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“Litania" é uma palavra que descreve uma oração formal, lida sempre da mesma

maneira pelas pessoas que freqüentam a igreja. Depois da Reforma, muitas litanias foram
abandonadas pelas igrejas protestantes, e muita coisa de origem católica romana foi rejeitada
pelas novas igrejas. Disso resultaram algumas perdas espirituais que não podíamos
dispensar, pois alguns dos católicos romanos devotos são capazes de nos ensinar verdades
vitais. O poder do evangelho e a presença do Senhor Jesus Cristo infiltram-se mesmo em
igrejas sonolentas, e algumas pessoas chegam a conhecê-lo e a amá-lo, como no caso de
Martinho Lutero, dentro da Igreja Católica. Se nós, protestantes, possuíssemos algo da
profundidade espiritual evidenciada por homens tais come Francisco de Assis, creio que
poderíamos realizar muito mais para o Senhor. Eu não sei o nome do católico romano que
escreveu a seguinte litania, mas ela fala duma vida que todos os discípulos de Cristo
precisam experimentar:
"Ó Jesus, manso e humilde de coração, ouve-me.
Livra-me, Jesus,
do desejo de ser estimado
do desejo de ser amado,
do desejo de ser exaltado,
do desejo de ser honrado,
do desejo de ser louvado,
do desejo de ser preferido a outros,
do desejo de ser consultado,
do desejo de ser aprovado,
do medo de ser humilhado,
do medo de ser desprezado,
do medo de ser repreendido,
do medo de ser esquecido,
do medo de ser ridicularizado,
do medo de ser prejudicado,
do medo de ser alvo de suspeitas.
E, Jesus, concede-me a graça de desejar
que outros possam ser mais amados que eu,
que outros possam ser mais estimados que eu,
que na opinião do mundo
outros possam crescer e eu diminuir,
que outros possam ser escolhidos
e eu posto de parte,
que outros possam ser louvados
e eu passe despercebido,
que outros possam ser preferidos
a mim em tudo,
que outros possam tornar-se mais santos
do que eu, contanto
que eu me torne
tão santo quanto devo ser."
Se nós orássemos assim, sinceramente, todos os dias, estou certo de que o Espírito
Santo transformaria dum modo maravilhoso as nossas vidas. Creio que as qualidades de que
se fala nesta oração podem tomar-se, hoje, nossas. Deve ser este o nosso alvo, e não a
realização de qualquer tarefa especial para Deus.

Existem muitos substitutos baratos e caminhos secundários para a santidade genuína.


Podemos vaguear dum caminho falso para outro, apoiando-nos em falsificações do
discipulado novo-testamentário, em vez de possuirmos a realidade.

Quando eu era estudante, senti fome de saber em que consistia a santidade cristã, e
investiguei as Escrituras a fim de descobrir o coração da mensagem do Novo Testamento.
Cheguei à convicção profunda de que o Espírito Santo deseja produzir indivíduos
semelhantes a Cristo — não autômatos religiosos, nem campeões em doutrina, nem furacões
evangelísticos, mas homens que sejam como Jesus Cristo. E, basicamente, é disso que trata
esta oração.

Estes atributos são característicos de Jesus. Ele, na realidade, não foi estimado, não foi
amado, não foi exaltado. Ele não quis receber honra nem nenhuma das coisas por que
suspiram os homens ambiciosos. Finalmente, Ele foi completamente desprezado e,
conseqüentemente, executado. Esta oração foi escrita por uma pessoa que conhecia Deus
intimamente.

A obra que Deus quer Fazer acima de tudo nos nossos corações é produzir a
semelhança com Cristo. E um trabalho que durará toda a nossa vida — não há atalhos para
este tipo de crescimento espiritual. Não há qualquer organização ou atividade que o possa
substituir. Precisamos duma constante fome e sede de que a natureza de Cristo seja
reproduzida em nós. Precisamos também ter uma clara consciência da incessante guerra
espiritual que nos rodeia.

Os homens que andam na guerra têm de estar prontos a morrer em qualquer dia.
Podem não conhecer a Cristo, mas quando saem para a peleja dispõe-se a perder a vida, pois
doutra maneira seriam fracos soldados. Precisamos de algo desse mesmo espírito na guerra
espiritual. Nós que possuímos a vida eterna de Cristo, necessitamos lançar fora as nossas
próprias vidas. Esta pronta disposição pode surgir quando orarmos e vivermos na direção
desta oração.

