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Diálogos v. 20 n.

2 (2016), 56-81

Diálogos
ISSN 2177-2940
(Online)

A2
ISSN 1415-9945
http://dx.doi.org/10.4025.dialogos.v20n2
(Impresso)

Leon Trotsky: historiador da Revolução Russa


http://dx.doi.org/10.4025.dialogos.v20n2.34567

Reginaldo Benedito Dias


Professor do Dep. de História da Universidade Estadual de Maringá..
E-mail: reginaldodias13@gmail.com
__________________________________________________________________________________________
Resumo
Este artigo tem o objetivo de analisar a interpretação que Leon Trotsky produziu
sobre a Revolução Russa. Abarcando desde o período pré-revolucionário até a
Palavras-chave: fase de liderança de Stalin, as fontes são as obras de Trotsky relacionadas ao
tema. Investiga-se a hipótese de que existe uma unidade fundamental na
Revolução Russa; Leon
Trotsky; União Soviética.
interpretação de Trotsky, assegurada por duas coordenadas. Primeira, o fio
condutor da interpretação é a teoria da revolução permanente. Segunda,
Outubro de 1917 é o centro de gravidade, na medida em que teria confirmado
os pressupostos da teoria da revolução permanente, anunciados em 1905 e
traídos pelos acontecimentos do período subsequente.

Abstract
Keywords: Leon Trotsky: the historian of the Russian Revolution
Russian Revolution; Leon Trotsky;
Soviet Union.. Current paper analyzes Leon Trotsky´s interpretation on the Russian
Revolution. Sources comprise Trotsky´s works related to the theme, ranging
between the pre-revolutionary period and Stalin´s leadership period. A
hypothesis may be forwarded whether there is a basic unity in Trotsky´s
interpretation foregrounded on two axes: (1) an underlying interpretation
consists of a theory on permanent revolution; (2) October 1917 is the center of
gravity in so far as it confirms the presuppositions of the theory of permanent
revolution announced in 1905 and disrupted by events in the following period.

Palabras Clave:
Revolución Rusa; León Trotsky; Resumen
Unión Sociética
León Trotsky: historiador de la Revolución Rusa
Este artículo tiene por objetivo analizar la interpretación de León Trotsky sobre
la Revolución Rusa. El texto, que abarca desde el período pre revolucionario
hasta la etapa del liderazgo de Stalin, utiliza como fuentes a las obras de Trotsky
vinculadas al tema. Se investiga la hipótesis de que existe una unidad
fundamental en la interpretación de Trotsky, sobre la base de dos coordenadas.
La primera se refiere al hilo conductor de la interpretación que es la teoría de la
revolución permanente. La segunda es que Octubre de 1917 es el centro de
gravedad en la medida en que habría confirmado los presupuestos de la teoría
de la revolución permanente, anunciados en 1905 y traicionados por los
acontecimientos del período subsiguiente.

Recebido em 11/05/2015, aprovado em 22/11/2015


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Preâmbulo historiador, a principal referência é o livro “A


história da Revolução Russa”. 1 Entre todos os
O presente artigo tem o objetivo de títulos selecionados, foi aquele em que o autor
investigar as interpretações que Leon Trotsky buscou, deliberadamente, empregar
produziu sobre a Revolução Soviética, procedimentos de historiador. De qualquer
considerada a diversidade de obras que escreveu forma, os demais revelam a composição e a
a respeito, observando sua condição de evolução de sua visão sobre o processo
protagonista, de teórico e de historiador do revolucionário russo, antes e depois de outubro
processo revolucionário. Pretende-se analisar os de 1917.
elementos constituintes dessa interpretação no
Perseguir tais objetivos e aferir a
contexto da disputa pela condução política da
pertinência das premissas exigiu não apenas a
revolução e pela construção de uma memória da
revisão dos materiais selecionados, escritos por
experiência revolucionária.
Leon Trotsky, como também o diálogo com a
As fontes são as obras de Leon Trotsky bibliografia disponível a respeito de suas
diretamente relacionadas ao tema. A análise leva incursões na escrita da história.
em consideração a natureza heterogênea dos
A formação do campo historiográfico
gêneros literários presentes nas obras
selecionadas, que abarcam livros de história, Podemos escrever a história da
autobiografia, ensaios de interpretação e textos Revolução Russa? Essa pergunta serve de título
de enfrentamento político direto. Procura-se a um ensaio que o historiador Eric Hobsbawm
demonstrar que existe uma unidade fundamental escreveu na década de 1990. A indagação
na condução da interpretação de Trotsky, apesar poderia até parecer insólita, tão ampla era a
da diversidade de gêneros e das diferentes bibliografia já existente sobre a revolução
conjunturas focalizadas. soviética, mas o autor explicou o sentido da
A unidade da análise é assegurada por provocação. Com efeito, salientou que, mesmo
duas coordenadas. A primeira é o fio condutor com o fim da União Soviética, quando os
da interpretação, baseado na teoria da revolução historiadores seriam obrigados a ver a revolução
permanente. A segunda é o estabelecimento de como os biógrafos de pessoas mortas, ainda
Outubro de 1917 como centro de gravidade, na demoraria muito tempo para que as paixões
medida em que teria confirmado os esfriassem. Diante de uma história tão repleta de
pressupostos da teoria da revolução permanente, disputas, adicionou: “as mais complexas (...)
anunciados em 1905 e traídos pelos questões residem fora do alcance habitual da
acontecimentos do período subsequente à prova e refutação, porque dizem respeito ao que
ascensão de Stalin ao poder. poderia ter acontecido. Os debates mais
acalorados sobre a história russa do século XX
Em detalhamento, cumpre esclarecer
não giram em torno do que aconteceu, mas do
que os materiais selecionados e analisados foram
que poderia ter acontecido” (HOBSBAWM,
os seguintes livros de Leon Trotsky: “A
1998, p. 257).
Revolução de 1905”, “Balanços e perspectivas”,
“A Revolução de Outubro”, “Lições de Se a questão apresentada por Hobsbawm
Outubro”, “Minha vida”, “A história da era pertinente no final do século XX, que dizer
Revolução Russa”, “A revolução desfigurada” e da década de 1930, quando Trotsky elaborou
“A revolução traída”. suas principais obras? Ele disputava, então, a
memória da revolução e projetos sobre seus
Quando se fala em Trotsky como

1 Esclareça-se que o livro “A história da Revolução Russa”, eventualmente, será referido como HRR.
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desdobramentos. De forma mais abrangente, atacavam os vermelhos, acusando-os de


