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A QUADRATURA DO

CÍRCULO VICIOSO

(Crônicas e reflexões - 2020)

Dartagnan da Silva Zanela


2021
[ 2]
ÍNDICE

DIÁRIO DUMA NAU DESGOVERNADA #


005
O MAL NOSSO DE CADA DIA
LIVRAMENTO, ELEIÇÕES E OUTROS
BICHOS
VOTO DE CONFIANÇA AMARELADO
O CAMINHO A SER ELEITO
NO MEIO DE LOBOS
NEM PORCO GOSTA DISSO
TEMPERAMENTO ELEITOREIRO
AS PERGUNTAS SEM RESPOSTA
A TRISTEZA DO JECA
O RESGATE
COXINHA É TUDO DE BOM
ACIMA E ALÉM
O REAL VALOR DE UM VOTO
FORA DE ESQUADRO
O SANTO É DE BARRO
A FACE DESNUDA DA POLITICAGEM

[ 3]
NOSSO DEDINHO PODRE
E É CADA GOSTO...
ALGO QUE PRESTE NO REINO DE
AVILAN
SEJA COMO SANTA JOANA D’ARC
UM OLHAR CANINO
CHILE, CHIMARRÃO E OUTROS
BICHOS
ENTRE VÍCIOS E VIRTUDES
VALE OURO
DEU NAS REDES E NÃO É PEIXE
PARECE, MAS NÃO É
NABABOS SUPOSTAMENTE
ALTRUÍSTAS
COM A CABEÇA NO TRAVESSEIRO
A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO
REFLEXÕES NADA SOCRÁTICAS EM
GOTAS
UM PROBLEMA BEM ENRAIZADO

[ 4]
DIÁRIO DUMA NAU
DESGOVERNADA # 005

O grande problema presente na apologia


das chamadas ações afirmativas, que são
propostas na sociedade contemporânea
como sendo a solução ideal para
supostamente reparar uma hipotética
dívida histórica, é que há nelas uma
inconfessada motivação que nada tem qu e
ver com o desejo de fazer o bem aos
desvalidos da nação. E tem outra: o que
leva muitos a sorrirem diante desse tipo de
política de “discriminação positiva”, não
seria tanto a vontade de realizar um ato de
justiça, mas sim, de concretizar um
inconfessável desejo de vingança,
justificado por um sentimento difuso de
rancor maquiavelicamente manipulado
por ideologias espúrias. Por isso, muitas
vezes aqueles que bradam a plenos
pulmões que desejam tratar uma chaga
histórica acabam, ao invés disso,

[ 5]
cometendo uma série de injustiças no
presente. (28/09/2020)

# # #

Tem muito caboclo por aí que se atraca


nesse negócio de eleições por ser uma
pessoa popular. Pensa ele, lá com seus
botões, que, por ser uma pessoa conhecida
e, em certe medida, bem quista pelo povo,
será facilmente eleito. Pois é. Ledo
engano. Temos nesse tipo de situação dois
problemas. Primeiro: popularidade não é,
e nunca foi, sinônimo de carisma. Isso
mesmo. E é muito importante não
confundirmos uma coisa com a outra.
Segundo: um pleito exige um tipo de
malícia que, na maioria das vezes, os
indivíduos com grande popularidade são
desprovidos. Uma eleição é um jogo duro
e, sem uma boa dose disso, não é
recomendado que uma pessoa entre nessa
brincadeira. Por fim, existem outros

[ 6]
fatores e variáveis que levam muitas vezes
um sujeito popular obter uma votação
pífia. Claro que há. Mas, de todos, penso
que esses dois contribuem
significativamente para o mau
desempenho eleitoral daqueles que vivem
na boca do povo, mas não são capazes de
tocar na urna eletrônica do coração das
pessoas. (29/09/2020)

# # #

Sou franco em dizer: não vejo nada de


errado numa pessoa dedicar sua vida à
uma carreira política. Nada mesmo. O qu e
me causa estranheza, pra dizer o mínimo,
é sabermos que muitas pessoas escolhem
como projeto de vida parasitar junto ao
poder público. Explico-me: quando
construímos uma carreira, de relativo
sucesso, em qualquer área, somos capazes
de olhar para os anos que se foram e
apontar para os êxitos e, é claro, para os

[ 7]
fracassos obtidos. Isso mesmo. Fracassos.
Apenas cai de cara no chão quem tem algo
para realizar em sua vida. Se não temos
um ponto de comparação, de referência,
não temos como dizer se tivemos êxito ou
não em nossas ações. Tendo isso em vista,
podemos dizer que o êxito, na carreira
política de muitas almas sebosas, é
mensurável apenas pela vitória ou derrota
eleitoral, tendo em vista que seu único
referencial de realização seria conquistar e
manter, a qualquer custo, um encosto
junto ao poder público, seja por meio dum
cargo eletivo de representatividade
duvidosa, seja através de um cargo
comissionado de utilidade questionável.
(30/09/2020)

# # #

Início dos anos 90. Estava eu com um


grupo de amigos na porta de um baile.
Não tínhamos um pila no bolso para

[ 8]
entrarmos no arrasta pé, por isso
estávamos à espera que algum amigo
saísse para passar o carimbo pra gente.
Nesse meio tempo um caboclo chegou
para um dos nossos perguntando: “o que
você está fazendo aí seu filho da puta?”
Meu amigo, com uma serenidade estoica,
disse: “Me chame de qualquer coisa,
menos de filho da puta.” E o ilustre
caipora mais uma vez insultou a mãe do
meu amigo. Não deu outra: o tempo
fechou. Separamos os dois com a ajuda da
turma do “deixa disso” e, é claro, a noite
para nós acabou ali mesmo. Fomos
embora para não arranjar mais confusão.
Nessa época, todos nós sabíamos que se
podia chamar uma pessoa de qualquer
coisa, qualquer coisa mesmo, menos de
filho da puta e de vagabundo. Isso ofendia.
O resto não. Hoje os tempos são outros e,
como todos nós sabemos, tudo se tornou
epidérmico, superficial, inclusive as dores.
Tamanho é o desfibramento que até

[ 9]
pronome tornou-se algo tremendamente
ofensivo e, se continuarmos nesse passo,
chegaremos a um tempo que até um
simples bom dia, dito com um sorriso
torto no rosto, será classificado como
sendo uma forma macabra de
microagressão fascista, tamanha é a
alucinação politicamente correta que
tomou conta de nossa época.
(30/09/2020)

# # #

Quando chega um ano eleitoral, do nada


aparece uma e outra pessoa, cheia de boas
intenções, se candidatando para um cargo
eletivo. Cheias de si, tais pessoas
apresentam seu nome para o vaticínio
eleitoral, crentes de que, se eleitas forem,
irão realizar grandes coisas que irão
beneficiar a todos e, é claro, engrandecer o
seu nome perante a história. Pois é.
Vaidade. Vaidade das vaidades. Tudo isso

[ 10 ]
também é vaidade. Qualquer pessoa séria
que, em algum momento, já tenha se
aventurado por essas pinguelas
eleitoreiras, sabe muito bem do que estou
falando. O trem é phoda pra caramba,
ingrato e medonho. De mais a mais,
sejamos francos conosco mesmo: para
fazer o bem a alguém não é necessário que
sejamos eleitos para um cargo político de
serventia questionável. E tem outra: até
onde sei, não é recomendado que o bem
feito por nossas mãos seja propagandeado
aos quatro ventos, não é mesmo? Pois é.
Foi bem isso que eu pensei. Enfim, seja
como for, desejo boa sorte aos bons que
decidiram se enfiar nesse entrevero. Aos
maus, deixo apenas e tão somente o meu
desprezo. (01/10/2020)

# # #

É curioso o quanto que a decência no uso


das palavras é exigido pelas diplomadas

[ 11 ]
almas suínas. Desde que o mundo é
mundo, o manto da suposta decência foi
um dos muitos disfarces usados pelos
canalhas de todo e qualquer naipe. Com
essa constatação não estou, como direi,
santificando o uso indiscriminado de
palavrões e impropérios. Não é disso que
se trata. O que considero, pessoalmente,
uma filhadaputice sem par é essa mania de
se procurar colocar o recado no uso das
palavras acima do conhecimento da
verdade. Esse tipo de coisa engessa a
inteligência da gente e perverte o senso
das proporções, tendo em vista que,
agindo assim, a preocupação estará
centrada na impressão que o dito terá
perante as multidões - que, muitas vezes,
na maioria delas, está cagando para o
conhecimento de qualquer coisa que seja -
e não no desejo, sincero e abnegado, de
procurar compreender a verdade, pouco
importando o que as almas sebosas dirão a
respeito de nossa triste figura. Por essas e

[ 12 ]
outras que a canalhada toda adora cobrar
bons modos de todos; assim eles melhor se
escondem dos outros, de todos e de si,
para melhor corromper-se e corromper.
Resumindo: palavras polidas não nos
tornam moralmente superiores, da mesma
forma que um e outro palavrão não nos
converte numa criatura ignóbil e sem
coração. (02/10/2020)

[ 13 ]
O MAL NOSSO DE CADA DIA

Nada melhor que acordar bem cedo, com o


cantarolar da passarinhada e abrir de
vereda a janela para sentir a fresca
entrando em todos os ambientes da casa.
Sim, amigo leitor, sei que há outras coisas
boas que podem acontecer em nossa vida,
mas, com roupas, com certeza, essa é u m a
das melhores que há.

Eu sei, estou sabendo que gosto não se


discute, cada um tem o seu, já há muito
dizia uma criancinha comendo
gulosamente um baita ranho recém tirado
do nariz. Porém, creio que seja
praticamente incontestável que exista
aquilo que nossas avós chamavam de bom
e mau gosto. Ao menos é o que vejo todo
santo dia. Demonstrações cabais de ambos
os tipos de hábitos.

[ 14 ]
Longe de mim dizer para alguém do que
ela deve gostar. Que cada um seja senhor
de sua vontade e escravo de sua
consciência; e, se não for o caso, que se
sinta à vontade para ser escravizado pelos
seus desejos e que, sem cerimônia, se
curve perante o senhorio de seus
caprichos.

