aprofundando nesse caminho que é interior.
É importante reafirmar que nossa real natureza e essência é alegria, paz e
harmonia. É sentir amor por todos os Seres. É sentir entusiasmo em viver, e vontade
de vivenciar o novo. É amar sem medidas. É simplesmente Ser, sem receios ou
medos. Se não sentimos essa conexão natural, está tudo certo, já que nesse mundo
de oscilações e mudanças ainda há muita violência e tristeza. Mas cabe a nós nos
conhecermos e realizarmos aquilo que nos ajudará a nos reconectarmos com nossa
real essência e com a natureza. Para isso, a meditação é a chave para embelezarmos
nosso interior e sentirmos toda a paz que já está aqui dentro.
O carro chefe das técnicas de meditação é a respiração consciente e
aprofundada. Os exercícios corporais, tais como as posturas de yoga ou os
movimentos da dança, podem nos ajudar a integrar respiração ao pensamento calmo
126

e lúcido. As viagens podem nos ajudar a lidar com nossas dificuldades e medos, e
também a perceber o poder de atração do nosso pensamento em relação ao campo
de infinitas possibilidades do universo. As rodas, cursos, encontros, meditações
coletivas e vivências terapêuticas podem nos auxiliar a nos sentirmos menos solitários
e mais conectados a uma família universal de irmãos de caminhada. O silêncio pode
ser a trilha sonora de nossa casa interior. Dentro de um turbilhão de acontecimentos
e de pensamentos, há um templo interno silencioso e repleto de harmonia.
Por isso, a meditação pode - e deve - ser adotada como uma prática individual,
e também vista como um estilo de vida de quem se dispôs a despertar para uma vida
nova, e feliz. E contribuir para a cocriação de um tempo de mudanças. Lembrando
sempre das gerações que estão por vir. Lembrando sempre de que as possibilidades
neste universo são infinitas. Lembrando sempre que o sol nasce todos os dias nos
chamando para o recomeçar. Sem esquecer da fé, a sabedoria e do amor, para
alcançarmos a paz perene.

Figura 35
127

5.6.1. Aprofundando a compreensão sobre a meditação

Meditação é a ação individual consciente de se fazer presente, mediante a


aplicação de técnicas que fortaleçam corpo, mente e espírito na direção de um estado
interno de foco, concentração, contemplação e harmonia. A meditação é uma prática
que perpassa as camadas diversas do Ser – ela acessa a profundidade da essência,
mas também consegue trazer benefícios notáveis ao corpo físico. É importante, desde
já, ressaltar que a meditação é uma prática que caminha sempre na direção do bem,
do amor, da elevação da vibração – da luz.
A meditação pode ser uma meta ou um método. Pode ser um conjunto de
técnicas unidas ou separadas, pode ser apenas uma técnica utilizada com foco e
empenho ou pode ser um estilo de vida. Um estilo de vida meditativo.
É na direção positiva da vida que caminhamos – optando por esta escolha, a
meditação nos serve como arma e escudo em um mundo de dualidades, confusões e
muitas distrações. Parar um tempo para estar consigo, olhar para dentro e buscar
acessar a paz que nos compõe e que reflete as cores de nossa alma e as flores de
nosso jardim interno – essa é a chave para prosseguir na caminhada, a cada dia com
mais força e fé.
Convidando o medo, a tristeza, a insegurança, a doença e o desamor a se
afastarem de nosso interior. Mas ao mesmo tempo, acolhendo os opostos e
contradições dos Seres. Ao meditar, nosso sistema nervoso se acalma, o stress é
reduzido, e assim, conseguimos penetrar tanto no silêncio e na calma quanto no caos
interno – a fim de se elevar à paz. Na realidade, com o objetivo de reencontrar a paz
de maneira a nunca mais se afastar dela. Já que ela é semente da nossa própria
natureza, nosso Ser, nosso modo de Ser e nossa composição.
128

Capítulo 6. Educar para a liberdade na Terceira Idade

Há uma idade do homem na qual a liberdade de deixar está plenamente


desenvolvida: é a velhice. Só as vivências possibilitam o deixar e fazer vir ao
encontro e isso é atributo de quem já viveu. Porém, ter vivido é ter prestado atenção
ao caminho; significa ter sabido lidar com o caminho que foi percorrido. Não significa
ter atingido os objetivos na vida, pois estes não asseguram vivências que permitam
o envolvimento com o Ser. Tampouco é experiência, pois esta é algo acumulado,
mas nem sempre envolvente. Vivência é aquilo que toca as pessoas, que as
envolve. Ser idoso é, portanto, ter a liberdade de deixar as coisas fluírem, pois há
serenidade, é ter a liberdade do conhecimento, é viver a temporalidade. (OKUMA,
1998, p. 44-45)

O iogue busca a liberdade, a libertação (moksha). As décadas da vida da pessoa


representam, de acordo com a Ayurveda (medicina indiana), a fase derradeira para
que ela se dedique à introspecção e à conexão com sua fé, com aquilo que para ela
significa o Divino, o Sagrado. Em geral, há maior quantidade de tempo livre, e a mente
biologicamente cultiva um espaço fértil para a criatividade e para a reflexão sobre
questões existenciais. É o período “vata” da vida, no qual predominam os elementos
ar e éter.
O ayurveda revela que

“a partir dos 60 anos, começa a haver uma influência da energia de Vata no


organismo, fazendo com que haja predominância dos elementos ar e éter
sobre os outros. Essa influência pode gerar desequilíbrios, que vão se
manifestar através de sinais e sintomas diversos como insônia, sensação de
frio, digestão irregular, prisão de ventre, dor articular, secura de pele e
mucosas, memória fraca, etc.” (ROCHA, 2019, p.1)

Então, tanto o yoga quanto o o ayurveda irão propor o estabelecimento


consciente de uma rotina de hábitos saudáveis que levem o organismo a gerar mais
equilíbrio e, consequentemente saúde. A ideia é que não haja acúmulo de toxinas e
que a velocidade do processo de envelhecimento seja retardada. Essas filosofias tão
antigas nos ensinam a restaurar as funções orgânicas e estimular a renovação de
células para que a saúde esteja sempre presente no praticante.

[...] estar em constante movimento, em constante busca – o que revela mais


claramente a natureza de nossa espacialidade e temporalidade. Isto quer
dizer que ao estarmos abertos para o Ser em nossas vivências cotidianas,
temos a possibilidade de nos engajar em projetos de vida, de modo que
nossas perspectivas temporais e espaciais sejam sempre amplas e contínuas
constituindo um horizonte existencial pleno de sentido. (OKUMA, 1998, p.43)
129

Quando pensadas e conduzidas com um tom de leveza e celebração à vida, as


aulas de yoga e as vivências artísticas - assim como atividades lúdicas e reflexivas
que trabalhem temas de autoconhecimento - são elementos fundamentais a serem
acrescentados nas rotinas diárias dos idosos. Projetos como a UNATI trazem
movimento, sensação de novidade e muitas surpresas, além de fornecerem
ferramentas valiosas para que os praticantes possam em suas próprias casas
estabelecerem um contato mais íntimo consigo próprios.

6.1. Relato de uma experiência

Sayaka, uma aluna muito querida que participou dos dois encontros da oficina
de mandalas (dentro das aulas de “Yoga, Arte e Autoconhecimento”), me agradeceu
antes do início da segunda aula presenteando-me com um um gatinho da “boa sorte”
oriundo da da China e me disse:
“Estou te dando esse presente já que você me trouxe energias positivas. (...)
Eu fiquei tão empolgada com as mandalas que nem vi o tempo passar, outro dia fiquei
até três horas da manhã fazendo as mandalas; eu fiz sete!”
Fiquei realmente surpreso e contente com essa fala da aluna, que descobriu
formas maravilhosas de tecer as mandalas. Fiquei feliz por ter acendido a chamada
da curiosidade, da vontade de criar e da alegria no interior dessa aluna tão especial.

6.2. Corporeidade e saúde na terceira idade

Sabemos que o corpo é afetado pelos intercâmbios e mudanças da realidade,


transformando-se lentamente (envelhecimento) ou é transformado
intencionalmente (cultura do corpo), respondendo às diferentes estratégias
adotadas pelo homem na vida, na ação e pensamento, levando a bom porto os
respectivos planos de (auto)realização. (FEHER; NADDAFF; TAZI, 1990, p.
11-13)

Reflitamos aqui sobre o corpo do idoso, tendo como referência alguns estudos
relacionados ao conceito de corporeidade, que é um pilar humanístico da ciência que
relaciona o corpo com a sociedade e toca de forma sensível nas questões de
aprendizagem, subjetividade e qualidade de vida. O presente capítulo valoriza os
brasileiros José Hermógenes de Andrade Filho, Mirian Goldenberg e Regina Simões,
os quais pesquisaram – cada um à sua maneira– essa tão importante problemática na
130

vida dos idosos em todo o mundo.


Com o passar do tempo, nota-se uma lentidão do intercâmbio de energia do
organismo devido à diminuição da taxa metabólica humana na terceira idade. Cada ser
humano tem seu ritmo de desenvolvimento orgânico, e as transformações são sempre
constantes. São modificadas as proteínas corporais, a quantidade de células, a
funcionalidade dos órgãos e dos sistemas, a fala, a qualidade dos movimentos, a
circulação sanguínea e a produção de hormônios. A sensibilidade aumenta bastante
em relação ao clima, devido às alterações no sistema endócrino. Há mudanças
também nos órgãos dos sentidos e na qualidade da visão, audição, tato, olfato e
paladar. Em suma, são inúmeras as transformações pelos quais o ser humano passa
nessa fase da vida e cabe à cada Ser assumir um compromisso de autocuidado para
lidar consigo de forma consciente e passar por essas etapas acompanhado de amor
próprio, carinho e alegria.
Com base nas aulas da oficina “Yoga, Arte e Autoconhecimento” e na pesquisa
realizada a partir das fichas de anamnese que entreguei (trancrita nos anexos ao fim
desse estudo), é possível identificar diversas angústias em relação às mudanças
ocorrentes no corpo e mente das mulheres participantes. A fase crucial pela qual todas
as alunas estão passando é a menopausa.

6.3. A menopausa

Nas práticas de yoga, há um incentivo consciente para que as praticantes


vivenciem a menopausa com uma atitude saudável a respeito de si mesmas.
Menopausa significa, literalmente, fim da menstruação. Os sangramentos cessam,
não há mais ovulação, e há uma mudança muito significativa na produção hormonal.
Isso afeta todo o organismo e, consequentemente, o metabolismo, o ritmo interno, a
conexão com os sentidos e as emoções.
No livro de Linda Sparrowe, “Yoga e saúde para a mulher”, Patricia Walden
alega que, nessa fase da vida, é essencial que as mulheres modifiquem a dieta, a
rotina de exercícios e o estilo de vida de maneira a auxiliar seus corpos a se ajustarem
às mudanças. A ideia é não sobrecarregar as glândulas e o sistema nervoso e trazer
um equilíbrio psicofísico eficiente para que a mulher enfrente as flutuações hormonais
e qualquer instabilidade que possa sentir. “O yoga pode ajudá-la a prestar atenção
naquilo que o corpo e suas mudanças têm a lhe dizer. Ele redireciona seu foco para
131

dentro, ensinando-a a amar o processo que está atravessando à medida que ele se
desenrola. ” (WALDEN apud Sparrowe, 2002, p. 255)

Nas nossas segundas-feiras, uma mulher encoraja a outra a prosseguir e a não


desistir. As aulas são acolhedoras sobretudo nas práticas físicas, e a orientação do
professor é para que cada uma vivencie as técnicas iogues sempre de acordo com seus
limites e possibilidades. Para as alunas que notam os benefícios resultantes da
frequência semanal nas práticas, a sensação é de conforto, bem-estar e harmonia. E,
sem dúvida, sentir isso é um fator determinante para que as praticantes da UNATI se
sintam determinadas a continuarem em movimento apesar dos desafios dessa fase
orgânica da vida.
Uma das alunas, Jô Cavalcanti, para quem já lecionei nas aulas que do projeto
Yoga na UNESP em 2015, declarou estar bastante incomodada com os sintomas da
menopausa. Apesar das dificuldades em lidar com a sensação permanente de calor
no início dos encontros, ela sente que cada prática auxilia na adaptação às mudanças
ocorrentes.
Benê, uma das participantes mais ativas, mostra-se bastante empenhada em
superar suas dificuldades. Apesar de não conseguir vir para as aulas com a frequência
que gostaria, ela declarou ao grupo que as aulas de yoga na UNATI estão lhe trazendo
força, concentração e vontade de aprender mais. Além disso, ela é uma das alunas
que mais sentem os benefícios no corpo físico.

6.4. Tao Porchon-Lynch

Figura 36
132

Nas aulas, honramos uns aos outros como amigos e mestres. A proposta é que
todos se considerem iguais, cada qual com sua importância na roda, na comunidade
de aprendizagem. Entretanto, elegemos uma professora de yoga indiana como a
nossa heroína, e também a nossa meta de vida: Tao Porchon Lynch, a qual completou
101 anos de idade neste ano. Das profissionais ativas na área, em todo o mundo, ela
é a profissional com idade mais avançada.Na filosofia iogue, aprendemos que, antes
de começar uma meditação, é importante que estabeleçamos uma resolução – ou
aquilo que chamamos de sankalpa. Que haja um propósito firmado com clareza.
No começo dos dois semestres letivos eu exibi vídeos sobre a referida instrutora,
e propus que nunca nos esqueçamos de Tao Porchon Lynch, de modo que, se
podemos ter alguém em quem nos inspirar enquanto estamos no caminho do yoga,
ela é um notável exemplo de determinação, alegria e força de vontade. Que ela seja
o nosso sankalpa para a vida, o nosso espelho e norte. Que possamos viver muito, e
com qualidade e alegria, prosseguindo com nossas práticas e com tudo o que nos
alegra e vitaliza.
Fiz questão de imprimir dez frases positivas de Tao, e entreguei para os
participantes da UNATI no mês de setembro. E lemos todos juntos, prestando bastante
atenção na vitalidade dessa mulher especial. Algumas das frases que mais chamaram
a atenção dos praticantes, retiradas do site www.yoguistas.com, com livre tradução
minha:
“Vejo a beleza da natureza. Ela está me dizendo que até mesmo as árvores
se tornam mais bonitas na medida em que envelhecem. ”

“Não ponha uma quantidade grande de alimento em seu prato. Não coma em
excesso. Não preencha a sua mente com medo. O amanhã nunca chega, não
adie as coisas. ”

“O outono é um lembrete de que, enquanto as folhas morrem e caem, sempre


haverá primavera, uma mudança para reabastecer e nascer de novo. Todos
nós temos a oportunidade de renascer’

“As árvores com cem anos de idade ainda são recicladas e saem com novas
flores. Recicle-se. Saiba que a natureza fornece pistas para você viver. ”
(YOGUISTAS.COM, 2019)

Tao Porchon-Lynch já tem 101. A maioria das alunas têm em média, 60 anos,
sendo que boa parte ainda está na faixa dos 50. Minha intenção com essa reflexão foi
incentivar a persistência das atividades que efetivamente trazem benefícios ao corpo
e á mente. Peço aos alunos e alunas para nunca pararem, e colocarem-se sempre
como prioridades.
133

Ainda sobre essa tão especial instrutora:

Tao Porchon-Lynch é a professora de yoga mais velha do mundo, de acordo


com o Guinness Book (...) “Enquanto eu respirar, ensinarei yoga. Depois,
voarei para outro planeta”, disse em entrevista para a BBC. Além de yoga,
esta encantadora mulher ainda pratica dança de salão e já ganhou prêmios
mundiais. (...) A instrutora de quase um século carrega sempre em seu rosto
um sorriso e não mostra sinais de cansaço! Ela pratica yoga há mais de 70
anos e há 45 ministra aulas de yoga para estudantes na Índia, França e
Estados Unidos. Tao afirma que praticar yoga ajuda a diminuir os efeitos de
envelhecimento, pois a prática permite controlar melhor o corpo e a mente.
A filosofia dela é: “não há nada que não possamos fazer se aproveitarmos o
poder dentro de nós.” (HYPENESS, 2015)

Ao testemunhar essas conquistas de uma educadora que ultrapassa a barreira


dos cem anos transmitindo vitalidade e amor pela vida, somos presenteados pela
informação de que o yoga e a dança podem realmente ajudar a humanidade a superar
os desafios advindos com as experiências, com o envelhecimento, e com as diversas
problemáticas ocorrentes nas vidas humanas. Nos vídeos que assistimos, uma de
suas qualidades mais evidentes é a alegria. Nota-se que ela persiste em viver, em
trabalhar com o que ama e a expressar a beleza da vida a partir do sorriso, das
palavras positivas e do exemplo.
O yoga quer que a chama da vida se mantenha acesa, e que os canais
energéticos do corpo físico – denominados nadis – sigam fluindo conforme o
praticante prossiga realizando as técnicas aprendidas e vivenciando os princípios
humanísticos da filosofia, agregando-os ao seu estilo de vida e crenças. Mas o que
diferencia o yoga de outras práticas – sobretudo as ocidentais – é que a saúde e o
cuidado do corpo é valorizado em todos os instantes.
Em seu estudo filosófico “O Poder da Alegria”, o filósofo Fredéric Lenoir afirma
que:
“A alegria de viver que perdemos, aquela da nossa infância, ainda vive dentro
de nós, como uma fonte enterrada sob uma pilha de pedras. Essa fonte de
alegria é permanente, embora só a notemos em episódios ocasionais.
Quando nos colocamos em certa disposição de espírito ou quando
avançamos um pouco, uma pedra se move ebrota um jato de alegria. A
alegria está em nós, ela nos é dada, mas a sufocamos, tapamos a fonte
acumulando sobre ela as pedras que provêm do ego e da mente. (LENOIR,
2016, p. 118)

O yoga, como método, preza pela qualidade na ação em direção ao resgate da


alegria perdida, aquela que gera espontaneidade, paz e leveza. É importante que
tenhamos fé, e não deixemos a chama do sorriso e do entusiasmo apagarem dentro
de nós.
134

Todo o caminho em relação a si mesmo e em direção aos outros consiste


em remover esses obstáculos que nós construímos para encontrar uma
alegria simples, essa alegria pura que nos é naturalmente dada. Nossas vidas
complexas, feitas de oportunidades e escolhas sem fim, nos fazem perder a
simplicidade da relação com a existência” (ibidem, p. 118)

É por essa razão que nossos encontros semanais são tão importantes: eles nos
ajudam a resgatar a simplicidade da vida e o princípio de santosha, o contentamento.
O verdadeiro objetivo do yoga consiste no cultivo permanente desse hábito de
recordar os aspectos do Ser que nunca podem perdidos ou afetados. Evocando a
sabedoria de Deepak Chopra em “ As Sete Leis Espirituais da Ioga”, (2006, p. 38),
muitas coisas podem mudar na trajetória da vida: o emprego, o corpo, as relações, as
crenças, mas o amor pela vida e a alegria genuína que está com cada ser humano
desde sua infância sempre permanecerá.
Chopra reforça filosoficamente esse saber oriental : “Os seus pensamentos,
convicções, expectativas, metas e experiências podem vir e ir, mas aquele que está
tendo a experiência – o experimentador – permanece”.(ibidem).
Que a inspiração de Tao Porchon Lynch toque os corações de todos. Que vocês
possam conhecer um pouco sobre essa mulher tão especial nos registros da internet,
e que todos nós possamos chegar até os cem anos praticando yoga com essa energia
forte e vivaz!

Figura 37
135

Figura 38

6.5. Corporeidade

Todas as pessoas têm uma função social e uma missão de vida, um motivo
profundo para viver. O idoso é como todo ser humano, um ser psicossomático,
portador de necessidades inerentes à vida e deve ser respeitado, no que concerne à
saúde, comunicação educação e participação social. Deepak Chopra (2006, p. 37)
defende que cada pessoa reflita profundamente nessa fase de vida sobre a seguinte
pergunta: “- Como posso servir? ”, ou “- Como posso ser útil na sociedade? ”
. Concordando com a ideia de que isso é um fator essencial de motivação para
que a pessoa na terceira idade possa se sentir viva, pensei em trazer essa reflexão
para as aulas do segundo semestre da oficina. As práticas e as vivências artísticas
encorajam as alunas a estabelecerem um contato mais profundo e generoso com seus
corpos que, apesar de todas as dores e patologias, são perfeitos e inteiros.
De acordo com a estudiosa Regina Simões, é importante que o idoso ocupe
seu tempo livre com uma – ou mais - atividade física mediante orientação profissional,
para que possa se sentir adaptado ao meio ambiente e perceba que a velhice não
precisa ter um significado negativo associado à morte ou a doença.
É preciso que a pessoa encontre motivações para seguir caminhando, e não
deixar o corpo estagnar. Isso é de imensa importância para que a engrenagem vital
continue trabalhando. Dentro desse contexto, na UNATI incentivamos com nossas
práticas o encontro com o outro, o afeto, a criatividade, o acolhimento, a alegria e o
bem-estar. Também há a intenção de auxiliar cada idoso a aceitar-se tal como é,
136

aceitando-se e se acolhendo dentro de sua jornada da vida, de sua idade, de seu


florescimento.
“É primordial preparar-se para a chegada da velhice dentro dos aspectos
físico, psicológico e social. A passividade das transformações da idade, o
esquivar-se às novas situações ou o deixar-se levar pelo declínio físico e
mental é, na verdade, o início de um processo de deterioração. Talvez, por
isso, os que convivem bem com sua idade contestes palavras como
“envelhecer”, “velhice”, “velho”, pelo sentido pejorativo e carregado de pré-
conceitos que encerram, passando a ideia de coisa inútil, pronta para ser
descartada.” (SIMÕES, 1998, p. 30)

A questão da corporeidade na aprendizagem proposta na UNATI se apresenta


na motivação político-pedagógica existente nas aulas que trabalham a movimentação
e a descoberta das possibilidades do corpo e seus movimentos. Os encontros
intencionam transformar beneficamente o educando à medida em que ele se
reconhece como um cidadão ativo na sociedade, responsável por suas próprias
escolhas e, sobretudo, por seu próprio corpo e hábitos saudáveis.

“Existe uma vitalidade, uma força de vida, uma energia, um despertar, que é
traduzido em ação através de você, e porque só existe um de você em todos os tempos,
essa expressão é única. Se você a detém, ela nunca existirá por nenhum outro meio
e se perderá.” (GRAHAM apud GONÇALVES, 2016, p.6). Esta frase dita por Martha
Graham para Agnes De Mille, também estudante e praticante de dança, em 1991,
representa muito bem a proposta pedagógica investigativa de corpo e expressão que
proponho nas aulas.

Como arte-educador, quando proponho o livre movimento, o relaxamento, a


expressividade somática, o descanso, a dança espontânea, a brincadeira, o jogo, o
alongamento e a prática de posturas psicofísicas iogues (os ásanas), eu configuro a
sala de aula como um espaço criativo de aprendizagem, e para além da mente e do
intelecto, ele educa a partir das sensações, das emoções, do corpo e da essência. Eu
vinculo o conhecer ao fazer, o ser ao aprender, o existir ao sentir. E assim, junto aos
educandos construo um espaço pedagógico ativo que planta as sementes da
corporeidade como linha de pensamento vivo na educação humana.
Percebo assim, que cada educador dedicado e empenhado nessas conexões
cognitivo-sensoriais pode incentivar o despertar de uma nova vitalidade, ou de uma
energia estagnada há tempos naquele corpo, à favor da descoberta da corporeidade
do educando.
137

Sobre esse pensamento, evoquemos o estudioso sobre novos paradigmas em


educação, Hugo Assmann diz que :

“A corporeidade se relaciona aos aspectos integrais do corpo. Corpo


e corporeidade se fundem dependendo da referência, pois o corpo é movido
por intenções provenientes da mente, e a corporeidade é a maneira pelo qual
o cérebro reconhece e utiliza o corpo como instrumento, e também a
capacidade de o indivíduo sentir e utilizar o corpo como ferramenta da
manifestação e interação com o mundo. A corporeidade do indivíduo evolui
com a idade, pois o corpo é moldado pela cultura de cada indivíduo, bem
como sua maneira de ser e agir no seu meio. Trazer a corporeidade para a
educação significa trazer as vivências para o processo educativo.
Corporeidade não é a fonte complementar de critérios educacionais, mas seu
foco irradiante primeiro e principal". (ASSMANN, 1995, p.77)

A nossa “Mandala de Conexões, portanto, é uma celebração à corporeidade,


uma homenagem à força viva existente em cada Ser, e um trabalho de resgate de
dons, talentos e potencialidades individuais a partir do corpo. É sempre essencial que
o corpo esteja acordado, presente, e que seja acolhido, movimentado e muito bem
cuidado.
Na chegada das aulas, nos abraços presentes, nas dinâmicas de início de aula,
nos sorrisos, nos momentos em que nos olhamos no espelho da sala, nos vídeos e
textos propostos, nas aulas, nas vivências e nas despedidas, há sempre uma intenção
em enaltecer o corpo como um instrumento de imenso valor para todas as alunas.
Além disso, é importante que elas se sintam donos daquele espaço, em virtude de ele
ser um patrimônio público e de nele existir tudo o que precisamos, sobretudo boas
companhias e verdadeiras intenções individuais e coletivas de autotransformação.
Para Hugo Assmann (ibidem), é importante que todas as filosofias e estudos teóricos
estejam conectados ao corpo, para que a experiência pedagógica seja legitimada.
Em relação à proposta metodológica das aulas da oficina de “Yoga, Arte e
Autoconhecimento”, é possível explicitar a real intenção em estimular que cada
educando seja livre para se (re)descobrir como um corpo criativo, que pode agir e criar
em benefício de si e dos outros.

6.6. Sobre velhice e corpo

Conduza sua vida com o cuidado,


a habilidade e o empenho com que um artista cria sua obra.
Professor Hermógenes em Manual da feliz idade.
138

No livro “Corpo sem idade, Mente sem fronteiras”, Chopra disserta que

Nossos conceitos de envelhecimento têm sido drasticamente modificados no


decorrer das (...) últimas décadas. No início dos anos 70, os médicos
começaram a notar pacientes de 60 e 70 anos cujos corpos ainda
funcionavam com o vigor e a saúde da meia-idade. Essas pessoas se
alimentavam moderadamente e cuidavam dos seus corpos. ” (CHOPRA,
1994, p.81)

Hoje, em muitos locais do planeta, as ciências médicas já são aliadas da


cultura, da educação, das artes e das práticas holísticas na direção de desenvolver
iniciativas que combatam o envelhecimento acelerado da humanidade, e que
permitam a locomoção saudável, a nutrição adequada e a dedicação ao autocuidado.
Em relação ao yoga e à dança, por exemplo, há uma oferta grande de aulas e espaços
específicos a essas modalidades, em cidades como São Paulo. São muitas as
pesquisas que evidenciam o valor do yoga para a saúde integral.
Segundo uma pesquisa publicada no European Journal of Preventive
Cardiology, sobre os benefícios do yoga, essa atividade tem o mesmo efeito que uma
caminhada acelerada e o ciclismo, mantendo a pressão arterial equilibrada. O
resultado foi baseado no levantamento de 37 estudos, que incluíram mais de 30 mil
pessoas. A conclusão indicou melhoras na frequência cardíaca, Índice de Massa
Corpórea (IMC) e no colesterol dos praticantes. (BBC, 2014)
De acordo com Hermógenes, no livro Autoperfeição com Hatha Yoga, este é
um “autotreinamento integral”, o qual objetiva a perfeição. Sendo assim, configura-se
como uma prática muito mais aprofundada que uma ginástica ou esporte. “Yoga não
é superstição. É ciência” (HERMOGENES, 2007, p.20).
O professor Hermógenes trabalhou junto aos profissionais da medicina durante
décadas e participou de muitas conferências aplicando o hatha yoga como uma
terapia. Ele aprendeu muito por justamente colocar-se à prova tanto na atuação como
docente quanto como pesquisador.
Yoga é união, no sentido de proporcionar a integração com a melhor versão de
cada um. Hermógenes afirma que unificar-se, tornando-se um todo harmônico, é o
destino superior e o propósito de cada ser. “Todos nós somos infinitamente
perfectiveis e estamos vivendo para aperfeiçoar-nos” (ibidem, p.14). E isso começa
do corpo, dentro do sistema de aplicação teórica e prática do hatha yoga.
Por ser uma prática segura, acessível, simples e acolhedora, o hatha yoga se
139

configura como uma das principais modalidades físicas em boa parte das academias
da cidade de São Paulo. Além disso, essa prática psicofísica está sendo utilizada em
escolas formais, cursinhos pré-vestibular, espaços holísticos, instituições carcerárias,
projetos sociais e até mesmo no leito, em hospitais.
Diante da orientação de um profissional capacitado, todos podem praticar
yoga. Talvez a pessoa que apresente muitas limitações não possa praticar a maioria
das posturas, mas ela pode desenvolver sua capacidade respiratória com
pranayamas, e ela pode se aprofundar na respiração e no relaxamento.
Ainda sobre as vantagens das práticas regulares de atividades físicas:

O envelhecimento normal é caracterizado por alterações anatômicas e


funcionais que acontecem em ritmos e intensidades diferentes, dependendo
de fatores pessoais (especialmente genéticos) e externos (ambientais,
ocupacionais, sociais etc.) Algumas das mudanças, como diminuição da força
muscular, da flexibilidade e da coordenação motora, podem ser bastante
modificadas coma prática regular de atividades físicas. (COSTA, GOBBI in
DEL MASSO & AZEVEDO, 2012, p.38)

No livro “Filosofia de Bem Viver”, Márcia de Luca e Lucia Barros associam a


entrada na terceira idade como a instauração da fase outonal na vida do Ser: “Segue-
se o outono, época de recolhimento para a natureza. As temperaturas ficam mais
amenas, as folhas caem.” (BARROS & DE LUCA, 2015, p. 19). Essa época,
denominada de acordo com a filosofia hindu/védica de vanaparshta. É quando o Ser
pode se focar nas suas metas, e quando idealmente deve priorizar o
autoconhecimento e se entregar às vivências que harmonizem sua vida.
É importante que o físico seja preservado e trabalhado, pois ainda há muita
energia para ser colocada em movimento, e essas energias não podem se estagnar.
A sexualidade se transforma completamente, e de acordo com o princípio de
brahmacharya, a pessoa deve começar a ressignificar essa força sexual que, de
acordo a leitura do referido texto e com os ensinamentos dos iogues antigos, na
terceira idade deve ser pautada no aprofundamento da meditação e da relação com
aquilo que cada um considera como sagrado.