Começa assim: "Livra-me, Jesus, do desejo de ser estimado." Todos nós temos um
desejo inato de sermos estimados. Por mais insignificantes que sejamos, queremos ser
apreciados. Quando nos encontramos com um novo grupo de cristãos, e um deles diz: "É um
prazer tê-lo conosco, Irmão! Gostaria de nos falar do que Deus está fazendo na sua vida?" —
então sentimo-nos compensados. Mas se somos ignorados ou desprezados, ficamos feridos.
Quer sejamos extrovertidos ou introvertidos, desejamos egoisticamente atenção e, portanto,
todos precisamos orar: "Senhor, livra-me do desejo de ser estimado." Em Filipenses, Paulo
adverte contra os resultados da excessiva auto-estima: "Nada façais por partidarismo, ou
vangloria, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo" (2:3).
Isto requer o poder do amor de Jesus Cristo.

A segunda súplica da oração é: "Livra-me, Jesus, do desejo de ser amado." Ser amado
é a nossa necessidade psicológica básica. As crianças não se podem desenvolver
normalmente, sem amor, e os adultos não podem trabalhar felizes sem a segurança do amor.
Deus satisfez supremamente estas necessidades, dando o Seu Filho por nós, em amor. “Nisto
conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós" (1 João 3:16). A maior
demonstração que Deus pôde fazer do Seu amor foi dar o Seu Filho amado e perfeito para
nos redimir do pecado. O Seu desejo em relação a nós é que ministremos uns aos outros esse
mesmo amor, pois o texto citado continua: "e devemos dar nossa vida pelos irmãos".

Creio que alguns cristãos lutam ansiosamente por manifestações do amor de Deus, por
não experimentarmos o amor de irmãos na fé como Cristo ordenou. Quando flui pouco amor
entre nós, podemos sentir-nos impelidos a buscar favores e bênçãos especiais da parte de
Deus, como uma confirmação de que somos amados.

O plano de Deus, de acordo com as Escrituras, é que os cristãos se amem uns aos
outros, assim como Cristo amou a Igreja e a Si mesmo Se entregou por ela. A pessoa é
apanhada na revolução do amor e difunde-a tanto horizontal como verticalmente.

A maior parte dos homens que estão ardendo em zelo por Deus recebeu a centelha de
outro homem em fogo. Grandes servos de Deus cresceram até a semelhança de Cristo,
porque haviam estado em comunhão com um homem de Deus, bem assim com o próprio
Deus. Deus encontra-nos na oração e na Sua Palavra, mas também vem ao nosso encontro
através da pessoa e exemplo de outro irmão.

Eu devo mais ao amor e encorajamento de outros cristãos, do que posso expressar. Um


deles é Billy Graham, embora eu não o conheça na intimidade. Li a história da sua vida e
tenho seguido o seu progresso; uma vez, cumprimentei-o no meio duma multidão e, mesmo
ali, senti o seu amor.

Eu tinha ido a serviço ao seu escritório, em Londres, e já se encontravam lá muitas


pessoas antes de mim. Todo o pessoal do escritório estava envolvido nos preparativos para
uma campanha evangelística, e ninguém falara com o meu amigo ou comigo, a não ser o
recepcionista. Nesse momento, entrou Billy Graham e começou imediatamente a apertar a
mão a todos os presentes. Dirigiu-se a nós e cumprimentou-nos, dizendo-nos algumas
palavras muito amáveis. Ali estava um homem famoso, cinqüenta vezes mais ocupado do
que a maior parte das pessoas, mas que achava tempo para dar um aperto de mão aos
desconhecidos que se encontravam fora de seu escritório. Isso foi particularmente animador
para mim, pois tinha encontrado Cristo como meu Salvador, através da pregação de Billy
Graham.

As pessoas chegarão a conhecer Jesus, se nós formos ao seu encontro e as amarmos


desta maneira, mas a revolução do amor não se poderá propagar se nós estivermos
empenhados em ganhar o amor dos outros. Todos precisamos de amor, mas o discípulo
cristão concentra-se em dar amor, porque o tem recebido de Deus em abundância. Uma
prova difícil vem quando sentimos que não somos amados e que somos rejeitados como
Jesus foi. Mas nesse momento crucial podemos provar quão maravilhoso é o amor do
Senhor, dando-nos a nós mesmos pelos outros.

