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r a Jaclmor Lul d Souza
Patncfa R s nde
Sumário
============================ =-==--

Sumário
APRESENTAÇAO ............................................................................ e• ••u • o•• · ~·- • •u17
CAPÍTULO 1 - A BUSCA DA SUSTENTABILIDADE AGRÍCOLA E O MERCADO DE
A

ALIMENTOSORGANICOS ...............................................................................19
1.1 - AS FRAGILIDADES DAAGRICULTURAMODERNA ............................................................ 20
1.2 - CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL POR RESÍDUOS QUÍMICOS ........................................ 25
1.3 -A CONSCIÊNCIA DO CONSUMIDOR .......................................................................................30
1.4 -A QUALIDADE SUPERIOR DOS ALIMENTOS ORGÂNICOS...........................................33
1.5 -A EVOLUÇÃO DO MERCADO DOS ALIMENTOS ORGÂNICOS.....................................42

CAPÍTULO 2 - BASES, PRINCÍPIOS E MECANISMOS ECOLÓGICOS .............. 45


2.1-MECANISMOS DA ESTABILIDADE, DIVERSIDADE E EQUILÍBRIO ECOLÓGICO... .49
2.2 - BIOGEOGRAFIA DE ILHAS E AS ESTRATÉGIAS DE VIDA ................................................ 56
2.3- PRINCÍPIOS PARA RESTAURARADIVERSIDADEE O EQUILÍBRIO ECOLÓGICO... 59
2.3.1 - DIFICULTAR ACESSO DE ORGANISMOS "R.''..........................................................•..................59
2.3.2 - SUBSTITUIÇÃO POR ESTRATÉGIAS "R.'' DESEJÁVEIS ..............................................................60
2.3.3 - REDUÇÃO DA REMOÇÃO DA BIOMASSA NAS ÁREAS DE CULTIV0...................................... 60
2.3.4- EXEMPLOS .....................................................................................................................................61
2.3.4.1 - O controle da competição por alteração do espaçamento.......................................... 61
2.3.4.2 - Redução da biomassa de ervas pela consorciação....................................................... 62
2.3.4.3 - Redução de ervas pela rotação de culturas .....................................................................63
2.3.4.4 - Supressão de patógenos de solo pela diversificação da microbiota .......................... 64
2.4- DIVERSIDADE E ESTABILIDADE DA PRODUÇÃO............................................................... 66
2.4.l -ESTABILIDADE FRENTE A SECA ................................................................................................ 67
2.4.2 - ESTABILIDADE FRENTE À HERBIVORIA ................................................................................... 72
2.5 - DIVERSIDADE E PRODUTIVIDADE ............................................................................................ 77

CAPÍTULO
,
3 - CONCEITOS,
,
OBJETIVOS, ESCOL\S E APLICAÇÃO DOS
PRI NC IPIOS AGRO ECO LOG ICOS ................................................................... 81
3.l - CONCEITOS .......................................................................................................................................... 82
3.2 - OBJETIVOS DA AGRICULTURA ORGÂ.NJCA ........................................................................ 83
3.3 - AS ESCOLAS DA LJNHAAGROECOLÓGICA ........................................................................ 84
3.4 · APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS AGROECOLÓGICOS ....................................................... 86
3.4. 1 · CONSTRUINUO A PAISAGEM E O ACROECOSSJSTEMA PRODUTIVQ................................... 86

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Manual de Horticultura Orgânica

3.4.2 - PERMITINDO O FUNCIONAMENTO DA TEORIA DA TROFODIOSE ..................................... 94


3.4.3 - RECICLANDO A MATÉRIA ORGÂNICA .....................................................................................98

CAPÍTULO 4 - A CONVERSÃO À HORTICULTURA ORGÂNICA

AGRO ECOLÓGICA............................................................................................109
4.1 - INFORMAÇÕES BÁSICAS PARA A CONVERSÃO..........................................................................110
4.2- PRINCÍPIOS ORIENTADORES DA CONVERSÃO..............................................................114
4.3- REQUERIMENTOS PARA A CONVERSÃO............................................................................ ! 16
4.4 - PERÍODO DE CONVERSÃO......................................................................................................... 117
4.5- PROJETO DE CONVERSÃO (PLANO DEMANEJO) ..........................................................120
4.6 - EXEMPLOS DE PLANOS DE CONVERSÃO.......................................................................... 130
4.6.1 - SÍTIO "ENGENHO VELH0". ......................................................................................................130
4.6.2 - FAZENDA "SouzA ORGÃNicos''. ............................................................................................134

CAPÍTULO 5 - O ENFOQUE ENERGÉTICO EM SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE


HORTALIÇAS ...............................................................................................135
5.1 - IMPORTÂNCIA DO ENFOQUE ENERGÉTICO................................................................... 136
5.2 - (IN)SUSTENTABILIDADE ENERGÉTICA............................................................................. 137
5.3 - RESULTADOS DE PESQUISAS SOBRE USO E BALANÇO DE ENERGIA EM
SISTEMAS DE PRODUÇÃO AGRÍCOLA....................................................................................... 139
5.4 - TRABALHOS E INDICADORES ENERGÉTICOS NA PRODUÇÃO DE
HORTALIÇAS ...........................................................................................................................................142
5.5-ALTERNATNAS PARA O USO EFICAZ DE ENERGIA .......................................................144
5.6 - ANÁLISE CR1TICA E DISCUSSÃO SOBRE A ENERGÉTICA NA PRODUÇÃO
ORGÂNICA DE HORTALIÇAS.......................................................................................................... 150

CAPÍTULO 6 - MÉTODOS DE PRODUÇÃO PARA O CULTIVO ORGÂNICO DE


HORTALIÇAS ...............................................................................................155
6.1 - GÊNESE, MANEJO, PREPARO E FERTILIZAÇÃO DO SOLO......................................... 156
6.1.J - CONSIDERAÇÕES SOB RE A GÊNESE DO SOL0 ...................................................................... 156
6.1.2 - PREPARO DO SOL0.................................................................................................................... 156
6. 1.3 - SISTEMA PLANTIO DIRETO NO CULTIVO ORGÂNICO DE HORTALIÇAS......................... 164
6. J .3. 1 - Compreensão das diferenças entre a produção orgiinica e a co nvcncional.......... 166
6.1.3.2 - Considerações técnicas importantes na prática do SPD........................................... 168
6.1 .4 - FE RTILIZAÇÃO DO SOL0.......................................................................................................... 179

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Sumário

6.2 -ADUBAÇÃO ORGÂNICA.............................................................................................................. J 85


6.2.1 - ESTERCOS................................................................................................................................... i 86
6.2.2 - COMPOSTAGEM ORGÂNICA .................................................................................... ......... .... . 189
6.2.2.1 - Descrição geral do processo........................................................................................... 189
6.2.2.2 - Processos especiais de compostagem........................................................................... 207
6.2.2.3 - Enriquecimento do composto.......................................................................................219
6.2.2.4 - Formas de aplicação de composto................................................................................ 228
6.2.2.5 - Custo de produção de composto..................................................................................229
6.2.3 - RECOMENDAÇÕES DE ADUBAÇÃO COM ADUBOS ORGÂNICOS........................................ 230
6.2.3.1 - Cálculo da dosagem de adubos orgânicos pelo fator de conversão........................ 230
6.2.3.2 - Cálculo da dosagem de adubos orgânicos pelo sofware do INCAPER.................235
6.3 - ESPÉCIES E CULTIVARES ADAPTADAS AS CONDIÇÕES AGROECOLÓGICAS
LOCAIS........................................................................................................................................................ 238
6.4 - PROPAGAÇÃO DE PLANTAS E FORMAÇÃO DE MUDAS............................................. 249
6.4.1 - CONSIDERAÇÕES GERAIS........................................................................................................ 249
6.4.2 - PRODUÇÃO DE MUDAS EM AMBIENTE PROTEGIDO (ESTUFAS) ....................................... 250
6.5 - BIOFERTILIZANTES LÍQUIDOS ...............................................................................................260
6.5.1 - EXTRATO DE COMPOST0.......................................................................................................... 26 l
6.5.2 - 0 BIOFERTILIZANTE LÍQUID0..............................................................................................263
6.5.3 - 0 BIOFERTILIZANTE SUPERMAGR0.....................................................................................266
6.5.4 - URINA DE VACA ........................................................................................................................268
6.5.5 - BIOPERTILIZANTE LÍQUIDO ENRIQUECID0........................................................................272
6.5.6 - BIOFERTILIZANTEAD-1 (AERÓBIC0) .................................................................................275
6.6-ADUBAÇÃO VERDE APLICADA A OLERICULTURA .......................................................276
6.6.1 - FUNÇÕES DA ADUBAÇÃO VERDE ........................................................................................... 277
6.6.2 - EFEITOS DOS ADUBOS VERDES NA FERTILIDADE DO SOL0............................................. 280
6.6.3 - CARACTERIZAÇÃO DAS ESPÉCIES DE ADUBOS VERDES .................................................... 280
6.6.4 - CRITÉRIOS PARA ESCOLHA DOS ADUBOS VERDES ............................................................. 285
6.6.5 - ADUBOS VERDES E A LIBERAÇÃO DE NUTRIENTES............................................................ 286
6.6.6 - ADUBOS VERDES E ALELOPA'l'IA ............................................................................................. 288
6.6.7 - FORMAS DE UTILI ZAÇÃO DA ADUBAÇJ\.O VERDE............................................................... 289
6.7 - ROTAÇÃO, SUCESSÃO E CON SO RC IAÇAO DE C ULT URA S........................................ 306
6.7.1 - ROTAÇÃO E SUCESSÃ0.............................................................................................................306
6.7.2 - CONSORCIAÇÃ0........................................................................................................................ 3 l0
6.7.3 - QUEBRA-VENTOS ......................................................................................................................3 14
6.8 -COBERTURA MOR'fA .....................................................................................................................3 l S

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Manual de Horticultura Orgânica

6.8.1 -COBERTURA MORTA COM PALHA .......................................................................................... 318


6.8.2-COBERTURAMORTAGERADANO PRÓPRIO LOCAL.............................................................. 321
6.8.3-COBERTURAMORTACOM PLÁSTIC0...................................................................................... 321
6.9 - MANEJO E CONTROLE DE ERVAS ........................................................................................... 322
6.9.l -MANEJ0....................................................................................................................................... 322
6.9.2 - CONTROLE.................................................................................................................................326
6.10 -AGUA E IRRJGAÇÃO EM SISTEMAS ORGÂNICOS........................................................ 332
6.10.1 - QUALIDADE DA ÁGUA ............................................................................................................ 332
6.10.2 - QUANTIDADE DE ÁGUA........................................................................................................333
6.10.3 - IRRIGAÇÃ0.............................................................................................................................. 334
6.11 - MANEJO E CONTROLE ALTERNATIVO DE PRAGAS E DOENÇAS EM
HORTALIÇAS ...........................................................................................................................................336
6.11.1 - MANEJO DO SISTEMA PRODUTIV0...................................................................................... 336
6.11.2 - INDUÇÃO E RESISTÊNCIA A PRAGAS E DOENÇAS............................................................. 342
6.11.3 - MANEJO INTEGRADO (ou ECOLÓGICO) DE PRAGAS E DOENÇAS ................................345
6.11.3.1 - Manejo integrado (ou ecológico) de doenças..........................................................346
6.11.3.2 - Manejo integrado (ou ecológico) de pragas.............................................................. 352
6.11. 4 MÉTODOS DE CONTR0LE....................................................................................................... 353
6.11.4.1 - Controle biológico.........................................................................................................353
6.11.4.2 - Substâncias inseticidas, fungicidas e repelentes ....................................................... 368
6.11.4.3 -Armadilhas e iscas ........................................................................................................... 39 l
6.11.4.4- Controle mecânico......................................................................................................... 394
6.11.4.S - Produtos homeopáticos ................................................................................................395

ENCARTE 1 - ILUSTRAÇÕES SOBRE OS PRINCÍPIOS, TÉCNICAS E


PRÁTICAS DE MANEJO ORGÂNICO EM HORTALIÇAS .................................. 397

CAPÍTULO 7 - A HOMEOPATIA NA PRODUÇÃO ORGÂNICA DE


IIORTALIÇAS ............................................................................................... 415
7.1 - INTRODUÇÃO À HOMEOPATIA ............................................................................................. 416
7.2 - A CIÊNCIA DA HOMEOPATIA ...................................................................................................41 7
7.3 - OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DA HOMEOPATIA .....................................................................420
7.3.l · SIMJLITUDE................................................................................................................................420
7.3.2 - EXPEIUMENTAÇÃO EM SERES SADIOS ....................................................................................420
7.3.3 - MEDICAMENTO ÚNIC0............................................................................................................ 420

14
Sumário

7.3.4- DOSES MÍNIMAS E DINAMIZADAS ............................................................................. ..........420


7.4-ALGUNS CONCEITOS EM HOMEOPATIA ........................................................ .... .............4J. 1
7.4.1- PRINCÍPIO VITAL................................................................................................ ................. ·1].1
7.4.2 - ORGANISMO SAUDÁVEL......................................................................................... . . . . ·•27.
7.4.3- ORGANISMO ADOECIDO...................................................................................... . . .. . . .. ·.2:~
7.5- O EQUILÍBRIO DOS ORGANISMOS VIVOS PELA HOMEOPATIA .............. .. .. .·• J.r
7.6 - MECANISMOS DE AÇÃO DOS PREPARADOS HOMEOPÁTI COS .................. .......... <!.7
7.7- COMO É FEITAAHOMEOPATlA ..............................................................................................429
7.8 - COMO ESCOLHERAHOMEOPATlA......................................................................................432
7.8.l - ANALOGIA..................................................................................................................................433
7.8.2 - NosóDios.................................................................................................................................. 434
7.8.3 -AGENTE INTOXICANTE........................................................................................................... 435
7.8.4- ORGANOTERÁPICOS ................................................................................................................436
7.8.5 -ELEMENTO QUÍMICO NUTRIENTE OU SAL MINERAL ...................................................... .437
7.9- RESPONSABILIDADE DO (DA) HOMEOPATARURAL...................................................438
7.10 - CUIDADOS ESPECIAIS AO FAZER, AO GUARDAR E AO USAR AS
HOMEOPATlAS .......................................................................................................................................439
7.11 - COMO APLICARA HOMEOPATlA ........................................................................................439
7.12- RECOMENDAÇÕES DE PREPARADOS HOMEOPÁTICOS EM HORTALIÇAS ......440

CAPÍTULO 8 - CULTIVO ORGÂNICO DE HORTALIÇAS ................................. 445


CONSIDERAÇÕES GERAIS ....................................................................................................................446
8.1 - CULTIVO ORGÂNICO DA ABÓBORA......................................................................................451
8.2 - CULTIVO ORGÂNICO DA ABOBRINHA ITALIANA........................................................ .461
8.3 _ CULTIVO ORGÂNICO DAALFACE ..........................................................................................467
8.4- CULTIVO ORGÂNICO DOALH0..............................................................................................475
8.5 _ CULTIVO ORGÂNICO DA BATATA...........................................................................................487
8.6 - CULTIVO ORGÂNICO DA BATATA-BAROA. .........................................................................497
8.7 - CULTIVO ORGÂNICO DA BATATA-DOCE............................................................................505
8.8 - CULTIVO ORGÂNICO DA BERINJELA ................................................................................... 513
8.9 - CULTIVO ORGÂNICO DA 13ETERRA.BA ................................................................................. 52 l
8.10 - CULTIVO ORGÂNICO DO BRÓCOLIS ................................................................................. 527
8.1 J - C ULTIVO ORGÂNICO DA CENOURA .................................................................................. 539
8.12 - C ULTIVO ORGÂNICO DA COUVE-FLOR ...........................................................................547
8.13 - CULTIVO ORGÂNICO DO FEIJAO-VAGEM ........................................................................56 1
8. 14 - C ULTIVO ORGÂNICO DO GENGIBRE .................................................................................57 1

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Manual de Horticultura Orgânica

8.15-CULTIVO ORGÂNICO DO INHAME (CARÁ) .................................................................... 579


8.16-CULTIVO ORGÂNICO DO MORANGO.................................................................................587
8.17-CULTIVO ORGÂNICO DO PEPINO.........................................................................................607
8.18-CULTIVO ORGÂNICODOPIMENTÃO.................................................................................. 615
8.19-CULTIVO ORGÂNICO DO QUIABO........................................................................................ 625
8.20-CULTIVO ORGÂNICO DO REPOLHO....................................................................................633
8.21 - CULTIVO ORGÂNICO DO TARO............................................................................................. 645
8.22 - CULTIVO ORGÂNICO DO TOMA'.fE......................................................................................655

ENCARTE 2 - ILUSTRAÇÕES SOBRE CULTIVOS E


PRODUTOS ORGANICOS ............................................................................. 675

CAPÍTULO 9 - LIMPEZA, CLASSIFICAÇÃO, EMBALAGEM E


COMERCIALIZAÇÃO DE HORTALIÇAS ORGÂNICAS ..................................... 693

CAPÍTULO 10 - LEGISLAÇÃO E CERTIFICAÇÃO.......................................... 701


10.1 - LEGISLAÇÃO E POLÍTICANACIONALPARAAAGRICULTURA ORGÃNICA.... 702
10.2 - MECANISMOS DE CONTROLE..............................................................................................704
10.3 - CERTIFICAÇÃO.............................................................................................................................706
10.4 - SISTEMAS PARTICIPATIVOS DE GARANTIA ...................................................................708
10.5 - CONTROLE SOCIAL NA VENDA DIRETA SEM CERTIFICAÇÃO............................710
10.6- INFORMAÇÃO DA QUALIDADE ORGÃNICA .................................................................. 712
10.7 - ENTIDADES CERTIFICADORES ............................................................................................. 714
10.8 - ETAPAS PARA A CERTIFICAÇÃO ORGÂNICA..................................................................716

CAPÍTULO 11 - OBSTÁCULOS AO CRESCIMENTO DO MERCADO DE


,.
ALIMENTOS ORGANICOS ................................................. ~ .......................... 717
BIBLIOGI\A_FJA ............................................................................................ 725
ANEXOS ....................................................................................................... 753
GLOSSÁRIO ................................................................................................ 813
,
INDICE REMISSIVO.................................................................................... 82!.}

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Aprenda Fácil Editora t

APRESENTAÇÃO

A importância e aceitação da sociedade brasilei ra às edições anteriores


deste Manual de Horticultura Orgânica estimularam a produçã o desta terceira
edição, revisada e atualizada, buscando despertar ainda mai s o interesse dos
leitores nessa importante área.
Você sabe o que acontece quando compramos produtos orgânicos? As
respostas são amplas e variadas. Vamos reproduzir integralmente um texto
contido no site www.planetaorganico.com.br, extremamente abrangente
quanto ao conteúdo, mas, ao mesmo tempo, conciso. Leia com tempo para
reflexão nas 10 respostas a seguir:

1 ° Sua comida é mais gostosa


Esta é a simples razão pela qual muitos dos famosos Chefs procuram
produtos orgânicos.
2º As substâncias químicas ficam fora do seu prato
"Produzido organicamente" significa produzido sem pesticidas,
herbicidas ou fungicidas tóxicos ou fertilizantes artificiais que danificam o
solo. Um relatório da Academia Americana de Ciências, de 1987, calculou
em 1 milhão e 400 mil os novos casos de câncer provocados por pesticidas.
3º Você protege as futuras gerações
Um relatório recente do Environmental Group (Grupo de Trabalho
Ambiental) diz: "Quando uma criança completa um ano de idade, já
recebeu a dose máxima aceitável para uma vida inteira de oito pesticidas
que provocam câncer". As crianças são as mais vulneráveis.
4º Você protege a qualidade da água
Somos compostos por 2/3 de água. Pesticidas infiltram nos lençóis
freáticos e córregos de água. A Agência de Proteção Ambiental Americana
calcula que os pesticidas, alguns deles causadores de câncer, já poluem
metade da água potável dos EUA .
50 Você refaz bons solos
Revertemos a perda anual de bilhões de toneladas de terra boa . Os
agricultores orgânicos usam compostos e cobertura verde para tornar o
solo vivo e saudável novamente. Isso traz de volta o sabor do alimento .

17
Manual de Horticultura Orgânica

6° Você gasta menos, com melhor nutrição


Um estudo preliminar dos Doctor's Data (Dados Médicos) de Chicago
indica que frutas e hortaliças orgânicas contêm 2,5 vezes mais minerais
que o alimento produzido artificialmente.
7° Você paga o verdadeiro custo da comida
O alimento orgânico é, na realidade, a forma mais barata de comida.
Um pé de alface convencional parece custar 50 centavos, mas não se
esqueça dos custos ambientais e médicos. O escritor Gary Null diz: "Se
você somar o real custo ambiental e social de um pé de alface, ele pode vir
a custar de 2 a 3 dólares".
8° Você ajuda o pequeno agricultor
O trabalhador rural precisa ser preservado, não o alimento. Comprar o
produto orgânico ajuda a acabar com o envenenamento por pesticidas de
cerca de um milhão de agricultores por ano, no mundo inteiro, e ajuda a
manter as pequenas propriedades.
9º Você ajuda a restaurar a biodiversidade
Fazendas orgânicas criam ecossistemas fortes, equilibrados e culturas
mistas, em vez de monoculturas, que são mais sensíveis a pragas. Apesar
do uso de pesticidas ter aumentado, as perdas por causa de insetos estão
cada vez maiores.
10º Você reduz o aquecimento global e economiza energia
O solo tratado com substâncias químicas libera uma quantidade
enorme de gás carbônico, gás metano e óxido nitroso, segundo Lovins, do
Instituto das Montanhas Rochosas. A agricultura e administração florestal
sustentáveis podem eliminar 25% do aquecimento global. Atualmente,
mais energia é consumida para produzir fertilizantes artificiais do que para
plantar e colher todas as safras.

Por essas razões, esperamos uma sociedade cada vez mais consciente e
consumidora de produtos orgânicos, e que esta obra continue cumprindo seu
papel na viabilização tecnológica desse caminhar.

Os autores.

18
Manual de Horticultura Orgânica

1.1.ASFRAGILIDADESDAAGRICULTURAMODERNA

Em termos globais, é inegável que a agricultura convencional tenha


proporcionado aumentos significativos de produtividade, dobrando a produção
de alimentos entre os anos de 1950 e 1984. No entanto, a partir de 1985,
passou-se a observar uma diminuição da produtividade da agricultura mundial,
vinculada aos problemas associados à aplicação dessa tecnologia (EHLERS,
1996). Com o objetivo de maximizar a produção e o lucro, suas práticas
ignoram a dinâmica ecológica dos agroecossistemas, levando a uma situação de
insustentabilidade, posto que deteriora as condições que possibilitam a produção
de alimentos para a crescente população mundial (GLIESSMAN, 2000).
A tecnologia agrícola convencional está embasada no preparo intensivo do
solo, no uso de adubos minerais de alta solubilidade, agrotóxicos para o controle
de pragas, doenças e ervas, e em cultivares de alta resposta a fertilizantes e
agrotóxicos químicos sintéticos. Assim, esse modelo de agricultura compõe-se
de um pacote tecnológico fortemente dependente de insumos industrializados,
cuja produção e aplicação demandam alto consumo energético e geram
impactos negativos no ser humano, no meio ambiente e no entorno social
(ALTIERI, 1995; EHLERS, 1996; GLIESSMAN, 2000).

O desenvol imenro de cul · ares com os cc acterís i~ o.:; co:mér co


requeridas pelo mercado g □1 e de cl a respc:~a co.: derr- oi5:
componentes do poco e tec ológ·co. em !e . ad à per do cose •
genéfca que represen a o sus ·ento ;me to de rr · ,.._. ~ c,p t□ G: - es.
1

principolmen e dos países n,a·s oob

Os efeitos negativos tendem a se ampliar com a aplicação da biotecnologia,


principalmente com a liberação no mercado de cultivares tolerantes a herbicidas
ou resistentes a insetos, sem que se tenham realizado estudos para conhecer
suas consequências na saúde humana, nos recursos produtivos e no ambiente
em geral.
A aplicação de agrotóxicos, muitas vezes calendarizada, e como resposta
a exigências, em sua maioria cosméticas, gera efeitos negativos em vários

20
'
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o M ercado d e Alimentos Orgânicos

âmbitos. Provoca o desenvolvimento de resistên cia nos organismos-alvo das


aplicações, explosões de pragas secundárias, ressu rgimento de ~opulações de
pragas e mortalidade de agentes de controle biológ ico naturnl (/1.L11ER1, 2002).
A atuação desses fatores, em forma isolada ou em (or~j l: :, -o, contribui
para o aumento da magnitude dos problemas fitossanitá rios de:~t;·o do próprio
sistema de produção. Além disso, muitos dos agrotóxicos de uso generalizado
são classificados como alta ou extremamente tóxicos para a saúde hu mana,
podendo provocar, a médio e longo prazos, patologi as do sistem a nervoso,
rins, fígado, dos pulmões e da pele, como também câncer, malform ações
congênitas, abortos, esterilidade, alterações do sistema endócrino e deficiências
imunológicas. Alguns apresentam ainda problemas de alta persistência no
ambiente, bioacumulação ou toxicidade para organismos aquáticos, abelhas e
fauna silvestre e doméstica (TRIVELATO e WESSELING, 1992).
O frequente preparo do solo por métodos intensivos e a ausência de
cobertura vegetal têm provocado grandes perdas de solo e água, depauperando
tais recursos e poluindo cursos d'água. Os adubos de alta solubilidade, além
de provocarem desequilíbrios nutricionais nas plantas e acidificação do solo,
alcançam o lençol freático provocando sua contaminação ou são transportados
para cursos d'água, causando sua eutrofização.
A utilização de recursos produtivos de alto custo energético, tais como
adubos nitrogenados, agrotóxicos e maquinário, leva à queda da eficiência
energética do processo produtivo, mesmo que acompanhada de aumentos
de produtividade física. Ainda que se fale em sustentabilidade da agricultura
convencional, trata-se somente da dimensão econômica, sem esforços pela
integração de aspectos sociais, culturais e ambientais.
Dentro dessa realidade de dependência de insumos externos 1 com
crescentes custos de produção e inserção em mercados anárquicos, somente
os estabelecimentos agrícolas muito capitalizados sobrevivem, acarretando
a exclusão de enormes contingentes de produtores. Mesmo a geração de
empregos pela agricultura convencional é extremamente sazonal, com pouca
contribuição para fixação de famílias no campo .
A concentração de créditos, pesquisas agropecuárias e atividades de
extensão nas culturas de exportação ou associadas ao setor agroindustrial e
em grandes propriedades produziu e acentuou desigualdades econômicas e
sociais em nível local, regional e mundial. Tal modelo resulta no esvaziamento
do meio rural e na intensa migração para centros urbanos, caracterizando
a incapacidade de a agricultura convencional garantir boa qualidade de vida
para a maioria dos produtores rurais e de tornar o alimento disponível para a
totalidade da população.

21
Manual de Horticultura Orgânica

·do p ·nc·p e e
· e b - 1· · se

Podemos resumir uma serie de consequências negativas do modelo


agroquímico de produção, dentre as quais destacam-se:

• Compactação do solo.
• Erosão.
• Eliminação, inibição ou redução sensível da flora microbiana do solo.
• Declínio de produtividade pela degradação do solo e perda de matéria
orgânica.
• Poluição alimentar, da água, do solo, do ar, em consequência dos
agrotóxicos e de adubos minerais solúveis.
• Surgimento de novas pragas e doenças.
• Surgimento de resistência dos insetos e doenças aos agrotóxicos,
conforme ilustrado na Figura 1.1.
• Mecanização inadequada.
• Absorção desequilibrada de nutrientes, produzindo alimentos
desnaturados.
• Produção em grande escala, visando à exportação, com prejuízo ao
consumo interno.
• Contaminação de alimentos e trabalhadores rurais.
• Utilização de insumos sintéticos ( combustível, adubos e agrotóxicos),
de alta demanda de energia, proporcionando um reduzido balanço
energético, conforme ilustrado nas Figuras 1.2 e 1.3. Uma análise
mais detalhada da questão energética na produção de hortaliças está
apresentada no Capítulo 5.

22
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Merc ado de Alimentos Orgânic os

• Encarecimento exorbitante do custo de produ ção, devido ao aument o


excessivo dos insumos básicos, como fertilizantes, ag rotóx icos, máquin as
e sementes.
• Perda de autonomia do produtor rural, torn ando -se depende i1te da
indústria, o que tem provocado grande diminu ição da renda d 0 ag í icultor
ao longo dos anos, como demonstrado na Figu ra 1 .4. Verifl c-3 - se que a
parcela do preço dos alimentos destinada ao prod utor te m sido ca da vez
menor. Além disso, cada vez mais, tornam-se dependentes dos bancos e
das indústrias para a obtenção dos insumos e da venda de suas produ ções.

• Êxodo rural etc.


450 432

400
- - Artrópodes Resistentes

350 Novos Inseticidas


300
300

250

200

150

100

50 ·
5

A-1930 A-1940 A-1950 A-1960 A-1970 A-1980

Figura 1.1 - Números acumulados de espécies resistentes de artrópodes e novos


inseticidas - 1930 a 1980.
Fonte: Adaptado de Bull e Hathaway (1 986).

23
Manual de Horticultura Orgânica

Balanço energético: 12,5 / 1


Ferramentas Produção de
manuais sementes
7% Trabalho
3%
humano
90%

Aporte de energia: 553.678 Kcal/ha


Saída de Energia (colheita): 6.901.200 kcal/ha

Figura 1.2 - Plantação tradicional de milho de roçado no México.


Fonte: Pimentel (1984).

Balanço energético: 2,9 /1


Fósforo, Potássio,
Calcário
Sementes 5 ,8%
5,3% Adubo
Nitrogenado
26,5%

Eletricidade
1,1%
Secagem
17,1%

Gasolina, óleo,
GLP
21 ,0%
Maquinaria Trabalho
11 ,8% humano
0,1 %

Aporte de energia: 8.390.750 Kcal/ha


Saída de energia (colheita): 24.333.175 Kcal/ha

Figura 1.3 - Plantação convencional de milho nos EUA.


Fonte: Pimentel ( 1984).

24
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Merc ado de Alimentos Orgânicos

Comércio

Figura 1.4 - Participações relativas no valor total dos alimentos no mercado


americano - 191 O a 1990.
Fonte: Smith {1992), citado por Gliessman (2000) .

1.2. CONTAMINAÇÃO Al\1BIENTAL POR RESÍDUOS


QUÍMICOS

Uma das justificativas mais consistentes para a necessidade de se empregar


modelos agrícolas baseados no uso de recursos naturais (sem emprego de
adubos químicos e agrotóxicos) é a proteção da saúde do agricultor, ou seja ,
aquele que mais tem sofrido problemas de contaminação e, em alguns casos,
até morte pelo uso de venenos nas lavouras.

C,r_;rr_.,-J ( l 't'H.,J rr e,. 1,r.)u urr rJr.,rr;r 1r


r '/~ :r,;r..,, <J(.1 rr., .,,r)r rJr.Jr.,,r rurr_;I r c_,
Í//_ rJ•, r /; /'~~·.(:::; ( (J~í f';'.> f~fl \ (
rJ- t,·,... '; () '~r., r_ )0(,f (

25
Manual de Horticultura Orgânica

Segundo Garcia (1996), quando o consumo de agrotóxicos nos países


em desenvolvimento era calculado em 20% do consumo mundial, em 1985,
estimava-se que cerca de 70% das intoxicações agudas eram produzidas nesses
países. Em 1990, quando se estimava um consumo de 25%, as intoxicações
se elevavam para 90%, dos estimados 3 milhões de casos mundiais, nesses
mesmos países.
A tendência é que essa desproporção aumente ainda mais, pois, enquanto
os países industrializados estão procurando diminuir as quantidades de
agrotóxicos utilizadas, os países em desenvolvimento deverão aumentar
bastante o consumo desses produtos nos próximos anos. Isso nos preocupa
muito, pois o consumo de agrotóxicos na América Latina só perde para o da
África, e o Brasil é considerado o maior mercado potencial do mundo.
Para reforçar estas afirmativas, observe um estudo da Fundacentro
realizado no período de 1986/87 na Tabela 1.1.

Tabela 1.1 - Intoxicações referidas, ocorridas durante a vida laboral, entre a


população que trabalha em contato direto com agrotóxicos. Brasil (1 ), Junho/1986
a Dezembro/1987
% em relação ao
Número de % em relação ao total da população
Intoxicações pessoas que total de pessoas que trabalha em
referidas referiram que referiram contato direto com
1
intoxicações intoxicações agrotóxicos
(n=5143)
1
_j

Uma 917 63,2 17,8

Duas a três 328 22,6 6,4

Quatro ou mais 206 14,2 4,0

Total 1451 100,0 28,2


( 1) RS, se, PR, SP, MG, ES, BA, PE e DF.
Fonte: Fundacentro (GARCIA, 1996).

A Organização Mundial da Saúde - OMS estima que 70% das intoxicações


agudas por exposição ocupacional sejam causadas por compostos
organofosforados e considera, ainda, que a colinesterase possa ser utilizada
como um indicador de exposição, pois há uma boa correlação entre a exposição
a esses inseticidas e a redução da atividade da colinesterase. A OMS define que
30% de inibição da colinesterase determina nível de risco.
Em resultados obtidos nos exames de colinesterase (Tabela 1.2),
observou -se que 19,4% dos examinados apresentaram alteração laboratorial

26
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Mercado de Alimentos Orgânicos

indicativa da exposição excessiva a agrotóxicos inibidores de colinesterase


(organofosforados e carbamatos) . Outros trabalhos rea lizados em alguns
países latino-americanos encontraram resultados que variaram de 3% a 18%
dos trabalhadores com atividade reduzida de co lin estera se. Trabalhos feitos
na Ásia indicam de 24% a 30% dos usuários de agrotóxicos com inibições
excessivas (GARCIA, 1996).

Tabela 1.2 - Atividade da colinesterase (1 ), entre a população que trabal ha em


contato direto com agrotóxicos. Brasil (2), Junho/1986 a Dezem bro/1987
- o . :: -. -: - -: li:.-.:...♦-¼

Atividade da colinesterase N= de trabalhâclores


- -~-~ -,~~'- ~

Maior ou igual a 75% 4104 79,8

Menor que 75% 998 19,4

Sem informação 41 0,8

Total 5143 100,0

(1) Método de Edson .


(2) RS, se, PR, SP, MG, ES, BA, PE e DF.
Fonte: Fundacentro (GARCIA, 1996).

Outra pesquisa realizada pela Fundacentro apresenta dados de referências


a sintomas pela população direta e indiretamente exposta aos agrotóxicos
(Tabela 1.3). Os dados most ram que mais da metade da população manifestava
sintomas que poderiam ser relacionados com a exposição a agrotóxicos.

Tabela 1.3 - Referência a sintomas relacionados ao uso de agrotóxicos, entre


trabalhadores e produtores rurais. Brasil (1 ), Junho/1986 a Dezembro/1987

Referência Pop~lªçjº pesquisada (%)


1

Sem sintomas 3085 44, 8

Com sintomas 3469 50,4

Sem Informação 330 4,8

Total 6884 100,0


(1) RS, se, PR, SP, MG, ES, BA, PE e DF.
Fonte: Fundacentro ( GARCIA, 1996) .

27
Manual de Horticultura Orgânica

A Revista ÉPOCA, em sua edição de 16 de novembro de 1998, divulgou


dados de análises em alimentos, realizadas pelo Instituto Biológico de São
Paulo e pela UNESP/Botucatu-SP, em que se confirma que os problemas de
contaminação de alimentos com agrotóxicos continua a passos largos, conforme
a síntese contida na Tabela 1.4.

Tabela 1.4 - Análises da contaminação de alimentos por resíduos de pesticidas


agrícolas - 1998

Alimentos Verificação em análises


Verificou-se a existência de resíduos de clorotalonil, um dos
Alface fungicidas mais utilizados na agricultura brasileira .

Presença de 0,390 mg/kg do piretroide deltametrina em 10


Leite bovinos da raça g irolândia. O limite máximo permitido é de
apenas 0,02 mg/kg.

De 98 amostras analisadas, em 7% delas encontrou-se o


Tomate
fungicida clorotalonil acima do limite máximo permitido por lei.

Em todas as cinco amostras testadas, encontrou-se o acefato,


Melão inseticida organofosforado amplamente vetado no Brasil
para a cultura do melão.

Identificados resíduos de endosulfan e de procimidone, cuja


Uva
utilização não é permitida para essa cultura.

De um total de 106 amostras analisadas verificou-se que:

• Morangos sem selo de qualidade: 34% das amostras


apresentaram resíduos de pesticidas não autorizados para a
Morango
cultura e 4% delas contaminadas com resíduos acima do limite.
• Morangos com selo de qualidade: 3% das amostras com
resíduos acima do limite.
Em 37% das 24 amostras testadas foi detectada a presença do
fungicida cio rota lon il acima do limite máximo de resíduos
Pimentão
autorizado pela legislação brasileira .

Em 16% das amostras identificou-se a presença do fungicida


Mamão
clorotalonil, não permitido para esse tipo de cultura.

Para ilustrar os riscos e os malefícios dos agrotóxicos para a saúde humana


verifique algumas complicações no orga nismo em virtude de doses exageradas'
dos resíduos desses compostos químicos identificados nas análises citadas
anteriormente:

28
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Mercado de Alimentos Orgânicos

• Intestino: alguns fungicidas, como o clorotalon il, encontrado na alface


e em outras verduras, podem provocar irritação nas mucosG s intest inais.
Acima do limite permitido, geram também diarreias.
• Pernas: o metamidofós, inseticida fosforad o en.:-0 :-.t.1·.::ido com
frequência no morango, é capaz de produzir atrofia dos me!'11bro: inf'~riores
e até paralisia temporária.
• Distúrbios neurológicos: em doses muito elevad as, os pesti cidas
clorados, como o endosulfan, aplicados no morango e na uva , podem
afetar os sistemas neuromusculares central e periférico.
•Coração: a arritmia cardíaca é um dos sintomas de doses elevadas
de inseticidas fosforados. É o caso do clorpirifós, também encontrado na
cenoura e no morango.

Garcia (1996) cita que Pimentel e colaboradores fizeram uma avaliação


detalhada dos impactos econômicos e ambientais decorrentes do uso de
agrotóxicos nos EUA. Com base nos dados disponíveis, estimaram que o custo
desses impactos seria da ordem de 8 bilhões de dólares anuais, naquele país,
conforme a Tabela 1.5.

Tabela 1.5 - Estimativa dos custos sociais e ambientais consequentes do uso de


agrotóxicos nos Estados Unidos
Custo
Impactos
(milhões de dólares)
1

Impacto na saúde pública 787


Mortes e contaminações de animais domésticos 30

Perdas de inimigos naturais 520

Custos da resistência aos agrotóxicos 1.400

Perdas de mel e polinização 320

Perdas nas culturas 942

Perdas na pesca 24

Perdas de aves 2.100

Contaminações de águas subterrâneas 1.800

Regulamentação governamental para prevenir danos 200

Total 8.123

Fonte: Pimentel ( 1993).

29
Manual de Horticultura Orgânica

Ademais, os autores consideram que esses custos são subestimados, pois


não incluem todos os tipos de custos indiretos como, por exemplo, eventos
acidentais de contaminação de pessoas e do meio ambiente, a poluição do solo
e custos mais realistas dos efeitos na saúde humana.

1.3. A CONSCIÊNCIA DO CONSUMIDOR


No início da década de 60, a publicação de dois livros, Silent Spring, de
Carson (1962) e Pesticidesandthe Living Landscape, de Rudd (1964), chamou
a atenção para os aspectos importantes relacionados aos possíveis impactos
dos agrotóxicos à saúde humana, aos animais domésticos, à vida selvagem, à
contaminação dos solos e das águas, às interferências nos ecossistemas e na
própria agricultura (GARCIA, 1996).
A consciência dos problemas advindos do uso dos agrotóxicos tem
aumentado significativamente, a exemplo desta pesquisa realizada nos Estados
Unidos anos atrás (Tabela 1.6).

Tabela 1.6- Porcentagem de consumidores com grande ou alguma preocupação


com o uso de agrotóxicos. EUA, 1965 e 1984

Considerações 1965 1984


1

Pessoalmente preocupado com o uso de


31,6 76,0
agrotóxicos por agricultores

Perigo dos agrotóxicos para o agricultor 15,0 78,7

Perigo das substâncias químicas para a vida


51,8 80,8
selvagem
Perigo para as pessoas que comem frutas e
41,5 71,1
vegetais tratados com agrotóxicos
Fonte: Sachs {1993), citado por Garcia {1996).

O entendimento dos problemas diversos do modelo agroquímico de produção


agrícola que praticamos hoje, aliado às vantagens marcantes do consumo de
alimentos orgânicos, de elevado valor biológico e sem contaminantes químicos
danosos à saúde, tem proporcionado uma rápida mudança na visão dos
consumidores Europeus. Verifique os resultados das pesquisas de opinião nas
Tabelas 1.7, 1.8 e 1.9.

30
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Merc ado de Alimentos Orgânico s

Tabela 1.7 - Garantias ecológicas influenciam bastante - Incitação na compra de


produtos (em%). França, 1996
,

Característica :,

O produto tem garantias de higiene e segurança 84


O preço é competitivo 81
O produto é fabricado na França 74
O produto porta um sinal de qualidade 71
A marca inspira confiança 68
O produto tem garantias ecológicas 64
O produto é fabricado na minha região 59
O fabricante defende causas humanitárias 51
O produto é fabricado na Europa 49
Fonte: Leite Viglio (1996).

Tabela 1.8 - Leitura das etiquetas sobre a composição dos produtos alimentares,
em%, na França - 1996
Ação (%)

Não, jamais 0,6


Não, raramente 16,0
Sim, de tempos em tempos 37,0
Sim, frequentemente 30,0
Sistematicamente 11,0
Total dos que leem 78,0
Fonte: Leite Viglio (1996).

31
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 1.9 - Os principais atributos dos alimentos, em %, na EUROPA - 1996


Atributos Países do Norte Países do Sul·I
Natural 46,6 73,1
Saudável 73,1 48,6
Nutritivo 26,7 35,0
Barato 9,1 4,7
Sem substâncias tóxicas 64,8 57,6
Vitaminas e sais minerais 38,9 28,1
Fonte: Leite Viglio (1996).

O livro O futuro roubado, lançado por três cientistas americanos, de autoria


da Drª Theo Colborn e colaboradores, pode ser considerado uma grande
contribuição para a humanidade. Nesse livro, estão destacados os efeitos
dos agrotóxicos e de outras substâncias químicas sobre a vida animal, seus
acúmulos na cadeia alimentar e o comprometimento da saúde e reprodução da
espécie humana.

o Futiuro Roubado oferece uma descrição realista sobre a pesquisa


ctentífica emergente que investiga de que maneira uma ampla variedade
de agentes químicos sintéticos alteram delicados sistemas hormonais.
Sistemas esses que têm um papel fundamental, desde o desenvolvimento
sexual humano até a formação do comportamento da inteligência e o
f1JJn€/0namento do sistema imunológico. Estudos com animais e seres
humanos relacionam os agentes químicos a inúmeros problemas, como
a infertilidade e deformações genitais; cânceres desencadeados por
horrnênlos, como o câncer de mama e de próstata; desordens neurológicas
em crianças, como hiperatividade e déficit de atenção; e problemas de
desenvolvimento e reprodução em animais silvestres (COLBORN et ai., 1997).

Outra informação que interessa a todos nós, enquanto consumidores


de alimentos, foi publicada na Revista ÉPOCA, de 16 de novembro de 1998,
referenciando-se a uma pesquisa realizada pelo Instituto Gallup, em novembro
e dezembro de 1996, com donas de casa da zona sudoeste de São Paulo, onde
se confirma que, mesmo no Brasil, considerado um país do terceiro mundo, a
consciência do consumidor já é muito expressiva {Tabela 1.10).

32
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Mercado de Alimen tos Orgânicos

Tabela 1.1 O - Pesquisa de opinião com donas de casa , quanto aos produtos
contaminados com resíduos de agrotóxicos
Opini~~s-',,, .
------------~
-~-~ ~~

"Fazem mal à saúde e os resíduos n ão saem na 49


lavagem do alimento".
"Não sei o que são agrotóxicos". 29
"Fazem mal à saúde, mas os resíduos s aem s12 os 12
produtos forem lavados".
"Não sei se os resíduos saem ou se fazem mal " . 7
"Os resíduos não são nocivos à saúde" . 3
Total 100

Fonte: Revista Época (1998) .

Mesmo reconhecendo que, nos últimos anos, constata-se uma crescente


sensibilização por parte dos consumidores acerca das consequências de suas
decisões de compra sobre o meio ambiente em geral, e sobre sua saúde,
existem alguns fatores que provocam entraves a uma expansão mais rápida
da agricultura orgânica.
Em um artigo divulgado na página www.infoagro.com, em maio de
2002, intitulado: "Efeito de la información em la aceptación de los productos
ecológicos: un enfoque experimental", trabalho este realizado na Espanha ,
concluiu-se que o principal obstáculo para o desenvolvimento deste mercado
radicava em dois aspectos: 'escassa disponibilidade do produto ecológico em
estabelecimentos convencionais' e os 'elevados preços de venda ', superiores à
disposição do consumidor em pagar pelo atributo ecológico.

1.4. A QUALIDADE SUPERIOR DOS ALIMENTOS


ORGÂNICOS
Há algumas décadas, quando se falava de alimentos do futuro, imaginavam-
se aqueles alimentos processados, industrializados e até em forma de cápsulas,
conforme se alimentam os astronautas ou se divulgam nos filmes de ficção
científica. Entretanto, o que não se imaginava é que a maior preocupação da
sociedade nos dias de hoje fosse a qualidade dos alimentos "in natura".

33
Manual de Horticultura Orgânica

A composição bioquímica desses alimentos foi brutalmente alterad a


pela forma de se produzir. A agricultura lança mão de produtos qu1m1cos
para "fertilizar" as plantas e para "protegê-las" contra pragas e doenças,
comprometendo completamente a sua qualidade.
A essência dos alimentos está na sua composição em proteínas, carboidratos,
fibras, nutrientes e dois aspectos importantes devem ser considerados:

1} A meta é a produção de plantas saudáveis, o que beneficia a


qualidade e a quantidade dos nutrientes nelas contidos, especialmente na
parte consumida pelo homem;
2) Objetiva-se com o alimento orgânico a ausência de agentes químicos
na sua composição, nocivos ao organismo.

Duas importantes explicações são essenciais para se conhecer e definir


adequadamente os alimentos orgânicos:

Primeira: não se pode confundir alimentos orgânicos com alimentos


naturais que são vendidos em lojas especializadas. Para se caracterizar um
produto como orgânico, significa que durante todo o processo produtivo
foram empregadas técnicas e métodos não agressivos ao meio ambiente.
Por outro lado, "produtos naturais" referem-se muito mais a "produtos
integrais", não identificando a maneira como foi produzido, sendo quase
sempre oriundos de sistemas agroquímicos de produção.
Segunda: alimentos orgânicos não se referem apenas a alimentos
sem agrotóxicos. Além de não conter esses agentes químicos, também não
se utilizam adubos químicos e diversos outros produtos que possam deixar
resíduos nos alimentos ou degradar o solo, as águas e outros componentes
do meio ambiente.

osistema orgânico de produção se baseia em normas técnicas bastante


rigorosas para preservar integralmente a qualidade do produto. Consideram,
inclusive, as relações sociais e trabalhistas envolvidas nas diversas fases do
processo produtivo.
Na fase de campo, empregam -se princípios, técnicas e métodos naturais,
tais como: cultivo em ambientes diversificados em fauna e flora, para se obter
equilíbrio ecológico na unidade de produção; uso de matéria orgânica, adubação
verde, biofertilizantes, dentre outros, que irão conferir riqueza bioquímica e
uma elevada qualidade ao produto colhido; e uso de métodos alternativos para
proteção contra possíveis pragas e doenças, como caldas e extrato de plantas,
que servem para repelir pragas e inibir doenças.

34
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Merc ado de Alimentos Orgânicos

Na fase de processamento, também não se emprega m aditivos, co nservant es


e outros artifícios que não são adequados para o cons umo hu ma no .
Na fase de comercialização, o produto deve ser protegido contra possíveis
contaminações por contato, motivo pelo qual sã o vendidos em embalag ens
fechadas, desde a colheita e o processamento até a venda final do produt o.
Vogtmann (1984), citado por Darolt (2005) , aval iando frutos de groselha,
percebeu que existem alterações em vários parâmetros, quando se co mpara a
produção orgânica com a convencional (Tabela 1.1 1) .

Tabela 1.11 - Alterações em parâmetros nutricionais para cultura da groselha,


contrastando a produção orgânica e a convencional ( convencional = 100%)
- - -- - ~
..
.A. ., {. ~.. '-"'-
Para metr,o
•pi.,_ J."' ')

~ ....
l - - - - - •-
Matéria seca + 2,7
Açúcares +18,0
Ácidos +0,3
Vitamina "C" +5,2
Cálcio +2,5
Fósforo +14,8
Magnésio +11,2
Cobre +15,2
Ferro +14,2

Semelhantemente, Higashi (2002) cita um trabalho científico de grande


valia (publicado pelo Dr. Bob Smith, no Journal Of Applied Nutrition, pág. 35 a
45, de 1993), onde foram comparados os teores de macro e m icrominerais e
metais pesados no trigo, milho, na batata, maçã e pera, oriundos da agricultura
convencional, em comparação com a produção orgânica . Os dados indicaram
haver maiores teores de vários minerais nos alimentos orgânicos, em todas
as análises individuais por produto. Na média geral, para todos os produtos
(Tabela 1.12), os orgânicos revelaram maiores teores de minerais e menores
teores de metais pesados.

35
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 1.12 - Análise média do teor de minerais em trigo, milho, batata, maçã e
pera, oriundos de sistemas orgânicos vs. convencionais
- -- - - - ---- - ... ,Jr,ó{' ,·- . •:

Minerais Quant~\ , v~~~ t,7i~~l'.l.0~ =·r ios


1

-~l,·:::~l.9.a;g_
; n.ic·o s ':~%~
-- - - - - - - - . - - -
Boro + 70
Cálcio + 63
Cobre + 48
Magnésio + 138
Manganês + 178
Molibdênio + 68
Potássio + 125
Selênio + 390
Metais pesados
Alumínio - 40

Chumbo - 29
Mercúrio - 25

Azevedo (2002) informa que estudos feitos por Scharpf e Aubert, em 1976,
citados por Bonilla (1992), mostram como a adubação química nitrogenada,
usada na agricultura convencional, altera negativamente o valor nutricional
dos alimentos vegetais.
No espinafre, constatou-se diminuição de potássio (de 0,8% para 0,5%)
e aumento de sódio e nitratos. Ademais, o teor de matéria seca decresceu de
6,8% para 5,5%, quando recebeu adubação nitrogenada sintética de 120 kg/
ha . É por esse motivo que se diz: "100 g de alimento orgânico "in natura " é
mais que 100 g de alimento convencional.

36
·-
A Busca da Sustentabilidade Agríc ola e o Mercado d e Alime n to s Orgâ nicos t
i
No mesmo estudo, verificou-se, ainda, que ocorre diminuição acentuada
no teor de vitamina e, quando se utilizam adubos nitrogenados sintéticos . Em
100 g de matéria seca dos produtos analisados, const atou-se uma redução de
8,5 mg para 7,5 mg na cenoura; de 40 mg para 25 mg em espinafre e de 6,0
mg para 3,5 mg em maçãs.
Na batata, verificou-se que se obtém o máximo de aminoácidos essenciais
com menos de 60 kg/ha de nitrogênio. A partir de 70 a 80 kg, ocorre queda muito
rápida do teor desses aminoácidos. Resultados simila res foram obse rvados em
milho, ocorrendo redução de lisina, metionina, teon ina e triptofano.
Aubert (1977), citado por Darolt (2005), relatou que alguns fabricantes de
espinafre em conserva, do Oeste da França, constataram que, para fabricar uma
lata de conserva de 1 kg, com teor de matéria seca constante, necessitavam
de duas vezes mais espinafres frescos que há vinte anos atrás. Além disso, o
estudo mostrou que o teor de matéria seca de espinafre e batata aumentou
23%, quando adubados com matéria orgânica, se comparados à adubação
química tradicional (NPK).
Apesar desses resultados comprobatórios da melhor qualidade dos produtos
orgânicos, encontram-se na literatura trabalhos que não confirmam tais
resultados. Essa variabilidade nos resultados pode ser atribuída parcialmente
à metodologia adotada, que não leva em consideração todas as fontes de
variação possíveis.
Segundo Williams (2002), citado por DAROLT (2003), um número limitado
de estudos, com bom controle de variáveis, comparou as composições de
nutrientes produzidos organicamente e convencionalmente, e um número
ainda menor pesquisou produtos de origem animal.
Na Tabela 1.13, foram compilados quantitativamente os principais estudos
comparativos em termos nutricionais. O que se observa, de forma geral , é uma
tendência na redução do teor de nitratos e aumento no teor de vitamina e em
alimentos produzidos organicamente.
Para os demais nutrientes, os estudos ainda não são conclusivos. No caso
da produção animal, apesar de poucos estudos, o que parece se confirmar é
o fato de que uma alimentação orgânica traz benefícios para a saúde animal ,
refletindo-se, sobretudo, na área reprodutiva.

37
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 1.13 - Número de estudos encontrados na literatura que mostram que


houve aumento, decréscimo ou valor semelhante para os nutrientes pesquisados
em alimentos produzidos no sistema orgânico, quando comparados aos
produzidos no sistema convencional
- - --:-- -~

Nutriente Aum~n~o Igual . D_~!=!'~~ci!11o


em organ,cos (semelhante} em,organ1cos
- - ·- - ~ ~;,,;.
Proteína (qualidade) 3 o o
Nitratos 5 10 25

Vitamina c 21 12 3

j3-caroteno 5 5 3

Vitamina b 2 12 2

Cálcio (Ca) 21 20 6

Magnésio (Mg) 17 24 4

Ferro (Fe) 15 14 6

Zinco (zn) 4 9 3
Fonte: Wil liams (2002), citado por DAROLT (2003) .

Uma abordagem específica sobre o nitrato merece atenção especial, dada a


importância para a saúde humana. A elevação do teor de nitrato nas plantas se
dá pela oferta excessiva de adubos nitrogenados, especialmente em hortaliças
de folhas, como alface, espinafre, couve, agrião, chicória e outras.
Outros aspectos que favorecem o acúmulo de nitrato (N0 3 ) e nitrito (N0 2 )
estão relacionados ao ambiente, fatores genéticos e ao manejo utilizado.
O nitrato acumula mais em baixa luminosidade (dias nublados e curtos, no
p~ríodo de inverno, em locais sombreados e pela manhã), motivo pelo qual a
atenção com a ingestão de espinafre deve ser redobrada, pois geralmente são
cultivados em local sombreado.
Pela grande importância do tema, transcreveremos, a seguir, em itálico,
parte de um texto de Darolt (2005), visando maiores esclarecimentos:

38
A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Mercado de Alimentos Orgânicos

• O nitrato ingerido passa à corrente sang uínea podendo, então,


reduzir-se a nitrito. Este sim, o N0 2, é venenoso, muito mais que o nitrato.
• Tornam-se mais perigosos quando combinados com aminas, formando
as nitrosaminas, substâncias cancerígenas, m utagênicas e t eratogênicas.
Tal reação pode realizar-se especialmente em m eio ácido do suco gástrico,
ou seja, no estômago. Desta form a, o monitoramento destas substâncias
é essencial para garantir a qualidade dos alimentos consumidos pela
população.

Os resultados de uma pesquisa conduzida por pesquisadores do IAPAR


(MIYAZAWA et. ai., 2001) - comparando o sistema orgânico (uso de compostos
orgânicos e estercos de bovino, como fonte de N), convencional (uso de Ureia,
N0 3 , NH 4 , cama de aviário como fonte de N) e hidropônico (estando o N na
forma de NQ 3 - e NH/, fornecido em solução nutritiva) - mostraram que o teor
de nitrato nas folhas de alface variou entre 250 a 11.600 mg/kg, sendo que
as folhas com menor concentração de nitrato foram aquelas cultivadas em
sistema de produção orgânico.
Na Figura 1.5, são mostradas, com detalhes, as porcentagens de
distribuição das classes, conforme concentração de nitrato nas folhas de alface,
segundo os diferentes sistemas de cultivo.
Pode-se notar que cerca de metade das amostras de alface cultivada em
sistema orgânico apresentou concentração de nitrato menor que 1.000 mg/kg e
apenas 25% das amostras apresentaram teor superior a 3.000 mg/kg. Por outro
lado, as plantas cultivadas em sistema hidropônico apresentaram um teor de
nitrato extremamente elevado, sendo que 70% das amostras tinham entre 6.000
e 12.000 mg/kg e apenas 3% das amostras tinham teor inferior a 3.000 mg/
kg. Quanto ao teor de nitrato nas alfaces cultivadas em sistema convencional,
observou-se um nível intermediário entre cultivo orgânico e hidropônico.

39
Manual de Horticultura Orgânica

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Orgânico Convencional

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Hidropônico

Figura 1.5 - Frequência de concentração de nitrato (N· NO 3· ) nas folhas de alface,


segundo diferentes métodos de cultivo. Valores em 103 mg.kg·1, base seca.
Fonte: Miyazawa et. ai. (2001).

40
A Busca da Sustentabilidad e Agrícola e o Mercado de Alimentos Orgânicos

Segundo os aut ores, a menor concentração de nitrato nas folhas de alface


cultivada organicamente foi devido ao uso de fertilizantes que contêm baixa
concentração de nitrogênio (N), tais como: esterco bovino, vermicomposto, e
à ausência de fertilizantes minerais, o que contribuiu para a menor absorção
de nitrato (N0 3 · ) pela planta.
Por outro lado, no cultivo de alface em sistema hidropônico, o fertilizante
nitrogenado é fornecido nas formas de N03 • e de NH/. O NQ3 - dissolvido na
água facilita a absorção pela raiz, o que faz com que haja uma absorção de
quantidades muito acima da capacidade da planta reduzir NQ 3· para NH/,
acumulando, assim, o excedente no tecido vegetal. A pesquisa conclui que
a ordem do teor de nitrato nas folhas de alface varia na seguinte ordem:
orgânico < convencional < hidropônico.
Traduzindo os resultados desta pesquisa para o nosso cotidiano, buscamos
saber os níveis de nitrato toleráveis ao corpo humano, estabelecidos pela FAO
- Organização das Nações Unidas responsável pela agricultura e alimentação
em nível mundial. De acordo com a FAO, o índice de máxima ingestão diária
admissível (IDA) de nitrato é de 5 mg/kg de peso vivo e 0,2 mg/kg para o nitrito.
Dessa forma, a ingestão diária admissível para uma pessoa de 70 kg,
por exemplo, seria de 350 mg de nitrato. Assim, se considerarmos que
quatro cabeças de alface pesam aproximadamente 1,0 kg e têm, em média,
160 folhas, chegamos à conclusão - pelos resultados desta pesquisa - que
uma pessoa de 70 kg comendo entre 4 e 9 folhas de alface hidropônica
por dia já estará atingindo a dose diária máxima de nitrato permitida.
No caso de crianças com peso menor, a quantidade de folhas ingeridas
também deve ser proporcionalmente menor. Já no sistema orgânico esta
mesma pessoa poderia comer, em média, mais de 50 folhas - ou mais de
uma cabeça inteira de alface - para atingir o mesmo nível de nitrato. Sendo
assim, o consumo de folhas de alface cultivadas no sistema hidropônico
deve ser cauteloso, pois pode trazer algum risco à saúde humana.
Diversos estudos realizados na Europa corroboram os resultados da
pesquisa do IAPAR, mostrando que as taxas de nitratos nos legumes orgânicos
são largamente inferiores a legumes obtidos por métodos convencionais
(SILGUY, 1998). Um estudo realizado por Lecerf ( 1994) do Instituto Pasteur
de Lille, na França, fez uma síntese de vários trabalhos sobre a qualidade de
alimentos orgânicos. Todos os estudos mostraram reduções de nitratos de 69
a 93% para vários legumes cultivados organicamente. Resultados semelhantes
foram obtidos em outros países como Áustria, Holanda, Su íça e Alemanha,
para cultivas de espinafre, cenoura e alfaces .

41
A Busca do Sustentabilida de Agrícola e o Mercado d e Alimentos Orgânicos

Segundo os autores, a menor concentração de nitrato nas folhas de alface


cultivada organicamente foi devido ao uso de fertilizantes que contêm baixa
concentração de nitrogênio (N), tais como: esterco bovino, vermicomposto, e
à ausência de fertilizantes minerais, o que contribuiu para a menor absorção
de nitrato (N0 3 · ) pela planta.
Por outro lado, no cultivo de alface em sistema hidropônico, o fertilizante
nitrogenado é fornecido nas formas de N03 · e de NH 4 +. O N0 3 · dissolvido na
água facilita a absorção pela raiz, o que faz com que haja uma absorção de
quantidades muito acima da capacidade da planta reduzir N0 3 • para NH/,
acumulando, assim, o excedente no tecido vegetal. A pesquisa conclui que
a ordem do teor de nitrato nas folhas de alface varia na seguinte ordem:
orgânico < convencional < hidropônico.
Traduzindo os resultados desta pesquisa para o nosso cotidiano, buscamos
saber os níveis de nitrato toleráveis ao corpo humano, estabelecidos pela FAO
- Organização das Nações Unidas responsável pela agricultura e alimentação
em nível mundial. De acordo com a FAO, o índice de máxima ingestão diária
admissível (IDA) de nitrato é de 5 mg/kg de peso vivo e 0,2 mg/kg para o nitrito.
Dessa forma, a ingestão diária admissível para uma pessoa de 70 kg,
por exemplo, seria de 350 mg de nitrato. Assim, se considerarmos que
quatro cabeças de alface pesam aproximadamente 1,0 kg e têm, em média,
160 folhas, chegamos à conclusão - pelos resultados desta pesquisa - que
uma pessoa de 70 kg comendo entre 4 e 9 folhas de alface hidropônica
por dia já estará atingindo a dose diária máxima de nitrato permitida.
No caso de crianças com peso menor, a quantidade de folhas ingeridas
também deve ser proporcionalmente menor. Já no sistema orgânico esta
mesma pessoa poderia comer, em média, mais de 50 folhas - ou mais de
uma cabeça inteira de alface - para atingir o mesmo nível de nitrato. Sendo
assim, o consumo de folhas de alface cultivadas no sistema hidropônico
deve ser cauteloso, pois pode trazer algum risco à saúde humana.
Diversos estudos realizados na Europa corroboram os resultados da
pesquisa do IAPAR, mostrando que as taxas de nitratos nos legumes orgânicos
são largamente inferiores a legumes obtidos por métodos convencionais
(SILGUY, 1998). Um estudo realizado por Lecerf ( 1994) do Instituto Pasteur
de Lille, na França, fez uma síntese de vários trabalhos sobre a qualidade de
alimentos orgânicos. Todos os estudos mostraram reduções de nitratos de 69
a 93% para vários legumes cultivados organicamente. Resultados semelhantes
foram obtidos em outros países como Áustria, Holanda, Suíça e Alemanha,
para cultivas de espinafre, cenoura e alfaces.

41
Manual de Horticultura Orgânica

Dessa forma, conforme já verificamos, os alimentos orgânicos apresentam


uma composição muito mais diversificada e rica em minerais, fitormônios,
aminoácidos e proteínas, proporcionando uma nutrição perfeita ao corpo
humano. Além disso, apresentam maiores teores de carboidratos e matéria
seca, significando que, no consumo de um produto orgânico, como já dissemos,
o consumidor estará ingerindo um porcentual a mais de "alimento real", uma
vez que 100 g de um produto orgânico fresco contêm menos água do que um
produto convencional produzido com adubos químicos.

1.5. A EVOLUÇÃO DO :MERCADO DOS ALIMENTOS


ORGÂNICOS

Frutos da consciência dos consumidores e das oportunidades de mercado


estabelecidas pela agricultura orgânica, essa atividade tem crescido muito no
mundo inteiro, principalmente pela necessidade de preservação ambiental e
também pela exigência de toda a sociedade por alimentos mais saudáveis,
não maléficos para a saúde. A agricultura orgânica tem apresentado um
crescimento expressivo em nível mundial, principalmente em área plantada e
oferta de produtos.
A partir dos anos 70, com a divulgação de uma série de impactos ambientais,
como desmatamentos, queimadas, erosão e desertificação de solos, perda
de biodiversidade, contaminação do solo, da água, do ar e dos alimentos
por resíduos tóxicos, relacionados à agricultura convencional, praticada de
forma mais intensiva a partir da década de 60, verificou-se um crescimento
da consciência ambientalista no mundo todo e, com isso, maior interesse
pelos métodos alternativos de produção, considerados ambientalmente mais
sustentáveis.
Os primeiros produtos sob a denominação de orgânicos começaram a ser
comercializados na Europa, na década de 70. A fundação da Federação Internacional
de Movimentos de Agricultura Orgânica, IFOAM, organismo de caráter não
governamental, em 1972, constituiu um importante passo para a consolidação
da agricultura orgânica, pois reuniu o setor de produção, processamento e
comercialização com o de pesquisa, ensino e divulgação das técnicas empregadas
(PASCHOAL, 1994). No Brasil, o movimento orgânico também se solidificou graças
ao papel fundamental Gie organizações não governamentais, que começaram a se
constituir a partir do final da década de 70.
Entretanto, um aumento substancial na demanda de alimentos orgânicos
ocorreu somente a partir da metade da década de 90, quando a qualidade de
alimentos provenientes de sistemas convencionais de produção passou a ser

42
"' A Busca da Sustentabilidade Agrícola e o Merc ado de Alimentos Orgânicos

mais questionada, em razão do advento do "mal da vaca louca". A agricultura


orgânica constitui uma das atividades agrícolas de maior crescimento no mundo.
Instituições de certificação asseguram que a agricultura orgânica é praticada
em quase todos os países e que se observa um aumento tanto na área quanto
no número de unidades produtivas. A IFOAM agrupa aproximadamente 750
associações situadas em mais de 100 países, o que é um bom indicativo da
expansão da agricultura orgânica no mundo. De acordo com IFOAM (2009),
as áreas cultivadas com agricultura orgânica foram de 2,2 milhões de ha na
América do Norte, 6,4 milhões de ha na América do Sul, 0,9 milhões de ha na
África, 7,8 milhões de ha na Europa, 2,9 milhões na Ásia e 12,1 milhões de ha
na Oceania.
O crescimento no mercado orgânico internacional é estável e as vendas
globais de produtos orgânicos superou a marca de 50 bilhões de dólares em
2008 e, de acordo com uma previsão do Marketline, instituto britânico de
pesquisas de mercado, o volume deve dobrar em apenas oito anos. O mercado
mundial de alimentos orgânicos em 2011 movimentou cerca de 63 bilhões de
dólares. Mais de 37 milhões de hectares de terras agrícolas em todo o mundo
são destinados à produção orgânica em 162 países (ORGANICSNET, 2013).
O mercado de produtos orgânicos no Brasil tem tido um crescimento
constante ao longo dos anos. As redes de supermercados nas grandes cidades
são o principal canal de vendas desse setor. De acordo com dados da Associação
Brasileira de Supermercados (Abras), houve um crescimento de 8% nas vendas
de orgânicos, somando 1,12 bilhões de reais em 2011. Essa evolução positiva
continua e tem incentivado redes comerciais a expandir a oferta de alimentos
orgânicos (ORGANICSNET, 2013).
Considerando a distribuição regional da demanda orgânica , São Paulo
ocupa lugar especial: mais de 56% das vendas desse tipo de produto no país
são gerados no estado. Informações do Ministério da Agricultura mostram
que cerca de 15.000 produtos orgânicos estão registrados e que a área
atual de produção e cultivo orgânico chega a 2,8 milhões de hectares, e está
aumentando a cada ano .O governo também pretende dar à produção e venda
de produtos ecológicos outro impulso por meio de um prog ram a de apoio
orgânico (ORGANICSNET, 2013).
Negócios de exportação também cresceram no ano passado. Segundo
ORGANICSNET (2013) , o projeto de market ing Organics Brasil, do qual fazem
parte cerca de 70 empresas de orgânicos, estabeleceu um novo recorde de
quase 2 12 milhões de dólares em vendas no ano de 2012. A meta para 2013
foi aumentar o número de empresas que participam, para 100. o sucesso pode
vir com exportações de açúcar orgâ nico. Afi nal, o Brasil, com um volu me anual
de ce rca de 250. 000 tone ladas, é o m ior exportador mundial desse produto.

43
Manual de Horticultura Orgânica

Cerca de 70% da produção nacional de alimentos orgânicos é exportada


para os Estados Unidos, Europa e Japão. Dentre os principais produtos
exportados, encontram-se suco de laranja, café, cacau, soja, óleos, frutas em
suco, frutas secas, açúcar, caju e mate. Desses produtos, 20% provêm de
pequenos agricultores e 80% de médios, todos certificados por organizações
de reconhecimento internacional (SCHULTZ, 2000).
Praticamente, todos os estados brasileiros já possuem áreas de produção
orgânica, porém, os estados do Paraná e de São Paulo são responsáveis por
cerca de 80% da produção. As vendas de produtos orgânicos no Brasil são
realizadas através de venda direta ao consumidor, por meio de feiras livres,
como, por exemplo, a COOLMÉIA, em Porto Alegre, a AAO em São Paulo,
AOPA em Curitiba, ABIO no Rio de Janeiro, a AGE em Brasília, dentre outras;
vendas para lojas especializadas em produtos naturais ou orgânicos e vendas
para supermercados. A venda direta via feiras livres é a forma mais comum
praticada por pequenos produtores rurais.

44

Manual de Horticultura Orgânica

O termo "desenvolvimento sustentável" ganhou repercussão mundial,


principalmente após a divulgação do documento "Nosso futuro comum"
(Relatório Brundtland), pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, no final da década de 80 (SANTOS, 2004 ). Esse relatório
é considerado básico para definição e princípios que lhe dão fundamento, ou
seja, "o desenvolvimento sustentável é um processo de transformação no
qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação
do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional se harmonizam e
reforçam o potencial presente e futuro, a fim de atender às necessidades do
presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem
as suas próprias necessidades".

O ideal do stJs en abihdode apresento, portanto, aspectos múltiplos,


c m repercus5oes em campos do conhecimento como Ecologia,
,t..ntropologio, Sociofogio, Agronomia, Pedagogia, Economia etc., sem
esquecer seus v ínculos com movimentos sociais diversos.

Outro importante relatório publicado no Caderno Sisan 01/2012, pela


Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional, tratou de forma
elucidativa e abrangente a questão do desenvolvimento sustentável e o papel
da agroecologia e da produção de alimentos orgânicos nesse contexto (CAISAN,
2012). Duas questões podem ser destacadas: a primeira é que os sistemas
de produção de alimentos, necessariamente, deverão sofrer uma mudança
na direção de práticas preservacionistas, implantando sistemas agrícolas
sustentáveis. A segunda é que o sucesso ou fracasso desse objetivo dependerá
da capacidade de gerar e difundir tecnologias de maneira mais ampla.
No campo da agricultura, "os agroecossistemas podem ser definidos em
diferentes níveis", tais como lavoura, propriedade, comunidade, paisagem,
microrregião etc. e, por consequência, "a sustentabilidade adquire sempre novas
dimensões, tais como a organização social e cultural das comunidades rurais"
(DOVER e TALBOT, 1992). Uma definição tão abrangente e mesmo abstrata
resulta, segundo Ehlers ( 1996 ), que atualmente o termo está generalizado,
pouco definido e ambíguo, uma vez que "não existe sequer um consenso sobre
o próprio termo desenvolvimento" e muito menos para sustentabilidade.

46
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

Suas múltiplas facetas serão tantas e tão complexas quanto o número


de escolas de pensamento, especialidades acadêmicas que estudam a
sustentabilidad e ou perfil das ONGs que lidam com ela. Os requisitos a serem
atendidos para alguma atividade ser considerada "sustentável" podem ser
infindáveis.
Por outro lado, o termo vulgarizou-se, tornou-se uma estratégia de marketing
e perdeu o sentido de referência teórica que possuía há alguns anos. Portanto,
ao se falar em sustentabilidade, é necessário definir objetivamente a que
estaríamos nos referindo. Paralelamente, ao invés de rotular atividades como
"sustentáveis" ou "insustentáveis" 1 deve-se ter em mente a sustentabilidade
como meta final, que só o tempo poderá confirmar, e buscar sempre práticas e
modelos de agricultura mais sustentáveis que as atuais.
Nesse processo, é imprescindível que a avaliação da sustentabilidade da
agricultura passe pelo crivo dos agricultores e suas organizações, onde são
consideradas suas necessidades e possibilidades reais.
Mesmo reconhecendo essa complexidade de entendimento sobre a
sustentabilidade, especialmente aquela voltada para os agroecossistemas,
Santos (2004) relata as seguintes metas para que uma agricultura seja
considerada sustentável ecologicamente.

1. A estabilidade da produção de biomassa de populações


específicas (as culturas) ao longo dos anos. Objetiva-se um sistema
de produção que seja resistente às quedas de produtividade e que
recupere a capacidade produtiva após um estresse ambiental (como, por
exemplo, o ataque de herbívoros ou déficit hídrico). Também há interesse
na produção de biomassa de algumas espécies, ou cultivares, tais como
milho, brócolis, laranja, café etc., mais do que estabilidade da biomassa de
todas as espécies, o que envolveria as ervas, os herbívoros etc., embora
estes sejam componentes importantes do sistema.
2. A produção da biomassa baseada em processos biológicos.
Objetiva-se produzir, por meio de processos já presentes nos ecossistemas,
pouco ou não poluentes, com melhor saldo energético e valendo-se de
recursos disponíveis no próprio ambiente, com poucos aportes externos.
Com esse enfoque, enfatizam-se processos como a fixação biológica
de nitrogênio, a ciclagem de nutrientes, o controle biológico e métodos
culturais de controle das populações de herbívoros, patógenos, ervas etc. ,
que resultam em práticas tais como a adubação verde com leguminosas,
a manutenção de áreas de refúgio para inimigos natu ra is, a compostagem
e a integração com a criação animal e sistemas de cultivo múltiplo co m
componentes perenes (tais como os Sistemas Agroflorestais).

47
Manual de Horticultura Orgânica
:d

3. Formas de produção que privilegiem a manutenção dos


recursos produtivos. Não são desejáveis grandes aportes externos para
compensar as perdas de recursos e energia do agroecossistema, perdas
tais como de matéria orgânica, da estrutura física do solo, de horizonte
A, de nutrientes por lixiviação, água potável e biodiversidade. Busca-se
preservar e não esgotar os recursos renováveis, utilizando-se de práticas
como plantio direto, cultivo mínimo, cobertura morta e cobertura viva, rotação
de culturas etc., além dos métodos vegetativos de controle da erosão.

As metas de sustentabilidade ecológica são originadas dos conhecimentos


que explicam a estabilidade dos ecossistemas naturais, onde a diversidade de
espécies, teias alimentares complexas e o fluxo de energia e nutrientes entre
os organismos e entre estes e o ambiente são os principais componentes da
manutenção da produção de biomassa e da estrutura daquele ecossistema ao
longo de dezenas ou centenas de anos.
Os ecossistemas naturais apontam processos e atributos que contribuem
para a sustentabilidade de sua estrutura e biomassa, tais como a diversidade
de espécies, as perturbações que auxiliam a manutenção dessa diversidade,
a eficiente ciclagem e manutenção dos nutrientes e do carbono no sistema,
o equilíbrio dinâmico entre as populações de plantas, herbívoros, inimigos
naturais etc. (ALTIERI, 2002; GLIESSMAN, 2000).
No entanto, deve-se procurar compreender os processos e aplicá-los
nos agroecossistemas, dentro de seus objetivos e limitações. Nesse aspecto,
torna-se importante enfatizar a importância da Agricultura Orgânica, por estar
solidamente fundamentada em processos ecológicos mais do que em produtos
específicos para determinadas etapas da produção. Tais processos devem
envolver as áreas de cultivo, a vegetação nativa, em sequências organizadas
no tempo e sempre que possível a integração com a criação animal.
Os produtos, como caldas, biofertilizantes, pós de rocha, inseticidas
biológicos etc. são componentes tecnicamente mais fáceis de aplicar, mais
práticos e visíveis dos sistemas de produção orgânicos, sendo importantes para
a rápida disseminação dessa forma de agricultura, embora não representem a
essência da produção agroecológica .
Os ecossistemas naturais, mais complexos e com grande número de
espécies em distintos estágios de crescimento e de rotas para O fluxo de
energia e nutrientes, resultam em ma ior estabilidade que os agroecossistemas .
Essa maior estabilidade se expressa tanto por maior resistência do sistema às
perturbações, como por uma recuperação mais rápida do sistema depois que
esse foi perturbado, por exemplo, por um período de seca ou intensa herbivoria.

48
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

A rel ação direta entre diversid ade e estabilidade tornou-se, então, um


dogma inquestio nável para muitos que desenvolvem trabalhos em agroecologia
ou agricultura orgânica. Essa postura trouxe como consequência a ideia de
que, quanto mais diversificado for o agroecossistema, mais estável ele será,
sem levantar questionamentos tais como: o que significa essa estabilidade,
quais os mecanismos responsáveis por essa estabilidade, qual a relação entre
diversidade, estabilidade e produtividade, quais as consequências e limitações
práticas da teoria ecológica para os agroecossistemas, aspectos esses que
serão detalhadamente discutidos neste capítulo.

2.1. :MECANISMOS DAESTAB.ILID.ADE, DIVERSIDADE


E EQUILÍBRIO ECOLÓGICO

Os agroecossistemas convencionais são instáveis do ponto de vista


ecológico. Essa instabilidade é decorrente da extrema simplificação da estrutura
e do funcionamento do agroecossistema, onde o número de espécies vegetais
é muito pequeno, quando comparado aos ecossistemas naturais, chegando ao
extremo nas monoculturas (GLIESSMAN, 2000).
Segundo Altieri (2002), "os agroecossistemas modernos não têm a
habilidade de reciclar os nutrientes, conservar o solo e equilibrar as populações
de pragas e doenças", resultando em "um ecossistema artificial que requer
uma constante intervenção humana". Essas intervenções visam garantir a
colheita, combatendo ervas (herbicidas), herbívoros (inseticidas e acaricidas)
e patógenos (fungicidas, fumigantes do solo e antibióticos), assegurando
a fertilidade do solo por meio da aplicação maciça de fertilizantes solúveis ,
preparo intenso do solo e irrigação.
Estreitamente associada à relação entre a diversidade e a estabilidade
está O efeito da diversificação do ambiente em reduzir o ataque de herbívoros.'
os dados de McNaughton (1994) mostram que, conforme a diversificação
aumentava, as comunidades de plantas tanto perdiam menos biomassa
quando eram pastadas (resistência), quanto recuperaram mais rapidamente
a produção de biomassa após o pastejo (resiliência), aumentando portanto
a sua estabilidade. Nesta seção, serão abordados os principais mecanismos
responsáveis por tais resultados.
Existem duas principais teorias, não excludentes, que procuram explicar
a menor incidência de insetos herbívoros em ambientes agrícolas mais
diversificados (policultivos): a teoria dos inimigos natu rais e a teoria da
concentração de recursos.