“Conforme envelhecemos, a beleza física se transforma porque não há mais


necessidade de procirar. O universo é sábio. A sexualidade física é então
substituída pelo que chamamos de sexualidade cósmica: nossa capacidade
de enfim aprofundar o conhecimento adquirido durante os anos de
experiência, tornando-o sabedoria. Da mesma maneira que a natureza se
aquieta no outono, podemos fazer o mesmo nessa fase, empreendendo uma
viagem de introspecção. A ideia aqui é entrar em contato com o âmago do
nosso ser, agora sábio e poderoso” (ibidem, p.19)
140

Figura 39

6.7. Senescência

Quando a Universidade Aberta à Terceira Idade viabiliza uma proposta como a


minha, ela almeja trabalhar no aprimoramento da saúde integral da comunidade idosa,
incentivando o processo conhecido como senescência.

Diante desse contexto, é importante que deixemos clara aqui a diferença entre
os conceitos de senescência e senilidade. A senescência tem relação com a evolução
da pessoa no tempo em suas transformações fisiológicas que não caracterizam
doenças, e que são comuns a todos os seres de determinada espécie. Os fatores
característicos deste fenômeno não provocam encurtamento da vida. Em
contraposição, a senilidade é configurada quando o envelhecimento se mostra um
processo patológico – e há um desalinhamento biológico que leva a pessoa a
desenvolver questões fisiopatológicas. E nem todos os idosos precisam se encontrar
nessas condições.

Cabe ao educador que transmite a filosofia e a prática do yoga incentivar aos


seus educandos a busca por uma rotina saudável, alegre e pacífica. O que se quer,
então, é combater a doença e a degeneração biológica acelerada, para que, enfim, a
vida prevaleça. E que o processo de senescência seja viabilizado, favorecido e
beneficiado com os aprendizados.
141

Figura 40

6.8. Saúde na terceira Idade

“Somos todos heróis ao nascer quando enfrentamos uma tremenda


transformação, tanto psicológica quanto física, deixando a condição de
criaturas aquáticas, vivendo no fluido amniótico, para assumirmos, daí por
diante, a condição de mamíferos que respiram o oxigênio do ar e que, mais
tarde, precisarão erguer-se sobre os próprios pés. ”
Otto Rank

6.8.1. Saúde física

Nossos encontros de segunda-feira trazem diversos benefícios ao corpo físico.


As práticas físicas são tranquilas, entretanto exigem considerável esforço físico nas
permanências das posturas em pé, sentados e deitados. Para que elas aproveitem as
aulas da melhor maneira, recomendo que as alunas tentem realizar exercícios físicos
em outros dias da semana. Foi utilizada como referência para pesquisa o
livro “O Idoso e a Atividade Física” de Silene Okuma, para que eu pudesse adquirir
melhor compreensão sobre como o yoga e as atividades corpóreas artísticas coletivas
podem auxiliar as participantes das aulas a terem mais consciência sobre sua saúde
integral. Através de uma minuciosa pesquisa na área de educação física, a autora
revelou informações valiosas sobre essa faixa etária em aspectos culturais, biológicos,
sociais e psicológicos.
142

A atividade física regular aumenta ou mantém a aptidão física da das pessoas


com 60 anos ou mais e tem o potencial de melhorar sua qualidade de vida e,
consequentemente, diminuir a taxa de morbidade e de mortalidade entre essa
população. Embora haja unanimidade com relação ao caráter essencial da atividade
física regular para funcionamento ótimo do corpo, não se pode deixar de considerar
também outros fatores, tais como a dieta, o gerenciamento do estresse e o cuidado
com o psicológico. “Estudos em Gerontologia têm demonstrado que a atividade física,
junto com hereditariedade, alimentação adequada e hábitos de vida apropriados
podem melhorar em muito a qualidade de vida dos idosos.” (Okuma, 1998, p. 52)
Segundo Márcia de Luca, estudiosa da área do Yoga no Brasil:

“Não importa quantos anos você tenha agora, se até hoje foi sedentário, se
cultivou ou cultiva outros hábitos nocivos. Importa a conscientização e a
decisão de mudar. É claro que quanto mais cedo adotamos hábitos
saudáveis, melhor. Mas é claro também que, a qualquer tempo, os benefícios
aparecerão, como vários estudos têm comprovado. Segundo o “Estudo de
envelhecimento próspero” da Fundação MacArthur, o exercício físico é a peça
central do bom envelhecimento, “a coisa mais importante que um idoso pode
fazer para manter a saúde”.” (BARROS & DE LUCA, 2015, p. 21)

As práticas de hatha yoga são altamente recomendadas para a terceira idade


justamente pelo motivo de enfatizarem a conexão com o significado profundo de cada
movimento e postura que estão sendo realizados no momento da prática, por
convidarem o praticante a repensar seu estilo de vida na direção do equilíbrio
psicofísico e por serem leves, acessíveis e completamente adaptáveis a qualquer
corpo.
No Hatha Yoga há exercícios que trabalham a força dos praticantes, tais como
a postura da prancha e a postura do cachorro olhando para baixo. “O treinamento da
força muscular em indivíduos idosos leva a incrementos de capacidades práticas na
rotina do idoso e de aspectos funcionais relativos à marcha, ao equilíbrio (quedas) e
a outras ações motoras que dependem da locomoção.” (OKUMA, 1998, p. 62)
Além da força muscular, a flexibilidade é um dos mais importantes fatores de
segurança pois ela auxilia na prevenção de acidentes, na coordenação motora e na
circulação sanguínea. A flexibilidade tem sido muito menos estudada do que a força
muscular, porém os estudos feitos a esse respeito encontraram efeitos positivos do
treinamento na amplitude do movimento do idoso, seja através de programas
específicos de alongamento, seja através de outros tipos de programas. É importante
143

ressaltar que são observados efeitos positivos mesmo em pessoas muito idosas.

Nas aulas, estimulo as alunas a se alongarem bastante todos os dias e, nos


nossos encontros, mobilizamos o corpo com muito cuidado, mas ao mesmo tempo
tentando despertar os potenciais ideais de cada técnica iogue realizada. Nunca
ultrapassamos os limites, praticamos ahimsa, entretanto tentamos ir sempre um pouco
além do que estamos acostumados.
Os ásanas, como vimos na árvore do yoga, compõem a parte deste sistema
que leva o ser humano a ter uma maior compreensão de si acerca da consciência
corporal e do ato firme e estável de ocupar o corpo: a tentativa cotidiana de estar
realizando uma ação com cem por cento de presença. Por exemplo: se estou
andando, estou caminhando prestando atenção no contato de meus pés com o chão
e na minha respiração a cada passo.
De acordo com Giulio Vicini, no livro “Abraço Afetuoso em Corpo Sofrido, (2002,
p.69) para que as pessoas possam cuidar melhor de si mesmas e prevenir doenças,
é essencial que elas tenham acesso a conhecimentos e vivenciem práticas que lhes
permitam ajudem a olhar para seus próprios hábitos, e controlá-los. É importante que
as pessoas compreendam as condições sociais, ambientais e psicológicas que
mutilam sua saúde.
O yoga, como método, pode oferecer as condições essenciais para a saúde
plena do idoso, entretanto, de acordo com meu professor Gerson D´Addio da Silva, é
importante que, além dos acompanhamentos médicos e das terapias
complementares, o praticante de atividades físicas idoso tente realizar outras
atividades como caminhadas, musculação, natação ou hidroginástica.
O professor Iyengar (2007, p. 40) afirmou que “O aprimoramento pessoal pelo
ásana é o grande portão que conduz aos recintos internos que precisamos explorar.
Em outras palavras, vamos tentar usar o ásana para esculpir a mente. ”. Ele
complementa, afirmando que os ásanas nos auxiliam a fisiologia das virtudes do
contentamento e da paz interior – todas as qualidades que, de acordo com a filosofia
iogue, a humanidade precisa conquistar.
As posturas são vivenciadas antes da meditação e dos exercícios de
concentração, pois elas nos auxiliam a acessar o relaxamento interior para, em
seguida, alcançarmos o estado meditativo. E essa é a característica que diferencia o
yoga de outras práticas físicas.
144

“O ásana e o pranayama reduzem o estresse que impregna o cérebro; com


o cérebro em repouso, a tensão é liberada. Da mesma maneira, ao realizar
os vários tipos de pranayama, o corpo todo é irrigado de energia. Para praticar
pranaiama, é preciso ter músculos e nervos fortes, concentração e
persistência, determinação e resistência. Tudo isso se aprende com a prática
do ásana. Os nervos relaxam, o cérebro se acalma, e o retesamento e a
rigidez dos pulmões se desfazem. Os nervos são auxiliados a permanecer
sadios. Você imediatamente alcança a unidade consigo mesmo, e isso é
meditação. ” (ibidem, p. 44)

Dentre todos os ásanas, um dos mais importantes é o savásana (postura do


cadáver), o qual utilizamos como momento final de todas a aulas para que o praticante
possa descansar e assimilar tudo o que foi vivenciado naqueles minutos tão valiosos
de seu dia. Iyengar diz que essa é a técnica mais difícil, pois para que haja entrega e
relaxamento completos, é necessário muito treinamento. Em “Luz na Vida”, ele
sugere: “Relaxe, durma até. Somos todos humanos. Mas, no savásana, você está à
beira de um grande mistério, e, embora seja a mais difícil de todas as posturas, pelo
menos temos a graça de poder deitar no chão para praticá-lo. ” (ibidem, p. 290).

Sempre recomendo aos alunos que treinem diariamente o savásana em suas


casas e locais de trabalho, já que essa técnica pode auxiliar na recuperação de quatro
horas de sono, de maneira a aliviar as sensações de fadiga após sua execução. Isso
acontece, pois, o corpo humano guarda em seu funcionamento orgânico um
mecanismo de “reset”: ele pausa e reinicia quando deitamos e permitimos que nossa
mente e corpo relaxem. No savásana, a circulação venosa se altera em benefício do
equilíbrio integral de cada pessoa que o pratica.

Judih Lasater, criadora do método “Relax and Renew”, recomenda que todas
as pessoas pratiquem yoga diariamente e que, na condição apressada e limitada de
ter pouco tempo para o yoga, a pessoa deva ao menos deitar-se na postura do
cadáver por alguns minutos. Mesmo nas posturas mais simples – e principalmente
nelas – o praticante pode ter a oportunidade de se aprofundar na sua respiração e no
ato introspectivo de permanecer em si, estando com os olhos abertos ou fechados.
Há posturas com permanência sugerida de minutos. A mais longa, em geral, é o
savásana, onde nós professores deixamos os alunos deitados de dez a vinte minutos.
145

Figura 41

Muitos educadores e cientistas pensam que a inteligência e a percepção


cognitiva ocorrem exclusivamente no cérebro (associando esse órgão) à sabedoria e
ao discernimento da mente, mas estudando o yoga compreendemos que estes
aspectos permeiam todo corpo. Com base nisso, ao afinarmos a percepção e a
conexão do corpo com a mente, conseguimos desenvolver a consciência corporal,
saúde e muitas sensações de bem-estar.
Iyengar diz que “Yoga nos ensina a infundir inteligência aos movimentos,
transformando-os em ação. ” (IYENGAR, ibidem, p. 59). Ele nos incentiva a escutar e
sentir o corpo, já que, diante de sua visão, o cérebro deve cooperar com a mensagem
que recebe do corpo. Assim, podemos concluir que os ásanas e os exercícios de
aprofundamento do alento (fluxo de inspiração e expiração) nos preparam para a vida,
e contribuem de forma ampla para nosso equilíbrio.

6.7.2. Outros aspectos relacionados ao corpo

De acordo com o profissional da medicina José Goldenberg, no livro “Promoção


da Saúde na Terceira Idade – Dicas para Viver melhor”, “as doenças cardiovasculares
são responsáveis por aproximadamente 40% do total de mortes nos idosos, sendo a
principal a cardiopatia isquêmica decorrente do acometimento das artérias coronárias
do coração” (GOLDENBERG, 2008, p. 5) . São as principais causas de mortalidade
em relação a essa faixa etária. Em sua pesquisa, esse médico traz explicações sobre
as patologias e sintomas mais frequentes no Brasil. Outras delas são:
146

- Doenças do sistema gastrointestinal, como dispepsia, constipação intestinal e


hemorróidas
- Doenças do sistema neuropsiquiátrico, como Alzheimer, acidente vascular
cerebral, doença de Parkinson, delírio, estresse, insônia, depressão e ansiedade
- Questões patológicas ligadas ao sistema musculoesquelético, como artrose,
coluna, dor lombar, fibromialgia, gota, osteoporose em homens e mulheres, doença
reumática e artrite temporal, vertebroplastia e alterações fisiológicas nos pés (joanete,
dedo em martelo, unha encravada, etc).
- Doenças do sistema respiratório, com gripes e resfriados e patologias crônicas
do pulmão
- Doenças no sistema urogenital, tal como câncer de próstata e incontinência
urinária e situações que envolvem a sexualidade do homem e da mulher.
- Menopausa e Andropausa
- Problemas de audição, vertigem, diabetes, catarata,
- Situações ligadas à pele

Ao final de sua obra, o referido médico incentiva que a prática de exercícios


regulares seja uma prioridade na vida de qualquer idoso, e reforça também a
importância da alimentação saudável e regrada, assim como os incentiva a buscarem
também fisioterapia e terapia ocupacional em complementação aos tratamentos
tradicionais.

Alguns pontos importantes a serem observados, com base na leitura do referido livro
são que:

 80 % da população adulta mundial apresenta dores na região lombar, a


chamada Lombalgia

 A Osteoporose é um dos mais sérios assuntos de saúde pública no mundo,


uma vez que ela incapacita – ou até mesmo invalida – uma quantidade imensa
de pessoas, especialmente mulheres, após a menopausa, pois ela pode causar
fraturas com a perda da massa óssea. Mas há muitos estudos que demonstram
que as atividades físicas podem diminuir as perdas ósseas

Quando o hatha yoga é praticado com frequência, são muitos os benefícios


147

conferidos a todos os sistemas biológicos humanos e, sem dúvida, essa prática pode
ser elemento preventivo e também terapêutico na direção da cura de todas as
questões acima relatadas.
Sobre hatha yoga, Hermógenes complementa:

O Hatha Yoga lhe dará repouso e recuperação diários. Como ginástica, pode
ajudar você mais do que qualquer outro sistema. Com sua prática, você
conseguirá restaurar suas forças exauridas, proporcionando aquela
sensação de férias bem aproveitadas. Como exercício, melhor do que
qualquer outro, será uma garantia contra o envelhecimento precoce, que está
se tornando caso geral nos dias que passam. Melhor do que qualquer
ginástica, manterá você em boa forma física, livre da fadiga, da irritação, do
desânimo, da neurastenia, do estresse onipresente, da sensação de quem
não tem forças para viver. (HERMOGENES, 2007, p.37 )

Um dos maiores benefícios da prática regular é a produção hormonal, ou seja,


o auxílio ao equilíbrio do sistema endócrino. As técnicas do yoga estimulam as
glândulas endócrinas, conservando-as de sua degeneração em virtude do avanço da
idade.

A atividade física regular e sistemática aumenta ou mantém a aptidão física


da população idosa e tem o potencial de melhorar o bem-estar funcional e,
consequentemente, diminuir a taxa de morbidade e de mortalidade entre essa
população. A atividade física e a aptidão física também têm sido associadas
á diminuição da incidência de morbidade e mortalidade produzidas por
doenças crônicas entre indivíduos de meia idade. (OKUMA, 1998, p. 53)

A questão da alimentação, essencialmente complementar à prática do yoga,


também enfatizada nas escrituras antigas do yoga e ayurveda, influencia tanto no
corpo físico quanto no mental. De acordo com Márcia de Luca e Lúcia Barros, “(...) ao
comer alimentamos o corpo e as emoções e, se o fazemos corretamente, geramos
equilíbrio físico e emocional (DE LUCA & BARROS, 2015, p.52)

6.8.3. Saúde mental e emocional

O yoga trabalha também as emoções, pois, enquanto a pessoa está


executando as técnicas respiratórias aprofundadas e os ásanas – e depois delas – ela
tem o incentivo e a oportunidade de eliminar conscientemente os pensamentos
negativos e substitui-los por positivos. Ela pode mentalizar e sentir coragem,
pacificação, gratidão, alegria, amor fraterno, bondade, harmonia e pureza e isso sem
148

dúvida vai auxiliar no gerenciamento pessoal do estresse de cada um que se entrega


às experiências, principalmente para aqueles que decidem praticar yoga quando
desenrolam seus tapetinhos e voltam para suas atividades diárias.
Lembremos que os maiores propósitos do yoga conseguem ser concretizados
com sucesso a partir do momento em que o praticante sente benefícios em sua
relação consigo e com os outros. Quando há uma mudança real que começa pelo
interior, pelo psicológico e pelas emoções.
Como instrutor de yoga e arte-educador, convido primeiro os alunos a
perceberem como os exercícios físicos estão ajudando a corrigir suas posturas e a
ganhar flexibilidade, além de aliviar sensações de fadiga e trazer mais vitalidade ao
seu organismo. Depois, ao sentir que posso aprofundar os conteúdos das aulas, vou
proporcionando atividades e sugerindo técnicas que possam realmente auxiliá-los a
lidar com suas atitudes perante aos problemas cotidianos e às suas próprias emoções
e turbilhões mentais. As respirações vão se tornando mais longas, assim como as
permancências nas posturas e também no relaxamento final.
Minha torcida é sempre para que eles consigam resolver as situações da vida
com muita calma, sem agir por impulso tal como faziam em tempos passados, mas
aprendendo a respirar assim que as adversidades chegam.

Alguns depoimentos:
“A prática de yoga semanal na minha vida
está sendo algo muito maravilhoso,
transformador. Está mudando a minha rotina
pois passei a praticar o relaxamento antes de
dormir – o que antes não fazia. E isso me
trouxe um benefício magnífico porque o meu
sono antes era agitado, eu acordava no dia
seguinte péssima. Hoje com a prática do
relaxamento eu consigo até relembrar dos
meus sonhos e os meus dias têm sido mais
leves e mais calmos. Tudo isso vai trazendo
um fortalecimento para a minha saúde física
e mental. (...) Estando bem relaxada e
tranquila, tudo flui melhor. A saúde, no
relaiconamento com os amigos e com a
família... Tudo isso são benefícios que o yoga
está trazendo para mim através do
relaxamento que tenho feito. E sou muito
agradecida. “
(Lia Meira, 29/9 em áudio de whatsapp)

“A prática semanal de yoga está me trazendo


muitos benefícios. Estou controlando
ansiedade, estou me alimentando melhor
149

(menos doces) e estou mais animada. Adotei


a escada aqui no prédio. Moro no sexto andar
e subo/desço pelas escadas. Antes eu
arrastava correntes na vida e agora me sinto
solar. Feliz! E essa felicidade tem feito bem
não só a mim, mas a todos ao meu redor.
Não penso mais bobagens (não totalmente,
pois comecei há pouco tempo a praticar) (...)
QUERO VIVER, SENTIR A RESPIRAÇÃO,
SENTIR MEU CORPO. Aos 54 anos comecei
(graças à prática semanal) a me conhecer. E
isso, não tem preço. Om Shanti.”
(Simone Codo, 30/9, por texto de whatsapp)

6.9. Pensamento de Hermógenes

De acordo com o professor Hermógenes, que praticou yoga até mais de 90 anos
de idade, a prática de hatha yoga combate pontualmente três questões sérias com as
quais toda a humanidade atual tem de lidar:
 A ansiedade/estresse
 A visceroptose
 A normose

Sobre a primeira questão, o Brasil é considerado pela OMS (Organização


Mundial da Saúde) o país com o maior número de pessoas com transtornos de
ansiedade em todo o mundo. É comprovado cientificamente que as práticas orientais
corpo-mente auxiliam de forma muito eficiente no gerenciamento dos sintomas de
ansiedade.
A visceroptose se manifesta, em geral, a partir dos 30 anos, e

É geralmente depois dos trinta anos que se manifesta uma das mais
odiosas enfermidades, a que os médicos denominam de visceroptose.
Consiste na caída das vísceras, principalmente o estômago, que,
deslocando-se, cai da posição natural. Os portadores de visceroptose se
incomodam principalmente porque os órgãos escorridos para baixo do
ventre lhes dão uma proeminência que rouba vestígio de beleza do corpo
flácido. No entanto, as piores consequências da visceroptose não são as
estéticas, e sim as fisiológicas. As vísceras, pesadas e grandes, caem e
esmagam os intestinos, prejudicando-lhes os movimentos peristálticos.
(HERMOGENES, apud BEZERRA, 2019)

E, por fim, temos a normose, que, para Hermógenes, é a doença que faz com
que muitos indivíduos queiram se encaixar em padrões específicos, a fim de se
caracterizarem como “normais”. Para o especialista em yogaterapia, a normose faz
150

com que a inveja, a cobiça, o egoísmo e a autodepreciação sejam estimulados e, por


conseguinte, faz com que a autenticidade e a alegria tornem- se mais raros na
atualidade.
Uma das máximas de professor Hermógenes, a qual simboliza sua crítica e seu
olhar lúcido sobre a humanidade é: “Deus me livre de ser normal” – frase que simboliza
a coragem de uma pessoa que beneficiou a vida de muitas pessoas com as aulas de
yoga. Hoje ele é considerado a maior referência brasileira do yoga.

Figura 42

Figura 43
151

Transcrevo aqui um trecho do filme Eu Maior que exibi algumas vezes para as
alunas da UNATI, no primeiro e segundo semestre. Aqui ele explica com palavras
brilhantes o que é yoga, e como ele estava vivenciando essa prática com mais de
noventa anos de idade, um pouco antes de sua morte.

“Entrego. Confio. Aceito e Agradeço. Cuidar do corpo é uma coisa mais


prática para os jovens. Faz muito bem. Mas não é bastante. O ser humano
não é o corpo. Ele possui o corpo, manobra com o corpo, cuida do corpo, mas
ele não é o corpo. Então o Yoga é um estilo de vida que cultiva o corpo, mas
cultiva também a mente, trabalha com as energias. Você não deixa de praticar
Yoga quando já não tem o corpo. Envelhecido, 89 anos, eu continuo
praticando Yoga, mas sem trabalhar o corpo. É muito pobre a concepção do
Yoga como ginástica física.
Minha vida não tem o viço, o brilho e as besteiras da juventude. Mas estou
feliz, trabalhando, aprendendo a cada hora. Aprendendo no sorriso e na dor.
Estou buscando uma verdade que me liberte, conforme prometeu Jesus
Cristo. A verdadeira liberdade é estar na unidade. Eu preciso deixar de me
sentir diferente dos outros. Cultivar o amor. O amor reaproxima, vence a
distância e a ignorância. A
felicidade, a turminha busca no filme das seis, no jogo do Flamengo, no jogo
da Bolsa. Nada disso dá felicidade. Por que? São muito fugazes. Não pode
ser feliz aquele que está se sentindo muito bem mas começa a ter medo de
perder o objeto que está lhe fazendo tanto bem.
O sofrimento não alcança apenas os maus, os perversos. O sofrimento
alcança os bons. O sofrimento dos bons, na minha observação, no meu
estudo, pode ser a oportunidade de afastar os futuros obstáculos. Não digo
talvez os últimos, mas os obstáculos mais sérios. Então aproveite o
sofrimento e veja a lição que ele vem trazer. Isso que nós estamos fazendo
agora é Yoga. Procurar ter uma visão mais verdadeira, mais bela, das coisas.”
(EU MAIOR, 2013)

Arlene, uma das alunas mais dedicadas, também estudante e professora de


yoga, elegeu Hermógenes como sua principal referência de herói/mestre em uma
dinâmica que propus aos alunos. Ela fez um depoimento muito especial relacionado
a esse professor, e também uma obra muito linda que revela sua ligação especial com
ele.

Comecei a praticar Yoga já há algum tempo quando estava atravessando um


problema de saúde.
E logo pude conhecer os livros do Professor Hermógenes e sua história, o
que foi um exemplo e uma inspiração para mim. Conheci sua trajetória de luta
e superação da doença através da prática de Yoga. E também todas as
dificuldades superadas por ele naquela época. Era militar e pioneiro no Brasil
nessa prática. Mesmo assim seguiu em frente aprendendo e ensinando as
pessoas a superarem seus problemas de saúde e seus desafios da vida diária
com muito amor, dedicação e simplicidade.
Aprendi com o Professor Hermógenes:
- Que o Yoga tem o poder de curar, de erguer, de apaziguar, de libertar...
- Que o Yoga através dos ásanas e pranayamas nos auxilia a desenvolver
maior consciência corporal, equilíbrio, flexibilidade e condicionamento para
uma vida melhor.
152

- Que o Yoga é o caminho....


E através dessa busca podemos encontrar o equilíbrio ideal entre o físico, o
mental, o emocional e o espiritual.
Vamos caminhar?
É por isso que o Professor Hermógenes é o meu herói.

Figura 44

6.10. “Acertando o Passo”

Um dos filmes mais importantes para meu estudo desse trabalho é “Acertando o
Passo” (Finding your Feet, 2018). Até o presente momento da escrita do TCC, este
longa-metragem ainda não havia sido exibido para as alunas. A intenção em exibir
esse longa-metragem foi a de incentivar a busca pelo novo na vida dos alunos da
UNATI. A trama do filme é simples: após ter sido traída pelo marido, a personagem
principal decide mudar-se para a casa de sua irmã que, por sua vez, insiste em levar
a protagonista às aulas de dança de salão de que participa. A partir disso, muitas
mudanças acontecem nas vidas de todos os envolvidos: novas relações, novas
descobertas, viagens, processos de perdão e cura e muita alegria.
O especial nesse roteiro é que o ponto de encontro – e de partida - para as
transformações ocorrerem foi um curso de dança para pessoas com 60 anos ou mais.
A história defende a importância do movimento e da arte na vida humana, assim como
o valor do encontro e das amizades. Tudo isso com o potencial de conferir suporte
emocional e combustível à resiliência para aqueles que precisam se abrir para o novo.
153

Assisti esse filme ano passado no cinema, e suas cenas clarearam minha visão sobre o que
tenho vontade de fazer na minha vida: projetos educacionais que impactem positivamente as
vidas humanas, na leveza, no bem e no afeto.

Figura 45

Na UNATI, incentivo os alunos a caminharem, um passo de cada vez, com


criatividade, empenho, ânimo e sem tanta autocobrança e desânimo. É uma imensa
satisfação ver os alunos cultivando amizade, se abraçando, compartilhando novidades
e se ajudando como amigos. Juntos formamos uma escola sem muros, uma
comunidade de aprendizagem que se estende para o whatsapp e para a vida.

