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O NÚMERO DA TRAIÇÃO

KARIN SLAUGHTER

Título Original: Gênesis

(c) 2009 por Karin Slaughter

Primeira edição neste formato: Janeiro 2012

(c) da tradução: Monica Faerna

(c) nesta edição: Livro Editora Roca, S. L.

Av. Marques de l’Argentera, 17, Pral.

08003 Barcelona.

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ISBN: 978-84-9918-417-3

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públicos.

Para meus leitores …

Obrigado por confiar em mim.


SINOPSE

Na sala de urgências do hospital mais ocupado de Atlanta, a doutora Sara Linton se ocupa dos
pobres, dos feridos e dos desafortunados. Desta maneira se refugia da

tragédia que fez cambalear sua vida faz uns anos. É então quando uma mulher gravemente ferida entra
no hospital e Sara se vê transladada de novo a um mundo de horror

e violência. A mulher, nua e com evidentes sinais de ter sido torturada, foi atropelada, mas está claro
que antes tinha sido aprisionada por uma mente retorcida.

Nos subúrbios de Atlanta, onde encontraram a paciente de Sara, a polícia local começou suas
pesquisas, mas o detetive Wíll Trent, do Escritório estatal

de Investigação da Geórgia, não espera que sua chefe lhe dê a autorização necessária para misturar-
se no caso: lança-se através do cordão policial e direto ao frondoso

bosque e consegue encontrar uma casa dos horrores escondida clandestinamente e um novo
cadáver… a terrível realidade é que a paciente da Sara é uma das múltiplas

vítimas de um assassino cruel e sádico.

Wíll e sua companheira Faith Mitchell, outra detetive que por sua vez tem seus próprios segredos,
conseguem investigar o caso, embora que para isso tenham

que brigar com o chefe local de polícia e justo então outra mulher -inteligente, atrativa, bem situada e
mãe de um menino pequeno-é seqüestrada. Wíll e Faith se

encontram no olho de um furacão e tentam caçar e capturar a um assassino. E, de fato, eles são os
únicos que estão entre um louco e sua próxima vítima.

PRÓLOGO

Eles estavam casados há 40 anos e Judith ainda tinha a sensação de que haviam coisas que ela não
conhecia do seu marido. Quarenta anos preparando o jantar

para Henry, 40 anos passando suas camisas, 40 anos dormindo na mesma cama, e ele permanecia um
mistério. Talvez fosse essa a razão pela qual eu continuei a fazer

todas essas coisas para ele, sem reclamar. Ela tinha muito a dizer de um homem que, depois de 40
anos, ainda era capaz de chamar a atenção de sua esposa.

Judith abriu a janela e uma brisa fresca Primavera encheu o interior do carro. O Centro de Atlanta
estava tão só a meia hora, mas ali no Conyers havia campo e

algumas granjas. Era um lugar tranqüilo, e a cidade estava à distância justa para que ela pudesse
desfrutar daquela paz. Entretanto, ao divisar os arranha-céu lá

no horizonte, Judith suspirou pensando: “Minha casa”.

Surpreendeu-lhe descobrir que a essas alturas já sentia que Atlanta era seu lar. Até o momento
tinha vivido sempre nos subúrbios, mas bem no campo. Preferia

os espaços abertos às calçadas de cimento da cidade, embora tinha que reconhecer que era agradável
viver no centro e poder ir andando à loja da esquina ou a sentar-se

em um café se gostava.

Às vezes passava dias sem ter que agarrar o carro; um estilo de vida que dez anos antes lhe teria
resultado inimaginável. E sabia que ao Henry acontecia

o mesmo. Seus ombros se esticavam com firme resolução quando conduzia seu Buick por alguma
estrada secundária. Depois de várias décadas circulando por toda a rede

de auto-estradas e interestaduais do país conhecia instintivamente todos os atalhos, as rotas menos


freqüentadas, as curvas perigosas.

Judith confiava plenamente na habilidade do Henry como condutor, de modo que se recostava em
seu assento, olhando pelo guichê distraídamente, e as árvores

situadas ao bordo da estrada se esfumavam e pareciam mas bem um espesso bosque. Ia ao Conyers
ao menos uma vez por semana, e sempre lhe parecia descobrir algo novo:

uma casita em que não tinha reparado antes, uma ponte que tinha cruzado muitas vezes sem fixar-se
nele. Nisso consistia a vida: nunca te dá conta do que acontece

te detém um momento para observá-lo com calma.

Voltavam de uma festa que tinha improvisado seu filho para celebrar seu aniversário. Bom, em
realidade tinha sido a mulher do Tom a que tinha organizado

a festa. Ela se ocupava de tudo: era sua secretária, sua ama de chaves, sua babá, sua cozinheira e é
de supor sua concubina; tudo em um. Tom tinha sido uma grata

surpresa, pois os médicos lhes tinham assegurado que não poderiam ter filhos. Judith o adorou do
mesmo momento em que o teve em seus braços, e o aceitou como se

fora um presente, seu tesouro mais prezado. Crio-o com tal mímico e dedicação absoluta que, ao
parecer, a seus trinta e tantos anos ainda necessitava que se ocupassem
dele. Possivelmente Judith tinha sido uma esposa muito convencional e uma mãe muito complacente,
e por isso seu filho se converteu na classe de homem que necessita

-espera-que sua esposa se ocupe de tudo.

Mas Judith não tinha vivido submetida ao Henry, nem muito menos. casaram-se em 1969, uma
época em que já não estava mal visto que as mulheres tivessem inquietações

além de preparar o perfeito assado ou encontrar o método mais eficaz para limpar as manchas dos
tapetes. Do primeiro momento ela tinha tido claro que queria que

sua vida fora o mais interessante possível. Tinha participado da associação de pais do colégio do
Tom, trabalhado como voluntária no albergue para indigentes de

sua localidade e ajudado a organizar um grupo de reciclagem em seu bairro. Quando Tom se fez
maior, Judith ficou a trabalhar como contável para uma empresa local

e se apontou a um grupo da paróquia que se reunia para preparar a maratona. Levava uma vida muito
ativa, que contrastava profundamente com a que tinha levado sua

mãe. Esta tinha acabado exausta depois de criar a nove filhos e do duro trabalho físico que lhe exigia
ser a esposa de um granjeiro, e ao final de sua vida havia

dias que estava tão deprimida que não podia nem pensar.

Não obstante, Judith tinha que assumir que no fundo também tinha sido muito convencional. Por
mais vergonha que lhe desse admiti-lo, tinha sido uma daquelas

garotas que se matriculavam na universidade para encontrar marido. criou-se perto do Scranton, na
Pennsylvania, em uma localidade tão pequena que nem sequer merecia

um ponto no mapa. Nela não havia mais que granjeiros, e nenhum deles se fixou nunca no Judith.
Tampouco podia reprovar-lhe o espelho não engana. Estava excessivamente

gorda, tinha os dentes muito proeminentes e, em geral, tinha muito de tudo para ser a classe de mulher
que os homens do Scranton escolhiam como esposa. E logo estava

seu pai, um homem muito estrito a quem nenhum jovem em seu são julgamento quereria por sogro, ao
menos não em troca de uma garota dentuça e fondona sem talento algum

para os trabalhos do campo.

A verdade era que Judith tinha sido sempre a estranha da família, a que não encaixava. Lia muito e
odiava os trabalhos próprios de uma granja; inclusive

de jovem não gostava dos animais e não queria ocupar-se de cuidá-los e lhes dar de comer. Nenhum
de seus irmãos tinha estudos superiores: dois dos varões tinham
abandonado seus estudos em nono grau, e uma de suas irmãs maiores se casou muito jovem e tinha
dado a luz a seu primeiro filho sete meses depois das bodas. Naturalmente

todos jogaram suas contas, mas sua mãe, empenhada em negar a evidência, insistiu até o dia de sua
morte em que seu primeiro neto sempre tinha sido de constituição

forte, inclusive quando era um bebê. Por sorte, o pai do Judith soube antecipar o que o futuro podia
lhe proporcionar a sua filha média: não haveria matrimônio de

conveniência com nenhum menino da localidade, principalmente porque nenhum deles a encontrava
absolutamente conveniente. Uma universidade religiosa, decidiu, era

não só a última, a não ser a única opção possível para ela.

Quando Judith tinha seis anos uma fibra de palha a feriu em um olho quando corria atrás do trator,
e desde esse momento levou óculos. A gente dava é óbvio

que era muito cerebral porque as usava, mas em realidade se equivocavam. Sim, adorava ler, mas
gostava mais das novelas trocas que boa literatura. em que pese a

tudo, sempre a consideraram uma nerd. Como era o que lhe diziam? “Os homens não olham a uma
mulher com óculos.” Assim, levou-se uma grande surpresa quando em seu

primeiro dia de classe na universidade o ajudante do professor lhe fez uma piscada. Ao princípio
pensou que lhe teria metido algo no olho, mas suas intenções ficaram

claras quando, ao terminar a classe, Henry Coldfield a levou à parte e lhe perguntou se gostaria de
tomar um refresco com ele. Ao parecer aquela piscada foi o começo

e o fim de sua sociabilidade. Henry era em realidade um homem muito tímido, o que não deixava de
ser curioso, tendo em conta que mais tarde se converteria no melhor

viajante de uma distribuidora de licores; um trabalho que ele desprezou sempre com toda sua alma,
inclusive três anos depois de aposentar-se.

Judith supunha que a facilidade do Henry para relacionar-se com a gente tinha que ver com que era
filho de um coronel do exército e tinha trocado de cidade

inumeráveis vezes, pois nunca permaneciam mais de dois ou três anos na mesma base. Não houve
paixão a primeira vista, isso veio depois. Ao princípio, Judith se sentiu

atraída pelo simples feito de haver atraído a ele. Aquilo era toda uma novidade para a gorducha do
Scranton, que estava no extremo oposto da filosofia do Marx -do

Groucho, não do Karl-: encantada de unir-se a qualquer clube que a aceitasse como sócia.

Henry era um clube em si mesmo. Não era nem bonito nem feio; nem atrevido nem retraído. Com
seu cabelo penteado sempre de forma impecável e seu acento neutro,

“médio” era o adjetivo que melhor o definia, assim foi como Judith o descreveria depois em uma
carta a sua irmã maior. A resposta de Rosa foi algo como: “Bom, suponho

que é o mais ao que pode aspirar”. Em defesa de Rosa terei que dizer que naquele momento estava
grávida de seu terceiro filho e o segundo ainda levava fraldas, mas

mesmo assim Judith nunca lhe perdoou aquele desprezo de sua irmã, pois entendeu que ia dirigido ao
Henry, não a ela. Se Rosa não tinha sido capaz de ver quão especial

era Henry era porque Judith não tinha talento para escrever; seu noivo estava cheio de matizes que
não se podiam expressar com um punhado de palavras. Mas possivelmente

lhe tinha feito um favor: aquela observação tão pouco delicada por parte de sua irmã tinha dado ao
Judith a desculpa perfeita para distanciar-se de sua família e

entregar-se por completo a aquele introvertido e paradoxal estranho.

O sociável acanhamento do Henry foi sozinho a primeira das muitas dicotomias que foi
descobrindo ao longo dos anos em seu marido. Aterrorizavam-lhe as alturas,

mas se tinha tirado a licença de piloto antes de cumprir os vinte anos. ganhava a vida vendendo
álcool, mas não bebia. Era de natural caseiro, mas se tinha passado

a maior parte de sua vida adulta viajando por todo o noroeste e o meio oeste por motivos de
trabalho, como quando era pequeno e tinham que mudar-se pelo ofício de

seu pai. Pelo visto, sua vida consistia principalmente em ter que fazer coisas que não queria fazer. E
entretanto, Henry sempre lhe dizia que sua companhia era o

único com o que realmente desfrutava.

Quarenta anos e um montão de surpresas.

Infelizmente, Judith duvidava de que seu filho encerrasse surpresa alguma para sua mulher. Quando
Tom era menino, Henry se passava três semanas ao mês fora

de casa, assim solo exercia como pai de vez em quando, e não sempre tirava reluzir sua faceta mais
amável. A conseqüência disso, Tom tinha desenvolvido o mesmo caráter

que tinha visto de menino em seu pai: era estrito, inflexível e cabeçudo.

E havia algo mais. Judith não sabia se era porque Henry considerava seu trabalho como uma
obrigação para com sua família, ou porque lhe obrigava a passar

muito tempo fora de casa, mas parecia que em sua relação com seu filho subjazia sempre uma
espécie de tensão: “Não cometa os mesmos enganos que cometi eu. Não fique

estagnado em um trabalho que detesta. Não troque seus sonhos por um prato de lentilhas”. O único
conselho positivo que lhe tinha dado a seu filho tinha sido que

se casasse com uma boa mulher. Lástima que não tivesse concretizado mais. Lástima que não tivesse
sido mais pormenorizado com ele.

Por que os homens eram tão exigentes com seus filhos varões? Judith imaginava que esperavam
que suas aspirações tivessem êxito ali onde eles tinham fracassado.

Em seus primeiros anos de matrimônio, quando Judith ficou grávida pela primeira vez e pensou que
podia ser uma menina, sentiu uma espécie de calidez seguida de um

brusco calafrio. Uma menina igual a ela, que desafiaria a sua mãe e ao mundo inteiro. Aquilo a
ajudou a entender por que Henry sempre desejava que Tom o fizesse

melhor, que fosse melhor e tivesse todo aquilo que desejasse e mais.

O certo era que Tom tinha tido êxito em seu trabalho, mas o de sua mulher tinha sido uma grande
desilusão. Sempre que Judith via sua nora tinha que reprimir-se

para não lhe dizer que se endireitasse, que falasse em voz alta, pelo amor de Deus, e que tivesse um
pouco de dignidade. Um dia, uma das voluntárias da igreja disse

que os homens se casavam com suas mães. Judith não quis ficar a discutir com ela, mas de boa
vontade a teria desafiado a encontrar a mais mínima semelhança entre

ela e sua nora. Desde não ser porque desejava passar tempo com seus netos, Judith seria feliz se não
tivesse que vê-la nunca.

Ao fim e ao cabo, seus netos eram a razão pela que se mudaram a Atlanta. Ela e Henry tinham
abandonado seu retiro no Arizona e tinham percorrido quase duas

mil milhas até aquela calorosa cidade com alertas por excesso de contaminação e violência guia de
ruas, tudo para poder estar perto dos dois meninos mais mimados

e ingratos de toda a Appalachia.

Judith olhou ao Henry, que tamborilava com os dedos sobre o volante e cantarolava enquanto
conduzia. Não falavam de seus netos se não era para dizer algo

bom, provavelmente porque um arrebatamento de sinceridade poderia pôr de manifesto que em


realidade não lhes caíam muito bem, e que classe de avós seriam então?

Tinham posto sua vida patas acima por dois meninos que não comiam mantimentos com glúten e
tinham estritamente pautadas suas horas de sonho e sua vida social, que
incluía unicamente a “meninos de seu mesmo entorno e iguais objetivos vitais”.

Mas ao parecer do Judith, o único objetivo vital de seus netos era ser o centro de atenção. É fácil
pensar que não há nada mais fácil que encontrar a outros

meninos de um mesmo entorno igualmente egoístas, mas segundo sua nora resultava quase
impossível. Acaso não era o egoísmo o principal rasgo da juventude? E acaso

não era dever dos pais o lhe pôr reserva? Certamente, o que todos tinham muito claro era que não é
dever dos avós.

Quando o pequeno Mark cuspiu seu suco não pasteurizado nas calças do Henry e Lilly ficou a
devorar os bombons que encontrou na bolsa de sua avó com tal

ansiedade que ao Judith recordou a uma vagabunda viciada na metanfetamina que tinha visto no mês
anterior no albergue, Henry e ela se limitaram a sorrir como se

se tratasse de uma dessas graciosas manias que têm os meninos e se corrigem com a idade.

Mas pelo visto demoravam para corrigir-se, e agora que já tinham sete e nove anos
respectivamente, Judith estava começando a perder a fé em que algum dia

seus netos se converteriam em adultos encantadores e bem educados que não sentiriam a necessidade
de interromper continuamente a conversação dos mais velhos nem

de correr gritando a voz em pescoço por toda a casa. O único consolo que ficava era saber que Tom
os levava a igreja todos os domingos. Naturalmente, desejava que

seus netos vivessem em comunhão com Cristo mas, sobre tudo, queria que aprendessem as lições que
se acostumavam na escola dominical “Honrará a seu pai e a sua mãe.

Trata a outros como quereria que tratassem a ti. Não sonhe com que poderá estragar sua vida,
abandonando os estudos e te refugiando em casa de seus avós”.

-Né! -grunhiu Henry quando um carro que vinha no outro sentido passou por seu lado a toda
velocidade. Fez-o tão perto que o Buick se cambaleou sobre seus

pneumáticos-. Jovens! -resmungou, agarrando com força o volante.

quanto mais se aproximava dos setenta, mais parecia um velho resmungão. Às vezes resultava
íntimo, mas outras Judith se perguntava quanto tempo demoraria

para ficar a vociferar com o punho em alto culpando aos “jovens” de todos os males deste mundo.
Pelo visto, os jovens em questão podiam ter de quatro a quarenta

anos, e sua irritação era ainda maior quando lhes pilhava fazendo algo que ele mesmo fazia antes mas
que já não podia desfrutar. Judith temia o dia em que lhe retirassem
a carta de conduzir, algo que aconteceria mais cedo que tarde, tendo em conta que na última revisão
do cardiologista tinham descoberto alguns problemas. Essa era

uma das razões pelas que tinham decidido mudar-se ao Arizona, onde não havia neve que retirar nem
grama que manter.

-Parece que vai chover -comentou Judith.

Henry estirou o pescoço para olhar o céu.

-Uma noite perfeita para começar o livro que te dei de presente -replicou ele, sorrindo.

Henry lhe tinha agradável por seu aniversário uma grossa novela das que ela gostava, um romance
histórico. E Judith lhe tinha dado a ele uma geladeira portátil

para suas aulas de golfe.

Judith entreabriu os olhos, olhou a estrada e decidiu que tinha que voltar a graduá-la vista. Ela
tampouco andava tão longe dos setenta, e cada ano que

passava via pior. O anoitecer era um momento especialmente delicado, pois com a falta de luz tendia
a ver imprecisos os objetos que estavam a certa distância. Essa

foi a razão de que tivesse que piscar várias vezes para assegurar-se do que via, e não pôde avisar ao
Henry até que o animal esteve justo diante de seus narizes.

-Deus! -gritou Henry, tirando um braço para proteger ao Judith ao tempo que dava um volantazo
para esquivar ao pobre animal. Sem saber muito bem por que,

Judith pensou que era certo o que diziam nos filmes: tudo parecia ralentizarse e o tempo passava tão
devagar que cada segundo parecia uma eternidade. Sentiu que

o braço do Henry bloqueava firmemente seu peito, e um puxão do cinto de segurança à altura do
quadril. O carro deu uma sacudida, ela se golpeou a cabeça contra a

porta. O animal saiu despedido contra o pára-brisa e rompeu a lua, logo ricocheteou no teto e
finalmente no porta-malas. Mas Judith não começou a registrar os sons

até que o carro freou em seco e fez um trompo completo: falência, bum, bum, e um chiado saiu de sua
própria boca. Devia ter entrado em shock, porque Henry teve que

gritar várias vezes “Judith, Judith!”, para que deixasse de dar alaridos.

A mão do Henry lhe apertava o braço com tanta força que a dor lhe subia até o ombro. Lhe
acariciou o dorso e o tranqüilizou.

-Estou bem, estou bem.


Tinha os óculos torcidos e o via tudo impreciso. Parecia serena mas sua respiração acelerada
delatava seu nervosismo. Tinha saltado o airbag, e um pó branco

muito fino lhe cobria a cara.

Por fim recuperou o fôlego e olhou para o fronte. O sangue tinha salpicado todo o pára-brisa,
como um repentino e violento toró.

Henry abriu a porta mas não se desceu do carro. Judith se tirou os óculos para esfregá-los olhos;
os cristais se quebrado e faltava a parte inferior do

direito. Viu que os óculos tremiam entre seus dedos, e em seguida se deu conta de que era seu emano
a que tremia. Henry se desceu do carro e, fazendo um esforço,

Judith ficou os óculos e descendeu também.

O animal estava tendido no asfalto, e ainda movia as patas. Ao Judith doía a cabeça a
conseqüência do golpe que se deu. Tinha sangue nos olhos. Isso foi

o único que lhe ocorreu ao ver que o animal -provavelmente um cervo-tinha as brancas e torneadas
pernas de uma mulher.

-OH, Por Deus bendito -murmurou Henry-. É… Judith… É…

Judith ouviu um carro detrás deles; os pneumáticos chiaram sobre o asfalto. Ouviu que as portas se
abriam e se voltavam a fechar. Dois homens se aproximaram

e um deles correu para o animal.

-Chamem o 911! -gritou, ajoelhando-se junto ao corpo.

As pernas se agitaram de novo, e esta vez distinguiu com claridade que eram as de uma mulher.
Estava completamente nua. Tinha hematomas muito escuros no

interior de ambas as coxas. Parecia como se um fino plástico de cor burdeos cobrisse seu torso, e
apresentava uma profunda ferida no flanco pela que aparecia o osso.

Judith olhou seu rosto: tinha o nariz rota, os olhos inchados e os lábios arrebentados. O sangue
empapava o escuro cabelo da mulher e formava um atoleiro ao redor

de sua cabeça, como se fora um halo.

Judith se aproximou, não pôde evitá-lo; levava toda a vida voltando discretamente a cabeça e
agora de repente queria olhar. Os cristais rangiam sob seus

pés; de repente, a mulher abriu os olhos espantada e ficou olhando com olhos mortiços algo por
detrás do Judith. De maneira igualmente repentina, suas pálpebras
começaram a fechar-se, mas Judith não pôde reprimir que um calafrio lhe percorresse todo o corpo.

-Meu deus -resmungou Henry, quase rezando.

Ao voltar-se, Judith viu que seu marido se levou a mão ao peito. Tinha os nódulos brancos e a
olhava como se se encontrasse mau.

-Como aconteceu isto? -sussurrou, com o rosto contraído em uma careta de horror-. Como
demônios aconteceu?
PRIMEIRO DIA

Capítulo um

Sara Linton se recostou em sua cadeira, murmurando com voz suave pelo móvel: “Sim, mamãe”.
Se perguntou se algum isso dia voltaria a lhe parecer normal,

se voltaria a sentir a mesma alegria de antes ao receber uma chamada de sua mãe, em lugar dessa dor
intensa que sentia agora.

-Carinho -disse Cathy com doçura-, não passa nada. Está-te cuidando e isso é tudo o que papai e
eu precisamos saber.

Sara notou que as lágrimas lhe ardiam nos olhos. Não era nem muito menos a primeira vez que
chorava na sala de médicos do hospital Grady, mas estava farta

de fazê-lo; farta de sentir, em realidade. Não era precisamente por isso pelo que se transladou a
Atlanta dois anos antes, deixando atrás a vida rural e a sua família,

para não ter que recordar constantemente tudo o que tinha vivido?

-Me prometa que irá à igreja a semana que vem.

Sara murmurou algo que podia soar como uma promessa. Sua mãe não era tola, e ambas sabiam
que era muito pouco provável que Sara fosse a missa aquele domingo

de Páscoa, mas Cathy não insistiu.

Olhou a pilha de expedientes que tinha diante. Estava terminando seu turno e ainda tinha que
redigir os informe.

-Mamãe, perdoa, mas tenho que ir.

Cathy a obrigou a prometer que voltaria a chamar a semana seguinte antes de pendurar. Sara ficou
uns minutos com o móvel na mão, olhando o número na tela

até que começou a desvanecer-se; a seguir marcou o sete e o cinco com o polegar, mas não pulsou a
tecla de chamada. Deixou cair o telefone no bolso e a carta roçou

o dorso de sua mão.

A Carta. Pensava nela como se tivesse entidade própria.

Sara olhava a rolha ao voltar para casa para não ir carregando com as cartas de um lado a outro,
mas uma manhã, sem saber muito bem por que, olhou-o ao

sair. Um calafrio lhe percorreu o corpo ao ver o nome do remetente escrito no branco sobre. Guardou
a carta sem abrir no bolso de sua bata de médico, com a idéia

de lê-la na hora da comida. Mas passou a hora de comer e seguiu sem abri-la, e tampouco o fez ao
chegar a casa, nem ao dia seguinte. Foram passando os meses e a

carta ia com a Sara a todas partes, umas vezes em sua bata, outras na bolsa da compra. converteu-se
em uma espécie de talismã, e de vez em quando colocava a mão

no bolso para tocá-la, solo para assegurar-se de que seguia estando ali.

Com o tempo, as esquinas do sobre se dobraram e o carimbo do condado do Grant começou a


esfumar-se. E quanto mais tempo passava, mais resistia Sara a abrir

a carta e descobrir o que podia ter que lhe dizer a esposa do homem que matou a seu marido.

-Doutora Linton? -perguntou ao bater na porta Mary Schroder, uma das enfermeiras-. Têm a uma
mulher que ingressou inconsciente, trinta e três anos, pulso

filiforme, parece muito débil.

Sara olhou as gráficas e a seguir, o relógio. O diagnóstico de uma mulher de trinta e três anos com
esse quadro lhe levaria um bom momento. Já eram quase

as sete e ficavam sozinho dez minutos para acabar o turno.

-Não pode encarregar-se Krakauer?

-Já a examinou. pediu uma analítica completa e se foi a tomar um café com a loira de volta -
replicou Mary, visivelmente irritada por isso último-. A paciente

é polícia.

Mary estava casada com um policial, coisa que não era de sentir saudades tendo em conta que
levava quase vinte anos no serviço de urgências do Grady. Mas

embora não fosse assim, existe uma lei não escrita segundo a qual, em qualquer hospital do mundo,
os agentes da lei recebem sempre a melhor atenção e de forma imediata.

Pelo visto Otto Krakauer não conhecia sorte lei.

Sara não teve mais remedeio que ceder.

-Quanto tempo esteve inconsciente?


-Segundo ela, um minuto -respondeu Mary meneando a cabeça; sabia que, no referente a sua
própria saúde, o testemunho dos pacientes estava acostumado a ser

pouco confiável-. Parece bastante desorientada.

Esta última frase foi a que fez que Sara se levantasse da cadeira. O do Grady era o único serviço
de urgências de Nível 1 de toda a região, além de um dos

poucos hospitais públicos que ficavam na Geórgia. As enfermeiras atendiam diariamente a vítimas
de acidentes de tráfico, tiroteios, apuñalamientos, overdose e toda

classe de tragédias. Tinham uma espécie de sexto sentido para detectar a simples vista os casos mais
graves. E, certamente, um policial não ingressava em um hospital

a menos que estivesse às portas da morte.

Sara folheou a história da mulher enquanto atravessava o serviço de urgências. Otto Krakauer se
limitou a recolher os dados para o histórico e a pedir as

análise de sangue de rotina, mas aquilo não lhe permitia aventurar nenhum diagnóstico. Pelo resto,
Faith Mitchell era uma mulher de trinta e três anos perfeitamente

sã, sem enfermidades nem traumatismos prévios ao ingresso. Com um pouco de sorte, os resultados
das análise lhe dariam mais pistas.

Sara se tropeçou com uma cama no corredor e murmurou uma desculpa. como sempre, estavam ao
completo e havia pacientes pelos corredores, uns em camas, outros

em cadeiras de rodas, mas todos com pior aspecto do que certamente tinham quando chegaram.
Provavelmente a maioria não podiam permitir-se perder o salário de um

dia e tinham vindo ao hospital ao terminar sua jornada trabalhista. Alguns a chamaram ao ver sua
bata branca, mas Sara os ignorou e seguiu estudando a história.

-Em seguida a alcanço. Está na três -disse Mary, antes de deixar-se arrastar por uma anciã que
esperava em uma maca.

Sara deu uns golpes na porta aberta da consulta número três; outro privilégio mais dos policiais: a
privacidade. Uma mulher loira e muito miúda estava sentada

no bordo da cama, completamente vestida e visivelmente zangada. Mary era muito boa em seu
trabalho, mas até um cego se teria dado conta de que Faith Mitchell não

se encontrava nada bem. Estava tão pálida como os lençóis da cama, e até a essa distância sua pele
parecia fria e úmida.

O homem que a acompanhava não ajudava muito, passeando de um lado a outro da habitação. Era
atrativo, com o cabelo dourado talhado ao um, e devia medir

mais de metro oitenta. Tinha uma cicatriz na mandíbula, certamente lembrança de algum acidente de
infância, com a bicicleta ou jogando beisebol. Era magro e fibroso,

provavelmente praticava o atletismo e seu terno delatava o torso musculoso de quem passa muitas
horas no ginásio.

O homem se deteve e olhou alternativamente a Sara e a sua companheira.

-E o outro médico?

-teve que atender uma urgência -disse Sara, se dirigindo para o lavabo para lavá-las mãos-. Sou a
doutora Linton. Importaria-lhe me pôr brevemente à corrente?

O que lhe passou?

-Deprimiu-se -disse o homem, jogando nervoso com a aliança. Deveu pensar que parecia
histérico, assim moderou um pouco o tom-. Não lhe tinha passado nunca.

O nervosismo de seu companheiro exasperava ainda mais ao Faith Mitchell.

-Estou bem -insistiu. E dirigindo-se a Sara-: Já o hei dito ao outro médico. Estou destemperada,
como se tivesse pilhado um catarro. Isso é tudo.

Sara lhe agarrou a boneca para tomar o pulso.

-Que tal se encontra agora?

Faith olhou a seu acompanhante.

-Dos nervos.

Sara sorriu. Observou os olhos do Faith com a lanterna, logo a garganta e realizou todo o exame
físico de rotina, mas não encontrou nenhuma anomalia. Estava

de acordo com a avaliação preliminar do Krakauer: o mais provável era que estivesse um pouco
desidratada. O coração soava bem e não parecia ter sofrido nenhum tipo

de crise.

-Golpeou-se a cabeça ao cair?

Faith ia responder quando o homem a interrompeu.

-Foi no estacionamento. deu-se um golpe contra o asfalto.

Sara perguntou ao Faith.


-teve algum outro sintoma?

-Alguma que outra enxaqueca. -Parecia estar ocultando algo, em que pese a que a seguir
acrescentou-: A verdade é que levo todo o dia virtualmente em jejum.

Esta manhã me levantei com o estômago um pouco revolto. E ontem também.

Sara abriu uma das gavetas para agarrar um martelo e comprovar seus reflexos, mas não viu nada
anormal.

-ganhou ou perdeu peso ultimamente?

-Não -disse Faith.

-Sim -respondeu ele ao mesmo tempo. Com ar compungido, tentou arrumá-lo-. me parece que te
sinta muito bem.

Faith aspirou fundo e logo exalou lentamente o ar. Sara estudou ao homem de novo, e pensou que
devia ser economista ou advogado. Tinha a cabeça volta para

a paciente, e Sara detectou uma segunda cicatriz, menos marcada, que bordeaba seu lábio superior e
que obviamente não se tratava de uma incisão cirúrgica. Não a

tinham costurado com muito cuidado, e o extremo que subia até o nariz tinha um aspecto algo
irregular. Provavelmente foi boxeador na universidade, ou possivelmente

simplesmente se golpeou a cabeça muitas vezes, porque era óbvio que não sabia que a única maneira
de sair de um fossa é deixar de cavar.

-Faith, eu acredito que esses quilogramas de mais lhe sintam de maravilha. Você pode te
permitir…

Ela o fulminou com o olhar.

-Muito bem -disse Sara, abrindo o histórico para fazer umas notas-. Lhe vamos fazer uma
radiografia de crânio, e também eu gostaria de realizar algumas

prova mais. Mas não se preocupe, com as amostras de sangue que lhe extraímos bastará; não mais
agulhas de momento. -Anotou um par de coisas e marcou várias casinhas

antes de elevar a vista para olhar ao Faith-. Prometo que demoraremos o menos possível, embora já
teria visto que hoje estamos saturados. Teremos que esperar ao

menos uma hora para as radiografias. Tentarei lhes colocar pressa, mas possivelmente queiram
baixar a comprar um livro ou uma revista para entreter a espera.
Faith não respondeu, mas algo na expressão de sua cara tinha trocado. Olhou a seu acompanhante e
logo a Sara.

-Necessita que lhe assine isso? -perguntou, assinalando o histórico.

Não havia nada que assinar, mas Sara lhe aconteceu o documento de todos os modos. Faith
escreveu algo na margem inferior e o devolveu. Tinha escrito: “Estou

grávida”.

Sara assentiu e tachou o volante da radiografia. Evidentemente, Faith ainda não o tinha
comunicado ao homem, mas agora mesmo tinha outras perguntas que

lhe fazer e não podia as formular sem levantar a lebre.

-Quando lhe fizeram a última citologia?

Faith o entendeu à primeira.

-O ano passado.

-Pois vamos aproveitar agora que está aqui -disse, e dirigindo-se ao homem-. Lhe importa esperar
fora?

-OH -replicou ele, um pouco surpreso-, claro. Estarei na sala de espera se me necessitar.

-Vale -disse Faith, que ficou lhe olhando enquanto partia e se relaxou visivelmente quando fechou
a porta. Logo perguntou a Sara-. Importa se me tombo?

-Claro que não.

Ajudou-a a acomodar-se na cama, pensando que Faith aparentava menos de trinta e três anos.
Tinha a atitude própria de um policial, essa espécie de firmeza

nos ombros que parecia advertir “nada de tolices”. Ela e seu marido advogado faziam um casal
estranho, mas Sara tinha conhecido a casais muito mais estranhos que

essa.

-De quanto está? -perguntou-lhe.

-Umas nove semanas.

Sara o anotou e continuou perguntando.

-Fez o cálculo você mesma ou a viu já o ginecologista?

-Comprei um test na farmácia. -Em seguida se corrigiu-. Bom, em realidade me tenho feito três.
Sou muito regular.

Sara acrescentou um test de embaraço ao resto de provas.

-E quanto peso ganhou?

-Quase dois quilogramas e médio -admitiu Faith-. Desde que me inteirei não parei que comer
como uma louca.

Segundo a experiência da Sara, se confessava dois quilogramas e meio de mais provavelmente


teria engordado cinco.

-Você tem mais filhos?

-Um… Jeremy… Dezoito.

Sara o anotou em seu expediente e murmurou:

-Uy, a compadeço. Os meninos aos dois anos ficam insuportáveis.

-Será mas bem aos vinte. Jeremy tem dezoito anos. Desconcertada, Sara ficou a folhear a história
do Faith.

-Economizarei-lhe a conta -disse Faith-. Fiquei grávida com quatorze anos. Tinha quinze quando
dava a luz ao Jeremy.

Resultava difícil surpreender a Sara a essas alturas, mas Faith Mitchell o tinha conseguido.

-Teve algum problema em seu primeiro embaraço?

-Quer dizer além de me converter na candidata perfeita para protagonizar um desses dramalhões
adolescentes para a televisão? -Faith meneou a cabeça-. Não,

nenhum problema.

-Muito bem -replicou Sara, fechando o histórico para centrar sua atenção no Faith-. me Conte o
que aconteceu esta noite.

-ia agarrar o carro e de repente senti que me enjoava. Quão seguinte recordo é ao Wíll conduzindo
para me trazer aqui.

-Quando diz que se enjoou se refere a que todo lhe dava voltas, ou simplesmente sentiu que se
desvanecia?

Faith ficou pensando um momento antes de responder.

-Mas bem senti que me desvanecia.


-Viu você luz ou notou um sabor estranho na boca?

-Não.

-Wíll é seu marido?

Faith estalou em uma gargalhada.

-Deus santo, não. Wíll é meu companheiro… Wíll Trent.

-Segue aqui o detetive Trent? Eu gostaria de falar com ele.

-Em realidade é agente especial. E já falou você com ele. Acaba de sair da habitação.

Sara teve a impressão de que se perdeu algo.

-O homem que vinha com você é polícia?

Faith se pôs-se a rir outra vez.

-É pelo traje. Não é você a primeira pessoa que toma por um enterrador.

-A verdade é que acreditei que era advogado -admitiu Sara, pensando que em sua vida tinha
conhecido a ninguém com menos aspecto de polícia.

-Terei que lhe dizer que o confundiu você com um advogado, seguro que se sente muito agradado.

Sara reparou de repente em que Faith não levava aliança.

-Assim que o pai é…

-Não forma parte de minha vida -Faith o reconheceu sem o menor rubor, embora Sara imaginou
que havendo ficado grávida com quatorze anos, poucas coisas podiam

ruborizá-la já-. Preferiria que Wíll não soubesse nada disto, é muito….

A mulher não terminou a frase. Fechou os olhos e apertou os lábios. Sua frente brilhava como se
estivesse rompendo a suar.

Sara lhe agarrou a boneca para tomar o pulso de novo.

-O que acontece?

Faith apertou as mandíbulas, mas não respondeu.

A Sara tinham vomitado em cima muitas vezes como para não reconhecer os sinais. Foi para a
pilha para empapar uma toallita de papel.
-Aspire fundo e exalte pouco a pouco.

Faith obedeceu com os lábios trementes.

-Você tem mudanças de humor ultimamente?

Pese ao mal-estar, Faith respondeu com certa ironia.

-Quer dizer mais dos habituais? -de repente se levou a mão ao estômago e ficou séria outra vez-
Sim. Estou nervosa, irritável. -Tragou saliva-. Tenho como

um zumbido na cabeça, como se tivesse o cérebro cheio de abelhas.

Sara lhe pressionou a frente com a toallita úmida.

-teve náuseas?

-Pelas manhãs, sim -respondeu Faith com dificuldade-. Imaginei que era coisa do embaraço,
mas…

-E o que me diz dessas enxaquecas?

-São bastante fortes, e quase sempre dão a primeira hora da tarde.

-Fixou-se em se tiver mais sede do habitual? Urina muito?

-Sim. Não. Não sei. -Fazendo um esforço, conseguiu abrir os olhos e perguntou-. O que é o que
tenho? É gripe, um tumor cerebral, ou o que?

Sara se sentou no bordo da cama e lhe agarrou a mão.

-OH, Deus, tão mau é? Os médicos e os policiais só se sintam quando têm que dar más notícias.

Sara se perguntou como era que nunca se fixou nisso. Acreditava que depois de tantos anos com o
Jéffrey Tolliver conhecia todos seus tics, mas pelo visto

tinha passado por cima esse.

-Estive casada quinze anos com um policial. E não me tinha dado conta disso, mas tem você
razão… Meu marido sempre se sentava quando trazia más notícias.

-Eu sou polícia há quinze anos -replicou Faith-. Lhe pôs os chifres, ou se converteu em um
alcoólico?

Sara sentiu um nó na garganta.

-Mataram-no faz três anos e meio.


-OH, não -exclamou Faith, e se levou a mão ao peito-. O sinto muito.

-Não importa -disse Sara, perguntando-se por que lhe teria contado a aquela mulher um pouco tão
pessoal. passou-se os últimos anos evitando falar do Jéffrey

e, de repente, ficava a lhe contar coisas a uma desconhecida. Para lhe tirar Fierro ao assunto,
acrescentou-: Mas acerta você. Além disso, pô-me os chifres.

Era certo, ao menos a primeira vez que se casou com ele.

-Sinto-o muito -repetiu Faith-. Morreu em ato de serviço?

Sara não queria responder a essa pergunta. De repente sentiu náuseas, provavelmente igual a Faith
antes de perder o conhecimento. Esta se deu conta.

-Não tem por que…

-Obrigado.

-Espero que agarrassem a esse filho de puta.

Sara colocou a mão no bolso e envolveu o sobre com os dedos. Essa era a pergunta que todos lhe
faziam: “Agarraram-no? Pilharam ao filho de puta que matou

a seu marido?”. Como se isso importasse. Como se a detenção do assassino do Jéffrey pudesse
aliviar em modo algum a dor que lhe tinha causado sua morte.

Felizmente, Mary entrou na habitação nesse mesmo momento.

-Perdão -se desculpou a enfermeira-. Os filhos dessa anciã a deixaram aqui tiragem. tive que
chamar os serviços sociais. -Passou-um papel a Sara-. Os resultados

da analítica.

A doutora franziu o cenho ao ler os resultados.

-Leva em cima o glucosómetro?

Mary colocou a mão no bolso e lhe aconteceu o medidor de glicose. Sara limpou a gema do dedo
do Faith com um pouco de álcool. A analítica estava perfeitamente,

mas o Grady era um hospital muito grande e não seria a primeira vez que confundiam as amostras de
sangue.

-Quando comeu por última vez? -perguntou-lhe.

-estivemos todo o dia no tribunal. Deus! -murmurou ao notar a espetada, e continuou-: Por volta
das doze comi um bollito bastante pringoso que Wíll tirou

da máquina.

Sara insistiu.

-Refiro a sua última comida “de verdade”.

-Ontem à noite, por volta das oito.

Pela expressão de culpa na cara do Faith, Sara imaginou que tinha atirado de comida rápida.

-tomou café está amanhã?

-Só meia taça. Nem sequer podia suportar o aroma.

-Com leite e açúcar?

-Sozinho. Normalmente tomo o café da manhã bastante bem: iogurte, um pouco de fruta. Sempre o
faço quando volto de correr. Há algum problema com meus níveis

de açúcar?

-Agora o veremos -lhe disse Sara, lhe pressionando o dedo para que o sangue impregnasse a tira.

Mary elevou uma sobrancelha, como perguntando se queria apostar em ver o que saía. Sara
meneou a cabeça: nada de apostas. Mary insistiu e usou os dedos

para lhe indicar uno-cinco-cero.

-Acreditava que o test se fazia ao final -disse Faith, com voz insegura-, depois de beber essa coisa
açucarada.

-teve problemas com os níveis de açúcar alguma vez? Há antecedentes de diabetes em sua família?

-Não e não, que eu saiba.

O glucosómetro emitiu um assobio e ato seguido apareceu na tela o 152.

Mary assobiou, surpreendida do muito que se aproximou. Em uma ocasião, Sara lhe tinha
perguntado por que não estudou medicina, ao que lhe respondeu que

as enfermeiras eram as que realmente sabiam de medicina.

-Tem você diabetes -disse Sara ao Faith.

Mary vacilou um momento antes de perguntar:


-O que?

-Eu diria que certamente faz já um tempo que é você prediabética. Tem o colesterol e os
triglicéridos muito altos. E a tensão também está um pouco alta.

O embaraço e esses quilogramas que agarrou de repente (cinco quilogramas é muito para nove
semanas de embaraço), somados aos maus hábitos dietéticos, foram a gota

que encheu o copo.

-Mas em meu primeiro embaraço todo foi perfeitamente.

-Então era você muito jovem. -Sara lhe deu uma gaze para deter o sangue-. Quero que vá ver sua
médico manhã a primeira hora. Temos que nos assegurar de

não passar por cima nenhuma outra coisa. Enquanto isso, procure controlar seus níveis de açúcar. Do
contrário, deprimir-se em um estacionamento não é o pior que

lhe poderia acontecer.

-E não será simplesmente…? Ultimamente não estou comendo como Deus manda, nisso tem razão,
Y…

Sara cortou em seco suas divagações.

-Qualquer cifra por cima de 140 se considera sintoma indiscutível de diabetes. De fato, na
primeira análise a cifra não era tão alta.

Faith se tomou um tempo para assimilar a informação.

-E é crônica?

Era um endocrino quem devia responder a essa pergunta.

-Terá que falar com seu médico para que lhe siga fazendo provas.

Não obstante, em sua opinião, e segundo sua experiência, o prognóstico do Faith não era muito
alentador. Sempre podia ser gestacional, mas não lhe parecia

o caso.

Sara olhou seu relógio.

-Eu a deixaria esta noite em observação, mas para quando terminarmos de fazer o ingresso e de lhe
buscar uma habitação, seu médico já estará acontecendo

consulta. De todos os modos, algo me diz que você não quer ficar aqui. -Tinha passado suficiente
tempo entre policiais para saber que, a menor oportunidade, Faith

sairia apitando do hospital. Continuou falando-: Tem que me prometer que chamará a seu médico a
primeira hora… e a primeira hora quer dizer exatamente isso. Uma

de nossas enfermeiras lhe ensinará como utilizar o glucosómetro e quando deve você injetar-se, mas
amanhã mesmo tem que ver seu médico.

-Terei que me cravar eu mesma? -perguntou, bastante alarmada.

-A medicação oral está contra-indicada durante o embaraço. Precisamente por isso deve você ver
seu doutor quanto antes. Há muito de ensaio e engano nisto.

Seu peso e seus níveis hormonais sofrerão mudanças com o passar do embaraço. Seu médico será
seu melhor amigo durante os próximos oito meses, ao menos.

Faith parecia envergonhada.

-A verdade é que não tenho médico de cabeceira.

Sara tirou sua caderneta de receitas e escreveu o nome da doutora com a que tinha feito as
práticas.

-Délia Wállace passa consulta nos subúrbios do Emory. Tem uma dobro especialidade em
ginecologia e endocrinologia. Chamarei-a esta noite para que lhe façam

um oco manhã.

Faith não parecia muito convencida.

-Como é possível que me tenha passado isto assim, de repente? Sei que agarrei alguns
quilogramas, mas não estou gorda.

-Não é necessário que esteja gorda -lhe explicou Sara-. Agora é você maior. O embaraço afeta a
seu sistema hormonal e a sua capacidade para produzir insulina.

Além disso, ultimamente não comeu você bem. Todos estes fatores precipitaram a aparição da
enfermidade.

-É por culpa do Wíll -resmungou Sara-. Come como se tivesse doze anos. Donuts, pizza,
hambúrgueres. Sempre que para em um posto de gasolina tem que comprar

uns nachos ou um perrito quente.

Sara voltou a sentar-se no bordo da cama.

-Faith, isto não é o fim do mundo. Está você em boa forma. E tem um bom seguro médico. As
arrumará perfeitamente.

-Mas e se…? -Faith ficou pálida e baixou o olhar-. E se não estivesse grávida?

-Não estamos falando de uma diabetes gestacional, mas sim de uma diabetes em toda regra, de tipo
dois. Um aborto não faria que desaparecesse como por arte

de magia. Olhe, provavelmente faz tempo que começou a desenvolvê-la; o embaraço simplesmente
tem feito que lhe declare antes. Ao princípio será todo um pouco mais

complicado, mas nada mais.

-Eu sozinho… -Faith não parecia capaz de terminar uma só frase.

Sara lhe deu uns golpecitos na mão e ficou em pé.

-A doutora Wállace é uma excelente profissional. E sei que trabalha com o seguro médico
municipal.

-Estatal -a corrigiu Faith-. Pertenço ao DIG.

Sara imaginou que o seguro do Departamento de Investigação da Geórgia seria muito parecido,
mas aceitou a correção. Era evidente que ao Faith estava custando

assimilar a notícia, e ela não o tinha posto precisamente fácil. Mas o fato, feito está. Deu-lhe uns
tapinhas no ombro e lhe disse:

-Mary lhe porá uma injeção. Sentirá-se você melhor em seguida. -dispôs-se a partir, não sem antes
lhe recordar-: Falava a sério com o da doutora Wállace.

Quero que chame a sua consulta amanhã a primeira hora, e tem que deixar de alimentar-se a base de
bollitos pringosos. Uma dieta desce em hidratos, sem graxas, e

cinco comidas sões ao dia, estamos?

Faith assentiu, um pouco aturdida ainda, e Sara saiu da habitação sentindo-se como uma bruxa.
Sem dúvida, nos últimos anos tinha perdido o costume de tratar

aos pacientes, mas esta vez tinha sido especialmente torpe. Não era precisamente o anonimato o que
a tinha levado a aceitar esse posto no Grady? Exceto por alguns

vagabundos e prostitutas, poucas vezes via o mesmo doente duas vezes. Isso era o que realmente lhe
atraía daquele trabalho, que não tinha ocasião de envolver-se

pessoalmente com os pacientes. Nesse ponto de sua vida não queria estabelecer vínculos com
ninguém. Cada caso era uma oportunidade para começar de novo. Se tinha
sorte -e se Faith se cuidava um pouco-, provavelmente nunca voltaria a vê-la.

Em lugar de ir para a sala de médicos para terminar seus informe, Sara passou pelo posto de
enfermeiras, atravessou a porta de dobro folha, a sala de espera

abarrotada de gente e, por fim, saiu à rua.

Havia um par de terapeutas cardiorrespiratórios fumando um cigarro junto à saída, assim Sara
seguiu caminhando para a parte traseira do edifício. sentia-se

culpado por não ter sabido comunicar a notícia ao Faith Mitchell como é devido, e procurou o
número da Délia Wállace em seu móvel antes de que lhe esquecesse. Deixou

uma mensagem na secretária eletrônica lhe expondo brevemente o caso do Faith e, ao pendurar,
sentiu-se mais tranqüila.

Encontrou-se com a Délia Wállace fazia um par de meses, quando deveu visitar a um de seus
pacientes ricos, ingressado no Grady depois de um grave acidente

de tráfico. Délia e Sara se graduaram juntas na faculdade de medicina do Emory, e foram as únicas
mulheres incluídas em cinco por cento dos estudantes que obtiveram

as melhores qualificações. Naquela época existia uma lei não escrita segundo a qual as mulheres que
terminavam medicina só tinham duas opções: ginecologia ou pediatria.

Délia se tinha inclinado pela primeira, Sara pela segunda. A ambas faltava um ano para cumprir os
quarenta. Délia parecia o ter tudo; Sara a sensação de que não

tinha nada.

A maioria dos médicos -incluída Sara-eram arrogantes em maior ou menor medida, mas Délia
sempre tinha sabido vender-se muito bem. Enquanto tomavam café

na sala comum, Délia a tinha posto à corrente de sua vida: tinha uma próspera consulta com dois
despachos, um marido bróker e três meninos que se sobressaíam em

quase tudo. Tinha-lhe ensinado a Sara algumas fotos, e pareciam a família perfeita, como tirados de
um catálogo do Ralph Lauren.

Sara não lhe tinha contado nada do que tinha feito ao acabar a carreira; não lhe havia dito que
retornou ao condado do Grant, a sua casa, para trabalhar

como pediatra rural. Não lhe falou do Jéffrey, nem de por que se mudou a Atlanta ou por que
trabalhava no Grady quando podia ter aberto sua própria consulta e ter

uma vida mais ou menos normal. limitou-se a encolher-se de ombros e a dizer: “Ao final acabei
voltando aqui”, e Délia a tinha cuidadoso com uma mescla de decepção
e solidariedade. Ambas as emoções tinham que ver com o fato de que Sara sempre tinha ido por
diante da Délia no Emory.

Meteu-se as mãos nos bolsos e atirou de seu fino casaco para frente para proteger do intenso frio.
Sentiu a carta contra o dorso de sua mão ao passar pela

entrada de ambulâncias. apresentou-se voluntária para fazer um turno extra essa mesma manhã, e
tinha trabalhado dezesseis horas seguidas para poder tomar o dia seguinte

livre. O frio da noite lhe fez reparar em que estava esgotada, e ficou ali, com as mãos metidas nos
bolsos, inspirando com deleite aquele ar frio e relativamente

limpo. Podia distinguir o aroma da chuva entre o vapor dos carros e o do que fora que houvesse no
contêiner. Possivelmente essa noite conseguisse dormir. Sempre

dormia melhor quando chovia.

Olhou os carros que passavam pela Interestadual. Já quase tinha passado a hora ponta; homens e
mulheres retornavam a casa com sua família depois do trabalho.

Sara estava no que se conhecia como a “curva do Grady”, a que os repórteres utilizavam como
referência quando tinham que falar de retenções na separação que passava

pelo centro de Atlanta. A estrada estava iluminada pelas vermelhas luzes de freio essa noite, pois
uma grua estava retirando um todoterreno do borda da esquerda.

Havia carros de polícia bloqueando a cena, com as sereias acesas iluminando a escuridão com sua
fantasmagórica luz. Aquilo lhe recordou a noite em que morreu Jéffrey:

a polícia irrompendo na cena, os de estatal ficando ao mando e várias dúzias de homens vestidos
com trajes brancos penteando a zona para recolher as provas.

-Sara?

Voltou-se. Mary estava na porta e o fazia gestos para que voltasse para hospital.

-Depressa, vêem!

Sara correu para a porta enquanto a enfermeira ia enumerando dados.

-AT, acidente de tráfico de um só veículo e um pedestre. Krakauer está com o condutor, que
apresenta possível enfarte de miocárdio, e seu acompanhante.

Você te ocupa da mulher atropelada: fratura aberta em braço e perna direitos, perda de consciência
no lugar do acidente. Possível agressão sexual e tortura. Um LHES,

técnico de emergências sanitárias, passava por ali e fez o que pôde, mas está muito mal.
Sara pensou que a tinha entendido mau.

-Foi violada e atropelada?

Mary não o esclareceu e se limitou a lhe apertar o braço muito forte enquanto corriam pelo
corredor. A porta da sala de urgências estava aberta. Sara viu

a maca e a três médicos em torno dela. Todos os ali pressente eram homens, incluído Wíll Trent, que
estava inclinado sobre a mulher.

-Pode me dizer seu nome? -perguntava-lhe.

Sara não deixou de correr até que esteve ao pé da cama, e a mão da Mary seguia lhe agarrando o
braço. A paciente estava tombada sobre um flanco, em posição

fetal. Seu corpo ia sujeito à maca com esparadrapo, e lhe tinham posto caminhos férulas pneumáticas
no braço e a perna direitos. Estava acordada, lhe tocavam castanholas

os dentes e murmurava algo que resultava ininteligível. Tinha uma jaqueta dobrada sob a cabeça, e
um colarinho ao redor do pescoço. Um lado de sua cara estava talher

por uma crosta de sangue e sujeira; uma parte de cinta isolante pendurava de sua bochecha e se
pegava a seu escuro cabelo. Tinha a boca aberta e os lábios cortados

e cheios de sangue. Tinham retirado o lençol que a cobria, deixando ao descoberto um corte no
flanco, à altura de um de seus peitos; era tão profundo que se podia

distinguir perfeitamente a amarela capa de graxa.

-Senhora -perguntou Wíll-, sabe onde está?

-Com exceção de -lhe ordenou Sara, lhe empurrando com mais força da que pretendia.

Wíll Trent perdeu momentaneamente o equilíbrio e se cambaleou. Sara continuou ao seu. Tinha
visto a pequena grabadora digital que tinha na mão e não gostava

de nada o que estava fazendo. ficou umas luvas enquanto se ajoelhava e falava com a paciente.

-Sou a doutora Linton. Está você no hospital Grady. Não se preocupe, a vamos cuidar muito bem.

-Me ajude… me ajude… -repetia a mulher, e seu corpo tremia com tal violência que fazia estralar
a estrutura metálica da maca. Olhava fixamente à frente,

mas sem enfocar. Estava gasta e tinha a pele descamada e seca-. me Ajude…

Sara lhe apartou o cabelo da cara com a maior delicadeza que pôde.
-Há muitos médicos aqui e todos vamos ajudar a. Você fique comigo, de acordo? Agora já está a
salvo.

ficou de pé e apoiou a mão sobre o ombro da mulher para que soubesse que não estava sozinha.
Duas enfermeiras mais se incorporaram à equipe e esperavam

instruções.

-Que alguém me ponha ao dia.

Dirigiu-se aos técnicos de emergências, mas foi o homem que estava ao outro lado da maca o que
começou a falar, recitando a toda velocidade as constantes

vitais da paciente e os primeiros auxílios que tinham realizado pelo caminho. O homem ia vestido de
rua e suas roupas estavam manchadas de sangue; devia ser o LHES

que a tinha socorrido no lugar do acidente.

-Ferida penetrante entre as costelas onze e doze. Fraturas abertas em braço e perna direitos.
Contusão na cabeça. Estava inconsciente quando chegamos, mas

recuperou a consciência quando comecei a atendê-la. Não pudemos tombá-la de costas -explicou
com crescente pânico-; não deixava de gritar. Tínhamos que colocá-la

na ambulância, assim que a imobilizamos com esparadrapo. Não sei por que não… Não sei o que…

O homem tentava conter as lágrimas. Sua angústia era contagiosa. O ar da sala estava carregado de
adrenalina; não era de sentir saudades, tendo em conta

o estado da vítima. Sara teve também um momento de pânico, custava-lhe assimilar os terríveis
danos que tinha sofrido aquele corpo, as múltiplos feridas, os evidentes

signos de tortura. mais de um naquela sala tinha os olhos cheios de lágrimas. Tentou serenar-se para
rebaixar a histeria a um nível mais asumible.

-Muito obrigado, cavalheiros. Fizeram vocês quanto puderam para trazê-la viva até aqui, mas
agora é melhor que limpemos um pouco a sala para poder atendê-la

como é devido -disse para se despedir dos LHES. Continuando, dirigindo-se a Mary-: lhe Ponha
soro intravenoso e prepara uma via central, no caso de. -E a outras

duas enfermeiras-: Traz um aparelho de raios, pede um TAC e chama ao cirurgião de guarda. Faz uma
gasometría, prova de tóxicos, análise metabólica completa, CSC

e painel de coagulação.

Com muito cuidado Sara auscultou à mulher, tratando de ignorar as queimaduras e os cortes em
forma de cruz. Escutou os pulmões da paciente, percebendo o

marcado relevo das costelas sob seus dedos. A respiração era regular, mas não tão forte como a Sara
tivesse gostado, provavelmente por causa da alta dose de morfina

que lhe tinham posto na ambulância. O pânico está acostumado a esfumar a fronteira entre o que
ajuda e o que estorva.

Ajoelhou-se de novo. Os olhos da mulher seguiam abertos e lhe tocavam castanholas os dentes.

-Se lhe custa respirar, diga-me isso e a ajudarei imediatamente, de acordo? Acredita que poderá
fazê-lo? -A mulher não respondeu, mas Sara continuou lhe

falando de todas formas, lhe explicando passo a passo o que ia fazendo e por que-. Estou
comprovando suas vias respiratórias, quero me assegurar de que respire bem.

-Abriu-lhe a boca com suavidade.

A mulher tinha os dentes de cor rosada, o que indicava que tinha alguma ferida aberta na boca, mas
Sara imaginou que se teria mordido a língua. Seu rosto

estava cheio de arranhões, como se lhe tivessem dado um zarpazo. Pensou que possivelmente tivesse
que intubarla e imobilizá-la, por isso esta seria sua última oportunidade

de falar.

Essa era a razão de que Wíll Trent não queria partir. Tinha-lhe perguntado à vítima como estava
para sentar as bases para uma declaração in articulo mortis.

A vítima tinha que ser consciente de que se estava morrendo para que sua declaração fora admitida
como prova ante um tribunal. Inclusive agora, Trent seguia ali,

apoiado contra a parede, observando-o tudo se por acaso tinha que declarar no julgamento.

-Senhora, pode me dizer como se chama? -perguntou-lhe Sara. Ao ver que a mulher movia os
lábios esperou uns segundos, mas de sua boca não saía nenhum som-.

Comecemos com um pouco mais fácil. me diga solo qual é seu nome de pilha, de acordo?

-AA… AA…

-Anne?

-Na… Na…

-Anna?
A mulher fechou os olhos e assentiu levemente com a cabeça. Sua respiração se acelerou a
conseqüência do esforço.

-E agora seu sobrenome -a animou Sara.

A mulher não respondeu.

-Muito bem, Anna. Está-o fazendo muito bem. Fique comigo - disse Sara olhando ao Wíll Trent,
que o agradeceu com um gesto da cabeça.

Voltou a centrar-se em seu paciente; examinou suas pupilas e lhe apalpou o crânio para ver se
havia alguma fratura.

-Tem sangue nos ouvidos, Anna. deu-se um golpe muito forte na cabeça. -Agarrou uma torunda
úmida e limpou o sangue seca de seu rosto-. Sei que segue você

aí, Anna. Resistência um pouco mais, fique comigo.

Com muito cuidado, Sara passou os dedos pelo pescoço e o ombro e notou que a clavícula se
movia. Seguiu examinando a parte inferior dos ombros por diante

e por detrás, e continuou com as vértebras. A mulher apresentava signos evidentes de desnutrição;
seus ossos se sobressaíam de tal maneira que virtualmente lhe via

o esqueleto inteiro. A pele estava rasgada, como se lhe tivessem parecido anzóis ou ganchos e os
tivessem arrancado depois. Tinha cortes superficiais por todo o

corpo, e a larga e profunda incisão no peito seguia cheirando a infecção; levava assim vários dias.

-A via já está lista e lhe tenho aberto do todo a chave do salino -disse Mary.

Sara se voltou para o Wíll Trent.

-Vê o diretório que há junto ao telefone? -Ele assentiu-. Chame o Phil Anderson. lhe diga que lhe
necessitamos aqui embaixo imediatamente.

Wíll vacilou um momento.

-Melhor vou buscá-lo.

-Será mais rápido lhe chamar à busca. Sua extensão é a 392 -disse Mary enquanto fixava a via com
esparadrapo no dorso da mão. Perguntou a Sara-: vais pautar

lhe mais morfina?

-vamos terminar com o primeiro diagnóstico.


Tentou examinar o torso da mulher; não queria mover o corpo até saber exatamente o que tinha
entre mãos. Apresentava um buraco no flanco esquerdo, entre

as costelas onze e doze, o que explicava por que a mulher gritou dessa maneira quando tentaram
endireitá-la: com o músculo e a cartilagem rasgadas, a dor devia ser

insuportável.

O LHES tinha posto isso um torniquete e uma férula pneumática na perna e o braço direitos. Sara
retirou a vendagem estéril da perna, e viu que o osso aparecia

pela ferida. A pélvis parecia algo instável também. Eram feridas recentes. O carro devia havê-la
golpeado pelo lado direito, dobrando-a pela metade.

Tirou umas tesouras do bolso, cortou o esparadrapo que a sujeitava à maca, e lhe explicou:

-Anna, vou tombar te sobre as costas. -Sujeitou à mulher pelos ombros e o pescoço, enquanto
Mary lhe sujeitava a pélvis e as pernas-. Manterão as pernas

dobradas, mas temos que…

-Não-não-não! -suplicou Anna-. Não, por favor! Não, por favor!

Sara e Mary continuaram com a manobra, e Anna proferiu tais gritos que Sara sentiu calafrios. Não
tinha ouvido nada tão aterrador em sua vida.

-Não! -uivava a mulher-. Não! Por favor! Nooooo!

Começou a sofrer violentas convulsões. Rapidamente, Sara se inclinou sobre a maca para sujeitar
a Anna e que não caísse ao chão. Ouvia-a soprar entre convulsão

e convulsão, pois cada vez que se movia era como se lhe cravassem uma faca no flanco.

-Cinco miligramas do Ativan -ordenou, esperando poder controlar assim os ataques-. Fica comigo,
Anna. Não lhe vá.

De nada serviram as palavras da Sara. A mulher tinha perdido a consciência a conseqüência dos
ataques ou da mesma dor. Um momento depois de que o calmante

sortisse seu efeito, os músculos seguiam espasmódicos e sua cabeça e suas pernas se
convulsionavam de forma sincopada.

-Aqui vem a máquina de raios -anunciou Mary, urgindo ao técnico para que entrasse na sala-. Vou
a ortopedia, a procurar o Sanderson.

-Macon -apresentou o técnico de raios.


-Sara -respondeu ela-. Eu te ajudo.

O técnico lhe deu um avental de chumbo e logo ficou a preparar a máquina. Sara acariciava a
frente da Anna, lhe apartando o escuro cabelo da cara. A mulher

seguia convulsionando quando Sara e Macon a tombaram de costas, com os joelhos flexionados para
lhe fazer o menor dano possível. Sara se deu conta então de que Wíll

Trent seguia na sala.

-Tenho que lhe pedir que saia enquanto fazemos isto.

Sara ajudou ao Macon a tirar as placas; os dois se moveram o mais rápido que podiam. Rezou
para que a paciente não despertasse e ficasse a gritar de novo.

Seguia ouvindo aqueles alaridos, como os de um animal que tivesse cansado em uma armadilha.
Aquilo bastaria para estabelecer que a mulher era perfeitamente consciente

de que ia morrer. Ninguém podia gritar assim a menos que tivesse perdido até a última esperança.

Macon ajudou a Sara a pôr a Anna de flanco e, continuando, foi para revelar as placas. Ela se tirou
as luvas, ajoelhou-se junto à maca uma vez mais e acariciou

a bochecha da Anna.

-Sinto lhe haver empurrado -disse ao Wíll Trent.

Ao voltaro viu os pés da maca, olhando fixamente as pernas da vítima, as novelo de seus pés.
Tinha a mandíbula apertada, mas Sara não sabia se era de espanto,

de raiva ou de ambas as coisas de uma vez.

-Os dois temos um trabalho que fazer -replicou Trent.

-Mesmo assim o sinto.

Trent se inclinou e tocou brandamente a planta do pé direito da Anna, provavelmente convencido


de que era quão único podia tocar sem lhe fazer danifico.

À doutora surpreendeu o gesto, quase tenro.

-Sara? -disse Phil Sanderson da porta, com suas luvas de cirurgião recém lavados.

Incorporou-se e, apoiando brandamente os dedos no ombro da Anna, disse-lhe:

-Temos duas fraturas abertas e uma pélvis destroçada. Há uma profunda incisão junto à mama
direita e uma ferida penetrante no flanco esquerdo. Do ponto
de vista neurológico, não sei muito bem o que te dizer: as pupilas não estão reativas, mas falou que
forma coerente.

Phil se aproximou da paciente e começou a examiná-la. Não fez comentário algum sobre o estado
em que se encontrava, totalmente concentrado no que podia

arrumar: as fraturas abertas e a pélvis destroçada.

-Não a há intubado?

-As vias respiratórias estão limpas.

Era evidente que Phil não estava de acordo com sua decisão; em realidade, aos cirurgiões
ortopédicos importava muito pouco que seus pacientes pudessem falar

ou não.

-E o coração, tudo bem?

-Bem. A pressão arterial é normal. Está estável.

Nesse momento chegou a equipe do Phil e ficaram a preparar o traslado da paciente. Mary voltou
com as placas já reveladas e as deu a Sara.

-Solo a anestesia poderia matá-la -advertiu Phil.

Sara colocou as placas no painel luminoso.

-Não teria chegado até aqui se não fosse uma lutadora.

-A ferida da mama está infectada. Eu diria…

-Sei -interrompeu ela, ficando-as óculos para examinar as placas.

-A ferida do flanco é bastante poda. -Sanderson ordenou a sua equipe que parasse um momento e
se inclinou para vê-la mais de perto-. Sabe se o carro a arrastou?

cortou-se com alguma peça metálica?

-Por isso sabemos, deram-lhe de frente. Estava de pé em metade da estrada -respondeu Wíll Trent.

-Havia algo no lugar do acidente com o que pudesse haver-se feito este corte? É muito limpo.

Wíll vacilou; provavelmente perguntando-se se o cirurgião se teria dado conta do que tinha
passado aquela mulher antes de ser atropelada.

-Havia muitas árvores, era uma zona rural. Ainda não falei com as testemunhas. O condutor tinha
uma forte dor no peito.
Sara voltou a concentrar-se nas placas de raios: ou não tinham saído bem ou estava mais cansada
do que acreditava. Contou as costelas, pensando que seus

olhos podiam estar lhe jogando uma má passada.

Wíll parecia ter percebido sua confusão.

-O que acontece?

-A décima primeira costela -respondeu Sara-. A arrancaram.

-Como arrancado?

-Sim, não a extirparam cirurgicamente.

-Isso é absurdo -exclamou Phil, dirigindo-se para o painel para examinar a placa-. Será que…

Phil colocou a segunda placa, a antero-posterior, e logo a lateral. aproximou-se um pouco mais,
com os olhos entreabridos.

-E onde coño está? Uma costela não sai sozinha do corpo.

-Olhe. -Sara percorreu com o dedo a linha dentada onde tinha estado a cartilagem que antes
sujeitava o osso-. Não é que falte: a arrancaram.

Capítulo dois

Wíll conduziu com os ombros cansados e a cabeça apertada contra o teto do Mini do Faith até
onde se produziu o atropelo. Não tinha querido perder tempo

ajustando o assento antes, quando levou ao Faith ao hospital, nem muito menos quando se dirigia à
cena do crime mais aterrador que tinha visto em sua vida. O carro

não ia do todo mal pelas estradas secundárias que conduziam até a auto-estrada 316, em que pese a
que circulava a maior velocidade da permitida. A ampla batalha

do Mini se adaptava mal às curvas, mas Wíll foi diminuindo à medida que se afastava da cidade.
Cada vez havia mais árvores, e a estrada se estreitava mais, e de

repente se encontrou em uma zona em que não era estranho que cervos e zarigüeyas a cruzassem.

Ia pensando na vítima; na pele arranhada, o sangue, ferida-las por todo o corpo. No mesmo
momento em que viu os da ambulância empurrando a maca a toda pressa
pelo corredor do hospital soube que aquilo era obra de uma mente muito doente. A mulher tinha sido
torturada. Alguém muito experiente na arte de infligir dor lhe

tinha dedicado muito tempo.

Não podia haver-se materializado em metade da estrada sem mais. Ferida-las nas novelo de seus
pés eram recentes, por isso devia levar um bom momento caminhando

pelo bosque. Tinha uma agulha de pinheiro cravada na ponte, e as novelo cheias de terra. Certamente
a tinham retido em alguma parte e, em um momento dado, tinha

conseguido fugir dali. O lugar tinha que estar perto da estrada, e Wíll ia encontrar o embora
demorasse toda a vida.

Reparou em que estava pensando nela” embora a vítima tinha um nome, Anna, que se parecia
muito ao Angie, o de sua esposa. Como Angie, a mulher tinha o cabelo

e os olhos escuros, a pele moréia e um lunar justo debaixo da curva. Wíll se perguntou se aquele
lunar seria algo freqüente nas mulheres de pele moréia; talvez era

algo genético, um pouco associado com a cor dos olhos e o cabelo. Seguro que a doutora Linton
sabia.

Veio a memore o que disse Sara Linton enquanto examinava sua pele machucada e os arranhões em
torno da ferida do flanco: “Devia estar consciente quando

lhe arrancaram a costela”. Se estremeceu ao recordá-lo. Ao longo de sua carreira as tinha tido que
ver com muitos sádicos, mas nenhum tão cruel como este.

Soou o móvel e tratou de tirá-lo do bolso sem perder o controle do volante. Abriu-o com muito
cuidado: a carcasa de plástico levava meses rota, mas tinha

conseguido arrumá-la com cola, cinta isolante e cinco partes de corda que faziam as vezes de
dobradiça. Mesmo assim tinha que dirigir o aparelho com supremo cuidado

para que não se o descuajeringara na mão.

-Wíll Trent.

-Sou Lola, céu.

Franziu o cenho. Sua voz tinha a aspereza própria de alguém que fumava dois maços de cigarro
diários.

-Quem?

-É o irmão do Angie, não?


-Sou seu marido -a corrigiu Wíll-.

Com quem falo?

-Com a Lola, uma de suas garotas.

Angie trabalhava agora como freelance para várias agências de detetives, mas tinha sido agente de
antivício durante dez anos. de vez em quando Wíll recebia

a chamada de alguma das prostitutas com as que tinha trabalhado. Todas necessitavam ajuda, e todas
acabavam voltando para o cárcere, de onde chamavam.

-O que quer?

-Não faz falta que seja tão bordo comigo, céu.

-Olhe, levo oito meses sem falar com o Angie. -Casualidades da vida, sua relação se quebrado
quase ao mesmo tempo que o móvel-. Não posso te ajudar.

-Sou inocente. -Lola Rio sua própria graça e sofreu um ataque de tosse-. Me pilharam com uma
substância branca, não sei o que era, um amigo me pediu que

a guardasse.

Essa classe de garotas sabiam mais de leis que muitos policiais, e se mostravam especialmente
cautelosas quando utilizavam o telefone público do cárcere.

-Busca lhe um advogado -lhe aconselhou Wíll, enquanto acelerava para adiantar ao carro que tinha
diante. Um relâmpago estalou no céu e iluminou a estrada-.

Não posso fazer nada por ti.

-Poderia te oferecer certa informação.

-Pois cuéntaselo a seu advogado. -Wíll ouviu um assobio na linha e reconheceu o número de sua
chefa-. Tenho que te deixar.

Pendurou sem dar tempo a Lola para dizer nada mais.

-Wíll Trent.

Amanda Wagner tomou ar, e Wíll se preparou para um discurso torrencial.

-Como demônios te ocorre deixar a sua companheira no hospital e partir em plano Quijote a
trabalhar em um caso que está fora de nossa jurisdição e no que

ninguém nos pediu ajuda? E para mais inri, em um condado com o que não temos o que se diz uma
boa relação.

-Pedirão-nos ajuda -lhe assegurou Wíll.

-Sua intuição feminina não me impressiona nada esta noite, Wíll.

-quanto mais tempo deixemos isto em mãos da polícia local, mais se esfriará o rastro. Não se trata
de um seqüestrador novato, Amanda. Isto não é nenhum

jogo.

-A polícia do Rockdale o tem tudo sob controle -replicou ela-. Sabem muito bem o que se fazem.

-Estão controlando as estradas e procurando carros roubados?

-Não são idiotas.

-Sim que o são -insistiu Wíll-. Não a deixaram tiragem na estrada, esteve retida em algum lugar
perto da estrada e conseguiu escapar por seu próprio pé.

Amanda guardou silêncio uns instantes, provavelmente esperando a que deixasse de lhe sair
fumaça pelas orelhas. Um segundo relâmpago açoitou o céu, e o

trovão que veio a seguir impediu ao Wíll ouvir o que lhe diziam ao outro lado da linha.

-Como? -perguntou.

-No que estado está a vítima? -repetiu em tom cortante.

Wíll não pensou na Anna, a não ser no olhar que tinha visto nos olhos da Sara Linton quando
subiram à vítima à sala de cirurgia.

-A coisa pinta muito mal.

Amanda deixou escapar um fundo suspiro.

-Me faça um resumo.

Wíll lhe explicou o caso em linhas gerais; o aspecto que tinha a mulher, os signos de tortura.

-Certamente vinha do bosque. Tem que haver uma casa em alguma parte, uma cabana ou algo. Não
parecia que tivesse estado à intempérie. Alguém a teve seqüestrada

durante um tempo, matou-a de fome, violou-a, torturou-a.

-Crie que algum paletó a levou?

-Acredito que foi seqüestrada -replicou Wíll-. Leva um bom corte de cabelo e tem os dentes
branqueados. Não há marcas de espetadas, nem cicatrizes. Tinha

duas pequenas cicatrizes nas costas, provavelmente de uma liposucción.

-Assim não é uma vagabunda nenhuma prostituta.

-Havia sangre nas bonecas e nos tornozelos, como se tivesse estado maniatada. Algumas feridas
tinham começado a cicatrizar, outras eram recentes. Estava

fraca, muito. Devia levar muitos dias seqüestrada; uma semana, possivelmente, no máximo dois.

Amanda amaldiçoou entre dentes. A papelada começava a ser excessivo. O DIG era a nível estatal
o que o FBI ao nacional: coordenava-se com os corpos de polícia

locais quando os delitos transpassavam os limites de um condado, e seu encargo era centrar-se na
investigação além das disputas territoriais. O estado dispunha de

oito laboratórios forenses, de centenas de agentes especiais e da polícia científica, todos eles
dispostos a colaborar com qualquer outro corpo de polícia que o

solicitasse. O problema era que a petição devia apresentar-se por escrito. Havia formas de
assegurar-se de que a cumprimentassem, mas para isso terei que pedir favores,

e por razões que não seria de boa educação discutir em público, Amanda tinha perdido toda sua
influência no Rockdale uns meses atrás por um caso relacionado com

um pai mentalmente desequilibrado que tinha seqüestrado e assassinado a seus próprios filhos.

Wíll voltou a tentá-lo:

-Amanda…

-Deixa que faça algumas chamadas.

-antes de nada, poderia chamar o Barry Fielding? -perguntou, refiriéndose ao responsável pela
brigada canina do DIG-. Não estou muito seguro de que a polícia

local saiba exatamente a que se enfrenta. Não viram à vítima, nem falaram com as testemunhas. Seu
detetive nem sequer tinha chegado ao hospital quando fui. -Amanda

não respondeu, assim Wíll continuou-: Barry vive no condado do Rockdale.

Ao outro lado da linha se ouviu um terceiro suspiro ainda mais profundo, e depois de uma pausa
Amanda respondeu.

-Vale. Mas tenta não lhe tocar os ovos a ninguém mais do estritamente necessário. me chame
quando descobrir algo mais. -Pendurou.
Wíll fechou o móvel e o guardou no bolso da jaqueta; nesse preciso instante, um relâmpago
iluminou o céu e um trovão retumbou em seus ouvidos. Wíll diminuiu

a velocidade; tinha os joelhos pegos ao plástico do salpicadero. O plano era chegar até a auto-
estrada 316, ao lugar em que se produziu o acidente e, uma vez ali,

pedir muito educadamente que lhe deixassem entrar na cena. O que não tinha previsto era o controle
de tráfico. Havia dois patrulheiros da polícia do Rockdale atravessados

em metade da estrada, cortando ambos os sentidos, e dois robustos agentes plantados justo diante.
Uns quinze metros mais à frente, uns gigantescos abajures de xenônio

iluminavam um Buick com o focinho esmagado. Os agentes da polícia científica estavam por toda
parte, enfrascados na pesada tarefa de recolher cada bolinha de pó,

pedra e cristal para levá-lo tudo a analisar ao laboratório.

Um dos agentes se aproximou do Mini. Wíll procurou o interruptor para baixar o cristal do guichê,
esquecendo por um momento que estava no salpicadero. Para

quando conseguiu baixar o cristal, o outro agente tinha vindo a reunir-se com seu companheiro e
ambos lhe sorriam. Wíll caiu então em que devia resultar bastante

cômico lhe ver metido nesse carro tão pequeno, mas isso já não tinha solução. Quando Faith se
deprimiu no estacionamento, quão único pensou foi que o carro dela

estava mais perto que o seu e que demoraria menos em chegar ao hospital se o agarrava.

-O circo está por aí-lhe disse o segundo agente, assinalando para Atlanta com o dedo.

Wíll sabia que não devia tentar tirar a carteira enquanto estivesse dentro do carro, de modo que
abriu a porta e saiu do veículo o mais dignamente que pôde.

Um trovão retumbou por todo o céu e os três olharam para cima.

-Agente especial Wíll Trent -lhes disse, ao tempo que lhes mostrava sua identificação.

Ambos adotaram uma atitude cautelosa. Um deles se afastou, falando pela rádio que levava no
ombro, certamente para consultar a seu chefe (às vezes a polícia

local se alegrava de poder contar com o DIG; outras preferiam lhes pegar um tiro). O outro agente
lhe perguntou:

-Aonde vai tão elegante, se pode saber-se? Ou é que vem de um funeral?

Wíll se limitou a ignorar o sarcasmo.


-Estava no hospital quando ingressaram na vítima.

-Temos várias vítimas -respondeu o agente, claramente disposto a lhe pôr as coisas difíceis.

-A mulher -especificou Wíll-. A que se cruzou na estrada e foi atropelada por um Buick conduzido
por um matrimônio maior. Acreditam que se chama Anna.

O segundo agente já estava de volta.

-vou ter que lhe pedir que volte para seu carro, cavalheiro. Segundo meu superior, isto está fora de
sua jurisdição.

-Posso falar com seu superior?

-Já imaginava que diria isso -replicou o agente, com um avesso sorriso-. Me disse que podia lhe
chamar pela manhã, ao redor das dez ou dez e meia.

Wíll olhou para a cena do crime.

-Pode me dizer seu nome?

O policial se tomou seu tempo e, com muita parcimônia, tirou sua caderneta, depois a caneta e, por
fim, anotou o nome. Arrancou a folha com supremo cuidado

e a deu ao Wíll, que olhou fixamente os ganchos de Fierro que havia em cima do número.

-Está em inglês?

-É você idiota? Fierro. É italiano. -O homem olhou o papel e acrescentou-. Está bem claro.

Wíll dobrou o papel e o guardou no bolso do colete.

-Obrigado.

Não era tão parvo para acreditar que os dois agentes retornariam tranqüilamente a seus postos
enquanto ele voltava a entrar no Mini. Mas agora já não tinha

nenhuma pressa. agachou-se, viu a alavanca que servia para ajustar o assento do condutor e a
empurrou para trás tudo o que pôde. meteu-se no carro e se despediu

dos agentes com a mão enquanto dava meia volta e se afastava.

A 316 não tinha sido sempre uma estrada secundária. antes de que se construíra o I-20, era a auto-
estrada que conectava Rockdale com Atlanta. Atualmente,

a maioria dos condutores preferiam a interestadual, mas ainda ficava gente que a utilizava como
atalho. A finais dos anos noventa, Wíll tinha participado de uma
operação encoberta para erradicar a prostituição da zona e sabia que inclusive então não era uma
estrada com muito tráfico. Que aqueles dois carros tivessem acontecido

por ali ao mesmo tempo que a mulher era quase milagroso. E que esta tivesse conseguido cruzar-se
no caminho de um deles era ainda mais surpreendente.

A menos que Anna os estivesse esperando. Possivelmente ficou diante do Buick a propósito. Wíll
tinha descoberto fazia muito tempo que escapar é mais fácil

que sobreviver.

Seguiu conduzindo devagar, procurando uma separação onde dar a volta: encontrou-a a uns
quatrocentos metros. O asfalto estava muito deteriorado, e sentado

ao volante de um Mini não havia buraco pequeno. Um relâmpago iluminou o bosque como uma
chama. Da estrada não se viam casas, nem cabanas nem estábulos, tampouco

nenhum abrigo daqueles que antigamente se utilizavam para esconder alambiques. Continuou para
diante, utilizando como referência os potentes focos da cena do crime,

e se deteve justo em frente. Jogou o freio de mão e sorriu. O lugar do acidente estava a menos de
duzentos metros, e com as luzes e o agitação parecia um campo de

futebol em metade do bosque.

Agarrou a lanterna do porta-luvas e se desceu do carro. A temperatura começava a descender.


Essa mesma manhã, o homem do tempo tinha antecipado que o céu

estaria parcialmente coberto, mas ao Wíll dava a impressão de que se morava o dilúvio.

Internou-se no bosque, examinando o terreno à luz da lanterna, procurando algo que parecesse
desconjurado. Pode que Anna tivesse passado por ali, mas também

era possível que tivesse chegado pelo outro lado da estrada. A questão é que a cena do crime não
deveria limitar-se solo a esta: deveriam estar penteando o bosque

em um rádio do menos um quilômetro. Não seria tarefa fácil: o bosque era bastante espesso, os
arbustos e os ramos baixos entorpeciam o passo e as árvores cansadas

e os fossas o faziam ainda mais perigoso de noite. Wíll tentou se localizar-se e se perguntou em que
direção estaria o I-20, a zona mais habitada, mas seu sentido

da orientação se voltou louco e deixou de tentá-lo.

O terreno se inclinava agora para baixo. Embora ainda estava longe, Wíll ouvia os ruídos típicos
de uma cena do crime: o zumbido elétrico do gerador, o
dos focos, o clique dos flashs, o murmúrio dos policiais e os técnicos e, de vez em quando, alguma
gargalhada de surpresa.

No céu as nuvens se abriam, deixando passar de tanto em tanto um raio de lua que multiplicava as
sombras sobre o terreno. Pela extremidade do olho viu um

montão de folhas que parecia ter sido removido. agachou-se para examiná-lo, mas a luz da lua não
ajudava muito. As folhas pareciam muito escuras, mas era difícil

saber se eram manchas de sangue ou de chuva. O que sim parecia seguro era que algo tinha estado
sobre elas; mas a questão era se se tratava de um animal ou de uma

mulher.

Tentou localizar-se de novo. Estava a metade de caminho entre o Mini do Faith e o Buick
acidentado. As nuvens voltaram a cobrir o céu e a escuridão reinou

outra vez. A lanterna que levava na mão escolheu esse preciso instante para esgotar-se: a lâmpada
adquiriu primeiro um tom marrom amarelado e a seguir se voltou

negra. Wíll lhe deu um golpe com a palma da mão, tentando lhe tirar algo mais de suco às pilhas.

de repente, o brilhante foco de uma lanterna Maglite o iluminou tudo em um rádio de dois metros.

-Você deve ser o agente Trent -disse um homem.

Wíll se levou a mão aos olhos para proteger suas retinas. O homem demorou uns segundos em
enfocar a lanterna para o peito do Wíll. Com os potentes focos

da cena do crime lhe iluminando da distância, o desconhecido parecia um globo desses que se
utilizam no desfile anual das lojas de departamentos Macy’s: abullonado

na parte superior e muito estreito na inferior. Sua pequena cabeça flutuava sobre seus ombros, e o
pescoço lhe derramava por cima do pescoço da camisa. Tendo em

conta seu perímetro, o homem se movia com surpreendente ligeireza. Wíll não lhe tinha ouvido
chegar.

-Detetive Fierro? -aventurou Wíll.

O homem enfocou sua cara para que Wíll pudesse vê-la.

-Pode me chamar simplesmente Casulo, porque assim é como me vai chamar enquanto conduz
você sozinho de volta a Atlanta.

Wíll, que seguia agachado, elevou a vista para a cena do crime.


-por que não me deixa jogar uma primeira olhada?

Fierro voltou a dirigir o foco para seus olhos.

-além de um tocapelotas é muito teimoso, não?

-Você acredita que a deixaram aí, mas se equivoca.

-Também lê a mente?

-deu aviso a todas as unidades para que estejam atentos a qualquer veículo que resulte suspeito, e
tem à brigada científica examinando o Buick milímetro

a milímetro.

-Se fosse um policial de verdade saberia que o que comuniquei a todas as unidades é um 10-38, e
a casa mais próxima é a de um avô em cadeira de rodas que

vive uns três quilômetros mais acima -Fierro falava com um desdém que ao Wíll não resultava
desconhecido-. Não penso me pôr a discutir o caso contigo. te largue

de minha cena.

-Vi o que lhe têm feito a essa mulher -insistiu Wíll-. Não a meteram em um carro e a jogaram na
sarjeta: sangrava por toda parte. que lhe fez isso é um

tipo preparado; não a meteria em um carro, nem se arriscaria a deixar um rastro. E estou
completamente seguro de que em nenhum caso a teria deixado com vida.

-Tem duas opções -disse Fierro, estirando dois de seus rechonchos dedos-: ou vai por seu próprio
pé ou lhe tiram rastros.

Wíll se incorporou e endireitou os ombros para que o homem pudesse apreciá-lo em toda sua
estatura.

-vamos ver se nos entendemos -respondeu, olhando a Fierro com determinação-. Estou aqui para
ajudar.

-Não necessito sua ajuda, Gómez. Sugiro-te que dê meia volta, meta-te no carro de seu hermanita
pequena e te volte por onde vieste. Quer saber o que está

acontecendo aqui? Pois lê-o no periódico.

-Certamente quer dizer Lurch, o mordomo dos Addams. Gómez era o pai -corrigiu Wíll. Fierro
franziu o cenho-. Olhe, provavelmente Anna, a vítima, esteve

tendida aqui. -Assinalou o montão de folhas alvoroçadas-. Ouviu que se aproximava um carro e
caminhou para a estrada para pedir ajuda. -Fierro não lhe interrompeu,

de modo que Wíll continuou falando-: Os cães estão de caminho. O rastro é recente, mas a chuva
poderia apagá-lo.

Nesse mesmo instante, um relâmpago seguido de um trovão deveram confirmar as palavras do


Wíll. Fierro deu um passo à frente.

-Acredito que não me está escutando, Gómez -disse Fierro e, cravando a parte traseira de sua
lanterna no peito do Wíll lhe obrigou a retroceder. Continuou

fazendo-o enquanto acrescentava, sublinhando cada palavra com um golpe-. te Largue daqui com seu
traje de enterrador, senhor DIG. Coloca seu culo nesse cochecito

de brinquedo e te tire de mi…

Os talões do Wíll se chocaram contra algo duro. Ambos o ouviram e se detiveram.

Fierro abriu a boca, mas Wíll lhe indicou que guardasse silêncio e, continuando, ajoelhou-se no
chão. Wíll apartou as folhas com as mãos e apalpou o contorno

de um tabuleiro de compensado. Duas rochas colocadas a ambos os lados de uma esquina pareciam
assinalar o lugar.

Ouvia-se um ruído muito leve, uma espécie de murmúrio. Wíll se inclinou um pouco mais e
começou a reconhecer as palavras. Fierro também o ouvia. Tirou seu

revólver e colocou a lanterna à altura do canhão para ver o objetivo. De repente, o detetive já não
parecia molesto pela presença do Wíll; de fato, preferiu que

fora ele quem levantasse a trampilla de compensado e pusesse sua cara na linha de fogo.

Quando Wíll elevou a vista para lhe olhar, Fierro se encolheu de ombros, como dizendo: “Foi
você o que queria entrar no caso.”

Trent se tinha passado todo o dia nos tribunais, por isso tinha deixado a arma em casa, na gaveta
da mesinha de noite. Fierro tinha um vulto no tornozelo,

certamente uma segunda arma. O detetive não a ofereceu, e Wíll tampouco a pediu. ia necessitar as
duas mãos para retirar a trampilla e apartar-se a tempo. Conteve

o fôlego enquanto apartava as rochas e limpou o perímetro de terra para poder agarrar bem os borde
da trampilla. Media aproximadamente dois por um, e tinha pouco

mais de um centímetro de grossura. A terra estava úmida e, portanto, lhe levantá-la ia custar um
pouco mais.
Wíll olhou a Fierro para assegurar-se de que estava preparado. Continuando, com um rápido
movimento, retirou a trampilla e se apartou, entre uma nuvem de

pó e terra.

-O que há aí? -perguntou Fierro, em um sussurro-. Vê algo?

Wíll alargou o pescoço para ver o que tinha descoberto. A fossa era profunda e tinha sido
escavada de forma rudimentar; a abertura media uns setenta e cinco

centímetros de lado. aproximou-se da fossa engatinhando. Consciente de que, uma vez mais,
arriscava-se a que alguém lhe voasse os miolos, apareceu rapidamente ao

interior para ver que se enfrentavam exatamente. Não podia ver o fundo. O que sim descobriu foi uma
escada de mão de fabricação caseira que terminava a pouco mais

de um metro da entrada.

Outro relâmpago inflamou o céu, iluminando aquele retablo em todo seu esplendor. Era como uma
vinheta: a escada do inferno.

-Deme a lanterna -disse a Fierro em um sussurro.

O detetive se mostrava agora mais que disposto a colaborar, e lhe aconteceu a lanterna
imediatamente. Wíll voltou a cabeça: Fierro tinha as pernas muito

separadas e apontava à entrada da fossa com os olhos exagerados a causa do medo.

Dirigiu o foco da lanterna para o interior da fossa. Abaixo havia uma cova em forma de L cujo
primeiro lance media aproximadamente um metro e médio e logo

se desviava para o que devia ser o espaço principal. O teto estava escorado com vigas de madeira.
Ao pé da escada se viam algumas provisões: latas de comida, cordas,

cadeias, ganchos. Wíll ouviu um ruído procedente da cova e o coração lhe deu um tombo. Teve que
fazer um grande esforço para não apartar-se de um salto.

-É…? -perguntou Fierro.

Wíll se levou um dedo aos lábios, embora duvidava de que a essas alturas pudessem contar com o
elemento surpresa. Quem estivesse lá abaixo já devia ter

visto o feixe da lanterna movendo-se de um lado a outro. Quase a modo de confirmação, Wíll ouviu
um som gutural que procedia de abaixo, algo assim como um gemido.

Havia outra vítima ali? Pensou na mulher que estava ingressada no hospital, Anna. Wíll sabia
perfeitamente que aspecto tinham as queimaduras elétricas: deixam sob
a pele um polvillo escuro que não desaparece nunca. Acompanham-lhe durante o resto de sua vida,
se é que ainda te subtrai vida, claro está.

Tirou-se a jaqueta e a atirou ao chão. Alargou a mão para o tornozelo de Fierro e tirou o revólver
de sua capa. antes de que este pudesse lhe deter entrou

na cova de um salto.

-Por Deus santo -sussurrou Fierro. Olhou por cima de seu ombro aos policiais da cena do crime, a
uns trinta metros; sem dúvida pensava que havia um modo

melhor de fazer aquilo.

Wíll voltou a ouvir o gemido. Talvez não fosse mais que um animal, ou possivelmente se tratava
de um ser humano. Apagou a lanterna e a guardou na cinturilla

da calça. Deveria haver dito algo -“lhe Diga a minha mulher que a quero”, por exemplo-, mas não
queria lhe dar esse desgosto ou essa satisfação ao Angie.

-Espera -sussurrou Fierro. Queria pedir reforços.

Wíll lhe ignorou e se meteu o revólver no bolso dianteiro. Teve a precaução de provar se a débil
escada agüentava seu peso; apoiou os talões nas travessas,

de modo que pudesse ver o interior da cova enquanto descendia. O oco era estreito e seus ombros
muito largos, assim teve que estirar um braço para cima para poder

entrar. A seu redor continuava caindo terra e as raízes lhe arranhavam a cara e o pescoço. A parede
do oco estava a escassos centímetros de seu nariz, lhe produzindo

uma claustrofobia que Wíll não tinha experiente até esse momento. Notava o sabor do barro na parte
posterior da boca cada vez que respirava. Não podia olhar para

baixo, porque não havia nada que ver, e não queria fazê-lo para cima para não cair na tentação de
escapar dali.

A cada passo que dava, o aroma se fazia mais insuportável: a sedimentos, urina, suor, medo.
Possivelmente fora seu próprio medo o que cheirava. Anna tinha

fugido daquela cova. Talvez tinha tido que enfrentar-se a seu seqüestrador. Ao melhor o homem
estava lhe esperando lá abaixo, com uma pistola ou uma navalha.

O coração lhe pulsava com tal força que lhe faltava o ar. O suor caía a jorros e lhe tremiam os
joelhos enquanto descia por aquela interminável escada.

Por fim sentiu a branda terra sob seus pés. Medindo o chão com a ponta do pé, detectou a corda e as
cadeias. Para entrar na cova tinha que agachar-se; uma vez mais
estaria a mercê de quem estivesse lá abaixo.

Wíll ouviu um ofego e outro murmúrio. Tinha o revólver de Fierro na mão, mas não estava muito
seguro de como tinha chegado até ali. Havia muito pouco espaço

e não podia tirar a lanterna, que de todos os modos lhe tinha cansado dentro da calça. Tentou
flexionar os joelhos, mas seu corpo não lhe obedecia. O ofego se ouvia

cada vez mais alto, e então se deu conta de que procedia de sua própria boca. Olhou para cima e não
viu mais que escuridão. O suor lhe nublava a vista. Conteve o

fôlego e se agachou.

Não houve disparos. Ninguém lhe rachou o pescoço. Ninguém lhe cravou ganchos nos olhos. Uma
suave brisa lhe chegou do oco, ou era algo que tinha diante?

Havia alguém ante ele? Tinha agitado alguém uma mão diante de sua cara? Voltou a ouvir algo que se
movia, dente que tocavam castanholas.

-Não se mova -disse Wíll por fim.

Apontava à frente com o revólver, e o moveu de um lado a outro se por acaso havia alguém. Com
mão tremente colocou a mão em sua calça para tirar a lanterna.

O ofego havia tornado, um ruído embaraçoso que retumbava entre as paredes da cova.

-Nunca… -murmurou uma voz masculina.

Wíll tinha a mão empapada em suor, mas sustentava com firmeza a lanterna. Apertou com força o
botão e a luz se acendeu.

Três grandes ratos negros, com a barriga torcida e garras afiadas, saíram correndo. Duas delas
foram diretas para o Wíll, que instintivamente retrocedeu,

embutiu-se na escada e seus pés se enredaram na corda. cobriu-se a cara com os braços e os ratos
subiram por seu corpo, lhe cravando as garras. Wíll foi presa do

pânico, e notou que a lanterna lhe caía ao chão; recuperou-a imediatamente e esquadrinhou a cova
para comprovar se havia alguém mais.

Ninguém.

-Mierda… -exclamou. deixou-se cair ao estou acostumado a exalando um suspiro.