Como dizia meu falecido avô: o que é do


gosto é regalo da vida. Só não se queixe
depois.

Lembro-me, também, que em minha


porca juventude, eu e meus amigos,
alegremente, cantávamos: eu sou brega,
mas sou feliz; muito mais brega é o meu
país. Que fiasco. Que faisqueira.

Aliás, quem não tem nenhuma esquisitice


que atire a primeira pedra, não é mesmo?
Eita! Quase me acertaram. Sorte minha

[ 15 ]
que os caiporas metidos a dar uma de
bom-moço são ruins de mira.

Vamos em frente. Penso que seja relevante


lembrarmos que entre as inumeráveis
manifestações de mau gosto há algumas
que não são apenas uma espécie de
cafonice inocente; há algumas que são
realmente malignas, lesivas para seus
cultivadores e para as pessoas que
convivem com ela.

E é nesse ponto que a porca torce o rabo e


o relativismo moral revela sua verdadeira
face.

Por isso, e por muito mais, amo as


epístolas paulinas. Numa delas, o apóstolo
dos gentios nos lembra que tudo, tu dinho
nos é permitido, porém, nem tudo convém
(1 Coríntios VI, 12). Creio que mais claro
que isso é impossível, porém, ousar
lembrar o óbvio ululante nos dias de hoje

[ 16 ]
tornou-se algo tremendamente
inconveniente, principalmente para a
galerinha que se considera sumamente
esclarecida.

Um exemplo gritante disso é o sentimento


de raiva que nutrimos, lá de vez em
quando, por uma e outra pessoa. Sei que
isso é feito pra caramba e que ninguém em
sã consciência sairia em público, em
jornais e nas redes sociais, dizendo - de
modo similar ao personagem Pit Bicha de
Tom Cavalcante - que deseja que fulano
m-o-r-r-a. Mas é inegável que, às vezes,
num momento de raiva ou ressentimento,
nos vejamos, lá no fundo do nosso
coração, esganando Cicrano ou Beltrano.

Sim, eu sei, isso é muito feio, mas é


humano e, por isso mesmo nos
envergonhamos quando, no íntimo de
nossa alma, nos flagramos imaginando
fazendo uma barbaridade dessa e, por isso,

[ 17 ]
pedimos perdão a Deus, pedimos o auxílio
divino para nos livrarmos desses maus
pensamentos e sentimentos.

Tudo bem, tudo bem, eu sei que tem um


monte de gente que se considera
muitíssimo limpinha e que, com o
narizinho empinado, e olhos vidrados, diz
a todos que é uma alminha cheia amor e
tolerância e que só cultiva sentimentos
fofos em seu coração depilado. Porém,
como todos nós sabemos, isso não
convence ninguém, a não ser as pessoas
igualmente limpinhas como ela, que
contam a mesma lorota para si e para os
outros, escondendo-se por detrás duma
falsa consciência pretensamente
esclarecida.

É. Justamente quando nos consideramos


moralmente cheirosos e politicamente
fofinhos que a peçonha totalitária se
espraia gostosamente no brilho de nossos

[ 18 ]
olhos, levando-nos a não mais nos
envergonharmos diante do mal que habita
o coração humano. Muito pelo contrário.
Passamos a nos orgulhar do mal que
sentimos e o expressamos como se isso
fosse um símbolo de distinção.

De certa maneira a chamada “cultura do


cancelamento” é isso. Todos aqueles que,
graciosamente, manifestam sua bile sem o
menor pudor, o fazem acreditando que sua
cínica crueldade é legítima e, assim o é,
porque essas pessoas estão se colocando
muito além do bem e do mal. Elas estão
decretando, festivamente, quem merece
ou não estar no meio de nós.

É óbvio que as almas limpinhas, porém


sebosas, irão dizer para si e para os seus,
que todo mundo faz isso, que Cicrano
também e, principalmente, que até o
Beltrano faz aquele outro. Tal atitude,
típica de uma criança que tenta, perante os

[ 19 ]
pais, justificar a sua traquinagem, não
justifica esse tipo de perseguição baseada
em má fé e outras coisinhas vis que
geralmente escondemos debaixo do tapete
da alma.

De mais a mais, como havíamos expresso


linhas acima, há uma diferença abissal
entre desejar o mal em nosso coração, e
envergonharmo-nos disso, e manifestar o
mal que há em nosso coração, e nos
acharmos uma pessoa profundamente
crítica e “do bem” por estar fazendo isso.

Os primeiros, creio que entendem


perfeitamente bem o que estamos dizendo;
os segundos, espero que entendam, apesar
de isso parecer-me ser algo pouco
provável.

[ 20 ]
LIVRAMENTO, ELEIÇÕES E
OUTROS BICHOS

Quando moleque, um tio meu sem pre m e


dizia, quando eu resmungava feito um ford
velho porque não tinha conseguido algo
que eu deseja, para eu não reclamar,
nunca, porque quando estamos
lamentando que temos apenas bananas
para comer, devemos lembrar que,
provavelmente, há alguém atrás de nós
esperando as cascas para se banquetear.

Pois é. Está aí um fragmento da sabedoria


dos simples que até os dias atuais continua
a alumiar os caminhos que trilho com meu
trôpego passo.

Tendo essa reminiscência diante das


vistas, posso afirmar, com certa
inquietação, diante de minha consciência e
frente aos fatos, que não há dúvida alguma
que a situação do nosso amado Brasil não

[ 21 ]
está bonita, nem um pouco; e, que ao que
tudo indica, ela poderá ficar pior.

Possivelmente ficará bem pior.

Porém, ela poderia estar muito mais grave,


bem mais grave; e, consequentemente,
poderia agravar-se muito mais.

Para constatarmos essa obviedade


ululante, basta que olhemos para nossa
vizinha Argentina. Vendo-a podemos ter
um pálido vislumbre de como nós
poderíamos estar nesse momento e
calcular como seriam os dias estão por vir,
caso os amigos brasileiros do presidente
argentino estivem, agora, capitaneando
essa nau avariada que é nossa triste nação.

Pois é. Graças a Deus não estão.


(03/10/2020)

[ 22 ]
VOTO DE CONFIANÇA
AMARELADO

Sou franco em dizer: não dou muita


atenção para as notícias da última hora. O
que eu gosto mesmo é de ler notícias
velhas.

Pode parecer esquesitice, mas creio que


não o seja.

Explico-me: procedendo dessa forma,


penso que conseguimos aprumar melhor a
nossa percepção da atualidade, pois o
momento que vivemos torna-se mais claro
quando procuramos tornar presente o
passado recente que, ao seu modo, é o
cenário do drama atualmente vivido por
nós.

Procedendo assim, de certa forma,


recobramos o senso das proporções.
Vemos que coisas que a dez, vinte, trinta

[ 23 ]
anos atrás eram tidas como sendo
importantíssimas, hoje, não tem mais
significado algum.

Vemos, também, que escândalos que


tomavam a primeira página dos jornais
foram digeridos pelo tempo, e que os
atores envolvidos foram esquecidos pela
história.

Não apenas isso. Também, acabamos por


identificar fatos aparentemente
insignificantes, que ocorreram no passado
recente, que ganharam pouco destaque na
época e que, por sua deixa, acabaram por
se tornar fatores decisivos para chegarmos
onde chegamos.

Enfim, experimente fazer isso. Se não for


esclarecedor como estou dizendo, ao
menos será divertido pra caramba ver
como, de fato, tudo nesse mundo, no frigir

[ 24 ]
dos ovos, não passa de vaidade.
(04/10/2020)

[ 25 ]
O CAMINHO A SER ELEITO

Cada um de nós tem lá as suas obsessões.


Todos temos. Cada um dá seus pulos para
enfrentá-las do jeito que dá. É assim que
deve ser.

O problema é que algumas vezes nos


entregamos a elas imaginando que
estamos realizando o sentido de nossa
vida, quando, na verdade, estamos nos
perdendo feio no meio das suas pelancas.

E como é fácil nos perdermos no meio


delas.

Fórmula mágica, padrão, para resolver


esse tipo de encrenca não há e,
provavelmente, nunca existirá. Por isso a
luta deve continuar, diariamente, contra
as nossas obsessões de cada dia que não
dão trégua.

[ 26 ]
Obsessões que querem porque querem nos
consumir, nos digerir e, ao final, nos
reduzir a um reles montinho de
excremento.

Sim, estou sabendo que, no fundo, não


passamos de um saco de pele, carne e
ossos cheio disso, pouco importa qual seja
a nossa aparência externa. Porém, cada
um de nós pode ser mais do que isso e não
é nos entregando para nossas obsessões
que iremos transcender essa putrefaz
condição.

Enfim, é em nossa cruz, de cada dia, que


encontraremos o Caminho. Abraçando-a
nos aproximaremos da Verdade, nos
encontraremos com a vida, como ela deve
ser vivida, e que está além e acima de
nossos quereres.

[ 27 ]
NO MEIO DE LOBOS

Conta-se, à boca pequena, que após o


golpe de 1930, Vargas tinha a barda de
passar muitos dias na cidade de
Petrópolis, governando o Brasil de lá. Nem
nisso o bicho era bobo.

Após as refeições, conta-se, também, que o


índio velho presidencial, costumava fazer
uma caminhada pelas ruas para fazer a
digestão e espantar os quatis do corpo.

Nessas andadas sempre carregava consigo


alguns docinhos que entregava para a
gurizada que aparecesse pelo meio do
caminho.

Dia desses, encontrou-se com um


grupinho que estava jogando bola.
Cumprimentou-os, ofereceu-lhes umas
balinhas e aí um deles interpelou-o:
“Quem é o senhor?” “Eu sou o presidente

[ 28 ]
da República menino”. O menino fechou
um zóio, abriu bem o outro, mediu Vargas,
dos pés à cabeça, e disse: “Não. Não é
não”. “Como assim não sou. Claro que
sou”. “Não. Não é”. “E por que não sou”?
“O senhor é muito baixinho pra ser o
presidente”. Ao dizer isso o garoto voltou a
jogar futebol e Vargas deu uma expansiva
risada, e seguiu sua caminhada para
retornar o mais rápido possível para as
lides presidenciais.

