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O

Despertar
Da
Espécie
Marcia Rubim
Série
ADEUS À
HUMANIDADE
Índice
Prólogo
Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Seis
Sete
Oito
Nove
Dez
Onze
Doze
Treze
Catorze
Quinze
Dezesseis
Dezessete
Dezoito
Dezenove
Vinte
Vinte e um
Vinte e dois
Vinte e três
Vinte e quatro
Vinte e cinco
Vinte e seis
Epílogo
Prólogo

Às vezes, a resposta está ali, diante do próprio nariz, e não conseguimos
enxergá-la porque os sentimentos nos cegam. Acredito que seja exatamente por
isso que Deus nos tenha dado o direito de termos verdadeiros amigos. Para que
eles, através de olhos imparciais, coloquem-nos novamente nos trilhos e não nos
deixem descarrilar no meio do caminho, chegando, assim, ao nosso destino
fortalecidos, prontos para a próxima viagem.
Parte I
Um

— Um, dois, três e já!


Esse foi o início de mais uma das guerras do dia.
De um lado do campo de batalha ficaram as mulheres, ou seja, Vitória e eu.
Do outro, Richard e Rico — apelido que demos ao pequeno Richard para não
dar confusões na hora de chamá-los. O objetivo: ficar o máximo de tempo sem
piscar os olhos. O prêmio da equipe vencedora seria a escolha do destino do
passeio no fim de semana. Os homens votaram em pescar num hotel fazenda,
com direito a campo de futebol, e nós, passear em algum lugar praiano depois
que o sol caísse.
— Mãe, o Rico piscou! — denunciou Vitória.
— Não pisquei, não! — reclamou ele.
— Rico! — repreendi-o. — O que é que nós falamos sobre mentir?
— Tá bom, mãe. Já entendi... — rendeu-se. — Mas a Vitória acabou de piscar,
e o papai ainda é o melhor! — gabou-se.
— Ah, é? — Dei um sorriso malicioso para o meu marido. — Não tenho tanta
certeza disso. Ainda estou no páreo.
— É o que veremos, amor — disse Richard, aceitando a provocação.
Como ele mesmo mencionou havia tempos, na guerra vale tudo. E, já que não
estipulamos regras antes, resolvi fazer um ataque em surdina. Sabia exatamente
o que o desestabilizaria, então apenas levantei a palma da minha mão aquecida e
a encostei no seu pescoço. Isso foi o suficiente para que a atenção dele se
desviasse para outros pensamentos e acabasse piscando.
— Golpe baixo, bruxinha — acusou-me ele, mordendo o próprio lábio e
varrendo com seus olhos violáceos a ligeira transparência exibida pela minha
camiseta verde.
— Ah, não! O que a mamãe fez, pai? — lamentou Rico.
— Ela só colocou a mão no pescoço dele. Isso vale! — defendeu-me Vitória.
— Não vale, não! — resmungou meu filho.
— Que tal se fôssemos a um parque de diversões, então? Assim daria empate
— sugeriu Richard, querendo apaziguar.
— Eba! — As crianças pularam no nosso colo, completamente felizes com a
troca.
A alegria dos meus filhos era contagiante, ecoava pelos quatro cantos da casa.
Entretanto, não mais estampada do que a satisfação que o rosto de Richard
denunciava o tempo inteiro. Se antes já se sentia feliz, o que dirá depois que as
crianças nasceram, formando a própria família e perpetuando através delas parte
da sua história. Essa felicidade transbordava cada vez que ele os ouvia o
chamando de pai. Parecia até que escutava uma sinfonia...
E a primeira a chamá-lo assim foi a Vitória. Richard ficou tão emocionado que
a pedia para repetir essa palavra sem parar, arremessando-a para cima como
prêmio quando ela satisfazia a sua vontade. Imagine só... Vitória ficou falando
“papai” dia e noite só para ter o prazer de voar.
Rico demorou um pouco mais para falar, mas, depois que aprendeu, só Jesus
para fazê-lo se calar.
— Acho que vou colocar um filminho para acalmar esses dois. — Levantei da
poltrona e saquei de uma gaveta o DVD com o desenho do Pinóquio, que eles
adoravam.
As crianças se deitaram em uma das poltronas para assistir, enquanto me
aconcheguei no peito do meu marido na outra, esperando que aquela euforia
deles abaixasse para logo após levá-los para cama.
— Nossos filhos são lindos, não são? — admirou Richard.
— São, sim. E porque puxaram ao pai deles — salientei, fazendo um carinho
na sua nuca.
— Negativo. Eles se parecem demais com você. — Arrastou a asa do nariz
próxima à minha orelha.
— Estamos conseguindo. Mesmo com todas as dificuldades e mudanças de
país, encontramos uma maneira de criá-los. Isso é incrível, não é?
— É extraordinário — concordou, pensativo.
— Olhe só que gracinha! — foi a vez da mamãe coruja aqui se pronunciar,
falando baixinho. — O Rico deixa a Vitória deitar a cabeça no ombro dele, como
você faz comigo.
— Eles são crianças felizes. E aprenderam a gostar um do outro como todos
os irmãos deveriam ser.
— O que eu acho engraçado é que ele cuida da Vitória como se fosse
obrigação natural. Você não tem nada a ver com isso, tem? — desconfiei.
Richard disfarçou um sorriso torto e tentou obstruir a minha mente,
pressionando o lábio aquecido na curvatura do meu queixo. Pela maneira como
se portava, tive certeza de que acabara de descobrir o seu mais novo segredo.
— Richard...? — pressionei-o.
— Não custa nada ter uma ajudinha extra — revelou. — Não tenho como
vigiar a minha filha o tempo todo, então...
— Vigiar a Vitória? Mas ela só tem sete aninhos!
— Sim, mas a garotada de hoje não é como a do meu tempo.
— Enquanto ela tiver essa idade, vai aceitar isso numa boa. Só procure não
exagerar na vigilância para não deixar a sua filha sufocada.
— Ok, mais tarde penso nisso — esquivou-se, afastando com os dedos os
cabelos gigantescos que atrapalhavam sua boca de alcançar o meu pescoço.
— Pai, quer brincar de adedonha comigo? — Rico apareceu do nada na nossa

frente.
— Você não estava vendo o desenho? — indagou Richard.
— Tava, mas Pinóquio eu já vi um montão de vezes e... — Parou por uns
instantes para observar o pai. — Ah, não! Já tá na hora de dormir? — Fez uma
expressão chateada.
— Como você adivinhou que eu iria mandar os dois para a cama agora? —
estranhei.
— Fácil, né, mãe? Toda vez que o olho do papai fica preto, ele diz que tá na
hora de dormir — resmungou e retornou para chamar a irmã.
Richard e eu nos entreolhamos, espantados, e acabamos soltando uma breve
risada. Na verdade, não sabíamos se era motivo para rir ou ficarmos
preocupados. Eles cresciam rápido e cada vez nos observavam mais. Não
demoraria muito para que chegasse a hora em que iriam indagar o significado de
muitas coisas.
— Ensinou isso a ele também? — perguntei ao meu marido.
— Não. O meu filho é inteligente. Aprendeu por pura observação — gabou-
se.
— Só quero ver a sua cara quando o danadinho começar a perguntar por que é
que ele tem que ir dormir quando o papai dele fica desse jeito...
— Se for com essa idade, vou dizer que o papai precisa ter uma conversa
muuuuito séria com a mamãe dele. — Mordiscou o meu lábio, presunçoso.
— Conversa...
Ele chegou próximo ao meu ouvido para murmurar:
— É um diálogo com poucas palavras, mas digo muita coisa quando fico
mudo. Tanto que você acaba sempre querendo conversar mais um pouco...
Bomba. A essa altura, ele já havia conseguido desarmar toda a minha tropa,
como se tivesse lançado algum tipo de arma química.
E que química...
Apenas consegui, em meio àquela nuvem de fumaça sensual que quase me
deixou sem ar, levantar o dedo e apontar na direção do meu filho para mostrar a
arte que a cópia dele tentava fazer: queria levar a Vitória no colo; a irmã já havia
apagado de sono no sofá. Também, depois do tanto que brincaram...
— Pode deixar que o papai leva a Vitória, filhão — prontificou-se Richard,
aninhando-a nos braços. — Ela ainda é muito pesada para você.
— Queria ficar forte assim, igualzinho a você, pai! — exclamou Rico.
— Por quê? Quer carregar a sua irmã no colo, como o papai? — estranhei o
seu modo de falar.
— Também. Mas eu queria mesmo era dar um socão no olho do Damien. Só
que ele é maior do que eu — confessou, fechando o punho no ar.
— Você não precisa usar a violência para resolver as coisas, Rico. Nós já
conversamos sobre isso — adverti.
— É, mas ele é diferente.
— Diferente como? O que esse menino fez para você ficar assim, com tanta
raiva? — interrogou Richard, subindo as escadas.
— Ele fica olhando e dizendo para todo mundo na escola que a Vitória é
namorada dele.
— O quê? — Estacionou meu marido no meio do caminho.
— Sete anos, Richard. É coisa de criança — relembrei-o num sussurro.
Ele inspirou fundo e observou a nossa filha nos braços, dormindo
serenamente. Ficou completamente mudo, porém eu podia ouvir de longe o seu
desespero interno que gritava: “Não, a minha filha não”!
— E o que a sua irmã acha disso, Rico? — perguntou seu pai em tom mais
casual, tornando a subir os degraus, fingindo não dar tanta importância ao
assunto.
— Ela faz uma careta assim... — Pôs a língua para fora, fazendo cara de nojo,
imitando sua voz em seguida: — Eca!
Tenho certeza de que já vi essa história em algum lugar, só não lembro onde
— zombei de mim mesma.
Aliviado com a resposta do filho, Richard voltou a falar, enquanto deitava a
Vitória na cama e a cobria carinhosamente com uma coberta:
— Não se importe com o que ele diz. E olhar também não tira pedaço. Ele só
não pode ficar... agarrando, beijando à força, enfim, fazendo qualquer coisa que
a sua irmã não queira.
— Olhar pode? — Torceu Rico o nariz, fitando o pai.
— Pode — respondeu Richard, como se na verdade estivesse dizendo: “Fazer
o quê? Não tenho como impedir...”.
— E ficar dizendo que ela é a mais bonita da escola também? De toda a
Califórnia? Do mundo? — Arqueou a sobrancelha.
— Isso também pode.
— Ah, tá... Então vou parar de fazer cara feia para o diretor Stanley. — Meu
filho se enfiou por baixo das cobertas da sua cama.
— E por que você fez cara feia para o diretor da sua escola? — desconfiou.
— Porque eu ouvi quando ele disse baixinho para o Sr. Flirt que a minha mãe
era a mulher mais linda que ele já viu.
Pronto.
Juro que eu podia enxergar uma fumacinha negra saindo da cabeça do meu
marido. Acabara de concordar com uma coisa e se achava preso pela própria
teia.
— Posso saber o que esse... Sr. Flirt respondeu? — Richard falava com os
dentes trincados. — Aliás, quem é esse cara? — Seus dedos tamborilavam
impacientes no beiral da cama.
— O Sr. Flirt é o meu professor de Educação Física. Tem o maior mucão,
você precisa ver. É deste tamanho! — exacerbou, flexionando os bíceps. —
Parece até o Hércules do desenho!
— Certo... — Respirou fundo por reflexo, antes de continuar — Mas ainda
não respondeu o que o papai perguntou. O que foi que ele disse?
— Ele não disse nada. Só tirou os óculos e ficou olhando a mamãe assim, ó...
— Encenou Rico, arregalando os olhos e fazendo um bico nos lábios, no maior
estilo “wow”.
— Hmmm, hmm... — Pigarreou, sem conseguir mais disfarçar o
descontentamento. — Vou levar vocês dois para a escola amanhã.
— Não pode.
— Por que não? — Cruzou Richard os braços.
— O bilhete que eu recebi diz que é a mamãe que tem que me levar.
— Que bilhete, Rico? — Richard já começava a perder a paciência.
— Pai, você não vai brigar comigo, vai? — Encolheu-se, quase se escondendo
por baixo do lençol.
— Vou brigar se não me falar a verdade.
Rico colocou a unha do polegar entre os dentes, preocupado com a reação do
pai.
— Fiquei com medo de que o inspetor Armand visse que eu tava com um
chicletão na boca dentro da sala, aí joguei o bolão pela janela...
— E...?
— Eu não olhei para baixo, pai. Juro. — Uniu as duas mãozinhas, como se
estivesse rezando.
Richard apenas ficou aguardando pelo desfecho da tragédia.
— Caiu no cabelo da Sra. Fox e grudou — confessou. — Ela ficou furiosa
comigo, porque, para tirar o bolão, precisou cortar o cabelo de um lado só. Ficou
esquisitão! — Tentou conter o riso, tapando a boca. — Eu pedi desculpas, pai.
Falei a verdade, que fui eu, mas ela reclamou com o diretor, e o Sr. Stanley disse
que a minha mãe tinha que falar com ele amanhã.
Sabia que Rico precisava ser repreendido, embora secretamente tivesse que
confessar que a sua história me soasse bastante engraçada. A tal senhora Heather
Fox tinha cara de corvo empalhado. Ranzinza, a mulher possuía um nariz
grande, em formato de bico de papagaio, e andava curvada o tempo inteiro. Sabe
essas pessoas que se vestem de preto diariamente sem nunca terem sido viúvas?
Ficava bem imaginando como teria mudado o seu cabelo depois daquela arte.
Suspeitava até que melhoraria, já que seria obrigada a cortá-lo com um
profissional e deixar de usar eternamente aquele coque no alto da cabeça. Rico,
pelo que me constava, herdou do pai até mesmo as peraltices juvenis.
— Pode dizer a ele que a mamãe vai sim, só que acompanhada pelo seu pai.
— Richard deu beijo impaciente de boa-noite na testa do filho e se levantou em
direção à porta. — Ah! Não se esqueça de amanhã me apresentar o seu professor
de educação física. Tenho umas... dúvidas esportivas para tirar com ele. E me
faça o favor de lembrar que chiclete não se joga pela janela, e sim na lixeira.
— Tá bom, pai...
— Boa noite, amorzinho — despedi-me também, afagando os meus filhos. —
Não se esqueça de agradecer ao Papai do céu pelo seu dia e pedir desculpas pelo
“bolão”.
Richard se retirou do quarto ao meu lado, quase grunhindo.
— Posso saber o que significa essa fúria toda? — indaguei-o.
Doze anos se passaram desde que nos casamos, e nada mudou. Até parece que
eu conseguiria me encantar por outro ser que não fosse ele... O problema é que a
paixão vampiresca era assim mesmo: a chama não acabava nunca, e só o que ela
fazia era cada vez mais inflamar em progressão geométrica. Ele intimamente
tinha certeza da infinitude dos meus sentimentos, mas achava que os outros
tinham que perceber isso também. Tal como aconteceu com o nosso filho,
contive o impulso de rir da cara azeda que Richard fazia.
— Zelo — sua resposta foi curta e grossa.
— Sabe muito bem que não precisa se preocupar com isso. Posso hipnotizá-
los sozinha.
— Eu vou — bateu ele o martelo, como numa sentença, reparando que eu o
abraçava pelas costas.
— Ficou com ciúme, amor?
— Você sabe. — A tensão na voz era evidente. — Eu me controlo, mas...
— Mas o quê, Richard?
Ele soltou o ar dos pulmões com lentidão, uma manobra visível para se frear.
— Uma coisa é fingir que não vejo que um ou outro admira a minha esposa.
Sei muito bem que não há como não olhar para você, não sou burro. Por vezes, é
até um motivo de orgulho, saber que conquistei alguém tão desejado. Só que
enxergar que isso foi capaz de incomodar até o meu filho, uma criança, é um
sinal de que andam extrapolando, não acha? Além disso, a nossa espécie é
possessiva, não há como evitar — resmungou e se virou de frente. — Você é
minha, Stephanie. Minha — repetiu. — E vão ficar sabendo disso amanhã,
querendo eles ou não.
Fiquei parada alguns segundos, observando o jeito como ele não conseguia
esconder o que sentia.
Como é que pude atrair um amor tão forte quanto esse? — refleti.
Logo eu, que sempre pensei que nunca me casaria ou iria me apaixonar, por
me achar tão vazia...
E, de uma hora para outra, estava ali, tão repleta daquele amor que julgava
incoerente ou totalmente sem importância qualquer mínima aproximação por
parte dos outros. Richard poderia fazer o que quisesse: exacerbar seus defeitos,
soltar fogo pelas ventas ou até virar um temível monstro sanguinário. A única
verdade é que, a cada dia que passava, mais louca por ele ficava. E nada mudaria
essa condição.
Absolutamente nada.
— Ok. Acho melhor termos essa conversa no nosso quarto. Se continuar
falando alto assim, do corredor, vai acabar deixando o seu filho preocupado —
murmurei, conduzindo-o pelo braço.
Logo que tranquei a porta, analisei o seu cenho franzido por instantes e resolvi
mudar de tática. Decididamente, ficar discutindo não adiantaria nada. Tracionei a
cabeça dele com uma das mãos, atacando ferozmente a sua boca, enquanto a
outra o empurrava contra a parede, sem a mínima piedade. Ele foi surpreendido
pela minha atitude inesperada e não teve saída, a não ser corresponder da mesma
forma. Fiz tanta pressão contra o seu corpo que viemos deslizando por toda a
superfície plana até praticamente despencarmos no chão do nosso quarto,
totalmente emaranhados. Desabotoei a sua camisa e comecei a beijar aquele
peito largo.
— Pensei ter ouvido você dizer que queria conversar... — gemeu ele, febril,
recebendo uma leve mordiscada no cangote.
— Eu estou conversando. Na verdade, tendo uma discussão daquelas com
você. — Prendi os braços dele no alto da cabeça, observando com fascínio a
mudança de cor em seus olhos. — Só que também respondo melhor quando fico
calada.
— Nossa! — arfou. — Depois dessa, não consigo entender por que os
humanos não gostam de discutir relação. Tem coisa melhor no mundo?
— Não se faça de desentendido, Richard. Sabe muito bem o que eu quis dizer
com isso.
— É algo do tipo: “Eu sou sua e ponto-final”? — Seus olhos enegrecidos
faiscaram.
— Vejo que a sua percepção anda afiada. Mas prefiro dar a resposta mudinha
da Silva, quer ver? — murmurei entre os seus lábios.
— Mal posso esperar. Só que, antes de me responder, queria falar só uma
coisinha...
— Fala logo, antes que eu cale você pelo resto da noite — ameacei.
Ele ergueu a cabeça para sussurrar ao meu ouvido:
— Eu vou com você na escola deles amanhã e ponto-final. — Piscou o olho e
fez questão de calar, ele mesmo, a minha boca, captando o protesto com um
beijo apaixonado.
Dois

— Pai, do que você tá rindo? — indagou Rico durante o café da manhã.


— Eu? Nem percebi...
Pelo súbito desconcerto diante do filho, eu daria a cara a tapa se Richard não
relembrava a nossa conversa do dia anterior. E o olhar que ele me lançou em
seguida confirmou a suspeita. Não conseguia esconder o quanto adorava inverter
o papel de caçador implacável e se tornar o refém rendido.
— Tá, pai! Tá rindo sem mostrar os dentes. Assim... — imitou Vitória,
esticando os lábios sem abrir a boca.
— Não... — perdeu ele a linha de raciocínio. — Estava apenas me lembrando
de uma... discussão... que tive com a sua mãe ontem à noite.
Discussão? Como pode alguém discutir e achar graça no dia seguinte?
— Richard! — critiquei num murmúrio.
Não querer mentir para os filhos, tudo bem, mas assim também já era
demais...
— Você brigou com a mamãe? — perguntou Rico.
— Não, né, Rico? O papai nunca briga com a mamãe — desdenhou Vitória,
convicta.
Estava demorando. Com crianças na fase dos “porquês”, não deixariam passar
nada pelo crivo.
— A mãe de vocês é que gosta de brigar comigo — brincou Richard, no
intuito de me irritar.
— Eu? Brigando com você? — Comecei a passar a manteiga no pão dos
meninos com mais força.
— Você fez besteira, pai?
— A mamãe te botou de castigo?
Os meninos não paravam de fazer perguntas, enquanto Richard somente ria da
minha expressão enfezada.
— Devo ter feito alguma besteira sim, olhem só para a cara dela... — implicou
meu marido.
— Richard, você quer que eu realmente coloque você de castigo, igualzinho
aos seus filhos? — ameacei entredentes, quase derrubando a embalagem de leite
inteira na mesa.
— Não, mas, se me puser, aceito sem reclamar. — Tremulou as sobrancelhas
como se dissesse “oba”.
Vitória estranhou.
— Ela pode fazer isso?
— Ô, se pode... — encenou Richard apreensão.
— Nunca vi o papai de castigo. Você fica sem poder jogar bola também? —
quis saber Rico, cravando um olhar duvidoso no pai.
— Não exatamente.
— Então a mamãe deve proibir o papai de ler os livros de médico dele —
presumiu Vitória.
— Isso não é castigo! — contestou o irmão.
— É sim, eu gosto de ler! — revidou ela.
— Ah, se for assim, também quero esse, pra não abrir o livro e ter que fazer o
dever de casa...
— O seu castigo tinha que ser não poder reclamar de nada ou parar de falar —
implicou Vitória, rindo.
— E o seu, ficar a noite inteirinha sem dormir. — Rico pôs a língua para fora.
— Assim não vale! E quem põe a mamãe de castigo se ela fizer bobeira?
— A vovó, né? Dããã...
— O castigo do papai deve ser não poder namorar a mamãe — concluiu
minha filha.
— Psiuuu! — repreendeu Richard, falando baixinho. — Vitty, você está
contra o papai? Quer que a sua mãe ouça? Assim já é tortura!
— Então fala, pai. Qual é o seu castigo? — ela questionou, curiosa.
— Sua mãe... me prende no quarto por muitas horas, sem poder falar uma
palavrinha, muito menos dormir — dramatizou.
Mas que filho da mãe! Encontrou a resposta nos próprios receios dos filhos,
sem mentir, e, de quebra, conseguia me atingir com aquele dardo malicioso.
Jogada de mestre.
— Tadinho, mãe! — defendeu-o Vitória. — Não bota o papai de castigo, ele
ama você.
— É, por favor... — implorou Rico.
Depois disso, eu ficaria com a fama de malvada diante das crianças, como a
bruxinha que ele insistia a vida inteira em me chamar. Diante do sucesso
eminente, Richard se levantou da mesa, exibindo aquele olhar zombeteiro.
— Filho, presta atenção agora porque vou lhe ensinar como se livrar da
punição quando você se casar com o amor da sua vida.
Lá vem besteira...
— Você agarra a sua esposa pela cintura assim — deu-me um tranco —, chega
beeem pertinho dela e... — Atacou-me com milhões de beijinhos aleatórios, até
que eu começasse a rir.
As crianças também caíram na gargalhada com todo aquele teatro, e ele, antes
de fazer a retirada triunfal e receber os aplausos, sussurrou ao meu ouvido um
“adorei a noite de ontem”.
— Estou perdoado? — Fez ele cara de anjo.
Não aceitei de cara para que meus filhos não pensassem que seria tão fácil
assim.
— Vou pensar com carinho no seu caso, ok? Agora acho melhor os dois se
apressarem, ou chegarão atrasados à escola.
Essa passou a ser a minha nova rotina.
Mudamos havia praticamente cinco anos para os Estados Unidos, sendo a
nossa última moradia estabelecida numa cidade pequena da Califórnia, colada a
Los Angeles. Tentamos viver antes em Toronto, Canadá, mas as crianças não se
adaptaram bem ao frio intenso da cidade. Para Richard e eu, o clima gelado não
nos afetava de forma alguma, pelo contrário, trazia até algumas vantagens, como
poder andar mais expostos na rua devido à pouca incidência do sol.
No entanto, desde que Rico e Vitória nasceram, nossa prioridade número um
passou a girar em torno deles, em prol de um crescimento humano saudável, ou
quase isso, já que possuíam genes latentes vampirescos até então inativos. Não
sabíamos se as crianças viriam a ser como nós algum dia, e essa dúvida, por
mais que tentássemos esquecer, rodeava-nos como um tormento constante.
Na verdade, as várias opções relativas ao destino deles eram perturbadoras.
Se continuassem humanos, ficariam mais velhos que os próprios pais e
inevitavelmente morreriam algum dia, hipótese tão sofrível quanto inimaginável
para quem tem uma vida eterna pela frente. Por outro lado, se a genética
vampiresca florescesse neles antes da fase adulta, seríamos responsáveis por
gerar seres infelizes presos para sempre num corpo infantil. Havia probabilidade
mais terrível no mundo?
Só de pensar numa coisa dessas, meu coração gelado doía!
Ainda assim, mesmo que se transformassem apenas quando adultos, não
diminuiria tanto a nossa preocupação. De qualquer forma, seriam obrigados a
enfrentar o preconceito e o medo por parte dos humanos. Não era qualquer um
que aceitaria se relacionar com alguém como nós, por mais atrativos visualmente
que fôssemos. Precisava amar muito...
E as dificuldades não paravam por aí.
Desde pequenos, nunca foi muito fácil driblar as nossas diferenças. Os
meninos sabiam tudo sobre nós, e os instruíamos ao máximo para que não
dessem com a língua nos dentes. Richard preferiu contar a verdade sobre a nossa
espécie desde o início para que pudéssemos viver sempre com a consciência
plena e aliviada.
O problema era que havia momentos em que isso se tornava praticamente
impossível por conta da própria ingenuidade infantil. De vez em quando, mesmo
que não intencionalmente, as crianças davam alguma bandeira. E, em
decorrência desse fato, antes que as pessoas começassem a desconfiar,
transferências de cidade se fizeram necessárias, tornando-se cada vez mais
frequentes. Desde que saímos do Brasil, já havíamos mudado seis vezes, sendo
que quatro nos últimos dois anos.
Richard passou a trabalhar num sistema de plantões com menor carga horária,
justamente para dar a atenção que ele considerava imprescindível aos nossos
filhos. Eu parei temporariamente, até que eles crescessem um pouco mais. Não
havia como deixar os meninos com babás ou empregadas numa casa de
vampiros. Para complicar, o tempo estimado entre idas e vindas da escola era
curto, e, como me disponibilizava a levá-los todos os dias e a enfrentar a
claridade da manhã — mesmo que por pouco tempo —, literalmente me arrasava
fisicamente até o início da tarde, quando por mais uma vez me exporia,
principalmente se eles tivessem alguma atividade extraclasse, como balé ou
natação.
Apesar disso, eu enfrentava tudo numa boa. Meus filhos eram sempre uma
boa causa. Sempre seriam.
— E aí, terminaram? — impulsionei-os, ou não sairiam nunca de casa.
Diante da afirmativa, mandei que fossem escovar os dentes, pegar as mochilas
e entrar no carro, enquanto eu recolhia a mesa do café da manhã. Ao procurar
pela chave do veículo, reparei que ela não mais se encontrava no chaveiro, e sim
nas mãos do meu marido, que nos aguardava na porta de entrada.
— Continua determinado — constatei.
— Nem imagina o quanto — disfarçou Richard, dando-se conta de que os
meninos retornavam.
Suspirei e segui em frente.
Não via muito sentido nisso. Após certo tempo, o assédio já nem me
incomodava mais. Por vezes, sequer notava o interesse dos outros homens; o
único ser que me interessava ou fazia com que eu tremesse a cada olhar era
intitulado como meu sob todos os aspectos, seja pelos laços do amor, seja pelas
conveniências da sociedade. Assim sendo, a convivência com os humanos
acontecia de forma meramente circunstancial: antes, por motivos de trabalho, e
depois, pelos meus filhos. Não me esquecendo, obviamente, dos poucos parentes
e amigos.
Ao chegarmos diante da escola, desci na frente com as crianças para que elas
não se atrasassem enquanto Richard estacionava o carro numa vaga de visitantes
que encontrou à sombra. De cara, assim que ele pressentiu os olhares
especulativos ao meu redor, posicionou-se de modo a me envolver pela cintura e
marcar presença. Como se eu não notasse o furor que o meu vampiro causava
nas mamães casadas ou não que aparecessem pelo seu caminho...
— Por favor, nós gostaríamos de falar com o diretor Stanley — solicitou meu
marido na secretaria da escola.
— Quem gostaria? — A recepcionista arregalou os olhos, mais denotando não
acreditar no monumento que enxergava diante de si.
— Sr. e Sra. Hacket, pais dos alunos Richard e Vitória Wernyeck Hacket.
Ela se esticou de leve e literalmente murchou quando me viu.
— Um momento, por favor.
A pobre levantou-se da cadeira quase cambaleando. Quem a visse pensaria até
que bebeu antes de ir para o trabalho. Tal comportamento não me surpreendia,
não mesmo. Já presenciei aquela cena diversas vezes, de cor e salteado. Era
como repetir o último capítulo de uma novela todo santo dia...
Retornando ao seu posto, a funcionária deslumbrada veio acompanhada por
outra colega a tiracolo. Pelo visto, removeu o lenço colorido que tapava seu
pescoço, entreabriu um pouco a blusa de botões e realçou os lábios num batom
cor-de-rosa. Sentou-se calmamente, cruzando as pernas de lado e informou:
— Sr. Hacket, o diretor Stanley está numa reunião com alguns professores
agora.
Richard franziu o cenho, desconfiado. Acabara de notar a cabeça do diretor o
observando através do pequeno quadrado de vidro da porta da sua sala.
— Algum problema se eu esperar até que acabe essa... reunião? — insistiu. —
Afinal, viemos aqui a pedido dele.
— Não, absolutamente. — A jovem se animou com a probabilidade,
beliscando discretamente a outra. — Só não posso garantir o horário do término.
— Acha então que o diretor vai demorar?
— Possivelmente — ronronou.
Senhor, dai-me paciência! — roguei.
— Bem, já que é assim, não se incomodaria se eu desse uma olhada geral no
estabelecimento para fazer hora, não é, senhorita?
— Fique à vontade. Se precisar de uma guia... — ela se ofereceu, fazendo
questão de reduzir o espaço entre eles.
— Não vejo necessidade. Minha esposa conhece muito bem a escola —
respondeu sério. — Vamos, amor? — E ele me estendeu a mão para sairmos da
secretaria.
Não consegui esconder meu deleite diante da sua conduta.
— Defendeu bem a minha propriedade, gostei de ver... — ironizei num
sussurro ao seu ouvido, assim que seguimos rumo ao pátio.
— Não entendi.
— É claro que entendeu, Richard — brinquei, observando como se
desconcertou.
— E isso não a incomoda? — instigou, abrindo a guarda. — Se fosse o
contrário me irritaria, e muito.
— Depende.
— Depende? Quer dizer que se ela me convidasse para tomar um chope,
estaria tudo certo?
— Quem faz esse tipo de convite é a brasileira, não a americana — debochei.
— Ok, engraçadinha. Então ela resolveu me convidar para tomar um vinho
californiano — especificou.
— Ela pode até convidar, o problema é você aceitar.
Richard revirou os olhos em desgosto.
— Pensei que o meu valor no câmbio negro fosse bem mais elevado...
— Eu é que tenho um limiar de tolerância relativamente alto. Convivo com
essa dura realidade muito antes do que você imagina. Não faz a mínima ideia das
besteiras que já ouvi das suas fãs do hospital de São Paulo.
— Que tipo de besteiras? — fingiu interesse.
Deu para perceber o sorrisinho que ele tentava mascarar por trás daquela cara
de desentendido. Decidiu que iria me tirar do sério a todo custo, iniciando uma
guerra fria.
— As piores possíveis — respondi, evasiva.
— Agora fiquei curioso. Quero saber o que as minhas “fãs do hospital”
falavam de mim.
Ugh! Isso me fez lembrar o comentário de uma das enfermeiras, que dizia que
Richard nem precisaria sorrir, desde que ela pudesse levá-lo para casa, dando um
jeito nele. Engoli em seco antes de prosseguir.
— Não quero falar. Você vai ficar muito convencido.
— Creio que não. Quem me interessa de verdade não se importa mesmo... —
Analisou-me de rabo de olho, interrompendo apenas quando nos deparamos com
o ginásio esportivo.
— Se estiver se referindo a mim, eu me importo, sim, apenas procuro não me
deixar levar por certos comentários para não pirar de vez.
— E algum comentário já conseguiu tirar você do sério?
Ele minava meu ponto fraco. Mais um pouco e a minha derrota seria
fulminante.
— Vitória e Rico devem estar fazendo educação física neste horário. Quer dar
uma olhada neles? — forcei a mudança de assunto. Neste caso, recuar parecia
ser a opção mais indicada.
— Claro, mas não sem antes obter a minha resposta.
Farejou uma vitória fácil, só pode ser...
— Se formos por este lado da marquise, o sol não nos atinge — novamente
desconversei.
Ele me travou pelo pulso para me forçar a falar.
— Stephanie...
— Sim, Richard, conseguiu — admiti num resmungo, indicando por tabela o
local que oferecia uma melhor visibilidade da quadra. — Não sou essa fortaleza
que você imagina.
— É tão ruim assim que você não pode me dizer?
Respirei fundo. Não gostava de remoer situações antigas, mas fazer o quê?
Apenas me sentei antes numa posição central na arquibancada, de modo que
fosse possível encontrar e observar os meus filhos.
— Depois de ouvir meia dúzia de mulheres ensandecidas fazerem planos
mirabolantes para conquistar você, fiquei arrasada quando me disseram que a
sua namorava era uma Bond girl e que, do jeito que Ava era bonita, nenhuma
humana seria capaz de fazer frente. Por causa disso, perdi a fome pelo resto do
dia. Satisfeito?
Nem era necessário fazer aquela pergunta, dava para ver claramente que a
resposta o agradou.
— As minhas ações começaram a subir na bolsa de valores... O que foi que
você disse a elas? — Seu oceano azul brilhou com intensidade.
— Que você fizesse bom proveito da sua namorada.
Bomba!
— Por causa de uma fofoca infundada no mercado, o meu índice caiu de uma
hora para outra? Não fui contemplado nem com um planozinho de conquista da
mulher que dizia que gostava de mim? — encenou decepção.
— Você para mim não era acessível, e eu não queria sonhar com o impossível
para depois ficar sofrendo. Estava mais para poupança do que para bolsa de
valores.
— Os melhores acionistas são aqueles que arriscam. Se tivesse investido um
pouquinho que fosse, eu não teria resistido tanto tempo... Talvez nem um mísero
dia — confessou.
— Engano seu. Os melhores investidores são aqueles que estudam o mercado.
Se não há possibilidade de lucro, é melhor não arriscar.
— Discordo. Arrisquei tudo e desbanquei a bolsa. Saí de lá o cara mais rico
do planeta. Nem o Bill Gates conseguiu tamanha façanha — declarou com
orgulho, já cantando vitória.
— Pois eu me saí melhor ainda, seu bobo. Mesmo não apostando
absolutamente nada, levei o prêmio todo para mim.
Ahá! Não contava com a última bala no meu fuzil!
— Estou perdido mesmo...
— Mãe! Pai! — O chamado de Vitória interrompeu a nossa conversa.
— Oi, linda! — saudamos juntos.
— Vocês vão ficar me vendo jogar? Tô aprendendo handball hoje...
— Ficaremos aqui um pouco, sim — confirmei.
— Vem ver, pai! — direcionou-o pelo braço, feliz com presença dele.
Descemos um pouco mais da arquibancada para avaliar como a nossa filha se
desenvolvia na atividade física. A criançada corria de um lado para o outro,
ávida por marcar o gol. Num desses movimentos de ataque, acredito que por
estar mais preocupada em não fazer feio na nossa frente, Vitória se desligou do
jogo, desequilibrou-se e caiu de mau jeito, ralando o joelho. A princípio, não
aparentava ser nada de mais. Porém, o simples fato de Richard estar presente no
ambiente fez com que ela ficasse manhosa, não deixando mais ninguém mexer
na ferida.
— Pode deixar que a levo para a enfermaria — ofereceu sua professora,
Norah.
— Ah, não... Quero o meu pai! — choramingou Vitória, num inglês tão
impecável que dava até para me orgulhar numa hora tão imprópria.
— Querida, a enfermeira Megan vai cuidar direitinho do seu machucado, pode
confiar — insistiu Norah.
— Meu pai é melhor. Ele lambe o meu machucado e para de doer na hora!
A mulher o olhou, desconfiada. Richard logo interveio:
— Vitty, de onde você tirou isso? — induziu-a com os olhos, odiando ter que
fazê-la mentir.
— Mas, pai, se você não lamber vai demorar mais para ficar bom! —
reclamou.
— Posso até cuidar do seu machucado se me deixarem usar a enfermaria,
querida. Só que do jeito que você fala, sua professora vai achar que sou um
monstro — insinuou, obrigando-a a desfazer o que disse.
— O senhor? Um monstro? — refutou a mulher. — Imagine...
Dei um longo suspiro e saí de perto para não grunhir.
E depois ele me considerava forte...
Eu tinha era que ser composta de material semelhante ao diamante para
suportar o descaramento de todas as mulheres do universo se derretendo por ele
na minha frente, e sem sentirem o mínimo remorso, isso sim. Acho que fui a
única espécime rara em extinção que se negou a aceitá-lo por pensar que ele já
era comprometido.
Droga! Não ia dar uma de Janet, não mesmo!
Não faria ceninhas infantis de ciúme quando não existia qualquer indício de
que ele desse crédito a qualquer uma dessas mulheres. Apenas precisava admitir
que me manter indiferente ao fato se tornava cada vez mais difícil. Quase
impossível.
Os humanos — não todos, por certo — conseguiam ser infinitamente mais
complacentes e tinham pensamentos bem menos obsessivos. Melhor: aqueles
que fugiam à regra ainda podiam tratar suas fixações através de terapias ou
medicamentos. Mas como tratar um vampiro? Como suprimir algo que fazia
parte da natureza da própria espécie?
Talvez, por isso mesmo, tenhamos sido classificados nos livros e contos como
perversos e maus, pois, se não controlássemos, a sede dominaria o cérebro de
forma implacável, virando uma verdadeira compulsão. E essa necessidade,
embora fosse sempre a mais lembrada, não era o único item passível de tirar um
vampiro do sério. Vários sentimentos seriam capazes, especialmente o ciúme.
Buscando aliviar a mente, varri o local com os olhos à procura do meu filho e
acabei o encontrando no outro canto da quadra, entristecido.
— O que houve, meu amor?
— Não posso jogar. O professor falou que só vai escolher os grandes hoje.
Eu não concordava com esse tipo de filosofia competitiva, mas estava ciente
de que, quando não se mora no país das nossas raízes, somos obrigados a nos
adaptar ao sistema deles. Rico, mesmo sendo incrivelmente parecido com o pai,
aparentava ter herdado a estatura um pouco mais baixa, como a minha. Se bem
que isso muitas vezes não significava absolutamente nada. Juninho, meu irmão,
reclamava por se achar pequeno e ficou praticamente com a mesma estatura que
Richard quando chegou à puberdade. Cada um tem um ritmo de crescimento.
— Pode não se achar grande em tamanho para o basquete, que, aliás, nem
gosto tanto assim — desdenhei —, mas existem milhares de esportes que não
precisam de altura para que você possa demonstrar o quanto é bom, meu filho.
— É, eu sei. No beisebol jogo bem — falou desanimado.
— E, com certeza, alguns dos seus colegas grandões também vão ficar tristes,
porque não jogarão bem como você. A vida é assim mesmo, Rico. Nem sempre é
possível vencer todas as batalhas.
— Não gosto de perder.
— Nem eu. Mas já perdi muuuitas vezes e continuo de pé.
— Quando eu crescer, quero ser um vampiro grande e forte que nem o meu
pai! — resmungou.
— Vampiro? — estranhou o Sr. Flirt, aproximando-se.
Tinha que aparecer alguém justamente naquela hora, não tinha?
— É o apelido que dei ao meu marido, por ser hematologista — justifiquei,
fingindo não dar muita bola para o comentário de Rico.
— Então deve ser por isso que ele não se intimida com o sangue como os
outros alunos... — matutou estranhamente.
— Rico foi acostumado a ver as pesquisas do pai desde cedo.
Olhei de soslaio para o meu filho e me tranquilizei por ele se mostrar disperso
no jogo dos colegas.
— Certo... O que me impressiona, na verdade, é que, além de não ter medo,
ele parece que gosta de mexer com sangue — insistiu o professor.
— É mesmo? Nunca reparei nisso... Será que além de parecer fisicamente
com o pai, também vai seguir a mesma profissão? Chega a ser injusto com a
minha genética! — reverti o máximo que pude a conversa.
— Só me custa acreditar que um hematologista beba sangue...
Era impressão minha ou o paspalho resolveu guerrear comigo também?
— Como é que é? — Dei uma risada. — De onde o senhor tirou essa hipótese
absurda?
— Um dia desses, seu filho falou para os colegas que queria ficar grande para
beber sangue, como o pai.
— Essa é boa! Do jeito que está falando, dá impressão de que somos uma
família de vampiros! — forcei-me a rir novamente. — Da próxima vez, sugiro
que o senhor esteja armado com crucifixos, água benta e um amarrado de alhos
para nos receber!
Nesses casos, o ataque sempre era a melhor defesa.
— Não leva muito a sério as minhas observações, não é Sra. Hacket?
— É para levar, Sr. Flirt? Meu filho tem apenas sete anos! Ainda gosta de se
fantasiar de Super-Homem e de vilões da Disney...
— O que eu quero dizer é que talvez estejam fazendo algo que tenha
impressionado o menino.
— Não creio que tomar uma ou duas taças de vinho tinto na frente de uma
criança seja algo preocupante. Eu mesma na idade dele também dizia que queria
ser uma bruxa quando crescesse e nem por isso saio por aí voando numa
vassoura hoje em dia. Também não me recordo dos meus pais terem sido
chamados à atenção por conta disso.
— O papai chama você de bruxinha — acrescentou Rico, para me complicar a
vida, antes de voltar a ficar absorto com o jogo à sua frente.
— Exatamente, filho. Satisfez o meu sonho juvenil. Quem sabe um dia eu não
consiga aprender também a fazer umas poções mágicas?
— Jamais chamaria alguém como a senhora de bruxa, mesmo que no
diminutivo. Seria uma tremenda incongruência. — Desceu ele os olhos para me
fitar de cima a baixo.
Era só o que me faltava... Consegui sair de uma situação desconfortável para
cair noutra pior ainda.
— Não vinda da boca do meu marido, professor. As palavras, dependendo de
quem ou de como são pronunciadas, podem assumir significados bem distintos.
— Pois para mim, quem quer que a chame desta forma deve precisar de
óculos.
Jurava que já tinha me acostumado com o assédio, mas constatei que havia me
enganado. Ê, coisa chata!
— É costume seu ficar se insinuando para as mães dos seus alunos, Sr. Flirt?
— É essa a impressão que estou dando?
— Sinceramente, sim.
— Confesso que nunca cheguei a tal ponto... até agora.
Ok, a audácia dele instigou meu lado negro da força, confesso.
— E por que resolveu fazer isso justamente comigo?
Ele se certificou de que Rico continuava distraído antes de murmurar:
— Não posso negar que a senhora me atrai.
— Sério? — exprimi tom de voz provocante, fingindo interesse. — Sabe,
gosto de homens assim... audaciosos.
— É uma das minhas qualidades — confirmou o convencido.
O figuraça pensava mesmo que iria me conquistar com aquele papo furado? O
mais engraçado de tudo foi que ele fez questão de cruzar os braços para mostrar
o potencial do seu bíceps!
— Por que não chega mais perto para conversarmos melhor? — insuflei.
— Aqui, na frente das crianças?
— Fique tranquilo, sou discreta — sussurrei, quase miando.
Confiante no seu poder de sedução, ele se inclinou devagar para frente, crente
que combinaríamos um encontro. Ao invés disso, o hipnotizei:
— O senhor nunca mais vai se dirigir a mim dessa forma desrespeitosa, ouviu
bem? Não quero mais ver os seus olhos pousando no meu corpo, muito menos
que desconfie das atitudes do meu filho ou de qualquer membro da minha
família. Vai receber esse premiozinho como lição pela sua ousadia e ficar
caladinho... — Desferi-lhe uma bofetada bem dada em seu rosto. — Agora volte
para os seus afazeres e me deixe em paz.
Três