6.9. Nossos passeios

Durante o ano letivo, nós vivenciamos alguns passeios:


 Fomos ao Centro Cultural da Índia na semana do Dia Internacional do
Yoga
 Fomos ao Sesc Pompéia na Exposição , no fim de julho
 Fomos ao Parque Ibirapuera, visitar o Pavilhão Japonês e praticar
meditação em um evento da Brahma Kumaris, de celebração do Dia
Internacional da Paz
 E passamos algumas tardes no gramado do Instituto de Artes da UNESP
tecendo nossas mandalas em fios de lã.
Na galeria de fotos, ao fim do trabalho,colocarei fotos dessas vivências.
154

A Plena Liberdade (Para Ana Paula Springer)


Que bom é ser espontâneo
Viver com sinceridade
Dançar como uma criança
Celebrar as amizades

Participar de cada encontro


Pra reencontrar a irmandade
Ir buscar a nossa herança
Que é a felicidade

Bom mesmo é ser intenso


Nessa busca da verdade
Em cada passo dessa dança
Que nos leva à eternidade

Esse universo é tão imenso


De tantas possibilidades
Que quem segue só avança
Expande em luminosidade

O caminho é para dentro


Pra quem tem sensibilidade
De encontrar grande beleza
Na alma, na divindade

Vamos viver com bom senso


Pra afastar toda maldade
Amar sua própria natureza
Sentir a plena Liberdade

27-03-2017
155

Capítulo 7. As artes nas aulas

Mas teus exercícios, pratica-os diariamente com a seriedade de um ritual e


com o zelo de um genuíno artista interessado em produzir uma obra genial. A
obra genial és tu mesmo, e o artista também!
Mestre Universal Kuut Hume (extraído do livro do Prof. Hermógenes:
Autoperfeição com Hatha Yoga)

Neste capítulo, vou explicitar um pouco mais como as aulas foram utilizadas nas
nossas aulas, enfatizando as danças circulares sagradas e as aulas de mandalas em
fios de lã – que foram as técnicas em que eu e os educandos mais nos aprofundamos.
Concordo com Tales Nunes (2017, p. 16), quando ele afirma que “A arte liberta,
ao elevar o indivíduo acima dele mesmo. E engrandece, ao trazê-lo de volta com um
novo olhar”. Identifico-me bastante com suas palavras no livro “Arte, Yoga e
Liberdade”, o qual acabei descobrindo nos últimos dias da escrita do trabalho. Ao ler
essa obra, consegui compreender melhor que não sou artista apenas pelo fato de
estar me graduando em artes e vivenciar por anos a linguagem da dança e
confeccionar as mandalas (além de ensiná-las também em minhas aulas fora da
UNESP). Sou artista também por utilizar meus dons, potencialidades, percepções e
intuições ao criar uma metodologia inovadora que exige de mim muita renovação,
criatividade e empenho para ofertar conteúdos tão bonitos e profundos aos
educandos.
Sou artista por me dedicar a tecer relações entre yoga e tantas linguagens
artísticas, e por permitir que os praticantes percebam que filmes, fotografias, músicas,
silêncios, coreografias, trabalhos artesanais e vivências corporais em grupo podem
não apenas trazer aprendizados edificantes sobre yoga e sobre as próprias artes
colocadas em vivência, mas também por auxiliar os educandos a acessarem suas
próprias potencialidades e “fontes de inspiração”, tal como o próprio Tales Nunes
afirma:
“Há muito de arte no Yoga e muito de Yoga na arte. A inspiração artística é
uma elevação. É um acender e ao mesmo tempo uma ascensão. Quando
expressa o sagrado, a arte reflete a própria fonte de inspiração. Quando
expressa o cotidiano, é a partir do estranhamento do artista e sua capacidade
de mergulho, sentindo em si aquilo que olha, ao mesmo tempo que ocupa,
sincronicamente, o papel de observador. Mesmo que expresse a dor, o
artista, no momento da criação, salta sobre ela e a transcende, para torná-la
materialidade.” (ibidem, p. 17)

Dessa forma, vejo que a inserção de um curso de yoga em um Instituto de Artes


156

viabiliza a instauração de uma comunidade de aprendizagem repleta de elevação,


vivacidade e também profundidade. Nós aprendemos muito sobre yoga e artes, sobre
as relações, sobre nossas próprias dores e dificuldades, mas também lidamos com
elementos novos e com as surpresas que sempre estarão colorindo as aulas. Sempre
há algo novo que se relacione com alguma arte.
Muitos dos educandos já são artistas, e as aulas podem abrir portas para que
eles resgatem lembranças de técnicas pelas quais cultivam apreço e interesse.
Lia, por exemplo, tem uma paixão imensa pela escrita, pela poesia e pela
literatura. Sayaka é fascinada por trabalhos de artesanato; após a primeira aula de
mandalas em fios ela produziu sete mandalas incríveis em sua casa com técnicas que
eu desconhecia. Arlene trabalha com tricô desde sua infância, e com as oficinas de
mandalas ela pôde resgatar essa memória e se aprimorar em um novo aprendizado.
Henrique já sabe tocar violão e ensinar danças circulares sagradas, e nas nossas
aulas ele compartilhou muito com o grupo – em relação ao que já sabia. Sônia Raquel
é professora de artes, e ela tem muito conteúdo para compartilhar conosco. Simone
Codo é artesã, e ama desenhar: tem muito talento com suas mãos. Esses são alguns
exemplos dos dons artísticos que essas pessoas maravilhosas vêm compartilhando
comigo nos nossos encontros.
A arte nos coloca no momento presente quando vivenciamos a fruição, a
contemplação estética, a produção, o processo criativo, um movimento fluido, um jogo,
uma cena ou o prazer de vivenciar uma experiência. É por isso que ela nos eleva, e
que ela pode nos ajudar a acessar o estado meditativo (a flor do yoga).
De acordo com Ana Mae Barbosa:

“O desejo de aprender e de investigar é análogo ao desejo ficcional.


Através da arte, o sujeito, tanto nas relações com o inconsciente como nas
relações com o outro, põe em jogo a ficção e a narrativa de si mesmo. Nisto
reside o prazer da Arte. Sem a experiência do prazer da Arte, por parte de
professores (ou mediadores) e alunos, nenhuma teoria de Arte-Educação
será reconstrutora. (BARBOSA, 2005, p. 3)

Com base nisso, posso afirmar que os aprendizados são infinitos e o campo de
possibilidades que se faz na oficina “Yoga, Arte e Autoconhecimento” é imenso. Eu e
os alunos aprendemos fazendo, refletindo, indo para nossas casas, conversando nas
redes sociais, levando o yoga para nossas vidas, percebendo nossas alegrias e dores,
e reconhecendo que a vida pode ser surpreendente até o seu último instante.
157

A arte é essencial em momentos de autotansformação, pois ela nos auxilia a


encontrar dentro de nós razões mais profundas para viver. Para os artistas, ela
impulsiona a construção de novos valores e formas de olhar o mundo, ao mesmo
tempo que resgata lembranças e insights de aspectos da existência que outrora
fizeram bastante sentido para nós. Para os educandos, ela complementa o significado
do yoga como filosofia e também como linguagem, como forma de estar no mundo e
de expressar aquilo que se é, cultivando yamas, niyamas, ásanas, dhyana e todas
essas partes da árvore no cotidiano.
Faço arte e yoga quando uno aos mãos em frente ao peito e digo “namastê”,
olhando para mim e para o outro na sala de aula. Faço arte e yoga quando decido
praticar yoga após o momento em que desenrolo o meu tapetinho e levo os valores e
princípios da prática para as minhas relações e atividades do mundo. Faço arte e yoga
quando lembro que preciso de uma boa postura a cada momento, para preservar
minha saúde e para cultivar um estado de presença efetivamente ióguico, atento,
meditativo. Faço arte e yoga quando me vejo diferente, com um olhar belo e ao mesmo
tempo enraizado diante do viver; não me coloco mais para baixo pois, diante de uma
melhor compreensão acerca do que eu realmente Sou e dos princípios do yoga, eu
me dedico a me elevar interiormente na direção da alegria e do amor próprio. As artes
e yoga são linguagens que têm o poder transformador de refinar os olhares
(lembremos do “-Me ajuda a olhar”, de Galeano), e isso é de imensa importância para
essa fase crucial da humanidade.

A arte é fundamental em processos de transformação, por isso muitos artistas


foram considerados além de seu tempo, visionários, exatamente porque
ousaram criar novos valores, sobretudo se atreveram a ver o mundo de uma
maneira diferente. E nunca o mundo precisou tanto de novos olhares, sob
perspectivas mais amorosas, mais sensíveis. Vejo o Yoga também como arte.
Arte de fazer o indivíduo reconhecer o belo em si mesmo. E como resistência.
Resistência a uma visão desencantada da vida. Nisso, arte e Yoga caminham
juntos, cumprindo funções afins tanto no âmbito de transformações pessoais
e sociais como na revelação do sagrado no íntimo de cada um. (ibidem, p.19)

Aqui estamos falando da beleza, da poesia, do otimismo, da esperança. Mas


sempre enraizados no yamas e niyamas – ou seja, para nos elevarmos à luz da
felicidade, temos em nós a compreensão fundamentada de que o amor, a não-
violência, a pureza no corpo e na mente, a autenticidade, a espontaneidade, a entrega,
o contentamento, a alegria e todas essas virtudes humanas precisam fazer parte de
nosso sadhana, ou seja, de nossa disciplina diária.
158

Por isso somos um time de corajosos. Somos aqueles que escolheram viver à
favor da vida. E queremos compartilhar isso com mais pessoas. Queremos um mundo
melhor.

7.1. Danças circulares sagradas

Dançar é algo que transcende culturas e épocas. É uma expressão tão natural
do ser humano, que se falar em dança traz imediatamente uma sensação de
familiaridade. Mesmo que você nunca tenha experimentado a dança, existe
um senso comum em relação ao seu conceito, senso este, que independe de
lugar ou período. (BERNI, 2002)

Figura 46

Dentro do cronograma do curso de “Yoga, Arte e Autoconhecimento”, escolhi


duas datas (23/9 e 30/9) para ensinar às alunas as danças circulares sagradas, com
a finalidade de expandir os horizontes dos conhecimentos relacionados ao yoga e,
sobretudo, despertar através da dança, a alegria, o entusiasmo e a vitalidade.
Aproveitei a ocasião da chegada da primavera para realizarmos uma celebração,
em conexão aos povos antigos que aproveitavam esse momento de equinócio para
se despedirem do inverno em sintonia com a esperança e a vivacidade da estação do
desabrochar das flores. Nesse dia, tivemos a presença de mais um homem além de
Henrique: Francisco, esposo de Moira. Ele foi um dos participantes mais envolvidos
com esta aula, e em certo momento ele explicou a todos na roda que a primavera é o
momento em que podemos florescer, e que isso significa “ser aquilo que somos, aquilo
159

que viemos ser nesse mundo. ”


Precisei me preparar bastante para conseguir dar conta de todo o conteúdo
proposto para essas aulas, estudando mais de 20 danças e todos os detalhes de
contagens de tempo, de passos e das maneiras ideais de ensiná-los com clareza e
didática. Felizmente, as aulas foram um sucesso tendo em vista os sorrisos no rosto
e a alegria explícita em todos no grupo. Para alunas como Débora, a semente das
danças circulares foi plantada pela primeira vez. Em nosso grupo de WhatsApp, ela
se coloca:
“Não tinha ideia como eram as danças circulares. Gostei demais,
muito obrigada, Ricardo, e a todos que participaram dessa experiência tão
prazerosa. ”
(Depoimento de Débora, em 4/10/2019)

7.1.1. Minha história com as danças circulares sagradas

Tive a oportunidade de aprender esse conteúdo em oficinas destinadas a


educadores na Universidade Aberta ao Meio Ambiente e à Cultura de Paz (UMAPAZ),
localizada no Parque Ibirapuera. Essa escola serviu como um importante
complemento aos meus estudos universitários desde 2008, quando me matriculei em
um minicurso denominado “Desenhando com o Lado Direito do Cérebro”. Após essa
vivência, foram mais de vinte diferentes oficinas em que me matriculei – a mais
profunda delas chamada Gaia Education, um curso advindo da ecovila sueca Findhorn
com 120 horas de carga horária e a presença de colegas e professores com uma
potência imensa para pensar, sentir e agir a transformação do mundo.
Pude estudar com os estudiosos Estela Gomes e Samuel Souza de Paula em
“Danças Circulares e Sabedoria dos Povos”, “Danças Hindus”, “Danças Celtas” e
“Ciranda de Saberes”, com conhecimentos maravilhosos que me permitiram ter mais
instrumentos pedagógicos e artísticos para enriquecer minhas aulas de yoga e artes.

Para mim, as danças circulares sagradas encantam aqueles que estão


dispostos a despertar potenciais, dons e talentos a partir do movimento e do encontro
com o outro. Nem todos conseguem se identificar com essa linguagem, talvez por
timidez, ou talvez por encontrarem dificuldade nos passos. Entretanto, é certo que
após uma aula de danças em roda, o participante se sentirá mobilizado, afetado.
Uma das propostas é justamente facilitar os processos de conexão consigo
160

mesmo, com o outro e com o grupo. Além de possibilitarem um constante meio de


expressão de emoções e sentimentos através do corpo. A inglesa, Anna Barton, a
qual foi residente da comunidade Findhorn, define que:

No apoio amoroso e compreensivo de um curso de Dança Sagrada,


nós podemos nos permitir ser vulneráveis, para expressar emoções que até
agora nós empurramos para o fundo do nosso interior. Ao liberar essas
energias em um ambiente protegido, nós podemos começar a trabalhar nossa
abertura e lidar com esses problemas. (BARTON, 2006, p. 77).

Em relação ao ensino de yoga, é possível observar que as danças circulares


cultivam uma semelhança metodológica por conectarem corpo e mente junto ao
movimento, à música e ao silêncio. Os focalizadores¹ das danças incentivam que os
participantes pratiquem a atenção plena e mantenham-se completamente presentes
naquilo que estão fazendo dentro da roda. Há recomendações para momento das
aulas, assim como nas práticas de yoga – e elas são semelhantes:

 Há o momento e a postura correta para ingressar no ambiente de prática.


 Não há problema em errar o passo, ou a postura (ásana). Na realidade,
aprendemos que não há erro: o importante é estar lá, e tentar. E aproveitar a ocasião,
curtir o momento.
 É importante que os movimentos sejam feitos com tranquilidade, sincronizados
com um ritmo respiratório tranquilo

As danças circulares levam o aluno a vivenciar dharana (concentração, sexto


passo dentro do Astanga Yoga), e podem inclusive permitir a vivência de dhyana
(meditação). “As Danças Circulares são meditativas, na medida em que são
instrumento para promover nossa concentração e focar nossa atenção (...)” (EID¹,
1998, p. 156).
Isso pode acontecer quando o participante se entrega completamente à
experiência, desprendendo-se de quaisquer preocupações e ao mesmo tempo
conseguindo se conectar à música, ao grupo, e a sensações de harmonia e alegria.
Na realidade, chegar nesse estágio é um dos principais objetivos dessa prática, a qual
pode ser caracterizada como uma meditação ativa:
161

“As técnicas de meditação ativa são aquelas que, através do movimento, nos
levam a conexão com o nosso ser interior divino. Entre as técnicas ativas,
temos o hoje popular Tai Chi Chuan; algumas formas de Yoga; a Euritmia e,
surgindo agora no hemisfério Sul, as Danças Sagradas” (BERNI, 1998, p. 63).

Por fim, como afirma Marizilda Eid, “(... ) todas as Danças Circulares são um
convite para olharmos para nos mesmos e para o outro pois, afinal, estamos num
círculo e sempre existirão pessoas a nossa volta.” (EID, 1998, p. 156).

7.1.2. Danças circulares e a Cultura de Paz

Como aluno da UMAPAZ e transmissor dos conhecimentos ali assimilados,


aprendi a conectar as danças circulares com os princípios da Cultura de Paz. Na
realidade, sempre digo aos alunos que essas coreografias e músicas já fazem parte
da bagagem mundial da cultura de paz, e todos podem não apenas vivenciá-las, mas
também, citando as corretas fontes, ensiná-las aos grupos de que fazem parte.
“As Danças Circulares retomam movimentos, ritmos e passos inspirados na
sabedoria dos povos e na enorme diversidade cultural do planeta podendo contribuir
na educação, saúde, cultura e áreas sociais. As Danças Circulares são valiosas para
trabalhar os valores da cultura de paz além da sensibilização para as questões
socioambientais promovendo as qualidades da alegria, união e partilha. ” (GOMES &
PAULA, 2015)
Como focalizador dessas danças, posso então auxiliar os alunos na assimilação
dos princípios fundamentais do yoga, sobretudo os yama e niyama, trabalhando
ahimsa (não-violência), ishwara pranidhana (qualidade da entrega ao momento
presente), santosha (estado interior de contentamento e gratidão), entre outros
valores do Astanga Yoga de Patânjali.
Para mim, é realmente uma oportunidade especial poder ensinar as seguintes danças
circulares inspiradas nos significados dos mantras do yoga, as quais aprendi com
Estela Gomes e Samuel Souza de Paula.

 Bliss, cantada por Manesh de Moor, coreografada por Cristiana Menezes


 Govinda Hare, cantada por Krishna Das, coreografada por Peter Valance
 Flower of Compassion, cantada por Existence & Margot Reisinger, coreografada
por Samuel Souza de Paula
162

 Om Namo Narayanaya, cantada por Deva Premal, coreografada por Friedel


Kloke-Eibl12

Poder compartilhar o conhecimento destes mantras, e corporifica-los, foi


realmente engrandecedor. Os mantras são ferramentas linguísticas de aprendizado
dos ensinamentos do oriente encontrados nas escrituras antigas da Índia, tais como
os Vedas, os Upanishads, os Tantras, etc. Muitos deles se mantêm vivos até hoje em
virtude de suas diversas versões musicadas. Suas traduções e interpretações
fornecem conteúdos importantes para os estudantes de yoga. Considerada a maior
líder humanitária do mundo, a indiana Mata Amritanandamayi (Amma), diz que a
maioria dos praticantes de meditação consegue acessar mais rapidamente o silêncio
e a paz desejados através da mentalização e do canto de mantras.

“A atenção é focalizada nos mantras como padrões sonoros, dissociada de


outras preocupações. Acredita-se que seus padrões sonoros produzem
vibrações tranquilizantes e harmoniosas na mente. Para alcançar este
objetivo, os mantras são cíclicos, ou seja, sua última sílaba se emenda
novamente à primeira. ” (GONTIJO, 2011, p. 38).

Um momento marcante que posso destacar foi o encerramento de nossa


primeira aula de danças circulares, no dia da entrada da primavera. Dançamos o
Moola Mantra, pela música “Bliss”, de Manesh de Moor. O significado do mantra traz
os termos sânscritos: om (consciência), sat (verdade), chit (existência) e ananda
(felicidade). Antes de dançarmos, ensinei os passos e solicitei que os alunos
prestassem bastante atenção a tudo: aos sons percussivos, à melodia, a cada passo
dado, aos toques das mãos dos colegas, à respiração, ao silêncio e às sensações.
Pude perceber que, por ser a última dança, o grupo realmente se dedicou a dar o
melhor de si naquele momento, em presença e disponibilidade. Na realidade, pude
constatar que consegui atuar não apenas como um educador, mas como um regente
de uma orquestra – mobilizando pensamentos e emoções, unificando o grupo. Tive a
oportunidade de liderar a construção coletiva de um estado de presença caracterizado
por fraternidade, amizade e respeito, além de compartilhar com eles um conteúdo
complexo dentro da bagagem clássica da sabedoria oriental. Momentos como esse

12 12
Aprendi essas danças circulares na UMAPAZ (Universidade Aberta do Meio Ambiente e da
Cultura de Paz), em cursos livres coordenados por Estela Gomes.
163

dificilmente poderão ser esquecidos. Sobre isso:


a energia gerada ao dançar de mãos dadas no círculo é muito forte. Em
determinados momentos pode ser que aflore emoções nos participantes que
antes estavam ocultas, possibilitando uma catarse. Além disso, na roda todas
as pessoas se tornam um, e compartilham da energia do conjunto, é uma
união de forças, que faz com que cada um saia dali mais forte. (FRANCÊS e
JEFFERIES, 2004).

As danças circulares auxiliam os participantes das rodas a cultivar esperanças


e a viver em sociedade com maior sensação de pacificação e alegria. É realmente
valioso integrar os conhecimentos das danças circulares dentro das aulas – e pode
servir não apenas para aqueles que ensinam artes ou yoga, mas também para os
professores de ciências, de matemática, de português, inglês, etc. É urgente que esse
conhecimento seja espalhado para mais pessoas, tendo em vista seu potencial
transformador.

7.1.3. Danças circulares e a conexão com o corpo, com a arte e com a cultura

O aprendizado das danças circulares, assim como o do yoga é um resgate do


saber ancestral. Integrar essas linguagens ainda é algo novo, tendo em vista que as
danças circulares sagradas chegaram nos anos noventa no Brasil e ainda há muitos
instrutores de yoga que não conhecem essas coreografias.

Sempre lembro meus alunos que todos já somos iogues desde antes de nosso
nascimento no planeta: por nove ou oito meses ficamos na barriga de nossa mãe em
estado meditativo, em ásana, mas não parados pois às vezes nos movimentávamos
em busca de conforto e estabilidade. Quando bebês, dentro ou fora dessa nossa
primeira casa, nós éramos plenos, felizes. Respirávamos com vitalidade, praticando a
respiração abdominal, lenta e profunda. Em nosso centro gravitacional, estávamos
conectados por um cordão àquilo que representava nossa maior conexão física com
a vida. É por isso que acredito tanto no yoga e na dança como ferramentas para o
retorno ao equilíbrio, já que, como humanos, estamos sempre querendo retornar à
paz interior. Cada um à sua maneira, alguns desenvolveram vícios e hábitos
perniciosos, mas outros se encontram com semelhantes na busca por atividades
saudáveis como essas que aqui estamos estudando.
O corpo pode, então, ser considerado nosso primeiro objeto de
autoconhecimento e por isso é essencial que, além de cuidar da saúde física, é
164

importante que seja cultivada a consciência corporal a partir de vivências que


estimulem um contato gentil e amoroso para com essa estrutura feita de músculos,
ossos, nutrientes e água.

O primeiro elemento da dança é o corpo. Na ciência de se conhecer


através da arte da dança, foi o corpo o primeiro elemento, pois a exploração
do espaço, exterior e interior, iniciou-se com ele. Foi o que pôde ser
observado na tradição dos índios brasileiros. Para os tupinambás e os Tupis-
guaranis, o ser humano é uma extensão do “corpo-som do ser”, o corpo
humano, “flauta”, deve, portanto, ser afinado para manifestar-se com
perfeição. (BERNI, 2002, p. 26).

Em antropologia aprendemos com Marcel Mauss que “O corpo é o primeiro e o


mais natural instrumento do homem. Ou mais exatamente, sem falar em instrumento,
o primeiro e mais natural objeto técnico e ao mesmo tempo meio técnico do homem é
seu corpo” (MAUSS, 1974, p.217). Em suas pesquisas, ele explica que em todas as
culturas os seres humanos encontraram formas de expressão a partir de técnicas do
corpo, por motivações da regras sociais, da crença e da conexão com a natureza.
Nessa linha de pensamento, a professora Estela Gomes escreveu:

Os povos antigos dançavam para celebrar as mudanças de estações, os


casamentos, as colheitas e em vários momentos importantes do grupo a referência
era o círculo e a comunidade reunida em torno de um centro comum. O centro
determinava um espaço de equidistância entre cada pessoa e o grupo como um
todo; os integrantes da comunidade, independentemente de sua faixa etária,
compartilhavam os valores daquele grupo e de sua realidade. Dançar fazia parte da
vida das pessoas e conferia saúde, ritmo, união e harmonia a todos. Revisitar as
danças inspiradas nas culturas “dos povos da tradição” é compreender o que era
importante para aquela comunidade, trazendo ao presente valores preciosos e
tantas vezes esquecidos como respeito, generosidade, união, cooperação e
produzindo novos sentidos para a vida e o viver. (GOMES in UMAPAZ, 2010, p.
183)

Dessa forma, com a prática artística e corporal da dança em união aos


ensinamentos do oriente, podemos resgatar uma genuína conexão com a
humanidade em todos os períodos da História. Quando educadores se apoderam de
tais ferramentas, eles podem resgatar qualidades essenciais frequentemente
abandonados pelas sociedades atuais: a afetividade, o gesto carinhoso, a
sensibilidade, o sorriso receptivo e todas as manifestações expressivas geradas pelo
contato com o outro. Estes elementos, aliás, são especialmente valorizados por mim
e pelas alunas da UNATI – não somente de minhas aulas, mas também nas de meus
colegas.
165

Quando ensino as danças circulares sinto-me habilitado a viajar para além da


Índia, e recebo a chave para apresentar a partir do corpo os aspectos culturais que
nos conectam como humanos. Posso, por exemplo, ensinar os passos das cirandas
brasileiras com músicas contemporâneas tais como “Gandaia das Ondas/Pedra e
Areia”, na voz de Luiza Possi. Assim, consigo ampliar o repertório de música popular
brasileira, e incentivar a admiração e o respeito por nossa própria manifestação
artística. Posso também apresentar a ancestralidade andina em um mantra para a
Mãe Terra (Madre Tierra, Pachamama), a fim de incitar uma reflexão pertinente sobre
a importância de cuidarmos de nosso planeta, e lembrar que, de acordo com a teoria
de Gaia de James Lovelock, ela é um organismo vivo e precisa de todo o cuidado
humano para que se mantenha preservada. Em suma, nessa Mandala de Conexões,
as linguagens artísticas e a linguagem do yoga podem realmente contribuir para
aprendizados. O importante é que o educador se capacite para dominar algumas
ferramentas e se permita experimentar com seus educandos, sem receio de errar ou
de desagradar, mas sempre deixando claros os seus objetivos e trabalhando a partir
da simplicidade.
De acordo com Estela Gomes, “Conhecer as tradições culturais que estruturam
os passos e gestos simbólicos que fazemos ao dançar possibilita uma melhor
assimilação, compreensão e respeito diante da diversidade; auxilia no
desenvolvimento de uma visão de mundo pacifica e sustentável. ” (Ibidem)
Com tudo isso, posso concluir que o resgate dos saberes culturais dos povos
assim como a inserção metodológica do movimento contemporâneo nas vivências de
roda gera estímulos às percepções de indivíduos e grupos, de maneira a fortalecer o
autoconhecimento e a formação de vínculos, além de contribuir para a promoção da
saúde integral.
As danças circulares nessa fusão metodológica permitem a ressignificação de
valores e crenças e, por fim, têm o potencial de contribuir para o fortalecimento da
autoestima da pessoa. É por essas razões que, tanto elas quanto o yoga atualmente
estão sendo inseridos pelo Sistema Único de Saúde em unidades de atendimento,
além de serem valorizadas pelas gestões dos parques municipais na cidade de São
Paulo e de instituições importantes como o Sesc. Sem dúvida, muitas pessoas em
todo o planeta testemunham e sentem os benefícios de práticas que envolvem – e
enaltecem - toda a multiplicidade que é o ser humano.
No nosso primeiro encontro de danças circulares, em 23/9, fizemos uma linda
166

celebração pela chegada da primavera. Foi uma aula leve, dinâmica, e cheia de vida
na qual ensinei 8 danças que, em geral, os alunos consideraram de fácil assimilação.
No encontro seguinte, do dia 30/9, ousei ensinar danças um pouco mais
complexas e vejo que exigi bastante do corpo físico e também do raciocínio dos
praticantes. E eu também precisei me esforçar muito pois eu ainda não havia treinado
tanto quanto gostaria o ato de lecionar essas coreografias. Nesse dia, eu me senti um
pouco mal, me cobrei e achei que a aula não fluiu com tanta naturalidade. Por outro
lado, sei que propus um desafio aos praticantes, uma novidade, uma experiência que
os levou a tentar. Sempre recordo os alunos que, dentro da proposta do yoga, tentar
já é conseguir. Não é necessário fazer as coisas com perfeição: esse não é o objetivo
da prática. Mas tentar, se superar, galgar passos na direção do aprendizado
renovador, e tentar fazer isso com alegria e tranquilidade, isso sim pode entrar em
concordância com os princípios do yoga.
Ensinar dança é algo muito especial para mim. Quero estudar mais para poder
me aperfeiçoar e para solucionar dúvidas pedagógicas que ainda tenho. Sei que a
dança nos tira do lugar comum, e nos convida ao movimento consciente de todo o
corpo. E isso transforma a mente. Como o Professor Hermógenes diz, “Dança é coisa
séria. Mesmo que não se trate de dança mística ou dança clássica, mesmo a dança
despretensiosa dos jovens, do ponto de vista de propiciadora de saúde mental, dança
é coisa séria.” (2012, p. 198)
Trazendo o saber de Paulo Freire novamente à luz, em Pedagogia da
Autonomia:

“O fundamental é que o professor e alunos saibam que a postura deles, do professor


e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto
fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam
epistemologicamente curiosos. Neste sentido, o bom professor é o que consegue,
enquanto fala trazer o aluno até a intimidade do movimento de seu pensamento.
Sua aula é assim um desafio e não uma “cantiga de ninar”. Seus alunos cansam,
não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento,
surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas.” (FREIRE, 2002, p. 34)

Tenho certeza de que nessas aulas cheias de movimento e de novos conteúdos,


os alunos se sentiram despertos. Não houve sono. O cansaço da experiência é
justificado pela nossa vontade em trilhar e ritmar os passos da dança da vida, sozinhos
e também unidos na grande roda. Cansamos, mas nos satisfazemos enquanto
ensinamos e aprendemos. E guardamos em nossos corpos eternamente a lembrança
167

desses círculos de paz e de conexões. Sobre os momentos difíceis que vivenciamos,


transcrevo aqui as palavras do depoimento da aluna Lia após a segunda aula de
dança circular:

“As dificuldades existem para que os desafios sejam vencidos com


superação.

O resultado final é MUITO gratificante”

(Lia Meira, 30/9/2019, por whatsapp)

Finalizo com um último conselho de Hermógenes a todos nós: “Dance, meu


amigo de meia-idade. Dance, meu velho. Dance, vovô. Dance, imite seu netinho.
Livre-se do camisolão frustrador. Só não se exceda, pois seu coração não está para
exageros, mas, respeitadas as condições de saúde e idade biológica, dance.” (ibidem,
p.199)

Trecho de depoimento de Henrique, aluno bastante envolvido com as danças


circulares sagradas. Ao final do trabalho, você pode ler o depoimento completo.

Existem danças com caráter mais meditativo e instrospectivo. Outras sao


mais coreografadas e expressivas. Todas tem seu devido valor e intenção de
tocar o coração dos participantes dentro ou fora da Roda. Todos são
beneficiados pela energia contagiante presente ! Sempre com a atitude
voluntária de criar esse movimento humanistico. Acredito que a função real
das Danças circulares são verdadeiros rituais xamanísticos de Cura direta e
indiretamente para a sinergia da localidade e daquela comunidade. Parece
que aquelas pessoas só se reencontraram para dançar novamente nessa
vida ! Encontro de almas mesmo! Assim como a prática da Yoga. É pra Alma.