De certa forma, o garoto em sua meninice,


estava correto. O nanico com o charuto na
boca não era o presidente do nosso
tristonho país. Ele era um ditador, que
havia dado um golpe de Estado e que, à
época, estava governando
“provisoriamente” essa terra de
Botocudos. Provisório que durou quatro
anos, que foi prorrogado por mais ou
menos quatro para, aí sim, como
presidente governar. Depois disso, ficou

[ 29 ]
por mais ou menos oito anos como ditador
e, mais tarde, por mais um tanto como
presidente, democraticamente eleito, até
que resolveu sair dessa vida para entrar
para história, como o mesmo disse ao se
despedir do Catete.

Mas não é sobre o nanico do Getúlio que


desejo falar não. É a respeito das palavras
do menino cujo nome foi esquecido pelas
brumas do tempo. Ele estava diante da
autoridade máxima do país e não o
reconheceu porque lhe pareceu que o
homem que estava diante dele não tinha
parecença de presidente. Pois é. Mas qual
seria a cara de um político? Temos como
reconhecer um quando vemos?
Complicado isso.

Podemos dizer que tais figuras seriam


similares aos vampiros, essas figuras
literárias e míticas que tomam contam de
páginas e páginas da literatura, rolos e

[ 30 ]
mais rolos de filmes e que, tudo junto e
devidamente misturado, habitam nossa
imaginação.

Tal comparação pode parecer estranha à


primeira vista, porém, matutemos um
pouco sobre isso. Um vampiro, tal qual um
político, para manter-se precisa sugar a
essência da vida de outra pessoa. Essência
essa que, no caso do primeiro, seria
representada por sangue fresco das
vítimas e, no segundo, pelo suor do povo,
convertido em impostos que dá forma ao
erário público.

Os herdeiros de Drácula têm em sua volta


uma série de servos que, em troca de
algum beneplácito, ajudam o ser de longas
presas na obtenção de vítimas para poder
continuar existindo e exercendo o seu
reinado. Quanto aos segundos, bem, esses
também são frequentemente rodeados por
um punhado de correligionários

[ 31 ]
“diferenciados” que o ajudam a conquistar
novas vítimas que entregarão de bom
grado seu precioso voto para assim
poderem, por mais um tempo, continuar
exercendo o seu mando.

Vampiros são criaturas que não apreciam ,


de jeito maneira, a luz do dia. Como todos
sabemos, essas criaturas vivem ocultas sob
o manto da noite, à espreita, procurando
encontrar o melhor momento para poder
agir.

Os políticos, por sua vez, e de um modo


geral, são figuras que vivem à sombra de
esquemas, conchavos, acordos e tramoias,
bem longe da luz do sol da verdade, para
que possam, desse modo, melhor cativar
suas vítimas potenciais, digo, eleitores
circunstanciais.

Tanto os primeiros, como os segundos,


sabem como atrair, cativar e

[ 32 ]
instrumentalizar as pessoas. Sim, eles
sabem muito bem fazer isso.

Enfim, as analogias não são poucas e as


reflexões que as mesmas podem fomentar
são incontáveis, tantas quantas um
vampiro seria capaz de contar.

Noves fora zero, a caçada ao voto foi


deflagrada e não são poucos os candidatos
que estão à espreita do voto dos cidadãos
incautos e, nesse momento, como em
todos os momentos de nossa vida, penso
que devemos, como nos ensina Nosso
Senhor Jesus Cristo (Mateus X, 16), ser
astutos como as serpentes porque estamos
no meio de lobos.

[ 33 ]
NEM PORCO GOSTA DISSO

É no andar da carroça que as aboboras vão


se ajeitando. É sim senhor. E é no correr
de uma campanha eleitoral que as
candidaturas vão se aprumando.

No aprumar da carroça, inevitavelmente,


algumas verdades acabam vindo à tona.
Feitos que não são tudo aquilo que
pintavam revelam sua real insignificância
e, também, inúmeros malfeitos acabam
sendo revelados. Malfeitos, que seus
autores, com a maior cara de pau, negam
que um dia os fizeram.

No rodar da velha carroça republicana,


que segue sem parar pelas estradas
esburacadas da fatigada cidadania, vamos
vendo o que pode ser preservado e o que,
necessariamente, deve ser substituído,
tendo em vista que nem porco gosta de
abobora estragada. Nem porco.

[ 34 ]
Mas o bicho homem, metido a cidadão,
gosta dum político tranqueira, gosta de vê-
lo parasitar a coisa pública desde que lhe
atire, uma vez ou outra, alguns
caraminguás na sua algibeira, na forma de
favores ou de um carguinho.

Enfim, o emporcalhamento geral que


vemos em nossa terra não é à toa e,
gostemos ou não de admitir, temos parte
nisso.

[ 35 ]
TEMPERAMENTO ELEITOREIRO

Os humores ficam agitados num período


eleitoreiro. Nossa! Como ficam. De um
modo geral os ânimos se alteram e os
olhares ficam num disfarce só.

Pouco importa se somos candidatos a um


cargo ou candidatos a votar em alguém
que quer porque quer ser investido de
alguma autoridade mundana, todos ficam
meio que ressabiados um com o outro.

Tal sentimento não surge do nada, tendo


em vista que a essência da vida
[depre]cívica no nosso triste país é a
enganação mútua e deslavada destro dos
limites da lei. Quer dizer: mais ou menos
dentro das fronteiras da legalidade.

Ao afirmar isso não estou, de jeito


maneira, fazendo uma apologia da
ilicitude. Longe de mim. O que apenas

[ 36 ]
digo é algo que me parece ser o óbvio
ululante.

Se olharmos atentamente para a


brincadeira democrática veremos uma e
outra pessoa realmente preocupadas com
o bem comum, preocupadas e impotentes;
e veremos, também, uma chusma, das
grandes, de candidatos e eleitores
esforçando-se as pampas para parecer
mais esperto do que todos.

Enfim, num jogo onde os contendores tem


isso como sua motivação fundamental, e
inconfessável, não se pode esperar nada
que preste. Nada mesmo.

[ 37 ]
AS PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Quanto a roleta eleitoral é colocada em


movimento, do nada, aparecem inúmeras
pessoas que dizem, não, que juram com os
dois pés juntos, que amam de paixão o
município e seu povo e que, por isso
mesmo, eles querem, como querem,
ajudar a governar essa pequenina
república.

Em alguns casos, pelo mesmo motivo,


almejam continuar a capitanear a caravela
municipal.

Diante de tamanho desprendimento e


altruísmo penso que seja justo
levantarmos algumas perguntinhas, pois,
como diz seu Tiba, perguntar não ofende
ninguém, exceto os canalhas.

Então, vamos lá: o candidato, a prefeito ou


vereador, de tão dilatado coração, que diz

[ 38 ]
amar tanto a terrinha e sua gente,
realmente investe seus ganhos pessoais no
município ou apenas deseja a
tranquilidade duma sinecura junto ao
Paço?

Se o sujeito acredita que sabe o que fazer


pelos rumos de toda municipalidade,
indaguemos: como o postulante a gestor
ou a edil administra sua vida? O dito cu jo,
de fato, usa seus rendimentos pessoais de
modo sábio? De fato, ele procura viver
duma forma digna, prestativa e
minimamente boa?

Pois é. Basta um punhadinho de perguntas


inconvenientes para desnudarmos
qualquer canalha de sua fantasia de
ocasião [de salvador da cidade].

[ 39 ]
A TRISTEZA DO JECA

Há muitas formas de demonstrarmos o


nosso amor pelo bem comum, pelo lugar
onde vivemos e, a grande maioria delas
não incluem a necessidade de sermos
candidatos a um cargo eletivo.

Para fazermos algo bom não precisamos


primeiramente ser eleitos para ocupar
uma cadeira investida de um certo poder,
basta que o façamos.

Porém, se consideramos tão importante


assim a conquista de um cargo, talvez isso
se deva ao fato de que estamos muito mais
interessados em nos servir do bem comum
do que servir ao interesse público.

E o mais triste nesse causo todo é vermos


pessoas que não procuravam, e não
procuram, ter o mínimo zelo pelos seus
deveres se amontoarem em torno de um

[ 40 ]
nome para bradar em todos os cantos,
ruas e botecos, que é preciso fazer alguma
coisa pelo nosso amado município e pela
preservação dos direitos do cidadão
comum.

Como certa feita havia dito Gorbachev,


geralmente aqueles que mais falam em
nome do povo são os que menos fazem
algo por ele. São aqueles que se agarram
na coisa pública para usufruir dela em
nome do povo.

Enfim, a grande tristeza do trabalhador é


que sempre há um canalha querendo falar
em seu nome.

[ 41 ]
O RESGATE

O convívio com pessoas de carne e ossos -


não com ficções sociais - que nos
cumprimentam pelo nome, ou pelo
apelido, é um dom de Deus.

Elas nos completam, nos fazem


companhia nessa peregrinação rumo a
eternidade. Mesmo que estejam distantes
elas se fazem presentes em nossa vida.

Uma boa companhia não precisa,


necessariamente, estar ao nosso lado.
Basta que ela esteja conosco em espírito e
amizade.

Bem diferente é o convívio com as


multidões. Essas tranqueiras amorfas,
formadas por almas deformadas pelos
vícios do mundo moderno, não medem
esforços para nos esvaziar de nossa
humanidade.

[ 42 ]
Elas nos mutilam para nos reduzir à
miséria existencial delas; para que nos
tornemos parte do seu pútrido corpo
formado por tristonhas figuras
atomizadas.

Estejam onde estiverem, as multidões nos


devoram e nos reduzem à condição de
nitrato do pó de bosta, enquanto uma
personalidade bem constituída pode nos
resgatar dessa mísera situação que nos
assedia diariamente.

Bah! E que situação.

[ 43 ]
COXINHA É TUDO DE BOM

Fim de tarde em Lalalândia. Seu


Timbaúba estava voltando para sua casa,
que fica na beira do perímetro urbano. Ou
seria nos limites da zona rural? Bem, o
velho sempre diz que ele vive no limbo.

