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Histeria, luto e sedução generalizada

Gustavo Adolfo Ramos Mello Neto

Propor a neurose como patologia das relações amorosas não é nada novo. Isso está em
Freud que, sabemos, a vê como alteração da capacidade de amar e trabalhar.
O objeto da pulsão, que Freud teoriza nos Três Ensaios (1905/1990), introduz algo
muito complexo na própria idéia de pulsão. A fonte e a finalidade, de algum modo, não
trazem nenhuma complicação, nada que a sexologia da época não pudesse resolver com
seu aporte médico. O objeto, contudo, traz o outro e, sobretudo, retira o sujeito da pura
individualidade e o posiciona nas relações amorosas que, como sabemos, são relações
complexas, que levam em conta história e sociedade. A neurose, pois, aí se coloca como
uma forma do sujeito posicionar-se nessas relações, seja do ponto de vista de sua
constituição, seja do ponto de vista atual.
Do primeiro ponto de vista, o da constituição, a histeria vê-se teorizada enquanto
constituída a partir de certa forma de relação com os objetos primitivos. Em Freud há
uma ênfase no complexo de Édipo; o sujeito frente à sexualidade, isto é, às relações
amorosas adultas sofre uma regressão, buscando posicionar-se em relações pretéritas,
infantis de natureza incestuosa, que já deveriam ter sido ultrapassadas. De forma
simplificada, é o que temos em Dora (Freud, 1905/1990) que, frente ao dizer sim ou não
às propostas amorosas do senhor K, “prefere” a regressão, por meio de sintomas. É bem
verdade, contudo, que, em “A sexualidade feminina”, Freud questiona-se se realmente o
complexo de Édipo é o núcleo fundamental das neuroses e isso devido ao fato de que as
relações pré-edipianas com a mãe ganham um papel de inesperada importância na teoria
do desenvolvimento da mulher. Seja como for, Freud propõe, então, considerar o
complexo de Édipo de forma mais abrangente e ver nele todas as relações da criança
com ambos os pais.
Esse é um caminho retomado por um sem-número de autores pós-freudianos, que vão
desde um Judd Marmor (1953, apud Ramos, 2008) com a surpreendente idéia de que a
histeria deriva de uma fixação oral e não genital até uma Uti Ruprecht Schampera
(1995, apud Ramos, 2008), que propõe um triângulo não edipiano no desenvolvimento
da criança.
Do ponto de vista do atual, passemos a ele, temos também que desde os anos 50, os
autores têm divulgado a idéia de que a histeria já não é a mesma da época de Charcot e
Freud, pois já não se apresenta na forma de sintomas, mas aparece, sobretudo, como
uma neurose de caráter. Isto quer dizer que sua manifestação é no modo de ser, e ser é
ser com o outro. São pessoas insatisfeitas, que não evitam as relações objetais, mas
sofrem muito dentro delas. Alfredo Namnum (apud Laplanche, 1974, cit. p. Ramos,
2008) chama a atenção para o fato de que (desde os anos 50) a histeria se apresenta
principalmente na forma de relações conjugais conturbadas.
É, então, bastante chamativo que tanto a teoria psicanalítica quanto o fenômeno
analisado por ela caminharam, depois de Freud, no sentido de enfatizar as relações. O
que se expõe em seguida é uma proposta de interpretação da histeria que vai justamente
por esse caminho de inclusão do outro no arsenal explicativo.
Parte-se da Teoria da Sedução Generalizada (TSG), de Jean Laplanche.
