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Colégio Marista de Carcavelos 2020-2021

A história de O-Tei

Há muito tempo, viveu na cidade de Niigata, da


província de Echizen, um homem chamado Nagao
Chosei.
Nagao era filho de um médico e estudara para
seguir a profissão do pai. Muito novo ainda, fora
prometido a uma rapariga chamada O-Tei, filha de
um amigo do pai, e ambas as famílias estabeleceram
que o casamento se efetuaria assim que Nagao
concluísse os estudos. Mas a saúde de O-Tei era
fraca e, aos quinze anos, a jovem foi atacada por
uma doença fatal. Ao compreender que morreria,
mandou chamar Nagao, a fim de lhe dizer adeus.
O moço ajoelhou ao lado da cama e O-Tei disse-
lhe:
- Nagao-Sama, meu noivo, estamos prometidos um ao outro desde a infância e
devíamos casar no fim deste ano. Mas eu vou morrer e só os deuses sabem o que melhor
nos convém. Se conseguisse viver alguns anos mais, continuaria a ser apenas motivo de
preocupação e mágoa para os outros. Com este frágil corpo nunca seria boa esposa e,
portanto, revelaria grande egoísmo desejar, sequer, viver para ti. Estou resignada a
morrer e quero que me prometas que não sofrerás. Além disso, creio que nos voltaremos
a encontrar.
- Com certeza que nos voltaremos a encontrar! – afirmou Nagao, com
veemência. – E nessa Terra Pura do nosso reencontro não haverá a dor da separação.
- Não, não! – protestou ela docemente. – Não me refiro à Terra Pura. Creio que
estamos destinados a reencontrar-nos neste mundo, embora eu seja sepultada amanhã.
Nagao fitou-a, surpreendido, e viu-a sorrir do seu espanto. – Sim, refiro-me a
este mundo e à tua vida presente, Nagao-Sama, desde que seja esse o teu desejo –
continuou, na sua voz suave a sonhadora. – Mas, para que isso aconteça, terei de nascer
outra vez menina e de me fazer mulher, o que significa que terás de esperar. Lembra-te,
porém, meu prometido, que contas apenas dezanove anos…
Ansioso por lhe suavizar a agonia, o jovem respondeu ternamente:
- Esperar por ti, minha noiva, seria maior alegria que dever. Estamos prometidos
um ao outro pelo tempo de sete existências.
- Mas tu duvidas? – perguntou a moribunda, observando-lhe o rosto.
- Minha querida, duvido se serei capaz de te reconhecer noutro corpo e com
outro nome, a não ser que me dês um sinal ou uma prova.
- Não posso. Só os deuses e Buda sabem onde e como nos encontraremos. Mas
tenho a certeza absoluta de que, se quiseres receber-me, poderei voltar para ti. Não
esqueças estas palavras.
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Calou-se, fechou os olhos e morreu.
Nagao estimava sinceramente O-Tei e a sua mágoa foi profunda. Mandou
construir uma lousa fúnebre, inscreveu nela o nome da jovem, colocou-a no seu
santuário e todos os dias lhe levava oferendas. Pensava muito nas estranhas palavras que
O-Tei lhe dissera antes de morrer e, na esperança de agradar ao seu espírito, escreveu
uma solene promessa de a desposar, se ela alguma vez voltasse noutro corpo. Escrita a
promessa, selou-a com o seu sinete e colocou-a no santuário, ao lado da lousa fúnebre
de O-Tei.
No entanto, como era filho único, tornava-se necessário que casasse e, assim,
não tardou a ver-se obrigado a ceder aos desejos da família e a aceitar uma esposa
escolhida pelo pai. Mas depois do casamento continuou a depositar oferendas junto da
lousa de O-Tei e nunca deixou de a recordar com afeto. Contudo, pouco a pouco, a sua
imagem diluiu-se-lhe na memória, como um sonho difícil de recordar. E os anos
passaram…
Durante eles, muitos infortúnios lhe aconteceram. Primeiro morreram-lhe os pais
e, depois, a mulher e o filho único, de maneira que, por fim, se encontrou só no mundo.
Abandonou o lar vazio e iniciou uma longa viagem, na esperança de esquecer os
desgostos.
Um dia, no decorrer da sua viagem, chegou a Ikao, aldeia montanhesa famosa
pelas suas nascentes termais e belo panorama. Na estalagem da aldeia, onde parou,
serviu-o uma jovem cujo rosto lhe fez pulsar o coração como nunca. Parecia-se tanto
com O-Tei que Nagao se beliscou, para ter a certeza de que não sonhava. Nas suas idas
e vindas para trazer comida e lume ou arrumar o quarto, a sua atitude e os seus
movimentos ressuscitavam nele, a gentil recordação da rapariga de quem estivera noivo
na mocidade. Falou-lhe e ela respondeu-lhe numa voz clara e suave, cuja doçura o
entristeceu, tanto lhe lembrava outros tempos.
Por fim, maravilhado, interrogou-a:
- Minha irmã, parece-se tanto com alguém que conheci há muito tempo que me
assustei quando a vi entrar pela primeira vez neste quarto. Perdoar-me-á, portanto, se
lhe perguntar qual é a sua terra natal e como se chama?
Imediatamente, e na voz inesquecível da morta, a jovem respondeu:
- Chamo-me O-Tei e tu és Nagao Chosei, de Echizen, meu prometido marido.
Morri em Niigata, há dezassete anos. Prometeste por escrito desposar-me se voltasse a
este mundo no corpo doutra mulher, selaste essa promessa com o teu sinete e colocaste-
a no santuário, ao lado da lousa com o meu nome. Voltei, portanto. – E, proferidas estas
palavras, desmaiou.
Nagao desposou-a e o casamento foi feliz, mas nunca mais a jovem se lembrou
do que lhe dissera em Ikao, em resposta à sua pergunta. Não se lembrava, também, de
nada que respeitasse à sua anterior existência. A recordação da primeira vida,
misteriosamente avivada no momento do reencontro, obscureceu-se de novo e assim
permaneceu para sempre.

Pearl S. Buck, “A História de O-Tei”, in Histórias Maravilhosas do


Oriente, Lisboa, Editora Livros do Brasil

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