H UMANAS

Revista de Ciências

Revista filiada à:

Editora da UFSC

UNIVERSIDADE FEDERALDE SANTACATARINA
Reitor Vice-Reitor Lúcio José Botelho Ariovaldo Bolzan

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor Vice-Diretor EDITORA DA UFSC Diretor-Executivo Alcides Buss Conselho Editorial Cornélio Celso de Brasil Camargo, Eunice Sueli Nodari (Presidente), João Hernesto Weber, Luiz Henrique de Araújo Dutra, Nilcéa Lemos Pelandré, Regina Carvalho e Sérgio Fernando Torres de Freitas. REVISTA DE CIÊNCIAS HUMANAS Editor José Gonçalves Medeiros Comissão Editorial Cynthia Machado Campos, Hector Ricardo Leis, José Gonçalves Medeiros (Presidente), Marco Antônio Frangiotti, Maria Juracy FilgueirasTonelli, Norberto Olmiro Horn Filho, Rafael José de Menezes Bastos e Tamara Benakouche. Conselho Científico Alcir Pécora (UNICAMP); Artur Cesar Isaia (UFSC); Carmen Silvia Rial (UFSC); Cecile Helene Jeanne Raud Mattedi (UFSC); Cleci Maraschin (UFRGS); Darlei Dall’Agnoll (UFSC); Edmilson Lopes Junior (UFRN); Erly Euzébio dos Anjos (UFES); Fernando Ponte de Souza (UFSC); Franz Josef Brüseke (UFSC); Grauben Assis (UFPA); Héctor Ricardo Leis (UFSC); Jane Russo (UERJ); João Cleps Junior (UFU); José Carlos Zanelli (UFSC); Leila Christina D.Dias (UFSC); Luis Henrique Araújo Dutra (UFSC); Magda Ricci (UFPa); Márcio Lopes da Silva (UFV); Maria Angélica Motta-Maués (UFPa); Maria Bernardete Ramos (UFSC); Maria Cecilia Maringoni de Carvalho (UNICAMP); Maria Cristina Alves Maneschy (UFPa); Maria Teresa Santos Cunha (UDESC); Mauricio Roque Serva de Oliveira (PUC-PR); Mauro Pereira Porto (UNB); Olga Lucia Castreghini de Freitas Firkowski (UFPR); Oscar Calavia Sáez (UFSC); Pedro Paulo da Costa Coroa (UFPa); Rafael Raffaelli (UFSC); Saint-Clair C. da Trindade Júnior (UFPa); Silvio Paulo Botomé (UFSC); Walquiria Krüger Corrêa (UFSC). Organização Geral Tiragem Periodicidade Luiz Carlos Cardoso e Allysson Sérgio Vieira 500 exemplares Semestral João Eduardo Pinto Basto Lupi José Gonçalves Medeiros

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

H UMANAS
Revista de Ciências

ISSN 0101-9589

Revista de Ciências Humanas Florianópolis E D U F S C n. 35 p . 0 1 - 2 5 4 Abr. 2004

A Revista de Ciências Humanas é uma publicação semestral do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina. Lançou, em 1982, o seu primeiro número e tem sido um importante veículo na disseminação do conhecimento interdisciplinar nas diferentes áreas das humanidades. Publica com regularidade dois números por ano com uma tiragem de 500 exemplares por volume, além de números temáticos anuais. Os artigos são revisados por três relatores ad hoc, preferencialmente vinculados a instituições nacionais. Editoração eletrônica Allysson Sérgio Vieira allyssonvieira@yahoo.com.br Revisão geral José Gonçalves Medeiros Vera Vasilavski
Revista indexada por:
— — — — — — Sociological Abstracts - SA; Linguistics & Language Behavior Abstracts - LLBA; Social Planning / Policy & Development Abstracts - PODA; Public Affairs Information Service, Inc. - PAIS; Nisc Pensylvania Abstracts, inc. - NISC. Qualis/CAPES

Capa Allysson Sérgio Vieira Criação da Capa Ana Lúcia Gomes Medeiros Ilustração da Capa Antropofagia (1929), de Tarsila do Amaral

(Catalogação na fonte pela Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina)
Revista de Ciências Humanas (Temas de Nosso Século) / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas.- v.1, n.1 (jan. 1982) - Florianópolis : Editora da UFSC, 1982v.; 21cm Semestral ISSN 0101-9589 I. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Endereço para assinatura Mailing address subscriptions Universidade Federal de Santa Catarina Editora da UFSC Campus Universitário - Trindade Caixa Postal 476 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil Endereço para correspondência Mailing address Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Filosofia e Ciências Humanas Revista de Ciências Humanas 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil

.....07 Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Pedrinho A........................................................99 ...........................................37 A modernidade sob o prisma da tragédia: um ensaio sobre a singularidade da tradição sociológica alemã Adélia M........................... um arqueogenealogista do saber....... do poder e da ética Inês Lacerda Araújo.......................................................................... Miglievich Ribeiro Brand Arenari........................................................................................Revista de Ciências HUMANAS abril (Florianópolis) número 35 2004 Sumário Apresentação..............................79 Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental David José Diniz Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano..................57 Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV: estudo de representações sociais com mulheres Andréia Isabel Giacomozzi... Guareschi Laura Helena Pelizzoli.11 Foucault.....................

.................................................... partir ou ficar? Sirlândia Schappo.....................................243 ...............................205 Migrantes-nômades: chegar.225 Relação dos Consultores ad hoc..............141 Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Maria José de Rezende.........................117 Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Paulo J......... Krischke.....................................241 Normas para publicação.......................................177 Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Lauro Mattei..................................................................................................Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pósprivatização: a experiência do Rio Grande do Sul Sandro Ruduit Garcia.........................................................................................................

no artigo Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano. como nos demais. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli fazem uma análise crítica dos “reality show” produzidos pela Rede Globo abordando. Sobre os “reality show” diz Muniz Sodré em “O império do grotesco” que “.Apresentação O número 35 da Revista de Ciências Humanas (RCH). principalmente. procura-se identificar realidade com um cotidiano desprovido de maior sentido. O fenômeno que não é apenas brasileiro e indica. encontrará idéias e proposições acerca do social produzido por profissionais da Área de Ciências Humanas e Sociais. acostumado com a interdisciplinaridade da revista. o leitor.. o rebaixamento do padrão televisivo e uma identificação do público com este “lixo reciclado e transmitido”. Os autores Pedrinho A. em que só há lugar para o miúdo. . Nesse número. o mesquinho.. entre outras questões.com mais um conjunto de artigos que tem por objetivo ampliar o debate de temas da contemporaneidade. a questão da ética. a emoção barata e o banal”. com uma espécie de grau zero do valor estético. relativo ao primeiro semestre de 2004. chega agora às mãos do leitor seu principal parceiro .

. O estudo Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV: estudo de representações sociais com mulheres. Simmel (1858-1918) e M. de autoria de David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano. de autoria de Andréia Isabel Giacomozzi. no Estado do Rio Grande do Sul a partir do processo de privatização em 1998. controladora. discute as representações sociais e as possíveis alterações que os formandos desses cursos.1936). nesse momento. Weber (1864 . fazendo acontecer e com isso criando condições para mudanças curriculares. principalmente a social. do poder e da ética. dessas novas metodologias de proteção ao meio ambiente estão. Adélia Miglievich Ribeiro e Brand Arenari discorrem sobre as tradições do pensamento na sociologia e fazem um exercício de análise das escolhas epistemológicas de cada tradição. como Adorno e Horkheimer. Tomam por objetivo do trabalho analisar a “tragédia” como elemento comum que une pensadores da sociologia moderna como F. Propõe-se a verificar os discursos produzidos no campo da psicologia e da psicanálise como discursos produtores do saber/poder. analisa as relações produtivas que se configuraram no setor das telecomunicações. Em Foucault.1920). Representações sociais sobre o meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental. estendendo a análise aos pensadores da Escola de Frankfurt.Inês Lacerda Araújo constrói seu artigo a partir do clássico texto de Foucault “Arqueologia do saber”. uma contribuição significativa. a autora identifica as relações entre as práticas discursivas e não discursivas como sendo aquelas que apontam para o aparecimento do sujeito moderno e da sociedade disciplinar. discutir o comportamento das mulheres face à prevenção é. Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pósprivatização: a experiência do Rio Grande do Sul. deve-se ao fato de que a pesquisa realizada pela OMS/2004 confirmou o aumento crescente do número de mulheres infectadas. Em A modernidade sob o prisma da tragédia: um ensaio sobre a singularidade da tradição sociológica alemã. um arqueogenealogista do saber. Portanto. A contribuição desse trabalho. G. contribui para a reflexão acerca das representações sociais de mulheres com ou sem parceiro fixo sobre a sexualidade e prevenção da AIDS. na prática. Tonnier (1855. de Sandro Ruduit Garcia.

em Gilberto Freyre e Celso furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil.Em Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba. Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate de Lauro Mattei. rastreia interpretações dadas por Freyre e Furtado acerca do processo de urbanização no Brasil. Maria José de Rezende. Sirlândia Schappo analisa a insuficiência do termo “êxodo rural” para definir os deslocamentos populacionais. Krischke compara a cultura política das cidades de Curitiba e Porto Alegre. contribui ao problematizar o conceito de agricultura familiar. José Gonçalves Medeiros Editor . a autora chama atenção para o risco do conceito quando utilizado de maneira genérica. no artigo. partir ou ficar?. Paulo J. analisando suas diferenças e convergências como formas locais complementares de manifestação da conquista da cidadania nos diferentes contextos históricos . e espera que sua contribuição possa ajudar a compreender os processos migratórios.sociais. mesmo canônico no campo da sociologia. colocamo-nos à disposição de nossos leitores e assinantes. a autora de Migrantesnômades: chegar. Na esteira de refletir sobre agrupamentos sociais e suas definições. O olhar sociológico está presente em um interessante texto que. Esperando que os artigos desta edição possam contribuir cada vez mais para a definição do caráter interdisciplinar da RHC.

Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano*

Pedrinho A. Guareschi1 Laura Helena Pelizzoli2
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Resumo Trabalho 3 que analisa, de maneira crítica, o programa campeão de audiência da televisão brasileira Big Brother Brasil. Dividese em duas partes: na primeira, apresenta um referencial ético para análise de programas midiáticos. Na segunda parte, faz uma análise do programa, a partir de dois grupos de informações: o primeiro constitui-se de cartas enviadas eletronicamente por ouvintes que
__________________________________________________

Abstract The paper discusses, within a critical framework, the most assisted program of the Brazilian television, Big Brother Brazil. It is divides in two parts. The first presents an ethical framework for the analysis of media programs. The second part discusses two kinds of data about the program: a set of information received through electronic mail from viewers who manifested dissatisfaction with the

* Big Brother Brasil: the vulgarization of everyday life 1 Endereço para correspondências: PUCRS, Av. Ipiranga, 6681 prédio 11, sala 927, Porto Alegre, RS, CEP 90619-900 (guareschi@pucrs.br) 2 Endereço para correspondências: PUCRS, Av. Ipiranga, 6681 prédio 11, sala 927, Porto Alegre, RS, CEP 90619-900 (lpelizzoli@terra.com.br) 3 Somos gratos ao CNPq que, por meio da bolsa de Produtividade em Pesquisa, da bolsa de Apoio Técnico e das duas bolsas de Iniciação Científica, possibilitou-nos realizar este trabalho. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.11-35, abril de 2004

12 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano

manifestam críticas ao programa e o segundo conjunto de informações compõe-se de dados coletados pelos pesquisadores, tendo em vista a audiência do programa. Constroemse algumas categorias centrais que agrupam os principais temas trazidos pelos telespectadores e investigados pelos pesquisadores. As categorias são discutidas a partir do referencial ético. Ao final, sugere possíveis alternativas a programas desse gênero que possam ser eticamente aceitáveis.

program, and another set of information gathered by the researchers in viewing the programs. Central categories are constructed which group the main themes brought by the electronic mails and gathered by the researchers. The categories are discussed through the ethical framework presented earlier. At the end some suggestions about alternatives to this kind of program that can be ethically acceptable are presented.

Palavras-chave: Mídia; ideologia; Keywords: Media, ideology, ethics, ética; representações sociais. social representations. Introdução Este artigo originou-se de uma pesquisa realizada pelos autores para a formulação de um parecer sobre o programa Big Brother Brasil, na sua terceira edição (2003), solicitado pela Comissão de Acompanhamento de Programação de Rádio e TV (CAP), que é ligada à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados de Brasília e ao Conselho Nacional de Comunicação, cuja campanha é intitulada: Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania. A CAP recebeu inúmeras reclamações e sugestões, por e-mail, de cidadãos de todo o território nacional, que se posicionaram com insistência diante de certas cenas e situações veiculadas pelo programa. Considerou-se que tais situações e cenas feriam a ética, apresentando-se injuriosas a grande parte da população, deseducadoras e em desacordo com a função e a tarefa da mídia, que é prestar um serviço público de qualidade à população brasileira. Os cidadãos que apresentaram tais queixas fizeram-no com o objetivo manifestar seu pensamento, expressar sua opinião, reivindicando alguma providência dos órgãos competentes.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.11-35, abril de 2004

Pedrinho A. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 13

A fim de deixar claro de onde partimos para produzir tal parecer, iniciamos com uma rápida discussão sobre os pressupostos éticos que fundamentam a análise, pois a discussão no campo da ética pode dar ocasião a muitas polêmicas. Após a discussão sobre o referencial ético, iniciamos a análise. São informados, inicialmente, os procedimentos metodológicos empregados. A seguir, discutimos as diversas informações usadas, analisando as principais categorias que as sistematizam. A interpretação que fazemos tem como pano de fundo o referencial ético apresentado na primeira parte. Um referencial ético para análise da mídia Escutamos, a toda hora, alguém dizendo que tal procedimento não é ético, que tal ação é antiética e assim por diante. Qual seria o critério para tal afirmação ou julgamento? O que faz com que uma ação, uma prática e, indiretamente apenas, com que uma pessoa seja ética? Ao refletir sobre o que é ética e os seus fundamentos, damo-nos conta de o quão complexa é essa questão. Entretanto, ao mesmo tempo, vemos que todos nós, de um modo ou de outro, temos nossas convicções éticas, temos uma ética. Para tê-la, precisamos nos basear em algum fundamento, algum pressuposto filosófico e valorativo. Curiosamente, a maioria das pessoas, apesar de terem esses fundamentos e pressupostos, poucas vezes pararam para refletir e tomar consciência deles e de suas implicações. Nesse sentido, essa rápida discussão traz à baila esses pressupostos, no intuito de facilitar a descoberta do fundamento de ética de cada um. Mesmo os estudos de Kohlberg (1966, 1969) e, em parte, os de Piaget (1932), apesar de ajudarem a identificar “estágios” de consciência ética, não fornecem elementos para que se identifiquem os pressupostos filosóficos e, conseqüentemente, faça-se uma crítica desses pressupostos. Queremos esclarecer, a diferença que fazemos entre ética e moral, contudo, retornaremos a isso no final desta discussão teórica sobre ética. Entendemos por moral, ou moralidade, os costumes instituídos, a maneira como os grupos e as sociedades valorizam sua maneira de agir e se regular. As leis, a tradição, os costumes etc. fariam parte da moral. Já por ética entendemos uma crítica filosófica dessa moralidade. A ética é parte da filosofia, como é a metafísica e a epistemologia, e propõe-se a encontrar os “fundamentos últimos” de por que as coisas são como são. É a ética que discutimos aqui.
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.11-35, abril de 2004

14 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano

Podem ser identificados dois paradigmas principais que fundamentam as exigências éticas ou os valores éticos presentes ainda na atualidade. O primeiro paradigma é o da lei natural, o segundo é o da lei positiva. A esses dois paradigmas mais clássicos, acrescentamos um terceiro, que questiona os dois anteriores e traz novas considerações para a discussão da problemática da ética: a ética tomada como instância crítica. É a partir desse terceiro enfoque que produzimos nossa análise. No primeiro paradigma, da lei natural, o grande referencial é a própria natureza. Esse referencial tem a pretensão de dizer que, a partir da atenção à natureza, é possível, de um lado, estruturar uma ética que governe todos os povos e em todas as épocas e, de outro lado, é possível uma “fonte” para essa ética que não seja os costumes ou instituições de determinados povos ou nações. Dentre os defensores de tal paradigma, podemos citar Aristóteles, os estóicos, Cícero e muitos outros seguidores, até os dias de hoje. Essa tradição dividiu-se em duas vertentes: uma pré-moderna, religiosa, inspirada em Tomás de Aquino, centrada na idéia de um Criador e numa ordem imutável estabelecida por Deus; e outra moderna, secular, inspirada nos escritos de Grotius e John Locke, fiel à mentalidade do mundo moderno que, sem negar a origem divina da natureza, investe na defesa dos “direitos humanos”. Podemos dizer que a primeira caracteriza-se como o “momento do objeto”, como pré-moderna, e a segunda, como o “momento do sujeito”, típica do pensamento moderno. Uma privilegia a estabilidade do objetivo e a outra, a liberdade e a iniciativa do subjetivo. Todavia, o critério que fundamenta ambas é algo exterior: a natureza como produto de Deus Criador, para a primeira, e a dignidade e os direitos fundamentais do ser humano, que podem ser racionalmente conhecidos e justificados, para a segunda. Esse paradigma percorre toda história, sempre com alguns seguidores. O segundo paradigma, o da lei positiva, surgiu como reação ao paradigma da lei natural, tanto na sua versão religiosa como na versão secular. Há uma rejeição, tanto em nível epistemológico como ideológico, de um apelo a uma ordem natural como referencial ético. Em nível epistemológico, a partir do relativismo cultural, questiona-se a possibilidade de dar conteúdo concreto às leis ditas naturais, ou seja, que elas sejam as mesmas em todas e para todas as épocas e culturas. Em nível ideológico, a experiência histórica do abuso, tanto de poderes religiosos como civis,
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.11-35, abril de 2004

dever-se-ia dizer que os crimes e assassinatos cometidos nesse período estariam legitimados. entende-se que o fundamento da ética é colocado por alguns na lei natural (dado essa lei ser originada por um Deus Criador ou por estar radicada na dignidade do ser humano e de seus direitos inalienáveis) ou num positivismo jurídico. ela passa a ser válida.35. de uma natureza cega. sem apelar para o eterno e o transcendente. de um lado. Examinamos as limitações e os perigos que se originam de tais pressupostos. o estado de direito poderia ser um forte defensor do direito e das liberdades dos seres humanos. discutidas democraticamente e aplicadas da maneira o mais imparcial possível. tenhamos sempre em mente suas possíveis limitações. Tal paradigma é denominado também de Contratualismo. o da lei positiva também sofre restrições. indicam pistas de por onde se pode iniciar a busca de uma fundamentação ética para as ações e relações. No entanto.Pedrinho A. O critério ético passa a ser o que foi escrito e promulgado. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 15 de apelar para leis naturais para esmagar seres humanos que se opunham a determinados regimes. como exige toda postura crítica. Podemos nos libertar. n. Como o paradigma da lei natural. o critério que fundamenta a ética. Que fazer. Se é a lei. p. É a lei positiva. Revista de Ciências Humanas.11-35. ao perseguirmos tais fundamentações. de outro. Com isso se evitaria a arbitrariedade e poderse-ia apelar para algo objetivo que foi formulado e promulgado. Uma vez promulgada uma lei. que se radica no texto de uma lei escrita e promulgada. Se as colocações discutidas mostram suas limitações e precariedades. então? Haveria alternativas para fundamentar a dimensão ética? É o que passamos a discutir. Se eventualmente as leis fossem justas. Enquanto permanecermos dentro do que é humanamente instituído. Todavia. o instituído. assim. levou à rejeição de uma ordem humana e social determinada por uma lei natural preestabelecida. Pelo que se viu até aqui. e dos mandos e desmandos autoritários de governantes e grupos. é decisivamente importante que. ao mesmo tempo. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . o que acontece quando os governadores e os juizes são autoritários e quando alguns legislam em causa própria? O que dizer quando grupos e minorias poderosas forçam a criação de acordos e negociações em proveito próprio? Pode-se ainda dizer que o que é instituído é ético? Vejamos a história recente do Brasil e da maioria dos países da América Latina onde se instalaram ditaduras legitimadas pela Doutrina da Segurança Nacional e onde se modificaram as Constituições dos países na base da força e da pressão.

Traz consigo. Ele contém a maior possibilidade de criar todas as alternativas possíveis e. Alguns autores da escola crítica. A ética é sempre do “dever ser das relações humanas em vista de nossa plena realização”. Não pode se furtar a colocar exigências e desafios. Ao reconhecer essa “limitude”. uma infinidade de caminhos diferentes. Florianópolis: EDUFSC. a possibilidade de seu próprio resgate. como Karl Otto Apel e Jürgen Habermas procuram resgatar a dimensão ética a partir do discurso. de transformações. os quais podem ser reelaborados. Vejamos cada uma detalhadamente. ela está presente nas relações humanas existentes. A dimensão crítica e propositiva Na sua dimensão crítica. a ética não pode ser considerada algo pronto. é uma consciência nítida de nossa incompletude. Perscrutando a fundo essa formulação.35. é um impulso permanente em busca de crescimento e transformação. uma noção de ética como sendo uma “instância crítica e propositiva sobre o dever ser das relações humanas em vista de nossa plena realização como seres humanos” (DOS ANJOS. deve ser questionada e criticada. na reflexão. Ao contrário. de mais interminável. ao mesmo tempo. p. ao mesmo tempo em que levam a sério a impossibilidade de existência do ser humano não socializado”. também. refeitos e retomados. n. sofre contradições e. p. sem os quais ele mesmo não pode se sustentar. podem ser tidos como herdeiros dos ideais de liberdade dos modernos. a porta de possibilidade de alternativas de crescimento. Revista de Ciências Humanas. dentre eles.31) de “críticos. Ao mesmo tempo. redimensionados. somando tanto a crítica kantiana quanto a marxista. Nesse contexto. ao mesmo tempo. O discurso é o que temos de mais próximo. abril de 2004 . 1996. É uma busca infinita. À medida que ela se atualiza. acabado. podemos extrair dela duas dimensões fundantes: a dimensão crítica e propositiva e a dimensão das relações. p.11-35. de aperfeiçoamento. Esses dois pensadores são chamados por Lima Lopes (1996. ela está sempre por se fazer. por isso. ela tem de ser propositiva. interminável.16 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano temos de reconhecer nossa “limitude” histórica.12). Elas são centrais para a compreensão mais profunda da ética. cremos que ajudaria. temos de deixar sempre uma porta aberta. tem pressupostos indispensáveis. de mais real e. Nesse ínterim.

o que ajuda os grupos humanos dizer. particular. A crítica resgata a dimensão ética de toda ação humana. falar.Pedrinho A. Ela concretiza-se quando alguém retira. Para essa concepção de ideologia. estaria. está presente. é sempre uma demonstração e uma denúncia da existência de relações assimétricas. e acontece quando há uma expropriação de poder. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 17 Consideramos fundamental enfatizar a dimensão da crítica. simplesmente. todos os que “podem” fazer algo (trabalhar. Toda ação humana. algo singular. n. Na verdade. 1988). a própria Teoria Crítica tem como pressuposto a impossibilidade de neutralidade das ações humanas. a crítica não encerra a questão da presença de uma dimensão ética específica. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. “Poder” é entendido como uma capacidade. um poder de outro. servindo a propósitos contrários. que dificilmente vai deixar as pessoas impassíveis. ou seja. tranqüilas. de maneira assimétrica ou injusta. que “as coisas são assim”. Nesse sentido. a dimensão do “dever (ou não dever) fazer”. A que se pretende “neutra”. p. Essa é a grande vantagem (e ao mesmo tempo o risco) de se tomar ideologia na acepção crítica. mesmo ao se discutir as diferentes teorias científicas. desiguais. Ao mesmo tempo.11-35. Não há ação que seja neutra. a dimensão “ética”. segundo essa escola de pensamento. Uma forma simbólica somente é ideológica quando se pode mostrar que ela serve aos propósitos de criar ou manter relações que sejam de dominação. o próprio John B. deve ter como finalidade iluminar e emancipar o agir humano. leva à própria evidência da impossibilidade de haver uma ciência ou uma prática científica neutra. uma qualidade individual de pessoas. ao discutir a questão da ética. de ocultação da realidade e de manipulação das consciências (GEUSS. nesse sentido. à constatação de situações que provocam uma tomada de posição. Já “dominação” é uma “relação”. A análise ideológica.) têm um “poder”. um dos autores que mais ampla e criticamente analisa a ideologia. relações assimétricas. injustas. desiguais. naturalmente. sem uma dimensão ética. sem que se apresentem elementos de transformação e superação de tais situações? Revista de Ciências Humanas. Toma-se aqui dominação como um conceito diferente de “poder”. escrever etc. 1992) mostrou-se como o uso cuidadoso e sério da crítica. Thompson (1995). Num trabalho anterior (GUARESCHI. define esse conceito como sendo o “uso de formas simbólicas que servem para criar ou manter relações de dominação”. então. Ela leva. sempre se dá entre dois ou mais sujeitos. na verdade.35. Como veremos adiante. Aliás.

Florianópolis: EDUFSC. como uma postura que toma a ciência como uma prática que diz “como as coisas são” pressupõem. A dimensão da relação Essa é a segunda dimensão da ética tomada como instância crítica: a ética como ética das relações. Já a segunda. alguém sozinho não pode ser justo. em que se discute o que é “ação” e os pressupostos éticos implícitos em qualquer ação. 1985).18 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano É importante ainda notar que tanto uma postura teórica. na Ética a Nicômacos. implicitamente.35. mas a virtude inteira e seu contrário. Em outras palavras. Justiça provém de jus. isto é. posturas éticas. ver Israel (1972). é uma ação tão ética quanto lutar pela mudança. Numa cosmovisão individualista. ser conservador. que no latim quer dizer “direito”. em que o ser humano é considerado indivíduo (o indivisum in se et divisum a quolibet alio. procurando fazer com que a situação se transforme4. relação é algo que não pode ser sem o outro. Revista de Ciências Humanas. a injustiça. permitindo que as coisas permaneçam como estão ou impedindo que elas mudem. assume postura de manutenção do status quo. abril de 2004 . Em outras palavras. Entendemos por relação a “ordenação intrínseca de alguma coisa em direção a outra”. ao assumir claramente que as ações devem levar à iluminação e à libertação. n. Alguém é justo quando estabelece relações com outros seres justas. “Essa forma de justiça não é parte da virtude. Essa discussão é provocante e crucial. fica difícil de perceber que a ética somente pode ser dita das relações e onde ela mesma é sempre uma relação. que procura a transformação e a emancipação. Por isso. sob o império do liberalismo. no qual ele recupera a argumentação de Aristóteles. p. também não é uma parte do vício. mas o vício inteiro” (ARISTÓTELES. o que é um/uno. __________________________________________________ 4 Para uma discussão mais aprofundada dessa questão. impedindo que as coisas mudem. em que o filósofo afirma que a justiça é a virtude central da ética. A primeira. Pegoraro (1996) publicou um livro cujo título é Ética é justiça. que a filosofia define como ordo ad aliquid.11-35. A afirmação “ética é justiça” torna-se muito clara quando pensamos sobre o que significa “justiça”. mas que não tem nada a ver com qualquer outra coisa). pois ela comanda os atos de todas as virtudes. ao dizer que as coisas devem permanecer como estão. Vejamos como a questão da relação tem a ver com a justiça e a ética.

p. branco. justo. sejam elas quais forem. Por incrível que pareça.43). somente entram em cena no momento em que alguém se relaciona com os outros. que respeitem os direitos dos outros. Tal adjetivação não pode ser dita de um pólo apenas da relação. O pensamento liberal. todo poder constituído “estabelece as próprias práticas como boas” (DUSSEL. no sujeito da proposição. da CNBB (1994). distinguir moral e ética. Moral são os costumes vividos numa determinada sociedade. assim. Assim. a partir de si mesmo.72). É importante ainda. Isso quer dizer que se pode aplicar o adjetivo “justo” somente a “relação”.35. abril de 2004 . exatamente. Justiça tem a ver com o respeito aos direitos das pessoas. não implica “outros”. Isso parece chocante e de fato é-o. Os pobres são os juizes da ordem democrática de uma nação” (n. simpático. Eu sou justo quando estabeleço relações com outros que sejam justas. centraliza tudo no “eu”. a moralidade. enfim. igualdade e solidariedade. Há justiça quando os direitos das pessoas são respeitados. Chegamos. n. porém. como é a cosmovisão do liberalismo. pois isso não implica “relação”. Dizer que ética é relação ou dizer que ética só se pode aplicar às “relações” é afirmar que ninguém pode se arvorar do predicativo de “ético”. a justiça. como o faz Dussel (1986). A ética está continuamente na busca de uma sociedade Revista de Ciências Humanas. Do mesmo modo ocorre com a ética. a seguinte afirmação mostra quem é o juiz da ética numa verdadeira democracia: “a existência de milhões de empobrecidos é a negação radical da ordem democrática. como conseqüência. necessário para o andamento e prosseguimento da ordem normal estabelecida. a efetivação da ordem democrática.. A situação em que vivem os pobres é critério para medir a bondade. mistificamos o verdadeiro sentido de ética. perdemos a dimensão relacional e. No documento Exigências Éticas da Ordem Democrática. pois a justiça. a absurdos sociais como os vividos hoje. isto é. A ética. dentro da cosmovisão egocêntrica e individualista. ao partir da definição de ser humano como “indivíduo”. Nesse sentido. isto é. Agora. ninguém consegue ser sozinho. p. etc.11-35. o liberalismo. aquilo que os grupos e as pessoas estabeleceram como sendo comum. como quer. quem decide se somos ou não éticos são os outros. 1986. em que os direitos de um terço da população não são garantidos e nos blasonamos como éticos ou como um país onde existe ética. ou a injustiça. Florianópolis: EDUFSC.Pedrinho A. como a justiça. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 19 Alguém sozinho pode ser alto. refere-se aos princípios fundamentais.

são discutidas algumas questões gerais referentes à montagem e estruturação do programa Big Brother. de acordo com a Constituição de 1988. que é o fato de que a mídia eletrônica (rádio e TV) é um serviço público. poder-se-ia dizer ética? Estão respeitados os direitos à informação e à comunicação na atual legislação brasileira? A educação sistemática. sem discriminação e ofensas às pessoas. que. ética busca a libertação pessoal e social das pessoas e das situações de injustiça. libertadora e autônoma. de dominação. aos padrões morais dos grupos e das sociedades. cria uma consciência tranqüila. promova os valores humanizantes. Florianópolis: EDUFSC. têm como compromisso implícito prestar serviço da melhor qualidade possível. Por ser um serviço público. a consciência “moral”. Podemos acenar aqui para a questão da comunicação: a situação em que se encontra a alocação dos meios de comunicação. a partir dos princípios morais de um sistema que seja dominador (como é o caso de sistemas onde há apenas alguns que podem falar e a maioria não tem o direito de dizer sua palavra). Assim. ou conforma. denunciando profeticamente suas lacunas e anunciando novas perspectivas de crescimento e libertação. mas sim concessionários. em geral. abril de 2004 . ante uma práxis que o sistema aprova mas que pode ser originalmente perversa. que seja educativo. essa mídia não tem donos. p. embora sendo legal. As colocações que seguem se fundamentam. pois.46): Deste modo. Em seguida. educa para a formação de uma consciência crítica.11-35. Como afirma Dussel (1986. A verdadeira educação. nos pressupostos éticos discutidos acima.20 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano mais justa e fraterna e do estabelecimento de normas que sejam mais e mais construtoras de seres humanos livres e solidários. Análise do programa Big Brother Esta segunda parte inicia com uma rápida apresentação do método empregado na investigação. as pessoas a obedecer e a se ajustar aos padrões estabelecidos. além de propiciar informação o mais imparcial possível e uma diversão inteligente.35. ao receberem a concessão. Revista de Ciências Humanas. p. Acresce-se a tudo isso ainda uma outra questão. capaz de continuamente questionar a situação presente. forma. n. que não dói.

Numa das versões brasileiras. Revista de Ciências Humanas.35. Dois conjuntos de informações foram utilizados como material de análise. apresentam-se os procedimentos metodológicos da investigação. abril de 2004 . 500. quais os critérios de escolha e os compromissos que elas assumem com os organizadores do programa. doze foram escolhidas para o elenco. foram agrupadas conforme temas com características semânticas semelhantes (BAUER e GASKELL.Pedrinho A. 2002). isto é. Não se sabe com certeza de que maneira essas pessoas foram selecionadas. Questões gerais referentes à montagem e estruturação do programa Big Brother pertence ao grande capítulo dos reality shows criados por John de Mol. O primeiro ponto que pode ser questionado é o da transparência na seleção dos participantes. pesquisadores. cujas cópias foram enviadas a nós. de Thompson (1995). outros foram estudados no momento de sua audiência. com pequenas modificações.11-35. A interpretação foi feita conforme o referencial metodológico da Hermenêutica de Profundidade. que. Método Brevemente. Alguns programas foram gravados e analisados mais detalhadamente. O segundo conjunto é composto por anotações feitas por nós ao assistir ao programa. Esse referencial caminha por três fases interligadas: a interpretação sócio-histórica. as diferentes cenas ou narrativas de cenas mencionadas pelos missivistas. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 21 Entra-se. nesse caso. p.000 pessoas inscreveram-se para o programa. e a interpretação e re-interpretação das informações. n. A partir desses dados. então. na discussão das diversas categorias que abrangem as informações. a análise formal ou discursiva. Algumas dessas cartas são relativamente longas. As unidades de análise foram as cenas apresentadas pelo programa. foi a análise temática. Florianópolis: EDUFSC. têm em torno de uma página. fizemos o que se poderia chamar de uma análise temática: as diferentes unidades de análise. Doze mil foram pré-selecionadas e delas. interpretadas à luz do referencial ético apresentado na primeira parte. Já foi apresentado em diversos países do mundo. outras se compõem de apenas alguns parágrafos. O primeiro constitui-se e-mails coletados pela CAP.

Florianópolis: EDUFSC. pois fica a cargo do apresentador. sem firmar acordos prévios e de maneira “justa”. Apresenta-se uma realidade que sequer pode ser validada por seus atores. Pergunta-se. o teor do programa. A suposição seria que as pessoas chegassem ao programa sem compromisso algum. visto que se trata de um jogo com premiação. qual é o critério para a seleção das cenas que são passadas ao público. Alguns telespectadores dizem ter certeza de que tudo não passava de uma combinação das partes envolvidas. n. visando assim a posteriores contratos. isto é. Daí. por exemplo.35. bem como já tinham determinados compromissos com o programa. abril de 2004 .11-35. pois. então. sendo um jogo. sem números.22 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Perguntamo-nos até que ponto são verdadeiras as dúvidas. Essa escolha é a que dá. O quanto isso é verdade? O programa não se encarregou de esclarecer. p. Outros dizem acreditar que o programa já iniciou com o ganhador definido. praticamente. Revista de Ciências Humanas. que as ligações visam somente à arrecadação. conduzir os fatos e dar a eles o caráter que bem entender. participar de determinados jogos psicológicos etc. Evidentemente. no qual ética é uma instância crítica que se consegue numa ação comunicativa. quem garante que os resultados das votações são aqueles apresentados ao público. O apresentador não poupa ocasião para criar estereótipos dos concorrentes. a questão é: Quem manipula quem? A edição das cenas e a apresentação delas vão conduzindo a trama. principalmente de desempenhar certos papéis. as regras devem ficar claras a todos os participantes. apenas em porcentagem? Com base no referencial ético que nos guia. O segundo ponto fundamental no que se refere à estruturação do programa diz respeito a como se dão seu processo e sua constituição. pergunta-se: Onde fica a transparência das informações e a possibilidade de uma comunicação em pé de igualdade? Essas são questões que deveriam ser esclarecidas à população. apoiado nas cenas. A finalidade do programa. Nesse caso. há escolha de determinadas cenas. desconfianças e opiniões denunciadas por telespectadores de que os selecionados (indicados) eram dentre alguns apadrinhados por funcionários. seria a de os participantes somente serem apresentados na mídia. ao lucro. pergunta-se: O que é escolhido? Com que critérios? A “edição” dos programas talvez seja a questão maior e mais séria. e. que são editadas. dentre os quais se incluem os telespectadores votantes.

procuram inventar maneiras de evitar. provocações.17) dizem que “ao público é dado o direito de. coloque-os no chamado “paredão”. de um cotidiano corriqueiro. p. sensacionalismos. conforme revela seu comportamento (ou o comportamento pedido pelo programa. Numa análise psicanalítica do programa. em que predominam a ociosidade. n. Dhomini é o “palhaço tarado”. a principal relação que se estabelece seja a de competição. abril de 2004 . Os pressupostos éticos da possibilidade de todos os atores manifestarem sua palavra e serem informados dos fatos são negados. nunca se sabe). tácito ou mesmo manifesto. exercer o domínio sobre o destino alheio. são registrados os maiores índices de audiência. ou seja. enfim. não é dada ao telespectador a possibilidade de concluir por si quem é quem ou o quê. decidir quem deverá viver ou morrer”. Meira et al. Elane é a “menina primitiva e tosca”. ou seja. não certamente o melhor de tudo. quando várias pessoas passam a viver em grupo. As cenas não são somente apresentadas. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 23 Então. onipotentemente.Pedrinho A. é que o programa Big Brother Brasil passa para a população brasileira uma representação e um ensinamento. por meio de diferentes táticas. que determina semanalmente que o próprio grupo “exclua” alguns. dentre outros tantos personagens que o programa se encarregou de construir e legitimar. (2003. Jan Massumi é o “preguiçoso”. Sabrina é a “gatinha risonha e sexy”. de guerra e de intrigas. Difícil também é negar que essas relações são estimuladas pela própria estrutura do programa. sua possível exclusão. eliminar” os participantes. Segundo alguns. e que aos espectadores é feito o convite para “torpedear. Harry é o “rabujento” e “reclamão”.35. Viviane é a “boazuda culta e discreta”. Florianópolis: EDUFSC. p. A traição ao cotidiano Talvez o ponto central que questionamos (e com isso concorda a maior parte das reclamações enviadas à Comissão). Cabe ressaltar que. é o pior de tudo. É difícil aceitar que. mas sim comentadas. Percebemos que a maior parte do que é selecionado são cenas de banalidades. Já os excluídos. em que um procura dominar ou destruir o outro. Desse modo. Passamos agora à análise das diferentes categorias. nos dias de “paredão”.11-35. Revista de Ciências Humanas. Está no ar uma realidade fictícia de bandidos inteligentes e sacanas contra mocinhos sensuais e ingênuos. executar. a promiscuidade e a competição.

Florianópolis: EDUFSC. assim se expressa: Esses programas de televisão revelam grupos de pessoas que não conseguem dar sentido ao tempo e ao ócio. Quem está vendo e quem é visto são peças de um mesmo xadrez. mas o que se vê é a traição de um pressuposto que está. o de que a mídia lhe apresente algo positivo e não uma série de mesquinharias. n. o que pode desejar? Revista de Ciências Humanas. A maioria da população tem a televisão quase como único meio de lazer e informação. e nem é por culpa delas. os reality shows “vendem aos espectadores o espelho fiel de sua vida amesquinhada sob a égide severa das ‘leis de mercado’. Poder-se-ia criar algo construtivo. Talvez por isso.] trata-se de “sadismo”. estratégias descaradas para passar a perna nos companheiros e garantir a própria permanência [. as vezes degradante. no direito de toda uma população. p.87). a melhor palavra para classificar o programa seja mesmo “traição”.. Ao contrário. são pessoas encostadas pelos cantos. partilha. mas não sexual” (Idem). sociólogo italiano. há milhões de pessoas que também poderiam estar aproveitando melhor o tempo. o marasmo dos fatos. O que se vê. um caso de traição e amor fugaz. mesquinho. Domenico de Masi.24 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Muitos se perguntam por que Big Brother não poderia ser um programa que levasse ao crescimento humano e psicológico das pessoas. principalmente ao final dos programas. falando sobre o Big Brother. amaldiçoando o peso do tempo. armadilhas. Vendem a imagem da selva em que a concorrência transforma as relações humanas”.11-35. felicidade e amor? – à exceção do romance de Sabrina e Dhomini. Vendo esse programa.35). ao menos implicitamente. 2002. traições. humanizante. É que não foram educadas para isso. p. E o pior é que. Pode-se perguntar que tipo de sociedade estamos construindo assim. p. Programas desse tipo são a morte do tempo (apud VIEIRA. do outro lado da tela.. abril de 2004 . O fiel telespectador sente-se enternecido com esse tipo de lamúria e quase chora com seu herói solitário. o tédio dos companheiros. sim. o programa produz e apresenta um cotidiano artificial. a uma crítica do cotidiano e a uma vivência do cotidiano em suas profundas dimensões de humanidade. No dizer da psicanalista Maria Rita Kehl (2003. “conspirações. engrandecedor.35.

] os participantes dos programas parecem perder o sentido tanto do seu habitat como do dia e da noite.. mais respeitosa. A pergunta que os telespectadores se fazem é: Os responsáveis por uma comunicação.23): “[. Não se necessitaria saber a que hora elas vão ao banheiro. cultas. grosseiras.35. se acordam de mau humor ou se estão com vontade de enganar seus concorrentes ou malfeitores. Até quando estaremos submetidos à tirania do vale-tudo na corrida pelo Ibope? Como diz Vieira (2002. se brigam com o companheiro. A vida pode ser mais bonita. no dizer de Vieira (2002 p. criativas.Pedrinho A. tão mesquinha. tripudiam em cima de fatos reveladores da fraqueza de um ou outro concorrente. a banalização de coisas sérias e a supervalorização de banalidades? Sobre isso.. mais estética.. e onde se elaboram as maquinações engenhosamente alimentadas pelo desejo de destruir. O jogo é competição.11-35. intrigas e traições. armam estratégias de eliminação dos pares. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. Fazem galhofa da miséria alheia. não deveriam não permitir. abril de 2004 .. sem precisar apelar para baixarias e mediocridades. Nas edições que são exibidas em horários nobres de programação. mais interessante”. burras e mesquinhas de tratar e discutir os problemas do humano. tão pouco inteligente? Por que não cenas de pessoas inteligentes. as horas vividas sem proveito travestem-se em doidos cenários onde se fabrica compulsivamente a futrica. muito menos promover. que é um serviço público. p. Existem formas menos rudes. p.] as famílias não conseguem impedir que esse tipo de mediocridade invada suas casas. parecem zumbis que conversam longamente em alta madrugada e têm dificuldades para identificar qual é o tempo de parar e de recomeçar suas longas horas sem ter o que fazer..37-38) temos: [. n. engraçadas. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 25 Que valores são alimentados? A “realidade” de nossas vidas tem de ser assim tão pobre.. O que forma o escândalo da agressão ao sentido do tempo é justamente a falta de inteligência e de bondade na forma de ir consumindo o dia.

não correm o risco de sentir-se culpados ou vir a responder pelas conseqüências do sofrimento alheio. E. conseqüentemente. numa análise mais global.35. mas sabem que precisam suportar aquilo com certa classe. É permitida a todos a impunidade e. depois. os participantes sentem profundamente. ou seja.11-35. repetem a mesma lógica dos gladiadores romanos. Florianópolis: EDUFSC. exercer e sentir sem medo o gosto da perversidade.. é como se fosse celebrado um funeral. as saídas tornam-se uma espécie de experiência sadomasoquista: ficam tristes por estarem sendo submetidos àquele tipo de prova. há uma “traição à espiritualidade do cotidiano nos reality shows”. práticas tão presentes em nossa sociedade. 2002. talvez.] empacotados em embalagem moderna. p. n. é um modelo de vida marcado pelas tendências da competição e da exclusão. ou simplesmente não sabem o que dizer no momento de dar a razão das escolhas feitas no jogo. Delatam os melhores amigos. como telespectadores votantes. deixa os telespectadores confusos. p. do sucesso individual a qualquer custo.26 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Como bem diz o subtítulo do trabalho desse autor. Essa guerra diária capitalista. Competição O programa. Revista de Ciências Humanas. Como muito bem expressa Maria Fontenelle (apud VIEIRA. sob a máscara da amizade e do bom convívio. reforçadas a irresponsabilidade e também a impunidade. Além disso. Aos telespectadores é dada a possibilidade de. ganhar um papelzinho na televisão ou um convite para posar como modelo. No começo. No zoológico da televisão. Cada vez que alguém sai da casa.. por intermédio do outro. os jogadores só respeitam a lei da selva. A forma de eliminação adotada no programa é uma espécie de morte. abril de 2004 . a repetição semanal produz certa perversão. passivos e amortecidos em suas poltronas. pois. a do mais forte. eliminar o adversário a qualquer custo e se exibir a uma platéia ávida por emoções fortes e bizarras. os jogadores revelam uma ambigüidade de causar pena. justificam suas traições. do mais esperto. Nos “confessionários” eletrônicos desses programas. 15): [. invocando fatos banais.

o que se tem e exibe é a medida do que se é. As pessoas fazem tudo para conseguir o prêmio de 500 mil reais. sem falar da exposição ao ridículo ou mostrar seus corpos nus. os amigos são traídos e os segredos revelados. Na esteira em que comanda o dinheiro. Como diz Vieira (2002. Os interesses do mercado detêm a batuta dessa tragicomédia da realidade. o irmão vira um estranho e todos se pervertem. um escravo.2 milhões.Pedrinho A.8 milhões cada. Outro vendeu duas cotas por 11. Algumas se sujeitariam a ficar 10 dias comendo apenas marmelada. comentando o programa. Nossos maiores conglomerados de comunicação são adeptos incontestes de uma busca insana por audiência a qualquer preço. um dos canais vendeu quatro cotas publicitárias de 4. pelo dinheiro. valemos o que pesamos em dinheiro. é que. abril de 2004 . Revista de Ciências Humanas. Por causa da prata.11-35. O que o programa sugere e ensina. Florianópolis: EDUFSC. p. 12 mil foram pré-selecionadas e doze foram escolhidas para o elenco.5). em troca de uma “boa bolada”. p. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 27 Mercado e dinheiro Jurandir Freire Costa (2002. Outrora. os traidores cortejam. p. No caso dos reality shows. mais de 11 milhões. lembremos que 500 mil pessoas se inscreveram para o programa. a não tomar banho durante uma semana. “o resultado natural dessa mixórdia é o aparecimento de programas escabrosos e perpetuação de batalhas semanais nas quais a baixaria tem lugar garantido”.140). que foi feito com anônimos. O que conta. o honesto torna-se um impostor. outras. Para se ter uma idéia da corrida enlouquecida por dinheiro. diz estar nele presente uma amoralidade do lucro: Os programas escancaram o que a maioria aceita e a minoria – por pudor e integridade – reluta em admitir. os parasitas adulam. acima de tudo. a admiração e o respeito de todos. n. é elevar audiência dos canais de televisão. Agora. quem rege pode tornar-se um tirano e quem obedece. Delas. A Fiat investiu. É difícil ter uma idéia de o quanto os canais de televisão lucram com tais programas. a pessoa honrada corrompe-se. o dissoluto jura. a recompensa do agir moral era o reconhecimento. O Brasil torna-se assim cenário de uma disputa imoral por números campeões de audiência.35. em seu currículo oculto. nas duas primeiras experiências brasileiras do Big Brother.

Como diz Vieira (2002. chegou ao espírito. afirma: O íntimo outrora era o segredo de cada um. seu preço de mercado despencou.35. A impressão que se tem é que a intimidade veiculada nos programas produz uma espécie de pornografia “inocente”. as pessoas se marcavam pelo mistério. p.31): [..9). comentando o programa. p. relevante para quem pensa numa comunicação que se guie pela ética e pelo respeito. mas. n. por um lado. Havia boa demanda para isso. p. em que platéias deliram com confidências escandalosas. Não há o que dissimular ou criar: está tudo gasto.. Qualquer arranjo vai parecer artificial e pouco interessante. Florianópolis: EDUFSC.11-35. intimidade Outro ponto muito questionado pelos telespectadores refere-se uma questão bastante delicada.. A pessoa é roubada na sua capacidade de surpreender. Hoje. elas ficam irreconhecíveis. difícil até mesmo de discutir. A surpresa foi assassinada pelo olho da câmara cruel. com o grau de liberdade que fica comprometido em tais programas. o entusiasmo em se produzir e apresentar-se diante dos colegas e do público. de forma grave. de qualquer modo. Essas questões têm a ver. porque intimidade mostrada não é mais intimidade. As pessoas entregam-no facilmente. A miséria se desmaterializou. terminou a demanda do íntimo. abril de 2004 . por outro lado. Era a alma do romantismo. Quando termina a série de dias de confinamento e essas pessoas se apresentam diante do público. Ciro Marcondes Filho (2002.] há elementos diabólicos na sofisticada exposição dos programas: o enfado da pessoa com ela mesma e a morte da surpresa. seu “tesouro”. Os participantes são submetidos a um ritual cotidiano tão invasivo que diminui.. com a massificação e a impessoalização. É a TV do “trash”.28 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Liberdade. com o grau de exposição possível e permitido no campo da intimidade e. Revista de Ciências Humanas.

Se é verdade que a clausura pode ajudar. (2003. Um grupo de pessoas estranhas é jogado em um ambiente artificialmente familiar.35. Referente a isso.. de pessoas que rolam debaixo da mesma coberta. p. descontroles. n. Desse grupo arranca-se a liberdade. extroversão. Enjaulados. as atividades propostas no programa impedem isso e fomentam disputas. pois extrairá centímetro por centímetro a nossa intimidade.. poucos conseguem conservar sua dignidade e mesmo a sua sanidade.21) diz que “o homem moderno acaba por furtar-se da viagem para dentro de si e. Meira et al. distração. p.] ofensa à dignidade humana e o desrespeito aos direitos humanos com a venda de imagens de pessoas que instigam a outra para fazer sexo aos olhos de quem estiver assistindo. tudo isso não passa de uma violência. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 29 Ainda. O que o voyeur de plantão assiste é à atuação de atores canastrões. corromperá nosso coração e tornará cretino nosso cérebro. Por isso. pedem perdão. Passam a reagir como criaturas que se angustiam com a redução de seu território para ir e vir. choram ao perceber que deram uma derrapada. abril de 2004 . As pessoas agem sabendo que estão sendo acompanhadas pelas câmeras e volta e meia se referem ao público com cartadas de afeto. o cidadão denuncia a: [. desta forma. se for para mergulhar em si mesmo. como diz Antônio Mazzi (apud VIEIRA. Querem “sobreviver”. Além do mais. Assim.Pedrinho A. Numa das críticas enviada à CAP. Revista de Ciências Humanas. as pessoas devem convencer-se de que a televisão é muito pior do que qualquer tirano. de conversas insinuosas e por vezes explícitas. dá força ao que convida à alienação”. além de pôr fim a nossa intimidade. Elas correm o risco de se tornar aduladoras do público. A realidade vista não é precisamente realidade. é difícil afirmar que é autêntica a tal intimidade mostrada no vídeo. a originalidade pessoal de cada um já está irremediavelmente perdida. também nossa liberdade é ameaçada com toda essa exposição. mexericos etc. bebedeiras. para refletir e meditar. 2002) sobre o Big Brother.11-35. ficam deprimidas. Sabem que o olho eletrônico do espectador não perdoará o mínimo deslize. correndo o risco de uma desumanização cruel. A essa altura. Florianópolis: EDUFSC.

Outro cidadão diz ser [. Será que o esquartejamento não é um streaptease sem freios? Existe a pornografia bovinofágica? Revista de Ciências Humanas. vende-se a intimidade das pessoas. durante o confinamento.. fora da trama. filhos netos e bisnetos”. fora de cena. A particularidade erótica de determinada cena vem apresentada avulsa. em contrapartida com a perda da identidade de quem se espelha naqueles modelos de comportamento. sem couro.35. n. Cangas. seria até suportável. portanto. despida. abril de 2004 . assistindo filmes pornográficos. p. quem não estiver satisfeito que saia da sala.11-35. Obsceno. sem osso quase nenhum. Florianópolis: EDUFSC.] deprimente ligar a televisão e não ter outra escolha. ocorre que uma cena na qual se mostra uma parte do corpo das pessoas ou um de seus membros pode vir a ser um objeto estimulante para olhos ávidos. A partir daí. rasgada. sungas. Eugênio Bucci (2002. Sendo assim. O “ob-ceno”. prescindindo de qualquer significado que o transcenda. despojada. Em primeiro lugar. o que a cena mostra. p. escolhem-se corpos esculturais para que. p.. mas é desmoralizador e no ritmo que vamos. O que os programas mostram é algo desfocado.30 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Assim. roupas íntimas e muitas bermudas lotam o guarda-roupa das versões”.5) chega a ser veemente em sua análise de algumas “ob-cenas” do Big Brother: Olha a picanha aberta. breve estaremos: “Pai. é o detalhe que se apresenta como completo em si mesmo e reclama a atenção. “as câmeras percorrem famintas os ângulos mais insinuantes. Não é fantástico? Obscenidade É importante resgatar aqui a etimologia da palavra “obsceno”. ou quem sabe uma cena de sexo explícito ao vivo. Essa imagem ganha sentido próprio. contrapõe-se ao “in-cena”. sem pelo. E o cupim. você viu? A carne explícita. impondo a própria capacidade de atrair. mães.70). é chegada a hora do Big Brother Brasil e tudo que se possa imaginar de “corriqueiro”. escancarada. estejam o tempo inteiro seminus. como salienta Vieira (2002.

em um de seus comentários. p.] destacava uma das participantes com um texto apelativo ao extremo. a qual [. mostrando os atrativos da moça. o improviso é fictício. os buracos nas fechaduras são simulados. incluiu cenas da tal moça praticamente nua. 2002. Para tentar garantir a audiência desta baixaria.. Um péssimo exemplo de exploração da mulher como simples objeto sexual descartável. usando inclusive de obscenidades. as portas que as protegem são trapaças.. Sinceridade e verdade versus cinismo e hipocrisia Um questionamento bem mais profundo pode ser feito a esse tipo de programa: O quanto ele representa de verdade e o quanto há nele de hipocrisia? Alberto Dines (apud VIEIRA.11-35. Foi constrangedor ver o Pedro Bial provocar os telespectadores para que. p. e a masturbação coletiva só tem um objetivo: ludibriar a realidade. Uma lástima. chega a afirmar: Esses shows são enganosos.Pedrinho A. como no Fantástico no dia 16 de fevereiro de 2004. Florianópolis: EDUFSC.35. referindo-se que a moça possuía belos nacos de carne muito bem distribuídos. abril de 2004 ... Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 31 Um telespectador denuncia as chamadas do Big Brother durante outros programas. Outro simplesmente diz: Venho denunciar o mar de pornografia que é livremente transmitido diariamente pela TV-Globo no programa Big Brother Brasil. eles passassem a apreciar a bunda da Viviane. estas privacidades são falácias. tratando-a como uma peça de carne no açougue. Revista de Ciências Humanas.99). após a exclusão da participante Sabrina. n.

101) diz que: [.] essa potência humana já escreveu a história do planeta com letras de sangue. apresentada nas cenas desses programas. Tem-se a impressão de uma pantomima espontaneísta: de um lado. há uma multidão prostrada. mesmices e algumas cenas provocantes de sexo. cínicos lances. Vieira (2002... Os atores. p. e a falsa emoção é o fim da emoção. p. de outro. No fim de um programa. Revista de Ciências Humanas. Além do mais. é criada. quando externalizam esse grande poder que trazem consigo. Seria triste considerar válido o que os participantes do programa vivem. confirmam que acreditam que as pessoas do vídeo acreditam.32 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano Na verdade. Risos cheios de suspeitas soam como punhais de traição. Nesses arremedos de realidade que a TV tem produzido. nunca se sabe se um sorriso significa o que um sorriso deveria significar. aquilo que o ser humano tem de mais assustador. em que se coloca.. como em um tubo de ensaio. fazendo uma mímica patética. aqueles que acompanham as cenas. após tantas hipocrisias e tantos enganos. ou seja. A alegria não é sincera. Reinos e nações foram sacrificadas por causa da desfaçatez de uns poucos. As emoções são fictícias. a sua capacidade de jogar com a vida dos outros.11-35. abril de 2004 . O cinismo já montou doutrinas capazes de convencer que algumas pessoas devem sempre estar por cima de outras. é a pior face da convivência humana. Muitas pessoas acreditam religiosamente que toda aquela trama é sincera.35. pela própria vida e pelas circunstâncias. precisam alimentar-se com uma certa dose de menosprezo pelos semelhantes. Florianópolis: EDUFSC. futricas. para realizar essa façanha. o que é passado aos lares são mexericos.. uma tragédia dos que preferiram ver a viver. Mentiras bem maquiadas podem seduzir. artificial. de humor criativo ou de situações inusitadas e divertidas revela uma quase doença emocional. Sobre isso. A abundância de risadas desprovidas de sentido e de senso do bem. atores fazendo de conta que acreditam em tudo e que gestos e conversas são frutos da mais casta naturalidade. n. Alegria como máscara é uma das mais pérfidas criações do ser humano. Uma última consideração é o fato de que o programa cria um laboratório perigoso. a verdade do dia-a-dia. Nessa situação. a verdade tem passado por provas terríveis.

da G. 1985. O que nos anima é ver que tanta criatividade. Cremos que tal programa é o que se pode considerar um tipo de “vingança” dos indignados com tal gênero. tanta engenhosidade poderia ser empregada para algo melhor. A emissora responsável pela produção garantiu que uma eventual guerra de egos entre os participantes e a interferência do público. não tão acostumados a tais baixarias. bem-estar. resolveram adaptar o programa a um estilo culturalmente mais aceitável. Como conclusão. Revista de Ciências Humanas. Os participantes são quatro escritores que ficam fechados em uma casa com a missão de produzir um conto de dez páginas cada um. Ética a Nicômacos. gostaríamos de repetir que nosso intento. p. da Universidade. num espírito negativista e destrutivo. que poderia enviar sugestões e críticas aos escritores. crescimento e a educação de toda a população. para que eles possam superar tais limitações e colocar a mídia.35. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . de outro lado. humanizante.11-35. inteligente. Referências bibliográficas ARISTÓTELES. libertador. respeito por tantas pessoas que manifestaram ressalvas sérias aos programas e que merecem ser ouvidas nesse diálogo que constrói uma ética como instância crítica do dever ser. com o título: Vous connaissez la nouvelle? – que poderia ser traduzido como: Sabe da última?. tomada como. com a análise feita. Gostaríamos de que nossa análise fosse. por meio de uma ação comunicativa. como um desafio aos responsáveis por tais programas.Pedrinho A. educativo. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 33 Alternativas A pergunta que naturalmente nos fazemos é a seguinte: Não seria possível aproveitar a novidade do programa para coisas mais humanas e mais inteligentes? Cremos que sim. como um serviço público para o entretenimento. n. In: KURY. de fato (e essa é sua tarefa fundamental e primeira). por isso mesmo. construtivo. (Org. garantiriam momentos de grande excitação intelectual. M. O material que fosse produzido em seus computadores portáteis seria mostrado pelas câmeras. Os franceses. e. não é apenas criticar por criticar.) Brasília: Ed. de um lado. mais provocante e atraente. por exemplo.

Aparecida. 17 fev. Liberta o pobre! Petrópolis: Vozes. 1996. e LIMA LOPES. 2003. L. Folha de São Paulo. Petrópolis: Vozes. Campinas: Papirus. 1992. KEHL. 2002. M. 1966. Pesquisa Qualitativa com Texto. M. Apresentação. J. E. P. Teoria Crítica: Habermas e a Escola de Frankfurt. 1988. e GASKELL.11-35. Crítica. The context of Social Psychology. Consciência Moral Emergente. CNBB (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL). 1986. Chicago: Rand-McNallly. M. L. Ética Comunitária. Stanford: Stanford University Press. Stipulations and Construction in the Social Sciences. 2002. P. R. LIMA LOPES. GEUSS. SP: Santuário. 1972. E.87. BUCCI. COSTA. SP: Santuário. J. M. M.08-09. Ética e Direito: um diálogo. In: MACCOBY.34 — Big Brother Brasil: a banalização do cotidiano BAUER. KOHLBERG. 1996. F. (Ed. e LIMA LOPES. p. Ética e Direito – um panorama às vésperas do século XXI. 1994. J. In: GOSLIN. M. Aparecida.). In: DOS ANJOS. In: DOS ANJOS. R. Imagem e Som. In: GUARESCHI. DUSSEL. J. São Paulo: Edições Paulinas. Ética e Direito: um diálogo.35.04-05. J. Folha de São Paulo. e TAJFEL. 31 mar. L. F. Florianópolis: EDUFSC. R. ISRAEL. C.04. J. SP: Santuário. C. FILHO. GUARESCHI. Caderno Mais. Exigências éticas da ordem democrática. G. Revista Época. Londres: Academic Press. F. A cognitive-developmental analysis of children”s sexrole concepts and attitudes. E. p. A cognitive-developmental approach to socialization. 1969. Revista de Ciências Humanas. Handbook of Socialization. 2002. DOS ANJOS. H. D. e SUZIN. n. 31 mar. p. R. Caderno Mais. 2002. KOHLBERG. Aparecida. F. In: ISRAEL. p. A emergência da consciência ética. R. Folha de São Paulo. The development of sex-differences. abril de 2004 . p. 03 fev. E.123-211. p.