O suor lhe empanava os olhos. Os ratos lhe tinham deixado os braços cheios de arranhões e teve
que vencer o impulso de fugir pelo mesmo caminho.
Percorreu a cova com o feixe da lanterna, espantando às baratas e demais insetos. Não sabia por
onde se foi o outro rato, mas tampouco ia ficar a procurá-la.

O espaço principal da cova estava em desnível, o estou acostumado a era uns noventa centímetros
mais baixo. Aquela depressão lhe dava certa vantagem.

Agachou-se lentamente, enfocando para diante a lanterna para evitar mais surpresas. O espaço era
maior do que esperava. Deviam ter demorado semanas em escavá-lo,

tirando a terra em cubos e baixando vigas de madeira para poder sujeitar o teto. Calculou que devia
ter ao menos três metros de profundidade e um e oitenta de largura.

O teto tinha uma altura de quase dois metros; o suficiente como para que pudesse ficar de pé, embora
nesse momento não se confiava muito de seus joelhos. O feixe

da lanterna não podia iluminá-lo tudo de uma vez, assim que o espaço parecia ainda mais opressivo.
Se a aquela atmosfera inquietante acrescentava a repugnante mescla

de aromas do barro da Geórgia, o sangue e os excrementos, tudo parecia ainda mais pequeno e
escuro.

Pego a uma das paredes havia um cama de armar feito a base de madeira reciclada. Em cima, uma
prateleira com provisões: jarras de água, latas de sopa e

vários instrumentos de tortura que Wíll só tinha visto em livros. O colchão era fino, e pelas fatias da
capa negra me sobressaía o cheio de espuma manchado de sangue.

Havia emplastros de betume de carne pegos à capa, alguns em processo de putrefação. Os vermes se
amontoavam ao redor formando uma espécie de redemoinho. Havia cabos

de corda atirados no chão, ao lado da cama, e corda suficiente para maniatar a qualquer de pés a
cabeça, quase como uma múmia. Os laterais da cama estavam cheios

de arranhões. Havia agulhas de costurar, anzóis, fósforos. No imundo chão se via um atoleiro de
sangue que se estendia por debaixo da cama como uma lenta destilação

introduzindo-se em um grifo.

-Dito… -começou a dizer uma voz que em seguida se perdeu entre o ruído das interferências.

Havia um radiotelevisor portátil sobre uma cadeira de plástico branco situada na parte posterior
da caverna. Wíll avançou engatinhando até ela. ficou olhando

os botões e teve que pulsar vários antes de dar com o que apagava a rádio; deu-se conta muito tarde
de que deveria haver ficado as luvas.

Seguiu o cabo do televisor com a vista até uma bateria náutica a que tinham talhado a tomada e
juntada o cabo diretamente aos pólos. Havia mais cabos com

extremos cortados que estavam enegrecidos, e Wíll percebeu o aroma característico das queimaduras
elétricas.

-Né, Gómez -gritou Fierro. Sua voz denotava um exacerbado nervosismo.

-Não há ninguém -replicou Wíll.

O policial não se confiava.

-De verdade -repetiu Wíll, e voltou junto à escada para aparecer pelo buraco-. Não há ninguém.

-Deus.

Fierro saiu de seu campo de visão, mas antes Wíll o viu benzer-se. Ele também teria que ficar a
rezar se não saía dali imediatamente. Dirigiu o feixe da

lanterna para a escada e viu as marcas que tinham deixado seus pés sobre os rastros ensangüentados
das travessas. Olhou as reveste raiadas de seus sapatos e o sujo

chão e descobriu mais pisa ensangüentadas que tinha alterado com suas pegadas. Com as costas
apertada contra a parede começou a subir pela escada, tratando de não

danificar nada mais. os da científica lhe foram jogar a bronca, mas já não havia nada que pudesse
fazer ao respeito salvo pedir desculpas.

Parou-se em seco. Anna tinha cortes nos pés mas eram superficiais, a classe de cortes que se
fazem ao andar sobre agulhas de pinheiro, abrojos, cardos.

Isso era o que lhe tinha induzido a pensar que tinha estado caminhando pelo bosque. Não sangrava o
suficiente para deixar esses rastros tão marcados em um chão tão

sujo. ficou ali, com o braço estirado para cima e um pé na escada, pensando.

Respirou fundo, voltou a agachar-se e percorreu cada rincão da cova com o feixe da lanterna.
Havia algo na corda que não lhe quadrava, o modo em que a tinham

enrolado à cama. Veio-lhe à mente a imagem da Anna atada à cama, com a corda enrolada por
debaixo da estrutura. Tirou uma das partes de corda dali. O extremo apresentava

um corte limpo, igual a outros partes. Jogou uma olhada a seu redor. Onde estaria a faca?

Provavelmente tinha ido parar ao mesmo sítio que o terceiro rato.

Wíll retirou o colchão, tampando-a nariz e a boca e tratando de não pensar no que estavam tocando
suas mãos nuas. Continuou tampando-a nariz com a boneca
enquanto tirava as lamas de madeira que sujeitavam o colchão e rezava para que o rato não lhe
saltasse em cima e lhe tirasse os olhos. No caso de, foi as atirando

ao chão com grande estrépito. Ouviu um chiado a suas costas e se voltou. O rato estava em um
rincão, e seus diminutos olhos refletiram a luz da lanterna. Wíll tinha

uma lama na mão e, por um momento, pensou em lançá-la contra o rato, mas dado o reduzido do
espaço não estava seguro de poder acertar. E tampouco queria arriscar-se

a encher o saco.

Deixou a parte de madeira junto a outros, olhando com cautela ao roedor. Mas descobriu algo que
lhe chamou a atenção: havia uns arranhões debaixo das lamas,

uns entalhes profundos com manchas de sangue que não pareciam obra de nenhum animal. Examinou
o oco que havia debaixo da cama à luz da lanterna: tinham rebaixado

o chão de debaixo uns quinze centímetros. Wíll introduziu a mão e tirou uma parte de corda que
também tinha sido talhado mas, a diferença de outros partes, tinha

um nó intacto.

Wíll tirou as lamas que faltavam. Havia quatro Fierrolhos de metal sob o somier, um em cada
esquina, e uma parte de corda pacote a um deles que estava manchado

de sangue. Apalpou a corda com os dedos e a notou molhada. Uma lasca lhe arranhou o polegar:
beliscou as fibras com as unhas para extrai-la e examiná-la à luz da

lanterna. Quando soube o que tinha na mão sentiu o amargo sabor da bílis na garganta.

-Né! -gritou Fierro-. Gómez! Sobe já ou o que?

-Chama à científica! -disse Wíll em tom peremptório.

-Mas o que…?

Wíll olhou a parte de dente que tinha na mão.

-Há outra vítima!

Capítulo três

Faith estava sentada na cafeteria do hospital, pensando que se sentia exatamente igual à noite do
baile de graduação: rechaçada, gorda e grávida. Olhou
ao fibroso detetive do condado do Rockdale que estava sentado ao outro lado da mesa. Com seu
proeminente nariz e o cabelo gordurento pendurando por cima das orelhas,

Max Galloway tinha o aspecto áspero e perplexo de um cão caçador alemão. E o pior é que era um
mal perdedor: não deixava passar uma só ocasião de recalcar que o

DIG lhe tinha roubado o caso. Tinha-o deixado bem claro do momento em que Faith pediu estar
presente quando interrogasse a duas das testemunhas.

-Seguro que a zorra de sua chefa já está emperiquitando-se para falar ante as câmaras.

Faith se mordeu a língua, embora lhe resultava impossível imaginar-se a Amanda Wagner
emperiquitando-se. Afiando-as garras, se acaso.

-Bem -começou Galloway, dirigindo-se às testemunhas-. Assim foram vocês tranqüilamente pela
estrada, não viram nada estranho, e de repente, encontraram-se

com o Buick e a garota na estrada?

Faith teve que fazer um esforço para não pôr os olhos em branco. Tinha trabalhado no
departamento de homicídios da polícia de Atlanta durante oito anos

antes de começar a trabalhar com o Wíll Trent. Sabia muito bem o que era ser um detetive de
homicídios e que viesse um metido do DIG a te dizer que podia levar seu

caso melhor que você. Entendia a raiva e a frustração que gerava o fato de que lhe tratassem como a
um paletó ignorante incapaz de te encontrar a mão direita, mas

agora que ela era uma agente do DIG só pensava no muito que ia desfrutar lhe roubando o caso a esse
paletó insofrível em particular.

Quanto a sua mão direita, pode que Max Galloway sim fora capaz de encontrar-lhe mas não dava
para muito mais. Levava pelo menos meia hora interrogando ao

Rick Sigler e ao Jake Berman -os dois homens que passavam pela 316 quando o Buick atropelou à
mulher-, e ainda não se deu conta de que eram gays.

Galloway se dirigiu ao Rick, o técnico de emergências sanitárias que tinha socorrido à vítima no
lugar do acidente.

-Dizia-me você que sua mulher é enfermeira, não?

Rick se olhou as mãos. Levava uma aliança de ouro rosa e suas mãos eram as mais bonitas e
delicadas que Faith tinha visto em um homem.

-Faz o turno de noite no Crawford Long.


Faith se perguntou como se sentiria a mulher sabendo que seu marido andava jogando uma canita
ao ar enquanto ela fazia o turno de noite.

-Que filme foram ver? -perguntou-lhes Galloway.

Tinha-lhes feito a mesma pergunta pelo menos três vezes, e em todas tinha obtido a mesma
resposta. Faith também era capaz de algo com tal de pilhar em falta

a um suspeito, mas terei que ter um par de dedos de frente e saber fazê-lo; infelizmente, Max
Galloway não possuía essa habilidade. Do ponto de vista do Faith parecia

que aquelas duas testemunhas simplesmente tinham tido a má fortuna de encontrar-se no lugar e
momento equivocados. O único aspecto positivo de sua participação naquele

assunto era que tinham podido atender à vítima enquanto chegava a ambulância.

-Acredita que ficará bem? -perguntou Rick ao Faith.

Esta imaginou que a vítima seguiria no sala de cirurgia.

-Não sei -admitiu-. Mas você fez tudo que pôde, não lhe caiba a menor duvida.

-estive em um milhão de acidentes de tráfico -disse o homem, olhando-as mãos de novo-, mas
jamais tinha visto uma coisa igual. Era… Era algo espantoso.

Em circunstâncias normais Faith não era muito empática mas, como polícia, sabia quando era
necessário um enfoque mais sensível. Sentiu o impulso de inclinar-se

sobre a mesa e pôr suas mãos sobre as do Rick, para lhe consolar e também para lhe surrupiar, mas
não estava muito segura de como ia reagir Galloway, de modo que

preferiu não arriscar-se a piorar ainda mais a coisa.

-Encontraram-se no cinema ou foram em um só carro? -perguntou Max.

Jake, a outra testemunha, revolveu-se em seu assento. Tinha estado muito calado desde o começo,
solo falava quando lhe perguntavam diretamente. Não deixava

de olhar o relógio.

-Tenho que partir -disse-. Tenho que me levantar dentro de cinco horas para ir trabalhar.

Faith olhou o relógio da parede. Não se tinha dado conta de que era quase a uma da madrugada,
provavelmente porque a injeção de insulina lhe tinha produzido

um efeito extrañamente estimulante. Wíll se tinha ido duas horas antes. Tinha-lhe feito um breve
resumo do que tinha passado e tinha saído apitando para a cena do
crime, sem lhe dar sequer a oportunidade de oferecer-se a ir com ele. Era muito tenaz, e Faith sabia
que encontraria o modo de que lhe atribuíssem aquele caso. Ela

o único que queria saber era por que demorava tanto.

Galloway lhes passou uma caderneta e uma caneta às testemunhas.

-Me anotem seus números de telefone.

Rick ficou pálido.

-Comunique-se comigo solo através do móvel, por favor. Não me chame o trabalho -olhou ao Faith
com inquietação, e logo voltou a dirigir-se ao Galloway-.

A meu chefe não gosta que atendamos chamadas pessoais em horas trabalhistas. Estou todo o dia na
ambulância. De acordo?

-Claro. -Max se recostou em sua cadeira, cruzou-se de braços e ficou olhando fixamente ao Faith-.
ouviu isso, abutre?

Lhe respondeu com um tenso sorriso. Podia agüentar que manifestasse abertamente sua hostilidade,
mas esse cilindro pasivoagresivo a estava pondo dos nervos.

Tirou dois cartões de visita e as deu às testemunhas.

-Não duvidem em me chamar se recordarem algo mais, por favor. Embora não lhes pareça nada
importante.

Rick assentiu e se guardou o cartão no bolso traseiro. Jake ficou na mão, e Faith imaginou que
pensava atirá-la no primeiro cesto de papéis que encontrasse.

Tinha a impressão de que aqueles dois homens não se conheciam muito. Não tinham dado muitos
detalhes sobre sua relação, embora os dois mostraram suas entradas quando

o pediram. Provavelmente se tinham conhecido no cinema e logo tinham decidido procurar um sítio
mais discreto.

Um móvel começou a soar com o que ao Faith pareceu The Battle Hymn of the Republic (que
começa com o famoso “Glory, Glory Hallelujah”), mas em seguida corrigiu

sua impressão inicial: provavelmente era o hino da Universidade da Geórgia. Galloway respondeu.

-Sim?

Jake fez gesto de levantarse e Galloway assentiu com a cabeça, como se lhe desse permissão para
partir.
-Obrigado -disse Faith dirigindo-se aos dois homens-. Por favor, se recordarem qualquer outra
coisa me chamem.

Jake estava já quase na porta, mas Rick seguia ali.

-Sinto não ter sido de mais ajuda. foram muitas coisas de repente Y… -não terminou a frase. Seus
olhos se encheram de lágrimas. Era evidente que seguia

traumatizado pelo que tinha ocorrido.

Faith lhe pôs a mão no braço e lhe falou com voz suave.

-Não me importa absolutamente o que estivessem fazendo vocês ali. -ficou avermelhado-. Não é
meu assunto. Quão único quero é encontrar ao tipo que lhe fez

mal a essa mulher.

Rick desviou o olhar e nesse preciso instante Faith se deu conta de que tinha metido a pata. Ele fez
um gesto com a cabeça sem atrever-se a olhá-la aos

olhos.

-Sinto não poder lhe ser mais útil.

Faith ficou lhe olhando enquanto partia, desejando poder chutar o culo. Ouviu o Galloway detrás
dela, amaldiçoando entre dentes. De repente este se levantou

de forma tão brusca que sua cadeira caiu ao chão Armando grande estrépito. Faith se voltou.

-Seu companheiro está como uma puta cabra. Lhe foi a pinça de tudo.

Faith estava de acordo -Wíll nunca fazia as coisas pela metade-, mas nunca criticava a seu
companheiro a menos que o tivesse diante.

-É um simples comentário ou tenta me dizer algo?

Galloway arrancou a página em que as testemunhas tinham escrito seus números de telefone e a
soltou na mesa.

-O caso é dele.

-Vá, sim que deu um giro inesperado a situação -replicou enquanto lhe oferecia seu cartão de
visita com um grande sorriso-. Lhe agradeceria que me enviasse

por fax as declarações de tudas as testemunhas e os relatórios preliminares. O número está aí abaixo.

Galloway agarrou bruscamente o cartão e se deu meia volta. Ao partir, tropeçou com a mesa e se
afastou grunhindo:

-Segue sonriendo, zorra.

Agachou-se para recolher a cadeira e ao levantarse enjoou um pouco. A enfermeira-educadora


tinha sido mais útil como o primeiro que como o segundo, assim

não estava muito segura do que fazer com toda aquela parafernália para diabéticos que lhe tinha
dado. Eram algumas nota, formulários, uma revista e um montão de

papéis que teria que lhe levar a seu médico pela manhã, mas nada disso tinha o menor sentido para
ela. Ou ao melhor tudo tinha sido muito repentino e não tinha terminado

de processá-lo. Sempre lhe tinham dado bem as matemática, mas a só idéia de ter que pesar a comida
e calcular as dose de insulina se o fazia um mundo.

A puntilla a tinha dado o resultado do test de embaraço que tão amavelmente lhe tinham pedido
junto com outros análise. Até esse momento Faith se agarrou

à esperança de que os test de farmácia não eram confiáveis e podiam ter dado um falso positivo os
três. Que fiabilidad podia ter um artefato sobre o que terei que

mijar? esteve-se debatendo entre a possibilidade de um embaraço e de um tumor no estômago, sem


saber muito bem qual das duas notícias lhe aliviaria mais. Quando

a enfermeira, cheia de alegria, anunciou-lhe: “vai ter um bebê!”, Faith acreditou que ia se deprimir
outra vez.

Mas a coisa já não tinha remédio. Voltou a sentar-se à mesa, olhando os números de telefone do
Rick Sigler e Jake Berman. Estava quase segura de que o do

Jake era falso, mas o jogo não era novo para ela. Max Galloway se incomodou quando ela lhes tinha
pedido os carnês de conduzir e tinha cotado a informação em sua

caderneta. Mas possivelmente Galloway não fora do todo idiota: tinha-lhe visto anotar em outra folha
os dois números enquanto falava pelo móvel. Faith se imaginou

ao Galloway tendo que lhe pedir os dados do Jake Berman e sorriu maliciosamente.

Voltou a olhar o relógio, perguntando-se por que demorariam tanto os Coldfield. Galloway havia
dito ao Faith que lhes tinham requerido que baixassem à cafeteria

assim que terminassem de lhes atender, mas ao parecer o matrimônio o estava tomando com calma.
Também sentia curiosidade por saber o que tinha feito Wíll Trent para

que Galloway dissesse que lhe tinha ido a pinça. Ela era primeira em reconhecer que seu
companheiro era pouco convencional; fazia as coisas a sua maneira, mas era
o melhor polícia com o que tinha trabalhado, embora suas habilidades sociais eram mais dignas de
uma criança que de um homem feito. Por exemplo, ao Faith tivesse

gostado de inteirar-se por seu companheiro de que lhes tinham atribuído o caso, e não pelo cão
caçador do condado do Rockdale.

Ao melhor vinha bem ter um pouco de tempo antes de falar com o Wíll. Ainda não tinha a menor
idéia de como lhe ia explicar por que se deprimiu no estacionamento

dos tribunais sem lhe contar toda a verdade.

Faith ficou a revolver na bolsa de plástico com o instrumental para diabéticos e tirou o folheto que
lhe tinha dado a enfermeira, esperando ser capaz esta

vez de concentrar-se na leitura. Não tinha passado do “Diagnóstico: diabetes” e já estava pensando
outra vez que tinha que haver algum engano. A injeção de insulina

lhe tinha sentado bem, mas talvez tinha sido o ratito que tinha estado arremesso e não o medicamento
o que lhe tinha ajudado a recuperar-se. Haveria antecedentes

de diabetes em sua família? Teria que chamar a sua mãe, mas nem sequer lhe tinha comunicado que
estava grávida. Além disso, Evelyn estava de férias no México, e

eram as primeiras férias que se tomava em muito tempo. Faith queria assegurar-se de que tinha
assistência médica à mão quando lhe contasse a notícia.

A quem sim deveria chamar era a seu irmão. O capitão Zeke Mitchell era um cirurgião das Forças
Aéreas destinado no Landstuhl, Alemanha. Como médico, saberia

tudo o que terá que saber sobre a diabetes, e precisamente por isso resistia a chamá-lo. Quando tinha
quatorze anos e contou a sua família que estava grávida, Zeke

estava terminando o último curso no instituto. Viveu mortificado e humilhado durante vinte e quatro
horas ao dia sete dias à semana: em casa tinha que ver a furcia

de sua irmã pequena inchando-se como um globo e na escola devia agüentar as desumanas
brincadeiras que seus amigos faziam a costa dela. Não foi sentir saudades que

se arrolasse no exército nada mais terminar o instituto.

E logo estava Jeremy. Faith não tinha nem idéia de como ia dizer a seu filho que estava grávida.
Tinha dezoito anos, a mesma idade que Zeke quando lhe arruinou

a vida. E se um adolescente prefere não saber que sua irmã tem vida sexual, com toda segurança
tampouco o quererá saber de sua mãe.

Faith tinha crescido com o Jeremy, e agora que este já estava na universidade sua relação se
instalou em um ponto muito cômodo no que podiam falar como

adultos. Lógicamente, às vezes lhe vinham lembranças de seu filho quando era menino -seu
inseparável mantita, a época em que lhe perguntava constantemente quando

pesaria muito para que já não pudesse agarrá-lo em braços-, mas finalmente tinha conseguido aceitar
o fato de que seu precioso menino era agora um homem adulto.

Como ia soltar lhe semelhante bomba agora que tinham conseguido chegar a um equilíbrio? E não só
era o embaraço, também estava doente. Padecia uma enfermidade que

seu filho podia ter herdado. Agora tinha noiva, e Faith sabia que mantinham relações sexuais. Os
filhos do Jeremy podiam ser diabéticos por sua culpa.

-Deus -resmungou. Não era a diabetes, a não ser a idéia de que poderia acabar sendo avó antes de
cumprir os trinta e quatro.

-Como se encontra?

Faith elevou a vista e viu a Sara Linton ao outro lado da mesa, com uma bandeja de comida nas
mãos.

-Velha.

-Pelo folheto?

Faith tinha esquecido que o tinha na mão. Fez-um gesto a Sara para que tomasse assento.

-Em realidade estou questionando suas aptidões como médico.

-Não seria você a primeira -disse Sara em tom contrito. Faith sentiu curiosidade por sua história, e
não pela primeira vez-. Acredito que não fui muito

hábil na hora de lhe comunicar a notícia.

Faith não o discutiu. Em urgências tinha desejado odiá-la pelo único feito de ser o tipo de mulher a
que desejas odiar a simples vista: alta e magra, elegante,

com uma larga juba de cor mogno e essa incomum beleza que faz que todos os homens se voltem a
olhar quando entra em uma habitação. Tampouco ajudava o que, além disso,

fora uma mulher inteligente que tinha obtido o êxito profissional. Havia sentido a mesma repulsão
instintiva que lhe inspiravam as animadoras no instituto. Gostava

de pensar que o fato de ter maturado e ter fortalecido seu caráter lhe tinha ajudado a superar essa
reação instintiva, mas o que lhe acontecia era que lhe resultava
muito difícil odiar a uma viúva; em especial a de um policial.

-comeu algo desde que falamos? -perguntou Sara. Faith meneou a cabeça e olhou a bandeja da
doutora: uma raquítica porção de frango assado sobre uma folha

murcha de alface e algo que podia ou não ser verdura. Sara ficou a cortar o frango com o garfo e a
faca de plástico, ou isso tentou ao menos. Finalmente acabou mas

bem arrancando-o. Tirou o pãozinho de sua bandeja, repartiu o frango e aconteceu com Faith um dos
pratos.

-Obrigado -disse Faith, pensando que os pão-doces de chocolate que tinha visto o entrar na
cafeteria tinham um aspecto muito mais apetecível.

-Atribuíram-lhes o caso de maneira oficial?

Pergunta-a agarrou ao Faith por surpresa, mas logo caiu em que Sara tinha atendido à vítima; era
natural que sentisse curiosidade.

-Wíll conseguiu nos colocar com calçadeira -respondeu. Voltou a comprovar a cobertura do
móvel, perguntando-se por que não teria chamado ainda.

-Seguro que a polícia local estará encantada de que se vocês ocupem.

Faith se pôs-se a rir e pensou que o marido da Sara devia ter sido um bom polícia. Ela também o
era, e era consciente da hora, a uma da madrugada, e que

Sara lhe havia dito seis horas antes que estava a ponto de acabar seu turno. Observou à doutora, que
brilhava com o inequívoco resplendor de uma viciada na adrenalina.

Tinha baixado à cafeteria procurando informação.

-Vi ao Henry Coldfield, o condutor do Buick -explicou Sara. Ainda não tinha provado a comida;
tinha baixado à cafeteria para ver o Faith, não para comer

uma parte de frango seco que deveu vir ao mundo o ano que renunciou Nixon-. O airbag lhe provocou
uma contusão no peito e à mulher tiveram que dar um par de pontos,

mas estão bem.

-Em realidade, por isso estou aqui. Estou-lhes esperando -Faith olhou o relógio de novo-. Se
supunha que tinham que reunir-se comigo.

Sara parecia desconcertada.

-partiram faz coisa de meia hora com seu filho.


-Como?

-Vi-lhes falar com o detetive do cabelo gordurento.

-Filho de puta. -Por algo Max Galloway tinha esse ar de suficiência quando se foi da cafeteria-.
Perdoe. Esse tipo é mais preparado do que acreditava. riu-se

de mim em minha própria cara.

-Coldfield é um sobrenome pouco freqüente -lhe disse Sara-. Seguro que figuram na listas
telefônica.

Isso esperava Faith, porque não queria ter que recorrer ao Max Galloway e lhe dar essa
satisfação.

-Também posso copiar sua direção e seu telefone dos papéis do ingresso, se quiser -lhe ofereceu
Sara.

Ao Faith surpreendeu a oferta, que normalmente requeria uma ordem judicial.

-Faria-me um grande favor.

-Não há problema.

-Mas isso é, ejem… -Faith não terminou a frase e se mordeu a língua para não lhe dizer à médica
que lhe proporcionar esses dados era ilegal. Decidiu trocar

de tema-Wíll me disse que foi você quem atendeu à vítima quando a ingressaram.

-A Anna, ou isso me pareceu entender.

Faith ia medindo o terreno. Wíll tinha omitido detalhes.

-E qual é sua impressão?

Sara se recostou na cadeira, com os braços cruzados.

-Mostrava sintomas graves de desnutrição e desidratação. Tinha as gengivas brancas e a tensão


muito baixa. Dada a natureza da cicatrização e o modo em que

se coagulava o sangue, eu diria que as feridas lhe foram infligidas ao longo de vários dias. Tinha
marcas nas bonecas e os tornozelos que indicavam que tinha estado

maniatada. Penetraram-na por via anal e vaginal, segundo os indícios, com um objeto romo. Não
pude lhe fazer as provas de violação antes de que a subissem a sala

de cirurgia, mas a examinei o melhor que pude. Retirei várias lascas de debaixo de suas unhas para
que pudessem as analisar no laboratório; acredito que não era

madeira tratada, mas terá que ver o que dizem os da científica.

Falava como se estivesse atestando ante o tribunal. Cada observação se sustentava em uma prova,
e quando fazia uma conjetura deixava claro que se tratava

de uma hipótese.

-Quanto tempo acredita que a tiveram seqüestrada? -perguntou-lhe Faith.

-Pelo menos quatro dias. Embora se tivermos em conta a gravidade da desnutrição poderíamos
estar falando de uma semana ou dez dias.

Faith não queria nem pensar que aquela pobre mulher tivesse podido ser torturada durante dez
dias.

-por que quatro dias?

-Pelo corte do peito -explicou Sara assinalando seu próprio peito-. É um corte profundo em estado
de putrefação; inclusive vi indícios de atividade dos

insetos. Terá que falar com um entomólogo para que examine as larvas e lhe diga em que fase de
desenvolvimento se encontram, mas tendo em conta que ainda estava

viva, que seu corpo estava relativamente quente e que dispunham de sangre para alimentar-se, quatro
dias me parece um cálculo bastante ajustado. Duvido muito que

possam lhe salvar a malha.

Faith tinha os lábios fortemente apertados, tratando de resistir ao impulso de pôr a mão sobre seu
próprio peito. Quantos pedaços de seu corpo podia perder

antes de morrer?

Sara continuou falando, embora Faith não a animasse.

-A costela número onze, esta. -Assinalou seu abdômen-. Lhe foi extirpada recentemente,
provavelmente hoje mesmo ou ontem a última hora, e é um trabalho

de precisão.

-Precisão cirúrgica?

-Não. De confiança. Não há marcas de vacilação, nem corte preliminares. que o fez confiava em
suas próprias habilidades.
Faith pensou que a doutora também parecia muito segura.

-Como você crie que o fez?

Sara tirou sua caderneta e começou a desenhar uma série de curvas que não cobraram sentido até
que o explicou.

-As costelas se numeram por pares e de cima abaixo; há doze a cada lado. -Foi as assinalando com
o boli-. A primeira está justo debaixo da clavícula e a

número doze é a última. -Levantou a cabeça para assegurar-se de que Faith a seguia-. A número onze
e a doze se consideram “flutuantes” porque não vão unidas ao esterno.

Estão unidas unicamente às vértebras, por detrás. -Desenhou uma linha vertical que representava a
coluna-. As sete costelas superiores vão unidas às vértebras por

detrás e por diante ao esterno. Os três pares seguintes vão ensambladas às de acima, e se denominam
costelas falsas. Todo este armação é muito elástico para que

possamos respirar, e por isso é muito difícil romper as costelas com um golpe direto, são muito
flexíveis.

Faith se tinha inclinado para diante e não perdia resíduo.

-Ou seja, que isto o fez alguém com conhecimentos de medicina.

-Não necessariamente. As costelas se podem localizar facilmente com os dedos. Todo mundo sabe
onde as tem.

-Mas mesmo assim…

-Olhe. -Sara ficou de pé, levantou o braço direito e se pressionou o flanco esquerdo com os
dedos-. você Passe sua mão pela linha axilar posterior até chegar

ao extremo da costela… É a número onze, e a doze está um pouco mais abaixo. -Agarrou a faca de
plástico-. Agarrou a faca e cortou seguindo a longitude da costela;

pôde inclusive ter apoiado a ponta no osso. Logo apartou a graxa e o músculo, desarticulou a costela
das vértebras e finalmente a agarrou e atirou.

Faith sentia calafrios só de pensá-lo. Sara deixou a faca.

-Um caçador não demoraria nem um minuto, mas qualquer poderia fazê-lo. Não falo de precisão
cirúrgica. Seguro que se o buscar no Google encontrará esquemas

muito mais completos do que lhe desenhei eu.


-E é possível que a vítima não tivesse essa costela, que nascesse sem ela?

-Uma pequena percentagem da população nasce com um par menos, mas a maioria temos vinte e
quatro costelas.

-E o de que os homens têm uma costela menos que as mulheres?

-Pelo do Adão e Eva? -Sara esboçou um sorriso e ao Faith deu a impressão de que a mulher se
estava agüentando as vontades de rir-. Não cria você tudo o

que lhe contaram na escola dominical, Faith. Todos temos o mesmo número de costelas.

-Vá, agora me sinto como uma idiota. Mas está você segura de tudo isto? Está segura de que lhe
extirparam a costela?

-A arrancaram. A cartilagem e o músculo estavam rasgados. Foi um ato de violência.

-Parece que lhe deu muitas voltas a isto.

Sara se encolheu de ombros, como se tudo fora fruto de sua curiosidade natural. Agarrou de novo a
faca e o garfo e ficou a cortar o frango. Faith a observou

enquanto lutava com aquela parte de carne seca quando, de repente, voltou a soltar os talheres.
Sorriu-lhe, quase como se lhe envergonhasse o que lhe ia dizer.

-fui médica forense.

Faith ficou boquiaberta. Sara lhe havia dito aquilo como quem confessa um talento oculto para as
acrobacias ou um pecado de juventude.

-Onde?

-No condado do Grant. A umas quatro horas daqui.

-Não me soa.

-Está na costa -explicou Sara. Apoiou os braços na mesa e sua voz adquiriu um tom nostálgico-.
Aceitei o posto para poder comprar a meu sócio sua parte

da consulta de pediatria. Ao menos isso era o que eu acreditava. A verdade é que me aborrecia.
Quando trabalha com meninos te passa o dia pondo vacinas e curando

joelhos esfolados. Passado um tempo, acaba subindo pelas paredes.

-Imagino -murmurou Faith, mas estava pensando no que lhe parecia mais alarmante: que a médica
que lhe tinha diagnosticado diabetes fora uma pediatra ou
que fora uma forense.

-Me alegro de que lhes tenham atribuído este caso -disse Sara-. Seu companheiro é…

-Estranho?

Sara a olhou com estranheza.

-ia dizer “intenso”.

-É bastante teimoso, sim -admitiu Faith, pensando que era a primeira vez que alguém que acabava
de conhecer o Wíll lhe falava tão bem dele. Normalmente

a gente demorava um tempo em chegar a apreciá-lo.

-Parece um homem muito sensível -disse a doutora, elevando a mão para rechaçar qualquer
possível protesto-. Não é que os policiais não sejam sensíveis,

mas sim normalmente tendem a ocultá-lo.

Faith não pôde a não ser assentir. Wíll estranha vez mostrava suas emoções, mas Faith sabia que
as vítimas de tortura lhe comoviam de forma especial.

-É um bom polícia.

Sara olhou sua bandeja.

-Pode comer-se isto, se quiser. A verdade é que não tenho fome.

-Eu diria que não veio você aqui a comer. -Sara ficou tinta, como se a tivessem pilhado em falta-.
Está bem, não passa nada. Mas se seguir disposta a me

facilitar os dados dos Coldfield…

-Certamente.

Faith tirou da bolsa outro cartão de visita.

-O número de meu móvel está ao dorso.

-Muito bem.

Com expressão resolvida, Sara leu o número e Faith se deu conta de que não só sabia que estava
infringindo a lei, mas sim além não lhe importava.

-Outra coisa… -acrescentou Sara. Parecia duvidar de se devia falar ou não-. Os olhos. Tinha
petequias na esclerótica, mas não vi indícios de estrangulamento.
As pupilas estavam desfocadas. Poderia ser uma conseqüência do golpe ou um pouco de tipo
neurológico, mas não estou segura de que possa ver.

-Isso explicaria por que se cruzou em meio da estrada.

-Tendo em conta o que teve que acontecer…

Sara não terminou a frase, mas Faith a entendeu perfeitamente. Não fazia falta ser médico para
entender que, depois de passar por semelhante inferno, uma

mulher pudesse expor-se deliberadamente a que um carro a levasse por diante.

Sara se guardou o cartão do Faith no bolso do casaco.

-Chamarei-a dentro de um momento.

A detetive ficou olhando-a enquanto se afastava, perguntando-se como demônios tinha acabado
Sara Linton trabalhando no hospital Grady. Não devia ter mais

de quarenta anos, mas as urgências são para os mais jovens; é a classe de trabalho do que alguém sai
fugindo apavorado antes de cumprir os trinta.

Voltou a olhar seu móvel. As seis barras estavam iluminadas, o que indicava que a intensidade do
sinal era ótimo. Tentou lhe conceder ao Wíll o benefício

da dúvida. Ao melhor havia lhe tornado a romper o móvel. De todos os modos poderia lhe haver
pedido um aparelho a qualquer dos que estavam ali, assim talvez era

certo que era um imbecil.

Enquanto se levantava e se dirigia para o estacionamento, Faith pensou que também podia lhe
chamar ela, mas por algo estava grávida e solteira pela segunda

vez em vinte anos: não lhe dava bem comunicar-se com os homens de sua vida.

Capítulo quatro

Wíll estava na entrada da cova baixando uma equipe de luzes com uma corda para que Chárlie
Reed tivesse algo melhor que uma lanterna para recolher as provas.

Estava empapado até os ossos, em que pese a que fazia meia hora que tinha deixado de chover. À
medida que se aproximava o amanhecer o ar se voltava mais frio, mas

preferia estar na coberta do Titanic antes que voltar a baixar ali.


Os abajures chegaram ao chão e viu um par de mãos que as levavam a interior da cova. Wíll se
arranhou os braços. As mangas de sua camisa branca tinham manchas

de sangue nos pontos nos que lhe tinham arranhado os ratos, e se perguntava se o picor seria um
sintoma da raiva. Era a classe de pergunta que normalmente teria

feito ao Faith, mas não queria incomodá-la. Tinha muito mau aspecto quando a deixou no hospital e
ali não podia fazer nada, salvo esperar a seu lado sob a chuva.

Poria-lhe à corrente de tudo pela manhã, mas precisava dormir bem essa noite. Aquele caso não ia se
resolver em uma hora; ao menos um dos dois poderia abordar a

investigação bem descansado.

Ouviu um helicóptero que sobrevoava a zona, o estalo continuado e a vibração retumbavam em


seus ouvidos. Estavam fazendo um varrido com infravermelhos,

procurando à segunda vítima. As equipes de resgates levavam várias horas trabalhando, penteando
meticulosamente a zona em um rádio de três quilômetros. Também tinha

chegado já Barry Fielding com os cães, e os animais se tornaram loucos durante a primeira meia
hora, mas logo tinham perdido o rastro. Agentes uniformizados do condado

do Rockdale estavam batendo a zona a pé, procurando mais covas subterrâneas, mais pistas que
pudessem lhes dar uma idéia de onde tinha fugido a outra vítima.

Ao melhor não tinha conseguido fugir. Ao melhor o seqüestrador a tinha encontrado antes de que
pudesse pedir ajuda. Talvez tinha morta dias, ou inclusive

semanas. Ou possivelmente simplesmente não tinha existido nunca. Wíll tinha a impressão de que, à
medida que avançava a busca, os policiais se voltavam mais hostis

com ele. Muitos acreditavam que não havia uma segunda vítima, e pensavam que Wíll os tinha ali
passando frio pela simples razão de que era muito idiota para dar-se

conta de que estava equivocado.

Havia uma pessoa que podia esclarecer aquilo, mas seguia no hospital Grady, lutando por sua
vida. Normalmente o primeiro que se fazia em um caso de seqüestro

ou assassinato era examinar com lupa a vida da vítima, mas esta vez quão único sabiam era que se
chamava Anna. Wíll pensava revisar pela manhã todos os informe de

pessoas desaparecidas, mas haveria centenas deles, e isso sem contar as denúncias da cidade de
Atlanta, onde desapareciam uma média de duas pessoas ao dia. Se a

mulher procedia de outro estado, a papelada seria muito pior. Ao FBI chegavam mais de um quarto
de milhão de casos de desaparecimento ao ano. Para complicar ainda

mais as coisas, poucas vezes atualizavam os informe quando encontravam ao desaparecido.

Se Anna não estava consciente pela manhã, Wíll enviaria ao hospital a um técnico de rastros para
lhe fazer a ficha. Era o único que podia fazer para tentar

identificá-la. A menos que tivesse cometido algum delito, seus rastros não estariam nas base de
dados. Mas, às vezes, atenerse ao procedimento era a melhor forma

de fazer saltar a lebre. Fazia muito tempo que Wíll tinha aprendido que uma possibilidade remota
não deixava de ser uma possibilidade.

A escala que baixava até a cova se agitou, e Wíll a sujeitou para que Chárlie Reed pudesse subir.
O céu se limpou bastante e as nuvens deixavam acontecer

a luz da lua. Embora o toró já tinha passado, ainda caía alguma que outra gota, que soava como um
gato estalando a língua. O bosque tinha adquirido um estranho tom

azulado e havia suficiente luz, já não necessitava a lanterna para ver o Chárlie Reed. Este tirou a mão
pelo buraco e soltou uma bolsa grande cheia de provas aos

pés do Wíll para poder sair dali.

-Mierda -exclamou.

Tinha o macaco branco cheio de barro. O tirou logo que chegou à superfície, e Wíll viu que suava
de tal maneira que a camiseta lhe tinha ficado pega ao

peito.

-Está bem? -perguntou-lhe.

-Mierda -repetiu Chárlie, limpando-a frente com o dorso da mão-. Não posso acreditar… Deus,
Wíll.

Chárlie se inclinou para frente e se abraçou os joelhos com as mãos. Ofegava muito, em que pese a
que estava em forma e a escalada da cova não era difícil.

-Não sei por onde começar. -Wíll entendia perfeitamente como se sentia-. Havia instrumentos de
tortura… -secou-se a boca com o dorso da mão-. Nunca tinha

visto essa classe de coisas mais que na televisão.

-Havia uma segunda vítima -disse Wíll, elevando o tom para o final da frase para que Chárlie a
entendesse como uma observação que requeria ser confirmada.
-Nada do que vi aí abaixo tem nenhum sentido. -ficou em cuclillas e apoiou a cabeça nas mãos-.
Nunca tinha visto nada parecido.

Wíll ficou de joelhos para estar a sua altura e agarrou a bolsa das provas.

-O que é isto?

Chárlie meneou a cabeça.

-Encontrei-as enroladas dentro de uma lata que havia junto à cadeira.

Wíll alisou a bolsa sobre sua perna e utilizou a lanterna do Chárlie para examinar o conteúdo.
Dentro havia pelo menos cinqüenta folhas arrancadas de um

caderno escritas a lápis por ambas as caras. Olhou fixamente as palavras, tratando de lhes encontrar
algum sentido. Nunca tinha lido muito bem: as letras lhe dançavam

e lhe davam a volta; às vezes lhe enredavam de tal maneira que chegava a enjoar-se tentando as
decifrar.

Chárlie não conhecia o problema do Wíll, assim que este tentou lhe surrupiar um pouco de
informação.

-O que lhe parecem estas notas?

-É uma loucura, verdade? -Chárlie se beliscava o bigode com o índice e o polegar, um tic nervoso
que solo se manifestava em circunstâncias como aquela-.

Não acredito que possa voltar a baixar. -Fez uma pausa e tragou saliva-. Se respira… maldade, isso.
Maldade em estado puro.

Wíll ouviu um rumor de folhas e ramos que estalavam. voltou-se e viu a Amanda Wagner
avançando entre as árvores. Era uma mulher maior, devia rondar os sessenta

anos. Estava acostumado a levar trajes monocromáticos com a saia por debaixo do joelho e umas
meias que realçavam o que Wíll devia admitir que eram umas pantorrilhas

bastante bonitas para uma mulher que freqüentemente lhe parecia o muito mesmo Anticristo. Levava
saltos altos, o que deveria lhe dificultar avançar por um terreno

tão irregular, mas se abria passo caminhando com férrea determinação.

Wíll e Chárlie se levantaram o vê-la chegar. Ela, como de costume, não se andou com rodeios.

-O que é isto? -perguntou, assinalando a bolsa com as provas.

Além do Faith, Amanda era a única pessoa no DIG que estava a par dos problemas com a leitura
do Wíll, algo que ambas aceitavam e ao mesmo tempo criticavam.

Este iluminou os papéis com a lanterna e Amanda leu em alto:

-“Não vou sacrificar me. Não vou sacrificar me” -Agitou a bolsa para ver o resto das folhas-. A
mesma frase em todas as folhas, por diante e por detrás.

Itálico, e a caligrafia parece de mulher. -Devolveu-as notas ao Wíll, lhe olhando com desaprovação-.
Assim que nosso menino mau é um professor cheio o saco ou um

gurú da autoayuda. -Dirigindo-se ao Chárlie, perguntou-: Que mais encontraste?

-Pornografia. Cadeias. Algemas. Artefatos sexuais.

-Isso são provas. Necessito pistas.

Wíll tomou a substituição.

-Acredito que a segunda vítima esteve sujeita à parte de abaixo da cama. Encontrei isto na corda. -
Tirou uma bolsita de provas do bolso de sua jaqueta.

Dentro havia um fragmento de um dente com parte de sua raíz. É um incisivo. A vítima que está no
hospital tem a dentadura completa.

Amanda parecia mais interessada em estudar ao Wíll que no dente.

-Está seguro disso?

-Tive sua cara justo diante de mim enquanto tentava obter um pouco de informação -respondeu-.
Lhe tocavam castanholas os dentes.

Amanda pareceu satisfeita com a explicação.

-O que te faz pensar que esse dente foi arrancado recentemente? E não me diga que é uma intuição,
Wíll, porque tenho aqui à polícia do condado do Rockdale

em pleno, empapados e mortos de frio, e estão desejando te linchar por lhes haver mandado a caçar
gamusinos em metade da noite.

-A corda foi atalho desde debaixo da cama -lhe explicou-. A primeira vítima, Anna, esteve atada
em cima; a segunda estava debaixo. Anna não pôde ter talhado

a corda.

-Está de acordo com isso? -perguntou Amanda ao Chárlie.

Ainda sob os efeitos do shock, Chárlie se tomou seu tempo para responder à pergunta.
-A metade das partes de corda cortados estavam debaixo da cama, assim tem sentido que fossem
cortados de ali. Se o tivessem feito de acima as partes teriam

cansado ao chão, junto à cama, ou no mesmo colchão, mas não debaixo.

Amanda seguia duvidando.

-Continua -disse ao Wíll.

-Também havia partes de corda atados aos Fierrolhos situados debaixo do somier. Alguém os
cortou. Essa pessoa deveu escapar com a corda ainda atada a seus

tornozelos e, ao menos, a uma de suas bonecas. Anna não tinha cordas.

-Ao melhor as tiraram na ambulância -assinalou Amanda-. DNA? Fluídos?

-Por toda parte. Deveríamos ter os resultados em quarenta e oito horas. Mas a menos que o tipo
esteja fichado…

-respondeu Chárlie.

Olhou ao Wíll de soslaio. Todos sabiam que tentar identificar a um assassino por uma amostra de
DNA era dar paus de cego. A menos que seu seqüestrador tivesse

cometido algum delito prévio e a polícia tivesse tomado amostras de seu DNA para inclui-la nas
base de dados não havia maneira de identificá-lo.

-E o que temos no compartimento de desperdícios? -perguntou Amanda ao Chárlie.

Ao princípio não entendeu a pergunta, mas logo respondeu:

-Não há botes nem latas vazios; imagino que os levou. Há um cubo em um rincão que se usou como
váter mas, sob meu ponto de vista, a vítima (ou vítimas)

estiveram maniatadas a maior parte do tempo e não tiveram mais remedeio que fazer-lhe em cima. O
que não posso lhe dizer é se isto aponta a que havia uma ou duas

pessoas. Depende de quando fossem seqüestradas, de até que ponto estivessem desidratadas… esse
tipo de coisas.

-encontraste algo mais recente debaixo da cama?

-Sim -respondeu Chárlie, como se lhe surpreendesse sua resposta-. O certo é que encontrei uma
zona que dá positivo em urina. Pelo sítio onde está, eu diria

que concorda com a possibilidade de que houvesse alguém debaixo da cama, convexo de barriga
para cima.
-Não demoraria mais o líqüido em evaporar-se clandestinamente? -pressionou Amanda.

-Não necessariamente. Os ácidos da urina reagiriam com o pH do chão. Dependendo de quão


minerais o componham…

Amanda lhe interrompeu.

-Não faz falta que me dê uma aula, Chárlie, te limite a me dar dados que possa utilizar.

Chárlie olhou ao Wíll como se queria desculpar-se.

-Não sei se tiver havido duas vítimas ao mesmo tempo. Certamente, não há dúvida de que houve
alguém debaixo da cama, mas pode ser que o seqüestrador movesse

à mulher de um lado a outro. Os fluidos corporais também poderiam haver-se filtrado de acima. -
voltou-se para o Wíll-. Você estiveste aí abaixo. Já viu do que é

capaz esse tipo. -Empalideceu de novo-. É horrível. É espantoso.

Amanda continuou, tão pormenorizada como de costume.

-Acima os corações, Chárlie. Volta a baixar aí e me traga alguma prova que me sirva para
encontrar a esse filho de puta. -Deu-lhe uns tapinhas nas costas

para que ficasse em marcha e se dirigiu ao Wíll-: Vêem comigo. Temos que encontrar ao detetive
pigmeu esse ao que encheste o saco tanto e lhe dourar um pouco a pílula

para que não vá chorar ao Lyle Peterson.

Peterson era o chefe superior da polícia do condado do Rockdale, e Amanda não tinha muito boas
relações com ele. Por lei só o chefe superior de polícia,

o prefeito ou o fiscal do distrito podiam pedir ao DIG que se fizesse cargo de um caso. Wíll se
perguntava que fios teria movido Amanda e até que ponto teria cheio

o saco ao Peterson.

-Bem -começou, e estendeu os braços para poder saltar um tronco cansado no chão sem perder o
equilíbrio-. Te redimiste um pouco ao te oferecer voluntário

para baixar a inspecionar a cova, mas se voltar a fazer algo tão estúpido te ponho a vigiar aos
chaperos no banheiro do aeroporto o resto de sua vida, estamos?

Wíll assentiu.

-Sim, senhora.
-Sua vítima não tem boa pinta -lhe disse, passando por diante de um grupo de policiais que tinham
feito uma pausa para fumar um cigarro. Todos olharam com

hostilidade ao Wíll-. houve complicações. falei com o cirurgião, Sanderson, e não é muito otimista.
Por certo, confirmou-me o da dentadura: está intacta.

Típico da Amanda, obrigava-lhe a ganhar o tudo a pulso. Wíll não tomava como um insulto, mas
sim como um indício de que podia ter a de seu lado.

-Os cortes na planta do pé eram recentes -disse Wíll-. Seus pés não sangravam quando esteve na
cova.

-Conta-me o tudo desde o começo.

Já lhe tinha contado o principal por telefone, mas lhe voltou a explicar que tinha tropeçado com a
tabela de compensado, tinha-a retirado e tinha baixado

à cova. Continuando, relatou-lhe com tudo detalhe o que tinha visto ali abaixo, pondo muito interesse
em recrear a atmosfera que tinha percebido mas sem lhe confessar

que se ficou mais petrificado ainda que Chárlie Reed.

-A cara inferior das pranchas estava cheia de arranhões. A segunda vítima… devia ter as mãos
livres para poder as arranhar. O seqüestrador não lhe teria

deixado as mãos livres estando sozinha, porque desse modo podia liberar-se e fugir.

-De verdade crie que tinha a uma em cima da cama e a outra debaixo?

-Acredito que isso é exatamente o que aconteceu.

-Se as duas estavam atadas e uma delas conseguiu fazer-se com uma faca, teria sentido que o
tivesse guardado a que estava debaixo da cama enquanto esperavam

a que o seqüestrador as deixasse sozinhas.

Wíll não disse nada. Amanda podia ser sarcástica, mesquinha e diretamente má, mas também era
justa, a sua maneira, e sabia que por mais que se burlasse

das intuições de seu subordinado, com o tempo tinha chegado a confiar nelas. E além disso,
conhecia-a muito bem para esperar nada nem remotamente parecido a um elogio.

Tinham chegado à estrada onde Wíll tinha deixado estacionado o Mini horas antes. Amanhecia
depressa, e a luz azulada ia adquirindo um tom sépia. Dezenas

de carros patrulha da polícia do Rockdale mantinham a zona bloqueada. Havia muitos homens
pululando por ali, mas sem as pressas de antes. A imprensa também andava
rondando pelo lugar, e Wíll viu um par de helicópteros dos informativos sobrevoando a zona. Ainda
estava muito escuro para que as câmaras pudessem gravar, mas provavelmente

isso não lhes impedia de retransmitir ao detalhe os movimentos que viam sobre o terreno, ou ao
menos o que eles acreditavam ver. A veracidade não era precisamente

parte da equação quando tinha que preencher vinte e quatro horas de notícias.

Cruzaram ao outro lado, e Wíll lhe ofereceu sua mão para ajudá-la a manter o equilíbrio quando se
internaram no bosque. Havia centenas de policiais divididos

em grupos penteando a zona, alguns provenientes de outros condados. A Agência de Gestão de


Emergências da Geórgia (GEMA) tinha convocado às brigadas caninas civis,

integradas por cidadãos que treinam a seus cães para seguir um rastro olfativo. Fazia horas que os
cães tinham deixado de ladrar. A maioria dos voluntários se foram

a casa. Tão solo ficavam os policiais, que não tinham eleição. O detetive Fierro devia andar ainda
por aí, provavelmente amaldiçoando a hora em que tinha conhecido

ao Wíll.

-Que tal está Faith? -espetou-lhe Amanda.

Pergunta-a lhe agarrou por surpresa, mas o certo era que Amanda e Faith se conheciam desde fazia
anos.

-Bem -respondeu, cobrindo instintivamente a sua companheira.

-Hão-me dito que se deprimiu.

Wíll fingiu surpreender-se.

-Ah, sim?

Amanda elevou as sobrancelhas.

-Faz tempo que não tem bom aspecto.

Wíll deu por sentado que se referia ao aumento de peso, que não era para tanto tendo em conta
quão miúda era Faith, mas essa tarde tinha aprendido que não

terá que falar nunca do peso de uma mulher.

-Eu a encontro bem.

-Está irritável e distraída.


Wíll manteve a boca fechada, pois não estava seguro de se Amanda estava realmente preocupada
ou, simplesmente, estava-lhe atirando da língua. A verdade

era que Faith estava, efetivamente, irritável e distraída ultimamente. Levava trabalhando com ela o
tempo suficiente para conhecer suas mudanças de humor, embora

a maior parte do tempo era uma mulher bastante cabal. Uma vez ao mês, sempre pelas mesmas datas,
ficava de mau humor e não se desprendia dele durante um par de dias

ou três. Seu tom se voltava cortante e tendia a procurar na rádio cantantes femininas acompanhadas
de violões acústicas. Quão único Wíll podia fazer nesses dias

era desculpar-se por tudo que dissesse. Não pensava compartilhar essa informação com a Amanda,
mas tinha que admitir que, ultimamente, parecia que Faith estivesse

sempre de má gaita de fole. Lhe tendeu a mão e Wíll a ajudou a saltar um lenho cansado no chão.

-Sabe que ódio trabalhar em casos que não posso resolver -disse Amanda.

-Sei que você gosta de resolver casos que ninguém mais é capaz de resolver.

Ela Rio com desânimo.

-Quando te vais cansar de que te roube os louros, Wíll?

-Sou infatigável.

-Vejo que lhe está dando bom uso ao calendário.

-É o melhor presente que me tem feito nunca.

Solo a Amanda lhe ocorreria lhe dar de presente a um analfabeto funcional um calendário com uma
palavra para aprender cada dia.

Wíll viu que Fierro vinha para eles. O bosque a esse lado da estrada era mais espesso e havia
ramos e restolhos por toda parte. Ouviu blasfemar a Fierro

ao enganchar a calça nos ramos de um arbusto espinhoso. Logo se deu uma palmada na nuca,
provavelmente para matar algum inseto.

-Que amável por sua parte o te unir a esta perda de tempo tão absurda, Gómez.

Wíll fez as apresentações.

-Detetive Fierro, esta é a doutora Amanda Wagner.

O homem a saudou com um gesto da cabeça.


-Vi-a em televisão.

-Obrigado -replicou Amanda, como se lhe tivesse feito um completo-. Neste caso há muitos
detalhes obscenos, detetive Fierro. Espero que seus meninos saibam

manter a boca fechada.

-Toma por uma turma de aficionados?

Obviamente era o que Amanda pensava.

-Como vai a busca?

-encontramos exatamente o que pode você ver: nada. Niente. Zero. -Lançou ao Wíll um olhar
carregado de hostilidade-. Assim é como levam as coisas os meninos

do DIG? Vêm aqui e lhes fundem todo nosso pressuposto em uma absurda busca em metade da puta
noite?

Wíll estava cansado e muito frustrado, e o tom de sua voz o refletiu.

-Normalmente lhes roubamos as provisões e violamos a suas primeiro mulheres.

-Ja, olhe como me rio -resmungou Fierro, dando-se outra palmada na nuca. Ao retirar a mão a viu
empapada de suor e com o sangue de um mosquito-. Vós se

que forem partir o culo de risada quando recuperar meu caso.

-Detetive Fierro -atravessou Amanda-, o chefe Peterson nos pediu que intervenhamos. Você não
tem autoridade para reasignar este caso.

-Peterson, né? -Fez uma careta depreciativa-. Quer isso dizer que lhe esteve engordurando a arma
outra vez?

Wíll tragou tanto ar que um assobio escapou de seus lábios. Amanda nem se alterou, simplesmente
entreabriu os olhos e assentiu com a cabeça uma só vez olhando

a Fierro, para lhe indicar que já se ocuparia dele. Ao Wíll não surpreenderia se, qualquer dia, Fierro
amanhecesse compartilhando seu travesseiro com uma cabeça

de cavalo atalho.

-Né! -gritou alguém-. Aqui!

Os três ficaram ali plantados em diversos estados de shock, aborrecimento e fúria em estado puro.

-encontrei algo!
Wíll já se pôs em marcha. Correu para a mulher que tinha dado a voz de alarme e agitava as mãos
como uma louca. Era uma agente uniformizada da polícia do

Rockdale, tinha posto um gorro de ponto e estava rodeada de altas espigas de pasto varinha.

-O que é? -perguntou Wíll.

A agente assinalou um denso grupo de árvores de ramos baixos. Viu que as folhas que havia
debaixo estavam revoltas e havia zonas nas que se via a terra.

-A luz de minha lanterna se refletiu em algo -disse, acendendo-a e enfocando para a zona em
sombras situada ao pé das árvores.

Wíll não via nada. Enquanto Amanda chegava até eles se perguntou se a agente não estaria muito
cansada ou muito impaciente por encontrar algo.

-O que é? -inquiriu Amanda. Nesse preciso instante, a luz se refletiu em algo.

Foi um breve brilho que não durou mais de um segundo. Wíll piscou, pensando que possivelmente
sua mente lhe tinha jogado uma má passada, mas a agente o

encontrou de novo: um brilho fugaz, como uma diminuta explosão de pólvora, a uns seis metros de
distância.

Wíll tirou um par de luvas de látex do bolso de sua jaqueta. fixou-se no ponto onde se produzia o
brilho e foi para ele apartando os ramos a seu passo.

Os lenhos cansados no chão e os restolhos dificultavam o avanço, e se agachou para ir mais rápido.
Enfocou a lanterna para o chão, procurando o objeto em questão.

Possivelmente não fora mais que uma parte de espelho ou o pacote de um chiclete. Baralhou as
distintas possibilidades em sua cabeça enquanto tentava localizá-lo:

uma jóia, uma parte de cristal, algum mineral brilhante.

Um carnê de conduzir do estado da Florida.

O documento estava ao meio metro da base da árvore. junto a ele havia uma navalha de bolso com
a cuchilla tão manchada de sangue que se confundia com as

escuras folhas de ao redor. Os ramos se afinavam na parte baixa da árvore. Wíll se ajoelhou e
apartou uma a una as folhas que cobriam o carnê. O grosso plástico

estava dobrado pela metade. As cores e o desenho do estado da Florida na esquina lhe disseram
onde tinha sido expedido. Tinha um holograma gravado para evitar as

falsificações que devia ter sido o que refletia a luz da lanterna.


Inclinou-se e alargou o pescoço para vê-lo melhor; não queria alterar a cena. Justo no centro do
carnê descobriu o rastro mais clara que tinha visto nunca.

Impregnada de sangue, as cristas quase pareciam saltar da acetinada superfície de plástico. A


fotografia era de uma mulher de cabelo e olhos escuros.

-Há uma navalha e um carnê de conduzir -disse a Amanda, elevando o tom para que pudesse lhe
ouvir-. No carnê há um rastro digital ensangüentado.

-Pode ler o nome? -perguntou a chefa ficando em jarras e bastante zangada.

Wíll notou que lhe fechava a garganta. concentrou-se nas pequenas letras de imprensa e distinguiu
uma J, ou possivelmente um I, mas em seguida lhe embaralhou

tudo. Amanda jogava fumaça.

-Traz isso para cá, faz o favor.

Um grupo de policiais os rodeavam agora e pareciam confusos. Inclusive a seis metros de


distância, Wíll podia lhes ouvir murmurar algo sobre o procedimento.

A integridade da cena de um crime era sacrossanta, pois os advogados defensores se agarravam a


qualquer irregularidade. Terei que tomar fotografias e medidas, fazer

desenhos. A cadeia de custódia não podia romper-se, ou as provas seriam rechaçadas no julgamento.

-Wíll?

Uma gota de chuva se estrelou contra sua nuca. Estava quente, quase ardendo. foram aproximando
mais policiais a ver o que tinham descoberto. Certamente

se estariam perguntando por que Wíll não tinha lido em alto o nome, por que não tinha enviado
imediatamente a alguém para buscá-lo no ordenador. Assim era como ia

acabar a coisa? ia ter que sair dali e lhes confessar a um montão de estranhos que lia como um
menino de oito anos? Se se divulgava essa informação já podia ir-se

a casa e colocar a cabeça no forno, porque não haveria um só polícia em toda a cidade disposto a
trabalhar com ele.

Amanda pôs-se a andar para ele, enganchou-se a saia em uns restolhos e blasfemou entre dentes.

Wíll notou outra gota de chuva na nuca e a limpou com a mão. Olhou sua mão enluvada e os dedos
manchados de sangue. Pensou que ao melhor se arranhou o pescoço

com um ramo, mas então notou outra gota quente, úmida e viscosa. levou-se a mão à nuca de novo.
Mais sangre.
Wíll elevou a vista e viu uma mulher com o cabelo e os olhos escuros. Estava pendurada de
barriga para baixo, uns quatro metros por cima de sua cabeça.

O tornozelo enredado entre uns ramos era sua única sujeição. Tinha cansado de cabeça e se partiu o
pescoço. Tinha os ombros deslocados e os olhos abertos, olhando

fixamente ao chão. Um dos braços pendurava em vertical, como tendido para o Wíll, e uma parte de
corda estava fortemente pacote à outra boneca. A boca estava aberta.

Lhe via quebrado um incisivo, do qual faltava quase uma terceira parte.

Outra gota de sangue gotejou de seus dedos, e esta vez foi cair na bochecha do Wíll, justo debaixo
do olho. Este se tirou uma luva e tocou o sangue. Ainda

estava quente.

Levava morta menos de uma hora.


SEGUNDO DIA

Capítulo cinco

Pauline McGhee girou seu Lexus LX à direita e estacionou em um dos lugares para deficientes do
estacionamento situado em frente do supermercado City Foods.

Eram as cinco da manhã; provavelmente todos os deficientes seguiam dormidos a essa hora. E sobre
tudo era muito logo para ter que caminhar mais do estritamente necessário.

-Vamos, gatinho dorminhoco -disse a seu filho, lhe apertando o ombro com suavidade.

Felix se revolveu, não queria despertar. Pauline lhe acariciou a bochecha, pensando -não pela
primeira vez-que era um milagre que um pouco tão perfeito

tivesse podido sair de seu imperfeito corpo.

-Vamos, meu amor -lhe disse, lhe fazendo cócegas até que o menino se retorceu como um gusanito.

Pauline se desceu do carro, e logo ajudou a seu filho a sair do Lexus. Os pés do menino não
haviam meio doido ainda o chão quando sua mãe começou com a

rotina de sempre.

-Vê onde estacionamos? -Felix assentiu com a cabeça-. O que fazemos se nos perdemos?

-Encontramo-nos no carro -respondeu Felix, tentando conter um bocejo.

-Muito bem.

Pauline ia atirando dele enquanto se dirigiam à loja. Quando era pequena lhe diziam que se alguma
vez se perdia devia procurar um adulto, mas com os tempos

atuais um não podia confiar em ninguém. Um guarda de segurança podia ser um pedófilo; uma
ancianita podia ser uma bruxa pirada que dedicava seu tempo livre a esconder

cuchillas de barbear dentro das maçãs. Muito mal andavam as coisas quando o recurso mais seguro
para um menino de seis anos era um objeto inanimado.

As luzes artificiais do súper eram muito brilhantes para essa hora da manhã, mas a culpa a tinha
Pauline por não ter comprado antes as madalenas para os

companheiros do Felix. O haviam dito fazia uma semana, mas não tinha previsto o inferno que se
desataria no trabalho. Um dos clientes mais importantes do estudo
de interiorismo lhes tinha encarregado um sofá italiano de couro marrom de sessenta mil dólares que
não cabia no maldito elevador, e a única maneira de subi-lo até

o apartamento de cobertura do cliente era com uma grua cujo aluguel era de dez mil dólares por hora.

O cliente jogava a culpa ao estudo do Pauline por não havê-lo previsto, o estudo culpava ao
Pauline por ter desenhado um sofá muito grande, e Pauline culpava

ao cantamañanas do estofador, pois lhe tinha pedido explicitamente que se passasse pelo edifício da
rua Peachtree para medir o elevador antes de fazer o maldito

sofá. Ante a alternativa de ter que confrontar a fatura de uma grua de dez mil dólares a hora ou
refazer um sofá de sessenta mil dólares, o estofador, lógicamente,

decidiu que lhe convinha mais esquecer aquela conversação, mas Pauline não pensava permitir que
se saísse com a sua. Faltaria mais.

Havia uma reunião às sete em ponto com todas as partes implicadas, e Pauline ia ser primeira em
chegar para contar sua versão da história. Como lhe dizia

seu pai, a mierda escorrega sempre para baixo, e ao final do dia não seria Pauline McGhee a que
cheirasse a boca-de-lobo. Tinha provas que avalizavam sua versão,

por exemplo a cópia de um intercâmbio de correios eletrônicos com seu chefe nos que lhe pedia que
lhe recordasse ao estofador que tinha que passar-se a tomar medidas.

E o mais importante era a resposta do Morgan: “Eu me ocupo”. O chefe fingia que essa
correspondência não tinha tido lugar, mas Pauline não estava disposta a comer

o marrom. Alguém ia perder seu emprego esse dia, e certamente não ia ser ela.

-Não, carinho -disse, atirando do Felix para apartar o de um pacote de gominolas com forma de
osito que pendurava de forma tentadora de uma das prateleiras.

Pauline sabia que punham essa classe de coisas à altura dos meninos com a única intenção de obrigar
aos pais a comprar. mais de uma vez tinha visto alguma mãe ceder

ante um manha de criança só para que o menino se calasse. Mas Pauline nunca entrava nesse jogo, e
Felix sabia. Se tentava algo lhe agarrava em volandas e se foram

da loja, inclusive embora isso significasse deixar no meio do súper um carrinho com a metade da
compra feita.

Girou no corredor do pão e quase se deu de bruces com um carro cheio de produtos. O homem Rio
de boa vontade e Pauline conseguiu esboçar um sorriso.

-Que tenha um bom dia -lhe disse o homem.


-Igualmente -respondeu Pauline.

Essa, pensou, era a última vez que ia ser amável com alguém essa manhã. passou-se a noite dando
voltas na cama, às três se levantou para correr um momento

na cinta, arrumar-se, preparar o café da manhã ao Felix e lhe vestir para ir ao colégio. Atrás ficavam
seus dias de solteira, quando podia passar-se toda a noite

de festa, voltar para casa com o que mais gostasse e saltar da cama à manhã seguinte vinte minutos
antes de entrar em trabalhar.

Pauline lhe aparou o cabelo ao menino e pensou que não jogava absolutamente de menos todo
aquilo. Embora jogar um pó de vez em quando seria uma bênção do

céu.

-Madalenas -disse, aliviada ao as ver empilhadas no mostrador da padaria. O alívio desapareceu


assim que viu que todas elas foram decoradas com coelhinhos

e ovos de Páscoa multicoloridos. A circular do colégio especificava que as madalenas não podiam ir
decoradas com motivo religioso algum, mas Pauline não estava muito

segura do que isso significava exatamente, exceto no muito caro colégio privado onde estudava seu
filho eram uns fanáticos da correção política e todas essas panaquices.

Nem sequer tinham querido chamá-lo festa de Páscoa: era uma festa da Primavera que, curiosamente,
celebrava-se uns dias antes do Domingo de Ressurreição. Que religião

não celebrava a Páscoa? Pauline sabia que os judeus não festejavam o Natal, mas pelo amor de
Deus, a Páscoa a comemoravam todos. Inclusive os pagãos tinham seus

coelhinhos e seus ovos.

-Muito bem -disse Pauline, passando a bolsa ao Felix. O menino o pendurou do ombro como
estava acostumado a fazer sua mãe, e Pauline sentiu uma pontada

de angústia: trabalhava em um estudo de interiorismo e todos os homens de sua vida tinham pluma.
Teria que fazer um esforço e começar a relacionar-se já mesmo com

homens heterossexuais, pelo bem dela e de seu filho.

Havia seis madalenas em cada caixa, assim Pauline agarrou cinco, pensando que os professores
também quereriam as provar. Não podia suportar à maioria dos

professores do claustro, mas adoravam ao Felix e Pauline adorava a seu filho, o que mas lhe dava
gastar-se quatro dólares com setenta e cinco mais em alimentar às
harpías que cuidavam de seu broto?

Foi com as madalenas para a caixa, e o aroma dos pão-doces recém assados lhe deu fome e
náuseas ao mesmo tempo, como se queria fartar-se a comer madalenas

até que ficasse tão doente que tivesse que passar o resto da manhã no quarto de banho. Era muito
logo para cheirar algo coberta de açúcar, isso certamente. deu-se

a volta procurando o Felix, que ia detrás dela arrastando os pés. Estava esgotado e a culpa era do
Pauline. Considerou a possibilidade de comprar as gominolas que

queria, mas seu móvel soou no mesmo momento em que punha as caixas de madalenas sobre a cinta,
e se esqueceu por completo de tudo ao ver quem a chamava.

-Sim? -perguntou, observando como avançavam suas coisas para a cajera. A mulher estava tão
gorda que logo que podia juntar as mãos por diante, como um T-Rex

ou um bebê foca.

-Paulie, pode acreditar o da reunião de hoje?

Morgan, o chefe, parecia dos nervos. comportava-se como se estivesse de sua parte, mas Pauline
sabia que a apunhalaria pelas costas assim que baixasse o

guarda. ia desfrutar como uma anã lhe vendo recolher suas coisas depois de que tirasse reluzir
aqueles correios eletrônicos na reunião.

-Sei -respondeu, fingindo consternação-. É terrível.

-Está no súper?

Devia ter ouvido os assobios do exploratório. A T-Rex estava passando as caixas uma por uma,
embora todas eram exatamente iguais. Desde não ter estado falando

por telefone, Pauline teria saltado por cima do mostrador para as escanear ela mesma. Passou pelo
arco de segurança à parte de atrás da caixa e agarrou umas bolsas

de plástico para aliviar a operação. Sujeitando o telefone com o ombro, perguntou:

-O que crie que vai passar?

-Bom, está claro que não é tua culpa -disse Morgan, mas Pauline se apostava o pescoço a que isso
era exatamente o que lhe havia dito a seu chefe.

-Nem tua tampouco -replicou ela, embora tinha sido Morgan quem tinha recomendado a esse
estofador, provavelmente porque parecia um guri de treze anos e
se depilava com cera suas musculosas pernas para que luzissem em todo seu esplendor. Sabia que o
muito maricas se aproveitava das preferências sexuais do Morgan,

mas estava muito equivocado se acreditava que era ela a que ia acabar pagando o pato. Tinha
demorado dezesseis anos em subir de secretária a ajudante de desenhista.

Tinha assistido durante não sabia quanto tempo a classes noturnas na Escola de Arte e Desenho de
Atlanta para conseguir seu título, arrastando-se cada manhã até

o trabalho para poder pagar o aluguel e finalmente conseguir um posto que lhe permitisse viver com
mais desafogo e poder permitir-se trazer um menino ao mundo como

Deus manda. Felix vestia roupa de marca, tinha os melhores brinquedos e estudava em um dos
colégios mais caros da cidade. Mas Pauline não se conformou lhe dando

o melhor a seu filho. arrumou-se a dentadura e se operou os olhos com laser; todas as semanas lhe
davam uma massagem, cada quinze dias se fazia uma limpeza de cútis

e em suas malditas raízes não se apreciava outra coisa que um impecável e sensual tom castanho
graças à cabeleireira do Peachtree Hills a que visitava pontualmente

cada mês e meio. Nem farta de vinho ia renunciar a nenhum desses luxos. Nem de brincadeira.

Morgan faria bem em recordar de onde tinha partido Pauline. Já trabalhava de secretária quando
não existiam nem as transferências nem os bancos eletrônica,

quando todos os cheques se guardavam na caixa forte até que chegava a hora de fechar e se
aproximavam do banco a ingressá-los. Depois da última reforma do escritório,

Pauline se tinha transladado a um despacho mais pequeno com o fim de que pudessem instalar a caixa
forte em seu sítio. E no caso de, tinha tido a precaução de chamar

um chaveiro para que viesse fora do horário de escritório e trocasse a combinação; agora, solo ela a
conhecia. Ao Morgan tirava de gonzo não saber a combinação da

caixa, mas a isso Pauline vinha de maravilha, porque a cópia do correio eletrônico que lhe ia salvar
o culo estava guardada precisamente aí. Levava dias imaginando

de mil maneiras diferentes aquele momento. via-se si mesmo abrindo a caixa com muita cerimônia e
agitando a mensagem de correio nos narizes do Morgan, lhe deixando

com um palmo de narizes diante de seu chefe e do cliente.

-Miúda animação -suspirou Morgan, adotando um tom mais dramático-. Te juro que não me posso
acreditar…

Pauline agarrou a bolsa ao Felix e procurou dentro da carteira. ficou embevecida olhando as
barras de caramelo enquanto deslizava o cartão de débito pelo

leitor de bandas magnéticas e continuou de forma automática com o resto de trâmites.

-Estraguem -disse, enquanto Morgan destrambelhava contra o cliente e lhe assegurava que não
ficaria sentado enquanto arrastavam pelo lodo a reputação profissional

do Pauline. Se tivesse tido a alguém perto para apreciá-lo, teria simulado arcadas-. Venha, céu -
disse, empurrando ao Felix para a porta com suavidade.

Sujeitou o telefone com o ombro enquanto agarrava as bolsas pelas asas, e então se perguntou por
que se incomodou em colocar as caixas em bolsas, se não

fazia nenhuma falta. Caixas e bolsas de plástico: as professoras do colégio do Felix se


escandalizariam ante semelhante atentado contra o meio ambiente. Pauline

empilhou as caixas e apoiou o queixo na tampa da última para as sujeitar. Atirou as bolsas vazias ao
cesto de papéis e, com a mão que ficava livre, procurou as chaves

do carro na bolsa enquanto se dirigia às portas automáticas.

-Juro-te que é o pior que me passou em toda minha carreira profissional -se lamentava Morgan.
face ao torcicolo, Pauline se tinha esquecido de que estava

falando por telefone.

Pressionou o botão do controle remoto para abrir o porta-malas do carro. A porta se abriu com um
suspiro e Pauline pensou no muito que gostava do som que

fazia, em que era um luxo ter dinheiro suficiente como para não ter que abrir sequer a porta do porta-
malas. Não estava disposta a perdê-lo tudo por um niñato de

culito escuro que não era capaz de tomá-la moléstia de medir um puto elevador.

-Tem razão -disse, embora o certo era que não tinha emprestado nenhuma atenção ao que Morgan
dizia nesse momento.

Guardou as caixas no porta-malas e apertou o botão de abaixo para voltar a fechá-lo. Já estava
metida no carro quando se deu conta de que Felix não estava

com ela.

-Joder -murmurou, fechando o móvel.

Saiu do carro como uma exalação e passeou o olhar pelo estacionamento, que se tinha cheio
bastante enquanto estavam no súper.
-Felix?

Deu a volta ao carro, pensando que ao melhor se escondeu ao outro lado. Não estava ali.

-Felix! -gritou, e pôs-se a correr para o supermercado. A ponto esteve de estampar-se contra as
portas de cristal porque não se abriram o suficientemente

rápido.

Foi para a cajera e lhe perguntou:

-Viu por aqui a meu filho? -A mulher parecia algo confusa, e Pauline o repetiu em tom cortante-:
Meu filho. Estava comigo faz um momento. É moreno, mais

ou menos assim de alto, tem seis anos. -Deixou-a por impossível-. Terá que joderse.

“Felix! -gritou, mas o coração lhe pulsava com tal força que quase não ouvia sua própria voz.

Começou a percorrer os corredores andando a toda pressa, e logo foi correndo como uma louca
por toda a loja. Acabou na seção de padaria, a ponto de jogar

o bofe. Que roupa lhe tinha posto hoje? As canções vermelhas. Sempre queria ficar as porque tinham
ao Elmo desenhado na sola. E lhe tinha posto a camisa branca ou

a azul? E as calças? Tinha-lhe engomado a calça carrego essa manhã, ou ao final lhe tinha posto os
jeans? por que não podia recordar algo tão singelo?

-Fora vi a um menino -disse alguém, e Pauline saiu disparada para as portas.

Viu o Felix atrás do carro; ia para o lado do co-piloto. Levava posta a camisa branca, a calça
carrego e suas canções vermelhas do Elmo. Ainda tinha o cabelo

úmido; todas as manhãs se levantava com um redemoinho no cocuruto e tinha que domá-lo com um
pouco de água.

Pauline deixou de correr, e foi dando-se tapinhas no peito como se queria acalmar seu coração.
Não ia gritar lhe porque ele não o entenderia, e só conseguiria

lhe assustar. ia abraçar o e a cobrir o de beijos da cabeça aos pés até que começasse a revolver-se, e
logo lhe ia dizer que se voltava a apartar-se de lhe retorceria

seu precioso pescoço.

Limpou-se as lágrimas enquanto passava por detrás do carro. Felix estava dentro, com a porta
aberta e as pernas pendurando. Não estava sozinho.

-OH, muito obrigado -lhe disse ao estranho, em tom efusivo. E, acariciando ao Felix, continuou-:
Se despistou no súper Y…

Pauline sentiu que a cabeça lhe explorava e caiu desabada ao chão como uma boneca de trapo.
Quão último viu o elevar a vista foi a sorridente cara do Elmo

olhando-a da sola da sapatilha do Felix.

Capítulo seis

Sara despertou sobressaltada. Teve um momento de desorientação antes de recordar que estava na
UCI, sentada em uma cadeira junto à cama da Anna. A habitação

não tinha janelas. A cortina de plástico que fazia as vezes de porta tampava a luz que entrava do
corredor. Sara se inclinou para frente, olhou o relógio à luz dos

monitores e viu que eram as oito da manhã. No dia anterior tinha feito dobro turno para poder tomar-
se esse dia livre e pôr um pouco de ordem em seus assuntos: a

geladeira estava vazia, tinha faturas que pagar e a roupa suja se acumulou no chão de seu armário até
o ponto de que já não podia fechar a porta.

E entretanto, ali estava ainda.

Acomodou-se na cadeira e sentiu uma pontada de dor ao estirar as costas. Agarrou a boneca da
Anna com os dedos para tomar o pulso, embora os monitores registravam

os batimentos do coração de seu coração e sua respiração. Sara não tinha nem idéia de se Anna
podia sentir seus dedos ou sua presença, mas o fazia sentir melhor.

Possivelmente fora uma sorte que não estivesse acordada. Seu corpo estava lutando contra uma
virulenta infecção que tinha feito descender perigosamente

seu nível de leucócitos. Tinha o braço entalado e lhe tinham extirpado a mama direita. Tinham-lhe
posto tração na perna, cujos ossos estavam agora unidos por vários

parafusos. Tinham-lhe imobilizado a pélvis com uma férula de plástico para manter os ossos bem
alinhados enquanto se soldavam as fraturas. A dor devia ser inimaginável

embora, tendo em conta o que tinha tido que acontecer seu cativeiro, provavelmente era o de menos.

O que a Sara não lhe escapava era o fato de que, inclusive em seu estado atual, Anna era uma
mulher muito atrativa. Provavelmente essa era uma das qualidades

que primeiro tinha chamado a atenção do seqüestrador. Não era bonita ao estilo de uma estrela de
cinema, mas havia algo chamativo em seus rasgos que certamente fazia
que a gente se voltasse a olhá-la. Talvez tinha visto muitas histórias sensacionalistas nas notícias,
mas não tinha nenhum sentido que uma mulher tão atrativa como

Anna pudesse desaparecer sem que nenhuma só pessoa a sentisse falta de. A gente estava acostumada
emprestar mais atenção quando era uma mulher bonita a que desaparecia,

como nos casos do Laci Peterson ou Natalee Holloway.

Sara não sabia por que lhe dava tantas voltas a todo aquilo: tratar de imaginar o que tinha podido
ocorrer era o trabalho do Faith Mitchell. Não tinha nada

que ver com o caso, e realmente não tinha por que haver ficado no hospital essa noite. Anna estava
em boas mãos. As enfermeiras e os médicos estavam ao final do

corredor e havia dois policiais na porta. Deveria haver-se ido casa a meter-se na cama e esperar a
que chegasse o sonho arrulhada pelo som da chuva. O problema era

que normalmente lhe custava dormir ou -pior ainda-às vezes o fazia muito profundamente e se
encontrava apanhada em um sonho, revivendo sua vida junto ao Jéffrey,

quando esta era exatamente como ela queria que fosse.

Tinham passado três anos e meio desde que mataram a seu marido e, após, Sara não tinha deixado
de pensar nele nem um momento. Nos dias imediatamente posteriores

a sua morte sentiu pânico ao pensar que podia chegar a esquecer algo importante do Jéffrey. Fez
intermináveis listas enumerando todas as coisas que gostava dele:

o aroma de sua pele quando saía da ducha, o muito que gostava de sentar-se detrás dela e lhe escovar
o cabelo, o sabor de seus lábios quando a beijava. Jéffrey sempre

levava um lenço no bolso traseiro da calça, usava uma loção hidratante de aveia para manter suaves
suas mãos, era um bom bailarino, era um bom polícia, cuidava de

sua mãe, adorava-a a ela.

Adorava-a, em passado.

As listas eram cada vez mais exaustivas e acabavam convertendo-se em uma espécie de
interminável supressão: canções que já não podia escutar, filmes que

já não podia ver, sítios aos que já não podia ir. Páginas e páginas de livros que tinham lido juntos,
férias, largos fins de semana sem sair da cama e quinze anos

de uma vida que já ninguém podia lhe devolver.

Sara não tinha nem idéia do que tinha feito com aquelas listas. Possivelmente sua mãe as tinha
guardado em uma caixa e as tinha levado a guardamuebles de

seu pai, ou possivelmente não tinham existido nunca. Pode que sonhasse que escrevia essas listas nos
dias que seguiram à morte do Jéffrey, quando a dor foi tão insuportável

que até tinha agradecido os sedativos. Talvez sonhou que se sentava na cozinha durante horas,
escrevendo para a posteridade todas as coisas maravilhosas que amava

em seu marido.

Xanax, Valium, Ambien, Zoloft; quase se tinha envenenado tratando de sobreviver dia a dia. Às
vezes se tombava na cama, médio transposta, e evocava as mãos

do Jéffrey, seus lábios, sobre seu corpo. Então ficava dormida e sonhava com a última vez que
tinham estado juntos, o modo em que ele a tinha cuidadoso aos olhos,

tão seguro de si mesmo, enquanto ia despertando pouco a pouco seu desejo até voltá-la louca. Sara
despertava com uma pontada de dor, lutando contra o impulso de

voltar a fazer-se ilusões com a possibilidade de desfrutar tão solo uns momentos mais dessa outra
vida.

Tinha perdido horas e horas recreando-se na lembrança de sua vida sexual com ele, evocando
cada sensação, cada centímetro de seu corpo, com morboso detalhe.

Durante semanas, tinha estado obcecada com a lembrança da primeira vez que fizeram o amor -não
da primeira vez que se deitaram, que foi um frenético arrebatamento

de paixão que fez que Sara saísse de sua casa envergonhada à manhã seguinte-, mas sim da primeira
vez que se olharam e acariciaram com ternura, olhando-se aos olhos,

como fazem os amantes.

Era um homem doce e tenro. Sempre a escutava, sempre lhe abria a porta e lhe cedia o passo.
Confiava em seu critério: tinha construído sua vida em torno

dela. Sempre estava a seu lado quando necessitava.

Estava, outra vez em passado.

Passados uns meses, começou a recordar detalhes absurdos: uma briga que tinham tido por como
terei que colocar o papel higiênico no portarrollos. Uma discussão

sobre a que hora tinham ficado em um restaurante. Seu segundo aniversário, quando a ele lhe ocorreu
que ir de carro até Auburn para ver um jogo de futebol era um

fim de semana romântico. Um dia de praia no que ela ficou ciumenta porque uma mulher em um bar
lhe emprestava muita atenção.

Jéffrey sabia como arrumar a rádio do quarto de banho. Nas viagens largas, adorava lhe ler em voz
alta enquanto ela conduzia. Agüentava a seu gato, que

se fez pis em seus sapatos a primeira noite que dormiu em casa depois de mudar-se de maneira
oficial. Começavam-lhe a sair patas de galo ao redor dos olhos, e a

Sara gostava das beijar e pensar em quão maravilhoso ia ser envelhecer junto a aquele homem.

E agora, quando se olhava ao espelho e detectava uma nova ruga em seu próprio rosto, o único
pensamento que lhe vinha à cabeça era o de que ia ter que envelhecer

sem ele.

Sara não sabia muito bem quanto tempo lhe tinha chorado; de fato, não estava segura de ter
deixado de chorar. Sua mãe tinha sido sempre a forte, e nunca

o tinha sido mais que quando sua filha a necessitou a seu lado. Tessa, a irmã da Sara, sentou-se a seu
lado dias inteiros, para abraçá-la e balançá-la algumas vezes

como se fora um bebê. Seu pai se encarregava da intendência doméstica: tirava o lixo, passeava aos
cães e se aproximava até a agência de correios para recolher o

correio da Sara. Um dia o encontrou na cozinha, chorando e murmurando: “Meu filho… Meu único
filho…”. Jéffrey tinha sido o filho que nunca tinha tido.

-Está completamente destroçada -lhe contou sua mãe à tia Bela por telefone. A frase descrevia tão
bem como se sentia Sara que se ficou ensimismada, imaginando

que seus braços e suas pernas se separavam de seu corpo. Que mais dava? Para que necessitava as
pernas ou as mãos ou os pés se já não poderia correr alguma vez mais

para ele, se alguma vez mais poderia lhe abraçar nem lhe acariciar? Sara nunca tinha sido a classe de
mulher que necessita um homem a seu lado para sentir-se completa

mas, de algum jeito, Jéffrey se tinha convertido naquilo que a definia, e sem ele se sentia como se
fora à deriva.

Quem era ela sem ele, então? Quem era essa mulher que se negava a viver sem seu marido, que
tinha atirado a toalha? Possivelmente essa era a autêntica

raíz

da dor que sentia; não era sozinho o fato de ter perdido ao Jéffrey, também se tinha perdido a si
mesmo.
Todos os dias, Sara se prometia que ia deixar de tomar as pastilhas, que ia deixar de anestesiar-se
para poder suportar o simples feito de estar viva e

de que o tempo passasse tão devagar -às vezes acreditava que tinham acontecido semanas quando tão
solo tinham acontecido umas poucas horas-. Quando por fim conseguiu

deixar as pastilhas, deixou de comer. Não era que não queria alimentar-se, mas sim a comida lhe
tinha sabor de raios. A bílis lhe subia à garganta por mais que sua

mãe tentasse lhe levar seus pratos favoritos. Sara se encerrou em casa, abandonou-se por completo.
Queria deixar de existir, mas não sabia como fazê-lo sem ir contra

seus princípios mais básicos.

Ao final, sua mãe foi falar com ela e lhe suplicou:

-Te decida de uma vez: ou vive ou lhe matas, mas não nos obrigue a ver como vai apagando desta
maneira.

Sara tinha considerado suas opções fríamente: pastilhas, uma corda, uma pistola, uma faca. Nada
disso ia devolver ao Jéffrey, nem tampouco ia trocar o que

tinha acontecido.

Passou o tempo, e o relógio ia para frente quando o que ela queria era que desse marcha atrás. O
dia do primeiro aniversário de sua morte, Sara despertou

e se deu conta de que, se se houvesse suicidado, as lembranças do Jéffrey teriam desaparecido com
ela também. Não tinham tido filhos, não tinham deixado nenhum monumento

perdurável do que tinha sido sua vida em comum. Solo ficava Sara e as lembranças que guardava em
sua mente.

E depois disso não ficou outro remédio que recompor-se, recolher e unir as partes pouco a pouco.
Lentamente, uma mulher que recordava lejanamente a Sara

deixou de funcionar como um autômato. levantava-se pela manhã, saía a correr, trabalhava meia
jornada, tentando viver sua vida como a tinha vivido antes, mas sem

o Jéffrey. Foi valente e tentou transitar por aquela má imitação de sua vida anterior, mas não podia
fazê-lo. Não podia seguir na casa onde se amaram, na cidade

onde tinham vivido juntos. Nem sequer era capaz de assistir às tradicionais comidas do domingo em
casa de seus pais porque, em frente dela, sempre haveria uma cadeira

vazia.
Uma companheira de estudos do Emory, que não tinha nem idéia do que lhe tinha acontecido a
Sara, enviou-lhe por correio eletrônico o anúncio da vacante

no hospital Grady. Fez-o em plano de brincadeira, como dizendo: “Quem quereria voltar para esse
inferno?”. Mas Sara chamou o administrador do hospital ao dia seguinte

e entrou no Grady para trabalhar no departamento de urgências. Sabia que o sistema de saúde pública
era um dinossauro gigantesco e obsoleto e que um serviço de urgências

fagocita sua vida pessoal, sua alma. Alugou sua casa, vendeu sua consulta, deu de presente a maior
parte de seus móveis e, um mês mais tarde, mudou-se a Atlanta.

E aí estava ela. Tinham passado dois anos e Sara seguia estancada. Não tinha muitos amigos fora
do trabalho, mas nunca tinha tido muita vida social, que

tinha girado em torno de sua família. Sua irmã Tessa sempre tinha sido seu melhor amiga, e sua mãe,
seu confidente mais íntima. Jéffrey era o chefe superior de polícia

do condado do Grant, Sara a forense. Trabalhavam juntos muito freqüentemente, e Sara se perguntava
se sua relação tivesse sido tão íntima se tivessem vivido cada

um por seu lado e não se viram mais que a hora de jantar.

O amor, como a água, sempre transcorre pela via que oferece menos resistência.

Sara se tinha criado em uma cidade pequena. A última vez que tinha tido uma entrevista
propriamente dita não estava bem visto que as garotas chamassem os

meninos por telefone, e eles deviam pedir permissão ao pai para sair com sua filha. Esses costumes
resultavam pitorescas agora, quase ridículas, mas ela as sentia

falta de. Não entendia como funcionavam agora as relações entre homens e mulheres adultos, mas se
tinha obrigado a tentá-lo para comprovar se essa parte dela tinha

morrido também com o Jéffrey.

Tinha saído com dois homens desde que se mudou a Atlanta, conhecidos através das enfermeiras
do hospital, e ambos lhe tinham parecido completamente anódinos.

O primeiro era bonito e preparado, um profissional de êxito, mas não havia nada detrás de seu
deslumbrante sorriso e suas impecáveis maneiras; depois de que Sara

rompesse a chorar a primeira vez que a beijou, não a voltou a chamar. Com o segundo saiu três meses
atrás. A experiência foi algo melhor, ou possivelmente ela se

enganava. deitou-se com ele uma vez, mas teve que tomar-se três taças de vinho para reunir o valor
necessário e apertou os dentes todo o momento, como se aquilo
fora um exame que estivesse decidida a passar. O homem rompeu com ela ao dia seguinte, mas Sara
não se inteirou até que chegou a casa e comprovou sua rolha de voz

uma semana depois.

Se tivesse que lamentar algo de sua vida em comum com o Jéffrey, seria isto: por que não lhe tinha
beijado mais? Como a maioria dos matrimônios tinham desenvolvido

uma linguagem íntima e secreta: um beijo comprido indicava normalmente o desejo de sexo, não só
carinho. Logo estavam os beijos na bochecha e os fugazes nos lábios

que se davam antes de ir trabalhar, que não tinham nada que ver com os que se davam quando
começaram a sair, quando os beijos apaixonados eram presentes exóticos

e sensuais que não sempre acabavam na cama.

Sara queria retornar a esse princípio, voltar a desfrutar dessas largas horas no sofá com a cabeça
do Jéffrey em seu regaço, lhe beijando com paixão, acariciando

seu suave cabelo. Sentia nostalgia daqueles momentos roubados de carros estacionados, corredores
ou cinemas, quando pensava que ia se morrer se não a beijava. Queria

essa surpresa de coincidir com ele no trabalho, esse tombo que lhe dava o coração quando lhe via ao
longe, caminhando pela rua. Queria voltar a sentir mariposas

no estômago quando soava o telefone e ouvia sua voz ao outro lado da linha. Queria voltar a sentir
como o sangue se concentrava em seu ventre quando ia sozinha em

seu carro ou passava por um corredor na farmácia e, de repente, cheirava seu aroma impregnado em
sua própria pele.

Queria recuperar a seu amante.

Alguém abriu a cortina de vinil com um chiado metálico. Jill Marinho, uma das enfermeiras de
urgências, sorriu ao deixar o histórico da Anna sobre a cama.

-Que tal a noite? -perguntou. Perambulou pela habitação comprovando os monitores e


assegurando-se de que a via seguia em seu sítio-. Já estão os resultados

da gasometría.

Sara abriu o histórico e revisou as cifras. A noite anterior, o oxímetro que Anna tinha posto no
dedo detectou um descida na saturação do oxigênio. Mas,

ao parecer, esta manhã tinha voltado para a normalidade de forma espontânea. A Sara não deixava de
lhe maravilhar a capacidade do corpo humano para sanar-se por
si mesmo.

-Faz-te sentir desnecessária, verdade?

-A um médico, pode -replicou Jill para chincharla-, mas a uma enfermeira?

-Bem visto.

Sara colocou a mão no bolso de sua bata de trabalho e apalpou a carta. trocou-se depois de
atender a Anna e tinha transladado a carta de forma automática

ao ficá-la bata limpa. Talvez deveria abri-la. Talvez deveria sentar-se, romper o sobre e acabar com
aquilo de uma vez por todas.

-Passa-te algo? -perguntou-lhe Jill.

Negou com a cabeça.

-Não. Obrigado por deixar que ficasse aqui esta noite.

-foste você a que me tirou trabalho de cima -admitiu a enfermeira. Como de costume, a UCI estava
até os batentes-. Te chamarei se se produz alguma mudança.

-Acariciou a bochecha da Anna e lhe sorriu-. Pode que nossa garota queira despertar hoje.

-com certeza que sim.

Sara não acreditava que Anna pudesse ouvi-la, mas ela se sentia melhor dizendo-o em voz alta.

Os dois policiais que guardavam a porta da habitação se levaram a mão à boina ao sair Sara.
Sentiu seus olhos cravados na nuca enquanto se afastava pelo

corredor, mas não porque a encontrassem atrativa, mas sim porque sabiam que era a viúva de um
policial. Sara não tinha falado nunca do Jéffrey com seus companheiros

do Grady, mas sempre havia muito mudo de um lugar a outro de policiais em urgências, e a notícia
tinha acabado por estender-se. Não demorou para converter-se em

um segredo a vozes do que todo mundo falava, embora nunca em sua presença. Não tinha sido sua
intenção converter-se em uma figura trágica, mas se isso dissuadia

às pessoas de fazer perguntas, não lhe importava.

O grande mistério era por que lhe tinha saído de uma forma tão natural lhe falar do Jéffrey ao
Faith. Sara preferia pensar que Faith era simplesmente uma

boa detetive antes que admitir o que mais se aproximava da verdade: sentia-se sozinha. Sua irmã
vivia ao outro lado do mundo, seus pais estavam a quatro horas de

viagem e sua vida se limitava ao trabalho e a ver o que estivessem pondo na televisão quando
chegava a casa.

E o pior de tudo era que suspeitava que não tinha sido Faith o que a tinha atraído, a não ser o caso.
Jéffrey sempre procurava o conselho da Sara em suas

investigações, e sentia falta dessa classe de atividade mental.

Essa noite, pela primeira vez em muito tempo, o último pensamento da Sara antes de ficar dormida
não foi para o Jéffrey, a não ser para a Anna. Quem a tinha

seqüestrado? por que a tinha eleito precisamente a ela? Que pistas tinha deixado no corpo da Anna
que pudessem lhe ajudar a averiguar o móvel do animal que lhe tinha

feito aquilo? Enquanto falava com o Faith na cafeteria Sara teve a sensação de que seu cérebro
servia para algo mais que para mantê-la viva. E o mais provável é

que fora a última vez em muito tempo que ia se sentir assim.

Esfregou-se os olhos, tratando de espabilarse. Sabia que a vida sem o Jéffrey ia resultar muito
dolorosa, mas o que não sabia era que, além disso, ia ser

tão asquerosamente irrelevante.

Quase tinha chegado aos elevadores quando soou o móvel. Deu meia volta e voltou a dirigir-se
para a habitação da Anna enquanto atendia o telefone.

-Estou de caminho.

-Sonny chegará em menos de dez minutos -replicou Mary Schroder.

Sara se parou; lhe caiu a alma aos pés para ouvir as palavras da enfermeira. Sonny era o marido
da Mary, um agente que fazia o primeiro turno da manhã.

-Está bem?

-Refere ao Sonny? -perguntou Mary-. Está perfeitamente. Onde está você?