seja do interior da revolução, por intermédio de destruidores das tradições russas. Miliukov
correntes adversárias do bolchevismo ou de atacava os socialistas moderados, como
dissidentes bolcheviques, seja no leito Kerenski, que teriam aberto caminho aos
internacional do marxismo, havia uma amplitude vermelhos. Kerenski criticava a direita moderada
de avaliações e definições sobre o regime que que não o teria apoiado, fortalecendo os
então se consolidava na URSS (SALVADORI, bolcheviques em seu caminho ao poder.
1986; FERNANDES, 2000). Tudo isso incidia
Por seu turno, os bolcheviques iniciaram,
no que poderia ser chamado, nas condições da
muito cedo, a disputa dessa memória
época, de produção historiográfica.
revolucionária. Enquanto comandava as
A farta produção de Trotsky demonstra negociações de paz com a Alemanha, Trotsky
que ele, com seus objetivos e métodos, produziu seu primeiro relato dos
respondeu afirmativamente: “Sim, podemos acontecimentos de 1917, com o objetivo de fazer
escrever uma história da Revolução Russa”. É propaganda revolucionária sob a ótica do partido
preciso entender, entretanto, não apenas as bolchevique. O Instituto Histórico do partido
circunstâncias políticas e pessoais que o não tardou a fomentar sua própria produção.
envolviam, mas até mesmo o estado da Em razão da magnitude dos eventos históricos e
produção historiográfica sobre uma revolução da necessidade de disputa simbólica, nascia a
tão recente. No início da década de 1930, escola soviética. No dizer de Segrillo,
quando Trotsky promoveu suas incursões mais consideradas as características citadas, emergia o
ambiciosas, estava em formação o campo que poderia ser chamado de produção de
historiográfico a respeito da Revolução de história imediata, de cujo leito constavam
Outubro. intervenções de intelectuais sofisticados, como
O pesquisador brasileiro Ângelo Segrillo, Miliukov e Trotsky, capazes de incorporar, cada
nos debates estimulados pela efeméride do qual em sua perspectiva, análises teóricas
nonagésimo aniversário da Revolução de aprofundadas.
Outubro de 1917, sistematizou um didático As muitas mudanças ocorridas na URSS
balanço sobre a evolução dessa historiografia, na década de 1920 e no início da seguinte
cujas balizas são úteis para o debate aqui ensejaram debates sobre os fatos históricos e seu
proposto. sentido. Merecem alusão os seguintes fatos:
O advento da revolução soviética adoção da Nova Política Econômica no início da
ensejou uma série de obras de caráter jornalístico década de 1920, a morte de Lênin, a luta política
e memorialístico. Destacam-se incursões de por sua sucessão, a coletivização a partir do final
emblemáticos personagens do conflito, como daquela década, a ascensão da liderança de Stalin
Alexander Kerenski, líder do último governo e a queda e exílio de Trotsky. Não bastasse outro
provisório, Pavel Miliukov, historiador de ofício motivo, havia o ineditismo da experiência da
e líder do partido constitucionalista democrático revolução socialista.
(conhecido na literatura como partido cadete), Embora ainda proliferasse bibliografia
general Wrangel e almirante Denikin, chefes produzida por jornalistas, viajantes e diplomatas,
militares das forças “brancas” durante a guerra de acordo com a clivagem de Segrillo, a década
civil ocorrida logo depois da Revolução de de 1930 legou trabalhos importantes para a
Outubro. constituição de um campo historiográfico sobre
Essa produção, inferiu Segrillo (2010), a Revolução Russa. Exemplo é o livro The
tinha forte marca partidária. Os brancos Russian Revolution, escrito por William Henry
Chamberlain, correspondente de jornalismo.
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Outro é o livro The end of the russian empire. The fall história da revolução que se formava o
of the russian monarchy, de autoria de Michael T. fenômeno conhecido como “marxismo
Florinsky, emigrado russo e professor da ocidental”, cujas características foram
Universidade da Colúmbia. Seja como for, o interpretadas por Perry Anderson. A partir da
pesquisador aponta os limites desse campo em década de 1920, havia ocorrido um
formação (SEGRILLO, 2010, p. 71): deslocamento no pensamento marxista, inferiu
Anderson. Diferentemente do marxismo
O fato das duas histórias mais famosas e clássico, produzido na luta de classes, o
profundas da revolução russa até os anos
1930 (provavelmente a História da
marxismo europeu assumiu progressivamente
Revolução Russa de Trotski e a obra de uma feição acadêmica (ANDERSON, 1989, p.
Chamberlain) não terem sido escritas por 75).
historiadores profissionais é sintomático das
dificuldades (desconfianças e cuidados) que
Trotsky, contudo, era remanescente de
estes têm com os acontecimentos muito uma geração de marxistas que se caracterizava
recentes. Isto abre espaço para as por produzir teoricamente no seio e no contexto
contribuições (de diversos graus de do movimento revolucionário. Teoria e prática
profundidade) de autores provindos de revolucionárias caminhavam juntas. Elaborado
outras áreas. fora da luta de classes, o marxismo ocidental era,
na visão de Anderson, produto de uma
Entre os estudiosos acadêmicos e
conjuntura de derrota da revolução. Em
comentaristas, aceita-se que as duas principais
contraste, pode-se dizer que a obra
incursões de Trotsky na literatura historiográfica
historiográfica de Trotsky, embora escrita em
da revolução soviética são a sua autobiografia e
conjuntura de derrota de sua perspectiva na
“A história da Revolução Russa”, escritas na ilha
disputa pela hegemonia do processo da
de Prinkipo. A primeira foi editada em 1929 e a
revolução soviética, caracterizava-se como um
segunda, em três volumes, entre 1931 e 1933.
instrumento de luta política. Tinha o objetivo de
Não havia, então, uma historiografia defender a Revolução de Outubro e a estratégia
acadêmica consolidada sobre a revolução política que orientara Trotsky em 1917 e que ele
soviética. Como tendência principal, naquele ainda sustentava para o porvir do processo
período, os historiadores profissionais revolucionário. Sua escrita sobre a história era
mantinham reservas para investigar uma história inseparável da perspectiva da práxis.
que se confundisse com seu próprio tempo. Da
O campo de disputa soviético
mesma forma, não havia um campo
historiográfico propriamente marxista, embora Leon Trotsky foi, ao mesmo tempo,
houvesse notáveis incursões anteriores. As protagonista, teórico e historiador da Revolução
primeiras foram de Marx e Engels, Russa. A rigor, o principal do que escreveu
exemplificadas por livros como “O 18 Brumário relacionava-se com o advento, com o curso e
de Luís Bonaparte” e “As guerras camponesas com os desdobramentos da revolução na Rússia
na Alemanha”. O professor Alvaro Bianchi e no mundo. Em certo sentido, conquanto
(2007) também elenca exemplos de outros outros personagens não tenham produzido uma
precursores: August Bebel (questão da mulher), obra tão diversificada e densa quanto Trotsky,
Karl Kautsky (origens do cristianismo) e Franz esse fenômeno complexo se verifica também no
Mehring (História da Alemanha). interior do partido bolchevique, marcado por
Não se tratava, evidentemente, de lutas intestinas pelo poder e pela orientação dos
produção acadêmica. Foi na época em que rumos da revolução. Como anotou Wolfe,
Trotsky produzia suas obras mais densas sobre a
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cada um dos líderes do Partido Comunista soviético, essa “ciência da história”, traduzida de
da União Soviética, a seu turno, e cada um forma infalível pelo partido e seus dirigentes, não
dos aspirantes a tal liderança tem sido,
permitia questionamentos nem visões
forçosamente, uma espécie de historiador.
Foi Lenine quem deu o exemplo de atrelar alternativas. No curso dessa luta política, a visão
Clio ao carro toda vez que modificava sua alternativa mais proeminente foi, sem dúvida, a
tática, entrava em luta com seu próprio formulada por Leon Trotsky, matizada por sua
movimento ou com o movimento peculiar relação com o bolchevismo e com o
revolucionário russo em geral (WOLFE, processo revolucionário.
1965, p. 42).
As obras que Trotsky produziu, de
Enquanto Lenin esteve à frente do caráter historiográfico ou ensaístico, são
Estado soviético, as disputas sobre a história da instrumentos de luta política. Disputar a escrita
revolução dirigiam-se ao papel dos demais da história da revolução era um poderoso
partidos, derrotados em outubro de 1917 e no instrumento de ação política, dada a própria
curso dos acontecimentos subsequentes. forma – da qual Trotsky era tributário - de os
Entretanto, antes mesmo da morte de Lênin, no bolcheviques entenderem a relação entre a
período de sua convalescença, a situação se agência humana e as forças objetivas da história.
alterou: Se sua ação política era uma práxis baseada em
O ano de 1923 constituiu um marco divisor uma leitura científica da realidade, a escrita da
na historiografia do Partido, pois nesse ano história deveria registrar tal práxis e
Zinoviev fez seis palestras sobre “A história instrumentalizar a luta política.
do Partido Comunista da Rússia
(Bolchevistas)” e Trotsky começou a Como observou Strada, o
alimentar um fogo lento com suas Lições de autobiografismo e a historiografia adquiriram a
Outubro de 1917. Ambos utilizaram-se da condição de necessidade política na obra de
história, não como uma luta contra os outros Trotsky, por causa de sua tortuosa relação com
partidos, mas como uma arma de luta pela o bolchevismo. Em 1902, no II Congresso do
sucessão no próprio Partido Comunista. De
1923 até o fim da década de 1930, quando Partido Operário Socialdemocrata Russo,
Stalin deu ordem para preparar e ditar o Georgi Plekhanov o identificava como
Pequeno Curso, a guerra intrapartido era a “discípulo de Lênin”. Em 1903, quando houve a
principal ocupação da história do partido cisão que levou à criação das frações
(WOLFE, 1965, p. 45). menchevique e bolchevique, motivada por
Sob a luz da hegemonia que comandava divergências a respeito da concepção de partido,
o Estado, toda a história revolucionária foi Trotsky posicionou-se com os primeiros.
escrita e reescrita, com redefinição dos papéis Mesmo tendo se afastado dos mencheviques,
desempenhados nas conjunturas pretéritas e dos com os quais manteve divergências frontais
méritos das alternativas de desdobramentos do quanto à concepção da estratégia da revolução
processo revolucionário. Marc Ferro observou em duas etapas, somente aderiu ao bolchevismo
como esse estratagema político era encoberto em 1917. No intervalo, acumulou ásperos
pela pretensão à cientificidade do discurso da debates com Lênin.
história: “Assim como uma história das
descobertas técnicas não indicaria os inventores Com a doença de Lênin e sua morte,
que fracassaram, uma análise da construção do Trotsky precisava ajustar sua biografia à história
socialismo não poderia mencionar os do partido na disputa efetivada com os velhos
participantes que a história não aprovou” bolcheviques, que não poupavam a exploração
(FERRO, 1989, p. 20). de dissensões anteriores. Por uma operação
engenhosa, os dirigentes bolcheviques criaram,
Codificada pela lógica do Estado nessa conjuntura, o conceito de leninismo,
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divulgado como o marxismo da atualidade. 2 A adaptados à nova hegemonia, dirigentes


participação de Trotsky nos acontecimentos importantes do início da revolução,
decisivos da Revolução de Outubro começava a principalmente Trotsky, desaparecem da cena.
ser redimensionada ou obscurecida e o Na verdade, tinham sido removidos. Uma
trotskismo, desde meados da década de 1920, sintaxe mais rigorosa exigiria que o título fosse
começou a ser divulgado como o oposto do adaptado para “Removeram o comissário”.
leninismo. Pode-se acrescentar que, além da
Desenvolvendo-se ao longo das décadas legitimação e deslegitimação dos personagens,
de 1920 e 1930, essa luta instrumentaliza a visão estava em pauta, também, a perspectiva de
do papel de Trotsky na história da revolução. O construção socialista representada pelas
ápice é atingido na edição do manual intitulado alternativas de liderança. Stalin representou, a
“Pequeno curso da história do Partido partir de meados da década de 1920, a tese da
Comunista”, que celebra o triunfo de Stalin. construção do socialismo em um só país e
Cristaliza-se, então, a imagem que Trotsky Trotsky perseguiu a tese da revolução
deveria assumir na memória dos soviéticos. internacional, de cuja deflagração dependeria a
sorte da URSS.
Nos acontecimentos fundadores da
revolução, onde a memória registrava o Por tudo isso, como afirmou Strada,
protagonismo de Lênin e Trotsky, a revisão
introduzia Lênin e Stalin. Com a morte de Lênin, para Trotsky, tornavam-se de extrema
teria cabido a Stalin defender a correta linha do importância a construção de uma
autobiografia perfeita e uma interpretação da
partido contra as supostas sabotagens (também “sua”) Revolução de Outubro
trotskistas. Com suas teses e suas ações, “o como autenticamente socialista, contra a
camarada Stalin soube demonstrar que o “revolução traída” de Stalin, bem como uma
esmagamento ideológico do trotskismo era teoria do bolchevismo bom, ao qual ele tinha
condição imprescindível para assegurar o aderido, contra o bolchevismo mau,
prosseguimento da marcha vitoriosa para o posterior ao seu afastamento (STRADA,
1985, p. 146-147).
socialismo” (PARTIDO COMUNISTA DA
Alguns intérpretes da interpretação de
URSS, 1999, p. 275). Enquanto Stalin era
Trotsky
retratado como o Lênin dos novos tempos,
Trotsky seria o antípoda do fundador e líder No levantamento bibliográfico realizado,
máximo do bolchevismo. Nessa historiografia que contou com os recursos eletrônicos
oficial, a única permitida na URSS, a figura de disponíveis, não foram identificados trabalhos
Trotsky assumia contornos de caricatura: seria exaustivos que abordassem a obra de Trotsky
carreirista, aventureiro, arrogante, vaidoso, como historiador. Em contrapartida, foram
despótico, fútil etc. mapeados breves ensaios a respeito dessa
A história oficial implicava reengenharia dimensão de sua atividade e, invariavelmente,
de símbolos, com repercussão não apenas nos capítulos ou subcapítulos no interior de
livros, mas também em toda a iconografia, como biografias ou de obras que se debruçam sobre
se vê no livro “The comissar vanishes”, de David seu pensamento. Particularmente para os
King (1997). O título do livro é revelador, tendo biógrafos, suas incursões como historiador são
em vista que, nos acervos fotográficos, incontornáveis. Não apenas eram uma dimensão

2 Tal princípio foi consagrado, em escala mais ampla, no V Congresso da Internacional Comunista (1924). O corolário foi a
rejeição de “desvios” como o trotskismo. Em um documento do referido congresso, lê-se: “qualquer desvio do leninismo
equivale a um desvio do marxismo. (..) Um desvio particularmente perigoso do leninismo é o trotskismo (...).” (HÁJEK,
1985, p. 212).
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densa de sua biografia como também de sua luta isento da influência de concepções de mundo
política. De forma mais ampla, o mesmo pode contrastantes.
ser dito de sua condição de escritor, revelada
De acordo com os objetivos que movem
muito cedo, antes mesmo da aceleração do
o presente artigo, interessa analisar de que
processo revolucionário na Rússia czarista.
maneira os autores investigados abordaram a
Em sua autobiografia, Trotsky (1978) questão da teleologia histórica na obra de
salienta sua identidade com a arte da escrita e sua Trotsky. Ainda que a maioria deles se ativesse ao
relação com a atividade política. Desde 1897, ele livro “A história da Revolução Russa”, esse foi
diz, vinha travando a luta política com uma um viés bastante recorrente. De forma
caneta na mão. Quando escrevia para o jornal complementar, também se mostrou recorrente a
Iskra (centelha), adotou o codinome de “pena”. questão da objetividade na produção do
Quando eclodiu a revolução em 1917, já gozava conhecimento histórico. Bem vistas as coisas, as
de grande prestígio como jornalista, publicista e duas questões se entrelaçam, uma vez que a
mesmo cronista da revolução, dada a história era escrita por um protagonista da
repercussão de seu relato sobre a Revolução de revolução, interessado não apenas em defender
1905. a concepção que sustentava quando participou
Contemporâneos de Trotsky o dos fatos, mas também o sentido histórico do
reconheciam como um dos melhores oradores processo. O próprio estilo literário, não obstante
de sua geração, considerado todo o leito do o reconhecimento de suas eventuais qualidades
movimento revolucionário russo e o estéticas, é colocado em pauta, pois estaria a
internacional. Anatoly Lunacharsky, nos perfis serviço da construção do sentido buscado pelo
que desenhou na publicação “Silhuetas narrador.
revolucionárias”, divulgada no início da década Em ensaio publicado em 1961, o
de 1920, anos antes de Trotsky atingir o auge de sovietólogo Bertram D. Wolfe, um comunista
sua produção como escritor e historiador, que mudou de orientação ideológica na época da
aproximou, de forma superlativa, as duas faces guerra fria, considera Trotsky um escritor e um
de sua capacidade de expressão, a falada e a history maker por vocação. Salienta que uma
escrita. Para Lunacharsky, haveria uma espécie primeira coisa a perceber sobre Trotsky como
de relação simbiótica entre o tribuno e o escritor. historiador é que se trata de um polemista
Seus artigos e livros podiam ser comparados a persuasivo, um grande orador e um mestre do
discursos congelados em outra linguagem. estilo literário. Não se mostra, entretanto,
Trotsky era um literato como orador e um admirador dos resultados do trabalho do
orador como literato (LUNACHARSKY, s/d). estilista, que seria repleto de “decorativismo,
Essa fórmula, de certa maneira, seria metáforas e pirotecnia verbal”. Considera que a
incorporada por vários intérpretes, fossem eles escrita hábil e eloquente de Trotsky estava a
simpatizantes do personagem e de suas ideias ou serviço da glorificação da tomada do poder pelos
se situassem em campo oposto. bolcheviques e da defesa de seu papel nesse
O reconhecimento da habilidade do processo (WOLFE, 1961).
escritor pode ser encontrado em intérpretes e Wolfe sistematizou um balanço do que,
biógrafos de matizes diversos. Entretanto, se em sua avaliação, os historiadores poderiam
existe algum consenso a respeito da qualidade encontrar no livro “A história da Revolução
literária dos principais trabalhos de Trotsky, as Russa”. Primeiro, uma declaração poderosa e
conclusões sobre seus resultados não raro eloquente das doutrinas e dogmas que guiaram
costumam ser pontuadas por divergências, até Lenin e Trotsky em 1917. Segundo, brilhantes
porque não se trata de um universo intelectual figuras de linguagem e cenas da revolução e de
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massas em ação. Terceiro, tão notáveis quanto posição de Trotsky.