Ill. C.Pedrinho A. LUCCHESI. 1996. G..: Free Press. The Moral Judgement of Child. GIRON. Aparecida: Santuário. PEGORARO. LAMPERT. 1995 VIEIRA.11-35. O. 2003. A. Glencoe. R. P. n.. A.. Petrópolis: Vozes. FORMOSO. J. C. NOTTI. Petrópolis: Vozes. JUNG.. S. Ética é justiça. Guareschi e Laura Helena Pelizzoli — 35 MEIRA. Big Brother.. J.2. 2002. Revista da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul. abril de 2004 .. K. p. PIAGET.35.. p. (Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. THOMPSON. Big Brother: uma compreensão psicanalítica para além do Record de audiência. J. S. 1932. n. B. SEVERO. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa.16-22. Florianópolis: EDUFSC.

Foucault, um arqueogenealogista do saber, do poder e da ética*

Inês Lacerda Araújo1
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Resumo Foucault aborda a questão do sujeito de forma a problematizar as filosofias de estilo cartesiano, as ilusões das filosofias do sujeito. Nosso objetivo é mostrar os passos essenciais dessa crítica em sua obra, ressaltando três momentos, o da objetivação do sujeito, o da sujeição ao saber/poder normalizador, e o da subjetivação através de tecnologias do eu. Para tal procede arqueogenealogicamente, relacionando as práticas discursivas com as práticas não-discursivas, para chegar ao sujeito moderno e à so-

Abstract Foucault deals with subject so as to criticize the Cartesian-style philosophies of the subject and their illusions. This paper aims at pointing out the basic steps of this criticism in Foucault”s work. Three moments are emphasized, namely the subject”s objectivation by the sciences, the subject”s subordination to power, and the constitution of the self by means of ego technologies. Foucault”s strategy is archaeogenealogical, i.e. he connects verbal practices with non-verbal ones, in order to understand certain

__________________________________________________

* Foucault, an archeogenealogist of knowledge, power and ethics 1 Endereço para correspondências: Rua Raphael Papa, 557, Jardim Social, Curitiba, PR, CEP 82530-190 (ineslara@matrix.com.br). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.37-55, abril de 2004

38 — Foucault, um arqueogenealogista do saber, do poder e da ética

ciedade disciplinar, controladora. Nesse sentido, as ciências humanas, especialmente a psicologia e a psicanálise, não libertam, pois também produzem verdade, não por razões epistemológicas nem ideológicas, mas por estratégias de saber/poder. Sua política da resistência concilia-se com uma política de constituição de si numa atitude estética, através de atos de liberdade, uma forma ética de existência. Concluiremos que isso é possível, mesmo com os jogos de verdade produzindo indivíduos sujeitados. Palavras-chave: Sujeito; arqueologia do saber; genealogia do poder; psicanálise; ética.

aspects of modern subject and society as a normative, controlling institution. In this regard, Psychology and Psychoanalysis represent strategies of both power and knowledge. Foucault”s resistance to politics stems from his aversion to the policy of self-constitution from an aesthetic perspective, by means of free acts connected with existence as ethically conceived. The conclusion of this paper is that this is possible, given that subjected individuals are produced by certain games of truth. Keywords: Subject; archaeology of knowledge; genealogy of power; psychoanalysis; ethics.

E
2

ste estudo resulta de uma observação que Foucault fez a respeito de sua obra, em uma entrevista a Dreyfus e Rabinow. Afirma que ele tratou de três modos de objetivação que transformaram o ser humano em sujeito: as práticas discursivas (domínio do saber), as práticas disciplinares (domínio do poder) e as confessionais (domínio da ética).
Segundo Habermas, em O discurso filosófico da modernidade, Foucault desenvolveu sua tese de que o poder – e não as épistemês – é responsável pela constituição do sujeito, pela vontade de saber, porque teria ficado “irritado com a afinidade que obviamente existe entre sua arqueologia das ciências humanas e a Crítica de Metafísica da Idade Moderna de Heidegger” (1990, p.251). O conceito de ser não sai da autotematização do sujeito. Discorda-se aqui dessa interpretação de Habermas, uma vez que a Foucault interessa quais são as regras de formação dos discursos, ao passo que Heidegger voltou-se a uma interpretação da história do ser dos entes, a verdade é avaliada pela historicização do ser dos entes. Já Foucault preocupou-se com as interpretações provenientes de práticas de poder, como mostrei no último capítulo de Foucault e a crítica do sujeito. Isso não quer dizer que Foucault não admirasse a obra heideggeriana, que não fosse um leitor atento de Heidegger (cf. ARAÚJO, 2000, p.197). Em Dits et écrits (v.IV, p.703) afirma: “Todo meu futuro filosófico foi determinado pela minha leitura de Heidegger [...] Tentei ler Nietzsche nos anos 50, mas Nietzsche sozinho não me dizia nada! Ao passo que Nietzsche e Heidegger, isso foi um choque filosófico!” (1994, v.IV, p.703).

__________________________________________________

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.37-55, abril de 2004

Inês Lacerda Araújo — 39

Para tanto, ele procede como um arqueólogo, escava os domínios do saber de uma época que estão estabilizados em formações discursivas, e servem como material para a crítica que o genealogista faz do poder desses mesmos discursos, quando relacionados a práticas não-discursivas, como as disciplinares, as tecnologias do eu, a normalização. O procedimento arqueogenealógico O domínio de trabalho de Foucault (1926-1984), o campo de sua reflexão, é a história do presente, a questão de como nos tornamos esse indivíduo que objetivou a si por meio de ciências (As palavras e as coisas e Arqueologia do saber), esse sujeito dividido em normal e anormal, disciplinado, controlado (História da loucura e Vigiar e punir), e esse sujeito que forjou tecnologias para constituir um “eu”, uma subjetividade (História da sexualidade). As marcantes influências em seu pensamento foram o movimento estruturalista, a história “epocal” do ser de Heidegger2 e, principalmente, a genealogia de Nietzsche. Da epistemologia francesa, ele retirou as noções de descontinuidade, de irrupção, de acontecimento discursivo, que compõem sua arqueologia. Para isso, ele analisa os delineamentos, os arquivos do saber de uma época, tal como se fosse um trabalho de arqueólogo, mostrando como eles são constituídos de diferentes formas em cada épistemê, de modo a responder a diferentes necessidades. Um objeto não se encontra pronto na realidade, bastando ir até ele, descobri-lo, estudar sua organização interna. Um objeto é armado numa trama de relações nas chamadas “formações discursivas”, que permitem mostrar seu lugar e seu uso por um dado saber. Por exemplo: o modo como a loucura entrou no campo do saber médico faz da loucura objeto de saber; a tendência da modernidade em “psicologizar” e “medicalizar” as relações humanas faz da normalidade o parâmetro de avaliação do corpo saudável; o tema da circulação das riquezas mostra a moeda como meio universal de troca; o ser vivo, como tendo uma estrutura invisível, dá início à vida como objeto por excelência da biologia. Foucault vê o homem como um ser que pensa a si próprio e o faz de modos diferentes em configurações históricas também diferentes. Daí fazer a história dos diversos modos pelos quais ele pensou e como esses modos de pensamento se ligam à sociedade, à política,
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.37-55, abril de 2004

40 — Foucault, um arqueogenealogista do saber, do poder e da ética

à economia, à história e também a certas categorias bem gerais, bastante distantes de princípios ou formas a priori de uma racionalidade transcendental. Ele não faz uma história das idéias, nem uma história da evolução da ciência, nem sobre se certo pensador ou cientista está correto ou não. Foucault analisa o modo como o saber se dispõe, vai se constituindo, fabricando temas e produzindo verdades. Seu objetivo é mostrar que, se os saberes foram sendo produzidos, não se deve tomá-los como simplesmente verdadeiros ou falsos, o que pode interessar do ponto de vista epistemológico, mas não do ponto de vista arqueológico. Assim, podemos criticar e destruir certas evidências, certas certezas, uma vez que estaremos desobrigados de comensurar, de fazer ciência. A partir de fins dos anos 1960, com Ordem do discurso e textos preparados para as aulas no Collège de France, reunidos numa edição italiana sob o título de Microfísica do Poder, Vigiar e Punir e História da Sexualidade, Foucault adota o procedimento genealógico, o qual se mostra mais apropriado para pensar certas práticas, como a loucura (mesmo sendo História da loucura anterior, nela o poder já era questão), a medicina, a prisão, a sexualidade. Trata-se de práticas não discursivas que sujeitam os indivíduos a mecanismos de poder; o indivíduo moderno “nasce” de relações de saber e poder; os sistemas filosóficos e as ciências, especialmente as ciências psicológicas e as ciências bioestatísticas, que são vistas pelo ângulo epistemológico e consideradas como métodos de conhecimento, para Foucault, em contrapartida, são um produto de certas transformações históricas. O genealogista aborda as práticas que tomam o ser humano como objeto de estudo científico, cujo resultado é a formação de um novo tipo de saber. Esse saber, afirma Foucault, “é organizado em torno da norma que possibilita controlar os indivíduos ao longo de sua existência. Essa norma é a base do poder, a forma do poder/saber que dará lugar não às grandes ciências da observação [...], mas àquelas que chamamos de ‘ciências humanas’: Psiquiatria, Psicologia, Sociologia” (1994, p.595). Entendemos, ao contrário da maioria dos estudiosos de Foucault, que o procedimento genealógico não substituiu a descrição arqueológica, isto é, não dispensou o uso dela, porque o tema do poder já estava presente na descrição arqueológica dos discursos. O procedimento arqueológico continua apropriado para circunscrever as práticas discursivas, enquanto o genealogista relaciona-as às demais práticas. Dentre os estudiosos que consideram haver duas fases distintas na obra de Foucault,
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.37-55, abril de 2004

1984c. o nome do jogo é o poder” (1985. Isso implica que Foucault descreve o modo como um objeto se delineia para o saber. Aquilo que se toma por óbvio é fruto de um certo tipo de dominação. embutida em saberes que carregam poderes. e. especialmente em suas últimas obras. o qual sustenta que “agora. Eles propuseram essa hipótese ao próprio Foucault. a de “reconstrução de sistemas de práticas que possuem uma inteligibilidade interna [. Consideramos Foucault um arqueogenealogista. p. os quais serão tratados pelo genealogista. e assume uma nova feição.37-55. e que a própria humanidade produziu. desestabilizador das evidências. em seguida. O procedimento arqueogenealógico é crítico por excelência. onde mostra que a arqueologia explica como os saberes aparecem e a genealogia é uma análise do “porquê” desses saberes. em sua biografia. abril de 2004 . em que o arqueólogo usa as formações discursivas como meio para isolar temas. porque o tema central não é o poder. esse material é interpretado genealogicamente. Foucault considera que a filosofia pode mudar alguma coisa no espírito das pessoas. Tal como Nietzsche. mesmo após a virada genealógica. p.] a racionalidade interna dos discursos e das práticas que ela estuda” (DREYFUS e RABINOW.. Esse é o trabalho do genealogista. Revista de Ciências Humanas. crítico do presente. Machado. como ele afirmou em entrevista a Dreyfus e Rabinow. p. e. Seguimos a tese de Dreyfus e Rabinow.Inês Lacerda Araújo — 41 estão Habermas. e sim o sujeito. que. pode ser criticado. e Ternes. que localiza essas práticas e considera o seu papel para disciplinar. que concordou com ela. marcam o “fim de um período” (1998.. em O discurso filosófico da modernidade. A arqueologia é posta a serviço da genealogia.128). como se depreende de sua Introdução à coletânea Microfísica do poder. continua a analisar as formações discursivas. que diz que Arqueologia do saber e A ordem do discurso. Merquior. nele a função do arqueólogo não desaparece. normalizar. isto é. para dar conta desse tema. p. uma marca. Eribon que. Não há necessidades universais na existência humana. tem um lugar. Por isso mesmo. medicalizar. n.97). afirma que o foco deslocou-se “da ordem do discurso para as práticas sociais” (1990.35. a mesma interpretação é dada por R.351). conceitos.218). objetos de análise. insiste na diferença entre as abordagens arqueológica e genealógica. considerando-as material fundamental para o genealogista trabalhar. que consideram que Foucault elabora uma análise interpretativa. mostra que aquilo que tomamos por evidente e certo foi saber produzido. p. transformado e até mesmo destruído. Florianópolis: EDUFSC.

que provêm de práticas. Enquanto a história tradicional é finalista. o arqueogenealogista não é um exegeta. a prisão. em suas relações com as práticas não-discursivas. muitas vezes. contínua. Como não há o segredo.42 — Foucault. para as medidas que garantem governabilidade (aquilo que os administradores têm chamado de “gestão”). O genealogista faz a história dessas interpretações. um arqueogenealogista do saber. marcar. para o genealogista. a cientificização das relações humanas. mas sim as dispersões. Por isso. o alvo desses saberes. nem a proliferação de sentido. técnicas. para as práticas autoritárias. não há essências fixas. atento a detalhes. e são. médicas. para a crítica e para certas mudanças. trata-se de práticas discursivas produtoras de saber. As instituições são arbitrárias. Elas formam um certo modelo de humanidade. estabilização de sistemas. circunstancial. a disciplinarização da escola etc. criadas. mediante regras. causal. pois se ocupou com a história de certas práticas discursivas e não-discursivas. Seu olhar contempla a superfície. que produzem poder. as “velhas mentiras”. penitenciárias. porque as interpretações foram impostas e os limites são elas mesmas que traçam. Por exemplo. Ora. portanto. Foucault não é um filósofo sistemático. cujas conseqüências mais evidentes são modos institucionalizados que nossa sociedade tem de excluir. confinar. Sua crítica voltou-se para as práticas psicológicas. n. uma idéia normativa do comportamento humano. a minúcias. p. poder. nem verdade fundamentada em moldes metafísicos. detectando nossas máscaras. mostrando que têm sua proveniência e que. As recorrências. pois tudo é já interpretação. progressiva.35. saber. Revista de Ciências Humanas. não faz hermenêutica. os jogos localizados dispensam a busca de um sentido mais profundo. Elas são produzidas por certos mecanismos de saber. ao mesmo tempo. pedagogizadoras. O sujeito moderno é fruto de certas interpretações. que. abril de 2004 . cujo funcionamento cria valores. decorrem de certas medidas (jurídicas. cabe questionar o hospital psiquiátrico. do poder e da ética o filósofo/historiador vê o lado cinza da história. leis de base. Enfim. Florianópolis: EDUFSC. o comportamento humano é particular. os erros. quer dizer. institucionalização de práticas. científicas). os acidentes.37-55. daí haver espaço para a liberdade. não busca o sentido escondido. para a criação. cristalizam-se em essências. e o que ele analisa e deixa à mostra não é a verdade. que passa por universal. como expressa Nietzsche.

como ele não cansou de dizer em várias entrevistas. Foucault estudou a loucura (irracional). como realidade histórica e cultural. não merece assento no tribunal da razão. p. Revista de Ciências Humanas. reservaria o riso silencioso de quem apenas considerou imprescindível criticar a cultura moderna. por meio da análise das formas históricas que produziram certos jogos de verdade.35. p. produção de verdade. exclusão. normalização. Assim Foucault foi.37-55. Foucault não pertence a nenhuma dessas escolas ou opções teóricas. não deram conta de como os sistemas de sentido e as significações formam-se. Afirma Foucault em Dits et Écrits (1994. Alguns consideram que ser filósofo é ser racional. logo. a maioria das pessoas entende uma espécie de eu estável. foi a questão da genealogia do sujeito moderno. a economia (produtor) e filologia (falante). fracassaram. provenientes de certos fatores e mudanças culturais. porque seu pensamento põe em xeque conceitos e categorias que aceitamos sem exame crítico. responsáveis pelo sujeito moderno. na relação de si para consigo. analisa a subjetividade como uma construção relacionada a modos ou técnicas de si. As filosofias do sujeito. O projeto que resume suas obras é o seguinte: a) Exame das teorias do sujeito como falante. c) Análise das formas de subjetivação.Inês Lacerda Araújo — 43 Por subjetividade. algo profundo. Foucault. pessoal. objetivaram o homem por meio de ciências que não são ciências humanas. responsável pela identidade. a biologia (vivo). intransferível. Florianópolis: EDUFSC. em contrapartida. e provavelmente ainda é. porque não produziram novidades no campo do saber e porque. Já as filosofias da linguagem e o estruturalismo representaram uma saída interessante para os impasses provocados pelas filosofias do sujeito. isto é. As ciências humanas produziram jogos de verdade. 20 anos após sua morte. sua questão principal. como filosofias do sentido. Foucault perturba com esse seu estilo cáustico de pensar. v. provavelmente. b) Estudo de instituições que fizeram dos sujeitos objetos de dominação. n. saber e poder acerca de si mesmo. as chamadas tecnologias de si.IV. os homens não cansaram de se construir a si mesmos. vivo e produtor. muitas vezes rejeição. O filósofo não responderia. ora. como veremos logo mais. sujeito suscetível de se transformar. um filósofo que provoca polêmica.75): “No curso de sua história. abril de 2004 .

em pleno ato artístico. isto é. geralmente causa estranheza. Foucault ilustra o modo de saber do século XV-XVI. Revista de Ciências Humanas. A representação. do trabalho (Economia Política) e da linguagem (Filologia). o pintor autoretratado ignora o espectador. Florianópolis: EDUFSC. p. em fins do século XVIII. é quem pensou que há um sujeito de conhecimento que organiza. O saber: crítica às filosofias do sujeito Em As palavras e as coisas. com as formas subterrâneas. figurasse nesse mundo mágico. por meio de formas. e. finalmente. do poder e da ética de deslocar continuamente sua subjetividade. o eu é transcendental.35. ou seja. Las Niñas de Velásquez traduz a epistémê. histórico. Descartes analisou o cogito. mutável. todo um conhecimento e que. Para Foucault. De fato. com a sexualidade. a configuração do saber clássico: é representada num quadro a cena do pintor em seu estúdio. ilumina com sua racionalidade e capacidade analógica. Kant. por ele chamados de estética ou estilística da existência. o do domínio da problematização da ética e estética. Essa relação da ética e dos estilos de viver. que organizam. sexualidade não é impulso biológico. aquele que conhece é um sujeito universal. n. Ainda assim. ciências acerca da vida (Biologia). a tradução num discurso daquilo que o pensamento vê. ligados à questão da sexualidade. o eu penso. Representar exclui justamente a possibilidade de qualquer interrogação acerca daquele para quem o quadro é exibido. de se constituir através de uma série infinita e múltipla de subjetividades diferentes e que não terão fim. a experiência. da verdade e sexualidade. produtor e falante pudesse servir como objeto de saberes que o objetivam. como sujeito que conhece e como objeto de um saber. mas faz parte ou deveria fazer parte de estilos de existência pautados por atos de liberdade. Quando. já no limiar da modernidade. para que alguém encarnado. que não poderiam deixar de ser atos éticos. aquele que dá sentido àquilo que vê. ao mesmo tempo.44 — Foucault. o do poder. bastando um olhar decifrador para descobrir as simpatias e antipatias que reinam no mundo. finito. e não nos colocarão jamais diante de algo que seria o homem”. enquadra. demoníacas da pintura de Bosch. abril de 2004 . no século XVII. fantástico. Percorreremos essa trajetória em três momentos: o do saber. As coisas falam. em torno da figura homem.37-55. tampouco estava falando do homem. mostram que aquele que conhece é concreto. Foi necessário surgir. e os signos estão nas coisas. É impossível que o homem. um arqueogenealogista do saber. ordena o caos do mundo. animalescas.

determinantes daquilo que é o sujeito. que seria sua existência. e não porque ele seja liberdade em sua essência. portanto. ignorar os jogos de verdade que nos constituem. Desconhecer que os produtos humanos não podem servir de fundamento ou de decifração de uma suposta essência humana. condicionado pelo conhecimento e condicionante do conhecimento. Isso é uma incongruência. pois é histórico. Sua forma de pensar é determinada pela sua vida finita. abril de 2004 . o marxismo). para ser pensado. acabam por dissolver o homem como lugar de origem da consciência. que variam. são ciências da estrutura. Ora. encontrar uma origem primeira. a história como explicação do homem e a produção humana.35. muitas vezes. p. à qual ele jamais poderá aceder absolutamente. Revista de Ciências Humanas. iludir. entendida como condição ontológica fundamental. ao contrário do que pensa Sartre. elas tomam o vivido. ao contrário das filosofias antropologizantes. ou seja. afirmar como os existencialistas que o homem é liberdade. tudo isso leva a trapacear. o inconsciente. como fundadores do sujeito. ao se constituir. a Psicanálise. O homem pode e deve exercer a liberdade. ao contrário. as filosofias do sujeito (fenomenologia e o existencialismo. o sujeito é constituído por práticas. n. uma vez que são formas também elas finitas. isto é. uma vez que as novas ciências. O homem é o “estranho par empírico-transcendental”. corrói. mistificar a própria condição humana. daquilo que estrutura o homem. Seria preciso supor um sujeito supra-histórico para doar sentido último e definitivo. uma vez que o incognoscível. Essas observações permitem compreender o papel do estruturalismo como “consciência inquieta” de nossa época. A percepção dessa tensão conflituosa é crítica. Florianópolis: EDUFSC. nada disso pode ser considerado o “sujeito mesmo”. não há uma essência humana. o inconsciente. pequenas. Não pode igualmente. pois aquilo que permite conhecê-lo como finito. não fornece nenhuma certeza. mesquinhas. Para Foucault. Foucault mostra que o movimento estruturalista foi como essa novidade no panorama intelectual e político das décadas de 1950 e 1960.Inês Lacerda Araújo — 45 No lugar do “eu penso” de Descartes. empírico. pois o material que a história produz e fornece para a análise será inexoravelmente histórico. o inatual impedem qualquer acesso livre ao cogito. o positivismo.37-55. trabalhando e significando. chamadas por Foucault de “contraciências”. há. o discurso do doente. a própria linguagem falando. a Etnologia e a Lingüística. mina. As estruturas. Sua história é de luta. o homem vivo.

às identidades. que pode conhecer a loucura. Lacan mostrou a inutilidade das filosofias do sujeito. abril de 2004 . mesmo porque há diversas culturas. No caso da loucura. n. Freud. prejudica igualmente a busca de uma essência para o homem (esteja ela na existência. Revista de Ciências Humanas. do poder e da ética servindo de oxigênio com relação às filosofias do sentido. o que pode levar a construir novos objetos e novas formas de subjetividade. o problema do sujeito tornou-se imperioso. como mente. afirmando a dependência do sujeito quanto a significantes. Nesse sentido. sem condicionamento. Foucault contrapõe o concreto. esse sujeito nunca se realizou plenamente! Foucault.35. Ora. Nietzsche. Às filosofias do sujeito. o estruturalismo funcionou como aguilhão crítico aos humanismos redentores. nas quais funcionam regras. o que prejudica definitivamente a visão hegeliana de uma racionalidade crescente. como razão. não tem como explicar por que. no modo de produção ou mesmo no dasein). único. É ingênuo pensar numa essência humana. então. podemos melhor avaliar o que representou Lacan. em contrapartida pergunta: O sujeito é a única forma de existência possível? Não haverá outras experiências nas quais não mais é dado o sujeito? Não há experiências que possam quebrar a relação consigo na busca de uma identidade última. ao analisar os mecanismos do inconsciente. de um “eu profundo”? Por que. Sartre. fixa. não buscar sempre? Para Foucault. ao postular o sujeito livre. p. uma nova subjetividade. da existência como essência. não há inconsciente (Sartre chegou a afirmar que o estruturalismo “é o último refúgio da burguesia”). das experiências vividas e organizadas por um eu transcendental. não há como ater-se ao Mesmo. Nele funciona um certo tipo de poder. ao sujeito como categoria. A loucura como objeto do saber médico-científico somente surgiu no século XIX.37-55. Após Schopenhauer. e o saber/poder opera uma nova relação do sujeito consigo. pergunta-se Foucault. Desse modo. um arqueogenealogista do saber. a análise do surgimento de formas de saber que constituem o sujeito.46 — Foucault. não voltar sempre. esse saber não é inocente. há regras que constituem tanto o sujeito como o objeto. doador de sentido ao mundo. O sujeito modifica-se por meio daquilo mesmo que ele conhece. isso tudo em meio a modificações históricas. para o existencialismo de Sartre. Florianópolis: EDUFSC. Se pensarmos que. e a esse objeto correspondeu a construção de um sujeito “razoável”. a racionalidade. como mostrou Lévi-Strauss. sociais e culturais.

um novo tipo de subjetividade foi forjado. que implica saber e poder do médico. ao se modificarem as relações de poder. sua anatomia.35. Seu ponto de partida é a análise de como os homens. Foucault inverte sua relação com a psicanálise. Ora. é possível considerar o indivíduo como esmagado e sua individualidade destruída. examinado. a punição. Florianópolis: EDUFSC. Seu corpo. essa é uma modificação na ordem do saber e também das funções dos discursos médicos. a biopolítica tece mecanismos de regulação das populações. a disciplinarização. produtor de uma anatomopolítica dos corpos. torna-se máquina de produzir. Ao analisar os mecanismos de poder. de modo tal que ele possa exercer suas atividades com o mínimo de dispêndio de energia e o máximo de eficácia. Pelo ângulo de um poder concebido como exclusivamente repressivo.37-55. o capitalismo crescente e a urbanização produziram o espaço médico do asilo. Nessa sociedade disciplinar. Não é esse o ângulo de Foucault. tem serventia política. jurídicopolítico. abril de 2004 . O poder como estratégia: controle do corpo como controle da “alma” Há um novo modo de subjetivação. Revista de Ciências Humanas. a partir da segunda metade do século XVIII. com Freud e também com Lacan. a sexualidade não tem o papel de liberar. há um tipo de poder relacional que produz o indivíduo como sujeito. a vigilância. O modelo jurídico-político-formal de poder não dá conta do funcionamento dos mecanismos da sociedade disciplinar e da vontade de saber e de como. Ao mesmo tempo. Seu resultado é o indivíduo disciplinado. um poder relacional. explicar tudo pelo poder. surgiu um novo tipo de poder. o sujeito é constituído. num modelo tradicional. políticas de saúde pública e outras práticas que transformam a sociedade em uma eficiente máquina de produção. Para ele. Para ajustar a população crescente aos mecanismos de produção capitalista. vigiado. n. a dominação. a pretensão de Foucault não é. objetivando a loucura como doença. produzindo verdades que acabam por ser um instrumento para a exclusão. corrigido. como muitos apressadamente concluem. em dois sentidos: sujeitado ao saber do outro e podendo pensar a si mesmo como sujeito. Nesse momento crítico. de acabar com a repressão sexual. pelo controle de taxas de natalidade. em sua história. p. relacionam-se uns com os outros. a normalização. o controle das populações por parte do Estado.Inês Lacerda Araújo — 47 por exemplo.

I. de que “desreprimir” o sexo é liberar. diz Foucault em Dits et écrits (1994. por ser instado a dizer o sexo. aquilo que há de mais obscuro em seu si próprio. pronto a responder de modo eficiente aos sistemas. pois há de dizer tudo.37-55. ela passe a alvo do discurso crítico? Foucault analisa. erroneamente. de certa forma. ao mesmo tempo da terapia e do jogo de verdade. pois o poder sobre a sexualidade não é sufocador ou repressivo. v. uma técnica de si típica da modernidade. abril de 2004 . a colocá-lo em um discurso para dele extrair a verdade do sujeito.35. de modo que. e toda essa verdade acerca de nós mesmos que está desperta nele [no sexo]”. determinante. isso soa no mínimo como bizarro. o modo como o saber sobre o sexo. calcado num modelo de saber médico-científico. como sendo criador de um novo tipo de subjetividade. o saber de cunho científico sobre o sexo e o papel das verdades resultantes forma um tipo de subjetividade que depende de uma tecnologia do eu de estilo confessional. Revista de Ciências Humanas. é desalienar. em História da loucura e especialmente História da sexualidade. n. um certo modo de praticá-la. do poder e da ética Como entender que. Assim. Florianópolis: EDUFSC. em vez de a psicanálise servir ao discurso crítico. em História da sexualidade (v. posto que é invisível.48 — Foucault. O poder aliado ao saber não pode ser considerado exclusivamente pela sua força sufocadora.118). ele critica a proposta de um Reich ou de um Marcuse. o sexo. como observa Eribon. Esse discurso “promete ao mesmo tempo nosso sexo. que é possível ao sujeito humano ser livre e que essa política de libertação/liberação anularia o poder.IV. inserção no diagnóstico. aquela de um sujeito subjetivado por práticas voltadas de si. mais violento. forjador de uma subjetividade. ou. insta a dizer a verdade sobre o seu “eu” mais recôndito. que o conhece. Ele é mais sutil e. e sim fabricante. Para um genealogista. dessa política da revolução pela liberação sexual pressuponhase. há de ser veraz. Esses saberes acerca de si favoreceram a tomada do indivíduo pela sociedade disciplinar como alguém passível de cura. acabou por produzir um discurso. p. pelo menos. Foucault desconfia de que. um arqueogenealogista do saber. p. A vontade de saber). o verdadeiro. pois mostra qual é a verdade do analisando. principalmente ao da produção. nada esconder. Foucault propõe um novo modo de pensar o discurso da psicanálise. A psicanálise. é libertar. normalizável. Nessa nova perspectiva. A confissão constitui um sujeito sujeitado ao saber do outro que o analisa.

esse poder não funciona sem micromecanismos. é preciso afirmar os corpos e os prazeres. castração.35. modificá-las. denunciar o dispositivo histórico-cultural da sexualidade. investindo em prazeres. visto não mais como puro instinto sexual. objetar que Lacan nunca pretendeu liberar. se. A psicanálise mudou seu discurso. a uma bela e compensadora vida. portanto. o poder produz e funciona de modo relacional. no lugar de uma análise do desejo. que. com Lacan. inclusive. Por isso. ao poder do direito. foi e é bastante influente. há técnicas para agir sobre os corpos. como impondo pela lei. A lei é constitutiva. Pode ser. o poder é assim representado. pelo bom uso dos prazeres. os pensamentos. surjam novos tipos de subjetividade. de qualquer forma. Florianópolis: EDUFSC. instaura o desejo. de um Reich. Foucault justamente critica o contrapor ao sujeito um poder de tipo jurídico. abril de 2004 . que. O desejo vem junto com o poder.37-55. O “sujeito de desejo” é uma invenção histórica. Ao olhar do genealogista. Em outras palavras. a resistência não lhe é exterior. n. sem poderes locais. Contudo. p. pois mudou a concepção de desejo. é possível transformações com relação à subjetividade. Ora. não é a lei institucionalizada do direito. chegar ao eu mais profundo etc. não muda a concepção de poder. Foucault mostra que é preciso pensar o sexo sem a lei e o poder sem o rei. mas lei psíquica. Nesse sentido. porque o crescimento do Estado em grandes proporções deveu-se. lei. enfim. o Significante. a alma. mas como falta. surja um novo modo de desejar ou de pensar o desejo. entendido como lei. muda a concepção de desejo. A ética dos atos de liberdade Ao lado das técnicas de comunicação e significação. em todas as sociedades. dito. libertar. Foucault analisa as práticas de si dos gregos na época clássica como suscetíveis de conduzir o indivíduo. nesse caso.Inês Lacerda Araújo — 49 Pode-se. obrigação. para apreciá-las. a Palavra. da interdição. Lacan critica o discurso da repressão. o sexo é “afirmado”. de um Marcuse. de estilo jurídico. com razão. A política seria resistir e não se libertar. como resume em A vontade de saber. Mas. em grande medida. Revista de Ciências Humanas. poder jurídico que o sustenta. o poder soberano. o sujeito está sob o poder da lei. de produção e de dominação. intransponível. tal como concebido por Freud. Mais tarde. como instância da lei. as condutas. Até hoje. Está-se sob a Lei. os estóicos propuseram cuidar de si. não se pode ir a ele.

pois se autogovernar é também saber governar a polis. Nos dois últimos volumes de História da sexualidade. justificada pela religião. O modo de sujeição à regra vem de uma escolha pessoal. Mais uma vez. Observe-se que não se trata de chegar ao que o sujeito é mesmo. temos Foucault mostrando que tudo se dá na superfície histórica de práticas criadas por necessidades humanas. não porque há uma regra imposta. a abordagem volta-se para a problematização da ética.35. Era preciso cuidar. o bom uso desses prazeres. para nós. do poder e da ética cuidar da alma. A confissão no cristianismo foi outras dessas práticas em que o “conhece-te a ti mesmo” exigia um exame de atos. meditar. mas cuidar de modular os prazeres a fim de exercitar-se em uma vida exemplar. a relação consigo mesmo. era preciso fazer de sua existência uma bela existência. são os sentimentos. realizado de modo que o indivíduo não perdesse o controle de si. em dependência de um auto-exame e de um comportamento rigidamente regrado. que modula essa regra. modernos. Assim. O prêmio. ética implica não códigos ou regras morais. uma hermenêutica de si voltada para a elisão dos pecados da carne e da concupiscência. um arqueogenealogista do saber. desejos. por meio da escuta de conselhos. Revista de Ciências Humanas. e não a sexualidade. a sexualidade. sem os constrangimentos de regras impostas para comportar-se. ocidentais. mas porque. por meio de seus atos. eram os prazeres. jurídica. não desperdiçar o simples e direto desejo. e não a obrigação a um universal “tu deves”. sonhos. a substância ética. armar o sujeito de uma verdade sobre si. Santo Agostinho aconselhava a dominar a libido. o corpo saudável. mas a constituição de um sujeito moral. importando a atividade e a reação pessoais. como tarefa para toda a vida. Florianópolis: EDUFSC. o que mostra um tipo de constituição da subjetividade. vale mais governar-se a si próprio. Para ele. A moral do cristianismo codifica o que é permitido e o que é proibido. não é a vida eterna. Uma vida ascética levaria a alma à vida eterna. abril de 2004 . entre os gregos. p. evidentemente. sem autodomínio. isto é. Por exemplo.37-55. é virtuoso aquele que é fiel a sua esposa. numa moral sexual com obrigações restritivas. a partir do cristianismo. levando a uma ética da renúncia de si. a fidelidade passou a ser uma obrigação legal. Para os gregos. para ter uma bela existência. Muito diversamente. A substância ética para os cristãos era a carne e.50 — Foucault. mas refletir para que sua vida e aquele seu dia fosse proveitoso. o cidadão torna-se inapto e indigno de bem governar os outros. a conduta que requer autonomia. n.

sem os quais não há ética. Foucault contrapõe a essa cultura da vontade de verdade uma ética do cuidado de si como prática da liberdade. em compensação. em Dits et Écrits (1994. mas. Assim vista. como “técnica de trabalho de si para si fundada na confissão”. como se cria livremente uma obra de arte. Note-se que estar ligado a jogos de verdade.IV. um modo de relação de si para consigo. o que pode ajudar as pessoas. afirma Foucault. passou a valer como purificação. Decifrar sua verdade faz parte do si mesmo moderno. se não diz tudo sobre a psicanálise. Ele chama-a de cultura de si californiana. Há uma cultura de si em certos meios dos EUA e da Europa. A libertação ou liberação de um domínio. p. mas a liberação sexual. um pouco. Não há mais uma verdade cultivada por um modo ou estilo de viver. por si só. como o xamã ajuda aquele que nele acredita. por exemplo) não invalida a eficácia terapêutica. em tudo diversa de uma estilística da existência. desde os cristãos. é sempre necessária. em que se chega ao verdadeiro eu. “graças a uma ciência psicológica ou psicanalítica que pretende ser capaz de dizer a você qual é o seu verdadeiro eu”.Inês Lacerda Araújo — 51 Hoje. depois de depurá-lo das alienações. p. isto é. uma anatomopolítica e uma biopolítica. v. A psicanálise difundiu-se na sociedade moderna diz ele. há uma relação entre a obrigação legal e a abordagem médico-científica. Como fazer ou o que fazer para aceder a um modo de ser. porque os atos de liberdade dizem respeito a atos éticos.402). disse Foucault numa entrevista. Revista de Ciências Humanas. Em lugar de jogos de verdade com pretensão ao conhecimento decifrador que prende o sujeito à verdade depositada no sexo. pois está sob o signo do ter de dizer. (1994. dizer o não-dito. v. em Dits et Écrits. abril de 2004 . Cria um personagem se estruturando em torno do exame de seus desejos sexuais. propõe uma estilística da existência.35. revelação do escondido. mas uma verdade produzida por um saber/poder. p. decifrando sua verdade.IV. que devem surgir de uma relação com os outros livre para a prática e invenção de tipos de subjetividade que conduzam a novas formas de vida. Florianópolis: EDUFSC. da verdade produzida por um saber cujo poder é o de investir num certo tipo de controle dos corpos e das populações. dos quais decorre poder (a psiquiatria. o que. a luta política. não garante atos de liberdade. a existências cujo estilo seja a criação. mostra como ela se difundiu.665).37-55. Confessar. desapareceu a austeridade do código moral. mas tampouco a garante e nem mesmo exige o apelo exclusivo a ela. trata-se de uma técnica de si. a um belo e bom estilo de viver? Aí são necessários atos refletidos de liberdade. n.

] o problema era inteiramente da ordem da liberação.IV. que se resolveria o problema. é evidente que é liberando seu desejo que saberemos como conduzir-nos eticamente nas relações de prazer com os outros (FOUCAULT. mas para construir. moldar um estilo seu de ser. Florianópolis: EDUFSC.35.711).37-55. p. Sua proposta é resistir a esses poderes. bela e boa. n. interdito. Na sociedade disciplinar. liberandose. quer dizer. abril de 2004 . v. E aí creio que se erra totalmente – e sei que caricaturo aqui as posições muito mais interessantes e agudas de numerosos autores – o problema ético que é o das práticas da liberdade: como é que se pode praticar a liberdade? Na ordem da sexualidade. v. a zona preciosa na qual se devem aplicar valores estéticos. não para o prêmio eterno. Revista de Ciências Humanas. A leitura reichiana de Freud supõe erradamente que: [. interiorização. talvez seja preciso aviventar um pouco o estilo grego ou o estilo estóico. repressão. pulsão. 1994. verdades. é si-mesmo. sua existência (1994. haveria desejo. Logo. p. pois poderes locais somente podem ser combatidos com lutas locais. adianta afirma que a ética nada mais é do que a “prática da liberdade.52 — Foucault..IV.] a idéia segundo a principal obra de arte da qual é preciso cuidar. a sociedade da norma e da extração da verdade de si como via única para a subjetividade. p. esquecida. discursos. prazeres e atitudes devem ser afirmados por atos de liberdade. para os quais faz sentido uma vida exemplar. sua própria vida. e fazendo ultrapassar esses interditos. Nós modernos esquecemos [.. do poder e da ética Liberar-se para praticar sem amarras a sexualidade não basta para um relacionamento de si para consigo completo e feliz. saberes.. Foucault não vê uma saída ou solução revolucionária para essa questão.402). Desejos.. um arqueogenealogista do saber. Para dizer as coisas um pouco esquematicamente. não para chegar às profundezas de um eu. a prática refletida da liberdade”. Como ela anda escassa.

liberdade em tudo. e isso é possível pela constituição de uma subjetividade ético-estética. algo que pode ser moldado criativamente e não uma pulsão instintiva a nos governar e que nós teríamos de sublimar. os desejos são capazes de inspirar modos ou estilos de vida e.IV. na cura e na normalização. estilo temperante. condutas éticas. por isso mesmo. Como a sexualidade pertence à conduta. resistir. É possível criar novas formas de vida. ou de um certo estilo cultivado de viver. do psiquiatra com o louco. v. moderado. do instrutor com o exercício do corpo. existência esteticamente prazerosa. n. do vigia ou treinador com o funcionário. em vez de simplesmente liberar o desejo. de especialistas. O ser humano é livre para inventar estilos. do policial com o encarcerado. como a do médico com o paciente. Florianópolis: EDUFSC. ela também faz parte da liberdade. p. de relacionamentos. p. novas formas de nos relacionarmos. numa espécie de luta interna. alternativas. equilibrado. justamente aí. os estados de dominação produzem brechas que dão margem para que se possa resistir a esses saberes e poderes e. Todavia. por penetram nas relações mais insuspeitas. institucional sustentam-se e reproduzem-se. A estética da existência dos últimos escritos de Foucault mostra que nossas existências devem ser permeadas por uma arte de viver. por exemplo. ser soberano e dono de seus atos e modos de pensar.Inês Lacerda Araújo — 53 O conhece-te a ti mesmo e o cultivar-se a si mesmo não precisam passar pelo crivo de ciências. Os estados maciços e compactos de dominação econômica. eventualmente. tanto na sociedade como na arte. A resistência às relações de poder flui de “práticas refletidas de liberdade”. Revista de Ciências Humanas. criar prazeres novos. é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa”. de éticas e de políticas diferenciadas. cuja medida é estabelecida por si mesmo. transformá-los. mas de prazeres. Se há uma trama de relações de poder é porque há resistência e. uma agonística. mas. bem como novas formas vindas de escolhas de estilos.35. social.37-55. assim. Diz Foucault em Dits et Écrits (1994. Ao contrário. refletido. do terapeuta com o analisando. de amizades. mas vindos da arte. na cultura. ao contrário. abril de 2004 . o que não significa cultura ou moral hedonista.737): “O sexo não é uma fatalidade. do professor com o aluno. de preferências sexuais firmadas não como lugar do desejo. Pode-se pensar em outros tipos de prazer que não sejam apenas o sexual. Ele propõe políticas de afirmação da identidade como força criadora.

54 — Foucault.II. 1999. Referências bibliográficas ARAÚJO. Paris: Gallimard. RABINOW. 1966. mas para estabelecer. Florianópolis: EDUFSC. Dits et écrits. A ordem do discurso. como se quer e o quanto se quer. 1990. M. Trad. Trad. Trad. Paris: Gallimard. Foucault e a crítica do sujeito. Les mots et les choses. 366p. É guiado e sugerido por técnicas de si. Paris: Gallimard. Dits et écrits. DREYFUS. 1926-1984. v. I. M. Revista de Ciências Humanas. 1976. M . Paris: Gallimard. FOUCAULT. São Paulo: Companhia das Letras. de Ana M. FOUCAULT. Trad. Histoire de la sexualité. Michel Foucault. FOUCAULT. Histoire de la sexualité.37-55. Jürgen. L. L’archéologie du savoir. Histoire de la sexualité. ERIBON. Paris: Gallimard. abril de 2004 . ed. 1990. FOUCAULT. 1994. não é imposto. FOUCAULT. FOUCAULT. Le souci de soi. v. . 1984a. São Paulo: Loyola. o se quer. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 1969. Bernardo et al. O discurso filosófico da modernidade. de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 2000. FOUCAULT. Paris: Gallimard. un parcours philosophique: au delà de l”objectivité et de la subjectivité. Paris: Gallimard. um arqueogenealogista do saber. M. 1994. não é ditado de fora.IV. HABERMAS. Paul. L´usage des plaisirs. p. 1984b. M. Didier. FOUCAULT. criatividade. Esse domínio exercido sobre si não vem do saber nem do poder de um outro. uma boa e bela vida. para si mesmo. M. Michel Foucault. n.35. pode levar a uma transformação da pessoa e representa liberdade. Curitiba: Editora da UFPR. de Fabienne Durand-Bogarrt. La volonté de savoir. Paris: Gallimard. 1984c. 5. M. de Hildegard Feist. Hubert. M. enfim. do poder e da ética Ela não serve para apagar desejos e prazeres.

35.37-55. n. Michel Foucault e a idade do homem.Inês Lacerda Araújo — 55 MERQUIOR. José. TERNES. de Donald Garchagen. abril de 2004 . 1998. p. Florianópolis: EDUFSC. Foucault ou o niilismo de cátedra. José Guilherme. 1985. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Recebido em outubro de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Goiânia: UFG. Trad.

Miglievich Ribeiro1 Brand Arenari2 Universidade Estadual do Norte Fluminense Resumo Discorrer sobre as tradições do pensamento na sociologia obriga a uma análise das escolhas e elaborações epistemológicas a partir das influências culturais que cada tradição sofreu. mas modernidades. Just as Jessé Souza (2000). Pq. Florianópolis: EDUFSC. it is argued here that there is no __________________________________________________ 2 Modernity from the standpoint of tragedy: an assay on singularity in german sociological tradition. 2000. Rua Alberto Lamego. CEP 28015-620 (brand_arenari@hotmail. 2000. Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA). Endereço para correspondências: Universidade Estadual do Norte Fluminense.57-77. Califórnia.com). Endereço para correspondências: Universidade Estadual do Norte Fluminense.35. Do mesmo modo que Jessé Souza (2000) afirma que não há Modernidade. afir* 1 Abstract To discuss traditions of thought require analyzing choices and epistemological formulations from the point of view of cultural influences that each tradition receives. who maintains that there is no Modernity. but Modernities. Rua Alberto Lamego. n. é também um de seus produtos.br). Sociology considered as a way of viewing the world as it emerged during Modern times is one of such products. Pq. Revista de Ciências Humanas.A modernidade sob o prisma da tragédia: um ensaio sobre a singularidade da tradição sociológica alemã* Adélia M. Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA). enquanto olhar sobre o mundo surgido no processo da modernidade. Califórnia. CEP 28015-620 (adeliam@sky. A sociologia. abril de 2004 . p.com.

sociologia alemã. A tradição do pensamento sociológico alemão compõe uma das mais importantes matrizes da sociologia. sobretudo Adorno e Horkheimer. a qual tem sido impressionantemente revista e reatualizada. n.35. nas duas últimas décadas. G. epistemology. Simmel (1858-1918) and M. que funda uma linhagem nas ciências sociais.58 —A modernidade sob o prisma da tragédia mamos que não há Sociologia e sim sociologias. There are certain singularities in its process of development. sobretudo. G. da conformação dessa disciplina no cenário germânico. p. german sociology. este trabalho tem por objetivo analisar brevemente os elementos que tornaram a tragédia o traço comum que une os seguintes pensadores clássicos do surgimento da sociologia moderna na Alemanha: F. a list to be extended to the inner circle of the Frankfurt school. A partir disso. tradição e modernidade na cultura alemã. e que se estende até o círculo interno da Escola de Frankfurt. no Brasil. epistemologia. Tönnies (1855-1936). em grande medida. Revista de Ciências Humanas. Keywords: Social Theory. A modernidade e o espírito da tragédia A ntes de entrarmos na problemática acerca da sociologia nascida sob o signo da tensão. Simmel (1858-1918) e M. this paper aims at briefly analyzing the elements that made tragedy the common feature that brings together the following classical authors who discussed the rise of modern sociology in Germany: F. cabe tecer breves comentários a respeito do conceito de tragédia que escolhemos como explicativo. German tradition in sociological thought provides one of the most important matrixes to sociology. sociology. também. Tönnies (1855-1936). As singularidades contidas no processo de sua formação legou um olhar radicalmente original sobre a realidade. but sociologies. Florianópolis: EDUFSC.57-77. Weber (1864-1920). Palavras-chave: Teoria social. abril de 2004 . which furnishes a radically original view of reality. Weber (1864-1920). por círculos intelectuais em diversos países e. especially Adorno and Horkheimer. Bearing these ideas in mind.

57-77. e então em algumas outras tradições literárias que foram profundamente influenciadas pelo modelo grego [. nas abordagens contemporâneas mais comuns..35.21).. __________________________________________________ 3 A ausência de Karl Marx (1818-1883) no rol dos clássicos do pensamento sociológico alemão deve-se ao fato de ter sido ele provavelmente o primeiro teórico a se identificar de maneira significativa com as características mais importantes de todas as três tradições – alemã. francesa e britânica. no seu sentido literal. não se encerra na simples idéia de algo com desfecho negativo.] (MOST. Sua singularidade também está em sua “paixão social”.191). um final dramático e necessariamente negativo. quando afirma que é o paradoxo o que caracteriza a tragédia. o conceito de tragédia. e isso remonta a sua origem como gênero literário. 2001. Sobretudo em Atenas no século V a. para além da literatura. o seu fim. o conceito de trágico são aplicados na atualidade. Em muitas vezes. Marx. é um gênero dramático específico de literatura que floresceu muito raramente na cultura ocidental: na Grécia antiga. Donald Levine. por conseguinte. lançamos mão da assertiva de F. Visões da tradição sociológica. abril de 2004 . Nas suas interpretações modernas mais sofisticadas. bem como nos seus elos com o ativismo popular (Cf. é algo que se torna impossível. Hölderlin.. p. 2001). p. A idéia de algo trágico soa. as influências do Strum und Drang. como um acontecimento com desfecho triste. Revista de Ciências Humanas. A tragédia dá-se quando a força ou o evento que deu origem a algo é a mesma força ou o evento que proporciona o seu crepúsculo. de seu lado. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 59 Isso se faz necessário devido às inúmeras situações em que o conceito de tragédia e. aceitou o desafio de usar a razão para estimular a reconstrução da sociedade numa oposição simultânea às reivindicações do espírito ideal na Alemanha e à ideologia liberal dos interesses e direitos individuais na Inglaterra. n. Esse conceito de trágico também se aplicaria ao uso que dele fazemos em nosso trabalho. a tragédia integra-se ao corpo epistemológico da filosofia representando uma dimensão fundamental da experiência humana (Ibid. em sua jornada pela Europa Ocidental.. p. Florianópolis: EDUFSC. A tragédia. Para definirmos o conceito de tragédia.C. Marx. distanciou-se do idealismo e do romantismo alemães ou do que designamos como a tradição genuinamente alemã. na sua essência e originalidade. justamente pelo mesmo motivo que lhe deu a possibilidade de existência.Adélia M. e assim também pode ser entendido. já que os autores aqui estudados deixam transparecer essa possibilidade de fim negativo para a Modernidade. isto é. No entanto.

as formas sociais em interação ou o que mais regularmente denominamos sociedade.1965). A crítica à técnica aparece de forma mais explícita no pensamento alemão por meio da filosofia. Weber (1864-1920)3 –. G. faz parte de toda a história humana. Simmel (1858-1918) e M. A divisão do trabalho radicalizou-se a partir da revolução industrial. assim como a divisão do trabalho. está contida no processo do avanço da técnica que também se relaciona diretamente ao processo de racionalização de todas as esferas da vida. é a perspectiva trágica em relação à modernidade. Tönnies (1855-1936). A divisão do trabalho. e que se estende até o círculo interno da Escola de Frankfurt. a despeito de algumas particularidades. mesmo que esse argumento nem sempre apareça de forma explícita na obra dos sociólogos clássicos. desencadeando processos que culminam no surgimento da modernidade é a introdução e o repentino avanço da técnica. exaustivamente analisada pela sociologia como o traço marcante da modernidade.35. que se distanciam progressivamente das experiências essenciais da vida. abril de 2004 . direcionando-se para um mundo completamente reificado. sobretudo em Heidegger. assemelhando-se às relações eu-isso e perdendo contato com as relações que se assemelhariam às chamadas eu-tu propostas pelo filósofo Martin Buber (1878. Esse advento será o fator elementar que proporcionará a tragédia da modernidade. Para eles. Se existe um traço marcante que une os pensadores clássicos da sociologia alemã – F. a modernidade apresenta-se como um destino sombrio para os homens. Todavia. há momentos em que o desenvolvimento tecnológico atinge estágios de avanço repentino sem precedentes. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. segundo a sociologia alemã. e é dessa radicalização que falam os sociólogos. O advento da técnica. e sua penetração no cotidiano. A técnica. pois. p.57-77. no entanto. reconfigurando. O elemento que promoveu uma desorganização nas configurações sociais. já havia ocorrido um “boom tecnológico”. é o principal alvo das críticas do pensamento alemão. sobretudo Adorno e Horkheimer. anteriormente a esse período de radicalização. cujas relações sociais pouco diferiam das relações entre coisas ou máquinas. A experiência do paradoxo é a chave da compreensão da Modernidade e conforma uma sociologia que nasce cônscia da tragédia da Modernidade.60 —A modernidade sob o prisma da tragédia A questão central abordada neste artigo relaciona-se diretamente à proximidade entre o conceito de tragédia e a interpretação de mundo que aqui chamamos “olhar sociológico alemão”. n.

As narrativas míticas servem como metáforas sutis para a compreensão da complexa realidade atual. o relógio mecânico. pois. Florianópolis: EDUFSC. etc. ou seja. No entanto. fruto do castigo dos deuses pela aquisição humana do domínio do fogo. Para eles. n. permite visualizar um fenômeno que ocorreu repetidamente na história do mundo ocidental. Revista de Ciências Humanas. ainda que propulsor de mudanças. como a Revolução Industrial e a Revolução Francesa que. pela introdução da técnica nas sociedades humanas. p. reorganizam uma nova teia social. o dinheiro. sem dúvida. que relata a decadência da Idade de Ouro. os representantes da sociologia tendem a eleger fenômenos históricos de grande notoriedade. por conseguinte. O mito de Prometeu. como destaca Simmel. valorizando as idéias e os feitos do próprio “movimento das luzes” e obscurecendo o que dizia respeito à época anterior. a imprensa. suas objetivações envolvem novas tecnologias. peça chave para o entendimento da cosmologia das narrativas mitológicas gregas. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 61 Ao explicar a modernidade. à hegemonia do ideário iluminista na construção do discurso sobre a modernidade. embora em escalas diferentes.Adélia M. __________________________________________________ 4 Deve-se isso. A ideologia iluminista devotava à Idade Média apenas o ethos das trevas da ignorância. em grande medida.35. a modernidade é o seu oposto e nada traria do período anterior. ou seja. Contudo. desse modo. esses novos elementos que “invadem” o cotidiano desorganizam o sistema anterior e. poucos tratam das microrrevoluções que pululavam no período pré-moderno (final da Idade Média). novos aparelhos para navegação.57-77. Essa crítica é algo tão presente na história. O Iluminismo criou sua identidade a partir da oposição à Idade Média. ao mesmo tempo. As microrrevoluções do cotidiano são oriundas do processo repentino de aprimoramento técnico e. que aparece até mesmo nas nossas raízes arquetípicas mais profundas. nas narrativas mitológicas. a crítica ao avanço da técnica sobre todos os aspectos da vida não é uma peculiaridade da modernidade. Assim vemos surgir o espelho. experimentamos situações semelhantes a essas. Um exemplo é o mito de Prometeu. abril de 2004 . Como afirmamos anteriormente. A riqueza da cultura grega pré-filosófica sempre serviu de subsídio para o homem da modernidade interpretar o mundo a sua volta. em especial fenômenos de ordem predominantemente política e econômica. em outros momentos históricos. fenômenos de tal importância que sem eles possivelmente não haveria modernidade4. representam emblematicamente a objetivação da modernidade.

57-77. da cobiça. No entanto. em que pese. 20). porque se referem ao “mundo mágico” dos mitos. Prometeu. Os homens que viviam na Idade de Ouro presenciaram a decadência de sua sociedade. p.22). causando a ira dos deuses. todos os homens esclarecidos que viveram em sociedades dominadas pela técnica saberiam relatar os impactos desse fenômeno na realidade social. 2000. lanças ou elmos eram objetos desconhecidos. no seu Livro de Ouro da Mitologia (2000). rouba o fogo do carro do Sol e o entrega aos homens.. criar a arte e a cunhagem de moedas. que. na percepção da sociologia alemã. mas a introdução da técnica nas sociedades humanas. [. enviando-lhe inúmeras desgraças. p. ou seja. é contado pelos antigos gregos não somente o domínio do fogo. Na narrativa desse mito. abril de 2004 . e. amaldiçoando os homens pelo fato de dominarem a técnica. que ampliou e facilitou o comércio (2000. dentre outros males que até então inexistiam. sem que este se desse ao trabalho de lavrar ou colher (BULFINCH. finalmente. da violência.35.] as florestas ainda não tinham sido despojadas de suas árvores para fornecer madeira aos navios. nem os homens haviam construído fortificações em torno das cidades. Florianópolis: EDUFSC. o Titã encarregado de cuidar dos homens. Na Idade de Ouro. amaldiçoam a humanidade. a ira dos deuses. A história da humanidade é marcada por períodos de radicais reconfigurações sociais. Espadas. aquecer sua morada. como fica claro neste trecho narrado por Bulfinch: O fogo lhe forneceu o meio de construir armas com que subjugou animais e as ferramentas com que cultivou a terra. A terra produzia tudo necessário para os homens. de maneira a tornar-se relativamente independente do clima.. O desfecho desse enredo. que passou a padecer dos males da corrupção. n. p. a partir desse fato.62 —A modernidade sob o prisma da tragédia Como nos conta Thomas Bulfinch. Revista de Ciências Humanas. e o motivo que levou os deuses a agirem dessa forma não podemos interpretar plenamente.