A proposta de base é a de que entre a criança e o adulto existe uma assimetria capaz de
provocar todo um movimento. Tanto adulto como criança vivem certa passividade, no
sentido de que ambos são afetados; o adulto é afetado por seu inconsciente e a criança,
devido a sua imensa dependência, é afetada pelo adulto, que lhe destina mensagens
inconscientes (para si mesmo) que ela não poderá decifrar inteiramente. A imagem que
está aí é aquela bem conhecida do paciente de Freud que presencia o coito dos pais,
excita-se com ele, porém não pode compreendê-lo. Trata-se, pois, do que Laplanche
denomina mensagem enigmática do outro. É uma mensagem traumática, excessiva e
que aparece na forma de enigma. O não decifrado que permanece apesar da tentativa
que faz o infante de metabolização do conteúdo da mensagem será, pois recalcado,
dando origem ao que Freud nomeou Inconsciente. Essa é uma teoria que aceita
literalmente a idéia de recalcamento primário, em que este seria fruto da falha em
traduzir. Essa última faria de nós hermeneutas eternos, pois o enigma resultante estaria
sempre pressionando para ser decifrado. Substancialmente, esse enigma poderia ser
contido numa fórmula genérica: “que quer o outro adulto de mim”, que é o que aparece
na transferência e, sobretudo, na neurose. Ora, pode-se bem pensar que essa última seja
um produto possível dessa tentativa tradução.
Vejamos que essa proposta não é dessexualizante como outras que enfatizam a mãe
provedora. Mesmo assim, fica o histórico problema de se a causa da histeria é ou não o
complexo de Édipo.
A experiência nos leva a dizer que sim, pois o sintoma histérico e mesmo o quadro todo
quando interpretado seguidamente desse ponto de vista responde bem ao tratamento.
Mas, sabemos também que a oralidade aí é muito forte e a relação da histérica com a
mãe é de muita dependência.
A tentativa de tradução do enigma do outro antecede, pois, qualquer estádio
psicossexual organizado. Digamos, então, que qualquer dessas organizações é tradução
conseguida parcialmente. Desse ponto de vista, então, o fantasma é produto do esforço
de decifração, portanto, o que causa as neuroses é também produto. Pode-se, então,
pensar que se o resultado desse esforço não for o fantasma, não se tem uma neurose,
mas se está no reino das psicoses.
Se a oralidade e também a genitalidade edípica estão fortemente impregnadas no
fenômeno histérico, é talvez porque ambas são sexuais e a sedução é o que as enlaça. Há
sedução oral, como há sedução genital e é possível pensar que, partindo dos pais, ambas
são edipianas. A criança está colocada para o adulto genitor em posição de passividade
e nela são “introduzidas” mensagens tanto orais como genitais provindas do adulto. As
mais fundadoras, digamos, seriam as mais primitivas, as mais fragmentárias e parciais,
desse modo, o genital seria menos importante (ver Laplanche, 2007). Mas, não se pode
esquecer que o genital infantil é também sexualidade parcial, fálica. Também não se
pode esquecer que o oral na histeria é um oral genitalizado e vice-versa. Isso quer dizer
então que a organização neurótica é algo já bem complexo e estruturado.
Mas, a experiência também mostra que o neurótico não é apenas “realização de desejo”,
cumprimento do fantasma, mas é alguém que tem a perda como uma espécie de tônica
no seu discurso, no plano da enunciação, do interpretado. Como, então, perda com
sedução generalizada?
A princípio pode-se pensar que toda sedução comporta uma perda, pois na sedução
“promete-se” o que não se tem e não se cumpre, senão não seria sedução. É algo para se
pensar. Mas, o fato é que se propõe aqui que o neurótico vive o enigma do outro – que o
pressiona toda a vida – na forma de um luto, um luto que já iniciado, mas que segue
indefinido, daí os estados depressivos freqüentes. A perda, digamos, de algum modo dá
uma tradução para a mensagem do outro e o luto temporaliza, isto é, propõe um
momento na história de uma relação. Além disso, o luto é presença do objeto, mas
presença na forma de excesso e a perda (ou morte) impõe um enigma, na verdade,
irrespondível: “por que não me quis?”. No trabalho analítico é interessante observar que
isso aparece na vida atual. Isto é, o sujeito se nos aparece sofrendo pela perda de um
namorado, de um amante, de um marido ou de uma amiga e, por vezes, de um grupo e
um ideal. Muitas vezes a elaboração desse luto adulto é o começo de elaborações bem
mais essenciais. Outras vezes, quando o paciente vem a nós não traz nada disso, no
entanto, é interessante notar que o objeto atual e sua perda surgem no decorrer no
tratamento, fazendo emergir todo o drama explícito que outros trazem desde o começo.