-Estou acima, na UCI. -Sara se deu a volta e se foi para os elevadores-. O que é o que acontece?

-Sonny recebeu uma chamada lhe alertando de que havia um menino só no City Foods do Ponce de
Léon. Tem seis anos. O pobre esteve esperando no assento traseiro

do carro durante ao menos três horas.


Sara pulsou o botão do elevador.

-E a mãe?

-desapareceu. Sua bolsa estava no assento do condutor, as chaves no contato e havia sangre no
chão, junto ao carro.

Sara sentiu que seu coração voltava a pulsar.

-E o menino viu algo?

-Está muito afetado para falar, e Sonny não vale para isso. Não tem nem idéia de como tratar a um
menino dessa idade. Está baixando?

-Estou esperando o elevador. -Sara olhou seu relógio-. Está seguro de que foram três horas?

-O encarregado do súper viu o carro estacionado quando chegou a trabalhar. Disse que a mãe tinha
estado ali um momento antes, como louca porque não encontrava

a seu filho.

Sara voltou a apertar o botão, sabendo perfeitamente que não tinha nenhum sentido.

-por que demorou três horas em chamar à polícia?

-Porque a gente é assim de gilipollas -respondeu Mary-. A gente é total e absolutamente gilipollas.

Capítulo sete

O Mini vermelho do Faith estava estacionado à porta de sua casa quando despertou essa manhã.
Amanda devia ter seguido ao Wíll com seu carro e depois o tinha

levado a sua casa. Provavelmente pensava que lhe estava fazendo um favor ao Faith, mas esta seguia
tendo vontades de lhe estrangular. Quando Wíll a chamou para lhe

dizer que aconteceria recolhê-la às oito e meia, como sempre, lhe respondeu com um cortante “vale”
que ficou flutuando sobre sua cabeça.

Sua fúria se aplacou um pouco quando Wíll lhe contou o que tinha passado essa noite: sua estúpida
incursão na cova, o achado da segunda vítima, as dificuldades

com a Amanda. A última parte parecia especialmente dura: Amanda nunca punha a um as coisas
fáceis. Wíll parecia esgotado e Faith se compadeceu de quando lhe descreveu

à mulher pendurada da árvore, mas logo que teve pendurado o telefone voltou a enfurecer-se.
Como lhe ocorria meter-se nessa cova sem ninguém mais que Fierro para lhe guardar as costas?
por que demônios não a tinha chamado para que lhe ajudasse

a procurar à segunda vítima? por que, pelo amor de Deus, pensava que estava lhe fazendo um favor
impedindo que fizesse seu trabalho? Acaso pensava que não era capaz

de fazê-lo, que não era o suficientemente boa? Faith não era um simples mascote. Sua mãe era
polícia. Tinha começado como agente e subido a detetive mais rápido

que qualquer outro membro de sua brigada. Não vinha de recolher margaridas quando Wíll entrou em
sua vida; não era o maldito Watson do Sherlock Holmes.

Obrigou-se a respirar fundo. Estava o suficientemente corda para dar-se conta de que sua ira podia
ser um pouco desproporcionada. Mas unicamente quando

se sentou à mesa da cozinha e se mediu o açúcar soube o por que. De novo rondava o cento e
cinqüenta que, conforme Viver com diabetes, podia aumentar o nervosismo

e a irritabilidade. E ter que injetá-la insulina não lhe ajudava precisamente a acalmar o nervosismo e
a irritabilidade.

Tinha o pulso firme quando girou o dial para selecionar a dose -esperando ter eleito a correta-,
mas sua perna começou a tremer quando tentou cravar-se,

de modo que parecia um cão arranhando-se com vontades. Devia haver algo em seu inconsciente que
fazia que sua mão se paralisasse sobre sua tremente coxa, algo que

lhe impedia de infligir-se danifico algum de forma deliberada. Provavelmente isso mesmo era o que
lhe impedia de embarcar-se em uma relação estável com um homem.

-A tomar por saco -disse com determinação, cravou-se a caneta e empurrou o êmbolo. A agulha
queimava como o fogo do inferno, por mais que o folheto que

lhe tinham dado assegurasse que era virtualmente indolor. Ao melhor depois de te cravar seis mil e
milhões de vezes à semana, te cravar uma agulha na coxa ou no

abdômen resultasse relativamente indolor, mas Faith não tinha chegado ainda a esse ponto, nem
sequer era capaz de imaginar-lhe Quando extraiu a agulha suava de tal

maneira que tinha as axilas pegajosas.

A hora seguinte a passou entre o telefone e Internet, falando com diversas organizações
governamentais para avançar um pouco na investigação enquanto ficava

dos nervos procurando informação no Google sobre a diabetes de tipo 2. Os dez primeiros minutos
esteve esperando a que a atendessem os do departamento de polícia
de Atlanta, e se entreteve procurando um possível diagnóstico alternativo se por acaso Sara Linton se
equivocou. Ao final todo ficou em um sonho impossível, e para

quando a puseram em espera no laboratório do DIG em Atlanta já tinha encontrado seu primeiro blog
para diabéticos. Logo descobriu outro, e outro: milhares de pessoas

espraiando-se sobre as dificuldades que entranha viver com uma enfermidade crônica.

Faith esteve lendo a respeito de bombas e glucosómetros, da retinopatía diabética, os problemas


de circulação, o descida da libido e um montão de coisas

maravilhosas que vinham de presente com a diabetes. Havia padres milagrosas, resenha sobre
artefatos e um pirado que dizia que a enfermidade era uma desculpa que

se inventou o governo dos Estados Unidos para arrecadar subrepticiamente milhares de milhões de
dólares que lhe permitiam financiar a guerra pelo petróleo.

depois de familiarizar-se com as teorias conspiranoicas em torno da diabetes, Faith estava


disposta a acreditar algo que pudesse liberar a de ter que passar

o resto de sua vida medindo-o tudo. passou-se a vida provando absolutamente todas as dietas
emagrecedores do Cosmo, e isso lhe tinha ensinado a controlar os carboidratos

e as calorias, mas não suportava a idéia de converter-se em um acerico. Profundamente deprimida -e


esperando a que alguém do Equifax ficasse ao telefone-, passou

rapidamente às páginas dos laboratórios farmacêuticos com suas fotos de risonhos diabéticos de
aspecto saudável montando em bicicleta, fazendo ioga ou jogando com

cachorritos, gatinhos, meninos pequenos e cometas; às vezes combinações dos quatro. Certamente a
mulher que brincava de correr atrás desse bebê tão adorável não

sofria de secura vaginal.

Tendo em conta que levava toda a manhã ao telefone, Faith poderia ter chamado à consulta da
doutora Wállace e pedido uma entrevista para essa mesma tarde.

Tinha o número que Sara lhe tinha cotado, e naturalmente já tinha comprovado os antecedentes da
Délia Wállace para saber se lhe tinham posto alguma demanda por má

praxe ou tinha alguma multa por conduzir sob os efeitos do álcool. Faith conhecia detalhe o
currículum da médica e seu expediente de tráfico, mas seguia sem ser

capaz de fazer a chamada.

Sabia que ia se passar uma boa temporada trabalhando no escritório por culpa do embaraço.
Amanda foi noiva do Ted, o tio do Faith, mas a relação começou
a deteriorar-se quando esta começou o instituto, e Amanda a Chefa era muito diferente da Tia
Amanda. Lhe ia fazer a vida impossível como solo uma mulher pode fazer-lhe

a outra pela classe de coisas a que se dedicam a maioria das mulheres. Faith estava preparada para
confrontar essa classe de inferno, mas lhe permitiriam voltar

para seu posto quando se inteirassem de que padecia diabetes?

Seria capaz de voltar a sair à rua com uma arma a perseguir os maus sabendo que seus níveis de
glicose podiam desabar-se em qualquer momento? O exercício

intenso podia provocar uma queda da glicose. O que aconteceria lhe dava um fagote e se deprimia
enquanto perseguia um suspeito? As emoções intensas também podiam

comprometer seus níveis de glicose. E se um dia estava entrevistando a uma testemunha e não se
dava conta de que estava fora de controle até que interviessem os

de assuntos internos? E Wíll? Podia confiar nela para lhe cobrir as costas? Por mais que se
queixasse de seu companheiro, Faith sentia uma profunda devoção por ele.

Era a um tempo seu co-piloto, seu pára-choque contra o mundo e sua irmã maior. Como ia proteger
lhe se nem sequer podia proteger-se a si mesmo?

Talvez nem sequer dependia dela.

ficou olhando fixamente a tela do ordenador, pensando em procurar em Internet qual era a política
oficial quanto aos diabéticos nas forças de segurança.

Abandonavam-nos depois de uma mesa de despacho até que se atrofiavam ou demitiam? Despediam-
nos? Colocou as mãos sobre o teclado. Pulsou a H sem pensar e sentiu

que rompia a suar de novo. Quando soou o telefone se levou um susto de morte.

-bom dia -disse Wíll-. Estou fora, sal quando estiver preparado.

Faith fechou o portátil. Agarrou as notas que tinha ido tomando ao telefone, colocou toda sua
parafernália para diabéticos na bolsa e saiu pela porta principal

sem olhar atrás.

Wíll conduzia um Dodge Charger negro sem distintivo policial, o que em seu jargão se
denominava um veículo G, pertencente ao parque móvel do Governo. Esta

beleza de carro em particular tinha uma raia feita com uma chave sobre uma das rodas traseiras e
uma grande antena montada sobre um mole para que o exploratório

pudesse captar qualquer sinal em um rádio de cento e sessenta quilômetros. Até um menino cego de
três anos o teria identificado como um veículo policial.

Conforme abria a porta do carro, Wíll lhe informou:

-Tenho a direção do Jacquelyn Zabel em Atlanta.

Referia-se à segunda vítima, a mulher que tinham encontrado pendurada de uma árvore.

Faith subiu ao carro e se grampeou o cinto de segurança.

-Como?

-O xerife do Walton Beach me chamou esta manhã. Estiveram falando com seus vizinhos. Ao
parecer, acabava de ingressar em sua mãe em uma residência e Jacquelyn

estava vivendo ali enquanto recolhia suas coisas para pôr a casa em venda.

-Onde está a casa?

-No Inman Park. Chárlie se reunirá conosco ali, e chamei à polícia de Atlanta para que enviem a
alguém. Dizem que podem nos emprestar dois agentes um par

de horas. -Deu a volta para sair e olhou ao Faith de reojo-. Tem melhor aspecto. pudeste dormir?

Faith não respondeu. Tirou seu caderno e repassou a lista de todas quão chamadas tinha feito essa
manhã.

-Pedi que enviassem a nossos laboratórios as lascas que Sara encontrou sob as unhas da Anna. E,
antes de nada, mandei a um técnico ao hospital para tomar

os rastros. passei um aviso a todas as delegacias de polícia do estado para que olhem a ver se
tiverem alguma mulher desaparecida que encaixe com a descrição da

Anna; vão tentar mandar a um desenhista para que lhe faça um retrato. Sua cara está bastante
arroxeada, não acredito que ninguém pudesse reconhecê-la em uma foto

tal como está.

Passou a página e jogou uma olhada às notas.

-falei com o CNIC (Centro Nacional de Informação Criminal) e com o PDCV (Programa para a
Detenção de Criminosos Violentos) a ver se tiverem perseverança

de algum caso similar, e embora o FBI não tem aberto nenhum caso como este, introduzi os detalhes
na base de dados se por acaso saltava a lebre. -Passou à página

seguinte-. Temos os cartões controlados de crédito do Jacquelyn Zabel se por acaso alguém tenta as
utilizar. chamei ao anatômico; a autópsia está programada para

as onze. Também falei com os Coldfield, o matrimônio que ia no Buick que atropelou a Anna, e me
hão dito que podemos lhes localizar no refúgio onde trabalha ela

como voluntária, embora já lhe tinham contado a esse detetive tão simpático, Galloway, tudo o que
sabiam. E falando desse gilipollas: chamei ao Jeremy esta manhã

e lhe pedi que deixasse uma mensagem na rolha de voz do Galloway identificando-se como inspetor
de Fazenda e lhe dizendo que tinha encontrado algumas irregularidades.

-Wíll se pôs-se a rir-. Estamos esperando a que a polícia do Rockdale nos envie por fax os informe
da cena do crime e as declarações das testemunhas. Além disso,

não temos nada mais. -Faith fechou sua caderneta-. E você, o que tem feito esta manhã?

Wíll assinalou o posavasos com o queixo.

-Trouxe-te chocolate quente.

Faith olhou o copo de plástico com expressão gulosa; morria de vontades de lamber a espuma de
nata que transbordava por debaixo da tampa. Tinha-lhe mentido

descaradamente a Sara quando descreveu sua dieta. A última vez que Faith se deu uma carreira foi
desde seu carro à porta dianteira do restaurante de comida rápida

Zesto para poder comprar uma vitamina antes de que fechassem. Seu café da manhã habitual consistia
em um pastelito cheio e uma Coca-cola Light, mas essa manhã se

comeu um ovo duro e uma torrada seca, que devia ser o que tomavam o café da manhã os detentos no
cárcere. O açúcar do chocolate podia matá-la, assim que se apressou

a dizer: “Não obrigado”, antes de que trocasse de opinião.

-Ouça, se está tentando perder peso, poderia…

-Wíll -lhe interrompeu-, levo a dieta os últimos dezoito anos. Se quero me deixar, estou em meu
direito.

-Eu não hei dito…

-Além, solo subi dois quilogramas e médio -mentiu-. Tampouco estou como para que me ponham o
logotipo do Michelin no culo.

Sem abrir a boca, Wíll olhou de esguelha a bolsa que tinha no regaço. Quando por fim se decidiu a
falar, disse:
-Sinto muito.

-Obrigado.

-Se não ir A… -deixou a frase sem terminar e agarrou o chocolate do posavasos.

Faith pôs a rádio para não ter que lhe ouvir tragar. O volume estava baixo, e pelos alto-falantes se
ouvia o murmúrio de um locutor dando as notícias. Foi

trocando de emissora até que encontrou algo suave e inócuo que não a exasperasse.

Notou como se esticava o cinto de segurança quando Wíll freou para não atropelar a um pedestre
que se cruzou de improviso em seu caminho. Faith não tinha

desculpa para ficar assim com ele, e Wíll não era nenhum idiota; evidentemente sabia que algo não ia
bem, mas, como de costume, não queria pressioná-la. Faith sentiu

uma pontada de culpabilidade por guardar secretos, embora seu companheiro tampouco era o que se
diz extrovertido. Tinha descoberto que era disléxico por acaso; ao

menos o que ela acreditava que era dislexia. Certamente tinha sérias dificuldades com a leitura, mas
ou seja a que se deviam. lhe observando, Faith se tinha dado

conta de que podia ler algumas palavras, mas demorava uma eternidade, e a maior parte das vezes
não interpretava bem o que lia. Quando lhe perguntou se lhe tinham

dado algum diagnóstico, Wíll se fez o sueco com tal naturalidade que Faith ficou como um tomate,
envergonhada por haver-se atrevido a perguntar sequer.

Odiava ter que admitir que fazia bem em ocultar seu problema. Faith levava no corpo o tempo
suficiente para saber que a maioria dos oficiais de polícia

tinham a inteligência de uma ameba. Eram um grupo bastante conservador, de mente não muito aberta.
Certamente o passá-la vida entre o peorcito que pode oferecer

a sociedade os fazia rechaçar instintivamente algo que se saísse mínimamente do normal em seus
companheiros. Seja como for, Faith sabia que se se corria o rumor

de que Wíll era disléxico, nenhum policial o perdoaria. Se já tinha problemas para ser aceito, isso o
converteria em um emprestado.

Wíll girou à direita na avenida Moreland e Faith se perguntou como sabia para onde devia girar se
distinguir a direita e a esquerda lhe resultava virtualmente

impossível. Era muito hábil ocultando seu problema: se por acaso não lhe bastava com sua
prodigiosa memória, levava sempre uma grabadora digital no bolso que o fazia
as vezes de caderneta. Alguma vez se equivocava mas, pelo general, as arrumava tão bem que
deixava ao Faith com a boca aberta. Wíll tinha conseguido terminar seus

estudos sem que ninguém se desse conta de que tinha um problema. Além disso, crescer em um
orfanato não era o que se diz entrar com bom pé na vida. Tinha muitos

motivos para sentir-se orgulhoso, e isso fazia ainda mais triste que tivesse que ocultar sua
dificuldade.

Estavam na metade do o Little Five Points, uma parte bastante eclética da cidade onde os casas de
jogo clandestino mais cutres conviviam com lojas de moda

muito caras para a roupa que vendiam.

-Está bem? -decidiu-se a lhe perguntar Wíll.

-Solo estava pensando -respondeu Faith, mas não quis lhe contar o que de verdade passava por sua
cabeça-. O que sabemos das vítimas?

-As duas moréias, em forma, muito atrativas. Acreditam que a mulher do hospital se chama Anna.
Segundo o carnê de conduzir, a que encontramos pendurando

da árvore se chama Jacquelyn Zabel.

-E o que tem que os rastros?

-Achamos um rastro latente na navalha, do Zabel. Entretanto, não pudemos identificar a que havia
no carnê: não é do Zabel e não encontramos nenhuma coincidência

no ordenador.

-Deveríamos compará-la com os rastros da Anna para ver se coincidir. Se esta tocou o carnê
poderíamos demonstrar que estiveram juntas na cova.

-Boa idéia.

Ao Faith chateava ter que lhe tirar a informação com colher mas, tendo em conta que ultimamente
andava de um humor de cães, não podia lhe culpar.

-pudeste averiguar algo mais sobre o Zabel?

Wíll se encolheu de ombros como se não soubesse muito mais, mas ficou a recitar:

-Jacquelyn Zabel tinha trinta e oito anos, era solteira e sem filhos. O departamento de polícia da
Florida nos dará uma mão: registrarão a casa, revisarão

os registros telefônicos e tratarão de encontrar a algum familiar além da mãe que viva em Atlanta. O
xerife diz que não há ninguém que conhecesse bem ao Zabel na

cidade. Tinha certa relação com uma vizinha que lhe regava as novelo, mas esta não sabe nada dela.
A vizinhança anda um pouco instigado com alguns vizinhos que tiram

seus contêineres de lixo à rua. O xerife diz que Zabel lhes deu a lata nos últimos seis meses,
queixava-se de que as festas nas piscinas eram muito ruidosas e a

gente estacionava o carro diante de sua casa.

Faith reprimiu o impulso de lhe perguntar por que não lhe tinha contado todo isso desde o começo.

-O xerife chegou a conhecer o Zabel em pessoa?

-Há-me dito que atendeu suas chamadas um par de vezes e que não lhe pareceu uma pessoa muito
agradável.

-Ou seja, dissete que era uma bruxa -precisou Faith. Para ser polícia, Wíll falava com muita
educação-. Como ganhava a vida?

-Trabalhava no negócio imobiliário. O mercado está em crise, mas parece que lhe ia bastante bem:
casa na praia, um BMW, um iate no porto.

-Não me havia dito que a bateria que encontrou na cova era de navio?

-Disse-lhe ao xerife que olhasse em seu iate e a bateria estava em seu sítio.

-Terei que tentá-lo -murmurou Faith, pensando que todos aqueles detalhes não lhes serviam de
muito.

-Chárlie diz que a bateria que encontramos na cova tem pelo menos dez anos; os números de série
se apagaram. vai tentar conseguir mais informação, mas tudo

aponta a que não servirá de nada. É a classe de objeto que se pode adquirir de segunda mão em
qualquer restelo. -encolheu-se de ombros-. O único que nos indica é

que o tipo sabia que uso ia dar.

-E isso por que?

-A bateria de um carro está desenhada para soltar uma descarga elétrica breve e intensa, justo o
que se necessita para arrancar. Uma vez o faz começa a

funcionar o alternador e já não se necessita até que se tem que arrancar outra vez. a da cova é o que
se denomina uma bateria náutica de ciclo profundo, quer dizer,

libera uma descarga constante e prolongada. Se usasse uma de carro para o que a utilizava este tipo,
queimaria-se. A bateria náutica pode estar funcionando durante

horas.

Faith ficou calada, tentando lhe encontrar algum sentido a todo aquilo. Mas o certo era que não
tinha nenhum: o que lhes tinham feito a essas duas mulheres

não tinha sido obra de uma mente sã.

-Onde está o BMW do Zabel? -perguntou.

-Não está em sua casa da Florida, nem tampouco na de sua mãe.

-passaste um aviso a todas as unidades com a descrição do carro?

-Na Florida e na Geórgia.

Wíll alargou o braço para o assento de atrás e tirou um montão de pastas. Estavam classificadas
por cores, e foi as passando uma por uma até que encontrou

uma de cor laranja e a deu ao Faith. Esta a abriu e encontrou uma cópia impressa do carnê de
conduzir do Jacquelyn Alexandra Zabel. Na foto se podia apreciar que

era uma mulher muito atrativa, moréia com o cabelo comprido e olhos castanhos.

-É muito bonita -comentou.

-Igual a Anna. Cabelo castanho, olhos castanhos.

-Nosso homem tem um tipo definido. -Faith passou a seguinte página e leu em alto o histórico de
tráfico da vítima-. O carro do Zabel é um BMW 540i vermelho

do 2008. Puseram-lhe uma multa por excesso de velocidade faz seis meses, ia a 129 em um lance
com velocidade limite de 88. saltou-se um stop nas cercanias de um

colégio o mês passado e em um controle faz duas semanas, negou-se a soprar pelo alcoholímetro; o
julgamento está pendente de data. -Folheou o resto do histórico-.

Seu expediente estava bastante limpo até recentemente.

Wíll se arranhou o antebraço com ar distraído enquanto esperava a que trocasse o semáforo.

-Ao melhor aconteceu algo.

-E o que tem que as notas que Chárlie encontrou na cova?

-“Não vou sacrificar me” -recordou, e tirou a pasta azul-. Estão procurando rastros no papel. As
folhas são de um caderno de espiral corrente e estão escritas
à mão, provavelmente por uma mulher.

Faith jogou uma olhada à fotocópia; a mesma frase uma e outra vez, como se fora um castigo que
lhe houvessem imposto muitas vezes no colégio.

-E a costela?

Wíll seguia arranhando o braço.

-Não encontramos nem rastro dela na cova nem pelos arredores.

-Um troféu?

-Poderia ser. Não havia cortes no cadáver do Jacquelyn. -Wíll se corrigiu-. Me refiro cortes
profundos como o que fizeram a Anna para lhe tirar a costela.

Mas eu diria que as duas passaram pelo mesmo inferno.

-Tortura. -Faith tentou ficar no lugar do seqüestrador-. Ata a uma mulher à cama e à outra debaixo.
Ao melhor as alterna: faz-algo horrível a Anna e logo

lhe dá a volta e faz o mesmo ao Jacquelyn.

-E logo volta às colocar na posição original -continuou Wíll-. Pode que Jacquelyn ouvisse gritar a
Anna enquanto arrancava a costela; soube o que lhe esperava

e ficou a roer a corda que tinha ao redor das bonecas.

-Certamente procurou a navalha, ou possivelmente já a tinha escondida debaixo da cama.

-Chárlie examinou as lamas de madeira que havia sob o colchão e as tornou a colocar na mesma
ordem. Todas tinham um arranhão no centro feito com a ponta

de uma faca muita afiada, como se alguém tivesse talhado a corda desde debaixo da cama, da cabeça
aos pés.

Faith reprimiu um calafrio enquanto constatava o evidente.

-Jacquelyn estava sob a cama enquanto mutilavam a Anna.

-E provavelmente ainda estava viva enquanto penteávamos o bosque.

Abriu a boca para dizer algo do tipo “Não é tua culpa”, mas sabia que seria inútil; até ela mesma
se sentia culpado por não ter estado ali, participando

da busca. Não podia imaginar como se devia sentir Wíll, que tinha dado tombos pelo bosque
enquanto a mulher morria.
-O que te passa no braço? -perguntou-lhe, trocando de tema.

-A que te refere?

-Não deixa de te arranhar.

Wíll deteve o carro e entreabriu os olhos tentando decifrar o nome da rua.

-Hamilton -leu Faith em voz alta.

Wíll olhou seu relógio: o truque que usava para distinguir a direita e a esquerda.

-As duas vítimas estavam muito bem situadas -disse, girando à direita pelo Hamilton-. Anna estava
desnutrida, mas seu cabelo tinha bom aspecto (refiro-me

à cor) e se tinha feito a manicura recentemente. O esmalte das unhas estava descascado, mas parecia
um trabalho profissional.

Faith não quis lhe perguntar como podia distinguir uma manicura profissional de uma que não o
era.

-Essas mulheres não eram prostitutas. Tinham uma casa e um trabalho. É estranho que um assassino
escolha como vítimas a duas mulheres cuja ausência pode

chamar a atenção.

-Móvel, médios, ocasião -recitou Wíll, recordando os fundamentos de toda investigação-. O móvel
é o sexo e a tortura e, possivelmente, a costela.

-Médios -continuou Faith, tratando de imaginar o modo em que o assassino tinha seqüestrado às
vítimas-. Pode que manipule seus carros para que se danifiquem.

Poderia ser um mecânico.

-Os BMW incluem um sistema de assistência em estrada. Solo tem que apertar um botão e lhe
mandam uma grua.

-Que prático -comentou Faith. O Mini era como o BMW dos pobres: tinha que agarrar seu móvel e
chamar uma oficina se necessitava uma grua-. Jacquelyn estava

mudando-se a casa de sua mãe, e isso quer dizer que certamente contratou a uma empresa de
mudanças ou ficou em contato com alguém para vender os móveis.

-Necessitava um certificado de que a casa não tinha térmites para poder vendê-la -acrescentou
Wíll. No Sul é difícil conseguir uma hipoteca sem demonstrar
antes que as térmites não se comeram os alicerces-. Nosso homem poderia ser um exterminador, um
empreiteiro, um transportista de mudanças…

Faith tirou um boli e começou a escrever uma lista na parte posterior da pasta laranja.

-Sua licença de agente imobiliária não seria válida aqui, assim devia ter um agente em Atlanta
para poder vender a casa.

-A menos que a vendesse diretamente como proprietária, em cujo caso pode que tivesse ensinado a
casa a vários possíveis compradores. Isso significa que

pôde haver estranhos entrando e saindo da casa todo o tempo.

-E como é que ninguém reparou em seu desaparecimento? -perguntou Faith-. Sara disse que Anna
tinha estado seqüestrada como mínimo quatro dias.

-Quem é Sara?

-Sara Linton.

Wíll se encolheu de ombros e Faith estudou atentamente sua expressão. Wíll nunca esquecia um
nome. Nunca esquecia nada.

-A médica que me atendeu ontem.

-Esse é seu nome? -Faith se mordeu a língua para não soltar: “Venha já”-. E como sabe o tempo
que esteve retida Anna?

-Foi forense de um condado que fica um pouco mais ao sul.

Wíll elevou as sobrancelhas. Diminuiu a velocidade para ler outro letreiro.

-Forense? Que estranho.

Como se ele não fora estranho.

-Era forense e pediatra.

Wíll murmurou, tentando decifrar o letreiro.

-E eu que pensei que era bailarina.

-Woodland -leu em voz alta Faith-. Bailarina? Mas se medir como seis metros.

-Também há bailarinas altas.

Faith apertou os dentes para não soltar a gargalhada.


-Ora. -Wíll não acrescentou nada mais, e usou essa palavra para indicar que dava por finalizada
essa parte da conversação.

Enquanto girava o volante, Faith ficou olhando o perfil de seu companheiro com a mesma
intensidade que ele olhava fixamente à frente. Wíll era um homem

atrativo, inclusive bonito, mas se comportava como se não o fora. Sua mulher, Angie Polaski, deveu
ver algo além de suas raridades, entre as quais estava sua incapacidade

para manter um bate-papo insustancial e os anacrônicos ternos que insistia em vestir. Wíll, por sua
parte, decidiu passar por cima o fato de que Angie se deitou

com a metade do corpo de polícia de Atlanta, incluindo além de ser certas as pintadas no lavabo de
senhoras do terceiro andar-a um par de mulheres. conheceram-se

no Lar para Meninos de Atlanta, e Faith imaginava que era isso o que tinham em comum. Ambos
eram órfãos, abandonados por seus pais. Como em tudo o que se referia

a sua vida pessoal, Wíll não lhe tinha contado os detalhes. Faith nem sequer se inteirou de que Wíll e
Angie estavam casados até que o viu aparecer um dia com uma

aliança no dedo.

E até agora jamais lhe tinha visto olhar a nenhuma outra mulher, nem tão sequer de reojo.

-Aqui é -disse Wíll torcendo à direita por uma rua estreita e mastreada.

Faith viu a caminhonete branca da polícia científica estacionada frente a uma casa muito pequena.
Chárlie Reed estava na calçada, examinando o cubo do lixo

junto com dois de seus ajudantes. Quem tivesse tirado o lixo devia ser a pessoa mais ordenada do
mundo. Havia várias caixas empilhadas cuidadosamente junto ao meio-fio,

três pilhas de dois, todas elas com uma etiqueta que identificava o conteúdo. junto a estas, várias
bolsas de lixo negros postos em fila, como se montassem guarda.

Ao outro lado da rolha havia um colchão e um canapé alinhados com esmero, e um par de móveis que
os traperos da vizinhança não tinham recolhido ainda. detrás da

caminhonete do Chárlie havia dois carros patrulha vazios da polícia de Atlanta, por isso Faith supôs
que os dois agentes que tinha pedido Wíll estariam perguntando

já pela vizinhança.

-Seu marido era polícia -disse-. Parece que morreu em ato de serviço. Espero que fritaram ao
bode na cadeira.
-O marido de quem?

Wíll sabia perfeitamente de quem estava falando.

-o da Sara Linton. A médica-bailarina.

Wíll estacionou e apagou o motor.

-Pedi ao Chárlie que nos esperasse para que possamos jogar uma olhada à casa. -Tirou dois pares
de luvas de látex do bolso de sua jaqueta e aconteceu um

ao Faith-. Imagino que estará tudo em caixas pela mudança, mas nunca se sabe.

Faith se desceu do carro. Chárlie teria que atar a casa assim que começasse a recolher provas. Se
deixava que jogassem uma olhada antes, não teriam que

esperar a que processassem todas as provas para começar a seguir as possíveis pistas.

-Olá, meninos -gritou Chárlie, em tom quase jovial, lhes saudando com a mão. Assinalou as bolsas
de lixo-. Chegam bem a tempo. Quando chegamos, os do Goodwill

estavam a ponto de levar-lhe.

-O que têm?

Assinalou-lhes as etiquetas que havia nas bolsas.

-A maior parte é roupa, móveis de cozinha, uns liqüidificadores velhos…, esse tipo de coisas -
disse esboçando um sorriso-. Um descanso depois de ter estado

nesse horripilante buraco.

-Quando crie que teremos os resultados das provas que recolheu na cova? -perguntou Wíll.

-Amanda lhes há dito que tem prioridade absoluta. Havia um montão de mierda aí abaixo, em
sentido literal e também metafórico. demos preferência às provas

que consideramos mais importantes. Já sabem que o DNA dos fluidos demorará quarenta e oito
horas; os rastros as estão metendo no ordenador diretamente. Se houver

alguma prova decisiva aí abaixo, saberemos amanhã pela manhã, a mais demorar. -Simulou um
telefone com a mão e a levou a orelha-. Serão os primeiros em lhes inteirar.

Wíll assinalou as bolsas de lixo.

-encontrastes algo que nos seja útil?

Chárlie lhe aconteceu um pacote de cartas. Wíll lhe tirou a borracha e olhou os envelopes um por
um antes de passar-lhe ao Faith.

-O carimbo é recente -comentou. Resultava-lhe quase impossível decifrar as palavras, mas lia os
números sem problemas; era uma de suas muitas argúcias para

dissimular seu problema. Além disso, lhe dava bem reconhecer os logotipos das empresas-. A fatura
do gás, a da luz, a de televisão por cabo…

Faith leu em voz alta o nome do destinatário.

-Gwendolyn Zabel. Um nome antiquado mas muito bonito.

-Como Faith -disse Wíll, e lhe surpreendeu ouvir de seus lábios um comentário tão pessoal. Ele se
apressou a desviar sua atenção-. E vivia em uma casa antiquada

mas muito bonita.

“Bonito” não era o adjetivo que tivesse utilizado Faith para descrever aquele pequeno bungaló,
mas sim tinha um ar muito pitoresco com suas tabuletas cinzas

e seus adornos vermelhos. A casa não tinha sido reformada, nem sequer se tinham feito trabalhos de
manutenção. O canelone estavam curvados pelo peso das folhas acumuladas

durante anos e, de longe, o telhado parecia o lombo de um camelo. A grama estava talhada com
esmero, mas não estavam os canteiros nem os sebes esculpidos tão típicos

dos jardins de Atlanta. Menos uma, todas as demais casas da rua tinham acrescentado uma planta
mais ou tinham sido diretamente derrubadas a fim de deixar livre a

parcela para uma mansão. a do Gwendolyn Zabel devia ser uma das últimas casas da zona que ainda
conservavam intacto seu aspecto original; a única com dois dormitórios

e um só banho. Faith se perguntou se os vizinhos se teriam alegrado de que a anciã se mudasse. Sua
filha devia estar encantada de poder embolsar o cheque da venda.

Uma casa como essa devia haver flanco uns trinta mil dólares quando se construiu. Agora, solo a
parcela devia valer ao redor de meio milhão.

-tivestes que desmontar a fechadura? -perguntou-Wíll ao Chárlie.

-A porta não estava fechada com chave. Os meninos e eu jogamos uma olhada pelos arredores e
não vimos nada estranho, mas se surgir algo serão os primeiros

em sabê-lo. -Chárlie assinalou o montão de lixo que tinha diante-. Isto é sozinho a ponta do iceberg.
Temos trabajito para momento.

Wíll e Faith intercambiaram olhadas de caminho à casa. Inman Park estava longe do Mayberry;
ninguém deixava a porta aberta a menos que esperasse uma indenização

de seu seguro.

Faith abriu a porta principal, e cruzar a soleira foi como viajar aos anos setenta. O carpete verde
tinha o cabelo tão comprido que quase lhe cobria as

esportivas, e o papel irisado das paredes lhe recordou com muita delicadeza que tinha engordado
sete quilogramas no último mês.

-Uau! -exclamou Wíll, jogando uma olhada rápida à habitação. Havia uma enorme quantidade de
porcarias por toda parte: pilhas de periódicos velhos, livros

encadernados em rústica, revistas-. Não pode ser bom para a saúde viver aqui.

-Imagine a pinta que devia ter antes de que tirassem tudo o que há fora. -Faith agarrou um
espremedor oxidado que havia no alto de uma pilha de números

atrasados da revista Life-. A alguns anciões dá de colecionar toda classe de coisas. E uma vez que
começam, já não sabem parar.

-Isto é uma loucura -disse Wíll, acariciando uma pilha de singre de vinil. Uma nuvem de pó se
dissolveu no carregado ar da habitação.

-A casa de minha avó era pior que esta -lhe contou Faith-. Demoramos uma semana inteira em
poder passar ao outro lado da cozinha.

-O que é o que leva a alguém a fazer algo assim?

-Não sei.

Seu avô tinha morrido quando ela era menina, e sua avó paterna tinha vivido sozinha a maior parte
de sua vida. Tinha começado a acumular coisas aos cinqüenta

anos, e para quando a ingressaram na residência sua casa estava cheia de trastes até o teto. Vendo o
lar abarrotado de trastes de outra anciã solitária, Faith se

perguntou se algum dia Jeremy diria o mesmo de como tinha sua casa.

Ao menos ele teria um irmão ou uma irmã pequena para lhe dar uma mão. Faith se levou a mão à
tripa, fazendo-se perguntas pela primeira vez sobre a criatura

que levava dentro. Seria menino ou menina? Seria loiro, como ela, ou moreno e com rasgos latinos,
como seu pai? Jeremy não se parecia com seu pai absolutamente,

graças a Deus. O primeiro amor do Faith tinha sido um macarra com uma pinta que recordava a do
Spike, o irmão do Snoopy. De bebê, Jeremy tinha um aspecto quase delicado,
como de porcelana fina, com uns piececitos pequenos e adoráveis. Aqueles primeiros dias, Faith se
tinha passado horas contemplando aqueles deditos diminutos, lhe

beijando os talões. Parecia-lhe que era a coisa mais maravilhosa sobre a face da terra. Tinha sido
seu boneco favorito.

-Faith?

Retirou a mão de sua tripa, perguntando-se que demônios lhe tinha dado. injetou-se suficiente
insulina essa manhã. Ao melhor não eram mais que as mudanças

hormonais típicos do embaraço, que tinham feito de seus quatorze anos uma época tão feliz para ela e
para toda a gente que tinha a seu redor. Como demônios ia passar

por tudo isso outra vez? E como ia fazer o estando sozinha?

-Faith!

-Me vais gastar o nome, Wíll -lhe espetou. Assinalou para o fundo da casa -. vá olhar na cozinha.
Eu me ocupo dos dormitórios.

Wíll a olhou de acima a abaixo antes de dirigir-se à cozinha.

Faith foi pelo corredor até as habitações do fundo, sorteando liqüidificadores, torradeiras e
telefones quebrados. perguntou-se se a anciã teria recolhido

todo aquilo do lixo ou se, simplesmente, tinha-o ido acumulando com o passar do tempo. As
fotografias emolduradas da parede pareciam antigas, algumas tinham um tom

sépia e outras estavam feitas em branco e negro. Faith lhes jogou uma olhada ao passar, perguntando-
se quando tinha começado a gente a sorrir à câmara e por que.

Tinha algumas fotos antigas dos avós de sua mãe pelas que sentia um carinho especial. Nos tempos
da Grande Depressão viviam em uma granja, e um fotógrafo ambulante

fez uma foto da família com uma mula a que chamavam Big Pete. A mula era quão única sorria.

Não havia nenhuma mula na parede do Gwendolyn Zabel, mas em algumas das fotografias em cor
se via duas meninas; os dois com caminhos jubas castanhas que

chegavam além de suas cinturas de vespa. Não tinham a mesma idade, mas não cabia a menor duvida
de que eram irmãs. Não apareciam juntas em nenhuma das fotos mais

recentes. A irmã do Jacquelyn preferia posar em paisagens desérticas para as fotos que mandava a
sua mãe, enquanto que Jacquelyn parecia preferir a praia e um biquíni

que se atia a aqueles quadris, tão estreitas que pareciam as de um menino. Faith não pôde evitar
pensar que se ela tivesse essa pinta com trinta e oito anos, também

quereria fazer uma foto em biquíni. Não havia muitas imagens recentes de sua irmã, que tinha
engordado um pouco com os anos. Faith esperava que não tivesse perdido

o contato com sua mãe. Podiam rastrear as chamadas telefônicas à inversa para sair de dúvidas.

O primeiro dormitório não tinha porta, e a habitação estava igualmente saturada de trastes, mais
periódicos e mais revista. Havia algumas caixas, mas em

geral a habitação estava tão cheia de lixo que não pôde dar mais que um par de passos. No ambiente
flutuava um desagradável aroma de umidade, e Faith recordou um

caso que tinha visto nas notícias muitos anos antes. A protagonista da história era uma mulher que
tinha guardado um recorte de uma revista velha e tinha morrido

a conseqüência de uma enfermidade estranha. Saiu do dormitório e apareceu ao quarto de banho.


Mais porcaria, mas alguém tinha espaçoso os trastes para poder passar

ao quarto de banho e limpá-lo. No lavabo havia uma escova de dentes e outros artigos de higiene
pessoal colocados em fila, e várias bolsas de lixo amontoados dentro

da banheira. A cortina de ducha estava virtualmente negra do mofo acumulado.

Faith teve que ficar de lado para poder cruzar a porta do dormitório principal. A razão a descobriu
nada mais entrar: havia uma velha cadeira de balanço

detrás da porta com tal quantidade de roupa em cima que não se cansado ao chão precisamente
porque estava apoiada contra ela. Também havia roupa atirada por toda

a habitação do tipo que se etiqueta como vintage e se vende por centenas de dólares nas
vanguardistas tenda do Little Five Points.

Fazia calor na casa e, com as mãos suadas, custou-lhe mais trabalho embainhá-los luvas de látex.
Fez caso omisso do emplastro de betume de sangue seca que

tinha na ponta de um dos dedos, não queria pensar em nada que pudesse lhe provocar um estúpido
ataque de pranto.

Começou pelas gavetas da cômoda. Estavam todos abertos, assim não tinha mais que apartar um
pouco a roupa para procurar cartas ou alguma agenda que pudesse

conter os dados de outros familiares. Faziam a cama com esmero e os lençóis estavam podas; devia
ser o único em toda a casa que podia qualificar-se de “limpo”. Não

havia nada que lhe indicasse se Jacquelyn Zabel tinha dormido no dormitório de sua mãe ou se tinha
preferido alojar-se em algum hotel do centro.
Ou sim. Faith viu uma bolsa de viagem aberta junto à capa de um portátil no chão. Deveria havê-
los visto nada mais entrar, porque ambos estavam desconjurado

naquele contexto: a capa era de couro e a bolsa de uma conhecida assina de moda. Faith encontrou
dentro da capa um MacBook Air pelo que seu filho teria sido capaz

de matar. Pulsou o botão de aceso, mas a tela de início lhe pedia um usuário e uma contra-senha.
Chárlie teria que enviar-lhe a quem correspondesse para poder acessar

à informação, mas segundo sua experiência, os Macs que estavam protegidos com contra-senha eram
invioláveis, nem sequer o fabricante podia decodificá-la.

A seguir examinou a bolsa. A roupa que havia dentro era de assinatura: Donna Karan e Jones New
York. Os sapatos do Jimmy Choo eram especialmente impressionantes,

sobre tudo para o Faith, que levava uma saia que parecia uma loja de campanha porque já não se
podia grampear nenhum das calças que tinha no armário. Jacquelyn Zabel,

pelo visto, não tinha esse problema, e Faith se perguntou por que tinha decidido ficar naquela pocilga
quando era evidente que podia permitir um alojamento muito

mais cômodo. Sim tinha estado dormindo naquela habitação: a cama feita com primor, um copo de
água e um par de óculos de perto sobre a mesa indicavam, sem lugar

a dúvidas, que alguém tinha ocupado o dormitório recentemente. Também havia um enorme bote de
aspirinas, como os que têm nos hospitais. Faith o abriu e viu que estava

meio vazio. Certamente ela também necessitaria aspirinas se tivesse que empacotar o equipamento de
sua mãe. Tinha visto o duro que resultou a seu pai tomar a decisão

de ingressar em sua mãe em uma residência para anciões. O homem fazia anos que havia falecido,
mas Faith sabia que nunca tinha podido superar o ter ingressado na

avó em uma residência.

Sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas sem poder fazer nada por evitá-lo. Deixou escapar
um gemido e se limpou com o dorso da mão. Desde que viu o

signo positivo no test de embaraço não tinha passado um só dia sem que seu cérebro encontrasse
alguma desculpa para fazer que rompesse a chorar.

Voltou a concentrar-se na bolsa. Ia procurando provas algum papel -um caderno, um jornal, um
bilhete de avião-quando ouviu uns gritos que vinham do outro

extremo da casa. Faith se encontrou ao Wíll na cozinha e a uma mulher corpulenta muito zangada lhe
gritando a escassos centímetros de sua cara.
-Não têm nenhum direito a estar aqui, porcos!

Faith pensou que a mulher parecia uma dessas velhas hippies que se dirigiam aos policiais com
esse apelativo carinhoso: “porcos”. Levava o cabelo recolhido

em uma trança e levava um xale feito com uma manta de montar que o fazia as vezes de camiseta.
Imaginou que a mulher devia ser a última de sua espécie na vizinhança,

cuja casa logo seria a mais cutre da rua. Não tinha pinta de ser uma dessas mamães viciadas na ioga
que certamente viviam em mansões recém estreadas.

Wíll permanecia llamativamente sereno, apoiado contra a geladeira com uma mão no bolso.

-Senhora, faça o favor de tranqüilizar-se.

-Que lhe dêem. E a ti também -disse ao ver aparecer ao Faith.

Agora que a via mais de perto, calculou que teria uns quarenta e tantos anos. Não obstante,
tampouco resultava fácil calcular sua idade, porque sua cara

estava vermelha e bastante desfigurada pelo aborrecimento. Suas facções pareciam estar
especialmente desenhadas para expressar ira.

-Conhecia você ao Gwendolyn Zabel? -perguntou-lhe Wíll.

-Não tem direito a me interrogar sem que haja um advogado presente.

Faith pôs os olhos em branco, desfrutando-se no infantil do gesto. Wíll se comportou de forma um
pouco mais amadurecida.

-Poderia me dizer seu nome?

A mulher ficou à defensiva de novo.

-por que?

-Eu gostaria de saber como devo me dirigir a você.

A mulher ficou meditando suas opções.

-Candy.

-Muito bem, Candy. Sou o agente especial Trent, do DIG, e ela é a agente especial Faith Mitchell.
Sinto ter que lhe comunicar que a filha da senhora Zabel

sofreu um acidente.

Candy se amassou no xale.


-Ia bêbada?

-Conhecia você ao Jacquelyn? -perguntou-lhe Wíll.

-Jackie. -Candy se encolheu de ombros-. Esteve vivendo aqui um par de semanas ou três para
recolher as coisas de sua mãe e vender a casa. Falamos de vez

em quando.

-Contratou a algum agente imobiliário, ou pensava vendê-la ela diretamente?

-Chamou um agente local. -A mulher trocou de postura para não ver o Faith-. Está bem Jackie?

-Temo-me que não. Morreu a conseqüência do acidente.

Candy se levou a mão à boca.

-Viu a alguém rondando pelos arredores da casa? Alguém suspeito?

-É óbvio que não. Teria chamado à polícia.

Faith conteve um bufido. Os que destrambelhavam contra os “porcos” eram os primeiros em


chamar à polícia assim que intuíam o menor problema.

-Tinha Jackie algum familiar com o que possamos nos pôr em contato? -perguntou-lhe Wíll.

-Está cego ou o que te passa? -replicou Candy, assinalando para a geladeira com um gesto da
cabeça.

Faith viu uma lista de nomes e números de telefone pega na porta da geladeira onde estava
apoiado Wíll. As palavras NÚMEROS DE EMERGÊNCIA encabeçavam a

lista impressa em negrito, a menos de quinze centímetros de sua cara.

-Deus, é que não lhes ensinam a ler na academia?

Wíll parecia estar acontecendo-o fatal, e Faith teria esbofeteado ao Candy se a tivesse tido mais
perto. Entretanto, limitou-se a dizer:

-Senhora, vou necessitar que vá ao centro para fazer uma declaração formal.

Wíll a olhou e meneou a cabeça, mas Faith estava tão furiosa que lhe custava falar sem que lhe
tremesse a voz.

-Um carro patrulha a levará até o edifício Leste da Prefeitura. Será questão de um par de horas.

-por que? -perguntou Candy-. Para que necessitam que…?


Faith tirou seu móvel e marcou o número de seu antigo companheiro do departamento de polícia de
Atlanta. Leio Donelly lhe devia um favor -mas bem muitos

favores-e pensava cobrar-lhe para lhe fazer a vida impossível a aquela mulher.

-Falarei com vós aqui. Não faz nenhuma falta que me levem a centro.

-Sua amiga Jackie está morta -disse Faith em tom cortante-. Você escolhe: ou nos ajuda com a
investigação ou a acuso de obstrução.

-Vale, vale -disse a mulher elevando as mãos em sinal de rendição-. O que querem saber?

Faith olhou de esguelha ao Wíll, que se olhava fixamente os pés. Pulsou o botão de pendurar e se
economizou a chamada a Léon.

-Quando viu você a Jackie por última vez? -perguntou-lhe.

-O fim de semana passado. Veio procurando um pouco de companhia.

-Que classe de companhia?

Candy respondeu com evasivas e Faith começou a marcar o número de Léon outra vez.

-Está bem -grunhiu Candy-. por Deus, estivemos fumando um pouco de maconha. Estava até os
narizes de toda esta mierda. Levava bastante tempo sem visitar

sua mãe; nenhum nos tínhamos dado conta de quão mau estava.

-A quem se refere quando diz “nenhum de nosostros”?

-A mim e a um par de vizinhos mais que jogávamos um olho ao Gwen de vez em quando. É uma
mulher muito maior. Suas duas filhas vivem fora do estado.

Muito atentos não deviam estar se não se deram conta de que estava vivendo em um esgoto.

-Conhece você à outra filha?

-Joelyn -respondeu Candy, assinalando com um gesto da cabeça para a lista que havia na
geladeira-. Ela nunca vinha por aqui. Ao menos eu não a vi nos dez

anos que levo vivendo neste bairro.

Faith olhou de esguelha ao Wíll uma vez mais. Este tinha o olhar perdido em um ponto indefinido
por cima do ombro do Candy.

-Assim viu a Jackie por última vez a semana passada, não?

-Isso.
-E o que tem que seu carro?

-Tinha-o estacionado diante da casa até faz um par de dias.

-Um par de dias quer dizer dois dias?

-Em realidade faz mas bem quatro ou cinco dias. Tenho uma vida. Não me dedico a observar as
idas e vindas de meus vizinhos.

Faith passou por cima o sarcasmo.

-Viu você a alguém de aspecto suspeito rondando por aqui?

-Já te hei dito que não.

-Quem era seu agente imobiliário?

Mencionou o nome de um dos melhores agentes imobiliários da cidade, um homem que se


anunciava em todas as paradas de ônibus.

-Jackie nem sequer lhe conhecia em pessoa; negociaram-no tudo por telefone. O tipo tinha a casa
vendida antes de pôr o pôster no jardim. Há um promotor

que está comprando todas as parcelas da vizinhança, e fecha o trato em dez dias com dinheiro em
efetivo.

Faith sabia que era uma prática bastante estendida. Inclusive lhe tinham chegado várias ofertas por
seu humilde casa nos últimos anos, embora não tinha

aceito nenhuma porque com o dinheiro da venda não tivesse podido permitir comprar uma casa nova
na mesma zona.

-E o que me diz da empresa de mudanças?

-Olhe todas estas porcarias. -Golpeou com a palma da mão um montão de periódicos velhos-. O
último que me disse Jackie foi que ia pedir um contêiner desses

que se utilizam na construção.

Wíll se esclareceu voz. Já não olhava à parede, mas tampouco olhava diretamente à testemunha.

-E por que não deixar as coisas como estão, sem mais? -perguntou-. Virtualmente não há mais que
lixo, e o construtor vai derrubar a casa de todas formas.

Ao Candy horrorizou a idéia.

-Esta era a casa de sua mãe. Jackie se crio aqui; sua infância está enterrada sob todas estas
porcarias. A gente não pode desfazer-se de seu passado assim,

sem razão.

Wíll agarrou o móvel como se tivesse divulgado. Faith sabia que tinha o modo vibração quebrado
(Amanda tinha estado a ponto de lhe matar na semana anterior

porque lhe soou em metade de uma reunião). Entretanto olhou a tela e disse:

-Me desculpem.

Saiu pela porta de atrás, apartando com o pé um montão de revistas que lhe obstaculizavam o
passo.

-Qual é seu problema? -perguntou Candy refiriéndose ao Wíll.

-É alérgico às zorras -brincou Faith, embora de ter sido certo essa manhã Wíll teria o corpo
invadido por um sarpullido da cabeça aos pés-. Com que freqüência

visitava Jackie a sua mãe?

-Tomaste-me por sua secretária pessoal?

-Possivelmente recupere a memória se a levar a central.

-Joder -murmurou Candy-. Vale. Pode que viesse a vê-la umas duas vezes ao ano, mais ou menos.

-E alguma vez viu à irmã, ao Joelyn, por aqui?

-Não.

-Passava você muito tempo com a Jackie?

-Não muito. Não se pode dizer que fôssemos amigas nem nada parecido.

-E isso de que estiveram fumando maconha a semana passada? Contou-lhe algo sobre sua vida?

-Disseme que a residência onde tinha ingressado em sua mãe custava cinqüenta dos grandes ao
ano.

Faith teve que conter-se para não assobiar.

-Pois se levará tudo o que tire pela venda da casa.

Candy não parecia compartilhar sua opinião.

-Faz tempo que Gwen não está bem. Não acredito que supere este ano. Jackie me disse que ao
melhor levava algo bonito quando fora a visitá-la.
-Onde está a residência?

-Em Muito bicha.

Jackie Zabel vivia na parte noroccidental da Florida, a umas cinco horas em carro de Muito bicha.
Nem muito perto, nem muito longe.

-As portas não estavam fechadas com chave quando chegamos.

Candy meneou a cabeça.

-Jackie vivia em uma urbanização fechada. Nunca fechava as portas com chave. Uma noite se
deixou as chaves no carro; quando vi suas chaves no contato não

me podia acreditar isso. Foi um milagre que não o roubassem. -Com certa tristeza, acrescentou-:
Sempre teve muita sorte.

-Estava saindo com alguém?

Candy voltou a mostrar-se reticente mas Faith esperou a que a mulher respondesse.

-Não era tão simpática, sabe? -respondeu por fim-. Estava bem para compartilhar um néscio, mas
em geral se poderia dizer que era uma arpía; e os homens

queriam follársela, mas não ficavam a conversar com ela depois. Não sei se me explico.

Faith não era a mais indicada para julgá-la.

-Poderia ser mais específica? A que se refere com isso de que era uma arpía?

-Solo ela sabia qual era o caminho mais adequado para ir a Florida, a classe de gasolina que terá
que lhe pôr ao carro, como terá que atirar o maldito lixo.

-Candy fez um gesto assinalando a abarrotada cozinha-. Por isso queria encarregar-se de tudo isto
pessoalmente. Está forrada; podia haver-se permitido contratar

a uma equipe e lhe teriam deixado a casa limpa em dois dias. Mas pensava que solo ela podia fazê-lo
como é devido. Essa é a única razão pela que ficou aqui: tem

obsessão por controlá-lo absolutamente tudo.

Faith pensou nas bolsas alinhadas com esmero na calçada.

-Diz que não saía com ninguém. Havia algum homem em sua vida? Algum ex-marido, um antigo
noivo?

-Quem sabe. Não me fazia muitas confidências, e Gwen leva anos sem saber nem em que dia vive.
Honestamente acredito que Jackie só precisava dar um par de

imersões para relaxar-se e sabia que eu tinha maconha.

-E por que a compartilhou com ela?

-Não estava mal quando se relaxava.

-perguntou você se ia bêbada quando teve o acidente.

-Sei que teve um problema com isso na Florida. Lhe enchia o saco muito esse assunto. -Com muita
segurança, acrescentou-: Esses controles são absurdos. Uma

triste monopoliza de vinho e lhe plantam as algemas como se fosse um delinqüente. Quão único
querem é cobrir sua cota.

Faith tinha tido que fazer muitos controles de alcoholemia e sabia que tinha salvado muitas vidas.
Não lhe cabia a menor duvida de que Candy, por sua parte,

devia ter tido mais de um rifirrafe com a polícia.

-Assim Jackie não lhe caía bem, mas tinha bastante trato com ela. Não a conhecia muito bem, mas
sabe que estava recorrendo uma denúncia por conduzir sob

os efeitos do álcool. No que ficamos?

-É mais fácil lhe seguir a corrente às pessoas, sabe? Não sou das que vão procurando problemas.

Pelo visto, preferia procurar-lhe a outros. A agente tirou sua caderneta.

-Poderia me dizer qual é seu sobrenome?

-Smith. -Faith a olhou fixamente aos olhos-. A sério: meu nome é Candace Courtney Smith. Vivo
nessa ruína que há ao outro lado da rua.

Olhou fugazmente pela janela e viu o Wíll falando com um dos agentes de uniforme. Pelo modo em
que o homem meneava a cabeça imaginou que não tinham averiguado

nada novo.

-Sinto me haver posto assim -disse Candy-. É que eu não gosto de ver a polícia farejando por aqui.

-E isso por que?

A mulher se encolheu de ombros.

-Faz tempo tive algum que outro problema com a poli.


Faith já o tinha adivinhado. Candy tinha a típica atitude hostil de quem ocupou o assento traseiro
de um carro de polícia em mais de uma ocasião.

-Que classe de problemas?

Encolheu-se de ombros outra vez.

-Solo o digo porque de todas maneiras o vão averiguar e não quero que voltem aqui como se fora
uma psicopata homicida.

-Muito bem. O que há?

-Detiveram-me por prostituição quando tinha vinte anos.

Ao Faith não surpreendeu absolutamente.

-Conheceu um tipo que a iniciou nas drogas e a converteu em uma yonqui -aventurou.

-Romeo e Julieta -confirmou Candy-. O muito bode me agüentou toda seu mierda. Disse que não
me encerrariam por isso.

Tinha que haver uma fórmula matemática que permitisse calcular com exatidão quanto tempo
demorava uma mulher em ficar a fazer a rua para costear-se seus

vícios depois de que seu noivo a enganchasse às drogas. Faith imaginou que o resultado seria zero
vírgula pouco. -Quanto tempo lhe caiu?

-Uma mierda -Rio Candy-. Delatei ao bode e a seu camelo. Não passei entre grades nem um só
dia.

Isto tampouco surpreendeu ao Faith.

-Faz muito que deixei as drogas duras -explicou a mulher-. Mas a erva me relaxa muito.

De novo olhou ao Wíll de reojo. Evidentemente, havia algo nele que a punha nervosa. Faith
decidiu lhe perguntar diretamente.

-O que é o que tanto a preocupa?

-Não parece um policial.

-E o que parece?

Candy meneou a cabeça.

-Recorda a meu primeiro noivo: muito calladito e muito educado mas com um caráter… -
Estampou o punho contra a palma de sua outra mão-. Me surrava que
dava gosto. Rompeu-me o nariz. E um dia me rompeu uma perna porque não ganhei o suficiente
dinheiro. Ainda me dói quando faz frio.

Faith viu aonde queria ir parar. Se se tinha posto a fazer a rua para comprar drogas e a tinham
pilhado mais de uma vez por conduzir em estado de embriaguez

não era por sua culpa, mas sim pela de seu malvado noivo ou o estúpido polícia que não pensava em
outra coisa que em cumprir com sua cota. E agora era ao Wíll a

quem lhe tocava fazer o papel de mau. Candy era uma perita manipuladora que sabia perfeitamente
quando estava perdendo o favor de seu público.

-Não te estou mentindo.

-A verdade é que não me interessam os sórdidos detalhes de seu trágico passado -disse Faith-. me
Diga o que é o que lhe preocupa de verdade.

Candy vacilou uns segundos.

-Agora solo me dedico a criar a minha filha. Estou poda.

-Já.

Temia que tirassem a sua filha.

Candy assinalou ao Wíll com um gesto da cabeça.

-Recorda a esses bodes dos serviços sociais.

Que Wíll lhe parecesse um trabalhador social resultava mais verossímil que o de que recordava a
seu violento noivo.

-Que idade tem sua filha?

-vai fazer quatro anos. Não acredito que pudesse suportar… depois do inferno que tive que
acontecer. -Candy sorriu, já não parecia um alfavaca, a não

ser uma gordinha relativamente atrativa-. Hannah é um céu. Tinha-muito carinho a Jackie; queria ser
como ela de maior: ter um bom carro e um armário cheio de roupa

elegante.

Ao Faith dava a impressão de que Jackie não era o tipo de mulher que desfrutaria tendo a uma
mucosa de três anos zascandileando a seu redor e jogando com

seus sapatos do Jimmy Choo, entre outras coisas porque os meninos dessa idade sempre tinham as
mãos sujas e pegajosas.
-E Jackie se levava bem com ela?

Candy se encolheu de ombros.

-A quem não gosta dos meninos? -E formulou por fim a pergunta que qualquer que não fora tão
egocêntrico teria formulado dez minutos antes-: O que é o que

passou? Estava bebida?

-foi assassinada.

Candy abriu a boca, e a fechou.

-Assassinada? -Faith assentiu com a cabeça-. E quem poderia fazer uma coisa assim? Quem
quereria lhe fazer danifico?

Faith tinha presenciado essa cena muitas vezes e sabia como acabava. Essa era a razão pela que
em um princípio tinha oculto a verdadeira causa da morte

do Jacquelyn Zabel: ninguém se atrevia a falar mal dos mortos, nem sequer uma fu-coloque com ares
de hippie e com sérios problemas para controlar sua ira.

-Não era má garota -insistiu Candy-. Quero dizer que, no fundo, era boa gente.

-com certeza que sim -disse Faith, embora em realidade lhe parecia que devia ser justamente o
contrário.

-Como vou explicar a Hannah que Jackie está morta? -disse com os lábios trementes.

Nesse momento soou o móvel do Faith; a chamada não pôde ser mais oportuna, porque não sabia o
que responder à pergunta do Candy. Pior ainda, não lhe importava

o mais mínimo, agora que lhe tinha tirado toda a informação que necessitava. Seguro que Candy
Smith não ocupava o primeiro posto na classificação de maus pais, mas

tampouco era o que se diz uma muito belo pessoa, e aí estava sua filha de três anos para pagar o pato.

-Mitchell -disse Faith ativando o telefone.

-foste você a que me chamou faz um momento? -perguntou o detetive Leio Donnelly.

-Equivoquei-me de tecla -mentiu Faith.

-De todos os modos ia chamar te eu. foste você a que lançou a alerta, não?

Referia-se a que Faith tinha passado a todas as unidades essa mesma manhã. Levantou um dedo
para lhe pedir ao Candy que lhe desse um minuto e se foi para
a sala de estar.

-O que é o que tem?

-Não é exatamente uma pessoa desaparecida -lhe explicou-. Um agente encontrou a um menino só
no interior de um carro esta manhã e não pudemos localizar

à mãe.

-E? -perguntou Faith, sabendo que tinha que haver mais. Léon era um detetive de homicídios, não
lhe chamavam para coordenar-se com os serviços sociais.

-Seu alerta parece que encaixa com a descrição da mãe: cabelo castanho, olhos marrons.

-O que diz o menino?

-Nem mu -admitiu-. Agora mesmo estou com ele no hospital. Você tem um filho. Importaria-te
dever ver se consegue lhe fazer falar?

Capítulo oito

O montão de jornalistas apostados na entrada principal do hospital Grady tinham espantado


temporalmente às pombas, mas não aos vagabundos, que pareciam

decididos a fazer de figurantes em todas as tomadas. Wíll estacionou em um dos lugares reservados
que havia frente à entrada com a esperança de poder penetrar sem

chamar a atenção, mas não parecia que houvesse muitas possibilidades. As caminhonetes dos
informativos tinham as parabólicas orientadas para cima, e havia vários

repórteres impecavelmente trajeados e com o microfone na mão contando a trágica história do


menino que tinha sido abandonado no estacionamento do City Foods essa

mesma manhã. Desceu do carro e disse ao Faith:

-Amanda pensou que o menino lhes distrairia de nosso caso durante um tempo. vai se pôr feita um
alfavaca quando se inteirar de que os dois casos poderiam

estar relacionados.

-Se quiser o digo eu -se ofereceu Faith.

Wíll se meteu as mãos nos bolsos.

-Se posso escolher, prefiro que me insulte a que me compadeça.


-Inclusive posso fazer ambas as coisas de uma vez.

Wíll se Rio, embora o ter passado por cima a lista que havia na porta da geladeira o fazia tanta
graça como o não ter sido capaz de ler o nome do Jacquelyn

Zabel em seu carnê de conduzir enquanto a mulher pendurava de uma árvore justa um pouco por cima
dele.

-Candy tem razão, Faith. deu justo no prego.

-Teria-me ensinado a lista -lhe defendeu Faith-. A irmã da Jackie Zabel nem sequer estava em
casa. Não acredito eu que vá se afundar o mundo por ter demorado

cinco minutos mais em lhe deixar uma mensagem na secretária eletrônica. E se ontem à noite não te
tivesse parado justo debaixo dessa árvore com o carnê na mão, certamente

não tivessem descoberto o cadáver até depois de amanhecer. Ao melhor nem isso.

Wíll viu que os repórteres se fixavam em tudo o que entrava pela porta principal do Grady,
tentando averiguar se seriam ou não importantes no que a sua

história se referia.

-Algum dia vais ter que deixar de me buscar desculpas -disse ao Faith.

-Algum dia terá que te tirar a cabeça do culo.

Wíll seguiu caminhando. Em uma coisa tinha razão Faith: podia lhe insultar e lhe compadecer ao
mesmo tempo. O descobrimento não lhe serve de consolo. Faith

era de sangue azul -não porque tivesse nada que ver com a aristocracia, mas sim porque levava a
polícia nas veias-e tinha o mesmo reflexo que, à força de muito

insistir, tinham-lhe inculcado ao Angie na academia e enquanto patrulhava as ruas. Quando alguém
atacava a seu companheiro ou a sua brigada, você os defendia a capa

e espada. Era nós contra eles, e a mierda a verdade, a mierda o correto.

-Wíll… -Faith não pôde continuar porque os repórteres se formaram redemoinhos a seu redor.
Identificaram-na imediatamente como polícia mas Wíll, como

de costume, pôde entrar sem que ninguém lhe importunasse. Este elevou a mão para tampar uma
câmara e se separou de uma cotovelada a um fotógrafo que levava o logotipo

do Atlanta Journal na parte de atrás de sua jaqueta.

-Faith, Faith! -disse uma voz masculina.


A agente se deu a volta e viu o repórter, mas negou com a cabeça e seguiu seu caminho.

-Venha já, neném! -gritou o homem.

Wíll pensou que, em que pese a sua descuidada barba e sua roupa enrugada, parecia exatamente o
tipo de homem capaz de chamar “neném” a uma mulher sem que

lhe partissem a cara. Faith se voltou, mas não deixou de menear a cabeça enquanto se dirigia à
entrada do hospital. Wíll esperou até que estiveram dentro do edifício

e tiveram passado pelo detector de metais para perguntar:

-Do que conhece esse tipo?

-Sam trabalha para o Atlanta Beacon. Acompanhou-me um dia no carro patrulha para escrever uma
reportagem.

Wíll não estava acostumado a pensar em como era a vida do Faith antes de conhecê-la, no fato de
que tinha patrulhado as ruas e coordenado uma brigada antes

de que a subissem a detetive. Ela soltou uma gargalhada que não entendeu.

-Mantivemos uma relação bastante tormentosa durante uns quantos anos.

-E o que passou?

-Não gostava que tivesse um pirralho. E eu não gostava que fora um alcoólico.

-Vá… -disse Wíll, tentando encontrar uma resposta adequada-. Parece um bom tipo.

-Sim, o parece -respondeu ela.

Wíll viu os repórteres com as câmaras pegas ao cristal, desesperado-se por captar algumas
imagens. O hospital Grady era público, mas a imprensa necessitava

uma permissão para filmar no interior do edifício e a essas alturas todos sabiam já que os guardas de
segurança não tinham o menor reparo em lhes tirar das orelhas

se lhes pilhavam importunando aos pacientes ou, pior ainda, ao pessoal.

-Wíll -disse Faith, e por seu tom de voz ele soube que queria voltar sobre o assunto da lista pega
na geladeira, sobre o de seu flagrante analfabetismo.

Assim disse algo que sabia lhe faria desistir de seu propósito.

-por que te contou todo isso a doutora Linton?

-A que te refere?
-Ao de seu marido, e ao de que tinha trabalhado como forense no sul.

-A gente me conta coisas.

Isso era certo. Faith possuía esse dom que têm alguns policiais de saber quando é melhor calar-se
para que a gente sinta o impulso de encher o silêncio

falando.

-E que mais te contou?

Faith sorriu com malícia.

-por que o pergunta? Quer que lhe deixe uma nota em sua bilheteria?

Wíll voltou a sentir-se como um idiota, e essa classe de estupidez era muito pior.

-Que tal está Angie? -perguntou-lhe ela.

-Que tal está Víctor? -replicou ele.

Assim as coisas, atravessaram o vestíbulo em silêncio.

-Né, né! -Léon elevou os braços e saiu ao encontro do Faith-. Aqui vem minha garota favorita do
DIG! -Abraçou-a efusivamente e, para surpresa do Wíll, ela

o permitiu-. Está estupenda, Faith. Realmente fantástica.

A agente fez um gesto com a mão e pôs-se a rir com expressão de incredulidade, algo que Wíll
tivesse interpretado como um gesto infantil se não a conhecesse

tão bem.

-Me alegro de verte, companheiro -bramou Léon, oferecendo energicamente sua mão.

Tentou não enrugar o nariz ao perceber o forte aroma de tabaco que emanava do detetive. Leio
Donnelly era de estatura e peso médio, mas por desgraça era

um policial muito por debaixo da média. Lhe dava bem cumprir ordens, mas se negava a pensar por
si mesmo. Embora não era algo precisamente insólito em um detetive

de homicídios subido na década dos oitenta, Léon representava exatamente a classe de polícia que
Wíll detestava: desalinhado, arrogante e sem escrúpulos na hora

de passar às mãos quando um suspeito resistia a falar.

Wíll tentou mostrar-se amável, estreitou a mão do detetive e lhe perguntou:


-Como vai, Léon?

-Não posso me queixar. -Mas começou a fazer exatamente isso enquanto se dirigiam a urgências-.
Faltam dois anos para me retirar e me estão pressionando

para que vá. Acredito que é pela questão médica: já sabem de meus problemillas com a próstata. -
Nenhum dos dois respondeu, mas isso não lhe freou-. Os bodes do seguro

se negam a pagar algumas dos remédios que tenho que tomar. Não lhes ponham maus ou encontrarão
a maneira de joderos bem jodidos; não digam que não lhes avisei.

-E que remédios são essas? -perguntou-lhe Faith.

Wíll não entendia por que lhe dava corda.

-A puta Viagra. Seis perus por pildorita. É a primeira vez em minha vida que pago por ter sexo.

-Isso não me acredito -replicou Faith-. nos Fale do menino. Alguma pista de onde pode estar a
mãe?

-Nasti de plasti. O carro está registrado em nome do Pauline McGhee. Encontramos sangue no
lugar dos fatos; não muita, mas sim suficiente para ver que não

era de uma hemorragia nasal.

-encontrastes algo no carro?

-Solo a bolsa e o moedeiro. A carteira de motorista confirma que se trata do Pauline McGhee. As
chaves estavam postas no contato. O menino, Felix, ficou-se

dormido no assento de atrás.

-Quem o encontrou?

-Um cliente. Viu o pirralho dormido no carro e avisou ao gerente.

-Certamente o medo o deixou exausto -murmurou Faith-. E o que há do vídeo?

-A única câmara operativa estava no exterior, é uma lhe oscilem para controlar toda a fachada do
edifício.

-E as demais?

-Uns vândalos as deixaram fora de combate. -Léon se encolheu de ombros, como se fora o mais
normal-. O carro estava fora de enquadramento, assim não temos

imagens. Temos ao McGhee entrando com seu filho, saindo sozinha, à carreira. Eu diria que não se
deu conta de que o menino não estava com ela até que chegou ao carro.

Pode que houvesse alguém fora, tivesse-o escondido e o utilizasse depois como ceva para poder
aproximar-se dela. Logo a golpeou e a levou.

-Vê-se sair do súper a alguém mais?

-A câmara faz um varrido de esquerda a direita. O menino estava dentro da loja, isso seguro.
Imagino que quem quer que o levasse estava vigiando a câmara.

Deveu aproveitar para penetrar quando enfocava para o outro lado.

-Sabe a que colégio vai Felix? -perguntou Faith.

-A um desses colégios privados tão pijos do Decatur. Já lhes chamei. -Léon tirou sua caderneta e a
passou ao Faith para que pudesse copiar toda a informação-.

Me disseram que a mãe não lhes deixou nenhum contato para casos de emergência. O pai ejaculou em
um copo; aí se terminou sua colaboração. Tampouco se sabe nada dos

avós. E a título informativo, é um comentário pessoal, seus colegas de trabalho não lhe têm muito
carinho que digamos. Deu-me a impressão de que a consideram uma

autêntica arpía. -Tirou um papel dobrado de seu bolso e o passou ao Faith-. Aqui tem uma fotocópia
de seu carnê de conduzir. É um pibón.

Wíll apareceu por cima do ombro do Faith para ver a foto. Era em branco e negro, mas resultava
fácil adivinhar.

-Cabelo e olhos escuros.

-Igual às outras -confirmou Faith.

-Já mandamos alguns homens a casa do McGhee -explicou Léon-. Pelo visto, nenhum vizinho sabe
quem coño é nem tampouco lhes importa o mais mínimo que tenha

desaparecido. Dizem que é muito reservada, nunca saúda, nunca assiste às festas do edifício nem a
nenhum outro evento. vamos ver que nos dizem em seu lugar de trabalho;

é um estudo de desenho de muitas campainhas no Peachtree.

-comprovaste suas contas?

-Tem muita massa -respondeu Léon-. Está ao dia com a hipoteca, o carro é dele e tem dinheiro no
banco, algumas investimentos em bolsa e um plano de pensões.

Está claro que não cobra precisamente um salário de polícia.


-Algum movimento recente em seus cartões?

-Estava tudo em sua bolsa: o moedeiro, os cartões e sessenta perus em efetivo. A última vez que
utilizou seu cartão de débito foi esta manhã no City Foods.

De todos os modos, dei a alerta se por acaso alguém tomou nota dos números. Se surgir algo lhes
avisarei em seguida. -Léon olhou a seu redor. Estavam justo diante

da porta de entrada do serviço de urgências-. Todo isto tem algo que ver com o Assassino do Rim?

-O Assassino do Rim? -perguntaram Wíll e Faith ao uníssono.

-Que macacos -disse Léon-. Me recordam muito aos gêmeos Bobbsey.

-Do que está falando? -Faith parecia tão deslocada como Wíll.

-O departamento de polícia do Rockdale filtra mais que minha próstata -lhes informou Léon, em
tom confidencial mas encantado de poder divulgar a notícia-.

Dizem que a sua primeira vítima extirparam um rim. Suponho que será um desses casos de tráfico de
órgãos, ou alguma seita. Hão-me dito que por um rim lhe podem dar

uma massa, uns cem dos grandes.

-Deus Santo -exclamou Faith-, é a coisa mais idiota que ouvi na vida.

-O extirparam ou não? -Léon parecia decepcionado.

Faith não respondeu, e Wíll não pensava lhe dar a Léon nenhuma informação para que tivesse algo
de que falar quando voltasse para delegacia de polícia.

-Há dito algo Felix? -perguntou Wíll.

Léon negou com a cabeça e mostrou sua placa para que lhes deixassem passar à sala de urgências.

-Nenhuma só palavra. chamei aos de serviços sociais, mas tampouco foram capazes de lhe fazer
falar. Já sabe como são a essa idade. O pobre deve ser um poquito

atrasado.

Faith se zangou.

-Provavelmente parece pó porque viu como seqüestravam a sua mãe. O que esperava?

-E eu que coño sei! Você tem um pirralho. Imaginei que você saberia como falar com ele.

Wíll teve que perguntar.


-Você não tem filhos?

Léon se encolheu de ombros.

-Pareço-te a classe de homem que mantém uma boa relação com seus filhos?

Aquela pergunta não necessitava resposta.

-Têm-lhe feito algo ao menino?

-A médica diz que está bem. -Deu uma cotovelada ao Wíll-. Como certo, está para molhar pão.
Que barbaridade, que bellezón. Ruiva, e as pernas lhe chegam

até aqui.

Faith sorriu com malícia e ao Wíll deu vontade de voltar a lhe perguntar pelo Víctor Martínez, mas
não ia fazer o diante de Léon, que lhe estava cravando

o cotovelo em todo o fígado.

Nesse momento se ouviu um assobio que provinha de uma das habitações, e um grupo de
enfermeiras e médicos passou correndo por diante deles, chocando-se

com os carrinhos e com os estetoscópios. Wíll notou que se o fazia um nó no estômago ao perceber
esses sons e essas imagens tão familiares. Sempre lhe tinham dado

medo os médicos, especialmente os do Grady, que eram os que atendiam aos meninos do orfanato no
que se criou. Cada vez que lhe tiravam de um lar de acolhida, a polícia

o levava a hospital. Cada arranhão, cada corte, cada cardeal, cada queimadura: tudo tinha que ser
fotografado e catalogado. As enfermeiras o tinham feito tantas

vezes que sabiam que terei que tomar um pouco de distância, mas os médicos não tinham tanto calo.
Gritavam-lhes como loucos aos de serviços sociais e lhe faziam

pensar que, por uma vez, tudo ia ser distinto, mas um ano mais tarde te encontrava outra vez de volta
no hospital, com outro médico indignado gritando as mesmas

coisas.

Agora que Wíll era polícia entendia que tinham as mãos atadas, mas seguia fazendo-se o mesmo nó
no estômago cada vez que entrava nas urgências do Grady.

Como se tivesse uma espécie de sexto sentido para piorar as coisas, Léon lhe deu uns tapinhas no
braço e lhe disse:

-Sinto que Angie e você lhes tenham separado, tio. Pode que tenha sido para bem.
Faith não disse nada, mas Wíll pensou que tinha muita sorte de que não pudesse lançar chamas
com os olhos.

-vou ver onde anda a doutora -disse Léon-. Se levaram a menino a salita, a ver se se tranqüilizava
um pouco.

Foi, e o prolongado silêncio do Faith enquanto olhava fixamente ao Wíll não pôde ser mais
eloqüente. Este afundou as mãos nos bolsos e se apoiou contra

a parede. Não havia tanto agitação na sala de urgências como a noite anterior mas, mesmo assim,
havia muita gente por ali para manter uma conversação com um mínimo

de privacidade. Pelo visto o Faith não lhe importava.

-Quanto faz que se foi Angie?

-Pouco menos de um ano.

Lhe cortou a respiração.

-Solo estivestes casados nove meses.

-Sim, bom. -Wíll olhou a seu redor, não queria falar disso nem ali nem em nenhuma outra parte-.
Em realidade só se casou comigo para demonstrar que estava

disposta a casar-se comigo. -face às circunstâncias não pôde reprimir um sorriso-. Tinha mais ganha
de ganhar a briga que de casar-se.

Faith meneou a cabeça como se o que dizia não tivesse nenhum sentido, e Wíll não estava muito
seguro de poder ajudá-la. Ele mesmo não tinha entendido nunca

a relação que tinha com o Angie Polaski. Conhecia-a desde que tinha oito anos e não tinha
conseguido entender muito mais nos anos seguintes, exceto no momento no

que se sentiu muito perto dele agarrou a porta e partiu. Mas sempre voltava, e Wíll tinha chegado a
apreciar essa pauta por sua simplicidade.

-Passa-se a vida me deixando, Faith -lhe explicou-. Tampouco é que me agarrasse de surpresa.

A agente manteve a boca fechada, e ele não sabia muito bem se estava cheia o saco ou só muito
estupefata para falar.

-Quero subir a ver a Anna antes de partir -disse Wíll.

Faith assentiu e seu companheiro voltou a tentá-lo.

-Amanda me perguntou ontem à noite que tal estava.


De repente lhe emprestou toda sua atenção.

-E o que lhe disse?

-O que está perfeitamente.

-Bem, porque o estou.

Ficou olhando fixamente como tinha feito ela poucos minutos antes: ele não era o único que se
reservava informação.

-Estou perfeitamente -insistiu Faith-. Ao menos o estarei logo, vale? Assim deixa já de preocupar-
se por mim.

Faith ficou calada e Wíll apertou os ombros contra a parede. O murmúrio de fundo da sala de
urgências começou a lhe fazer o mesmo efeito que a neve do televisor:

ao cabo de um par de minutos tinha que esforçar-se muito para manter os olhos abertos. deitou-se ao
redor das seis da manhã, pensando que poderia dormir um par de

horas antes de passar a recolher a sua companheira. Tinha ido repassando mentalmente e reduzindo, à
medida que passavam as horas, suas atividades matutinas, pensando

primeiro que podia economizar o tirar passear ao cão, tirando logo o café da manhã da lista e,
finalmente, seu habitual café. As horas foram passando com desesperador

lentidão, coisa que pôde comprovar a cada vinte minutos, ao despertar com o coração na garganta e
pensando que seguia apanhado naquela cova.

Wíll notou que o braço voltava a lhe picar, mas não se arranhou por medo de que Faith reparasse
no gesto. Cada vez que pensava na cova, naqueles ratos usando

a carne de seus braços como escada, lhe punha a carne de galinha. Tendo em conta todas as cicatrizes
que tinha em seu corpo, era absurdo obcecar-se com um par de

arranhões que se curariam sem deixar sequer marcas, mas não podia evitar preocupar-se e, quanto
mais o fazia, mais lhe picava.

-Crie que os informativos terão difundido já essa história do Assassino do Rim? -perguntou ao
Faith.

-E se não, espero que tenha saído à luz quando se conhecer a verdadeira história. Assim esses
cretinos da polícia do Rockdale ficarão como o que são: uma

panda de gilipollas.

-Contei-te o que Fierro disse a Amanda?


Faith negou com a cabeça e Wíll lhe explicou o da inoportuna alusão à arma do chefe Peterson.
ficou tão perplexa que logo que conseguiu sussurrar:

-E o que lhe fez Amanda?

-Nem idéia, mas Fierro se volatilizou -respondeu Wíll tirando seu móvel-. Não sei aonde se foi,
mas não tornei a lhe ver após. -Olhou a hora na tela do

móvel-. A autópsia começa dentro de uma hora. Se não lhe tirarmos nada ao menino será melhor que
vamos ao anatômico a ver se podemos colocar pressa ao Pete para

que comece quanto antes.

-Supõe-se que ficamos com os Coldfield às dois. Posso lhes chamar e tentar adiantá-lo às doze.

Wíll sabia que Faith odiava estar presente nas autópsias.

-Quer que nos dividamos?

Estava claro que não o fazia muita graça a idéia.

-vamos ver se podemos trocar a hora da entrevista. De todos os modos, nossa participação no
postmórtem não deveria nos levar muito tempo.

Isso mesmo esperava Wíll. Não lhe seduzia muito a idéia de aprofundar nos detalhes mais
morbosos da tortura que tinha tido que suportar Jacquelyn Zabel

antes de fugir para acabar rompendo o pescoço enquanto esperava a que alguém viesse a socorrê-la.

-Ao melhor para então temos alguma pista mais. Uma conexão.

-Quer dizer além de que as duas vítimas eram mulheres de êxito, solteiras, atrativas e não
despertavam precisamente as simpatias da gente de seu entorno?

-Isso é algo freqüente nas mulheres assim -disse Wíll. Assim que se ouviu pronunciar essa frase se
deu conta de que parecia um machista asqueroso-. Quero

dizer que há muitos homens que se sentem ameaçados por…

-Já o safado, Wíll. Às pessoas não gosta das mulheres triunfadoras. -Com certa tristeza,
acrescentou-: Às vezes as mulheres tomam inclusive pior que os

homens.

Wíll sabia que provavelmente estava pensando na Amanda.

-Possivelmente seja esse o móvel de nosso assassino. Pode que lhe incomode que essas mulheres
tenham triunfado por seus próprios méritos e não precisem

ter um homem a seu lado.

Faith se cruzou de braços e considerou todas as perspectivas.

-Aí está o truque: escolheu a duas mulheres às que ninguém sentiria falta de, Anna e Jackie Zabel.
Bom, em realidade três se tivermos em conta ao Pauline

McGhee.

-É moréia e tem os olhos castanhos, como as outras duas vítimas. Pelo general estes tipos seguem
uma pauta, têm um patrão específico.

-Jackie Zabel era uma mulher de êxito. Conforme me disse, a Anna também ia muito bem. McGhee
conduz um Lexus e está criando a seu filho ela sozinha, coisa

que, posso-te assegurar, não resulta nada fácil. -Faith ficou calada um momento e Wíll se perguntou
se estaria pensando no Jeremy, mas não teve tempo para perguntar-.

Outra coisa é assassinar a prostitutas: ninguém se dá conta até que mataste a quatro ou cinco. Mas ele
está escolhendo mulheres que têm uma posição de poder no mundo,

por isso podemos supor que, previamente, esteve-as vigiando durante um tempo.

Wíll não o tinha considerado baixo esse ponto de vista, mas provavelmente tinha razão.

-Ao melhor o expõe como parte da caçada -continuou Primeiro Faith leva a cabo um trabalho de
reconhecimento para fazer uma idéia de como é sua vida, logo

as segue e, por fim, seqüestra-as.

-Então, de que classe de homem estamos falando? De um tipo que trabalha para uma mulher pela
que não sente maior avaliação? De um solitário que se sentiu

abandonado por sua mãe? De um cornudo? -elucubró ele.

Não quis continuar aprofundando no perfil do suspeito, pois de repente todo aquilo lhe resultava
muito familiar.

-Poderia ser qualquer -disse Esse Faith é o problema, que poderia ser qualquer.

Wíll sentia a mesma frustração que percebia na voz do Faith. Ambos sabiam que o caso estava
chegando a um ponto crítico. Os seqüestros levados a cabo por

um estranho eram os mais difíceis de resolver. Normalmente escolhiam suas vítimas ao azar, e o
seqüestrador era um caçador perito que sabia como cobrir seu rastro.
Foi um golpe de sorte que tivesse descoberto a cova a noite anterior, mas Wíll tinha que agarrar-se à
esperança de que o seqüestrador se estivesse voltando descuidado;

duas de suas vítimas tinham conseguido escapar. Pode que estivesse começando a se desesperar-se,
que sentisse que tinha perdido o controle de seu próprio jogo. Teriam

que ter a sorte de seu lado para poder lhe apanhar.

Guardou-se o móvel no bolso. Levavam já doze horas em marcha e estavam a ponto de meter-se
em um beco sem saída. A menos que Anna recuperasse a consciência,

a menos que Felix pudesse lhes oferecer alguma pista sólida ou que de entre as provas encontradas
no lugar dos fatos surgisse alguma pista que lhes permitisse avançar,

seguiriam estando na casinha de saída e sem nada que fazer mais que cruzar-se de braços e esperar a
que aparecesse o cadáver de outra mulher.

Era óbvio que Faith se estava fazendo as mesmas colocações.

-Necessitará um sítio novo para sua seguinte vítima.

-Duvido que seja outra cova -disse Wíll-. Deve lhe haver resultado bastante duro escavá-la. Quase
morro cavando um fossa em meu jardim para o lago que pus

o verão passado.

-Tem um lago no jardim?

-Com carpas douradas -lhe disse-. Demorei dois fins de semana.

Faith ficou calada uns segundos, como se estivesse tentando imaginar o lago do Wíll.

-Pode que alguém ajudasse a nosso suspeito a escavar a cova.

-Os assassinos em série revistam trabalhar em solitário.

-E o que me diz daqueles dois tipos de Califórnia?

-Charles Ng e Léonard Lake.

Wíll conhecia o caso, mais que nada porque foi uma das investigações mais largas e mais caras da
história de Califórnia. Lake e Ng construíram um búnker

de cimento nas colinas e levaram até ali diversos instrumentos de tortura para fazer realidade suas
perversas fantasias. alternaram-se para filmar o que faziam com

suas vítimas, entre as que havia tanto homens como mulheres e meninos, alguns dos quais não
puderam chegar a identificar-se nunca.

-Os estranguladores do Hillside também trabalhavam juntos -continuou Faith.

Buono e Bianchi eram primos e tinham assassinado a mulheres marginadas, prostitutas e fugitivas.

-Tinham uma placa de polícia falsa. Assim era como obtinham que suas vítimas confiassem neles.

-Não quero nem considerar essa possibilidade.

Wíll sentia o mesmo, mas era algo que terei que ter em conta. O BMW da Jackie Zabel estava em
paradeiro desconhecido. À mulher do City Foods a tinham seqüestrado

essa manhã justo ao lado de seu carro. Alguém que se fizesse passar por polícia poderia ter
inventado qualquer desculpa para aproximar-se dos veículos.

-Chárlie não encontrou na cova nada que apontasse à existência de dois seqüestradores. -Mas teve
que acrescentar-: Embora tampouco estava disposto a permanecer

ali dentro mais tempo do estritamente necessário.

-O que sentiu quando estava ali abaixo?

-Que se não saía logo me daria um ataque ao coração -admitiu Wíll, e os braços começaram a lhe
picar de novo-. Não é a classe de sítio no que gosta de ficar.

-Jogaremos uma olhada às fotos. Ao melhor Chárlie e você passaram algo por alto nesse primeiro
momento.

Wíll sabia que era bastante provável. Possivelmente as fotos da cova já estariam em sua mesa
quando voltassem para o escritório. Poderia examinar a cena

do crime com calma, sem a claustrofobia de estar encerrado ali abaixo.

-Duas vítimas: Anna e Jackie. Dois seqüestradores, possivelmente? -Faith seguiu avançando em
seu raciocínio-. Se esse for seu tipo, e Pauline McGhee é outra

vítima, necessitará uma mais.

-Né! -chamou-os Léon, lhes fazendo um gesto com a mão. Estava em uma porta com um grande
letreiro.

-“Sala de médicos” -leu Faith em voz alta. Tinha pego o costume de ler todos os letreiros em voz
alta, o qual Wíll detestava e apreciava a partes iguais.

-Boa sorte -lhes disse Léon lhe dando um tapinha no ombro ao Wíll.
-Parte-te? -perguntou-lhe ela.

-A doutora acaba de me dar uma patada no culo com muita elegância. -Não parecia especialmente
molesto-. Podem falar com o pirralho mas, a menos que se demonstre

que isto tem algo que ver com seu caso, quero que lhes mantenham afastados dele.

Ao Wíll surpreendeu um pouco a advertência de Léon, que normalmente estava encantado de que
outros lhe fizessem o trabalho.

-Confiem em mim -lhes disse-, eu adoraria deixar isto em suas mãos, mas tenho a meus chefes me
observando por cima do ombro. Estão procurando qualquer desculpa

para me dar a patada. Necessito uma conexão sólida antes de passar isto aos de acima e lhes colocar
no caso, vale?

-Não se preocupe, asseguraremo-nos de te cobrir bem as costas -lhe prometeu Faith-. Pode seguir
atento aos desaparecimentos para nos avisar se houver outra

que coincida com o perfil? Brancas, trinta e tantos anos, cabelo castanho escuro, bem situadas no
terreno trabalhista, mas não com muitos amigos que possam jogar

as de menos.

-Moréia e com más pulgas, não? -disse Léon lhe piscando os olhos um olho-. E o que outra coisa
tenho que fazer além de seguir seu caso? -perguntou sem a

menor acritud-. Se houver alguma novidade estarei no City Foods. Já têm meus números.

Wíll ficou olhando-o enquanto se afastava pelo corredor e perguntou ao Faith:

-por que querem tirar-lhe de cima? Quero dizer, além das razões mais evidentes.

Faith tinha sido companheira de Léon durante vários anos e Wíll percebeu que seguia sentindo o
impulso de lhe defender.

-Está já no máximo nível salarial. Resulta mais barato pôr em seu lugar a um policial jovem,
recém saído do carro patrulha, que faça seu trabalho pela metade

de dinheiro. Além disso, se Léon se prejubila teria que renunciar aos vinte por cento de sua pensão.
Se tivermos em conta também os gastos médicos, lhe manter em

seu posto resulta bastante custoso. Isso é o primeiro que olham os chefes quando estimam os
orçamentos.

Faith ia abrir a porta, mas nesse instante começou a soar seu móvel. Olhou a tela para ver quem
era.
-É a irmã da Jackie.

Atendeu a chamada e indicou ao Wíll que começasse sem ela.

Tinha a mão suarenta quando empurrou a porta para abri-la. O coração lhe fez um ruído estranho -
como um dobro pulsado-que ele atribuiu à falta de sonho

e ao feito de ter tomado muito chocolate quente essa manhã. Então viu a Sara Linton, e o fenômeno se
repetiu.

Estava sentada em uma cadeira junto à janela, com o Felix Mc-Ghee sentado em seus joelhos. O
menino era muito grande para o ter sentado em cima, mas Sara

parecia dirigir-se perfeitamente. Um braço rodeava a cintura do pirralho, e o outro seus ombros.
Estava-lhe acariciando o cabelo enquanto lhe sussurrava ao ouvido

palavras de consolo. Levantou a vista quando Wíll entrou na habitação, mas não deixou que sua
presença perturbasse a cena. Felix olhava pela janela, com a vista

perdida e os lábios ligeiramente separados. Sara fez um gesto com a cabeça, assinalando a cadeira
que tinha em frente, e ao ver que estava a menos de quinze centímetros

do joelho dela Wíll deduziu que era onde tinha estado sentado Léon.

-Felix -disse Sara com voz serena e controlada, o mesmo tom que tinha usado com a Anna a noite
anterior-, este é o agente Trent. É polícia e veio para te

ajudar.

Felix seguiu olhando pela janela. O ambiente na sala era bastante fresco, mas Wíll se precaveu de
que o menino tinha o cabelo empapado em suor. Uma gota

rodou por sua bochecha e Wíll tirou seu lenço para limpá-la. Quando voltou a olhar a esta Sara
estava olhando como se acabasse de tirar um coelho do bolso.

-Um velho costume -murmurou Wíll, dobrando envergonhado o lenço.

Com os anos se deu conta de que solo os anciões e os dandis levavam lenço já, mas no orfanato
obrigavam a todos os meninos a levá-lo, e sem ele Wíll se

sentia como se estivesse nu.

Sara meneou a cabeça, como querendo lhe dizer que não lhe importava. Beijou com suavidade o
cocuruto do Felix. O menino não se moveu, mas Wíll se fixou

em que seus olhos se moviam para lhe olhar e ver o que estava fazendo.
-O que é isto? -perguntou, reparando na mochila escolar que havia junto à cadeira da Sara. Pelos
desenhos e as cores supôs que pertencia ao Felix. inclinou-se

e abriu a cremalheira, apartou uns papelitos de cores e examinou o conteúdo.

Certamente Leio já a teria registrado, mas Wíll foi tirando as coisas uma por uma como se
estivesse procurando pistas.

-Bonitos lápis. -Tirou um estojo negro, um pouco pouco habitual tendo em conta que pertenciam a
um pirralho-. São de menino maior. Deve ser um verdadeiro

artista.

Wíll não esperava que lhe respondesse e Felix não o fez, mas agora o observava atentamente,
como se queria assegurar-se de que não lhe tirava nada.

A seguir Wíll abriu uma pasta. Na parte dianteira havia um escudo que devia ser o do colégio do
Felix. Em um bolso encontrou vários documentos de aspecto

oficial com o cabeçalho da escola e, no outro, o que deviam ser os deveres. Wíll não pôde ler as
circulares do colégio, mas pelo papel pautado que encontrou junto

aos deveres deduziu que Felix estava aprendendo a escrever direito. Os mostrou a Sara.

-Tem uma caligrafia muito bonita.

-Certamente -disse Sara.

Observava-o com a mesma atenção que Felix, e Wíll teve que apartar a de sua mente para não
esquecer-se de fazer seu trabalho. Era muito bonita, muito lista

e muito tudo o que Wíll não era.

Voltou a guardar a pasta na mochila e tirou três livros bastante finos. Pôde ler as três primeiras
letras do alfabeto que adornavam a coberta do primeiro

livro, mas os outros dois eram um mistério, assim que os ensinou ao Felix e lhe disse:

-Pergunto-me do que irão estes dois livros. -Quando viu que Felix não se decidia a responder
voltou a olhar as cobertas tentando orientar-se pelos desenhos-.

Me parece que este cerdito trabalha em um restaurante, porque está servindo tortitas às pessoas. -
Felix continuou calado e Wíll passou ao seguinte livro-. E este

camundongo está sentado dentro de uma marmita, assim que eu diria que alguém o vai lanchar.

-Não -Felix falou em voz tão baixa que Wíll não estava seguro de se havia dito algo.
-Não? -perguntou-lhe olhando o desenho outra vez. O bom de tratar com os meninos era que podia
ser completamente sincero e eles pensavam que lhes estava

Isto chinchando da leitura não me dá muito bem. O que diz aqui?

Felix se revolveu e Sara lhe ajudou a dá-la volta para que pudesse olhar ao Wíll. Em lugar de
responder o menino agarrou os livros e os apertou contra seu

peito. Começou-lhe a tremer o lábio superior.

-Você mamãe te lê contos, verdade?

Felix assentiu enquanto dois lagrimones rodavam por suas bochechas. Wíll se inclinou para frente
e apoiou os cotovelos em suas pernas.

-Estou tentando encontrar a sua mamãe.

