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Bioética

Unidade 2. Bioética
Animal e Meioambiental

Prof. Agustín Hernández López


Bioética Animal e Meioambiental1
Unidade 2

Sumário

Prefácio

► 1. Bioética da Experimentação com Animais


• 1.1 Uso de Animais
• 1.1.1 Razões para o Uso de Animais
• 1.1.2 Consideração por Animais
• 1.1.3 Senciência
• 1.2 Justificativas Éticas do Uso de Animais
• 1.2.1 A Deontologia Kantiana e os Animais
• 1.2.2 O Contrato Social como Justificativa
• 1.3 Legislação e Diretivas
• 1.3.1 Ética na Prática com Animais
• 1.4 Modificação Genética de Animais
• 1.5 Invertebrados: A Fronteira
► 2. Bioética Não Animal e Meio Ambiental
• 2.1 Desextinção de Espécies
• 2.1.1 Razões e sofrimento na desextinção
• 2.1.2. Em favor da desextinção
• 2.2 Plantas Modificadas Geneticamente
• 2.2.1 PMGs e Ética
• 2.2.2 Debates sobre as PMGs
• 2.3 Microrganismos, Genética e Biotecnologia
• 2.4 Ética e Produção Agropecuária
• 2.5 Ética e o Meio Ambiente
• 2.5.1 Valores Humanos e Meio Ambiente
• 2.5.2 Valores Não Humanos e Meio Ambiente
• 2.5.3 Outras Visões Ecologistas
• Bibliografia de consulta

1 Agustín Hernández López. Professor Visitante Estrangeiro. Bioquímico. PhD pela U. Bristol (RU da GB).
Prefácio2

O aluno encontrará nas páginas seguintes um condensado das ideias e dos conceitos
mais importantes relacionados à ética do uso de animais como sujeitos experimentais e à
ética meio ambiental. Acredito que estas notas serão suficientes para dar uma ideia geral;
porém, por sua brevidade, não será suficiente para entender em profundidade os temas
aqui tratados. Por isso, é importante que o aluno leia caprichosamente as fontes que se
enumeram na bibliografia, tanto as principais quanto as classificadas como complementares.

Assim, este módulo tem como objetivo oferecer informações e orientações sobre a
bioética atual, e o aluno deve ter em conta que este campo está em rápida e contínua
evolução e, em alguns aspectos, está sujeito a interpretações pessoais.

2
Prof. Agustín Hernández (agustin.hernandez@ufscar.br). Setembro 2019.
►1. Bioética da Experimentação com Animais
Figura 1. Belka (branquinha/esquilo) e Strelka (setinha) formaram parte da tripulação experimental a bordo do
Vostok-1 (1958) e estão entre os primeiros seres vivos enviados ao espaço que voltaram com vida.

Fonte: Russian Post, Publishing and Trade Centre "Marka" (ИТЦ «Марка»). The design of the stamp by O.
Yakovleva. / Public domain

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/03/Belka_%26_Strelka_50_Years_Flight_Stump.jpg
1.1 Uso de Animais
Figura 2 – Human vivisection. Wellcome Collection.

Professor Coelho: “Agora sem frescura! O


princípio da ciência livre demanda que eu faça a
vivissecção deste humano pela saúde do mundo
animal todo”.

“Die Vivisektion des Menschen”. Litografia


colorida publicada em Lustige Blatter. Berlim, c.
1910.

Texto e imagem:
Wellcome Collection, Creative Commons
https://wellcomecollection.org/works/xm8wtp
m4.
Attribution 4.0 International (CC BY 4.0)

O uso de animais para benefício dos humanos é tão antigo que não temos certeza de
quando aconteceu na pré-história nem qual foi o primeiro. As teorias mais aceitas
atualmente propõem o cão como nosso primeiro companheiro já no pleistoceno, uns 30 mil
anos atrás. Depois viriam as cabras, as ovelhas, as galinhas e o gado bovino. A maioria desses
animais foi criada para, no tempo certo, ser abatida e usada como fonte de carne ou, em
geral, de produtos úteisi. Em outras palavras, desde antes dos inícios da civilização, criamos,
usamos e matamos animais.

O uso de animais para obter conhecimento é também bem antigo. Os gregos


utilizaram animais para compreender como funcionam os órgãos e sistemas fisiológicos.
Durante os séculos seguintes, os experimentos com animais, mesmo que não tenham sido
especialmente usuais, continuaram com os romanos e árabes. Porém, junto ao advento do
renascimento, as vivissecções com o intuito de expandir os conhecimentos biomédicos
tornaram-se muito mais frequentes e ainda foram cada vez mais praticadas durante os
séculos seguintes até se tornarem uma prática habitual nos ensinos de medicina. Deve-se ter
em conta que a Igreja Católica não permitia a dissecação de cadáveres humanosii,iii.

No momento presente podemos afirmar que, embora as quantidades exatas sejam


desconhecidas, estamos usando mais animais em pesquisa que em qualquer momento no
passado. Contudo, anualmente, a proporção de animais utilizados em pesquisa é apenas de
0,2% de todos os animais sacrificados pelos humanos. Por outro lado, a utilização de animais
em experimentação resulta em uma preocupação bem maior que a criação e o abatimento
para comida. Uma das razões disso está no sofrimento infligido que associamos à prática
científica. Isso não é novo; já nos séculos XVIII e XIX espantava a vivissecção sem anestesia
de animais nos teatros médicosiv, v.
1.1.1 Razões para o Uso de Animais

People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) Figura 3 – Logotipo da People for the
é uma organização criada em 1980 que promove “a Ethical Treatment of Animals.
total liberação dos animais“ e o veganismo.

Em opinião da PETA: “Os animais não são nossos


para experimentar, comer, vestir, serem usados
para nos entreter ou abusados de qualquer jeito”.

Sua posição frente à experimentação com animais


é de rejeição total. Argumentam que os testes com
animais não são nem necessários nem úteis e que Fonte: https://www.peta.org/
existem alternativas válidas para todos os
procedimentos realizados em pesquisa.

Na atualidade, existem ainda grupos que se chamam de “antivivissecção”, embora


https://www.peta.org/
essa prática esteja praticamente abandonada. A utilização de animais para uso alimentar e
industrial é bem conhecida por todos. Porém, quais são os usos dos animais em pesquisa
hoje? Se assumirmos o Reino Unido como um indicador do que acontece em outros países,
35% dos animais em experimentação são utilizados em pesquisas básicas que podem ou não
envolver modificações genéticas, 21% são utilizados em testes de drogas e procedimentos
médicos ou veterinários, apenas 1% é utilizado em diagnóstico e os 43% restantes são
animais que são mantidos em programas de criação para manter as colônias de mutantes ou
as cepas determinadas. Na maioria dos casos (77,5%) os animais escolhidos são roedores,
apenas 2% são primatas, gatos, cães, porcos ou outros mamíferos, e os 20,5% restantes
seriam animais não mamíferos (anfíbios, aves, répteis e peixes, principalmente); porém, esta
última porcentagem muito provavelmente não tem em conta animais inferiores, como
Caenorhabditis elegans. A utilização realizada em universidades e centros públicos de
pesquisa é majoritariamente relacionada à pesquisa básica, enquanto que em empresas
farmacêuticas e CROs (Contract Research Organisations) se usam para teste de efetividade
de drogas e toxicidade, respectivamente. Outros lugares onde fazem uso amplo de animais
são os hospitais (novamente com relação à pesquisa) e laboratórios governamentais
(toxicologia)vi.

A outra questão é por que são usados os animais. Entre as razões estão o fato de não
podemos fazer experimentos com humanos e o de que os animais são um bom modelo para
entender a fisiologia animal, em geral, e a humana, em particular. Assim, acredita-se que a
maioria dos grandes avanços na medicina nos últimos séculos vem de experimentos
realizados em animais. Argumenta-se também que não existem alternativas neste momento
que ofereçam um nível similar de confiabilidade, e, por outro lado, deixar de utilizar animais
induziria a estagnação da ciência e um prejuízo sobre a saúde das gerações futurasvii.
1.1.2 Consideração por Animais
Figura 4 – Arthur Schopenhauer em
Arthur Schopenhauer, máximo representante do pessimismo filosófico, é
1859. Fotografado por J. Schäfer
uma grande influência no pensamento atual. Ele via os animais como
frutos da mesma “vontade” ou força que os humanos.

“[B]ecause suffering increases along with the increase in the


clarity of consciousness, the pain that animals suffer in death or
work is not as great as that which humans suffer by doing without
meat or animal power. This is why people can affirm their
existence to the point of negating the existence of an animal, and
the will to live as a whole suffers less than if we acted the other
way around. This also determines the extent to which people can Fonte: Domínio Público.
make use of animals without doing wrong (WWR 1:440n)”. https://commons.wikimedia.org/
Puryear, S. (2017) Schopenhauer on the Rights of Animals. Eur. J. wiki/File:Arthur_Schopenhauer_b
y_J_Sch%C3%A4fer,_1859b.jpg
Philosophy 25:250.