A outra cilada de que temos de ser libertos é "do desejo de ser exaltado". Eu defino
"exaltar" como lisonjear ou louvar. Apreciamos muito isso! E quase como tomar parte num
banquete. Jesus, como lemos em Filipenses, era exatamente o contrário. Ele era "tudo" no
céu, e tornou-Se como um criminoso na terra. A Bíblia diz: "Se o grão de trigo, caindo na
terra, não morrer, fica ele só". Para dar fruto, o cristão tem de morrer para si mesmo. Não
procure ser levantado, submerja-se.

Isto pode ser posto em prática todas as vezes que não repararem em nós ou não
reconhecerem os nossos feitos. É duro para o ego — mas é disso exatamente que o ego
precisa. Esta oração ajuda-nos a desligarmo-nos radicalmente da cancerosa ânsia de ser
alguém, de conseguir uma posição superior aos outros. Ela impede a invasão traiçoeira de
Satanás aos obreiros cristãos.

A prece seguinte é muito semelhante a esta: "Livra-me do desejo de ser honrado."


Deus disse: "Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros, e, contudo não
procurais a glória que vem do Deus único?" (João 5:44). O testemunho de Jesus era: "Eu não
aceito a glória que vem dos homens." Muitas vezes, depois de um cristão ter realizado
alguma coisa para Deus, é tentado a explorá-la para enaltecer a sua honra pessoal. Esta
tentação vem de Satanás. Algumas honras e reconhecimentos são muito sutilmente
perniciosos. Vêm de pessoas ou organizações cristãs bem intencionadas, e esses elogios
tornam-se alimento para a exaltação própria. Por vezes, podemos receber mais honra de
amigos cristãos do que das pessoas do mundo, e essa fonte "santificada" torna o louvor muito
mais insidioso.

Há mesmo o perigo de procurarmos experiências espirituais do engrandecimento


próprio. Somos tentados a dar testemunho acerca da libertação do pecado, duma oração
respondida, ou de qualquer outra experiência da graça de Deus, dum modo que nos traga
satisfação a nós mesmos, em vez de darmos honra a Deus. A Sua graça deve ser realmente
louvada, mas não ostentada como sinal do nosso mérito.

Por vezes, recebo cartas de jovens que desejam preparar-se e que escrevem
recomendando-se a si mesmos. Informam-me de quão importantes são e de quantas
qualificações possuem. Você poderá imaginar-se recebendo uma carta assim do apóstolo
João? Claro que houve tempo em que, como os outros, João procurou crédito e, mesmo,
prioridade por ter seguido a Jesus, mas isso foi antes de a cruz ter produzido uma revolução
na vida de todos eles. Não é mau ser encorajado. O que não está certo é procurar o louvor e
elogios dos outros. Será que louvamos tanto a Deus quando estamos sós, como quando
estamos acompanhados? Será que continuamos o nosso trabalho a sós com tanto entusiasmo
como quando estávamos sendo observados? Eu não gosto de trabalhar sozinho e acredito no
trabalho a dois. Mas por vezes, estamos preocupados com a nossa honra ou com a de Deus.

A petição a seguir está muito próxima desta no seu significado: "Livra-me do desejo
de ser louvado." Isto se relaciona com os contatos e atividades de todos os dias. Se temos
fome de louvor, aceitamos prontamente migalhas de aprovação de qualquer pessoa, sejam
elas sinceras e honestas, ou não. Tal louvor torna-se podre na boca de homens volúveis e sem
princípios.

Também oramos: "Livra-me do desejo de ser preferido aos outros." Como é que nos
sentimos quando, sendo nós qualificados, é escolhida qualquer outra pessoa? Alegramo-nos
quando outro ciente é honrado? Esta bênção dada a outro pode ferir-nos profundamente.
A.W. Tozer diz: "A cruz ferirá profundamente as nossas vidas no lugar onde mais nos
magoe, sem nos poupar a nós, nem a nossa reputação cuidadosamente cultivada." Os homens
do mundo dão muita importância à sua categoria, mas João Batista declarou facilmente:
"Aquele que vem depois de mim já existia antes de mim."

"Livra-me também do desejo de ser consultado." A nossa experiência e conhecimento


tornam-se entraves quando esperamos que os outros condescendam conosco e reconheçam a
nossa sabedoria. Não nos darem importância é particularmente doloroso quando o nosso
conselho parece estar tão nitidamente certo. Mas esta é outra forma de nos servirmos a nós
mesmos, uma vez que podemos confiar que Deus aplicará o nosso conselho se ele for
necessário para a Sua Glória.