(Depoimento escrito por whatsapp por Henrique, no dia 20/10)


168

Figura 47

Figura 48
169

Figura 49

Figura 50

7.2. As mandalas em fios de lã, tecendo os novos caminhos

Essas mandalas, os olhos de deus dos indios huichol mexicano, coloriram nossas
aulas do primeiro e do segundo semestre. Foram vivências de muitas descobertas,
que nos trouxeram encantamento e também nos convidaram à superação de
dificuldades quanto ao fazer artístico.
Ensino os “ojos de dios” desde 2013; tenho muito prazer trabalhar com a lã
sintética e com os gravetos e palitos de bambu que são utilizados como base para a
confecção da mandala. O nome da arte-educadora que me ensinou é Mila Bottura,
170

uma pessoa incrível que em uma tarde de sábado presenteou seus amigos com uma
oficina gratuita em um parque da Avenida Paulista. A descoberta dessas mandalas foi
tão engrandecedora para mim que decidi ir buscar aprofundamento com a Kátia
Erbiste, da Kamomilla Mandalas, que ministrou um curso de 16h/aula na Escola Arte
de Ser, na Lapa. Nesse curso, aprendi a tecer uma mandala grande, em uma estrutura
de madeira com cinquenta centímetros de diâmetro.
O significado deste símbolo é ancestral e xamânico: são objetos sagrados que
os pais da comunidade Huichol ofertam a seus filhos na intenção de assegurar-lhes
proteção espiritual. Foi isso o que aprendi com a Kátia e com a Mila.
Na mandala simples, de quatro pontas, cada extremidade representa um
elemento da natureza, e o centro representa o universo, o divino interior para cada
um, o centro da vida permeado por equilíbrio, foco e paz. Esse lugar central,
representa também, de acordo com a cultura xamânica, o mistério da natureza, a força
maior do Universo. “O UNO, o centro da mandala, foge a toda representação
intelectual, e vive, contudo, dentro de todos nós. Não poderemos encontrá-lo com a
ajuda da nossa vontade e do nosso intelecto, embora os dois participem do processo
e do caminho, nele adquirindo sentido e função.” (DHALKE, 2014, p.13)
Ao tecer as mandalas em fios de lã, iniciamos do centro ao enlaçarmos dois
palitos de tamanho igual ou semelhante. Em seguida, com o domínio de técnicas
simples, vamos expandindo o tamanho dessa mandala dando voltas que recobrem
essas estruturas de madeira ou bambu. Em pouco tempo, percebemos a forma de um
losango, e podemos trocar de cor sempre que quisermos. O trabalho acaba quando
os palitos são completamente preenchidos pelas lãs. Essa é a primeira técnica,
estruturada a partir de dois palitos; mas há técnicas para três, quatro ou até mais.
Ao adquirir a experiência, o artista pode ousar tanto na quantidade de palitos
quanto na complexidade das técnicas – e o interessante desse aprendizado é que ele
pode ser adquirido por tentativa e erro e também por intuição. Para aqueles que têm
vontade e paciência, as possibilidades de criação são muitas. Não é uma técnica que
exige muita habilidade manual, mas sim perseverança e conexão com as cores para
que a escolhas delas seja apropriada e afinada com o próprio gosto da pessoa.
As alunas adoraram. Algumas duvidaram de seus potenciais antes de iniciarem
a primeira aula de mandalas, mas houve muito sucesso na execução, por parte de
todos.
Esse foi o primeiro trabalho manual que eu aprendi a executar com gosto e com
171

confiança, e eu quis utilizar essa proposta como impulso para passar esse
conhecimento adiante aos meus amigos, alunos, colegas e familiares para,
posteriormente, abraçar as mandalas como eixo permanente de meu trabalho como
arte-educador e como instrutor de yoga e meditação. Já são mais de seiscentas as
pessoas que ensinei!
Esse é um trabalho corporal, de cuidado com o corpo físico, sobretudo com
relação aos punhos e dedos das mãos que são muito utilizados. Sempre precisamos
alongá-los, antes e depois do momento de tecer. É preciso que se observe a postura.
Sempre peço às alunas para se sentarem em algumas almofadas ou na cadeira, e
tentarem manter as mandalas em frente ao coração, como um convite para não haver
uma flexão demasiada na coluna cervical.
Esse é um trabalho mental, pois exige concentração (dharana). Exige calma,
também, pois assim como nas práticas de hatha yoga, nas vivências de meditação e
nas danças circulares, o ato de tecer mandalas nos coloca na condição de
observadores de nossos próprios pensamentos enquanto diminui os nossos ritmos,
os ritmos mentais e respiratórios.
Sempre brinco que além de formar artesão, eu também formo oficineiros.
Convido todos os alunos a compartilharem esse conhecimento com pelo menos mais
cinco pessoas. Eu proponho dizendo “ – Vocês topam passar adiante essa sabedoria
indígena, comprometendo-se a ensinar pelo menos mais cinco pessoas?”.
Felizmente, a resposta sempre foi afirmativa.
Nos dias de mandalas, um aprende com o outro. Eles me ensinam muito. Como
os materiais são de fácil aquisição, os educandos podem tecer as mandalas em casa,
e trazer para as aulas para mostrar seus trabalhos e trocar informações acerca das
diversas possibilidades de construir o seu próprio símbolo de proteção.
Fizemos exposição de nossos trabalhos em uma árvore do Instituto de Artes, e
em algumas outras árvores na entrada do prédio. No fim deste ano, após a entrega
do TCC, realizaremos uma exposição maior: já são mais de sessenta as mandalas
que iremos pendurar ao ar-livre!
A querida Lia, com quem tenho contato desde as aulas que dei no primeiro
semestre de 2017, cultivou um afeto imenso pelas mandalas em fios. Ela já me ajudou
muito ao ensinar outras colegas da UNATI, me dando uma grande assistência, com a
qualidade de sua imensa paciência. Ela criou técnicas novas, assim como sua amiga
Sayaka.
172

E até mesmo a aluna Ilsa, sempre com contribuições cheias de ensinamentos e


experiência de vida, que tinha certa resistência com trabalhos manuais, gostou muito
de vivenciar esse aprendizado.

Em alguns dias nós tecemos mandalas ao ar livre, no gramado do Instituto de


Artes e em frente à cantina, interagindo com o público da UNESP – em algumas
ocasiões até mesmo convidando alunos e funcionários a sentarem conosco e
aprenderem a tecer.

Carl Jung estudou as mandalas com profundidade e, através de seus estudos,


concluiu que as mandalas auxiliam o ser humano na reconciliação com aspectos
interiores . São símbolos que, ao serem trabalhados nas aulas de artes, podem trazer
pacificação e aliviar sintomas de estresse e ansiedade por justamente incentivarem o
ocorrência de um processo de retorno ao centro, na busca pelo centramento, pela
pausa, e por uma vivência que abrace também o inconsciente.

De acordo com Carl Jung: “A palavra sânscrita mandala significa “círculo” no


sentido habitual da palavra. No âmbito dos costumes religiosos e da Psicologia,
designa imagens circulares que são desenhadas, pintadas, configuradas
plasticamente, ou danças” (DIBO, 2006 apud JUNG, 2002, pp. 385-387).

Depoimento da aluna Miriam sobre as mandalas:

Penso que as mandalas me proporcionaram um bem-estar muito


grande. Elas colocam a criatividade interior em movimento, e assim penso
que essa prática ajuda a diminuir o estresse

(Depoimento redigido em 20/10, por whatsapp)


173

Figura 51

Figura 52
174

Figura 53

Figura 54
175

7.3. Mantras, música e silêncio

Yoga é como música: o ritmo do corpo, a melodia da mente


e a harmonia da alma criam a sinfonia da vida.
B.K.S. Iyengar

Em muitas de nossas aulas nós vivenciamos a experiência do estudo, da


entoação e do canto de mantras ligados à sabedoria hindu, inseridos no aparato
cultural da filosofia do yoga. Dentro do sânscrito, “man” significa mente e “tra” significa
controle. Os mantras auxiliam os praticantes de yoga na conquista de dharana, a
concentração mental. De acordo com Gerson D´Addio da Silva:

“Segundo o Léxico de Filosofia Hindu, o termo mantra, de modo geral,


significa juízo, sentença, palavra mágica (Kastberger, 1978). Com a utilização
de sentenças em práticas espirituais, popularizou-se a conotação de mantra
como uma combinação e palavras ou sons com um significado e potência
espirituais (...) “Os mantras foram incorporados por várias correntes de Yoga
de tal modo que hoje quase todos os praticantes recitam suas palavras
sagradas”” (SILVA, 2009, p. 176-177)

O aprendizado dos mantras conecta muitos alunos da UNATI a uma cultura até
então desocnhecida, e trazem às aulas a experiência do canto em um novo idioma.
Para muitos alunos, há uma sensação de satisfação, encantamento e muita paz.
Gosto de realizar parcerias com amigos músicos ou estudiosos de meditação
com mantras para que eles compareçam às aulas da UNATI e ensinem os mantras
de que gostam. As minhas colegas de profissão Drica Ribeiro, Ana Lygia Teixeira e
Cecilia Bianchini marcaram presença convidando os alunos a entoarem essas
palavras sânscritas e me ajudaram nessa tarefa de compartilhar esse conhecimento
tão especial.

7.3.1. As músicas de paz: presentes para o dia-a-dia

Além dos mantras, gosto também de apresentar aos alunos canções de diversos
lugares do mundo que transmitem mensagens de harmonia e paz. Na maioria das
aulas me empenhei em imprimir as letras das canções para que pudéssemos cantar
juntos e também para que os educandos levem esse material para casa. Empenho-
me para enviar essas músicas por whatsapp e solicito a todos que não apenas
escutem essas músicas sempre que quiserem, mas que enviem às pessoas de quem
176

gostam.
O músico e educador Flavio Passos canta em sua música “Presente” o seguinte
trecho: “Venho assim lhe trazer um presente para que te lembres de teu lar / ao
vencedor da escola terrestre vem a luz do amor libertar”. Resgato essa poesia para
ilustrar minha intenção ao fazer questão de sempre trazer o elemento musical para as
aulas, pois eu acredito que elas também auxiliam o praticante em sua concentração
não apenas na sala de aula mas sobretudo no dia-a-dia. Essas músicas poderão
ajudar os alunos a recordarem algumas boa sensações que sentiram nas aulas e as
palavras repletas de positividade contidas em suas letras podem alegrar os dias tristes
e difíceis.
As músicas mais presentes em minhas aulas são as dos músicos
contemporâneos considerados “músicos de rezo” no Brasil: Flávia Wenceslau,
Chandra Lacombe, Nei Zigma, Daniel Moray, Flavio Passos, George Lucena,
Nadabhaktas, Paullo Henrique, Vivian Amarante, Cássia Maria e Marie Gabrielle.
Dentre os músicos internacionais, os que mais se destacam em minhas listas de
músicas são: Krishna Das, Snatam Kaur, Deva Premal, George Harrison, Beatles e
Guru Ganesha Band.

7.3.2. O silêncio

Além da música, há mais um elemento de enorme relevância para a conquista


da concentração (dharana) e do estado meditativo (dhyana), que é o silêncio. Há
sempre alguns instantes de silêncio total no período de relaxamento (em savásana),
no fim das práticas. Esse momento é essencial para auxiliar o praticante a acessar a
quietude mental e afastar-se de todas as referências do mundo exterior. Também
incentivo que as alunas parem alguns minutos todos os dias para permanecerem com
os olhos fechados, em silêncio, sentindo a respiração e as sensações que correm pelo
corpo.
O silêncio, em complemento à música – em complementação às técnicas do yoga
– pode ajudar muito a pessoa a acessar a sua própria calma e aliviar sintomas que se
associam à ansiedade e ao estresse. Judith Lasater, fundadora do método “Relax and
Renew”, o qual inspirou a criação da metodologia da yoga restaurativa, diz que a
177

Quietude é a maior das revelações. Eu falo que [com ela, você] pode saber o
quão avançada sua prática é, e o que eu quero dizer com avançada é quanto
de yoga tem entrado em você, de qual profundidade. (...) O movimento só
tem valor no contexto a quietude. As páginas em branco de um livro só tem
significado porque a tinta da caneta é preta. Então conseguimos encontrar a
quietude dentro de uma postura ativa e podemos encontrar o dinamismo de
uma postura parada, esse éo yin e yang, isso é viver entre as respirações, é
escutar a música que existe entre as notas. (LASATER, apud DERZETT,
2015, p. 123)

Em todos os nossos encontros na UNATI eu busco propor essa dança das


polaridades, e mostrar que, com calma e harmonia, há tempo para tudo na vida – e
que o descanso é tão importante quanto o movimento. Talvez até mais. E que o
silêncio é tão importante quanto o barulho. Para os idosos, e aqueles que estão se
aproximando dessa fase da vida, é altamente recomendável que haja disciplina no
planejamento semanal para que haja muitos momentos de solitude e de restauração
de energias, para que o ritmo da vida torne-se a cada dia mais harmonizado , com a
mente, o coração e os pensamentos em sincronia, com sensações de paz. A atriz
Jane Fonda, em entrevista relatada no livro “A Bela Velhice”, de Mirian Goldenberg,
recomenda aos idosos a quietude e a autoaceitação:

Você tem que ficar um pouco quietinha, prestando atenção em você. Se


preparar para encarar uma nova realidade. Não tentar permanecer
superjovem, saber que as coisas estão mudando e entender para onde quer
que essas mudanças levem você. Hoje sou bonita de outra maneira. Não dá
para pensar que o tempo vai voltar, o importante é o agora. (FONDA, apud
GOLDENBERG, 2017, p.51)

A minha intenção, com as aulas, é justamente essa: a de ajudar as alunas a se


amarem como são, aceitarem as condições do tempo e as atribulações no mundo,
abrindo-se sempre para os novos ciclos, reconhecendo seu valor, sua arte, sua idade.
Por isso o silêncio, a música, os mantras, a sensibilidade e a harmonia são elementos
que não podem faltar nas nossas práticas semanais.

7.4. Relato de uma experiência: um momento especial de acolhimento

De todas as aulas especiais, destaco aqui o dia 21/10, quando convidei a


musicista e professora de yoga Drica Ribeiro para tocar música instrumental na aula
de hatha yoga da UNATI e em seguida descermos para a biblioteca para realizar uma
roda de mantras e cantos de paz. Foi muito especial. Aproveitei para chamar os
178

participantes atendidos do projeto Artinclusiva UNESP (do qual fui educador bolsista
por dois anos) e, junto aos alunos da UNATI e a todos os envolvidos, cocriamos um
momento de inclusão, acolhimento e muita paz. Foi uma imensa satisfação.
Os jovens do Artinclusiva, os quais são pessoas tidas como deficientes (por
apresentarem questões de comprometimento cognitivo e por serem psiquiatricamente
tratados) em geral permanecem em apenas um ambiente da universidade vivenciando
as propostas artísticas propostas pelos voluntários e bolsistas envolvidos nessa
extensão universitária. Como eu já tenho certa experiência com o projeto, decidi
integrar as turmas e levar todos para um lugar novo, a biblioteca – em uma ocasião
celebrativa: a semana da biblioteca na UNESP.
Creio que todos ficamos surpresos com a maneira como as coisas aconteceram.
No início um pouco agitados, os meninos que são diagnosticados como autistas
conseguiram se acalmar e participar da atividade com os cantos. E a Drica Ribeiro,
que estava conduzindo as dinâmicas de cantos conseguiu com muito respeito e
carinho lidar com algumas intevenções sonoras e com a diversidade do público.
No início tive um pouco de receio. Olhava para alguns funcionários da
biblioteca e para os monitores educadores do Artinclusiva para me certificar de que
estava tudo bem. Por alguns minutos fiquei em dúvida se havia feito a coisa certa,
mas quando percebi que havia envolvimento, curiosidade e muito amor, e que essas
virtudes estavam fundamentadas no acolhimento, eu consegui relaxar e desfrutar da
atividade. Creio que essa tenha sido a proposta pedagógica mais ousada que eu já
realizei na UNESP e talvez até na minha vida – e por ousar, consegui alcançar um
nobre objetivo: o de incluir e o de fazer a diferença na vida das pessoas. Os
depoimentos que colocarei abaixo ilustram um pouco melhor as sensações dos meus
alunos da UNATI, da musicista Drica Ribeiro e dos arte-educadores que acompanham
os jovens do Artinclusiva toda semana. Com essas palavras, vocês conseguirão
compreender um pouco melhor a beleza desse encontro cheio de vida e de amor
fraterno.

Depoimento de Henrique:

Boa noite . Depois da aula de hoje impossível ser a mesma pessoa. Quantas
reflexões lições e aprendizados sobre tolerância e empoderamento. Mágico
poder estar presente nessa vivências únicas. Levarei pra sempre no meu
coração. Gratidão ainda é pouco pelo experiência e desprendimento do ego
de todos. Todos buscando a harmonia Excelente semana a todos ! Gratidão
Professor!
179

Depoimento de Vera:

Boa noite, Querido Ricardo!!! A cada aula um novo ensinamento. Hoje,


saindo do 'nosso mundinho tão egoísta'; vcs nos proporcionaram uma
sensível reflexão sobre a vida, o ser humano.... Que bela lição de inclusão!!!
É uma honra fazer parte desses momentos. Como são abençoados vocês da
inclusão!!! Obrigada, mais uma vez pela aula de hoje.

Depoimento de Lia:

Gratidão é a palavra por ter participado deste momento tão precioso ! Amor
e muita Luz a todos da Artinclusiva! Somos todos especiais!

Depoimento de Denise:

Pela primeira vez na minha vida tive a oportunidade de participar de uma aula
de yoga de meditação com mantras. Nunca pensei que fosse tão
interessante. Atingi uma grande paz interior e um intenso relaxamento mental.
Foi muito gratificante. Obrigado Ricardo Henrique por me trazer uma nova
visão da prática de yoga e por me proporcionar momentos de alegria e
felicidade.

Depoimento de Moira:

Adorei o exercício na biblioteca. Foi emocionante reencontrar minha


dissertação depois de 9 anos e mais lindo ainda dançar com o Daniel, que
tem o mesmo nome do meu filho. Parara mim será inesquecível!

Depoimento de Simone Codo:


Eu não tenho palavras para expressar a felicidade que experimentei hoje.
Que tarde abençoada. Obrigada, mil vezes obrigada. Nunca mais vou
esquecer. Gratidão .
Ontem pensei tanto nas mães daqueles meninos.como deve ser difícil para
elas, o medo que devem sentir de vir a faltar para esse filho. Rezei por cada
uma. Que lindo que a gente recebeu essa graça de ficar um pouquinho com
eles.

Depoimento de Miriam:
Uma experiência única dançar com essa turma especial. Todos somos
parecidos e únicos. Grata a todos.

Depoimento da musicista e educadora Drica Ribeiro:

Muito obrigada por ter me chamado para essa oportunidade. Fiquei muito
contente. Eu trabalhei um período com crianças e adolescentes inclusivos,
então foi por isso que foi mais fácil para mim.
Eu te agradeço imensamente por você me chamar para participar de suas
alegrias.
Estamos juntos. Eu te agradeço de coração por ter conhecido todas essas
pessoas maravilhosas.

Depoimento de Débora:
Muito grata, por uma tarde tão especial e enriquecedora

Depoimento de Ilsa:
Trabalho gratificante . Só evoluímos neste mundo, parabéns.

(Todos os depoimentos acima foram realizados em áudio ou escrita de


180

whatsapp no dia 21/10/2019, no mesmo dia em que a atividade ocorreu)

Esses depoimentos revelam as vozes e os olhares de pessoas extremamente


sensíveis, os quais – sem exceção – conseguiram prestar acolhimento e agir com
ternura e responsabilidade em um momento sem igual de nossas vidas. Sem dúvida
essa é e sempre será uma das tardes mais inesquecíveis da nossa história na UNATI.

7.5. Maitri: bondade amorosa

O filósofo Thich Nhat Hanh, uma grande referência para mim e para os alunos,
caracteriza essa amizade que está sendo construída entre eu e meus alunos da
UNATI, e também entre eu e meus parceiros de trabalho convidados para as aulas,
como “Maitri”, um termo bastante conhecido na cultura budista, o qual pode ser
traduzido com bondade amorosa, algo que associo ao termo amor fraterno. Eu
realmente acredito que podemos cultivar e expandir amor fraterno ao conduzir aulas
de paz e de transformação com yoga e artes.
A “Mandala de Conexões” nos conecta também a esses sentimentos genuínos
que nos trazem bem-estar e abrem espaço interior para a fluidez de pensamentos
amorosos. É por isso que conseguimos com sucesso alcançar sensações benéficas
em nossas aulas e, em muitas semanas, sentimos essas sensações ressoando em
nossos organisos e em nossas mentes.

Maitri pode ser traduzido como 'amor', ou 'bondade amorosa'. Alguns


mestres budistas preferem 'bondade amorosa' por considerarem a palavra
'amor' muito perigosa. Mas eu prefiro o termo 'amor'. Às vezes, as palavras
adoecem, e nós temos que curá-las. A palavra 'amor' tem sido usada como
um termo correspondente a apetite, ou desejo, como em 'eu amo
hambúrgueres'. É necessário empregar o idioma com mais cuidado. 'Amor'
é uma palavra bonita, devemos recuperar seu significado. O termo 'maitri'
tem raízes na palavra 'mitra', que quer dizer amigo. No budismo, o principal
significado de amor é amizade. Todos nós possuímos as sementes do
amor. Podemos desenvolver essa maravilhosa fonte de energia nutrindo o
amor incondicional que nada espera de volta. Quando compreendemos uma
pessoa no fundo do coração, inclusive alguém que nos feriu, não
conseguimos deixar de amá-la. (HANH, 2005)

A arte-educação, o ensino do yoga, a educação como um todo: tudo isso pode e


deve girar em torno do amor. Para aqueles que já sentiram os efeitos positivos da
força do amor em sala de aula ou em quaisquer comunidades de aprendizagem, não
há a necessidade argumentos ou comprovações científicas. A força do amor é
181

possivelmente a maior dentre todas as motivações da natureza do Ser, e colocar isso


em prática com discernimento e sabedoria, é também, uma arte. Educar com amor é,
sem dúvida, uma meta para os educadores dos novos tempos – e o yoga sempre nos
recordará que esse amor não apenas está dentro de cada um, mas também que cada
momento de pausa e respiração é uma oportunidade para resgatá-lo e revivê-lo.

“Eis aí a grande tarefa social que nos espera: colocar em funcionamento


o valor potencial do homem, permitir-lhe atingir o desenvolvimento máximo
de seus dinamismos, prepará-lo verdadeiramente para mudar a sociedade
humana, fazê-la mudar para um patamar superior. ” (Montessori, 2004, p.21)

Juntos somos muitos nessa corrente de união. Quanto mais nos esforçarmos
para encontrar nossa real missão e para estar ao lado de pessoas que também estão
nessa mesma busca, mais seremos recompensados com momentos repletos de
maitri, de sorrisos e abraços carinhosos.

7.6. Após tudo o que vivenciamos

Quanta coisa experimentamos até aqui! Foram experiências realmente vivas, que
nos ajudaram a conhecer novas possibilidades de expressão, de criatividade, de
vínculo e de movimento. O movimento que é aspecto inato de nosso viver, já que a
vida sempre vai continuar em movimento, até mesmo depois que cada um de nós se
despedir desse planeta. Os ecos de tudo o que construímos, de nossas histórias e
ações, de nossos amigos e filhos, tudo isso continuará se movendo e ressoando nas
pessoas e lugares onde deixamos nossas marcas.
As artes nos ensinaram que os aprendizados e suas possibilidades não podem
acabar, e que nós sempre teremos novidades para destrinchar, em relação aos
saberes culturais e em relação a nós mesmos. Por isso, não há a necessidade de
estagnação ou desânimo. As pausas para descanso são bem-vindas, assim como as
férias e os retiros. Façamos savasana, meditação, deitemos e nos entreguemos à paz
interior, mas não nos deixemos estagnar em consonância com sentimentos de tristeza
que nos coloquem para baixo.
Aprendamos com as mandalas em fios, que nos exigem persistência e
centramento. Sua confecção, que nos pede um constante movimento dos dedos, dos
braços, dos punhos e a coluna alinhada. Mas, mais do que isso, o trabalho com as
182

mandalas solicita um foco na mente para que haja harmonia na forma, na cor e na
firmeza do trabalho. E que isso auxilie a mente a descansar, e desfrutar do momento
presente.
Sentir a vida fluindo por nossas células nas danças a partir de diversas
sensações: a satisfação, a pulsação do coração, o cansaço e a vontade de se
movimentar mais. A força da dança é imensa, e é importante que nunca paremos. Na
dança circular, mesmo que nos cansemos temos alí nossos colegas para nos ajudar
a prosseguir. Às vezes nossos pensamentos ficam agitados na hora da vivência, e
temos receio de errar ou de “não fazer bonito”, mas podemos simplesmente
abandonar as preocupações e, mesmo que não façamos os passos da forma correta,
podemos escolher prosseguir, olhar à frente e sorrir prestando atenção em todas as
coisas boas naquele espaço e nas pessoas que estão alí em celebração e
concentração. As danças nos ensinam tanto, pois elas nos desafiam ao mesmo tempo
em que nos acolhem.
Anodea Judith, estudiosa norte-americana do yoga moderno, disserta acerca dos
movimentos do viver, em seu livro “Rodas da Vida”:

Você está vivo. É uma onda de movimento. Dentro de você, nada está
verdadeiramente em repouso. Nada em torno está estático. Tudo muda
constantemente a cada minuto. Cada som, cada raio de luz, cada
respiração é uma oscilação, para frente e para trás, em movimento
constante, oscilando, fluindo. Um fluxo de mudança constante, fazendo
cada momento diferente do anterior” (JUDITH, 2007, p.130)

Os mantras do oriente, em suas versões clássicas e contemporâneas


musicadas: eles trazem paz e auxiliam nossas mentes a se aquietarem. Eles são
repetidos muitas vezes para nos lembrar que não precisamos pensar em mais nada
naquele momento. E, ao entoá-los e cantá-los, podemos também trabalhar o nosso
corpo de maneira integral. Movemos mandíbula, língua, lábios, dentes, garganta,
pulmões, etc. E dinamizamos nosso metabolismo na direção da alegria e da força
interior.
As canções de paz que ouvimos nas aulas e que partilhamos no whatsapp,
tantas delas componentes da bagagem contemporânea da música popular brasileira.
Flávia Wenceslau, Daniel Moray, Nei Zigma, Índia Mãe da Lua, Flaira Ferro,
Chandra Lacombe, Valéria Pontes, Nadabhaktas, Céumar, Drica Ribeiro, Vivian
Amarante etc. E os nossos queridos amigos da MPB de algumas décadas atrás que
183

até hoje nos trazem encantamento e algumas lágrimas: Walter Franco, Maria
Bethânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Roupa Nova, Rubinho do Vale, Milton
Nascimento, Almir Sater, Dércio Marques, Deborah Blando. São tantas palavras
lindas para compartilharmos! São tantas mensagens de paz e de esperança!

7.7. As palavras

Chandra Lacombe, na música “O Manto”, nos canta “Seguindo em frente


para ser feliz / Não me prendendo nas garras do medo / Já não importa tanto o que
fiz /Pois meu amor transforma o enredo” (LACOMBE, 2010, p. 119). E nos recorda
que precisamos seguir, pois a vida ainda habita e circula por todas as nossas
células.
Toda essa inspiração artística nos move internamente e nos incentiva a seguir
na caminhada não somente na direção de nosso próprio bem-estar, mas também
para que possamos dar as mãos àqueles que necessitam. Os olhares, os abraços e
as palavras, assim como os silêncios, os movimentos, as posturas e os descansos.
Tudo isso pode nos ajudar a chegar mais perto de nossa meta: samadhi. Não se
esqueça disso! É lá onde queremos chegar, senão não haveria por que querermos
nos aprofundar em yoga.
A professora de yoga Beatriz Esteves, em seu livro “Yoga para 3ª Idade”, afirma
que:

“É preciso acabar com a ideia de que a nossa saúde e felicidade estão,


exclusivamente, nas mãos dos médicos, nossos familiares, pessoas que
nos cercam ou mesmo no governo.
É evidente que tudo que se passa ao nosso redor, nos afeta de alguma
forma, mas é necessário perdermos esta passividade negativa e
despertarmos para a responsabilidade em relação à nossa saúde física e
mental.
A chave do segredo do rejuvenescimento e de poder desfrutar uma vida
plena e feliz é acreditar, primeiramente, ser isto possível” (ESTEVES, 2010,
p. 13)

A arte, quando nos auxilia a acreditar mais na beleza da vida, portanto,


desperta em nós a fé que rejuvenesce e que nos recorda da jovialidade. Não temos
mais tempo para nos render à descrença e à “normose” que o professor
Hermógenes tanto criticou em sua obra. Recorrendo às atividades artísticas nas
aulas e no dia-a-dia, nos lembramos que somos seres criadores, altamente capazes
de recriar nossos cotidianos e de expandir a vivacidade em nossas células.
184

A oportunidade de trabalhar com arte-educação em união ao yoga me convida a


utilizar as palavras (tanto nesse trabalho quanto nas aulas, e na minha vida diária)
com carinho, acolhimento e com muito cuidado. As palavras do educador, quando
utilizadas com sabedoria, podem fazer toda a diferença na vida das pessoas.
As palavras foram pontes para a minha conexão com os educandos, e foram
essenciais para a construção individual e coletiva dos nossos momentos de
movimento, de silêncio e de paz. Ao ler o livro “Linguagem e Velhice”, de Regina Célia
Celebrone Lourenço e Giselle Massi, compreendi melhor sobre o valor da palavra, e
encontrei a seguinte postulação de Rubem Alves:
“Pelo poder da palavra
é possível navegar com as nuvens
visitar as estrelas, entrar no corpo dos animais,
fluir com a seiva das plantas,
investigar a imaginação da matéria,
mergulhar no fundo de rios e de mares,
andar por mundos que há muito deixaram de existir,
assentar-se dentro de pirâmides e catedrais góticas
ouvir corais gregorianos,
ver os homens trabalhando e amando,
ler as canções que escreveram,
aprender das loucuras do poder,
passear pelos espaços da literatura, da arte,
da filosofia, dos números,
lugares onde seu corpo nunca poderia ir sozinho...”
(ALVES, apud LOURENÇO & MASSI, 2011, p.17)

Utilizadas com propósito e a intenção de trazer sabedoria à consciência e paz


mental, as palavras positivas nas minhas aulas são sempre valorizadas. Uma das
ferramentas que utilizei nesse ano letivo foi o Oráculo do Pão, um material constituído
de cartas idealizado pela artista Magui. Essas cartas trazem de forma poética o
significado de palavras como desapego, celebração, pureza, amor, discernimento,
misericórdia, entre outras. Essas palavras são escrita em um tamanho maior, junto a
alguns desenhos, e abaixo há frases que clareiam o sentido dessa palavra, diante de
uma perspectiva poética que incentiva o bem-estar e a reflexão do leitor.
As alunas adoram essas cartas, e muitas vezes fazem registros fotográficos para
relerem em casa e compartilharem as palavras com outras pessoas. Algumas delas
inclusive quiseram encomendar o oráculo para terem em suas casas.
Penso que todos esses recursos artísticos podem ajudar os educandos a
modificarem seus pensamentos, substituindo aqueles que se associam à mágoa, à
dúvida e à dor por pensamentos que tragam boas sensações e que despertem
185

lembranças harmônicas. A intenção é sempre que os alunos saiam das aulas


melhores do que quando chegaram.