49
--

Manual de Horticultura Orgânica

Tais teorias foram propostas de forma mais explícita, primeiramente


por Root (1973). Hoje existe vasta literatura científica a respeito, e mesmo
mecanismos internos referentes a cada uma das teorias já estão elucidados .
A Teoria dos Inimigos Naturais diz que os inimigos naturais (predadores,
parasitoides) são mais abundantes em policultivos do que em monocultivos,
suprimindo as populações de herbívoros de forma mais eficiente. As razões
pelas quais os inimigos naturais seriam mais abundantes em policultivos são
várias: maior disponibilidade de pólen e néctar (principalmente proveniente
de ervas), que completam as necessidades alimentares de predadores e
parasitoides; menores oscilações de temperatura, temperaturas mais amenas e
maior umidade relativa, fatores importantes principalmente para parasitoides,
uma vez que possuem menor resistência à perda de água, existência de maior
diversidade de presas e hospedeiros alternativos aos principais (pragas),
resultando em maiores populações e maior permanência dos inimigos naturais
nos sistemas mais diversificados; maior locomoção dos herbívoros para busca
de alimento, tornando-os mais expostos à predação e ao parasitismo.
A Teoria da Concentração de Recursos diz que os herbívoros
encontram mais facilmente e permanecem por mais tempo em ambientes
onde seus hospedeiros (plantas) estão mais concentrados. Como há uma
mistura e consequente "diluição" de uma cultura específica em um sistema
diversificado, os herbívoros apresentam maior concentração em monocultivos.
As razões pelas quais os herbívoros encontram e permanecem mais tempo
nos monocultivos seriam: maior facilidade para encontrar alimento e abrigo
adequados; identificação mais fácil da textura da cultura, cor ( comprimento de
onda) ou dos sinais químicos (alomônios) de sua(s) cultura(s) hospedeira(s)
específica(s) (atrativamente do habitat); melhor adaptação a um clima menos
variável e mais específico; menor colonização de plantas não hospedeiras.
Letourneau e Altieri (1983) compararam as populações de tripes
(Frankliniella occidentalis) e de seu predador (Orius tristicolor) em um policultivo
de abobrinha, milho e caupi e numa monocultura de abobrinha. Seus principais
resultados estão mostrados nas Figuras 2.1 e 2.2.
Na figura 2.1, a densidade do tripese de seu predador (Orius) , expressas
pelo número de indivíduos em 5 gramas de folha, é acompanhada de 30 a 80
dias após o plantio. Na parte superior dessa figura, observa-se que, embora a
população do tripes decresça tanto no policultivo ( • - •) quanto na monocultura
(º - º), a população inicial na abobrinha em policultivo era muito menor. Na parte
inferior da figura, observa- se que inicialmente tanto haviam mais adultos do
predador quanto (Orius) quanto suas ninfas aparecem mais cedo no policultivo
do que na abobrinha em monocultura.

50
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

250

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• - - -Ã Ninfas Orius, Monocutura
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Dias após o plantio

Figura 2.1 - Relações predador-presa em parcelas de monocultura e consórcio


em amostras tomadas em folhas de abobrinha. (ANOVA; P< 0,05 - P< 0,0001 ).
Fonte: Letourneau e Altieri (1983).

Buscando confirmar que as menores populações de tripes eram decorrentes


do controle exercido pelo predador, no mesmo experimento, foram montadas
gaiolas de tela fina que excluíam tanto o tripes quanto o seu predador. Em
ambas as gaiolas foram excluídos todos os artrópodes e introduzidos indivíduos
do tripes. Na primeira gaiola, após 6 dias, foram introduzidos predadores. Os
resultados comparativos entre as duas gaiolas estão na Figura 2.2. Nessa
figura, a densidade de tripes é acompanhada nas gaiolas e em ambiente
externo (controle) ao longo dos dias após o plantio. Após o extermínio dos

51
Manual de Horticultura Orgânico

predadores (dia 50), as populações de tripes cresceram em ambas as gaiolas,


em níveis bastante superiores aos do ambiente externo. Na gaiola 1 ( •-• ),
após os predadores serem adicionados aos 56 dias, a população de tripes
decresceu rapidamente, ao passo que permaneceu em níveis altos na gaiola
sem predadores ( 0 - 0 ). No presente caso, o predador foi mais atraído pelo
sistema mais diversificado do que pelo monocultivo, resultando em maior
controle da população do herbívoro (tripes) (LETOURNEAU e ALTIERI, 1983).

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40

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20 L-----"'.'."4-:------=5~6 --::5:-;;8- - :6~0~~6;;":2;-----;;::54;i-~66566aa11õo-11J2--
so 52 5

Dias após plantio

. 2 2 _ o ns·idade média de F. occidentalis em duas gaiolas de manipulação


F igura . e . 1 (C t 1 1
de predadores vs. plantas próximas_ fora _das ga~o as ~~ ro e e 2) em
monocultura de abobrinha. Três manipulaçoes estao resumi as nas 1egendas
com símbolos indicando a gaiola envolvida.
Fonte: Letourneau e Altierl (1983).

52
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

Andow (1991) fez uma rev1sao de artigos publicados sobre o tema,


comparando os resultados dos efeitos dos policultivos sobre as populações
de herbívoros (monógafose polífagos) e de inimigos naturais (predadores e
parasitoides) (Tabela 2.1) e ainda o efeito de policultivos de culturas anuais
ou de perenes sobre as populações de monófagos e polífagos (Tabela 2.2).

Tabela 2.1 - Porcentual do número de espécie de artrópodes com respostas


específicas a policultivos aditivos e substitutivos
Densidade populacional de espécies de artrópodes
em policultivos comparados com monocultivos
1
Variável Mais alto Sem mudança Mais baixo

Herbívoros 20,2 15,3 12,5 51,9

Monófagos 19,1 7,7 14,1 59,1

Polífagos 23,9 40,3 7,5 28,4

Inimigos
25,6 52,7 13,2 9,3
naturais

Predadores 30,3 42,7 15,7 12,4

Parasito ides 15,0 75,0 7,5 2,5

Fonte: Andow (1991).

Observa-se que, em 51,9% dos casos, a população de herbívoros foi


menor nos policultivos, comparativamente ao monocultivo. Em 15,3% dos
casos revisados, a população do herbívoro foi maior nos policultivos. Contudo,
essa redução foi mais intensa para os especialistas (59,1%) do que para os
generalistas (polífagos - 28,4%) chegando estes, mesmo, a apresentar maior
número de casos (40,3%) em que as populações foram maiores nos sistemas
mais diversificados. Há casos ainda em que a resposta dos herbívoros foi
variável (20,2%) ou sem alteração (12,5%).
Na mesma Tabela 2.1, observa-se que em 52,7% dos casos as populações
de inimigos naturais foi maior nos policultivos, sendo este efeito mais verificado
para parasitoides (75,0%) do que para predadores (42,7%) . Também, em
relação aos inimigos naturais, há casos em que as populações foram menores
(9,3%) nos policultivos, ou não mostraram variação (13,2% ) ou apresentaram
respostas variável (25,6%).

53
Manual de Horticultura Orgânica
___,

Os resultados ganham complexidade na Tabela 2.2. Nos cultivas anuais,


há maior número de casos ( 48, 7%) em que a população do herbívoro foi menor
no policultivo. Contudo, esse efeito foi bem mais nítido nos monófagos (53,5%)
do que nos polífagos (33,3%), que apresentaram proporção similar de casos
(35,3%) em que as populações foram maiores nos policultivos. A diferença entre
monófagos e polífagos é mais acentuada em cultivas perenes, onde em 72,3 %
dos casos os monófagos apresentaram menores populações (contra 12,5%
dos polífagos), ao passo em que 56,3% dos casos os polífagos apresentaram
menores populações nos policultivos (contra 16,9% dos monófagos).

Tabela 2.2 - Percentual do número de espécies de herbívoros monófagos e


polífagos com respostas específicas em policultivos aditivos e substitutivos,
anuais e perenes
Densidade populacional de espécies deartrópodes em -. :_
policu ltivos comparados com monocultivos --
- - - - --
Variável Mais alto Sem mudança Mais baixo

Anual 24,8 11,7 15,0 48,5

Monófagos 25,2 3,9 17,4 53,5

Polífagos 23,5 35,3 7,8 33,3

Perenes 8,6 24,7 6,2 60,5

Monófagos 4,6 16,9 6,2 72,3

Polífagos 25,0 56,3 6,2 12,5


Fonte: Andow (1991).

Com os resultados apresentados nos dois quadros pode-se concluir que,


embora os efeitos gerais de menores populações de herbívoros e maiores
populações de inimigos naturais em policultivos tenham sido confirmados, na
maioria dos casos, existem consideráveis exceções, onde são observados tanto
o efeito inverso quanto os efeitos variáveis ou nulos.
Dos quadros, conclui-se ainda que o grau de especialização alimentar do
herbívoro e a duração do ciclo da cultura exercem forte influência sobre a

54
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

abundância dos artrópodes. Como exemplo, temos que, em cultivos perenes,


onde as culturas estão presentes durante todo o ano, o ambiente é menos
perturbado e as teias alimentares podem se desenvolver por mais tempo, os
monófagos são fortemente reduzidos (72,3%), enquanto os polífagos têm sua
população aumentada em 56,3% dos casos.
Tais resultados indicam não só a necessidade de cautela na aplicação
prática das teorias, mas também que existem outros fatores que podem atuar
sobre as populações dos artrópodes, como o clima e as características das
plantas hospedeiras.
O clima pode ter efeito direto e indireto sobre a população dos herbívoros
(POWER e KAREIVA, 1990). Muitos insetos têm suas taxas de crescimento,
desenvolvimento e fecundidade diretamente associadas com aumentos da
temperatura, a qual deve estar acima de um mínimo e abaixo de um máximo
característico para cada espécie.
Assim, dentro de certos limites, aumentos de temperatura irão resultar em
maiores populações de insetos. Indiretamente, a temperatura pode influenciar
as populações de herbívoros, aumentando ou diminuindo a taxa de predação
ou parasitismo, uma vez que, de modo geral, os inimigos naturais têm menor
faixa de condições climáticas para atuação e maiores variações de temperatura
tendem a favorecer os herbívoros.
O clima pode ainda levar a migração e explosões populacionais de algumas
espécies. Os afídeos (pulgões) tendem a apresentar maiores populações no
período seco, chuvas podem reduzir as populações da lagarta-do-cartucho do
milho e grandes nuvens de gafanhotos são originadas por chuvas incomuns em
regiões secas.
As características da planta hospedeira, tais como espessura da folha,
presença de pelos, teores de nutrientes, aminoácidos, proteínas e açúcares,
teores de compostos secundários podem ser significativos na regulação das
populações de herbívoros. O melhoramento genético vegetal vem se valendo
de algumas dessas características para produzir cultivares resistentes a pragas
e doenças. Como exemplo, pode-se citar cultivares de arroz com alto teor de
sílica, pelos longos em cultivares de algodão e tricomas em folhas de batata.
A teoria da trofobiose diz que plantas com maiores proporções de
aminoácidos, proteínas, açúcares e amido são mais atacadas por pragas e
doenças (CHABOUSSOU, 1987). Existem diversos trabalhos mostrando que
as adubações nitrogenadas e as aplicações de agrotóxicos levam ao maior
acúmulo de aminoácidos e de açúcares, acarretando tanto o maior ataque
quanto o maior crescimento das populações de herbívoros.

55
Manual de Horticultura Orgânica

Finalmente, um aspecto ainda relativamente pouco est udado cientificamente,


complexo, mas muito promissor, é a Resistência Induzida, pela qual as plan tas
sintetizam compostos que as tornam r esistentes a herbívoros e patógenos . A
indução dessa síntese é complexa e pode se dar por diferentes agentes, tais
como fungos e bactérias nativos do solo, fatores abióticos ou mesmo o ataq ue
prévio (ou a inoculação) de um herbívoro, fungo ou vírus.

2.2. BIOGEOGRAFIA DE ILHAS E AS ESTRATÉGIAS


DEVIDA

..• Alg umas perguntas que desde há muito tempo interessa m aos
ecologistas são: como os am b ientes são colonizados? Existe algum
padrão nessa colonização? Existe um limite para o número d e esp écies
que chegam ao no o ambiente? Quais a s c a racterísticas d as espécies
que colonizam um ambiente? Os e studos sobre bioge ogra fia d e ilhas
procuram respond er tais perguntas .

As observações e pesquisas se dão principalmente em ilhas novas de


origem vulcânica, ou em outras em que a flora e a fauna foram devastadas por
catástrofes naturais, tais como furacões, maremotos e erupções vulcânicas.
Em tais ambientes, o cronômetro da sucessão vegetal é zerado e o processo de
colonização recomeça do início, possibilitando seu acompanhamento completo.
Imagine-se a situação descrita na Figura 2.3, onde ilhas (ambiente aberto)
de diferentes tamanhos a serem colonizadas estão cercadas por ambiente
inóspito à colonização ( oceanos) a diferentes distâncias do continente (fonte
dos organismos colonizadores).

56 \
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

- - ~
____ .,_\. Ilhas
----

Figura 2.3 - Esquema representativo dos fatores distância da fonte e tamanho


das ilhas.

Os estudos demonstraram alguns padrões gerais bastante sólidos e mesmo


simples que, em termos gerais, são:

1. Quanto menor for a ilha, mais tempo demora a ser colonizada.


2. Quanto mais distante for a ilha da fonte de organismos, mais tempo
demora em ser colonizada.
3. Por consequência, ilhas menores e mais distantes têm flora e fauna
menos diversificadas e menos numerosas.
4. Os organismos que primeiro colonizam as ilhas (área acinzentada)
ocupam um nicho proporcionalmente muito maior do que o ocupado em
seu ambiente de origem. Isso significa que tais organismos irão explorar
maior quantidade de recursos do meio abiótico e tendem a apresentar
populações proporcionalmente maiores no novo ambiente, em comparação
ao ambiente de origem.
5. Conforme o tempo avança, o número de espécies na ilha cresce
e depois se estabiliza. Embora algumas espécies sejam extintas na ilha,
outras chegam ao ambiente, mantendo o número total estável. O mesmo
padrão é verificado em função do tamanho da área (ou de número de
ambientes diferentes) na ilha.

Tais padrões respondem a algumas perguntas, mas não esclarecem quais


as características dos organismos que colonizam o novo ambiente. Estudos
sobre as Estratégias de Vida (ou Bionomia) dos organismos ajudam a responder
essa questão.

57
Manual de Horticultura Orgânica

As espécies têm diferentes adaptações aos ambientes, formas de


reprodução, tamanhos e ciclos de vida. Tais características compõ em a
estratégia da espécie para obter recursos, crescer e desenvolver e se perpetua r
no ambiente: são as estratégias de vida.
As espécies são comumente classificadas, em termos de estratégias de
vida, entre dois extremos: espécies de estratégia "r" e espécies de estratégia
"K".

As denominações "r" e "K" provêm de associações com a curva de


crescimento das populações . O valor "r" significa a taxa de crescimento e os
estrategistas "r" apresentam alta taxa de crescimento e maiores populações nos
estágios iniciais do processo de colonização . O valor "K" significa a capacidade
de carga máxima do ambiente e os estrategistas "K" apresentam maiores
populações com o avanço do processo de colonização, quando o ambiente está
mais próximo de seus limites populacionais (GLIESSMAN, 2000).
As características das estratégias " r" e "K" são, basicamente:

- - - - - - -- - -- - - 1

"r'' "K"
1 - -

• Ciclo de vida curto • Ciclo de vida longo


• Alta taxa de crescimento • Crescimento lento
• Porte/Tamanho pequeno • Porte/Tamanho grande
• Alta alocação proporcional • Maior alocação proporcional de
de biomassa em número de biomassa na sustentação do
sementes. indivíduo.

• Alta capacidade de dispersão • Dispersão mais lenta


• Limitações por fatores físicos • Limitações por fatores bióticos.
• Alta capacidade de competir • Maior eficiência na competição
por nutrientes por luz.

Obviamente tal classificação é generalista e não existem espécies


absolutamente "r11 ou "K", mas ainda assim tem grande valia no entendimento
de processos ecológicos.
A relação entre as Estratégias de Vida e a Biogeografia de Ilhas é que
os primeiros colonizadores são basicamente organismos "r". Tais espécies
colonizam rapidamente o novo ambiente, devido ao grande número de sementes
pequenas e ao ciclo curto, à exploração eficiente dos recursos, quando não

58
--
Bases, Princípios e Meca nismos Ecológicos

há lim itação de energia luminosa, ao crescimento rápido e investimento de


boa parte de sua biomassa na geração segui nte (propágulos) , acelerando e
conti nuando o processo. Como exemplos, temos as samambaias e as aranhas,
primeiras colonizadoras de m ui as ilhas .
Se houver disponibili dade de propág ulos e um mínimo de cond ições
ambientais propícias, com o tempo, os org an ismos "K" irão substitu ir os
primeiros co lon izad ores que permanecem no ambiente, mas em populações
reduzidas. Progressivamente, a ma ior capacidade de competir por luz dos
organismos " K" irá limitar o crescimento das espécies menores, traduzindo-se
também em maior eficiência na competição por nutrientes.

2.3. PRINCÍPIOS PARA RESTAURARA DNERS.IDADE


E O EQUILÍBRIO ECOLÓGICO

Quando ocorre a derrubada da vegetação nativa e, ou aração e gradagem


da área a ser cultivada, estamos, de certa forma, abrindo um novo ambiente
para a colonização . Estamos "voltando" no tempo de sucessão e cr iando
"ilhas", plenas de recursos disponíveis, a serem rapidamente colonizadas pelos
organismos de estratégia "r".
No agroecossistema, há as espécies de crescimento rápido, grande
dispersão, ciclo curto, porte pequeno e fortes competidoras por nutrientes: as
ervas espontâneas (que podem se tornar daninhas) e os patógenos (que podem
adquirir o status de doença) e também as culturas olerícolas e as anuais.
Na agricultura convencional, criam-se constantemente as cond ições ideais
para o cultivo das culturas, mas principalmente criam-se também as condições
ideais para o surgimento das ervas, dos patógenos e herbívoros em grandes
populações, uma vez que irão ocupar no novo ambiente uma área muito maior
do que no seu ambiente de origem (ou próximo) .
O entendimento dos padrões da coloni zação permite conhecer as causas
estruturais de ta is problemas e propor algumas estratégias a serem seguidas,
de modo a reduzi-los.

11 11
2.3.1. DmctlLTAR ACESSO D E ORGANISlVCOS R

Isso pode ser obtido, dificultando-se a dispersão entre uma área de cu lt ivo
nova e outra antiga, por meio da criação de barreiras de ambiente inóspito, à
semelhança dos oceanos mostrado na Figura 2.3.

59
Manual de Horticultura Orgânica

Tais barreiras podem ser cercas vivas, faixas de leguminosas, faixas de


vegetação nativa ou áreas de pousio avan çado . Nos dois últimos casos, a
diversificação da vegetação circunvizinha pode criar ambiente propício para a
manutenção de inimigos naturais de pragas.
As dimensões das áreas de cultivo podem ser dim inuídas, uma vez que
ilhas menores levam mais tempo para serem colon izadas . Cabe lem brar que
o ambiente agrícola será colonizado por organismos "r", mas sob control e
humano das populações de espécies escolhidas (as culturas) e do seu manejo.

11 11
2.3.2. SUBSTITUIÇÃO POR ESTRATEGISTAS R DESEJÁVEIS

Uma vez que os organismos "r" irão colonizar o ambiente e os espaços


disponíveis, e os ambientes mais diversificados são mais difíceis de serem
invadidos (limite do número de espécies), pode-se ocupar a área de cultivo
com maior número de culturas "r", por meio de consorciação e outras técnicas
de cultivo múltiplo, onde mais de uma espécie é cultivada no mesmo loca l ao
mesmo tempo. A prática de rotação de culturas significa ocupar os nichos (ou
os recursos disponíveis) com organismos mais desejáveis, em vez de deixá-
los abertos para a colonização por ervas, reduzindo, assim, a população das
mesmas nos cultivas subsequentes.

2.3.3. REDUÇÃO DA REMOÇÃO DA BIOMASSA NAS ÁREAS DE


CULTIVO

Reduzir as características de ausência de vegetação com muitos recursos


disponíveis significa revolver menos o solo e remover menos biomassa do
sistema, ou com menor frequência. Isso implica introduzir no sistema de
produção espécies de ciclo mais longo, semiperenes ou perenes, mais próximas
de estrategistas "K", mantendo um sistema em tempo mais avançado na
sucessão. Assim, haverá a manutenção de boa parte da biomassa mesmo após
a colheita e o sistema será mais dificilmente colonizado.
Essa estratégia também significa um avanço no processo de sucessão,
onde O maior número de espécies presentes (no caso as culturas de ciclo mais
longo) dificulta a invasão do sistema por outras espécies menos desejáveis. A
manutenção de um ambiente diversificado, por meio de técnicas de manejo
que adicionem e preservem a matéria orgânica, aumentando a diversidade da
biota do solo, pode contribuir para o controle de patógenos de solo.

60
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

2.3.4. EXEMPLOS

2.3 .4ft1 ft (Ü CONTROLE DA COlvrPETIÇÃO POR ALTERAÇÃO DO


1~SP.1\ÇAMENTO

Fischer e Burril (1 993) re latam o efeito de redução da competição do trevo


branco ( Trifo/ium repens) com milho, resultando em aumentos da produtividade
de espigas verdes.
O trevo mantém o solo coberto durante o período chuvoso, reduzindo a
erosão e facilitando o trânsito na área, além de suprimir ervas e enriquecer o
solo com nitrogênio. Contudo, esse mesmo trevo, se mantido como cobertura
viva, compete com a cultura do milho, reduzindo sua produtividade. Os autores
testaram, além do uso de herbicidas, o efeito de alterações no espaçamento e
na densidade populacional do milho sobre a competição exercida pelo trevo, e
os principais resultados estão descritos na Tabela 2.3 .
Observa-se que a redução do espaçamento entre as linhas de milho de
76 para 38 cm, resultando em pequeno aumento na densidade populacional,
incorreu em produtividade igual (1984) ou superior (1985) que o tratamento
do herbicida. Resultado similar foi obtido com a elevação da densidade de
plantio para 131.000 pl/ha, desde que mantido o espaçamento de 38 cm entre
plantas, ou seja, o milho apresentou maior capacidade de competir com o trevo,
reduzindo o efeito da competição, simplesmente alterando-se o espaçamento
entre as linhas de plantio, sem se eliminar a cultura de cobertura e sem a
aplicação de herbicidas.

Tabela 2.3 - Efeito da densidade de plantio e espaçamento entre ruas sobre a


produtividade de milho verde em associação com cobertura viva de trevo branco
Produtividade de espigas comerciais (kg/ha)
1

Entrelinhas Milho Trevo (kg M.


Trevo 1984 1985
(cm) (pl/ha) Seca/ha)
76 66.000 Não 29.280 a 33.594 b -
76 66.000 Sim 13.678 c 22.820 b 1.580 ab
38 79 .000 Sim 32.710 a 37.660 a 1.090 b
76 131.000 Sim 10.469 e 25.298 b 2.030 a
38 131.000 Sim 28.452 b 35.980 a 1.090 b
Em cada coluna a>b>c pelo teste Fisher, a 5%.
Fonte: Modificado de Fisher e Burril (1993),

61
Manual de Horticultura Orgânica

2.3.4.2. REDUÇÃO DA BIOMASSA DE ERVAS PELA CONSORCIAÇÃO


Bulson et ai. (1990) estudaram o efeito da consorciação de t rigo e feij ão,
em cultivo de outono, sobre a produtividade das culturas e bi om assa das ervas.
Trigo e feijão foram consorciados em diferentes combina ções de densidades
populacionais e os principais resultados estão descritos nas Tabelas 2. 4 e 2 .5.

Tabela 2.4 - Efeito da consorciação de trigo e feijão em diferentes densidades


populacionais sobre a biomassa de ervas (g matéria seca / m2 )

1 Trigo (% densidade recomendada)

o 50 100
Feijão o 434 146 124
(% da densidade
50 346 133 100
recomendada)
100 169 72 62
Fonte: Modificado de Bulson et ai. (1990).

Tabela 2.5 - Efeito da consorciação de trigo e feijão em diferentes densidades


populacionais sobre o Índice de Equivaíência da Terra (IET)
1 Trigo (O/o densidade recomendada)
o 50 100
Feijão o 0,84 1,00
(% da densidade 50 0,55 1,08 1,25
recomendada)
100 1,00 1,15 1,16

IE'T = produtividade feijão consorciado + produtividade trigo consorciado


produtividade feijão solteiro produtividade trigo solteiro
Fonte: A partir de Bulson et ai. (1990).

Observa-se (Tabela 2.4) que o trigo é mais eficiente que o feijão em


reduzir a biomassa de ervas, mas que a consorciação de ambas as culturas
é mais eficiente ainda em reduzir essa biomassa. As culturas têm diferentes
habilidades de exploração de recursos, necessidades nutricionais e hábitos de
crescimento.
Quando consorciadas, exploram os recursos de forma mais eficiente,
deixando-os menos disponíveis às ervas, resultando tanto na menor biomassa

62
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

das mesmas quant o em maior produtivida de por área, expressa pelo IET maior
do que 1,0 (Ta bela 2.5). o va lor de l,25 obtido com o cultivo consorciado de
100% de trigo com 50% de fe ijão sign ifica que seria m necessários 25% a mais
de área de monocultivos para se obter a mesma produção do consórcio.

2.3.4.3. R.EnuçA.o DE ERVAS PELA ROTAÇÃO DE CULTURAS

Gliessman (2 0 00) relata experimento conduzido em 1989 onde a cultura


do repolho foi conduzida em sequência aos cultivas solteiros ou consorciados
de fava (Vicia faba) e centeio (Seca/e cera/e). Os resultados estão mostrados
na Tabela 2.6.

Tabela 2.6 - Impacto da fava (Vicia faba) e do centeio (Seca/e cereale) sobre
vários fatores do ambiente de cultivo
Biomassa Biomassa Repolho
total (g/m2 ) de ervas (g/m2 ) (kg/100 m 2 )
1 - - - - - -
Cobertura 1985 1986 1987 1986 1987 1987
Fava 138 325 403 17,4 80,7 849,0
Centeio 502 696 671 0,7 9,7 327,8
Centeio/fava 464 692 448 0,3 3,9 718,0
Nenhum - 130 305 112,3 305,1 611 , 0

Fonte: Gliessman (2000).

Observa-se que a biomassa de ervas na cultura do repolho foi reduzida


pelo cultivo prévio tanto do centeio quanto da fava ou do consórcio de ambos,
quando comparada à manutenção do solo sem nenhum cultivo.
Ambas as culturas produzem maior biomassa que as ervas espontâneas
e a consorciação associa a incorporação de nitrogênio trazido pela fava com a
incorporação de matéria orgânica trazida pelo centeio, resultando em maiores
produtividades do repolho .
Note-se ainda que a produtividade do repolho foi reduzida pelo cultivo
prévio com o centeio solteiro, provavelmente devido aos efeitos alelopáticos
da decomposição de sua ?ªl~ada e da imobilização de nitrogênio, o que não foi
verificado com a consorc1açao com a fava .

63
Manual de Horticultura Orgânica

2.3.4.4. SUPRESSÃO DE PATÓGENOSDE SOLO PELADIVERSIDCAÇÃO


DA MICROBIOTA

Lumsden et ai. (1990) estudaram o comportamento de quatro t ipos de solo


quando inoculados com esporos do fungo Pythium aphanider matum, causador
de tombamento em mudas de pepino. Dois desses solos (Chinam pa - CHS
e Popal - POP) eram manejados segundo métodos da agricultura t radi cional
mexicana, com grandes aportes e conservação de matéria orgânica. Out ros dois
solos eram provenientes de regiões sob agricultura agroquímíca convencional
(Chapingo - CHA e Tabasco - TAB). Os solos foram inoculados com oósporos de
P. aphanidermatum, monitorando-se em sequência a incidência de tombamento
em mudas de pepino cultivadas nesses solos.
Os resultados expressos na Figura 2.4 mostram que não houve aumento
da incidência de tombamento após a inoculação do fungo nos solos sob manejo
tradicional (CHS e POP), ao passo que os níveis da incidência da doença
elevaram-se nos solos sob manejo agroquímico (CHA e TAB).

100 -■-CHA
-··O-·· CHS
go -•-TAB
·•O•· POP
80

70
■------------■
...
o
e
60 .------------■
Q)
E 50
ro
..e
.-·-O- · - ....
.- · _.-·-
E 40
·~-- .
~ -·- ..... .
:§!
o 30 .. • • • o- ••.••...•••••• • • ·oº
20
...
10

O OL--------;:5';::-0------~1~00~

Oósporos adicionais/ mi solo

Figura 2.4 _ Incidência de tombamento em mudas de pepino em solos mexicanos


(CHA- Chapingo· CHS - solo de chinampa; TAB - Tabasco; POP - solo de papal)
1

infestados com 0 50 e 100 oósporos de P. aphanidermatum por grama de solo.


,

Solos foram incubados por uma semana a 30ºC em casa de vegetação .


Fonte: Lumsden et ai. (1989).

64
Bases, Princípios e M ecanismos Ecológicos

Procu ran do evidenciar os mecan ismos responsáveis por esse efeito,


os autores inocula ram oósporos de P. aphanidermatum nos mesmos solos,
antes e após a esterilização desses solos com radiação Gama. Os resultados
mostrados na Figura 2 .5 evidenciam q ue a microbiota do solo, eliminada pela
rad iação, era responsável pelo efeit o supressivo da doença, uma vez que as
diferenças entre os solos desapareceram após a esterilização. Os solos sob
manejo tradiciona l, com grandes aportes de matéria orgânica, apresentavam
microbiota divers ificada e ativa, a qual impedia a colonização do ambiente
pelos oósporos do fungo inoculado e a consequente incidência do tombamento
nas mudas de pepino.

~
100

90
D
ll
80

70

60
o

e
Q)
50
E
ro
.o
E 40
~
?12- 30

20

10

Solo natural Solo estéril


+ 200 Oósporos + 200 Oósporos
'.ig_ur~ ~-5 - Efeito da esterilização com radiação gama (4 megarads) na
inc1~~nc1a_de tombamento em ,:nudas de pepino em solos de agroecossistemas
trad1c1ona1_s (CHS - s~lo de chinampa; POP - solo de papal), comparado com
solos de sistemas agncolas modernos (CHA - Chapingo; TAB _ Ta basco) com a
adição de 200 oósporos de P aphanidermatum por grama de solo. Solo~ foram
incubados por uma semana a 30ºC após o plantio.
Fonte: Lumsden et ai. (1989) .

65
Manual de Horticultura Orgânica

2.4. DIVERSIDADE E ESTABILIDADE DA PRO.DIIÇÃ.0

A estabilidade tem dois componen t es: a resistência e a resi liénc-i a . A


resistência é a capacidade de um sistem a ( uma mata por exemplo) resistir a
modificações, quando sofre uma perturba ção (fogo, seca prolon gada, queda
de árvores etc.).
A capacidade desse mesmo sistema voltar às características origina is
após a perturbação é chamada de resiliência . O sistema será mais resistente
se sofrer menos alteração quando perturbado, e mais resiliente quanto mais
rapidamente se recuperar da perturbação.
Os estudos na área de Ecologia discordam quanto à relação entre
diversidade e estabilidade. Não existe consenso. Isso ocorre porque tanto a
diversidade quanto a estabilidade têm sido mensuradas de diferentes formas
(GLIESSMAN, 2000), e mesmo porque "o significado da estabilidade não foi,
inicialmente, rigorosamente examinado" (DOVER e TALBOT, 1992).

. ..

- e a e~t - e do 11 - 1 ~e s d ds
- c; ies da es I ru Iura ir : ílc GJ 11 rêl liv -
..• das espé ies, 1 ê ek .

Acrescente-se que o espaço de tempo usado nas medições pode diferir


muito de um estudo para o outro (desde semanas até décadas) e que são
comparados dados de organismos tão distintos quanto peixes, crustáceos,
árvores de florestas tropicais, pássaros e vegetação arbustiva de terras
abandonadas.
Em meio a essa miscelânea de resultados, deve-se focalizar o que é
importante do ponto de vista da produção agrícola: busca -se a estabilidade
(resistência e resiliência) da produção de biomassa (colheita e restos culturais)
de determinadas populações (culturas e espécies para extrativismo), frente
aos estresses ambientais (ataque de herbívoros e patógenos, seca, baixa
disponibilidade de nutrientes etc.).

\
66
Bases, Princípios e Mec anismos Ecológicos

2 .4.1. ESTABILIDADE FRENTE À SECA

Tilman (1996) estudou as relações entre a diversidade de espécies


e a estabilidade da produção de biomassa de cada população e de toda a
comu nidade de plantas em uma terra de lavoura abandonada, nos Estados
Un idos. Existiam com unid ades com dife rentes níveis de diversidade e as
espécies foram divididas em 5 grupos (gramíneas-C3 ; g ramíneas-C4 ; lenhosas ;
legu minosas e arbustivas).
Anualmente, foi quantificada a biomassa de todas as espécies, em separado,
de cada parcela. A variação da biomassa foi uma medida da estabi lidade da
comunidade.
O estudo foi conduzido durante 13 anos (1982 a 1994), sendo que houve
uma forte seca nos anos de 1986 e 1987. Finalmente, foram ad icionadas doses
diferentes de nitrogênio a essas comunidades de plantas, para verificar o ef eito
do enriquecimento com N sobre a produtividade e estabilidade da produção
das comunidades e de suas populações, em separado.
Os resultados estão transcritos nas Figuras 2.6 e 2.7.
Na Figura 2.6, a biomassa da comunidade (g/m 2 ) é acompanhada ao
longo dos anos em oito níveis de diversidade (de 1-4 até 17-26 espécies).
A linha pontilhada representa a produtividade média de biomassa daquela
comunidade. A intensidade da queda da biomassa de 1987 a 1988 represen t a
a resistência da comunidade em perder produtividade, quando submet ida à
seca. A recuperação da biomassa, a partir de 1988, representa a resiliência
da comunidade, ou sua capacidade de voltar aos níveis de produtividade
anteriores, depois de cessado o estresse (seca). As principais conclusões da
Figura 2.6 são:

• Quanto maior a diversidade de espec1es, menor a queda da


produtividade de biomassa, mais resistente à seca é a comunidade.
• Quanto maior a diversidade de espécies, mais rápida é a recuperação
da produtividade de biomassa ao seu valor médio (l inha pontilhada) após
a seca, ou seja, mais resi liente é a comunidade.

67
Manual de Horticultura Orgânica
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Figura 2.6 - Dinâmica da biomassa média da comunidade (erro padrão), de 1982


até 1994, por parcelas agrupadas pela riqueza de espécies até 1986. Em cada caso,
a linha pontilhada é a biomassa média das parcelas antes da seca (1982 a 1986).
Fonte: Tilman (1996).

68
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

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Adição de nitrogênio (g.m·2 .yr"')

Figura 2.7 - (A) Biomassa média da parte aérea da comunidade de plantas


vasculares em cada ano em função da taxa anual (escala logarítmica) de adição
de nitrogênio (inclui adição de fertilizante nitrogenado e adição atmosférica); (B)
proporção da biomassa que está nas gramíneas C3 ( .._ ..._ C-3), gramíneas C4
( C-4 ), leguminosas(----- Legume), outras espécies arbustivas ( _ _ Forb)
ou lenhosas (...... .... Woody), em função da taxa de adição de N. (C) Riqueza
média de espécies por faixa de 0,3 m2 , em função da taxa de adição de N em
quatro anos do estudo.

69
Manual de Horticultura Orgânica

Na Figura 2.7, a proporção da biomassa entre os 5 diferentes grupos ( B)


e a diversidade de espécies (C) é acompanhada em função do aum ento do
fornecimento de N (O até 30 g.m-2 .ano-1 ) .
Analisando-se as figuras, conclui-se que:

• O aumento do suprimento de N altera a proporção entre os grupos


de espécies, favorecendo as gramíneas-C3 e lenhosas, e prejudica as
gramíneas-C4 e as leguminosas.
• O aumento do suprimento de N reduz a diversidade de espécies.

Analisando-se as duas figuras, conjuntamente, conclui-se que:

• O fornecimento de N reduz a estabilidade (resistência e resiliência)


da comunidade, por reduzir a diversidade de espécies presentes.
• Outra informação importante é que a diversidade de espécies está
correlacionada negativamente com a variação da produção de biomassa de
toda a comunidade (Figura 2.8), mas positivamente com a variação da
produção de cada espécie em separado (Figura 2.9). Observando-se as
figuras, conjuntamente, conclui-se que:
• Quanto maior a diversidade de espécies, menor a variação da produção
de biomassa da comunidade (Figura 2.8), ou seja, a comunidade é mais
estável.
• Quanto maior a diversidade de espécies, maior a variação da produção
de biomassa das populações de cada espécie em separado (Figura 2.9). É
um resultado inverso ao anterior, ou seja, quanto maior a diversidade de uma
comunidade vegetal, menor é a estabilidade da produção de cada espécie.
• Como consequência das duas conclusões anteriores, a diversidade
de espécies estabiliza a produção de biomassa da comunidade, mas não
das populações dessa mesma comunidade. Esse fato tem profundas
implicações para os agroecossistemas mais diversificados.

Os mecanismos apontados pelo autor, responsáveis pelos resultados


observados, são:

• As espécies devem diferir quanto à susceptibilidade à perturbação


(seca). Uma comunidade vegetal composta por 30 espécies muito
susceptíveis à seca apresentaria baixa estabilidade de sua produção,
embora fosse bastante diversificada.

70
Bases, Princípios e Mecanismos Ec o lóg ic os

• As espéci es devem com petir enl re si, algumas compensando a queda


de produ ção daqu elas mais susceptívei s à seca. Quando as espécies que
sofrem mais co m a seca têm sua produtivi dade reduzida, há menor demanda
por recursos produtivos, os quais to rnam -se, então, mais disponíveis no
sistema.
• Consequentemente, há redução da competição por nutrientes ( ou por
luz, por exemplo) com as espécies mais resistentes à seca, que passam a
produzir mais e são, portanto, responsáveis pela manutenção da biomassa
da comunidade .

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Riqueza de espécies

Figura 2.8 - Coeficiente de variação da biomassa da comunidade nos anos sem


seca ( 1984 até 1986 e 1989 até 1994 ).
Fonte: Tilman (1996) .

71
Manual de Horticultura Orgânica
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Riqueza de espécies

Figura 2.9 - Coeficientes de variação, da produção individual de biomassa ano a


ano, das espécies, individualmente, nas parcelas, em função da riqueza média
de espécies da parcela, usando dados de 1984 a 1994. São mostrados os
resultados de todas as 39 espécies combinadas.
Fonte: Tilman (1996).

2.4.2. ESTABILIDADE FRENTE À HERBNORIA

McNaughton (1994) relata experimentos conduzidos nas savanas do


Serengeti, na África, onde estudam como comunidades de plantas com
diferentes diversidades reagiram ao pastejo por rebanhos de animais selvagens
(herbivoria). Assim, foram estudadas as relações entre a diversidade de
espécies vegetais e a estabilidade (resistência e resiliência) da produção de
biomassa frente à herbivoria.
O autor acompanhou o efeito do pastejo sobre a produção de biomassa,
comparando parcelas com cercas (sem pastejo) com parcelas de semelhante
diversidade, mas sem cercas (com pastejo), tanto na estação seca quanto na
estação chuvosa.

72
Bases. Princípios e Mecanismos Ecológicos

Nas figuras, mostram-se a relação entre a resistência (transformada em


Arco Seno da Raiz Quadrada da Resistência) da produção de biomassa e a
diversidade da comunidade (expressa no índice H'v), durante a estação seca
( Figura 2.10) e estação chuvosa (Figura 2.11). Observa-se claramente que,
quanto maior a diversidade da comunidade (de 0,6 a 1,8), maior sua resistência
à perda de biomassa quando sofre herbivoria por pastejo, tanto na estação seca
quanto na estação chuvosa, ou seja, a comunidade perde menos biomassa.

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Figura 2.1 O - Relações entre a diversidade da savana do Serengeti (H'v) e a


resistência ao pastejo por quatro espécies de ungulados, durante a estação
seca,: TG, gazelas de Thompson; B, búfalos africanos; Z zebras de planícies;
WB gnus. Resistência (R) é a proporção da biomassa da vegetação removida
pelos rebanhos durante ª. passagem pela savana. Quanto maior a resistência,
menor a biomassa removida. Os dados são apresentados como transformação
angular do valor de R.
Fonte: Mcnaughton ( 1994 ).

A resiliência dessas mesmas comunidades foi avaliada pela taxa (% por


mês) de recuperação da biomassa das parcelas pastejadas comparadas aos
valores das parcelas não pastejadas. Os resultados estão na Figura 2.12,
onde a resiliência (% recuperação mensal) é relacionada à diversidade (H')
da vegetação. Observa -se que comunidades mais diversificadas (maior H')

73
Manual de Horticultura Orgânica
=
recuperam a produção de biomassa mais rapidamente. Comunidades pastejadas
que apresentaram H' próximo de 2,0 alcançaram quase 100% da biomassa das
comunidades sem pastejo logo em 1 mês, ao passo que comunidades com
diversidade menor (H' = 0.5) recuperam somente cerca de 12% da biomassa
por mês.
Os trabalhos apresentados são claros em mostrar que quanto maior a
diversidade da comunidade de plantas maior será sua estabilidade de produção
de biomassa, quando sofrem ataque de herbívoros, um dos mais desejáveis
componentes da sustentabilidade ecológica. Os mecanismos responsáveis por
tais resultados serão discutidos na seção "Diversificação do ambiente e controle
de herbívoros".

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H'v (Diversidade de espécies)

Figura 2.11 _ Relações entre a diversidade da savana do Serengeti (H'v) e a


resistência ao pastejo por quatro espécies de ungulados, durante a estação
chuvosa. Símbolos como na Figura 2.1 .
Fonte: Mcnaughton ( 1994).

74
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

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H' Vegetação

Figura 2.12 - Resiliência da vegetação, como recuperação dos níveis de biomassa


verde aos níveis das parcelas sem pastejo, durante o primeiro mês da estação
chuvosa.
Fonte: Mcnaughton ( 1994).

Nos ecossistemas naturais, muitas vezes, a estabilidade obtida com a


diversificação é verificada ao longo de décadas ou muitos anos, acompanhada
de variações significativas na produção de biomassa de um ano para o outro,
situação que pode aumentar as pressões econômicas sobre agricultores
familiares. Além disso, o que permanece estável é a biomassa e a estrutura da
comunidade (conjunto de populações) mais do que a biomassa de cada espécie
em particular e do que a composição de espécies.
o aumento da diversificação aumenta a variabilidade da produção de
biomassa (e, consequentemente, da colheita) de cada espécie. O importante
é que, na agricultura, estamos, sim, interessados na biomassa de uma ou
algumas populações (as culturas), que pode vir a sofrer drástica redução
em função da diversificação, embora a biomassa de todo o sistema esteja
estável. Mesmo que nossas atenções estejam voltadas também para todos
os componentes e benefícios do sistema, baixas produtividades das culturas
são extremamente problemáticas para a economia dos agricultores familiares,

75
Manual de Horticultura Orgânica
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geralmente, já situados em solos menos férteis e relevo m ais acid enlad o, com
limitações de crédito e pequena disponibilidade de t erras (BEETS, 1990).
Segundo Dover e Talbot ( 1992), "a diversidade em um agroecossistema
não pode aumentar ao acaso" e "grande parte da diversidad e encont ra da nos
agroecossistemas nativos" (sempre citados como referência) origi nam-se "não
tanto de conhecimentos ecológicos, mas de necessidades econômicas e de
subsistência". Sistemas de produção diversificados devem ser compostos por
culturas que tenham diferentes graus de susceptibilidades aos estresses e
limitações ambientais esperados.
Além disso, tais culturas devem competir entre si pelos recursos, de modo
que as quedas de produção das culturas mais susceptíveis liberem recursos para
as culturas mais resistentes, que apresentam então maior produção, resultando
na estabilização da biomassa do sistema. Contudo, essa competição deve ter
limites e ser extremamente manejada, o que implica em sólidos conhecimentos
agronômicos, muitos dos quais os agricultores coletivamente possuem. O
desafio é manter níveis aceitáveis de produtividade sem comprometer parte
significativa da estabilidade da produção, manejando a época, a forma e a
intensidade da competição e dos benefícios entre as espécies do sistema.
A competição pode ser manejada por meio de podas, adubação e irrigação
diferenciadas, capinas seletivas, determinação do número de indivíduos por áreas,
e arranjo espacial das culturas no campo ( consórcios, cultivo em faixas . e a leias
etc.). Mesmo com menor produtividade de cada cultura, isoladamente, o somatório
de todas as produtividades alcançadas nos policultivos pode resultar em maior
produtividade do que aquelas obtidas com as monoculturas de cada espécie.
Em linhas gerais, argumenta-se que a biodiversidade regula os processos
e serviços ecológicos nos ecossistemas naturais, tais como a reciclagem de
nutrientes, prevenção de erosão, a regulação do microclima, de processos
hidrológicos e das populações dos organismos (ALTIERI, 1999). Argumenta-
se, então, que a persistência desses processos nos agroecossistemas depende,
portanto, da manutenção de sua biodiversidade (ALTIERI, 1999), de modo a reduzir
as intervenções humanas e os custos econômicos e ecológicos da agricultura.
Essa perspectiva, muitas vezes, é assumida de forma simplista e
equivocada, 0 que tem levado a fracassos na concepção de sistemas de
produção mais sustentáveis. Nem sempre, os agroecossistemas sustentáveis
devem apresentar alto grau de diversificação. O sábio manejo dos recursos
produtivos pelos agricultores tradicionais tem forte componente ecológico
ao manter os agroecossistemas no estágio produtivo de início de sucessão
secundária, pelo controle da competição entre pl~~ntas. Mui_tos desses sistemas
mimetizam ecossistemas naturais, como regioes dominadas por poucas
espécies, geralmente gram ín eas (WOOD, 1998) •

76
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológ icos

2 .5. DIVERSIDADE E PRODUTIVIDADE


A literatura é bastante controversa, quanto às relações entre diversidade
e produtividad e. Na Fig ura 2.13, gráficos associam a riqueza de espécies
(como medida da diversidade ) com a produção de biomassa ou com os níveis
de fertilidade do sol o (como medida indireta da produtividade).
Observa -se que os ambientes ma is produtivos não são os mais diversificados.
A diversidade atinge picos em habitat de produtividade intermediária. O padrão
que parece estar presente é de que a produtividade aumenta com o aumento
da diversidade até certo ponto. Depois, a produtividade pode continuar
aumentando, mas a diversidade diminui.
Nos dados já apresentados, de Tilman (1996), a produtividade média da
comunidade diminui com o aumento da diversidade das parcelas, e a adição de
nitrogênio aumentou a produtividade da comunidade, mas reduziu a riqueza
de espécies (e, por consequência, sua estabilidade).
Em outro trabalho, Tilman e Wedin (1996) associam positivamente a
produtividade de campos abandonados com a diversidade de espécies, ou
seja, quanto maior o número de espécies presentes, maior a produtividade
das parcelas .
Contudo, questiona-se que, à medida que se aumenta o número de
espécies presentes no sistema, aumenta-se a probabilidade de inclusão das
espécies mais produtivas nesse sistema, fato que seria responsável pela maior
produtividade (AARSSEN, 1997). Assim, a maior produtividade em sistemas
mais diversificados seria decorrente da presença de espécies mais produtivas
e não do maior número de espécies.
Outra interpretação possível é que, no trabalho de Tilman e Wedin (1996),
as comunidades amostradas apresentem grau de diversificação situado na
primeira parte das curvas da Figura 2.13, onde há uma relação positiva entre
a diversidade e a produtividade.
A produtividade parece resultar, portanto, mais das características do
meio físico (disponibilidade de nutrientes, água, luz, temperatura) e das
características das espécies presentes do que somente da diversidade de
espécies. Se existe uma relação entre diversidade e produtividade ela não é
linear, dificultando sua interpretação. Em ambientes muito extremos ou pobres
em recursos, todas as espécies são limitadas, e também a produtividade.

77
Manual de Horticultura Orgânica

200 E. Vegetação Autraliana F. Gradiente climático California


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Solo PO. (ppm) Índice de unidade

G. Floresta Úm ida Malaia H. Floresta na Costa Rica


VI 300 (Ashton, 1977) 100 • •
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A. Pastagens Mediterrâneas B. Campina Norte Americana


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Biomassa (g /m 2 )

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o soo 1000 1500 2000 2600 o 100 200 300 4 00
Biomassa da planta + serrapllheira Biomassa

Figura 2.13 - Relações observadas entre a riqueza de espécies e medidas da


produtividade do habitat em uma grande variedade de comunidades de plantas.
Fonte: Tilman e Pacala (1993).

78
Bases, Princípios e Mecanismos Ecológicos

Con fo rme a disponibilidade de nutrientes aumenta e o clima torna-se mais


propício à prod uçã o vegetal, aumentam a produtividade e a diversidade, até
um ponto em que a presença de muitas espécies lenhosas leva à redução
da produt iv idad e líquida devido principalmente ao aumento das taxas
respiratórias, à elevação da relação C/N na serrapilheira e ao maior fechamento
dos estômatos, devido ao aumento da resistência hidráulica nos ramos mais
altos e longos (GOWER et ai., 1996).
Esta é uma das explicações do porquê as comunidades em estágios mais
avançados na sucessão vegetal apresentam produtividade líquida (o ganho
anual de biomassa por exemplo) muito baixa, embora a produtividade bruta
(somente a fotossíntese) possa ser alta.

Produção estável não significa alta produtividade, podendo mesmo ocorrer


estabilidade de baixa produção de biomassa . Estabilidade não é sinônimo de
produtividade, como geralmente é implicitamente aceito.
Nos ecossistemas mais maduros, muitas vezes, tomados como modelos
de produção equilibrada, a produtividade líquida (ganho anual) é muito baixa,
embora estável. Comunidades vegetais podem ser produtivas, tanto com baixa
quanto com alta diversidade. Não existe relação linear entre diversidade e
produtividade. Na agricultura, temos sempre a colheita (produtividade líquida)
como um dos principais objetivos e, embora não se busquem as altíssimas
produtividades insustentáveis dos sistemas convencionais, é impensável
trabalhar-se com produtividade baixa.
Nem toda estabilidade é desejável do ponto de vista agroecológico. Um
sistema no qual a produtividade das culturas não responde aos tratos culturais
( adubação orgânica, cobertura morta, irrigação, capinas etc.) será extremamente
estável, mas sem sentido. Os sistemas de produção diversificados devem conter
culturas com potencial de alta produtividade dentre aquelas cultivadas.
Havendo colheita nos agroecossistemas, haverá, obrigatoriamente,
saída de biomassa e nutrientes, sendo, portanto, os processos de ciclagem
de nutrientes menos eficientes do que nos ecossistemas naturais, havendo a
necessidade de aporte externo (mesmo que de origem local e biológica) para a
manutenção do sistema, sob o risco de realizar-se uma agricultura predatória.
Obviamente, nos sistemas baseados em processos biológicos e ecológ icos,
o necessário aporte de nutrientes e biomassa pode se dar em perspectiva
mais sustentável por meio de, por exemplo, a introdução de leguminosas
(arbóreas, rasteiras, perenes, anuais etc.) que realmente incorporam algo
(nitrogênio) no sistema de produção, além de concentrar recu rsos na camada
mais superficial do solo.

79
Manual de Horticultura Orgânica
:z..

3.1. CONCEITOS

A Agricultura Orgânica é frequentemente entendida como a agricultura


que não faz uso de produtos químicos.
Também há a falsa crença de que ela representa um retrocesso a práticas
antieconômicas de décadas passadas e à produção de subsistência de pequena
escala, usando métodos agronômicos já superados. A realidade, porém, é outra.

Embora os a gricultores orgânicos não usem agrotóxicos sintétic os.


fertilizantes solúveis, hormônios. sulfas. aditivos e outros produtos
químicos. e utilizen1 várias práticas que foram muito eficien tes no
passado. o conceito é bem mais amplo do que isso.

Os métodos alternativos de agricultura são métodos modernos,


desenvolvidos em sofisticado e complexo sistema de técnicas agronômicas, cujo
objetivo principal não é a exploração econômica imediatista e inconsequente,
mas, sim, a exploração econômica por longo prazo, mantendo o agroecossistema
estável e autossustentável. Leis e princípios ecológicos e de conservação de
recursos naturais são, assim, parte integrante desses métodos. As questões
sociais são prioritárias, procurando-se preservar métodos agrícolas tradicionais
apropriados, ou aperfeiçoá-los.
o conceito de Agricultura Orgânica, estabelecido em 1984 pelo
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, pode ser assim descrito:

Agricultura Orgânica é um sistema de produção que evita ou exclui


amplamente o uso de fertilizantes, agrotóxicos, reguladores de crescimento
e aditivos para a produção vegetal e alimentação animal, elaborados
sinteticamente. Tanto quant0 possível, os sistemas agrícolas orgânicos
dependem de rotações de eulturas, de restos de culturas, estercos
animais, de leguminosas, de adubos verdes e de resíduos orgânicos
de fora das fazendas, bem como de cultivo mecânico, rochas e minerais
e aspectos de controle biológico de pragas e patógenos, para manter a
produtividade e a estrutura do solo, fornecer nut-rientes para as plantas
e controlar insetos, ervas Invasoras e outras pragas (EHLERS, 1996).

82
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplica ç ão dos Princípios Agroecológicos

Mas segundo Pasch oal (1994) , a Agricultura Orgânica pode ser também
definida como sendo " um método de agricultura que visa o estabelecimento de
sistemas agrícolas ecologicamente equilibrados e estáveis, economicamente
produtivos em grande, média e pequena escalas, de elevada eficiência quanto
à utilização dos recursos naturais de produção e socialmente bem estruturados
que resultem em alim entos saudáveis, de elevado valor nutritivo e livres
de resíduos tóxicos, e em outros produtos agrícolas de qualidade superior,
produzidos em total harmonia com a natureza e com as reais necessidades da
humanidade".
Conforme a Lei no 10.831, de dezembro de 2003, considera-se sistema
orgânico de produção agropecuário todo aquele em que se adotam técnicas
específicas, mediante a otimização do uso dos recursos naturaisesocioeconômicos
disponíveis e o respeito à integridade cultural das comunidades rurais, tendo
por objetivo a sustentabilidade econômica e ecológica, a maximização dos
benefícios sociais, a minimização da dependência de energia não renovável, e
a proteção do meio ambiente.

3.2. OBJETIVOS DA AGRICULTURA ORGÂNICA


São os seguintes, os objetivos da agricultura orgânica:

• Desenvolver e adaptar tecnologias às condições sociais, econômicas


e ecológicas de cada região;
• Trabalhar a propriedade rural dentro de um enfoque sistêmico,
envolvendo todas as atividades da mesma;
•Priorizara propriedade familiar.
•Promovera diversificação da flora e da fauna;
• Reciclar os nutriente;
•Aumentara atividade biológica do sol;
• Promover o equilíbrio ecológico das unidades de produção da
propriedade;
• Preservar o solo, evitando a erosão e conservando suas propriedades
físicas, químicas e biológicas;
• Manter a qualidade da água, evitando contaminações por produtos
químicos ou biológicos nocivos;

83
Manual de Horticultura Orgânica

• Controlar os desequilíbrios ecológicos pelo manejo fitossanitá rio ;


•Buscara produtividade ótima e não a máxima·1
• Produzir alimentos sadios, sem resíduos químicos e com alto va lor
biológico;

• Promover a autossuficiência econômica e energética da propriedade


rural;

• Organizar e melhorar a relação entre os produtores rurais e os


consumidores;
•Preservara saúde dos produtores rurais e dos consumidores.

3.3.AS ESCOLAS DALINHAAGROECOLÓGICA

A Agricultura Orgânica é um sistema de produção agrícola do ramo


da Agroecologia, onde estão incluídas outras escolas, como a Agricultura
Biodinâmica, Agricultura Biológica, Agricultura Ecológica, Agricultura Natural e
a Permacultura. Algumas diferenças entre elas e o objetivo de cada uma delas
encontram-se na Tabela 3.1.

Tabela 3.1 - Escolas do ramo da Agroecologia, onde se inclui a Agricultura


Orgânica
1Escolas Definição
Surgiu em 1931, na India, e seu fundador foi Sir Albert Howard e
G foi aperfeiçoado por Lady Eve Balfour. Dentre as diversas técnicas
e de manejo orgânico, a principal característica deste movimento é
<CU
OI 0 processo 'Indore' de compostagem. Howard demonstrou que um
a.
o solo provido de altos níveis de matéria orgânica assegura uma
cu
a. vida microbiana intensa e rica, pela qual a nutrição e a sanidade
... :::,
:::,
das plantas são plenamente atendidas e os alimentos produzidos
u são de alto valor biológico. Recomenda-se, ainda, o uso de
'i: plantas de raízes profundas, capazes de explorar as reservas
cn
e( minerais do subsolo.

surgiu na França, na década de 60, e seu fundador foi Claude


Aubert. Distingue-se das demais por recomendar o uso de rochas
cu o:, -~
a. OI moídas como fertilizantes e por adotar a posição de que a
2u
- cu 'º
- resistência das plantas ao ataque de predadores e patógenos (e,
:::, ·-
U OI•-o
portanto, a sua saúde e vigor) são determinados ~elo eq uilíbrio
•-'º
Lo -
OI O
Jl
o
a. nutricional ou desequilíbrios provocad os por agroqu1micos {Teoria
< ·-
m< cn
da Trofobiose).

84
...
-
Concei tos, Objetivos, Escolas e Aplicaçã o dos Princípios Agroecológicos

Surgiu ~os 'r:--;t:a cJr-1i l Jn:dc.:;: nn dé'-ada de 70. O inicía_dores de~te


rno vi menlo for;.;rn: \'Villié1m Albrecht, Stuart Hill e Fritz
:::J
o Schumi.Jc.her ,)ut ro su cesso,-, Mig uel Altieri, define Agroe~o!ogia
ro como u m ino vim e.nto q 1e incorpora ideias ambientais e so_c1a1s na
u
ro ag ricultura, preocupando-se não somente com a p_roduçao, mas
C'I u
'ºo 'õ, também com a "ecologia" do sistema de produçao. Apresenta
u 'º como características: a busca da eq u idade na distribuição de
w ou renda e bens; adaptar a agricultura ao ambiente e às condiçõe 7
... o
ro QJ
socioeconômicas · reduzir o uso de energia e recursos externos a
....:::J ...C'I propriedade; pr~mover a diversificação de plant~s, animais e o

-~u <
:::J múltiplo uso da terra; reduzir os custos de produçao e aumen~a~ a
eficiência e a viabilidade econômica dos pequenos e medias
C'I
< agricultores, promovendo assim um sistema agrícola diversificado
e potencialmente resistente.

Surgiu no Japão, na década de 30, e seu fundador foi Mokiti


Okada. Este orientava não movimentar o solo; que todos os
...::::,
ro
restos de culturas e palhadas fossem reciclados e o composto
....::::, ~
::::,
fosse feito unicamente à base de vegetais, sem o uso de estercos
animais. Hoje os adotantes desse sistema de cultivo utilizam-se
.!::! ~
ci z de microrganismos efetivos (EM), aplicados no solo, nas plantas
< para prevenção de problemas fitossanitários ou para inocular o
composto orgânico a ser empregado nas adubações.

Surgiu na Alemanha, em 1924, e seu fundador foi Rudolf Steiner.


A biodinâmica trabalha a propriedade como um organismo, onde
ro ~ o todo reflete o equilíbrio de suas partes. Assim, trabalha as
.a-... <RJ·-E relações existentes entre o solo, a planta, o animal, o homeme o
::::, e universo e as energias que envolvem e influenciam cada um e o
u ·- todo. As técnicas usadas são similares às da Agricultura Orgânica,
·~ "CI

<mo
C'I acrescentando-se o emprego de "preparados biodinâmicos" e a
adoção de um calendário agrícola, baseado no movimento da lua
ao redor da terra.

Surgiu na Austrália, na década de 70. Seus fundadores foram Bill


Mollison e Dave Hoemgren. A permacultura defende a
...::::,ro manutenção _de sis~:mas Agro-silvo-pastoris, sendo especialmente
... ::::,
adequados as reg1oes de florestas tropicais e subtropicais. Não
u permite nenh~ma i~_tervenção ~o solo, quer seja aração ou
ro gradagem. Nao ut1hza adubaçao mineral e nem composto
E
... orgânico . Alterna o cultivo de gramíneas com leguminosas,
QJ
e. deixando sempre uma palhada sobre o solo pelo manejo de ervas
infestantes, através de roçadas .

UI
Além destas escolas descritas acima, existem outras de menor
ro adoção . Geralmente estes movimentos derivam destas anteriores :
o
u
Método Lemaire-Boucher.
XI Método Jean.
UI
ro Método Rusch-Muller.
b::::,
Método Pain.
o Método Georges Marron .

85
Manual de Horticultura Orgânica

3.4.APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOSAGROECOLÓGICOS

3.4.1. CONSTRUINDO A PAISAGEM E O AGROECOSSISTEMA


PRODUTIVO

Ecossistema é um sistema funcional de relações entre organismos vi vos


e seu ambiente, delimitado arbitrariamente, mantendo um equilíbrio dinâmico
e estável, no espaço e no tempo. A manipulação e a alteração humanas dos
ecossistemas, com o propósito de estabelecer uma produção agrícola, tornam
os Agroecossistemas muito diferentes dos ecossistemas naturais, ao mesmo
tempo em que conservam processos, estruturas e características semelhantes.
Veja as ilustrações desses sistemas, nas Figuras 3.1 e 3.2, propostas por
Gliessman (2000).
Os agroecossistemas, comparados aos ecossistemas naturais, têm muito
menos diversidade funcional e estrutural, além do que, quando a colheita
é o enfoque principal, há perturbações em qualquer equilíbrio que se tenha
estabelecido, e o sistema só pode ser mantido se a interferência externa com
trabalho e insumos for mantida.
As principais diferenças entre os ecossistemas e os agroecossistemas estão
relatadas na Tabela 3.2.

Atmosfera Sol ■ ■ Nutrientes


e chuva .- Energia
••
Produtores
primários ■

Consumidores
Solo herbívoros

Perda Perda

Figura 3.1 _Componentes funcionais de um ecossis~ema natural. Os componentes


identificados como Atmosfera, Chuva e Sol estao fora de qualquer sistema
específico e fornecem insumos naturais essenciais.
Fonte: Gllessman (2000) .

86
Conceitos. Objetivos. Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

Sol

Atmosfe ra Insumos
e chuva humanos

••
•• Animais e
•li Cultives produtos animais

• Consumo e Perda
Solo mercados Perda

Perda

■ ■ Nutrientes •
• Energia Perda
Figura 3.2 - Componentes funcionais de um Agroecossistema. Além dos
insumos naturais fornecidos pela Atmosfera e pelo Sol, um agroecossistema
tem todo um conjunto de insumos humanos, que vêm de fora do sistema. Um
agroecossistema tem, também, um conjunto de saídas aqui identificadas como
"Consumo e Mercados".
Fonte: Gliessman (2000) .

Tabela 3.2 - Diferenças estruturais e funcionais importantes entre ecossistemas


naturais e agroecossistemas
Ecossistemas
Fatores naturais Ag roecossistemas
1

Produtividade líquida Média Alta


Interações tróficas Complexas Simples, Lineares
Diversidade de espécies Alta Baixa
Diversidade genética Alta Baixa
Ciclos de nutrientes Fechados Abertos
Estabilidade Alta Baixa
Controle humano Independente Dependente
Permanência temporal Longa Curta
Heterogeneidade dohabitat Complexa Simples

Fonte: Adaptado de Odum (1969), citado por Gliessman (2000).

87
Manual de Horticultura Orgânica

O desafio de criar agroecossistemas sustentáveis é o de alca nçar


características semelhantes às de ecossistemas naturais, mantend o uma
produção a ser colhida. Um agroecossistema que incorpore as qualidad es de
ecossistemas naturais de estabilidade, equilíbrio e produtividade assegurará
melhor a manutenção do equilíbrio dinâmico necessário para estabelecer uma
base ecológica de sustentabilidade. Na Figura 3.3, verificamos uma paisag em
parcial de uma propriedade orgânica, onde se destaca a preservação de mata
nativa, áreas de lagoa e alagados, áreas de cultivas anuais, residência, apiário,
solo integralmente coberto com vegetação etc.

Figura 3.3 - Paisagem diversificada em propriedade organica no estado do


Espírito Santo. Estação Agroecológica "Domaine lle-de-France", município de
Domingos Martins.

os agroecossistemas mais diversificados tendem a ter menos problemas


com pragas, seja pela maior ação dos inimigos naturais e, ou pela menor
atratividade do sistema aos herbívoros. Contudo, devemos estar atentos para
aspectos importantes.
Diversificação pode ter muitos significados. Um consórcio de duas culturas
pode ser suficiente para reduzir a população de uma praga. Por outro lado,
pode-se entender a diversificação como a existência de vários lotes, ocupados

88


Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

cada um com uma cultura solteira diferente. Ou, ainda, a diversificação pode se
dar com a rotação de culturas, ou com a manutenção de áreas próximas com
vegetação nativa, ou por meio da manutenção de ervas dentro e próximo às áreas
de cultivo, pela capina seletiva ou mesmo pelos complexos Sistemas Agroflorestais.
É bem provável que herbívoros diferentes necessitem de diferentes estratégias
de diversificação para a manutenção de sua população em níveis baixos .
Para algumas espécies, os fatores climáticos são muito mais importantes em
determinar o tamanho das populações do que a ação dos inimigos naturais, ou
do quanto o habitat é atrativo ou das características intrínsecas da planta. As
populações de herbívoros e seus inimigos naturais irão flutuar com as condições
climáticas tanto em monoculturas quanto em sistemas diversificados e complexos.
Para algumas espécies de herbívoros, mais de uma estratégia será necessária
para controlar as populações e mesmo os produtos alternativos que t enham
de ser aplicados. Cultivares resistentes continuam sendo extremamente úteis,
embora muitas delas sejam híbridas adquiridas a cada plantio.
Finalmente, Hawkins et ai. (1999) questionam se o controle biológ ico
de insetos é realmente um fenômeno natural. Esses autores relatam que os
casos de sucesso de controle biológico de herbívoros são mais frequentes em
ambientes com vegetação exótica, simplificados e manejados, do que em
ecossistemas naturais, e que esse controle (no caso dos parasitoides) resulta mais
frequentemente da formação de uma única e forte relação com a presa, em teia
alimentar muito simplificada. Em ecossistemas naturais o controle de herbívoros
nativos seria realizado mais por um conjunto de predadores generalistas.
A monocultura representa um dos maiores problemas do modelo agrícola
praticado atualmente, porque, não existindo diversificação de espécies numa
determinada área, as pragas e doenças ocorrerão de forma mais intensa sobre a
cultura, por ser a única espécie vegetal presente no local. O monocultivo torna 0
sistema de produção mais instável e sujeito às adversidades do meio (Figura 3.4).
O equilíbrio biológico das propriedades, bem como o equilíbrio ambiental
e o equilíbrio econômico de grandes regiões não podem ser mantidos com as
monoculturas. A diversificação de culturas é o ponto-chave para a manutenção
da fertilidade dos sistemas, para o controle de pragas e doenças e para a
estabilidade econômica regional (Figura 3.5).
Nesse aspecto, choca-se frontalmente com a ideia de especiali zação
agrícola, frequentemente levada ao extremo nas monoculturas regionais.
Historicamente, as monoculturas regionais apenas se têm viabili zado com
doses crescentes de agroquímicos ou com a incorporação de novas terras em
substituição àquelas já exauridas (KHATOUNIAN, 2001)

89
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 3.4 - Ambiente agrícola simplicado pelo cultivo de uma única espécie
(monocultura), com alta instabilidade e dependência de grande aporte de
insumos externos.

Figura 3.5 -Ambiente agrícola diversificado pelo cultivo e manutenção de várias


espécies no agroecossistema, em propriedade orgânica com alta estabilidade e
baixa dependência de insumos externos - Santa Maria de Jetibá - ES.

90
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

Reforçando o tema, Gliessman (2000) relata em seu livro, Agroecologia


- processos ecológicos em Agricultura Sustentável, que a monocultura é uma
excrescência natural de uma abordagem industrial da agricultura e suas técnicas
casam-se bem com a agricultura de base agroquímica, t endendo a favorecer
o cultivo intensivo do solo, a aplicação de fertilizantes inorgânicos, a irrigação,
o controle químico de pragas e as variedades "especial izadas" de plantas com
estreita base genética que as tornam extremamente suscetíveis em termos
fitossanitários . A relação com os agrotóxicos é particu larmente forte; vastos
cultivas da mesma planta são mais suscetíveis a ataques devastadores de
pragas específicas e requerem proteção química.
Sistemas de produção diversificados são mais estáveis porque d ificu ltam a
multiplicação excessiva de determinada praga e doença e permitem q ue haja
melhor equilíbrio ecológico no sistema de produção, at ravés da mult ipl icação
de inimigos naturais e outros organismos benéficos.
Assim, uma propriedade orgânica, fundamentalmen t e, deve se preocupar
em buscar primariamente diversificar a paisagem geral, de forma a restabelecer
a cadeia alimentar entre todos os ser es vivos, desde microrganismos até
animais maiores e pássaros.
Para tanto, faz-se necessário compor uma diversidade de espécies vegetais,
de interesse comercial ou não, recomendando que se opte por espécies locais,
adaptadas às condições edafocl imáticas da região. Como exemplo, em áreas
marginais às glebas de produção e nas bordas de riachos, pode-se proceder
ao plantio de espécies como: goiaba, ingá, pitanga, araçaúna, biribá, nêspera,
abacate, calabura, jamelão, amora, uva japonesa, dentre outras.
Além disso, é fundamental, também, proceder ao manejo da vegetação
espontânea . Esse manejo pode ser realizado de três formas, visando permitir
a conservação natural da vegetação do próprio local, conforme abaixo:

1º. Manutenção de áreas de refúgio, fora da área cultivada para


interesse comercial, inclusive áreas com alagamento natural, visando
preservar ao máximo os aspectos naturais estabelecidos pelo ecossistema
local ao longo de anos.
2º. Não utilizar intensivamente o solo, procedendo ao planejamento
de faixas de cultivo, intercaladas com faixas de vegetação espontânea,
chamadas de corredores de refúgio. Para divisão dos talhões de plantlos,
deixar corredores de 2,0 a 4,0 m de largura, para abrigar a fauna local
(Figura 3.6) .

91
Manual de Horticultura Orgânica

3º. Proceder ao controle parcial da vegetação ocorrente dentro das


áreas cultivadas, aplicando a técnica de capinas em faixas para culturas
com maiores espaçamentos nas entrelinhas e manutenção da vegetação
entre os canteiros para culturas cultivadas por esse sistema de plantio,
como alfaces, cenoura, alho, dentre outras.

Esses três aspectos anteriores serão os responsáveis pela maior


estabilidade do sistema produtivo e representará uma diminuição expressiva
de problemas com pragas e doenças, tão comuns em sistemas desequilibrados
ecologicamente. Vale lembrar que o não cumprimento desses princípios têm
sido uma das maiores falhas em propriedades rurais, mesmo orgânicas, em
franca atividade no Brasil.
Para completar, o estabelecimento de um desejável nível de diversidade
genética, pela adoção de um sistema de produção com culturas diferentes, de
interesse comercial, também é fundamental.
Para tanto, recomenda-se que se adote um plano de uso do solo de forma
mais sustentável possível, procedendo ao planejamento dos plantios, visando
permitir o descanso (pousio) e a revitalização dos solos, no máximo de dois em
dois anos, através do plantio solteiro ou misto, de leguminosas (Ex: Mucuna Preta,
Crotalária, Labe-labe) e gramíneas (Ex: milho, aveia preta), fato que promoverá
fixação biológica de nitrogênio e estruturação do solo, respectivamente.
Na natureza, existe uma forte interrelação biológica entre insetos, ácaros,
nematoides, fungos, bactérias, vírus e outros macro e microrganismos, a qual
é responsável pelo equilíbrio do sistema, podendo-se citar como exemplos:
pulgões (praga) controlados por joaninhas (predador); ácaros (praga)
controlados por ácaros predadores; lagarta-da-soja (praga), controlada por
Baculovirus (parasita); microrganismos antagonistas presentes em compostos
orgânicos, inibindo o desenvolvimento de fungos de solo (por exemplo:
Fusarium), dentre tantos outros.
Assim, em sistemas orgânicos de produção, o equilíbrio ecológico, que
ocorre entre os macro e microrganismos, é de fundamental importância para
manter as populações de pragas e doenças em níveis que não causem danos
econômicos às culturas comerciais.

92
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

Figura 3.6 - Corredores de refúgio , planejados desde o inicio dos plantios,


são fundamentais em sistema orgânico de produção - Propriedade Penhazul -
Domingos Marlins/ES (A). Corredor de refúgio entre plantios de alface orgânica
em ambiente protegido - Boa Vista - RR (B).

93
Manual de Horticultura Orgânica
"""'
3.4.2. PERMITINDO O FUNCIONAMENTO DA TEORIA DA
ThOFOBIOSE

Através da teoria da Trofobiose aprendemos que todo ser vivo só sobrevive


se houver alimento adequado e disponível para ele. A planta ou parte dela
só será atacada por um inseto, ácaro, nematoide ou microrganismos (fungos
e bactérias), quando tiver, na sua seiva, o alimento de que eles precisam,
principalmente aminoácidos.
O tratamento inadequado de uma planta, especialmente com substâncias
de alta solubilidade, conduz a uma elevação excessiva de aminoácidos livres.
Portanto, um vegetal saudável, equilibrado, dificilmente será atacado por pragas
e doenças (CHABOUSSOU, 1987). A explicação técnica do processo baseia-se
em fatores ligados à síntese de proteínas (proteossíntese) ou à decomposição
das mesmas (proteólise).
O metabolismo acelerado pelos adubos de alta solubilidade, ou qualquer
outra desordem que interfira nos processos de proteossíntese ou proteólise,
elevará a quantidade de aminoácidos livres na seiva vegetal, servindo de
alimento para alguns insetos e microrganismos (Figura 3.7).
Os insetos, nematoides, ácaros, fungos, bactérias e vírus são organismos
que possuem uma pequena variedade de enzimas (responsáveis pela formação
e degradação de proteínas), o que reduz sua possibilidade de digerir moléculas
complexas como as proteínas, necessitando do seu desdobramento em
moléculas mais simples como os aminoácidos.
Existem vários fatores que interferem na resistência das plantas, pois
afetam o seu metabolismo, podendo aumentar ou diminuir a sua resistência.
Fatores que melhoram a resistência: Espécie ou variedade adaptada ao local
de cultivo; solo; adubos orgânicos; adubos minerais de baixa solubilidade e
defensivos naturais.
Fatores que diminuem a resistência: Idade da planta; solo; luminosidade;
umidade; tratos culturais; adubos minerais de alta solubilidade e agrotóxicos.
Portanto, conhecendo-se todos esses fatores citados anteriormente, o agricultor
deve adequar O seu sistema de produção, empregando práticas recomendadas
para sistemas orgânicos, que certamente conduzirão à obtenção do desejado
equilíbrio nutricional e metabólico nas suas culturas comerciais.
Ilustrando a funcionalidade da teoria apresentada, observe os gráficos
adiante referentes à correlação entre teores foliares de nutrientes e a incidência
I •
da requeima na cultura da batata, em estudo realizado por Souza (1997).
Menores teores de N e P relacionam-se com menores severidades da doença.
Em ordem inversa, maiores teores de Ca e B é que se relacionam diretamente
com menores severidades.

94
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

Para que os aminóacidos se juntem e formem proteínas são necessária as enzimas. As


enzimas precisam de uma nutrição balanceada e completa para atuarem.

A seiva transporta proteínas e aminoácidos, açúcares e nitratos para os pontos de


crescimento da planta.
Proteínas Nitratos e Açúcares

SEIVA
Porém, o uso de agrotóxicos, a adubação desequilibrada e a falta de boas condições para a
planta atrapalham este mecanismo.
""'

c:::::::i
o
SEIVA

Quando isto acontece, a seiva fica carregada de aminoácidos livres, açúcares e nitrato.
Estes são os alimentos preferenciais de fungos, bactérias, ácaros, nematoides e insetos.

Figura 3.7 - Desordens no metabolismo vegetal deixam as plantas mais atrativas


ao ataque de insetos e microrganismos.
Fonte: APTA (DATA).

95
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 3.8 - Teores foliares de nitrogênio e severidade da requeima (Phytophtora


infestans) na cultura da batata, submetida a sistemas de adubação orgânica e
mineral - média de 4 anos.
Fonte: Souza ( 1997).

Figura 3.9 - Teores foliares de Fósforo e severidade da requeima (Phytophtora


infestans) na cultura da batata, submetida a sistemas de adubação orgânica e
mineral - média de 4 anos.
Fonte: Souza ( 1997).

96
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

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Figura 3.1 O - Teores foliares de Cálcio e severidade da requeima (Phytophtora


infestans) na cultura da batata, submetida a sistemas de adubação orgânica e
mineral - média de 4 anos.
Fonte: Souza (1997) .

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Figura 3.11 - Teores foliares de Boro e severidade da requeima (Phytophtora


infestans) na cultura da batata, submetida a sistemas de adubação orgânica e
mineral - média de 4 anos.
Fonte: Souza (1997 ) .

97
Manual de Horticultura Orgânica

3.4.3. RECICLANDO A MATÉRIA ORG1\NICA

A matéria orgânica é um dos componentes vitais do ciclo da vida, descrito


por Kiehl (1985), conforme a ilustração da Figura 3.12. Ela exerce importantes
efeitos benéficos sobre as propriedades do solo, nas propriedades físicas,
químicas, fisico-químicas e biológicas, contribuindo, substancialmente, para o
crescimento e o desenvolvimento das plantas. Verifique, a seguir, a descrição
desses efeitos, adaptados de Kiehl (1985).

M/neraliza~ NUTRJENTE
da mstflrfB orgAnJca Minerais
liberados

Figura 3.12 - Ciclo da vida na natureza.


Fonte: Kiehl (1985).

PROPRIEDADES FÍSICAS
A matéria orgânica exerce grande influência nas propriedades físicas do
solo, daí ser classificada por alguns autores como "material melhorador do solo".
a) Densidade aparente - a matéria orgânica reduz a densidade
aparente. Densidade aparente é a relação existente entre a massa (ou
peso) de uma amostra de terra seca e o volume aparente ou global ocupado

98
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

pela soma das partículas e dos poros da amostra. O uso indiscriminado


de máquinas agrícolas pesadas aumenta a densidade aparente pela
compactação da camada superior da terra. Para reduzir a densidade
aparente, recomenda-se aplicar matéria orgânica nas suas mais diversas
formas: adubos verdes, estercos animais, compostos e demais fertilizantes
orgânicos. A matéria orgânica reduz a densidade aparente direta e
indiretamente. Diretamente, ao se juntar à terra, que tem densidade
aparente entre 1,2 a 1,4 g/cm 3 , um material cuja densidade média vai de
0,2 a 0,4 g/ cm 3 • Indiretamente, pelo seu efeito na estruturação do solo,
tornando-o mais solto, menos denso.

b) Estruturação do solo - a estrutura é o resultado da agregação das


partículas primárias, quais sejam, areia, silte, argila e outros componentes
do solo como matéria orgânica e calcário. Para haver a formação de
agregados são necessárias duas principais condições: a primeira, uma força
mecânica qualquer para provocar a aproximação das partículas, como o
crescimento das raízes, por exemplo; a segunda condição é a de que, após
o contato das partículas, haja um agente cimentante para consolidar essa
união, gerando o agregado. A matéria orgânica humificada, juntamente
com os minerais de argila são os dois agentes cimentantes que mais
contribuem para a agregação do solo. A incorporação de matéria orgânica
ao solo provoca uma intensa atividade de microrganismos, fazendo com
que os micélios dos fungos e dos actinomicetos ou as substâncias viscosas
produzidas pelas bactérias funcionem como elementos aglutinantes das
partículas. A matéria orgânica dá mais liga aos solos arenosos, tornando-
os mais "pesados", e reduz a coesão dos argilosos, fazendo que fiquem
mais "leves".

e) Aeração e drenagem - a matéria orgânica melhora a aeração e a


drenagem interna do solo, porque promove sua agregação e estruturação,
de forma que tenha poros, por onde circulam o ar e a água.

d) Retenção de água - a matéria orgânica aumenta direta e indiretamente


a capacidade do solo de armazenar água. A matéria orgânica crua tem
capacidade de retenção de água em torno de 80%; à medida que vai sendo
humificada, essa capacidade de reter água se eleva, alcançando, em média,
160%. Materiais bem humificados, ricos em coloides, como as turfas e os solos
orgânicos, podem ter de 300% a 400% de capacidade de retenção, enquanto
o húmus puro alcança valores maiores ainda, até o dobro das anteriores.

99
Manual de Horticultura Orgânica
"""'

A matéria orgânica humificada pode armazenar água indiretamente,


melhorando as propriedades físicas do solo. A matéria orgânica aumenta a
capacidade de infiltração de água devido às melhorias das condições físicas
do horizonte superficial do solo, como, por exemplo, aumenta a granulação, a
estruturação e protege a superfície contra a formação de crostas impermeáveis.
Quanto maior a capacidade de infiltração, menor o escorrimento de água
pela superfície, formando enxurradas, e menor as perdas por erosão. Também,
as perdas de água do solo por evaporação são reduzidas pela presença de
matéria orgânica. É possível economizar água de irrigação, incorporando-
se matéria orgânica ao solo ou aplicando-a na forma de restos vegetais em
cobertura morta.

