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SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE CASTANHAL
FACULDADE DE LETRAS ESPANHOL

SIQUEIRA, Hélio Marcos de Andrade

POZO, Juan Ignacio. Aprendizes e Mestres: A nova cultura da aprendizagem. Porto alegre:
Artmed Editora, 2002.

O presente livro é constituído da Introdução e de quatro partes. A primeira, a


segunda e a terceira partes são composto de quatro capítulos cada uma, já a quarta de dois
capítulos. Para efeito desta resenha tratarei especificamente da Introdução, intitulada “as
dificuldades da aprendizagem ou por que aprender e ensinar às vezes é tão difícil”; e do
capítulo 1 da primeira parte, denominado “A nova cultura da aprendizagem” composto por
três tópicos e três subtópicos.

Na introdução Pozo (2002) apresenta as carências de aprendizagem de que sofrem os


aprendizes, ele enumera que temos:
Dificuldades para adquirir novas habilidades;
Dificuldades para recordar uma informação;
Falta de compreensão dessa informação;
Dificuldades para controlar emoções;
Controle de hábitos e atitudes;
Ele se propõe analisar cada um desses aspectos de forma diferente, acrescenta ainda
que o que todas essas dificuldades têm em comum é: refletem a dificuldade de aprender
muitas coisas de que necessitamos no cotidiano, ele esclarece haver hoje maior consciência
não só dos fracassos da aprendizagem, mas também da necessidade de superá-los. O autor
também fala da consciência dos aprendizes quanto ao fato de que não aprendem como
deveriam e dos mestres de que seus esforços não estão tendo o resultado esperado. Também
coloca algo que o preocupa que ´sobre o que se entende por “fracasso escolar”, que é o
pensamento irônico de que o preocupa no fracasso escolar não os alunos reprovados, mas o
que são aprovados e não aprendem quase nada.
O aumento obrigatório do tempo de estudo sem resultado na melhora da
aprendizagem é tratada também por ele, Pozo coloca em debate a responsabilidade dessas
falhas nessa aprendizagem, deixando com uma das causas dessas dificuldades o fato de que o
processo de aprendizagem não tenha sido pensado paras as particularidades dos agentes desse
ambiente ( mestres e aprendizes).Ele argumenta que fazer com os aprendizes aprendam mais
sobre o processo de aprendizagem, tendo assim maior controle sobre essa parte,
No primeiro tópico do capítulo 1 “Da aprendizagem da cultura à cultura da
aprendizagem” o autor destaca “a deterioração da aprendizagem” esteja liga a exigente
demanda de novos conhecimentos, saberes e habilidades, o autor também destaca dois
mecanismos de adaptação ao meio para entender a relevância social da aprendizagem, são
eles: a programação genética e a aprendizagem, a programação genética gera respostas a
estímulos, respostas prontas, rígidas e inflexíveis, que não podem se adaptar à condições
novas, enquanto que a aprendizagem traz respostas comportamentais, condizentes com
mudanças ambientais, por isso é mais flexível e adaptativa, ele coloca a aprendizagem como
um dos processos mais difíceis de simular, posto que aprender é uma propriedade adaptativa
inerente a organismos não aos sistemas mecânicos.
Pozo coloca como função fundamental da aprendizagem humana, interiorizar ou
incorporar a cultura para fazer parte dela, para ele, personalizar a cultura nos torna pessoas.
Ele traz algo muito importante para o debate que é a discussão do modelo de funcionamento
cognitivo de um bebê, segundo ele, um ser nascido para aprender, pois tem a facilidade de
aprender em média uma palavra a cada hora nos seis primeiros anos de vida. O autor também
esclarece que nossa aprendizagem não é apenas um processo genético, mas também cultural,
cada cultura gera as suas formas de aprendizagem, é “a Cultura da Aprendizagem”, a
aprendizagem da cultura acaba levando à cultura da aprendizagem, pois diferentes culturas
desenvolvem formas diferentes de aprendê-la.