7.8. Relato de uma experiência

Durante todo o ano de 2019 eu estudei as obras do monge Haemin Sunim; os


livros “As coisas que você só vê quando desacelera” e “Amor pelas coisas
imperfeitas”. Obras maravilhosas, com muita arte e muito yoga, as quais me ajudaram
muito a superar as dores do perfeccionismo, da autocobrança e da ansiedade.
Transcrevo aqui um trecho deste segundo livro que me chamou a atenção:

As palavras têm grande poder.


“Você vai melhorar a partir de hoje!”
“Você é muito talentoso. Vai se tornar um escritor fantástico!”
“A sua música vai tocar o coração de muitas pessoas um dia!”
No momento que alguém lhe diz essas palavras, um novo campo de
possibilidades se abre para você. As palavras podem se tornar a semente
da realidade.” (SUNIM, 2016, p. 91)

Ler esse excerto repleto de poesia e beleza clareia a função pedagógica da


palavra, em consonância com o objetivo principal da educação, que é contribuir para
a felicidade do educando e auxiliá-lo a alcançar sua própria libertação. Em minhas
aulas, como afirmei anteriormente, comumente prezo pelo uso gentil e terno das
palavras, mas a clareza dessa compreensão ainda é recente para mim. E quem mais
me ajudou a ter essa visão consciente foram muitos dos alunos da UNATI, os quais
souberam se expressar uma sinceridade tão surpreendente que foi somente com
nossos diálogos que consegui notar a dimensão do trabalho que juntos estávamos
fazendo.
Ao solicitar aos educandos os depoimentos que aqui estão inseridos, pude
desfrutar de boas dúzias de minutos repletos de elogios, desabafos e também alguns
aconselhamentos. Foi realmente especial poder me atentar com rigor às palavras
deles, sobretudo pela motivação de ter de registrá-las.
A arte eterniza aquilo que já se viveu, quando ela fica registrada em nossos
arquivos – sejam eles materiais (papéis, fotos, vídeos, objetos diversos, etc) ou
imateriais (nossas lembranças). Deixo aqui registrado o poema que recebi de dia dos
professores, o qual foi desenvolvido com muita criatividade e amor pela aluna Darcy.
186

O sol é real, é lindo e é nosso amigo...


A lua, linda, irmã, e é nossa amiga...
A brisa, amaciante, envolvente, me abraça eternamente.
Pena que não podemos ir até eles e abraçá-los...
Mas, quem disse que não...
Se o universo os colocou dentro de você e os trouxe até nós.
Você, brilhante como a mais bela árvore de Natal.
Você, doce como um algodão doce...
Você, nosso querido amigo,
Você, nosso querido professor!
Receba nosso abraço do tamanho do seu coração!
(autoria desconhecida, lido em 14/10/2019 em sala de aula)

A autora do poema, que se tornou minha amiga, sobre a escrita dessas lindas
palavras:
Em razão disso, e porque eu li muito a vida inteira (...) Eu gosto muito de
escrever, de poesia e de você! Eu gosto muito de pessoas boas, e Deus põe
muitas pessoas assim em minha vida. Eu falei aquilo que o meu coração disse
(...)”
Depoimento de Darcy, por whatsapp, em 20/10/2019

Com imensa gratidão pelos presentes que recebi, fecho esse capítulo com
algumas palavras que espelham o que agora estou sentindo:

GRATIDÃO
UNIÃO
SABEDORIA
AMIZADE

PUREZA
VITALIDADE
CONFIANÇA
187

Palavras

As palavras se mostram de novo


Aqui nesse lugar em frente ao fogo
Elas vêm para alegrar a nossa vida
Refletir nessa dimensão a luz querida
Elas têm a grande força de encantar
E firmar o propósito de religar
Magia dança no mar do infinito
Presente nas entrelinhas pra ser sentido
O poder do atemporal amor de Deus
Preenchendo a essência de todos filhos seus
Traz as virtudes com seu magistral calor
Por isso cantamos palavras de amor
Traz as virtudes com seu magistral calor
Por isso dizemos palavras de amor
(Daniel Moray, hinário Fractário)
188

Capítulo 8. A Cultura de Paz

“O mundo está dominado por uma cultura de guerra e de violência; é


preciso transformá-la numa cultura de paz”
Federico Mayor, Diretor Geral da UNESCO

Muitas pessoas ainda desconhecem o conceito e a importância da Cultura de


Paz como movimento contemporâneo de combate aos paradigmas antigos que
prejudicaram milhões de pessoas que foram vítimas de pensamentos, palavras e
ações violentas. Até poucas décadas atrás grupos humanos em larga escala
aceitavam situações de violência extrema contra povos ou grupos sociais que sempre
necessitaram de auxílio, como crianças, negros, índios e mulheres.
Uma cultura de paz é um conjunto de valores, atitudes, tradições,
comportamentos e modos de vida, baseado em: respeito à vida, ao fim da violência,
à pratica da não-violência por meio da educação, diálogo e cooperação". (VON, p. 11,
2006) . Esse termo começou a ser desenvolvido em reuniões da ONU após a segunda
guerra mundial e apenas em 1990 ele tem sido difundido em larga escala. Entretanto,
ainda há muito trabalho a ser feito pensando que em países como o Brasil existem
pouquíssimas instituições comprometidas com o estudo e com a prática da paz acima
de qualquer outro interesse. Por exemplo, em relação às pesquisas na área de
estudos na educação para paz, até o presente momento só conhecemos a
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Aqui em São Paulo temos instituições como a UNIPAZ (Universidade
Internacional da Paz), a UMAPAZ (Universidade Aberta do Meio Ambiente e da
Cultura de Paz), a Associação Palas Athena, o Centro Cultural Swami Vivekananda,
a escola Brahma Kumaris e apenas mais alguns lugares que estão comprometidos a
espalhar esse conhecimento, em consonância com os preceitos ideológicos
profundamente estudados pela ONU/UNESCO. É por esse motivo que, na posição de
educadores, precisamos nos dedicar para espalhar as informações acerca dessa
temática tão valiosa que atual em escala mundial, e que tem como compromisso
primordial transformar a cultura de guerra em cultura de paz.
Dentro do conceito de “Cultura de Paz” temos a o termo “educação para a paz”,
a qual, de acordo com Cristina Von (ibidem, p.9), desde 1995 é discutida e praticada
ao ser fundamentada em princípios que garantam a dignidade humana. Esses
princípios são muito semelhantes aos yamas e niyamas, “levando em conta o respeito
189

às diferenças, a superação das situações de exclusão, a solidariedade entre os povos


e o diálogo como instrumento de negociação” (idem).
Com a inserção do yoga na UNATI, tive a oportunidade de trazer tanto para meus
alunos quanto para a Universidade uma parte dessa bagagem informativa tão
importante que pode mobilizar comunidades de aprendizagem por todo o mundo. Nas
aulas tento trazer elementos relacionados aos documentos da ONU/UNESCO, tais
como a Carta da Terra, o Manifesto 2000 por uma cultura de paz e não-violência, a
Declaração de princípios sobre a tolerância, a Declaração dos Direitos Do Homem, os
Objetivos da Sustentabilidade no século XXI e as Metas do Milênio. Tento trazer esses
conteúdos através de leituras, músicas, poemas, vídeos, reflexões, conversas e até
mesmo nos momentos em que proponho meditações guiadas ou relaxamentos
conduzidos.
Esses documentos não podem ser esquecidos e nem ignorados, já que eles
fazem parte do início de uma nova história só poderá efetivamente ser iniciada se
muitas pessoas conscientes e politizadas se empenharem nessa direção, rumo ao
estabelecimento de uma real Cultura de Paz. Sobre isso, Thais Accioly, no site “Somos
Todos Um” afirmou que:

O século passado deixou uma marca dolorosa na nossa história


humana. Nunca se matou tanto. Morreram 111 milhões de pessoas em
conflitos bélicos no último século.Agora se a esse número somarmos os
mortos vítimas da violência de trânsito, da violência urbana e daquela
causada pela disputa de terras, da violência doméstica, das brigas, e ainda
os números das mortes causadas pela fome, por falta de saneamento básico
e de água tratada, daquelas causadas pelo narcotráfico e por outros crimes,
não há dúvida que o século XX ficará para a eternidade como o século da
tecnologia, mas também como o século mais sangrento e violento da
humanidade. É hora de pensarmos novos caminhos. (ACCIOLY, 2018)

Por conta disso a Organização das Nações Unidas delegou à UNESCO a missão
de expandir mundialmente uma Cultura de Paz e

[...]para isso criou de 2000 a 2010, a década


da Cultura de Paz alicerçada em seis pilares:
1. Respeitar toda a vida
2. Rejeitar a violência
3. Ser generoso
4. Ouvir para compreender
5. Preservar o planeta
6. Redescobrir a solidariedade” (idem)

Para a implementação desses pilares, é essencial que façamos o que


Gandhi – principal ícone mundial da Cultura de Paz – nos recomendou: “Seja a
190

mudança que você quer ver no mundo”. Ele também disse que “Não existe um
caminho para a paz. A paz é o caminho “ (GANDHI apud VON, 2006, p.5). Mas
precisamos fazer isso com calma, lembrando que cada um tem o seu tempo para a
assimilação de aprendizados e que muitas pessoas ainda não reconhecem que é
possível viver em harmonia nas relações, e que a violência não é necessária como
solução para nossa convivência como humanidade.
De acordo com Paulo Freire (1889, p. 17) “Temos de respeitar os níveis de
compreensão que os educandos -não importa quem sejam - estão tendo de sua
própria realidade. Impor a eles a nossa compreensão em nome de sua libertação é
aceitar soluções autoritárias como caminhos de liberdade.” Ou seja, para educar pela
paz, é preciso que observemos se ainda há dentro da nossa postura educadora algum
aspecto que se associe ao autoritarismo, o qual caracterizava grande parte dos
sistemas educacionais no passado.
Lembremos que “Educar é viver com o outro, demonstrando respeito para dar
ensejo a ele de aceitar-se e se respeitar. É só por esse caminho que o educando terá
condição de aceitar e respeitar o outro.” (FILHO, 2010, p. 55). Não podemos mais
pensar em educação sem falar de paz.
É cordial mencionar aqui que paz não é a ausência de conflito ou de guerra, mas
sim algo que se estabelece com muito trabalho, confiança e respeito nas relações
entre todos os Seres, em todos os âmbitos, sobretudo na política e nas religiões. A
paz é urgente, e ela precisa ser valorizada em todas as organizações educacionais e
espalhada como informação e como vivência para educadores e educandos.
Não há mais tempo nem espaço para armas nem guerras políticas. Não
podemos admitir o preconceito e a discriminação social. Não podemos também
perpeturar a valorização daquilo que não pode de modo algum auxiliar no equilíbrio
humano: a ansiedade, a pressa, o consumismo, a competição, o egoísmo, a maldade,
a morte, o descaso, o desamor. É preciso que haja autotransformação. Por isso,
vamos nos informar e tentar compartilhar essas informações com nossos meios de
estudo, habitação e trabalho.
Todos somos agentes da Cultura de Paz, e nossas ações em direção à paz
interna e externa são muito importantes para o equilíbrio do mundo. Estamos entrando
em um novo tempo, no qual novos paradigmas estão ganhando espaço após décadas
de esforço por parte de mestres espirituais, intelectuais, cientistas, mães, pais, filhos
e muitos Seres que – em silêncio ou em voz alta – lutaram para expandir a paz em
191

seus meios de convivência. A cada dia mais pessoas despertam para seus
propósitos e para suas missões. Elas também estão compreendendo a cada dia um
pouco mais sobre sua essência, que é de amor, de conexão, de cuidado e de
acolhimento.
Ler o livro “Esteja em Paz e sem Medo”, da escritora Sonia Café, é aquecer o
coração de esperança quando ela nos conta que:

"Há mais de 2 mil anos vem sendo criado na Terra o contexto no qual as
doenças do medo e da guerra podem ser inteiramente curadas. Houve
chamados, e muitos os têm escutado. O poder da compaixão e o poder de
amar e perdoar uns aos outros, desde então, têm sido experimentados por
(...) seres humanos. Se não fosse assim, talvez a sua espécie já não mais
existisse. Os que vibram com os acordes discordantes do ódio e da guerra
ainda não abriram os olhos e o coração (...); permanecem fechados na
percepção exclusiva do ego humano. Eles lutam por um amor e justiça vistos
como algo externo a si mesmos, sem saber que ambos já se encontram
dentro deles.” (CAFÉ, 2003, p. 115)

E nesse momento em que os veículos de comunicação estão sendo regidos por


forças políticas completamente opostas a essa visão de justiça e cordialidade nos
setores que compõem a sociedade, é mais do que importante que sejam difundidas
as ideias dos autores citados nesse trabalho de conclusão de curso. Uma das maiores
referências na área da educação para a paz é o educador Xesús Jares, professor
universitário na Espanha. No livro “Educar para a Paz em tempos difíceis” ele afirma
que,

[...] em contraposição a uma cultura de indiferença, de desvalorização, de


individualismo, de sucesso e enriqueceimento pessoal a qualquer preço, uma
cultura de paz assenta-se no compromisso social, na ternura dos povos, na
solidariedade. Estes pilares têm um valor agregado: o de possibilitar a cada
cidadão a aprendizagem do prazer de compartilhar, de cooperar, de ser
solidário e feliz com isso (JARES, 2007)

Sem felicidade e sem o compartilhamento dessa virtude, é impossível que


consigamos, como sociedade, trilhar passos largos na direção de uma melhoria
coletiva e na substituição da cultura de violência pela Cultura de Paz. Esse é um
estudo muito valioso, de imensa relevância para todos os âmbitos, e aqui faço um
convite para meus leitores, solicitando a vocês que reflitam sobre sua importância
nesse momento em que vivemos, e sobre como você pode atuar como um promotor,
um agente da paz, um ativista que luta por aquilo que vale realmente a pena viver.
O que você pode fazer hoje pela paz interior? E pela paz exterior?
192

Cultura de Paz (para Fabiana Kuosa)


Eu estava aqui tão triste
Sem um rumo para andar
Mas a vida em mim me disse
Filho, tu tem que mudar

Mudar, se encher de Amor


Nessa estrada a caminhar
Pois se tu não existisse
Nada seria como está

Tua luz, teu esplendor


Só você pode ancorar
Desapegue, vá e conquiste
Saia já desse lugar

Ter pureza, ter pureza


Ter clareza pra enxergar
Se disponha, então desperte
Não deixe de caminhar

Ter pureza, ter pureza


Navegando nesse mar
Meu filho, não insiste
Deixe a onda virar mar

Veja toda essa beleza


Que há dentro do seu Ser
Sua real natureza
É brilhar e florescer

Acordemos para a nobreza


Desse reino a merecer
Merecer a paz eterna
Para sempre em paz viver

Lokah Samastah Sukhino Bhavanthu


Samastha Lokah
Sukhino
Bhavanthu

Merecer a paz eterna


Para sempre em paz estar
Estar com a paz eterna
Sempre em paz
Eu vou ficar

Novembro de 2018
193

Capítulo 9. Educar para a liberdade com ternura, ética e responsabilidade

9.1. Lidar com dores e frustrações

Como educador, passo por desafios quando preciso lidar com as frustrações das
alunas. Ainda preciso aprender a aceitar melhor que nem todos vão se identificar com
minhas dinâmicas de aulas, até porque essa metodologia ainda está em sua fase de
nascimento. No segundo semestre uma das alunas infelizmente não quis continuar
frequentando as aulas; ela disse que seu interesse estava centralizado na execução
das técnicas do hatha yoga, sobretudo nas posturas. Tive uma conversa com ela por
telefone e, confesso que fiquei um pouco frustrado e por alguns minutos me senti mal.
Fiquei pensando se deveria ter feito diferente, para atender às expectativas dela, mas
desde o início do semestre eu deixei claro que as aulas não trariam como foco as
posturas de yoga e a meditação sentada, mas sim forneceriam à turma conhecimentos
teórico-vivênciais diversos que trouxessem à luz os principais aspectos dessa filosofia.
Foi crucial para mim ter iniciado os atendimentos em psicoterapia em 2013 e ter
colocado como prioridade essa prática em minha agenda semanal. A prática do
autoconhecimento com o auxílio de profissionais da saúde e da educação se insere
no princípio clássico de swadhyaya, autoestudo. As reuniões com Maíra e Lilian
(orientadoras da UNESP) também me ajudaram muito a olhar para minhas frustrações
e medos, e superá-las. O fato de elas se identificarem com as qualidades terapêuticas
da arte e da educação me ajudou muito a superar esses receios, e ter a coragem de
ousar, e de propor nas aulas aquilo que realmente faz sentido para mim.
No fazer educativo, nós educadores precisamos lidar também com as dores
humanas. As dores que se configuram do físico ao mental, e que podem ser muito
profundas. Essas dores se relacionam com a ancestralidade, com o histórico humano,
com as questões do “ser mulher” e com a velhice. É muito profundo.

9.2. Autoconhecimento

Evoco Jung em sua conhecida frase: “Conheça todas as teorias, domine todas
as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana “.
Conheci essa colocação deste importante psicoterapeuta no curso de formação em
yoga restaurativa com a professora Raquel Peres. Nesse curso eu passei muito tempo
194

com os olhos fechados, em relaxamento, disponibilizando-me ao aprendizado da


entrega e do descanso mas ao mesmo tempo refletindo sobre como o interior humano
é complexo e repleto de couraças e sofrimentos a serem cuidados.
Com as técnicas restaurativas, aprendi a pausar e observar os meus alunos, e
acolhê-los ao assumir uma postura educadora dotada de paciência e acolhimento.
Comecei a renovar minhas aulas ao oferecer mais momentos de descanso e
pacificação com toalhas de rosto, pesinhos aromáticos com ervas, óleos essenciais
de lavanda e hortelã, cenas de filmes alegres, músicas edificantes, etc. A partir de
meu próprio aparato pessoal de referências que pudessem conferir bem-estar aos
educandos, busco construir nas aulas um ambiente propício ao bem-estar, e à
superação de dores.
Não sou oficialmente um profissional da saúde. Talvez no futuro. Tenho meus
estudos em anatomia e fisiologia, mas por enquanto sou um arte-educador e instrutor
de yoga comprometido em transmitir os ensinamentos do yoga de uma forma justa,
inclusiva e acolhedora. Já dei aulas para pessoas com câncer, por exemplo. Não foi
fácil, mas eu encarei, e consegui. Em muitas situações eu sofri junto, cheguei até a
chorar e me desesperar por me envolver na dor do outro. Em outras ocasiões, cheguei
até mesmo a pensar que eu tinha alguma responsabilidade em ajudar o educando a
encontrar sua própria cura. Hoje eu vejo tudo isso de uma forma diferente: se a pessoa
veio até mim, devo dar o meu melhor, mas na condição de professor, devo ser uma
ponte para o compartilhamento dos conhecimentos milenares e também um exemplo
de alguém que pratica o que ensina. Não cabe a mim curar ou resolver problemas,
mas sim estar alí na sala de aula, presente e firme.
Reforçando aos alunos que yoga é um trabalho de reforma dos padrões mentais,
e que ele se faz eficiente na prática diária, consigo estabelecer essa importante regra
dentro desse sistema de ensino que guarda especificidades: é essencial que o
educando se esforce para superar suas dores, imperfeições e dificuldades. Para
alcançar a libertação, em yoga, é necessária a autotransformação; aquilo que a
filosofia espírita chama de reforma íntima.

9.3. Educação, espiritualidade e transformação social

Dentre os livros que estudei, um dos que mais gosto é “Educação, Espiritualidade
e Transformação Social”, organizado por Dora Incontri. Essa obra compila textos
195

acadêmicos que colocam a espiritualidade como tema principal, e tem o mesmo nome
de um congresso que ocorreu no mesmo período de seu lançamento editorial. Eu
estava presente, e pude conhecer alguns dos autores.
O texto que mais me engrandeceu foi o de Jonas Bach Junior, pós-graduado
da UNICAMP que dissertou sobre Rudolf Steiner e Paulo Freire e suas semelhanças.
No texto “ A evolução da consciência humana: espiritualidade e política num diálogo
entre Paulo Freire e Rudolf Steiner”, ele destaca a liberdade como foco das propostas
pedagógicas de ambos. Ele também fala sobre a dor humana:

“A história da humanidade e a história da consciência humana


possuem uma dor incomensurável. Freire teve a coragem de tornar esta dor
o tema principal da sua educação e a superação desta dor a sua maior tarefa.
Ele nos convida a ter coragem para enxergar a dor juntos e para agir
conjuntamente para transcendê-la” (JUNIOR in INCONTRI, 2014, p.81)

No fazer educativo nós também lidamos com dores, e a cada aula propomos
reflexões para a superação de dificuldades e imperfeições, sempre na direção do
novo. Queremos ir além dos pensamentos antigos e ultrapassados e de tudo aquilo
que anteriormente aprisionou a mente humana. Queremos plantar sementes da paz
e, tal como muitas comunidades indígenas almejam, honrar as gerações que virão a
fim de deixar para elas um mundo melhor.
Ainda evocando Jonas Bach Junior:

“Uma educação libertadora tem sempre uma dimensão psicológica,


pelo esforço de criar condições para o parto de um novo modo de ser, que é
um processo de libertação dos medos. A contínua necessidade de sua
reinvenção faz da educação libertadora uma vertente da palavra que rompe
com os muitos silenciamentos forçados. Daí a premência de educadores
artistas (criadores) da própria existência, para que a palavra falada ou escrita
esteja prenhe de uma autenticidade fecundadora da conversação. A
reinvenção só é possível no ato encorajado de quem se conscientizou da
hospedagem do opressor em si e participou da sua redenção.” (ibidem, p. 82)

Gosto de instruir, compartilhar conteúdos e técnicas. Gosto mais ainda quando


meus alunos passam adiante esses conhecimentos. As mandalas em fios de lã, por
exemplo: eu faço um conbinado com eles solicitando que se empenhem para ensinar
pelo menos cinco pessoas em seus círculos de convivência a tecer esses lindos
símbolos da cultura mexicana indígena. E peço que me enviem mensagens
compatilhando como foram essas experiências. Eu brinco dizendo que, na ocasião
das mandalas, eu formo artesãos e oficineiros, e que poderíamos alugar uma barraca
196

itinerante na praia do Guarujá e passar as férias de janeiro vendendo “nossas artes”


por lá.
Peço também que me enviem fotos das mandalas que criaram, ou que tragam
as criações para a sala de aula, para que todos possam olhar e aprender novas
técnicas. E, realmente, os alunos da UNATI me ensinaram inúmeras técnicas que eu
não conhecia – e eles descobriram sozinhos, pela própria prática e contato com os
materiais e com os aprendizados iniciais que eu pude transmitir.

9.4. Relato de uma experiência

Uma das alunas, Bete, me enviou alguns áudios por whatsapp me contando
sobre suas dores da fibromialgia. Ela tinha receio de ter essas dores agravadas pela
prática, e não é fácil para mim conseguir dialogar sobre essas questões, pois o yoga
trabalha com as dores e coloca os alunos frente-a-frente com sintomas das doenças
que ainda os acometem. Não pude prometer que ela iria melhorar, pois sei que há
questões neurológicas e emocionais envolvidas, entretanto eu me comprometi a
ministrar aulas tranquilas, que trouxessem relaxamento e muita paz para ela. Tento
incentivar os alunos a prosseguirem, apesar das dificuldades. Mas não posso fazer
milagres, e nunca achei que poderia. Mas acredito que a força do coletivo e a
expansão da alegria interior pode ajudar muito.
Falando por mim, agora em meados do mês de outubro: eu olhei para muitas
dores nesse trajeto de teoria, prática, estágio e pesquisa. E me vejo dotado de uma
alegria mais consciente, um contentamento que se estabeleceu advindo da ação
criadora e de um ano de muito trabalho. O caminho foi difícil, mas eu me convidei
seriamente a me comprometer em finalizar a graduação realizando um trabalho que
fizesse real sentido com minha trajetória e com aquilo que eu mais amo estudar.

9.5. Colocar em prática

Recomendo a todos os educadores que ousem criar projetos, sem tantas


expectativas, mas abraçando as oportunidades que a vida trouxer. Vale muito a pena,
pois colocar em prática aquilo que faz sentido e poder estar em contato com
alunos/educandos que ensinem tanto com sorrisos, com superações, com a troca de
197

experiências é algo que reacende diariamente a chama da alegria. Mas é plausível


sempre recordar que, no caminho do yoga, para ter alegria é preciso ter
comprometimento.

[...] a sabedoria da alegria nos leva a viver no meio do mundo para abraçar
suas contradições e tentar ser como um fermento na massa, contribuindo para sua
transformação. A sabedoria da alegria rima com comprometimento.
Por amar intensamente a vida, e a vida por inteiro, sei que ela é
infinitamente preciosa. Por ter sofrido e superado esse sofrimento para transformá-
lo em alegria, conheço o valor da vida. Desde então defendo constantemente o seu
desenvolvimento pleno, não só para meus irmãos e irmãs humanos, mas também
para todos os seres vivos. (LENOIR, 2016, p. 130-131)

Sem a conexão com alegria da vida, a experiência da educação, da arte e do


yoga não pode auxiliar o ser a se transformar em harmonia com sua própria saúde e
equilíbrio, já que a alegria, o sorriso, o contentamento são aspectos da natureza do
Ser. Com os educandos da UNATI, eu aprendi a amar mais a vida, simplesmente por
ter tido a oportunidade de compartilhar tantos sorrisos e abraços com pessoas que
cultivam um significativo interesse e vontade de aprender. A disponibilidade de muitos
deles foi imensa, assim como a receptividade e a abertura aos novos conhecimentos.

A alegria de viver é empática. Convida à compaixão, à partilha, à ajuda


mútua. Enquanto as paixões tristes nos encerram no medo e nos fazem voltar para
nós mesmos, a alegria ativa faz nosso coração arder de desejo de ver os outros se
desenvolverem. Ficamos mais abertos, mais ousados, mais corajosos, mais
tolerantes, mais preocupados com o semelhante.” (ibidem)

Por isso a constituição da nossa comunidade de aprendizagem na frequência


semanal se faz tão importante. A UNATI é o nosso laboratório de empatia, de
comunhão, de amizade e de superação de dores e tristezas. Nossa união é uma
prova viva de que a educação pode sim ter raízes conectadas com a alegria. A
educação pode sim ter como meta, a felicidade. Em tempos tantas doenças,
depressões e ansiedades, queremos colorir o mundo com nossos encantos, e educar
as mentes para que os pensamentos humanos reacendam em santosha, ahimsa e
moksha – que significam, respectivamente, contentamento, não-violência e libertação.

9.6. Um olhar pedagógico, terno e afetivo

São muitos os educadores que se enquadram no grupo de pessoas fascinadas


não apenas em propiciar encontros criativos e inspirados, mas também em construir
198

algo novo em benefício de quem mais precisa: os idosos, as crianças, aqueles que
sofrem em virtude de alguma patologia ou aqueles que por quaisquer razões foram
vítimas de violência ou preconceito. É por isso que me identifico com Tião Rocha e
José Pacheco, que abraçaram o Brasil e realizaram ações educacionais inovadoras,
como as escolas de baixo de um pé de manga no Vale do Jequitinhonha e o Projeto
Âncora. Essas iniciativas mobilizaram positivamente a vida de milhares de crianças e
adultos brasileiros.
Evocando novamente a sabedoria Paulo Freire, relembrando suas críticas aos
paradigmas antigos da prática de ensino, reforço aqui que educar não é apenas
transferir ou compartilhar conhecimentos, mas pedir licença para – respeitosamente –
mobilizar vidas na direção da liberdade. Essa libertação não deve ter limites e nem
preconceitos, e pode ser econômica, cultural, artística, intelectual ou física. E aquele
que educa precisa se empenhar para estar sempre forte e consciente em um mundo
de tantas transformações e contradições.
É essencial que o educador se cuide, e se respeite, tentando não ultrapassar
seus limites e se observando para não assumir funções e tarefas demasiadas.
Podemos olhar a pedagogia não apenas como um estudo prático-metodológico
e teórico, mas também como um estilo de vida. Educadores que trabalham com o
coração, e que amam o que fazem podem realmente transformar as vidas de seus
educandos ao se transformarem praticando aquilo em que acreditam.
No seu livro “Educar com o Coração”, a educadora Eugenia Puebla reflete sobre
a educação ao afirmar que:

nós, educadores, podemos ser meros transmissores de informação ou


estabelecer como objetivo um verdadeiro conceito de educação. Se
assumirmos ser educadores, poderemos contribuir para uma mudança social
a partir do desenvolvimento individual e coletivo. Para isso temos que
participar da mudança e vivê-la como um desafio essencial. Assim
poderemos colaborar na construção de uma comunidade harmoniosa,
apoiada nos valores humanos como base do crescimento pessoal e
comunitário. (PUEBLA, 1997, p. 19),

Combinar yoga e educação como um estilo de vida, e uitilizar essa filosofia


oriental como fundamento para aquilo que se compartilha no fazer educativo, é ser
agente de transformação de si e do outro, pois, como já refletimos aqui, a principal
intenção do yoga é gerar mudanças interiores na nossa relação com o eu e com o
outro.
199

Nesse trajeto de aproximadamente oito meses de UNATI, eu me vejo muito


diferente. Estou mais forte, decidido e firme, ao mesmo tempo em que me sinto
revitalizado por confiar mais em meu trabalho, e por já ter me adaptado a uma nova
rotina de compromissos que me alegram, e que me auxiliam a ter a sensação
constante de autorrealização. Apesar dos problemas e dificuldades, hoje eu me
assumo um educador verdadeiro, por ser alguém que busca sempre melhorar, que
almeja sempre novos aprendizados, e que aprende com aqueles que se propõe a
ensinar.
Segundo Paulo Freire (2003, p. 61): “É fundamental diminuir a distância entre o
que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua
prática.” Com base nessa postulação, eu gostaria de complementar que outro aspecto
muito importante a ser valorizado na formação humana de educador e aprendiz, é a
construção de uma disciplina diária para que o Ser tenha uma vida equilibrada para
que, dessa maneira, consiga maior qualidade de presença e centramento para
impactar outras vidas humanas. Ou seja, além de aliar teoria à prática, é importante
que essa prática seja constante, e embasada em princípios e valores conectados com
tudo o que foi escrito aqui neste singelo trabalho.
O yoga não é a filosofia nem a prática mais importante ou eficiente. Há muitos
outros caminhos. Mas não podemos nos esquecer do autocuidado, do amor próprio,
do descanso, do relaxamento e da meditação – independentemente da crença, todos
precisam e merecem se dar oportunidades diárias para estabelecer um contato íntimo
com seu próprio silêncio e com seu próprio espaço sagrado interior.

