Você está na página 1de 3

17/08/2020 O mito da neutralidade científica - por Sílvia Mota

Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links

Curtir Cadastre-se para ver do qu

Textos › Textos Jurídicos

Apostila - Direito dos


contratos
R$15,00

Apostila - Lei de
Falência e Recuperação
de E...
R$15,00

Apostila - Direito do
Trabalho - II
O mito da neutralidade científica R$15,00
- Professora Sílvia M. L. Mota -

Tema de grande saliência na atualidade, pois se trata de um dos itens essenciais da bagagem
intelectiva dos cientistas, é o "mito da neutralidade científica", em muitos contextos, tratada
sinonimamente pela expressão "a ciência é livre de valores".
MOTA, Sílvia et al.
A priori, para o âmbito deste trabalho, a expressão "mito da neutralidade científica" diz respeito à
Doenças pulmonares:
noção dominante de que a ciência deve ser neutra (ou pura) e de que cabe ao cientista assumir
uma postura nula diante dos seus pré-conceitos e condicionamentos históricos, para fins de
uma v...
alcançar o mais amplo conhecimento possível. R$30,00

De contornos polêmicos, tentarei em poucas palavras, expor a matéria em epígrafe.

O que é um mito? – A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do verbo
mythyo (contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar, contar,
anunciar, nomear, designar). Sendo assim, para além da poética definição de Joseph Campbell
(1990, p. 52): “Os mitos são sonhos públicos; os sonhos são mitos privados”, pode-se afirmar um
mito como narrativa de significação simbólica, que encerra uma verdade cuja memória se perdeu
https://silviamota.com.br/visualizar.php?idt=3566650 1/4
17/08/2020 O mito da neutralidade científica - por Sílvia Mota
to co o a at a de s g cação s bó ca, que e ce a u a e dade cuja e ó a se pe deu
no tempo. É irreal. É fábula. É uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser
abordada e interpretada a partir de perspectivas múltiplas e complementares. Poderá ser aplicável
ao contexto científico?
MOTA, Sílvia et al. Festa
E neutralidade? - Significa imparcialidade. Um posicionamento neutro dissocia-se da esfera dos
valores, daquilo que tem importância para a pessoa humana considerada em sua individualidade
Surpresa
ou em sua vida social. R$20,00

O que é Ciência? - Nada mais do que um conjunto de atividades racionais dirigidas ao


conhecimento da verdade. De acordo com Japiassu (1975, p. 9), trata-se de “[...] um conjunto de
conhecimentos ‘puros’ ou ‘aplicados’, produzidos por métodos rigorosos, comprovados e objetivos,
fazendo-nos captar a realidade de um modo distinto da maneira como a filosofia, a arte, a política
ou a mística a percebem." Pela assertiva do autor, essa definição é uma concepção do senso
comum sobre o que seja Ciência. A Ciência é autônoma quando as decisões que motivam o seu
jeito de ser e de se desenvolver, são assumidas pela própria comunidade científica, com alicerce MOTA, Sílvia et al.
em seus valores internos – o valor intrínseco e basilar do conhecimento como um fim em si mesmo Antologia de Poetas
e os valores apurados na escolha entre teorias. Esse caminho traz à baila o aspecto fundamental Brasi...
da relação entre a autonomia e a neutralidade da Ciência. R$18,00
Aceitas essas colocações, depreende-se que a neutralidade implícita na tese de que a ciência é ou
não é neutra, salienta uma neutralidade em relação a valores, haja vista que em muitos contextos,
em lugar de “a ciência é neutra” diz-se “a ciência é livre de valores”. Os valores colocados em
relevo são os valores sociais, compreendidos como aqueles que podem variar de cultura para
cultura ou de época para época, ao longo da história de cada cultura e pelos valores demarcados
de grupo social para grupo social, nas sociedades assinaladas por contrassensos internos.
Pergunto, portanto: entender a questão da neutralidade da Ciência como um mito, não seria proibir
as abordagens questionadoras, e, dessa forma, abrir fendas à aceitação de aplicações antissociais
como o uso não-humano e desumano da Ciência, que poderá levar à degradação da espécie
humana? Deverá, a esse respeito, ser reelaborado o conceito de mito? É a Ciência um saber
neutro e desinteressado, à margem dos questionamentos sociais e políticos acerca dos fins da sua
pesquisa? Pode a atuação do cientista ser considerada neutra? A determinação do objeto a ser
pesquisado envolve escolha e, em decorrência, um juízo de valor? Os resultados das pesquisas MOTA, Sílvia et al.
científicas e as consequências advindas, dizem respeito à propalada responsabilidade social do Biodireito e Bioética
cientista? R$45,00

Eis os busíles.