,
PROPRIEDADES QUIMICAS

a) Fornecedora de nutrientes -A matéria orgânica é uma importante


fonte de nutrientes para as plantas, a microflora e a fauna terrestre.
Fornece principalmente nitrogênio, fósforo, enxofre e micronutrientes.

• Nitrogênio (N) - esse elemento só pode ser armazenado no solo na


forma orgânica. As formas minerais (amoniacal - NH 4 + e nítrica - N03-)
estão sujeitas a perdas por volatilização ou por lavagem, respectivamente,
não permanecendo na terra por longo tempo. Na matéria orgânica vegetal,
o nitrogênio é encontrado principalmente na forma de proteínas e, em
menor quantidade, em outros componentes celulares. A proporção de N
mineral encontrado no solo é de 1 % a 10% do nitrogênio total; o restante,
90% a 99%, está na forma orgânica. Pode-se afirmar que, em média, mais
de 95% do nitrogênio encontrado no solo está na forma orgânica .
• Fósforo (P) - a matéria orgânica é uma importante fonte de fósforo
para as plantas, contendo geralmente de 15% a 80% do fósforo total
encontrado no solo. O fósforo, no solo, apresenta o problema de se fixar
aos sesquióxidos de ferro e alumínio das partículas de argila, ficando
indisponível para as plantas. Quando se misturam fosfatos naturais (fonte
de fósforo) aos restos orgânicos (animais e vegetais), a serem decompostos
pelo processo de compostagem, o fósforo fica solubilizado (misturado
com água e outros nutrientes e disponível para as plantas) pela ação dos
ácidos orgânicos formados durante a fermentação e, também, pelo ataque
dos microrganismos. Além disso, o húmus que se vai formando protege o
fósforo solubilizado, evitando sua fixação.

100
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

• Potássio (K) - o potássio não participa de compostos da planta, como


acontece com o nitrogênio, o fósforo e o enxofre. Ele é um elemento ativo
na planta, porém, na forma livre, é prontamente liberado para o solo,
quando a este são incorporados restos vegetais.
• Enxofre (S) - o enxofre está presente no solo na forma mineral e
orgânica. Na forma orgânica constitui de 50% a 70% do total encontrado.
• Cálcio (Ca) e magnésio (Mg) - como o potássio, a maior parte do Cálcio
e do Magnésio fornecido às plantas provém dos minerais do solo, sendo
pequena a contribuição da matéria orgânica como fornecedora desses dois
macronutrientes, excetuando-se estercos de aviários que podem elevar, até
em níveis excessivos, os teores de cálcio em solos submetidos a manejas
orgânicos sucessivos.
• Micronutrientes - os micronutrientes presentes no solo são de
origem mineral e orgânica. Através de reações de troca e mecanismos de
complexação ou de quelação, o húmus pode reter em formas disponíveis
certos micronutrientes liberados pelos minerais do solo ou da matéria
orgânica em decomposição.

b} Correção de substâncias tóxicas - a aplicação de matéria


orgânica humificada aos solos tem sido recomendada como uma maneira
de controlar a toxidez causada por certos elementos encontrados em
quantidades acima do normal. O ferro, o alumínio e o manganês são
apontados como os elementos tóxicos mais comuns nos solos brasileiros.
O controle da toxidez, geralmente, é feito pela aplicação de fertilizantes
orgânicos, devido à propriedade do húmus em fixar, complexar ou quelar
esses elementos.

e} Índice pH - a matéria orgânica humificada contribui para que o


solo ácido fique com um pH mais favorável às plantas. Os solos fortemente
alcalinos, com pH elevado, podem também ser corrigidos com aplicações de
matéria orgânica. Em experimento de campo, constatou-se que a aplicação
de 40 toneladas de esterco por hectare foi mais efetiva em corrigir o pH
de dois solos, um ácido e outro alcalino, que a aplicação de 1 tonelada de
calcário por hectare.

d) Poder tampão - o poder tampão do solo se deve à presença de


minerais de argila e de matéria orgânica. Quanto maior o teor de matéria
orgânica no solo, maior será sua resistência à mudança de pH . Assim, solos

101
Manual de Horticultura Orgânico

ricos em matéria orgânica necessitam de maior quantidade de calcário


para modificar o pH.
Muito se fala sobre os impactos da matéria orgânica sobre os teores de
nitrato no solo e nas plantas. Realmente, o uso de matéria orgânica deve ser
feito de forma racional e equilibrada para evitar tais problemas. Entreta nto,
não se pode esquecer que, em determinadas situações, o modelo de prod ução
de base agroquímica tem trazido muito mais problemas de nitrato do que o
sistema orgânico, conforme se comprova na Tabela 3.3.

Tabela 3.3 - Teores de N-N03- nos pecíolos+ nervuras (mg N.g-1 matéria fresca),
como resposta à adubação com esterco bovino e, ou doses crescentes de
ureia, valores das folhas coletadas aos um, cinco e quinze dias após a segunda
adubação de cobertura com ureia
Tratamentos 1.Qdia 5.Q dia 15.Qdia Médias
1
1 - Testemunha 3.495 967 774 697 e -

2 - Esterco* 359 886 777 873 BC

3 - Esterco + ureia na 2.328 2.129 1.618 2.025 A


dose 1**

4 - Esterco + ureia na 1.789 2.678 1.664 2.044 A


dose 2**

5 - Esterco + ureia na 2.578 2.185 2.570 2.444 A


dose 3**

6 - Ureia na dose 3** 1.537 2.259 1.693 1.830 AB

Médias 1.490 a 1.851 a 1.515 a

*esterco = 20t/ha
**ureia 1 = 50 kg.ha- 1 ; ureia 2 = 100 kg.ha- 1 ; ureia 3 = 200 kg.ha- 1 •
Fonte: Seropédica {RJ) Embrapa Agrobiologia

PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS

a) Adsorção iônica - é um fenômeno físico-químico onde há uma


retenção eletrostática de um cátion em uma massa. A arg ila e o húmus
são dois coloides eletronegativos, pois, quando suspensos em um líquido e
sob a ação de uma força eletromagnética, caminham para o polo positivo.
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

O húmus têm maior capacidade de adsorção de cátions que a caulinita,


argila que ocorre na maioria dos solos brasileiros. Assim, o húmus é capaz
de reter nutrientes essenciais para as plantas, devido ao seu poder de
adsorção.

b) Capacidade de troca catiônica (CTC) - o co loid e orgânico


húmus tem a habilidade de adsorver cátions existentes na solução do
solo, podendo depois cedê-los às raízes ou efetuar t rocas, caso ocorra
uma concentração de íons diferentes ou uma variação do pH. O húmus
apresenta uma elevada CTC, se comparado com os colo ides inorgânicos
do solo:
CTC do húmus - 200 a 400 meq/100 g.
CTC da caulinita - 3 a 15 meq/100 g.

c) Superfície específica - a matéria organica eleva a superfície


específica do solo. O húmus tem uma área de exposição superficial
(superfície específica) 70 vezes maior que a caulinita . Quanto maior a
superfície específica do coloide do solo, maior sua capacidade de retenção
e maior seu poder de fornecer nutrientes para as plantas. O aumento da
superfície específica dos solos, proporcionado pelas adubações orgânicas
continuadas, pode elevar a sua capacidade de retenção de água.

PROPRIEDADES BIOLÓGICAS

A matéria orgânica atua diretamente na biologia do solo, consistindo em


uma fonte de energia e de nutrientes para os organismos que participam de seu
ciclo biológico. Assim, a presença de matéria orgânica aumenta a população
de minhocas, besouros, fungos benéficos, bactérias benéficas e vários outros
organismos úteis, que estão livres no solo. Aumenta, também, a população
de organismos úteis que vivem associados às raízes das plantas, como as
bactérias fixadoras de nitrogênio e as micorrizas, que são fungos capazes de
aumentar a absorção de minerais do solo.
Indiretamente, a matéria orgânica atua na biologia do solo pelos seus
efeitos nas propriedades físicas e químicas, melhorando as condições para a
vida vegetal. Por isso, é chamada de melhoradora ou condicionadora do solo.
Experimentos mostram que o húmus estimula a alimentação mineral
das plantas, o desenvolvimento radicular, diversos processos metabólicos, a

103
Manual de Horticultura Orgânica

atividade respiratória, o crescimento celular e a formação de flores em certas


plantas.

Em sistemas orgânicos, a utilização do método de reciclagem de estercos


animais e de biomassa vegetal permitem a independência do agricultor quanto
à necessidade de incorporação de insumos externos ao seu sistema produti vo,
minimizando custos, além de permitir usufruir dos benefícios da Matéria
Orgânica em todos os níveis.

Relação Matéria Orgânica vs. Resistência de Plantas


• Aumenta a capacidade do solo em armazenar água, diminuindo os
efeitos das secas.
• Aumenta a população de minhocas, besouros, fungos benéfi cos,
bactérias benéficas e vários outros organismos úteis, que estão livres no
solo.
• Aumenta a população de organismos úteis que vivem associados
às raízes das plantas, como as bactérias fixadoras de nitrogênio e as
micorrizas, que são fungos capazes de aumentar a absorção de minerais
do solo.
• Aumenta significativamente a capacidade das raízes em absorver
minerais do solo, quando se compara aos solos que não foram tratados
com matéria orgânica.
• A matéria orgânica é fundamental na estruturação do solo por
causa da formação de grumos. Isso aumenta a penetração das raízes e a
oxigenação do solo .
• Possui, na sua constituição, os macro e micronutrientes em quantidades
bem equilibradas, que as plantas absorvem conforme sua necessidade, em
qualidade e quantidade. Com isso, o nível de proteossíntese aumenta.
os micronutrientes são fundamentais para a proteossíntese, tanto como
constituintes quanto ativadores das enzimas que regulam o metabolismo
da planta .
• A matéria orgânica possui sub>stâncias de crescimento (fitormônlos)
que aumentam a respiração e a fotossíliltese das plantas.

Em função dos fatores anteriores, Aa _matéria orgânica interfere


sign ificativamente na intensidade de ocorrencia de doenças em diversas
hortal iças, conforme demonstrado na Tabela 3 . 4 .
\
104
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

Tabela 3.4 - Doenças de hortaliças afetadas pelo uso matéria orgânica

Melo idogyne Redução da


Meloidoginose Esterco de bovino
javanica Tomate Palha de café população

Meloidogyne
• Meloidoginose
javanica
Cenoura
Esterco de suíno
Esterco de carneiro Redução da
Húmus de minhoca população
Meloidogyne
incognita

Alho Vermicomposto
Sclerotium
Podridão branca Torta de cacau Redução da
cepivorum Cebola Esterco de aves população
Esterco de bovino

Leandria
Mancha Pepino Vermicomposto Redução da
momordicae
Zonada Palha de café doença

Tombamento Rhizoctonia Pepino Redução da


Casca de madeira
solani doença

Rhizoctonia
solani Redução da
Tombamento Rabanete Esterco de bovino população
Sclerotium Casca de madeira Redução da
rolfsii doença
Fusarium
Murcha oxysporum f.sp. Tomate Redução da
Vermicomposto
doença
/ycopersici

Podridão Botrytisspp. Aspargo Aumento da


Esterco de bovino
doença
Raiz-rosada Pyrenochaeta Cebola Redução da
Adubo verde
terrestris doença
Hérnia-das- Plasm odiophora
Repolho Casca e restos Redução da
crucíferas brassicae
culturais de arroz doença

Sclerotinia Resíduos de esgoto Redução da


minor Alface urbano população
Podridão-de- Casca de pinheiro
esclerotin la Esterco de aves,
Sclerotinia cavalo, bovino Redução da
Alface
sclerotiorum Composto de feno de doença e da
alfafa população

105
Manual de Horticultura Orgânico
"="""""""""""""""""""""""""""""""'"""""',,,,;;,.~~~~ ====================-____,, ~

... Continuação Tabela 3.4


Efeito no
Composto patógeno
Doença Patógeno Cultura
Orgânico e,ou

... ... .
doença
.... :_
... Controle da
Fusariumsp. Inhame Casca de pinheiro
rizoma doença

Streptom yces Composto de fazenda Efeito


Sarna Batata
scabies Esterco de bovino variável

Phytophthora Exoesqueleto de Redução da


Murcha Pimentão
capsici crustáceos doença

Fonte: Zambolim et ai. (1997)

Pereira et ai. (1996) também relatam o importante efeito que os compostos


orgânicos exercem de forma direta e indireta sobre o controle de doenças em
plantas, principalmente daquelas induzidas por patógenos habitantes e, ou
invasores do solo.
Embora possa ocorrer indução de resistência nas plantas, os principais
mecanismos de controle são decorrentes da elevação da atividade microbiana,
proporcionada pela biomassa dos compostos orgânicos. Fatores abióticos, como
o material de origem, o método de compostagem e o nível de estabilização do
composto afetam, indistintamente, populações de patógenos e de microrganismos
antagonistas e, consequentemente, a supressividade às doenças.
Além disso, a incorporação de microrganismos antagonistas ao composto,
através da inoculação dos mesmos antes da adubação, pode elevar o efeito
supressivo desse e contribuir para o controle de doenças em plantas. Serra-
Wittling et ai. (1996) verificaram que a adição de composto orgânico ao solo
promoveu um aumento na supressividade de Fusarium, de forma proporcional
à quantidade de composto usada na mistura (10%, 20% e 30%), em relação
ao solo puro.
souza e Ventura (1997), comparando sistemas de adubação orgânica
e mineral, isoladas e associadas, verificaram que nas parcelas adubadas
exclusivamente com composto orgânico houve menor incidência de
Phythophtora infestans na cultura da batata, por proporcionarem menores
teores de nitrogênio e fósforo e maiores teores de cálcio e boro, na parte
aérea das plantas. Observaram que houve uma correlação positiva para os
níveis foliares de N e p e correlação negativa para os níveis de Ca e B, com a
incidência do patógeno.

106
Conceitos, Objetivos, Escolas e Aplicação dos Princípios Agroecológicos

Elad e Shtienberg (1994) também confirmaram efeitos de extratos aquosos


de compostos orgânicos no controle de doenças, através de um estudo sobre
a incidência de mofo cinzento (Botrytis cinerea) em tomate, pimentão e uva.
Os três tipos de extratos foram obtidos de compostos orgânicos preparados
da forma tradicional, à base de esterco bovino, esterco de frango e resíduos
da fabricação de vinho. Para todos os três tipos, obteve-se o extrato padrão,
fazendo-se a diluição em água, na base de 1: 5 (v/v), deixando-se fermentar
por 4 horas, 1 semana e 2 semanas. Os extratos puros (sem diluição) foram
pulverizados sobre as folhas de tomate e pimentão e sobre os cachos de uva,
após terem sido infectados artificialmente com pulverização de solução aquosa
contendo 105 conídios. ml-1 • Verificaram que a eficiência na redução da doença
variou com o tempo de fermentação e com o tipo de extrato utilizado. Todos
os extratos apresentaram maior eficiência quando fermentados por duas
semanas. Em geral, a redução da doença situou-se na faixa de 56% a 100%,
quando foram utilizados extratos fermentados por mais de 10 dias.

107
Manual de Horticultura Orgânica

4.1 . .INFORMAÇÕES BÁSICAS PARA A CONVERSÃO

A prática da agroecologia é um processo que passa por um estilo de


vida, isto é, transformar transformando-se. Como processo, passa por várias
dimensões ou etapas importantes. Uma delas refere-se à conversão ou período
de transição, que vem a ser aquele período de tempo variável que é preciso
para a propriedade passar do modelo convencional ao sistema agroecológico
ou orgânico, ou seja, constituir-se num agroecosssitema.
A conversão do manejo da produção agrícola convencional à orgânica,
apesar de iniciar-se pela eliminação total do uso de insumos químicos
sintéticos, não trata da simples substituição desses insumos por outros de
origem biológica. Tem como ponto de partida a identificação de uma cadeia
de relações entre as diferentes atividades desenvolvidas no agroecossistema
visando alcançar a sustentabilidade.
Assim, a definição dos processos de produção é feita através de um enfoque
sistêmico, onde os subprodutos de uma atividade são aproveitados em outra,
procurando fechar o ciclo de nutrientes, otimizar o fluxo energético e promover
o equilíbrio entre as diversas espécies que habitam o ambiente.
Tanto o processo de conversão quanto o manejo de agroecossistemas
orgânicos requerem profundos conhecimentos agronômicos e ecológicos,
como também das particularidades da propriedade rural e do detalhamento -
qualidade e quantidade - dos recursos humanos com que conta a unidade de
produção para definir o esquema a ser seguido.
A agricultura orgânica, dependendo da forma de como foi convertida e agora
praticada, também pode afastar-se da sustentabilidade, em menor ou maior grau.

1
1
/ d rc o e. ) .

- - -

110 '
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológica

Na Tabela 4.1, Altieri (2002) procurou caracterizar os sistemas


convencional, de substituição de insumos e agroecológico, nos aspectos
econômicos, ambientais, sociais e culturais.
Essas informações são bastante úteis para nos orientar no processo de
conversão. Verifica-se que os sistemas agroecológicos são menos dependentes
de insumos externos (petróleo, sementes melhoradas, adubos químicos e
agrotóxicos), necessitam de menos capital e mais mão de obra. Devido a
essas características, apresentam maior sustentabilidade, sendo praticados
principalmente por agricultores familiares.
Os sistemas orgânicos baseados na substituição de insumos, apesar de
proporcionarem a produção de alimentos livres de resíduos tóxicos, apresentam
geralmente alta dependência de insumos externos, o que os torna menos
sustentáveis que os sistemas agroecológicos.
Na conversão, é recomendável que seu planejamento se baseie na
incorporação progressiva de novas áreas ao manejo orgânico, pois, na prática,
tem-se constatado uma diminuição crítica dos rendimentos físicos, sobretudo nos
dois primeiros anos - fato este atribuído especialmente à falta de conhecimento
sobre manejo do agroecossistema e à baixa aplicabilidade técnica.
As adversidades bióticas e abióticas a que estão submetidas as culturas são
sobrepostas, no sistema convencional, pelo emprego de agrotóxicos e outros
recursos energéticos. Ao deixar de utilizar esses insumos e passar a depender
de um equilíbrio ecológico inexistente, uma série de dificuldades devem ser
vencidas para restituir os níveis de produtividade física.
Essas dificuldades são proporcionais ao grau de artificialização em que
estava operando o sistema; quanto mais artificializado, mais distante esse
sistema se encontra das condições de equilíbrio ecológico almejadas.

111
~~
Tabela 4.1 - Características dos sistemas convencional, de substituição de insumós e agroecológico
li~e
o
o.
Convencional Substituição de Insumos Agroecol6glco CD
::e
Dependência de petróleo Alta Alta
o
Baixa 3:
()
e
Necessidade de
mão de obra
-
Baixa, mão de obra
contratada
Baixa, mão de obra
contratada
Alta, mão de obra familiar e da comunidade
1 lio[
...,
Intensidade de manejo Baixa Baixa - média Mais complexa
Intensidade de cultivo Alta Alta a baixa. Baixa, conservação ~:
Diversidade de plantas Baixa Baixa Alta
Cultura/variedades Anuais/híbridos ou de
Anuais/híbridos Anuais e perenes, cultivares regionais
polinização aberta
Fonte de sementes Todas compradas Compradas Algumas ~reduzidas pelo agricu ltor
Integração
Nenhuma Pouca (esterco) Alto grau de integração
(animais e vegetais)

Pragas Muito imprevisível Imprevisível Mais estável


MIP, biopesticidas, algum
Manejo de insetos Químico Cultural e biológico
controle biológico
Manejo de vegetação espontânea Químico, cultivo Novos herbicidas biológicos Competição, rotação de culturas
Químico, resistência Antagonistas, resistência Rotação, resistência horizontal, diversos
Manejo de doenças
vertical vertical, novos cultivares cultivares e consórcios
Química, aplicação Bio~~rtilizantes ~i~robianoS, Reconstrução da biologia (vida) do solo,
Nutrição de plantas concentrada, sistemas f~rtillzantes o~ganicoS, sistemas semifechados
abertos sistemas sem1abertos
Importância da decomposição e da Baixa a média Alta
Baixa
ciclagem de nutrientes

~
.... Continuação da Tabela 4.1

Convencional, Irrigação artesanal e comunitária,


Manejo de água irrigação em grande Irrigação por gotejamento culturas de sequeiro, matéria
escala orgânica e coletores de água
Resposta do sistema a perturbações Pobre, alto risco Pobre, alto risco Resistente, resiliente,
compensatória, menos riscos
Geração de tecnologias Au_torit.ác[a, de çim,9. Aut~ritária, d~-~!.fl\ªA.ªf.ª •·····. -Participativa, farmerfirst (o
para baixo, '.1mportadà baixo, ·importada agricultor em primeiro lugar), loca l
Delineamento da pesquisa Agronômica Agronômica convencional Pesquisa participativa 1 li ►
convencional ()
o
Inserção no mercado Total: compra de
insumos, venda de
produtos
Total: compra de insumos,
venda de produtos
Menos compra, mais
autossuficiente, vendas vari áveis 1 li~
Qt
o
Necessidade de capital Alta Mais alta Baixa O·
I
Produtividade da terra Baixa a média Baixa a média Alta o
:::::i.
ff
Produtividade da mão de obra A mais alta Alta Baixa a média e

e
Retorno do investimento Alto a baixo Baixo a médio Alto -,
o
Rentabilidade líquida Alta a baixa Baixa a média Variável o-,
()
Riscos para a saúde Altos Médios a baixos Baixos
Danos ambientais Altos Médios Baixos

W' ff
o
Manual de Horticultura Orgânica
"""'

4.2. PRINCÍPIOS ORIENTADORES DA CONVERSÃO

Gliessman (2000) propõe os seguintes princípios orientadores para a


conversão de propriedades agrícolas a sistemas agroecológicos.
O processo de conversão pode ser complexo, exigindo mudanças nas
práticas de campo, na gestão da unidade de produção agrícola em seu dia a
dia, no planejamento, marketing e filosofia.
Os seguintes princípios podem servir como linhas mestras orientadoras
nesse processo geral de transformação:

• Mover-se de um manejo de nutrientes, cujo fluxo passa através do


sistema, para um manejo baseado na reciclagem de nutrientes, como
uma crescente dependência em relação a processos naturais, tais como a
fixação biológica do nitrogênio e as relações com micorrizas.
• Usar fontes renováveis de energia, em vez das não renováveis.
• Eliminar o uso de insumos sintéticos não renováveis oriundos de fora
da unidade produtiva, que podem potencialmente causar danos ao ambiente
ou à saúde dos produtores, assalariados agrícolas ou consumidores.
• Quando for necessário, adicionar materiais ao sistema, usando aqueles
que ocorrem, naturalmente, em vez de insumos sintéticos manufaturados.
• Manejar pragas, doenças e ervas adventícias, em vez de "controlá-las".
•Restabeleceras relações biológicas que podem ocorrer naturalmente
na unidade produtiva, em vez de reduzi-las ou simplificá-las.
• Estabelecer combinações mais apropriadas entre padrões de cultivo
e o potencial produtivo e as limitações físicas da paisagem agrícola.
• Usar uma estratégia de adaptação do potencial biológico e genético
das espécies de plantas agrícolas e animais às condições ecológicas da
unidade produtiva, em vez de modificá-la para satisfazer as necessidades
das culturas e dos animais.
• Enfatizar a conservação do solo, da água, energia e dos recursos
biológicos.
• Incorporar a ideia de sustentabilidade a longo prazo no desenho e
manejo geral do agroecossistema.

114
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológic a

Entretanto, muito antes das questões relativas ao agroecossistema, situa-se o


homem contido nele. Nessa direção, Pereira (2000) discute a conversão do homem
e o período de transição da propriedade, oferecendo-nos substancial contribuição.
Por conversão, entende-se um processo gradual e crescente de
desenvolvimento interativo na propriedad e até chegar a um agroecossistema.
Está orientado para a transformação do conj unto da unidade produtiva,
gradativamente, até que se cumpra por completo o todo.
Só após transposta essa fase, isto é, cumpri do o conjunto de requ isitos
para a produção orgânica, at endendo as normas observadas pelas entidades
certificadoras, é que se pode obter o selo orgâ nico. A transição deve ser feita
a partir de pequ enas glebas, inicia ndo-se pelas áreas mais apropriadas, num
processo crescente.
Essa etapa ou fase do processo contempla pelo menos três dimensões
principais: educativa, biológica e normativa.
A primeira, a dimensão educativa, constitui-se na mais importante,
uma vez que o Homem, enquanto espécie animal (Homo sapiens sapiens)
representa o início, o meio e o fim. Está, portanto, na mudança da percepção
humana o desencadeamento do processo de desenvolvimento - um processo de
mudança, que, nesse caso, representa a conversão do modelo convencional ao
processo agroecológico ou agroecossistema, pois, é na mente humana que tudo
acontece em primeiro lugar. Portanto, a conversão, em primeiro lugar, deverá
ser das pessoas, do homem. Deveremos, pois, nos tornarmos agroecologistas
- transformar transformando-se - para que o processo seja efetivo.
Os ecossistemas agrícolas nada mais são do que a exteriorização das
concepções que o homem possui. O quadro mental dominante resultou no
modelo convencional, centrado na t~cnologia por produto, na produtividade,
no resultado econômico-financeiro. E aqui que deveremos concentrar nossos
esforços, se quisermos implementar a concepção de agroecossistemas, centrada
no problema, no processo, no homem, na pessoa, na família, no holos.
Portanto, as dimensões contempladas estão fortemente associadas umas
às outras e, por isso, devem ocorrer simultaneamente, até que se fortaleçam ,
num processo sinérgico de interações em rede.
A dimensão biológica compreende, basicamente, a restauração da
qualidade e saúde do solo, assim como da sua biodiversidade, (tanto acima
como abaixo da sua superfície). A rotação de culturas e a adição de matéria
orgânica, que pode vir das plantas de cobertura, dos estercos, dos compostos
etc., são condições indispensáveis para se atingi r a plenitude nesse caso.

115
Manual de Horticultura Orgânica

Em relação à dimensão normativa, é importante observar as regras que


orientam a obtenção do selo de qualidade orgânica. De maneira geral, essas
normas obedecem a:

• Um período de carência que vai até 2-4 anos entre a utilização das
práticas convencionais e a adoção da agroecologia.
• Uma listagem de produtos e, ou procedimentos que não são
permitidos. Ness~ contexto, encontram-se os agrotóxicos e os fertilizantes
de síntese química, especialmente os nitrogenados.
• Uma listagem de produtos e, ou procedimentos tolerados, a critério
da organização certificadora.
• Uma listagem de produtos e, ou procedimentos recomendados,
onde se incluem a ciclagem e a reciclagem de nutrientes e de biomassa, o
controle biológico, a rotação de culturas, as plantas de cobertura, adubação
orgânica (verde, estercos e compostos), além, é claro, da recuperação,
proteção e conservação dos recursos naturais, como o solo, a água, a
fauna e a flora nativa, dentre outros aspectos, onde se inclui o harmônico
relacionamento entre os membros da família.

4.3. REQUERIMENTOS PARA A CONVERSÃO

•o início do período de conversão deverá ser baseado na ciência da


certificadora do início das operações de manejo orgânico, ou calculado
desde a data em que foi aplicado pela última vez algum insumo ou prática
proibidos (desde que se possa comprovar o cumprimento dos requerimentos
das normas) .
• Para a ótima sustentabilidade do agroecossistema, todas as atividades
de produção vegetal, produção animal e manutenção geral do ambiente
devem organizar-se de maneira que todos os elementos das atividades
possam interagir positivamente .
• o plano de manejo deve contemplar desde a observação da paisagem
e da microbacía até os detalhes de preparo de solo, adubação, sementes,
controle de pragas etc. e todo o conjunto deve estar de acordo com as
normas de produção orgânica.

116
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológica

• O plano de manejo deve incluir programas, estratégias e práticas que


permitam a manutenção da operação como orgânica, sustentavelmente no
tempo .
• O grande desafio é co m por o plano de manejo de forma adequada
às condições locais e às possi bilidades do agricu lt or, dentro de princípios
sustentáveis, sem dissoci ar-se do contexto agrícola e sociocultural.
• Os planos de man ejo rep resentam a ação combinada do agricultor e
do técnico e ce rta mente constituem-se numa referê ncia importante para a
evolução da Ag ricultura Orgânica .
• A conversão se completa num det erminado período de tempo. Uma
propriedade pode ser convertida pela introdução gradual das práticas
orgânicas, em toda a propriedade ou pela aplicação dos princípios em
apenas uma parte da operação por período de tempo limitado.
• Produção separada e produção paralela : Deve-se destacar como
a produção orgânica e convencional podem ser claramente separadas e
identificadas, incluindo os produtos e a documentação.
• Deve-se converter toda a propriedade e o plano de conversão deve
incluir os passos e o tempo aproximado para a conversão total.

4.4. PERÍODO DE CONVERSÃO


A conversão é o período de tempo mínimo necessário para uma unidade
de produção ser considerada apta a receber a classificação de "orgânica", após
ter cumprido todas as exigências específicas para a produção orgânica.
Para se fazer a conversão da área, a unidade de produção deve adotar as
técnicas agropecuárias preconizadas nos regulamentos oficiais para a produção
orgânica e também procurar se adequar às especificidades das normas de produção
da certificadora que pretende contratar. Na conversão, não são considerados
apenas os aspectos normativos, mas também os biológicos e educativos.
Os aspectos educativos da conversão correspondem ao aprendizado por
parte dos agricultores e trabalhadores, dos conceitos e técnicas de manejo que
viabilizam a agricultura orgânica. Esse aprendizado compreende etapas que
precisam ser trilhadas, sucessivamente, para evitar prejuízos no resultado final.
Os aspectos biológicos é a parte mais técnica da conversão, no âmbito do
aspecto agronômico, veterinário, zootécnico e biológico, incluindo o reequ ilíbrio
das populações de insetos e das condições do solo, diferenciação da paisag em ,
e outros I sendo necessária a reorgani zação do conhecimento t écnico.

117
Manual de Horticultura Orgânica

O período de conversão tem por objetivos:


I - assegurar que as unidades de produção estejam aptas a produzir em
conformidade com os regulamentos técnicos da produção orgânica, incluindo a
capacitação dos produtores e trabalhadores; e
II - garantir a implantação de um sistema de manejo orgânico por meio:
a) da manutenção ou construção ecológica da vida e da fertilidade do solo;
b) do estabelecimento do equilíbrio do agroecossistema; e
c) da preservação da diversidade biof6gica dos ecossistemas naturais e
modificados.

A decisão da data a ser considerada rcomo ponto de partida do período


de conversão é estabelecida pelo OAC ( certificadora ou OPAC) e terá como
base as informações levantadas nas inspeções ou visitas de controle interno
que deverão verificar a compatibilidade da situação encontrada com os
regulamentos técnicos, por meio de elementos comprobatórios, tais como:
I - declarações de órgãos oficiais relacionados às atividades agropecuárias;
II - declarações de órgãos ambientais oficiais;
III - declarações de vizinhos, associações e outras organizações envolvidas
com a rede de produção orgânica;
IV - análises laboratoriais;
V - fotos aéreas e imagens de satélite;
VI - inspeção in loco na área;
VII - documentos de aquisição de animais, sementes e mudas; e
VIII - 0 conhecimento dos produtores e trabalhadores dos princípios, das
práticas e da regulamentação da produção orgânica.

A duração do período de conversão é variável, de acordo com:


I - a espécie cultivada ou manejada;
II - a utilização anterior da unidade de produção;
III - a situação ecológica atual;
IV _ a capacitação em produção orgânica dos agentes envolvidos no
processo produtivo;
v _as análises e as avaliações das unidades de produção pelos respectivos
OACs ou OCSs.

118
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológica

De acordo com a legislação, o período de conversão a ser estabelecido pelo


OAC (certificadora ou OPAC) ou OCS, terá a duração mínima de:
- 12 (doze) meses de manejo orgânico na produção vegetal de culturas
anuais, para que a produção do ciélo subsequente seja considerada como
orgânica;
- 18 (dezoito) meses de manejo orgânico na produção vegetal de culturas
perenes, para que a colheita subsequ~nte seja considerada como orgânica;
- 12 (doze) meses de manejo orgânico ou pousio na produção vegetal de
pastagens perenes.

É aconselhado ao interessado em se tornar orgânico, solicitar previamente


visita do OAC em que se pretende inscrever. Pois é com base nas informações,
coletadas na visita prévia, que o inspetor do OAC elaborará relatório, que
definirá a duração do período de conversão, bem como o manejo a ser adotado
neste período.
Após implementar o plano de manejo da unidade de produção, cumprir
os prazos exigidos para o período de conversão, a unidade de produção receberá
do OAC o certificado de conformidade orgânica, que lhe autoriza comercializar
seus produtos como orgânico.

PRINCIPAIS DIFICULDADES NO PERÍODO DE CONVERSÃO

Com base nas dimensões da sustentabilidade (econômica 1 socia l 1


técnica, política e ecológica), pode-se considerar que as unidades de produção
no período de conversão apresentam desequilíbrios, principalmente, nas
dimensões econômica e técnica.
Em relação à dimensão técnica, a menor produtividade acontece no
período de conversão para algumas situações e culturas, em que o manejo do
mato, das pragas e doenças é mais difícil, havendo uma tendência de equilíbrio
ecológico e crescimento da produtividade orgânica com o passar dos anos.
De modo inverso, em projetos realizados em regiões marginais, onde se
pratica agricultura tradicional, observa-se que a conversão pode ser condu zida
com ganhos no rendimento das culturas. Trata -se, neste caso, da intensificação
do uso de práticas orgânicas. Contudo, em sistemas intensivos no uso de
insumos químicos e com rendimentos físicos muito elevados, pod e-se esperar
uma baixa na produção.

119
Manual de Horticultura Orgânica

De modo geral, a agricultura orgânica é menos eficiente em termos


de produtividade, mas cabe salientar que os agricultores orgânicos não estão
preocupados com a produtividade em si, mas com o rendimento do sistema
no seu conjunto. Por isso, uma produção por área menor do que a do sistema
convencional não significa um menor desempenho global da unidade de produção.

IMPACTOS DO PERÍODO DE CONVERSÃO NOS ASPECTOS


~ ,
ECONOMICOS E ECOLOCilCOS DA PROPRIEDADE

Os maiores riscos econômicos de abandonar a atividade, em curto


prazo, ocorrem na fase de conversão, daí a necessidade de financiamentos
e incentivos específicos a esse período, para que os produtores permaneçam
na atividade, até que a fase de conversão termine, e haja condições de o
agricultor comercializar sua produção como orgânica.
No período de conversão também ocorrem deficiências na integração de
atividades como lavoura, pecuária e floresta. Acarreta maior dependência de
insumos externos, o que dificulta o equilíbrio dos fatores econômicos em função
do aumento de custos com insumos.
Analisando os aspectos ecológicos internos do sistema, percebe-se que
as unidades com maior dificuldade no processo de conversão são aquelas que
apresentam os recursos naturais mais degradados, pouca diversificação e falta
de integração das atividades.
Diversos estudos demonstram que a agricultura orgânica é uma
alternativa sustentável e que a medida em que o sistema orgânico se consolida
na unidade de produção há uma tendência de equilíbrio entre as diferentes
dimensões da sustentabilidade. Além disso, a conversão da agricultura
convencional para a agricultura orgânica, apesar de ser uma etapa delicada
nos primeiros dois anos, proporciona com o passar do tempo um impacto
favorável ao agricultor, ao consumidor e ao meio ambiente.

4.5. PROJETO DE CONVERSÃO (PLANO DE MANEJO)

o processo deve ser conduzido segundo uma sequência lógica e explícita,


isto é, um projeto de conversão. Esse projeto basicamente constitui-se de um
diagnóstico de toda a propriedade, levantando todos os recursos disponíveis,
além das relações sociais e comerciais que esta mantém, assim como a
ocupação da área e o seu respectivo rendimento físico e econômico.

120
A Conversã o à Horticultura Orgânica Agroecológ íc o

Nesse diagnóstico são identificadas as principais dificuldades e entraves,


assim como o potencial da propriedade. Nessa fase, são identificadas as
necessidades do agricultor, incluindo a sua capacitação. O projeto deve incluir
um cronograma e um flu xograma entre as atividades, estabelecendo-se metas
claras e viáveis .
O aspecto comercial é, também extremamente importante nesse processo.
Um projeto bem feito não poderá prescindir dessa fase ou etapa . Os "canais"
de comercialização devem ser previamente identificados e definidos .
A certificação é também necessária para assegura r direitos aos agricultores
de um produto diferenciado. A área ou propriedade estará convertida quando
tiver cumprido os prazos e as prescrições previstas nas normas, quando estarão
habilitados a receber o " selo de qualidade".
No quadro em destaque adiante, apresentamos um exemplo de roteiro
para a elaboração de um projeto de conversão.

ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DE UM PROJETO DE CONVERSÃO


(PLANO DE MANEJO)

1 il ETAPA: PROTEÇÃO DO ECOSSISTEMA NATURAL

• Definição das ações de preservação ambiental de âmbito geral


(flora, fauna, recursos hídricos, ar e recursos edáficos) . Deve-se manter
uma parte significativa da propriedade que facilite a biodiversidade e a
conservação da natureza .
• Manter áreas para refúgio de vida silvestre, como:
◊ Áreas sem cultivo ou criações, como pastos, cercas vivas, bosques,
grupos de árvores e arbustos, florestas etc.;
◊ Para cultivas extensivos, manter faixas da vegetação nativa;

◊ canais, lagoas, mananciais, pântanos, mangues, áreas úmidas e


outras áreas ricas em água que não são usadas para agropecuária ou
aquicultura;
◊ Corredores de vida silvestre que proverem vínculos e conexões
entre habitats nativos .

• A engenharia genética deve ser excluída da produção e do


processamento orgânico, visando proteger o ecossistema natural e 0
agroecossistema.

121
Manual de Horticultura Orgânica

2" ETAPA: CONSTRUÇÃO DO AGROECOSSISTEMA

Planejamento e desenho:
• Planejar as atividades de forma interativa e desenhar o sistema a
partir das orientações de preservação do ecossistema natural.

Integração animal:
• Avaliar a possibilidade de manutenção ou de inserção de criações
animais no sistema, como forma de maximizá-lo, ambientalmente e
economicamente.

Diversificação:
• Sistemas de produção diversificados são mais estáveis, porque
dificultam a multiplicação excessiva de determinada praga e doença e
permitem que haja melhor equilíbrio ecológico no sistema de produção,
através da multiplicação de inimigos naturais e outros organismos benéficos.
• Diversificar a paisagem geral, de forma a restabelecer a cadeia
alimentar entre todos os seres vivos, desde microrganismos até animais
maiores e pássaros .
• Compor uma diversidade de espécies vegetais, de interesse comercial
ou não, recomendando que se opte por espécies locais, adaptadas às
condições edafoclimáticas da região.

Manejo geral da vegetação espontânea:


• Descrever os meios utilizados para o manejo e controle de plantas
invasoras. O bom manejo de plantas invasoras pode diminuir a erosão
aumentar os inimigos naturais, promover a ciclagem de nutrientes,
'
melhorar as condições físicas do solo etc .
• Os meios: capina ou roçada, manual ou mecanizada devem ser
descritos; em plantio direto ou cultivo mínimo o controle é modificado·I em
culturas perenes a associação com leguminosas, as capinas alternadas, a
alternância de capinas e roçadas, podem ser práticas a serem descritas .
• Duas formas, isolada s ou associadas, visando permitir a conservação
natural da vegetação do próprio loca l:

122
A Conversão à Horticultura Orgânic a Agroecoló g ica

1º. Não utilizar intensivamente o solo, procedendo ao planejamento


de faixas de cultivo, intercaladas com faixas de vegetação espontânea,
chamadas de corredores de refúgio. Para divisão dos talhões de plantios,
deixar corredores com 2,0 a 4,0 m de largura, para abrigar a fauna local.
2°. Proceder ao controle parcial da vegetação ocorrente dentro das
áreas cultivadas, aplicando a técnica de capinas em faixas para culturas
com maiores espaçamentos nas entrelinhas e manutenção da vegetação
entre os canteiros para culturas cultivadas por esse sistema de plantio .

Plano de rotação ou sucessão dos cultivas e adubação verde:


• Estabelecer um sistema de produção com culturas diversificadas, de
interesse comercial.
• Recomenda-se adotar um plano de uso do solo de forma mais
sustentável possível, procedendo ao planejamento dos plantios, visando
permitir o descanso (pousio) e a revitalização dos solos, no máximo de
dois em dois anos (culturas anuais), através do plantio solteiro ou misto,
de leguminosas e gramíneas, fato que promoverá fixação biológica de
nitrogênio e estruturação do solo, respectivamente .

Quebra-vento ou Zonas de amortização:


• Uso de barreiras de árvores e, ou arbustos como quebra-ventos
ou como zona de amortização, para melhorar o microclima, aumentar
a produtividade, diminuir a erosão eólica ou evitar a contaminação por
deriva de áreas convencionais .

]il ETAPA: MANEJO DO SOLO

• Estabelecer medidas para minimizar a perda da capa superior do solo


estabelecendo cultivo mínimo, aração superficial, seleção de cultives protetores
de solo, manutenção de coberturas, dentre outras.
• Tomar medidas para prevenir a erosão, compactação, salinização e
outras formas de degradação do solo.
• Os sistemas de produção, processamento e manipulação deverão
devolver ao solo os nutrientes, a matéria orgânica e outros recursos removidos
pela colheita, através ~a reciclagem e adição de matéria orgânica e nutrientes .

123
Manual de Horticultura Orgânica
...:::..:.:,...

• Dentre as alternativas tecnológicas, destacam-se o cultivo mínimo e


o plantio direto como práticas de suma importância a serem adaptadas a
sistemas orgânicos de produção, com vistas a perturbar o mínimo possível
a estrutura física e a vida biológica do solo.
◊ Emprego do plantio direto, sempre que possível, utilizando-se dos
seguintes equipamentos:

Rolo-faca: para acamar espécies de cobertura. Existem modelos de


tração animal, microtrator e tratores.
Rolo-disco: Usado para acamar espécies que apresenta m maior
dificuldade de acamamento, como a mucuna, devido ao seu hábito de
crescimento.
Triturador: implemento acoplado ao microtrator, igual a um t riturador
de grãos, sendo indicado para espécies mais fibrosas (sorgo, milho,
milheto, crotalárias).
Roçadeira: existem modelos para microtrator e trator, podendo ser
utilizada para adubos verdes menos fibrosos ou com muita rama (ex:
mucuna) e ervas espontâneas.

o Utilizar o sistema
de preparo tradicional, com aração e gradagem,
o mínimo possível de forma racional, e utilizar a enxada rotativa apenas
em caso de extrema necessidade, limitando-se apenas para culturas que
necessitam de encanteiramento.
◊ Para hortaliças de espaçamentos maiores, plantadas em covas
ou sulcos, pode-se empregar diretamente o preparo manual ou utilizar
equipamentos como sulcador ou ainda a enxada com dois jogos de facas,
cultivando apenas a linha de plantio.
◊ É recomendável proceder a rotação de culturas, envolvendo espécies
que exigem sistemas de preparo de solo diferentes, intercalando espécies
de preparo intensivo com espécies de plantio direto.
◊ Uso do subsolador em áreas submetidas a cultivas intensivos ( em
média, de dois em dois anos) .
• A recomendação de queimada da vegetação deverá restringir-se ao
mínimo.

124
A Conversã o à Ho rticultura Org â nica Agroecológica

4ª ETAPA: MANEJO DA ÁGUA

• Adotar técnicas para a conservação da água, tais como: aumentar


o conteúdo de matéria orgânica no solo; ajustar épocas de plantio que
permitam aproveitamento das chuvas e adotar um sistema de irrigação
apropriado .
• Aplicar os insumos de maneira adequada para nao contaminar as
fontes de água, superficialmente ou por infiltração.
• Na manipulação e no processamento orgânico, deve-se prever
sistemas que permitam o uso responsável e a reciclagem da água sem que
se contamine com produtos químicos ou patógenos.
• Planejar e desenhar sistemas que usem a água de maneira apropriada
ao clima e à geografia local.
• O processo produtivo não deve esgotar ou explorar excessivamente
as fontes de água e deverá buscar preservar a qualidade da água .
• Sempre que possível , deve-se reciclar a água da chuva e monitorar
a extração da água disponível localmente.
• Caixas secas :

◊Importância: controlar a erosão; conservar as estradas; retardar


o escoamento das águas das chuvas; evitar assoreamento de leitos de
rios e lagos; reintroduzir essa água no lençol freático ; disponibilizar essa
água para manutenção das nascentes durante o ano todo, proporcionando
estabilidade na vazão.
◊ Diagnosticar as estradas que servem à propriedade.

◊ Estabelecer um projeto adaptado às condições locais.

5ª ETAPA: SISTEMA DE CICLAGEM DE MATÉRIA ORGÂNICA E MANEJO DE


DEJETOS E POLUENTES

• Descrever como será produzida ou adquirida a matéria orgânica e


como será manejada .
• Descrever os adubos e condicionadores a serem produzidos na
propriedade, como serão utilizados, em quais culturas, em que quantidades,
em quais épocas, com quais equipamentos etc .
• Descrever os modos de aplicação de excrementos e fertilizantes
orgânicos e controle dos efluentes.

125
Manual de Horticultura Orgânica

• Material biodegradável de origem microbiana, vegetal ou animal


produzido com práticas orgânicas devem ser a base do prog rama de
fertilidade do solo.
• Atentar para os riscos de contaminação de metais pesados e outros
contaminantes.
• Descrever o manejo e destino de resíduos (lixo, esgoto, esterco,
manipueira, vinhoto etc.). Os resíduos ou dejetos de qualidade controlada
e de interesse para composição do sistema de reciclagem e nutrição de
plantas devem ser manejados adequadamente para este fim.
• Recomendar que estruturas de cobertura sintética, coberturas
plásticas do solo, ou outros potenciais poluentes deverão ser removidos
da área e não deverão ser queimados, mas enviados para unidades de
reciclagem.

. DOS SISTEMAS DE PRODUCÃO


6il ETAPA: DEFINICÃO .
No plano de manejo orgânico ou plano de conversão, deve-se abranger toda
a produção, desde sementes até a venda, devendo ser descrita passo a passo:
sementes, mudas, plantio, controle de ervas, doenças, insetos, manejo de
fertilidade, colheita, armazenamento, limpeza, classificação, processamento,
estocagem, exportação ou vendas.
Tópicos orientadores para a descrição do cultivo vegetal

• Clima e cultivares
• Obtenção de sementes ou mudas
• Época de plantio
• Preparo do solo
• Adubação orgânica
• Adubação verde
• Sistema de plantio e espaçamento
• Manejo e tratos culturais
◊Irrigação

◊ Cobertura morta
◊ Adubação em cobertura

126
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológica

◊ Desbaste
◊ Tutoramento

◊ Condução das plantas: poda, raleio, polinização, desbrota etc.


◊ Nutrição de plantas
◊ Manejo e controle de ervas
◊Amontoa

• Manejo e controle de pragas


• Manejo e controle de doenças
• Colheita, preparo e classificação
• Processamento
• Embalagem
• Custo de produção

7ª ETAPA: CARACTERIZAÇÃO DOS PRODUTOS OU INSUMOS OBTIDOS DE


FORA DA UNIDADE DE PRODUÇÃO

• Descrever os produtos permitidos a serem adquiridos fora da unidade


de produção, identificando ao máximo possível a procedência e forma de
manejo dos mesmos .
• Descrever os produtos a serem utilizados "somente se constatada
a necessidade" . Ex .: o K é fornecido pela maior ciclagem da matéria
orgânica, mas as fontes minerais aceitas pelas normas são usadas de
forma complementar e justificadas de acordo com as condições de solo e
as exigên cias da cultura .
• Apresentar a composição química, física e biológica dos insumos,
preferencialmente baseados em análises das fontes que serão empregadas
no projeto. No caso de fontes orgânicas ou reconhecidamente idôneas
por histórico ou análises anteriores, pode-se apresentar dados m édios ou
dados similares obtidos em literatura .
• Descrever quando serão suprimidas as medidas não orgânicas.

127
Manual de Horticultura Orgânica

8ª ETAPA: CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO DAS ATIVIDADES (E¾IEMPLO


HIPOTÉTICO>

Apresentar o período de execução das atividades, para permitir o devido


agendamento e acompanhamento da certificadora . Apenas como ilustração,
verifique o exemplo a seguir:

- - - - - -

SISTEMA/ ATIVIDADES PERIODO


GLEBAS DE INÍCIO
Análise de solos por GLEBA ou TALHÕES Mar/2013
Plantio de árvores nativas/frutíferas Set/2013
Aquisição de sementes de leguminosas Mar/2013
Fosfatagem (em função da análise do solo) Mar/2013
SISTEMA Subsolagem (se necessário) Mar/2013
Preparo dos poços para irrigação Mar/2013
lmplan tação das caixas secas Jul/2013
Demarcação do pátio de compostagem Mar/2013
Preparo de compostos orgânicos Abr/2013
Demarcação dos talhões, das faixas de capineira e
dos corredores de refúgio Mar/2013
Plantio do capim Cameron Mar/2013
GLEBA 1 Semeio, a lanço, do coquetel de leguminosas Mar/2013
Roçada e incorporação do adubo verde Jul/2013
Início dos plan tios Ago/2013
Relacionar atividades dos sistemas produtivos agendar
Demarcação dos talhões, das faixas de capim
cidreira e dos corredores de refúgio Mar/2013
Plantio do capim cidreira Mar/2013
Semeio, a lanço, do coquetel de leguminosas ou
GLEBA 2 plantio em sulcos de Mucuna Preta. Mar/2013
Roçada e incorporação do adubo verde Jul/2013
Início dos plantios Ago/2013
Relacionar aliv idades dos sistemas produtivos agendar
ETC...
- - -

128
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológico

9ª ETAPA: ESTIMATIVA DE PRODUÇÃO ORGÂNICA (EXEMPLO HIPOTÉTICO)

Como parte das exigências para a certificação, deve-se apresentar uma


estimativa da produção orgânica para cada ramo de atividade orgânica do
projeto, visando atender ao controle da origem, exigida no manual da qualidade
e nas normas técnicas da certificadora. Verifique o exemplo adiante para um
projeto de produção de hortaliças orgânicas.

Caraclerização e estimativa de produção, em fun ção da d emanda d e horta !iça s

Espécie Demanda Rendimen10 Área a ser Jn1er valo Án:a Pr odução


semanal total/m 2 plantada pia ntio ocupada/ esperada po r mc:s
(m2) ciclo
AIface crespa 100 un 9- 12 15 semanal 90 400 un
Alface roxa 100 un 9- 12 15 se manal 90 400 un

Alface a me ricana 100 un 9- 12 15 semanal 90 400 un

Chi cória 100 un 9- 12 15 semanal 90 .mo un


Cebolinha 100 mlh 0,7 15 se manal 120 -I00mlh
Sal sa 100 mlh 5 40 quinzenal 60 -100 mlh

BeterrJba 50 kg 2 50 quinzenal 400 200 kg

Cenoura 50 kg 2 50 quinzenal 400 320 kg

Rabanete 20 kg 1.5 15 semanal 120 80 kg

Couve-ílor 60 un 1.5 80 quinzenal -1 80 2-10 un

Repo lho 60 un 3 40 quinzenal 240 240 un

Bróco li s 60 molhos 1 300 bimensal 600 240 mlh

Abobrinha caserta 25 kg 1,6 100 Bimensa l 300 100 kg

Quiabo 50 kg 1.5 25 0 2 plantios 500 200 kg

Pimcntiio 30 kg 1.5 200 2 planüos 400 120 kg

Berinjela 30 kg 4 100 2 plantios 200 120 kg

Vagem 40 kg 2 .5 200 3 planüos 600 160 kg

MorJngo 30 kg 2 300 1 plan1io 300 120 kg

Tomate Ct.:rcja 20 kg 1 200 2 planti0s .H)Q 1Wl-.g

Alho 30 kg 0.4 200 2 plantios -1 00 120 !..g

80 kg 2 200 2 pl antio:. -100 J20 1-.g


Bawta-baroa
lnh11111c 75 kg 1.s 200 2 pl,111tiu~ -100 :rnu 1-.g
TOM AT E/EST Uí-' A 150 kg 5 300 300 (ll)l)i,. g

J•EPI NO/EST UFA 150 kg 5 .WO • .Hill t-Llll 1-.~

TOT A IS - - - - 7.280 111 : -

129
Manual de Horticultura Orgânica
2Q:s,

Apresentares ewstos Jl)revistes 1:>ara a ilililplememtação de todas as atividaGtes


prod11Jtlvas. A apresentação <da expectativa de retomo é opcional.

4.6. EXEMPLOS DE PLANOS DE CONVERSÃO


4.6.1. SÍTIO "ENGENHO VELHO"

Nesta seção, apresentaremos um resumo de um estudo de plano de conversão,


descrito por Khatounian (2001), para o sítio "Engenho velho", que permitirá
completar o entendimento do processo de conversão de uma propriedade.
A conversão para a agricultura orgânica comporta um grande número
de possibilidades, em função da grande diversidade existente nos sistemas
agrícolas. Além disso, exige a mobilização de conhecimentos multidisciplinares,
segundo a natureza e os determinantes do sistema em foco.
Assim, esse exemplo foi abordado por compreender boa parte dos
temas técnicos relativos à conversão à agricultura orgânica e por não ser
complexo demais, a ponto de dificultar um entendimento dos procedimentos
recomendados para a conversão. Ademais, deve-se ter em mente que o
objetivo desse exemplo não é mostrar soluções tecnológicas, mas exercitar o
método de abordagem sistêmica aplicado à conversão.

SITUACÃO
, ATUAL
o sítio
"Engenho Velho", localizado em Capanema, é uma típica exploração
familiar do sudoeste do Paraná, iniciada pelo Sr. Sebastião Moraes, logo após a
compra de seus 12 ha em 1965. As principais explorações atuais são as lavouras
anuais, cultivadas para renda (soja, milho, feijão) e, ou consumo doméstico
(milho, feijão). Contudo, considerando o mercado atual para grãos, a área
disponível não é suficiente para o atendimento das necessidades de renda da
família. A soja é pesadamente onerada pela contratação de serviços de terceiros
e sua produtividade é prejudicada pela má qualidade da mão de obra.
o milho e O feijão são cultivados em consórcio, semeando-se primeiro 0
feijão e um mês depois, 0 milho. Também nessas culturas a escala de produção
é insufi~iente em face da necessidade de renda da família.

130
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológica

Na Tabela 4.2 e na Figura 4.1 A é apresentado um resumo da situação


atual da propriedade, onde, em relação às normas de produção orgânica,
entram produtos proibidos (agrotóxicos), sobretudo para a soja. Entram
também fertilizantes nitrogenados (ureia) para o feijão e milho, embora em
quantidades menores.
A ideia de ent rar na produção leiteira encaixa-se bem em termos da
utilização da força de t rabalho, como da geração de renda e do fluxo de
materiais. As recei ta s e despesas são computadas da maneira que os
agricultores normalmente as consideram. No item receitas, registram-se as
entradas derivadas da venda dos produtos. As despesas incluem apenas o
custeio, não se atribuindo valor monetário ao trabalho, nem à depreciação dos
equipamentos e benfeitorias, nem à produção para consumo doméstico.

PROPOSTA DE CONVERSÃO

Na Tabela 4.3 e na Figura 4.1B resume-se a proposta de conversão


adotada, a qual consiste na instalação e no manejo de um sistema de produção
orgânico funcionalmente diversificado, com 7,5 ha dedicados à geração de
renda com gado leiteiro e culturas anuais de grãos (soja, milho, feijão), e 0,5
ha dedicado à produção para consumo doméstico. Essa proposta de produção
integrada de grãos e de leite inclui elementos de manejo que privilegiam a
manutenção da fertilidade do sistema, reduzindo a necessidade de mão de
obra e propiciando sua saúde econômica. O êxito biológico do sistema proposto
se baseia em alguns princípios, a saber:

1;
1 - Dividir a área útil de 8 ha em dois grandes talhões: um de culturas 1

temporárias, com 5 ha, e um com pasto perene de napier e leucena, com 3


ha. Esses talhões não precisam ser contínuos, mas sim serem distribuídos
de for.ma a reservar para as lavouras as áreas mais férteis.
2 - A produção de biomassa, na forma de palhada, e a fixação de
nitrogênio deverão estar sempre associadas, como nas sequências
soja-aveia e milho-ervilhaca, ou na associação napier-leucena. Se essa
associação não for observada, o sistema definhará por falta de N ou falta
de palhada.
3 - No talhão de lavouras, as áreas para soja-aveia preta, milho x feijão-
adubo verde e culturas para consumo doméstico deverão ser rotacionadas
entre si.

131
Manual de Horticultura Orgânica

4 - O máximo esforço deverá ser direcionado para a produção de


palhadas, a fim de reduzir a necessidade de capinas na soja e no consórcio
milho x feijão.
5 - A produção de leite será baseada em pasto, de napier e leucena
no verão e de aveia preta no inverno. A manutenção de fertilidade nesses
pastos será baseada no pastejo rotacionado, mantendo-se os est oques de
nutrientes através da mineralização do gado e da adubação da soja .
6 - Haverá sempre uma competição latente entre a utilização da aveia
para o gado e sua utilização como palhada. Se o gado for privilegiado,
haverá menos palhada e, portanto, maior necessidade de capinas nas
culturas de verão. Esse ponto merece redobrada atenção em função de
sua importância para o balanço econômico, de trabalho e de fertil idade do
sistema.

A cultura da soja terá sua área reduzida, mas continuará em plantio direto.
O controle de ervas será obtido com a palhada de aveia, complementada pela
capina manual. Para sua nutrição mineral, serão utilizados inoculantes e, de
acordo com a análise do solo, fosfatos naturais de Arad ou Gafsa e cinza de
madeira, esta última disponível numa agroindústria próxima.
Se necessário, o controle da lagarta da soja será baseado em Baci/lus
thuringiensis e, ou Baculovirus anticarsii, e o de percevejo em Trisso/cus basa/is
e iscas com inseticidas naturais.

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Como reserva técnica de forragem, será plantada cana nos terraços das
áreas de lavoura .

132
A Conversão à Horticultura Orgânica Agroecológica

Tabela 4.2 - Situação atual: principais atividades econômicas, área e renda


,
Area Produção Receita Despesas R-D
Atividade (R$) (R$)
(ha) (tl (R$)*
- ':.-1 - ,. . . .',1 ~t .. ·.
Soja 4,5 11,3 2.800 1.900 900
Milho (x Feijão) 3,0 7,5 1.000 400 600
Feijão (x Milho) 3,0 2,0 1.330 400 930
Totais 8 ,0 5.130 2.900 2.430
* Preço saca 60 kg: Soja - R$15,00. Milho - R$ 8,00. Feijão - R$ 40,00.

Tabela 4.3 - Proposta de conversão: principais atividades econômicas, área e


renda
··~·,. Área I Produção I Receita I Despesa 1 R- D R-D
Atividade ,: 1
- ';jl;-'r (ha) ~t) (R$) (R$) (R$)2 (R$)3

Verão - Soja 3,0 7 t 1.750 600 1.090 1.615


Inverno - Aveia preta 4 t 60
Verão - Feijão + Milho 1,5 1t+4 t 670 + 200 960 1.320
Inverno - Mucuna ou ervilhaca 5 t 530 40
Napier com Leucena 3,0 15 t - - - -
Culturas para consumo
doméstico
0,5 2t - - - -
1
6 vacas leiteiras com 7 1/dia 12.600 1 2.520 220 2.300 3.056
Totais 8,0 5.470 1.120 4.350 5.991
1) 7 1/dia, 300 dias lactação/ano.
2) Mercado normal: Saca 60 kg: Soja - R$ 15,00. Milho - R$ 8,00. Feijão - R$ 40,00. Leite a
R$ 0,20/1.
3) Mercado orgânico : prêmio de 30%.

133
Manual de Horticultura Orgânica

A-Atual

soja
---+ milho
feijão

B - Proposto
l
inverno) soja (verao)
<
~ ;~~rr,
\
losfalos
potássio
sais minerais -
.'

j
llxiv1açao

Figura 4.1 - Representação esquemática dos sistemas de produção atual (A) e


proposto (8).

"
4.6.2. FAZENDA "SOUZA ORGANICOS"

No Anexo 2, está apresentado um exemplo de projeto técnico detalhado,


visando auxiliar a compreensão de técnicos e agricultores que irão trabalhar
na atividade. o projeto abrange 12 hortaliças e descreve os procedimentos a
serem adotados por uma propriedade, no sentido de estabelecer um sistema de
produção de hortaliças orgânicas, especificando os manejos e as expectativas
de produção e venda.
Manual de Horticultura Orgânica

5.1 IMPORTÂNCIA DO ENFOQUE ENERGÉTICO

Um ponto central nas análises de sustentabilidade na agricultura tem-se


baseado na eficiência energética dos sistemas de produção. A energia, por ser
um componente básico da vida, apresenta um papel fundamental e "soberano"
na natureza.
É igualmente importante para a terra, água e os recursos humanos na
produção de alimentos. Além da energia empregada na forma de esforço
humano, a luz do sol e a energia fóssil têm sido as principais fontes utilizadas
na produção agrícola atualmente (PIMENTEL et. ai, 1990).

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lt ,., ~10

Os ecossistemas naturais captam e transformam energia constantemente


e, dependendo da forma que esse processo ocorra, podem ser mais ou menos
eficientes no uso dessa energia.
Os agroecossistemas representam uma forma de manipulação humana da
energia total, ou seja, utiliza-se da agricultura para converter a energia solar
em formas particulares de biomassa, que será usada como alimento, ração,
fibra e combustível.
Todos os agroecossistemas - dos mais simples aos mais complexos -
requerem um aporte de energia humana, além daquela oferecida pelo sol. Este
aporte é necessário devido à remoção pesada de energia dos agroecossistemas
na forma de material colhido.
No presente capítulo, aborda-se, especificamente, esse balanço de energia
em sistemas de produção de hortaliças, por ser um dos ramos da agricultura
de maior demanda energética, por empregar cultivares de alta resposta a
fertilizantes minerais industriais, pela dependência intensa de maquinaria e
elevada dependência de outros insumos externos, como os agrotóxicos de alto
custo energético.

\
136
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Hortaliças

Esse quadro já insustentável atualmente, tenderá a ser ainda mais no


futuro. Portanto, entender os estudos e procurar alternativas e indicadores
de uso eficiente da energia nesses sistemas, torna-se preponderante para as
necessárias mudanças na forma de se produzir esses alimentos.

5.2. (IN)SUSTENTABILIDADE ENERGÉTICA

Nas últimas décadas, a chamada "modernização" da agricultura tem


priorizado a colocação de quantidades cada vez maiores de energia nos
sistemas produtivos, para aumentar os rendimentos, com o agravante de
que grande parte desse aporte de energia adicional seja originada, direta
ou indiretamente, de fontes não renováveis, principalmente os combustíveis
fósseis, de altos custos energéticos, conforme se pode verificar nas Tabelas
24 e 25 (PIMENTEL, 1990; GLIESSMAN, 2000; LEON, 1997). Isso impõe
uma séria preocupação para todos nós: a quantidade de energia investida
na produção de alimentos, muitas vezes, tem sido maior do que o retorno
conseguido em valor energético de alimentos, proporcionando um balanço
negativo indesejável, comprometendo a sustentabilidade.

Tabela 5.1 - Conteúdo energético de diversos tipos de aporte de energia cultural


biológica à agricultura

j Tipos de aporte Valor energético


Trabalho humano pesado (como limpar
400 - 500 kcal/h
com um facão)
Trabalho humano leve ( como dirigir um trator) 175 - 200 kcal/h
Trabalho de animal grande de tração 2.400 kcal/h
Semente produzida localmente 4.000 kcal/kg
Esterco de vaca 1.611 kcal/kg
Esterco de porco 2 .403 kcal/kg
Composto comercial 2.000 kcal/kg
Lodo de biodigestor 1. 7 30 kcal/kg
fonte: Cox e Atkins (1979), Pimentel (1984) e Zhengfang {1994), citados por GLIESSMAN
(2000).

137
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 5.2 - Custos energéticos aproximados de insumos culturais industriais de


uso comum na agricultura

1 Insumos cultura is ind ~stria is


l -- i~l
..i €usto -~'~e rgético ·.-.:
Maquinária (média para caminhões e tratores) 18.000 kcal/kg
Gasolina (incluindo refino e frete) 16.500 kcal/1
Diesel (incluindo refino e frete) 11.450 kc al/1
GLP (incluindo refino e frete) 7.700 kcal/1
Eletricidade (incluindo geração e transmissão) 3.100 kcal/Kwh
Nitrogênio (corro nitrato de arronia) 14. 700 kca l/kg
Fósforo ( corro su perfosfato triplo) 3.000 kcal/kg
Potássio ( corro potassa) 1.860 kcal/kg
Calcário (incluindo mineração e processamento) 295 kcal/kg
Inseticidas (incluindo fabricação) 85.680 kcal/kg
Herbicidas (incluindo fabricação) 111. 070 kcal/ kg

Fonte: Fluck (1992), citado por GLIESSMAN (2000).

Ma e Jones (1997), estudando as características de entradas e saídas de


insumos na agricultura, em três regiões da China, identificaram diferenças
significativas de sustentabilidade. Na região de Ningxia, a eficiência energética
foi superior às demais, o que, segundo os autores, sugere a necessidade de
se empregar essa metodologia de análise em outros agroecossistemas, como
forma de subsidiar na tomada de decisões para a implantação de planos e
políticas de desenvolvimento.
Estudando os aspectos energéticos nas mudanças do setor agrícola de
quatro microrregiões do estado de São Paulo (Jaú, Piracicaba, Botucatu e Tatuí),
Krom e Paccola (1995) verificaram uma elevação significativa na demanda de
energia dessas regiões, no período de 1970 a 1985, basicamente pelo aumento
de maquinaria, combustíveis e fertilizantes químicos. Concluíram que a
transformação brusca que foi imposta à agricultura não possibilitou mecanismos
para que esta pudesse se desenvolver de forma harmônica, constituindo -se
num apêndice do sistema capitalista, incorporando sua forma própria de gerir,
e tornando- se altamente dependente da matriz energética nacional.

138
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Hortaliças

Pimentel (1984), citado por Pimentel et. ai (1990), reporta que 17% do total
de energia usada na economia dos Estados Unidos é consumida nos sistemas
de alimentação, distribuídos em 6% para a produção, 6% para processamento
e embalagem e 5% para a comercialização. Estes 17% representam
aproximadamente 1500 1de combustível/pessoa/ano, só para se alimentar.
Se todas as pessoas da terra ( 4, 7 milhões em 1984) se alimentassem
de forma sim ilar aos americanos e também produzissem os alimentos com a
mesma tecn ologi a empregada naquele país, o total de reservas conhecidas de
petróleo na terra duraria apenas 12 anos.

5.3 RESULTADOS DE PESQUISAS SOBRE USO E


BALANÇO DE ENERGIA EM SISTEMAS DE
PRODUÇÃO AGRÍCOLA

A literatura científica, nacional e internacional, ainda é bastante limitada


em trabalhos dedicados a esse tema, principalmente envolvendo espécies
de hortaliças. Esse grupo de culturas, na maioria das vezes, é analisado no
contexto do sistema produtivo, em vez de análises por espécie. Nessa seção,
estão apresentados alguns importantes estudos, que têm contribuído de forma
decisiva para a compreensão da questão energética na agricultura.
A melhor adaptabilidade das espécies e variedades vegetais às condições
edafoclimáticas de cada região é uma das premissas básicas para melhor
aproveitamento da energia, promovendo melhores rendimentos e rentabilidade
econômica, com um balanço energético mais eficiente. Essa premissa foi
confirmada por Tripathi e Sah (2001), estudando os fluxos de energia de três
ecossistemas da vila Garhwal - Himalaia (regiões de alta, média e baixa altitude) ,
verificando que sistemas de produção de hortaliças ( ervilha, batata, repolho
e mostarda) apresentavam-se mais rentáveis nas regiões altas, enquanto o
trigo, o arroz e a soja apresentaram entradas/saídas energeticamente mais
eficientes nos sistemas empregados em montanhas médias.
Em um estudo semelhante, realizado por Semwal e Maikhuri (1996) , nessa
mesma região do Himalaia, os autores citam que os sistemas de produção
predominantes naquelas regiões de maior altitude não são adaptados a
técnicas industrializadas, particularmente devido às condições topográficas
e às condições socioeconômicas. Por esse motivo, os sistemas se baseiam
predominantemente em recursos naturais disponíveis em nível local. Entretanto,
reportam que, do total da entrada de energia nesses agroecossistemas, mais

139
Manual de Horticultura Orgânica

de 50% são advindos de resíduos orgânicos (esterco e urina animal, restos


vegetais e sobras de alimentos. O restante engloba trabalho humano, tração
animal, mecanização e sementes. A degradação ambiental (especialmente o
desmatamento) em curso na região coloca em risco a sustentabilidade desse
sistema produtivo.
A monocultura se apresenta como uma das maiores causas de redução na
eficiência energética de sistemas de produção. Isso é provocado pela pequena
cobertura do solo (que induz a perdas por evaporação e por erosão), associado
à grande dependência de insumos externos (adubos químicos e agrotóxicos -
ambos de elevado custo energético).
Nesse sentido, o emprego de práticas que reduzam os problemas delineados
podem ser uma alternativa, especialmente através do emprego de rotações
de cultura e manejo de espécies de adubos verdes para cobertura do solo e
fixação de carbono e nitrogênio (LI et. ai., 2002; SANTOS et. ai., 2000; URI et.
ai., 1998).
Outros trabalhos, avaliando métodos, técnicas e equipamentos empregados
na agricultura, verificaram a possibilidade de aumentar a eficiência energética,
apenas alterando práticas pontuais no sistema de produção. Pontes et. ai.
(1999) mostram a maior eficiência energética de equipamentos para o cultivo
mínimo do solo com rolo-faca, grade aradora e roçadora, por apresentarem
menor consumo de combustível. O plantio direto para milho, quando comparado
ao cultivo convencional, mostrou-se mais eficiente, energeticamente, por
apresentar menor tempo efetivo demandado (h/ha), menor consumo de
combustível (1/ha) e menor uso específico de energia por área (KWh/ha),
segundo Marques e Benez (2000).
Reconhecidamente, a estabilidade geral dos agroecossistemas dependem
de um conjunto específico de estabilidades, que ocorrem em vários níveis no
sistema produtivo, a começar pelo solo, através da ativação da microbiologia,
fundamental para o equilíbrio e a saúde do sistema solo-planta.
Mesmo que essa estabilidade não se correlacione com o fluxo energético
- conforme verificado por Ruiter et. ai., 1998 - será preponderante para um
melhor desempenho dos sistemas para a produção de alimentos, de forma
mais regular e estável ao longo dos anos.
Também, 0 emprego de indicadores de sustentabilidade dentro dos sistemas
produtivos têm sido uma alternativa muito utilizada pelos pesquisadores. Nesse
contexto, 0 co tem sido utilizado como um dos indicadores de sustentabilidade
energética, atr~vés de estudos de fluxo nos sistemas produtivos. A minimização
de perdas de energia pelo maior aproveitamento ou fixação do carbono no
sistema é uma necessidade comprovada em diversos trabalhos de pesquisa,

140
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Hortaliças

tanto em nível de sistema (PYPKER e FREDEEN, 2002), quanto em nível de


cultivos (PLUIMERS, 1998).
Loake (2001) quantifica e compara eficiências de energia em sistemas
convencionais e orgânicos no Reino Unido, enfocando a perspectiva da energia
humana, argumentando que a maioria dos trabalhos que comparam esses dois
sistemas tem negligenciado questões básicas, preocupando-se apenas com
gastos de energia e esforço físico dos fazendeiros, em vez de dedicar atenção à
saúde do mesmo (verifique a comparação apresentada nas Figuras 5.1 e 5.2,
quanto ao batimento cardíaco de um produtor orgânico e um convencional).
Pelos batimentos cardíacos mais intensos, denota-se uma demanda energética
maior para o produtor orgânico, mas o autor pondera que se torna necessário
conhecer as implicações sobre a saúde, tanto a curto como a longo prazo.
O correto entendimento da eficiência energética de sistemas de produção
depende ainda de modelos mais apropriados para essa análise. Nesse sentido,
Dalgaard et. ai. (2001) validaram em nível de campo, um modelo para cálculo de
energia fóssil, em propriedades orgânicas e convencionais na Dinamarca. Foram
estudados oito tipos de cultura, nos dois sistemas de produção, verificando-se
que, em geral, o uso de energia é geralmente inferior nos sistemas orgânicos
(0,7 a 2,2 MJ/unidade de alimento) do que no sistema convencional (1,0 a 2,7
MJ/unidade de alimento), mas as produções por área são menores. Ademais,
concluíram que o cultivo convencional apresenta uma produção de energia
maior, enquanto o cultivo orgânico possui eficiência energética maior.

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Tempo (minutos)

Figura 5.1 - Ilustração dos batimentos cardíacos de um produtor ORGÂNICO,


durante um dia de trabalho.
141
Manual de Horticultura Orgânica

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Tempo (minutos)
Figura 5.2 - Ilustração dos batimentos cardíacos de um produtorCONVENCIONAL,
durante um dia de trabalho.

5.4. TRABALHOS E JNDICADORES ENERGÉTICOS


NA PRODUÇÃO DE HORTALIÇAS

Um dos trabalhos clássicos sobre a energética na agricultura foi editado


por Pimentel, em 1980, acerca da agricultura norte-americana. Nesse trabalho,
congregou-se um conjunto de artigos elaborados por várias autoridades
no assunto, onde são enfocadas análises de sustentabilidade energética de
diversos sistemas, métodos e práticas agrícolas; indicadores de entradas
e saídas de energia e balanços energéticos dos sistemas de produção para
grandes culturas, hortaliças, frutas, florestas, produção animal e laticínios.
Para os sistemas produtivos de hortaliças, apresentam-se dados de ba lanço
energético para as culturas de Repolho (ROW, 1980), Alface (RYDER, 1980),
Batata (SCHREINER e NAFUS, 1980), Pepino (BAKER, 1980), Melão (JOHNSON
JÚNIOR e CHANCELLOR, 1980), Melancia (GLAZE, 1980), Pimentão (MINGES,
1980) e Espinafre (BRADLEY, 1980). Em geral, verifica-se uma grande
dependência de insumos externos, oriundos de fontes baseadas em energia
fóssil e uma ba ixa taxa de conversão da energia consumida para a produção
desses alimentos.
Durante O período de 1990 a 1993, Schrõder et. ai. (1996) estudaram 0
fluxo de nutrientes em 38 propriedades, visando reduzir a entrada de nutrientes
externos no sistema, pela substituição de fontes de fertilizan tes minerais por

142
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Hortaliças

fertilizantes orgânicos (incluindo fixação biológica). Verificaram que batata


e beterraba foram as culturas que exigiram mais nutrientes para expressar
boa produção, em função da exportação pelos produtos. O uso de esterco
proporcionou maior efeito residual de nitrogênio no solo nos anos consecutivos.
Segundo Pluimers (1998), o cultivo de hortaliças em ambiente protegido,
na Holand a, demanda alto uso de energia, agrotóxicos, fertilizantes minerais
e água . Por esse motivo, anál ises sistemáticas devem ser realizadas para
verificar as possibilidades e as consequências do desenvolvimento sustentável
da horticult ura realizada nesses ambientes. Neste trabalho, realizado com a
cultura do t omate, verificou-se que a emissão de C0 2 em ambiente protegido
pode ser reduzida, com o emprego de equipamentos especiais, proporcionando
redução nas perdas energéticas desse sistema.
No Brasil, Dantas e Escobedo (1998), avaliando parâmetros meteorológicos
em cultivo de alface em ambiente natural e protegido, concluíram que a cobertura
com polietileno provocou diminuição na evapotranspiração e na radiação solar.
Porém, mesmo com menor radiação solar, no período de verão, foram encontradas
as melhores condições energéticas para o rendimento da alface.
De forma semelhante, Cunha et. ai. (2002) estudaram a radiação líquida
e o calor latente em cultivo de pimentão em ambiente protegido e a céu
aberto. Verificaram que o cultivo protegido, apesar de obter menor quantidade
de radiação solar global, foi mais eficiente na conversão da radiação líquida
disponível em matéria seca total e na produtividade de frutos. Apresentou,
ainda, menor perda de energia, mostrando-se mais eficiente no uso da água
(Tabela 5.3).

Tabela 5.3 - Média e desvio-padrão da radiação líquida (Rn), matéria seca total
(MST), altura de plantas (ALT), índice de área foliar (IAF), avaliados aos 195
dias após transplantio, e produtividade de frutos (PF) sob cultivo protegido e de
campo para a cultura do pimentão
Rn MST - AtT- . PF
, Çultivo 2 2 ·-. - . IAF
,, 7t·,-, ..; (MJ/m ) (g/m ) (cm) (kg/m 2 /ciclo)
' - -- . - -
8,91 909 65,5 7,53
Protegido 9 , 29 a
(2,57) (221) (0,7) ( 1,8)
11 , 37 34 5 52,5 2 ,54
Campo 6 , 66 b
(3,26) (36) (0,7) (0,7)

Obs.: Números entre parênteses indicam desvio-padrão da méd ia.

143
Manual de Horticultura Orgânica

5.5. ALTERNATIVAS PARA O USO EFICAZ DE


ENERGIA

A produção sustentável de alimentos está relacionada diretamente com o


uso mais eficiente de energia, bem como à menor dependência de insumos de
energia cultural industrial, e em particular de combustíveis fósseis.
Uma questão chave para o uso mais sustentável da energia na agricultura está
na expansão do emprego de energia cultural biológica. Os insumos biológ icos não
somente são renováveis, mas também apresentam a vantagem de: a) estarem
localmente disponíveis; b) poderem ser controlados pela população local; e c)
contribuírem para a saúde dos agroecossistemas (GLIESSMAN, 2000).
Aponta-se como alternativa a implementação de sistemas de produção
de caráter agroecológico, que usem a energia de maneira sustentável,
empregando-se as seguintes estratégias:

• Reduzir o uso de energia cultural industrial, especialmente de fontes


não renováveis ou contaminantes, como combustíveis fósseis.
• Aumentar o uso de energia cultural biológica .
• Desenhar agroecossistemas nos quais as relações biológicas e
ecológicas supram a maioria dos aportes de nutrientes e de biomassa, e
dos processos reguladores de população, e que, portanto, exijam níveis
mais baixos de aportes de energia cultural.
• Desenvolver indicadores de sustentabilidade relacionados à energia,
que incorporem as metas paralelas de eficiência, produtividade e capacidade
de renovação.

Estas propostas de Gliessman (2000) são comprovadas em muitos


estudos que comparam sistemas orgânicos com sistemas convencionais de
produção, em várias partes do mundo (MANSVELT et. ai., 1998; WALDON et.
ai., 1998; REGANOLD et. ai., 2001; POUDEL et. ai., 2002), indicando melhor
aproveitamento da energia e maior taxa de conversão energética para sistemas
orgânicos de produção, tanto de hortaliças como de frutas e grãos.
Entretanto deve- se estar atento para a definição correta das práticas e
' empregados, mesmo em sistemas orgânicos de produção,
insumos a serem
pois, apesar de aportar menos energia de fontes não renováveis, podem
elevar sobremaneira o aporte total no sistema produtivo, conforme indicam os
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Hortaliças

dados da produção de morangos orgânicos e convencionais, em duas regiões


distintas, contidos na Tabela 5.4 (GLIESSMAN, 2000).

Tabela 5.4 - Medidas de uso de energia em quatro sistemas de produção de


morangos*

Orgânico Convencional Orgânico Convencional


Aporte total de
111,60 79,80 44,7 16,7 1
energia (x 106 kcal/ha) J

Aporte de energia não


57,30 98,00 2,7 43,1 J
renovável (% do total)
Saída total para o
14,10 20,70 3,4 2,9
mercado (x 106 kcal/ha)
Saída/ aporte 0,13 0,26 0,076 0,17
Saída/aporte não
0,22 0,26 2,8 0,4
renovável
* Média de três anos de estudo.