Muitos de nós precisamos, também, ser libertados "do desejo de ser aprovado" — de
recebermos dos outros a certeza de que, afinal, nós estávamos certos. Os discípulos têm de
continuar a aprender na escola da vida de Deus. Quando alguém me pergunta que curso é
que eu estou fazendo, respondo: "O curso de A.P.D — Aprovado Por Deus". Não me será
concedido o diploma nesta vida, mas é o único que interessa eternamente.

Um fardo comum que todos carregamos é "o medo de ser humilhado". Queremos
"parecer bons" aos outros, desejando mesmo causar impressões favoráveis "para Deus". Mas
Deus não tem esse problema — na Sua perfeição e poder Ele nunca Se sente humilhado. E o
Seu Filho não Se furtou às humilhações quando esteve na terra.

Deus leva-nos muitas vezes pelo mesmo caminho que o Seu Filho seguiu. As
humilhações são uma ilustração viva do contraste entre os processos de Deus e os dos
homens, e apontam o caminho para a salvação. As estatísticas mostram-nos que os nadadores
que têm praticado socorros a náufragos são propensos a morrerem afogados por se sentirem
demasiado confiantes na água. Deus quer salvar-nos duma confiança demasiada no "eu" e,
portanto, humilha-nos. Ele mina e enfraquece os nossos pontos naturalmente fortes para
nosso bem e para o nosso crescimento nEle. Não temamos a humilhação que pode trazer este
valioso benefício.

Livra-nos, também, Senhor, "do medo de ser desprezado". Oh! quanto necessitamos
desta ousadia para o testemunho! Tantas pessoas escarnecem dos cristãos que testemunham
de Cristo. Aquele que distribui folhetos pode ser desprezado, mas nós que conhecemos o seu
valor, devemos entregá-los como se fossem notas de banco. Algumas pessoas reagem à
"invasão da sua, vida privada" no que diz respeito aos assuntos espirituais, mas a testemunha
cristã está a investir na eternidade. Que o amor de Deus afaste por completo este medo.

O "medo de ser repreendido" apega-se à maioria dos cristãos e, contudo, precisamos


de correção para evitar atrasos no nosso discipulado. Os cristãos têm de aprender a falar uns
com os outros tanto em amor como em repreensão. Embora aprendamos principalmente do
Espírito de Deus, Ele pode usar um irmão ou uma irmã para nos ensinar. Os discípulos
fervorosos podem esperar que Deus fale através da Sua Palavra, da oração e das exortações.

Deus tem me concedido, creio eu, uma graça crescente para aceitar repreensões, mas
tem levado anos. Eu reagi como uma cobra cascavel às primeiras repreensões que recebi
como cristão. Existe uma grande diferença entre uma cobra cascavel e um verme. A Bíblia
compara Jesus a um verme no tratamento que recebeu (Salmo 22:6). Se você bater num
verme, ele contorce-se ou morre, mas se ferir uma cascavel, ela responder-lhe-á, atacando.
Quão significativo é o fato de Satanás ser descrito como uma serpente!
As nossas vinte e cinco razões pelas quais o outro amigo está errado e nós certos estão
sempre debaixo da nossa língua. Mas a prontidão ou relutância em nos defendermos a nós
mesmos constitui uma medida da nossa espiritualidade. Imploremos a Deus que nos dê
coragem para aceitarmos a repreensão.

Depois, há também o quase universal "medo de ser esquecido". Na Índia, onde as


condições de vida são tão pobres, algumas pessoas acumulam dinheiro para terem a certeza
de que um belo memorial sobre a sua sepultura irá perpetuar o seu nome. Algumas igrejas
cristãs também estão cheias de memoriais — que perpetuam o nome e o prestígio dos
mortos.

Muitos de nós receamos ser esquecidos pelos amigos. Se não lutarmos para provar o
nosso valor e as nossas boas obras, as nossas contribuições passadas poderão ser esquecidas
— e nós também.

Mas a vida não se vive no passado. O serviço, a satisfação e a participação são


experimentadas no presente. Esquecendo as coisas que ficam para trás — embora jamais
possamos esquecer as pessoas — prosseguimos para o alvo do dia de hoje. Receamos ser
lembrados somente pelo passado. Deus lembra-se de tudo o que fazemos de bem e isso é
suficiente.