É possível pensar que esse objeto não é nem mais menos que um deslocamento da
figura do analista, cuja função é explicitar esse drama e, através da abstinência analítica,
propiciar a sua superação.
Bibliografia
FREUD, S. “Fragmento de análisis de un caso de histeria”, in Obras completas,
vol. VII. Trad. José Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990 [1905].
FREUD, S. “Tres ensayos de una teoría sexual”, in Obras completas, vol. VII.
Trad.José Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990 [1905].
FREUD, S. “Sobre la sexualidad femenina”, in Obras completas, vol. III. Trad. José
Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990 [1931].
LAPLANCHE, Jean. Inceste et sexualité infantile. In : Sexual. Paris : PUF, 2007.
LAPLANCHE, Jean. Novos fundamentos para a psicanálise. Trad. Cláudia Berliner.
São Paulo: Martins Fontes, 1992.
RAMOS (MELLO NETO), Gustavo Adolfo. Histeria e psicanálise depois de Freud.
Campinas, SP, Editora da UNICAMP, 2008.
Depressão na histeria: uma dialética da paixão
Viviana Velasco Martínez

Sim, amo!1
A proposta aqui é discutir o amor como sintoma na histeria e a depressão como uma das
suas manifestações.
A necessidade extrema de amor, na histeria, implica em constantes perdas e decepções
amorosas, do que supomos decorrer a depressão. No entanto, para Ostow (1966), a
histeria seria a própria defesa contra a depressão. Para evitar o agravamento, o outro,
tomado como objeto de amor hipersexualizado, funcionaria como eficiente
antidepressivo, embora sempre temporário porque insuficiente. Desenrola-se, assim um
drama em torno da impossibilidade de satisfazer demandas fantasmáticas de amor.
E de que amor se trata?
O amor edípico, dirão alguns autores. Feigenbaum (1926) indicará nessa trama a
presença de amores e desamores. Uma costureira que, cedo, descobre, por um abraço
fraterno forçado, os segredos da exuberante anatomia masculina. Teme e rejeita esse
irmão, no entanto, ama um outro que, pouco antes de morrer de câncer, lhe entrega uma
aliança de presente, com o que ela desmaia; ama também o pai que igualmente morre
cedo e diz ser rejeitada pela mãe, que ama apenas o irmão, aquele que a abraça...
Temos também, os amores que decepcionam. A paciente de Cuevas (1996) justifica a
sua procura por amantes, por se sentir insatisfeita no casamento. Também neste caso,
temos um cenário que se repete: um pai morto, irmãos que parecem substituí-lo
eroticamente e uma mãe que rejeita.
É interessante apontar que nessas cenas edípicas com o pai ou irmão, como seu
representante, a mãe aparece como alguém que rejeita e maltrata. Tratar-se-ia de uma
vitimização conveniente para encobrir ou justificar o “crime” do desejo incestuoso?
Quanto à insatisfação nos relacionamentos, Ostow (1966) considera que o investimento
libidinal genital excessivo na histeria é uma forma de atenuar a dor psíquica, porém,
alimenta a fantasia de ter adquirido um pênis, motivo pelo qual o sexo deve ser rápido
ou sem orgasmo. Frente à insatisfação e nova ameaça de depressão é preciso culpar o
parceiro e, quem sabe, um novo amor para mitigar a dor.