Mas antes de rumar para seu rancho,


resolveu parar na panificadora da Nhá
Chica pra dar uma beiçada numa boa
xícara de café e comer uma daquelas
misturas que só tem em padaria.

Faceiro da vida, sentou-se numa mesinha


que fica do lado de fora do
estabelecimento, junto a uma parede
delicadamente grafitada.

Uma moça, muito gentilmente, foi até ele.

[ 44 ]
“Boa tarde seu Timbaúba”. “Boa tarde
menina”. “E o que vai ser para o senhor”?
“Qualquer coisa que não me custe um
rim”. A moça, discretamente, riu. “Veja
para mim uma xícara, mas uma xícara
daquelas, de café, uma coxinha de galinha
e um bolinho de carne”. “Tudo bem, já
trago para o senhor”.

Enquanto a senhoria Florbela foi


providenciar o pedido, nosso amigo tirou
do bolso seu aparelho celular. Deu uma
olhada rápida nas mensagens que estavam
apitando no whatsapp e, rapidinho, abriu
o seu leitor de e-book.

É, seu Timba não é fraco não. Sempre


gostou muito de ler. Sempre está com u m
livro na mão. Se ele tiver que parar em
algum lugar ou ter de enfrentar alguma
fila, ele puxa o bicho velho para prosear
com o autor, com suas personagens, ideias
e opiniões.

[ 45 ]
Faz algum tempo que ele utiliza o leitor de
e-book e, ao contrário de muitos, ele até
que gosta de deitar as vistas na tela
luminosa. Diz ele que quando está lendo
um livro, de papel, as pessoas sempre o
interrompem imaginando que ele esteja
aborrecido ou fazendo algo de pouca
importante. Agora, com o celular, são
outros quinhentos. Ninguém o interrompe
porque, segundo ele, as pessoas devem
imaginar que estou tão infeliz quanto elas
ou fazendo algo profundamente inútil com
meu tempo, como elas geralmente fazem
com o seu.

Passado alguns minutinhos, a gentil


atendente voltou com o pedido do velho.
Ele sorriu feito criança em festa de
aniversário. “Bah! Muito obrigado menina.
Deus a abençoe”. “Amém. E obrigado
nada, está aqui sua conta seu Timbaúba”.
Ele riu, bem alto, ao ponto de a guria levar

[ 46 ]
um susto. Tadinha. “É isso aí. Gostei de
ver. É assim mesmo que se faz Florbela”.

Quando estava na metade do caminho de


regresso ao balcão, resolveu voltar até a
mesa do simpático senhorzinho, tendo em
vista que não tinha movimento naquele
momento na casa de gostosuras.

Ela se aproximou da mesa e disse: “Posso


me sentar um pouquinho com o senh or”?
“Claro menina, sua companhia muito me
alegra”. “Eu queria fazer uma perguntinha
pro senhor”. “Diga. Não faça cerimônia”.
“Em quem o senhor vai votar para
prefeito? No Tibiriçá, no Pafúncio, no
Cana Brava ou no Fugimo Nacombi?”

Seu Timbaúba deu uma mordida na


coxinha, mastigou lentamente o
salgadinho, tomou um talagaço de café e
disse: “Por que você está me perguntando
isso Florbela”? “É que o senhor é um

[ 47 ]
homem vivido, já acompanhou tantas
eleições e sempre o vejo dando uns bons
conselhos aí para essa piazado do Saci e,
por isso, resolvi perguntar. Mas se o
senhor não quiser dizer nada, não tem
problema não”.

“Não, não. Nada disso. Te respondo sim.


Se eu respondo as perguntas dessa piazada
virada no tocha, porque não haveria de
responder a sua pergunta, não é mesm o”?
A menina arregalou os olhos e ficou
prestando atenção. “Veja, antes de
perguntarmos para alguém, ou para nós
mesmos, em quem pretendemos votar, eu
acho interessante que nós procuremos
indagar outra coisa”. “O quê”? “Como qu e
as alianças políticas que se formaram
nesse pleito eleitoral foram forjadas? O
que foi acertado e de que maneira isso foi
feito”.

[ 48 ]
A menina ficou pensativa, colocando seu
queixo sobre a palma da sua mão e, atenta,
continuou a ouvir a palestra de seu
Timbaúba.

“Todos nós nos perguntamos, em todo ano


eleitoral, como pode Fulano e Beltrano,
que se odiavam de morte na última
disputa política, estejam hoje trocando
beijos e juras de amor”. “Verdade”. “Você
já parou pra imaginar como é uma reunião
política?” “Pior que não”.

O velhinho deu mais uma mordida na


coxinha, tomou um gole de café, e voltou
ao ponto do conto.

“Essas reuniões devem ser parecidas com


uma reunião de demônios no inferno”.
“Credo seu Timbaúba”! O velho riu
enquanto a menina fazia o sinal da cruz.
“Calma menina. Calma. Já explico”.
“Então diga”. “Os demônios, por sua

[ 49 ]
própria natureza, se odeiam mutuamente.
São uma casa dividida. Mas eles se reúnem
e firmam pactos entre eles para fazer o
mal. E mesmo estando aliados em torno
de uma causa diabólica comum, todos eles
se odeiam e mal podem esperar para
passar a perna um no outro. No meio
político, infelizmente, não é muito
diferente”.

“Caramba! Nunca tinha pensado dessa


forma”. “Pois é. Então calcule o tamanho
da falsidade, da malícia, da dissimulação
que há nesse meio. Qualquer coisa
acertada desse jeito, minha filha, tem
praticamente tudo para não dar certo”.
“Que coisa”. “Pois é”.

“Tá. Mas em quem o senhor vai votar?”


“Ainda não sei menina”. “Mas quando o
senhor decidir, por favor, me conte”. “Com
certeza”.

[ 50 ]
Florbela voltou para o balcão e seu
Timbaúba continuou a degustar seus
salgadinhos, bebericando seu café,
enquanto lia no seu celular o livro “Os
Demônios” de Fiódor Dostoiévski.

[ 51 ]
ACIMA E ALÉM

Um dos maiores problemas da classe


política do nosso triste país, especialmente
nas cercanias municipais, é que grande
parte dessas figuras não tem a menor
consciência da irradiação de suas ações em
longo prazo.

Os mais tarimbados procuram calcular


seus feitos, e malfeitos, com os olhos na
próxima eleição. Sim, tal atitude é de u m a
mediocridade sem par e, mesmo isso,
torna-se cada vez mais raro.

Cada vez mais o espaço público é infestado


por sujeitos que pensam unicamente no
reflexo imediato de suas ações, tendo por
base a satisfação de seus interesses
rasteiros da última hora.

Tais figuras conseguiram a façanha de


transcender a mesquinhez de outrora,

[ 52 ]
típica da política brasileira, e estão
provando por A mais B que a
mediocridade não é o limite, que eles
conseguem ser piores que isso.

Bom seria se tais peças refletissem um


pouco sobre os ecos que suas decisões e
omissões tem em médio e longo prazo
sobre a vida da comunidade.

Seria muito interessante se tivéssemos


planos de ação de médio e longo prazo que
fossem debatidos e colocados em marcha.
Como isso seria bom.

Porém, isso seria apenas possível se


nossos honoráveis candidatos, e seus
honrados apoiadores, fossem capazes de
enxergar o que está para além de seus
narizes.

Fim.

[ 53 ]
O REAL VALOR DE UM VOTO

O futuro de nosso município está em


nossas mãos, ao alcance de nossos dedos.
Sim, sempre esteve. Sempre estará. Mas
não da forma como muitas vezes nós
imaginamos.

Não há dúvida alguma que um voto bem


sufragado numa urna tem lá a sua
importância e seu poder, porém, esse ato
não tem toda essa capacidade de
mudança, ou de preservação, que muitas
vezes nós atribuímos a ele.

Um voto pode tornar-se apenas uma


frivolidade a mais em nossa vida na
medida em que o tratamos com uma
importância que não lhe é devida.

Uns tratam o bichinho como se fosse u m a


bobeira que de tempos em tempos temos

[ 54 ]
de realizar, como se fosse uma brincadeira
sazonal para maiores de dezesseis anos.

Outros, muito pelo contrário. Veem no


dito cujo um instrumento fundamental
para o exercício da vida cívica, como se
esse fosse uma espécie de sacramento
secular.

Um voto, pouco importando a forma como


ele seja pensado e sufragado, acaba sendo
uma futilidade a mais da vida na medida
em que pervertemos o senso das
proporções.

Se perdemos isso, acabamos ignorando


que tudo que nos é dado, um dia, nos será
cobrado; e nos esquecemos que de nada
adianta ganharmos esse mundinho se nós
perdermos a nossa alma.

(12/10/2020)

[ 55 ]
FORA DE ESQUADRO

Os fracassos são precisos. Eles são


oportunidades para mudarmos o rumo
que nossas decisões acabaram dando para
nossa vida.

Fracassos, sejam eles pessoais ou


profissionais, políticos ou sociais, nos dão
uma chance de não apenas abandonarmos
o hábito que nos levou ao seu encontro,
mas também, e principalmente, eles
podem nos motivar a revisarmos a nossa
vida como um todo para identificarmos
outros prováveis gatilhos para possíveis
fracassos futuros.

As derrotas que sofremos, em toda e


qualquer esfera da vida são elementos
fundamentais da pedagogia divina onde o
Altíssimo, de forma discreta, está
chamando a atenção, desses alunos
displicentes que somos, para a nossa

[ 56 ]
soberba nada original que,
necessariamente, deve ser estourada para
que possamos aprender algo que preste
em nossa jornada.

Os limites, que muitas vezes nos


derrubam, existem para dar forma a
realidade. É importante, muito importante
lembrarmos que tudo aquilo que não tem
limites não é algo livre, sem fronteiras,
mas sim, algo sem forma. Ou seja: algo
deformado.

[ 57 ]
O SANTO É DE BARRO

Conta-se pelos estreitos corredores da


história da vida literária nacional que,
quando Rubem Braga já estava com uma
certa idade, e com seu peso um tanto
acima da média, começou a sofrer com
fortes dores na paleta.

Ninguém merece isso. Quem enfrenta esse


tipo de sofrência sabe muito bem do que
estou falando.