A recuperação e manutenção de sistemas produtivos tradicionais, baseados


em fontes de energia locais, tem sido uma alternativa para melhor eficiência
energética em nível regional, a exemplo de melhor manejo e aproveitamento
de água de chuvas, aplicação de adubos orgânicos e proteção de florestas,
conforme sugerido por Dash e Misra (2001), para a região de Orissa, na Índia.
Em sistemas orgânicos de produção, que usam composto orgânico como
fonte de adubo primário para as culturas, duas questões extremamente
importantes devem ser destacadas.

1a - o emprego de capineiras, para a geração de volume de biomassa,


como insumo na confecção das medas de composto, representa um
processo altamente positivo para a fixação de_energia nos sistemas, pela
elevada fixação de Carbono atmosférico por essa gramínea (Figura 5.3).
2ª - Apesar de as hortaliças responderem expressivamente à adubação
com composto orgânico, seu processo de produção através da compostagem
em pilhas estáticas (método indore) é um sistema altamente negativo,
energeticamente, pelo elevado desprendimento (perda) de CO 2 para a
atmosfera (Figura 5.4).

••--=-~,,,..,=-=e=-===--=-==-==""""'"--.......-=-=-==-=====-=-== =-=-~
145
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 5.3 - O uso de capineiras em regiões tropicais fixa Carbono atmosférico e


gera grande quantidade de biomassa para sistemas de compostagem orgânica.

146
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Horta liças

Figura 5.4 - Alto desprendimento de CO2 no reviramento de pilha de composto


orgânico.

Alternativas para evitar as perdas de CO sempre que poss· et de m


ser experimentadas dentro dos sistemas produti os. a e ernr""""
compostagem dentro de estufas de produção de h rtafiças (
critérios fitossanitários adequados).

Objetiva-se, com isso, elevar a absorção de C0 2 pelas plantas para atender


ao seu processo metabólico, podendo refletir em aumento de produção de
biomassa (produtividade), melhoria no sabor dos produtos e maior precocidade
na produção. Trabalhos nessa direção já estão sendo desenvolv idos na
Universidade Federal de Viçosa, visando compreender adequadamente o
funcionamento do processo, conforme ilustrado na Figura 5.5 .
A média de C0 2 no ar a "céu aberto" está na faixa de 350 ppm, enquanto no
ar dentro da estufa pode ser elevado a mais de 1.000 ppm com o aprisionamento
do C0 2 desprendido das pilhas de composto . Na med ida mostrad a na Figura
5.5, com uma intensidade média de fermentação, registrou -se 84 0 ppm .

147
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 5.5 - Produção de composto orgânico dentro de estufa de produção de


tomate, mostrando registro de 840 ppm C0 2 no ambiente interno. Universidade
Federal de Viçosa-MG, 2005.

148
O Enfoque Energé tico em Sistemas de Produção de Hortaliças

Continuação da Figura 5.5

l 9
Manual de Horticultura Orgânica

Tratando-se de fluxos de energia, numa v1sao de sustentabilidade, as


análises não devem se ater apenas aos sistemas produtivos, à agricultura
ou à zona rural. Os resíduos urbanos, especialmente lixo urbano (resíduos
sólidos) e excreções humanas (resíduos líquidos) também fazem parte da
cadeia energética, e têm sido alvos de estudos de higienização e reutilização
em várias partes do mundo.
Gadjos (1998) descreve a estimativa de bioconversão desses resíduos,
na Suécia, para o ano de 2010, concluindo que a implantação de sistemas
fechados de bioconversão, para a geração de biofertilizantes e biogás, num
processo interativo com a agricultura, conduziria a um melhor aproveitamento
e ciclagem de nutrientes e energia, reduzindo grandemente os impactos
ambientais.
No estágio final do processo de produção de alimentos, está o consumidor,
interessado cada vez mais na preservação da sua saúde, quanto à qualidade do
alimento que está consumindo. Sob a ótica energética, especialmente quanto
ao valor calórico, Livesey et. ai (2000) sugerem a necessidade de informações
adequadas nas etiquetas dos produtos, relativas aos seus ingredientes e ao
valor da energia neles contidas para a nutrição humana.

5.6. ANÁLISE CRÍTICA E DISCUSSÃO SOBRE A


ENERGÉTICA NA PRODUÇÃO ORGÂNICA DE
HORTALIÇAS

Reconhecidamente, poucos trabalhos têm sido realizados, em todo o


mundo, enfocando o balanço energético de sistemas de produção agrícola,
principalmente no campo da olericultura. Usar a energia, como indicador de
sustentabilidade, tem demonstrado ser uma das formas mais eficazes para
atestar a viabilidade ou não, na produção de alimentos.
De pouco adianta um sistema eficiente em fixar energia para a geração de
carboidratos, proteínas, fibras etc. para o consumo humano ou animal (seja ele
agroquímico, orgânico, ecológico ou biodinâmico), se para isso demandam-se
altos custos energéticos - muitas vezes consumindo mais energia do que gera.
Em sistemas de produção mecanizados de hortaliças, o retorno de energia
geralmente é menor, e no máximo igual à quantidade investida para a produção
das culturas.
Gliessman (2000) indica que para a_produção me~anizada de ~rócolls e de
morangos, nos Estados Unidos, a relaçao entre calorias de energia produzida

150
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Hortaliças

como alim ento e as calorias investidas na produção, apresentam balanços


médios de 0,3 e 0,2 por caloria investida, respectivamente, com saldos
fortemente negativos. Em sistemas de produção animal, relatam-se casos de
balanços mais negativos ainda, pois, para cada caloria de proteína do leite,
carne de porco e carne bovina, advindas de sistemas de confinamento, requer-
se um investimento de 30 a 80 calorias de energia para ser produzida.
Ademais, um agravante fundamental, nessa questão, é o esgotamento de
fontes de energia não renováveis, especialmente aqueles advindos de energia
fóssil, que é a matriz básica dos sistemas agropecuários, na atualidade.
Existem trabalhos que indicam sérios riscos, até da sustentabilidade
alimentar no planeta, com previsão de esgotamento de algumas dessas fontes
para os próximos anos.
Outro agravante, nesse contexto, diz respeito à produção de hortaliças,
em função das peculiaridades seguintes:

• Sistema altamente demandador de energia .


• Elevado consumo pelo ser humano, na sua dieta diária.
• Constância de consumo durante todos os dias do ano.
• Sistema de produção grandemente dependente de energia e fontes
não renováveis.
• Sistemas de grande impacto negativo, sobre o meio ambiente.
• Sistemas que têm apresentado um dos menores saldos no balanço
energético.

Em um estudo comparativo com 10 culturas olerícolas, nos sistemas orgânicos


e convencionais (Tabela 5.5),verificou-se que o cultivo orgânico de hortaliças
apresentou balanço energético positivo, contendo mais energia nos produtos
colhidos do que a quantidade demandada nos seus processos produtivos.
Porém a eficiência energética deve ser analisada cultura por cultura,
pois maiores eficiências foram obtidas no cultivo orgânico de abóbora, alho,
repolho e tomate, do que aquelas do cultivo convencional, enquanto eficiências
semelhantes foram verificadas para os cultivos de batata, batata-barca, batata -
doce, couve-flor e taro. Por outro lado, a cultura da cenoura mostrou menor
eficiência energética, no cultivo orgânico, que aquela do cultivo convencional
(SOUZA, 2006 ; SOUZA et ai., 2008).

151
Manual de Horticultura Orgânica
= = ========'='===,,,,,:;...;;,,,,.....__-=----==== ===""'~=== ===== = = =__,_,,,
- ~

Tabela 5.5 - Comparação das médias do desempenho produtivo e energético


de 1O culturas olerícolas em sistema orgânico e convencional de produção, no
período de 1991 a 2000. Domingos Martins, INCAPER, 2006 1

ORGÂNICO 7.325 a 2.930,3 a 1.598,5 b 1,81 a


ABÓBORA CONVENCIONAL 8.500 a 3.990,0 a 0,85 b
3.400,0 a
ORGÂNICO 6.102 a 8.177,0a 4.539,3 b 1,72 a
ALHO CO NVE NCIO NAL 1,20 b
6.130 a 8.509,0 a 7.083,4 a
ORGÂNICO 19.451 a 15.269, 1 a 5.225,8 b 2,74 a
BATATA CONVENCIONAL 25.000 a 19.625,0 a 9.918,1 a 1,98 a
ORGÂNICO 15.355 a 19.204,2 a 4.095,2 a 4,38 a
BATATA- CONVENCIONAL 15.000 a 18.750,0 a 3.625,5 a 5,17 a
BAROA
ORGÂNICO 21.630 a 27.145,1 a 3.873,0 a 6,58 a
BATATA- CONVENCIONAL 18.000 a 22.590,0 a 3.500,2 a 6,45 a
DOCE
ORGÂNICO 23.535 a 11.767,5 a 6.057,7 a 1,85 b
CENOURA CONVENCIONAL 28.000 a 14.000,0 a 6.036,5 a 2,32 a
ORGÂNICO 13686 a 4.105,8 a 3.325,0 b 1,19 a
COUVE-FLOR CONVENCIONAL 15.000 a 4.500,0 a 4.504,8 a 1,00 a
ORGÂNICO 55.320 a 13.830,0 a 3.351,9 b 4,07 a
REPOLHO CONVENCIONAL 47.102 b 11.775,5 b 7.275,4 a 1,62 b
ORGÂNICO 23.805 a 15.901,9 a 4.978,5 a 3,14 a
TARO CONVENCIONAL 20.000 a 13.360,0 a 5.089,2 a 2,63 a
ORGÂNICO 34.545 b 8.636,3 b 8.665,6 b 0.97 a
TOMATE CONVENCIONAL 55.000 a 13.750,0 a 16.641,5 a 0.83 b
ORGÂNICO 22.075 a 12.696, 7 a 4.571,2 a 2,78 a
MÉDIA
CONVENCIONAL 23.795 a 13.026,0 a 6.766,5 a 1,93 a
1 Médias marcadas com a mesma letra, nas coluna~ _dentro de cada cultura e dentro da média,
não diferem entre si pelo teste 't', a 5% de probab1l1dade.

Em ordem decrescente, Souza et ai. (2011) verificaram que, no sistema


orgânico, os componentes que mais_ oneraram o custo energético foram:
embalagem, composto orgânico, i~r~~aç~o, seme~t~s/mudas e serviços manuais.
Inclusive O motivo da baixa efic1enc1a energet1ca em algumas culturas no
cultivo o;gânico foi devido ao alto ga 5to energético_c~m embalagens plásticas,
que chegou a representar 57,4% dos custos energet1cos na cultura do tomate.

152
O Enfoque Energético em Sistemas de Produção de Hortaliças

Por isso, os autores relataram que a opção por sistemas de comercialização


e venda de hortaliças orgânicas, que dispensem o emprego de embalagens
plásticas, pode aumentar a eficiência energética, elevando o balanço energético
médio de 2, 78 para 5, 18 kcal para cada caloria gasta.
Diante do exposto, torna-se necessário entender melhor a energética dos
sistemas de produção de hortaliças, visando gerar subsídios para a busca de
modelos mais sustentáveis, através do estabelecimento de indicadores técnicos
que permitam:

• A minimização de impactos ambientais.


• Aumento do uso de materiais e insumos de fontes renováveis.
• Elevação da eficiência energética na geração de alimentos, pela
maior relação entre as entradas (inputs) e as saídas (outputs) de energia
no sistema produtivo.
• Visando à melhoria da eficiência energética no cultivo de hortaliças,
as questões técnicas, a seguir, servem de orientação aos interessados em
implantar o sistema orgânico de produção.
• Usar sistemas de preparo de solo, baseados na técnica de cultivo
mínimo ou em plantio direto.
• Aumentar o emprego de fontes de adubações disponíveis localmente,
especialmente de matéria orgânica.
• Empregar sistemas de rotação e, ou associação de culturas, tanto
entre as diversas espécies de hortaliças, pelas distintas características de
dossel, como entre hortaliças e adubos verdes.
• Utilizar espécies e, ou variedade de plantas mais adaptadas às
condições edafoclimáticas da região.
• Gerar, captar e, ou adaptar fontes de energia renovável em nível
local, com emprego de biodigestores (biogás), irrigação por gravidade,
melhor captação e retenção da água das chuvas, dentre outros.
• Utilizar práticas conservacionistas do solo, para evitar perdas
desnecessárias de energia, através da perda de solos .
• Reduzir as perdas de C02 do processo de compostagem, produzindo
composto orgânico dentro de estufas de produção de hortaliças, para reter
parte do gás carbônico no processo fotossintético das plantas.

1S3
Manual de Horticultura Orgânic o

• Utilizar-se de técn icas de controle biol ógico e manejo integ rado de


pragas e doenças, em substituição aos agrotóx icos, de elevad o custo
energético.

• Estabelecer o máximo de biodiversidade no agroecossistema


produtivo, através de manejo da vegetação espontânea e de cultivas
múltiplos, proporcionando ambiente favorável para a proliferação de
inimigos naturais, e redução de problemas com pragas e doenças pelas
forças do próprio sistema.
• Estar atento a uma permanente cobertura do solo (viva ou morta),
como forma de preservar e adicionar matéria orgân ica, visando manter a
fertilidade, ativar a microbiota e a multiplicação de antagonistas do solo,
reduzindo, assim, os riscos com nematoides e fungos de solo.

154
Manual de Horticultura Orgânica
,,,,,,

6.1. GÊNESE, MANEJO, PREPARO E FERTILIZAÇÃO


DO SOLO
6.1.1. CONSIDERAÇÕES SOBRE A GÊNESE DO SOLO

Na visão agroecológica, a gênese do solo e as transmutações, como


disponibilizadoras de nutrientes, têm sido destacadas como questões
importantes.
Segundo Werner (2001), "a gênese do solo sempre foi interpretada mais sob
a ótica mineralógica, como um lento processo físico-químico de intemperização
da rocha-mãe, sendo secundária a importância dos organismos vivos na
formação dos solos. O autor destaca que o prof. Andreas Miklós desenvolveu
estudos convincentes sobre a origem biológica dos solos, sendo que a principal
responsável por tal formação é a biodiversidade, cujos componentes principais
são a flora (raízes) e a fauna, com destaque para os cupins e as formigas,
entre outros. Sua tese explica ainda a gênese das 'Stone Unes', que são linhas
horizontais de pedras encontradas em profundidade em alguns tipos de solos,
em consequência do remonte biológico vertical - portanto, o solo cresce".
oengenheiro e biólogo francês C. Louis Kervran comprovou as reações
das transmutações biológicas a baixa energia, que ficaram conhecidas como as
"Reações de Kervran". Essas mostram que os organismos vivos, sejam fungos,
bactérias, plantas, animais ou o próprio homem, são capazes de transmutar um
elemento químico em outro. Isso é realizado por enzimas, semelhantemente
ao que ocorre com as moléculas, envolvendo absorção ou liberação de energia.
Um dos elementos básicos, Carbono, Hidrogênio, Oxigênio ou Nitrogênio, é
acoplado ou desacoplado nas reações de transmutações formando outro
elemento químico (WERNER, 2001).
Essas considerações anteriores deixam ainda mais evidente que a análise
puramente aritmética de disponibilidade e uso dos nutrientes é insuficiente para
o entendimento completo sobre adubação e nutrição de plantas em sistemas
agroecológicos.

6.1.2. PREPARO DO SOLO

A busca da sustentabilidade na Agricultura Orgânica se inicia com a quebra


do ciclo da pobreza, isto é, "degradação dos recursos naturais, principalmente do
solo e da água" (Figura 6.1), conforme relatado por Satumino e Landers (1997).

156
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Preparo Inadequado
Monocultur
do solo

Erosio Falta de cobertura

l
Degndaçio do solo

Menor produçio
de biomassa

Figura 6.1 - Ciclo da pobreza.

A degradação do solo e suas consequências têm resultado no desafio de


viabilizar sistemas de produção que possibilitem maior eficiência energética
e conservação ambiental, criando-se novos paradigmas tecnológicos na
agricultura, baseados na sustentabilidade.
Dentre as alternativas tecnológicas, destacam-se o Cultivo Mínimo e o
Sistema Plantio Direto (SPD) como práticas de suma importância a serem
adaptadas a sistemas orgânicos de produção, com vistas a perturbar o mínimo
possível a estrutura física e a vida biológica do solo.
o SPD é uma forma de plantio em que o solo sofre o mínimo distúrbio
possível. o plantio é feito diretamente sobre os restos culturais da lavoura
anterior, sobre adubos verdes ou sobre as ervas espontâneas em áreas de
pousio temporário.
Adiante, detalharemos todos os aspectos técnicos desse sistema.
Segundo Derpsch (1997), o principal problema da ag ricultura convencional ,
em áreas tropicais e subtropicais, é a perda da fertilidade natural dos solos, a
qual se relaciona com a duração de sua exploração.

157
Manual de Horticultura Orgânica

Com o passar dos anos, o manejo inadequado conduz a uma redução


dos rendimentos das colheitas e, dependendo do tipo de solo e das técnicas
empregadas, a rentabilidade do sistema começa a ser comprometida. O autor
menciona as leis não escritas dos rendimentos decrescentes, que elucidam
com mais detalhes essas questões.

1 As leis não escritas dos rendimentos decrescen-

✓ Em condições tropicais e subtropicais, o preparo do solo tem, como


consequência, a mineralização da matéria orgânica em quantidades maio res do
que as possibilidades de reposição. Daí resulta o decréscimo da matéria orgânica
no solo e a diminuição dos rendimentos das culturas ao longo do tempo .

✓ A alta intensidade de chuvas que prevalece nos trópicos e subtrópicos


está geralmente associada (inclusive em terreno com pouco declive) a pe rdas de
solo maiores do que a regeneração natural, resultando em degradação química,
física e biológica do solo e na diminuição dos rendimentos das culturas.

✓ A degradação da matéria orgânica e a erosão não podem ser evitadas


quando o solo tropical e subtropical é revolvido em arações e outros preparas.
Corno consequência, a sustentabilidade da produção agrícola, sob os efeitos dos
métodos convencionais, fica comprometida.

✓ Em outras palavras, o arado e outros implementas de preparo do solo são


antagônicos ao uso sustentável da terra nas regiões tropicais e subtropicais.

Fonte: Derpsch (1997).

o
preparo frequente e intenso do solo, associado ao uso intensivo de
insumos industriais (adubos químicos e agrotóxicos), tem provocado intensa
degradação desses solos.
A pulverização (destruição dos coloides) do solo pelo tráfego intenso
de máquinas e equipamentos acelera a mineralização da matéria orgânica
e, consequentemente, reduz a diversidade de organismos presentes nesse
ambiente a maioria dos quais indispensáveis à sustentabilidade dos sistemas
produtivo~. se O solo é continuamente revolvido, e novo material orgânico não
é adicionado ao sistema, com o passar do tempo, tende a tornar-se solto, sem
estrutura mais suscetível à erosão.
'
Verifique, na Tabela 6.1, co~o as perdas de solo e água são bem maiores
em sistema de Preparo Convencional de Solo (PC), comparados ao Sistema
Plantio Direto (SPD).

158
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Horta liças

Tabela 6.1 - Comparação das perdas de solo e água nos sistemas de Preparo
Convencional (PC) e Sistema Plantio Direto (SPD)

1
Paraná 66 ,2
2 6 ,4 3,3 8 7 ,5 6 66 225
( 12 anos de soja + trigo )
2
Paraguai
4 anos 21,4 0 ,6 97,2
2 dias com chuva de
46,5 0,01 99,7
186 mm
3
Cerrados
Soja (dados de 11 meses) 4,8 0,9 81,2 206 120 41 ,7
Milho (dados de 11 meses) 3-3,4 2 ,4 20- 29 2 52 -3 1 8 171 32-4 1

Fontes: 1 Merten et ai. (1996) ; 2 Venialgo (1 996) ; 3 Santana et ai. ( 1994), citados por DERPSCH
(1997).

A erosão gera perdas anuais correspondentes a: 15, 2 milhões de toneladas


de calcário dolomítico (23% de CaO), valorados em R$ 563 milhões; 879 mi l
toneladas de superfosfato triplo, que valem R$ 483 milhões; e 3 m ilhões de
toneladas de cloreto de potássio, valorados em R$ 1, 7 bilhão. A reposição das
perdas de N e S totalizam 5,3 milhões de toneladas de ureia, ou R$ 2, 77 bilhões,
e 995 mil toneladas de sulfato de amônia, custando R$ 394 milhões. Somando-
se a esses valores, R$ 2,06 bilhões, custo do adubo orgânico necessário à
reposição da matéria orgânica ao solo, estima-se que a erosão hídrica gere um
prejuízo total relativo às perdas de fertilizante, calcário e adubo orgânico na
ordem de R$ 7, 9 bilhões por ano.
Considerando o efeito da erosão na depreciação da terra, no custo do tratamento
de água para consumo humano, no custo de manutenção de estradas e de reposição
de reservatórios, decorrente da perda anual da capacidade de armazenamento
hídrico, a erosão causaria prejuízo de R$ 13,3 bilhões por ano (Tabela 6.2).

159
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.2 - Valoração dos impactos da erosão dos solos no Brasil

Total Total
Categoria de impactos negativos 6 6
(10 US$) (10 R$)
Perda de nutrientes e de matéria orgânica 3.178,8 7.947,0
Depreciação da terra 1.824,0 4 .560,0
Tratarrento de água para consumo humano 0,374 0,934
Manutenção de estradas 268,8 672,0
Reposição de reservatórios 65,44 163,6
Total 5.337,4 13.34 3 , 543

Fonte: Baseado em Landers et ai. (1997), Bassi (1999), Bragagnolo et ai. (1997), Carvalho
et ai. (2000).

Na agricultura orgânica, o solo deve receber atenção especial. As práticas


utilizadas no seu manejo (preparo reduzido, cobertura viva e morta, não
adição de fertilizantes de alta solubilidade, adição de adubos orgânicos) visam
à construção de um solo equilibrado e biologicamente ativo, indispensável à
manutenção de plantas saudáveis.

O solo deve ser cuidadosamente manejado, pois se constitui de


uma c omunidade organicamente entrelaçada de plantas, animais
e microrganismos. A função principal do solo não é a de prover
sustentaç ão às plantas cultivadas, mas sim nutri-las adequadamente e
protegê-las de ataques de p ragas e doenças (solos supressivos) .

- ~ -- -
-= - ~ ~ -~ - ~ -=..- - -
-
o uso de coberturas vivas e mortas é uma prática recomendada para evitar
a exposição do solo aos impactos da chuva, do sol e dos ventos e, ao mesmo
tempo, diminuir alterações de umidade e temperatura, que favorece tanto os
cultivas quanto a fauna e os microrganismos do solo. O menor revolvimento
proporciona menores perdas de solo e água (Tabela 6.3).

160
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.3 - Perdas de solo e água em diferentes sistemas de manejo do solo


com tração animal. IAPAR, Ponta Grossa, médias de 1991 a 1993

Perdas
Precipitação
Tratamentos Solo • •
mm
kg/ha/ano mm/ano

Solo descoberto 988 113.782 24,0


Aração 988 8.702 4,8

Esca rifi cação 988 4.346 8,8

Plantio direto 988 836 8,0

Fonte: Merten (1993) . In : RIBEIRO et ai. (200 1 ) .

Os solos brasileiros, em grande parte, apesar de naturalmente pobres


em nutrientes, são bastante profundos e, portanto, apresentam grande
capacidade de reservo de nutrientes.

-- • a • • - - -
- ~ - - - - --~----~--"'"-=--------~ - --------=------ - - - - - ~ -

Assim, formas de manejo de agroecossistemas que priorizam a ciclagem de


nutrientes (adubação verde, rotação de culturas, consórcio, policultivo, manejo
e não eliminação de plantas espontâneas), aumentam a eficiência produtiva
desses solos.
Derpsch (1997), reportando ao combate à erosão em sistemas orgânicos
de produção, relata três aspectos fundamentais:
a) adoção de princípios e práticas recomendadas pela agricultura
orgânica, que visam à proteção do solo;
b) adoção do plantio direto como alternativa eficaz na redução das
perdas de solo, comprovado em diversos trabalhos de pesquisa;
c) adoção das práticas tradicionais de conservação de solo, há muito
conhecidas, como plantio em curvas de nível (Figura 6.2), cordões em
contorno, faixas de retenção, caixas secas em estradas e carreadores,
dentre outras.

161
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.2 - Encanteiramento e linhas de plantio em nível, em cultivo orgânico


de hortaliças na Fazenda Luiziânia, evitando-se perdas desnecessárias de solo.
Um pequeno declive de, no máximo, 2%, deve ser deixado para evitar acúmulos
excessivos de água. Entre Rios de Minas - MG.

Para o cultivo de hortaliças, o uso do solo é mais intensivo. comparado


às outras culturas, além de haver espécies que exigem um preparo
mais refinado para expressar melhores rendimentos comerciais. como
o uso de arado e enxada rotativa, que ocasionam a pulverização da
camada superficial do solo e a compactação subsuperficial.

Werner (2000) apresenta, na Tabela 6.4, importantes informações e


indicativos para as causas da degradação do solo, e que devem servir de base
para a conversão do manejo convencional para o agroecológico .

162
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.4 - Grau de interferência negativa das causas da degradação do solo


na fertilidade química, física e biológica

Causas da degradação do solo Fertilidade do solo

Química Física Biológica

Devastação das fio restas *** *** ***


Arado *** *** ***
Grade *** *** * **
Rotativa *** *** ***
Tráfego de máquinas *** *** ***
Erosão * ** *** * **
Falta de cobertura do solo *** *** ***
Compactação *** *** ***
Adubos químicos muito solúveis ** *** ***
Variedades de alta resposta ** * * **
Calcário em excesso ** * **
Monocultura ** * * **
Práticas de esterilização do solo * * ***
Queimadas ** * **
Baixo fornecimento de mat. *** *** * **
orgânica
Doenças e pragas * * *
Agrotóxicos * * ***
Ventos *** *** ***
Problemas de clima * * *
Mau uso da irrigação ** * *
Modelo econômico produtivista * ** *** ***
Crédito agrícola (insumos) *** *** ***
Perdas de nutrientes *** * **
Grau de interferência negativa : * = Pouco ** = Médio *** = Muito

163
Manual de Horticultura Orgânica

Pelo exposto até o momento e com base em informações de Popia (2000),


Rowe (2000) e Souza (2002), podemos recomendar os seguintes procedimentos
relativos ao preparo de solo, aplicáveis à olericultura orgânica:

a) Empregar o Sistema Plantio Direto, sempre que possível.


b) Utilizar o sistema de Preparo Tradicional, com a ração e gradagem,
o mínimo possível e de forma racional.
c) Utilizar a enxada rotativa apenas em caso de extrema necessidade,
limitando-se o uso apenas para culturas que necessitam de encanteiramento.
d) Empregar diretamente o preparo manual ou utilizar equipamentos
como sulcador ou ainda a enxada rotativa com dois jogos de facas centrais,
cultivando apenas a linha de plantio, para hortaliças de espaçamentos
maiores, plantadas em covas ou sulcos.
e) Proceder à rotação de culturas, envolvendo espécies que exigem
sistemas de preparo de solo diferentes, intercalando espécies de preparo
intensivo com espécies de plantio direto.
f) Avaliar a necessidade do uso do subsolador em áreas submetidas a
cultivas intensivos, a cada dois anos.

Diante da grande importância de que se reveste a prática do Sistema


Plantio Direto (SPD) para o contexto da agricultura orgânica, apresentaremos
no item 6.1.3, uma abordagem detalhada dessa tecnologia, no âmbito da
produção de hortaliças.

6.1.3. SISTEMA PLANTIO DIRETO NO CULTNO ORGÂNICO DE


HORTALIÇAS

O Sistema Plantio Direto - SPD tem contribuído significativamente para o


avanço quantitativo e qualitativo de grande parte da agricultura brasileira.
Dentre os sistemas convencionais de produção, o SPD tem sido consagrado
como o sistema conservacionista mais efetivo na resolução dos problemas de
degradação dos frágeis solos dos trópicos.
Reduzindo os custos de proteção ambiental, o SPD tem representado o
melhor caminho para a diminuição dos custos de produção e sustentabilidade
da produtividade agropecuária, sendo adaptado a todos os tamanhos e tipos
de exploração (EMBRAPA, 2005).
As tecnologias, atualmente disponíveis sobre SPD em sistemas
convencionais, são de elevado interesse para estudos de adaptação e geração
de novas tecnologias para a agricultura orgânica brasileira e mundial.

164
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

O SPD pode ser enquadrado como uma das mais eficientes técnicas de
conservação do solo, que envolvem menor mobilização e remoção da terra e
maior quantidade de restos vegetais na superfície do solo, tendo como vantagem
a redução dos custos operacionais de mecanização, além da preservação dos
atributos físicos, químicos e biológicos do solo (NAGAOKA e NOMURA, 2003).
Para alcançar melhores resultados com o uso de plantas de cobertura, é
de fundamental importância considerar o nível tecnológico do agricultor, as
condições edafoclimáticas e conhecer com profundidade os inúmeros detalhes
referentes às espécies de adubo verde, visando obter algumas vantagens,
como: aumento de carbono orgânico no solo, suprimento de nitrogênio,
descompactação, diminuição de pragas e doenças, supressão de invasoras,
agregação do solo etc. (CLARK, 1993; CALEGARI , 2001).
Segundo Darolt (2002), o principal entrave técnico para a apl icação do
SPD na agricultura orgânica, sem dúvida, é o controle das infestantes. O que
deve ser compreendido é que as infestantes devem ser manejadas como parte
integrante do sistema.
Nessa perspectiva, a tarefa não é eliminá-las indistintamente, mas definir
o limiar econômico da infestação e compreender os fatores que afetam o
equilíbrio entre infestantes e culturas comerciais. Não existem receitas ou
pacotes prontos em agricultura orgânica, e a cada safra a estratégia de controle
das infestantes pode ser alterada em função de variáveis como quantidade de
cobertura pela palhada, clima, nível de infestação, variedade util izada etc.
Matzenbacher ( 1999) acrescenta que o SPD apresenta-se como promissor
à agricultura orgânica, pelo papel positivo sobre atributos químicos, físicos e
biológicos do solo, como também, pela sua função no aumento do rendimento
das culturas e principalmente no controle de plantas daninhas, no manejo
e na conservação do solo, na recuperação e ou manutenção da fertilidade e
potencial produtivo.
Ribeiro et ai. (2001) argumentam que, embora aspectos econômicos
sejam considerados principais fatores que levam ao desenvolvimento e adoção
do plantio direto, essa técnica possui elementos que a identificam com a
preservação da qualidade do ambiente, o que a distingue como uma prática
agrícola adequada especialmente para as regiões tropica is.
O plantio direto possui três pilares de elevada sustentação ecológ ica:
a) ausência de revolvimento ou o revolvimento mínimo no solo, restrito ao
sulco ou à linha de plantio; b) aumento da biodiversidade, proporcionada
pela diversidade de espécies vegetais e pela rotação de culturas; c) cobertura
permanente do solo, pela presença da palhada na superfície do terreno,
principalmente no intervalo entre a colheita e o plantio da safra seguinte.

165
Manual de Horticultura Orgânica

Porém, mesmo reconhecendo essa plena harmonia técnica entre os preceitos


da agricultura orgânica e os do sistema plantio direto, lamentavelmente, a
grande maioria das propriedades e dos projetos de produção orgânica em
curso no Brasil não utilizam essa tecnologia
Fazer plantio direto sem o uso de herbicidas é um dos grandes desafios
da atualidade para a agricultura orgânica. Porém, a implantação de rotação de
culturas com grande produção de massa vegetal para cobrir o solo, na forma
de adubação verde com gramíneas e leguminosas, apresenta-se como uma
das opções para solucionar tal problema.
A adoção de técnicas de manejo, nesse sentido, é bastante desejáve l,
pois, segundo Darolt (2002), uma das principais críticas de quem defen de o
sistema plantio direto é a de que os agricultores orgânicos costumam revo lver
demasiadamente o solo.
Ainda, é grande o número de agricultores orgânicos que usam implementas
como a rotativa, que movimenta excessivamente o solo, o que não está
totalmente de acordo com os princípios orgânicos.

6.1.3.1. COMPREENSÃO DAS DIFERENÇAS ENTRE A PRODUÇÃO


ORGÂNICA E A CONVENCIONAL

Para uma correta adaptação tecnológica do SPD aos sistemas orgânicos,


importantes diferenças técnicas e conceituais entre a produção orgânica e a
convencional, sob o plantio direto, devem ser conhecidas, conforme descrito a
seguir.
◊ Manejo da palhada em pré-plantio

Em sistemas convencionais, geralmente, esse manejo inclui a dessecação


com herbicidas, fato que não é permitido pelas normas de produção orgânica.
Assim, 0 manejo em sistema orgânico poderá ser feito através de rolo-faca
(de tração motorizada ou animal), rolo de disco de tração animal, roçadeira,
segadeira ou mesmo através de grade niveladora de disco destravada - mas,
entre os equipamentos mencionados, o rolo-faca é o que apresenta melhor
desempenho (MATZENBACHER, 1999) .
Denardin e Kochrann ( 1993) alertam para o uso de implementas específicos
no manejo da palhada das culturas de cobertura, visto que o uso incorreto de
um implemento poderá acarretar desvantagens, tais como: alto custo, baixo
rendimento operacional, riscos de compactação do solo, além de, segundo
Derpsch e Calegari (1985), promover o esfacelamento dos resíduos, tornando-
os mais susceptíveis ao processo de decomposição, reduzindo o tempo de
proteção do solo.

166
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

◊ Preparo de solo para plantio


Não existem diferenças entre os dois sistemas, sendo recomendado o uso
de implementas que façam um corte eficiente da palha e movimentem ao
mínimo o solo na linha de plantio (DAROLT e SKORA NETO, 2002).

◊ Manejo de ervas
Em sistemas orgânicos, o princípio da prevenção deve ser privilegiado,
como já foi descrito anteriormente. Por out ro lado, o método quím ico é
substituído, na maior parte das vezes , por m étod os mecânicos, como é o caso
de roçadeiras .
Existem dois aspectos a se considerar no plantio direto orgân ico: a
substituição dos herbicidas dessecantes no pré- pl anti o e dos her bicidas durante
o ciclo da cultu ra.
Para substit uição dos herbicidas em pré-plant io, no sistema orgânico,
são utilizadas plantas com capacidade de abafam ento das inf estantes para
formação de uma cobertura morta efetiva (aveia -preta, crotalá r ia , centeio,
mucunas, ervilhaca-comum) . Para substituição dos herbicidas durante o ciclo
da cultura, pode-se utilizar a capina, ro ça da ou outras práticas culturais de
manejo (DAROLT e SKORA NETO, 2002).
Darolt e Skora Neto (2002), em estudo comparativo de quatro estratégias
de controle das infestantes na cultura do m ilho, compararam o uso exclusivo de
herbicidas, o uso de herbicida de dessecação + roçada (um vez) com roçadeira
costal motorizada, somente roçada (duas vezes) e somente capina (uma vez) .
Verificaram que a capina, isoladamente, é altamente demandadora de
mão de obra, com tendência de redução no rendimento do m ilho. A capina
é prática, indicada em áreas com baixa densidade de infestantes e quando a
mão de obra despendida situar-se abaixo de 6 dias/homem/ha. O uso de duas
roçadas apresentou nível intermediário de demanda de mão de obra e não foi
observado efeito significativo no rendimento do milho.
Embora seja de custo superior ao uso de herbicidas, o uso de roçadeiras
motorizadas pode ser uma opção de controle das infestantes na agricult ura
orgânica, em substitu ição à capina, com vantagem adicional de ser um t rabalho
menos penoso e com diminuição de custos com a aquisição do equipam ent o.
Esses autores ainda ressaltam que, quanto aos aspectos técnicos, ainda
existem desafios relacionados ao manejo das infestantes, enqu anto os
resultados econômicos não deixam dúvida de que a produ ção orgânica é um
negócio promissor, em função dos preços elevados no m ercado.

167
Manual de Horticultura Orgânica
......=========::..l!!;,,;;,,;,,;;,,;,,;~======================-

◊Adubação

Além de diferenças técnicas, existem abordagens distintas. No sistema


orgânico, o que se busca não é simplesmente a nutrição da planta, mas,
sobretudo, a melhoria da alimentação do solo e do sistema.
A fertilização orgânica baseia-se na matéria orgânica e em fertilizantes
minerais naturais pouco solúveis, em que o processo de ciclagem de nutrientes
tem papel fundamental. A cobertura morta da palhada no SPD e o retorno
da matéria orgânica ao solo promovem a formação e a conservação da sua
bioestrutura, contribuindo para o aumento da fertilidade, mais especialmente,
para conservação da produtividade do solo.
É importante lembrar que a construção da matéria orgânica em sistema
de plantio direto é regulada principalmente pelas quantidades de carbono e
nitrogênio existentes nos resíduos orgânicos mantidos na superfície do solo.
Quando a cobertura é realizada com resíduos vegetais que possuem alta relação
C/N, observa-se decréscimo na mineralização e no aumento na imobilização
da matéria orgânica, além do aumento na imobilização dos nutrientes nela
contidos (N, P e S), sobretudo na camada superficial do solo, devido à maior
oferta de e-orgânico que estimula a atividade microbiana pela imobilização do
N no sistema solo-planta (MUZILLI, 2003).

6.1.3.2. CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS IMPORTANTES NA P&\TICA


noSPD
a) Uso de cultivares adaptados ao SPD orgânico
Em geral, quando se pensa em praticar sistemas orgânicos de cultivo, a
escolha adequada do cultivar a ser plantado é fundamental, ainda mais quando
se pensa em sistema plantio direto.
Para as diversas espécies de hortaliças, existem cultivares mais rústicos,
com maior potencial de convívio com ervas espontâneas, que podem se
desenvolver melhor nesses sistemas de cultivo .
Em suma, conhecer os materiais genéticos, que apresentem melhor
adaptação às condições edafoclimáticas do local e ao sistema plantio direto, é
um pré- requisito para a implantação do SPD orgânico.

b) Escolher as espécies de adubos verdes mais adequadas ao SPD


orgânico
A baixa disponibilidade de N nos solos tropicais é responsável pelos baixos
níveis de produtividade das culturas, por ser o nut riente que mais limita o
rendimento das plantas.

168
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Em sistema plantio direto, normalmente, as plantas mais usadas para


adubação verde são as da família Leguminosae, que possibilitam altas taxas
de fixação do N2 atmosférico, contribuindo para a nutrição das cu lturas
subsequentes (ANDREOLA et ai., 2000 ; ZOTARELLI, 2000) .
Outra característica importante nessa família de plantas é a baixa relação
C/N, quando comparada com plantas de outras famílias, o que favorece a sua
decomposição e minera li zação por microrganismos do solo, que é um aspecto
interessante quanto ao suprimento de N à cul t ura em sucessão.
Por outro lado, o emprego de não leguminosa s, para adubação verde ,
pode amenizar perdas do N, através da absorção e im ob ilização temporá ria do
nutriente em sua biomassa (ANDREOLA et ai., 2000 ). Resíduos de gramíneas,
por apresentarem baixa t ax a de decomposição, determi nam melhor proteção
do solo no SPD ( BORTOLINI et ai., 2000) . Por isso, é recomendável e benéfico
que se utilizem espécies de decomposição rá pi da de res íduos em associação
com as de decomposição mais lenta (AITA et ai., 2000) .
O consó rcio entre leguminosas e gram íneas pode determinar a
combinação de resíduos com características favoráveis não só à proteção do
solo, principalmente pela presença de resíduos de gramíneas, mas também
à nutrição das plantas, pelo aporte de N pelas leguminosas v ia FBN (Fixação
Biológica de Nitrogênio).
Aita et ai. (2000) relatam que as principa is vantagens atribuídas ao
consórcio de gramíneas e leguminosas para adubação verde são:

• maior rendimento de matéria seca, em relação ao cultivo isolado de


cada espécie;
• maior taxa de FBN pela leguminosa, por causa da competição com a
gramínea pelo N disponível do solo;

• maior eficiência no uso da água e de nutrientes, por causa da


exploração de diferentes volumes de solo por sistemas radiculares com
um padrão distinto;
• melhor sincronia entre liberação de nutrientes e a absorção dos
mesmos pela cultura subsequente;
• melhor proteção do solo em resposta à manutenção dos resíduos
vegetais por maior período de tempo, em função da menor tax a de
decomposição pelas gramíneas; e

• maior redução da infestação de ervas espontâneas, compa rado


àquela que ocorreria após o manejo apenas de leguminosas .

169
Manual de Horticultura Orgânica
_,___,,

Avaliando o pré-cultivo da crotalária em sistema de plantio direto para a


cultura da berinjela, CASTRO et ai. (2005) concluíram que a palhada dessa
espécie foi mais eficiente que a do milheto e do pousio para cobertura morta
do solo e consequentemente o controle de plantas espontâneas foi maior.
Segundo Alvarenga et ai. (2002), a quantidade e qualidade da palha sobre
a superfície do solo, dependem, em grande parte, do tipo de planta de cobertura
e do manejo que lhe é dado. Geralmente, considera-se que 6 t.ha·1 de resíduos
sobre a superfície seja uma quantidade adequada ao sistema plantio direto,
com a qual se consegue uma adequada taxa de cobertura do solo.
Entretanto, dependendo do tipo de planta, da região e das condições
edafoclimáticas, essa quantidade pode variar bastante em função das facilidades
ou dificuldades de produção de biomassa ou da taxa de decomposição
(ALVARENGA et ai., 2002).
Mesmo reconhecendo essa variabilidade, o quantitativo de biomassa
deverá ser um fator primordial na escolha das espécies a serem empregadas
no plantio direto, pois, necessariamente, deverá ser capaz de cobrir o solo
(Figura 6.3), para se conseguir os benefícios já citados.

Figura 6.3 _ Campo de adubo verde com bom nível de cobertura do solo -
Fundação GAIA.
Essa necessidade foi comprovada nos resultados de cinco experimentos
conduzidos no sistema de semeadura direta, os quais indicaram que s e 7
t.ha-1 de resíduos de palha de trigo sobre o solo reduziram a biomassa de
plantas daninhas em 21 % e 73%, respectivamente, comparados com O solo

170
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

descoberto (WICKS et ai., 1994). Também, Crutchfield et ai. (1985) relatam


que 5 t.ha ·1 de resíduos de trigo reduziram a densidade de infestantes em
65%, contrastada com solos sem resíduos.

e) Fazer cultivas em alamedas é uma alternativa


O cultivo de plantas anuais em alamedas (ou aleias) é uma das alternativas
para a geração adicional de palhadas no sistema plantio direto em produção
orgânica. Consiste no estabelecimento de faixas de plantas arbustivas ou
arbóreas de múltiplos interesses, distanciadas a cada 10 ma 30 m (dependendo
das espécies envolvidas), formando aleias ou alamedas, onde se cultiva(m)
a(s) planta(s) anual(is) de interesse comercial.
Este sistema pode apresentar diversas vantagens, como:

• aumento da biodiversidade;
• estabelecimento de áreas de refúgio para predadores, favorecendo o
equilíbrio ecológico;
• fixação biológica de C e N para o sistema;
• geração adicional de palhada para plantio direto;
• reciclagem de nutrientes no perfil do solo;
• proteção e conservação do solo;
• função de quebra-vento, com melhoria no microclima;
• fonte de madeira para a propriedade, dentre outras.

Essa alternativa de manejo para o SPD merece atenção especial, mais


especificamente quanto ao uso de linhas de plantas leguminosas para fixação
de N (Figura 6.4). Estas se associarão às plantas formadoras de palhadas,
que fixarão C no pré-cultivo da cultura de interesse comercial. Em muitas
situações, esta poderá se concretizar numa das melhores opções para o cultivo
orgânico de hortaliças em SPD orgânico. O cultivo em alamedas estará mais
detalhado na seção sobre adubação verde deste manual.
Comprovando a eficiência dessa alternativa, pesquisas realizadas pelo
Centro Nacional de Milho e Sorgo (EMBRAPA, 2005), com cultivo de milho em
aleias com Leucena, comprovaram a grande capacidade dessa leguminosa em
aportar N para a cultura e de reciclar nutrientes no perfil do solo, disponibilizando
potássio de forma significativa, elevando o teor desse elemento em mais de
200% na camada de O a 20 cm (de 35 mg.dm·3 , nas áreas sem Leucena para
95 mg.dm·3 nas áreas com Leucena).

171
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.4 - Cultivo em aleias de Araruta entre faixas de Gliricídia sepium -


Fazendinha ecológica da EMBRAPA/CNPAB, Seropédica - RJ.

d) Empregar equipamentos adequados para o manejo de palhadas


e ervas espontâneas
A engenharia agrícola é uma das áreas de maior carência em tecnolog ias
e produtos adequados à agricultura orgânica, especificamente quanto a
equipamentos adequados ao manejo de ervas espontâneas e adubos verdes.
Os implementas empregados para o manejo de palhas e para o controle das
ervas espontâneas em SPD são praticamente os mesmos há anos (acamamento,
trituração etc.). Os principais equipamentos e práticas aplicáveis ao cu ltivo
orgânico de hortaliças, no sistema plantio direto, são roçadei ras, rolo-faca ,
rolo-disco, triturador, conforme descrições:

• Roçadeiras : manuais e mecanizadas, sendo aplicáveis à maioria dos


sistemas e espécies de adubos verdes. Existem modelos para microtrator
e trator, podendo ser utilizada para adubos verdes menos fibrosos ou com
muita rama (ex: mucuna) e ervas espontâneas .
• Rolo-faca: para acamar espécies de cobertura, especialmente aquelas
de crescimento ereto. Existem modelos para tração animal, m icrotratores
e tratores .
• Rolo-disco: usado para acamar espécies que apresentam maior
dificuldade de acamamento, como a mucuna, dado o seu hábito de crescimento.

172
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

• Triturador: implemento acoplado ao microtrator, igua l a um triturador


de grãos, sendo indicado para espécies mais fibrosas (sorgo, milho, milheto,
crotalárias).

• Triturador de resíduos no solo: implemento acoplado a trator, útil


para desintegração de restos de podas e de adubos verdes.

Na Figura 6.5 são ilustrados dois implementas manua is e na Figura 6.6


algumas máquinas e implementas mecanizados.

Figura 6.5 - Máquinas e implementos manuais para manejo de palhadas em


pré-plantio. Foice (A) e Roçadeira ma nual motorizada para acamamento de
biomassa de Crota/aria juncea (B ).

173
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.6 A _ Máquinas e implementas mecanizados para manejo de palhadas


em pré-plantio. Triturador de capoeira "Tritucap' (1 ). "Grade" de pneus para
acamar palhadas - criatividade ecológica (2).

174
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Figura 6.6 B - Rolo-faca de microtrator ( 1). Rolo-faca de trator (2).

175
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.6 e - Roçadeira frontal de microtrator (1 ). Roçadeira de trator (2).

176
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Figura 6.6 D - Grade niveladora - opção para espécies mais tenras (1 ). Triturador
de resíduos no solo (2), fonte : www.mfrural.com.br.

Segundo Rowe (2000), quanto a equipamentos para semeadura , já existem


kits de plantio direto/cultivo mínimo, além de vários modelos, com maior ou
menor grau de sofisticação, dependendo do fabricante e do objetivo do kit,
fabricados na forma de semeadeiras- adubadeiras para plantio direto/ cultivo
mínimo, movidas a tração animal ou m icrotrator, que podem se r adaptadas
para a semeadura de algumas espécies olerícolas ou adubos ve rdes no SPD
orgânico, a exemplo dos modelos apresentados na Figura 6. 7 .

177
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6. 7 - Plantadeira de 1 linha para tração animal (A). Plantadeira de 1 linha


para microtrator (8). Plantadeira de 2 linhas para microtrator (C).

Finalmente, é importante destacar que o emprego adequado de máquinas,


equipamentos e implementas amplia a possibilidade de implantação do
plantio direto orgânico em áreas maiores, de forma mais econômica, além
de apresentar-se como alternativa tecnológica para a inserção de novos
agricultores na produção orgânica de alimentos.

178
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

6.1.4. FERTILIZAÇÃO DO SOLO

O correto manejo de solos em sistemas orgânicos de produção é uma das


atividades prioritárias e vitais, uma vez que o mesmo deve ser considerado
não apenas como suporte de plantas ou reservatório de nutrientes, mas como
um organismo vivo e um sistema complexo que abriga uma diversidade de
fauna e flora indispensáveis para a sustentabilidade do agroecossistema .
Adubações orgânicas devem ser realizadas de forma adequada para não
provocar excessos de nutrientes no solo, especialmente quanto ao aporte de
fósforo em áreas de cultivo intensivo de hortaliças, quando se conjuga o uso
de estercos e fosfato natural. Da mesma forma , o uso de estercos de aviários
pode elevar excessivamente os níveis de cálcio, conduzindo a excessos do
elemento e desbalanço da relação Ca: Mg.
Entretanto, deve-se lembrar que a clássica relação 3: 1 não é uma
recomendação estática e, ainda, que concentrações elevadas de potássio
decrescem a absorção de cálcio e magnésio.
Em sistemas convencionais, é comum a afirmativa de que relações Ca: Mg
de 0,3: 1 até 30: 1 não tiveram nenhuma influência na produção. As plantas,
geralmente, produzem bem em uma gama variada de relações Ca: Mg. As
diversas culturas apresentam diferentes necessidades de cálcio e magnésio,
porém, como regra geral, uma relação 5: 1 é considerada boa para a maioria
das lavouras, se o objetivo for atingir alta qualidade e boa resistência a doenças
(GARCIA, 2000). O mesmo autor reporta, ainda, que o uso de calcário também
deve ser feito com prudência, e que o uso excessivo desse corretivo pode
conduzir a solos compactados e com baixa produtividade.
Dados obtidos por Souza (2000), nos três primeiros anos de manejo
orgânico, em cultivo de hortaliças, registraram elevações muito rápidas de
fósforo e cálcio em solos trabalhados com compostagem à base de esterco
de aviário, enriquecida com 3 kg.m-3 de fosfato de Araxá no momento da
confecção da pilha.
De posse dessas informações, pode-se afirmar que o uso do calcário e
do fosfato natural, em manejo orgânico intensivo do solo, deve ser realizado
(dependendo da análise do solo) apenas no início da implantação do sistema
orgânico e, ou durante a fase de conversão do sistema convencional para
o orgânico, uma vez que a própria ciclagem de matéria orgânica, nos anos
subsequentes, será suficiente para fornecer todos os nutrientes às plantas e
manter o pH do solo numa faixa ideal para o melhor desenvolvimento das plantas.
Em geral, sistemas orgânicos de cultivo permitem ciclar, ofertar e acumular
no solo todos os macronutrientes necessários ao bom desenvolvimento da

179
Manual de Horticultura Orgânica

maioria das espécies cultivadas. Atenção especial deve ser dada ao nitrogênio,
aplicando um sistema de manejo ou empregando fontes que permitam a fixação
e disponibilização desse elemento para as culturas.
Temple et. ai. (1994) (Tabelas 6.5 e 6.6) e Scow et. ai. (1994) (Tabela
6.7), em experimentos realizados na Califórnia - EUA, no período de 1989
a 1992, compararam os sistemas orgânico, baixos-insumos e convencional,
numa rotação de culturas com tomate industrial, milho, açafrão e feijão. Nesses
trabalhos, nos casos em que se verificou menor produtividade em sistema
orgânico, quando comparado ao sistema convencional de produção, os autores
relacionaram o fato à deficiência no aporte de nitrogênio.

Tabela 6.5 - Teores de N03 no solo na época da floração, biomassa de ervas


e rendimento de frutos na cultura do tomate em quatro sistemas de produção.
Califórnia - EUA, 1991 e 19921

Orgânico 1530 b 6560 b 46 162 a 28.2 c 42.7 a

Baixos insumos 1800 b 12220 a 40 212 a 34.9 b 42 .9 a

Conv. 4 anos 4270 a 15470 a o 16 b 45 .6 a 4 7 .8 a

Conv. 2 anos 4100 a 15150 a o 44 b 37.4 b 41.3 a

1 Médias seguidas pela mesma letra, nas colunas, não diferem estatisticamente entre si a 5%
de probabilidade.
2 Peso seco.

Tabela 6.6 - Porcentagem de nitrogênio nas folhas, rendimento de grãos e


biomassa de ervas na cultura do milho em três sistemas de produção. Califórnia
- EUA, 1991 e 1992 1
N nas folhas Biomassa ervas2 Rendimento
Sistemas de
(%) (lb/acre) (ton,/acre)
produção

Orgânico
Baixo s insumos
- 2.4 a
2 .4 a

2 .8 a
2.8

a
1991
93
46
1
1992
744 a
33 b
20 b
1991
• •
4.09 b
5 .06 a

1992
4 .92 b
5 .92 a
4.76 b
Convencional 3 .0 a

1 Médias seguidas pela mesma letra , nas co lunas, não d iferem esta t isticamente entre si a 5%
de probabilidade.
2 Peso seco.

180
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.7 - Teores de NO3 no solo, porcentagem de nitrogênio nas folhas e


rendimentos de tomate e milho em diferentes sistemas de produção. Califórnia -
EUA, 1990 a 19921

1990 1991 1992 1990 1991 1992


Tomate N0 3 no solo (ppm) Ton./Acre

Orgânico 7.42 b 1.53 b 6.56 b 30.7 c 28.2 c 42.7 a

Baixos insumos 12.49 a 1.80 b 12.23 a 36.3 b 34.9 b 42.9 a

Convencional - 4 anos 12.73 a 4.28 a 15.48 a 36.8 ab 45.6 a 47.1 a

Convenciona 1 - 2 anos 13.19 a 4. 10 a 15.15 a 40.0 a 37.4 b 41.3 a

Milho N nas folhas(%) Ton./Acre

Orgânico 2.97 a 2.4 a 2.4 b 5.2 a 4.1 b 4.9 b

Baixos insumos 2.87 a 2.4 a 2.8 a 5.0 a 4.1 b 5.9 a

Convencional - 4 anos 2.99 a 3.0 a 2.8 a 4.9 a 5.1 a 4.8 b


1 Médias seguidas pela mesma letra, nas colunas, não diferem estatisticamente entre si a 5%
de probabilidade, pelo teste de DUNCAN.

Bertalot e Mendoza ( 1996) informam que a fixação biológica de nitrogênio é o


principal mecanismo de fornecimento desse elemento nos ecossistemas naturais
e em grande parte das culturas agrícolas nas regiões tropicais. Mencionam,
ainda, que a fixação biológica pode ocorrer de diversas formas, realizada por
microrganismos, em associação simbiótica com plantas hospedeiras ou em
forma de vida livre, destacando-se: Rhizobium, Bradyrhizobium, Sinorhizobium,
Azorhizobium, Photorhizobium, Azospirillum sp. (associadas à gramíneas),
Herbaspirillum seropedicae (associadas à cana-de-açúcar e arroz), Azoarcus
(associada a rizosfera do arroz), Acetobacter diazotrophicus (encontradas no
tecido da cana-de-açúcar e batata-doce), Azotobacter, Burkolderia sp., dentre outros.
Estudo realizado por Souza e Prezotti (1996) demonstrou que o
parcelamento da adubação orgânica pode auxiliar no desenvolvimento de
plantas, visto que fornece, de forma gradual, os nutrientes essenciais para a
cultura, principalmente o nitrogênio que não se acumula no solo, necessitando
ser reciclado a todo momento. Exemplificando essa informação, na Tabela
6.8, mostra-se a resposta da cultura do tomate a adubações em cobertura
com vários tipos de adubos orgânicos, revelando aumento expressivo na
produtividade, quando se utilizou adubação em cobertura com torta de cacau,
que contém 3,0% a 3,5% de N na matéria seca.

181
Manual de Horticultura Orgânica

Wolinsk Miklós (1997) destaca o importante papel desempenhado pela


fauna do solo sobre seus atributos químicos, especialmente pelas m inhocas
e pelos cupins epígenos . De maneira geral, as minhocas apresentam ação
sobre os processos de humificação ( contribuem na fragmentação dos resíduos
vegetais e incorporação); sobre os elementos totais, trocáve is e assim iláveis
(cálcio, potássio, magnésio e fósforo tornam-se mais abundantes) e sobre o
nitrogênio do solo (favorecem a nitrificação da matéria orgânica e aum ent am
o teor de N no solo).
Ainda segundo Wolinsk Miklós (1997), os cupins epígenos apresenta m ação
sobre a matéria orgânica e sobre as bases totais e trocáveis. Relata qu e Lee e
Wood (citados por BACHELIER, 1978) calcularam que, no cerrado austral ia no,
os grandes cupinzeiros de Nasutitermes triodiae represent am apenas 2% do
peso total do conjunto cupinzeiros mais horizonte superficial (O - 8 cm), mas
continham até 9,6% do carbono total, 5,3% do nitrogênio total, 5% do fósforo
total, 11, 6% do cálcio total e 9,1 % do cálcio trocável, 6,4% do potássio total e
13,1 % do potássio trocável e até 22% do magnésio trocável.

Tabela 6.8 - Efeito da adubação orgânica em cobertura sobre a cultura do tomate


em sistema orgânico de produção

Nº- Peso Nº- Produtividade


Tratamentos Frutos (kg/ha) Frutos (kg/ha)

1 - Composto (30 dias) 128 32.617 91 26.284


2 - Composto (30 e 60dias) 140 32 . 138 95 27 .991

3 - Composto diluído 1: 2 137 32.279 98 28 .378


(30 dias)

4 - Composto diluído 129 30. 745 89 26.986


1:2 (30 e 60 dias)

5 - Esterco de galinha 140 32.328 101 29 .723


(30 dias)

6 - Esterco de galinha 144 33.723 98 31. 034


(30 e 60 dias)
7 - Torta de cacau 168 42.038 113 36.343
(30 dias)
8 - Torta de cacau 154 42.005 107 36.4 60
(30 e 60 dias)
139 30.924 94 26.971
9 - Testemunha

182
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

RECOMENDAÇÕES PARA UM CORRETO MANEJO DE SOLO

O manejo recomendado para sistemas orgânicos compreende técnicas


que conduzam ao uso equilibrado do solo, visando ao fornecimento de
macronutrientes e à manutenção de uma fertilidade real e duradoura no tempo.
Destacam-se as seguintes práticas:

• Preparo mecânico com mínimo impacto na estrutura, lembrando que


existe uma resposta diferenciada das espécies ao emprego da aração,
gradagem e da enxada rotativa.
• Aplicação de adubos orgânicos, na forma de estercos animais,
compostos orgânicos ou outra fonte recom endada pelas normas técnicas
de produção.
• Uso da adubação verde com leguminosas (fixação biológica de
nitrogênio) e com gramíneas (melhoria na estrutura física).
• Emprego de cobertura morta em situações de necessidade de
proteção do solo ou favorecimento do desenvolvimento de plantas,
também observando que nem todas as espécies respondem positivamente
ou oferecem um retorno econômico que viabilize o uso dessa prática.
• Manejo de ervas espontâneas, como forma de proteção do solo e
ciclagem de nutrientes, além da preservação do equilíbrio biológico na
área de produção.
• Utilização de adubações suplementares com biofertilizantes líquidos
via solo ou via foliar, em caso de necessidade.
• Adubações auxiliares com adubos minerais de baixa solubilidade para
a correção temporária de deficiências, a exemplo de fosfatos de rochas.

Essas práticas, em conjunto, têm demonstrado uma elevada eficiência,


conduzindo a um bom desempenho técnico e econômico de cultivas orgânicos,
reflexo da manutenção e melhoria da fertilidade dos solos, conforme destaca
um trabalho realizado por Souza (2000) .
Nesse estudo, o monitoramento das características químicas revelou uma
melhoria generalizada na fertilidade dos solos sob manejo orgânico. A evolução
nos valores da CTC é reflexo da evolução similar nos teores de matéria orgânica,
mostrando uma progressão gradual ao longo dos anos. De forma similar, a
Soma de Bases desses solos atingiu um valor máximo no 8° ano (1997), em
função da expressiva progressão dos teores de nutrientes alcançados com o
manejo orgânico empregado.

183
Manual de Horticultura Orgânica

, Após dez anos de manejo orgânico (1990 a 1999), os níveis médios de


fosforo, el~varam-se até 390% (de 46,0 para 225,6 ppm) e os níveis médios
de potass10 elevaram-se em até 92% (de 144,0 para 276 ppm), podendo ser
considerados plenamente suficientes para atender às necessidades nutricionais
da maioria das culturas. Observaram-se acréscimos significativos nos teores
de cálcio e magnésio, uma vez que o Ca evoluiu linearmente de 3,2 para 6,6
Cmol/dm 3 e o Mg de O, 78 para 1,48 Cmol/dm 3 . Como reflexo das elevações
nos teores das bases K, Ca e Mg, a Saturação por Bases dos solos apresentou
progressão linear até o 7° ano, elevando-se de 61 % para 82%, conforme
observado nos índices médios do sistema (SOUZA, 2000).
Semelhantemente, Clark et. ai. (1998), estudando as mudanças nas
propriedades químicas do solo durante o processo de transição do sistema
convencional para o orgânico, avaliaram quatro sistemas de produção (orgânico,
baixos-insumos e dois sistemas convencionais), durante oito anos na Ca lifórnia
- EUA. Verificaram que, após quatro anos, os solos nos sistemas orgânico e
baixos-insumos apresentaram maiores teores de carbono, P solúvel, K trocável
e pH. Observaram, também, que os níveis estáveis de EC - Condutividade
Elétrica, no sistema orgânico, indicaram que a aplicação de esterco animal não
aumentou a salinidade dos solos.
Reganold et. ai. (1998) estudando as propriedades do solo e a performance
financeira de propriedades biodinâmicas na Nova Zelândia, concluíram que as
propriedades biodinâmicas apresentaram melhor qualidade do solo que as
convencionais e foram viáveis economicamente.
Na média de todas as propriedades e todas atividades avaliadas (hortaliças,
citrus, maçã, pera, grãos), a CTC e o nitrogênio total foram maiores nas
propriedades biodinâmicas. O fósforo total, cálcio trocável, magnésio trocável
e potássio trocável não diferiram entre os sistemas. Os sistemas convenciona is
apresentaram maiores teores em fósforo e enxofre trocáveis.
outra questão importante a ser abordada refere-se à eficiência dos adubos
orgânicos em relação aos adubos minerais. Em geral, a literatura técnica sobre
sistemas convencionais de cultivo relatam que os adubos minerais têm uma
eficiência em torno de 80% e que para os adubos orgânicos esta eficiência está
em torno de 30% .
Harkaly ( 1990) pondera que essas informações baseiam-se em
experimentações de curto prazo (um ano) e não permite uma interpretação
segura . Relata que um trabalho realizado por Petter:o~, na Suécia, no período
de 197 l a l 979 avaliou a eficiência dos adubos organicos e minerais ao longo
' . .
dos anos em duas rotações de cultura, nos sistemas convencional e biodinâmica.
Concluiu que a eficiência na adição de nitrogênio no si stema biodinâmica fo i de
64% e não 30% como se relatou anteriormente .

184
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

6.2. ADUBAÇÃO ORGÂNICA


Santos (2005) relata que, havendo colheita nos agroecossistemas, haverá,
obrigatoriamente, saída de biomassa e nutrientes, tornando os processos de
ciclagem de nutrientes menos eficientes do que nos ecossistemas naturais.
Assim, haverá a necessidade de aporte externo (mesmo que de origem local
e biológica) para a manutenção do sistema, sob o risco de realizar-se uma
agricultura predatória.
Essa situação é mais crítica na olericultura, onde as culturas apresentam
elevada produtividade em curtos períodos de tempo, com grande exportação
de nutrientes com as colheitas. Esse aporte externo, geralmente, é realizado
com adubações orgânicas.
Contudo, na olericultura orgânica, o enfoque das adubações está direcionado
não só aos aspectos químicos da fertilidade do solo, mas também dos seus
componentes físicos e físico-químicos (CTC, densidade, porosidade), biológicos
(atividade da fauna de solo e microrganismos) e aos efeitos de longo prazo do
manejo da matéria orgânica.
Nesse sentido, um aspecto central do manejo da fertilidade, na produção
orgânica de hortaliças, será a utilização de dejetos animais, resíduos
agroindustriais, rotação de culturas (incluindo gramíneas e leguminosas) e,
sempre que possível, sistema de preparo do solo que reduza seu revolvimento.
Existem diversos tipos de adubos orgânicos, de origem animal, vegetal e
agroindustrial, recomendados para utilização no cultivo orgânico de hortaliças
e, de maneira geral, deve-se atentar para a origem e a qualidade dos mesmos.
A legislação permite, em situações especiais, a utilização de alguns adubos
minerais na produção orgânica, tais como sais de micronutrientes, sulfato
de potássio e de magnésio e ácido bórico. Contudo, há a necessidade de
autorização prévia da instituição certificadora e só se recomenda a aplicação
indireta (via composto ou biofertilizante) desses produtos.
Tratando-se de adubos oriundos de fontes externas à propriedade ou de
sistemas convencionais de criação (no caso dos estercos de origem animal), a
atenção deve ser redobrada, pois muitos deles podem apresentar contaminação
por resíduos químicos, antibióticos e outras substâncias de uso proibido pelas
normas técnicas de produção.
Por esse motivo, atualmente recomenda-se empregar sistemas de
compostagem no processo produtivo, tema central da abordagem do presente
livro, que, além de promover a 'higienização' da matéria orgânica, permite
obter um produto parcialmente mineralizado, de maior eficácia na nutrição das
plantas em sistemas orgânicos de produção de hortaliças.

185
Manual de Horticultura Orgânica

Porém, estercos gerados na propriedade ou originados de fontes conhecidas


(que apresentem qualidade comprovada por análise) podem ser utilizados
diretamente como adubo orgânico, sem sofrer o processo de compostagem.
Vejam algumas recomendações de Popia et ai. (2000), descritas a seguir.

6.2.1. ESTERCOS

Esterco de aviário
As aves não produzem urina, eliminando-a junto com as fezes, por isso
seu esterco é mais rico em nitrogênio que o de ruminantes ou suínos.
O esterco proveniente de frangos e galinhas, de criações intensivas
e alimentadas com ração, é rico em nutrientes, especialmente nitrogênio e
fósforo, mas pobre em celulose (Figura 6.8). Por isso, sua decomposição é
rápida, liberando em poucos dias a maior parte dos nutrientes. Essa liberação
rápida tem consequências importantes para o manejo do esterco, pois, ao ser
deixado para curtir, as perdas de nitrogênio para o ar podem ser muito grandes.
Para evitar esses inconvenientes, o esterco de aves não deve ser
armazenado puro. Deve ser misturado a materiais de reação ácida, como a
terra, promovendo imobilização do nitrogênio por microrganismos.
No caso do uso direto do esterco fresco, a incorporação ao solo reduz as
perdas de nitrogênio. Os efeitos dos estercos de aves são muito semelhantes
aos da ureia, porque têm efeito rápido, sendo, porém, os que mais rápido
desaparecem.

Esterco de ruminantes, equinos e coelhos


os estercos de ruminantes (bovinos, caprinos e ovinos), de equinos e
coelhos são bastante usados como adubo orgânico.
Como de quaisquer outros animais, a composição do esterco dessas espécies
depende da alimentação. Exclusivamente a pasto, o conteúdo de nitrogênio
desses estercos é menor do que com suplementação com concentrados. como
referência média, pode-se considerar que, do total ingerido, cerca de 70% é
excretado pela urina e 10 a 15% pelas fezes.
Quando O esterco provém de pastos, na sua composição entram apenas
fezes, porque a urina fica na terra. Quando provém de animais estabulados, a
palha presente na cama (piso) retém parte da urina. Recomendam-se de 5 a 6
kg de palha seca por dia para reter totalmente a urina produzida por uma vaca
adulta estabulada. o esterco oriundo de pastos pode ser usado cru, curtido, ou
em forma de composto (Figura 6.9) .

186
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

-. - .
'

::.f;_::;_
_ ---:_.. ..
.....
~- t ..
.., .
·. ...,. ..

Figura 6.8 - Criação de galinhas com pastejo rotacionado, em sistema orgânico:


geração de esterco de comprovada qualidade e insumo fundamental na
reciclagem de matéria orgânica e integração no processo produtivo. Estação
agroecológica 'Domaine lle-de-France' - Pedra Azul - ES (A) e Fazenda Luiziânia
- Entre Rios de Minas - MG (B).

187
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.9 - Rebanho bovino: geração de grande volume de esterco a baixo


custo, para a ciclagem interna da propriedade. Fazenda Luiziânia - Entre Rios
de Minas - MG.

Esterco de suínos
Pela natureza da alimentação dos suínos, o esterco que produzem é mais
rico em nutrientes e mais pobre em matéria orgânica do que o de ruminantes.
Também, como a de aves, sua matéria orgânica decompõe-se rapidamente,
tornando-se mais um alimento para as plantas que para o solo.
oporco sofre de muitas doenças que atacam o homem e, por causa dos
riscos, é preferível reciclar o seu esterco em culturas arbóreas ou de cereais.
Na produção de hortaliças, recomenda -se utilizar este esterco apenas como
inoculante no processo de compostagem.

188
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

6.2.2. COMPOSTAGEM ORGÂNICA

6.2.2.1. D ESCRIÇÃO GERAL DO PROCESSO

O processo de compostagem pode ser representa do de form a simplificada


pelo esquema mostrado abaixo(ABES, 1999):

,Ntaté1in t:ryânica + micror!JílRfSOICS + 02

1
M.0.estável + C02 + H2D +calor+ nutrientes

A compostagem é o processo de transformação de materiais grosseiros,


como palhada e estrume, em materiais orgânicos utilizáveis na agricultura.
o processo envolve transformações extremamente complexas de natureza
bioquímica, promovidas por milhões de microrganismos do solo que têm na
matéria orgânica in natura sua fonte de energia, nutrientes minerais e carbono.
Por essa razão, uma pilha de composto não é apenas um monte de lixo
orgânico empilhado ou acondicionado em um compartimento. É um modo de
fornecer as condições adequadas aos microrganismos para que esses degradem
a matéria orgânica e disponibilizem nutrientes para as plantas através de um
produto de elevada qualidade (PLANETA ORGÂNICO, 2002).
Essa qualidade incontestável tem sido comprovada em diversos trabalhos
que mostram que a utilização de composto orgânico nas adubações produz
múltiplos efeitos sobre o solo e as plantas cultivadas, através do aumento
da permeabilidade do solo, agregação das partículas minerais, fornecimento
de macro e micronutrientes, correção da acidez, incremento na população de
microrganismos e elevação da eficiência na absorção de nutrientes.
Dependendo das condições locais, pode-se obter melhores desempenhos
com o uso do composto, em relação a outras formas de adubação orgânica .
Exemplificando essa situação, Souza (2005) observou, para todos os anos
avaliados, melhor rendimento de cabeças comerciais de repolho com o
emprego de composto orgânico (79.294 kg/ha), apresentando uma média de
produtividade superior aos tratamentos com cobertura morta - CM (67. 996 kg/
ha) ou com cama de frango (66.981 kg/ha) (Tabela 6.9).

189
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.9 - Formas de recuperação orgânica de solo para a cultura do repolho, 2001

Produtividade comercial ( kg/ha ) .°A,


Tratamento • • • • • • Méd ia
•• •• •••
1- Composto 99.508 71.598 66.778 79 .2 94

2- Composto + CM 84.337 64.744 54.906 67 .9 96

3- Cama frango + CM 70.089 70.535 60.319 66.9 81

A técnica de compostagem orgânica pelo método 'indore', isto é, rea lizada


em pilhas, montes ou medas, é uma prática que tem sido utilizada há muitos
anos, em todo o mundo, servindo de importante auxiliar nos processos
produtivos agrícolas.
Conhecer os efeitos benéficos que a matéria organ1ca provoca, nas
estruturas química, física e biológica dos nossos solos tropicais, define essa
prática como fundamental para a busca da sustentabilidade agrícola de nossos
sistemas produtivos.
Além disso, o conhecimento das propriedades físicas e químicas das
substâncias húmicas, assim como dos benefícios da atividade microbiana dos
solos, indica a necessidade de melhor aproveitamento dos resíduos rurais
(esterco, cama de aviários, restos de cultura, folhagens etc.), permitindo a
manutenção e o incremento da produtividade do mesmo. Ademais, existe ainda
a possibilidade de aproveitamento de resíduos industriais e de centros urbanos.
A legislação brasileira de acordo com o Decreto 86.955 de 18/02/82
denomina o composto orgânico como fertilizante composto e o define como
fertilizante obtido por processo bioquímico, natural ou controlado, com mistura
de resíduos de origem vegetal ou animal (BRASIL, citado por KIEHL, 2001).
Dito de maneira científica, o composto é o resultado da degradação biológica
da matéria orgânica, em presença de oxigênio do ar, sob condições controladas
pelo homem. Os produtos do processo de decomposição são: gás carbônico,
calor, água e a matéria orgânica "compostada" (PLANETA ORGÂNICO, 2002).
Todos os restos de alimentos, estercos animais, aparas de grama, folhas,
galhos, restos de culturas agrícolas, enfim, todo o material de origem animal
ou vegetal pode entrar na produção do composto.

190
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Considerando que a grande maioria de nossos produtores de hortaliças


trabalham em áreas com alto grau de diversificação, muitos deles com criações
de animais associadas ao processo de produção, justifica-se a necessidade e
revela-se certa facilidade de se estabelecer formas de produção baseadas na
integração dos recursos internos da propriedade, visando a redução de custos
e melhorias no rendimento de t odo o siste ma produt ivo.
Contudo, ex ist em algu ns materiais qu e, por questões óbvias, devem ser
evitados na compostagem , que são: madeira t rat ada com pesticidas contra
cupins ou enverni zadas, vid ro, metal, óleo, tinta , couro, plást ico e papel, que,
além de não serem facilmente degradados pelos microrgani smos, podem ser
transformados através da reci clagem indust rial ou serem reaproveitados em
peças de artesanato.
À medida que o processo de compostagem se inicia, há proliferação de
populações complexas de diversos grupos de microrganismos (bactérias,
fungos, actinomicetos), que vão se sucedendo, de acordo com as características
do meio. De acordo com suas temperaturas ótimas, esses microrganismos são
classificados em psicrófilos (O - 20ºC), mesófilos (15 - 43ºC) e termófilos ( 40 -
85ºC) (ABES, 1999). Na verdade, esses limites não são rígidos e representam
muito mais os intervalos ótimos para cada classe de microrganismos do que
divisões estanques.
Abes (1999) ainda descreve a compostagem em várias fases, onde no
início há um forte crescimento dos microrganismos mesófilos, com a elevação
gradativa da temperatura, resultante do processo de biodegradação, a população
de mesófilos dim inui e os microrganismos termófilos proliferam com mais
intensidade. A população termófila é extremamente ativa, provocando intensa
e rápida degradação da matéria orgânica e maior elevação da temperatura, o
que elimina os microrganismos patogênicos.
Quando o substrato orgânico for transformado, em sua maioria , a
temperatura diminui, a população termófila se restringe, a atividade biológica
global se reduz de maneira significativa e os mesófilos se instalam novamente.
Nessa fase, a maioria das moléculas facilmente biodegradáveis é
transformada, o composto apresenta odor agradável e já teve início o processo
de humificação, típico da segunda etapa do processo, denominada matu ração.
Nessa fase de maturação, a atividade biológica é pequena, portanto a
necessidade de aeração também diminui. Este processo pode ser mais bem
elucidado na Figura 6.10.

191
Manual de Horticultura Orgânica

FASE
FASE TERMOFILICA MESOFILICA

-----
80 TEMP.SEM CONTROLE

70 TEMP.SOB CONTROLE

1
60

50

40
." ,,,,. ·'------..

9

~1
w~
30
✓-
7

✓-
1-(.) 6
-<( o FORMAÇÃO DE ÁCIDOS
...J-
ou:
>~
·w
51-
20

10

DEGRADAÇÃO E
HÚMICOS
(PRODUÇÃO DO COMPOSTO)
5
r
I
(l_
Cf) 'HIGIENIZAÇÃO'
4
o
FASE1 FASE2 FASE 3 FASE4

TEMPO DE COMPOSTAGEM (DIAS)

- TEMPERAURA

CP - CALOR PRODUZIDO - • - PH
Cp - CALOR PERDIDO -■- SÓLIDOS VOLÁTEIS
FASE 1 -AQUECIMENTO;CP> Cp • 12 A 24 HORAS
FASE 2 - FASE ATIVA DE DEGRADAÇÃO; CP= Cp• 70 A 90 DIAS
FASE 3 - FASE DE RESFRIAMENTO (DEPLEÇÃO DO SUBSTRATO) 2 A 5 DIAS
FASE 4 - MANUTENÇÃO (OU CURA): CP< Cp• 30 A 60 DIAS

Figura 6.1 O- Mudanças ocorrentes nos principais parâmetros de controle durante


as fases de compostagem.
Fonte: Pereira Neto (1996).

Relação C/N
A compostagem é um processo biológico sendo por isso necessário criar
as condições corretas para o crescimento de seres vivos, em particular,
satisfazendo os seus requisitos nutricionais. Dos muitos elementos necessá rios
à decomposição microbiológica, o carbono e o nitrogênio são os mais importantes
(PLANETA ORGÂNICO, 2002).

192
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Os microrganismos utilizam cerca de trinta vezes mais carbono do


que nitrogênio, sendo esse valor frequentemente encontrado na literatura
como o recomendado para o início do processo (ABES, 1999; KIEHL, 2001;
ROSSETI, 1994).
Se essa razão for muito superior a 30/1 , o crescim ento dos microrganismos
é atrasado pela falta de nitrogên io e, consequ entemente, a degradação dos
compostos torna -se mais dem ora da. Se, pe lo contrário, a razão for muito baixa,
o excesso de nit rog ênio ace lera o processo de deco m posição, mas faz com
que haja criação de zonas anaeróbica s no sistema. CJ excesso de nit rogênio
é liberado na form a de amôn ia, provocando ma u cheiro, perda de nitrogênio
e, consequentemente, um composto mai s pobre nesse nutriente e, por isso,
menos valioso em t erm os comerciais (ABES , 1999).
Esta relação é bastant e variável entre os resíduos de origem vegetal:

• Leguminosas 21/1 a301.1

• Pialttas de Eefeais 50/1 a200/1

• Madeiras 500/, a1000/1

Durante a compostagem, a relação C/N dos resíduos tende a decrescer


até tornar-se constante em torno de 10/1 a 12/1. Nesse ponto, dizemos
que o composto está curado, ou convertido em húmus. Esse decréscimo é
devido à utilização do C da matéria orgânica como fonte de energia, pelos
microrganismos, que o expelem sob a forma de C02 • A relação C/N final está
sempre próxima de 10/1 porque tende a se aproximar da C/N das bactérias
(5/1 a 6/1) e dos fungos (8/1 a 10/1) (KIEHL, 2001).
Entretanto, na prática agrícola, o composto orgânico tem sido utilizado com
uma relação C/N final na faixa de 15/1 a 18/1, pois o tempo de compostagem
se alongaria muito até atingirmos a relação final em torno de 10/1. Além disso,
um composto com uma relação C/N de 18/1, oferece ao solo uma quantidade
maior de carbono, que é fundamental para ativação dos microrganismos do solo.

193
Manual de Horticultura Orgânica

Composição dos principais resíduos agrícolas


Nas Tabelas 6.10 e 6.11, podemos observar a composição de diversos
materiais possíveis de serem utilizados na compostagem. Além da relação
C/N ( que é muito importante para obter um composto equilibrado, onde os
organismos encontrem condições de se desenvolverem satisfatoriamente),
conhecendo-se a composição dos materiais que iremos utilizar, fica mais fácil
estimar os teores dos nutrientes, no final da compostagem, e ainda regulá-los
para satisfazer as necessidades de nossa realidade.