9.6.1. As três qualidades do educador que almeja a transformação:

Em relação aos educadores, defendo aqui que sua prática pedagógica seja
fundamentada em três qualidades principais:

 A ternura

 A responsabilidade

 E a postura ética educadora


200

A qualidade da ternura

Esse educador que almeja a transformação, sem dúvida, é um indivíduo dotado


de imensa sensibilidade e perseverança. Acredito que uma das maiores qualidades a
serem admiradas no ramo educacional é a ternura:

“A ternura é a conquista de quem já conquistou a si mesmo, livrando-se


das cargas desnecessárias que somente exaurem forças e energias. Como ser
afável com o outro se ainda não aprendemos a nos acarinhar, a tratar dos nossos
ferimentos e esperar pelas curas das dores sem a impaciência dos egoístas? ”
(FILHO, 2018, p. 13)

O educador terno dos tempos atuais deve essencialmente saber acolher com
respeito e com atenção, cultivando a potencialidade sensível de perceber as
condições particulares de cada pessoa envolvida em suas aulas. Educar, nessa linha
de pensamento, envolve empatia e positividade no caráter do profissional que leciona.

Fraqueza, debilidade, fuga e conivência não se confundem com ternura.


Ao contrário, a ternura se irmana com vigor, determinação e persistência. Eis aqui
o segredo da ternura! Sendo forte, não constrange; sendo persistente, não irrita;
sendo determinada, não produz desânimo. A ternura é a expressão da espera pelo
outro, sem que seja interpretada como indiferença ou descaso. Ternura é ora
segurar com leveza, ora sustentar com mão forte.” (ibidem)

É urgente que, na área da Educação, tenhamos homens e mulheres que saibam


agir com firmeza sem perderem por completo a suavidade e a poesia que as crianças
sabem tão bem sustentar. Um humano que coloque em prática aquilo que estuda, e
que seja um real participante das conquistas de seus educandos.
Recordemos aqui a importância da leveza como qualidade a ser valorizada nas
atuações pedagógicas daqueles que se elegem profissionais deste ofício: uma leveza
que traga esperança e conforto aos corações, e que retire do professor a carga e o
peso que a História outrora depositou em sua função, ligada à violência psicológica e
física.
De acordo com Luiz Schettini Filho (2018, p.81):, estudioso da Pedagogia da
Ternura, que dá nome ao seu livro, “Nem tudo na vida precisa acontecer sob a
regência do sofrimento. Ao contrário, o sofrimento imposto ao outro como instrumento
pedagógico, poderá desfigurar o fim último ao qual a educação se propõe.”
201

Há muito sofrimento no mundo, e em muitas ocasiões os educadores –


despreparados – agem na direção da perpetuação dessa força oposta à alegria. É por
essa razão, por ter testemunhado e sentido bastante sofrimento que trabalho na
construção coletiva de um caminho contrário a ele: o caminho do acolhimento. Este
caminhar é preenchido de afeto, carinho, paciência, zelo, dedicação, autocuidado,
introspecção, autoinvestigação, presença e Cultura de Paz.
É com essa consciência que elegi o yoga como pilar central de meu estilo de
vida e, consequentemente, de meus espaços de trabalho e, idealmente, da
metodologia que estou aqui construindo.
Por todas as nossas relações, que possamos todos respeitar as nossas
diferenças e nos aprofundar no significado de tolerância, a fim de impulsionar
positivamente a qualidade de todos os encontros vivenciados. É realmente importante
que aprendamos a cultivar ambientes educacionais de paz, pautados nos princípios
da não-violência e do respeito.

“O encontro com as pessoas implica, muitas vezes, o desencontro com


ideias, atitudes e ações inaceitáveis sem, no entanto, rejeitar a pessoa como
semelhante e, ao mesmo tempo, como diferente, a quem, ternamente, podemos
propor caminhos, referencias e criar juntos trajetórias que, sendo paralelas, por isso
mesmo, nos darão o ensejo de caminharmos lado a lado com elas. A ternura se
parece mais com o lado a lado do que com o face a face na relação entre as
pessoas” (idem, p.43)

Tião Rocha escreveu que a “Educação é o outro nome que se dá a esta relação
que só existe e teima em se realizar no plural. É impossível existir educação no
singular. Poderá haver outra coisa, instrução ou ensino, mas nunca educação. ” 13
(ROCHA, 1991, p.2) . E defendemos aqui uma educação que contribua para que as
pessoas queiram sempre voltar à sala de aula, e que alimentem em relação à figura
de seus colegas e professores a confiança e a serenidade, o sentimento de que não
estão sozinhos.
Simone Codo, uma das alunas da UNATI, nos presenteou com uma frase muito
especial um dia em uma de nossas rodas no início das aulas: “é muito bom saber que
vocês existem, e que tenho as segundas-feiras para encontrar essa turma na
UNESP”.

13
Frase extraída do texto “A Função do Educador” (1994), de Tião Rocha, encontrado no seguinte
site: https://social.stoa.usp.br/articles/0015/9013/A-funcao-do-educador-por-Tiao-Rocha.pdf
202

A força da responsabilidade

Acreditar na humanidade, amar as crianças e os animais, ser feliz apesar de


tudo e manter-se sempre informado e atualizado diante das questões sociais, é um
posicionamento político e pedagógico. É uma escolha consciente que dá sentido ao
viver, e que nos conecta a muitos outros educadores e educandos que também
fizeram essa opção.
E quanto mais experimentamos e sabemos, maior responsabilidade temos,
pois temos conhecimento para compartilhar. Muitos escolheram abraçar essa
responsabilidade, e seguir plantando suas sementes de paz e sabedoria. Inspiremo-
nos em Jesus Cristo, Buda, São Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Madre Tereza
de Calcutá, Amma (Mata Amritanandamayi), Hermógenes, Dalai Lama, Paramahansa
Yogananda, entre outros educadores que se apresentam hoje como os grandes
ícones da Cultura de Paz mundial.
Estamos em um momento crítico na história de nosso planeta, e todos
sabemos disso, mas quem de fato está agindo na direção de reduzir os danos que o
sistema capitalista cruel continua causando à nossa Mãe Terra? Estamos de fato nos
inspirando nas pessoas certas, como esses grandes Seres acima? Estamos seguindo
os passos, as disciplinas, princípios e códigos de ética que os principais professores
da humanidade seguiram?
Seguimos na reflexão com Dalai Lama:
“O planeta não precisa de mais pessoas de sucesso. O planeta precisa
desesperadamente de mais pacificadores, curadores, restauradores,
contadores de história e amantes de todo tipo. Precisa de pessoas que vivam
bem nos seus lugares. Precisa de pessoas com coragem moral, Dispostas a
aderir à luta para tornar o mundo habitável e humano, e essas qualidades tem
pouco a ver com o sucesso tal como a nossa cultura o tem definido.” (LAMA,
2000, p. 67)

E essa luta é de todos. Todos somos responsáveis pela reconstrução da paz


nesse mundo. A paz que sentíamos quando crianças, desde a barriga de nossas
mães. A paz dos indígenas em suas tribos. A paz dos santos e iogues em suas
meditações ou em suas ações de entrega e devoção em benefício dos mais
necessitados. A paz de quando nos sentimos plenamente amantes e amados em
relação a algum ser humano ou animal.
E nós, que já caminhamos alguns passos na direção de despertar para essa
203

urgência global, temos em nossas mãos algumas chaves para melhorar aquilo que
está ao nosso alcance: nossas casas, nossos ambientes de trabalho, e nosso entorno.
Que tal se pudermos começar por nós mesmos?

Seva: um norte para a missão educadora

Dentro do universo do yoga clássico encontramos um importante termo


sânscrito que é seva, o qual significa serviço desinteressado. E essa é uma grande
lição que os ícones da Cultura de Paz nos trazem. Em “Yoga para Nervosos” (2001,
p.136-137), Hermógenes nos conta que “Um dos caminhos de realizar a paz e curar-
se da angústia é seva, ou seja, agir no mundo visando à realização da felicidade e
benefício dos outros. É a arte de ter a alegria de dar alegria.”.
Yoga na educação pode ser seva quando há consciência crítica e
reconhecimento da própria responsabilidade que se tem. É quando o educador
trabalha para além de seu próprio sustento e contentamento, e reconhece que seu
ofício pode impactar positivamente outros seres. Em minha visão, quando a educação
se associa ao serviço de interessado e à excelência na ação, ela adquire um valor
político e social de imensa significância, e ela permite que, a partir do exemplo do
profissional educador, aconteça uma mudança que parta do interior de cada
educando.
Ocupar-se com eficiência é obter o melhor resultado naquilo que se faz,
usando para tal o mínimo de esforço. Ter eficiência é o ideal de todo aquele
que trabalha. Depende de muitos fatores, desde a natureza da obra em que
nos empenhamos, ao alcance dos meios materiais e instrumentos
disponíveis, mas principalmente da concentração mental dirigida ao agir.
Descobrir e usar o melhor método para aumentar o rendimento da ação,
constitui uma arte. É uma arte que deveríamos desenvolver. Yoga é definido
por Krishna, no Gita, como "a excelência na ação". (idem, p. 145)14

Essa é mais uma das razões pelas quais o conhecimento filosófico do yoga pode
auxiliar o educador contemporâneo a se fortalecer em sua caminhada. A educação
sustentada pelos princípios iogues, tida como seva e sustentada pelo sadhana, pode
surpreender a todos os envolvidos – e foi exatamente isso o que aconteceu na oficina

14
O autor se refere ao Bhagavad Gita, um dos livros mais importantes da literatura hindu e uma
importante referência para o estudo da filosofia do yoga clássico. Nesse livro há os personagens
Krishna e Arjuna, e a trama da história gira em torno dos diálogos de ambos em meio a uma imensa
batalha travada entre familiares. Krishna é a alma dentro de nós, e Arjuna é o guerreiro que existe em
cada Ser que luta para encontrar a quietude e a paz. É uma metáfora da batalha interior que acontece
em todos os seres humanos.
204

de “Yoga, Arte e Autoconhecimento”, uma grande oportunidade de lapidação de meus


próprios potenciais a partir do encontro com pessoas imensamente sábias e
amorosas. Sem os ensinamentos do yoga e a noção de tudo isso, não sei se eu teria
coragem para assumir esse projeto e para ousar ir além dos limites até então
conhecidos por mim.

Amor maduro

Acredito que uma das responsabilidades mais profundas que eu e todos os os


educadores promotores da paz temos é a de manter a chama do amor fraterno acesa
em si e nas pessoas com quem estiver em contato. Sobre esse amor : “Professores,
há aos milhares. Mas professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por
amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de
um grande amor, de uma grande esperança. “ (ALVES, 1980, p.11)
O amor é a grande força do universo. E poder ter contato frequente com os meus
alunos da UNATI me ensinou muito sobre essa força. Os sorrisos na chegada, os
abraços na porta. A montagem do centro da sala, os “quitutes” que são trazidos aos
picnics. Os sorrisos quando a sensação de satisfação e relaxamento impera na sala.
A sensação de bem-estar e tranquilidade quando um de nós escuta que o outro está
se sentindo melhor. As músicas harmônicas, com palavras bonitas. Os convidados
que chegam trazendo seus encantos. A vontade de aprender que se confunde
deliciosamente com a intenção de se aprofundar no autocuidado.
O amor maior que, aliás, é realmente grande, é o amor contido nas histórias de
cada um. São histórias repletas de superação e vontade de viver. O quanto aprendo
com cada um deles! Conversamos pouco sobre a vida, mas com os trabalhos
artísticos que solicito (a árvore do yoga, a homenagem ao herói/heroína, as
mandalas), os passeios e as interações por whatsapp me ajudaram a compreender o
quão especial foi essa reunião de pessoas. Esse encontro repleto de aprendizado e
de ternura.
Acessar esse amor e, ao mesmo tempo, poder vivenciar o yoga em tamanha
profundidade, é uma oportunidade incrível de crescimento pessoal. Sobre esse amor
em expansão, Deepak Chopra, no livro “As Sete Leis Espirituais do Sucesso”,
poeticamente conta que:
205

Somos todos viajantes de uma jornada cósmica – poeira de estrelas, girando


e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas,
as suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias.
Gautama Buda, fundador do budismo, disse certa vez:
“Nossa existência é transitória como as nuvens no outono. Observar o
nascimento e morte do ser é como olhar os movimentos da dança. Uma vida
é como brilho de um relâmpago no céu, levada pela torrente montanha
abaixo. ”
Nós paramos um instante para encontrar o outro, para nos conhecermos,
para amar e compartilhar. É um momento precioso, mas transitório. Um
pequeno parêntese na eternidade. Se partilhamos carinho, sinceridade, amor,
criamos abundância e alegria para todos nós. Esse momento de amor é
valioso. (CHOPRA, 2017, p.105)

Por isso desejo continuar com as aulas de Yoga na UNATI por mais tempo. Quero
aproveitar ao máximo o contato com esses novos amigos que fiz. Aprender junto,
honrando essa oportunidade de nos conhecermos. Que a minha jovialidade e vontade
de descobrir e conhecer as coisas do mundo possa se somar à experiência de vida e
ao intento de unir saúde, sabedoria e serenidade ao viver de cada um dos educandos.
E que, como resultado dessa soma, possamos multiplicar mais e mais sementes de
paz pelo mundo!
A experiência viva de educar, pois, consiste em

Tornar-se mais que um transmissor de informação - e ser um educador que


inspira e dá exemplos com seus pensamentos, palavras e atitudes do que
ensina - é aceitar ser um instrumento para conduzir pelo caminho da retidão
a personalidade dos alunos. O amor e a dedicação precisam permear a
conduta do professor. Ensinar é também arte e ciência. O professor inspirado
é aquele que objetiva o aprimoramento das aulas procurando desenvolver os
talentos e habilidades dos alunos numa atmosfera de amor, alegria e
companheirismo, assim sendo como seus próprios talentos e qualidades.
(MIGLIORI et al 1999, p. 99)

Quero também poder dar aulas de yoga e artes para crianças e adolescentes.
Dessa forma poderei utilizar este presente estudo para a prática docente direcionada
às gerações que vieram depois de mim. Quero poder estudar mais, e me apropriar da
“Mandala de Conexões” para as aulas da Casa Paz e para todos os projetos que
almejo realizar. Quero poder a cada dia melhorar minha atuação profissional mas o
mais importante é que eu faça isso com a felicidade e a equanimidade dos iogues,
com o amor e a curiosidade dos meus alunos e com o sorriso e a alegria das crianças.
O meu maior sonho é viver por muitos e muitos anos de forma confortável (em
todos os sentidos), sendo educador, compartilhando felicidade com muitas pessoas.
Quero poder servir de inspiração às realizações de outros sonhos, e espero
206

testemunhá-los ou até mesmo fazer parte deles. Espero ser um bom agente de Cultura
de Paz em benefício da humanidade, dos animais e da natureza.

Postura ética educadora

Todos aqueles que foram iniciados na árvore do yoga, ou seja, apresentados aos
yamas e niyamas como raízes e troncos de nossas trajetórias rumo ao topo da vida,
rumo à samadhi, temos o conhecimento do yoga. Por conseguinte,
independentemente de sermos profissionais da educação ou não, a partir do momento
em que intencionamos florescer (realizando nosso trabalho no mundo) - e gerar frutos
(por exemplo planejando ter filhos ou iniciando novos projetos que possam ajudar as
pessoas e o planeta) - nós assumimos uma responsabilidade genuinamente
importante. A responsabilidade de ser ético e consciente. E isso ninguém pode tirar
de nós.
Leonardo Boff, em seu texto “Florescer”, o qual pode ser lido no blog deste
educador, reflete sobre consciência e a nossa missão individual e coletiva:

“E pensar que toda esta maravilha, gerada pela Mãe Terra, pode um
dia desaparecer devido ao nosso estilo de habitar, sem o devido cuidado,
para com os equilíbrios do sistema-vida e do sistema-Terra pois
estabelecemos, já há centenas e centenas de anos, uma relação de agressão
e de uso meramente utilitário dos bens e serviços que nos são gratuitamente
oferecidos. Em vez de guardiães do jardim do Eden nos fizemos o Satã da
Terra, aqueles que cortam as hastes e impedem que os botões virem flores
e rosas. (BOFF, 2012)

O chamado da autotransformação pela consciência é para todos. Precisamos


zelar esse jardim que é a nossa Mãe Terra, para que as gerações de nossos netos e
bisnetos consigam viver de forma saudável no planeta. Precisamos assumir a nossa
própria missão, independentemente de nossa formação acadêmica ou técnica,
independentemente de nossas crenças ou origens. Todos nós podemos auxiliar
outras pessoas ao compartilhar conhecimentos, ao fazer o bem e ao cuidar com
carinho e respeito daquele que precisa. Dentro desse chamado à mudança, devemos
incluir os animais, e as lindas paisagens de nosso planeta.

Esse desabrochar surpreendente representa uma metáfora de nossa


própria existência. Nascemos todos inteiros mas não estamos ainda prontos.
Somos habitados por incontáveis virtualidades que querem vir à luz,
desabrochar, saudar e sorrir para todo o universo. (ibidem)
207

O yoga nos ensina isso, a a prática de meditação deve ser constante para nos
lembrar de que já nasçemos felizes, e precisamos realçar no silêncio e na respiração
tranquila essas virtudes e potenciais que podem realmente fazer a diferença na vida
de um ser humano. Podemos então, pensar na vida na Terra como uma escola, uma
imensa comunidade de aprendizagem que está em processo de revitalização, e nós
que somos seus estudantes mais atentos e aplicados precisamos rapidamente
assimilar os saberes que nos são transmitidos e também colocá-los em prática a fim
de evitar tragédias maiores no futuro.

Demos esta chance a nós mesmos. Escutemos o nosso Eu profundo


e auscultemos o chamado interior de nossa natureza e permitamos que o que
lá se esconde, irrompa, se abra e desabroche totalmente. Esse evento
benaventurado só se faz possível se nos sentirmos conectados com todos os
seres, vivenciarmos, a partir do coração, o fatao de que somos
verdadeiramente irmãos e irmãs uns dos outros e que nos respeitamos, e nos
veneramos e nos amamos assim como somos, botões que só tem sentido
porque podem e querem ser como as flores e as rosas que despertam do
sono e celebram com sua esplêndida beleza e o milagre da existência.
Nascemos para desabrochar, para sorrir e para revelarmos uns aos outros a
nossa irradiante beleza.” (ibidem)

Aprendemos com os mestres antigos do oriente, e com muitos professores atuais


que precisamos nos unir na direção do bem, da justiça e da paz entre todos os povos.
E, para que isso aconteça, é de extrema importância que haja esforço para a mudança
interior, a autotransformação na direção da autorrealização. Quando autorrealizado, o
ser humano pode ser mais pacífico e bondoso. “Por meio da prática perseverante e
prolongada, qualquer pessoa pode trilhar o caminho da ioga e alcançar a meta da
iluminação e da liberdade. Krishna, Buda e Jesus residem no coração de todos nós.”
(IYENGAR, 2017, p. 13)
Atendamos, então, ao chamado da natureza, pois o tempo é agora. Cuidemos de
nós e dos outros. Àqueles que já ouviram esse chamado e se identificam como ofício
de lecionar, “lembrem-se de que vocês são pastores da alegria, e que a sua
responsabilidade primeira é definida por um rosto que lhes faz um pedido: ‘Por favor,
me ajude a ser feliz.’” (ALVES, 1994, p.12)
Com os yamas e niyamas na mão, com a prática real e disciplinada, do seu
próprio sadhana, com fé e vontade de viver, é possível sim ter uma postura ética
educadora e fazer a diferença nas vidas de pessoas. O importante é iniciar algum
projeto, começando de dentro. Que tal tentar?
208

A futurista, especialista em economia criativa e colaborativa, Lala Deheinzelin,


em entrevista virtual para a Revista PEGN replicada em seu canal no YouTube
aposta em mudanças positivas na sociedade ao dizer que:

“Cuidar é infinito. O que que quer dizer cuidar? Cuidar é você perguntar se o
teu empreendimento cuida de alguma coisa. Cuida de uma comunidade, de
um propósito, de qualquer ocisa. Se você consegue responder a pergunta,
legal: voce está preparado para essa transição. E Talvez no futuro, a gente
em vez de perguntar “- Ah, você trabalha com que? A gente vai perguntar “-
Ah, você cuida de que?”” (DEHEINZELIN, 2017)

Somos cuidadores do momento presente. Temos o conhecimento, temos


nosso discernimento e a consciência de que as coisas não podem ficar como estão.
Lembremos que Paulo Freire (2002, p.12), no livro “Pedagogia da Autonomia”, quando
nos alerta que “Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mais criar as
possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”
Somos guerreiros da paz em confronto com todas as razões que impedem a
humanidade de se aproximar dela. Muitos de nós lançamos apenas flores, palavras
pacíficas, olhares amorosos, abraços afetuosos e pensamentos de esperanças. Nós
próprios nos elegemos cuidadores da vida. O futuro está chegando, o tempo passa
rápido.

Eu escolhi cuidar de mim, dos educandos, dos praticantes de yoga, da


Universidade, do meu espaço, dos meus pais e de minha cadela de estimação. E
você:

Escolheu cuidar do que?


209

Para viver em perfeição (para Carol Piques)

E juntos nós seguimos


Embarcar nessa missão
Navegar na consciência
Dissolver a escuridão
Recordar a nossa essência
E firmar nossa missão

A missão é a certeza
Da autorrealização
De agir com proeza
Pra chegar no coração
E caminhar com pureza
Nesse mundo de ilusão

E caminhar na beleza
Para além da ilusão
É sentir a natureza
Acender a luz então
E curar a dor da infância
É amar o seu irmão

É poder ser criança


Pra criar um mundo bom
Vai pedindo a guiança
Sem perder a direção
Que quem pede alcança
Com fé no amor maior

Segue firme nessa crença


Segura na minha mão
Caminha livre nessa estrada
Voa com os pés no chão
Se balançar te firma
Confia na intuição

Prossegue com constância


Vive em determinação
Sonha com perseverança
Não desiste meu irmão
Sua luz é tão imensa
Ela reflete a imensidão

E assim siga como a lua


Ilumina como o sol
Sendo leve em sua dança
Expandindo sua visão
De enxergar a mudança
De trazer transformação

Seu olhar de esperança


Aqui nos traz conexão
Sua luz tem importância
Pra todos que aqui estão
Segue então na sua essência
E assim viva em perfeição

12-05-2019
210

Capítulo 10 - Conclusão

Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o


amor e a compaixão. A paz começa com um sorriso. Sorria pelo menos
cinco vezes por dia para as pessoas a quem você normalmente não
daria um sorriso. Faça isso pela paz. Irradiemos a paz de Deus e
tornemo-nos o reflexo de sua luz para extinguir no mundo e no coração
dos homens toda espécie de ódio e o amor pelo poder. Sorria junto
com os outros, embora isso nem sempre seja fácil.
Madre Teresa de Calcutá

10.1. Conselho de um amigo educador

Faz parte da história da humanidade buscar certezas mentais e sensações


de segurança física. Isso tudo, de acordo com a estudiosa da educação, Marilu
Martinelli (2012), “é fonte de ansiedade e angústia, porque a vida é frágil, e feita de
incertezas, multifacetada e misteriosa.” Com o tempo, a vida ensina que a única das
certezas – além da morte – é que tudo muda, que a mutabilidade é uma característica
do viver neste planeta. São tantos os questionamentos da existência, e diante de todas
as buscas, conseguimos confirmar apenas a morte e o nascimento como rumos e
caminhos inquestionáveis. Por que então seguimos caminhando com tantos receios,
nos freando diante de tentativas e carregando nossos pensamentos com tantas
culpas? Muitas vezes é isso o que leva as pessoas a adoecerem, somado à falta de
conexão com uma razão forte para seguir na caminhada e ao encontro com pessoas
cujas visões de mundo sejam semelhantes.
Nas trajetórias, vivemos nos preservando movidos pelo medo da rejeição,
do sofrimento, do desamor, da inadequação, da doença e do fim dos ciclos. A
educação tradicional possivelmente não tenha nos fornecidos as chaves para
escaparmos dessas sensações das quais sempre estamos fugindo, e talvez às vezes
nos sintamos prisioneiros de nossos próprios pensamentos, reféns do medo que está
em mim, que está em todos ao nosso redor.
Se focamos nosso olhar no exterior, podemos testemunhar nos noticiários os
fatos que arrancam a dignidade dos homens e mulheres, já que a mídia sabe muito
bem cumprir sua função de alimentar nossos receios. Se focamos naquilo que fizeram
de ruim conosco, ficamos mais fechados e às vezes nem prestamos atenção nas
novidades que a vida está nos preparando. Será que encaramos a vida como se ela
fosse um campo de batalha? Como seria se enxergássemos o dia-a-dia como um
211

eterno recomeço, e cada despertar como um lindo convite à reestruturação do que


somos? Será que conseguimos tentar?
Amigo, é preciso tentar. Pois todos os dias a vida nos retorna e não podemos
tentar controla-la até o dia em que isso não vai mais acontecer. É preciso praticar
ahimsa (não-violência) e satya (veracidade), mas começando de você mesmo. Que
você possa acessar sua integridade e cuidar do seu corpo e mente com muito carinho.
E desenvolver a qualidade de santosha (contentamento), para compartilhar com
aqueles que ama, desde o reflexo de seu sorriso até os resultados de suas ações.
Pensamento, palavra e ação em união na direção da autorrealização.
Pela beleza da vida, cultive o seu jardim interior e permita-se despertar para
a vida nova sempre que desanimar. Mude os caminhos, cheire uma flor, converse com
alguém que admira, alegre-se com filme leve, dance sozinho para você mesmo. Pela
beleza da vida, persista nos seus sonhos e tente não se esquecer mais do quão
especial é ser humano e plantar sementes da paz e da poesia em tempos tão
delicados.
Há tristeza, mas também há pureza e alegria. Resgatamos sentido no viver
quando lembramos que a nossa existência é uma escola, e os aprendizados a cada
momento nos revelam o quão importante é viver com atenção plena e leveza. No
caminho, há os sorrisos de crianças, as cores das borboletas repentinas e os sons
dos pássaros na cidade – mas se estamos distraídos nos anseios e nas emoções
atribuladas, não conseguimos contempla-los. Há também os desafios, que são nossas
alavancas de crescimento e autodesenvolvimento. Eles nos fazem crescer na direção
de moksha, a libertação. A cada dia, seguimos de passo em passo ao novo propósito
coletivo de tornar esse mundo mais habitável e harmônico para as próximas gerações.
Ninguém disse que seria fácil. Entretanto, depois de tudo o que vivenciamos, sei que
todos concordamos que as dificuldades e o encontro com nossa real identidade nos
impulsionaram ao encontro de nossa força viva.
Somos um time, e ele é composto por milhões de pessoas. Como seria bom
se nossas rodas pudessem abraçar amigos sonhadores que nunca tiveram as
oportunidades que tivemos. Não seria realmente incrível poder compartilhar essas
danças, músicas, respirações, posturas iogues, informações sobre autoconhecimento
e relaxamento, com mais pessoas? Então, por que não seguimos juntos na condição
de promotores dessa Cultura de Paz?
Agora que você já tem essas sementes plantadas em seu coração e mente, vá
212

em frente. Sabendo que poderá contar com seus amigos da UNATI ou na comunidade
de aprendizagem da qual você faz parte, siga ensinando o que aprendeu, diante de
sua integridade. Seja você, na confiança realista de que só existe você tal como é, em
uma união única e imensamente especial de qualidades e virtudes humanas. Você é
um agente da Cultura de Paz, e faz parte de sua história fazer o bem enquanto busca
a sua felicidade. Por favor, nunca se esqueça disso.
A vida é uma jornada que mobiliza nossas consciências, e que muitas vezes nos
pede para dançar criativamente em meio ao desconhecido ou às turbulências do
caminho. Por isso, viver é para todos nós, corajosos, amantes da alegria. Nós, que
escolhemos dialogar com a vida, e colaborar com aquilo que é bom. Nós, que
acreditamos que o amanhã poderá ser melhor, sem tanto medo, sem tanta ansiedade,
mas com a presença e a disponibilidade que a nossa própria consciência nos ensina.
Recordo aqui um trecho da música “Soldados de Luz” de minha amiga
Valéria Pontes, e encerro esse excerto com a seguinte poesia:

“Soldados de luz
Com sementes de amor
No útero da Terra
Vão plantando a paz
(...)
Firme e fortes sigam a direção.
E parem de olhar pra trás
Que o passado se desfaz.”
(PONTES, 2015, p.85) 15

E não se esqueçam de regar as sementes e as plantas já cultivadas no seu jardim


interior de paz, na árvore do yoga, no templo da alma. Não deixem de praticar, e não
se esqueçam de compor o sadhana, a prática diária, sempre colocando elementos da
filosofia e da prática do yoga, da meditação, do yoga restaurativo, das artes e da
Cultura de Paz.