É necessário, antes de tudo, assumir que o conjunto de invocações de ideias concernentes à


neutralidade científica, transformando-a em mito, parece avolumar-se nos presentes dias,
principalmente no que se refere à aplicação da biotecnologia à vida humana.

A resposta há de ser extraída de um duplo enfoque que se tem do mundo: um a ser realizado pelo
homem comum e o outro científico. Mas, seriam mesmo distintas essas duas atitudes? É preciso
delimitar que o homem comum faz descobertas casuais, espontâneas, baseadas no bom senso,
desvinculando-se da obrigatoriedade de comprovação. O cientista, por sua vez, ao detectar um
problema, formula hipóteses na tentativa de solucioná-lo, ainda que transitoriamente; no momento
seguinte investiga, escavando o conhecimento, no afã de comprovar aquelas hipóteses. Nesse MOTA, Sílvia et al.
percalço, o cientista compara teorias, com vistas ao progresso do bem-estar humano e, às vezes,
Poetrix 4 - Terra
no seu labor, atinge terceiros. Quando isso ocorre, impõe-se saber sobre a validade dos fins a que
se destinam essas pesquisas e os meios empregados para a sua realização. R$20,00

Posso afirmar que a Ciência de outrora era neutra e amoral; o seu domínio era o conhecimento
objetivo desinteressado e neutro com relação às suas aplicações e livre quanto às finalidades da
ação. Porém, torna-se falso e ilusório pensar o mesmo da Ciência atual, que, entrelaçada à
sociedade, é vista não apenas como um instrumento nas mãos dos membros dos poderes
econômicos e políticos, mas também como a cobertura ideológica de todo o sistema do capitalismo
global (MARX, 1978, p. 325-326). Em consequência, o trabalho científico realizado pelo MOTA, Sílvia et al. Mãos
pesquisador, também não é neutro, porque não se realiza apenas na procura indiscriminada do que falam - antologi...
saber. A pesquisa, como responsabilidade social, assume um papel político. Nesse campo existem
R$20,00
as escolhas subjetivas do cientista, que exprimem os seus sentimentos e as opiniões dos grupos
aos quais se afilia.

As veredas por onde transita a Ciência são criadas por normas historicamente condicionadas e,
por assim o serem, evoluem e se alteram. Sustentar a neutralidade da Ciência é negar o seu
caráter cultural, porque se produz em determinadas condições culturais e é marcada pela
existência de valores. Por tal motivo, não pode ser concebida como uma atividade solitária, sem
raízes e transcendente à História. Nas palavras de Japiassu (Entrevista...), o exemplo da física
nuclear é ilustrativo: "No início, seu conhecimento dito fundamental ou teórico não tinha finalidades
práticas. No entanto, o que aprendemos sobre o núcleo do átomo serve para construir centrais
nucleares e produzir energia com a qual nos iluminamos e aquecemos. Mas eis que, como
sabemos, a energia nuclear serviu também para fabricar armas de morte. Aliás, foi para isso que
serviu em primeiro lugar: fabricação de bombas atômicas. Durante a Segunda Guerra mundial,
infelizmente, elas foram lançadas no Japão e mataram milhares de pessoas inocentes. Por isso, MOTA, Sílvia et al. Show
creio não ser mais possível livrar a ciência de toda responsabilidade como se pudéssemos de Talentos em Prosa...
considerá-la pura e neutra em relação ao processo político, pois ela é portadora de um projeto, R$40,00
podendo ser considerada a realização da metafísica ocidental." O autor relembra o físico
Openheimer, quando este afirmou que a partir de Hiroshima "a ciência conheceu seu pecado
original." Portanto, em matéria de Ciência: "[...] não há objetividade absoluta. Também o cientista
jamais pode dizer-se neutro, a não ser por ingenuidade ou por uma concepção mítica do que seja
a ciência." (JAPIASSU, 1975, p. 10-11).

