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Práticas pedagógicas

na educação a distância
concepções, tendências e desafios
ORGANIZADORAS/COORDENAÇÃO UAB-UDESC
Carmen Maria Cipriani Pandini
Lidiane Goedert
Roselaine Ripa
Ana Paula Netto Carneiro
EDITORA UNIVERSITÁRIA DA UDESC
Vinícius Alexandre Perucci [Coordenador]
Maury Dutra Filho [Secretário]
Mauro Tortato [Designer]
CONSELHO EDITORIAL
Nílson Ribeiro Modro - CEPLAN/UDESC
Alexandre Magno de Paula Dias - CESFI/UDESC
Avanilde Kemczinski - CCT/UDESC
Roselaine Ripa - CEAD/UDESC
Valmor Ramos - CEFID/UDESC
Fabiano Raupp - ESAG/UDESC
Vera Gaspar da Silva - FAED/UDESC
Dilmar Baretta - CEO/UDESC
Dario Nolli - CEAVI/UDESC
Alberto Lohmann - CERES/UDESC
João Fert Neto - CAV/UDESC
COORDENAÇÃO EDITORIAL
Carmen Maria Cipriani Pandini
Sabrina Bleicher
PROJETO GRÁFICO, CAPA E DIAGRAMAÇÃO
Alice Demaria Silva Penha
Sabrina Bleicher
DESIGN INSTRUCIONAL
Lidiane Goedert Livro elaborado por:
Klalter Bez Fontana
REVISÃO DE TEXTO
Arice Tavares
Multi.Lab.EaD
Cristina de Souza Prim

P912 Práticas pedagógicas na educação a distância: concepções, tendências


e desafios / Carmen Maria Cipriani Pandini...[et al.]. (Org.). -
Florianópolis: UDESC, 2016.
503 p. : il. ; 24 cm

ISBN: 978-85-8302-074-5
Inclui referências.

1. Educação à distância. 2. Prática de ensino. I. Pandini, Carmen


Maria Cipriani. II. Goedert, Lidiane. III. Ripa, Roselaine. IV. Carneiro, Ana
Paula Netto. V. Título.

CDD: 370.733 – 20. ed.

Ficha elaborada pela Biblioteca Central da UDESC


O USO DO AUDIOVISUAL NA
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
contribuições da educomunicação

Rafael Gué Martini

Rafael Gué Martini é Doutorando em Ciências da


Educação pela Universidade do Minho (Portugal) e
Mestre em Educação pela Universidade do Estado
de Santa Catarina (UDESC). Professor do Centro de
Educação a Distância (CEAD) da Universidade do
Estado de Santa Catarina (UDESC).
E-mail: rafael.martini@udesc.br
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INTRODUÇÃO

Apresentamos aqui algumas experiências audiovisuais vivenciadas ao longo da condução


da disciplina de Educação para a Sustentabilidade (EDS), do curso de Pedagogia a Distância
da UDESC, oferecida no segundo semestre de 2014. Iniciaremos descrevendo os recursos
audiovisuais utilizados na disciplina e em seguida faremos uma reflexão sobre como a
educomunicação pode auxiliar neste uso e na correta inserção desta tecnologia multimídia
na prática pedagógica. Por fim, também apresentamos algumas considerações sobre como
melhorar este processo de integração das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)
nas salas virtuais, como forma de melhorar ainda mais estas práticas pedagógicas.

As reflexões e análises partem do ponto de vista do professor/pesquisador e tem como


objetivo problematizar a prática para aperfeiçoar seus processos. São feitas análises
indutivas a partir da observação participante, com base nas seis áreas da educomunicação,
utilizadas aqui como categorias. Consideramos também a atuação do professor como
educomunicador no estímulo a estas práticas no ambiente virtual de aprendizagem.

AUDIOVISUAL NA SALA VIRTUAL

Na edição da disciplina de Educação para a Sustentabilidade ofertada no segundo semestre


de 2014, o audiovisual foi utilizado de três maneiras: como webaula previamente gravada,
como webconferência síncrona transmitida para os polos e como documentário relacionado
ao conteúdo para ser problematizado e comentado pelos alunos em fórum assíncrono.