Os animais não possuem a capacidade de comunicação de conceitos complexos (pelo


menos não com os humanos!), o que, junto à incapacidade de nossa parte de entender os
processos cerebrais/mentais deles e a uma etologia diferente, fazem com que nós, os
humanos, consideremos que os animais não possuem inteligência e que possuem um nível
de senciência bem menor que o nosso. Por outro lado, de forma um tanto contraditória,
colocamos neles sentimentos, capacidades e intencionalidades plenamente humanas, como
acontece com nossos animais de estimação: consideramos que cães e gatos, principalmente,
mas também cavalos e até alguns répteis, nos amam, comunicam seus desejos e até, em
ocasiões, desaprovam nossas ações. Essa “humanidade” nos animais correlaciona-se à
similaridade física com os humanos (os primatas são os mais “humanos”), ao contato e ao
nível de domesticação (cães mais do que os lobos), ao tamanho (equídeos mais do que
roedores), entre outras variáveis mais ou menos subjetivasviii, ix.
A percepção da animalidade tem mudado bastante na história. Se considerarmos as religiões
como fontes indiciárias corretas para o passado (de qualquer modo, são pontos de partida
para as percepções atuais), tanto a Bíblia quanto o Alcorão colocam o ser humano como
dono e senhor da criação e com direito absoluto à utilização de seus recursos, incluindo os
animais, para seu próprio benefício. As culturas orientais, ainda que possuam uma maior
tendência para a compaixão com animais, não consideram tradicionalmente que os animais
sejam mais do que o equivalente a uma ferramenta ou alimento para os humanos.
Descartes, como exemplo no século XVII, considerava que os animais não tinham capacidade
de sentir (senciência). Essa visão foi se modificando, paralelamente a outras mudanças sobre
a percepção humana que já mencionamos muito brevemente na unidade anterior, durante
os séculos XVIII, XIX e XX. Assim, já em 1791, John Lawrence, na Inglaterra, solicitou o
reconhecimento de direitos para os animais (neste caso, os cavalos). Contudo, o
desenvolvimento de uma sensibilidade para com os animais realmente tomou força na
segunda metade do século XXx.
1.1.3 Senciência
Figura 5 – Um esboço feito por C. M.
Baker na beira da cama de uma criança.
O problema de conhecer como outro ser vivo experimenta
sensações subjetivas é imenso. Um exemplo ilustrativo é a
dor. No hospital pediátrico onde trabalhavam em
Oklahoma (EUA), a Dra. D. Wong e a enfermeira C. M.
Baker idealizaram um método para que as crianças na
unidade de queimados pudessem explicar o nível da dor
que sentiam e poder medicá-los corretamente. Fizeram
para isso uma escala com carinhas para as quais a criança
apontava. O sistema foi um sucesso e agora é utilizado
amplamente no mundo todo.

História da classificação da dor com carinhas e imagem:


https://wongbakerfaces.org/us/wong-baker-faces-history/ Fonte:
https://wongbakerfaces.org/us/wong-
baker-faces-history/

Na atualidade, não consideramos que os animais sejam simples robôs que, de forma
automática, respondem aos estímulos. Achamos que muitos deles têm capacidades, como o
aprendizado, o uso de ferramentas e a comunicação, as quais, embora não cheguem aos
níveis das que os humanos possuem, são substantivas. Contudo, também não consideramos
que todos os animais sejam iguais. Acreditamos, por exemplo, que os insetos são realmente
quase pequenos robôs, incapazes de sentir ou de racionalizar. Julgamos que isto está
relacionado ao fato de que o sistema nervoso desses animais é constituído por gânglios
simples interconectados formando uma linha ventral. Outros animais possuem sistemas
nervosos que variam em complexidade. É a complexidade no sistema nervoso que usamos
para supor as capacidades cerebrais/mentais de cada espécie. Nesse sentido, a senciência
define-se como a capacidade de um ser vivo de sentir e experimentar sensações subjetivas,
como medo, dor, angústia, alegria, entre outras. Apenas os animais sencientes poderiam
sofrer, e o grau de sofrimento dependeria do grau de senciência da espécie. O sofrimento
deve ser entendido como dor, mas também como ansiedade, pânico ou inquietação, por
exemplo. Dessa maneira, consideramos que os roedores ou as aves, com cérebros
relativamente mais simples, são menos sencientes que os golfinhos ou os cães. Essa
aproximação, por outro lado, pode ser imperfeita, já que a complexidade nos sistemas
nervosos apenas é comparável entre espécies relacionadas. Assim, considera-se que o polvo,
capaz de mostrar medo e aprender, possui um cérebro simples, em parte por falta de
homologia com os cérebros de vertebradosxi,xii,xiii.

É importante dizer aqui que o valor moral que atualmente damos aos animais
correlaciona-se ao seu presumível grau de senciência, de modo que consideramos mais
valioso um gato que uma rãxiv.
1.2 Justificativas Éticas do Uso de Animais

“Peter Singer: Speciesism is an attitude of bias against a


being because of the species to which it belongs.
Typically, humans show speciesism when they give less Figura 6 – Peter Singer
weight to the interests of nonhuman animals than they
give to the similar interests of human beings.”
Peter Singer: On Racism, Animal Rights and Human
Rights
By George Yancy and Peter Singer. New York Times, May
27, 2015.
https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/05/27/peter-singer-
on-speciesism-and-racism/ Fonte:
https://www.utilitarianism.com/pe
ter-singer.html
O especiesismo é uma forma de discriminação, similar ao
racismo ou sexismo, que filósofos defensores dos direitos
dos animais acreditam que nós, humanos, praticamos
contra outras espécies animais.

Do ponto de vista da ética, a experimentação com animais não precisa se justificar se


os animais não possuem valor moral. Isto era a situação no passado, quando se considerava
que os animais eram autômatos que estavam na terra apenas para nos servir. Na atualidade,
no entanto, julgamos que os animais têm algum valor moral, mesmo que menor que o dos
humanos. Em outras palavras, a vida de um animal tem valor per se. É por isso que existem
várias formas para justificar o uso de animais em experimentação que formam o substrato
moral, mais ou menos consciente, de todos os pesquisadores. Estas se acham presentes
também nas diferentes instâncias em que existe debate ou nas quais precisamos expressar
essa justificativa, como é o caso das leis ou das diretrizes das comissões de ética de nossas
instituições de pesquisaxv.

De todas as escolas de pensamento, provavelmente, o utilitarismo é invocado com


mais frequência. Segundo o utilitarismo, existem coisas, estados e situações que podemos
considerar bons ou desejáveis; outros, pelo contrário, seriam ruins ou indesejáveis. As ações
corretas são aquelas que produzem, no balanço, mais bem que mal. Assim, considera-se que
a experimentação com animais produz mais benfazeres (por exemplo, avanços em terapias
que ajudam humanos) que o prejuízo causado pelo sofrimento e sacrifício dos animais.
Deve-se ter em conta que este razoamento depende do valor que damos à vida dos animais
e ao benefício humano e de quanto benefício e prejuízo causamos. Assim, pode estar
justificado um experimento para testar uma vacina contra o ebola utilizando 25
camundongos, mas poderia não ser justificável utilizar mil primatas para testar o possível
caráter irritante de um composto de um sabonete. Além disso, em caso de existirem duas
alternativas experimentais, só estaria justificada aquela que causasse o menor prejuízo.
Finalmente, a justificação do experimento não abrange o abusoxvi.
1.2.1 A Deontologia Kantiana e os Animais

“The moral status of different beings Figura 7 – The Nuffield Council


of Bioethics é uma referência
[…] Within the current debate, we can identify three general
mundial em ética do uso dos
positions, as follows. animais em experimentação
• [T]here is a categorical moral dividing line between humans
and animals. Human beings have a moral importance that
animals lack. This we can call the clear-line view
• [T]here is not so much a clear dividing line as a continuum or
moral sliding scale, correlated, perhaps, with a biological
sliding scale of neurological complexity
• [B]iological classification is not by itself sufficient to support
claims about a categorical moral distinction between human Trecho retirado de: The Ethics of
and non-human animals.” Research Involving Animals. The
Texto e imagem disponível em: Nuffield Council on Bioethics.
2005. Chapter 3 – Ethical issues
https://www.nuffieldbioethics.org/assets/pdfs/The-ethics-of-
raised by animal research.
research-involving-animals-full-report.pdf

Como é claro, no utilitarismo não entra o conceito de “direito”; apenas fizemos uma
avaliação de benefícios contra prejuízos. Isso implica que, se os benefícios fossem maiores
que os prejuízos, a experimentação sobre humanos estaria igualmente justificada,
independentemente de seu consentimento. A deontologia, iniciada por Immanuel Kant no
século XVIII, faz uma aproximação diferente: os animais são pacientes morais. Isto é, eles
têm direitos, sim, mas não todos, porque não são moralmente responsáveis, como os
humanos comuns são. Desse modo, pode-se entender que os direitos dos animais são
menores, mais restritos, que os dos humanos comuns; igualmente, aqueles humanos que
consideramos incapazes de decidir por si mesmos são também pacientes morais. Essa
diferença em direitos faz com que esteja justificado o uso de animais em experimentação.
Além disso, segundo essa escola de pensamento, a linha divisória entre os animais com
direitos e aqueles sem, seria a senciência. Animais não sencientes não teriam significância
moral e, portanto, não possuem direitosxvii,xviii. Porém, é muito difícil saber o que pode sentir
um animal, de forma que outros pensadores colocam a fronteira que os divide nos
vertebrados, achando que outros animais não são capazes de aprendizado e senciência.
Contudo, como falamos antes, há o caso dos polvos...xix,xx,xxi.