Alguns segundos. Esse foi o tempo estimado entre o meu pedido de paz e
bater de frente com outra guerra. Nem bem me aliviei por constatar que o Sr.
Flirt obedecia ao meu comando e quem me aparece pelas costas? O diretor
Stanley. Ele não estava na tal reunião com os professores?
Já vi que hoje não é meu dia...
— Estou enxergando coisas ou a senhora estapeou o rosto do nosso professor
de educação física? — perguntou ele, um tanto incrédulo.
Rosnei.
— Não precisa mudar o grau da sua lente, diretor. Dei um bofetão nele mesmo
e sou capaz de repetir a dose com qualquer um que me falte com o devido
respeito!
— Isso é uma acusação formal, Sra. Hacket?
Stanley se encolheu diante da minha expressão agressiva, tomando uma
postura defensiva.
— Não pretendo acusá-lo publicamente, se é um escândalo na sua escola o
que o senhor teme. Só espero que os funcionários desta instituição, dos
faxineiros à diretoria, sejam instruídos para que isso nunca mais aconteça. Sou
uma mulher casada e não vou admitir que me tratem dessa maneira. Da próxima
vez que eu entrar nesta escola e receber cantadinhas libidinosas de quem quer
que seja do seu eleitorado, não terei a mesma complacência, diretor — ameacei.
— A senhora está nervosa. Não quer ir até a minha sala para conversarmos um
pouco?
— Vim à escola a seu pedido, diretor. Não estou a passeio e também não gosto
de gastar meu tempo fora dos meus afazeres domésticos. Para mim, pouco
importa se conversarmos aqui ou em qualquer outro lugar. Aliás, eu aguardava
neste local porque a sua secretária afirmou, com todas as letras, que a esta hora o
senhor estaria em reunião. Reunião que a princípio demoraria...
Onde foi parar Richard, que fez tanta questão de falar com o diretor? Será
que o machucado da Vitória foi tão extenso assim? — grunhi em pensamentos.
— Eu a chamei aqui para que ficasse ciente das atitudes dos seus filhos —
ressaltou ele, com resignação.
— Refere-se ao chiclete que grudou no cabelo da Sra. Fox?
— Rico contou a verdade?
— Meus filhos não têm o hábito de mentir pra mim, Sr. Stanley. E pode ficar
tranquilo, ele já foi repreendido por sua atitude, ainda que não tenha sido feita
com má-intenção.
— Fico feliz por saber que as crianças têm pais presentes em casa. Sugeriria
apenas que a senhora conversasse com a psicóloga do colégio para esclarecer
algumas situações observadas pelos nossos professores.
— O senhor poderia ser mais sucinto, diretor? Até poderia me dispor a falar
com a sua profissional, mas antes gostaria de saber os motivos para avaliar se me
são válidos...
Ele estufou o peito para demonstrar liderança.
— Os seus filhos apresentam alguns comportamentos que requerem atenção,
Sra. Hacket. Vitória, por exemplo, tem uma evidente dificuldade em se
relacionar com os colegas de classe. Age sempre como se estivesse com medo de
que alguém descubra algum segredo dela, por vezes sequer responde às
perguntas dos professores.
Tadinha da minha filha! Precisava admitir que manter nosso segredo era
responsabilidade demais para uma criança de apenas sete anos...
— Já Rico — continuou — é uma criança bastante agitada, tem verdadeira
adoração por seres míticos, e não é incomum vê-lo apavorando os companheiros
de classe com histórias recheadas de sangue.
— Sr. Harry, não sei se o senhor está ciente, mas sou enfermeira e trabalhei
por diversos anos com crianças da mesma faixa etária. Quanto à minha filha,
essa situação até me preocupa um pouco porque eu agia exatamente desse jeito
que o senhor acabou de me descrever, e não foi muito fácil crescer fechada como
uma concha. Sendo assim, até me disponho a marcar uma hora com a psicóloga
da escola para ver se ela me propõe alguma solução para reverter o quadro. —
Hipnotizada, claro. — Agora, quanto a Rico... Eu o considero tão travesso e
normal quanto qualquer criança da sua idade. Conheço inúmeras crianças que
tinham fixação por histórias de monstros, fantasmas e demais seres e nem por
isso se tornaram psicopatas. Mas, se houver reclamação de algum pai por conta
disso, fique tranquilo: vou conversar com meu filho hoje mesmo.
Stanley franziu a testa.
— Espero que a senhora tenha compreendido as minhas razões para chamá-la
aqui, Sra. Hacket, e faço votos de que não haja mais incidentes, como esse que
ocorreu hoje.
— Se houver, o senhor será o primeiro a ser inquirido quando eu fizer a minha
denúncia de assédio, diretor — ameacei.
Vi no seu rosto perder a cor repentinamente.
— Tenho certeza de que isso não se repetirá aqui na minha escola.
— Assim espero. Bem, se me der licença, gostaria de procurar pelo meu
marido. Não posso demorar, ou o almoço das crianças vai atrasar.
— Fique à vontade e tenha um bom dia.
Ugh! Será que enfim teria um pouquinho de paz?
Vasculhei com os olhos à caça de Richard e nada de encontrá-lo. Só poderia
supor que ele ainda estivesse na enfermaria. Do jeito que a Vitória costumava
ficar manhosa do seu lado, não duvidaria nada que ela não deixasse a enfermeira
da escola socorrê-la e ainda embromasse o pai para não ter que fazer educação
física com as colegas. De qualquer forma, era melhor passar lá. Já que a reunião
com o diretor fora resolvida, não queria perambular pela escola enquanto tinha
almoço e tantas outras coisas por fazer.
Circulei por dentro da quadra para não pegar sol e atravessei rapidamente para
o outro lado, indo em direção à sala onde supostamente os dois estariam. De
cara, avistei minha filha agachada com um curativo no joelho, brincando numa
boa com umas estrelinhas prateadas de plástico.
— Cadê o seu pai, amor? — indaguei.
— Tá lá dentro. — Apontou para a sala de enfermagem.
— E o seu machucado? Melhorou?
— Ahã. Foi o papai que mexeu... — relatou despreocupadamente, como se
fosse óbvio.
— Você não tinha que voltar para a aula?
— Ah, não... Quero brincar sozinha!
— Sozinha você brinca em casa se quiser. Na escola, tem que fazer como todo
mundo. Sabe voltar para a quadra?
— Sei, mãe, mas não posso correr assim, né? — Mostrou seu curativo.
— Isso não a impede de assistir ao jogo das colegas. Elas vão adorar ter
alguém torcendo pelo time...
Vitória não ficou muito satisfeita com a sugestão, porém não desobedeceu.
Deu-me um beijo no rosto e retornou à quadra. Eu, em contrapartida, entrei na
enfermaria no intuito de chamar Richard para irmos logo embora. O motivo pelo
qual fui solicitada a comparecer na escola já havia sido resolvido, ou seja,
conversei com o diretor sobre as crianças e, de quebra, solucionei o que
incomodava o meu marido. Então, ces’t fini.
Distraída, abri a porta da sala, e qual não fora a minha surpresa ao dar de cara
com uma cena a que jamais pensei que pudesse assistir: Richard estava inclinado
sobre a professora de educação física da Vitória — deitada numa maca —, e ela
enlaçava seu pescoço, a milímetros de beijá-lo. Como se isso não bastasse,
assustados pelo barulho que fiz ao entrar, deparei-me com os olhos enegrecidos
do meu marido. Aí, sim, o bicho pegou.
O... o q?
Tapei imediatamente a boca com as duas mãos para conter um grito. Se
tivesse um coração batendo, com certeza o órgão pararia naquele momento. O
cérebro congelou vendo aquela cena inacreditável, e, ao invés de voar direto nos
dois — como ordenava meu verdadeiro instinto de vampira —, retornei e saí
fugida a toda velocidade dali.
Acho que não conseguia enxergar mais nada, sequer fiz questão de me
proteger do sol. Esbarrei em tudo o que via pela frente, procurando pelo carro no
estacionamento. Descontrolada, não lembrava onde havia guardado a chave
reserva do veículo. Quando finalmente a encontrei no fundo da bolsa, abri a
porta e me sentei no banco do carona para fazer sabe-se Deus o quê. Richard
entrou pelo outro lado.
— Stephanie, o que deu em você? — perguntou, ofegante. Também
atravessara o sol correndo.
Forcei uma saída estratégica do carro sem responder o óbvio, mas ele se
antecipou ao meu movimento, agarrando-me pelo cotovelo.
— Por que está furiosa deste jeito?
Ora, por que será? — indaguei-me, ainda mais enfurecida internamente. Será
que ele pensa que nasci cega ou coisa parecida?
Percebendo pela minha fisionomia insana que eu não o responderia fácil,
Richard sacou a chave do veículo do bolso, deu partida na ignição e começou a
manobrá-lo rapidamente. Já fora do colégio, parou num semáforo e reiniciou o
interrogatório:
— Quer me explicar o que houve?
A raiva que me assolava foi tanta que arranquei o espelho retrovisor para que
ele mesmo conferisse a cor dos seus olhos.
— Espere aí, você não está pensando que eu...?
Não deu para continuar ouvindo o seu discurso, estando enlouquecida daquela
forma. Escancarei a porta do carro no meio do trânsito e resolvi voltar para casa
a pé. Richard bem que tentou me impedir novamente, só que dessa vez fui mais
rápida, deixando-o sem saída diante de carros enfileirados buzinando a toda
altura para que ele retirasse o nosso da pista.
Nesse meio-tempo, eu já estava longe.
Cortei caminho atravessando uma praça arborizada que existia nos arredores.
Quase desfalecendo por conta da claridade, caí em frente à escada da residência
onde morava, coberta pela sombra.
— Filha?!
Ai, não... Diga que essa não é a voz do meu pai...
Nem preciso dizer que era, preciso? Que hora ele tirou para me visitar!
— Fazia cooper de dia? Ficou maluca? — ralhou ele comigo, levantando-me
do chão.
Papai passou a ser amplamente entendido no assunto desde que há cerca de
quatro anos e meio também resolveu se tornar um vampiro para viver seu amor
com a Vanessa. Para ele, não foi tão fácil tomar tal decisão quanto eu, já que,
como médico conhecido internacionalmente, temia que a sua mudança
perceptível repercutisse de forma negativa, dando a impressão de que ficou
doente devido à repentina brancura e ausência temporária prolongada.
Sim, esse afastamento do meio social se fazia necessário, quase não dava para
evitar. Sentir sede num ambiente impregnado de sangue era tão difícil quanto
obrigar humanos a viver à base de pílulas por um longo período e levá-los para
trabalhar numa churrascaria ou num rodízio de pizza. Uma tentação forte
demais, e habituar-se à nova vida levava algum tempo em reclusão.
Por sorte, Vanessa não sentiu tamanha dificuldade nisso e ajudou a segurar a
onda dele com louvor. Papai só não se sentia apto a ficar longe da família, por
isso no ano passado se mudou com ela para os Estados Unidos, morando num
bairro vizinho ao nosso.
— Abra a porta da casa para mim, pai. Por favor... — pedi, entregando-lhe a
chave.
Vanessa veio por trás e me apoiou pelo braço para que eu pudesse entrar.
— O que é isso agora? Prova de resistência para vampiros? Nova modalidade
nas Olimpíadas? — ela ironizou.
Sentei momentaneamente no sofá, matutando em qual desculpa esfarrapada
daria aos dois diante daquele incidente, ciente de que vampiros não se deixavam
enganar tão fácil quanto os humanos.
— Por que está tão nervosa? — percebeu papai o meu estado.
— Não é nervosismo. É só... pressa — inventei.
Depois de tanto tempo evitando mentiras, naquele dia excepcionalmente perdi
o controle. A imagem daquela maldita professora pendurada no pescoço de
Richard associada aos olhos negros dele desnorteou por completo o meu cérebro.
A cena não saía da minha cabeça, era uma verdadeira tortura mental.
— Pressa de quê? — desconfiou ele.
Ouvi o som do nosso carro entrando na garagem e, ainda sob o domínio da ira,
arrumei uma desculpa para sair da sala.
— Preciso fazer o almoço das crianças rápido. Daqui a pouco já é hora de
buscá-las.
— E isso é motivo para você se destruir assim?
Os passos do meu marido fizeram com que eu me apressasse ainda mais.
— Não dá para discutir agora, pai. Vanessa, será que você me ajudaria um
instante na cozinha? — pedi, não pela ajuda em si, mas para usá-la como escudo.
Claro que ela não recusaria.
Abri a geladeira e fui retirando tudo o que havia separado para fazer o almoço
das crianças naquele dia. Mais do que depressa, comecei a descascar os legumes,
quando ouvi a voz afobada de Richard ecoar pela sala.
— Steph...? — Sua exaltação foi logo interrompida, assim que constatou a
presença do meu pai. — Ah, bom dia, Allan... Como vai?
— Eu estou bem — ressaltou papai o “eu” para nas entrelinhas subentender
que duvidava da recíproca. — Hoje não é dia de plantão?
— Mais tarde... A Stephanie já chegou? — perguntou, impaciente.
— Está fazendo o almoço dos meus netos, depois de concluir a prova na
maratona vampiresca matutina, que, pelo visto, só eu e a Vanessa não fomos
convidados.
Richard não retrucou a piada, como de costume. Veio direto à cozinha para
falar comigo. Quando senti a sua presença, virei instintivamente de costas,
fingindo me entreter com o serviço.
— Steph...? — Mais uma vez ele ficou sem graça ao notar que Vanessa se
postava ao meu lado, soltando um suspiro. — Oi, Vanessa, tudo bem?
— Tudo, e com você?
— Levando — imprimiu uma postura desanimada. — Stephanie, será que
dava para conversarmos um instante?
— Agora não — rejeitei, sem me virar para encará-lo. — Tenho que terminar
de fazer o almoço.
— Não vai demorar.
— Depois, Richard.
Inconformado com a recusa, saiu quase rosnando da cozinha e foi fazer sala
para o meu pai.
— Estou atrapalhando alguma coisa, não estou, Stephanie? — interpretou mal
Vanessa.
— Por mais que pareça o contrário, está até me ajudando. Pode confiar —
garanti.
— O clima entre vocês ficou tenso. Nunca vi os dois dessa maneira.
— Vai passar. Só preciso de um tempo para clarear as ideias.
— Se quiser conversar...
Mesmo ciente da sua boa intenção, a minha característica pessoal de ser uma
pessoa reservada não mudou com o tempo. Eu não tinha o costume de me abrir
com os amigos facilmente, a não ser com o meu próprio marido, o único que
conseguia me desnudar de corpo e alma.
— Não, Vanessa, obrigada. Pelo menos, não agora.
— Ok.
Vanessa tinha isso de bom.
Apesar dos poucos anos de convivência, aprendeu a lidar comigo
rapidamente. Jamais forçava a barra quando notava que algo me incomodava,
embora estivesse sempre disposta a ajudar sem exigir nada em troca, como
naquele instante. Em seu silêncio providencial, ela se tornava cada vez mais
próxima a mim. Meu pai não poderia ter arrumado uma companheira melhor.
Quando chegou a hora de buscar as crianças, mesmo ainda exausta pela
exposição ao sol, peguei a chave reserva do carro e saí sorrateiramente pelos
fundos para não ter que passar pela sala. Não levou mais do que quinze minutos
para retornarmos. Fiz questão de entrar na casa do mesmo jeito.
— Oi, vô! — saudaram os netos ao mesmo tempo, correndo para o colo dele.
Como já conhecia a peça com quem me casei, antes que Richard aparecesse
na cozinha e me abordasse sozinha, já fui levando nas mãos os pratos e taças
para pôr à mesa, bem como as travessas contendo a comida. Richard, longe de
ser ingênuo, percebeu minha estratégia, enrijecendo a musculatura da face.
— Vô, hoje aprendi um montão de coisas legais. A minha professora abriu um
sapo grandão para ver como era dentro — falou Rico, animado.
— É nojento! — acrescentou Vitória, colocando a língua para fora.
— Eu gostei. Saía uma goooosma de dentro! — perturbou a irmã.
— Eca! Para de falar ou eu vou vomitar!
— E as contas? Já sabem somar e diminuir? — interrogou papai, mudando
intencionalmente o assunto.
— Já sei multiplicar até nove, vô — gabou-se minha filha.
— Uau! Como essa minha neta é inteligente!
— É, mas ela errou na prova quanto é oito vezes nove — delatou o irmão.
— Porque o chato do Damien fica querendo olhar para a minha prova, aí eu
não consigo pensar direito! — ela se defendeu.
— Ele fica querendo olhar pra você, sua bobona!
— E os esportes? Rico gosta de qual? — foi a vez da Vanessa questionar,
bebericando o sangue aquecido que servi na sua taça.
— De todos, mas não posso jogar no time titular de basquete. O Sr. Flirt disse
que sou baixinho — reclamou.
— Nós já conversamos sobre isso, não foi? — relembrei-o.
— Pelo menos ele me deixou fazer umas cestinhas depois que você foi
embora...
Richard não mais disfarçou, passando a me fuzilar com os olhos.
— Mãe, é verdade que você deu um tapão na cara dele, do Sr. Flirt? — Vitória
ajudou a complicar ainda mais a minha vida.
— Hein? Quem lhe disse isso, filha? — dissimulei.
— A Meg. Ela disse que o Sr. Flirt chegou bem pertinho e que você bateu
nele.
Limpei a garganta antes de responder:
— Sua coleguinha se enganou, Vitty. A mamãe só queria saber se tinha jeito
para praticar boxe, e o Sr. Flirt emprestou a cara dele para que eu pudesse testar.
De tanto fazer força com as mãos na tentativa vã de manter uma máscara de
controlado, Richard rompeu a haste da taça de vidro que se encontrava sob seu
domínio. Os demais adultos me olharam, incrédulos com a minha justificativa
absurda. Mas o que deveria fazer? Dizer que o esbofeteei porque o cara foi
desrespeitoso comigo? Que ele me paquerou na frente de todos, mesmo sabendo
que eu era casada? Isso romperia por completo o respeito que os meus filhos
tinham com os professores da escola...
— Legal! — empolgou-se Rico. — Será que o Sr. Flirt me deixa fazer isso
também?
— Eu nem tentaria, amorzinho. Acho que ele descobriu que a família Hacket
tem jeito para a coisa e vai ficar com a cara inchada por uns tempos... — zombei,
esquivando-me do bombardeio inquisitivo a mim direcionado.
— Você brigou com o diretor Stanley, mãe? Ele parecia que tava com medo...
— completou o meu filho, jogando o pó da desgraça no ventilador.
Valei-me, Senhor! O que é isso? Criei monstrinhos delatores dentro do meu
próprio lar? Será que nada passaria despercebido pelos policiais mirins de
plantão, e quanto mais fugisse do assunto, mais eles me bombardeariam com
perguntas comprometedoras?
— Hoje não estou num bom dia, só isso — dispersei.
— Pelo visto, perdi um espetáculo e tanto na escola... — acusou-me Richard,
rompendo seu silêncio mortal.
— Vai ver você estava... ocupado na hora, não é, amor? — enfrentei
finalmente os seus olhos de frente.
Sem querer deixar transparecer aquele climinha entre nós, perguntei às
crianças se elas queriam sorvete de sobremesa e retornei à cozinha para buscar o
pote no congelador. Ao me virar, fui praticamente encurralada pelo meu marido.
— Não vai fugir agora. — Trancou ele a minha passagem.
Fiz força para me desviar.
— Temos visitas, Richard.
— Não considero seu pai uma visita.
— Mesmo assim, não é conveniente.
— O que o tal professor fez para merecer o bofetão? — ignorou meu
argumento, sombrio.
— Seja lá o que tenha sido, minha atitude foi muito mais definitiva do que a
sua — repliquei, ferina.
Ele rosnou em resposta, imprensando-me ainda mais.
— Vocês estão brigando? — Vitória nos interrompeu, entrando na cozinha de
mansinho.
Aproveitei a brecha para sair do cerco.
— Não, filhota. O papai veio justamente se despedir para não chegar atrasado
ao plantão, não é, doutor?
— É. — Seu assentir rancoroso chegou aos meus ouvidos como uma
promessa mordaz de revide.
Irritado, Richard buscou a sua maleta e se despediu de todos na sala, saindo de
casa sem falar comigo. Foi a primeira vez que isso aconteceu. Em pouco mais de
doze anos de convivência, nunca tivemos uma única briga ou desentendimento, a
não ser por conta da história que aconteceu em Londres, embora nenhum dos
dois tivesse uma culpa direta pelo ocorrido. Só que dessa vez foi completamente
diferente. Havia dúvidas e acusações entre os nossos olhares, coisa que nos
mutilava por dentro.
Fiz o possível para não deixar transparecer a mágoa que sentia, apesar de ter
certeza de que os adultos não conseguiria enganar. Se pelo menos com os
meninos funcionasse, já me daria por satisfeita. Sendo assim, depois que o meu
pai e a Vanessa foram embora, passei a tarde monitorando os deveres das
crianças e os entretendo de mil maneiras, até a hora em que se cansaram e
desabaram no sofá da sala. Levei-os um por um para a cama e me preparei
intimamente para enfrentar outra guerra: a do ciúme.
Quatro

Deitada na cama, na maior parte da noite, mirei um ponto fixo no teto. Tudo o
que conseguia enxergar eram os olhos enegrecidos de Richard e os braços da
mulher em torno do seu pescoço. Durante todo o tempo em que estivemos
juntos, jamais percebi algo semelhante.
Na verdade, o que me atormentava não fora tanto a ousadia da professora. Ela,
como qualquer outra mortal, se sentiria atraída por ele, quase todas sucumbiam.
O que realmente me atingia era a mudança de cor das íris dele, o excesso de
proximidade. Eu sabia muito bem o que significava aquele diamante negro
estampado nos olhos de um vampiro. Para mim, a cena funcionou como se
estivesse sendo assaltada à mão armada: a ladra levara algo que só eu tinha o
direito de ver e sentir.
Droga! Ele é meu! — resmunguei sozinha, socando com raiva o travesseiro.
Que inferno! Por que não conseguia apagar um segundo aquela imagem da
cabeça? Ah, claro! Acabara de me lembrar...
Sou uma vampira, e vampiros não esquecem!
Eu poderia disfarçar muito bem e exercitar a paciência, entretanto, nada me
afastaria dessa condição. Inevitavelmente, descobri o quão doentio e poderoso o
ciúme poderia se tornar na minha espécie.
Demorou pouco mais de duas horas desde que subi para o quarto até que
ouvisse o barulho dos passos de Richard pelas escadas. A porta do dormitório
das crianças foi aberta primeiro, ele jamais se recolhia sem antes dar um beijo de
boa-noite nos filhos ou contar uma história.
Nossa! Como estava nervosa!
Sabia que seria inevitável uma discussão sobre o assunto, mas, como sempre,
a covardia tomou conta de mim e fez com que eu enterrasse a cabeça no
travesseiro e fechasse os olhos, simulando dormir. Ele entrou em seguida no
nosso quarto, vindo direto me observar.
— Pode abrir os olhos. Sei que não está dormindo — sussurrou Richard
próximo ao meu ouvido.
Tremi com a proximidade e mesmo assim me mantive firme, sem coragem de
mudar a posição da cabeça para respondê-lo. Ele não se conteve e me virou à
revelia:
— Não vou me deitar brigado com você, Stephanie. Já foi difícil demais
passar o plantão inteiro remoendo mágoa, sem resolver esta situação.
— A situação já foi resolvida, Richard.
— Não foi não. E porque você não quis — ressaltou.
— Ninguém morreu. Continuamos vivos, apesar de tudo.
— É, só que mutilados por dentro. Esse não é o nosso perfil de felicidade. Não
o meu.
— Então sinto muito. Se não percebeu ainda, sou uma vampira. E vampiros
enxergam muito bem. Não vou conseguir esquecer aquela cena que vi hoje! —
coloquei para fora, antes de me levantar.
Ele cruzou os braços.
— E o que foi que você viu? Quer me dizer?
— Ah, dá um tempo, Richard! Ela estava pendurada no seu pescoço e você...
— Não deu para sustentar o término da frase.
— E eu...?
— Não, não quero mais falar sobre isso.
— Por que não?
— Já me doeu o suficiente por hoje.
— Afinal, o que me sugere? Que cada um durma virado para o lado oposto da
cama, fingindo que está tudo bem?
Ele armou um sorriso indignado diante da minha mudez repentina.
Sinceramente, eu não sabia o que responder ou de que forma lidar com esse tipo
de reação nova.
— Isso nunca vai acontecer, Stephanie. Não somos uma espécie passível de
esquecer determinados assuntos.
Avessa às discussões, tentei um fuga inútil, como se fosse possível driblar um
Richard impaciente entre quatro paredes.
— Stephanie! — advertiu, bloqueando intencionalmente a minha passagem.
— Você não pode me obrigar a ficar aqui.
— Não só posso como vou! — rosnou.
— Não sou mais uma humana frágil, lembra? Ninguém consegue me deter se
eu não quiser!
— Quer pagar para ver?
— Teria coragem?
A pergunta ecoou no quarto e se perdeu quando, do nada, meus pés ficaram
presos ao chão e pararam de obedecer ao comando do cérebro. Forcei diversas
vezes o movimento e nada aconteceu. Nenhum milímetro do corpo se mexeu.
Que droga era essa? Algum tipo de gás paralisante?
— Não consigo me mexer — constatei, atordoada.
— E vai ficar assim até que eu me sinta satisfeito.
— Como...? Como faz isso?
Que loucura! Nem mesmo os meus braços se mexiam! Nadinha!
— Estou usando o princípio da subserviência em você — esclareceu,
rodeando-me feito um animal estudando a presa.
— Como é que é?
— Subserviência significa submissão.
— Sei muito bem o que significa o termo, não sou a inculta que imagina.
— Não ponha palavras na minha boca! — grunhiu.
— Pensei que um vampiro não conseguisse hipnotizar o outro — reclamei.
— Parece hipnose, mas não é. Posso controlar os seus movimentos, não os
pensamentos.
— Desde quando você pode fazer essa coisa?
— Desde que você se uniu a mim pelo sangue. Quando um vampiro cria o
outro, teoricamente o que foi gerado deve obediência ao criador. Como acha que
Demétrius mantinha tantos vampiros sob seus domínios?
Ah, maravilha! Entrei pelo cano.
Não contava com aquele trunfo e acabei virando refém nas mãos do inimigo.
Comparativamente, seria o mesmo que eu precisasse de computadores para
acionar uma bomba e ele cortasse a energia da central de comando. E, para
complicar ainda mais, invadisse meu território com a sua tropa, deixando-me
sem poder de reação.
— Você nunca me disse isso antes — arfei.
— Jamais pensei que precisaria usar. Nunca quis obediência, somente o seu
amor espontâneo.
— E agora resolveu mudar de opinião... — concluí em revolta.
— Tenho opção? Fui acusado, julgado e até condenado sem nem receber o
direito de defesa. Sofri o dia todo por causa disso, sabia?
Richard continuou dando voltas ao meu redor por algum tempo, aparentando
estudar o meu comportamento para traçar um plano de ataque. Seus olhos me
investigavam com minúcia milimétrica, como se fizessem um escaneamento
completo para guardar na memória tudo o que via. Inicialmente, não consegui
decifrar o que havia oculto em seus pensamentos, até que ele parou pelas minhas
costas sem emitir um único som.
Silêncio absoluto.
Senti-me como um animal indefeso, talvez um inseto preso na teia da aranha,
esperando pela hora do meu predador dar o bote. Só que esse ataque veio de uma
forma diferente, terna. Ele levantou o meu cabelo bem devagar, colocando-se por
baixo deles para arrastar o nariz pelo pescoço e inspirá-lo com suavidade. Isso
foi o suficiente para me provocar uma agonia infinita, já que eu não tinha sequer
condição de mudar a posição da cabeça.
— Para quem acabou de dizer que desejava amor espontâneo, sua atitude não
é muito condizente — critiquei, recebendo um beijo por baixo do queixo, bem
próximo à orelha.
— Vai me condenar por sentir sua falta? Por considerar a minha esposa
irresistível? — sussurrou, enlaçando-me pela cintura.
— Sim, mas por me coagir a fazer o que não quero. — Pus pé firme, não
venderia a honra em troca de beijos calientes.
— Acha que estou sendo cruel lhe obrigando a receber o meu carinho?
Aquela voz aveludada quase quebrou a minha resistência.
Quase.
— Acho.
— Pois então... Resolvi satisfazer a sua vontade. Não vou mais beijá-la.
Richard se afastou lentamente, esparramando-se na cama. Se eu não estivesse
enganada, aquele olhar que ele me lançou continha muito mais do que uma
simples renúncia.
Ali tinha truta, e das brabas.
— Não? — perguntei, irracionalmente decepcionada.
— Não.
Antes que eu completasse com mais algum comentário felino, ele se adiantou:
— Você é quem vai. — Arqueou a sobrancelha, exibindo ar de vitória.
— Não teria essa coragem... — Fiz um alerta mordaz.
— Até hoje, eu achava que não, mas agora comecei a me empolgar com essa
história de ter uma escrava fazendo tudo o que quero.
— Escrava?
— Lembro muito bem de tê-la avisado há alguns anos que isso poderia
acontecer. Mais precisamente, numa certa banheira em Ibiza...
— Pensei que aquilo fosse uma piada!
Ele sorriu.
— Venha até aqui e se sente comigo na cama — ordenou, dando duas
batidinhas no colchão, começando a se divertir.
Que ódio! O corpo o obedecia, ignorando minha vontade. Em menos de um
segundo, já me postava ao seu lado como um verdadeiro totó satisfazendo o seu
dono.
— Pare com isso, Richard — adverti outra vez. — Está sendo injusto comigo.
Ficar me obrigando a fazer o que você quer só vai aumentar a raiva que sinto.
— Discordo. A justiça está sendo feita agora. Quero apenas exigir a devolução
do que já era meu e me dar o direito de ser julgado decentemente. Então comece
retirando a minha camisa, amor — exigiu.
— Por acaso sente calor? — indaguei nociva, fazendo à revelia exatamente o
que ele mandava.
— Sempre queimo quando estou do seu lado, já devia ter-se acostumado.
Por mais que o tempo tivesse passado, a sensação de percebê-lo se aquecendo
ainda me impressionava. Suponho que jamais fosse me habituar a isso.
— Chegue mais perto, bruxinha.
— Para quê?
— Deixe-me pensar... — dissimulou, fitando o teto com cara de sonso. —
Quero ser beijado... no pescoço.
Grunhi em resposta, mas foi impossível deter a minha boca.
— Grrrr!
— Mais, quero mais... — murmurou de olhos fechados.
Não havia um modo de lutar contra aquilo. Sua influência sobre os meus
comandos motores era forte demais.
— Hmmm... Devagar, amor. Desça um pouquinho mais até o peito, do mesmo
jeito que você fez ontem — jogou a cabeça para trás, parecendo satisfeito.
— Richard!
Ele ignorou completamente o rosnado, parecia empenhado em me irritar.
Chegou ao cúmulo de ordenar que eu o inspirasse porque sabia o tamanho do
desnorteio que o aroma do ser amado causava no cérebro de um vampiro
apaixonado. Quase caí naquele embuste, mas aguentei firme:
— Esta palhaçada não vai acabar?
— Palhaçada é quando alguma coisa nos faz rir. Eu estou em êxtase, sonhando
de olhos abertos...
— Quer parar com isso?
— Preciso recuperar o ânimo. Não podia iniciar a minha defesa, tenso daquele
jeito.
— Então comece logo para finalizar essa tortura de vez.
— Por que a pressa? Isso está tão bom! — Cerrou as pestanas, deliciado.
— Fala isso porque não é você a marionete!
— Pensei que gostasse de me beijar...
Só Deus sabe o quanto...
— Gosto quando faço por vontade própria, não quando sou obrigada.
— Eu não me importaria nem um pouco de receber uma ordem dessas —
provocou, malicioso.
— Ahã...
— Sendo assim — continuou, alheio ao meu resmungo —, quero que me beije
agora na boca, antes que eu comece a falar.
Jesus! Assim não dá para ser feliz!
Fiquei num dilema sem precedentes. Não queria beijá-lo e a minha boca
desobedecia. Se já estava difícil antes, com uma exigência dessas ficaria
praticamente impossível. Na verdade, eu fazia um esforço sobrenatural para
resistir ao meu próprio desejo, que resolveu fazer frente ao cérebro, aliando-se
ao inimigo. Isso é o que eu chamo de um verdadeiro motim!
— Deus... Como isso é bom! Pena não poder retribuir... Não quero ser taxado
de tirano — debochou entre os meus lábios.
Sério, melhor não reagir mais à sua provocação. Quanto mais estrebuchasse,
mais ele me instigaria. Só não dava para fingir para mim mesma que era
indiferente ao seu contato. Mesmo com raiva e enciumada, ainda amava como
uma louca esse vampiro cínico.
— Pronto. Já me sinto apto a fazer uma defesa depois disso. Nada como o
carinho da minha esposa para me acalmar — regozijou. — Afaste-se um pouco
para que eu possa vê-la direito.
— Você gostou um bocado dessa brincadeira de me dar ordens, não?
— Admita, bruxinha. Se tivesse esse poder nas mãos, não gostaria de me
obrigar a fazer alguma coisa?
— É, pensando bem... Sim. Que tal sugar o pescoço daquela professora de
educação física até ela ficar seca e inerte? Prometo que divido o serviço sujo —
sugeri, sarcástica.
Ele se divertiu com a minha reação.
— E eu que pensava que você não sentia ciúme... Fiquei até lisonjeado, mas
não precisa se preocupar, já cuidei dela. Quer dizer, ia cuidar.
— Deu para perceber — ruminei entredentes.
— Preciso de outro beijo — exigiu, não escondendo a imensa vontade de rir.
— E dessa vez tem que ser mais intenso.
Respirei fundo e obedeci. Sua boca emitia magnetismo, e as íris enegreciam
gradativamente.
— O que acha que sinto quando meus olhos mudam de cor assim, na sua
frente?
— O mesmo que eu — retruquei, evasiva.
— E o que pensa que senti hoje, naquela enfermaria?
Não foi a boca que respondeu. Meus olhos fizeram essa parte por ela,
exteriorizando uma fina lágrima sanguinolenta. Não pretendia revelar tamanha
fragilidade, mas fazer o quê? Nem sempre dava para ser tão controlada.
Richard segurou o meu rosto com as duas mãos e retirou aquela extensa gota
com o próprio dedo, lambendo-o até não sobrar mais indícios de que um dia ela
existiu.
— Contraditoriamente, você me deu o argumento que eu queria.
Não entendi o que ele quis dizer com isso, mas logo depois a emenda veio:
— Sede.
— Sede? — duvidei.
— Exato.
— Conta outra, Richard. Essa não colou.
Ele respirou fundo, demonstrando leve impaciência.
— Não havia me alimentado antes de ir à escola. Fiquei de brincadeira com
você no café da manhã das crianças, lembra?
— E daí?
— E daí que comecei a limpar o ferimento da Vitória enquanto a professora
resolveu voltar para dar aula. Mal terminei e ela retornou: caiu num desses
irrigadores de grama, perfurando uma artéria no braço. Na anamnese, antes de
suturar o local e fazer o curativo, o sangue dela esguichou no meu nariz. — Fez
uma pausa. — Posso até ser controlado, mas ainda sou um vampiro, Stephanie.
Não tenho como fugir dessa condição.
— Sei... E o meu marido virou o novíssimo enfermeiro contratado pela escola
— caçoei.
— O que esperava que eu fizesse? A encarregada do setor faltou, e a substituta
não tinha chegado ainda. Não podia, como médico que sou, deixar de prestar um
auxílio.
Sua declaração, com pontos ainda obscuros, foi logo interrompida por outra
insinuação absurda:
— Amor, gosto tanto quando você enrola os dedos nos meus cabelos e agarra
com força...
— Tá, mas isso não explica aqueles braços femininos pendurados no seu
pescoço — acusei-o, prendendo-me em seus cachos.
— Como foi mesmo? — indagou, sonso. — Dá para se pendurar nele para
ajudar a me lembrar? E, pelo caminho, não se esqueça de dar uma daquelas
mordidinhas no cangote que eu adoro...
— Ahá, muito engraçadinho!
— Você está próxima demais, não consigo evitar — justificou, contendo
novamente o riso.
— Sei... E alguém aqui desviou o assunto para não ter que responder.
— É o meu cérebro que desnorteia quando sente o seu perfume.
— Sério? Então vou dar um incentivo! — cumpri exatamente a sua proposta,
fincando meus dentes na sua nuca.
— Ai! — reclamou. — Sei que você me acha irresistível também, mas não
exagera na mordida, ou não vai dar para continuar mantendo o controle. Não sou
de ferro!
— Senhor, dê-me paciência... — clamei aos céus.
— Essas suas perguntas me deixam atordoado, de tanto ver essa pintinha
sensual no lábio balançar na minha frente! Assim sou obrigado a pedir mais um
beijo. E gostaria de que a sua língua buscasse a minha lá de dentro, até parar na
sua boca...
Cada vez que ele fazia uma exigência absurda dessas, mais difícil ficava
sucumbir à vontade que eu tinha de fazer tudo por conta própria. Além do
combate habitual, ainda precisava enfrentar uma batalha interna. Havia horas em
que realmente me perguntava se não fora mesmo hipnotizada. Richard exercia
um poder inacreditável sob o meu coração.
Ele gemeu, satisfeito com a realização do desejo, e, quando se separou de
mim, deu uma longa risada.
— Devo estar hilária dando uma de fantoche, não? — resmunguei, irritada. —
Não prefere dublar a minha fala para ficar mais emocionante?
— Ah, mesmo que eu tivesse esse poder, não faria — declarou, fazendo
esforço para tentar parar de rir. — Adoro sua espontaneidade.
— Posso saber o motivo da graça, então?
— Logo você vai saber. Deixe-me primeiro terminar a minha defesa.
— Aleluia!
Apoiando-se pelos cotovelos, Richard começou a contar tudo:
— Quando me deparei com a sede, tentei tapar os olhos para esconder a
mudança de cor. Por conta disso, não deu para reparar que ela se atirava no meu
pescoço. Meu pé ficou apoiado em falso na escada ao lado da maca e acabei me
desequilibrando, praticamente caindo por cima dela. Foi exatamente nessa hora
que você chegou...
— Filha da p... — xinguei. — Então ela realmente agarrou o meu marido!
— Já ia hipnotizá-la, mas achei que dar explicações à mulher que amo parecia
mais importante.
— Não se incomode, amanhã eu mesma faço isso. — Fiz um movimento no
ar, simulando torcer o pescoço da bandida.
— Amanhã é sábado, bruxinha — retrucou, divertido.
— Não tem problema. Segunda-feira não está muito longe, posso muito bem
exercitar a minha paciência.
— Feito, desde que eu possa praticar boxe do outro lado do rosto do Sr. Flirt...
— Ah, nem vem que não tem, Richard! Ele não agarrou o meu pescoço, ok?
— A professora também não teria feito nada se os meus olhos não estivessem
tapados na hora. E, se esse idiota sarado se atrevesse a tanto, não chegaria a ver
novamente a luz do dia! — ameaçou.
— Obrigada pela sugestão, amor. Como ainda é noite, vou ser solidária e
contribuir pela manhã com um lindo enterro para aquela infeliz — retribuí a
intimidação. — Quem sabe mande até uma coroa de flores com a mensagem: “Já
foi tarde”...
— Tudo bem, antes de traçar mais algum plano assassino, preciso de mais um
beijo seu. E aproveite para se deitar por cima de mim.
Fiz o que ele pediu, e mais uma vez meu marido voltou a gargalhar.
— Quer fazer o favor de me dizer por que você está rindo?
— Quer mesmo saber?
— Lógico!
— Você é quem manda agora...
Richard rolou na cama e me agarrou com força, jogando todo o peso do corpo
sobre o meu. De uma hora para outra, descontrolou-se totalmente e assaltou a
minha boca com tanta avidez que achei que mais uma vez a nossa cama iria
quebrar. Resolveu retirar ansiosamente qualquer vestígio de roupa que nos
mantivesse separados, marcando feito ferro quente por onde quer que seus lábios
pousassem.
— Pensei... que havia dito... que não me beijaria mais... — Quase não
consegui pronunciar a frase diante de tamanho ataque, de tanto que gaguejei.
— E, como sempre, a culpa é sua — murmurou, absorto.
— Minha?
— Rompeu a sua parte no trato faz um tempão. Nada mais justo que eu tenha
o mesmo direito. — Calou-me com outro beijo febril e invasivo.
Eu devia ter perdido metade dos neurônios quando fui beijada. Não conseguia
alcançar o seu raciocínio.
— Como assim? — indaguei, assim que a boca desocupou.
Ele riu novamente.
— Já absolvi a minha esposa da subserviência há mais de quinze minutos pelo
pensamento.
— Hã?
— Você estava me beijando, me mordendo e me agarrando porque queria,
amor.
Fiquei perplexa por constatar que tanto os pés como as mãos estavam livres,
assim como a minha boca, que correspondia a dele simplesmente porque a
ansiava. Descobri que era uma desertora.
— Seu... cretino! — Soquei de leve o seu peito.
Richard não conseguia mais parar de rir.
— Eu ia pedindo, e você, aceitando... — Balançou os ombros em escárnio. —
Acha mesmo que seria louco a ponto de recusar um carinho seu?
— Ludibriar a esposa pode, né, doutor?
— Foi por uma boa causa. Vem cá pegar o seu vampirão, vem, bruxinha
linda... — suplicou, pescando a minha boca em seguida.
— Richard... — Fiz um esforço sobrenatural para manter a sanidade, antes de
ser imobilizada por um abraço.
— Chega, Stephanie — exigiu ao meu ouvido num sussurrou cálido. — Será
que não vê que nenhum argumento seu vai me impedir agora?
— Não quero mais brigar com você, amor. Sei que me comportei como uma
idiota covarde. É que, pela primeira vez em todos esses anos, me senti ameaçada
por uma mulher.
— Ameaçada? — estranhou. — O amor vampiro é eterno, Stephanie.
— Como você pode ter tanta certeza? Conhece alguém que já tenha vivido um
amor por cem, duzentos, mil anos?
— Ouvi histórias, mas realmente não posso garantir que é verdade. A certeza
que tenho vem de dentro. A cada dia que passa, preciso mais e mais de você.
Quanto mais a tenho, mais a desejo. Tanto que já acordo sentindo a sua falta,
como se não tivesse passado a noite inteira ao seu lado.
Nesse ponto, ele tinha razão. Embora não fosse tão explícita nas atitudes
quanto ele, sentia a mesma coisa.
— Noto que com os humanos acontece diferente — emendou. — Com o
tempo, aquela chama diminui, e eles partem em busca de outra ou se conformam
com a que têm, valorizando a amizade e o bem-estar geral da família. Poucos são
os que declaram que amaram a mesma pessoa pela vida inteira. Talvez seja por
isso mesmo que ainda fiquemos inseguros, porque já fomos humanos um dia, e
essa ideia da finitude do amor e da vida ainda persista.
— Ou, quem sabe, seja pelo contrário. Que o medo nos atormente justamente
por termos uma longa eternidade pela frente — acrescentei. — Eu não saberia
mais viver sozinha se você deixasse de me amar, Richard.
— Ótimo. Então seja bem-vinda à AAVVC.
— Que sigla é essa?
— Associação de Assistência aos Vampiros Viciados e Ciumentos, ONG que
acabei fundar. — Seu humor estava afiado.
— ONG...
— Darei o meu depoimento primeiro para deixá-la mais à vontade. Meu nome
é Richard Hacket, sou casado, tenho dois filhos e... viciado na minha mulher.
Preciso confessar que meu dia hoje foi difícil porque tive que suportar diversas
horas sem o carinho dela, e isso me deixou muito mal-humorado — dramatizou.
— No entanto, tive alguns progressos. Controlei o ciúme e não voltei àquela
escola para torcer o pescoço do maldito Sr. Flirt e muito menos o do diretor
Stanley.
— Progressão...
— A constante repetição dos fatos caleja as pessoas.
— Pois eu me chamo Stephanie Wernyeck Hacket, também casada e mãe de
dois filhos. Vim procurar esta entidade porque hoje o meu ciúme extrapolou o
limite aceitável e continuo com o pensamento fixo de esvaziar o corpo de uma
professora de educação física. Acredito que somente o amor e o perdão do meu
marido possa me ajudar a desfazer essa obsessão.
— Seu perdão custará caro, amor. Foram muitas horas de sofrimento... —
revirou os olhos, fazendo-se de vítima injustiçada.
— Pensei que estivéssemos numa ONG. Não é uma entidade sem fins
lucrativos?
— Sou o fundador, portanto, também dito as regras.
— Tão engraçadinho o meu médico...
— Quer fazer o favor de parar de me chamar de “meu médico”? —
resmungou de volta.
Tal repreensão toda tinha razão de ser.
Desde que fiquei grávida, chamá-lo de “meu médico” tinha uma conotação
pejorativa. Significava nas entrelinhas que eu estava irritada com ele, o que não
era mais o caso. Já havia sido derrotada pelos seus carinhos.
— Tudo bem. — Dei finalmente o sorriso que ele aguardava. — Já que é
assim, estipule o seu preço.
— Que tal uma noite tórrida em meus braços e de quebra declarar que me
ama?
— Hmmmm... — fingi pensar no assunto. — Você vai dizer que me ama
também?
— Quantas vezes você quiser.
— Feito.
Cinco