"Livra-me, Jesus, do medo de ser ridicularizado." A pessoa que consegue rir-se de si


mesma é sábia. Às vezes, há motivos muito bons! Não raro, o ridículo é malicioso e pretende
ferir. Em tais ocasiões, pode ser difícil reconhecer que o ridículo seja um bumerangue,
ferindo a sua origem. A Bíblia diz: "O Senhor olha para o coração" e, se o meu coração é
reto, posso experimentar a plenitude da paz. Quando pomos os nossos corações a nu na Sua
presença, Ele está pronto a dar-nos segurança quando o homem está pronto a ridicularizar.

"O medo de ser prejudicado" pode impedir-nos de confiarmos nas pessoas. Este medo
pode nos paralisar, obstando a que demos o passo de fé que está logo diante de nós.

O "medo de ser alvo de suspeitas", intimamente relacionado com este, imobiliza


alguns cristãos. Mas nós haveremos de ser sempre mal compreendidos por alguém,
independentemente do que façamos. O fato de você orar muito em público levará alguns a
pensar que está pretendendo exibir a sua espiritualidade. Não podemos deixar-nos prender
pelo medo do que os outros possam pensar. "Alegrai-vos" — disse Jesus — "quando,
mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.” Podemos chegar àquele grau de
liberdade em que, por amarmos o Senhor Jesus e agirmos com fé, não nos sentirão ansiosos
quanto ao que as outras pessoas possam pensar ou suspeitar. A segunda seção desta oração
trata de desejos dignos. "Jesus, concede-me a graça de desejar que outros possam ser mais
amados que eu." Isto recorda-nos a necessidade que as pessoas têm de amor, a qual eu posso
ajudar a suprir. Por onde quer que passe, encontro pessoas que necessitam de amor e atenção
— de serem visitadas, escutadas, de receberem cartas, de alguém que ore com elas. Como é
que esta enorme necessidade pode ser satisfeita? Só pela graça de Deus operando em mim, a
fim de que outros possam ser mais estimados do que eu.

"Concede-me o desejo de que na opinião do mundo outros possam crescer e eu


diminuir." O testemunho de João Batista é inequívoco: "importa que eu diminua". As frases
que se seguem na oração: "Que outros possam ser escolhidos e eu posto de parte; que outros
possam ser preferidos a mim em tudo; que outros possam ser louvados e eu passe
despercebido", resumem-se no princípio de que Jesus tem de crescer, mas eu tenho de
diminuir. Tenho de me esconder atrás da cruz, para que o meu Senhor possa ser visto e
adorado. Tenho de reconhecer que não sou ninguém, e assim, Jesus será o meu Tudo.

A frase final é revolucionária: "Que outros possam tornar-se mais santos do que eu,
contanto que eu me torne tão santo quanto devo ser." Há sempre o perigo de os cristãos
terem tal fome da realidade espiritual, que passem por cima das outras pessoas nessa sua
busca por ela. A vida cristã não é uma competição com outros. Temos um alvo comum e
crescemos juntos na força e na graça do corpo de crentes. Temos de beber juntos na Fonte da
Água Viva.

Poderemos honestamente proferir esta maravilhosa oração? Recordo-me de umas


palavras de AW.Tozer que tenho escritas na primeira página da minha Bíblia:

"A Igreja, neste momento, precisa de homens prontos a gastarem-se no combate das
almas. Tais homens estarão livres das compulsões que controlam os mais fracos, da
concupiscência dos olhos, da concupiscência da carne e da soberba da vida. Eles não serão
forçados a fazer coisas sob a pressão das circunstâncias. A sua única motivação virá de
dentro e de cima. Esta qualidade de liberdade é necessária, se queremos ter de novo profetas
nos nossos púlpitos, em vez de mascotes. Estes homens livres servirão a Deus e à
humanidade por motivos demasiado elevados para serem compreendidos pelo povo comum
que se arrasta hoje para dentro e para fora do santuário. Eles não tomarão decisões com base
no medo, não seguirão qualquer rumo só para satisfazer um desejo, não aceitarão qualquer
serviço por razões financeiras. Não praticarão qualquer ato religioso, por mero costume.
Nem se permitirão a si mesmos ser influenciados por amor da publicidade, ou pela ambição
duma boa reputação."

O elo entre esta passagem e a oração está claramente delineado. É como se estes dois
oradores, o católico mais antigo e o evangélico moderno, tivessem aprendido na mesma
escola. E aprenderam realmente, porque ambos estudaram aos pés de Jesus.