Não por acaso. liberdade e mobilidade social no grau alcançado foram transformações sem precedentes. sobretudo o marítimo. dado que os impactos das transformações são determinantes no curso de sua vida. o desenvolvimento das cidades. a críticas. as mudanças culminaram em momentos excepcionais. A radicalização e a intensidade que esses fenômenos alcançaram na modernidade jamais foram vistos antes na história humana. enfim. contribuindo para o surgimento do período clássico da Grécia e encontram fatores homólogos preponderantes no surgimento da modernidade. nas distintas realidades sociais. O surgimento do período clássico na Grécia da Antigüidade e o surgimento da modernidade na Europa do século XVII são fenômenos distintos. a criação da ciência moderna. Florianópolis: EDUFSC. a criação do alfabeto grego e. Revista de Ciências Humanas. A formação do Estado-Nação. ascendência da burguesia. sobretudo. surgimento do dinheiro. em detrimento de uma aristocracia feudal.57-77. Na história do mundo ocidental. a ascendência de uma rica classe de comerciantes em detrimento de uma aristocracia agrária e o surgimento da filosofia são alguns elementos que desfrutaram de afinidades eletivas. Nunca é demais ressaltar que a modernidade e o período clássico da Grécia são processos diferentes e portadores de peculiaridades. despertaram a crítica de ilustres pensadores das respectivas sociedades. Esses períodos produzem um inegável desconforto para as pessoas. a invenção do trabalho assalariado. e. ressurgimento do comércio. abril de 2004 . Vale observar os elos entre ambos. quanto às novas formas institucionais inauguradas na modernidade. a criação e a massificação das noções de indivíduo. p.Adélia M. a difusão da linguagem escrita. hegemonia das idéias políticas liberais. O surgimento da moeda. em alguns momentos. o período clássico grego e a modernidade européia apresentam algumas semelhanças em suas configurações sociais. também. por conseguinte. ainda que o termo deva ser sujeito. expansão marítima. falou-se. n.35. invenção da imprensa por Gutenberg. em Renascimento. respectivamente: unificação da moeda. As novas formas de viver combinadas ao avanço da técnica. o advento da democracia. Porém. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 63 a nítida percepção das descontinuidades a par das continuidades no processo histórico. ressurgimento das cidades. por duas vezes. o florescimento do comércio.

segundo seus críticos. como técnicas de ação a serviço dos indivíduos e das cidades (VERNANT.35. à dessacralização do conhecimento. a moral. Florianópolis: EDUFSC.57-77. todas as normas práticas. 1990. A inovação grega da democracia exigia de seus cidadãos a aprendizagem do aparato técnico para a defesa de determinadas posições ou convicções políticas.64 —A modernidade sob o prisma da tragédia Se os avanços da técnica foram menos intensos na Antigüidade.] Todas as ciências. na modernidade. nem por isso a filosofia socrático-platônica deixou de exercer uma severa crítica à prática sofista e a seu propósito de levar a tecnologia à vida do espírito. A atitude crítica dos sofistas visava.. Crítica essa bem próxima daquela mais tarde desenvolvida pelos fundadores da tradição sociológica alemã marcada pelo repúdio aos valores da modernidade. da máxima conhece-te a ti mesmo. afastando-o de sua vertente de “iluminação interior”. desse modo retirando-o de um ethos diferenciado social e culturalmente). suprir as necessidades da vida na pólis. ou seja. do belo e do bom. a sofística não somente servia de instrumento de domínio nas assembléias. p. em uma perspectiva “instrumentalista”. a técnica da retórica. Para os platônicos. a questões restritas a doxa (opinião). abril de 2004 . Essa instrumentalização do conhecimento tinha por objetivo. como exemplifica a citação acima. n. o saber reveste-se da forma de receitas que se podem codificar e ensinar [. mas também impedia o verdadeiro conhecimento. a política. entendido como a busca do verdadeiro. O saber para a instrumentalização técnica na pólis apartou-se do saber filosófico e. permitia sua utilização a serviço de interesses particulares e não da “Verdade” (alétheia). deixou os homens reféns de “enganadores” que dominavam a técnica do discurso e não a essência do conhecimento. Na maioria dos sofistas. correntes de pensamento também se insurgiram contra a instrumentalização da vida. sobretudo. a verdadeira filosofia.359). atribuindo-lhe um valor material (e. que acabava por relegálo a uma função estritamente técnica. que reduzia sua função ao poder de convencimento. Essa tecnificação do conhecimento. segundo os sofistas. assim como.. a religião serão assim encaradas. assim. Revista de Ciências Humanas. p. O que ocorre é uma evolutiva colonização técnica de todos os assuntos da vida. a fonte de realização do homem. ditados pelo avanço técnico-racional a ocupar um lugar de proeminência nas interações sociais.

p. nos moldes do mito de Prometeu em referência à cultura grega. que marcam profundamente os traços da identidade cultural alemã. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 65 A perspectiva trágica da sociologia alemã A lógica que imperava nos círculos cultos da Alemanha no período do florescimento da sociologia em relação ao “Conhecimento” indissociava-se da sacralização que os alemães devotavam a tudo que se referia à vida. Simmel. uma outra peculiaridade também está contida no mesmo mito. Weber e da Escola de Frankfurt flui da mesma fonte de divinização da cultura que. A corrente desse espírito trágico em relação ao desenvolvimento da sociedade que aparece explicitamente nas obras de Tönnies. Revista de Ciências Humanas. n. bem como a separação entre cultura subjetiva e cultura objetiva. tal como uma profecia de fé das antigas tribos germânicas.57-77. em Simmel.. origina-se na valorização da subjetividade mística do protestantismo luterano e de tradições religiosas anteriores. algo sumamente superior à técnica. quando rendiam culto a sua divindade suprema. Para mais detalhes ver Louis Dumont. recheada de um tom fatalista e sombrio. à medida que sutilmente interpreta o advento da técnica moderna como a matriz do espírito trágico que. Embora um dos traços de identidade da sociologia alemã caracterizese pela visão decadentista de mundo similar à narrativa do mito de Prometeu. O caráter místico conferido à cultura estava ameaçado pelo cientificismo. A ciência e a racionalização (expressões do avanço técnico) eram tidas como a fonte desse mal que assolava a vida do espírito. Para os alemães. renunciar à subjetividade da vida em prol de cálculos herméticos soava como renunciar a si próprio. abril de 2004 . pois aceitar o avanço desmedido da razão seria negar a essência da identidade alemã. Florianópolis: EDUFSC.35. Essa visão decadentista e dramática que singulariza a sociologia alemã reflete a atmosfera cultural da época. segundo esses intérpretes. __________________________________________________ 5 O termo utilizado refere-se à perspectiva de Herder que encara as culturas como indivíduos coletivos. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.. referem-se a esse processo interpretado como uma decadência ético-espiritual da humanidade. abateu-se sobre a modernidade. por seu lado. O combate à sociologia positivista e à literatura realista não era apenas uma questão de puro desacordo epistemológico. o deus Wyrd (o destino).Adélia M. Os termos cunhados por Weber como secularização e desencantamento. mas sim uma questão de ordem macro-existencial5.

a fim de a eles se curvarem. envolve campos epistemológicos excluídos do núcleo central da ciência moderna. estuda a ação humana nas formas de interação social. nos quais. como se “encaixaria” a tradição alemã? A maioria de suas análises. Em vista disso. nem Tönnies realizaram diagnósticos trágicos. Todas essas críticas. A diminuta visibilidade que tais propostas tiveram na recepção da sociologia alemã não se deve apenas a sua pouca ênfase no conjunto da obra dos sociólogos clássicos alemães.57-77. pouquíssimas críticas dão relevância a certos aspectos da obra dos sociólogos clássicos alemães. p. abril de 2004 . trata de questões radicalmente subjetivas. nem Weber.66 —A modernidade sob o prisma da tragédia Assim como Pandora deixa escapar todos os males e somente lhe sobra a esperança. A crítica sociológica depositou sobre as costas de grande parte da tradição alemã a insígnia de um lirismo escatológico que não permitia novos espaços para propostas de superação das mazelas que assolavam a experiência humana. pois outro fator também compõe esse quadro: o modelo de ciência do século XX. No entanto. excetuando-se as que procuram ligações escusas com o desastre nazi-fascista. em momentos mais exaltados. trata de como seres humanos vivenciam as experiências sociais e a elas dão significado.35. O caminho que a ciência trilhou no século XX foi marcado pelo impacto de suas transformações objetivas no devir da sociedade. em alguns mais e outros menos. isto é. Nem Simmel. é o que tratamos nos parágrafos abaixo. as ciências sociais destacam-se também por meio de suas objetivações. A mesma crítica a essa tradição. culpava-a de cúmplice indireta da tragédia nazista. sejam políticas ou sociais. timidamente aparecem propostas de reversão do destino trágico imposto. com exceção da Escola de Frankfurt. Nesse quesito. O espírito decadentista impedia o vislumbre ao mais além. Esse assunto. como veremos a seguir. pouco evidenciado pelos comentadores. Florianópolis: EDUFSC. Nesse quadro fatalista atribuído a essa tradição. Revista de Ciências Humanas. perante o lento e dramático desmoronamento da Vida. trazem conteúdos pertinentes para o entendimento da tradição sociológica alemã. todos os outros autores tinham uma réstia de esperança quanto à possibilidade de superação das patologias da modernidade. n. como se avalia recorrentemente. a atividade do pensar restringia-se a um diagnóstico apático e conformado.

Simmel. 2000. é muito pouco evidenciado por seus comentadores. com exceção de uma única coisa. e que devotaram grande parte de sua existência aos estudos sobre os dramas da vida humana não tivessem. em situações ou comentários.57-77. Florianópolis: EDUFSC. e. enquanto a tivermos. Tönnies. como propõe a metáfora do mito narrado por Bulfinch. n. Esse ponto. Seria de estranhar que homens que tiveram uma ativa vida política e intelectual. foram substituídas por uma impessoalidade desumanizante.22). escapara todo o conteúdo da mesma. assim. infelizmente. e que era a esperança. Weber e Simmel também guardavam no “porão” de suas obras uma expectativa em relação à valorização da vida humana. todo aquele que age não é pessimista. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 67 Segundo G. Pandora apressou-se em colocar a tampa na caixa. como Tönnies e Weber. uma reaproximação entre sujeito e objeto. esses pensadores buscavam devolver espírito a um mundo reificado. expectativas em relação à possibilidade de reversão do trágico diagnóstico da modernidade. a esperança não nos deixa inteiramente. estaríamos diante de uma completa ilogicidade no agir humano. A perspectiva de novos movimentos e interações aparece de forma implícita. destituído da intensidade das relações humanas que. no caso particular de Simmel. sejam quais forem os males que nos ameaçam. pois. de transformação. O agir já pressupõe uma expectativa de mudança. nenhum mal nos torna inteiramente desgraçados (BULFINCH. se assim não fosse. Como ponto comum. não desfrutam de uma sistematização na sua obra. é possível identificar na sociologia alemã a expectativa de ver a cultura não subordinada à técnica e. como já afirmamos. Acreditavam que determinados elementos da vida poderiam salvar o homem do destino trágico que se lhe impunha. abril de 2004 . as formas de superação da asfixia do homem moderno. e. p. por menores que fossem.35. Não há ação sem pressuposição de algum impacto. Ainda recorrendo às ricas metáforas do mito de Prometeu. Revista de Ciências Humanas. uma vida intensa do ponto de vista intelectual e cultural. De maneira semelhante. segundo eles. p. Em Ferdinad Tönnies. mas.Adélia M. que ficara no fundo. Assim. diante de um mundo de artificialismos.

reclamarão por uma nova organização social. que Rousseau é a base da construção de suas categorias psicológicas.57-77. uma tendência natural ao agir ético. de maneira genérica. sufocando seus impulsos. Revista de Ciências Humanas. ou seja. se assim podemos chamá-la. no Emílio. o pessimismo tonnesiano refere-se apenas à modernidade. No entanto. abril de 2004 . n. essas forças naturais reprimidas por um Estado – exemplo máximo da artificialidade moderna –. Entendendo que isso não ocorreria por meio de um enfretamento político. contudo.35. entendida como Sociedade (Gesellschaft) (CAHNMAN. p. à civilização (Zivilistation). Para Tönnies. Em algum momento. Tal como Rousseau. superação que surgiria após o colapso de tais valores. que gradativamente controlava suas vidas. enquanto Hobbes inspira a formação de suas categorias sociológicas. Florianópolis: EDUFSC.68 —A modernidade sob o prisma da tragédia dentro de outras discussões que ocupam a centralidade de sua sociologia. As transformações na ordem social não são suficientes para explicar todas as transformações da vida em sociedade. Tönnies também apela para uma reconstrução da natureza humana. __________________________________________________ 6 Cabe lembrar que o pessimismo de Tönnies não se referia à totalidade da organização social do gênero humano. A perspectiva otimista em relação à humanidade articula-se primeiramente na construção da imagem do homem em Tönnies. Desse modo. 1995). Tönnies constrói uma imagem humana recheada de aspectos românticos que confere ao homem uma essência de dignidade moral. tendo os filósofos contratualistas como fonte de inspiração. Tönnies não deixa. independentemente do pessimismo em relação à Sociedade (Gesellschaft)6. A falência e a superação das promessas da modernidade ocorreriam. Assim como. mesmo na periferia do seu pensamento. como seria a superação do capitalismo prevista por Marx. Contudo. a organização da vida na modernidade era castradora das orientações naturais do homem. Para Tönnies. podemos perceber um otimismo no espírito humano. claro como esse processo vingaria. em última instância. Tönnies acreditava na superação dessa maneira de organização da vida tipicamente moderna. mas a Sociedade (Gesellschaft) o corrompe. a teleologia tonnesiana. mantendo-o num cárcere permanente. Poderíamos afirmar. devido a fatores psicológicos. poderíamos concluir que Tönnies afirma que o homem nasce bom. é a organização artificial da vida que deturpa as vontades e as relações humanas. Rousseau fala em resgatar os sentimentos perdidos de amor de si e piedade natural. não ocorreria devido ao esgotamento de sistemas econômicos.

A filosofia social de Martin Buber ainda apresenta perspectivas adquiridas do pensamento de Simmel. Tönnies também se inspirava nos movimentos sindicais que.35. Influenciado pelo sentimentalismo romântico e. Como vimos. Algumas das perspectivas tönnesianas misturam-se com as propostas de Buber.Adélia M. estabelecido em bases sentimentalistas e contrário ao pessimismo. Tönnies. Segundo ele. depositava sua fé no gênero humano. num segundo momento. direciona-o à sociabilidade e ao altruísmo. n. mais compelido pela rigidez das relações de hierarquia e poder. Revista de Ciências Humanas. p. o espírito da comunidade (Gemeinschaft) resgata-se também pela transformação das vontades humanas. Isso deixa as influências de um socialismo utópico claras. A cooperação substituindo a competição era sua convicção para um projeto de modernidade não destinado a um trágico desfecho. as causas centrais da superação do artificialismo da vida moderna dar-se-iam por questões primeiramente de natureza existencial e. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 69 Para Tönnies.57-77. por vezes. cuja herança do pensamento tonnesiano se apresenta de maneira clara. pelos impactos sociais devido à universalidade desse fenômeno. mas a filosofia social de Martin Buber (1878-1965) pode ser entendida como uma continuidade de seu pensamento. ingênuo. referimo-nos especialmente a algumas conferências de Buber. deixando claro que a Vontade Essencial (Wesenwille) é a que contém a verdadeira natureza moral do homem. mais uma vez. A esse respeito. Tönnies atribui juízo de valor em relação às suas categorias psicológicas. Supunha ele que as mulheres agiriam de modo mais cooperativo e não tão competitivo quanto os homens. tal como sua aposta no feminino. Tönnies acreditava que essa nova organização constituir-se-ia a partir de transformações na organização social. Tönnies tinha a esperança de que a mulher/feminino carregasse sentimentos comunitários mais fortes que os do homem/masculino. em especial. Quanto a isso. poderiam fazer aparecer na sociedade um novo espírito cooperativista. a Vontade Essencial (Wesenwille) expressa a bondade natural do homem. Florianópolis: EDUFSC. como a Nova e Antiga Comunidade. que foi seu influente professor. abril de 2004 . As transformações na organização social circularmente também permitiram o aparecimento de um novo espírito comunitário latente nos homens. mas já presentes na obra de Tönnies. mediante a entrada da mulher na política e em toda a vida pública. A sistematização de uma redenção da comunitariedade não se encontra especificamente na obra de Tönnies. já que entendemos que esse último deu seguimento a idéias pouco desenvolvidas.

que dotaria a modernidade de um novo espírito e que ocuparia a lacuna de uma sociedade regida por uma burocracia sem espírito.70 —A modernidade sob o prisma da tragédia Já a percepção do destino da modernidade por Max Weber faz lembrar imediatamente o antepenúltimo parágrafo de A ética protestante e o espírito do capitalismo: Ninguém sabe quem viverá. Num segundo momento. ou se haverá um grande ressurgimento de velhas idéias e ideais ou se.57-77. também aponta para a possibilidade de uma redenção frente à petrificação mecanizada. Nessa linha de pensamento. surgirão profetas inteiramente novos. no futuro. A constatação acima. o pensamento weberiano permite a ênfase em três esferas de análise: a da sociedade. Segundo Souza (1997). no lugar disso tudo. Na análise das potencialidades da modernidade em Max Weber merece destaque Patologias da modernidade: um diálogo entre Habermas e Weber. também poderíamos escapar da tragédia da modernidade mediante o retorno a determinadas velhas idéias e ideais. Nesse quesito. p. 2002. ele faz menção ao surgimento de profetas inteiramente novos. p. n. Weber lança mão da possibilidade do aparecimento de autoridades detentoras de atributos extra-ordinários. uma petrificação mecanizada ornamentada com um tipo de convulsiva auto-significância (WEBER. Revista de Ciências Humanas. nos moldes da tradição poética representada pelo círculo de George. ao mesmo tempo em que apresenta a possibilidade do acontecimento de uma tragédia sem precedentes. no final deste tremendo desenvolvimento.131). Weber cogita a possível existência de uma história cíclica no que se refere às idéias. Weber deposita sua esperança desesperada em um poder de ordem carismática. Em um tom de uma súplica desesperada.35. valendo-se de interpretações habermasianas. Desse modo. Florianópolis: EDUFSC. que se detém em outros aspectos sumamente relevantes. de Jessé Souza. apelando para elementos de conteúdo irracionalista. assim como nos séculos XV e XVI vimos o ressurgimento dos ideais e das idéias da antiguidade clássica no movimento renascentista. abril de 2004 . da cultura e a da personalidade. nesta prisão ou se.

Weber recorre às questões existenciais para propor a superação das patologias modernas. na medida em que capacitava os homens “para a condução de uma vida clara.35. A simpatia de Weber em relação ao férreo homem de vocação puritana [.Adélia M. com vistas a encontrar no pensamento weberiano uma réstia de otimismo em oposição às interpretações correntes. Weber desenvolveu sua preferência pelo tipo moral puritano. estabelecendo terapias muito próximas às de Tönnies – e. por conseguinte. apelam para uma reformulação moral no homem.1997.57-77. de “personalidade” ascética e intramundana. até agora historicamente realizada. cujo imperativo do agir reduz-se ao utilitarismo e ao hedonismo. concluímos que Weber propõe uma reconstrução da natureza humana. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 71 O autor detém-se na esfera da personalidade. Em acordo com essa análise.. p. Revista de Ciências Humanas. desperta e consciente” (SOUZA. Florianópolis: EDUFSC. a meus olhos. Weber elabora os seus tipos humanos ideais na mesma perspectiva dos autores citados. Ele visualiza o momento em que “cada qual está só com seu Deus ou demônio que rege suas escolhas significativas” (SOUZA. que ressaltam apenas o caráter pessimista de Weber.] para o nosso autor.116).1997.129). seus tipos humanos refletem a percepção de uma decadência moral na natureza humana. 1997. ou seja. p.. em última instância. Se Tönnies elegeu no comunitarismo sua forma predileta de interação social e. p.119). de agir humano. a forma mais superior. n. “O conceito de personalidade weberiano vive. portanto. e. p. o destino do homem. abril de 2004 . Ao destrinchar a vida moderna. Assim como seu colega Tönnies. como aliás toda a sua sociologia” (SOUZA. precisamente a ambigüidade entre a tragédia e a chance. de Rousseau – que. O especialista sem espírito e o homem do prazer sem coração são o reflexo de uma natureza humana decadente. A escolha desse caminho remete a uma inevitável aproximação do pensamento weberiano com outras correntes que elegeram as questões da organização societária humana. como problemática de estudo. também.

É vital para simmel a atenção às relações de reciprocidade e oposição entre os pólos distintos [.72 —A modernidade sob o prisma da tragédia A idéia da preferência de Weber pelo tipo puritano.] garantindo suas especificidades e relativa autonomia.35. que a vê apenas como um “Leviatã” monolítico... principalmente.12-14). a partir de um duelo interior. p. pela expressão absolutos relativos. não cabia em seu sistema de pensamento a possibilidade de uma cultura monolítica. conceito caro na sociologia simmeliana. como representante da ética individual no mundo moderno. Enfatizar os absolutos relativos [. o que não implica negar a idéia de relação. No seu entendimento da sociedade como formas de sociação e da vida como reciprocidade. na Europa e. Sobre isso. p. opressor da vida natural. Miglievich Ribeiro observa que: A interação. exige – a percepção das diferenciações nos processos de interação. p. não exclui – ao contrário. e da formulação da personalidade constituída a partir de um esforço moral.63). dominação e tensão exemplificam. uniforme. no qual convivem unidades relacionais. a modernidade é assumida em seu pluralismo. portanto.. as inter-relações. Revista de Ciências Humanas. Diferentemente de Tönnies. como afirmamos em outro momento.. porém.]. abril de 2004 . em seus ensaios. para Simmel. que um dos lados da relação tende a dominar o outro. implicava o combate à padronização dos modos de ser e viver que marcavam a tragédia da cultura (2001.57-77. formas de interação social. n. como tem sido compreendida a modernidade. Simmel critica a concepção de que existe algo em si mesmo absoluto e opta. Segundo Diggins: Enquanto muitos sociólogos. Florianópolis: EDUFSC. A percepção de modernidade no pensamento de Georg Simmel não faz referência a uma estrutura social estática e. Weber permaneceu próximo aos seus predecessores transcendentalistas e calvinistas ao acreditar (como Nietzsche) que nos tornamos o que somos por nossos próprios esforços (1999. desenvolviam idéias de personalidade e identidade baseadas em teorias de interação social. na América. admitindo. também aparece na biografia que John Diggins faz de Max Weber. visto que conflito. ou seja. A partir dessa concepção.

enxerga ele. em oposição ao espírito objetivo da modernidade. participar das experiências essenciais da vida humana. Na variedade dos círculos sociais de que participamos. do cálculo e da instrumentalidade. Dois conceitos desenvolvidos por Simmel são as chaves para o entendimento da possibilidade de um reencantamento do mundo moderno. Revista de Ciências Humanas. a periferia da modernidade ofereceria espaço para uma contra-resposta ao avanço da cultura objetiva. por exemplo. focos de cultivo da Vida. Admitindo o domínio das relações instrumentais tipicamente modernas. poderíamos desenvolver sentimentos e emoções que estariam excluídos da grande sociedade. Simmel atenta para as formas de sociação na periferia da modernidade.Adélia M. Por mais que o agir “calculativo” da lógica economicista tenda a se confundir com o “genericamente humano”. e. O prefixo “er” na língua alemã indica a realização de algo com sucesso. Os conceitos de círculos sociais (Kulturkreislehre) e vivências (Erlebnis) indicam os caminhos pelos quais se processa o enriquecimento subjetivo frente a um mundo objetificado. No seu entendimento. na densidade de uma floresta monetarista. e que se estabelecem a partir de outros conteúdos que não os do utilitarismo. no entanto. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 73 Mesmo afirmando que o dinheiro é a força central do agir da modernidade. p. 2001). significa realizar a vida em profundidade. Segundo Simmel. Nos círculos de amizade. n. garantindo à sociedade seu caráter fluido e processual”. de enriquecimento espiritual (subjetivo). que se traduz como vida. é dada ao homem a possibilidade de construir micro-sociedades.57-77. clareiras de encantamento que resistem. O conceito de vivências (Erlebnis) nega o entendimento da modernidade como “absoluto”. caso nos rendêssemos a uma modernidade monolítica.. em profundidade. existe a possibilidade de se sobrepor às relações instrumentais a lógica fraterna. porque são as vivências (Erlebnis) o alimento dos círculos sociais periféricos que dotam a humanidade de espírito. “Nasciam assim as formas sociais que incessantemente se rearticulavam de incontáveis e diferentes maneiras. Eis por que Simmel torna-se conhecido como “o observador astuto e o analista genial dos aspectos inusitados ou mesmo inesperados da vida social contra qualquer tentativa de fetichizar a sociedade” (Ibid. abril de 2004 .35. aliado à palavra “Leben”. nos quais cultivamos a nossa subjetividade. Florianópolis: EDUFSC.

no que tange à moral.57-77. Também.27). Enfim. abril de 2004 . o vivenciar refere-se à participação em profundidade na vida. O que mais se destaca na obra de Simmel. poderíamos dizer que a palavra “viver” representa a superficialidade da modernidade. vivências fundadora e refundadoras dos círculos sociais. Simmel também vislumbra a representação de um estilo de personalidade típico da modernidade. 2001. p. Tonnies. nesse autor. In: MIRANDA.. n. Florianópolis: EDUFSC. notamos a esperança em uma redenção moral. Simmel acredita num desvelamento do espírito objetivo da modernidade. tomado arbitrariamente como absoluto. “Simmel deseja e saúda a diferença. para usar a terminologia de Simmel.35. Diferentemente da crença de Tönnies nos modelos absolutos e dicotômicos Gemeinschaft e Gesellschaft. mas dotá-la de espírito. mesmo que o núcleo central da modernidade nos asfixie o espírito. as relações sociais são retratadas na modernidade sob o aspecto da decadência. “[.] Erlebnis tornase um instrumento para ressaltar as qualidades internas e espirituais de uma vida humana contra quantidades objetivas. com seu eu. contudo necessariamente inter-relacionados. Revista de Ciências Humanas. contra uma ciência positivista e materialista presa a fatos objetivos” (SOUZA. __________________________________________________ 7 Há de se lembrar que uma possível interpretação de Tonnies permite entender que ele credita à Gemeinschaft uma forma especial e intensa de perceber e de se relacionar com o mundo. p. como condição para se restaurar a Gemeinschaft (Cf. Assim como nos outros pensadores examinados. de uma refundação da modernidade que recusa o modelo de “esferas separadas” (subjetividade e objetividade. Harry Cohen. indivíduo e sociedade). mas não apela para uma “regeneração” desses tipos como redenção da modernidade7. O. conferir à palavra vida não somente significado referente a movimentos mecânicos. impõe que a pessoa rompa com a atitude blasé e com a alienação. p.212). complementares” (MIGLIEVICH RIBEIRO. viver com alma.. é sua recorrência às microssociedades. 1998. a sua periferia oferece a oxigenação da vida. Todavia. mais do que Simmel. com as coisas e com os outros que se opõe radicalmente ao tipo blasé. como um autômato regido pela burocracia da vida regulada pelo dinheiro. diferentemente da dos outros autores analisados.74 —A modernidade sob o prisma da tragédia Nesse caso. Para dar forma a essa abstração. na relação de oposição. Cada pólo da relação humana é um absoluto em si mesmo. 1995. para se opor à “grande sociedade”. do viver vegetativamente. interdependentes e. p.217). Para ler Ferdinand Tonnies. observáveis de fora. autojustificável. Simmel constrói as figuras do blasé e do cínico..

complementaridade. sujeito e outro sujeito. podemos vislumbrar um destino menos sombrio para o homem.57-77. p. n. diferença. oposição. ainda que concordem com que a modernidade é uma tragédia inevitável. atentando para os efeitos desse fenômeno na organização social. Isso se deve ao fato de Simmel acreditar que a esfera da personalidade é construída a partir das interações sociais. A técnica é o evento ou a “força” que permite o progresso sem limites do homem sobre a Terra. acrescentando as implicações existenciais. das quais o indivíduo participa. como denuncia Tonnies. em contraste com as percepções cristalizadas da vida social. aspectos trágicos possam ser identificados. O modelo de esferas separadas não cabe no pensamento de Simmel. como fala Simmel. não a consideram o fim das formas outras de experiência humana. gostaríamos de ressaltar a metáfora proposta em nosso trabalho. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 75 Ele deposita sua esperança na superação da modernidade. relação. desejam reinvenções de formas de vida social.35. Contudo. interação. Enfim. no próprio devir da sociedade. reciprocidade e círculos definem o modo específico de observar a tragédia moderna. a partir dos círculos sociais de que ele faz parte. marca o pensamento desse autor. O caráter relacional e processual da formação da sociedade e da cultura a partir de sociações8. ou seja. Analisar a Modernidade a partir de sua vertente técnica. assim como os conceitos de cisão.Adélia M. Na crítica à modernidade. pode ser uma possibilidade de compreendermos e superarmos parte dos desafios que nossos tempos apresentam. sujeito-objeto. quer a perda da intensidade e inteireza nas relações entre sujeito consigo mesmo. quer a cisão arbitrária entre cultura subjetiva e cultura objetiva. Revista de Ciências Humanas. e que muitos deles são da alçada de uma sociologia que admite estudar a dimensão subjetiva presente nos processos sociais. unidade. centrando-se no conteúdo trágico que representa a introdução da técnica nas sociedades humanas. Importa dizer que os estudiosos que nos inspiraram em nossas análises contemporâneas nas ciências sociais. __________________________________________________ 8 Tradução do termo Vergesellschaftung feita por Evaristo de Morais. na organização da vida moderna. e em alguns casos até mesmo fora dela. essa característica central apresenta-se paradoxal para a Modernidade: a sua radicalização sinaliza o fim de tudo que ela permitiu existir. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. devido à peculiaridade do significado desse termo no pensamento de Simmel. Ainda que.

2000. H. (Org. K. Gerd. IFCS. Tradução de Guido Antonio de Almeida. The Making of sociology: A study of sociological theory. Referências bibliográficas ADORNO. é necessariamente otimista. DIGGINS. BULFINCH. Wolf. 2001. Charles Scribner”s. (Org).. In: FLETCHER. Tradução Maria Clara Cescato. O romantismo. Sobre comunidade. Artificial Society. Filosofia do Romantismo. Max. Glenn. In: HÖLDERLIN. Louis. Revista de Ciências Humanas.. Friedrich. Max Weber: a política e o espírito da tragédia. como dissemos.). p. Ronald. Gerd. GUINSBURG. 2001. BUBER.. Filosofia & Literatura: O trágico. Rio de Janeiro: Record.76 —A modernidade sob o prisma da tragédia A ação. Ronald. Uma Variante Nacional: O povo e a nação em Herder e Fichte In: DUMONT. 1985. A significação das tragédias. HÖLDERLIN. dãonos a chance oposta de clamar pela intensidade e autenticidade da vida. Tradução de David Monjardim. Dialética do Esclarecimento. 1975. Adélia Maria. J. FLETCHER. Ferdinand Tönnies: From natural. In: MOST. Georg Simmel: um convite à análise dos princípios masculino e feminino na constituição da cultura. São Paulo: Perspectiva. ROSENFIELD. 1993. São Paulo: Edusp. O livro de ouro da mitologia. da vivência de mulheres e homens modernos. LEPENIES. 2. K. V. Rio de Janeiro: Ediouro. H. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. São Paulo: Perspectiva. ao atentar para o perigo da ação despojada de sentido. abril de 2004 . Thomas. Filosofia & Literatura: O trágico. Theodor e HORKHEIMER. As Três Culturas. ROSENFIELD.35. BORNHEIM. In: BORNHEIM. Da tragédia ao trágico. 2001. Glenn.). Ed.57-77. 1996. Rio de janeiro: Rocco. Friedrich. ou melhor. DUMONT. 1999. Paper. 1971. Florianópolis: EDUFSC. Living comunity to contrived. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. O individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. John Patrick. 1987. MIGLIEVICH RIBEIRO. n. Os autores aqui retratados. MOST. Rio de Janeiro: Ed Jorge Zahar. Louis. Martin. (Org.

). Tradução de Pietro Nassetti. Berthold (Org). Georg. 2000. Simmel e a Modernidade. Jessé e OELZE. 1998. WAIZBORT. Ferdinand. Comunidade e Sociedade. In: SOUZA. Orlando (Org. MIRANDA. VERNANT. São Paulo: Edusp. Georg. abril de 2004 . O problema da Sociologia. SIMMEL. El individuo y la liberdad: ensayos de critica de la cultura. Max. 1947. Miglievich Ribeiro e Brand Arenari — 77 RAMMSTEDT. Mitos e pensamento entre os Gregos. Jessé. São Paulo: Annablume. Para Ler Ferdinand Tönnies. Berthold (Org). MORAES FILHO. Jessé e OELZE. Florianópolis: EDUFSC. e DAHME. 1998. 1990. J. WEBER. Barcelona: Nova-Gràfik. especialmente. A modernidade atemporal dos clássicos da sociologia: reflexões sobre Durkheim. Georg. In: SOUZA. A divisão do trabalho como causa de diferenciação da cultura subjetiva e objetiva. 1995. Tönnies e. Simmel. São Paulo: Ática. SOUZA. Leopoldo. 1986. (Org. UNB.35. Sociología I & II: Estudios sobre las formas de socialización. H. São Paulo: Editora 34. 1997.). George. TÖNNIES. 1983. O.57-77. Ferdinand. Georg. Ferdinand. n. 2002. SIMMEL. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. As aventuras de Georg Simmel. UNB. Evaristo de. Jean-Pierre. Madrid: Alianza. Simmel e a Modernidade. Buenos Aires: Losada. Brasília: Ed. SIMMEL. p. Rio de Janeiro: Paz e Terra. SIMMEL. In: TÖNNIES. São Paulo: Martin Claret. Brasília: Ed. 1997. Coleção grandes cientistas sociais. Comunidad y Sociedad.Adélia M. (Recebido em junho de 2004 e aceito para publicação em novembro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Patologias da modernidade: um diálogo entre Habermas e Weber. TÖNNIES. Tradução de Haiganuch Sarian. In: SIMMEL.

Florianópolis: EDUFSC. A incidência de aids tem aumentado entre indivíduos com relações heterossexuais estáveis em regime de conjugalidade e. abril de 2004 . Florianópolis. The aim of the related research has been to know how women—within or without stable relationships—ela- * Trust in partners and protection against HIV: a research on social representations with women 1 Endereço para correspondências: Rua Theófilo de Almeida. especially women. 171. who are infected most commonly by their sexual partners.79-98. SC. 104. a maioria tem se contaminado por intermédio do parceiro. O objetivo da pesquisa foi verificar como as mulheres com e sem relacionamento fixo elaboram suas __________________________________________________ Abstract This paper deals with social representations of women— regardless of their having a stable partner—about sexuality and prevention of Aids. Revista de Ciências Humanas.com).Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV: estudo de representações sociais com mulheres* Andréia Isabel Giacomozzi1 Universidade Federal de Santa Catarina Resumo Este estudo refere-se às representações sociais de mulheres com e sem parceiro fixo sobre sexualidade e prevenção da aids. ap. CEP 88085-310 (agiacomozzi@hotmail. Bom Abrigo. p. n. Aids”s frequency increases among heterosexuals within stable relationships. em se tratando de mulheres.35.

and whether this has an impact on their adhering to prevention practices concerning Aids. 20 women from 30 to 40 years old have been interviewed. n. utilizou-se sotware de análise quantitativa de dados textuais ALCESTE. Aids. aids. That research has been accomplished in both descriptive and comparative terms. who at the time had stable relationships. who consider themselves protected by stable relationships. conjugalidade.79-98. p.35. Trata-se de um estudo descritivo. Revista de Ciências Humanas. sexualidade. borate on social representations about Aids. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. utilizam preservativo em todos os seus envolvimentos sexuais eventuais. que se consideram seguras em suas relações conjugais. Palavras-chave: Representações sociais. they feel safe and trust their sexual partners. totalizando 40 mulheres entrevistadas entre 30 e 40 anos. mulheres. no qual foi empregada a técnica de observação indireta via entrevistas “semidiretivas”.80 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV representações sociais sobre aids e se isso tem repercussão nas suas práticas de prevenção frente a essa doença. It has still been found out that women without stable relationships feel more vulnerable to Aids and use condoms in all their sexual relations. had also been interviewed. It has been found out that women with stable relationships consider that prevention of Aids is important for everybody but themselves. 20 other ones. women. stable relationships. Foram entrevistadas 20 mulheres que mantinham relações fixas em regime de conjugalidade no momento da entrevista e 20 mulheres que estavam sem parceiro fixo. comparativo. portanto. Verificou-se também que as entrevistadas sem parceiro fixo sentem-se mais vulneráveis frente à aids e. by means of indirect observations and non-directive interviews. em virtude de um sentimento de confiança no parceiro. Os resultados demonstram que as mulheres com parceiro fixo consideram a prevenção da aids algo necessário para todas as pessoas. Keywords: Social representations. sexuality. with no stable relationships. Para a análise do material coletado. Analysis of data so obtained has been made by means of a computer program for quantitative analysis of textual data (ALCESTE). exceto para elas mesmas.

780 pessoas (notificados desde 1980). portanto. nas décadas 1980 a 90. É importante entender que. de 44.5%. O trabalho fundamentou-se em conhecimentos da psicologia social. __________________________________________________ 2 Revista de Ciências Humanas. entre indivíduos heterossexuais com parceiro fixo. Observou-se. a contaminação nas relações heterossexuais. 66. as mulheres maiores de 13 anos. para as mulheres. o número de mulheres contaminadas com o vírus da aids cresce a cada ano e. publicado pelo Ministério da Saúde.79-98. p. abril de 2004 .061) são homens e 26.981 (65%) eram homens e 1. redução da participação das categorias “homo e bissexual”. para 16. a cada boletim epidemiológico o número de mulheres infectadas aumenta gradualmente. necessário investigar os fatores determinantes na propagação dessa doença entre esse grupo de pessoas. essa porcentagem elevou-se a 93. na maioria dos casos. esta pesquisa estuda os aspectos interacionais da epidemia da aids.719) são mulheres. nota-se que. nas décadas de 1980 a 90. A contaminação das mulheres pelo vírus HIV configura-se em um importante questionamento na área da saúde nos últimos anos e tem sido problematizada também como uma questão social. No ano de 2002. em casos de aids. n. ao mesmo tempo. Entre as décadas de 1980 e 90. deles. Florianópolis: EDUFSC. de 16. mais especificamente na teoria das representações sociais de Serge Moscovici e do gênero como categoria de análise. Assim.17% (72.35.Andréia Isabel Giacomozzi — 81 E ste artigo constitui um resumo de uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina e tem como foco as representações sociais de mulheres com e sem relacionamento fixo sobre sexualidade e prevenção à Aids2. sendo que 1. Aids: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. no âmbito da intimidade e da conseqüência da confiança existente no ambiente privado dos lares.5%. Os dados revelam aumento dessa epidemia. para 58. Segundo o Boletim Epidemiológico de 2002.0%. no ano de 2002.4%. decorrente da infecção pelo vírus HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana).3%. em regime de conjugalidade. Considerou-se. sob o ponto de vista das mulheres. também. as representações sociais da aids configuram-se de forma diferente de como são para os homens. contaminadas pela relação heterossexual. principalmente. o número de casos de aids é de 257.043 (34%). houve incremento da categoria “heterossexual”. sendo que. No Brasil. mulheres. perfaziam 61.1%.61% (185. Entretanto.

homens e mulheres relatam. o autor estuda a representação social da psicanálise. pois o perigo da aids está relacionado ao “outro” de quem se desconfia. p. há o estudo de Camargo (2000). no curso de comunicações interpessoais. Dentre suas funções. que funciona como uma espécie de ‘teoria do senso comum’”. 1998) demonstram que o cuidado com a aids pauta-se em relações em que predomina um sentimento de desconfiança. n. que podem gerar a transformação de uma ou outra.82 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Como exemplo disso. Segundo Moscovici (1981. TURA. Nesse sentido.35. Abric (1994) define quatro: saber. nas relações conjugais. surgem as relações de conflitos. Nela. a infecção pelo vírus HIV dava-se por um descuido do indivíduo contaminado. abril de 2004 . As representações desempenham papel fundamental nas práticas e na dinâmica das relações sociais. A teoria das representações sociais A teoria das representações sociais originou-se na Europa. para os homens. orientação de comportamentos e de práticas. Mesmo com a prevenção à aids estando relacionada com a prevenção sexual. as mulheres atribuíram à desinformação o fato de as pessoas contraírem o vírus. enquanto. a partir da publicação por Serge Moscovici (1961) da obra La Psychanalyse: Son image et son public. p. justificação de posicionamentos e comportamentos. 1998. enquanto. [. segundo essa pesquisa. MADEIRA. que pesquisou a representação da aids entre estudantes universitários.] uma representação social é um conjunto de conceitos. esta pesquisa pretende verificar se as representações das mulheres com e sem parceiro fixo estão em acordo com suas práticas sociais com relação à prevenção a essa epidemia.181).79-98. Quando ocorrem contradições entre as representações sociais e suas práticas respectivas. proposições e explicações originadas na vida cotidiana. 1998. com o objetivo de compreender como a teoria psicanalítica disseminava-se de formas diferentes em diversos grupos. Porém. Florianópolis: EDUFSC.. Revista de Ciências Humanas. Algumas pesquisas (CARVALHO.. essa desconfiança inexiste ou é diminuída. associar aids à promiscuidade.

não usam preservativos e não conhecem a sua condição sorológica nem a do parceiro. A intimidade e a confiança seriam. evidências indicam que indivíduos em relacionamentos estáveis tendem a não tomar nenhuma medida efetiva de prevenção à aids. não usam preservativo com seus parceiros fixos).. A vulnerabilidade divide-se em dois aspectos: individual e coletiva. mas não o utilizam com um parceiro fixo.35. dado o conjunto formado por certas características individuais e sociais de seu cotidiano. p. portanto. p. A relação de confiança. esses pesquisadores encontraram os que. que constatou que as profissionais do sexo utilizam preservativo em seus relacionamentos comerciais. Revista de Ciências Humanas. geralmente. as pessoas tornam-se mais vulneráveis e as dimensões das práticas sociais podem dar indícios de que essa maneira de pensar afetará as estratégias de prevenção desse grupo. causas de uma maior exposição ao vírus da aids.] avaliar objetivamente as diferentes chances que cada indivíduo ou grupo populacional particular tem de se contaminar. têm relacionamentos sexuais casuais: jovens. portanto. homossexuais. Utiliza-se a seguinte noção de “vulnerabilidade”: [. de acordo com Misovich. Florianópolis: EDUFSC. pois.. Essas medidas preventivas não entram em pauta na relação. Estudos de Pinkerton e Abramson (1993) indicam que ter relacionamento sexual sem proteção com parceiro fixo e eliminar relações casuais (manter monogamia) pode expor o indivíduo a maior risco e vulnerabilidade do que ter sexo seguro com parceiro fixo e parceiros eventuais.65). A confiança influencia os relacionamentos. A partir de então. pois se estabelece certa vulnerabilidade. 1999. quando estes têm relacionamentos estáveis. em geral. Esse termo surgiu como uma tentativa de compreender as possibilidades que uma pessoa ou grupo tem de se infectar com o vírus da aids. Fisher e Fisher (1997).. julgadas relevantes para a maior exposição ou menor chance de proteção diante do problema (AYRES e cols.79-98. n. Já entre os indivíduos que utilizam o preservativo. e isso afetará as estratégias de prevenção à doença. profissionais do sexo (porém. leva os indivíduos ao risco de contágio. Isso também foi encontrado na pesquisa de Oltramari (2001).Andréia Isabel Giacomozzi — 83 Levanta-se a hipótese de que o risco com relação à aids pode iniciar-se quando a relação de intimidade e confiança se estabelece. abril de 2004 .

índice de liberdade humana. e c) Questões de ordem cognitiva.79-98. desnaturalizando a visão de mulher ainda existente e questionando a idéia de que haveria apenas um feminino e um masculino. de acordo com Scott (1990). abril de 2004 . média e baixa. de acordo com seus valores pessoais e recursos preventivos. portanto. conceber o masculino e o feminino como formas mutáveis e flexíveis e em interação uns com os outros. Mesmo em uma pesquisa em que o foco seja somente a mulher.35. menor a morbidade. segundo Grossi e Miguel (1995). A vulnerabilidade coletiva divide-se em programática e social. É importante. São eles: acesso à informação. trabalha-se aqui com o gênero como categoria de análise. que fazem uma ligação entre os planos individual e social. as noções ligadas ao gênero são vistas como produtos de processos sociais e culturais. Como dito. a vulnerabilidade social é avaliada por muitos indicadores sociais elaborados pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD). é necessário considerála relacionalmente ao homem. n. p. relação entre despesas militares e gastos com educação e saúde. Mais. invalidez e morte. índice de desenvolvimento humano. em determinada época de sua vida. b) Quanto maior o amparo social e a assistência à saúde de que os indivíduos dispuserem. Florianópolis: EDUFSC. situação da mulher. mortalidade antes dos cinco anos. para evitar contribuir com uma idéia sexista da moralidade. (1999). Segundo Ayres e cols. A noção de gênero. São muitos os critérios para a avaliação dessas ações.84 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Segundo Ayres e cols. comportamental e social afetam diretamente a vulnerabilidade individual. A partir de oito índices. A primeira consiste nas ações do Estado. pois. (1999) a vulnerabilidade individual consiste em três pressupostos: a) Qualquer indivíduo é passível de contaminação. gastos com serviços sociais e da saúde. definem-se critérios para a classificação da vulnerabilidade entre alta. pelos seus programas de prevenção à aids. à medida que identidades de gênero (masculinidades e feminilidades múltiplas) diferenciam-se e constroem-se relacional e dinamicamente. mulheres e homens são definidos em termos recíprocos e nenhuma compreensão de um deles pode ser alcançada por um estudo separado: Revista de Ciências Humanas. preocupa-se em desvincular os papéis sexuais de seu determinismo biológico.

. p.Andréia Isabel Giacomozzi — 85 [. 2001). 1990.] especialistas em gênero e comportamento sexual notam que gênero é obviamente importante para definir como serão as negociações nos encontros sexuais e quem determinará quais práticas irão prevalecer3 (EHRHARDT e WASSERHEIT. têm grande peso no comportamento sexual da mulher e evidentemente influem nas questões de poder e de tomada de decisões: [. somadas às culturais e econômicas (dependência econômica da mulher em relação ao homem.. a ver com o outro sexo” (SCOTT. Todavia. abril de 2004 . 1991. portanto.10).35. A noção de gênero pressupõe. na sociedade. a grande influência das questões de gênero nos comportamentos de risco frente ao HIV.79-98. mas que. p. pois. ainda. Revista de Ciências Humanas. isso acontece com todas as pessoas que não se situam dentro do que o modelo dominante define como práticas sexuais adequadas (1998. uma integração entre masculino e feminino e entre indivíduo e sociedade (NOGUEIRA. Florianópolis: EDUFSC. p. Essas questões. podemos dizer que as mulheres têm em comum a vivência do sexo em uma sociedade machista e patriarcal. as mulheres tenham estado em enorme desvantagem. Também devemos ter em conta que não são elas as únicas a serem castigadas e estigmatizadas por sua conduta sexual. em geral. n. __________________________________________________ 3 Tradução da autora.7). no caso da sexualidade. não se pode negar que existam muitas diferenças entre homens e mulheres..99). tenha muito pouco. Citando Faria: Mesmo considerando todas as diferenças de uma mulher para outra. mesmo que sejam socialmente construídas e.] Este estudo rejeita a validade interpretativa da idéia de esferas separadas e sustenta que estudar as mulheres de maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera. a experiência de um sexo. por exemplo).. o poder é eminentemente masculino e pretende controlar os corpos e desejos femininos a toda prova. Observa-se. p. ou nada.

comparativo. pois é um dos recursos mais apropriados para a obtenção do material textual. p.35. Esse procedimento permite certa objetividade na obtenção dos dados e também possibilita respostas explicativas das participantes. fez-se um estudo piloto para o levantamento de temas recorrentes para a formulação de um roteiro de entrevistas. e as outras 20 não tinham parceiro ou estavam separadas há mais de três meses. Essas entrevistas foram feitas com seis mulheres (três com relacionamento fixo há mais de Revista de Ciências Humanas. Os critérios utilizados para a seleção das participantes foram dois: freqüentar o serviço de atendimento ginecológico do HU e estar na faixa etária definida. facilitando ao pesquisador identificar as possíveis representações acerca do fenômeno estudado. Das 40 entrevistadas. no ano de 2003.79-98. Procedimento A coleta de dados deu-se em duas etapas. Participantes As participantes da pesquisa foram 40 mulheres que freqüentaram o Serviço de Atendimento Ginecológico do Ambulatório C do Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Santa Catarina. no intuito de coletar dados textuais como indicadores de RS e de práticas sociais de mulheres com e sem parceiros fixos.86 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Método Caracterização da pesquisa Trata-se de um estudo descritivo. no momento da pesquisa. estando em regime de conjugalidade. Todas as mulheres tinham idade entre 30 e 40 anos e nenhuma delas era portadora do vírus HIV. Instrumentos de coleta de dados Foi escolhida para a coleta dos dados a entrevista semidiretiva. n. no qual se emprega a técnica de observação indireta. mediante entrevistas semidiretivas. abril de 2004 . diante da prevenção à aids. Na primeira. Florianópolis: EDUFSC. 20 mulheres tinham parceiro fixo há mais de três meses.

n. tais como: idade. Procedimentos para a análise dos dados Os procedimentos que se seguiram às transcrições das entrevistas foram: 1) na primeira linha da transcrição. com ou sem filhos).Andréia Isabel Giacomozzi — 87 três meses e três com mulheres sem parceiro fixo ou separadas há mais de três meses). Os procedimentos para a realização das entrevistas seguiam os mesmo passos: 1) Contato telefônico da paciente com a secretária do ambulatório e agendamento da consulta.79-98. nível de escolaridade. existência ou não de filhos e número de casamentos. As entrevistas da segunda etapa foram. 3) lançamento da análise do material. Revista de Ciências Humanas. a enfermeira falava à paciente sobre a pesquisa e a convidava a participar. Adotaram-se procedimentos comuns que padronizassem a pesquisa. fez-se o processamento das produções discursivas para o software ALCESTE (Análise Lexical Contextual de um Conjunto de Segmentos de Texto4). abril de 2004 . p. 5) Apresentação dos objetivos do trabalho. As entrevistas dessa primeira etapa foram não-diretivas e não tinham um roteiro definido. mais estruturadas. 2) Atendimento com a enfermeira. portanto. Análise Lexical Contextual de um Conjunto de Segentos de Texto. com os seguintes passos: 1) adaptação das produções discursivas às normas do software. 3) Ao final do atendimento. nível de escolaridade. Outros dados a respeito das entrevistadas também foram coletados. 7) Aplicação do roteiro de entrevistas. 2) exclusão das falas (questões) da entrevistadora. correção da concordância verbal e de gênero. Florianópolis: EDUFSC. Na seqüência. A partir daí. ou seja.35. __________________________________________________ 4 “Analyse Lexicale par contexto d’un ensemble de segments de texte”. montou-se um roteiro. com ou sem parceiro fixo. 2) todas as falas da entrevistadora (perguntas) foram escritas em letras maiúsculas. A pesquisadora pedia para que a entrevistada falasse o máximo possível sobre o tema da prevenção à aids. As entrevistas foram realizadas individualmente. constavam as variáveis descritivas de cada entrevistada (idade. Com os tópicos recorrentes naquelas entrevistas. A segunda etapa considerou a análise do material obtido nas entrevistas piloto. passou-se a realizar as entrevistas com o roteiro preestabelecido. 4) Contato com a pesquisadora. 6) Permissão da entrevistada. 3) correção de erros de pontuação e de português e transcrição de termos coloquiais de acordo com a escrita correta.

n. Segundo Camargo5.88 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV O software é utilizado para relacionar os dados quantitativos textuais de uma quantidade de entrevistas com o seu contexto de localização no texto. apresentam vocabulário semelhante entre si e diferente das UCEs das outras classes. que mostra as relações entre as classes. Etapa B: Cálculo das matrizes de dados e classificação das UCEs (seguimentos de tamanhos similares). Depois. segmenta o texto. agrupa as ocorrências das palavras em função de suas raízes e calcula a freqüência dessas formas reduzidas. abril de 2004 . No caso desta pesquisa. mas é necessário indicar unidades de contexto iniciais (UCIs) e preparar esse arquivo sob regras específicas. essas classes. Portanto. Para analisar os textos. cópia para uso interno do LACCOS. Nessa etapa. cinco. aplica-se o método de classificação hierárquica descendente. C e D. Para ser analisado pelo ALCESTE. Um conjunto de unidades de contexto iniciais (UCI) forma um corpus de análise. O programa apresenta o dendograma da Classificação Hierárquica Descendente (CHD).79-98. as UCEs são classificadas em função dos seus respectivos vocabulários e são repartidas em função da freqüência das formas reduzidas. p. Etapa C: Descrição das classes de UCEs. formadas por vários segmentos de textos com vocabulários semelhantes. o programa ALCESTE executa quatro etapas: A. foi necessária a divisão do corpus inicial em dois corpora para garantir essa característica. ainda. para Camargo (2003). o material textual deve ser monotemático. reconhece as UCIs. __________________________________________________ 5 Capítulo de livro no prelo. para obter classes de UCEs que. Revista de Ciências Humanas. quando se aplica o ALCESTE no estudo da representação social. Aqui. ao mesmo tempo. o corpus deve constituir um conjunto textual centrado em um tema. essas classes podem ser interpretadas como noções de mundo ou quadros perceptivo-cognitivos com certa estabilidade temporal e. sendo que cada uma das três primeiras contém três operações e a última. São elas: Etapa A: Leitura do texto e cálculo dos dicionários. para se obter uma classificação definitiva. Utiliza-se. o programa toma como base um único arquivo. Segundo Reinert (1990). Florianópolis: EDUFSC. pois a análise dos textos sobre mais de um item pré-estruturado resulta na reprodução da estrutura prévia. o teste do qui-quadrado.35. Assim. cada entrevista será uma UCI. o programa prepara o corpus. podem ser consideradas indicadores de diferentes noções de representação social ou campos de imagens sobre um determinado objeto. B.

embora o primeiro volte-se mais aos problemas gerais que envolvem os relacionamentos. nesse corpus. no dendograma. Foram consideradas para a análise palavras com ÷2 > 3. o programa calcula as UCEs mais características de cada classe para melhor contextualização do vocabulário típico de cada classe. Outro recurso dessa etapa é permitir exportar as UCEs obtidas para outros programas informáticos. Observa-se. Os resultados da análise com o ALCESTE são apresentados na Figura 1. ambos formados pelas respostas a respeito das diversas problemáticas que envolvem as relações entre homens e mulheres. Esse corpus refere-se às respostas das seguintes questões: 1) O que você pensa da relação entre homens e mulheres de hoje em dia? e 2) Como têm sido as suas relações com os homens? O corpus foi dividido em 629 UCEs (segmentos de tamanho similar) e a análise hierárquica descendente considerou para a análise todas as 629 UCEs. abril de 2004 .79-98. enquanto o segundo aborda a questão da aids. denominadas as relações entre homens e mulheres. os resultados obtidos via analise textual das respostas das entrevistadas. indicando uma média de 6 ocorrências por palavra. A primeira ramificação. Florianópolis: EDUFSC. problemas na relação entre homens e mulheres. a seguir. desdobrou-se em outros dois subcorpora. denominados problemas no casamento e separações e a aids no contexto das relações amorosas. ou seja. Revista de Ciências Humanas. foram inicialmente repartidas em dois subcorpora denominados respectivamente: problemas nas relações entre homens e mulheres (primeira ramificação) e reflexões sobre a relação homem-mulher (segunda ramificação).066 formas distintas. Houve. sob a forma de dendograma resultante da análise hierárquica descendente. 28. que as respostas. nos dias de hoje.84 e com freqüência maior do que 6.697 ocorrências de palavras e 5. 100% do total das UCEs que esse corpus tinha. Resultados Análise do corpus 1 sobre relação conjugal formado pelos discursos das mulheres com e sem relacionamento fixo Relatam-se. n.Andréia Isabel Giacomozzi — 89 Etapa D: Cálculos complementares – com base nas classes de UCEs escolhidas.35. p.

as mulheres que estão com parceiro fixo relatam ter medo de contrair aids. mas não pela via sexual. É importante também observar que as mulheres que relataram terem se separado em função do hábito de sair sozinho dos maridos e de beber voltaram a se casar. Essas duas classes também guardam semelhanças temáticas. na classe 5. sendo. desnecessária a prevenção no casamento. essa prevenção via palavra dá-se de diferentes maneiras para os dois grupos de mulheres. as entrevistadas relacionam uma forma de prevenção à aids centrada na palavra. pois se sentem seguras com seus maridos. tais como transfusão de sangue. traições e separações) e classe 3 (o sair sozinho dos maridos. porém. enquanto as que se separaram em função de traições masculinas não se casaram novamente. embora. As mulheres com parceiro fixo têm certeza de que seus maridos dizem a verdade para elas e de que eles não têm relacionamentos extraconjugais.35. Ambas guardam proximidades temáticas.90 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Cada um desses dois subcorpora (problemas no casamento e separações e a aids no contexto das relações amorosas) ainda se subdividiu em duas classes estáveis. enquanto. n. em clínicas. Contudo. isto é. hospitais etc. a classe 1 é formada pelas respostas em que as mulheres responsabilizam suas separações pelas traições dos maridos. portanto. p. bebidas e separações). Florianópolis: EDUFSC. os responsáveis pelas separações são os hábitos dos maridos de sair sozinhos e de beber. O primeiro. Revista de Ciências Humanas. mas se poderia pensar que o segundo fator (traições) tenderia a magoar mais as mulheres do que o primeiro (bebidas e sair sozinho). na classe 1 (história dos casamentos. no consultório odontológico. Enquanto.79-98. A classe 4 (o medo e os métodos de prevenção utilizados) e a classe 5 (a prevenção por meio da palavra). e sim por outros meios. implicando diferentes práticas sociais a respeito de um novo casamento. na classe 4. O segundo subcorpus dessa primeira ramificação (a aids no contexto das relações amorosas) também se subdividiu em duas classes. na classe 3. a certeza de que o outro está dizendo a verdade para ela seria a garantia de prevenção. pois falam sobre os problemas que levaram as entrevistadas às suas separações conjugais. Não foram encontrados dados a esse respeito na literatura. abril de 2004 . enquanto as mulheres sem parceiro fixo consideram difícil encontrar alguém e ter certeza de que essa pessoa está dizendo a verdade com relação a seus hábitos sexuais para que elas sintam-se seguras.

carinho e igualdade). guardando. n. abril de 2004 . Revista de Ciências Humanas. na classe 2. traições e separações Classe 3 O sair sozinho dos maridos. sem aprofundar um vínculo afetivo. bebidas e separações Classe 4 O medo e os métodos de prevenção utilizados Classe 5 A prevenção por meio da palavra Classe 2 O que falta nos relacionamentos Classe 6 A dificuldade de estabelecer um compromisso Figura 1 Dendograma da classificação hierárquica descendente sobre a distribuição das classes estáveis das respostas referentes à relação homem mulher: grupo de mulheres com e sem parceiro fixo (n = 40) A segunda ramificação. pois. portanto. respeito. as mulheres falam sobre o que está faltando nos relacionamentos (diálogo. enquanto na classe 6. reflexões sobre a relação homem-mulher desdobrou-se em duas classes. segundo elas. os homens tendem a ter maior facilidade em ter relacionamentos eventuais. as entrevistadas comentam a dificuldade de estabelecer relações de compromisso com os homens. ambas referentes a respostas sobre a relação entre homens e mulheres. Florianópolis: EDUFSC.35.79-98. uma relação de proximidade temática entre si.Andréia Isabel Giacomozzi — 91 As relações entre homens e mulheres de hoje em dia Problemas na relação entre homens e mulheres Problemas nos casamentos e separações A aids no contexto das relações amorosas Reflexões sobre a relação homem-mulher Classe 1 Histórias dos casamentos. Porém. p.

113 UCEs e a análise hierárquica descendente considerou todas as 1. nesse corpus.84. palavras com freqüência maior do que 10 e com c2 > 3. RS e prevenção da aids e métodos de anticoncepção RS de aids e prevenção Prevenção da aids Classe 1 Mulheres com parceiro fixo falam da segurança frente à aids e confiança nos maridos Classe 2 Mulheres sem parceiro fixo falam sobre insegurança frente à aids Classe 3 O medo e a proximidade da aids Classe 4 Métodos de anticoncepção dos dois grupos Figura 2 Dendograma da classificação hierárquica descendente sobre a distribuição das classes estáveis das respostas das entrevistadas sobre RS e prevenção à aids e métodos de anticoncepção – grupo de mulheres com e sem parceiro fixo.92 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Análise dos resultados do corpus 2 sobre prevenção à aids e métodos anticoncepcionais das entrevistadas com e sem parceiros fixos Esse corpus refere-se às respostas das seguintes questões: 3) Qual o método anticoncepcional que você utiliza? 4) O que você pensa a respeito da prevenção à aids? 5) Você se sente prevenida em relação a aids? 6) Você poderia me contar alguma coisa que a tenha impressionado sobre aids? 7) Gostaria de falar mais alguma coisa a esse respeito? Para a análise do material.79-98. foi utilizado o mesmo procedimento do corpus 1. Houve. 100% das UCEs foram selecionadas.578 ocorrências de palavras e 5. isto é. o que indica uma média de 10 ocorrências por palavra. O corpus 2 foi dividido em 1. 51. Foram consideradas para a análise.35. Revista de Ciências Humanas. pelo programa ALCESTE.113 UCEs. n. 2003. Florianópolis. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . portanto.066 formas distintas. p.

guardando. mulheres sem parceiro fixo falam sobre insegurança frente à aids. Na classe 1.79-98. n. as entrevistadas falam sobre a não-necessidade de prevenção dentro das suas relações conjugais. mulheres com parceiro fixo falam sobre segurança frente à aids e confiança nos maridos. Já na classe 2. ambas referentes aos sentimentos de prevenção à aids dos dois grupos de entrevistadas. apesar de focalizarem diferentes práticas de prevenção. é ter certeza de que seus maridos não mantêm relações extraconjugais. sendo que a primeira ramificação constitui um subcorpus denominado Representação social de aids e métodos de prevenção e a outra é formada por uma classe que se contrapõe a todas as outras. O subcorpus Representação social de aids e métodos de prevenção desdobrou-se em uma terceira ramificação. a hipótese lançada no início deste trabalho confirma-se.35. que as respostas distribuem-se inicialmente em duas ramificações. nesse segundo dendograma. Florianópolis: EDUFSC. pois o risco com relação à aids inicia-se quando a relação de intimidade e confiança se estabelece. as entrevistadas mostraram que se tornam mais vulneráveis. para elas. Revista de Ciências Humanas. e as dimensões dessas práticas sociais de não-prevenção ou da prevenção por meio da palavra são indícios de que essa maneira de pensar afeta as estratégias de prevenção desse grupo. abril de 2004 . a confiança. as entrevistadas falam sobre a insegurança que sentem a respeito da aids e suas práticas de prevenção a essa doença. Elas relatam utilizar preservativo em todas as suas relações sexuais. embora a maioria delas admita já ter falhado em pelo menos uma vez ao longo das suas vidas sexuais em manter esse comportamento. A partir de então. uma relação de proximidade temática entre si. em outros dois subcorpus: o primeiro denominou-se O medo e a proximidade da aids e desdobrou-se em duas classes. Com relação ao grupo de mulheres com relacionamento fixo.Andréia Isabel Giacomozzi — 93 Observa-se. Uma vez que confiam em seus maridos. que se denomina Métodos de anticoncepção dos dois grupos. não tomando medidas preventivas com relação à aids. p. Discussão Os resultados desta pesquisa mostram que as representações sociais da prevenção à aids dos dois grupos de mulheres estão de acordo com suas práticas sociais de prevenção a essa doença. portanto.