Fessler (1950, apud Martínez e Mello Neto, 2007) também nos fala de decepção
amorosa. A impossibilidade de ter filhos, quando chega o climatério, instalaria uma

1
 . Frase de uma paciente em plena transferência erótica.
espécie de histeria, pois a realidade indicaria que não é mais possível fantasiar pela
restituição fálica através de um filho do pai.
Amores triangulares, incestuosos e proibidos, a histérica fantasia sua realização e sua
interdição simultaneamente na forma de um amor sempre fracassado.
Mas há também outros amores extremos. Desde os textos sobre a feminilidade de Freud,
a histeria não se refere apenas a uma sedução fantasmática do pai, mas toma a mãe
como objeto de amor e de satisfação, e como conseqüência de frustração. Destacamos
assim as perdas, do objeto e do seu amor causando uma ferida narcísica, do que
decorrem as tentativas constantes, na histeria, de substituir sempre por um outro, aí está
o analista, como promessa de satisfação, além de edípica, pré-edípica também.
Será precisamente essa ferida narcísica que causará a depressão. Segundo Wallerstein
(1981, apud Martínez e Ramos Mello, 2007), a menina não pode sustentar a fantasia de
possuir fálica e ativamente a mãe e, mesmo quando ela abandona esses impulsos fálicos
e desloca a libido para o pai e depois para outros homens, a mudança para a condição
receptiva provocaria a depressão. No caso da histeria, defesas patológicas são acionadas
e conflitos antigos impedem o abandono da ligação fálica com a mãe. O oral estaria na
origem dessa depressão.
Já, para Ostow (1966), a oralidade na histeria seria um indicativo de que o investimento
libidinal da função genital não funciona mais como um antidepressivo, o ego, então,
procurará desesperadamente recuperar os objetos de cuidado. Oralidade e dependência
marcantes farão com que o amor escolhido possa ser identificado com a figura materna
de quem se exige em excesso. Contudo, o que pareceria ser um novo calmante, esconde
novas angústias, pois surge a ameaça de fusão.
Jeanneau (1985, apud Martínez e Mello Neto, 2007), por sua vez, se refere a um vazio
que apenas ameaça de depressão, decorrente da intervenção do pai, separando a fusão
da menina com a sua mãe. O pênis do pai, que falta à mãe, privaria a criança de um
apoio homossexual constitucional, de tal maneira que a identificação com a mãe seria
insuficiente. Contudo, pelo pênis contido na mãe, a fantasia de completude implicaria
no risco de uma devoração mútua. Cena primária, oralidade exacerbada e satisfação
alucinatória marcam a histeria para o autor, e a ameaça de abandono é a causa do
sofrimento.
De Matos (1985) também se refere a um estilo oral nas relações na histeria. Para o
autor, haveria na infância uma depressão não resolvida e encoberta por um
compromisso neurótico — eis a histeria —, implicando na procura incessante por um
objeto externo que satisfaça, dando a ilusão de perfeição e completude para preencher
um vazio do objeto interno fragilmente constituído. Mesmo que se estabeleça uma
relação precoce com suficiente e até excessiva satisfação pulsional, ela é meramente
funcional. Haverá, então, constantemente um conflito entre a demanda de amor e uma
recusa agressiva do objeto que, se sabe, negará a satisfação desejada. Assim a histérica,
continua De Matos (1985:375), “ao mesmo tempo em que está à procura permanente do
amor do outro, o recusa”. O amor, então, nunca chega e a espera por ele cria uma
expectativa angustiante que alimentará insônias, anorexia, inquietudes e múltiplos
investimentos, ou até indiferença, como forma de silenciar o sofrimento. A ausência do
objeto capaz de satisfazê-la e a falta de relações amorosas a manterá indefinidamente à
beira da depressão.
Há, finalmente, os amores excessivos de uma mãe por sua filha.