Por outro lado, fica a pergunta de quantos direitos a menos são precisos para que o
uso de um ser vivo em experimentação esteja justificado? Os humanos que não são
responsáveis morais (crianças, doentes mentais etc.) podem ser usados em
experimentação? Como os direitos são conferidos aos diferentes animais?xxii,xxiii.
1.2.2 O Contrato Social como Justificativa Figura 8 – Logo da revista de filosofía
Between the Species
“If the government were to suddenly decide to
remove everyone’s pet dogs from their homes,
there would be a societal outcry that would
likely be accompanied by violence [...]

So, if contractualists are concerned with


preventing societal chaos, why should dogs Fonte:
https://digitalcommons.calpoly.edu/bts/
not have full moral standing under their
system?” Between the Species is a peer-reviewed
electronic journal devoted to the
Swanson, Jennifer (2011) “Contractualism and the philosophical examination of the
Moral Status of Animals”, Between the Species 14(1),
relationship between human beings and
Article 1.
other animals.

A escola do contrato social estabelece, nas palavras de James Rachelxxiv, que “a


moralidade consiste num conjunto de regras para governar como as pessoas devem tratar
outras pessoas, as quais as pessoas racionais concordam em aceitar para o benefício mútuo
e com a condição de que os outros seguirão essas mesmas regras”. Os animais não podem
concordar com essas regras e, portanto, são deixados de fora da moral e da capacidade de
serem credores de direitos. Por outro lado, dentro das regras que nós, humanos, damos
para nós mesmos, estabelecemos que alguns animais têm alguns direitos. Esse contrato
social atual é que estabelece que está justificado usar animais em experimentação. Nesse
sentido pode ser muito útil saber qual a opinião da população sobre esse ponto, já que as
regras que nos damos dependem de nossas opiniões. Em pesquisas feitas no Reino Unido,
país considerado pró-animais, a proporção favorável ao uso oscilava entre 55% e 60%.
Porém, deve-se ter em conta que a maneira com que são feitas as perguntas influencia
grandemente o resultado. Assim, quando na pergunta era incluída uma referência à
medicina, a porcentagem de respostas favoráveis aumentava claramente, enquanto que, se
a referência era ao sofrimento animal, a porcentagem caía. Por tudo isso, deve-se ter em
mente que a justificação pode mudar em pouco tempo, sem a necessidade de aparição de
novas escolas de pensamentoxxv,xxvi.
1.3 Legislação e Diretivas

“In Italy, Law 413/1993 states that public and private Figura 9 – Università da Roma
"La Sapienza"
Italian Institutions, including academic faculties, are
obliged to fully inform workers and students about their
right to conscientious objection to scientific or educational
activities involving animals, hereafter written as “animal
CO”. […]
The results of this investigation revealed that less than
half of Italian academic faculties comply with their duty to
A consequência dos fatos relatados
inform on animal CO”
no exemplo ao lado (falta de
Baldelli, I. et al. (2017) Conscientious Objection to Animal
vigilância e execução das leis
Experimentation in Italian Universities. Animals (Basel) 7: relacionadas com uso de animais)
24. faz com que o nível cumprimento
Fonte da imagem: Melirius / CC BY-AS delas com frequência dependa da
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sapienza_entrance_(20 vontade e princípios éticos dos
040201351).jpg pesquisadores.

A preocupação pelo bem-estar animal tem-se traduzido em leis nos diferentes países.
Porém, nem todos iniciaram esse caminho ao mesmo tempo. Assim, na Inglaterra, a Cruelty
to Animals Act foi proclamada em 1876 e incluía que os animais utilizados em
experimentação científica deveriam ser anestesiados, se envolvesse sofrimento ou feridas
deveriam ser abatidos ao final dos experimentos e, mais importante, que só deviam ser
utilizados animais se houvesse uma necessidade real de conhecimento. Por outro lado, os
EUA decretaram sua primeira lei em 1966 (Animal Wellfare Act). No Brasil, somente em 2008
foi promulgada a chamada Lei Arouca. Contudo, ainda há países, como China, que apenas
possuem orientações mais ou menos oficiais, mas não legislaçãoxxvii.
A lei no 11794/2008 estabelece normativas para o uso de vertebrados em
experimentação científica no Brasil3. Da aplicação desta lei, criaram-se o Concea (Conselho
Nacional de Controle da Experimentação Animal), órgão máximo nas questões de utilização
de animais, e os Comitês de Ética para o Uso de Animais, conhecidos como CEUAs, nas
diferentes instituições de pesquisa e ensino. Segundo a Lei, todo projeto de pesquisa que
envolva a utilização de vertebrados deve ser revisado e aprovado pelo comitê de ética da
instituição (CEUA) antes de iniciar.
No nosso país existe uma sensibilização para a procura de métodos alternativos ao
uso de animais (MAUA). Isso se inclui na Diretriz Brasileira para o Cuidado e Utilização de
Animais em Atividades de Ensino e Pesquisa (DBCA) que foi criada pelo Concea em 2016.
Essa diretriz obriga a oferecer MAUA para aqueles estudantes que se declarem objetores de
consciência. Além disso, a procura por MAUA é incentivada e regulada. Para isso,

3
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11794.htm.
estabeleceu-se o BRACVAM, que identifica as necessidades e promove a procura por MAUA.
Esses métodos são avaliados experimentalmente na Renama (Rede Nacional de Métodos
Alternativos), e, uma vez terminados os estudos, o Concea valida tais métodos para uso
nacionalxxviii.
Outros organismos, como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância
]]7 Sanitária), também têm produzido regulações sobre aspectos relacionados (RDC
35/2015)xxix.
1.3.1 Ética na Prática com Animais
Figura 10 – “As três R”

"Limitations of the Three Rs tenet


[...]
1. The Three Rs tenet has been criticized for the
underlying premise that the use of animals for scientific
purposes is acceptable [...]
2. The Three Rs tenet does not provide a way to give Fonte:
special consideration for certain species. [...] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/ar
3. Conflicts between each “R” have also been identified ticles/PMC2002542/
as a limitation [...] Fenwick, N, et al, (2009) The
4. There can be conflicts between the Three Rs tenet
welfare of animals used in
and the goals of certain types of scientific animal use. science: How the “Three Rs” ethic
[...] guides improvements. Can. Vet. J.
5. The full potential of the Three Rs tenet to improve
50: 523-530.
animal welfare has not yet been reached” Festing, S. & Wilkinson, R. (2007)
EMBO Rep 8:526-530.

A bioética não é apenas um exercício que devemos fazer para obter a aprovação do
comitê de ética de nossa instituição. Na prática do dia a dia nos laboratórios, a ética para
com os animais é de grande importância. Assim, existem algumas diretrizes que são mais ou
menos aceitas de forma geral no mundo ocidental entre os pesquisadores. As mais
amplamente divulgadas são as conhecidas como “As três R”, inicialmente propostas pelos
pesquisadores W. Russel e R. Burch no livro “Principles of Humane Experimental Technique”
em 1959: Replacement (Substituição), Reduction (Redução) & Refinement (Refinamento)xxx.
• Substituição: significa evitar o uso de animais sempre que possível. Essa substituição
pode ser absoluta (com uso de métodos in vitro, uso de dados já publicados na
literatura, ou simulações in silico) ou relativa (com uso de animais menos sencientes
ou o uso de experimentação em humanos).
• Redução: uso do menor número possível de animais. Isso pode ser realizado
mediante uso de animais apenas nos últimos estágios da experimentação, escolha
ponderada do tipo de teste a ser realizado, boa planificação e estratégias estatísticas
(como desenho de experimentos sequenciais e fatoriais).
• Refinamento: redução do sofrimento e cuidado nas condições em que o
experimento será realizado. Neste caso, o refinamento para limitar o sofrimento
pode incluir sacrificar os animais antes de estes chegarem a falecer por causa do
experimento. O refinamento das condições de vida e experimentação podem incluir
cuidados na escolha do tipo de gaiola, forma de transporte e condições higiênicas,
assim como as condições próprias do experimento (anestesia, evitar danos
desnecessários, como a amputação de membros para identificação etc.).
Além disso, deve-se estar consciente de que a bioética começa no bem-estar dos
animais antes de serem sujeitos de experimentação, por exemplo, na sua criação e
manutenção nos biotériosxxxi.
1.4 Modificação Genética de Animais

GloFish é o nome comercial da variedade fluorescente Figura 11 Paulistinhas ou


geneticamente modificada do peixe ornamental Danio rerio, peixe zebra
conhecido no Brasil como paulistinha, [...] este é o primeiro
animal geneticamente modificado publicamente disponível
como animal de estimação.
[...]
A venda ou posse destes peixes é ilegal na Califórnia devido a
uma legislação que restringe a comercialização de qualquer
peixe geneticamente modificado.
O Canadá também proíbe a importação ou a venda destes
peixes, devido à falta de informações suficientes para a tomada
de uma decisão quanto à segurança do uso deste OGMs.
A importação, venda e posse destes peixes também são Fonte: Zebrafisch por Azul
proibidas na União Europeia. [...] Domínio Público
Na Nova Zelândia, a posse de um GloFish acarreta multa e
sacrifício dos animais apreendidos.

Texto e imagem disponível em: Wikipedia


(https://pt.wikipedia.org/wiki/GloFish).

O avanço nas técnicas de clonagem e modificação do genoma dos mamíferos com,


por exemplo, a utilização de técnicas baseadas em CRISPR/Cas9 capazes de induzir a deleção
de genes sem introduzir DNA exógeno faz com que, na atualidade, seja mais correto falar de
Animais Modificados Geneticamente (AMG) do que Animais Transgênicos.
A finalidade da introdução de modificações nos genomas dos animais é variada.
Assim, na maioria dos casos, as modificações têm como finalidade o conhecimento
científico. Porém, não devemos esquecer que outras motivações são também possíveis. Por
exemplo, a modificação do peixe zebra mediante a introdução da sequência de codificação
de uma GFP deu lugar à venda desses animais (GloFish) como animais de estimação
exóticos; igualmente, apesar de ainda não haver AMG permitidos para uso alimentar
humano, existem já bovinos que expressam proteínas recombinantes e porcos transgênicos
com maiores níveis de ácidos graxos insaturadosxxxii.
A criação de animais modificados geneticamente traz consigo algumas preocupações
relacionadas ao bem-estar dos animais. Assim, questiona-se se os procedimentos para a
obtenção desses animais não são excessivamente invasivos, podendo ter consequências
imprevisíveis que afetem à própria manutenção dos animais (caso de fenótipos severos) ou
se esses procedimentos exigem a morte de um número incalculável de animais em estágios
embrionáriosxxxiii.
Além disso, a manipulação genética levanta também outra série de preocupações
mais básicas. Do ponto de vista utilitarista, cabe perguntar se o prejuízo pela transformação
dos animais está compensado pelo benefício obtido. A maioria concordaria com a utilidade
de modificar o genoma de alguns animais se isso beneficiasse a saúde da sociedade humana;
porém, é menos provável que concordem com a produção de animais de estimação
fluorescentes. Por outro lado, estão as preocupações sobre a liberação, tanto em vida como
depois da morte, dos animais modificados geneticamente no ecossistema selvagem. Devem
estes animais serem contidos em vida e destruídos totalmente sem que seus corpos sequer
possam contaminar o meio ambiente natural?xxxiv.
Finalmente, estão as questões sobre se os animais modificados podem ser
patenteados e se as modificações genéticas afetam a essência e o propósito da espécie ou
do indivíduo modificado (Telos). A modificação genética do comportamento de uma espécie
selvagem para que aceite a vida em gaiolas é uma modificação excessiva do caráter da
espécie?xxxv
1.5 Invertebrados: A Fronteira

Fig. 2 Behaviour approaches of assessing emotions


Figura 12 – Expressão de emoções em
in invertebrates invertebrados

“Although only a very limited number of studies


have examined emotions in invertebrates, of those
that have used a behavioural approach, two have
addressed the possibility of positive emotions.
Cassill and colleagues (2016) report a behaviour in
fire ants (Solenopsis invicta) that, they argue, is
similar to bodily expressions indicating pleasure in
humans and other animals (Fig. 2C).”

Perry, C. J. & Baciadonna, L. (2017) Studying emotion in Fonte: Figura 2 do artigo Perry, C. J. &
invertebrates: what has been done, what can be Baciadonna, L. (2017) J. Exp. Biol. 220:
measured and what they can provide J. Exp. Biol. 220: 3856.
3856. Link direto para o artigo:
https://jeb.biologists.org/content/220/21/3856

Os animais invertebrados são aproximadamente mais de 95% dos animais na


natureza, e, entre eles, muitos são utilizados em experimentação científica, por exemplo, os
bem conhecidos em genética e biologia molecular Caenorhabditis elegans (Nematoda) e
Drosophila melanogaster (mosca da fruta), mas também muitos outros, desde Aedes egyptii
(mosquito) até minhocas planas (Platyhelminthes).

Como vimos até aqui, a consideração e os direitos dos animais têm evoluído
grandemente nos últimos séculos, e estes passaram de ser bêtes machines, na opinião de
Descartes, para serem seres vivos cujo uso em experimentação requer justificativas morais.
Porém, a consideração moral dos animais está geralmente limitada, nos casos mais amplos,
aos vertebrados. Esses limites estão marcados pela senciência suposta neles. Por isso, na
maioria dos países, o uso de vertebrados em experimentação requer aprovação de um
comitê de éticaxxxvi.

A separação entre vertebrados – considerados sencientes – e invertebrados – não


sencientes – é feita baseando-se na etologia e na aparente simplicidade dos sistemas
nervosos. Porém, a nocicepção (capacidade de perceber e transmitir impulsos nervosos
relacionados ao dano tecidual) está ainda pouco estudada nesses organismos. Contudo, já
foram encontrados nociceptores e estruturas nervosas que respondem aos estímulos
nocivos em cefalópodes e outros organismos, assim como plasticidade neuronal e condutas
etológicas que parecem estar relacionadas a aprendizado e sentimentos como o medo. Por
outro lado, descobriu-se que muito do processamento sensorial nos cefalópodes acontece
na periferia dos braços, e não no cérebro, o que sugere que não é preciso uma estrutura
central complexa para essas tarefas.

Por tudo isso, na Europa, os cefalópodes estão inclusos na Diretiva 2010/63/EU “On
the Protection of Animals Used for Scientific Purposes”, e outros países, como a Austrália,
também incorporam proteções similaresxxxvii.

Embora ainda não exista um debate vivo na população sobre o tema e ainda que a
comunidade científica, por enquanto, seja contra a inclusão dos invertebrados entre os
animais regulamentados pelos comitês de ética, o debate já está nas revistas científicas e
entre os filósofos, e por isso talvez a fronteira dos direitos animais para usos científicos pode
variar nos próximos anos junto aos novos achados sobre funções cognitivas em
invertebrados.
► 2. Bioética Não Animal e Meio Ambiental

Figura 13 – Charles Strebor “Earth Ball”.

Fonte: https://www.iied.org/fighting-for-future-sustainable-development-battle-for-ideas-2017

Creative Commons.
2.1 Desextinção de Espécies

“How long before de-extinction is a reality? Figura 14 – Capa do livro How to Clone
The answer depends on what you’re willing to a Mammoth, da autora Beth Shapiro]
accept as “de-extinction.” If you mean a pigeon
born with some passenger pigeon traits, or an
elephant born with mammoth-like traits, it could
happen within a few years to a decade. Longer for
mammoths, for the reasons I’ve already mentioned
and because elephants have a two-year gestation
period. If you mean 100-percent mammoth, with
all mammoth genes and behaviors, that will never
happen.”
Entrevista com a autora Beth Shapiro e fonte para a
imagem:
https://www.smithsonianmag.com/science-
nature/these-are-extinct-animals-we-can-should-
resurrect-180954955.

A extinção de espécies é, infelizmente, uma constante na atualidade; na maioria dos


casos, essas extinções têm os humanos como causa direta ou indireta. Por isso, a
possibilidade que a biologia molecular abre para a “ressurreição” de espécies por meio da
clonagem está no foco do debate ético.

Antes de entrar na discussão, devemos ter em mente que existem vários tipos de
extinção: extinção final ou filética (quando não há mais indivíduos dessa espécie), a
hibridação com outras espécies, a pseudoextinção dada por evolução para outra espécie
nova e a especiação alopátrica (idêntica à anterior, mas produzindo duas ou mais espécies
diferentes). Cada uma dessas extinções traz seus próprios condicionantes éticos frente à
possibilidade de desextinção. Vamos falar aqui apenas da desextinção para o caso
filéticoxxxviii.

A extinção filética, porém, não significa exclusivamente a extinção de todos os


indivíduos da face da terra. Se admitirmos que cada ecossistema individual é um ente
isolado que não se importa com o que acontece nos outros ecossistemas, a desaparição de
uma espécie de um ecossistema, por exemplo, o urso dos Pireneus, pode ser considerada
extinção filética nesse ecossistema, mesmo que existam ursos da mesma espécie nas
montanhas húngaras. Isso traz como consequência a noção de desextinção também como a
reintrodução da espécie com indivíduos trazidos de outro ecossistema. Outro ponto
importante é que a desextinção também atinge plantas e outros organismos, e sua
importância não é menor, mesmo que os casos mais espetaculares e midiáticos sejam
sempre os relacionados com grandes animais do passado, como o mamutexxxix.
2.1.1 Razões e sofrimento na desextinção

Figura 15 – Procesos de desextinção via


The de-extinction process via precise hibridação precisa
hybridization. The sequential stages begin with
in silico and end in situ, shown on the outside
circle. The inner circle shows the
compartmentalized and overlapping supporting
research for the de-extinction process, with
arrows showing exchange of resources (dark
purple are physical resources, light purple are
knowledge resources).
Fonte: Figura 2 de Novak, B. J.. Genes
Novak, B. J. De-Extinction. Genes (Basel). 2018. 9(11):548. (Basel). 2018. 9(11):548
Disponível em:
O processo de desextinção envolve muito
https://www.mdpi.com/2073-4425/9/11/548/htm
mais do que a simples clonagem. Pode
envolver até a reconstrução do ecossistema
original.

Devemos dizer que ainda não houve sucesso na desextinção de espécies por métodos
moleculares. Porém, acredita-se que isso acontecerá, sim, em curto prazo. A respeito das
técnicas moleculares, existem duas grandes opções no caso de animaisxl:
• A transferência nuclear a partir de uma célula somática armazenada para um gameta
feminino enucleado de uma espécie similar e utilização de uma mãe substituta.
Porém, o clone será só quase geneticamente idêntico aos membros da espécie
extinta: as mitocôndrias possuem DNA cuja origem está no gameta enucleado.
• A fecundação de um gameta (geralmente feminino) de uma espécie afim com
gametas conservados da espécie a ser “ressuscitada”. Nesse caso, os indivíduos serão
híbridos que deveriam ser retrocruzados para conseguir a homogeneidade genética.
Ambas as técnicas podem gerar críticas sobre se realmente estamos desextinguindo
espécies ou criando novas, dependendo de quais sejam os critérios para aceitar que um
indivíduo pertence a uma espéciexli.
Do ponto de vista da ética, as primeiras preocupações que se sobressaem são as
razões reais pelas quais queremos realizar a desextinção. Sem dúvida, é bacana, traz fama, e
talvez seja até economicamente interessante para um grupo de pesquisa conseguir trazer de
volta uma espécie extinta. Por outro lado, desextinguir uma espécie pode ser uma forma de
consolar nossa consciência da responsabilidade de ter causado a extinção desta ou de outras
espécies. Nenhum deles é um argumento éticoxlii.
Voltando às técnicas, a imperfeição destas faz com que muitos dos indivíduos
clonados apresentem problemas sérios de malformações, infertilidade e até problemas
imunitários. Por isso, desde o utilitarianismo, somente é aceitável a desextinção se esta traz
consigo um maior benefício que o prejuízo causado com o sofrimento animal. Do ponto de
vista dos direitos dos animais, matar um animal (ou embriões) para trazer outro diferente à
vida não é aceitávelxliii.
2.1.2. Em favor da desextinção

“De-extinction via breeding has been widely Figura 16 – Castor (autor desconhecido)
presented by many authors as a novel
conservation endeavour wholly separate from
historic conservation trends […]
Aside from the well-known case of wolves in
Yellowstone National Park, reintroductions via
translocation in the United States include:
beaver, bighorn sheep in badlands habitats, elk
in eastern states and bald eagles and wild turkey Fonte:
in New England. Wild turkeys, which are https://www.chelseagreen.com
abundantly common now in New England, had /2018/badlands-without-
gone extinct in the region by the 1840s and were beavers/

absent until successful reintroductions in the


O castor foi reintroduzido nas Badlands
1970s” (ND, EUA) por iniciativa daquele que seria
Novak, B. J. De-Extinction. Genes (Basel). 2018. 9(11):548. depois o presidente T. Roosevelt.

O argumento maior em favor da desextinção também vem do utilitarismo. A


reintrodução de uma espécie num ecossistema estará justificada se isso significar uma
melhora na “saúde do ecossistema”. Por exemplo, a extinção de um predador pode trazer
consigo o incremento no número de suas presas herbívoras que, por sua parte, modificam o
ecossistema, colocando em perigo de extinção algumas das espécies de plantas ou, em geral,
reduzindo a diversidade. Nesse caso, a reintrodução do predador traria de volta o equilíbrio
entre espécies e um incremento na diversidade, que pode ser entendido como um aumento
na saúde do ecossistema. Ou seja, depois de uma análise cuidadosa, em alguns casos, pode
estar justificada a desextinção do ponto de vista da éticaxliv.

Outro argumento é que a desextinção pode oferecer animais que possam ser
utilizados para obter conhecimentos fisiológicos, anatômicos ou de outro tipo que não
podem ser obtidos de outra forma. Porém, como foi adiantado anteriormente, os animais e
plantas desextintos podem não ser idênticos aos originais. Relacionado a isso, se os animais
não são idênticos, vale a pena gerá-los? Um quadro pintado por Rembrandt tem o mesmo
valor que uma cópia deste, caso o original fosse perdido num incêndio?xlv.

Por outro lado, argumenta-se que, se a extinção não é irreversível, nossa


preocupação pelo cuidado do meio ambiente se tornaria bem menor. Mas se o resultado são
ecossistemas íntegros e saudáveis, vale a pena se preocupar por isso?xlvi.

Em linhas gerais, há mais perguntas que respostas, mas a tendência geral na sociedade é
para a justificação.
2.2 Plantas Modificadas Geneticamente
Figura 18 – Água não transgênica – de
“A wide gap exists between the rapid Amanda Allworth.
acceptance of genetically modified (GM) crops
for cultivation by farmers in many countries and
in the global markets for food and feed, and the
often-limited acceptance by consumers […]
Recent political and societal developments show
a hardening of the negative environment for
agricultural biotechnology in Europe, a growing
discussion – including calls for labeling of GM
food – in the USA, and a careful development in
China towards a possible authorization of GM
rice that takes the societal discussions into Fonte: https://medium.com/live-your-life-
account” on-purpose/shameless-food-labeling-is-a-
Lucht, J. M. (2015) Public Acceptance of Plant problem-8aed70752770
Biotechnology and GM Crops. Viruses, 7: 4254-4281. A percepção social contra os transgênicos
Disponível em: às vezes é explorada comercialmente sem
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26264020/ pudor.

As plantas modificadas geneticamente (PMG) apresentam algumas diferenças


notáveis com respeito ao já visto anteriormente e estas diferenças possuem uma grande
importância. Em primeiro lugar, as plantas não são consideradas sencientes por carecerem
de sistema nervoso e, consequentemente, não são consideradas credoras de direitos nem
possuem valor moral, contrariamente ao caso dos animais vertebrados. Contudo, um pouco
incongruentemente, considera-se errado maltratar as plantasxlvii. Por outro lado, as PGM são
majoritariamente dirigidas direta ou indiretamente para o consumo alimentar humano. Este
último fato é o causador de as PMG estarem no “olho do furacão” da controvérsia sobre os
seres vivos modificados geneticamente.
A percepção sobre as PGM não é similar em todos os países. Assim, nos EUA apenas
2% da população considera as PMG uma preocupação, enquanto na Europa a porcentagem
se eleva até quase 60%xlviii,xlix. A controvérsia gira ao redor de vários itens que podem ser
resumidos eml,li:
• A virtude da modificação genética de seres vivos e seu cultivo. Ou seja, é correto
modificar o genoma dos seres vivos? Este é um debate similar em muitos aspectos ao
já visto com animais.
• Os direitos intelectuais e a patenteabilidade de seres vivos. Podemos considerar os
seres vivos como instrumentos nossos? Invenções humanas?
• Os direitos de agricultores, corporações e consumidores: etiquetagem, segurança
alimentar, interesse geral, lucro.
• A segurança meio ambiental dos cultivos de PMG: existe perigo em modificar as
espécies selvagens de plantas com o pólen das PMG? Podem afetar de alguma outra
forma?
2.2.1 PMGs e Ética

“A novel weed has recently emerged, Figura 19 – Milho espanhol, teosinte espanhol e
híbrido.
causing serious agronomic damage in one of
the most important maize-growing regions
of Western Europe, the Northern Provinces
of Spain. The weed has morphological
similarities to a wild relative of maize and
has generally been referred to as teosinte.
[…]
We infer that Spanish teosinte is of admixed
origin, most likely involving Zea mays ssp.
Mexicana as one parental taxon, and an Fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-
017-01478-w
unidentified cultivated maize variety as the
other.” A preocupação sobre a possibilidade de espalhar
Trtikova et al. (2017) Teosinte in Europe – genes estranhos no meio ambiente está baseada em
Searching for the Origin of a New Weed Sci. Rep. fenômenos reais, porém, raros, de hibridação de
7: 1560. espécies relacionadas. O caso acima ilustra a
Disponível em: descoberta no campo espanhol de híbridos de
https://www.nature.com/articles/s41598-017- teosinto (o antecessor do milho e uma espécie
01478-w invasora na Espanha) com milho comercial.

O primeiro dos pontos, a moralidade dos cultivos de PMG, é talvez o que mais
puramente corresponde a um debate ético.
Do ponto de vista do consequencialismo/utilitarismo, os cultivos de PMG deveriam
ser aceitos e até favorecidos se realmente supõem um benefício para a humanidade em
termos econômicos, sociais ou de saúde. Somente se houvesse desvantagens importantes
que pudessem contrariar os benefícios (problemas de segurança ambiental ou de outro
tipo), seria válido se opor. Como nos casos anteriores, o valor que demos aos problemas
frente aos benefícios pode fazer com que o balanço caia para um lado ou outro. Por
exemplo, quão importante é uma probabilidade de 0,0000001 de contaminação do teosinto,
uma planta selvagem raramente encontrada no Brasil, com o transgene do milho Bt frente a
uma poupança de milhões de reais em pesticidas?lii
Do ponto de vista da ética da autonomia e do consentimento, bem cedo
encontramos controvérsias. Essa escola de pensamento sustenta que temos direito a decidir
sobre as questões que nos atingem diretamente. Porém, quem tem um direito maior? O
agricultor, quando escolhe PMG para evitar exposição a pesticidas, ou o consumidor,
quando escolhe não comer PMG? Essa controvérsia e outras parecidas serão tratadas mais à
frente quando falarmos sobre as controvérsias em torno dos direitos dos consumidoresliii.
Do ponto de vista da ética da virtude, de forma similar ao utilitarismo, vamos
procurar um balanço positivo, mas, neste caso, de virtude, e não de benefício. A dificuldade
aqui será determinar o que é virtuoso. Assim, o respeito pelas plantas pode ser considerado
uma virtude, mas, como falado anteriormente, as plantas não têm valor moral, talvez apenas
um status moral. Neste marco, incluem-se também as discussões sobre se estamos
ultrapassando os limites do que é ético quando modificamos uma espécie (conceito do
Hubris ou, mais popularmente, “brincar de ser Deus”). Neste caso, os partidários
argumentam que a agricultura é uma tecnologia, não um ecossistema naturalliv.
2.2.2 Debates sobre as PMGs

“Gilles-Éric Séralini, cientista da Universidade de Caen Figura 20 – Primeira página do


(França) e autor principal de um controverso artigo que, artigo Séralini et al. (2012) Food and
supostamente, associava o cancro ao consumo de Chemical Toxicology 50: 4221-4231.
organismos geneticamente modificados (OGM) – mais
precisamente de cereais transgénicos –, não parece estar
interessado em tratar seriamente do assunto. Está
convencido de que tem razão – e disposto a adoptar uma
posição nada científica para ter a última palavra.
A prova disso: a saga do artigo assinado por ele e a sua
equipa, que foi publicado, em 2012, numa revista científica;
retirado de publicação, em 2013, pela própria revista e
devido a diversas falhas graves; e, apesar de tudo, tornado a
publicar há dias, numa outra revista. Só que, desta vez, sem
passar por qualquer crivo científico de avaliação – e sem
qualquer novo resultado que venha agora demonstrar a
justeza das conclusões iniciais dos seus autores.” Fonte:
https://reader.elsevier.com/reader/
Diário Público; Ana Gerschenfeld, 4 de Julho de 2014 sd/pii/S0278691512005637?token=
B6A846B4843A2A2A4B9644A6696A
https://www.publico.pt/2014/07/04/ciencia/noticia/ogm-quando- 7DEDE966464734A7221482A61B32
os-cientistas-se-esquecem-de-fazer-ciencia-1661471 3C91298A6581AF932CE5C35E8CD2
7D304919FA41

Além do debate ético, existem inúmeras controvérsias em torno das PMGs. Vamos
ver apenas algumas delaslv:

• Debate sobre a justiça. Por um lado, argumenta-se que os cultivos de PMG podem
ajudar a alimentar uma população faminta ou, em outros casos, ajudar na nutrição
correta dos humanos (caso do arroz dourado que ajuda corrigir dietas pobres em
vitamina A); por outro, acredita-se que o aceite de PMGs sob essas razões abriria a
porta para todos os PMGs. Também relacionado à justiça, argumenta-se que as
companhias como Monsanto obrigam os agricultores a não guardarem parte da
colheita para usar como semente nos próximos anos. Isso vai contra o princípio de
justiça e os usos tradicionais. Por outro lado, não veem inconvenientes na venda e no
uso de sementes que produzem indivíduos híbridos, e consequentemente, por
segregação, os indivíduos da segunda geração nunca são iguais aos parentais, o que
torna inviável esse costume de guardar parte da colheita para semente.

• Direito dos consumidores à escolha livre. Em defesa dos consumidores e de seu


direito de escolher livremente se querem ou não consumir produtos com PMG,
exige-se a etiquetagem de todos os produtos que possam ter traços destas. Contudo,
o nível de informação sobre os perigos reais do consumo de alimentos com PMG é
muito limitado, e abundam as desinformações. Assim, não é estranho ouvir pessoas
formadas falarem “eu não vou comer esses tomates, porque tem um gene, e isso é
perigoso para a saúde”.

• Contenção e modificação do meio ambiente. Argumenta-se que não há dados


suficientes para se ter certeza de que o pólen das PMG num cultivo não pode
fertilizar outras plantas no entorno e, com isso, espalhar a modificação genética para
o meio ambiente. Exige-se, nesta situação, que se aplique o princípio de cautela e a
proibição das PMG até se terem dados suficientes.

Paralelamente a essas controvérsias, há inúmeros exemplos de fake news, pesquisas


tendenciosas e paracientíficas e preconceitos que são impulsionados pelos interesses
políticos e econômicos e por medos populares. Tudo isso faz com que o debate sobre as
PMG esteja vivo e gritante, com posições radicais frequentemente.
2.3 Microrganismos, Genética e Biotecnologia

40 Years Ago, GMO Insulin Was Controversial Also


“It may seem like olden days to millennials, but the late 1970s were a lot like today. America was
divided due to an unpopular President, gas was expensive, the movie industry was at death's door
... and genetic engineering was a big concern. […]
Though GMO insulin today is regarded as a gigantic success story for public health, in 1977, the year
before the American Council on Science and Health was founded, the same political forces and
activists aligned against science now were already against it then. Just the names have changed. […]
Scientists persevered, voluntarily making sure everything was done safely before Kennedy and the
Carter administration could find a legal way to shut them down. They came to a consensus on using
specific bacteria (e-coli strain K12) genetically engineered so that even if they somehow got to the
outside world, they would die quickly and have no chance to colonize the human digestive tract.”

Hank Campbell July 29, 2017


https://www.acsh.org/news/2017/08/29/40-years-ago-gmo-insulin-was-controversial-also-11757.

Nos anos 1970, com o início das técnicas de biologia molecular, houve um grande
debate sobre microrganismos e sobre como podiam ser modificados geneticamente. Isso
trouxe consigo uma parada voluntária temporária na pesquisa dessas técnicas e,
consequentemente, da modificação de microrganismos, que durou apenas dois anos. Desde
essas datas, a maior parte das dúvidas sobre a ética sobre a manipulação de microrganismos
tem sido dissipada, e, na atualidade, apenas aquelas modificações que atingem ou têm
como fim o mercado alimentar são recebidas com receio. Por outro lado, as inúmeras
instâncias de modificação genética no campo biomédico (por exemplo, a produção de
insulina recombinante ou anticorpos antitumorais) são recebidas com entusiasmo pela
sociedade. Na atualidade, as maiores controvérsias têm a ver com segurança. Nesse sentido,
os maiores receios giram em torno da resistência aos antibióticos (transmissão horizontal de
genes de resistência), da toxicidade humana, de possíveis reações alérgicas ou da criação de
cepas patogênicas novas ou mais virulentas (neste caso, às vezes associado ao possível uso
como armas biológicas)lvi.

A respeito da liberação de microrganismos modificados no meio ambiente,


contrariamente ao panorama em plantas, é considerada uma opção válida para o caso de
melhoras ambientais (por exemplo, despoluição) ou controle de pragas, entre outros. A
oposição social, ainda que existente, é fraca e baseia seus argumentos nos mesmos
princípios do caso de animais e plantaslvii,lviii.

Em resumo, a partir de um ponto de vista ético, os pontos mais controversos sãolix:


• Possibilidade de efeitos sobre os humanos ou o meio ambiente se espalharem,
como dito acima. A maior preocupação está associada ao fato de que, uma vez
liberado o microrganismo, não possuímos mais controle sobre ele.

• Controvérsia sobre os direitos intelectuais e o patenteamento de organismos vivos,


como no caso de plantas.

• Direitos do consumidor (etiquetagem de alimentos nos quais pode haver uso de


organismos modificados geneticamente, como no caso de laticínios fermentados) e
segurança alimentar.

• Criação e uso de armas biológicas por parte de governos e grupos terroristas.


2.4 Ética e Produção Agropecuária

“The Nations accepting this Constitution, being


determined to promote the common welfare by
furthering separate and collective action on their part for Figura 21 – Logotipo da Organização
das Nações Unidas para
the purpose of:
Alimentação e Agricultura.
• raising levels of nutrition and standards of living of the
peoples under their respective jurisdictions;
• securing improvements in the efficiency of the
production and distribution of all food and agricultural
products;
• bettering the condition of rural populations;
• and thus contributing towards an expanding world
economy and ensuring humanity's freedom from
hunger”.
Fonte:
Preâmbulo da Constituição da FAO (Food and Agriculture Organization https://www.wucwo.org/index.php/
of the United Nations. en/activities/international-
Textos básicos da FAO: http://www.fao.org/3/K8024E/K8024E.pdf. updates/fao

O santo graal da ética da produção agropecuária é contestar a pergunta: O que é


comida boa (virtuosa)? Pensando a partir do academicismo, utilizando aproximações
utilitaristas, mediríamos os benefícios e os prejuízos das opções e tomaríamos uma decisão
sobre qual é a forma mais ética de atuar; se utilizarmos uma aproximação deontológica,
como Tom Regan, chegaríamos à conclusão de que seria aquela agricultura que melhor
respeita os direitos dos animais. Porém, existem mais duas aproximações para esse
problema, que tentam dar visões mais bem adaptadas ao contexto agropecuário. A visão
orientada ao valor cria uma agricultura ideal baseada em valores corretos e, a partir daí,
julga a agricultura real. Por outro lado, a visão do pluralismo democrático avalia as práticas
atuais e tenta obter padrões de excelência aos quais se deve chegarlx.
Em qualquer caso, essas aproximações são utilizadas para avaliar os diferentes
debates que atualmente temos relacionados à produção agropecuárialxi:
• Os países “ricos” têm a obrigação de ajudar aqueles que não possuem comida
suficiente? Essa ajuda é efetiva? Que fazemos com os excedentes agropecuários?
• Qual deve ser nossa posição frente à má nutrição tanto estrangeira (exemplo:
avitaminoses em áreas pobres) quanto própria (exemplo: obesidade)?
• Como devemos encarar o impacto meio ambiental produzido pela agricultura? Como
agir frente à mudança climática? Que significa sustentabilidade?
• Como agir na produção pecuária de forma correta com relação aos direitos dos
animais, tendo em conta os diferentes pontos que isto envolve: transporte,
abatimento e condições de criação de gado, entre outras?
• Que posição é mais correta frente às mudanças econômicas e de modos de produção
industrializado? Devemos ter em conta aqui as consequências econômicas da
tendência aos grandes monopólios, a redução da agrobiodiversidade e as condições
de vida dos agricultores.
Esses debates estão abertos, e não apareceram, ainda, diretrizes claras de consenso.
Isto, entre outras razões, porque as respostas para umas perguntas criam conflitos com as
respostas para outras.
2.5 Ética e o Meio Ambiente

“Deep ecology” was born in Scandinavia, the result of


discussions between Næss and his colleagues Sigmund
Kvaløy and Nils Faarlund […]
Figura 22 – Percepções da ecologia
The “shallow ecology movement”, as Næss (1973) calls
it, is the “fight against pollution and resource
depletion”, the central objective of which is “the
health and affluence of people in the developed
countries.” The “deep ecology movement”, in contrast,
endorses “biospheric egalitarianism”, the view that all
living things are alike in having value in their own right,
independent of their usefulness to others. The deep
ecologist respects this intrinsic value, taking care, for
example, when walking on the mountainside not to
cause unnecessary damage to the plants. Fonte:
https://environmentalethics2014.w
Environmental Ethics. Stanford Encyclopedia of Philosophy
ordpress.com/
(2003, revised 2015).
Entrada de 1 Dezembro, 2014

https://plato.stanford.edu/entries/ethics-
environmental/#DeeEco.

Em linhas gerais, a ética meio ambiental segue as mesmas linhas de pensamento que
outros ramos da bioética. Isso não é surpreendente se temos em conta que existe uma
grande transferência de ideias e conceitos entre o pensamento sobre direitos dos animais e
a ética do meio ambiente. Assim, existem três escolas de pensamento que são as
majoritárias na hora de conceituar o que é bom e que ações são corretas com relação ao
meio ambientelxii:
• Consequencialismo (do qual o utilitarismo é o ramo principal): estão certas ou
justificadas aquelas ações que maximizam o benefício. Em alguns casos, o benefício
último é considerado como o florescimento da vida.
• Deontologia e direitos dos animais: a justiça deve dirigir as ações, e não o benefício.
Dessa forma, mesmo que produza um menor benefício, devem-se seguir os princípios
morais (o que é bom) e evitar qualquer atuação que signifique uma ação injusta. Por
exemplo, a morte sem razão e a extinção de animais seria injusto por ir contra seus
direitos.
• Ética da virtude: essa escola está ganhando uma maior importância nos últimos
anos, embora não seja majoritária. Segundo ela, nossas ações devem maximizar a
virtude (não o benefício). Assim, nossas ações estarão justificadas se trouxerem
consigo valores como compaixão pelos animais, eficiência ou sensibilidade ecológica.
Porém, o grande debate na ética meio ambiental não está em qual dessas escolas de
decisão ética é utilizada para justificar nossa atitude perante o meio ambiente. A maior
controvérsia e evolução dentro da ética meio ambiental gira ao redor da relevância moral
dos diferentes entes que podemos ter em conta, ou seja, o que e por que tem valor moral,
quanto e quem outorga esse valor.
2.5.1 Valores Humanos e Meio Ambiente

“The Brundtland definition of sustainable


development was a broad ethical principle with
two key components. First, it framed the goals of Figura 23 – A relação entre ecologia,
sustentabilidade e design.
development in terms of meeting people's needs.
In this respect it differed from some theories or
accounts of development that used less value-
laden terms, especially those stressing GDP or
general economic expansion. Second, the
Brundtland definition makes an explicit
commitment to future generations. It thus adopted
one a philosophical approach in environmental
ethics that has been associated with
anthropocentrism, or the view that protection of
the environment should be based primarily (if not
exclusively) on benefits that humans derive from Fonte: Filiz Çelik (2013) Ecological
utilizing natural resources.” Landscape Design in “Advances in
Thompson, P. B. (2012) Sustainability: Ethical Landscape Architecture”. IntechOpen
Foundations. Nature Education Knowledge 3(10):11.

Tradicionalmente, o mundo, incluindo os animais e o meio ambiente, tem sido


medido a partir da perspectiva humana. Embora, séculos atrás, se considerasse que somente
os humanos tinham valor ou status moral, essa visão foi modificada para compreender que
outros seres e coisas ao nosso redor podiam ter valor, dependendo de sua relação conosco.
Esse valor, portanto, é outorgado pelos humanos e será tão grande quanto nós, humanos,
valorizemos a relação entre o ente e nós mesmos. Por conta de a fonte dos valores ser a
relação com os humanos, denominam-se estes valores como antropocêntricos ou
instrumentais. Esses valores são utilizados tanto para justificar o uso da biosfera pelos
humanos quanto para derivar os deveres que temos para preservá-lalxiii.
• Valores diretos e indiretos. A forma mais primária de outorgar valores. Estes
derivam da capacidade dos entes para serem modificados e/ou produzir benefício
material para os humanos de forma direta ou indireta. Por exemplo, o valor de um
bosque, e daí nosso dever de preservação, é derivado da riqueza que pode ser obtida
pela exploração sustentável de seus recursos madeireiros. O uso da palavra
“sustentável” aqui não é fortuito. Os valores diretos são a origem do interesse na
sustentabilidade dos ecossistemas de diversas organizações humanas, especialmente
governos.
• Valor por amenidade. O valor dos entes é outorgado pela capacidade de ser um
ponto recreativo, um referente turístico, um ponto histórico ou religioso, entre
outros. Não precisa ser utilizado ou convertível em valor econômico. Nesse grupo
pode se englobar o valor dos parques naturais como lugares visitáveis.
• Valor por opção. Tem a ver com a possibilidade de que, no futuro, o ente tenha uma
importância que agora desconhecemos. Por exemplo, pode ser importante conservar
um ecossistema aquático porque sua biodiversidade faz pensar que talvez no futuro
possa ser encontrado algum antibiótico produzido por algum dos animais ou plantas
marinhas.
• Valor pela própria existência. Neste caso, o valor é derivado de nossa percepção de
que um animal, lugar ou ente é importante por sua beleza ou capacidade de nos
impressionar (Antártida), pelos valores que associamos a eles (fofura do coala) ou
por qualquer outro fator relacionado a uma experiência humana satisfatória. Assim,
este valor pode ser estendido à biosfera toda.
2.5.2 Valores Não Humanos e Meio Ambiente

Anthropocentrism versus Ecocentrism Revisited: Theoretical Confusions and Practical


Conclusions
“One of the most disputed questions in environmental philosophy can be characterized as
an intellectual debate between anthropocentric and ecocentric approaches […]
1) Anthropocentrists see hierarchy in natural order, where humans are above all other
biota […]
2) The first point often results in metaphysical dualism, an ontological divide between
humans and other nature. […]
3) Other nature is seen mechanistically; […]
4) Humans are the only beings seen as intrinsically (in the meaning of
“noninstrumentally”) valuable; […]
5) It is held that human beings constitute the moral community. […]
Holistic nonanthropocentrism, or ecocentrism, was introduced to the philosophical
community by Aldo Leopold […]. Leopold’s main critique of anthropocentric attitude is
that its nature-relation is merely economic; consequently, we seem to ignore the welfare
of those beings and things in nature that don’t have any direct economic value to us.”

Kortetmaki (2013) SATS 14, 21-37. Disponível em:


https://www.degruyter.com/view/journals/sats/14/1/article-p21.xml

Os valores antropocêntricos são ainda hoje grandemente utilizados tanto na política


quanto pela sociedade toda. Porém, outros valores estão tomando força e são já de grande
importância para entender nossa atitude de preservação de ecossistemas e diante das
mudanças meio ambientais. Esses valores não dependem da relação dos entes com os
humanos; pelo contrário, ainda que os humanos não existissem, os entes teriam valor. Ou
seja, são valores intrínsecos, também denominados valores não antropocêntricos. Esses
valores nascem a partir de visões individualistas ou grupais dos seres vivoslxiv,lxv:

• Individualismo. Os defensores dos valores individuais argumentam que, como no


caso dos humanos, cada um dos indivíduos animais possui um valor e, portanto,
importância moral. Esse valor poderá ser diferente para os componentes de cada
uma das espécies segundo seu nível de senciência e autoconsciência; para outros
autores, o valor é igual para todas as espécies animais. No extremo, essa forma de
pensamento leva a outorgar o mesmo valor para todos os indivíduos vivos
(biocentrismo), desde uma célula de levedura até um caxinguelê ou um gorila.

• Holismo. Neste caso, são os entes supraindividuais os que possuem valor. No caso do
especismo, as espécies é que possuem status moral. No ecocentrismo, os
ecossistemas são os entes moralmente valiosos, enquanto que os indivíduos e as
espécies possuem valores ecológicos diferentes e, portanto, contribuem em maior ou
menor medida ao valor moral do ecossistema. Finalmente, no extremo, outorga-se
valor moral à biosfera toda. Em qualquer desses casos, as entidades (neste caso a
biosfera) possuem interesses que não têm por que coincidir com as dos membros,
(as espécies) e, no caso extremo, defende-se que os interesses humanos são
irrelevantes frente aos da biosfera.

A selvageria (a qualidade de ser prístino de contato com humanos), embora não


possua um valor moral, às vezes é considerada como possuindo um valor intrínseco, e,
portanto, devemos nos preocupar para que o nível de independência dos ecossistemas em
relação ao ser humano (selvageria) se mantenha. Por isso, algumas pessoas consideram
reprovável a reintrodução de espécies num ecossistema ou desextinção, porque os animais
reintroduzidos perdem sua caraterística de selvagem quando passam pelas mãos humanas.
2.5.3 Outras Visões Ecologistas

“Debates on basic moral principles are important. One


Figura 24 – Onde a mágica
cannot just call for an end to the ‘humans first’ and acontece.
‘nature first’ debate on the basis of expediency. […]
Particular cultures have their specific conceptions of
the good, and advancing decisions by using the
machinery of the state to expedite matters is
unacceptable. For instance, one can think of mining
and its impact on a community’s way of life. Deciding
on the basis of practicality in this regard is disrespectful
and tyrannical. Policies advanced on the basis of
expedient outcomes would be ethically and Fonte:
democratically deficient.” http://www.remsol.co.uk/sustainabi
Maboloc, C. R. (2016) On the Ethical and Democratic Deficits lity-pragmatism-vs-idealism/
of Environmental Pragamatism. J Human Values 22: 107-
114. Disponível em:
https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/097168581
5627930Além das linhas de pensamento mencionadas anteriormente, existem também
outras que, embora não majoritárias, possuem uma importância crescente para entender os
debates existentes na sociedade sobre o ecologismo.

• Ecofeminismo. Este é um movimento bem diverso, mas que tem um ponto em


comum: existe uma ligação mutualmente fortalecedora entre a dominação da
mulher e a dominação do meio ambiente que pode explicar os abusos atuais de
ambos. As diferentes variantes de ecofeminismo oferecem diferentes explicações
sobre qual é a ligação entre patriarcalismo e abuso do ecossistema e, em alguns
casos, incluem explicações mais amplas que abrangem o racismo e o classismo na
sociedade. Além disso, as visões ecofeministas usualmente fazem uma crítica contra
o uso de princípios morais abstratos que não têm em conta as emoções na hora de
fazer decisões éticas. Tudo isso influi na hora de outorgar status moral aos diferentes
componentes dos ecossistemas e, em geral, à nossa relação com os seres vivos e a
sociedade a um só tempo. Assim, existem ramos do ecofeminismo que podem ser
denominados como ecofeminismo materialista, ecofeminismo vegetarianista e
ecofeminismo espirituallxvi.
• Pragmatismo Meio ambiental. Essa forma de pensar acredita que as aproximações
“clássicas” (consequencialismo, deontologia etc.) não têm como oferecer um
discurso único que possa nos dar linhas morais satisfatórias, de modo que se afastam
disso e se concentram em objetivos práticos que podem ser discutidos, analisados e
que, finalmente, possam produzir políticas ou diretrizes. Assim, acreditam que, em
muitos casos, não existem contradições entre assumir uma posição antropocentrista
ou defender valores não humanos, porque, no final, se o ecossistema é preservado,
tanto os valores de uma aproximação como da outra são respeitadoslxvii.

Considerações Finais:

A bioética abrange mais do que simplesmente as atuações que têm os humanos


como sujeitos. A consideração pelos animais, seja como instrumentos de experimentação,
fonte alimentar ou companheiros de viagem na terra, é fácil de entender “instintivamente”.
Porém, justificar quantos animais usarmos e de qual espécie numa determinada atuação
experimental precisamos entender o conceito de senciência e nossa visão atual dela, entre
outros requerimentos.

Mas a vida, e a bioética, não estão restritas aos animais. Plantas, microrganismos e o
ecossistema todo são também sujeitos de consideração. Assim que ainda hoje as visões
desde a utilidade para os humanos sejam o ponto de partida do que entendemos como
justificável, essas visões estão deixando espaço para outras onde os humanos somos apenas
uma parte mais do ecossistema.

Bibliografia consultada

O texto desenvolvido aqui está baseado principalmente em:

• Hubrecht, R. C. UFAW-The Welfare of Animals Used in Research. 2014. Willey


Blackwell.

• Mepham, B. Bioethics, An Introduction for the Biosciences. 2nd Edition. 2008. Oxford
University Press.

• Oksanen, M. & Siipi, H. (Eds) The Ethics of Animal Recreation and Modification. 2014.
Palgrave McMillan.

• Palmer, C., McShane, K. & Sandler, R. (2014) Environmental Ethics. Ann. Rev. Environ.
Resour. 39:419-442.

• Parekh, S. R. (Ed.) The GMO Handbook. 2004. Springer.

• Ricroch, A. E., Guillaume-Hofnung, M. & Kuntz, M. (2018) The Ethical Concerns about
Transgenic Crops. Biochem. J. 475: 803-811.
• Steinbock, B. (Ed.) The Oxford Handbook of Bioethics. 2007. Oxford University Press.

De forma complementar, podem consultar:

• Andersen, M. L. & Winter, L. M. F. (2019) Animal Models in Biological and Biomedical


Research - Experimental and Ethical Concerns. An Acad. Bras. Cienc. 91, e20170238
[para legislação e instituições brasileiras sobre uso de animais em experimentação].

• Carere, C. & Mathers, J. (Eds) The Wellfare of Invertebrate Animals. 2019. Springer
[para bioética relacionada aos invertebrados].

• Herring, R. J. (Ed.) The Oxford Handbook of Food, Politics, and Society. 2015. Oxford
University Press [para Ética e Produção Agropecuária].

Os casos são de produção própria.

O material Bioética Animal e Meioambiental de Agustín Hernández López está licenciado com uma
licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional
Notas bibliográficas

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