injustos, unilaterais e caricaturais perfis dos A periodização teria sido
principais atores. Quarto, uma narrativa, sem propositalmente truncada para favorecer uma
paralelo na literatura, das estratégias, táticas e determinada interpretação. Concentrando-se
movimentos militares que prepararam a basicamente em 1917, Trotsky foi capaz de
enganosa conspiração de outubro, realizada a apresentar a ruptura de outubro como uma
pretexto de apenas defender a revolução. autêntica insurreição popular. Histórias que
Quinto, desnuda, direta ou indiretamente, a alma olham para além desse ano, mesmo aceitando a
de um dos atores principais da Revolução de tese de que os bolcheviques tiveram apoio
Outubro, no momento da consumação de seu popular em 1917, contam como eles traíram
ato mais importante. Por fim, assevera que se essas aspirações populares. Lembra que alguns
tratava de uma obra que nenhum historiador críticos haviam denunciado a HRR como
poderia negligenciar. Deixa, contudo, uma justificação de um golpe profundamente
advertência: a caneta de Trotsky é tão antidemocrático ou como arte dramática, como
convincente quanto unilateral (WOLFE, 1961). teatro, em que os dispositivos literários dariam
Em período recente, os historiadores pouca chance ao leitor senão concordar com um
liberais Ian Thatcher (2003) e Robert Service texto teleológico. Sua obra era componente
(2009), críticos não apenas da obra de Trotsky chave de uma campanha política mais ampla
como também da Revolução de Outubro, em para apoiar uma visão particular do
polêmicas biografias que editaram, 3 também bolchevismo. Era um manual de como fazer a
abordaram suas incursões na escrita da história. revolução.
Embora cada qual introduza aspectos novos, até
O historiador britânico Robert Service
porque escreveram em conjuntura posterior ao
(2009), ao comentar a atividade de Trotsky como
fim da URSS, pode-se dizer que, de certa forma,
historiador, detém-se, sobretudo, nas duas obras
reforçam e atualizam pontos de vista formulados
principais: a autobiografia e “A história da
por B. D. Wolfe (1961).
Revolução Russa”. Ambas, salienta, foram
Thatcher (2003) reconhece que Trotsky escritas como se um único resultado fosse
se mostrava vocacionado a escrever uma história possível em 1917. Mais: desautorizaria cada
da revolução, pois acumulara um acervo grande argumento de que a democracia, a sociedade civil
de textos para elaborá-la, desde seus escritos ou a tolerância ideológica tivessem algo de
sobre 1905 até numerosas tentativas de positivo para oferecer ao povo russo. Por outro
descrever o que ocorreu em outubro de 1917 lado, Trotsky entoaria mantras obsoletos sobre
durante os anos de luta pelo poder, e reaproveita Lênin e seu partido como verdades
muito desse material em sua HRR. Também incontestáveis. Vale dizer, não sobre todo o
reconhece que a obra constituiu uma espécie de partido. Graças aos recortes seletivos utilizados,
agenda sobre 1917 e que não poderia ser segundo a leitura de Service, somente Leon
ignorada por quem se dispusesse a estudar a Trotsky e Lenin emergem como heróis. Ele
Revolução Russa. Avalia, contudo, que HRR era pretendia que a teoria da revolução permanente
um trabalho profundamente idiossincrático. tivesse sido confirmada inteiramente em 1917.
Argumenta que o quadro conceitual, baseado na Uma das mais densas e instigantes
lei do desenvolvimento desigual e combinado, interpretações da obra de Trotsky como
destinava-se a legitimar a própria estratégica de historiador foi elaborada pelo pesquisador

3 A obra dos dois foi classificada, por autores ligados ao campo de análise fundado por Trotsky, como escola pós-soviética de
falsificação histórica (NORTH, 2010).
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acadêmico israelense Baruch Knei-Paz. Em seu processo histórico. Trotsky não só revela essas
caudaloso livro The social and political thought of leis; afirma-as.
Leon Trotsky, escrito no centenário de Knei-Paz propõe que, qualquer que seja
nascimento do fundador do Exército Vermelho, a reserva a respeito das pressuposições teóricas
dedica uma seção para analisar essa dimensão de não verificadas, é preciso reconhecer que a HRR
sua biografia. Esse autor também é responsável é um trabalho de grande força e originalidade.
por um capítulo do volume V da coleção Para que suas dimensões possam emergir
“História do Marxismo”, organizada por Eric completamente, o livro deve ser visto à luz de
Hobsbawm, a respeito de Trotsky. Embora todas as suas características. E aqui Knei-Paz
provocativa, sua contribuição é respeitada por chega à sua inferência mais importante: a
comentadores de diferentes matizes, inclusive característica de a HRR não é a de uma história
por intelectuais trotskistas. 4 marxista como tal. Pertence a outro gênero: é um
Já no início, Baruch Knei-Paz (2001) trabalho de arte dramática. Trata-se, acima de
aborda a questão da objetividade do historiador, tudo, de uma obra literária. Suas qualidades
visto que esse era um tema persistentemente como pura história são, na melhor das hipóteses,
destacado, desde o primeiro momento, em de menor importância e suas falhas nesse campo
relação à obra de Trotsky. Para Baruch Knei- são muito mais notáveis. Como sua força é
Paz, o fato de Trotsky não esconder suas imaginativa, deve ser apreciada como ficção.
preferências não detrata sua obra. O problema Não considera, contudo, essa classificação
deveria ser analisado por outro ângulo: a menor. Como obra de arte dramática, a HRR é
abordagem marxista radical, absoluta e um exemplo excelente desse gênero de escrita
inquestionável teria prejudicado a objetividade histórica. Desse ângulo, entende que não se pode
do historiador. negar que a obra captura algo da verdade
Não que ele não considerasse legítimo essencial do ano de 1917.
escrever uma história em termos de Em ensaio divulgado em 1985, já
interpretação marxista. O problema com a contando com certo lastro bibliográfico a
história de Trotsky, diz Knei-Paz, é que ele não respeito, o sociólogo australiano Peter Beilharz
procura demonstrar a validade das “leis” interveio no debate acerca da obra de Trotsky
marxistas, axiomas ou conceitos. Assume, de como historiador.
forma antecipada e total, que são válidos. Em sua avaliação, o livro “A história da
Reconhece que há um método nessa abordagem, Revolução Russa”, um escrito da maturidade, é
mas dificilmente ele segue as regras e critérios da
uma obra notável sob qualquer ponto de vista.
objetividade científica. O veredito estaria Sua narrativa é excelente. Suas imagens são
claramente pré-determinado desde o início e evocativas ao extremo, fascinando o leitor com
reivindicado para ser inquestionável. Assim,
os recursos literários. Com o poder de traduzir a
HRR é um estudo teleológico. Sua inferência
intensidade dos eventos, transmite o espírito de
estaria em acordo com o que Trotsky escrevera
1917. Trotsky era dono de uma técnica magistral.
no prefácio, onde objetividade é identificada
Uma leitura mais profunda revelaria, entretanto,
com inevitabilidade. Visto que a finalidade da
que a narrativa erige, com antecedência, uma
história é imanente aos próprios eventos, caberia
estrutura textual dentro da qual o leitor não pode
ao historiador apenas revelar as leis naturais do

4 É o caso de David North (2010). Ressalve-se que Ernest Mandel (2003), em obra dedicada a analisar o pensamento de
Trotsky, faz críticas ao trabalho de Knei-paz. Não se refere especificamente à seção em que o pesquisador israelense focaliza
a escrita da história, mas à sua abordagem geral do pensamento de Trotsky.
65 RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81