Um estrondo de porta escancarando nos acordou repentinamente no dia


seguinte. Vitória apareceu do nada, pulando por cima de nós dois, e, se não
tivéssemos o costume de nos cobrir com um lençol para dormir e evitar a
claridade, o flagra seria inevitável.
— Mãe! Telefone pra você! — gritava ela, toda esbaforida.
Telefone? A essa hora do dia e no sábado? Mal havia amanhecido...
— Quem é, Vitty? — respondi, escondendo-me ainda mais, enquanto Richard
buscava por baixo das cobertas alguma peça de roupa caída ao lado da cama para
nos socorrer.
— É a tia Anne! Corre, mãe! Ela disse que tá no aeroporto com a Júlia e o
Miguel!
Miguel era o segundo filho da Anne e nasceu quatro anos depois da Júlia, que
tinha a mesma idade que os meus gêmeos.
— Já vou descer, amor. Ou melhor, desça primeiro e fale que a mamãe já vai
atender — ordenei. — Ah! E o que foi que eu disse mesmo sobre quando a porta
do quarto estiver fechada?
— Tem que bater antes? — Torceu ela o nariz.
— Exatamente — frisei. — Agora vá e dê o recado à sua tia!
Vitória saiu correndo, e Richard trancou a porta à chave, desnorteado com a
situação imprevisível.
— Essa foi por pouco — arfou ele, vestindo uma calça de moletom azul-
marinho.
— Eles estão crescendo — salientei, colocando um vestido de alcinha.
— Vou me lembrar disso hoje à noite. Não esqueço mais essa porta
destrancada.
— Que coisa... Nem me recordava de que era neste fim de semana que a Anne
viria. Será que é algum feriado no Brasil?
— Não que eu me lembre.
— Mãe! — gritou minha filha novamente lá de baixo.
— Estou indo! — devolvi.
Desci as escadas correndo, pensando que já se tornava uma mancada federal
desligar o meu celular à noite e não ter um telefone sem fio na casa.
Procurávamos viver de modo tão simples que acabávamos nos esquecendo das
pequenas utilidades facilitadoras da vida. E essa era definitivamente uma delas.
— Stephanie? — escutei a voz de Anne do outro lado da linha.
— Oi, Anne! Já chegou? — tentei não expressar surpresa.
— Amiga, o avião teve um atraso de duas horas. Não leu o meu e-mail
ontem?
Ui! Que mancada!
— Desculpa. Ontem foi um dia... atípico — respondi, observando meu marido
pelo canto dos olhos.
— Quer que eu alugue um carro?
— Não é necessário, Anne. Se tiver um pouquinho de paciência, em meia hora
chego aí.
— Se essas crianças não acabarem comigo antes...
— Peça ao Luciano para dar uma volta com elas pelo aeroporto — sugeri.
— O Luciano não veio — revelou, demonstrando irritação.
— Poxa, que pena! Mas me aguarde. Já estou saindo daqui.
— Ok.
Não era a primeira vez que Anne nos visitava com as crianças. Praticamente
todos os anos, quando conseguia uma brecha na agenda do Luciano, arrumava
um jeito de vir. Além de ser ótimo para os meninos poder conviver com
amiguinhos por vários dias em tempo integral, o fato de ter humanos em casa
sempre acendia a esperança neles de momentos de lazer ao sol, já que isso,
infelizmente, não tínhamos como lhes proporcionar.
Tal como Anne, a minha mãe também fazia parte desse rol libertador da
escuridão. Mamãe sempre procurava tirar suas férias em conjunto com as
crianças, justamente para que elas tivessem a oportunidade de curtir atividades
matinais, tais como zoológicos, praia e campos de futebol. Quando podia,
Juninho também a acompanhava nessas viagens, embora meu irmão já estivesse
numa fase mais complicada, tanto de namoros quanto de estudos intensivos para
o vestibular.
— Quer que eu busque a Anne? — prontificou-se Richard.
— Você já trabalha a semana toda. Aproveite para ficar em casa um pouco e
curtir os dois.
— Mãe, posso ir com você? — pediu Vitória.
— Um — retificou meu marido.
— Pode. Cadê o seu irmão, Vitty? — indaguei.
— Roncando.
— Um é melhor que nada, querido — brinquei.
— Prefiro três. É bem mais divertido — replicou ele.
— Já volto com um time da pesada.
Corri e dei um beijo rápido nele antes de sair.
— Pensei que seria desprezado novamente — aprovou Richard a minha
atitude.
— Pensou errado — falei, entrando no carro.
Até que não demorou muito para chegarmos ao LAX, aeroporto internacional
de Los Angeles. Além de ser sábado, ainda era muito cedo, ficando o trânsito
menos intenso naquele horário.
Anne, que normalmente irradiava alegria e expansividade, surgiu
estranhamente murcha. De imediato, preferi não indagar sobre seus reais
motivos na frente das crianças, embora para mim soasse óbvio que tudo tivesse a
ver com a ausência do Luciano. Após as saudações e indagações iniciais sobre o
tamanho, o aspecto e a saúde das crianças, partimos de volta para casa.
Ao percebê-la calada demais, resolvi puxar assunto:
— E aí, fizeram boa viagem?
— Tirando os socos e os pontapés que levei desses dois enquanto eles
dormiam na poltrona do avião? — salgou na ironia, sem ao menos sorrir. — De
resto, foi tudo dentro dos conformes.
— Chegou azeda, hein, amiga! — reclamei. — Vamos melhorar essa cara?
Assim vou achar que não sentiu a minha falta...
— Eu não estaria aqui se não sentisse.
— Não sei não... Acho que viria de qualquer forma. Quem mais a aturaria
neste mundo? — debochei, parando num semáforo.
— É, tem razão.
— Você concordou? E não me chamou de cascavel ou de chata? Só pode estar
doente...
— Talvez esteja.
— A coisa é séria assim?
— Pior não poderia ser — admitiu, entristecida.
Certifiquei-me da distração das crianças pelo retrovisor do carro antes de
indagar:
— Brigaram?
— O “João” — mudou o nome do Luciano para ludibriar os filhos — pediu
um tempo e saiu de casa.
— Motivo? — Arqueei a sobrancelha, acelerando novamente o carro.
— Talvez “Maria” — apelidou-se — tenha virado um sapo e perdido a graça
depois de dois partos.
— Que eu saiba, ela não engordou tanto assim. Me parece muito bem, na
verdade... — elogiei sinceramente.
— Faz um esforço sobrenatural para a lei da gravidade não sobrepor, mas não
tem tido muita recompensa. — Tentou secar uma lágrima que descia no canto
dos olhos.
Anne não mudou tanto assim as suas formas. Desde que conseguiu superar
seus traumas, manteve uma postura rigorosa quanto à alimentação, evitando
engordar. Após o casamento, a vigília se intensificou ainda mais, provavelmente
pelo medo de perder aquele que amava. Somente se esquecia de que a fisiologia
e o metabolismo dos humanos mudavam com a idade, e que a dificuldade de
manter o visual impecável aumentava a cada dia, podendo somente amenizá-lo.
A prova disso era o próprio Luciano, que já não tinha um corpo tão atlético
assim, mesmo que continuasse fazendo atividade física.
— Não acredito que o problema seja esse. Na maioria dos casos, a culpa não é
de um só. — Apertei mão dela, oferecendo apoio.
— De quem mais poderia ser a culpa? Se Maria continuasse atraente, João não
precisaria sair à procura de outras por aí...
— Acha que ele...?
Isso não me surpreenderia há alguns anos, pela fama de conquistador que o
intitulava. Porém, após o matrimônio, Luciano se mostrou um homem
responsável e apaixonado, totalmente diferente daquele rapaz pegador que
conheci. Sua atitude atual parecia não mais combinar com a vida dedicada que
levava até aquele momento.
— Não é necessário procurar para achar, amiga. A mulher sente quando não é
mais amada, quando deixa de ser interessante para um homem.
Disso eu não podia reclamar. Suspeitava que até se eu estivesse coberta de
piche meu marido encontraria um jeito de dizer que fiquei linda e ainda por cima
tiraria algum proveito da situação.
— Mas então é uma suposição de Maria, não uma certeza — lancei a dúvida
no ar, desviando a cabeça de um urso de pelúcia arremessado do banco de trás.
— Vitória, a mamãe está dirigindo. Nada de zunir coisas dentro do carro, ou vou
acabar batendo! — repreendi-a.
— Desculpa... — A vozinha da minha filha soou arrependida.
Dei uma cutucada no joelho da Anne, alertando-a de que continuava ligada no
assunto.
— Maria julga que já encontrou provas suficientes, e agora tem que ser forte
para sobreviver a isso — ela alegou.
— Resposta vaga — refutei. — As provas são concretas ou povoam a mente
dela? Muitas vezes, o ciúme cega as pessoas, e elas enxergam além do que
existe. Falo por experiência própria.
— Ah, me poupe! O que você entende disso? Vai ter ciúme de quê? Seu
marido baba por você, Stephanie! Isso é público e notório! Também,
convenhamos! Continua jovem, não engorda ou cria rugas, não precisa fazer
ginástica para evitar que o corpo despenque...
— Posso até não mudar a forma física, mas de ciúme entendo bem. Esse é um
grande defeito de fabricação inerente à minha espécie. Os vamp... Quer dizer,
nós — corrigi o deslize — exacerbamos todos os sentimentos, tanto os bons
quanto os ruins.
— É, mas nunca vai ter um motivo concreto, essa é a questão!
— Acho que Maria resolveu dar crédito demais às coisas menos importantes
ou transitórias e se esqueceu de que o principal é o diálogo, a compreensão, o
entendimento...
— Dialogar com quem? Ela não tem como conversar com as paredes.
— E o que os dois faziam quando ficavam juntos? Sim, pois não venha me
dizer que João nunca voltava para casa. — Entrei na rua onde morava.
— Discutiam.
— Resta saber o que leva os dois a brigar.
Chegamos à frente da nossa casa.
— Creio que já dei a dica.
— Ah, fala sério, Anne! Então o João chegava do trabalho, colocava a Maria
numa balança e dizia: “Hoje vou dormir no sofá da sala porque você engordou
cinquenta gramas”? Por favor, arrume um motivo menos ridículo.
— Talvez ele nem tivesse tempo ou vontade de colocá-la numa balança, de tão
tarde que chegava. São muitos problemas, amiga. Não dá para enumerar.
— Quem neste mundo não tem problemas? Pensa que vivo num mar de rosas
só porque sou...? — insinuei.
— Sua vida é um mar de rosas, só você que não enxerga.
Antes de soltar o verbo, estacionei na garagem, abrindo as portas traseiras do
carro para que as crianças corressem livres pelo quintal.
— Ah, é? Então vamos lá... Não posso pegar sol ou fazer amizades
duradouras, vivo eternamente isolada, tenho que fingir que não enxergo as
intermináveis cantadas dos homens comigo e das mulheres com Richard, sou
obrigada a me mudar toda hora porque as pessoas desconfiam do que os meus
filhos falam, das nossas atitudes... Isso sem falar no fato de que terei que assistir
a todos aqueles que amo partirem, mesmo os que vi nascer muito depois de mim.
— Tem o principal, amiga. Quando o amor está presente, o resto se supera.
— João disse isso? Que o sentimento acabou?
Ela não respondeu. Ao invés disso, continuou se esquivando.
— Não sabe a sorte que tem por ser o que é, Stephanie. É uma das poucas que
pode escrever um “felizes para sempre” ao término do seu livro.
— E, mesmo assim, procuro fazer o que posso para que isso realmente
aconteça. Não quero somente que Richard me ame, quero que ele seja feliz
também, independente de qualquer coisa. E, para tal, procuro respeitar o trabalho
dele, os gostos, as vontades e a individualidade. É uma conquista diária.
— Depois de uma declaração dessas, que marido não seria feliz? — brincou
meu marido, aproximando-se.
Anne deu uma de ofendida, esquecendo-se até mesmo de se virar e
cumprimentá-lo.
— Do jeito que você fala, dá a impressão de que Maria não faz nada disso!
— Quer que eu seja sincera, amiga? — decidi contra-atacar. — Cansei de ver
Maria implicando com o horário dos plantões do João, das idas aos congressos,
dos cursos e até dos atendimentos domiciliares. Parece até que ela se esqueceu
de que se casou com um médico... Como espera que João se sinta bem, sendo
impedido de fazer o que sonhou, estudou e lutou a vida inteira para ser?
Falei realmente o que pensava. Nos primeiros dois ou três anos de casamento,
a química entre eles parecia funcionar às mil maravilhas. Porém, passado algum
tempo, comecei a notar uma marcação cerrada por parte dela, que aparentava
não se conformar com a nova rotina estabelecida em sua vida.
— Maria também sonhou com muita coisa e teve que renunciar a tudo para
poder ficar com João: mudou de estado, ficou longe da família, parou de
trabalhar para ficar com as crianças... — enumerou ela suas razões.
Cruzei os braços e preferi encará-la de frente.
— Pelo que vejo, descobri o xis da questão. Maria se julga injustiçada pela
vida que ela própria escolheu e acha que João tem a obrigação de fazer um
sacrifício para que ela se sinta compensada — cutuquei a onça com vara curta.
Touché! Acertei o alvo no centro.
Por mais que ela tentasse negar, confrontar-se com a verdade a deixou
aturdida. Precisaria de argumentos muito mais fortes para sair daquela cilada do
que pôr a culpa no valor calórico dos alimentos. Anne abaixou a cabeça por
segundos e ainda assim não se deu por vencida.
— Você não devia detonar Maria. Que eu saiba, o seu marido não vai mais aos
congressos e cursos — acusou-me, fingindo não se abalar com a verdade
exposta.
— Não por imposição minha — contrapus. — Sei muito bem o quanto ele
gostaria de continuar participando efetivamente dessas atividades, só que
infelizmente chegou uma hora em que esse recesso se fez inevitável. As pessoas
não acreditam mais na sua juventude, e levará anos, talvez décadas, até que ele
possa retornar. Acredite: não me faz nada bem vê-lo chateado por não poder
interagir com os companheiros de classe. Não obrigo Richard a ficar amarrado
ao meu pé e jamais exigiria que ele renunciasse ao que nasceu para ser para dar
uma de plantonista ao meu lado!
— Não fico ao seu lado obrigado, amor — declarou ele, preocupado com o
rumo da nossa discussão. — E não entendo o motivo de as duas ficarem
discutindo um assunto sem pé nem cabeça a esta hora da manhã!
Um sorrisinho irônico despontou nos lábios de Anne.
— Viu só? Acho que não preciso dizer mais nada, preciso? Eis a diferença...
— disse ela, sugerindo que Richard faria qualquer coisa para me fazer feliz.
— Sei muito bem o que ele é capaz de fazer por mim, Anne. Mas não é essa a
questão mais importante agora. O que eu acho é que Maria se acovardou depois
que casou, não quer admitir o erro e não faz nada para que a situação se
modifique. Não seria bem melhor se ela fosse sincera e falasse a verdade,
buscando um modo de reverter a própria insatisfação, ao invés de exigir que o
companheiro afunde junto? Quem era mesmo que me dizia que eu fingia para
mim mesma, que tinha que aprender a me olhar no espelho e laçar a felicidade à
força, hein?
— É de se causar estranheza, Stephanie. Resolveu defender o João? Pensei
que fosse a minha melhor amiga!
— Quem é João? — indagou Richard, mais perdido do que cego em tiroteio.
— Ser a melhor amiga não significa que eu tenha que passar a mão na sua
cabeça, quando acho que está errada! Deixa de lutar pela sua felicidade por puro
orgulho e egoísmo, para depois ficar se lamentando, jogando a culpa na celulite!
— devolvi, entrando na sala pela porta da frente.
— Falar é fácil. Queria ver se fosse com você! — praguejou.
— Pois vou lhe dizer uma coisa: ontem, perdi um dia inteiro me martirizando
por não ter tido coragem de tirar a limpo uma dúvida que ficou engasgada na
garganta, e essa mesma covardia não dava a oportunidade ao meu marido de se
explicar. Por conta disso, sofri, e ele também. Sendo assim, decidi que, por mais
que eu morra de ciúme, ele será sempre o primeiro a ser ouvido. Se o tivesse
escutado antes, não teríamos passado pelo que passamos. Mesmo não sendo
humana, vou lutar eternamente por ele e só desistirei no dia em que Richard
disser na minha cara que não me ama mais ou retirar aquela aliança da mão
esquerda! — alterei a voz.
— Céus! Vou costurar a aliança no meu dedo, antes que ocorra uma desgraça
na minha vida... — ironizou meu marido, encenando uma cara amedrontada.
Nesse ínterim, o telefone tocou. Pela proximidade, fui obrigada a atender. Não
estava com espírito e muito menos com humor para papear com ninguém, mas...
— Oi, Stephanie, tudo bem? — Uma voz coincidentemente providencial me
saudou do outro lado da linha.
— Oi, Luciano, tudo ótimo! E você? — metralhei Anne com um olhar
provocativo.
— Mais ou menos. A Anne já chegou por aí com as crianças?
— Se for para mim, não posso atender — sussurrou minha amiga, fazendo
pirraça.
— A Anne? Chegou sim... Quer falar com ela? — impliquei.
— Stephanie! — ela rosnou, advertindo-me.
— Ela quer falar comigo? — estranhou Luciano.
— Não só quer, como chegou toda tristinha porque você não veio. Tem
certeza de que não tem como tirar uns dias de férias para acertarem os ponteiros?
Se quiser, posso ficar com as crianças — prontifiquei-me.
— Só depende dela.
— Um minutinho, então... — Estiquei o fone na direção dela, tapando com a
mão o lado da escuta. — Você é quem decide: orgulho e tristeza ou diálogo e
felicidade?
Anne me olhou como se tivesse intenção de me enforcar, tomando o fone das
minhas mãos. Lógico que me xingou antes.
— Cascavel!
Abri um sorriso triunfante.
— Agora ela voltou ao normal.
— Então João e Maria eram...? — deduziu Richard.
— E Luciano chegou a sair de casa. Dá para acreditar?
— Você é... surpreendente, sabia? — declarou meu marido, somente ali
entendendo a razão da nossa discussão.
— Ela precisava ouvir umas verdades — falei, regozijando pela mudança de
expressão da minha amiga ao telefone.
— Não me refiro somente à Anne, ela tem sorte por ter uma amiga leal como
você. Na realidade, o que me impressiona são os seus conceitos, os seus valores,
a capacidade de extrair o ensinamento de um suposto erro num dia e no outro já
fazer parte do seu cotidiano. É como se eu descobrisse que me casei com uma
nova pessoa todos os dias.
Relaxei os ombros em resposta.
— Procuro apenas não cair novamente no mesmo erro.
Richard se aproximou, enterrando os dedos da mão direita no meu cabelo.
— Stephanie, ouvindo as duas discutindo, fiquei preocupado com uma coisa.
— Diga.
— Desde que engravidou, tem se dedicado a mim e aos nossos filhos tão
exemplarmente e agora, diante de todos, expressou o quanto se importa, tanto
com a felicidade quanto com a minha satisfação profissional. — Parou para
deslizar o dedo indicador na maçã do meu rosto. — E você? Não se sente tolhida
por ficar tanto tempo longe do trabalho?
— Sinto falta do ambiente hospitalar, sim, não vou negar. Mas fiz uma escolha
de coração pelos meus filhos e sou feliz cuidando da minha família. Terei tempo
suficiente para voltar ao trabalho quando eles crescerem. A eternidade é longa,
não?
Anne passou a conversar ao telefone mais relaxada, o que me deixou aliviada.
— Tem certeza, amor? — ele insistiu. — Se quiser, posso ajustar melhor os
meus horários para ficar mais com as crianças e...
— Relaxa. Ainda não é o momento — garanti. — Quando chegar a hora, eu
mesma vou dizer, ok?
— Confesso que as mudanças foram ocorrendo de forma tão inesperada que
não me dei conta de que poderia estar lhe reprimindo. Além do mais, por ter
nascido em outro século, a situação me soou perfeitamente normal.
— Se estou bem assim, não vejo por que não possa ser normal.
— Sinto sua falta ao meu lado no hospital — confessou. — Até agora, não
encontrei nenhuma enfermeira à sua altura.
— Credo! Elas conseguem ser ainda mais baixas do que eu? — brinquei. —
Suas auxiliares são todas anãs?
Richard roçou o polegar no meu lábio, olhando-o fixamente.
— Sua boba...
— Hmm, hmm! — pigarreou Anne, cortando o nosso transe habitual.
Levantei a cabeça e esperei que ela tomasse a iniciativa.
— Acho que fui mal-educada, não? Desculpa, Richard. Nem cumprimentei o
meu compadre — Estendeu ela a mão para se retratar, cabisbaixa por vergonha.
Quando Anne o chamou de compadre, referia-se ao fato de que fomos
escolhidos para sermos os padrinhos de batismo da Júlia, que nasceu dias depois
dos meus filhos. O mesmo aconteceu com Rico, que teve como padrinhos a
Anne e o Luciano, enquanto Vitória foi batizada por Ava e pelo meu irmão,
Juninho.
— Seja bem vinda, comadre — saudou Richard.
— Desembucha logo, Anne. E aí? — apressei-a.
— Ele disse que vai tentar comprar uma passagem para hoje mesmo —
reprimiu ela um sorriso.
— E...?
— Você sabe. Não é à toa que Richard a chama de bruxa.
— No diminutivo — corrigiu ele, enfático.
— Eu não sei de nada. Dá para ser mais clara? — pressionei novamente,
fingindo não entender.
— “João” falou que sentiu a minha falta, que queria voltar para casa. —
Soltou uma lágrima, dessa vez de alegria. — Mereço seu perdão, amiga?
— Receio que não, você é uma mala sem alça — impliquei. — Mas vou fazer
esse esforço imenso. Pelas crianças.
Ela veio me abraçar.
— Vampira chata.
— Humana mala.
Seis

Meu grito irrompeu o sono de Richard bem no final da madrugada.