Bem, por causa desse tormento lombar,


Rubão resolveu procurar um homem de
jaleco branco para dele obter uma opinião
qualificada sobre esse incômodo assunto.

O Médico o examinou do jeito que m anda


o figurino e disse-lhe que o pobre h om em
tinha nada mais, nada menos, que quinze

[ 58 ]
bicos de papagaio. Quinze. É mole ou quer
mais? Melhor não falar nada.

Ao ouvir isso, naturalmente, o cronista dos


cronistas ficou pau da vida. Quem não
ficaria. Porém, Braga era um típico
brasileiro e, enquanto tal, era fatalista e se
adaptava facilmente as circunstâncias,
fossem elas boas ou más. Com o passar do
tempo o velho nem mesmo se queixava
mais de suas dores. Até contava vantagem
de seus quinze bicos de papagaio e, ao
final, dizia: o que não tem remédio,
remediado está. Meu Deus. Quinze.

Enquanto isso, do outro lado de Gotham


City, estamos nós, os atordoados cidadãos
de todos os dias, que também temos
nossos bicos de papagaio que não estão,
diga-se de passagem, nas nossas costas,
mas sim, na coluna vertebral de nossas
caquéticas repúblicas municipais. Nas

[ 59 ]
Estaduais e na Federal também. E é cada
calombo que, só por Deus.

E esses hematomas mais ou menos


republicanos falam. Minha Nossa
Senhora, como falam. Prometem m undos
e fundos. Todos eles dizem, sem piscar,
que se eleito forem irão aliviar nossa fatiga
[depre]cívica, gerada pelo peso
mastodôntico da incompetência
historicamente sedimentada e
politicamente adquirida.

Não apenas isso. Esses nódulos


democráticos dizem que irão falar em
nosso nome e que não mais teremos que
esquentar a moringa com a lentidão
burocrática que, em muitíssimos casos,
tornou-se a justificativa mais que perfeita
para a incorrigível falta de boa vontade
que impera nessa terra de desterrados.

[ 60 ]
É cada coisa, cada história que chega aos
nossos ouvidos que quase nos
convencemos que os coitados são
realmente pinicos.

E o pior de tudo é que nós, reles cidadãos


atordoados pelas decisões e omissões de
nossas "otoridades" eleitas, nos
acostumamos com as dores nas costas da
cidadania que tanto afligem nossa
municipalidade. Como bons brasileiros,
somos também meio fatalistas, cada u m à
sua maneira, de modo similar a Rubem
Braga com seus bicos de papagaio.

Olhamos para essas figuras, cheias de pose


e artimanhas e dizemos,
sorumbaticamente, para nós mesmos, na
alcova da nossa consciência: o que não
tem remédio, remediado está.

[ 61 ]
Sim, esse fatalismo típico de nossa gente é
de amargar porque a verdade sobre nossa
sociedade não é nem um pouco doce não.

Infelizmente, qualquer atitude


minimamente serena deve partir desse
olhar fatalista que marca a alma brasileira.
Ignorar esse traço marcante de nossa
sociedade é literalmente fazer buraco
n'água imaginado estar realizando uma
grande mudança com essa atitude.

Gostemos ou não, as mudanças, tanto as


boas quanto as más, são lentas. Elas não
caminham na velocidade dos cliques do
mundo digital. Não. O tempo delas é
outro. Por isso, se realmente ansiamos
vislumbrar um futuro alvissareiro para
nossa municipalidade é de fundamental
importância que tenhamos claro em nosso
horizonte que não é através dum pleito
eleitoreiro que iremos nos livrar dos bicos

[ 62 ]
de papagaio que atravancam a vida cívica
nossa de cada dia.

Penso que o primeiro passo nessa direção,


do endireitamento geral de nossa coluna
fatigada é reconhecermos que há, em cada
um de nós, uma inclinação para o
servilismo voluntário que nos leva a
procurar um sinhô para podermos ter a
momentânea ilusão de que todos nós
iremos nos locupletar com o beneplácito
dele.

O reconhecimento dessa chaga não


significa que estaremos livres dessa tola e
voluntariosa servidão. Nada disso. Apenas
irá sinalizar com clareza contra o que
devemos lutar, diariamente, porque o bom
combate começa em nossa alma, não
numa urna eletrônica cafona.

[ 63 ]
A FACE DESNUDA DA
POLITICAGEM

Todo abençoado que se candidata a um


cargo político, pouco importando qual seja
o dito cujo do cargo, em princípio, deseja
uma coisinha só: poder.

Qualquer um que se enfie nesse cipoal,


que é uma carreira política, quer poder; e,
sou franco em dizer, não há nada de
errado em querê-lo.

O trem enrosca, e enrosca feito, quando


passamos a perscrutar a razão que leva
fulano ou beltrano a terem esse tipo de
cobiça.

Não estou me referindo as justificativas


que a turma apresenta para todos por
meio de suas preleções artificiais,
treinadas em cursinhos de retórica e

[ 64 ]
autoajuda, ou montadas simplesmente na
base da malandragem. Não é sobre isso
que estou falando.

Refiro-me, sim, àquelas razões que se


apresentam no brilho dos zóios desses
caboclos, mas que eles não são capazes de
confessar publicamente, tendo em vista
que, se o fizessem, estariam dando um tiro
no próprio pé, pois acabariam mostrando
sua verdadeira face.

Sim, eu sei, estamos todos carecas de


saber, que as pretensões políticas são
tecidas com novelos e mais novelos de
boas intenções, como também sabemos
qual é o lugar que está repleto disso, não é
mesmo?

Lembremos: de nada adianta bancar o


esperto e se dar bem nesse mundo se, para
isso, tivermos que perder a nossa alma.

[ 65 ]
NOSSO DEDINHO PODRE

Muitas pessoas gostam de ver a mensagem


de Nosso Senhor Jesus Cristo como sendo
uma forma de contestação social,
particularmente da sociedade atual.

Na verdade, muitas das pessoas que assim


pensam, gostam de utilizar o Santo
Evangelho como se ele fosse um porrete
para bater em seus adversários políticos,
nos seus inimigos ideológicos ou
simplesmente para esfolar vivo e sem dó
algum desafeto pessoal.

Nosso Senhor não é um contestador de


patavina alguma. Ele é o Verbo divino
encarnado e veio para esse mundo para
nos redimir, para nos salvar e, por isso, o
Seu recado não é para a sociedade como
um todo, nem para uma classe social em
particular. O recado do Filho de Davi é
para cada um de nós, uma paulada bem

[ 66 ]
dada na nossa cabeça dura. Na minha e na
sua.

Tornou-se comum, atualmente, ouvir uma


e outra alma sebosa indagar, acidamente,
algo assim: “e se o JC vivesse hoje, o que
Ele diria para você?” Saca o tamanho da
má intenção, da malícia que há numa fala
desse naipe?

Trocando em miúdos: para esses


abençoados, Cristo teria algo para
reprovar nos outros, especialmente no
coração dos seus desafetos, mas não teria
nada a dizer a respeito do coração peludo
deles, que procuram viver de acordo com o
Evangelho segundo os piolhos de Marx e
demais profetas tortos.

Esquecemos, com grande facilidade, qu e a


prece que apraz ao coração do Altíssimo é
aquela que foi feita pelo publicano, com o
peito contrito, silente, ao fundo do templo.

[ 67 ]
Esquecemos e, vergonhosamente,
insistimos em continuar agindo com o u m
fariseu soberbo, diante do altar midiático,
se achando a última bolacha do pacote.

[ 68 ]
E É CADA GOSTO...

Um caboclo para se largar na pinguela de


uma eleição tem que ter uma boa dose de
falta de juízo. Um pouco de coragem e
muita falta de juízo.

Algumas vezes fico matutando com meus


alfarrábios e tentando imaginar o que se
passa pela cabeça dum abençoado desses
que quer porque quer candidatar-se a
alguma coisa.

Quantas histórias o sujeito tem de


inventar, quantas e quantas vezes tem qu e
concordar com sua majestade, o eleitor,
mesmo que aquilo que o dito cujo esteja
dizendo seja algo que ele discorde de fio a
pavio.

Isso sem falar nos casos onde os cidadãos,


descaradamente, tentam mordiscar o
bolso do candidato. Não deve ser fácil.

[ 69 ]
Além disso, há ainda aqueles casos mais
estrambólicos, onde temos candidatos que
fingem, praticamente vinte e quatro horas
por dia, que estão dramaticamente
preocupados com o futuro da terrinha
quando, na verdade, estão apenas
interessados em saber como ficará a sua
própria vidinha.

Uma quantidade assim de simulações,


disfarces, enganos e auto enganos não faz
nem um pouco bem para a alma de
ninguém. Nem um pouco.

Mas, como dizia meu falecido avô, que


Deus o tenha, o que é do gosto é regalo da
vida.

E é cada gosto...

[ 70 ]
ALGO QUE PRESTE NO REINO DE
AVILAN

Recentemente vi uma publicação de um


candidato a vereador que me chamou a
atenção. Quem é o abençoado e em qual
rincão o bichinho mora não vem ao caso.
O que me interessa mesmo é a publicação
que ele fez.

Estava desenhado no seu perfil, numa rede


social, um quadro comparativo composto
de duas colunas. Na primeira, o que seria a
função de um Edil; na segunda, o que não
é, de jeito maneira, dever de uma
vereança.

Caramba! Um candidato ousando querer


educar civicamente o eleitorado, em plena
campanha eleitoral, é um trem que não se
vê todo dia. Não mesmo.

[ 71 ]
Ao ver isso, lembrei-me de uma historieta
que a muito me foi relatada por um velho
amigo meu. Dizia ele que lá pelos anos
oitenta teria conhecido um professor, um
professor anarquista, que saiu candidato a
vereador na cidade onde ele vivia. O
professor era uma figura querida por
muitos e, por isso, todos diziam que ele
tinha grandes chances de receber uma
votação bem expressiva.

Porém, quando alguém chegava pra ele e


dizia “vou votar em você Beto”, ele
interpelava o eleitor com um papo mais ou
menos assim: “Espera aí meu amigo, você
tem certeza que realmente quer votar em
mim? Você conhece as propostas que eu
defendo? Você é realmente favorável as
mesmas ideias que eu advogo?” E após
essas indagações seguia-se uma profícua
troca de figurinhas.