Dois vídeos foram apresentados como webaula e estes foram os primeiros materiais
audiovisuais disponibilizados aos alunos no AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem).
Ambos foram gravados com o software Adobe Connect1, que permite visualizar o professor/
apresentador e uma apresentação de slides simultaneamente na tela. A webaula de
apresentação da disciplina é uma peça praticamente obrigatória para todas as disciplinas do
curso de Pedagogia a Distância da UDESC, e trata de apresentar a ementa e objetivos, sem

1 Software corporativo para e-learning comercializado pela empresa Adobe..

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interações. A segunda webaula foi produzida em função da escolha temática do semestre,


que foram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), tema para o Trabalho Final
da disciplina, realizado em parceria com as disciplinas de Gestão da Educação a Distância
(GEAD) e Produção de Material Didático para a Educação a Distância (PEAD).

Outras duas intervenções em vídeo, também utilizando o Adobe Connect, foram


webconferências síncronas realizadas em duas etapas diferentes da disciplina: em suas
primeiras semanas e no final do semestre, antes das provas. Embora cada turma tivesse
apenas duas webconferências, como os dias de aula presencial das turmas nos polos não
são os mesmos, ambas foram apresentadas cinco vezes, nem sempre com o mesmo
professor – visto que a equipe era formada por três professores. Essas webconferências
ficaram disponíveis posteriormente para serem assistidas pelos alunos no AVA.

Por fim, foi disponibilizado como elemento para fomentar as discussões antes da primeira
webconferência, um vídeo documentário, produzido por um dos professores da disciplina,
intitulado “Mau Hábito?”2, que trata da questão do saneamento básico nas grandes
cidades. O filme tem como foco Porto Alegre e sua região metropolitana, mas é um
exemplo válido para todo o país. Este vídeo foi vinculado a um fórum, onde os estudantes
tinham que postar reflexões sobre atitudes positivas que poderiam ser estimuladas e
negativas que deveriam ser mudadas quanto à sustentabilidade da sua localidade, seu
país ou do planeta.

Análise educomunicativa

A Educomunicação (educação + comunicação) tem como ponto de partida a teoria da


comunicação dialógica de Paulo Freire (1988), que inspirou uma geração de educadores
e comunicadores, como o uruguaio Mário Kaplún. Kaplún foi quem cunhou o termo
educomunicação, inicialmente para definir a promoção da “educação para os meios” ou
“leitura crítica dos meios” (KAPLÚN, 1997).

Kaplún falava em Comunicação Educativa, tomando-a como

2 Vídeo disponível em: <http://www.educom.jor.br/index.php/noticias/item/119-mau-h%C3%A1bito>.


Acesso em: 20 março 2016.

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um processo de construção de conhecimento a partir da reflexão


dialética sobre a realidade vivida comunitariamente, chamando a
atenção de seus leitores e seguidores para a necessidade urgente
de potencializar a ação do educador, assegurando condições para
que, superando uma visão mecanicista das tecnologias da infor-
mação, se transformasse em comunicador. Um comunicador vol-
tado para a transformação da pessoa e da comunidade. (SOARES,
2006, p.178 - grifos do autor).

O termo educomunicação e as reflexões sobre a comunicação educativa, foram objeto de


estudo do Núcleo de Comunicação e Expressão da Universidade de São Paulo (NCE/USP),
principalmente do pesquisador Ismar de Oliveira Soares. Em suas pesquisas, o NCE/USP avaliou
as experiências de educadores/comunicadores populares da América Latina e evidenciou a
existência de um campo específico de inter-relação entre comunicação/educação.

Partindo dos resultados destas pesquisas, o termo educomunicação foi ressignificado para
abarcar o conjunto das ações necessárias à construção e manutenção de ecossistemas
comunicativos, cuja existência é possível com a gestão dos recursos de comunicação
disponíveis - considerando as TIC e os meios tradicionais (SOARES, 2005). Justamente por
incorporar esta perspectiva tecnológica, a educomunicação possui um potencial para
analisar as relações entre educação e comunicação no AVA.