deixar de concordar com o autor. O discurso biográfica que escreveu sobre Leon Trotsky. Sua
exemplificado na HRR é uma linguagem de contribuição ao debate está concentrada no
sedução. capítulo “O revolucionário como historiador”,
Acusa Trotsky de abusar de analogias inserido no tomo intitulado “O profeta banido”
físicas, traduzidas em imagens surradas: erupção, (DEUTSCHER, 2006).
nascimento da nova sociedade, ponto de Em Trotsky, assegura Deustcher, havia
ebulição etc. Por trás das simples imagens tanto a insistência revolucionária de fazer a
literárias, contudo, há a compreensão filosófica. história quanto o impulso de descrevê-la e
O contexto para o uso das metáforas, no dizer entender-lhe o sentido. Ressalta que Trotsky
de Beilharz (1985), é a “metafísica chamada tivera que lutar pela vida, física e moralmente.
dialética”, a qual confundiria vida social e ciência Antes de seu assassinato físico, seus inimigos
natural, ambas regidas por leis e passíveis de haviam tentado assassiná-lo moralmente,
previsibilidade. Assim, com sua linguagem apagando seu nome dos anais da revolução e,
metafórica, Trotsky estabelece uma teleologia depois, colocando-o como epônimo da
pré-determinada, a qual assegura a derrota dos contrarrevolução. Por isso, travou uma dupla
vários inimigos e a inevitável vitória dos batalha: “defendeu a revolução contra seus
bolcheviques. Dessas metáforas, o leitor recebe inimigos e defendeu seu próprio lugar nela”
um símbolo teleológico. (DEUTSCHER, 2006, p. 255-256). Isso, não
A utilização dessas metáforas naturais e obstante, não teria turvado a clareza e a
de fundo biológico, como as imagens de morte e serenidade de seu pensamento. Trotsky,
nascimento, seria particularmente significativa desprezando a imparcialidade do erudito, teria
por permitir a combinação da teleologia da combinado participação extremada com
necessidade histórica com a intervenção de objetividade rigorosa, conseguindo a unidade
especialistas. Os bolcheviques, Lênin e Trotsky dos elementos subjetivos e objetivos.
na liderança, são os cirurgiões da revolução. Para A abordagem que Deutscher oferece de
Trotsky, o processo da revolução estaria escrito “A história da Revolução Russa” coloca-se no
na ordem das coisas e só aqueles que sabem cada campo de aceitação dos pressupostos teóricos e
passo poderiam tomar o controle dos eventos. metodológicos do autor. Pode-se dizer, como
Outra imagem provocativa, de acordo regra, que ele os explica em vez de confrontá-los.
com Beilharz, é a da história como teatro. Várias No primeiro capítulo de HRR, dotado de
cenas retratam esse recurso (palco, orquestra, profunda perspectiva histórica, Deutscher
teatro etc.), mas ele fica mais evidente nos papéis reconhece, com razão, uma versão, enriquecida
que a história escreve e os atores, com funções e amadurecida, de sua primeira exposição sobre
especificamente estabelecidas, interpretam. A a revolução permanente, datada de 1906. A lei
despeito da pretensão do objetivismo científico, do desenvolvimento combinado explicaria a
a apresentação de Trotsky do marxismo seria força das tensões existentes na estrutura social
mítica. Sua historiografia funcionaria como o da Rússia. Dedica-se, em seguida, a interpretar a
que Barthes chama de mitologia. O veredito de relação que Trotsky estabeleceu entre as
Beilharz, por fim, é duro: HRR não justifica a estruturas sociais, a ação das massas e dos
aclamação como trabalho de história. Pelo chamados protagonistas, investigando, ainda, a
contrário, leitores críticos devem se recusar a ser forma como o autor articulou a apreensão do
parte de sua audiência cativa. real dentro de sua narrativa. Ressalta que Trotsky
Ponto de vista diametralmente oposto trata a estrutura social como um elemento
foi sistematizado por Isaac Deutscher, na trilogia relativamente constante, que não explica, em si
mesmo, os acontecimentos da revolução. O
RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81 66

comportamento das massas era o elemento interpretação e que a prosa tinha um ritmo épico
variável que havia determinado o fluxo e o (DEUTSCHER, 2005, p. 291).
refluxo dos acontecimentos, seu ritmo e direção.
Grande intelectual das fileiras trotskistas,
Didaticamente, explica que a revolução estava
o historiador Pierre Broué, na biografia que
madura na estrutura social bem antes de 1917,
dedicou a Trotsky, aborda sua atividade de
mas só amadureceu na mente das massas
historiador em capítulo intitulado “Le travail
naquele ano. Assim, para Deustcher, a HRR é,
literaire”. Não se trata de uma análise exaustiva
em grande parte, um estudo da psicologia da
ou de uma contribuição original. Broué dialoga
massa revolucionária.
com alguns dos críticos, como Baruch Knei-Paz
O método do historiador deveria ser o de e Peter Beilharz, interessado em ratificar a
verificar a verdade de sua imagem da consciência pertinência das opções e conclusões de Trotsky
das massas por meio de testes objetivos, (BROUÉ, 1988).
seguindo fielmente as evidências internas dos
Broué detém-se nas críticas
acontecimentos e considerando se o fluxo da
sistematizadas pelo pesquisador Knei-Paz,
consciência das massas era coerente com a
especialmente na passagem em que Trotsky é
dinâmica dos fatos. Trotsky, na conclusão de
acusado de não procurar estabelecer a validade
Deustcher, enfrentava essas questões com o
das leis, axiomas e conceitos e de simplesmente
modo marxista, a ação prática como critério
admitir antecipadamente sua validade. Tudo
final. Ainda sobre a relação entre as
isso, para Knei-Paz, tornaria HRR um estudo
determinações estruturais e a ação humana, tal
teleológico. De acordo com Broué, a acusação é
como está exposta em HRR, Deustcher observa
bem injusta. Para Trotsky, a revolução era
que os homens fazem sua própria história de
inevitável, mas sua vitória não estava escrita no
acordo com as leis da história e também pelos
“livro do destino”. Além de tentar demonstrar, a
atos de sua consciência e vontade.
partir da análise realizada por Trotsky, que o
A relação entre as massas e a vanguarda ponto de vista de Knei-Paz estava errado, afirma
política seria a outra dimensão. Citando e que seu objetivo não era profetizar a revolução,
interpretando uma passagem do prefácio que o mas assegurar sua vitória.
próprio autor escreveu para o primeiro tomo de
Reconhece que Leon Trotsky faz
a HRR, Deutscher enfatiza que Trotsky via as
numerosas alusões às leis da história, que ele
massas como a força propulsora da comoção,
qualifica às vezes de naturais e às vezes de
mas que precisava ser concentrada e dirigida pelo
racionais. Leis que, para ele, regem ou
partido de vanguarda. Essa era a chave
conformam o processo histórico se
explicativa para o entendimento da sorte das
desenvolvendo de maneira geral. Entretanto, o
duas revoluções russas de 1917, a de fevereiro e
exame da maneira como ele as enuncia em a
a de outubro. A primeira havia demonstrado
HRR torna possível apreender se ele as toma
suficiente força para derrubar o czar e criar os
apenas como postulados, como defende Knei-
sovietes, mas se dissipou sem resolver as grandes
Paz, ou como conclusões que nunca se esquece
questões. Já a segunda foi obra dos
de comprovar, como pensava ele, Broué. Para
bolcheviques, que centralizaram e dirigiram a
tanto, analisa passagens da lei do
energia das massas (DEUTSCHER, 2005,
desenvolvimento desigual e combinado. Conclui
p.272).
que, a menos que se exigisse do autor um manual
Acerca do estilo, ressalta que Trotsky, metodológico, parecia difícil sustentar - diante
tanto na autobiografia quanto em a HRR, teria do texto, de suas comprovações e exemplos
disciplinado rigidamente o elemento retórico tomados da história russa - que se tratava da
pelas necessidades da narrativa e da afirmação de postulados. Para alongar seus
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argumentos, focaliza a forma como Trotsky consciência não se produz de forma autônoma:
aborda a dualidade de poderes, quando é determinada pelas condições gerais da
estabelece paralelos entre diferentes processos existência. Para Bianchi, a concepção
revolucionários. Trotsky investiga os fatos por antideterminista e antidogmática e a rejeição do
meio de exemplos e anuncia as “leis” que ele automatismo economicista de Trotsky 5 mostram
deduz. Portanto, considera absurdo o veredito todo vigor em “A história da Revolução Russa”.
de Baruch Knei-Paz a respeito da natureza da Trotsky: o historiador e os sentidos da
obra de Trotsky, segundo o qual se trataria de história
arte dramática (BROUÉ, 1988).
Em 2007, na época da nova edição O talento de Trotsky na escrita da
brasileira do livro “A história da Revolução história ganhou sua primeira tradução expressiva
Russa”, o professor Alvaro Bianchi, um dos mais nas obras que produziu sobre a Revolução de
importantes pesquisadores do trotskismo no 1905, da qual também foi protagonista. Vice-
Brasil, editou breve, mas densa resenha da citada presidente e presidente do soviete de São
obra. Forneceu, a partir de seu campo de visão, Petersburgo, tornou-se personagem
importante interpretação da atividade de Trotsky emblemático do processo, adquirindo projeção e
como historiador. prestígio internacionais. Sua celebridade como
agente revolucionário foi ampliada pelas
Bianchi estima que a obra é exemplar
reflexões e registros que produziu sobre os
da mais valiosa contribuição de Trotsky à teoria
acontecimentos, perpetuados nos livros “A
marxista, interessado em esclarecer as leis do
Revolução de 1905” e “Balanços e perspectivas”.
próprio desenvolvimento histórico. Cita a
O primeiro é uma narrativa densa dos
famosa definição de Trotsky: “a história da
acontecimentos revolucionários, pontuada por
revolução é para nós, principalmente, a irrupção
interessantes incursões interpretativas, enquanto
violenta das massas nos domínios onde se
o segundo é um ensaio sobre o significado do
pautam seus próprios destinos”. Ressalta que a
processo e seu devir.
arquitetura da obra o afasta do determinismo
econômico. O leitor depara com o tempo Como o centro de gravidade do presente
multifacetado, com as várias dimensões da estudo é a Revolução de Outubro de 1917, não
sociedade russa. Ao ordenar os capítulos, parte é o caso de fazer análise esmiuçada de cada uma
dos níveis mais abstratos aos mais concretos. dessas obras, mas de investigar de que modo
Nos primeiros, destaca a relação das forças Trotsky extraiu, de acontecimentos recentes, a
objetivas, a estrutura, a materialidade das classes teoria que moveria sua práxis a partir de então e
sociais; nos demais, aborda as relações das forças influenciaria seu próprio olhar de historiador
políticas, o encontro das estruturas com os sobre a revolução que viria.
atores políticos e os indivíduos. No livro “A Revolução de 1905”,
Não há análise das conjunturas Trotsky, além da narrativa dos acontecimentos,
econômicas. Evita deduzir os acontecimentos dedica-se a fazer uma análise estrutural da Rússia
políticos das crises econômicas, método tão para identificar as contradições de seu
característico do marxismo vulgar. Valoriza o desenvolvimento e as tendências do processo
lugar da vontade humana, das classes sociais e revolucionário. Procura, também, cotejar os
das forças partidárias. Descarta o automatismo e acontecimentos com as tendências de
enfatiza a centralidade da política. Infere que a desenvolvimento internacional do capitalismo e

5 Conforme Perry Anderson, ao contrário da maioria dos teóricos de sua geração, Trotsky não chegou a produzir qualquer
trabalho importante na área econômica (1989, p. 139)
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com o aprendizado das revoluções europeias capitalista retardatário, como era o caso da
anteriores, especialmente com a de 1848. Suas Rússia, por causa do desenvolvimento desigual e
ideias principais estão sintetizadas no curto combinado, interagiam estruturas e forças
subcapítulo “A natureza da Revolução Russa”. A resultantes de duas eras históricas diferentes,
grande guinada na elaboração estratégica pode mas ligadas no tempo: a da revolução agrário-
ser vista na seguinte passagem: burguesa e a da revolução industrial socialista.
Nesses países, o próprio sucesso da revolução
No que diz respeito às suas tarefas diretas e democrático-burguesa está condicionado à sua
indiretas, a revolução russa é uma revolução
“burguesa” porque se propõe libertar a
imediata transformação em revolução socialista,
sociedade burguesa das correntes e grilhões tornando-se revolução permanente. O caráter
do absolutismo e da propriedade feudal. Mas permanente da revolução ligava-se, ainda, à
a principal força condutora da revolução impossibilidade de ser realizada nos marcos
russa é a classe operária e por isso é uma nacionais. Impossibilidade vista em sentido
revolução proletária no que diz respeito ao absoluto, era mais dramática ainda na Rússia, em
seu método (TROTSKY, s/d, p.66).
razão de seu atraso.
No livro “Balanços e perspectivas”, Pelo distanciamento histórico e
escrito na mesma época, alarga sua compreensão conhecimento dos desdobramentos do processo
do processo da revolução. Dialogando com as revolucionário na Rússia e da trajetória de seu
emblemáticas revoluções europeias do período autor, não é possível analisar esses textos em si
anterior, considera um grave erro equiparar a mesmos, desvinculados de suas articulações com
Revolução Russa com os acontecimentos de os fatos posteriores e com os escritos que
1789-93 e 1848. Para Trotsky, desde meados do Trotsky viria produzir em conjunturas futuras.
século XIX, só a tática independente do
De forma estritamente especulativa,
proletariado e sua capacidade de destacar-se das
poder-se-ia imaginar qual seria o destino dessas
demais forças para lutar por sua situação de
intervenções sem a ocorrência da Revolução de
classe podem garantir a vitória da revolução.
Outubro de 1917. O primeiro livro poderia ser
A grande novidade anunciada por visto como uma crônica dos acontecimentos de
Trotsky, escrita de forma explícita e sem 1905, algo comparável aos relatos sobre a
metáforas, verdadeira guinada de 180 graus em Comuna de Paris, e o segundo tenderia a ser
relação à orientação da social-democracia russa, considerado um voo especulativo sem maiores
é a conclusão de que “o proletariado de um país consequências. Tal abstração, no entanto, seria
economicamente atrasado pode chegar ao poder excessivamente ociosa. A relação desses textos
antes do proletariado de um país avançado do com a obra posterior de Trotsky e com sua luta
ponto de vista capitalista” (TROTSKY, 2010, p. política em outubro de 1917 e nas conjunturas
72). A ideia de que a ditadura do proletariado futuras é algo saliente demais para ser ignorado
depende automaticamente do nível de ou menosprezado.
desenvolvimento das forças produtivas seria um
Os dois livros sobre 1905 tinham uma
extremado economicismo que nada teria em
dimensão teleológica prospectiva, na medida em
comum com o marxismo.
que, com base em uma análise de um fato
Não desconhece as limitações do pretérito, realizada no calor da hora,
patamar de desenvolvimento das forças identificavam características, extraíam
produtivas, mas elabora sua teoria na percepção conclusões e projetavam tendências. Isso está
da necessária articulação da revolução nacional mais claro em “Balanços e perspectivas”, escrito
com o plano internacional. Em resumo, segundo exatamente com a finalidade descrita em seu
Trotsky, em países de desenvolvimento título. Embora inseparável do primeiro termo do
69 RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81