94 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV Para as mulheres sem relacionamento fixo. Florianópolis: EDUFSC. pela confiança e pelo companheirismo. percebe-se que aids não combina com amor. as representações sociais da prevenção à aids também estão de acordo com suas práticas de prevenção frente a essa doença. Com relação à prevenção da aids. Os dados encontrados revelam que os dois grupos de mulheres (com e sem parceiro fixo) tendem a construir diferentes formas de pensar a sexualidade. A confiança em seus parceiros é aspecto fundamental no relacionamento e justifica o não-uso de métodos de barreira nas relações sexuais. e com cuidados de higiene e com a saúde de maneira geral. Nas falas das entrevistadas com relacionamento fixo. são vários os obstáculos encontrados para se prevenir de doenças sexualmente transmissíveis em uma relação conjugal. Além desses. não questionar.79-98.35. Revista de Ciências Humanas. abril de 2004 . tanto da mulher quanto do homem. pois a doença está relacionada com dor. uma vez que elas não se sentem totalmente prevenidas e têm medo de contrair a doença. que elas preferem não atravessar. enquanto o relacionamento amoroso que elas procuram construir passa pela entrega. os riscos devem ser evitados usando camisinha. para as mulheres sem relacionamento. ao menos uma vez ao longo de sua vida sexual. Considerações finais Esta pesquisa procurou levantar aspectos com relação às representações sociais da sexualidade e prevenção à aids que influenciam os comportamentos preventivos de mulheres com e sem relacionamento fixo. para contribuir com estratégias preventivas para essa população. para não desmoronar seus sonhos de um casamento feliz. existe um grande abismo. Para as mulheres com parceiro fixo. embora elas sintam dificuldades de negociar o uso da camisinha com seus parceiros eventuais e admitam que já fracassaram pelo menos uma vez nesta negociação. procuram ter práticas efetivas de proteção. p. n. portanto. embora já tenham falhado nisso. Entre essas duas instâncias. utilizando sempre o preservativo em seus encontros sexuais. a lógica da prevenção dá-se com a manutenção da fidelidade no casamento. bem como a prevenção à aids. sofrimento e morte (aspectos desvalorizados socialmente).

35. a crença de que a camisinha é incômoda ou reduz o prazer sexual. o medo de questionar ou de ser questionada a respeito de fidelidade. seja necessário reconstruir profundamente as identidades feminina e masculina. criaria a sensação de que o uso do preservativo seria desnecessário. mais e mais pessoas alcancem essa autonomia. especialmente levando-se em conta que. Florianópolis: EDUFSC. trabalhar exclusivamente com um dos sexos é desconsiderar o caráter relacional constituinte dos gêneros e depositar apenas sobre as mulheres. É preciso que. a responsabilidade de negociar com seus parceiros as práticas de sexo seguro. mas está. Além disso. na verdade. já que essas questões envolvem ambos os parceiros. crenças. por exemplo. dentre outros. somente a noção de indivíduo. para poder ficar em pé de igualdade com os parceiros na hora de tomar decisões sobre sua própria sexualidade. tabus e preconceitos difíceis de ser modificados. os programas que visam à prevenção e à intervenção junto a tal população poderiam privilegiar o trabalho com casais.79-98. Para as entrevistadas que não mantêm uma relação conjugal. mais fácil estabelecer limites frente ao outro e negociar o sexo seguro. portanto. nesse caso. 1996. há a dependência financeira do parceiro. como demonstram as pesquisas (DUARTE. pois não existe nesses relacionamentos eventuais nenhum envolvimento afetivo com o parceiro. Revista de Ciências Humanas. elas mesmas ainda têm dificuldade de se visualizar em uma posição de risco. fortemente ancorado na forma como as relações de gênero se estabelecem socialmente. com suas significações. n. Faz-se necessário também considerar não somente a responsabilidade individual pela contaminação ou exposição ao vírus HIV. mas os aspectos socioculturais e políticos que envolvem os sujeitos nos contextos de suas comunidades. 1999). além de estarem livres de todos esses aspectos que envolvem as relações de conjugalidade. Dessa forma. dentre outros. esses argumentos mostram que o sexo inseguro está longe de ser uma atitude irresponsável e limitada ao fato de não entrar em contato com o HIV. estão intimamente imbricados.Andréia Isabel Giacomozzi — 95 O fato de a maioria das entrevistadas usar a pílula como método anticoncepcional ou serem laqueadas. seria. para isso. bem como conceber a aids como tendo forte conotação de construção cultural em que as normas de gênero. abril de 2004 . Talvez. os aspectos afetivos. SILVA. em nível individual. Segundo Martin (1997). Assim sendo. p.

Sexualidade e representações sociais de estudantes universitários da UFSC sobre AIDS.96 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV individual e coletiva. e cols. Referências bibliográficas ABRIC.).gov. e PARKER. 1998. Rio de Janeiro: IMS/UERJ. R. n. M. Desse modo. AIDS e representações sociais: a busca de sentidos: EDUFRN. M. é necessário que primeiro se rediscutam as normas de gênero que regem a pessoa. B. É necessário que haja uma profunda mudança nos valores sociais e de gênero. Eu confio.79-98. identidades e poder. Vulnerabilidade e prevenção em tempos de Aids. reconhecendo os mecanismos utilizados para a desvalorização feminina e reconstruindo a visão de o que é ser mulher e ser homem. (Orgs. R. CAMARGO. M. Boletim epidemiológico-AIDS . Pratiques sociales et representations. para garantir a prevenção à aids entre a população. R. BRASIL.). 2002. A contaminação em massa pelo HIV é apenas mais um dos reflexos dessas desigualdades. AYRES.aids. CARVALHO. bem como refazendo uma visão das relações e práticas sociais (FARIA. Disponível em: <http://www. e JODELET. de C.2002: sistema nacional de notificação. Paris: Presses Universitaires de France. As desigualdades sociais entre homens e mulheres estão profundamente enraizadas na sociedade. Revista de Ciências Humanas.35. J. 1994. (Orgs. mas que ela não seja um “tapa-olhos” para a sociedade e que as discussões e a luta pela igualdade entre os sexos não pare em função de sua chegada. 2000. D. tu prevines. p.br/ udtv>. M. para que as futuras gerações estejam longe dessa ameaça à saúde pública. Revista de Ciências Humanas. nós contraímos: uma (psico)lógica (im)permeável à informação? In: MADEIRA.97-110. abril de 2004 . Sexualidade pelo avesso: Direitos. A vacina contra a aids realmente seria muito bem-vinda diante do quadro geral em que se encontra a contaminação entre a população mundial. J. In: BARBOSA. p. Acesso em: mar. Florianópolis: EDUFSC. 1999. Florianópolis. 1998). Ministério da saúde.

Rio de Janeiro: ABIA. O. LEAVY. Age. GROSSI. A. e HITCHCOCK. ABRAPSO. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Curso de Pósgraduação em Psicologia. EHRHARDT. Dourado. J. e B.1. J. 160f. A confiança afrontada: representação social da Aids para jovens. In: MADEIRA. 1996. March 1997.). S. D. p. S. Trad. 97-121. n. (Ed. e MIGUEL.Andréia Isabel Giacomozzi — 97 DUARTE. In: WASSERHEIT. Sexualidade e gênero: uma abordagem feminista.. CHENEY (Orgs. and sexual risk behaviors for sexually transmitted diseases in the United States. 2 p. Research issues in human behavior and sexually transmitted diseases in the AIDS era. Calhamaço.35. P. 1983. 1998. Recife. março/maio 1997. 1985. e FISHER. 33. S. n. São Paulo. D. A. janeiro/junho 2001. AIDS e representações sociais: a busca de sentidos: EDUFRN. P. São Paulo: Cadernos Sempre Viva. MADEIRA. FISHER. K. Revista de Ciências Humanas. J. ARAL. n. (Orgs. Florianópolis: EDUFSC.72107.). M. On social representations. Psicologia & Sociedade. Close relationships and elevated HIV risk behavior evidence and possible underlying psychological processes. M. Mulheres e AIDS: uma abordagem antropológica. 1995. e JODELET. 1991. A representação social da psicanálise. N. J. W.. 1998. 2. C. v. N. C. M.10-20. HOLMES.79-98. O. M. MISOVICH. v. A.1. S. MOSCOVICI. (Eds. Social Cognition: Perspectives on everyday understanding.181-209. Universidade Federal de Pernambuco. abril de 2004 . J.). Academic Press. Tripla ameaça: AIDS e mulheres. e WASSERHEIT. Feminismo e discurso do gênero na psicologia social. M. MARTIN.1 p. Cabral. N. P. Review of General Psychology. A trajetória do conceito de gênero sobre mulher no Brasil. 1978. Revista USP. Aids e gênero na união conjugal: a história das mulheres. J. FARIA. n. v. gender.). Trad. MOSCOVICI. p. In: FORGAS. K. Rio de Janeiro: Zahar editores. 1981. NOGUEIRA.

L. abril de 2004 . C. Evaluation Review. p. TURA. J. Representações sociais de profissionais do sexo da região metropolitana de Florianópolis sobre prevenção da Aids e DSTs. 2002. Rev. Mulheres: casamento aids e doenças sexualmente transmissíveis.98 — Confiança no parceiro e proteção frente ao HIV OLTRAMARI. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Curso de Pós-graduação em Psicologia. SILVA. e ABRAMSON. F. jul. Gênero. n. SCOTT. 143f. AIDS e representações sociais: a busca de sentidos: EDUFRN. M. uma categoria útil de análise histórica.79-98.35. 16 (2): 5-22. AIDS e estudantes: a estrutura das representações sociais In: MADEIRA. S. 1993.504-528. L. Educação e Sociedade. Universidade Federal de Santa Catarina. R./dez. Evaluating the risks: a Bernoulli process model of HIV infection and risk reduction. São Paulo. (Recebido em janeiro de 2004 e aceito para publicação em novembro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Curso de Pósgraduação em Psicologia. PINKERTON.). D. Florianópolis. USP. p. R. (Orgs. Florianópolis: EDUFSC. P. e JODELET. D. 1990. 1998. Porto Alegre. 1999.

CEP 37500-903. Avenida BPS.Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental* David José Diniz1 Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano2 Universidade Federal de Engenharia de Itajubá Resumo Estudo3 que objetiva apresentar as representações sociais (RSs). 2 Endereço para correspondências: Universidade Federal de Itajubá. 1303. In addition to identifying possible changes regar- The environmental engineer students social representations of environment.35. MG. n. MG. n. na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI-MG). ou seja. Bairro Pinheirinho. alunos de graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Engenharia de Itajubá e ao CNPq. Além de identificar possíveis alterações nas RSs em meio ambiente.99-115. MG. a visão de meio ambiente de alunos de Engenharia Ambiental. abril de 2004 . namely view that environmental engineering students have of environment. n. provocadas pelo __________________________________________________ * 1 Abstract The main purpose of this paper is to account for certain social representations (SR). An inquiry has been carried out. Avenida BPS. que durante a realização da pesquisa cursavam o primeiro e o quarto ano do referido curso. p. Florianópolis: EDUFSC. órgão financiador. using as subjects students attending their first and fourth terms at Federal University of Itajubá. Itajubá. Brazil (UNIFEI-MG). Itajubá. Endereço para correspondências: Universidade Federal de Itajubá. 1303. 3 Agradecimentos aos sujeitos co-participantes desta pesquisa. CEP 37500-903. Revista de Ciências Humanas. Bairro Pinheirinho.

Florianópolis: EDUFSC. foi identificar e sugerir. podendo-se supor que ele ocorra fora dela. julga-se válido. quando pertinentes. n. por seu caráter difuso e variado. transcritas do livro Meio Ambiente e Representação Social.100 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental curso e por suas disciplinas. se comparadas as várias definições de “meio ambiente” feitas por especialistas de diferentes ciências. vê-se que não existe consenso sobre o termo. currículo. According to the results thus gotten. podem-se encontrar os conceitos científicos na forma em que foram internalizados pelas pessoas. nas representações sociais. abril de 2004 . outro objetivo da metodologia aplicada. Palavras-chave: Engenharia. meio ambiente. representação social. p. respondendo à seguinte questão: Meio ambiente. Revista de Ciências Humanas. Keywords: Engineering. which had been provoked by courses and classes offered. fotossíntese. de Marcos Reigota. pois são entendidos. neste momento. Assim. meio ambiente pode ser considerado então uma representação social. como conclui Reigota (1998). one’s definite insertion is very important to the construction of a SR of environment that can be suitable to the needs of engineers who are aware of the role they have to play in society today. another aim of the applied methodology was to identify and suggest appropriate curricular changes. ding SR of environment. social representations. inserir o humano positivamente torna-se imprescindível para a construção de uma representação social de meio ambiente. na comunidade científica. environment. representando um consenso. Por outro lado.99-115. mudanças curriculares. ecossistema etc. Dessa forma. em um segundo momento. definidos e ensinados universalmente como tais.35. que podem estar ou não inseridas na comunidade científica. curriculum. que seja condizente com as necessidades de se formar profissionais de engenharia conscientes de seu papel na sociedade atual. conceito científico ou representação social? São considerados conceitos científicos: nicho ecológico. hábitat. caracterizá-lo dentro do conceito de RS e não de conceito científico.. Nesse sentido. Introdução A ntes de fazer o levantamento de representação social de meio ambiente.

diferentes tipos de conhecimento estão correlacionados às diferenças específicas na situação das sociedades em que são produzidos e usados (ELIAS.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 101 A partir disso. cada pessoa parte da palavra e entra na preexistente corrente de conhecimento. é específico de um grupo. b) Detectar semelhanças e diferenças nas RSs. utilizando-se métodos interrogativos. como meio ambiente. Revista de Ciências Humanas. assim como a linguagem. este estudo baseia-se na necessidade de realizar uma pesquisa em educação. Florianópolis: EDUFSC. Assim. estabelecendo uma comparação entre alunos que estavam iniciando (primeiro ano) e concluindo (quarto ano) o curso de Engenharia Ambiental. considerando que uma das definições de sociedade é agrupamento de seres que vivem em estado gregário (FERREIRA. p.99-115. 1998). seguindo normas comuns. abril de 2004 .35. coletivo. pode-se considerar que essas características cabem na microssociedade formada pelos sujeitos desta pesquisa. fica evidente a necessidade de caracterizar o processo de conhecimento. Dessa forma. Além disso. ato que vem evoluindo bastante pela importância de se caracterizar qualitativamente o processo de aprendizagem. na qual ele é expresso. ainda mais em se tratando de um tema tão abrangente e complexo. conhecer e organizar os elementos constituintes das RSs. corpo social. de transmissão de conhecimento. o que permite que seja representado simbolicamente por diversas linguagens. que ela pode melhorar ou aumentar e. segundo Elias (1998). n. lançou-se mão de metodologias baseadas nos conceitos de pesquisa qualitativa em educação e de estudos em representação social. e que são unidas pelo sentimento de consciência do grupo. Fundamentação teórica Representação social na construção do conhecimento Por se tratar de uma pesquisa em educação. ao mesmo tempo. conjunto de pessoas que vivem em certa faixa de tempo e espaço. e c) Sugerir mudanças curriculares. objetivos deste estudo: a) Identificar as possíveis mudanças provocadas pelo curso de Engenharia Ambiental nas representações sociais sobre meio ambiente de seus alunos. O conhecimento é pessoal e. como desenhos e associações de palavras para detectar. Para a realização desta pesquisa. ou seja. 2000).

35). espera-se que o indivíduo sofra “modificações”. de uma linguagem específica do grupo. p. aos mitos e sistemas de crenças tradicionais. Compreender. no qual as lacunas. cabe. abril de 2004 . 1996). através de suas ações. como parte disso. conseqüentemente. Uma análise concreta das representações que um indivíduo tem do mundo que o rodeia somente é possível se consideradas inseridas num discurso bastante amplo. meio indispensável para adquirir qualquer conhecimento (ELIAS. na pesquisa em educação. que se dá entre as pessoas. 1998). p. Florianópolis: EDUFSC. segundo Elias (1998) as diferenças específicas nas estruturas do conhecimento podem esclarecer o fato de que o ponto de partida do conhecimento individual é a condição social do conhecimento. Elas equivalem. no qual o sujeito põe à prova. na sociedade ou grupo. proposições e explicações originados no cotidiano. Assim. Todavia.102 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Outra característica relevante do conhecimento. entende-se um conjunto de conceitos. que torna importante a realização de estudos na educação é o fato de que ninguém pode saber sem adquirir conhecimento de outros. o valor – vantagens e desvantagens – do posicionamento dos que se comunicam com ele. objetivando e selecionando seus comportamentos e coordenando-os em função de uma procura de personalização (MALRIEU. n. mas a situação que define o indivíduo que as produz. apud LANE. Por representações sociais. sem partir de um grupo de conhecedores que dividem um fundo comum de conhecimento e. Devido às características do conhecimento. as contradições e.99-115. na época em que o indivíduo entra no processo de aprendizagem. Revista de Ciências Humanas. Nesse sentido. o caráter qualitativo e o estudo em representação social.35. 1991. podendo também ser encaradas como a versão contemporânea do senso comum. representações sociais implica conhecer não apenas o discurso mais amplo. segundo Moscovici (apud SÁ. no processo de comunicações. então. à medida que percorre esse processo. a ideologia possam ser detectadas. A representação social se constrói no processo de comunicação.

as relações socioculturais.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 103 O pensamento complexo na relação meio ambiente e ser humano O conceito de “meio ambiente” nem sempre é colocado de forma a traduzir a complexidade que lhe é inerente. assim como este. O pensamento complexo. como mostra a própria definição de ambiente. talvez. aquilo que cerca ou envolve os seres vivos ou as coisas. ação e. tem como desafio exercer um pensamento capaz de tratar o real. locais naturais ou construídos pelos seres vivos. torna-se indispensável o pensamento complexo. uma via. poder ou capacidade para praticar uma ação. método para executar ou alcançar algo. Florianópolis: EDUFSC. ao lugar com suas características e condicionamentos geofísicos. onde se vive ou trabalha. maneira de conseguir algo. aquilo que resulta desse agir. ao contrário do pensamento simplificador que desintegra a complexidade do real. Revista de Ciências Humanas. essa expressão engloba também as “coisas”. às vezes. capacidade. Em se tratando de meio ambiente. comunicação. unidimensionais e. aquele compartilha a ambição de dar articulações entre domínios disciplinares. que reúne aqui linguagem. mas recusa as conseqüências mutiladoras. finalmente. redutoras. Já o substantivo “ambiente” traduz a definição de lugar. n. sítio.35. o seu sentido mais abrangente. de maneira mais ampla. o termo “meio ambiente” transmite a idéia de um conjunto de condições naturais e de influências que atuam sobre os organismos vivos e os seres humanos (FERREIRA. 1990). de dialogar e de negociar com ele. ou seja. por todos os lados (FERREIRA. A relação entre meio ambiente e a teoria do pensamento complexo. segundo Morin (1990). o que não contém vida. p. abril de 2004 . organização. além de já conter em si o sentido de ambiente. Meio ambiente deve abranger também. integra o mais possível os modos simplificadores de pensar. Sendo assim. esteja principalmente no fato de que. que. A palavra “meio” pode expressar metade em distância ou tempo. ilusórias de uma simplificação que se toma pelo reflexo do que há de real na realidade (MORIN. quando descreve que reúne espaços. centro.99-115. já que “meio” também significa via. um caminho. ou seja. espaço. recinto. método. conseqüentemente. 2000). maneira ou modo de agir. quando se refere à esfera social ou profissional. 2000). Indo mais além. perdendo ele.

mais uma vez. apud MORIN. Cabe. antagônicas umas às outras. sem eliminar a contradição interior. acasos. interações. Os mesmos resultados foram encontrados por Nascimento (2000). ou seja. afastar o incerto. que verdades profundas. Revista de Ciências Humanas. turistas e agentes mediadores do turismo na ilha. determinações. ajudadas e ajudantes.99-115. que liga as mais afastadas e as mais diversas. em um estudo sobre representações sociais da natureza e do meio ambiente. os resultados reforçaram uma visão naturalista do meio ambiente. p. porém. preocupação em superar a visão fragmentada de mundo. 1990). podem ser complementares sem deixar de ser antagônicas (MORIN. observou que a maioria quase absoluta de coleções de livros didáticos caracterizam-se pelo cunho naturalista das concepções de meio ambiente e estudos ambientais. que aborda acontecimentos. abril de 2004 . por parte de professores de primeiro grau. sem rejeitar a desordem. ressaltar a necessidade do pensamento complexo. o autor conclui. 2000) o que se observa são versões “naturalistas” do meio ambiente. 1990) além de presenciar representações naturalistas sobre meio ambiente. o inverso não ocorreu com a mesma magnitude”. Segundo Reigota (apud NASCIMENTO. por parte de estudantes e profissionais de diferentes áreas. ações.104 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental que são quebrados pelo pensamento disjuntivo. Além disso. Já Campos (apud NASCIMENTO. em um estudo voltado às representações sociais sobre meio ambiente. Florianópolis: EDUFSC. ao examinar as definições de meio ambiente fornecidas por especialistas de diferentes áreas científicas. com a intenção de pôr ordem nos fenômenos. Isso ocorre. retroações. “Meio ambiente é identificado principalmente como natureza. aspirando ao pensamento multidimensional. Isso é referendado por Moraes (apud NASCIMENTO. que todas se mantêm por um elo natural e insensível. que não existe consenso sobre o que seja meio ambiente. por moradores de Florianópolis. retirar a ambigüidade. nos guias curriculares e programas governamentais. 1990). Outra contribuição do pensamento complexo à definição de meio ambiente está no fato de aquele rezar. 1990). mesmo sendo pressuposta. em seu enunciado (PASCAL. com a reintegração dos seres humanos ao seu ambiente e com o desenvolvimento sustentável. mediatas e imediatas. permitir. 2000). que todas as coisas são causadas e causadoras. que constituem o mundo fenomenal do ser humano (MORIN. enquanto a ação e a presença humana aparecem menos freqüentemente.35. por parte dos sujeitos entrevistados. n. ou seja.

a partir do pensamento complexo. à uma patologia da idéia. que deve funcionar nas circunstâncias que permitem o seu cumprimento. ao contrário de um sistema aberto. nele. p.] sistema que tem necessidade de ser fechado ao mundo exterior. porque a complexidade não compreende apenas quantidades de unidades e interações que desafiam as possibilidades de cálculo. conheceu cataclismos inimagináveis. um sistema autoeco-organizador. A visão de sujeito e objeto. 1990). ela mesma ligada a relações muito ricas e. ao idealismo que oculta a realidade que se encarrega de traduzir e se considera como a única real.32).35. que só pode ser totalmente lógico ao introduzir. com objetivo de estabelecer um ponto de partida para uma estratégia de mudança consciente. Deve-se se desprender do pensamento mutilador. Revista de Ciências Humanas.99-115. que conduz às atividades semelhantes. 1990). elaborada. opondo-se a um programa que é uma seqüência de ações predeterminadas. simplificador. No entanto.. atribui-se a ele pouca individualidade. 1990. portanto. o meio estranho (MORIN.. são conceitos insuficientes. é mister o reconhecimento. a Terra. um sistema que não faz trocas com o exterior e está em muito pobres relações com o meio. objeto e sujeito abandonados. sempre salvaguardou o princípio da vida e de sua diversidade. que tem a sua individualidade. mas que simultaneamente obtém este fecho a partir da sua abertura. indeterminações. caso contrário. ela compreende também incertezas. Fica mais clara e completa a definição de meio ambiente sob a luz do pensamento complexo. pára ou fracassa (MORIN. não podendo bastar-se a ele próprio. Ao considerar o meio ambiente um sistema fechado. para a complexidade. a fim de manter as suas estruturas e o seu meio interior. cada um a eles próprios. mas sempre sobreviveu. p. como definido em Morin (1990). também auxilia na elaboração do termo meio ambiente.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 105 até porque os seres humanos são sabedores. abril de 2004 . dependentes do meio. em sua biografia. n. um sistema aberto (MORIN. Florianópolis: EDUFSC. optando-se por uma visão de meio ambiente como um [. no dinamismo estabilizado. a concepção da situação atual. Como coloca Boff (1999). 1990). pois a organização do ser vivo se dá no desequilíbrio recuperado ou compensado. fenômenos aleatórios (MORIN. pois. fundamentada.

a completude das definições. Partindo daí para o tema do reflexo. isso pode também significar que o mundo reflete o sujeito (MORIN. deve-se ter em mente que o que se define pela complexidade nunca será encerrado no conceito. que permite ao ser humano distanciarse de si mesmo. p. que é o estudo do “lugar onde se vive”. até porque a noção de sujeito somente toma sentido num ecossistema (natural. familiar etc. Mesmo com toda essa vasta possibilidade de definições e associações. o sujeito é o desconhecido. chega-se ao que Morin (1990) chama de paradigma do Ocidente.). social. p. dos conceitos. por assim dizer. fechada sobre si mesma. segundo o qual. desconhecido porque é indeterminado.99-115. o erro diante do objeto. não há objeto sem sujeito e sujeito sem objeto. reconhecer a sua subjetividade. mas tudo o exclui. e também para o que propõe Boff (1999). de uma para a outra. 1988). uma crítica. pois a complexidade não tem a pretensão de comportar a verdade absoluta. ao mesmo tempo. abril de 2004 . o isolável e. no qual o objeto é o determinável. o que inclui todos como participantes e jamais como meros espectadores. nada existe sem ele. se sujeito reflete o mundo. conseqüentemente. 1990). estranho. Ser humano e meio ambiente Meio ambiente. dá-se pela consideração do ecossistema social. em que “a noção de sujeito e objeto se reconhecem tornando-se abertura.106 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental a idéia assume extrema pobreza. o sujeito é o tudo-nada. Nesse contexto. espelho. Indo um pouco além na questão sujeito-objeto. Florianópolis: EDUFSC. uma ampliação da visão. pode ser definido como “ambiente da casa” e inclui todos os organismos contidos nela e todos os processo funcionais que a tornam habitável (ODUM. Segundo esse paradigma. porque é totalidade. citada por Odum (1998). a saída. Ainda. abertura para uma eventual ultrapassagem da alternativa para um eventual progresso do conhecimento” (MORIN. manipulável. olhar-se do exterior. como revela uma das definições do Webster”s Unabridged Dictionary. n. é o suporte de toda a verdade e.71). Revista de Ciências Humanas. e que o mundo nunca será aprisionado no discurso. sendo estudado pela ecologia. com ênfase na totalidade ou no padrão de relações entre os organismos e o seu ambiente. a solução. mas sim abrir campo para uma discussão. abertura para o mundo. de forma geral. 1990.35.

a Terra é para nós (BOFF. é mesmo uma experiência universal e exclusivamente humana: todos os homens educam-se. deve-se começar por reconhecer que se trata de uma experiência profundamente humana. o realizador de sociedades em que a justiça social e a dignidade humana sejam valores respeitados e atuantes. abril de 2004 . p. Assim: Revista de Ciências Humanas. ao considerar a relação ser humano e meio ambiente. 2) os dados são predominantemente descritivos. e somente eles o fazem.35. a ferramenta eficaz será a expansão da educação ambiental (FILHO. 21). É seu antropocentrismo ancestral e seu individualismo visceral. é importante voltar para a seguinte descrição: Importa tirar o ser humano de seu falso pedestal e de sua solidão onde se autocolocou: fora e acima da natureza. 1998.99-115. em relação essencial com as outras características desse último (REZENDE. nós somos para a Terra. e inserir-se conscientemente nela. Em sentido forte.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 107 Entretanto. Em primeira instância. 1999). Para tanto. a pesquisa qualitativa em educação apresenta cinco características básicas: 1) a pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. Florianópolis: EDUFSC. 1990). de recuperação dos espaços perdidos e. 3) a preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. Ainda. ao mesmo tempo. Isso significa que a experiência da educação torna-se uma das manifestações mais primitivas e típicas do fenômeno humano. Metodologia Pesquisa em educação De acordo com Sá (1996). A centralidade em si mesmo – antropocentrismo – é sinal de arrogância e de falsa consciência. 4) o “significado” que as pessoas dão às coisas e à sua vida é foco de atenção especial pelo pesquisador. ele deve evidenciar a consciência de que o ser humano é um fator da conservação ambiental. p. Ao considerar a educação um fenômeno. seja qual for o conceito formado sobre meio ambiente. n. Ele inter-existe e co-existe com outros seres no mundo e no universo. Somente a partir daí. 5) a análise dos dados tende a seguir um processo indutivo. Ele precisa reconhecer esse vínculo de solidariedade cósmica.

1990. Num primeiro momento. Aqui. mais do que os dados simplesmente estatísticos. Sobre pesquisas em educação (e em ciências humanas). Muitas pesquisas em educação têm-se limitado à primeira dessas três etapas. não apenas para explicá-la. em aprender o sentido. para que a existência possa ser vivida humanamente como tal. segundo Rezende (1990). p. a educação e a aprendizagem têm contribuído muito mais para a reprodução do sistema. Semelhante constatação faz-se pela tentativa de evidenciar as diversas relações internas e as manifestações de suas contradições. No terceiro momento. como essas contradições e possibilidades podem ser exploradas. correspondente ao segundo sentido da palavra “sentido”. a que se chama de fase da constatação. ou. num questionamento da realidade. O estabelecimento de um questionário é considerado. do sentido dado. antes de tudo. Um questionário pode proporcionar respostas perfeitamente insignificantes. consiste. embora nem sempre de maneira significativa. exatamente porque as questões não eram significativas. para a fenomenologia. sem atingir a segunda e muito menos a terceira. ou mesmo a humanidade. elas deveriam apresentar. evidenciase. Num segundo momento. julgada preferível e desejada pelos sujeitos e para eles. considera-se a realidade constatada. importa saber o que eles significam. quando muito. O problema subjacente a semelhante posicionamento é o da alienação. um dos melhores indicadores do senso do sentido e do senso da realidade. a sociedade e as classes sociais. em vista de uma descrição suficiente e significativa da situação de mundo que foi escolhida como objeto de pesquisa. mas no intuito de compreendê-la. dessa forma.99-115. somente três momentos correspondentes aos três sentidos da palavra “sentido”. constata-se a realidade com um levantamento adequado dos dados. do que para sua negação revolucionária (REZENDE.108 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Educar-se. n.35. na medida em que indivíduos e grupos. abril de 2004 . mais para a consciência de seu vigor auto-reprodutivo. Florianópolis: EDUFSC. p. 51). Revista de Ciências Humanas. É claro que. à luz do projeto. em vista de uma outra realidade. que é de projeção-prospectiva. de uma outra situação histórica. bem como a descoberta das possibilidades de auto-superação. 1990). podem viver sem perceber o sentido que suas vidas realmente têm (REZENDE. pela fenomenologia.

3) Meio ambiente e a Engenharia Ambiental. as técnicas a serem aplicadas no levantamento e na análise dos dados foram definidas. que lhes viessem à mente. aqui chamados de sujeitos e não de objetos. pois. que foi propositalmente sugerida. ordem: 1) Meio ambiente e o Ser Humano. separadamente. Descrição das etapas percorridas Após a elaboração do projeto de pesquisa. Na perspectiva teórica. conhecer e organizar esses elementos e delimitar o núcleo central da representação. em termos gerais.. referentes aos seguintes temas. 2) Meio ambiente e a Sociedade.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 109 Com a evolução dos próprios estudos na área da educação. Aqui se observa. bem como os sujeitos da pesquisa. aos dois grupos de sujeitos da pesquisa. p. e 4) Meio Ambiente e Você. Essa organização repousa sobre uma hierarquia entre os elementos. nas quatro folhas em branco distribuídas. b) Alunos do quarto ano de Engenharia Ambiental.35. Quanto ao campo de trabalho. escrevessem dez palavras. propôs-se. 1996). abril de 2004 . seguindo esta.99-115. em termos de “humanidade” e em temos específicos. exatamente esta. uma aparente dicotomia (indivíduo-sociedade). em educação. por se tratar de uma pesquisa educacional que envolve seres humanos. 1986). Sendo assim. as coisas acontecem de maneira tão interligada que fica difícil isolar as variáveis envolvidas e mais ainda apontar claramente quais são as responsáveis por determinado efeito (LÜDKE e ANDRÉ. quanto aos sujeitos envolvidos e inseridos em grupos sociais e as inter-relações com o meio ambiente. por permitir a análise de sentidos dados à relação que os estudantes concebem sobre o ambiente. nos dois primeiros itens. sua estrutura interna. este estudo exigiu a utilização de métodos que possibilitaram levantar os elementos constitutivos da representação. n. os sujeitos dessa pesquisa foram alunos dos cursos de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI-MG). percebeu-se que poucos fenômenos nessa área podem ser submetidos a esse tipo de abordagem analítica. Então. descritos a seguir: a) Alunos do primeiro ano de Engenharia Ambiental. Florianópolis: EDUFSC. determinada de “núcleo central” (ibid. ou seja. Revista de Ciências Humanas. uma representação social define-se por seu conteúdo (informações e atitudes) e sua organização. que.

ou seja.110 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Assim. Nessa fase. confirmar os conceitos descritos nas relações de palavras. chama-se de Núcleo Central (NC). p. abril de 2004 . mediante reafirmações nas respostas.35. Em seguida. dos dados obtidos. em uma folha de papel almaço em branco. com os desenhos e seus respectivos títulos. na detecção do Núcleo Comum da RS estão na Tabela 1. Florianópolis: EDUFSC. pôde-se identificar o que. em Representação Social (RS). sugeriu-se a eles que. puderam-se identificar termos que definiram e confirmaram a concepção de meio ambiente de cada aluno e. por grupo. a fim de configurar o NC. tais itens permitem reforçar sentidos dados. na construção de representações sociais. distribuída a cada aluno. num próximo passo. Consideraram-se palavras que apareceram numa quantidade mínima capaz de ter alguma representatividade. ou permitem o desvelamento mesmo de contradições. Resultados e discussão As palavras que mais foram relacionadas por turma. uma análise. o trabalho caracterizouse por um entrecruzamento dos dados. Fazendo-se. RS (incidência comum de significados do grupo de pesquisados). dando-lhe posteriormente um título. Tabela 1 Palavras de maior destaque nas associações de palavras dos alunos do primeiro e do quarto ano de Engenharia Ambiental Revista de Ciências Humanas. para cada tema sugerido.99-115. Com as associações de palavras. pensando em meio ambiente. fizessem um desenho nessa folha. n.

de essa “falsa dicotomia” ter contribuído para reafirmar sentidos. Esses dados devem ser. EU tenho consciência. Assim. Segundo. preservação. é correlacionado por uma série de palavras que expressam atitudes negativas.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 111 A Tabela 1 desperta. num processo de auto-exclusão. nessa dicotomia. no mínimo. pois. p. na ENGENHARIA AMBIENTAL e no SER HUMANO. proteção. em relação ao meio ambiente. considerando-se a “falsa dicotomia” que pode ter provocado uma necessidade de distinção de sentidos para a elaboração das listas de palavras pedidas. Esse comportamento pode ser explicado. o EU-engenheiro. Isso se percebe nas duas turmas. no decorrer do curso. como desmatamento. com maior intensidade nas associações de palavras dos alunos do primeiro ano. Florianópolis: EDUFSC. porém. Os sujeitos em destaque vêem-se presentes. a palavra que se destaca é “água”. duas reflexões: primeiro. nota-se a tendência de. essa relação inclui o EU. quando vista do ângulo pessoal (Eu e Engenharia). auto-incluem-se no universo que essas palavras abrangem. Ao invés. abril de 2004 .99-115. o meio ambiente é associado a um recurso natural. Percebe-se. Se ela desrespeita. é mais otimista (respeito. afinal. poluição. identificam-se no EU. Se a SOCIEDADE destrói. poluição etc. Quando se trata de fazer uma relação de palavras associando o meio ambiente e o curso que se está fazendo. reserva-se uma atitude. pelo menos. EU preservo. uma posição de salvamento. Revista de Ciências Humanas. analisando-se a quantidade de disciplinas ministradas. ou. pois descreve um comportamento da SOCIEDADE diferente do seu. ou seja. ao associar essas palavras a meio ambiente. a relação com o meio ambiente. um processo de auto-exclusão. EU respeito. os estudantes ressaltarem toda a problemática atual que vem se discutindo acerca das questões ambientais. observa-se que ela pode ter contribuído para desvelar uma dicotomia que é vivida pelos próprios estudantes. Quanto ao termo SOCIEDADE. n. Se ela trata o meio ambiente com indiferença. que abordam o tema água. ao associar Meio Ambiente e o EU. uma série de palavras otimistas. que deve ser trabalhado conscientemente (proteção). destruição.35. enquanto os OUTROS (Sociedade e Ser Humano) agridem o meio ambiente (degradação. há exclusão do EU social. quando associado a meio ambiente. porém. relativizados. preocupação. Aí os sujeitos deixam claro uma concepção de meio ambiente como matéria-prima. desmatamento). Daí resulta. porém. proteção). para o EU.

nesse contexto. Quando se faz alguma referência do humano. é indispensável. associar meio ambiente. na qual predomina uma relação simplista de meio ambiente com os elementos da natureza. aliado a atitudes e valores ambientalmente corretos. idealizada. n. ele é. destaca-se uma visão romântica. O desenvolvimento. aquele que está alheio à condição atual do meio ambiente. nesse contexto definido pelos sujeitos como o planeta. um salvador. destruído. Há uma “demonização” do humano. evidencia-se a eliminação do ser humano. do meio ambiente. somente tem espaço quando a intenção é demonstrar um meio ambiente degradado. ficam esses elementos também fora da definição de meio ambiente expressadas no desenho. na fundamentação teórica.99-115. ela está associada quase sempre a suas atitudes prejudiciais ao meio ambiente. meio ambiente e vida são descritos pela natureza. em praticamente em todos os desenhos. Se estiverem eles sendo formados para atuar em um mercado cada vez mais voraz e ansioso por desenvolvimento. revela-se uma visão que se pode determinar “visão naturalista” de meio ambiente. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC.35. assim como a figura humana. como seria um meio ambiente ideal. como. expressão abordada anteriormente neste trabalho. impactado. entendendo-se o desenvolvimento econômico. por exemplo. Nesse contexto. da figura humana. ser humano e desenvolvimento seria de vital importância. Uma visão do humano. principalmente daqueles que pertencem ao grupo de sujeitos composto pelos alunos do quarto ano. tecnológico e social como característica essencial do modo de vida humano.112 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental Quanto aos desenhos. p. Entretanto. percebeu-se incoerência de idéias e de conceitos. não como um super-homem. Vale levantar aqui a questão da formação de idéias e conceitos dos alunos. o Homem é visto como aquele que não se preocupa. tanto dos alunos do primeiro como do quarto ano. o ponto alto da análise está na percepção da ausência. o uso incorreto dos termos “preservar” e “recuperar”. Quando se pretende demonstrar. mas como aquele que tem consciência da necessidade de desenvolvimento. fazendo-se uso invertido desses conceitos. ou seja. Revista de Ciências Humanas. elemento cuja presença impossibilita a existência de um mundo ambientalmente correto. principalmente nos desenhos realizados pelos alunos do primeiro ano. Na maioria dos desenhos. do homem ou da mulher em si. por intermédio do desenho. Também há incoerência entre muitos desenhos e seus títulos e. em alguns desenhos.

até porque. na elaboração de um meio ambiente como lócus de contradições e de possibilidades. Seria interessante que a educação ambiental não fosse associada a uma disciplina específica. percebe-se. fauna e flora. p. É comum também encontrar. revelasse uma alienação. o desenvolvimento. optou-se por se destacar aqui o construto teórico elaborado por Norbert Elias. mesmo quando o objetivo é destacar a necessidade de um “meio ambiente” em seu estado mais idealizado. na qual inexiste o contato com um conhecimento um pouco mais elaborado. recuperação. e sim a um projeto pedagógico conscientizador. espera-se o desprendimento desse conceito. Alienação e meio ambiente Em se tratando de meio ambiente. em uma visão holística. fechada. Exclui-se do meio ambiente o ser humano. há aqui o equivoco por se tomar a parte para representar o todo.99-115. porém. ao definir-se “meio ambiente” a simples associação dele com a “natureza”. na maioria dos sujeitos. suas relações e. Isso. o maior problema detectado neste trabalho. o ser humano. meio ambiente é visto como natureza. proposital. abril de 2004 . como sinônimo de afastamento. é uma constante. por sua adequação à reflexão provocada pelos dados colhidos nesta pesquisa. que se pode chamar de visão naturalista. ignorante (falta de conhecimento). Apesar do forte sentido ideológico do termo. ou seja.35. predomina a consciência da necessidade de preservação. n. Toma-se o todo pela parte. “nega-se” a principal ameaça para esse meio ambiente idealizado. ao definir e expressar a concepção de meio ambiente. ou seja. limitada. conservação. talvez. e abordasse conteúdo que permitisse suprir a dificuldade de visualizar. percebe-se. Por outro lado. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. alienação. se essa exclusão fosse consciente. simplória. conciliar o ser humano. ingênua.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 113 Considerações finais Educação ambiental Seria necessária numa proposta de educação ambiental capaz de trabalhar sobre um grande ou. uma visão simplista. que é a exclusão da figura humana propriamente dita ou de suas ações e produtos. Esse comportamento seria interessante. principalmente. Assim. dos envolvidos ao assunto.

M. na pior das hipóteses. um processo proposital. desperta o sujeito para suas omissões. sem. Meio ambiente e educação. 1998. o que seria um dos principais objetivos deste tipo de alienação. em que se tem um domínio do objeto. num momento seguinte. Petrópolis: Vozes. de distanciamento em si só já é vantajoso. porém. 1986. nesse sentido. Psicologia Social: o homem em movimento. BOFF. incluir-se. 1991. S. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. perder a noção.99-115. Florianópolis: EDUFSC. 1999. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. não ignorante. Referências bibliográficas BOFF. ELIAS. N. Revista de Ciências Humanas. num contexto em que a maioria ocupa o seu espaço. D. A. LÜDKE. (Org. sua contribuição e. 1998. H. Petrópolis: Vozes. E. compreender (ELIAS. num estágio posterior. no intuito de conhecer melhor. de agir. M. Pedagogia da Terra. T. Rio de Janeiro: Gryphus. Envolvimento e alienação. justamente pelo fato de se excluir. 1999. mesmo que não haja mudança na forma de pensar. FILHO.).114 — Representações sociais sobre meio ambiente de alunos que cursam Engenharia Ambiental distanciamento. GADOTTI. E. sem ter consciência da sua influência.3. M.35. Trata-se de um estado de alienação que permite.). São Paulo: EPU. FERREIRA. L. 9. com a intenção de. por que não dizer. pois ele. sem ter consciência de sua interferência. 2000. M. M. em momento algum. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. In: Educação em diálogo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Dessa forma. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. é necessária. abril de 2004 . ed. A alienação. L. WANDERLEY. (Orgs. ao contrário. Miniaurélio século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. v. uma inclusão mais consciente. L. de apreender. B. e CODO. São Paulo: Fundação Peirópolis. 2000. p. LANE. n. distancia-se. São Paulo: Brasiliense. afastarse para conhecer sua própria posição. e ANDRÉ. A. 1998).

A.ed. 2000. Concepção fenomenológica da educação. NASCIMENTO. Florianópolis. 1995. REZENDE. 1988. abril de 2004 . n. Lisboa: Instituto Piaget. Florianópolis: EDUFSC. Núcleo centrar das representações sociais. SÁ. 1996. E. M. E. Representações sociais da natureza e do meio ambiente.35. P. M. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan SA. P. p.99-115. M. UFSC. C. C. Petrópolis: Vozes. (Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Introdução ao pensamento complexo. São Paulo: Cortez.David José Diniz e Rita de Cássia Magalhães Trindade Stano — 115 MORIN. 1990. Meio ambiente e representação social. 1990. Ecologia. Revista de Ciências Humanas (Temas de Nosso Século). 2. REIGOTA. São Paulo: Cortez. ODUM.

Florianópolis: EDUFSC. bem como os comentários da Profa. animado pela Profa. Dra. Revista de Ciências Humanas.com. em 2001. Dra. Cinara Rosenfield (PPGS/ UFRGS) à versão preliminar do texto. 1000/604.Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização: a experiência do Rio Grande do Sul* Sandro Ruduit Garcia1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul Resumo O objetivo deste texto2 é analisar as características das novas tramas produtivas que se configuram no setor de telecomunicações. p. Bloco A1A.br). Porto Alegre. Agradeço o apoio do grupo de pesquisa Trabalho na Sociedade Contemporânea (PPGS/ UFRGS). Este artigo apresenta aspectos de minha dissertação de mestrado Relações interfirmas e emprego: estudo de uma rede de empresas em telecomunicações. Sônia M. n. Prof. G. in Brazil. Larangeira. It has been found out that privatized companies reduced their own personnel and expanded contracts with other 1 2 New productive strategies in telecommunication industry after privatization: the case of Rio Grande do Sul Endereço para correspondências: Av. abril de 2004 . a partir do processo de privatização ocorrido em 1998. since its privatization in 1998.117-139. Constatou-se que a empresa desestatizada reduziu o quadro de pessoal e ampliou __________________________________________________ * Abstract This paper aims to analyze aspects of the new production strategies present in the telecommunications sector in Rio Grande do Sul state. defendida no PPGS/ UFRGS. Oscar Pereira. RS.35. no Estado do Rio Grande do Sul. CEP 90640-070 (sandroruduit@ig.

No Brasil. employment. Introdução companies. transmissão por satélite. por monopólios públicos ou privados. telecommunications. estimularam a privatização e Revista de Ciências Humanas. along with new ways of utilizing employees” work and managing jobs. nas formas de uso e de gestão da força de trabalho e nas condições de emprego. Florianópolis: EDUFSC.118 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização a terceirização de trabalho. de desregulamentação de mercados e de fusões entre empresas. o setor de telecomunicações está a experimentar importantes transformações que atingem a escala mundial. even though it did not affected the level of employment in the sector. Keywords: Privatization. configurando uma nova trama produtiva marcada pela diversidade nas relações interempresas. de liberalização. telecomunicações. which offer them services. porém não afetou negativamente o nível de emprego no setor. A nova realidade das telecomunicações.35. sobre o perfil da mão-deobra e até mesmo sobre a ação sindical. uso de fibras ópticas. N o âmbito da chamada nova economia. o setor de telecomunicações experimentou um duplo movimento de privatização e de reestruturação das empresas nacionais. This new strategy relies on novel relationships between companies. intercompany relations. até o início da década de 1990. aos níveis Federal e Estadual. atestada pelo fato de que. n. Palavras-Chave: Privatização. So privatization leaded to worse jobs for some workers. neste século XXI. sobre as qualificações. no ano 2000. emprego. o setor enfrenta processos de privatização. foram investidos em telecomunicações cerca de 6% do PIB mundial (OIT. sobre as condições de saúde e de segurança no trabalho. bem como uma verdadeira revolução tecnológica (integração com o computador. Portanto. Caracterizado. relações interfirmas.117-139. a existência de demanda por telefonia não atendida e as estratégias governamentais. vem impondo a reestruturação técnica e organizacional dos tradicionais monopólios. p. A convergência entre a transformação do mercado de telecomunicações. abril de 2004 . a privatização acarretou a perda de qualidade do emprego para alguns. repercutindo sobre as formas de uso e de gestão da mão-de-obra. telefonia móvel). 2002). sobre o nível e a qualidade do emprego.

liberalização. Os postos de trabalho perdidos no âmbito da CRT foram. bem como as características de uso e gestão da mãode-obra e as condições de emprego. atendimento a clientes. principal empresa do setor. em 1998. n.117-139. a CRT passou a liderar uma nova trama produtiva marcada pela diversidade nas relações interempresas. com distintos perfis organizacionais e gerenciais (inovadores e restritivos) e com múltiplas práticas de emprego (vínculo formal e informal. de examinar a dinâmica das relações que se estabelecem entre uma das principais empresas do estado (desestatizada) e as empresas contratadas para a execução dos serviços de rede telefônica. o objetivo deste texto é analisar as características das novas tramas produtivas que se configuram no setor de telecomunicações. trabalho temporário). assalariados. pós-privatização. de certo modo.Sandro Ruduit Garcia — 119 reestruturação da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). apontam-se tendências de mudança no setor de telecomunicações em âmbito internacional. abrangendo os diversos padrões de relacionamento interfirmas e níveis existentes.35. inclusive a sua atividade fim (rede óptica. b) mudanças organizacionais (voltadas para a flexibilização e para a redução do emprego na empresa). de produção e de atuação no mercado da empresa. hoje chamada Brasil Telecom (BrT). no ano 2000). trabalho por tarefa. além de serviços de apoio. expressas por: a) intensa modernização tecnológica e ampliação da planta (incorporação da fibra óptica e digitalização das centrais de comutação). nas formas de uso e de gestão da força de trabalho e nas condições de emprego. nos quais há empresas com diferentes estratégias de competição no mercado. A partir disso. a partir da privatização da principal empresa do setor Revista de Ciências Humanas. na segunda. e d) expansão da externalização de tarefas relativas. no Estado do Rio Grande do Sul. configurando novos arranjos interfirmas. nessas empresas. apresentam-se as características da nova trama produtiva. como limpeza. p. a articulação entre as distintas práticas de emprego utilizadas. Daí a pertinência em analisar-se. mormente no que se refere aos processos de privatização. foram alteradas as formas de trabalho. instalação de terminais telefônicos. c) transformações institucionais (privatização. e liberalização do mercado de telefonia fixa. Trata-se. Visando à ampliação e à atualização tecnológica da malha telefônica. reestruturação e suas implicações para a composição do emprego. no estado do Rio Grande do Sul. abril de 2004 . a partir do processo de privatização ocorrido em 1998. Nesse caso. Florianópolis: EDUFSC. transferidos para empresas terceiras. além desta introdução: na primeira. mais especificamente. vigilância e xerox). nessa nova trama produtiva. cabeamento metálico. O texto contém três seções.

veja-se Sorj (2003) e Ripper (2003). p. RUELAS. 1995. dentre eles. PORTO. fusões e aquisições entre empresas tradicionais e novas empresas. França. as formas de uso e de gestão da força de trabalho e as condições de emprego. bem como os arranjos que produz. são apresentadas as conclusões da análise. Finalmente. sindicatos. trabalhadores. por mais que esse movimento seja uma tendência internacional4. Como exemplos de tais divergências. em países nos quais os sindicatos são mais fortes e estruturados. no sentido da exploração de um mercado com amplo potencial de expansão. visando à exploração de novos mercados e. fator fundamental de competitividade (PESSINI e MACIEL. focalizando as relações interfirmas (empresa contratante e fornecedores). A transfiguração do setor de telecomunicações Na economia globalizada. Estudos sobre o setor. 1998. A competição global e oligopolística entre grandes indústrias e instituições financeiras tornou o acesso aos serviços de infra-estrutura. Florianópolis: EDUFSC. n. 1999)3. a reestruturação tende a ser lenta e gradual. os de telecomunicações. WALTER. capital privado. Chile e Uruguai (COSTA. 1998 e 2003). Holanda e Espanha (CHANG. são heterogêneos. nos países periféricos.120 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização de telecomunicações no estado. Brasil.117-139. CANO e SILVA. como em países periféricos. Amplia-se sobremaneira a necessidade de investimentos. bem como a demanda pelos serviços de telecomunicações. marcado até a década de 1980 por monopólios estatais. variando de acordo com a conflitualidade e a participação dos atores sociais envolvidos (Estado. a velocidade e a intensidade da reestruturação do setor. México. dos grandes grupos industriais interessados em serviços mais eficientes e baratos. Inglaterra.35. COSTA 1996. privatização e liberalização de mercados. 2000). os processos ocorrem por pressões internas. __________________________________________________ 3 4 Sobre o uso. 2003. nos países centrais. com a trajetória do setor em cada sociedade e com a conjuntura política e econômica nacional. consumidores). a reestruturação assume caráter restritivo e imposto a partir das pressões de corporações e de agências internacionais. No entanto. Argentina. pode-se mencionar que. Revista de Ciências Humanas. 1998. Alemanha. 1998) evidenciam certas convergências: rápida evolução tecnológica. WALTER e GONZÁLEZ. atraindo o interesse de grandes corporações. os serviços de telecomunicações tornamse estratégicos para o desenvolvimento econômico e social. KOSKI e MAJUMDAR. potencialidades e desigualdades das telecomunicações na sociedade da informação. abril de 2004 . A convergência entre as telecomunicações e o computador constitui a base material sobre a qual se apóia a chamada nova economia (CASTELLS. tanto em países centrais. Estados Unidos. no Brasil. LARANGEIRA. 1996.

1997).Sandro Ruduit Garcia — 121 Investimentos massivos têm sido aplicados em inovação tecnológica e em ampliação de redes telefônicas. como se observa na Figura 1. as taxas de crescimento anual do PIB e do setor em todo o mundo foram. de liberalização e de reestruturação das tradicionais empresas do setor impõem prejuízos aos trabalhadores. 1995. no Japão e na Alemanha – 1991.5%. a taxa de crescimento do setor de telecomunicações foi precisamente o dobro: 7% (BRASIL. as empresas vêm adotando novos conceitos organizacionais para flexibilizar o trabalho. cada vez mais.35. Florianópolis: EDUFSC. 2. A nova realidade do setor de telecomunicações é marcada. p.8%. em 1995. abril de 2004 54321 54321 54321 54321 138 54321 54321 54321 321 321 321 5 1 1 4 321 4 54321321 3214324321 5 3214324321 54324321 1 5 1 3214324321 1 5 3214324321 5 1 3214324321 5 1 4 1 54321321 3214324321 5 3214324321 5 1 4 5 1 3214321321 54324321 3214324321 54321321 1 3214324321 5 4 5 1 3214324321 1 5 321432132 54324321 3214321321 5 4 1 54324321 3214324321 5 1 54324321 1 54324321 1 54321321 1 4 54324321 4 54321321 1 54321321 4 54324321 54324321 1 54324321 1 54324321 1 54321321 1 4 1 54321321 54324 227 227 225 4 1 1 5 321 3254321 43214321 321 3254321 4 1 321 3214321 4 5 43254321 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 1 5 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 43254321 43214321 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 1 321 3254321 4 5 43214321 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 43254321 1 4 1 321 3254321 4 1 321 3254321 4 1 4 5 321 3254321 4 1 321 3214321 4 1 321 3254321 4 321 321 1991 1995 1999 . enquanto o PIB mundial teve um incremento de 3. n. Mas. no Reino Unido. junto com as inovações tecnológicas. notadamente. por empresas internacionais. em lugar de companhias nacionais. relativamente ao caso argentino. 1999 (em milhares) Fonte: Composição a partir de Organização Internacional do Trabalho (2002). Revista de Ciências Humanas.2% e 1. Como evidencia Figari (1998). 1997).117-139. A internet é uma das expressões mais significativas dessa expansão: expandiu-se a taxas superiores a 100% ao ano durante na década de 1990 (Idem. tais como redução do emprego nas tradicionais empresas monopolísticas estatais. Em muitos casos. os processos de privatização. no ano de 1990. a externalização de tarefas. respectivamente. De fato. 5 4 3254321321 1 1 3254324321 1 1 3254324321 1 1 1 5 3254324321 14324321 1 3254324321 1 1 3254324321 1 1 1 54324321 3254324321 1 1 3254324321 1 1 1 3254324321 1 1 54324321 3254324321 1 1 3254324321 14324321 1 1 3254324321 1 1 1 1 3254324321 3254324321 5432432 1 1 1 5 3254324321 1 1 1 3254324321 14324321 1 54324321 1 54324321 1 1 54324321 54324321 1 1 54324321 54324321 1 54324321 1 54324321 1 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 250 200 150 100 50 0 156 164 54 1 1 43254324321 1 4 43254324321 1 1 43254321321 1 4 1 54 1 1 43254324321 1 32432 43254324321 1 1 43254324321 1 32432 54 1 1 1 43254324321 1 1 43254321321 1 4 1 54321321 43254324321 1 4 43254324321 1 1 43254324321 1 32132 1 54324321 43254324321 1 1 1 1 43254324321 43254321321 1 4 1 4 4 1 43254324321 1 321321 5 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4321 4 1 4321 4321 32 249 169 185 136 138 136 France Télécom Brasil Telecom NTT DeutscheTelekom Figura 1 Emprego nas operadoras tradicionais de telecomunicações na França.

2003). os sindicatos e os trabalhadores enfrentam. da expansão da telefonia móvel e das chamadas empresas pontocom. estabilidade. Estudos recentes indicam outro aspecto significativo: uma reestruturação das práticas sindicais vis-à-vis à nova realidade. O setor era marcado mundialmente por relações de emprego bastante vantajosas aos trabalhadores: altos salários.35. Revista de Ciências Humanas. n. em razão do ingresso de empresas concorrentes. em contexto de adoção de estratégias de redução de custos. em muitos casos. p. Florianópolis: EDUFSC. embora não seja uma tendência generalizada. negociação com empresas privadas de capital internacional. abril de 2004 54324 4321 1 4 54324321 54321321 1 1 54321321 432 5 91 99 Itália 43254321 1 5 1 43254321 43214321 1 4325 5 43214321 1 43254321 14321 43254321 5 43214321 1 43254321 43214321 5 4321 243 245 Japão 54321 54321 54321 54321 54321 1 54321 54321 5432 54321321 1 4 54324321 4 54321321 1 54324321 4 54324321 1 54321321 1 54324321 4 54321321 1 54324321 54321321 4 1 54321321 4 54324321 54324321 1 4 1 54324321 54324321 1 54324321 1 54324321 1 54324321 1 54321321 1 54324321 54324321 1 1 54324321 54324321 5432132 4 1 54324321 1 54321321 1 4 54324321 54324321 1 54321 1 1 4 54321321 54324321 54321 54321 54321 54321 54321 1070 1995 1999 43214321 43214321 43214321 4321 54324321 1 1 54324321 54324321 1 1 54324321 54324321 1 54324321 1 1 54324321 4 54321321 1 54324321 54321 . de produção flexível e de amplo uso da externalização de trabalho (LARANGEIRA. mesmo em países centrais – vide Figura 3. O problema está na qualidade dos novos postos de trabalho: expande-se rapidamente o trabalho em tempo parcial e recua o trabalho em tempo integral. hoje. Entretanto.122 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização No entanto. também se verifica. o que aponta para tendência de precarização do trabalho em segmentos do setor. expansão do emprego global no setor – como se pode observar no Figura 2 –. 1200 1000 800 600 400 200 0 217 223 90 81 69 43214321 14321 5 43254321 5 900 52 Alemanha Canadá Espanha EUA Figura 2 Emprego total no setor de telecomunicações em países selecionados – 1995 e 1999 (em milhares) Fonte: Composição a partir de Organização Internacional do Trabalho (2002). amplos planos de benefícios sociais. todas restritivas relativamente ao emprego.117-139.

abril de 2004 54321321 4 54321321 4 0 29 19 101 79 69 46 Japão 54321 1 54321 54321 5432 54321 1 54321 5432 4321 1 5 43214321 5 43254321 43254321 1 43254321 14321 43214321 5 43214321 5 54321 1 54321 5432 1995 1999 . 1996. Novas tramas produtivas no Rio Grande do Sul No caso do Brasil. O problema passa a ser a qualidade do emprego. Quanto às conseqüências desses processos para os trabalhadores. n.35. Dessa forma. sem redução global do emprego no setor. mas. a influência no governo de agências internacionais de financiamento (FMI e BM) e o interesse de investidores privados estrangeiros induziram a atualização tecnológica e a expansão da rede. combinadas com privatização e liberalização do setor (COSTA.117-139. LARANGEIRA. a reestruturação do setor de telecomunicações tornou-se uma imposição. no contexto de emergência de novas empresas de telecomunicações e de reestruturação dos tradicionais monopólios. Florianópolis: EDUFSC. verifica-se como tendência a redução do emprego nos tradicionais monopólios. em muitos casos. p. Revista de Ciências Humanas. 1998). a insuficiência dos investimentos do Estado.Sandro Ruduit Garcia — 123 1200 993 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 4321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 43214321 4321 4321 4321 1000 800 600 400 200 54324321 1 1070 214 54324321 1 4 54324321 1 54321321 4321 4321 5 43254321 14321 43254321 1 43254321 1 43214321 5 4321 168 170 180 Argentina EUA Reino Unido Itália Espanha Figura 3 Emprego em tempo integral no setor de telecomunicações em países selecionados – 1995 e 1999 (em milhares) Fonte: Composição a partir de Organização Internacional do Trabalho (2002).