É muito útil para nós, em especial, o conceito de ecossistema de comunicação. Numa


analogia ao conceito biológico, o ecossistema comunicativo compreende a dinâmica de
inter-relacionamentos entre determinado indivíduo ou grupo e seu universo de públicos.
Segundo Ismar Soares (2002), foi Martín-Barbero (1997) quem desenvolveu o conceito
de ecossistema comunicativo como um novo lócus comunicacional, alicerçado em duas
dinâmicas das sociedades contemporâneas: a incidência contínua dos meios tradicionais
de comunicação e o impacto das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) na
vida cotidiana. Neste sentido, uma sala de aula virtual pode ser entendida como um
ecossistema comunicativo que precisa ser estimulado e integrado para potencializar a
aprendizagem de seus participantes.

Um professor educomunicador teria como missão estabelecer as relações de reciprocidade


dentro do ecossistema de comunicação onde atua. E para isso ele pode desenvolver ações

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nas seis “áreas de intervenção” da educomunicação, conforme definidas por Soares (2011, p.47):

» educação para a comunicação: alicerçada na reflexão sobre o lugar


dos meios de comunicação na sociedade e seu impacto. Parte do
pressuposto que o processo comunicativo é o primeiro conteúdo a
ser considerado e avaliado pelos interlocutores. Indica possibilidade
de trabalho em frentes defensivas, que buscam dirimir a influência
negativa da mídia, até projetos voltados para que as comunidades
possam dominar as linguagens e se apropriar dos meios de produ-
ção de suas próprias mensagens;
» mediação tecnológica na educação: voltada para a análise e estudo
das influências das TIC na sociedade contemporânea e seus múlti-
plos usos pela comunidade educativa. Busca garantir o uso dialógi-
co das tecnologias, primando pela acessibilidade e formas demo-
cráticas de sua gestão.
» expressão comunicativa através das artes: promoção de esforços no
sentido da auto-expressão das pessoas e grupos por meio da pintura,
vídeo, teatro, música e demais artes acessíveis. Explora a arte como
uma ponte de sentido entre ações comunicativas e educativas;
» gestão da comunicação: conjunto de ações e estratégias que envol-
vem o planejamento, execução e avaliação de programas e projetos
de intervenção nos ecossistemas comunicativos buscando a inter-
-relação entre educação, comunicação e tecnologia. Faz parte desta
área todo o esforço para efetivamente implementar propostas de
educação para os meios, para a mediação tecnológica e a expressão
comunicativa através das artes. Não diz respeito apenas ao ambien-
te escolar, mas também aos centros produtores de material didático
e de comunicação alinhados com uma proposta educomunicativa.
A gestão está relacionada à criação e manutenção dos ecossistemas
comunicativos;
» pedagogia da comunicação: área vinculada à educação formal (en-
sino escolar), que integra a didática na multiplicação das ações dos
diversos agentes educativos (professores e/ou alunos) promoven-
do, quando adequado, a pedagogia de projetos;
» reflexão epistemológica: base da ação do professor pesquisador,
proposta por Freire (1996), esta área trata de sistematizar as experi-
ências e estudos da inter-relação educação e comunicação, priman-
do pela coerência entre a teoria e a prática.

A proposta é a de avaliarmos os usos dos diversos audiovisuais utilizados durante a


disciplina de acordo com algumas das áreas da educomunicação.

Do ponto de vista da educação para a comunicação, a proposta de assistir ao vídeo


“Mau Hábito?” direcionou o olhar dos alunos para a produção audiovisual universitária

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alternativa. O vídeo é uma produção acadêmica independente que não está disponível
nos circuitos comerciais, e que, dificilmente, os alunos teriam acesso a este material se não
nesta oportunidade. O fato de o vídeo ser de autoria do professor da disciplina, aproxima
os alunos da produção audiovisual e permite que eles possam esclarecer questões ou
mesmo satisfazer a curiosidade sobre certos aspectos. A produção independente permite
também um olhar mais autoral sobre a questão abordada, sem interferência política dos
canais comerciais e de seus patrocinadores. A proposta foi que os alunos assistissem ao
filme e postassem suas impressões sobre o mesmo em um fórum assíncrono, sendo que
suas postagens serviriam de base para as discussões na 1ª webconferência da disciplina.
De um total de 818 alunos, o fórum contabilizou 480 postagens sobre o filme, com as
impressões ou comentários nas postagens de outros colegas. Considerando que os
comentários eram feitos em duplas, pode-se considerar que quase a totalidade dos alunos
participaram da atividade. Participação que confirma o acerto na escolha deste vídeo
como objeto de aprendizagem relacionado ao conteúdo, pois a atividade não valia nota.