— Nãoooo!
— Stephanie? O que houve? — perguntou ele, sentando-se ao meu lado.
Arfei por alguns segundos, sem conseguir pronunciar alguma frase coerente
ou um pensamento conciso. Acordei baratinada, tanto que aquela antiga
sensação de sufocamento me acometeu. Relatar imagens desconexas de um
devaneio não era algo tão fácil assim para mim, principalmente depois de ter
passado anteriormente por traumas relacionados a sonhos.
— Preciso ver o meu filho.
Levantei de supetão e me dirigi ao seu quarto, encontrando-o dormindo
profundamente. Parecia exausto após ter corrido e brincado tanto com os
amiguinhos no quintal. Fiz um leve carinho nos seus cachinhos negros, receosa
de acordá-lo com a temperatura fria dos meus dedos, mas precisava desse
contato, de ouvir o som da sua respiração quente e ritmada para ter certeza de
que ele estava bem. Em seguida, o cobri com um lençol, fazendo o mesmo com
Vitória antes de voltar para o meu quarto.
— O que você sonhou de tão grave para sair daqui tão angustiada? — indagou
meu marido.
— Na verdade, não sei dizer direito. Tinha alguém de costas... Parecia uma
mulher. Quer dizer, era uma mulher de cabelo loiro, comprido. De alguma
forma, ela prejudicava Rico, e ele chorava muito, repetindo várias vezes: “Não
fui eu.” Havia também uma grade igual à de uma prisão e...
— E...?
— A minha aliança foi parar no dedo dela, ou talvez a sua, sei lá. — Tapei os
olhos com as mãos. — Eu precisava ajudar o meu filho e não conseguia porque
estava... deitada numa cama, como se não houvesse um jeito de acordar. E o
mais estranho de tudo era você...
— Eu?
— É, você... ignorou tudo.
— O quê? — revoltou-se. — A discussão com a Anne fez um estrago no seu
psicológico. Só tem coisa absurda nesse sonho! — zombou. — Eu não faria nada
vendo alguém prejudicar o meu filho? E depois daquela sua declaração
bombástica de ontem, vigio a posição da minha aliança no dedo pelo menos
umas cinco vezes ao dia!
— Não brinque, Richard. Fiquei com medo — confessei. — Senti uma
sensação ruim, de sufocamento.
— Foi apenas um sonho — buscou ele me acalmar, falando com a voz macia.
— Nada disso vai acontecer, garanto.
— Tomara que esteja certo. A última vez que sonhei algo assim, foi antes
mesmo de ficarmos juntos. As imagens confusas bateram direitinho como
aconteceu em Londres: o meu pai sendo lançado no ar e caindo no chão, os olhos
negros de um homem que tentava me estrangular, o fogo e você me carregando
nos braços. O cômico nisso tudo é que despertei por achar que o impossível era o
famoso Dr. Richard estar me salvando, e não o resto.
— Nunca soube disso...
— Acho que o trauma que o monstro me causou fez com que eu deletasse esse
pesadelo da cabeça para não ter que relembrar.
— Não — negou com veemência. — Eu me recuso a dar crédito a essa
maluquice. Foi só um sonho — repetiu, contendo um sorriso repentino aflorar
em seu rosto.
— Qual é a graça?
— O “famoso Dr. Richard me salvando”... — imitou a minha voz de um jeito
engraçado. — Então realmente sonhava comigo antes.
— E você descobriu meu segredo logo de cara, quando fui levada para a sua
casa pela primeira vez e acordei completamente zonza por causa da pancada na
cabeça.
— Descobri segredos seus bem mais interessantes naquele dia, garanto —
falou com malícia, enroscando os dedos nos meus cabelos.
— Você não muda mesmo, não?
— É lógico que não, vampiros são imutáveis — implicou, empurrando
intencionalmente a minha cabeça contra o travesseiro.
— Certo, mas... não querendo interromper a sua empolgação, amor... Não era
agora que você teria que levantar para buscar o Luciano no aeroporto? —
Mostrei os dentes, vingativa.
Richard franziu a testa, desolado por constatar a verdade na observação. Em
contrapartida, com um simples olhar me deu a entender que, embora o placar
estivesse em um a zero para o meu time, o jogo ainda não havia terminado.
Enquanto ele se arrumava, verifiquei a paisagem pela janela. O domingo
amanheceu timidamente chuvoso. Se fôssemos humanos, com certeza ficaríamos
injuriados. Entretanto, no meu lar isso era motivo de alegria, um sinal de que a
diversão do lado de fora poderia se estender pelo dia inteiro. Num clima assim,
estávamos em pé de igualdade com todos os humanos, podendo exercer
plenamente as mesmas atividades sem nos preocupar em ficarmos exaustos ou
termos que voltar correndo para casa.
Como prometido anteriormente às crianças, decidimos levá-las a um parque
temático. Apesar de chegar nitidamente cansado de viagem, Luciano enfrentou a
maratona para não ficar longe dos filhos e, claro, da Anne.
— “Meu” — o sotaque paulistano do Luciano o denunciava —, vou acabar
pedindo para me tornar um de vocês. O Richard já está parecendo mais novo do
que eu. Daqui a pouco, vão me perguntar se sou o pai dele.
— Parecendo? Eu sou mais novo do que você. Para todos os efeitos, agora
tenho vinte e nove anos, e o meu compadre, beirando os quarenta... — implicou
meu marido, acabando de comprar os tíquetes do parque.
— Ahá! Trinta e oito — corrigiu Luciano, como se fizesse uma diferença
imensa. — Quero ver você me zoar quando os meninos ficarem adultos e
aparecerem com os namorados em casa. O que você vai dizer? “Oi, eu sou o pai
deles”? — plagiou a voz grave de Richard.
— Aí não serei mais o pai, e sim o irmão mais velho. E dos chatos.
— Até virar o filhinho ou o netinho...
Embora fosse uma piada, tais suposições realmente nos povoavam a mente.
Queríamos que nossos filhos crescessem e se tornassem adultos, temendo que a
natureza vampiresca aflorasse neles antes e os dois permanecessem crianças para
sempre. Mas, ao ficarem adultos, esbarraríamos com outros problemas como
esse que o Luciano anunciara, além de muitos outros. Minha única esperança era
que, se conseguimos vencer a primeira etapa sem dificuldades absurdas,
chegando à fase adulta, já tivéssemos encontrado a solução para todos esses
impasses. Pelo menos para a maioria.
— Mãe, olha! Do desenho! — Puxou-me Rico pelo braço, querendo tirar uma
foto com o personagem.
— Fiquem os quatro lá, ao lado dele — ordenei, sacando a máquina
fotográfica da bolsa.
Tive que admirá-los pelo visor da câmera.
Como toda mãe prosa, achava meus filhos lindos. Até hoje me impressionava
aquela cor azul-violácea que eles estampavam nas íris, genética de Richard.
Também não podia negar que os filhos da Anne eram muito bonitos. A Júlia
herdou o cabelo loiro e ligeiramente ondulado do pai, era esguia e falante.
Contudo, tinha o sorriso inconfundível da minha amiga. Já Miguel era mais
tímido, possuía o cabelo louro-avermelhado e as bochechas rosadas de Anne,
assim como uma leve tendência a ser mais fortinho. Quanto aos olhos, ficava até
difícil dizer de quem herdaram, pois os dois tinham olhos verdes, como os pais.
— Aquela ali não é a Ava? — indagou Anne ao meu lado, indicando uma
mulher loura de costas.
— É — estranhei. — Engraçado, não sabia que ela havia voltado das férias
em Atenas...
Ava continuava a mesma pessoa despachada e prática de sempre.
Eventualmente, viajava sozinha ou até se encontrava com as amigas, marcando
com elas programas noturnos e exigindo sempre quartos em hotéis diferentes no
intuito de ter privacidade para se alimentar. Assim como o meu pai, ela sempre
arrumava um jeito de se mudar para o mesmo lugar onde estivéssemos. Eu a
entendia. Nenhuma amizade, por mais forte que fosse, seria suficiente para
suprir a falta que o laço familiar proporcionava à nossa espécie. Costumávamos
ser muito unidos nesse aspecto. Mesmo sendo ela tão desapegada, sabia do
período curto que possuía para desfrutar das tais amigas até ser obrigada a dizer
um inevitável adeus.
— Ava! — chamou-a Anne.
— Oi! — saudou ela, alegre.
— Que coincidência! — exclamou Anne, surpresa, ainda mais pelo fato de
considerar estranho uma pessoa adulta e solteira passear num parque de
diversões sozinha.
— Que bom que estão aqui! — exultou Ava. — Chegaram há muito tempo?
— Vim ontem com as crianças, e o Luciano, hoje cedo.
— Ótimo. Cadê Richard? — virou-se minha cunhada para mim, dando-me um
beijo no rosto.
Rodopiei os olhos para indicá-lo.
— Logo ali, conversando com o Luciano.
— Reunião da “junta médica” — desdenhou Anne.
— Anne! — repreendi-a.
— Era brincadeira, Stephanie. Cruzes!
Continuei estreitando o olhar na sua direção.
Por mais que ela afirmasse o contrário, preocupava-me profundamente aquela
cena. De nada adiantaria o esforço para trazer seu marido de volta se continuasse
se comportando de maneira infantil. Os humanos costumavam ter um nível de
tolerância bem menor nesse aspecto, enxergavam a separação como algo comum
e viável para solucionar qualquer dificuldade de convivência. Por vezes,
julgavam mais fácil sair de casa e procurar pessoas menos complicadas do que
enfrentar de frente seus problemas. Daí a frequência com que ouvíamos por aí a
célebre frase: “incompatibilidade de gênios”, algo que os vampiros
desconheciam, justamente porque, para nós, teoricamente não haveria uma
segunda chance.
Além do que, convenhamos, nada mais natural do que nossos maridos
aproveitarem o contato para relatar casos e trocar experiências. Isso era algo
absolutamente normal na maior parte das profissões, ainda mais na classe
médica, quando a solução da enfermidade de um poderia estar pautada no
sucesso do caso do outro.
— Voltou quando de viagem? — perguntei à Ava, mudando de assunto para
não me aborrecer.
— No início da madrugada, por isso não liguei.
— E já amanheceu com vontade de se divertir — supus.
— Uma amiga me convidou, e eu tinha recusado, claro. Mas aí o tempo
fechou, ela desistiu, e eu mudei de ideia. — Fez uma expressão sapeca. —
Parece até transmissão de pensamento, acabei de pegar o celular para tentar
convencê-los a vir.
— Ficamos com saudades. A Vitória então...
— Dinda! — saudou-a minha filha, feliz por vê-la.
— Não falei?
— Quero andar no elefantinho que voa — pediu Júlia.
— Fica perto do barco dos piratas? — indagou Vitória.
— Não sei dizer. Tenho que olhar no mapa. — Procurei pelo folheto na bolsa.
— Ah, não! Isso é coisa de bebê! — reclamou Rico, exibindo uma careta. —
Quero entrar na mansão mal-assombrada e na montanha-russa!
— Rico, você não tem altura para entrar na montanha-russa ainda — lembrei-
o.
— Droga! O papai disse que vai com o tio Luciano!
— Não tem problema, a mamãe te leva na mansão mal-assombrada —
prometi.
Depois do sonho estranho que tive, seria difícil desgrudar o olho do meu filho.
Júlia logo protestou.
— Eu não quero ir, tenho medo de fantasma!
— Levo as meninas no elefante, se quiserem — ofereceu-se Ava.
— Então vou junto — decidiu Anne. — Pela quantidade de pessoas
aguardando, Richard e Luciano vão demorar.
— Encontro vocês aqui em meia hora então? — sugeri.
— Ok.
Entrei na fila quilométrica da atração de Rico, e de lá o seu estômago inquieto
começou a roncar.
— Mãe, tô com fome! Posso comprar um churro?
— Aposto que ficou brincando no café da manhã e não comeu nada, né,
figurinha?
Ele fez cara de sofredor.
— Deixa, mãe...
— Não é melhor esperar a atração terminar? Se sairmos da fila agora, teremos
que voltar para o final dela.
— Eu sei comprar — insistiu. — Você fica na fila, e eu compro.
Avistei a barraca de churros na minha direção e, diante da sua expressão
impaciente, aceitei a proposta. Entreguei-lhe o valor correto para que não se
enrolasse com o troco, e Rico correu até o local, fazendo o pedido ao atendente.
Logo atrás dele, surgiu uma mulher alta, bem vestida, com os cabelos louros e
ondulados. Meu filho pegou o churro, e ela se agachou para observá-lo de perto,
segurando o seu rosto.
Epa! Uma mulher loura de costas?
Fiquei um tanto apreensiva quando a vi conversando com ele, e por pouco não
saí da fila para resgatá-lo. Em questão de segundos, ela o soltou, deixando Rico
retornar. A loira chegou a olhar na minha direção, como se procurasse por
alguém, e logo após foi embora, sem levar o seu pedido. Imediatamente
estranhei.
— O que aquela mulher queria com você? — perguntei a Rico, intrigada.
— Sei lá. Ela é esquisita — comentou, mordiscando seu alimento gigantesco.
— Esquisita como?
— Ficou falando que me achava bonito, que eu parecia com um cara que ela
conheceu...
— E o que mais?
— Perguntou o meu nome.
— E o que você disse?
— Rico, ué... — respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Rico é um apelido, meu filho. Seu nome verdadeiro é Richard, como o seu
pai — fiz questão de lembrá-lo, mesmo que intimamente vibrasse por ele não tê-
la revelado. — Foi só isso o que ela quis saber?
— Só.
— Tem certeza?
— Tenho, mãe...
Na certa, era mais uma paciente ou enfermeira encantada pelo meu marido.
Rico era sua cópia fiel...
Argh! Preciso me controlar!
— Não quero que fale com estranhos, Rico. A mamãe já conversou sobre isso
com você. Não aceite nada de ninguém, mesmo que lhe ofereçam presentes ou
doces. O papai e a mamãe nunca vão mandar recados por pessoas desconhecidas,
então não acredite se lhe chamarem para qualquer lugar, até se disserem que foi
ordem nossa, entendeu?
Era necessário fazer esse discurso diariamente para que a mensagem fixasse
na sua mente e a minha consciência ficasse tranquila.
— Tá bom, mãe — respondeu entediado.
Entramos na atração minutos depois e curtimos bastante.
Quer dizer, eu curti.
Rico bancava o machãozinho, mas na hora H fechou os olhos e se agarrou em
mim. Contive a vontade de rir e aproveitei o momento para abraçá-lo.
Sete aninhos...
Parecia até que havia sido ontem que esses olhinhos azuis me emocionaram
pela primeira vez.
— Amo você, sabia? — sussurrei.
— Sabia. Você e o papai falam isso todo dia — retrucou, abrindo um dos
olhos para ver se o entretenimento já havia terminado.
— Ficou com medo? — brinquei, saindo do carrinho.
— Sou homem, não tenho medo de nada.
— Oh, claro! — fingi acreditar. — Pois eu tenho medo de um montão de
coisas. É cada fantasma feio, não?
— Pode deixar que eu protejo você — ofereceu-se, destemido.
— Por que não me protege ficando um pouco no meu colo?
Confesso: foi puro saudosismo da minha parte.
Tinha que admitir que fiquei com saudade da época em que carregava as
crianças para cima e para baixo nos braços. Era tão bom! Talvez só não fosse
melhor do que os momentos em que eles diziam que nos amavam e faziam com
que nos sentíssemos as pessoas mais importantes do mundo.
Caminhei em direção à atração a que Richard e Luciano foram, esperando que
Ava, Anne e as meninas já tivessem retornado, o que não aconteceu. Enquanto
não apareciam, curti o momento “bebê” do meu filho numa daquelas lojinhas de
souvenir. Já começava a me inquietar quando Richard nos surpreendeu pelas
costas, todo molhado, por conta da queda d’água que o entretenimento
proporcionava.
— Colinho da mamãe? — estranhou meu marido.
— Ela pediu. Tô protegendo a mamãe porque ela teve medo da casa mal-
assombrada — explicou Rico
Pisquei o olho para Richard, que compreendeu imediatamente.
— Papai também precisa do abraço do filhão. — Estendeu as mãos para
recebê-lo.
Pelo visto, não era só eu que sentia essa nostalgia...
Fiquei impaciente, incomodada com a demora do retorno da minha menina.
— E a Vitória, onde está? — indagou Richard.
— Foi com Ava e a Anne no elefante voador.
— Ava está aqui? — exprimiu preocupação. — Não confio muito em deixar
as crianças com ela. É distraída demais...
Pronto. Aquilo foi o suficiente para que a minha antena de mãe fosse erguida
em alerta vermelho.
— Vou até lá — avisei, deixando Richard à espera do Luciano, que
provavelmente deveria ter ido ao toalete.
Minha intenção durou pouco.
Ao sair da loja, deparei-me com o sol ofuscante e um céu totalmente aberto.
Essa não! A previsão do tempo não tinha dado chuva para o dia inteiro?
Como é que vou sair daqui agora?
Retornei alguns passos para dentro do estabelecimento, avistando em seguida
a Anne trazendo o Miguel num daqueles carrinhos de aluguel. Imediatamente
atrás vinha Ava, correndo para se esconder do sol, Júlia e...?
— Cadê a minha filha?
Ava olhou ao seu redor.
— Vitória? Ué... Ela vinha correndo ao lado da Júlia...
Entrei literalmente em pânico. Corri para a saída na intenção de achá-la, mas
foi em vão.
— De onde vocês vieram? — interroguei, apressada.
— Da barraca de pipocas à esquerda, a uns duzentos metros daqui — Anne
tentou ajudar.
Saí em disparada, mesmo ouvindo as advertências de Ava. Não era a primeira
vez que enfrentava o sol daquela forma, mas alguma coisa me dizia que eu não
devia demorar. Esperava apenas que a minha filha não estivesse muito longe,
perdida, e que eu não acabasse despencando antes pelo caminho.
— Vou com você! — gritou Anne.
Anne deixou as crianças com Ava e correu atrás de mim, preocupada. Sabia
que vampiros não deviam se expor ao sol.
— Viemos daquela barraca. — Apontou ela para o lugar.
Vasculhei em torno da área e nada encontrei. Apesar de toda a rapidez inerente
à espécie, por conta da claridade, meus olhos iam perdendo a acuidade visual, e
os movimentos das pernas ficavam cada vez mais lentos. Perguntei ao atendente
da barraca se tinha visto uma menina com as descrições da minha filha, e ele
garantiu que não reparou. Andei em círculos para rastrear o lugar e, por fim, dei
uma de maluca e gritei no meio do parque:
— Vitória!
Foi a sorte.
Vampiros têm uma ótima audição, por isso ouvi o seu gritinho respondendo
“mãe”, vindo de um jardim florido do outro lado, a uns cem metros adiante.
Quando consegui alcançar o local, totalmente exausta e arfante, reconheci
Vitória tentando se desgarrar de outra mulher loira, que a mantinha pelo braço.
— Largue a minha filha! — ordenei, enxergando-as desprovidas de cor.
— Mãe! — choramingou Vitória.
— Mais uma? — indagou a tal mulher, mirando-me com olhos de horror. —
Saia de perto de nós, criatura das trevas!
— Solta a minha filha, ou não respondo por mim! — ameacei entredentes,
sentindo um peso enorme me puxando para baixo.
— Não pode ser mãe de coisa alguma! Engana esta pobre criança para se
alimentar do sangue dela! — Sacou ela um crucifixo da bolsa.
Anne enfrentou a mulher:
— Você é maluca?!
Em meio à gritaria, algumas pessoas se aglomeraram para ver o que acontecia.
Eu, com as pernas bambeando, caminhei na intenção de hipnotizar a mulher e
libertar Vitória. Foram somente três passadas antes de cair na grama, totalmente
desprovida de energia.
Essa não... Por que justo naquele dia a previsão do tempo tinha que falhar?
— Não sou louca, não! Foi uma aberração dessas que matou um dos meus
filhos! — berrou ela aos quatro ventos. — Vejam! É uma vampira nojenta! Está
caindo porque não pode ficar exposta ao sol!
— Não fala assim da minha mãe! — Vitória mordeu o braço dela,
desvencilhando-se do seu pulso forte.
A mulher não se conteve e, mesmo com Anne se interpondo entre nós duas,
conseguiu empurrá-la para o lado, avançando em mim por meio de socos e
pontapés.
— Volta para o inferno, que é o seu lugar, filha do coisa ruim! Reconheço a
sua raça a quilômetros de distância!
Não havia como me levantar dali. Além de isenta de forças, já não conseguia
mais enxergar absolutamente nada, a visão escureceu por completo. A única
opção que tive foi a de me encolher, protegendo o rosto da surra. Não que ela
pudesse me causar algum dano permanente, apenas afetaria a minha pele com
escoriações transitórias. A impotência diante dos raios solares foi inevitável,
impossibilitando qualquer reação. Só deu para ouvir os gritos de socorro da
minha filha e os grunhidos da Anne, tentando a todo custo retirar a mulher de
cima de mim.
Quando alguém da plateia finalmente se dispôs a nos ajudar, Anne ligou o
dispositivo de discagem rápida do seu celular e clamou a ajuda do Luciano,
explicando o local exato onde estávamos.
— Resolveram sair da escuridão para sugar os inocentes durante o dia? Pois
eu não vou deixar! — Chutou-me mais uma vez na barriga. — Não vou!
— Segurem essa maluca, a moça já está sem pulso! — solicitou apoio uma
voz que não consegui identificar.
— É claro que não tem pulso! Será que vocês não enxergam? Ela não é
humana, é uma maldita vampira! — Avançou novamente, procurando me atingir
na cabeça.
O máximo que escutei foi o urro da minha agressora ressoar subitamente
distante e a voz rouca da Ava suplicando:
— Não, Richard!
Em meio àquela confusão, os seguranças do parque foram solicitados, e o
circo foi literalmente armado. Só consegui enxergar alguma coisa depois que o
Luciano me arrastou para a sombra de um arbusto e, mesmo assim, precisei de
ajuda para me sentar sem despencar novamente.
Um dos seguranças, talvez por ser novo ou inexperiente, ao invés de perguntar
antes sobre o ocorrido, partiu para soltar a mulher da imobilização feroz de
Richard, que a essa altura também já arfava e perdia inteiramente as forças pela
ação do sol. Mais dois seguranças vieram em seguida, tracionando-o pelas
costas, enquanto o primeiro tentava induzir os demais a retirá-lo do local.
— Você não vai me prender! — rosnou meu marido, induzindo por hipnose a
ser solto. — Ninguém vai. Não sou o agressor!
Richard foi liberado de imediato, e veio quase que se arrastando para perto de
mim. Vitória chorava sem parar agarrada ao meu braço, e Rico, também
soluçando, abraçou-me como se tivesse falhado na sua promessa de me proteger
e quisesse evitar a todo custo um novo ataque. Os filhos da Anne se
desesperaram, sequer entendendo a situação.
Foi muito difícil manter a sanidade e constatar de forma tão aviltante o quanto
o fato de sermos diferentes incitava a revolta e o desprezo das pessoas. Naquele
momento, consegui finalmente entender o motivo de Richard tanto temer ser
descoberto.
Ser chamada de criatura das trevas, de aberração...
Os termos soavam cruéis demais para nós, que vivíamos de forma tão reclusa
e nos privávamos dos instintos básicos. Em outra circunstância, livre da presença
extenuante do sol, um simples olhar no fundo do olho daquela mulher resolveria
o caso sem promover alardes.
Também foi perturbador constatar que a exposição aos raios ultravioletas
inutilizava momentaneamente todo e qualquer poder advindo da nossa espécie,
deixando-nos tão vulneráveis ou até mais fracos do que os próprios humanos. E
quanto mais antigo fosse o representante da classe vampiresca, menos resistente
à luz do dia seria, como se a pele perdesse a proteção com o passar dos anos. Por
conta disso, mesmo exaurida, ainda resistia mais tempo à luz solar do que
Richard. Em comparação a ele, eu era uma criança vampira.
— É assim que agem nos parques? — vociferou Luciano. — Julgam as
pessoas sem nem se informarem antes?
— O rapaz torceu o braço da senhora ali, eu vi! — defendeu-se o primeiro
segurança, referindo-se a Richard.
— Você pegou o bonde andando, rapaz!
— O que aconteceu aqui, então? — indagou um dos guardas, percebendo o
erro.
— Essa doida varrida tentou sequestrar a filha da minha amiga e a agrediu
fisicamente! — acusou Anne a mulher, visivelmente revoltada.
— E ele? — perguntou o outro segurança a respeito de Richard.
— Sou o pai da criança e marido da vítima — respondeu ele próprio,
totalmente exaurido. — Só a imobilizei para que ela não agredisse mais a minha
esposa!
— Eu defendia a menina desse monstro! Ela não pode ser mãe, seu guarda. É
uma vampira! Os dois são! — denunciou a mulher, apontando-nos.
Estava na cara que nenhum segurança daria crédito a essa história de
vampiros, ainda mais diante da quantidade de risadas que foi arrancada do
público que assistia à cena ao nosso redor depois daquela declaração. Mesmo
assim, um deles não ficou totalmente convencido:
— Possui algum documento que comprove a filiação da menina? —
questionou-me.
— Certamente. — Abri a carteira para sacar a identidade dela e a minha. —
Quer a carteira do “Conselho Regional dos Vampiros” também? — disparei,
sarcástica.
— Deviam levar essa maluca direto para o hospício! — manifestou-se Anne.
— Tem testemunhas de que foi agredida? — pressionou-me o mesmo
segurança.
Duas mulheres presentes se prontificaram a testemunhar, bem como o rapaz
que me atendeu.
— Que eu saiba, o parque tem câmeras de segurança por todo lado. Não seria
necessário incomodar ninguém para obter a verdade — Anne novamente se
impôs.
— Não quero prestar queixa — apressei-me em dizer. — A coitada é só uma
doente mental. Precisa de tratamento psiquiátrico.
— Mas não é justo! — reclamou Anne. — Ela te deixou toda machucada!
Apesar de me sentir injustiçada também, meu recuo tinha um motivo: se a
denunciasse, seria obrigada a fazer exame de corpo de delito. E aí, o que já soava
problemático ficaria insustentável. Como explicar a falta de batimentos
cardíacos, a melhora dos ferimentos em poucos minutos, a baixa temperatura
corporal...?
Em seu nervosismo, Anne se esquecia completamente da minha condição
inumana e de que, infelizmente, eu precisava baixar a cabeça, assumindo que
perdi a guerra. Fiquei em posição de total desvantagem, e uma revolta era tudo o
que não desejava para chamar mais a atenção.
— É claro que ela não vai me acusar! — bradou a mulher, fazendo força para
voltar a me atingir. — A aberração tem medo de ser descoberta! Este parque está
infestado desses demônios do inferno!
— Aaaargh! Tirem essa demente daqui, ou eu mesma vou parti-la em
pedaços! — ameaçou Anne, perdendo a paciência.
O seu apelo foi ouvido, e a mulher, levada aos berros do local. Somente então
me dei conta da quantidade de pessoas que nos observavam. Ainda que
enxergasse indignação ou pena nos olhos da maioria, sempre havia aqueles que
aparentavam dúvida, por nos classificarem como diferentes ou estranhos.
Para piorar ainda mais as coisas, quem surgira entre os espectadores dessa
tragédia? Ninguém menos que a Sra. Heather Fox, professora dos meus filhos.
Maravilha. A escola inteira iria saber do ocorrido.
Ergui a cabeça imediatamente para ver se Ava estava por perto, desejando que
ela a hipnotizasse antes que aquele corvo empalhado fosse embora, mas não
encontrei a minha cunhada. Claro, devia ter se refugiado em alguma sombra, ou
seria mais um dos nossos a despencar como uma fruta madura caída pelo chão.
— Não entendo — disse o rapaz que me socorreu. — A moça estava sem
pulso. Como é que...?
— Foi só uma queda de pressão pelo calor excessivo. Pode ficar calmo, eu sou
médico — tranquilizou-o Luciano, reparando que Richard, ainda sem condições
de se levantar, buscava através de um abraço me proporcionar o alívio que eu
precisava.
— Você não merecia isso — sussurrou ele ao meu ouvido. — Sinto... ódio por
não ter evitado o ataque a tempo.
— Agredir aquela mulher não resolveria o nosso problema. Sempre haverá
alguém para desconfiar da nossa existência. Além do mais, pelo que ouvi, não
posso julgá-la pelo que fez. Ela foi vítima de alguém da nossa espécie. Perdeu
um filho...
— Pode até ser, mas dói em mim ver estas marcas na sua pele. — Segurou o
meu rosto para olhá-las. — Não aceito que pague por algo que nunca fez.
— Vão sumir daqui a pouco.
— As piores marcas não são as visíveis aos nossos olhos. São as que seguem
conosco pelo resto da vida. Sei muito bem como se sente, aconteceu diversas
vezes comigo.
— Me ajude a não sucumbir, amor. Chorar lágrimas de sangue diante de todos
só iria confirmar a suspeita de alguns e agravar ainda mais a nossa situação —
fiz de tudo para segurar a emoção.
Richard me abraçou mais forte e soltou um rosnado, lamentando o ocorrido.
— O pior é que, do jeito que o céu abriu, não temos como voltar para o
estacionamento até que o sol se ponha — lembrou-me.
— Talvez dê para ficarmos em algum restaurante do parque por um tempo.
Acho que avistei um, cerca de cem metros adiante. As crianças já estão com
fome, então...
Com o auxílio de Luciano e da Anne, fomos discretamente à procura do
restaurante mais próximo. Para não levantar maiores suspeitas, entrei no toalete
e usei uma maquiagem vermelho-arroxeada no corpo. Coloquei, inclusive, um
band-aid na testa, simulando os machucados adquiridos no dia. Melhor pecar
por excesso do que por falta.
Quem me preocupava mais no momento, no entanto, era a Vitória, que, além
de ter sido vítima e assistido a tudo, denotava maior fragilidade. Fiz questão de
deixá-la sentada no meu colo o tempo inteiro, inclusive a alimentando, eu
mesma, para lhe dar maior segurança. Rico também não desgrudava. Sentou-se
na cadeira ao lado, recostando a cabeça na minha cintura.
— Por que aquela mulher bateu em você? — indagou minha filha num
murmúrio, chorosa, enquanto eu tentava empurrar uma garfada de frango em sua
boca.
Fazendo força para não me abalar com os olhares de pesar ao meu redor,
simulei um projeto de resposta:
— É difícil para as pessoas aceitarem tudo o que é diferente, querida. A
mamãe já explicou o que o seu pai e eu somos, lembra? — falei devagar para
não incitar ainda mais a sua insegurança. — Pois então... Ela tem medo de nós,
por isso achou que me batendo estava, na verdade, se defendendo.
— Mas você e o papai não mordem ninguém — expressou Rico revolta,
falando baixinho.
— Eu sei, amor. Nós sabemos disso, só que eles não. E infelizmente não há
como mudar o quem eles pensam. É por conta dessas coisas que a mamãe pede
para os dois não falarem nada sobre o que somos ou como nos alimentamos a
ninguém, para que isso não aconteça novamente, entenderam?
Eles balançaram timidamente as cabeças, concordando.
— Queria agradecê-los pela ajuda — pronunciou-se Richard aos nossos
amigos, consternado. — Sinto muito que tenham vindo de longe para assistir a
esse espetáculo deprimente.
— Confesso que, apesar de ter ficado pasmo com a... revelação, nunca
imaginei que sofriam tamanha violência — declarou Luciano. — Digo isso
porque, se não me revelassem esse segredo, jamais desconfiaria. Em minha
opinião, passariam tranquilamente por pessoas reclusas, ou, no máximo, que
tivessem algum problema de saúde devido à palidez, nada mais.
— Quase sempre dá para passarmos despercebidos. Ultimamente é que o
problema tem se agravado — subentendeu meu marido, fazendo alusão aos
meninos sem deixar transparecer.
— Se precisarem do meu apoio...
— Do nosso — corrigiu Anne, fitando Luciano de relance com ternura. —
Continua sendo a minha melhor amiga, Stephanie. Não me conformo com o que
vi.
— Deu para notar — falei com humor intencional. — Você parecia até uma
dessas barraqueiras brigando para não deixar o rapa levar os seus pertences.
— Será possível que nem mesmo levando meia dúzia de bolachas você deixa
de ser chata? — implicou rindo.
— Vaso ruim não quebra.
Era extremamente necessário mudar o clima pesaroso da conversa para que as
crianças começassem a dispersar e voltassem a brincar com os amiguinhos,
esquecendo momentaneamente o ocorrido.
Passamos algumas horas dialogando naquele ambiente fechado, torcendo para
que o sol desse trégua. Deixei que a Anne e o Luciano levassem os meninos para
atrações mais leves no intuito de distraí-los. Enquanto aguardávamos pela conta,
uma bolinha de papel foi lançada na nossa mesa. Ao desamassar a folha e ler o
conteúdo nela escrito, Richard cerrou as pestanas, controlando o desgosto.
— O que foi? — indaguei, desconfiada.
Ele entregou o papel nas minhas mãos para que eu mesma tirasse as
conclusões. Nele havia escrito: “Fora daqui, seres malditos!”
— Sabe o que isso significa, não é? — Amassou ele a folha e a jogou
displicentemente sobre a toalha verde quadriculada.
— Mais uma mudança?
— É, mais uma mudança — confirmou em desânimo. — Parece que o seu
sonho torto tinha algum fundamento. A mulher que tentou sequestrar a Vitória
era loura, eu não pude fazer muita coisa para ajudar. Se não pudesse hipnotizar
as pessoas, teria ido para a prisão... Só errou no filho atingido, apesar de ter visto
o Rico chorar. E, claro, na minha aliança, que ninguém neste mundo conseguiria
tirar.
Estendi a mão para fazer um afago no seu rosto, meditando nas coincidências,
embora não estivesse tão certa quanto ele em relação ao que sonhei, pois parecia
haver algum ponto obscuro que não se encaixava na história. Ainda assim,
procurei agradecer intimamente aos céus por ser algo que tivemos capacidade de
resolver, mesmo que de forma expositiva ou dolorosa, ao invés de amargar um
episódio grotesco como o ocorrido em Londres, que por pouco não nos separou
definitivamente um do outro.
— Não me importo de sair daqui e mudar para o outro lado do mundo. Nós
seremos felizes juntos em qualquer lugar porque não precisamos de nada que
possa ser levado numa bagagem — declarei, encorajando-o.
Richard pôs sua mão por cima da minha e desfechou aquele dia com um
sorriso esperançoso.
Parte II
Sete

Paris, 13 anos após. Aeroporto Charles de Gaulle.

— Engraçado, depois daquela nossa história em Londres, toda vez que entro
num avião tenho uma sensação esquisita — declarei, encaixando o cinto de
segurança.
Richard fechou o compartimento de bagagem acima dos nossos assentos antes
de se sentar ao meu lado.
— Isso foi há tanto tempo, nem gosto de lembrar.
— Pois, por mais eu que tente, não consigo esquecer.
— Esse é um dos nossos piores defeitos — referia-se à nossa espécie. — A
passagem dos anos não apaga certas coisas, como acontece com todo mundo.
— Deu pra perceber.
— Mas pense bem... Apesar de tudo, o saldo no final acabou sendo positivo.
— Deslizou a mão na minha barriga, usando sua voz aveludada. — Quem sabe
dessa vez não sejamos premiados com mais um casal de filhos? Não é por falta
de empenho...
— Richard! — adverti num murmúrio, envergonhada por notar o olhar
abestalhado que um dos comissários de bordo simulou, ao ouvir sem querer a
nossa conversa.
Ignorando totalmente o alerta que fiz, Richard deu um longo suspiro e
enterrou a cabeça na poltrona.
— A semana passou tão rápida... Devíamos ter adiado a nossa volta por mais
dois ou três dias, ou até mesmo dar uma esticada até Dublin, como há tanto
tempo venho sugerindo.
Dublin era a terra natal dele, na Irlanda. Não queria bancar a estraga-prazer,
mas o fato de voltar ao local de sua origem infantilmente me incomodava.
Tratava-se de um receio irracional, como se algo fosse mudar entre nós ao entrar
em contato com o seu passado.
— Não faltarão oportunidades para irmos qualquer dia — dissimulei.
— Ainda assim, nem deu tempo de fazer todo o roteiro programado.
— Você não parecia muito predisposto a seguir algum roteiro — debochei.
— Fazer análise de trinta e cinco mil obras de arte não foi exatamente a minha
maior pretensão nesta viagem. Além do mais, a Mona Lisa nunca me empolgou
muito. Da Vinci poderia ao menos tê-la feito maior.
— Como se eu não o conhecesse... — Dei uma risadinha irônica. — Ficou
incomodado porque a peça mais interessante do Louvre não era inanimada,
circulava livremente pelos corredores do museu.
— Refere-se a você, obviamente.
— Obviamente que não.
— Havia mais homens atraídos pelas fendas... — interrompeu-se para
encontrar uma palavra adequada — sinuosas do seu vestido do que pelas telas de
Delacroix.
— E mulheres fazendo comparações nítidas entre as esculturas dos deuses
gregos e o monumento que andava ao meu lado. E creio que não se
impressionaram muito com a civilização greco-romana, talvez irlandeses e
espanhóis fossem mais perfeccionistas em suas criações — fiz uma alusão à sua
herança genética.
— Diante do tempo longo que vivi, posso garantir que os brasileiros são bem
mais criativos. — Suspirou outra vez, levemente impaciente.
— O que foi, Richard? — indaguei, percebendo o movimento dos seus dedos
se alternando continuamente no apoio da poltrona.
— Não sei. Nem eu mesmo consigo me entender. — Fechou os olhos por
instantes. — Suponho que seja efeito da sede. Ou, quem sabe, esteja
intimamente arrependido por voltar para casa tão cedo. Para que tanta pressa? —
retomou o assunto anterior, novamente lamentando.
— Paranoia de mãe. Fico preocupada quando estou há muito tempo longe de
casa.
— Nossos filhos já são adultos, Stephanie.
— Sei disso, mas da última vez Rico passou a semana inteira comendo pizza,
dizendo que é “mais fácil colocar no forno” — imitei a voz dele —, e acabou
passando mal. A Vitória então... Se deixar, nem se lembra de se alimentar.
Estuda o dia inteiro.
— Foi escolher a profissão do pai... — encheu-se de orgulho, relaxando um
pouco.
— Quer um lencinho para enxugar a sua baba?
— Dê-me logo dois. — Fechou a janelinha para diminuir a claridade. —
Quando é que eu iria imaginar há alguns anos que encontraria o amor da minha
vida, casaria, teria filhos maravilhosos e, ainda por cima, estudiosos e
responsáveis?
Ele tinha razão. Nossos filhos eram um verdadeiro motivo de orgulho.
Vitória, para surpresa do pai e do avô, resolveu seguir a carreira médica. E já
cursava o sexto período da faculdade em Miami, onde morávamos havia exatos
três anos, depois de passarmos um longo período fora dos Estados Unidos.
Chegamos a mudar de residência e de país cerca de cinco vezes antes de
voltarmos. Viramos verdadeiros nômades poliglotas. Tomamos a decisão de
retornar apenas para facilitar na escolha das profissões dos nossos filhos, uma
vez que a disponibilidade de cursos e de universidades locais era bastante
proveitosa.
Rico escolheu fazer graduação em ciências da computação. Sua opção em
nada me surpreendeu, já que possuía uma aptidão nítida por tudo que envolvia
softwares, eletrônicos, sistemas... Enfim, entendia de todas as novidades do
mundo da informática. Não era incomum vê-lo fazendo trabalhos remunerados,
como instalações de equipamentos, de redes para pequenas empresas, entre
outras atividades do gênero, para obter um ganho a mais e não precisar pedir
ajuda financeira ao pai enquanto fazia faculdade. Buscava sua independência
desde cedo, embora continuasse morando conosco.
— Só está faltando virar vovô... — impliquei, acrescentando mais um item à
sua lista.
— É uma piada? — Ajeitou um de seus cachos por trás da orelha.
— Por que piada? Não acabou de dizer que eles são adultos?
Richard se virou de lado na cadeira para me encarar.
— Está querendo dizer que... a minha filha...? — Um exímio pânico paternal
o tomou.
— Não quis dizer absolutamente nada, amor. Aliás, se fosse esse o caso em
pauta, seria algo natural na idade dela, não?
Ele bufou.
— Vitória é tão... nova, frágil e...
— Eu não era muito mais velha do que ela quando me entreguei a você.
— Sim, mas... Não foi uma atitude impensada da minha parte. Já a amava
tanto que doía.
— Não acredita que a Vitória seja capaz de encontrar alguém que a ame
também? É uma pessoa tão responsável e cheia de qualidades...
— Acredito. — A afirmação veio duvidosa. — Na verdade, tenho medo de
que ela se magoe. A juventude hoje em dia é tão... diferente, não têm um senso
de compromisso como antigamente. Nem sempre o amor e a sexualidade vêm
embalados juntos, como num pacote fechado.
— Infelizmente, será um risco que ela terá que correr.
— Não quero que a minha filha corra riscos — reclamou.
— O que você quer é impossível, Richard. Para tudo na vida existe uma
probabilidade, mesmo que mínima, de dar errado.
— Aí é que está o ponto aonde quero chegar. Quando você surgiu na minha
vida, não havia em mim uma incerteza de sentimentos e muito menos riscos,
somente o medo de não ser aceito.
— Então acabou de admitir que existia um risco. E se eu não o aceitasse?
Bem, esse seria o risco que você estaria correndo... — respondi à minha própria
indagação. — E quanto a mim? Como é que eu poderia saber se no dia seguinte
o brilhante Dr. Richard não acordaria dizendo que foi tudo um engano, que eu
não era aquilo que ele esperava?
Richard soltou uma risada seca.
— Acordar? E quem disse que consegui dormir? Passei a madrugada inteira
fascinado, olhando para você o tempo todo, mal acreditando no que havia
acontecido comigo — confessou. — Não existiam dúvidas da minha parte,
Stephanie, e por isso mesmo esperaria o tempo que fosse para tê-la em meus
braços. Casaria antes, inclusive.
— Esperaria? — Busquei pela verdade na sua imensidão azul, roçando
ligeiramente meus lábios nos dele.
— Sim... — respondeu, quase que por reflexo de autodefesa.
— Tem certeza? — murmurei com a voz macia, pressionando um pouco mais.
Richard revirou os olhos, agoniado, recuando um pouco para não perder o
controle dentro do avião.
— Por mais que pense o contrário, não a levei para a minha casa com essa
intenção. Queria apenas um lugar reservado, onde não tivesse que me preocupar
com a mudança de cor dos meus olhos, a alta temperatura ou a perda de
capacidade lógica — defendeu-se. — Não conseguia pensar em outro local mais
apropriado.
— Enfim, o local mais apropriado era a cama do seu quarto, e você não sentia
desejo por mim... — provoquei com ironia.
— Eu não disse isso — respondeu como se tivesse lhe dado uma rasteira,
soltando o punho do carinho que os meus dedos faziam nele.
— Jura, então, pela sua esposa mortinha que não houve nem uma
intençãozinha?
Vi pelo seu olhar desconcertado que o tinha colocado em xeque-mate. Ele
chegou a engolir em seco antes de falar.
— Tudo bem, admito. Apesar de ser um cara antigo, a loucura me invadiu de
tal forma que já não conseguia raciocinar direito, ainda mais depois da sua
resposta aos meus beijos dentro do carro da Ava. Não faz a mínima ideia de
como tremi por dentro quando você disse que queria ser minha.
— Tremeu? — instiguei ainda mais, sussurrando ao seu ouvido.
Ele se afastou de novo, praticamente se encostando à janela.
— Quando voltou a estudar, resolveu se especializar na matéria “crueldade”?
— acusou-me.
— Nessa não, mas, pelo andar da carruagem, vou acabar escolhendo o tema
“rejeição conjugal” para a minha monografia — zombei.
— Aí estará fazendo um trabalho baseado em algo que passa a milhões de
anos-luz da sua realidade. Acredito que o tema “chantagem familiar” seja mais
adequado. Tem uma experiência vasta no assunto.
— Creio que não, ou nos últimos segundos teria ouvido de alguém que
conheço a palavra “renúncia” ou até, quem sabe, “derrota”. — Estiquei o corpo
mais para perto do corredor, em represália.
Bomba! E acertei bem no centro do alvo!
Não demorou muito para que ele mudasse radicalmente de atitude. Abriu a
maleta de mão outra vez e sacou de dentro dela um invólucro a mim
perfeitamente conhecido.
— Vai viajar de óculos escuros, amor? — A surpresa me deu vontade de rir.
— Já que não tenho como vencer esta guerra, resolvi fazer uma aliança com o
inimigo — replicou, ajustando-o no rosto para esconder o escurecimento súbito
das íris.
— É mesmo? E quais são os termos do acordo?
— Por mim, como já disse antes, desceria imediatamente deste avião e
voltaria correndo para o quarto do hotel. Mas como ele já decolou, me
contentarei com os beijos que você vai me dar agora.
— “Contentar”? É algo do tipo “prêmio de consolação”? — Fiz uma careta.
— Não. É do tipo “perdi o juízo” mesmo. — Entrelaçou os dedos no meu
cabelo para forçar o nosso encontro.
— O que fez o meu médico mudar de comportamento tão rapidamente?
— Carência — murmurou, já se encaixando com perfeição na minha boca. —
E não sou seu médico, sou seu marido.
Devia estar carente mesmo para ignorar as pessoas que circulavam pelo
corredor da aeronave e davam de cara com uma cena explícita de paixão
daquelas. E existia um motivo para seu suposto descontrole: eu havia voltado a
estudar. É claro que descrevendo dessa maneira pareceria uma razão
ridiculamente tosca. Só que não era.
Desde que os nossos filhos cresceram e se tornaram mais independentes, senti
necessidade de preencher um pouco mais o tempo disponível. Inicialmente, fiz
uma pós-graduação na minha área, enfermagem. Depois, por sugestão de
Richard, comecei a cursar psicologia. Sendo assim, trabalhava no hospital como
sua auxiliar pela manhã, dava atenção aos meninos e demais afazeres domésticos
à tarde e ia para a faculdade à noite.
Embora fizesse de tudo para não demonstrar, Richard não conseguia esconder
o quanto fora difícil para ele administrar a falta que a minha presença em casa
lhe causava. Buscava se entreter com os próprios estudos e ajudar nossos filhos
no que fosse possível, embora, chegados à fase adulta, cada vez menos eles
solicitassem seus préstimos.
Sendo assim, por mais que se esforçasse, esse empenho não parecia ser o
suficiente. Havia se acostumado, por anos a fio, a voltar do trabalho e ter as
noites inteiras dedicadas a ele. Já não me surpreendia mais quando ele surgia
impaciente no estacionamento da universidade, ao término das aulas, ou até
chegava a ponto de me raptar num intervalo para matar a saudade. Por isso,
quando estávamos de férias, ansiava por atenção em tempo integral, como se eu
não dependesse disso também para ser feliz também.
— Hã... Preferem frango ou massa, senhores? — indagou a aeromoça
discretamente, oferecendo a refeição.
— Não estamos com fome, obrigado — rejeitou ele, importando-se bem
pouco em manter aparências.
— C... Claro — a réplica dela veio tímida, mas dava perfeitamente para ler na
sua testa uma frase do tipo “não fome de comida”.
Esperei que ela se distanciasse para voltar a conversar.
— Richard, posso contar com a sua sinceridade?
— Alguma vez não fui sincero com você? — contestou, entretido no meu
cabelo.
— Tem andado muito inquieto ultimamente... Quer que eu diminua a
quantidade de matérias no próximo semestre? Se estiver precisando de mim, não
me importaria de trancar a faculdade por uns tempos.
— Sou transparente demais para você, não? — Sorriu invertido. — Sinto a
sua falta, sim, muito mais do que deveria. Mas não quero que deixe de fazer o
que deve ser feito por minha causa. Sou eu que preciso aprender a me domar.
— Tem certeza, amor? — insisti. — Também fico ansiosa para chegar logo a
nossa casa e ficar com você. De vez em quando, até mato as últimas aulas,
agoniada de saudade. Além disso, tenho a eternidade pela frente...
Ele negou firmemente com a cabeça.
— Será que não consegue entender? O problema não deixará de existir se
chutarmos a bola para frente. Não quero que me trate como criança, Stephanie.
Sei que às vezes acabo lhe sufocando, de tanto que a solicito, e quero até que me
perdoe por isso. Apenas peço que tenha um pouco de paciência comigo, porque
vou fazer o possível para que as nossas horas juntos rendam mais.
— Quer dizer então que hoje posso dormir agarradinha com você nesta
poltrona, sem ouvir resmungos? — Tremulei as sobrancelhas.
— Bola na trave, bruxinha. Quero dizer que dificilmente vou deixar você
dormir.
— Nem um pouquinho? — brinquei, fazendo biquinho.
— Venceu, dorminhoca. Só que dormir agarrada comigo não é um pedido seu,
é uma exigência minha. E agora, chega de conversar, tenho coisa melhor para
fazer... — aconchegou-me num abraço.
Oito