Felix tragou saliva, como se tentasse tragar sua pena.

-O homem grande a levou.

Wíll sabia que para um menino todos os adultos eram grandes. endireitou-se, pondo bem reta as
costas.

-Tão grande como eu?

Felix olhou realmente ao Wíll pela primeira vez desde que entrasse na habitação. ficou pensando
uns momentos e disse que não com a cabeça.

-Lembra-te do detetive que esteve aqui antes que eu, um que cheirava fatal? Era tão grande como
ele?

Felix assentiu.

Wíll tentou não precipitar-se, manter o tom desenvolto para que o pirralho seguisse respondendo a
suas perguntas sem que se desse conta de que lhe estava

interrogando.

-Tinha o cabelo como eu, ou era mais escuro?

-Mais escuro.

Assentiu e se arranhou o queixo enquanto sopesava as distintas possibilidades. Os meninos não


eram umas testemunhas muito confiáveis, bem porque tentavam

agradar aos adultos que lhes interrogavam ou porque eram tão sensíveis à sugestão que era fácil
semear qualquer idéia em suas cabeças e conseguir que jurassem que

isso foi o que realmente aconteceu.

-E o que me diz de sua cara? Tinha cabelo na cara ou ia barbeado, como eu?

-Tinha bigode.

-Dissete algo?

-Disseme que minha mamãe queria que ficasse no carro. Wíll continuou com muita cautela.

-Levava um uniforme como o de um zelador, um bombeiro ou um oficial de polícia?

Felix disse que não com a cabeça.

-Levava roupa normal.

Wíll notou que uma quebra de onda de calor alagava seu rosto. Sabia que Sara lhe olhava com
assombro. Tinha estado casada com um policial; certamente não

lhe tinha gostado daquela insinuação.

-De que cor era sua roupa?

Felix se encolheu de ombros e Wíll se perguntou se o menino tinha decidido não responder a mais
pergunta ou se realmente não se lembrava. Este beliscou

o bordo do livro.

-Levava um traje como o do Morgan.

-Morgan é um amigo de sua mamãe?

Felix assentiu.

-É do trabalho, mas ela está zangada com ele porque há dito uma mentira e quer lhe buscar
problemas, mas minha mamãe não vai deixar que se saia com a sua

pela caixa forte.

Perguntou-se se Felix teria escutado alguma conversação Telefónica ou se Pauline McGhee seria a
classe de mulher que se desafogava lhe contando seus problemas

a um menino de seis anos.

-Recorda algo mais do homem que se levou a sua mamãe?


-Disse que me faria muito dano se lhe falava com alguém dele.

O rosto do Wíll tinha uma expressão completamente neutra, e o do Felix também.

-Mas você não tem medo desse homem. -Não era uma pergunta, a não ser uma afirmação.

-Minha mamãe diz que nunca vai deixar que ninguém me faça mal.

Parecia tão seguro de si mesmo que Wíll não pôde evitar sentir um grande respeito pela classe de
mãe que era Pauline McGhee. Tinha entrevistado a muitos

meninos ao longo de sua vida profissional e, embora a maioria queriam a seus pais, não era freqüente
que exibissem tal grau de confiança.

-Sua mãe tem razão. Ninguém vai fazer te danifico.

-Minha mamãe me protegerá -insistiu Felix, e Wíll começou a questioná-la natureza dessa
segurança que o menino mostrava. Normalmente a gente não tranqüilizava

a um menino se previamente não existia um temor real.

-Preocupava a sua mamãe que alguém pudesse te fazer danifico?

Felix beliscou a coberta do livro outra vez e assentiu de forma quase imperceptível. Wíll esperou
um momento, não queria precipitar-se com seu seguinte

pergunta.

-De quem tinha medo, Felix?

O menino respondeu em voz muito fica, quase em um sussurro.

-De seu irmão.

Um irmão. Ao melhor, depois de tudo, não se tratava mais que de um problema familiar.

-Dissete seu nome?

Felix disse que não com a cabeça.

-Não lhe vi nunca, mas é mau.

ficou olhando fixamente ao menino, sem saber muito bem como formular a seguinte pergunta.

-Mau, como?

-Perigoso -disse Felix-. Mamãe diz que é perigoso, e que ela me vai proteger dele porque me quer
mais que a ninguém no mundo. -Disse-o de forma cortante,
como se queria resolver essa questão exatamente aí-. Agora já me posso ir a casa?

Wíll teria preferido que lhe cravassem uma adaga no peito a ter que responder a essa pergunta.
Olhou a Sara em busca de ajuda, e ela tomou a substituição.

-Lembra-te da mulher que te apresentei antes, a senhorita Nancy? -Felix assentiu com a cabeça-.
vai procurar a alguém para que te cuide até que volte sua

mamãe.

Os olhos do menino se encheram de lágrimas. Wíll não podia reprovar-lhe A senhorita Nancy
devia ser uma trabalhadora social, e certamente estaria a anos

luz das professoras do colégio privado no que estudava Wíll e das amizades pijas de sua mãe.

-Mas eu quero ir a casa -protestou.

-Sei, carinho -lhe disse Sara com suavidade-. Mas se for a casa estará sozinho. Temos que nos
assegurar de que esteja bem até que volte sua mamãe.

Felix não parecia muito convencido. Wíll pôs um joelho no chão para ficar a sua altura. Posou a
mão em seu ombro, tocando acidentalmente o braço da Sara

ao fazê-lo. Sentiu um nó na garganta e teve que tragar saliva para poder falar.

-me olhe, Felix. -Esperou até que o menino lhe olhou à cara-. Vou assegurar pessoalmente de que
sua mamãe volte contigo, mas necessito que seja valente

enquanto trabalho para encontrá-la.

A cara do Felix tinha uma expressão tão inocente e confiada que doía lhe olhar.

-Quanto tempo demorará? -perguntou com voz entrecortada.

-Pois, como muito, uma semana -respondeu, fazendo um esforço por não apartar o olhar. Se
Pauline McGhee seguia sem aparecer acontecida uma semana significaria

que tinha morrido e que Felix se teria ficado órfão-. Pode me dar uma semana?

O menino seguia olhando fixamente ao Wíll como se tentasse discernir se lhe estava dizendo a
verdade ou não. Por fim assentiu.

-Muito bem -disse Wíll com a sensação de ter uma bigorna sobre seu peito.

Viu que Faith estava sentada em uma cadeira junto à porta e se perguntou quando teria entrado na
habitação. levantou-se e lhe fez um gesto com a cabeça
para que saísse com ela. Wíll lhe deu uns tapinhas na perna ao Felix antes de sair ao corredor.

-Comentarei a Léon o do irmão -disse Faith-. Parece uma disputa familiar.

-Provavelmente. -Olhou de esguelha a porta fechada. Queria voltar a entrar, mas não pelo Felix-.
O que te há dito a irmã da Jackie?

-Joelyn. Não se ficou o que se diz desolada ao saber que tinham matado a sua irmã.

-O que quer dizer?

-Que o mau leite deve ser coisa de família.

Wíll elevou as sobrancelhas.

-Não me faça conta, tenho um mau dia -resolveu, embora isso não era exatamente uma explicação-.
Joelyn vive na Carolina do Norte. Disse que demoraria umas

cinco horas em chegar até aqui. -Como se lhe tivesse ocorrido nesse momento, acrescentou-: Ah, e
pensa demandar ao departamento de polícia e fazer que nos despeçam

se não encontrarmos ao homem que matou a sua irmã.

-Vá, é uma dessas.

Não sabia o que era pior: se os familiares que ficavam tão devastados pela pena que faziam que se
sentisse como se lhe tivessem metido a mão no peito e

lhe estivessem espremendo o coração ou os que se zangavam tanto que parecia que lhe espremiam
algo um pouco mais abaixo.

-Possivelmente deveria falar você com o Felix.

-Pareceu-me que estava bastante abatido -replicou Faith-. Não acredito que possa lhe tirar muito
mais.

-Talvez falar com uma mulher…

-Lhe dão muito bem os meninos -lhe interrompeu com um sotaque de surpresa na voz-. Em
qualquer caso, agora mesmo tem mais paciência que eu.

Wíll se encolheu de ombros. Tinha dado uma mão com alguns dos meninos mais pequenos quando
estava no orfanato, principalmente para evitar que os recém chegados

se passassem toda a noite chorando e não deixassem dormir a outros.

-Pediu a Léon o telefone do trabalho do Pauline McGhee? -Faith assentiu-. Temos que chamar e
perguntar por um tal Morgan. Felix diz que o seqüestrador ia

vestido como ele, e pode que goste de levar um tipo de traje concreto. Nosso homem mede ao redor
de um e setenta, tem bigode e o cabelo moreno.

-O bigode poderia ser postiço.

Wíll não podia negá-lo.

-Felix é muito preparado para sua idade, mas não estou muito seguro de que seja capaz de
distinguir entre um bigode real e um postiço. Pode que Sara tenha

conseguido lhe tirar algo mais.

-vamos deixar lhes solos um pouco mais -sugeriu Faith-. Diria que crie que Pauline McGhee é
outra de nossas vítimas.

-A ti o que te parece?

-perguntei primeiro.

Wíll suspirou.

-Minhas tripas me inclinam a pensá-lo. Pauline está bem situada, tem um bom trabalho, é moréia e
de olhos castanhos. -encolheu-se de ombros-. Tampouco é

um argumento muito sólido.

-É mais do que tínhamos ao nos levantar hoje pela manhã -assinalou Faith, embora não sabia muito
bem se compartilhava a intuição do Wíll ou se estava agarrando

a um prego ardendo.

-vamos levar isto com cautela. Não quero lhe causar problemas a Leio por andar colocando os
narizes em seu caso para logo lhe deixar com o culo ao ar se

isto ficar em nada.

-De acordo.

-Chamarei o estudo onde trabalha Pauline McGhee e perguntarei o dos trajes do Morgan. Igual
posso lhes tirar algo mais de informação sem pôr a Leio em um

compromisso. -Tirou seu móvel e olhou a tela-. Me fiquei sem bateria.

-Toma -disse Wíll lhe oferecendo o seu.

Faith o colheu com ambas as mãos e muito cuidado e marcou um número que tinha pontudo em sua
caderneta. Wíll se perguntou se teria uma pinta tão ridícula

como Faith sujeitando as duas peças do telefone junto a sua cara e se figurou que provavelmente
ainda mais. Faith não era exatamente seu tipo, mas era atrativa,

e as mulheres assim sempre saem graciosas de qualquer circunstância. Sara Linton, por exemplo,
poderia sair garbosa de um assassinato.

-Perdão -disse Faith ao telefone-, não lhe ouço muito bem.

Lançou ao Wíll um olhar de recriminação, como se ele tivesse a culpa, antes de pôr-se a andar
para o outro extremo do corredor que parecia ter melhor cobertura.

Wíll apoiou o ombro contra a ombreira da porta. Trocar de telefone representava para ele um
problema virtualmente impossível de resolver; era o que estava

acostumado a solucionar Angie. Tinha tentado falar com sua companhia de telefones para que lhe
enviassem um novo, mas lhe haviam dito que tinha que acontecer uma

loja e preencher uns formulários. Até caso que se obrasse o milagre, Wíll teria que averiguar como
funcionava o novo, como estabelecer o tom de chamada para que

não incomodasse a ninguém, como programar os números que necessitava para trabalhar. Imaginava
que podia pedir o favor ao Faith, mas seu orgulho seguia interpondo-se

em seu caminho. Sabia que lhe ajudaria de mil amores, mas quereria ter uma conversação sobre o
assunto.

Pela primeira vez em sua vida adulta, Wíll se encontrou desejando que Angie voltasse para sua
vida.

Notou uma mão no braço e ouviu “Desculpa”. Era uma garota moréia muito magra que queria
entrar na salita. Imaginou que devia ser a senhorita Nancy, dos

serviços sociais, que devia recolher ao Felix. Era muito logo para lhe enviar a uma instituição;
certamente encontrariam uma família de acolhida que pudesse lhe

cuidar durante um tempo. Com um pouco de sorte, a senhorita Nancy levaria nisto o tempo suficiente
para ter em sua agenda algumas boas famílias que lhe devessem

algum favor. Era difícil colocar aos meninos que estavam nessa espécie de limbo; o próprio Wíll
tinha estado nele o tempo justo para chegar a essa idade em que a

adoção era virtualmente impossível.

Faith já estava de volta. Trazia o cenho franzido quando lhe devolveu o telefone.
-Deveria trocar este cacharro.

-por que? -perguntou ele guardando o móvel no bolso-. Se funcionar perfeitamente.

Faith passou por cima o que evidentemente era uma mentira.

-Morgan viu do Armani, exclusivamente, e parecia muito convencido de ser o único homem de
Atlanta com estilo suficiente para luzir um Armani.

-Ou seja, que estamos falando de um traje de entre dois mil e quinhentos e cinco mil dólares.

-Eu diria mas bem o segundo, a julgar por seu tom altivo. Também me há dito que Pauline McGhee
não se fala com sua família há pelo menos vinte anos. Diz

que se foi casa com dezessete e não voltou a olhar atrás. Nunca lhe ouviu mencionar a seu irmão.

-Que idade tem agora Pauline?

-Trinta e sete.

-Sabe Morgan como podemos nos pôr em contato com sua família?

-Nem sequer sabe do que estado procede. Ao parecer ela não falava muito de seu passado. Deixei-
lhe uma mensagem a Leio na rolha de voz; acredito que poderá

localizar ao irmão antes de que acabe o dia. Provavelmente já estará processando os rastros
encontrados no carro.

-Poderia ser que estivesse vivendo sob um nome falso? Um não parte de casa com dezessete anos
só porque sim. E é óbvio que Pauline tem uma boa situação

financeira: talvez teve que trocar-se de nome para que isso acontecesse.

-Obviamente, Jackie sim mantinha o contato com sua família e não trocou que nome; também se
apelida Zabel. -Faith se pôs-se a rir e comentou-: Todos os

nomes dessa família rimam: Gwendolyn, Jackelyn, Joelyn. É um pouco estranho, não?

Wíll se encolheu de ombros. Nunca tinha podido reconhecer as palavras que rimam, um problema
que certamente estava relacionado com suas dificuldades para

a leitura. Felizmente, tampouco era uma habilidade que necessitasse freqüentemente.

-Não sei por que misteriosa razão, quando tem um menino te decanta pelos nomes mais absurdos.
Estive a ponto de lhe pôr Jeremy Fernando Romântico a meu

filho por um dos cantores de Miúdo. Graças a Deus, minha mãe impôs seu critério.
A porta se abriu e Sara Linton se reuniu com eles no corredor; trazia a cara de alguém que sente
que acaba de abandonar a um menino em mãos dos serviços

sociais. Wíll não era o mais indicado para pôr em tecido de julgamento o sistema, mas a realidade
era que dava igual quão amáveis fossem os trabalhadores sociais

ou o muito que se esforçassem: eram poucos e não dispunham dos meios necessários. Se a isto
acrescentamos que os pais de acolhida eram ou gente muito humilde ou

gente que solo queria o dinheiro -geralmente sádicos que odiavam aos meninos-, resultava fácil
entender até que ponto podia chegar a te rasgar a alma todo aquilo.

Por desgraça, era a alma do Felix McGhee a que ia se levar a pior parte.

-esteve muito bem aí dentro -disse ao Wíll.

Teve que fazer um grande esforço para não sorrir como um pirralho ao que acabassem de lhe dar
uns tapinhas na cabeça.

-Contou-lhe Felix algo mais? -perguntou Faith.

A doutora negou com a cabeça.

-Que tal se encontra?

-muito melhor -respondeu Faith um pouco à defensiva.

-Já me contaram que ontem à noite encontraram uma segunda vítima.

-Wíll foi quem a encontrou. -Faith fez uma pausa, como se se arrependesse do que acabava de
dizer-. Não é algo que deva divulgar-se, mas a mulher se rompeu

o pescoço ao cair de uma árvore.

Sara franziu o cenho.

-E que fazia em uma árvore?

Wíll tomou a substituição do relato.

-Estava esperando a que a encontrássemos. Pelo visto, demoramos muito.

-Não se pode saber quanto tempo levava na árvore -lhe disse Sara-. A hora da morte não é uma
ciência exata.

-Seu sangue ainda estava quente -replicou Wíll, sentindo que a escuridão voltava a apoderar-se
dele ao pensar nas gotas caindo na nuca.
-Há outras razões que poderiam explicar isso. Se estava em uma árvore, provavelmente as folhas
atuaram como isolante térmico. Ou pode que o seqüestrador

a tivesse medicada. Existem diversos fármacos que podem elevar a temperatura corporal e mantê-la
inclusive depois de que a morte tenha tido lugar.

-Ainda não se coagulou -contra-atacou Wíll.

-Um pouco tão simples como um par de aspirinas pode impedir isso.

-Jackie tinha um frasco grande de aspirinas junto a sua cama virtualmente vazio -recordou Faith.

Wíll seguia sem estar muito convencido, mas Sara já estava em outro assunto.

-Segue sendo Pete Hanson o forense desta região? -perguntou ao Faith.

-Conhece-lhe?

-É um bom forense. Fiz um par de cursos com ele a primeira vez que me escolheram para o posto.

Wíll tinha esquecido que nas cidades de províncias o posto de médico forense se designava por
votação. Não podia imaginar o rosto da Sara em um pôster.

-De fato, pensávamos ir para lá para assistir à autópsia da segunda vítima.

Sara parecia algo indecisa.

-Hoje tenho o dia livre.

-Pois espero que o desfrute.

Disse-o como se se estivesse despedindo, mas não fez gesto de partir. Wíll se precaveu de que já
não havia tanto mudo de um lugar a outro de gente no corredor

e distinguiu o som de uns saltos a suas costas. Amanda Wagner vinha para ele caminhando com passo
enérgico. Parecia bem descansada, em que pese a que se ficou no

bosque até as tantas, igual a Wíll. Levava o estrito penteado de sempre em forma de casco e um traje
calça de cor arroxeado escuro. Como de costume, tinha que ocupar-se

pessoalmente de tudo.

-O rastro ensangüentado no carnê de conduzir do Jacquelyn Zabel pertence a nossa primeira


vítima. Seguimos chamando-a Anna? -Não lhes deu tempo para responder-.

O seqüestro no supermercado tem alguma relação com nosso caso?

-Poderia ser -respondeu Wíll-. A mãe foi seqüestrada por volta das cinco e meia da manhã. Ao
menino, Felix, encontraram-no dormido no carro. Deu-nos uma

descrição muito vaga do seqüestrador; o menino só tem seis anos. A polícia de Atlanta está
colaborando, mas, que eu saiba, não nos pediram ajuda.

-Quem está ao mando da investigação?

-Leio Donnelly.

-Inútil -grunhiu Amanda-. De momento lhe deixaremos seguir com seu caso, mas quero que o atem
bem curto. Deixem que a polícia de Atlanta se ocupe do trabalho

a pé de rua e dos gastos forenses, mas se começar a cagá-la, tirem-lhes isso de cima.

-Isso não lhe vai gostar de um cabelo -disse Faith.

-Tenho cara de que me importe? Parece que nossos amigos do condado do Rockdale se estão
arrependendo de nos haver passado o caso. convoquei uma roda de

imprensa para dentro de cinco minutos e quero que Faith e você estejam comigo e ponham cara de
que o temos tudo sob controle enquanto eu lhe explico às pessoas que

seus rins estão a salvo dos perversos traficantes de órgãos. -Tendeu-a mão a Sara-. Doutora Linton,
suponho que não sentirá saudades se disser que esta vez nos

encontramos em melhores circunstâncias.

-No que a mim respeita, certamente -disse Sara, lhe estreitando a mão.

-Foi uma cerimônia muito emotiva. Uma comemoração digna de um grande polícia.

-OH… -exclamou Sara, algo confusa e com a voz entrecortada. Os olhos lhe encheram de
lágrimas. esclareceu-se voz e tratou de recuperar a compostura-.

Não a vi… Esse dia estava muito aturdida.

Amanda ficou estudando-a com atenção e, com voz surpreendentemente amável lhe perguntou:

-Quanto tempo aconteceu já?

-Três anos e meio.

-Inteirei-me do que aconteceu o cárcere do Coastal. -Não tinha solto a mão da Sara, e Wíll se
precaveu de que a estreitava com carinho-. Cuidamos dos nossos.

Sara se enxugou as lágrimas e olhou de esguelha ao Faith, como se se sentisse um pouco estúpida.

-Estava a ponto de oferecerminha ajuda a seus agentes.


Wíll viu que Faith abria a boca, mas voltou a fechá-la imediatamente.

-Adiante -disse Amanda.

-Atendi à primeira vítima, Anna. Não tive ocasião de lhe fazer um exame completo, mas passei
algum tempo com ela. Pete Hanson é um dos melhores forenses

que conheço, mas se quiser que atira à autópsia da segunda vítima, poderia contribuir minha
experiência com a Anna e assinalar as similitudes e as diferenças entre

uma e outra.

Amanda não perdeu o tempo considerando sua decisão.

-Tomo a palavra. Faith, Wíll, venham comigo. Doutora Linton, meus agentes se reunirão com você
no edifício leste da prefeitura dentro de uma hora. -Ao ver

que nenhum se movia, deu umas palmadas-. Vamos.

Amanda estava já pela metade do corredor quando Wíll e Faith se decidiram a ir atrás dela.

Wíll ia detrás, dando passos curtos para não adiantá-la. A mulher caminhava depressa para ser tão
miúda mas, dada sua altura, Wíll se sentia sempre como

o Gigante Verde enquanto tentava manter uma distância respeitosa. Olhando a nuca da Amanda se
perguntou se o assassino trabalharia com uma mulher como ela. Não lhe

escapava o fato de que, em certos homens, uma mulher como essa podia despertar um ódio atroz em
lugar da mescla de exasperação e vontades de agradar que inspirava

a ele.

Faith lhe atirou do braço.

-Lhe pode acreditar isso?

-O que?

-O modo em que se penetrou Sara em nossa autópsia.

-Eu acredito que é boa idéia que veja as duas vítimas.

-Você viu às duas vítimas.

-Mas eu não sou forense.

-Nem tampouco -lhe espetou Faith-. Nem sequer é propriamente uma médica. É pediatra. E a que
coño se referia Amanda quando mencionou o cárcere do Coastal?

Wíll também sentia curiosidade por saber o que tinha acontecido ali, mas o que mais lhe intrigava
era o muito que parecia lhe encher o saco ao Faith todo

esse assunto. Amanda lhes falou por cima do ombro.

-Aceitarão qualquer tipo de ajuda que Sara Linton lhes ofereça. -Obviamente, tinha ouvido sua
conversação-. Seu marido era um dos melhores policiais do

estado, e eu confio plenamente na perícia da Sara como médica forense.

Faith não se incomodou em dissimular sua curiosidade.

-O que lhe passou?

-Morreu em ato de serviço. Que tal te encontra depois da queda de ontem, Faith?

-Perfeitamente -respondeu a agente em um tom surpreendentemente jovial.

-A doutora te deu o alta?

-Aos cem por cem -respondeu em tom ainda mais jovial.

-Já falaremos disso com mais tranqüilidade. -Ao chegar ao vestíbulo, Amanda lhes indicou com
um gesto aos guardas de segurança que partissem e disse ao

Faith-: depois da roda de imprensa tenho uma reunião com o prefeito, mas te espero em meu
escritório ao final do dia.

-Sim, senhora.

Wíll não sabia se se estava voltando idiota por momentos ou se eram as mulheres de sua vida as
que se voltavam cada vez mais obtusas. Entretanto, não era

o momento mais oportuno para ficar a elucidá-lo. Adiantou a Amanda para lhe abrir a porta de
cristal. Tinham colocado um soalho com um tapete detrás para que falasse.

Como de costume, Wíll se colocou a um lado, sabendo que as câmaras não filmariam mais que seu
peito e, como muito, o nó de sua gravata quando fechassem plano sobre

a Amanda. Naturalmente Faith sabia que não teria tanta sorte, e se colocou detrás de sua chefa com o
cenho franzido.

Cintilaram os flashs das câmaras. Amanda se aproximou dos microfones. Começaram a lhe chover
as perguntas, mas esperou a que guardassem silêncio antes de
tirar um papel dobrado do bolso de sua jaqueta e colocá-lo sobre o suporte de livro.

-Sou a doutora Amanda Wagner, subdirectora do escritório regional do DIG. -Fez uma pausa para
lhe dar maior solenidade ao discurso-. Alguns de vocês terão

ouvido já os falaciosos rumores que correm sobre o chamado “assassino do rim”. Compareço ante
vocês para desmentir categoricamente ditos rumores. Não existe tal

assassino. À vítima não foi extirpado nenhum de seus rins; não lhe praticou nenhuma intervenção
cirúrgica. O departamento de polícia do Rockdale afirma que não teve

nada que ver com a filtração e, por nossa parte, devemos confiar na honestidade de nossos colegas.

Wíll não precisava olhar ao Faith para saber que estava reprimindo um sorriso. O detetive Max
Galloway tinha conseguido tirar a de suas casinhas e Amanda

acabava de esbofetear ao departamento de polícia do Rockdale em pleno diante das câmaras.

Um dos repórteres lhe perguntou:

-O que pode nos dizer da mulher que ingressou ontem à noite no hospital Grady?

Ao parecer, Amanda sabia do caso muito mais do que Wíll e Faith lhe tinham contado, embora
aquilo não era nenhuma novidade.

-Facilitaremo-lhes um retrato da vítima à uma da tarde.

-por que não umas fotografias?

-A vítima tem marcas de golpes na cara. Queremos lhes oferecer um retrato o mais fiel possível
para facilitar sua identificação.

Uma mulher da CNN perguntou:

-Qual é o prognóstico?

-Reservado.

Assinalou a um dos jornalistas que tinham levantado a mão, Sam, o tipo que tinha chamado a
atenção do Faith quando chegaram ao hospital. Por isso podia

ver Wíll era o único que tomava notas a emano em lugar de utilizar uma grabadora digital.

-Tem algum comentário sobre as declarações da irmã do Jacquelyn Zabel, Joelyn Zabel?

Wíll notou que sua mandíbula se esticava, mas se obrigou a seguir olhando à frente com o rosto
impassível. Imaginou que Faith estava fazendo o mesmo, porque
os jornalistas seguiam concentrados na Amanda sem preocupar-se dos dois perplexos agentes que
tinha detrás.

-Lógicamente a família está consternada -respondeu Amanda-. Estamos fazendo quanto está em
nossa mão por resolver este caso.

Sam insistiu.

-Sem dúvida deve estar molesta pela dureza de suas acusações contra o DIG.

Wíll deduziu pela expressão do Sam que Faith devia estar sonriendo. Estavam jogando, porque
obviamente o jornalista sabia perfeitamente que Amanda não sabia

do que lhe estava falando.

-Terá que lhe perguntar à senhora Zabel sobre suas declarações. Eu não tenho mais que comentar
sobre esse assunto.

Respondeu a um par de perguntas mais e logo deu por concluída a roda de imprensa com a petição
habitual de que qualquer que tivesse alguma informação relativa

ao caso ficasse em contato com as autoridades.

Os jornalistas começaram a dispersar-se para informar a seu público dos avanços, embora Wíll
estava convencido de que nenhum ia assumir sua responsabilidade

por não ter contrastado a informação antes de divulgar os falaciosos rumores sobre o suposto
assassino do rim.

Amanda resmungou algo dirigindo-se ao Faith em voz tão baixa que Wíll logo que pôde entendê-
lo.

-Vê.

Faith não necessitava uma explicação, nem tampouco apóio, mas de todos os modos se agarrou por
braço do Wíll enquanto se dirigiam para a multidão de jornalistas.

Passou ao lado do Sam e deveu lhe dizer algo, porque o jornalista os seguiu até um estreito beco que
havia entre o hospital e a garagem.

-pilhei ao dragão com o guarda baixo, né?

Faith assinalou ao Wíll.

-Agente Trent, este é Sam Lawson, de profissão casulo. Sam sorriu.

-Encantado de lhe conhecer.


Wíll não respondeu, mas ao jornalista não pareceu lhe importar. Estava mais interessado no Faith,
e a olhava com tal descaramento que Wíll sentiu o primário

impulso de lhe romper a mandíbula de um murro.

-Caramba, Faith, está muito sexy -disse Sam.

-encheste o saco a Amanda.

-Não é seu estado habitual?

-Não te convém tê-la como inimizade, Sam. te lembre do que passou a última vez.

-O bom de beber tanto é que depois não recordo nada -disse sonriendo e olhando-a de cima
abaixo-. Está muito bonita, neném. Quero dizer… está fantástica.

Faith meneou a cabeça, embora Wíll se precaveu de que se sentia adulada. Nunca lhe tinha visto
olhar a um homem como olhava ao Sam Lawson. Definitivamente

tinham algo pendente. Não se havia sentido tão de sobra em sua vida. Por sorte, a agente recordou
que estava ali por algo.

-foram os do Rockdale os que lhe falaram que a irmã do Zabel?

-As fontes de um jornalista são confidenciais -respondeu Sam, o que não fez a não ser confirmar
suas suspeitas.

-Que declarações tem feito Joelyn?

-Resumindo, diz que lhes passaram três horas discutindo como gilipollas quem se faria cargo do
caso enquanto sua irmã morria no alto de uma árvore.

Os lábios do Faith eram uma linha branca e magra, e Wíll ficou literalmente doente. Sam devia ter
falado com a irmã justo depois do Faith, o que explicaria

por que o jornalista estava tão seguro de que Amanda não sabia nada do assunto. Finalmente a agente
perguntou:

-Foi você quem deu ao Zabel essa informação?

-Como se não me conhecesse.

-Foram os do Rockdale, e logo você recolheu suas declarações.

Sam se encolheu de ombros, confirmando de novo suas suspeitas.

-Sou jornalista, Faith. Solo faço meu trabalho.


-Pois que trabalho mais triste: acossar a familiares consternados por sua perda, deixar em
evidencia à polícia, publicar uma informação sabendo que é falsa.

-Agora entenderá porque me converti em um alcoólico. Faith pôs os braços em jarras e exalou um
comprido suspiro de frustração.

-Isso não foi o que aconteceu Jackie Zabel.

-Já imaginava -Sam tirou a caneta e a caderneta-, assim me dê algo que possa publicar.

-Sabe que não posso…

-Me fale dessa cova. ouvi que tinha uma bateria de navio aí abaixo e a usava para as queimar.

o da bateria do navio era o que em seu jargão denominavam “conhecimento culpado”, a classe de
informação que solo o assassino podia conhecer. Muito poucas

pessoas tinham visto as provas que Chárlie Reed tinha recolhido na cova e todos eles levavam placa.
Ao menos de momento. Faith disse em voz alta o que Wíll estava

pensando.

-Isso é informação confidencial, solo Galloway ou Fierro lhe puderam proporcionar isso Eles nos
deixam com o culo ao ar e você consegue uma história para

a primeira página. Todo mundo sai ganhando, não?

O amplo sorriso do Sam confirmou suas especulações. Não obstante, manteve a farsa.

-E por que ia eu a falar com a polícia do Rockdale se você for meu contato neste caso?

Nas últimas semanas Wíll tinha visto o Faith perder a calma em questão de décimas de segundo;
resultava agradável não ser o branco de suas iras, para variar.

-Eu não sou seu contato nem nada que lhe pareça, gilipollas, e suas fontes não lhe contaram mais
que mentiras.

-Pois me ilumine, preciosa.

Por um momento parecia que Faith ia fazer exatamente isso, mas recuperou o bom julgamento no
último minuto.

-O DIG não tem nenhum comentário que fazer sobre as declarações do Joelyn Zabel.

-Posso citar suas palavras?

-Isto entrevista, nenê.


Faith seguiu a seu companheiro até o carro, não sem antes lhe dedicar um sorriso ao jornalista.
Wíll estava convencido de que o gesto do Faith não era algo

que se pudesse publicar em um periódico.

Capítulo nove

Sara se tinha passado os últimos três anos e meio aperfeiçoando sua habilidade para a negação,
assim não era surpreendente que tivesse demorado uma hora

de relógio em dar-se conta de que tinha cometido um terrível engano ao oferecer seus serviços a
Amanda Wagner. Nessa hora lhe tinha dado tempo a passar por casa

para tomar banho e trocar-se de roupa e a conduzir até o porão do edifício leste da prefeitura, onde
caiu na conta de seu engano. Sua mão estava já sobre o pomo

de uma porta com um letreiro que rezava MÉDICO FORENSE DIG mas se deteve, incapaz de abri-
la. Outra cidade. Outro necrotério. Outro modo de sentir falta da o Jéffrey.

Mas acaso estava mal dizer que gostava de trabalhar com seu marido? Que ao lhe olhar por cima
do cadáver da vítima de um tiroteio ou de um condutor bêbado

sentia que sua vida estava completa? Eram pensamentos macabros e tolos que Sara acreditava ter
superado quando se mudou a Atlanta, mas aí estava de novo, com a mão

no pomo de uma porta que separava a vida e a morte, incapaz de abri-la.

Apoiou as costas contra a parede e fixou a vista nas letras pintadas sobre o cristal opaco. Não era
aqui aonde haviam trazido para o Jéffrey? Não era Pete

Hanson o homem que havia diseccionado o formoso cadáver de seu marido? Sara tinha seu relatório
em alguma parte. Naquele momento lhe tinha parecido de vital importância

conservar toda a informação relativa a sua morte: os exames de toxicologia, o peso e as medidas de
cada um de seus órgãos, as análise das amostras de malha e de

ossos. Tinha visto morrer ao Jéffrey no Grant County, mas nesse lugar, nesse porão situado sob a
prefeitura, tudo o que tinha feito dele um ser humano tinha ficado

reduzido a um montão de análise e de informe.

O que era exatamente o que tinha convencido a Sara para que voltasse para aquele lugar? Pensou
na gente com a que tinha tido contato nas últimas horas:

Felix McGhee, com esse olhar perdido em seu pálido rosto, procurando a sua mãe pelos corredores
do hospital com o lábio inferior tremendo, insistindo uma e outra

vez em que nunca lhe deixaria sozinho; Wíll Trent oferecendo seu lenço ao menino. Sara acreditava
que seu pai e Jéffrey eram os únicos homens sobre a face da terra

que ainda usavam lenço. E logo Amanda Wagner, lhe falando do funeral.

Esteve tão sedada o dia que enterraram ao Jéffrey que logo que pôde se ter em pé. Sua primo lhe
aconteceu o braço pela cintura e, literalmente, sustentou-a

para que pudesse andar até a tumba. Ela ficou com o braço estendido por cima de seu ataúde,
negando-se a abrir a mão para soltar a terra. Ao final se rendeu e apertou

o punho contra seu peito, querendo melá-la cara com a terra, inalá-la, meter-se na fossa com o Jéffrey
e lhe abraçar até que seus pulmões deixassem de respirar.

Sara se levou a mão ao bolso traseiro de seu jeans para assegurar-se de que a carta seguia ali.
Tinha-a dobrado tantas vezes que o sobre começava a romper-se,

deixando entrever o papel de cor amarela que havia em seu interior. O que faria se, de repente, abria-
se? O que faria se uma manhã jogava uma olhada e via os limpos

traços, as pesarosas explicações ou as descaradas desculpas da mulher cujas ações tinham conduzido
à morte do Jéffrey?

-Sara Linton! -vociferou Pete Hanson ao chegar ao último degrau. Levava uma camiseta hawaiana
de cores gritões, um estilo pelo que se decantava freqüentemente,

se a memória da Sara não lhe falhava. Na expressão de sua cara havia uma mescla de alegria e de
curiosidade-. A que se deve este incomensurável prazer?

Sara lhe contou a verdade.

-Arrumei-me isso para penetrar em um de seus casos.

-Ah, a estudante deve relevar ao professor.

-Não acredito eu que esteja pensando em te retirar.

Pete lhe piscou os olhos um olho com picardia.

-Já sabe que tenho o coração de um guri de dezenove anos.

Sara reconheceu a brincadeira.

-Segue tendo-o em um pote sobre sua mesa de despacho?


Pete soltou uma gargalhada, como se fora a primeira vez que ouvia essa resposta. Ela pensou que
devia lhe explicar melhor o motivo de sua presença.

-Vi uma das vítimas ontem à noite, no hospital.

-Sim, ouvi falar dela. Há signos de tortura, agressão sexual?

-Sim.

-Prognóstico?

-Estão tentando controlar a infecção.

Não deu mais detalhes, mas não fazia nenhuma falta. Pete tinha visto ao longo de sua carreira a
muitos pacientes que não respondiam ao tratamento com antibióticos.

-Aplicou-lhe o procedimento para vítimas de violação?

-Não houve tempo suficiente antes de colocá-la no sala de cirurgia, e depois…

-Já se tinha quebrado a cadeia de provas -acabou Pete.

Conhecia bem as bases jurídicas de seu trabalho. O corpo da Anna tinha sido desinfetado com o
Betadine e exposto a diferentes entornos. Qualquer advogado

defensor podia encontrar a um perito que alegaria que as amostras tomadas depois de várias
intervenções cirúrgicas estavam muito poluídas para ser admitidas como

prova.

-Tirei-lhe algumas estilhaça de debaixo das unhas, mas suponho que o melhor que posso oferecer é
um exame forense comparado de ambas as vítimas.

-Um raciocínio mais que duvidoso, mas estou tão contente de verte que ignorarei sua absurda
lógica.

Sara sorriu; Pete sempre tinha sido muito direto, embora sem renunciar a essa cortesia tão
tipicamente sulina: uma das coisas que faziam dele um grande

professor.

-Obrigado.

-O prazer de sua companhia é recompensa mais que suficiente -replicou ele lhe abrindo a porta.
Sara vacilou e Pete assinalou para o exterior-. Os olhos

demoram um pouco em acostumar-se.


Armou-se de valor enquanto o seguia até o necrotério. O primeiro que lhe impactou foi o aroma.
Sempre tinha acreditado que “enjoativo” era o adjetivo que

melhor o descrevia, e que este carecia de todo sentido até que a gente cheirava algo verdadeiramente
enjoativo. O aroma que preponderava sobre todos outros não era

o dos mortos, a não ser o dos produtos que utilizavam para desinfetar. antes de que o escalpelo
entrasse em ação, os cadáveres se catalogavam, passavam por raios

X, tomavam fotografias, tiravam-lhes a roupa e os lavavam com desinfetante. Além disso estava o
produto com o que se esfregavam os chãos, e o que usavam para limpar

as mesas de aço inoxidável, e o que se utilizava para esterilizar o instrumental médico. Todos eles
compunham um aroma penetrante e adocicado que resultava difícil

esquecer e impregnava a pele e as fossas nasais de tal maneira que não reparava nele até que deixava
de cheirá-lo durante uma temporada.

Seguiu ao Pete até o fundo da sala, sentindo-se apanhada por sua esteira. O necrotério estava tão
longe do agitação do Grady como o condado do Grant da

estação Grand Central. A diferença do infinito rosário de casos que passavam por um serviço de
urgências, uma autópsia era como uma pergunta contida que quase sempre

tinha resposta. Sangue, fluídos, órgãos, pele; cada um por separado constituía uma peça do puzle. Um
cadáver não pode mentir. Os mortos não sempre se levam seus

segredos à tumba.

Nos Estados Unidos morrem dois milhões e meio de pessoas ao ano. as da Geórgia sobem a umas
setenta mil, das quais menos de um milhar são homicídios. Segundo

as leis do estado, qualquer morte acontecida fora de um hospital ou de qualquer outro centro médico
deve ser investigada. Nas cidades pequenas, onde as mortes violentas

não são freqüentes, ou nas comunidades mais desfavorecidas onde o diretor da funerária local está
acostumado a atuar como forense, normalmente se deixa que o estado

se ocupe desse tipo de casos, que em sua major parte terminam no necrotério de Atlanta. Isso
explicava por que a metade das mesas estavam ocupadas por cadáveres

em distintas fases de disección.

-Snoopy -disse Pete dirigindo-se a um homem negro algo maior que levava postos umas luvas
cirúrgicas-. Esta é a doutora Sara Linton. vai ajudar me com o

caso Zabel. Onde estávamos?


Sem deter-se saudar a Sara, o homem replicou:

-Temos os raios X na tela. Posso tirá-la já, se quiser.

-Bem. -Pete foi até o ordenador e teclou algo. Imediatamente as imagens de raios apareceram na
tela-. Alta tecnologia! -exclamou, e Sara não pôde por menos

de sentir-se impressionada.

No condado do Grant o necrotério estava nos porões do hospital, quase como se se acordaram
dela no último momento. A máquina de raios X estava desenhada

para os vivos, ao contrário que a de Atlanta, muito mais potente, pois aos mortos não preocupam os
níveis de radiação. As placas eram de uma claridade antiga e podiam

ver-se em um monitor plano de vinte e quatro polegadas, em lugar de em um painel luminoso cuja
piscada constante podia provocar um ataque epilético. A única mesa

de porcelana que Sara utilizava no Grant não admitia comparação com as fileiras de mesas de aço
que tinha detrás agora. No vestíbulo situado ao lado do necrotério

a doutora viu vários ajudantes e investigadores que foram de um lado a outro ocupados em diversas
tarefas. Reparou em que Pete e ela estavam sozinhos; eram os dois

únicos seres vivos na sala de autópsias.

-Deixamos a um lado todos outros casos quando nos trouxeram -explicou isso. Sara não entendeu a
que se referia e Pete assinalou uma mesa vazia, a última

da fila-. Aí foi onde o examinei.

Sara ficou olhando a mesa vazia, perguntando-se por que não podia rememorar aquela imagem, a
horrível visão da última vez que tinha visto seu marido. Tudo

que via era a mesa limpa, e a luz do abajur refletido na superfície mate de aço inoxidável. Ali foi
onde Pete recolheu as provas que tinham conduzido até o assassino

do Jéffrey, onde resolveu o caso, onde ficou provado além de toda dúvida quem tinha sido o
responsável pelo crime.

Sara pensava que ao entrar nesse necrotério se sentiria afligida pelas lembranças, mas ali não
havia mais que calma e uma espécie de determinação profissional.

O que ali se fazia era bom. Ajudavam às pessoas, inclusive depois de morta. Sobre tudo depois de
morta.

Lentamente se voltou para o Pete. Seguia sem poder ver o Jéffrey, mas sentia sua presença, como
se estivesse com ela nessa mesma sala. por que seria? Como

era possível que, depois de três anos lhe suplicando sem êxito a seu cérebro que lhe proporcionasse
alguma sensação que lhe permitisse recrear o que era ter ao Jéffrey

a seu lado, o simples feito de estar naquele necrotério tivesse obrado o milagre?

Pelo general os policiais detestavam ter que assistir a uma autópsia, e Jéffrey não era nenhuma
exceção, mas para ele era uma forma de mostrar seu respeito

pela vítima. Era como lhe prometer que faria tudo que estivesse em sua mão para levar a seu
assassino ante a justiça. Essa era a razão pela que se feito polícia;

não só para ajudar aos inocentes, mas também para castigar a quão criminais os ameaçavam.

Com toda sinceridade, esse era o motivo pelo que ela tinha aceito o posto de forense. Jéffrey nem
sequer tinha ouvido falar do condado do Grant a primeira

vez que Sara entrou no necrotério do porão, examinou à vítima e ajudou a resolver o caso. Muitos
anos antes ela tinha conhecido a violência de primeira mão, pois

tinha sido vítima de um terrível assalto. Cada incisão em forma de E que fazia, cada mostra que
recolhia, cada vez que subia ao estrado a dar testemunho das coisas

terríveis que tinha podido documentar, sentia a intensa satisfação que proporciona uma justa
vingança.

-Sara?

de repente se deu conta de que levava um momento muda. Teve que esclarecê-la voz antes de lhe
dizer ao Pete:

-ordenei que nos enviem as placas da vítima que ingressou ontem à noite no Grady. Pôde dizer
algumas palavras antes de cair inconsciente. Acreditam que

se chama Anna.

Pete fez clique sobre o fichário e as placas da Anna apareceram no monitor.

-Está consciente?

-Chamei o hospital antes de vir. Segue inconsciente.

-Há dano neurológico?

-superou a intervenção, que já é mais do que esperávamos. Seus reflexos são bons, mas as pupilas
seguem sem reagir. O cérebro está algo tumefacto. Hoje
lhe vão fazer um exploratório. Mas o verdadeiramente preocupam-se é a infecção; estão-lhe fazendo
uns cultivos, a ver se encontrarem o tratamento adequado. Sanderson

chamou ao Centro de Controle de Enfermidades.

-OH, Deus. -Pete estudava as placas no monitor-. Quanta força crie que faz falta para arrancar uma
costela?

-Estava desnutrida e desidratada. Suponho que isso lhe facilitou as coisas.

-Se a tinha atada não poderia fazer grande coisa por defender-se. Recorda-me à terceira senhora
Hanson. Vivian era culturista, sabe? Tinha os bíceps tão

grandes como minha perna. Uma mulher tremenda.

-Obrigado, Pete. Obrigado por te ocupar dele.

Lhe piscou os olhos o olho de novo.

-O respeito terá que ganhar respeitando a outros.

Sara reconheceu a frase, pois Pete estava acostumado a utilizá-la em suas classes.

-Snoopy -disse o doutor ao ver entrar em seu ajudante pela porta de dobro folha empurrando uma
mesa de autópsias.

A cabeça do Jacquelyn Zabel aparecia por cima de um lençol branco, com o rosto arroxeado
depois de ter estado pendurada da árvore de barriga para baixo.

O tom era ainda mais escuro ao redor de seus lábios, como se alguém lhe tivesse esfregado um
punhado de arándanos pela boca. Sara reparou em que era uma mulher atrativa,

tão solo umas leves patas de galo delatavam sua idade. Uma vez mais pensou na Anna, que também
era muito bonita.

Pete parecia estar pensando o mesmo.

-por que será que quanto mais bonita é a mulher, mais horrendo é o crime?

Sara se encolheu de ombros. Era um fenômeno que já tinha tido ocasião de observar quando
trabalhava como forense no condado do Grant: as mulheres belas

estavam acostumadas pagar um preço muito mais alto no que a homicídios se refere.

-Leva-a a meu sítio -disse Pete a seu assistente.

Sara observou a ausência total de expressividade com a que Snoopy levava a cabo seu trabalho e
o cuidado metódico com que girava a mesa para colocá-la no

oco que havia em metade da fila. Naquele lugar, Pete estava em minoria; a maior parte dos que
trabalhavam no necrotério eram afroamericanos ou mulheres. Ocorria

o mesmo no Grady, o que não deixava de ter sentido, pois, segundo a experiência da Sara, quanto
mais horrível era o trabalho mais provável era que acabassem encarregando-lhe

a uma mulher ou a um membro de uma minoria. Sara captou a ironia que encerrava o fato de que ela
mesma estivesse incluída em dito grupo.

Snoopy baixou os freios da mesa com o pé e ficou a ordenar os diversos escalpelos, bisturis e
serras que ia necessitar Pete para a autópsia. Acabava de

tirar umas tesouras de podar como as que se vêem na seção de jardinagem das grandes superfícies
quando Wíll e Faith entraram na sala.

O agente avançou pela sala olhando desconcertado os cadáveres abertos. Faith, por sua parte,
tinha pior aspecto que a primeira vez que Sara a viu no hospital.

Seus lábios estavam pálidos, e manteve a vista à frente ao passar junto a um homem ao que lhe
tinham tirado a cara para que o forense pudesse examinar melhor as

contusões.

-Doutora Linton -começou Wíll-, obrigado por vir. Já sei que hoje é seu dia livre.

Sara se limitou a sorrir e a assentir com a cabeça, surpreendida pela formalidade do Wíll. Cada
minuto que passava soava mais como um banqueiro. A Sara

seguia lhe custando associar ao homem com sua profissão. Pete lhe ofereceu um par de luvas, mas ela
os rechaçou.

-Solo estou aqui para observar.

-Não quer te sujar um pouco as mãos? -perguntou-lhe Pete, inflando uma luva para poder abri-lo-.
Comemos juntos depois? Há um italiano novo muito bom no

Highland. Posso me baixar um vale de Internet.

Sara ia pôr uma desculpa quando Faith fez um ruído que fez que todos se voltassem a olhá-la.
Agitava a mão frente a sua cara, e Sara imaginou que o tom

cinzento que tinha adquirido de repente Faith Mitchell se devia unicamente a sua presença naquele
necrotério. Pete ignorou sua reação.

-Encontramos grande quantidade de esperma e fluidos na pele antes de lavar o cadáver.


Empacotarei-o junto com as provas de violação e as mandarei a analisar.

Wíll se arranhou o braço por debaixo da manga de sua jaqueta.

-Duvido muito que nosso homem esteja fichado, mas veremos o que diz o ordenador.

De acordo com o procedimento estabelecido, Pete pôs em marcha a grabadora e, depois de dizer a
hora e a data, começou a ditar:

-Estamos ante o cadáver do Jacquelyn Alexandra Zabel, mulher, trinta e oito anos, apresenta signos
de desnutrição. Foi achado na madrugada do sábado 8 de

abril, em uma zona boscosa próxima a Nacional 316, no Conyers, localidade pertencente ao condado
do Rockdale, Geórgia. A vítima se encontrava pendurada de uma árvore,

de barriga para baixo, com o pé direito apanhado entre os ramos. Tem o pescoço quebrado e sinais
que indicam que foi cruelmente torturada antes de morrer. Realizará

a autópsia o doutor Pete Hanson. Também estão pressentem os agentes especiais Wíll Trent e Faith
Mitchell, e a inimitável doutora Sara Linton.

Wíll retirou o lençol e Faith tragou saliva. Sara se deu conta de que era a primeira vez que a
agente via o trabalho do seqüestrador. A crua luz do necrotério

revelou todas e cada uma de suas iniqüidades: os escuros moratones, os vergões, os arranhões na
pele, as marcas negras das queimaduras elétricas, que pareciam pó

mas não se podiam limpar. Tinham lavado o corpo previamente e lhe tinham limpo o sangue, de modo
que as feridas destacavam de forma brutal sobre a extrema palidez

da pele. Havia uns cortes pouco profundos em forma de cruz por todo o corpo; com a profundidade
justa para sangrar mas não causar a morte. Sara imaginou que deviam

havê-los feito com uma navalha de barbear ou com uma faca muito fina e afiada.

-Tenho que… -Faith não terminou a frase. Simplesmente se deu a volta e partiu. Wíll a observou
enquanto se afastava e se encolheu de ombros olhando ao

Pete, como se tentasse desculpar-se.

-Não é sua parte favorita deste trabalho -comentou este-. Está muito magra. A vítima, quero dizer.

Tinha razão. Os ossos do Jacquelyn Zabel se sobressaíam sob a pele.

-Quanto tempo a tiveram retida? -perguntou o forense ao Wíll. Este encolheu os ombros.

-Esperávamos que você nos pudesse dizer isso.


-Poderia ser conseqüência da desidratação -resmungou Pete, pressionando o ombro da mulher com
os dedos. Perguntou a Sara-. A ti o que te parece?

-A outra vítima, Anna, foi achada nas mesmas condições. Pode que lhes desse diuréticos e as
tivesse sem comer e sem beber. É um método de tortura relativamente

corrente.

-Certamente empregou todos os que lhe ocorreram -suspirou Pete, desconcertado-. O sangue
deveria nos dar mais dados.

Continuaram com o exame. Snoopy utilizou uma regra para medir os cortes e tomou algumas
fotografa. Enquanto, Pete ia marcando em um desenho o lugar onde

estava cada ferida para inclui-la no relatório da autópsia. Finalmente deixou a caneta e abriu as
pálpebras ao cadáver para comprovar a cor dos olhos.

-Interessante -murmurou, e fez um gesto a Sara para que se aproximasse de olhar.

Em um ambiente seco, os órgãos de um cadáver em decomposição tendem a encolher, de modo que


a carne se contrai ao redor das feridas. Ao examinar os olhos,

Sara descobriu vários buracos na esclerótica; uns diminutos pontos vermelhos que formavam um
círculo perfeito.

-Agulhas ou alfinetes -aventurou Pete-. Cravou cada globo ao menos uma dúzia de vezes.

Sara examinou as pálpebras da mulher e viu que os buracos os tinham perfurado limpamente.

-Anna tinha as pupilas fixas e dilatadas -disse agarrando umas luvas da bandeja e olhando as
ensangüentadas orelhas da mulher enquanto os punha. Snoopy

tinha limpo o sangue, mas parte dela se ficou pega nos condutos auditivos-. Tem um…?

Snoopy lhe aconteceu um otoscopio. Sara o colocou no ouvido do Zabel e as lesões que descobriu
recordaram às que tinha visto em meninos que tinham sido

vítimas de abusos.

-Tem o tímpano perfurado. -Girou-lhe a cabeça para examinar o outro ouvido e ouviu o estalo de
uma vértebra cervical que acabava de romper-se-. E este também.

Passou-o otoscopio ao Pete para que examinasse os ouvidos.

-Fez-o com um chave de fenda? -perguntou.

-Tesouras -sugeriu Sara-. Olhe a entrada do conduto, a pele está levantada.


-A trajetória se inclina para cima e se faz mais profunda na parte superior.

-Claro, porque as tesouras são mais estreitas na ponta.

Pete assentiu e continuou tomando notas.

-Surda e cega.

O seguinte passo era óbvio, e Sara lhe abriu a boca para examiná-la. A língua estava intacta.
Pressionou com os dedos a zona externa da traquéia e, continuando,

utilizou o laringoscópio que lhe tinha passado Snoopy para inspecionar a garganta.

-O esôfago está em carne viva. Cheira isso?

Pete se inclinou.

-Lejía? Ácido?

-Desatascador.

-Tinha esquecido que seu pai é encanador. -Assinalou a mancha escura que rodeava os lábios da
mulher-. Vê isto?

Em um cadáver o sangue tende a acumular-se no ponto mais baixo, deixando uma mancha que se
denomina lividez. O rosto do Zabel, que tinha estado pendurada

de barriga para baixo, estava muito arroxeado. Resultava difícil distinguir a mancha ao redor dos
lábios, mas uma vez que Pete a assinalou, Sara pôde reconhecer

o ponto pelo que tinham vertido o líqüido na boca. Depois, como a vítima estava amordaçada, o
líqüido se transbordou pelas comissuras.

Pete apalpou o pescoço.

-As lesões são muito graves. Está claro que o assassino lhe obrigou a beber algum adstringente.
Veremos se chegou ao estômago quando a abrirmos.

Sara se surpreendeu para ouvir a voz do Wíll; tinha esquecido que estava ali.

-Eu acredito que se rompeu o pescoço ao cair, que escorregou.

Sara recordou a conversação que tinham tido uns minutos antes, e o seguro que estava de que
Jacquelyn Zabel tinha estado pendurada da árvore todo o tempo

enquanto ele a buscava. Havia dito que o sangue da mulher ainda estava morna.

-Foi você quem a baixou? -perguntou-lhe.


Wíll negou com a cabeça.

-Tinham que lhe fazer as primeiro fotos.

-Olhou a ver se tinha pulso nas artérias carótidas? -perguntou-lhe Sara.

Wíll assentiu.

-O sangue gotejava por seus dedos. E estava quente.

Sara examinou as mãos da mulher e viu que tinha as unhas rotas, e que algumas tinham sido
arrancadas de

raíz. Por rotina tinham tirado fotos do cadáver

antes de que Snoopy o lavasse. Pete sabia o que Sara estava pensando.

-Snoopy, poderia nos pôr as fotos que tiramos antes de lavá-la? -perguntou assinalando o monitor.

O homem fez o que lhe pedia com o Pete e Sara olhando por cima de seu ombro. Tudo estava na
base de dados, das primeiras fotos tomadas na cena do crime

até as últimas que lhe tinham feito no necrotério. Snoopy teve que as abrir uma por uma, e Sara pôde
ver a cena original em uma rápida sucessão de imagens; em todas

elas se via o Jacquelyn Zabel pendurada da árvore, com o pescoço torcido de forma pouco natural.
Tinha o pé apanhado de tal maneira entre os ramos que provavelmente

tiveram que cortar-lhe para baixá-la.

Snoopy chegou por fim às fotos da autópsia. O rosto, as pernas, todo o corpo estava
completamente talher por uma crosta de sangue.

-Aí -disse Sara assinalando o peito. Os dois se voltaram para o cadáver e Sara se freou em seco-.
O sinto. Este caso é do Pete.

O ego do Pete continuava intacto. Levantou o peito da mulher e descobriu outro corte em forma de
cruz. Mas este era mais profundo no centro da X. Pete aproximou

um pouco mais o abajur e examinou a ferida com maior parada, levantando a pele com os dedos.
Snoopy lhe aconteceu uma lupa e o forense se aproximou ainda mais.

-Encontrou alguma navalha na cena do crime? -perguntou ao Wíll.

-Os únicos rastros que havia eram da vítima; a da faca não era mais que um rastro latente.

Pete aconteceu com Sara a lupa para que pudesse examinar o corte.
-Da mão esquerda ou da direita? -perguntou Pete ao Wíll.

-Pois… -Wíll vacilou e olhou para a porta procurando o Faith-. Não o recordo.

-O rastro era de um polegar? De um índice?

Snoopy tinha ido ao ordenador a procurar a informação, mas finalmente Wíll disse:

-Rastro parcial de um polegar no extremo da manga.

-Folha de sete centímetros?

-Mais ou menos.

Pete assentiu enquanto o apontava no diagrama, mas Sara não ia deixar ao agente esperando
enquanto terminava.

-Apunhalou-se ela mesma -lhe disse enquanto sujeitava a lupa sobre a ferida e lhe indicava que se
aproximasse de jogar uma olhada-. Vê que a ferida tem

forma de V na parte inferior e plaina na superior? -Wíll assentiu-. A folha entrou de acima a abaixo e
seguiu uma trajetória ascendente. -O demonstrou fazendo como

que se apunhalava no peito-. Tinha o polegar apoiado no extremo da faca para poder empurrá-lo para
dentro. Certamente lhe caiu da mão. Olhe seu tornozelo. -Assinalou

umas leves marca situadas na base do perônio-. O coração tinha deixado de pulsar quando o pé ficou
enganchado. Tinha os ossos quebrados, mas não havia tumefação

nem indício algum de traumatismo. Se o sangue tivesse estado em circulação, esta zona estaria muito
arroxeada.

Wíll meneou a cabeça.

-Ela não…

-Os fatos o corroboram -lhe interrompeu Sara-. A ferida foi autoinfligida. Certamente foi tudo
muito rápido, não sofreu muito tempo. Ao menos não muito

mais do que já tinha sofrido.

Wíll ficou olhando-a fixamente aos olhos, e Sara teve que obrigar-se a não desviar o olhar. Pode
que aquele homem não tivesse pinta de polícia, mas não

lhe cabia a menor duvida de que pensava como tal. Quando um caso aberto chegava a um beco sem
saída, qualquer policial que fora digno de sua placa pensava automaticamente
que a culpa era dela, por ter tomado uma decisão inoportuna ou ter passado por cima alguma prova
evidente. Sem dúvida, isso era o que Wíll Trent estava fazendo nesse

momento: procurar o modo de culpar-se a si mesmo pela morte do Jacquelyn Zabel.

-É agora quando pode você ajudá-la. Mas ontem, no bosque, não podia fazer nada por -lhe disse
Sara.

Pete soltou a caneta.

-A doutora tem razão -disse, pressionando o peito do cadáver com as mãos-. Parece que há muito
sangue aqui dentro, e a verdade é que calculou muito bem

o melhor sítio para cravar a faca. Provavelmente deu totalmente no coração. Eu coincido em que
tanto a ruptura do pé como a do pescoço foram posteriores à morte.

-tirou-se uma luva enquanto se dirigia para o ordenador para ver as fotos da cena do crime-. Fixe-se:
a cabeça parece descansar sobre os ramos, um pouco inclinada.

Não é isso o que acontece quando te rompe o pescoço em uma queda; nesse caso se teria ficado
como encaixada nos ramos. Quando está vivo, seus músculos estão preparados

para evitar esse tipo de lesões. Estamos falando de um traumatismo muito severo, não de uma
simples torcedura. Bem visto, jovencita.

Pete sorriu a Sara, que sentiu que se ruborizava como se ainda fora sua melhor aluna.

-Mas por que ia matar se? -perguntou Wíll, como se depois de semelhante tortura a mulher não
tivesse motivo mais que suficiente.

-Provavelmente estava cega e quase com toda segurança surda. O que me surpreende é que fora
capaz de subir à árvore. Não podia ouvir as vozes da batida,

não tinha nem idéia de que a estavam procurando.

-Mas ela…

-Os infravermelhos dos helicópteros não a detectaram -lhe interrompeu Pete-. Se você não tivesse
estado ali, se não lhe tivesse ocorrido olhar para cima,

jamais a teriam encontrado. Todo o mais, ao chegar a temporada de caça algum trapaceiro a teria
achado e teria chamado à polícia para denunciar um M.A.M.

“Morto Aí Mesmo”, queria dizer Pete. Cada corpo de polícia tem seu jargão, que às vezes resulta
bastante pitoresca. Os caçadores eram conhecidos por dar

numerosos parte do M.A.M.


Pete se voltou para a Sara.

-Importa-te? -perguntou-lhe, assinalando com um gesto da cabeça a bolsa com o material para as
amostras de violação. Snoopy era um magnífico ajudante, mas

Sara captou a mensagem: voltava a ser uma mera observadora. tirou-se as luvas, abriu a bolsa e tirou
as espátulas para frotis e as ampolas. Pete agarrou o espéculo

e separou as pernas do Zabel para poder introduzi-lo na vagina.

Ao igual a em algumas violações que terminavam em homicídio, as paredes vaginais permaneciam


contraídas depois da morte, e o espéculo de plástico se rompeu

quando Pete tentou abri-lo. Snoopy lhe aconteceu um metálico e Pete o tentou de novo. Teve que fazer
tanta força para abri-lo que as mãos lhe tremeram. Não era algo

agradável de ver, e Sara se alegrou de que Faith não estivesse presente para ouvir o arrepiante ruído
do metal ao separar a carne. Sara lhe aconteceu uma espátula

de frotis ao Pete, que tratou de inseri-la na vagina, mas não pôde.

Pete se inclinou para ver qual era o obstáculo.

-Por Deus bendito -murmurou, enquanto revolvia a bandeja do instrumental procurando uns
pequenos fórceps-. te Ponha as luvas, Sara. Tem que me ajudar com

isto.

Sara ficou as luvas e colocou suas mãos ao redor do espéculo enquanto Pete introduzia os fórceps,
que em realidade não eram mais que umas pinzas largas.

Por fim apanhou algo e atirou para fora. Era uma parte de plástico alargado e branco, que saía como
um lenço de seda da manga de um mago. Pete continuou e foi deixando

as partes de plástico ensangüentado em uma bacia. Estavam unidos por uma linha cunhada.

-Bolsas de lixo -disse Wíll.

Sara ficou sem respiração.

-Anna -disse-. Temos que examinar a Anna.

Capítulo dez

O despacho do Wíll no terceiro andar do edifício leste da prefeitura era pouco mais que um quarto
de serviço, com uma janela que dava a um par de vias de

trem em desuso e ao estacionamento de um armazém de ultramarinos, ponto de encontro este último


de certa gente de aspecto suspeito e com carros muito caros. O respaldo

de sua cadeira estava tão pego à parede que cada vez que se movia arranhava o gêsso. Embora
tampouco tinha que mover-se muito: podia ver todo o despacho sem nem

sequer mover a cabeça. Inclusive resultava difícil sentar-se na cadeira, porque tinha que acontecer
perfil entre a janela e o escritório para poder chegar a ela;

esta manobra o fazia alegrar-se de não ser uma mulher grávida.

Apoiou o queixo na mão enquanto esperava a que arrancasse o ordenador, vendo piscar a tela e os
ícones que surgiam no escritório. O primeiro que fez foi

abrir o correio e colocá-los auriculares para escutá-los com o SpeakText que tinha instalado uns anos
antes. Depois de apagar um par de mensagens publicitários com

ofertas para melhorar sua vida sexual e uma petição de um deposto presidente nigeriano encontrou
uma mensagem da Amanda e um aviso de mudança nas condições do seguro

médico do estado; reenviou-o a sua conta pessoal para poder desentranhar tranqüilamente os novos
recortes de cobertura.

Mas a mensagem da Amanda não requeria muito estudo. Ela sempre escrevia em maiúsculas e não
se complicava muito com a gramática. “me ponha AO DIA”, rezava

escuetamente também em negrito.

O que podia lhe contar? Que a sua vítima tinham introduzido na vagina quinze bolsas de lixo? Que
a Anna, a que tinha conseguido sobreviver, tinham-lhe feito

o mesmo? Que tinham transcorrido doze horas e seguiam sem ter nenhuma pista sobre quem tinha
podido as seqüestrar, e muito menos ainda sobre a relação que havia

entre ambas as mulheres?

Cegas, provavelmente surdas e mudas. Wíll tinha estado na cova onde as tinham tido retidas. Não
podia sequer imaginar o inferno pelo que tinham tido que

acontecer. Ver os instrumentos que tinha utilizado seu torturador já tinha sido bastante horrível, mas
imaginava que não poder vê-los devia ser muito pior. Ao menos

já não se culpava pela morte da Jackie Zabel, embora saber que a mulher tinha eleito o fim estando
tão perto de ser resgatada não lhe reconfortava precisamente.
Ainda podia ouvir o tom compassivo que tinha empregado Sara Linton ao lhe explicar como se
tirou a vida Zabel. Não era capaz de recordar quando foi a última

vez que uma mulher lhe falou assim, tratando de lhe lançar um salva-vidas em lugar de lhe gritar para
que nadasse mais depressa, como fazia Faith ou, ainda pior,

agarrando-se por suas pernas, como estava acostumado a fazer Angie.

Wíll se recostou em sua cadeira, sabendo que devia tirar-se a Sara da cabeça. Tinha entre mãos
um caso que requeria toda sua atenção, de modo que se obrigou

a concentrar-se nas mulheres pelas que realmente podia fazer algo.

Anna e Jackie deviam ter fugido da cova ao mesmo tempo; Jackie surda e cega, e Anna
provavelmente cega. As duas mulheres não teriam podido comunicar-se

mais que através do tato. Teriam andado agarradas da mão, tropeçando, tratando de encontrar a
provas o caminho para sair do bosque? Em qualquer caso, em algum momento

se separaram e terminaram perdendo-se. Anna deveu saber que estava na estrada ao notar o frio do
asfalto sob seus pés nus, e possivelmente ouviu o motor do carro

que se aproximava. Jackie foi em direção contrária e encontrou uma árvore pelo que subiu para
sentir-se mais segura. E ficou ali esperando. Notar o rangido da madeira,

o movimento dos ramos lhe deveu gelar o sangue nas veias, pois esperava que seu seqüestrador a
encontrasse em qualquer momento e a levasse de volta a aquele lugar

escuro e frio.

Deveu agarrar seu carnê de conduzir, sua identidade, com uma mão, e a arma que usou para
suicidarse na outra. Sua eleição resultava completamente incompreensível.

Baixar da árvore para caminhar sem rumo em busca de ajuda, arriscando-se a ser capturada de novo,
ou afundar a faca em seu peito? Lutar por sua vida ou tomar o controle

e lhe dar fim por sua própria mão?

A autópsia dava testemunho de qual tinha sido sua decisão. A folha tinha perfurado seu coração,
seccionando a artéria principal e fazendo que o sangue alagasse

seu peito. Segundo Sara, o mais provável era que Jackie tivesse morrido de forma foto instantânea,
pois seu coração se parou antes inclusive de cair da árvore. Soltou

a faca e o carnê de conduzir. Tinham encontrado aspirina em seu estômago que havia fluidificado seu
sangue, por isso tinha gotejado durante um bom momento depois
de sua morte, e daí as gotas quentes na nuca do Wíll. Ao olhar para cima e ver sua mão estendida
este acreditou que lhe pedia ajuda para liberar-se, mas em realidade

já o tinha obtido ela por seus próprios meios.

O policial abriu uma pasta grande que tinha sobre o escritório e tirou as fotos da cova. Viu os
instrumentos de tortura, a bateria de navio, as latas de

sopa sem abrir; Chárlie o tinha documentado tudo perfeitamente e tinha feito uma lista descrevendo
cada objeto. Foi passando as fotos e encontrou a imagem com o

melhor enquadramento da cova; seu companheiro se agachou junto à escada, tal como tinha feito Wíll
a noite anterior. Os abajures de xenônio iluminavam até a última

fresta. Wíll encontrou outra foto que mostrava os instrumentos de tortura alinhados como se fossem
achados de uma jazida arqueológica. A simples vista podia imaginar

para que serviam a maioria deles, mas alguns eram tão complicados, tão espantosos, que nem sequer
era capaz de conceber para que serviam exatamente.

Wíl estava tão absorto em seus pensamentos que demorou para dar-se conta de que seu móvel
estava soando. Abriu-o com muito cuidado e respondeu:

-Trent.

-Sou Lola, céu.

-Quem?

-Lola. Uma das garotas do Angie.

A prostituta da outra noite. Wíll tentou lhe imprimir a sua voz um tom indiferente, porque com
quem estava furioso era com seu ex, não com a puta, que se

limitava a fazer o que fazem os oportunistas: tentar aproveitar-se das circunstâncias. Mas não ia
deixar que se aproveitassem dele, estava farto de ter a essas garotas

revoando a seu redor.

-Olhe, não vou tirar te do cárcere. Se for uma das garotas do Angie, fala com ela.

-Não posso localizá-la.

-Já, pois eu tampouco, assim deixa de me chamar. Nem sequer tenho seu número. O safadas?

Não lhe deu ocasião de responder, simplesmente pendurou e deixou o móvel sobre a mesa com
muito cuidado. A cinta isolante começava a separar-se e a corda
se afrouxou. Tinha-lhe pedido ao Angie que lhe ajudasse com o do móvel antes de ir-se, mas, como
era habitual nela, não se tinha preocupado em nenhum momento do

assunto.

Olhou-se a mão, a aliança que levava no dedo. Era um idiota ou somente patético? Já não via a
diferença entre uma coisa e outra. Seguro que Sara Linton

não era o tipo de mulher que agüenta toda essa mierda em uma relação; e sem dúvida o marido da
Sara tampouco era um frouxo capaz de agüentar coisas assim.

-Deus, como ódio as autópsias -disse Faith entrando no despacho. A cor ainda não tinha voltado
para suas bochechas. Wíll sabia de sobra que era assim, ela

não o dissimulava, mas era a primeira vez que lhe ouvia admiti-lo abertamente-. Caroline, a
secretária da Amanda, deixou-me uma mensagem na rolha de voz. Não podemos

falar com o Joelyn Zabel sem que seu advogado esteja presente.

-De verdade pensa demandar ao departamento?

-Assim que encontre um advogado nas Páginas Amarelas. Está preparado para sair?

Wíll olhou o relógio na tela do ordenador. Tinham ficado com os Coldfield em meia hora e o
refúgio estava a dez minutos dali.

-Antes falemos um pouco disto -sugeriu.

Havia uma cadeira dobradiça apoiada contra a parede; Faith teve que fechar a porta para poder
sentar-se. Seu escritório não era muito maior que o do Wíll,

mas ao menos podia estirar as pernas. O policial não sabia muito bem por que, mas sempre
acabavam reunindo-se em seu escritório; possivelmente porque o do Faith

sim tinha sido antes um quarto de serviço. Não tinha janela e ainda flutuava no ambiente um forte
vapor a urina e a desinfetante. A primeira vez que fechou a porta,

quase se deprime por culpa dos eflúvios.

Ela assinalou o ordenador com um gesto da cabeça.

-O que é o que tem?

Girou o monitor para que pudesse ler a mensagem da Amanda. Faith entreabriu os olhos e franziu o
cenho: seu companheiro seguia tendo o fundo da mensagem

em rosa e a letra em azul marinho porque, por alguma estranha razão, assim lhe resultava mais fácil
decifrar as palavras. Resmungando, trocou as cores e se aproximou

o teclado para responder. A primeira vez que o fez Wíll se queixou amargamente, mas com o tempo
se deu conta de que Faith era assim com todo mundo. Pode que tivesse

que ver com o fato de ser mãe dos quinze anos, ou talvez era simplesmente um rasgo de seu caráter,
mas não ficava tranqüila se não o fazia todo ela.

Agora que Jeremy estava na universidade e Víctor Martínez tinha saído de sua vida, Wíll era o
único ao que podia manipular. Ele imaginava que era como ter

uma irmã maior, embora Angie se comportava igual e se deitava com ela. Quando coincidiam, claro.

-A estas horas Amanda já deve ter os resultados da autópsia do Jacquelyn Zabel -disse Faith sem
deixar de teclar-. O que temos? Não há rastros nem rastro

que seguir. Muito DNA no esperma e no sangue, mas ainda não há nenhuma coincidência com as base
de dados. Tampouco pudemos averiguar a identidade da Anna, nem tão

sequer seu sobrenome. Um atacante que cega a suas vítimas, perfura-lhes o tímpano, obriga-as a
beber desatascador de tuberías… As bolsas de lixo… Mierda! Não

sei nem por onde começar. As tortura com deus sabe o que, a uma delas lhe extirpa uma costela. -
Utilizou a flecha de deslocamento para inserir algo ao princípio

do artigo-. Provavelmente com o Zabel ia fazer o mesmo.

-A aspirina -disse Wíll-. A dose encontrada no estômago do Jacquelyn Zabel era dez vezes
superior a normal.

-Um detalhe por sua parte lhes dar algo para mitigar a dor. Lhe imagina? Apanhadas nessa cova,
sem poder lhe ouvir, sem ver o que fazia, sem poder pedir

auxílio. -Faith fez clique no botão de enviar e se recostou na cadeira-. Doze bolsas de lixo. Como
pôde acontecê-lo por alto Sara com a primeira vítima?

-Seguro que você não teria duvidado em lhe fazer um exame pélvico a uma paciente com quase
todos os ossos de seu corpo quebrados e um pé na tumba.

-Não seja suscetível. Não sei que pinta neste caso.

-Quem?

Faith pôs os olhos em branco e agarrou o camundongo para abrir o navegador.

-O que faz?
-vou investigar a. Seu marido morreu em ato de serviço, seguro que saiu nos periódicos.

-Isso não é justo.

-O que quer dizer com que não é justo?

-Faith, são assuntos pessoais. Não te coloque…

Pulsou a tecla de Entro. Wíll não sabia o que fazer, assim que se agachou e desligou o ordenador.
Ela moveu o camundongo e lhe deu à tecla de espaço. O

edifício era antigo, a luz se ia a três por quatro, assim levantou a vista e se precaveu de que as luzes
seguiam acesas.

-apagaste o ordenador?

-Se Sara Linton quisesse que conhecesse os detalhes de sua vida pessoal lhe contaria isso ela
mesma.

-O pau que tem metido pelo culo te ajuda a melhorar a postura? -Faith se cruzou de braços e lhe
lançou um olhar assassino-. Não te parece estranho o modo

em que se penetrou em nosso caso? Já não é forense, é uma médica civil. Se não fora tão bonita você
também o encontraria estranho…

-E o que tem que ver sua beleza com tudo isto?

Faith teve a cortesia de deixar suas palavras flutuando sobre eles como um néon com a palavra
“idiota”. E as luzes seguiram brilhando durante um minuto

antes de continuar.

-Se por acaso o esqueceste, recordo-te que tenho um ordenador em meu escritório. Se quero me
investigá-la resultará muito fácil.

-Pois encontre o que encontre, não quero sabê-lo.

Faith se esfregou a cara com as mãos. ficou olhando o céu cinza que se via da janela durante outro
comprido minuto.

-Isto não tem nenhum sentido. É um beco sem saída. Necessitamos um fio de que possamos atirar -
conjeturou Faith.

-Pauline McGhee…

-Léon não pôde localizar ao irmão. Diz que a casa do Pauline está poda: não há documentos nem
nada que tenha que ver com seus pais nem outros parentes.
Tampouco parece ter nenhum aliás, embora seria fácil ocultá-lo; bastaria pagando o suficiente às
pessoas adequada. Os vizinhos do Pauline mantêm sua versão: ou não

a conhecem ou não é santo de sua devoção; em qualquer caso não sabem nada de sua vida. Léon falou
também com os professores do colégio do menino: o mesmo. Pelo amor

de deus, seu filho está com os de serviços sociais porque a mãe não tem nenhum amigo que queira
fazer-se carrego dele.

-No que está agora Léon?

Faith olhou seu relógio de pulso.

-Provavelmente tenta encontrar um modo de liqüidar tudo isto quanto antes -disse esfregando-os
olhos de novo-. Está comprovando os rastros do McGhee, mas

não acredito que saque nada em limpo. A menos que tenha sido detida alguma vez.

-Segue molesto por que nos tenhamos metido em seu caso?

-Mais que antes. -Faith apertou os lábios-. Eu acredito que é porque esteve doente recentemente.
Já sabe como funciona: calculam o que os costa seu seguro

e procuram a maneira de desfazer-se de ti se gerar muitos gastos. E mais te vale não ter uma
enfermidade crônica que requeira um tratamento mais ou menos caro.

Por sorte, nem Wíll nem Faith tinham motivos para preocupar-se por isso ainda.

-Podemos deixar de lado o seqüestro do Pauline; talvez foi uma simples discussão e seu irmão
acabou perdendo os papéis, ou a seqüestrou um estranho. É uma

mulher muito atrativa.

-Se não ter relação com nosso caso, o mais provável é que fora alguém de seu entorno.

-O irmão.

-Não teria prevenido ao menino nesse sentido a menos que realmente estivesse preocupada -
raciocinou Faith-. E também está o tal Morgan… Um bode arrogante;

quando falei com ele por telefone senti vontades de lhe esbofetear. Talvez havia algo entre o Pauline
e ele.

-Trabalhavam juntos. Pode que ela o pressionasse muito e se o fora a mão. Passa-lhes muito aos
homens que trabalham com marimandonas.

-Ja, ja -replicou Faith-. Mas não crie que Felix o teria reconhecido?
Wíll se encolheu de ombros. Os meninos podiam bloquear algo. E aos adultos tampouco lhes dava
mau.

-Nenhuma das outras duas vítimas que conhecemos tem filhos. E ninguém deu parte à polícia de
seu desaparecimento, que saibamos. O carro do Jacquelyn Zabel

desapareceu. Não sabemos se Anna tiver carro, nem sequer sabemos ainda seu sobrenome. -O tom se
ia fazendo mais agudo conforme avançava na contagem-. O que digo

seu sobrenome? Igual nem sequer se chama Anna. Quem sabe o que ouviu Sara em realidade?

-Eu também o ouvi -disse Wíll, defendendo-a-. Ouvi que disse “Anna”.

Faith o ignorou.

-Ainda crie que poderia haver dois seqüestradores?

-Agora mesmo não estou seguro de nada, exceto de que quem quer que seja não é um aficionado.
Seu DNA está por toda parte, o que provavelmente indica que

não está fichado e não lhe preocupam nossos base de dados. Não temos nenhuma pista porque não as
deixou. É bom. Sabe como cobrir seu rastro.

-Um poli? -Deixaram a pergunta no ar e Faith continuou raciocinando-: De algum modo se as


acerta para que as mulheres não dele desconfiem… Deixam-lhe

aproximá-lo suficiente como para que possa as seqüestrar sem que ninguém o veja.

-Um traje -disse Wíll-. Em princípio as mulheres, e os homens também, revistam confiar-se mais
de um estranho se for bem vestido. Soa clasista, mas é a

verdade.

-Genial. Agora já solo temos que interrogar a todos os homens de Atlanta que levavam traje esta
manhã. Não havia rastros nas bolsas de lixo que encontramos

dentro das duas vítimas. Nada na cova que possamos rastrear. O rastro ensangüentado no carnê do
Jaquelyn Zabel é da Anna. Não sabemos seu sobrenome. Não sabemos

onde vive, nem onde trabalha, nem se tiver família. -Foi contando com os dedos.

-É evidente que o seqüestrador tem um método. E é paciente: escavou a cova e a preparou para
acomodar a suas vítimas. Como há dito antes, certamente vigia

às mulheres antes das seqüestrar. Não é a primeira vez que o faz; ou seja quantas vítimas terá havido
já.
-Sim, mas nenhuma viveu para contá-lo, ou teríamos encontrado algo na base de dados do FBI.

Nesse momento soou o telefone e Faith o agarrou.

-Mitchell.

Escutou uns segundos e tirou sua caderneta da bolsa. Anotou em grandes maiúsculas o que lhe
diziam, mas Wíll não era capaz de ler as palavras.

-Poderia seguir procurando a ver se averiguar algo mais? -Esperou-. Genial. Algo, me chame ao
móvel-. Era Léon: já tem os resultados dos rastros que encontramos

no todoterreno do Pauline McGhee. Seu verdadeiro nome é Pauline Agnes Seward. Alguém
denunciou seu desaparecimento na Ann Arbour, Michigan, em 1989, quando tinha

dezessete anos. Segundo a denúncia, seus pais disseram que tinham tido uma forte discussão. Pelo
visto ia por mau caminho: consumia drogas e não voltava para casa

a dormir. Tinham seus rastros porque foi acusada de roubar em uma loja, embora ela se declarou
inocente. A polícia local seguiu o protocolo habitual e arquivaram

seus rastros; fazia vinte anos que ninguém perguntava por ela. Isso concorda com o que disse
Morgan. Pauline lhe contou que sua irmã escapou de casa com dezessete

anos. Sobre o irmão não encontrou nada, mas vai investigar seus antecedentes mais a fundo. -Faith
voltou a guardar a caderneta em sua bolsa-. Está tentando localizar

a seus pais. Esperemos que sigam vivendo em Michigan.

-Seward não é um sobrenome muito comum.

-Não. Mas teríamos encontrado algo nas base de dados se o irmão tivesse estado comprometido
em algum delito grave.

-Temos uma fila de idade? Algum nome?

-Léon há dito que voltará a chamar assim que averigúe algo novo.

Wíll se recostou em sua cadeira e apoiou a cabeça na parede.

-Pauline segue sem formar parte do caso, de momento. Não temos nenhuma pauta que nos permita
conectá-la com as outras vítimas.

-Mas se parece muito a elas: não cai muito bem aos que a conhecem; não tem amigos, nenhum
íntimo, ao menos.

-Possivelmente ela e seu irmão fossem íntimos -sugeriu Wíll-. Leio diz que Pauline recorreu a um
doador de esperma para ter ao Felix. E se o irmão tivesse

sido o doador?

Faith soltou um grunhido de repugnância.

-Por Deus, Wíll.

O tom de lhe fez sentir-se culpado por haver-se atrevido a sugerir algo assim, mas o fato era que
seu trabalho consistia precisamente em ficar no pior.

-E então, o que outro motivo podia ter para lhe advertir a seu filho de que seu tio era um homem
mau do que ela devia lhe proteger?

Faith demorou uns segundos em decidir-se a responder.

-Abusos sexuais.

-Ao melhor equivoco -admitiu Wíll-. Talvez resulta que o irmão é um ladrão, um estelionatário ou
um yonqui. Inclusive pode que esteja no saco.

-Se houvesse algum Seward fichado em Michigan, Léon já teria encontrado seu expediente nas
base de dados.

-Possivelmente tenha havido sorte.

Faith meneou a cabeça.

-Pauline lhe tinha medo, não queria que seu filho se aproximasse dele. Isso indica que havia um
problema de violência, um temor relacionado com algum feito

violento.

-Mas você mesma o acaba de dizer: se a tivesse ameaçado ou acossado teríamos encontrado uma
denúncia ou um pouco parecido.

-Não necessariamente. A gente não recorre à polícia para resolver um problema familiar, e não
deixa de ser seu irmão. Sabe perfeitamente.

Wíll não estava tão seguro, mas ela tinha razão quanto à denúncia.

-O que teria que acontecer para que não permitisse que Jeremy tivesse nenhuma relação com seu
próprio irmão?

Faith ficou pensando um momento.

-Não me ocorre o que poderia fazer Zeke para que eu proibisse ao Jeremy falar com ele.
-E se te pegasse?

Faith abriu a boca para responder, mas mudança de opinião sobre o que ia dizer.

-Aqui não se trata do que faria eu, a não ser Pauline. -ficou calada, pensando-. A família é um
mundo muito complexo. A gente traga com algo quando se trata

de um membro da sua.

-Chantagem? -Wíll sabia que se estava agarrando a um prego ardendo, mas continuou-: E se o
irmão sabia de algo comprometedor relacionado com o passado do

Pauline? Teve que haver uma razão para que se trocasse o nome aos dezessete anos. Vinte depois tem
um bom trabalho, pagamento a hipoteca com comodidade, conduz um

bom carro… Provavelmente estaria disposta a pagar com tal de conservar esse status. -Mas ele
mesmo derrubou sua teoria-. Por outro lado, se o irmão lhe estivesse

fazendo chantagem não lhe conviria absolutamente apartar a de seu trabalho. Não há motivo para um
seqüestro.

-Não a seqüestraram para pedir um resgate. A ninguém importa que tenha desaparecido.

Wíll meneou a cabeça. Outro beco sem saída.

-Vale. Ao melhor Pauline não tem nada que ver com nosso caso. Possivelmente tenha com seu
irmão um cilindro ao estilo do filme Floresça no apartamento de

cobertura. E então, o que fazemos? Sentamo-nos a esperar a que desapareça uma terceira ou uma
quarta mulher?

Wíll não sabia o que responder a isso. Por sorte não era ele quem devia responder. Sua
companheira olhou o relógio.

-Já é hora de ir falar com os Coldfield.

Havia vários meninos no refúgio para mulheres da rua Fred, algo com o que Wíll não tinha
contado, embora era lógico que as mulheres sem lar tivessem filhos

em semelhante situação. Tinham passado os laços uma zona diante do refúgio para que pudessem
jogar. Tinha-os que diversas idades, mas imaginou que todos tinham menos

de seis anos porque a essas horas os majores estariam no colégio. Todos levavam roupas
desemparelhadas e descoloridas, e seus brinquedos tinham conhecido tempos

melhores: Barbies com o cabelo talhado, carros aos que lhes faltava já alguma roda. Wíll pensava
que deveria sentir pena por eles, porque lhes ver ali jogando era
como contemplar uma cena de seu próprio passado, embora aqueles meninos, a diferença dele,
tinham ao menos a um de seus progenitores para cuidá-los: uma mínima conexão

com o mundo normal.

-por Deus santo -disse Faith enquanto revolvia dentro da bolsa. Havia um bote para donativos no
mostrador da entrada principal, e introduziu dois bilhetes

de dez-. Mas quem vigia a estes meninos?

Wíll jogou uma olhada ao vestíbulo. As paredes estavam decoradas com recortáveis e desenhos de
Páscoa dos meninos. Também viu uma porta fechada com um pôster

que indicava que era o lavabo de senhoras.

-Certamente estará no banheiro.

-Qualquer poderia levar-lhe tranqüilamente.

Wíll não acreditava que houvesse muita gente interessada em levar-se a estes meninos. Esse era
parte do problema.

-“Pulse o timbre e lhe atenderemos” -disse Faith. Wíll imaginou que estava lendo o pôster que
havia debaixo do timbre, coisa que até um macaco teria podido

supor. apareceu por cima do mostrador e pulsou o timbre.

-Dão classes de informática.

-O que?

Faith agarrou um dos folhetos que havia sobre o mostrador e lhe mostrou os desenhos de mulheres
e meninos sorridentes na primeira página, e um par de logotipos

de patrocinadores debaixo.

-Classes de informática, orientação psicopedagógica, comidas -leu Faith-. Conselho médico de


orientação cristã. -Voltou a deixar o folheto em seu sítio-.

Suponho que isso significa que lhe dirão que vai ao inferno se abortar. Bom conselho para uma
mulher que já tem uma boca que não pode alimentar.

Pulsou o timbre com tal impaciência que saiu rodando pelo mostrador. Wíll se agachou para
recolher o timbre do chão e, ao levantarse encontrou com uma mujerona

hispana atrás do mostrador com um menino em braços. Com um forte acento texano falou diretamente
com o Faith:
-Se tiverem vindo a prender a alguém solo peço que não o façam diante dos meninos.

-viemos a falar com o Judith Coldfield -replicou Faith em voz baixa. Imaginava que os meninos
teriam adivinhado que era polícia, igual à mulher.

-Têm que ir pelo outro lado. Judith está a cargo da loja hoje.

Sem esperar a que lhe dessem nem as obrigado, deu meia volta e desapareceu pelo vestíbulo outra
vez. Faith abriu a porta e saíram à rua.

-Estes sítios me põem dos nervos.

Wíll pensou que era estranho odiar um refúgio para indigentes, inclusive no Faith.

-Mas como?

-Deveriam limitar-se às ajudar, sem pedir em troca que rezem.

-Há gente que encontra certo consolo na oração.

-E os que não? Não merecem que lhes ajude? Não tem casa e está morto de fome, mas não lhe dão
uma comida gratuita nem um lugar seguro onde dormir a menos

que assuma que o aborto é um crime abominável e aceite que outros lhe digam o que deve fazer com
seu corpo.

Wíll não estava muito seguro de como responder, assim que se limitou a segui-la pelo lateral do
edifício de tijolo enquanto ela se acomodava bruscamente

a correia da bolsa no ombro. Quando chegaram à porta da loja, Faith seguia resmungando. Fora havia
um letreiro que provavelmente tinha o nome do refúgio escrito.

Ninguém andava demasiado de dinheiro nesses momentos, e menos as instituições que dependiam da
caridade e o altruísmo da gente. Muitos dos albergues da zona aceitavam

donativos em espécie que revendiam para arrecadar recursos que lhes permitissem seguir mantendo
ao menos os serviços básicos. Havia pôsteres na cristaleira publicitando

os artigos que se vendiam na loja; Faith os leu conforme se aproximavam da entrada.

-“Móveis, têxtil lar, roupa, admitem-se doações, Portes gratuitos para artigos grandes.”

Wíll abriu a porta, desejando que Faith se calasse durante um bom momento.

-“Abrimos de segunda-feira à sábado.” “Não se admitem cães.”

-Vale, já está -lhe disse Wíll jogando uma olhada ao interior da loja.
Em uma prateleira havia vários liqüidificadores postos em fila, e no de debaixo, torradeiras e um
microondas compacto. Também havia roupa pendurada em cabides,

a maioria gosta muito que estavam de moda nos oitenta. As latas de sopa e demais comestíveis não
perecíveis estavam armazenados na parte da loja menos exposta ao

sol que entrava pelas cristaleiras. Ao Wíll soaram as tripas, e de repente se lembrou das latas de
comida que chegavam ao orfanato durante as férias. Ninguém doava

nunca costure boas. A maioria eram latas trocas de presunto e encurtidos, justo o que todos os
meninos queriam jantar em Véspera de natal. Faith viu outro pôster:

-“Todos os donativos se podem reduzir.” “O dinheiro arrecadado se destina integralmente a ajudar


a mulheres e meninos sem lar.” “Deus benze a quem benze

ao próximo.”

Wíll se precaveu de que lhe doía a mandíbula de tão aberta como tinha a boca. Felizmente não
teve muito tempo para recrear-se na dor: um homem apareceu

atrás do mostrador vestido como um granjeiro de filme.

-No que posso lhes ajudar?

Sobressaltada, Faith se levou uma mão ao peito.

-Quem coño é você?

O homem ficou tão avermelhado que Wíll quase pôde sentir seu calor na cara.

-Sinto-o -disse limpando-a mão no peitilho de sua camiseta. Umas sombras negras indicavam que
repetia esse mesmo gesto freqüentemente-. Sou Tom Coldfield.

vim a ajudar a minha mãe com…

Assinalou o chão de atrás do mostrador. Wíll viu que estava arrumando um cortador de grama e
tinha o motor parcialmente desmontado. Parecia que tentava

trocar a correia do ventilador, mas isso não justificava que houvesse despiezado o carburador.

-Há um… -começou Wíll.

-Sou a agente especial Faith Mitchell -lhe interrompeu ela-. E este é meu companheiro Wíll Trent.
Devemos falar com o Judith e Henry Coldfield. É você familiar

dele?
-São meus velhos -explicou o homem. Sorriu ao Faith mostrando seus grandes dentes de coelho-.
Estão aí detrás. Parece que a meu pai não faz muita graça

perder-se sua partida de golfe.

O homem pareceu reparar em quão absurdo devia resultar para eles este comentário.

-Desculpem, já sei que o que ocorreu a essa mulher é espantoso. É sozinho que… Enfim… Que já
contaram a esse outro detetive tudo o que viram.

Faith continuou sem perder a amabilidade.

-Estou segura de que não terão inconveniente em voltar a nos contar isso .

Tom Coldfield não parecia muito de acordo com ela, mas lhes fez um gesto para que
acompanhassem a trastienda. Wíll cedeu o passo ao Faith e foram abrindo-se

caminho entre as múltiplos caixas que havia pelo chão. Wíll deduziu que Tom devia ter sido bastante
atlético, mas sua compleição tinha trocado ao superar a barreira

dos trinta e agora tinha uma ampla cintura e os ombros cansados. A pequena calva que luzia no
cocuruto parecia a tonsura de um monge franciscano. Sem necessidade

de perguntar imaginou que devia ter um par de pirralhos: seu aspecto era o de um pai devoto.
Provavelmente conduzia uma caminhonete familiar e jogava futebol online.

-Desculpem a desordem -disse Tom-. Andamos curtos de voluntários.

-Trabalha você aqui? -perguntou-lhe Faith.

-OH, não, voltaria-me louco se tivesse que fazê-lo -disse rendo ante a expressão de surpresa do
Faith-. Sou controlador aéreo. Minha mãe me chantageia para

que venha a lhe dar uma mão quando andam curtos de gente.

-Esteve você no exército?

-Nas forças aéreas… Seis anos. Como o adivinhou? Faith se encolheu de ombros.

-É a forma mais fácil de conseguir a titulación -respondeu-. Meu irmão está nas forças aéreas,
destinado na Alemanha.

Tom apartou uma caixa que lhes estorvava o passo.

-No Ramstein?

-No Landstuhl. É cirurgião.


-As coisas andam feias por ali. Seu irmão deve ser um bom homem.

Faith deixou a um lado suas opiniões pessoais e voltou para sua faceta de polícia.

-Sim o é.

Tom se deteve frente a uma porta fechada e chamou com os nódulos. Wíll olhou para o corredor e
viu o mostrador onde lhes tinha atendido a mulher. Faith

se deu conta e, olhando ao Wíll, pôs os olhos em branco. O homem abriu a porta.

-estes mamãe são o detetive Trent Y… Perdoe, Mitchell?

-Sim -respondeu Faith.

Apresentou a seus pais, embora não havia necessidade alguma, pois na habitação não havia mais
que duas pessoas. Judith estava sentada depois de um escritório,

em cima do qual tinha um livro aberto de contabilidade. Henry estava sentado em uma cadeira, junto
à janela, lendo um periódico, e se tomou seu tempo para fechá-lo

e dobrá-lo cuidadosamente antes de atender aos agentes. Tom não tinha mentido ao dizer que a seu
pai não tinha feito nenhuma graça perder-se seu partido de golfe.

Henry Coldfield era como uma paródia do típico velho resmungão.

-Trago mais cadeiras? -perguntou Tom, e desapareceu sem esperar resposta.

O escritório era de tamanho normal, o suficientemente grande para albergar a quatro pessoas sem
que seus cotovelos se roçassem. Não obstante, Wíll ficou

na porta enquanto Faith tomava assento na única cadeira que ficava livre. Normalmente ficavam de
acordo de antemão sobre quem levaria a voz cantante, mas esta vez

não tinham preparado nada. Quando olhou ao Faith esta se limitou a encolher-se de ombros.
Resultava difícil saber por onde respiravam os Coldfield, de modo que não

tinham mais remedeio que improvisar. Ao interrogar a uma testemunha, o primeiro e mais importante
era fazer que se sentisse cômodo; a gente não está acostumada abrir-se

de forma espontânea, e não proporciona informação relevante até que não lhe deixa claro que não é o
inimigo. Posto que era Faith a que se sentou mais perto deles,

foi ela a primeira em falar.

-antes de nada, queria lhes agradecer que tenham acessado a falar conosco. Sei que falaram já com
o detetive Galloway, mas o que viram a outra noite deveu
resultar muito traumático, e às vezes fazem falta uns dias para recordar os detalhes com claridade.