Continuando o processo de análise, podemos avaliar o mesmo audiovisual em seu papel


de mediação tecnológica na educação. Os alunos foram orientados a assistir ao vídeo
preferencialmente no encontro presencial no polo, coordenados pelo tutor. No mesmo
dia, reunidos em duplas, tinham que elaborar um texto relacionando o vídeo com atitudes
negativas e positivas para a sustentabilidade. Este texto foi postado no fórum da disciplina.
Esta opção de uso do audiovisual permitiu uma maior socialização dos conteúdos
abordados no vídeo e das reflexões dos alunos, que poderiam ver no fórum os textos de
todas as duplas da sua turma. Algumas postagens tiveram vários comentários de colegas,
demonstrando o interesse da turma no tema e na opinião de seus pares. Esta interação
mediada pelo audiovisual e pelo AVA demonstra que a estratégia de assistir ao material
em conjunto e não de forma isolada (em suas casas, por exemplo) funcionou. Um primeiro
momento presencial foi proposto para aquecer o debate e um segundo momento no
AVA, onde as reflexões de todos puderam ser expressadas no fórum. As postagens dos
alunos foram utilizadas posteriormente na webconferência para reforçar certos aspectos
dos conteúdos. Foram escolhidas postagens de alunos das turmas que estavam assistindo
a webconferência, os alunos eram chamados pelos seus nomes e polos e a tutora
presencial confirmava, via chat, se os mesmos estavam presentes. Houve manifestações

O uso do audiovisual na educação a distância


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claras de contentamento dos alunos por suas análises serem citadas e relacionadas ao
conteúdo da disciplina, eventualmente com alguma problematização do professor e
até um comentário de réplica dos alunos no chat da webconferência. Esta dinâmica de
mediação com o uso do audiovisual proporcionou um certo nível de diálogo, que poderia
ser mais intenso caso o software possibilitasse uma interação mais direta.

Entramos aqui num ponto importante de reflexão sobre as TIC nos espaços educativos,
principalmente o audiovisual enquanto substituto da presença do professor em aula. O
sistema Adobe Connect, ou pelo menos a forma como ele é operado no curso em questão,
inibe uma prática mais intensa do diálogo, pois não produz no professor um efeito de
ampliação do espaço capaz de colocá-lo mais próximo dos alunos. O professor não vê a
sala, não pode escutar a voz dos alunos, não pode perceber as reações de suas palavras em
cada frase. A única forma de os alunos darem um retorno ao que o professor lhes fala é por
meio de um chat, normalmente de forma indireta, porque somente o tutor presencial fica
conectado em cada polo. Portanto, não se pode incorrer no erro de exagerar a parcela de
culpa ou de incapacidade que possa ter um professor para lidar corretamente com as TIC. Há
de considerar também o quanto estas TIC se apresentam de forma amigável aos professores.

Esse aspecto está relacionado com a gestão da comunicação nos espaços educativos.
Essa gestão deve ser pensada para facilitar a sensação de pertencimento de todos a uma
comunidade virtual de aprendizagem. Fortalecer este ecossistema deve ser a missão de
toda equipe de gestão do processo de EaD. E aqui começamos a vislumbrar de forma
mais direta como a Educomunicação pode se prestar aos processos educativos realizados
à distância e como a correta condução dessa gestão pode, na realidade, encurtar esta
distância até que desapareça por completo e possam professores, tutores e alunos
conviverem em um mesmo espaço de forma confortável e sentindo a interação de cada
integrante ao ponto de se sentirem presentes em suas turmas. Com a perspectiva de
instalação de sistema de videoconferência para uso no curso de Pedagogia a Distância da
UDESC, essa possibilidade de diálogo pode melhorar, pois esta nova tecnologia permitirá
que o professor veja e interaja com todas as turmas enquanto dá a aula.