— Acorda, bruxinha. O avião já aterrissou. — Ouvi a voz cálida de Richard


me chamar.
— Hmmm... — Espreguicei. — Nunca dormi tão bem num avião!
— E eu não sei que você gosta de dormir com cafuné? Chegava a sorrir
durante o sonho...
— É lógico, o meu amor estava nele.
— Suspeitei, depois que o meu nome foi pronunciado pelo menos umas três
vezes. — Piscou o olho para mim.
— Confesse que ficou louquinho para saber o que você fazia no meu sonho.
— Tenho até receio de perguntar dentro de um ambiente lotado.
— Tsc, tsc, tsc... — desdenhei. — Depois diz que é diferente dos jovens de
hoje! Você só brincava com os nossos filhos quando eles eram pequenos...
— Vou fingir que acredito — falou com um ar debochado, retirando a mala de
mão do bagageiro.
— Não vejo motivo para que não acredite em mim — reclamei.
— Não? — inclinou-se para sussurrar ao meu ouvido, enquanto ainda
permanecia sentada. — E desde quando, ao observar os meninos brincando
comigo você ficava gemendo: “Ai, Richard, assim”...?
— Eu não fiz isso no sonho! — duvidei, começando a ficar preocupada.
— Agora já era. O voo inteiro ficou sabendo o quanto somos... compatíveis —
implicou, apoiando o meu braço para ajudar a me levantar.
Olhei ao nosso redor, com receio de que as pessoas que passavam pelo
corredor do avião estivessem nos observando por conta de um episódio
desconcertante como esse.
— Se é assim, por que não me acordou?
— Fiquei com pena. Você gosta tanto de dormir... E, além do mais, admito
que gosto de ouvir o meu nome sendo clamado pela minha esposa enquanto ela
sonha.
— Ah, que legal! — resmunguei, abaixando a cabeça e deixando o cabelo cair
sobre o rosto. Era uma maneira sutil de me esconder por vergonha.
Por pura implicância, Richard afastava as minhas mechas para enxergar o meu
rosto enquanto eu apressava o passo a fim de sair o mais rápido possível do
campo de visão dos demais passageiros.
— Posso saber o motivo da sangria desatada? — perguntou ele, já fora da
aeronave, contendo a minha afobação.
— Pensei que tivesse um desconfiômetro mais apurado.
— Eu estava brincando — revelou numa gargalhada.
Soltei o ar retido nos pulmões, relaxando.
— E a bruxa má sou eu — Estapeei o seu ombro em rebeldia.
— Adoro observar o seu jeito tímido. Fica ainda mais linda. Sinto saudade da
época em que o seu rosto ruborizava quando eu falava algo picante.
— Isso é injusto, sabia? Queria ter tido o direito de ver como você era antes
da transformação.
— Basta olhar para o nosso filho. Eu tinha exatamente aquela cor.
— E, por falar nele, conseguiu avisá-lo do nosso retorno?
— A nenhum dos dois. O celular do Rico vive ocupado, e o da Vitória,
desligado. Como ninguém atende o telefone de casa...
Devia ter desconfiado de que isso aconteceria. Rico já havia entrado de férias
e conhecia a cidade inteira, ao passo que Vitória se mantinha longe dos telefones
para não perder nem um mísero minuto da sua preciosa concentração final nos
estudos. Melhor seria resgatar logo as bagagens, pegar um táxi e ir direto para
casa.
E foi o que fizemos...
De frente para ela, fiquei intrigada com a quantidade de luzes acesas vindas do
quintal e o som da música num volume acima do normal.
— Temos uma festa na nossa casa e não fomos convidados? — estranhou o
meu marido.
Entramos pela porta da sala e encontramos Vitória de olhos fechados, usando
tampões de ouvido e socando o seu caderno, praticamente entrando em colapso
por causa do barulho.
— Vitória! — chamei-a, posicionando-me à sua frente.
— Oh! — exclamou assustada. — Mãe, pai! Que bom que vocês chegaram!
— Fez um gesto dramático, como quem agradece aos céus pela graça recebida.
— O que está acontecendo aqui, filha? — indagou Richard.
— Pelo que entendi, era para ser uma reuniãozinha entre os colegas do Rico,
uma espécie de amigo oculto de final de período, mas acabou virando essa
bagunça barulhenta que vocês estão vendo! — criticou. — Assim não há Cristo
que aguente! Não consigo terminar o meu trabalho!
Não me impressionei tanto com toda aquela encenação. Conhecia a minha
filha muito bem. Vitória era, na realidade, uma mistura bombástica entre Richard
e eu: exigente, perfeccionista, impaciente e responsável como o pai; cabeça-
dura, irônica, tímida e na defensiva como a mãe. Não era incomum vê-la
resmungando por pequenas coisas, querendo que tudo, nos mínimos detalhes,
acontecesse exatamente do modo como ela imaginava que deveria ser, fazendo
um verdadeiro drama quando não alcançava o êxito.
Contudo, apesar de aparentar tamanha severidade, quem estava acostumado
com ela sabia que aquilo tudo não passava de uma mera fachada. Intimamente
era amável, cuidadosa e preocupada com a família. Por vezes, chegava até a
inverter os papéis e tomar conta de todos como se fosse ela a verdadeira
progenitora. Também havia horas em que não conseguia expressar o que
realmente sentia e acabava sofrendo com isso, com medo de ter magoado as
pessoas.
— Não entrou de férias ainda, querida? — preocupou-se Richard, largando a
mala ao lado do sofá.
— Pai, a mamãe só terminou mais cedo porque adiantou as provas finais. Rico
terminou ontem, e eu, somente na segunda-feira, se a minha mente não explodir
antes com esse som alto!
— Adiantou as provas finais? — Virou-se ele imediatamente para mim. —
Como?
— Persuasão — respondi, evasiva, e continuei falando para que não desse
tempo de ele fazer a próxima pergunta. — Por que não pediu ao seu irmão para
abaixar o som?
— Juro que pediria se ele estivesse em casa — retrucou Vitória.
— Rico deixou você sozinha em casa com um monte de rapazes? Mas o que
deu na cabeça do seu irmão? — irritou-se Richard.
— Sozinha não, pai. A tia Ava está aqui — defendeu-o.
— Nem queira saber como fiquei tranquilo com essa notícia... — debochou o
pai, torcendo o nariz. — Cadê a sua tia?
— Da última vez que a vi, estava num estado meio... catatônico. Já deu umas
dez voltas em torno do jardim falando sozinha.
— Estado catatônico... — repetiu ele suas palavras, tentando discerni-las. —
Eu mereço! — resmungou, revirando os olhos.
— É normal um vampiro pirar desse jeito? — Vitória parecia preocupada.
— Sinceramente, depois que conheci a sua mãe, descobri que tudo nesse
mundo é possível. Se bem que a Ava nunca me inspirou muita normalidade
mesmo...
— Não entendi o quis dizer a meu respeito... Dá para ser mais claro, Richard?
— argumentei.
— Talvez mais tarde, quando você me explicar a história do adiantamento das
suas provas — ironizou e fez exatamente como eu, emendando noutra pergunta.
— E o que o Rico foi fazer de tão importante a esta hora?
— Sei lá. Suspeito que foi ao encontro de alguém que conheceu pela internet.
Saiu daqui todo empolgadinho depois que recebeu uma mensagem naquele
laptop tridimensional dele — zoou minha filha.
— O que aconteceu com a tal brasileira que ele namorava?
— A da semana retrasada? Dançou faz tempo! — Estalou ela os dedos.
— Rápido o nosso filho, não? Não sei a quem ele puxou... — lancei uma
indireta.
— Nem olhe para mim que eu não era assim — adiantou-se Richard. — Não
pensava em ser o maior galanteador da Irlanda, sempre fui mais movido pelo
coração.
Movido pelo coração...
É claro, ele era apaixonado pela filha de um fazendeiro promissor da região: a
sua noivinha ruiva Juliet.
Argh!
Até quando aquele fantasma do passado dele me atormentaria? Para sempre?
Talvez me sentisse assim pelo simples fato de nunca ter me apaixonado por
ninguém além dele e irracionalmente isso me soasse como algo injusto. Não
queria que o seu amor tivesse sido de outra, somente meu.
Caramba, que coisa ridícula!
Como era mesmo aquela fórmula mágica que desligava um programa, quando
ele travava no computador?
Ctrl, Alt e Del.
Essas eram as teclinhas que eu deveria usar para apagar de vez esse borrão da
tela da minha vida. Estávamos falando de Rico, e era nele que precisava que me
concentrar.
— Acredito que isso só possa ser fruto da convivência dele com o Luciano —
emendou Richard, sem se dar conta do meu nariz retorcido.
É bem possível — matutei.
Luciano era padrinho dele e tinha o costume de nos visitar com frequência nas
férias. Presenciei os dois conversando várias vezes sobre esse assunto
namoradas, de como abordar as meninas ou se sobressair aos demais amigos...
Imagine só: Rico lindo daquele jeito e com lábia de conquistador! Fiquei até
com pena das pobres garotas. Quem resistiria ao meu filho?
— Não consigo entender como é que se pode conhecer alguém através de uma
máquina. Deve tirar todo o frisson inicial, quando os olhos de um se cruzam com
o do outro e...
— Até entendo que você nasceu na época dos dinossauros, pai — cortou Vitty
a sua explanação. — Mas, se quiser continuar mantendo a farsa de que somos
seus irmãos mais novos, tem que agir como tal. Hoje em dia, ninguém com vinte
e oito anos acha estranho uma coisa dessas. Até o vovô anda mais plugado.
Precisa ver a moto em que ele veio montado hoje...
Falar que Rico e Vitória eram irmãos de Richard foi a única saída que
encontramos para solucionar o nosso problema de convivência, ainda mais por
eles terem nascido com os seus olhos. Dentro de casa, chamávamos uns aos
outros de forma convencional, porém, dali para fora, Richard era o irmão mais
velho; eu, a cunhada; e Ava, a prima. Caso alguém perguntasse sobre a minha
semelhança em relação a eles, as respostas eram sempre as mesmas: ou dizíamos
que a mãe deles se parecia demais comigo, ou soltávamos um simples
“coincidência, não?”.
— Peraí... Meu pai andando de moto? — Engoli em seco. — Richard, só tem
uma explicação para o que está acontecendo: voltamos da França para os
Estados Unidos numa dimensão paralela!
— Espero que os postes da cidade estejam no seguro — retrucou ele,
brincando.
Vitória se mostrou impaciente:
— Mãe, não querendo dar uma de chata, será que dava para hipnotizar geral a
galera lá de trás para que eles vazem logo daqui e eu possa terminar o meu
trabalho?
— Pode deixar que eu mesmo faço isso — prontificou-se seu pai, caminhando
em direção ao quintal, que ficava na parte posterior da casa.
— Pega leve, paizão. Vinte e oito anos, lembra? — frisou Vitória, exibindo
preocupação.
— Já entendi, já entendi... — resmungou ele, já longe.
Aproveitei a saída de Richard para papear com a Vitória, após perceber que a
atitude dela não batia muito de acordo com sua personalidade forte.
— Vitty, quem não entendeu uma coisa fui eu. Por que não teve coragem de
pedir, você mesma, para que eles abaixassem o som? Algum motivo especial?
Minha antena de mãe me dizia que ali havia mais do que um simples
incômodo por não conseguir fazer o trabalho. Tinha caroço naquele angu.
— Não estou vestida direito para entrar numa festinha — desfez-se.
— Não vejo nada de errado com a sua roupa.
— Eles vieram todos arrumados, não posso chegar lá de bermuda e camiseta.
— Você está na sua casa, faz calor, e é uma simples reunião de amigo oculto,
não uma festa de gala. Arruma outra desculpa melhor, essa não colou —
pressionei.
Vitória me olhou com desânimo. Podia se beneficiar das suas estratégias de
fuga com qualquer um, menos comigo, que a conhecia como a palma da minha
mão.
— O William... e o Andrew estão no quintal — murmurou, receosa.
— William é o que vive ligando para cá todos os dias e você manda sempre
dizer que não está. E esse tal de Andrew, quem é?
— É... amigo... do Rico — gaguejou.
— Sei... E você o conheceu hoje?
— N... Não. Rico nos apresentou quando fomos a uma festa no mês retrasado
— quis ela manter a pose de “isso pouco me interessa”.
— Então essa é a segunda vez que você o vê?
— Não. Já vi outras vezes na faculdade.
— É bonito? — perguntei como quem não quer nada, dando uma olhada no
trabalho que ela fazia em cima da mesa.
— Hã... Acho que sim, não reparei direito.
— Agora vai dar para reparar. Os amigos do seu irmão começaram a sair, um
por um — insuflei, reparando no quanto ela se encolheu quando atinou na
veracidade das minhas palavras.
Na verdade, não eram muitos rapazes, apenas cinco.
Quanto aos primeiros, tinha certeza absoluta de que não se tratavam do rapaz,
apesar de demonstrarem que Vitória não lhes passava despercebida. Talvez ela
tivesse razão quanto à sua vestimenta, os olhares dos jovens estacionavam
nitidamente nas suas curvas exuberantes, assim como nas pernas torneadas.
Somente um deles denotava não percebê-la ao cruzar por nós, procurando por
alguma coisa na casa ou por alguém. O alvo do suposto desinteresse dela surgiu
entre os dois últimos, parecia visivelmente contente e veio caminhando na maior
tranquilidade, logo depois do William, que se apressou em abordá-la:
— Os médicos não têm pausa para relaxar?
— Não entrei de férias ainda, William. Só a partir da semana que vem —
esquivou-se Vitória.
— Aleluia! Pensei que os estudantes de medicina não tinham direito de se
divertir um pouco...
— Deixe a Vitória estudar em paz, Will — defendeu-a Andrew, aproximando-
se com um brilho intenso no olhar. — Se você precisasse ser atendido por um
profissional de saúde, garanto que ficaria bem mais tranquilo se soubesse que ele
se dedica como ela.
— Palavras do grande nerd da turma... — William percebera no amigo um
concorrente em potencial, por isso resolveu atacar antes para não ficar por baixo.
Um sorriso forçadamente contido denunciou Vitória.
Daquele momento em diante, não havia mais como manter o seu disfarce
perfeito. Pelo menos não para mim, que passei anos a fio estudando cada mínima
expressão dos meus filhos para entender os seus sentimentos. E nem precisaria
conhecê-los tanto assim. Como vampira, bastava fixar um pouquinho mais
atenção na sua pulsação para entender o que acontecia com ela.
Ou melhor, com eles.
Os três apresentavam uma aceleração considerável de batimentos cardíacos.
Difícil saber quem estava pior.
O rapaz era realmente bonito. Não que o William não fosse, mas a simpatia e
o charme do jovem atlético sobressaíam. Andrew era totalmente diferente do
colega de turma: tinha os olhos negros brilhantes, sorriso franco e cabelo cor de
mel encaracolado. Era também mais alto e exibia físico de pessoas adeptas à
alimentação e a esportes saudáveis. Aliás, o cheiro do seu sangue oxigenado
inspirava a saúde.
Em contrapartida, William tinha cabelos negros lisos curtíssimos, pele
morena, olhos num tom acinzentado e um corpo magro, talvez decorrente da sua
opção pelo vício do cigarro. Contra o odor da fumaça que exalava quando abria
a boca para falar não havia como encobrir, mesmo que ele fizesse esforço para
não tragá-lo na nossa casa.
Richard apareceu em seguida e se posicionou ao meu lado, vigiando
atentamente os três de longe. Não queria dar uma de intruso, mas eu sabia
perfeitamente que ele se preocupava com o que via.
— Richard, desmonte essa sua cara de cão de guarda e fixe atenção apenas na
audição — induzi, falando baixinho.
— Não sei se quero ouvir a conversa deles — rejeitou, incomodado.
— Ouça além da conversa, amor. Como um vampiro...
Levou apenas alguns instantes para que ele alcançasse a minha linha de
raciocínio, ficando mudo momentaneamente. Passado o seu pânico inicial,
resolveu perguntar:
— Qual dos dois?
— Ela não admite, mas para mim está claro que é o da esquerda — indiquei o
Andrew.
— Ao menos dá a impressão inicial de ser mais ajuizado — analisou, quase
que se lamentando por constatar que finalmente a filha cresceu. — Mas ela
disfarça bem. Se eu não fosse um vampiro, não teria como saber.
— Vitória age como eu, Richard. Alguma vez percebeu meu interesse por
você?
— Se tivesse percebido, não teria sofrido por tanto tempo. Você escapava de
mim como o diabo foge da cruz!
Dei uma silenciosa risada.
— Viu? Agora diga se não tenho razão. A nossa filha age da mesma forma,
não demonstra o que sente. A diferença é que não enxergo nela o vazio
angustiante que existia em mim, e sim um medo constante que tenta a todo custo
esconder.
— Medo?
— Posso até estar enganada, mas acho que ela de faz tudo para não se
envolver com alguém por temor de se transformar em um de nós e depois ser
rejeitada ou agredida, como eu fui. Aquela cena no parque da Califórnia foi um
divisor de águas na vida dela. Se já era retraída, passou a ser ainda mais.
Conseguia entendê-la, sinceramente.
Seu caso era diferente do meu. Eu quis ser assim para viver um amor, ou seja,
foi uma decisão. Renunciei à humanidade para ser feliz.
Quanto à Vitória, a coisa mudava de figura, a incerteza a corroía. Sua vida era
uma eterna indefinição, recheada de pontos de interrogações e de dúvidas.
Dependia de algo que não estava ao seu alcance e não havia como impedir, caso
essa hora chegasse. Não teria direito a uma escolha, o destino não se calcava na
sua vontade, muito menos poderia ser dirigido pelas rédeas do seu rígido
autocontrole. Pior: sem data ou hora definida para a mudança, se é que realmente
se transformaria algum dia.
O que aconteceria se encontrasse alguém, casasse, tivesse filhos e, de repente,
de uma hora para outra, amanhecesse vampira? Diria: “Perdão, querido, esqueci
de falar sobre a minha genética. Os meus pais são vampiros, então...”.
Ou, se tivesse coragem, antes de firmar qualquer compromisso alertaria: “Se
por acaso eu aparecer com presas, não se assuste, amor, prometo que não vou
mordê-lo. É que posso virar uma vampira, coisa da minha genética, nada de
mais...”.
Sem dúvida alguma, a situação era angustiante para ela, precisava admitir.
— Céus! Será que fui um pai tão ausente que não percebi algo tão sério na
minha própria filha? — culpou-se Richard, cobrindo a testa com uma das mãos.
— Você? Ausente? Só pode estar brincando! — exclamei. — Richard, você
foi o pai que qualquer filho no mundo pediria para ter. Não conheço nenhum
mais atencioso, carinhoso e preocupado. Apenas, na ânsia de protegê-la, custou a
enxergar a Vitória como adulta e com os problemas relativos à sua idade.
Nossa conversa foi desviada para a despedida dos três. William fez questão de
ser o primeiro a encerrar a noite, tascando logo um beijo afoito de cada lado do
rosto dela. Parecia querer, em sua atitude, lançar um alerta para o amigo sobre as
suas pretensões, marcá-la como uma conquista.
Indiferente ao aviso, Andrew foi mais lento, talvez proposital. Beijou-a de um
lado só, porém a fitando nos olhos intensamente, enquanto desejava um sincero
“boa noite”. William não conseguiu esconder a expressão enciumada ao reparar
que não fora levado em conta, mas não podia fazer absolutamente nada, afinal,
ela não era a garota dele, estava muito longe disso. Ainda assim, os dois nos
cumprimentaram educadamente antes de sair.
Vitória, na intenção de manter sua camuflagem irrepreensível, sentou-se na
cadeira da sala de cabeça baixa para mascarar o rubor crescente nas maçãs do
rosto, fingindo prestar atenção ao seu trabalho. Aquele beijo a tirou do prumo.
— Precisa de alguma ajuda na pesquisa, querida? — ofereceu-se Richard,
tentando se aproximar mais da filha.
— Hã... Não pai, obrigada — agradeceu, desconcentrada. — Falta pouco.
Talvez seja até melhor acordar amanhã cedo para terminar antes de ir à praia.
Estou... morrendo de sono.
— Então descanse, mas não antes de me dar um abraço apertado. Senti muito
a sua falta — pediu, abrindo os braços.
— Eu também, pai — aceitou o aconchego, deitando a cabeça no seu ombro.
— Dos dois. Amo vocês.
Assim que se desgarrou dele, Vitória veio ao meu encontro para fazer o
mesmo.
— Escolhe bem. Herdou o bom gosto da mãe... — sussurrei em tom de
escárnio ao ouvido dela.
— Anda enxergando coisas. Não existe nada entre nós — devolveu,
escorregando feito vaselina.
— Só não vai existir se você não quiser — insinuei, antes que ela subisse as
escadas, fugida.
Esperei que ela fechasse a porta do seu quarto para comentar:
— Se não me falha a memória, dormir será a última coisa que ela fará nesta
noite. Vai rolar por horas naquela cama, pensando no beijo que recebeu no
rosto...
— Fala com muita propriedade de causa. Por acaso ficou sem dormir quando
a beijei pela primeira vez? — quis meu marido saber.
— Por incrível que pareça, não. Aconteceu justamente o contrário: resolvi o
meu problema de insônia.
Creio que ele não entendeu muito bem a minha resposta, pelo ar de decepção.
Sua testa franziu em demasia.
— Meu beijo a deixou... com sono?
Contive a vontade de rir diante de tamanho absurdo. Sentir sono, como se o
beijo dele fosse algo entediante? Talvez, se eu fosse doente ou pirada das ideias.
— Curou o meu vazio, a angústia, a falta de ar que não me deixava dormir —
esclareci. — Mas conheço bem a minha filha. Hoje ela não vai pregar o olho.
Não mesmo.
Nove

Atônito com os últimos acontecimentos, Richard resolveu pegar as malas e


levá-las ao quarto.
— Ainda não, amor. — Travei-o pelo braço. — Acho que nos esquecemos de
alguém desnorteado do lado de fora.
Ava.
Minha cunhada não era dada a esses rompantes de ausência de órbita, o que
dirá a monólogos. Sua expansividade e autossuficiência não permitiriam. Jamais
conseguiria imaginá-la catatônica ou rodando diversas vezes pelo jardim como
se estivesse desorientada. O que teria acontecido para que ela se portasse assim?
Nesse mato tinha coelho, e dos grandes.
Inicialmente, não havia qualquer sinal da presença dela no ambiente, se bem
que era provável que estivesse próxima, já que o seu carro permanecia
estacionado na nossa garagem. Rodeamos a casa inteira e fomos encontrá-la
encolhida, sentada no chão escuro da lavanderia, no fundo do quintal.
— Ava? — A voz de Richard quebrou o silêncio.
— Ai! Que susto! — irrompeu ela num pulo. — Oh! São vocês! — expressou
alívio.
— Assustei você? — espantou-se ele.
Aparentemente na defensiva, Ava se levantou, verificou em silêncio o
ambiente ao nosso redor e, por fim, indagou:
— Ele já foi?
— Ele quem? — estranhei.
— O... Al... Oh, deixa para lá! — negou-se a responder, embolando a fala.
Ela ajeitou o vestido e abriu a bolsa, sacando a chave do carro de dentro.
— Já vai embora? — protestei.
— Preciso ir.
— Mas acabamos de chegar. Nem conversamos ainda...
— Devem estar querendo ficar sozinhos depois da longa viagem, conheço os
dois.
— Tá, mas não precisa sair correndo daqui.
Minha cunhada continuava esquisita. Assim que se retirou da lavanderia,
passou a observar por todos os lados, à espreita de algo. Lembrava um animal
acuado que instintivamente pressentia o perigo eminente.
— Quando perguntou se “ele já foi”, falava de algum dos amigos do Rico? —
desconfiei.
— Eu quis dizer: eles já foram, a garotada — corrigiu. — Como foi a viagem
de vocês? É uma comemoração antecipada? — mudou de assunto, fugindo da
pergunta.
A comemoração a qual mencionara se referia às nossas bodas de prata.
Completaríamos vinte e cinco anos de casados no final do mês. Richard queria,
sim, celebrar entre as pessoas mais íntimas a ocasião e para isso até enviou de
presente as passagens para que a minha mãe pudesse vir nos visitar. O tipo do
festejo é que virou um mistério para mim, ele guardava esse segredo a sete
chaves. A única certeza era a de que não poderia ser nada público.
Imagine se alguém de fora nos visse comemorar aquela data...
O que pensaria? Que casei na barriga da minha mãe?
Acreditava, entretanto, que essa viagem fosse o início de tudo, até que
culminasse em algo que ele julgasse inesquecível, ao estilo Richard de ser.
— É, e foi tudo ótimo — resumiu meu vampiro. — Mas estou mais
interessado em saber agora o motivo de a minha irmã se esconder no escuro,
perdida entre as roupas sujas e lavadas da casa. Por acaso está se candidatando à
lavadeira?
— Richard... — resmungou Ava, sem ao menos encontrar palavras para
completar a frase.
— Conheço essa cara — disse ele, desconfiado, avaliando-a de perto.
Ava virou o rosto de lado, incomodada com a observação incisiva dele. Ainda
assim, ele insistiu:
— Da última vez que a vi assim, você estava...
— Com sede — completou ela, apressando o passo. — Muita sede. Fiquei
escondida aqui para não atacar os amigos do meu sobrinho, é isso.
— Tudo bem, então vamos entrar e saciar a nossa sede — interrompeu ele a
sua fuga desvairada, duvidando claramente do que ouvira. — Também já sinto
cheiro de sangue a quilômetros de distância.
Retornamos silenciosamente à sala. Busquei no nosso reservatório quantidade
de sangue suficiente para fartar três pessoas. Estávamos realmente sedentos. As
taças esvaziaram em questão de segundos, embora em nada tivesse diminuído a
tensão existente no ambiente.
— E aí? Vai nos contar a verdade agora? — forçou-a Richard, convicto da
mentira.
— Que verdade? — ela dissimulou.
— Que você se interessou por um deles.
— O quê?
— Vampiros escutam muito bem, Ava.
— Voltou pinel da viagem?
— Não. Tenho apenas uma memória excelente, e essa sua cara não me
engana.
— Que cara?
— De astronauta bêbada perdida no espaço.
— Ah, não enche, Richard! — rebateu.
— Uau! Para a humorista da família me agredir com palavras, é sinal de que
acertei na mosca, não foi?
— Isso pode acontecer? Ela pode amar de novo? — indaguei, perplexa.
Desde que me tornei vampira, poucas vezes cheguei a pensar no assunto por
julgá-lo praticamente incontestável devido à intensidade imutável dos meus
sentimentos por Richard, mesmo que o ciúme nos rodeasse como uma
característica inerente à espécie.
Por outro lado, apesar de considerar que seria maravilhoso se isso acontecesse
na vida de Ava, chegava a dar um calafrio no estômago descobrir que a lenda da
eternidade do amor vampiro podia não ser verdadeira, que estivemos errados
esse tempo todo. Nas entrelinhas, significaria que também havia essa
probabilidade para qualquer um. Inclusive para Richard.
Ok, era um pensamento egoísta, mas foi a primeira coisa que me veio à
cabeça. Inevitável ignorar o fato.
— Nunca ouvi falar disso, a não ser que... — cessou ele a fala, mirando um
ponto fixo no infinito.
— Que ele seja o meu Albert!? — exclamou ela, desnorteada, mais parecendo
fazer uma pergunta a si própria.
Sem perceber, Ava acabara de se confessar:
— S... Será que isso... é possível? Achei muita coincidência o nome... —
balbuciou.
— O rapaz também se chama Albert? — questionei, estupefata.
— E tem pesadelos com acidentes automobilísticos — completou minha
cunhada, concordando. — E mais: disse que tem a nítida impressão de já me ter
visto antes!
Foi a minha vez de exclamar.
— Isso é... inacreditável!
— Eu, hein! Acho que não estou falando coisa com coisa, devo ter
enlouquecido! Esse guri não se parece com ele fisicamente... — Pôs Ava as
mãos na testa, cobrindo o rosto num gesto agoniado. — Quer dizer, até parece...
um pouco. Os olhos castanho-claros, a mão grossa com unhas quadradas, o
cabelo loiro ralo com tendência à calvície, a boca...
Ou seja, uma versão mais nova do Albert que ela conheceu — pensei.
Segundo Richard havia me dito uma vez, Albert era calvo e um pouco mais
pesado pela idade, já que sofrera o acidente quando tinha por volta de quarenta e
poucos anos.
— Maluco vou ficar daqui a pouco, com esses amigos do Rico — ironizou
meu marido, expirando o ar com veemência. — Primeiro, a minha filha. Depois,
a minha irmã. Vou acabar trancando a minha esposa no quarto, antes que seja
tarde demais e tenha que esganar um!
— Não estou com humor para piadas hoje, Richard. A coisa é séria! — ela o
repreendeu. — Eu me sinto perdida. O que é que eu faço? Fujo?
— Se o rapaz for mesmo ele, não vejo como consiga fazer uma coisa dessas.
Ficará obcecada até tê-lo ao seu lado, falo por experiência própria.
— Isso é loucura! — Ava objetou. — Eu não acredito em vida após a morte
ou coisas do gênero.
— Acho que essa questão é o menos importa agora, e sim... O que sentiu
quando chegou perto dele? — ressaltei.
— Um choque. Não, uma aflição. Ou melhor, fiquei sem fôlego. É difícil
descrever — relatou, literalmente confusa. — Só sei que me deu vontade de...
— De?
— De abraçar... e... de beijar aquele rapaz — confessou, encolhendo a voz.
— Bem, creio que essa seja a resposta para todas as suas dúvidas, não?
— Mesmo que fosse verdade, Stephanie, o que isso iria mudar agora? Ele hoje
é só um guri, amigo do meu sobrinho, cheio de sonhos e planos para o futuro.
Não o homem sozinho, independente e desprovido de familiares que conheci. O
que eu, uma vampira, poderia lhe oferecer?
— Que tal o que você tem de melhor? O seu amor...?
— Não! Não quero interromper a vida dele novamente! — agonizou.
Richard se opôs de imediato.
— Você não matou o Albert, Ava. Sabe muito bem disso! Ele dirigia sozinho
quando bateu com o carro.
— Em alta velocidade, após me deixar alimentar do seu sangue numa hora de
necessidade! Como posso ter certeza de que não exagerei na dose?
Desse detalhe eu não sabia, definitivamente.
— Não foi sua culpa — ele garantiu. — Eu acompanhei a autópsia, lembra?
Não menti para você, juro pelo que quiser!
Ela soltou uma lágrima rubra.
— Tudo bem, Richard. O passado não retorna, mas o futuro eu posso alterar!
Não vai acontecer outra vez! Não vai!
— Você está chorando? — surpreendeu-se ele. — Então não há mais o que
contestar, minha irmã. Como vampiros, só temos o direito de sentir algo assim
por uma única pessoa. E se aconteceu para você com essa intensidade...
— Vou me mudar daqui o mais rápido possível — decidiu, começando a se
levantar para ir embora. — Dessa vez não vai dar para acompanhar vocês.
— Fugir não vai fazê-la esquecer, não dê uma de inocente como eu! Quanto
mais eu lutava para não amar a Stephanie, mais rápido perdia a batalha. Aquele
ditado humano que diz “o que os olhos não veem o coração não sente” não se
aplica à nossa espécie. Esse órgão congelado não bate, mas comanda com tirania
tudo o que resta.
— Não me julgue, irmãozinho. Também tentou fugir quando ela descobriu a
verdade. E só ficou porque a Stephanie o impediu, dizendo que o amava.
— Fiz isso sim, admito, mas intimamente tinha certeza de que não iria
suportar. Se já era difícil antes, quando a desejava de modo platônico, imagine
depois de ter vencido a minha guerra interna, beijá-la e sentir que fui retribuído...
Mais dia, menos dia, eu voltaria, nem que fosse somente para olhá-la de longe.
Ava abriu a porta da casa, emendando com teimosia:
— Mando o endereço assim que conseguir um lugar para ficar. Não fiquem
chateados comigo se não der para comparecer às bodas, ok? Eu... — cessou
subitamente a fala, olhando para a rua. — Ah, não... Não acredito nisso!
— O que foi? — indagamos a ela em coro.
— Albert não foi embora como os outros. Ficou lá fora me esperando! —
Recuou alguns passos, em desespero.
Confirmando o que ela dizia, avistei um rapaz louro sentado no meio-fio do
outro lado da calçada. Como suspeitava, dentre os jovens que desfilaram na sala,
era justamente aquele que não olhou para a minha filha. O rapaz que aparentava
procurar por outra pessoa.
— Não acha que isso pode ser um sinal? — indaguei. — Se ele ficou tão
impressionado com você, pode ter voltado para completar o seu destino.
— Albert não quis ser como eu, Stephanie. Não quero mais alimentar ilusões.
— Enquanto não nos completamos não somos felizes. Quem sabe, não foi
justamente isso o que aconteceu com ele? — exercitei o meu poder de persuasão.
Ela aparentava um desnorteio fora do comum. Para quem conviveu por mais
de vinte anos ao seu lado, ver minha cunhada daquela maneira era estarrecedor.
De uma hora para outra, murchou igual a uma folha seca, desidratada.
— Richard, dá para você pegar o meu carro na garagem e levar até a esquina?
Saio pelos fundos, pulo a cerca e o encontro em cinco minutos — implorou Ava.
— Não sei se quero compactuar com isso — ele recusou.
— Por favor!
— Está me pedindo muito.
— Não é justo! Eu ajudei quando você precisou de mim!
— A ser feliz, Ava! Não a me fazer sofrer!
— Por Deus! Só posso contar com vocês!
Richard soltou um rosnado contido.
— Farei o que me pede, mas contrariado — resmungou, fechando a cara.
— Se essa é a sua maneira torta de dizer que vai sentir a minha falta, saiba que
também vou — declarou ela, recepcionando-o com um abraço.
Ele balançou a cabeça de olhos fechados e proferiu um lamento entristecido.
— Ava...
Ela se despediu de mim, e os dois fizeram o combinado. Tive pena do rapaz,
ele parecia inquieto do outro lado da rua e ficou ainda mais quando viu o carro
dela indo embora sem a minha cunhada dentro. Chegou a sinalizar para que
Richard parasse, sendo ele obrigado a mentir, dizendo que Ava já havia partido
antes da sua saída com os colegas. Ao ver o veículo se distanciando, Albert
chutou uma pedra e foi embora, desanimado.
Retornando, meu marido se sentou na poltrona da sala, exibindo semblante
inconformado.
— Parece até que eu adivinhava quando senti aquela inquietação no avião...
Deve ser por isso que tive vontade de ficar mais tempo viajando com você,
porque pressenti que quando voltasse alguma coisa iria modificar.
— Tenho certeza de que ela vai voltar, Richard. Nossa espécie é bastante
previsível em certos aspectos — consolei-o.
— O que me chateia é não ter como retribuir o que ela fez por mim da mesma
forma. Não posso abordar uma pessoa que mal a conheceu hoje e contar a
verdade.
— A intuição me diz que essa situação não vai parar por aí. Não há como se
esconder do destino. Se eu fosse você, relaxaria um pouco.
— Minha preocupação não é somente em relação à Ava — revelou. — Estou
me dando conta de que o tempo passou e a casa vai esvaziar. Essa será nossa a
tendência daqui para frente.
— Os humanos também sentem isso, amor. Educamos os nossos filhos para o
mundo. É a ordem natural das coisas.
— Só que os humanos têm uma vantagem: na maioria das vezes, morrem
antes de perdê-los. Já nós não poderemos ter essa certeza. Não gostaria que um
filho meu fosse um vampiro se não quisesse, que se tornasse infeliz por isso,
como teme a Vitória. Mas também não posso negar que não sei como suportar
viver sem eles depois de ter sido agraciado com tamanha bênção.
Aquele temor eu também sentia. Se a genética da nossa espécie não aflorasse
neles, teríamos que vê-los partir algum dia. Isso soava antinatural, sem sentido e
até mesmo como castigo. Podia perfeitamente imaginar a consternação dos pais
que perdiam seus filhos, mas o sofrimento deles cessaria um dia, quando a morte
também os levasse. Já o nosso não. Amargaríamos essa dor por toda a
eternidade.
— Que tal entregarmos mais uma vez o nosso destino nas mãos de Deus? —
sugeri. — Tenho certeza de que Ele saberá o que é melhor para todos nós. Se
possibilitou um amor improvável entre espécies diferentes e o surgimento da
vida dentro de seres teoricamente mortos, não tenho dúvida de que o nosso
caminho será guiado da melhor forma.
Richard suspirou e recostou a cabeça no meu ombro.
— Deve ser por isso que ando precisando tanto de você. Ninguém mais
consegue me dar a paz e essa sensação de plenitude que tenho quando estou ao
seu lado.
— Se quiser saber, também tenho sentido essa necessidade. Tanto que, como a
minha própria filha delatou, induzi meus professores a deixar que eu fizesse as
provas finais antes, para que eu pudesse ficar mais tempo com você.
— Suponho que usou a palavra “induzi” como sinônimo de “hipnotizei”.
— Na mosca.
— E como eles vão explicar esse absurdo aos outros alunos?
— Ninguém vai se lembrar disso — garanti. — E antes que se aborreça,
adianto que não fiz nada de mais. Já tinha nota mais do que suficiente para
passar.
Richard enrugou a testa, num misto de preocupação e surpresa.
— Como posso me aborrecer se detenho a maior parcela de culpa nessa
história? Eu estaria sendo hipócrita se dissesse que não fiquei feliz por ter tido
alguns dias a mais ao seu lado.
Espalmei as mãos para tentar encerrar o assunto.
— Bem, que tal pararmos de procurar razões para nos entristecer e levarmos
as nossas coisas para o quarto?
— Ok, você é quem manda.
E, ao invés de pegar as malas, agachou-se para enlaçar as minhas pernas pelos
joelhos e me jogar rapidamente no seu ombro, apoiando o meu quadril nele.
Pendurou-me de cabeça para baixo como se eu fosse um saco de presentes do
Papai Noel.
— Eu me referia à bagagem, Richard — retruquei, visualizando o mundo
invertido, o meu cabelo quilométrico balançando no ar e os pés dele subindo
com rapidez os degraus da escada.
— Entendi direitinho. Só selecionei o único pertence que me faz falta, o resto
pode ficar para depois.
E ficou.
Dez