-A verdade é que nunca nos tinha passado nada parecido -disse Judith Coldfield.

Wíll se perguntou se aquela mulher acreditava que outros mortais atropelavam todos os dias a uma
mulher que previamente tinha sido violada e torturada em

uma cova subterrânea. Ao parecer seu marido pensava o mesmo.

-Judith…

-OH, que tolice -disse a mulher levando-a mão à boca para ocultar um sorriso envergonhado.

Wíll soube então de quem tinha herdado Tom os dentes de coelho e a facilidade para ruborizar-se.

-Quero dizer que é a primeira vez que falamos com a polícia -se explicou a mulher acariciando a
mão de seu marido-. Ao Henry multaram por excesso de velocidade

uma vez, mas nada mais. Quando foi, lembra-te?

-No verão do 83 -respondeu Henry. A julgar pelo modo em que apertou a mandíbula não guardava
uma boa lembrança daquela experiência. Olhou ao Wíll como se

unicamente um homem pudesse entendê-lo-. Sete milhas por cima do limite.

Wíll procurou uma fórmula que lhe permitisse solidarizar-se com ele, mas tinha a mente em
branco.

-São vocês do norte? -perguntou ao Judith.

-Tanto se nota? -Rio a senhora, tampando-a boca de novo para ocultar seu sorriso. Seus dentes
deviam complexá-la muito-. Somos da Pennsylvania.

-Viviam ali antes de aposentar-se?

-OH, não. Mudávamo-nos com freqüência pelo trabalho do Henry. Vivemos no Oregón, no estado
de Washington, em Califórnia… Aquilo nós não gostamos de muito,

verdade? -Henry emitiu um grunhido-. Também vivemos no Oklahoma, mas por pouco tempo. esteve
ali alguma vez? É tudo muito plano.

Faith decidiu ir ao grão.

-E em Michigan?

Judith meneou a cabeça, mas Henry disse:

-Estive em um jogo de futebol americano em Michigan no 71. Michigan contra Ohio. Ficaram dez a
sete. Fazia um frio de mil demônios.

Faith aproveitou a oportunidade para lhe atirar da língua.

-Gosta do futebol americano?

-Detesto-o -respondeu Henry, e seu cenho parecia indicar que não guardava uma boa lembrança
daquilo, embora muitos matariam por assistir em direto a uma

partida tão renhido.

-Henry era viajante -lhes informou Judith-. E antes disso já tinha viajado muito. Seu pai era
militar, esteve no exército trinta anos.

Faith voltou para a carga, tentando encontrar o modo de conectar com o Henry.

-Meu avô também era militar.

Judith atravessou de novo.

-Henry tinha uma prorrogação e não participou da guerra. -Wíll imaginou que se referia ao
Vietnam-. Mas temos amigos que foram mobilizados, e nosso filho

esteve nas forças aéreas, o qual é um orgulho para nós. Verdade, Tom?

Wíll não se deu conta de que Tom já estava ali. O filho dos Coldfield sorriu com ar de desculpa.

-Sinto muito, não há mais cadeiras. Os meninos as agarraram para construir uma ponte.

-Onde esteve destinado? -perguntou-lhe Faith.

-No Keesler, duas vezes -respondeu Primeiro Tom fiz a instrução e logo fui subindo até chegar a
sargento maior a cargo da torre, no esquadrão 334. Falavam

de me transladar à base do Altus quando solicitei a licença do exército.

-ia perguntar lhe por que deixou você o exército, mas claro, acabo de cair em que Keesler está no
Mississippi e ninguém quereria viver nesse buraco.

Tom ficou avermelhado como um tomate e Rio, envergonhado.

-Certo, sim.

Faith se voltou para o Henry, pois supôs que não tirariam muito ao Judith sem obter antes a bênção
de seu marido.

-viajaram alguma vez ao estrangeiro?


-Não, nunca saímos que os Estados Unidos.

-Tem você acento de militar -comentou a agente, e Wíll imaginou que se referia a sua falta de
acento.

Finalmente pareceu que seu esforço começava a dar frutos.

-A gente vai aonde lhe dizem que tem que ir.

-Isso mesmo disse meu irmão quando o mandaram a Alemanha -disse Faith inclinando-se para
frente-. Se lhe disser a verdade, eu acredito que lhe gosta de

acontecê-la vida de um lado a outro, sem jogar raízes em nenhuma parte.

Henry começou a abrir-se um pouco mais.

-Está casado?

-Não.

-Uma mulher em cada porto?

-Deus, espero que não -replicou Faith rendose-. No que a minha mãe respeita, eram as forças
aéreas ou o sacerdócio.

Henry se pôs-se a rir.

-Sim, quase todas as mães querem o mesmo para seus filhos -disse apertando a mão de sua esposa,
quem olhava ao Tom sonriendo com orgulho.

-Disse você que era controlador aéreo? -perguntou-lhe ao filho.

-Isso. Trabalho no Chárlie Brown -disse refiriéndose ao aeroporto civil situado ao oeste de
Atlanta-. Levo ali uns dez anos, e eu gosto. Algumas noites

dirigimos também o tráfico do Dobbins. -Uma base militar situada nos subúrbios da cidade-. Seguro
que seu irmão aconteceu por ali mais de uma vez.

-Não sentiria saudades nada -replicou Faith, lhe olhando aos olhos o tempo suficiente como para
que o homem se sentisse adulado-. Vive você no Conyers?

-Sim, senhora -sorriu Tom, mostrando seus grandes dentes de coelho. Parecia mais cômodo agora,
com vontades de falar-. Mudei a Atlanta quando deixei Keesler.

-Assinalou a sua mãe com um gesto da cabeça-. Meus pais me deram uma alegria quando se deveram
viver aqui.
-Eles vivem na rua Clairmont, verdade?

Tom, sem deixar de sorrir, assentiu com a cabeça.

-O suficientemente perto como para não ter que trazer mala quando vêm para ver-me.

Parecia que ao Judith não agradava a repentina cumplicidade que se estabeleceu entre eles e se
apressou a intervir.

-À mulher do Tom adora a jardinagem -disse enquanto procurava algo na bolsa-. Mark, seu filho, é
um fanático dos aviões. Cada dia se parece mais a seu pai.

-Mamãe, não faz falta que lhes ensine…

Mas já era muito tarde. Judith tirou uma fotografia e a passou ao Faith, que não esqueceu proferir
as exclamações de rigor antes de passar-lhe ao Wíll.

Este contemplou a foto da família com gesto impassível. Sem dúvida, os gens dos Coldfield eram
dominantes: tanto o menino como a menina eram clavaditos

a seu pai. Para mais inri, Tom não se procurou uma mulher atrativa que compensasse um pouco a
herança genética: sua mulher tinha o cabelo loiro e gordurento e uma

careta de resignação que parecia indicar que isso era o mais ao que podia aspirar.

-Lhes dá-la informou Judith-. Têm casados quase dez anos, verdade, Tom?

O homem se encolheu de ombros com expressão envergonhada, como se fora um menino.

-Bonita família -disse Wíll devolvendo a foto ao Judith.

-Você tem filhos? -perguntou Judith ao Faith.

-A gente, sim -replicou sem entrar em mais detalhe-. Tom é seu único filho?

-Sim -respondeu Judith com um sorriso que voltou a esconder com sua mão-. Henry e eu pensamos
que nunca poderíamos… -Sem terminar a frase, olhou ao Tom

com orgulho e acrescentou-: Foi um autêntico milagre.

O homem se encolheu de ombros uma vez mais, visivelmente envergonhado. Faith trocou
sutilmente de atravesso para abordar o assunto que os tinha levado até

ali.

-Foram vocês a visitar o Tom o dia do acidente?

Judith assentiu.
-Queria fazer algo especial para celebrar nossos quarenta anos de casados, verdade, Tom? -Sua
voz adquiriu então um tom distante-. Que coisa mais horrível.

Não acredito que possa evitar recordá-lo nos aniversários que fiquem por diante…

-Não entendo como pôde acontecer algo assim. Como pôde essa mulher… -disse Tom meneando a
cabeça-Não tem sentido. Quem coño poderia fazer algo tão espantoso?

-Tom -exclamou Judith-, essa língua.

Faith olhou ao Wíll lhe dando a entender que estava fazendo um esforço sobre-humano por não pôr
os olhos em branco. Mas reagiu imediatamente e falou diretamente

com os pais.

-Sei que já o contaram tudo ao detetive Galloway, mas vamos repassar o desde o começo. Vocês
foram pela estrada quando viram a mulher, e então?

-Ao princípio pensamos que era um cervo -começou Judith-. Vimos alguns ao lado da estrada
outras vezes. De noite, Henry conduz mais devagar se por acaso

nos cruza algum.

-Ao ver os faróis ficam petrificados -explicou Henry, como se um cervo na estrada fora algo
insólito.

-Mas solo começava a entardecer. E então vi que havia algo na estrada. Abri a boca para avisar ao
Henry, mas já era muito tarde. Já o tínhamos atropelado.

Tínhamo-la atropelado, quero dizer. -A mulher tirou um lenço de sua bolsa e se secou os olhos-.
Esses homens tão amáveis tentaram socorrê-la, mas acredito que não…

Lógicamente, depois de…

Henry apertou de novo a mão de sua esposa.

-Segue no hospital -lhes explicou Faith-. Embora não sabem se sairá do vírgula.

-Deus bendito -sussurrou Judith quase como se rezasse-. Espero que não.

-Mamãe… -protestou Tom, surpreso.

-Já sei que sonha fatal, mas espero que não tenha que recordá-lo nunca.

A família ficou uns instantes em silêncio. Tom olhou a seu pai. Henry tragou saliva, e Wíll se deu
conta de que o homem estava recordando-o tudo de repente.
-Acreditei que me estava dando um ataque ao coração -disse.

Judith baixou o tom, como se queria lhes confiar um segredo sem que Henry, que estava justo a seu
lado, inteirasse-se.

-Henry padece do coração.

-Nada grave -esclareceu ele-. O ditoso airbag me saltou ao peito. Dispositivo de segurança,
dizem; esse invento do demônio quase me mata.

-Senhor Coldfield, viu você à mulher na estrada? -perguntou-lhe Faith.

Henry assentiu.

-Mas é o que diz Judith, já era muito tarde para frear. Não ia depressa. Ia dentro do limite de
velocidade. Vi algo… pensei que era um cervo, como há

dito. Pisei no freio a fundo. Apareceu de repente, não sei de onde saiu, de onde demônios saiu. Não
me dava conta de que era uma mulher até que me desci do carro

e a vi ali tiragem. Um horror. Um autêntico horror.

-Sempre levou você óculos? -perguntou Wíll com soma cautela.

-Sou piloto aficionado. Me gradúo a vista duas vezes ao ano. -tirou-se os óculos com atitude
defensiva, mas continuou falando sem subir o tom-. Pode que

seja velho, mas levo a graduação perfeitamente ao dia. Não tenho cataratas e os óculos corrigem
minha vista aos cem por cem.

Wíll decidiu que valia a pena atirar-se à piscina diretamente.

-E seu coração?

-Não é nada, em realidade -atravessou Judith-. Só terá que o ter controlado e vigiar que não se
canse muito.

Henry seguia indignado.

-Não necessito para nada aos médicos. Tomo um montão de pastilhas e não levanto pesos. Estou
estupendo.

Para lhe acalmar, Faith trocou de tema.

-Filho de um militar e além piloto?

Henry vacilou uns instantes, duvidando se deixar de lado a questão de sua saúde ou não.
Finalmente respondeu:

-Meu pai me deu algumas aulas de menino. Destinaram-no a uma base na metade do um nada, na
Alaska, e pensou que era um bom modo de me manter ocupado.

Faith sorriu e continuou suavizando as coisas.

-E o tempo acompanhava?

-Solo de vez em quando -replicou ele. pôs-se a rir-. Terei que aterrissar com muito cuidado…
Aquele vento gelado podia dar a volta ao avião como se fora

uma omelete. Às vezes me limitava a fechar os olhos e a rezar para que o trem tocasse terra e não
gelo.

-Campo frio -disse Faith, fazendo um trocadilho com seu sobrenome, Coldfield.

-Sim -replicou Henry, como se lhe tivessem gasto a mesma brincadeira muitas vezes. Voltou a ficá-
las óculos e ficou sério-. Olhem, não sou quem para lhe

dizer a ninguém como tem que fazer seu trabalho, mas por que não nos perguntam pelo outro carro?

-O que outro carro? -inquiriu Faith-. O que se parou para socorrê-la?

-Não, o outro, que passou como um raio em direção contrária. Deveu ser uns dois minutos antes de
que atropelássemos à garota.

Judith se apressou a romper o silêncio que seguiu a esta declaração.

-Mas vocês já sabiam, o contamos tudo ao outro policial.

Capítulo onze

Faith se passou todo o trajeto até a delegacia de polícia do condado recitando todos os
impropérios que lhe vieram à cabeça.

-Sabia que esse cretino me estava mentindo -disse amaldiçoando ao Max Galloway e a todo o
corpo de polícia do Rockdale-. Tinha que ter visto com que soberba

me olhou quando partiu do hospital. -Golpeou o volante com a mão aberta, desejando poder fazer o
mesmo com a cara do Galloway-. A que coño estão jogando? É que não

viram o que fizeram a essa mulher, pelo amor de Deus?

A seu lado, Wíll guardava silêncio. Como de costume, Faith não tinha a menor idéia do que podia
estar pensando seu companheiro. Não tinha aberto a boca

desde que subiram ao carro, e não o fez até que chegaram ao estacionamento para visitantes da
delegacia de polícia do Rockdale.

-Te aconteceu já o encho o saco? -perguntou-lhe.

-Pois não, certamente que não. Mentiram-nos. Nem sequer nos enviaram por fax o relatório sobre
o cenário do crime. Como coño vamos avançar em um caso se

nos ocultarem informação que poderia…?

-Pensa em por que o têm feito -lhe interrompeu Wíll-. Uma das vítimas está morta, a outra pouco
mais ou menos, e mesmo assim seguem nos ocultando informação.

As vítimas lhes importam um carajo, Faith. O único que lhes importa é seu próprio ego e nos deixar a
nós em evidência. Estão filtrando informação à imprensa, negam-se

a colaborar conosco. Crie que se entrarmos aí pegando tiros a destro e sinistro vão dar o que
queremos?

Faith abriu a boca para responder, mas Wíll se estava baixando já do carro. Deu a volta até o
outro lado e lhe abriu a porta a sua companheira como se fossem

noivos.

-Por uma vez na vida me faça caso. É melhor dirigir este assunto com um pouco de emano
esquerda.

Faith fez um gesto depreciativo com a mão.

-Não penso lamber o culo ao Max Galloway.

-Farei-o eu, não se preocupe -a tranqüilizou Wíll, lhe oferecendo sua mão como se necessitasse
ajuda para sair do carro.

Ela agarrou sua bolsa do assento de atrás e seguiu a seu companheiro pela calçada, pensando que
não era de sentir saudades que tudo o que se encontrava

com o Wíll Trent tomasse por um advogado do estado. A falta de ego de seu companheiro lhe
resultava difícil de entender. Fazia um ano que trabalhavam juntos, e em

todo esse tempo não lhe tinha visto expressar emoção alguma além de certa irritação ocasional,
geralmente dirigida a ela. Uns dias lhe via mais sério e outros mais

risonho, e freqüentemente se sentia culpado por um montão de coisas, mas jamais lhe tinha visto
verdadeiramente zangado. Em uma ocasião esteve encerrado em uma habitação
com um tipo que umas horas antes tinha tentado lhe colocar uma bala na cabeça, e não mostrou outra
coisa que não fora empatia.

O policial de uniforme que atendia o mostrador na recepção o reconheceu imediatamente.

-Trent -disse a modo de saudação.

-Detetive Fierro -o saudou Wíll, embora era evidente que o homem já não era detetive. Os botões
do uniforme logo que conseguiam conter sua imensa barriga.

Tendo em conta o que havia dito a Amanda de tirar brilho ao porrete do Lyle Peterson, ao Faith
surpreendia que o homem não tivesse acabado em cadeira de rodas.

-Teria que ter fechado a trampilla e te haver deixado nessa cova -disse Fierro.

-Pois eu me alegro de que não o fizesse -replicou Wíll. Assinalou a Esta Faith é minha
companheira, a agente especial Mitchell. Temos que falar com o detetive

Mark Galloway.

-Falar do que?

Faith não estava disposta a seguir com delicadezas. Abriu a boca para dizer uma barbaridade, mas
Wíll a dissuadiu com um sozinho olhar.

-Se o detetive Galloway está ocupado, possivelmente possamos falar com o chefe Peterson -disse.

-Ou também poderíamos falar com esse seu amiguete do Atlanta Beacon e lhe explicar que essas
histórias que estivestes lhe filtrando não são mais que uma

cortina de fumaça para tampar todos os enganos que cometestes neste caso.

-Não me cabe dúvida de que é uma autêntica zorra.

-E ainda não viu nada -lhe espetou Faith-. me Traga para o Galloway imediatamente ou dou parte à
chefa. Já te deixou sem placa, o que será o próximo? Eu

apostaria por seu minúsculo…

-Faith -disse Wíll a modo de aviso.

Fierro levantou o auricular e marcou uma extensão.

-Max, aqui há um par de casulos que querem falar contigo -disse. Pendurou bruscamente o
telefone-. Ao outro lado do vestíbulo, primeiro corredor à direita,

primeira porta à esquerda.


Faith conduziu a seu companheiro, pois ele não teria sabido para onde ir. A delegacia de polícia
era o típico edifício estatal dos anos sessenta, com muito

pavés e mau ventilado. As paredes estavam cheias de pôsteres com recomendações, fotografias de
oficiais em andaimes e eventos para arrecadar recursos. Seguindo as

instruções de Fierro, girou à direita e se deteve frente à primeira porta à esquerda.

Faith leu o pôster que havia na porta.

-Bode -resmungou.

Fierro lhes tinha mandado à sala de interrogatórios.

Wíll alargou o braço e abriu a porta. Faith lhe viu olhar a mesa ancorada ao chão e as barras
situadas aos lados para algemar aos detidos enquanto interrogavam.

-A nossa é mais acolhedora -foi tudo que disse Wíll.

Havia duas cadeiras, uma a cada lado da mesa. Faith soltou sua bolsa em que estava de costas ao
falso espelho e se cruzou de braços; não queria estar sentada

quando Galloway entrasse na habitação.

-Estamos fazendo o gilipollas. Deveríamos dar parte a Amanda. A boas horas ia ela a permitir que
nos toureassem desta maneira.

Wíll se apoiou contra a parede e se meteu as mãos nos bolsos.

-Se envolvermos a Amanda em tudo isto, eles já não teriam nada que perder. Deixa que se
desafoguem um pouco a nossa costa. Que mais dá se ao final conseguimos

a informação que necessitamos?

Faith olhou fugazmente o falso espelho, perguntando-se se estariam todos detrás observando-os.

-Quando isto tenha terminado penso apresentar uma queixa por escrito. Por obstrução à justiça, por
obstaculizar uma investigação em curso, por mentir a

um oficial de polícia. A esse gilipollas de Fierro já lhe tiraram sua placa de detetive, e Galloway
terá sorte se destinarem a canil do condado.

Faith ouviu no corredor uma porta que se abria e se voltava a fechar. Uns segundos mais tarde
Galloway apareceu pela porta com a mesma pinta de obtuso ignorante

da noite anterior.
-Hão-me dito que queriam falar comigo.

-Vamos de falar com os Coldfield -disse Faith.

O homem saudou o Wíll com um gesto da cabeça. Este fez o próprio.

-Posso saber por que não me falou do outro veículo ontem à noite? -perguntou ela.

-Acreditei havê-lo feito.

-E uma mierda. -Faith não sabia o que a irritava mais, se que Galloway tomasse como um jogo, ou
que se sentisse obrigada a usar com ele o mesmo tom que

com o Jeremy quando o castigava. O policial elevou as mãos sonriendo ao Wíll.

-Sua companheira é sempre assim de histérica? Possivelmente é que está nesses dias…

Faith sentiu que seus punhos se contraíam com força. Estava a ponto de mostrar o que era uma
mulher verdadeiramente histérica.

-Vamos -atravessou Wíll interpondo-se entre os dois-, você nos conte o do carro e tudo o que
tenha averiguado até agora. Não vamos colocar te um puro. Não

queremos ter que te tirar a informação pelas más.

Wíll se foi para a cadeira e tirou de cima a bolsa do Faith antes de sentar-se. ficou com ele no
regaço, o que lhe dava um aspecto um tanto ridículo, como

se estivesse esperando a sua mulher enquanto se provava roupa. Fez um gesto ao Galloway para que
se sentasse ao outro lado da mesa e disse:

-Temos a uma vítima ingressada no hospital, provavelmente em estado de vírgula irreversível. A


autópsia do Jacquelyn Zabel, a mulher da árvore, não arrojou

nenhuma luz sobre o caso. Agora mesmo há outra mulher desaparecida, seqüestrada no
estacionamento de uma loja de alimentação. Seu filho ficou sozinho no assento

dianteiro. chama-se Felix e tem seis anos. Está sob a tutela dos serviços sociais, aos cuidados de
gente a que não conhece. Solo quer que sua mamãe volte para casa.

Galloway permaneceu impassível. E Wíll prosseguiu:

-Não lhe deram essa placa de detetive por sua cara bonita. Ontem à noite pôs controles nas
estradas. Sabia que os Coldfield tinham visto um segundo carro.

Esteve parando às pessoas. -Decidiu trocar de tática-. Não lhe fomos com o conto a seu chefe e não
lhe jogamos em cima a nossa chefa porque não podemos nos dar o
luxo de perder o tempo. A mãe do Felix desapareceu. Poderia estar em outra cova, atada a outra
cama, sob a qual não demorará para haver outra vítima. De verdade

quer levar todo esse peso sobre sua consciência?

Por fim Galloway exalou um profundo suspiro e se sentou. recostou-se na cadeira e tirou sua
caderneta do bolso de atrás, grunhindo como se lhe provocasse

dor física.

-Eles disseram que era branco, provavelmente um sedan? -perguntou Galloway.

-Sim -respondeu Wíll-. Henry Coldfield não conhecia o modelo. Disse que parecia antigo.

Galloway assentiu. Passou-sua caderneta ao Wíll, que fixou a vista nas palavras e passou as
páginas como se estivesse lendo antes de passar-lhe ao Faith.

Ela viu três nomes com direções do Tennessee e números de telefone. Agarrou-a bolsa ao Wíll para
copiar os detalhes.

-Duas mulheres, irmãs, e o pai -lhes explicou o detetive-. Vinham da Florida e se dirigiam ao
Tennessee. Seu carro se avariou a umas seis milhas de onde

o Buick atropelou a nossa primeira vítima. Viram um sedan branco que vinha na outra direção e uma
das irmãs tentou pará-lo. Diminuiu um pouco, mas não se deteve.

-Pôde ver o condutor?

-Negro, com uma boina de beisebol e a música a todo trapo. Disseme que se alegrou de que não
parasse.

-Viu a matrícula?

-Só três letras: Alfa, Foxtrot, Chárlie. Isso reduz as possibilidades a uns trezentos mil carros, dos
quais dezesseis mil são brancos, e a metade estão

registrados nessa zona.

Faith anotou as correspondentes letras -A, F, C-pensando que a matrícula não lhes serviria de nada
a não ser que tropeçassem com um carro que respondesse

à descrição. Folheou o caderno do Galloway, tratando de averiguar que mais lhes ocultava.

-Eu gostaria de falar com os três -disse Wíll.

-Muito tarde -replicou o policial-. Retornaram ao Tennessee esta manhã. O pai é muito maior e não
se encontra muito bem. Deu-me a impressão de que o levavam
de volta para que morrera em sua casa. Poderiam lhes chamar, ou lhes deslocar até ali, mas lhes
asseguro que não lhes contarão nada novo.

-Encontraram algo mais na cena do crime? -perguntou Wíll.

-O que leísteis nos informe, nada mais.

-Ainda não os temos.

Galloway parecia quase arrependido.

-Sinto muito. A secretária teria que lhes haver isso mandado por fax imediatamente.
Provavelmente estarão em sua mesa, enterrados sob um montão de papéis.

-Podemos passar a recolhê-los antes de ir -lhe disse Wíll-. Te importa me fazer um resumo?

-Mais ou menos o que caberia esperar. Quando chegou a patrulha, o tipo que se deteve ajudar, o
enfermeiro, estava atendendo à vítima. Judith Coldfield estava

fora de si, junto a seu marido, pensando que tinha sofrido um ataque ao coração. Chegou a
ambulância, levou-se a vítima e o velho já se encontrava melhor, assim

que ficou esperando à segunda, que veio aos poucos minutos. Nossos meninos chamaram os detetives
e passaram os laços a zona: nada fora do habitual. Esta vez não

lhes minto: não encontramos nada.

-Nós gostaríamos de falar com o agente que chegou primeiro para conhecer suas impressões de
primeira mão.

-Agora mesmo está em Montana de pesca com seu sogro -disse Galloway encolhendo-se de
ombros-. Não lhes estou tirando o sarro, de verdade. Tinha planejadas

essas férias faz tempo que.

Faith tinha visto um nome nas notas do Galloway que lhe resultava familiar.

-Que pinta aqui Jake Berman? -perguntou Faith, e explicou ao Wíll-: Rick Sigler e Jake Berman
são os dois tipos que se detiveram para socorrer a Anna.

-Anna? -perguntou Galloway.

-É o nome que a vítima nos deu quando a ingressaram -explicou Wíll-. Rick Sigler era o LHES que
não estava de serviço, verdade?

-Isso é -confirmou Galloway-. Essa história de que tinham ido ao cinema a ver um filme me
pareceu um tanto imprecisa.
Faith emitiu um grunhido, perguntando-se em quantos becos sem saída podia meter-se aquele tipo
antes de cair de puro idiota.

-O caso -continuou ignorando ao Faith-é que estive comprovando seus antecedentes. Sigler está
limpo, mas Berman tem antecedentes.

Faith sentiu um nó no estômago. Essa mesma manhã se passou duas horas frente ao ordenador e
não lhe tinha ocorrido comprovar os antecedentes dos implicados.

-Uma condenação por exibicionismo e provocação sexual. -Sorriu ao ver a cara de surpresa do
Faith-. O tipo está casado e tem dois filhos, e o pilharam faz

seis meses follándose a outro tio no centro comercial Geórgia. Pelo visto, um guri entrou e os
encontrou em plena tarefa. Um degenerado de mierda. Minha mulher compra

ali.

-falaste com o Berman? -perguntou Wíll.

-Deu-me um número falso. -De novo lançou ao Faith um olhar carregado de ironia-. A direção que
figura em seu carnê de conduzir tampouco está atualizada,

e a busca cruzada não deu nenhum resultado.

Faith viu que havia uma lacuna em sua história e saltou.

-Como sabe que tem mulher e dois filhos?

-Está no relatório da detenção. Estava com eles no centro comercial; estavam-lhe esperando fora. -
Galloway torceu o gesto-. Se me admitirem um conselho,

vão atrás dele.

-Mas as vítimas foram violadas -disse Faith lhe devolvendo sua caderneta-. Aos gays não
interessam as mulheres. É o que os faz gays.

-Parece-te que a esse assassino gosta das mulheres?

Faith não respondeu, mais que nada porque não lhe faltava razão.

-E o que tem que o Rick Sigler? -perguntou Wíll.

Galloway fechou sua caderneta com muita parcimônia e a guardou no bolso.

-Está limpo. Trabalha como técnico sanitário há dezesseis anos. Foi ao instituto Heritage, um
pouco mais abaixo. -Galloway pôs cara de asco-. Estava na
equipe de futebol, por incrível que pareça.

Wíll se tomou seu tempo antes de formular uma última pergunta.

-Que mais te guarda?

Galloway olhou aos olhos.

-Isso é tudo o que tenho, kimosabi.

Faith não lhe acreditou, mas Wíll parecia satisfeito.

-Obrigado por nos atender, detetive -disse, e lhe estreitou a mão.

Faith acendeu as luzes ao entrar na cozinha, soltou a bolsa sobre a encimera e se desabou na
mesma cadeira em que tinha começado o dia. Doía-lhe a cabeça

e tinha o pescoço tão tenso que lhe doía movê-lo. Agarrou o telefone para escutar as mensagens da
secretária eletrônica. Jeremy lhe tinha deixado uma mensagem breve

e inusualmente carinhoso. “Olá, mamãe, solo chamo para saber como está. Quero-te”. Faith franziu o
cenho, pensando que ou tinha suspenso o exame de química ou necessitava

dinheiro extra.

Marcou seu número, mas pendurou antes de que desse sinal. Faith estava tão esgotada que até tinha
a vista um pouco nublada, e o único que queria era dar

um banho quente e tomar uma taça de vinho, embora tendo em sua conta estado, nenhuma das duas
coisas lhe convinha muito. Não queria piorá-lo tudo lhe jogando uma

bronca a seu filho.

Seu portátil seguia na mesa, mas não quis olhar o correio. Amanda lhe havia dito que se passasse
por seu escritório ao final do dia para falar de seu desmaio

do dia anterior. Faith olhou o relógio da cozinha. A jornada trabalhista tinha terminado fazia
momento, de fato eram quase as dez da noite. Certamente Amanda estaria

já em casa, lhes chupando o sangue a quão insetos tivessem cansado esse dia em seu tecido de
aranha.

Perguntou-se se haveria algo que pudesse piorar ainda mais o dia, mas decidiu que a essas horas
era matematicamente impossível. passou-se as últimas cinco

em companhia do Wíll, entrando e saindo do carro, chamando portas, falando com todo homem,
mulher ou menino que tinha saído a abrir -alguns nem sequer se incomodaram
em abrir-e perguntando pelo Jake Berman. Havia vinte e três pessoas com esse nome repartidas por
toda a área metropolitana. Faith e Wíll tinham falado com seis

deles, descartado a doze e não tinham podido localizar a outros cinco, que ou não estavam em casa,
ou não estavam em seu posto de trabalho ou, simplesmente, não

tinham querido abrir a porta.

Se encontrar ao tipo fora mais fácil pode que Faith não estivesse tão preocupada. As testemunhas
mentiam à polícia todo o tempo; davam nomes falsos, falsos

números de telefone, detalhe inexatos. Era algo tão habitual que já nem sequer lhe incomodava. Mas
o do Berman era distinto. Todo mundo deixa um rastro documentário

detrás de si; varrendo registros antigos de móveis ou direções anteriores pode localizar rapidamente
a sua testemunha e te plantar diante dele como se não tivesse

tido que perder uma manhã inteira lhe seguindo a pista.

Com o Jake Berman não havia rastro documentário algum. Nem sequer tinha apresentado a
declaração da renda no ano anterior; ao menos não com o nome do Jake

Berman. Isto trouxe para sua mente o espectro do irmão do Pauline McGhee. Possivelmente Berman
tinha trocado de nome, igual a Pauline Seward. Talvez Faith tinha

compartilhado mesa com o assassino a primeira noite na cafeteria do hospital Grady. Ou pode que
fora um estelionatário e por isso não usava nunca cartões de crédito

nem telefones móveis, e que Pauline McGhee tivesse decidido partir deste mundo porque sim, porque
às vezes as mulheres partem sem mais.

Faith começava a compreender que essa opção tinha suas vantagens.

Em um dos trajetos entre casa e casa, Wíll tinha chamado ao Beulah, Edna e Wállace Ou’Connor,
do Tennessee. Max Galloway não lhes tinha enganado quanto

ao pai; o ancião estava em uma residência e não andava muito bem da cabeça. As irmãs se mostraram
muito comunicativas e era evidente que queriam ajudar, mas o único

que puderam lhes dizer sobre o sedan branco que tinham visto acontecer a toda velocidade em
sentido contrário é que tinha o pára-choque manchado de barro.

Rick Sigler, o homem que acompanhava ao Jake Berman aquela noite, tampouco lhes tinha ajudado
muito mais. Quando Faith o chamou e se identificou, o homem

se levou um susto de morte, como se o fora dar um enfarte. Estava em uma ambulância, transladando
a um paciente ao hospital, e ainda tinha que acontecer recolher
a outros dois. Faith consertou uma entrevista com ele para a manhã seguinte, às oito, quando
terminasse seu turno.

ficou olhando seu portátil. Sabia que devia escrever um e-mail a Amanda para mantê-la informada,
embora sua chefa as arrumava muito bem para inteirar-se

de tudo. Finalmente decidiu cumprir com seu dever. aproximou-se o portátil, abriu-o e pulsou a barra
espaciadora para ativá-lo.

Em lugar de abrir o programa de correio cravou sobre o ícone do navegador. Estendeu suas mãos
sobre o teclado e seus dedos começaram a mover-se de forma

espontânea: “Sara Linton Condado do Grant Geórgia”.

O Firefox lhe devolveu quase três mil resultados. Clicó no primeiro enlace, que a levou até uma
página de medicina pediátrica que lhe pedia um nome de usuário

e uma contra-senha para acessar ao artigo da Sara Linton sobre má formações do septo ventricular
em meninos desnutridos. O segundo enlace remetia a outro sítio igualmente

fascinante e Faith foi até o final da página, onde encontrou um artigo sobre um tiroteio em um bar do
Buckhead cujas vítimas tinham sido atendidas pela Sara no Grady.

Era consciente de que o que estava fazendo era absurdo. Fazer uma busca geral estava bem, mas
inclusive os artigos publicados nos periódicos só recolhiam

uma parte da história. Quando matavam a um oficial de polícia, sempre se recorria ao DIG. Faith
podia acessar aos arquivos policiais através da base de dados internacional

da agência. Abriu o programa e fez uma busca genérica; de novo o nome da Sara aparecia por toda
parte, tinha atestado em centenas de casos em qualidade de perito

forense. Faith reduziu o âmbito da busca eliminando seus comparecimentos como perito.

Esta vez obteve sozinho dois resultados. O primeiro era um caso de agressão sexual com mais de
vinte anos de antigüidade. Como é habitual na maioria de

buscadores havia uma breve descrição dos conteúdos justo debaixo do enlace, umas quantas linhas
que explicavam someramente o caso. Leu-as e colocou o ponteiro sobre

o enlace, mas sem chegar a cravar. Vieram-lhe à cabeça as palavras do Wíll, sua valente defesa da
intimidade da Sara Linton.

Possivelmente tivesse uma parte de razão.

Cravou no segundo enlace e acessou ao expediente do caso do Jéffrey Tolliver. Saltava à vista que
a vítima era um policial. Informe-os eram largos e detalhados;
do tipo que escreve quando quer que todas e cada uma das palavras ali escritas se sustentem quando
subir ao estrado a atestar. Olhou o histórico do Tolliver, seus

anos de serviço como representante da lei. Havia hipervínculos que permitiam acessar aos casos nos
que tinha trabalhado. Faith conhecia alguns de havê-los visto

nas notícias, e outros porque tinha ouvido falar deles a algum companheiro na cantina.

Continuou lendo sobre a vida do Tolliver e, pelo respeito com que a gente o descrevia, fez-se uma
idéia da classe de homem que deveu ser. Não parou até

que chegou às fotos pertencentes à cena do crime: Tolliver tinha morrido a conseqüência da explosão
de uma bomba de fabricação caseira. Sara estava com ele, tinha-o

presenciado tudo, tinha-lhe visto morrer. As fotografias eram assustadoras, o corpo tinha ficado
destroçado. De algum modo as fotos da cena do crime tinham terminado

mesclando-se: Sara com as mãos estendidas para que a câmara pudesse captar as salpicaduras de
sangue. O rosto da doutora, em um primeiro plano muito curto, com os

olhos tão inertes como os de seu marido nas fotos tomadas no necrotério.

Segundo todos os arquivos, o caso seguia aberto. Não havia nenhuma resolução. Nenhum arresto.
Nenhuma condenação. Resultava estranho, tendo em conta que

se tratava do assassinato de um policial. O que era o que havia dito Amanda sobre o Coastal?

Faith abriu outra janela. Entre as competências do DIG estava a de investigar todas as mortes
ocorridas em instituições públicas. Faith procurou as mortes

acontecidas no cárcere do Coastal nos últimos quatro anos. Eram dezesseis em total. Três delas
tinham sido homicídios: um racista de extrema direita tinha morrido

por cacetada na sala comum e dois afroamericanos se apunhalaram mutuamente com a manga de uma
escova de plástico afiado. Faith olhou rapidamente os outros treze:

oito suicídios e cinco mortes devidas a causas naturais. Pensou no que Amanda havia dito a Sara
Linton: “Nós cuidamos dos nossos”.

Os guardas das instituições penitenciárias o chamavam “liberar um detento sob a custódia do


Muito alto”. A morte tinha que ser discreta, pouco chamativa

e, sobre tudo, verossímil. Um policial sabia perfeitamente como cobrir seus rastros. Faith imaginou
que algum dos que tinham morrido por overdose ou suicídio devia

ser o assassino do Tolliver; era uma morte triste e lamentável, mas um ato de justiça, ao fim e ao
cabo. Sentiu uma espécie de alivio ao saber que o assassino tinha
sido castigado e que lhe tinham economizado à viúva um comprido e penoso julgamento.

Faith fechou os arquivos um por um e voltou a abrir o Firefox. Escreveu o nome do Jéffrey
Tolliver ao lado do da Sara Linton na barra de buscas e imediatamente

apareceram na tela vários artigos no periódico local. O Grant Observer não era exatamente um
periódico de primeira linha: publicava em sua capa o menu diário da

escola de primário e as notícias mais destacadas glosavam as proezas da equipe de futebol do


instituto.

Dado que agora já conhecia as datas exatas não demorou muito em localizar os artigos
relacionados com o assassinato do Tolliver. Monopolizaram as páginas

do periódico durante várias semanas. Ao Faith surpreendeu descobrir que era um homem muito
bonito. Havia uma foto do matrimônio em um evento formal: ele ia de smoking

e Sara luzia um vestido negro e apertado. junto a seu marido a via radiante, parecia outra mulher.
Curiosamente foi essa foto a que lhe fez sentir-se culpado por

andar bisbilhotando na vida privada da Sara. Parecia insultantemente feliz nela, como se
absolutamente toda sua vida fora perfeita. Faith olhou a data: a fotografia

tinha sido tomada duas semanas antes da morte do Tolliver.

Com este último descobrimento, fechou o portátil. sentia-se abatida e levemente enojada de seu
comportamento. Ao menos nisto Wíll tinha toda a razão: não

deveria ter bisbilhotado.

Em penitência tirou o glucosómetro. Tinha-lhe subido o açúcar, e teve que parar um momento a
pensar para recordar o que devia fazer. Tinha que cravar-se

outra vez. Olhou em sua bolsa. Solo ficavam três dose de insulina e ainda não tinha pedido entrevista
com a Délia Wállace.

subiu a saia para cravar-se na coxa. Ainda tinha a marca da injeção que se pôs no banheiro na hora
de comer. Um pequeno hematoma rodeava a marca da agulha,

e pensou que o melhor era cravar-se na outra perna. A mão não lhe tremeu tanto como a vez anterior,
e só teve que contar até vinte e seis antes de cravar a agulha

em sua coxa. recostou-se na cadeira, esperando a que a injeção lhe fizesse efeito. Passou um minuto
inteiro e se sentiu ainda pior.

“Amanhã”, pensou. O primeiro que faria ao levantarse seria pedir entrevista com a Délia Wállace.
Levantou-se e se estirou a saia. A cozinha parecia um desastre: os pratos se acumulavam na pia e o
cubo do lixo estava transbordado. Não era muito ordenada,

mas normalmente sua cozinha estava impecável; tinha tido que visitar muitas cenas do crime nas que
a vítima jazia no chão de uma imunda cozinha e a cena sempre despertava

nela um sentimento de hostilidade para a mulher, como se se merecesse que seu noivo a matasse a
pauladas ou que um desconhecido lhe pegasse um tiro por ter a pia

cheia de pratos sujos.

Perguntou-se o que pensaria Wíll quando contemplava a cena de um crime. Tinham investigado
juntos muitos homicídios, mas quando estavam frente a um cadáver

seu rosto era sempre inescrutável. Tinha começado sua carreira no DIG. Nunca tinha levado
uniforme, nunca lhe tinham chamado para investigar um aroma estranho e

se encontrou com uma anciã morta em seu sofá, não sabia o que era sair a patrulhar, nem tinha tido
que parar a um condutor por excesso de velocidade sem saber de

antemão se seria um adolescente inofensivo ou um pandillero armado o que ia ao volante.

Era asquerosamente “passivo”. Faith não podia entendê-lo. em que pese a sua atitude, Wíll era um
homem forte e grande. Saía a correr todos os dias, assim

caíssem cacetetes de ponta ou fizesse um sol se justiça, levantava pesos, inclusive tinha escavado um
lago em seu jardim. Havia tanto músculo baixo esses trajes

que tanto gostava que seu corpo parecia estar lavrado em pe E entretanto, essa mesma tarde se ficou
sentado, com a bolsa do Faith no regaço, lhe suplicando ao

Galloway um pouco mais de informação. Se ela tivesse estado em seu lugar teria esquecido ao
cretino do Galloway contra a parede para lhe espremer os testículo até

que cantasse A Traviata.

Mas ela não era Wíll, e este nunca faria uma coisa assim. Ele se limitava a estreitar a mão ao
Galloway e a lhe agradecer a cortesia profissional como um

gorila curto de luzes.

Agachou-se para tirar o detergente em pó de debaixo da pia, mas a caixa estava vazia. Voltou a
deixá-la em seu sítio e foi para a geladeira para apontá-lo

na lista da compra. Levava três letras escritas quando viu que já o tinha pontudo. Duas vezes.

-Mierda -murmurou, e se levou a mão ao ventre. Como ia fazer se carrego de um menino se nem
sequer era capaz de cuidar de si mesmo? Queria ao Jeremy, adorava-o,

mas tinha tido que esperar dezoito anos para começar a fazer sua vida, e agora que por fim o tinha
conseguido teria que voltar a esperar outros dezoito. Para então

teria já mais de cinqüenta, seria quase uma avó com direito a descontos para a terceira idade.

Era isso o que queria? Estava realmente em condições de fazer frente a algo assim? Não podia lhe
pedir outra vez a sua mãe que lhe desse uma mão. Evelyn

queria muito ao Jeremy, e jamais se queixou por ter que cuidar de seu neto -nem durante o tempo que
Faith esteve na academia de polícia nem quando tinha que dobrar

o turno para poder chegar a fim de mês-, mas a estas alturas não podia esperar que sua mãe a
ajudasse como a ajudou então.

Com quem mais podia contar?

Com o pai da criatura não, certamente. Víctor Martínez era alto, moreno, bonito… e
completamente incapaz de cuidar de si mesmo. Era chefe de estudos na

politécnica da Geórgia e tinha quase vinte mil alunos a seu cargo, mas nem sequer era capaz de
encontrar um par de meias três-quartos limpos pelas manhãs. Tinham

saído juntos seis meses antes de que ele se mudasse a sua casa, coisa que lhe tinha parecido
incrivelmente impulsiva e romântica até que começaram a conviver realmente.

Ao cabo de uma semana, Faith já o fazia a penetrada ao Víctor, recolhia-lhe a roupa do tintura,
preparava-lhe a comida e limpava o que ele sujava. Era como ter que

criar ao Jeremy outra vez, embora a seu filho ao menos o podia castigar se não cumpria com suas
obrigações. Um dia, Faith acabava de esfregar a pilha quando chegou

Víctor e lhe deixou uma faca engordurada de manteiga de amendoim no escorredor; foi a gota que
encheu o copo. Se tivesse tido à mão a pistola nesse momento lhe teria

pego um tiro.

À manhã seguinte se foi de sua casa.

Apesar de tudo, Faith não pôde evitar enternecer-se pensando no Víctor enquanto fechava a bolsa
do lixo. Essa era outra diferença entre seu filho e seu

ex-amante: a este não terei que lhe pedir seis vezes que tirasse o lixo. Era uma das tarefas que mais
odiava Faith, e -por ridículo que possa parecer-sentiu que

os olhos lhe enchiam de lágrimas enquanto pensava que tinha que tirar o lixo, baixar com a bolsa
pelas escadas e atirá-la no contêiner.

Alguém bateu na porta: três golpes curtos e logo o timbre.

Enxugou-se as lágrimas de caminho à porta; tinha as bochechas tão úmidas que teve que usar a
manga. Ainda levava em cima a pistola, assim não se incomodou

em olhar pela mira.

-Isto sim que é novo -disse Sam Lawson-. Normalmente as mulheres choram quando vou, não
quando chamo a sua porta.

-O que quer, Sam? É tarde.

-Não vais convidar me a entrar? -perguntou movendo as sobrancelhas-. O está desejando.

Faith estava muito cansada para discutir, assim que se deu meia volta e lhe convidou a segui-la até
a cozinha. Tinha estado saindo uns anos com o Sam Lawson,

mas já nem sequer sabia o que tinha visto nele. Bebia muito, estava casado, não gostava dos
pirralhos. Resultava-lhe cômodo e sabia quando partir, o qual significava

que se ia assim que tinha completo sua função.

Vale, agora já recordava o que era o que tinha visto nele.

Sam se tirou o chiclete da boca e o atirou ao lixo.

-Me alegro de ter tropeçado hoje contigo. Tenho que te contar algo.

Faith se preparou para escutar as más notícias.

-Você dirá.

-Já não bebo. Levo um ano completamente sóbrio.

-vieste a fazer as pazes?

Sam se pôs-se a rir.

-Por Deus, Faith. Deve ser a única pessoa em minha vida a que não deixei tiragem.

-Solo porque eu te dava a patada antes de que tivesse ocasião

-replicou Faith fechando a bolsa do lixo de um puxão.

-Essa bolsa vai se romper.


Não tinha terminado a frase quando o plástico se rachou.

-Mierda -resmungou Faith.

-Quer que…?

-Posso sozinha.

Sam se inclinou sobre o mostrador.

-eu adoro observar a uma mulher fazendo as tarefas do lar.

Faith o fulminou com o olhar.

Sam sorriu de novo.

-Acredito que hoje no Rockdale te despachaste a gosto.

Faith blasfemou mentalmente ao recordar que Max Galloway ainda não lhes tinha enviado os
relatórios relativos à cena do crime. Estava tão furiosa que não

tinha estado pendente, e não estava disposta a permitir que voltasse a lhe sair com que tudo era mera
rotina.

-Faith, te estou falando.

-A polícia do Rockdale colabora sem reservas na investigação -respondeu sem sair-se do


lembrado.

-É a irmã a que deveria preocupar-se. Viu as notícias? Joelyn Zabel vai por aí culpando a seu
companheiro da morte de sua irmã.

Aquilo era algo que não pensava permitir.

-Lê o relatório da autópsia.

-Já o tenho lido -replicou Sam. Faith imaginou que Amanda tinha filtrado o relatório a certas
pessoas para que divulgassem seu conteúdo o antes possível-.

Jacquelyn Zabel se suicidó.

-Há-lhe dito isso à irmã? -perguntou-lhe Faith.

-Não lhe importa a verdade.

Faith lhe olhou com ironia.

-Como à maioria.
O jornalista encolheu os ombros.

-Já conseguiu o que queria de mim. Agora prefere sair em televisão.

-O Atlanta Beacon não é o suficientemente bom para ela, né?

-por que te põe tão bordo comigo?

-Eu não gosto de seu trabalho.

-Tampouco me enlouquece o teu, sabe? -foi para o armário da pia para tirar uma bolsa de lixo-.
Coloca-a dentro de outra bolsa.

Faith agarrou uma nova bolsa e tratou de não pensar no que Pete tinha achado durante a autópsia.

-O que diz ele? Refiro a seu companheiro, Trent -perguntou Sam com ar distraído enquanto voltava
a guardar o pacote de bolsas no armário.

-O departamento de relações públicas te dará a informação que necessite.

Não era dos que aceitavam um não por resposta.

-Francis me disse que Galloway lhe deixou hoje à altura do betume. Pintou-me isso como um
gorila com poucas luzes.

A agente se esqueceu por um momento do lixo.

-Quem é Francis?

-Fierro.

Mentalmente Faith se desfrutou no efeminado do nome.

-E você vai e publica o que te diz esse casulo sem te incomodar em contrastar a informação com
alguém que te contaria a verdade.

Apoiou-se no mostrador da cozinha.

-Afrouxa um pouco, quer? Limito-me a fazer meu trabalho.

-Deixam-lhe pôr desculpas em Alcoólicos Anônimos?

-Não publiquei o do assassino do rim.

-Porque se demonstrou que não era verdade antes de que o fizesse.

Pôs-se a rir.
-Não há maneira de penetrar um farol -disse observando-a enquanto lutava com o lixo para
colocá-la na segunda bolsa-. Deus, como te senti falta de.

Faith lhe fulminou com o olhar, mas suas palavras não lhe deixaram indiferente. Sam tinha sido seu
salva-vidas durante muitos anos; podia recorrer a ele

quando de verdade o necessitava, mas não a curvava com suas cuidados.

-Não publiquei nada sobre seu companheiro -lhe disse.

-Obrigado.

-Mas o que é o que acontece Rockdale? É evidente que vão a por vós.

-Têm mais interesse em nos deixar em evidência que em encontrar ao tipo que seqüestrou a essas
mulheres.

-Faith não se parou a pensar em que estava verbalizando os sentimentos do Wíll-. Sam, é algo
terrível. Vi a uma delas com meus próprios olhos. Esse assassino…

quem quer que seja…

Demorou muito em dar-se conta de com quem estava falando.

-Off the record -disse ele.

-Nada é off the record.

-É óbvio que sim.

Faith sabia que era sincero. No passado lhe tinha contado secretos que ele tinha guardado
celosamente. Coisas relacionadas com alguns de seus casos. Secretos

sobre sua mãe, uma boa polícia que tinha perdido seu trabalho porque tinham pilhado a alguns de
seus detetives colocando a mão em contrabandos de droga. Sam jamais

tinha publicado nada do que Faith lhe tinha contado, e por isso devia confiar nele agora. Mas não
podia, porque não se tratava sozinho dela, também concernia ao

Wíll. Pode que nesse momento odiasse a seu companheiro por ser tão pusilânime, mas por nada do
mundo ia deixar que ninguém lhe questionasse.

-O que te passa, neném?

Faith olhou a bolsa de lixo rasgado que tinha a seus pés, sabendo que se levantava a vista ele
poderia lê-lo tudo em sua cara. Recordou o dia em que descobriu
que a sua mãe a tinham expulso do corpo. Evelyn não quis que ninguém a consolasse; preferiu que a
deixassem sozinha, e sua filha se sentiu igual até que apareceu

Sam, que se tinha coado em sua casa exatamente igual a agora. Ao sentir seus braços ao redor de seu
corpo, Faith se desmoronou e rompeu a chorar como um bebê.

-Neném?

Ela abriu a bolsa nova de uma sacudida.

-Estou cansada, de mau humor e parece que não se inteira de que não vou te dar nenhum titular.

-Não quero um titular. -O tom do Sam tinha trocado. Faith elevou a vista para lhe olhar,
surpreendida ao ver um sorriso dançando em seus lábios-. Está…

Lhe vieram à cabeça muitas forma de terminar a frase: torcida, suarenta, como uma baleia.

-Preciosa -disse Sam para surpresa de ambos. Nunca tinha sido muito propenso à adulação, e
certamente Faith não estava acostumada a escutá-los.

Saiu de atrás do mostrador e se aproximou dela.

-Vejo-te distinta -disse lhe tocando o braço. A rugosidade de sua palma fez que uma quebra de
onda de calor e de desejo percorresse todo o corpo dela-.

Não sei, parece tão…

Estava muito perto e olhava fixamente seus lábios, como se queria beijá-los.

-OH -exclamou Faith-. Não, Sam.

Apartou-se bruscamente. Já lhe tinha passado com seu primeiro embaraço: aos homens dava de lhe
atirar os discos, por lhe dizer que estava preciosa, embora

tivesse a barriga tão grande que não podia nem atá-los cordões dos sapatos. Deviam ser os
hormônios, as feromonas, ou algo assim. Com quatorze lhe dava um pouco

de desgosto, mas agora, com trinta e três, simplesmente lhe incomodava.

-Estou grávida.

Suas palavras ficaram flutuando entre os dois como um globo de chumbo. Faith caiu na conta então
de que era a primeira vez que as pronunciava em alto.

Sam tentou lhe tirar Fierro ao assunto fazendo uma brincadeira.

-Vá, e nem sequer tive que me tirar as calças.


-Digo-o a sério. Estou grávida.

-Mas como…? -Ao Sam parecia lhe custar encontrar as palavras-. O pai?

Faith pensou no Víctor; ainda tinha suas meias três-quartos no cubo da roupa suja.

-Não sabe.

-Deveria dizer-lhe Tem direito ou seja o.

-Desde quando é o mais indicado para decidir o que é moral ou imoral em uma relação?

-Desde que minha mulher se submeteu a um aborto sem me dizer nada. -Sam se aproximou dela e
lhe pôs as mãos sobre os ombros. Levantou os seus-. Gretchen

pensava que não estava preparado. Provavelmente tinha razão, mas ainda assim…

Faith se mordeu a língua. Pois claro que Gretchen tinha razão: até um dingo lhe teria sido de mais
ajuda para criar a um filho.

-Foi enquanto saía comigo?

-Depois -respondeu Sam baixando a vista. Apertou o braço do Faith e percorreu com os dedos o
pescoço de sua blusa-. Ainda não havia meio doido fundo.

-Não estava em situação de tomar uma decisão responsável.

-Ainda estamos tentando entender o que aconteceu.

-Por isso está aqui?

Sam a beijou apaixonadamente. Faith sentiu a aspereza de sua barba e o sabor da canela do
chiclete que tinha estado mascando. Subiu-a em cima do mostrador

e suas línguas se entrelaçaram. Ao Faith não desagradou, e quando as mãos do Sam se deslizaram por
suas coxas e lhe subiram a saia não resistiu. De fato lhe ajudou,

embora provavelmente não deveria havê-lo feito, porque isso precipitou o final de maneira
desnecessária.

-Perdoa -se desculpou Sam meneando a cabeça e quase sem fôlego-. Não pretendia… Eu
sozinho…

Ao Faith dava igual. em que pese a que com os anos tinha conseguido tirar-se o da cabeça, pelo
visto seu corpo recordava cada centímetro do do Sam. Era

tão condenadamente agradável voltar a estar em seus braços, voltar a sentir a cercania de alguém que
sabia tudo de sua família, de seu trabalho e de seu passado…

inclusive embora esse corpo não lhe servisse de muito agora mesmo.

Faith beijou seus lábios com muita ternura.

-Não passa nada.

Sam se apartou. Estava muito envergonhado para dar-se conta de que não importava.

-Sammy…

-Ainda não lhe agarrei o tranqüillo a isto de estar sóbrio.

-Não passa nada -repetiu Faith, e tentou lhe beijar de novo.

Ele se apartou bruscamente, olhando por cima de seu ombro para não olhá-la aos olhos.

-Quer que…? -disse, assinalando seu entrepierna sem muita convicção.

Faith exalou um profundo suspiro. por que todos os homens de sua vida a decepcionavam sempre?
Deus sabia que suas expectativas não eram muito altas.

Sam olhou seu relógio.

-Gretchen deve estar me esperando. Ultimamente estou trabalhando até tarde.

Faith se rendeu e apoiou a cabeça no armário que tinha detrás. Mas ainda podia tirar partido
daquela situação.

-Importa-te te levar o lixo ao sair?

Capítulo doze

-Maldita seja -murmurou Pauline, e imediatamente se perguntou por que não o gritava a voz em
pescoço-. Joder! -uivou, com todas suas forças.

Agitou as mãos, sujeitas com algemas, e atirou com força, em que pese a que sabia que não lhe
serviria de nada. Era como se a tivessem metido no cárcere:

as algemas estavam fortemente atadas a um cinturão de couro, de modo que embora conseguisse
dobrar seu corpo até fazê-lo uma bola não podia nem tocá-la queixo com

a ponta dos dedos. Tinha os pés encadeados e os grossos elos tilintavam a cada passo que dava.
Tinha praticado tanto o ioga que podia ficá-los pés detrás da cabeça
mas do que lhe servia? Para que demônios servia a postura do arado quando era sua vida o que
estava em jogo?

A atadura que lhe cobria os olhos só piorava as coisas, embora tinha conseguido deslocá-la um
pouco esfregando sua cara contra os blocos de cimento situados

ao longo de uma das paredes. Estava muito apertada. Milímetro a milímetro, tinha conseguido
afrouxá-la, embora para isso tinha tido que esfolar-se meia cara. A habitação

estava às escuras, mas Pauline sentia que tinha avançado algo, que estaria preparada quando a porta
se abrisse e pudesse ver um pouco de luz por debaixo da atadura.

Mas de momento, tudo estava às escuras. Escuridão era tudo que podia ver. Não havia janelas,
nem luz, nem nada que pudesse lhe servir para medir o passado

do tempo. Pensando-o bem, embora não podia vê-lo, bem podia ser que alguém a estivesse vigiando,
ou gravando-a, ou pior ainda, que se estivesse voltando louca. Que

demônios, já estava começando. Estava empapada em suor. As gotas brotavam de seu couro cabeludo
e lhe faziam cócegas ao deslizar-se pelo nariz. Resultava enloquecedor,

e a maldita escuridão o fazia ainda mais difícil.

Ao Felix gostava da escuridão. adorava que se metesse na cama com ele e lhe contasse contos.
Gostava de se esconder entre os lençóis e tampá-la cabeça com

a manta. Possivelmente lhe tinha mimada muito quando era mais pequeno. Nunca lhe permitia ir-se
aonde ela não pudesse vê-lo. Dava-lhe medo que alguém o seqüestrasse,

que alguém se desse conta de que em realidade ela não deveria ser mãe, de que não estava
capacitada para amar a um menino da forma em que precisa ser amado. Mas

o queria: adorava a seu filho. Queria-o tanto que pensar nele era o único que lhe impedia de fazer
uma bola, enrolá-las cadeias ao redor do pescoço e suicidarse.

-Socorro! -gritou, sabendo que não serviria de nada. Se alguém pudesse ouvi-la-a teriam
amordaçado.

Umas horas antes tinha percorrido a habitação e calculado que devia medir uns seis metros de
comprimento por um pouco mais de quatro. Uma das paredes era

feita de blocos de cimento, as demais de gêsso, e havia também uma porta metálica que estava
fechada por fora. Em um rincão havia um colchão de vinil e um cubo com

tampa para fazer suas necessidades. O cimento estava frio sob seus pés nus. ouvia-se um zumbido
que vinha da habitação do lado: um aquecedor de água, algo mecânico.
Estava em um porão, clandestinamente, e isso o fazia sentir pavor. Odiava estar clandestinamente.
Nem sequer deixava o carro na garagem quando ia ao escritório,

até esse ponto o detestava.

Deixou de caminhar e fechou os olhos.

Ninguém estacionava em seu sítio, justo ao lado da porta. Às vezes saía a que lhe desse um pouco
o ar e se aproximava até a porta da garagem para assegurar-se

de que sua praça estava vazia. Podia ler o letreiro da rua: PAULINE MCGHEE. Deus, o que teve que
batalhar com a empresa que pintava os rótulos para que pusessem

essa “c” em minúscula. A alguém havia flanco o posto, mas lhe dava igual, porque quem fora não
tinha sabido fazer seu trabalho.

Se descobria que alguém tinha estacionado em seu sítio chamava ao encarregado para que o tirasse
com a grua. Porsche, Bentley, Mercedes… ao Pauline dava

igual. ganhou-se em pulso essa puñetera praça. E embora não a usasse, não ia permitir que ninguém
mais o fizesse.

-Me tirem daqui! -gritou, e sacudiu os braços, tentando desfazer do cinturão. Mas era muito grosso,
parecia-se com os que levava seu irmão nos anos setenta.

Tinha uma dobro fila de buracos e dois dentes na fivela. O metal parecia recubierto de cera, e sabia
que os dente estavam soldados. Não podia recordar quando tinha

ocorrido, mas sabia de sobra que tato tinha um cinturão soldado.

-Socorro! -gritou-. Que alguém me ajude!

Nada. Ninguém vinha a ajudá-la. Ninguém respondia. O cinturão lhe cravava na pele e o fazia
machuco nos quadris. Se não estivesse tão asquerosamente gorda

poderia escapulir-se tranqüilamente.

“Água”, pensou. Quando tinha bebido por última vez? Podia estar sem comer várias semanas,
inclusive meses, mas não sem beber. Podia agüentar três ou quatro

dias até que aparecessem os primeiros sintomas: cãibras, delírio, fortes dores de cabeça. Pensariam
lhe dar água? Ou foram deixar que se debilitasse para poder lhe

fazer o que quisessem enquanto ela estava indefesa como um menino?

“Um menino.”
Não. Não queria pensar no Felix. Morgan cuidaria dele; não permitiria que a seu filho acontecesse
nada mau. Era um bode e um mentiroso, mas cuidaria do

Felix, porque no fundo não era uma má pessoa. Pauline sabia distinguir às pessoas má, e Morgan
Hollister não o era.

Ouviu ruído de passos a suas costas, ao outro lado da porta. deteve-se agüentando a respiração
para poder escutar melhor. Escadas, alguém estava descendo

pelas escadas. face à escuridão podia ver as paredes que a rodeavam. O que era pior: estar sozinha
ali abaixo ou estar apanhada em companhia de outra pessoa?

Sabia muito bem o que vinha a seguir. Sabia perfeitamente. Nunca se conformava com uma
sozinha. Sempre queria dois: cabelo escuro, olhos escuros e um coração

solitário para poder destroçá-lo. Tinha-as mantido separadas de momento, mas agora queria as ter às
duas juntas. Enjauladas como dois animais. Lutando desesperadamente,

como animais.

A primeira ficha do dominó estava a ponto de cair, e detrás iriam caindo todas as demais. Uma
mulher sozinha, duas mulheres sozinhas, e depois…

Ouviu uma voz que dizia: “Não-não-não-não”, e se deu conta de que era sua própria voz o que
ouvia. tornou-se para trás e se pegou à parede; os joelhos lhe

tremiam de tal maneira que, de não haver-se apertado contra o rugoso bloco de cimento, teria se
cansado ao chão. Suas mãos também tremiam e faziam tilintar a cadeia

das algemas.

-Não -murmurou, solo uma palavra, para não sucumbir ao medo. Era uma supervivente. Não se
tinha esforçado tanto durante os últimos vinte anos para acabar

morrendo em um maldito zulo subterrâneo.

A porta se abriu. Viu uma chama de luz por debaixo da atadura.

-Aqui tem a seu amiga -disse o homem.

Ouviu algo que caía ao chão e, continuando, um angustiado suspiro, ruído de cadeias e, por fim, o
silêncio. Ouviu também outro som, mais suave; um ruído

surdo que ressonou por toda a habitação.

A porta se fechou. A luz desapareceu. ouvia-se um ruído sibilante, como de alguém que respirava
com dificuldade. A provas, Pauline encontrou o corpo de
que provinha a respiração. Cabelo comprido, os olhos enfaixados, o rosto magro, seios pequenos e
as mãos algemadas por diante. A mulher tinha o nariz rota, daí o

som sibilante.

Mas não havia tempo para preocupar-se disso. Registrou os bolsos de sua companheira, esperando
encontrar algo que as ajudasse a sair dali. Nada. Solo outra

pessoa mais que também necessitaria água e comida.

-Mierda -resmungou, e se sentou sobre seus talões, tratando de reprimir as vontades que tinha de
ficar a uivar a pleno pulmão. Seus pés se chocaram com

algo duro e alargou a mão, recordando que tinha ouvido cair algo mais.

Passou as mãos pelos borde da caixa de cartão, calculando que mediria uns quinze centímetros
quadrados. Pesava o menos um par de quilogramas. Tinha uma

linha cunhada em um dos lados, assim pressionou o cartão e abriu a caixa. No interior encontrou algo
escorregadio.

-Não! -exclamou.

“Outra vez não.”

Fechou os olhos e notou que uma lágrima escapava por debaixo da atadura. Felix, seu trabalho, seu
Lexus, sua vida… Tudo se desvaneceu quando seus dedos

acariciaram o plástico das bolsas de lixo.


TERCEIRO DIA

Capítulo treze

Wíll se tinha obrigado a sair da cama às cinco da manhã, sua hora habitual. Tinha saído a correr
com inapetência e a ducha não lhe havia espabilado muito

mais. Estava apoiado na pia da cozinha enquanto seus cereais se abrandavam na terrina quando Betty
ficou a lhe lamber o tornozelo para lhe tirar de seu estupor.

Agarrou a correia da cadela, que estava junto à porta, e se agachou para enganchá-la ao colar.
Betty lhe lambeu a mão e ele acariciou sua minúscula cabeça.

Sair à rua com o chihuahua lhe resultava muito embaraçoso. Era a classe de cão que uma jovem
estrela podia tirar passear dentro de uma bolsa de pele, mas logo que

podia seguir o passo ao Wíll. Para mais inri, não levantava nem quinze centímetros do chão, e
quando foi comprar a correia a única o suficientemente larga para que

pudesse levá-la com comodidade era de cor rosa gritão. No parque, muitas mulheres atrativas lhe
tinham feito notar que fazia jogo com seu colar de strass justo antes

de tentar lhe arrumar uma entrevista com seus irmãos.

Betty tinha chegado a sua vida como uma espécie de herança, quando seu vizinho a deixou
abandonada um par de anos antes. Angie odiou à cadela a primeira

vista e castigou ao Wíll pelo que ambos sabiam era a pura verdade: que um homem que se criou em
um orfanato não ia jogar no lago a um animal abandonado, por muito

ridículo que se sentisse cada vez que tinha que tirá-lo passear.

Não era esse o único detalhe vergonhoso de sua vida com a cadela, havia alguns mais que nem
sequer Angie conhecia. Os horários de trabalho do Wíll eram

bastante irregulares e às vezes, quando uma investigação começava a avançar, logo que tinha tempo
de passar por casa para trocar-se de camisa. Tinha posto o lago

no jardim para a Betty, pensando que assim poderia distrair-se vendo nadar aos peixes. Os primeiros
dias se dedicava a lhes ladrar, mas logo se esqueceu deles e

preferia ficar tombada no sofá a esperar ao Wíll.

Wíll suspeitava que em realidade tirava o sarro, que subia correndo ao sofá quando ouvia as
chaves e fingia haver-se passado todo o tempo esperando-o ali

tombada quando em realidade tinha estado entrando e saindo pela gatera, jogando com as carpas do
lago e escutando seus discos.

Apalpou-se os bolsos para assegurar-se de que levava a carteira e o móvel e se colocou a capa da
pistola no cinturão. Saiu de casa e fechou a porta com

chave. De caminho ao parque, Betty levava o rabo rígido e o agitava alegremente. Wíll olhou a hora
no móvel: tinha ficado com o Faith ao cabo de trinta minutos na

cafeteria do outro lado do parque. Quando um caso estava em pleno apogeu, normalmente preferia
encontrar-se com ela na cafeteria que passar a recolhê-la por sua

casa. Se Faith tinha reparado alguma vez em que a cafeteria estava justo ao lado de um centro de dia
para cães chamado Ladrador tinha tido o bom gosto de não

mencioná-lo.

Cruzaram a rua com o semáforo em vermelho; Wíll ia devagar para que a cadela pudesse lhe
seguir o passo, mais ou menos como com a Amanda no dia anterior.

Não sabia o que lhe preocupava mais, se o caso, no que seguiam sem ter muitas pistas com as que
trabalhar, ou o fato de que Faith estivesse zangada com ele. Não

era nem muito menos a primeira vez que ocorria, mas nesta ocasião seu aborrecimento tinha um ponto
de decepção.

Tinha notado certa pressão por sua parte, embora Faith não tivesse chegado a verbalizarlo. O
problema radicava em que eram dois tipos de polícia completamente

distintos. Fazia muito tempo que se deu conta de que sua falta de agressividade na hora de encarar o
trabalho chocava frontalmente com o enfoque do Faith, mas longe

de ser uma fonte de conflito, sempre tinha sido um contraste benéfico para os dois. Mas agora já não
estava tão seguro. Faith queria que se comportasse como a classe

de polícia que Wíll detestava: os que primeiro tiram os punhos e deixam os remorsos para depois.
Wíll odiava a esses policiais, em mais de uma ocasião tinha tido

que tirá-los patadas de um caso. Não podia ir por aí dizendo que foi dos bons se te comportava
exatamente igual aos maus. Faith não podia ignorar isso: vinha de

uma família de policiais. Mas a sua mãe a tinham expulso do corpo por conduta imprópria, assim ao
melhor sim sabia e não lhe importava.

Ele não podia aceitar esse raciocínio. Faith não era sozinho uma boa polícia, era uma boa pessoa.
Ainda seguia insistindo na inocência de sua mãe, acreditava

que existia uma linha perfeitamente definida que separa o bem do mal. Wíll não podia lhe explicar
sem mais que seu método era melhor; teria que descobri-lo por si

mesmo.

Ele nunca tinha patrulhado as ruas como Faith, mas se tinha movido muito em comunidades
pequenas e tinha aprendido à força de golpes que era melhor não

enfrentar-se com a polícia local. Por lei, eram os chefes os que solicitavam a ajuda do DIG, não os
detetives nem os agentes. Eles seguiam trabalhando em seus casos,

pensando que podiam resolvê-los por seus próprios meios, e se mostravam hostis a qualquer
interferência que viesse de fora. Mas o mais provável era que antes ou

depois necessitasse sua colaboração, e se os deixava em evidência e não mantinha sequer uma fresta
que lhes permitisse salvar a cara se dedicavam a sabotar seu trabalho

por todos os meios a seu alcance sem pensar nas conseqüências.

O que tinha acontecido com a polícia do Rockdale era um bom exemplo. Amanda se tinha posto
em contra ao Lyle Peterson, o chefe superior de polícia, em um

caso anterior no que tinham tido que trabalhar juntos. Agora que necessitavam a colaboração do
departamento de polícia local, Rockdale lhes estava sabotando o caso

por mediação do Max Galloway, cuja gilipollez raiava na negligência.

O que tinha que entender Faith era que os policiais não sempre atuavam de forma desinteressada.
Tinham seu ego, seu próprio território. Eram como animais

que foram marcando seu terreno: se o invadia foram a por ti sem lhes importar o mais mínimo
quantos cadáveres pudessem deixar pelo caminho. Para alguns não era mais

que um jogo, um jogo que tinham que ganhar em toda costa.

Como se pudesse lhe ler a mente, Betty se parou à entrada do parque Piedmont a fazer suas coisas.
Wíll esperou, recolheu os sedimentos e atirou a bolsa

em um cesto de papéis. Havia muita gente correndo, uns com cão e outros sozinhos. Corriam em
grupo para combater o frio, mas pelo modo em que o sol fundia a névoa

Wíll antecipou que por volta das doze teria o pescoço irritado pelo roce da camisa.

Fazia vinte e quatro horas que tinham aberto o caso e Faith e Wíll foram ter um dia muito ocupado:
deviam falar com o Rick Sigler, o técnico sanitário que
tinha atendido a Anna no lugar do acidente; procurar o Jack Berman, o acompanhante do Sigler;
interrogar ao Joelyn Zabel, a odiosa irmã do Jacquelyn. Wíll sabia

que não devia tirar conclusões precipitadas, mas tinha visto a mulher em todos os informativos, tanto
locais como nacionais, a noite anterior. Pelo visto gostava

de falar. E ao parecer adorava destrambelhar. Wíll se alegrou de ter estado na autópsia no dia
anterior e de ter podido tirar-se de cima o remorso pela morte do

Zabel, porque se não, os comentários de sua irmã lhe teriam parecido no mais profundo da alma.

Tivesse-lhe gostado de poder registrar a casa do Pauline McGhee, mas certamente Leio Donnelly
se haveria oposto. Tinha que haver algum modo de sortear a

questão, e se havia algo que Wíll queria fazer esse dia era encontrar o modo de colocá-lo no caso.
Logo que tinha dormido, passou-se a noite pensando no Pauline

McGhee. Cada vez que fechava os olhos lhe fundiam a imagem da cova e a do Pauline, e a via
naquela cama de madeira, atada como um animal, enquanto ele a olhava impotente.

Seu instinto lhe dizia que algo estava passando com ela. escapou-se uma vez fazia vinte anos, mas
agora tinha raízes. Felix era um bom menino. Sua mãe não lhe abandonaria.

Se Rio para seus adentros. Ele deveria saber melhor que ninguém que as mães abandonavam a
seus filhos continuamente.

-Vamos -disse, atirando da correia da Betty para apartar a de uma pomba que era quase tão grande
como ela.

Meteu-se a mão no bolso para esquentar-se sem deixar de pensar no caso. Wíll não era tão idiota
para adjudicar-se todo o mérito das detenções que tinha

levado a cabo. De fato, a maior parte dos delinqüentes eram bastante idiotas. A maioria dos
assassinos cometiam enganos porque pelo general se deixavam levar por

seus impulsos. produzia-se uma briga, havia um revólver de por meio, os ânimos se exaltavam e, uma
vez que tudo tinha acabado, a única dúvida era se o fiscal lhe

acusaria de homicídio em primeiro ou segundo grau.

Entretanto, os seqüestros à mãos de um estranho eram diferentes, mais difíceis de resolver, sobre
tudo quando havia mais de uma vítima. Os assassinos em

série, por definição, eram bons em seu trabalho: sabiam de antemão que foram assassinar a alguém, a
quem e como foram fazer o. Tinham praticado suas habilidades

uma e outra vez e as tinham ido aperfeiçoando. Sabiam como evitar que os descobrissem, ocultando
as provas ou simplesmente não as deixando. Dar com eles tinha mais

que ver com que a polícia tivesse um golpe de sorte que com que o assassino se confiasse muito.

Ao Ted Bundy o tinham detida graças a um controle de rotina. Duas vezes. Ao BTK -que assinava
ironicamente suas cartas com sortes iniciais para indicar

que gostava de atar, torturar e matar a suas vítimas (Bind, torture and kill)- agarraram-no por um CD
que lhe aconteceu acidentalmente a seu pastor. Ao Richard Ramírez

o apanhou um cidadão cujo carro tinha tentado roubar. A todos eles pilharam por acaso, e tinham já
vários crímenes a suas costas quando os detiveram. Para a maioria

dos assassinatos em série passavam os anos, e o único que podia fazer a polícia era esperar a que
aparecessem mais cadáveres e rezar para que o azar levasse aos

criminosos ante a justiça.

Wíll pensou no que sabiam de seu homem: um sedan branco a toda velocidade pela estrada, uma
câmara de tortura na metade do um nada, umas testemunhas bastante

maiores que não tinham podido contribuir nada útil. Jake Berman podia ser uma pista, mas igual não
o encontravam nunca. Rick Sigler estava limpo como uma patena,

salvo pelos dois meses de hipoteca que devia, coisa que não era de sentir saudades dado o mau
momento que atravessava a economia. Os Coldfield eram -segundo os papéis,

ao menos-um matrimônio de aposentados absolutamente exemplar. Ao Pauline McGhee preocupava


seu irmão, mas sua preocupação podia dever-se a motivos que nada tinham

que ver com o assunto. De fato, nem sequer estava seguro de que Pauline tivesse algo que ver com
seu caso.

As provas físicas eram igualmente débeis. As bolsas de lixo que encontraram dentro do corpo das
vítimas eram comuns, como as que se podem comprar em qualquer

loja. Aos objetos encontrados na cova, da bateria de navio até os instrumentos de tortura, tampouco
podiam lhes seguir a pista. Havia muitos rastros e fluidos que

podiam comparar-se com seus base de dados, mas não tinha saltado nenhuma coincidência. Os
depredadores sexuais eram muito ardilosos e imaginativos. Quase oitenta

por cento dos crímenes que resolviam graças ao DNA eram principalmente roubos, não assassinatos.
Um cristal quebrado, uma faca de cozinha dirigido com estupidez,

uma barra de cacau que caía de um bolso; todo isso conduzia diretamente ao ladrão, que pelo general
já tinha uma larga lista de antecedentes. Mas em uma violação
à mãos de um estranho, onde a vítima não tinha tido contato prévio com o assaltante, era como
procurar uma agulha em um palheiro.

Betty se deteve para olisquear umas ervas junto ao lago. Wíll elevou a vista e viu uma corredora
que se dirigia para eles. Levava malhas negras, uma jaqueta

de cor verde fluorescente e o cabelo recolhido sob uma boina qa jogo. Ia flanqueada por dois galgos
cinzas que levavam a cabeça erguida e o rabo rígido; uns cães

muito bonitos, elegantes, fortes e com as patas largas. Exatamente igual a sua proprietária.

-Mierda -murmurou Wíll agarrando a Betty em braços e escondendo-a a suas costas.

Sara Linton se deteve uns metros de distância e os cães se pararam também como comandos bem
adestrados. Wíll só tinha podido ensinar a Betty a comer.

-Olá -disse Sara visivelmente surpreendida. Ao ver que não respondia, perguntou-: É Wíll, não?

-Olá -disse ele enquanto Betty lhe lambia a palma da mão.

Sara ficou lhe olhando.

-É um chihuahua isso que tem aí detrás?

-Não, é que me alegro de verte.

um pouco confusa, Sara lhe sorriu; ele, algo reticente, mostrou a Betty.

Os cães se saudaram e se olisquearon mutuamente, e Wíll se preparou para ouvir a pergunta


habitual.

-É de sua mulher?

-Sim -mentiu-. Vive por aqui?

-No Milk Lofts, passada a avenida Norte.

Vivia a menos de duas maçãs de sua casa.

-Não te pega viver em um loft.

Sara ficou um pouco confundida de novo.

-E o que me pega?

Wíll nunca tinha sido muito experiente na arte da conversação, e certamente não sabia como
expressar o que, segundo ele, ia bem a Sara Linton; não sem ficar
como um idiota, ao menos.

Encolheu-se de ombros e deixou a Betty no chão. Os cães da Sara se alvoroçaram um pouco e ela
estalou a língua uma só vez para lhes chamar à ordem.

-Será melhor que vá -disse Wíll-. fiquei com o Faith na cafeteria ao outro lado do parque.

-Importa-te se te acompanho?

-perguntou sem esperar resposta. Os cães se levantaram e Wíll agarrou a Betty para ir mais
depressa. Sara era alta, quase tão alta como ele. Tentou calculá-lo

sem que se notasse muito. Angie quase podia apoiar o queixo em seu ombro se ficava nas pontas dos
pés, e Sara poderia fazê-lo sem muito esforço. Poderia lhe aproximar

a boca à orelha se queria fazê-lo.

-estive pensando no das bolsas de lixo -disse ela enquanto se tirava a boina e se apertava o
acréscimo.

Wíll a olhou de soslaio.

-E chegaste a alguma conclusão?

-É uma mensagem muito potente.

Ao Wíll não lhe tinha ocorrido que pudessem ser uma mensagem; mas bem um horror.

-Acredita que suas vítimas são lixo.

-E o que lhes faz: privar as de seus sentidos. -Wíll a olhou de novo-. Fica cegas, surdas e mudas
ante a maldade.

Wíll assentiu, perguntando-se por que não lhe teria ocorrido olhar o dessa maneira.

-Estive-me perguntando se poderia haver um certo componente religioso em tudo isto. Em


realidade foi algo que disse Faith a primeira noite o que me levou

a me expor isso Deus tirou ao Adão uma costela para criar a Eva.

-Vesalius -murmurou Wíll.

Sara se pôs-se a rir surpreendida.

-Não havia tornado a ouvir esse nomeie desde meu primeiro ano na faculdade de medicina.

Wíll se encolheu de ombros, lhe agradecendo mentalmente a Deus o haver-se tropeçado com a
semana dos grandes homens da ciência no canal de história. Andreas
Vesalius era um anatomista que, entre outras coisas, demonstrou que os homens e as mulheres tinham
o mesmo número de costelas; o Vaticano esteve a ponto de colocá-lo

na prisão por seu descobrimento.

-Mas também está o número onze -continuou Sara-: onze bolsas de lixo, a décima primeira costela.
Tem que ter alguma relação.

Wíll se parou.

-O que?

-As mulheres. As duas tinham onze bolsas de lixo no interior de seu corpo. E a costela que
arrancaram a Anna foi a número onze.

-Crie que o assassino está obcecado com o número onze?

Sara pôs-se a andar e Wíll caminhou a seu lado.

-Se pensar em como se manifestam as condutas compulsivas, como o abuso de substâncias, os


desórdenes alimentícios, os transtornos obsessivo-compulsivos

nos que um indivíduo sente a necessidade de comprovar as coisas uma e outra vez (se tiver deixado a
porta bem fechada, o forno ou a prancha apagados) então tem sentido

que um assassino em série, alguém que sente a necessidade de matar, siga uma determinada pauta ou,
como neste caso, um número específico que tem um significado para

ele. Por isso o FBI tem uma base de dados, para poder comparar os métodos e procurar pautas.
Possivelmente poderiam procurar algum feito significativo que esteja

relacionado com o número onze.

“Nem sequer estou segura de se se pode fazer uma busca com esse critério. O que se registra nessa
base está mais relacionado com objetos: facas, navalhas,

etc. Tem que ver com o que fazem, não com quantas vezes o fazem, a menos que seja algo muito
visível.

“Deveriam consultar a Bíblia. Averiguar se o número onze tem algum significado religioso, desse
modo possivelmente poderiam descobrir qual é o móvel do

assassino. -Sara se encolheu de ombros, como se tivesse concluído sua exposição, mas acrescentou-:
O próximo é Domingo de Páscoa. Isso também poderia formar parte

da pauta.
-Onze apóstolos -disse Wíll.

Lhe olhou com estranheza.

-Tem razão. Judas traiu ao Jesus, de modo que solo ficaram onze apóstolos. Logo houve um que
veio a substitui-lo… Dídimo? Não me lembro. Seguro que minha

mãe sabe. -Sara se encolheu de ombros outra vez-. Ao melhor não é mais que uma perda de tempo.

Wíll acreditava firmemente em que as coincidências eram, pelo general, pistas.

-É uma possibilidade que podemos explorar.

-O que tem que a mãe do Felix?

-De momento não é mais que um caso de desaparecimento.

-localizastes ao irmão?

-A polícia de Atlanta o está procurando.

Wíll não queria lhe revelar muitos mais dados. Sara trabalhava no Grady e a polícia andava todo o
dia entrando e saindo de urgências com suspeitas e testemunhas.

-Nem sequer estamos seguros de que tenha algo que ver com nosso caso -acrescentou.

-Pelo bem do Felix espero que não. Não posso sequer imaginar o que deve ser ver-se abandonado
dessa maneira, apanhado em um desses espantosos lares do estado.

-Esses sítios não estão tão mal -disse Wíll em sua defesa. E sem ser consciente do que dizia
acrescentou-: Eu me criei sob a tutela do estado.

Sara ficou tão surpreendida como ele, embora evidentemente por razões bem distintas.

-Que idade tinha?

-Era um pirralho. -Desejava retirar suas palavras, mas já não podia conter-. Um bebê. Tinha cinco
meses.

-E alguma vez lhe adotaram?

Fez que não com a cabeça. A coisa começava a complicar-se e, pior ainda, estava-se voltando
muito embaraçosa.

-Meu marido e eu… -Sara ficou olhando à frente, com a vista perdida- … pensávamos adotar um
menino. Levávamos muito tempo em lista de espera Y… -encolheu-se

de ombros-. Quando o mataram foi muito para mim.


Wíll não sabia se devia mostrar-se pormenorizado, mas em quão único podia pensar nesse
momento era em todos os pícnics e os andaimes às que tinha tido que

assistir de menino, pensando que depois voltaria para casa com seus novos pais, para acabar
voltando uma vez mais a sua habitação no orfanato.

Sentiu um incomensurável alívio para ouvir a estridente buzina do Mini do Faith, que tinha
estacionado de forma completamente ilegal em frente da cafeteria.

Faith se desceu do carro deixando o motor em marcha.

-Amanda quer nos ver em seu escritório -disse saudando a Sara com um gesto da cabeça-. Joelyn
Zabel trocou sua entrevista para a entrevista. Nos vai fazer

um oco entre bom dia a América e a CNN. Teremos que levar a Betty a casa mais tarde.

Wíll se tinha esquecido de que levava a cadela na mão. Tinha o focinho metido entre os botões de
seu colete.

-Eu fico com ela -se ofereceu Sara.

-Não acredito…

-vou estar todo o dia em casa fazendo a penetrada -explicou-. Estará bem. Pode passar a recolhê-
la quando terminar de trabalhar.

-Isso é muito…

Faith parecia mais impaciente do habitual.

-Lhe dê a cadela de uma vez, Wíll -lhe disse, e voltou a meter-se no carro enquanto ele olhava a
Sara como desculpando-se.

-Nos Milk Lofts? -perguntou-lhe como se não se lembrasse.

Sara agarrou a Betty em braços e roçou acidentalmente ao Wíll, que notou que tinha os dedos
muito frios.

-Betty? -perguntou Sara. Wíll assentiu e lhe tranqüilizou-. Não se preocupe se te faz tarde. Não
tenho planos para hoje.

-Obrigado.

Sara sorriu, elevando à cadela como em um brinde.

Wíll cruzou a rua e subiu ao carro do Faith. alegrou-se de que ninguém se sentou no assento do
acompanhante da última vez, pois assim não pareceria um bonito

contorsionándose para encaixar em um espaço tão pequeno.

Faith se afastou da calçada e saiu zumbindo dali.

-O que fazia com a Sara Linton?

-Encontrei-me isso por acaso.

Perguntou-se por que estaria tão à defensiva, o que lhe levou a questionar-se por que Faith tinha
adotado uma atitude tão hostil para ele. Imaginou que

ainda seguia zangada pelo modo em que se comportou com o Max Galloway no dia anterior, e não
sabia o que podia fazer salvo distrai-la.

-Sara tinha uma pergunta, ou uma teoria, bastante interessante sobre nosso caso.

Faith se somou ao denso tráfico.

-Morro por ouvi-la.

Wíll sabia que não era certo, mas lhe explicou a teoria da Sara de todos os modos, pondo especial
ênfase no do número onze e enumerando as demais questione

que tinha exposto.

-no domingo é Páscoa -lhe disse-. Tudo isto poderia ter algo que ver com a Bíblia.

Em honra à verdade deu a impressão de que Faith se tomava a coisa a sério.

-Não sei -disse ela finalmente-. Poderíamos agarrar uma Bíblia da delegacia de polícia e fazer
uma busca no ordenador a ver se encontrarmos algo sobre o

número onze. O mundo está cheio de meapilas, e seguro que muitos têm página Web.

-Em que livro da Bíblia se conta isso de que Deus criou a Eva a partir de uma costela do Adão?

-Na Gênese.

-Isso é a parte velha, não? Não os livros novos.

-O Antigo Testamento. É o primeiro livro da Bíblia, que narra o princípio de tudo. -Faith o olhou
com a mesma estranheza que Sara-. Já sei que não pode

ler a Bíblia, mas alguma vez foste à igreja?

-Sim que posso ler a Bíblia -lhe espetou Wíll. Preferia agüentar suas rabugices antes que sua fúria,
assim continuou falando-. te Lembre de onde me criei.

Separação Iglesia-estado.

-OH, não o tinha pensado nunca.

Provavelmente porque era uma mentira como um piano. O orfanato não podia organizar atividades
religiosas, mas havia voluntários de todas as paróquias próximas

que todas as semanas fretavam caminhonetes para recolher aos meninos e levá-los a escola
dominical. Wíll tinha ido uma vez, mas quando se deu conta de que era uma

escola de verdade, onde se esperava de ti que lesse as lições, decidiu não voltar mais.

-Alguma vez foste à igreja? De verdade? -insistiu Faith.

Wíll manteve a boca fechada pensando que tinha sido uma estupidez abrir essa porta.

Faith diminuiu a velocidade ao ver o semáforo em vermelho.

-Acredito que nunca tinha conhecido a ninguém que não tenha pisado em uma igreja -murmurou
Faith.

-Podemos trocar de tema?

-É que me faz estranho.

Wíll olhou distraídamente pelo guichê pensando que nunca tinha conhecido a ninguém que, antes
ou depois, não lhe tivesse chamado estranho. O semáforo ficou

em verde e o Mini seguiu seu caminho. O edifício do lado leste da prefeitura estava a cinco minutos
em carro do parque. Essa manhã o trajeto lhe estava fazendo eterno.

-Até caso que Sara tivesse razão, já o está fazendo outra vez, já está tentando meter-se em nosso
caso.

-É forense. Ou o era, ao menos. Atendeu a Anna no hospital. É normal que queira saber o que está
passando.

-É a investigação de um assassinato, não um episódio de Grande Irmão -replicou Faith-. Sabe onde
vive?

Wíll não se expôs essa possibilidade, mas ele não era tão paranóico como Faith.

-Como ia ou seja o?

-Ao melhor seguiu até ali.


Wíll se pôs-se a rir, mas deixou de fazê-lo quando viu que Faith se havia posto séria.

-Vive virtualmente ao lado. saiu a correr com seus cães, nada mais.

-Muita coincidência me parece .

Wíll meneou a cabeça, exasperado. Não ia permitir que lhe fizesse pagar a Sara Linton os
problemas que tinha com ele.

-Temos que acabar com isto de uma vez, Faith. Sei que está zangada comigo pelo de ontem, mas
para poder tirar algo em claro desta entrevista temos que trabalhar

em equipe.

Faith acelerou assim que se abriu o semáforo.

-É que somos uma equipe.

Apesar disso não falaram muito durante o resto do curto trajeto. Faith não se decidiu a abrir a boca
até que chegaram a seu destino, já dentro do elevador.

-Leva a gravata torcida.

Wíll se arrumou o nó. Sara Linton devia haver-se levado uma má impressão.

-Melhor agora?

Sua companheira estava enredando com seu BlackBerry, em que pese a que ali dentro não havia
cobertura. Olhou-o de soslaio e assentiu antes de voltar a concentrar-se

no aparelho.

Wíll estava pensando em algo que dizer quando se abriram as portas. Amanda lhes estava
esperando junto à porta, comprovando seu correio igual a Faith, embora

ela tinha um iPhone. Wíll se sentia como um idiota com as mãos vazias, exatamente igual a quando
viu aparecer a Sara com seus impressionantes cães e teve que agarrar

a Betty na mão como se fora um carretel de linho.

Amanda seguiu comprovando seu correio enquanto lhes falava em tom distraído de caminho a seu
escritório.

-Me ponham ao dia.

Faith enumerou em voz alta tudo o que sabiam, que era virtualmente nada. Enquanto isso, a chefa
continuou olhando seu correio, caminhando e fazendo como
que escutava ao Faith enquanto contava o que certamente já teria lido no relatório.

Wíll não era o que se diz um fã da multitarea, mais que nada porque a seu modo de ver era média-
tarea. Era humanamente impossível emprestar toda sua atenção

a duas coisas ao mesmo tempo. Para confirmar sua teoria Amanda levantou a cabeça e disse:

-O que?

Faith repetiu o que acabava de dizer.

-Linton acredita que o assunto poderia ter um trasfondo religioso.

Amanda deixou de caminhar. Deixou seu iPhone para centrar-se no que lhe estavam contando.

-por que?

-Décima primeira costela, onze bolsas de lixo e No domingo de Páscoa para rematar a semana.

Amanda voltou a agarrar seu iPhone e falou enquanto enredava com a tela tateante.

-avisei aos do departamento jurídico para que estejam presentes na entrevista com o Joelyn Zabel.
veio com seu advogado, assim pedi que mandem a três dos

nossos. Temos que atuar como se o mundo inteiro nos estivesse olhando, porque estou segura de que
algo que lhe digamos será gritada aos quatro ventos. -Olhou-os

aos dois muito significativamente-. Serei eu quem leva a voz cantante. Vós podem fazer as perguntas
que considerem oportunas, mas sem improvisar.

-Não vamos tirar nada ao Zabel -disse Wíll-. Contando sozinho aos advogados, já temos a quatro
pessoas na habitação. Mais os três aqui pressente, sete,

e ela como protagonista absoluta, sabendo que as câmaras a estarão esperando à saída. Temos que
nos anotar este tanto.

Amanda voltou a concentrar-se em seu iPhone.

-E seu brilhante idéia para consegui-lo é…?

Não lhe ocorria nada.

-Talvez podemos nos reunir com ela depois de que fale com as televisões, agarrá-la por banda em
seu hotel, longe da imprensa e todo esse barulho -acertou

a dizer.

Amanda não teve a cortesia de levantar a cabeça.


-E ao melhor toca a loteria. Ao melhor concedem a ascensão. Vê aonde nos leva o “ao melhor”?

A frustração e a falta de sonho lhe vieram em cima de golpe.

-Então, por que estamos aqui? por que não se ocupa você do Zabel e nos deixa continuar fazendo
algo mais útil que lhe dar mais material para seu futuro

libero?

Por fim, Amanda elevou a vista de seu iPhone e o ofereceu ao Wíll.

-Não sei o que pensar, agente Trent. por que não lê isto e me diz o que lhe parece?

De repente sua vista se agudizó e começaram a lhe apitar os ouvidos. Amanda sujeitava o iPhone
com dois dedos. Havia palavras na tela, isso era tudo que

podia dizer. Wíll notou o sabor do sangue na boca; estava-se mordendo a língua. Alargou a mão para
agarrar o iPhone mas Faith lhe adiantou.

-“Na Bíblia, o onze está acostumado a representar um julgamento ou uma traição… Em um


princípio os mandamentos eram onze, mas os católicos fundiram os

dois primeiros e os protestantes fizeram o mesmo com os dois últimos para deixá-los em dez. -
Utilizou o scroll para poder continuar lendo-. Os filisteus pagaram

a Dalila mil e cem moedas de ouro em troca de que esta entregasse ao Sansón. Jesus contou onze
parábolas enquanto se dirigia a Jerusalém, onde encontraria a morte.

A Igreja católica aceita como canônicos onze dos livros incluídos entre os evangelhos apócrifos.”

Faith devolveu o móvel a Amanda.

-Poderíamos seguir fazendo isto todo o dia. Em 11 de setembro de 2001 o vôo 11 se estrelou
contra uma das Torres as Gema, que também podiam parecer um 11.

O Apolo XI foi o primeiro em chegar à lua. A Primeira guerra mundial acabou-nos dia onze do
décimo primeiro mês. E você te merece um décimo primeiro círculo no inferno

pelo que acaba de lhe fazer ao Wíll.

Amanda sorriu e se guardou o móvel no bolso.

-Recordem as normas, meninos -lhes disse enquanto avançava pelo corredor.

Wíll não sabia se se referia à normas que tinham que ver com seu cargo ou às que lhes tinha dado
sobre a entrevista com o Joelyn Zabel. De todos os modos
não havia tempo para refletir, porque Amanda cruzou a toda pressa a sala de espera de seu escritório
e abriu a porta. Uma vez feitas as apresentações se foi para

seu escritório e tomou assento. Seu escritório era, lógicamente, o maior do edifício, com uma
superfície similar a da sala de juntas que havia na planta onde estavam

os despachos do Wíll e Faith.

Joelyn Zabel e um homem que não podia ser mais que seu advogado ocuparam os assentos
destinados às visitas. Depois da mesa da Amanda havia duas cadeiras

vazias que, conforme deduziu Wíll, deviam ser para eles. Os advogados do departamento jurídico
estavam sentados em um sofá ao fundo da habitação, os três juntitos,

vestidos como era de rigor: com traje negro e discreta gravata de seda. O advogado do Joelyn Zabel
levava um traje azul tubarão, coisa que ao Wíll pareceu do mais

apropriada dado que fazia jogo com seu sorriso.

-Obrigado por vir -disse Faith estreitando a mão do Joelyn antes de tomar assento.

Joelyn Zabel se parecia muito a sua irmã, solo que com alguns quilogramas mais. Não é que fora
gorda, mas tinha os quadris bem arredondados, enquanto que

Jacquelyn era tão fraca que quase parecia um menino. Wíll percebeu o aroma do tabaco impregnado
em sua pele quando lhe estreitou a mão.

-Lamento muito sua perda -lhe disse.

-Trent -disse ela-. Foi você quem a encontrou.

Wíll tratou de não apartar a vista para não alimentar os remorsos que sentia por não ter encontrado
a tempo à irmã daquela mulher. O único que lhe ocorreu

nesse momento foi repetir uma vez mais:

-Lamento muito sua perda.