Na visão de Pozo, a deterioração da aprendizagem é mais aparente do que real, pois
vivemos hoje outras demandas de aprendizagem, conteúdos antes necessários e que hoje são
obsoletos, caíram no esquecimento cultural, o autor lista várias atividades que já não existem
mais, como brincar de pião, fogão a lenha, máquina de escrever, a tecnologia mudou muitos
hábitos recentes. Para o autor, o que é relevante ou não do que foi aprendido, muda de pessoa
para pessoa, muda-se culturalmente tanto que se aprende como a forma como se aprende
(conteúdo e forma). Forma e conteúdo na aprendizagem são dois espelhos que devem refletir
a mesma imagem, pois tanto o aprender como o ensinar devem evoluir, e quando isso não
ocorre, causa uma deterioração dessas imagens. A cultura da aprendizagem precisa evoluir
paras as necessidades de educação da sociedade atual, ele também coloca a necessidade de se
conhecer essas novas demandas para entendê-las.
Por fim, Pozo diz que não é apenas transformar essa nova cultura num pacote de
rotinas recicladas, como se atualiza um programa de computador, mas repensar o que fazemos
todo dia, repensar a cultura da aprendizagem em vez de repeti-la, desmontá-lo peça a peça
para construí-lo.
No segundo tópico do capítulo 1 “Uma breve história cultural da aprendizagem” é
evidenciado pelos registros do autor quanto a informações sobre a história da aprendizagem,
citando Samuel Kramer (1956) que diz que as primeiras culturas urbanas surgiram por volta
de 3.000 .C no delta do Tigre e do Eufrates, gerando novas formas de organização social e
nascendo assim o primeiro sistema de escrita, expressando em tabuinhas de cera contas e
transações agrícolas abrangendo também a vida social. Surge assim as “casas de tabuinhas” as
primeiras escolas da história, qual era o modelo de aprendizagem desses primeiros centros de
aprendizagem? Pelo que sabemos, trata-se de aprendizagem memorística ou repetitiva.
Vocábulos e expressões que se relacionavam pelo sentido, os alunos repetiam de
memória e aí copiavam e recopiavam até que pudessem reproduzir com facilidade, a função
da aprendizagem era apernas reprodutiva, segundo o autor, os aprendizes seriam apenas ecos
da cultura da época que fosse mais relevante para trazer avanço na organização social. A
escrita então se trona “a memória da humanidade”, os grandes poemas como “A Ilíada e a
Odisseia” foram aprendidos pela técnica memorística e repassada por tradição oral, a escrita
ainda não servia para libertar a memória, em grande parte por conta dos recursos de
reprodução e conservação.
Pozo esclarece que a escrita alguns séculos depois não vieram libertar a memória,
mas sobrecarregá-la ainda mais, pois já que a escrita ainda era algo bem dispendioso, eles
tinham que memorizar literalmente para se tornar uma memória viva. Surgindo assim
sistemas que aumentassem a eficácia da memorização, como a arte mnemônica como grande
expoente, Na Grécia e Roma antiga surgem outros modelos de aprendizagens, além da
educação elementar dedicada ao ensino da leitura e da escrita, temos a música e ginástica em
Atenas e a eloquência, em Roma escolas de educação superior, as universidades tinha a
função de formar elites pensantes fugindo do modelo de revisão e repetição.
Pozo acentua que a academia de Platão recorria ao método socrático, baseado nos
diálogos e persuasão, essas chamadas “comunidades de aprendizagem” eram fechadas quase
religiosas, e estavam em busca de uma verdade absoluta. Por outro lado, Pozo afirma que
Grêmios e ofícios formaram comunidades de aprendizagem diferentes, os artesões se
formavam de forma lenta, pois o aprendiz tinha que aprender e repetir as técnicas de seus
mestres, também ele dá um destaque para os quase dez séculos que vão da queda do Império
Romano ao renascimento, período em que não houve mudanças ou avanços na cultura da
aprendizagem, fazendo da Idade Média um período obscuro para a aprendizagem.