Domingo.
Aquele era um dos poucos dias da semana que tínhamos inteirinho para nos
dedicarmos à família.
Em geral, meu pai sempre aparecia na hora do almoço acompanhado pela
Vanessa, Ava nunca se esquecia do compromisso, e os meninos, mesmo que
tivessem outros planos com os amigos, voltavam a tempo de desfrutar desses
prazerosos momentos. Richard fazia questão disso, gostava daquele burburinho,
das brincadeiras e das discussões que somente sua família conquistada poderia
lhe proporcionar. Eu adorava enxergar a satisfação estampada em seus olhos, ver
o quanto fui capaz de torná-lo feliz e fazer da sua a minha felicidade. Só
lamentava o fato de estarmos desfalcados de membros nesse domingo, já que a
minha cunhada sumiu do mapa sem deixar vestígios e o papai havia viajado a
trabalho com a Vanessa.
Embora acordada, continuava deitada na cama de lado, com os braços de
Richard me envolvendo a cintura pelas costas e o seu rosto enterrado nos meus
cabelos. Ainda não havia me levantado para não despertá-lo; ele tinha um sono
muito leve. Na verdade, todo esse esforço foi em vão. O barulho dos passos
apressados vindos do quarto de Rico o fez imediatamente abrir os olhos.
— Rico já acordou? — perguntou-me, intrigado.
— Também estou estranhando. Nunca acorda nos fins de semana antes das
dez...
Em poucos minutos, descíamos as escadas para entender o motivo da sua
pressa em sair de casa sem falar conosco.
— Oi, mãezinha, que saudade! — saudou-me meu filho com vários beijinhos
no rosto.
Rico tinha esse jeito afetuoso característico de me abordar. Em muitos
aspectos, principalmente no modo compreensivo e positivo de enxergar as
coisas, parecia demais com o avô Allan. O engraçado era que, quando pequeno,
eu tinha certeza de que seria ele a herdar a tendência aos resmungos e à
impaciência que marcavam tanto a personalidade de Richard, mas, ao contrário
do que pensei, mudou completamente quando chegou à fase adulta.
É lógico que, como filho dele, não poderia deixar de receber sua genética: o
jeito prestativo e responsável, o imediatismo, a impulsividade, a tendência a se
culpar quando algo dava errado e a intensa necessidade de oferecer e receber
carinho constante eram exemplos bem claros. Por conta desse apego, inclusive,
muitas vezes fiquei imaginando como deveria ser o comportamento do meu
marido com a mãe dele. Calculava que fosse exatamente assim: um chamego só.
Da minha personalidade, Rico levou a fama de estrategista e chantagista.
Quando encasquetava com alguma coisa, não havia quem ele não convencesse
com aquela lábia, não se dando por vencido até que conseguisse o seu intuito.
— Aonde vai arrumado assim, a essa hora da manhã? — indaguei, enquanto
Rico dava um abraço apertado no pai.
Meu estranhamento tinha motivo, afinal, Rico amanheceu vestido
socialmente, com camisa de colarinho escura de mangas dobradas, calça jeans e
sapatos, ao invés dos seus habituais tênis.
— Mãe, nem te conto... Aconteceu uma tragédia ontem à noite — relatou. —
Os pais de um dos meus amigos foram assassinados dentro do carro, em frente à
casa deles. Disseram que foi uma cena horrível, que, além de matá-los, o
assassino incendiou o veículo e os corpos carbonizaram.
— Nossa! Que horror! — exclamei, estarrecida. — Eram pais de algum dos
que vieram aqui ontem?
— Infelizmente — lastimou. — Os do Albert.
Richard e eu nos entreolhamos, atônitos, impressionados com a infeliz
coincidência.
— O Andrew ficou de passar aqui dentro de instantes para irmos até lá e
darmos uma força. Nem sei nem como o Albert está se virando, ele era filho
único.
Mais incrédula ainda fiquei, por constatar que a sina de Albert se repetia. Era
obrigada a admitir que as coincidências se tornavam cada vez mais surreais.
— Rico, se ele não tiver como pagar o funeral, não hesite em me pedir ajuda
— ofereceu Richard.
— Temo que isso realmente possa acontecer, pai. Até onde sei, ele não possui
tios ou qualquer outro parente. Seus pais vieram para os Estados Unidos
justamente para fugir de convenções religiosas. Parece que a família de um não
aceitava a descendência do outro, e, como decidiram enfrentar a situação, foram
deserdados e banidos.
— É impressionante que uma coisa dessas ainda continue acontecendo nos
dias de hoje. O mundo se moderniza, o acesso à informação aumenta, mas certos
preconceitos e pensamentos estacionaram no tempo. — Bufei em revolta,
ouvindo a campainha tocar repentinamente.
— Deixa que eu atendo! — gritou Vitória, descendo as escadas correndo.
Usava saída de praia sobre o biquíni. — Deve ser a...
Ela abriu a porta e ficou muda.
— Oi — murmurou Andrew, olhando-a de cima a baixo, quase que engasgado
ao vê-la vestida daquele jeito.
— O... Oi — gaguejou ela, envergonhada por ter sido surpreendida.
Acharia até engraçado aquele diálogo monossilábico se o motivo que o
trouxesse aqui não fosse tão triste. Minha filha amanheceu com ligeiras olheiras
e aspecto sonolento. Suspeitava de que justamente por esse rapaz ela pouco
tivesse dormido à noite.
— Sabe dizer... se o Rico já tá pronto? — perguntou Andrew, sem desviar os
olhos dela.
— Rico? — Ela parecia repetir o nome do irmão por puro reflexo, isenta de
raciocínio.
— Estou — respondeu Rico por trás dela, tascando-lhe um beijo na bochecha.
— Vai à praia hoje, Vitty?
— Pretendo, por quê? — retrucou acanhada, sem suspeitar da triste situação.
— Por nada. — Resolveu não preocupar a irmã, embora, como cão de guarda
número dois da casa, fizesse questão de fechar duas casinhas de botões da roupa
de praia dela antes de sair, provavelmente por ter reparado no olhar especulativo
do amigo. — Não se esqueça de usar o protetor solar e de ficar afastada das
ondas, você não nada tão bem assim — recomendou, amoroso.
— Tá — ela concordou, cerrando as pestanas em desconfiança à atitude dele.
— Até mais tarde — despediu-se Rico.
Vitória parecia não se dar conta da nossa presença na sala e não conseguiu
disfarçar a raiva de si mesma, por se sentir tão ameaçada pelo coração. Quando
fechou a porta da casa, logo após se despedir do rapaz, deu três tapinhas raivosos
na própria testa, como se quisesse se repreender por seus pensamentos traidores.
— O que foi, filha? — inquietou-se Richard.
— Hã? Eu... pensei... que tivesse terminado o trabalho, mas acabei de lembrar
que ficou faltando um tópico — balbuciou atônita, abaixando a cabeça para
ocultar a vermelhidão do rosto.
Em pouco tempo, ela arrumou outra desculpa qualquer e saiu da nossa mira.
— Deu para matar a saudade de ver um rosto ruborizado?
Nem obtive resposta.
Richard já estava com o pensamento longe, povoado de indagações profundas.
Preocupava-se com a reação estranha da filha, com a Ava, com a tragédia que
aconteceu na vida do pobre rapaz — sozinho no mundo — e também com a
ameaça de um assassino rondando a vizinhança. Mal chegamos de viagem e os
problemas começaram a se acumular.
Como Rico suspeitava, realmente foi necessária uma vaquinha entre os
amigos para ajudar no enterro dos pais de Albert, que ocorreu somente dois dias
depois devido aos corpos terem sido retidos para investigação da polícia.
Aliás, poucas provas puderam tirar dos restos carbonizados.
O assassino foi tão habilidoso que sequer deixou para trás marcas de violência
no carro, digitais ou qualquer pista que pudesse incriminá-lo. A única certeza
que tinham era de que não se tratava de um roubo convencional, já que
aparentemente não levaram nada de significativo dos dois inocentes, queimando
os documentos e até mesmo o dinheiro que eles carregavam nas chamas.
A hipótese de vingança também havia sido descartada. Segundo Albert, seus
pais não possuíam inimigos, muito menos mantinham contato com a família de
origem.
Daí a pior conclusão: havia um sádico na cidade, e da pior espécie. O que
aconteceu foi uma verdadeira barbárie, algo insano que somente uma mente
psicopata poderia cometer.
Em meio à tamanha desgraça, Albert teve que entregar a casa alugada por
absoluta falta de condição de manter as prestações, buscando abrigo provisório
no apartamento de um dos colegas até poder bancar o próprio quarto.
O assunto abalou a vizinhança inteira, e circulavam boatos de que havia
acontecido morte semelhante em outro bairro da cidade.
Em virtude de tal fato, as pessoas passaram a tomar um pouco mais de
precaução, exigindo maior policiamento e observando a proximidade de
estranhos ao chegar ao destino planejado, especialmente à noite. Isso só veio a
agravar a retração da Vitória, que arrumou mais uma desculpa para não ter que
sair de casa com as colegas, alegando medo. E olhe que, assim que ela entrou de
férias, o que não faltaram foram convites de todos os tipos para festas, passeios e
programas...
Para variar, embora soubesse que se tratava de uma fuga, um motivo a mais
para encobrir seus verdadeiros sentimentos, evitei forçar a barra. Em algum
momento, como minha sábia mãe dizia, alguém driblaria o seu bloqueio, furaria
a defesa, faria um gol de placa, e ela iria desabrochar. Tudo na vida tinha seu
tempo, e eu era a prova viva — ou morta — disso.
Diante dos acontecimentos, passamos a planejar melhor as nossas saídas, de
modo que, enquanto o assassino não fosse preso, nenhum dos meninos ficasse
sozinho. O combinado seria que Richard e eu sairíamos na sexta-feira para
dançar, ficando Rico com a Vitória em casa. No sábado, e em outro dia qualquer
da semana, eles poderiam sair. Levaríamos e buscaríamos os dois, se preciso
fosse. Se o meu pai estivesse na cidade, nem seria necessário montar um
esquema. Tinha certeza de que se prontificaria a ficar com eles, ou melhor, com
a Vitória. O problema era que ele ainda não havia voltado da viagem a Boston, e
não dava para contar temporariamente com a sua ajuda.
E assim foi...
Sexta-feira chegou, e saímos, Richard e eu, rumo a uma boate em South
Beach, famosa por tocar músicas românticas e pops de outras décadas. Na
verdade, foi a própria Ava que havia nos indicado o local, numa das suas
explorações noturnas.
O ambiente tinha uma decoração bastante exótica. Ao mesmo tempo que
exibia mesas e jogos de luzes com aspecto futurístico, mantinha em destaque
objetos antigos, como gramofones, vitrolas e radiolas, que se movimentavam no
alto em meio a uma nuvem de fumaça formada pelo gelo seco. Tratava-se de
uma confrontação bastante interessante, parecia que vivíamos no futuro
sonhando com as músicas do passado.
Havia também dançarinos contratados pela casa ensinando, a quem quisesse
aprender, coreografias de músicas e de cantores famosos. Foi muito interessante
rever pessoas imitando, por exemplo, o “Moonwalk”, passo que imortalizou o
falecido cantor Michael Jackson, bem como a coreografia de “Saturday Night
Fever”, dos Bee Gees, tão irreverente nos pés de John Travolta.
— Ela não ligou ainda — resmungou Richard, referindo-se à Ava.
— E nem atende o celular — emendei.
— Teimosa...
— Para onde será que ela foi?
— Não faço ideia. Se estivéssemos em Londres ou em outro país da Europa,
saberia muito bem onde procurá-la. Mas para lá tenho certeza de que ela não foi,
adaptou-se bem melhor à América.
— Deixei um recadinho contando tudo o que aconteceu na caixa postal do
celular. Se ela for resistente o suficiente para ouvir e ignorar...
Ele respirou fundo e ergueu o meu braço para que me levantasse:
— Vem, bruxinha. Quero dançar a noite inteira abraçado a você.
Bem, a noite inteira abraçados, mesmo que fosse num ambiente repleto de
pessoas, só se eu tivesse algum tipo de amnésia repentina e não o conhecesse
mais.
Por quantas horas conseguiria resistir à mudança de cor da própria íris?
Está certo que o local era escuro, pouco provável que desse para alguém notar
o que quer que fosse, mas, ainda assim, bastaria um olhar intenso ou um colar de
corpos mais apertado para que ele me roubasse dali e nos levasse para algum
ambiente reservado.
Dito e feito: sua resistência não durou mais do que três penosas horas.
Eu também não podia falar muito. Meu limite já havia se esgotado faz tempo.
Sentir o perfume sedutor que ele exalava, o balanço daquele rosto másculo
roçando no meu, o som do ar aquecido entrando e saindo pelas suas narinas e a
eletricidade de mãos deslizando pelas minhas costas era uma verdadeira tortura
mental para qualquer vampiro que se prezasse.
Mal ingressamos no carro, e a sua boca ávida reclamou pela minha. Quem
olhasse uma cena dessas juraria que éramos um casal de namorados recentes, em
pleno descobrimento da paixão. Para falar a verdade, nem sei como chegamos à
garagem de casa ou de que jeito ele conseguiu dirigir até lá, tamanha foi a minha
ausência de órbita.
— Jogou mais uma das suas poções neste pobre vampiro, confesse —
sussurrou ele ao meu ouvido, escaldante, ainda dentro do veículo.
— Funcionou? — provoquei, pescando a sua boca pelo caminho.
— Esse é dos bons.
Perdi a noção de tempo e espaço sentada naquele banco reclinado de
automóvel. Meu cérebro desligou totalmente do mundo real e me transportou
para um paraíso ao qual somente ele conseguia me levar. Só notei que não estava
mais dentro do carro quando ouvi um barulho de chave encaixando na fechadura
da porta. Fui carregada nos braços de maneira tão silenciosa e suave que tinha a
sensação de flutuar pela escuridão da nossa sala, e...
— Pai? Mãe? — A voz da nossa filha interrompeu meu instante de insanidade.
— Uau! — exclamou ela em seguida.
Precisou ainda de alguns segundos para que saíssemos do transe e Richard me
colocasse novamente de pé. Esse era mais um dos problemas inerentes à espécie:
depois que entrávamos em estado “alfa” de paixão, para voltar ao normal levava
algum tempo. Da mesma forma acontecia quando um humano jazia num sono
profundo induzido por remédios e alguém precisava acordá-lo; os olhos
custavam a abrir.
— Vitória? — indaguei, atarantada. — O que faz a esta hora acordada?
A voz dela rateou.
— Esperando... Rico... voltar...
É lógico que reparou no modo tórrido como nos beijávamos, somente um
cego não veria.
— Voltar de onde? O combinado era o seu irmão ficar com você! — reclamou
o pai.
— Ele não vai demorar, pai. Foi rapidinho levar a namorada dele em casa.
— Rico trouxe a namorada nova dele aqui? — estranhei. — Então a coisa é
séria.
— Ele não trouxe a garota pra cá, ela que apareceu aqui de repente —
defendeu-o Vitória. — Mas ficou todo contentinho com a visita — acrescentou,
revirando os olhos e torcendo um pouco o nariz.
— Por que fez essa careta? Não gostou da garota?
— Quem tem que gostar é ele.
— Sim, mas, pelo jeito, você não foi muito com a cara dela — suspeitei.
— Nada contra. Só achei meio estranha, sei lá.
— Estranha como?
— Sei lá — repetiu. — Quanto à beleza, nada a declarar. A mulher parece
mais uma miss, dessas que andam hipermaquiadas, com roupas caras de grife.
Agora quanto ao resto...
— O que tem o resto?
— Tipo, fala muito e pergunta mais ainda. Abelhuda demais para o meu gosto.
— Dá para ser mais clara, filha?
— É muito curiosa, queria olhar a casa toda por dentro. Mas podem ficar
tranquilos que não deixei que ela entrasse no quarto de vocês, muito menos na
sala de exames. Depois, passou o tempo todo querendo saber quem eram as
pessoas nos porta-retratos da estante. O papai, então...
Tava demorando!
— O papai, então, o quê? — forcei-a a falar, aquele sentimento idiota
chamado ciúme começando a brotar das entranhas.
— Ficou impressionada com a semelhança dos dois “irmãos”. Não tirava o
olho daquela foto. — Apontou para uma que eu havia batido de perto, a mesma
que levei comigo para a alcova em Londres, quando pensei que nunca mais o
veria. Richard sorria nela sozinho, e seu azul-violáceo chegava a brilhar.
Um, dois, três, quatro... Contei mentalmente carneirinhos para abafar
pensamentos sanguinários não muito bem-vindos.
— Ela pode olhar a foto à vontade, o conteúdo é meu mesmo...
— Felina a sua mãe, não? — implicou Richard, tapando a boca para conter a
risada.
— Isso para mim tem outro nome — ajudou a filha, fazendo o mesmo.
Rico apareceu de repente pelas minhas costas, após abrir sorrateiramente a
porta da sala.
— Qual é o motivo da piada?
— Pergunta para a mamãe — disse Vitória, não se refreando de tanto rir.
— Deus me livre! Por acaso já viu a cor das íris dos dois? — Arregalou meu
filho os próprios olhos, simulando medo de uma reação intempestiva da minha
parte. — O papai então...
Aí mesmo que a Vitória se curvou para gargalhar da observação. Sabia muito
bem qual era o verdadeiro significado do enegrecido estampado em nosso olhar.
— Rico, você voltou sozinho pelas ruas a esta hora? — mudei
instantaneamente de assunto, não daria o braço a torcer.
— Mãe, sou homem — desencravou ele o seu bordão machista.
— O pai do Albert também era, e nem por isso deixou de ser assassinado.
Ainda não é um vampiro, Rico. Nem sabemos se será algum dia. Portanto,
enquanto esse delinquente não for pego, não quero você vagando sozinho pela
madrugada!
— Jesus! O que foi que eu fiz?
— Você nada, Rico... — insinuou minha filha, insistindo na piada.
Fuzilei-a com os olhos.
— Vitória, algo me diz que você está com sono!
— Boa noite. — Saiu ela de fininho, fazendo um movimento de fecho éclair
na boca.
Os dois machos da casa ficaram me fitando, estupefatos. Para sair daquela
cilada, fui logo me despedindo:
— Boa noite também aos dois.
— Boa noite? — argumentou Richard, arqueando uma sobrancelha.
— É, amor. Boa noite.
Onze

O som de pás de batedeira misturando ovos, açúcar, leite e fermento


impregnou o ambiente.
— Acordou hoje melhor, mãezinha? — quis meu filho saber no dia seguinte,
em pleno café da manhã.
Fingi não me lembrar da noite anterior, peneirando farinha de trigo na mistura.
— Estou ótima, por quê?
— Posso sair de casa pela manhã ou preciso também de um guarda-costas
canino?
— O “guarda-costas canino” sou eu? — suspeitou Richard, descendo as
escadas.
— Fica frio, pai. Foi só uma brincadeira para testar a mamãe — tranquilizou-
o, bem-humorado. — Não vejo a hora de ser um canino também.
— Vampiros têm a vida bastante limitada, Rico. Sabe muito bem disso —
explicou seu pai. — Não podemos sair ao ar livre num dia claro, como agora,
por exemplo.
Despejei a massa pronta na máquina de fazer waffles.
— A meu ver, têm inúmeras outras vantagens. — Bebericou Rico leite morno
num copo. — Só o fato de nunca ficar doente ou morrer, não envelhecer ou
precisar se preocupar com um futuro que sempre vai existir, já vale o incômodo
de não poder pegar sol.
— Nenhuma dessas “vantagens” será suficiente se não puder contar com
alguém para compartilhá-la, filho. Disso posso garantir. E para nós, até onde sei,
existe apenas única chance.
— E o meu pai agarrou a chance dele com unhas e caninos! — Rico fez um
trocadilho engraçado, simulando garras e dentes de um animal.
— Depois de passar mais de um século sozinho e infeliz. Não foi tão simples
como pensa.
— Mas valeu a pena, não foi?
— Sabe que sim, mas a questão não é essa. Já parou para pensar no que seria
da minha vida se a sua mãe me recusasse? Consegue imaginar uma angústia
eterna?
— Acredita mesmo que não teria outra chance? Você não foi noivo antes de
encontrar a mamãe?
Richard me olhou instintivamente. Não costumava falar daquele assunto na
minha frente e sabia, como vampiro, que qualquer resposta mais calorosa me
perturbaria. E tinha razão. Eu já pensava num jeito de me ausentar dali, mas
daria bandeira demais. Por isso mantive uma postura indiferente, retirando os
waffles prontos da máquina. Não queria repetir a cena irracional do dia anterior.
— Naquela época eu era humano, Rico. E os sentimentos humanos são
diferentes — lembrou-o.
— A tia Ava me contou que você passou muito tempo inconformado. Várias
décadas, inclusive. E, até onde sei, já era um vampiro.
Pela pausa na fala, senti que fui observada novamente, mas a essa altura eu já
me postava de costas, despejando mel no alimento de Rico. Realmente, estava
duro demais suportar aquela conversa.
— A mulher da minha vida é a sua mãe, Rico. Ponto-final — forçou encerrar
o assunto, incomodado.
— Tudo bem, encontrou a mamãe depois de muito tempo. Mas, e se o meu
prognóstico fosse diferente? Se eu encontrasse a minha companheira antes?
Quem sabe até já tenha encontrado... — insinuou meu filho, com ar misterioso
no semblante.
— Você convive com vampiros, por isso não sente repulsa e acha tudo
perfeitamente normal. Pensa que qualquer pessoa aceitaria uma coisa dessas?
— Se me amar, por que não?
Richard não mais argumentou por hora.
Tal qual como os humanos, criar ou aconselhar filhos não era fácil feito seguir
um manual de instruções. Tínhamos que avaliar com calma e pensar muito bem
antes de agir. Cada um possuía características e anseios diferentes. Se para Rico
o que somos soava como prêmio, para Vitória era sinônimo de infelicidade.
Ainda assim, não podíamos deixar de esclarecer, em momentos oportunos, os
prós e os contras. Não havia qualquer garantia de que ela não seria uma vampira
um dia, então algum tipo de conformação teria que ser passado para que, caso
isso viesse a acontecer, o sofrimento dela amenizasse.
Quanto a Rico, talvez o seu desejo fosse um pouco mais simples de resolver,
pois, se a genética não florescesse até certa idade, poderia contar com outros
métodos para conseguir o seu intuito, embora para isso precisasse ter um pouco
mais de maturidade e plena certeza; a decisão não tinha retorno.
— Levantou com toda essa disposição para encontrar a “escolhida”? —
indaguei a Rico, curiosa.
— Infelizmente não. Ela trabalha neste horário. Vou só bater um papo com os
amigos.
Bem, talvez ela não seja tão dondoca quanto a Vitória descreveu...
— Então aproveite o sol... enquanto pode. — Despenteei de leve o cabelo do
meu filho.
Rico terminou de tomar o café e se despediu, enquanto a minha filha
continuava embalada no sono. Ao passar pela sala, notei que aquele porta-retrato
do dia anterior não se encontrava mais no lugar. Aliás, não só ele como todos os
que aparecíamos de perto.
— Quem retirou as nossas fotos daqui? — murmurei sozinha.
— Eu. — A voz perturbadora de Richard próxima à minha orelha quase me
tirou do prumo. Surgiu por trás de mim, meio fantasmagórica.
— Posso saber o motivo?
— Recebi um boa-noite por causa delas — brincou, soltando seu hálito gelado
de propósito no meu pescoço.
— Não recebeu um boa-noite de verdade, sabe muito bem disso.
— Isso porque ganhei a nossa guerra ontem — gabou-se.
— Detesto tirar o doce da sua boca, mas ganhou porque eu deixei.
— Que seja. Ainda assim, as fotos me deram muito trabalho para vencer, e
vampiros são vingativos.
— Não vejo necessidade disso. Fotos não são de carne e osso — encenei meu
papel de durona.
— Ok. Você pode não se importar, mas, como sou um ciumento assumido —
frisou bem a palavra, de implicância —, prefiro deixar as suas fotos no nosso
quarto. Tem muito marmanjo rodando nesta sala ultimamente.
Richard, quando queria, conseguia ser irritante. Por sorte, fui salva pelo
gongo: o seu celular tocou.
— Alô? — atendeu ele. — Sim, sou eu mesmo. Quem está falando?
Seus olhos se estreitaram de repente.
— Quem? Juliet? — Seu rosto se contorceu. — Não conheço... ninguém...
com esse nome, sinto muito.
Logo fui eu quem semicerrou os olhos, observando o jeito estranho como ele
ficou ao ouvir aquele nome.
— Está enganada, moça. Não sou o seu amor. Ligou para o número errado. —
Fechou ainda mais a cara, ouvindo algo do outro lado da linha
Cruzei os braços e fiquei esperando pelo desfecho daquela ligação maluca.
— Ah, agora entendi... O Richard que procura é meu f... irmão... mais novo.
— Quase cometeu um deslize. — Ele deve ter passado o meu número por
engano.
Novamente parou para ouvir o que ela tinha a dizer.
— É... É estranho sim, meu pai tinha essa mania de dar nomes iguais aos
filhos, mudando apenas o último nome — explicou a coincidência, continuando
a exibir expressão intrigada.
Quem era essa tal Juliet para ficar batendo papo com o meu marido?
— Sei... A namorada dele... Pode deixar que transmito o recado. — Fez uma
pausa. — De nada, tenha um bom dia. — E encerrou a ligação.
Richard pôs o celular sobre a mesa de jantar e caminhou alguns passos em
direção à janela, meditativo. Ficou tão ausente que se esqueceu completamente
da nossa conversa.
Parecia... perturbado?
O que foi isso? Ele se abalou com o fato de a namorada de Rico possuir o
nome da sua ex-noiva? Por qual motivo? Será que ela não tinha significado tão
pouco assim para ele, como dizia? Será que, ao contrário do que eu pensava,
Richard encerrou esse mesmo assunto com o filho à mesa, não por minha causa,
mas porque falar sobre ela o incomodava?
Seu celular tocou outra vez, e, ao invés de atendê-lo, ele estranhamente
solicitou que eu mesma o fizesse, deixando-me ainda mais encafifada.
Era impressão minha ou ele fugia dela?
— Alô! — atendi em tom de poucos amigos.
Eu sabia que a garota não tinha culpa de se chamar assim, mas já começava a
ficar com raiva dela por fazer me sentir tão vulnerável.
— Stephanie?
Meu peito aliviou. A voz era masculina.
— Tudo bem? É o “cumpadi” — brincou Luciano.
— Ah, oi... Tudo ótimo, e com vocês? — respondi mecanicamente, mais
preocupada com a reação suspeita do meu marido. Richard continuava esquisito,
absorto em seus pensamentos.
— Beleza. Richard pode me atender um instante?
— Richard? Creio que pode, sim, se não estiver ainda em estado catatônico...
— Estiquei a mão para lhe entregar o celular.
Pelo visto, ele nem ao menos notou o meu tom sarcástico, por isso resolvi sair
de perto. O seu comportamento esquivo me deixava mais agoniada do que a
própria ligação em si, chegava a me causar um aperto no peito. Dei graças a
Deus quando a Vitória desceu para tomar café. Esperava que ela me distraísse
para me ajudar a não pensar em besteiras.
Doce ilusão...
— Dormiu bem, filha? — perguntei.
— Até demais. — Bocejou. — E você, está mais calma?
Eu queria dizer que sim, mas estaria mentindo. Dei um sorriso morno em
resposta.
— Já vi que não.
— Vai à tal festa na casa da Nicole hoje? Já ligaram hoje perguntando. — Era
minha obrigação indagar, embora intimamente já tivesse quase que certeza da
resposta.
— Quem ligou?
— A Lisa, a Ann e... o William.
Vitória negou prontamente ao ouvir o último nome.
— Não, mãe. Não quero ir.
— Levo e busco, se estiver com medo.
— Vai passar no canal pay-per-view um dos meus filmes favoritos hoje, não
quero perder por nada. — Arranjou a desculpa mais esfarrapada que encontrou.
Richard entrou na cozinha após terminar a ligação. Continuava esquisito.
— Algum problema, pai?
Beleza. Até a minha filha percebeu, então não era cisma minha.
— Era o Luciano. Queria que eu fosse com ele à Jornada de Hematologia que
vai acontecer em Atlanta, ainda nesta semana. Terá uma palestra de dois dias do
David Hassenwelch, começa na quinta...
Esse hematologista era considerado o “Papa” do momento na área deles.
— Você vai, pai?
— Não — respondeu com ar de desânimo.
Entrei na conversa.
— E por que não?
— Alguém pode me reconhecer. Vinte anos ainda não é tempo suficiente para
que eu possa frequentar novamente as reuniões da minha classe, infelizmente.
— Richard, eu o conheço. Está doido para assistir à palestra desse médico. Por
que não se inscreve com aquele nome que consta na carteira profissional que a
Ava arrumou? Pode usar óculos e lentes de contato para disfarçar... — sugeri.
— Será? — Girou os olhos, raciocinando. — Não... Não sei se quero ficar
longe de vocês, logo nas férias.
— Vá, Richard — estimulei. — Há tempos noto que sente falta desse tipo de
coisa. Quando é que terá a oportunidade de assistir a uma nova palestra dele
aqui, nos Estados Unidos? Ele não é egípcio? São poucos dias...
— Você me conhece mais do que eu a mim mesmo, não? — constatou. — Vou
ligar para o Luciano e fazer a inscrição.
É, conheço sim...
O bastante para sentir o coração gelado encolher depois daquela ligação.
Ainda que continuasse cismada, fiquei aliviada por ele não ter reparado na
minha ridícula insegurança. Havia muitos anos que não me sentia assim, tão
vacilante. Vampiros podiam ir de um extremo a outro em questão de segundos
quando o assunto principal envolvesse qualquer coisa que ameaçasse o que mais
amávamos. Nada conseguia nos fazer esquecer certos pensamentos. Por outro
lado, sabíamos disfarçar muito bem quando pretendíamos.
No final da tarde, por insistência de uma amiga, Vitória mudou de planos. Não
iria à festa, porém passaria a noite na casa dela, já que a garota ficara
impossibilitada de sair, acometida por uma crise renal. Não era de todo ruim,
pelo menos minha filha conseguia fazer mais amigas naquela idade do que eu,
que tinha tendência a me isolar.
Fiz questão de levá-la pessoalmente até o endereço, receosa por conta da onda
de crimes relatados nos jornais. Olhando por esse lado, o fato de ela não zanzar
por aí na atual conjuntura até me tranquilizava. As mulheres costumavam ser
alvos mais fáceis de psicopatas. Não conseguiria imaginar o que seria de mim se
algo de ruim acontecesse à minha filha.
Corrigindo: aos meus filhos.
Rico também me preocupava, ainda que, na maioria das vezes, estivesse
cercado de amigos, fato que diminuía a probabilidade de ser atacado.
Richard não nos acompanhou, entretido nos documentos e dados exigidos pela
organização da jornada. Aproveitou a tarde para separar os tópicos que mais lhe
interessavam, caso o palestrante não tirasse suas dúvidas durante o evento e
houvesse a necessidade de perguntar. Mesmo ausente dos congressos por tanto
tempo e detentor de uma habilidade única, meu marido buscava atualização
constante através de artigos na internet, assinaturas de revistas científicas, e-
books e cursos internos de cada hospital. Continuava o profissional brilhante e
interessado de sempre.
Ao voltar para casa, verifiquei no visor do meu celular — esquecido na
bancada da cozinha — uma ligação perdida. Ava. Ela ligou, mas não teve
coragem de deixar mensagem alguma. Provavelmente recebeu o recado que
enviei para o seu celular e estremeceu.
Dava até para imaginar a agonia que sentiu por descobrir o que aconteceu com
o Albert...
Tamanha coincidência se tornava quase que impossível de ser ignorada,
especialmente depois que ele ficou órfão e sozinho no mundo, da mesma forma
como ocorreu com o homem que tanto amou.
Digitei o número do seu telefone pelo menos umas cinco vezes e, como
sempre, Ava não atendeu.
Até onde iria tanta resistência? Quanto tempo levaria até que ela chegasse à
conclusão de que fugir era inútil, que jamais seria capaz de esquecer?