-Sim -lhe espetou ela-, já o ouvi.

Wíll se sentou ao lado do Faith e Amanda bateu Palmas como uma professora de maternal para
chamar a atenção de seus alunos. Apoiou a mão sobre uma pasta

de papel manila que, supôs Wíll, devia conter o resumo da autópsia. Tinham dado instruções ao Pete
para que omitisse o detalhe das bolsas de lixo. Tendo em conta

o idílio que o departamento de polícia do Rockdale mantinha com a imprensa, estavam ficando sem
informação confidencial que pudessem utilizar como conhecimento culpado

com os futuros suspeitos.

-Senhora Zabel -começou Amanda-, entendo que teve já ocasião de ler o relatório da autópsia,
equivoco-me?

O advogado falou por ela.

-vou necessitar uma cópia para meus arquivos, Mandy.

Amanda lhe sorriu com a frieza de um tubarão ainda maior.

-É óbvio, Chuck.

-Genial, assim já se conheciam. -Joelyn se cruzou de braços, seus ombros estavam muito tensos-.
Lhe importaria me explicar que coño estão fazendo vocês

para encontrar ao assassino de minha irmã?

Amanda continuou sem perder o sorriso.

-Estamos fazendo quanto está em nossa mão para…

-Têm já algum suspeito? Quero dizer, joder, esse tipo é um animal.

Amanda não respondeu, o que Faith interpretou como um sinal para que interviesse.

-Estamos de acordo com você. que lhe fez isso a sua irmã é um animal. Precisamente por isso
necessitamos que você nos dela fale. Precisamos saber como era

sua vida, quais eram seus amigos, quais eram seus costumes.

Joelyn baixou o olhar por um momento, sentia-se culpado.

-Não tinha muito trato com ela. As duas estávamos sempre muito ocupadas e ela vivia na Florida.

Faith tratou de suavizar um pouco as coisas.

-Vivia na zona da baía, verdade? Deve ser um lugar muito agradável. E uma boa desculpa para
fazer uma escapadita e ver a família.

-Sim, bom, isso teria estado muito bem, mas a muito zorra nunca me convidou.

Seu advogado lhe acariciou o braço para lhe recordar que mantivera a compostura. Wíll tinha
visto o Joelyn Zabel nas principais cadeias de televisão choramingando

pela trágica morte de sua irmã diante de todos os jornalistas que a tinham entrevistado. Não tinha
visto nenhuma só lágrima em seus olhos, embora fazia todos os

gestos que faz uma pessoa quando chora: suspirar, limpá-los olhos, balançar o corpo para frente e
para trás. Mas agora não fazia nem sequer isso. Pelo visto precisava

estar diante de uma câmara para sentir dor. E ao parecer seu advogado não lhe ia deixar interpretar
outro papel que o de angustiada irmã da difunta.

Joelyn suspirou, embora seguiu sem verter uma só lágrima.

-Eu queria muito a minha irmã. Minha mãe acaba de ingressar em uma residência. Pode que não
fiquem mais de seis meses e lhe acontece isto a sua filha. A

perda de um filho é algo devastador.

Faith tentou penetrar alguma pergunta mais.

-Você tem filhos?

-Quatro -disse muito orgulhosa.

-Jacquelyn não tinha…?

-Joder, não. Abortou três vezes antes de cumprir os trinta. Dava-lhe pânico engordar. Podem
acreditar? A única razão pela que se desfez deles foi conservar

sua puta figura. E então se plantou ao bordo dos quarenta e lhe entraram as pressas por ser mãe.

Faith dissimulou sua surpresa perfeitamente.

-Estava tentando ficar grávida?

-Não me ouviu quando lhe contei o dos abortos? Pode comprová-lo, não lhe menti nisso.

Wíll tinha assumido que quando uma pessoa insistia muito em que não estava mentindo sobre um
assunto em particular era porque estava mentindo em relação

com outra coisa. Averiguar no que mentia lhes daria a chave para poder dirigir ao Joelyn Zabel. Não
dava a impressão de ser uma pessoa muito cautelosa, e seguro

que quereria alargar quanto o fora possível seus dez minutos de fama.

-Procurava Jackie uma mãe de aluguel? -perguntou-lhe Faith.

Joelyn se precaveu da importância que tinham suas palavras. De repente, todos a escutavam com
atenção. tomou seu tempo para responder.

-Uma adoção.
-Privada? Pública?

-E eu que coño sei. Tinha muito dinheiro. Estava acostumada a comprar tudo o que lhe desejava
muito. -Joelyn se agarrava com força aos braços da cadeira

e Wíll se precaveu de que haviam meio doido um tema do que gostava de falar-. Essa é a verdadeira
tragédia aqui: não poder ver como adota a algum marginalizado para

que acabe lhe roubando ou voltando-se esquizofrênico por sua culpa.

Wíll notou que Faith ficava em guarda e tomou a substituição.

-Quando foi a última vez que falou com sua irmã?

-Faz coisa de um mês. Soltou-me um sermão sobre a maternidade, como se soubesse do que estava
falando. Falou-me de adotar a um menino chinês ou russo, ou

não sei o que. Já sabem, alguns desses meninos acabam sendo uns assassinos. Abusam deles e isso os
transtorna. Nunca estão de tudo bem.

-Vimos muitos casos, sim. -Wíll meneou a cabeça com ar compungido, como se fora uma tragédia
do mais comum-. E tinha feito algum progresso? Sabe com que

agência estava tramitando a adoção?

Joelyn começou a mostrar-se reticente quando lhe pediu mais detalhes.

-Jackie não falava muito de suas coisas. Protegia sua intimidade de forma verdadeiramente
obsessiva. -Inclinou a cabeça para os advogados do estado, que

faziam todo o possível por mimetizar-se com o mobiliário-. Sei que estes idiotas que estão aí
sentados não vão deixar que se desculpe, mas ao menos podia reconhecer

que a cagou bem cagada.

Amanda se apressou a intervir.

-Senhora Zabel, a autópsia demonstra…

Joelyn se encolheu de ombros com expressão beligerante.

-O que demonstra é o que já sabia: que vocês estavam aí como pasmarotes sem fazer
absolutamente nada enquanto minha irmã morria.

-Pode que não tenha lido o relatório com a devida atenção, senhora Zabel. -Amanda falava em tom
suave, precisamente a classe de tom que tinha utilizado
no corredor justo antes de humilhar ao Wíll-. Sua irmã se tirou a vida.

-Unicamente porque vocês não moveram um puto dedo para ajudá-la.

-É você consciente de que estava cega e surda? -perguntou-lhe Amanda.

Pelo modo em que Joelyn olhou a seu advogado, Wíll se deu conta de que não tinha a menor idéia
disso.

Amanda tirou outra pasta da gaveta superiora de seu escritório. Começou a passar páginas e Wíll
viu as fotos em cor do Jacquelyn Zabel pendurada da árvore

e na mesa de autópsias. Pareceu-lhe de uma crueldade algo excessiva inclusive para a Amanda. Por
muito odiosa que fora Joelyn Zabel, acabava de perder a sua irmã

da forma mais espantosa possível. Viu que Faith se revolvia em seu assento e soube que ela estava
pensando o mesmo.

Amanda se tomou seu tempo para chegar à página que procurava, que parecia estar enterrada entre
as fotografias mais aterradoras. Por fim encontrou um fragmento

que falava do exame externo do cadáver.

-Segundo parágrafo -lhe indicou.

Joelyn vacilou um momento e se sentou ao bordo da cadeira. Tentava aproximar-se para ver
melhor as fotos, como há gente que reduz a velocidade para ver

um acidente de tráfico especialmente truculento. Finalmente agarrou o relatório e se recostou em sua


cadeira. Wíll a viu mover os olhos enquanto lia mas, de repente,

deixou o olhar fixo em um ponto e Wíll se deu conta de que não estava vendo nada absolutamente.

Joelyn tragou saliva com dificuldade. ficou em pé e murmurou “me desculpem” antes de abandonar
a habitação.

-Isso foi um golpe baixo, Mandy -lhe disse o advogado.

-Assim é a vida, Chuck.

Wíll se levantou também.

-vou estirar as pernas.

Saiu do despacho sem esperar a que ninguém dissesse nada.

Caroline, a secretária da Amanda, estava em sua mesa. Wíll a saudou fazendo um gesto com a
cabeça e lhe sussurrou:

-Está no banheiro.

O agente saiu ao corredor com as mãos nos bolsos. deteve-se frente à porta do lavabo de senhoras
e a abriu com o pé. apareceu ao interior. Joelyn estava

diante do espelho. Tinha um cigarro aceso na mão e deu um coice ao ver o Wíll.

-Não pode entrar aqui -lhe disse, levantando o punho como se estivesse procurando briga.

-Não está permitido fumar no edifício -disse Wíll, entrando no lavabo e apoiando as costas contra
a porta fechada sem tirar as mãos dos bolsos.

-O que está fazendo?

-Queria me assegurar de que estava você bem.

Joelyn deu uma profunda imersão ao cigarro.

-Penetrando pela força no lavabo de senhoras? Isto está fora de sua jurisdição, vale? Não pode
estar aqui.

Wíll jogou uma olhada ao redor. Nunca tinha entrado em um lavabo de senhoras. Havia um sofá
que parecia bastante cômodo e uma mesita ao lado com um vaso

cheio de flores. O ar cheirava a perfume, havia papel nos dispensadores e o lavabo não estava cheio
de salpicaduras como no de cavalheiros, de modo que te podia

lavar as mãos sem te empapar as calças. Agora entendia por que as mulheres passavam tanto tempo
nos banheiros.

-Você, pirado, sal do lavabo de senhoras.

-O que é o que não me está contando?

-Contei-lhes tudo o que sei.

Wíll meneou a cabeça.

-Aqui não há câmaras, nem advogados, nem público. me conte o que não está contando.

-Que lhe dêem.

Wíll notou que alguém empurrava a porta com suavidade e voltava a fechá-la imediatamente.

-Sua irmã não lhe caía muito bem -lhe disse.


-Como o culo, Sherlock. -levou-se o cigarro à boca com mão tremente.

-O que lhe fez para que a odiasse tanto?

-Era uma zorra.

O mesmo poderia dizer-se do Joelyn, mas Wíll se guardou para si o comentário.

-Manifestava-se isso de algum jeito em concreto em relação com você, ou fala em geral?

Joelyn ficou olhando fixamente.

-Que coño quer dizer isso?

-Quer dizer que não me importa aonde você vá quando sair daqui. Que lhe ponha uma demanda ao
estado ou não a ponha. Que me demande a título pessoal. Dá-me

igual. O tipo que matou a sua irmã provavelmente já tem a outra vítima em seu poder. Neste preciso
instante, enquanto você e eu falamos, outra mulher está sendo

torturada e violada, e me ocultar algo neste momento é como dizer que o que lhe está passando a essa
outra mulher está perfeitamente bem.

-Não ponha em minha boca palavras que não hei dito.

-Então me diga o que é o que me está ocultando.

-Não estou ocultando nada -disse, e se deu meia volta para limpá-los olhos sem que lhe corresse a
maquiagem-. Era Jackie a que ocultava coisas.

Wíll ficou calado.

-Sempre andava com secretitos, comportando-se como se fora melhor que eu.

Wíll assentiu, lhe indicando que o tinha entendido.

-Era ela a que chamava a atenção de todo o mundo, de todos os homens. -Joelyn meneou a cabeça,
voltou-se para o Wíll e apoiou uma mão no lavabo-. De menina

meu peso subia e baixava continuamente. Jackie se burlava de mim cada vez que íamos à praia.

-É óbvio que superou já esse problema.

Ela rechaçou o completo, incrédula.

-Sempre conseguia o que queria sem o menor esforço: dinheiro, homens, êxito. Gostava a todo
mundo.
-Não se cria -lhe disse Wíll-. Nenhum de seus vizinhos a sentiu falta de quando desapareceu. Não
se inteiraram até que a polícia chamou a sua porta. Deu-me

a sensação de que se alegravam de perder a de vista.

-Não lhe acredito.

-A vizinha de sua mãe, Candy, tampouco me pareceu o que se diz desolada.

Joelyn seguia sem estar muito convencida.

-Não, Jackie dizia que Candy era como um caniche: sempre pega a suas saias, sempre querendo
estar com ela.

-Pois não é certo -lhe disse Wíll-. Não a tinha em grande estima. De fato, eu diria que lhe caía
ainda pior que a você.

Joelyn rematou o cigarro e entrou em uma das cabines para atirá-lo pelo privada. Wíll se deu
conta de que se estava tomando seu tempo para processar toda

essa nova informação sobre sua irmã, e gostava.

-Sempre foi uma mentirosa. Mentia em coisas tolas, coisas que nem sequer importavam.

-Como o que?

-Pois, por exemplo, dizia que ia à loja quando em realidade ia à biblioteca. Ou dizia que estava
saindo com um menino quando em realidade estava saindo

com outro.

-Devia ser bastante retorcida.

-E tanto. É a palavra que melhor a descreve: retorcida. A minha mãe a voltava louca.

-Metia-se em muitas confusões?

Joelyn soltou uma gargalhada seca.

-Jackie era sempre a favorita do professor, sempre sabia a quem terei que lhe fazer a bola. Tinha-
os a todos completamente enganados.

-A todos, não -lhe fez notar Wíll-. Acaba de dizer que voltava louca a sua mãe. Ela devia saber
como era em realidade.

-Sabia. gastou-se um montão de dinheiro em ajudar a Jackie. Arruinou-me toda minha puta
infância. Tudo girava sempre ao redor da Jackie: como se sentia,
o que fazia, se era feliz ou não. A ninguém importava se eu era feliz.

-Me fale desse assunto da adoção. Que agência lhe levava a papelada?

Joelyn baixou o olhar para que Wíll não pudesse ver que se sentia culpado.

Wíll continuou falando como se nada.

-Lhe vou explicar por que lhe pergunto isto: se Jackie estava tentando adotar um menino teremos
que ir até a Florida e encontrar a agência que levava seu

caso. Se se tratava de uma adoção internacional, possivelmente tenhamos que ir a Rússia ou a China
para comprovar se os trâmites eram conforme à lei. Se sua irmã

estava procurando um ventre de aluguel nos Estados Unidos, teremos que falar com todas as mulheres
que tenham podido ficar em contato com ela. Deveremos ir agencia

em agência até que encontremos algo, algo, que tenha relação com a Jackie, porque em algum
momento conheceu uma pessoa que a esteve torturando e violando durante

ao menos uma semana, e se podemos descobrir como conheceu sua irmã ao seqüestrador
possivelmente possamos averiguar quem é. -Fez uma pausa para deixar que refletisse-.

Encontraremos alguma conexão através de uma agência de adoções, Joelyn?

A mulher se olhou as mãos, mas não respondeu. Wíll ficou a contar os azulejos da parede que tinha
detrás. Ia pelo trinta e seis quando Joelyn se decidiu

a falar.

-Solo falava por falar. Sim é verdade que Jackie o tinha comentado, mas não ia fazer o. Gostava da
idéia de ser mãe, mas sabia que não seria capaz.

-Está você segura?

-É como quando a gente vê um cão bem adestrado, entende? Dizem que querem ter um cão, mas o
que em realidade querem é ter a esse bichinho tão bem adestrado,

não um qualquer que vão ter que adestrar eles.

-Gostava de seus filhos?

Joelyn se esclareceu garganta.

-Nem sequer os conhecia.

Wíll lhe deu um pouco de tempo para sobrepor-se.


-Detiveram-na por conduzir em estado de embriaguez pouco antes de sua morte.

-Sério?

-Bebia muito?

Joelyn meneou a cabeça com veemência.

-Não gostava de perder o controle.

-A vizinha, Candy, diz que compartilharam algum canudo.

Joelyn ficou com a boca aberta e voltou a menear a cabeça.

-Não me acredito. Jackie não dava a esse tipo de coisas; gostava que outra gente bebesse e
perdesse os papéis, mas ela nunca o fazia. Estamos falando de

uma mulher que manteve o mesmo peso dos dezesseis anos. Tinha o culo tão escuro que lhe chiava ao
andar. -ficou pensando-o um momento, e voltou a dizer que não com

a cabeça-. Não, Jackie não.

-por que preferiu limpar pessoalmente a casa de sua mãe? por que não contratou a alguém para que
se encarregasse do trabalho sujo?

-Não confiava em ninguém mais. Sempre sabia qual era a melhor maneira de fazer algo, e ninguém
mais que ela sabia, todos outros o fazíamos mau.

Isso, ao menos, concordava com o que lhes havia dito Candy. Todo o resto dava uma imagem dela
muito diferente, embora tinha sentido: Joelyn não tinha muito

trato com sua irmã.

-O número onze tem algum significado especial para você? -perguntou-lhe.

-Absolutamente nenhum -replicou com o cenho enrugado.

-E o que me diz da frase “Não vou sacrificar me”?

Ela disse que não com a cabeça.

-Mas é curioso… Com tudo quão rica era, Jackie se passava a vida sacrificando-se.

-Em que sentido?

-Privava-se da comida, do álcool, de divertir-se. -Rio com tristeza-. Amigos, família, amor.

Os olhos do Joelyn se encheram de lágrimas, e pela primeira vez foram autênticas. Wíll partiu e se
encontrou ao Faith esperando-o no corredor.

-Há-te dito algo? -perguntou-lhe.

-Mentiu-nos no da adoção. Ao menos isso diz.

-Podemos perguntar também ao Candy, a ver o que nos conta. -Faith tirou o móvel e continuou
falando com o Wíll enquanto marcava o número-. Se supõe que

tínhamos ficado com o Rick Sigler no hospital faz dez minutos. Chamei-lhe para lhe dizer que nos
íamos atrasar, mas não me agarra o telefone.

-E o que tem que seu amigo, Jake Berman?

-É o primeiro que tenho feito esta manhã, encarregar a vários agentes que o localizem.

-Não te parece estranho que não tenhamos podido lhe encontrar ainda?

-Agora mesmo não, mas se ao acabar a jornada seguimos sem localizá-lo volta a me perguntar.

Faith se levou o móvel à orelha e Wíll a ouviu deixar uma mensagem na secretária eletrônica do
Candy Smith para que a chamasse assim que pudesse. Fechou

o telefone mas não o guardou. Wíll começou a sentir medo, perguntando-se o que iria dizer sua
companheira a seguir: algo sobre a Amanda, uma diatribe contra Sara

Linton ou contra ele? Por sorte, era um pouco relacionado com o caso.

-Acredito que o desaparecimento do Pauline McGhee está relacionada com tudo isto.

-por que?

-Não sei, é uma intuição. Não posso explicá-lo, mas me parecem muitas coincidências.

-O caso segue sendo de Léon. Não temos jurisdição nem um motivo para lhe pedir que nos ceda
isso. -Wíll tinha que perguntá-lo-. Crie que poderia sugerir-lhe

de algum modo?

Faith negou com a cabeça.

-Não quero lhe causar nenhum problema a Léon.

-Mas ficou de te chamar, não? Quando localizasse a algum parente do Pauline em Michigan.

-Isso é o que disse, sim.

Esperaram em silêncio a que chegasse o elevador.


-Acredito que deveríamos ir ao estudo onde trabalha Pauline -disse Wíll.

-Tem razão.

Capítulo quatorze

Faith atravessou o vestíbulo do Xac Homage, o estudo de desenho onde trabalhava Pauline
McGhee. Os escritórios ocupavam toda a décimo terceira planta da

torre Symphony, o extravagante arranha-céu que se erigia na esquina do Peachtree com a rua
Quatorze como um gigantesco espéculo. Faith se estremeceu ante este último

pensamento, recordando o que tinha lido no relatório da autópsia do Jacquelyn Zabel.

Em consonância com seu pretensioso nome, o acristalado vestíbulo do Xac Homage estava
mobiliado com sofás a ras do chão nos que resultava impossível sentar-se

a menos que a gente tivesse os glúteos de aço ou se deixasse cair sem mais, em cujo caso
necessitaria que alguém lhe ajudasse para poder levantarse. Faith se teria

inclinado pela segunda opção de não ter levado posta uma saia que tendia a subir com facilidade,
inclusive quando não estava sentada, como à fulana de um gánster

em um vídeo de rap.

Tinha fome, mas não sabia o que comer. Lhe estava acabando a insulina e seguia sem estar muito
segura de se estava calculando bem as dose. Não tinha pedido

entrevista médica que lhe tinha recomendado Sara. Tinha os pés inchados, as costas a estava matando
e queria dar-se de cabaçadas contra as paredes porque era incapaz

de deixar de pensar no Sam Lawson por mais que o tentasse.

Além disso, pelas insistentes miraditas de reojo do Wíll tinha a sensação de que se estava
comportando como uma autêntica pirada.

-Deus -murmurou Faith, apoiando a frente contra o limpo cristal que circundava o vestíbulo. por
que não deixava de colocar a pata? Não era nenhuma idiota.

Ou ao melhor sim. Ao melhor se esteve enganando a si mesmo todo o tempo e ao final resultava que,
de fato, era uma das idiotas mais profundas do mundo.

Olhou os carros que circulavam pela rua Peachtree, como formiguinhas brincando de correr sobre
o negro asfalto. No mês anterior, na consulta do dentista,
Faith tinha lido em um artigo de uma revista que as mulheres estavam geneticamente condicionadas
para permanecer ligadas aos homens com os que tinham mantido relações

sexuais durante ao menos as três semanas posteriores ao encontro sexual porque esse é o tempo que
demora o corpo em descobrir se tinham ficado grávidas ou não. Naquele

momento se riu, porque Faith nunca se havia sentido ligada a um homem. Ao menos não depois de
separar do pai do Jeremy que, literalmente, abandonou o estado quando

Faith lhe comunicou que estava grávida.

E entretanto, aí estava ela, comprovando suas chamadas e seu correio eletrônico cada dez minutos,
desejando falar com o Sam, saber o que estava fazendo

e se estava zangado com ela, como se o acontecido tivesse sido culpa dela. Como se tivesse sido um
amante tão maravilhoso que Faith nunca tivesse suficiente. Ela

já estava grávida; não podia ser um condicionamento genético o que fazia que se comportasse como
uma colegiala tola. Ou ao melhor sim. Possivelmente simplesmente

estava sendo vítima de seus hormônios.

Ou talvez o que passava era que não deveria confiar sua formação científica ao Incline’ Home
Journal.

Faith voltou a cabeça e ficou a olhar ao Wíll, que estava no oco do elevador. Falava pelo móvel,
sujeitando-o com as duas mãos para que não se o descuajeringara.

Não podia seguir zangada com ele. Tinha estado muito bem com o Joelyn Zabel, tinha que admiti-lo.
Seu enfoque do trabalho policial era distinto do dele, e às vezes

isso jogava a seu favor e às vezes em seu contrário. Meneou a cabeça. Não podia teimar agora nessas
diferenças; não quando toda sua vida estava ao bordo de um gigantesco

precipício e o estou acostumado a tremia sob seus pés.

Wíll terminou de falar e foi para ela. Olhou a mesa vazia onde antes tinha estado a secretária.
Fazia pelo menos dez minutos que a mulher tinha ido avisar

ao Morgan Hollister. Ao Faith vieram à cabeça imagens dos dois destruindo documentos, embora era
mais provável que a secretária, uma loira de bote que parecia ter

grandes dificuldades para processar qualquer petição por simples que fora, esqueceu-se deles e
estivesse pendurada do móvel no lavabo de senhoras.

-Com quem falava? -perguntou Faith.


-Com a Amanda -respondeu Wíll, agarrando um par de caramelos da terrina que havia na mesita-.
Chamava para desculpar-se.

Faith se Rio da piada e Wíll pôs-se a rir também. Agarrou uns quantos caramelos mais e ofereceu
a terrina ao Faith. Ela disse que não com a cabeça, e ele

continuou falando.

-convocou outra roda de imprensa para esta tarde. Joelyn Zabel vai retirar a demanda contra o
estado.

-E como é isso?

-Seu advogado se deu conta de que não tem caso. Não se preocupe, sairá na capa de alguma
revista a semana que vem, e a seguinte voltará a nos ameaçar com

uma demanda por não ter sido capazes de encontrar ao assassino de sua irmã.

Era a primeira vez que um dos dois verbalizaba o que realmente lhes preocupava de tudo isto: que
o assassino fora o suficientemente bom para sair impune

de tudo.

Wíll assinalou a porta fechada que havia depois da mesa da secretária.

-Crie que deveríamos voltar sem mais?

-Lhe dê outro minuto.

Faith tentou limpar a mancha que tinha deixado no cristal ao apoiar a frente, mas solo conseguiu
sujá-lo ainda mais. A tensão entre eles se afrouxou um

pouco no trajeto, de modo que ao Wíll já não preocupava que ficasse feita um alfavaca com ele.
Agora era ela a que tinha medo de que ele estivesse zangado.

-Estamos bem? -perguntou-lhe.

-Claro, perfeitamente.

Não lhe acreditava, mas com uma pessoa que dizia uma e outra vez que não havia nenhum
problema não havia nada que fazer, porque seguiria insistindo nisso

até que se sentisse como se lhe estivesse inventando isso tudo.

-Bom, ao menos já sabemos que o mau leite é algo hereditário na família Zabel.

-Joelyn não está tão mal.


-É duro ser a irmã boa.

-O que quer dizer?

-Pois quero dizer que se for a menina boa da família, sacas boas notas, não te mete em confusões,
etc., e sua irmã sempre anda atando-a e chamando a atenção,

começa a te sentir excluída, como se desse igual o bem que lhe Portes, porque seus pais só se
preocupam com sua desencaminhada hermanita.

Suas palavras deveram soar muito duras, porque Wíll perguntou:

-Seu irmão não era um bom menino?

-É-o -respondeu Faith-. Eu era a hermanita desencaminhada que monopolizava a atenção de meus
pais. Lembrança que uma vez chegou a lhes pedir que o dessem

em adoção.

Wíll esboçou uma meia sorriso.

-Todo mundo quer ser adotado.

Faith recordou as coisas tão horríveis que havia dito Joelyn sobre as vontades de adotar um
menino que tinha sua irmã.

-O que disse Joelyn…

Wíll a interrompeu.

-por que seu advogado se empenhava em chamar “Mandy” a Amanda?

-É uma abreviatura da Amanda.

Wíll assentiu com ar pensativo, e Faith se perguntou se também tinha problemas com as
abreviaturas dos nomes. Tinha sentido: terei que saber como se escrevia

um nome para poder abreviá-lo.

-Sabia que dezesseis por cento dos assassinos em série que conhecemos eram adotados?

Ela enrugou o cenho.

-Isso não pode ser verdade.

-Joel Rifkin, Kenneth Bianchi, David Berkowitz. E ao Ted Bundy o adotou seu padrasto.

-E como é que de repente te converteste em um perito em assassinos em série?


-O Canal Historia -respondeu Wíll-. É muito útil, confia em mim.

-De onde tira tempo para ver tanta televisão?

-Não tenho o que se diz uma agitada vida social.

Faith voltou a olhar pela janela, pensando no encontro que tinha tido Wíll essa manhã com a Sara
Linton. Pelo que tinha lido no relatório sobre o Jéffrey

Tolliver, Faith tinha deduzido que era um policial diametralmente oposto ao Wíll: muito físico, com
iniciativa, disposto a fazer o que fora necessário para resolver

um caso. Não é que seu companheiro não fora também um policial tenaz, mas era mais de ficar
olhando ao suspeito até que confessava que de lhe tirar a confissão a

golpes. Seu instinto lhe dizia que Wíll não era o tipo da Sara Linton, e essa era a razão de que tivesse
sentido lástima por ele essa manhã, vendo o nervoso que

o punha a doutora. Ele também devia estar pensando no dessa manhã, porque de repente lhe disse:

-Não sei que número é o de seu apartamento.

-Refere a Sara?

-Vive nos Milk Lofts, no Berkshire.

-Imagino que à entrada haverá um dava… -Faith se interrompeu-. Posso te apontar seu sobrenome
para que o olhe no diretório. Não acredito que haja muitos

vizinhos.

Wíll se encolheu de ombros, um pouco envergonhado.

-Também podemos olhá-lo em Internet.

-Não acredito que apareça sua direção.

A porta se abriu e apareceu a secretária loira de bote. detrás dela havia um homem
exageradamente alto, exageradamente bronzeado e exageradamente bonito

vestido com o traje mais bonito que Faith tinha visto em sua vida.

-Morgan Hollister -se apresentou, lhes tendendo a mão enquanto cruzava o vestíbulo-. Sinto lhes
haver feito esperar tanto tempo. Estava em meio de uma videoconferencia

com um cliente de Nova Iorque. Este assunto do Pauline foi como um jarro de água fria, como se está
acostumado a dizer.
Faith não sabia muito bem quem estava acostumado a dizer isso, mas lhe perdoou e lhe estreitou a
mão. Era a um tempo o homem mais atrativo e mais gay que

tinha conhecido em muito tempo. E tendo em conta que estavam em Atlanta, a capital gay do Sul, isso
era muito dizer.

-Sou o agente Trent e ela é a agente Mitchell -disse Wíll, ignorando o vivo interesse que sua
pessoa parecia despertar no Morgan Hollister.

-Vai você ao ginásio?

-Treino com ata, mais que nada. E de vez em quando utilizo o banco de pesos.

Morgan lhe deu um soco no braço.

-Puro aço.

-Agradeço-lhe que nos permita jogar uma olhada às coisas do Pauline -disse Wíll, embora Morgan
ainda não lhes tinha dada permissão para nada-. Sei que a

polícia de Atlanta já esteve por aqui. Espero não lhe causar muita moléstia.

-Não. -Morgan pôs sua mão no ombro do Wíll enquanto lhe conduzia para a porta-. Estamos
destroçados pelo do Pauline. Era uma garota estupenda.

-Corre o rumor de que não resultava fácil trabalhar com ela.

Morgan se Rio, o que Faith entendeu como um “como todas as mulheres”. Lhe alegrava comprovar
que o machismo também impregnava fundo entre a comunidade gay.

-Soa-lhe de algo o nome do Jacquelyn Zabel? -perguntou-lhe Wíll.

Morgan negou com a cabeça.

-Conheço todos nossos clientes. Estou quase seguro de que o recordaria, mas posso olhá-lo no
ordenador. -Adotando uma expressão de tristeza, acrescentou-:

Pobre Paulie. foi um shock tremendo para nós.

-Procuramos ao Felix um emprego temporário -comunicou Wíll.

-Felix? -Morgan parecia algo confuso, mas em seguida caiu-. Ah, sim, o pequeñín. Seguro que
estará bem, é um campeão.

Morgan os levou por um corredor muito comprido. A sua direita estavam os cubículos com as
mesas dos empregados, com janelas ao fundo que davam a interestadual.
As mesas estavam cheias de amostras de tecido e esboços. Faith olhou uma série de fotocópias de
planos estendidas sobre a mesa de reuniões e sentiu uma quebra de

onda de nostalgia.

De menina queria ser arquiteta, um sonho ao que teve que renunciar com quatorze anos quando a
expulsaram do colégio por estar grávida. Agora as coisas eram

muito distintas, mas naquela época o que se esperava de uma adolescente grávida era que
desaparecesse do mapa, ninguém voltava a mencionar seu nome salvo em relação

com o menino que a tinha atirado, e nesse caso se referiam a ela como “esse putón que esteve a ponto
de lhe arruinar a vida ficando prenhe”.

Morgan se deteve frente à porta fechada de um dos despachos. Tinha um letreiro com o nome do
Pauline McGhee. Tirou uma chave.

-O despacho se fecha sempre com chave? -perguntou-lhe Wíll.

-Pauline estava acostumado a fazê-lo, sim. Uma de suas manias.

-Tinha muitas manias?

-Gostava de fazer as coisas a sua maneira -respondeu Morgan, encolhendo-se de ombros-. Eu a


deixava a seu ar. Lhe dava bem a papelada e sabia manter a raia

aos das subcontrata.

-Deixou de sorrir-. Embora acabou me colocando em uma confusão. Colocou a pata com um
pedido muito importante e seu engano lhe custou ao estudo muito dinheiro.

De fato, não estou muito seguro de que seguisse trabalhando aqui se não tivesse acontecido isto.

Se Wíll se perguntava por que Morgan falava do Pauline em passado, não expressou suas dúvidas
em voz alta. limitou-se a pôr a mão para agarrar a chave.

-Fecharemos com chave ao sair.

Morgan vacilou um momento. Obviamente tinha dado é óbvio que estaria presente enquanto
registravam o despacho.

-A devolverei quando tivermos terminado, de acordo? -disse Wíll e lhe deu um soco no braço-.
Obrigado.

Deu-lhe as costas e entrou no despacho. Faith entrou detrás dele e fechou a porta detrás de si.

-Não te incomoda? -perguntou.


-Morgan? -Wíll se encolheu de ombros-. Sabe que não me interessa.

-Mas mesmo assim…

-No orfanato havia muitos guris gays. A maioria eram imensamente mais agradáveis que os
heteros.

Não podia imaginar sequer que um pai pudesse desfazer-se de seu próprio filho por nenhuma
razão, e muito menos por essa em particular.

-Que barbaridade.

Era evidente que Wíll não tinha vontades de falar do assunto. Jogou uma olhada ao despacho e
disse:

-Eu diria que é bastante austero.

Faith estava de acordo com ele. Parecia como se tivesse estado sempre parado. Não havia
nenhuma só nota sobre seu escritório. As bandejas de entrada e saída

estavam vazias. Os livros de desenho que havia nas estanterías estavam colocados por ordem
alfabética, com os lombos perfeitamente alinhados. As revistas estavam

como novas e perfeitamente ordenadas em caixas de cores. Até o monitor parecia estar colocado em
um ângulo perfeito de quarenta e cinco graus com a esquina do escritório.

O único objeto pessoal que se via por ali era uma foto do Felix nos balanços.

-“É um campeão” -disse Wíll, burlando-se da expressão que tinha utilizado Morgan para referir-se
ao filho do Pauline-. Falei com a trabalhadora social ontem

à noite. Felix não o leva nada bem.

-Em que sentido?

-Passa-se o dia chorando. Não quer comer.

Faith contemplou a fotografia, a alegria nos olhos do menino sonriendo a sua mãe. Pensou no
Jeremy quando tinha essa mesma idade, tão bonito que lhe dava

vontade de comer-lhe como se fora um caramelo. Ela acabava de graduar-se na academia de polícia
e se transladaram a um apartamento barato além do Monroe Drive; a

primeira vez que viviam longe da Evelyn. Suas vidas se entrelaçaram de um modo que Faith jamais
teria imaginado que fora possível. Jeremy formava parte dela até

tal ponto que logo que podia suportar ter que lhe deixar na creche. De noite ficava a colorir enquanto
ela redigia seus informe na mesa da cozinha. Cantava-lhe com

essa vocecita gritã enquanto lhe preparava o jantar e o almoço para o dia seguinte. Às vezes se metia
em sua cama e se acurrucaba sob seu braço como um gatinho.

Nunca se havia sentido tão importante nem tão necessitada; nem antes, nem muito menos depois.

-Faith? -Wíll havia dito algo, mas não se inteirou.

Deixou a fotografia sobre o escritório do Pauline antes de mugir como uma cria:

-O que?

-Dizia que o que te aposta a que a casa do Jacquelyn na Florida está tão ordenada e poda como
esta.

Faith se esclareceu garganta tratando de concentrar-se no que estava fazendo.

-A habitação que utilizava em casa de sua mãe estava muito ordenada, certamente. Pensei que a
tinha assim porque o resto era uma leonera, já sabe, uma ilha

de calma em meio da tempestade. Mas talvez é que é uma fanática da ordem.

-Personalidade de tipo A.

Wíll deu a volta à mesa e abriu as gavetas. Faith olhou o que havia dentro: uns lápis de cores
perfeitamente alinhadas sobre uma bandeja de plástico e vários

pacotes do Post-it empilhados e bem quadrados. Wíll abriu a seguinte gaveta e viu uma pasta grande.
Colocou-a em cima da mesa e ficou a folheá-la. Faith encontrou

planos de habitações, esboços, fotos de móveis sujeitas com clipes.

Faith acendeu o ordenador enquanto Wíll inspecionava o resto das gavetas. Estava quase segura de
que não ia encontrar nada, mas tinha a estranha sensação

de que o que faziam lhes estava ajudando de algum modo a resolver o caso. Havia tornado a
combinar com o Wíll, a vê-lo mais como a um companheiro que como a um adversário.

Isso tinha que ser um bom sinal.

-Olhe isto.

Tinha aberto a última gaveta da esquerda. Estava tudo revolto, como uma gaveta de alfaiate; os
papéis mesclados, e no fundo havia várias bolsas de batatas

vazias.
-Bom, agora já sabemos que é humano -comentou Faith.

-É muito estranho -disse Wíll-. Toda está perfeitamente limpa e ordenado menos esta gaveta.

Ela agarrou uma bola de papel e a alisou sobre a mesa. Era uma lista, e ao lado de cada coisa
havia uma marca que devia indicar que já não estava pendente:

supermercado; avisar para que arrumem o abajur do despacho do Powell; falar com o Jordan sobre
os esboços dos sofás. Tirou outra bola de papel e viu que era outra

lista de tarefas.

-Ao melhor os descartava uma vez que tinha completado todas as tarefas.

Olhou a lista com os olhos entreabridos e tratou de vê-la como a via Wíll. Era tão bom lhe fazendo
acreditar às pessoas que sabia ler que às vezes ela esquecia

de que tinha esse problema.

Wíll inspecionou a livraria, e agarrou uma caixa cheia de revistas de uma das prateleiras de no
meio.

-O que é isto? -perguntou enquanto tirava mais caixas. Faith viu a roda de uma caixa forte.

Wíll tentou abri-la, mas não houve sorte. Passou os dedos pelo bordo.

-Está embutida na parede.

-Quer ir perguntar lhe a combinação a seu amigo Morgan?

-Aposto-me o salário de um ano a que não sabe.

Faith não quis aceitar a aposta. Como Jacquelyn Zabel, parecia que Pauline McGhee desfrutava
guardando secretos.

-Olhe a ver se a encontra no ordenador, se não irei perguntar lhe.

Faith olhou a tela. Tinha saltado um quadro de diálogo que lhe pedia uma contra-senha.

Wíll também o viu.

-Prova com “o Felix”.

Faith escreveu o nome do menino e, milagrosamente, acertou. Tomou nota mentalmente de que
tinha que trocar sua contra-senha, “Jeremy”, enquanto abria o

programa de correio. Olhou as mensagens enquanto Wíll voltava para a livraria. Encontrou coisas de
trabalho, mas nada pessoal que indicasse a existência de algum
amigo ou confidente. recostou-se na cadeira e abriu o navegador, esperando encontrar no histórico
algum outro serviço de correio eletrônico. Não apareceu nenhuma

conta do Gmail ou do Yahoo, mas sim várias páginas Web.

Escolheu uma ao azar e fez clique, e se encontrou no YouTube. Comprovou o volume enquanto se
carregava o vídeo. ouviu-se o som de um violão pelos alto-falantes

de debaixo do monitor e na tela apareceram sucessivamente um par de frases: “Sou feliz” e “Estou
sonriendo”.

Wíll estava detrás dela. Faith leu em alto as frases que foram saindo: “Estou sentindo. Estou
vivendo. Estou morrendo”.

O som do violão se ia fazendo mais furioso com cada palavra, e apareceu uma fotografia de uma
garota vestida de animadora. A cinturilla dos shorts deixava

seu umbigo ao descoberto, e o Top apenas lhe cobria os peitos. Estava tão magra que Faith podia lhe
contar as costelas.

-Por Deus -murmurou.

Apareceu outra imagem na tela, esta vez uma garota afroamericana. Estava acurrucada em cima de
uma cama, de costas à câmara. Tinha a pele tensa e se podiam

apreciar com toda claridade cada uma de suas vértebras e costelas. Sua omoplata me sobressaía por
debaixo da pele como uma faca.

-O que é isso? -perguntou Wíll-. A página de alguma associação que arrecada recursos para a
investigação do SIDA?

Faith meneou a cabeça enquanto na tela aparecia uma nova imagem: uma modelo com uma
paisagem urbana ao fundo cujas pernas e braços eram finos como palitos.

A seguir outra imagem, esta vez de uma mulher com as clavículas tão pronunciadas que dava
desgosto olhá-la. A pele dos ombros parecia papel molhado aderido aos tendões,

que podiam distinguir-se perfeitamente.

Faith desdobrou o histórico do navegador. Encontrou um segundo vídeo. A música era diferente,
mas começava mais ou menos igual.

-“Come para viver. Não viva para comer” -leu em voz alta.

As palavras se desvaneceram e apareceu a foto de uma garota tão fraca que doía olhá-la. Faith
abriu outra página, e logo outra.
-“A única liberdade que fica é a liberdade de nos matar de fome.” “Magra é formosa. Gorda é
feia.” -Olhou a parte superior da tela, para ver que categoria

pertencia o vídeo-. Thinspo. Não tenho nem a mais remota idéia do que é isso.

-Não o entendo. Essas garotas parecem esfomeadas, mas têm televisão em sua habitação e vão
bem vestidas.

Faith provou sorte com outro enlace.

-Thinspiration -disse-. Por Deus bendito, não me posso acreditar isso. Estão esquálidas.

-Há algum grupo de notícias ou algo?

Faith revisou o histórico mais antigo. Repassou a lista e encontrou mais vídeos, mas nada que
parecesse um chat. Seguiu baixando, passou à página seguinte

e lhe tocou a loteria.

-Atlanta-Pró-a Ana-ponto-com -leu em voz alta-. É uma página pró-anorexia.

Faith fez clique sobre o enlace, mas lhe saltou outra janela que lhe pedia uma contra-senha. Provou
de novo com “o Felix”, mas esta vez não funcionou. Leu

a letra pequena.

-Pede-me uma contra-senha de seis caracteres, e Felix só tem cinco. -Provou com algumas
variantes do nome, as dizendo em voz alta para que Wíll se inteirasse-.

Zero-Felix, uno-felix, Felix-zero…

-Quantas letras tem “Thinspiration”? -perguntou Wíll.

-Muitas -disse-. Mas “Thinspo” tem sete.

Provou com esta última, mas não houve sorte.

-Qual é seu usuário?

Faith leu o nome que havia em cima do espaço para a contra-senha.

-“Dlgd A-T-L” -Faith se precaveu de que Wíll não o entendia-. É uma espécie de abreviatura de
“Magra Atlanta”.

Introduziu o usuário como contra-senha.

-Nada. Zero. -de repente lhe ocorreu uma idéia-. O aniversário do Felix.
Abriu o calendário e procurou na categoria “aniversário”. Só apareceram dois resultados, a gente
era o do Pauline e o outro o do Felix.

-Uno-dos-ocho-cero-tres. -A janela continuava ali-. Nada, não funcionou.

Wíll assentiu com a cabeça enquanto se arranhava o braço com ar distraído.

-As caixas fortes revistam ter uma combinação de seis dígitos, não?

-Não perde nada por provar. -Faith ficou esperando, mas Wíll não se moveu.

-Uno-dos-ocho-cero-tres -repetiu, sabendo que Wíll reteria perfeitamente os números. Mas seguiu
sem mover-se e finalmente ao Faith lhe acendeu uma lucecita-.

OH. Perdoa.

-Não te desculpe. É minha culpa.

-Não, é minha culpa.

Levantou-se e foi até a caixa forte. Girou a roda à direita até o número doze, logo duas voltas à
esquerda até o oito. Os números não eram o problema, mas

não distinguia a direita e a esquerda.

Faith marcou o último número, a porta se desbloqueou e se sentiu um pouco decepcionada ao ver
quão fácil tinha sido. Abriu a caixa e viu um caderno de espiral

como os que levavam os meninos ao colégio e um fólio impresso. Leu o texto por cima. Era uma
cópia impressa de uma mensagem de correio relacionado com as medidas

de um elevador para assegurar-se de que cabia um sofá, algo que ao Faith não lhe tinha ocorrido
nunca, e isso que quando comprou a geladeira se encontrou com que

não lhe cabia pela porta da cozinha.

-Um assunto de trabalho -explicou ao Wíll, e agarrou o caderno.

Ao abri-lo pela primeira página o pêlo da nuca lhe pôs de ponta, e teve que reprimir um calafrio
ao dar-se conta do que estava vendo. Uma só frase, escrita

com uma bonita caligrafia, enchia toda a folha. Faith passou uma página, e logo outra mais. Em
algumas parte o risco era tão enérgico que a caneta tinha transpassado

o papel. Não acreditava em idiotices sobrenaturais, mas se podia apalpar a raiva que emanava
dessas páginas.
-É o mesmo, verdade?

Wíll devia ter reconhecido a caligrafia, uma frase curta repetida uma e outra vez em todo o
caderno, como a obra de arte de um sádico.

“Não vou sacrificar me… Não vou sacrificar me… Não vou sacrificar me…”

-Exatamente igual -lhe confirmou Isto Faith demonstra que Pauline tem algo que ver com a cova, e
com a Jackie Zabel e Anna.

-Está escrito com boli -disse Wíll-. As que encontramos na cova estavam escritas a lápis.

-Mas é a mesma frase: “Não vou sacrificar me”. Pauline escreveu isto porque quis, não porque a
obrigassem. Ninguém lhe disse que o fizesse. E pelo que sabemos

não esteve nessa cova. -Faith seguiu acontecendo páginas para assegurar-se de que não havia nada
mais escrito-. Jackie Zabel era magra. Não como as garotas desses

vídeos, mas estava muito magra.

-Joelyn Zabel disse que sua irmã seguia pesando quão mesmo quando estava no instituto.

-Crie que padecia um transtorno alimentício?

-Acredito que se parece muito ao Pauline: gosta de controlá-lo tudo, guardar secretos. Pete pensou
que Jackie estava desnutrida, mas possivelmente era ela

mesma a que se estava matando de fome.

-E o que me diz da Anna? Está magra?

-Igual. Sobressaía-lhe muito… -levou-se a mão à clavícula-. Pensamos que podia formar parte da
tortura: lhes privar da comida. Mas as garotas desses vídeos

o fazem a propósito, não? Esses vídeos são como pornografia para anoréxicas.

Assentiu e, de repente, lhe ocorreu outra possível conexão.

-Ao melhor se conheceram através de Internet.

Voltou para a janela da contra-senha que bloqueava o acesso ao chat Pró-a Ana e introduziu a data
do aniversário do Felix combinada de distintas formas:

omitindo os ceros, com os ceros, com todos os dígitos, em ordem inversa.

-Pode que lhe atribuíssem uma determinada contra-senha e não pudesse trocá-la.

-Ou ao melhor o conteúdo desse chat é mais valioso para ela que o resto de seu ordenador ou da
caixa.

-Esta é a conexão, Wíll. Se todas padeciam transtornos alimentícios, já temos um elo comum entre
elas.

-E um chat ao que não podemos acessar, e familiares que não nos estão sendo muito úteis, que
digamos.

-E o que há do irmão do Pauline? Disse ao Felix que era um homem mau. -separou-se do
ordenador para olhar ao Wíll-. Possivelmente deveríamos voltar a falar

com o Felix a ver se recordar alguma outra coisa.

Wíll não parecia muito seguro.

-Solo tem seis anos, Faith. sente-se sozinho e está assustado porque perdeu a sua mãe. Não
acredito que possamos lhe tirar nada mais.

Ambos deram um salto quando soou o telefone de em cima da mesa. Faith alargou a mão sem
pensar e respondeu.

-Despacho do Pauline McGhee.

-Olá. -Morgan Hollister não parecia muito contente.

-encontrou ao Jacquelyn Zabel em sua lista de clientes? -perguntou-lhe Faith.

-Temo-me que não, detetive, mas… é curioso… Tenho uma chamada para você pela linha dois.

Faith olhou ao Wíll e se encolheu de ombros enquanto apertava o botão iluminado.

-Faith Mitchell.

Leio Donnelly começou a falar de maneira torrencial.

-Não te ocorreu me chamar antes de colocar os narizes em meu caso?

Faith ia desculpar se de todas as maneiras possíveis, mas Léon não lhe deu ocasião.

-recebi uma chamada de meu chefe que, a sua vez, recebeu uma chamada do Hollister lhe
perguntando por que uns agentes do estado estavam registrando o despacho

do McGhee quando já o temos feito nós esta mesma manhã. -Léon respirava com dificuldade-. Meu
chefe, Faith, quer saber por que não posso fazer meu trabalho como

é devido. Tem idéia de em que posição me deixaste?

-Está relacionado -lhe disse Faith-. encontramos uma conexão entre o Pauline McGhee e as demais
vítimas.

-Pois me alegro muitíssimo por ti, Mitchell. Enquanto isso, me têm agarrado pelos ovos porque
você não pôde perder dois segundos para agarrar o telefone

e me avisar.

-Léon, o sinto muito…

-Te economize as desculpas -disse-. Agora deveria me guardar isto, mas não sou essa classe de
tipo.

-te guardar, o que?

-Tenho outra mulher desaparecida.

Faith sentiu que o coração lhe dava um tombo.

-Outra mulher desaparecida? -repetiu para que Wíll soubesse do que falavam-. Coincide com o
perfil?

-Trinta e tantos, moréia, olhos castanhos. Trabalha em um banco muito exclusivo, no Buckhead, no
que tem que ser asquerosamente rico solo para que lhe deixem

entrar. Não tinha amigos, e todo mundo diz que era insofrível.

Faith olhou ao Wíll e assentiu. Outra vítima, outra conta atrás.

-Como se chama? Onde vive?

-Olivia Tanner -soltou o nome e a direção tão rápido que Faith lhe pediu que o repetisse-. Na
Virginia Highland.

Faith se anotou a direção no dorso da mão.

-Deve-me uma -lhe disse.

-Léon, o sinto, eu…

Léon não a deixou terminar a frase.

-Se eu estivesse em seu lugar, Mitchell, andaria-me com muito cuidado. Exceto pelo do êxito nos
negócios, ultimamente encaixa perfeitamente no puto perfil.

Faith ouviu um leve clique, que em certo modo era pior que se tivesse pendurado de repente o
auricular.

Olivia Tanner vivia em uma dessas casitas do Midtown que pareciam engañosamente pequenas; da
rua davam a impressão de ter uns cem metros quadrados, mas

logo tinham seis dormitórios, cinco banhos e um serviço, e custavam ao redor de um milhão de
dólares. Depois de ter registrado o despacho do Pauline McGhee e ter

visto a psique da mulher ao nu, Faith via a casa da Olivia Tanner com olhos muito diferentes. O
jardim era muito bonito, mas todas as novelo estavam perfeitamente

alinhadas. O exterior da casa estava recém pintado, e o canelone elegantemente alinhados com os
beirais. Por isso Faith sabia do bairro, a casita devia ser trinta

anos mais antiga que sua velha casa uso rancho, mas em comparação parecia completamente nova.

-Muito bem -disse Wíll, falando pelo móvel-. Obrigado por falar comigo. -Ao finalizar a chamada
contou ao Faith-: Joelyn Zabel diz que sua irmã teve problemas

de anorexia e bulimia quando estava no instituto. Não está muito segura de como o levava
ultimamente, mas parece evidente que não o tinha superado.

Faith deixou que a informação se assentasse em seu cérebro.

-Vale.

-Já o temos. Essa é a conexão.

-E aonde nos conduz? -perguntou Faith tirando a chave do contato-. Os informáticos não podem
acessar ao MAC da Jackie Zabel. Além disso, poderiam demorar

semanas em averiguar a contra-senha do Pauline McGhee, e nem sequer sabemos se o chat pró-a Ana
era o ponto de encontro com as demais mulheres ou se simplesmente

se topou com ele por acaso enquanto navegava por Internet na pausa para o almoço. -voltou-se para
olhar a casa da Olivia Tanner-. O que te aposta a que tampouco

encontramos nada aí dentro?

-Está pensando no Felix quando o que deveria fazer é te centrar no Pauline -disse Wíll com
delicadeza.

Faith queria lhe dizer que se equivocava, mas ele tinha razão. Não podia deixar de pensar em que
Felix estava em um lar de acolhida, chorando como um descosturado.

Tinha que concentrar-se nas vítimas, no fato de que Jacquelyn Zabel e Anna tinham sido as
precursoras do Pauline McGhee e Olivia Tanner. Por quanto tempo poderiam

agüentar as torturas, a degradação? Cada minuto que passava era outro minuto mais de sofrimento
para elas.
-O único modo em que podemos ajudar ao Felix é ajudando ao Pauline -disse Wíll.

Faith exalou um fundo suspiro.

-Que me conheça tão bem começa a me chatear muito.

-Por favor -murmurou Wíll-, é um enigma envolto em um bollito pringoso.

Wíll abriu a porta do carro e se baixou. Faith ficou lhe olhando enquanto se dirigia para a casa
com passo decidido. Desceu do carro e o seguiu.

-Não tem garagem nem BMW -comentou.

Depois da incômoda chamada de Léon, pôs-se em contato com o sargento que tinha atendido a
denúncia do desaparecimento da Olivia Tanner. A mulher conduzia

um BMW 325, algo que não chamaria a atenção em um bairro como esse. Era solteira, a vice-
presidenta de um banco local, não tinha filhos e seu irmão era seu único

parente vivo.

Wíll tentou entrar pela porta principal, mas estava fechada com chave.

-por que demora tanto o irmão? -disse Faith olhando o relógio-. Seu avião aterrissou faz uma hora.
Se houver muito tráfico…

Faith não terminou a frase. Em Atlanta sempre havia muito tráfico, especialmente nos arredores do
aeroporto.

Wíll se agachou para comprovar se havia uma chave debaixo do felpudo. Ao ver que não havia
nada passou a mão pelo dintel e olhou nos vasos de barro que

havia junto à porta, mas não encontrou nenhuma chave.

-Crie que deveríamos forçar a porta?

Faith decidiu não fazer nenhum comentário sobre suas ânsias de cometer um aplainamento. Levava
trabalhando com ele o tempo suficiente para saber que a frustração

fazia que ao Wíll lhe disparasse a adrenalina, enquanto que o fazia mas bem o efeito de um Valium.

-Vamos lhe dar uns minutos mais.

-Deveríamos ir chamando um chaveiro se por acaso o irmão não tem chave.

-vamos tomar nos isto com um pouco de calma, Faith. De acordo?

-Fala-me igual à as testemunhas.


-Nem sequer sabemos se Olivia Tanner é uma de nossas vítimas. Talvez resulta que é loira de bote
e tem um montão de amigos.

-No banco dizem que não faltou ao trabalho nenhuma só vez desde que começou a trabalhar ali.

-Igual se tem cansado pelas escadas. Ou decidiu tomar o dia livre. Ou fugir-se com um estranho ao
que conheceu ontem à noite em um bar.

Wíll não disse nada. Colocou as mãos a ambos os lados da cara para poder ver o interior de uma
das janelas. Certamente o agente uniformizado que tinha tomado

nota da denúncia no dia anterior já teria feito isso mesmo, mas Faith lhe deixou fazer enquanto
esperavam a que aparecesse Michael Tanner, o irmão da Olivia.

em que pese a seu aborrecimento, Léon lhes tinha feito um grande favor lhes passando o aviso.
Segundo o procedimento, deveriam lhe haver atribuído o caso

a um detetive. E dependendo deste, Michael Tanner poderia ter tido que esperar até vinte e quatro
horas para falar com alguém que pudesse fazer algo mais que preencher

um formulário. Nesse caso teriam demorado ainda um dia mais em avisar ao DIG de que tinha
desaparecido uma mulher que encaixava em seu perfil. Léon lhes tinha agradável

dois preciosos dias em um caso para o que necessitavam ajuda desesperadamente. E eles o tinham
agradecido com uma patada em plena boca.

Faith notou que seu BlackBerry começava a vibrar. Faith comprovou seu e-mail e, mentalmente,
deu-as graças ao Caroline, a secretária da Amanda.

-Tenho o relatório da detenção do Jake Berman pelo incidente no centro comercial.

-E o que diz?

Faith ficou olhando a barra de descargas.

-vai demorar uns minutos em baixar-se.

Wíll deu uma volta à casa, comprovando cada janela. Faith o seguiu olhando a BlackBerry como
se fora a varinha de um zahorí. Por fim recebeu a primeira

página do relatório e começou a ler em voz alta.

-“Em relação com as queixa recebidas por parte da direção do Mall da Geórgia… -Faith utilizou o
scroll para deslocar-se pelo texto e procurar as partes

mais relevantes- …o suspeito fez o típico gesto com a mão para indicar que desejava manter
relações sexuais. Eu respondi assentindo duas vezes com a cabeça, e

ele me levou até uma das cabines do fundo do lavabo de cavalheiros. -Faith se saltou alguns
parágrafos-. A esposa e os dois filhos do suspeito, de um e três anos

de idade respectivamente, estavam-lhe esperando fora.”

-Menciona-se o nome da esposa?

-Não.

Wíll subiu pelas escadas até a terraço que havia na parte posterior da casa. Atlanta está situada na
saia dos Montes Apalaches, por isso há muitos vales

e colinas. A casa da Olivia Tanner se achava ao final de uma levantada pendente, por isso seus
vizinhos de atrás podiam vê-la perfeitamente.

-Talvez viram algo -sugeriu Wíll.

Faith olhou a casa do vizinho. Era muito grande, como essas mansões caipiras que normalmente
solo se viam nos subúrbios. Os dois pisos superiores tinham

uma terraço enorme, e no porão havia também uma terraço mobiliada com uma chaminé de tijolo.
Todas as venezianas da parte de atrás estavam fechadas, salvo por um

par de cortinas abertas em uma das portas do porão.

-Parece que não há ninguém -disse Faith.

-Certamente estará embargada -replicou Wíll, provando sorte com a porta de atrás. Estava fechada
com chave também-. Olivia leva em paradeiro desconhecido

desde ontem, como mínimo. Se for uma de nossas vítimas deveu ser seqüestrada justo antes ou justo
depois que Pauline.

Wíll comprovou as janelas.

-Crie que Jake Berman poderia ser o irmão do Pauline McGhee? -perguntou.

-É uma possibilidade -lhe concedeu Faith-. Pauline advertiu ao Felix de que seu irmão era
perigoso. Não queria que se relacionasse com seu filho.

-Devia ter um motivo para lhe ter medo. Pode que seja um tipo violento. Possivelmente fora seu
irmão a razão pela que se mudou e se trocou o nome. Cortou

todos os laços quando era ainda muito jovem. Devia a ter aterrorizada.
-Jake Berman estava no lugar dos fatos e se acha em paradeiro desconhecido. Não colaborou
muito como testemunha. E seu nome não figura em nenhuma parte,

salvo por essa detenção -disse Faith.

-Se Berman for o aliás que está usando o irmão do Pauline, deve estar muito bem situado.
Prenderam-no e seu nome saiu ileso de todo o processo judicial.

-Se se trocou de nome quando Pauline fugiu de casa, vinte anos são toda uma vida no que a
documentos públicos se refere. Ainda estão pondo ao dia as base

de dados, digitalizando informação e casos antigos. Muitos desses expedientes se ficaram pelo
caminho, especialmente nas cidades pequenas. Olhe o difícil que resultou

a Léon dar com os pais do Pauline, e isso que denunciaram o desaparecimento de sua filha.

-Que idade tem Berman?

Faith subiu até o princípio do relatório.

-Trinta e sete.

Wíll ficou quieto.

-Pauline também. Serão gêmeos?

Faith ficou a revolver em sua bolsa e tirou a fotocópia do carnê de conduzir do Pauline McGhee.
Tentou recordar a cara do Jake Berman, mas então se lembrou

de que tinha sua ficha na outra mão. A BlackBerry seguia carregando o arquivo. Elevou-o por cima
de sua cabeça a ver se assim melhorava a qualidade do sinal.

-Voltemos para a parte dianteira -sugeriu Wíll.

Deram a volta à casa e Wíll foi aparecendo pelas janelas para assegurar-se de que não havia nada
suspeito. Para quando chegaram ao alpendre o arquivo tinha

terminado de carregar-se.

Na foto que lhe fizeram para a ficha, Jake Berman tinha uma barba povoada, do tipo que se deixam
os pais dos bairros residenciais quando querem parecer

subversivos. A ensinou ao Wíll.

-Estava barbeado quando falei com ele -explicou Faith.

-Felix disse que o homem que se levou a sua mãe levava bigode.
-Não acredito que lhe tenha dado tempo a deixar-lhe.

-Poderíamos pedir que nos fizessem um desenho para ver que aspecto teria barbeado, com bigode,
ou o que seja.

-Mas é Amanda quem terá que decidir se o fazemos público ou não.

Publicar um desenho poderia provocar que ao Jake Berman entrasse o pânico e começasse a
cobrir ainda melhor seu rastro. E se em efeito era seu homem, também

lhe poria sobre aviso. Podia decidir matar a tudas as testemunhas e abandonar o estado, ou pior
ainda, o país. Do aeroporto internacional do Hartsfield saíam e entravam

dois mil e quinhentos vôos todos os dias.

-É moreno e tem os olhos castanhos, como Pauline -observou Wíll.

-E você também.

Encolheu-se de ombros.

-Não parece que sejam gêmeos. Mas sim poderiam ser irmãos.

Faith se voltou a sentir como uma idiota. Olhou suas datas de nascimento.

-Berman cumpriu anos depois da detenção. Nasceu oito meses antes que Pauline. Seriam “gêmeos
irlandeses”: irmãos que nascem com menos de doze meses de diferença.

-Vestia de traje o dia que o prenderam?

Faith consultou de novo a ficha.

-Jeans e pulôver. Quão mesmo quando falei com ele no Grady.

-Consta na ficha a que se dedica?

Faith o comprovou.

-Em parada -continuou lendo os detalhes e meneou a cabeça-. Este relatório é uma porcaria. Não
posso acreditar que um tenente lhe desse o visto bom.

-Eu levei a cabo muitas operações como essa. Prende dez ou quinze tios ao dia; a maioria se
declaram culpados de um delito menor ou pagam a multa e esperam

que todo se esqueça. Nenhum vai a julgamento, porque o último que querem é ter que enfrentar-se à
pessoa que os acusou.

-E qual é “o típico gesto com a mão” que fazem para indicar que querem manter relações sexuais?
-perguntou Faith cheia de curiosidade.

Wíll fez um gesto decididamente obsceno com os dedos e Faith desejou não ter perguntado.

-Tem que haver alguma razão para que Jake Berman não queira ser localizado -insistiu Wíll.

-Quais são as opções? Ou é um moroso, ou o irmão do Pauline, ou nosso assassino. Ou as três


coisas de uma vez.

-Ou nenhuma -assinalou Wíll-. Em qualquer caso temos que falar com ele.

-Amanda tem a toda a equipe lhe buscando. Estão trabalhando com todas as combinações que lhes
ocorrem: Jake Seward, Jack Seward. Estão-o procurando como

McGhee, Jackson, Jakeson.

-Qual é seu segundo nome?

-Henry. Assim terá que provar com o Hank, Harry, Hoss…

-Como é possível que esteja fichado e ainda não tenhamos podido dar com ele?

-Não usou nenhum cartão de crédito. Não tem móvel de contrato nem hipoteca. Tampouco
encontramos nada em suas anteriores direções. Não sabemos para quem

trabalha nem para quem o tem feito.

-Pode que o tenha tudo em nome de sua esposa… Mas não sabemos como se chama.

-Se prendessem a meu marido com a minga fora em um centro comercial enquanto eu lhe espero à
saída com os meninos… -Faith não se incomodou em terminar

a frase-. Para cúmulo, o advogado que lhe levou o caso é um gilipollas.

O advogado se negava a revelar informação sobre nenhum de seus clientes e insistia em que não
tinha idéia de como ficar em contato com este. Amanda estava

pedindo ordens judiciais para poder requisitar seus arquivos, mas a tramitação das ordens levava seu
tempo, e lhes estava esgotando.

Um Ford Escape estacionou diante da casa. O homem que se desceu do carro era a imagem mesma
da ansiedade, do cenho franzido até o modo em que se retorcia

as mãos por diante de sua incipiente barriga. Tinha um aspecto bastante anódino, clareava-lhe muito
o cabelo e tinha os ombros carregados. Faith estava quase segura

de que trabalhava em algo que lhe obrigava a passar-se mais de oito horas ao dia sentado ao
ordenador.

-São vocês os policiais com os que falei por telefone? -perguntou o homem bruscamente. Então,
reparando em quão rude tinha sido, voltou a tentá-lo-: Perdoem,

sou Michael Tanner, o irmão da Olivia. São vocês da Polícia?

-Sim, senhor. -Faith tirou sua identificação e fez as apresentações-. Tem você chave da casa de sua
irmã?

Michael parecia a um tempo envergonhado e preocupado, como se todo aquilo tivesse que ser um
mal-entendido.

-Não sei se deveríamos fazer isto. A Olivia não gosta que invadam sua intimidade.

Faith e Wíll intercambiaram olhadas. Outra mulher perita em levantar barreiras.

-Podemos chamar um chaveiro se fizer falta -lhe ofereceu Wíll-. É importante que inspecionemos
o interior da casa se por acaso aconteceu algo. Olivia poderia

haver-se cansado, O…

-Tenho uma chave. -Michael se meteu a mão no bolso e tirou uma só chave pendurada de uma cinta
elástica-. Me mandou isso por correio faz três meses, não

sei por que. Solo me disse que queria que tivesse uma. Suponho que me deu isso porque sabia que
não ia usá-la. Ao melhor não deveria fazê-lo.

-Não teria tomado um vôo para vir de Houston se não acreditasse que aconteceu algo mau -lhe
disse Wíll.

Michael ficou pálido e Faith se fez uma idéia de como deviam ter sido as últimas horas na vida
daquele homem: conduzir até o aeroporto, subir ao avião,

alugar um carro, todo o momento pensando que estava fazendo uma estupidez, que sua irmã estava
perfeitamente. E no fundo pensando que não, que o mais provável era

que lhe tivesse acontecido algo.

Michael deu a chave ao Wíll.

-O policial com o que falei ontem me disse que enviaria a um agente para que se aproximasse de
jogar uma olhada. -Fez uma pausa, como se necessitasse que

lhe confirmassem que o tinham feito-. Me preocupava que não tomassem a sério. Sei que Olivia é
uma mulher adulta, mas é um animal de costumes. Nunca altera sua rotina.
Wíll abriu a porta e entrou na casa. Faith ficou com o irmão no alpendre.

-E qual é sua rotina? -perguntou-lhe.

O homem fechou os olhos um momento para fazer memória.

-Trabalha em um banco no Buckhead há quase vinte anos. Trabalha seis dias à semana, todos salvo
no domingo, que é o dia que aproveita para ir às compras

e resolver seus assuntos: ir à tinturaria, à biblioteca, ao supermercado. Chega ao banco às oito da


manhã e sai às oito da tarde, exceto se tiver que assistir a

algum evento ou o que seja. Trabalha como relações públicas. Se houver uma festa a algum ato
patrocinado pelo banco deve assistir. Se não, sempre está em casa.

-Chamaram-lhe do banco?

Levou-se a mão ao pescoço e se esfregou uma cicatriz de cor vermelha brilhante. Faith imaginou
que lhe teriam feito uma traqueotomía ou alguma outra operação

de garganta.

-No banco não têm meu telefone -lhes explicou-. Fui eu quem ficou em contato com eles quando
não tive notícias dela ontem pela manhã. Chamei-os nada mais

aterrissar. Não têm a menor idéia de onde pode estar. É a primeira vez que falta ao trabalho.

-Você tem alguma fotografia recente de sua irmã?

-Não. -de repente, caiu em por que Faith lhe pedia a foto-. O sinto. Olivia detesta que lhe tirem
fotos. sempre.

-Não se preocupe -lhe disse Faith-. A tiraremos de seu carnê de conduzir se for necessário.

Wíll desceu pelas escadas. Meneou a cabeça e Faith entrou na casa com o Michael.

-É uma casa muito bonita.

-É a primeira vez que venho -confessou.

Olhava a seu redor igual a Faith, provavelmente pensando quão mesmo ela: aquilo parecia um
museu.

O corredor atravessava toda a planta e desembocava na cozinha, que resultava muito luminosa
com a encimera de mármore e os armários brancos. A escada tinha

um carpete branco de corto comprido, e a sala de estar era igualmente espartana; tudo, das paredes
até os móveis passando pelo carpete era de um branco imaculado.

Inclusive os quadros das paredes eram tecidos brancos emoldurados em branco.

Michael se estremeceu.

-Faz muito frio aqui.

Faith sabia que não falava da temperatura.

Levou-os até a sala de estar. Havia um sofá e duas cadeiras, mas Faith não sabia muito bem se
sentar-se ou ficar de pé. Ao final se sentou no sofá; o assento

estava tão duro que apenas se afundou sob seu peso. Wíll se sentou na cadeira que havia ao lado de
sua companheira e Michael em que havia ao outro lado do sofá.

-vamos começar pelo princípio, senhor Tanner -disse Faith.

-Doutor -a corrigiu, e franziu o cenho-. O sinto. Dá no mesmo. Por favor, me chame Michael.

-Muito bem, Michael -Faith lhe falava com voz serena, tranqüilizadora, pois percebeu que o
homem estava ao bordo do pânico. Começou por uma pergunta singela-.

É você médico?

-Sou radiologista.

-Trabalha em um hospital?

-No Centro Metodista da Mama.

Piscou. Faith se precaveu de que estava tentando conter as lágrimas. Foi direta ao grão.

-O que lhe impulsionou a chamar à polícia ontem?

-Agora Olivia me chama todos os dias. Antes não o fazia. Estivemos distanciados muitos anos, foi
à universidade e nos distanciamos ainda mais. -Sorriu fracamente-.

Tive um câncer faz dois anos. A tireóide. -tocou-se a cicatriz do pescoço de novo-. Solo senti uma
espécie de vazio? -disse em tom interrogativo, e Faith assentiu

como se o entendesse-. Queria estar com minha família, recuperar a Olivia. Sabia que teria que
aceitar suas condições, mas estava disposto a fazer esse sacrifício.

-Que condições impôs?

-Não posso chamá-la. É ela a que me chama sempre.


Faith não sabia muito bem o que dizer.

-Suas chamadas seguem alguma classe de pauta? -perguntou Wíll.

Michael assentiu com a cabeça, parecia aliviado ao ver que alguém entendia por fim por que
estava tão preocupado.

-Sim. Os últimos dezoito meses me chamou diariamente. Às vezes não me conta grande coisa, mas
me telefona cada manhã à mesma hora sempre, aconteça o que

acontecer.

-por que não lhe conta grande coisa? -perguntou Wíll.

Michael se olhou as mãos.

-É difícil para ela. Teve alguns problemas quando era mais jovem. Não é das que pensam na
palavra “família” e sorri. -esfregou-se a cicatriz uma vez mais

e Faith percebeu que uma profunda tristeza se apoderava dele-. Em geral não sorri muito, essa é a
verdade.

Wíll olhou ao Faith para confirmar que não lhe importava que ele continuasse com as perguntas.
Ela assentiu discretamente. Era evidente que Michael Tanner

se sentia mais cômodo falando com o Wíll. O que tinha que fazer Faith agora era ficar em um
segundo plano.

-Sua irmã não é feliz? -perguntou Wíll.

Michael meneou a cabeça lentamente e sua tristeza se estendeu por toda a habitação. Wíll ficou
calado para não curvar ao homem.

-Quem abusou dela?

Ao Faith surpreendeu a pergunta, mas as lágrimas do Michael confirmaram que Wíll tinha dado no
prego.

-Nosso pai. Algo muito de moda agora.

-Quando?

-Nossa mãe morreu quando Olivia tinha oito anos. Suponho que deveu começar pouco depois.
Esteve fazendo-o vários meses, até que Olivia acabou no médico.

O médico deu parte à polícia, mas meu pai…


-Michael rompeu a chorar-. Meu pai disse que o tinha feito ela a propósito. Que se tinha metido
algo… aí abaixo… para ferir-se. Disse que solo tentava

chamar a atenção porque sentia falta da sua mãe. -secou-se as lágrimas com raiva-. Nosso pai era
juiz. Conhecia todo o departamento de polícia, e eles acreditavam

conhecê-lo. Disse que Olivia mentia, assim que todo mundo deu é óbvio que era uma mentirosa,
sobre tudo eu. Durante muitos anos não acreditei.

-E o que lhe fez trocar de opinião?

Michael Rio com inapetência.

-Pura questão de lógica. Não tinha sentido que ela… que ela fora dessa maneira a não ser que lhe
tivesse passado algo espantoso.

Wíll continuou olhando diretamente aos olhos do Michael.

-Seu pai chegou a fazer machuco a você em algum momento?

-Não -respondeu muito depressa-. Não abusou sexualmente de mim, quero dizer. Às vezes me
castigava; tirava-se o cinturão. Podia ser brutal, mas eu pensava

que isso era o que faziam todos os pais. Era o normal. A melhor maneira de evitar que me desse uma
surra era ser um bom filho, assim que isso fui.

Wíll se tomou seu tempo antes de formular a seguinte pergunta.

-Como se castigava Olivia pelo que aconteceu?

O homem parecia um molho de nervos, tentava controlar suas emoções, mas não podia. Por fim,
pressionou-se os olhos com o índice e o polegar e pôs-se a chorar.

Wíll ficou quieto, sem dizer nada, e Faith o imitou. Sabia por puro instinto que quão pior podia fazer
nesse momento era tentar consolar ao Michael Tanner. secou-se

as lágrimas com o dorso da mão.

-Olivia era bulímica -disse, por fim-. É possível que siga sendo anoréxica, mas me jurou que já
não vomitava.

Faith se deu conta de que tinha estado contendo a respiração. Olivia Tanner padecia um transtorno
da alimentação, igual a Pauline McGhee e Jackie Zabel.

-Quando começou o problema? -perguntou Wíll.

-Quando tinha dez ou onze anos, não o recordo. Eu sou três anos menor que ela. Quão único
recordo é que era espantoso. Ela… começou a consumir-se.

Wíll se limitou a assentir e a deixar que o homem continuasse falando.

-Olivia sempre esteve obcecada com seu aspecto. Era bonita, mas nunca pôde aceitar… -Michael
fez uma pausa-. Imagino que meu pai piorou ainda mais a coisa.

Sempre cravando-a e dizendo que tinha que desfazer-se desses michelines. Não estava gorda. Era
uma menina normal, muito bonita, preciosa. Sabe o que ocorre quando

a gente deixa de comer?

Michael olhava ao Faith, e ela disse que não com a cabeça.

-Saíram-lhe crostas nas costas, umas feridas grandes nos pontos nos que os ossos se sobressaíam
por debaixo de sua pele. Nem sequer podia sentar-se, não

podia ficar cômoda. Tinha frio todo o tempo, dormiam as mãos e os pés. Alguns dias não tinha
energia suficiente nem para ir ao banho e se o fazia em cima. -Fez uma

pausa, afligido pelas lembranças-. Dormia dez ou doze horas ao dia. Lhe caiu o cabelo. Davam-lhe
umas tiritonas que não podia controlar. Tinha taquicardias. Sua

pele era como… era repugnante. Estava cheia de escamas que lhe desprendiam sem mais. E ela
pensava que merecia a pena. Pensava que assim estava mais bonita.

-Hospitalizaram-na em algum momento?

Michael se Rio; ainda não entendiam até que ponto chegou a ser horrível aquela situação.

-Entrava e saía do hospital geral de Houston todo o tempo. Alimentavam-na através de uma sonda.
Ganhava o peso suficiente para que lhe dessem o alta, e

assim que saía começava a metê-los dedos na boca para vomitar outra vez. Seus rins se paralisaram
duas vezes. Estavam muito preocupados com os danos que podia estar

sofrendo o coração. Eu estava muito zangado com ela naquela época. Não entendia por que se
infligia deliberadamente um dano tão monstruoso. Parecia… por que matar-se

de fome deliberadamente? por que se fazia isso…? -Jogou uma olhada à habitação, ao lar tão frio
que sua irmã tinha criado para si mesmo-. Controle. Ela sozinho

queria controlar algo, e suponho que foi o que introduzia em sua boca.

-Está melhor? Refiro a estes últimos anos -perguntou Faith.

Michael assentiu e se encolheu de ombros ao mesmo tempo.


-Melhorou quando se afastou de meu pai. Foi à universidade, licenciou-se em empresariais. Logo
se transladou aqui, a Atlanta. Acredito que a distância a

ajudou.

-Faz terapia?

-Não.

-Tem algum grupo de apoio? Ou um chat?

Michael negou com a cabeça, parecia muito seguro.

-Olivia acredita que não necessita ajuda. Pensa que o tem tudo sob controle.

-Tem amigos, O…?

-Não, não, ninguém.

-Vive ainda seu pai?

-Morreu faz uns dez anos. Não sofreu. Todo mundo se alegrou de que tivesse morrido enquanto
dormia.

-É Olivia uma pessoa religiosa? Vai à igreja O…?

-Queimaria o Vaticano se os guardas a deixassem passar.

-Soam-lhe de algo os nomes do Jacquelyn Zabel, Pauline McGhee ou Anna? -perguntou-lhe Wíll.

Michael disse que não com a cabeça.

-Você ou sua irmã estiveram alguma vez em Michigan?

Michael os olhou um pouco desconcertado.

-Nunca. Quer dizer, eu não. Olivia viveu em Atlanta toda sua vida adulta, mas pode que tenha
viajado ali em algum momento e eu não saiba.

-Soa-lhe a frase “Não vou sacrificar me”? -perguntou Wíll.

-Não. Mas é exatamente o contrário do que faz Olivia com sua vida. priva-se de tudo, sacrifica-se.

-E as palavras “thinspo” e “thinspiration”?

-Não -respondeu Michael, meneando a cabeça.

Faith tomou a substituição.


-E os meninos? Teve algum filho Olivia? Queria ter filhos?

-Teria sido fisicamente impossível -respondeu Michael-. Seu corpo… fez-se muito dano. Seria
impossível que pudesse levar a término um embaraço.

-Mas poderia adotá-lo.

-Olivia odiava aos meninos -o disse em voz tão baixa que Faith logo que pôde lhe ouvir-. Sabia o
que podia lhes passar.

Wíll formulou a pergunta que Wíll tinha em mente.

-Você crie que o estava fazendo outra vez? Refiro a não comer.

-Não -respondeu Michael-. Pelo menos não como antes. Por isso me chamava cada manhã, às seis
em ponto, para que soubesse que estava bem. Às vezes agarrava

o telefone e me contava algo. Outras vezes simplesmente dizia: “Estou bem”, e pendurava o telefone.
Acredito que para ela era como o Telefone da Esperança. Espero

que o fora.

-Mas ontem não o chamou -disse Faith-. É possível que estivesse zangada com você?

-Não. -secou-se as lágrimas uma vez mais-. Nunca se zangava comigo. preocupava-se comigo.
preocupava-se comigo todo o tempo.

Wíll se limitou a assentir e Faith perguntou:

-por que se preocupava?

-Porque ela era… -Michael se interrompeu e se esclareceu garganta um par de vezes.

-Protegia-lhe de seu pai -disse Wíll.

O homem assentiu repetidas vezes e a habitação ficou em silêncio de novo. Parecia estar reunindo
valor para continuar.

-Acreditam vocês que…? Olivia nunca alterava sua rotina.

Wíll o olhou diretamente aos olhos.

-Posso ser amável ou posso ser sincero, doutor Tanner. Solo existem três possibilidades. A
primeira é que sua irmã tenha fugido; a gente faz coisas assim,

surpreenderia-lhe saber quão freqüente é. A segunda é que tenha tido um acidente…

-chamei a todos os hospitais.


-A polícia de Atlanta também. comprovaram os expedientes e os têm identificados a todos.

Michael assentiu, provavelmente porque já sabia.

-E qual é a terceira possibilidade? -perguntou com temor.

-Que alguém a tenha seqüestrado -respondeu Wíll-. Alguém que pensa lhe fazer danifico.

Michael tragou saliva. esteve-se olhando as mãos um comprido momento antes de assentir.

-Agradeço-lhe sua sinceridade, detetive.

Wíll ficou em pé.

-Parece-lhe bem que joguemos uma olhada à casa, às coisas de sua irmã?

O homem voltou a assentir e Wíll disse ao Faith:

-Eu olharei acima, você joga uma olhada por aqui embaixo.

Não lhe deu ocasião de discutir o plano e Faith decidiu não discutir com ele, em que pese a que o
mais provável era que Olivia Tanner tivesse o ordenador

acima.

Deixou ao Michael Tanner na sala de estar e se dirigiu à cozinha. A luz entrava em torrentes pelas
janelas, fazendo que tudo parecesse ainda mais branco.

A cozinha era muito bonita mas, ao igual ao resto da casa, parecia ter sido esterilizada. As encimeras
estavam completamente vazias, exceto pelo televisor mais plano

que tinha visto em sua vida. Até os cabos e a tomada estavam camufladas dentro de um diminuto
buraco praticado no mármore levemente veteado da encimera.

Na despensa não havia muita comida. Tudo estava cuidadosamente empilhado e alinhado, as
caixas do direito para que se visse bem a etiqueta, todas as latas

exatamente na mesma posição. Havia seis botes grandes de aspirinas sem abrir. A marca era
diferente da que Faith tinha visto no dormitório da Jackie Zabel, mas lhe

pareceu estranho que ambas as mulheres tomassem tantas aspirinas.

E havia outro detalhe que tampouco tinha nenhum sentido.

Faith fez algumas chamadas enquanto registrava os armários da cozinha. Em voz muito baixa pediu
que comprovassem os antecedentes do Michael Tanner, solo
para poder descartá-lo quanto antes. A seguinte chamada foi pedir a vários agentes da polícia de
Atlanta que falassem com os vizinhos. Solicitou também o registro

de chamadas do fixo da Olivia Tanner para ver com quem tinha estado falando, mas o móvel da
mulher provavelmente estaria registrado em nome do banco. Com um pouco

de sorte, em alguma parte haveria uma BlackBerry de onde pudessem revisar seu correio eletrônico.
Possivelmente havia alguém na vida da Olivia Tanner de cuja existência

não estava ao tanto seu irmão. Faith meneou a cabeça, sabendo que não havia muitas possibilidades
de que assim fora. A casa era digna de ver-se, mas parecia que

ninguém vivesse ali. Ninguém tinha celebrado nenhuma festa ali, nem nenhuma reunião de amigos. E
certamente, nenhum homem tinha vivido ali.

Como seria a vida da Olivia Tanner? Faith tinha trabalhado antes em casos de pessoas
desaparecidas. A chave para averiguar o que lhes tinha acontecido a

essas mulheres -quase sempre se tratava de mulheres-era ficar em sua pele. Que coisas gostavam e
quais não? Quais eram seus amigos? O que tinham de mau seus novios/maridos/amantes

para que queriam fugir?

Com a Olivia não havia pistas, nenhuma âncora emocional a que poder agarrar-se. A mulher vivia
em uma casa sem vida sem um sofá cômodo no que arrellanarse

ao final do dia. Todos seus pratos e terrinas estavam como novos, sem um só arranhão, como se não
se usaram nunca. Até as taças de café reluziam por dentro. Como

podia ficar no lugar de uma mulher que vivia em uma asséptica caixa branca?

Faith voltou para os armários da cozinha, mas não encontrou nada desconjurado. Inclusive a gaveta
onde se vão guardando as coisas que sempre andam por enmedio

estava perfeitamente ordenado: chaves de fenda em um estojo de plástico, um martelo colocado


sobre uma corda enrolada. Faith passou o dedo pelo interior do armário

e não encontrou nenhuma bolinha de pó. Aquela mulher limpava os armários da cozinha por dentro e
por fora.

Abriu a gaveta de abaixo e encontrou um sobre grande como os que se usam para enviar
fotografias por correio. Levantou a lapela e encontrou umas páginas

de papel cuché que tinham sido cuidadosamente recortadas de umas revistas. Em todas elas se viam
modelos em diferentes graus de nudez, anunciando indistintamente
perfume ou relógios de ouro. Não eram o tipo de mulher que fica um pulôver com uma blusa de lã a
jogo e um colar de pérolas enquanto passa alegremente o espanador

e cuida de seus adoráveis meninos. Essas modelos posavam de forma muito sensual, lasciva, mas
sobre tudo eram muito magras.

Faith tinha visto essas modelos esquálidas antes. Folheava as revistas femininas -Cosmopolitan,
Vogue, Elle-como tudo o que tinha que fazer fila na caixa

do supermercado, mas ao ver agora a essas mulheres anoréxicas, sabendo que Olivia Tanner tinha
escolhido essas fotos não porque queria recordar que tinha que comprar

uma sombra de olhos ou um brilho de lábios novos, mas sim porque aspirava a ser um esqueleto
vivente, Faith sentiu que lhe revolvia o estômago.

Recordou o que lhes tinha contado Michael Tanner, a tortura a que se submeteu sua irmã
deliberadamente para estar magra. Não sabia por que Wíll estava tão

seguro de que a mulher tinha tentado proteger a seu irmão. Não parecia provável que um homem que
violava a sua filha fora também atrás de seu filho, mas Faith levava

muito tempo trabalhando na polícia para saber que os criminosos não sempre seguiam uma pauta
lógica. Por mais que se tivesse ficado grávida sendo uma adolescente,

a família do Faith era bastante normal; não havia alcoólicos maltratadores nem tios pervertidos. Em
assuntos relacionados com infâncias disfuncionales, Faith confiava

no critério do Wíll.

Nunca lhe tinha contado nada explicitamente, mas ela imaginava que tinha sofrido abusos em
diversas ocasiões quando era menino. Tinha o lábio superior partido,

e não tinha cicatrizado bem. A leve cicatriz que percorria sua mandíbula e se perdia dentro do
pescoço de sua camisa parecia muito antiga, uma dessas feridas que

te faz de menino e lhe deixam um rastro com a que tem que viver o resto de sua vida. Tinha
trabalhado com o Wíll nos dias mais calorosos do verão e nunca lhe tinha

visto se arregaçar nem afrouxar o nó da gravata. Pergunta-a sobre como se castigava Olivia Tanner
tinha sido muito reveladora; Faith pensava freqüentemente que Angie

Polaski era um castigo que o próprio Wíll se impunha a si mesmo.

Ouviu passos nas escadas. Wíll entrou na cozinha meneando a cabeça.

-pulsei a tecla de rellamada do telefone de acima. Saltou-me a secretária eletrônica de seu irmão
em Houston.
Trazia um livro na mão.

-O que é isso?

Wíll lhe aconteceu a magra novela, que tinha a assinatura de uma biblioteca no lombo. Na coberta
se via uma mulher nua sentada escarranchado. Levava saltos

de agulha, mas a pose era mais artística que pornográfica, indicando que aquilo era literatura, não
lixo. Não era a classe de novela que estava acostumado a ler

Faith. Leu a sinopse da contracubierta e explicou ao Wíll:

-Vai de uma mulher que é diabética, viciada na metanfetamina e tem um pai que abusa dela.

-Uma história de amor -disse, e aventurando-se com o título-. Revelação?

Faltou-lhe muito pouco. Faith imaginou que, pelo general, Wíll lia as três primeiras letras de uma
palavra e, a partir daí, tratava de adivinhar o resto.

Quase sempre acertava, mas patinava com as palavras pouco freqüentes.

Deixou o livro bocabajo sobre a encimera.

-Viu algum ordenador?

-Nem ordenador, nem jornal, nem agenda. -ficou a abrir as gavetas e encontrou o mando a
distância do televisor. Acendeu-o e girou a tela para vê-lo melhor.

-Esta é a única televisão que há na casa.

-Não há uma no dormitório?

-Não. -Wíll zapeó e encontrou os canais habituais-. Não tem cabo, e tampouco há nenhum modem
ADSL no caixinha do porão.

-Assim não tem uma conexão de alta velocidade -deduziu Faith-. Possivelmente use uma
Telefónica. Talvez tem um portátil no trabalho.

-Ou ao melhor o levou alguém.

-Ou simplesmente prefere não trazer o trabalho a casa. Seu irmão diz que está no escritório desde
que amanhece até que fica o sol.

Wíll apagou o televisor.

-encontraste algo aqui embaixo?

-Aspirinas -respondeu Faith, assinalando os frascos que havia na despensa-. O que queria dizer
com isso de que Olivia protegia ao Michael?

-É o que estávamos falando no despacho do Pauline. Dedicavam muito tempo seus pais a seu
irmão quando você metia em confusões?

Faith negou com a cabeça e se deu conta de que o que dizia tinha muito sentido. Olivia tinha
chamado a atenção sobre si mesmo para que seu irmão pudesse

crescer tranqüilo e ter uma vida o mais normal possível. Não era de sentir saudades que o homem
estivesse carcomido pela culpa. Era um supervivente.

Wíll estava olhando pela janela do fundo, à casa aparentemente desabitada de em frente.

-Essas cortinas abertas me dão mau espinho.

Faith se aproximou da janela. Tinha razão. Todas as persianas das janelas da parte de atrás
estavam fechadas, salvo pelas cortinas abertas na porta do porão.

-Doutor Tanner, vamos sair fora um momento. Em seguida voltamos -disse elevando o tom de voz.

-De acordo -respondeu o homem.

Ainda tinha a voz tremente, assim Faith explicou:

-Não encontramos nada ainda. Solo estamos olhando.

ficou esperando uma resposta, mas Michael não respondeu. Wíll abriu a porta e saíram a terraço.

-Usa a talha 36. É isso normal? -perguntou Wíll.

-Para mim a queria -murmurou Faith, e então se deu conta do que acabava de dizer-. É uma talha
pequena, mas não horrível.

Inspecionou de novo o jardim da Olivia. Como a maioria de parcelas urbanas, media apenas mil
metros quadrados, o perímetro estava cerca e havia postes telefônicos

cada sessenta metros. Faith seguiu ao Wíll pelas escadas. A cerca de cedro parecia muito cara, as
pranchas eram lisas e os suportes estavam por fora.

-Crie que é nova? -perguntou-lhe.

Wíll disse que não com a cabeça.

-Limparam-na a pressão. O cedro é mais avermelhado.

Chegaram ao limite da parcela e se detiveram. Havia marcas nas pranchas de cedro, uns arranhões
profundos que chegavam até o centro.
-Parecem feitos com os pés, como se alguém tivesse tentado subir por ela.

Faith olhou a casa de em frente outra vez.

-me parece que está vazia. Crie que a terão embargado?

-Solo há um modo se soubesse. -Wíll se foi para o outro lado da cerca e ficou a escalá-la sem dar-
se conta de que Faith estava a seu lado-. Espera aqui?

Ou podemos dar uma volta por fora.

-Tão patética te pareço? -perguntou Faith agarrando-se à cerca.

Era um dos exercícios que faziam na academia de polícia, mas disso fazia muitos anos e então não
levava saia. Fingiu não dar-se conta quando Wíll a empurrou

por detrás, e confiou em que ele fingisse não ver que levava umas calcinhas azuis que pareciam de
sua avó. De algum modo conseguiu passar ao outro lado. Wíll se

assegurou de que se apartou e saltou por cima da cerca como um ginasta chinês de dez anos.

-Exibicionista -murmurou Faith enquanto subia a costa em direção à casa vazia.

O porão tinha um grande ventanal com portas trilhos em ambos os extremos. À medida que se
aproximava viu que uma delas estava aberta. Uma rajada de vento

agitou as cortinas.

-Não pode ser tão fácil -disse Wíll, certamente pensando quão mesmo Faith: “Estaria seu suspeito
escondido naquela casa? Era aí onde tinha a suas vítimas?”.

dirigiu-se para a casa com passo decidido.

-Peço reforços? -perguntou Faith.

Wíll não parecia muito preocupado. Empurrou a porta com o cotovelo e apareceu.

-ouviste falar da causa provável?

-Ouve esse ruído? -perguntou Wíll, mas os dois sabiam que não tinham ouvido nada. Segundo a
lei, não podiam entrar em um domicílio particular sem uma ordem

judicial ou alguma sinal de perigo iminente.

Faith se deu a volta e olhou para a casa da Olivia Tanner. Era evidente que a mulher não sentia a
necessidade de cobrir as janelas com cortinas ou persianas.

De onde estava Faith podia ver perfeitamente a cozinha e o que devia ser o dormitório da Olivia.
-Deveríamos chamar e pedir uma ordem.

Wíll já estava dentro da casa. Faith amaldiçoou entre dentes enquanto tirava a pistola da bolsa.
Entrou pelo porão, andando com muito cuidado sobre o tapete

bereber. O porão estava acondicionado, provavelmente o usavam como salão de jogos. Havia uma
mesa de bilhar, um pequeno bar com uma pia e cabos soltos na parede,

provavelmente para um sistema de home cinema. Não via o Wíll por nenhuma parte.

-Idiota -resmungou Faith, dando um passo mais e abrindo a porta até deixá-la pega à parede. ficou
a escutar, agudizando o ouvido até fazer-se danifico-.

Wíll? -sussurrou.

Não houve resposta, e Faith continuou avançando com o coração desbocado. inclinou-se por cima
do bar e viu uma caixa vazia com uma lata de refresco ao lado.

A suas costas havia um armário com a porta entreabrida. Faith a abriu com o canhão da pistola.

-Está vazio -disse Wíll, aparecendo por detrás de uma esquina e lhe dando um susto de morte.

-Que coño está fazendo? -espetou Faith em tom cortante-. Esse tio podia ter estado dentro.

Wíll não se alterou.

-Temos que averiguar quem tem acesso a esta casa. Agentes imobiliários, empreiteiros, alguém
interessado em comprá-la. -Tirou um par de luvas de látex do

bolso e inspecionou a porta trilho-. Há marcas feitas com uma ferramenta. Alguém forçou a
fechadura.

Foi para as janelas, que estavam cobertas com venezianas de plástico barato. Uma das folhas
estava dobrada. Wíll abriu e deixou que a luz natural iluminasse

a estadia. agachou-se e examinou o chão.

Faith se guardou a pistola na bolsa. Seu coração seguia pulsando como um tambor militar.

-Wíll, me deste um susto de mil pares de narizes. Não volte a entrar assim em uma casa sem mim.

-Olhe -disse, agarrando a da mão-. Pisa de pegadas.

A agente viu a silhueta avermelhada de um par de sapatos na superfície do tapete. Uma das coisas
boas de viver na Geórgia era a argila vermelha que se aderia

a todas as superfícies, já estivessem secas ou molhadas. Jogou uma olhada pela janela, além da
veneziana rota. De ali se via perfeitamente a casa da Olivia.

-Tinha razão -disse Wíll-. As esteve vigiando. Segue-as, estuda suas rotinas, sabe quem som.

Foi ao bar e abriu os armários de detrás da barra.

-Alguém usou esta lata da Coca-cola como cinzeiro.

-Os operários da mudança, certamente.

Wíll abriu a geladeira. Ouviu um tinido de cristais.

-Cerveja de raíz Doc Peterson provavelmente tinha reconhecido o logotipo.

-Deveríamos nos largar daqui para não poluir a cena mais do que já o temos feito.

Felizmente, parecia que Wíll era da mesma opinião. Saiu atrás dela e voltou a deixar a porta como
a tinham encontrado.

-Este caso é diferente -disse Faith.

-O que quer dizer?

-Não sei -admitiu ela-. Não encontramos nada em casa da mãe da Jackie nem no despacho do
Pauline. Léon registrou sua casa e tampouco havia nada ali. Nosso

homem não deixa pistas, assim, como é que agora temos dois rastros de sapatos? por que se deixou a
porta aberta?

-Perdeu a suas duas primeiras vítimas; Anna e Jackie conseguiram escapar. Possivelmente já lhe
tinha jogado o olho a Olivia Tanner. Talvez teve que adiantar

o seqüestro para as substituir.

-Quem pode saber que esta casa está desabitada?

-Qualquer que se fixou um pouco.

Faith olhou de novo para a casa da Olivia e viu o Michael Tanner no alpendre de atrás. A idéia de
voltar a arrastar seu culo por cima daquela cerca não

o fazia muita graça.

-Eu saltarei a cerca. Você volta dando um rodeio.

Faith meneou a cabeça e caminhou para o jardim com passo decidido. Saltar a cerca desde esse
lado parecia mais fácil, pois podia apoiar o pé nos suportes.
Havia uma tabela larga na parte inferior que utilizou como degrau e pôde acontecer por cima com
menos ajuda que antes. Wíll voltou a saltá-la apoiando-se em uma

só mão.