binômio, o acento teleológico fica no segundo. Como Trotsky (1978) esclarece em sua
Diferente é a situação da bibliografia produzida autobiografia, foi um trabalho de memória sobre
por Trotsky depois da Revolução de Outubro de um fato recente, produzido em condições
1917, que procura construir um fio de extraordinárias. Por isso, ele nem mesmo redigiu
continuidade com as projeções feitas desde no sentido literal da palavra; ditou-o. O texto
aquele período. Nesse caso, identifica-se uma não tem a densidade teórica do ensaio “Balanços
espécie de teleologia retrospectiva, destinada a e perspectivas” nem a riqueza de recursos
ligar os fatos recentes a perspectivas apontadas literários e interpretativos que viriam a ser
no passado. apresentados em a HRR. Devem ser
considerados os seus objetivos e as condições de
Após a Revolução de Fevereiro de 1917,
produção. Não significa, porém, que fosse uma
Trotsky se aproximou e se integrou ao
crônica convencional dos acontecimentos.
bolchevismo, quando este foi renovado pelas
Demarca territórios simbólicos e estratégicos.
Teses de Abril e passou a preconizar a revolução
Eis, por exemplo, uma definição do perfil e do
socialista na Rússia. Os adeptos de Trotsky
destino dos mencheviques:
iriam, doravante, interpretar que a Revolução de
Outubro de 1917 teria ocorrido pela fusão da Estes haviam passado pela escola do
teoria do partido de vanguarda, formulada por marxismo e adotado certos métodos e
Lenin, à qual Trotsky então aderiu, com a teoria costumes que lhes permitiam orientar-se
da revolução permanente. Teria havido uma relativamente bem na situação política de
convergência de interpretação, pois o livro falsear “cientificamente” o sentido da luta de
classes e assegurar – em medida compatível
“Balanços e perspectivas”, em que Trotsky com as circunstâncias atuais – a hegemonia
apresentava os fundamentos de sua concepção da burguesia liberal. Essa também foi a razão
revolucionária, tivera pouca circulação. porque os mencheviques – esses defensores
Conforme Deustcher, Lenin não o conhecia em sinceros do direito da burguesia ao poder –
1917. se desgastaram tão rapidamente e, no
momento da Revolução de Outubro,
Na verdade, a primeira obra importante chegaram à beira da extinção (TROTSKY,
de Trotsky sobre a Revolução de Outubro foi 2007A, p. 64).
uma crônica dos acontecimentos que ele
elaborou no início de 1918. No Brasil, uma de Depreende-se que os bolcheviques
suas edições recebeu o título de “Como fizemos detinham a chave explicativa dos
a revolução”. Edição recente foi intitulada “A acontecimentos, em sintonia com a radicalização
Revolução de Outubro”. das massas: “o que caracteriza todas as
revoluções é que a consciência das massas evolui
Tratava-se, deliberadamente, de obra de muito rapidamente: novas camadas sociais
propaganda, destinada a divulgar a vitória da adquirem experiência, examinam suas opiniões
revolução, visando à sua irradiação, e a defendê- da véspera, rejeitam-nas em prol das outras,
la de seus detratores. O texto foi elaborado no descartam os velhos dirigentes e escolhem
momento em que Trotsky representava, na novos, seguem em frente”(TROTSKY, 2007A,
condição de Comissário do Povo para Negócios p. 49). Em HRR, de forma mais elaborada, iria
Estrangeiros, o governo bolchevique nas usar a metáfora das massas como o vapor e a
negociações pelo fim da guerra com a Alemanha, direção revolucionária como as caldeiras que o
nos episódios que entraram para a história como canalizam. Trotsky não omite as tensões internas
a “Paz de Brest-Litovski”. O governo do partido bolchevique, mas não aprofunda a
bolchevique dava, então, seus primeiros passos. descrição das divergências nem acusa
Seus adversários sequer apostavam em sua personagens frontalmente, como viria a fazer em
sobrevivência
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futuro próximo. limitar ao marco de um programa


democrático-burguês. A revolução só
Embora esse livro tivesse circulado poderá ser levada a cabo se a revolução russa
abertamente como material de propaganda nos se converter em uma revolução do
tempos de Lênin, foi para o index de leituras proletariado europeu. Então, será superado
proibidas em conjuntura próxima, quando seu o programa democrático-burguês da
revolução, junto com seu marco nacional, e
autor perdeu os postos de poder (TROTSKY,
a dominação política temporária da classe
1978, p. 312). operária russa irá se prolongar até uma
Seja como for, enquanto ainda detinha ditadura socialista permanente. (…) O
proletariado, então, chegando ao poder, não
poder de Estado e antes mesmo de legar textos
deve se limitar ao marco da democracia
densos sobre o significado da Revolução de burguesa, mas deve empregar a tática da
Outubro de 1917, Trotsky revisitou seus escritos revolução permanente, isto é, anular os
sobre a Revolução de 1905. limites entre o programa mínimo e o
programa máximo da social-democracia,
Em 1922, ainda chefe do Exército passar para reformas sociais cada vez mais
Vermelho, Trotsky escreveu a passagem citada profundas e buscar um apoio direto e
abaixo para o prefácio da reedição do livro sobre imediato para a revolução na Europa
a Revolução de 1905: Ocidental. Essa posição é desenvolvida e
discutida neste trabalho, escrito em 1904 -
Foi precisamente durante o período 1906 e reeditado agora (TROTSKY, 2010, p.
compreendido entre 9 de janeiro e a greve 29-30).
geral de outubro de 1905 que se formaram
as ideias do autor sobre a natureza do Em 1923, ocorreu o processo que ficou
desenvolvimento revolucionário da Rússia e conhecido, nos anais da revolução, como
denominadas, em seguida, teoria da “debate literário”. Tratava-se, na verdade, de um
revolução permanente. Esse nome
eufemismo para as polêmicas sobre a natureza
complicado exprimia o pensamento de que a
revolução russa, em face das tarefas do bolchevismo, inseridas na conjuntura em que
burguesas imediatas, não poderia deter-se Lênin se encontrava debilitado e ocorria velada
nelas. A revolução só alcançaria os seus corrida por sua sucessão. Nessa fase, Zinoviev e
objetivos imediatos se levasse o proletariado Kamenev, os dois dirigentes bolcheviques mais
ao poder (…). Apesar da interrupção de ilustres da conjuntura anterior a outubro de
doze anos, essa previsão foi inteiramente
1917, superados apenas por Lenin, aliaram-se a
confirmada (TROTSKY, 2010, p. 265).
Stalin e compuseram um triunvirato no Bureau
Em 1919, no prefácio a uma nova edição Político com a finalidade de isolar Trotsky. Foi
de “Balanços e perspectivas”, oferece um então que Zinoviev realizou suas palestras sobre
resumo das teses que defendia havia mais de uma a história do bolchevismo e Trotsky elaborou
década, formuladas no livro que prefaciava e “Lições de Outubro”.
reeditava: Trata-se de um ensaio interpretativo
sobre a Revolução de Outubro. Destinado a
O ponto de vista adotado então pelo autor
pode ser formulado da seguinte maneira servir de introdução à reedição das obras do
esquemática: correspondentemente às suas autor, alimentou as polêmicas em curso.
tarefas mais próximas, a revolução começa Constitui, não obstante, importante documento
como burguesa, mas rapidamente provoca acerca da evolução da intepretação de Trotsky.
poderosos conflitos de classe e só chega à Seus temas e suas linhas gerais de análise, com
vitória se transferir o poder à única classe linguagem mais sofisticada e mais
capaz de se colocar à frente das massas
oprimidas: o proletariado. Uma vez no distanciamento narrativo, poderiam ser
poder, o proletariado não quere nem pode se identificados, por exemplo, em a HRR.
71 RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81

Tendo como suporte a experiência russa revolução não estaria imune a esse fenômeno,
ocorrida entre fevereiro de 1917 e fevereiro de como comprovaria a enérgica luta de Lênin,
1918, afirma que é possível erigir em lei a desde abril, para que os bolcheviques não se
inevitabilidade de uma crise no partido, desviassem do caminho revolucionário.
provocada pelo trabalho de preparação Terceiro, para interpretar corretamente a
revolucionária e luta direta pelo poder Revolução Russa em processo, o mais
(TROTSKY, 2007B, p. 27). Emergem tanto importante era verificar como se comportaram
“viragens táticas quanto estratégicas”. Infere que as forças na hora decisiva. Quarto, a despeito de
o Outubro russo foi, por um lado, uma lição às dissensões anteriores, Trotsky aderiu ao
correntes não-bolcheviques, pseudomarxistas. bolchevismo na hora decisiva e mostrou que
Por outro, esquadrinhando os dilemas vividos estava à altura do protagonismo exigido pelos
pelo partido bolchevique, também extrai dos acontecimentos. Quinto, procura mostrar que,
fatos revolucionários uma critica às alas internas ao contrário do que acontecia com a velha
e aos dirigentes que estiveram em dissensão com guarda bolchevique, havia convergência de
Lênin em conjunturas decisivas de 1917. interpretação e de movimentos entre Lênin e ele.
Sexto, aceita Lênin, o real ou aquele que lhe
O alvo principal de Trotsky é a dupla
convém, como árbitro das polêmicas. Na luta
Zinoviev e Kamenev, dirigentes que eram vistos,
política que então ocorria, Trotsky tentava
na ausência de Lênin, como candidatos naturais
demonstrar que, assim como ocorrera em 1917,
à liderança. Nesse momento, Stalin, o terceiro
a velha guarda bolchevique não estava à altura
membro do triunvirato, ainda não era visto
dos desafios que a construção socialista
como aspirante ao topo, exceto por si mesmo e,
apresentava.
sintomaticamente, por Lênin, como revela a
carta que ficou conhecida como seu testamento. Nesse período, Trotsky anunciava sua
divergência com o prolongamento da Nova
Se o livro “Balanços e perspectivas”, do
Política Econômica (NEP), baseada na
qual são extraídos os fundamentos para a teoria
convivência do mercado com a estrutura estatal
da revolução permanente, fornece a chave para
de propriedade e de produção, 6 e advogava a
o enquadramento geral da interpretação de
necessidade da planificação, da industrialização e
Trotsky sobre a Revolução Russa, o livro
da coletivização do campo. Tais políticas
“Lições de Outubro” adiciona outros elementos
deveriam ser combinadas com a estratégia da
decisivos.
internacionalização da revolução e com a
Primeiro, procura converter em lei as democratização do partido. Já naquele
fases decisivas dos acontecimentos. As momento, identificava a tendência de
revoluções tenderiam a ter seu “fevereiro”, suas burocratização do regime. Na disputa imediata,
“jornadas de julho” (radicalização precipitada), a saiu perdedor, fragilizado pelo resgate das
reação korniloviana (contrarrevolução) e seu antigas divergências e pela acusação de tentar
“outubro”. Segundo, se a força dos promover a divisão do partido. Em virtude das
acontecimentos fazia com que a história varresse características de seu programa e de seus
para o lixo os “oportunistas”, como ocorrera objetivos, tal dissensão restou conhecida como
com os mencheviques, o partido forjado para a