Vinte horas.
Do jeito que a cozinha permanecia intacta, meu filho simplesmente se
esquecera de lanchar. E, pelo aroma de perfume amadeirado que impregnava o
ar, não demoraria muito para sair.
Preocupada com a sua abstinência, fiz suco de laranja e coloquei o copo numa
bandeja com um pedaço de bolo de chocolate que a Vitória havia feito à tarde.
Ouvi de longe o som das vozes da ala masculina da casa e, aproveitando o
ensejo, acrescentei uma taça de sangue A+ aquecido para Richard.
Vim equilibrando os copos até me deparar com uma conversa íntima entre
eles, o famoso “papo de homem para homem”. Não queria interrompê-los para
não deixar o meu filho constrangido, acreditando que tais momentos eram
necessários, enriqueciam a vida dos dois. Recuei, mas foi tarde. Ouvi, sem
querer, parte do assunto, e os pés paralisaram contra a minha vontade.
— Muita coincidência sua namorada se chamar Juliet — comentou Richard.
— Também achei — concordou Rico.
— Como ela é?
— Ruiva. E tem olhos verde-esmeralda — empolgou-se.
— Já vi que as coincidências não param por aí.
— A sua Juliet também era bonita, pai?
A Juliet dele? Jesus, vou fingir que não ouvi isso...
— Era — respondeu meu marido.
— E você gostou muito dela?
Foi a gota d’água, o estopim.
Não queria ficar ali para escutar resposta alguma, por isso acelerei o recuo dos
passos. Ouvi-lo admitir que a sua ex- noiva era bonita nem foi tanto o problema;
isso eu já imaginava. O que me perturbava tinha a ver com o sentimento. Vê-lo
abalado por conta de uma ligação que a namorada do filho fez, só pelo fato de a
dita-cuja possuir esse maldito nome, já fora inquietante o suficiente para um
único dia. Pagaria qualquer quantia para anular a minha audição naquele
instante. Melhor ainda seria se conseguisse apagar do cérebro os últimos
minutos.
— Sim, muito — ouvi a sua confissão ao longe.
Retornei quase que aos tropeços e pus a bandeja sobre a mesa, sentindo um
bolo fechando a garganta.
Que ridículo! — censurei-me.
O que eu esperava que ele dissesse, afinal? Que não? Ele foi noivo dela, ia se
casar com ela...
O negócio todo era que a mulher, apesar de ter morrido havia um tempão,
ainda conseguia me provocar ciúme. Talvez isso até tivesse uma relação lógica
na minha cabeça: em toda a sua existência, Richard somente se declarou para
nós duas, e, se ela não o houvesse recusado, ele não seria meu marido hoje.
Traduzindo: a minha felicidade foi decidida pelo “não” de outra mulher.
Eu sei, devia expulsar esse fantasma da minha vida e simplesmente falar “azar
o dela”. Se ainda fosse humana, com certeza diria algo parecido. Foi a primeira
coisa que pensei na época, aliás.
Todavia, como exímia representante de uma espécie obcecada, tal atitude era
difícil de ser realizada. Precisava ser franca e admitir que a dor que me afligia
soava irracional, incompreensível. Ele me pertencia, eu tinha certeza do seu
amor, e, no entanto, sofria. A pontada que me fincava o peito era tamanha que
me fez subir lentamente as escadas, curvada, a ponto de verter lágrimas sem
emitir um único som.
Abri a porta do nosso quarto em busca de refúgio, mas, ao me virar, Richard já
me esperava sentado na cama. Às vezes, aquela velocidade inerente aos
vampiros irritava.
— Oh! Você está aí...? — indaguei, surpresa, começando a retornar de onde
vim, tentando disfarçar a angústia.
Ele me capturou pela cintura.
— Aonde pensa que vai?
— Levar... um lanche para o meu filho — justifiquei de costas, incomodada
com que ele pudesse me ver daquele jeito.
— Ele pode esperar um pouco, eu não — murmurou.
— Richard, o menino precisa se alimentar, ou vai acabar desmaiando pelas
ruas.
— Rico já é adulto, Stephanie. Sabe se virar sozinho.
Que outros argumentos eu teria, afinal? A Vitória não ia dormir em casa...
— Amor, estou atarefada agora, eu...
— Stephanie, olhe para mim — exigiu.
Droga! Ele reparou.
Não queria me sentir assim, feito um cristalzinho fino e fácil de quebrar, por
causa de uma pessoa que já nem existia mais. Eu me portava como uma perfeita
idiota.
Sentindo minha resistência, ele mesmo me desvirou. Ainda limpei
rapidamente com os dedos as lágrimas, embora suspeitasse que elas que
tivessem deixado marcas pelo caminho. As gotas não eram transparentes.
— Você ouviu, não foi? — desconfiou, mantendo o meu rosto entre as duas
mãos para não haver jeito de me soltar.
Tínhamos um pacto de nunca mentirmos um para o outro. Diante do fato,
considerei que ficar calada não fazia parte do acordo. Não afirmava e muito
menos negava, portanto...
— Por que é tão difícil para você admitir que sofre com isso?
Ele me derrubou com a pergunta. Apenas desabei a cabeça no seu ombro a fim
de aplacar a falta de ar súbita que começava a se fazer presente em mim.
— Foi uma paixão humana — garantiu. — Diferente do que sinto por você.
— Nem tente entender a minha cabeça. É algo... involuntário, uma loucura
completa. Não consigo evitar a dor de ouvi-lo falar dela assim. Fico pensando
que se Juliet o tivesse aceitado...
— Provavelmente eu não seria feliz — emendou. — Meu futuro estava
atrelado a você, e dou graças aos céus por isso.
— Não pode ter certeza disso porque não aconteceu.
— E nem você, de que ela me completaria.
Richard tinha razão.
Eu precisava parar de fazer suposições inúteis e dizer o que realmente
importava.
— Ah, droga, eu te amo tanto... — murmurei, deixando-me ser abraçada por
ele.
— Entendeu agora, Rico?
Naquele instante, a pergunta feita do nada parecia despropositada, sem nexo,
ainda que por poucos segundos. Logo descobri que o meu filho nos sondava da
porta, segurando o suco que fiz para ele numa mão e o pedaço de bolo na outra.
— Acho que está bem acima do que eu imaginava — retrucou Rico, um tanto
pasmo. — Nem sabia que podiam chorar.
— Err... Devo ter perdido alguma coisa. Posso saber do que vocês estão
falando? — indaguei, atarantada.
— Rico me perguntou como é que se sabe se estamos apenas gostando ou
amando alguém — apressou-se Richard em dizer. — E respondi que quando
amamos nos sentimos seguros e, ao mesmo tempo, vulneráveis; valentes, ainda
que amedrontados; prisioneiros com a sensação plena de liberdade, e doentes
quando não podemos ser a cura. Disse também que, à medida que nos doamos,
mais completos ficamos. Que quanto mais nos alimentamos desse sentimento,
maior o tamanho da fome que nos assola. Que só passamos a nos enxergar
através do reflexo dos olhos do outro, e que, somando tudo isso, ainda assim,
não seria possível descrever o quanto eu te amo e preciso de você.
Apesar de comovida, continuava confusa. Ainda existia uma questão que ele
se apressou em esclarecer, após observar a interrogação impressa nos meus
olhos:
— Rico achou que o que eu dizia era algo muito utópico, que amor assim não
existia. Daí, resolvi comprovar, pedindo que ele observasse a sua reação àquela
pergunta, e me arrependi amargamente quando vi a sua lágrima.
— Então...? — Minha interrogação continuava pairando no ar.
— O papai disse que, mesmo ciente do amor dele, você se sentiria frágil e
doída se eu perguntasse sobre a tal ex-noiva, que só de imaginar que o amor de
vocês pudesse não existir, ficaria agoniada — relatou Rico, engolindo o último
pedaço do bolo.
— Vejo que o seu pai me conhece bem demais — bufei.
Richard afagou o meu rosto.
— É, e quanto mais a conheço, mais percebo que foi feita sob medida para
mim. Acha que o que sente pela sua namorada se parece com alguma coisa do
que acabei de dizer? — dirigiu-se ao nosso filho.
— Desse jeito? — Torceu o nariz em descrença. — Também não sei se dá
para comparar, vocês não são humanos.
— Eu não era vampira quando me apaixonei pelo seu pai, Rico — revelei. —
Se estiver amando de verdade, no íntimo saberá a resposta.
O som insistente de uma buzina estridente à frente da nossa casa fez o meu
filho se apressar.
— Tenho que ir. O Will deve estar fazendo essa zoeira toda pensando que a
Vitty vai descer para falar com ele — zombou Rico. — Não sei como ela
aguenta essa chatice!
— É, ele exagera de vez em quando — concordei. — Mas a Vitty não está em
casa.
— Sei disso, só que ele não. — Arregalou os olhos, caçoando.
— O Andrew vai à festa também?
— Não, desistiu. E nem disse o motivo.
Dava até para suspeitar de qual era, já que Vitória não iria à festa, embora não
pudesse afirmar com certeza.
Novamente o som da buzina o interrompeu.
— Já vou! — grunhiu Rico, incomodado. — Ah, pai! Ainda não me
respondeu sobre amanhã...
— Converso com a sua mãe e amanhã cedo lhe respondo — disse Richard.
— Ok. E a minha mãezinha não deve ficar preocupada se eu chegar tarde, tá?
Estarei rodeado de gente, e a festa vai bombar até o amanhecer — despediu-se,
oferecendo vários beijinhos na minha bochecha.
Testemunhei Rico reclamar do barulho através da janela do quarto antes que
ele entrasse no carro do William e partisse. Por poucos segundos me distraí, até
que um sopro de ar gelado entrou por baixo dos meus cabelos, elevando-os para
frente.
— Fui perdoado? — A súplica veio sussurrada ao pé do meu ouvido.
— Você agiu normalmente, Richard, conversava com o seu filho. Meu cérebro
é que é traiçoeiro — assegurei, virando de frente para encará-lo.
— Eu sabia que ficaria fragilizada por instantes, mas não imaginei que
chegaria a ponto de chorar. Somatizou à cena do telefonema de hoje cedo e ao
papo no café da manhã, não foi? — constatou, alisando meus fios achocolatados
com a ponta dos dedos.
Ele reparou? Ai, devo parecer mais ridícula ainda!
— Pensei... que não havia notado.
— Não quis comentar o assunto na frente da Vitória, que já estava descendo
para tomar café. Deixei para discutir com você mais tarde.
— Sentiu algo... diferente quando falou com ela ao telefone, não foi? —
arranjei coragem nem sei de onde para fazer a pergunta.
— É.
Meu corpo estremeceu com a confissão.
— Não gostei do modo como ela falou comigo. Parecia... íntima demais,
entende? Fiquei preocupado com Rico, que estivesse se apaixonando pela pessoa
errada. Por isso mesmo fiz questão de conversar hoje com o nosso filho sobre
ela, para que ele tivesse parâmetros ao avaliar seus sentimentos, se é que somos
padrão para algum humano nesse sentido.
— Vitty também não teve uma boa impressão dessa garota — recordei.
— Nem sei se é justo ficar julgando as pessoas pela aparência ou pela voz,
pode até ser uma cisma minha. A única coisa que me importa é que ela goste e
faça bem ao Rico, mais nada.
Relaxei gradativamente após as explicações.
Depois de passar tantas horas sofrendo à toa, o troféu “idiota do ano” merecia
ser meu.
— Devia ter se casado com alguém menos tosca. — Enterrei a cabeça no seu
ombro.
— É uma tosca, sim. Tosca, bobona, fujona, chantagista, malvada, ciumenta...
— Minha lista de defeitos anda crescendo muito ultimamente. Necessito dar
uma enxugada nela.
— Enxugada?
Richard fez cara de quem teve uma ideia luminosa e começou a me carregar
para fora do quarto num abraço apertado, descendo as escadas.
— Para onde está me levando?
— Para um lugar onde possa satisfazer a sua vontade — respondeu
misterioso, passando antes pela sala em busca da sua taça de sangue que ficou na
bandeja, abrindo em seguida a porta que dava para a área de serviço.
— Não sei não... Algo me diz que eu não devia ter dito isso — suspeitei.
— Relaxa. O que disse foi perfeito.
— Eu? O q...?
Não consegui terminar a frase. Ele me jogou de roupa e tudo na piscina da
nossa casa, pulando nela em seguida.
Engraçadinho. Entendi o seu raciocínio: para me enxugar, eu precisava estar
previamente molhada.
Recuperada do susto inicial, ergui a cabeça à sua procura, percebendo que ele
continuava disposto a levar a brincadeira adiante, sumindo sorrateiramente na
escuridão aquática. Seria muito fácil se esconder em qualquer canto, já que não
precisava respirar debaixo d’água, não soltava borbulhas, e as luzes da nossa
área de lazer jaziam totalmente apagadas. Fiquei à espreita, olhando por todos os
lados, como se um tubarão estivesse prestes a me atacar.
Temendo perder a batalha, bati em retirada, nadando rapidamente até a borda.
Apoiei os cotovelos nela, depois os joelhos, e, quando finalmente consegui base
para me levantar, a mão dele me agarrou pelo tornozelo, puxando-me de volta.
— Não vai conseguir fugir, esta guerra eu já ganhei — discursou todo
convencido, imobilizando-me.
— De onde tirou essa certeza absurda? — desafiei, admirando o brilho dos
seus olhos à luz do luar.
— Seu coração. Está congelado, mas bate como um louco por mim. —
Fechou os olhos, simulando realmente escutá-lo. — Não vai resistir nem cinco
minutos para me implorar um beijo...
— Só porque chorei hoje não quer dizer que irei me render tão facilmente.
— Quer apostar? — Dessa vez foi ele quem me desafiou. — Se eu não
conseguir fazê-la implorar para ser beijada em até cinco minutos, pode me pedir
o quiser.
Ele estava convicto demais da vitória. Devo ter dado bandeira além da conta
ou então conseguiu enxergar em mim algum ponto vulnerável.
— Moleza. Comece a contar o tempo.
Richard apertou o cronômetro de pulso e iniciou a tortura.
Colando o peito másculo em mim, começou a deslizar a mão aquecida pelo
dorso do meu pescoço e a roçar os lábios próximos aos meus, fazendo questão
de que eu observasse de perto a mudança drástica de cor nos seus olhos.
— Saudade dessa sua boca carnuda... — sussurrou.
— Também sinto da sua, mas não vou pedir.
— Pede, vai... — provocou com voz sensual, prendendo os dentes no lóbulo
da minha orelha.
Resisti bravamente.
— N... Não.
— Não quer sentir o calor do meu beijo? Ver como a minha língua se encaixa
direitinho na sua?
Sem uma resposta minha, resolveu intensificar o tormento, dando-me leves
mordidinhas no pescoço e incitando palavras desestabilizadoras próximo ao meu
ouvido.
— Posso fazer você flutuar se me pedir...
— Desista, Richard — arfei, blefando. — Não pode me ganhar.
— Não mesmo?
A afirmação o fez retirar uma carta da manga: passou a desenhar os meus
lábios com a língua, rodeando a minha pintinha. Aí não deu mais para aguentar.
A carência falou mais alto. Agarrei o seu cabelo molhado com as mãos e avancei
o sinal vermelho, dominada pelo desejo cego. Estávamos aquecendo a piscina
somente com a temperatura dos nossos corpos.
— A-a-a... Negativo. — Afastou-se alguns milímetros, inflamando meus
sentidos ainda mais. — Para beijar terá que me pedir.
— Me beija logo, seu implicante! — exigi com urgência e fui atendida.
Para variar, não sei como fomos parar deitados na outra borda da piscina. À
medida que o tempo passava, ele se especializava em desvirtuar os meus
pensamentos terrenos, convertendo-os numa viagem interplanetária, isenta de
tempo e espaço.
— Dessa vez você ganhou — admiti. — Pode pedir o que quiser.
Seus olhos brilharam.
— Qualquer coisa?
— Ahã.
— Ótimo, quero antes fazer um teste. Feche os olhos — pediu.
Richard voltou a me beijar. Como prometera, eu flutuava em nuvens até senti-
lo se afastar e umedecer os meus lábios com alguma coisa. Passei a língua neles
e percebi o gosto do sangue.
Hmmm... — aprovei sorrindo, sem desunir as pestanas.
Ele repetiu o mesmo ato e pressionou a minha língua para dentro, impedindo
que eu retirasse o líquido viscoso da boca.
— Quietinha... — repreendeu-me. — Agora é a minha vez — beijou-me de
forma a sorver todo o nosso alimento.
O efeito foi surreal, totalmente estimulante. Acabávamos querendo beijar mais
o outro para roubar o resquício de sangue que sobrava. Para um vampiro, sentir o
sabor do nosso alimento instigava um delírio viciante que quase impedia uma
ação de frenagem. Somente uma pessoa muito treinada e resistente seria capaz
de interromper tal impulso.
Ainda não satisfeito, levou a taça aos meus lábios:
— Pode engolir um pouco, mas não tudo. Guarde um pouco aí dentro para
mim.
— O que é isso? Nova moda agora?
— Estou apenas saciando as minhas sedes.
— Sedes?
— De sangue e de você. — Calou a minha boca com a dele para se alimentar,
explorando cada canto dela com a língua.
Foi uma das experiências mais incríveis que já fiz. Maravilhosa, para dizer a
verdade. Não que eu nunca tivesse provado um beijo com o resquício do nosso
alimento após uma refeição, mas, feito dessa forma intencional, a coisa tomou
outra dimensão, uma verdadeira explosão de sensualidade.
Tão logo o conteúdo da taça acabou, fiquei curiosa para saber qual seria o
pedido pela sua vitória. Se o teste já foi assim, imaginava o resto...
— Já estou realizando o meu desejo — respondeu. — Estamos a sós nesta
piscina indevassável, à luz da lua, tenho uma esposa linda que me ama e toda a
noite pela frente para amá-la. O que mais posso querer?
— É, tem razão... Mais nada.
Nada... a não ser mandar embora uma sensação esquisita que continuava a me
rondar. Eu só não sabia ainda o motivo.
Doze

Despertei pela manhã com o barulho vindo da cozinha, simulando algo


espocar na frigideira.
Alguém madrugou e resolveu fazer o café?
Que estranho! Nem ouvi quando o meu filho voltou para casa...
Também estranhei olhar para o lado e notar que Richard não se encontrava ali.
Em geral, ele sempre me esperava despertar antes de descer, ainda mais nas
férias. Assim mesmo, o seu perfume ficou totalmente impregnado em mim. Meu
cabelo parecia mais uma extensão do dele, de tão forte o aroma que exalava dos
fios. Nossos lençóis e travesseiros também estavam úmidos demais.
Ué... Nós voltamos para o quarto sem nos enxugarmos?
E onde foram parar as nossas roupas?
Caramba! Essa inconsciência causada pelo transe da paixão ainda iria me
deixar em maus lençóis! — resmunguei internamente e depois ri de mim mesma
pelo trocadilho.
Queria permanecer na cama mais um pouco, curtindo relembrar cada segundo
da noite inesquecível que tivemos, mas o instinto materno falou mais alto. Pus
rapidamente shorts e camiseta, retirei a roupa de cama molhada e desci as
escadas, indo discretamente para os fundos da casa, dando de cara com as nossas
roupas penduradas no varal.
Ufa! Richard antecipou os meus pensamentos e recolheu as provas do crime
antes que os nossos filhos acordassem ou voltassem para casa.
Mais tranquila, parti para a cozinha.
O que encontrei foi a ala masculina se aventurando a dar uma de mestres-
cucas. Rico pressionava a carne do hambúrguer contra a frigideira com uma
espátula, mantendo uma distância segura de quase um metro do fogão por receio
de respingar óleo no braço, ao passo que Richard espremia com os próprios
dedos as laranjas já cortadas ao meio numa jarra de vidro.
— Bom dia, mãezinha. — Rico me avistou primeiro, com os olhos apertados
pela fumaça escura que subia em sua direção.
Estendi a mão para recolher a sua espátula e o empurrei com o quadril para
longe da frigideira
— Fui destituída da minha função de mãe? — brinquei, diminuindo a chama
do fogão e apertando o botão verde para ligar a coifa.
— Não queria acordar os dois, mas o papai já estava lá fora quando cheguei.
Richard colocou a jarra de suco na mesa e piscou o olho para mim, como
quem diz: “serviço completo”.
— E você chegou agora da festa? — indaguei preocupada, já deveria ser por
volta das nove da manhã.
— Não passei a noite com a Juliet, se é o que quer saber — retrucou meu
filho, arqueando a sobrancelha.
— Eu não seria tão indiscreta a ponto de perguntar uma coisa dessas.
— Se perguntasse, eu não teria problema algum em responder. Não quero
avançar o sinal antes da hora. Ela é diferente, não é como as outras.
— Ok.
Minha resposta foi a mais sucinta possível. Quem era eu para julgar se ela era
ou não diferente das outras? Nem a conhecia... Apenas acabei de montar o
sanduíche e o pus à sua frente.
— E ela saiu da festa e foi direto para o trabalho? — fiquei curiosa.
— Foi embora cedo. — Pausou um instante para morder o sanduíche, fazendo
cara de faminto. — Só fiquei lá até essa hora por causa do Will.
— O que houve com ele?
Rico mastigou algumas vezes antes de falar.
— Bebeu demais e ficou agressivo. Ele não era assim... De uns tempos pra cá,
anda dando uns vacilos. Acho que precisa de ajuda especializada, talvez... de
hipnose — sugestionou.
— William veio dirigindo o carro bêbado?
— Aceitou que eu conduzisse até aqui, mas depois foi para casa sozinho —
demonstrou ar de preocupação.
Mal ele acabara de relatar e a porta da frente da casa fora aberta furiosamente.
Vitória adentrou por ela feito um dragão soltando fogo pelas narinas. Largou a
mochila na sala e veio direto ao nosso encontro.
— Você disse a ele onde eu estava, não foi? — acusou o irmão, cega pela
raiva.
— Antes de tentar entender a sua pergunta, dá ao menos para me desejar um
bom dia? — objetou Rico diplomaticamente, sem tirar o olho do seu alimento.
Nesse ponto, Vitória era igual ao pai. Quando chegava a um nível tal de
irritação, portava-se como se não enxergasse mais ninguém à sua frente e só se
acalmaria quando recebesse as explicações que ela julgasse aceitáveis.
— Não, não dá, Rico! E porque não estou num bom dia por culpa do seu
amigo!
— Está falando de quem?
Minha filha esbravejou.
— De quem mais? Do William!
— Do Will? — estranhou o irmão. — Mas ele acabou de sair daqui agora há
pouco para casa...
— Para a casa de quem?
Rico se levantou da cadeira, mudando suas feições descontraídas para destilar
um ar de severidade. Richard também fechou a cara e cruzou os braços,
esperando pacientemente pelo desfecho da história.
— O que ele fez? — Rico perguntou.
— Nada de mais... Só acordou a vizinhança inteira com aquela buzina
irritante, gritando que eu era a mulher da vida dele! — ironizou, lasciva. — Eu
pedi pra você não falar nada a ninguém sobre onde eu estava!
— Não disse nada, Vitty. Nem mencionei o seu nome, pare de me acusar!
Havia muitas colegas suas naquela festa, alguma delas pode ter dado com a
língua nos dentes. Não tenho como ficar controlando com quem o Will conversa
— resmungou. — Quero apenas saber se ele te fez alguma coisa.
— E eu sou louca de descer para discutir com um bêbado? Tive que sair da
casa da Lauren pelos fundos!
— Tudo bem, prometo que converso com ele. Isso não vai mais acontecer. E
não brigue comigo, não é minha culpa — exigiu.
Vitória suspirou profundamente.
Já havia despejado o que a incomodava, então a tendência era relaxar. Não
daria mais do que alguns segundos para que ela se mostrasse arrependida pela
acusação, ainda que, na maioria das vezes, tivesse um pouco de dificuldade de se
expressar.
E não deu outra.
Como num gesto de rendição, surgiu com o bolo de chocolate que ela própria
havia feito no dia anterior e o colocou na frente do irmão.
— É o seu bolo preferido. Quer um pedaço?
— Isso é um pedido de desculpas? — devolveu Rico, com aquele sorriso
característico de quem venceu a batalha, herança minha.
Ela não deu totalmente o braço a torcer.
— Sim e não.
— Não existem duas respostas, irmãzinha.
— É claro que existem. Quero pedir desculpas, sim, mas não estou oferecendo
o bolo por isso, e sim porque o fiz para você.
— Uau! — exclamou ele, pegando de imediato uma faca para cortá-lo. —
Com a fome que estou, garanto que ele não vai demorar muito neste prato!
Vitória regozijou de satisfação, e o irmão, implicante, não se fez de rogado e
beijou a testa dela, deixando de propósito um rastro de chocolate na pele.
— Eca! — resmungou Vitty, retirando a sujeira em meio a risos.
Rico devorou um pedaço enorme do seu quitute favorito e logo tornou a falar:
— E aí, pai, decidiu?
— Eu vou — garantiu Richard, aceitando alguma proposta.
— E a mamãe?
— Sua mãe não tem muita paciência para assistir a jogos de basquete ou
corridas de cavalo, sabe muito bem disso.
— Os Miami Heats vão enfrentar os Lakers, será um jogão — comentou Rico,
animado.
— Imagino que sim. — O retorno do pai não veio tão entusiasta.
— Então ficamos combinados. — Levantou meu filho da cadeira, satisfeito.
— Durmo um pouco agora e mais tarde combino um local próximo para ela nos
encontrar.
— Ela quem? — Não consegui deixar de perguntar.
— A Juliet. Vou apresentá-la ao papai — Rico respondeu. — Tem certeza de
que não quer ir, mãezinha?
Olhei de soslaio para Richard, que estava de cabeça baixa, antes de dizer
qualquer coisa:
— Não, querido. Deixa para a próxima.
Com um espalmar de mãos satisfeito, Rico se retirou da cozinha para
descansar.
Ugh! Nome irritante!
Por mais que compreendesse a preocupação de Richard como pai,
intimamente não conseguia engolir a razão de tamanha pressa nesse encontro, já
que Rico não havia selado qualquer tipo de compromisso maior, ainda mais me
excluindo do evento sem nem ao menos me consultar.
Tudo bem, confesso que realmente nunca fui muito fã de jogos de basquete, e
talvez eu mesma recusasse a proximidade da garota naquele instante,
especialmente depois da patética cena de ciúme irracional que protagonizei no
dia anterior. Mas por que tinha a impressão de que Richard não queria que eu
fosse com eles? Por que padecia daquela sensação angustiante de que havia algo
errado ali?
Tentei ignorar os pensamentos insanos, meu marido já tinha me provado o
quanto fui tola por chorar à toa, imaginando coisas. O melhor a fazer era praticar
algo útil, driblando a cisma.
— Já tomou café, Vitty?
— Tomei na casa da Lauren, mãe. Obrigada.
Logo ela arrumou uma desculpa e também se recolheu. Peguei o restante do
bolo e agachei para encaixar o prato na prateleira da geladeira quando fui
erguida do chão repentinamente e posta sentada sobre a bancada da cozinha por
Richard.
— E a senhorita? Já se alimentou hoje?
Ele fez a pergunta e não aguardou pela réplica. Segurou o meu rosto com
firmeza e já foi encaixando a boca na minha para depositar nela todo o sangue
que havia guardado de propósito em si, tão somente para me desestabilizar.
E conseguiu.
Por pouco não derrubei os pratos e talheres empilhados na pia. Isso não era
justo. Ele descobriu uma forma de imobilizar o exército inimigo oferecendo uma
nova forma de suprir a sede, e de um modo indubitavelmente melhor ou
prazeroso.
— Por que continua agindo desta forma? — sussurrou em meus lábios.
— Desta forma como? — dissimulei.
— Fingindo que não sente nada, que não se importa. Não gosto de vê-la
assim.
— Sabe que esse tipo de esporte não é a minha praia.
— E por isso mesmo falei que você não iria, mas devia consultá-la primeiro.
— Tudo bem, Richard. Não se preocupe com isso.
— Não quero que fique cismada à toa. Talvez seja melhor eu não ir.
— Então vou repetir uma frase que você mesmo me disse: “Não quero que
deixe de fazer o que deve ser feito por minha causa. Sou eu que preciso aprender
a me domar”.
Richard não mais me questionou.
Eu não estaria indo por prazer e muito menos seria justo com Rico ou com a
garota, afinal, meu julgamento já esbarraria numa antipatia gratuita pelo simples
fato de ela ter nascido com esse nome. Além do mais, se o caso entre os dois
ficasse realmente sério, com certeza haveria outra oportunidade de conhecê-la.

No início da noite, ele e Rico saíram rumo ao estádio — ou arena, como eles
costumavam chamar —, enquanto fiquei em casa sozinha, tratando de
domesticar a minha fera.
Bem, não totalmente sozinha.
A Vitória não saiu, embora pouco falasse. Seu silêncio fora rompido somente
mais tarde por um telefonema.
— Alô.
Seu corpo enrijeceu.
— Tudo... — respondeu ela a alguém. — Não, o Rico saiu com o... Richard.
Foram assistir a um jogo de basquete.
Nem era preciso ser uma vidente para imaginar com quem ela conversava,
ainda mais com o som do seu coração batendo a mil por hora.
— Não, eu não fui ontem à festa, tive... outro compromisso. — Sua voz
automaticamente amainou o volume.
Houve uma pausa. Andrew deveria se indagar: “Que compromisso?”.
— Não, não foi nada sério. Fui apenas fazer companhia a uma amiga
acamada.
Esperto o garoto. Obteve a sua resposta sem ser direto...
— Ah, você também não foi... Sei... Tudo bem, passo o recado a Rico quando
ele chegar.
Mais uma pausa. Ela fechou os olhos como se tivesse sentindo algo.
— Oh... Um beijo para você também.
Nem bem desligou e o telefone tocou outra vez. Aturdida, Vitty simplesmente
se negou a atendê-lo, inventando que precisava ir ao toalete. Também pensei que
fosse novamente o rapaz, mas dessa vez errei.
— Stephanie?
Reconheci imediatamente a voz do outro lado da linha.
— Mãe! Que saudade! — exclamei.
— Muita, minha filha. Muita.
— Recebeu as passagens? Você vem mesmo, não é?
— Se tudo der certo, no final da próxima semana. Preciso antes melhorar um
pouco dessa gripe.
Realmente, a rouquidão dela ressaltava aos meus sentidos.
— Já foi ao médico ver isso?
— Relaxa, querida. Não é nada de mais.
— As gripes podem se tornar severas se não tomarmos certas precauções. —
argumentei. — Sabia que na sua idade, na maioria das vezes, a pneumonia nem
apresenta febre?
— Ê dureza, ser chamada de velha o tempo todo!
— Você está ótima, mãe, muito bem fisicamente.
Ela riu em descrença e tossiu em seguida.
— Estranhei o horário, você nunca liga a essa hora — meditei em voz alta.
— Senti um aperto no coração. Daí resolvi telefonar para os meus filhos e
saber se está tudo bem.
— Está tudo ótimo comigo e com todos, não se preocupe. Quem precisa se
cuidar é você para poder vir logo me ver.
— Vou ficar boa — garantiu. — Só liguei para dizer que te amo.
— Ah, mãe... Eu tamb...
A ligação cessou de repente, justamente na hora em que eu ia fazer a mesma
declaração. Liguei de volta, mas a linha dela passou a dar uma mensagem do
tipo: “telefone temporariamente fora do ar”.
Droga! Tinha que cair logo agora?
Era pedir muito também que o celular dela estivesse com o mínimo de
bateria? Disquei várias vezes o seu número e nada. Pelo visto, era pedir muito...
A porta da sala foi aberta, distraindo meus pensamentos.
— Oi, mãezinha. O papai já chegou? — indagou Rico.
— Ué, ele não veio com você? — estranhei.
— Não. Disse que precisava resolver um assunto e saiu antes do jogo acabar.
Aliás, sabe dizer o que ele tem?
— Como assim?
— Sei lá, ele anda estranho... Não prestou muita atenção à partida.
— Vai ver ele não se sentiu à vontade, segurando vela — supus.
— Muito pelo contrário, Juliet não pôde ir. Recebeu uma mensagem
importante de casa e foi obrigada a voltar. Acho que teve algum problema
familiar — lamentou.
— Ah... — Foi o máximo que consegui dizer.
— Mãe, se eu fizesse uma pergunta, você me responderia com sinceridade?
— Lógico.
— Por que o papai parece preocupado com o meu namoro?
— Ele disse que estava preocupado? — reverti a indagação para não ter que
responder.
Rico titubeou.
— Deve ser impressão minha, então.
Ah, não. Ele já havia cutucado a onça com vara curta...
— Pode dizer — insisti.
— Não sei... Antes papai estava inquieto, verificando toda hora o relógio, e
fez várias perguntas sobre o nosso relacionamento. Depois que a Juliet ligou e
desfez o compromisso, não sei se por coincidência ou não, ele se desligou do
jogo e saiu duas vezes de perto para falar ao celular. Para completar, disse que
iria embora mais cedo para resolver um assunto.
Por mais que quisesse me manter impassível, aquele relato me tirou do prumo.
Primeiro, tive a impressão de que Richard não queria que eu fosse ao jogo.
Depois, ele fica impaciente pela chegada dela e, para completar, sai do jogo
sozinho para resolver um assunto? Que assunto? Não havia absolutamente nada
pendente!
Imediatamente após, Richard retornou.
Exibia um ar cauteloso e ficou visivelmente surpreso pelo filho ter chegado
primeiro.
— Já em casa? — perguntou meu marido.
— Não peguei trânsito — justificou Rico. — E você? Conseguiu resolver o
seu assunto?
— Sim. O jogo terminou em quanto? — mudou ele o rumo da conversa.
— Os Lakers venceram com vantagem: 96 contra 82 — resmungou Rico.
— Eles jogavam melhor mesmo.
Os olhos de Richard pousaram por instantes nos meus, e me obriguei a desviá-
los. Não queria revelar o quão vulnerável me sentia, mesmo desconfiada de que
ele já soubesse. Ultimamente, eu não podia dar um deslize sequer que ele já
captava de primeira.
— Rico, se importa de fazer seu próprio lanche? — pediu seu pai, do nada. —
Preciso conversar com a sua mãe agora.
— Claro... que não — disfarçou um sorriso cínico. — Fique à vontade para
conversar com a mamãe.
Ugh! Esses meus filhos estavam saindo pior do que encomenda... O tom
empreendido na sua frase deixava bem claro que havia crescido e que não
acreditava mais em histórias da carochinha.
Alheio ao comentário, Richard segurou firme a minha mão e veio me
arrastando até o quarto. Deitou-me no colchão com os cabelos esticados e ficou
me observando por um longo período, completamente mudo. Tive a impressão
de que ele queria dizer alguma coisa importante, mas, ao mesmo tempo, não me
sentia corajosa a ponto de perguntar. Aquele silêncio violáceo dos olhos dele me
torturava mais do que mil palavras, justamente por não conseguir decifrar o teor
daquela mensagem oculta.
— Aconteceu alguma coisa? — criei forças para indagar.
Ele permaneceu estático, nem afirmando, nem negando.
— Quero apenas ficar aqui, olhando para você.
— Voltou esquisito da rua.
— Você também está estranha.
— É impressão sua.
— Não é não. Continua me olhando daquele jeito.
— De que jeito?
— De quem morre de vontade de perguntar alguma coisa e não tem coragem.
Mas dessa vez não vou dizer aonde fui, mesmo que você me pergunte. Precisa
confiar em mim.
— Confio em você, Richard.
Fui levantada por baixo dos braços para escutá-lo de perto.
— Seus olhos não concordam com a boca. Ainda assim, prefiro arriscar. Será
que, se ao menos eu lhe desse a minha palavra de que o motivo é justo, bastaria
para você?
A despeito de tantos pontos de interrogação que me rodeavam os
pensamentos, não seria justo duvidar da sua palavra. Em todos esses anos,
Richard nunca havia mentido para mim. Talvez apenas necessitasse de um tempo
para si próprio antes de revelar o que quer que estivesse ocultando. O que
realmente me interessava eu acabara de ouvir: ele precisava de mim. Ponto-
final.
— Basta. Sua palavra sempre me basta.
Treze

— Não!
— Por favor!
— Nãooooo!
— Por mim, vai...
— Nem morta!
A discussão dos meus filhos ecoou cedo pela casa, vinda do sofá da sala.
— Poxa, Vitty, não custa nada, hein... — implorou Rico.
Pelo tom de impostação de voz, e ainda que eu não soubesse do que se tratava
a sua súplica, podia apostar o quanto quisessem que Rico venceria aquela
batalha. Estava no sangue. Mesmo que Vitória impusesse o maior de todos os
rochedos para se defender, ele destruiria pela base, pedrinha por pedrinha, até
que a fortaleza dela desmoronasse. Fiquei do alto da escada, somente esperando
para confirmar.
— Rico, arruma outro par para entrar nesse baile. Por que a sua namoradinha
não vai? — reclamou Vitória.
— Ela tem que visitar a avó dela, que está doente em Naples. Também não
quero que a Juliet fique com ciúme, portanto, só posso ir com você.
— Se não quer que ela tenha ciúme, fique em casa. Todas as garotas da festa
vão te azarar mesmo...
Rico gargalhou
— Olha só quem fala! A garota mais disputada da faculdade tirando onda
comigo!
Vitória fez uma careta, dando o troco.
— Não sou disputada, estou muito longe disso.
— Vai ver o papai tinha razão quando dizia que a mamãe era meio cega nessa
questão. Você deve ter herdado a genética dela — implicou.
— Rico, não torra! Tem milhares de amigos, não vou fazer a mínima falta.
— Maninha, não se faça de desentendida. Sabe muito bem que nessa festa só
se pode entrar aos pares, como casais. E faço questão de ir porque toda a minha
turma vai estar lá.
— Deus me livre! Aí mesmo é que não vou!
— Se quiser, pode chamar alguma colega para te fazer companhia. O Will não
deve se importar, ainda procura alguém para entrar com ele.
— Ah, tá... Serei muito gente fina convidando uma amiga para acompanhar
um pé-de-cana numa festa...
— Dá um desconto pro cara. Já conversei com ele, e isso não vai acontecer de
novo.
— Tô fora, Rico! — Fez ela uma expressão agoniada. — Arruma outra
pessoa.
— O Andrew também vai — instigou-a.
— E eu com isso? — desdenhou, desviando o olhar.
— Não quer saber quem é o par dele?
— É claro... que não!
— Ouvi dizer que Ellen o chamou...
Ellen era considerada a garota mais bonita do curso deles. Bastava que ela
estalasse os dedos para que os rapazes caíssem aos seus pés — palavras ditas por
um de seus colegas.
— Fazem um par muito bonito — relutou ela, bufando, totalmente afetada.
— Ahá! — Rico gargalhou de novo, conseguindo a arma que precisava. —
Sabia! Você gosta dele!
— Eu não!
— Somente um cego para não ver! Ah, se ele soubesse...
— Vou fingir que não ouvi a sua piada, você é maluco!
— E você, uma tremenda covarde!
— Por que covarde? — enfrentou-o, ficando de pé.
— Não quer ir comigo ao baile por medo de encontrar o cara — alfinetou-a
novamente.
Rico a acertou no centro do alvo, agora faltava apenas ter paciência. Ela não
demoraria a tombar.
— Nada a ver. Só não vou porque... porque... — Não conseguiu achar uma
justificativa plausível.
— É uma covarde — completou, acusando-a. — E, para seu governo, era
brincadeira minha. Andrew recusou o convite, e a Ellen aceitou acompanhar o
Daniel. Aliás, nem sei se o Andrew vai comparecer, ele resolveu participar de
um campeonato de arco e flecha em Coral Gables. Se a tia Ava estivesse aqui,
também teria feito a inscrição.
— O papai tem que viajar hoje à noite para Atlanta, e não quero deixar a
mamãe sozinha — ela arrumou um pretexto estapafúrdio. — Ontem, mais uma
pessoa foi assassinada.
— A mamãe é uma vampira, Vitty. Se o assassino aparecer por aqui, vai mijar
nas calças de medo — debochou.
— Grrrr! — rosnou ela, buscando uma saída.
— Chega de enrolar. Você vai comigo, não vai?
— Tudo bem — aceitou, encurralada. — Mas com uma condição: se formos
no seu carro e se a Olivia aceitar entrar com o Will na festa. Do contrário, nada
feito.
— Valeu! — Rico correu para dar um beijo no rosto da irmã.
— E se a Olivia não aceitar? — indagou, desfiando-o.
— Duvido que ela não atenda a um pedido meu. — Ajeitou a gola da camisa,
completamente convicto do triunfo.
— Convencido!