Michael estava na porta traseira da casa de sua irmã, com as mãos entrelaçadas, lhes olhando
enquanto se aproximavam.

-Passa algo?

-Nada que possamos lhe contar agora mesmo -lhe disse Faith-. vou necessitar que…

Seu pé escorregou no primeiro degrau e Faith caiu lançando um cômico grito, algo assim como um
“latido”, embora o que sentiu nesse momento não tinha nenhuma

graça. Sua vista se voltou louca por uns segundos e a cabeça lhe deu voltas. Instintivamente se levou
a mão à barriga, sem pensar em nada mais que na criatura que

levava no ventre.

-Está bem? -perguntou-lhe Wíll.

Ajoelhou-se junto a ela e lhe sujeitava a cabeça com a mão. Michael Tanner estava ao outro lado.

-Respire devagar até que recupere o fôlego. -Mediu sua coluna vertebral com as mãos, e Faith
estava a ponto de lhe dar um sopapo quando recordou que era

médico-. Respire fundo. Inspire, exalte.

Faith tentou seguir suas indicações. Estava ofegando e não sabia por que.

-Está bem? -perguntou-lhe Wíll.

Faith assentiu, pensando que possivelmente sim.

-Solo me cortou a respiração um momento -disse, por fim-. me Ajude a me levantar.

Wíll a agarrou pelas axilas e Faith se deu conta de quão forte era ao ver com que facilidade a
levantava do chão.

-Tem que deixar de cair desta maneira.

-Sou uma idiota.

Ainda tinha a mão na barriga. Faith se obrigou a retirá-la. ficou ali de pé, calada, escutando o
interior de seu corpo, a ver se sentia uma pontada ou um

retortijón que pudesse indicar que algo ia mau. Não sentiu nada, não ouviu nada. Mas estaria bem?
-O que é isto? -perguntou Wíll, lhe tirando algo que tinha enganchado no cabelo. Era um pedacinho
de um pouco parecido ao confete.

Faith se passou os dedos pelo cabelo e olhou para trás. Viu que havia vários pedacinhos de papel
na erva.

-Joder! -exclamou Wíll-. Vi papelitos como estes dentro da mochila do Felix. Mas não é confete:
são de uma Taser.

Capítulo quinze

Sara não tinha nem idéia de por que estava no Grady em seu dia livre. deixou-se a penetrada pela
metade, limitou-se a recolher um pouco a cozinha e o banho,

que estava em um estado tão lamentável que morria de vergonha cada vez que pensava nisso. E
entretanto ali estava, outra vez no hospital, subindo à décimo sexto

andar pelas escadas para que ninguém a visse de caminho a UCI.

Sentia-se culpado por não haverefetuado um exame completo a Anna quando a ingressaram em
urgências. Placas de raios, ressonâncias magnéticas, ultra-sons,

exploratório. Anna tinha passado por virtualmente todos os cirurgiões do hospital e todos tinham
passado por cima as onze bolsas de lixo. Inclusive tinham chamado

ao CDC para que fizessem cultivos da infecção e não tinham tirado nada em claro. A Anna a tinham
torturado, talhado, queimado, e tinha multidão de feridas que não

se curavam por culpa do plástico que tinha dentro. Quando Sara tirou as bolsas o fedor invadiu toda
a habitação. A mulher tinha começado a apodrecer-se por dentro.

Era um milagre que não tivesse sofrido um shock tóxico.

Lógicamente Sara sabia que não era culpa dela, mas no mais íntimo de seu ser sentia que tinha
cometido um engano. passou-se a manhã dobrando roupa e esfregando

pratos e, enquanto isso, tinha repassado mentalmente o que tinha acontecido duas noites antes, quando
ingressaram na Anna. encontrou-se inventando uma realidade

alternativa em que podia fazer algo mais que lhe passar o caso ao seguinte médico. Teve que
recordar-se que até o simples feito de lhe estirar as pernas para poder

lhe tirar as placas lhe tinha causado uma dor insuportável. O trabalho da Sara consistia em
estabilizá-la para poder colocá-la no sala de cirurgia, não em lhe fazer
um exame ginecológico completo.

Mas mesmo assim, sentia-se culpado.

Deteve-se o chegar ao patamar do piso diecisés para recuperar o fôlego. Provavelmente estava
mais em forma do que tinha estado nunca, mas a cinta e a bicicleta

elíptica de seu ginásio não eram o que se diz um bom treinamento para a vida real. Em janeiro se
jurou que sairia a correr pelo menos uma vez à semana. O ginásio

de ao lado de casa -com seus televisores e sua atmosfera de temperatura controlada-a privavam de
uma das vantagens que tinha sair a correr: tempo a sós com seus

pensamentos. Naturalmente uma coisa era dizer que queria acontecer tempo a sós e outra muito
distinta fazê-lo de verdade. Janeiro tinha dado passo a fevereiro, e

agora já estavam em abril, mas essa manhã tinha saído a correr pela primeira vez desde que se
fizesse aquela promessa.

Agarrou-se ao corrimão e subiu o seguinte lance. Para quando chegou à décima planta as coxas lhe
ardiam. Quando por fim chegou à décima sexta teve que parar

um momento e dobrar-se pela cintura para recuperar o fôlego e que as enfermeiras da UCI não
pensassem que se tornou completamente louca.

Colocou a mão no bolso para tirar a barra de cacau e ficou paralisada. Uma sensação de pânico
lhe invadiu o peito enquanto olhava em outros bolsos. Não

tinha a carta. Tinha-a levado em cima durante meses, como um amuleto que acariciava cada vez que
pensava no Jéffrey. Sempre lhe recordava à odiosa mulher que a tinha

escrito, a responsável por sua morte, e agora já não a tinha.

Sara ficou a pensar rapidamente onde a tinha deixado. Estaria em um bolso da roupa que tinha
posto-se a lavar? O coração lhe encolhia sozinho de pensá-lo.

Repassou seus movimentos e, por fim, recordou que no dia anterior, quando chegou a casa depois da
autópsia do Jacquelyn Zabel, tinha deixado a carta sobre a encimera

da cozinha.

Abriu a boca e exalou um profundo suspiro de alívio. A carta estava em casa. Essa mesma manhã a
tinha levado ao suporte da chaminé, embora parecia um sítio

estranho para deixá-la. A aliança do Jéffrey estava ali, junto à urna que continha parte de suas cinzas.
Aquelas duas coisas não deveriam estar juntas. Em que demônios
estava pensando?

A porta se abriu e saiu uma enfermeira com um maço de cigarro na mão. Sara reconheceu a Jill
Marinho, a mulher da UCI que tinha estado cuidando da Anna

na manhã anterior.

-Não é hoje seu dia livre? -perguntou-lhe Jill.

Sara se encolheu de ombros.

-Nunca me canso deste sítio. Como está a paciente?

-A infecção está respondendo aos antibióticos. Esteve rápida aí. Se não lhe tivesse tirado essas
bolsas a estas alturas já estaria morta.

Sara lhe fez um gesto com a cabeça para lhe agradecer o completo, pensando que se as tivesse
visto no momento em que a examinou Anna se teria podido recuperar

com mais facilidade.

-Retiraram-lhe a respiração artificial por volta das cinco. -Jill abriu a porta para deixar passar a
Sara-. Já chegaram os resultados do exploratório. Tudo

parece em ordem, salvo pelos danos no nervo óptico; isso é permanente. Os ouvidos estão bem,
assim pelo menos pode ouvir. Todo o resto está bem. Não há razão para

que não desperte. -De repente, deu-se conta de que a mulher tinha muitas razões para não despertar e
acrescentou-: Bom, já sabe o que quero dizer.

-terminaste já?

Jill assinalou o maço de cigarro com expressão de culpabilidade.

-Vou ao terraço a poluir um pouco o ar.

-Serviria de algo que me incomodasse em te dizer que isso te vai matar?

-Trabalhar aqui me matará primeiro -replicou a enfermeira, e começou a subir as escadas com
passo lento.

Seguia havendo dois policiais na porta da habitação da Anna. Não eram os mesmos do dia
anterior, mas ambos se levaram a mão à boina para saudar a Sara.

Um deles inclusive lhe apartou a cortina e lhe sorriu ao entrar na habitação. Havia um bonito centro
de flores na mesa junto à parede. Sara as inspecionou, mas não
viu nenhum cartão.

Sentou-se na cadeira e ficou a pensar nas flores. Provavelmente lhe tinham dado o alta a algum
paciente e este lhes tinha dado seu ramo às enfermeiras para

que elas as repartissem como acreditassem mais conveniente. Mas pareciam frescas, como se alguém
as tivesse arrancado essa mesma manhã do jardim de sua casa. Ao

melhor as tinha mandado Faith. Sara descartou essa idéia imediatamente; não lhe parecia uma mulher
muito sentimental. Nem tampouco muito lista, ao menos não no que

a sua saúde se referia. Tinha chamado à consulta da Délia Wállace essa manhã: Faith não tinha
pedido entrevista ainda. Não ia demorar para ficar sem insulina. Teria

que arriscar-se a sofrer outro desmaio, ou recorrer a ela outra vez.

Apoiou os braços na cama da Anna, e ficou contemplando seu rosto. Sem o tubo da respiração era
mais fácil ver a cara que tinha antes de que todo aquilo

acontecesse. Os moratones da cara começavam a curar-se, por isso seu aspecto era ainda pior. Sua
pele tinha um tom mais saudável, mas estava torcida por todos os

fluidos que lhe estavam subministrando. A desnutrição estava tão avançada que demoraria semanas
em ganhar o peso necessário.

Sara agarrou sua mão e a acariciou. Seguia muito seca, assim agarrou um frasco de leite hidratante
da nécessaire que havia junto às flores. Era o que davam

a todos os pacientes do hospital quando ingressavam, com os artigos que o comitê administrativo
pensava que podiam necessitar: patucos antiderrapantes, bálsamo labial

e um leite hidratante que cheirava um pouco a anti-séptico.

Sara verteu um pouco na palma e se esfregou as mãos para enfraquecer a nata antes de agarrar a
frágil emano da Anna entre as suas. Podia lhe contar um por

um os ossos, e seus nódulos pareciam gudes. Tinha a pele tão seca que absorvia a nata logo que a
estendia. Estava ficando um pouco mais na mão quando a paciente

começou a revolver-se.

-Anna? -Sara lhe pôs a mão na bochecha e a pressionou brandamente para reconfortá-la.

Moveu levemente a cabeça. A gente não despertava do vírgula como por arte de magia. Era um
processo, pelo general bastante largo. Um dia podia abrir os

olhos, balbuciar coisas sem sentido, fragmentos de alguma conversação mantida muito tempo atrás.
-Anna? -repetiu Sara, tratando de que sua voz se mantivera serena-. Necessito que desperte já.

Voltou a mover a cabeça, mas esta vez estava claro que a inclinava para a Sara. Esta continuou
falando com voz firme.

-Sei que é difícil, carinho, mas necessito que desperte. -as pálpebras da Anna se separaram
levemente. Sara se levantou e se colocou em sua linha de visão,

embora sabia que a mulher não podia vê-la-. Acordada, Anna. Já está a salvo. Ninguém vai fazer te
danifico.

Seus lábios se moveram, mas estavam tão secos e cortados que a pele se rompeu.

-Estou aqui -lhe disse Sara-. Posso te ouvir, céu. Tenta despertar, faz-o por mim.

A respiração da Anna se acelerou, tinha medo. A mulher estava começando a recordar o que tinha
acontecido, a agonia que tinha suportado e o fato de que

estava cega.

-Está no hospital. Sei que não pode ver nada, mas ouve minha voz. Está a salvo. Dois policiais
vigiam sua porta dia e noite. Ninguém vai fazer te danifico.

Anna alargou uma mão tremente e seus dedos roçaram o braço da Sara. A doutora lhe agarrou a
mão e a apertou quanto pôde sem lhe causar dor.

-Já está a salvo -lhe prometeu Sara-. Ninguém mais te vai fazer mal.

de repente Anna espremeu a mão da Sara com tal força que sentiu uma pontada aguda nos dedos.

-Onde está meu filho?

Capítulo dezesseis

Quando aperta o gatilho de uma Taser se disparam dois dardos conectados à arma por uns arames
e propulsados por gás nitrogênio que se projetam a uns cinqüenta

metros por segundo. Em unidades para uso civil cinco metros de cabo metálico isolado administram
uma descarga de cinqüenta mil volts à pessoa que tem aderidos os

eletrodos contidos nos dardos. Os impulsos elétricos bloqueiam as funções barcos a motor e
sensoriais, além disso do sistema nervoso central. Ao Wíll tinham disparado

com uma Taser em uma sessão de treinamento. Ainda seguia sem recordar o acontecido no lapso de
tempo imediatamente anterior e posterior à descarga, solo recordava
que tinha sido Amanda a que tinha apertado o gatilho e que, quando por fim conseguiu levantar do
chão, sua chefa luzia um amplo sorriso de satisfação.

Como as balas de uma arma de fogo, a Taser requeria o uso de uns cartuchos que vinham já
carregados com os cabos e os dardos. Dado que os redatores da Constituição

não podiam prever a invenção de uma arma destas características, não existia nenhum direito
inalienável em relação com a posse de uma Taser. Algum brilhante pensador

as tinha arrumado para introduzir um codicilo em sua manufatura: todos os cartuchos para o Taser
deviam incluir uns PIPUC, ou Pontos Identificativos para a Prevenção

do Uso Criminal, que se liberavam por centenares cada vez que se disparava um cartucho. A
primeira vista esses pequenos pontos pareciam confete. O desenho era deliberado:

eram tantos os pontos que se disparavam, que ao delinqüente lhe resultava impossível recolhê-los
todos para cobrir seu rastro. E o melhor de tudo era que, examinado

através de uma lente de aumento, o confete revelava um número de série que servia para identificar o
cartucho. Taser Internacional queria ter de seu lado à comunidade

legal, assim tinha elaborado seu próprio programa de seguimento. Quão único terei que fazer era lhes
chamar e lhes dar o número de série de um dos confetes para

que eles lhe proporcionassem o nome e a direção da pessoa que tinha comprado o cartucho.

Faith só teve que esperar três minutos para que a empresa lhe proporcionasse um nome.

-Mierda -sussurrou Faith. Ao dar-se conta de que seguia ao telefone acrescentou-: Não obrigado.
Com isso me basta.

Fechou seu móvel enquanto se inclinava para arrancar o Mini.

-O cartucho da Taser foi adquirido pelo Pauline Seward. A direção que me deram é a da casa
vazia que há em frente da da Olivia Tanner.

-E como abonaram a compra?

-Com um cartão de presente do American Express. O cartão não estava em nome de ninguém, não
há maneira de lhe seguir a pista. -Lançou ao Wíll um olhar significativo-.

Compraram os cartuchos faz dois meses, o que implica que esteve vigiando a Olivia Tanner durante
todo esse tempo como mínimo. E posto que utilizou o nome do Pauline,

devemos supor que também estava planejando seqüestrá-la.

-A casa vazia é propriedade do banco, mas não da entidade em que trabalha Olivia. -Wíll tinha
chamado ao número da imobiliária que figurava no pôster que

havia no jardim dianteiro enquanto Faith falava com o Taser-. Leva vazia quase um ano. Ninguém se
interessou nela há seis meses.

Faith se voltou para sair marcha atrás. Wíll elevou a mão para despedir-se do Michael Tanner, que
estava sentado no interior do Ford Escape, agarrando o

volante com ambas as mãos.

-Não reconheci os papelitos que havia na mochila do Felix -se lamentou Wíll.

-E por que foste fazer o? Era a mochila de um menino e o mais lógico era que fora confete. Faz
falta uma lupa para ler o número de série. Se quer culpar

a alguém lhe jogue a culpa à polícia de Atlanta por não havê-los recolhido na cena do crime. Seus
meninos da científica estavam ali. Imagino que passariam um aspirador

pelos tapetes do carro, mas ainda não o analisaram porque o desaparecimento de uma mulher não é
um assunto prioritário.

-A direção do comprador do cartucho nos teria levado até a casa que está justo detrás da do
Tanner.

-Olivia Tanner tinha desaparecido já quando inspecionou a mochila do Felix -lhe recordou Faith-.
Foi a polícia de Atlanta a que processou a cena. São eles

os que a cagaram.

Soou o móvel do Faith. Olhou a tela para ver quem chamava e decidiu não responder.

-Além de, saber que os pontos da mochila do Felix provêm do mesmo lote que os que encontramos
no jardim traseiro da Olivia Tanner tampouco nos serviu que

muito. O único que nos indica é que nosso homem leva muito tempo planejando isto e que é bom
cobrindo seu rastro. Mas isso já sabíamos quando nos levantamos esta

manhã.

Wíll pensou que sabiam muito mais que isso. Agora tinham uma conexão que vinculava às quatro
mulheres.

-Podemos vincular ao Pauline com as demais mulheres. A frase “não vou sacrificar me” estabelece
uma conexão entre a Anna e Jackie, e os pontos a relacionam

com a Olivia.
ficou pensando nisso uns segundos, perguntando-se que mais teria passado por cima. Faith estava
no mesmo ponto.

-vamos repassar o tudo desde o começo. O que é o que temos?

-Ao Pauline e a Olivia as seqüestraram ontem. Às dois as assaltaram com uma pistola Taser
carregada com o mesmo cartucho.

-As três, Pauline, Jackie e Olivia padecem transtornos da alimentação. E portanto devemos supor
que Anna também os padece, não?

Wíll se encolheu de ombros. Não era um grande avanço, mas era algo novo.

-Sim, vamos supor o.

-Nenhuma delas tem amigos que possam jogar as de menos. Jackie tinha à vizinha, Candy, mas
tampouco é o que se diz uma amiga íntima. As três são mulheres

muito atrativas, magras, moréias e com os olhos castanhos. Todas elas ganham muito bem a vida.

-Todas viviam em Atlanta, exceto Jackie -disse Wíll a modo de advertência-. Assim, como a
escolheu? Solo levava uma semana em Atlanta, veio para recolher

as coisas de sua mãe.

-Deveu vir antes para ajudar com o traslado à residência da Florida -elucubró Faith-. E nos
estamos esquecendo do chat. Poderiam haver-se conhecido através

dele.

-Olivia não tinha ordenador em casa.

-Talvez tinha um portátil e o roubaram.

Wíll se arranhou o braço pensando na primeira noite na cova, com todas aquelas enloquecedoras
não-pistas que tinham estado seguindo após, todos os becos

sem saída nos que tinham acabado.

-Parece como se o ponto de partida de tudo fora Pauline.

-Ela foi a quarta vítima. -Faith sopesou a situação-. Pode que tenha estado reservando-o melhor
para o final.

-Ao Pauline não a seqüestrou em sua casa, como parece que fez com as outras vítimas. Foi
seqüestrada a plena luz do dia. Seu filho estava dentro do carro.
A sentiram falta de no trabalho porque tinha uma reunião importante. Ninguém se precaveu do
desaparecimento das demais mulheres, salvo pela Olivia, mas não podia

saber que esta chamava a seu irmão diariamente a menos que nosso homem cravasse seu telefone,
coisa que, obviamente, não fez.

-E o que diz do irmão do Pauline? Insisto em que devia estar muito assustada para advertir a seu
filho. Não encontramos nem rastro dele. Poderia haver-se

trocado de nome, como fez Pauline quando tinha dezessete anos.

Wíll ficou a enumerar todos os homens que tinham conhecido ao longo da investigação.

-Henry Coldfield é muito major e tem problemas de coração. Rick Sigler viveu na Geórgia toda
sua vida. Jake Berman… quem sabe?

Faith tamborilou com os dedos sobre o volante, ensimismada. De repente disse:

-Tom Coldfield.

-Deve ter mais ou menos sua idade. Devia ser apenas um adolescente quando Pauline se fugiu.

-Tem razão -admitiu-. Além disso os tests psicológicos que há que acontecer ingressar nas forças
aéreas teriam levantado a lebre faz tempo.

-Michael Tanner -sugeriu Wíll-. A idade encaixa.

-Já pedi que comprovem seu histórico. Me teriam chamado se tivessem encontrado algo.

-Morgan Hollister.

-Também o estão investigando -disse Faith-. Não parecia muito afetado pelo desaparecimento do
Pauline.

-Felix disse que o homem que se levou a sua mãe vestia um traje como os que leva Morgan, seu
colega de trabalho.

-Claro. Crie que Felix teria podido reconhecer ao Morgan?

-Com um bigode postiço? -Wíll negou com a cabeça-. Não sei. De momento não vamos riscar o
Morgan da lista. Podemos falar com ele ao final do dia, se não

haver nenhum outro avanço.

-Tem idade suficiente para ser seu irmão, mas se o fora, por que ia Pauline a trabalhar com ele?

-A gente que sofre abusos se comporta de forma estúpida muitas vezes -lhe recordou Wíll-. Temos
que falar com Leio a ver o que pôde averiguar. Estava em

contato com a polícia de Michigan, tentando encontrar aos pais do Pauline. escapou de casa. De
quem queria fugir?

-Do irmão -disse Faith fechando o círculo.

Voltou a soar seu móvel. Deixou que saltasse a rolha de voz antes de abri-lo e marcar um número.

-vou ver onde está Léon. Provavelmente tenha saído a trabalhar sobre o terreno.

-Eu chamarei a Amanda e lhe direi que tem que solicitar que nos transpassem oficialmente o caso
do Pauline McGhee -se ofereceu Wíll, que abriu o móvel justo

quando lhe entrava uma chamada. Como estava quebrado, às vezes o fazia estranhos ruídos. levou-se
o auricular à orelha e respondeu.

-Né. -A voz soava despreocupada, como mel morno que acariciava seu ouvido. Veio-lhe à mente o
lunar que tinha na pantorrilha e o tato que tinha quando lhe

acariciava a perna-. Está aí?

Wíll olhou ao Faith e notou que um suor frio começava a empapá-lo.

-Sim.

-Quanto tempo.

Voltou a olhar ao Faith.

-Sim -repetiu. Tinham passado oito meses desde que um dia saísse do trabalho e se encontrasse
com que a escova de dentes do Angie não estava no copo do

quarto de banho.

-O que faz? -perguntou Angie.

-Estou em metade de um caso.

-Que bem. Imaginei que andaria encalacrado.

Faith tinha terminado de falar por telefone. Tinha a vista posta na estrada, mas se tivesse sido um
gato teria tido a orelha girada para o Wíll.

-Chama pelo de seu amiga? -perguntou Wíll.

-Lola tem informação interessante.


-Eu não me ocupo disso -lhe disse. O DIG não abria casos, fechava-os.

-Um fanfarrão converteu um apartamento de cobertura em um ponto de venda de droga. Têm


substâncias de tudas as cores, como se fossem caramelos. Coméntaselo

a Amanda. Poderá presumir nas notícias das seis posando diante de toda essa droga.

Wíll tentava concentrar-se no que lhe estava dizendo Angie. Solo se ouviam o motor do Mini e o
muito atento ouvido do Faith.

-Segue aí, carinho?

-Não me interessa -lhe disse.

-Você sozinho passa a informação por mim. É o apartamento de cobertura de um edifício de


apartamentos chamado Vinte e um Beeston Agrada. O nome é a direção:

o vinte e um do Beeston.

-Não posso te ajudar.

-Repita-me isso para que eu saiba que te vais acordar.

Ao Wíll suavam as mãos de tal maneira que tinha medo de que lhe escorresse o telefone.

-Vinte e um Beeston Agrada.

-Devo-te uma.

Não pôde conter-se.

-Deve-me um milhão. -Mas já era muito tarde, Angie tinha pendurado o telefone. Wíll fingiu que
ainda havia alguém ao outro lado, e disse-: De acordo. Adeus.

Para piorar ainda mais as coisas o móvel lhe escorreu quando ia fechá-lo e a corda se separou da
cinta isolante. De repente viu uns cabos que se sobressaíam

do aparelho e que não tinha visto até esse momento. Ouviu que Faith abria a boca, e a voltava a
fechar estalando os lábios.

-Tenhamos a festa em paz -lhe disse Wíll.

Ela fechou a boca e esticou os dedos sobre o volante para girar com o semáforo em vermelho.

-chamei à central. Léon está na avenida North. Um dobro homicídio.

O carro acelerou e Faith se saltou outro semáforo. Wíll se afrouxou o nó da gravata pensando que
fazia muito calor dentro do carro. Estavam-lhe começando
a picar os braços outra vez. Estava um pouco enjoado.

-vou ver se localizar a Amanda para… Angie me chamava para me dar um sopro. -As palavras
saíram de sua boca sem que pudesse fazer nada por impedi-lo.

ficou a pensar rapidamente no modo de evitar dizer nada mais, mas sua língua parecia ignorar as
ordens que lhe dava o cérebro-. converteram um apartamento de cobertura

do Buckhead em um ponto de venda de droga.

-Ah -foi tudo que disse Faith.

-Está essa garota a que conheceu quando trabalhava em antivício. Uma prostituta, Lola. Quer sair
do cárcere e está desejando delatar aos traficantes.

-É um bom sopro?

Wíll se encolheu de ombros.

-Provavelmente.

-vais ajudar a?

Encolheu-se de ombros outra vez.

-Angie é uma ex-polícia, não conhece ninguém em narcóticos? -perguntou Faith.

Wíll deixou que ela mesma tirasse suas conclusões. Angie não era das que deixa pontes sem
queimar: tendia a incendiá-los com alegria e logo vertia gasolina

sobre as chamas. Evidentemente, Faith chegou à mesma conclusão.

-Posso fazer algumas chamadas -lhe ofereceu-. Ninguém saberá que é tua coisa.

Wíll tentou tragar saliva, mas tinha a boca muito seca. Detestava que Angie lhe causasse esse
efeito. E detestava ainda mais que Faith o presenciasse em

primeira fila.

-O que te há dito Léon? - perguntou.

-Não me agarra isso, provavelmente porque sabe que sou eu.

Justo nesse momento soou seu móvel. Faith olhou quem chamava e de novo decidiu não agarrá-lo.
Wíll imaginou que não tinha direito a lhe perguntar o que

estava passando, agora que tinha decidido não discutir com ela suas chamadas pessoais. esclareceu-
se garganta várias vezes para poder falar sem que sua voz soasse

como a de um adolescente.

-Uma pistola Taser se utiliza a certa distância. Se pudesse aproximar-se mais a elas teria usado um
porrete elétrico.

Faith retomou o fio da conversação original.

-Que mais temos? -perguntou-. Estamos esperando a que cheguem os resultados do DNA do
Jacquelyn Zabel, a ver o que dizem os informáticos do portátil do

Zabel e do ordenador do despacho do Pauline e a ver se encontrarem mais prova forenses na casa de
ao lado da Olivia.

Wíll ouviu um zumbido e Faith tirou seu BlackBerry. Seguiu dirigindo o volante com uma só mão
enquanto lia a mensagem.

-É o registro de chamadas da Olivia Tanner. O mesmo número cada manhã por volta das sete. É um
número de Houston, Texas.

-As sete daqui são as seis em Houston -disse Wíll-. É o único número ao que chamava?

Faith assentiu.

-Há meses. Provavelmente usava mais o móvel. -Voltou a guardar a BlackBerry no bolso-. Amanda
está tentando conseguir uma ordem para o banco. tiveram a

deferência de olhar em seus base de dados a ver se apareciam os nomes das demais vítimas e não
encontraram nada, mas não nos vão permitir que toquemos o ordenador,

o telefone nem o correio eletrônico da Olivia de qualquer jeito. Por não sei quanto a legislação
bancária federal. Temos que entrar nesse chat.

-Eu acredito que se formava parte de algum grupo em Internet teria que poder acessar de casa.

-Seu irmão diz que está todo o dia no escritório.

-Possivelmente se conheciam em pessoa. Como em Alcoólicos Anônimos ou em um grupo de


costura.

-Homem, não é a classe de anúncio que possa pôr em um tabuleiro. “Desfruta te matando de fome?
te una a nós!”

-E do que podiam conhecer-se então?

-Jackie é agente imobiliária, Olivia trabalha em um banco que não concede hipotecas, Pauline é
desenhista de interiores e Anna se dedicará ao que se dedique,

que sem dúvida estará igualmente bem paga. -Faith exalou um profundo suspiro-. Tem que ser o chat,
Wíll. Do que outro modo puderam conhecer-se?

-E por que teriam que conhecer-se? -replicou Wíll-. Ao único que por força têm que conhecer é ao
seqüestrador. Quem poderia relacionar-se com mulheres que

trabalham em campos tão diferentes?

-Um zelador, o técnico que instala o cabo, um lixeiro, um exterminador…

-Amanda já se encarregou de comprovar todo isso. Se houvesse alguma conexão a estas alturas já
saberíamos.

-Me perdoe se não ser muito otimista. tiveram dois dias e nem sequer foram capazes de encontrar
ao Jake Berman.

Faith girou o volante e se meteu pela avenida North. Dois carros da polícia de Atlanta bloqueavam
o acesso à cena do crime. Viram Léon agitando as mãos

freneticamente enquanto gritava a um pobre guri de uniforme.

O móvel do Faith voltou a soar e o jogou à bolsa antes de baixar do carro.

-Agora mesmo Leio não me pode nem ver. Possivelmente seria melhor que falasse você.

Wíll coincidiu em que era o melhor, sobre tudo porque nesse momento parecia estar algo mais que
furioso. Seguia lhe gritando à polícia quando se aproximaram

dele. Uma de cada duas palavras que pronunciava era “joder” e tinha a cara tão congestionada que
Wíll se perguntou se não estaria sofrendo um ataque ao coração.

Um helicóptero sobrevoava a zona, o que os agentes locais chamavam um “pássaro do gueto”.


Voava tão baixo que ao Wíll palpitavam os tímpanos. Léon esperou

a que partisse antes de lhes perguntar:

-Que coño fazem vós aqui?

-Olivia Tanner, a mulher desaparecida da que nos falou -lhe disse Wíll-. Encontramos pontos de
uma Taser na cena do crime que nos levaram até um cartucho

adquirido pelo Pauline Seward.

-Joder -murmurou Léon.


-Também encontramos uma prova no despacho do Pauline McGhee que a relaciona com a cova.

A curiosidade de Léon pôde mais que o aborrecimento.

-Criem que Pauline é a pessoa que procuram?

Wíll nem sequer se expôs essa possibilidade.

-Não, acreditam que a seqüestrou o mesmo homem que seqüestrou às demais. Temos que averiguar
tudo o que possamos…

-Não há muito que contar -lhe interrompeu Léon-. falei com a polícia de Michigan esta manhã. Me
estava guardando isso porque sua companheira ultimamente

é como um puto rayito de sol.

Faith abriu a boca, mas Wíll elevou a mão para detê-la.

-O que averiguaste?

-Falei com um veterano que atende aos denunciantes. chama-se Dick Winters. Leva trinta anos no
ofício e lhe põem a responder telefones. Lhe pode acreditar

isso?

-Lembrava-se do Pauline?

-Sim, se lembrava. Era uma garota muito bonita. Deu-me a impressão de que ao velho lhe punha.

Ao Wíll não interessavam absolutamente os devaneios de um caquético com uma jovencita.

-O que aconteceu?

-Pilhou-a um par de vezes por pequenos furtos, bebia muito e se ia da língua. Não chegou a detê-la
nunca, limitava-se a levar a de volta a sua casa e a

lhe jogar um sermão. Era menor de idade, mas quando cumpriu os dezessete começou a ser difícil
fazer a vista gorda. O proprietário de uma loja ficou legalista e

apresentou cargos por furto. Então o velho polícia foi visitar a família para lhes dar uma mão, e se
deu conta de que algo não ia bem, de modo que se guardou a franga

nas calças e ficou a fazer seu trabalho. A garota tinha problemas no colégio, e também em casa.
Disse-lhe à polícia que estavam abusando dela.

-Chamou aos de serviços sociais?

-Sim, mas a pequena Pauline desapareceu antes de que pudessem falar com ela.
-Recordava os nomes dos pais? Algo?

Léon negou com a cabeça.

-Nada. Solo Pauline Seward. -Estalou os dedos-. Sim disse algo de um irmão que não estava muito
bem da cabeça, já sabem o que quero dizer. Um tio algo estranho,

vamos.

-Estranho em que sentido?

-Pois isso: estranho. Já sabem, um tio desses que lhe dão mau cilindro.

Wíll teve que perguntar de novo.

-Mas o policial não recorda seu nome?

-O expediente está selado porque a garota era menor. E o tribunal de menores não vai dar
facilidades. ides necessitar uma ordem judicial para que os de

Michigan possam desbloqueá-lo. passaram vinte anos. O velho me há dito que houve um incêndio ou
não sei o que no arquivo faz dez. Ao melhor nem sequer existe já

o expediente.

-Faz vinte anos exatamente? -perguntou-lhe Faith.

Léon a olhou de esguelha.

-Fará vinte anos em Páscoa.

Wíll queria deixar isto claro.

-Este domingo, No domingo de Páscoa, fará exatamente vinte anos que desapareceu Pauline
McGhee, ou Seward?

-Não -disse Léon-. Faz vinte anos a Páscoa caiu em março.

-Comprovaste-o? -perguntou-lhe Faith.

Léon se encolheu de ombros.

-Sempre é no domingo seguinte à primeira lua enche depois do equinócio da primavera.

Wíll demorou uns segundos em dar-se conta de que Léon estava falando em seu mesmo idioma.
Era parecido para ouvir ladrar a um gato.
-Está seguro?

-De verdade criem que sou idiota? -perguntou-. Não faz falta que respondam. O velho estava
seguro. Pauline se largou em vinte e seis de março, Domingo de

Páscoa.

Wíll tentou jogar as contas mas Faith lhe adiantou.

-Faz duas semanas. Isso poderia encaixar com as datas em que puderam seqüestrar a Anna,
segundo os cálculos da Sara.

Voltou a soar seu móvel.

-Deus -murmurou enquanto olhava a tela para ver quem era. Esta vez atendeu a chamada-. O que
quer?

A expressão do Faith foi trocando paulatinamente: irritação, surpresa e finalmente incredulidade.

-OH, meu Deus -exclamou, levando-a mão ao peito. Wíll pensou que se tratava do Jeremy, o filho
do Faith-. Qual é a direção? -ficou boquiaberta-Beeston

Agrada.

-Aí é onde Angie… -disse Wíll.

-Vamos para lá. -Faith fechou o móvel-. Era Sara. Anna se despertou. Está falando.

-E o que te há dito do Beeston Agrada?

-É aí onde vive… vivem. Anna tem um filho de seis meses. A última vez que o viu foi em seu
apartamento de cobertura no vinte e um do Beeston Agrada.

Wíll ficou ao volante de um salto, jogou bruscamente o assento para trás e arrancou sem esperar a
que Faith fechasse a porta. Ia a toda velocidade, derrapando

e ricocheteando sobre as pranchas metálicas que cobriam os lances de asfalto em construção. No


Piedmont saltou por cima da mediana e se meteu em direção contrária,

sorteando os carros para economizar o semáforo. Faith ia calada a seu lado, mas Wíll viu que
apertava os dentes com cada salto e cada giro.

-Volta a me contar o que há dito -lhe disse Faith.

Não queria pensar no Angie nesse momento, não queria nem pensar que talvez sabia que havia um
pirralho de por meio, um bebê cuja mãe tinha sido raptada,
um menino que se ficou sozinho em um apartamento de cobertura que se converteu em um ponto de
venda de droga.

-Drogas -disse a Isso Faith é tudo o que me disse, que o estavam usando como ponto de venda.

Faith ficou calada enquanto Wíll diminuía e dobrava pela rua Peachtree. Não havia muito tráfico
tendo em conta a hora, o que significava que havia um entupo

de uns quatrocentos metros. Voltou a ir em direção contrária, mas teve que meter-se no estreito borda
para não se chocar com um caminhão do lixo. Faith cravou as

mãos no salpicadero quando deu um volantazo e freou justo diante dos apartamentos Beeston Agrada.

O carro se cambaleou quando Wíll se baixou. Correu para a entrada. Ouviu ao longe as sereias
dos carros patrulha e uma ambulância. O porteiro estava depois

de um mostrador alto lendo o periódico. Era um tipo gordo, e o uniforme era muito pequeno para sua
imensa barriga.

Wíll tirou sua identificação e a pôs justo diante da cara.

-Tenho que entrar no apartamento de cobertura.

O porteiro lhe dedicou um dos sorrisos mais antipáticos que Wíll tinha visto ultimamente.

-Ah, sim? Sério? -disse com acento russo ou ucraniano.

Faith se reuniu com eles quase sem fôlego. Jogou uma olhada à chapa com o nome.

-Senhor Simkov, isto é importante. Acreditam que um menino poderia estar em perigo.

O porteiro se encolheu de ombros.

-Ninguém entra se não estar na lista, e posto que vocês não estão…

Wíll sentiu que algo se rompia em seu interior. antes de saber o que lhe estava passando sua mão
se disparou, agarrou ao Simkov pela nuca e estampou sua

cara contra o mostrador de mármore.

-Wíll! -gritou Faith, surpreendida.

-Deme a chave -ordenou Wíll, apertando a cabeça do homem com mais força ainda.

-Bolso -conseguiu dizer Simkov, que tinha a boca tão apertada contra o mostrador que os dente
arranhavam a superfície.

Wíll atirou dele, procurou nos bolsos dianteiros e encontrou um molho de chaves sujeitas por um
aro. As atirou ao Faith e se dirigiu para o elevador com

os punhos apertados aos lados.

Ela pulsou o botão do apartamento de cobertura.

-Deus -murmurou-. Já o demonstraste, vale? Ficou-me claro que pode ser um tipo duro. Agora faz
o favor de te acalmar.

-Vigia a porta. -Wíll estava tão furioso que logo que podia falar-. Sabe tudo o que acontece o
edifício. Tem as chaves de todos os apartamentos, incluído

o da Anna.

A agente compreendeu que aquilo não tinha sido uma exibição.

-Vale. Tem razão. Mas vamos tomar nos as coisas com calma, de acordo? Não sabemos o que nos
vamos encontrar aí acima.

Wíll sentia que os tendões de seus braços tremiam. O elevador chegou ao apartamento de
cobertura e as comporta se abriram. Saiu ao patamar e esperou a que

Faith encontrasse a chave correspondente para abrir a porta. Achou-a, e Wíll colocou sua mão sobre
a dela para agarrar a chave. Não se andou com olhares. Tirou a

pistola e abriu a porta de um golpe.

-Ah! -exclamou Faith, levando-a mão ao nariz.

Wíll também podia cheirá-lo: uma desagradável mescla de plástico queimado e algodão de
açúcar.

-Crack -disse Faith agitando a mão diante de sua cara.

-Olhe. -Wíll assinalou o saguão. No chão, uns confetes frisados se ficaram secos em meio de um
líqüido amarelo: pontos de uma Taser.

Frente a Wíll havia um comprido corredor com duas portas fechadas a um lado. Ao fundo se via o
salão. Os sofás estavam derrubados e lhes tinham arrancado

o cheio. Havia lixo por toda parte. Um tipo muito grande estava convexo bocabajo no saguão, com os
braços em cruz. Tinha uma das mangas da camisa arregaçadas, um

torniquete ao redor do bíceps e uma seringa de injeção cravada no braço.

Wíll avançou apontando à frente com seu Glock. Faith tirou também sua arma, mas seu
companheiro lhe fez um gesto para lhe indicar que esperasse. percebia-se
o aroma putrefato do cadáver, mas lhe buscou o pulso no caso de. Havia um revólver junto ao pé do
cadáver, um Smith e Wesson com as pedaças douradas que lhe davam

um aspecto similar aos que se podem encontrar na seção de loja de brinquedos de um tudo a cem.
Wíll apartou o revólver de uma patada, embora o homem já não estava

em condições de agarrá-lo.

Fez passar ao Faith e, continuando, dirigiu-se à primeira porta fechada do corredor. Esperou a que
ela estivesse em posição e jogou a porta abaixo. Era

um armário com um montão de casacos amontoados no chão. Wíll apartou o montão com o pé,
comprovando que não havia nada debaixo dos casacos antes de passar a seguinte

porta. De novo esperou a que Faith estivesse preparada e abriu a porta de uma patada.

Ambos se tamparam a boca para não respirar o forte fedor. O privada estava transbordando e
havia manchas de sedimentos pelas escuras paredes de ônix. Um

líqüido de cor marrom escura tinha entupido o lavabo. Wíll notou que a carne lhe punha de galinha: o
aroma da habitação lhe recordava a cova em que tinham estado

encerradas Anna e Jackie. Tiveram que ir sorteando cristais, agulhas, camisinhas. Havia uma
camiseta branca feita uma bola e manchada de sangre pela parte exterior.

Ao lado se via uma sapatilha com os cordões ainda atados apoiada na parede.

A cozinha estava ao lado do salão. Wíll olhou detrás da ilha para assegurar-se de que não havia
ninguém ali, enquanto Faith se abria caminho entre os móveis

derrubados e mais cristais.

-Espaçoso -disse Faith.

-por aqui também.

Wíll abriu o armário de debaixo da pia, procurando o cubo do lixo. A bolsa era branca, como as
que tinham encontrado dentro das mulheres. O cubo estava

vazio, era o único limpo em todo o apartamento.

-Coca -aventurou Faith assinalando um par de tijolos brancos que havia sobre a mesita de café. Ao
redor havia várias pipas dispersadas e agulhas, bilhetes

enrolados, cuchillas de barbear-. Que desastre. Não me posso acreditar que houvesse gente vivendo
aqui.
Ao Wíll não surpreendiam os extremos aos que podia chegar um yonqui, nem a destruição que
conduziam. Havia visto bonitas casas dos subúrbios convertidos

em fumaderos de crack em questão de dias.

-Onde está todo mundo?

Faith se encolheu de ombros.

-Não acredito que um cadáver lhes assustasse tanto como para deixar-se aqui toda essa coca. -
Jogou uma olhada ao cadáver do homem-. Igual o deixaram aqui

vigiando a mercadoria.

Registraram o resto do apartamento os dois juntos. Três dormitórios, um deles decorado em tons
azuis e com motivos infantis e dois banhos mais. Todos os

lavabos e os privadas estavam entupidos. Os lençóis estavam revoltas em cima das camas, os
colchões estavam do reverso, tinham tirado a roupa dos armários e os televisores

tinham desaparecido. Havia um camundongo e um teclado sobre um escritório em uma das


habitações, mas não havia ordenador. Obviamente, quem tivesse estado ocupando

o apartamento tinha feito o rapa contudo.

Wíll guardou a arma em sua capa. Estava ao fundo do corredor. Dois técnicos sanitários e um
agente de uniforme esperavam na porta principal. Wíll lhes fez

um gesto para que entrassem.

-Morto de tudo -opinou um dos sanitários, limitando-se a fazer a comprovação de rotina com o
cadáver do yonqui.

-Meu companheiro está falando com o porteiro -disse o policial. dirigiu-se ao Wíll com voz
serena-: Parece como se se cansado. Tem um golpe no olho.

Faith embainhou sua arma.

-Estes chãos escorregam muito.

O policial assentiu com um olhar de cumplicidade.

-Sim, seguro que foi um escorregão.

Wíll voltou para a habitação do menino. Registrou o armário cheio de roupa de bebê pendurada
em minúsculos cabides. Foi até o berço e levantou o colchão.
-Tome cuidado -lhe advertiu Faith-. Poderia haver alguma agulha.

-Ele não se leva aos meninos -disse pensando em voz alta-. Se leva às mulheres, mas deixa aos
meninos.

-Ao Pauline não a seqüestrou em sua casa.

-Pauline é diferente -recordou Wíll-. A Olivia a assaltou em seu jardim. A Anna, na porta
principal. Já viu os pontos da Taser. E eu diria que a Jackie

Zabel a seqüestrou em casa de sua mãe.

-Ao melhor o bebê da Anna está com alguma amiga.

Wíll deixou de procurar, surpreso pelo tom de desespero que percebeu na voz do Faith.

-Anna não tem amigos. Nenhuma dessas mulheres tem amigos. Por isso as seqüestra.

-passou como mínimo uma semana, Wíll -disse Faith, com voz tremente-. Olhe a seu redor. Este
sítio é um desastre.

-Quer converter o apartamento em uma cena do crime? -perguntou-lhe, deixando que ela
subentendesse o resto: “Quer que seja outra pessoa a que encontre o

cadáver?”.

Faith provou com outra tática.

-Sara me disse que o sobrenome da Anna é Lindsay. É advogada mercantil. Podemos chamar a seu
escritório e ver se…

Com muito cuidado Wíll levantou a coberta de plástico do cubo dos fraldas que havia junto ao
cambiador. Os fraldas estavam usados, mas não era a fonte do

penetrante fedor que havia no apartamento.

-Wíll…

O agente foi ao quarto de banho contigüo e olhou no cesto de papéis.

-Quero falar com o porteiro.

-por que não deixa que…?

Wíll saiu do quarto de banho antes de que ela pudesse terminar a frase. Voltou para salão, olhou
debaixo dos sofás e tirou o cheio de várias cadeiras para

ver se havia algo ou alguém dentro.


O policial estava provando a coca, e parecia encantado com o descobrimento.

-Isto é um contrabando encontrado em um registro completamente justificado. Tenho que chamar


para dar parte.

-Me dê um minuto -lhe disse Wíll.

Um dos sanitários perguntou:

-Querem que fiquemos por aqui?

-Não -respondeu Faith.

-Sim -disse Wíll ao mesmo tempo-. Não vão a nenhuma parte -disse Wíll, para que ficasse claro.

-Não conhecerá um técnico de ambulâncias chamado Rick Sigler? -perguntou-lhe Faith.

-Rick? Sim -respondeu o homem, um tanto surpreso pela pergunta.

Wíll interrompeu sua conversação. Voltou para banho, respirando pela boca para que o aroma do
pis e da caca não lhe fizessem vomitar. Fechou a porta e voltou

para a entrada principal. agachou-se para examinar os papelitos: estava quase seguro de que estavam
impregnados de urina seca.

Wíll ficou de pé, saiu ao corredor e olhou para o apartamento. O apartamento de cobertura da
Anna ocupava toda a planta. Não havia mais pisos, nem vizinhos.

Ninguém a teria ouvido gritar nem teria visto o assaltante.

O assassino teria estado diante da porta principal, onde estava Wíll. Olhou para o corredor,
pensando que o homem poderia ter subido pelas escadas, ou baixado.

Havia uma saída de emergência. Poderia ter entrado do terraço. Ou ao melhor o inapresentável do
porteiro tinha deixado entrar pelo portal, igual até lhe pulsou o

botão do elevador. A porta da Anna tinha mira. Seguro que tinha cuidadoso antes de abrir. Todas
estas mulheres eram precavidas. A quem deixaria entrar? A alguém

que lhe trazia um pacote. Ao de manutenção. Possivelmente ao porteiro.

Faith se dirigia para o Wíll. A expressão de sua cara era indecifrável, mas a conhecia o suficiente
para saber o que estava pensando: “É hora de partir”.

Olhou para o patamar uma vez mais. Havia outra porta um pouco mais à frente, na parede de em
frente do apartamento.
-Wíll… -disse Faith, mas ele já se dirigia para a porta.

Abriu a porta. Dentro havia uma trampilla metálica para atirar o lixo, caixas empilhadas para
reciclar e um cubo para o vidro e outro para as latas. Um

bebê descansava no cubo dos plásticos. Tinha os olhos entrecerrados e os lábios um pouco
separados. Sua pele estava muito pálida, cerúlea.

Faith apareceu por detrás do Wíll. Agarrou-lhe por braço: ficou-se imóvel. O mundo tinha deixado
de girar. agarrou-se ao pomo da porta ao notar que seus

joelhos fraquejavam. Faith emitiu um som que parecia um gemido.

O bebê girou a cabeça para o som e abriu lentamente os olhos.

-OH, meu Deus! -exclamou Faith. Apartou ao Wíll de um empurrão e caiu de joelhos para agarrar
ao menino em braços-. vá procurar ajuda! Wíll, procura ajuda!

O agente sentiu que o mundo voltava para a normalidade.

-Aqui! -gritou aos sanitários-. Tragam a maleta!

Faith se aproximou do menino e o examinou para ver se tinha cortes ou golpes.

-Corderito -sussurrou-, está bem. Já lhe temos. Está bem.

Wíll ficou contemplando a sua companheira com o bebê em braços, o modo em que lhe acariciava
a cabeça e lhe beijava a frente. A criatura logo que podia

abrir os olhos e tinha os lábios muito pálidos. Wíll queria dizer algo, mas tinha um nó na garganta.
Sentia frio e calor ao mesmo tempo, como se pudesse tornar-se

a chorar diante de todo mundo.

-Já te tenho, minha vida -murmurou Faith com a voz estrangulada pela angústia. As lágrimas
rodavam por suas bochechas. Wíll nunca a tinha visto em seu papel

de mãe, ao menos não com um bebê. Rompeu-lhe o coração ver o lado doce do Faith, essa parte dela
que era capaz de preocupar-se tanto por outro ser humano que suas

mãos tremiam quando o aproximou de seu peito.

-Não chora -sussurrou-. por que não chora?

Por fim Wíll conseguiu falar.

-Sabe que ninguém deverá ver por que chora.


Inclinou-se e rodeou a cabecita do menino com a mão, tentando não pensar nas horas que tinha
passado ali sozinho, chorando, esperando a que alguém viesse.

O sanitário tragou saliva, aniquilado. Chamou a seu companheiro enquanto agarrava ao bebê dos
braços do Faith. O fralda estava sujo. Tinha o abdômen distendido;

a cabeça lhe pendurava para um lado.

-Está desidratado. -O sanitário olhou se suas pupilas estavam reativas e lhe levantou os lábios
para lhe olhar as gengivas-. E desnutrido.

-ficará bem? -perguntou-lhe Wíll.

O homem meneou a cabeça.

-Não sei. Está muito mal.

-Quanto tempo…? -Faith não pôde terminar a frase-. Quanto tempo esteve aqui?

-Não sei -repetiu o homem-. Um dia. Possivelmente dois.

-Dois dias? -perguntou Wíll seguro de que o homem se equivocava-. A mãe desapareceu faz uma
semana, possivelmente mais.

-Se levasse mais de uma semana estaria morto. -Com muito cuidado, o sanitário lhe deu a volta-.
Tem crostas de ter estado convexo muito tempo na mesma posição.

-Soltou um impropério entre dentes-. Não sei quanto tempo demoram para aparecer, mas alguém lhe
esteve dando de beber, pelo menos. Não poderia ter sobrevivido sem

isso.

-Pode que a prostituta… -disse Faith.

Não terminou a frase, mas Wíll sabia o que queria dizer. Certamente Lola lhe teria estado jogando
um olho ao bebê da Anna depois de que a seqüestrassem.

Então a tinham tido detida e o bebê se ficou sozinho.

-Se Lola o estava cuidando -disse Wíll-, teria que sair e entrar do edifício.

Abriram-se as portas do elevador. Wíll viu um segundo polícia que vinha com o Simkov, o
porteiro. Tinha um hematoma debaixo do olho e a sobrancelha partida

de quando Wíll o estrelou contra o mostrador.

-Esse -disse o porteiro assinalando ao Wíll com gesto triunfal-. Esse é o que me golpeou.
Wíll apertou os punhos. Tinha a mandíbula tão apertada que pensou que lhe foram romper os
dentes.

-Sabia que este bebê estava aqui acima?

Simkov adotou um tom desdenhoso.

-E eu o que sei de um bebê? Ao melhor o porteiro de noite… -interrompeu-se e olhou para o


apartamento-. Jesus, María e José! -murmurou algo em sua língua

materna-. Mas o que estiveram fazendo aqui?

-Quem? -perguntou Wíll-Quem esteve aqui?

-Esse homem está morto? -perguntou Simkov com a vista fixa no desastre do apartamento-. Por
Deus bendito, olhem este sítio. Que peste!

Simkov tentou entrar no apartamento, mas o policial o impediu. Wíll lhe deu outra oportunidade ao
porteiro, e vocalizando bem as palavras lhe perguntou:

-Sabia que este bebê estava aqui acima?

Simkov se encolheu de ombros, elevando-os até as orelhas.

-E que coño sei eu o que acontece as casas destes ricachones? Pagam-me oito dólares à hora e
você pretende que me saiba suas vidas?

-Há um bebê -disse Wíll tão furioso que logo que podia falar-. Um bebê que se está morrendo.

-Muito bem, há um bebê. E a mim que coño me importa?

A ira se apoderou do Wíll de forma tão repentina que não se deu conta do que estava fazendo até
que esteve em cima do homem, deixando cair seu punho uma

e outra vez como um martelo pneumático. Mas não parou. Não queria parar. Pensava nesse bebê
sentado sobre sua própria mierda, no assassino deixando-o no quarto do

lixo para que morrera de inanição, na prostituta que queria negociar com ele sua saída do cárcere em
troca de informação e no Angie… Angie estava em todo o alto

desse montão de excrementos, manipulando ao Wíll como sempre tinha feito, lhe voltando louco para
que sentisse que era um lixo como todos outros.

-Wíll! -gritou Faith.

Tinha os braços estendidos, como quando uma fala com um louco. Wíll sentiu uma forte dor nos
ombros quando os dois policiais lhe agarraram os braços e os
sujeitaram detrás das costas. Ofegava como um cão raivoso. O suor jorrava por sua cara.

-Muito bem -disse Faith enquanto se aproximava dele com as mãos ainda estendidas-. vamos
acalmar nos. te acalme, Wíll.

Pô-lhe as mãos em cima e se deu conta de que era a primeira vez que o fazia. Agarrou-lhe a cara e
lhe obrigou a olhá-la a ela em lugar da o Simkov, que

se retorcia no chão.

-Me olhe -lhe ordenou em voz baixa, como se solo eles pudessem escutar suas palavras-. Wíll, me
olhe.

Obrigou-se a olhá-la. Os olhos do Faith eram de um azul intenso, e o olhava assustada.

-Tudo está bem -lhe disse Faith-. O bebê vai se pôr bem. Sim, de acordo?

Wíll assentiu e os policiais lhe soltaram um pouco as mãos. Faith seguia diante dele, lhe
sujeitando a cara.

-Está bem -lhe disse, lhe falando no mesmo tom que tinha empregado com o bebê-. vais estar bem.

Wíll retrocedeu um passo para que Faith lhe soltasse. Era consciente de que estava tão assustada
como o porteiro. Ele também o estava: ainda queria golpear

ao Simkov, e se os agentes não tivessem estado ali, se tivesse estado a sós com ele, o teria feito até
matá-lo com suas próprias mãos.

Faith seguiu olhando-o fixamente aos olhos uns segundos mais. Logo se voltou a olhar ao homem
que estava tendido no chão, talher de sangue.

-te levante, imbecil.

Simkov grunhiu e se fez um novelo.

-Não posso me mover.

-Fecha a boca -disse Faith, lhe atirando do braço.

-O nariz! -uivou, estava tão enjoado que solo se sustentava porque tinha o ombro apoiado na
parede-Me tem quebrado o nariz!

-Está perfeitamente. -Faith olhou a um lado e a outro. Olhava a ver se havia câmaras de segurança.

Wíll fez o mesmo e se sentiu aliviado ao ver que não havia nenhuma.

-Brutalidade policial! -gritou o homem-. Vocês o viram. São vocês testemunhas.


Um dos agentes que estava detrás do Wíll disse:

-Tem-te cansado, amigo. Não te lembra?

-Eu não me tenho cansado -insistiu o homem. O sangue saía a jorros pelo nariz e se deslizava por
entre seus dedos como a água de uma esponja.

O outro sanitário lhe estava pondo uma via ao menino. Não levantou a vista, mas disse:

-Será melhor que olhe onde pisa na próxima vez.

E assim, de repente, Wíll se converteu na classe de polícia que nunca tinha querido ser.

Capítulo dezessete

Ao Faith ainda lhe tremiam as mãos quando chegou à habitação da Anna Lindsey na UCI. Os dois
policiais que custodiavam sua porta estavam conversando com

as enfermeiras no mostrador, mas olhavam para ali de vez em quando, como se conhecessem o que
tinha acontecido no exterior do apartamento da Anna Lindsey e não soubessem

muito bem o que pensar. Wíll, por sua parte, estava frente a Faith, com as mãos nos bolsos e olhando
fixamente a parede. Faith se perguntava se teria entrado em

estado de shock. Que demônios, perguntava-se se lhe tinha passado também a ela.

Em sua vida pessoal, Faith tinha sido objeto de atenção para muitos homens carregados de ira, mas
jamais tinha presenciado um desdobramento de violência

como o do Wíll. Houve um momento no patamar do último piso do Beeston Agrada no que Faith
temeu que Wíll matasse ao porteiro. Foi a expressão de sua cara o que a

impressionou tanto: fria, implacável, com o único objetivo de lhe arrebentar a cara a golpes. Como
qualquer outra mãe, a do Faith sempre lhe havia dito que tivesse

muito cuidado com o que desejava: ela tinha desejado que Wíll fora um pouco mais agressivo, agora
daria algo para que voltasse a ser o de antes.

-Não dirão nada -disse ao Wíll-. Nem os policiais nem os da ambulância.

-Dá igual.

-Encontrou ao bebê -lhe recordou-. Quem sabe quanto tempo teria passado antes de que alguém…?

-Para.
Ouviu-se um timbrazo quando se abriram as portas do elevador. Amanda saiu caminhando com
passo resolvido. Jogou uma olhada ao patamar, para ver quem estava

por ali e provavelmente para tentar neutralizar às testemunhas. Faith se preparou para receber um
bom repasse, suspensões imediatas e inclusive retirada de placas.

Entretanto Amanda perguntou:

-Estão bem?

Faith assentiu. Wíll ficou olhando ao chão.

-Me alegro de ver que por fim lhe cresceram um bom par -disse ao Wíll-. Vou suspender o salário
pelo resto da semana, mas não pense nem por um minuto que

vais deixar de trabalhar para mim.

-Sim, senhora -disse Wíll com voz rouca.

Amanda se foi para a escada a grandes pernadas. Ambos a seguiram e Faith se precaveu de que
sua chefa tinha perdido seu gracejo e seu domínio habituais.

Parecia tão aturdida como eles.

-Fecha a porta.

Ao fechá-la viu que ainda lhe tremiam as mãos.

-Chárlie está comprovando o apartamento de cobertura da Anna Lindsey -lhes informou Amanda, e
sua voz ressonou pelo oco das escadas. Baixou um pouco o tom-,

chamará se encontrar algo. Obviamente, tem que te manter afastado do porteiro -disse ao Wíll-. Os
resultados deveriam estar preparados manhã pela manhã, mas não

lhes façam muitas ilusões, já viram como estava esse apartamento. Os informáticos não puderam
acessar aos ordenadores de nenhuma das duas mulheres. Estão lhes passando

todos os programas de desencriptación que têm, mas poderiam demorar meses em acessar. A Web
pró-anorexia está alojada em uma empresa fantasma da Frisia, que ou seja

onde coño está. Na Europa. Não querem nos dar a informação de registro, mas os informáticos
conseguiram encontrar as estatísticas em Internet. Têm uns dois mil usuários

únicos ao mês. Isso é tudo o que sabemos.

Wíll não disse nada, assim Faith perguntou:


-E o que passa com a casa vazia que há detrás da da Olivia Tanner?

-Os rastros são de umas sapatilhas Nike de talha 45 e se vendem em umas mil e duzentas lojas em
todo o país. Encontramos algumas bitucas na lata da Coca-cola

que havia atrás do bar. vamos tentar conseguir umas amostras de DNA, mas ou seja de quem serão.

Faith perguntou:

-Sabe-se um pouco do Jake Berman?

-Você que coño crie? -Amanda respirou fundo para acalmar-se-. difundimos um desenho e sua foto
de arquivo pela rede do estado. Estou segura de que em qualquer

momento saltará à imprensa, mas já lhes pedimos que a retenham durante ao menos vinte e quatro
horas.

Faith tinha um montão de perguntas na cabeça, mas não lhe saiu nenhuma. Fazia menos de uma hora
que tinha estado na cozinha da Olivia Tanner e não podia

recordar nem o mais mínimo detalhe da casa. Wíll falou por fim. Sua voz, como seu rosto, era a viva
expressão da derrota.

-Deveria me despedir.

-Não te vais liberar disto tão facilmente.

-Não estou brincando, Amanda. Deveria me despedir.

-Eu tampouco estou de brincadeira, casulo ignorante. -Pôs os braços em jarras, e agora sim se
pareceu mais à a Amanda bordo que Faith tão bem conhecia-.

O bebê da Anna Lindsey está a salva graças a ti. Acredito que isso é um triunfo para a equipe.

Wíll se arranhou o braço. Faith viu que seus nódulos estavam esfolados e sangravam. Recordou
aquele momento no patamar quando lhe sujeitou a cara com as

mãos, e em como desejou que voltasse para seu ser porque não sabia como poderia seguir vivendo se
Wíll Trent deixava de ser o homem com o que tinha compartilhado

sua vida cotidiana desde fazia um ano.

Amanda olhou a agente.

-Nos dê um minuto.

Faith abriu a porta e saiu ao patamar. Havia bastante agitação na UCI, mas nem remotamente
parecido ao que se vivia abaixo, na sala de urgências. Os policiais

tinham voltado para seu posto e vigiavam a entrada da habitação da Anna. Ambos a seguiram com a
vista quando passou por diante deles.

-Estão na sala de exploração número três -lhe disse uma das enfermeiras.

Faith não sabia por que lhe dava essa informação, mas de todos os modos foi para ali. Sara Linton
estava na sala, junto a um Moisés de plástico. Tinha ao

bebê da Anna pego em braços.

-Está-se recuperando -disse ao Faith-. Demorará um par de dias em ficar bem de tudo, mas o
conseguirá. De fato, acredito que estar outra vez com sua mãe

lhes fará muito bem aos dois.

Faith não podia comportar-se como um ser humano nesse momento, assim que se obrigou a ser um
policial.

-Há dito algo mais Anna?

-Não muito. Tem muitos dores. Agora que está acordada lhe subiram a morfina.

Faith passou sua mão pela coluna vertebral do menino e percebeu a elasticidade de sua pele e suas
diminutas vértebras.

-Quanto tempo crie que esteve sozinho?

-O TES tinha razão. Eu diria que dois dias, como máximo. Se não a situação seria muito diferente.
-Sara se passou o bebê ao outro ombro-. Alguém lhe deu

água. Está desidratado, mas vi casos muito piores.

-O que está fazendo aqui? -perguntou-lhe Faith. Sua pergunta era completamente inocente. Para lhe
ouvi-la pareceu uma boa questão, assim que a repetiu-.

por que está aqui? por que estava com a Anna?

Sara voltou a deixar ao menino no Moisés com muito cuidado.

-É meu paciente. Devi ver como estava. -Tampou ao bebê com uma manta-. Do mesmo modo que
tentei te chamar a ti esta manhã para ver como estava. Na consulta

da Délia Wállace me disseram que ainda não te tinha posto em contato com ela.

-estive um pouco ocupada resgatando a um bebê de um cubo de lixo.


-Faith, não sou o inimigo. -Sara adotou o irritante tom de quem tenta ser razoável-. Já não se trata
sozinho de ti. Leva um menino em seu ventre, outra

vida da que também é responsável.

-Essa é minha decisão.

-Pois te está esgotando o tempo, mais vale que ditas já. Não deixe que seu corpo dita por ti,
porque entre a diabetes e aquele menino tem todas as de ganhar.

Faith respirou fundo, mas não lhe serve de grande coisa. deixou-se levar.

-Olhe, pode que esteja tentando te colocar com calçadeira em meu caso, mas está muito
equivocada se crie que vou permitir que te entremeta em minha vida

privada.

-Perdão? -Sara teve o descaramento de aparentar surpresa.

-Já não é forense, Sara. Já não está casada com um chefe de polícia. Está morto: viu-o saltar em
pedaços com seus próprios olhos. Rondando pelo anatômico

e te entremetendo em uma investigação em curso não vais conseguir que volte.

Sara ficou com a boca aberta, incapaz de articular uma resposta. Incrivelmente, Faith rompeu a
chorar.

-OH, meu Deus, sinto-o muito! Isso… é horrível. -tampou-se a boca-. Não posso acreditar que
haja dito…

Sara meneou a cabeça e olhou ao chão.

-Sinto-o muito. Deus, sinto muito. Por favor, me perdoe.

A doutora se tomou seu tempo antes de falar.

-Suponho que Amanda te terá posto ao dia dos detalhes.

-Busquei-o no ordenador. Não deveria…

-O agente Trent também o tem lido?

-Não -Faith falou com voz firme-. Não. Ele disse que não era assunto dele, e tem razão. Tampouco
é minha coisa. Não deveria havê-lo feito. Sinto muito.

Sou uma pessoa horrível, espantosa, Sara. Não posso acreditar que te haja dito essas barbaridades.

Sara se inclinou e acariciou a cara do bebê.


-Não passa nada.

Faith não sabia o que dizer, assim que ficou a recitar todas as coisas horríveis que lhe ocorreram
sobre si mesmo.

-Verá, te menti quanto ao peso. ganhei sete quilogramas, não cinco. Como pão-doces de geléia
para tomar o café da manhã, e às vezes também para jantar,

mas isso sim, com uma Coca-cola Light. Nunca faço exercício. Jamais. Solo corro para ir ao banho
antes de que se acabem os anúncios, e se te digo a verdade, desde

que tenho um disco rígido nem isso. -Sara seguia calada-. O sinto muitíssimo.

A doutora continuava enredando com a manta, remetendo-a pelos lados, assegurando-se de que o
bebê estivesse cômodo e bem abrigado.

-Sinto-o -repetiu Faith, que se sentia tão mal que pensava que ia vomitar.

Sara guardava seus pensamentos para si. A agente estava tentando encontrar a maneira de
abandonar a habitação sem perder a dignidade quando a médica lhe

disse:

-Sabia que eram sete quilogramas.

Faith percebeu que a tensão começava a dissipar-se. E não estava disposta a arruiná-lo todo outra
vez abrindo a boca.

-Ninguém me fala nunca dele. Quero dizer, ao princípio sim o faziam, claro, mas ninguém se atreve
a pronunciar seu nome. É como se não queriam me desgostar,

como se pronunciar seu nome pudesse provocar que eu voltasse A… -Sara meneou a cabeça-.
Jéffrey. Não posso recordar quando foi a última vez que o disse em voz

alta. chama-se, chamava-se Jéffrey.

-É um nome muito bonito.

Sara assentiu e tragou saliva.

-Vi alguma foto -admitiu Faith-. Era muito bonito.

A doutora esboçou um sorriso.

-Sim, o era.

-E um bom polícia. Sei pelo que diziam dele os informe.


-Era um bom homem.

Faith ficou sem palavras e ficou a pensar que mais podia dizer. Sara lhe adiantou.

-E o que me diz de ti? -perguntou-lhe.

-De mim?

-O pai.

Para sua vergonha, Faith se tinha esquecido do Victor. levou-se a mão ao ventre.

-Refere-te ao pai de meu filho? -Sara se permitiu um sorriso-. Procurava uma mãe, não uma noiva.

-Vá, Jéffrey nunca teve esse problema. Sabia cuidar de si mesmo muito bem. -Tinha o olhar
perdido-. Foi o melhor que me passou na vida.

-Sara…

A médica ficou a olhar nas gavetas do escritório e encontrou um glucosómetro.

-vamos ver como tem o açúcar.

Esta vez Faith estava muito arrependida para protestar. Estendeu a mão, disposta a receber a
espetada. A doutora seguiu falando enquanto lhe media o açúcar.

-Não tento recuperar a meu marido. me acredite, se fosse tão singelo como me entremeter na
investigação de um caso amanhã mesmo me inscreveria na academia

de polícia. -Faith fez uma careta ao notar a espetada-. Só quero voltar a me sentir útil. -Sua voz
adquiriu um tom de confidência-. Quero sentir que estou fazendo

algo mais para ajudar às pessoas que prescrever pomadas para uma erupção que provavelmente se
curará por si só ou remendar a um punhado de valentões para que possam

sair à rua de novo e seguir acribillándose uns aos outros.

Faith não se expôs que as motivações da Sara pudessem ser tão altruístas. Imaginou que não dizia
muito em seu favor o que sempre desse é óbvio que todo

mundo se comportava de forma egoísta na vida.

-Por como falas dele parece que seu marido era… perfeito -comentou Faith.

Sara se pôs-se a rir enquanto manipulava a tira reativa.

-Deixava a cartucheira pendurando do pomo da porta do banho, nada mais nos casar se deitava
com qualquer (coisa que descobri pessoalmente um dia ao chegar

do trabalho) e tinha um filho ilegítimo do que não soube nada até os quarenta anos. -Sara leu o
resultado e, continuando, o mostrou ao Faith-. O que te parece? Suco

ou insulina?

-Insulina -confessou Faith-. Fiquei sem insulina na hora de comer.

-Me imaginava. -Agarrou o telefone e chamou uma das enfermeiras-. Tem que manter isto sob
controle.

-Este caso é…

-Este caso é o que te ocupa agora, mas é exatamente igual a outros casos nos que trabalhaste e
trabalhará. Estou segura de que o agente Trent poderá acontecer-se

sem ti um par de horas enquanto te ocupa disto. -Sara voltou a centrar-se no menino-. Se chama
Balthazar -lhe disse.

-E eu aqui pensando que lhe tínhamos salvado nós.

Sara teve a delicadeza de rir, mas falou completamente a sério.

-Sou especialista em medicina pediátrica, Faith. Graduei-me entre os primeiros de minha


promoção na Universidade do Emory, e dediquei os últimos vinte anos

de minha vida a ajudar às pessoas, já seja em vida ou depois de morta. Pode questionar meus
motivos tudo o que queira, mas não questione meu profesionalidad como

médica.

-Tem razão. -Faith estava ainda mais arrependida agora-. O sinto. foi um dia muito duro.

-Pois ter esse nível de açúcar não ajuda. -Alguém bateu na porta e Sara foi agarrar os lápis de
insulina que lhe trazia a enfermeira-. Tem que tomar o a

sério.

-Sei.

-Pospô-lo não vai servir de nada. te agarre um par de horas e vete a ver a Délia para que ponha em
ordem e possa te concentrar em seu trabalho.

-Farei-o.

-Mudanças de humor, ataques de fúria… Todo isso são sintomas da enfermidade que padece.
Faith se sentia como se sua mãe lhe acabasse de jogar uma regañina, mas possivelmente era
precisamente isso o que necessitava agora mesmo.

-Obrigado.

Sara apoiou as mãos no Moisés.

-Deixo-te para que ponha a insulina.

-Espera -lhe disse Faith-. Você trata a garotas jovens, não?

Sara se encolheu de ombros.

-Tinha mais trato com elas antes, quando tinha minha consulta. por que o pergunta?

-Soa-te de algo a palavra “thinspo”?

-Não sei muito -admitiu Sara-, solo que assim é como chamam à propaganda pró-anorexia,
geralmente a que se faz por Internet.

-Três de nossas vítimas têm relação com isso.

-Anna segue estando muito magra -comentou Sara-. O fígado e os rins lhe funcionam muito mal,
mas eu pensei que tinha que ver com tudo o que sofreu, não

que o tivesse feito ela mesma.

-Poderia ser anoréxica?

-É possível. Não me expus isso pela idade que tem; a anorexia é um problema mais típico da
adolescência. Embora Pete fez algum comentário nesse sentido

durante a autópsia do Jacquelyn Zabel. Estava muito magra, mas é que a tiveram privada de água e
comida durante ao menos duas semanas. Dava é óbvio que seria uma

mulher magra antes do seqüestro. A via muito miúda. -inclinou-se sobre o Balthazar e lhe deu uns
golpecitos na bochecha-. Anna não poderia ter tido um menino se

fosse anoréxica. Não sem arriscar-se a sofrer complicações muito sérias.

-Possivelmente conseguiu mantê-lo sob controle o tempo suficiente para ter ao menino -aventurou
Faith-. Nunca estou muito segura do que é cada coisa: anorexia

é quando vomitam?

-Isso é bulimia. Os anoréxicos deixam de comer. Há anoréxicos que usam laxantes, mas não se
purgam. Cada vez há mais indícios que apontam a um condicionamento
genético: anomalias cromosómicas que predispõem a sofrer esse tipo de desórdenes. Pelo general
são os fatores ambientais os que funcionam como desencadenantes.

-Como o abuso ou os maus entendimentos?

-Poderia ser. Às vezes é o abuso, às vezes dismorfia corporal. Alguns lhes jogam a culpa às
revistas e às estrelas de cinema, mas é muito complicado para

poder atribui-lo a uma só causa. Cada vez se vêem mais casos de anorexia masculina. É francamente
difícil de tratar, pelo componente psicológico.

Faith pensou em suas vítimas.

-Esses desórdenes estão associados a um certo tipo de personalidade?

Sara ficou pensando uns segundos antes de responder.

-O único que te sei dizer é que aos poucos pacientes aos que eu pude tratar lhes produzia um
imenso prazer o privar-se de comer. Faz falta muita força de

vontade para dominar o imperativo fisiológico. Às vezes sentem que sua vida está completamente
fora de controle, e que quão único podem controlar é o que ingerem.

Além disso, o corpo responde ao feito de matar-se de fome: enjôos, euforia, às vezes inclusive
alucinações. Pode produzir um efeito similar ao dos opiáceos, e chegar

a ser uma sensação muito aditiva.

Faith tentou recordar quantas vezes tinha brincado sobre quão feliz seria se tivesse a força de
vontade necessária para voltar-se anoréxica por uma semana.

-O problema maior que expõe o tratamento desta classe de desórdenes é que estar muito magra é
melhor aceito pela sociedade que o ter sobrepeso.

-Ainda não conheci a uma só mulher que esteja satisfeita com seu peso.

Sara se Rio com tristeza.

-Pois eu sim: minha irmã.

-O que é, uma Santa ou algo assim?

Faith o havia dito em plano de brincadeira mas, para sua surpresa, Sara lhe respondeu.

-Quase. É missionária. casou-se com um pregador faz uns anos. Estão na África, trabalhando com
bebês que nascem com SIDA.
-Vá Por Deus, já a ódio e nem sequer a conheço.

-Também tem seus defeitos, me acredite -lhe confessou Sara-. Há dito três vítimas. Significa isso
que desapareceu outra mulher?

Faith se precaveu então de que o caso da Olivia Tanner ainda não tinha saltado aos meios.

-Sim. Mas me guarde o segredo se puder.

-Certamente.

-Ao parecer duas delas tomavam muitas aspirinas. A última tinha seis frascos de tamanho familiar
em sua casa. Jacquelyn Zabel também tinha um frasco grande

na mesinha de noite.

Sara assentiu, como se aquilo tivesse sentido para ela.

-Em grandes dose é um emético. Isso explicaria por que Zabel tinha o estômago tão ulcerado.
Também explicaria por que seguia sangrando quando Wíll a encontrou.

Deveria dizer-lhe estava muito abatido por não ter chegado a tempo.

Wíll tinha muitos mais motivos para sentir-se abatido agora mesmo. Mesmo assim, Faith recordou
algo.

-Necessita o número de seu apartamento.

-por que? -perguntou Sara, mas em seguida caiu na conta-. Ah, o cão de sua mulher.

-Exato -disse Faith, pensando que aquela mentira era o menos que lhe devia.

-O doze. Está no diretório. -Voltou a apoiar as mãos no Moisés-. vou levar a este menino com sua
mãe.

Faith lhe sujeitou a porta e Sara agarrou o Moisés. O rumor do corredor zumbiu nos ouvidos da
agente até que voltou a fechar a porta. sentou-se no tamborete

que havia junto ao mostrador e se levantou a saia, procurando um ponto que não estivesse já
arroxeado pelas espetadas. O folheto sobre a diabetes dizia que terei

que ir trocando o lugar da espetada, assim Faith explorou seu ventre, onde encontrou um antigo e
branco michelín que beliscou com o índice e o polegar.

Tinha a caneta de insulina a uns centímetros de sua barriga, mas não se cravou. Em alguma parte,
detrás de todos aqueles pão-doces de geléia, havia um bebê
diminuto com suas pequenas manitas e seus piececitos, e olhos, e uma boca; um bebê que respirava
quando ela respirava, que fazia pis cada dez minutos quando ela

saía correndo para o banho. As palavras da Sara lhe tinham aberto os olhos, mas ver o Balthazar
Lindsey tinha despertado no Faith algo que nunca antes havia sentido.

Por mais que quisesse ao Jeremy, seu nascimento não foi precisamente algo para celebrar. Os quinze
não eram uma idade muito adequada para uma festa premamá, e até

as enfermeiras do hospital a tinham cuidadoso com lástima.

Entretanto, esta vez seria diferente. Faith tinha idade mais que suficiente para ser mãe. Poderia
passear-se pelo centro comercial com seu bebê em braços

sem preocupar-se porque a gente pudesse pensar que era a irmã maior de seu próprio filho. Poderia
levá-lo a pediatra e preencher todos os impressos sem que sua mãe

tivesse que assiná-los também. Poderia mandar ao corno a seus professores nas reuniões do AMPA
sem ter que preocupar-se de que a mandassem direta ao despacho do

diretor. Que demônios, agora tinha idade para conduzir.

Esta vez poderia fazê-lo bem. Poderia ser uma boa mãe de princípio a fim. Bom, possivelmente
não desde o começo. Faith ficou a pensar em todas as coisas

que lhe tinha feito a seu filho tão solo nessa semana: tinha-o ignorado, tinha negado sua existência,
deprimiu-se em uma garagem, tinha pensado em abortar, tinha-o

exposto ao que pudesse ter Sam Lawson, cansado-se de um alpendre e tinha arriscado as vistas de
ambos tentando evitar que Wíll lhe arrebentasse a cabeça a um porteiro

yugoslavo contra o elegante carpete do patamar do apartamento de cobertura do Beeston Agrada.

E aí estavam os dois agora, mãe e filho na UCI do hospital Grady, e ela a ponto de lhe cravar uma
agulha na cabeça.

A porta se abriu.

-Que coño está fazendo? -perguntou Amanda, mas em seguida o figurou-. OH, pelo amor de Deus.
Quando pensava me falar disto?

Faith se baixou a saia, pensando que era um pouco tarde para andar-se com remilgos.

-Assim que te dissesse que estou grávida.

Amanda tentou fechar dando uma portada, mas o mecanismo hidráulico o impediu.
-Joder, Faith. Nunca chegará a nenhuma parte se tiver que te pôr a criar um bebê.

Faith se indignou.

-Pois cheguei até aqui criando a um.

-Foi uma cria de uniforme que ganhava dezesseis mil dólares ao ano. Agora tem trinta e três tacos.

-Imagino que isto significa que não vai dar uma festa premamá -replicou Faith.

-Sabe sua mãe? -perguntou-lhe Amanda com um olhar que poderia cortar um cristal.

-Pensei que era melhor deixar que desfrutasse de suas férias.

A chefa se deu uma palmada na frente, um gesto que teria resultado cômico de não ser porque tinha
a vida do Faith em suas mãos.

-Um disléxico curto de luzes com problemas para controlar seu gênio e uma diabética fértil e
gorda que carece das noções mais básicas sobre o controle da

natalidade. -Cravou-lhe o dedo na cara-. Espero que você goste de trabalhar com seu companheiro,
porque vais seguir emparelhada com o Wíll Trent o que fique de vida.

Faith tratou de ignorar a parte em que a tinha chamado “gorda” que, em honra à verdade, era o que
mais lhe tinha incomodado de tudo.

-Me ocorrem coisas muito piores que ter de companheiro ao Wíll Trent o resto de minha vida.

-Deveria te alegrar de que não houvesse câmaras de segurança que pudessem gravar seu rabieta.

-Wíll é um bom polícia, Amanda. A estas alturas não o teria trabalhando para ti se não acreditasse
você também.

-Bom… Possivelmente quando não tira reluzir seus problemas de abandono.

-Está bem?

-Sobreviverá -replicou Amanda sem muita convicção-. Lhe mandei a procurar a essa prostituta,
Lola.

-Não está no cárcere?

-Tinha que tudo naquele apartamento: heroína, metanfetamina, coca. Angie Polasky obteve que a
soltem pelo sopro -disse Amanda encolhendo-se de ombros. Não

sempre podia controlar todo o departamento de polícia de Atlanta.

-Crie que é boa idéia enviar ao Wíll a procurar a Lola, tendo em conta quão cheio o saco está por
deixar sozinho ao bebê?

Amanda voltou a ser a Amanda que não permitia que discutissem suas decisões.

-Temos a duas mulheres desaparecidas e a um assassino em série que sabe muito bem o que fazer
com elas. Se não obtermos resultados logo, o caso irá das

mãos. O tempo se esgota, Faith. Agora mesmo poderia estar vigiando a sua próxima vítima.

-Supunha-se que tinha que me reunir hoje com o Rick Sigler, o LHES que atendeu a Anna.

-Enviei a alguém faz uma hora a sua casa. Sua esposa estava com ele. Negou rotundamente
conhecer nenhum Jake Berman. Logo que admitiu que tinha passado

por essa estrada aquela noite.

Faith não lhe ocorreu pior maneira de interrogar ao homem.

-É gay. A mulher não tem nem idéia.

-Nunca têm nem idéia -replicou Amanda-. Em qualquer caso não tinha muitas vontades de falar, e
não temos motivos suficientes para nos levar isso a delegacia

de polícia.

-Não estou muito segura de que não seja um suspeito.

-Todo mundo é suspeito no que a mim respeita. Li o relatório da autópsia; vi o que têm feito a
Anna. A nosso menino mau gosta de experimentar. E vai seguir

fazendo-o até que o detenhamos.

Faith tinha seguido funcionando nas últimas horas a base de adrenalina, e para ouvir a Amanda lhe
voltou a disparar.

-Quer que vigie ao Sigler?

-Tenho a Leio Donnelly estacionado frente a sua casa neste momento. Algo me diz que não quer te
acontecer a noite apanhada com ele em um carro.

-Não senhora -respondeu Faith, e não só porque Léon fora um fumante contumaz. Provavelmente
culparia ao Faith de lhe haver posto na lista negra da Amanda.

E tinha razão.

-Alguém tem que ir a Michigan e procurar os arquivos relativos à família do Pauline Seward. A
ordem está em caminho, mas pelo visto os expedientes de faz
mais de quinze anos não estão digitalizados. Temos que encontrar a alguém que a conhecesse naquela
época e temos que encontrá-lo já; aos pais ou, com um pouco de

sorte, ao irmão, se não resultar ser nosso misterioso Jake Berman. Por razões mais que evidentes não
posso mandar ao Wíll a ler expedientes.

Faith deixou o lápis de insulina sobre o mostrador.

-Eu me ocupo.

-Tem essa diabetes sob controle? -A expressão do Faith deveu responder a sua pergunta-. Enviarei
a outro de meus agentes, um que possa fazer seu trabalho.

Amanda fez um gesto com a mão rechaçando qualquer queixa que pudesse formular Faith.

-vamos partir daí até que volte a nos morder o culo outra vez, pode ser?

-Sinto muito tudo isto. -Faith se tinha desculpado mais vezes nos últimos dez minutos que em toda
sua vida.

Amanda meneou a cabeça, deixando claro que não estava disposta a discutir o estúpido daquela
situação.

-O porteiro pediu um advogado. Temos uma reunião com ele a primeira hora da manhã.

-Prendeste-lhe?

-Detido. Resulta óbvio que é um imigrante. A Lei Patriótica nos permite lhe reter durante vinte e
quatro horas enquanto comprovamos sua situação. Com um

pouco de sorte poderemos pôr patas acima seu apartamento e encontrar algo mais contundente que
possamos utilizar em seu contrário.

Faith não era quem para discutir sobre a reta interpretação da lei.

-O que tem que os vizinhos da Anna? -perguntou Amanda.

-É um edifício muito tranqüilo. O apartamento que está debaixo do apartamento de cobertura leva
meses vazio. Poderiam ter arrojado uma bomba atômica do

piso de acima e ninguém se teria informado.

-E o morto?

-Um traficante. Overdose de heroína.

-Ninguém sentiu falta da Anna em seu lugar de trabalho?


Faith lhe contou o pouco que tinha podido averiguar.

-Trabalha para uma escrivaninha de advogados, Bandle e Brinks.

-Santo Deus, isto não faz mais que piorar. Sabe algo dessa escrivaninha? -Amanda não lhe deu
tempo para responder-. Estão especializados em demandas contra

organismos municipais: polícia, serviços sociais; agarram-se a algo, equilibram-se sobre ti e lhe
põem uma demanda pelo dobro do orçamento municipal. demandaram

ao estado com êxito mais vezes das que sou capaz de contar.

-Não se mostraram muito dispostos a colaborar. Não nos entregarão seus arquivos sem uma ordem
judicial de por meio.

-Em outras palavras, atuam como advogados. -Amanda ficou a passear pela habitação-. Você e eu
vamos falar com a Anna agora mesmo, logo voltaremos para sua

casa e a poremos patas acima antes de que em sua escrivaninha se inteirem do que estamos fazendo.

-Quando temos a entrevista com o porteiro?

-Amanhã às oito em ponto. Crie que poderá lhe fazer um oco em sua apertada agenda?

-Sim, senhora.

Amanda voltou a menear a cabeça como se fora a mãe do Faith; frustrada e um pouco desgostada.

-Imagino que esta vez o pai tampouco pinta nada em tudo isto.

-Estou já um pouco major para tentar algo novo.

-Parabéns -disse Amanda abrindo a porta. Teria sido um bonito detalhe de não ser pelo “idiota”
que murmurou conforme saía ao corredor.

Faith não se deu conta de que estava agüentando a respiração até que sua chefa saiu da habitação.
Exalou um profundo suspiro, e pela primeira vez desde

que lhe comunicaram que era diabética, cravou-se a agulha à primeira. Tampouco doía tanto, ou
talvez estava tão aturdida que já não sentia nada.

ficou olhando fixamente a parede de em frente, tentando centrar-se na investigação. Fechou os


olhos e começou a visualizar as fotos da autópsia do Jacquelyn

Zabel e da cova em que Jacquelyn e Anna tinham estado encerradas. Repassou todas as coisas
horríveis que tinham tido que passar aquelas mulheres: a tortura, a dor.
ficou a mão sobre o ventre outra vez. Seria uma menina? A que classe de mundo a ia trazer Faith? A
um lugar no que as meninas eram violadas por seus próprios pais,

no que as revistas lhes repetiam constantemente que alguma vez seriam o suficientemente perfeitas,
no que um sádico podia te apartar de sua vida, de seu próprio

filho, em um abrir e fechar de olhos e te condenar a viver no inferno o resto de sua vida?

Um calafrio percorreu seu corpo. ficou em pé e abandonou a habitação.

Os dois policiais que vigiavam a porta da Anna se fizeram a um lado. Faith sentiu frio ao entrar e
cruzou os braços sobre seu peito. Anna estava na cama,

com o Balthazar em seus ossudos braços. Tinha os ombros muito pronunciados, igual às garotas que
tinha visto Faith nos vídeos do ordenador do Pauline McGhee.

-A agente Mitchell acaba de entrar na habitação -comunicou Amanda-. É a encarregada de


averiguar quem lhe fez isto.

Anna tinha os olhos velados, como se tivesse cataratas. Olhou para a porta sem ver. Faith sabia
que não havia nenhum protocolo para uma situação como aquela.

Tinha levado casos de violação e abusos, mas nenhum assim. Tinha que traduzir o procedimento
habitual. Não era necessário cercar um bate-papo insustancial. Não terei

que lhes perguntar como se encontravam, porque a resposta era óbvia.

-Sei que está atravessando por um momento muito difícil. Solo queremos lhe fazer algumas
pergunta -lhe disse Faith.

-A senhora Lindsey me estava contando que acabava de terminar com um caso importante e tinha
pego umas semanas de férias para poder estar com seu filho

-lhe explicou Amanda.

-Sabia alguém mais que se ia de férias? -perguntou Faith.

-Deixei-lhe uma nota ao porteiro. Meus colegas de trabalho sabiam: minha secretária, os sócios.
Não tenho trato com os vizinhos do edifício.

Faith percebeu que Anna Lindsey se rodeou de um alto muro. Havia algo na mulher que resultava
tão frio que parecia impossível estabelecer nenhuma conexão.

ateu-se às perguntas cuja resposta necessitavam.

-Pode nos dizer o que aconteceu quando a raptaram?


Anna se passou a língua por seus desidratados lábios e fechou os olhos. Quando falou, sua voz era
pouco mais que um sussurro.

-Estava em meu apartamento vestindo ao Balthazar para baixar ao parque a dar um passeio. É o
último que lembrança.

Faith sabia que as descargas da Taser produziam amnésia.

-O que viu você quando recuperou a consciência?

-Nada. Não tornei a ver nada após.

-Recorda algum som, alguma sensação?

-Não.

-Reconheceu a seu atacante?

Anna negou com a cabeça.

-Não, não recordo nada.

Faith deixou acontecer uns segundos e tratou de conter a frustração que sentia.

-Vou lhe dar uma série de nomes. Necessito que me diga se algum deles lhe soa de algo.

Anna assentiu e deslizou a mão pelos lençóis procurando a boca de seu bebê. O menino começou a
lhe sugar o dedo, fazendo ruiditos com a garganta.

-Pauline McGhee.

Anna disse que não com a cabeça.

-Olivia Tanner.

De novo disse que não.

-Jacquelyn, ou Jackie, Zabel.

Não.

Faith tinha preferido guardar-se a Jackie para o final. As duas mulheres tinham estado juntas na
cova. Esse era o único feito que podiam dar por seguro.

-Encontramos um rastro digital sua na carteira de motorista da Jackie Zabel.

-Não -replicou Anna, com voz firme-. Não a conheço.


Amanda olhou ao Faith arqueando as sobrancelhas. Seria amnésia traumática? Ou se tratava de
algo mais?

-E o que me diz de um pouco chamado “thinspo”? -perguntou Faith.

Anna se endireitou.

-Não -disse, esta vez imediatamente e com voz mais forte.

Faith lhe concedeu uns segundos mais para deixar que refletisse.

-Encontramos algumas nota no lugar onde a tiveram retida. Solo havia uma frase repetida uma e
outra vez: “Não vou sacrificar me”. Tem essa frase algum significado

para você?

Uma vez mais, Anna disse que não.

Faith se esforçou em que sua voz não delatasse seu desespero.

-Pode nos dizer algo de seu agressor? Recorda que cheirasse de um modo especial, a gasolina ou a
azeite? Notou você se tinha pêlo na cara ou algum outro

rasgo físico…?

-Não -sussurrou Anna, apalpando o corpo do menino com as mãos para lhe agarrar a manita-. Não
posso lhes dizer nada. Não recordo nada. Nada.

Faith abriu a boca para dizer algo, mas Amanda ganhou pela mão.

-Aqui está você a salvo, senhora Lindsey. Há dois guardas armados vigiando sua porta desde que
chegou. Ninguém pode lhe fazer danifico já.

Anna voltou a cabeça para seu filho, arrulhando-o para tranqüilizá-lo.

-Não tenho medo de nada.

Ao Faith desconcertou a segurança com a que falava a mulher. Pode que quando a gente consegue
sobreviver a tudo o que tinha passado Anna acabe acreditando

que pode suportar algo.

-Acreditam que agora mesmo tem seqüestradas a outras duas mulheres -explicou Amanda-. Que
lhes está fazendo o mesmo que fez a você. Uma delas tem um menino,

senhora Lindsey. chama-se Felix. Tem seis anos e quer estar com sua mãe. Estou segura de que essa
mulher, lá onde esteja, estará pensando nele, desejando voltar
a lhe abraçar.

-Espero que seja uma mulher forte -murmurou Anna. Falou mais alto-. Como já hei dito várias
vezes, não recordo nada. Não sei quem o fez, nem onde me seqüestraram

ou por que. Solo sei que por fim se acabou, e agora tenho que me esquecer disso para poder seguir
com minha vida. -Faith percebeu que Amanda se sentia tão frustrada

como ela-. Preciso descansar.

-Podemos esperar -lhe disse Faith-. Possivelmente possamos voltar dentro de umas horas.

-Não -a expressão da Anna se endureceu-. Conheço perfeitamente minhas obrigações legais.


Assinarei uma declaração, ou farei um gancho de Fierro, ou o que

seja que faz uma pessoa cega, mas se querem voltar a falar comigo terão que consertar uma entrevista
com minha secretária quando me reincorporar ao trabalho.

Faith o tentou uma vez mais.

-Mas Anna…

Ela voltou a cabeça para seu bebê. A cegueira da Anna lhe impedia de poder as ver, mas sua
atitude lhes impedia que pudessem acessar a seus pensamentos.

Capítulo dezoito

Finalmente Sara as arrumou para terminar de limpar seu apartamento. Não recordava quando foi a
última vez que teve tão bom aspecto; possivelmente quando

se viu com o agente da imobiliária antes de mudar-se. Os Milk Lofts tinham sido em tempos uma
vacaria, abastecida pelas granjas que havia na zona leste da cidade.

O edifício tinha seis novelo, e em cada uma havia dois apartamentos separados por um comprido
corredor com grandes ventanales em ambos os extremos. A zona principal

da casa da Sara era um espaço diáfano que incluía a cozinha e um enorme salão. Uma das paredes
era um ventanal que ia do chão até o teto -mantê-lo limpo exigia um

esforço desonesto-, e tinha umas magníficas vistas do centro quando estavam abertas as persianas.
Na parte de atrás havia três dormitórios com banho incorporado.

Naturalmente, Sara dormia no principal, mas ninguém tinha dormido nunca na habitação de
convidados. O terceiro dormitório o utilizava como despacho e trastero.
Nunca se tinha exposto viver em um loft, mas quando se transladou a Atlanta queria que sua nova
vida fora tão distinta da antiga como fora possível. Em

lugar de escolher uma bonita casa em uma das ruas antigas e mastreadas da cidade optou por um
espaço que era pouco mais que uma caixa vazia. O mercado imobiliário

de Atlanta estava tocando fundo, e Sara tinha dinheiro mais que de sobra. Tudo estava novo quando
se mudou, mas de todos os modos renovou a casa de acima a abaixo.

Solo com o que lhe havia flanco a cozinha teria bastado para alimentar a uma família de três
membros durante um ano. Se a isso acrescentamos os banhos, dignos de

um palácio, resultava quase embaraçoso pensar na ligeireza com a que Sara tinha atirado de seu talão
de cheques.

Em sua vida anterior, sempre tinha sido cuidadosa com o dinheiro, não se permitia mais luxo que o
de estrear um BMW cada quatro anos. Depois da morte do

Jéffrey, encontrou-se com o dinheiro de seu seguro de vida, sua pensão, suas economias e o dinheiro
da venda da casa. Tinha-o deixado tudo no banco, pois tinha a

sensação de que gastar-se esse dinheiro era como admitir que Jéffrey estava morto e não voltaria.
Inclusive se tinha exposto renunciar à isenção de impostos que

lhe oferecia o estado por ser a viúva de um oficial de polícia morto em ato de serviço, mas seu
contável se mostrou resistente e ela não quis discutir.

Mais tarde, o dinheiro que enviava todos os meses a Sylacauga, Alabama, para ajudar à mãe do
Jéffrey, saía de seu próprio bolso enquanto que o dinheiro

de seu marido seguia ingressado no banco local gerando uns exíguos interesses. Sara pensava
freqüentemente em entregar-lhe ao filho do Jéffrey, mas isso teria sido

muito complicado. Ao menino nunca lhe tinham contado quem era seu verdadeiro pai. Não podia lhe
arruinar a vida e logo lhe dar de presente uma pequena fortuna a

um guri que estava ainda na universidade.

De modo que o dinheiro do Jéffrey seguia no banco, da mesma maneira que a carta seguia no
suporte da chaminé da Sara. ficou junto a esta, acariciando o

bordo do sobre, perguntando-se por que não havia o tornado a guardar em sua bolsa ou no bolso de
sua bata. Em lugar disso, durante o alerta de limpeza se limitou

a levantá-lo para limpar o pó do suporte.

Sara viu a aliança do Jéffrey no outro extremo. Ela ainda levava posta a seu -um anel de ouro
branco igual ao de seu marido-, mas o selo da universidade

do Jéffrey, de ouro e com a insígnia da Universidade de Auburn gravada, era mais importante. A
pedra azul estava arranhada e era muito grande para ela, assim que

o tinha pendurado ao pescoço com uma cadeia larga, como as placas de identificação que levam os
soldados. Não o levava a vista, a não ser sempre por dentro da blusa,

perto de seu coração, para poder senti-lo perto.