15
Conheci essa música na Sagrada Casa dos Peregrinos de Gaya, em Itapecerica da Serra, em
2017, cantada pela própria Valéria Pontes, em um ritual do seu Hinário “Crystal”, uma compilação de
músicas espirituais. Para conhecer essas músicas, o site de referência é
https://www.peregrinosdegaya.com.br/hinarios
213

10.2. – Finalização e resultados

E esse trabalho escrito chegou à sua conclusão, contagiado por uma potência
criativa que indubitavelmente levará os ecos de suas palavras e de suas ações para
projetos futuros. A sensação que fica é a de que muita coisa irá acontecer a partir de
tudo o que aconteceu a partir da “Mandala de Conexões” e da nossa oficina de “Yoga,
Arte e Autoconhecimento” que uniu em 2019 mais de cinquenta vidas a partir da
motivação de praticar yoga e vivenciar momentos de arte, comunhão, alegria e
sabedoria.
A construção de nossa comunidade de aprendizagem na Universidade Aberta à
Terceira Idade do Instituto de Artes aconteceu em virtude de uma motivação
acadêmica e também de uma intenção particular minha relacionada ao meu processo
de autoconhecimento. Eu sabia que isso me faria crescer, e que me traria
aprendizados de imenso valor. Entretanto, eu não imaginava que esse processo seria
tão transformador.
Foi realmente um rito de passagem em minha vida, pois esse foi o primeiro
projeto profissional que liderei por mais de seis meses. E essa foi a primeira vez que
decidi tentar ir além de meus limites até então conhecidos para ousar fazer algo novo
e, a meu ver, aparentemente complexo. Mas eu consegui, e me sinto agora muito
satisfeito por ter recebido tantos depoimentos repletos de gratidão e carinho, e por ter
até o presente momento do ano letivo aproximadamente vinte educandos
frequentando semanalmente as aulas. Além disso, tenho também os alunos do Projeto
Yoga na UNESP, com aulas de Yoga para pessoas de todas as idades todas as
segundas em horário posterior ao das aulas da UNATI.
Sinto-me feliz por essa caminhada que trilhei. Sinto-me abençoado por ter
conseguido contagiar as alunas a seguirem praticando hatha yoga, meditação e yoga
restaurativo. Sei que muitas delas continuam estudando os conteúdos filosóficos que
complementam o que vivenciamos em aulas, e também vivenciando as mandalas, as
danças circulares, os mantras e outros elementos que coloriram nossas segundas-
feiras.
Conversei muito com as alunas nas últimas semanas para aprender com elas, e
para compreender o que elas estavam sentindo e como o yoga estava tocando suas
vidas. Tudo ficou mais claro quando comecei a receber os depoimentos por whatsapp,
214

e, sobretudo, quando recebi os presentes de dia dos professores. Nesse dia tão
marcante eu reconheci que nunca posso parar de dar aulas, e que preciso persistir
em meus projetos, pois há muita coisa especial pela frente.
Os educandos da UNATI me revitalizaram, e me ajudaram a reconhecer o sentido
de minha vida e de meu trabalho nesse planeta. E sei que foi uma troca, pois muitos
deles também me agradeceram e relataram benefícios em seus corpos, em suas
mentes, e em suas vidas como um todo. Isso é o mais importante e eu espero que
nessa pesquisa eu tenha conseguido explicitar ao menos uma parte das mudanças
que aconteceram em nós.
Ganhei bastante segurança em relação à ação educadora, ao ato de lecionar. Os
alunos me ajudaram e me encorajaram, conscientemente – com grupo – eles
confiaram em mim e acolheram minhas propostas. Eles também confiaram neles
mesmos, e se permitiram fazer amigos e aprofundar alguns vínculos.
Nós conseguimos aprofundar nossas conexões com o eu, com o outro e com o
todo. Conseguimos, também, com simplicidade e generosidade, vivenciar nossos
processos criativos não somente nas vivências artísticas propostas mas também no
dia-a-dia, quando nos dedicamos a trazer os elementos poéticos e filosóficos do yoga
para a vida. Estamos compondo o nosso sadhana, permitindo-nos ter uma vida mais
leve.
Os resultados dessa pesquisa, desse projeto de extensão, dessas experiências,
estão em nós. Nós, que nos permitimos fazer yoga nas tardes de segundas-feiras, na
contra-mão da pressa lá de fora. Estão nas palavras aqui manifestadas, nas poesias,
nos desenhos, nos depoimentos, nos registros fotográficos e nas nossas lembranças.
Dentre as certezas que colhemos desse plantio, talvez a mais forte seja a de que
todos os participantes envolvidos nesse projeto se sentiram transformados em alguma
instância. E a transformação interior é o principal objetivo do yoga como método, como
meta, como ciência, como arte e como prática.
O poeta Manoel de Barros colore palavras em simplicidades que nos elevam na
leveza. Ele poeticamente diz: “Do lugar de onde estou já fui embora”, e nos lembra
que estaremos sempre em movimento, independentemente da idade e de nosso
estado interior. Sempre é momento de nos renovarmos e de nos prepararmos para as
próximas renovações. E a hora do aprendizado é constante, eterna. Nunca é tarde,
então não nos apressemos tanto para chegar lá, mas também não tenhamos tempo a
perder. E aproveitemos, pois sentiremos saudades.
215

Esses momentos deixarão saudades. Saudades com aroma de lavanda e com o


som de músicas instrumentais com sons de águas e pássaros. Mas sei que
saberemos cultivar essa saudade como uma força extra para recarregar nossas
lembranças nos momentos em que, no futuro, a solidão chegar. Entretanto, quando
ela chegar nós saberemos acessar mais rapidamente a paz que nos compõe e que
nos habita, aquela força interior que nos acolhe e nos acalma nas aulas de yoga. A
paz, que é o que mais buscamos como humanidade, e aquilo de que mais
necessitamos.

Vejo-me como um professor marginal, ou professor clandestino, em uma atuação


independente e ousada em meio à Universidade. Desde 2015 ocupando salas de aula
no Instituto de Artes, no Instituto de Física Teórica e no gramado deste conjunto de
prédios, propondo as aulas e tentando sempre me renovar. Consegui o meu espaço
para realizar essas ações educadoras, e sou muito grato por isso. Ousar para ocupar
um lugar que é seu, superando medos e preconceitos, é algo que nos faz conquistar
uma força muito grande.
No começo, muitas pessoas me desencorajaram quando queria começar a
desenvolver um trabalho para dar aulas para funcionários da UNESP, mas eu persisti
pois sabia que esse tipo de vivência poderia ajudar muitas pessoas por alí. E a minha
persistência me levou a conhecer pessoas muito especiais a partir da relação
educador/educando. Então: valeu muito a pena fortalecer esse trabalho na
Universidade. Gostei de ocupar esse lugar que é de todos aqueles que têm algo de
bom a oferecer.

Como pesquisador eu consegui desenvolver muitos potenciais que desconhecia,


e que as orientadoras Maíra Gestner e Lilian Vilena conseguiram vislumbrar para que,
no decorrer do processo, a finalização deste ciclo fosse realizada com alegria e
satisfação. Conseguimos juntos nos ajudar e aprendemos muito uns com os outros.
Agradeço imensamente pelo impulso e pela força que me deram.

Em relação às leituras e à apreensão de conhecimentos teóricos, eu posso


afirmar que a busca foi profunda. Foram mais de cinquenta livros lidos – integral ou
parcialmente - desde março. Busquei livros em bibliotecas, livrarias, e na própria Casa
Paz. Busquei citações que me levaram a leituras de outros trabalhos de conclusão de
216

curso e dissertações de mestrado e doutorado; com isso conheci colegas de profissão


contagiados por sonhos e vontades de aprender tão grandes quanto as minhas.
Apesar de não ter tido muito tempo para ler as referidas obras com a calma que
considero ideal, eu pude aprender bastante sobre temas relacionados a àreas do
conhecimento até então pouco conhecidas por mim, como a educação física e a
gerontologia.
Foi um privilégio para mim resgatar as ideias de educadores cujas reflexões
teóricas sempre me encantaram e relacionar esses pensamentos aos dizeres e
saberes de professores de yoga e arte-educadores.
Apesar das dificuldades ao tecer conexões entre diferentes textualidades para
que elas se fizessem claras aqui no meu trabalho, eu sei que esse trabalho me
fortaleceu, e me revelou a minha própria potência pensadora e escritora. E isso me
trouxe mais vontade de seguir buscando, honrando essa trajetória tão rica que é a do
estudante da vida, aquele que pesquisa, pratica, propõe, inova, reflete, pausa e
prossegue – sendo guiado pelos sonhos e pela vontade de ver o mundo melhorar.
Pelo amor, pela ternura, pela responsabilidade, pelo compromisso ético social, pelos
yamas e niyamas. Na senda de moksha, de samadhi. Na direção do topo da árvore,
até o amadurecimento que gera frutos e espalha livremente sementes da paz.

Aos alunos: minha eterna gratidão e reverência, por terem sido grandes
educadores nesse momento de formação pelo qual me submeti. Agradeço por me
ensinarem o valor das relações e a importância de sermos respeitosos, amorosos e
sensíveis – sobretudo nos dias mais difíceis.
Aprendi que um abraço amoroso, um olhar atencioso e uma palavra positiva
podem transformar um dia de alguém, ou talvez até mesmo uma vida inteira. Nunca
vou me esquecer que, com vocês eu descobri que sem a virtude da alegria, eu não
posso continuar caminhando, já que ela – a alegria – é a minha principal potência.
Repito aqui mais uma vez a inesquecível colocação de Paulo Freire (1996, p. 23)
quando nos lembra que “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz
parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura,
fora da boniteza e da alegria.”
Não sabemos exatamente o que aconterá no futuro. O yoga não quer nos ensinar
isso, pois ele quer nos colocar no presente – exatamente no nosso lugar, em união
com a melhor versão de nós mesmos. Sigamos, pois, abertos a estar no momento
217

presente, firmes e estáveis.

10.3. Respire

Então, à parte as ansiedades e as lembranças do passado, feche os seus olhos


por alguns instantes e faça nossas cinco respirações pausadas, serenas,
mentalizando “Ma” na inspiração e “Om” 16na expiração. “Ma” é amor; “Om” é
consciência. Inspiremos amor, e expiremos consciência. Em seguida, abra os olhos,
leia e tente responder a si mesmo a seguinte pergunta:

Para que você ainda está vivo?17

16
O mantra “Ma Om” é um ensinamento da mestra Amma, Mata Amritanandamayi, recomendado por
ela a todos que precisam de foco mental e paz interior. Aprendi esse mantra frequentando o grupo de
meditação do Centro Amma São Paulo
17
Essa pergunta é material de reflexão em palestras de Ana Claudia Arantes, médica e estudiosa
acerca de questões ligadas à morte e a cuidados paliativos. Descobri essa frase e essa profissional
da saúde nos cursos de Yoga Restaurativo que realizei com a professora Raquel Peres.
218

10.4. Despedida

Despeço-me, agradecendo à vida e a todos que leram essa obra ou participaram


de alguma de minhas aulas neste ano letivo. Foi uma imensa honra estar com todos
vocês! Agradeço imensamente!
Sigamos enraizados nos princípios e nos valores que a prática e a filosofia do
yoga fortalece em todos nós, caminhando na direção do florescimento! Sigamos
superando imperfeições nessa estrada rumo à consciência, com concentração e foco
no propósito da vida – sem esquecer de movimentar e cuidar diariamente do corpo.
Vamos acreditar na autorrealização! É essa a promessa que Yogananda,
Iyengar, Patânjali, Amma, Madre Teresa, Dalai Lama, Hermógenes e tantos
professores respeitados da Cultura de Paz nos fazem ao solicitar que sigamos os
princípios dessa filosofia tão complexa mas ao mesmo tempo tão singela e acessível.
Se eles conseguiram, nós podemos também.

Pela luz do caminho nós vamos prosseguir.


Mas não vamos sozinhos.

Eu te vejo.
Estou aqui.

Namastê,
Ricardo Henrique

A prática deve continuar, uma vez que deve culminar no vislumbre da


alma. Assim, da flutuação à quietude, da quietude ao silêncio, do
silêncio ao vislumbre da alma, transcorre a jornada do yoga
(B.K.S. Iyengar)

Na Índia, “Namastê” é uma saudação comum, como “Olá”.


Mas “Namastê” tem um lindo significado:
“O ser divino em mim reverencia o ser divino em você.”
Somos muito maiores e mais sagrados do que pensamos.
(SUNIM, Haemin. Amor pelas coisas imperfeitas. 2019, p. 29)
219

APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO/ANAMNESE QUE FOI ENTREGUE AOS


EDUCANDOS

Ficha para dados individuais dos praticantes de Yoga – UNATI 2019

Professor: Ricardo Henrique

Nome Telefone/Whatsapp
Email / Facebook/ Instagram
Idade
Data de Nascimento:
*
Principais objetivos e motivações para praticar Yoga (se preferir, você pode
responder também com palavras-chave significativas)

*
Características sócioculturais:
Naturalidade:
Religião ou Crença:
Ocupação/Missão:
*
Experiência anterior com áreas afins ao Yoga:
Práticas corporais/Vivências somáticas:

Práticas Meditativas:

Estudos e cursos:

*
Aspectos relacionados à saúde (é possível que sejam mensurados em alguma
prática ou diante de alguma necessidade - essencial para práticas de Yogaterapia)
Pressão (PA):
FC em repouso:
FR em repouso:
Dores:
Alergias:
220

Problemas respiratórios:
Musculares:
Hormonais:
Osteoarticulares:
Neurológicos:
Cardiovasculares:
Digestivos:
Outros:

Observação: Marque o que souber. Caso não saiba alguma informação, você pode
deixar em branco.

Momento Presente - Nota de Bem-estar (de 0 a 10) :


*
Avaliação quanto ao dosha (segundo a Medicina Tradicional Ayurvédica - a ser
estudado conjuntamente durante as práticas - a ser respondido posteriormente, a
não ser que a pessoa já tenha realizado alguma consulta com terapeuta ou médico
ayurvédico):
Prakruti (Natureza/Constituição de Nascimento)
Vikruti (Desequilíbrio)

Avaliação Postural (aqui são listadas questões posturais - caso o praticante


ainda não saiba, posteriormente os instrutores realizarão a referida avaliação)
Cervical
Tórax
Lombar
Quadril
Membros Inferiores
*
Aspectos psicológicos
Alegria ( ) Tristeza/Melancolia ( ) Falta de estímulos ( ) Raiva ( ) Angústia (
) Fobias/Pânico ( ) Depressão ( ) Ansiedade ( ) Insônia ( ) Vontade de
desistir ( ) Preguiça ( ) Mágoa ( ) Euforia ( ) Bem estar ( ) Dúvida ( )
Desilusão ( ) Entusiasmo ( ) Conexão com o Propósito de Vida ( ) Sensibilidade
Extrema ( ) Stress ( ) Medos ( ) Felicidade ( )

Alguma psicopatologia diagnosticada (se preferir, comente diretamente e em


particular com o instrutor/professor):

*
Para além do que foi compartilhado nesta ficha, você gostaria de compartilhar
221

alguma queixa e/ou questão de sua vida? A partir disso, poderei preparar melhor
minhas aulas e lhe auxiliar e contemplar melhor suas dificuldades, anseios e
necessidades.

*
Caso você já seja aluno de nossas práticas, você tem alguma sugestão para que
nossas aulas sejam ainda melhores ? Gostaria de se aprofundar em algum
conhecimento, técnica ou retomar algo que foi abordado?

*
De 0 a 10, como você avalia seu grau de stress:
E seu grau de realização como Ser:

Assinatura:
_______________________________________________________________
*
Observações importantes sobre a OFICINA “YOGA, ARTE E
AUTOCONHECIMENTO”, da UNATI:

*Solicitamos aos praticantes que busquem manter a frequência nas aulas, cultivando
a dedicação, o entusiasmo e a curiosidade. O professor estará sempre aberto a
dialogar, por meios virtuais e sobretudo pessoalmente. A ideia é que fortaleçamos a
partir das aulas de Yoga um núcleo de apoio, afeto e amizade e, de acordo com a
união que a palavra Yoga simboliza, possamos nos sentir incluídos e
compreendidos.

*Pedimos que nos comuniquem caso haja alguma questão patológica, lesão, dores
acentuadas, incômodos. Quando sentirem algo diferente em relação ao próprio
organismo, peço que isso seja avisado e para que os praticantes fiquem atentos a
não irem além dos seus limites na prática. Ahimsa - Não violência sempre!

*Solicitamos que o praticante cultive as referidas virtudes citadas no item anterior


tendo em vista que o Projeto de Yoga na UNATI tem o formato similar ao de um
curso livre. Há continuidade nas aulas, as quais são desenhadas e planejadas com
temas ligados à filosofia do Yoga. Sabemos que o Yoga é um sistema de
conhecimento, e cada técnica e cada pilar teórico a ser estudado é uma pedra
preciosa de um grande mosaico que pode nos auxiliar em todos os campos de
nossas vidas.

*É possível que sejam propostas aulas de Yoga ao ar livre, tanto no ambiente do


campus da UNESP, quanto no Parque da Água Branca.

*Neste ano estamos abertos à realização da palestras ou vivências ligadas a Yoga,


bem-estar e autoconhecimento, que podem acontecer tanto no horário das aulas
quanto em horários extras. Tudo será decidido em coletivo.

*Queremos também passar ao menos um filme por semestre letivo


222

*Recomendamos que a pessoa adquira o próprio tapetinho/yogamat. Conhecemos


lugares com preços bons, tais como a loja Niazi Chofi na Rua 25 de março ou a loja
EVA Técnica na Avenida Rangel Pestana.

*No final de cada semestre acontecerá uma celebração com confraternização e


alimentação saudável.

*As aulas são para todos os níveis de praticantes. Yoga é para todos!

*É importante que os participantes venham com roupas confortáveis para as aulas.

*Por favor, não entrar com sapatos no espaço da prática, somente na área próxima à
porta de entrada.

*Pedimos o auxílio dos participantes para harmonizar o ambiente da prática,


deixando o espaço sempre arejado, tranquilo e amplo. Sempre afastamos as
cadeiras antes de iniciar as aulas, e ao final sempre as colocamos de volta no lugar.
Essa ação é de tod@s nós! =)
*Se a pessoa se ausentar por muito tempo sem explicar o motivo ao instrutor, nós
nos comunicaremos, conversamos e buscaremos saber as razões do afastamento.
Dependendo da motivação, há a possibilidade de a pessoa perder a vaga. Mas tudo
funciona de acordo com o diálogo. Entendemos que durante o ano muitas coisas
acontecem. E, assim como nós, instrutores, todos temos momentos de maior
sensibilidade e fragilidade. Entretanto, queremos sempre incentivar o bem-estar, a
alegria e o entusiasmo em cada praticante de nossas aulas.

*Realçando o que já foi postulado : frequência, dedicação, interesse, - Faremos o


possível para manifestar essas mesmas virtudes!

*Sempre que possível, chegar antes do horário Caso não seja possível chegar com
antecedência, ou ocorra um atraso, não há problema.

*Quem quiser contribuir com lanches, chás, frutas, degustações saudáveis/vegs,


será muito bem-vindo. Ficaremos eternamente gratos

*Tragam seus sorrisos, amigos, afetos, abraços, muito amor, alegria e paz!
*Ficaremos muito felizes com sugestões, contribuições de temas, textos, poesias,
filmes, músicas - O PROJETO É DE TODOS NÓS!

*Yoga é UNIÃO <3 Com gratidão,


Namastê
Ricardo
223

APÊNDICE B – DEPOIMENTOS DOS ALUNOS

Vera Costa – 17/10

“Tenho muito o que agradecer a você pelas aulas, elas tem sido extraordinárias na
minha vida. Pena que é somente às segundas. Mesmo correndo, saíndo 13h30, 13h,
12h30 da Zona Leste. Eu vou correndo para a Barra Funda só para ter essa aula com
você. E isso tem tido fundamental importância. Inclusive algumas coisas eu tento até
aplicar para as minhas crianças que tem 3 anos, 3 anos e meio.
Tenho muita gratidão por todo o seu trabalho, que é maravilhoso. Traz uma mudança
muito boa nas nossas vidas, na minha vida principalmente.”

“Eu sou a Vera Costa. E quero deixar registrado aqui sobre o quanto benéficas têm
sido suas aulas na minha vida. Vou aproveitar o espaço para agradecer à UNESP pois
ela disponibiliza o espaço para que essas vivências sejam possíveis e principalmente
por acreditar nesse trabalho sério e competente que você vem fazendo e que está
acontecendo a partir do yoga. Eu digo a partir do yoga porque você nos trouxe muitas
outras responsabilidades com a prática da meditação, do relaxamento, dos ásanas,
dos vídeos, das mandalas, das danças circulares. Os desenhos que você trouxe para
pintarmos. A indicação de livros e filmes. As atividades relembrando nossos heróis.
Heróis específicos com nomes, com fotos, registros. Você nos deu a oportunidade da
gratidão a eles. A esses nossos heróis.
E essa atividade nos fez refletir sobre o quanto estamos sendo heróis no nosso dia-a-
dia. E tem também os textos maravilhosos que você traz a cada encontro, com as
mensagens sempre positivas, com muito conhecimento.
E tem também os passeios. No ibira, eu não pude ir, que pena. Mas as pessoas que
foram se sentiram bastante felizes naquilo – naquilo que foi proposto, no passeio.
E os mantras, quando eu percebo que há algum sentimento de medo, angústia,
quando aquilo vai se aproximando, eu procuro me aproximar da sua aula. Aí eu
começo a cantarolar “Vai florescer o Ser Divino que está dentro de você, vai florescer,
vai florescer”. Nossa, que aula foi aquela! Linda! Maravilhosa para mim.
E então quando você trouxe aquele vídeo “Deixa a luz do Sol Entrar, Abra bem as
portas do seu coração e deixa a luz do Sol entrar”, foi muito marcante. O medo vai
embora, a angústia vai embora. Muito bom, muito legal. Pena que nós temos uma data
224

de encerramento nesse espaço mas se houver outras oportunidades eu quero estar


com você nos grupos que você formou. Você tem muito conhecimento, muita
sabedoria, muita boa vontade. Eu acho que você é extremamente generoso. Então,
um pouco de quase tudo que você nos doou desperta em nós o interesse pela arte:
arte em todos os sentidos. E eu vou até tentar adaptar e levar para as minhas crianças
de 3 anos e meio no CEI onde eu trabalho como professora. Então quero agradecer
a você por tanto aprendizado e novamente quero agradecer à UNESP por essa
oportunidade para mim e para todo o grupo, e para você.
Eu aprendo muito com você, Ricardo, mas o que eu trago no meu coração sempre e
quero levar para a minha vida é o que você sempre fala, e você pratica em todas as
aulas.
É que é sim possível promover a paz no mundo com a nossa solidariedade, com a
nossa alegria, com o nosso sorriso e com o nosso abraço.
Essa é a sua marca, você ensina e pratica isso no seu dia-a-dia .
Então você com toda a sua simplicidade vivencia tudo isso.
Minha eterna gratidão, querido. Meu amor.
E que você seja muito feliz em todos os setores da vida que você escolher.
Deus te abençoe
Beijo grande.
Vera

Bernadete – 17/10

Oi professor queridíssimo ! Deixo meu depoimento aqui.


Dentro da minha experiência no semestre passado: foi uma aprendizado muito grande
Para eu aprender a fazer uma Introspecção, focar com atenção a minha respiração,
dedicar um tempo para mim, para o meu bem-estar . Eu acho que refazer essa reserva
desse tempo para eu me centrar, acalmar minha ansiedade . Então eu procuro fazer
sempre pela manhã porque é como se eu fizesse uma limpeza na minha mente e aí
minha ansiedade baixa e eu sinto como se tudo fosse possível e como se fosse mais
fácil do que só pensamento.
Então eu realizo pela manhã para depois iniciar minhas atividades. Eu me sinto mais
centrada e mais dentro daquilo que devo fazer no meu trabalho.
Gosto muito e faço muito isso. Ouço os mantras antes de dormir. Eles me conduzem
225

mais rapidamente para o sono de uma forma tranquila e eu vou...embalo...e isso é


muito bom, muito gostoso e reconfortante. É um abraço para dormir.
E também aprendi as posições das mãos que você tanto ensinou que eu acho que é
agradecer nas posições certas. Buscar energia física e espiritual para o meu corpo
através das mãos. Tem sido gestos tão simples, tão importantes e grandiosos para o
meu bem-estar. E acho que somando tudo isso é como se eu conseguisse perceber
que eu me tornei não digo uma pessoa melhor (no sentido de ser melhor de todas),
mas me tornei uma pessoa mais calma como se eu estivesse primeiro ouvindo depois
processando, depois limpando o que eu ouvi para depois ter ação.
É isso professor.
Eu só não participei mais das aulas por conta de trabalho no final do primeiro semestre
e no segundo semestre.
Sucesso.
Você é muito bom no que você faz.
Você acredita piamente em tudo. E isso é muito importante porque você consegue
passar isso para os seus aluns. Não fica só no talvez, é real.
Com certeza essa turma no segundo semestre, que foi maior. Eu acompanho e leio e
vejo o quanto todas e todos (tem menino agora), são agradecidos a você.
Você é um grande mestre.
Grande beijo . Sucesso. Obrigada.

Bete – 17/10
Então Ricardo, eu fiz algumas aulas com você mas depois comecei a sentir muita dor
por causa da fibromialgia. Como faço outra atividade física no mesmo dia, fica difícil
para mim conciliar as duas atividades.
Pelo menos a aula que fiz eu gostei muito.
Estou participando do grupo de vocês, e tem me trazido bastante coisa boa o que eu
leio. Tem muita coisa bacana, mensagens que você e as pessoas mandam. Então
estou tentando tirar proveito disso, mesmo não indo nas aulas.

Vera – 20/10

Olá Ricardo! A princípio, não tem como não falar das mudanças que a passagem do
tempo nos impõe; com maior ou menor limitações, mas a “conta chega”. É neste
226

contexto que a prática de yoga faz diferenças significativas ao nosso corpo. Primeiro,
porque vamos tendo mais autoconhecimento, confiança, aprendendo os limites; como
você mesmo fala. Até onde é capaz de avançar, e por incrível que possa parecer, aos
poucos vamos aumentando nossa capacidade. Também, aprendemos técnicas de
equilíbrio e as vivenciamos; e claro, aplicamos em nosso dia- a-dia aos movimentos
básicos do cotidiano. A qualidade do sono é bem real quando conseguimos melhorara
qualidade da nossa prática de respiração profunda aliada às músicas que nos foram
apresentadas. Respirar com maior qualidade e presença auxilia bastante no controle
da ansiedade.

(Vera, por whatsapp, em 20/10)

Henrique – 20/10

Sobre a Vivência nas Danças Circulares Sagradas :


Participando dessa experiência por deveras vezes xamânica, percebi as diversas
formas de dinâmica que a forma circular está presente em vários momentos do nosso
dia a dia como função de igualar a todos e lembrar que somos um só. A Dança por si
já é um instrumento de auto conhecimento corporal e de expressão. Porém dançando
juntos nos sentimos fortalecidos pela sinergia que circula de mão em mão, de olhar
em olhar, de ritmo em ritmo a ser bailado. Traz a função também de exercitarmos
nossa coordenação motora, sobre o que é direito e esquerdo, em cima embaixo, em
frente atrás, senso de percepção do próximo, de espaço físico, da necessidade de
foco, do centrar-se. Da importância do Centro. Como já fazem alguns anos que
participo consegui solidificar amizades especiais para todo o sempre porque sabemos
da importância da dedicação e desafio de cada um estar presente naquele momento
fugaz que nos causa tanta reflexão meditação diversão transmutação inspiração
elevação evolução espiritual. Somos convidados como cirandeiros dançarinos
bailarinos em conjunto a formar uma egregora de energia transmutadora e reveladora
energeticamente como humanos em prol de um objetivo maior. Reverenciar a
natureza o próximo Agradecer pela experiência realizada e vivida de empodeiramento
coletivo. Sempre fico reflexivo depois das Danças pensando como gostaria que as
pessoas que amo estivessem dançando ali através do meu convite. As performances
são diversificadas e acabamos conhecendo também outras músicas de outras
227

culturas. Grega, Russa, Argentina, Israelita, Brasileira, Japonesa etc... São as danças
dos povos celebrando suas conquistas suas vitórias suas superações ! Cada
localidade tem sua forma de focalizar sua Dança para determinado fim porém o
propósito maior é deixar claro a importância de respeitarmos e conhecer o benefício
que cada Cultura tem através da dança e música caracteristicos. Existem danças com
caráter mais meditativo e instrospectivo. Outras sao mais coreografadas e
expressivas. Todas tem seu devido valor e intenção de tocar o coração dos
participantes dentro ou fora da Roda. Todos são beneficiados pela energia
contagiante presente ! Sempre com a atitude voluntária de criar esse movimento
humanistico. Acredito que a função real das Danças circulares são verdadeiros rituais
xamanísticos de Cura direta e indiretamente para a sinergia da localidade e daquela
comunidade. Parece que aquelas pessoas só se reencontraram para dançar
novamente nessa vida ! Encontro de almas mesmo! Assim como a prática da Yoga. É
pra Alma .

(Henrique, por whatsapp, em 20/10)

Ilsa – 17/10

Conheci o yoga ha muitos anos, praticando em espaços como Rouge, Sesc,


Tenis Clube, etc. Sempre me exercitando por indicação de médicos. Mesmo com os
meus traumas físicos e psicológicos, eu tento. Mas às vezes, por restrições médicas
devo parar.
Estou muito bem curso de Yoga da Unati, com o nosso querido professor
Ricardo. Ele faz um acompanhamento perfeito, sempre preocupado com a nossa
saúde e como estamos fazendo os exercícios, sempre com atenção e acertar as
posturas. Muitas vezes achava muito dificil eu tentar acompanhar, às vezes com
algumas crises eu me afastava, mas quando retornava sentia a cada segunda feira
um novo e grande desafio; para continuar.
Percebo que a cada prática começo a ter mais foco.Aprendi a me conhecer,
exteriormente e interiormente, a respeitar os meus limites e sempre me colocar no
lugar do outro.
Acredito que nosso professor, não só com a Yoga, mas também com as danças
228

circulares e mandalas nos fez ver que todas as e linguagens e muitos outros
conhecimentos teóricos nos ajudam a entender o corpo e a alma da melhor maneira
possível. Com essas experiências muito intensas, ficou a nossa vontade de voltar,
continuar e aprofundar muito mais. É aprender e ter novos conhecimentos. Nosso
professor Ricardo tem um brilho especial. Me inspiro muito nele nao só nas práticas
do dia-a-dia mas também na vida. Estou muito feliz em participar deste curso e espero
que sempre ele esteja conosco também.