6 Em 1921, com o final da guerra civil, o governo bolchevique adotou a Nova Política Econômica (NEP), introduzindo
mecanismos de mercado em convivência e de forma subordinada ao setor estatal. Vista inicialmente como medida de
emergência para recuperar a economia destroçada por duas guerras, a mundial (1914 a 1918) e a civil (deflagrada como
reação à Revolução de Outubro), a NEP foi objeto de polêmicas entre os dirigentes bolcheviques. Para além de sua
capacidade de recuperar a economia nos padrões existentes antes da revolução, havia a indagação a respeito de sua
compatibilidade com o objetivo de transformação socialista.
RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81 72

“oposição de esquerda”. soviético e, em 1927, foi expulso do partido. Em


Em meados da década, o triunvirato se 1928, foi deportado para Alma Ata, no
desfez. Stalin promoveu um deslocamento nas Cazaquistão. Em 1929, foi exilado na Turquia.
forças do Bureau Político, aliando-se a Bukharin Antes mesmo de ser deportado, Trotsky
e isolando Zinoviev e Kamenev. Bukharin encaminhou uma carta ao Instituto Histórico do
tornou-se célebre, nesse período, por teorizar a Partido, que viria a ser divulgada no livro “A
possibilidade de promover uma transição ao revolução desfigurada”, em que defendia suas
socialismo por dentro da economia mista posições. Esse documento é importante tanto
propiciada pela NEP (COHEN, 1990). Também pelo que Trotsky diz quanto pelo mapa de
começava a grassar, na alta direção do Estado, a questões que dispõe, relativas às disputas em
teoria do “socialismo em um só país”, que curso na URSS.
defendia a possibilidade de a URSS construir o
Já na apresentação, Trotsky alega que
socialismo de maneira autônoma, com seus
vinha sendo vítima de inúmeras falsificações
próprios recursos, mesmo sem a ocorrência da
históricas, destinadas a adulterar ou apagar os
revolução internacional.
vestígios de sua participação na Revolução de
Após uma fase de silêncio provocado Outubro. Consagrada pelas autoridades, essa
pelo desgaste do chamado “debate literário”, falsificação era introduzida até nos manuais
Trotsky renovou seu ardor de polemista diante escolares. Talvez as páginas mais decisivas desse
do temor de que a perspectiva de Bukharin fosse documento sejam aquelas em que Trotsky
a estrada que levaria à reação termidoriana. A interpreta a maneira pela qual seus adversários
extensão da NEP, no caso, favoreceria ao construíram o conceito de trotskismo. Segundo
fortalecimento do setor privado e ao ele, esse “espantalho” só começou a ser agitado
restabelecimento do capitalismo. Outra heresia quando Lenin se retirou da cena política, em
seria a teoria do “socialismo em um só país”. 1923. De resto, sua teoria da revolução
Desta vez, Trotsky obteve o apoio de Kamenev, permanente, combatida como heresia, teria sido
Zinoviev e outros antigos bolcheviques que se confirmada pela transposição da revolução
encontravam descontentes com os rumos da burguesa em proletária. Nessa nova etapa
revolução. Novamente, foram derrotados. Por decisiva da revolução, “o que se chama
causa da adesão dos dirigentes históricos, a ‘trotskismo’ depois de 1923 e sobretudo depois
dissensão foi chamada de “oposição unificada”. de 1924 é a aplicação correta do marxismo à fase
A partir de 1928, Stalin rompeu com nova da Revolução de Outubro e do nosso
Bukharin e, diante dos impasses da condução da partido” (TROTSKY, 2007C, p. 101). Termina
NEP, avalizou uma grande guinada na seu documento esgrimindo contra Bukharin,
orientação do partido, promovendo uma política teórico do desvio pequeno-burguês do partido, e
de industrialização concentrada e a coletivização contra Stalin, acusado de ser responsável pelo
do campo. Conduzida contra a vontade dos fracasso da expansão internacional da revolução.
camponeses, tal reviravolta foi realizada com a Trotsky produziu sua autobiografia
utilização da força e do terror político. No quando já estava exilado. Segundo suas palavras,
intervalo aproximado de uma década, esse escreveu-a para se defender e atacar. Desterrado
processo promoveu a transição para uma da URSS, também vinha sendo banido da
economia totalmente estatizada, no campo e na história que se escrevia sobre a revolução, como
cidade. revelam os combates realizados pelos
No curso desses acontecimentos, documentos agrupados no livro “A revolução
Trotsky foi destituído de suas funções no Estado desfigurada”. Denuncia, principalmente, a
operação que vinha sendo realizada para pintá-lo
73 RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81

como antípoda de Lênin, cujo objetivo era não reação depois da grande tensão social e
apenas construir um sentido adulterado para o psicológica dos primeiros anos da revolução. A
passado, mas deslegitimar as opções que se contrarrevolução vitoriosa pode ter os seus
colocavam para o futuro da URSS. Procura grandes homens. Mas, no primeiro grau,
refutar a opinião, divulgada pela direção do Termidor tem necessidade das mediocridades
Estado soviético após a doença de Lênin, de que que não veem a um palmo do nariz”
a teoria da revolução permanente era o avesso (TROTSKY, 1978, p.425).
do leninismo.
Quando Trotsky foi banido da URSS, o
Como escreve após a derrota da oposição termidor significava, para ele, a extensão da
de esquerda e da oposição unificada, reflete economia mista. Entretanto, justamente no
sobre as razões de a alternativa que representava período em que elaborava sua autobiografia,
não ter vingado e sobre o significado da vitória ocorre o início da grande virada staliniana,
da facção liderada por Stalin. Alvo de marcada pela ruptura com a NEP e pela
persistentes intrigas partidárias, sugere que a promoção da industrialização concentrada e da
calúnia só poderia ser uma força quando coletivização forçada no campo. O impacto
correspondia a uma necessidade histórica. dessa guinada sobre a elaboração de Trotsky
Inspirado na cronologia da Revolução Francesa, ganhou tintas definitivas nos anos seguintes,
considera as articulações que seus adversários especialmente em sua obra “A revolução traída”,
fizeram para excluí-lo da liderança como divulgada na segunda metade da década de 1930.
manifestações do “termidor soviético”. Antes, porém, ele escreveria “A história da
Relaciona, enfim, a emergência da burocracia a Revolução Russa”, publicada na esteira de sua
fatores mais amplos. Referindo-se à morte de autobiografia.
Lenin e aos impasses da revolução mundial, diz:
Igualmente escrita no exílio da ilha de
“Os acontecimentos do país e do mundo eram
Prinkipo, “A história da Revolução Russa” está
favoráveis aos meus adversários.” Naquele
dividida em três partes. No primeiro volume,
contexto, houve erosão nas fileiras bolcheviques:
destaca-se o fato de Trotsky afirmar que não se
“Fez-se a seleção artificial não dos melhores,
colocaria na situação de um observador que
mas dos mais oportunistas. Assim se
acompanha, à distância e de fora, a cidadela em
substituíram independentes e capazes por
perigo. Não pretendia, portanto, ser apenas um
mediocridades. A expressão mais perfeita
observador distante. Como protagonista dos
daquela mediocridade geral era Stalin, que
fatos, situava-se dentro da cidadela. Sabe-se que
subia.” (TROTSKY, 1978, p.416).
já havia, então, várias correntes de interpretação
Estabelecendo que a “era de Lênin” se da Revolução Russa. Foi na introdução aos dois
separava da atual por um abismo ideológico e últimos volumes, aliás, que apontou diretamente
uma completa mudança na organização, analisa esse problema:
que o fato de Stalin ascender à liderança devia-se
menos ao seu talento do que à decadência Não ocultaremos que (...) não se trata, para
nós, apenas do passado. Assim como os
política vivida. Citando Helvetius, diz: “Cada adversários, ao atacarem a pessoa, se
época tem seus grandes homens e se não os esforçam por atingir o programa, também a
tem... inventa-os”. E conceitua: “O stalinismo é luta por um determinado programa obriga a
sobretudo a ação automática de um aparelho pessoa a se recolocar no seu lugar real no
administrativo impessoal durante a fase de meio dos acontecimentos. (...) Todavia,
declínio da revolução” (TROTSKY, 1978, tomamos as medidas necessárias para que as
questões “pessoais” não ocupem neste livro
p.420). Vale dizer, é a manifestação do que maior lugar que aquele a que tem direito de
considera ser a emergência do termidor: “É a pretender (TROTSKY, 1980, p.419).
RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81 74