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A pedagogia da comunicação pode ser observada na forma como o professor lida com as
possibilidades de se comunicar com o aluno. Em termos de audiovisual, podemos avaliar
a linguagem utilizada nas webconferências e webaulas. A postura diante da câmera e como
estimular os alunos pela dinâmica do audiovisual são conhecimentos essenciais para os
professores nesta área da educomunicação. Novamente, como não tínhamos aqui outro
recurso de gravação além do Adobe Connect, a área reduzida do vídeo na tela dificulta
a empatia com os alunos. Esta área fica ainda menor quando se assiste a versão gravada,
devido a necessidade de salvar as gravações na resolução mais baixa. A situação ainda
pode ser pior por conta de uma constante falta de sincronicidade entre áudio e vídeo
(novamente problemas de gestão interferindo na pedagogia) decorrente da rede de baixa
velocidade que não permite um tráfego mais intenso de dados.

Para além das questões técnicas, entendendo as plataformas de EaD como plataformas
de comunicação, é imprescindível que os professores desta modalidade de ensino
tenham uma formação mais intensa para lidar com os diversos recursos disponíveis de
forma adequada. Por isso a importância de desenvolver a pedagogia da comunicação.
Com relação à pedagogia do audiovisual, nas webaulas e webconferências observadas
na disciplina (um total de 13 vídeos), nota-se uma diferença grande entre os professores
que apresentam os conteúdos. Há os que estimulam mais a participação e aproveitam
as intervenções prévias ou síncronas dos alunos, enquanto outros reproduzem de forma
mais acentuada uma aula expositiva em vídeo, com a explanação do conteúdo resumido
aos alunos. Esta prática expositiva está totalmente em desacordo com o conceito
dialógico que permeia a educomunicação. O ideal seria buscar reproduzir, na maior parte
das intervenções síncronas, as discussões possibilitadas pela participação prévia no fórum
sobre o vídeo “Mau Hábito?”. Estes foram os melhores momentos das webconferências,
nos quais se verificou uma maior interação dialógica, com o professor chamando os
alunos por meio de seus depoimentos e comentando essas reflexões, promovendo a
empatia e cativando a atenção dos alunos nos diversos polos. Práticas como essa podem
ser estimuladas e ampliadas, até o ponto que se consiga efetivamente dialogar com os
alunos em cada polo, fazendo com que estes ampliem suas vozes em rede, com o único
objetivo de eles mesmos se darem conta do que pensam, em um primeiro momento,
para que, posteriormente, possam refletir sobre a validade deste pensamento para o

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desenvolvimento de suas vidas.

Em relação à expressão comunicativa através das artes não houve o registro de sua
promoção junto aos alunos da disciplina analisada, ou mesmo pelos professores. O
audiovisual foi oferecido às turmas, mas elas não foram estimuladas a fazerem seus
próprios vídeos, ou a registrar manifestações artísticas sobre o tema em questão. Uma
atividade formativa convidava os alunos a produzirem vídeos, fotos ou áudios sobre
os problemas ou soluções de sustentabilidade encontrados em suas cidades. Alguns
grupos conseguiram realizar vídeos com entrevistas ou postar fotos de suas cidades,
mas a grande maioria apenas escreveu ou mandou o link para produtos já existentes.
Aqui se verifica uma carência também na área de mediação tecnológica na educação,
pois pode se deduzir que falta aos alunos familiaridade em lidar com as TIC para produzir
peças artísticas de comunicação. Por conta de uma falta de habilidade técnica acabam por
não produzir ou produzir de forma muito improvisada - o que torna os resultados pouco
atraentes. Há aqui uma grande lacuna de formação a ser explorada.

