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A mídia como uma das responsáveis por

impedir a aplicação, no sistema prisional, do


princípio da dignidade da pessoa humana1

A mídia pode, hoje, ser considerada um quarto poder,


posicionando-se ao lado do executivo, do legislativo e do judiciário.
Presidentes são eleitos ou mesmo afastados por conta da mídia.
Criminosos são condenados ou absolvidos, dependendo do que venha a
ser divulgado e defendido pelos meios de comunicação de massa. Enfim,
não se pode negar esse poder.

Os meios de comunicação de massa, sempre em busca de


percentuais de audiência, perceberam o “filão” do Direito Penal, ou seja,
passaram a reconhecer o fato de que notícias ligadas ao crime, ao
criminoso e à vítima caíram no gosto popular. As pessoas possuem uma
atração mórbida por notícia dessa espécie. Muitas vezes, ficamos horas a
fio em frente a um aparelho de televisão assistindo a mesma cena se
repetir incontáveis vezes. Por se tratar de uma “cena de crime”, atrai a
atenção e as pessoas ficam ali preses, em busca de notícias sobre o fato
criminoso.

Muitos programas se especializaram no tema criminalidade. Na


verdade, não podemos falar em especialização, mas em exclusividade de
pauta, ou seja, são programas cujas pautas dizem respeito,
exclusivamente, a notícias ligadas à criminalidade em geral.

1
Texto extraído do capítulo 1, páginas 72 a 74 do livro SISTEMA PRISIONAL – COLAPSO ATUAL E
SOLUÇÕES ALTERNATIVAS, de Rogério Greco, Ed. Impetus, Niterói, 2017, 4ª edição.
Infelizmente, embora esses programas discutam somente esse tipo
de assunto, os jornalistas que neles atuam, narrando e emitindo suas
opiniões, na maioria das vezes não conhecem, tecnicamente, a sua área
de atuação. Com isso estamos querendo dizer que os jornalistas e
apresentadores, por exemplo, que atuam em programas policiais, não
possuem o menor conhecimento da doutrina penal, processual penal,
execução penal, ou mesmo de política criminal.

Assim, sem a menor autoridade, emitem suas conclusões, dão suas


respostas a todos os problemas dessa ordem, vale dizer, possuem uma
resposta rápida e imediata ao problema da criminalidade. Normalmente
essas respostas apontam sempre para o aumento das penas já existentes,
para a criação de novos tipos penais, para a possibilidade da
imprescritibilidade etc. Apregoam que o sistema é demasiado brando com
aqueles que praticam uma infração penal e, por isso, pugnam por uma
punição mais severa dos criminosos. A mídia, como afirma com precisão
Giovane Santin, em virtude de suas rotineiras intervenções, conjugadas
com suas distorções da realidade, tem produzido uma evidente mudança
comportamental nos cidadãos, que pretendem fazer da lei penal a
salvação da sociedade contra os criminosos.

Essa mobilização constante e ininterrupta da mídia conseguiu


sacudir os alicerces do princípio da dignidade da pessoa humana no que
diz respeito aos direitos dos presos. A sociedade, atemorizada pelos fatos
expostos pelos meios de comunicação de massa, passou a concordar com
as conclusões da mídia e a solicitar também uma resposta rápida, por
parte do Estado, no que diz respeito ao aumento da criminalidade.

Os direitos dos presos passaram a ser tratados com repúdio. A


expressão direitos humanos começou a ser entendida de forma
equivocada: a mídia se encarregou de perverter o seu real significado.
Assim, quando a população em geral ouve dizer que os direitos humanos
devem ser preservados, automaticamente faz ligação entre direitos
humanos e direitos dos presos e, consequentemente, passam a questionar
a sua necessidade.

A indignação, basicamente, diz respeito ao fato de que a mídia, de


forma pejorativa, somente menciona que estão tentando proteger os
direitos humanos daquele que praticou uma infração penal, e se
esquecem dos direitos da vítima, bem como dos da sua família.

Dessa maneira, a mídia se encarregou de fazer com que a expressão


direitos humanos fosse vista com desprezo pela sociedade, que, no fundo,
alegra-se quando alguém que praticou uma infração penal é preso e sofre,
ilegalmente, no cárcere.

Assim, de nada adianta a existência de pequenos movimentos que


lutam pela dignidade do preso, ou seja, daquele que ainda goza do status
de ser humano e que, por algum motivo, praticou um comportamento que
atingiu de forma grave os bens mais importantes e necessários ao convívio
em sociedade, se a própria população, motivada pela mídia, alegra-se com
esse tratamento indigno, entendendo-o como uma consequência natural
para aquele que cometeu a infração penal.

É preciso ressaltar, todavia, que o preso, por pior que tenha sido o
fato por ele praticado, não perde a sua dignidade; por mais hediondo que
tenha sido o seu comportamento, por mais que desperte a fúria da
comunidade na qual se encontra inserido, ainda deve ter seus direitos
preservados. O Estado não pode igualar-se a ele. Não pode tratá-lo com o
mesmo desrespeito com que ele, eventualmente, tratou a vítima do
delito. O Estado, portanto, não tem esse direito. Pelo contrário, deve
trata-lo como ser humano que é; deve respeitá-lo e impor tão somente
aquilo que esteja previsto em seu ordenamento jurídico como sanção pelo
fato por ele levado a efeito, isto é, pode privá-lo de sua liberdade, não
mais que isso.

Mas ainda existe ordenamentos jurídicos que, além da pena


privativa de liberdade, adotam penas aflitivas, corporais, que agridem a
dignidade da pessoa, a exemplo do que ocorre com a china, bem como em
alguns países do Oriente Médio. Os presos, muitas vezes, são açoitados e
praça pública, apedrejados, mutilados, empalados, enfim, toda a sorte de
atrocidades é praticada oficialmente pelo próprio Estado, com desrespeito
à dignidade da pessoa.

Essas penas aviltantes, bem como as discussões sobre políticas


carcerárias equivocadas, serão analisadas, mais adiante, em tópico
próprio. Por ora, resta-nos afirmar que aquele que deveria ser o guardião
da dignidade do ser humano acaba se transformando em seu maior
agressor. Tal situação não pode prosperar, independentemente da cultura
e das tradições existentes em cada país. O ser humano não pode ceder a
caprichos históricos; sua dignidade deve falar mais alto, em qualquer
situação.

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