Tabela 6.1 O - Composição química (base seca) de alguns restos vegetais de


interesse como matéria-prima para o preparo de fertilizantes orgânicos

1 Material
Matéria
orgânica ( % )
N
(%)
C/N P,Os
(%) _
l! ' 1

Abacaxi: fibras 71,41 0,90 44/1 traços 0,46


Arroz: cascas 54,55 0,78 39/1 0,58 0,49
Arroz: palhas 54,34 0,78 39/1 0,58 0,41
Aveia : cascas 85,00 0,75 63/1 0,15 0 ,53
Aveia: palhas 85 ,00 0,66 72/1 0,33 1,91
Café: cascas 82,20 0,86 53/1 0,17 2,07
Café: palhas 93,13 1,37 38/1 0,26 1,96
Capim gordura 92,38 0,63 81/1 0,17 -
Capim guiné 88,75 1,49 33/1 0,34 -
Capim jaraguá 90,51 0,79 64/1 0,27 -
Capim meloso 90 .00 0 .70 75/1 0.22 0 .65
Capim mimoso 93,69 0,66 79/1 0,26 -
Capim napier verde 96.00 1,40 40/1 0,33 0,76
Capim pé de galinha 86,99 1,17 41/1 0,51 -
Crotalaria juncea 91,42 1,95 26/1 0,40 1,81
Eucalipto: resíduos 77,60 2,83 15/1 0,35 1,52
Feijão de porro 88,54 2,55 19/1 0,50 2,41
Feijão guandu 95,90 1,81 29/1 0,59 1,14
Feijoeiro: palhas 94,68 1,63 32/1 ' 0,29 1,94
Labelabe 88,46 4,56 11/1 2,08 -
Milho: palhas 96,75 0,48 112/1 0,38 1,64
Mucuna preta 90,68 2,24 22/1 0,58 2,97
93,45 0,06 865/1 0,01 0,01
Serragem de madeira
Fonte: Adaptado de Kiehl (2001) e So uza (200 2 ),

194
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânic o de Hortaliç a s

Tabela 6.11 - Teores de macro e micronutrientes de diversos resíduos orgânicos

Vinhaça 14 1,3 0,09 0,005 0,06 0, 03 0, 26

Torta de filtro 29 7,9 0, 2 7 0,63 0,26 0,13 0 , 07

Torta de mamona 6 30,1 5,5 1,99 5,37 0,59 1,44

Esterco de gado 13 19,4 1,53 0, 53 0,83 0,34 1, 16

Esterco de aves 14 29,6 2,14 1,79 4,93 0,3 5 1,56


(gaiola)
Esterco de aves 20 32,5 1, 60 1,50 2, 33 o,78 1, 76
(cama)
Lodo de esgoto 11 15, 7 1,38 1,83 1,57 0,62 0 , 27
Biod igestor 17 35,1 2 9,57 4 , 98 6,96

ut:]
G-::x:.-ir, 1rr,1
ppm

Vinhaça 37 55 6 1,4 3,8

Torta de filtro 92 10.960 190 19 49

Torta de ma mona 207 1.420 55 80 141

Esterco de gado 1.700 3.623 196 8 57

Esterco de aves 6.210 838 23 23 298


(gaiola)
Esterco de aves 3.125 550 21 266
(cama)
Lodo de esgoto 36. 700 268 22 4.110

Biod igestor 2.185 4.730 2.490 67 119

Fonte: Adaptado de Fundação Cargill (.1 983) e Souza (20_


02_) .

Considerando que existe uma gran.de variabilidade nos teores de


nutrientes dos resíduo"s orgâni,cos, provocada p~la metodologia e calibraçãe;
de ·equipamentos, tipo de solo de origem dos resíduos vegetais, processo
agroindustrial adotado, alimentação dos animais, dentre outros, apresentamos
também outras análises e fontes de fertilizantes orgânicos e minerais (Tabela
6.12), adaptadas de Dadonas (1989), citado por Peche Filho e De Lucca (1997).

195
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.12 - Composição média e relação de proporção de NPK para diversas


fontes de fertilizantes orgânicos e minerais
% na matéria seca Propp(~o
Fertilizantes orgânicos
N-P--K•·
ti
Cinzas - 2.5 10 0- 1-4
Fosfato de araxá - 30 - 0-3-0
Ossos carbonizados - 35 - 0- 3,5-0
Torta de mamona 5.0 2.0 1.1 5-2- 1
Torta de algodão 6.0 3.0 1.4 4- 2- 1
Cascas de café 1.7 1,4 3.7 12- 1-26
Esterco de cavalo 0.7 0.4 0.3 2- 1- 1
Esterco de coelho 2.0 1.3 1.2 1,5- 1- 1
Esterco bovino de curra I curtido 5.0 2.5 5.0 2-1-2
Esterco bovino seco 2.0 1.5 2.2 1, 5- 1- 1,5
Esterco de ovelha 2.0 1.0 2.5 2- 1- 2
Esterco de cabra 3.0 2.0 3.0 1,5-1-1,5
Esterco de galinha 4.0 4.0 2.0 2- 2-1
Resíduo de esgoto 2.0 1.5 0.5 4-3-1
Bagaço de cana 0.3 0.03 0.02 14- 1- 1
Borra de café 1.8 0.1 0.01 176-9- 1
Farinha de ossos crua 2.0 20.0 - 1-10-0
Guano 2.5 8.8 1.1 2- 8-1
(
Serragem de madeira 0.06 0.01 0.01 6-1- 1
Lixo curtido 1.1 0.3 0.6 3- 1-2
Palha de arroz 0.8 0.6 0.4 2- 1-1
Palha de café 1.4 0.2 2.0 5-1- 7
Feijão (sementes) 2.6 0.5 2.4 5-1-5
Palha de feijão 1.6 0.3 1.9 6-1-7
Guandu (sementes) 3.6 0.8 1.8 4- 1-2
Cascas de mandioca (raiz)
0.4 0.3 0.5 1- 1-1
0.5 0.4 1.6 1-1- 4
Milho (palha)
3.9 1.1 1.4 4-1- 1
Mucuna (sementes)

Montagem da pilha
Segundo Planeta Orgânico (ZOO~), ª quantidade de matéria orgânica
(palha) deve ser de três vezes a quantidade ~e eSt erco. Pereira Neto (1996) diz
que a proporção, na prática, em peso, de mi~tura de~s~es materiais é de 70%
de material palhoso para 30% de e5terco ou lixo organico domiciliar.

196
Métodos de Produção para o Cultivo Orgâ nico d e Horta liças

Entretanto, a forma mais técnica que define as proporções ideais dos


resíduos orgânicos a serem misturados na pilha de composto se baseia na
relação Carbono/Nitrogênio dos materiais empregados. Sugere-se que a
quantidade de cada material na mistura proporcione uma relação C/N média
inicial da pilha na faixa de 30/1 a 40/1, o que perm ite obter uma fe rmentação
ideal, obtendo o produto pronto num período de tem po sati sf at ório, o que, em
geral, tem ocorrido entre 70 e 90 dias para materiais triturad os e entre 100 e
120 dias para materiais sem trituração.
Recomenda-se escolher um local preferencialment e plano, livre de ventos
e de fácil acesso para carga e descarga do mate rial, próximo a uma fo nte de
água para as irrigações periódicas (Figura 6. 11) . Se bem planej ado, um pátio
de compostagem de apenas 315 m 2 (21 m x 15 m) pode comportar a montagem
de sete medas no formato trapezoidal , a cad a quatro m eses, com as seguintes
dimensões: 15 m de comprimento, 1,5 m de alt ura, 2, 0 m de largura inferior e
1,0 m de largura superior (volume in icial por meda = 33,7 5 m 2 ). Isso significa
que poderemos montar 21 medas por ano, com um v olume tot al de 708, 75 m 3
anuais. Sabendo-se que o rendimento médio de composto orgânico é de 250
kg do produto pronto (50% de umidade) para cada m 3 inicialmente empilhado,
esse pátio poderá gerar aproximadamente 177 t de composto. Isso permit e
adubar 6 ha de área em cultivo orgânico de hortaliças, que tenha um consumo
médio de 30 t/ha de composto úmido por ciclo.

Figura 6 .11 - Pátio de compostagem organica. Centro de Desenvolvimento


Sustentável Guaçu-Virá - Venda Nova do Imigrante - ES .

197
Manual de Horticultura Orgânica

Inicia-se o empilhamento das palhas por camadas de, no máximo 30 cm, de


cada tipo de palha que se tenha disponível, aplicando-se, sobre essa primeira
sequência, uma fina camada de esterco animal ou resíduo agroindustrial (3 a
5 cm), irrigando-se abundantemente após, evitando escorrimentos excessivos
de água, permitindo, assim, obter melhor distribuição da umidade no in t erior
do monte. Depois de empilhar essa primeira sequência de palhas e esterco,
inicia-se nova sequência dos mesmos materiais, até obter uma altura ad equada
do monte.

Para melhor manuseio do material no pátio, controle do areja m ento e


da umidade, o tamanho da pilha de composto não deve exceder a 3, 0 m de
largura por 1,5 m de altura. O comprimento é livre, dependendo ape nas da
quantidade de material e do espaço disponível no local.
A Figura 6.12 ilustra um esquema prático de montagem de um bom
composto orgânico, utilizando-se os seguintes materiais e espessuras de
camadas:

- - -- T~

Materiais
'
- -

Capim cameron picado e/ou bagaço de cana 20 cm


alta C/N
Palha de café (baixa C/N) 10 cm
Esterco bovino 03 a 05 cm
Esterco de aviário ou outro resíduo rico em N (torta
de mamona, farelo de cacau, planta da mamoneira 01 a 02 cm
triturada ou leguminosas trituradas etc.)
Fosfato natural 03 k /m

Durante O empilhamento, o fosfato deve ser colocado junto com os


inoculantes (estercos ou similares), após uma sequência completa das camadas
de palhadas disponíveis (no caso: bagaço de cana, capim e palha de café).
Toda vez que forem colocados os inoculantes mais fosfato, deve-se irrigar
abundantemente para que o 'chorume' infiltre e inocule as camadas de palha
abaixo. Além disso, as camadas dos materiais mais fibrosos (alta C/N) devem
ser dispostas junto às menos fibrosas (baixa C/N), para melhor fermentação .

198
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Etc...
Etc...
12ª
11º
-100
-
--
90 1






. ae_café 2ª
--

SEQUÊNCIA DOS MATERIAIS CAMADAS
Figura 6.12 - Ilustração prática da sequência de montagem de uma pilha de
composto orgânico.

Irrigações
A umidade adequada é um dos fatores mais importantes para uma
decomposição mais rápida do material. De maneira geral, recomenda-se irrigar
os montes de dois em dois dias, usando uma quantidade de água suficiente
apenas para repor a perda por evaporação, pois o excesso de umidade atrasa
o processo de decomposição.
Existem duas maneiras práticas de verificar se a umidade está adequada.
A primeira é espremer um punhado de composto com as mãos. Se escorrer
água entre os dedos, o composto estará muito molhado, mas, se formar um
torrão e este se desmanchar com faci lid ade, a umidade estará prox1ma ao

199
Manual de Horticultura Orgânica

ponto ideal. A segunda, no momento dos reviramentos, consiste em observar


se existe mofo branco em alguns locais, no meio do monte, o que indica que a
umidade está baixa.
Especialmente em períodos chuvosos, a manutenção de cobertura dos
montes ou pilhas, com palha de coqueiro ou lona plástica, é essencial para
evitar excessos de água (Figura 6.13). Em regiões de baixa precipitação
pluviométrica ou em períodos secos do ano, essa prática pode ser dispensada.

:,
'
~-. ....
,;
. ·• "
....

·. :: ·~j
Figura 6.13 - Montes de compostos orgânicos cobertos com lona plástica para
proteção contra chuvas - Estação Experimental de Agricultura Orgânica do INTA
- San Pedro -Argentina.

Reviramentos
Para controle adequado da umidade e temperatura do composto, é
fundamental revirar os montes periodicamente. Os reviramentos podem
ser realizados manualmente ou com máquinas convencionais como a pá
carregadeira (Figura 6.14), com máquinas próprias para essa finalidade
(Figura 6.15) ou com implementas acoplados a ~ratar (Figura 6.16) . A
mecanização do processo de compostagem dependera do volume de composto
demandado pela área total cultivada e deverá ser definido com critério técnico
e econômico.

200
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Figura 6.14 - Empilhamento e reviramento de composto com pá carregadeira,


em fazenda orgânica de 400 ha, para produção de acerola, abacaxi, coco e
horticultura. Apenas o acabamento das pilhas é feito manualmente. Serra do
lbiapaba - Ceará - Brasil.

201
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.15 - Máquina movida a gás, para reviramento de composto. Centro de


Desenvolvimento Sustentável 'G_uaçu-Virá' - Espírito Santo - Brasil.

Figura 6.16 _ Implemento acoplável a trator para reviramento de pilhas de


composto. CIVEMASA - SP - Brasil.

202
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Em reviramentos manuais, é importante fazer o primeiro reviramento


com 7 a 10 dias após a montagem, e os demais espaçados de 20 a 25 dias,
num total de quatro reviramentos até o composto ficar pronto. Em sistemas
mecanizados, a quantidade de reviramentos pode ser maior, com intervalos
menores entre as operações (geralmente de 7 em 7 dias), reduzindo-se o
tempo de decomposição, e obtendo-se o composto pront o em até 60 dias,
dependendo dos materiais empregados.
Durante cada reviramento (ou logo após), deve- se proceder a uma nova
irrigação com uma quantidade de água suficiente para repor as perdas por
lixiviação e evaporação, de forma a distribuir bem a um idade em t odo o monte.

Temperatura
A faixa de temperatura ideal para a decomposição do material varia de 50
a 60ºC.
Temperaturas excessivas podem queimar o material, o que não é desejável.
Por isso, deve-se evitar que a temperatura ultrapasse 70°C, o que pode ser
obtido com reviramentos e irrigações.
Pedaços de vergalhão enterrados nos montes permitem verificar
periodicamente a temperatura interna do composto, através do contato com
as mãos. Se o calor for suportável, estará normal. Caso contrário, estará muito
quente. Também, pode-se utilizar termômetros de hastes longas, disponíveis no
mercado, apropriados para esses casos, os quais permitem um monitoramento
mais preciso da temperatura.
Após 60 dias, a temperatura diminui significativamente, atingindo níveis
abaixo de 35°C, indicando o fim da fase de fermentação e o início da fase de
mineralização da matéria orgânica.

Características gerais do composto maduro


Uma avaliação visual do composto pode fornecer muita informação do
estado de maturação dele.
Um composto maduro apresenta-se segundo Kiehl (2001) com as seguintes
características:

a) Redução do volume da massa para 1/3 do volume inicial.


b) Degradação física dos componentes, não sendo possível identificar
os constituintes.
c) Permite que seja moldado facilmente nas mãos.

203
Manual de Horticultura Orgânica

d) Cheiro de terra mofada, tolerável e agradável.


Por meio de análises químicas Kiehl (2001) também define os seg uintes
parâmetros:

a) pH geralmente acima de 6,5, sendo que por lei o composto cu rado


deve ter pH 6,0, no mínimo.
b) Mínimo de 40% de matéria orgânica, mas o ideal é que tenh a 50%
ou mais.
c) O teor de nitrogênio e de outros nutrientes deve estar acima de
1, 75% no produto curado e seco. Por lei, o teor mínimo de nitrogênio é 1%.
d) Relação C/N entre 10/1 e 12/1, sendo que a lei exige no máximo 18/1.
e) CTC alta (não se especifica o valor).

Um trabalho de monitoramento de 20 medas de composto, produzidos


principalmente à base de esterco de aviário, capim meloso, capim napier, palha
de café, palha de feijão e palha de milho (materiais não triturados), serve como
parâmetro em termos quantitativos e qualitativos, conforme os detalhamentos
das Tabelas 6.13 e 6.14 (SOUZA, 1998).

204
M étodos d e Produção para o Cultivo Orgânico de Ho rtaliç as

Tabela 6.13 - Avaliação quantitativa de compostos orgânicos preparados com


esterco de aviário e materiais vegetais sem trituração
Gastos Tempo p/
de
Medas esterco decompô1"' Final Pf/Vi
' -~iç~<>iú ~
(kg) :(dias) (m 3) ( m 3) (% ) ( kg/ m 3) (kg/m 3)
a ; ~ i-,· 1•n..-

1 1. 0 50 150 36,0 1 1, 7 67,4 7 .035 195 601

2 2 . 450 16 0 36,0 1 1, 7 67 ,4 7.0 35 195 601

3 1.400 160 4 5 ,0 1 4, 7 67,4 8. 79 6 195 589

4 1.050 150 45 ,0 19, 1 57,6 11.3 8 9 253 596

5 1.125 180 4 9 ,5 13,3 73,1 5 .746 116 432

6 1.500 150 45,0 14,0 68,8 5.60 0 124 400

7 1.414 1 20 60 ,0 15,2 74,7 8 .877 148 584

8 1.400 126 30 ,0 14,4 5 2,0 8 .8 70 296 6 16

9 1.000 150 14,4 3,8 73 ,6 2 .389 166 629

10 1.000 15 0 13,2 3,6 7 2 ,7 2 .6 5 0 201 736

11 1. 1 25 150 2 7 ,5 9,4 65,8 5.565 202 592

12 900 147 15,4 6,6 57,1 3.643 237 552

13 3 .000 18 0 4 1,6 2 0 ,6 50 ,5 14 .330 344 696

14 800 141 26,0 5,7 78,1 3.420 132 600

15 1.875 135 48,0 13, 1 72,7 9 .43 0 196 720

16 1.875 1 28 48 ,0 15 .8 67,1 11.100 231 702

17 1.250 135 36,4 11. 7 67,9 9 .173 252 784

18 1.250 124 36,4 12,5 65,7 9.400 258 752

19 1.636 121 54,0 13,3 7 5,4 8 .086 150 608

20 1.400 108 28,0 11,5 58,9 6 .808 243 59 2


Média 1 1.425 143 3 6,8 12,1 66,7 7.467 2 07 6 20
Desvio 19 7,8 58 96

Valor 108 78, 1 116 400


mínino 1

Valor 180 5 0,5 344 784


máximo1

1 pf == Peso fina l; Vi = Volume inicial; Vf == Volu me fina l.


Fonte: Souza (1998 ) .

205
1
11 Manual de Horticultura Orgânica
1

Tabela 6.14 - Composição química e matéria orgânica de compostos orgânicos


preparados com esterco de aviário e materiais vegetais sem trituração
{,~ ,·..
Macro (%) Micro (ppm)
"\~
M.O.
Medas C/N pH N p K Ca Mg Cu Zn Fe Mn B
(O/o)
1 22 18 7,9 0,70 0,49 0,40 1,75 0,23 3 110 35.000 650 19
2 32 12 8,7 1,50 1,50 1,35 5,70 0,60 30 200 20.500 660 28
3 26 11 8,2 1,40 1,45 0,98 7,14 0,50 50 188 20.391 1.328 35
4 52 13 6,8 2,40 0,41 0,75 1,55 0,31 32 62 17.578 642 36
1
5 35 20 8,2 1,00 3,00 0,58 7,00 0,50 54 292 22.813 1.544 20
6 45 13 8,6 2,00 2 ,31 1,92 7,98 0,65 48 147 10.235 681 46
1 7 40 14 7,5 1,70 2,65 1,90 9,00 1,00 63 200 11.365 1.000 58

8 40 11 7,0 2 ,10 1,60 1,35 6,04 0,48 39 350 16.563 1.167 40


9 61 10 7,3 3 ,40 1,80 2 ,10 5,76 0,70 57 378 12.969 883 54
10 59 12 7,1 2,80 1,78 2 ,05 4,83 0,65 57 344 15.313 850 55

11 66 10 6 ,7 4,00 1,58 2 ,50 3,19 0,60 75 306 12.813 783 50

12 75 13 6,7 3,40 0,78 2 ,50 1,35 0,52 57 82 6.719 305 47

13 64 10 6,3 3,70 1,53 2 ,50 3,57 0,75 79 156 15.652 708 58

14 46 15 6,6 1,80 0,57 1,29 5,90 0,58 39 121 20.481 547 17

15 45 13 7,5 2,00 2,06 1,71 8,68 0,49 49 234 11.720 781 22

16 46 13 7,8 2,10 2 ,19 1,9.5 9 ,61 0,57 44 234 10.652 781 27

17 45 15 7,9 1,79 1,38 1,33 7,61 0,40 36 156 12.110 665 19

18 45 15 7,8 1,70 2,00 0,95 10,61 0,50 69 219 12.580 820 21

19 48 13 7,0 2,20 1,90 0,84 7,00 0,55 53 363 22.660 833 26

20 62 11 7,0 3,40 1,06 0,96 6,00 0,66 68 325 13.203 455 39


13 7,4 2,25 1,60 1,50 6,01 0,56 50 223 16.064 804 36
Média 48

2, 6 0,7 0,9 0,7 0,7 2,7 0,16 18 98 6 ,311 286 14


Desvio 13,7
padrão

6,3 0,7 0,4 0,4 1,35 0,23 3 62 6.719 305 17


Valor 22 10
mínino

8,7 4,0 3,0 2,5 10,61 1,00 79 378 35.000 1 ,544 58


Valor 75 20
máximo

Fonte: Souza (1998) .


Nakagawa et ai. (1991), trabalhando com dife_
r entes tipos de materia is na
compostagem, encontrou que o composto produzido com esterco de galinha,
tanto com casca de amendoim, bagaço de cana e serragem de madeira, foi o
melhor, em termos químicos, principalment: nos teores de fósforo, potássio,
cálcio e magnésio, além de elevada saturaçao em bases (V~96%), associada
a um pH praticamente neutro.

206

el
Métodos de Produç ão para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Seguindo-se nesses mesmos parâmetros, a sequência da qualidade do


composto depois do de galinha foi: esterco de porco, esterco de curra l, Napier,
e em último a ureia, que, em relação aos dema is, produziu um composto de
baixo valor em nutrientes e levemente ácido.

6.2.2.2. PROCESSOS ESPECIAIS DE COMPOSTAGEM

Compostagem Lami na r
De acordo com Cerveira (2000), uma nova t ecnolog ia vem sendo
utilizada para a produção de composto: é a compost agem laminar, que surge
em função de um aperfeiçoamento da compostagem pe lo método 'indore',
como é chamada a compostagem feita em monte ou pilha. Essa tecnologia
não busca eliminar a compostagem em pilha, serve como complemento da
mesma em pequenas áreas. A pergunta que surgiu na elaboração da técnica
de compostagem laminar é: no Brasil temos déficit de temperatura? Então por
que devemos fazer pilhas?
No entanto, a elevação da temperatura numa pilha de compostagem não
se destina apenas à degradação do material, mas também à eliminação de
organismos patogênicos e ervas indesejáveis, fatos que, em alguns casos,
justificam o empilhamento.
Basicamente, a técnica consiste em aplica r as matérias-primas que serão
utilizadas (já balanceadas) em camadas ou misturadas, di retamente no campo,
na superfície do solo, podendo ser incorporadas até 7 cm dentro do solo (região
ainda bem aerada). Devemos deixar o material de maior relação C/ N, como
palhas, como última camada dessa lâmina (daí o nome lamina r) pa ra servir
como cobertura morta de proteção do solo (CERVEIRA, 2000).
As vantagens do sistema, além da economia de tempo, trabalho e
consequentemente, dinheiro, incluem a inserção de toda a atividade biológica da
fermentação do composto no próprio solo, ao invés de ficar confinado na pilha.
A desvantagem encontra-se em grandes áreas, onde o deslocament o de
grandes volumes de materiais orgânicos tornam a compostagem de pilha mais
econômica.
Na realidade, a compostagem laminar busca imitar a natureza, onde nad a
é incorporado mecanicamente: o solo de uma mata é um com posto laminar
espontâneo feito de folhas e excrementos de animais.

'2D7
Manual de Horticultura Orgânica
=========~;,,;,,,,,,,;,,;;,,;;~===================='""""- ~

Bokashi
É um método japonês de compostagem baseado na adição de
microrganismos efetivos (EM).
Os microrganismos eficazes na produção do Bokashi não são rest ritos a
um grupo especial, mas são espécies muito comuns que podem se mu lti plicar
rapidamente em materiais usados para compostagem.
Os produtos do EM foram desenvolvidos por Higa (1993) da Universidade
de Ryukyu, Okinawa, e contêm bactérias anaeróbicas abundantes e fermentos
do ácido láctico, assim como outros microrganismos. A utilização desses
microrganismos anaeróbicos é uma característica que distingue o EM de outros
produtos de origem microbial.

• Materiais utilizados no preparo do Bokashi


- - - ----..- - -- ·--- ------~ -~-- - - ---,

j
-

1 Ingredientes Quantidade (kg ou 1:-)


L
- - ~--- ~ - - - -

Farelo de arroz 500


Farelo de algodão 200
Farelo de soja 100
Farinha de osso 170
Farinha de peixe 30
Termo fosfato 40
Carvão moído 200
Melaço ou açúcar 04
EM-4 04
Água 350

Estes ingredientes são misturados, e inoculados com microrganismos


contidos no EM-4. A água é adicionada para dar um índice de umidade de 50-
55% e o composto é tipo pilha.
Quando a temperatura da pilha alcança 50 - SSºC, essa é misturada e
espalhada. Quando O composto esfria, a pilha é refeita. Esse procedimento é
repetido várias vezes. Os materiais são espalhados (desfaz-se a pilha) para
secar e embalados, finalmente, nos sacos para o armazenamento.
A concentração do nitrogênio no Bokashi é muito mais baixa do que no
fertilizante químico, cerca de 2% a 5% d~ nitrogênio total. Para evitar a
fermentação anaeróbica e seu odor desagradavel, 0 composto é inoculado com
microrganismos aeróbicos que se multiplicam rapidamente.

208
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Como esses microrganismos necessitam do oxigênio e não têm nenhuma


tolerância ao calor, a pilha é misturada e espalhada a cada um ou dois
dias. Durante o processo de compostagem, a matéria orgânica é facilmente
decomposta com a produção da biomassa microbial, liberando íons de amônia
que ficam retidos em partículas do solo. A biomassa microbia l contribui para
liberação mais lenta dos nutrientes. Cria-se um fertilizan te orgânico de ação
mais lenta.
Higa (1993) cita em seu livro que uma alteração na agricultura é possível,
desde que o uso de produtos do EM aumente extrema mente o ren dimento das
colheitas. Por exemplo, o arroz fertilizado com Bokashi (EM) produziu mais de
12 t/ha.
Goto et ai. (1996) realizaram algumas experiências de campo em cooperação
com a EM Company, analisando o Bokashi (EM) fornecido pela companhia e também
o Bokashi fornecido por fazendeiros, e verificaram que as amostras da companhia
continham em média 40 kg de N, 30 kg P2 0 5 e 13 kg K0 3 em cada 1.000 kg, muito
menos que o Bokashi dos fazendeiros (GOTO e MURAMOTO, 1995).
EM Company recomenda a aplicação de 1.000 kg/ha do Bokashi (EM),
mas os 40 kg de nitrogênio contidos nessa quantidade não é suficiente para o
crescimento dos vegetais.
Goto et ai. examinaram as colheitas dos fazendeiros que usam o Bokashi
(EM), e encontraram que o rendimento da alface usando 1.000 kg do Bokashi
(EM) era muito menor do que com uso de fertilizante orgânico comercial ,
quando os níveis do nitrogênio foram ajustados. Verificaram, também, que
os fazendeiros aplicavam, geralmente, 30 t/ha de esterco de gado além do
Bokashi (EM), e indicaram que os rendimentos obtidos pelos fazendeiros podem
ter sido provenientes do uso do esterco.
Nos vegetais cultivados somente com o Bokashi (EM), 1000 kg/ha, nos
campos da universidade, verificou-se que os rendimentos de muitos vegetais
eram somente metade daqueles obtidos pelas práticas orgânicas comuns
(MURAMOTO e GOTO, 1995). Mais tarde, os investigadores do EM relataram
que, quando o nível do nitrogênio foi ajustado a 100 kg/ha, ou seja, utilizando-
se 2.500 kg/ha de Bokashi, obtiveram a mesma quantidade da alface que
0 fertilizante químico (IWAHORI et ai., 1996). Consequentemente, insistiram
que a quantidade padrão de Bokashi (EM) que deveria ser aplicada era de
2.500 kg/ha para a alface.
Atualmente já existem diversas variações do 1 Bokashi 1 padrão relatado
anteriormente. Uma delas tem sido divulgada pelo Engº Agrº. Shiro Miyasaka,
a qual consiste na mistura dos seguintes ingredientes:

209
Manual de Horticultura Orgânica
====,,,;,,,;;,;,;,~,;;,;,g~~======~=========----...,/

Terra virgem (subsolo) 500,00 Kg

Torta de oleaginosas 200,00 Kg

Esterco de galinha 170,00 Kg

Farinha de osso 50,00 Kg

Inoculante 1,75 Kg

Além desse composto, Dr. Shiro recomenda associar 'fino de carvão'


(carvão moído ou 'munha' de carvão) na adubação de campo, em função do
seu elevado potencial estruturante do solo. O 'fino de carvão' é muito poroso,
contendo 300 m 2 de superfície para cada um grama do produto, considerando
as cavidades internas, além de ter a capacidade de aumentar as micorrizas do
solo. Em geral, a quantidade recomendada pode variar de 500 a 1.000 kg por
ha de 'fino de carvão', proporcionando bons resultados.

Compostagem com preparados biodinâmicos

A biodinâmica teve suas bases colocadas, em 1923, por Rudolf Steiner,


iniciador da antroposofia (movimento de esoterismo fundado por ele próprio
em 1913).
Os preparados biodinâmicos são encontrados no comércio e consistem em
extratos (minerais, vegetais ou animais) geralmente fermentados e aplicados
em quantidades homeopáticas.
Dentre os preparados biodinâmicos básicos, os utilizados na compostagem
são: 502 (milfolhas - Achil/ea millefolium), 503 (camomila - Chamomilla
officinalis), 504 (urtiga - Urtica dioca), 505 (carvalho - Quercus robur), 506
(dente-de-leão - Taraxacum officinale) e 507 (valeriana - Valeriana officinalis).
o preparado 507 (líquido) deve ser diluído, dinamizado (agitado vigorosamente)
e então aspergido sobre a pilha de composto. Os preparados 502 a 506 (sólidos)
devem ser colocados como "pitadas" isoladas na pilha.
os praticantes da agricultura biodinâmica reivindicaram que as preparações
biodinâmicas aumentam a atividade microbial na compostagem e rendem
um produto melhor, contudo, a investigação científica de confiança dessa
reivindicação é escassa (REGANOLD, 200l). Citamos como exemplo a receita
de um dos preparados biodinâmicos utilizados na compostagem:
Preparado biodinâmica número 502 (milfolhas - Achilea millefolium):

• Material utilizado:

210
r
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

◊ flores de milfolhas

◊ bexiga de cervo macho


• Preparo:
◊amassaras flores e enfiar dentro da bexiga
◊amarrara bexiga e pendurar em local ensolarado ( deixar até ab ril)

◊enterrar até a primavera (outubro/novembro)

◊ desenterrar e usar o preparado imediatamente

As receitas dos outros preparados biodinâmicos estão descritas no


"Cadernos Demeter nº 1", elaborado por Correia - Rickli (1986).
Um inoculante para composto, o Starter®, contém todas os preparados
biodinâmicos usados na compostagem (502 a 507) mais o preparado 500,
assim como 55 tipos diferentes de microrganismos (culturas misturadas de
bactérias, fungos, actinomicetos, e fermentos). O composto Starter® é usado
extensamente por produtores biodinâmicos por ser de fácil aplicação na pilha
de compostagem. Hoje, o acionador de partida é preparado e vendido através
do Instituto Porter de Josephine (JPI).
Em trabalho realizado por Reganold (2001), compostos foram tratados
biodinamicamente, um com maturação mais rápida e outro com mais nitrato
do que os compostos que não tinham recebido as preparações biod inâmicas,
mas tinham recebido um inoculante de solo. Os resultados dessa pesquisa
suportam a ideia de que o uso das preparações biodinâmicas no composto
poderia apressar o processo de compostagem, destruir patógenos e remover
sementes de ervas daninhas do material, mantendo altas temperaturas por
mais tempo, e mudando o valor do composto resultante como fertilizante e
aumentando a quantidade de nitrato.

Compostos Bokashis e a saúde das plantas

Nesta seção serão relatados diversos trabalhos realizados pelo Engº Agrº
Celso Tomita, relativos ao uso de bokashi e suas relações com a saúde do solo
e das plantas.
Os métodos de manejo de solos com adubação orgânica na supressão das
doenças de solo (HOITINK & BOHEN, 1999; TOMITA, 2010; TOMITA, 20 11) e
de parte aérea (ZHANG et ai. 1998; ABBASI et ai. 2002, STONE et ai. 2003 ;
TOMITA, 2011), são resultantes de mecanismos de resistência sistêmica
induzida em plantas a diferentes tipos de doenças e pra gas (KRAUSE et ai.

211
1
1
11

Manual de Horticultura Orgânica


= = = = = = = = ~ = == = ==============...~ /

2003 e KHAN et ai., 2004 ), que tem sistematicamente elevado os níveis de


matéria orgânica do solo e proporcionando maior estabilidade da comunidade
edafobiótica, favorecendo a prevalência de uma comunidade de organismos
antagonistas nativos (PEREIRA et ai. 1996; HÕPER & ALABOUVETTE, 1996;
HOITINK & BOEHM, 1999), e promovendo a resiliência do complexo físico,
químico e biológico do solo, mantém a dinâmica da biodiversidade no sistema
radicular das plantas, assim agenciando ações sinergísticas de induçã o de
resistência da planta (TOMITA, 2010; TOMITA, 2011).
O comportamento dos solos manejados em sistema produtivo orgânico,
com uso massivo de resíduos orgânicos, comparados com sistemas produtivos
convencional (WORKNEH, et ai. 1993 e ABBASI et ai. 2002), e dos solos com
maior teor de matéria orgânica (SHIOMI et ai. 1999), ou com incorporação de
compostos bioativos (TOMITA, 2001; TOMITA, 2011), demonstram diferenças
significativas na supressão de Phythophthora sp. e sobre as diversas doenças
do solo, sobre a severidade das doenças foliares de hortaliças, fruteiras e
flores e de solo respectivamente, promovendo rápido declínio da população
do patógeno causado, provavelmente, pela maior e mais variada atividade da
biodiversidade do solo (SHIOMI et ai. 1999).
A aplicação de resíduos orgânicos, na forma de compostos bioativados, sobre
a parte aérea da planta cria um ambiente favorável para o desenvolvimento
de biofilmes sobre a fitofilosfera, desencadeiam os processos e mecanismos
microbiocenóticos nos órgãos e tecidos das plantas, criando um escudo de
proteção biológica e mantendo a planta saudável (TOMITA, 2010; TOMITA, 2011).
Em floricultura, na cultura de Gypsophila, a doença, causada pela murcha de
Phytophthora spp. em diferentes épocas do ano, e cultivados consecutivamente em
mesmo solos por 15 anos, em condições de estufa, manejados sob dois sistemas de
produção: natural e convencional, mostrou registros de produção da propriedade,
com as perdas que oscilavam entre 56 a 97%, conforme a época do ano no sistema
de produção convencional em relação a natural. Os resultados mostraram, que
plantios feitos em dezembro houve maior incidência da doença do que plantios feitos
em junho. Pôde ser observado, o efeito positivo do manejo natural na contenção da
evolução da doença em áreas manejadas consecutivamente.
Em área comercial de pupunha com 360 mil plantas, perderam-se 84%
das plantas pela incidência de Phytophthora palmivora. Sob o remanescente
que se encontrava afetado por esta podridão da base do estipe, foi proposto
um trabalho de recuperação visando manter a produtividade. Os resultados
t êm demonstrado que mesmo em áreas infestadas pelo patógeno, 0 manejo
diferenciado com uso de compostos bioativos e cobertura morta permite m a
manutenção da cultura até o fin al do seu ciclo, expressando assi m seu pot encia l
produtivo quase 2 vezes superior.

212
' Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Através do manejo da matéria orgânica do solo em forma de compostos


orgânicos, aplicados na cultura de tomate, promoveu-se o aumento da
biodiversidade do solo e a indução de resistência a doen ça na cultura,
promovendo a sobrevivência de mais de 66% de plantas de tom ate.
Há diferentes tipos de compostos orgânicos, relac ionadas às suas formas:
sólido, líquido e pastosa (lodo); pela sua constituição e ingredientes: estercos
de animais e aves, farelos, farinhas, resíduos marinhos, palhadas, vísceras e
outros, pela velocidade de biodigestão: rápida ou lenta, pelo fator nutricional e
conforme o alvo, como a cultura ou problemas de doenças ou pragas.
Nas formas sólidas, tem-se o composto orgânico tradicional , já relatado
anteriormente neste livro, feitos com resíduos orgânicos, como palhadas, capim
e estercos, dispostas em camadas alternadas e revolvidos periodicamente,
obtendo o produto final pronto em 90 dias ou mais.
O Bokashi, composto biorremediador sólido, é obtido a partir de diferentes
resíduos orgânicos e minerais: farelos, farinhas, açúcares, resíduos proteinados
e sais, com processo de revolvimento diário, de forma que o produto final seja
obtido em 7 a 10 dias (Figura 6.17) . São compostos biologicamente funcionais,
que ativam a biodiversidade do sistema solo-planta, produzidos e transformados
por pasteurizações direcionadas para cada situação de cultivo e manejo.

Figura 6.17 - Composto bioativo sólido (Bokashi), proposto por Tomita (2011 ),
mostrando a diversidade de microrganismos nos montes.

213
Manual de Horticultura Orgânica
=======~,,,,,,;,;,;;~=================-
- /
I, A forma líquida do composto biorremediador, preparado a partir do Bokashi
1 sólido, é obtido pela suspensão líquida do bokashi, formando biofertilizante
1 liquido (Figura 6.18). São compostos por um pool de organismos biologicamente
ativos, com comportamento dinâmico, que funciona como adubo foliar, co mo
promotor de um escudo biológico na forma de biofilmes filoendofíticos e como
indutor de resistência sistêmica às plantas, tornando-se eficientes controladores
de doenças e pragas.

-
Figura 6.18 - Composto bioativo líquido, preparado a partir de Bokashi , proposto
por Tomita (2011 ).

O composto bioativo preparado diretamente na superfície do solo,


denominado Bayodo, é uma forma de compostagem laminar, que consiste
em realizar o processo de pasteurização superficial do solo, promovendo a
formação de bokashi superficial no próprio solo ou substrato, incorporando
superficialmente um volume grande de farelos, farinhas, açúcares, e proteín as
de origem veg eta l e animal (Figura 6.19).
São incorporados e manejados sis~ematicamente, ·provocando oscilação
t érmica por revolvimento diário e aeração, com aumento e redução de temperatura,
de forma a obter um produto biorrem ediador de solos em 8 dias. Este processo,
_por exemplo, é muito funcional para controle da hérnia das crucíferas.
O revolvimento deve ser rea liza do todos os dias com roto-encanteiradora ,
mantendo o bayodo com um teor de umidade de 45% e uma temperatura
média ao redor de 53°C, com reposição reg ular da umidade do substrato até o
oitavo dia, até o produto ficar pronto no solo .

214
.. ,.

Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Figura 6.19 - Bayodo - composto bioativo sólido preparado diretamente na


superfície do solo (TOMITA, 2011 ).

Composição do Bokashi e Bayodo

Todo material de origem orgânica, resíduos animais, vegetais e marinhos


podem ser usados como matéria prima para produção de compostos. Todavia,
há necessidade de conhecer os tipos, as suas características nutriciona is,
físicas, químicas e orgânicas, pois servem como meio de cultura seletiva,
para promover o domínio de grupo de organismos desejados, conforme a
necessidade do manejo do elemento alvo ( o solo, a cultura, o ambiente, os
problemas de pragas, o momento e as funções de aplicação), para assim obter
os melhores efeitos e a maior produtividade.
As composições de matéria-prima apresentadas a seguir para Bokashi e
Bayodo, são resultados dos trabalhos de mestrado e doutorado de Tomita (2001
e 2009). São matérias- primas comuns em campos de produção, coletados,
transformados e aplicados como biorremediadores e biofer tilizantes ativos, nas
suas formas sólidas e líquidas, em diferentes culturas de hortaliças, frutas e
grãos, para um solo com ou sem problemas de doenças ou pragas .

215
Manual de Horticultura Orgânica

COMPOSIÇÃO E QUANTIDADES DAS MATÉRIAS-PRIMAS UTILIZADAS PARA


PRODUÇÃO DE BOKASHI.
BOKASHI
1

Bioativo
Orgânico Biorremediador
Matéria prima (Líquido)
(kg) (Bokashl) (kg)
(10001)
Bagaço de cana 1.000
Estercos 1.000 1.000
M. orgânica da mata 25 50 25
Composto 250 25
Farelo de Arroz 100 100 20
Farelo de Mamona 100 50 5
Farinha de osso 200 10
Resíduo de peixes 20 100 (1) 25
Cinzas 300 25
Melado 10 10
Amido 10 5
Fubá --- 5
Água 45% (v/v) 8001
Fonte: Formulação conforme Tomita (2001 e 2009), adaptado de tese de Mestrado e Doutorado.

COMPOSIÇÃO E QUANTIDADES DAS MATÉRIAS-PRIMAS UTILIZADAS PARA


PRODUÇÃO DE BAYODO.

Biorremediador Bicativo
Orgânico (Bayodo) (Líquido)
Matéria prima (kg) (kg) (10001)

Bagaço de cana 1.000


Terra 200 1.000
M. orgânica da mata 25 250 25
Esterco de gado 250
Composto
250 25
Farelo de Arroz 100 200 20
Farelo de Mamona 100 50 5
150 10
Farinha de osso
Resíduo de peixes 20 250 25
50 25
Cinzas
10 10
Melado
5
Am ido
5
Fubá
45% (v/v) 8001
Água
Fonte: Formulação conforme Tomita (2001 e 2 oo 9 ), adaptado de tese de Mestrado e Doutorado.

216
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Estas matérias-primas e métodos utilizados para a compostagem seguem


os conceitos e práticas da agricultura natural, fundamentadas nas Normas de
Agricultura Natural MOA (Tomita, 2001) e baseado nos métodos adaptados
das técnicas de produção de compostos do sistema da agricu ltura orgânica,
estabelecido em 1984, pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
(National Research Council, 1989 ), originária dos conhecimentos adq uiridos por
um fitopatologista inglês, Albert Howard (1943) e das técnicas preconizadas
pelo Mokiti Okada ( 188 2-1955 ), que introduziu a Agricu lt ura Nat ural no Japão.
Tanto o Bokas[·Ji com o o Bayodo são compostos org âni cos bicativados,
produzidos de forma fundamentada nas Normas de Agricultura Natural ( 1989)
e desenvolvidas sob a razão da Lei Nº. 6.894/1980, decreto Nº. 4.954/2004,
da Instrução Normativa MAPA Nº. 10/2004 e IN SADA No. 23/2005, que define
o fertilizante orgânico e composto, e que enquadra na classificação Classe "A":
fertilizante orgânico que, em sua produção, utiliza matéria-prima de origem
vegetal, animal ou de processamentos da agroindústria, onde não sejam
utilizados no processo o sódio (Na+), metais pesados, elementos ou compostos
orgânicos sintéticos potencialmente tóxicos.
Além disso, as matérias-primas utilizadas para produção destes compostos
são insumos permitidos conforme a legislação para os sistemas orgânicos de
produção agropecuário, Lei Nº 10.831/2003, decreto nº 6.323, na Instrução
normativa Nº 64, compostos por: Esterco de frango, Farelo de arroz, Farinha
de osso, Cinza de forno, resíduos de café torrado, melado de cana-de-açúcar,
amido de mandioca, resíduos de peixes e marinhos. Todos estes materiais são
processados e transformados sob sistema de biodigestão aeróbico, submetido
a revolvimentos sistemáticos, promovendo variação de temperatura entre 32 a
70°C, a cada 24 horas, por um período de 07 a 10 dias de biodigestão intensiva.

Preparo do composto Bokashi e Biorremediador líquido

As matérias-primas para produção do Bokashi sólido, como bagaço de


cana - de-açúcar, farelo de mamona, farelo de arroz, e Terra de barranco,
são espalhados no pátio de compostagem e distribuídos homogeneamente
uma sobre a outra. Com o auxílio de uma rotativa acoplada ao trator, ou
manualmente com pá, misturam-se os ingredientes, numa sequência de três
revolvimentos, obtendo assim uma completa homogeneização do substrato
seco. Posteriormente irriga-se com água até atingir 45% de umidade. Após
esta prática, os substratos são montados em medas com fo rmato triangular
(nas chuvas), ou trapezoidal (na secas), com uma altura média de 1,70 metros
e a base de aproximadamente 3 metros.

217
Manual de Horticultura Orgânica

O Bokashi é um derivado do composto organico, porém mais apurado,


de alta efetividade e especificidade em fatores nutricionais e biológicos. É
considerado um composto bioativo, resultante dos processos de mineralização
e estabilização biológica dos resíduos orgânicos num curto espaço de tempo,
em torno de 7 a 10 dias. A velocidade de decomposição assim como o
estabelecimento das comunidades de microrganismos termófilos são rápidos.
Em 2 dias, na fase de aquecimento, o composto pode atingir 66 a 70ºC, em
razão dos substratos terem uma composição com baixa relação C/N, em torno
ou abaixo de 20/1.
Os ingredientes podem ser colocados em pátios de compostagem
ou terreiros, as matérias primas são colocadas uma sobre a outra, formando
camadas alternadas dos produtos, exceto a rapadura e a água. Manualmente
são misturados os produtos, repetindo este processo por mais duas vezes para
se conseguir a completa homogeneização do substrato do bokashi. A rapadura
é dissolvida em água e regado sobre o material. Posteriormente, promove-se a
irrigação com a água para umedecer todo o substrato, até atingir 45 a 50% de
umidade. Finalmente, realiza-se a amontoa num formato trapezoidal, com a base
medindo cerca de 1,5 metros e uma altura de 1,2· metros, formando uma meda.
Após esta montagem, deixa-se 24 horas sem revolvimento, onde a
temperatura média alcança cerca de 64ºC após 1 dia de cura. Na sequência,
são realizados 9 revolvimentos em intervalos de 24 h, mantendo a temperatura
ao redor de 60ºC e umidade a 45%.
No décimo dia, o composto estará pronto e deve-se espalhar o produto
sem a incorporação da água, mantendo-o numa camada de aproximadamente
25 cm de altura, onde a temperatura interna oscila ao redor de 30ºC por mais 2
dias. Assim, 0 bokashi biorremediador é secado ao ar em ambiente sombreado
e posteriormente armazenado.
o biofertilizante remediador líquido, é produzido por fermentação
aeróbia, promovendo a biodigestão dos resíduos orgânicos por meio de ação
bacteriana e de processos bioquímicos, que fracionam compostos complexos
num ambiente restrito.
De acordo com a formulação anterior, todos os ingredientes são distribuídos
sobre o solo e misturados sem a incorporação da água, revolvendo e homogeneizando
0 material. Em seguida, são colocados no tanque de fermentação com capacidade
de 1000 litros. Acrescenta-se água até atingir o volume de 800 litros. Com a
suspensão de resíduos prontos, são introduzid~s ~ois tubos aeradores de aquário
ao fundo do tanque, que funcionam 24 horas d1anamente.

218
- .

Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

A suspensão orgânica deve ser coberta com tela 'sombrite' e tampa, sem
promover a vedação completa, para impedir a entrada de insetos e água de chuva .
O processo de transformação da suspensão de resíduos orgânicos em meio
líquido deve ser conduzido por 3 dias, a partir do qual est ará disponível para
o uso. A suspensão é utilizada numa diluição de 1 litro da suspensão para 50
litros de água, numa frequência de aplicação quinzena l e v olume de calda de
5 mil litros por hectare.

Modo de atuação

Os compostos funcionam como elementos nutricionais, promotores e


ativadores de mecanismos oxirredutivos e enzimáticos, condicionam a biata do
solo, corrigem o desequilíbrio químico, recompõem a estrutura físico-química do
solo e atuam como agente biológico promotor de proteção e resistência da planta.
O produto biorremediador é adicionado ao solo, ou aplicado na cultura,
conforme as necessidades observadas no campo, através da análise do solo,
do comportamento fitossociológico das plantas e ervas que crescem no local,
do histórico das culturas, do tipo de adubação realizada e da produtividade
conseguida. Analisa-se também a quantidade de nutrientes que foram
exportados e das pragas e doenças que ocorreram no local.
Com base nestes dados, procedem-se as recomendações de aplicação e
tipo de formulação dos compostos, direcionadas para cada cultura, conforme
as necessidades nutricionais, do manejo e conservação do solo, do controle
biológico e da biodiversidade que se quer instalar, do condicionamento de solo
e do manejo cultural realizado em cada região.

6.2.2.3. ENRIQUECIMENTO DO COMPOSTO

A utilização de diversos materiais orgânicos e minerais para a melhoria da


qualidade do composto é uma alterriativa eficaz.

Além do esterco animal, que normalmente já participa do processo de


compostagem para a inoculação da pilha e para equilibrar a relação
C/N, geralmente, utilizam-se pós de rocha 1 resíduos agroindustriais e
materiais vegetais ricos em nitrogênio.

219
Manual de Horticultura Orgânica
~====,.,,,;,,,,,;;,~~~================---....]

Urina e resíduos vegetais verdes

Do que o animal ingere e não aproveita, parte se encaminha para as fezes


e parte para a urina. Em média, pode-se considerar que, do total de nitrogênio
ingerido pelos animais, cerca de 70% é excretado pela urina e 10% a 15%
pelas fezes.

Uma alternativa extremamente eficiente para o enriquecimento do


composto em nitrogênio, muito pouco utilizada pelos agricultores, é a
utilização de pisos com palhas ("cama") em estábulos, para reter a urina
l'
1
liberada pelos animais estabulados.

Em geral, para a retenção total da urina produzida por uma vaca adulta,
são necessários de 5 kg a 6 kg de palha seca por dia de estabulação. Nesse
caso, tanto a urina quanto as fezes são aproveitadas, resultando em maior
qualidade e maior eficiência de reciclagem (KHATOUNIAN, 2001).
Um manejo importante, que pode enriquecer o composto, é a utilização de
resíduos vegetais verdes, para conservação de nitrogênio e outros nutrientes,
que podem ser perdidos durante a. "secagem" do material.
Como exemplo, recomenda-se preparar o composto, o mais breve possível,
quando se empregar capim cameron ou napier triturados, roçada de grama,
dentre outros.

Fosfatos naturais

Uma alternativa é a utilização de fosfatos naturais, que auxiliam na retenção


da amônia e enriquecem o produto final com fósforo (KHATOUNIAN, 2001).
Além disso, pela sua elevada concentração em cálcio, esse elemento
também se eleva significativamente em compostos enriquecidos com fosfatos,
conforme verificado por Souza (1998).
Este autor, avaliando 12 pilhas de compostos, preparadas com 6 kg/m 3
de fosfato de araxá, por ocasião da montagem das pilhas, comparadas a 12
pilhas testemunhas (sem enriquecimento com fosfato), verificou uma elevação
significativa em fósforo ( + 156%), cálcio ( + 135%) e zinco ( + 38%), além de
uma tendência de elevação do pH final do produto, conforme a Tabela 6.15.

220
1

Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.15 - Composição química e teor de matéria orgânica de compostos


elaborados com e sem adição de fosfato de araxá1
Micrf (ppm}
Discriminação
(%) p Zn Fe Mn B
C/N pH N K Ca Mg Cu

Sem fosfato 52 15/ 1 7,1 2,12 0,71 1,18 2,74 0,48 44 164 17.335 747 25

Com fosfato 50 15/ 1 7,4 2.10 1,82 1,36 6, 44 0,56 54 226 14.810 905 30

Teste de t ns ns ns Ns ** ns ** ns ns ** Ns ns ns

1
Fonte: Souza (1998).

Considerando que as recomendações de adubações orgânicas têm situado


na faixa de 30 t/ha (composto com 50% de umidade), tal adição de fosfato na
pilha equivale a uma fosfatagem de 1.000 kg/ha diretamente no solo, acrescida
da vantagem do fosfato ser levado ao solo de forma parcialmente solubilizada,
pelo ataque microbiano e pela ação dos ácidos orgânicos.

Calcário
Quando se empregam em compostagem materiais originalmente ácidos,
como serragem, folhas, acículas de árvores coníferas, grama ou terra ácida de
pântano, a fermentação desses materiais será melhor, se forem adicionados de
25 a 50 kg de calcário por tonelada da mistura na pilha.
O calcário não deverá ser usado em misturas que contenham maior
quantidade de esterco animal ou farinha de sangue ou similares, pois essas
matérias que contêm muito nitrogênio podem corrigir a acidez, naturalmente,
gerando compostos com pH final em torno de 7,0 (KOEPF, 1990).

Composto de lixo! feito somente com restos de cozinha, que contéff1


n~uitos carboidratos de fácil acesso para os microrganismos, precisa de
25 kg de calcário por tonelada.

Koepf ( 1990) fornece ainda uma nota extremamente importante quanto ao


uso do calcário e fosfato de rocha, integralmente concordante com trabalhos
de pesquisa e observações realizadas pelo Incaper (SOUZA, 2002), nota esta
transcrita na íntegra, a seguir.

221
Manual de Horticultura Orgânica

NOTA: "No Brasil e outras áreas tropicais, a agricultura exige, via de regra,
o uso de fosfatos de rochas, cujo aproveitamento é melhor se adicionado nas
pilhas de composto. Sendo principalmente fosfato de cálcio, este já traz para
a pilha alguns dos efeitos do calcário, o qual por sua vez pode acelerar demais
a decomposição da matéria orgânica, o que é indesejável em climas tropicais.
Portanto: de modo geral, se sugere nestes climas, que o calcário seja
reservado para tratar diretamente o solo ( correção de acidez), e que se
adicione em lugar do mesmo, o fosfato de rocha na pilha do composto."

Farinha de rocha 'MB-4'


'MB-4' é composto pelos minerais constituintes das rochas que lhe dão
origem - o Biotitaxisto e o Serpentinito, misturadas em proporções iguais e
trituradas. Quimicamente, o 'MB-4' apresenta uma composição rica em muitos
elementos, vários deles detectados apenas como traços, totalizando até o
momento 29 elementos, dentre os quais destacam-se:

Sllica em SiO 2 39,73%

Alumínio emAIp 3 7,10%

Ferro em Fe2O 3 6,86%

Cálcio em CaO 5,90%

Magnésio em MgO 17,82%

Sódio em Nap 1,48%

Potássio em Kp 0,84%

fósforo em P2 O5 0 ,075%

Manganês em Mn 0,074%

Cobre em Cu 0,029%

Cobalto em Co 0,029%

Zinco em Zn 0,03%

Enxofre em S 0,18%

Pinheiro e Barreto (1996) relatam vários experimentos realizados no


Brasil que atestam a eficácia desse pó de rocha como fertilizante para diversas
culturas (aumento de produção de uva itália em 33%, de arroz irrigado em
20%, de feijão em 58%, dentre outros), além de relatar as ~uas funções como
promotor de maior resistência vegetal ao ataque de enfermidades.
Ademais , além do uso direto no solo,
. apresentam
. uma recomendação de
uso via compostagem, conforme descrito a seguir.

222
Métodos de Produç ão para o Cultivo Orgâ nico de Hortaliças

Composto orgânico enriquecido com 'MB-4'

Composição:
• restos vegetais;
• esterco bovino;
• 'MB-4';
• biofertil izante AD-1 ( descrito adiante); e
• água .

Preparo:
• No processo tradicional de confecção de composto, em camadas
alternadas de materiais vegetais e esterco an imal, após as camadas de
todos os materiais vegetais, pulverizar com o biofertilizante AD- 1 e colocar
500 g de MB-4 por m 2 em toda superfície do composto.
• Repete-se essa operação também após colocar a camada do
inoculante (esterco). Após as novas sequências de camadas, proceder da
mesma maneira, acrescentando o AD-1 e o MB-4, até o final do preparo
da pilha.

Aplicação
• Utilizar o composto pronto da forma habitualmente empregada.

Resíduos agroindustriais
Khatounian (2001) cita que, caso a pilha de composto seja feita com
material muito pobre em nutrientes minerais, como, por exemplo, apenas
palhada de cereais, faltam nutrientes para manter a atividade das bactérias,
reduzindo o aquecimento interno da pilha. Nesse caso, pode se introduzir
materiais ricos em nutrientes, tais como resíduos de abatedouros, descartes
de peixarias, torta de cacau etc.

Torta ou farelo de cacau


Um dos principais fatores que deve ser observado na fabricação de um bom
composto orgânico é o seu teor de nitrogênio, por ser o elemento fundamenta l
para o desenvolvimento de plantas. Esse teo r pode ser elevado com o uso
de resíduos agroindustrais ricos em N, como a torta ou o fa relo de ca cau
(Figura 6.20), os quais cont êm de 3,0% a 3, 5% do elemento na matéria

223
1

1, Manual de Horticultura Orgânica

seca, conforme ilustrado na Tabela 6.16. Esses subprodutos, empregados


como inoculantes das pilhas, proporcionam compostos de qualidade superior,
conforme os dados da Tabela 6.17.

Figura 6.20 - Farelo de cacau - resíduo agroindustrial de elevada qualidade e


grande potencial para uso em compostagem orgânica.

Tabela 6.16 - Composição química e teor de matéria orgânica de quatro tipos de


inoculantes 1

N p K Ca Cu Zn Fe Mn B
(%)
2,1 0 ,89 1,14 2,55 0 ,38 37 1 16 4.474 369 19
Esterco de 68 19/1 7,1
galinha
2,0 1 ,88 1,66 8,63 0 ,49 43 208 11.485 742 23
Composto 45 14/1 7,7

0 ,64 3,17 0 ,32 0 ,58 60 108 3.43 1 80 36


Torta de 90 16/ 1 6,6 3,3
caca u
0,04 0 ,26 0 ,04 0 ,01 15 27 20.785 74 1
Terrlço de 16 19/1 4,3 0,5
mata
1 Média de três fontes uti lizadas.
Fonte: Souza (1998) .

224

lll
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.17 - Composição química e teor de matéria orgânica de compostos,


preparados com quatro diferentes inoculantes
' ► - . )i;g· . ·•·. - .
Tipos de M.O C/N pH Macro(%)' .. _-/~iç~<,f (p~m)
compostos
Composto/ 27
48 15/1 7,2 1,9 1,1 1,2 5,3 0,5 51 204 1.936 891
esterco
Composto/
49 15/1 7,1 2,0 1,0 1,1 3,3 0,4 45 166 22.981 902 27
composto

Composto/
torta cacau 63 12/1 6,5 3,2 0,7 1,5 1,8 0,5 44 130 17.324 659 35

Composto/
terriço 35 18/1 6,7 1,1 0,4 0,6 1,2 0,2 30 75 20.832 410 24

1
Média de cinco repetições.
Fonte: Souza (1998).

Nesse trabalho, a quantidade dos inoculantes utilizados, durante o empilhamento,


foi de 40 kg para cada metro cúbico de material vegetal, para todos os quatro
tipos avaliados. Isso foi suficiente para proporcionar diferenças significativas de
qualidade, provocando efeitos significativos no comportamento das culturas em nível
de campo. Na Tabela 6.18, verificamos que foi possível elevar significativamente a
produtividade do milho-verde, com o emprego da torta de cacau como inoculante,
em função, principalmente, do destacado teor de nitrogênio.

Tabela 6.18 -Avaliação conjunta do efeito de tipos de inoculantes em compostos


orgânicos, sobre o desenvolvimento do milho verde

Tipos de
inoculantes
(40 kg/m3)

Esterco
Estande
final

15 a
12 ab
Altura de
plantas
(m)

2,5 b
2,4 b
Diâmetro
do caule
(cm)

2,1
2,2 ab
c
...
.- - ·-···
espigas
(ha)
29397 b
27745 b
.....
-

6339 b
6273 b
Espigas comerciais

- ......
..

232 ab
220 b
- ..
17 ,1 ab
17,2 a
....
4 ,5 b
Composto 4 ,6 a
Torta cacau 13 ab 2,7 a 2,3 a 38905 a 9384 a 244 a 17,5 a 4,6 a
Terriço 11 b 2,4 b 2,1 bc 26406 b 5642 b 221 b 16 ,4 b 4 ,5 ab
CV(%) 15,6 4,9 8 ,3 12,6 30,0 12,2 5,9 3,9

Fonte: Souza (1998) .

Mesmo culturas reconhecidamente rústicas quanto à ex1gencia em


nutrientes, a exemplo da batata doce, podem responder de forma diferenciada
a compostos que apresentam qualidades distintas, conforme comprovamos na
Tabela 6.19.

225
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.19 - Desenvolvimento da cultura da batata-doce em função de quatro


tipos de inoculantes em compostos orgânicos

raízes raízes
raízes (kg/ha) (kg/ha)
68 a 38.059 ab 27 a 17.903 ab 221 b 18,1 a 5,2 b 2 53

Composto 47 c 30.344 b 20 b 14 .691 b 237 b 15,3 b 5,3 b 2 53

Torta de cacau 49 c 43.850 a 21 b 21.522 a 331 a 17,9 a 6 ,0 a 2 53

Terriço 62 b 33.906 b 26 a 16 .391 b 199 b 17,6 a 4,9 b 253

CV(%) 5,1 24,5 6,4 25, 0 22,7 8,3 8,9

Fonte: Souza {1997) .

Contrastando-se esses resultados com a composição média dos tipos de


compostos contidos na Tabela 6.17, observamos que o composto inoculado
com torta de cacau destaca-se nos teores de matéria orgânica e nitrogênio. Logo,
postulou-se que esses fatores foram decisivos nos rendimentos observados.
Através das análises foliares contidas na Tabela 6.20, confirmamos as
expressões dos tratamentos empregados sobre o desenvolvimento vegetativo
da cultura. O solo adubado com composto/torta de cacau conduz a maiores
teores foliares de nitrogênio, potássio, magnésio, ferro e manganês.

Tabela 6.20 - Teores de macro e micronutrientes em folhas de batata-doce, aos


150 dias após plantio, em função de tipos de inoculantes em composto orgânico
Tipos de Macronutrientes (%) Micro nutrientes ( ppm)
inoculantes
(40 kg/m 3 ) N p K Ca Mg Cu zn Fe Mn e

0,49 3,93 0,89 0,41 20 30 450 104 60


Esterw 4,25

0 ,52 4,46 0,74 0,42 23 32 456 104 55


Composto 3,90

0,34 4,77 0,89 0,55 22 34 976 123 54


To rta de cacau 4,65

0,53 3 ,95 0,75 0,42 21 30 370 106 55


Terriço 3 ,95

Fonte: Souza (1997).

Torta de mamona
Segundo Kiehl ( 1985), a torta de mamona pode ser utilizada com efeitos
semelhantes à torta de cacau, por apresentar um teor de N na faixa de 3,0 a
5,0% e um teor de P e K na faixa de 1,5 a 3,0%.

226
1

1
11

Métodos de Produção para o Cultivo Orgâ nico de Hortaliças

Por se tratar de um produt o relativamente caro, seu emprego se justifica


apenas como inoculante das pilhas de composto, numa proporção de 30 a 50
kg para cada metro cúbico de com posto recém- mont ado.
Neste caso, pode-se dispensar o uso de out ro inoculr.;nte, como o esterco
animal (mais comumente usado), de fo rma a obter um pi'oduto fina l a custo
compensador.
Composição:

Fonte: Kiehl (1985).

Farinha de ossos
Esse subproduto pode ser utilizado diretamente no solo ou via processo de
compostagem. Segundo Kiehl (1985), os ossos são constituídos basicamente
de fosfato de cálcio, distribuído em matriz de natureza orgân ica. Relata que a
composição dos ossos é a seguinte: fração orgânica (totaliza 34% dos ossos
e contém 7% de gordura e 27% de osseína, com 5% de nitrogênio) e fração
mineral (totaliza 66% dos ossos e contém de 53 a 56% de fosfato tricá lcico,
com 24% a 26% de P2 0 5 ; 1 a 2% de fosfato trimagnésico; 7% a 8% de
carbonato de cálcio e 1 a 2% de fluoreto de cálcio).
Por se tratar de um material de preço relativamente elevado, a quantidade
utilizada em compostagem situa-se na faixa de 20 a 30 kg por m 3 de composto,
no momento da montagem das medas, de forma complementar ao inoculante
tradicional à base de esterco de animais.
Isso promove melhorias na qualidade do composto, elevando principalmente
os níveis de nitrogênio, fósforo e cálcio.

Torta ou borra de café


Subproduto oriundo da industrialização do café solúve l, contendo m uita
umidade (80% a 85%), sendo rico em matéria orgânica e relativamente rico
em nitrogênio (1,5 a 2,5%, no material seco) . A borra de café não deve ser
utilizada diretamente como fertilizante orgânico, devendo sofrer previamente
uma decomposição, preferencialmente através da compostagem org ânica
junto com outros materiais (KIEHL, 1985).

227
Manual de Horticultura Orgânica

Para melhor enriquecimento do composto, pode ser utilizada uma


quantidade maior na inoculação das medas, na faixa de 50 a 100 kg por m 3 de
material palhoso, por ocasião da montagem das pilhas.
Pode ser empregada de forma complementar (menor quantidade: 50 kg/
3
m ) ou em substituição aos inoculantes tradicionais à base de estercos de
,, animais (maior quantidade: 100 kg/m 3 ).
Composição:

Fonte: Kiehl ( 1985).

Preparados biodinâmicos
Os preparados biodinâmicos são utilizados na compostagem com a função
de ajudar a regular toda atividade interna da pilha, bem como suas trocas com
o ambiente - tanto em termos de substâncias como de forças. Favorecem a
microvida mais desejável, bem como direcionam a formação de substâncias
importantes.
Compostos tratados com esses preparados são mais 'limpos', mais estáveis
e efetivamente mais ricos e equilibrados para a nutrição do solo e das plantas.
A fabricação dos preparados utilizados nesse processo já foi detalhado
anteriormente.

6.2.2.4. FORMAS DE APLICAÇÃO DE COMPOSTO

A aplicação de composto orgânico pode ser realizada a lanço ou de forma


localizada nas covas ou nos sulcos de plantio.
Para culturas mais rústicas, como o feijão (Tabela 6.21), a aplicação a
lanço é suficiente para melhorar o solo e permitir obter boas produtividades.
Entretanto, para culturas mais exigentes em fertilidade, como a couve-flor,
torna-se necessário adubar de forma localizada, pois isso permite melhorar a
nutrição das plantas e aumentar o rendimento comercial (Tabela 6.22).

228
' ,

Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.21 -Avaliação conjunta de formas de adubação orgânica com composto


na cultura do feijão

Incorporado 2.160 a 20,4 a 101

Superficial 1.954 a 20 ,4 a 101

Localizado 1.983 a 20,1 a 101

Fonte: Souza (1996).

Tabela 6.22 - Avaliação conjunta de formas de adubação com composto na


cultura da couve-flor em sistema orgânico

Nº de cabeças P d t · ºd d Peso Ciclo


. . ro u 1v1 a e .d
Tratamento comerc1a1s (kg/ha) me io Compacidade médio
(ha) (g) (dias)
Incorporado 2.666 b 982 b 334 b 4 ,4 b 109 a

Superficial 3.064 b 1.172 b 350 ab 5,7 ab 109 a

Localizado 7.286 a 2 . 868 a 378 a 7,6 a 109 a

Fonte: Souza (2002).

6.2.2.5. CUSTO DE PRODUÇÃO DE COMPOSTO

Pouco se conhece sobre os fatores econômicos envolvidos no processo de


compostagem, tornando-se um dos principais aspectos de resistência quanto à
adoção dessa prática em nível de propriedade rural, especialmente, pelo consumo
e custos da mão de obra. Entretanto, estudos realizados por Souza e Prezotti
(1996), demonstraram que, em sistema orgânico, a produção de composto
orgânico apresenta-se como atividade de elevada viabilidade econômica.
CÁLCULO ESTIMADO DE CUSTO (PREÇOS ATUALIZADOS EM OUTUBRO DE 2010)
Baseando-se nos indicadores necessários à elaboração de um composto
orgânico com 36 m 3 iniciais, desde a montagem até a obtenção do composto
pronto, com rendimento final de 9.000 kg de composto a 50% de umidade,
descritos por Souza (2005), podemos estimar o custo por tonelada , conforme
detalhado na Tabela 6.23.

229
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.23 - Dados econômicos médios de um sistema de compostagem,


segundo indicadores de Souza (2005). Valores atualizados em Outubro de 201 O
CUSTO DE COMPOSTO ORGÂNICO
(Pilha de 36 m 3 = 9 t de composto) Ji~.
, r,lj.i'~
INSUMOS (A) QUANTIDADE VALOR*
3
A.l. Esterco de galinha como inoculante da pilha (40 kg m ). 1.440 kg 172,80
2
A.2. Esterco galinha para adubação da capineira (350 m ). 100 kg 12,00
A.3. Óleo diesel (transporte de material). 41 8,12
A.4. Energia elétrica para trituração do capim (motor 10 HP por 4 horas) 29,44 kwh 5,37
A.5. Fosfato natural reativo 100 kg 90,00
A.5. Restos culturais para 18 m 3 (300 kg m 3 ). - 0,00
TOTAL(A) 288,29

SERVIÇOS QUANTIDADE VALOR


B.1. Roçada e transporte de capim e restos culturais 2,0 D/H 60,00
B.2. Adubação e manejo da_capineira por 6 meses 3,0 D/H 90,00
B.3. Trituração do capim 0,5 D/H 15,00
B.4. Confecção 2,0 D/H 60,00
B.5 . Reviramentos (5 vezes) 2,5 D/H 75,00
B.6. 10 Irrigações 1,0 D/H 30,00
TOTAL (B) 330,00
TOTAL (A) + TOTAL (B) 618,29
Custo por tonelada de composto pronto 68,70
*Preços em Reais.

Deve-se considerar ainda que, se o solo já estiver adequadamente


enriquecido com fósforo, não será necessário utilizar fosfato natural nas pilhas
de composto. Sendo assim, o custo total seria reduzido para R$ 528,29 e o da
tonelada para R$ 58, 70.

6.2.3. R.EcoMENDAÇÕ.ES DE ADUBAÇÃO COM ADUBOS ORGÂNICOS


6.2.3.1. CÁLCULO DA DOSAGEM DE ADUBOS ORGÂNICOS PELO
FATOR DE CONVERSÃO

uma proposta de cálculo, descrita por Peche Filho e De Lucca (1997), serve
de orientação para proceder aos cálculos da quantidade de adubos orgânicos,
levando em consideração a composição dos materiais e a exigência da cultura.
Será enfocada a cultura do morango, como exemplo, para definição dos
passos e dos cálculos. Lembre-se que essa quantidade deve ser considerada

230
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico d e Hortaliç a s

como MÍNIMA, visto que leva em consideração apenas o fator nutriente,


dispensando a parte física e biológica do solo.

Exemplo
A composição de fertilizantes organ1cos para atender às exigências das
culturas, necessariamente, tem de passar por uma sequência de cálculos, para
que no final a planta seja produtiva e rentável.
Primeiro passo:
Saber a composição média de nutrientes que a fonte orgânica contém
e, também, a proporção em que eles ocorrem, principalmente em relação
a nitrogênio, fósforo e potássio (NPK). Através da composição de diversos
resíduos, podemos conhecer várias fontes disponíveis para o agricultor.
Para se ter um bom fertilizante para plantio, Dadonas (1989), citado por
Peche Filho e De Lucca (1997), estabelece que o ideal é que, para cada parte
de N, haja três partes de fósforo e duas de potássio.
Assim, as diretrizes para balancear e calcular uma boa formu lação de
adubos orgânicos poderão ser baseadas em fatores de conversão, que é um
método rápido e prático, apesar de não resultar em uma formulação muito
rigorosa, porém atende a dois pontos básicos da adubação, que é a capacidade
de colocar nutrientes em condições de a planta assimilar e a economicidade.

Segundo passo:
O cálculo do fator de conversão para fertilizantes é simples: basta dividir
100 pelo teor de nutrientes que o fertilizante possu i. Exemplos: 100 div idido
por 4% de N, supondo um esterco de galinha com esse teor, teremos o fat or
25 para nitrogênio; para o fósforo, também, utilizaremos o fator 25, supondo
que esse esterco contenha também 4% de fósforo; para o potássio, o fator
será 50, supondo que esse esterco contenha 2% desse nutriente. Portanto, o
esterco de galinha que estamos analisando tem um fator de conversão pa ra ,
NPK igual a 25- 25-50.
Na Tabela 6.24, são apresentados os fatores de conversão pa ra as
principais fontes de nutrientes em alguns fertil izantes orgânicos.

231
1

1
Manual de Horticultura Orgânica 1
= == == == = ~~ ,;;,,;;.,=== == = = ============---~ /

Tabela 6.24 - Fatores de conversão para N-P-K, em fertilizantes orgânicos

p K
1 ' Esterco de galinha 25 50
1

Torta de ma mona 20 50 99
Torta de algodão 16 33 71
Labe-labe 22 50 (?)
Guandu (sementes) 27 125 54
Mucuna-preta (serrentes) 26 95 33
Salitre do chile 6 o o
Esterco de coelho 50 77 83
Esterco de bovino (verde) 20 40 20
Esterco de cabra 33 50 33
Resíduo de esgoto 50 66 200
Bagaço de la ranja 65 476 83
Lixo curtido 94 312 156
1
1
Folhas de amoreira 26 95
:1
Folhas de mandioca 22 142
Crotalária 51 285 55
,1
1 39 200 41

Farinha de ossos crua 5 o


Farinha de ossos 3 o o
carbonizados
Fosfatos naturais (média) 3 o o
Guano 11 35 91

232
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

... Continuação da Tabela 6.24


Li( 1"1 ,1-l-~ , · ~11( 1 ] ,i :.J...- i , :.
-
., ,ll \'í:.loi...--t-:(t] L;J-cli"cJ
1
.. -- -
l•To1it:L'"i..--tlo]
1
K p N
Cascas de café 26 714 57
Palha de café 51 400 74
Palha de milho 60 285 222
Talos de banana 13 666 133
Cinzas 10 40 o
Esterco de cabra 33 50 33
Esterco de ovelha 40 100 50
Esterco bovino curtido de
curral 20 40 20
Esterco bovino seco 40 66 50
Mucuna-preta (pé) 33 181 44
Palha de trigo 80 2000 133
Palha de aveia 52 285 153
Palha de centeio 100 400 222
Palha de cevada 80 500 133
Palha de feijoeiro 52 400 62
Casca de ma mona 55 333 87
Fonte: Dadonas (1989), citado por Peche Filho e de Lucca {1997).

Quanto menor o fator de conversão, maior o teor de nutriente em cada


material, podendo-se notar ainda que, em certos materiais, os fatores relativos
a N e K são praticamente idênticos, permitindo apenas receber adição de fósforo
(P), para ficar com uma relação aproximada de 1-1,5-1 ou 1-2-1, facilitando
ainda mais obter fertilizantes.
Com base nos critérios de fatores de conversão, podemos calcular as doses
aproximadas para uma adubação satisfatória

Terceiro passo:
Para exemplificar a utilidade do método baseado em fatores de conversão,
vamos calcular uma quantidade de mistura de fertilizantes simples, para

233
Manual de Horticultura Orgânica

atender as necessidades de adubação, determinadas pela análise de solo para


a cultura do morango.
Exemplo - Através de uma análise de solo, detectamos que, para a
adubação mineral de 1 ha de plantio de morangos, deveríamos aplicar 40 kg
de N, 300 kg de P e 100 kg de K. Consideremos que há, na propriedad e, os
seguintes fertilizantes orgânicos e seus respectivos fatores de conve rsão :

Resíduos orgânicos N _ ~- p '<JI'.


Esterco de galinha 25 25 50
1 Farinha de ossos o 3 o
1 Cinzas o 40 10

Iniciamos os nossos cálculos pelo esterco de galinha, que é a nossa única


fonte de nitrogênio. De acordo com a análise, necessitamos de 40 kg de N no
plantio. Assim, multiplicamos 40 pelo fator 25, referente ao nitrogênio contido
no esterco e teremos 1.000 kg, ou seja, 1 t de esterco de galinha é necessária
para suprir a quantidade adequada de nitrogênio. Ademais, se utilizarmos 1 t
de esterco, estaremos ainda colocando 40 kg de fósforo e 20 kg de potássio;
portanto, temos que descontar a quantidade necessária, 300 kg - 40 kg = 260
kg de fósforo e 100 kg - 20 kg = 80 kg de potássio.
Assim, estamos prontos para continuar os cálculos, que agora deverão
concentrar-se nas cinzas, porque essa fonte nos fornece fósforo e potássio.

Para suprir a necessidade de 80 kg de potássio, multiplicamos essa


quantidade pelo fator 1O da cinza e obteremos 800 kg de cinzas
necessárias para suprir o potássio.

Os 800 kg de cinzas também contêm 20 kg de fósforo, o que deve ser


descontado do total de 260 kg de fósforo faltantes, ou seja , faltarão 240,0
kg de fósforo para serem supridos pela farinha de ossos. Para esse cálculo,
multiplicamos 240,0 pelo fator 3 da farinha de ossos e obtemos 720 kg de
farinha para completar a nossa mistura .
Na Tabela 6.25, podemos resumir os nossos cá lculos.

234
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.25 - Quantidades de fertilizantes orgânicos para atender os resultados


de uma análise de solo para plantio de morangos

N p K
1 t de esterco de ga linha 40,0 4 0,0 20, 0
800 kg de cin za s 2 0,0 80,0
720 kg de farinh a de ossos 240 , 0
Total da mistu ra: 2 .520 kg 40,0 300, 0 100,0

Portanto, para atender às recomenda ções provindas da análise de solo,


necessitaríamos de aplicar, na adubação de plantio, uma mistura contendo:

• 1.000 kg de esterco de galinha, contendo 40 kg de N, 40 kg de P e


20 kg de K;
• 800 kg de cinzas contendo 20 kg de P e 80 kg de K; e
• 720 kg de farinha de ossos, contendo 240 kg de P.

Somando todos os ingredientes, a mistura vai pesar 2.520 kg, o que


equivale a 252 g da mistura por metro quadrado de canteiro de morango, ou
seja, 28 g por cova (supondo 9 plantas por m 2 ).
Através desse exemplo, observa-se que a quantidade de adubo orgânico
para nutrição de plantas em sistema orgânico não representa problema. Apenas
do ponto de vista nutricional, 2.520 kg da mistura exemplificada seria suficiente.
Se, em vez dessa mistura, utilizarmos a dosagem média recomendada para
composto orgânico (15 t/ha) - que contenha 2,0% de N, 1,5% de p e 1,3%,
de K na matéria seca - estaríamos aportando 300 kg de nitrogênio, 255 kg de
fósforo e 195 kg de potássio. Compare as duas situações, faça críticas e os
devidos ajustes, como "dever de casa"!

6.2.3.2. C ALCULO DA DOSAGEM DE ADUBOS ORGÀNICOS PELO


SOFTWARE DO INCAPER

o INCAPER disponibiliza em seu site, gratuitamente, o Software


"Recomendação Calagem Adubação", que calcula as necessidades de corretivos
e fertilizantes para diversas culturas. Basta acessar a página do INCAPER, na
aba 'Download' e baixar o software (http://www.incaper.es.gov.br )

235
Manual de Horticultura Orgânica
=======~g,;;,;,,,;;,,;;,;;;;~==================-= ~

Ao abrir o programa, encontrará o Menu "Cultivas Orgânicos", específico


para atender recomendações peculiares aos sistemas orgânicos de produção.
Atualmente, estão disponíveis cálculos para culturas perenes e café (implan tação
e produção) e para hortaliças (categorizadas em 5 grupos distintos) .

ar e I ui r om n ções de corretivos e d e a d ·_,:,s


nico . ba 1a s c ultura ou grupo d e c ulturas e inser os
o ul1 ur l os a n · 11s d solo e d qualidade d n .:iubo
r ô nlco. u o i1 m 1 ui ró as r c om ndações necessárias.

- -
---~---- - ------- -

Como exemplo, na Tabela 6.26, apresenta-se a página de recomendações


gerada para impressão, para um plantio de morango orgânico, utilizando-se de
composto orgânico que tenha as seguintes características e composições: 50%
de Umidade; 1,8% de N; 1,6% de K e 1,0% de P.
Considerou-se que a análise de solo do local de plantio indicou: 50 mg/
dm 3 de P; 80 mg/dm 3 de K; 1,3 cmo1Jdm 3 de Ca; 0,4 cmoljdm 3 ; 2,1 dag/ kg
de Matéria Orgânica; 8 cmoljdm 3 de CTC; 50% de Saturação de Bases (V). o
calcário dolomítico disponível apresentava PRNT de 90%.
Verifica-se, nas recomendações que foram identificadas automaticamente,
a necessidade de corrigir a acidez do solo, aplicando-se 1,8 t de calcário por
hectare, visando especialmente a elevar a saturação de bases do solo. Pelas
condições do solo e da composição do adubo orgânico disponível (composto
orgânico), recomendou-se aplicar 148 g de fosfato natural misturado com 2,3
kg de fertilizante orgânico, para cada m 2 de canteiro.
Nota-se que, mesmo o solo apresentando 50 mg/dm 3 de P, há necessidade
de aplicação de adubo fosfatado, pois este teor de P é considerado baixo em
sistemas orgânicos, diferentemente da interpretação para sistemas agroquímicos.
Este software ainda apresenta uma recomendação adicional de
adubação em cobertura, utilizando-se 400 mi de biofertilizante líquido por m 2
quinzenalmente, a partir dos 30 dias do plantio, que, para o morango, deve ser
aplicado até meados da frutificação, complementando-se assim a nutrição das
plantas do morangueiro .
Ao final da página de recomendações, deve-se atentar para algumas
observações importantes para evitar desequilíbrios no sistema de adubação,
fatos muito comuns em sistemas orgânicos de produção .