Pequena, abraçada à mãe, para dormir, como sempre — relata uma paciente — vê a mãe
tocar os genitais e lhe pergunta: “mãe, o que faz tua mão aí?”, rapidamente a mãe retira
a mão e diz: “onde? que mão? nada! Finge dormir e a mãe novamente se toca, então
senta abruptamente e apontando para os genitais da mãe afirma: “aí, mãe, aí!”
O que está aí para essa menininha que continua se interrogando anos depois na sua
análise? Prazer e horror parecem se entrelaçar nesse abraço erótico com a mãe.
As idéias de Jeanneau (1985, apud Martínez e Mello Neto, 2007) nos auxiliam. A mãe
da histérica, diz ele, utiliza o corpo da filha para se satisfazer sexualmente, procurando
para si alguma reparação narcísica ou recuperação fálica e para instalar nesse corpo suas
decepções masturbatórias. É, pois, no terreno do vínculo corporal e erótico que a criança
reencontrará sua mãe e um sentimento de estranha solidão na presença do outro. O
corpo da histérica é, então, um corpo solicitado e excitado, mas ao mesmo tempo,
decepcionado precocemente. O autor se refere aos cuidados da mãe.
Temos assim algo da ordem do impossível, onde cuidado e proteção, desejo e excesso,
oralidade e genitalidade, se contrapõem e se encontram para produzir o amor na histeria
como um sintoma conciliador. Se a procura por amor está em torno da procura de
satisfação edípica, ou mesmo de recuperar o objeto perdido do narcisismo, haveria aí,
talvez, uma tentativa de recuperar a sim mesmo como fonte de auto-satisfação. E perder
assim mesmo impõe o fracasso antecipado de qualquer possibilidade de luto, um amor
seria a salvação. Talvez, graças a esse amor que sempre se espera e se perde, a histérica
evite uma psicose, mas deixe como rastro uma melancolização, ou depressão narcísica.
Tratar-se-ia, finalmente, de um percurso em que com cada amor, além das satisfações
fantasmáticas edípicas — aí está a transferência erótica —, procure-se em si mesmo a
recuperação do corpo materno.
Referências
Cuevas P. A. Some changes observed in a clinical case. International Journal of
Psycho-Analysis. 73(2): 221-226, Sum.,1992.
De Matos A. C. De l’hysterie a la depression. Revue Francaise de Psychanalyse. 49(1):
374-379, 1985.
Feigenbaum, D. A case of hysterical depression. Mechanisms of identification and
castration. Psychoanalytic Review. 13: 404-423, 1926.
Martínez, V. e Mello Neto, G. Pathos histérico: depressão e teatralidade. Psychê,
20:79-98, jan-jun, 2007.
Ody, M. De l’opposition entre hystérie et dépression. Revue Francaise de
Psychanalyse. 50(3): 905-921, may-jun, 1986.
Ostow, M. The struggle against depression. Canadian Psychiatric Association Journal.
11(Supl): 193-207, 1966.
O amor oral e fálico na histeria
Francielle G. C. Gomes
Viviana Velasco Martínez

Esta exposição tem por objetivo compreender a constituição da histeria feminina


decorrente de um amor ambivalente e clivado dos pais, que desejavam um menino.
Enfocamos, nessa temática, os pontos de fixação nas fases oral e fálica e os
desdobramentos no amor (ou desamor), na histeria, como importante componente.
Em 1907, o pai da psicanálise se refere à histeria como um estado amoroso excessivo:
“O histérico exagera o amor do objeto e se torna, por isso, incapaz de se movimentar:
ele se fixa” (p. 130). Dez anos depois, Freud (1917) vai se referir a um retorno
empreendido pelas suas pacientes histéricas ao momento em que eram crianças de peito.
Já em 1931, nos fala da sua suspeita de que em torno da etiologia da histeria estaria a
ligação predominante da menina com a mãe.