A igreja monopoliza a aprendizagem da leitura e da escrita, limitando o uso a obras
legitimadas pela igreja, o conhecimento religioso é o único que deve ser aprendido, a técnica
da mnemônica passa a ser considerada como uma virtude. O autor coloca que, a mais notável
das mudanças na cultura da aprendizagem foi a invenção da imprensa, libertando a memória
da pesada carga de conservar todo o conhecimento, a escrita passa a ser “A memória da
Humanidade”.
Nesse período segundo o autor, a memória repetitiva e tratados sobre a mnemônica
entram em declínio, chegando até ser criticados por Descartes, recordar lista de palavras sem
conexão já não serviriam mais para aprender os novos saberes, a secularização do
conhecimento tem muita relação com a imprensa trazendo vantagens consideráveis para a
cultura da aprendizagem. Pozo cita o mundo islâmico como exemplo de uma região onde
ainda não houve a secularização do conhecimento, e por isso a memória repetitiva e a arte
mnemônica ainda são a base da aprendizagem do mundo islâmico, a secularização do
conhecimento teve papel fundamental na progressão do conhecimento científico até os nossos
dias, é a “descentralização do conhecimento”.
Citando Ceruti, o desenvolvimento da ciência moderna se deve a descentralização do
papel e lugar do homem do cosmo, inicia com Copérnico nos tirando do centro do universo e
depois Darwin que nos fez perder o centro de nosso planeta, nos colocando como uma espécie
a mais da matéria orgânica, completando com Einstein nos fazendo perder nossas
coordenadas espaços-temporais mais queridas, jogando na antimatéria, buracos negros e
outros tantos mistérios da ciência. Os modos de pensar do Renascimento até hoje não só se
multiplicaram , mas dividiram, as verdades absolutas já não mais o centro do saber, devemos
aprender a conviver com conhecimentos relativos, parciais, fragmentos de conhecimento em
substituição ao conhecimento da verdade absoluta, causando assim uma contínua reconstrução
ou integração, ele finaliza dizendo que já que ninguém pode nos oferecer um conhecimento
socialmente relevante, devemos aprender a construir nossas próprias verdades relativa.
No terceiro tópico do capítulo 1 “Para uma nova cultura da aprendizagem: a
construção do conhecimento” a partir de três subtópicos o autor discute “A sociedade da
aprendizagem”, “a sociedade da informação” e “A sociedade do conhecimento”.
Ao discutir a sociedade da aprendizagem o autor retrata que a escola como
instituição social alcança um novo desenvolvimento na Revolução industrial, não se ensina
mais a ler e escrever como um meio para ter acesso a outros saberes, mas como um fim em si
mesmo, ele acrescenta ainda que as novas formas culturais acrescentam períodos de formação
mais extensos. A extensão da base do sistema educativo fez com que alcançasse camadas da
população cada vez mais distanciadas dessas necessidades formativas.
Esse quantitativo de alunos no sistema educativo, fez com que cada vez haja mais
alunos que não aprendem, e ainda alunos que aprendem, mas não são notados em sala de aula,
para Pozo, a extensão da educação obrigatória alcançou não só as instituições educativa, mas
também a vida social e cultural. Todos os âmbitos profissionais exigem educação e
reciclagem permanentes, Pozo afirmar que adquirir conhecimento é marca de nossa
sociedade, que mesmo após saírem das salas de aulas se dedicam a adquirir conhecimentos
culturalmente relevantes ou úteis para sua projeção pessoal.