35. Florianópolis: EDUFSC. p. o governo do estado vendeu 35% das ações da CRT6. possibilitando aos usuários a escolha de operadoras em cada chamada efetuada. a tarifa de assinatura residencial mensal aumentou 3.A. aos assinantes e ao governo do estado. sendo executados por empresas privadas.117-139. Em 2002.). criada em 1972. o governo estadual instituiu a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). a Global Village Telecom (GVT). 2000). Como se observa na Tabela 1. enquanto o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) variou 86. Os serviços de telefonia no estado iniciaram-se ainda em 1895. A competição nos serviços de longa distância nacional iniciou-se com a implantação do Código de Seleção de Prestadora (CSP). entrou em operação a chamada empresa-espelho. quando da criação da Telebrás. No ano de 1962. em julho de 1999. mediante a entrada no mercado das chamadas empresas-espelho. em 19985. n. e vem liberalizando-o paulatinamente.A. o governo gaúcho celebrou com o Ministério das Comunicações um contrato de concessão. __________________________________________________ 5 6 Isso ocorreu com a venda da Telebrás (Telecomunicações do Brasil S. em 1973.12% das ações com direito a voto. Em junho de 1998. com significativas implicações para a composição do emprego. Paralelamente. Em novembro do ano 2000. O capital social da CRT passou a ser constituído por parcelas pertencentes à Telebrás. sob seu controle acionário. concretizando o projeto de liberalização do mercado de telefonia fixa local. a CRT reestruturou e elevou tarifas. O Parceiro. Em dezembro de 1996. para coordenar a ação da empresas estaduais de telecomunicações.6% (Sinttel/RS. O Rio Grande do Sul e a CRT apresentam peculiaridades nas suas trajetórias. set. Seguindo o que se verifica em âmbito internacional. que passou a deter 85.241% e a não-residencial 522. sobretudo para os clientes residenciais. como forma de capitalizá-la e de prepará-la para a privatização total. com duração de 30 anos. autorizadas a operar nas mesmas áreas das atuais concessionárias. Posteriormente. a privatização da empresa impôs um radical processo de reestruturação interna. holding estatal. No período de 1994 a 2000. A liberalização do mercado também ocorreu gradualmente.9%. abril de 2004 . o governo do estado vendeu a maioria de suas ações para o consórcio liderado pela Telefónica de España. Em julho de 2000. a empresa passou a chamar-se Brasil Telecom (BrT). a empresa passou a investir massivamente na expansão da rede telefônica – o que se expressa no incremento do número de linhas em serviço – e na sua modernização – expressa na digitalização da planta. Revista de Ciências Humanas. acionista majoritário. o controle da empresa foi repassado a um consórcio liderado pela Brasil Telecom S. inspirado em um programa nacionalista do então Governador Leonel Brizola.124 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização O Brasil foi um dos últimos países latino-americanos a privatizar o setor.

Sandro Ruduit Garcia — 125 Tabela 1 Mudanças na Companhia Riograndense de Telecomunicações7 – 1995 a 1999 Fonte: Composição a partir dos Relatórios Anuais da CRT. __________________________________________________ 7 Brasil Telecom. Desse modo. Ao mesmo tempo. p. no estabelecimento de metas de produção. um dos aspectos da reestruturação da empresa foi a configuração de uma nova trama produtiva. dentre outros aspectos. resultou na redução do custo do pessoal relativamente à receita dos serviços. na polivalência dos trabalhadores e na externalização de trabalho. a empresa reduziu dramaticamente o número de empregados. instalação de redes de fibra óptica e de cabos metálicos. abril de 2004 . Tal investimento resultou na elevação da receita líquida dos serviços. na adoção de programas de qualidade. A reestruturação da empresa. decorrente da externalização do trabalho de expansão e de manutenção da rede telefônica (digitalização das centrais de comutação. a partir de 2001. apoiada. instalação de terminais telefônicos) pela CRT – hoje.35. 1995 a 1999. n. Revista de Ciências Humanas. o que implicou a expansão da produtividade dos funcionários (linhas fixas em serviço por empregado).117-139. Florianópolis: EDUFSC.

1999. É no contexto desse novo arranjo interempresas que a empresa vem expandindo e modernizando a malha telefônica e reduzindo o nível de emprego.126 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Brasil Telecom – a empresas terceiras. n. À redução do emprego no antigo monopólio estatal contrapõe-se a expansão do número total de estabelecimentos e do nível global de emprego no setor de telecomunicações no Rio Grande do Sul. 2001) Fonte: Relatório Anual de Informações Sociais – Ministério do Trabalho e Emprego (RAIS/ TEM). bem como as características dos novos postos de trabalho. decorrente da expansão da externalização de trabalho 8.35. Sobre tais diferenças. conforme se verifica no Figura 4. Externalização de tarefas e relações interfirmas A nova trama produtiva liderada pelo antigo monopólio estatal compõe-se de uma estrutura de posições e de um sistema de relações interfirmas. p.117-139. abril de 2004 8 1 8 1 876543287654321 65432176543217654321 8 65432176543287654321 87654321 250 641 618 Estabelecimentos 54321 54321 54321 54321 54321 1 54321 5432 1997 1999 2001 321 321 321 . em razão da dispersão do processo produtivo entre empresas. __________________________________________________ 8 Os processos de externalização de tarefas podem envolver a terceirização de trabalho e a subcontratação de empresas. 1997. ver Ruduit Garcia (2002b). Revista de Ciências Humanas. É importante examinar as condições nas quais essas empresas se integram à nova trama produtiva. Florianópolis: EDUFSC. 1999. 2001. 14000 654321 1 1 8 65432876543287654321 1 876543287654321 1 65432876543287654321 1 1 65432876543287654321 1 8 1 8 1 65432876543287654321 176543217654321 65432876543287654321 1 8 1 1 65432876543287654321 176543217654321 654328 1 876543287654321 1 65432876543217654321 1 1 8 876543287654321 65432176543287654321 1 1 65432876543287654321 8 8 1 65432876543287654321 176543217654321 1 65432876543287654321 1 1 65432876543287654321 1 87654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 654321 7182 6601 Empregos 12000 10000 8000 4000 2000 0 13333 Figura 4 Telecomunicações no Rio Grande do Sul (1997.

bem como os dados sobre o tipo de serviços fornecidos. Além dos registros e impostos corriqueiros. os critérios passaram a ser: 1) volume de capital social. em 1997. A estrutura da nova trama produtiva. para cerca de 4. no caso de instalação e de manutenção de terminais telefônicos. e 3) o repasse de obras de pequeno e de médio portes não só dificultava a redução de custos dos serviços com ganhos de escala. As pequenas e médias empresas foram eliminadas dos processos de seleção de prestadoras de serviços pela CRT. Com a privatização.000 postos. Os novos critérios implicaram a redução do número e o aumento do porte das empresas terceiras.35. veículos) e a realização dos serviços passou a ser verificada integralmente. em 2000. responsável pela regulação do setor. o número de fiscais reduziu-se e a fiscalização do trabalho passou a concentrar-se mais na documentação das empresas do que na observação in loco dos serviços: a redução do número de empresas subcontratadas permitiu que a documentação de todas fosse examinada (antes era por amostragem). à medida que as atividades de construção e de manutenção de redes telefônicas foram totalmente terceirizadas (Entrevista com Diretor do Sinttel/RS). os equipamentos empregados (ferramentas. são apresentados na Figura 5. 2) atendimento das normas legais. A fiscalização dos serviços também sofreu alterações. __________________________________________________ 9 Agência Nacional de Telecomunicações. abril de 2004 . e 3) menor valor cobrado pelos serviços. p. restando. A partir de 1999. das empresas estudadas. mas também exigia que a CRT repassasse os valores contratados durante a obra.Sandro Ruduit Garcia — 127 Estima-se que o volume de postos de trabalho nas empresas contratadas tenha se ampliado de cerca de 400 postos. n. 2) a instituição de metas de qualidade e de universalização dos serviços pela Anatel9 impôs à CRT a necessidade de melhorar os serviços de rede. na forma de concorrência. era o menor preço. o número de empregados e o faturamento. em 1999. gerando três tipos de problemas: 1) a contratação de inúmeras empresas (cerca de 88) dificultava o controle e a fiscalização dos serviços prestados. maquinário. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. instrumentos de segurança. o critério para a contratação de empresas. apenas cinco grandes empresas. posto que as pequenas e médias empresas não dispunham de capital social suficiente para custear as suas despesas a longo prazo.117-139.

Tal estrutura sustenta-se em distintos padrões de relações interempresas. Os níveis de fornecedores são as sucessivas camadas de empresas subcontratadas. em contexto de estratégia competitiva de redução de custos. no intercâmbio e nos laços de confiança interempresas. p. Região Metropolitana de Porto Alegre. Revista de Ciências Humanas. abril de 2004 . n. pois. estabelecerem práticas de intercâmbio e desenvolverem laços de confiança. manutenção dos sistemas elétricos. Verificou-se que. instalação e manutenção de terminais telefônicos públicos. Florianópolis: EDUFSC.35. construção de redes de fibra óptica e de cabo metálico (infra-estrutura). __________________________________________________ 10 Os segmentos de fornecedores são os grupos de empresas subcontratadas para a execução de frações especializadas de tarefas. fotocópias. vigilância. traduzidas nas condições de vínculo. A empresa central terceiriza diferentes tarefas a “empresas terceiras” (primeiro nível de fornecedores). CRT IA digitalização de centrais 3500 funcionários faturamento: R$ 4 bilhões II A fibra óptica 80 funcionários faturamento: R$ 6 milhões IB cabo metálico e fibra óptica 350 funcionários faturamento: R$ 33 milhões II B cabo metálico e fibra óptica 95 funcionários faturamento: R$ 12 milhões III B cabo metálico e fibra óptica 110 funcionários faturamento: não revelado IV B cabo metálico 30 funcionários faturamento: não revelado IC instalação terminais 920 funcionários faturamento: não revelado II C 2 cabo metálico 1 funcionário faturamento: R$ 40 mil II C 1 cabo metálico e instalação de terminais 80 funcionários faturamento: R$ 900 mil III C instalação de terminais nenhum funcionário faturamento: R$ 48 mil Figura 5 Organograma da nova trama produtiva Fonte: Pesquisa empírica. configurando. instalação e digitalização de centrais de comutação telefônica. com as empresas contratantes. hidráulicos e de refrigeração dos prédios. em face da divisão vertical do processo produtivo. maiores as possibilidades de as empresas contratadas negociarem as condições de vínculo. relações cooperativas. 2000.117-139. comerciais e residenciais. quanto maior a complexidade técnica dos serviços prestados.128 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Ela é composta por diferentes segmentos e por distintos níveis de fornecedores10. as quais terceirizam tarefas a “empresas quartas” (segundo nível) e assim sucessivamente. geradas pela divisão horizontal do processo produtivo: atendimento aos clientes.

à medida que a complexidade e a especificidade técnica dos serviços envolvidos (digitalização de centrais telefônicas) impõem práticas de cooperação entre as partes. Região Metropolitana de Porto Alegre. para a empresa contratada é conveniente prestar serviços sob as condições financeiras da contratante.117-139. porquanto são marcadas pela predominância dos interesses da empresa contratante sobre os da contratada. ver Ruduit Garcia (2002a).Sandro Ruduit Garcia — 129 Pode-se. p. Quadro 1 Tipos de relações interfirmas Fonte: Composição a partir de pesquisa empírica. classificar as relações interempresas encontradas em três tipos: a) Relações de cooperação são aquelas com a menor assimetria de poder entre as tipificadas. e c) Relações interfirmas de subordinação por dependência são as relações com maior assimetria de poder. Revista de Ciências Humanas. prestando serviço de baixa complexidade e amplamente oferecido no mercado (instalação de terminais telefônicos)11. n. __________________________________________________ 11 Para detalhamento da dinâmica das relações interfirmas. para fins analíticos. desde que. Os principais traços das relações tipificadas são esquematizados no Quadro 1. mas por conveniência para ambas partes: para a empresa contratante é conveniente utilizar os serviços relativamente complexos da contratada (cabeamento óptico e metálico). em razão de que a empresa contratada depende do mercado da rede. desde que mantenha certa estabilidade de vínculo e diversificação de clientes. Florianópolis: EDUFSC.35. 2000. abril de 2004 . b) Relações interfirmas de subordinação por conveniência apresentam maior assimetria de poder do que as de cooperação. nas condições financeiras orientadas por sua estratégia competitiva.

bem como a terceirização de trabalho. p.117-139. trabalho monótono. de acordo com as relações estabelecidas entre a empresa contratante e a empresa contratada. em uma estrutura diferenciada e fragmentada. ao treinamento e à terceirização nas empresas estão reunidas no Quadro 2. empregados pelas empresas contratadas diferenciam-se. relações interfirmas envolvem a variável distribuição de poder e diferentes formas de compatibilização dos divergentes interesses dos atores sociais (cooperação e subordinação). de cargos e salários. de treinamento. terceirização para reduzir custos com mão-deobra). e em diferentes padrões de relacionamento interempresas. Nesse caso. impossibilidade de participação do trabalhador. A empresa IB encontra-se em situação intermediária: mais restritiva do que a IA e menos restritiva do que a IC. e a capacidade de resistência e imposição das empresas contratadas. controle de qualidade. aos programas de qualidade e participação. terceirização voltada para a especialização de atividades) ou restritivo (diversos níveis hierárquicos. treinamento constante. verticalmente e horizontalmente. promoção por tempo de serviço. que foram realizadas distintamente pelas empresas. estratégias participativas. situação de mercado. ausência de controle de qualidade. ausência de treinamento. resultam em dispersão do processo produtivo. abril de 2004 . em razão de suas características (tecnologia empregada. promoção por mérito. Como se pode constatar no Quadro 2. As informações concernentes aos planos de cargos e salários. Revista de Ciências Humanas. O exame dos dados mostra que os programas de qualidade. n. a empresa IA apresenta as formas mais virtuosas de uso e de gestão da mão-de-obra entre as empresas terceiras. polivalência.35. Florianópolis: EDUFSC. Daí a multiformidade verificada nas relações interfirmas. relacionada ao tipo de serviços prestados.130 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Portanto. qualificação de mão-de-obra. assumindo caráter virtuoso (poucos níveis hierárquicos. que convergem nos tipos de serviços prestados). orientados pela estratégia competitiva. Formas de uso e de gestão da força de trabalho As formas de uso e de gestão da força de trabalho variam no interior da nova trama produtiva. a interação e a conflitualidade entre os interesses da empresa contratante. A estratégia competitiva de redução de custos adotada pela CRT abriu um campo de possibilidades para a estruturação da rede (múltiplas posições derivadas da existência de diferentes segmentos e níveis de fornecedores).

117-139. Região Metropolitana de Porto Alegre. Florianópolis: EDUFSC.35. 1999 e 2000. abril de 2004 . Revista de Ciências Humanas. p. n.Sandro Ruduit Garcia — 131 Quadro 2 Uso e gestão da força de trabalho nas empresas Fonte: Pesquisa empírica.

117-139. a promoção não se dá apenas por mérito. A maior cooperação para desenvolvimento de produtos. Então. 2) favorece a instabilidade nos laços – pois há maior incerteza e variabilidade no volume de obras. verificase que alguns aspectos considerados virtuosos vão sendo perdidos à medida que se avança para a periferia da trama produtiva: a participação deixa de ser estimulada. abril de 2004 .35. O Quadro 3 esquematiza os dados relativos às condições de emprego nas empresas investigadas. nem todos os profissionais são polivalentes e a terceirização também é usada com o objetivo de suprir a empresa com mão-de-obra em momentos de grande demanda. apoiadas na qualidade dos serviços e na promoção da qualificação da força de trabalho. Revista de Ciências Humanas. Os dados evidenciam também que existe associação entre as formas de uso e de gestão da força de trabalho e a posição ocupada pela empresa nos níveis da rede. tanto mais restritivas são as formas de uso e de gestão da força de trabalho. bem como exige isso delas. ou porque aumenta o número de empresas intermediárias entre a empresa central e a empresa que executa a tarefa. serviços e tecnologia e a estabilidade nos laços entre as empresas. como não-precárias. Florianópolis: EDUFSC. ou porque as partes ‘nobres’ (de alto valor e tecnologia) do serviço ficam nos primeiros níveis.132 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Já esta apresenta as formas mais restritivas de uso e de gestão da força de trabalho entre as empresas terceiras. à medida que o distanciamento da empresa central: 1) favorece a redução do valor pago pelos serviços prestados. característicos das relações de cooperação interfirmas. quanto maior a cooperação (ou menor a subordinação) nas relações interfirmas. p. n. Condições de emprego A estrutura da nova trama produtiva e os variados padrões de relacionamento interfirmas implicam a multiformidade do emprego: envolve tanto formas precárias de emprego. Assim. maiores as chances de se estabelecerem formas virtuosas de uso e de gestão da mão-de-obra nas empresas contratadas. III e IV). permite às empresas contratadas formas mais virtuosas de gestão dos recursos humanos. Comparando-se os níveis de fornecimento nos quais se encontram as diferentes empresas (I. II. quanto mais distante da empresa central encontra-se uma empresa na estrutura da rede. e 3) facilita a burla de contratos e de legislações – pois diminui o controle e a fiscalização sobre as empresas.

Sandro Ruduit Garcia — 133 Examinado os dados relativos às empresas terceiras da nova trama produtiva. n. O intercâmbio entre as empresas interfere na natureza da formação e na instrução dos trabalhadores (treinamento conjunto fomenta a formação teórica da mão-de-obra e exige maior instrução dos treinandos. Revista de Ciências Humanas. tanto maiores serão as chances de as empresas contratadas estabelecerem práticas não-precárias de emprego. p. à medida que a empresa contratada pode ampliar prazos e reduzir a dependência em relação à empresa contratante (mantendo trabalhadores empregados). assim como a negociação das condições contratuais possibilita a obtenção de melhores valores contratados. A empresa IB apresentou uma situação intermediária. A empresa IC foi. A negociação das condições de vínculo interempresas incide sobre a temporalidade do vínculo empregatício. permitindo a oferta de mão-de-obra mais qualificada e com melhores condições de emprego. entre as empresas terceiras. bem como troca de informações técnicas exige equivalência na formação dos recursos humanos) e na rotatividade da mão-de-obra (a cooperação para formação de mão-de-obra implica investimento nos recursos humanos e conseqüente esforço para a sua manutenção). Florianópolis: EDUFSC. a que apresentou o pior desempenho nos indicadores examinados. verifica-se que a empresa IA foi a que apresentou melhor desempenho nos indicadores analisados. em face da extensão e do apoio no vínculo interempresas. pois é possível obter melhores preços para a execução dos serviços. o intercâmbio e a confiança entre as empresas permitem à parte contratada planejar e estabilizar as práticas de emprego. abril de 2004 .35. na natureza da formação profissional (o apoio tecnológico e organizacional torna mais complexo o processo produtivo.117-139. exigindo mão-de-obra instruída e com formação teórica) e na formalização do vínculo (a estabilidade dos laços e a atualização técnica e organizacional estimulam a formalização do uso da mão-de-obra). A confiança nos laços interempresas repercute na rotatividade (laços de confiança tornam os serviços mais freqüentes. e sobre o valor da remuneração. Os dados autorizam a afirmação de que quanto maior a cooperação nas relações interfirmas. Por conseqüência. segundo o tipo de relações estabelecidas com a empresa central. permitindo a manutenção da força de trabalho empregada).

117-139. n. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. abril de 2004 .35. 1999 e 2000. p. Região Metropolitana de Porto Alegre.134 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Quadro 3 Condições de emprego nas empresas Fonte: Pesquisa empírica.

com tendência de queda com o avanço nos níveis da rede. Os valores da remuneração mensal e os benefícios sociais também são variáveis. como a PLR (Participação nos Lucros e Resultados). por um lado. de um lado. menor dificuldade para burlar legislações ou contratos e menor controle da qualidade dos serviços prestados e. n. abril de 2004 .35. o corte de benefícios sociais e práticas paternalistas de negociação entre capital e trabalho. são mais estimulados a reduzir custos. de outro lado.117-139. Revista de Ciências Humanas. há. não-precárias e combinações de práticas precárias e não-precárias.Sandro Ruduit Garcia — 135 A posição da empresa nos níveis da trama produtiva também interfere nas condições de emprego. Por conseguinte. quanto mais distantes da empresa líder se encontram. grande irregularidade na temporalidade do vínculo. e/ou por produção. O afrouxamento do controle e da fiscalização dos contratos e da legislação. A remuneração tende a apresentar caráter mais simples e restritivo. por outro lado. p. Tal multiformidade se deve tanto aos distintos padrões de relacionamento interfirmas. Tais conexões ocorrem pelo fato de que as diferentes posições nos níveis da rede influem nos valores pagos pelos serviços prestados. no volume de serviços e no controle de contratos e da legislação. assumindo a forma de remuneração fixa. A retração dos valores pagos pelos serviços pressiona as empresas para a redução da remuneração e dos benefícios sociais. Florianópolis: EDUFSC. utilizando mão-de-obra não-qualificada e em condições de precariedade. os dados relativos aos indicadores examinados evidenciam a existência de divergentes condições de emprego ao longo da nova trama produtiva: precárias. sem relação significativa com os níveis das empresas. Quanto ao vínculo trabalhista. A maior variabilidade no volume de serviços contratados repercute em instabilidade na gestão dos recursos humanos: maior rotatividade e dificuldades para treinamento de mão-de-obra. como à fragmentação vertical do processo produtivo em diversos níveis de fornecedores. conforme os níveis de empresas distanciam-se da empresa líder da trama produtiva. leve tendência de ampliação das situações de informalidade nos vínculos. facilitam a informalidade do vínculo. A rotatividade tende a aumentar à medida que avançam os níveis da rede. como se observa no Quadro 3. Assim. Os múltiplos atores empresariais envolvidos têm. o emprego precariza-se à proporção que aumentam os níveis na nova trama produtiva. em detrimento de formas de remuneração mais complexas. com o aumento dos níveis da trama produtiva e. que ocorre à medida que as empresas assumem posições mais periféricas na rede.

Constatou-se que a interação entre a estratégia competitiva da empresa contratante apoiada na redução de custos (que expressa as condições oferecidas às empresas contratadas) e os diferentes tipos de serviços prestados pelas empresas contratadas. salários elevados. Entretanto. em âmbito internacional.117-139. em razão da entrada de novas empresas (liberalização e competição) e da transferência de postos de trabalho dos tradicionais monopólios (antes. A nova trama produtiva liderada pela empresa privatizada combina diferentes padrões de relacionamento interfirmas e de emprego. de privatização.35. isso nem sempre se reflete em retração do emprego no setor. p. inclusive no Brasil. todos eles impondo a reestruturação técnica e organizacional dos tradicionais monopólios que caracterizaram o setor até o início da década de 1990. valendo-se sobremaneira da externalização de trabalho. abril de 2004 . n. O problema está na qualidade dos postos criados em substituição ao emprego reduzido nos tradicionais monopólios reestruturados. como se verifica em muitos países. visando à redução do emprego. em parte. Porém. resultam em três tipos de Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. Tal reestruturação vem indicando como tendência a redução do emprego nessas empresas. de liberalização e desregulamentação de mercados. alta sindicalização) para empresas terceiras e fornecedores. uma nova realidade marcada por processos. notadamente para os empregados da antiga estatal. No caso em questão. A expansão da rede telefônica ocorreu com intenso uso do trabalho terceirizado. muitas vezes. oportunidades de treinamento e qualificação. caracterizados por estabilidade. Há indicações de que novos postos de trabalho vêm sendo criados. conjugados. a qualidade do emprego tem sido. de fusões e aquisições de empresas e de profundas mudanças tecnológicas. a privatização da principal empresa do setor de telecomunicações no Estado do Rio Grande do Sul (tradicional monopólio estatal) acentuou a reestruturação técnica e organizacional da empresa. O nível global de emprego no setor não foi prejudicado. configurando uma nova trama produtiva. com variados níveis de complexidade tecnológica (que expressam as suas variadas capacidades de imposição à empresa contratante).136 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização Considerações finais O setor de telecomunicações enfrenta. prejudicada. como estratégia de redução de custos e de redução do emprego na empresa.

Brasília: Ministério das Comunicações. as novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização indicam uma nova realidade bem mais complexa e fragmentada. tipos de relações interfirmas. n. BRASIL. nas novas tramas produtivas. no contexto das novas tramas produtivas. Manuel. mas não são todos precários. É preciso. 1999. como demonstra esta análise.gov.anatel. incompatível com relações mecânicas e lineares. Disponível em: <http:www. quartas. Referências bibliográficas BRASIL. Revista de Ciências Humanas. tais como relações interfirmas e níveis de fornecedores. incorporando outros atores sociais e novas variáveis às análises. Há. Uma das pistas para a explicação da natureza do emprego. 2000. Florianópolis: EDUFSC. ampliar o ‘olhar’ sobre os processos de mudança da empresa para a constelação de empresas. abril de 2004 . diferentes atores sociais. Perspectivas para Ampliação e Modernização do Setor de Telecomunicações (PASTE). p. 2000. de subordinação por conveniência e de subordinação por dependência) e em diversos níveis ou camadas de fornecedores (empresas terceiras.anatel. formas de uso e de gestão da mão-de-obra e níveis de qualidade do emprego.gov. 1997.117-139. os níveis de qualidade existente no período de vigência dos monopólios estatais. CASTELLS. A reestruturação das empresas de telecomunicações vem significando arranjos nos quais os novos postos de trabalho não mantêm. Brasília: Ministério das Comunicações.br>. quintas e sextas) e que as diferentes relações interfirmas e as posições das empresas nos níveis da trama produtiva implicam a existência de formas virtuosas e restritivas de uso e de gestão da força de trabalho e de práticas precárias e não-precárias de emprego. Portanto. pois.Sandro Ruduit Garcia — 137 relacionamento interempresas (de cooperação. Acesso em: dez. evidenciando a contradição e a instabilidade dos novos processos em curso.br>. para a apreensão das estruturas e das relações concernentes ao trabalho e ao emprego. São Paulo: Paz e Terra. Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de Telecomunicações e do Sistema Postal (PASTE). A sociedade em rede. Acesso em: dez. na sua totalidade.35. 2000. Disponível em: <http:www. é identificar os tipos de relações das empresas reestruturadas com os múltiplos e novos fornecedores.

18. Revista Latinoamericana de estudios del trabajo. globalização e competitividade. Relatório Final. Acesso em: nov. n. no. Disponível em: <http://www. Regulation and investiment behaviour in the telecommunications sector: policies and patterns in US and Europe..52. ano 4. Acesso em: abr. PORTO. H. v.138 — Novas tramas produtivas no setor de telecomunicações pós-privatização CHANG. São Paulo. 2003. Telecomunicações.bndes. 8. 2003. H. LARANGEIRA. La privatización de las telecomunicaciones na América Latina. FIGARI. Reunión tripartita sobre empleo. 1998. UFRJ. R. J. Arranjo produtivo de telecomunicações de Campinas/SP. 1996. Sônia. Cláudia. análises comparativas. Mudanças institucionais e privatização na década de 90: uma comparação entre Europa e América Latina no setor de telecomunicações. Reestructuración de uma empresa proveedora. Disponível em: <http://www. p. A. Buenos Aires: Eudeba. Universalização do acesso aos serviços de telecomunicações: o desafio atual no Brasil. n. UFRJ. S. Águas de Lindóia: ALAST.35. Maria C. G.elsevier. 2003.br>. 1995. Campinas: Papirus.. Telecommunications Policy. MAJUMDAR.677-699.. G. L. e MACIEL. Reestruturação no setor de telecomunicações: aspectos da realidade internacional.117-139.com/locate/telpol/>.81-106. Mário D.159-178. empleabilidad e igualdad de oportunidades en los servicios de correos y telecomunicaciones. p. Ciclo de Seminários Brasil em Desenvolvimento. CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE SOCIOLOGIA DO TRABALHO. N. La filial Argentina de Siemens. D. 2003. da.. SILVA. p.27. p. Relações industriais. Revista Brasileira de Ciências Sociais. In: FIGARI. Revista de Ciências Humanas. 1998. Cláudia. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Luciano et al..gov. Genebra: OIT. KOSKI. abril de 2004 . Cláudio S. n. CANO. Anais. Modelos de regulação e políticas públicas em telecomunicações. dezembro de 2000. Reestruturação das telecomunicações e os sindicatos. Rio de Janeiro.. 2003. In: COUTINHO. RIPPER. Sônia M. Florianópolis: EDUFSC. 2002. PESSINI. LARANGEIRA. COSTA. José E.

In: CATTANI. Brasil@povo. Sandro. Sandro. Jorge.35. análises comparativas. 2003.400-431. (Recebido em novembro de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. Revista Latinoamericana de estudios del trabajo. In: WALTER. Porto Alegre. São Paulo. n. Antônio D. RUDUIT GARCIA. p. Anais…1998. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Las telecomunicaciones mexicanas: claroscuros de la desregulación. Relações interfirmas e emprego: estudo de uma rede de empresas em telecomunicações./dez. jul. RUELAS. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 4. da UFRGS. 2001. 8. 2002b. Ana L. n. 1998.com: a luta contra a desigualdade na sociedade da informação. Porto Alegre: Ed. Brasília: Unesco. Buenos Aires: Eudeba. WALTER. Cecilia. Sandro. ed. Terceirização/Subcontratação.117-139. Jorge y GONZÁLES. 2002a.89-107. Trabalho e tecnologia: dicionário crítico. Bernardo. n. WALTER. p. Relações industriais. 1998. La privatización de las telecomunicaciones na América Latina. Porto Alegre. Chicago: Latin American Studies of Association. Empresas y sindicatos en la telefonia Argentina privatizada. Relações interfirmas e emprego na rede de empresas: a experiência de externalização de uma empresa no setor de telecomunicações. SORJ. abril de 2004 . Petrópolis: Vozes. Cecilia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. XXI CONGRESSO DE LATIN AMERICAN STUDIES ASSOCIATION. Jorge y GONZÁLES.8. ano 4. RUDUIT GARCIA. Sociologias. p.Sandro Ruduit Garcia — 139 RUDUIT GARCIA. Privatizaciones y relaciones laborales en la telefonía latinoamericana.

Revista de Ciências Humanas. O autor agradece os comentários dos colegas Stephen Chilton. n. 2 Uma versão mais ampla deste trabalho. CEP 88040-970 (krischke@brturbo. Trindade. Nythamar Oliveira e Wilson Mendonça. Florianópolis: EDUFSC.141-175. sem contudo responsabilizálos pelas limitações da versão atual. durante o processo de democratização da esfera pú__________________________________________________ Abstract This paper presents a comparative study of certain basic characteristics of political culture in Brazilian cities of Curitiba and Porto Alegre. analisando as suas diferenças e convergências como formas locais complementares de manifestação da conquista da cidadania. SC.Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba* Paulo J. Campus Universitário. p. It analyses both their differences and similarities as local complementary forms and manifestations of achieving citizenship. em distintos contextos histórico-sociais. Florianópolis.35. Krischke1 Universidade Federal de Santa Catarina Resumo Este estudo2 compara certas características básicas da cultura política nas cidades de Curitiba e Porto Alegre. abril de 2004 . Editora da PUC-RS).com). será publicada no livro Democracia e justiça global (Porto Alegre. denominada A cultura política pública em Porto Alegre e Curitiba. These differences are seen to derive from their socio-historical context during * Political culture: similarities and differences between Porto Alegre and Curitiba 1 Endereço para correspondências: UFSC/CFH. e a três pareceristas desta revista a versões anteriores deste trabalho.

Este trabalho se opõe aos estudos empíricos e teóricos convencionais acerca da cultura política. há certo simplismo ou certa linearidade nesses estudos sobre a cultura política. Revista de Ciências Humanas. postmaterialism A importância dos estudos sobre cultura política está nas evidências que eles proporcionam acerca da disposição das pessoas a apoiar o regime democrático. argumentando contra o viés determinista desses estudos. On this approach it is argued against the deterministic bias and over-generalization procedures usually deployed by current empirical and theoretical research on political culture that are inspired by theories of modernization. que foi testada na pesquisa. A finalidade do questionamento das abordagens à modernização que faremos aqui é interpretar adequadamente os resultados de uma pesquisa comparativa recente. Palavras-Chave: Modernização. por ser esse autor considerado um dos mais influentes estudiosos atuais da teoria da modernização. pós-materialismo. Florianópolis: EDUFSC. e as diferenças e semelhanças que existem no interior dessa cultura. democratização. sobre as mudanças em curso na cultura política. contextos histórico-sociais. Keywords: Modernization. abril de 2004 .142 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba blica. p. Specifically. Introdução the process of democratization of the public domain. democratization. pois muitos pretendem que os processos de democratização sejam inexoráveis ou irreversíveis – como se lhes coubesse seguir a mesma trajetória de modernização (hoje diríamos “globalização”) trilhada pelos países centrais do ocidente.35. muitas vezes.141-175. the present study relies on research data in order to refute the approach of Ronald Inglehart-considered one of the most influential contemporary scholars in theory of modernization-to the socalled “postmaterialism”. Infelizmente. refuta-se especificamente a abordagem de Ronald Inglehart ao chamado “pós-materialismo”. n. political culture (and subcultures). cidadania. citizenship. e os procedimentos de hiper-generalização por eles geralmente adotados. Com base nos dados desta pesquisa. cultura política (e sub-culturas). socio-historical contexts. A primeira parte do trabalho apresenta as linhas gerais da interpretação convencional da mudança e modernização cultural. inspirados nas teorias da modernização. apesar das eventuais desilusões com esse ou aquele partido ou governante de turno. nas cidades de Curitiba e Porto Alegre.

n. por exemplo. Revista de Ciências Humanas. que vincula a emergência de uma nova cultura – denominada “pós-materialista” –. Bermeo. Lipset. vários estudiosos da democratização na América Latina (por exemplo. Geddes. contradizem essa interpretação. ver Talcott Parsons (1951. difundindo o crescimento. ver Andrade (1979) e Lindenberg (1990). a riqueza. 1960. 2000). Krischke — 143 A segunda parte apresenta resultados encontrados na pesquisa que. a essa maior afluência e sofisticação socioeconômica. Przeworski e Limongi. veremos que essa perspectiva é compartilhada explicitamente por Ronald Inglehart (1997). É certo também que esse determinismo não era apenas econômico. inicialmente. __________________________________________________ 3 4 5 Trechos desta seção foram atualizados de trabalho anterior (KRISCHKE. Esteves (1999) mostrou “A Auto-refutação do Determinismo”. p. acerca dos condicionantes socioeconômicos da democracia. a partir de diversas perspectivas teóricas.182-191) e S. e com abundante base empírica. 1990. A seguir. 1992. entre a juventude do mundo inteiro. Por exemplo. para adotar os padrões culturais e institucionais vigentes nos países centrais e democráticos do ocidente5. Florianópolis: EDUFSC.141-175. Há farta documentação sobre esse assunto. apenas encontrada nos países centrais do ocidente. p. Remmer. a tolerância e a liberdade política – e até a felicidade pessoal entre a população da América Latina4. Munck. M. desde uma perspectiva filosófica. por mostrarem as ambigüidades e as diferenças existentes nos processos de democratização da cultura política em Curitiba e em Porto Alegre. Pensava-se então que o desenvolvimento socioeconômico exibiria uma capacidade integrativa quase infinita. pois se baseava na suposição de que o desenvolvimento da economia e da tecnologia viria acompanhado de mudanças sociopolítico-culturais que retirariam a sociedade de seu legado tradicional. Modernização (e “pós-materialismo”)3 Sabemos que as teorias da modernização dos anos 1950 e 60 adotaram um determinismo socioeconômico e político-cultural que hoje consideramos datado pelas ilusões do pós-guerra. política e cultural. 1993) têm refutado explicitamente as teses sobre a modernização.Paulo J. 1995. bem como as suas convergências e contribuições ao fortalecimento da democracia.35. em sua maioria. 1996. abril de 2004 . propostas por Lipset e outros. Desde já devemos reconhecer que.

Modernização e pós-modernização. sem referir a uma dimensão valorativa subjacente. os entrevistados podem escolher cada valor separadamente por seus próprios méritos. o que revela o caráter problemático dessa suposição destituída de comprovação”. p.] Consideramos que quando se pede aos entrevistados que escolham sucessivamente valores de uma série de possibilidades positivas [desejáveis]. abril de 2004 . n.433-34).141-175. p. econômica e política em 43 Sociedades (1997). 2): “Mostramos que é muito débil a relação entre idade e valores. feita por Davis e Davenport (1999. Por esta razão.24-5) e Krischke (2000. nem retratar o modo como as pessoas percebem as várias questões políticas e sociais”. em nome de um “progresso” econômico e tecnológico aparentemente inelutável. A hipótese de escassez postula que “as prioridades do indivíduo refletem o seu ambiente socioeconômico”. os entrevistados podem selecionar sincera e significativamente os temas individuais. como. a uma retomada da teoria da modernização. sem que sejam necessariamente ‘materialistas’ ou ‘pós-materialistas’. via mídia eletrônica e informatização) – sem a mediação explícita de processos históricos de aprendizado e elaboração cultural intersubjetiva. a fim de afirmar sua interpretação da mudança cultural nos valores das populações. o índice [de Inglehart] pode de fato não refletir uma dimensão ‘materialista/pós-materialista’.35. Especificamente. Florianópolis: EDUFSC. que tem merecido a crítica metodológica de vários estudos. em que busca matizar os efeitos do viés determinista dessa teoria. entre diferentes estratos de idade ou gerações. Escobar (1992. lança mão da massa de dados do World values survey (pesquisa mundial sobre valores). p. Munck (1996. por exemplo. Mudança cultural.144 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba A utilização que esses últimos autores fazem dos indicadores socioeconômicos (e outros de caráter político. Isto é. com base em duas hipóteses: a de incidência da “escassez” e a dos efeitos e períodos de “socialização”... Isso resultaria em novas formas de socialização (por exemplo. Para isso. tendo preferências com prioridades entre os temas alternativos. 10): “A validade de um índice que se propõe a captar prioridades dos indivíduos sobre valores é determinada mais adequadamente ao nível em que se origina: nas respostas individuais e a nível micro [. Revista de Ciências Humanas. p. elaborados pela Freedom House) padece de um viés etnocêntrico e determinista. p. tanto na Austrália como nos Estados Unidos. Ronald Inglehart dedicou um de seus livros mais abrangentes. A hipótese de socialização postula que. 2001). essa forma de determinismo considera a modernização como decorrente de forças externas materiais que se impõem à população. “em grande medida. Ver também a crítica de Tranter e Western (2002. em que os indivíduos estivessem envolvidos como participantes ativos6. __________________________________________________ 6 Ver a crítica a Inglehart.

os efeitos ou as atitudes básicas geracionais). entre quatro possibilidades. Os entrevistados são convidados a selecionar. movimentos pacifistas. as que deveriam ser. minorias raciais. Essas duas hipóteses orientam o argumento de Inglehart. enquanto “pós-materialistas” seriam aqueles que preferem objetivos e valores menos tangíveis. pois as gerações que adotaram esses valores tenderiam a persistir no seu apoio. onde postulou que as gerações nascidas no pós-guerra gradualmente teriam passado (em parte. Florianópolis: EDUFSC. 4) proteger a liberdade de expressão. na esfera pública em âmbito local. que modificam. as quatro empregadas originalmente por Inglehart. realizada regularmente desde a metade dos anos 1970. (CLARK e INGLEHART. ecológicos. A série longitudinal da pesquisa. Revista de Ciências Humanas. que vêem “pouca consistência comprovada ou validade comportamental preditiva nos resultados”. __________________________________________________ 7 A escassez implicaria mudanças valorativas de curto prazo: períodos de escassez econômica (inflação.35. de que. recessão. 1). os períodos de prosperidade aumentariam a tendência de apoio aos valores pós-materialistas (qualidade de vida. 3) combater a inflação. mas de modo crescente) a adotar valores “pós-materialistas”. Inglehart testou inicialmente suas hipóteses na Europa ocidental e demais países centrais do ocidente. Por isso. Ver as críticas de Marshall (1997. por ordem de prioridade. durante a idade pré-adulta. n. também postulou que a tendência ao pós-materialismo não era apenas um fenômeno juvenil que acaso desaparecesse na fase adulta. Krischke — 145 os valores básicos dos indivíduos refletem as condições prevalecentes durante o período anterior à sua vida adulta” (ECHEGARAY. material e política). Esses “pós-materialistas” estariam mais preocupados com a qualidade de vida. apenas. dentre outros. pois tiveram assegurada sua segurança física e econômica. afetividade e estética). p. desemprego) aumentaria a tendência de apoio a valores materialistas (busca de segurança pessoal. p. 1990). e em movimentos sociais dos anos 1970 e 80. 1998)7.Paulo J. a hipótese de socialização enfatiza os efeitos geracionais de longo prazo (apesar dos efeitos conjunturais de curto prazo. Também postulou ali que essa tendência estava relacionada a atitudes participativas. em geral. 2) maior participação da população nas decisões importantes do governo. os dois principais objetivos no país: 1) manter a ordem. parcialmente satisfeitas durante a fase pré-adulta. As alternativas utilizadas como questões de pesquisa são. a pessoa colocará maior valor na segurança física e econômica. de gênero. Por outro lado. a afetividade e a estética do que com considerações de ordem econômica e material. reforçando ou mitigando. KRISCHKE e TOSO.141-175. Contudo. ao atingir a idade adulta. culturais etc. essa pessoa será considerada “materialista”. abril de 2004 . quando as necessidades físicas e econômicas são.

quatro delas da América Latina (Argentina.. O processo não é teleológico. No livro de 1997. econômico ou cultural: nossos resultados sugerem que as relações entre valores. grifo do autor). 1989. candidatos a materializar-se em normas destinadas a expressar um interesse geral. a qual] estende-se apenas às questões práticas que se podem debater racionalmente. mas opera como se fosse: as sociedades com sistemas legítimos de autoridade têm mais chances de sobrevivência que aquelas que não os têm”(p. como Tranter e Western (2002) e Marshall (1997).4). p. política e economia são recíprocas. a tendência em apoio aos valores pós-materialistas é incipiente. Assim fazendo. A posição formal de Inglehart. e a natureza exata desses vínculos em cada caso é uma questão empírica. Florianópolis: EDUFSC. Chile e México). com a mesma finalidade.] são. com amostras nacionais da população em 43 países. 126-7. logo no início do livro. As quatro combinações restantes são classificadas como “mistas”8. Nesse livro. assume sua vinculação com as teorias anteriores da modernização. pois “todo sistema econômico e político tem um sistema cultural que o legitima [. O autor encaminha a seguir sua proposta de “análise funcional e síndromes de mudança previsíveis”.]. afirmando que “não assumimos o determinismo. Brasil. Isto não se relaciona com a preferência de valores. antes que algo a ser decidido a priori”(p.141-175. ao mesmo tempo em que dialoga com as teorias sobre a chamada pós-modernidade. Revista de Ciências Humanas. n.35.14-15). Nos países do chamado terceiro mundo. Vários autores têm criticado esse procedimento. na sua aferição de valores a partir apenas de escolhas dos entrevistados entre essas poucas alternativas.. é apenas relativamente a normas e sistemas normativos destacados da totalidade da vida social que os participantes podem tomar a distância necessária para adotar face a eles uma atitude hipotética [.. Aqui vale lembrar também a advertência de Habermas sobre o estudo dos valores. ou seja com a perspectiva de alcançar um consenso.. Inglehart trata de ampliar seu argumento. Inglehart expande o seu argumento. política e material na fase pré-adulta dos entrevistados (a hipótese de socialização).. abril de 2004 . __________________________________________________ 8 É necessário assinalar o procedimento hiper-generalizante de Inglehart. na melhor das hipóteses. p. mas com a validade das normas de ação” (HABERMAS. fato geralmente atribuído pelo autor à incidência de fatores de insegurança econômica. com conseqüências metodológicas que especificaremos adiante: “Os valores culturais [. assim como na Europa oriental. é aparentemente crítica do viés determinista dos estudos convencionais da modernização. que busca adaptar a sua proposta.146 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Os entrevistados que selecionam “manter a ordem” e “combater a inflação” são classificados como materialistas e aqueles que escolhem “maior participação” e “liberdade de expressão” são classificados como pós-materialistas. Por conseguinte. explicitando a teoria em termos de modernização e pós-modernização..

sua classificação dos países em “zonas culturais” carece de consistência. A seguir.. Florianópolis: EDUFSC. ele afirma que: “O desenvolvimento conduz à democracia desde que ocasione certas mudanças na cultura e na estrutura social. linear e comparativamente estática [. finalmente.. 9 Revista de Ciências Humanas. inclusive. e ele desconsidera a distinção entre os níveis macro e micro de análise”. que pretende uma causação direta das idéias por circunstâncias materiais [. recomendamos Gibbins (1992. sendo o fiat da transformação de uma em outra os processos de industrialização e diversificação sociocultural. típica da modernidade. O capítulo oferece evidência desses resultados. cuja validade não é sustentada empiricamente”. Desse ponto de vista. Inglehart enfatiza assim a existência de duas formas ou dois modelos contrastantes de sociedade. entre outras. abril de 2004 . Assim. grifo do autor). portanto.16).161. em que tenta abrigar-se na noção de “equilíbrio homeostático” da teoria dos sistemas (JOHNSON. Introduction): “A tese central de Inglehart – a mudança de valores vista principalmente como decorrência do desenvolvimento econômico e tecnológico.141-175. Sobre isso. Introduction). p. Inglehart busca. escapar do estigma determinista. estipulados pela teoria da modernização. mediante uma estratégia evasiva... Krischke — 147 Entretanto. que os adeptos mais militantes dessa mudança cultural teriam certamente grande dificuldade em aceitar.33). típica da pós-modernidade. antes. Interessa salientar que toda essa preocupação multicausal com o equilíbrio funcional não o faz descartar os condicionantes socioeconômicos.] Ele admite abertamente que sua primeira tese (a hipótese da escassez) ‘é semelhante ao princípio da utilidade marginal da teoria econômica’”(1997. Tudo isso.] suas escalas são coleções de itens heterogêneos. ver as críticas de Haller (2002.quando] mobiliza públicos massivos e tende a suscitar orientações culturais em apoio [à democracia]” (p. no velho estilo dualista das teorias da modernização. que conduziria à difusão de valores racionais-seculares e auto-expressivos – é materialista. a mudança da cultura atual para o pós-materialismo é vista como “mutações [que] não acontecem para servir a uma função. ele propõe.35. __________________________________________________ O Capítulo 6 de seu livro dedica-se a esse ponto e. “apresenta apenas toscas e débeis teses gerais. mas não pode escapar ao leitor o caráter circular da argumentação.Paulo J. cada uma com suas próprias condições de desenvolvimento socioeconômico e político-cultural. mas [que] sobrevivem e se difundem porque a servem” (p. 1966). E grande parte do livro dedica-se a contrastar a busca pela segurança material. ao contrário9. expomos os dados de pesquisa em que se buscou testar essas limitações. 10 Sobre essas falácias interpretativas. buscando superar o funcionalismo standard das teorias anteriores sobre a modernização. uma leitura adaptativa da cultura pós-moderna.. p. [. com a crescente ênfase cultural na qualidade de vida.. após apoiar-se nos dados e nas conclusões de Lipset e outros sobre os condicionantes socioeconômicos da democracia. n. principalmente no que refere aos efeitos da industrialização sobre a cultura política e a estrutura social. resultantes na sociedade pósmoderna e pós-materialista10. E acrescenta adiante: “A proposta de Inglehart é um caso paradigmático de materialismo.

e TOSO. de modo preliminar. 2000). valores e crenças políticas. 1998. as hipóteses de Inglehart para o caso brasileiro. Principalmente. respectivamente à realização do trabalho de campo e ao processamento estatístico dos dados. estudantes e professores das universidades Federal e Católica. 13 Foram realizados dois grupos com nove ou dez participantes em cada cidade.141-175. da política e das condições gerais de vida em cada cidade – além das alternativas sobre materialismo/pós-materialismo13. 12 Reis (2003) tem enfatizado as dificuldades cognitivas dos entrevistados por surveys no Brasil. em ambas as cidades. A colega Fátima Quintal coordenou a realização dos grupos focais. e assessorou a realização do trabalho de campo. O debate era moderado por um membro da equipe de pesquisa. planejamos uma pesquisa de campo comparando as características da cultura política nas cidades de Porto Alegre e Curitiba. Ana Lídia Brizola apoiou a coordenação administrativa e o trabalho de campo. Foram também realizadas entrevistas individuais com cada membro dos grupos. abril de 2004 . e participação política e social (além da discussão sobre as alternativas de Inglehart sobre pós-materialismo). fato que buscamos contornar entrevistando pessoas com pelo menos o 2° grau de escolaridade. As bolsistas Giselle Cardoso. surgiram dúvidas sobre a capacidade de generalização dos dados levantados com as alternativas de Inglehart. Revista de Ciências Humanas.35. encontrando contudo resultados muito parciais e bastante contraditórios (ECHEGARAY. Luís Cláudio Messa atuou como bolsista de ajuda técnica e na organização dos dados do survey.148 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Os casos de Curitiba e Porto Alegre11 Desde há alguns anos. com o objetivo de captar melhor as posições manifestadas durante os debates. Houve distribuição eqüitativa por sexo. n. 2001) realizando o trabalho de campo em contextos histórico-culturais claramente contrastantes e delimitados. __________________________________________________ 11 Agradecimentos aos colegas Aluir Toso. têm sido testadas. KRISCHKE. com duas faixas etárias de participantes em cada cidade – onde incluímos a discussão de outros temas. realizamos debates com grupos focais em separado. referentes ao entendimento da democracia. O doutorando Marcos Mesquita participou ativamente na sistematização e análise dos dados do survey. buscando captar os modos em que os contextos histórico-sociais influenciam a constituição de sua personalidade. Principalmente. p. Outro objetivo foi reconstruir as histórias de vida dos entrevistados. e cada grupo foi constituído em idênticas proporções por funcionários. e circulava por temas relacionados a: democracia versus autoritarismo. Florianópolis: EDUFSC. que colaboraram nas fases iniciais de elaboração deste projeto de pesquisa. um deles com pessoas de idade até 28 anos e o outro. A finalidade dessa escolha foi superar as tendências hiper-generalizantes dos métodos usuais na pesquisa empírica da cultura política (KRISCHKE. Carine Fernandes e Doris Waldow participaram de várias etapas de realização técnica e administrativa. com 29 anos ou mais. Para aferir essa compreensão por parte dos públicos de Curitiba e Porto Alegre. como as populações das duas cidades entendiam as questões formuladas por Inglehart. tendo em vista a provável diversidade de compreensão dos entrevistados acerca dessas categorias12. KRISCHKE. Nesse sentido. O Instituto Ethos de Curitiba e o Instituto Meta de Porto Alegre proporcionaram apoio logístico. que colaborou decisivamente na sua reformulação teórico-metodológica. de modo preliminar. Fabian Echegaray e Sérgio Costa. foi importante estabelecer. à colega Louise Lhullier. Em razão dessas dificuldades de generalização.

entretanto este “eu” aparecia dentro de uma perspectiva de potencialidade de ações.. Florianópolis: EDUFSC. As conclusões principais dos grupos foram assim sintetizadas pela coordenadora dessa etapa (QUINTAL. pouco fazendo menção aos aspectos sociais e políticos que viveram ou que aconteceram no país. que se apóia na homologia sugerida por Habermas (1989). Essa “forma de relação” compartilharia “critérios de validade intersubjetiva” sobre normas de ação que sejam “públicas” e “comuns” entre os participantes dos debates. em certa medida. e derivada de Kohlberg (1981). familiar e de trabalho” (QUINTAL. em parte.. Os governos municipais nas duas cidades.. no sentido atribuído por Rawls deriva de sua afirmação de que: “Podemos. fruto em grande medida das políticas públicas em vigor. grifos do autor). Quando. Krischke — 149 A atividade dos grupos possibilitou também criar um dispositivo de argumentação (ou recurso comunicativo). os mais novos de Porto Alegre. ao menos em parte..]” (RAWLS. é esperado diante das diferenças de histórias vividas e acontecimentos político-sociais que estiveram presentes em suas existências. ao longo das duas últimas décadas.141-175. simulamos estar na posição original [. p. também faziam uma referência a um “eu”.70).. Por outro lado.35. Os mais velhos de Curitiba faziam uma referência mais forte ao “eu”. seja no sistema ideológico. enquanto sistema eqüitativo de cooperação. visto que isto. 1990.80). e (b) usadas de fato pelos participantes para orientarem-se mutuamente em assuntos sócio-políticos (como seu foco público de orientação)” (Ibid. por assim dizer. os moradores incorporaram. _________________________________________________ Este procedimento foi inspirado em uma proposta de interpretação da cultura política em termos de “desenvolvimento moral-cognitivo”. entrar nessa posição [original] a qualquer momento simplesmente argumentando em favor de princípios de justiça em consonância com as restrições mencionadas acima. abril de 2004 . ocuparam e ocupam pólos opostos. p. Devemos ter em mente que estamos tentando mostrar como a idéia de sociedade. 14 Revista de Ciências Humanas.] o mesmo se aplica à representação de um papel em termos gerais. mesmo que particulares em seu meio social. pode se desenvolver [. p.24)15: Poder-se-ia dizer que tanto em uma quanto em outra cidade. Pois elas são: “(a) compreendidas como um entendimento comum. em suas vidas.. em que os participantes são convidados a situar-se e a debater eqüitativamente as normas vigentes no seu cotidiano14. em oposição a um “nós social”.. versão brasileira. 15 A introdução do relatório dessa etapa indica que “Destacam-se as diferenças entre os grupos de uma mesma cidade. 2001. até certo ponto análogo ao que Habermas denomina “situação ideal de discurso” (ou “posição original” no sentido de Rawls). n. 1993. seja na maneira de implantação de seus projetos e.Paulo J. ao longo dos anos. no que tange ao conteúdo das justificativas elaboradas. os valores de parte da ideologia dominante. p.1). p. entre a maturidade individual da cidadania e a evolução das estruturas normativas e jurídicas da sociedade – definindo a cultura política como “uma forma de relação ‘compartilhada’ apenas quando publicamente comum numa dada coletividade”. 2001. dessa forma. A caracterização dos grupos. (CHILTON.

ações essas permeadas pela exigência da qualidade. Na realidade. os conteúdos dirigem-se a ações individuais.] subsiste no interior da sociedade brasileira uma relativa pluralidade de matrizes valorativas e atitudinais relevantes no âmbito político.35. por si só. Por sua vez.16 Essa interpretação geral dos grupos. n. Entretanto. p. Poder-se-ia dizer que a rede de relações sociais existente. a interlocução. o plano da ação poderia estar mais próximo da dimensão da explicitação privada. os participantes de Porto Alegre acabam por refletir uma história continuada de um mesmo tipo de administração pública em que os canais de envolvimento e participação da população têm sido incentivados e se constituem em fortes baluartes da orientação política existente. quando necessária uma atuação das pessoas. esta deveria se fazer na direção do cumprimento do previsto legalmente.. veio confirmar inicialmente a hipótese traçada pela pesquisa. que implicam diferentes modos de viver a política e de relacionar-se com o mundo público em geral.141-175. localizadas e isoladas. na outra cidade. de formatos dos espaços públicos locais.. e mais próximo da dimensão da exposição pública. Distinções podem também ser observadas nos perfis da vida associativa e naquilo que poderia se denominar.150 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba conseqüentemente.” Ver Costa (1996). isto está coerente à acepção radical do termo cidadão.17 _________________________________________________ 16 17 Essa interpretação refere-se aos debates sobre “Maior Participação da População”. em termos do espaço considerado permitido e aceitável e que é destinado à participação das pessoas na vida pública e cotidiana. Tal diversidade tem suas origens nas profundas mudanças da sociedade brasileira nos últimos 30 anos. Revista de Ciências Humanas. na cidade de Porto Alegre. criou uma identidade de cidadão participante como aquele afeito à defesa de seus direitos. O social é compreendido na perspectiva de ações individuais corretas. dos quais veremos logo alguns detalhes. p.. incentivada e construída em Curitiba ao longo destes anos. de modo que o político e o social tenham sido construídos com um conteúdo da necessária existência do “outro social”. mas pode também ser extrapolada à de outros temas (QUINTAL. Florianópolis: EDUFSC. dentro do marco da individualidade. abril de 2004 .24).. que poderíamos chamar de subculturas políticas. do correto e do cumprimento das leis e direitos. legalmente amparadas e legitimadas pelo atendimento destas prescrições. não significa que a igualdade de participação decorra naturalmente deste quadro. Poder-se-ia dizer que focalizam no plano da garantia da materialização das leis e. Por outro lado. seja para delimitar e explicitar a diferença. somente. de que [. seja para identificar os pares das ações. isto. “Nos moradores de Curitiba. no caso de Curitiba. de forma genérica. o debate e a participação em esferas para além do individual têm sido incentivadas. visto que ele se torna possível. 2001. Em certa medida. seja para serem encontradas ou fortalecidas estratégias de ação.

no que respeita à adesão a valores supostamente materialistas e pós-materialistas. Portanto. responsável também pela versão preliminar da análise que segue (até a Tabela 5). foi constituída por pessoas de ambos os sexos.Paulo J. A intenção desse procedimento foi evitar ilações que tenderiam a enviesar os resultados. Brown e Carmine (1995) e Tranter e Western (2002). os resultados do survey20 mostram que não existe diferença significativa entre as duas cidades. no mínimo. como veremos a seguir. considerando a diversidade dos contextos históricos de socialização. p. As conclusões gerais dessa etapa de estudo com grupos focais (e das entrevistas individuais com os participantes) foram muito importantes para orientar metodologicamente a fase seguinte da pesquisa (estudo por survey da população)18. às vezes. _________________________________________________ Os dados foram coletados em agosto de 2001. decidimos manter as quatro alternativas apresentadas originalmente por Inglehart. como Davis e Davenport (1999). Em Curitiba. A exigência de 2º grau completo está relacionada ao grau de dificuldade apresentado pelo instrumento. abril de 2004 . mas propondo aos entrevistados uma única opção apenas – em lugar das duas pedidas por Inglehart. Krischke — 151 Um dos pontos de mudança cultural previstos pela pesquisa seria em termos geracionais. em Curitiba e Porto Alegre. Em primeiro lugar. 20 Esses resultados foram inicialmente organizados por Marcos Mesquita. a amostra foi constituída por 462 entrevistados e. O último trabalho conclui que: “Ao classificar o índice de quatro itens para análise de regressão. n. Os dados que se apresentam posteriormente foram sistematizados e analisados com apoio estatístico de Luiz Cláudio Messa. 18 Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC. Paralelamente. em Porto Alegre. Além disso. como também fazemos aqui. em cidades que passaram por trajetórias políticas diferentes. em ordem de prioridade. Quanto ao primeiro ponto de revisão.4). [Inglehart] deformou a variação dessa variável dependente” (p.35. tal diversidade de interpretação dessas alternativas pelos membros dos grupos focais somou-se ao levantamento de outros valores surgidos nesses debates.141-175. que tem sido interpretada por Inglehart em termos de uma “transição” entre as duas situações19. como segundo ponto de reformulação metodológica. por 463 entrevistados. testado previamente. como variável dependente com três categorias. entre entrevistados com escolaridade inferior a esse patamar. as interpretações que os grupos focais fizeram dessas alternativas foram muito diversificadas e. justificando com dados empíricos a sua eliminação. O principal objetivo foi levantar dados que permitissem a análise de possíveis clivagens geracionais na cultura política nessas duas cidades. inclusive. A população-alvo. 19 Várias críticas foram feitas a essa categoria “mista” de Inglehart. buscava-se investigar a possibilidade de haver diferenças entre ambas. nas duas cidades. em pontos de alta circulação. Esse último requisito está vinculado à importância atribuída às experiências vividas nessa faixa etária. mediante a categoria de respostas mistas (suposta incoerência entre uma prioridade materialista e outra pós-materialista). opostas entre si. possivelmente relacionadas às repercussões histórico-culturais do processo de democratização na socialização política de seus habitantes. com escolaridade mínima de 2º grau completo e que tivessem vivido na cidade onde foram entrevistados – Curitiba e Porto Alegre – dos 10 aos 17 anos de idade.

p. não houve significação estatística nas diferenças entre as faixas de idade.152 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Quando confrontados com as alternativas de Inglehart. sem ordem de prioridade. ou seja. ambos os públicos seriam majoritariamente pós-materialistas – se quiséssemos continuar usando essas categorias – embora seja necessário interpretar esses dados em outro contexto teórico. Florianópolis: EDUFSC. Quanto ao segundo ponto de revisão metodológica. abril de 2004 . foram apresentados como uma lista de escolha múltipla aos entrevistados pelo survey. entre os participantes dos grupos focais de ambas as cidades. para “a construção de uma sociedade ideal”. Esses resultados aparecem na Tabela 1: Tabela 1 Objetivos mais importantes para o Brasil por cidade. como veremos.. na população de cada cidade (Ver a Tabela 6 ao final do texto). todas diferentes das expectativas de Inglehart.35. os valores relevantes que surgiram nos debates. com respeito à adesão a valores supostamente materialistas ou pós-materialistas.. Revista de Ciências Humanas. que especificaremos ao final. Resultado semelhante obteve-se ao correlacionar esses mesmos dados do survey por faixa etária.141-175. da qual eles foram convidados a escolher as cinco alternativas que consideraram principais. Curitiba e Porto Alegre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. n. embora houvesse variações sugestivas.