Contudo, a histeria também estaria relacionada a situações menos regredidas e, portanto,
genitais. Uma das idéias de Freud, que nos interessa, é a de que tomaria por histérica
qualquer pessoa em quem “... uma oportunidade de excitação sexual despertasse
sentimentos preponderantes ou exclusivamente desprazerosos” (1905: 37). Além dessa
idéia, que surge no caso Dora, temos todo um percurso, na clínica de Freud, que aponta
para a etiologia do pai.
As definições de Freud, portanto, se referem tanto aos aspectos edípicos, como os pré-
edípicos, nas formas de amor da histérica.
Laplanche e Pontalis (1987) dão um contorno bastante interessante para a histeria,
tratar-se-ia da “predominância de um certo tipo de identificação e de certos mecanismos
(...), e no aflorar do conflito edipiano que se desenrola principalmente nos registros
fálico e oral” (p. 211).
De qualquer forma, temos, em torno da etiologia da histeria, o estabelecimento de uma
relação da criança com o adulto e essa relação terá algumas especificidades e
conseqüências.
Aulagnier (1979) se refere à expectativa em relação ao sexo1 do bebê como o primeiro
ponto de ruptura que pode surgir entre o desejo dos pais pelo filho, presente nos
1
  Embora a autora utilize o termo “sexo”, talvez fosse mais adequado 
substituí­lo por “gênero”. Isso, porque — nos apoiamos nas idéias de 
Laplanche (2007) — o sexual é o fragmentário, o polimórfico perverso, 
ligado à pulsão sexual de morte, já o gênero vem da cultura com suas 
elaborações defensivas, entre elas o próprio complexo edipiano. 
enunciados construídos por eles em relação a este último, e o corpo real do bebê. “O
primeiro ponto de ancoragem — afirma a autora — que pode, dramaticamente, tornar-se
o primeiro ponto de ruptura entre esta sombra e este corpo é representado pelo sexo”
(1979:111). Nessa ruptura, estaria precisamente a histeria como uma “solução”.
Por sua vez, Mayer (1989) considera que as expectativas dos pais postas no sexo que
terá a criança serão determinantes na organização sexual, já que, dependendo daquelas,
o bebê poderá ser idealizado ou, mesmo, rejeitado.
Nesse aspecto, temos, então, que o desejo dos pais pela criança e pelo sexo desta,
influencia a qualidade do investimento libidinal que ela receberá a partir de seu
nascimento, festejado ou não pelas ilusões dos pais. Isto nos permite localizar na fase
oral o primeiro desarranjo no desenvolvimento psicossexual da menina que poderá vir a
se tornar histérica. Tomamos assim a fase oral, porque em termos de organização
psicossexual esse estádio é o primeiro cenário para as relações entre a criança e o
adulto.
Assim vemos surgir complexos desdobramentos, entre eles o da identificação, por
exemplo, com as figuras parentais que rejeitam e que meses de espera idealizaram o seu
bebê.
O. Manonni (1994), a partir da sua experiência clínica com histéricas nos chama a
atenção para essa problemática da identificação nas histéricas, que se origina no
nascimento: “Essa criança não é como deveria ser (...). Nós queríamos um menino, não
foi como deveria ser” (p. 87).
Mayer (1989) considera que alguns pais podem até valorizar conscientemente a
identidade sexual da filha, mas inconscientemente rechaçam-na, considerando este fato
como facilitador de uma organização neurótica.
Uma rejeição, por exemplo, como resultado da frustração das expectativas quanto ao
sexo do bebê, terá como um dos seus desdobramentos uma virulência do conflito
edípico na fase fálica, dirá Pellegrino (1987), resultado precisamente das vicissitudes da
relação entre a criança e a mãe, na fase oral. “Quanto pior for esta relação, quanto
menos se sentir a criança amada e protegida pela figura materna, mais se agarrará a ela,
e mais devastadoras serão as paixões desencadeadas na etapa posterior (p.310).