Ele coloca o ócio como um grande incentivador desses novos conhecimentos, pois
muitas pessoas aproveitam o ócio para aprenderem algo novo, conhecimentos esses que são
extravagantes e inúteis, mas ele também fala sobre nunca houve tantas pessoas aprendendo
coisas diferente, mas também tantas pessoas empenhadas em fazer com que os outros
aprendam, todos somos alunos e professores. Ele classifica a riqueza de uma nação como a
“capacidade de aprendizagem”, o capital humano medido em educação e formação. Por outra
lado, Pozo afirma que a necessidade de uma aprendizagem contínua tende a saturar nossas
capacidades de aprendizagem, pois a aprendizagem sempre requer prática e esforço e a
aprendizagem contínua nos obriga a aprender de uma forma neurótica que prática nenhuma dá
conta de consolidar o aprendizado e esquecemos com facilidade, aí somos levados a correr
quando mal aprendemos a andar.
Pozo coloca com outra característica das sociedades da aprendizagem a
multiplicação dos contextos de aprendizagem, não é apenas aprender muitas coisas, mas
aprender muitas coisas diferentes, já que temos que aprender muitas coisas diferentes com
fins diferentes, precisamos saber adotar estratégias diferentes para cada uma delas, não
estremos sempre a apertar a mesma porca com a mesma chave (Tempos Modernos). Tanto
alunos como professores precisam adquirir muitas ferramentas diferentes para tarefas
diversas.
Ao tratar da sociedade da informação Pozo (2002) afirma que a demanda de uma
aprendizagem constante é fruto do fluxo de informação constante que nos submetemos, as
tabuinhas de cera representaram a revolução cultural na aprendizagem da sociedade suméria,
as tabuinhas eram instrumentos de medição ente a informação e a memória humana, no
entanto a confiabilidade na memória humana para registros e transações era muito escassa, a
impressão de livros era bem menos laboriosa do que os manuscritos, a conservação e difusão
mais fácil e acessível, a igreja perdeu o monopólio do conhecimento, é a era da
descentralização dos saberes. A ciência não pode ser mais memorizada , ele tinha que ser
compreendida, estamos assistindo uma terceira revolução nos suportes da informação, uma
nova cultura de aprendizagem abre passagem, são os grandes bancos de dados com
informações mais imediata e fácil de processar, se antes a informação tinha de ser buscada
agora ela vem ao nosso encontro, ela nos procura em televisão , rádios, cinemas, é a
informação não buscando, inclusive chegando a trazer uma informação com contexto
educacional antes mesmos dos centros de aprendizagem, esses saberes informais junto com o
conhecimento educacional ficam de forma desordenada na mente dos alunos.
Pozo citando Pylyshyn (1984) diz, que somos autênticos informívoros, necessitamos
de informação para sobreviver, para a ciência da comunicação, informação é tudo o que reduz
a incerteza de um sistema, previsão e controle são duas funções fundamentais da
aprendizagem. O autor alega que um traço característico de nossa cultura de aprendizagem
que em vez de buscar informações para alimentar nossa ânsia de previsão e controle, estamos
superalimentados de informação fast food, ele postula que a aprendizagem repetitiva é
ineficaz e insuficiente. É fácil detectar uma mudança de geração em nossas atitudes diante das
mudanças culturais produzidas pelas novas tecnologias da informação, o computador ocupa
hoje o espaço que já foi do rádio e da televisão. Essa incorporação desses novos elementos em
nossa cultura nos traz uma sensação de perda de identidade, e é o mesmo sentimento que os
professores sentem diante da troca da letra impressa pela cultura da imagem.
Ao discorrer sobre a sociedade do conhecimento o referido autor alega que a
invenção da imprensa possibilitou a difusão e intercâmbio de conhecimento para além dos
muros dos monastérios, essa perda progressiva de controle da igreja sobre o conhecimento,
não trouxe a extinção dos mecanismos de controle, na verdade nas sociedades modernas eles
se multiplicaram, Pozo traz algo interessante à tona que é a concepção realista do
conhecimento que dominou durante muito tempo, que dizia que conhecer é descobrir a
natureza real do mundo, porque existe uma realidade ai fora esperando ser conhecida, mas
essa realidade que todos deviam dedicar todos os esforços em busca do saber absoluto,
resultou ser uma quimera, uma invenção ingênua, uma construção intelectual.