Agarrou a aliança do Jéffrey e a beijou antes de voltar a deixá-la sobre o suporte. Com o passo
dos anos, de algum modo sua mente tinha transladado ao Jéffrey

a outro lugar. Era como se estivesse fazendo o luto de novo, mas esta vez na distância. Em lugar de
despertar desolada, como nos últimos três anos, sentia uma profunda

tristeza. Tristeza ao dá-la volta na cama e não lhe ver seu lado. Tristeza ao pensar que nunca voltaria
a lhe ver sorrir. Tristeza ao saber que nunca voltaria a

lhe abraçar ou a senti-lo dentro dela. Mas já não se sentia completamente desolada. Já não sentia que
cada movimento, cada pensamento, exigia-lhe um enorme esforço.

Já não sentia que queria morrer. Já não sentia que não havia luz ao final do túnel.

E havia algo mais: Faith Mitchell tinha sido muito cruel com ela hoje, mas Sara tinha sobrevivido,
não se tinha ficado desfeita. Não se tinha desmoronado

nem se quebrado em pedaços. manteve-se inteira. O curioso era que, em certo modo, Sara se sentia
agora mais perto de seu marido a conseqüência disso. sentia-se mais

forte, mais perto da mulher da que ele se apaixonou que da que se afundou sem ele. Fechou os olhos e
quase pôde sentir seu fôlego na nuca, seus lábios acariciando

sua pele com tal suavidade que notou um comichão nas costas. imaginou a mão do Jéffrey ao redor de
sua cintura, e se surpreendeu ao pôr ali sua mão e não sentir

nada mais que o calor de sua própria pele.

Soou o interfone e os cães se instigaram, igual a Sara. foi para o aparelho para abrir ao menino
que lhe trazia a pizza e tranqüilizou aos cães. Billy e

Bob, seus dois galgos, tinham adotado imediatamente a Betty, a cadela do Wíll Trent. Um momento
antes, quando estava limpando, os três cães se acomodaram no sofá,

e só a olhavam de vez em quando, quando entrava na habitação ou fazia muito ruído. Nem sequer a
aspiradora obteve que se movessem dali.
Sara abriu a porta e esperou ao Armando, que lhe trazia uma pizza ao menos duas vezes por
semana. Ela fingia que era completamente normal que se tutearan,

e pelo general lhe dava uma boa gorjeta para que o repartidor não desse importância ao feito de vê-
la mais freqüentemente que a seus próprios filhos.

-Tudo bem? -perguntou-lhe enquanto intercambiavam pizza e dinheiro.

-Estupendo -respondeu Sara, mas em realidade tinha a cabeça no apartamento e no que estava
fazendo antes de que soasse o interfone. Fazia tanto tempo que

não podia recordar como era estar com o Jéffrey que queria recrear-se nisso, meter-se na cama e
deixar que sua mente voasse para aquelas lembranças tão doces.

-Que tenha um bom dia, Sara. -Armando fez gesto de partir, mas recordou algo e se voltou de novo
para ela-. Ah, há um tipo estranho rondando pelo portal.

Vivia em uma grande cidade; aquilo não era algo insólito.

-Estranho sem mais ou estranho para chamar à polícia?

-Eu acredito que é um policial. Não é que o pareça, mas vi sua placa.

-Obrigado -lhe disse.

Armando se despediu com um gesto da cabeça e se foi para o elevador. Sara deixou a pizza sobre
a encimera e foi até o outro extremo do corredor. Abriu a

janela e apareceu. Seis pisos mais abaixo viu uma mancha que se parecia sospechosamente ao Wíll
Trent.

-Né! -gritou-lhe. Wíll não respondeu e lhe observou ir e vir uns segundos, pois não estava segura
de se a tinha ouvido. Voltou a tentá-lo, gritando como

uma torcedora em um jogo de futebol-. Né!

Por fim Wíll elevou a vista e Sara lhe disse:

-No sexto.

Viu-lhe entrar no edifício, cruzando-se na porta com o Armando, que a saudou com a mão e lhe
disse algo de voltar a ver-se logo. Sara fechou a janela, rezando

para que Wíll não tivesse ouvido o Armando ou para que ao menos tivesse a delicadeza de fingi-lo.
Jogou uma olhada ao apartamento para assegurar-se de que não houvesse

nada desconjurado que chamasse muito a atenção. Havia dois sofás no salão, um cheio de cães e o
outro cheio de almofadas. Sara os cavou e os colocou esperando que

dessem a impressão de ter sido arrumados com certa graça.

depois de haver-se passado duas horas esfregando com esmero a cozinha estava reluzente,
inclusive a placa de cobre do frontal, que parecia muito bonita

até que descobria que terei que utilizar dois produtos distintos para limpá-la. Passou junto ao
televisor de tela plaina da parede e se parou em seco. esqueceu-se

de limpar a tela. estirou-se a manga da blusa e a limpou o melhor que pôde.

Para quando abriu a porta, Wíll já estava saindo do elevador. Sara solo lhe tinha visto umas
quantas vezes, mas tinha um aspecto espantoso, como se levasse

semanas sem dormir. Viu sua mão esquerda e se fixou em que tinha os nódulos esfolados de um modo
que dava a impressão de que lhe tinha partido a boca a alguém a

murros.

de vez em quando Jéffrey voltava para casa com essas mesmas feridas. Sara sempre lhe
perguntava, e ele sempre mentia. Ela se obrigava a aceitar suas mentiras

porque não se sentia cômoda pensando que seu marido podia estar transpassando os limites da lei;
desejava acreditar que era um bom homem em todos os aspectos. Parte

dela queria pensar que Wíll era também um bom homem, assim que se dispôs a acreditar algo que lhe
contasse quando lhe perguntasse.

-E essa mão?

-Peguei a um. Ao porteiro do edifício onde vive Anna.

Sua sinceridade pilhou a Sara fora de jogo, e demorou uns segundos em responder.

-por que?

Uma vez mais Wíll respondeu com total sinceridade.

-Tirou-me de gonzo.

-Te vai causar isso problemas com sua chefa?

-Parece que não.

Sara se deu conta de que o tinha no corredor, assim que se fez a um lado para lhe deixar passar.

-Esse bebê tem muita sorte de que o tenha encontrado. Não sei se teria podido resistir um dia mais.
-Sim, é uma desculpa muito oportuna. -Wíll jogou uma olhada a seu redor, arranhando-se
distraídamente o braço-. Nunca tinha golpeado a um suspeito. Tinha

ameaçado fazendo-o, mas é a primeira vez que o faço de verdade.

-Minha mãe sempre me dizia que existe uma linha muito fina entre o nunca e o sempre. -Wíll
parecia confuso, assim Sara o explicou-. Uma vez que tem feito

algo mau é mais fácil voltar a fazê-lo outra vez, e logo outra, e sem te dar conta começa a fazer o de
maneira habitual sem que a consciência te remoa por isso.

Wíll ficou olhando-a durante quase um minuto. Sara se encolheu de ombros.

-Depende de ti. Se você não gosta de cruzar essa linha, não volte a fazê-lo. Não permita que se
volte fácil.

A expressão do Wíll passou da surpresa ao alívio. Mas em lugar de reconhecer o que acabava de
ocorrer, disse-lhe:

-Espero que Betty não te tenha causado muitas moléstias.

-Levou-se muito bem. Não ladra nada.

-Não pretendia agüentar-lhe a desta maneira.

-Não passa nada -lhe tranqüilizou Sara, embora tinha que admitir que Faith Mitchell tinha razão
esta manhã quanto aos motivos que tinha. ofereceu-se a cuidar

da cadela porque queria saber como ia o caso. Queria lhes ajudar na investigação, voltar a sentir-se
útil.

Wíll estava de pé no meio do salão, com o terno enrugado e o colete um pouco folgado, como se
tivesse perdido peso ultimamente. Não tinha visto ninguém

tão perdido em sua vida.

-Sente-se, por favor -lhe disse.

Wíll parecia indeciso, mas finalmente se sentou no sofá encarado ao dos cães. Não o fazia como a
maioria dos homens, com as pernas separadas e os braços

abertos apoiados no respaldo. Era um homem grande, mas dava a impressão de que se esforçava
muito em não ocupar muito sítio.

-jantaste? -perguntou Sara.


Wíll disse que não com a cabeça e Sara pôs a pizza sobre a mesita de café. Os cães estavam muito
interessados em seus movimentos, assim que se sentou com

eles no sofá para mantê-los a raia. Esperou a que Wíll agarrasse uma porção, mas ficou sentado aí,
com as mãos sobre os joelhos.

-É essa a aliança de seu marido? -perguntou-lhe.

Desconcertada, voltou-se para o anel, que estava sobre o reluzente suporte de mogno. A carta
estava no outro extremo do suporte e a Sara preocupou que Wíll

pudesse adivinhar o que continha.

-Perdoa -se desculpou-. Não deveria perguntar essas coisas.

-Sim, é sua aliança -disse ela, precavendo-se de que com os nervos tinha estado apertando e dando
voltas a seu próprio anel.

-E isso que…? -perguntou Wíll levando-a mão ao peito.

Sara imitou o gesto e se sentiu como se a tivessem pilhado em falta ao descobrir que se referia ao
selo que tinha pendurado do pescoço e que se transparentaba

sob o fino tecido de sua blusa.

-Outra coisa -disse sem entrar em detalhes.

Wíll assentiu e continuou olhando a seu redor.

-Também me encontraram no cubo do lixo. -Falou de forma algo brusca, como se a ele mesmo
surpreendessem suas palavras-. Ao menos isso é o que diz o expediente.

Sara não soube o que dizer, sobre tudo quando ele pôs-se a rir como se acabasse de contar uma
piada verde em uma festa paroquial.

-Perdoa. Não sei por que hei dito isso. -Agarrou uma porção de pizza e pôs a outra mão debaixo
para recolher o queijo que gotejava.

-Não passa nada -disse ela pondo uma mão sobre a cabeça do Bob, que parecia querer lançar-se
sobre a mesita. Nem sequer podia compreender o que lhe acabava

de contar Wíll. Igual poderia lhe haver dito que tinha nascido na lua.

-Que idade tinha? -perguntou-lhe.

Terminou de mastigar e tragou antes de responder.


-Cinco meses.

Agarrou outra porção de pizza e Sara lhe observou enquanto mastigava. Tratou de imaginar ao
Wíll Trent com cinco meses. Teria começado a manter as costas

direita por si só e a reconhecer sons. Ele deu outro bocado e mastigou com ar pensativo.

-Minha mãe me deixou ali.

-No cubo do lixo?

Assentiu.

-Alguém irrompeu na casa, um homem. Ela sabia que ia matar a e que provavelmente me mataria
também. Escondeu-me no cubo do lixo, debaixo da pia, e o homem

não me encontrou. Imagino que soube que devia ficar calado. -Esboçou uma meia sorriso-. Hoje
estive no apartamento da Anna e procurei em todos os cubos de lixo.

Não podia deixar de pensar no que me disse esta manhã, isso de que o assassino lhes colocava essas
bolsas dentro para enviar uma mensagem, porque queria lhe dizer

ao mundo que eram mierda, que não valiam nada.

-Obviamente, sua mãe só tentava te proteger. Não estava enviando nenhuma mensagem.

-Sim -disse Wíll-, sei.

-E o…? -Não tinha a mente muito limpa para fazer perguntas.

-Que se agarraram ao tipo que a matou? -perguntou Wíll, terminando a frase por ela. Voltou a olhar
a seu redor-. Pilharam ao que matou a seu marido?

Tinha formulado uma pergunta, mas não esperava uma resposta. Solo tentava pôr de manifesto o
pouco que isso importava, algo que Sara sentiu no mesmo instante

em que lhe comunicaram que o homem que tinha sido responsável pela morte do Jéffrey havia
falecido.

-Isso é quão único parece lhes importar a todos os policiais que conheço: agarraram a esse tio?

-Olho por olho -disse. Assinalou a pizza-. Te importa se…?

Comeu-se já meia.

-Adiante.

-foi um dia muito comprido.


Sara se Rio, a expressão ficava curta para descrevê-lo. Wíll se Rio também.

-Quer que te cure isso? -perguntou-lhe Sara, assinalando sua mão.

Wíll se olhou as feridas como se acabasse de reparar nelas.

-O que pode fazer?

-Acredito que é muito tarde para te dar uns pontos -se levantou para ir à cozinha a procurar o
estojo de primeiro socorros-, mas posso limpar as feridas.

E terá que tomar um antibiótico para evitar que se infectem.

-E para a raiva?

-A raiva? -recolheu-se o cabelo com uma borracha que agarrou de uma gaveta da cozinha e se
enganchou os óculos de perto no pescoço da blusa-. Na boca há

muitas bactérias, mas é muito estranho…

-São de rato. Havia ratos na cova onde estiveram encerradas Jackie e Anna. -Wíll se arranhou
outra vez o braço direito e Sara se deu conta de por que o

fazia-. Os ratos podem contagiar a raiva, não?

Sara ficou paralisada uns segundos, e alargou a mão para agarrar uma terrina de aço inoxidável do
armário.

-Morderam-lhe?

-Não, subiram por meus braços.

-Uns ratos subiram por seus braços?

-Só dois. Possivelmente três.

-Dois ou três ratos?

-Fico muito mais tranqüilo te ouvindo repetir tudo o que digo em voz mais alta.

Sara se pôs-se a rir, mas continuou lhe perguntando.

-Atuavam de forma errática? Tentaram te atacar?

-A verdade é que não. Solo queriam sair dali. Acredito que estavam tão assustadas de mim como
eu delas. -encolheu-se de ombros-. Bom, uma delas ficou. Olhou-me
fixamente, como se observasse meus movimentos. Mas não me aproximou em nenhum momento.

Sara ficou os óculos e se sentou a seu lado.

-Sobe as mangas.

Wíll se tirou a jaqueta e subiu a manga esquerda, embora se tinha estado arranhando o braço
direito. Sara não quis discutir. Examinou os arranhões que tinha

no antebraço: eram muito superficiais, nem sequer sangravam. Provavelmente o recordava muito pior
do que em realidade tinha sido.

-Acredito que te porá bem.

-Está segura? Talvez é por isso pelo que me tornei louco esta tarde.

Sara se precaveu de que brincava sozinho pela metade.

-Lhe diga ao Faith que me chame se começar a soltar espuma pela boca.

-Então não te surpreenda se tiver notícias suas manhã.

Sara colocou a terrina de aço inoxidável sobre seus joelhos e colocou a mão esquerda do Wíll
nele.

-Isto te vai arder -lhe avisou, vertendo a água oxigenada sobre os arranhões. Wíll não se alterou e
Sara aproveitou sua resistência para lhe fazer uma padre

mais a fundo. Tentou concentrar-se no que fazia, mas sentia muita curiosidade.

-E o que tem que seu pai?

-Havia circunstâncias atenuantes. -Foi tudo que lhe disse-. Não se preocupe. Os orfanatos não são
tão maus como parecem nas novelas de Dickens.

Wíll decidiu trocar de tema.

-Tem muitos irmãos?

-Solo tenho uma irmã pequena.

-Pete disse que seu pai é encanador.

-Exato. Minha irmã esteve trabalhando com ele um tempo, mas agora é missionária.

-Isso está bem. As duas ajudam às pessoas.

Sara tentou procurar outra pergunta, algo que lhe ajudasse a abrir-se, mas não lhe ocorria nada.
Não tinha nem idéia de como falar com alguém que não tinha

família. Que anedotas de tirania fraterna ou angústia paterna podia compartilhar?

Pelo visto o Wíll tampouco lhe ocorria nada, ou talvez preferia guardar silêncio. Seja como for,
não abriu a boca até que ela começou a lhe pôr tirita nos

nódulos para tentar lhe cobrir as feridas.

-É uma boa médica -lhe disse.

-Deveria lombriga tirando lascas.

Wíll se olhou as mãos e flexionou os dedos.

-É canhoto -observou Sara.

-E isso é mau? -perguntou-lhe ele.

-Pois espero que não -disse elevando sua mão esquerda, a que tinha estado usando para lhe curar
as feridas-. Minha mãe diz que isso significa que é mais

preparado que outros. -Começou a recolher as coisas-. E falando de minha mãe, chamei-a para lhe
perguntar essa dúvida que tinha. Sobre o nome do apóstolo que substituiu

ao Judas. chamava-se Matías. -pôs-se a rir -. Se te encontra com alguém que se chame assim pode
estar seguro de que encontraste a seu assassino.

Wíll se Rio também.

-Passarei um aviso a todas as unidades.

-A última vez que o viram vestia túnica e sandálias.

Wíll meneou a cabeça sem deixar de sorrir.

-Não faça brincadeiras com isso. É a melhor pista que me deram hoje.

-Anna não há dito nada?

-Não falei com o Faith desde… -Moveu sua mão ferida-. Teria chamado se houvesse alguma
novidade.

-Não é como eu pensava -lhe disse Sara-. Anna. Sei que está feio dizê-lo, mas é muito
desapaixonada. Carece de emoções.

-Aconteceu-o muito mal.


-Entendo o que quer dizer, mas sua insensibilidade vai além disso. -Sara meneou a cabeça-.
Possivelmente seja meu ego. Os médicos não estão acostumados

a que nos tratem como lacaios.

-O que te disse?

-Quando lhe levei a menino, ao Balthazar, não sei, foi muito estranho. Não esperava receber uma
medalha nem nada parecido, mas pensei que ao menos me daria

as obrigado. Em lugar disso se limitou a me dizer que podia partir.

Wíll se baixou a manga.

-Nenhuma dessas mulheres é especialmente agradável.

-Faith disse que poderia ter algo que ver com a anorexia.

-Poderia ser. Não sei muito sobre esse tema. Os anoréxicos revistam ser gente horrível?

-Não, claro que não. Cada um é como é. Faith me perguntou o mesmo esta tarde. Expliquei-lhe que
faz falta ser muito tenaz para matar-se de fome dessa maneira,

mas isso não quer dizer que sejam má gente. -Sara ficou pensando um momento-. Provavelmente seu
assassino não escolheu a essas mulheres porque fossem anoréxicas,

mas sim porque são má gente.

-Se souber que são malotes será porque as conhece. Teria que ter tido contato com elas.

-encontrastes alguma outra conexão além da anorexia?

-Nenhuma delas está casada. Dois têm filhos. Alguém odeia aos meninos e outra talvez queria ter
um filho, ou não. Uma executiva de banca, uma advogada,

uma agente imobiliária e uma desenhista de interiores.

-Que classe de advogada?

-Mercantilista.

-Não se dedica a assuntos imobiliários?

Wíll disse que não com a cabeça.

-A executiva de banca não trabalha com hipotecas, tampouco. Levava as relações com a
comunidade: arrecadação de fundos, assegurar-se de que o presidente
do banco saísse fotografado nos periódicos junto a um menino doente de câncer, essa classe de
coisas.

-E não pertencem a um grupo de apoio?

-Há um chat, mas não podemos acessar sem a contra-senha. -esfregou-se os olhos com as mãos-. É
como a pescadinha que se remói a cauda.

-Parece cansado. Possivelmente uma boa noite de sonho te ajude a resolvê-lo.

-Sim, deveria ir já. -Mas não o fez. ficou ali sentado, olhando-a.

Sara teve a sensação de que a habitação ficava como tirada o som e a atmosfera estava carregada
de repente, quase lhe custava respirar. Naquele momento

era muito consciente da pressão que a aliança exercia sobre sua pele, e se precaveu de que sua coxa
roçava o do Wíll.

Wíll foi o primeiro em romper o feitiço, voltando-se para agarrar a jaqueta do respaldo.

-Tenho que partir -lhe disse, levantando-se para ficá-la jaqueta-. Tenho que procurar uma
prostituta.

Sara estava segura de lhe haver entendido mau.

-Perdão?

Wíll se pôs-se a rir.

-Uma testemunha, chama-se Lola. Foi ela quem cuidou do bebê e nos deu o sopro sobre o
apartamento da Anna. Levo toda a tarde procurando-a. Agora que já

anoiteceu terá saído de sua guarida.

Sara ficou no sofá, pensando que provavelmente era melhor manter um pouco as distâncias para
que Wíll não se fizesse uma idéia equivocada.

-Envolverei-te uma parte de pizza.

-Não te incomode, obrigado. -aproximou-se do outro sofá, agarrou a Betty e a aproximou do


peito-. Obrigado pela conversação. -ficou calado um momento-.

E quanto ao que te contei… Melhor nos esquecemos disso, vale?

Sara tentou procurar uma resposta que não fora uma piada ou, pior ainda, um convite.

-Claro. Não se preocupe.


Wíll lhe sorriu de novo e partiu.

Sara se recostou no sofá e exalou um fundo suspiro, perguntando-se que demônios acabava de
ocorrer. Repassou a conversação que tinham tido, perguntando-se

se lhe tinha arrojado alguma sinal ao Wíll, algo que pudesse ter interpretado assim. Ou ao melhor não
tinha passado nada. Talvez estava tirando muitas conclusões

pelo modo em que a tinha cuidadoso quando estavam sentados no sofá. Certamente tampouco tinha
ajudado muito o fato de que, pouco antes de que chegasse Wíll, Sara

tivesse estado fantasiando com seu marido. Apesar de tudo voltou a repassar a cena uma vez mais,
tentando averiguar o que era o que tinha provocado esse momento

de tensão, ou se tinha existido realmente essa tensão.

Até que não recordou o momento em que lhe tinha metido a mão na terrina, para lhe limpar as
feridas dos nódulos, não se deu conta de que Wíll Trent já não

levava posta sua aliança.

Capítulo dezenove

Wíll se perguntava quantos homens no mundo estariam nesse mesmo momento de caça com seus
carros em busca de uma prostituta. Provavelmente centenas de milhares,

se não milhões. Olhou a Betty, pensando que certamente ele era o único que o fazia com um
chihuahua no assento do co-piloto.

Ao menos isso esperava.

Wíll olhou suas mãos sobre o volante, tirita-as que cobriam suas feridas. Já não recordava a
última vez que se havia visto envolto em uma briga de verdade.

Deveu ser quando ainda estava no orfanato. Havia ali um abusado que lhe fez a vida impossível; Wíll
tragou e tragou até que um dia saltou e Tony Campano acabou com

os dentes dianteiros quebrados, como uma cabaça do Halloween.

Wíll flexionou os dedos. Sara fazia o que tinha podido com as tirita, mas não havia modo de
impedir que se desprendessem. Tentou recordar as vezes que tinha

passado pela consulta de um médico quando era pequeno: tinha uma cicatriz por cada visita,
virtualmente, e as utilizava para fazer memória, recordando o nome do
pai de acolhida ou do responsável pela casa que tinha tido a amabilidade de lhe romper algum osso
ou lhe queimar ou lhe rachar a pele.

Perdeu a conta, ou possivelmente não era capaz de manter a concentração porque não podia deixar
de pensar no aspecto que tinha Sara quando saiu a lhe abrir

a porta. Sabia que tinha o cabelo comprido e normalmente o tinha recolhido, mas nesse momento o
levava solto em uma cascata de sedosos cachos por debaixo dos ombros.

pôs-se uns jeans e uma blusa de manga larga que realçavam e permitiam adivinhar perfeitamente o
que havia debaixo. Ia descalça, seus sapatos estavam atirados detrás

da porta. Cheirava muito bem; não era o perfume, a não ser um aroma limpo e quente e maravilhoso.
Enquanto lhe curava a mão teve que fazer um grande esforço por

conter-se e não inclinar-se a cheirar seu cabelo.

Wíll se lembrou de um voyeur ao que tinha detido no condado do Butts uns anos antes. O homem
seguia a suas vítimas até o estacionamento de um centro comercial

e lhes oferecia dinheiro em troca de que lhe deixassem lhes cheirar o cabelo. Wíll ainda recordava
como tinham contado a história nos informativos, o ajudante do

xerife visivelmente nervoso ante as câmaras. Quão único o policial tinha acertado a lhe explicar ao
repórter foi: “Tem um problema. Um problema com o cabelo”.

Wíll tinha um problema com a Sara Linton.

Arranhou-o queixo a Betty enquanto esperava a que trocasse o semáforo. A chihuahua tinha feito
um bom trabalho integrando-se com os cães da Sara, mas Wíll

não era tão estúpido para pensar que podia tirar partido disso. Não fazia falta que ninguém lhe
dissesse que não era o tipo de homem que interessaria a essa mulher.

Em primeiro lugar, vivia em um palácio; Wíll tinha remodelado sua casa uns anos antes, assim sabia
perfeitamente o que custavam todas essas coisas tão bonitas que

não podia permitir-se. Solo os eletrodomésticos da cozinha custavam ao redor de cinqüenta mil
dólares, o dobro do que se gastou ele em reformar toda a casa.

Em segundo lugar, era muito lista. Não presumia disso, mas era médica. Não ingressava na
faculdade de medicina se foi um zote, nesse caso ele também teria

sido médico. Sara não demoraria para dar-se conta de que era um analfabeto, e por isso se alegrava
de não ter que passar mais tempo com ela.

Anna estava melhorando. Logo lhe dariam o alta. O bebê também estava perfeitamente. Não havia
nenhuma razão para que Wíll tivesse que voltar a ver a Sara

Linton a menos que passasse pelo Grady e desse a casualidade de que ela estivesse de volta aquele
dia.

Imaginou que ainda ficava a esperança de que lhe disparassem. Pensou que isso era exatamente o
que queria fazer Amanda essa tarde, quando o levou a escada,

embora se limitou a lhe dizer: “Levava muito tempo esperando a que te crescesse a barba”. Não era
exatamente o que alguém esperava ouvir de seu superior depois de

ter golpeado a um homem até deixá-lo ao bordo da inconsciência. Todo mundo desculpava sua
atuação, todo mundo lhe cobria, e ao parecer Wíll era o único que pensava

que o que tinha feito estava mau.

O semáforo trocou, Wíll acelerou e se dirigiu para uma das zonas mais degradadas da cidade.
estava ficando sem idéias sobre onde procurar a Lola, e isso

lhe preocupava, e não só porque Amanda lhe houvesse dito que não se incomodasse em voltar se não
dava com a prostituta. Lola tinha que conhecer a existência do menino.

E certamente estava a par do que estava passando com as drogas no apartamento da Anna Lindsey.
Pode que tivesse visto algo mais, algo com o que não estava disposta

a negociar porque podia pôr em perigo sua vida. Ou talvez era uma pessoa fria e insensível e lhe
dava igual ver como o bebê morria lentamente. Já devia haver-se

deslocado a voz de que Wíll era um policial capaz de lhe dar uma surra a um suspeito. Possivelmente
Lola lhe tivesse medo. Que demônios, houve um momento naquele

corredor no que o próprio Wíll teve medo de si mesmo.

Sentiu-se aturdido quando chegou ao apartamento da Sara, como se nem sequer tivesse um coração
pulsando dentro de seu peito. ficou a pensar em todos os

homens que lhe tinham ensinado os punhos quando era pequeno, em toda a violência que tinha visto,
em toda a dor que tinha tido que suportar. E ele era tão má pessoa

como eles por lhe haver pego uma surra ao porteiro.

Em parte lhe tinha contado o incidente a Sara Linton porque queria ver a decepção em seus olhos,
saber com um sozinho olhar que jamais lhe daria o visto

bom. Mas o que tinha obtido tinha sido… compreensão. Sara reconheceu que Wíll tinha cometido um
engano, mas não tinha dado é óbvio que isso pudesse definir seu
caráter. Que classe de pessoa fazia algo assim? Ninguém a quem Wíll tivesse conhecido. Não a
classe de mulher que Wíll podia chegar a compreender.

Sara tinha razão em que resultava mais fácil fazer algo pela segunda vez. Wíll o via continuamente
em seu trabalho: reincidentes que tinham saído impunes

uma vez e decidiam que merecia a pena voltar a provar sorte. Possivelmente formava parte da
natureza humana o tentar transpassar esses limites. Um terço dos condutores

detidos por superar os limites de álcool voltavam a conduzir bêbados. mais da metade dos
delinqüentes violentos que prendiam tinham acontecido antes pelo cárcere.

Os violadores tinham uma das taxas de reincidência mais elevadas do sistema penitenciário.

Wíll tinha aprendido muito tempo atrás que quão único podia controlar em qualquer situação era a
si mesmo. Não era uma vítima, não era escravo de seu temperamento.

Podia escolher ser boa pessoa. Isso era o que lhe havia dito Sara. E ela fazia que parecesse fácil.

E então ele tinha forçado esse momento incômodo, quando estavam sentados no sofá, olhando-a
fixamente como se fora o assassino da tocha.

-Idiota -se esfregou os olhos, desejando poder apagar assim a lembrança desse momento. Não
tinha sentido pensar na Sara Linton. A fim de contas não conduzia

a nenhum lado.

Wíll viu um grupo de mulheres rondando pela calçada. Foram disfarçadas: de colegiala, de
stripper, um transexual que se parecia muito à mãe dos problemas

crescem. Wíll baixou o guichê e elas intercambiaram olhadas para ficar de acordo sobre quem se
aproximava. Conduzia um Porsche 911 reconstruído peça a peça. Tinha-lhe

levado quase uma década restaurá-lo, e as prostitutas demoraram uma década em decidir a quem
enviar.

Por fim se aproximou uma das colegialas. apareceu pelo guichê, mas retrocedeu de forma
igualmente precipitada.

-Ah, não -lhe disse-. Nem pensar. Não penso follarme a um cão.

Wíll tirou um bilhete de vinte dólares.

-Estou procurando a Lola.

A prostituta torceu o gesto e agarrou o bilhete tão rápido que Wíll sentiu que o papel lhe queimava
os dedos.
-Sim, essa zorra sim que se follará a seu cão. Está na Dezoito. Pela zona da antiga agência de
correios.

-Obrigado.

A garota voltou com seu grupo.

Wíll subiu o guichê e deu a volta. Viu as garotas pelo retrovisor. A colegiala lhe tinha dado os
vinte dólares a seu gorila, que a sua vez o passaria a

seu fanfarrão. Wíll sabia pelo Angie que as garotas não estavam acostumadas ficar com o dinheiro.
Seus fanfarrões se ocupavam das alojar, lhes dar de comer, comprar

a roupa. Quão único tinham que fazer elas era jogá-la vida e a saúde todas as noites atirando-se a
qualquer que lhes oferecesse o dinheiro suficiente. Era a moderna

escravidão, o qual resultava irônico, tendo em conta que a maioria dos fanfarrões, se não todos, eram
negros.

Wíll girou pela rua Dezoito e diminuiu ao topar-se com um sedan estacionado sob uma luz. O
condutor estava ao volante com a cabeça arremesso para trás.

Wíll esperou uns minutos e uma cabeça se elevou do regaço do homem. abriu-se a porta e uma
mulher tentou baixar do carro, mas o homem a agarrou por cabelo.

-Mierda -murmurou Wíll, saindo do carro de um salto. Fechou a porta com o controle remoto, pôs-
se a correr para o carro e abriu a porta.

-Que coño? -gritou o homem, que ainda tinha arranca-rabo pelos cabelos à mulher.

-Olá, céu -disse Lola, alargando sua mão para o Wíll. Ele a agarrou sem pensar e ela saiu do
carro, deixando sua peruca nas mãos do homem. Este soltou um

impropério, jogou-a na rua e se separou do meio-fio a tal velocidade que a porta do carro se fechou
sozinha.

-Temos que falar -disse Wíll.

Ela se agachou para recolher sua peruca, e por causa da luz Wíll lhe viu até as amídalas.

-Tenho um negócio que atender aqui.

-A próxima vez que necessite ajuda… -disse Wíll.

-Foi Angie a que me ajudou, não você. -colocou-se bem a saia-. É que não vê as notícias? A
polícia encontrou nesse apartamento coca suficiente para ensinar
a cantar ao mundo inteiro. Sou uma puta heroína.

-Balthazar vai se pôr bem. Refiro-me ao bebê.

-Baltha-o que? -perguntou franzindo o cenho-. Deus, esse pirralho não tinha muito futuro.

-Você lhe cuidou. Significava algo para ti.

-Sim, bom. -Lola ficou a peruca tentando que ficasse direita-. Tenho dois filhos, sabe? Tive-os no
trullo. Tinha que passar um tempo com eles antes de que

o estado me tirasse isso.

Tinha os braços muito fracos, e ao Wíll recordou às garotas dos vídeos thinspo que tinha visto no
ordenador do Pauline. Essas garotas passavam fome porque

queriam estar magras; Lola porque não tinha dinheiro para comer.

-Assim -disse Wíll lhe endireitando a peruca.

-Obrigado.

Pôs-se a andar para reunir-se com seu grupo. via-se a mescla habitual de colegialas e golfas, mas
eram maiores, mais resabiadas. A rua acabava as endurecendo.

dentro de nada, Lola e sua turma estariam na Vinte e um, uma rua tão degradada que na ordem do dia
da delegacia de polícia do distrito figurava como algo rotineiro

o envio de ambulâncias para recolher às que morriam durante a noite.

-Poderia te prender por obstrução à justiça -a ameaçou.

Lola seguiu caminhando.

-Pois tampouco me importaria voltar para o cárcere. Faz muito frio esta noite para andar pela rua.

-Angie sabia o do bebê? -Lola se me deteve-. Diga isso.

Muito devagar, a prostituta se deu a volta. Procurou os olhos do Wíll com o olhar, não tratando de
encontrar a resposta adequada, a não ser tentando descobrir

o que Wíll queria ouvir.

-Não.

-Memore.

A expressão do rosto da Lola se manteve impassível.


-De verdade vai se pôr bem?

-Agora está com sua mãe. Acredito que sim.

Lola ficou a procurar algo dentro da bolsa e tirou um maço de cigarro de tabaco e uma caixa de
fósforos. Wíll esperou a que se acendesse o cigarro e lhe

desse uma imersão.

-Estava em uma festa. Um tio que conheço me disse que tinham montado uma banca em um
apartamento de cobertura de luxo e que o porteiro fazia a vista gorda;

a gente entrava e saía como Pedro por sua casa. Era um cilindro para pijos, já sabe, gente que
necessita um sítio agradável para um par de horas onde ninguém faça

perguntas. monta-se uma boa farra, ao dia seguinte vem a chacha e o limpa tudo. Os que vivem ali
voltam do Palm Beach ou de onde seja e não se inteiram de nada.

-tirou-se um pouco de tabaco da língua-. Mas essa vez a coisa não saiu bem. Simkov, o porteiro,
tocou-lhe as Pelotas a alguém do edifício. Disseram-lhe que em quinze

dias lhe davam a patada e ele começou a deixar passar ao pior do pior.

-Como você? -Lola elevou o queixo-. Quanto se levava o porteiro?

-Tem que falar disso com os meninos. Eu me limito a ir e a follar.

-Que meninos?

Lola exalou uma larga baforada de fumaça. Wíll esperou, sabia que não devia pressioná-la muito.

-Conhecia a proprietária do apartamento?

-Nem a vi, nem a conheço, nem ouvi falar dela.

-Assim chega ali, Simkov te deixa passar. Então o que?

-Ao princípio todo ia bem. Normalmente íamos a algum dos apartamentos de mais abaixo, mas
esse dia era o apartamento de cobertura. Estava cheio de gente

bonita e havia bom material: coca, um pouco de cavalo. O crack apareceu um par de dias mais tarde.
Logo a meta. E a partir daí foi todo costa abaixo.

Wíll recordou o lamentável estado no que se encontrava o apartamento.

-Deveu ser muito rápido.

-Sim, bom. Os drogados não são gente muito comedida. -Se Rio ao recordá-lo-. Houve um par de
broncas, e algumas putas se meteram por no meio. Logo chegaram

os travelos Y… -Lola se encolheu de ombros, como dizendo “O que esperava?”

-E o menino?

-O menino estava em sua habitação quando eu cheguei. Tem filhos?

Wíll disse que não com a cabeça.

-Menino preparado. Angie não é o que se diz muito maternal.

Wíll não se incomodou em lhe dar a razão, porque ambos sabiam que era a pura verdade.

-O que fez quando encontrou ao bebê?

-O apartamento não era um lugar muito adequado para ele. Via-o vir. Aquilo começava a encher-se
de gente muito pouco recomendável. Simkov estava deixando

passar a todo mundo. Levei-me a menino ao corredor.

-Ao quarto do lixo.

Lola sorriu.

-Naquela festa ninguém se incomodava em atirar as coisas ao cubo.

-Deu-lhe de comer?

-Sim -disse Lola-. Utilizei o que havia nos armários da cozinha e lhe troquei o fralda. Também o
fazia com meus meninos, sabe? Como te dizia, deixam-lhe

isso durante um tempo antes de lhe tirar isso Aprendi a lhes dar de comer e todo esse cilindro.
Cuidei muito bem dele.

-por que o deixou ali? -perguntou-lhe Wíll-. Lhe detiveram na rua.

-Meu fanfarrão não sabia nada daquele cilindro… Não estava de serviço, solo me divertia um
pouco. Mas se inteirou e me disse que voltasse para talho,

e isso foi o que fiz.

-E como voltou acima para cuidar do bebê?

Ela agitou um punho acima e abaixo.

-Fiz-uma palha ao Simkov e me deixou passar.


-por que não me disse que havia um menino envolto em todo isso quando me chamou a primeira
vez?

-Pensava que poderia seguir cuidando dele quando saísse -admitiu-. Estava fazendo um bom
trabalho, não? Estava fazendo algo bom por ele, dava-lhe de comer

e lhe trocava os fraldas. É um menino precioso. Você lhe viu, né? Sabe que é uma macacada.

Aquele precioso menino estava desidratado e ao bordo da morte quando o viu Wíll.

-Do que conhecia o Simkov?

Lola se encolheu de ombros.

-Otik é um bom cliente, entende? -Assinalou para a rua-. O conheci aqui na Milha de Ouro.

-Não me parece o que se diz um bom tipo.

-Fez-me um favor me deixando subir. Tirei-me uma boa massa. Cuidei do menino. Que mais quer
de mim?

-Sabia Angie o do pirralho?

Lola tossiu do mais profundo do peito. Quando cuspiu na calçada Wíll notou que lhe revolvia o
estômago.

-Isso vais ter que perguntar-lhe a ela.

Jogou-se a bolsa ao ombro e foi reunir se com seu grupo.

Wíll tirou seu móvel enquanto se dirigia para o carro. O aparelho estava nas últimas, mas mesmo
assim conseguiu fazer a chamada.

-Sim? -disse Faith.

Wíll não queria falar do que tinha acontecido essa tarde, assim não lhe deu ocasião de pronunciar
palavra.

-Acabo de falar com a Lola. -Wíll lhe contou o que lhe havia dito a prostituta-. Simkov a chamou
para que ganhasse uns perus extra. E de passagem ficou

com um bom beliscão, seguro.

-Possivelmente possamos usar isso em seu contrário -respondeu Faith-. Amanda quer que fale
amanhã com o Simkov. Veremos se sua versão coincide com a da

Lola.
-O que pudeste averiguar dele?

-Não muito. Vive no edifício, no baixo. supõe-se que tem que estar em seu posto das oito até as
seis, mas ultimamente tiveram alguns problemas com isso.

-Suponho que por isso lhe disseram que tinha quinze dias para partir.

-Não tem antecedentes. E sua conta corrente está saneada, como não paga aluguel… -Faith fez uma
pausa e Wíll a ouviu acontecer as páginas de sua caderneta-.

Encontramos um pouco de porno em seu apartamento, mas nada de pedofilia nem perversões. E seu
registro telefônico está limpo.

-Pareceu-me entender que deixava passar a qualquer sempre e quando soltasse a massa suficiente.
Deu-te algo Anna Lindsey?

Faith lhe contou sua infrutífera conversação com a mulher.

-Não sei por que não quer falar. Pode que esteja assustada.

-Ou pode que pense que se o separar de sua mente, se não fala disso, desaparecerá.

-Suponho que isso funciona se a gente tiver a maturidade emocional de um menino de seis anos. -
Wíll preferiu não tomar-se aquilo como algo pessoal-. Revisamos

o livro de visitas do edifício. Havia um técnico do cabo e um par de repartidores. falei com todos
eles, e com os que se encarregam da manutenção do edifício. Estão-o

verificando. Não têm antecedentes e seus álibis são muito sólidos.

Wíll subiu ao carro.

-O que tem que os vizinhos?

-Pelo visto ninguém sabe nada, e essa gente é muito rica para rebaixar-se a falar com a polícia.

Wíll já tinha tropeçado antes com esse tipo de gente. Não queriam ver-se envoltos, nem tampouco
que seus nomeie figurassem nos arquivos.

-Algum conhecia a Anna?

-Quão mesmo com as demais: os que a conheciam não a tinham em grande estima.

-E o que hão dito os da científica?

-Os resultados deveriam estar amanhã pela manhã.

-E os ordenadores?
-Nada, e ainda não temos as ordens para o banco, assim não há acesso ao móvel da Olivia Tanner,
nem a seu BlackBerry, nem a seu ordenador do trabalho.

-Nosso assassino é mais preparado que nós.

-Sim -admitiu Faith-. Parece que voltamos a estar em um beco sem saída.

Fizeram um alto na conversação. Wíll procurou algo que dizer, mas Faith ganhou pela mão.

-Amanda e eu interrogaremos ao porteiro às oito da manhã, logo tenho uma entrevista a que não
posso faltar. É no Snellville.

Wíll não era capaz de imaginar para que podia necessitar alguém ir ao Snellville.

-Imagino que demorarei uma hora, mais ou menos. Com um pouco de sorte já teremos identificado
ao Jake Berman para então. Também temos que falar com o Rick

Sigler. É mais escorregadio que uma enguia.

-É branco e tem quarenta e tantos.

-Amanda me disse o mesmo. Enviou a alguém a falar com ele esta manhã. Estava em casa com sua
mulher.

-Negou ter estado na cena do crime? -grunhiu Wíll.

-Ao parecer o tentou. Nem sequer reconheceu que estava com o Jake Berman, o qual me confirma
que era um cilindro de uma noite. -Faith suspirou-. Amanda

ordenou que sigam ao Sigler, mas está limpo. Não tem nenhum aliás, nem múltiplos direções, nasceu
e se crio na Geórgia. Tem seus expedientes acadêmicos do maternal

até o instituto no Conyers. Não há indícios de que tenha estado alguma vez em Michigan, e por
descontado nunca viveu ali.

-A única razão pela que seguimos entupidos com isto do irmão é que Pauline McGhee advertiu a
seu filho de que tomasse cuidado com seu tio.

-É certo, mas o que outra pista temos? Se seguimos nos dando contra o muro nos vai encher a
cabeça de galos.

Wíll esperou uns segundos.

-Que classe de entrevista tem amanhã?

-É um assunto pessoal.
-Vale.

depois daquilo nenhum dos dois tinha nada mais que dizer. por que resultava tão fácil ao Wíll
justificar-se com a Sara Linton mas logo que conseguia manter

uma conversação normal com todas as demais mulheres de sua vida, e especialmente com sua
companheira?

-Você conto o meu se você me contar o teu -lhe propôs Faith.

Wíll se pôs-se a rir.

-Acredito que deveríamos começar desde o começo. Com o caso, quero dizer.

-A melhor maneira de averiguar se tiver acontecido algo por alto é voltar sobre seus passos.

-Quando voltar de sua entrevista iremos falar com os Coldfield, logo a ver o Rick Sigler ao
trabalho para poder falar com ele sem que sua mulher esteja

presente, e depois seguiremos com outros testemunhas, com qualquer que tenha tido algo que ver com
isto, por remota que seja a relação. Colegas de trabalho, pessoal

de manutenção que tenha visitado a casa, suporte técnico, qualquer que tenha podido ter contato com
elas.

-Não temos nada que perder -disse Faith. Houve outra pausa e de novo foi ela a primeira em
falar-. Está bem?

Wíll acabava de chegar a sua casa. Estacionou, desejando que caísse um raio e o matasse: o carro
do Angie estava no caminho de entrada.

-Wíll?

-Sim. Vemo-nos pela manhã.

Pendurou o telefone e o guardou no bolso. As luzes do salão estavam acesas, mas Angie não se
incomodou em acender a do alpendre. Levava dinheiro em cima,

e além disso tinha os cartões. Tinha que haver algum sítio onde admitissem cães, ou talvez podia
esconder a Betty sob a jaqueta. A chihuahua ficou de pé no assento

e se estirou. acendeu-se a luz do alpendre.

Wíll murmurou entre dentes e agarrou à cadela em braços. desceu-se do carro, fechou-o e se
dirigiu a sua casa. Abriu a porta do jardim de atrás e deixou

a Betty sobre a grama; logo ficou diante de sua própria casa sem saber muito bem o que fazer, até que
decidiu que aquilo era uma estupidez e se obrigou a entrar.

Angie estava acurrucada no sofá. Levava o cabelo solto, como lhe gostava, e um vestido negro
muito apertado que abraçava cada uma de suas curvas. Sara estava

preciosa, mas Angie estava muito sexy. Levava uma maquiagem de noite, com os lábios vermelho
sangre. perguntou-se se se teria arrumado assim para ele. Provavelmente.

Angie sempre pressentia quando Wíll se distanciava dela. Era como um tubarão, capaz de cheirar o
sangue na água. Saudou-o igual à prostituta.

-Olá, céu.

-Olá.

Angie se levantou do sofá, estirando-se como um gato enquanto se aproximava dele.

-tiveste um bom dia? -perguntou-lhe, colocando os braços ao redor de seu pescoço. Wíll voltou a
cabeça e ela a girou outra vez e o beijou nos lábios.

-Não volte a fazer isso -lhe disse.

Angie voltou a lhe beijar, não gostava que lhe dissessem o que tinha que fazer. Wíll se manteve tão
impassível como pôde e Angie se rendeu e retirou os

braços.

-O que te passou na mão?

-peguei a um tipo.

Angie se pôs-se a rir como se fora uma brincadeira.

-Sério?

-Sim -disse Wíll, apoiando a mão no respaldo do sofá. Uma das tirita começava a desprender-se.

-Assim que pegaste a um tipo. -Agora tomava a sério-. E há testemunhas disso?

-Nenhum que esteja disposto a atestar em meu contrário.

-Bem feito, céu. -Estava justo detrás dele-. Seguro que Faith molhou as calcinhas. -Passou-lhe o
dedo pelo braço, e se deteve o chegar à boneca-. Onde está

sua aliança? -perguntou-lhe em um tom muito diferente.

-Em meu bolso.


Wíll a tinha tirado antes de subir a casa da Sara. Naquele momento tinha tentado enganar-se
pensando que o fazia porque lhe tinham inchado os dedos e o

anel começava a lhe apertar.

Angie colocou a mão no bolso de sua calça. Wíll fechou os olhos, sentindo que o dia inteiro lhe
vinha em cima. E não só esse dia, a não ser os últimos oito

meses. Angie era a única mulher com a que tinha estado, e seu corpo a jogava tanto de menos que
quase lhe doía fisicamente.

Os dedos de lhe acariciaram através do fino tecido dos bolsos. A reação do Wíll foi imediata, e
quando lhe sussurrou ao ouvido se agarrou com força ao respaldo

do sofá para não cair. Mordeu-lhe a orelha brandamente.

-Me sentiste falta de?

Wíll tragou saliva, incapaz de falar enquanto ela apertava seus peitos contra suas costas. Jogou a
cabeça para trás e Angie lhe beijou o pescoço, mas não

era nela em quem pensava enquanto o acariciava. Era na Sara, em seus compridos e finos dedos lhe
curando a mão enquanto estavam sentados no sofá. Recordou o aroma

de seu cabelo, porque se tinha permitido inclinar-se brevemente para cheirá-lo sem que ela se desse
conta. Cheirava a bondade, a compaixão, a doçura. Cheirava a

tudo que Wíll tinha desejado sempre, a tudo o que nunca teria.

-Né -Angie deixou de lhe acariciar-. Aonde te foste?

Fazendo um esforço, Wíll subiu a cremalheira da braguilha. Apartou ao Angie e se foi para o outro
lado da habitação.

-Está nesses dias outra vez? -perguntou-lhe Angie.

-Sabia o do bebê?

Angie ficou a mão no quadril.

-Que bebê?

-Dá-me igual o que responda, mas quero a verdade. Preciso sabê-la.

-vais pegar me se não lhe disser isso?

-vou odiar te -replicou Wíll, e ambos sabiam que o que dizia era certo-. Esse bebê poderíamos ter
sido você ou eu. Que coño, esse bebê era eu.

-Mamãe o deixou no cubo do lixo? -perguntou em tom brusco, à defensiva.

-Era isso ou pô-la a fazer a rua para comprar anfetamina.

Angie apertou os lábios, mas não apartou o olhar.

-Touché -disse por fim, porque isso era exatamente o que tinha feito Deirdre Polaski com sua filha.

Wíll repetiu a pergunta, o único que lhe importava já.

-Sabia que havia um bebê no apartamento de cobertura?

-Lola o estava cuidando.

-O que?

-Não é má garota, assegurava-se de que estivesse bem. Se não a tivessem detido…

-Espera um momento. -Usou as mãos para detê-la-. De verdade crie que essa puta estava cuidando
do menino?

-Agora está bem, não? chamei um par de vezes ao Grady. O menino e sua mãe já estão juntos.

-Que fez um par de chamadas? -Wíll não podia acreditar o que ouvia-. Por Deus bendito, Angie, é
um bebê de meses. Se chegarmos a demorar um pouco mais o

teríamos encontrado morto.

-Mas não o fizeram, não está morto.

-Angie…

-A gente sempre cuida dos bebês, Wíll. Quem cuida da gente como Lola?

-se preocupa por uma puta viciada no crack quando há um bebê no quarto do lixo morrendo de
inanição? -Não lhe deu tempo a responder-. Se acabou. acabou-se

tudo.

-Que coño significa isso?

-Significa que acabei contigo. Significa que a corda deste ioiô se quebrado.

-Que lhe dêem.

-Acabou-se o baile. acabou-se o andar revoando a meu redor, acabou-se o sair correndo em
metade da noite para voltar um mês ou um ano mais tarde como se

fosse quão única pode me lamber as feridas.

-Dito assim soa tão romântico.

Wíll abriu a porta principal.

-Quero que te largue de minha casa e que saia de minha vida.

Angie não se moveu, assim Wíll se foi para ela e começou a empurrá-la.

-O que está fazendo? -Empurrou-o, mas ao ver que não cedia, esbofeteou-o-. me Tire as mãos de
cima, bode.

Wíll a agarrou em volandas por detrás e Angie fechou a porta com o pé.

-Lhe largue -lhe disse Wíll, tentando agarrar o pomo sem soltá-la a ela.

Angie tinha sido polícia antes de que a subissem a detetive, e sabia como defender-se. Deu-lhe
uma patada na curva e o derrubou. Wíll a agarrou, atirou-a

ao chão e ficaram a brigar como se fossem cães raivosos.

-Para! -gritou ela, sem deixar de lhe dar patadas e de usar todo seu corpo para lhe fazer danifico.

Wíll rodou sobre sua barriga e a esmagou contra o chão de madeira. Agarrou-lhe as mãos com uma
só das suas e as espremeu para que não pudesse seguir brigando.

Sem pensá-lo sequer, alargou o braço e lhe arrancou a roupa interior. Lhe cravou as unhas na palma e
Wíll deslizou seus dedos dentro dela.

-Filho de puta -murmurou, mas estava tão úmida que Wíll logo que sentia seus dedos ao deslizá-
los dentro e fora. Deu com o ponto exato, e lhe insultou outra

vez, apertando a cara contra o chão. Ela nunca chegava ao orgasmo com ele, formava parte de seu
jogo de poder. Sempre levava ao Wíll até o limite, mas nunca permitia

que ele fizesse o mesmo com ela.

-Para -exigiu Angie, mas não deixava de mover os quadris, esticando-se com cada movimento.

Wíll se desabotoou as calças e se meteu dentro dela. Angie tentou fechar as pernas, mas ele a
investiu com mais força, obrigando-a às abrir. Ela gemeu e

sentiu uma doce descarrega enquanto ele a penetrava mais e mais a fundo. Wíll a obrigou a ficar a
quatro patas e começou a penetrá-la tão depressa como podia, enquanto
seguia estimulando-a com os dedos para levá-la até o limite. Angie começou a gemer, e emitiu um
gemido profundo, gutural, que ele não tinha ouvido nunca. Investiu-a

com todas suas forças, sem preocupar-se de se lhe deixava marcas por todo o corpo, sem lhe
importar se a rompia em dois. Quando por fim Angie se correu lhe apertou

com tal força que quase doía estar dentro dela. O orgasmo do próprio Wíll foi tão selvagem que
acabou derrubado em cima dela, ofegando, com todo o corpo ardido.

Rodou sobre suas costas. Angie tinha o cabelo enredado lhe cobrindo a cara. Lhe tinha deslocado
a maquiagem e ofegava igual a Wíll.

-Meu deus -murmurou Angie-. OH, deus.

Alargou a mão para lhe acariciar a cara, mas Wíll a separou de um tapa.

ficaram tombados no chão, ofegando, durante um bom momento. Wíll tentou sentir remorsos, ou
ira, mas não sentia mais que esgotamento. Estava tão farto daquilo,

tão farto de que Angie se passasse a vida lhe tirando de gonzo. Voltou a pensar no que lhe havia dito
Sara: “Aprende de seus enganos”.

Nesse momento ao Wíll parecia que Angie Polaski era o engano maior que tinha cometido em toda
sua vida.

-Deus -Angie seguia ofegando. Rodou sobre um flanco, e deslizou a mão sob sua camisa. Tinha as
mãos quentes e suarentas-. Seja quem é, lhe dê as obrigado

de minha parte.

Wíll olhava fixamente ao teto, não queria olhá-la porque não se confiava em si mesmo.

-Levo follando contigo vinte e três anos, céu, e é a primeira vez que me faz isso desta maneira. -
Acariciou-lhe a costela, no ponto onde tinha a cicatriz

de uma queimadura de cigarro-. Como se chama?

Wíll continuou calado.

-Me diga como se chama -lhe sussurrou Angie.

Wíll notou que lhe doía a garganta ao tragar saliva.

-Não há ninguém.

Ela soltou uma gargalhada.


-Enfermeira ou polícia? -pôs-se a rir outra vez-. Uma puta?

Wíll não disse nada. Tentou apartar a Sara de sua mente, não queria pensar nela agora porque
sabia o que vinha a seguir. cotado-se um ponto, assim Angie

tinha que anotar-se dez.

Angie encontrou um nervo sensível em sua machucada pele e Wíll se estremeceu de dor.

-É normal? -perguntou-lhe.

“Normal.” No orfanato empregavam essa palavra para referir-se às pessoas que não era como
eles: aos que tinham família, uma vida, pais que não lhes pegavam

nem lhes obrigavam a prostituir-se nem lhes tratavam como se fossem lixo.

Angie seguiu acariciando o contorno da cicatriz com o dedo.

-Conhece seu problema?

Tentou tragar saliva de novo. Arranhava-lhe a garganta. encontrava-se mau.

-Sabe que é idiota?

Wíll se sentia apanhado sob seu dedo, o modo em que lhe acariciava a cicatriz tinha derretido sua
carne. Justo quando pensava que não podia suportá-lo mais

ela se deteve, aproximou-lhe os lábios à orelha e deslizou os dedos por debaixo de sua manga.
Chegou até o ponto em que a folha de barbear tinha talhado carne.

-Lembrança o sangue -lhe disse-. Como te tremia a mão, a folha cortando sua pele. Lembra-te?

Wíll fechou os olhos, mas lhe escaparam as lágrimas. Naturalmente que se lembrava. Se se
concentrava muito ainda podia sentir o fio da navalha lhe arranhando

o osso porque sabia que o corte tinha que ser profundo, o suficientemente profundo para cortar a
veia, o suficientemente profundo para fazê-lo bem.

-Recorda como te abracei? -perguntou-lhe, e Wíll sentiu seus braços ao redor de seu corpo,
embora não lhe estava abraçando. O modo em que lhe agasalhou

com seu corpo, como se fora uma manta-. Havia tanto sangue…

O sangue gotejou por seus próprios braços, por suas pernas, por seus pés.

Tinha-lhe abraçado tão forte que Wíll quase não podia respirar, e ele a tinha querido tanto. Ela
entendia por que o tinha feito, por que tinha que acabar
com toda essa loucura que lhe rodeava. Cada cicatriz que tinha no corpo, cada queimadura, cada
corte; Angie os conhecia tão bem como se conhecia si mesmo. Todos

os segredos do Wíll Angie os guardava no mais fundo de seu ser. agarrava-se a eles como a um prego
ardendo.

Ela era sua vida.

Wíll tragou saliva, mas tinha a boca seca.

-Quanto tempo mais?

Angie pôs sua mão sobre a barriga do Wíll. Sabia que voltava ao ter em suas mãos, que solo tinha
que estalar os dedos.

-Quanto tempo mais, o que, céu?

-Quanto tempo mais tenho que seguir te querendo.

Angie não respondeu imediatamente, e Wíll estava a ponto de repetir a pergunta quando ela disse:

-Não é o título de uma canção country?

Wíll se voltou para olhá-la buscando em seus olhos algum indício da ternura que jamais tinha
encontrado.

-Solo me diga quanto tempo mais, para que possa ir tachando os dias, para que possa saber quando
vai se acabar isto de uma vez.

Angie lhe acariciou a bochecha.

-Cinco anos? Dez? -Lhe fechava a garganta, como se tivesse comido cristais-. me Diga isso Angie.
Quando vou poder deixar de te querer?

Angie se inclinou e lhe sussurrou ao ouvido:

-Nunca.

Levantou-se do chão, colocou-se a saia e agarrou seus sapatos e sua roupa interior. Wíll ficou ali
convexo enquanto ela abria a porta e partia sem incomodar-se

em olhar atrás. Sabia muito bem o que deixava, do mesmo modo que sempre sabia o que lhe
esperava.

Wíll não se levantou o ouvir seus passos no alpendre nem tampouco quando arrancou o carro. Não
se levantou quando ouviu a Betty arranhando a gatera, que
Wíll tinha esquecido lhe deixar aberta. Não se moveu por nada. ficou convexo no chão toda a noite,
até que o sol que entrava pelas janelas lhe anunciou que já era

hora de voltar para trabalho.


QUARTO DIA

Capítulo vinte

Pauline tinha fome, mas podia suportá-lo. Entendia os dores que tinha no estômago e nos
intestinos, o modo em que os espasmos reverberavam por todo seu

ventre tentando absorver qualquer espionagem de nutriente. Conhecia bem esses dores, e podia
suportá-los. Mas a sede era algo diferente. Não havia maneira de evitá-la.

Nunca antes tinha passado tanto tempo sem beber água. Estava desesperada, desejando poder fazer
algo. Inclusive tinha feito pis no chão e tinha tentado bebê-lo,

mas solo lhe tinha dado mais sede, assim acabou sentando-se sobre seus tornozelos, uivando como
um lobo.

Não podia mais. Não podia seguir naquele lugar tão escuro por muito tempo. Não podia deixar que
se apoderasse dela, que a envolvesse de tal modo que quão

único queria então era fazer uma bola e chorar pelo Felix.

Felix. Ele era a única razão para sair dali, para lutar, para deter os bodes que a afastavam de seu
menino.

Tombou-se de lado, com os braços pegos aos quadris, fazendo força com os pés para elevar o
tronco, estirando o pescoço para poder endireitar-se. manteve-se

nessa posição, com os músculos em tensão, suando, com a atadura lhe raspando a pele, enquanto se
concentrava no objetivo. As cadeias que levava nas bonecas tilintavam

ao mover-se e, sem pensá-lo, jogou a cabeça para trás e a golpeou contra a parede.

Uma intensa dor desceu por seu pescoço. Viu estrelas -literalmente-flutuando ante seus olhos. Caiu
sobre suas costas ofegando, tratando de não hiperventilar,

desejando não deprimir-se.

-O que está fazendo? -perguntou-lhe a outra mulher.

A muito zorra tinha estado tendida de costas como um cadáver as últimas doze horas, imóvel,
indiferente, e agora ficava a fazer perguntas?

-Lhe cale -lhe espetou Pauline.


Não tinha tempo para essa mierda. Rodou uma vez mais sobre o flanco, pondo suas costas em
paralelo à parede, movendo uns centímetros mais. Conteve a respiração,

fechou os olhos com força e voltou a golpear a cabeça contra a parede.

-Joder! -gritou, doía-lhe tanto a cabeça que parecia que ia estalar.

Voltou a tombar-se sobre as costas. Tinha sangue na frente, começava a gotejar por debaixo da
atadura e lhe estava metendo nos olhos. Não podia piscar,

não podia limpar-lhe Sentia como se tivesse uma aranha passeando-se por suas pálpebras, filtrando-
se até seus globos oculares.

-Não -disse Pauline, e se encontrou envolta em uma alucinação, com aranhas caminhando sobre
seu rosto, metendo-se dentro de sua pele, pondo ovos em seus

olhos-. Não!

Voltou-se a sentar rapidamente, e a cabeça lhe deu voltas pelo repentino movimento. Estava
ofegando outra vez e colocou a cabeça entre os joelhos, tocando

suas coxas com o peito. Tinha que serenar-se. Não podia ceder à sede. Não podia deixar que a
demência se instalasse de novo em seu cérebro e lhe fizesse esquecer

onde estava.

-O que está fazendo? -sussurrou-lhe a estranha, assustada.

-Me deixe em paz.

-Vai ouvir. vai baixar.

-Não -lhe espetou Pauline. Então, para demonstrá-lo, ficou a gritar-. Baixa aqui, filho de puta! -
Tinha a garganta tão irritada que o esforço lhe fez tossir,

mas continuou gritando-: Estou tentando escapar! Vêem me deter, bode, filho de puta!

ficaram esperando. Pauline contava os segundos. Não se ouviram pisadas na escada. Não se
acendeu nenhuma luz. Não se abriu nenhuma porta.

-Como sabe? -perguntou-lhe a estranha-. Como sabe o que está fazendo?

-Está esperando a que uma das duas se desmorone -lhe disse Pauline-. E não vou ser eu.

A mulher lhe fez outra pergunta, mas Pauline a ignorou e se colocou outra vez junto à parede. De
novo tentou golpear sua cabeça contra a parede, mas não
pôde fazê-lo. Não podia fazer-se danifico deliberadamente outra vez. Não nesse momento. Mais
tarde. Descansaria uns minutos e voltaria a tentá-lo.

Rodou sobre suas costas, chorando. Não abriu a boca porque não queria que sua companheira
soubesse que estava chorando. Mas a outra mulher a ouviu, e ouviu

que se deslizava por cima de seu próprio pis. Aquele espetáculo se terminou. Já não se venderiam
mais entradas.

-Como te chama? -perguntou-lhe a desconhecida.

-Não é teu assunto! -ladrou Pauline. Não queria fazer amigos. Queria sair dali como fora, e se para
isso tinha que passar por cima do cadáver daquela mulher

o faria sem o menor reparo-. te Cale já.

-Me diga o que é o que está fazendo, talvez posso te ajudar.

-Você não pode me ajudar, se inteira? -Pauline se retorceu para voltar-se para a desconhecida, em
que pese a que estavam em meio da mais absoluta escuridão-.

me Escute bem, zorra: solo uma das duas vai sair daqui com vida e não vais ser você. Entendeste-
me? A mierda escorrega para baixo, e não vou ser eu a que cheire

a esgoto quando tudo isto acabe, vale?

A desconhecida guardou silêncio. Pauline se tornou sobre suas costas, olhando para cima na
escuridão e tratando de aproximar-se da parede de novo.

-Você é Magra de Atlanta, verdade? -perguntou-lhe a mulher em um sussurro.

Ao Pauline lhe fechou a garganta como se lhe tivessem posto uma soga ao pescoço.

-O que?

-“A mierda escorrega para baixo, e não vou ser eu a que acabe cheirando a esgoto” -repetiu a
mulher-. O diz muito freqüentemente. -Pauline se mordeu o lábio-.

Eu sou Minha-tres.

“Minha”, uma forma coloquial de referir-se a bulimia. Pauline reconheceu o nome de usuário, mas
seguiu em seus treze.

-Não sei do que me fala.

-Ensinou esse correio eletrônico às pessoas do trabalho?


Pauline abriu a boca para respirar um pouco. ficou a pensar em que mais costure havia dito
naquele grupo Pró-a Ana em Internet, todos aqueles pensamentos

se desesperados que de algum modo tinha acabado teclando em seu ordenador. Era quase como
purgar-se, solo que em lugar de esvaziar o estômago se esvaziava seu cérebro.

lhe contar a alguém todos aqueles pensamentos horríveis, saber que elas também os tinham, fazia que
fosse um pouco mais fácil levantarse pela manhã.

E agora a desconhecida já não era tal.

-Ensinou-lhes o correio? -repetiu Minha.

Pauline tragou saliva, embora em sua garganta não havia mais que pó. Não podia acreditar-se que
estivesse atada como um puto porco e aquela mulher queria

falar de trabalho. Isso já não importava. Nada importava já. A mensagem de correio pertencia a outra
vida, uma vida em que Pauline tinha um trabalho que não queria

perder, uma hipoteca, uma letra do carro. Estavam esperando a que as violassem, torturassem-nas e
as assassinassem, e a essa mulher preocupava um puto correio eletrônico?

-Não cheguei a chamar o Michael, meu irmão -disse Minha-. Possivelmente me esteja procurando.

-Não te vai encontrar -lhe disse Pauline-. Não aqui.

-Onde estamos?

-Não sei -disse Pauline, e era verdade-. Quando despertei estava no porta-malas de um carro,
encadeada. Não estou muito segura de quanto tempo estive ali.

O porta-malas se abriu, pu-me a gritar e então me deu outra descarga. -Fechou os olhos-. Logo
despertei aqui.

-Eu estava no jardim traseiro de minha casa -lhe contou Minha-. Ouvi um ruído. Pensei que talvez
era um gato… Quando recuperei o sentido estava dentro

de um porta-malas. Não estou segura de quanto tempo me teve ali. me pareceram dias. Tentei levar a
conta das horas, mas….

ficou calada um momento, e Pauline não soube como interpretar esse silêncio. Por fim Minha se
decidiu a falar.

-Crie que foi assim como nos encontrou, através do chat?

-Certamente -mentiu Pauline.


Pauline sabia como as tinha encontrado, e não tinha sido naquele maldito chat. Tinha sido ela quem
as tinha levado até ali; tinha sido seu enorme bocaza

a que as tinha metido naquela confusão. Não ia contar lhe a Minha o que sabia: solo serviria para que
lhe fizesse mais perguntas, e com as perguntas viriam as acusações

que Pauline sabia que não poderia suportar.

Não nesse momento. Não quando sentia que seu cérebro estava cheio de algodão, e o sangue que
lhe metia nos olhos era como as patas peludas de um milhão

de aranhas.

Pauline respirou fundo, tentando não cair presa do pânico. Pensou no Felix e em como cheirava
quando o banhava com esse sabão que comprou no Colony Square

durante sua pausa para comer.

-Ainda está na caixa, verdade? -disse-lhe Minha-Encontrarão a mensagem na caixa e saberão que
lhe disse ao estofador que medisse o elevador.

-E que coño importa isso agora? É que não te dá conta de onde estamos, pelo que nos vai passar?
Que mais dá se encontrarem o correio ou não o encontram?

Pois miúdo consolo. “Está morta, mas tinha razão desde o começo.”

-Já é mais do que conseguiu em vida.

Compartilharam um momento de mútua comiseração. Pauline tentou recordar o pouco que sabia
por Mima. A mulher não publicava muito no chat, mas quando o fazia

estava acostumado a ser muito certeira. Como ao Pauline e a umas quantas usuárias mais, a Minha
não gostava das choramingações, não tragava com toda essa mierda.

-Não podem nos matar de fome -disse Meu-. Eu posso agüentar até dezenove dias sem comer.

Pauline estava impressionada.

-Eu mais ou menos igual -mentiu. Seu recorde estava em doze, e tinha acabado ingressada no
hospital, onde a tinham cevado como se fora um peru de Ação de

Obrigado.

-O problema é a água -continuou Minha.

-Sim. Quanto tempo pode…?


-Nunca tentei prescindir da água -lhe interrompeu Minha, terminando a frase por ela-. Não tem
calorias.

-Quatro dias -lhe disse Pauline-. Em alguma parte li que solo se pode sobreviver uns quatro dias
sem água.

-Poderemos agüentar mais.

Não era um alarde de otimismo: se Minha era capaz de agüentar dezenove dias sem comer, seguro
que agüentaria sem água mais que Pauline.

Esse era o problema. Podia sobreviver ao Pauline. Nenhuma tinha sobrevivido ao Pauline até
agora.

Minha formulou a pergunta mais óbvia.

-por que não nos violou?

Pauline apertou a cabeça contra o frio chão de cimento, tentando evitar que o pânico se apoderasse
dela. Que as violasse não era o problema. Era todo o

resto: os jogos, o escárnio, as armadilhas… as bolsas de lixo.

-Quer que nos debilitemos -disse Minha-. Quer assegurar-se de que não possamos nos defender.

As cadeias de Minha tilintavam cada vez que se movia. Sua voz soava mais próxima agora, e
Pauline imaginou que se teria posto de flanco.

-O que estava fazendo? Refiro ao de antes. por que golpeava a cabeça contra a parede?

-Se posso abrir uma brecha na parede, possivelmente possa escapar. Segundo a normativa vigente,
as vigas devem estar separadas por uma distância mínima

de quarenta centímetros.

-Tem uns quadris de quarenta centímetros? -perguntou Minha, sobressaltada.

-Não, subnormal. Mas me posso pôr de lado.

Meu se Rio de sua própria tolice, mas então assinalou algo que fez que Pauline se sentisse ainda
mais estúpida.

-E por que não usa os pés?

As duas ficaram caladas, mas Pauline começou a notar uma sensação estranha. Sentiu um espasmo
na barriga e se ouviu si mesmo estalar em gargalhadas com
uma risada sincera, espontânea, enquanto pensava em quão idiota tinha sido.

-OH, Deus -suspirou Minha. Também ela ria-. Olhe que é idiota.

Pauline se retorceu, tentando girar sobre seu ombro. Juntou os pés para que as cadeias não lhe
enredassem e golpeou a parede com os pés. O pladur se rompeu

ao primeiro intento.

-Subnormal -disse, esta vez refiriéndose a si mesmo.

Deslizou-se para ficar de frente ao oco e retirou as partes de gêsso com a boca. O pó era
venenoso, mas não lhe importava. Preferia morrer com a cabeça

aparecendo uns centímetros por fora daquela habitação que apanhada ali enquanto esperava a que
aquele cabronazo viesse a por ela.

-Conseguiste-o? -perguntou Minha-O tem quebrado?

-Lhe cale -lhe disse Pauline mordendo o isolante.

Tinha tirado o som as paredes. Era de esperar; tampouco supunha maior problema. Agarrou-o com
os dentes e foi retirando a isolante parte a parte, louca

por sentir o ar fresco em sua cara.

-Joder! -gritou Pauline.

Arrastou-se para a parede, de modo que sua cintura ficasse à altura do oco. Alargou o braço e
estirou os dedos, que logo que chegavam um pouco mais à frente

do pladur quebrado. Arrancou o isolante e seus dedos apalparam algo que parecia uma tela. Arqueou
as costas, estirando as mãos tudo o que pôde. Seus dedos tropeçaram

com uma malha de arame.

-Maldita seja!

-O que é?

-Uma malha de arame.

Tinha-a posto nas paredes para que não pudessem escapar.

Pauline voltou a colocar-se perpendicular à parede e golpeou a malha com os pés. Reveste-as de
seus pés toparam com algo maciço. Em lugar de ceder a tela

a fez ricochetear e deslizar-se vários centímetros pelo chão da habitação. Voltou a aproximar-se para
tentá-lo de novo, rodando sobre sua tripa e apoiando as suarentas

Palmas contra o cimento. Pauline encolheu as pernas e, com todas suas forças, sacudiu-lhe outra
patada. De novo seus pés ricochetearam e saiu despedida.

-OH, Deus -ofegou, deixando cair sobre suas costas. Começou a chorar outra vez e as diminutas
patas de aranha voltaram a lhe nublar os olhos-. O que vou

fazer agora?

-Chega com as mãos?

-Não -soluçou Pauline.

Suas esperanças começavam a desvanecer-se. Suas mãos estavam atadas com força ao cinturão e a
malha de arame estava justo atrás do pladur. Não havia maneira

de que pudesse alcançá-la com as mãos.

O corpo do Pauline começou a convulsionar-se pelo pranto. Levava anos sem lhe ver, mas ele não
tinha esquecido como funcionava sua cabeça. O porão era seu

campo de provas, um cárcere cuidadosamente preparado para as dobrar matando as de fome. Mas
isso não era o pior. Devia haver uma cova em alguma parte, um lugar escuro

que teria escavado na terra com supremo esmero. O porão serviria para as dobrar, na cova as
destruiria. O muito filho de puta o tinha tudo muito bem pensado.

Outra vez.

Minha tinha conseguido arrastar-se até ela. Sua voz soava muito perto, quase em cima de Pauline.

-Te cale. Utilizaremos a boca.

-O que?

-É arame, não? Uma malha de arame.

-Sim, mas…

-Se o dobrar para frente e para trás, rompe-se.

Pauline meneou a cabeça. Aquilo era uma loucura.

-Solo temos que romper uma parte -disse Minha, como se fora uma simples questão de lógica-.
Remói-o com os dentes e tira para frente e para trás. cedo ou

tarde se romperá, e então poderemos abri-lo a patadas. Ou a dentadas.


-Não podemos…

-Não me diga que não podemos, zorra de mierda. -Minha tinha os pés encadeados, mas as arrumou
para lhe sacudir uma patada na tíbia.

-Ah!

-Começa a contar -lhe ordenou Minha arrastando-se para o buraco-. Quando chegar a duzentos,
será seu turno.

Pauline não ia fazer o porque não pensava deixar que aquela zorra lhe dissesse o que tinha que
fazer. Então ouviu um ruído -um ruído de dentes mordendo

o metal, retorcendo-o, roendo-o. Duzentos segundos. foram se rasgar a pele. foram se destroçar as
gengivas. Nem sequer tinham garantido que funcionasse.

Pauline se deu a volta e se sentou sobre seus talões.

Começou a contar.

Capítulo vinte e um

Faith nunca tinha sido madrugadora, mas tinha pego o costume de entrar em trabalhar logo quando
Jeremy era pequeno. Dava igual a não fosse madrugadora quando

tinha um pirralho faminto que alimentar, vestir, inspecionar e deixar na parada do ônibus às 7:13
como muito tarde. Desde não ser pelo Jeremy teria sido uma noctâmbula

das que se deitam acontecida a meia-noite, mas estava acostumado a deitar-se por volta das dez
inclusive quando Jeremy já era um adolescente com horários muito mais

flexíveis.

Wíll também tinha suas razões para entrar logo a trabalhar. Faith viu seu Porsche estacionado no
sítio habitual quando entrou com o Mini no edifício leste

da prefeitura. Estacionou e ficou ali sentada tentando colocar o assento de maneira que pudesse
chegar ao mesmo tempo ao volante e aos pedais sem ter que incrustar

o primeiro no peito e estirar-se para chegar aos segundos. Ao cabo de um bom momento encontrou
por fim a distância justa e lhe passou pela cabeça fazer que bloqueassem

o assento para que não pudesse mover-se. Se Wíll queria conduzir seu carro teria que fazê-lo com os
joelhos pegos às orelhas.
Golpearam no guichê do Mini com os nódulos e Faith levantou a vista, sobressaltada. Era Sam
Lawson, que trazia um café na mão.

Faith abriu a porta do carro e se baixou com dificuldade; tinha a sensação de ter engordado dez
quilogramas em uma noite. Essa manhã lhe havia flanco o

inexprimível encontrar algo que ficar. Seu corpo retinha líqüido suficiente para encher um tanque do
aquário municipal. Por sorte, seu pendure com o Sam Lawson tinha

sido um vírus de vinte e quatro horas. Não gostava de ter uma conversação com ele naquele
momento, mais que nada porque precisava concentrar-se no caso que tinha

entre mãos.

-Olá, neném -disse Sam, olhando-a de acima a abaixo com olhar guloso.

Faith agarrou a bolsa do assento de atrás.

-Vá, quanto tempo.

Sam se encolheu de ombros lhe dando a entender que não era mais que uma vítima das
circunstâncias.

-Toma -disse, lhe oferecendo o café-. É descafeinado.

Faith tinha tentado tomar um café essa manhã. Nada mais cheirá-lo tinha tido que sair disparada
para o banho.

-Sinto-o -disse. Faith ignorou o café e se separou do Sam para que não lhe voltassem as náuseas.

Sam atirou o copo em um cesto de papéis e saiu detrás dela.

-Náuseas matutinas?

Faith jogou uma olhada ao redor, pois temia que alguém lhes ouvisse.

-Não o hei dito a ninguém mais que a minha chefa.

Tentou recordar quando se supunha que devia dizer-lhe às pessoas. Terei que esperar umas
semanas para assegurar-se de que o embrião tinha aceso. Faith devia

estar aproximando-se já a esse momento. dentro de pouco começaria a contá-lo. Deveria reuni-los a
todos, convidar para jantar a sua mãe e ao Jeremy e chamar a seu

irmão com o mãos livres, ou havia algum modo de enviarum correio anônimo a todos e largar-se ao
Caribe umas semanas para evitar o toró?
Sam estalou os dedos diante de sua cara.

-Há alguém aí?

-Apenas. -Faith chegou à porta ao mesmo tempo que ele e deixou que a abrisse e lhe cedesse o
passo-. Tenho muitas coisas na cabeça.

-Quanto ao de ontem à noite…

-Em realidade foi faz duas noites.

Sam sorriu abertamente.

-Sim, mas não me parei a pensá-lo até ontem à noite.

Faith suspirou e apertou o botão do elevador.

-Vêem aqui -disse, empurrando-a para o oco que havia em frente do elevador. Havia uma máquina
vendedora com três fileiras de bollitos, coisa que Faith sabia

sem necessidade de olhar.

Sam lhe colocou o cabelo detrás da orelha e Faith o voltou a soltar. Não estava de humor para
bajulações a essa hora da manhã. Sem pensá-lo, olhou para

assegurar-se de que nenhuma câmara de segurança os estava gravando.

-A outra noite me levei como um idiota. Sinto muito.

Faith ouviu as portas do elevador que se abriam e se voltavam a fechar.

-Não passa nada.

-Sim, sim passa.

Sam se inclinou para beijá-la, mas ela o rechaçou.

-Sam, estou de serviço. -Não acrescentou o que estava pensando, que era que estava em metade de
um caso no que tinha morrido já uma mulher, outra tinha

sido torturada e dois mais continuavam desaparecidas-. Não é o momento.

-Nunca é o momento -disse Sam, algo que lhe havia dito muitas vezes quando saíam juntos-. Quero
voltar a tentá-lo contigo.

-E o que passa com o Gretchen?

Sam se encolheu de ombros.


-Eu gosto de jogar sobre seguro.

Faith deixou escapar um gemido e lhe empurrou. Voltou para elevador e pulsou de novo o botão.
Sam não se ia, assim que lhe disse:

-Estou grávida.

-Recordo-o.

-Não quero te romper o coração, mas o menino não é teu.

-Não me importa.

Faith se voltou para lhe olhar de frente.

-Tenta exorcizar aos fantasmas porque sua mulher abortou?

-O que intento é voltar a formar parte de sua vida, Faith. E sei que para isso devo aceitar suas
condições.

Faith rechaçou o ambíguo completo.

-Acredito recordar que um dos problemas que havia entre você e eu, além disso do fato de que é
um bêbado, de que eu sou polícia e de que minha mãe acredita

que é o Anticristo, era que você não gostava de nada que eu tivesse um filho.

-Estava ciumento da atenção que lhe emprestava.

Em seu momento lhe tinha acusado disso mesmo. lhe ouvir admiti-lo agora a deixou sem fala.

-cresci -lhe disse Sam.

O elevador se abriu. Faith se assegurou de que ia vazio e sujeitou a porta com a mão.

-Agora mesmo não posso falar contigo. Tenho muito trabalho. -Entrou no elevador e soltou a porta.

-Jake Berman vive no condado da Coweta.

Faith quase perde a mão ao tentar evitar que se fechassem as portas.

-O que?

Sam tirou seu caderno do bolso e anotou algo enquanto falava.

-Localizei-lhe através de sua paróquia. É diácono e catequista. Têm uma estupenda página Web em
que figura sua foto. Corderitos e arcoiris. Evangélico.
O cérebro do Faith não podia processar a informação.

-por que te pôs para buscá-lo?

-Queria ver se podia ganhar pela mão.

Ao Faith não gostava de nada para aonde ia aquilo. Tentou neutralizar a situação.

-Olhe, Sam, não sabemos se for um dos maus.

-Suponho que nunca estiveste no lavabo de cavalheiros do centro comercial Geórgia.

-Sam…

-Não falei com ele -a interrompeu-. Sozinho queria ver se podia localizar a alguém a quem
ninguém tinha sido capaz de localizar. Estou farto de que os do

Rockdale me toquem as Pelotas. Prefiro que o você faça.

Faith passou por cima o comentário.

-Me deixe esta manhã para que fale com ele.

-Já lhe hei isso dito, não ando procurando uma história -sorriu, lhe mostrando todos seus dentes-.
Era sozinho um ato de fé, por algo te chama assim.

Faith lhe olhou com os olhos entreabridos.

-Queria comprovar se podia fazer seu trabalho. -Arrancou a folha e a entregou-. foi facilísimo.

Faith agarrou a direção antes de que trocasse de opinião. Lhe sustentou o olhar enquanto as
comporta se fechavam e ficou olhando seu próprio reflexo nas

portas. Já estava suando, embora imaginou que podia passar por um sufoco de grávida. Seu cabelo
começava a encrespar-se porque, em que pese a que solo estavam em

abril, a temperatura tinha subido muito.

Leu a direção que lhe tinha dado Sam. Estava dentro de um coração, o que lhe pareceu ao mesmo
tempo adorável e de mau gosto. Não terminava de acreditar

que não estivesse procurando uma história sobre o Jake Berman. Possivelmente o Atlanta Beacon
estava trabalhando em alguma exclusiva deprimente, e pensava tirar

do armário a homens devotos com uma dobro vida gay que pelo caminho se encontravam com
mulheres violadas e torturadas em metade da estrada.

Podia ser Jake Berman o irmão do Pauline? Agora que tinha sua direção, Faith não estava tão
segura. Que possibilidades tinha que Jake Berman tivesse ligado

com o Rick Sigler e estivessem os duas na estrada justo no mesmo momento em que os Coldfield
atropelavam a Anna?

Comporta-as se abriram e Faith saiu do elevador. As luzes do corredor estavam apagadas, e


pulsou os interruptores conforme se dirigia ao despacho do Wíll.

Não se via luz por debaixo da porta, mas chamou de todos os modos, pois tinha visto seu carro e
sabia que estava no edifício.

-Sim?

Faith abriu a porta. Wíll estava sentado detrás de seu escritório com as mãos entrelaçadas sobre
sua barriga. Tinha as luzes apagadas.

-Vai tudo bem? -perguntou-lhe.

Wíll não respondeu à pergunta.

-Tudo bem?

Faith fechou a porta e abriu a cadeira dobradiça. Viu o dorso da mão do Wíll e percebeu alguns
arranhões novos, além dos que tinha depois de brigar com

o Simkov. Não disse nada sobre o particular e foi direta ao caso.

-Tenho a direção do Jake Berman. Está na Coweta. Isso está a uns quarenta e cinco minutos daqui,
não?

-Se não haver muito tráfico -disse estendendo a mão para agarrar a direção.

Faith a leu em alto.

-Cale Lester, 935.

Wíll ainda tinha a mão estendida. Por alguma razão, Faith não pôde fazer outra coisa que olhar
seus dedos.

-Não sou um puto imbecil, Faith -lhe espetou Wíll-. Posso ler uma direção.

Seu tom era o suficientemente hostil como para que ao Faith lhe pusessem de ponta os cabelos da
nuca. Wíll não estava acostumado a dizer tacos e era a primeira

vez que lhe ouvia dizer “puto”.

-O que te passa? -perguntou-lhe.


-Não me passa nada. Solo quero ver a direção. Eu não posso ir à entrevista com o Simkov. irei
procurar ao Berman e nos veremos aqui quando voltar de sua

entrevista. -Agitou a mão-. me Dê a direção de uma vez.

Faith se cruzou de braços. Seria capaz de morrer antes de lhe dar o papel.

-Não sei que coño te passa, mas será melhor que te tire a cabeça do culo antes de que tenhamos um
problema de verdade.

-Faith, só tenho dois testículo. Se quiser um terá que falar com a Amanda ou com o Angie.

Angie. Com solo pronunciar essa palavra, desapareceu seu mau humor. Faith se recostou na
cadeira, com os braços cruzados, e lhe olhou fixamente. Wíll olhou

pela janela, e ela pôde perceber a fina cicatriz que percorria sua mandíbula. Queria saber como a
tinha feito, como lhe tinham esmigalhado a pele da mandíbula, mas

como todo o resto era algo do que nunca falavam.

Deixou o papel sobre o escritório e o deslizou para ele.

-Tem um coração ao redor -disse Wíll depois de lhe jogar uma olhada.

-foi Sam.

Wíll dobrou o papel e o guardou no bolso do colete.

-Está saindo com ele?

Ao Faith não gostava de dizer que era sozinho sexo, assim que se limitou a encolher-se de ombros.

-É complicado.

Wíll assentiu, que era o que estavam acostumados a fazer quando se tratava de um assunto pessoal
do que não queriam falar.

Faith estava farta daquilo. O que ia passar dentro de um mês, quando o embaraço se começasse a
notar? O que aconteceria um ano se se deprimia estando de

serviço porque tinha calculado mal a dose de insulina? Resultava-lhe fácil imaginar-se ao Wíll
inventando desculpas para explicar o aumento de peso ou simplesmente

ajudando-a a levantarse e lhe dizendo que tomasse cuidado de onde punha o pé. Lhe dava muito bem
fingir que a casa não estava em chamas incluso se punha-se a correr

para procurar água e apagar o fogo.


Levantou as mãos em sinal de rendição.

-Estou grávida.

Wíll elevou as sobrancelhas, estupefato.

-Víctor é o pai. Além disso sou diabética. Por isso me deprimi na garagem. -Wíll parecia muito
surpreso para lhe falar-. Deveria haver isso dito antes.

Essa é a razão de minha entrevista secreta no Snellville. Vou ao médico a ver se me pode ajudar a
manter isto da diabetes sob controle.

-Seu médico não será Sara?

-Derivou a uma especialista.

-Se for ver um especialista, deve ser grave.

-É uma provocação. A diabetes me põe as coisas um pouco mais difíceis, mas se pode controlar. -
Teve que acrescentar-: Ao menos, isso diz Sara.

-Quer que vá a essa entrevista contigo?

Faith se imaginou ao Wíll sentado na sala de espera da Délia Wállace com sua bolsa no regaço.

-Não, obrigado. Preciso fazê-lo eu sozinha.

-Víctor sabe…?

-Não sabe. Não sabe ninguém mais que Amanda e você. E a ela sozinho o disse porque me pilhou
me injetando a insulina.

-Tem que lhe injetar isso você?

-Sim.

Faith quase podia lhe ler o pensamento, as perguntas que queria lhe fazer mas não sabia como lhe
expor.

-Se quer trocar de companheiro… -disse-lhe Faith.

-E por que vou querer trocar?

-Porque é um problema, Wíll. Não sei quão grande, mas meus níveis de açúcar sobem e baixam, e
tenho mudanças de humor, e o mesmo sinto vontades de te arrancar

a cabeça de coalho que me dá de chorar, e não sei como vou fazer meu trabalho com esta história.
-Encontrará um modo -disse ele, tão razoável como de costume-. Eu o tenho feito. encontrei o
modo de agüentar meu problema.

Tinha uma capacidade de adaptação surpreendente. Quando acontecia algo mau, por muito horrível
que fora, Wíll assentia e seguia adiante. Faith imaginava

que devia havê-lo aprendido no orfanato. Ou possivelmente o tinha inculcado Angie Polaski. Como
estratégia de sobrevivência era elogiável, mas como base de uma relação,

era do mais irritante. E não havia absolutamente nada que Faith pudesse fazer a respeito.

Wíll se endireitou e, como sempre, recorreu ao humor para relaxar tensões.

-Se me der a escolher, prefiro que me arranque a cabeça de coalho a que ponha a chorar.

-O mesmo te digo.

-Devo-te uma desculpa -disse ficando sério de repente-. Pelo que fiz ao Simkov. Nunca lhe tinha
dado uma surra a ninguém. Em minha vida. -Olhou-a fixamente

aos olhos-. Prometo que jamais voltará a acontecer.

-Obrigado -foi tudo que acertou a dizer Faith. Naturalmente, não gostava do que tinha feito Wíll,
mas resultava difícil lhe recriminar nada quando era óbvio

que se estava castigando muito bem ele sozinho.

Agora tocava a ela tirar Fierro ao assunto.

-vamos deixar o de poli bom e poli mau uma temporada.

-Se for muito melhor o de poli tolo e poli bordo. -Wíll colocou a mão no bolso do colete e lhe
devolveu o papel com a direção do Jake Berman-. Deveríamos

chamar à polícia da Coweta para que vão jogar um olho ao Berman e se assegurem de que é o tio que
procuramos.

As rodas do cérebro do Faith demoraram um pouco em trocar o sentido do giro. Olhou a caligrafia
do Sam e o estúpido coração que tinha desenhado ao redor

da direção.

-Não sei por que Sam pensa que pode localizar a este tio em cinco minutos quando temos a toda a
divisão de processamento de dados trabalhando nisso há dois

dias sem nenhum resultado.


Faith tirou seu móvel. Não queria incomodar-se em seguir os canais estabelecidos, assim chamou
o Caroline, a secretária da Amanda. A mulher virtualmente

vivia no edifício, e agarrou o telefone à primeira. Faith lhe deu a direção do Berman e lhe pediu que
chamasse o agente do condado da Coweta para que verificasse

que se tratava do mesmo Jake Berman que estavam procurando.

-Quer que lhe traga isso aqui? -perguntou-lhe Caroline.

Faith ficou pensando-o um momento, mas não queria tomar essa decisão ela sozinha.

-Quer que nos tragam para o Berman? -perguntou-lhe.

Wíll se encolheu de ombros e respondeu:

-Queremos lhe pôr sobre aviso?

-Que um policial chame a sua porta porá sobre aviso de todos os modos.

Wíll voltou a encolher-se de ombros.

-Lhe diga que tente verificar sua identidade mas mantendo as distâncias. Se for ele, iremos nós a
lhe deter. lhe dê ao agente meu número de móvel. Aproximaremo-nos

quando acabar de falar com o Simkov.

Faith transmitiu a mensagem ao Caroline. Pendurou o telefone e Wíll girou para ela o monitor de
seu ordenador, lhe dizendo:

-recebi este correio da Amanda.

Faith se aproximou o teclado e o camundongo. Trocou as cores para que suas retinas não se
destruíram por combustão espontânea e abriu o correio. Foi resumindo

à medida que lia:

-Os informáticos não puderam crackear nenhum dos dois ordenadores. Dizem que é impossível
acessar sem a contra-senha ao chat pró-anorexia; pelo visto a

encriptação é bastante sofisticada. As ordens para o banco onde trabalha Olivia deveriam estar listas
esta tarde a primeira hora para que possamos revisar seus arquivos

e seu registro de chamadas. -Utilizou o scroll para seguir lendo-. Hummm. -Leu-o em silêncio e logo
o explicou ao Wíll-. Vale, bom, isto é algo que poderíamos utilizar

contra o porteiro. Havia um rastro parcial no cabo da porta da saída de emergências do apartamento
de cobertura, de um polegar direito.

Wíll sabia que Faith se passou a maior parte de na tarde anterior penteando o edifício da Anna
Lindsey.

-Como se acessa às escadas?

-Do vestíbulo e do apartamento de cobertura -disse Faith enquanto lia o seguinte parágrafo-. Na
escada de incêndios que desce pela parede do edifício havia

outro rastro que coincide com a da porta. Enviaram-na à polícia de Michigan para que a comparem
com seus base de dados. Se o irmão do Pauline está fichado, saltará.

E se conseguirmos um nome, já temos a metade do caminho feito.

-Deveríamos comprovar os tickets de estacionamento da zona. No Buckhead não se pode


estacionar em qualquer parte. Em seguida lhe põem uma multa.

-Boa idéia -disse Faith, abrindo seu correio para enviar uma petição-. Pedirei também os tickets
de estacionamento ao redor das zonas nas que desapareceram

todas as vítimas.

-Ao Filho do Sam o agarraram graças a um ticket de estacionamento.

Faith ficou a teclar.

-Tem que deixar de ver tanta televisão.

-Não tenho muito mais que fazer pelas noites.

Faith lhe olhou as mãos, os arranhões novos.

-Como tirou a Anna Lindsey do edifício? -perguntou Wíll-. Não pode haver a jogado ao ombro e
ter baixado com ela pela escada de incêndios.

Faith enviou o correio antes de responder.

-A porta de emergência está conectada ao alarme. Teria saltado se alguém a tivesse aberto.
Possivelmente a desceu pelo elevador e atravessou o vestíbulo

com ela.

-Poderia perguntar-lhe ao Simkov.

-O porteiro não está em seu posto as vinte e quatro horas do dia -lhe recordou Faith-. O assassino
poderia ter esperado a que Simkov se fora, e então usar
o elevador para baixá-la. supõe-se que Simkov deveria jogar um olho ao portal enquanto não está de
serviço, mas não se esmerava muito em seu trabalho.

-Não havia outro porteiro para lhe dar a substituição?

-Levam seis meses tentando encontrar a alguém. Pelo visto é difícil achar quem quer passar-se oito
horas sentado detrás de um mostrador; razão pela qual

agüentaram tantas coisas ao Simkov. Ele não tinha problema em dobrar o turno quando era
necessário.

-E o que tem que as câmaras de segurança?

-Às vinte e quatro horas começam a sobregrabarse. Exceto as de ontem, que parecem ter
desaparecido.

Amanda se tinha assegurado de que destruíram as imagens nas que Wíll estampava a cara do
Simkov contra o mostrador.

Wíll se sentia culpado, mas perguntou:

-encontrastes algo no apartamento do Simkov?

-Pusemo-lo patas acima. Conduz um velho Monte Carlo que perde azeite por toda parte e não
encontramos nenhum recibo que indique que tenha um trastero alugado

nem nada parecido.

-Estamos seguros de que não é o irmão do Pauline.

-Obcecamo-nos tanto com isso que não vimos nada mais.

-Muito bem, pois vamos tirar o irmão da equação. O que me diz do Simkov?

-Não é muito preparado. me entenda, não é que seja idiota, mas nosso assassino está escolhendo a
mulheres às que deseja vencer. Tampouco digo que nosso

homem seja um gênio, mas sim um caçador. Simkov é um gilipollas bastante patético que guarda
revistas porno debaixo do colchão e deixa que as putas a chupem para

subir aos apartamentos vazios.

-Nunca foste muito partidária dos perfis.

-Tem razão, mas esta vez não temos muito mais. vamos falar de nosso homem -disse Faith, algo
que normalmente estava acostumado a fazer Wíll-. Que classe
de tipo é nosso assassino?

-Preparado -admitiu Wíll-. Provavelmente trabalha para uma mulher dominante, ou há alguma
mulher dominante em sua vida.

-Isso hoje em dia inclui a virtualmente todos os homens do planeta.

-me vais contar isso.

Faith sorriu, tomando-se aquilo como uma brincadeira.

-Que classe de trabalho tem?

-Um que lhe permite levar uma existência por debaixo do radar. Tem um horário flexível. Vigiar a
essas mulheres, inteirar-se de quais são seus costumes,

leva muito tempo. Deve ter um trabalho que lhe permite ir e vir a seu desejo.

-Nos façamos a mesma pergunta estúpida e aborrecida uma vez mais: e as mulheres? o que têm em
comum?

-Esse cilindro da anorexia e a bulimia.

-O chat. Mas, naturalmente, nem sequer o FBI é capaz de av