Revista de Ciências Humanas. e sim a disciplina. pela organização do convívio cotidiano. “instituições dependem das pessoas”. selecionando-se conjuntamente quatro dos cinco valores como prioritários. “cultura conservadora”. Krischke — 153 Os resultados dessas escolhas são apresentados na Tabela 2. Isso reafirma o que foi observado na dinâmica dos Grupos Focais. “geração do medo”. p. hierarquia e a organização nas relações entre as pessoas foram pontos muito presentes e valorizados entre os curitibanos21.Paulo J.35. “transição gera instabilidade”. em que a manutenção da ordem institucional. “igreja. “desenvolver a pessoa para desenvolver o mundo. Florianópolis: EDUFSC. é decisiva..141-175. Todavia. “preconceito e politicagem”. “corrupção. “todas instituições perderam credibilidade”. Tabela 2 Importância dos valores a para construção de uma sociedade ideal Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. as diferenças entre as escolhas das duas populações (quinto valor selecionado acima) também são muito significativas e devemos enfatizá-las aqui. “assaltos. “ditadura = ordem”. religião”. a autoridade. insegurança”. durante os debates e nas entrevistas: “[a disciplina] é seguir a lei”. Diferentemente dos que responderam em Porto Alegre. abril de 2004 . desconfiança”. na qual se constata que quatro desses valores principais são majoritários e comuns às duas cidades. “começa na comunidade e acaba no indivíduo”. os entrevistados de Curitiba não escolheram o valor do respeito ao meio ambiente como um dos cinco mais importantes para a construção da “sociedade ideal”. ordenamento. e será considerada a seguir. do privado para o público”. o cumprimento de regras sociais. n. A convergência entre as escolhas da população das duas cidades. _________________________________________________ 21 Participantes dos grupos focais em Curitiba expressaram as falas seguintes..

vai levar um tempo mas vai mudar”. bem como a ênfase maior conferida aos valores da Igualdade e Liberdade. uma tendência à eleição de um conjunto em detrimento de outros (Ver Gráficos 1 e 2 em anexo). Para isso. a formação de um fator composto pelos valores da liberdade. liberdade e do desenvolvimento econômico aparece ancorada na disciplina como mediadora das relações sociais. “programação subterrânea que não se vê mas sabe que existe”. igualdade. em contraste com os outros valores. porém importante. entrevistados anteriormente em Porto Alegre. _________________________________________________ 22 Eis algumas manifestações dos participantes nos grupos e entrevistas em Porto Alegre: “socialismo mais próximo da cidadania. como valores do desenvolvimento sustentável. “orçamento participativo do governo por si só não funciona”. Florianópolis: EDUFSC.35. “o pessoal está pensando mais. nas escolhas feitas por cada entrevistado. “movimentos sociais conseguem mudar pela força do número”. aliás. ‘bola de neve’ do PT”. a distância indica oposição. “o meio ambiente somos nós que fazemos”. “se faz política acreditando nos outros”. igualdade e justiça. Esses dois fatores são destacados na análise de Cluster. Aqui. em Porto Alegre. A importância dada ao Desenvolvimento econômico aparece assim relativizada pela preocupação com o Meio ambiente. parece inserir-se em um “projeto coletivo” mais amplo. tal como o que alguns dos participantes dos grupos focais. Em Porto Alegre. até a própria lei”. Pudemos então observar. a valorização do Respeito ao meio ambiente. composto pelos valores do desenvolvimento econômico e do respeito ao meio ambiente. ou seja. “visão mais ampla.154 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba A valorização da justiça. com outros valores também selecionados na lista.141-175. pela sua pertinência. em cada uma das cidades. que podemos denominar de valores ético-sociais. “OP: é por aí. a partir da composição de fatores que se agrupam por ordem de proximidade. em que a questão da qualidade de vida toma peso. indicando uma tendência à eleição do conjunto de valores ali inseridos. n. Considerando-se essa diferença inicial entre os valores mais escolhidos nas duas cidades. “aprendendo a interpretar uma opinião”[motivos do falante]. Isso. que poderíamos denominar. p. saúde”. haviam tratado de enfatizar22. e a formação de um fator menos coeso. “os novos discutem mais. mas com iniciativa própria”. sugere uma representação acerca da “sociedade ideal” que contempla a inserção de novos valores ético-sociais e a ressignificação dos demais valores. que permite visualizar a relação dos valores entre si. abril de 2004 . buscamos estudar a sua configuração de conjunto. Revista de Ciências Humanas. utilizamos uma técnica estatística chamada Cluster Analysis. “projeto coletivo: satisfação muito grande”. associada aos demais valores. educação.

maior reconhecimento da importância da política entre os mais jovens. essas semelhanças relacionam-se à escolha conjunta que os entrevistados fazem dos mesmos valores prioritários. é necessário assinalar as similaridades entre as respostas dos entrevistados das duas cidades. Revista de Ciências Humanas. p. ainda. 73% dos entrevistados. e o reconhecimento dessa importância foi amplamente majoritário. dos valores prioritários em cada uma das duas cidades. observamos a formação de fatores que dão visibilidade a diferenças sutis. 66% dos entrevistados (Ver adiante a nota de rodapé 21). na Tabela 3. do que em Curitiba. Por exemplo. mas veremos depois o seu peso específico.141-175. Por outro lado. Também aqui. Um primeiro fator é composto dos valores desenvolvimento econômico e justiça. há também diferenças contrastantes entre outras respostas e temas enfatizados nas duas cidades. porém importantes para pensar e demarcar diferenças valorativas. visualiza-se a formação de dois importantes fatores que se opõem a todos os outros valores. abril de 2004 . Além disso. há ainda questões relacionadas à vida política e sua prática. ou. ao relacioná-la com outras opções dos entrevistados. também. que às vezes receberam atenção especial e diferenciada. o segundo fator é composto pelos valores liberdade. que aliam a idéia de progresso à de justiça social. Não é grande a diferença da importância da política. n. perguntou-se aos entrevistados nas duas cidades a importância que atribuíam à política. Florianópolis: EDUFSC. Partindo-se desta constatação geral. a interpretações e conotações convergentes dos mesmos valores no contexto histórico-cultural específico de sua cidade. entre as duas cidades e entre as diferentes idades. sendo a importância da política relativamente mais valorizada em Porto Alegre. a qual diminui. nas preferências dos entrevistados. nas duas cidades. na identidade dos habitantes de cada cidade.35.Paulo J. suas experiências práticas nos grupos de idade em cada cidade e também em conjunto nas duas cidades serão tratadas a seguir. que aliam valores ético-sociais à “manutenção da ordem”. Em parte. A formação destes fatores confirma indicações de diferenças na representação da sociedade ideal entre os habitantes das duas cidades — tal como fora sugerido pelos debates nos grupos focais. da existência de diferentes matrizes culturais. à medida que a faixa etária aumenta. E observa-se. ao menos. Krischke — 155 Em Curitiba. Essas semelhanças e diferenças entre as opções dos entrevistados. igualdade e disciplina.

não havendo diferença significativa entre as respostas das duas populações. nos entrevistados com até 28 anos de idade. A adesão a esse índice foi alta em ambas as cidades. Revista de Ciências Humanas. correlacionando-se esses dados com a faixa etária. abril de 2004 .. A tolerância é um importante indicador de democratização cultural.156 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Tabela 3 Valorização da política por faixa etária Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. p. Contudo. Florianópolis: EDUFSC. em conjunto nas duas cidades (Tabela 4).35.. foi formulada uma questão na qual se pedia que o entrevistado indicasse a frase que considerava mais próxima às suas concepções. caracterizando uma disposição para conviver com o direito à diferença. n. estatisticamente significativa.141-175. observa-se maior tolerância política. Para verificar o grau de tolerância política dos entrevistados.

como no caso da defesa do Revista de Ciências Humanas.35. Curitiba e Porto Alegre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais.. Krischke — 157 Tabela 4 Tolerância (atitude em relação aos que pensam diferente) por faixa etária. p..141-175. abril de 2004 . Porém. quando a atividade política constitui-se considerando dimensões culturais e simbólicas. Florianópolis: EDUFSC.Paulo J. n. Já é conhecida de pesquisas anteriores a tendência à falta de interesse em geral da população brasileira pela política em seu formato institucional.

Revista de Ciências Humanas.35. em Curitiba. dos quais daremos alguns exemplos. A seguir. 0. para os que declaram Nada Importante à mesma questão. na lista inicial de valores. ao testar se a associação da Importância da Política com cada cidade era a mesma. pelos entrevistados de idade intermediária. analisados por cidade. ambas se diferenciam da faixa dos mais idosos. seja entre as populações das duas cidades. Florianópolis: EDUFSC. alcançam maior significado em Porto Alegre (respectivamente. em cada cidade. que não chegou a alcançar prioridade entre as outras faixas de idade.3 e 0.132-2. havendo associação positiva quando o resultado obtido for igual ou maior do que 1. Embora as diferenças entre as duas faixas de idade mais jovens sejam pequenas. nas duas cidades. estabelecendo matrizes das diferenças gerais de opção entre as duas cidades. No exemplo acima. Esses entrevistados com mais de 45 anos. a análise em Porto Alegre resultou em 2. O teste qui-quadrado verifica a associação entre duas variáveis. 29 aos 44 anos (0.006-3. 0. apresentamos algumas correlações entre essas respostas dos entrevistados. Com referência à lista inicial de valores correlacionada à faixa de idade. ao nível de significação de 5% (no caso. para debater o seu significado na cultura política das duas cidades 23. abril de 2004 . _________________________________________________ 23 Para não sobrecarregar o texto com tabelas.022 (menor que os 0. salientamos apenas que os resultados apresentados a seguir. por idade dos entrevistados em cada cidade. enfatizam mais o valor da justiça e. Mencionamos anteriormente que as escolhas referentes aos denominados materialismo e pós-materialismo não permitem encontrar diferenças com significação estatística. Essa análise estatística mais fina. os apoios à liberdade e igualdade. constatou-se um p-value de 0. A análise de resíduos ajustados verifica a magnitude da associação existente entre as variáveis.5.1). enquanto. n.158 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba meio ambiente ou demais valores prioritários.3 para as respostas que declararam a política Muito Importante.8).0 e 0. surpreendentemente.005-2. que resultam da aplicação dos testes estatísticos qui-quadrado e resíduos ajustados.023-2.3). por meio da análise de Cluster. os entrevistados tendem a declarar participação mais efetiva na política. os da preservação da natureza e meio ambiente (respectivamente.141-175.05). a margem de erro desta pesquisa). Por exemplo. indica que devemos matizar as configurações iniciais que fizemos acima. resultou em 2. O valor do desenvolvimento econômico é principalmente enfatizado. p. nas duas cidades. cuja omissão na escolha desses valores alcança significado estatístico.0222. nas duas cidades. Até mesmo os jovens até 28 anos de ambas as cidades enfatizam também o valor da competência. Isto significa que a importância da política é avaliada diferentemente.96.

Esse pode ser um indicador importante.. implica no suposto apriorístico. as hipóteses de Inglehart. Quando indagados sobre suas alternativas desejáveis de inserção social no tempo livre. Krischke — 159 seja entre faixas etárias diversas em cada cidade. _________________________________________________ 24 Ver críticas. Tabela 5 Inserção em grupo ou atividade no tempo livre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. essa preferência não foi significativa..35. nessa direção. incluindo tanto Curitiba como Porto Alegre. numa lista de escolha múltipla.. No entanto. de Kaase et al.Paulo J. o que contradiz. como veremos.141-175. p.. encontrada pelo Eurobarômetro. (1999) de que “[Nossos] resultados apóiam o argumento de que grande parte da mudança dos valores. Entre os mais idosos. é um artifício de mensuração” (Introduction). Revista de Ciências Humanas.] Transpor para um nível agregado de análise as respostas do survey. a partir da clivagem geracional. tanto de insatisfação com o presente como de motivação para inovar no futuro. do materialismo para o pósmaterialismo. desde o início dos anos 80. Florianópolis: EDUFSC. Essa prioridade do lazer e das relações afetivas encontra correspondência com a faixa etária dos entrevistados nas duas cidades.0). encontramos elementos que permitem indagar acerca da eventual formação de uma subcultura etária em âmbito regional. ou ao menos questiona radicalmente24. de que o índice de quatro itens reflete adequadamente um sistema (não comprovado) de crenças duradouras e orientações valorativas individuais” (Introduction). e Davis e Davenport (1999): afirmam que “[. os entrevistados de ambas as cidades enfatizaram principalmente o lazer e as relações afetivas (Tabela 5). abril de 2004 . n. sendo que as respostas dos dois grupos de idade abaixo de 45 anos alcançaram a mesma magnitude (2.

de todas as idades e nas duas cidades. prazer (Curitiba: 0. não selecionam temor a Deus na lista inicial de valores. Destaca-se também a preferência dos mais jovens pela defesa do meio ambiente. Já a opção no tempo livre por atividades assistenciais e religiosas é priorizada por aqueles que escolheram. Esse conjunto de dados permite perceber tendências emergentes nos grupos mais jovens. nessa cidade. com a importância da democracia.0). Outra opção significativa no uso do tempo livre pelos mais jovens. Florianópolis: EDUFSC. Mas é possível sugerir que essas tendências inovadoras. É certo que essas tendências nem sempre assumem o perfil nítido de um “projeto coletivo” – como denominaram alguns entrevistados nos grupos focais de Porto Alegre o apoio às administrações do PT25.001-3.2) e meio ambiente (POA: 0. que pode inclusive alcançar (se não estiver já alcançando) uma expressão política e eleitoral. foi a procura de outro emprego (0. 0. como prioridade (0. o temor a Deus ou a religiosidade (principalmente em Curitiba.006. em ambas as cidades. abril de 2004 . Esses valores estão entre os preferidos pelos mais jovens (até 28 anos) em ambas as cidades (0. acerca da importância da política (principalmente em Porto Alegre: 0.160 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Essa prioridade no uso do tempo livre correlaciona-se positivamente com as escolhas sobre valores da lista inicial.35. em Curitiba.8).3).20-2.7). de ambas as cidades. em Curitiba.09-3. Significativamente.29.002-3. POA: 0. tais como: alegria.141-175.008-2. Essa última opção pelo valor da liberdade está também relacionada. n. em correspondência com a escolha desse mesmo valor na lista inicial (Curitiba: 0.021-2. Revista de Ciências Humanas. aqueles que optam por atividades políticas. também se correlaciona positivamente com a escolha da liberdade na lista inicial de valores (0.002-3.1). Dias (2003) realiza pesquisa sobre esse tema. oferecem suporte motivacional para uma subcultura em formação. em Porto Alegre.001-3.2.2. que unem a insatisfação com o presente à busca por soluções politicamente inovadoras. e os que escolhem lazer e relações afetivas. p. a opção de tempo livre em atividades políticas correlaciona-se positivamente com a ênfase que já vimos acima.2). mesmo nessa faixa de idade.026-2. embora nem sempre sejam essas as escolhas de valores majoritárias. no uso do tempo livre. Para o conjunto dos entrevistados.3). A seleção de atividades políticas como opção de tempo livre. entre seus valores da lista inicial. _________________________________________________ 25 Márcia R. auto-realização (Porto Alegre: 0.3.7).6).

tolerância e autorealização. Esses últimos valores. a favor da justiça. abril de 2004 . que recebem o apoio principal da maior parte da população. pode unir-se a atitudes de respeito ao meio ambiente. a partir das novas gerações. conjuntamente nas duas cidades. Revista de Ciências Humanas. dando-lhes outro contexto e significação. Florianópolis: EDUFSC.35. mais típicos dos jovens –.. n. do desenvolvimento e da igualdade. p. a seguir.. relaciona as respostas a essas alternativas por faixa etária. Tal inovação retoma também as categorias de Inglehart sobre materialismo e pós-materialismo. mostrando marcantes contrastes com os supostos de Inglehart. Tabela 6 Objetivos mais importantes para o Brasil por faixa etária. passam a receber uma nova conotação emergente. Krischke — 161 É assim que o interesse pela política. abrigando valores menos salientes – como o da alegria e outros.141-175. junto aos valores majoritários entre o conjunto dos entrevistados das duas cidades. A Tabela 6. Curitiba e Porto Alegre Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. que supera entre os mais jovens a tradicional rejeição das instituições por parte da população brasileira.Paulo J. liberdade.

entre 29 e 44 anos. houve também uma correlação significativa. Haller e Marshall. na lista inicial de valores.162 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Assim. entre a escolha do valor desenvolvimento econômico na lista inicial e a ênfase na maior participação da população como objetivo principal do país26. e dão maior apoio à manutenção da ordem social e da autoridade. p. semelhante correlação positiva entre respostas que contradizem os supostos centrais de Inglehart sobre valores.35. Há. para todos os grupos de idades. e especialmente Clarke (2000). mas foi. nas duas cidades. com outras escolhas e respostas que eles expressaram a várias questões diferentes da pesquisa. as diferenças que encontramos na Tabela 6 são pequenas e carecem de significaçào estatística. n. em Curitiba). Essa correlação positiva entre ambas as escolhas ocorreu em todas as faixas etárias nas duas cidades.141-175. nas duas cidades. principalmente significativa no grupo de idade dos 29 aos 44 anos. quando correlacionamos essas opções dos entrevistados sobre os objetivos para o país. citados. outros resultados significativos. porém. muitos dos que optaram pela estabilidade econômica e combate à inflação também escolheram o desenvolvimento econômico como uma das cinco prioridades. abril de 2004 . em outros estudos. mas resultou especialmente significativa no grupo de idade intermediária. Em Curitiba. como foi mencionado acima. Examinando essa correlação separadamente em cada cidade. relacionando as diferentes faixas etárias e os posicionamentos que os entrevistados assumem. na qual inclusive as preferências dos maiores de 45 anos estão mais próximas às dos menores de 28. sobre os objetivos que consideram mais importantes para o país. Os mais jovens (até 28 anos) e os de idade intermediária (29 a 44 anos) mostram pequena variação entre suas preferências. Por exemplo. Já vimos que a ênfase no desenvolvimento econômico esteve entre os cinco valores principais escolhidos por ambas as amostras. com a visível exceção do apoio à terceira alternativa (“pessoas mais importantes que dinheiro”). de novo. Florianópolis: EDUFSC. em Curitiba e Porto Alegre. constatamos que ela também ocorreu em todas as faixas etárias (com a única exceção dos maiores de 45 anos. Nos dados sobre a eleição dos objetivos principais para o país. Esses últimos priorizam menos a participação política. por faixa etária. Contudo. _________________________________________________ 26 Vários pesquisadores notaram. observamos uma diferenciação entre os entrevistados mais jovens e os maiores de 45 anos. Revista de Ciências Humanas.

entre os setores mais politizados dessa cidade. entre todas as faixas de idade das duas cidade. Algo similar observa-se com outro exemplo diferente. seja na versão mais politizada de Porto Alegre.141-175. pelas análises de cluster. abril de 2004 . de matrizes ou conceptualizações diferenciadas do que seja o desenvolvimento. As diferenças de correlação dessa resposta com as eleições dos objetivos para o país. Além disso. por grupos de idade.3).35. embora com conotações variadas segundo a faixa etária. é o grupo de idade intermediário. Krischke — 163 A escolha do valor desenvolvimento econômico entre os cinco principais da lista inicial também alcançou uma correlação positiva. nas duas cidades. embora todos busquem o desenvolvimento. A consideração desse caso é útil. Assim. como foi sugerido acima. p. nos seus anos formativos. indica bem mais do que a sua importância central para todos os entrevistados. A difusão dessa escolha do valor do desenvolvimento econômico. até os 28 anos.Paulo J. De fato. que é o caso do meio ambiente.3). Isso sugere a prioridade do desenvolvimento. em Porto Alegre e Curitiba (e outras variações.023-2. o que parece mais coeso e consistente na busca desse objetivo (0. dos 29 aos 44 anos. Florianópolis: EDUFSC. que orientam diversamente as opções da população. essas variantes interpretativas. assim. também declararam preferência pela estabilidade econômica como objetivo principal para o país. que enfatizaram a importância da política e a tolerância (0. como no caso de Curitiba. como o caminho para o desenvolvimento. Talvez seja essa geração a que foi mais exposta. quanto à adoção dos valores principais. ou seja. nas conotações com que se relacionam os valores considerados principais às atividades e orientações políticas. nas duas cidades. com um significado específico. A democratização do país passou a ser vista. à influência da reativação sindical e ao associativismo do final dos anos 1970 e durante a década de 80.026-2. Revista de Ciências Humanas. que escolheram o valor do trabalho entre os valores prioritários da lista inicial. o que especifica melhor o que foi constatado na análise de Cluster (Gráfico 1 do anexo). presumem a existência de suportes doutrinários e ideológicos contrastantes. por tratar-se de valor selecionado como prioritário apenas em Porto Alegre por todas as faixas de idade. com as respostas dos entrevistados em Porto Alegre a outras questões. confirmam a existência. seja nas demandas redistributivas mais gerais. em cada cidade e segundo a faixa etária. n. os jovens de Porto Alegre. obtidas frente a outros temas da pesquisa).

nas duas cidades. Quanto à alternativa de opção do tempo livre especificamente na defesa do meio ambiente. sugerem também. as políticas de conservacionismo às do preservacionismo ou. de todas as idades. constatadas pela análise de Cluster. nas correlações entre respostas sobre esses temas. na análise por faixa etária. as tendências do “eco-capitalismo” às do “eco-socialismo” etc.164 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba como um dos cinco valores principais mais escolhidos nessa cidade. O que se evidencia agora é a existência de uma diversidade de conotação e contextualização doutrinária e ideológica. sustentados por outros partidos da chamada “nova política” nesses sistemas multipartidários. ainda. na literatura especializada. embora essa seja apenas uma entre outras interpretações. por outro lado. investida nos valores meio ambiente e preservação da natureza. o que não acontece nas demais faixas de idade. Contudo. Tranter e Western (2002) enfatizam a influência dos partidos e movimentos “Verdes” sobre o voto da juventude: “[. e entre os diferentes grupos de idade.. na lista inicial de valores. como um dos principais na lista inicial de valores (0. no uso desejável do tempo livre. todos os que fizeram essa opção. (que não podemos abordar neste espaço) sobre essa diversificação ideológica – opondo. O texto esclarece ainda que as influências “Verdes” relacionam-se também com os valores ético-sociais participativos. Existe um debate amplo. como vimos no caso do valor desenvolvimento econômico. p. É claro que esses dados não são necessariamente contraditórios.141-175. que expressa uma adesão potencial a atividades inovadoras.27 _________________________________________________ 27 Ver a tese de doutoramento de Agripa Faria Alexandre (2003) sobre essas e outras diversificações do tema na prática dos grupos e movimentos ecológicos e nas próprias políticas governamentais. entre as duas cidades. Mas essas diferenças de significação. No entanto.. a faixa dos mais jovens das duas cidades correlaciona positivamente essas opções com a escolha do valor meio ambiente. correlacionam-na positivamente com a escolha do valor preservação da natureza. notamos o resultado que mais acima consideramos surpreendente. por um lado. do grupo de mais idosos (acima de 45 anos) declarar preferência significativa tanto pelo valor preservação da natureza como pelo valor meio ambiente. a existência de algo mais do que matrizes culturais diferentes em cada cidade – as configurações diferenciadas dos valores.006-3.35.] Concluímos que as estruturas institucionais e os partidos políticos deveriam receber muito maior atenção nos relatos sobre a mudança dos valores materialistas em âmbito internacional” (Introduction). n. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. em conjunto. nas duas cidades – em separado ou em conjunto –. por exemplo.0). abril de 2004 . pelo menos com índice semelhante de significação. há quem interprete defesa do meio ambiente e preservação da natureza como sinônimos.

nas diversas faixas etárias das duas cidades. Revista de Ciências Humanas. considere-se Rahn e Transue (1998).Paulo J. especialmente considerando-se as trajetórias diferentes de incorporação desses temas na agenda das administrações municipais. _________________________________________________ 28 Os procedimentos e os resultados de pesquisa de Inglehart têm sido objeto de severas restrições na bibliografia especializada. p. começamos a perceber que a diferença entre a cultura política em Porto Alegre e Curitiba pouco têm a ver com as hipóteses de Inglehart. contendo até inversões de suas expectativas. Seja qual for o resultado dos debates sobre o significado desses valores. que não encontra respaldo nos fatos. os grupos focais denunciaram a utilização apenas “publicitária” da questão ambiental pelo governo. n.35. a questão era vista como integrada à resolução dos demais problemas urbanos e dela decorrente. que serão certamente diferenciados em cada cidade e faixa etária. porque são prisioneiras não apenas de um artefato metodológico residual (as respostas mistas ou contraditórias. abril de 2004 . Degraaf e Evans (1996). começam a desvelar as aporias de hiper-simplificação e hiper-generalização da abordagem desse autor. encontradas por Inglehart entre a juventude. é certo que tais diferenças têm um impacto na orientação das políticas públicas e na atuação dos movimentos sociais. sobretudo de uma teleologia determinista do “progresso” socioeconômico e material. Essas inversões de expectativa das hipóteses de Inglehart. antes. No caso de Curitiba. uma maior continuidade com os desenvolvimentos anteriores”. ou ainda Cliquet (1991) que “disputa a pretensão de completa novidade das tendências descritas. interpretadas como “de transição”. Ver também Echegaray e Armento (2000) sobre o caso da Argentina. mas. na solução dos problemas ecológicos (e outros tantos). Florianópolis: EDUFSC. a partir dos resultados desta pesquisa. Dessa forma. na expansão do seu debate público e nas atividades associativas correspondentes à orientação dos movimentos ecológicos em cada cidade. É portanto muito importante salientar a sua correlação positiva com a ênfase no emprego eventual do tempo livre. vendo. Além das mencionadas anteriormente. Krischke — 165 Essa diversidade doutrinária e prática merece ser mais bem analisada. estritamente consideradas.141-175. que contestam as relações diretas entre pós-materialismo e civismo. em Porto Alegre. além de outros pontos apontados pela crítica)28. por exemplo. Stolle e Hooghe (2002) reafirmam todas essas críticas. pois essas escolhas e outras opções e alternativas políticas que estamos considerando revelam a disposição dos entrevistados por práticas inovadoras e um potencial de engajamento coletivo. que encontram “pouca diferença entre “pós-materialismo/materialismo” e o pólo conservador/liberal da personalidade”. que afetam todos. enquanto.

industrialização. que atua sobre as tradições culturais diferentes das duas cidades. liberdade. como seu quinto valor prioritário. nos planos ontogenétrico e filogenético” (HABERMAS. 1997). p. escolaridade etc. o segundo é que “há padrões homólogos de desenvolvimento cognitivo. 1979. que afetam significativamente as posições de jovens e adultos. embora os primeiros apontem a disciplina e os segundos o respeito ao meio ambiente. respectivamente.73). Revista de Ciências Humanas.166 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Realmente. ao lado da dimensão normativa (o desenvolvimento jurídico-moral) e da dimensão subjetiva (o desenvolvimento de identidades e estruturas de personalidade mais complexas). Todavia. incluindo-se a dimensão cognitiva (o desenvolvimento de “visões de mundo”). ocupação. Considerações finais Sintetizando o que vimos acima. 205). a sua teoria do desenvolvimento moral-cognitivo é multidimensional (HABERMAS. certamente. por sua vez. dentro da abordagem convencional (KRISCHKE. priorizando alternativas que Inglehart consideraria pós-materialistas. pós-convencionais. abril de 2004 . favorecidas por uma orientação cultural inovadora.99. p. Esses fatores relacionam-se ao processo de democratização do país. dados geralmente considerados cruciais para sustentar as mudanças de modernização da cultura política.141-175. bem como na diversidade das gestões administrativas e da liderança ideológico-partidária. desenvolvimento e igualdade. Florianópolis: EDUFSC.). já que as instituições democráticas “colocam sob controle o desenvolvimento dos sistemas sociais. em contraste _________________________________________________ 29 O processo de democratização no plano cotidiano pode ser interpretado. a teoria habermasiana da mudança social repousa em dois postulados: o primeiro é que “o aprendizado é o mecanismo evolutivo básico da cultura”. tanto em Curitiba como em Porto Alegre. também reconhecemos que há outros fatores do contexto histórico-cultural. 1979. Portanto. como quer Bohman (1990) do ponto de vista de Habermas: Bohman sugere que a definição habermasiana da “democracia como institucionalização de discursos” supõe que “os discursos são institucionalizados na medida em que é criado um contexto social que permita acordos coletivos. não há diferença significativa entre os indicadores socioeconômicos e demográficos de Porto Alegre e Curitiba (índices de renda. 1989). criam sejam quais forem as estruturas partilhadas por esses atores” (HABERMAS. os quais. podem relacionar-se ao complexo de mudanças de caráter prático e simbólico que vimos acima. Por outro lado. observamos que curitibanos e porto-alegrenses convergem suas preferências de valores ao redor da justiça.35. que emerge entre as novas gerações das duas cidades. através de uma institucionalização do discurso efetivamente política”. as escolhas. No caso de Curitiba. A democracia é vista assim como uma “hipótese prática”. em cada município29. Ademais. n. p. há uma ênfase no cidadão como portador de direitos e obrigações. principalmente dos menores de 45 anos.

a partir de cada contexto municipal. mas de vislumbrar uma redefinição sustentável do desenvolvimento socioeconômico e político-cultural. por meio do apoio dos cidadãos à convergência entre as suas visões da justiça.35. com que essas matrizes distintas se manifestam nas faixas de idade. nos depoimentos de entrevistados dos grupos focais (notas 19 e 20) e na interpretação de Fátima Quintal (notas 13 e 14).Paulo J. a democratização cultural e institucional dessa região do país. entre a cultura e as estruturas/instituições. tais peculiaridades não apenas persistem. Na verdade. a pesquisa revela que é manifestamente inadequada à abordagem da mudança cultural nos termos da modernização. Florianópolis: EDUFSC. que postula um único caminho e desenlace para os processos de mudança cultural. Considerandose o caráter prospectivo de mudança que essas escolhas sugerem. abril de 2004 . p. embora haja exceções que são também importantes e devem ser mais bem analisadas. n. Certamente. mas se especificam ainda mais. sem considerar a participação ativa da cidadania. Essa forma de pensamento. que enfatizam seja o acatamento individual da lei seja a sua fundamentação e seu aperfeiçoamento argumentativo na participação coletiva30. principalmente entre as faixas etárias até os 44 anos de idade. Mesmo quando certos valores são escolhidos preferencialmente pelos mais jovens. Em conclusão. nos seus efeitos e nas suas causas. valores prioritários do conjunto das duas cidades correlacionam-se positivamente com as atividades eventuais de tempo livre e com outras importantes opções e experiências práticas da vida política. Essas ênfases contrastantes podem ser vistas como duas faces complementares do exercício da cidadania. igualdade e liberdade. podemos indagar sobre seus efeitos e relações com um pós-materialismo emergente. Revista de Ciências Humanas. A realização do survey com amostras das duas populações também permitiu perceber as nuanças às vezes sutis. linear e determinista. mas construindo e aprofundando. não faz mais que renunciar a qualquer tentativa de explicação histórica para as diferenças e convergências entre subculturas regionais. não se trata de esperar um efeito mecânico de causas materiais já existentes. tendencialmente reconhecido em Porto Alegre como participante de um projeto coletivo. matizadas e diferenciadas. principalmente entre os menores de 45 anos. como se essa mudança decorresse apenas do progresso tecnológico e socioeconômico ou de um equilíbrio multicausal adaptativo. em conjunto. naquilo de relevante que têm a contribuir. Krischke — 167 com a ênfase no “outro social”. durante os processos históricos de democratização da esfera pública.141-175. _________________________________________________ 30 Como vimos.

168 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba

O antigo viés teleológico das abordagens da modernização, de tratar a diferença como “atraso ou demora cultural” não encontra respaldo na realidade31, pois o que se observa nos dados desta pesquisa é o fortalecimento, com ênfases diversas, de um fenômeno inovador, centrado no pluralismo doutrinário e ideológico, o qual passa a convergir e a fundamentar a prática da democracia em âmbito municipal e regional. A pesquisa constatou um índice majoritário de confiança na política e de tolerância com a diferença, na população das duas cidades estudadas. Essa tendência é promissora, porque é relacionada a uma nova orientação cultural, emergente entre os setores mais jovens da sociedade, enfatizando a igualdade, a reciprocidade e demais atributos da democracia, o que possibilita a sua crescente difusão em âmbito regional. Nesse contexto, os mais diversos significados da democracia podem coexistir, ajustados à diversidade de orientações ideológicas da cidadania. Esses cidadãos assumem-se como livres e iguais, não obstante os constrangimentos estruturais e institucionais em que lhes cabe viver, construindo a sua liberdade e igualdade, junto aos demais valores da esfera pública. É certo que a complexidade do questionário utilizado pelo survey limita a generalização dos resultados que colhemos ao universo dos entrevistados que alcançaram o segundo grau de escolaridade. Contudo, outra pesquisa de âmbito nacional, sobre a juventude brasileira (KRISCHKE, 2004), sugere que escolaridade, renda, ocupação e outros indicadores usualmente associados à modernização, não mais podem ser considerados determinantes da adesão à democracia. Outros fatores aparecem com mais peso nas opções pela democracia, dentre os quais o estímulo recebido do contexto histórico-cultural e dos desafios e incentivos à participação política. Portanto, à luz desta pesquisa sobre Porto Alegre e Curitiba, a democratização da cultura política passa a ser vista como um processo necessário de revisão das tradições culturais da política na própria vida e no comportamento democrático dos cidadãos. Essas mudanças são reforçadas pelas importantes características, mais (ou menos) democratizantes, das gestões político-partidárias encarregadas de sua implementação.
_________________________________________________
31

Welch (1992, p.31-32) na sua importante avaliação teórica das diferentes abordagens ao estudo da cultura política, denuncia a falácia desse argumento, por derivar de uma teleologia da modernização que nada explica e é “cientificamente inútil”.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.141-175, abril de 2004

Paulo J. Krischke — 169

Tais mudanças resultam, também e talvez principalmente, das formas e dos conteúdos legados pela tradição política, na expansão e no fortalecimento do exercício local da democracia32. Isso é o que encontramos em curso de realização, nesta pesquisa sobre as mudanças da cultura política em Curitiba e Porto Alegre. Referências bibliográficas ANDRADE, Regis. The Economics of underdevelopment, the state and politics in ECLA”s Doctrine. Occasional Papers, 29, University of Glasgow, 1979. ALEXANDRE, Agripa Faria. Ambientalismo político, seletivo e diferencial no Brasil. 2003. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. BERMEO, Nancy. Democracy and the lessons of dictatorship. Comparative Politics, 24, Abril: 273-91, 1992. BOHMAN, James. Communication, ideology and democratic theory. American Political Science Review, 84:93-109, 1990. BROWN, Robert e CARMINES, Edward. Materialists, Postmaterialists, and the criteria for political choice in U.S. Presidential Elections. Journal of Politics, 57: 483-494, 1995. CHILTON, Stephen. Grounding political development. Boulder: Lynne Rienner, 1990. CLARK, Terry Nichols e INGLEHART, Ronald. The new political culture. Changing dynamics of support for the welfare state and other policies in post-industrial societies. ISA Congress. Madrid, July, (41p), 1990.
_________________________________________________
32

Habermas (1979) notou as relações com a tradição que permitem a consolidação da mudança cultural, quando se entende essa mudança “[...] como processos de aprendizagem, através dos quais as estruturas de racionalidade já latentes podem ser traduzidas em prática social, de modo a encontrar finalmente uma corporificação institucional, colocando-se a ulterior tarefa de identificar o potencial de racionalização das tradições” (p.39 da tradução brasileira).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.141-175, abril de 2004

170 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba

CLARKE, Harold. Refutations affirmed: conversations concerning the euro-barometer values battery. Political Research Quarterly, September, 2000. CLIQUET, R. L. The second demographic transition: fact or fiction?, Strasbourg: Council of Europe, 1991. COSTA, Sergio. Contextos de construção do espaço público no Brasil. Novos Estudos CEBRAP, 47, 1997. DAVIS, Darren W. e DAVENPORT, Christian. assessing the validity of the postmaterialism index. American Political Science Review, 93, September: 905-920, 1999 DEGRAAF, N. D. e EVANS, G. Why are the young more postmaterialist? A cross-national analysis of individual and contextual influence on post-material values. Comparative Political Studies, 28: 608-653, 1996. DIAS, Marcia Ribeiro. Voto e participação política: o impacto do orçamento participativo sobre o comportamento eleitoral em Porto Alegre. CNPq – Projeto de Produtividade em Pesquisa, 2003. ECHEGARAY, Fabián; KRISCHKE, Paulo; TOSO, Aluir. Clivagens geracionais nos valores sócio-políticos: o caso do Brasil. Revista de Ciências Humanas, 16 (23): 35-46, 1998. ECHEGARAY, Fabián e ARMENTO, Michel. Quão Ecologista devo ser se eu for um Pós-materialista? In: KRISCHKE, Paulo (Org.). Ecologia, Juventude e Cultura Política. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2000. ESCOBAR, Arturo. Reflections on “development”. Grassroots approaches and alternative politics in the third world. Futures, June: 411-436, 1992. ESTEVES, Julio. A Autorefutação do determinismo. Centro de Ética e Filosofia da mente, Colóquio de Pesquisa Filosófica, UFRJ, 10 de fevereiro, 1999. GEDDES, Barbara. The politics of economic liberalization. Latin American Research Review, 30(2): 195-215, 1995.
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.141-175, abril de 2004

Paulo J. Krischke — 171

GIBBINS, John R. (Org.). Contemporary political culture. Politics in a Postmodern Age. Londres: Sage, 1989. HABERMAS, Jürgen. Communication and the evolution of society. Boston: Beacon Press, 1979. HABERMAS, Jürgen. Teoría de la acción comunicativa. Madrid: Taurus, 1987. HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. HALLER, Max. Theory and method in the comparative study of values: critique and alternative to Inglehart. European Sociological Review, 139-18158, 2002. INGLEHART, Ronald. Modernization and postmodernization. Cultural, Economic and Political Change in 43 Societies, New Jersey: Princeton University Press, 1997. KAASE, Max; CLARKE, Harold; KORNBERG, Allan; McINTYRE, Chris; KAASE, Petra. The effect of Economic priorities on the measurement of value change: new experimental evidence. American Political Science Review, September, 1999. KOHLBERG, Lawrence. Essays on moral development. Berkeley: University of California Press, 1981. KRISCHKE, Paulo J. Escolha racional e Cultura Política: interfaces nos estudos da democratização na América Latina, BIB. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica, 43: 103-126, 1997. KRISCHKE, Paulo J. Juventude e socialização no Sul do Brasil. In: KRISCHKE, Paulo (Org.). Ecologia, juventude e Cultura Política. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2000. KRISCHKE, Paulo J. Aprender a democracia na América Latina. Notas sobre o Aprendizado Político e as Teorias da Democratização. In: LEIS, Hector; SCHERER-WARREN, Ilse; COSTA, Sergio (Orgs.). Modernidade crítica e modernidade acrítica. Florianópolis: Cidade Futura, 2001.
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.141-175, abril de 2004

New York: Doubleday. LIPSET.172 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba KRISCHKE. 1996. Perfil da juventude brasileira: questões de cultura política e participação democrática. Revista InterThesis n. 1993. PRZEWORSKI. n. 19 (3): 545-565. Boston: Little. n. Congresso da APSA. Fátima. 2. Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. S. The decline of social capital in American youth.228. Repositioning class: social inequality in industrial societies. RAWLS. da PUCRS. Ciência Política e “escolha racional”. Relatório Técnico ao CNPq. Political liberalism. 2002. REIS. Revista de Ciências Humanas. Adam. 2003. UFSC. e TRANSUE. J. W. KRISCHKE. Sociologia Política. Kellogg Working Papers. 1997. 14 (4). Gerardo. Significados atribuídos às frases da bateria de Inglehart.. LINDENBERG. G. Aprendendo a democracia na América Latina.141-175. LIMONGI. Washington DC. RAHN. Seymour Martin. 1951. London: Sage. F. 1990. MARSHALL. Brown and Co. p. 1946-1988. Journal of Institutional and Theoretical Economics. 2004. QUINTAL. 1966. John. 1960. PARSONS. 1998. Paulo J. Political man. Porto Alegre: Ed. The social system. Florianópolis: EDUFSC. abril de 2004 . JOHNSON. Political Psychology. New York: Columbia University Press. 1993. Revolutionary change. Disaggregating political regime: conceptual issues in the study of democratization. Social trust and value chamge. Fernando. UFSC.1: 37-55. Wanderley. Democracy and development in South America. Paulo J. Talcott. Homo socio-oeconomicus: the emergence of a general model of man in the social sciences. MUNCK. New York: Free Press. 2001. Política e Sociedade Revista de Sociologia Política.35. Chalmers.

1993. ECPR Joint Sessions.141-175. Turin. Bruce e WESTERN.35. Canberra: October.Paulo J. Karen L. The concept of Political Culture. D. WELCH. 42(3):315-35. World Politics. Preparing for the Learning School of Democracy. Martin”s Press. Revista de Ciências Humanas. Krischke — 173 REMMER. STOLLE. Florianópolis: EDUFSC. Mark. Stephen. The effects of youth and adolescent involvement on value patterns and participation in adult life. TRANTER. 1990. n. M. 2002. Postmaterialism and age: an Australian anomaly? Conference of the Australasian Political Studies Association. p. 22-27 March. abril de 2004 . Democracy and economic crisis. e HOOGHE. 2002. New York: St.

Florianópolis: EDUFSC.. p.Porto Alegre C A S E 0 5 10 15 20 25 Label Num +————+————+————+————+————+ OBEDIENC 13 -+-+ TRADICAO 18 -+ I CONFORTO 2 —+-+ PRAZER 4 —+ +-+ TEMORDEU 12 ——+ I RELIGIOS 5 ———+——+ ALEGRIA 7 ———+ I AUTOREAL 10 ——————+—————+ FRATERNI 11 ——————+ I PRESENAT 15 ——————+ I DISCIPLI 8 ——————+-+ +———————————+ COMPETEN 9 ——————+ +-+ I I DEDICTRA 3 ———————+ +-+ I I DESENECO 14 ————————+ +——+ I RESPMEIA 1 —————————+ I JUSTICA 16 ———————+-+ I IGUALDAD 17 ———————+ +————————————+ LIBERDAD 6 ————————+ Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais.141-175.. abril de 2004 .35. n.174 — Cultura política: convergências e diferenças em Porto Alegre e Curitiba Anexo Gráfico 1 Cluster analysis . Revista de Ciências Humanas.

(Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas.141-175. abril de 2004 . p. n...35.Curitiba C A S E 0 5 10 15 20 25 Label Num +————+————+————+————+————+ OBEDIENC 13 -+-+ TRADICAO 18 -+ +-+ CONFORTO 2 —+ +——+ PRAZER 4 ——+ +—+ ALEGRIA 7 —————+ I AUTOREAL 10 ———————+—————+ PRESENAT 15 ———————+ I DEDICTRA 3 —————————+ +——————————+ COMPETEN 9 —————————+-+ I I RESPMEIA 1 —————————+ I I I FRATERNI 11 ————————+ +——+ I TEMORDEU 12 ————————+-+ I I RELIGIOS 5 ————————+ +-+ I DISCIPLI 8 —————————+ I LIBERDAD 6 —————————+—+ I IGUALDAD 17 —————————+ +——————————+ DESENECO 14 ——————————+-+ JUSTICA 16 ——————————+ Fonte: Pesquisa Clivagens Geracionais. Florianópolis: EDUFSC.Paulo J. Krischke — 175 Gráfico 2 Cluster analysis .

Among various interpretations. 335. As discussões do primeiro sobre o processo de formação das atividades urbano-industriais procuraram esmiuçar. industrial formation. Florianópolis: EDUFSC. p.Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil* Maria José de Rezende1 Universidade Estadual de Londrina Resumo A formação das atividades urbano-industriais no Brasil tem sido investigada sistematicamente pelas ciências sociais. Freyre tried to account in minor details for the slow process of constitution of towns and their * Gilberto Freire and Celso Furtado: two different views of brazilian urban. apto 1104. abril de 2004 . desencadeada no século XVIII. PR. a lenta formação das cidades e de seus modos de vida. n. Londrina. 1 Endereço para correspondências: Rua Pio XII. In his discussions about the formation process of urban-industrial activities. considering the period of crisis of the rural Patriarchal system.35. a partir da crise do patriarcalismo.177-203. two are dealt with in this article: Gilberto Freyre”s and Celso Furtado”s. CEP 86020914 (wld@rantac. duas destacam-se neste artigo: a de Gilberto Freyre e a de Celso Furtado. Revista de Ciências Humanas. que __________________________________________________ Abstract The formation of urban-industrial activities in Brazil has been systematically investigated by the social sciences. Dentre as diversas interpretações dadas. from the 18th Century on.net).

aqueles textos que melhor explicitam uma constante preocupação com a formação das atividades urbano-industriais no país. recortar. A fantasia organizada e A fantasia desfeita. no entanto. Keywords: Social changes. Florianópolis: EDUFSC. 1967.178 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil nem sempre eram totalmente renovados. trata-se de dois pensadores que têm uma vasta obra de interpretação do Brasil2. 1966. industrialização. abril de 2004 . 1994. de Celso Furtado. however. endo em vista que. 1967. 1972.35. Dialética do desenvolvimento. n. Os livros Sobrados e mucambos e Ordem e progresso.177-203. According to Freyre it is the quest for stability. no conjunto de seus livros. given that. das constâncias. faz-se necessário. Palavras-chave: Mudanças sociais. 1947. 1976. 1997c. 1997a. teria formado as bases para a expansão industrial no país. 1975. Celso Furtado. 1992. Brazilian Economic Formation. É uma busca das permanências. urbanization. 1983. a qual foi publicada em 2000. 1997. 1996d. urbanização. FURTADO. e 2002. 1962. Revista de Ciências Humanas. industrialization. which were not always renewed. das acomodações e das quebras de acomodações que emergiram com o processo de urbanização. 1961. edição. 1957. A primeira edição da obra Formação econômica do Brasil data de 1959. de Gilberto Freyre e Formação econômica do Brasil3. 1977. fornecem subsídios suficientes para a compreensão de duas perspectivas distintas acerca do modo de processamento da urbanização e da industrialização no Brasil. p. In his turn. 2000. será utilizada nesse artigo a 27ª. 1957. constancy. mesmo obedecendo à mesma lógica – fundada na demanda externa – dos demais ciclos econômicos anteriores. 1961. 1959. já que a expansão cafeeira. 1999. neste estudo. 1959a. No entanto. centra em suas análises as mudanças que se processaram a partir de meados do século XIX. Furtado focuses on changes that occurred since the middle of the 19th Century. __________________________________________________ 2 T 3 Dentre as suas principais obras destacam-se as seguintes: Freyre. Introdução lifestyles. according to him the expansion of coffee agriculture—even though it took place according to the same logic of former economic cycles based on the needs of the foreign market—furnished the bases to the country”s industrial development. 1984. 1974. formação econômica brasileira. 1962. em primeiro lugar. 1956. 1968. 1968. 1978. 1997b. 1958. accommodations and the ruptures in them that emerged during the process of urbanization.

Celso Furtado e Gilberto Freyre trilharam caminhos distintos em suas análises. Os principais livros de Freyre (Casa grande & senzala.177-203. Ao construírem análises expressivamente distintas e sem diálogos e enfrentamentos críticos. O declínio do patriarcalismo e a formação das atividades urbanoindustriais no Brasil: a leitura de Gilberto Freyre O mundo rural e o mundo urbano: interpenetração e acomodação As análises de Gilberto Freyre sobre a formação das atividades urbano-industriais estão marcadas pela busca de relações de acomodação e de incorporação de interesses entre as classes sociais preponderantes. formaram dois blocos de interpretação. do primeiro. quase se ignorando em relação ao modo como cada qual interpretava o país. abril de 2004 . n. “em que ambos perdem. Freyre. isto é. p. 2000. as ricas pistas sobre a formação da identidade nacional e sobre a problemática racial contidas na obra de Freyre” (GUIMARÃES. Sobrados e mucambos) são anteriores aos escritos de Furtado. ou seja.19). em especial. o livro principal de Freyre que havia empolgado muitos intelectuais em nada o havia influenciado “no que diz respeito a sua mensagem substantiva. 1959. tiveram suas primeiras edições no mesmo ano. O próprio Celso Furtado argumenta em As aventuras de um economista brasileiro que desde muito cedo travou contato com a obra de Gilberto Freyre. Florianópolis: EDUFSC. ao não desenvolver. o qual o introduziu nas discussões antropológicas e sociológicas que se desenvolviam nos EUA na primeira metade do século XX. mesmo criticamente. Casa grande & senzala. mas as obras Formação econômica do Brasil. No entanto.Maria José de Rezende — 179 As divergências constituidoras de suas interpretações não se formaram com base em diálogos diretos estabelecidos entre eles próprios. Furtado. 1997c. no que se refere à interpretação do processo histórico brasileiro. mantendo-se apático ou até mesmo hostil diante do grande movimento político-cultural que reinseriu o Nordeste no imaginário nacional e que resultou na criação da Sudene. p. Sua importância esteve em que nos revelou todo um instrumental novo de trabalho” (FURTADO.35. e Ordem e progresso. p. Nordeste.16). desse último. Revista de Ciências Humanas.

do padrão de domínio patriarcal. 1961). de renda. então. segundo Freyre. a inexistência de formas de subordinação entre os segmentos sociais diversos que controlavam as atividades econômicas prevalecentes. aos quais Freyre não se atém. Pode-se afirmar. desde o início. n. por exemplo. Os grandes proprietários de terras eram detentores de um poder político sem igual e definidor. dado lugar paulatinamente a uma outra forma de patriarcalismo: o urbano. O declínio do patriarcalismo rural teria. abril de 2004 .35. Em Sobrados e mucambos. com todas as atividades que lhe são pertinentes. no que diz respeito à reelaboração de um padrão de organização e de domínio. A análise de Freyre oferece dados que elucidam a tortuosidade do desenvolvimento das atividades urbano-industriais.177-203. então. firmavase uma relação de parasitagem que se estendeu século XX adentro e se pautava na refutação de toda reivindicação por melhorias salariais e de condições de trabalho (BOMFIM. ele demonstra que as atividades urbano-industriais teriam sido. 1993). assim. O mundo urbano. Sendo. política e cultural do mundo rural. Revista de Ciências Humanas. XVII e XVIII. em A América Latina: males de origem. todavia. de raça. As atividades de comércio e de indústria. enganoso supor que o desenvolvimento paulatino das atividades urbanas teria encerrado definitivamente um dado padrão de organização social. formou-se a partir de uma contemporização de estilos de vida e de padrões de cultura (FREYRE. suas influências ao longo do século XIX. As novas distâncias sociais (de classe. o que se deu de maneira tal que o processo de urbanização e de industrialização estivera marcado pelo modo de encadeamento da vida social dos séculos anteriores. O padrão de organização social que ganhou forma nesse período estenderia. nos séculos XVI. de instrução). as novas formas de subordinação e os novos antagonismos tanto se redefiniram quanto mantiveram alguns traços do padrão de organização social. que a constatação de que no mundo urbano o privatismo e o personalismo continuaram a existir nos moldes sedimentados pela organização patriarcal esclarece a tortuosidade das mudanças sociais no Brasil. portanto.180 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Isso não supunha. nasceram marcadas pelo privatismo patriarcal. seriam visíveis na maneira como as atividades urbanas reproduziam um tipo de mentalidade escravocrata na relação com o trabalhador. marcadas por relações patriarcais. Florianópolis: EDUFSC. Como afirma Manoel Bomfim. p. Os efeitos desse processo.

acomodando-se e se redefinindo a um só tempo. no mínimo. Revista de Ciências Humanas. Como padrão de organização de família. Nesse sentido. o grau desses controles era variável à medida que ocorriam mudanças na própria estrutura patriarcal. Todavia. Para Gilberto Freyre. p. no âmbito da vida e da cultura políticas.Maria José de Rezende — 181 Isso é verificável não somente no modo da mentalidade patriarcal imiscuir-se nas relações econômicas. não houve rompimentos absolutos. Por isso. Explicando melhor. desequilíbrios e acomodações (FREYRE. duas etapas intermediárias. abril de 2004 . n. Florianópolis: EDUFSC. Tal absorção foi também decisiva no âmbito das atividades econômicas. mas não. de economia e de cultura. A transição do patriarcalismo rural para o patriarcalismo urbano esteve marcada pelo desprestígio do senhor de engenho e pela ascensão do prestígio da aristocracia urbana. o patriarcalismo foi-se modificando e produzindo tipos particulares de relações sociais. 1961). pode-se dizer que tais controles eram distintos no patriarcalismo semi-rural. No entanto. que passaram a reproduzir um padrão de organização social que não se desvencilhava totalmente dos controles personalistas e familistas. por exemplo. mas também nas relações políticas. a essencialidade de estudar essas gradações estava no fato de elas revelarem condições de raça. no semi-urbano e depois no propriamente urbano. A partir do final do século XIX. sociais e culturais. a qual era formada pelos comerciantes e pelos bacharéis. de classe e de cultura que iam se modificando. a necessidade de se diferenciar da aristocracia rural foi-se constituindo paulatinamente por meio da desintegração do poder econômico e do sistema de moral vigente.35. mas sim combinações e conciliações que foram produzindo equilíbrios. Essa desintegração deixou suas marcas.177-203. a análise efetuada por Freyre acerca da formação e da expansão das atividades urbano-industriais revela que não somente no âmbito da vida política e no do Estado as incorporações dos valores patriarcalistas trouxeram conseqüências significativas. Por isso. verifica-se que o poder tutelar foi-se esmaecendo no âmbito das atividades econômicas. nas novas atividades econômicas e no novo sistema de hábitos e de costumes que se instalava nas cidades. seus rastros. ajustando-se. as gradações que iam do patriarcalismo agrário ao urbano passavam por.

Seria visível na primeira metade do século XIX que alguns negros livres eram incorporados aos trabalhos técnicos e mecânicos. nas novas formas econômicas. dos traços do patriarcalismo agrário? Essa co-responsabilização do negro nesse processo tem duas dimensões. Revista de Ciências Humanas. Sem formação técnica e profissional e sem qualquer instrução. Florianópolis: EDUFSC. Alguns. mas incorporando traços desse padrão de domínio e de cultura “contraditório em vários dos seus efeitos sociais” (FREYRE. Freyre faz uma análise do aperfeiçoamento técnico que ocorreu com a ascensão da máquina. 1961. seria esse fato significativo a ponto de garantir a sedimentação. Isso se deu tanto pela incorporação dos negros livres às atividades mecânicas quanto pelo modo como os aristocratas urbanos aproximaramse dos proprietários de terras e de escravos. adentraram as atividades industriais. de fato. o que teria representado a emergência das condições que dificultaram a sobrevivência da escravidão no país. abril de 2004 . p. A segunda fundase na necessidade de ressignificar a importância social desse processo de incorporação de alguns negros e mulatos livres à ordem econômica industrial. p. eles teriam sido abandonados à própria sorte (BOMFIM. de 1905. mas.177-203. não eliminando ou destruindo inteiramente o sistema patriarcal.35. Em seu entender. As mudanças foram morais e materiais. A possibilidade de ascensão social do negro livre acabava por criar a sensação de uma possível mobilidade social para as camadas mais pobres da sociedade. isso teria servido para amortizar os novos antagonismos que se iam instalando com as atividades industriais. 1993). A primeira é a necessidade que Freyre via de mostrar que o negro e o mulato desempenharam papéis fundamentais nas revoluções técnicas que ganharam fôlego no início do século XIX4. __________________________________________________ 4 Manoel Bomfim em A América Latina: males de origem. No capítulo Escravo. de Sobrados e mucambos.400). demonstrou que não houve qualquer incorporação significativa dos ex-escravos às atividades industriais.182 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Padrão de domínio e padrão de organização social: continuidades e mudanças A formação das atividades urbano-industriais processou-se. Eles não foram somente agentes passivos. n. É evidente que Gilberto Freyre generaliza significativamente essa incorporação dos negros livres às atividades urbanas. animal e máquina.

1961.549). cujo volume o clandestino nem sempre conseguiu suprir. O preterimento do ex-escravo não era algo inscrito no processo de desenvolvimento urbano-industrial. de prestígios. Num primeiro momento. Fica implícito em suas discussões que o modo como o sul cafeeiro conduziu o processo de desenvolvimento urbano e industrial levou à paulatina exclusão do negro das atividades mecânicas.35. teria havido incorporações deles nas atividades mecânicas e. Senhores de escravos e terras. Mesmo golpeado de morte. nem pode manter” (FREYRE. Revista de Ciências Humanas. ou seja. n. A abordagem histórica de Gilberto Freyre objetivava ressaltar que o processo de exclusão do negro e do mulato das atividades urbanoindustriais deu-se fundamentalmente a partir da segunda metade do século XIX. mas através de crises profundas” (Idem. Contribuiu enormemente com esse processo de transição a proibição do tráfico legal de escravos. O sistema econômico escravocrata esfacelou-se aos poucos. ele foi imprimindo suas marcas nas atividades urbanas em desenvolvimento. destacar-se que várias das modificações que sofreram então paisagens e instituições ligam-se direta ou indiretamente à cessação do tráfico legal de escravos. p. paisagem social foi-se modificando ao longo do século XIX.549). fábricas etc. p. do norte para o sul criava todas as favorabilidades para a paulatina substituição do escravo pelo colono europeu e do negro e do mestiço mecânico por máquinas e imigrantes. Florianópolis: EDUFSC.Maria José de Rezende — 183 O efeito social mais visível do desenvolvimento técnico-industrial teria sido a diminuição contínua da necessidade tanto do escravo quanto do proprietário de escravos. passava a ser utilizado para aquisição de máquinas. “Lento em deixar de existir e de influir sobre o ambiente ou sobre o meio” (p. de escravos. A passagem de um sistema econômico agrário para um sistema urbano “não se fez docemente. Ele instalou-se em vista do modo como o padrão de organização social e de domínio foi-se estabelecendo ao longo de décadas. nas principais áreas do nosso país. o capital tomava outro rumo. ele sobreviveu ao longo do século XIX.549) que atingiram toda a sociedade. comerciantes de escravos e outros setores que viviam a circundar o sistema escravocrata foram afetados pela cessação do tráfico. num segundo. abril de 2004 . Isso golpeava de morte o padrão de organização social vigente. prédios urbanos. A transferência de capitais. “É do maior interesse para a compreensão do período de transição que foi. dentre outros.177-203. Segundo Freyre. a primeira metade do século XIX. Assim. p. de máquinas. eles teriam sido substituídos por máquinas e imigrantes europeus.

