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RENASCIMENTO E NICOLAU MAQUIAVEL

CARACTERÍSTICAS GERAIS
O termo Renascimento foi registrado pela primeira vez por Giorgio Vasari
no século XVI, mas a noção de Renascimento como hoje a entendemos surgiu
a partir da publicação do livro de Jacob Burckhardt, A cultura do Renascimento
na Itália (1867), onde ele definia o período como uma época de “descoberta do
mundo e do homem”. Renascimento, para Burckhardt, designou um fenômeno
caracterizado pelo individualismo prático e teórico, a partir da exaltação da vida
mundana, do acentuado sensualismo, da mundanização da religião, da
tendência paganizante e da liberdade em relação às autoridades. Renascença
seria, afinal, a síntese do novo espírito, que se criou na Itália, com a antiguidade:
o espírito que, rompendo definitivamente com o da era medieval, abre a era
moderna.
Foi, portanto, um movimento cultural oposto a cultura clerical com
inspiração na Antiguidade Clássica e nortearam as mudanças do período em
direção a um ideal humanista. “O retorno como inovação”, não de repetição, mas
de recuperação da Antiguidade Clássica.
Atualmente, a interpretação de Burckhardt (e dos historiadores do séc.
XIX) foi contestada por diversos pensadores contemporâneos, como Burdack.
Burckhardt usou expressões como “fazer reviver”, “fazer renascer”, em
contraposição à era medieval, conhecida como a era das trevas. A Idade Média,
porém, foi uma época de grande civilização e não foi uma longa noite de mil
anos.
As duas mais significativas interpretações contemporâneas do
Humanismo são as seguintes: I) P. O. Kristeller: o Humanismo representaria
apenas a literatura e não a filosofia do período; II) Eugênio Garin: o humanismo
indica originariamente a tarefa do literato, mas possui também uma dimensão
filológica e filosófica (busca do sentido da história).
O Renascimento cultural manifestou-se primeiro na região italiana da
Toscana, tendo como principais centros as cidades de Florença e Siena, de onde
se difundiu para o resto da península Itálica e depois para praticamente todos os
países da Europa Ocidental, impulsionado pelo desenvolvimento da imprensa
por Gutenberg. A Itália permaneceu sempre como o local onde o movimento
apresentou maior expressão, porém manifestações renascentistas de grande
importância também ocorreram na Inglaterra, Alemanha, Países Baixos,
Portugal e Espanha.
A ruptura com o sistema feudal não aconteceu da noite para o dia. Foi um
processo lento e gradual de transformações no mundo e no pensamento que
aconteciam ainda na (baixa) Idade Média. Se ainda hoje existem resquícios
desse tempo, imagine durante essa passagem. Enquanto os grandes reinos
estavam sendo criados, porque a situação estava um caos e precisava-se de um
poder forte para controlá-la, na Península Itálica, onde se encontravam as
principais rotas comerciais, cidades muito ricas ficavam cada vez mais ricas
devido ao intenso comércio com o oriente.
As mais ricas cidades foram Gênova, Veneza e Florença, comandadas
por ricas famílias de comerciantes e banqueiros, e onde um grande número de
pessoas de todos os lugares passavam por lá e, além de comerciarem, trocavam
ideias e experiências de vida, ampliando os horizontes de seus habitantes.
Nessas cidades, uma nova ordem social era criada. Lá os homens faziam seus
destinos por conta própria, eram senhores de si, construtores de seu novo
mundo. Este era muito diferente daquele existente no campo, onde imperavam
as regras sociais feudais sustentadas pela visão teocêntrica (Deus no centro de
tudo) imposta pela Igreja.

NICOLAU MAQUIAVEL (1469 – 1527)


“Como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessarem,
pareceu- -me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do
que pelo que delas se possa imaginar. E muita gente imaginou repúblicas e
principados que nunca se viram nem jamais foram reconhecidos como
verdadeiros.” As transformações sofridas pelo poder político não passaram
despercebidas pelos renascentistas, e a principal e mais significativa
personalidade nesse campo foi o florentino Nicolau Maquiavel.
Ele assumiu um cargo importante no governo de Florença depois que a
família Médici foi afastada do controle da cidade. Trabalhava como diplomata
fazendo várias viagens aos grandes reinos que haviam se unificado, e não se
conformava com o estado de guerra que se encontrava a Península Itálica.
Maquiavel é considerado o pai da ciência política moderna porque não escreveu
um tratado teórico de como deveria ser o governo ideal. Desde os gregos até
sua época, todos fizeram isso. Sua preocupação não era como deveria ser a
política, mas sim em como ela é realmente praticada. Com isso em mente, tendo
como fundamento empírico as lições que a história havia dado e como se
comportavam os grandes políticos de sua época, ele escreveu um manual de
como construir um estado forte e como se manter no poder para governá-lo.
Durante a Idade Média, o poder do rei era sempre confrontado com os
poderes da Igreja ou da nobreza. As monarquias nacionais surgem com o
fortalecimento do rei e, portanto, com a centralização do poder, fenômeno este
que se desenvolve desde o final do século XIV (Portugal) e durante o século XV
(França, Espanha, Inglaterra). Dessa forma surge o Estado moderno, que
apresenta características específicas, tais como o monopólio de fazer e aplicar
as leis, recolher impostos, cunhar moeda, ter um exército. A novidade é que tudo
isso se torna prerrogativa do governo central, o único que passa a ter o aparato
administrativo para prestação dos serviços públicos bem como o monopólio
legítimo da força. É em função desse contexto que se torna possível
compreender o pensamento de Maquiavel.
Na época de Maquiavel, as cidades mais expressivas da Península Itálica
eram: a sua Florença, Milão, Nápoles e Veneza. Apesar de seu forte comércio
elas eram frágeis politicamente e totalmente vulneráveis a ataques externos. Na
época dele era a coisa mais comum uma cidade invadir e dominar outra, por isso
a sua preocupação. Além disso, Maquiavel acreditava que a região italiana só
teria a ganhar se fosse unificada. Mas como fazer isso? Essa é a pergunta
central de O Príncipe, a sua grande obra prima que iria mudar totalmente o modo
dos homens ocidentais enxergarem a política. Enquanto as demais nações
europeias conseguem a centralização do poder, a região onde futuramente será
a Alemanha e a Itália se acham fragmentadas em inúmeros Estados sujeitos a
disputas internas e a hostilidades entre cidades vizinhas.
No caso da Itália, a ausência de unificação a expõe à ganância de outros
países como Espanha e França, que reivindicam territórios e assolam a
península com ocupações intermináveis. É nessa Itália dividida que vive
Maquiavel na república de Florença. Observa com apreensão a falta de
estabilidade política da Itália, dividida em principados e repúblicas onde cada um
possui sua própria milícia, geralmente formada por mercenários.
Nem mesmo os Estados Pontifícios deixavam de formar os seus
exércitos. Maquiavel não foi apenas um intelectual que refletiu a respeito de
política, pois viveu intensamente a luta de poder no período em que Florença,
tradicionalmente sob a influência da família Médici, encontrava-se por uma
desempenhar inúmeras missões diplomáticas na França, Alemanha e pelos
diversos Estados italianos. Tem oportunidade de entrar em contato direto com
reis, papas e nobres, e também com César Bórgia, que estava empenhado na
ampliação dos Estados Pontifícios. Observando a maneira de Bórgia agir,
Maquiavel o considera o modelo de príncipe que a Itália precisava para ser
unificada. Quando Soderini é deposto e os Médicis voltam à cena política,
Maquiavel cai em desgraça e recolhe-se para escrever as obras que o
consagraram. Entre peças de teatro (como a famosa Mandrágora), poesia,
ensaios diversos, destacam-se O príncipe e Comentários sobre a primeira
década de Tito Lívio.

Alguns pontos centrais da obra O Príncipe.

1. Das formas de governo: repúblicas e principados. “Não existe modo mais


seguro para conservar tais conquistas, senão pela destruição. E quem se torne
senhor de uma cidade acostumada a viver livre e não a destrua, espere ser
destruído por ela...” (cap. V). Em vez de reproduzir a conhecida forma
encontrada na filosofia política dos antigos, que separava os regimes em
Monarquia (governo de um só), Oligarquia (o governo de um grupo) e
Democracia (o governo de muitos), Maquiavel identifica apenas dois tipos de
regime: as repúblicas (o governo em comum administrado por um conselho, um
senado ou consulado) e os principados (o governo de um homem só que pode
exercê-lo por herança, por indicação, ou pela força). Há também os principados
eclesiásticos – aqueles dirigidos diretamente pela Igreja Católica por seus bispos
–, pois a Santa Sé, naqueles tempos, também exercia poder temporal.
A instabilidade maior acomete o principado novo, porque a chegada
repentina ao poder de um senhor desconhecido sempre termina por desgostar
os que antes estavam no governo sem que ele ainda tenha a adesão do povo.
Agrega-se a isso o fato da nova ordem ter redobradas dificuldades em se
estabilizar quando implantada num território estranho, com outras línguas e
costumes. A melhor e mais segura maneira de dominar uma região conquistada
– como haviam ensinados os romanos – é ir habitá-la ou colonizá-la.

2. Da estrutura e essência dos governos: autoridade absoluta ou mitigada. Os


governos dividem-se em dois tipos:
1) Autoridade absoluta (ou despótica): o príncipe exerce o poder de modo
direto. Ministros e funcionários, por exemplo, são seus servos. O príncipe
é um chefe absoluto, sendo que os que o cercam são seus servidores,
praticamente seus servos; o mecanismo é semelhante ao de um jogo de
xadrez: basta dar um xeque-mate no rei que tudo desaba e a partida está
ganha. Derrubando-se o príncipe absoluto, um déspota oriental, por
exemplo, tudo cai nas mãos do agressor. A antiga criadagem
simplesmente muda de senhor e se põe às ordens do vitorioso, como
aconteceu com os sátrapas persas de Dario (330 a.C.) em relação a
Alexandre, o Grande (323 a.C.).

2) Autoridade mitigada: o príncipe governa por meio de conselhos,


parlamentos ou assembleias de nobres, aparecendo como um presidente
de uma confederação de barões e duques, tendo por vezes que conviver
com um parlamento. Neste governo, pode ser mais fácil a vitória, mas é
mais difícil assegurar o controle do reino porque cada barão irá resistir ao
seu modo ao ocupante, independente do rei estar aprisionado ou morto.
Seja como for, a melhor maneira de conservar um Estado dominado, sem
precisar destruí-lo inteiramente, é permitir que ele mantenha suas
próprias leis e costumes, preocupando-se apenas em criar um núcleo
colaboracionista que auxilie no domínio e na arrecadação dos tributos.
Deste modo, o ódio e o rancor da população ocupada são atenuados ou
se voltam primeiramente contra o próprio conquistador. Maquiavel aponta
que aqueles que viveram em liberdade são os que menos se conformam
com a perda dela, portanto a situação mais segura para o ocupante é
destruí-los completamente.

3. O príncipe e as novas conquistas: virtù e fortuna. “Não haver coisa mais


difícil para cuidar, nem mais duvidosa a conseguir, nem mais perigosa a manejar,
que se tornar chefe e introduzir novas ordens” (cap. VI). Quando se trata da
fundação de um novo principado, a situação de sucesso depende de dois fatores:
virtù e fortuna. A implantação do novo regime deve muito à ocasião, ao príncipe
saber aproveitar bem as oportunidades que surgem à sua frente, saber navegar
quando as correntes estão a seu favor.
O maior desafio que um príncipe se depara na fundação de uma nova
ordem das coisas deriva do fato que ele tem contra si todos aqueles que eram
beneficiados na situação anterior, tendo ao seu lado apenas os simpatizantes
ainda tímidos, que não sabe ou não puderam ainda sentir-se beneficiados pela
nova situação. Os que são contra ele são muito fortes ainda e os que lhe
acompanham não têm certeza do sucesso do empreendimento e tendem
facilmente a desistir. “Somente os profetas armados venceram enquanto que o
destino dos profetas desarmados é o fracasso” (cap. VI). Profetas desarmados:
é historicamente derrotado visto que a partir do momento em que perdem o
crédito – o povo é volúvel – ele não tem meios para manter no poder; profeta
armado: é o que vence, pois quando o desencanto ocorre, o povo se desilude,
ele consegue mantê-lo na crença pela força da arma. Governar é a arte de se
fazer amar ou temer pelo povo, “de vencer pela força ou pela fraude”, de manter-
se no poder a qualquer custo.

4. O príncipe e o crime: mal bom e ruim. Há ainda uma terceira via, além da
virtù e fortuna, para chegar ao poder em um Estado: o crime. A vilania e o crime,
por vezes, são degraus para se chegar ao topo, mas depois de nele instalado
recomenda-se ao príncipe que se desfaça da escada suja de sangue que ele
usou para subir. As “maldades negativas”, ou maldades verdadeiramente ruins
são aquelas que não cessam nunca, “que aumentam ao invés de se extinguir”.
É sempre melhor, aconselhou, “praticar a ofensa de uma só vez, de
imediato, enquanto que os benefícios devem ser feitos aos poucos”. O mal, tal
como um purgante, deve ser aplicado instantaneamente, todo de uma só vez
goela abaixo, enquanto que o bem deve ser ministrado aos poucos, como se
fosse uma iguaria, apreciada colher a colher. O mesmo se dá com a injúrias.
Para ele, o mal – inerente ao homem – é um instrumento da política que somente
deve ser condenado se aplicado de modo exagerado ou fora de propósito,
prejudicando o bom andamento do governo, trazendo-lhe instabilidade. Sobre a
guerra, não se pode evitar uma batalha, pois ela é inevitável. Apenas se
consegue postergá-la. Enquanto existir a humanidade haverá guerras. A questão
é tirar o melhor proveito possível dela. Este tipo de disposição, indiferente ao
apelo pacifista do cristianismo, é que levou seus críticos a dizerem que o
Maquiavel estava a serviço de Lúcifer.
Há dois tipos de males:
1) mal bom (positivo): quando aplicado de uma só vez; quando impõe a
ordem.
2) mal ruim (negativo): quando se estende por muito tempo; quando gera
desordem.

5. O príncipe e seus dilemas.


1) Deve ser liberal ou contido? É perigoso ser liberal. Ser gastador significa
aumentar os impostos do povo, o que gera descontentamento. Melhor a
fama de sovina do que a de pródigo; “os homens esquecem mais
rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio”.

2) Ser amado ou temido? Na impossibilidade de conquistar ambas as coisas,


é melhor ser temido, pois é o método do castigo que mantém o povo
quieto.

3) Deve ou não sustentar a palavra dada? Se uma promessa resulta em algo


incômodo aos interesses do Estado é melhor esquecer o que jurou
cumprir.

4) Deve ou não temer uma conspiração? Somente se for odiado pelo povo
e cair em desgraça junto aos poderosos da cidade. A obrigação maior
dele é vencer e manter o Estado, não importando os meios utilizados para
alcançar tal fim. Se ele tiver sucesso em sua empreitada sempre será
louvado e honrado por todos, porque o que importa é a aparência e o
resultado final da sua política e não os pecados em que incorreu ou os
métodos que utilizou para mantê-la. Deve, sim, cultivar a ferocidade de
um leão e a astúcia de uma raposa.

Quando estava no ostracismo político, Maquiavel se ocupa com a elaboração


dos Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, interrompendo esse
trabalho por alguns meses para escrever O príncipe. À medida que escreve os
Comentários, lê trechos nas reuniões realizadas por jovens republicanos, a
quem dedica a obra. Aí desenvolve ideias democráticas, admitindo que o conflito
é inerente à atividade política e que esta se faz a partir da conciliação de
interesses divergentes. Defende a proposta do governo misto: “Se o príncipe, os
aristocratas e o povo governam em conjunto o Estado, podem com facilidade
controlar-se mutuamente”.
Considera importante que as monarquias ou repúblicas sejam governadas
pelas leis e acusa aqueles que, no uso da violência, abusaram da crueldade, ou
a usaram para interesses menores. Maquiavel era um republicano e não
escreveu uma obra para um governante que quisesse se perpetuar no poder de
forma absoluta e despótica. Ele tinha um sonho, mas não era um ingênuo. Sabia
que teria de haver derramamento de sangue para que um grande Estado fosse
criado, e que isso teria de ocorrer sob a liderança de um único homem. No
entanto, alcançada a estabilidade, um regime republicano deveria ser instalado
para que o interesse coletivo pudesse guiar o destino de todos, e os rumos do
Estado. É claro que não encontramos isso em O Príncipe, que é um manual de
como conseguir o poder e se manter nele. Esse perfil republicano de Maquiavel
é percebido em outra obra sua, qual seja, Comentários sobre a primeira década
de Tito Lívio.
Vejamos um trecho dessa obra em que isso fica bem evidente: “Percebe-se
facilmente de onde nasce o amor à liberdade dos povos; a experiência nos
mostra que as cidades crescem em poder e em riqueza enquanto são livres. É
maravilhoso, por exemplo, como cresceu a grandeza de Atenas durante os cem
anos que sucederam à ditadura de Pisístrato. Contudo, mais admirável ainda é
a grandeza alcançada pela república romana depois que foi liberta dos seus reis.
Compreende-se a razão disto: não é o interesse particular que faz a grandeza
dos Estados, mas o interesse coletivo. E é evidente que o interesse comum só
é respeitado nas repúblicas: tudo que pode trazer vantagem geral é nelas
conseguido sem obstáculos. Se uma certa medida prejudica um ou outro
indivíduo, são tantos o que ela favorece, que se chega sempre a fazê-la
prevalecer, a despeito das resistências, devido ao pequeno número de pessoas
prejudicadas”. Essas palavras não parecem ser de um homem que defenda um
governo absolutista, que deseja ver um rei governar por toda a eternidade.
Parecem mais o alerta de alguém que sabe a importância da liberdade para a
grandeza e prosperidade de um povo.

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