O autor nos fala do abandono da arte da pretensão figurativa de representar o mundo
tal como é, assim o nosso conhecimento nunca poderá ser o reflexo do mundo, conhecer não é
refletir a realidade, é elaborar modelos que se pareçam o mais possível ao que sabemos dessa
realidade, Pozo também diz que a ciência não é uma coleção de fatos, é um sistema de teorias,
daí vem a mudança no ensino de dados e fatos para o ensino de sistemas conceituais que os
integram, a literatura também passou por essa mudança, ela rompeu com as formas canônicas
de narração , aonde o narrador era onisciente-onipresente, o narrador é parte do narrado, a
literatura como outras formas de arte não é pra refletir o mundo, mas para inventá-lo, cria-lo.
Na visão de Pozo, a democratização do saber também fez com que se criassem
pontos de vista distintos em contínuo contraste, os mecanismos de controle se multiplicaram e
se intensificaram sobre o conhecimento, fazendo com que a informação dependendo de sua
fonte ou origem é contraditória e impossível de reconciliar, nessa questão o autor cita a
abordagem de dois diferentes jornais para o mesmo fato. Ele diz que a descentração do
conhecimento alcança quase todos os setores de nossa cultura, muitos personagens em busca
de um autor, muitos conhecimentos dispersos em busca de um aluno que os intérpretes,

As questões apontadas sobre a nova cultura da aprendizagem nos permitem discutir o


ensino da língua espanhola destacando as dificuldades de aprendizagem, que são inúmeras, a
começar em adquirir habilidades novas ou lembrar de um dado importante, junto com a
compreensão desses dados e a falta de controle emocional, hábitos e atitudes, tudo isso junto
forma o que é chamada de “fracasso da aprendizagem” ou “fracasso escolar”, ainda que hoje
já exista essa consciência dessas dificuldades que a aprendizagem nos apresenta, é confortante
saber que há um empenho em superar essas mesmas dificuldade, para assim mudar o quadro
de alunos aprovados que não aprendem nada.
Algumas decisões tomadas para diluir essas dificuldades na aprendizagem não
tiveram o efeito desejado, como o aumento obrigatório do tempo de estudo, é como se você
não sabendo das dificuldades que seu aluno tem em entender, compreender um dado assunto,
e simplesmente manda ele estudar mais, isso não resolve o problema e ainda adiciona mais
entraves a aprendizagem desse aluno. É muito confortável apontar como culpados nesse
fracasso os aprendizes e mestres, que são os personagens mais evidentes desse cenário, talvez
devamos direcionar nosso olhar para o todo, não pensar que um não se esforça para aprender
enquanto o outro não sabe ensinar, mas sim que os recursos deixados a disposição para o
ensino transcorra não tenha sido pensado, projetado pensando nas individualidades desses
agentes (aprendizes e mestres), quantos livros didáticos não atendem mais a essas
especificidades, quantas salas de aulas estão defasadas ou completamente obsoletas, recursos
tecnológicos em completo abandono e sem manutenção, escolas inteiras precisando passar por
reformas até estruturais, pois já vimos casos de denúncias aonde alunos estudavam em salas
de aulas com goteiras, telhados em risco de cair e outros casos mais de falto de amparo do
poder público e órgãos competentes. É preciso pensar sim nesses pormenores, e achar
soluções que satisfaçam as necessidades de ensino e de aprendizagem, pensar nas
especificidades de cada aprendiz e mestre. Propiciar elementos para que cada aprendiz tenha
total controle sobre sua aprendizagem, desenvolvendo sua autonomia, isso faz com que ele
assuma responsabilidade sobre seu aprendizado, se tornando independente, o mestre deixa de
ser o detentor de toda a verdade, e se torna um facilitador, um guia nessa busca por
conhecimento e desenvolvimento.