A reflexão epistemológica sobre a educomunicação está materializada neste artigo, que


é também um convite a novas propostas de relação entre a educação a distância e este
novo campo da educomunicação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Enfim, não é possível pensar que o audiovisual na educação tenha que ser necessaria-
mente algo chato e enfadonho em contraposição aos vídeos de entretenimento. O
ideal é que os ditos “vídeos educativos” pudessem ser tão atraentes quanto os “vídeos
comerciais” ou de “entretenimento”. Colocamos todos estes adjetivos entre aspas porque,
para a educomunicação, esta diferença de função do audiovisual não é tão clara. Não há
vídeo educativo, não há uma TV especificamente educativa. Todo vídeo, toda a TV, toda a
comunicação é educativa. Há audiovisuais que ensinam como melhorar o conhecimento
de matemática, como as videoaulas ou os telecursos sobre este tema, outros ensinam a
desejar certo produto ou a ter determinada opinião ou comportamento alinhado com os

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patrocinadores, como no caso dos filmes comerciais e das televisões abertas.

Por isso a importância de demonstrar aos alunos de que forma podem se apropriar das
TIC, não apenas para repassarem a comunicação pronta, carregada de sentidos alheios
e até ocultos, mas também para produzirem conteúdos originais, cheios da beleza que
só a expressão genuína é capaz de carregar. Esta expressão genuína do aprendizado,
transformado na arte de se comunicar consigo mesmo e com o mundo é que deve ser o
objetivo final daquilo que nomeamos abstratamente de aprendizagem.

Desta forma que o entendimento da comunicação educacional enquanto um esquema


cibernético, como classifica Silva (2008) a partir das reflexões de Cloutier (1975), tem muito
a acrescentar na forma como se promovem as interações comunicativas nos ambientes
virtuais de aprendizagem, vistos aqui como ecossistemas de comunicação que necessitam
ser corretamente administrados. Neste esquema o indivíduo é considerado um EMIREC
(emissor/receptor), estando alternadamente ou até mesmo simultaneamente nestes dois
polos da comunicação. Essa é também uma das principais premissas da educomunicação:
todos somos receptores e também emissores da comunicação. Mais que isso, todos têm o
direito de expressar suas ideias no mundo, não para que sejam aceitas, mas principalmente
para que possam ser compreendidas por quem as divulga. É no processo de expressão
para o outro que eu compreendo melhor o que penso e quem eu sou.

Desta forma, enxergar a EaD com os olhos da educomunicação, pode ser uma estratégia
muito produtiva para o aperfeiçoamento desta modalidade de ensino, não apenas em
relação ao uso do audiovisual, mas em todas as suas áreas. Talvez porque, assim como
a EaD, a educomunicação tenha se fortalecido com o surgimento do ciberespaço e do
acesso cada vez mais facilitado às TIC. É no limite da integração dos diversos espaços de
aprendizagem (formal, informal e não formal) que a comunicação e a educação passam a
formar um único campo, onde o que vale é o produto da integração e não a contribuição
individual de cada área específica. Fica aqui uma possibilidade de novos horizontes de
investigação.

O uso do audiovisual na educação a distância


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REFERÊNCIAS
CLOUTIER, J. A Era de EMEREC ou a Comunicação Áudio-scripto-visual na hora dos self media. Lisboa:
I.T.E, 1975.

FREIRE, P. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

KAPLÚN, M. Pedagogía de la Comunicación. Revista de Comunicación – Estratégias y Conflictos Culturales,


n° 11/12, 1997, p. 69-88.

MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios as mediações. Rio de Janeiro: UFRJ Editora, 1997.

SILVA, B. Modelos de comunicação educacional. Braga: Universidade do Minho, 2008.

SOARES, I de O. Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação: contribuições para a reforma do


ensino médio. São Paulo: Paulinas, 2011.

______. Educom.Rádio, na trilha de Mário Kaplún. In: MELO, José Marques de et al (Org.). Educomídia.
Alavanca da cidadania: o legado utópico de Mário Kaplún. São Paulo: Cátedra Unesco, Universidade
Metodista de São Paulo, 2006.

______. A formação do educomunicador: 15 anos na busca de uma mais profunda relação entre o
profissional da comunicação/educação e o mundo das crianças e dos adolescentes. NCE - Núcleo de
Comunicação e Educação da ECA/USP – Intercom, 2005.

______. Gestão comunicativa e educação: caminhos da educomunicação. Comunicação e Educação, São


Paulo, v. 23, p. 16-25, jan./abr, 2002.

Práticas pedagógicas na educação a distância: concepções, tendências e desafios

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