1962.184 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Ainda no final do século XVIII. Revista de Ciências Humanas.177-203. em alguns momentos. ocorrido o bloqueamento dessa tendência inclusiva ressaltada em algumas partes das obras Sobrados e mucambos e Ordem e progresso? Afinal. o próprio movimento denominado Inconfidência Mineira estava voltado para a defesa de uma reconstrução social e política que fosse capaz de incluir econômica e politicamente os negros e os mulatos. O processo de formação urbano-industrial: equilíbrio de antagonismos e de contradições É evidente que a análise de Freyre revela-se. p. se houve a “transmigração de todo um conjunto de formas. mas não a inclusão do negro e do mulato em geral na nova ordem econômica que se instalava. em seu entender. Apesar disso. assimilação.392) é de se supor que a possibilidade de absorção. o que se teria dado principalmente por meio da assimilação “de substâncias humanas. de fato. com a transferência dos faustos patriarcais do norte para o sul. segundo Freyre. ou seja. n. o que foi significativamente subtraído após a República.391). assim. abril de 2004 . A análise realizada por Gilberto Freyre permite concluir que tais movimentos inclusivos dissiparam-se em razão da aristocratização dos bacharéis mestiços e da associação desses últimos à própria aristocracia rural e também à urbana. de normas. Florianópolis: EDUFSC. acomodação se mantivesse. p. étnicas e culturais. as portas para a emergência de um padrão de organização social que privilegiava a inclusão de alguns mestiços. quanto um processo de transferência da hegemonia econômica e política do norte agrário para a região neo-aristocrática de São Paulo. possibilitado a inserção de negros livres e mestiços na nova ordem econômica que emergia. cabe a seguinte pergunta: Por que nesse processo de transmigração não se manteve a tendência inclusiva que ele teria detectado no final do século XVIII e início do século XIX?. Acerca disso.35. 1962. em que momento teria. da capacidade do sistema econômico de absorver o negro livre nas novas atividades emergentes. problemática. expressivos de um viver. numa espécie de transmigração sociológica” (FREYRE. A acomodação que ocorreu entre o mundo rural e o mundo urbano abria. de ritos sociais. de um sentir e de um pensar patriarcalmente aristocráticos do norte para a subárea paulista do Império” (FREYRE. Ilustra isso o fato de ele supor tanto um processo de acomodação e de equilíbrio de antagonismos e contradições que teria. p. no decorrer do século XIX. houve uma perda significativa.

assinalava que a acomodação entre as diferentes elites políticas. a elite político-econômica que tomou corpo após a República era mais plástica. os ex-escravos. por exemplo. que comandavam a República.Maria José de Rezende — 185 Seguindo-se o raciocínio de Freyre.179). “abraçavam. ágil e sensível “aos novos problemas do trabalho [. n. por exemplo. Freyre. em vez de tornar-lhe acessível a instrução. optou-se por lançá-lo ao ostracismo. desde o início atuavam visando a conservar “um regime arcaico de lavoura. O que Gilberto Freyre via como mérito das elites dirigentes no final do século XIX – a conciliação do republicanismo paulista com os interesses dos proprietários rurais receosos com a abolição (FREYRE. essa plasticidade. p. em vez da instrução profissional-industrial. As elites dirigentes vinculadas a essa última “em vez do ensino popular. que atestava a sensibilidade e plasticidade da aristocracia cafeeira do Sul.83). Por que. muito contente de viver das diferenças entre o preço do café e o salário do trabalhador” (BOMFIM. então. já que. segundo Bomfim. p..394). que prepare a massa geral da população – elemento essencial numa democracia.. abril de 2004 .183). ocioso.. p. ao decidir pela migração. urbano-industrial. 2002. um plano arrasador para o trabalhador nacional. para ele. já francesas” (BOMFIM. Diferentemente. Freyre não estava voltado para a busca de tais políticas como esteve.177-203. na obra A América Latina: males de origem em que condena o modo de agir no âmbito econômico e político do fazendeiro do café. p.. Tais elites. mantendo o fazendeiro no seu tipo – parasita. o aprendizado de um trabalho moderno. Manoel Bomfim. a exclusão social de uma expressiva camada de brasileiros.] que as elites do norte” (1962. na formação das atividades urbano-industriais. p. p. 1993.35. Florianópolis: EDUFSC. 1962.399) – Manoel Bomfim via como tragédia antidemocrática. essa sensibilidade não se efetiva no sentido de estabelecer políticas de fato inclusivas? Na verdade. Bomfim afirma que as elites políticas. portanto. ao abandono” (REZENDE. reclamam [.] universidades – já alemãs. parece incompreensível o motivo pelo qual essa não-inserção deu-se. de onde tem saído o progresso econômico de todas as nações. uma vez que se mantinha intocada. ignorante. Revista de Ciências Humanas. A análise de Manoel Bomfim constatou exatamente o oposto da de Gilberto Freyre. hoje ricas e prósperas – em vez deste. 1993.

399). pronta a harmonizar-se com a industrialização” (FREYRE. que era distinto do tempo europeu e do tempo norte-americano. mas. assim. processou-se dentro de parâmetros propriamente brasileiros. uma feição singular. Elucida-se. mas democracia. 1947).177-203.35. uma vez que esse tempo industrial convivia com o tempo agrário. Revista de Ciências Humanas. mas singular. Nesse caso.399). “uma pujante democracia em potencial. p. a urbanização e a República inauguravam um tempo social novo. 1962. n. ou seja. porque o desenvolvimento industrial que transmutaria a ordem econômica conciliou-se com as atividades da monocultura agrária. falando Freyre? “Democracia etnicossocial e até sócio-econômica mais que política. a democracia ganhava. uma excessiva valorização do café em detrimento do homem. nos primeiros anos da República. processou-se de modo contraditório ao revelar a formação de um tempo social e psicológico que se distinguia no âmbito econômico e no âmbito político de outros países já desenvolvidos. que era correspondente a esse novo tempo. no Brasil. ou seja. no tempo agrário e aristocrático (FREYRE. é bem de ver. p. A industrialização. segundo Freyre. tanto da ordem econômica industrial quanto da ordem política e social. Florianópolis: EDUFSC. conciliando o passado e o presente. a sua compreensão de democracia que se assentava numa forma de distribuição do poder entre as elites: açucareira. ao ter suas bases fundadas num outro tempo. Em Ordem e progresso. Mas de qual democracia estava. em 1889. A democracia para a qual vinham contribuindo fatos anteriores à abolição” (p. Desse modo. inaugurava-se. Segundo Freyre. em sua avaliação. mas sim equilíbrio entre ordens econômicas distintas. O progresso tecnológico e industrial. então. Havia. abril de 2004 . a constituição. Não teria havido rompimentos econômicos ou políticos. democracia socioeconômica.186 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil econômicas e regionais somente era possível em razão de já vigorar no país. cafeeira e industrial. em seu entender. ele reconhece que teria havido. isso não teria dissolvido as virtudes democráticas que se tinham constituído como fundamento do padrão de organização social vigente no país desde a colônia. um terceiro tempo. assim.

Celso Furtado argumenta que o desenvolvimento das atividades urbano-industriais no Brasil deu-se de maneira específica. Florianópolis: EDUFSC. conjunto de políticas colocadas em práticas no final da década de 1950 no governo Juscelino Kubitschek. em Furtado. apontariam para a redefinição da organização social brasileira tendente à manutenção de um padrão de domínio autoritário. n. ele afirma que ela “se inseria em amplo processo de mudança social. o modo de interpretar tais recursos é distinto entre eles. haveria nesse caso uma das indicações mais expressivas das dimensões que teria tomado no Brasil a resistência aos processos de mudanças que. 1968. No entanto. Em Dialética do desenvolvimento.37). abril de 2004 . Verdadeiras mudanças não poderiam vir senão da renovação dos quadros políticos. ou seja. Nos livros Ordem e progresso e Sobrados e mucambos. conforme ele demonstrou na obra A fantasia desfeita5. Se em Gilberto Freyre a renovação dos quadros políticos sempre pareceu positivamente mediada pela conciliação havida entre os setores oligárquicos e os novos setores que emergiam com o processo de desenvolvimento industrial. O modo de os setores oligárquicos – defensores de uma economia colonial – integrarem-se às mudanças que ocorreram a partir da década de 1950 indicava uma maleabilidade destruidora da nação.177-203. p. a resistência à mudança aparece envolta de plasticidade. “os recursos dos que resistem à mudança social” (FURTADO. __________________________________________________ 5 Ao analisar a Operação Nordeste. 1997d. as reflexões sobre a resistência à mudança situam-se nas diversas esferas (econômica. não repetindo o padrão dos países capitalistas avançados. todo ele orientado para recuperar o atraso político e abrir espaço a fim de que parcelas crescentes da população regional assumissem na plenitude os direitos de cidadania. com o aumento de sua representatividade e a rejeição [. p. principalmente dos setores preponderantes. Quanto a isso. principalmente nas discussões sobre a forma de domínio.. condutores das principais modificações gestadas pela decadência do patriarcalismo rural e pela emergência do patriarcalismo urbano. Revista de Ciências Humanas. maleabilidade. de fato.Maria José de Rezende — 187 Celso Furtado e a formação das atividades urbano-industriais no Brasil As persistências e as continuidades encadeando atrasos e resistências à mudança Se compararem as obras de Celso Furtado com as de Freyre.. Em Celso Furtado.37). fica visível que os dois destacam. não há divergências entre ele e a perspectiva freyriana. política e cultural) e não indicam necessariamente plasticidade. p.] das velhas oligarquias” (FURTADO.35.

na maneira de implementação da República. e o que. conforme faz Freyre. abril de 2004 . Florianópolis: EDUFSC. no não-abandono absoluto de modos de agir e pensar consentâneos com o mundo agrário. Sua análise não se centra. No entanto. produz conseqüências expressivas para a análise. interessava muito mais compreender as razões do atraso da industrialização do que a longa decadência econômica e política da grande lavoura. “do ponto de vista de sua estrutura econômica. ao longo do texto: economicamente. focar o processo de formação urbano-industrial a partir de períodos mais extensos. Gilberto Freyre buscava no processo de colonização portuguesa. esclarece que sua análise deu centralidade à segunda metade do século XIX. as particularidades da emergência e da expansão das atividades urbanas. os elementos explicativos do caráter ímpar da expansão das cidades e das atividades e dos modos de vida atinentes a elas. nos longos séculos (XVIII e XIX) de decadência do patriarcalismo e no modo como. estende a análise da formação urbana no Brasil do século XVIII até o final do século XIX. Furtado procurou destacar que. Evidentemente. buscando. Revista de Ciências Humanas. n. na conciliação das diferenças e dos antagonismos de interesses e de região. quando se expandiu a economia cafeeira. Ressalte-se que Gilberto Freyre. o qual era reproduzido nos hábitos. diferentemente da de Freyre. na forma de incorporar uma noção de tempo ibérico (FREYRE. num longo período de transição. esse último teria conseguido imprimir suas marcas no interior das atividades urbano-industriais nascentes.35.188 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil que também demonstra a especificidade do modo de constituição da economia industrial no Brasil. a qual teria embasado relações econômicas capazes de suplantar a economia colonial no país. p. Mesmo quando Freyre analisa o final do século XIX em Ordem e progresso. mudou. A própria forma de ele recortar o objeto de análise tem a ver com o fato de ele pôr em relevo os aspectos socioculturais. Celso Furtado. de fato. visto que ele não concebe cortes tão profundos entre o mundo agrário e o mundo urbano-industrial em emergência. ele pergunta continuamente. de fato. verificaram-se mudanças expressivas a partir da emergência do trabalho livre. nos costumes etc. 1975). os motivos pelos quais foi singular tal formação são distintos nos dois pensadores aqui trabalhados.. mas sociologicamente o que.177-203. no familismo. permaneceu? Para Celso Furtado. no livro Sobrados e mucambos. no continuísmo entre atividades distintas. dessa maneira. no patriarcalismo. nesse processo. em Formação econômica do Brasil.

163). 1997b. 2000. no caso brasileiro. de caráter colonial. p.Maria José de Rezende — 189 o Brasil da metade do século XIX não diferia do que fora nos três séculos anteriores. desse processo de geração das bases do desenvolvimento industrial teria sido a expansão cafeeira na segunda metade do século XIX.163) que bloqueava totalmente a formação de recursos internos que estimulassem o desenvolvimento industrial. então. assim como a primeira metade desse século representou uma fase de transição política. por exemplo. Florianópolis: EDUFSC.34). p. por excelência. A economia agrário-exportadora. assentava-se na degradação “da relação de troca” (FURTADO.34). visto que os grupos que intermediavam a comercialização do açúcar. O tipo de economia colonial vigente no país assentava-se em significativas perdas dos setores exportadores. Desse modo. 2000. é responsável pelo atraso relativo da industrialização” (FURTADO. A expansão cafeeira da segunda metade do século XIX. n. É das tensões internas da economia cafeeira em sua etapa de crise que surgirão os elementos de um sistema econômico autônomo. XVIII e XIX estiveram centradas na busca do encadeamento histórico do atraso brasileiro. a tendência à concentração social da renda e o lento crescimento do mercado interno” (FURTADO.35. resultante dessa imutabilidade. durante a qual se modificam as bases do sistema econômico. Essa expansão industrial somente se efetivou a partir da década de 1930. XVII. capaz de gerar o seu próprio impulso de crescimento. O elemento diferenciador. A ausência de tensões internas. por exemplo) foram os segmentos mais pobres –. ocorrendo. ficavam com uma parte significativa dos rendimentos oriundos da economia agrário-exportadora – quem pagou pelas perdas dos grupos internos (senhores do engenho. 1997b. Revista de Ciências Humanas. “A dinâmica desse processo de transferência de recursos para o exterior permitia explicar. p. p. constituiu uma etapa de transição econômica. concluindo-se. A estrutura econômica. p. baseada principalmente no trabalho escravo se mantivera imutável nas etapas de expansão e decadência.177-203. abril de 2004 . suas reflexões acerca dos séculos XVI. definitivamente a etapa colonial da economia brasileira (FURTADO.

249). o impedimento da formação de bases (as quais adviriam da diversificação da estrutura produtiva e da formação do mercado interno7) para a expansão de uma economia urbano-industrial. as industrias têxteis tanto se instalaram na região Nordeste quanto na região Sudeste. 2000.54). n. O feudalismo é um fenômeno de regressão que traduz o atrofiamento de uma estrutura econômica. Florianópolis: EDUFSC. “A primeira metade do século XX está marcada pela progressiva emergência de um sistema cujo principal centro dinâmico é o mercado interno” (FURTADO.190 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil então. ou seja. Ele conclui que essa última bloqueava inteiramente as atividades industriais.177-203. Esse atrofiamento resulta do isolamento imposto a uma economia. Isso implica que a sociedade brasileira pagaria um preço altíssimo pela vigência da economia do tipo colonial6. p. p. p. A essencialidade da economia colonial seria. 2000. 2000.164). cabe perguntar: O que teria levado à formação desse mercado interno capaz de potencializar o desenvolvimento industrial?8 Para ele. ela vive totalmente voltada para o mercado externo” (FURTADO. p. Ao inverso da unidade feudal. Celso Furtado cita um dado revelador dessa concomitância: em 1910 havia. Suas análises sobre o desenvolvimento da indústria têxtil no século XIX assinalam que o crescimento das atividades industriais nesse setor – cuja dependência do mercado interno era absoluta – deu-se exatamente quando a economia exportadora entrou em crise. A partir disso. abril de 2004 . “A natureza puramente contábil do fluxo de renda. teria sido a rápida expansão do setor cafeeiro (1880-1930). 1997b. Revista de Ciências Humanas. isolamento que engendra grande diminuição da produtividade pela impossibilidade em que se encontra o sistema de tirar partido da especialização e da divisão do trabalho que lhe permite o nível da técnica já alcançado. a economia agrário-exportadora era do tipo colonial e não do tipo periférico. a qual estava calcada na dinamicidade da demanda externa que gerava enormes somas de excedentes que eram investidos na geração da industrialização. a unidade escravista (estabelecida no Brasil) pode ser apresentada como um caso extremo de especialização econômica. Furtado demonstra que o estudo do processo de industrialização no país estava estreitamente ligado a essas duas características da economia colonial que vigorava no Brasil. Somente a título de ilustração. p. então.245).35. Ora. __________________________________________________ 6 7 8 Por essas razões. Em Formação econômica do Brasil há uma discussão importante sobre o fato de o processo de industrialização no país ter se iniciado em diversas regiões ao mesmo tempo. o mesmo número de operários têxteis nas duas regiões (FURTADO. o que Celso Furtado chamou em diversos textos de “socialização das perdas”. a qual se caracterizava essencialmente pela “não diversificação das estruturas produtivas” e pela “contração do mercado interno” (FURTADO. No livro A fantasia organizada. dentro do setor açucareiro tem induzido muita gente a supor que era essa uma economia de tipo semifeudal. aproximadamente.

p.. essencialmente à expansão da economia cafeeira. o de agricultura de subsistência e o de agricultura de exportação. por exemplo) que favoreceram expressivamente os cafeicultores. tendiam a concentrar-se nesse mesmo setor. desde fins do século passado. promovendo assim a expansão do setor monetário e dando origem à formação de um mercado interno de dimensões relativamente grandes. Celso Furtado apresenta uma discussão não somente sobre as condições econômicas (a crise asiática da produção de café. o que abriria caminho aos investimentos industriais (1969.. abril de 2004 . uma situação crônica de excesso de oferta.177-203.Maria José de Rezende — 191 Celso Furtado explica da seguinte forma esse processo: A experiência brasileira surge como um caso especial. havendo oferta elástica de fatores. n. assim.170-171).) que favoreceram a expansão da economia cafeeira. Revista de Ciências Humanas. A complexidade desse processo está no fato de que esse setor industrial não alavancou de modo que ganhasse supremacia expressiva sobre os demais setores. os lucros – demais para serem utilizados para modernizar as formas de consumo dos grupos de altas rendas – puderam ser reinvertidos. Explica-se. a expansão do crédito para o setor cafeeiro etc.35. p. nas fases de prosperidade. a partir de meados do século XIX9. mas também sobre as condições políticas. A diferença com respeito à experiência centro-americana estava em que. que favoreceu significativamente os fazendeiros do café que controlavam o governo do Estado de São Paulo. De fato: dada a grande abundância de terras aptas para plantar café e a elasticidade da oferta de mão-de-obra. Os lucros do setor cafeicultor.] provocaram a absorção da economia de subsistência preexistente e financiaram a imigração européia. E essas volumosas inversões efetuadas no setor cafeicultor [. Nesse livro. ou seja. __________________________________________________ 9 A obra Formação econômica do Brasil detalha o processo de expansão e de crise da cultura do café no país. Florianópolis: EDUFSC. as inversões na cafeicultura não encontraram limitação pelo lado da oferta de fatores. O florescimento das atividades urbano-industriais ligou-se. no qual se conjugam o controle por grupos nacionais da produção exportável. o qual tomou decisões (em relação à imigração. A efetividade desse processo deu-se em razão da criação de condições que favoreceram a emergência de um mercado interno alimentado pelas indústrias têxteis e alimentícias. então. que se haja formado. tais como a descentralização republicana. a abundância de recursos naturais e as dimensões relativamente grandes do mercado interno em formação.

p. essencial. 1997c. 1968). uma vez que a manutenção da estrutura colonial articulava-se nessas duas esferas. com as forças sociais que se apegavam a um padrão de organização e a um padrão de domínio que conservavam os resquícios do tipo colonial de economia. ele afirmava: “No estudo da inflação.177-203. Essa última era vista por ele como uma forma de suplantar a primeira.300). p. A análise do modo de atuação de tais forças era. Os emperramentos eram de natureza econômica e política. Revista de Ciências Humanas. os países em que o setor pré-capitalista deixou de ser reservatório de mão-de-obra para os setores capitalistas e os países (Argentina e Uruguai. n. Observe-se que Furtado formulou o conceito de subdesenvolvimento como um tipo ideal que tem como traço definidor a existência de um dualismo estrutural (FURTADO. para Furtado. assim. no qual se combina uma visão histórica global com um corte sincrônico para o qual se utilizam todos os recursos da análise econômica.35. principalmente a partir do século XIX. __________________________________________________ 10 11 12 Em Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. porquanto revelaria as formas de confrontação que se estabeleceram no país. A seu ver. No caso do estudo da inflação. A manutenção da coexistência entre economia colonial e economia industrial tinha como resultado a perpetuação do subdesenvolvimento10. Florianópolis: EDUFSC. basicamente. por exemplo) em que não havia um dualismo estrutural não seriam tipicamente subdesenvolvidos. as razões pelas quais a economia colonial se manteve intacta durante tantos séculos devem ser procuradas nas motivações11 daqueles que detinham posições de mando e de poder no decorrer dos séculos XIX e XX12. O subdesenvolvimento e a reprodução do padrão de domínio oligárquico Celso Furtado considerava que estavam em lados opostos a economia colonial e a economia industrial. nesse processo de tentativa de superação da economia agrário-exportadora. por exemplo.23). p. o grande problema continuava a ser a prevalência de uma economia colonial que impedia que o desenvolvimento industrial se realizasse de forma plena. Todavia. importava acima de tudo que identificássemos as forças sociais que estavam pressionando para modificar a distribuição da renda e descobríssemos suas motivações” (FURTADO. uma economia que se articulava em torno desses três setores.192 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Criou-se. ele se aproximava mais e mais da Sociologia. Ao propor estudos fundados na motivação dos agentes. Celso Furtado destaca as especificidades dos países latino-americanos em relação às suas classificações como tipicamente subdesenvolvidos ou não. No entanto. “O meu enfoque dos processos econômicos. Celso Furtado considerava que o estudo das motivações é essencial para compreender todo processo social. Para a criação das bases para o desenvolvimento industrial. teria sido preciso lutar. alcançou a forma que para mim passou a ser definitiva quando cristalizaram em meu espírito duas idéias: a de estrutura e a de centro de decisão” (FURTADO. 1997b. abril de 2004 .

As atuações do governo federal via financiamento de estradas. e mediante as ações da Operação Nordeste14. Esse processo deve ser pensado não somente em seus aspectos econômicos. no Nordeste. denominada Operação Nordeste. Enfim. 14 Em 1958. O centro da luta política era. __________________________________________________ Celso Furtado afirma que.Maria José de Rezende — 193 Enquanto Freyre partia do século XVIII para entender a quebra de acomodação e os antagonismos que emergiram com o longo declínio do patriarcalismo. o combate à corrupção e à decadência da região. abril de 2004 . por exemplo. entre os setores preponderantes. tais como as Ligas Camponesas. em plena ação no final da década de 1950. mais precisamente nos anos 30. o governo de Juscelino Kubitschek propôs uma nova política para o Nordeste. ele assinala que procurar as causas históricas era buscar as motivações que levaram as forças sociais preponderantes.. a uma intermitente luta para subordinar a industrialização ao sistema agrário-exportador (FURTADO. a reversão das disparidades regionais. 1997d. durante séculos. Filiado à perspectiva weberiana. à superação da economia colonial. em meados do século XIX. social e da estagnação econômica13 (FURTADO. Bastava observar como eles agiam mediante a expansão dos movimentos de massa. no século seguinte. 1997d). A seu ver. reforçavam as estruturas existentes fundadas nas disputas das forças sociais oligárquicas pelo controle de verbas e de cargos. feitas com as frentes de trabalho. então. a redefinição das aplicações dos recursos do governo federal e o desenvolvimento industrial.50). p. p. Ele afirma que estudar os motivos que levaram ao aprofundamento das confrontações (o que não significava rompimentos). mas também em seus aspectos políticos. a qual foi comandada por Celso Furtado e tinha como um de seus objetivos o estabelecimento de um absoluto combate aos vícios políticos da indústria da seca. n. 13 Revista de Ciências Humanas. barreiras etc. 1997b). era importante compreender as motivações que embasavam os antagonismos que ganhavam forma naquele momento. os herdeiros da tradição escravocrata continuavam. pois envolve interesses que se foram perpetuando através dos tempos. em razão do imobilismo político. torna-se essencialmente importante para elucidar o papel que os diversos grupos sociais dominantes desempenharam no controle das mudanças que se iam delineando no horizonte. na década de 1950. da abolição. da instauração do trabalho livre. era visível que poder econômico e poder político eram duas faces de uma mesma moeda. Florianópolis: EDUFSC. Dentre as várias motivações – as quais giravam em torno da crise da grande lavoura. uma luta pela perpetuação do imobilismo político e da estagnação econômica (FURTADO.177-203. da crise da monarquia. do tráfico interprovincial de escravos. Furtado buscava demonstrar que as últimas cinco décadas do século XIX eram essenciais para compreender a emergência das condições que poderiam levar.35. ao analisar as condições sociais vigentes no Nordeste. – Celso Furtado destacou as voltadas para o controle do processo de industrialização. da instauração da República etc.

não somente para impulsioná-las. 1997c. a partir da década de 1930. ao buscar os elementos positivos de um padrão de domínio assentado na esfera privada. p.37). ou seja: Quais estruturas arcaicas e tradicionais potencializaram-no ao longo dos séculos? e Quais modificações sociais abriram caminhos para um processo de modernização da sociedade brasileira que. representava uma tentativa de estabelecer um “amplo processo de mudança social.194 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Eles rechaçavam-nas inteiramente.35. todo orientado para recuperar o atraso político e abrir espaço. até mesmo. com o aumento de sua representatividade e a rejeição para um desvão da história. mas também para as controlar e. Celso Furtado distingue de modo enfático suas análises das de Gilberto Freyre. __________________________________________________ 15 Depois da crise de 1929. São várias as implicações desse último tipo de análise. Florianópolis: EDUFSC. para bloqueá-las. abril de 2004 . acaba por atenuar os efeitos da manutenção de relações oligárquicas no âmbito das atividades urbanas. o desmantelamento dos “mecanismos de defesa de autopreservação da economia tipo colonial porão em marcha processos históricos capazes de viabilizar o deslocamento das atividades industriais com respeito ao complexo primário-exportador” (FURTADO. principalmente. por exemplo. Celso Furtado desvenda as diversas ações políticas perpetuadoras de um oligarquismo nefasto para a vida social brasileira. Tal rechaçamento tinha de ser compreendido também historicamente. das velhas oligarquias” (FURTADO. conseguia encerrar uma economia de tipo colonial e possibilitava também a emergência das massas urbanas na arena política. Gilberto Freyre. ao dar início a um crescimento econômico fundado no crescimento do mercado interno.165). que parecia não ver na manutenção do oligarquismo grandes problemas para a sociedade brasileira que se industrializava. n.177-203. p. Ao discutir a formação das atividades industriais a partir das motivações e dos interesses dos agentes envolvidos. 1997d. as quais constituíam agentes provocadores de desconfortos significativos para a política tradicional e oligárquica. porque essa última. p. visto que ela acaba por não problematizar a frágil fronteira entre o poder público e o poder privado no Brasil. Verdadeiras mudanças não poderiam vir senão da renovação dos quadros políticos. trazia à tona a possibilidade de desmontar o arcaísmo econômico e político vigente15? Furtado assinala que o processo de industrialização. Revista de Ciências Humanas. Ao colocar nesses termos a análise do processo de desenvolvimento industrial. a fim de que parcelas crescentes da população regional assumissem na plenitude os direitos de cidadania.

Maria José de Rezende — 195

Celso Furtado assinala que os alicerces do subdesenvolvimento16 do Nordeste estavam na própria região. Esses alicerces eram econômicos e também políticos. Dessa forma, não bastava criticar as regiões mais industrializadas como responsáveis pelo estado caótico de atraso no qual se encontravam as populações de algumas partes do país. Em seu entender, a decadência da região nordestina era secular e não tinha como ser explicada somente em vista da industrialização do Sul.
A causa básica daquela decadência está na incapacidade do sistema para superar as formas de produção e utilização dos recursos estruturados na época colonial. A articulação com a região sul por meio de cartelização da economia açucareira prolongou a vida do velho sistema cuja decadência se iniciou no século XVII, pois contribuiu para preservar as velhas estruturas monoprodutoras (FURTADO, 2000, p.251).

Gilberto Freyre, no entanto, rejeitou toda tese que enaltecesse somente o caráter negativo do tipo de economia, de política e de cultura que vigorava no Nordeste. Todo e qualquer processo de industrialização deveria estar voltado para a preservação das complexidades regionais brasileiras. É como se Freyre quisesse chamar a atenção para a necessidade de conciliar o projeto industrial com o projeto agrário, que disputavam, em vários âmbitos da vida social, espaços políticos, aquele para se impor, esse, para se perpetuar. A conciliação como fator de emperramento do desenvolvimento urbano-industrial De maneira distinta da de Freyre, Celso Furtado procura assinalar que a industrialização deveria ser um processo de busca da superação das atividades econômicas do tipo colonial predominavam no país nos séculos XVI 17, XVII, XVIII 18 e XIX 19 .
__________________________________________________
16

17 18 19

“O subdesenvolvimento é, portanto, um processo histórico autônomo, e não uma etapa pela qual tenham, necessariamente, passado as economias que já alcançaram um grau superior de desenvolvimento” (FURTADO, 1969, p.166). Nos séculos XVI e XVII, o Brasil monopolizou a exportação do açúcar. A produção de ouro e de diamantes predominou na economia brasileira no século XVIII. A agricultura de exportação foi implementada a partir da crise do ouro no final do século XVIII. O século XIX foi um divisor de águas significativo na economia, com a emergência do ciclo cafeeiro, que teve sua melhor performance entre 1850 e 1910, quando se iniciou um processo de crise nesse setor. Tal crise teve seu apogeu em 1930, quando ocorreu a destruição de grande quantidade do café acumulado por retenção dos estoques excedentes (FURTADO, 1964, p.100).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.177-203, abril de 2004

196 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil

A sedimentação urbano-industrial não poderia fundar-se na conciliação, uma vez que a economia agrário-exportadora, baseada no latifúndio, tinha alimentado um padrão de domínio político que circunscrevia o desenvolvimento industrial dentro de determinados limites condizentes com a manutenção da estrutura de poder e de organização social vigente. O processo de industrialização iniciado a partir de 1930 teria, para Furtado, agido como fator essencial de desmantelamento do marco institucional brasileiro que “durante três séculos resultou de uma formação econômica baseada nas grandes fazendas. A população urbana era reduzida e tinha pouca expressão política” (1964, p.109). Todo o sistema representativo, até 1930, era desenhado no sentido de dar garantias de permanência do padrão de domínio vigente. Segundo ele, a partir de 1930, o efeito mais expressivo do processo de mudança social no Brasil foi o início da desarticulação política da estrutura agrária, a qual “servia como sustentáculo ao sistema político” (p.110). Por que teria havido essa desarticulação? As atividades urbano-industriais teriam gerado a possibilidade de uma redefinição política, porque originaram novos agentes que lutaram para se firmar como forças sociais capazes de redefinir os próprios marcos institucionais. Esses agentes foram, evidentemente, rechaçados, em razão de que o controle estava ainda, nos anos subseqüentes, expressivamente nas mãos dos representantes das velhas estruturas agrárias. Celso Furtado destaca que, a partir de 1930, anunciava-se uma possibilidade de redefinição do sistema político, pelo fato de a industrialização criar uma diferenciação geradora de agentes sociais distintos daqueles prevalecentes na estrutura agrário-exportadora, a qual estava voltada essencialmente para atender ao mercado externo. As décadas seguintes, ou seja, até 1964, fizeram-se de fortes tensões originárias das pressões das massas urbanas, que eram tolhidas e rechaçadas pelos setores preponderantes que atuavam ainda no marco institucional vigente desde antes de 1930. Observa-se, então, dificuldade incomensurável de evolução do sistema político, uma vez que todas as pressões por reformas que surgiam desafiavam de tal modo as classes dirigentes, que elas se voltavam mais e mais para a conservação do status quo. Nessas condições, a industrialização avançava na década de 1950, mas sem as mudanças políticas necessárias, então, eternizava-se a paralisia do desenvolvimento social.
Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.177-203, abril de 2004

Maria José de Rezende — 197

Celso Furtado, em 1964, no livro Dialética do desenvolvimento, advogava a necessidade de combinar a expansão industrial e a urbanização com as reformas políticas. Essas últimas eram essenciais, para que se redefinissem os marcos institucionais. Isso abriria as portas para que o país se projetasse mundialmente. É curioso que a sua forma de justificar essa probabilidade acaba por reafirmar a tese freyriana do sentido plástico e democrático da formação étnica aqui prevalecente. Ele diz: “O sentido democrático da formação étnica do seu povo facilitará essa projeção dos valores brasileiros além-fronteiras, permitindo que o Brasil desempenhe importante papel junto às novas nações em formação no mundo tropical” (FURTADO, 1964, p.112). A análise de Furtado sobre o período que se abre em 1930 enfoca o processo de expansão urbano-industrial, não somente em vista dos elementos econômicos, mas principalmente dos políticos. Esses últimos definiriam ou não a possibilidade de mudanças estruturais. O capitalismo industrial, que ganhou expressão a partir desse momento, teve performance singular, já que o “predomínio da classe capitalista industrial, no Brasil, não resultou de um conflito aberto com os grupos dirigentes. Em realidade, o capitalismo industrial começou a dar os seus primeiros passos significativos quando a economia colonial entrara em franca decomposição, abandonando os dirigentes desta qualquer posição ideológica consistente e dedicando-se a um improvisado oportunismo político” (FURTADO, 1964, p.115). A expansão das atividades urbano-industriais estava, então, marcada pelo fato de não ter estabelecido “no país um desenvolvimento endógeno conflitante com os interesses do setor exportador”20 (FURTADO, 1964, p.116). Os setores arcaicos procuraram ajustar-se politicamente às modificações que tomavam corpo no período pós 1930. Os novos setores dirigentes que se instalavam no poder não tinham clareza da dimensão das transformações que estavam ocorrendo. A consolidação da industrialização foi lenta, porque as classes dirigentes não tinham a consciência da necessidade de se empenhar para efetivá-la.
__________________________________________________
20

Os industriais não se colocaram na arena política como portadores de um antagonismo irreconciliável com os grupos dirigentes ancorados na economia agrário-exportadora. Isso se devia, em parte, ao fato de que a proteção dos interesses do café constituía a base do desenvolvimento industrial (FURTADO, 1964, p.134).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.177-203, abril de 2004

198 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil

Havia, também, outras dificuldades estruturais que não dependiam somente da vontade dos novos dirigentes, visto que eram séculos de um processo de enraizamento de dificuldades econômicas, políticas e sociais. Celso Furtado cita como exemplo disso, em Dialética do desenvolvimento, a predominância de uma agricultura voltada para o mercado interno, que era absolutamente inelástica e encarecia significativamente o preço dos alimentos nas cidades. “De maneira geral, os preços dos produtos industriais cresceram menos que os dos produtos agrícolas destinados ao mercado interno, o que indica que a classe capitalista industrial teve de transferir para os interesses ligados ao latifúndio parte dos lucros que auferia. Tudo se passava como se a nova classe capitalista fosse chamada a pagar ao setor mais retrógrado da antiga economia um direito de senhoria” (1964, p.126). A industrialização potencializava a urbanização, a qual exigia mais e mais produtos agrícolas para alimentar o grande contingente de pessoas que passavam a habitar nas cidades. Instaurava-se uma crise entre os setores industriais e os latifundiários que se empenhavam, desatinadamente, em abocanhar uma parte expressiva dos lucros auferidos nas atividades urbano-industriais 21. Isso constituiu um entrave na economia brasileira, que era visível no modo de os setores agrícolas agirem na esfera política, debatendo-se para manter suas posições de poder por meio de pressões no Legislativo, principalmente. Havia, assim, uma contradição significativa no interior da própria classe capitalista, contradição desapercebida ou desconsiderada pelos próprios setores industriais, que, não compreendendo o significado da parasitagem do setor agrário, apavoravam-se mais e mais diante da intensificação das tensões sociais oriundas das pressões das massas trabalhadoras. Despreparados para compreender que a luta de classes é o fundamento de uma sociedade democrática, os setores industriais contribuíam com o emperramento econômico e político da sociedade brasileira.

__________________________________________________
21

“Em síntese, podemos afirmar que o processo de formação de um capitalismo industrial, no Brasil, encontrou obstáculos de natureza estrutural, cuja superação parece impraticável dentro do presente marco institucional e pelos meios a que estão afeitas as classes dirigentes” (FURTADO, 1964, p.133).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.35, p.177-203, abril de 2004

a econômica. no conjunto de suas obras. Cabe então a pergunta: De que forma aquilo que mudava era controlado pelas permanências? Em torno dessa questão. n. mediante as atitudes. uma vez que. indicadora de que. em suas obras. e. abril de 2004 . reproduziriam no presente o que os brasileiros foram no passado. mesmo tendo-se alterado. não diz que nada mudou no país ao longo de sua história. Ele. Estaria aí uma das mais relevantes contribuições de Freyre ao estudo do processo de diferenciação social desencadeado pela urbanização e pela industrialização. Florianópolis: EDUFSC. ou seja. não cabe dizer que o passado exerce um controle quase absoluto sobre os acontecimentos futuros. ele pretendia assinalar. no seu ethos. Freyre. para ele. a imaginatividade e a ação política se configurariam em decorrência de um conjunto de valores cristalizados nos diversos segmentos sociais. não concebe a história inteiramente nesses termos. A formação urbano-industrial brasileira seria.Maria José de Rezende — 199 Considerações finais Freyre. uma diferença essencial entre ele e Celso Furtado. os atos. Daí deriva a concepção de Celso Furtado de que a história é um processo aberto. O olhar que Celso Furtado lançava sobre o processo de formação urbano-industrial tem diferenças essenciais da perspectiva de Gilberto Freyre. A história não é.177-203. Essa capacidade não pode ser também circunscrita àquilo que os agentes sociais conseguiram realizar nos séculos precedentes. p.35. os hábitos e os costumes. portanto. ao menos não o é em todos os seus aspectos. pois o último insiste que a história é um processo aberto. nesse e em outros pontos. a política e a cultural. para Freyre. os brasileiros não romperam inteiramente com o modo de ser e de agir que vigorou no passado. porque não há como calcular a capacidade de imaginatividade e de ação política com base naquilo que os grupos sociais foram no passado. guardariam em sua essência muito do que o país foi no passado distante (colonial) e no passado nem tão distante assim (Império). Revista de Ciências Humanas. todavia. políticos e culturais que. um processo aberto. lança luzes sobre os elementos econômicos. Ao discutir as minúcias da vida social nesse processo de formação urbano-industrial. então. As diversas esferas da vida social. Há. giram as reflexões desenvolvidas em Sobrados e mucambos e em Ordem e progresso. o que mudava e o que permanecia.

1976. (Orgs. B. Florianópolis: EDUFSC. ANTUNES.). Referências bibliográficas BASTOS. nova acomodação e. B. L. ao caminhar em círculos. Gilberto Freyre e a questão nacional.. In: MORAES. p. M. é a maneira de o primeiro conceber a história. FREYRE. R. Se ela não é um processo aberto. quebra de acomodação. Casa grande & senzala. negava a possibilidade de superação de seus entraves principais. A América Latina: males de origem. abril de 2004 .. T. uma das mais relevantes. Olympio. o subdesenvolvimento que se assentava na dualidade estrutural e a política oligárquica que se acomodava às novas condições. A multiplicidade de desafios colocados aos diversos agentes sociais em razão da formação e da expansão das atividades urbano-industriais revela que. para Celso Furtado. FERRANTE. 1986. para o autor de Casa Grande & Senzala. Inteligência brasileira. sucessivamente. 1994. antagonismo.200 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil Conforme foi apontado.177-203. R. BOTTOMORE. BOMFIM. o padrão de organização social e o padrão de domínio em momento algum estiveram petrificados em torno de permanências e constâncias definidas por um dado padrão cultural que dispensasse as rupturas. Rio de Janeiro: J. o segundo destacava que o país. n. pelo menos não em todos os seus aspectos. Todavia enquanto o primeiro buscava os elementos indicadores de uma circularidade histórica positiva que ia no sentido de acomodação.35. Rio de Janeiro: Topbooks. V. R. In: A sociologia como crítica social. É válido assinalar que tanto Freyre quanto Furtado estavam voltados para a compreensão das atuações dos agentes sociais ante as mudanças e as resistências às mudanças. ela é-o inteiramente na visão do autor de Formação Econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Zahar. Conservadorismo e radicalismo na sociologia e o homem conservador. G. tais como os traços da economia colonial que resistiam ao processo de industrialização. 1993. Revista de Ciências Humanas. São Paulo: Brasiliense. assim. a que define todo um modo de conceber a vida social brasileira. sobrevivendo após a década de 1930 e marcando o desenvolvimento das atividades urbanas. E.

FREYRE. FURTADO. Ordem e progresso. C. Rio de Janeiro: Iseb. 1961. 1959. A operação nordeste. Olympio.Maria José de Rezende — 201 FREYRE. Manifesto regionalista. G. Porto Alegre: Globo. T. FREYRE. Rio de Janeiro: J. O brasileiro entre os outros hispanos: afinidades. G. G. G. Olympio. Olympio. Revista de Ciências Humanas. 1983. 1958. n. Recife: Instituto Joaquim Nabuco. Uma economia dependente. Recife: Instituto Joaquim Nabuco. G. G. Rio de Janeiro: J. FREYRE. Nordeste. 1959a.177-203. FURTADO. Rio de Janeiro: Arte Nova. modernista do Recife. FURTADO. Brasil. Rio de Janeiro: ISEB. abril de 2004 . FREYRE. Sobrados e mucambos. C. 1975. FREYRE. Florianópolis: EDUFSC.1 e 2. 1976. 1973. FURTADO. Série Documentos. 1956. tradicionalista e. G. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. FREYRE. 1977. C. n. Interpretação do Brasil. Rio de Janeiro: Record. G. FREYRE. Estácio Coimbra: homem representativo de seu meio e do seu tempo. Insurgências e ressurgências atuais: cruzamentos de sins e nãos num mundo em transição. Brasília: sugestões em torno de problemas brasileiros de unidade e diversidade e das relações de alguns deles com problemas gerais de pluralismo étnico e cultural. Rio de Janeiro: J. Sociologia: introdução ao estudo de seus princípios. FREYRE. Olympio. p. G. Rio de Janeiro: J. Brasis. 1947. G. FREYRE. FREYRE. C.6. Olympio. 1957. Rio de Janeiro: MEC. 1962. Rio de Janeiro: J. Perspectivas da economia brasileira.35. contrastes e possíveis futuros nas suas inter-relações. G. Olympio. Uma política de desenvolvimento para o nordeste. 1967. Vida social no Brasil nos meados do século XIX. Rio de Janeiro: J. a seu modo. 1968.

n. Desenvolvimento e subdesenvolvimento. FURTADO. 1968. Entre inconformismo e reformismo. FURTADO. C. Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina.35. FURTADO. Recife: Condepe. C. C. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura. 1967. FURTADO. FURTADO. Um projeto para o Brasil. 1992. 1961. FURTADO. 1997a. C. FURTADO. FURTADO. FURTADO. Florianópolis: EDUFSC. Tomo III. Os ares do mundo. C. C. FURTADO. Criatividade e dependência na civilização industrial. São Paulo: Paz e Terra.177-203. C. 1966. C. C. 1962a. Rio de Janeiro: Saga. Paz e Terra. São Paulo: Paz e Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1997. p. C. 1962. O mito do desenvolvimento econômico. Brasil. FURTADO. Tomo III. 1972. Cultura e desenvolvimento em época de crise. FURTADO. Rio de Janeiro: Paz e Terra. C. Rio de Janeiro. 1978. abril de 2004 . In: Obra autobiográfica. 1974. In: Obra autobiográfica.202 — Gilberto Freyre e Celso Furtado: duas leituras distintas da formação urbano-industrial no Brasil FURTADO. Rio de Janeiro: Paz e Terra. a construção interrompida. FURTADO. A análise do “modelo” brasileiro. C. 1968. Subdesenvolvimento e Estado democrático. C. 1984. C. Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. São Paulo: Cia Nacional. São Paulo: Paz e Terra. Revista de Ciências Humanas. Teoria e política do desenvolvimento econômico. A pré-revolução brasileira. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura.

FURTADO.18. de. REZENDE. 2000. FURTADO. A fantasia desfeita. n. C. O longo amanhecer. In: TAVARES. C. A fantasia organizada. (Org. São Paulo: Paz e Terra. M. Em busca de novo modelo. São Paulo: Paz e Terra.Maria José de Rezende — 203 FURTADO.73-92.177-203. M. São Paulo: Paz e Terra. 1999. Soberania nacional e mudança social em Manoel Bomfim.35. São Paulo: Publifolha. Formação econômica do Brasil. 2002. A trajetória intelectual de Celso Furtado. Cadernos de Estudos Sociais. São Paulo: Perseu Abramo. C. 2002./jun. C. n. 1997c. Tomo II. In: Obra autobiográfica. Celso Furtado e o Brasil. Tomo II. In: Obra autobiográfica. Florianópolis: EDUFSC. FURTADO. 1997b. J. Rio de Janeiro: Paz e Terra. jan. (Recebido em abril de 2004 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas.). In: Obra autobiográfica. Recife. p. 1959. 1997d. FURTADO. J. Tomo I.1. FURTADO. C. São Paulo: Paz e Terra. abril de 2004 . GUIMARÃES. C. 2000. p. Aventuras de um economista brasileiro. C. v.

CEP 88036-002 (mattei@cse. bl. 03. Florianópolis: EDUFSC.35.br). O autor agradece os comentários e as sugestões de dois pareceristas anônimos. abril de 2004 . apto 502. Endereço para correspondências: Rua Lauro Linhares. p. some problematic aspects related to the concept of family farm are emphasized. Revista de Ciências Humanas.Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate* Lauro Mattei1 Universidade Federal de Santa Catarina Resumo O objetivo deste estudo2 é discutir os principais aspectos envolvidos no debate sobre o sistema familiar de produção. * The family-based production system: Some contributions to the debate 1 Professor Adjunto do Departamento de Ciências Econômicas da UFSC. Florianópolis. bairro Trindade. 1288. __________________________________________________ Abstract The purpose of this paper is to stand out main aspects of family production system. realçando as questões mais recentes sobre essa temática. n. além de enfatizar alguns pontos problemáticos relacionados à definição de agricultura familiar. SC. em Porto Alegre (RS). Keywords: Family production system. family farm. 1999. Palavras-chave: Sistema familiar de produção. 2 Versão modificada do trabalho Produção Familiar: velhas e novas questões. agricultura familiar. Furthermore. highlighting most recently questions about this theme.205-223. apresentado no 4° Encontro Brasileiro de Economia Política.ufsc.

o objetivo deste trabalho é dialogar com o primeiro grupo de autores. tanto em termos da promoção do uso equilibrado dos recursos naturais como em termos da produção alimentar. abril de 2004 . pode-se dizer que esse debate assenta-se em três perspectivas teóricas distintas: a Marxista (e sua derivada Leninista). A segunda seção resgata os principais aspectos do debate teórico sobre a persistência da produção familiar. Nesse sentido. a agricultura familiar. procurando demonstrar as principais restrições que esse conceito assume ao tentar representar universalmente o sistema da produção familiar. com destaque para as questões mais recentes que procuram estabelecer novos parâmetros para a discussão do tema. necessitando. em decorrência das transformações estruturais do sistema capitalista que impactaram a agricultura. a Kautskyana e a Chayanoviana. na tentativa de aprofundar o horizonte teórico do debate sobre a produção familiar. Revista de Ciências Humanas. A partir disso. esse sistema familiar é o núcleo dinâmico do processo produtivo agropecuário brasileiro. Finalmente. Para outro grupo de autores. houve um desmonte das unidades familiares de produção e isso fez com que aspectos analíticos mais importantes – dinâmica do trabalho e geração de renda – ultrapassassem os limites restritos das unidades produtivas agrícolas. portanto. justamente por isso.206 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Introdução O debate acadêmico sobre o sistema de produção familiar está longe de seu final e. A terceira seção apresenta alguns aspectos conceituais relacionados ao tema agricultura familiar. de apoio por parte das políticas públicas. Florianópolis: EDUFSC. porque. n. p. Nesse caso. é a agricultura familiar que deve ocupar lugar destacado nos rumos do desenvolvimento rural e do próprio desenvolvimento do país. a quarta seção expõe as conclusões do estudo. De modo geral.35. vem perdendo dinamismo quando confrontada com os dados do conjunto das atividades produtivas do sistema agroalimentar. além desta seção introdutória. Para um determinado grupo de autores.205-223. essa polêmica originou-se com os autores clássicos do capitalismo agrário e perpassou todas as formulações teóricas sobre o tema da produção familiar no século XX. Em grande medida. cada vez mais atraente. apesar de ainda manter certa relevância. fazem parte do estudo mais três seções.

n. os autores entendem que é necessário responder a uma questão básica: O que explica a persistência do sistema de produção familiar e dos próprios produtores familiares? A resposta para essa pergunta não é simples devido ao duplo caráter desse segmento. Além disso. ainda persistem formas não-capitalistas na agricultura. A razão da persistência é que os vários segmentos que constituem a produção familiar em uma determinada sociedade têm diferentes papéis econômicos e sociais.205-223. há diferenças importantes entre Revista de Ciências Humanas. Partindo do fato de que. além das condições econômicas e sociais. Hoje. que tem como característica determinante seu alto grau de diferenciação. uma vez que nem os produtores familiares e nem os camponeses tradicionais constituem uma classe social. ao mesmo tempo em que a maioria das famílias agrícolas permanece marginalizada das esferas de produção e de consumo. Florianópolis: EDUFSC. mas proporcionam as estruturas básicas para a formação dessa categoria social.Lauro Mattei — 207 O problema da persistência da produção familiar Usando o conceito de classe marxista e tentando adaptá-lo ao contexto da moderna agricultura capitalista. eles reconhecem a dificuldade de se lidar com a categoria que se localiza entre a burguesia de base agrícola e o proletariado. Nesse caso. Desse modo. uma vez que a expansão e a reprodução do capital requer também uma expansão da classe trabalhadora. Nesse sentido. considerar a família uma unidade demográfica. para algumas correntes. Inicialmente. p. Friedland e Pugliese (1991) oferecem uma explicação teórica para a persistência da produção familiar.35. a persistência de formas não-capitalistas na agricultura significava a persistência da produção agrícola familiar. aumentando as dificuldades para definir a condição de classe. o processo de decomposição de classes afeta diretamente as famílias que trabalham na agricultura. os autores entendem que se torna complicado. o qual aprofunda o caráter capitalista entre os agricultores e faz com que uma pequena parte deles ascenda socialmente. os processos políticos e as políticas do mercado de trabalho. é necessário considerar. os autores reafirmam o processo de diferenciação social ainda existente na agricultura depois de mais de dois séculos de desenvolvimento do capitalismo agrário. No passado. pois algumas vezes ele pode trabalhar por conta própria e em outras ser assalariado. tanto em termos das unidades familiares quanto em termos dos membros individuais. nas análises sobre classes sociais na agricultura. abril de 2004 .

). devido à grande polêmica causada pelas suas teses.35. Partindo do princípio de que o conceito de “modo de produção4” tem apresentado uma base analítica limitada. das rendas nãoagrícolas obtidas por parte dos membros da família e das transferências de recursos públicos e privados. Revista de Ciências Humanas. State. uma vez que as fontes básicas de renda não provêm mais da agricultura. Dentre eles. no tocante às unidades mínimas da organização produtiva. em todos os casos. as crises e o empobrecimento conduziam ao desaparecimento das unidades familiares de produção. naquele período. os autores supracitados concluem que há uma tendência diferente em relação ao passado. a criação e a distribuição do produto social de tal modo que: __________________________________________________ 3 4 5 Especificamente em relação à persistência da produção familiar. Já a transformação refere-se à recombinação de alguns elementos velhos de produção que resultam em novas relações. Cada forma de produção é caracterizada por relações sociais específicas e por cadeias técnicas específicas.205-223. O conceito de forma de produção refere-se às unidades atuais das organizações produtivas (empresas capitalistas etc. aquelas que vivem em estado de pobreza por falta de alternativas no mercado de trabalho e aquelas que persistem por razões de qualidade de vida. Esses dois conceitos focalizam os aspectos dinâmicos da organização produtiva e requerem. abril de 2004 . Assim. Friedmann (1980) argumenta que o conceito central para analisar as relações sociais agrárias deve se situar na “forma de produção5”. Esse debate também foi enfrentado por outros autores. políticos e ideológicos das organizações sociais. destaca-se Harriet Friedmann3. cada forma de produção é caracterizada por relações sociais específicas e também por cadeias técnicas específicas. a qual é concebida por meio da dupla especificação da unidade de produção e da formação social. and Family Farm: Social Bases of Household Production in the Era of Wage Labor (1976). a autora afirma que a análise da persistência ou do desaparecimento de diferentes formas de produção é facilitada pelo conceito de reprodução e de transformação. sendo que cada uma dessas formas precisa ter uma relação particular no âmbito geral das relações sociais. dois trabalhos são centrais: Household Production and the National Economy: Concepts for the Analysis of Agrarian Formations (1980) e World Market. p.208 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate aquelas unidades familiares que persistem porque são viáveis. Nesse sentido. Atualmente. A reprodução refere-se à renovação de um circuito de produção por outro. Florianópolis: EDUFSC. Com isso. parte dessas unidades persiste em função dos baixos investimentos que executam. com elementos técnicos e sociais e com uma quantidade de relações entre ambos. n. O conceito de modo de produção caracteriza historicamente as instituições específicas que estão envolvidas nos aspectos econômicos. uma vez que.

A partir daí. as máquinas e os insumos sejam mantidos ou substituídos no novo round de produção (consumo produtivo). quando uma forma particular de reprodução é decomposta. Friedmann distingue-se dos demais autores marxistas. e a existência de vendedores. Revista de Ciências Humanas. Além disso. denominada Patriarchy and Property: a reply to Goodman & Redclift. Friedmann esclarece as condições para a reprodução capitalista e também para as formas simples de produção de mercadorias. Dessa maneira.Lauro Mattei — 209 a) Os produtores diretos tenham artigos suficientes para consumir e para participar de um novo round de produção (consumo pessoal). por um lado. c) No caso de alguém. Diversas foram as reações críticas a essas propostas. Já na produção simples de mercadorias. sugere-se a leitura da resposta de Friedmann. por outro. dizendo que essas formulações tentam conceituar a produção simples de mercadorias como uma categoria teórica e empírica separada. v. v. Goodmann e Redclift (1985)6 criticam as teses acima citadas. Para eles.35. __________________________________________________ 6 Para um acompanhamento mais detalhado desse debate. no ano de 1986. a reprodução também requer a presença deles no meio produtivo (oferta de trabalhadores). XXVI-2. local onde não houve produção camponesa sob condições de escassez de terra. Florianópolis: EDUFSC. publicada na mesma revista. porque seu trabalho diz respeito às economias capitalistas desenvolvidas e também porque ela usa a América do Norte como estudo de caso. b) As ferramentas. os animais. XXV-3/4. abril de 2004 . segundo a história. publicado na revista Sociologia Ruralis de 1985. p. A reprodução capitalista depende da existência do mercado de trabalho e da maneira como os salários são determinados. ver o artigo dos autores denominado Capitalism. n. organizar a produção. Como resultado. principalmente. há somente uma classe diretamente envolvida na produção. a condição básica para a existência da produção simples de mercadorias é a continuidade da recriação integral das famílias como unidade produtiva e de consumo pessoal. Nesse caso. além dos trabalhadores. Petty Commodity Production and the Farm Enterprise. A condição básica para a reprodução capitalista é a contínua recriação dos compradores da força de trabalho. os proprietários da empresa e da força de trabalho combinam-se. É a família quem compra os meios de produção e coloca-os em movimento com o seu trabalho. isso ocorre porque uma quantidade suficiente de bases técnica e social foi destruída.205-223. merecendo destaque as que seguem.

sobre o uso eficiente do capital constante e do capital variável. que configura uma forma e não um modo de produção. Assim. mas é uma exigência de condições específicas de existência proporcionada exclusivamente pelo modo de produção capitalista e essa afirmação representa uma contradição terminológica nas definições de produção simples de mercadorias. essa correspondência somente se sustenta por um determinado período do ciclo demográfico familiar. os autores procuraram explicar a persistência da produção por meio da tese da diferença entre o tempo de trabalho e tempo de produção. Mann e Dickinson (1978)7 procuraram demonstrar algumas das razões para a persistência do trabalho familiar em determinados setores agrícolas das sociedades capitalistas avançadas.210 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Para os autores. então. a não-identidade entre esses dois tempos de trabalho provoca efeitos adversos sobre as taxas de lucro. Nos períodos subseqüentes.35. A tese básica dos autores é que existem setores da economia agrária em que há uma baixa identidade entre o tempo de trabalho e o tempo de produção (combinação de períodos em que há aplicação de trabalho com períodos que ficam sob a influência dos processos naturais). quando há disponibilidade de trabalho. Mann (1990) retomou e aperfeiçoou essa questão no seu trabalho clássico Agrarian Capitalism in Theory and Practice. os pesquisadores ainda confrontavam-se com o problema da persistência e co-existência da pequena produção familiar ao lado de modos de produção capitalistas dominantes. Florianópolis: EDUFSC.205-223. Como Friedmann parte do pressuposto de que a produção simples de mercadorias não tem relação de classe. a natureza da produção e as relações de classe. Para Goodman e Redclift. não significa inabilidade geral de assegurar as próprias condições de existência. com o trabalho Obstáculos para o Desenvolvimento do Capitalismo na Agricultura. o que acaba realçando o tema das relações de classe no âmbito desse sistema de produção. nesses países. a qual está relacionada a três temas básicos: o trabalho assalariado. Partindo de um enfoque distinto dos anteriores. buscou-se explicar por que. Posteriormente. p. __________________________________________________ 7 Em 1978. abril de 2004 . bem como sobre o funcionamento normal do processo de acumulação e realização do capital. Revista de Ciências Humanas. o trabalho assalariado torna-se uma exigência estrutural para a reprodução das propriedades. n. a dependência lógica da produção simples de mercadorias. Assim. o trabalho assalariado livre tem uma função meramente auxiliar no processo de trabalho das unidades familiares.

Isso resultou em maior homogeneização da estrutura social dos agricultores. Saraceno (1994) apresentou uma nova visão sobre a função “moderna” da produção familiar. A explicação disso é que o trabalho familiar prevalece nos ramos de produção em que o tempo de rotação do capital é muito grande. é necessário compreender esse sistema de produção no âmbito de suas relações com os outros segmentos sociais e econômicos. vêm se destacando os temas da pluriatividade. Nesse sentido. Partindo do princípio de que a persistência da produção familiar não necessariamente implica a continuidade de sua função original de subsistência. as políticas do pós-guerra tiveram um papel determinante ao assegurar condições favoráveis à administração dessas unidades de produção. ressaltando-se o papel das cadeias produtivas agroalimentares.Lauro Mattei — 211 Desses fatos derivam os obstáculos à penetração do capitalismo na agricultura. com geração de taxas de lucro menores. a autora diz que o mais importante é identificar o papel e a dinâmica do sistema familiar. p. destacam-se dois fatores decisivos na nova fase do sistema de produção familiar. Neste estudo.35. Revista de Ciências Humanas. Essa formulação teórica recebeu diversas críticas. entende-se que não há estatuto teórico que sustente a explicação para a existência do trabalho familiar a partir da diferenciação entre tempo de trabalho e tempo de produção. da agricultura em tempo parcial e da multifuncionalidade agrícola. abril de 2004 . principalmente daqueles de origem camponesa. essas “novas definições” procuram fugir do dualismo clássico. realçando o seu potencial futuro para as sociedades rurais. Nos últimos períodos. coloca em xeque o argumento da diferenciação. Por um lado. naquelas esferas de produção caracterizadas por essa baixa identidade.205-223. principalmente da engenharia genética e da biotecnologia. n. surgiram diversas explicações alternativas sobre a persistência da produção familiar no âmbito do desenvolvimento do capitalismo agrário. Ressalta-se que. Florianópolis: EDUFSC. ao apresentar novos elementos analíticos. a agricultura em tempo parcial permite uma ocupação do agricultor em outras atividades durante os gaps do processo produtivo agrícola. o desenvolvimento tecnológico. Dentre eles. bem como a sua diferenciação em vários contextos espaciais. tendo em vista que. Por um lado. Por outro. ao controlar ou reduzir sistematicamente os efeitos do processo natural de produção. Para tanto. em sua maioria. observa-se menor atratividade por parte do capital em larga escala (produção capitalista). Seguindo essa lógica e analisando o caso italiano.

dependentes das condições econômicas externas propiciadas pela divisão do trabalho e pela sua integração às cadeias produtivas agroalimentares. mesmo elas tendo. Do ponto de vista das famílias. enquanto as propriedades não-pluriativas precisam expandir a área ou incrementar a sua produção para manter ou elevar os níveis de rentabilidade.205-223. condição objetiva para permanecer na atividade produtiva. o fato de as áreas rurais continuarem bastante povoadas não quer dizer que a agricultura continua a ser a mais importante das atividades econômicas. Entretanto. a autora insiste que há outras questões que influem na manutenção das famílias nas áreas rurais. o padrão de industrialização difusa permitiu aos agricultores a manutenção de suas propriedades. esses agricultores tornaram-se estruturalmente dependentes da pluriatividade e desse novo contexto rural. no sentido de vender as suas propriedades e migrar para as cidades. no intuito de manter eficientes as atividades especificamente agrícolas. também. caracterizado por uma diversificação local do mercado de trabalho e das atividades econômicas. o que ajudou a estabilizar as unidades de produção e determinou o fim das pressões sobre os agricultores. Florianópolis: EDUFSC. p. por meio da pluriatividade e do trabalho em tempo parcial dinamizam-se as atividades e garantem-se os níveis de ocupações rurais e a renda dos produtores familiares. os produtores familiares. apenas o papel de residência. as unidades familiares aumentaram sua renda monetária global.212 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Em contrapartida. a pluriatividade tem resolvido o problema da insuficiência de renda. Em virtude da pluriatividade e do trabalho parcial. Revista de Ciências Humanas. observa-se que os níveis de emprego nos setores industrial e de serviços aumentaram bem mais do que os do emprego agrícola. tornamse. em muitos casos. n.35. Atualmente. Por isso. abril de 2004 . o que revela que esse processo de industrialização atraiu um grande número de pessoas antes ocupadas somente na agricultura. O fato é que o processo de industrialização difusa alterou a dinâmica do trabalho no meio rural. Além disso. É a pluriatividade que tem dado aos produtores familiares a possibilidade de permanecer estáveis. e que ultrapassam os limites da própria agricultura como principal atividade responsável pela dinâmica econômica. ao diversificar o conjunto de atividades tradicionalmente desenvolvidas. Com isso. Visando a continuar como produtores familiares e ter renda suficiente.