236
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.26 - Página de recomendações de corretivos e adubações para


morango orgânico, gerada pelo Software do INCAPER
INCAl' l·.R
INSTITlff() C,\ PI X,\ IJ/\ Ü l' rr:sc;t IS,\,A '- S I. TI:,'-CP. ·r ~( , , 1.. , F f . r, r-;;oà 0 RURAL

Produtor. Pro pt~:di1 rl •: ')rg~tni ..::!


1

Cultura : f\1ora •! ~()

Análise do s olo: p 50 mg / dm3


K 80 mg/dm3
Ca 1,3 cmo l,!dm3
Mg 0,4 cmol./dm3
MO 2, 1 dag/kg
CTC 8 cmol./dm3
V 50 %
PRNT do calcário 90 %

Teor de nutrientes e umidade do Fenili:zante Orgânico n ser utilizado

N dog/kg
p dag/ kg
K dag/kg
Teor de umidade %
Rccomcnd11çõcs:
C11l111:cm: 1,8 t/hu de calcário

Adubuçilo de Pluntlo (por nf)

2,3 kg do Fcnilizantc Orgânico


1-'8 g de Fosfato Natural

Adubaçilo de Cobertura (por nf)

mi de b iofcn ili zantc (ou produto similur) ap licudo no so lo, quinzenalmente, n punir dé 30 dins upós
400 plantio
Pura Alho: Até inicio da diferenciação bulbnr combiofonilizanh: scmn fon te poti\.~s icn.
Para Morango: Até nx:ados da frutificação
Para Cenoura e Bcl.:rrabu: Avuliu ru ncccssidndc cm funç11o do vigor.
01Jscn11ç6cs:
1) 0iofcr1ilizunlc cnriqueciJo co m N e K: Dissolver cm 700 lilr?s de tli;_uu, 100 kg de compos1o • 100 kg de pune
o~rea picudu de IIIUJIIOIIII 011 ICb'lll11ÜlllS II + 20 kg d c ClllZU. Agilur J111r11uncn1c dumnlc 7 d w.s. U1ihzur \) lf4uiJo sobn::midanlc. l'oJc, ,c
rc:,provcilur os resíduos sóh<los 111111s 1111111 VC'L , cumplc1111ulo com 700 lllros de áb'I"'·
1
:?) Solus cuin lcon..-s d..: K ul.Jui~o Jc MO m&'J nr • ucn::-.ccntur no íi:rt1liLuntc urgfüw.:o f l-s iduu:, ric.·os cm poll\.bio l"UlfüJ cuua..,, pnlha-
dc,cufé, fulhus e p ~cudocuulc Jc b11111111crn. ele.
1
3) Solos com 1eurc,, ilc K 11ci11111 de ,1110 mg/<1111 , cli11111mr a s11plc11m1111·no c111n lnlllc-:, Jllll s>1rns.
4) Os c.llculus fomm feitos com busc 1111 1\rc'tl 1111I 1lc 7 000 m' ih u 1lc c1mlc1ros " 1111
dcmnnJu 1111.'diu p um fulhustLS de 150 kglhu de N.
S) No ,Jmu,o, ,..,1,rnr 110 ,nthimo 5 k g/111! de fc111lit11111c or1,j·111 1co. 1\ 11uw11 illuJc c:u:cJcnlc tino ,cr uplicuJ~
1
o dt11> opa~.

D111n ;

237
Manual de Horticultura Orgânica

6.3. ESPÉCIES E CULTIVARES ADAPTADOS ÀS


CONDIÇÕES AGROECOLÓGICAS LOCAIS

A perda da biodiversidade genética das sementes no mundo é histórica. A


erosão genética dos centros de origens da maioria das sementes, conh ecidos
como "Centros de Vavi/ov'" está resultando no aumento da uniformidade genética
e da vulnerabilidade das culturas em todo o mundo. A uniformidade genética de
uma cultura é um convite para uma epidemia devastadora, como muitos exemplos
ocorridos na história da agricultura das últimas décadas (MOONEY, 1987).
Por outro lado, por existir grande quantidade de espécies no grupo das
hortaliças, algumas delas de propagação botânica e vegetativa, mantém-se um
certo grau de diversidade genética que urgentemente necessita ser resgatado
e preservado, especialmente para atender sistemas orgânicos de produção
num futuro breve.
Um aspecto primordial na agricultura orgânica é a escolha de espécies
adaptadas às condições agroecológicas locais, o que proporciona melhor
desenvolvimento e maior sanidade às culturas e, consequentemente, menor
necessidade de intervenção humana.
Devem ser utilizadas variedades e cultivares resistentes ou to lerantes às
doenças e pragas de maior importância para a cultura.
Uma das grandes limitações dos agricultores orgânicos na atualidade é
ter acesso a materiais genéticos tradicionais, que tenham capacidade genética
para bom desenvolvimento vegetativo e resposta a adubações orgânicas,
inclusive, viabilizando a produção com menores esforços fitossanitários.
Um dos grandes responsáveis por essas limitações foi o desenvolvimento
da indústria de sementes de hortaliças, voltada apenas para a agricultura de
larga escala, onde apenas híbridos de extrema uniformidade têm aceitação
comercial. Isso provocou uma enorme perda de diversidade genética em
várias espécies de hortaliças, sendo muitas reduzidas a poucas alternativas de
sementes no mercado.
É recomendável que o agricultor reproduza e selecione continuamente
materiais genéticos mais adaptados às suas condições de cultivo.
A seleção deve ser feita com base nos seguintes critérios:
• adaptabilidade da espécie às condições locais de cultivo;

• produtividade;
• resistência ou tolerância a determinadas pragas e doenças;

• qualidade do produto;

238
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

• vida pós-colheita; e
• aceitação no mercado.

Algumas espécies de hortaliças, como tomate, pi m então, abóbora, alho,


taro, gengibre, dentre outras, possuem variedades que permitem a real ização
desse trabalho, sem necessidade de técnicas muito refinadas de multiplicação,
e a um custo muito baixo. Na Figura 6.21, verificamos frutos e propágulos de
algumas espécies e varieda des, passíveis de multiplicaçã o no sistema orgân ico.

Figura 6.21 A - Frutos e propágulos orgânicos: Tomate, cv. Roquesso (1 ); Frutos


de tomate para retirada de sementes (2).

239
Manual de Horticultura Orgânica
,.._

Figura 6.21 B - Tomate, cv. Cereja (1 ). Bulbilhos de alho, cv. Gigante curitibanos (2).

240
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
....

Figura 6.21 C - Cabeças e dedos de Taro , cv. Chinês (1 ). Mão de gengibre, cv.
Gigante (2).

241
=
M..,,a..,,n..,,u..,,a..,,1..,,
ct..,,
e..,,H..,,o..,,rt..,,ic..,,u..,,1..,,
tu..,,ra~ O;,,,,r~g:,;;;;â;;,.;n~ic~a;;,,,,,,,====================--
.,,,_ t"'

COMO MULTIPLICAR SEMENTES DE TOMATE?

A multiplicação de sementes em sistema orgânico requer cuidados


preventivos, desde a seleção até a obtenção de sementes de boa qual idade
fisiológica e fitossanitária .
Especialmente na cultura do tomate, a seleção das plantas superiores e
dos frutos padrões daquela variedade marca o início do processo, utilizando-se
de frutos totalmente maduros.
Pode-se fazer a colheita de frutos medianamente maduros, mas deve m ser
deixados estocados até o completo amadurecimento para extração das sementes.
Para evitar propagação de doenças para a safra seguinte, especialmente aquelas
propagadas por sementes como o cancro bacteriano, as sementes selecionadas
devem passar pelo processo de fermentação por 3 dias (72 horas) e posterior
secagem à sombra em ambiente ventilado, conforme ilustrado na Figura 6.22.
Pensar que em sistemas orgânicos de produção devem ser util izados
somente cultivares ou variedades tradicionais pouco produtivos não é adequado .
Muitos cultivares modernos, produtivos e resistentes a determinadas pragas
ou doenças, têm respondido bem ao sistema orgânico e devem ser utilizados
na medida do possível.
Mais especificamente relacionado ao controle de doenças, os cu lt ivares
resistentes continuam sendo extremamente úteis à olericultura org ânica,
embora muitos deles sejam híbridos, tendo de ser adquiridos a cada plantio.
Devido à constante atualização dos materiais desenvolvidos pelas empresa s
de sementes, deve-se consu ltar previamente os catálogos dos produtores de
sementes de hortaliças .

Enquanto a agricultura convencional trabalha no sentido de artificializar


o ambiente natural, mediante o uso de insumos externos à propriedade
(adubos químicos, agrotóxicos, irrigação, máquinas e implementes
agrícolasJ, para corrigir possíveis obstáculos, a lógica a ser seguida na
agricultura orgânica sustentável é o cultivo de espécies e variedades
bem adaptados às condições ecológicas de cultivo.

- ~ =--
-- - . , =
~ - -- -

242
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

e
,--
!

Figura 6.22- Frutos de tomate selecionados para sementes (A). Maceração da polpa
juntamente com as sementes (B). Polpa fermentada após 72 horas (C). Mistura
da polpa para homogeneização (D). Polpa homogênea pronta para lavagem (E).
Lavagem das sementes em peneiras (F). Disposição das sementes sobre papel
para secagem à sombra (G). Retirada das sementes secas após 7 dias (H).

243
Manual de Horticultura Orgânica

Observe, na Tabela 6.27, as características de alguns cultivares disponíveis


no mercado convencional de sementes, em relação à resistência a doen ças.

Tabela 6.27 - Cultivares de hortaliças com resistência genética a doenças


Espécie Doença/patógeno Cultivar/hibrldo resistente-
. Mosaico . Brasil 303, Carolina, AG-576, Reg ina 71 , Mad ona AG-

Alface
. Vírus do mosa ico da alface 605, Monalisa AG-819
(LMV)

. Pinta preta (Alternaria solani) . Aracy, Apuã, Itararé, Monte Bonito, Catu cha
. Mela ou Reque ima
(Phytophthora infestans) . Matllda, Itararé, Monte bonito, Catucha
. Víru s do enrola mente das
Batata folhas (PLRV) . Contenda e Catucha
. Murcha bacteriana (Ralstonia
.
solanacearum) Achat

. Antracnose (Col/etotrichum . Oça


gloeosporioldes)
Berinjela . Podridão de Phomopsls . Ciça
(Phomopsis vexans)

. Mal-das-sete - voltas • Pira Ouro, Roxa do Barreiro


(Co/letotrlchum gloeosporioides)
sp. cepae
f.
. Texas Grano 502 PRR

Cebola
• Raiz rosada (Pyrenochaeta
terrestrls)
. Granex Precoce *, Pera 3 * , Roxa do Barreiro '", São
. Vírus do nan isno amarelo Paulo, Texas Grano 502 PRR.

(OYDV)

. Queima das folhas (Alternaria


. Brasília, Carandaí AG - 106, Kuroda Nacional, Kuronan,
Uberlâncla .
daud)
Cenoura
• Nematoide das galhas • Brasília, IPA-5, IPA- 6 .
(Meloidogyne spp.)

• Samba, Ma ria.
• Oídio (Erlsyphe pisl)
Ervilha
. Míldio (Pseudoperonospora . Jo ia AG-45

cubensls)
. Mancha angular (Pseudomonas . Joia AG- 454

syrlngae pv. /achrymans)


Pepino • Joia AG- 454
Oídio (Eryslph e clchoracearum)

• Agron ômi co lOG, ApoloAG -5 11 , Cascad u ra lkeda,


Mosai co ou V írus y d a Ba ta@
• c ontine ntal AG -498, Hércules AG -672, ltalpu.

Pimentão
(PVY)
. Re qu ei ma (Phyrophthora
. Apolo AG - 511, Conti nental AG -498 , Hércules AG-672,
Nacion al AG -506, A te nas AG-322 .
Jnfest.an s)

244
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

.. . Continuação da Tabela 6.27

• Míldio (Peronospora parasltlca) • Híb rido Ma ts uka~e SI~


• Podridão negra (Xanthomonas • Híbrido Fuyutoyo SI<, Cv Louco, H. Maste r AG-3 2 5 ,
Repolho
campestris pv. Campestrls) Cv . União.

• Cancro bacteriano ( Cla vlbacter • Barão ver melho /\G-5 61, Jumoo AG-592, Príncipe
m ich iganensis subsp. Michiganensis) Giga nte AG -59 0 , Rv::iuesso AG-591.

• Pinta bacteriana (Pseudomonas • Agrocica Botu - 13


syringae pv. Tomato)

• Mancha de Stenfillum (Stenfilíum • Ang ela Gigant e 1- 5100, Bar ão Vermelho AG- 56 1,
solanl) Concorde Ag -595 , Jumbo AG- 592 , TSW-10, IPA- 5 .

• Murcha bacteriana (Ralstonla • C38-D


solanacearum)

• Nematoide das galhas (Meloidogyne • Nemadoro


spp.J
Tomate
• Murcha de fusarium (Fusari um • Angela Gigante 1- 5100, Barão Vermelho Ag-561 ,
oxysporum f . sp. /icopersicl) Concorde AG-595, Jumbo Ag-592 , TSW- 10, Nemadoro,
IPA-5, IPA-6, Agrocica Botu-13.

• Murcha de verticilium (Verticillium • Príncipe Gigante Ag - 590, Roquesso AG-591 , Sa nta


albo-atrum) Clara 1-5300, Tropic, TSW-10, Nemadoro, IPA- 5 ,
Agrocica Botu-13 , Jumbo Ag-592.

• Risca ou Mosaico Y (PVY) • Angela Gi gante 1-5100, Santa Clara 1-5300.

• Vira-cabeça (TSWV) • TSW-10

* Cultivares de cebola
tolerantes ao vírus do nanismo.
fonte: Guia Técnico de Hortaliças/Agroceres (1995/96); Lopes e Santos (1996), citados por
Zambolim (1997).

Dentre as hortaliças, um dos exemplos mais expressivos quanto


à resistência a doenças é o caso da batata, uma cultura muito sensível à
requeima, provocada pelo fungo Phytophthora infestans.
Os cultivares Matilda, Itararé e Monte Bonito apresentam um nível de
resistência a essa doença que permite obter boas produções de batatas em
sistemas de cultivo orgânico (Tabela 6.28). Utilizar, por exemplo, o cultivar
Baraka representa um alto risco de perda do campo pela alta incidência da
citada doença, conforme mostra a Figura 6.23 (SOUZA, 2002).

245
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.28 - Avaliação de qenótipos de batata em cultivo orqânico 1


Bulbos totais Bulbos comerciais
Genótipos
Estande Nº Produll- Peso Comp. Dlâm.
Incidi: Ciclo
final Nº tub ./
Peso
Peso tub✓ vldade médio médio médio de · 1
• (dias)
(kg/ha) requeln:ia -
parcela (kg/ha) parcela (kg/ha) (g) (cm) (cm)
•'- e

Matllda 13,7 b 135 a 10.550 b 79 ab 8.900 b 82 b 6,4 e 5,0 b Oa 92 a

Itararé 11 ,3c 100b 17 .700a 71b 17.533a 154a 9,2a 6,0a Oa 92 a

Monte
bonito 15,8 a 136 a 12.783 b 90 a 11.567 b 90 b 7,7 b 4,9 b Oa 92 a

CV. (o/o) 4,6 9,5 23,5 12,1 25,6 15,8 6,6 5,8

1 Médias seguidas pela mesma letra, nas colunas, não diferem entre si pelo teste de DUNCAN

a 5%. Média de quatro repetições e três pontos amostrais por repetição.


2 Avaliação por notas em escala de O - 10.
Fonte: Souza et ai. (1996).

10
9
8
• Baraka
7
• Matilda
6
5
4
3
2
1
o a-==-4..,_____ _____ .....~ ------- .-=;;_,_,1---+--+---+--t
O 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65

Dias após plantio


Figura 6.23 - Níveis de incidência de requeima (P. infestans) em dois cultivares
de batata. Notas de O = ausência e 1O = morte total da planta. INCAPER, 1992.
Fonte: Souza (2002) .

Ainda, em relação à batata, um trabalho realizado por Souza ( 1999),


na Estação Experimental de São Joaquim/EPAGRI, identificou diferenças
sig nificativas de resistência de cultivares a doenças foliares (principalmente a
requeima), agrupando-as da seguinte maneira:

246
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Relação com as doenças Cultivares de Batata


Araucária, Catucha , EEI-004,
Grupo 1: Altamente resistentes To ll ocan, Sante, Cristal e Aracy
Ruiva.
Monte Bonito, Itararé, Apuã, Aracy,
Grupo 2: Medianamente resistentes Astr id, Bronka , Desiree, Tarpan,
Clarissa, SJ-89239 e SJ-97606.
Porta, SJ-83005, Granola, Ba raka,
Grupo 3: Menos resistentes
Baronesa, Macaca e SJ-90478.

Da mesma forma, o cultivar de cenoura Brasília apresenta um alto grau de


resistência à queima das folhas, o que tem permitido obter altas produtividades
em sistemas orgânicos de produção. Cultivares sensíveis a essa doença (Ex:
cv. Forto) necessitam de proteção com calda bordalesa para se alcançar
rendimentos satisfatórios, conforme indicado na Tabela 6.29.

Tabela 6.29 - Efeito da calda bordalesa 1% sobre o desenvolvimento de dois


cultivares de cenoura em sistema orgânico - 19951
Ralzes totais Ralzes comerciais
Tratamento
Cultivares Peso Nº de % Peso
(bordalesa) v l dade médio médio médi o
raízes (kg/ha) raízes comercial
(kg/ha) (g) (cm) ( cm )

Sem 3 08 a 31.616 a 180 a 25 .58 1 a 78 b 56 b 12 , 1 a 2,7 a


Brasil l a
Com 257 b 32 .663 a 185 a 29 . 109 a 89 a 63 a 12,8 a 2,7 a

CV . ( 0/o ) 3,3 13,0 6 ,4 17, 1 4,2 8 ,3 5, 3 10, 0

Sem 234 a 19 .959 b 119 b 14 .025 b 65 b 48 b 12,5 b 2,5 b


Forto 76 a
Com 239 a 39 .757 a 19 1 a 36 .346 a 91 a 13 ,5 a 2,8 a

CV,(0/o) 5 ,4 8,1 4,5 11,1 12,2 9,7 5,3 4,2

1 Médias seguidas pela mesma letra, nas colunas (para cada cultivar), não diferem ent re si pelo

teste de DUNCAN a 5%. Média de 8 repetições .


Fonte: Souza et ai. (1996) .

Em algumas situações, a escolha do material genético a ser empregado


no cultivo orgânico dependerá do seu comportamento produtivo e também da
sua resistência na pós-colheita, a exemplo do morango, conforme indicam os
dados a seguir (Tabela 6.30 e Figura 6.24) .

247
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.30 -Avaliação de genótipos de morangueiro em cultivo orgânico 1

Produti- Peso N: de Peso frutos


Iníc io Fim
por vidade médio frutos per per planta
( dias) ( dias)
parcela ( kg/ha) (g) planta (g)

Regional 1300 e 864 b 232 b 93 b 200 a 147 a


21.659 b 9,1 e 25,4 b
Vila Nova 1195 e 772 b 19511 b 9,2 e 22,7 b 209 b 93 b 198 a 1'16 a
Guarani 1547 b 780 b 20534 b 9,6 e 22,9 b 220 b 95 b 200 a 147 a
Oso
1 Grande 637 e 548 e 22.250 b 14,7 a 16,1 e 238 b 104 a 196 a 150 a
1 1
1 Dever 1876 a 1204 a 31.091 a 9,3 e 35,4 a 333 a 92 b 200 a 146 a
1
Princ.
1208 e 872 b 26.155 a 10,8 b 25,6 b 280 a 108 a 198 a 153 a
Isabel
Camarosa 961 d 775 b 29.594 a 14,0 a 22,7 b 319 a 98 b 200 a 149 a
CV.(%) 11,6 11,4 14,2 4,4 11,5 14,5 5,0 3,8 1 ,7 a

1Médias seguidas pela mesma letra, nas colunas, não diferem entre si pelo teste de Scott-Knott
a 5% de probabilidade.
Fonte: Souza (2001).

-+- Regional Vila Nova --+- Guarani


-t-OsoGrande -Dover --f- Camarosa
120

1
100
1

--
~
o
l i)
80

o
5'- 60
u.
(1)
-o
CC 40 ----__...;v-~ -------'-r----'
-o

- ~~ I
'-
(1)
o.
20
f
o
o 10 2º 3º
Dias após colheita

Figura 6.24- Perda de frutos em pós-colheita de cultivares de morango submetidos


a cultivo orgânico.
Fonte: Souza ( 2 001 ) .

248
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

6.4. PROPAGAÇÃO DE PLANTAS E FORMAÇÃO DE


MUDAS
6.4.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

Quanto à produção de mudas de hortaliças para sistemas organicos,


algumas informações e cuidados são fundamenta is pa ra o sucesso da
produção. O sistema de produção de mudas recomendado pãra cada cultura
está apresentado no capítulo 8 deste livro, no detalh amento do manejo de
cada espécie. Porém, algumas recomendações gerais estão descritas a seguir.
A propagação das hortaliças pode ser realizada via semente botânica, ou
utilizando-se de partes das plantas do cultivo anterior (rebentos, tubérculos,
bulbos, ramas etc.), a qual chamamos de propagação vegetativa.
Na propagação das hortaliças em sistema orgânico, evitar problemas
futuros é uma necessidade e, portanto, deve-se estar atento a alguns critérios
fitossanitários e de seleção genética, como:

•Evitara utilização de partes das plantas que apresentaram sintomas


de doenças ou que, mesmo visualmente sadias, tenham originado de
campos que apresentaram problemas com fungos de solo (como Fusarium,
Esclerotinia), com Bacteriose ou murchadeira (como Pseudomomas,
Ralstonia), com viroses ( como o vírus do enrolamento da batata, vira-
cabeça do tomateiro), com nematoides (como nematoide de galhas em
batata, nematoide do anel em batata-barca), dentre outros.
• Utilizar sementes ou partes de plantas, de indivíduos identificados
durante a fase vegetativa e na fase de colheita, que apresentaram aspecto
de elevado vigor, fenótipo característico da espécie ou variedade, elevado
padrão comercial do produto, de forma a proceder uma "seleção positiva",
com ganhos de adaptabilidade ao sistema, ao longo dos anos.
• Quando necessário, proceder ao tratamento das mudas antes do
plantio, através da imersão em biofertilizante líquido, ou em hipoclorito
de sódio (água sanitária), especialmente para a prevenção de problemas
como brocas, nematoides e doenças.
• Proceder à quebra de dormência de sementes e ao pré-enraizamento de
mudas, para algumas espécies, conforme as recomendações específicas para
cada cultura, detalhadas nos sistemas de produção contidos no capítulo 8.

249
Manual de Horticultura Orgânica

• Respeitar os critérios de propagação e seleção da cada espec1e,


como: tamanho de bulbos e bulbilhos de alho; mudas de batata-doce da
parte mediana da rama, dentre outros.

6.4.2. PRODUÇÁO DE MUDAS EM AMBIENTE PROTEGIDO


(ESTUFAS)
A formação de mudas é uma fase muito importante que define o sucesso
do plantio. Produzir mudas em estufas (Figura 6.25) permite vantagens
fundamentais, como, por exemplo:
• proteção contra excesso de chuvas;
• diminuição da incidência de pragas (pulgões, lagartas, grilos) e
doenças;
• formação de mudas em menor tempo; e
• obtenção de mudas mais uniformes.

Local de instalação da estufa


A definição correta do local de instalação da estufa para a produção de
mudas e o respeito a alguns critérios técnicos podem facilitar, sobremaneira, a
operacionalidade do sistema e elevar a eficiência, se observados os seguintes
fatores:
1 o. local plano ou com pequeno declive, sem problemas de drenagem e
com boa insolação;
2°. evitar sombreamento de árvores ou construções;
3º. proximidade de uma fonte de água de boa qualidade;
40. em áreas que estão sujeitas a ventos fortes, posicionar a estufa com
sua parte frontal no sentido do vento predominante;
5º. dependendo do tamanho e da quantidade de módulos de estufas, pode
ser necessário implantar quebra-ventos para evitar danos à estrutura e ao
plástico. Os mesmos devem ter uma permeabilidade de 50%, para apenas
reduzir a força do vento, sem interromper por completo a ventilação. Podem
ser empregadas árvores de grande porte (porém, a uma distância suficiente
que evite O sombreamento excessivo), árvores ou arbustos de crescimento
rápido e menor porte (como bracatinga, leucena e guandu) ou telas plásticas
ou sombrites.

250
Métodos de Produção paro o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Figura 6.25 - Produção de mudas orgânicas em ambiente protegido (visão externa


(A) e interna (B) - melhor qualidade, maior uniformidade, maior rendimento e
prevenção de problemas na fase inicial da cultura. Fazenda Luiziânia - Entre
Rios de Minas - MG.

251
Manual de Horticultura Orgânica

Lembre-se: Um bom quebra-vento pode fornecer proteção (zona de


calmaria) a uma distância proporcional a 10-20 vezes sua altura .
6°.posicionamento da estufa para melhor aproveitamento da
luminosidade. O ideal é o sentido Leste-Oeste, sendo que os fa tores
inclinação do terreno e ventos também serão determinantes e nem sempre
será possível construí-la nesse sentido.

Substrato

Atualmente, já existem no mercado brasileiro diversos tipos de substratos


orgânicos, apropriados para a aplicação na formação de mudas para sistemas
orgânicos de produção de hortaliças.
O agricultor deve avaliar, para sua realidade, os mais adequados,
principalmente com relação aos custos de aquisição, pois, muitas vezes, é
possível produzir seu próprio substrato a custos muito ba ixos, a partir de
processos fermentativos a alta temperatura, como na compostagem, de forma
que até a desinfecção pode ser dispensada.
Estudando-se várias concentrações de composto orgânico em mistura com
terra, como substrato para formação de mudas de tomate, concluiu -se que as
melhores mudas são obtidas, usando-se composto puro peneirado ou em mistura
com terra na proporção de 1: 1. Menores quantidades de composto comprometem
significativamente a qualidade e o padrão das mudas (Tabela 6.31).

Tabela 6.31 - Efeito de substratos orqânicos na formação de mudas de tomate


Torrões Folhas
Estande inteiros no
Massa Ma ssa MS
Substratos final transplantio
ve rde (g) seca (g) (%)
(%)

Terra pu ra 18,5 b 6, 7 e 3,7 e 0,57 e 16,0 a

2 0 ,1 a 97,2 a 52 ,6 a 6,0 a 13, 2 e


Compo sto/puro (%)
Terra/ compo sto ( 1:1 ) 19 ,8 a 84 ,6 b 32, 7 b 4 ,4 b 14,8 b
19,2 a 6 0 ,6 e 20 ,4 e 2,9 e 15,0 b
Terra/ compo sto ( 2: 1)
19,8 a 49 ,6 d 14,4 d 2, 1 d 14,8 b
T erra/ co mpo sto ( 3 : 1 )
10,9 34,4 47,6 33,4 11,4
CV.(%)
1 Médias seg uidas pela mesma letra , nas colu nas, não diferem entre si pelo teste de DUNCAN
a 5%.
Fonte: Souza ( 1998) .

252
Mé to dos de Produ ç ã o p ara o Cultivo O rgânico de Hortaliças

O subst rato org ânico própri o, caso não se origine de um processo de


fermentação a altas t emperaturas ( com o ocorre dura nt e a compostagem),
pode exigir algum m étodo de desinfecção de patógenos. Nesse sentido, a
solarização vem sendo estudada e em preg ada em escala cada vez maior por
pesquisadores e produtores de mudas.
A solarização pode ser real izada em um piso de cimento limpo, espa lhando-
se uma camada de substrato umedecido (mínimo de 50% de umidade para
gerar mais calor), com no máximo 10 cm de altura. Em seguida, cobre-se todo
substrato com lona plástica preta ou transparente, fechando-se bem as bordas
do plástico com areia ou terra, mantendo-se assim por um período mínimo de
três dias ensolarados.
A solarização também pode ser feita em um coletor solar que, segundo
EMBRAPA/CNPMA (2002), é um equipamento de funcionamento simples
e construção barata, que tem por finalidade controlar fungos, bactérias e
algumas sementes de planta (Figura 6.26). Normalmente, em um dia de sol, a
temperatura dentro do aparelho chega a 90°C, o que é suficiente para matar os
fungos mais comuns como Sclerotinia sclerotiorum, Sclerotium rolfsii, Verticillium
sp. e Rhizoctonia so/ani entre outros, pois são todos sensíveis ao calor.
O coletor consiste em uma caixa de madeira com tubos de metal (ferro
galvanizado, alumínio, cobre, tubo de irrigação usado etc.) e uma cobertura de
plástico transparente que permite a entrada de raios solares. O solo é colocado
nos tubos de metal pela abertura superior e, após o tratamento, retirado pela
abertura inferior, por gravidade. Esse modelo permite tratar 120 1 de substrato
por vez. Os coletores devem ser instalados com exposição na face Norte, com
ângulo de inclinação de 10° mais a latitude local.

Figura 6.26 - Solarizador e Coletor Solar (EMBRAPA-Meio Ambiente/Divisão de


Engenharia Agrícola do Instituto Agronômico de Campinas (DEA -IAC)).

253
Manual de Horticultura Orgânica
===== =~,,,,;,,;,;,,;,,,,;;;,~~~========== ======--- -====-,,,_
=-.... _,,

Recipientes

Os recipientes mais utilizados são as bandejas de isopor, alojadas sobre


bancadas suspensas (estrados), normalmente I utilizando-se de fi os de arame
para suportar as bandejas.

Dessa forma, ocorre a "poda aérea das raízes", ou seja , ela s param de
crescer quando encontram a luz e o ar, pelo orifício inferior das células, evitando
o enrolamento das raízes e aumentando a emissão de ra ízes secundárias
(Figura 6.27).

Figura 6.27 - Agricultor orgânico apresentando seu sistema de produção de


mudas orgânicas em bandejas - Estrutura rústica, de baixo custo e funcional.
Canellones - Uruguai.

ouso de bandejas de isopor, existentes no mercado, podem comprometer


a qualidade das mudas de algumas espécies de hortaliças, visto que o volume
de substrato em suas células é insuficiente .
Por isso, tratando -se de substratos orgânicos, que não contêm adubos
solúveis em sua composição, pode ser necessário usar recipientes com m aior
capacidade volumétrica para obtenção de mudas mais vigorosas, a e em plo
de copos de jornal, copos plásticos ou tubet es para frutíferas, que comportem ,
pelo menos, lSO cc de volum e de substrato , conforme sug erem os resul tados
contidos na Tabela 6.32 .

254
Mé todos d e Produçã o para o Cultivo Org â nic o d e Hortaliças

Em caso de utilização de band ejas de isopor, utilizar um substrato orgânico


com boa composição de nutrientes, e proceder ao t ransplantio mais cedo,
para evitar o esg otam ento nutricional das m udas. I sso, geralmente, ocorre
em torno de 25 dias para to mate e pep ino 'j aponês' e 30 dias para pimentão,
estando as mudas um pouco menores do que as recomendações tradiciona is,
sem, contudo, haver comprometimento da produção, visto que as mesmas se
recuperam rapid amente após serem t ransplantadas.

Tabela 6.32 - Efeito de dois recipientes para substratos orgân icos na formação
de mudas de tomate. Média de 2 anos 1
Folhas
Torrões
Estande inteiros no Ma ssa Massa
Recipientes MS
final transplantio verde verde
(%)
(%) (g) (g)

Bandejas
19,2 a 59 ,2 a 17,8 b 2,0 b 14,0 b
de isopor (80cc)
Copos plásticos 200 cc 19,7 a 60,2 a 31,9 a 4,3 a 15,5 a

CV.(%) 10,9 34,4 47,7 33,4 11,4

1
Médias seguidas pela mesma letra , nas co lunas, não diferem entre si pelo t este de DUNCAN
a 5%.
Fonte: Souza (1998).

Para culturas mais exigentes e com sistema radicular maior, como tomate,
pimentão e pepino 'japonês', é recomendável optar pela formação de mudas em
tubetes maiores ou copos, especialmente para o cultivo em estufas, por se t rata r
de um investimento mais elevado. Verifique as ilustrações da figura 6.28.

255
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.28 - Mudas orgânicas de pimentão em tubetes de 180 cc no lncaper -


Domingos Martins/ES (A) e de pepino 'japonês' em copos plásticos de 200 cc (B) na
fazenda Luiziânia - Entre Rios de Minas/MG, usando substrato à base de composto
orgânico puro - maior enraizamento, maior vigor e melhor 'pegamento' no campo.

256
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

A técnica de produção de mudas e m copos plá st icos (200 cc) contempla


as seguintes etapas :

1°. Prepa ro do suporte para os copos: uti lize a mesma bancada


das bandejas, porém fixa ndo uma base com folhas de isopor com 2,5 cm de
espessura, perfura das com canos de dua s polegadas. Esses furos terão um
diâmetro adequado para suportar os copos plást icos (Figuras 6.29 e 6.30).

00

Figura 6.29 - Disposição dos furos em folha de isopor para suporte de copos
plásticos na formação de mudas em sistema orgânico.

Figura 6.30 - Detalhes do suporte de isopor para os copos_ formaçã d d


. . . d t· .d d o e mu as
mais vigorosas e maior pro u 1v1 a e no campo . Fazenda Luiziânia _ E t R'
. MG n re 10s
d e M 1nas - .

257
Manual de Horticultura Orgânica

. . 2º. Preparo dos copos: os copos deverão ser perfurados no fundo,


utilizando-se de um cano ou ferro aquecido com diâmetro mínimo de 2 O cm e
, • 1 '
max1mo de 3,0 cm, de forma que possibilite ocorrer a "poda aérea das raízes".
Para maior rapidez na operação, perfurar maior quantidade de copos por vez.
Normalmente, um trabalhador hábil perfura no máximo 10 copos por vez, pois
o esfriamento rápido da periferia da seção perfurada "cola" um copo ao outro,
dificultando a individualização dos mesmos.

Obs.: Furos menores dificultam a drenagem do substrato (pela tensão


superficial da água) e furos maiores impedem a fixação do substrato dentro do
recipiente.

3°. Enchimento dos copos: em função da necessidade desse maior


diâmetro dos furos, o substrato deverá estar umedecido adequadamente para não
cair pelo orifício. Um grau de umidade em torno de 50% tem sido suficiente para
adequada fixação do substrato no interior dos copos, sem dificultar a operação de
semeio. O enchimento dos copos não deverá ser total, deixando-se um espaço
livre de 1,0 a 2,0 cm a ser preenchido após a distribuição das sementes.

4°. Semeio e acondicionamento dos copos: colocar os copos em


bandejas ou caixas plásticas de borda baixa para facilitar o transporte para a estufa
após estarem prontos. Distribuir as sementes da forma usualmente adotada,
cobrindo-as com uma nova camada de substrato que encherá por completo os
copos. Irrigar, abundantemente, de forma lenta, com regador de crivo fino, até
que se perceba que todo o substrato esteja uniformemente umedecido.
Proceder ao transporte e acondicionamento dos copos na base de isopor
preparada e fixada anteriormente dentro da estufa.

IMPORTANTE: Devido ao ressecamento, dificuldade de limpeza e danos


aos copos no momento do transplantio, sua reutilização não é recomendada.
Portanto, deve-se atentar para o destino desse material, que apresenta
elevado potencial poluente. Assim, sugere-se a prensagem e estocagem dos
mesmos, até formar um volume satisfatório, que possibilite sua destinação
direta às usinas de reciclagem de plástico ou a entrega em um local mais
próximo que pratique a coleta seletiva de li~o, para posterior destino.

258
Mé lod o s d e Pro d ução p ara o Cul tivo Orgânico de Hortaliças

Manejo e tratos cu lturais das mudas

Irrigação
O fornecimento de água, desde a semeadura, deve ser criterioso para
evitar perdas ou formação de mudas de baixa qualidade. Excesso de água
prejudica o enraizamento, provoca aumento de doenças de solo que causam
tombamento/murchamento das mudas (Rhizoctonia, Pythium etc.) e elevam
doenças foliares, pela alta umidade relativa do ar. A falta de água provoca
a murcha (que pode ser permanente) e reduz a fotossíntese, causando
subdesenvolvimento das plântulas.
Popia et ai. (2000) sugerem manter um reservatório de água dentro da
própria estufa para a irrigação, para não haver choque térmico, pois a água e
as mudas estarão em temperaturas próximas.
A irrigação deve ser realizada preferencialmente com microaspersores que
produzem gotas pequenas e permitem uma distribuição uniforme da água dentro
da estufa. Normalmente, é necessário instalar filtros de água na rede de irrigação
para evitar entupimentos, sempre muito comuns nesse tipo de sistema.
O turno de rega tem sido o principal causador de problemas fitossanitários e
de formação de mudas de baixa qualidade em sistemas orgânicos de produção.
Do semeio até o início da emergência, deve-se irrigar mais frequentemente
(duas a três vezes ao dia), com menor quantidade de água por vez, de forma
a manter constantemente úmido o substrato nessa fase. A partir dessa fase,
o fornecimento de água deverá ser feito de forma mais espaçada (uma a duas
vezes ao dia), com maior quantidade de água por vez.

Obs. 1: A temperatura, insolação, umidade relativa e ventilação influenciam


a evapotranspiração e, portanto, a quantidade necessária de água de irrigação.
Portanto, o diagnóstico constante da umidade do substrato tem sido a maneira
mais eficaz para definir a necessidade de irrigação de mudas em estufa.
Obs. 2: Lembre-se de que, mesmo que o excesso de umidade não cause
problemas perceptíveis, com patógenos ou com o desenvolvimento das mudas,
pode provocar um fenômeno conhecido como "raízes preguiçosas", isto é,
menor quantidade e menor volume de raízes. Em outras palavras, na fase após
a emergência, pequenos 'estresses' hídricos podem forçar a planta a "buscar
água" através de suas raízes, formando um sistema radicular mais vigoroso.

259
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Manejo e tratos culturais das mud a s

Irrigação
O fornecimento de água, desde a semeadura, deve ser criterioso para
evitar perdas ou formação de mudas de baixa qualidade. Excesso de água
prejudica o enraizamento, provoca aumento de doenças de solo que causam
tombamento/murchamento das mudas (Rhizoctonia, Pythium etc.) e elevam
doenças foliares, pela alta umidade relativa do ar. A falta de água provoca
a murcha (que pode ser permanente) e reduz a fotossíntese, causando
subdesenvolvimento das plântulas.
Popia et ai. (2000) sugerem manter um reservatório de água dentro da
própria estufa para a irrigação, para não haver choque térmico, pois a água e
as mudas estarão em temperaturas próximas.
A irrigação deve ser realizada preferencialmente com microaspersores que
produzem gotas pequenas e permitem uma distribuição uniforme da água dentro
da estufa. Normalmente, é necessário instalar filtros de água na rede de irrigação
para evitar entupimentos, sempre muito comuns nesse tipo de sistema.
O turno de rega tem sido o principal causador de problemas fitossanitários e
de formação de mudas de baixa qualidade em sistemas orgânicos de produção.
Do semeio até o início da emergência, deve-se irrigar mais frequentemente
(duas a três vezes ao dia), com menor quantidade de água por vez, de forma
a manter constantemente úmido o substrato nessa fase. A partir dessa fase,
o fornecimento de água deverá ser feito de forma mais espaçada (uma a duas
vezes ao dia), com maior quantidade de água por vez.

Obs. 1: A temperatura, insolação, umidade relativa e ventilação influenciam


a evapotranspiração e, portanto, a quafilticilade necessária de água de irrigação.
Portanto, o diagnóstico constafilte da umidade do substrato tem sido a maneira
mais eficaz para definir a necessidade de irrigação de mudas em estufa.
Obs. 2: Lembre-se de que, mesmo que o excesso de umidade não cause
problemas perceptíveis, com patógenos ou com o desenvolvimento das mudas,
pode provocar um fenômeno conhecido como "raízes preguiçosas", isto é,
menor quantidade e menor volume de raízes. Em outras palavras, na fase após
a emergência, pequenos 'estresses' hídricos podem forçar a planta a "buscar
água" através de suas raízes, formando um sistema radicular mais vigoroso.

259
Manual de Horticultura Orgânica

Adubação líquida via foliar/substrato

Havendo problemas nutricionais, detectados por diagnose visual ou anál ises


laboratoriais, pode-se utilizar métodos alternativos de nutrição orgâ nica e
mineral das mudas, com adubos líquidos, tais como: biofertilizantes, chorumes,
pós de rochas, soluções de micronutrientes (já existem diversos produtos
comerciais), dentre tantos outros.

06s.: Al~uns desses produtos têm uso restrito na agricultura orgâni ca e a


certificadora deve ser consultada.

Fitossanidade

Em geral, a produção de mudas em estufa evita integralmente problemas


com pragas, pelas barreiras físicas proporcionadas pela própria construção
(plástico, telas), como pelas bancadas suspensas. Para as doenças, o
desenvolvimento da maioria dos patógenos é reduzido. Entretanto, havendo
incidência que justifique o controle, pode-se lançar mão de métodos alternativos
de proteção de plantas ( de forma criteriosa, geralmente, em menores
concentrações, pela alta sensibilidade das plantas em estágios iniciais), como
as caldas fitoprotetoras, os biofertilizantes ou outros métodos compatíveis com
as normas técnicas de produção, descritos na seção 6.11.

0bs.: Algl!Jms <desses prodl!Jtos têm uso restrit0 na agricultura orgânica e a


celitifiicadolia <deve ser consl!Jltada.

Nota: Outras informações úteis para a propagação de plantas e


formação de mudas podem ser encontradas na descrição dos sistemas
de produção de cada cultura, detalhados posteriormente no capítulo 8.

~- - - - - --
·- - - -

6.5. BIOFERTILIZANTES LÍQUIDOS


Nos sistemas orgânicos de produção, as plantas são nutridas por meio
de compostos orgânicos, fontes minerais de b~ixa solu~ilida~e e fertilizantes
foliares oriundos da fermentação de esterco animal, enriquecidos ou não com
sais minerais (biofertilizantes). Esses insumo~ propo~cionam um fornecimento
equilibrado de nutrientes (macro e micronutrientes) as plantas.

260
Mé todos d e Prod uç ã o para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

A nutrição equilibrada é a garantia de plantas saudáveis e produtivas. Tanto


a carência quanto o excesso de nutrientes alteram a bioquímica das plant as,
o que leva ao acúmulo de açúcares ou aminoácidos nas fo lhas, t ornando-as
suscetíveis ao ataque de pragas e doenças (CHABOUSSOU, 1987).
Mais do que a quantidade, a proporção entre os nutrientes é que re gula
a nutrição das plantas. Assim , adubações desequilibradas t orn am as pla nt as
menos produtivas e mais vulneráveis a determinados parasitas. Mais importante
do que combater pragas e doenças é proporcionar às plant as melhor nutrição.
Segundo a professora Ana Maria Primavesi, cochonilhas geralmente dependem
de deficiência em cálcio e aumentam com a aplicação foliar de micronut rientes.
Uma das alternativas de sup lementação de nutrientes mais util izada na
produção orgânica é o emprego de biofertilizantes orgânicos líquidos, aplicados
via solo, via sistemas de irrigação ou em pulverização sobre as plantas.
Nesse caso, já existem produtos comerciais disponíveis, que os técnicos e
agricultores podem adquirir para pronto uso. Porém, enfocaremos neste livro
apenas os insumos mais tradicionais, que o agricultor pode obter e preparar na
sua propriedade, a um custo muito baixo.
A aplicação de biofertilizantes tem sido recomendada tanto pelo seu aspecto
nutricional quanto fitoprotetor, embora exista relato de efeitos diversos sobre a
acidez total titulável e sobre a relação sólidos solúveis totais/ acidez total em
pimentão (ROCHA et ai., 2004).
Existem diferentes formulações de biofertilizantes, desde simples diluições
de partes de esterco e composto em água, seguidas de fermentação por 30
dias, até formulações mais complexas, com adição de macro e micronutrientes,
como o Supermagro e Agrobio (FERNANDES, s/d) .

6.5.1. EXTRATO DE COMPOSTO

Características
Considerando a riqueza em nutrientes e organismos presentes no composto
orgânico, preparados líquidos a partir desse material apresentam a capacidade
de melhorar o desenvolvimento de plantas, especialmente quando ocorre a
necessidade de reposição de nutrientes durante o ciclo da cultura .

Preparo do extrato
A diluição mais empregada em cultivo orgân ico de hortaliças é de uma
parte de composto para duas a cinco partes de água, em volume de cada
componente.

261
Manual de Horticultura Orgânica

O primeiro passo é selecionar um composto bem curtido, deixá- lo secar


à sombra sob galpão e, após, proceder ao peneiramento do material para
separar a fração mais mineralizada do composto.
Para o preparo de 100 1de extrato 1: 2, colocam-se 33 1de composto peneirado
e acrescentam-se 67 1de água, misturando-se bem. Deixa-se a solução descansar
por pelo menos 10 minutos, para a melhor extração dos nutrientes pela água.
Esse é o material para pronto uso, sem a necessidade de diluições.

Recomendações de uso

Para a aplicação do extrato, que contém muitas partículas sólidas advindas


do composto, deve-se utilizar um regador sem crivo.
Para cultivas de hortaliças em canteiros ou em sulcos, proceder à irrigação
manual nas entrelinhas dos cultivas, distribuindo-se um filete contínuo ao lado
das plantas, próximo à região de exploração das raízes.
Para hortaliças plantadas em covas, aplicar o extrato ao redor das plantas,
para melhor aproveitamento da adubação. A Figura 6.31 ilustra o chorume de
composto sendo levado ao campo para aplicação.

Figura 6.31 - Chorume de composto pronto para aplicação no campo.

262
Métodos de Produção para o Cul tivo O rgânico de Hortaliças

Uma alternativa é a aplicação foliar, através de pulve ri zadores ou regadores


com crivos, sendo necessário, para tanto, coar o material de forma cu idadosa,
em peneiras bem finas ou em sacos de pano, especia lmente para evitar o
entupimento dos bicos dos pulverizadores na hora da aplicação .

6.5.2. Ü BIOFERTILIZANTE LÍQUID0


1 1,
O biofertilizante líquido é obtido a partir da fermen t ação do esterco fresco
de gado, de preferência leiteiro, em sistema fechado, com au sênci a de ar
( anaeróbico).
O gado leiteiro possui uma alimentação mais balanceada e rica, aument ando
a qualidade do biofertilizante líquido .
O esterco é misturado em partes iguais com água pura, não clorada, e '
colocado em uma bombona plástica (200 1), deixando-se um espaço vazio de
15 a 20 cm no seu interior (Figura 6.32).
A bombona é fechada hermeticamente e adapta-se à sua tampa uma
mangueira plástica fina. A outra extremidade da mangueira é mergulhada em
uma garrafa com água (selo de água) para permitir a saída do gás metano
produzido no sistema e não permitir a entrada do oxigênio, o qual alteraria o
processo de fermentação e a qualidade do produto.
A fermentação terá a duração de aproximadamente 30 dias e, depois, o
material será coado em uma peneira, para separar a parte sólida mais pesada,
e filtrado em um pano ou em uma tela bem fina.
O biofertilizante líquido não poderá ser armazenado por muito tempo, após
ser coado, pois irá reduzir o seu efeito fitossanitário, dando-se preferência em
usá-lo imediatamente ou na primeira semana após sua produção.
Caso não seja todo utilizado, poderá ser armazenado por um período de 30
dias, desde que volte ao mesmo sistema anterior, mantendo ainda seu efeito
de adubo foliar e estimulante fitormonal.

o biofertilizante líquido deverá ser diluído em água, em várias


concentrações, para diferentes usos e aplicações.

tfonte: Vairo dos Santos {1992) .

263
Manual de Horticultura Orgânica

Gás Metano
Mangueira

Água
Figura 6.32 - Esquema prático da montagem de um biodigestor.

Obs.: Deve-se tomar cuidado de não deixar entupir a mangueira plástica,


para permitir a livre saída do gás metano formado no sistema fechado
(anaeróbico).

Métodos de utilização do biofertilizante líquido

O biofertilizante líquido pode ser utilizado de várias maneiras, sendo


que o método mais eficiente é a aplicação de pulverizações foliares, as quais
promovem efeito mais rápido.
Nas pulverizações, o biofertilizante líquido deverá cobrir totalmente todas
as folhas e os ramos das plantas, chegando ao ponto de escorrimento, para
maior contato do produto com a planta (alto volume).
Pode ser utilizado também no tratamento de sementes sexuadas e
selecionadas em nível de campo, para plantio. Nesse caso, as sementes deverão
ser mergulhadas em biofertilizante líquido a 100% (puro) por um período de um
a dez minutos, secadas à sombra por duas horas e plantadas em seguida. As
sementes assim tratadas não deverão ser armazenadas, pois poderão perder a
sua capacidade de germinar e tornar-se inviáveis para o plantio.
O mesmo tratamento poderá ser utilizado em elementos de propagação
vegetativa como: estacas, toletes, bulbos e tubérculos, para plantio imediato,
aumentando o enraizamento e viabilizando o seu uso em lavouras comercia is.

264


Mé1o d os d e Produção paro o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Na produçã o de mudas, poderá ser utilizado na rega de sacolas ou cantei ros


de germinação, antes rJo plí•r.tio, p,-: rn promover um expure;G <.lo solo uti lizado,
possuindo um excel ~·r,'.1• "'f(:;tf, t-J:1·-1c.:-iry.;t2.ric quando 2pl ;c:.:c:o ~·;tiíO .
A parte sól id a dn ',i,_Jr.: 1 r:'i? :3ri ·r: pc.c.h::' cJ ~er usada ·.:e -,·,._, :s > : ,,.) na cova de
plantio ou na fo rn 1rH_ :Í'. ci;_: J". 0 rni;.,•:_ s '.:a9·?,1 .
1

Composiçã o q 1it ka do biofertíli:~ante líquido

O biofertiliza nte líquido foi ana lisado pelo sistema de absorção atômica e
apresentou os resultados, em ppm, em quatro amostras de diferentes idades
de fermentação (30,60, 90 e 120 dias), conforme mostrado na T abela 6.33.
Foram verificadas maiores concentrações em ppm , na amostra de 30
dias de fermentação. No entanto, as concentrações podem variar conforme o
produto utilizado na fermentação. No exemplo acima, foi utilizado o esterco
fresco de curral de gado leiteiro.

Tabela 6.33 - Análise de biofertilizante em quatro períodos de fermentação


anaeróbica
Elementos Dias de fermentação
(ppm) 30 • 1 • 1

CaC0 3 3. 260 ,o • 11 1 • • 1 1 1

503 (sulfito) 447,0 97,2 1

PÜ4 (ortofos)
1.668,0 569,0 410,0 320,0
Si02 83,1 168,0 143,0 177,0
Fe (tota1J 44,7 11,3 9,7 11 ,0
CI 1.160 ,o 810,0 1.090,0 840,0
Na 166,0 250,0 276,0 257,0
K 970,0 487,0 532,0 500,0
Mo/litro 1,0 1,0 1,0 1,0
B/litro 1,1 1,0 1, 0 1,0
Zn 6,7 3,7 1,3 1,7
Cu 1,1 0,7 1,0 0 ,2
Mn 16,6 4,7 3,8 4,6
Mg 312,0 305,0 281,0 312,0
PH 7,8 7,4 7,6 7,7

Fonte: Vairo dos Santos (1992) .

265
Manual de Horticultura Orgânica

6.5.3. 0 BIOFERTILIZANTE SUPERMAGR02

O Supermagro é um biofertilizante foliar, isto é, um adubo para pulverizar


plantas.
Ele serve para adubar e melhorar a saúde das plantas, melhora ndo o
crescimento e a produção das lavouras.
Já existem muitas variações de Supermagro sendo preparadas e utilizadas
pelos agricultores orgânicos, mas enfocaremos a receita tradicional, descrita
pela APTA (1997).

Vantagens
• é um alimento completo, contendo todos os nutrientes de que a
planta precisa;
• ajuda a controlar algumas doenças, mas não é agrotóxico;
• deixa a planta mais resistente contra insetos; e
• melhora o crescimento das plantas.

Composição
o
Supermagro é uma mistura de materiais orgânicos, minerais, esterco e
água. A mistura de materiais orgânicos é chamada de mistura proteica, pois é
rica em proteínas que vêm dos animais.

Componentes minerais
1) 2,0 kg de sulfato de zinco;
2) 2,0 kg de sulfato de magnésio;
3) 300 g de sulfato de manganês;
4) 300 g de sulfato de cobre;
5) 50 g de sulfato de cobalto;
6) 300 g de sulfato de ferro;
7) 2,0 kg de cloreto de cálcio;
8) 1,0 kg de ácido bórico; e
9) 100 g de molibdato de sódio.

2
Fonte: Apta (1997)

26
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliç as

Mistura proteica
• 1 1 de leite ou soro de leite;
• 1 1 de melaço ou 500 g de rapadura moída ou 5 1 de gara pa ;
• 100 mi de sangue;
• 100 g de fígado moído;
• 200 g de farinha de osso;
• 200 g de calcário; e
• 200 g de fosfato natural.

Para fazer a mistura proteica, não é necessário ter todos os ingredientes,


mas, quanto mais diversificado, melhor.

Preparo
Em um tambor de 200 1, colocar 20 kg de esterco fresco de gado e completar
com 100 1 de água.
A partir do primeiro dia, colocar o primeiro dos nutrientes no tambor, junto
com a mistura proteica. Ir colocando cada nutriente de três em três dias.
Toda vez que for colocar um nutriente, colocar também a mistura proteica,
e mexer bem.
Quando for colocar o quinto nutriente, acrescentar mais 10 kg de esterco
fresco e 20 1 de água. No final, depois de adicionar todos os nutrientes e a
mistura proteica, completar com água até encher o tambor.
Depois é só deixar fermentando por no mínimo um mês, em local fresco e
com sombra, para poder aplicar nas plantas.
Ele pode ficar guardado por mais tempo, mas o resultado é melhor, quanto
mais novo for o Supermagro.

Utilização
Na hora da aplicação, mexer bem o Supermagro, pegar a quantidade que
vai ser usada, diluir em água e coar essa mistura em um pano fino ou numa
tela fina. Isso é importante para não entupir o bico do pulverizador.

267
Manual de Horticultura Orgânica

Algumas recomendações de uso para a olericultura

Para horta, se forem plantas de folhas mais macias (alface, almeirão


e outras), usar a concentração de até 3% (600 mi de Supermagro em um
pulverizador de 20 1).
Se forem plantas de folhas mais grossas (couve-flor, repolho, brócolis e
outras), pode ser usado a uma concentração de 5%, isto é, 1,0 1de Supermagro
para um pulverizador de 20 1. As pulverizações podem ser semanais, podendo
variar com o nível de fertilidade do solo e o nível nutricional das plantas. Para
controle de doenças e insetos, as concentrações podem ser mais fortes.
A utilização dos biofertilizantes, em geral, em sistema orgânico de produção,
deve ser feita de forma criteriosa, após uma diagnose adequada que justifique
economicamente seu emprego. A aplicação de biofertilizantes pode melhorar a
nutrição, mas sem provocar efeitos sobre o rendimento e a qualidade comercial
do produto colhido, tornando-se um gasto adicional sem retorno econômico.

6.5.4. ÜRINA DE VACA

Um recurso alternativo para nutrição de plantas, ativação metabólica e


controle de pragas e doenças, utilizado em vários países, que agora vem sendo
testado no Brasil é a urina de vaca. Esta vem sendo testada no Brasil desde
Í992, pela PESAGRO-RIO, principalmente na região Noroeste do Estado do Rio
de Janeiro (PENTEADO, 1999).
Segundo Oliveira et ai. (2003), a produção de frutos por planta no pimentão
aumentou de forma linear com a elevação das concentrações de urina de vaca,
tanto na presença, como na ausência da adubação m ineral.
Na presença da adubação mineral, ocorreu um incremento na ordem
de 54 g de frutos/planta, a cada percentual de urina de vaca acrescido na
solução, com uma produção de 982 g de frutos, na concentração de 5%. Na
sua ausência , esse incremento foi da ordem de 23 g de frutos/planta, com a
produção máxima de 428 g de frutos na concentração de 5% de urina de vaca
(Figura 6.33).
A exemplo da produção de frutos/planta, a produtividade do pimentão
também aumentou linearmente com a elevação das concentrações de urina de
vaca na presença e na ausência da adubação mineral (Figura 6.34) .
Na presença da adubação mineral, verificou-se um incremento _na
produtividade de pimentão na ordem de 1,?6 t/ha, a cada percentual de urina
de vaca acrescido à solução . Na sua ausencia, esse incremento foi de 0,58

268
= = == =---=-,~------,.___:_::_M~é::..'..to:::'.:
. c~Jo~s:..,:d~e~P:.;:
ro~duçãC:_ para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

t/ha , sendo as proclu1•ividades m áx im as de 24,6 e de 10, 7 t/ha obtidas na


concentração máxim a de urina de vaca , na presença e na ausência da adubação
min eral, resp ectivamente.
Embora a urina de vaca apresente qua ntida des elevadas de N e K, esta não
foi capaz de ate nd er sozinha à grande necessid ade desses nutrientes exigida
pelo pimentão.

1200
....,
ro yl = 709,35+54,517X

e: 2
R -0,51 -
-....
ro 1000
ci •
1/l

o
...., 800
::::,

L..

Q)
600
'O
o
l!U
400 •
u,
::::,

'O 200 y2= 314,24+23,331X
oL..
o.. R2 =0,75
o
o 1 2 3 4 5

Concentração urina de vaca (%)

Figura 6.33 - Produção por planta de pimentão, em função de concentrações de


urina de vaca na presença (y1) e ausência (y2) da adubação mineral. Areia - PB
(2003).

30
yl= 17, 741+ l,3654X
ro 2 •
R =0,51 -
-
25
.e •

t:'.- 20·
QJ •
'O
ro 15
'O
'>
:p .
:::, 10 •
'O
o
L..
- •
y2 = 7,8152+0,5786X
a. 5 2
R = 0 ,70
o 1 T 1 1 1

o 1 2 3 4 5
Concentrações de urina de vaca (%)

Figura 6.34 - Produtividade de pimentão, em função de concentrações de urina


de vaca na presença (y1) e ausência (y2) da adubação mineral. Areia - PB (2003).

269
t
Manual de Horticultura Orgânica
= == = ==~;,;::&,;;;;,,;,;;;~===========------=====--,_ """

Gadelha et ai. (2003) relatam efeito quadrático das co ncentrações de


urina de vaca aplicada via solo {20 mi/planta) uma semana após o transplante
de alface 'Romana'. A máxima produção (433,97 g/planta) fo i obti da com a
concentração de O, 75%, seguida de decréscimo na produção até a máxima
concentração estudada (2,0%).
Pelos poucos trabalhos de pesquisa com esse insumo, as reco mendações
práticas relatadas nesse Manual se basearam no livreto editado pela Pesagro-
Rio (2001) e pelas orientações práticas de campo da equipe do escritório loca l
da EMATER-RIO, de Nova Iguaçu - RJ, em manuscrito gentilmente cedido por
Rocha (2004).
Rocha (2004) relata que os trabalhos com urina de vaca, muitas vezes, são
realizados com produtores que estão com suas propriedades rurais totalmente
desestabilizadas, utilizando produtos químicos, defensivos e outros.
Como a urina é um excelente adubo foliar, complementa as adubações de
NPK, fornece micronutrientes, ajudando a convencer os produtores a reduzir
o uso de agrotóxicos devido à melhoria geral do estado fitossanitário das
lavouras.
Assim, acredita-se que em lavouras orgânicas possam ser alcançados
excelentes resultados, especialmente no que tange à prevenção e resistência
a doenças, complementação de "N" via foliar, sem comprometer a trofobiose.

Mecanismo de ação

Por conter nutrientes como potássio, nitrogênio, sódio, enxofre, magnésio,


cálcio, fósforo e traços de outros elementos, a urina funciona como um
fertilizante natural para as plantas, tornando-as mais resistentes aos ataques
de pragas e doenças.

Coleta e fermentação
Coletar a urina de vaca em balde de plástico bem lavado, mas sem
resíduos de produtos químicos de qualquer natureza, que possam reagir com
os componentes da urina e comprometer sua qualidade.

Armazenamento
A · cém-coletada deve ser armazenada sob cond ições ambientais,
urina, rdeo mi'n·, mo de três dias, para que se forme a amônia. Após esse
Por um peno . ~
, d h
peno o, avera , uma alteração de cor, com escurecimento da soluçao.

270
Mé lo cJo· de Procluçôo p ara o C ultivo Orgânico de Hortaliças

Recomenda -se que o armazenam ento seja feito em recipiente fechado,


para que não ocorra m perdas de nitrogênio . Dessa forma, poderá permanecer
por até um ano sem comprometer sua efi ciência.

Preparo e dosagem

Geralmente, em hortaliças, o uso da urina de vaca é recomendado em


pulverizações foliares semanais, na concentração de 0,5% para as culturas
de tomate, pimentão, pepino, feijão-vagem e couve, ou quinzenais, na
concentração de 1,0%, para as culturas de quiabo, jiló e berinjela.

Cuidados

• Não pulverizar, folhas ou verduras que são ingeridas cruas. Deve


ser avaliada a eficiência e a possibilidade de realizar a aplicação via solo,
conforme o trabalho de Gadelha (2003), citado anteriormente.
• As plantas da família das CUCURBITÁCEAS são sensíveis ao enxofre,
provocando queima nas folhas com a incidência de sol. Quando necessário,
pulverizar a face inferior das folhas. Utilizar 0,5% de concentração em
água.
•Pulverizaras plantas em dias nublados ou depois que o sol se esconder,
mas, com claridade ainda, para que haja penetração satisfatória pelos
estômatos, com ação fotossintética dos nutrientes que forem absorvidos.

Algumas observações práticas de campo

• A urina de vaca, quanto mais curtida, com a coloração mais escura,


apresenta melhor proteção para as plantas, por conter maior concentração
de P. Cathecol, que protege a exoderme das folhas contra a penetração de
microrganismos patogênicos.
• Plantas pulverizadas sistematicamente com a urina curtida
apresentam maior resistência a doenças, de maneira geral. Quando a
doença se introduz na lavoura, apresenta focos isolados, não havendo
disseminação por toda a área de plantio .
• A urina é um excelente adubo foliar, pois os nutrientes estão na
forma de quelatos orgâni cos, de fácil absorção, e excelente poder de
difusão no t ecido vegetal. É uma fonte compl em entar de nitrogênio via
foliar, sub stituindo N de cobertura, podendo aumentar a produção e o vigor
das pl antas .

271
Manual de Horticultura Orgânica

• Constataram-se que as plantas adquiriram ma ior resistência em


campo, quando pulverizadas durante o ciclo da cultu ra com a urina de
vaca, a algumas pragas e doenças relacionadas a seg uir :
◊ Pragas: cochon ilhas, pulgões, diversos ácaros, repelind o algumas
lagartas e outros.

◊ Doenças: pinta preta (Alternaria solani); reque ima (Ph ytophthora


infestans), pústula bacteriana (Xanthomonas vesica toria); antracnose
( Colletotrichum gloeosporioides).

Outros usos relatados por Rocha (2004)


• A urina fermentada serve também para tratamentos de sementes e
propágulos vegetativos, fazendo a imersão dos mesmos antes do plantio,
por período de 30 segundos a 1 minuto, na urina pura (concentração 100%).
Deixa-se secar à sombra e planta-se logo após. Esta favorece proteção /
desinfecção dos mesmos, um melhor enraizamento e brotação sadia.
• A urina de vaca tem ácido indol acético, favorecendo melhor
enraizamento, indução nas brotações, inflorescências, e, favorecendo por
vezes, precocidade na produção. Após a realização de podas, pulverizando-
se nas concentrações recomendadas para a cultura, obteremos melhor
resistência da planta contra a penetração de fungos, bactérias e
microrganismos em geral. Acredita-se que a concentração de 1.140 ppm
de enxofre, 10.600 ppm de cloro e a presença de P. Cathecol na urina de
vaca colaborem no favorecimento dessa resistência.
• Nos canteiros para o plantio de hortaliças, podemos regar com urina
de vaca na concentração de 5% em água, um a dois dias antes do plantio,
contribuindo para a desinfecção do solo e adubação das hortaliças. Essa
aplicação no solo é uma opção para as Cucurbitáceas, fazendo uma boa rega
com a urina de vaca na concentração de 5% em água, na cova de plantio.

6.5.5. BIOFERTILIZANTE LÍQUIDO ENRIQUECIDO

Atualmente, vários biofertilizantes são utilizados reg ionalmente, preparados


com resíduos animais, vegetais e agroindustriais, das mais diversas formas.
o emprego de "biofertilizantes" tem aumentado r:nuito, em razão de seu baixo
custo de sua variada composição mineral e especialmente da boa concentração
de ni~rogênio, quando se empregam espéci es r icas nesse elemento.

272
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

A biofertilização, em suplementação à adubação orgânica de base no


plantio, deve fornecer os nutrientes de maior exigência da cultura comercial.
Portanto, uma preparação simples, enriquecida com nitrogênio e potássio, pode
melhorar sobremaneira o desenvolvimento vegetativo e produtivo de espécies
de hortaliças, como o tomate, pimentão, morango, pepino, dentre outras. Uma
dessas formulações é que será o objeto da presente recomendação.

Componentes para um recipiente de 1000 1:

• Composto orgânico ou esterco bovino curtido: 100 kg


• Mamona triturada (folhas, talos, bagas e astes tenras): 100 kg
• Cinza vegetal: 20 kg
• Água: 700 1

Obs.: A mamona triturada pode ser substituída por outro resíduo vegetal
na mesma quantidade ou resíduos agroindustriais (torta de mamolila, farelo de
cacau etc., em quantidade menor: 50 kg).

Preparo

Em um recipiente com capacidade volumétrica de 1.000 1, acrescenta-se


o ingrediente da base orgânica (composto ou esterco bovino) e 700 1 de água,
fazendo uma pré-mistura. Após homogeneizada esta solução, acrescentar a
mamona ou resíduo similar e a cinza vegetal, agitando até nova homogeneização.
Completar com água até o volume total do recipiente.
Para evitar mau cheiro advindo da fermentação anaeróbica, essa solução
deve ser agitada durante um tempo mínimo de cinco minutos, no mínimo três
vezes ao dia. Para maior oxigenação, a melhor opção é a instalação de um
minicompressor, do tipo utilizado em aquários caseiros (Figura 6.35).
Após 10 dias de fermentação, pode-se iniciar a retirada da parte líquida
sobrenadante (procedendo a um peneiramento fino e, ou coando), sempre
após uma pré-agitação, para aplicação nas culturas de interesse.

273
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.35 - Biofertilizante líquido enriquecido, preparado em caixa d'água de


1.000 1 - produto eficaz para suplementar a nutrição orgânica de hortaliças.

Obs.: Em função da grande quantidade de partículas em suspensão e da


massa resultante no fundo do recipiente, após o uso desse primeiro preparado,
pode-se acrescentar novamente 700 1 de água nesses mesmos ingredientes,
agitar vigorosamente, e reutilizar esse novo preparado com bons resultados.
Entretanto, não se recomenda reutilizar mais de uma vez a mistura, pois a
concentração dos nutrientes já estará reduzida.

Recomendações de uso

1a - Diferentemente dos biofertilizantes bovino e supermagro, citados


anteriormente a aplicação desse biofertilizante enriquecido deve ser
, '
realizada via solo, na zona da raiz, lateralmente as plantas, como uma
adubação líquida em cobertura.
2ª _ Essa preparação rende aproximadament~ 700 1 de solução líquida
para pronto uso. A malha de filtragem dependera do sistema de aplicação
que será adotado.

27
Métod os d e Prod uçôo para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

3ª - A aplicação pode ser realizada manualmente ( com regador), por


bombeamento ou em redes de ferti rrigaçã o. Neste último caso, a filtragem
deve ser bem fe ita para evitar entupi mentos.
4 ª - Ava liações preliminares indicaram elevações de 20% no rendimento
de frutos comerciais de tomate, em cultivo protegido, quando se empregou
a dosagem de 200 mi por planta, semanalmente (via fertirrigação ), a
partir dos 30 dias até a fase de frutificação (SOUZA e SANTOS, 2004).
Recomendação semelhante pode ser feita para pimentão e pepino 'japonês'.
Sª - Em canteiros de morango e alho, recomenda-se utilizar 400 mi/
m 2, aplicado nas entrelinhas ou via sistema de irrigação.

Outra grande vantagem do biofertilizante enriquecido é o seu baixo custo.


Uma estimativa de custo realizada em outubro de 2010, indicou um gasto total
de R$ 43,31 para obtenção de 700 litros, equivalendo a um custo unitário de
R$ 0,062 por litro do produto pronto, conforme descrito no quadro seguinte.

- - --
- - - - - --
_ _ _ CUSTO DE BIOFERTIUZANTE '-:Í_QUID!) ____
- - - ----
Componentes Quantidade Valor*
Composto orgânico (68, 70 por t) 100 kg 6,87
Mamona triturada (Massa fresca da parte 100 kg embutido na M. Obra
aérea) -
Cinza vegetal 20 Kg embutido na M. Obra
Recipiente com capacidade para 1000 1 de Já existe 0,00
água
Mão de obra (coleta de insumos, trituração, 1,2 D/H 36,00
preparo e manejo do material por 10 dias)
Energia elétrica (motor 10 H-P por 20 2,43 kwh 0,44
minutos)
CUSTO TOTAL PARA 700 LITROS 43,31
CUSTO POR LITRO 0,062

* Preços de outubro de 2010.

6.5.6. B10FER'l'1LIZANT.E AD-1 (AERÓBICO)

Composição
• 70 1 de água;
• 25 kg de esterco fresco;

275
Manual de Horticultura Orgânica

• 3 kg de 'MB-4';
• 4 kg de açúcar;
• 4 1 de leite.

Preparo

Coloca-se o esterco no recipiente aberto (bombona de 100 1), 1 kg de


açúcar, 1 1 de leite e 40 1 de água; depois, a cada três dias, coloca-se 1 kg de
'MB-4', 1 kg de açúcar e 1 1 de leite.
Colocados os últimos ingredientes (12 dias depois), completa-se o restante
do recipiente com água. Agitar diariamente o produto para homogeneizar
adequadamente. Após 30 dias, o biofertilizante estará pronto. Em regiões de
elevada temperatura esse tempo pode ser reduzido para 15 a 20 dias.

Aplicação

A dosagem recomendada para uso direto em pulverizações é de 200 mi do


biofertilizante para cada 20 1 de água.

6.6.ADUBAÇÃOVERDEAPLICADAÀOLERICULTURA

O conceito clássico de adubação verde pode ser assim enunciado: "Consiste


na prática de se incorporar ao solo massa vegetal não decomposta, de plantas
cultivadas no local ou importadas, com a finalidade de preservar e, ou restaurar
a produtividade das terras agricultáveis", segundo Chaves (1989), citado por
Costa et ai. (1993).
Por muito tempo, a adubação verde caracterizou-se pelo uso de leguminosas,
visando- se à melhoria da produtividade das culturas pela adição do nitrogênio,
ciclagem mais eficiente de nutrientes e melhoria física e biológica do solo.
Na atualidade, pode-se conceituar a adubação verde como a utilização de
plantas em rotação, sucessão ou consorciação com as culturas, incorporando-
as ao solo ou deixando- as na superfície, visando-se à proteção superficial,
bem como a manutenção e melhoria das características físicas, químicas e
biológicas do solo, inclusive, a profundidades significativas.
Eventualmente, partes das plantas utilizadas como adubos verdes podem
ter outras destinações como, por exemplo, produção de sementes, fibras,
alimentação animal etc.

276
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Horta liças

São utilizados como adubos verd es, além das leguminosas, plantas de
outras famílias, em cul t ivo exclu sivo ou con sorciado, isso porque normalmente
as legurninosas decompõem -se mais rapida m ente que as gramíneas,
apresentando, por isso, efeitos físicos menos prolongados no solo .
Por outro lado, podem ser destacadas, dentre várias funções que o adubo
verde desempenha na melhori a da produt ividade do solo, aquelas que se
referem à ara çã o biológica e à introdução de m icrovida em profundidade no
solo, isto é, a ma is de 0,70 a 0,80 m, em esca la extensiva. Essas funções não
são fá~eis de ser desempenhadas por outras tecnologias e insumos (práticas
mecânrcas e fertilizantes químicos) comumente utilizados na agricultura
convencional, tornando-se, assim, o uso do adubo verde uma das técnicas
indispensáveis para a agricultura de hoje, segundo Miyasaka (1990), citado
por Costa et ai. (1993) .

6.6.1. FUNÇÕES DA ADUBAÇÃO VERDE

• Proteger o solo das chuvas de alta intensidade. A cobertura vegetal


dissipa a energia cinética das gotas da chuva, impedindo o impacto direto e
a consequente desagregação do solo, evitando o seu selamente superficial.
• Manter elevada a taxa de infiltração de água no solo, pelo efeito
combinado do sistema radicula r com a cobertura vegetal. As raízes, após
sua decomposição, deixam canais no solo que agregam sua estrutura,
enquanto a cobertura evita a desagregação superficial e reduz a velocidade
de escoamento das águas pelas enxurradas.
• Promover grande e contínuo aporte de fitomassa, de maneira a
manter ou até mesmo elevar, ao longo dos anos, o teor de matéria orgânica
do solo.
•Aumentara capacidade de retenção de água do solo.
• Atenuar as oscilações térmicas das camadas superficiais do solo e
diminuir a evaporação, aumentando a disponibilidade de água para as culturas.
• Recuperar solos degradados, através de uma grande produção de
raízes, mesmo em condições restritivas, rompendo camadas adensadas e
promovendo a aeração e estruturação, o que se pode entender como um
preparo biológico do solo.
• Promover mobilização e reciclagem mais eficiente de nutrientes.
As plantas usadas como adubo verde, por possuírem sistema rad icular
profundo e ramificado, retiram nutrientes de camadas subsuperfi ciais, que
as culturas de raízes pouco profundas normalmente não conseguem atingir.

277
Manual de Horticultura Orgânica

Quando tais fitomassas são manejadas (incorporadas ou deixadas na superfície),


os nutrientes nelas contidos são liberados gradualmente durante o processo
de decomposição, nas camadas superficiais, ficando assim disponíveis para as
culturas subsequentes. Alguns adubos verdes, como, por exemplo, o tremoço-
branco apresentam a capacidade de solubilizar o fósforo não disponível.
• Diminuir a lixiviação de nutrientes como o nitrogênio. A ocorrência de
chuvas de alta intensidade e precipitações anuais elevadas, norma lmente,
estão associadas a processos intensos de lixiviação de nutrientes. O nitrogênio
mineral, por exemplo, na forma de nitrato (N0 3 ), apresenta-se como um dos
nutrientes mais sujeitos ao arraste pela água através do perfil do solo. Essa
forma de perda de nitrogênio, além de afetar o custo da produção de cultu ras,
pode gerar problemas de contaminação de águas superficiais e subterrâneas.
• Promover o aporte de nitrogênio através da fixação biológica, atendendo
assim a grande parcela das necessidades desse nutriente nas culturas
comerciais e melhorando o balanço de nitrogênio no solo. Essa função pode
ser caracterizada como uma das mais importantes no cultivo orgânico de
hortaliças, pois permite elevar a produtividade e melhorar o padrão comercial
dos produtos orgânicos para o mercado. Na Figura 6.36, ilustra-se o nível de
melhoria no desenvolvimento vegetativo no cultivo do milho, quando plantado
após pré-cultivo de feijão-de-porco, comparado ao plantio sobre mato nativo.

Figura 6.36 _ Desenvolvimento vegetativo comparati~o en~re .º cultivo de milho


sobre palha de feijão-de-porco (esquerda) e mato nativo (d1re1ta).

278
Mé lodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

• Reduzir a população de ervas invasoras, dado o crescimento rápido


e agressivo dos ad ubos verdes (efeito supressor e, ou alelopático). A
alelopatia é a ini bição qu ímica exercida por uma planta (viva ou morta) sob
a germinação ou o desenvolvimento de outras. Exemplos desse fenômeno
são a ação da cobertura morta de aveia-.preta, inibindo a germinação do
papuã e da m ucuna sobre o desenvolvimento da tiririca . O efeito supressor
também é atribuído à ação de impedimento físico. Assim, por exemplo,
a passagem de luz é prejudicada, reduzindo a germinação de espécies
exigentes nesse fator. Como exemplo, na Figura 6.37, mostra-se o grau
de redução de emergência de ervas em plantio de milho-verde sobre
palhada de tremoço branco, comparado à testemunha.

Figura 6.37 - Supressão da emergência de ervas em plantio direto de milho sobre


palhada de tremoço branco (esquerda), comparado ao plantio sem O adubo verde em
pré-cultivo (direita). Acima, aos 15 dias após plantio e abaixo, aos 35 dias após plantio.

279
Manual de Horticultura Orgânica

• Apresentar potencial de utilização múltipla na propried ad e agrícola.


Alguns adubos verdes como aveia, ervilhaca, trevos, serradela ( de
inverno), guandu, caupi e labe-labe (de verão) possuem elevado valor
nutritivo, podendo ser utilizados na alimentação animal. Outros adubos
verdes possuem sementes ricas em proteínas que podem ser empregadas,
inclusive, na alimentação humana, caso do tremoço, do caupi e do guandu.
Adubos verdes de porte arbóreo, utilizados na recuperação de áreas
degradadas, como a leucena, apresentam elevada produção de madeira e
carvão vegetal, além de seu potencial de uso como suplemento proteico
na ração animal.
• Criar condições ambientais favoráveis ao incremento da vida biológica
do solo.

6. 6.2. EFEITOS DOS ADUBOS VERDES NA FERT1LIDADE DO SOLO

• Aumento do teor de matéria orgânica do solo pela adição da fitomassa


total (parte aérea mais raízes) e de outros organismos.
• Aumento da disponibilidade de macro e micronutrientes no solo, em
formas assimiláveis pelas plantas.
• Aumento da CTC (Capacidade de Troca de Cátions) efetiva do solo.
• Auxílio na formação de ácidos orgânicos, fundamentais ao processo
de solubilização dos minerais do solo.
• Diminuição nos teores de alumínio trocável (complexação) .
• Elevação do pH do solo e consequente diminuição da acidez .
• Incremento da capacidade de reciclagem e mobilização de nutrientes
lixiviados ou pouco solúveis que se encontram em camadas mais profundas
do perfil do solo.

6. 6.3. CARACTERIZAÇÃO DAS ESPÉCIES DE ADlIBOS VERDES

o uso de plantas leguminosas como adubos verdes é fundamental em


sistemas orgânicos de produção, pois permite a melhoria das condições químicas,
físicas e biológicas do solo, destacando-se a fixação biológica de nitrogênio,
elemento indispensável para um bom crescimento das plantas (Tabela 6.34).

280
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.34 - Estimativa de fixação simbiótica (N 2 ) por diferentes leguminosas


:-
Nome científico Nome comum Nitrogênio {N 2 ) fixado
Mucuna aterrima Mucuna preta 157 kg/ha
Mucuna deeringiana Mucuna anã 76-282 kg/ha
Crotalaria juncea Crotalária juncea 150-165 kg/ha
Crotalaria sp. Crotalária 154 kg/ha
Cajanus cajan Guandu 41-280 kg/ha
Canavalia ensiformis Feijão de porco 49-190 kg/ha
Vigna unguiculata Caupi 50-340 kg/ha
Vigna radiata Munge 63-342 kg/ha
Calopogonium mucunoides Calopogônio 64-450 kg/ha
Pueraria phaseoloides Kudzu tropical 30-100 kg/ha/ano
Macroptilium atropurpureum Siratro 76-140 kg/ha
Centrosema pubescens Centros ema 112-398 kg/ha
Neonotania wightii Soja perene 40-450 kg/ha
Leucaena leucocephala Leu cena 400-600 kg/ha/ano
Fonte: Costa et ai. (1993).