[ 72 ]
Pois é. Depois de uma longa prosa muitos
eleitores desistiam de votar nele, e o
professor agradecia-os por isso, porque o
seu objetivo, não era obter uma
investidura vazia. Não. Ele queria criar
ocasiões que propiciassem momentos de
formação política para todos aqueles que
estivessem dispostos a ouvi-lo. E foi isso
que ele fez. Perdeu votos, mas libertou
corações e mentes.

Ao ver a publicação desse rapaz, neófito na


arena eleitoral, tive a impressão de que
estava diante duma pessoa movida por
uma índole similar. Vi nele uma pessoa
que procura ver e viver a vida política para
além das mesquinharias, que tomam conta
dela, nessas pequenas repúblicas
municipais que dão forma ao nosso triste
país.

Se eu morasse na cidade onde esse


abençoado está concorrendo a uma

[ 73 ]
cadeira no legislativo municipal, talvez eu
votasse nele. Não porque ele seria um
candidato ideal, mas sim, por causa desse
seu gesto valoroso que destoa desse
ambiente onde há tantas pessoas que estão
dispostas a pagar qualquer preço para ser
uma “otoridade”.

Fim.

[ 74 ]
SEJA COMO SANTA JOANA D’ARC

Vi, recentemente, uma camiseta à venda.


Nela havia a estampa de uma imagem de
Santa Joana D’Arc com o dizer “lute com o
uma garota” e, ao ver isso, acabei
matutando algumas ideias toscas em
minha cabeça bronca.

O que significa lutar como uma garota? O


mesmo que lutar feito um garoto: agir
feito uma criança birrenta e mimada
frente a um problema, batendo o pezinho e
tentando de todas as formas chamar a
atenção para si.

Sejamos homens ou mulheres, penso eu


que devemos, na medida de nossas
limitações, lutarmos a boa luta de cada dia
com um mínimo de magnanimidade. Ou
seja: que se deve lutar como uma m ulh er,
não feito uma garota. Que se deve lutar
como um homem, não feito um garoto.

[ 75 ]
Devemos ser chamados para a vida adulta,
não ficarmos estagnados na idolatria da
mocidade.

No mundo contemporâneo o que temos


em todos os cantos e recantos é essa
insistente infantilização geral da
população, por isso, agir e pensar como
púbere passou a ser visto como algo que
tem um valor em si mesmo.

De mais a mais, quem estava estampada


na camiseta era Santa Joana D’Arc.
Detalhe: ela não era apresentada como
Santa que é, mas apenas como uma
heroína da França.

Sim, ser uma heroína já é algo de grande


envergadura, mas ela era e é muito mais
que isso.

E tem outra coisa. Pergunto, cá com m eu s


botões: será que as pessoas que forem

[ 76 ]
ostentar uma camiseta assim irão
realmente lutar como essa menina, qu e se
fez mulher sob o signo da fé e das armas?
Não sei dizer. Só sei de uma coisa: quem
dera se eu tivesse um centésimo da fé e da
coragem dessa mulher.

E te digo outra coisa: não será o uso du m a


camiseta estampada, dessa forma, que irá
permitir que uma pessoa conquiste isso.

Enfim, Santa Joana D'Arc, ora pro nobis.

[ 77 ]
UM OLHAR CANINO

Há algo muito flácido no reino de


Lalalândia. Gelatinoso mesmo. Explico-
me: de tempos em tempos temos a
manifestação desse tipo de desfibramento,
especialmente nas festas de fim de ano
(Santo Natal e Reveillon) e nos períodos
eleitorais.

É. Isso mesmo que você está pensando. É


aquela velha lengalenga sobre fogos de
artifício.

Sou franco em dizer: não sou fã desses


trens, porém, nada tenho em contrário. O
que é do gosto é regalo da vida. De mais a
mais, o seu uso nessas épocas é algo
costumeiro e, por meio deles, seus
usuários manifestam seu contentamento.
Contentamento que, na maioria das vezes,
não compartilho. Problema meu,
obviamente.

[ 78 ]
Ah! Sim. Temos os cães com sua audição
sensível. Verdade. Tenho alguns no meu
rancho. Amo os bichinhos. Mas,
engraçado, nunca os vi se assustarem ou
pirarem o cabeção por causa disso. Na
verdade, os abençoados ignoram, de forma
espartana, todo e qualquer foguetório.

Imagino que alguns cães devem realmente


ficar em polvorosa por causa deles, porém ,
algo me diz, que isso deve ser muito mais
um reflexo da personalidade dos seus
donos do que algo inerente à sua natureza
canina.

Lembremos: cães acompanharam seus


amigos humanos nos campos de batalha,
lutaram ombro a ombro inúmeras guerras
e, inclusive, alguns receberam medalhas
por sua bravura e lealdade.

[ 79 ]
Porém, hoje, os tempos são outros; e os
humanos também. Como agora as
palavras machucam é compreensível que
alminhas de veludo se escandalizem com
um foguetinho aqui e acolá numa tarde de
primavera.

[ 80 ]
CHILE, CHIMARRÃO E OUTROS
BICHOS

Teotónio estava, como de costume,


tomando seu mate na pracinha desajeitada
da sua desajeitada cidade. É incrível como
o mal gosto se expressa tão bem nas
curvas arquitetônicas idealizadas por
“otoridades” cheias de presunção mal
disfarçada de boa intenção.

Enquanto roncava a cuia, num passo


manso, meio manco e sem muita pressa,
se aproximou dele seu Juvenal. Pobre
homem. Na eleição passada foi atropelado
por um celerado bêbado que estava se
aloprando fazendo “campanha” para um
dos candidatos. Acabou ficando rengo das
patas.

Mesmo assim, arrastando as chinelas,


todo santo dia ele sai bater-perna pelas

[ 81 ]
ruas da cidade. Diz ele que é para não ficar
entreverado de vez.

Enfim, Juvenal se achega do velho que


está chimarreando só na praça. “Dia Teo”!
“Dia homem de Deus! Se abanque aqui
comigo. Vamos prosear um teco”. “Já
sendo”. Com uma certa dificuldade ele se
senta no banco da praça. “Precisa de
ajuda”? “Agradecido. Mas não carece não”.
“Aceita uma cuia”? “Mas é claro. Ou você
acha que eu me sentei aqui com você por
causa da tua boniteza”?

O mate é servido e a prosa é desengatada.


“Você viu o que aconteceu no Chile”? Seu
Juvenal dá umas duas puxadas no mate,
fecha levemente os olhos enquanto lam be
os beiços, e diz: “Vi sim. Que barbaridade
aquilo”. “Verdade. O que deu na cabeça
dessas pessoas para destruir não apenas
um edifício histórico, mas a casa de
Deus”? “Foi o culto desse tal do

[ 82 ]
relativismo e do multiculturalismo. Toda
manifestação horizontal de barbarismo é
sempre precedida de uma invasão vertical
de bárbaros diplomados”. “Que é isso
homem de Deus! O que é que Chico tem
que ver com Francisco”?

Seu Juvenal ronca a cuia, como manda a


tradição, devolve-a para Teotónio e
continuou. “Tem tudo haver meu amigo.
Tudo haver”. “Então me explique. Gosto
de ouvir suas palestras”. “Bem, então
comecemos pela tal da cultura. Afinal de
contas, o que é isso?” Teotônio parou um
pouco pra matutar e, em seguida, disse:
“Homem de Deus, agora você me pegou.
Eu ia dizer que é tudo que a gente faz, m as
imagino que isso seja um tanto vago”.
“Verdade. Mas, no sentido meramente
antropológico é isso mesmo. Tudo o que
fazemos de certa forma é um registro de
nossa passagem por essa vida e, enquanto
tal, reflete o que há em nossa alma”. “No

[ 83 ]
caso daquele diabedo que ateou fogo nas
Igrejas chilenas o que há na alma deles é
enxofre”. “Possivelmente”.

Teotônio serve mais uma coisa para si


mesmo e Juvenal continua com seu
colóquio. “Nesse sentido, meu amigo,
cultura é tudo aquilo que nós cultivamos e
tudo o que nós cultuamos”. “Uh! Acho que
já sei onde você quer chegar”. “Sabe sim.
Quando cultivamos algo nós esperamos
que esse algo dê frutos. Nenhum agricultor
atira sementes no solo por atirar. Há
sempre o propósito de colher algo”. “E
queremos colher algo bom quando
semeamos algo no solo de nossa alma”.
“Exatamente. Mas para que isso ocorra é
preciso que a semente seja boa”. “E o
relativismo por si não é uma boa
semente”. “Exato. A partir do momento
que se considera tudo como tendo a
mesma importância, nada mais tem valor
algum”. “E no lugar da beleza, da bondade

[ 84 ]
e da verdade nós temos o uso da violência
para impor a deformidade, a maldade e
falsidade”. “Isso mesmo!” “Eu sempre
acompanho o teu programa de rádio
Juvenal e presto bastante atenção em cada
uma de suas conferências”. “Obrigado”.

Teotônio ronca a cuia, deita a água


lentamente na mesma e passa para
Juvenal perguntando: “Tudo bem. E o
culto que tem que ver com a cultura”?

Juvenal faz um gesto com a mão,


sinalizando para esperar um pouquinho.
Deu umas duas puxadas no mate e
retomou o fio da meada. “Ao cultivar algo
estamos realizando um ato de valorização;
e, toda vez que valorizamos algo, nós
colocamos esse algo no centro de nossa
vida; quando elegemos algo como centro
estamos dizendo que esse trem dá sentido
à nossa existência”. “Ou seja: torna-se
aquilo que nós cultuamos”. “Exatamente

[ 85 ]
índio velho”. “E nesse sentido há cultos
que nos edificam e cultos que nos
degradam”. “Perfeito. Porque nós
acabamos, com o passar do tempo, nos
tornando a imagem se semelhança daquilo
que consideramos mais importante em
nossa vida”.