(Ilsa, por whatsapp, em 17/10)

Denise – 14/10

Desde que iniciei o curso de Hatha Yoga com voce, senti que voltei a ter
consciência corporal. E não só isso:a consciência de que corpo e mente estão
interligados a tal ponto que as disfunções e doencas físicas afetam a mente, e vice-
versa. Já de manhã, tenho despertado de forma diferente, querendo esticar os bracos,
as pernas,a coluna vertebral e as articulações. A junção entre yoga e arte é perfeita,
porque nos remete ao bem e ao belo que nos desperta também para a importância de
cuidar dos sentimentos e da espiritualidade.

(Denise, por whatsapp, em 17/10)

Arlene – 18/10

Comecei a praticar Yoga já há algum tempo quando estava atravessando um


problema de saúde. E logo pude conhecer os livros do Professor Hermógenes e sua
história, o que foi um exemplo e uma inspiração para mim. Conheci sua trajetória de
luta e superação da doença através da prática de Yoga. E também todas as
dificuldades superadas por ele naquela época. Era militar e pioneiro no Brasil nessa
prática. Mesmo assim seguiu em frente aprendendo e ensinando as pessoas a
superarem seus problemas de saúde e seus desafios da vida diária com muito amor,
dedicação e simplicidade.
Aprendi com o Professor Hermógenes:
- Que o Yoga tem o poder de curar, de erguer, de apaziguar, de libertar...
- Que o Yoga através dos ásanas e pranayamas nos auxilia a desenvolver maior
consciência corporal, equilíbrio, flexibilidade e condicionamento para uma vida melhor.
229

- Que o Yoga é o caminho.... E através dessa busca podemos encontrar o equilíbrio


ideal entre o físico, o mental, o emocional e o espiritual.
Vamos caminhar? É por isso que o Professor Hermógenes é o meu herói.

(Arlene, por whatsapp, em 18/10)

Depoimento de Moira e Francisco

Querido professor Henrique.


Estavamos em retiro espiritual até ontem...
0Mesmo tendo iniciado no 2 semestre tuas aulas são como encontros para alma.
Para nós uma quebra entre o real , vida maluca da sociedade paulistana, para um
encontro conosco mesmo.
Voltar a sentir músculos que nem nos lembravamos que existiam é o reflexo que fica,
lembrando-nos da noção de pertencimento.
Aquelas pessoas que caminham conosco são anonimas e como pontos de luz e fonte
de calor a cada abraço, olhar e SORRISO. Por um instante todos se sentem
agraciados e a palavra mais ouvida com o sentimento mais profundo é GRATIDÃO!
Sentimo-nos amados por cada preparação detalhado do centro da tua aula.
Isso é o minimo que podemos dizer OBRIGADA pela tua existência ! Com carinho
Moira e Chico.

(Moira, por whatsapp, em 20/10)

Depoimento de Darcy

O que pode dizer um abraço? Quais palavras? Quais sentimentos?


Nada ou nenhum sentimento. Ou tudo e um mundo de emoções.
Já abraçei tantas pessoas, mas no meu primeiro dia do encontro do curso Yoga e
Artes para 60+ da UNESP um menino me abraçou. Disse: "querida" e me deu o abraço
que jamais irei esquecer. Sim, nunca ninguém me abraçara daquele jeito até hoje, nos
meus setenta e quatro anos. Naquele momento eu me senti abraçada pelo meu filho,
minha mãe e por Deus. Sim, por Deus. Participei da aula, mas chorei, quando aquele
quase menino, pegou sua blusa e fez com ela um travesseiro para mim. Por Deus,
230

que criatura é essa? Que luz traz consigo? Que missão? para agir assim com as
pessoas? e fui percebendo que era assim quando incluía a todos, na sua majestosa
humildade. Poderia escrever um livro sobre esse ser humano incrível que deixa
marca, como um selo, em todos que o conhecem. Ao me dar aquele abraço, fez com
que minha alma se sentisse de fato abraçada.
Queria gritar isso ao mundo, mas como disse numa mensagem que lhe dei no dia dos
professores, nós não podemos abraçar nossos irmãos sol, lua e brisa, mas, todo o
universo os juntou e colocou dentro do RICARDO HENRIQUE e os mandou até nós
para que os abraçassássemos.
Isso que dita o meu coração é para você, Ricardo,
Você, meu menino, profissional altamente competente e de coração nobre!
Você, que deixa em cada um de nós a marca de luz, da luz que vem do Alto com a
chama do amor fraterno que nunca se apaga!
Que todas as portas lhes sejam abertas para continuar sua missão nesse planeta
terra.
Amamos você!
NAMASTÊ!

(Darcy, por whatsapp, em 21/10)


231

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Maria Celia de. Velhice: Uma Nova Paisagem. São Paulo, Ágora, 2017.
ACCIOLY, Thais. Cultura de Paz. Disponível em:
<https://www.somostodosum.com.br/artigos/corpo-e-mente/cultura-de-paz-
12173.html>. Acesso em: 08. out. 2019
ALMEIDA, Célia Maria de Castro. Ser artista, ser professor: razões e paixões do ofício.
São Paulo: Editora da Unesp, 2009.
ALMEIDA, Jorge Miranda de (org.). Pressupostos da educação para uma cultura ética
de paz. São Paulo: Companhia Ilimitada, 2010.
ALVES, Rubem. A Alegria de Ensinar. São Paulo: Ars Poética, 1994.
ALVES, Rubem. Rubem Conversas com quem gosta de Ensinar. São Paulo: Papirus,
2000.
ALVES, Rubem. O mundo em um grão de areia. Campinas: Verus, 2003.
ALVES, Rubem. O que é religião? São Paulo: Loyola, 2009.
ALVES, Rubem. O velho que acordou menino.São Paulo: Planeta, 2005.
ALVES, Rubem. Transparências da Eternidade. Campinas: Verus, 2002.
AQUINI, Sílvia Do Nascimento. O Yoga e o idoso: rumo ao alto da montanha: os
efeitos da prática de yoga de acordo com a percepção de idosos. Florianópolis: UFSC,
2010.
ARIEIRA, Gloria. O yoga que conduz à plenitude – os Yoga Sutras de Patãnjali. Brasil:
Sextante, 2017.
ASSMANN, Hugo. Reencantar a Educação - Rumo à Sociedade. Aprendente.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1998
BANDEIRA, Manuel. Antologia Poética de Manuel Bandeira. São Paulo: Global
Editora, 2013.
BAPTISTA, M.R; DANTAS, E.H.M. Yoga no controle de stress. Fitness & Performance
Journal, v.1, n.1, p.12-20, 2002. Disponível em:
<http://www.fpjournal.org.br/painel/arquivos/20801_Yoga_Rev1_2002_Portugues.pdf
>. Acesso em: 07. out. 2019.
BARBOSA, A. M. Pesquisas em Arte - Educação: recorte sociopolítico. Educação &
Realidade, Porto Alegre, v.30, n.2, 2005
BARTON, A. Danças Circulares: Dançando o Caminho Sagrado. Ed. Bilíngüe. Editora
TRIOM, São Paulo, 2006.
232

BASILIO, Ana Luiza. “A cultura é matéria-prima da educação e do desenvolvimento”,


avalia Tião Rocha. 12. Jun. 2015. Disponível em
<https://educacaointegral.org.br/reportagens/a-cultura-e-materia-prima-da-educacao-
desenvolvimento-avalia-tiao-rocha/>. Acesso em 20. Set. 2019
BBC. Ioga protege contra doenças no coração, diz estudo. 16. Dez. 2014. Disponível
em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141216_ioga_pesquisa_lab/
/>. Acesso em: 2. out. 2019
BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1990
BERNI, V. L.E.. A Dança Circular Sagrada e o Sagrado. 2002. 208 f Dissertação
(Mestre em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
São Paulo, 2002.
BEZERRA, Cristiano. Hatha Yoga, uma ginástica... Blog Yoga Pleno. 2019 Disponível
em: < https://www.yogapleno.com.br/hatha-yoga-uma-ginastica.html>. Acesso em:
08. out. 2019
BOFF, Leonardo. Florescer. 16.jan.2012. Disponível em: <
https://leonardoboff.wordpress.com/2012/01/16/florescer/ >. Acesso em: 10. ago.
2019
BRANDÃO, C. R. O que é educação. 33ªed. São Paulo: Brasiliense, 2006.
BRANDÃO, C. R. O que é o método Paulo Freire. São Paulo: Brasiliense, 1981.
BRASIL. Estatuto do idoso: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, e legislação
correlata. Brasília, DF: Centro de Documentação de Informação, Edições Câmara,
2008. (Série Legislação,n.14).
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 1997. Disponível em:
mec.gov.br Acesso em: 26 set 2019.
BONDIA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Rev.
Bras. Educ. [online]. 2002, n.19, pp.20-28. ISSN 1413-
2478. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782002000100003.
BORTHOLOTO, Sandra – O Yoga na Escola – Educação Corpo-Mente para Pais e
Educadores
CACHIONI, M. (Org.). As múltiplas faces da velhice no Brasil. Campinas: Alínea, 2003.
CAFÉ, Sonia. Esteja em Paz e sem Medo - Meditações com o Reino Angélico. São
Paulo: Editora Pensamento, 2003.
CALVINO, Italo. Seis Propostas para o Próximo Milênio: Lições Americanas. Trad.:
233

Ivo Cardoso. São Paulo: Companhia das letras, 1990


CASEY, Karen. Cada Dia um Novo Começo. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.
CHOPRA, Deepak. Corpo sem idade, mente sem fronteiras: a alternativa quântica
para o envelhecimento. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
CHOPRA, Deepak. As sete leis espirituais do sucesso. Rio de Janeiro: Viva Livros,
2017.
CHOPRA, Deepak. As sete leis espirituais da Ioga – Guia prático para curar a mente,
o corpo e o espírito. São Paulo: Rocco, 2006.
CORDEIRO, Tiago. Meditação ganha, enfim, aval científico. Veja, 7 de jun de 2013.
Disponível em: < https://veja.abril.com.br/saude/meditacao-ganha-enfim-aval-
cientifico >. Acesso em: 02. set. 2019.
COSTA, Elisabeth Maria Sene. Gerontodrama: a velhice em cena: estudos clínicos e
psicodramáticos sobre a terceira idade. São Paulo: Ágora, 2008.
D'ANGELO, Renata Adrião; BASSOLI, Rosângela Maria. Literatura, Yoga e
Educação: contos para além da leitura . Campinas: Átomo, 2013.
DAHLKE, Rudiger. As Crises da Vida como Oportunidades de Desenvolvimento. São
Paulo: Cultrix, 1995.
DAHLKE, Rudiger. Mandalas - Formas que representam a harmonia do cosmos e a
energia divina. São Paulo: Editora Pensamento, 2014. DAHLKE, Rudiger. As Crises
da Vida como Oportunidades de Desenvolvimento. São Paulo: Cultrix, 1995.
DEL-MASSO, Maria Candida Soares; AZEVEDO, Tania Cristina Arante Macedo de
(Org.). UNATI: Espaço aberto ao ensino e à criatividade. São Paulo, SP: Cultura
Acadêmica, 2012.
DERZETT, Miila. Super Descanso. São Paulo: Editora Matrix, 2016.
DERZETT, Miila. Relaxe. São Paulo: Editora Matrix, 2015.
DIBO, Monalisa. Mandala: Um estudo na obra de C. G. Jung. São Paulo: PUCSP,
2006.
DISKIN, Lia. Cultura de paz: redes de convivência. São Paulo: SENAC São Paulo,
2009.Versão digital disponível em:
http://www1.sp.senac.br/hotsites/gd4/culturadepaz/. Acesso em 24 de junho de 2011.
ECO, Umberto. Como se faz uma tese. São Paulo, SP: Perspectiva, 2016.
EID, Marizilda Rodrigues. Danças circulares: uma caminho para a cura. In: RAMOS,
Renata (Org.). Danças Circulares sagradas: uma proposta de educação e de cura.
São Paulo:TRIOM, 2002. 2ª ed.(pp.151-158)
234

ESPIRITO SANTO, Ruy Cezar do. Autoconhecimento na formação do educador. São.


Paulo: Ágora, 2007.
ESPIRITO SANTO, Ruy Cezar do. Desafios na Formação do educador - Retomando
O Ato De educar. São Paulo: Papirus, 2002
ESPIRITO SANTO, Ruy Cezar do. O renascimento do Sagrado na Educação.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2008
ESPIRITO SANTO, Ruy Cezar do. Pedagogia da Transgressão. São Paulo: Papirus,
1996.
ESTEVES, Beatriz. Yoga para a 3ª idade. Ícone Editora, São Paulo, 1991.
FEUERSTEIN, G. A Tradição do Yoga: História, literatura, filosofia e prática. Editora
Pensamento, São Paulo, 2001. ESTEVES, Beatriz. Yoga para a 3ª idade. Ícone
Editora, São Paulo, 1991.
FEHER, M.; NADDAFF, R.; TAZI, N. (Eds.). Fragmentos para una Historia del Cuerpo
Humano. Parte Primeira. Madrid: Taurus, 1990.
FILHO, Luiz Schettini. Pedagogia da Ternura. São Paulo: Vozes, 2011.
FLAK, Micheline & COULON, Jacques. Yoga na Educação-Integrando corpo e mente
na sala de aula. Florianópolis: Editora Comunidade do Saber, 2007
FRANCES, Lynn; JEFFERIES, & Richard Bryant. Dança Circular sagrada e os sete
raios. São Paulo: TRIOM, 2004.
FREIRE, Ana Maria. Educação para a paz segundo Paulo Freire. Revista
Educação.Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre:
PUC/RS, ano XXIX,n.2, p.387-393, Maio/Agosto, 2006.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se complementam.
23.ed. São Paulo. Autores associados: Cortez, 1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
São Paulo : Paz e Terra, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
São Paulo: Paz e Terra, 1996. – Coleção Leitura
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido.Rio de Janeiro:Paz e Terra,1987.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 34. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002
FREIRE, Madalena. Educador. São Paulo: Paz e Terra, 2008
FRITZEN, C.; Moreira, Janine (Org.) . Educação e arte: As linguagens artísticas na
formação humana. 2. ed. Campinas: Papirus, 2011
GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. Novo
235

Hamburgo: Feevale, 2003.


GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Porto Alegre: L& PM, 2002.
GALEANO, Eduardo .A descoberta da América (que ainda não houve) . Porto Alegre:
Editora da Universidade/UFRGS, 1990.
GONÇALVES, Gabriela de Oliveira. PRINCÍPIOS TÉCNICOS DE MARTHA
GRAHAM: SINGULARIDADES DE UMA POÉTICA. Ouro Preto: UFOP, 2016.
Disponível em: <
https://repositorio.ufop.br/bitstream/123456789/6549/1/DISSERTAÇÃO_PrincípiosTé
cnicosMartha.pdf>. Acesso em: 03. out. 2019.
GOLDENBERG, José. Promoção de saúde na terceira idade – dicas para viver
melhor. São Paulo: Atheneu, 2008
GOLDENBERG, Mirian. A bela velhice. Rio de janeiro: Record, 2013.
GOLDENBERG, Mirian. Corpo, envelhecimento e felicidade (org.). Rio de janeiro:
Civilização Brasileira, 2011.
GOLDENBERG, Mirian. Velho é lindo (org.). Rio de janeiro: Civilização Brasileira,
2016.
GOMES, Estela M.G.P. Danças Circulares como metodologia integrativa in
Aprendizagem socioambiental em livre percurso: a experiência da UMAPAZ,
SVMA/UMAPAZ, 2012, p.181-190, disponível
em http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/meio_ambiente/publicacoes_s
vma/index.php?p=49040
GONTIJO, Marcela Pereira Faria. Espiritualidade no mundo corporativo e na vida das
pessoas. Monografia (Pós-graduação em Terapia Transpessoal) – Grupo Ômega,
Instituto Superior de Ciências da Saúde, São Paulo, 2011. Disponível em: . Acesso
em: 15 set. 2018..
HANH, Tchich Nhat. Ensinamentos sobre o Amor – Desenvolvendo a capacidade de
amar com alegria. São Paulo: Sextante, 2005.
HARPER, Babette; CECCON, Claudius; OLIVEIRA, Miguel Darcy de; OLIVEIRA,
Rosiska Darcy de; FREIRE, Paulo (Orgs.). Cuidado Escola. São Paulo: Editora
Brasiliense, 1987
HERMOGENES, JOSÉ. Autoperfeição com Hatha Yoga. Rio de Janeiro: Nova Era,
2007.
HERMOGENES, JOSÉ. Saúde na Terceira Idade. Rio de Janeiro: Nova Era, 2007.
HERMOGENES, JOSÉ. Yoga para nervosos. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011.
236

HYPENESS. Conheça a instrutora de yoga mais velha do mundo. . Disponível em


<https://www.hypeness.com.br/2015/03/instrutora-de-yoga-com-96-anos/> Acesso
em 27. jul. 2019.
INCONTRI, Dora. (Org,) Educação, Espiritualidade, Transformação Social. São Paulo:
Editora Comenius, 2010
IYENGAR, B.K.S. A Árvore do Ioga. São Paulo, Globo: 2001.
IYENGAR, B.K.S. Luz na vida. São Paulo, Summus Editorial: 2007.
JARES, Xésus. Educação para a paz: sua teoria e sua prática. Porto Alegre: Artmed,
2002.
JARES, Xésus. Educar para paz em tempos difíceis. São Paulo: Palas Athena, 2004.
JARES, Xésus. Pedagogia da convivência. São Paulo: Editora Palas Athena, 2008.
JUDITH, Anodea. Rodas da Vida – Um guia para você entender o sistema de Chakras.
São Paulo: Nova Era, 2010.
JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. (Obras completas de
C. G. Jung, v. 8/2).
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2002
LAMA, DALAI. Uma Ética para o Novo Milênio. São Paulo: Sextante, 2000
LELOUP, J-Y; CREMA, R. Normose, a patologia da normalidade. Campinas: Verus,
2003.
LENOIR, Frédéric. O Poder da Alegria. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.
LIMA, Eliana Elvira Pierre. Cuidador de Idosos: Práticas e Reflexões do Cuidar com
Cuidado. São Paulo: Editora Senac, 2019
LOURENÇO, Regina Célia; MASSI, Giselle. Linguagem e velhice: considerações
acerca do papel da escrita no proceso de envelhecimento. Curitiba: Juruá, 2011
MAIA, Vitoria Campos Mamede Maia (org). Criar e Brincar: o lúdico no processo de
ensino- aprendizagem. Rio de Janeiro: Wak, 2014.
MARTINELLI, Marilu. Aulas de Transformação: O Programa de Educação em Valores
Humanos. 5. ed.. São Paulo: Peirópolis, 1996.
MARTINELLI, Marilu. Conversando sobre Educação em Valores Humanos. 2. ed. São
Paulo: Peirópolis, 1999.
MATOS, Kelma Socorro Alves Lopes; NONATO JUNIOR, Raimundo (org.). Cultura de
Paz, Ética e Espiritualidade. Fortaleza: Edições UFC, 2010.
MEDITAÇÃO é adotada em escolas e beneficia crianças e adolescentes
Jornal O Globo. 2018. Disponível em < https://educacaoparapaz.com.br/meditacao-
237

e-adotada-em-escolas-e-beneficia-criancas-e-adolescentes/ >. Acesso em: 22. out.


2019
MIGLIORI, Regina de Fátima, (et al). Ética, valores humanos e transformação. 2. ed.
São Paulo: Peirópolis, 1998.
MILANI, Feizi Masrour; JESUS, Rita de Cássia Dias P. (org.). Cultura de paz:
estratégias, mapas e bússolas. Salvador: INPAZ, 2003.
MINEIRINI NETO, José. Abordagens triangulares: reflexões sobre a aprendizagem
triangular da arte. 258 Revista GEARTE, Porto Alegre, v. 4, n. 2, p. 258-268, maio/ago.
2017. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/gearte
MONTESSORI, Maria. A educação e a paz. Campinas, SP: Papirus, 2004.
NAÇÕES UNIDAS - BRASIL. Declaração Universal de Direitos Humanos. Disponível
em: . Acesso em: 20 out. 2019.
NUNES, Tales. Yoga, arte el iberdade. Florianópolis: Vida de Yoga, 2017.
https://www.vidadeyoga.com.br/wp-content/uploads/2019/10/Yoga-Arte-e-
Liberdade.pdf
OBEROM. Vegan Yoga: O Asthanga Yoga de Patanjali sob a Perspectiva Vegana.
Editora Alfabeto, São Paulo, 2015.
OMS DEFINE 10 PRIORIDADES DE SAÚDE PARA 2019. Nações Unidas Brasil,
2019. Disponível em: < https://nacoesunidas.org/oms-define-10-prioridades-de-
saude-para2019/>. Acesso em: 29. set. 2019
OKUMA, S. S. O idoso e a atividade física: fundamentos e pesquisa. Campinas:
Papirus, 1998.
PACHECO, José. Comunidade de Aprendizagem. Disponível em: <
https://educacaointegral.org.br/glossario/comunidade-de-aprendizagem-2 />. Acesso
em: 2. set. 2019
PACHECO, José . Para Alice com Amor. Cortez Editora, 2010.
PACHECO, José . Quando eu for grande, quero ir à Primavera. Ed. Didática Suplegraf.
2000.
PACHECO, Jose. As universidades abertas à terceira idade como espaço de
convivência entre gerações.In: SIMSON, O. R. de M. V.; NERI, A. L.;
PEREIRA, Elizabeth Thomaz. A Terceira Idade na Universidade Aberta – Navegando,
buscando, aprendendo em um mar sem fim. Jundiaí: Paco Editorial, 2015.
PINTO, A. V. Sete lições sobre educação de adultos. 6. ed. São Paulo: Cortez, 1989.
PROENÇA, Maria Alice. Prática Docente. São Paulo: Panda Books, 2019.
238

PUC MINAS. Pedagogia da Roda é tema de palestra do educador Tião Rocha. 23.
Mai. 2019. Disponível em < https://www.pucminas.br/sala-
imprensa/noticias/Paginas/Pedagogia-da-roda-%C3%A9-tema-de-palestra-do-
educador-e-antrop%C3%B3logo-Ti%C3%A3o-Rocha.aspx >
PERES, Raquel. Yoga Restaurativo – Uma viagem interna. Nowmastê, São Paulo, 21
de agosto de 2014. Disponível em <https://www.nowmaste.com.br/yoga-restaurativo-
uma-viagem-interna/>. Acesso em 27. set. 2019.
PETRAGLIA, Izabel. Edgar Morin: Complexidade, transdisciplinaridade e incerteza.
Disponível em: http://www4.uninove.br/grupec/EdgarMorin_Complexidade.htm.
Acesso: 18 out. 2019.
PICCHIA, Beatriz Del; BALIEIRO, Cristina. Mulheres na jornada do herói: pequeno
guia de viagem. São Paulo, Ágora, 2012.
PUEBLA, Eugenia. Educar com o Coração. São Paulo: Peirópolis, 1997
RAMOS, R. (org.). Danças Circulares Sagradas: uma Proposta de Educação e Cura.
Editora TRIOM, São Paulo, 2002.
RIBEIRO, Lucia (org.) Um outro envelhecer é possível. São Paulo, Ideias e Letras,
2012.
ROCHA, Aderson Moreira da. Benefícios do Ayurveda na Terceira Idade. Disponível
em: < http://ayurveda.com.br/beneficios-do-ayurveda-na-terceira-idade/ >. Acesso
em: 27. ago. 2019.
ROCHA, Tião. A Função do Educador. Belo Horizonte: CPCD, 1999.
SANTOS, Suely dos e CARLOS, Sergio Antonio. Envelhecendo com apetite pela vida:
interlocuções. Petrópolis: Vozes, 2013.
SIMÕES, Regina. Corporeidade e terceira idade: A marginalização do corpo idoso.
Piracicaba, SP: Editora UNIMEP, 1998.
PACHECO, Jose. As universidades abertas à terceira idade como espaço de
convivência entre gerações.In: SIMSON, O. R. de M. V.; NERI, A. L.;
SPARROWE, Linda. Yoga e saúde para a mulher. São Paulo: Pensamento, 2002.
SILVA, Gerson D´Addio da. Curso Básico de Yoga - Teórico-prático. São Paulo:
Editora Phorte, 2009.
SOARES, Nanci; FILHO, Mario José. Os desafios da terceira idade. 1ª Ed. São Paulo:
Legis Summa, 2012
SOARES, Nanci; FILHO, Ma. rio JoséUNATI Construindo Cidadania. Franca: Editora
UNESP-FHDSS, 2008
239

SUNIM, Haemin. Amor pelas coisas imperfeitas. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.
TAGORE, R. Poesia Mística. São Paulo: Paulus, 2003.
UNESCO 2012. Disponível em www.unesco/org. Acesso em: 26 set 2019.
UNESP. Reitoria da Universidade Estadual Paulista. Resolução UNESP nº 11, de 02
de Fevereiro de 2012. Dispõe sobre o Regimento Geral da Extensão Universitária na
Unesp. São Paulo, SP, n.11, fev. 2012. Disponível em:
https://www.clp.unesp.br/Home/Extensao10/resoluc807a771o-unesp-n-11---
regimento-geral-da-extensa771o-universita769ria-na-unesp.pdf Acesso: 10. Set.
2019.
VARELA, Noêmia. A formação do arte-educador no Brasil In: BARBOSA, Ana
Mae(Org.). História da Arte-Educação. São Paulo: Max Limonad, 1986.
VARELA, Noêmia. Criatividade na escola e formação do professor. In: FRANGE,
Lucimar Bello. Noêmia Varela e a arte. Belo Horizonte: C/Arte, 2001a.
VARELA, Noêmia. Movimento Escolinhas de Arte: imagens e idéias. In: FRANGE,
Lucimar Bello. Noêmia Varela e a arte. Belo Horizonte: C/Arte, 2001b
VON, Cristina. Cultura de Paz: o que os indivíduos, grupos, escolas e organizações
podem fazer pela paz no mundo. São Paulo: Peirópolis, 2003.
VORKAPIC, Camila F.; RANGÉ, Bernard. Os benefícios do yoga nos transtornos de
ansiedade. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, vol. 7, n. 1, p. 50-54, jun. 2011.
Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2019
WEIL, Pierre. A Arte de viver em paz. São Paulo: Ed. Gente, 1993.
WOSIEN, B. Dança: um caminho para a totalidade. Editora TRIOM, São Paulo, 2000.
WOSIEN, M-G. Danças Sagradas: mitos, deuses, mistérios. Edições del Prado, 1997.
YOGANANDA, Paramahansa. Autobiografia de um iogue, EUA: Self Realization
Fellowship, 1996.
YOGANANDA, Paramahansa. Paz Interior – Como ser calmamente ativo e ativamente
calmo. EUA: Self Realization Fellowship, 2010.
YOGUISTAS. 13 Frases de Tao Porchon-Lynch, Maestra De Yoga De 100 Años, Que
Cambiarán Tu Vida. Disponível em: <https://blog.yoguistas.com/trece-frases-
inspiradoras/>. Acesso em: 15. set. 2019
ZAMBONI, Sílvio. A pesquisa em arte: Um paralelo entre arte e ciência. Campinas,
SP: Autores Associados, 2012.

VÍDEOS DE YOUTUBE
240

DEHEINZELIN, Lala. Você cuida de quê? 2017. (2m48s) Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=KdNcLtZ5Gb4. >. Acesso em 18 out. 2019

REFERÊNCIAS FILMOGRÁFICAS

ACERTANDO o Passo (Finding your Feet). Direção de Richard Loncraine. Reino


Unido: 2017. 1DVD. (1h52min)
EU Maior. Direção de Fernando Schultz, Paulo Schultz. Brasil: 2012. 1 DVD. (90 min)

REFERÊNCIAS MÚSICAIS

PONTES, Valéria. Soldados de Luz. São Paulo: Peregrinos de Gaya, 2015. Disponível
em https://www.peregrinosdegaya.com.br/hinarios. Acesso em 20. Out. 2019
LACOMBE, Chandra. O Manto. São Paulo: Linha Unificada, 2010. Disponível em
http://linhaunificada.blogspot.com/ .Acesso em 20. Out. 2019.

TEXTOS DE MINHA AUTORIA

SILVA, Ricardo Henrique Marques da. A meditação como caminho e como destino.
São Paulo, 5 de dezembro de 2016. Disponível em <
https://www.conectandooser.com.br/site/a-meditacao-como-caminho-e-como-
destino/> Acesso em 04. ago. 2019.
SILVA, Ricardo Henrique Marques da. Apostila do Curso de Meditação: Olhar para Si
– Aprendendo a Meditar na Paz. São Paulo, 2017.
SILVA, Ricardo Henrique Marques da. Hinário Namastê – Ode ao Ser Essencial São
Paulo, 2019.
241

Minha cura (ofertado à Mayara Gabaldi)

Todos os dias eu lembro que a vida é


Ela é tão boa, para aprender a amar
Às vezes caio, mas logo eu me levanto
E cantando este canto
Eu sei que vou me encontrar

O meu sorriso ele reflete a luz de Deus


Que vem da terra e da força estelar
Meu coração é um mar de sentimento
Ele é forte e ele é imenso
É tanta arte a transbordar

É na floresta que eu inspiro o puro ar


A minha cura é magia do luar
Estando escuro, eu olhando para dentro
Toda dor vou transmutando
Pra livre poder voar

Sou peregrina, nada pode me parar


Uma estudante da verdade do saber
Deus me entende, ele sabe meu intento
De espalhar encantamento
E a alegria irradiar

Peço aos anjos para virem me ajudar


Que eles me firmem nesse novo amanhecer
Que me protejam me dando acolhimento
Coroando o meu destino
Para eu poder brilhar

Ricardo Henrique - Outubro de


2019
242

Você também pode gostar