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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR MINISTRO PRESIDENTE DO EGRÉGIO

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA.

ADILSON APARECIDO CARDOSO DOS REIS, brasileiro, solteiro, portador do RG


M-6.756.540 & CPF/MF 888.480.866/91, residente e domiciliado à Rua Cristiano
Machado, 240, Centro, CEP: 39.270-000, Industrial, Pirapora, MG, advogado,
regularmente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Minas Gerais,
sob o número 126659, com escritório situado à Rua Argemiro Peixoto, 05, Centro,
CEP: 39.270-000, Pirapora, MG, vem, respeitosamente, EM CAUSA PRÓPRIA,
perante Vossa Excelência, impetrar ordem de

“HABEAS CORPUS COM PEDIDO DE LIMINAR”


com fulcro no art. 5º, inciso XV, da Constituição Federal, e art. 647 do Código de
Processo Penal, contra ato ilegal/inconstitucional praticado pelo Governador do
Estado de Minas Gerais, Sr. Romeu Zema Neto, através do Deliberação 130, de
03/03/2021 (COMITÊ EXTRAORDINÁRIO COVID-19), cuja cópia segue em anexo,
pelas razões de fato e de direito expostas a seguir.

I – DOS FATOS

Em 07/03/2021, através da Deliberação 133 cuja cópia segue anexa, o Norte de


Minas Gerais foi incluído na “Onda Roxa” do programa Minas Consciente,
incluindo assim a cidade de Pirapora, município de domicílio do Impetrante/Paciente,
conforme documento em anexo.

Ocorre que a Deliberação 130 de 03/03/2021, do Comitê Extraordinário COVID-19,


que criou a “Onda Roxa”, viola flagrantemente a Constituição Federal, no momento
em que impede o direito de ir e vir dos cidadãos.

Assim, na data de hoje, por ordem emanada do Governador de Minas Gerais, Sr.
Romeu Zema Neto, através da Deliberação 130 do Comitê Extraordinário COVID-19,
de 03/03/2021, o Impetrante/Paciente está impedido de circular nas vias públicas
no período entre 20:00 às 05:00 horas, como se preso fosse em regime
domiciliar, sob pena de incorrer às sanções previstas no art. 97 da Lei nº 13.317, de
1999.

Assim dispõe a totalitária deliberação referida, em seus artigos 7º e 9º,


respectivamente, in verbis:

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“Art. 7º – Fica determinado, a partir da implementação da Onda
Roxa, além de outras medidas definidas pela Secretaria de Estado
de Saúde – SES a proibição de:
I – funcionamento das atividades socioeconômicas entre 20h e 5h,
ressalvadas as relacionadas à saúde, à segurança e à assistência;
II – circulação de pessoas e veículos fora das hipóteses previstas
no § 1º;
III – circulação de pessoas sem o uso de máscara de proteção, em
qualquer espaço público ou de uso coletivo, ainda que privado;
IV – circulação de pessoas com sintomas gripais, exceto para a
realização ou acompanhamento de consultas ou realização de exames
médico-hospitalares;
V – realização de visitas sociais e entre familiares, salvo em caso de
assistência;
VI – realização de eventos e reuniões de qualquer natureza, de caráter
público ou privado, incluídas excursões e cursos presenciais.
§ 1º – Será permitida a circulação de pessoas para:
I – o acesso a atividades, serviços e bens essenciais, nos termos
do art. 4º;
II – o comparecimento, próprio ou na condição de acompanhante,
a consultas ou realização de exames médicohospitalares, quando
necessário;
III – a realização ou comparecimento ao local de trabalho nas
atividades e serviços considerados essenciais, nos termos do art.
4º.” (grifo nosso).

“Art. 9º – O descumprimento do disposto nesta deliberação


sujeitará o infrator às sanções previstas no art. 97 da Lei nº 13.317,
de 1999, no que couber.
Parágrafo único – As infrações sanitárias que também possam
configurar ilícitos penais serão comunicadas à autoridade policial e ao
Ministério Público.” (grifo nosso).

II. DO DIREITO

Trata-se, in casu, de flagrante violação do direito constitucional de ir e vir,


insculpido no art. 5º, inciso XV da Constituição Federal.

“XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de


paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar,
permanecer ou dele sair com seus bens;”

Como se vê, o direito de locomoção somente pode ser restringido em tempos de


guerra, representando pela imposição, via decreto presidencial, do estado de sítio
e/ou estado de defesa.

Assim, resta evidente que o ato do Sr. Romeu Zema Neto, através Deliberação 130
de 03/03/2021, não possui amparo na Constituição Federal, caracterizando
abuso de poder estadual, violando assim direitos e garantias individuais, nesse caso
específico, o direito de ir e vir do Impetrante/Paciente.

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É importante ressaltar que a institucionalização dos Direitos Fundamentais possui
o fito de assegurar a dignidade humana, sendo múnus do Estado a proteção das
condições mínimas de vida, vez que, tal proteção, visa garantir a vida, a liberdade, a
igualdade, a segurança e a propriedade, conforme art. 5º, caput, da Constituição
Federal de 1988.

Ademais, desde a instauração do Estado Democrático de Direito, é notório a


impossibilidade de disposição jurídica dos direitos fundamentais, vez que, não
vislumbra a possibilidade de renúncia e/ou alienação. Noutro giro, há que se
asseverar também, a impossibilidade de disposição material dos direitos
fundamentais, sendo certo, que são nulos os instrumentos e negócios jurídicos por
ilicitude do objeto.

Os direitos fundamentais guarnecem de proteção no ordenamento jurídico pátrio,


visto que ao se tratar de cláusulas pétreas, a própria Constituição Federal/1988
intensifica certa impossibilidade de reforma.

Neste sentido, prevê o art. 60, §4º, inc. IV da Constituição Federal de 1988, in verbis:

“Art. 60 – A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:


(...)
§4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda
tendente a abolir:
(...)
IV – os direitos e garantias individuais”

Diante disso, verifica-se que o próprio legislador no momento de edição da


norma, intentou contra possíveis tomadas de decisões arbitrárias, garantindo
assim determinada proteção normativa.

Não obstante, nesta seara de proteção normativa, o Poder Judiciário cumpre papel
importante no cenário jurídico, pois, empenhado no exercício da jurisdição, este,
desempenha controle de constitucionalidade, sendo certo que os órgãos do Poder
Judiciário estão compelidos a negar a validade de leis e atos normativos que
violem os direitos fundamentais, assegurando assim, certa garantia constitucional.

Neste sentido, Gilmar Mendes disserta em sua obra Curso de Direito Constitucional:

“A cláusula pétrea não existe tão só para remediar situação de


destruição da Carta, mas tem a missão de inibir a mera tentativa de
abolir o seu projeto básico. Pretende-se evitar que a sedução de
apelos próprios de certo momento político destrua um projeto
duradouro. (MENDES, 2018, p.182).” (grifo nosso).

A liberdade de locomoção é garantida a todos os cidadãos, sendo que este é um


direito assegurado na Carta Magna, o que não pode ser usurpado, tampouco
suprimido dos cidadãos, independentemente de cor, sexo, raça, religião, e até
mesmo idade.

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Logo, tem-se que a supressão de tal direito assegurado na Constituição Federal, é
uma clara e manifesta violação ao direito de liberdade e locomoção, assegurado
constitucionalmente.

É inconteste que a liberdade de locomoção é um direito fundamental exercido em


defesa de uma possível arbitrariedade do Estado, ou seja, é inconcebível no
ordenamento jurídico pátrio, a restrição da liberdade de locomoção de
quaisquer cidadãos, sem o devido processo legal.

III. DOS PEDIDOS

Ante o exposto, requer-se seja concedida ordem de habeas corpus, liminarmente,


em favor do Impetrante/Paciente, uma vez que estão presentes a probabilidade
de dano irreparável e a fumaça do bom direito, a fim de que lhe seja garantido o
direito de ir e vir nas vias públicas de todo território nacional, em qualquer
horário, como medida de impostergável justiça.

Nestes termos, pede deferimento.


Pirapora/MG, 08 de Março de 2021.

ADILSON APARECIDO CARDOSO DOS REIS


Advogado. OAB/MG 126659

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