Ademais, a própria composição de nutrientes no tecido vegetal, reciclado


do perfil do solo, além daqueles fixados da atmosfera, pode oferecer uma boa
contribuição para o sistema, conforme indicam as informações contidas nas
Tabelas 6.35, 6.36 e 6.37.

Tabela 6.35 - Produção de fitomassa e análise bromatológica de espécies de


adubos verdes de inverno, avaliadas na região Oeste catarinense, Chapecó, 1990
Massa Proteína
Nome comum Nome científico seca DIVMO NDT bruta
1 (t/ha) (%)
Aveia-preta Avena strigosa 7,7 55,6 50,9 8,69
Azevém Lotium multiflorum 4,8 63,3 55,7 6,31
Centeio Seca/e cerea /e 6,2 50,8 49,0 6,06
Chincho Lathyrus sativas 3,9 62 ,2 57,5 16,88
Ervilha forragelra Pisum arvense 3,0 61,0 56,1 18,06
Gorgo Spergula arvensis 3,8 56,3 50,7 10,12
Nabo forragelro Raphanus sativus 3,5 67,9 57,3 14,50
Vlca comum Vicia satlva 3,6 58,7 53,3 18,75
Vica p e luda Vicia vl/losa 5,0 58,2 53 ,2 21,31
DIVMO = Digestibilidade in vitro da matéria orgânica .
NDT = Nutrientes digestíveis totais.
Fonte: Costa et ai. (1993).

281
Manual de Horticultura Orgânica
========~,,;,;,,;;,,;~=====--===~~-- - -= = = =,,...__/

Tabela 6.36 - Quantidade de nutrientes no tecido vegetal de algumas espécies


de adubos verdes de inverno, CPPP/EMPASC/Chapecó, 1990

P20s K20 CaO MgO


Aveia-preta 31 ,5 7,7 107 30 213 41 22 27
Azevém 29,8 4,8 48 14 151 35 14 36
Centeio 35,4 6,2 60 29 153 28 11 40
Chincho 30,8 3,9 105 23 129 30 18 14
Ervilha Forrage ira 28,9 3,0 87 22 88 35 14 13
Gorga 33,0 3,8 62 26 133 23 47 23
Nabo forrageiro 28,0 3,5 81 28 151 102 22 14
Vica comum 18,9 3,6 108 26 109 50 18 12
Vica peluda 23,9 5,0 170 40 180 63 22 11
Fonte: Costa et ai. (1993) .

Tabela 6.37 - Composição química de diferentes espécies de plantas para

Mn
Mucuna cinza 2,50 0,15 1,40 0,27 52,80 21,12 183
Mucuna preta 2,49 0,13 1,40 1, 17 0,27 52,15 21,06 14 29 174
Mucuna anã 3,10 0, 19 4,49 2,14 0,65 50,83 16,39 9 85 179
Crotalaria juncea 2,50 0,19 1,20 2,31 0,47 45,25 18,10 14 44 179
C. mucronata 3,43 0, 09 2,30 1,32 0,47 53,7 0 15,65 13 35 111
C. spectabilis 2,17 0, 09 1,59 0,43 0,37 50,8 3 23,4 2 8 23 126
C. brevlflora 3,29 0,14 2,84 0,91 0,25 47,69 14,4 9 17 31 81
C. grantiana 2,67 0,19 2,59 0, 55 0,23 51,20 19,17 10 28 73
Guandu 2,61 0,14 2,61 1, 79 0,4 5 56,30 21,57 7 22 87
Feijão de porco 3,19 0,15 5,62 1,35 0,63 50,1 5 15,72 9 62 254
Feijão bravo do 0,13 1,68 0,20 0,16 51,24 20,57
2,49 4 14 17
Ceará
Feijão munge 2,09 0,21 4,94 1,48 0,75 52,47 25,1 0 10 78 127
Caupi 2,62 0,20 2,82 0,93 0,28 45,42 17,33
L.abe-labe 2,36 0,44 2,34 1,36 0,47 43,18 18, 30 10 33 143
Leucena 4,30 0,22 1, 70 0, 81 0,50 63,50 14,76 45
Amendoim 0,16 1,62 1, 72 0,33
2,50 11 49 77
rasteiro
lnd igófera 2,17 o, 14 1,54 1,20 0, 32 40,36 18,60 13 24 53
Calopogônlo 2, 16 0, 12 1, 56 1,40 0,29 46, 73 21,63 9 15 172
Kudzu 3,68 0,29 2,14 1,30 0,4 1 54, 10 14,70 11 27 155
SoJa perene 2,60 0,23 2,39 0,99 0,35 45,03 17,3 1 8 32 102
Centrosema 2,34 0,23 1,19 0,66 0,45 47,60 20,34 10 32 67
Crotalarla strlata 3,24 0,32 2,82 2,00 0,91 49,29 15,21 10 31 584
Fonte: Costa et ai. (1993).

282
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Outras informações extremamente úteis, que contribuem para o


conhecimento das espécies e auxiliam na definição da forma de inserir o adubo
verde no sistem a prod utivo, podem ser verificadas nas Tabelas 6.38 e 6.39.

Tabela 6.38 - Características botânicas e complementares de espécies de adubos


verdes de verão avaliados no CPPP, Chapecó, 19901
Nome~ , P · - · - -
Hábito Altura Agressi- Tol.
comum/cientifico /.~- • ,famíllà Ciclo de da vldade Geada 2 Reb. 3
procedê néi~º· -.~t , crescimento planta Inicial
1

• ' ·.. : ~-'..:~_.i/4_!.':-~ - (cm)


-
Anuais
Crotalá ria/ EEU Leguminosa Anual Ereto/ 215/250 Rápida 5 -
Crotalaria juncea herbáceo

Crot a lá ria/ IA e Leguminosa Anual Ereto/ 68/80 Lenta 5 -


Crotalaria retusa herbáceo
Crotalá ria/IAC Leguminosa Anual Ereto/ 150/ 170 Lenta s -
Crotalaria spectabilis herbáceo
Crotalá ria/ IAC Leguminosa Anual Ereto/ 60/90 Multo s -
Crotalaria grantiana herbáceo lenta
Crotalá ria/SLO Leguminosa Anual Ereto/ 80/100 Muito s -
Crotalaria lanceolata herbáceo lenta
Feíjão-de-porco/EEU Leguminosa Anual Ereto/ 85/100 Mediana/ s -
canavalia ensiformis herbáceo ráoida
Guandu-anão/CNPAF Leguminosa Anual Ereto/ 95/120 Mediana/ s -
Cajanus cajan herbáceo rápida
Mucuna-anã/EEU Leguminosa Anual Ereto/ 50/70 Mediana/ s -
Mucuna deeringlana herbáceo rápida
Mucuna-clnza/EEU Leguminosa Anual Prostrado/ - Mediana/ s -
Mucuna niveum trepador rápida
Muc una- preta/IAC Leguminosa Anual Prostrado/ - Mediana/ s -
Mucuna aterrima trepador rápida
Mucuna rajada/EEU Leguminosa Anual Prostrado/ - Mediana/ s -
Mucuna sp. trepador rápida
Semlperenes/perenes
Anílelra/IAC Leguminosa Perene Ereto/ 130/ 150 Muito MT 5/B
lndigofera endecaphyla herbáceo/ lenta
arbustivo

Crotalá ria/ EE U Leguminosa Semi Ereto/ 150/ 180 Muito s 1/5


Crotalaria mucronata Perene herbáceo lenta
Crotalária/IAC Leguminosa Semi Ereto/perene/ 250/ 280 Lenta s I
Crotalarla oaullna Perene herbáceo
Guandu arbóre o/cv. Leguminosa Semi Ereto/ 300/330 Mediana/ MT/T B
KAKI Perene arbóreo rápida
Calanus cafan
Guandu arbóre o/CPPP Leguminosa Semi Ereto/ arbóreo 260/300 Mediana/ MT/T B
Cajanus c ajan Perene rápida
Leuccna/EMCAPER Leguminosa Perene Ereto/ 170/190 Lenta MT/T B
Leucena /eucocephala arbóreo

Lcucena/CV; PERU Leguminosa Perene Ereto/ 168/ 180 Lenta MT/T B


Leucena /eucocephala arbóreo
Terrosla/IAC Leguminosa Perene Ereto/ 150/ 160 Lenta MT/T S/ 8
Tephrosta candlda arbóreo
1
Os dados apresentados referem-se as avahaçoes - realizadas durante as safras 1984/85,
1986/87, 1987/88, 1988/89.
2
Tolerância à geada: S = susceptível; MT = moderadamente tolerante; T = tolerante.
3
Rebrota: J = Insuficiente; S = suficiente; B = boa.

283
~~ Tabela 6.39 - Características a serem observadas nas diferentes espécies passíveis de uso como adubos verdes
de verão Ili
o
Q.
(1)
:r:
Mucuna onza Set-Jan Set-Out 0,5-1,50 60-90 15-30 765,0-904,0 130-150 20-46 5-9 M·A·Ar M e.per. -
o--,
õ"
Mucuna preta
Mucuna anã
C.j uncEa
Set·Jan
Set-Jan
Set-Dez
Set-Out
Set-Dez
Set-Ou t
0,50-1,00
0,50
0,25-0,50
60-80
80-10
15-20
80
503 ,0-800,0
533,0-751,0
140- 170
80-100
4-7,5
12-27 3,5-6,5
M·A·Ar
M·A-Ar
M-C-Tr
M
M
M· Md
e.per.
Cf.FrAm
Cf.Fr
-
e
e--,
o
40 20-30 48,0-53,2 80-130 15-60 5-15
C. mucronata Set-Oez Set 0,25-0,80 10 3-6 6,8-7, 2 120-150 10-63 2,5-16 M·F M Cf.Fr o
--,
C.spectab1/is Set-Dez Set-Out 0,25-0,50 15 5-8 17,0-18,2 110-140 15-30 3-8 M-F-AI M-Md M·S
O•
C.brev1fbra Set-Ja n Set-Nov 0,25-0,50 20 5-8 16,0-20,0 15-21 3-5 M·F M-Md Cf.Fr·Am ::::,
100
C.grant:Bna Set·Dez Set-Out 0,25-0,50 8,0 3-6 3, 7-4,1 5 140-160 7-28 2,5-6,0 M M·Md Cf-Ci ?5'
o
C.paulina Set-Oez Set 0,25-0,70 15 5-0 14,5-17,4 120-150 50-80 5-9 M·AI-Ca M·Md Cf-Ci
Guandu Set-Jan Set· Jan 0,50-1,5 50 20-45 134,0 140-180 9-70 3-22 M.TrArAI.H M·S CI-Ma
Guandu anão Out-Jan Out-Dez 0,60-0,70 15-24 15 65,0-80,0 100 12-20 2,5-5,6 M·H M·S Fr.C.per
Fe1Jão de
Set-Oez Set-Out 0,50· l ,0 150-180 60-120 1285-1517 100-120 14·30 3,2-7,0 M.AIAr .H M· Md Cf.Fr
porco
Feijão bravo
Set-Dez Set 0,50-1,0 60 15-20 588 180-210 20-32,5 M-H M·Md C.per.
do Ceará
Fel]ão munge Set-Fev Set-Jan 0,40-0,50 30 20 55,0 80 5-12 0,8-3,0 M·AI M·Md Cf-Cult.
Caupi Set-Jan 0,40-0,50 60-75 45-60 145,0 70-110 12-47 2,5-5,4 M·Al·H M.AI.Ma.S.MI Cf-C.per.
Lab·lab Set-Dez Set 0,50-0,80 45 12-15 239 ,0-262,0 130-140 18-30 3,9-13,0 Ar-M M·Md Cf-C.per
Corte a
Leu0:na 1 1 Set-Dez 1 Set-Oez 1 1,50-5,0 1 3,0-8,0 1 3,0-8,0 1 42,0-50,0 cada 120 60-120 15-40 . G·Ml·F Cf-Cd .veg
dias
Amerxioim 0,50 . . . . 10-25 3-6 . .
1 Set-Dez 1 Set 1 1 1 1 1 1 1 1 Fr
rastE1ro'
lndigofera 3 Set·Jan Set 0,50-1, 5 15-20 15-20 2,66 240-270 15-30 40-10 . . Fr
Ca loix>gónioJ Set-Oez Set 0,50·1,0 4-10 3-6 9, 8-12,0 180-210 15-40 4-10 . M·Ar-Gr-Fo Fr.C .per
Kudzu 3 Set-Dez Set 0,50· 1,0 2-5 2-5 9, 8-12,0 240-270 15-36 3,5·8,0 . Gr-f'o Fr.C.per
S1ratro 1 Set-Jan Set 0,50-1,0 4,0 2,0 8, 6-12,2 210-240 14-28 3-6,5 . Gr·l'o·M Fr.C .per
CentrOSemaJ Set-Dez Set 0,50-0,80 4,0-8,0 4,0 18,9 200-220 16-35 3-7 . M·Gr· l'o Fr.C.per
SO] a pa-ene 3 Set-Dez Set 0,50-1 ,060-90 3,0-6,0 3,0 7,0 210-240 25-40 4,0- 10,0 . Gr·l'o Fr.C .per

M=milho; Al=a lgodão; Am = Amoreira ; Ar=arroz ; Ca=cana ; Tr= trigo; F=feijão; H= hortaliças ; Md=mand ioca ; S=sorgo; Ma=mamona ;
Ml=milheto; Gr = gram ínea; Fo =forrageira; Cf =café; Fr=fr utíferas; Ci= citros ; Ma =macieira ; Cd .veg= cordão vegeta l; C.per= culturas
perenes.
Utilização especial : 1 Ba nco de proteínas; 2 Cobertura de canal escoadouro e 3 Forra gem
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

6. 6.4. C RITl~RIOS PARA ESCOLHA DOS ADUBOS VE RDES

Rowe e Wern er (2000) relatam que não existe uma planta ideal para
adubação verde e cobertura do solo, que apresente apenas características
positivas. Toda s as espécies apresentam vantagens e desvantagens,
desenvolvendo-se bem dentro de certas condições climáticas e práticas de
cultivo e de manejo.

Critérios
• Grande produção de massa . Quanto maior a produção de massa,
maior será a quantidade de nutrientes que a planta mobilizará; também
maior será o abafamento sobre as plantas daninhas.
• Sistema radicular profundo. Plantas com raízes pequenas terão
uma pequena capacidade de retirar os nutrientes não aproveitados pelas
culturas.
• Rápido crescimento inicial. Quanto mais rápido a planta cobrir o
solo, menor será a erosão e menor a chance de crescimento das plantas
daninhas.
• Fixação de nitrogênio (leguminosas). Proporciona o aumento da
disponibilidade de nitrogên io no solo, o que significa economia de adubo
nitrogenado (ureia) .
• Simbiose com micorrizas. As micorrizas aumentam o teor de fósforo
disponível para as plantas no solo, economizando adubo .
• Uso eficiente da água. As plantas de adubação verde e cobertura
do solo devem se desenvolver bem, mesmo com pouca umidade e em
períodos com pouca chuva . Exemplo dessa característica é o centeio, que
cresce melhor com pouca chuva, comparado a aveia-preta e ao azevém.
• Produção abundante e fácil de sementes. Essa característica é
muito importante, pois o agricultor não pode depender todos os anos de
semente de fora da propriedade . É, talvez, um dos maiores problemas que
a adubação verde enfrenta, pois existe atualmente pouca semente, que é
cara e de má qualidade.
• As plantas para adubação verde/cobertura do solo não podem
apresentar rizomas ou outras estrutu ras de reprodução vegetat iva, para
que não venham a se tornar inços de difícil controle.

285
Manual de Horticultura Orgânica

• É interessante que as espécies utilizadas como adubação verde e cobertura


do solo possam ser utilizadas como alimentação animal ( como a aveia-preta, o
nabo, o azevém) e até como alimentação humana (como o trit icale).

6.6.5. ADUBOS VERDES E A LIBERAÇÃO DE NUTRIEN TES

Segundo Santos (2005), um aspecto pouco considerado no manejo das


leguminosas, mas extremamente importante, é sua velocidade de decomposição
e liberação de nutrientes, conforme ilustrado na Figura 6.38, a partir de dados
coletados em Viçosa - MG.
Observa-se que, em 15 dias, 50% do nitrogênio presente na biomassa
da crotalária (cerca de 150 kg/ha) já havia sido liberado do tecido vegetal. A
consorciação crotalária-milheto foi capaz de retardar um pouco essa liberação,
liberando nutrientes de forma mais sincronizada com a cultura subsequente,
embora houvesse menor quantidade disponível.
Deve-se, portanto, procurar cultivar leguminosas associadas a gramíneas
e também fazer o transplante das olerícolas o mais rapidamente possível, de
modo a melhorar o aproveitamento dos benefícios da adubação verde.

350
,-... 00471
ro - CRT= 288,74 .e<" 'dlas) r 2= 0,89
.e 300
--.....
- - MLT=84,94.e(·O,OIB6.dlas) r2= 0,58
c:n 250
~
.........
.. .....•.. CRT- MLT = 195,79.e(·0,0326.dlas) r2 =0,72
(IJ
~ 200
e
(IJ
u 150
VI
(IJ
e
ro
100

z
E
(IJ
1-
50
--
o
o 15 30 45 60 75 90 105 120
Dias após o corte

Figura 6.38 _ Evolução da liberação de nitrogênio da b_io~assa de e. juncea


(CRT), milheto (Pennisetum americanum MLT) e consorcio crotalária-milheto
(CRT-MLT).

286
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Dentre os benefícios da adubação verde, destaca-se o aumento da produtividade


com menor necessidade de utilização de estercos ou composto orgânico.
Obteve-se a produção de 80t/ha de frutos extras de tomate orgânico, em
ambiente protegido, fertilizado com composto orgânico preparado com palhada
de crotalária em substituição à cama de aviário (LEAL e ARAÚJO, 2003). Em
Viçosa, plantas de brócolis adubadas com 12 t/ha de matéria seca de composto
orgânico, quando receberam adubação de cobertura com biomassa de mucuna
cinza (8,0 t/ha de matéria seca), até 15 dias após o transplante, apresentaram
produção de 600 g/planta, similar às plantas que receberam 25 t/ha de matéria
seca de composto. Essa produção foi superior à obtida com adubação mineral
na mesma área (525 g / planta) (SANTOS, 2005).
O efeito da adubação de cobertura com mucuna cinza diminuiu com o
atraso da incorporação do adubo verde (Figura 6.39). Esse resultado deve-
se à rápida liberação dos nutrientes dos tecidos do adubo verde, que fornece
ao solo nutrientes durante os primeiros 30 dias, período em que a cultura
apresenta as maiores taxas de crescimento relativo (Figura 6.40), e não no
período de maior acúmulo de matéria seca, entre 45 e 70 dias.

600,00
......._

ro 550,00
e
ro
a. 500,00
............
O>
..__.. 450,00
o
1
B.
:::J
400,00 PR = 600,39 - 3,32 dias r 2 = 0,98
"O
e
a..
350,00
300,00
O 15 30 45
Data da incorporação do adubo verde após o transplantio

Figura 6.39 - Efeito das datas da incorporação do adubo verde sobre a produção
(PR) de brócolis na presença de 12 t/ha de composto orgânico.

287
Manual de Horticultura Orgânica

0,160
0,140
ro
"'O
-. 0,120 '
' Vl
o 0,100 ~-~-.
",...''·
"'O
m
0,080
Vl
o
"'O
ro 0,060 "'·,
a: 0,040
u
1- I •

0,020
0,000
O 3 6 9 12 15 18 21 24 27 30 33 36 39 42 45 48 51 54
Dias após o trasplantio
Figura 6.40 - Taxa de crescimento relativo do brócolis (TCR), avaliada como área
do dossel, em função dos dias após o transplantio nos tratamentos: T1) adubo
verde no transplantio; T2) adubo verde aplicado aos 15 dias; T3) adubo verde
aplicado aos 30 dias; T 4) adubo verde aplicado aos 45 dias. Plantas adubadas
com 12 t ha-1 de composto.

6.6.6. ADUBOS VERDES E ALELOPATIA

Trecenti (2003) relata que a escolha de culturas de cobertura com


boa produção de biomassa e com alto efeito alelopático poderá contribuir
significativamente para o controle de vegetação espontânea. No sistema plantio
direto, experiências com aveia, sorgo, milheto e braquiárias têm demonstrado
bons resultados na supressão de invasoras.
No manejo de lavouras orgânicas, pode-se programar a rotação de
culturas, inserindo plantas que exerçam controle sobre ervas invasoras, devido
à liberação de substâncias alelopáticas.
Algumas inibições clássicas são relatadas por Fancelli e Dourado Neto
(2000), tais como:

efeito da palhada de feijão -de-porco (Canavalia ensiformis) inibindo


• 0
o desenvolvimento da ti ri rica ( Cyperus rotundus);
• a palhada da mucuna- preta (Mucuna aterrima), dificultando o
desenvolvimento do picão- preto (Bidens pilosa) e da tiririca (Cyperus
rotundus );

288
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

• o nabo-forra geiro (Raphanus satívus), reduzindo o crescimento inicial


do milho;
• o capim - massambará (Sorghum ha/epense) afetando a produção de
soja;
• a aveia-preta (Avena sttigosa), diminuindo a população de capim
marmelada (Brachiaria plantaginea);
• o azevém (Lolium multiflorum) reduzindo a população de guaxuma
(Sida spp.);
• a palha de Taggetes patula, reduzindo o poder germinativo de
sementes de amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla), corda-de-viola
(lpomoea sp.) e caruru (Amaranthus spp.), além de outros.

Vida! et ai. (1998) reportaram que a cobertura morta vegetal originada


da palhada de aveia-preta reduziu a infestação de plantas daninhas, de forma
significativa, na cultura da soja, favorecendo a elevação da produtividade.
Concordantemente, Matzenbacher (1999), em sistemas convencionais, relata
que o cultivo de aveia e outras espécies para cobrir o solo, num sistema de
rotação de culturas, promove aumentos consideráveis no rendimento das
culturas subsequentes, além de torná-las mais econômicas pela redução na
utilização de adubação mineral.

6.6. 7. FORMAS DE UTILIZAÇÃO D A ADUBAÇÃO VERDE

Apesar da extensa divulgação sobre os benefícios da adubação verde em


diversas publicações, verifica-se um baixo nível de adoção entre os agricultores,
incluindo-se a maioria dos praticantes da agricultura orgânica. Esste fato pode
ser atribuído à ocupação de terra e à falta de hábito ou cultura em traba lhar
com essa técnica de manejo.
Entretanto, face à importância dessa prática para sistemas organicos,
apresentamos, a seguir, algumas recomendações ou alternativas de util ização
da adubação verde, adaptadas de Costa etal.(1993), que se aplicam à produção
de hortaliças, visando auxiliar agricultores e t écnicos na toma da de decisão
para viabilizar o emprego dessa prática indispensável nesses sistem as.
A prática da adubação verde , quanto à su a ut ilizaçã o aplicada à olericultura,
pode ser classificada em :

• adubaçã o verd e em pré-cultivo


◊ exclusiva de primavera/verão;

289
Manual de Horticultura Orgânica
- ---.. .

◊ exclusiva de outono/inverno;

• adubação verde consorciada·,


• adubação verde em faixa·,
• adubação verde em alamedas·,
• adubação verde em bordas de áreas·, e
• importação de palhadas de adubos verdes.

ADUBAÇÃO VERDE EM PRÉ-CULTIVO

ADUBAÇÃO VERDE EXCLUSIVA DE PRIMAVERA/VERÃO

Essa modalidade de adubação verde é a mais antiga e tradicional. Consiste


no plantio de adubos verdes (geralmente leguminosas) no período de outubro
a janeiro, apresentando vigoroso crescimento durante o verão. Entre as
espécies utilizadas, destacam-se as crotalárias (Figura 6.41 A), a mucuna
preta (Figura 6.41 B), o feijão-de-porco, o guandu, o labe-labe e o caupi. Um
dos exemplos característicos é a utilização da Crotalaria juncea na renovação
de canaviais no Estado de São Paulo.

As principais vantagens desse tip o d e adubação verde são a elevada


produção de massa verde e o grande aporte de nitrogênio. Destaca-
se também a proteção ao solo d urante o período de chuvas de a lta
intensidade.

_- ~-- - -- ~ - -

A ocupação das áreas agrícolas, durante um período em que são cultivadas


culturas econômicas, tem sido apontada como a principal desvantagem dessa
modalidade.
A rotação de áreas, ou seja, a divisão de propriedade em glebas, reservando
uma por ano para o plantio de leguminosas e as restantes para cultu ras
comerciais pode ser uma alternativa viável.
Nesse sistema, a adubação ve rde deve ser cultivada novamente na m esma
área, num intervalo máximo de dois a três anos, dependendo da intensidade
de uso do solo.
A efi ciência dessa forma de ut ilizaçã o pode ser comprovada em t rabalho
rea liza do por Oliveira ( 200 1), avaliando os efeit os da adubação verde com

290
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

crotalária e do pou sio, sobre a cultura do repolho. Verificou que o pré-cultivo


com a crotalária promoveu aumento significativo da produção de massa
fresca da parte aérea, do peso médio das "cabeças" e, consequentemente, da
produtividade da cultura (Tabela 6.40), evidenciando o benefício da prática
da adubação verde em sistema orgânico de produção.

Tabela 6.40 - Produção de massa fresca da parte aérea, peso da "cabeça" e


produtividade do repolho (cv. Astrus) cultivado sob manejo orgânico, a partir do
pré-cultivo com Crotalaria juncea

Massa fresca Peso da "cabeça" Produtividade


(kg/pia nta) (kg/pia nta) (t/ha)

Pré-cultivo com
1,942 a 1 1,249 a 34, 71 a
C. juncea
Pousio (vegetação
1,442 b 0,887 b 24,64 b
espontânea)
1 Os valores representam médias de quatro repetições; Médias seguidas da mesma letra, nas

colunas, não diferem entre si pelo teste F (p < 0,05).

Figura 6.41 A - Cultivo solteiro de Crotalária na 'Fazendinha' Ecológica (Sistema


Integrado de Produção Agroecológica - EMBRAPA). Seropédica - RJ.

291
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.41 B - Adubação verde em cultivo consorciado de mucuna preta e milho


em solo de estufa, na Área Experimental de Agricultura Orgânica do INCAPER/ES.

Nesse sistema, uma das técnicas mais conhecidas é o cultivo solteiro da


mucuna preta, em rotação com as hortaliças. Outra técnica tradicional é o
cultivo consorciado com gramíneas (por ex.: milho) que permite a fixação do
nitrogênio e melhoria da estrutura do solo. Ambos os sistemas estão descritos
a seguir.

Cultivo solteiro da mucuna preta (Mucuna aterrima)

Leguminosa anual, robusta, de crescimento indeterminado, com hábito


rasteiro emitindo ramos trepadores; vagem alargada, com três a seis sementes
' coloração preta com hilo branco. O peso de 1.000 sementes varia
duras, de
entre 503 g e 680 g.
É a espécie de Mucuna mais conhecida no Brasil. Apresenta um razoável
desenvolvimento à sombra e um rápido crescimento em condições favoráveis
de umidade, boa insolação e bom nível de fertilidade do solo, propiciando uma
eficiente cobertura do solo.

292
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Exigências de clima e solo


Planta de clima tropical e subtropical, é resistente a temperaturas elevadas, à
seca, ao sombreamento, e ligeiramente resistente ao encharcamento temporário
do solo. Rústica, apresenta bom desenvolvimento em solos ácidos, de baixa
fertilidade. É bastante adequada ao cultivo de hortaliças, principalmente em
regiões de altitude, devendo, neste caso, ser cultivada durante a primavera-
verão, ou seja, de setembro a janeiro.

Preparo do solo e plantio


O solo poderá ser preparado pelo método convencional (uma aração + duas
gradagens), preparo mínimo (uma ou duas gradagens) ou pela escarificação .
Pode-se ainda fazer uso do plantio direto.
A semeadura poderá ser efetuada em linhas, em covas (matraca) ou a
lanço. Para sistemas orgânicos, onde a competição com a vegetação nativa
é intensa, recomenda-se optar pelo plantio em linhas ou em covas, que
favorecerão a prática da capina .
No plantio em linhas, recomenda-se um espaçamento de 50 cm entre
sulcos, com seis a oito sementes por metro linear (60 a 80 kg/ha de sementes).
Para o plantio em covas, utiliza-se a matraca, recomendando-se, nesse caso,
um maior espaçamento entre plantas, de 40 cm, com deposição de duas a três
sementes por cova.
Na semeadura a lanço, o gasto com sementes será aproximadamente 20%
superior ao plantio em linhas. Procede-se à distribuição (manual ou mecânica)
das sementes sobre a superfície do solo e posteriormente incorpora-se, através
de uma gradagem leve.
Deve-se observar que o tegumento das sementes é normalmente mais
duro e impermeável do que nas mucunas cinza e anã, o que, às vezes, reduz a
porcentagem de germinação, principalmente nas sementes mais velhas . Nesse
caso, recomenda-se a escarificação das sementes, utilizando-se um tambor
giratório com areia grossa ou pedras irregulares.
Outra prática simples e efi,caz para se alcançar melhor germinação é a
embebição das sementes em agua corrente, um dia antes do plantio. Para
isso, deve-se colocar as sem.entes dentro de sacos telados e mergulhá- las
em água de rio, nunca em agua parada, sem oxigênio, pois prej udica rá a
em ergência. Essa prática inviabiliza o plantio com matraca, por dificulta r a
sa íd a das sem entes pelo bico da plantad eira.

293
Manual de Horticultura Orgânica

Manejo e incorporação
Em sistemas orgân icos, por não se utilizar herbicidas, a competição
com ervas nativas no início do ciclo é muito grande, pod endo comprometer
o rendimento de massa verde da leguminosa. Por isso, torna -se necessário
realizar de uma a duas capinas na fase inicial da cultura , para que a mesma
cresça e cubra todo o terreno.
O manejo poderá ser realizado entre 120 e 170 dias após a emergência,
na fase de florescimento/enchimento de vagens, através de roçagem manual,
com roçadeira de trator, ou utilizando-se rolo-faca. Para incorporação do
material, caso a biomassa seja excessiva, recomenda-se o uso de grade
pesada, ou aração, uma semana após, para evitar que as ramas "embuchem"
no equipamento. Entretanto, sempre que possível, recomenda-se optar pelo
Sistema Plantio Direto.
Além de todas as vantagens já conhecidas, a mucuna possui capacidade
de reduzir a multiplicação de populações de nematoides.

Doenças e, ou pragas
De maneira geral, relata-se a ocorrência de cercosporiose, vírus do mosaico
do feijoeiro e lagartas. Entretanto, em sistemas orgânicos, verifica-se um
crescimento vigoroso, sem incidência de patógenos, dispensando quaisquer
práticas de controle fitossanitário.

Produção de sementes
Recomenda-se o plantio de 3 a 4 sementes por metro linear, com
espaçamento de 1,0 metro entrelinhas (15 a 20 kg/ha de sementes) . O
tutoramento (com plantas de milho, hastes de madeira, guandu etc.) possibilita
a produção de maior quantidade de sementes, com melhor qualidade. Neste
caso I o ciclo da cultura varia de 210 a 260 dias.

A colheita deve ser fe ita manu !mente, quando as v gens stiver m


secas. As vagens colhidas devem ser seco ª:
à m ra . m gol õ s
bem ventilados. Posteriorm e nte, procede-se a debulh . li p
sementes e cons rv ção m b I on s p i , stic s b m fech s. A
pro utivi a pode lin ir 2.000 /h n1ont s.

294

l
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

ADUBAÇÃO VERDE EXCLUSIVA DE OUTONO/INVERNO

Esse tipo de adubação teve incremento a partir dos trabalhos de Miyasaka


(1971) que avaliou, em São Paulo, a utilização de leguminosas durante o outono/
inverno na entressafra de culturas comerciais de verão. A constatação de que
grandes áreas na região Sul do Brasil permanecem sem utilização, durante o
período de inverno (somente no Rio Grande do Sul e no Paraná somam 9 e 5
milhões de hectares, respectivamente), sujeitas à ação da erosão, à lixiviação
de nutrientes e à proliferação de invasoras, contribuiu para a rápida difusão
dessa modalidade de adubação verde.
Nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, as principais
espécies utilizadas são a aveia-preta, o azevém, o nabo forrageiro, os tremoços,
o chícharo, as ervilhacas, a serradela e a gorga. A época da semeadura
desses adubos verdes varia de março a junho. Na região Sudeste, os adubos
verdes mais utilizados são as aveias e os tremoços com época de semeadura
compreendida entre fevereiro e abril.
Entre as vantagens dessa modalidade de adubação destacam-se a proteção
de áreas normalmente ociosas, o controle da erosão, a diminuição da infestação
de ervas invasoras, a redução de perdas de nutrientes por lixiviação, o aporte
de nitrogênio - quando utilizadas leguminosas - a possibilidade de utilização de
adubos verdes com potencial forrageiro na alimentação animal e o fornecimento
de cobertura morta para preparas convencionais do solo.
o somatório dessas vantagens faz com que esse tipo de adubação verde
seja atualmente o mais empregado na região Sul do Brasil.

COQUETEL DE ADUBAÇÃO VERDE

Entre as técnicas para regenerar a fertilidade do solo, a adubação verde


e o pousio são as mais utilizadas . A associação dessas duas técnicas pode ser
feita através de um coquetel de adubos verdes, tal como um pousio, porém,
utilizando-se plantas mais eficientes na produção de massa verde. Essa técnica
foi desenvolvida pelo Instituto Biodinâmica, de Botucatu, São Paulo. Essa
técnica pode ser caracterizada como uma adubação verde em pré-cultivo, mas
utilizando-se de variadas espécies plantadas simultaneamente.
A prática consiste num consórcio em que se misturaram espécies de plantas
de diversas famílias e finalidades, de modo a se obter a maior diversidade
possível.
Cada tipo de planta vai crescer no seu ritmo e do seu modo, algumas
m ais precoces e outras mais ta rdias, na verti cal ou na horizontal. As raízes de
algumas vão explorar a superfície do solo, outras crescerão em profundidade.

295
Manual de Horticultura Orgânica
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Então, ao final, a diversidade promove maior eficiência de uso da luz solar e


maior volume de raízes em diferentes profundidades .
As diferentes espécies possuem diferentes exig ências nutricionais e
diferentes habilidades em extrair os nutrientes, ocorrendo uma complementação
entre as plantas que crescem na mesma área. Assim também ocorre,
posteriormente, maior reciclagem de nutrientes. Com o coquetel, é possível
obter uma rápida cobertura do solo, que vai também permanecer por mais
tempo, auxiliando muito o manejo de ervas espontâneas.
No momento adequado, a massa vegetal poderá ser incorporada ou
acamada para servir como cobertura do solo, tornando-se fonte de material
orgânico rico em elementos que ficarão à disposição do próximo cultivo.
Essa prática não tem o inconveniente de ser uma monocultura. Também
é possível obter alguma renda da área com a colheita de algumas espécies
(milho, girassol, sementes de adubos verdes, forragem etc.).

Modo de fazer o coquetel


• Quando necessário, preparar o solo com operações de aração e
gradagem.
• Misturar as sementes e, se preciso, fazer antes a inoculação com
inoculante específico para cada tipo de leguminosa .
• Adicionar 5 kg de fosfato natural para cada 100 kg de sementes, com
água suficiente para fixar o produto e deixar secar por algumas horas .
• Semear a lanço, numa densidade de aproximadamente 100 kg/ha e
incorporar com rastelo ou grade leve. Não é necessário fazer adubação de
cobertura e nem capina.

A massa verde deve ser roçada e deixada sobre o solo como cobertura morta
no momento do início do florescimento da mucuna preta (150 dias), quando
se obtém a máxima produção de massa verde da mistu ra. Para se obter uma
decomposição mais rápida, roça-se antes. Para mais lenta, roça-se depois.
A quantidade de massa verde a ser produzida varia de 50 a 70 t/ha (acima
de 20 t/ha já é considerado bom), podendo atingir, em alguns casos, até 120
a 150 t/ha. A produção normal de uma espécie isolada varia entre 25-30 t/ha
de massa verde (mucuna, por exemplo). Portanto, com a prática do coq uetel,
podemos obter mais que o dobro de produção de massa verde na mesma área.

296
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Convém ressaltar novamente que toda essa massa verde retornará ao solo,
sendo seus nutrientes reciclados pelos microrganismos .
Os efeitos benéficos do coquetel de adubação verde de verão, sobre o
cultivo de hortaliças, persistem por mais de um ano, eliminando ou reduzindo
o uso de outras fontes orgânicas em algumas situações.
As espécies e quantidades citadas nas Tabelas 6.41 e 6.42 são oferecidas
como sugestão para um coquetel de adubação verde de verão ou de inverno,
mas cada situação requer o seu "ajuste" próprio para o local. Cada caso é um
caso, e somente o agricultor no seu pedaço de terra saberá como agir melhor.

Tabela 6.41 - Coquetel de adubação verde de verão

Espécies principais

Família No me científico Nome comum kg/ha


- Gram Zea mays Milho (porte alto) 24
- Leg Stizolobium aterrum Mucuna preta 16
- Leg Canavalia brasiliensis Feijão de porco 16
- Leg Dolichos /ab-lab Labelabe 12
- Leg Cajanus cajan Gandu 10
- Com Helianthus annus Girassol 8
- Leg Crotalaria juncea Crotalária 5
- Pol Ricinus communis Mamona 5
- Leg Vigna unguiculata Feijão catador 4
- Grã Panicum miliaceum Painço 4
- Leg Leucena /eucena Leucena 2
- Le g Tephrosia cândida Tefrósia 1
Espécies opcionais

- Leg Canavalia obtusifolha Feijão bravo 8


- Leg Crotalaria ochoroleuca Crot. Africana 5
- Leg Calopogonio mucunoides Calopogônio 4
- Leg Crotalaria anageroldes Anageróides 3
- Gram Pennisetum typhoideum Milheto 2
- Pai Fogop/rum esculentun Trigo serraceno 2
. "
Fonte : Instit uto Blod1namico de Desenvolvimento Rura l, Botucatu - SP.

297
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.42 - Coquetel de adubação verde de inverno


.

'., ·:;.~~p_é;~e~sf{~r:it,r iP-ais


Família Nome científico Nome comum kg/ha
- Gramínea Avena strigosa Aveia preta 15
- Gramínea Seca/e cerea/e Centeio 20
- Brássica Raphanus sativus Nabo forrageiro 1
- Leguminosa Vicia sativa Ervilhaca comum 5
- Legu mi nos a Lupinus a/bus Tremoço branco 15
- Leguminosa Pisum sativum Ervilha forrageira 30
- Leguminosa Lathiyrus sp. Vicão 20
- Cariofilácea Spergu/a arvensis Gorga ou espérgula 2
Fonte: Sugestão da EPAGRI/Estação Experimental de Ituporanga para o Alto Vale do Itajaí.

ADUBAÇÃO VERDE CONSORCIADA

Nessa modalidade, o adubo verde é semeado na entrelinha da cultura


comercial, sem haver, portanto, o inconveniente da suspensão das culturas
em parte do ano agrícola. Esse sistema adapta-se principalmente às pequenas
propriedades, nas quais a utilização do solo é a mais intensa possível.
Dentre exemplos dessa modalidade de adubação, salienta-se a cultura do
milho que, pela arquitetura foliar favorável, pode ser consorciada com feijão-de-
porco, caupi, mucuna-anã, guandu, labe- labe e mucunas cinza e preta. Nos três
primeiros exemplos de consorciação, a semeadura do milho pode ser coincidente
com a dos adubos verdes, desde que não haja problemas severos de déficit
hídrico e competição por nutrientes. Nos quatro últimos exemplos, a semeadura
dos adubos verdes deve ser feita posteriormente à da cultura do milho.
A utilização da adubação verde consorciada com culturas hortaliças
deve ser feita criteriosamente, de maneira a evitar que o adubo verde possa
vir a competir com a cultura comercial, ocasionando, inclusive, redução na
produtividade. Isso pode ser verificado, especialmente, em períodos de déficit
hídrico coincidentes com a fase crítica de necessidade de água da cultura.
No caso específico da consorciação milho e mucunas cinza e preta, a
semeadura muito precoce da leguminosa pode ocasionar, pelo hábito trepador
que possui, diminuição da área fotossintética ativa do milho e dificuldade de
colheita das espigas. Nesse caso, recomenda-se efetuar a semeadura dessas
leg uminosas a partir de 30-40 dias do plantio do milho.

298
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

As principais vantagens desse sistema são a utilização intensiva do recurso


solo, o eficiente controle da erosão e a redução da infestação de invasoras
e das temperaturas máximas da superfície do solo, favorecendo a atividade
biológica e o desenvolvimento vegetal.

CULTIVO CONSORCIADO DE MUCUNA PRETA E MILHO (UM SISTEMA TRADICIONAL)

Para esse caso, após o preparo do solo, procede-se ao semeio da mucuna


preta, em sulcos distanciados 50 cm um do outro, numa densidade de 10
sementes por metro linear. É recomendável a quebra de dormência das
sementes, deixando-as imersas em água corrente por 24 horas, antes do
plantio . o plantio da mucuna deve ser realizado antes do milho, por apresentar
emergência mais lenta. O milho é plantado entre as linhas da mucuna, logo
no início da emergência desta, também em sulcos numa densidade de 10
sementes por metro linear. Em torno de 90 dias após, procede-se à roçada
(mantendo-se a biomassa sobre o solo) ou incorporação da biomassa formada,
dependendo do tipo de cultivo que se fará na área. Para plantios em covas,
opta-se pela roçada e posterior plantio direto. Para cultivo em canteiros,
incorpora-se a biomassa com arado e faz-se a gradagem para um adequado
preparo de canteiros.

Obs.: Havendo interesse do agricultor em aproveitar a produção de espigas


de milho verde, para fins comerciais, antes de incorporar a biomassa, torna-
se necessário proceder ao semeio das duas espécies, simultaneamente, para
evitar o abafamento da mucuna sobre o milho. A produção de biomassa de
mucuna será menor, porém trará benefícios importantes para o sistema.

ADUBAÇÃO VERDE EM FAIXAS

Nesse sistema, alocam-se faixas


,
onde são plantados os adubos verdes I
permanecendo o restante da area cultivada com a cultura comercial. Nos
anos seguintes, as faixas são deslocadas, com o objetivo de gradualmente ir
promovendo a melhoria do solo de toda a propriedade.
Uma variação desse sistema é o plantio de leguminosas perenes em faixas
qu~ são manti_das fixas, poden~o ~er.utilizad~s periodicamente, na alimentação
an ima l, atraves de cortes ou d1stnbu1das na area de cultivo comercial visando-
se à co bertura do so lo e à econom ia da ad ubação nitrogenada (caso d'o sistema
de cultivo em aleias, relatado na seção sobre sistema plantio d ireto).

299
Manual de Horticultura Orgânica

Outra variação conhecida é o emprego de plantios de interesse comercial


intercalados com faixas de adubo verde, com alternância das faixas a cad~
ciclo cultural.

C~mo ilustração desse exemplo, apresentamos na Figura 6.42 o cultivo


de abobora de moita em faixas intercalares de aveia comum, realizado por
um agricultor orgânico de Canellones - Uruguai. A cada cultivo, o adubo verde
alterna-se com outras culturas comerciais da rotação preestabelecida.

Figura 6.42 - Produção orgânica de abóbora de moita em túneis baixos, em


faixas intercalares de aveia comum. Canellones - Uruguai.

ADUBAÇÃO VERDE EM ALAMEDAS

O uso de plantas leguminosas arbustivas ou arbóreas, para fixação de


nitrogênio, associadas à fixação de carbono, poderá se concretizar numa das
melhores opções para o cultivo orgânico de hortaliças.
A implantação dessas espécies (Leucena, Gliricídia, Guandu, entre outras)
na forma de linhas, formando alamedas, poderá se apresentar como uma das
alternativas mais práticas e econômicas nesse sistema, além de proporcionar
também aumento de diversidade, controle de erosão e efeito de quebra-vento.

Esse sistema d e c ultivo m a lam d s


man jo a ro oló lco n

300
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânic o de Hortaliças

Tal sistema cons iste no estabelecimento de faixas de plantas dispostas


paralelamente a distâncias dependentes do porte das espécies envolvidas (5
a 50 metros), form ando alamedas ou aleias, onde se cultivam as plantas de
interesse comercial.

As espécies arbóreas mais utilizad as no Brasil para essa finalidade são


a leucena e a gliricídia . Entretanto. espécies como ing á , som breiro,
acácias, Guandu. Tefrósia, Timbó a rbustivo, entre outras, são opç ões
viáveis. A leucena é um material promissor c omo adubo verde e
permite um bom manejo devido a sua alta capacidade de rebrota.

Wildner e Dadalto (1991) apresentaram valores de 20 t/ha de massa verde


e 7 t/ha de massa seca, em apenas um corte. Entretanto, a maior eficiência
do manejo de leucena com cortes sucessivos pode ser evidenciada no trabalho
de Chaves (1989), citado por Costa et ai. (1993), em plantio de leucena
intercalada com cafeeiro.
Os valores de fitomassa obtidos com um corte aos 100 dias foram
semelhantes aos apresentados por Wildner e Dadalto (1991), com 18,5 e 6,4
t/ha de massa verde e seca respectivamente. No segundo corte aos 280 dias,
foram obtidos 29,5 e 9,5 t/ha e no terceiro corte, aos 380 dias, obtiveram-se
109, 75 e 35, 1 t/ha de massa verde e seca, respectivamente.
As plantas formadoras das linhas das alamedas devem ser plantadas
em espaçamentos que variam de 6 m a 12 m, no sentido da curva de nível,
ajudando a controlar a erosão em terrenos declivosos, segundo Baggio (2002).
Dentro das linhas, as plantas devem ser plantadas em espaçamentos maiores
(1,0 m a 3,0 m), quando se visa apenas ao sombreamento parcial (Figura
6.43 A); ou de forma adensada (de 0,3 ma O, 7 m), quando se visa à produção
de biomassa (Figura 6.43 B).
As plantas deverão ser submetidas a podas periódicas, 2 a 4 vezes ao ano,
dependendo da espécie e da região, depositando toda a palhada na superfície
do solo, para ser aproveitada como adubo pela cultura anual interca la r.

301
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.43 - Alamedas de Gliricldia, com poda alta (2,0 m de altura) para
sombreamento e aporte de nutrientes, com cultivo de hortaliças - Fazendinha
Agroecológica da EMBRAPA, Seropédica, RJ (A). Alamedas de leucena, poda
baixa (0 ,5 m de altura), para aporte de biomassa e nutrientes, com cultivo de
repolho - Area Experimental do lncaper, Domingos Martins/ES (B).

302
Métodos de Produção para o Cultivo Org ânico de Hortaliças

Pesquisas realizadas no Centro Nacional de Milho e Sorgo (EMBRAPA,


2005), com cultivo de milho entre faixas de leucena (alamedas), podadas
no pré-plantio a 20 cm do solo, e poda durante o ciclo do milho para evitar
sombreamento, comprovaram a grande capacidade da leguminosa em aportar
N para a cultura e de reciclar nutrientes no perfil do solo.
Essa técnica disponibilizou potássio de forma significativa para a cultura ,
elevando o teor desse elemento em mais de 200% na camada de O a 20 cm (de
35 mg/dm 3 nas áreas sem Leucena para 95 mg/dm 3 nas áreas com Leucena).
O cultivo em alamedas pode apresentar diversas vantagens, como: aumento
da biodiversidade; estabelecimento de áreas de refúgio para predadores
favorecendo o equilíbrio ecológico; fixação biológica de C e N para o sistema ;
geração adicional de palhada para plantio direto; reciclagem de nutrientes no
perfil do solo; proteção e conservação do solo; função de quebra-vento, com
melhoria no microclima; fonte de madeira, entre outras.

ÃDUBAÇÃO VERDE EM BORDAS DE ÁREAS

Uma das estratégias eficazes para a fixação biológica de nitrogênio, que


conjuga oferta permanente de biomassa, redução de custos e independência de
aquisição de sementes, é o emprego de leguminosas arbustivas ou arbóreas,
plantadas nas bordas das áreas cultivadas. O feijão-guandu e a leucena são
espécies muito utilizadas para tal finalidade, devido a sua grande capacidade
de rebrota e alto aporte de biomassa.
Da mesma forma que no cultivo em alamedas, essas plantas devem ser
submetidas a podas periódicas, para estimular rebrotas e aumentar a produção
de biomassa verde e o aporte de nitrogênio ao sistema .
Na Figura 6.44 A, visualizamos bordas de feijão-guandu podados, em
estágio intermediário de rebrota, dividindo áreas de cultivo de hortaliças. Na
Figura 6.44 B, visualizamos uma borda de leucena recém - impla ntada, antes
de receber a primeira poda, margeando um campo de hortaliças. Na Figura
6.44 e, visualizamos um an el de leucena, plantado como borda no entorno de
um sistema PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentáv el ) com 45
dias de rebrota. '

303
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.44 - Bordas de guandu em cultivo de hortaliças (A). Borda de leucena em


policultivo de hortaliças (B) e Borda de leucena na forma de anel no sistema PAIS (C).

304
~
Mé todos de Produçã o para o C ultivo Orgânico de Ho rta liças

IMPORTAÇÃO DE PALHADAS DE ADUBOS VERDES

A importação de biomassa verde de áreas vizinhas para aplicação como


cobertura ou incorporação no solo para o cultivo de hortal iças também é uma
opção . Especialmente, tratando-se de plantas leguminosas, em que a composição
de nitrogênio nos tecidos é alta (3% ou mais), pode-se obter efeitos significativos
de melhoria no desenvolvimento vegetativo das hortaliças orgân icas.
Preferencialmente, a biomassa verde deve ser triturada, para ser usada
como adubação de cobertura, pois haverá um aproveitamento mais rápido do N.
A Figura 6.45 ilustra o favorecimento do desenvolvimento vegetativo do repolho
aos 40 dias, quando submetido a uma adubação em cobertura com biomassa de
leucena triturada com 4 cm de espessura (planta à direita) , aplicada aos 15 dias
após transplantio, comparada à testemunha sem biomassa ( planta à esquerd a).

Figura 6.45 - Plantas de repolho aos 40 dias após transplantio: à esquerda ,


plantas sem adubação de cobertura e à direita , plantas adubadas com 4 cm de
biomassa de leucena triturada, aplicada aos 15 dias após transplantio.

Para a finalidade de adubação em cobertura com biomassa verde t r itu rada ,


pode-se empregar tanto plantas leg um inosas quanto oleaginosas . Algumas
espécies potencia is para esse fim são a gliricídia, mamona , mucunas, crotalárias ,
trem oços, entre outras.

305
Manual de Horticultura Orgânica

6.7. ROTAÇÃO, SUCESSÃ O E CONSORCIAÇÃO DE


CULTURAS
6. 7.1. ROTAÇÃO E SUCESSÃO

Um dos aspectos mais importantes em sistemas orgânicos de produção


é a exploração equilibrada do solo, o que se consegue através do emprego
de práticas como a alternância de culturas, numa mesma área, através da
sucessão vegetal, levando a praticar também a rotação de culturas entre as
diversas unidades de solo de uma propriedade agrícola .
Essas práticas conjugadas permitirão explorar os nutrientes do solo de
maneira mais racional, evitando seu esgotamento, alternando culturas mais
exigentes com culturas menos exigentes em nutrientes (rústicas), além de
explorarem seções diferentes do solo pela diferença na estrutura radicular.
Outro fator decisivo é evitar o acúmulo de organismos patogênicos no
solo, ocorrência comum nas monoculturas, uma vez que as sucessões vegetais
provocarão uma quebra do ciclo biológico desses organismos pela alternância
de espécies diferentes, especialmente com características fitossanitárias
distintas. Como exemplo, destacamos que o plantio de espécies de solanáceas
(tomate, batata, pimentão etc.), em sucessão numa mesma área, pode elevar
a incidência de patógenos de solo e foliares nessas culturas.
Vieira ( 1999), estudando sistemas de rotação para a cultura da batata,
conclui que os sistemas rotacionais, comparados ao monocultivo, apresentaram
superioridade incontestável quanto à produtividade e qualidade dos tubérculos
(Tabela 6.43) . Além disso, observa que a monocultura aumenta drasticamente
a incidência de sarna, afetando diretamente a qualidade dos tubérculos.

Tabela 6.43 - Rendimento de tubérculos de batata em três sistemas de cultivo.


Epagri/EEU , 1999

14.5 5.8 7.2 9.2 b


Sem rotação
19.3 12. 2 19.8 17. 1 a
1 ano de rotaç ão
2 a nos de rota ção 19 .3 12. 3 18.7 16.8 a 182
* Médias seguidas pela mesm a let ra, na coluna, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% .
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Segundo Santos (2005), a rotação de culturas reduz a disponibilidade de


alimento e abrigo para muitos patógenos e herbívoros, contribuindo também
para a redução das populações de ervas, como exemplificado na Tabela 6.44.
Observa-se que a biomassa de ervas na cultura do repolho foi reduzida pelo
cultivo prévio, tanto do centeio quanto da fava ou do consórcio de ambos,
quando comparada à manutenção do solo sem nenhum cultivo.
Ambas as culturas produzem maior biomassa que as ervas e a consorciação
associa a incorporação de nitrogênio trazido pela fava com a incorporação de
matéria orgânica trazida pelo centeio, resultando em maiores produtividades
do repolho. Note-se, ainda, que a produtividade do repolho foi reduzida
pelo cultivo prévio com o centeio solteiro, provavelmente devido aos efeitos
alelopáticos da decomposição de sua palhada e da imobilização de nitrogênio,
o que não foi verificado com a consorci ação com a fava.

Tabela 6.44 - Impacto da fava (Vicia faba) e do centeio (Seca/e cerea/e) sobre a
produção de biomassa e produtividade do repolho
Biomassa Biomassa de Repolho
Cobertura total (g/m 2 ) ervas (g/m 2 ) (kg/100 m 2 )

Fava
-138m m
325
.m
403 17,4
D I
80,7 849,0
Centeio 502 696 671 0,7 9,7 327,8
Centeio/fava 464 692 448 0,3 3,9 718,0
Nenhum - 130 305 112,3 305, 1 611,0
Fonte: Gl1essman (2UUU) .

Para o plano de uso numa área para cultivo orgânico de hortaliças, Souza (2002)
recomenda que a área seja dividida em talhões e cada um dividido em quatro
faixas de solo (A, B, C e D), todas separadas por corredores de refúgio de 2,0
m de largura, de forma que, alternando-se três grupos de cultivo (Hortaliças
de Flores/frutos, Raízes/Tubérculos e Folhosas), num ciclo cultural máximo de
seis meses, teremos a revitalização do solo com Pousio e, ou Adubação verde,
sempre após três semestres com cultivas comerciais, ou seja, a cada um ano
e meio, em média.
Além disso, praticamos cultivas comerciais distintos em cada fai xa,
explorando uniformemente o solo, conforme o exemplo na Tabela 6.45.

307
Manual de Horticultura Org â nica

Tabela 6.45 - Sucessão e rotação cultural por grupos de cultivo, durante dois
anos
Talhões~- ·--·:,_:r~àixas~- . -.~ ·<· Grupos -d_
e c- 'ríodo
o
Pousio/adubação verde 1- semestre
o
Faixa A Flores e frutos 2- semestre
( 400 m2 ) Raízes e tubérculos 3~ semestre
o
Folhosas 4- semestre

o
Folhosas 1- semestre
o
Faixa B Pousio/adubação verde 2- semestre
(400 m2 ) Flores e frutos 3~ semestre
Talhão Raízes e tubérculos
o
4- semestre
(1.600 m2)
o
Raízes e tubérculos 1- semestre
o
Faixa e folhosas 2- semestre
( 400 m2 ) Pousio/adubação verde
o
3- semestre
o
Flores e frutos 4- semestre

o
Flores e frutos 1- semestre
o
Faixa D Raízes e tubérculos 2- semestre
(400 m2 ) Folhosas
o
3- semestre
o
Pousio/adubação verde 4- semestre

Outra forma de planejamento de áreas para uso sustentável na produção


de hortaliças foi descrita por Khatonian (2001), assim: recomenda-se intercalar
a produção de hortaliças com a produção de espécies de enraizamento denso e
palhada abundante, sendo as melhores espécies as gramíneas como o milho, 0
milheto e o sorgo vassoura, para o verão, e as aveias pretas ou o centeio para
o inverno.
o terreno pode ser dividido em um número de talhões que recebe
periodicamente a cultura de palhada (Figura 6.46). Por exemplo, onde a
principal estação de hortaliças é o inverno, pode-se reservar o verão para o
milho ou milheto, em área total ou pelo menos metade da área. Analogamente,
pode-se ocupar O terreno com aveia, se o verão é a principal estação para as
hortaliças. Esse tipo de rotação tem sido chamada de rotação de talhão.

308
,,,,,,. =======~--=---....,,,,,,;,,M
;...:..:e:::.:
' t~o;;;;,
do~ s~d;:,;;e:;,,;P
~r~o ~
du~ç~ã~o~p~a
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tiv,;,,;o;;,,,O
~ rg~â;,,,,,n=ic=o=d= e= H=o=
r ta
= l==iç=as

A) Recuperação anual de 1/4 da área, no verão.

i
Verão lnvem~o il Verão Inverno li
horta horta horta horta descanso horta horta horta
descanso horta horta horta horta horta horta horta

t
.------A-N_0_1___________:>il~----AN_0_2
1
---~>

A) Recuperação anual de 1/2 da área,


sendo ¼ no verão e ¼ no inverno.

Verão 1
lnverino Verão Inverno
horta horta horta descanso descanso horta horta horta
descanso horta horta horta 1
horta horta horta descanso
..____-----JL--.._ __J
1

i t
,------A-N_0_1_______ Jil1
1 ----A-N0-2---~)

Figura 6.46 - Rotação de talhões em olericultura.

309

. ---
Manual de Horticultura Orgâ nica
========~.::,,;,,,;,;,;::...;:;;;,,====-==-=-=- -- -- -- -=====--
- /

6. 7.2. CüNSORCIAÇi\O

O consórcio de plantas se apresenta como um dos m ét odos ma is adequados


à prática da olericultura , em moldes agroecológicos, com inúmeras vantagens
no aspecto ambiental, produtivo e econômico.
Uma boa descrição do sistema de cultivas consorciados é apresentada por
Debarba (2000), que caracteriza a consorciação, quando são plantadas duas
ou mais culturas, na mesma área e ao mesmo tempo.

A consorciação de culturas busca maior produção por área, pela


combinação de plantas que irão utilizar melhor o espaço, nutrientes,
área e luz solar, além dos benefícios que uma planta traz para a outra
no controle de ervas daninhas, pragas e doenças.

= - _- - - - - - - - - - - - - -- - ......,,,-;e _

Todas essas questões técnicas estão aliadas a uma maior estabilidade na


oferta de produtos e segurança no processo produtivo (Figura 6.47).
No consórcio, há várias formas de combinar as plantas. O plantio pode ser
em linha ou em faixa. Na linha ou na faixa, pode-se plantar uma única cultura
ou intercalar outras. Ao planejar a consorciação, deve-se lembrar que:

• É necessário definir qual é a cultura mais importante .


• Plantas que possuem bastante folhas e que produzem sombra
poderão ser associadas com plantas que gostam de sombra .
• Deve-se combinar plantas que têm raízes que se aprofundam na
terra com plantas com raízes mais superficiais.
• Associar plantas que têm bastante folhas com outras que têm poucas.
• Combinar plantas de ciclo longo com as de ciclo curto.
• Associar plantas com diferentes formas de crescimento.
• Deve-se, também, observar o sinergismo entre as espécies, ou seja,
plantas que se desenvolvem melhor, quando associadas a outras (Tabela 6.46) .
• combinar plantas com diferentes exigências nutricionais e água ,
conforme a classificação que se segue:

310
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Figura 6.4 7 - Consórcio de couve chinesa/repolho x alface/beterraba x repolho


verde x repolho roxo x alface x couve chinesa, na fazendinha ecológica da
EMBRAPA- Rio de Janeiro (A). Consórcio de cebolinha x alface x cenoura x alface
roxa x cenoura, na fazenda Luiziânia - Minas Gerais (8). Belíssimas paisagens!

311
Manual de Horticultura Orgânica

Classificação de hortaliças e outras espécies, quanto à exigência


nutricional e água:
• Grupo 1 (mais exigentes): alface, almeirão e chicória, couve, brócolis,
repolho, couve-flor, rúcula e outras crucíferas, cenoura, funcho, salsinha,
salsão, ervilha torta, feijão-de-metro, vagem, pepino e abobrinha italiana,
espinafre, cebolinha, cebola, alho poró;
• Grupo 2 (média exigência): pimentas, jiló e berinjela, ervilha de grão
verde e feijão-fradinho, batata-doce, quiabo e vinagreira, milho, abóboras,
chuchu, aveia-preta, e
• Grupo 3 (baixa exigência): guandu; cará, adubos verdes e sorgo
vassoura.

Fonte: Debarba (2000).

Tabela 6.46 - Associações de Plantas mais desejáveis para a realização de


consórcios
Culturas Companheiras Antagonistas
beneficiadas
Abóbora • milho, vagem, ace ga, ta 10 b a, ch1coria, batata
amendoim, nastúrcio, barragem
Alface •cenoura, rabanete, morango, pepino, alho- salsa, girassol
poró, beterraba, rúcula, abobrinha, tomate,
cebola
Alho-poró • cenoura, tomate, salsão, cebola, alho, feijão, ervilha
morango, couve, alface
Aspargo • tomate, salsa, manjericão, malmequer, cebola, alho, gladíolos
pepino, alface
Bardana • funcho, cenoura
• feijão, milho, repolho, rábano, favas, abóbora, pepino,
Batata
ervilha, couve, alho, berinjela (isca), urtiga, girassol, tomate, maçã,
raiz-forte, cravo-de-defunto, linho, hortelã, framboesa, abobrinha
nastúrcio, O caruru
Berinjela • feijão, vagem
•couve, rábano, alface, nabo, vagem, vagem
Beterraba
repolho, cebola
•seringueira, bananeira, uru cum kiri
Café

312
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
=
... Continuação da Tabela 6.46

.
Culturas ,-:'..-'9!t'
\

Companheiras Antagonistas
beneficiadas 1
Cebola •beterraba, morango, camomila, tomate, cenoura, ervilha, feijão
pepino, couve, segurelha, alface ◊ caruru
Cebolinha •cenoura ervilha, feijão
Cenoura •ervilha, alface, manjerona, rabanete, tomate, endro
cebola, cebolinha, bardana, alho-poró, alecrim,
sálvia, linho, acelga
Couve •cebola, batata, salsão, beterraba, camom ila, framboesa, tomate,
hortelã, endro, artemisia, sálvia, alecrim, menta, vagem, rúcula
tomilho, nastúrcio, alface
Cou ve-ch in esa •vagem
Couve-flor •sal são rúcula
Ervilha •cenoura, nabo, rabanete, pepino, milho, feijão, cebola, alho, batata,
abóbora, couve-rábano, milho doce, couve, alface, gladíolos
abobrinha
Espinafre •morango, feijão, beterraba, couve-flor, tomate,
batata, couve
Feijão • milho, batata, cenoura, pepino, couve-flor, alho-poró, funcho,
repolho, ervas aromáticas, couve, petúnia, gladíolos, alho,
alecrim, segurelha, nabo, beterraba cebola, salsão
Fumo •soja tomate
1 2
Frutíferas •tanásla , nastúrcio
Girassol • pepino, feijão batata, linho

Laranjeira •seringueira, goiabeira, feijão-de-porco


Maxixe •quiabo, milho
•batata, ervilha, feijão, pepino, abóbora, melão,
Milho melancia, trigo, rúcula, nabo, rabanete, quiabo, gladíolos
maxixe, mostarda, feijão-de-porco, serralha,
moranga, girassol, tomate
◊ bel d roega, caruru

Morango •espinafre, barragem, alface, tomate, feijão repolho, funcho,


branco couve
Mostarda •milho
Nabo •ervilha, milho, alecrim, hortelã tomate
Pepino •girassol, feijão, milho, ervilha, alface, rabanete, batata, ervas
repolho, cebola, beterraba aromáticas, sálvia
Quiabo •milho
Rabanete •ervilha, pepino, agrião, cenoLtra, espinafre, acelga
vag em, chicória, cerefólio, milho, nastúrcio, alface,
morango, couve, tomate, cebola

313
Manual de Horticultura Orgânica

... Continuação da Tabela 6.46


..'(•· r-: ,
Culturas -
beneficiadas Companheiras .
. i;!.
'.
> Antagonistas
Repolho (brócolos) • ervas aromáticas, batata, salsão, beterraba , morango, tomat e,
alface, nastúrcio, hortelã, estragão, cebola , vagem, menjerona,
cebolinha, alho- poró, espinafre rúcula
Rúcula • chicória, vagem, couve-rábano, milho, alface sa lsa

Salsa •tomate, aspargo, vagem, couve, pimenta, alface, rúc ula


rabanete
Serralha •tomate, cebola, milho
Salsão •alho-poró, tomate, couve-flor, couve,
repolho, camomila
Taioba •abóbora, leucena, milho
Sorgo gergelim, trigo
Tomate •cebola, cebolinha, salsa, cenoura, calêndula, couve-rábano, batata ,
serralha, erva-cidreira, aspargo, malmequer, funcho, repolho, pepino,
menta, nastúrcio, urtiga, manjericão, feijão, fumo, milho.
barragem, cravo-de-defunto 3 , alho

Vagem •milho, segurelha, abóbora, rúcula, chicória, cebola, beterraba,


acelga, rabanete girassol, couve-rábano
Cana-de-açúcar •crotalária, gand u, feijão-fradinho
Mandioca •melancia, abóbora

* Favorece o crescimento e acentua o sabor


Ajuda a recompor o solo.
1 Nastúrcio, conhecido como capuchinha, chagas (Trapae/oum majus)

2 Tanásia ou atanásia conhecida como catinga de mulata (Tanacetum vulgare)

3 Cravo de defunto ou tagetes, calêndula, são plantas mais ativas na luta contra insetos e

semeia-se em toda a horta.

6. 7.3. QUEBRA-VENTOS

Em regiões com ocorrência de ventos fortes e constantes, recomenda-se a


implantação de quebra-ventos, os quais auxiliam na construção da paisagem,
na composição de consórcios, na fixação biológica por leguminosas arbóreas,
na construção de microclimas apropriados e na obtenção de vários outros
benefícios advindos do seu uso. Estes não devem ser muito compactos, de
forma a permitir a passagem de parte do vento entre as árvores, para uma
adequada aeração da lavoura .
os quebra-ventos devem ser formados por fileiras de árvores e arbustos
de vários tamanhos, dispostos de modo desencontrado. Do lado que recebe o

314
Métodos d e Produção para o Cultivo Orgânico de Horta liças

vento domina nte, uma primeira linha é plantada com arbustos ( ex. guandu,
leucena, bananeira). A segunda e terceira linhas são plantadas com espécies
de porte alto e, preferencialmente, sempre verdes ( ex. eucaliptos, casuarina ,
cássia, acácia-mâng io, mangueira). A última linha, do lado da área cultivada,
é plantada novamente com arbustos.
Para manter um grau adequado de permeabilidade do quebra-vento, é
necessário, às vezes, podar as árvores das segundas e terceiras li nhas,
eliminando os ramos que ocupam a parte inferior dos fustes.

Sempre que possível, esp écies frutíferas (bana ne ira , abacate iro,
mangueira), esp écies madeireiras (eucalip to , a ngic o , pinus), árvores
q ue serve m para lenha (leucena , g revílea, acácia) ou p lantas que
serve m para a lime nta r o gado (algarobeira. g ua ndu, le ucena) d e v e m
ser utilizadas na formaçã o dos q uebra -ve ntos.

Por ocasião das podas ou raleio dos quebra-ventos, os materiais resu ltantes
dessas práticas podem ser aproveitados. Pelo menos uma filei ra de árvores
altas deve ser mantida em pé, enquanto as árvores derrubadas rebrotam de
toco ou são replantadas. A área máxima protegida pelo quebra-vento é cerca
de 20 vezes a maior altura do quebra-vento.
Os quebra-ventos previnem não somente contra danos causados por
ventos fortes, mas também criam microclimas favoráveis ao desenvolvimento
das hortaliças. Evitam que ventos fortes passem rentes ao chão ou entre
as plantações, carreando a umidade do solo e das plantas, aumentando a
evapotranspiração das culturas.
Os quebra-ventos também servem de abrigo para pássaros e outros
organismos benéficos, que auxiliam no controle de pragas e doenças. Ao
diminuir a velocidade do vento, cria um ambiente favo rável a pequenos insetos,
como parasitoides.
O uso de barreiras de árvores e, ou arbustos como quebra-ventos, seg undo
Gliessman (2000) pode melhorar o microclima, aum entar a produtiv idade 1
1
(Tabela 6.47 e Figuras 6.48 e 6.49) e diminui r a erosão eólica. Mais det alhes •

sobre os princípios e as técnicas para implantação de quebra -v entos podem ser


verificados em Gliessm an (2000) .
,,'
1

315
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.47 - Impactos relativos de quebra-ventos sobre a produtividade de


várias culturas de grãos e forragens
, .. .liJ ,...., ~

Cultura Aumento percentual de pr:odutividade


em relação a áreas sem barreiras
Alfafa 99
Milheto 44
Trevo 25
Cevada 25
Arroz 24
Trigo (inverno) 23
Centeio 19
Mostarda 13
Milho 12
Linho 11
Trigo (primavera) 8
Aveias 3

Fonte: Kart (1988), citado por GLIESSMAN (2000).

..... Quebra-vento multo denso

Quebra-vento penetrável

Figura 6.48 - Perfis de vento de um quebra-vento muito denso e de um penetrável.


Um quebra-vento rarefeito (penetrável) reduz a velocidade do vento mais
eficazmente do que um muito denso (impenetrável) e o faz por uma distância
maior.

316
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Produtividade (t/ha)

3 Média a campo

,/
2

o
O.Sh lh 2h 3h 4h Sh 6h 7h 8h 9h 10h
Distância do quebra-vento
(h= altura das árvores)

Figura 6.49 - Influência da proteção do quebra-vento sobre a produtividade da


soja por distâncias variáveis, a partir do quebra-vento.

Existem várias espécies que podem ser empregadas como quebra-ventos


em sistemas orgânicos de produção. A escolha da(s) espécie(s) dependerá
das condições locais, como clima, tipo de cultivo comercial, disponibilidade
de sementes e material propagativo, dentre outros. A Figura 6.50 ilustra o
emprego de renques de sansão do campo como quebra-vento numa lavoura
orgânica de uva, no município de Colorado do Oeste - Rondônia.

Figura 6.50 - Quebra-vento com sansão do campo em lavoura orgânica de uva.


Colorado do Oeste - RO.

317
Manual de Horticultura Orgânica

6.8. COBERTURA MORTA


6.8.1. COBERTURA MORTA COM PALHA

A cobertura morta é uma prática cultural pela qual se apl ica, ao solo,
material orgânico como cobertura da superfície, sem que a ele seja incorporado.
Através dela, procura-se influenciar positivamente as qualidades físicas,
químicas e biológicas do solo, diminuindo a erosão e criando condições ótimas
para o crescimento radicular.
A prática de cobertura do solo é tradicionalmente recomendada em sistemas
orgânicos, pois permite evitar perdas excessivas de água, retendo a umidade do
solo, diminuir o impacto da chuva e diminuir o excesso de temperatura do solo,
além de enriquecer o solo com nutrientes, após a decomposição do material,
permitindo melhorar o desempenho das culturas. Também, em áreas de cultivo
protegido, essa prática pode proporcionar todos os benefícios citados, exceto
a proteção contra impactos de chuvas - verifique a ilustração da Figura 6.51.

Figura 6.51 _ Cobertura morta com capim t:i~~r~do (alta rel~ção C/~) em cultivo
orgânico de pepino em estufa. Fazenda Lu1z1ania - Entre Rios de Minas - MG.

318
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

CARACTERIZAÇÃO DOS MATERIAIS MAIS USADOS

• Restos de culturas, palhadas, capim elefante, cameron ou napier


picados (plantados ou não para essa finalidade), até varreduras de jardim
e sobras de podas de árvores e arbustos (triturados).
• A relação C/N do material deve ser alta, para que sua decomposição
seja lenta, sendo que o material mais grosseiro (cana de milho, por
exemplo) deve ser retirado para facilitar capinas futuras.
• Tomar cuidado para não utilizar material com sementes de ervas
invasoras.
• Avaliar os benefícios e os custos no emprego da cobertura morta
para cada cultura comercial. Muitas vezes, o retorno econômico é pequeno
e compensa fazer a proteção do solo com cobertura viva (ervas nativas).
• Alguns materiais ( cavaco de madeira, cascas de árvores etc.) podem
ser alelopaticamente inibidores ou até fitotóxicos para algumas espécies.
• A cobertura morta com materiais com alta capacidade de fermentação
(como a palha de café) deve ser cuidadosa para não provocar prejuízos ou
diminuir a produção pela competição por nitrogênio.

ESPESSURA DAS CAMADAS

A quantidade de material orgânico a ser aplicado em uma determinada


área deverá ser o suficiente para promover uma cobertura que permita a
proteção completa do solo, levando à retenção de umidade, observando-
se atentamente a compensação de retorno econômico obtido com a cultura
comercial em questão.
De maneira geral, quanto mais fino for o material, menor poderá ser a
espessura da camada, pois melhor ela se assentará sobre o solo.
Portanto, na prática, recomenda-se uma camada de 2 a 5 cm para materiais
finos e de 6 a 15 cm para os mais grosseiros .

ÉPOCA DE APLICAÇÃO

Em relação ao clima, é recomendável empregar a cobertura morta antes de


períodos chuvosos para melhor efe ito no control e da erosã o e prot eçã o do solo.
Por outro lado, a utilização da cobertura no período de inverno (época seca)
conduz à obte nçã o de efeitos positivos sobre o desenvolviment o de hort al iças,
pela retençã o de umidade no solo.

319
Manual de Horticultura Orgânica

Dependendo da espécie e da textura do material , a cobertura morta pode


ser aplicada antes da emergência das sementes (palha de pinus em alho, casca
de arroz em cenoura) ou depois de as plantas estarem estabelecidas no campo,
permitindo uma aplicação ao redor das plantas ou nas entrelinhas de plantio.
Observe na Tabela 6.48, a seguir, os efeitos da cobertura morta com casca
de arroz na cultura da cenoura, em cultivo de verão em região de altitude.
Verifica-se que a cobertura favoreceu o estande final ( +27%), a produtividade
comercial (+45%), o peso médio (+13%) e o diâmetro médio (+10%) de
raízes, quando comparado à testemunha, sem cobertura.

Tabela 6.48 - Efeitos de formas de aplicação de composto orgânico e da cobertura


morta em cultivo orgânico de cenoura, no verão
~ raízes Produtividade Peso médio Diâmetro
Tratamentos
por parcela comercial (kg/ha) (g) médio (cm)
Incorporado SEM
22 a 7.769 bc 71 bc 3.1 bc
cobertura
Incorporado COM 11.281 ab 80 ab
28 ab 3.4 a
cobertura
Superficial 20 b 6 .831 c 66 c 2.9 c
Localizado 35 a 14.894 a 84 a 3.3 ab

Fonte: Souza (1996).

Na Figura 6.52, ilustra-se a cobertur~ morta c~m. casca de arroz num


consórcio de cenoura e beterraba em propriedade organica .


rta com casca de arroz - material de alta relação C/N, boa
Figura 6.52 - Cobertura modos mais utilizados em sistemas orgânicos de produção.
durabilidade no solo e um

320
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

6.8.2. COBERTURA MORTA GERADA NO PRÓPRIO LOCAL

Uma das melhores alternativas, em sistemas orgânicos de produção, é a


geração de biomassa para cobertura morta, através do manejo da vegetação
espontânea em períodos de pousio.
Na ilustração da Figura 6.53, percebe-se a camada de matéria orgânica
produzida pela vegetação local, em curto período de descanso do solo. Basta
proceder a uma roçagem desse material, deixar acamar sobre o solo por uma
semana e praticar o plantio direto de uma hortaliça.
Trata-se de um sistema barato, simples e que preserva o solo protegido a
maior parte do ano .

Figura 6.53 - Manejo da vegetação espontânea, em período; de pousio, podem


proteger o solo e gerar biomassa para cobertura morta no próprio local, a baixo custo.

6.8.3. COBE RT lLRA lHORTJ\ COM Pk\STJCO

A proteção do solo (canteiros, camalhões etc.) , com plástico, tem perm iti do
reduzi r as perdas de nitrogênio por lixiviação e volatilização, t orna ndo-o ma is
disponível às culturas. Em observações preliminares, veri ficou -se u m acréscimo
de produtividade significativo na cult ura do alho (Tabela 6.49 ) e no tomate
(Tabela 6.50), conform e apresentado adiante (SOUZA, 200 2).

321
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.49 ~ Avaliação comparativa da cobertura de canteiros com plástico preto


e oalha de omus na cultura do alho 1
Total · · ·,.;, Comercial
,r;,~-~r

N! Diâmetro Diâmetro
Peso N! Produtlvl- Peso
Tratamentos bulbos/ médio talo Razão
(kg/ha) bulbos dade méd io
amostra bulbar
(kg/ha) (g) (cm) (cm)

Plástíco preto 36b 15.025a 34a 14 .920a 43a 4,8a 0,7a 0 ,14a

Palha pínus 42a 10.990 b 30b 9.450 b 32 b 4,2 b 0,6 b 0,14a


CV.% 3,4 10,3 5,2 11,6 11,1 3,6 10,4 9,2
1
Fonte: Souza (2002).

Tabela 6.50 - Avaliação dos efeitos da cobertura de solo com plástico preto na
cultura do tomate 1

Teste (8) 580 123 37406 273736 358 19 5,!l 4.6 130 11,6 2,6 1,3

Retuçoo A/U 1,52 1,49

1 Fonte: Souza (2002).

6.9. MANEJO E CONTROLE DE ERVAS


6.9.1. MANEJO

Em sistemas orgânicos de produção, a vegetação local, muito


importante para o equilíbrio ecológic o dos Insetos, deve ser manejad
adequadamente, pois provoca perdas muito grandes de rendimento
comercial em vórias culturas.

Observando a Tabela 6.51, podemos verificar a perda de produtividade


com o aumento do interva lo de capinas, numa cultura considerada relativamente
rústica, de boa capacidade competitiva, como o taro.

322
Mé todos d e Produção para o Cultivo Orgânico d e Horta liças

Tabela 6.51 - Períodos de capina na cultura do taro em sistema orgânico de

Nº- dedos/
méd io
cabeças
(g) (cm) (c m)
15 38 a 227 18.548 a 111 8.1 5.2 6.1 a

30 34 ab 205 13.628b 92 7.2 4 .9 6.1 a


45 33 abc 127 7 .739 c 82 5.0 3 .8 3 .8 b
60 26 bcd 95 4 .945 d 70 6. 8 4.8 3 .6 b
75 23 d 70 3.548 çl 70 6 .6 5.2 3.0 b
,- 90 24 cd 68 3.217 d 64 6 .8 5 .4 2 .9 a
105 14 e 16 1.002 e 48 3.9 3 .6 0.8 c
120 12 e 6 248 e 37 4 .2 3.2 0 .4 c
Fonte: Souza (1996).

Observe que, mesmo para períodos curtos entre capinas, a perda foi
significativa, ou seja , em capinas de 15 em 15 dias, a produção de inhame foi
de 18.548 kg/ha e de 30 em 30 dias reduziu para 13.628 kg/ha.
Diante disso, sugerem-se práticas de manejo da vegetação espontânea ,
que permitam o convívio com as ervas, sem danos econômicos. Recomenda-se
a capina em faixas, desde o início do ciclo cultural (Figura 6.54) ou durant e o
ciclo da cultura (Figura 6.55), de forma a evitar a presença de ervas próx imas
à zona de raiz da cultura de interesse comercial, deixando-se uma estreita
faixa de vegetação apenas nas entrelinhas do plantio.