Lamarche (1993) afirma que as explorações agrícolas familiares não constituem um grupo social homogêneo e. as explorações dividem-se em diferentes classes sociais segundo suas condições objetivas de produção (superfície. deu lugar a uma discussão mais ampla que contempla a integração da produção familiar às cadeias produtivas e às economias locais. Florianópolis: EDUFSC. uma vez que. entendida como aquela em que a família. para representar o sistema de produção que articula os processos de trabalho de caráter familiar e que tinha várias denominações: agricultura camponesa. ao mesmo tempo em que é proprietária dos meios de produção. pois a combinação entre propriedade e trabalho assume.Lauro Mattei — 213 Dessa forma. pequena produção etc. no tempo e no espaço.). n. em um modelo de funcionamento e em uma classe social no interior desse modelo. ao mesmo tempo. Produção familiar x agricultura familiar: muito além da semântica Nos últimos anos. p. os temas pluriatividade e agricultura em tempo parcial aparecem como elementos decisivos na estabilidade do emprego e da renda das unidades familiares de produção. assim definida. uma vez que. ao mesmo tempo em que estimulam a permanência das famílias nas áreas rurais. mesmo procurando apresentar um significado novo. essa categoria é necessariamente genérica. no Brasil. a expressão “agricultura familiar”. portanto. Revista de Ciências Humanas. conceitualmente. agricultura familiar de subsistência. consolidou-se. assume o trabalho no estabelecimento produtivo. ainda permanece atrelada às idéias da igualdade entre o rural e o agrícola. assentada na função básica de subsistência e no seu grau de eficiência. O ponto de partida dessa nova perspectiva é o conceito de agricultura familiar. Essa visão. Saraceno concluiu que a lógica tradicional do debate sobre a persistência da produção familiar. Outros autores também fizeram referência a essa questão. grau de mecanização. a exploração familiar não é um elemento da diversidade. Nesse sentido. 1996). No entanto. capacidade financeira etc. nível técnico. circunscreve e vincula esse sistema de produção apenas às atividades agrícolas. mas contém nela mesma toda essa diversidade. toda exploração familiar define-se.205-223. em um mesmo lugar e em um mesmo modelo de funcionamento. Nesse caso.35. abril de 2004 . uma grande diversidade de formas sociais (WANDERLEY.

acessar <www. b) Não realizaram despesas com serviços de empreitada. ou seja. sua capacidade de reprodução deve ser analisada conjuntamente nesses dois níveis.35. Florianópolis: EDUFSC. Para maiores detalhes.br>. observa-se que as atuais definições de “agricultura familiar” procuram englobar os diferentes sistemas de produção que se multiplicaram a partir da desintegração do campesinato tradicional e que se expressavam em generalidades que vão desde a simples produção de subsistência até a agricultura familiar modernizada e integrada à dinâmica agroindustrial. n. No caso brasileiro. abril de 2004 . __________________________________________________ 8 Projeto de Pesquisa Financiado pela FAO e que tem o INCRA como órgão coordenador. c) Não tinham empregado permanente e cujo número médio de empregados temporários era menor ou igual a quatro ou com um empregado permanente e número médio de empregados temporários menor ou igual a três. a atração por um futuro materializado pelos projetos que ocorrerão no porvir. pois possibilitou a emergência de um “novo agricultor”. sendo que cada tomada de decisão importante é resultante de duas forças: uma que representa o peso do passado e da tradição e a outra. com características determinadas pela sua maior ou menor participação nas atividades econômicas e sociais. simultaneamente. a presença desse conjunto de agricultores com distintas inserções nos processos produtivos agrícolas é vista como uma ruptura com o passado. Vejam-se alguns dos principais enfoques em debate.gov. Na verdade.incra. d) Tinham área total menor ou igual a 500 hectares para as regiões Sul e Sudeste e mil hectares para as demais regiões. Partindo do princípio de que a promoção da agricultura familiar como linha estratégica de desenvolvimento rural trará muitas vantagens para a sociedade brasileira. Nessa nova concepção. Foi a partir dessa diversidade que emergiram os conceitos atuais.214 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Dessa maneira. Revista de Ciências Humanas. p. o Projeto FAO/INCRA (1994 e 1996)8 definiu os elementos centrais da agricultura familiar e elaborou uma tipologia desse sistema de produção para o conjunto dos estabelecimentos agropecuários do país. o funcionamento da exploração familiar deve ser compreendido dentro dessa dinâmica. consideraramse estabelecimentos familiares os que preenchiam. as seguintes condições: a) A direção dos trabalhos era exercida pelo produtor.205-223.

000 foram classificados como consolidados.053 eram estabelecimentos familiares. Após esse trabalho pioneiro. p. n. mas sim discutir a questão de fundo que está implícita nessa nova denominação da produção familiar. principalmente para aqueles considerados periféricos. ignorando-se por completo o papel de qualquer outro tipo de atividade que possa gerar ocupação e renda para importantes parcelas dos estabelecimentos agropecuários de caráter familiar.205-223. novos grupos sociais formados por administradores. 1. 4. considerada aqui como a responsável pela dotação de estatuto teórico à categoria da “Agricultura Familiar”. p. sendo que. isso significa que essa denominação ou tipologia de agricultura familiar diz respeito apenas às atividades agrícolas que estão sendo desenvolvidas pelas unidades familiares de produção. Florianópolis: EDUFSC. o primeiro aspecto a ser ressaltado é a RMB. Não é objetivo aqui tratar desse tipo de problema. que esta “nova” visão não se dissocia do modelo anterior. estratificaram-se os estabelecimentos familiares e obteve-se a seguinte classificação: 2. definiu-se que as políticas governamentais para a agricultura familiar deveriam contemplar o segmento dos estabelecimentos em transição.168. Em outros termos. empregados e aposentados aparecem na sociedade rural. generalizou-se a construção de tipologias semelhantes em um grande número de estudos sobre agricultura familiar. De posse dessa classificação geral. essa posição choca-se com a visão da “Escola Francesa”. excluídas as receitas relativas a serviços prestados a terceiros. Nesse sentido.809 estabelecimentos existentes no Censo Agropecuário de 1985. e 1. Esse aspecto pode ser abstraído do próprio relatório FAO/INCRA. Revista de Ciências Humanas.339.000 foram enquadrados como estabelecimentos em transição.16).150. dos 5.801. abril de 2004 .020. definidor do processo produtivo familiar. seriam necessários outros tipos de políticas públicas. porém muitos deles continham sérias imprecisões.Lauro Mattei — 215 A partir desses critérios. para aqueles considerados periféricos. que diz textualmente que “a renda monetária bruta foi obtida pela diferença entre as receitas e as despesas provenientes das atividades agropecuárias.000 foram considerados periféricos.35. uma vez que ainda considera o “agrícola” como elemento central e único. chegou-se a conclusão que. Para essa escola. que serviu de base para toda a estratificação da agricultura familiar. exploração mineral e outras receitas” (1996. De certa forma. A metodologia adotada reforça a afirmação que se fez no início desse item. operários. Utilizando-se como parâmetro a Renda Monetária Bruta (RMB).

os agricultores já estão tomando consciência de que a agricultura não ocupa mais o lugar privilegiado que deteve na sociedade em outras épocas. engenheiros. graças às receitas externas. sob formas e segundo modalidades diversas. assiste-se a um redimensionamento da estrutura social local e. porque as famílias. Lamarche (1993) mostra que. podendo ser uma estratégia de reprodução social. Em síntese. cultiva-se o ideário da igualdade entre unidade de produção e família. os quais se tornam operários. Revista de Ciências Humanas. professores. Enfim. seria importante considerar o que a “Escola Francesa” propõe para o segmento familiar. a noção de agricultura familiar repousa sobre a idéia de uma identidade entre família e exploração.205-223. abril de 2004 . ao oferecer um complemento de trabalho e de renda às unidades familiares de produção. em que as atividades exclusivamente agrícolas não são mais o elemento central.35. Todavia. Ao pensar a realidade. ou seja. Nesse caso. funcionários públicos etc. a um sensível declínio da hegemonia agrícola nas sociedades rurais. Com isso. a pluriatividade assume um papel decisivo. Partindo do pressuposto de que se caminha em direção a uma “nova ruralidade”. o desenvolvimento de atividades externas à exploração.216 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Com isso. perdem suas especificidades. Além disso. conseqüentemente. os sistemas de exploração intensivos detêm um certo poder de compra que não poderia ser obtido apenas no âmbito das relações de produção exclusivamente agrícolas. uma vez que ela não atrai mais os filhos dos agricultores. Então. com as mudanças ocorridas tanto na organização social familiar como nas condições que regem a integração da agricultura à economia global. Florianópolis: EDUFSC. em que a pluriatividade é um meio muito eficaz nessa transição. o lugar e o papel da exploração familiar não podem mais ser pensados sob o único ângulo das relações de produção agrícola (LAMARCHE. busca-se a afirmação de uma nova identidade social rural. ou então atuar como elemento de modernização e de desenvolvimento das próprias unidades de produção. diz respeito a uma proporção crescente da população rural. n. essa identidade está sendo fortemente questionada. ao se tornarem cada vez menos agrícolas. Do ponto de vista financeiro. de manutenção da exploração. o seu caráter é diverso. empregados. tanto a identidade entre família e exploração quanto a exploração agrícola como locus exclusivo de atividades dos membros familiares estão em xeque. Nesse cenário. 1993). p. enquanto a agricultura vê sua característica familiar se dissolver.

Florianópolis: EDUFSC.35. como evidência de impossibilidade desse tipo de produtor de assimilar as novas demandas e a própria lógica do mercado. embora não consolidado. aqueles que conseguem ocupar a mão-de-obra familiar e gerar rendas exclusivamente a partir das atividades agrícolas. oportunidades de trabalho em outros setores do meio rural. segmento que. Somente a partir das reformas na PAC. fato que aprofundará ainda mais o abismo entre as camadas sociais do campo. abril de 2004 . No caso brasileiro. Na verdade. esse novo programa governamental foi concebido para uma parcela de agricultores que supostamente estão mais qualificados para se tornar os “verdadeiros agricultores”. essa opção do PRONAF pela tipologia desenvolvida pelo Projeto FAO/INCRA é um retorno à visão européia dos anos 1960 sobre os agricultores que exerciam atividades extra-agrícolas.205-223. Já a categoria dos “periféricos” não foi enquadrada nos requisitos do programa. por algum motivo9. Revista de Ciências Humanas. ou seja. ficando à espera de outras ações específicas de políticas públicas. p. __________________________________________________ 9 Dificuldade de empregar toda mão-de-obra na unidade de produção. o seu enquadramento em uma categoria social periférica reforça e cristaliza a marginalização de grande contingente da população rural cuja sobrevivência dependerá das políticas sociais. segundo Carneiro (1997). a incapacidade da unidade familiar de se sustentar exclusivamente das atividades agrícolas é vista. por alguns segmentos. sazonalidade do trabalho essencialmente agrícola etc. sem que lhe seja concedida à oportunidade de participar do desenvolvimento rural. essa visão foi alterada e passou-se a dar o mesmo tratamento ao conjunto dos agricultores. apresenta um potencial de viabilidade econômica muito grande. É amplamente reconhecido que a tipologia do estudo FAO/ INCRA serviu de base para a formulação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). sendo que os agricultores que a praticavam eram excluídos dos benefícios concedidos pela Política Agrícola Comum (PAC). De certo modo. acabam se envolvendo com atividades não-agrícolas como forma de complementar a renda. no final dos anos 1960 e início dos anos 1980. excluindo-se aqueles segmentos que. independentemente de eles serem ou não pluriativos. implementada pela Comunidade Européia. n.Lauro Mattei — 217 O segundo aspecto diz respeito ao público-alvo preferencial das políticas setoriais. Naquela época e naquele contexto. além de não ter capacidade para incorporar as inovações tecnológicas. Por conseguinte. A proposta original adotou como beneficiários prioritários os agricultores classificados como consolidados e na categoria “em transição”. a pluriatividade era vista como uma atividade essencialmente negativa.

Hoje. ao lazer e à proteção ambiental. de maneira a incorporar também aqueles segmentos que combinam as atividades agrícolas com outros tipos de atividades. os quais causam impactos diretos no mundo do trabalho rural. pois se entende que os espaços do sistema de produção familiar não se circunscrevem exclusivamente aos limites específicos do setor agrícola. ao se padronizar o “verdadeiro agricultor” como aquele que consegue obter sua renda exclusivamente das atividades agrícolas.205-223. Em função disso. normalmente associadas aos novos padrões de consumo das sociedades. já há novas formas de utilização do espaço rural que levam a uma desarticulação dos laços tradicionais da agricultura como atividade econômica soberana do mundo rural. as análises agora precisam dar conta de um conjunto de novas atividades. Florianópolis: EDUFSC. Revista de Ciências Humanas. Para tanto. esse fato representa a perda do monopólio da agricultura como atividade econômica. Esse processo provoca uma enorme diferenciação de oportunidades. principalmente em relação ao mercado de trabalho e à geração de rendas dos habitantes do mundo rural. endossam-se aqui as formulações de Carneiro (1997). é fundamental compreender que as mudanças em curso no meio rural colocam novos elementos que impedem a generalização da definição de “agricultura familiar” como a única atividade econômica responsável pela dinamização das ocupações rurais e geradora de renda. Por conseguinte. Isso implica considerar a pluriatividade uma condição para manter a população no campo e também para viabilizar as unidades produtivas familiares que não conseguem. Nesse sentido. n. quando ela destaca que é necessário ampliar a noção de produtor familiar. e disso emergem novas formas diversificadas de produção que incluem desde a produção agrícola até um conjunto de atividades relacionadas aos serviços. o rural transcende as fronteiras do agrícola. Nesse sentido.218 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Além disso. impondo-se a necessidade de adotar um novo tipo de análise que contemple todas as dimensões das formas de produção. por motivos vários. a tese aqui defendida procura ampliar as definições de agricultura familiar. exclui-se qualquer possibilidade de se combinar atividades agrícolas e extra-agrícolas como forma de geração de emprego e de renda. responder integralmente às demandas do mercado. elementos fundamentais nas atuais circunstâncias para se manter as pessoas no meio rural e elevar seus níveis de vida.35. sustentando-se exclusivamente nas atividades agrícolas. Na verdade. abril de 2004 . p.

É nesse sentido que o espaço rural não pode mais ser definido somente a partir de suas relações produtivas assentadas exclusivamente nas atividades agrícolas. destacam-se o aumento da demanda por novos produtos (normalmente naturais e de qualidade superior) – o que leva à formação dos nichos de mercados –. principalmente de transportes e de comunicações. mas ter em conta a multiplicidade de atividades econômicas que são desenvolvidas. esse conceito expressa a idéia de que uma série de valores típicos do velho mundo rural. e que se pensava estarem em vias de extinção. uma série de recursos rurais (edificações. Florianópolis: EDUFSC. __________________________________________________ 10 É neste sentido que alguns autores passam a adotar o conceito genérico de “neo-ruralismo”. e a atratividade das áreas rurais para determinados segmentos da população que não encontram mais oportunidade de trabalho no meio urbano.) incorpora-se às atividades econômicas das propriedades. a maior cooperação entre as empresas. passaram por um certo revigoramento e começam a ganhar para si a adesão de pessoas das cidades. as quais integram a produção familiar ao seio da economia local e regional. Segundo Saraceno (1994). geralmente no âmbito das economias regionais. as novas oportunidades geradas a partir da melhoria da rede de infra-estrutura. Segundo Giuliani (1990). nesse novo cenário.35. paisagem natural etc. e uma remodelação da forma de inserção das economias locais no contexto econômico regional e nacional. gerando novas formas de ocupação da mão-de-obra e novas fontes de rendimento. Nesse caso. a incorporação da variável ambiental na agenda de trabalho. as principais razões para que as tendências e escolhas que afetam as áreas rurais não sejam estudadas de forma isolada daquilo que está ocorrendo nas áreas nãorurais. abril de 2004 . conduzindo à formação de redes que operam nas economias locais. uma vez que a realocação espacial das atividades está relacionada ao contexto econômico maior. salientam-se a crescente segmentação da demanda por certos produtos no mercado mundial (grupo de produtos padronizados e com demanda estável e grupo de produtos segmentados e com demanda variável). n. as áreas rurais aumentam sua competitividade no âmbito econômico. Dentre as principais razões para que isso ocorra.205-223. Revista de Ciências Humanas. p. Por outro lado. na visão da autora. uma perspectiva analítica exclusivamente urbana não seria suficiente para explicar o que está ocorrendo nas áreas rurais 10.Lauro Mattei — 219 Dentre as questões chave que impactam o rural. Essas são.

principalmente em função de que a visão histórica tradicional desse setor como promotor apenas da subsistência básica deixou de ser a mais relevante. hotéis-fazenda. ao discutir a evolução atual da agricultura brasileira.5% aa. A explicação para esse contraste está no vigoroso crescimento verificado da população economicamente ativa ocupada em atividades não-agrícolas residente no meio rural brasileiro. Florianópolis: EDUFSC. Para Muller (1995). Além de ele oferecer ar. Já Graziano da Silva (1997). Os dados das PNADs da década de 1990 revelam que a PEA rural cresceu. de turismo.). oferece também a possibilidade de. cujas taxas foram da ordem de 3. dentre elas destacando-se as atividades de lazer (pesque-pague. Por um lado. visando a apreender o conjunto das transformações. isso se deve às “novas funções” e às “novas atividades” que se expandem pelo mundo rural. Há um conjunto de atividades não-agrícolas que responde cada vez mais pela nova dinâmica populacional do meio rural brasileiro. Considerações finais Quanto à polêmica sobre a persistência da produção familiar. Em grande parte. abril de 2004 . chácaras de final de semana etc. podem-se observar melhor as novas funções que esse sistema de produção vem desempenhando nos últimos períodos. o espaço rural não mais pode ser pensado apenas como um lugar produtor de mercadorias agrárias e ofertador de mão-de-obra. entende-se ser necessário ampliar o horizonte analítico para além do dualismo da teoria clássica.205-223.220 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate No Brasil. de produção artesanal. diversos autores vêm dando ênfase à necessidade de um redimensionamento das análises do espaço rural. lazer e bens de saúde. p.35. concluiu que não se pode mais caracterizar a dinâmica do meio rural brasileiro como determinada exclusivamente pelo seu lado agrário. de preservação ambiental. n. pedreiros etc. observa-se que a produção agrícola não fornece a maior parte da renda familiar. enquanto a PEA agrícola diminuiu. água.). residência e de um conjunto de outras ocupações tipicamente urbanas (motoristas. mecânicos. Revista de Ciências Humanas. contudo. combinar postos de trabalho com pequenas e médias empresas. uma vez que o comportamento do emprego rural não pode mais ser explicado apenas a partir do calendário agrícola e da expansão e retração das áreas e da produção agropecuária. no espaço localregional. turismo. Procedendo dessa maneira.

É nesse sentido que se entende que os espaços da produção familiar vão muito além dos limites do mundo agrícola. Revista de Ciências Humanas.). tanto em termos de produção como em termos de geração de renda e de emprego.Lauro Mattei — 221 Nesse caso. entende-se que a denominação “Produção Familiar” para designar o segmento social de produtores de caráter familiar – que já não alocam mais sua força de trabalho e definem suas estratégias de reprodução exclusivamente a partir das atividades agrícolas – é a mais correta. p. da agricultura em tempo parcial e da multifuncionalidade. n. É exatamente nessa direção que se julga necessário ampliar o conceito de agricultura familiar para além da fronteira agrícola stricto sensu. e a emergência de atividades denominadas genericamente de “fundos de quintal”. São precisamente essas características que fazem o “rural” ser bem mais amplo do que o “agrícola”. com destaque para as questões da pluriatividade. destacam-se a busca de novas oportunidades de trabalho e de lazer no meio rural. ainda predominem as atividades agrícolas. como é o caso das indústrias de confecções e de malharias. turismo rural etc. a emergência de um conjunto de novas atividades até há pouco tempo sem importância como atividades econômicas (pesque-pague. como atividade exclusiva do mundo rural. devido aos problemas enfrentados pelos grandes centros urbanos. tendo em vista que a exploração agrícola.205-223. Nesse espaço. as quais se transformaram nos elementos fundamentais de ligação entre os dois assuntos tratados neste estudo. abril de 2004 . colocando a economia rural em um novo patamar nas suas relações com as economias locais e regionais.35. surge um conjunto de novas atividades que interagem com o sistema familiar de produção. Florianópolis: EDUFSC. em que se processam e comercializam produtos de origem agropecuária ou finalizam-se partes de outros produtos. deixou de ser hegemônica. emergem novos temas e novas relações de produção no ambiente socioespacial onde a produção familiar insere-se. Nesse caso. Essa nova dimensão da dinâmica econômica e social rural – que rompe com a associação do rural ao agrícola – é dada por uma série uma série de fatores. Dentre eles. como locus exclusivo das ocupações produtivas do conjunto dos membros familiares. embora. na maioria dos casos. Esse fato obriga a repensar o próprio conceito de agricultura familiar. por estar em sintonia com as transformações do capitalismo agrário contemporâneo.

7(2). FAO/INCRA. não necessariamente vinculadas às atividades agrícolas. p. H.33-53. M. v. Revista de Ciências Sociais.35. petty commodity production and the farm enterprise. p. FAO/INCRA. In: FRIEDLAND. W. XXXV CONGRESSO BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL.. Brasília: Projeto UTF/BRA/036. p. n. J. 1990. G. p. Perfil da agricultura familiar no Brasil: dossiê estatístico..4.205-223. GOODMAN. 1994.XXV. 1991. World market. v. v. Boulder: Westview Press. 1980. Revista de Ciências Humanas. 1996. et al. Anais. Campinas. 1978. 1997. Capitalism.20. GRAZIANO DA SILVA. Household production and the national economy: concepts for the analysis of agrarian formations. n.1-24. M. GIULIANI. as novas formas de ocupação do espaço rural. Towards a new political economy of agriculture. Ruralidade: novas identidades em construção.222 — Sistema familiar de produção: algumas questões para o debate Dentre essas mudanças. FRIEDMANN. Neo-ruralismo: o novo estilo dos velhos modelos. J. abril de 2004 . state and family farm: social bases of household production in the era of wage labour. e REDCLIFT. FRIEDLAND. Referências bibliográficas CARNEIRO.3/4. o desenvolvimento de uma série de atividades de lazer e de serviços.1-24. Sociologia Ruralis. 1985. Diretrizes de política agrária e desenvolvimento sustentável.158-184. n. p. D. 1997. A nova dinâmica da agricultura brasileira. Brasília. p. Brasília-DF: SOBER. Florianópolis: EDUFSC.545-585. H. M. FRIEDMANN. Brasília: Projeto UTF/BRA/036. Shaping the new political economy of advanced capitalist agriculture. W. e a implementação de uma rede de infra-estrutura básica no meio rural que possibilita a instalação de novas empresas nesse ambiente. 1996. destacam-se o fim da dicotomia tradicional entre as atividades de característica especificamente urbanas e rurais – o que possibilita a ocupação produtiva dos trabalhadores rurais sem que ocorram as migrações –. Comparative Studies in Society and History. Journal of Peasant Studies. SP: Editora da UNICAMP.14. n.

1996. 1994.). MATTEI. Journal of Peasant Studies.205-223. p. n. Raízes históricas do campesinato brasileiro. A agricultura familiar: comparação internacional. Campinas. J. SP: Editora da UNICAMP. p. e DICKINSON. Chajul Hill & London. 1999. v. Anais. Brasil em Artigos. E. Revista Nova Economia. Novas dimensões sócio-econômicas do espaço rural brasileiro. SARACENO. Florianópolis: EDUFSC. G. M. H. L. São Paulo. São Paulo. (Recebido em março de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. Fundação SEADE.43-81. S. MATTEI. MANN.35. O novo rural brasileiro. Sociologia Ruralis. N. Tese (Doutorado). Caxambu (MG). 1990.5.. abril de 2004 . Obstacles to the development of a capitalist agriculture. The modern functions of small farm system: an Italian experience.467-481. A. L.223-247. n. Brasil agrário: heranças e tendências. 1997. p. 1995. p.. H. n. B. p. XX ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS.4. In: LAMARCHE.7. 1978.34. Pluriatividade e o desenvolvimento rural no Estado de Santa Catarina. n.Lauro Mattei — 223 GRAZIANO DA SILVA. A. 2000 (Texto para Discussão n° 4). MANN. (Coord. MÜLLER. WANDERLEY. Florianópolis (SC): UFSC/CSE/Economia.1. Agrarian capitalism in theory and practice. [inicial]. The University of North Caroline Press. Introdução geral. LAMARCHE. 1996. Campinas. 1993.308-328. v. S. Universidade de Campinas/ IE.

CEP 88430-000 (sschappo@bol. Petrolândia. in addition to the direc- Nomad migrants: arriving. in which the so-called points of “departure” and “arrival” are relative. The generic use of that term prevents one from a suitable understanding of population displacements in the present social context. Florianópolis: EDUFSC.br). o qual corresponde à redução das possibilidades de mobilidade social ascendente e à emergência de novos deslocamentos que relativizam os chamados pontos de “partida” e de “chegada”. Centro. Revista de Ciências Humanas. p. partir ou ficar?* Sirlândia Schappo 1 Universidade Estadual de Campinas Resumo Este artigo analisa a insuficiência do termo “êxodo rural” para definir os deslocamentos populacionais que emergem. leaving. as well as the occurrence of new displacements. SC. A utilização genérica do termo pode reduzir a compreensão de tais processos no atual contexto.225-240. __________________________________________________ * 1 Abstract This paper aims at arguing that the term “rural exodus” is not able to account for the displacements of populations that occurred in last decades.com. 07. n. abril de 2004 . em especial os acontecidos nas últimas décadas.Migrantes-nômades: chegar. or staying? Endereço para correspondências: Rua Senador Konder Reis. In such a context the possibility of ascending social mobility is reduced.35.

busca-se esclarecer a opção pelo termo migrantes-nômades frente a uma gama de expressões utilizadas para denominar os deslocamentos populacionais. como abandono dos campos. political problem of migration is like today. com os “desenraizamentos” das populações rurais ocorridas na década de 1960 no Brasil. Keywords: M i g r a t i o n .226 — Migrantes-nômades: chegar. and what the social. Revista de Ciências Humanas. em comparação. Especially in the Brazilian region called “Mesoregião Oeste de Santa Catarina” the way population migrations take place raises a question about the very presuppositions of the discussions dealing with this topic. p. êxodo rural. pode-se observar que eles vêm adquirindo (já a partir dos anos 80 e principalmente na década de 1990) novos contornos marcados por direções acentuadamente “indefinidas”.35. Pode-se aferir que as alternativas de reinclusão rápidas dos migrantes no mercado de trabalho são cada vez mais reduzidas. Neste sentido. em especial os de origem rural. por exemplo. instiga um debate sobre os pressupostos que norteiam as discussões sobre o tema e o que viria a ser hoje o problema social e político da migração. Palavras-chave: Migração. r u r a l exodus. Compreende-se que o termo refere-se à migração rural-urbana frente às perspectivas de “ascensão social” vislumbradas no local de destino por parte dos migrantes. tion taken by the migratory process (from rural to urban areas). pretende-se refletir sobre a insuficiência da utilização genérica do termo êxodo rural para explicar os deslocamentos populacionais no atual contexto. busca-se destacar questões pertinentes ao contexto sócio-econômico que incidem nas novas dimensões e recentes configurações dos deslocamentos populacionais. ao se contextualizar tais deslocamentos em sua diversidade e heterogeneidade. partir ou ficar? bem como o percurso rural-urbano de um processo migratório. em especial na Mesorregião Oeste de Santa Catarina. Porém.225-240. n. Florianópolis: EDUFSC. A forma pela qual a migração tem se desenhado. A o adentrar na análise das expressões do fenômeno migratório na atualidade. Por que Migrantes-nômades? Primeiramente. abril de 2004 .

onde as cidades. No entanto. p. então. pode limitar os movimentos demográficos à passagem de um meio tradicional para um meio técnico urbanizado. se mais adiante um ambiente acolhedor o espera. se é possível refazer aí sua identidade social.172). p. se ele pode. a passagem de uma civilização camponesa tradicional a uma civilização industrial tecnicista e urbanizada”. Para Mendras (1978. não oferecem. na mesma proporção. empregos em um mundo industrial2. apesar de receberem um fluxo considerável de população. seria o resultado de uma avaliação por parte de quem se põe em “movimento”. utilizada com freqüência. apresenta o que Mendras (p. Uma delas. a Mesorregião Oeste de Santa Catarina. e o movimento do êxodo começa a funcionar (MENDRAS.166) êxodo rural restringe-se ao movimento de massa que conduz os camponeses às cidades industrializadas. 1978.225-240. recriar os laços. diante do que ele denominou perda de vitalidade da sociedade aldeã e a possibilidade de um ambiente acolhedor a sua espera: Se a sociedade aldeã perde toda vitalidade e a aldeia abandonada não é mais que um teatro de sombras. ao mudar de ofício. o deslocamento de agricultores do seu local de origem para outras regiões.Sirlândia Schappo — 227 êxodo rural e evasão. onde encontre um ganha-pão suficientemente remunerador. O êxodo. para Mendras. Segundo o autor. Entretanto. __________________________________________________ 2 O próprio Mendras (1978) reconhece que o que ocorre nos países do terceiro mundo não pode ser comparável ao contexto da Europa no século XIX. outro limite é a utilização do termo “êxodo rural” para os países do terceiro mundo. onde continuam a exercer seu ofício. abril de 2004 .35. “A transferência para a cidade de populações rurais em uma época de rápida industrialização é.166) denominou “migração de agricultores”. o emigrante se instala. além da migração rural-urbana. Um exemplo disso é o grande número de ex-agricultores familiares assentados nos projetos de reforma agrária e envolvidos no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Revista de Ciências Humanas. êxodo rural. p. ao mesmo tempo. no Oeste Catarinense. Florianópolis: EDUFSC. ou seja. encontrar seu caminho na vida citadina ou estabelecer-se em uma terra no campo. n.

A teoria clássica da migração. um lugar de destino e uma série de obstáculos intervenientes. os pontos de “partida” e de “chegada” tornam-se relativos. econômica ou política. p. partir ou ficar? Tais restrições à utilização genérica de “êxodo rural” ampliaramse nas últimas décadas. a mudança é abordada como algo que representaria melhora nas condições de vida do migrante e destacam-se os pontos de partida e de chegada.225-240. Contudo. para as áreas mais urbanizadas. na qual se destacam autores como Ravestein (1885) e Lee (1966). opta-se aqui pelo termo migrantes-nômades para caracterizar tais migrantes no atual contexto. como “uma mudança permanente ou semipermanente de residência”. por isso. principalmente. O termo “migração”. os quais são apresentados como sendo principalmente de ordem social. Porém. Esse deslocamento seria resultado de um cálculo racional dos indivíduos entre as perspectivas oferecidas na sociedade de destino e as condições prevalecentes na sociedade de origem. Revista de Ciências Humanas. Uma possível evidência da diminuição dos fatores de atração é a redução dos fluxos migratórios. diante do contexto de aumento do nível e desemprego e das dificuldades de mobilidade social nos centros urbanos. CAMARANO e ABRAMOVAY. os locais de “origem” e de “destino” tornam-se relativos. em breve. nas últimas décadas. nas últimas décadas. Dessa forma. Nesse cenário. ao desmembrar tal conceito.99). a ênfase no fator determinante principal é variável. no presente contexto. abril de 2004 . a qual apontada por vários autores (JANNUZZI. cabe um questionamento no sentido de primeiro se averiguar se o “lugar de destino” continuaria. a partir da década de 1950. n. como mencionado. no sentido genérico. 1999).228 — Migrantes-nômades: chegar. é definido por Lee (1966. da industrialização no Brasil. No entanto. 1994. conforme os diferentes períodos históricos. Pode-se aferir que os estudos sobre migração congregam diferentes condicionantes dos deslocamentos populacionais. Florianópolis: EDUFSC. MARTINE. no sentido de que o “destino” pode corresponder à chegada a um ambiente provisório que. apresentando fatores de atração comparáveis àqueles dos anos de plena expansão. aponta que todo ato migratório implica um lugar de origem. o autor. como aponta o estudo de Jannuzzi (2000) sobre os migrantes no mercado de trabalho paulista. busca ressaltar os condicionantes de atração e retração das áreas envolvidas em um deslocamento populacional. pode tornar-se um local de “origem” de um novo deslocamento. p. Nesse enfoque.35. 2000.

o mais importante é a demanda por força de trabalho. assim. as quais acompanhariam a estrutura de produção do capitalismo. p. abandonar uma situação pior para alcançar uma mais positiva. trazendo consigo mudanças de técnica e. Nesse enfoque. __________________________________________________ 3 “Os fatores de mudança fazem parte do próprio processo de industrialização. Nesse sentido. abordando o país todo e não apenas os espaços duais de atração e repulsão. abril de 2004 . cujo tamanho absoluto se mantém estagnado ou cresce apenas vagarosamente” (Singer. Revista de Ciências Humanas. em termos sociocupacionais. p. Singer (1976. 224) aponta que os fatores de expulsão que levam às migrações são de duas ordens: fatores de mudança e os fatores de estagnação3. p. em conseqüência. 224). A origem das migrações estaria nas disparidades e desigualdades sociais geradas pela industrialização nos moldes capitalistas. bem como alguns pontos relevantes.35. Problemas sociais e políticos da migração Parte-se aqui do pressuposto de que a problemática social e política da migração não é inerente ao fenômeno em si.225-240. 1976. as migrações internas como expressão da industrialização. Florianópolis: EDUFSC. Migrar nem sempre representa uma mudança negativa nas condições de vida das pessoas.Sirlândia Schappo — 229 apontando-se o deslocamento como correspondendo a uma mobilidade social ascendente. aumento da produtividade do trabalho. na conjuntura em questão. Estudos mais recentes ressaltam a necessidade de incorporar em tais análises o caráter histórico e conjuntural das migrações. No entanto. Singer (1976) destaca. o autor destaca que apesar dos fatores de expulsão definirem as áreas de onde se originam os fluxos migratórios. no que tange aos estudos referentes aos deslocamentos populacionais. n. o próximo item aborda aspectos da atual conjuntura e da caracterização do fenômeno migratório. pois esse ato pode expressar uma alternativa melhor dentre as oportunidades de que o indivíduo dispõe. Os fatores de estagnação levam à emigração de parte ou da totalidade do acréscimo populacional devido ao crescimento vegetativo da população rural. Os fatores de estagnação resultam da incapacidade dos produtores em economia de subsistência de elevarem a produtividade da terra. Os fatores de mudança provocam um fluxo maciço de emigração que tem por conseqüência reduzir o tamanho absoluto da população rural. são os fatores de atração que determinam a orientação destes fluxos e que entre estes fatores. na medida em que este atinge a agricultura.

como a nossa. p. as migrações internas no Brasil seguiram basicamente dois rumos: as fronteiras agrícolas e os centros urbano-industrializados. a desigualdade entre os plenamente incluídos em relação àqueles cuja inclusão se situa à margem dessa mesma sociedade. frente ao modelo de industrialização. cria-se uma nova desigualdade..230 — Migrantes-nômades: chegar. A problemática estaria. no sentido de ascensão social. em uma conjuntura que se caracteriza pelo estreitamento das oportunidades de vida.225-240. VAINER. (. A década de 1980 já apresentava sinais de uma menor capacidade de absorção do mercado de trabalho. marcando um período de intenso deslocamento populacional rural-urbano. via substituição de importações. Jannuzzi (2000) refere-se os anos 1990 como década “mais do que perdida”. Entre as décadas de 1930 e 70. p. na criação de emprego.31): Os problemas que aparecem não são relativos à migração de um lugar para outro.) Talvez devamos entendê-las como deslocamentos sociais que se tornam problemáticos para o próprio ser humano. partir ou ficar? O problema principal da migração encontra-se hoje na dificuldade de absorver essa população no mercado de trabalho. 2000. no interior da sociedade. esse percurso tem indicado alguns limites: o esgotamento das fronteiras agrícolas. nas últimas décadas. 1994). Revista de Ciências Humanas. em termos de mobilidade. Conforme diz Martins (1998. abril de 2004 . n. mas são relativos aos empecilhos à migração de uma posição social a outra.35.. 2000. a diminuição das migrações rural-urbanas e um aumento populacional em cidades médias e pequenas. segundo esse autor. na dificuldade de reinclusão. quando esses processos ocorrem em sociedades que estão passando por demorado período de estreitamento das oportunidades de vida. Nesse contexto. É o estreitamento das possibilidades de ascensão social. No entanto. MARTINE. Florianópolis: EDUFSC. Tal perfil histórico dos deslocamentos populacionais é evidenciado por vários autores (SALES e BAENINGER. em comparação com a relação entre dinamismo. e a alta intensidade de migrantes das décadas anteriores. ou seja.

frente ao desenraizamento das populações rurais observadas nos anos 1960 no Brasil. Esse autor. absorção dos mais aptos a competir no mercado de trabalho e. aliados àqueles decorrentes da abertura comercial. Enquanto. reemigração daqueles menos capacitados. ao longo da escala sociocupacional. esse nível já atingia 6% do conjunto dos migrantes (JANNUZZI. a existência de um substrato de verdadeiros nômades na população brasileira. ao analisar as possibilidades de ascensão social nos anos 80 e início dos anos 90. 2000. “A mobilidade estrutural refletiria os efeitos da mudança da estrutura composicional da mão-de-obra e a mobilidade circular.] A hipótese de retenção seletiva dos elementos mais capacitados (ou da migração repetida nos segmentos populacionais mais marginalizados) parece mais aceitável.. as alternativas de reinclusão rápidas. em direção a outras regiões: [. ausência de uma política industrial. p. Florianópolis: EDUFSC. p. aponta para dificuldades crescentes nesse sentido. são cada vez mais reduzidas. substrato este que incluiria não somente os trabalhadores volantes e bóiasfrias. na década de 80.. n.225-240. desregulamentação dos mercados e concorrência. mas também outros itinerantes em busca de uma difícil subsistência (MARTINE. Revista de Ciências Humanas. dentre outros fatores. A sociedade brasileira estaria presenciando a transição de um regime de mobilidade social ditada menos pela mobilidade estrutural e cada vez mais pela mobilidade circular4. p. de outro.Sirlândia Schappo — 231 A recessão ocorrida no início da década e seus efeitos sobre o nível de emprego. o nível de desocupados no Estado de São Paulo era inferior a 1%.99). inclusive. em que a subida de um decorreria da descida de outro. 1980. contribuíram para que as taxas de expansão das ocupações nos anos 90 se mantivessem mais baixas do que na década anterior e para que o desemprego se tornasse um grave problema estrutural. Com base nestas informações. __________________________________________________ 4 Segundo Jannuzzi (2000. poder-se-ia postular. O cenário aponta para a acentuação da mobilidade dos migrantes já descrita por Martine em 1980: de um lado. os efeitos da competição individual no mercado de trabalho”. p. têm-se dado no sentido de troca de posições entre ocupados. as possibilidades de movimentos. abril de 2004 . Nesse contexto.971). Nota-se que os dados anteriores expressam uma conjuntura mais instável e desfavorável do mercado de trabalho nas últimas décadas.35. em 1993.18). ou seja.

29) duas características que marcam essa nova etapa: a) A fragmentação das ações – Renúncia do Estado Central ao estabelecimento de estratégias e políticas territoriais em escala nacional. gera avaliações. O contexto é marcado ainda pela histórica perseverança das deficiências da estrutura e da questão agrária no Brasil. Florianópolis: EDUFSC. direcionamento e deslocamento espacial da população têm configurado. em relação à posse da terra. em vez de recurso econômico.35. o desenvolvimento da indústria nacional e outras. Nesse contexto. p. estímulo. “Constitui política migratória toda política que. Observa-se que grande parte dos migrantes. reforma agrária.232 — Migrantes-nômades: chegar. inclusive industriais. ao grau de concentração.. dentre outros fatores. n. direcionamento. a baixos investimentos na agricultura. para fechar espaços. Na agenda das políticas públicas. Segundo Vainer (2000. p. é considerada “problema social”5. são deslocadas para um segundo ou terceiro plano. com o objetivo de gerenciar os excedentes populacionais no âmbito local e de forma dispersa. assim. ordenamento e acompanhamento de deslocamentos espaciais de população”. como a distribuição de renda. concentração na comercialização e industrialização dos produtos agrícolas. __________________________________________________ 5 6 Vainer (2000) também aponta que o conceito de população como recurso cede progressivamente o lugar ao conceito de população como ônus – ou custo. geração.225-240. vê-se transformada naquilo que Benetti e Vainer (1998) denominaram de “estorvo”. b) A violência como mecanismo de mobilização ou imobilização das populações – Vários municípios têm aplicado políticas ativas de segregação e fechamento do território a migrantes em busca de emprego. mais especificamente da política migratória6. à existência da fome. destacam-se políticas sociais. de forma explícita e direta. p. No âmbito das políticas estatais na atualidade. ou seja. Revista de Ciências Humanas. moradia etc. estímulo. abril de 2004 . na formação da sociedade urbano-industrial.30). controles cada vez mais estritos à livre circulação dos indivíduos e ao uso da violência física ou simbólica. segundo Vainer (2000. políticas territoriais que levem em conta questões mais amplas. objetivos e práticas relativas à contenção. antes tidos como fundamentais para a acumulação do capital. tendo em vista o que se constata nas últimas décadas. partir ou ficar? Pode-se aferir que a hipótese do autor tende a se confirmar. as intervenções voltadas para contenção. de emprego etc. geração. Percebem-se.

Revista de Ciências Humanas. limitando as possibilidades de escolha dos migrantes de permanecer em determinados espaços. n. diante das novas dimensões da migração. não mais tão caracterizado pelo caboclo que produzia o que consumia e consumia o que produzia ou pelas populações indígenas. __________________________________________________ 7 Observam-se.8). o problema da migração. em breve. dos espaços rurais para urbanos. para construir a riqueza da nação. O nomadismo7 revigora-se. Não efetua uma viagem de ida e de volta. O paradoxo consiste justamente em que este nômade contemporâneo não pode mais viver fora do mercado. ele está em movimento absoluto. 2000. p. Florianópolis: EDUFSC. pois um ponto de chegada pode tornar-se. movimentos de retorno (por exemplo: de São Paulo para o Nordeste). deslocamentos de populações com história de vida demarcada por uma territorialidade. Nesse sentido. mas “aparece cada vez mais como prática de uma população com conteúdos de vivência territorial das mais variadas. levado para as fazendas.35. Assim. de municípios urbanos para rurais e outros. assim. caracteriza-se como um problema político. pode-se constatar que o percurso daqueles que se põem em movimento é freqüentemente marcado pela incerteza e insegurança em torno das possibilidades de ascensão social e também constituído por uma vivência marcada por constrangimentos à liberdade de escolha. p. o fenômeno adquire características particulares. um novo ponto de partida. Nesse sentido. forçado a integrar-se ao mercado. abril de 2004 .27): “O nômade não se desloca desde um ponto de partida até um ponto de chegada. constituindo-se numa prática migratória inerente ao modelo de desenvolvimento da era atual” (MENEZES. para as indústrias.Sirlândia Schappo — 233 A falta de políticas estruturais e territoriais mais amplas agrava os problemas ligados aos deslocamentos populacionais. no tocante às ações e opções que norteiam projetos e ideais de vida. dependendo dos espaços onde se processa. p. mais do que social. o que também quer dizer imobilidade.8): O nômade de antigamente foi capturado. pois desde a sua perspectiva não há referencial fixo com relação ao qual se possa definir um movimento de afastamento ou aproximação”. Expressa-se o cenário de uma gama variada de fluxos migratórios: movimentos de curta distância. Segundo Villela (1997. p. Segundo Benetti e Vainer (1988.225-240. mas que passam a se caracterizar como migrantes-nômades. e não consegue viver no e do mercado. mobilizado.

225-240. diante de escassas expectativas de melhoria nas condições de vida. em sua grande maioria. por estabelecimentos agrícolas de trabalho familiar. no entanto. valorizam-se aspectos ligados à diversidade apresentada no interior da mesorregião analisada. no entanto.39). As alterações nas diferentes intensidades e espacialidades que envolvem os movimentos migratórios marcam as características recentes do processo de distribuição espacial da população no país. Essas transformações. e da própria resistência pela opção de permanecer no meio rural. a manifestação do desassossego. principalmente de agricultores da própria mesorregião. o deslocamento de migrantes-nômades que convivem num cotidiano de incertezas e por outro. p. abril de 2004 . como “esvaziamento dos campos” e outras do gênero. busca-se observar o movimento populacional interno. Tal fenômeno expressa. nem sempre são apreendidas no âmbito das tendências gerais. de educação. Em especial. por um lado. em relação ao estado e ao Brasil. O Oeste de Santa Catarina constitui-se. parte-se para alguns apontamentos sobre a dinâmica populacional de um espaço específico – a Mesorregião Oeste de Santa Catarina. A mesorregião representa mais de 50% da produção agrícola do estado e caracteriza-se por sua evolução ser muito inferior à da população rural. que se deslocam para acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra (MST). Migrantes nômades no Oeste de Santa Catarina Neste item. Florianópolis: EDUFSC.35. direito à política agrária. Observando-se a importância de tal proposição. A dinâmica populacional é observada em sua forma heterogênea. necessitando de estudos que aprofundem situações específicas. de crédito. Revista de Ciências Humanas. Desprezam-se expressões freqüentemente utilizadas. p. parte-se para a análise do fenômeno migratório em uma região específica e que se caracteriza como um espaço rural.234 — Migrantes-nômades: chegar. da luta pelo “direito a ter direito”. n. partir ou ficar? Segundo Sales e Baeninger (2000.

.17 a. a atividade suinícola. o esgotamento dos recursos naturais e a redução da rentabilidade de alguns produtos tradicionais.94 a. Outros fatores no campo econômico contribuíram para a crise.73 a. mais especificamente e de forma mais intensa a partir de meados da década de 1990. atraindo pessoas de outros municípios e outras regiões. Na década de 1990. Entre 1991 e 2000. que passou para 1. como a diminuição do volume de crédito agrícola. que.35 a. O resultado disso foi um intenso processo de exclusão de suinocultores da atividade. n. apesar de a taxa de crescimento em Santa Catarina ter reduzido.36%) do que a estadual (2. enquanto a taxa de crescimento da população entre 1980-1991. muitos municípios apresentaram crescimento da população rural superior ao do estado e. chegando a apresentar. no Brasil.. era de 2. até mesmo. suínos e feijão (TESTA et al. o esgotamento da fronteira agrícola e a estrutura fundiária excessivamente subdividida. p. o que expressa acentuado e progressivo movimento de esvaziamento demográfico. 1996). ocorre mesmo com taxa média anual de natalidade maior no Oeste (2. que.. -0. dada a crise nacional que afetou a economia da Mesorregião Oeste. Florianópolis: EDUFSC.a. passando para 1.a. o perfil de distribuição da população estudada revela. Revista de Ciências Humanas. os fatores estruturais também agravaram a crise. a escassez de terras aptas para culturas anuais. ainda. e.23%).a. taxa de crescimento negativa. em Santa Catarina.a. tendo em vista a grande distância dos principais mercados consumidores.. ao do Brasil. em relação ao estado. pela redução da demanda por produtos agrícolas e pela diminuição do crédito para custeio e investimento agrícolas e agroindustriais.a. assim como no Brasil. entre 1996 e 2000.a. Essa taxa inferior. Decresceu o consumo per capita do principal componente da agroindustrialização.a.29 a. como milho. de 1. com taxa de 0. apesar do “esvaziamento populacional” que tem caracterizado a mesorregião. a mesorregião Oeste apontava crescimento de 1. ou seja.35..93 a. mesmo diante de tal problemática. com base em dados dos censos demográficos do IBGE. o fenômeno migratório agravou-se.Sirlândia Schappo — 235 Observa-se. a mesorregião Oeste teve redução bem mais acentuada. Agregando-se aos fatores conjunturais. abril de 2004 .12 a. na qual os menores estabelecimentos concentram os solos mais declivosos e pedregosos. Todavia.225-240..

totalizando 2. Assim. Esses espaços congregam o conjunto de municípios considerados atraentes. o que corresponde a 75. mesmo que não sejam imediatas. escola etc. reflexo do grande número de projetos de assentamento e de acampamentos do MST lá existentes. n. abril de 2004 . as quais apontam para uma ampliação das políticas. além de terem sido agricultores familiares antes de assentados8. cerca de 92% são da própria Mesorregião Oeste Catarinense. que atraíram um grande número de pessoas na última década. no interior da própria mesorregião.2% são oriundas de Santa Catarina. Segundo ICEPA (1998). 73.2% do total de famílias acampadas no estado. destacam-se por apresentarem-se atraentes.413 famílias acampadas. habitação. Quanto às moças.35. há desejo maior de trabalhar e morar na cidade (43%). p. no entanto. encontram algumas conquistas. o que pode ser observado na figura seguinte: Percebe-se também que o meio urbano não condiz com o ideário futuro de grande parte dos jovens do Oeste Catarinense. desse total. Esse cenário incentiva aqueles que para lá se dirigem a acreditar na melhoria das condições de vida. a partir de dados do INCRA (1997). 69. Constata-se que duas microrregiões do Oeste Catarinense. Um estudo mais detalhado sobre a dinâmica populacional da mesorregião foi feito por Schappo (2003). Tais projetos têm representado. obtidas por parte dos agricultores já assentados. a possibilidade de explicitar suas reivindicações pela ampliação das políticas públicas. como proprietárias. Joaçaba e Xanxerê.6% dos acampamentos de Sem-Terra do Estado estão localizados no Oeste de Santa Catarina. em termos de acesso à terra e infra-estrutura. por parte dos agricultores familiares. em parte. 32% delas gostariam de permanecer na agricultura. 69% dos rapazes desejam permanecer na agricultura como proprietários e apenas 20% anseiam trabalhar e morar na cidade. ou seja.225-240. No local de “chegada”. com destino a determinados municípios. Tal fato pode ser. via expressão dos movimentos sociais. configura-se uma migração rural-rural.. Revista de Ciências Humanas. situados no interior da própria mesorregião. sendo que. ou seja. de origem oestina. onde tais migrantes-nômades descobrem. O anseio dos agricultores por permanecer no meio rural é expresso pelo fato de a grande maioria das pessoas acampadas e assentadas nessas microrregiões serem da própria mesorregião. dessas famílias catarinenses. resistência frente ao abandono acentuado dos espaços rurais.236 — Migrantes-nômades: chegar. Florianópolis: EDUFSC. Destaca-se que. partir ou ficar? __________________________________________________ 8 Um dos fatores que têm contribuído para a diversidade na dinâmica populacional que caracteriza os municípios do Oeste de Santa Catarina é o deslocamento de agricultores para acampamentos do MST. Segundo Abramovay (2000).

61% das famílias assentadas em Santa Catarina e 68. sendo que. destacando que 82. em especial. Dados mais recentes mostram que. Florianópolis: EDUFSC. Nela.Revista de Ciências Humanas. com 4. o cenário analisado expressa inter-relação dos processos migratórios e ampliação dos conflitos de terra.67% deles eram agricultores ou camponeses.120 famílias. conforme o INCRA e a Superintendência Regional de Santa Catarina. Apesar de ter havido alguns avanços em termos de desconcentração da terra em Santa Catarina. deles. a Mesorregião Oeste Catarinense abrigava 78. n. da luta pelo “direito a ter direito”. em março de 2002. migrantes-nômades – a maioria deles da própria mesorregião. de 0. com 3. até março de 1998. 95 assentamentos.35. Assim. no Estado. expressivos deslocamentos caracterizam-se. Segundo ICEPA (1998). à política agrária e à política de crédito rural. Os dados apontam ainda os beneficiários envolvidos em projetos de assentamento em Santa Catarina. abril de 2004 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 54321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 432121098765432109876543210987654321 43212109876543210910765654320987654321 684324321 1 5 9871 43212109876543210910765654320987654321 684324321 1 5 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210610432654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 29876543210987654321 43212109876543210910765654320987654321 2610432654321 18 9874321 1 5 9871 43212109876543210910765654320987654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210610432654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 29876543210987654321 987 1 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 43212109876543210910765654320987654321 2610432654321 18 9874321 5 1 43212109876543210910765654320987654321 2184324321 1 15 9871 65 9871 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 43212109876543210910765654320987654321 2684324321 1 15 9871 Fonte: INCRA. 29% das famílias de agricultores do Oeste podem ser consideradas “carentes de terra”.671).682 para 0. segundo o Índice de Gini (o qual passou. p.225-240. 1997. Figura 1 Origem das famílias acampadas na Mesorregião Oeste de Santa Catarina Norte Catarinense Oeste Catarinense Região Serrana Sirlândia Schappo — 237 Sul Catarinense .302 famílias. antes de serem assentados. a demanda por terra no Oeste Catarinense ainda é grande. 68 localizavam-se no Oeste Catarinense.33% dos projetos de assentamento. entre 1985 e 1995. havia. por parte dos agricultores familiares. conforme dados dos censos agropecuários.

IPEA. O local de “chegada” pode significar. Êxodo rural. mesmo limitada ou incerta. São Paulo. Acesso em: 02 nov. Texto para discussão n. 1999. ABRAMOVAY.br/ projetos/rurbanos>. n. para aqueles migrantes. Referências bibliográficas ABRAMOVAY. Agricultura familiar e sucessão profissional: novos desafios. Florianópolis: EDUFSC.766.225-240. ampliação (ou possibilidade de ampliação) das oportunidades de melhores condições de vida. VAINER. o ponto de “chegada” pode se tornar em breve um local de “origem” de um novo deslocamento. em que um ponto de “chegada” pode tornar-se em breve um ponto de “partida” de um novo deslocamento. em especial. CAMARANO. Chegar. Pontuou-se. Ricardo et al. 621. por parte daqueles que migram. Rio de Janeiro: IPEA. Distribuição espacial da população brasileira: mudanças na segunda metade deste século. sendo que a condição de migrantes-nômades permanece./dez. n. Disponível em: <www.2. tendo em vista a morosidade nos processos de formulação e implementação de políticas públicas destinadas ao meio rural. um caso específico de deslocamento populacional. BELTRÃO. No entanto. Migrações e metrópoles. assim. Ana Amélia. 1988. como resultado de uma avaliação. CAMARANO. Revista de Ciências Humanas. Ana Amélia. à política agrária. envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos 50 anos. partir ou ficar? rumo aos acampamentos e assentamentos. Rio de Janeiro: IPEA. 2000.238 — Migrantes-nômades: chegar. de acesso à política agrária e à política agrícola. IPEA. de possibilidades de melhoria em termos de “ascensão social” – torna-se hoje insuficiente para dar conta da ampla variedade dos deslocamentos populacionais existente. Texto para discussão n. Ricardo.unicamp.eco. p. num contexto de estreitamento das possibilidades de ascensão social. Travessia: Revista do Migrante. Pablo.35. BENETTI. Carlos B. locais que representam uma possibilidade. set. 2002. Kaizô Iwakami. mas que revela o quanto a utilização genérica do termo êxodo rural – entendido como um deslocamento de uma sociedade rural para uma sociedade urbana industrial. partir ou ficar? – essas expressões revelam alargamento da indefinição do percurso de uma migração. abril de 2004 . 2000.

69. Teresa. Scripta Nova Revista Eletrônica de Geografia y Ciências Sociales. n. 2000. LEE. Paulo de Martino. José de Souza. 1885-1980. Acesso em: nov. abril de 2004 . BAENINGER. p. 2003. Florianópolis: EDUFSC. Everett S. RJ: Vozes. Florianópolis. n. George.225-240. 2000. Petrópolis. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Fortaleza. Fortaleza. Trad. Campinas. O problema das migrações no limiar do Terceiro Milênio. Adaptação dos migrantes ou sobrevivência dos mais fortes?. n. IPEA. RAVENSTEIN. 1998.es/geocrit/sn-69-45. SALES. MENEZES. 1978. A redistribuição espacial da população brasileira durante a década de 80. George. Sociedades Camponesas. BNB/UFC. Fortaleza: BNB/UFC. MENDRAS. Hélio A. 1966-1980. Travessia: Revista do Migrante. In: O fenômeno migratório no limiar do Terceiro Milênio. 1998.Sirlândia Schappo — 239 INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA. 1997 e 2002. INCRA. E. As leis da migração. BNB/UFC. In: Migrações internas no Brasil. Trad. MARTINS. Rosana. In: Migrações internas no Brasil. INSTITUTO DE PLANEJAMENTO E ECONOMIA AGRÍCOLA DE SANTA CATARINA. G. Hélio A. In: Migrações internas no Brasil. 1994. JANNUZZI.35. 2000. Disponível em: <http://www. Maria José da Silveira Lindoso. Migração rural e estrutura agrária no Oeste Catarinense: Aspectos recentes. São Paulo. Henri.329.ub.36. janeiro-abril. Maria Lúcia Pires. Revista de Ciências Humanas. de Moura. MARTINE. 01 de agosto.htm>. Trad. de Moura. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Migrações internas e internacionais no Brasil: panorama deste século. 1980. MARTINE. Uma teoria sobre a migração. Universidade de Barcelona. Texto para discussão n. São Paulo: Autores Associados. Rio de Janeiro: IPEA. Tendências atuais das migrações internas no Brasil. Migração e mobilidade social: migrantes no mercado de trabalho paulista.

janeiro-abril.35. Florianópolis. n. Jorge. Carlos B. TESTA. abril de 2004 . Sirlândia. In: Migrações internas no Brasil. Florianópolis: EDUFSC. Vilson Marcos. partir ou ficar? SINGER. Dissertação (Mestrado em Sociologia Política) – Universidade Federal de Santa Catarina. n. O que distingue o nomadismo da migração? Travessia: Revista do Migrante. 2003.225-240. Fortaleza. 1996. O desenvolvimento sustentável do Oeste Catarinense: proposta para discussão. 1997. Travessia: Revista do Migrante.27. Florianópolis: EPAGRI. Estado e migrações no Brasil: anotações para uma história das políticas migratórias.36. São Paulo. Paul. p.240 — Migrantes-nômades: chegar. BNB/UFC. et al. 2000. janeiro-abril. Raul de. 1976-1980. Políticas públicas no meio rural: o PRONAF e suas inter-relações com o fenômeno da migração na Mesorregião Oeste de Santa Catarina. (Recebido em setembro de 2003 e aceito para publicação em outubro de 2004) Revista de Ciências Humanas. SCHAPPO. NADAL. Migrações internas: considerações teóricas sobre o seu estudo. São Paulo. VILLELA. n. VAINER.

Perez (PUC/PR) Elio Cantalício Serpa (UFG) Erly Euzébio dos Anjos (UFES) Fernando Silva Teixeira Filho (UNESP) Georgina Carolina Oliveira Faneco Maniakas (UFSCAR) Hector Ricardo Leis (UFSC) Horácio Luján Martinez (UNIOESTE) Jean Hébette (UFPA) João Ignacio Pires Lucas (UCS) Jorge Saba Arbache Filho (UNB) Marco Antonio de Castro Figueiredo (USP Marco Antonio dos Santos Reigota (UNISO) Maria da Conceição Fonseca Silva (UESB) Maria José de Rezende (UEL) Maria Juracy Toneli Siqueira (UFSC) Marilia Luiza Peluso (UNB) Maurício Roque Serva de Oliveira (UFPR) Norberto Olmiro Horn Filho (UFSC) Paulo Pinheiro Machado (UFSC) Rafael José de Menezes Bastos (UFSC) Renato Kilpp (UFCG) Tamara Benakouche (UFSC) Walquiria Krüger Corrêa (UFSC) Wilson Ferreira Coelho (USP) Yan de Souza Carreirão (UFSC) .RELAÇÃO DOS CONSULTORES AD HOC Revista número 35 Ana Lúcia Gomes Medeiros (UFSC) Anita Brumer (UFRGS) Benilde Maria Lenzi Motim (UFPR) Breno Augusto Souto Maior Fontes (UFPE) Cecile Helene Jeanne Raud Mattedi (UFSC) Daniel Omar.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful