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Cinema

CINEMA
André Moncaio

Cinema
FOTOGRAFIA: Introdução à Direção de Fotografia
AULA 1

A direção de fotografia é o componente do complexo audiovisual responsável


pelo desenvolvimento da imagem. Através de técnicas herdadas do processo
fotográfico, desenvolvimentos conceituais e abordagens criativas das ferramentas
de trabalho, a direção de fotografia concebe as imagens finais do filme a partir do
roteiro e dos objetivos da direção.
O cinema, assim como as outras modalidades audiovisuais, é realizado a partir
de uma série de instrumentos trabalhando em consonância. Esses instrumentos,
também conhecidos como as equipes, trabalham coletivamente para interpretar da
melhor maneira, de acordo com a orientação da direção, o roteiro. As principais
equipes cinematográficas são: direção, direção de arte, direção de produção,
direção de fotografia, direção de som, montagem e pós-produção. Cada equipe
trabalhará com as suas ferramentas particulares para interpretar o roteiro de
acordo com seus próprios objetivos. Por exemplo, a direção de som vai utilizar os
seus conhecimentos técnicos/criativos e suas ferramentas de trabalho para captar
o som dos ambientes, diálogos e etc., garantindo que o resultado final: o filme
projetado, crie uma ambientação sonora envolvente e que os diálogos sejam
ouvidos claramente.
O objetivo da direção de fotografia é desenvolver a imagem final, através da
operação do processo técnico/criativo cinematográfico. Nesse curso abordaremos
quais são e como devemos utilizar da melhor maneira, as ferramentas disponíveis
para conceber um conjunto de imagens do zero, destacando-as das suas condições
técnicas, para atingirem uma dimensão criativa e assim se alçarem para o seu
máximo potencial.

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Teoria X Técnica

É importante começarmos destacando uma questão fundamental no universo da


cinematografia 1: o embate entre a abordagem teórica e técnica das ferramentas da
direção de fotografia.
Todas as ferramentas de fotografia, em decorrência disso as ferramentas de
direção de fotografia, foram desenvolvidas a partir de noções e domínios teóricos
de leis específicas de física e química. Portanto, elas são baseadas em teorias
complexas, como: óptica, química orgânica, geometria, funcionamento do sistema
fisiológico, engenharia e etc.
Precisamos, para começar, ter em mente que o processo fotográfico foi
desenvolvido, em sua gênese, por cientistas, todas as primeiras amostras de
imagens realizadas através desse processo tem autoria de cientistas ou
entusiastas. Portanto, em um primeiro momento, a fotografia era uma atividade
particular de indivíduos que possuíam conhecimentos em física e química.
No século XIX, aproximadamente em 1881, um empreendedor chamado Eastman,
fundador da empresa chamada posteriormente de Eastman Kodak, resolveu
dedicar-se ao trabalho de simplificar o processo fotográfico, com a intenção de
torná-lo popular para ser comercializado. Para tornar o processo popular, Eastman
teve que desenvolver uma maneira de padronizar os métodos de utilização das
ferramentas fotográficas, para assim conseguir ensiná-las para diletantes. Desse
primeiro esforço, desenvolveu-se a abordagem prática/técnica das ferramentas de
direção de fotografia. Em outras palavaras, foi sistematizado um método de
manipulação a partir de um conjunto de regras simples, que ao serem dominadas,
ou decoradas, permitiriam qualquer indivíduo realizar uma foto sem necessitar se
especializar no ofício.
Sem dúvida, a abordagem prática/técnica tem uma importância ímpar na história
e na profissão fotográfica, assim como na cinematográfica, sem essa abordagem,
todos nós, profissionais e interessados na área, teríamos que fazer uma faculdade
de física para trabalhar com esse tipo de expressão artística, portanto, o domínio
dessa abordagem tornou-se a base de sustenção do conhecimento para a nossa
profissão.
Com o passar do tempo, porém, o conhecimento prático/técnico tornou-se
insuficiente para o patamar criativo que os profissionais de fotografia e
cinematografia estavam querendo atingir. A solução foi voltar-se novamente à
teoria, localizando nela todas as possibilidades de variáveis criativas na utilização

1 O resultado final do trabalho da direção de fotografia, relatitivo à imagem, é chamado de cinematografia.

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das ferramentas, para assim utilizarmos as ferramentas em seu potencial máximo
criativo.
Em outras palavras, ao dominar a abordagem prática/técnica, conseguimos
operar as ferramentas para realizar o processo fotográfico, porém, ao utilizá-las a
partir do seu domínio teórico, conseguimos alçá-las ao seu limite, criando inovações
criativas que são muito apreciadas, tanto na fotografia como na cinematografia.
Essa, portanto, é a justificativa da necessidade da abordagem teórica e prática
dos conhecimentos fotográficos.
Durante o curso, a abordagem teórica virá das aulas e das leituras das apostilas,
porém, reitero a importância da realização dos exercícios propostos, garantindo
assim o treino para o domínio da prática/técnica fotográfica.

Estrutura de equipe
Antes de mergulharmos definitivamente nas ferramentas da direção de fotografia
(a partir da 4a aula do curso), é importante estabelecermos um conhecimento
básico sobre os integrantes da equipe e as responsabilidades da direção de
fotografia, que é normalmente a maior equipe dentro de um set de filmagem.
Conforme a maioria já deve saber, a equipe de direção de fotografia é
encabeçada pelo(a) diretor(a) de fotografia. Essa figura ocupa o papel de liderança
e conduz o trabalho de toda a equipe, aproveitando ao máximo a participação de
cada integrante. (Nas próximas 3 aulas nos aprofundaremos nas funções e
responsabilidades do(a) diretor(a) de fotografia.
A equipe de direção de fotografia se divide em duas sub-equipes, totalmente
independentes entre si, que são: a equipe de câmera e a equipe de elétrica e
maquinaria. Essas duas equipes tem uma série de responsabilidades cada,
conforme veremos a frente.

EQUIPE DE CÂMERA
A equipe de câmera é responsável pelo cuidado, manuseio e manutenção básica
de todo equipamento que é relacionado à câmera, como: corpo da câmera,
lentes/objetivas, baterias, carregadores, monitores, fitros, cartões de
armazenamento, acessórios (follow focus, matte box ), entre outros.
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2 Follow Focus: Acessório especifíco para correção de foco, é um sistema de mecanismo por engrenagens conectado ao
anel de foco da lente, que permite a operação do foco na distância sem que se encoste a mão na lente.
Matte-Box: Acessório que se coloca na frente da lente para servir como para-sol, evitando que os raios de luz entrem
diretamente na lente, serve também como suporte para filtros (anteparos ópticos colocado no caminho da luz para
modificação da mesma).
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A equipe de câmera é composta, normalmente, pelo primeiro assistente de
câmera/foquista, o segundo assistente de câmera, o vídeo-assiste e o logger.
O 1 assistente de câmera/foquista é responsável pela coordenação da equipe de
câmera. Ele lidera a equipe delegando todas as tarefas da maneira que considerar
mais apropriada, de acordo com a confiança que ele tem nos outros membros da
equipe. Por exemplo: garantir as baterias carregadas (câmera, monitores e etc.), no
set de filmagem, é responsabilidade do 1 assistente, entretanto, normalmente essa
função é delegada para o vídeo-assiste, dado que é uma tarefa de grande
responsabilidade, porém, tecnicamente simples. Tarefas mais complexas e que
exigem mais conhecimento, como o pre-set 3 da câmera, normalmente, são o 1
assistente que realiza.
No trabalho cinematográfico, a nitidez da imagem é determinada através de um
recurso chamado foco, que se define através do anel de foco na lente (o foco é
definido por marcação de distância). Esse foco às vezes se modifica durante uma
cena, a fim de conduzir o olhar do espectador através da nitidez da imagem. A
garantia que a nitidez/foco da imagem esteja no lugar certo, assim como sua
modificação durante a cena, caso haja, é realizada pelo 1 assistente de câmera, por
isso essa figura também é chamada de foquista.
O 2 assistente de câmera é responsável por assistir o 1 assistente em tudo que
for necessário, ou seja, auxiliá-lo(a) em todas as tarefas necessárias durante o
trabalho no set. Por exemplo: ajudar a fazer marcações para garantir a melhor
operação de foco, de acordo com a movimentação dos atores, limpeza das lentes,
montagem da câmera e etc.
O(a) vídeo-assiste normalmente é a porta de entrada para a profissão de
assistência de câmera, ele(a) é responsável por assistir o 1 e 2 assistentes em todas
as suas tarefas e, também, é responsável por garantir a conexão e o bom
funcionamento de todos os monitores de visualização que estão no set. Por
exemplo, conectar a câmera no monitor para a visualização da direção e garantir
que esse monitor esteja sempre funcionando.
O(a) logger é responsável por carregar e organizar todo o material filmado em
suportes apropriados de armazenamentos, como por exemplo HD’s. Ele também é
responsável por realizar backup’s de todo material, garantindo assim que o material
já filmado esteja em constante segurança e liberando os cartões de armazenamento
das câmeras para serem reutilizados. Essa função é muito importante e exige muita
responsabilidade.
Em alguns casos, quando a operação de câmera não é feita pela direção de
fotografia, o que é o mais comum, se acrescenta a figura do(a) operador(a) de

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Pre-set é o termo utilizado para as definições dos parâmetros de filmagem ajustados na câmera.
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câmera na equipe. Nesses casos o(a) operador(a) de câmera torna-se o líder da
equipe, porém, todas as responsabilidades do 1 e 2 assistente, vídeo-assiste e
logger, permanecem as mesmas. Por exemplo, quando há mais de duas equipes de
câmera no set, em função da filmagem ser realizada com duas ou mais câmeras,
normalmente só há um(a) diretor(a) de fotografia. Nesses casos, as outras equipes
de câmera, que não tem diretor(a) de fotografia, são comandadas pelo(a)
operador(a) de câmera.

EQUIPE DE ELÉTRICA/MAQUINARIA
A equipe de elétrica e maquinaria se divide em duas sub-equipes como o próprio
nome indica, a equipe de elétrica e a equipe de maquinaria.
A equipe de elétrica é a responsável por garantir o funcionamento e a segurança
de tudo que está conectado a rede elétrica no set. Dado que esse trabalho lida com
condução de eletricidade, deve ser realizado com muito cuidado e segurança.
Relativo, especificamente, à direção de fotografia, a equipe de elétrica assume o
trabalho com os equipamentos que exigem eletricidade para funcionar
continuamente, como por exemplo, os refletores (fontes de luz de utilização
profissional). A ligação, operação, posicionamento e manutenção básica dos
refletores no set, portanto, é função da equipe de elétrica. Por exemplo, a equipe de
elétrica é responsável pelas ligações de todos as fontes de luz em tomadas, quadros
de luz ou geradores.
A equipe de maquinaria é a responsável pela montagem, garantia de
funcionamento e a segurança de todas as estruturas montadas no set, para a
utilização da direção de fotografia. Assim como a equipe de elétrica, ela também
opera prezando pela segurança. Por exemplo, são funções da equipe de maquinaria:
o posicionamento e o funcionamento de tripés de iluminação, construção de
estruturas com tubos para pendurar refletores, montagem de estruturas com
andaimes para posicionamento da luz e etc. A equipe de maquinaria é responsável,
também, pela montagem e operação de equipamentos de movimentação de câmera
de grande porte, como por exemplo, gruas e travellings.
Essas equipes são comandadas por uma figura muito importante para a direção
de fotografia, chamada Gaffer, o(a) Gaffer vai coordenar essas duas equipes de
acordo com as necessidades do(a) diretor(a) de fotografia.
Essas duas equipes são compostas, normalmente, por um chefe de elétrica e um
chefe de maquinaria, um primeiro assistente de elétrica e um primeiro assistente de
maquinaria, um segundo assistente de elétrica e um segundo assistente de
maquinaria e por ai vai, variando sempre em função do tamanho da produção.

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JUSTIFICATIVA DE UMA EQUIPE COORDENADA
A justificativa da existência e da importância de todas essas equipes é a de
garantir que a direção de fotografia ocupe, no set, as suas responsabilidades (que
são muitas, conforme veremos nas próximas aulas), garantindo assim um trabalho
organizado e eficiente.

PERSONAGENS EXTRAS
Existem alguns participantes da equipe de direção de fotografia que não se
posicionam em nenhuma das equipes que vimos até agora.
Essas figuras são ocasionais, por isso são independentes. São elas: operador(a)
de Steady Cam (equipamento específico de estabilização de câmera), operador(a)
de câmera subaquática e etc. Esses personagens trabalham em cooperação com a
equipe de câmera, maquinaria e elétrica, porém, não fazem parte dessas equipes.
Apresento em seguida um organograma da equipe de direção de fotografia:

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Considerações finais
Conforme estabelecido, a equipe de direção de fotografia tem uma estrutura
muito rígida e organizada, a justificativa para isso sempre é a relação do trabalho
em função da eficiência, em outras palavras, a nossa luta continua contra o tempo.
O exercício cinematográfico é um trabalho de equipe, o segredo do seu bom
resultado está na produtividade e na cooperação coletiva. O trabalho da direção de
fotografia não é diferente, não se alcança um bom resultado sem um bom trabalho
de equipe. Em um set de filmagem, cada um sabe o seu papel e tem dimensão da
importância dele para o todo e é só assim que conseguimos realizar os desafios que
que cada filmagem nos propõe.
A direção de fotografia, como em uma orquestra, é um instrumento em função de
um maestro, representado pela direção, e ela está lá para interpretar e realizar seu
máximo potencial, assim como os outros instrumentos, contribuindo ao máximo
para o aproveitamento do espectador.

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