A programação genética e a aprendizagem são duas formas de adaptação ao meio em
que vivemos que nos faz entender melhor a aprendizagem e sua relevância social, a primeira
que é própria dos invertebrados e outros, onde são gerados estímulos, ações de respostas
padronizadas, sendo acionados por algum gatilho, uma situação de risco por exemplo aciona
esse tipo de resposta, sendo um tipo de resposta direta, inflexível, não é uma ação
desenvolvida, pois o indivíduo não teve experiências anteriores que motivassem aquela
resposta, pois até os seres recém nascidos já tem essas defesas pré-prontas . Já na
aprendizagem para cada mudança externa, é gerada uma resposta adaptada, condizente com
aquela situação, nos seres superiores, especificamente nos primatas se verificam esses
comportamentos, nos humanos esse comportamento se acentua com o passar do tempo, por
isso fases como infância e adolescência serem tão importante a espécie humana, pois nela,
através de brincadeiras que não trazem risco nem ameaça, as crianças aprendem sobre
segurança, respeito, família, comunidade, amor, etc., formando assim bases seguras de
aprendizagem que irão definir aquele individuo como pessoa nas suas individualidades e
especificidades Personalizar a cultura nos torna pessoas, isso nos dá sentido de pertencimento,
de não estar ao léu , mas de pertencer a um lugar , a uma comunidade , a uma cultura, e essa é
uma das fundamentais formas de aprendizagem, pois diferentes culturas também diferem na
forma de aprendizagem, cada cultura desenvolve a sua cultura de aprendizagem.
Temos hoje muitos saberes e conhecimentos que não estão em uso nem são mais
necessários, quantas pessoas fizerem o tão famoso curso de datilografia? Outros saberes são
necessários hoje, e não sabemos se a amanhã eles serão necessários, até muitas brincadeiras
foram deixadas de lado e esquecidas com o tempo, muitas atividades deixaram de ser
relevantes, e a relevância de algumas dessas atividades são determinadas culturalmente. E
toda essa mudança faz parte da evolução da espécie humana, estamos evoluindo, nos
adaptando, criando demandas, novos caminhos, e isso atinge a aprendizagem, pois como
mudam as formas de se aprender, tem que mudar também as formas de ensinar, existem
necessidades hoje que vão se criando a cada dia, isso é um processo contínuo, então,
precisamos entender essas novas demandas para assim criar modelos e processos de
aprendizagem que atendam às necessidades atuais. Há que se ter o cuidado de não apenas
atualizar o modelo de aprendizagem, mas refletir a cada dia sobre a cultura da aprendizagem
para assim desconstruí-lo e iniciar outro que atenda as novas demandas.
A própria escrita nasce de uma necessidade, que era anotar, guardar informações
comerciais, surgindo assim as tabuinhas de cera, como é próprio do ser humano, cada nova
atividade criada surge a necessidade de se ensinar esses novos saberes, assim surgem “as
casas de tabuinhas”, o modelo de aprendizagem desse período é o memorístico ou repetitivo,
pois não se podiam confiar apenas na memória humana para se guardar, datas, taxas de juros,
quantias em transação, sendo assim a escrita se tornava “a memória da humanidade”. A
técnica da memorística foi responsável pela transmissão oral de poemas famosos como A
ilíada e a Odisseia, pois os recursos de reprodução e conservação dos escritos ainda muito
escassos, a necessidade da memória para guardar muitas informações ainda libertavam a
memória humana desse fardo.