Juvenal fez um silêncio enquanto


terminava de tomar sua cuia e, após
roncar a bichinha, passou-a para seu
amigo. “E quando falo isso Teo, não estou
dizendo que nos tornamos aquilo que
dizemos ser importante, mas sim, aquilo
que está, de fato, presente em nossos
corações como algo precioso”. “Entendo.
Entendo perfeitamente o que você está
dizendo”. “Então diga”. “Quando nós
vemos essa valorização imensa que é feita
do relativismo em nossa sociedade,
através da grande mídia e do sistema
educacional, não se está valorizando todas
as culturas, mas sim, deixando um grande

[ 86 ]
vazio no coração das pessoas”. “Isso
mesmo”. “E aí, por isso, abre-se um espaço
para o culto de qualquer coisa e, na
maioria das vezes, é algo que não presta”.
“Porque o ser humano não é capaz de viver
no vazio de sentido. Ele carece de algo qu e
lhe diga o que é certo e errado, justo e
injusto, belo e disforme, que dê um norte
na sua caminhada por esse mundão de
meu Deus”. “E o relativismo não é capaz
de fornecer isso”. “Porque o relativismo,
usado como critério de valor, não como
ferramenta de análise, acaba servindo de
navio quebra gelo para novos valores,
ideias e ideais”. “E destruir o que é
cultivando e cultuado é fundamental para
impor um novo padrão cultural, um novo
conjunto de valores para ser cultivado e
cultuado”. “No final das contas o objetivo é
atacar e destruir o Cristianismo que é a
pedra de toque da Civilização Ocidental”.

[ 87 ]
Teotônio fica silente por um instante,
pensativo. Juvenal então retoma a palavra.
“Quando você observa mais de perto,
percebe que o que todas essas bandeiras
radicais, defendidas pelos esquerdistas,
têm por finalidade é a destruição do
Cristianismo”. “E o pior é que tem muita
gente boa que defende essas coisas e nem
se dá conta disso tudo”. “Verdade. É o qu e
acontece quando nos fiamos pelo
relativismo”. “Quando deixamos de ter a
procura pela verdade como referência
fundamental de nossa vida acabamos
sendo referenciados por qualquer u m qu e
queira nos manipular”. “É bem isso. É bem
isso que acontece quando colocando Marx
(ou qualquer outra coisa) no lugar de
Cristo”.

“Veja Teo, nós estamos tendo a destruição


de Igrejas por radicais desse naipe nos
Estados Unidos, na Europa, na China, em
todos os cantos do mundo e, em regra, os

[ 88 ]
agentes de destruição tem muita coisa em
comum e não é apenas uma carteira de
cigarros FREE”. “E inclusive a Igreja está
cheio de gente desse tipo que é adepta do
relativismo e do multiculturalismo. Que
estão trabalhando para destruí-la por
dentro”. “Pois é. Pra você ver como as
coisas estão”.

Teotônio ofereceu mais uma cuia de m ate


para o amigo, mas Juvenal declinou a
oferta. Disse que já estava meio verde de
tanto mate. Levantou-se e, trôpego, segui
seu rumo pela esbugalhada calçada do
passeio público de sua triste cidade.

[ 89 ]
ENTRE VÍCIOS E VIRTUDES

Certa feita, na minha porca juventude, u m


amigo havia me dito que homem que é
homem tem que ter um vício. Um vício.
Um conselho um tanto estrambólico, m as
ele tem sua razão de ser.

Sim, não há dúvida alguma que devemos


procurar viver uma vida virtuosa, porém,
como todos nós muito bem sabemos,
somos o que somos: uma tranqueira só
que ama parecer "o bom-moço da
paróquia".

Por isso, segundo o conselho do meu velho


amigo, é bom que tenhamos uma espécie
de válvula de escape. Um vício para dizer
que é nosso. Só nosso.

Tendo isso, segundo ele, nós saberíamos


claramente qual seria o nosso ponto fraco,
ou o nosso ponto mais fraco, para

[ 90 ]
podermos combatê-lo e, quem sabe, com o
tempo, nos fortalecer em espírito e
verdade.

Se não nos fortalecermos, pelo menos nós


iremos ter um olhar mais misericordioso
para com os nossos semelhantes que são
tão tranqueiras quanto eu e você.

Resumindo o entrevero: o que meu bom


amigo estava me dizendo não era que
devemos escolher um vício e nos
afundarmos nele, mas sim, reconhecermos
que não somos tão virtuosos como
presumimos ser.

Aliás, tal presunção de pureza, que nos


leva a crer que temos uma espécie de
monopólio das virtudes, é bem
provavelmente um dos mais lazarentos
vícios humanos que há.

[ 91 ]
VALE OURO

Se você não tem nada para dizer, não diga


nada. Eis aí um conselho simples, curto e
direto que vale ouro. Por isso,
imorredouro.

Imagino que cada um de nós já deve ter


dito isso para si mesmo quando viu
alguém falando algo indevido, numa
ocasião inapropriada, por tagarelar mais
que o homem da cobra.

Dizemos em nosso íntimo: coitado. Se


tivesse permanecido quieto passaria por
sábio.

E, com toda certeza, todos nós já devem os


ter cometido o mesmíssimo deslize, em
circunstâncias similares, nos estrepando
de verde e amarelo.

[ 92 ]
As razões para tais escorregões são as mais
variadas possíveis e, francamente, creio
que não vale a pena enumerá-las,
principalmente porque a preguiça é tão
avantajada quanto o número de fatores
que nos levam a cometer esse tipo de
tolice.

Porém, há uma dica que, sinceramente,


acredito que possa nos ajudar a não mais
cairmos nessa arapuca ou, pelo menos, a
não mais nos arrebentarmos com tanta
frequência.

Ao invés de dizermos, para nós mesmos,


que quem não tem nada de relevante a
dizer que se cale, perguntemos,
rispidamente: desde quando isso que eu
vou a dizer tem realmente alguma
relevância? Desde quando?

Só o fato de fazermos essa pergunta, para


nós mesmos, irá nos desconcertar.

[ 93 ]
E se, mesmo assim, insistirmos em dizer
que isso tem algum valor, perguntemos
mais uma vez com a mesma rispidez: por
que isso teria algum valor? Quem foi que
nos disse que isso tem alguma valia?

Façamos isso e, certamente, com o tem po,


nos tornaremos mais silentes e
passaremos menos vexames.

Por fim, para alguém que estava falando


da importância do silêncio, acabei falando
mais do que devia. Fazer o quê? Faz parte
da vida.

[ 94 ]
DEU NAS REDES E NÃO É PEIXE

Recentemente, dando uma circulada


rápida pelas redes sociais, deparei-me com
uma publicação, com um vídeo, onde seu
autor manda um recado curto e direto qu e
qualquer bom entendedor entenderia.
Mas, como a cada dia que passa, tais
figuras tornam-se cada vez mais raras
nesses rincões, imagino que seu recado
não foi compreendido.

De toda sua palestra, gostaria de destacar


um ponto que, francamente, considero
precioso.

Disse ele, com todas as letras, que aqu eles


que estivessem criticando-o, ou
simplesmente debochado da sua pessoa,
que se sentissem à vontade para fazê-lo,
por duas razões: a primeira; é um direito
que lhes assiste. A segunda: tais pessoas

[ 95 ]
não têm nada que possa acrescentar à sua
vida. Ponto.

Penso que essas duas observações são


válidas para todos nós. Todos. Inclusive
para este que vos escrevinha.

Todo mundo quer porque quer externar


suas opiniões e, não apenas isso, exige qu e
todo mundo diga amém para suas
palavras.

Nada disso. É importante lembrarmos que


o direito que temos de dizer o que bem
entendemos é limitado pelo direito qu e os
demais têm de não nos ouvir e, inclusive,
de discordarem do nosso dito.

E o mais engraçado é que, nesse


mundinho de redes [anti]sociais, todo
aquele que desaprova o que alguém pensa,
ou deixa de pensar sobre algo, acredita,
piamente, que deve manifestar sua

[ 96 ]
desaprovação como se ela fosse uma
espécie de vaticínio celestial, que o mundo
pararia com esse ato e tornar-se-ia outro
só porque criticou, ou debochou de alguém
em seu perfil pessoal no facebook, ou
nalguma outra tranqueira similar.

De fato, gente assim não acrescenta nada a


ninguém porque o nada nunca tem algo a
oferecer que não seja a sombra de um zero
à esquerda.

Enfim, digamos o que bem entendermos,


mas não esperemos o aplauso de ningu ém
por isso. Critiquemos e façamos troça de
quem desejarmos, mas façamos isso
cientes de que, na maioria absoluta das
vezes, a vida continuaria do mesmíssimo
jeito se nós não tivéssemos tido a pachorra
de nos pronunciar.

[ 97 ]
PARECE, MAS NÃO É

Período eleitoral, a festa da democracia,


todo mundo fica aqui e acolá avaliando as
potencialidades e fragilidades dos
candidatos a ocupar a cadeira mais
elevada da municipalidade.

Quer dizer, não são muitos os que se dão a


esse trabalho. De jeito maneira. Na
verdade, a maioria acaba se contentando
unicamente em fazer coro com uma
torcida, seja ela organizada ou não.

Porém, há aqueles que procuram fazer isso


e, ao fazê-lo, murcham os ombros,
desanimam-se rapidinho e ficam com
vontade de mandar todo mundo comer
tomate cru. Não porque fulano ou beltrano
não tenham o gabarito mínimo necessário
para colocar o seu bumbum, cheiroso ou
não, no troninho do Paço. Não é disso qu e
se trata.

[ 98 ]
Muitíssimas pessoas começam a ficar pau
da vida quando passam a especular quais
serão os possíveis caboclos que irão
ocupar o comando das secretarias da
Prefeitura. Aí meu amigo, o caldo entorna
de vez.

Pior! Quando se começa a fazer esse tipo


de especulação, mais do que depressa,
brotam em nossa mente os nomes
daqueles que atualmente estão à frente de
uma e outra pasta e, também, das figuras
que um dia ocuparam as referidas.

Meu Deus do céu! Como não ficar com a


cara quente?