Chegada à fase fálica, lembremo-nos de Freud (1031), um dos caminhos que pode ser
seguido pela menina é o da neurose e, nele, a fantasia de desvalorização da mulher pela
descoberta da falta do pênis e a repressão de “uma boa parte de suas inclinações sexuais
em geral” (p. 126).
Será, então, na fase fálica que podemos circunscrever o segundo desarranjo no
desenvolvimento da menina que a conduz à neurose histérica.
No desenvolvimento feminino normal a criança abandona as catexias objetais do
complexo de Édipo completo, ao final da fase fálica, identificando-se com os pais. Na
futura histérica, opera-se uma fixação nesta fase, a menina não abandona de todo as
catexias objetais edípicas, embora reprima seu conteúdo ideativo, o que terá efeitos em
sua vida afetiva posterior. Esta fixação faz com que a histérica se aproxime de eventuais
parceiros sexuais com demandas infantis.
Dolto (1989) afirma que a decepção narcísica provocada pela descoberta da diferença
entre os sexos é sempre manifesta na menina e que o comportamento dos pais diante
desta descoberta é determinante para a possibilidade de evitar a “escolha” de um destino
psicossexual histérico. No dizer da autora:

O comportamento da mãe ou pai (...) nesse estágio, pode mudar


completamente o sentido narcisista dessa surpresa dolorosa, se ela
é transformada em um mero ensejo para um esclarecimento sobre
a sexualidade, e não de uma rejeição emocional por parte do
adulto a quem a criança pede explicações (p. 55).

Para Violante (2007), é somente diante da valorização da feminilidade da menina pelos


pais que esta pode superar a inveja do pênis e aceder ao desejo de ter filhos. Por outro
lado, continua a autora, um destino histérico, decorre precisamente do rechaço dos pais,
que subestimam sua feminilidade — desejavam um menino —, de tal maneira que o
único caminho livre seria se aferrar mais à mãe (fálica), e, na fase fálica, se identificar
com ela.
Assim, a histérica, embora tenha aceitado em certa medida a castração materna e a sua
própria, fica presa a uma lógica fálica / castrada, onde os sintomas fálicos se misturam
aos orais. São as fixações ocorridas em seu desenvolvimento decorrentes da
subestimação de sua feminilidade.
Finalmente, diremos como uma síntese, que a menina, por não ter sido desejada menina
por seus pais, se lança numa identificação primária representada na psique como um
pictograma de rejeição, seguida pela constituição de um eu com déficit de investimento
libidinal, o que torna a elaboração edípica especialmente dificultada, podendo culminar
numa neurose histérica que denuncia o desejo desencontrado dos pais por uma
menininha, desejo este submetido a uma clivagem ambivalente que levará a histérica a
se interrogar constantemente pelo amor sincero.
Referencias
AULAGNIER, Piera. A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Rio
de Janeiro: Imago, 1979.
DOLTO, F. Sexualidade Feminina. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
FREUD, Sigmund (1905[1901]). Fragmentos da análise de um caso de histeria. ESB, 24
vol., Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. VII.
______ (1916-1917 [1915-1917]). Conferências introdutórias sobre psicanálise. ESB,
vol. XVI.
______ (1931). Sexualidade Feminina. ESB, vol. XXI.
______ (1933[1932]). Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. ESB, vol.
XXII.
LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean Bertrand. (1987) Vocabulário de Psicanálise.
São Paulo: Martins Fontes, 2001, 4ª. Edição.
LAPLANCHE, Jean. Sexual. Paris: PUF, 2007.
MANONNI, Octave. As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
MAYER, Hugo. Histeria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
PELLEGRINO, Hélio. Édipo e a Paixão. In: CARDOSO, Sérgio et al. Os sentidos da
paixão. São Paulo: Cia das letras, 1987.
VIOLANTE, Maria Lucia vieira. O dilema da histérica, 2007. (Texto inédito).