Embora comprometido com a sua escolha, ouso afirmar que o cientista não é responsável,
entretanto, pelos usos que fazem outros homens das suas descobertas. Ao trabalhar em prol da
https://silviamota.com.br/visualizar.php?idt=3566650 2/4
17/08/2020 O mito da neutralidade científica - por Sílvia Mota
sociedade, trará ao mundo real criações que poderão ser de grande utilidade social, mas que
também poderão destruir o mundo. Pelo que se sabe, o cientista avança em direção ao que jamais
será alcançado e explora o objeto da sua curiosidade, sem, no entanto, esgotá-lo ou modificar-lhe
o caráter de natureza imutável. É por isso que o ritmo natural do amanhecer e do entardecer não MOTA, Sílvia. Apostilas
se modificará intimidado pela observação e cálculos objetivos daquele que o provoca com as suas jurídicas diversas
preocupações. R$15,00
A partir do exposto, saliento que, utilize a sociedade as descobertas científicas, para benefício ou
malefício da humanidade, o cientista jamais poderá ser responsabilizado pelas consequências
danosas, da mesma forma que não será culpado aquele que forjou a espada, pela morte que
causou, com ela, um outro indivíduo. Além disso, muitos pesquisadores acabam trabalhando para
projetos bélicos sem sequer sabê-lo, visto que os seus trabalhos são usados para fins
clandestinos. É o que aconteceu, por exemplo, no caso do desfolhante agente Orange, utilizado
largamente pelas tropas norte-americanas na guerra do Vietnã e que contaminou peixes e
crustáceos dos rios vietnamitas, representando um perigo muito grave para os seres humanos, em
razão das altas dosagens de dioxin, uma das substâncias do herbicida, que causa graves
anomalias genéticas (DESFOLHANTE... 1973, p. 2).
MOTA, Sílvia.
Como se percebe, parece urgente um amplo debate sobre os limites éticos a serem colocados à
Metodologia Jurídica II
Ciência. Posso afirmar, que não cabe apenas aos cientistas ou aos políticos estabelecerem as - Apost...
normas orientadoras da prática científica, mas a todos os indivíduos que coexistirão com o produto R$15,00
das descobertas científicas. Nesse sentido, conclui Hilton Japiassu (1975, p. 185) ao discorrer
sobre o mito da neutralidade científica: "O impacto do trabalho científico sobre a sociedade
constitui objeto de estudos cada vez mais críticos. A contestação não é mais um fenômeno
esporádico, oriundo de causas locais ou fortuitas, como se poderia pensar, mas o resultado de
exigências de maior lucidez e responsabilidade, tentando conjugar ciência, moral e política."

As novas descobertas esquadrinham arriscada vereda, onde licitude e ilicitude colocam-se frente a
uma difusa e fronteiriça zona. Não existem paradigmas ao que seja eticamente aceitável ou
condenável, mas resta-nos apelar para a responsabilidade das pessoas envolvidas na tomada de
decisões.

Os palcos da Ciência exibem inúmeros benefícios para a humanidade. Ao desvendar segredos, até
então guardados a sete chaves pela guardiã Natureza, o cientista dota a humanidade de MOTA, Sílvia. Trabalhos
conhecimentos e informações nunca imagináveis, que poderão se colocar a serviço da vida e do acadêmicos:
bem-estar da Humanidade. Profícuas esperanças são oferecidas pela Ciência, mas, não se pode metodolog...
relegar ao esquecimento, que as produções científicas são, muitas vezes, como a espada da R$35,00
Justiça: uma arma com duplo fio. Isso significa, que se o desenvolvimento científico poderá ser
usado para o bem de todos os seres humanos, também poderá sê-lo em direção ao mal da vida
humana, ocasionando irreversíveis danos quando da sua aplicação. Seguir @peapaz 871 seguidores

Referências
Tweetar
DESFOLHANTE mata peixe dos rios vietnamitas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, ano LXXXII, n.
347, 7 abr. 1973, p. 2. 1° Caderno. Internacional.

JAPIASSÚ, Hilton. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.

MARQUES NETO, Agostinho Ramalho. A ciência do direito: conceito, objeto, método. 2. ed. Rio de
Janeiro: Renovar, 2001.

JAPIASSU, Hilton. Entrevista. Entrevistador: Nicolau Kietzmann Goldemberg. DGNK Assessoria


de Imprensa. Publicada em: 24 mar. 2011. Editora Ideias & Letras, São Paulo. Disponível em:
https://editoraideiaseletras.wordpress.com/2011/03/24/entrevista-com-hilton-japiassu-autor-do-livro-
ciencias-questoes-impertinentes. Acesso em: 8 jul. 2016.

TRAGTENBERG, Maurício. Sobre educação, política e sindicalismo. 3. ed. rev. São Paulo:
Editora Unesp, 2004. 216 p.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz


Revisado e ampliado em 20 de agosto de 2018 – 5h29
Imagem principal: Cético. Google

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 21/03/2012


Alterado em 22/09/2018

Copyright © 2012. Todos os direitos reservados.


Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta
obra sem a devida permissão do autor.

Compartilhar 0 Tweetar Compartilhar E-mail

Comentários

https://silviamota.com.br/visualizar.php?idt=3566650 3/4