De qualquer modo, Trotsky, já na seria indissociável da capacidade de o historiador


apresentação ao primeiro volume, salienta que desvelar a trama histórica em que a revolução foi
seu trabalho não seria escrito apenas como gestada na complexa realidade da Rússia. A
lembranças pessoais. Mesmo dispensando o objetividade do historiador é diretamente
recurso a notas de rodapé e a indicação detalhada proporcional à sua capacidade de demonstrar
de suas referências, Trotsky recorre ao uso como, nas condições objetivas, a revolução
sistemático de fontes, cita a si mesmo na terceira emerge inelutavelmente.
pessoa e, embora repelisse a ideia de neutralidade Recusa explicações fortuitas que análises
(era dentro da cidadela que ele se colocava), economicistas forneciam. A gestação inelutável
reivindica a objetividade possível a um da revolução é vista a partir do complexo
historiador. Esclarece: trinômio massas-vanguarda política-crise
Ainda uma questão – a da posição política estrutural. O sujeito revolucionário por
do autor que, em sua qualidade de excelência são as massas, cuja consciência,
historiador, se mantém nos pontos de vista segundo Trotsky, não se produz de forma
que eram os seus como militante nos autônoma nem independente. Resulta, pelo
acontecimentos. O leitor, no entanto, não contrário, das condições gerais de existência.
está obrigado a participar da opinião política
do autor, posição que não tem motivo algum
Dessa premissa extrai a relação com a vanguarda:
para dissimular. Tem o leitor, porém, o “é somente através do estudo do processo
direito de exigir que um trabalho histórico político nas massas que se pode compreender o
não constitua a apologia de uma posição papel dos partidos e dos líderes que não temos a
política, mas sim uma exposição menor intenção de ignorar” (TROTSKY, 1980,
profundamente fundamentada do p.16-7).
verdadeiro processo da revolução. Um
trabalho histórico só alcança plenamente a O papel dirigente dos partidos era muito
sua finalidade quando os acontecimentos se importante, mas não era um elemento
desenrolam página por página, autônomo. Precisava, acima de tudo, ser
naturalmente, e na medida em que são
necessários (TROTSKY, 1980, p.18). dimensionado: “Sem organização dirigente, a
energia das massas se volatizaria como o vapor
Na apresentação aos dois últimos não encerrado em caldeiras com bombas de
volumes, aprofunda a questão: pistão. O movimento, entretanto, não provém
nem da caldeira nem do pistão, porém, ao
As provas da objetividade científica devem contrário, do vapor” (TROTSKY, 1980, p. 16-
ser procuradas não nos olhos do historiador, 7). Subordinando tanto a ação coletiva das
nem nas inflexões de sua voz, mas na lógica
massas quanto a condição dirigente dos partidos
íntima da própria narrativa, se os episódios,
os testemunhos, os dados e as citações às contradições estruturais mais profundas,
coincidirem com as indicações gerais da conclui: “são necessárias circunstâncias
agulha imantada da análise social, terá o absolutamente excepcionais, independentes da
leitor a mais séria das garantias da solidez vontade individual ou dos partidos, para libertar
científica das conclusões. De modo mais os descontentes dos estorvos do espírito
concreto: o autor mantém-se exatamente fiel
conservador e levar as massas à insurreição”
à objetividade nos limites em que o presente
trabalho revela, efetivamente, a (TROTSKY, 1980, p. 16). Daí decorre o
inelutabilidade da insurreição de Outubro, e protagonismo dos bolcheviques, que souberam
as causas de sua vitória (TROTSKY, 1980, interpretar como a realidade produzira “aquele
p. 415). poderoso vapor insurrecional” e canalizá-lo para
que a revolução fosse levada às últimas
A objetividade da narrativa, como se vê, consequências.
75 RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81

Se parecia enigmático que a Rússia fosse impulsionar o capitalismo. A transição que o


a pioneira na conquista do poder pelo bolchevismo promoveu da ideia das duas etapas
proletariado, era necessário analisar as da revolução para o objetivo de transformar a
particularidades do país. E essa foi a tarefa a que revolução burguesa em revolução operária é
Trotsky se dedicou já no início de sua história da descrita com riqueza de detalhes.
revolução. Além de seus excepcionais dotes
Trotsky retoma o espírito de suas
intelectuais, também tinha uma posição teórica a
“Lições de Outubro”, esgrimindo contra as
defender. Daí a necessidade de retomar, na
correntes então hegemônicas do Estado
história da revolução, premissas teóricas que
soviético. Com uma diferença substantiva: na
havia ensaiado no livro que dedicou à Revolução
época das “Lições de Outubro”, a disputa pela
de 1905 e em “Balanços e perspectivas”.
nova hegemonia estava em curso e ele dedica
Esmiuçando os diferentes ritmos de
mais atenção à liderança de Zinoviev e
desenvolvimento presentes na estrutura social
Kamenev. Quando o livro HRR veio a lume,
russa, em que formas arcaicas conviviam com a
Stalin consolidara sua hegemonia sobre o partido
modernidade capitalista, Trotsky inferiu
e sobre o Estado e comandava uma história da
conclusões sobre a instabilidade das instituições
revolução que fosse compatível com a liderança
e a conduta das classes sociais no processo.
que representava. Por isso mesmo, o papel de
Em linhas gerais, não é difícil perceber Stalin, ignorado na obra de 1923, é analisado
que a teoria que subsidia a explicação e o agora. Trotsky insurge-se contra a tendência,
desfecho do processo é coerente com os verificada na história oficial soviética, de
prognósticos que Trotsky desenvolvera em menosprezar o alcance da crise que o
“Balanços e perspectivas”, a partir das lições da bolchevismo vivera em abril de 1917, qualificada
Revolução de 1905. Trotsky descreve cada fase como “desvio passageiro e quase acidental”.
da revolução, procurando demonstrar como a Para ele, havia um conflito entre duas linhas
Revolução de Fevereiro se transformou na inconciliáveis.
Revolução de Outubro, orientado pelas A teoria da revolução permanente, que
premissas da teoria da revolução permanente. subsidia a interpretação de Trotsky sobre os
Trotsky acentua como o movimento de acontecimentos de 1917, encontra sua base de
massas, inicialmente espontâneo, impulsionou o sustentação na transformação do Fevereiro em
curso dos acontecimentos, colocando-se, quase Outubro russo, ou seja, na transformação da
sempre, à frente dos partidos políticos. A revolução burguesa em revolução proletária.
liderança que os bolcheviques vieram a exercer Como o livro se detém na conquista do poder
não foi automática, mas fruto de um difícil pela vanguarda do proletariado, o terceiro
aprendizado na compacta conjuntura elemento da teoria está apenas implícito na
revolucionária. Com base na imagem do vapor e narrativa principal: a revolução internacional.
dos mecanismos que o canalizavam, cabe Essa, para Trotsky, era condição sine qua non para
demonstrar como Trotsky matiza a relação o sucesso da revolução proletária em um país
desses acontecimentos com a vanguarda que atrasado. Já movido pelas disputas acaloradas
conduziu a revolução, os bolcheviques. que eram travadas no momento em que escrevia
sua história da revolução, incorporou, como
De certa forma, as demais correntes são
apêndice ao livro, ensaios críticos sobre a tese do
condenadas por tentarem reproduzir, na Rússia
“socialismo em um só país”. As consequências
revolucionária, as etapas vivenciadas pelos países
da política de Stalin, entretanto, seriam
desenvolvidos, visto que se mantiveram fiéis ao
analisadas detidamente em outra obra, “A
princípio de que a revolução russa era
revolução traída”.
essencialmente burguesa, destinada a
RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81 76

Concluído em agosto de 1936 e Esta, em vez de prever os acontecimentos,


divulgado em 1937, o livro “A revolução traída” reagiu por meio de reflexos administrativos,
fornece a definitiva análise de Trotsky sobre a “criando a posteriori a teoria das suas reviravoltas,
natureza do regime que se construiu, sob a sem se inquietar com o que ensinara na véspera”
liderança de Stalin, na URSS. O livro foi (TROTSKY, 2005, p. 105). Refere-se ao fato de
divulgado quando as transformações que a cúpula política soviética ter abraçado, em um
marcaram a virada staliana - planificação, primeiro momento, a plataforma de defesa da
industrialização e coletivização - tinham se extensão da economia mista como forma de
efetivado. No discurso soviético oficial, a derrotar a oposição de esquerda, desqualificando
experiência concreta teria confirmado que era seus apelos em favor da industrialização e do
possível, contrariamente aos prognósticos de avanço do planejamento econômico, e, no final
Trotsky, construir o socialismo na URSS, da década, ter adotado aspectos de seu
independentemente da não propagação da programa.
revolução internacional. Nesse momento, Stalin
Justifica a ascensão da burocracia, cujos
consagrara a nova constituição para a URSS,
interesses Stalin representava, pela maré vazante
saudada como “a mais democrática do mundo”,
da revolução internacional, para a qual o Estado
e ocorria, por intermédio dos processos de
soviético contribuiu com sua política do
Moscou, a eliminação da velha guarda
“socialismo em um só país”. A isso se somava a
bolchevique. Além disso, cristalizava-se, pela
política interna ziguezagueante, que afirmava os
ótica do vencedor das disputas internas, a
interesses dessa burocracia. Recorrendo mais
história do partido comunista, que bania ou
uma vez à metáfora do termidor, aponta que
anatematizava a memória de Trotsky e de suas
Stalin era uma liderança talhada para cumprir as
ideias.
exigências dessa época:
Em contraposição à ideia do socialismo Seria ingenuidade pensar que Stalin,
triunfante, elaborada sob a liderança de Stalin, desconhecido das massas, tivesse saído de
Trotsky definiu o regime erigido na URSS como repente dos bastidores armado com um
Estado operário (burocraticamente) degenerado. plano estratégico completo - não. Antes que
Haveria uma descontinuidade entre o período de ele próprio tivesse entrevisto o seu caminho,
a burocracia já o tinha escolhido. Stalin
Lênin e o comandado por Stálin. Trotsky apresentava-lhe todas as garantias desejáveis:
reconhecia o caráter revolucionário da o prestígio de um velho bolchevique, um
modernização econômica e compreendia que na caráter firme, uma visão estreita e uma
infraestrutura, em que havia a propriedade indissolúvel ligação com as repartições
coletiva dos meios de produção, o regime era públicas, fonte única da sua influência
socialista. No nível superestrutural, porém, havia pessoal. Ele foi, no início, surpreendido pelo
seu próprio êxito. Era a unânime aprovação
uma contradição. A burocracia estatal de uma nova camada dirigente que
organizara-se como grupo dominante e procurava libertar-se tanto dos velhos
opressivo e instrumentalizava a gestão das princípios como do controle das massas e
estruturas coletivas para seus privilégios. que tinha necessidade de um árbitro seguro
nos seus assuntos internos. Figura de
Trotsky procurou refutar eventuais segundo plano para as massas e para a
analogias que pudessem ser identificadas entre o revolução, Stalin revelou-se o chefe
programa que o Estado soviético adotara no incontestado da burocracia termidoriana, o
final da década de 1920 e a plataforma das primeiro dos termidorianos (TROTSKY,
oposições que liderara. Para ele, o historiador da 2005, p. 110).
URSS deveria atentar para a série de vaivéns que Trotsky se considerava herdeiro da
caracterizaram a política da burocracia vitoriosa. melhor tradição do partido bolchevique, aquela
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que não vacilou diante dos desafios da tomada “Definimos o Termidor soviético como a vitória
do poder em outubro de 1917. Por isso, da burocracia sobre as massas” (TROTSKY,
a burocracia não venceu unicamente a 2005, p. 118).
Oposição de Esquerda, venceu igualmente o O regime soviético precisava ser
partido bolchevique, venceu o programa de
entendido em sua peculiaridade e em sua
Lênin, que apontava como perigo principal a
transformação dos órgãos do Estado “de complexidade. Trotsky não aceita a tese de que a
servidores da sociedade em senhores da burocracia soviética constituísse uma nova classe
sociedade”. A burocracia venceu todos os social. Havia, de certa forma, uma contradição
seus adversários - a oposição, o partido de entre o sistema de propriedade e de produção e
Lênin - não com a ajuda de argumentos e de as estruturas políticas. Referindo-se à
ideias, mas esmagando-os sob o seu próprio
peso social. O traseiro de chumbo da
nacionalização dos meios de produção, teoriza:
burocracia mostrou-se mais pesado que a “estas relações estabelecidas pela revolução
cabeça da revolução. Esta é a explicação do proletária definem aos nossos olhos a U.R.S.S.
Termidor soviético (TROTSKY, 2005, p. como um estado operário” (TROTSKY, 2005,
111). p. 223). As mudanças foram promovidas,
Para explicar a descontinuidade entre o contudo, sem a democracia soviética e
período de Lênin e de Stalin, acentua que a sacrificando a perspectiva internacionalista. Em
vitória da burocracia teria como causa a resumo, tudo isso conforma a teoria trotskiana
degenerescência do Partido Bolchevique, da qual que explicava o regime staliniano como um
a liderança seria o emblema. O monolitismo que Estado Operário Degenerado.
alicerçaria o poder stalinista era, em sua opinião,
um mito da decadência. Na conjuntura em que A contradição com a superestrutura
escreve, declara que o “velho partido política, caracterizada pelo poder da burocracia
bolchevique está morto, nenhuma força o estatal que se organizara como grupo dominante
poderá ressuscitar” (2005, p. 115). e opressivo e instrumentalizava a gestão das
estruturas coletivas para seus privilégios, não se
Não hesita em associar o regime resolveria por reformas internas do sistema. O
staliniano ao fenômeno do totalitarismo: “A poder da burocracia só poderia ser quebrado por
hierarquia dos secretários domina tudo e todos. uma revolução política. Mais: a sorte da própria
O regime adquirira um caráter totalitário alguns revolução política, preconizada então, estava
anos antes que o termo nos viesse da Alemanha” associada à revolução internacional.
(TROTSKY, 2005, p. 115). Sua análise deriva
para a caracterização do regime staliniano como Considerações finais
uma modalidade de bonapartismo: “O
A análise foi conduzida com objetivo de
stalinismo é uma variedade, mas sobre as bases
demonstrar que existia uma unidade
do Estado operário, dilacerado pelo
fundamental nos escritos que Trotsky elaborou
antagonismo entre a burocracia soviética
sobre o processo revolucionário na Rússia.
organizada e armada e as massas laboriosas e
Cobrindo um período de três décadas, tais
desarmadas” (TROTSKY, 2005, p.244).
incursões na escrita da história iniciam-se na
Se, na década de 1920, Trotsky associava conjuntura da Revolução de 1905, passam pelas
a emergência do termidor com o fortalecimento revoluções de 1917 e chegam até o final da
do setor privado e o entrelaçamento de seus década de 1930, quando o governo soviético,
interesses com a burocracia partidária e do comandado por Stalin, declara realizado o
Estado, agora, com o fim da virada staliniana, socialismo na URSS.
que estatizou a propriedade no campo e na
Não obstante a diversidade de
cidade, redimensiona o seu conceito:
RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81 78