Já em Roma e Atenas a educação passa por uma mudança, surgem outros modelos de
aprendizagem, como centros de ensino, onde se aprendia não só leitura e escrita, mas também
esportes, artes, a eloquência e o modelo socrático (diálogo e persuasão) foram introduzidos na
educação ateniense. De outra forma, surgem outras formas de aprendizagem que eram os
artesões e seus aprendizes, baseados num sistema de repetição de técnicas, tornando o
aprendizado bem lento e demorado. Durante quase dez séculos a cultura de aprendizagem
estagnou, todo o processo de aprendizagem ficou no poder da igreja, e o fato que trouxe
libertação à aprendizagem foi a invenção da impressa por Gutemberg, ao mesmo que tempo
que passou o cargo de “A memória da humanidade” da memória para a escrita.
Várias descobertas começaram a se difundir com a recém-criada imprensa, como a
descobertas de Copérnico do Heliocentrismo, dando início a ciência da Astronomia, Einstein
e Darwin também como tantos outros cientistas, pesquisadores e estudiosos, que são fruto
dessa secularização do conhecimento.
Na revolução Industrial a escola adquire um novo fim, não se trata mais de aprender
para adquirir novos saberes, mas um meio para alcançar um fim específico e determinado, o
aumento do ciclo formativo traz uma mudança educacional que causou transformação em
toda a sociedade, mais pessoas foram alcançadas? Sim, foram, no entanto, os números de
pessoas que não aprendiam nada aumentou consideravelmente. Nesse momento, toda as
atividades profissionais foram afetadas por essa mudança educacional, pois, mais pessoas
estudando significava mais profissionais no mercado que também acarretaria mais atividades
sendo criadas, outras atividades se tornando obsoletas, criando-se a necessidade constante de
reciclagem e atualização desses profissionais.
Tendo como grande marca a necessidade de saber mais, de conhecer mais, de consumir
informação, e a completa falta do que fazer é um grande estimulador dessa busca por
informações, nos tornamos consumistas, não de produtos, mas de informação, de conteúdo,
uns totalmente irrelevantes, outros ainda aproveitados. A televisão e o Rádio foram grandes
expoentes de plataformas de consumo de informação e conteúdo, por serem tecnologia de
massa, hoje temos o celular e a internet cada dia mais avançando e nos trazendo informações
relevantes ou, assim, novas demandas consumistas individuais continuam sendo satisfeitas e
alimentadas dia após dia. Claro esse superavit de informação acaba por prejudicar a nossa
capacidade de aprender, pois a aprendizagem requer prática e esforço, nosso sistema
cognitivo não dá conta dessa erupção de informações que surgem e acabamos que
esquecemos com facilidade porque aquele conhecimento não foi consolidado.
Na sociedade de informação, ainda no começo com as tabuinhas de cera, elas não
deram conta da constante troca de informações que as sociedades da época trocavam entre si,
e nem a memória humana era capaz de guardar tantos dados importantes com a confiabilidade
devida, por isso a transferência para os registros escritos foi tão bem-sucedida, com a perda do
monopólio da igreja sobre o saber, onde não se tratava mais de memorizar a ciência, agora era
entre e compreendê-la. O que se tem nesse momento é a ascensão dos grandes bancos de
dados, não era preciso ir atras para se informar, a informação vinha atras de você.
Rádio, televisão, radio e cinemas nos trazem nem sempre conteúdo que eduquem ou
que informe, e esse tipo de informação é que tem que ser bem trabalhado na mente dos
alunos, já que desde cedo ainda buscamos informações, e essas informações que buscamos, já
são informações prontas, acabadas, conceituadas, ideologizadas.
Ao tratar da sociedade do conhecimento, entendo que mesmo havendo a
secularização do conhecimento, isso não trouxe a extinção dos mecanismos de controle, mas
houve uma multiplicação desse controle, é a concepção realista do conhecimento, a busca pela
natureza real do mundo que se descobre depois ser uma utopia, invenção. A mudança que arte
passou no sentido de abandonar a pretensão de representar o mundo tal como ele era, o
conhecimento também estabelece esses parâmetros, não refletir o mundo, mas conceituar
modelos que se aproximem dessa realidade, do mesmo modo a literatura passa por essa
mudança, quando o narrador começa a fazer parte da história, não apenas contá-la.