Para culturas que exigem a prátic a de encanteiramento, deve-s.e retirar


toda vegetação espontânea sobre o leito do c anteiro, p ara não haver
c ompetição por água, luz ou nutrientes.

- - -~ - -
- - ~ - - ~ - - ~ - - - -----=-- ~ - - - -

Entret anto, para proporcionar ambi entes que si rvam de refúgio para
predadores de pulgões, ácaros e tripes - pr incipalmente, recomenda-se a
manute nção da vegetação espontânea entre os can teiros da cult ura, co nforme
a ilustração de um ca m po de morango orgâ nico, apresentada na figura 6.56 .

323
Manual de Horticul1ura Orgânica

Figura 6.54 - Preparo mínimo do solo, em faixas, para plantio de pimentão, ;


mantendo-se os corredores de refúgio, desde o início da cultura.

Figura 6.55 - Capina manual, em faixa, na cultura de couve-flor - redução de mão


de obra, sem perda de rendimento comercial.

324
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

-~-
Figura 6.56 Manutenção da vegetação espontânea entre os canteiros -
fundamental para o equilíbrio ecológico e redução de problemas com pragas.

O emprego de sistemas de rotação de culturas olerícolas, com algumas


espécies de adubos verdes, pode retardar o crescimento de ervas espontâneas,
mantendo-as num nível populacional que permita o convívio sem danos
econômicos. Como exemplos, citam-se o feijão-de-porco como inibidor da
tiririca, por efeitos alelopáticos dos exudatos de suas raízes, e a mucuna preta ,
por efeito de 'abafamento', pelo seu vigoroso crescimento vegetativo.
A identificação de plantas que potencializam a presença de insetos benéficos
nas áreas de cultivo constitui uma medida indispensável ao estabelecimento
de sistemas sustentáveis de produção. Botelho et ai. ( 1994) associaram , em
parte, a maior abundância de parasitoides em um agroecossistema hortícola
à presença de picão-preto, no estádio de florescimento. Verificaram também
que o botão-de-ouro mostrou-se muito atrativo, tendo sido constatada alta
atividade de insetos nas flores.
De acordo com Van Emden (1963) e Root (1973), citados por Botelho
et ai. ( 1994 ), a presença de flores em áreas contíguas às culturas exerce
influência fundamental na biologia de parasitoides, atraindo-os e aumentando
seu potencial reprodutivo. Os autores ressalta ram também a import ância de
se conservar a cobertura do solo e as plantas silvestres nas área s de cultivo,
pois, além de aumentar a diversidade do ambiente, elas são valiosas para os
predadores noturnos.

325
Manual de Horticultura Orgânica
=========~~~~~==- -------,,..--------=======-
- -- /

Os maiores especialistas em controle integrado consideram o controle


biológico natural o componente mais importante dos fatores naturais de
manutenção das espécies em equilíbrio, especialmente em países tropicais,
como o Brasil, em que a diversidade de espécies é muito maior, face à pouca
variação de temperatura e ao inverno não rigoroso (DURIGAN E PITELLI, 1994).
Ming-Dau et ai. (1981), citados por esses autores, verificaram que o
.'
controle do ácaro-vermelho-dos-citros (Panonychus citri McG. ) pelo ácaro
predador, é diretamente influenciado pela presença de plantas daninhas
(Ageratum conyzoides Linn . ) florescidas durante oito meses do ano, as quais
fornecem pólen para a alimentação do inimigo natural, além de propiciar abrigo
e alterações benéficas do microclima sob a copa das plantas cítricas.
Essas plantas daninhas reduziram a temperatura do ar, durante o verão, de
40-45 °C para menos de 35°C, além de aumentarem a umidade relativa do ar.
Uma vez identificadas essas plantas benéficas ao agroecossistema, a prática
de roçadas e capinas seletivas permite o estabelecimento dessas espécies
vegetais nas áreas de cultivo. Caso essas espécies não ocorram naturalmente,
elas podem ser introduzidas nas áreas de cultivo.
Além do manejo das plantas espontâneas (e também dos adubo~. verdes),
a presença de outras espécies vegetais apresentam características importantes
para o manejo sustentável de agroecossistemas. '-'
Algumas são utilizadas para o controle de nematoides (ex. plantas dos
gêneros Tagetes - cravo de defunto, Chrysanthemum e cultivares de Ricinus
communis - mamoneira). Espécies que produzem flores vistosas e em
abundância ( ex. Hibiscus, girassol, feijão-guandu, crotalária) atraem insetos
polinizadores.

6.9.2. CONTROLE

omanejo de ervas pode ser planejado desde a fase de preparo de solo,


através da busca de conhecimento sobre o banco de sementes disponível no
local e suas características e exigências para a germinação.
Algumas espécies de ervas necessitam de 'flash' de luz para emergirem,
de forma que a aração, escarificação ou destorroamento do solo realizados no
escuro evita O estímulo luminoso necessário para a semente nascer.
Assim, pode -se lançar mão de duas a_lternativas de preparo de solo pa ra
diminuir a emergência de ervas - cobrir os implementas com lona preta quando
a operação for realizada de dia (Fígura 6.57) ou preparar o solo à noite.

326
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Horta liças

Figura 6.57 - Controle de ervas, pelo preparo do solo no escuro, com auxílio de
lona preta.

Para áreas que apresentam alta infestação de ervas invasoras persistentes,


como Tiririca (Cyperus rotundus), Trevo (Oxalis latifolia) e Beladona
(Artemisia verlotorum), o cultivo de hortaliças, especialmente em canteiros,
é extremamente dificultado em sistemas orgânicos, visto que não se permite
o emprego de herbicidas sintéticos que provocam contaminação ao meio
ambiente, principalmente ao solo e à água.
Assim sendo, o controle dessas ervas através da técnica de solarização do
solo, pode ser uma alternativa eficaz. Essa técnica consiste no uso de plástico
em cobertura sobre o solo, após ter sido preparado e saturado com irrigação,
deixando o mesmo coberto por um período mínimo de 40 dias .
Para maior eficiência de controle, recomenda-se a solarização no período
de verão em regiões de altitude (janeiro e fevereiro), uma vez que se obtêm
maiores temperaturas sob o plástico, podendo assim controlar até 100% da
população de tiririca de uma determinada área.
A solarização, realizada no período do inverno, especialmente em regiões
de altitude, não permite a formação de uma bol sa de calor intenso abaixo da
lona (acima de SOºC), não controlando eficazmente as ervas.
Observe na Tabela 6.52 que a so larização por 45 dias permitiu alcança r
temperaturas de até 54ºC sob o plástico, o que possi bilitou o controle total da
tiririca e a beladona logo após a retirada do plástico (Figura 6.58 ).

327
Manual d e Horticultura Orgânica
= = = = ~ ~ ; , ; , , g ; : ~ ~ ~ - - - = - - - c=----=---==-=""=======- / '

O acompanhamento da emergência dessas ervas até 6 meses (1 80 dias)


demonstrou ausência total para essas duas espécies (SOUZA, 2002).

Tabela 6.52 - Efeito da solarização do solo , por 45 dias, sobre o desenvolvimento


de ervas ao 0,90 e 180 dias após plantio - período do verão
- 1

-- Temp. '
(ºC) 1

o 90 180 o 90 180 o 90 18
Testemunha 3 1 2 2 1 1,5 1 1 0 ,5 34
Plástico preto o o o o 1 1 o o o 52
Plástico
transparente
o o o o 1 1 o o o 54

* O nível de infestação foi avaliado por notas de O a 3 (O = ausência; 1 = ba ixo; 2 = médio e


3 = alto) .

Figura 6.58 - Área submetida a solarização (à esquerda) e área testemunha (à


direita) - Área Experimental de Agricultura Orgânica do INCAPER - Domingos
Martins - ES.

odesenvolvimento de equipamentos para contro le mecanico ou físico


de ervas espontâneas é uma possibilidade emergente. Alguma s empresas já
dispõem de implementas para essa finalidade, conforme ilustra a Figura 6.59 ,
onde se verifica um a roçadeira de entrelinhas para cu ltivas anuais. Porém,
a carência de mais alternati vas ainda é grande. Nas Figuras 6.60 e 6.61 ,
verifica m -se ilustrações de outros eq uipamentos alternativos para controle

328
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

de ervas, que podem ser empregados em sistemas orgânicos de produção,


especialmente para projetos com maior escala de produção.
' . ,:""<:'" ·' ..1.-~~ · : • : • • •• • - ~
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~
~

-
Figura 6.59 - Roçadeira de entrelinhas apropriada para cultives anuais.
~ -

Figura 6.60 A - Controle mecânico com escarificadores.


Fonte: www.efreshg loba l. com

3'29
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.60 B - Controle mecânico por hastes (modelo 1).


Fonte: https://en.wikipedia.org

Figura 6.60 C - Controle mecânico por hastes (modelo 2).


Fonte: www.precislon -crop- protection .uni -bonn.de

330
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
"¾ = = = = = == ~,,-----,,~~~~~~~~~~~~~~,;,,,,== == =~

Figura 6.61 - Controle físico de ervas, com fogo, alimentado por sistema de
injeção de gás. Sistema manual (A). Sistema acoplado a trator (B).
Fontes: https ://johnnystooldude. blogspot. com . br
https ://holcombfarmcsa. blog spot. com . br

331
Manual de Horticultura Orgânica
---,.. /

O controle de muitas espécies pode ser rea lizado de forma m anual ou


mecanizada, dependendo das características da atividad e de produção
envolvida. Também pode ser realizado, utilizando-se implementas alternativos
- alguns já disponíveis no mercado.

, - A

6.10.AGUAE IRRIGAÇAO EMSISTEMAS ORGANICOS

Antes de mais nada, a questão da água deve ser vista de forma ampla,
entendendo a sua distribuição no planeta e compreendendo a importância
capital que representa a preservação da Qualidade e da Quantidade das
reservas de água doce, que são muito menores que as de água salgada, e
encontram-se em situação de risco em muitas regiões (Figura 6.62).

f> Água potável nas


e 2,45% calotas polares e nas
geleiras
e 0,32%
S Água dos lençóis
subterrâneos, lagos,
rios e atmosfera

O Água de mares
(salgada)

Figura 6.62 - Distribuição relativa global da água no planeta terra.


Fonte: Eggers e Mortari (2000).

6.10.1. QUALIDADE DA ÁGUA

A qualidade da água para irrigação em propriedades orgâni cas deve ser a


primeira preocupação na atualidade, devido à poluição das fontes de superfície,
por resíduos industriais (metais pesados, cloro, fenóis, álcalis e outras substâncias
químicas), por resíduos municipais (e;g~to e lixo ~r~ano), _e por resíduos agrícolas
(agrotóxicos, nitratos de adubos soluve1s, matena1s feca is etc.).

332
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

As águas subterrâneas também estão sendo poluídas, principalmente por


herbicidas, nitratos e materiais fecais. Águas poluídas, com excesso de sais e
coliformes fecais são de uso proibido em agricultura orgânica.
Portanto, recomenda-se:

• utilizar águas de fontes não contaminadas, tanto de superfície como


subterrânea;
• inspeções e análises de qualidade devem ser feitas sempre que
houver suspeita de contaminação;
• proteger mananciais, pela preservação da cobertura vegetal natural;
• proteger lagos, represas e rios contra resíduos e contra agrotóxicos
trazidos pelo vento de áreas convencionais próximas e por enxurradas, que
também podem carrear resíduos de adubos químicos e materiais fecais.

6.10.2. QUANTIDADE DE ÁGUA

Pelo severo processo de desmatamento realizado décadas atrás, associado


à grande perda de biodiversidade nos agroecossistemas, o volume de água
tem diminuído substancialmente, tornando-se um fator crítico em algumas
regiões do Brasil. Em propriedades orgânicas, recomenda-se adotar o sistema
de caixas secas em estradas e carreadores, como forma de:

•controlara erosão;
• conservar estradas e carreadores;

• retardar o escoamento superficial e aumentar a infiltração das águas


das chuvas;
• evitar assoreamento de leitos de rios e lagos;
• reintroduzir essa água no lençol freático; e
• disponibilizar essa água para manutenção das nascentes durante 0
ano todo, proporcionando estabilidade na vazão.

o sistema de caixas secas inicia-se com um diagnóstico das estradas


que servem a propriedade, fazendo uma medição da extensão, largura , e
porcentagem de inclinação. Com esses dados, mais a precipitação média e
a probabilidade de chuvas pesadas na região, calcula -se a distância entre as
caixas e o tamanho das mesmas .

333
Manual de Horticultura Orgânica
= = = = = = = ==~,;;;,,;;;,;:..=-== ~ ----,,,---=------,-=---=e---==---- - --== = = =-= - / '

O passo seguinte é a localização das ca ixas nas estrad as da pro priedade,


e, em seguida, a escavação com máquina tipo retroesca vad eira . A t erra que é
extraída dos buracos pode ser utilizada dentro da estrada pa ra criar grandes
lombadas, as qua is servem de barreira para a água , desviando a mesma para
serem coletadas nas caixas. O princípio de ação do sistem a de caixas secas é
não deixar a água ganhar volume e nem velocidade .
Medidas de amplitude regional (como a recomposição da cobertura vegetal,
especialmente com reflorestamento) e medidas bem específicas (como o
sistema de irrigação) podem auxiliar num balanço quantitativo mais favorável,
pela maior entrada e pela maior saída de água do sistema, respectivamente.

6.10.3. lruuGAÇÃO

Quanto aos métodos de irrigação a serem empregados, de maneira geral


o sistema de irrigação por aspersão se aplica para a maioria das espécies
hortícolas cultivadas organicamente. Entretanto, para culturas como a Batata
e o Tomate, que são sensíveis a doenças foliares causadas por fungos,
principalmente a requeima, torna-se necessário empregar irrigações por
infiltração (sulcos ou mangueiras) ou por gotejamento, uma vez que se evita
molhar as folhas e se diminui a umidade relativa no ambiente, conseguindo-
se, assim, diminuir bastante a multiplicação de doenças foliares, aumentando
a produção da cultura (Figura 6.63).

Observações em campos de produção orgânica de hortaliças têm


demonstrado que pequenas variações na umidade relativa do ar (2%
a 3%) dentro da lavoura, tem alterado significativamente o nível de
infecção da mancha púrpura do alho (Alternaria porri) e da requeima
do tomate (Phytophthora infestans).
- ~
-
- -~ - -- - - - - - - - -

334
Mé todos de Produç ão para o Cultivo Orgânic o de Hort a liças
"""""'"========--=-- - __.:..:~~~~~~~ ~~~~~~,,;;,;,g,;;,,=========

Figura 6.63 - Irrigação por aspersão em propriedade orgânica do Sr. Almerindo


Uhlig, município de Santa Maria de Jetibá/ES (1 ). Irrigação por infiltração realizado
por mangueiras na cultura da batata .- redução ~e problemas fitossanitários, na Área
Experimental do INCAPER em Domingos Ma_ rt,_~s~ES (2). Irrigação por gotejamento
em cultivo orgânico de ervilha, na fazenda Luiziarna - Entre Rios de Minas/MG (3).

335
Manual de Horticultura Orgânica

~~ra fav,?r~cer a biodiversidade vegetal, a dinâmica da decomposição da


m~tena org~nica e o aumento da atividade biológ ica no solo, sistemas com
m1cr~a:persao P?d~m ser mais eficientes que o gotejamento, dependendo da
cond1çao edafocl1matica local e da cultura envolvida.

6.11. MANEJO E CONTROLE ALTERNATIVO DE


PRAGAS E DOENÇAS EM HORTALIÇAS

6.11.1 . .MANEJO DO SISTEMA PRODUTIVO

Em agricultura orgânica, o que se busca é o estabelecimento do equ ilíbrio


ecológico e a prevenção de problemas fitossanitários, através do emprego das
técnicas que foram descritas antes, como:

• a escolha de espécies e variedades resistentes;


• manejo correto do solo;
• a adubação orgânica, com fornecimento equilibrado de nutrientes
para as plantas;
• manejo correto das ervas nativas;
• a irrigação bem feita;
• uso de rotação e consorciação de culturas; e
• indução de resistência a pragas e doenças.

De acordo com o Dr. José Lutzenberger, na Argentina, o abandono da


agressão mecânica ao solo, o uso de quebra-ventos, para melhorar o microcl ima
no pomar ou viveiro, e tratamentos com fungicidas cúpricos foram suficientes
para os citricultores conviverem com a bactéria Xanthomonas citri, causadora
do cancro-cítrico. De acordo com esse autor, o melhor controle de pragas é
obtido com O manejo orgânico do solo e um conjunto de práticas que deem à
planta condições propícias para um desenvolvimento são, pois a praga não é
inimigo arbitrário, é um indicador biológico.
A presença de um agente patog~nic_o na pla_n ta ra~amente resulta em
doença, se não houver condições fa vorave1s ao patogeno. O conhecimento das
condições básicas para que ocorra doença em plantas em caráter epidêmico
como hospedeiro suscetível e cu ltivado em grande extensão, presença de

336
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
-=

grande quantidade de inóculo do patógeno na área e de raças virulentas do


patógeno e ambiente favorável a infecção e que deve persistir por vários ciclos
de vida do patógeno constituem a base para o estabelecimento de esquema de
controle integrado de fitopatógenos.
O sucesso no controle da maioria dos agentes bióticos requer conhecimento
detalhado do ciclo de vida de cada organismo envolvido, de seu comportamento
na planta e do efeito dos fatores do ambiente na interação entre patógenos e
hospedeiro (ZAMBOLIM et ai., 1997).

A disseminação da praga sobre uma planta ou em toda uma


plantação indica que houve erro nos métodos de cultivo: solo
desestruturado, sem vida, esgotado; adubação errada; cultiva res
inadequados para o macro e microclima local; problemas de
alelopatia; incompatibilidade de enxerto; e muitos outros fatore s,
especialmente intoxicação com pesticidas.

Segundo Chaboussou (1987), os agrotóxicos alteram a bioquímica das


plantas e aumentam a suscetibilidade delas ao ataque de pragas e doenças.
Os predadores e os parasitoides têm o crescimento de suas populações
dependente da disponibilidade de presas ou hospedeiros, apresentando,
portanto, uma colonização mais lenta que os herbívoros.
As capinas seletivas e a manutenção de áreas com ervas têm a finalidade
de manter as populações de inimigos naturais em níveis mais elevados no
ambiente de cultivo, acelerando sua atuação no controle de herbívoros.
A presença de flores, pólen e néctar não só fornece complemento alimentar
para os inimigos naturais, como também atrai outros herbívoros que servem
como hospedeiros e presas alternativos, contribuindo para O controle biológico.
Por outro lado, é evidente que a manutenção de ervas dentro ou próximo
das áreas em produção requer conhecimentos do potencial de interferência
de cada espécie, de modo a saber quando, onde, em que densidade e quais
espécies podem ser mantidas sem perdas significativas de produção comercial
(SANTOS, 2005).
Confirmando a elevada estabilidade e reduzidos problemas fitossanitários
em sistema orgânico, observa~õ~s realizadas por Souza (2002) permitiram
comprovar que a grande ma,ona das pragas e doenças que atacam as

337
Manual de Horticultura Orgânica

hortaliças, comuns em sistemas convencionais 1 não se manifestam em nível


de dano econômico no sistema orgânico.
Para as pragas, podemos citar como exemplo de problemas superados pelo
próprio sistema: pulgões em repolho, ácaro do chochamento em alho, broca do
fruto em abóbora, ácaro em batata baroa, pulgões em batata, dentre outros.
Para as doenças, a Tabela 6.53 comprova a grande estabilidade de
sistemas orgânicos, revelando a expressiva redução dos problemas com
doenças fúngicas, bacterianas e viróticas, de possível ocorrência nas principais
espécies hortícolas (SOUZA, 2002).

Tabela 6.53 - Monitoramento de doenças de hortaliças e nível de incidência, em


sistema orgânico de produção, ao longo de 1O anos
Incidência _____ 1
Cultura Doença/ patóge no

Antracnose - Colletotrichum orbiculare


Crestamento bacteriano - Xantomonas sp.
Crestamento gorroso do caule - Didymella bryoniae
1• •··
X
X
X
Mancha de Itemaria - Jternaria sp. X
Mancha foliar - Rhagadolobium cucurbitacearum X
Mancha zonada - Leandriamo mordfcae X X
Míldio - Pseudoperonospora cubensls X X
Abóbora Mosaico - Vírus do mosaico do pepino X
Oídio - Eurysiphe cichoracearum X X
Podridão dos frutos - Phytophthora capsici X
Podridão dos frutos - Pythium sp. X
Podridão mole - Erwinia sp. X X
Podridão preta dos frutos - Diplodia sp. X
Podridão seca dos frutos - Fusarium sp. X
Tombamento - Fusarium sp. X
Bacteriose - Pseudomonas f/uorescens biovar II X
Ferrugem - Puccinia allii X
Mancha purpura - Alternaria porrl X X
Mofo ou bolor cinzento no armazenamento - X
Penlci/llum sp.
Mosaico _ v frus não caracterizado X
Alho
Ne matolde - Dity/enchus dlpsacl X
Podridão branca _ Sclerotlum cepívorum X
Podridão sec a - Fusarlum sp. X
Podridão de Sc lerot lnia - Sclerotfnias clerot forum X
Quei ma das pontas - Botrytls sp. X

338
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
,,,,,.

... Continuação da Tabela 6.53


Incidência
C ultura Doe nça / pa t'
oge no

Canela preta ou talo oco - Erwinia carotovora X X

Enrolamento das folhas - Vírus X X


Mosaico leve - Vírus A da batata X X
Mosaico rugoso - Vírus Y da batata X X
Murcha bacteriana - Ralstonia solanacearum X X
Murcha ou podridão de Sclerotium - Sclerotium X
rolfsii
Ne mato ides- Meloidogyne sp. X
Pinta preta ou mancha de Alterna ria - X X
Alternaria solani
Batata
Podridão mole - Erwinia carotovora X
Podridão seca ou podridão de tubérculos - X
Fusarium sp.
Requeima ou mela - Phytophthora infestans X X
Rizoctoniose - Rhizoctonia solani X X
Roseliniose - Rose/tinia sp. X
Sarna comum - Streptomyces scabies X X X
Sarna pulverulenta Spongospora subterranea X
Vírus S da batata X X
Vírus X da batata X X
Crestamento bacteriano - Xanthomonas
campestres pv. Arracacie X X
Mancha foliar- Septoriasp. X
Mancha foliar Cercospora arracacina X X
Batata- Murcha; Podridão de raízes Sc/erotinias
clerotiorum X X X
Baroa
Nematoides Me/oidogyne sp. X X
Podridão Sclerotium rolfsii X
Podridão de raízes - Rosel/inia sp. X
Podridão mole - Erwinia sp. X
Ferrugem branca Albugoipomoeae-
Batata- X
panduratae
doce
Podridão preta Ceratocystis fimbriata X
Mane ha foliar Cercospora beticola X X
Beterraba Nematoide Meloídogyne sp. X
Tombamento - Rh izoctonia sp. X
Cresta mente ou queima bacteria na
Xanthomonas campestris pv. Carotae X X
Nematoldes - Me /oidogyne sp. X
Cenoura Podridão de raízes pós- colheita Rhizopus sp. X
Podridão mole Erwinia carotovora X X
Queima das folhas - Alternaria davc/ X X X
Queima das folhas - Cercospora carotae
X

339
Manual de Horticultura Orgânica

.. . Continuação da Tabela 6.53


. - -
-- - _ ,..,. -- ~-· -.
- .
r:. .- '
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:, ra•i: :~
Cultura
- Doença/patógeno· ·
\.' .
.,,. .
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4 .. ...
1
Nu la
- - ... ., ....
Mancha de Altemária - Alternaria sp. X X
Mancha de Mycosphaerella- Mycosphaerella sp. X X
Míldio - Peronospora parasitica X
Mosaico - Vírus do mosaico da couve-flor X
Oídio - Oidium sp. X
Couve-flor
Podridão de Sclerotinia - Sclerotinia sclerotiorum X X
Podridão mole - Erwinia sp. X X
Podridão negra das Crucíferas - Xanthomonas
X X
campestris pv. Campestris
Tombamento - Rhfzoctonia sp.; Pythium sp. X
Inhame Podridão de rizoma e raízes - Rosellinia sp. X
Antracnose - Colletotrichum sp. X
Mancha angular - Xanthomonas fragariae X
Mancha de Dendrophoma - Phomopsis obscurans X
Mancha de Diplocarpon - Diplocarpon sp. X
Mancha de Mycosphaerella - Mycosphaere/la X X
Morango fragariae
Mosqueado - Vírus do mosqueado do morangelro X
Murcha de Vertlcilllum - Verticilllum sp. X
Nematoides- Meloídogyne sp. X
Podridão do fruto - Botrytiscinerea X X
Antracnose - Colletotrlchum sp. X
Mancha angular - Pseudomonassyr/ngaepv. X
lachrymans

Pepino
Mancha zonada - Leandriamomordicae X X
Míldio - Pseudoperonospora cubensis X X
Mosaico - Vírus do mosaico do pepino X
Oídio - O/dium sp. X X
Amarelo do pimentão - Vírus do broto crespo do X
tomateiro
Antracnose - Coletotrichum gloeosporioides X
Mancha de Altemária - Alternaria sp. X
Mancha bacteriana - Xanthomonas campestres pv. X X
Vesicatoria
Mancha de Stemphylium - Stemphyllum sp. X X
Mosaico - Vírus Y da batata X
Pimentão Murcha ou requeima - Phytophthora capsicl X
Murcha bacteriana - Ralstonla s olanacearum X X
Nematoldes - Meloldogyne s p. X
Podri dão de SclerotJnl a - Scl erotlnla sclerotlorum X
p odridão do colo e raízes - Sclerotlum rolfs/1 X
T alo oco e podndão mole - Erwln la carot ovora X X
s ubsp. Carotovora
Mancha êlngul ar - Xanl.homona s aun pestrls pv. esculentl X

340
M é todos de Produç ão para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

... Continuação da Tabela 6.53


:11 ,,r;- ,
- :.l r91 F.1 ....,;,._ 1...... ..,,._

1- 11• 'l lf":I: 1• • . ..-.. , r. ( , • :.


- 1 Nula 1 Baixa I Média 1 Alta
Mancha foliar - Ascochyta sp. X X
Murcha de Fusarium - Fusarium oxysporum X
Murcha de Verticillium - Verticiflium sp. X
Quiabo
Nematoide - Meloidogyne sp. X X
Oídio - Erysiphe cichoracearum X X X
Tombamento - Rhizoctonia sp. X
Mancha de Mycosphaerella- Mycosphaerella X X
brassicico/a
Mancha foliar - Aternaria brassicae X X
Míldio - Peronospora parasitica X X
Podridão de Sclerotinia - Sclerotinia X
Repolho
sclerotiorum
Podridão mole e talo oco - Erwinia sp. X X
Podridão negra das Cruciferas - Xanthomonas X
campestris pv. Campestris
Tombamento - Rhizoctonia sp. X
Broto crespo - Vírus do broto crespo do X
tomateiro
Cancro bacteriano - Clavibacter michiganensis X
subsp. Mlchiganensis
Mancha de Stemphyllum Stemphy/ium sp. X X
Mancha foliar - Septoria lycopersici X X
Mofo cinzento - Botrytis cinérea X
Mosaico com..im - Vírus do mosaico do X
tomateiro
Murcha de Fusarium Fusarium oxysporum f. X
sp. lycopersfcf
Murchadeira ou Murcha bacteriana Ralstonia X
solanacearum
Murcha de Verticilllum Verticilfium sp. X
Nematoide -Me/ofdogyne sp. X X
Tomate Oíd io - Oidfum sp. X
Pinta bacteriana ou mancha bacteriana pequena X
- Pse udomonas syringae pv. tomato
Pint a preta ou mancha de Alternária - X X
Alternar ia solan l
Podridão de Sclerotlnla Scler otln la X
se lerot for um
Podridão de Sc lerot ium - Sclerot fum rolfs/1 X
Podridão mole dos frutos e t alo oc o - Erw inia X
carotovora
Pústula ou manc ha bact eriana - Xont homona X
campestrfs pv. Veslcat orla
Re que ima ou me la - Phytophthora p. ; Pyth1um X X
sp.
Topo arrare lo Vírus do t opo amarelo do X
torrat elro
v ,ra cab ça Tospovlrus ser aract rizado X

Font . Souza, 2002.

341
Manual de Horticultura Orgânic a

6.11.2. INnu çAo DE RESISTÊNCIA A PRAGAS E DOENÇAS

Após a adoção das estratégias de manejo do sistema produtivo, visando a


sua maior estabilidade ecológica, medidas adicionais de indução de res istência
a pragas e doenças podem ser necessárias.
Dentre as estratégias, destacamos o uso de silício em pó, para indução de
resistência das plantas ao ataque de pragas, e o uso de fosfitos para indução
de resistência a doenças.

SILÍCIO EM PÓ

A pulverização de solução de silício em pó, na concentração de 1 a 2%,


pode auxiliar no aumento da dureza dos tecidos das plantas e dos produtos
em pós-colheita, reduzindo ataque de pragas e aumentando a conservação em
pós-colheita. Um dos trabalhos clássicos nesta linha refere-se ao aumento da
resistência do milho ao ataque da lagarta-do-cartucho Spodoptera frug iperda.
Em trabalho realizado por Goussain (2001), em sua tese de mestrado,
publicado em artigo em 2002 (GOUSSAIN, 2002), comprovou-se o grande
dano provocado pelos tecidos das plantas pulverizadas com silício, sob re as
mandíbulas de lagartas de S. frug iperda em 6° insta r, conforme ilustrado na
Figura 6.64 A.

Figura 6.64 A _ Mandíbulas de largartas de S. ~rugi~erda e_m 6° in~t~r, em plantas


sem aplicação de silício (esquerda) e com apllcaçao de s11iclo (d1re1ta).
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Esse potencial deve ser avaliado pelos agricultores orgânicos em várias


culturas, ajustando a conce ntração adequada para cada tipo de praga. Como
exemplo, Melo (2013) verificou que a pulverização foliar de silício reduziu a
viabilidade dos ovos de mosca branca em crisântemo, podendo ser uma medida
auxiliar no manejo integrado dessa praga em cultivas comerciais.
Agricultores orgânicos já estão utilizando produtos comercias que
contenham silício, para auxi liar na proteção das hortaliças à incidência de
doenças, como ilustrado na Figura 6.64 B, mostrando plantas de morango
orgânico que receberam a aplicação foliar com um produto à base de silício.

Figura 6.64 B - Plantas de morango orgânico pulverizadas com solução de silício.

FosFITos

Existem atualmente muitos trabalhos que comprovam a eficiência de


diversos tipos de substâncias na indução de resistência das plantas à incidência
de doenças. Dentre estas, os fosfitos (fosfato de potássio, de cobre, magnésio,
entre outros) ocupam lugar de destaque, auxiliando na redução de muitas
doenças de plantas.
Os fosfitos agem por indução de resistência nas plantas, geralmente
por meio da produção de substâncias de defesa, como as fitoalexinas. No caso
da uva, as fitoalexinas mais conhecidas, que induzem as plantas a uma maior
sanidade contra o míldio, são a e-viniferina (fitoalexina predominante nas

343
Manual de Hortic ultura Orgânica
============="""====~--=--=--==-=--==--===-- ==,---------,=--=========-- ~

uvas europeias V. vin iferas ) e o res veratrol (fitoalexina predo mi na nte em uvas
americanas Vit is spp .), segundo Dercks e Creasy ( 1989).
PEREIRA (2009) e PEREIRA et ai . (20 10), ava liando a eficiência de
fosfitos (fosfat o de potássio e de cobre ) no con t rol e da incidên cia do m íldio da
videira , cv. Merlot, rel ataram que os fosfitos ava liados no ca mpo, em folhas
e cachos, proporcionaram proteção ao míldio semelhan te ao tratamento com
fungicida, não afetando a qualidade analítica das bagas. Relataram, ainda,
que os fosfitos, em casa de vegetação, proporcionaram menor incidência da
doença nas folhas da videira, além de apresentarem toxidez direta, inibindo a
germinação de esporângios.
No Brasil, a maioria dos trabalhos tem sido com a videira, mas existem
diversos outros estudos que comprovam eficiência de substâncias indutoras de
resistência, inclusive os fosfitos, em culturas como o café, abacaxi, cacau, mamão,
maracujá e outras, tanto em campo como para proteção de frutos em pós-colheita
(RIBEIRO et ai., 2006; RESENDE, 2007; LOPES, 2008; CAMILO, 2009).
Em sistemas orgânicos de produção, uma das doenças mais limitantes da
cultura do tomateiro é a requeima ou mela, causada pelo fungo Phytophthora
infestans. Tõfoli et ai. (2012) avaliaram o efeito de diversos fosfitos de potássio,
de forma isolada e associada a fungicidas, visando ao controle da requeima
do tomateiro. Verificou-se que a aplicação de 300 g L-1 de fosfito de potássio
associado a clorotalonil, metalaxil-M + mancozebe e propamocarbe foi mais
eficiente que o uso isolado desses produtos. Na comparação de uso isolado de
fosfito de potássio nessa dose, com a testemunha, verificou-se uma redução
aproximada de 25 % da área foliar afetada .

...
A utilizdção de fosfitos pode ser feita d e d ua s maneiras: produzindo o
fosfito na propriedade, p or meio d a carbonização de casca de arroz,
juntamente com farinha de o sso e fosfato natura l o u adquirindo o fosfito
comercialmente, pois já existem m uitas marcas no mercado. Nesse
segundo caso, a certificadora deve ser consultada para autorizo ão e
forma de uso.

É importante destacar que a indução de resistência ocorre de form a


mais intensa nos tecidos novos da planta. Assim, as pulverizações devem ser
preventivas e mais direcionadas para as folhas novas da cultu ra.

344
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

6.11.3. M ANEJO INTEGRADO (ou ECOLÓGICO) DE PRAGAS E


DOENÇAS

Vale lembrar que, antes de se lançar mão de métodos alternativos de


controle, o emprego dos princípios e conceitos convencionais do MIPD-Manejo
Integrado de Pragas e Doenças, também conhecido como MEPD-Manejo
Ecológico de Pragas e Doenças, pode auxiliar de forma marcante na definição
das práticas de manejo e controle em sistemas orgânicos.
A maioria dessas práticas é recomendada ou plenamente aceitável pelas
normas técnicas de produção vigentes no país. Observe, por exemplo, algumas
táticas do controle integrado da murcha bacteriana das solanáceas, causadas
por Ralstonia solanacearum, e sua importância relativa, na Tabela 6.54.
Verifique que praticamente todas elas estão em plena conformidade com as
normas técnicas de produção orgânica.

Tabela 6.54 - Importância relativa de medidas de controle da murcha bacteriana


das solanáceas, causada por Ralstonia solanacearum
Medida de controle · - .;; :- v ·aloi relatiyp;J ,:. 1
----~~!"' ...
- - -- - - - --· ~ - - ------ . ' - ____J
Solo livre do patóg eno 7
Solos su pressivos 4
Rotação da cultura 4
Resistência ou tolerância 3
Material propagativo sadio 3
Época de plantio 3
Clima frio 2
Evitar disseminação por água de irrigação 2
Controle de nematoides 2
Aquecimento do solo 2
Roguing de plantas doentes 2
Desinfestação de ferramentas e equipamentos 2
Solarização 1
Cultivo mínimo 1
Incorporação de resíduos orgânicos 1
* Val?r relativo baseado numa escala de 1 a 7, em que 1 signi fica medida de pouco va lor e 7
m edida de valor multo alto.
Fonte: French ( 1994 ), citado por ZAMBOLIM ( 1997).

345
Manual de Horticultura Orgânica

6.11.3 .1. MANEJO INTEGRADO ( OU CCOLÓGICO) DE DOENÇAS

Embora uma doença específica possa, em certos casos, ser controlada por
uma única medida de controle, a complexidade de fatores envolvidos requer
o uso de mais de um método para alcançar controle adequado da mesma.
Daí a necessidade de concentrar esforços visando combinar várias medidas
e vários métodos de controle, quer sejam físicos, mecânicos, culturais,
genéticos, legislativos, químicos (à base de cobre, enxofre etc.) e biológicos,
para que se obtenha otimização na redução de intensidade das doenças e,
consequentemente, seja alcançado o máximo em produtividade, sem reflexos
negativos no meio ambiente.
Na Tabela 6.55, são apresentados os princípios de controle de doenças em
hortaliças, com as principais medidas e seus efeitos epidemiológicos. Verifica-
se que algumas medidas atuam sobre o inóculo inicial, outras sobre a taxa de
desenvolvimento da doença e algumas sobre ambos. Algumas medidas atuam
também sobre o tempo, como, por exemplo, antecipando ou retardando o
plantio ou a colheita, para fugir à doença.

portante: A aíorio dos medidas descritas são aceitas pelas


o _jcras, estarem de comum acordo com as normas técnicas
e "Od ç-o o~ ôn·ca. Outros princípios apresentados são de uso
p ·b do e não · e e ser usados, necessitando, portanto. estar atento
0 momen o o de nição da estratégia de manejo a ser adotada.

Assim, pode-se dizer que o controle int:grado de doenças de hortaliças


nada mais é do que estabelecer uma estrategia de controle de doenças que
envolva todos os conhecimentos relacionados com o processo infeccioso e o
desenvolvimento da doença.
Para isso, pesquisadores, técnicos e agricultores d~vem estar atentos aos
efeitos dos fatores do ambiente sobre as doenças e conscientes da necessidade de
saber escolher os métodos de controle mais adequados, econômicos e eficientes.

0 agroecossistema precisa ser preservado, e é de fundamental importância


que as medidas de controle contemplem esse objetivo.

6
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Tabela 6.55 - Princípios e medidas de controle de doenças que se aplicam às


hortaliças e seus principais efeitos epidemiológicos

inicial Taxa Tempo


(r) (t)
(Xo)
Inspeção e certificação de sementes e mudas +
Quarentena e barreira +
Tratamento químico e térmico de sementes e mudas +
Exclusão Desinfestação de máquinas, bandejas de isopor para +
sementeira, implementes e ferramentas destinadas a
podas
Emprego de sementes e mudas sadias +
Indexação {cultura de tecido) +
Eliminação e queima de restos culturais +
Eliminação de hospedeiros principais e/ou alternativos +
Eliminação de plantas doentes "roguing" + +
Emprego de plantas armadilhas e antagônicas a +
nematoides
Poda de ramos doentes + +
Aração visando enterrio de restos culturais doentes +
Emprego de fungicidas erradicantes +
Emprego de nematicidas
Erradicação ----'--:~ :-----:-:---------- - - -- -- -
+
........;_ _ _ _ _ _ _ _ _-J
Rotação de culturas +
Inundação do solo +
Tratamento do solo (biológico , térmico, químico) +
Solarização +
Tratamento de sementes e mudas (térmico e +
fungicidas erradicantes)
Desinfesta ção de embalagens, equi pamentos e de +
armazéns
Elimina ção de patógenos pela cultura d e tecidos +
Te rmote rapla (calor) +
Terapia Quimioterapia (fung icida s slstêm i cos) +
Poda de ramos doentes +
Resi stência vertical +
Resi stência horizo ntal + +
Resistência Resistência Induzid a pe la nutrição +
Resi stência por qui miot erapi a + +
Fu sã o de pro to pl asto s + +
Proteçã o cru zada ( pre -lmu nl zação) + +
Tra tament o químico de sem ente, mud as e +
se m enteiras ( su bst r ato ).
Proteção Pulv erizaçã o com f un gicidas +
Co ntrole de Inse to s v t or es
+
Tr atame nt o pós-colheita (qulmi o e b io lóg i co )
+

347
Manual de Horticultura O rgânic a

... Continuação da Tabela 6.55

in icial Taxa Tempo


( r) ( t)
( Xo)
Escolha de área e, ou local de plantio + + +
Escolha da época de plantio + + +
Modificação do ambiente por práticas culturais + +
Armazenamento de sementes, hortaliças e frutos + +
em ambientes modificados (refrigeração)
Plantio em locais de altitude maior que 1.000 m, + +
para fugir de insetos vetores
Escape Sementes com alto vigor + +
Profund idade de plantio +
Emprego de cultivares decido precoce + +
Cultivares em arquitetura ereta +
Espaçamento e número adequado de plantas por +
área
Cultivares com maior teor de cera nas folhas, com +
frutos ma is distantes do solo bem protegidos
Fonte: Whetzel (1929); Chaves (1966); Zadoks e Schein ( 1979 ); Kimati e Bergamin Filho
(1995), citados por ZAMBOLIM et. ai. (1997).

As perdas que as doenças causam às hortaliças variam com uma série de


fatores, dentre os quais citam -se o clima e a suscetibilidade das variedades e
do patógeno.
No Manejo Integrado das Doenças (MID) de hortaliças, além desses
fatores, é importante considerar também:

• O modo de transmissão do patógeno (sementes, mudas).


• A forma de sobrevivência do patógeno (clamidosporos, escleródios,
oósporos, cistosoro, cistos, massa-de-ovos, juvenis de fitonematoides,
micélio, células bacterianas em solo, em restos culturais, em plantas
daninhas e em partes da planta) .
• A maneira pela qual o patógeno é disseminado (mudas, sementes,
bulbilhos, água de irrigação e tipo de irrigação; respingos de chuvas e
água de enxurrada; vento; implementas agrícol as; insetos como pulgão,
tripes, mosca- branca e ciga rrinha ; solo Infestado; restos culturais) .
• As condi ções favoráveis ao surgimento da doença (planta suscetível,
t emperatura , umidade re lativa, umid ade do solo, tipo do sol o, chuva, pH
do solo, defi ciência de nutrientes e densidade de plantas).

348
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Horta liças

As condições favoráveis ao desenvolvimento da maioria das doenças


fúngicas e bacteri anas que atacam a parte aérea das hortaliças são: alta
umidade relativa, chuva e temperatura entre 18ºC e 25ºC. Além disso, há
que considerar a densidade de plantas por área, o tipo de irrigação (aspersão,
infiltração), a quantidade de água de irrigação e a forma e quantidade de
nutrientes. Para fungos, bactérias e nematoides do solo, há de se considerar
o pH e o tipo de solo, o teor de matéria orgânica, os nutrient es, a umidade
e a temperatura do solo. A disseminação das doenças causadas por vírus em
hortaliças depende da presença do vetor, de hospedeiros cultivados ou silvestres
e das condições do ambiente, como, por exemplo, da chuva, tempe ratura,
luminosidade e altitude.
Conforme discutido anteriormente, em sistemas orgânicos de produção,
o uso e a reciclagem constante de matéria orgânica permitem minimizar
problemas fitossanitários de forma significativa.
Os resultados contidos nas Tabelas 6.56 e 6.57, comprovam, mais uma
vez, essa afirmativa, de forma científica.

Tabela 6.56 - Efeito de Composto de Palha de Café (CPC), Composto de Lixo


Urbano (CLU), Composto de Casca de Eucalipto (CCE) e Vermicomposto (VER)
no peso da matéria seca da parte aérea do tomateiro e no número de galhas e
massa de ovos de Meloidogyne javanica (Mj)
Peso da matéria Galhas por Massa de Galhas por
seca do planta 1 ovos por planta 2
Substrato
tomateiro ( g) planta

Solo+ Mj 1861.80 a 110.82 bc


Solo - Mj 103.43 a Ausente Ausente Ausente
CPC + Mj 117.61 a 103.40 e 59.00 e 58.80 e
CPC - Mj 104.40 a Ausente Ausente Ausente
CLU + Mj 96.46 a 1853,80 a 1945.60 a 134.00 bc
CLU - Mj 84.62 a Ausente Ausente Ausente
CCE + Mj 100.00 a 1581.00 a 1787.75 a 284.01 b
CCE - Mj 107.68 a Ausente Ausente Ausente
VER+ Mj 105.40 a 1053.02 b 815.00 b 484. 22 a
VER - Mj 103. 20 a Ausent e Ausente Ausente
* Médias seguidas da m esma let ra na coluna n ão diferem entre si, a 5% de probabilidade, pelo
teste de Tukey.
1
Núm ero de galhas e massa de ovos por planta, 60 dias após o primeiro transplante.
1
Número de galhas por planta, 40 dias após o segundo tra nsplante.
Fonte : Zam bolim et ai. ( 1996) .

349
Manual de Horticultura Orgânica

Tabela 6.57 - Efeito do Composto de Fazenda (CF) , Vermicomposto (VER) e


Composto de Palha de Café (CPC), misturado ao solo (1: 1), sobre o peso da
matéria seca da parte aérea do tomateiro e no número de galhas e massa de
ovos de Meloidogyne javanica

Solo 133. 64 b 4631.51 a 2475.72a


CF 138. 37 b 569. 20 c 320. 40 b
VER 222.48 a 2311.00 b 2448.56 a
CPC 97.58 c 77.99 c 77.14 b
* Médias seguidas da mesma letra na coluna não diferem entre si, a 5% de probabilidade, pelo
teste de Tukey.
Fonte: Zambolim et ai. (1996) .

Além da relação com a matéria organica, as doenças apresentam uma


estreita correlação com os nutrientes foliares e do solo.
Souza e Ventura (1997), estudando níveis foliares de nutrientes, na cultura
da batata, identificaram correlação significativa com a incidência de requeima
provocada pelo fungo Phytophthora infestans. O estudo confirmou correlação
positiva com alto nível de significância para nitrogênio e fósforo, e correlação
negativa para cálcio e boro.
Tratando-se das doenças em pós-colheita em hortaliças, há que se considerar
a temperatura e a umidade relativa. Entretanto, tais doenças estão relacionadas
ao tipo de manejo da cultura no campo e aos cuidados que devem ser tomados
na colheita, no transporte e no armazenamento. Injúrias de qualquer natureza
(mecânica, queima por sol e frio) durante essas fases constituem as principais
causas das doenças em pós-colheita (ZAMBOLIM et ai., 1997).
Todos esses fatores citados, aliados a tantos outros, podem interagir
harmonicamente num agroecossistema orgânico, permitindo reduzir a
manifestação de pragas e doenças, minimizando de forma segura as
possibilidades de perdas nas culturas comerciais .
Observe, na figura 6.64 C, os variados fatores do ambiente, do manejo
e de métodos alternativos, que podem interferir na incidência de pragas e
doenças, proporcionando plena segurança aos que desejam se iniciar nesse
modelo de produção .

350
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
,, = = = = = - = - - - ~ ~~~~~~~~~~~=====

Diversificação e
Rotação cultural
equilíbrio ecológico

Inundação do
Tratamento biológico solo
do solo

Variedades
Matéria orgânica
(Antagonismos,
resistência induzida, etc.)

" Roguing"

Manejo de água e
Umidade
Associação de
cultivos

Limpeza manual
(folhas e hastes
Sementes e mudas doentes)
sadias
(origem ou cultura
tecidos)
Quebra-Ventos

Eliminação de restos Termoterapia


culturais

1 Solarização 1
Espaçamento

Caldas e extratos 1

Eliminação de
hospedeiros
Biofertilizantes

Armadilhas luminosas Época de plantio j


Controle biológico Feromônios
Baclllus, Trichograma,
Baculovlrus.etc.)

Figura 6.64 C - "O que fazer com tantas pragas e doenças na Agricultura Orgânica,
se não posso usar agrotóxicos"?

351
Manual d e Horticultura Orgânic a
=======-=-=-..,::;..:.::il..::...:....:.:.::::..:::...._ _ _ __ _____=-=-'"-='"- - - - = = = = = = = = - #'

6.11.3 .2 . AfANEJO INTEGRADO ( OU ECOLÓGICO) DE PRAGAS

No Manejo Integrado de Pragas (MIP), recomenda-se la nçar mão de táticas


adequadas, as quais podem ser assim resumidas:

• Reconhecimento das pragas-chave da cultura: nem todas as


pragas que ocorrem na cultura são necessariamente pragas-chave, ou seja,
pragas importantes para a cultura. Um exemplo disso é a larva minadora de
folhas. Apesar de ser considerada importante, a larva minadora de folhas é
uma praga que, de modo geral, aparece em decorrência do uso abusivo de
inseticidas em sistemas convencionais de cultivo. Há diversos agentes de
controle biológico (inimigos naturais) que controlam tal praga, entretanto,
com o uso excessivo de produtos, ocorre mortalidade dos agentes de controle
biológico, o que permite o aumento da população da praga.
• Reconhecimento dos inimigos naturais da cultura: diversos
insetos atuam como agente de controle biológico e podem reduzir a
infestação de pragas nas lavouras, gratuitamente. Por isso, a preservação
dos mesmos é muito importante.
• Amostragem: a determinação da presença de pragas (ovos, larvas,
adultos etc.) e seus danos, bem como a de seus inimigos naturais, deve
ser monitorada. Essa é a melhor maneira para o produtor ava liar a rea l
necessidade de controle com métodos alternativos.
• Táticas de controle: emprego de produtos biológicos ou alternativos,
uma vez que, mesmo com todo equilíbrio ecológico estabelecido em sistemas
orgânicos de produção de hortaliças, a ocorrência de algumas pragas e
doenças persistentes são comuns, podendo-se citar como exemplos a traça
do tomateiro (Tuta absoluta), a requeima da batata e tomate (Phytophthora
infestans), a mancha púrpura do alho (Alternaria porri ), dentre outras.
Assim, torna-se necessário utilizar métodos alternativos naturais ou pouco
agressivos ao meio ambiente, para auxiliar no controle específico desses
problemas .

352
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
,.,,,,,,, =======.,--- -- -....,:,;,:~~~~~~~~~~~;;;;,;:;,~~~~~,;,=====e==

6.1 1.4 . MÉTODOS DE CONTROLE

6.1 1.4.1. CONTROLE BIOLÓGICO

Antes de se falar em qualquer alternativa de controle biológico, com


potencial de utilização em agricultura orgânica, é recomendável lembrar que
o controle biológico se divide em duas áreas: o controle biológico natural,
que ocorre em função do próprio potencial de equilíbrio ecológ ico do sistema
de produção (a exemplo da Figura 6.65) e o controle biológico aplicad o ou
dirigido, executado através de criações de predadores e colonizadores em
laboratório, com posterior soltura ou aplicação em nível de campo.

Figura 6.65 - Presença de preda_d_ores no sistema produtivo indica que O manejo


está correto. Na ilustração, verificamos um aracnídeo, em lavoura de tomate
orgânico (A) e joaninha predadora de pulgões em folha de pepino (8).

A maneira de potencializa r o equilíbrio entre as populações de macro e


microrganismos, respeitando os princípios agroecológicos, já foi devidamente
discutida em seções anteriores deste livro.

Entreta nto, em função da evo lução de alguns insetos e pelo favorecimento


por c? ndições ambien~ais, .muitas ~ v ~zes, d~paramos com desequi líbrios
esporad icos que necessitam interferenc1a atraves de métodos alternativos de
contro le, co mo ilustrado na Figura 6.66 .

353
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.66 - Presença de colônia de pulgões (A) e lagarta mede-palmo (B), em


folhas de repolho - o desequilíbrio com a população de seus predadores poderá
provocar aumento excessivo desses insetos e justificar a adoção de métodos
alternativos de controle.

A partir de agora, estão descritas algumas recomendações de controle


biológico aplicado e alguns métodos alternativos de controle, possíveis de
serem utilizadas em olericultura orgânica.

AGENTES DE B1ocoNTROLE

» Bacillus thuringiensis
Inseticida biológico, que pode ser utilizado para controlar vários tipos
de lagartas que causam danos a diversas hortaliças. Atualmente, já são
encontradas no mercado diferentes marcas comerciais, à base de variedades
diferentes. Como exemplo, citamos:
◊ Dipel em pó e líquido (Bacillus thuringiensis var. kurstaki);

◊ Agree (combinação de Bacl/lus thuringiensis var. kurstaki com var.


aizawai.); e
◊ Xentari (Baclllus thuringlensis var. aizawai).

354
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
...,,, =========,c-----~~~~~~~~~~~~~;;,;:;;,;,;,,;,,;:;,,,,,;;~~======~

Modo de ação do Bacil/us thuringiensis

• Lagartas ingerem esporos e cristais tóxicos juntamente com a


folhagem.
• No estômago das lagartas, os cristais se solubi lizam e provocam
perfurações na parede estomacal.
:
• Através das perfurações, os esporos atingem a hemolinfa (sangue
da lagarta) e se multiplicam em milhões de bactérias causando infecção
generalizada.
• De 5 minutos a 1 hora depois de ingerido o produto, as lagartas
param de se alimentar, cessando, dessa forma, os danos à cultura. A morte
da lagarta ocorre no período de um a três dias.

Recomendações de uso

As dosagens recomendadas para uso dependerão da concentração de


1

' Bacillus na composição do produto comercial, conforme algumas indicações de


uso apresentadas abaixo:
li 1 •1 • J.."l'--'"1
u , 11 ,1·;[:i !,_:u•1;j_,i",,1
,_
1 "'I ,

--
~ll" l!r- '-"1

-
11
·-· =-1 111 . . rdl
~ • J l( •J:°i, ,,.-.,
•• •l , ~ • • ,.11\]

Traça das Crucíferas (Plutella DIPEL pó AGREE 300-500 g/ ha


Repolho 7 50 g/ ha
xylostella) XENTARI
350-500 g/ ha
Couve e 240-400 g/ ha
Curuqu erê da Couve DIPEL pó AGREE
brócolis
(As cia Monuste orsejs) XENTARI -
400-800 g/ ha
Traça do Tomate (Tuta absoluta)
DIPEL pó AGREE 240-400 g/ ha
Tomate Broca pequena d o fru to
XENTARI 2. 000 -2 .4 00 g/ ha
(Neo/eucinodes elegantalis)
400-8 00 g/ ha
Broca/Cucu rbitáceas
Pepi no AGREE
(Diaphania nítida/is) 2 .000 g/ ha

Broca/Cucu rbi táceas


Melão AGREE
( Diaphanla nitldalis) 750 g/ ha

Repolho : Ap licar, em m edia, 1.000 1 de calda por hec t are ( cultu r adult a) .~ mate, cou e ~
brócolls: 800 1 de ca lda por hectare (cultura adu lta) .

355
Manual de Horticultura Orgânica
==="'=====-=-::..===,;,.f2-=--.::..:::..:::=--- -- - - -=--------=--------,====,,.__ /

Início, núme ro e intervalo de aplicação

Realizar as pulveri zações no início de infestação das la gartas. Dependendo


do conhecimento histórico da ocorrê ncia das pragas, pode-se iniciar as
aplicações preventivamente. É importante consultar demais orientações de
cada fabricante.

» Beuaveria bassiana
Beauveria é um gênero de fungo entomopatogênico de grande importância
em programas de controle biológico de pragas (DRIESCHE e BELLOWS Jr., 1996).

Mecanismo de ação
Por atividade microbiana, através do desenvolvimento de conídios que
causam infecções nos insetos e posterior morte dos mesmos (SOSA-GÓMEZ e
MOSCARDI, 1998) .

Fito toxidade
Há registros de que Beauveria bassiana pode causar alergias em humanos
(YORK, 1958, citado por DRIESCHE e BELLOWS Jr., 1996). Portanto, cu idados
especiais devem ser tomados.

Preparo, dosagem e controle


Esse fungo controla com eficiência ácaros, lagartas, pulgões, mosca
branca e formigas. Já existem produtos comerciais disponíveis no mercado e
as recomendações de uso devem seguir as orientações dos fabricantes.

» Metarrhizium anisopliae
Metarhizium é um gênero de fungo entomopatogênico de grande importância
em programas de controle biológico de pragas (DRIESCHE e BELLOWS Jr., 1996).

Mecanismo de ação
Por atividade microbiana, através do desenvolvimento de conídios que
cau sam infecções nos insetos e posterior morte dos m esmos (SOSA- GÓMEZ e
MOSCARDI, 1998) .

356


Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hort aliças
,,,,, = = = = = ==--,-------,,,.............:.:..:..:::~~~~~~~~;,,,;;;;;,;;;;,;,;,;,,,~~====--

Fitotoxidade: não apresenta fitotoxidade.

Preparo, dosagem e controle


Utilizado para o controle de tripes, cigarrinha, cupins e pulgões. Segundo
Penteado (1999), também tem sido recomendado para controle de cupins
de montículo e coleobrocas. Já existem produtos comerciais disponíveis no
mercado e seu uso deve ser realizado conforme orientações de cada fabricante.

» Trichoderma sp.
Fungo antagonista de ocorrência natural nos solos bioativos, que é
antagonista e possui grande eficiência no controle de outros fungos de solo,
como Fusarium spp., Sclerotinia sclerotiorum, Phytium spp., Verticilium sp .,
entre outros.
A espécie mais comumente usada é a Trichoderma harzianum e já existem
produtos comerciais disponíveis no mercado.

» Verticillium sp.
Fungo utilizado mais usualmente para controle biológico da mosca branca
em hortaliças e flores.
A espécie mais usada é a Verticillium lecanii, já disponível no mercado em
marca comercial.

» Clonostachys rosea

Fungo utilizado para controle biológico do mofo cinzento do morangueiro,


provocado por Botrytis cinerea .
Atualmente, já são encontradas no mercado diferentes marcas comerciais .

» Bacillus sp.

Bactéria de ocorrência no ambiente natural, especialm ente nos solos


bicativos, podendo ser utiliza_da para controle biológico de doenças ca usadas por
fun gos e ba ct érias em hortaliças, a exemplo do mofo cinze nto do m orangueiro,
provoca do por Botrytis ciner ea .
A espécie m ais usualmente empregada é Bacillus subt ilis e já sã o
enco ntrados no merca do dife rentes m arcas com erciai s.

357
Manual de Horticultura Orgânica

» Pochonia chlamydosporia
Fungo eficiente no controle biológico de nematoides causadores de galhas
e cistos, sendo reportados efeitos sobre Meloidogyne incognita ( causadores
de deformações em raízes de cenoura e tubérculos de batata, inviabilizando a
venda do produto) e Pratylenchus (causadores de anéis escuros em cenoura).
Já são encontradas marcas comerciais no mercado.

» Baculovirus
Vírus patogênico a lagartas, extraído da natureza e multiplicado para
distribuição e venda a agricultores. Possui ação eficaz no controle da lagarta
do cartucho do milho (Spoçioptera frugiperda) e lagarta da espiga do milho
(Helicoverpa zea), que também ataca partes comestíveis de muitas culturas,
como abóbora, abobrinha, berinjela, chuchu, ervilha, feijão-vagem, jiló,
melancia, melão, pepino, pimentão e tomate.
O bioinseticida contamina a lagarta quando esta ingere partes da planta
sobre as quais foi aplicado previamente.
As lagartas doentes, após três ou quatro dias, começam a perder sua
capacidade de locomoção e de alimentação, ficando com o corpo amolecido e
desbotado e morrem em até oito dias após a ingestão do Baculovirus.

» Microrganismos nativos (E.M. nativo)


Como visto anteriormente, muitos agentes de controle biológico são fungos
e bactérias naturalmente residentes nos habitats naturais, especialmente os
solos bicativos.
A captura de microrganismos em ambientes naturais, especialmente em
solos biologicamente equilibrados, em áreas de matas, margens de alagados
e bambuzais, permite a coleta de uma grande variedade de fungos, bactérias,
actinomicetos e leveduras.
os microrganismos mais comuns pertencem ao gênero Bacil/us,
Trichoderma, Penicil/ium, Fusarium, entre outros, muitos dos quais apresentam
comprovada eficiência de controle biológico como comentado anteriormente.
Portanto, uma das melhores opções para os agricultores orgânicos, que desejam
praticar O controle biológico, é a captura desse complexo de microrganismos,
denominado genericamente de 'E.M. Na~ivo', ~evido ~ facilidade de aquisição e
redução de custos operacionai~. ~ seguir ~sta descrito º. processo, baseado e
h

adaptado de vários relatos de tecnicos e agricultores organ1cos do Brasil.

358
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
....

1) Coleta

◊ Cozinhar o arroz por 5 a 10 minutos, deixando os grãos levemente


amolecidos, mas com o interior ainda duro ("ao dente").
◊ Preparar os gomos de taquara, cortados ao meio longitudinalmente,
formando duas bandas no formato "telha".
◊ Colocar o arroz nos gomos de taquara, enchendo uma banda com
arroz e fechando por cima com a outra banda, deixando-se uma pequena
abertura para facilitar a entrada dos microrganismos. Prender as bandas
com barbante ou fio flexível, para evitar acesso de pequenos animais e
facilitar a coleta e transporte posterior.
◊ Colocar esses recipientes abaixo de serapilheiras úmidas ( que
possuam folhas e pequenos galhos em processo de decomposição), perto
de 'olhos dágua' ou nascentes, em matas ou alagados naturais.
o Coletar esses recipientes 7 a 10 dias depois, dependendo do estágio
de colonização verificado.
◊ Levar ao galpão de serviço e retirar os bolores escuros (geralmente
saprófitas), optando-se pelos de cor branca, creme, amarelos, róseos,
entre outros.
Na Figura 6.67, é mostrada a sequência de coleta do 'E.M. nativo' para
obtenção do arroz inoculado que será a base de preparo da solução matriz.

2) Preparo da solução matriz

◊ Adicionar 50 g do arroz inoculado para cada 2 1 de solução adocicada


com melado (10%), açúcar mascavo (10%) ou suco de frutas, em garrafas
PET, deixando-se fermentar em repouso no galpão por 15 dias.
◊ Diariamente, abrir e fechar a tampa das garrafas, para liberar
gás O
gerado pela fermentação, obtendo-se a solução matriz de E.M. bruta, que
deverá ser coada para uso em pulverizações.

3) Aplicações

As formas de aplicação e uso dos microrganismos nativos são muito


variadas. Além do uso para controle de doenças e pragas, pode também ser
utiliza?º em compostagem_, em biofertll'.zantes, como higienizador de processos
anaerobicos com mau cheiro, das seguintes formas:

359
Ma nual de Horticultura Orgânica
= == ===-e===,;;..:.,,~,,,;,;,,;:;;~ ,--=--=---=, - - - - - -- - - - -- ---== = ===----ç'

◊ Controle de Pragas e Doenças : em pulverizações foliares, diluir 2 1


da solução matriz de E.M coada, em 20 1 de água e pul verizar semanal ou
quinzenalmente.

Em compostagem: diluir 2 1 da solução matriz de E.M. bruta. em 20 1
de água e regar as pi lhas de composto.

Em biofertilizantes: aplicar 2 1 da solução matriz de E.M. bruta para
1.000 1 de biofertilizante, durante ou ao final do processo de fabricação .

Como higienizador e redutor de mau cheiro: diluir 2 1 da solução
matriz de E.M. em 10 1 e pulverizar o local ou irrigar com regador, sobre o
produto ou material.
- - -.........~ --:::;....-----::--oo:;.::--""!a.~.;;;~~J~i~;;~~;~i.....,•iii

Figura _ A _ Sequê ncia de coleta do ' .M . nativo ': Arroz cozido (1 ). Taquara
6 67
com arroz (2).
360
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
~ = = = = = = = -- ---.'.::'..~~~~~~~~~~~~~~~=== ==~

Figura 6.67 B - Taquara antes de ser alocada sob a serapilheira (1 ). Recolocação da


serapilheira sobre a taquara (2).

361
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.67 C - Retirada da taquar p s 1O di s, mostrando microrganismos de cores


variadas (1 ). Garrafas PET contendo s lução de .M. n tivo (2).

362
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Finalizando esta seção sobre controle biológico, descrevemos, a seguir, uma


forma de uso de Beauveria bassiana, dirigida ao controle de cupins, formigas
e insetos de solo, visando aumentar a eficiência desse bioinseticida. Esta
descrição foi adaptada dos resultados obtidos por Almeida et ai. (2003), que
comprovaram alta eficiência de controle de cupins subterrâneos (Heterotermes
tenuis) na cultura da cana-de-açúcar, quando se aplicou o microrganismo por
meio de arroz esporulado.

Controle biológico de cupins, formigas e insetos de solo com


Beauveria bassiana

Ingredientes para 1 hectare


1 - Fungo Beauveria bassiana em pó .......................... ... ........ 03 kg
2 - Arroz de terceira .. .. .... ............ ......... .. ........... ..... ... .. .... .. . 50 kg

Preparo
Umedecer o arroz e cozinhar por 5 a 10 minutos, de forma que não fique
totalmente amolecido. Deve estar túrgido e inchado, mas com o interior dos
grãos um pouco duros ("ao dente"). Esfriar, retirar o excesso de água e misturar
o pó do fungo, formando o "arroz inoculado".

Dosagem e aplicação no campo


◊ Aplicações em área total: 5 g /m 2 = 50 kg/ha .
o Aplicações localizadas em áreas menores e descontínuas:
10 g/m 2 = 100 kg/ha.

Aplicações
Recomendado para controle de cupins, formigas e outros insetos de solo,
especialmente coleópteros (besouros) .

Modos de aplicação
1 - Em áreas descobertas, aplicar uniformemente a lanço sobre o solo,
na base de so kg/ha, após chuva ou irrigação. A área deve ter condições de
gerar cobertura morta para proteger o fungo dos raios solares, a exemplo
de pasto, onde se deve roçar logo após a aplicação do arroz inoculado.

363
Manual de Horticultura Orgânica

7
2 - Em hortas, aplicar o arroz inoculado, na base de 10 g / rn entre os
canteiros ou nas entrelinhas de cultivo, sobre o solo, aplicando cobertura
morta em seguida.
3 - Aplicar o arroz inoculado dentro dos ninhos de formigas, irrigando
e enterrando novamente.
4 - Aplicar o arroz inoculado juntamente com o adubo orgânico, no
interior das covas, sulcos e canteiros, na base de 50 kg/ha .

Outras recomendações
1 -A existência de umidade no sistema é fundamental para a germinação
dos esporos e alcance de eficiência do método. Sendo possível, irrigar
periodicamente.
2 - Após tratar as áreas, optar por cultivas na forma de Plantio Direto
na Palha.
3 - Prosseguir com manejo orgânico da área (rotação, adubação verde,
adubações orgânicas etc.).
4 - Repetir o tratamento sempre que necessário ( dependendo da
população inicial, cupins e formigas necessitam de aplicações mensais 2 a
3 vezes).

SOLTURA OE INIMIGOS NATURAIS PREDADORES

A técnica de soltura de inimigos naturais consiste na multiplicação de


predadores em Biofábricas, para posterior liberação organizada no campo,
dependendo dos agentes envolvidos. Nesse âmbito, os mais usuais na
horticultura são os trichogramas, os ácaros predadores e os crisopídeos.

» Trichogramma sp.
São pequenas vespas, inimigo natural para a traça do tomateiro (Tuta
absoluta), broca grande e pequena do fruto do tomate e curuquerê da couve.
Encontra-se para venda em cartelas contendo ovos do Trichogramma,
que devem ser fixadas no interior da lavoura, onde posteriormente ocorrerá,
espontaneamente, a eclosão dos inimigos naturais.
outra forma de liberação é proceder a eclosão antecipada das vespas,
alojando as cartelas de ovos dentro de potes plásticos ou de vidro, de 1,S a
2,0 1 de volume.

364
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Após a eclosão, deve-se levar a campo para a soltura interm itente,


caminhando unifo rmemente na área, abrindo e fechando a tampa para o
escape parcial de predadores. Essa forma tem ação mais imediata.

» Ácaros predadores
São espécies de ácaros de grande mobilidade e alta capacidade de
predação. Apesar de predarem em vários estágios biológicos da praga, são
mais eficientes na predação de ovos, podendo consumir até 40 ovos por dia .
As espécies mais comuns são Phytoseiulus macropilis, Neoseiulus
californicus e Neoseiulus barkeri, que já são encontrados no mercado em
embalagens contendo em torno de 2.000 ácaros, para liberação organizada no
campo (Figura 6.68). Já existem várias empresas que comercializam ácaros
predadores no Brasil.

Figura 6.68 - Liberação de ácaros predadores em estufa de morango orgânico,


no sítio Penhazul , em Domingos Martins/ES. Vista geral do campo (A). Apl icação
dirigida sobre uma planta de morango (8). Detalhe do material inerte contendo
os ácaros, sobre as folhas (C).

365
Manual d e Horticultura Orgânica
=====~:....:.i2..::.~~=---=--- ---=--=-- - ---======,,...,. /

Os ácaros predad ores sã o mais utilizados para o co ntrole do ácaro rajado


(Tetranychus urticae), qu e at aca diversas cultu ras, especialmen te morangueiras
e roseiras. Porém, existem outras espécies para controle de ácaro branco,
mosca branca e tripes em ou tras culturas.
Na cultura do morango, a soltura do ácaro predador deve ser
preferencialmente no início da infestação, quando o monitoramento ind icar até
6 ácaros rajados por folíolo. Em infestações maiores, deve-se apl icar med idas
curativas primeiro, para reduzir a população da praga, para depois liberar os
ácaros predadores.

» Crisopídeo (Bicho Lixeiro)


Os crisopídeos são predadores polífagos, que auxiliam no controle de
uma grande variedade de pragas, como traças, tripes, ácaros, cochon ilhas,
cigarrinhas, pulgões e lagartas.
São vendidos na forma de ovos, que devem ser dispostos no campo,
ocorrendo a eclosão das larvas de 4 a 6 dias, as quais iniciam a predação.

» Pintos no controle de grilos

Os pintos de gal inhas ou galinha d'angola, apesar de não serem


caracterizados como predadores clássicos de grilos, são bastante eficientes
nessa função.
Assim, uma estratégia que pode ser considerada uma técnica de soltura de
predadores é a utilização de pintos dentro de áreas de cu ltivo com infestação
de grilos, especialmente nos cultivas em estufa, onde a presença de coberturas
mortas e plásticas ('mulching') favorece a multiplicação excessiva desta praga.
Associado ao fato de se tratar de ambiente fechado, a predação de grilos
com a soltura de pintos dentro de estufas tem apresentado alta eficiência
(Figura 6.69).
Em geral, os agricultores têm utilizado uma média de 10 pintos para cada 300
m2 de estufa nos cultivas de morango e flores orgânicas. A possibilidade de danos
às culturas deve ser avaliada, dependendo do estágio de crescimento dos pintos.

366
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Figura 6.69 - Soltura de pintos em estufa de flores orgânicas no sítio seis irmãos,
em Santa Maria de Jetibá/ES (A) e estufa de pepino orgânico, na Unidade de
Referência em Agroecologia do lncaper, em Domingos Martins/ES (8).

367
Manual de Horticul tura Orgânica

Recentemente, muitos outros estudos e desenvolvimento de produtos


biológicos comerciais estão em andamento para atender à crescente demanda
desse mercado. Como exemplo, citamos estudos sobre a bactéria Pasteuria
penetrans e os fungos Paecilomycese artrobotrys, como controladores de
nematoides. Outras informações técnicas podem ser obtidas numa ampla revisão
da situação atual do biocontrole de doenças de plantas no Brasil, que estão
apresentadas nos vários capítulos do livro editado por Bettiol e Morandi (2009) .
É necessário, ter em mente que o emprego de produtos biológicos requer
cuidados especiais, uma vez que constituem organismos vivos e, portanto,
necessitam de manejo adequado. Por exemplo, esses produtos apresentam
maior eficiência de controle quando aplicados em condições favoráveis de
clima, nível populacional e estádio de desenvolvimento da praga (ex. lagartas
são mais bem controladas em estádio inicial de desenvolvimento).
Exemplo disto é que a aplicação de Beuaveria bassiana, no controle do
ácaro rajado do morangueiro cultivado em estufas, apresenta maior eficiência,
quando se faz uma irrigação por aspersão, imediatamente antes da pulverização
do agente, pois a germinação dos esporos da Beuaveria será maior no ambiente
molhado e com maior umidade.
Outro fato importante é que o controle da praga não ocorre de uma hora
para outra no sistema biológico, mas sim em um período maior de tempo,
comparado ao controle químico.
Entretanto, dependendo das condições climáticas e do manejo do
agroecossistema, alguns desses organismos podem se estabelecer nas áreas
de cultivo e exercer controle por um período maior de tempo. Esses produtos
devem também ser armazenados em ambientes apropriados, para ter maior
vida útil.

6.11.4.2. SUBSTÂNCIAS INSETICIDAS, FUNGICIDAS E REPELENTES

» Nim (Azadirachta indica)

0 principal princípio ativo é a Azadirachtina. At~a_lment~, regi: tra -se que


mais de 41 s espécies d e pragas, que ocorrem em vanos pa1ses, sao afetadas
pelos extratos de NIM.
ão de custos, o agricultor pode pl antar a árvore em sua
Para re d u Ç • t · (Fi ) ,
. d d bte r esse insumo o ano in e1ro gura 6.70 . Ja ex istem
propne a e e o , . d
produt os comerciais dispon1ve1s no m erca o.

368
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
,,,_

Modo de ação
Inseticida, fungici da, nematostático, inibidor de crescimento, inibidor de
ingestão por lagartas e larvas de insetos.

'1
' 1

' '
'

Figura 6. 70 -Arvore de Nim (Meliaceae ), em inicio de crescimento, na Fazendinha 1 1


ecológica (SIPA) da EMBRAPA. Município de Seropédica - RJ . ,,
1

369 1

1 '

1
Manual de Horticultura Orgânica

Receita 1
◊ 5 kg de sementes secas e moídas

◊ 5 1 de água
◊ 10 g de sabão
◊Colocar 5 kg de sementes de Nim moídas em um saco de pano,
amarrar e colocar em 5 1 de água. Depois de 12 h, espremer e dissolver
10 g de sabão nesse extrato. Misturar bem e acrescentar água para obter
500 1 de preparado. Aplicar sobre as plantas infestadas, imediatamente
após preparar.

Receita 2
◊ 25 - 50 g de sementes
◊ 1 1 de água
◊ Despolpar os frutos, secar as sementes à sombra, moê-las e deixar
repousar (amarradas em um saco de pano) imersas em 1 1 de água por 1
dia. Coar e pulverizar sobre as plantas atacadas.

Receita 3
◊ 2 kg de folhas verdes ou frutas inteiras

◊ 15 1 de água
◊ Bater no liquidificador as folhas ou frutos de Nim , com um pouco
de água. Deixar descansando por uma noite com um pouco mais de água.
Antes de aplicar, filtrar e diluir com água para obter 15 1 do preparado.
Pode ser armazenado em frasco e local escuros por 3 dias.

Indicações
◊ Pragas: Mosca branca (Bemisia tabaci), pulgões (Aphis gossypii),
mosca minadora (Uriomyza sativae), nematoides (M. javanica e M.
/ncognita), traça das crucíferas (P/utella xylostela), lagartas em geral e
outros.
◊ Doenças: manchas de alternária, tombamento (Rhizoctonia solani ),
Fusarium e Sclerotium rolfsii.

370
Mé todos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças

Precauções
Usar com critério por ser um produto de largo espectro de ação. Tóxico a
peixes e baixa toxicidade a mamíferos. Não há período de carência.

» Tefrósia (Tephrosia cândida) e Timbó arbustivo (Tephrosia


to.xi.caria)

Estas plantas são leguminosas, que contêm o princípio ativo rotenona,


que possui ação inseticida para muitos insetos de pequeno porte que atacam
as hortaliças. A T. cândida também tem sido utilizada como adubo verde,
mas requerendo cuidados para não ser consumida por animais, devido a
sua toxicidade. Possuem portes arbustivos, sendo muito vigorosas e de fácil
propagação por sementes (Figura 6.71).

Preparo
Coletar 200 gramas de folhas verdes e triturar em liquidificador com 1 litro
de álcool 70%. Deixar em infusão por 24 horas e coar a solução matriz.

Uso
Diluir a solução matriz a 5%, utilizando-se 1 litro para cada 20 1 de água,
procedendo à pulverização logo em seguida.

Modo de ação
Inseticida para ácaros, pulgões, tripes e pequenas lagartas.

Obs: É incompatível com calda bordalesa e a cal. Compatível em misturas


com enxofre para controle de doenças, além de o enxofre potenciali,zar a ação
inseticida da rotenona.

371
Manual de Horticultura Orgânica

Figura 6.71 - Plantas de Tefrósia (A) e de Timbó arbustivo (B). Unidade de


Referência em Agroecologia do lncaper. Municipio de Domingos Martins - ES.

372
Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Horta liç as

» Timbó de cipó (Paullinia pinnata)

Planta muito comum no norte e nordeste brasileiro, também conhecida


como guaratimbó, cipó-timbó, entre outros. Possui a rotenona como princípio
ativo, de comprovada ação inseticida.

Receita 1
◊ 60 g de pó de raiz de timbó (cipó)
◊ 11 1 de água fria
◊ 100 g de sabão

Preparar a emulsão de sabão juntando o sabão com 1 litro de água.


Adicionar uma colher de chá de soda cáustica. Levar ao fogo, mexendo bem
com uma colher de pau, até a completa dissolução da mistura. Retirar do fogo
e deixar esfriar até ficar morno. Juntar a essa emulsão 60 g de pó de raiz de
timbó, 10 1 de água, aplicando sobre as plantas logo em seguida.

Receita 2
◊ 50 g de timbó

◊ 200 mi de acetona
◊ 950 mi de álcool 42º GL

Deixar extrair o timbó em acetona por 24 h. Filtrar, colocar 50 mi desse


extrato em 950 mi de álcool 42ºGL.
Pulverizar, molhando até o escorrimento. Período de carência de 1 dia .

Modo de ação
Bloqueio do ciclo de Krebs.

Indicação
Lagartas, percevejos e pulgões.

373
Manual de Horticultura Orgânica
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Precaução
É incompatível com calda bordalesa e a ca l. Compatível em misturas com
enxofre para controle de doenças, além de o enxofre potencializar a ação
inseticida da rotenona.

» Detergente neutro e óleo

Os detergentes comerciais utilizam derivados do ácido sulfônico, uma


substância de reconhecido poder inseticida.
O emprego de soluções de detergente neutro puro ou associado a algum
tipo de óleo vegetal (soja, algodão, girassol ou outros), na concentração de 1%
a 4%, tem demostrado alta eficiência de controle de muitas pragas.

Preparo da solução a 2%
Dissolver 400 mi de detergente neutro e 200 mi de óleo para cada 20 1 de água.

Uso
Por se tratar de substância que age por contato, deve-se pulverizar a
solução diretamente sobre a praga para obter maior eficiência.

Modo de ação
Inseticida para ácaros, formigas, pulgões, tripes e pequenas lagartas.

Obs: Em couve-.folha, deve- se utilizar a solução menos concentrada (1%)


para evitar queimas. Aplicar uma irrigação por aspersão 10 m inutos após a
pulverização também ajuda evitar queimadu ras na couve-folha.

» Extr a to Pir olen hoso

É um líquido r esultante da cond ensação da fum aça, quando se procede à


ca b · ~ de mad eiras ou bambu. Esse líquido concent rado con tém cerca
r onizaçao • d · · · ·
de 200 t ipos de compostos difer entes, pre dom in an o o acido acet,co.
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Métodos de Produção para o Cultivo Orgânico de Hortaliças
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É important e ressaltar que a coleta do extrato deve ser feita quando a


temperatura da fumaça varia de 80ºC a 120°c, para evitar a presença de
algum tipo de alcatrão, que constitui elemento cancerígeno.
Deixando-se em repouso por um período superior a 180 dias para
decantação, tal líquido se divide em três fases: a parte superior é composta
por óleos essenciais, a parte mediana é o extrato pirolenhoso e a parte inferior
é o alcatrão.
Já existem produtos comerciais, disponíveis no mercado.

Recomendações de Uso
Em pulverização: recomenda-se a diluição em água na proporção de
1 :300 (330 mi para 100 1) até 1: 1000 (100 mi para 100 1), dependendo da
"resistência" da folha (Tabela 6.57).

Tratamento do solo
Diluir o extrato em água na proporção de 1: 50 (2 1 para 100 1) até 1: 100
(11 para 100 1). Também pode ser usado via compostagem, durante o preparo
do adubo orgânico a ser utilizado no plantio (Tabela 6.58).

Tabela 6.58 - Dosagens recomendadas do Extrato Pirolenhoso, segundo


Penteado ( 1999)

1
Aplicação* Dosagem/ 100 L de água
Folhas tenras (pulv.) 100 a 200 mi
Folhas resistentes ( pulv.) 200 a 330 mi
Solo (irrigação) 1.000 a 2.000 mi
Compostagem (preparo) 200 a 2. 000 mi
* Intervalo de aplicação na planta de 7 dias. No solo e no composto, uma vez, no início do
processo.

Indicação
~?ntrole _de pragas e doe_n~a_s, aumento na concentração de microrganismos
beneficos (Tnchoderma, Pen1c1lllum e outros) e proporciona ambiente favorável
para multiplicação de Micorrizas.