conjunturas e de fenômenos abordados, Trotsky Daí adviria, portanto, a cientificidade de sua


se utilizou de sua teoria da revolução análise.
permanente, que começara a elaborar no curso
Em um período em que o marxismo era
da primeira revolução, em 1905, e que ganhou
elaborado no contexto da luta de classes e com
contornos maduros em conjunturas posteriores.
objetivo de fazer a revolução, não é
Vários analistas, especialmente aqueles que não
surpreendente que um intelectual da estatura de
se colocam como simpatizantes de seu campo de
Trotsky advogue, de forma tão contundente, a
ideias, ressaltam a dimensão teleológica de sua
correção da teoria que elaborou. Era essa, afinal,
análise como historiador. A referência principal
a orientação de sua práxis. A questão principal,
é a interpretação perpetrada em sua obra maior,
sobretudo porque o objeto de análise aqui são
“A história da Revolução Russa”.
suas incursões no terreno da escrita da história,
Tanto quanto foi possível ver, é a pertinência dessa pressuposição para o
comentários de Trotsky, espalhados na referida desenvolvimento do trabalho do historiador.
obra e em outros títulos, não contrariam a
Devem ser consideradas, em coerência
hipótese de que seu olhar fosse teleológico. Em
com os apontamentos sistematizados ao longo
a HRR, salienta que a pertinência de sua análise
deste estudo, algumas circunstâncias. Primeira,
não residia na interpretação a posteriori dos fatos,
quando Trotsky escreveu seus trabalhos
mas na compreensão que tivera do processo
principais, não havia uma historiografia
desde o início, ou seja, antes de 1905. De resto,
consolidada sobre a Revolução Russa. Segunda,
afirmações dessa natureza são abundantes em
a noção de historiografia marxista estava em
seus escritos.
formação e era, até então, também inseparável
Pode-se dizer, sem cometer exagero, que do universo da práxis. Terceira, ele não era um
extraía dessa premissa sua autoridade intelectual historiador convencional, visto que se tratava de
e política, que seriam inseparáveis. Um exemplo um revolucionário escrevendo sobre processos
pode ser verificado na forma persistente como de que fora protagonista. Mesmo assim, pelo
criticava as supostas limitações intelectuais e menos em “A história da Revolução Russa”,
teóricas de seus adversários, Stalin em primeiro reivindicou o estatuto de cientificidade para seus
lugar. Trotsky salienta que eles se caracterizariam escritos.
pela estreiteza de horizontes e pelo fato de não
Sua noção de ciência, porém, referia-se
enxergarem um palmo diante do nariz. Isso teria
mais à capacidade de interpretar o sentido do
ocorrido, por exemplo, logo após a Revolução
processo do que aos métodos convencionais do
de Fevereiro, quando eles teriam levado o
historiador. Alguns dos mais críticos analistas de
bolchevismo à fronteira do menchevismo. Da
sua obra, entre os quais podem ser citados Wolfe
mesma forma, essa suposta estreiteza de
e Service, afirmam que sua interpretação era
horizontes teria sido repetida no processo de
deliberadamente construída para imprimir um
coletivização do campo e planificação da
sentido unívoco ao processo, como se só
economia, projetos que seriam necessários, mas
houvesse um desenlace para a crise vivida pela
teriam sido conduzidos de forma errada, com
Rússia entre fevereiro e outubro de 1917, a
ziguezagues e falta de planejamento e
revolução bolchevique. O objetivo de Trotsky
perspectiva.
era legitimar a vitória dos bolcheviques e
Em contrapartida, quando aponta que deslegitimar quaisquer alternativas históricas que
previu, em suas linhas gerais, os acontecimentos pudessem existir.
de 1917 mais de uma década antes, Trotsky
Trotsky, como se poderia esperar de um
infere que essa seria uma prova irrefutável de que
historiador do tempo presente e de um
viria aplicando corretamente a teoria marxista.
79 RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81

revolucionário escrevendo sobre a história, não URSS e de defender, como disse Deutscher, seu
camufla suas opções e o lugar de onde interpreta lugar na história e sua perspectiva do processo
o processo. Pelo contrário, afirma, literalmente, histórico.
que seu objetivo é revelar a inelutabilidade da
Entretanto, se a Insurreição de Outubro
insurreição de Outubro e as causas de sua vitória.
de 1917 confirmara seus prognósticos, o
Dada a forma como entendia a dialética da
desenvolvimento do processo seguiu caminhos
história, científica era a compreensão que
dissonantes após a morte de Lênin e ascensão da
desvelava o sentido imanente ao processo, o que
nova liderança. Obcecado pelas analogias com a
os bolcheviques fizeram no campo de batalha e
grande Revolução Francesa, Trotsky,
ele agora fazia como historiador.
primeiramente, identificou o perigo da reação
Cada qual a seu modo, analistas que se termidoriana na NEP. Com a grande guinada na
colocam no seu campo de ideias, como política de Stalin e a adoção da coletivização
Deutscher, Broué e Bianchi, assumem sua noção forçada e da planificação, a reação do termidor
de cientificidade. Broué, por exemplo, aceita as foi identificada no processo de burocratização
abundantes analogias históricas como do partido, já denunciado desde a primeira
demonstração das leis históricas que Trotsky metade da década de 1920, que ganhava tradução
sistematiza. Deustcher, entre outras coisas, avançada no contexto da economia estatizada da
explica e legitima a relação entre a crise das década de 1930.
estruturas sociais, a ação das massas e o papel da
A revolução permanente, parcialmente
vanguarda revolucionária, tal como apresentada
realizada com a ruptura de Outubro de 1917,
na obra de Trotsky. Bianchi ressalta o caráter
teria sido traída pela burocracia governante. Daí
antidogmático da concepção de Trotsky,
a ruptura com a perspectiva de reformar o
exemplificado por sua recusa de extrair os fatos
regime e defender a revolução política, estratégia
políticos da crise econômica. Não refuta, no
sistematizada e justificada no livro “A revolução
entanto, o sentido de imanência que haveria nas
traída”.
leis do desenvolvimento histórico.
Conquanto a tese de Trotsky possa gerar
Não se pode exigir de Trotsky
debates, controvérsias e refutações, não se pode
procedimentos que ele recusou, como os
negar que detinha uma arquitetura geral
praticados pelos historiadores acadêmicos. Isso
coerente. Legou, não obstante as motivações
vale não apenas para compreender a ausência das
políticas do autor, uma interpretação instigante
notas de rodapé e indicações bibliográficas, mas
sobre um fenômeno novo, servindo de
também a forma como ele imprimia sentido ao
referência aos debates - que se multiplicaram ao
processo. Sua compreensão era prévia e teria
longo dos anos e ainda não cessaram - sobre a
sido confirmado pelos fatos que levaram à
natureza do regime erigido pela Revolução de
vitória dos bolcheviques.
Outubro.
Mesmo antes de escrever a HRR,
O pesquisador Knei-paz, seguido por
Trotsky entendia que a Insurreição de Outubro
outros autores, comparou “A história da
havia confirmado o prognóstico que elaborara
Revolução Russa”, a magna obra de Trotsky, a
com base na chamada teoria da “revolução
uma peça literária e a desautorizou como uma
permanente”, tal como vinha se desenvolvendo
obra historiográfica no sentido que esse termo
nos textos que produziu logo após a Revolução
tem entre os especialistas. Certamente, tal
de 1905. Era previsível que esse fosse o fio
comparação estava em desacordo com os
condutor da narrativa agora. Não bastasse outro
intelectuais situados no campo de ideias de
motivo, havia ainda a necessidade de disputar a
Trotsky ou mesmo entre marxistas de outros
memória da revolução com o novo comando da
RB Dias. Dialógos, v.20, n.2, 56-81 80

matizes, afeitos ao sentido da história como HOBSBAWM, Eric. Podemos escrever a história da
Revolução Russa? In Sobre a história. São Paulo: Cia das
ciência. Nos tempos atuais, essa distinção entre Letras, 1998.
história e literatura perdeu a força, embora ainda
KING, David. The commisar vanishes: the falsification of
tenha respeitáveis adeptos. Knei-paz, salvo photographs and art in Stalin’s Russia. New York:
melhor juízo, não procurou diminuir a força da Metropolitan books, 1997.
narrativa nem lhe negar o estatuto de ser capaz KNEI-PAZ. Baruch. The social and political thought of Leon
de resgatar e interpretar fatos e processos Trotsky. Oxford: Clarendon press, 2001.
históricos. Para ele, estabelecido o gênero a que _________. Trotsky: revolução permanente e a revolução
pertence, trata-se de uma narrativa verdadeira, do atraso. In HOBSBAWM, Eric (org.). História do
dotada de características e objetivos próprios. marxismo. V. 5. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
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Trotsky não lhe retiram a grandeza e a força
MANDEL, Ernest. La pensée politique de Léon Trotsky. Paris:
intelectual. Seus livros persistem como exemplo La découverte, 2003.
de incursão de um grande protagonista na escrita
NORTH, David. In defense of Leon Trotsky. Oak Park:
da história, tanto estendendo para o campo Mehring books, 2010.
historiográfico as batalhas travadas em passado
PARTIDO COMUNISTA DA URSS. História do Partido
recente quanto preparando novas batalhas no Comunista (bolchevique) da URSS. Recife: Edições Centro
campo da luta política. Em um ponto os analistas Cultural Manoel Lisboa, 1999.
estão de acordo: trata-se de uma grande obra, SALVADORI, Massimo. A crítica marxista ao stalinismo.
produzida por um escritor bastante talentoso In HOBSBAWM, Eric. História do marxismo. V. 7. Rio de
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