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156 Fichas de trabalho Domínio  Oralidade · Compreensão do oral

Transcrição do registo
Nota: Os textos apresentados correspondem à transcrição literal do discurso dos intervenientes,
caracterizando-se, nalguns casos, pelas marcas próprias da oralidade, dada a sua espontaneidade.

Discurso de Mia Couto na cerimónia 05 min 49 s

Recursos
de atribuição do Prémio Camões de 2013
Sempre pensei que, em ocasiões como esta, se deve fugir ao estereótipo dos agradecimentos

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e dedicatórias. Os prémios não se dedicam: partilham-se. Aqui, nesta sala, estão algumas das
pessoas que partilham comigo esta distinção: a minha mãe, Maria de Jesus; a Patrícia, minha
mulher; os meus filhos Madyo, Luciana e Rita; estão aqui familiares e amigos, que representam
5 o universo dos afetos com quem, dentro e fora de Moçambique, fui tecendo a minha obra. Está
aqui o meu editor, desde o primeiro momento, o Zeferino Coelho, que se ocupou em que eu não
me ocupasse em outras coisas e me concentrasse naquilo que eram os prazeres do labor da es-
crita. Todos estes familiares e amigos são coautores dos meus livros. Mas há alguém com quem
quero partilhar especialmente este momento: que é o meu pai, Fernando Couto. Foi ele que me
10 ensinou não apenas a escrever poemas, mas a viver em poesia. Este prémio pertence a esse
sentimento do mundo que ele me legou como uma sombra, que resta mesmo depois de tombar
a última árvore. Partilho, finalmente, este momento com a gente anónima de Moçambique, essa
multidão que fabrica a nação viva e sonhadora que venho celebrando desde há mais de trinta
anos. Parte dos moçambicanos que, junto comigo, assinam os meus livros não sabem escrever.
15 Muitos não sabem sequer falar português, mas guardam no seu quotidiano uma dimensão má-
gica e poética do mundo que ilumina a minha escrita e que encanta a minha existência. Toda esta
nação de gente tão diversa faz-se aqui representar pelo embaixador de Moçambique, meu com-
patriota Jacob Jeremias Nyambir, a quem eu saúdo especialmente, e também como companheiro
da luta de libertação nacional pela independência de Moçambique.
20 Caros amigos, esta cerimónia poderia também ocorrer na Ilha de Moçambique, onde Luís Vaz
de Camões viveu durante dois anos. Ali, o poeta morou pobre, desamparado, sem amigos. Ali, em
solo moçambicano, o poeta fez a última revisão d’ Os Lusíadas. Dois anos é muito tempo para al-
guém que apenas sabia viver em paixão. Talvez, ali, ele tivesse encontrado amores, desses que
ele chamava de “amores capazes de fazerem do amador a coisa amada”. Pode ser que, nas
25 praias do Índico, vivam hoje moçambicanos que trazem, no seu sangue, o sangue do poeta portu-
guês. Pode ser, enfim, que outras imortalidades, mais mortais e mundanas, se juntem ao nome
de Luís Vaz de Camões. Nunca o saberemos, como não saberemos nunca as mais de mil possí-
veis leituras do nosso destino comum. Não fosse a intervenção de um amigo, que curiosamente
se chamava Couto, talvez Camões tivesse ficado para sempre naquele exílio africano. Foi Diogo
30 do Couto que lhe pagou a passagem de regresso a Lisboa. Não tivesse sido assim e aconteceria
com ele aquilo que, séculos depois, sucedeu com o poeta luso-brasileiro António Thomaz Gon-
zaga, que viveu, amou e ficou sepultado na mesma Ilha de Moçambique. Não fosse a fugaz casua-
lidade de uma visita de um amigo, poderíamos não ter hoje a grande obra épica lusitana. (Aqui,
eu faço uma confissão, uma espécie de parênteses, que esta exaltação de alguém que, afinal, é
35 um improvável parente meu, de um Couto, se destina apenas para puxar lustro a este clã dos
Coutos, num mundo em que ter família conta tanto como no tempo de Camões.)
Os Lusíadas não teriam igualmente sobrevivido se tivessem suscitado um parecer desfavorá-
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vel da censura da Inquisição, que estava acima da decisão do rei de Portugal. O censor do Santo
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Ofício licenciou a edição do livro, mas teve ainda algumas reservas por causa da referência que o
40 poeta fazia aos deuses da chamada gente pagã. Mas o censor acabou por ceder pela razão que
passo a citar: “fica, porém, sempre salva a verdade da nossa santa fé, pois que todos os deuses
dos gentios são demónios.” Estamos longe desses tempos, mas não sei se estamos tão afastados
dos desconhecimentos, preconceitos e medos sobre os outros e sobre os deuses que esses ou-
tros se sonham. Não temos a censura da Inquisição, mas temos outras censuras sem nome, que
45 nos patrulham o pensamento e nos domesticam a ousadia da mudança, essa mudança que
Camões tanto cantou como sendo a substância da vida e do tempo. Falei da Ilha de Moçambique
enquanto metáfora desta constelação de nações que falam português, mas que não são faladas
de igual maneira por esse idioma. Esquecemos, por vezes, que essas nações integram povos que
falam outras línguas, que vivem outras culturas e outros deuses. Somos, enfim, produto de uma
50 História que se fez só por metade. Da narrativa do nosso passado faltam a voz e o rosto dos que,
afastados da escrita, não puderam registar outras versões dos nossos encontros e desencontros.
Talvez os escritores de hoje possam resgatar as vozes que ficaram esquecidas e ocultas. Todos
sabemos o que está ainda por cumprir do vaticínio que o poeta Jorge de Sena atribuiu a Luís de
Camões, e que dizia o seguinte: “que da ilha rasgada pela História uma única ilha se fizesse,
55 sem separação de miséria e de luxo, onde todos, de igual modo, pudessem da felicidade fazer
morada”.
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Pensamos que um prémio serve para celebrar o que já fizemos. Prefiro pensar que se trata
de celebrar o que há ainda para fazer, e o quanto nos falta realizar a todos nós para que seja mais
viva e mais verdadeira esta família que celebramos na nossa língua comum.
60 Muito obrigado a todos.
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