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UM CONTRATO EM SEU LIMITE

Eu apenas quero que as pessoas me tomem a sério, porque sou um homem


sério, sou um homem de valores morais e de princípios baseados nas correntes
teóricas em que acredito e que, em verdade, nada mais são do que um encontro de
quem eu sempre senti que fui, desde pequeno, até chegar ao caminho da
Iluminação, de encontrar estudos e comprovações científicas – pois Ciências
Humanas também é ciência, e é ciência séria, baseada em hipóteses, métodos e
teses – de que eu possuo sentimentos de pertencimento com determinadas correntes,
determinados grupos e movimentos sociais, de que eu tenho consciência de classe,
de que eu tenho senso crítico, de que eu tenho, sobretudo, coragem para analisar
uma conjuntura, apontar erros e acertos (o que não é o mesmo que julgar baseado
em mera opinião vazia e etérea), apontar fatos, sim, fatos!, colocar tudo na
balança, observando os vários lados que possui a História, a Ciência Política, as
Ciências Sociais, o Direito, a Economia, a Psicologia, os Estudos Culturais,
Estudos de Gênero e de Sexualidade, Estudos sobre Religiões, Antropologia e
assim por diante, coisas que corroboraram este arcabouço empírico que sempre
possuí.
Posso dizer que sempre fui comunista? Em essência sim, em existência não.
Explico-me: quando eu era criança parecia-me no mínimo questionável a questão
dos transgênicos (refiro-me a sementes geneticamente modificadas e suas até hoje
desconhecidas consequências para a saúde coletiva), parecia-me no mínimo
estranho ver na cidade onde eu nasci e vivia derrubarem tantas matas e poluírem
o rio (aqui sempre se cometeu arboricídio e ecocídio como uma grande “vegetacina”,
termos relativamente recentes, mas que eu já os sentia em sua dimensão, mesmo
quando ainda estava no Fundamental), parecia-me ao menos contraditório que
se ensinasse na escola (estudei a vida toda em escola pública) Ensino Religioso
obrigatoriamente e somente o cristianismo católico, em meio a tantas crenças,
religiões, cultos e seitas que existem e que sempre soube existirem mundo afora, em
detrimento do ensino da Filosofia, que nos faz pensar desde cedo, e da Sociologia,
que nos faz compreender de que tipo de sociedade fazemos parte, na qual somos
integrantes e de que forma ela se manifesta, em termos sociais, econômicos,
históricos e culturais, todo tipo de manifestação singular e simultaneamente
universal, da qual cada ser humano faz parte – em escala maior, de uma
sociedade de países, de uma sociedade global, de um sistema internacional, enfim
-, tudo isto era para mim, sempre foi, muito claro, muito perceptível, porque nunca
fui um “abastado” (Olá, prima?), nem um “maconheiro vagabundo” (Olá, outra
prima?”, nem um “louco” (Olá, família inteira?, exceptuando-se meus pais e
minhas irmãs que me conhecem de facto).
Nunca fui e nem gosto de gente deste tipo: narcisista e egocêntrica, pedante
e elitista, são basicamente conceitos os quais abomino com veemência, e que
repugno nas pessoas, pois são contrários à caridade, à fraternidade, à modéstia, à
tolerância, ao coletivismo, à solidariedade. Batalhas de egos, ah, já vi tantas
nesses meus trinta anos de idade e é simplesmente lamentável ver um homem ou
uma mulher tornarem-se tão capitalistas a ponto de quererem manifestar sua
existência apenas e somente através do comércio de seu próprio corpo no sentido
filosófico (não me refiro aqui à prostituição, refiro-me a algo muito mais
complexo, quase como “vender a alma ao diabo”, já que tudo isso contraria os
princípios de todas as religiões que pregam, no fundo, o amor, a amizade, etc.), é
como se se tornassem personagens do sistema mecanicista já denunciado por
Maquiavel, e visualmente por Charles Chaplin, considerando as devidas
distinções de época e tecnologia, no fundo, o que quero dizer é que o capitalismo
não é sadio para ninguém e corrompe tipos como esses que apontei aí em cima, que
manifestam predominantemente em suas ações e, mais ainda, em suas
personalidades traços tão perniciosos para um mundo mais equitativo, igualitário
e com justiça social, um mundo com menos desigualdade, com menos preconceito,
com menos competição mas sim com mais empatia, com mais capacidade de
colocar-se no lugar das minorias, dos excluídos e marginalizados, já que tudo,
camarada, é “produto social”, tudo vem de um constructo social formado por laços,
que poderiam (e há interstícios de sociedades comunistas espalhadas pelo globo,
mas não me refiro a ditaduras esquerdistas ou socialistas, refiro-me a
experiências muitas vezes além da esfera do Estado e seu próprio controle e desejo
de autopreservação) aderir a um universo realmente humanitário e, por outro
lado, há sempre os opressores, aparelhos repressivos, as classes dominantes, os
aparelhos ideológicos de Estado, o bloco no poder, tentando a todo custo não fazer
mais do que preservar o establishment, o status quo, quer seja, o sistema
econômico-político-social-cultural-ideológico capitalista, quando não extrapola
para deformações ainda piores como os fascismos, o bonapartismo, as ditaduras
civis ou militares (ou ambas). Talvez ainda estejamos vivendo O Choque de
Civilizações de que falou Huntington, ou O Fim da História de que falou
Fukuyama, ou, quem sabe – muito quem sabe – A Modernidade Líquida de que
falou Bauman, não há certeza absoluta na interpretação dos tempos que vivemos,
há teorias, há pensamentos, há ideologias, há crenças e descrenças, distorcidas ou
factuais, e no meio deste oceano devemos navegar de olhos e mente bem abertos,
despertos na crença em nossa própria consciência de que não existimos apenas
para o nosso próprio ego, um despertar de que também o outro existe e não pode ser
desprezado, não pode ser descartado e nem ignorado, pois, como o outro, somos parte
de um todo universal.

G R Tissot
8: 54 pm
11, Abr 2021

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