Sim, não há dúvida que, ao fazer isso,


acabamos nos lembrando do nome de
pessoas que realmente fizeram um bom
trabalho e de alguns que tiveram uma
atuação excelente; porém, todavia e,

[ 99 ]
entretanto, nos vem à memória cada
figura que, francamente, se descrito fosse
pareceria piada.

Pois é, mas não é não. São os fatos, e eles


infelizmente insistem em nos desanimar.

[ 100 ]
NABABOS SUPOSTAMENTE
ALTRUÍSTAS

Há pessoas que estão com o queixo caído,


embasbacadas, por ter chego aos seus
ouvidos limpinhos e cheirosos a futrica,
digo, a notícia de que começaram a
ocorrer, aqui e acolá, as primeiras traições
entre os correligionários políticos deste,
daquele, desse e do outro candidato.

Estão escandalizadas, rasgando suas vezes


em praça pública (menos), só não sei qual
a razão para tamanho estardalhaço. Não
sei mesmo.

Não estou dizendo que trairagem seja algo


bonito de se ver. Nada disso. É tão feio
quanto xingar a mãe.

Digo apenas que não me escandalizo


porque não espero algo muito diferente
vindo desse meio.

[ 101 ]
Explico-me. Seja lá em Brasília, ali em
Curitiba, ou nas limitações das cercanias
de nossa republiqueta municipal, todas as
alianças, acordos, conchavos, acertos e
pactos firmados entre as figuras que se
dizem preocupadíssimas com os rumos e
com o prumo da coisa pública,
muitíssimas das vezes não são motivados
por razões que possam ser confessadas
publicamente sem algum constrangimento
e, por isso mesmo, são rompidas com
tanta facilidade.

Se levarmos isso em consideração, a única


coisa que realmente deveria nos deixar de
cabelos arrepiados seriam justamente as
manifestações cabais de lealdade em torno
de um projeto político que tenha por
coluna central um espírito público
expresso em ações que tenham como
finalidade servir a população e não servir-

[ 102 ]
se das carências e problemas vividos pelo
povo.

Enfim, as trairagens entre correligionários


políticos fisiológicos apenas demoraram
um cadinho para se tornarem conhecidas
por todos, pois nesse tipo de ambiente o
que menos há é pundonor, amor e zelo
pelo bem comum, e o que abunda nesses
círculos é melhor nem dizer.

[ 103 ]
COM A CABEÇA NO TRAVESSEIRO

Uma das coisas mais abjetas que há nesse


canto do universo conhecido são aqueles
tipinhos maliciosos que acham que fazer
um monte de esquemas, conchavos e
similares, seria um sinal de grande
inteligência, algo para se orgulhar e contar
para seus netos junto ao fogão a lenha.

Você mira bem nos olhos desses caboclos,


todos simpáticos, com aquele fingimento
sem fim - apresentando-se, dia e noite,
para a opinião pública como se estivessem
realmente preocupados com a vida das
pessoas - e percebe, em um estalar de
dedos, que o que há no fundo dos olhos
deles é apenas e tão somente um profundo
vazio.

Isso mesmo. São pessoas vazias, de alma


amorfa, que se apresentam com qualquer
fantasia para poder obter alguma

[ 104 ]
vantagem, ou para garantir aquelas que
eles acreditam que sejam suas por
“direito”.

Essas alminhas fazem qualquer coisa para


serem chamadas de “otoridade”, apesar de
serem retumbantes nulidades que fazem
da mesquinharia a norma ética das suas
vidas.

Por isso, fico as vezes me perguntando


como é que esses biltres conseguem
colocar a cabeça no travesseiro e dormir
tranquilamente tendo feito o que tão
frequentemente fazem para poder obter
um lugar privilegiado junto a vaca de
divinas tetas.

Penso, penso e aí eu me lembro que é


preciso ter uma consciência, não muito
deformada, para que o sono seja
perturbado.

[ 105 ]
Pois é. Por essas e por outras razões que
não há limites para a desfaçatez dessas
criaturas que de tempos em tempos
roubam a nossa atenção e abusam de
nossa confiança.

Infelizmente não há mesmo.

[ 106 ]
A QUADRATURA DO CÍRCULO
VICIOSO

Faz alguns dias que um casal, numa


conversa amistosa, manifestou sua
indignação frente aos rumos que a eleição
deste ano está tomando. Ouvi atentamente
as considerações feitas por ambos e, de
tudo que foi desabafado, gostaria de
destacar por meio dessas linhas tortas u m
dos desabafos.

O casal nos relatou que não foi uma, nem


duas vezes, que ouviram pessoas
reclamando que, até o momento, não
conseguiram “ganhar” muita coisa nessa
eleição e que os candidatos estavam, dum
modo geral, meio que relutantes em lhes
fazer um agrado.

Não esse agrado que você está pensando


seu caipora de mente suja, que só pensa
naquilo. É aquele agrado: um faz-me rir

[ 107 ]
pingando discretamente na mão
corruptora do cidadão eleitor.

Sim, por agora está assim, minguado, m as


em breve as águas irão rolar.
Discretamente, é claro, mas infelizmente
irão.

Detalhe importante: essas pessoas que se


queixavam não eram desvalidas da terra
que não tem nada nessa vida. Todas essas
figuras que saíram com essa prosa
medonha eram indivíduos relativamente
remediados.

Abre parêntese: o casal disse que eles


ouvem isso praticamente todo dia, mas
preferem ficar bem quietinhos, tendo em
vista que nada insulta mais um canalha do
que ser reconhecido pelo que é. E, como
eles não queriam, e não querem, arranjar
encrenca com esse tipo de gente,

[ 108 ]
preferiram nada lhes dizer. Fecha
parêntese.

É triste, diziam eles. É de ficar com a cara


quente, digo eu. E, bem provavelmente,
esses mesmos indivíduos serão aqueles
que irão proferir toda ordem de
impropérios contra aqueles que serão
eleitos, com votos comprados no varejo,
no atacado e a granel.

Literalmente será uma multidão de rotos


falando dos rasgados, uma vara de sujos
reparando as cracas dos que estarão mal
lavados.

[ 109 ]
REFLEXÕES NADA SOCRÁTICAS
EM GOTAS

É muito caipora com tesão totalitário, por


metro quadrado, querendo arrombar o
círculo democrático dos cidadãos
desavisados.

# # #

É mais fácil um camelo passar pelo buraco


de uma fechadura do que um político estar
à altura da dignidade e da
responsabilidade do seu cargo. O mesmo
vale para os cidadãos que os investem com
essa autoridade.

# # #

Quem conta verdades perde amigos,


conforme nos ensina Confúcio. Aquele que
procura a verdade vive só, segundo nos
ensina Sócrates. A pessoa que vive à luz da

[ 110 ]
verdade nunca se sentirá sozinho, m esmo
morrendo só, abandonado, conforme nos
ensina Jesus Cristo.

# # #

Não sei dizer se as chamadas escolas


cívico-militares irão entregar o resultado
que estão prometendo. Não sei mesmo.
Isso apenas o tempo dirá. Porém, duma
coisa eu sei: que a grande maioria das
pessoas que se colocam [histrionicamente]
contra elas, dum modo geral, são figuras
devotas de Paulo Freire e que defendem,
com unhas e dentes, o ensino da ideologia
de gênero para a criançada, entre outras
coisinhas similares. Aí, em conversa com
meus alfarrábios, perguntei: o que será
que pode ser mais prejudicial para a
formação de nossas crianças? Pois é. Foi o
que pensei.

# # #

[ 111 ]
Tentei assistir as lives - ao vivo e a cores -
dos candidatos, bem como suas
entrevistas e propagandas, mas confesso:
não foi possível. Não que eu tenha perdido
o horário das ditas cujas. Nada disso. No
universo digital isso não é um problema. O
problema, na real, é que os trens são ruins
demais. Minha Nossa Senhora! Muito
ruins. Abandonei e larguei tudo de vereda.
Meu negócio agora será apenas, e tão
somente, assistir aos melhores momentos
do Away de Petrópolis. Ao menos esse
arlequim fajuto é sincero no que diz e
autêntico no que faz.

[ 112 ]
UM PROBLEMA BEM ENRAIZADO

Todo sujeito que presume ser uma pessoa


esclarecida e, por isso, crítica, gosta de
encher a boca para dizer que tudo que há
em nossa sociedade são relações políticas
e, por isso, deveríamos, segundo elas,
politizar tudo.

Tudo bem. Não há dúvida alguma que as


decisões políticas tem um certo peso sobre
nossas vidas, mas nem tudo é fruto disso.
Com certeza a solução de alguns
problemas passam por uma discussão
desse gênero, porém, nem todas as
querelas que fazem parte de nossa vida são
resolvidas por esse caminho.

Na real, a maioria dos nossos problemas,


para ser solucionado, independe desse tipo
de discussão.

[ 113 ]
Na verdade, bem na verdade, se formos
matutar com a devida atenção,
perceberemos que as discussões e soluções
políticas, muitas vezes, geram mais
problemas que soluções. Se pensarmos um
cadinho constataremos que a politização
de tudo, ao invés de trazer alguma luz para
a vida das pessoas, acaba, muitas vezes,
mergulhando-as em trevas muito mais
densas.

E isso ocorre porque a esfera política de


uma sociedade não é a sua parte mais
elevada. Muito pelo contrário. É o seu
âmbito mais superficial. Basta que
vejamos o tom das discussões que são
encenadas numa arena eleitoral, e
averiguarmos quais são as pessoas que se
interessam de corpo e alma por essas lides
rasteiras, para entendermos
definitivamente que esse é o reino da
superficialidade, da futilidade travestida
com andrajos de autoridade.

[ 114 ]
Enfim e por fim, a vida política e seus
atores - protagonistas, coadjuvantes e
figurantes - não são, nem de longe, a
solução para as nossas encrencas. Eles são
parte dela e, em muitíssimos casos, a
causa principal dos males que assolam
nossa triste sociedade.

Com isso, não estou querendo dizer que


devemos nos desinteressar por essas
questões. Nada disso cara pálida. O que
digo, e repito, é que devemos dar a vida
política a importância que lhe é devida.
Somente isso. Sem exageros e, é claro, sem
desprezá-la.

[ 115 ]
[ 116 ]