Minutos antes de sair para a festa, Rico esperava impacientemente pela irmã
na sala enquanto eu acabava de fechar o zíper do vestido dela. Vitória continuava
fazendo aquela cara de vítima ofertada ao sacrifício, a verdadeira noiva do King
Kong. Apesar da expressão inconformada, ficou linda. Seus olhos azuis
combinavam perfeitamente com a cor violácea da roupa. Não foi necessário usar
quase nenhum tipo de maquiagem para completar, ela se destacava sem fazer o
menor esforço.
Quando desceu as escadas, as exclamações vieram em profusão:
— Uau! — brincou o irmão. — Mãezinha, acho que você exagerou. Assim
não vou conseguir conversar com ninguém para vigiar a minha irmã na festa!
— Fiquei... muito estranha? — murmurou ela, insegura. — Melhor eu não ir,
então...
— Você está linda, Vitória! — elogiou Richard.
— Venha, Vitty, nem pense em desistir! — Rico esticou a mão na direção da
irmã, evitando uma evasiva de última hora.
Meu filho também arrasaria corações trajando aquele blazer negro alinhado.
Seria difícil para qualquer um dos dois não chamar atenção.
— Rico, prometa que vai cuidar dela — exigiu o pai. — E, se precisar de
alguma coisa, ligue para a sua mãe.
— Deixa comigo.
E lá iam eles para a festa...
Mais tarde, foi a minha vez de tirar o carro da garagem para levar Richard ao
aeroporto. Saímos com certa antecedência e até que chegamos num horário
razoável, porém a fila nos guichês da companhia aérea estava lotada, repleta de
passageiros ranzinzas e de bagagens incontáveis. Por pouco, nem deu tempo
para nos despedirmos direito.
— Parece meio impaciente — comentei, reparando na quantidade de vezes
que Richard olhava ao seu redor, como se esperasse que alguém fosse
reconhecê-lo.
— Acho que estou mesmo. Faz tempo que não viajo sozinho para assistir a
um curso.
— Desacostumou.
— É, pode ser. Eu já falei sobre a cláusula de não poder usar o celular dentro
do congresso, não é? Qualquer coisa, envie recado para a minha caixa postal.
— Desencana, amor. Vai dar tudo certo. Aproveite a palestra ao máximo,
doutor Edmund Hill — incentivei-o com um balanço de cabeça, zoando o seu
nome falso.
O canto do lábio dele ascendeu, mas não a ponto de sorrir. Quando Richard
fazia aqueles movimentos sincronizados nos dedos das mãos, era sinal de que
algo o afetava. Seu comportamento continuava estranho, tanto que mirou o
relógio de pulso seguidamente para conferir a hora. Não o pressionei a me dizer
o real motivo para não estragar a sua viagem, deixando-o preocupado com a
minha própria cisma.
— Posso lhe pedir uma coisa? — perguntei.
— Quer que eu desista de viajar?
— Não, não é isso. É que... — contive momentaneamente a fala. — Ah, deixa
pra lá.
— Fale, Stephanie — impulsionou.
— Pode parecer meio ridículo da minha parte, mas desde ontem você não diz
que me ama — despejei minha pontinha de insegurança.
— Talvez não com palavras.
Ok, eu estava mesmo agindo de forma infantil, do tipo de criança que não se
acostumava mais a almoçar se não tivesse certeza de que haveria sobremesa
como recompensa. O “eu te amo” dele era sempre o meu momento mais
esperado do dia, o que não queria dizer que em determinadas situações as
palavras fossem totalmente dispensáveis. O que também não queria dizer que
naquele instante elas não me fizessem falta.
Para meu azar, a voz mecânica do aeroporto não se importava nem um pouco
com as minhas necessidades.
— Preciso ir. Já anunciaram o embarque do meu voo de novo — disse ele com
pesar.
— Boa viagem, amor — desejei, certa de que teria o meu anseio íntimo
saciado, nem que fosse no último segundo, como ele sempre fazia.
Não aconteceu. Ao invés disso, ganhei um beijo apressado de despedida.
Peguei o carro no estacionamento do aeroporto e dirigi de volta para casa. No
fundo, sentia-me meio ridícula, meio fake, metade de algo que não sou, como se
a pessoa que enxergasse no retrovisor do veículo não fizesse jus à imagem ou
fosse um clone malfeito de mim mesma. Precisava parar de procurar chifres em
cabeça de cavalo, essa era a mais pura verdade. Agindo dessa forma, a única
coisa que conseguiria seria deixá-lo preocupado, e não era minha intenção
desestimulá-lo a realizar um desejo profissional. Não mesmo.
Contudo, não podia negar que sentia um aperto estranho no peito. E não era
pequeno. A despeito de qualquer insegurança tola, após tantos anos grudados um
no outro diariamente, supus que a probabilidade de dormir numa cama vazia e
acordar sozinha estivesse me deixando agoniada. Tal como ele mesmo proferiu
certa vez, eu acreditava que precisava aprender a me domar.
Ledo engano.
Somente fui começar a entender a verdadeira razão da minha angústia quando
pus os pés em casa e o telefone tocou:
— Stephanie?
Custei a reconhecer a voz triste do outro lado da linha.
— Juninho?
Chegava a ser estranho chamá-lo assim. Meu irmão não era mais aquele
menininho que usava botas para corrigir os pés. Tornou-se o engenheiro Otávio,
e já era pai de um garotão robusto de cinco anos de idade, herdeiro dos lindos
olhos amendoados da mamãe. Mais estranho ainda seria pensar que aquele
garoto que pedia para brincar de soldadinhos ou jogos de combate agora parecia
mais velho do que eu, e havia entrado na casa dos trinta anos.
— O que houve? Aconteceu alguma coisa? — Suspeitei pelo seu murmúrio
embargado.
— Aconteceu, Stephanie. Não tenho uma notícia boa para lhe dar.
A pressão no peito aumentou. Tinha algo a ver com a mamãe, disso estava
certa.
— A mamãe...? — A frase embolou na garganta.
— Ela teve infartos sucessivos e o médico disse que não sabe quantas horas de
vida mamãe vai resistir — chorou ao falar. — Achei que gostaria de vê-la antes
que...
— Oh, meu Jesus! — lamentei, também aos prantos. — A minha mãe...
Por mais que esperasse que isso pudesse acontecer um dia, jamais imaginei
que seria tão rápido. Mamãe tinha acabado de fazer setenta anos havia alguns
meses, e quando fui visitá-la aparentava boa saúde, apesar das recomendações
expressas de Richard quanto às suas taxas de colesterol. Eu acreditava piamente
que a teria por pelo menos mais dez ou quinze anos.
— Foi rápido demais, mal deu tempo de chegar ao hospital — explicou,
arrasado.
— Vou tentar comprar uma passagem no primeiro voo que tiver para o Brasil.
Deus queira que dê tempo.
Desliguei o telefone e entrei em contato com a companhia aérea. Consegui
uma passagem para as cinco e quinze da manhã. Já passava da meia-noite, e
sabia que antes das duas os meninos estariam de volta. Apenas joguei uma muda
de roupa na mala, peguei o passaporte e esperei aflita pelo retorno deles. Não
queria sair de casa sem me certificar de que chegaram bem e fazer algumas
recomendações.
O carro de Rico apontou na garagem cerca de meia hora antes do esperado. O
problema foi que, ao invés dele, quem saiu pelo lado do motorista foi o Andrew.
Pior: destrancou a porta do carona e veio até a entrada da nossa casa escorando o
meu filho, que surgiu todo machucado.
Desci correndo as escadas e abri a porta da sala, apavorada.
— O que houve? — indaguei, incrédula com o seu estado.
Rico mancava, exibindo rosto inchado, corte no supercílio e nariz sangrando.
— Aquele... desgraçado do William agarrou a minha irmã à força! —
vociferou. — Ainda volto lá pra acabar de quebrar a cara dele!
— Ele estava bêbado demais, cara. Não faça nenhuma besteira! — aconselhou
Andrew, impedindo-o de sair.
— Chegou atrasado, Andrew. Não viu o modo violento como ele a tratou! —
reagiu meu filho.
Andrew trincou os dentes e os punhos em resposta. Era óbvio que também não
aceitara a situação, mesmo parecendo nitidamente mais centrado.
— Pelo amor de Deus, Rico! Não me deixe mais nervosa do que já estou! Não
quero mais saber de briga alguma nesta casa! Vá para o seu quarto que já faço
um curativo! — ordenei.
Vitória choramingava na varanda, sentindo-se culpada pelo ocorrido.
Retornara com a alça do vestido arrebentada e marcas avermelhadas nos braços.
Coitadinha! Já era tão difícil fazê-la sair e se distrair...
Tinha que acontecer um episódio desses para deixá-la ainda mais retraída? E
ainda por cima nesse dia, logo numa hora em que eu precisava com urgência me
ausentar?
Limpei a ferida no rosto do meu filho e fiz um curativo, agradecendo ao
Andrew pela presteza e pela amizade que dispensara a Rico. Liguei para o
celular de Richard na intenção de dar ciência do ocorrido, mas, como seu voo
tinha conexão, era provável que ainda estivesse viajando. Por sorte, lembrei que
a essa altura o meu pai já devia ter voltado de Boston, então disquei o seu
número, solicitando socorro. Não podia sair do país com medo de que, num surto
de raiva, Rico fizesse uma besteira e estragasse a própria vida.
Enquanto relatava o ocorrido ao meu pai pelo telefone, fiquei observando pela
janela Andrew saindo e consolando a minha filha. Tratava-a de um modo
carinhoso, preocupado com as marcas exibidas no seu corpo. Limpou suas
lágrimas com a ponta dos dedos e disse algumas palavras, aparentemente de
conforto. Percebendo-a se afastar, chamou:
— Vitória!
Ao se virar, foi surpreendida quando a sua mão fora puxada por ele de volta,
parando direto em seus braços. Vitty levou um susto e por um breve período
tentou resistir ao beijo em vão, empurrando o peito dele na direção contrária.
Porém se rendeu imediatamente após, entregue. Correspondeu-o exatamente da
mesma forma como aconteceu comigo.
Saí da janela para não quebrar o seu instante de intimidade, agradecendo a
Deus por ela ter conseguido sair da própria concha e aceitado ser feliz. Ao
menos para isso o incidente infeliz serviu.
Criei coragem e expliquei a Rico o que aconteceu com a sua avó, sobre a
necessidade de me ausentar na esperança de ter um último momento com ela,
pedindo que ele mantivesse o juízo enquanto eu não retornasse do Brasil. Seu
avô lhes faria companhia com a Vanessa, e, caso o William aparecesse, meu pai
poderia hipnotizá-lo, não havendo necessidade de violência física.
Verifiquei o relógio e resolvi pegar a mala. Era melhor sair com antecedência
para não correr risco de perder o voo.
De dentro do meu quarto, ouvi o barulho de alguém subindo em disparada
escada acima e a porta do cômodo de Vitória sendo batida com força, seguido de
um grito de desespero.
Senhor, será que a minha vida poderia se complicar ainda mais, e logo numa
hora tão dolorosa para mim?
Infelizmente, descobri que poderia.
— O que aconteceu, filha?
Ela chorava diante do grande espelho do armário.
— Andrew a machucou? — interroguei, preocupada, mesmo não acreditando
na hipótese.
Vitória não respondia. Parecia não ter forças para isso. Virei o seu rosto de
frente na intenção de acudi-la e finalmente entendi a razão daquela agonia: os
olhos dela escureceram, e as presas começaram a aflorar.
Era o despertar da espécie.
Transformava-se numa vampira exatamente no momento em que podia
alcançar a felicidade com as próprias mãos.
— Mãe... — Abraçou-me ela, suplicando por um alento.
— Sinto muito, querida. Sabíamos que isso poderia acontecer algum dia,
nunca escondemos a sua condição — tentei consolá-la.
— Eu sei, mas é que... Logo agora?
— Logo agora que você se apaixonou e sentiu que foi correspondida. Era isso
o que iria dizer, não era?
— Era — confessou soluçando. — Ele viu os meus olhos mudarem de cor e
levou um susto.
— Ficou apavorado, saiu correndo ou algo do gênero?
— Não. Ficou... mudo. Quer dizer, na verdade, nem esperei muito para ver a
reação dele. Não vai me aceitar sendo desse jeito, tenho certeza.
— Sei que é muito difícil para você se aceitar, como foi com o seu pai. Sei
também que temos limitações, que sofremos com o receio da rejeição e da
discriminação, mas é só olhar para a nossa história e perceber que existe
esperança — incentivei-a. — Não está sendo condenada à infelicidade pelo resto
da vida, Vitty. Se o Andrew a recusar, é porque não merece a pessoa linda que
você é.
— Tenho medo, mãe.
A dor da minha filha me deixou ainda mais aturdida.
De algumas horas para cá, a nossa vida virou de cabeça para baixo. Richard
parecia que pressentia o que iria acontecer quando se mostrou inquieto na hora
de viajar. Assim mesmo, apesar de sofrer por ter que deixá-la, eu precisava ser
coerente. Teria a vida inteira para acalentar Vitória, ao passo que a minha mãe
contava suas últimas horas.
— Vitty, me perdoe por não poder ficar ao seu lado no instante em que você
mais necessita. Preciso viajar para o Brasil agora, a minha mãe está morrendo...
— A vovó Rachel? Ah, não! — Chorou ainda mais.
— Seu avô e a Vanessa já devem chegar para ficar com vocês. Eles irão
orientá-la em como proceder nesse início, até que consiga administrar melhor a
sede. Sugiro também que, por enquanto, mantenha distância do seu irmão. Ele
continua humano, e seu sangue pode atiçá-la.
— Não vou sair do quarto — prometeu, sofrida.
— Meu coração está partido, mas não posso deixar de ir. É meu último
momento com ela, entende?
Vitty assentiu com a cabeça, concordando. Sempre foi muito apegada à avó e
devia estar sofrendo por não poder se oferecer para ir comigo e dar pessoalmente
o seu adeus.
— Dê um beijo nela por mim. Diga que a amo — pediu, inconsolável.
— Vou dizer.
Encerrei a conversa alertando que, em caso de necessidade, ligassem para o
meu celular e que avisassem a Richard o ocorrido assim que ele telefonasse.
Peguei novamente a mala e parti correndo para o aeroporto. Mais alguns minutos
e perderia o voo.
Lembrei instintivamente da última vez que entrei num avião sozinha e
aniquilada daquela forma. Voltava do mesmo aeroporto de Miami para socorrer a
mamãe quando Otávio foi assassinado. A diferença era que agora iria perdê-la
para sempre.
A minha grande amiga, que me gerou e com quem pude contar com o amor, o
apoio e os conselhos em todos os momentos da vida. Foi a dona Rachel que me
abriu os olhos para eu que pudesse abrir um vão no escudo externo e deixar o
amor de Richard entrar. Também foi ela que invadiu a minha casa e me impediu
de fazer um aborto dos fetos, como se eles, mesmo que não herdassem a genética
de Richard, não fossem meus verdadeiros filhos. E, por conta disso, transformei-
me na mulher e na mãe mais feliz do mundo, proporcionando a chance ao meu
marido de realizar o grande sonho de ser pai de verdade.
Queria que aquele avião fosse supersônico, que pudesse chegar o mais rápido
possível ao Brasil. Queria ter tempo de dizer o quão importante ela fora para
mim, o quanto a amava e sentia a sua falta...
Queria, mas não deu tempo.
Ela se foi antes, cedo demais.
Quando cheguei ao hospital, seu corpo já havia sido removido para a capela
do cemitério que Juninho escolheu para enterrá-la. Corri arrasada para o local,
implorando ao meu irmão pelo celular que mantivesse a capela fechada para que
eu pudesse ter um momento a sós com ela, sem a presença de outras pessoas.
Imagine o que pensariam as suas amigas e conhecidos se me vissem agora...
Eu tinha quarenta e nove anos com cara de vinte!
Até nessa hora precisava ser reservada. Era obrigada a sofrer sozinha e chorar
trancada entre quatro paredes.
Juninho atendeu ao meu pedido e avisou às pessoas que chegassem somente
duas horas mais tarde ao local. Jazia remoído pela dor e me abraçou,
extremamente comovido. Senti um baque quando avistei o corpo dela estendido
naquele caixão. Não dava para acreditar que ela se fora, que nunca mais veria
aqueles olhos amendoados ou ouviria os seus sábios conselhos pelo som da sua
voz.
Inacreditável! Ela parecia ter pressentido o que iria acontecer quando ligou
para dizer que me amava no dia anterior. Ficou preocupada com os seus filhos,
dizia-se com o coração apertado, quando, na verdade, acabou fazendo a sua
própria despedida.
Droga! Queria ter dito “eu te amo” também!
Por que a chamada tinha que cair justo naquela hora? Eu devia ter tentado
ligar mais vezes, mas acabei esquecendo o assunto no dia seguinte por me
entreter, ajeitando o vestido de Vitória para a festa. Minha mãe partiu sem ouvir
o que eu tanto tinha a lhe dizer... Como estava arrependida! O remorso me
corroía por dentro. Mesmo assim, fiz questão de falar ao seu ouvido tudo o que
o meu coração pedia, em algum lugar ela receberia a mensagem. Ao menos
orava por isso.
Passei as duas horas que me foram concedidas ao seu lado, relembrando todos
os momentos que passamos juntas e pondo para fora sob forma de lágrimas o
que sentia.
Por que logo agora? Por que tão rápido? Para os padrões atuais, setenta anos
era somente o início da senilidade. Tínhamos tantos planos para o futuro, tanta
coisa para vivermos lado a lado e, de uma hora para outra...
Puft! Acabou. Fim da linha.
Cheguei à conclusão de que, por mais que esperemos que isso venha a
acontecer algum dia, nunca estaremos preparados para essa hora. Dos nossos
pais, sempre nos acostumamos a ganhar proteção, não a ficarmos desprotegidos
ao perdê-los. E era exatamente dessa forma que me sentia naquele instante:
desamparada.
Assim que o primeiro conhecido dela surgiu na entrada da capela, fiz a minha
despedida, dando um beijo na sua testa gelada e pedindo a Deus que a acolhesse
pela maravilhosa mãe que foi. Saí escondida pelos fundos, antes que alguém me
encontrasse, e fui direto para a sua casa. Doía-me profundamente não poder ficar
para o enterro, parecendo uma filha desnaturada. Sabia que seria alvo de
comentários lascivos por conta disso, mas, enfim, o que me importavam os
outros? Ela me entenderia.
Esquisito entrar naquele ambiente no qual vivi por tantos anos ciente de que
não a encontraria mais dentro dele. Ela conservava o meu antigo quarto intacto,
trocou unicamente a cama de solteiro por outra de casal e deixou mais dois
colchões empilhados para o caso de uma visita. No seu aposento, minha
melancolia aumentou quando avistei nos porta-retratos expostos as nossas fotos
em destaque, ao lado de outras do Juninho e da sua família linda. Mamãe tinha
orgulho dos seus netos e gostava de exibi-los a todos que conhecia.
Pensei demais em Richard, em como precisava urgentemente do seu abraço, e
por isso mesmo fiz mais uma tentativa de ligação em vão. Disquei, então, o
número de casa, e o meu pai atendeu, tranquilizando-me momentaneamente,
embora estivesse preocupado com a revolta dos meninos, cada um pelos seus
motivos. Ficou muito triste com a notícia também, afinal, Rachel fora sua
mulher um dia.
Remarquei a passagem de volta para o dia seguinte, no intuito de resolver
algumas pendências relativas ao seu óbito. Depois que Juninho chegou,
conversamos um pouco, e ele me entregou, a pedido da mamãe, uma caixinha
contendo poucas joias e pequenos tesouros, como desenhos amarelados em
formato de coração e cartinhas contendo declarações fofas que escrevi para ela
quando tinha por volta de seis ou sete anos de idade. Minha mãe era ciente do
meu amor, era isso o que me confortava.
Na manhã subsequente, após passar a noite rolando na cama do meu antigo
quarto, peguei o avião de volta para Miami, inconformada por não ter
conseguido falar com o meu marido.
Será que ele não recebeu nenhum dos meus recados?
Eu sofria muito, e a necessidade do seu apoio se tornava algo inadiável,
imprescindível.
Entrei em casa certa de que receberia alguma notícia sua. Ao invés disso, nem
ao menos uma ligação. Tudo bem que Richard era um profissional exemplar e
dedicado, porém, não entrar em contato nem na hora de voltar para o hotel...
Não. Isso não fazia parte do seu perfil preocupado.
Tinha certeza de que, se soubesse de tudo o que nos acontecia, mandaria a
palestra às favas e retornaria imediatamente. Por isso, só podia concluir que o
seu celular estava com algum defeito ou que havia outro motivo justo para que
não ligasse, como, por exemplo, salvar a vida de alguém.
É, só havia essa explicação.
Catorze

Os dedos do meu pai cruzaram-se nos meus, em troca de conforto.


— Ficou arrasada, não é, filha? — lamentou.
Olhei para o infinito, pensando nela.
— Minha mãe... Nunca mais vou vê-la.
— Rachel vai para um bom lugar. Foi ótima mãe e companheira.
— Sei disso, mas não diminui a dor.
Um breve silêncio entre nós foi interrompido pela entrada de Vanessa na sala,
trazendo uma taça de sangue para que eu saciasse a sede, já que passei muitas
horas sem me alimentar. Agradeci, tomando o copo nas mãos.
— Como ficaram os meninos na minha ausência? Foi um dilema muito grande
ter que partir deixando os dois sofrendo para trás.
— Posso imaginar — respondeu ela. — Vitória continua trancada no quarto.
Ouviu todos os nossos conselhos, já se alimentou e se recusa a atender aos
telefonemas do tal rapaz. A bichinha tem sofrido muito, tadinha!
Suspirei profundamente.
— Já suspeitava disso. E Rico?
— Ficou revoltado com o colega, mas garantiu que iria se afastar para não dar
margem a outras brigas. Seus ferimentos estão cicatrizando rápido, acredito que
não ficará com marcas — descreveu meu pai.
— Ele está em casa? — indaguei, ingerindo o alimento rubro sem vontade.
— Não. Disse que iria se encontrar com a namorada — contou ele. — Quem
ligou foi a sua cunhada, Ava. Pediu para avisar que virá visitá-la no início da
semana.
Ótimo, uma preocupação a menos. Se Ava se propunha a nos visitar, era sinal
de que a sua resistência começara a cair.
— Conheço essa sua cara, filha. Richard está fazendo falta, não é?
— Muito — admiti.
— Esquisito isso, de ele não ligar... Você não sabe o nome do hotel onde se
hospedou? — encafifou-se Vanessa.
— Na correria de arrumar a Vitty para o baile, acabei me esquecendo de
perguntar. Mas no máximo amanhã ele retorna, e descubro o que aconteceu.

Mais tarde, depois que Vanessa e o meu pai foram embora, deitei na cama e
pedi à minha filha que me fizesse companhia. Era uma maneira de nos
consolarmos mutuamente. Ela se mostrava um pouco mais conformada, ainda
que o sofrimento não houvesse em nada diminuído. Dormimos de mãos dadas,
tranquilizando-me ao constatar que Rico já tinha voltado para casa.
— Mãe? — Vitória me acordou na manhã seguinte.
Abri meus olhos, triste por lembrar que não fora apenas um pesadelo.
— Sim?
— Telefone para você.
Levantei instantaneamente.
— Seu pai?
— Não. Tia Anne. — Entregou-me o celular.
Não deu para esconder a decepção na fisionomia. Tinha saudade dela, mas a
necessidade de ouvir a voz de Richard me consumia por dentro. Era tamanha que
já me sentia doente. Pode, uma vampira doente?
— Alô — atendi, quase afônica.
— Stephanie? Sou eu, amiga... — Pelo seu jeito, Anne soube do acontecido.
— Oi, Anne. Tudo bem? — indaguei baixinho, no câmbio automático.
— Me perdoe por não ter ido ao enterro da Rachel. Só fui saber agora o que
aconteceu — desculpou-se.
Anne havia se mudado novamente para o Rio quando Luciano foi convidado a
assumir um cargo de chefia num hospital da Zona Sul. Após um longo período
em São Paulo, ela se adaptou outra vez à cidade e voltou a morar no mesmo
bairro onde residíamos, próximo à casa da minha mãe. Para sua sorte, a empresa
em que passou a trabalhar havia cerca de doze anos possuía uma filial no Rio,
facilitando para ela a transição.
— Nem eu pude participar do enterro — falei, desolada. — Tive direito a
apenas duas horas ao lado dela até que alguém chegasse. Sabe que não posso
aparecer em público.
Ouvi um murmúrio de pesar do outro lado da linha.
— Deve estar sofrendo horrores.
— É — confessei.
— Se soubesse que viria ao Brasil, teria arrumado um jeito de lhe dar uma
força, mesmo enrolada em casa com a perna quebrada do Miguel. Ele precisa de
ajuda até para ir ao banheiro!
Anne conseguiu me distrair por instantes.
— Miguel fraturou a perna? Como?
— Jogando futebol na quarta à noite. Luciano quase teve um treco quando
soube!
Uma lâmpada acendeu dentro de mim.
— Falou com Luciano pelo celular?
— Claro! Tem me ligado todos os dias à noite.
— Esquisito... Já eu, não consegui falar com o Richard de jeito algum —
reclamei.
— Ué... Richard não ficou aí com você?
— Não. Foi assistir à palestra de David Hassenwelch também.
— Luciano disse que não o viu...
— Não? Será que não o reconheceu por causa dos óculos e das lentes de
contato? O nome que ele se inscreveu não foi o verdadeiro, obviamente.
— Pode até ser. Mas hoje eles voltam para casa, fique calma.
Soltei um suspiro impaciente.
— É a coisa que mais tenho feito nos últimos dias: tentar me acalmar —
resmunguei.
— Eu te conheço, amiga. Tem mais coisa além da morte da sua mãe, não tem?
— indagou ela, praticamente afirmando.
Anne continuava a mesma.
Mesmo casada, morando longe e mais velha, bastava falar um pouco comigo e
parecia que penetrava no meu cérebro, extraindo dele todos os pensamentos.
Não havia como esconder nada dela. Por vezes, ficava a me perguntar se havia
alguma ligação paranormal entre nós. Sempre foi assim, desde que a conheci.
— Imagine... Além de não conseguir chegar ao Rio a tempo de me despedir
da minha mãe, da Vitória ter se transformado numa vampira no momento em que
foi beijada pelo cara por quem se apaixonou, do meu filho voltar para casa todo
arrebentado após brigar com um dos melhores amigos e jurar vingança, e de não
poder falar com a pessoa que mais preciso? Não... Acho que não tem mais nada.
— Stephanie... — lamentou o que ouviu.
— Vou ficar bem, Anne. Só preciso que Richard chegue logo para tudo se
normalizar.
— Rezo para que isso aconteça logo. Não estou gostando do seu jeito
depressivo.
— Vai passar — garanti.
Encerrada a ligação, forcei-me a fazer o café para Rico, prevendo que ele
acordasse esfomeado. Ultimamente, não comia quase à noite por alegar que a
namorada “miss” fazia dieta. Segundo Vitória havia me contado, Rico relatou
que ela era dessas pessoas que tinham neuras de engordar com uma simples
bolinha de almôndega, extremamente exigente com a aparência física. Para
compensar a fome, ele amanhecia devorando tudo o que via pela frente.
Demorou algumas horas até que Rico despertasse, mas, quando o fez, desceu
as escadas rapidamente.
— Mãezinha... — Abraçou-me, carinhoso. — Está tão murcha!
— Perdi a minha mãe, Rico. Isso não tem volta.
— Adorava a vovó Rachel. Quando ela vinha nos visitar, podíamos ir à praia,
lembra?
— Claro que lembro. Vocês gritavam de alegria quando sabiam que ela
chegaria.
Minhas lágrimas rubras voltaram a rolar, recordando aquele tempo.
— Não chora, mãe... — pediu, comovido.
— Não estou bem, filho.
— Queria lhe fazer um convite. Talvez isso a anime um pouco.
— Convite?
— Marquei de apresentar a Juliet à minha família mais tarde.
Revirei os olhos.
— Não ando num momento propício para isso, Rico. Não faltarão
oportunidades futuramente.
— O papai já aceitou. Só falta você — insistiu.
— Seu pai? Já aceitou? — Meu cérebro parecia não raciocinar direito. —
Quando falou com ele?
— Agora mesmo, antes de descer.
Não dava para acreditar numa coisa dessas.
— E o que ele disse?
— Nada demais. Apenas um “estarei lá no horário para conversarmos direito”.
Acho que virá direto do aeroporto para o local. Parecia apressado.
Inconformada, apertei a tecla de discagem rápida e a ligação caiu na caixa de
mensagens. De novo.
— Como é que pode isso? Já liguei, emiti inúmeras mensagens e ele não
respondeu a nenhuma delas. O que há com o seu pai? Ele não quer falar comigo?
— reclamei.
— De repente, não recebeu os torpedos ou está com algum problema no
aparelho — defendeu-o. — Calma, mãe! Ele não comentou nada!
Pois, na minha cabeça, não havia justificativa. Por que Richard não me ligou
de outro telefone ou do hotel? Por que não me enviou uma mísera mensagem de
texto? Ser ignorada ou esquecida por ele só me arrasava ainda mais...
— Vou fazer um esforço para ir, filho, mas não espere uma mãe alegre, porque
não dá. Simplesmente não dá! — repeti, arremessando o pano de prato por cima
da pia, em revolta.
O que acontecia com a ala masculina da casa? Será que não percebiam a
gravidade da situação? Eu tinha acabado de perder a minha mãe! A minha mãe!
E os dois pareciam se esquecer de que por baixo dessa pele branca e gelada
existia alguém que sofria uma perda irreparável. A Vitória era a única que
demonstrava me compreender e constantemente me oferecia apoio, apesar de
padecer também. E, ainda que ela já tivesse sido apresentada à namorada de
Rico, resolveu me acompanhar, até mesmo para não ficar sozinha em casa,
correndo o risco de receber a visita de algum humano quando não se sentia apta
a evitá-los sem ajuda.
No início da noite, fomos para o local marcado, levadas pelo meu filho. Era
uma espécie de parque arborizado, cercado de restaurantes e mesinhas ao ar
livre.
Rico nos deixou esperando numa dessas mesas, dizendo que iria procurá-la.
Não me encontrava com o mínimo ânimo para continuar ali, a única coisa que
me confortou foi pensar que Richard logo chegaria e que, enfim, tudo se
esclareceria e eu receberia o seu carinho indispensável.
O problema era que os minutos foram passando, a minha paciência se
esgotando, e nenhum dos dois retornava.
— O que foi mãe? — Vitória estreitou os olhos na minha direção, notando que
comecei a me levantar em aflição.
Inspirei com força, como se realmente necessitasse de oxigênio para
sobreviver.
— Estou sentindo uma angústia, como se me faltasse o ar...
— Vampiros têm “falta de ar”? Como pode isso, se nem respiramos quando
dormimos?
— Não sei, é a primeira vez que me sinto dessa maneira estranha.
— Não devíamos ter vindo. Eu bem que falei...
— Vamos andar um pouco, filha? Não aguento mais esperar por eles sentada.
Vitória acatou o meu pedido. Iniciamos a caminhada pelo parque, olhando em
todas as direções para ver se os avistávamos. Havia muitas pessoas circulando,
talvez não fosse muito boa ideia marcar um encontro num ambiente público
como aquele. A facilidade do desencontro era grande.
— Olha a Juliet ali! — Apontou Vitória na direção de um arbusto.
Minha filha veio me guiando rumo ao local, e logo percebi que a jovem estava
acompanhada, tendo um momento de intimidade com Rico. Os dois se beijavam,
e não era um beijo qualquer, era desses de tirar o fôlego. Fiz o possível para não
fixar o olhar naquela cena, sabia muito bem o quanto era incômodo ser
observado numa hora dessas. Entretanto, mesmo louca para ir embora, uma coisa
me chamou atenção:
— Vitty, seu irmão não veio de camisa verde?
— Veio, por quê?
Não respondi.
Meus pés voaram até onde a garota estava e acabei constatando o que os olhos
teimavam em não acreditar enxergar: não era Rico quem a beijava, e sim
Richard.
— Richard?! — gritei, estupefata.
Nem sei como tive forças para pronunciar o seu nome. O parque inteiro devia
ter ouvido o meu urro desesperado.
— Pai?! — espantou-se Vitória.
Fazendo expressão de meliante pego pela polícia em flagrante, Richard levou
uma das mãos à testa, como se não tivesse coragem de me encarar.
Meu impulso inicial foi o de sempre: fugir para bem longe dali. O problema
era que o cérebro não correspondeu, chumbando minhas pernas ao chão. O que
faria longe se era dele que precisava?
Foi ela, entretanto, quem se manifestou:
— É ela a sua ex, amor?
Eu ouvi direito? Ela disse ex, de ex-esposa?
Engoli em seco, desprovida de reações ante ao choque. Minha vontade era de
berrar, de bancar a barraqueira sem noção, especialmente quando notei os olhos
escurecidos de ambos e a língua de Richard passear discretamente nos próprios
lábios, mais parecendo lamentar a súbita interrupção. Como a minha voz se
desprendeu da garganta, sinceramente, não saberia explicar.
— R... Richard, por que fez isso comigo?
— Você que é a Stephanie? — interrompeu a ruiva, com ar de desdém.
Não pretendia dirigir a palavra a ela, mas não aguentei. O meu sangue
vampiro borbulhou.
— E você, a Juliet — supus, sem tirar os olhos dele.
— Inteligente ela, não? — Deu uma risadinha sarcástica. — Juro que esperava
uma mulher que ao menos usasse roupas que o agradasse mais, como vestidos ou
saias...
Inferno! Como ela sabia das preferências dele?
— Bem, como já percebeu, eu voltei — ela emendou, antes que eu me
manifestasse.
— Voltou? Voltou de onde? — rosnei. — De algum bordel da cidade?
— Não me intimida nem um pouco as suas agressões verbais, queridinha. Isso
é normal no caso das esposas substituídas.
O quê?
— Não fui substituída por ninguém. Richard me ama — afirmei, mesmo tendo
certeza absoluta do que vi.
— Tem cego para tudo neste mundo... Chega a ser patético da sua parte,
sabia?
— Ah, essa é boa! Você enganou o meu filho, entrou na minha casa para
tentar conquistar um homem casado, e eu sou a patética?!
— O Rico é uma gracinha, realmente. Agora, Richard é... inesquecível,
experiente, quente. Beija muito melhor. — Estalou os dedos para dar ênfase.
Avancei dois passos, decidida a trucidá-la, mas fui impedida. Richard se
interpôs entre nós, separando-nos. Exibia o mais puro semblante de
contrariedade, constrangimento ou seja lá o que mais estivesse sentindo. Só que,
a essa altura, cara feia alguma seria suficiente para conter a minha raiva.
— Me solta, Richard! Vou desossar essa galinha e enviar aos políticos
corruptos brasileiros para que eles morram de disenteria!
A desgraçada grasnou de tanto rir. Ou eu era muito hilária, ou comer galinhas
daquele tipo já fizesse parte do cardápio dos congressistas.
— Não vai adiantar, querida. Sou como você agora, uma vampira. E resolvi
reatar o meu noivado.
Por um breve momento, cheguei a parar de fazer força e sorri em deboche.
Aquela louca pensava que era mesmo a ex-noiva dele? Tudo bem que era
exatamente como imaginava que a tal Juliet seria: ruiva, de olhos verde-
esmeralda e bonita, muito bonita mesmo. Aliás, vestia-se como uma perfeita
diva Hollywoodiana, num modelo justo de vestido que ressaltava em muito as
suas curvas sinuosas, chamando realmente atenção de qualquer homem que
circulasse pelo local.
— Devia se tratar, garota. A ex-noiva dele morreu há muito tempo.
— Ah, sim — concordou. — Em 1921, segundo a última regressão que fiz, e
tudo voltou à minha cabeça feito uma avalanche. Foram décadas de espera para
reparar esse desvio do destino e anos a fio para reencontrá-lo, descobrir seu
paradeiro. Então, nada mais justo do que recomeçarmos de onde paramos.
Sério, eu devia ser internada também por continuar a ouvir aquela demente.
Pior do que isso: por alimentar o papo de hospício.
— É um pouco tarde para isso, não? Richard é meu marido — ressaltei. — E
só saio daqui com ele do meu lado.
Ela cruzou os braços, divertindo-se.
— Ao invés de fazer ceninhas ridículas no meio de um parque público, por
que não pergunta você mesma a ele se quer voltar para casa ou ficar comigo?
— É o que pretendo fazer.
Postei-me na sua frente e o olhei no fundo dos olhos. Richard continuava me
fitando daquele jeito, como se não soubesse o que dizer diante do flagra, sem
argumentos para desmenti-lo. Era o tipo de situação que jamais imaginei passar
na vida. Se para um humano magoa, para um vampiro é como receber doses
cavalares de ácido em ferida aberta. Ainda assim, eu seria até capaz de suportar a
neurose vampiresca excruciante que me afetaria diariamente por conta da
maldita cena do beijo; ficar sem ele, não. De jeito nenhum.
— Richard, por que não me ligou durante esse tempo todo? Estou há dias
precisando falar com você... O que houve?
— Não é óbvio? Ele não foi ao congresso. Preferiu ficar e se encontrar
comigo — instigou Juliet.
Endureci o maxilar, tentando inutilmente não me abater pelo comentário,
embora ele já tivesse me desestabilizado. Afinal, Luciano não o viu no congresso
em nenhum dos dias...
Não. Nada de entrar na pilha.
Para mim, somente a palavra dele me interessava.
— É verdade o que ela disse? Sobre você não ter viajado?
A cabeça dele pendeu para baixo, desviando o olhar. Seu silêncio inicial soava
a vergonha, raiva de si próprio ou qualquer coisa do gênero, por isso prossegui.
— Amor, uma vez, há muito tempo, prometi que mesmo que todos os fatos
estivessem contra, daria a você a chance de se explicar primeiro. Sei muito bem
o que vi e, mesmo sofrendo, estou disposta a ouvi-lo e até a perdoá-lo se voltar
comigo agora para casa — propus, acariciando o seu rosto.
— Não, Stephanie.
Quase não acreditei quando finalmente ouvi a sua voz firme após tanto tempo.
Sofri o maior de todos os desesperos num mísero segundo.
— N... Não? Só pode... estar brincando...
Novamente ele negou, dessa vez sem emitir som. Comecei a tremer em
pânico. Seria isso realmente possível? Que a ex-noiva dele voltasse e tivesse o
poder de virar sua cabeça de vez?
Não, não dava para acreditar.
— Por que não desiste e para de se humilhar, sua tonta? Você não tem chance
alguma — implicou Juliet.
— Cala a boca! — Vitória gritou, quebrando seu silêncio perplexo. Já tinha
até me esquecido de que ela assistia àquela cena deprimente. Parecia tão chocada
com o que via que a frase saiu de sua boca de forma esganiçada.
— Sei que você me ama, Richard. Já me deu provas suficientes disso —
insisti. — Posso entender que esteja confuso, que ela se pareça realmente com a
sua ex-noiva e que tenha se sentido vulnerável. Só não deixe que esse conflito
afete a sua cabeça.
— Stephanie...
Dito daquela forma, meu nome nos lábios dele significava objeção, e, óbvio,
isso eu não iria aceitar.
— Eu o perdoo, juro que o perdoo. Volta para casa comigo, por favor! —
implorei, tracionando a sua mão sem sucesso.
— Stephanie, pare.
— Amor, eu te amo mais do que tudo nesta vida. Preciso demais de você —
declarei, começando a verter lágrimas em profusão. — Perdi a minha mãe, não
posso te perder também!
Nem dei tempo para que ele se pronunciasse e emendei logo noutra súplica,
apoiando a testa no seu ombro aos soluços:
— Estou sofrendo muito. Não pode ter deixado de me amar de uma hora para
outra.
— Stephanie, pare — repetiu, silabando a advertência para ressaltá-la.
— Deve estar impressionado, é isso! — aumentei o volume da voz. — Essa
mulher não pode ser a Juliet que morreu, Richard, pelo amor de Deus! E ainda
que fosse verdade, ela não teve a mesma coragem que eu, de abdicar de tudo
para ficar com você! Na primeira oportunidade, o que ela fez? Chutou o seu
traseiro porque não podia conviver com um vampiro! Para mim, você poderia se
transformar no monstro que fosse e, mesmo assim, nunca deixaria de amá-lo.
Sou eu o seu verdadeiro amor, sua companheira de toda uma vida, a mãe dos
seus filhos!
Um suspiro impaciente, essa foi sua única reação.
— Está magoando também ao seu filho com essa atitude impensada...
A cada segundo que passava, o desespero ia me tomando, e menos ainda
conseguia raciocinar. Já começava a sacudi-lo, a abraçá-lo e a beijá-lo de todas
as formas, dizendo o tempo todo que o amava, suplicando que ele mudasse de
ideia. E, diante de mais uma negativa, fui me arrastando até cair ajoelhada aos
seus pés da forma mais humilhante que uma pessoa poderia ser submetida.
— Não me deixe... Não consigo viver sem você! — murmurei, já quase não
suportando mais o peso de tanta dor.
— Chega, Stephanie! — rosnou Richard, explodindo.
— Tsc, tsc, tsc... — desdenhou Juliet. — Será que não percebe que não passou
de um passatempo para ele enquanto eu não voltava? O amor vampiro é eterno,
como bem sabe. E o dele sempre foi meu É uma pena que tenha se transformado
por causa de alguém que já tinha dona. Vai vagar na eternidade tentando
esquecê-lo.
— Não posso acreditar nisso... Amor assim não se finge!
— Tá, talvez eu esteja exagerando um pouco. Richard pode ter amado você de
verdade, sim, e muito... somente até o meu retorno, ou seja, por um tempo
limitado. Mas não se iluda: por mais que estivesse envolvido ou até duvidasse
que isso pudesse acontecer de verdade, ele sabia que estaria colocando a sua
eternidade em risco por conta do egoísmo da nossa espécie! Portanto, ele fingiu,
sim, além de esconder de você muitos outros fatos sobre o nosso passado.
— Não! — berrei. — Ele jamais me enganaria dessa forma! Richard nunca
mentiu para mim!
— Ah, não? Então ok, o que a santinha pensa que ele foi fazer, quando saiu
mais cedo do jogo de basquete?
Gaguejei em resposta.
— Res... Resolver um problema.
— Um problema... Nós nos encontramos, sua anta! Trocamos mensagens
durante a partida, e ele mudou os planos de viagem assim que me viu, e sabe por
quê?
Não tive mais coragem de replicar. Tudo infelizmente se encaixava, desde o
jeito estranho dele ao ouvir a voz de Juliet pela primeira vez no celular ao seu
nervosismo sem nexo no aeroporto. Para completar, o modo como Rico
descreveu o comportamento do pai na arena ajudava a confirmar tudo; Richard
realmente trocou mensagens com alguém e saiu antes de a partida acabar.
Sozinho. Mirei do chão para o rosto dele, na esperança de que desmentisse
aquela história sórdida, e tudo o que consegui foi enxergar os seus olhos se
desviarem, incapazes de me encarar.
— Richard precisava de um tempo sozinho para decidir o que fazer! —
respondeu Juliet à própria pergunta. — Ele nunca falou toda a verdade sobre
mim para você. Meus pais, por conta da sociedade hipócrita da época, me
obrigaram a aceitar a mão de outro homem. Casei, sim, contra a vontade, mas
nunca deixei de amar Richard nem ele se conformou com o nosso destino. Anos
mais tarde, quando fiquei viúva, nos encontramos e resolvemos fugir. Iríamos
nos isolar numa fazenda afastada em Wicklow, e tão logo chegássemos eu seria
transformaria, se a carruagem de aluguel não tivesse me esmagado num trágico
acidente. Ele ficou desesperado desde então. Não conseguiu me salvar e não
tinha certeza se poderia acreditar no que rezava a verdadeira lenda dos vampiros.
— Verdadeira lenda?
— Um vampiro pode até vir a gostar de alguém outra vez, mas, se o primeiro
amor retorna, anula completamente o outro. É por isso que eu digo que ele
sempre foi meu... e nunca vai deixar de ser.
— Isso é mentira! — urrei, quase afônica de nervosismo.
— Não, Stephanie — intercedeu Richard, admitindo. — Juliet disse a
verdade. Perdoe-me.
— O... quê?
— Não há nada que se possa fazer quanto a isso — emendou. — O que sinto
pela Juliet é involuntário, inexplicável, não é uma questão de escolha.
— Vou... matá-la... — ruminei entredentes.
— E serei obrigado a defendê-la com a minha própria vida, como sempre fiz
com você. Não me obrigue a isso — advertiu, enlaçando um dos braços no
ombro dela. Juliet beijou o rosto dele, completamente exultante por ganhar
aquela batalha.
Foi a cena mais mortificante que presenciei na vida. Jogada aos seus pés, fui
obrigada a ver o carinho explícito entre os dois. Nunca senti tanta vontade de
desaparecer desse mundo, nem mesmo quando fui prisioneira de Demétrius. Isso
porque, embora estivesse afastada à revelia de Richard, tinha certeza absoluta do
seu amor, de que nunca seria abandonada, nem mesmo em pensamentos.
Seria esse o motivo que me levava a ter ciúmes de uma pessoa que já havia
morrido? Por intuir que isso poderia acontecer?
Vitória, ao ver o meu estado deplorável, começou a me arrastar dali, incrédula
com a atitude do pai e morrendo de ódio daquela mulher. Mesmo com tantas
evidências diante do meu nariz, eu ainda quis olhar um último item. Item esse
que ele jurou que jamais faria. Desvencilhei-me dos braços da minha filha e me
arrastei para olhar de perto a mão esquerda dele, sofrendo o choque derradeiro: a
aliança não estava mais lá.
— Procurava por isto? — Mostrou Juliet o nosso símbolo de amor eterno,
agora em seu dedo anelar direito.
Terminou. Fim.
Não havia mais o que ser dito.
Ele destruiu anos de um amor que jamais pensei que pudesse findar. Pelo
menos o dele, pois com o meu sabia que eternamente teria que conviver. Richard
foi o primeiro e continuava vivo, portanto, eu ficaria acorrentada a esse
sentimento pelo resto da eternidade. Apenas levantei, procurando resgatar algum
resquício de dignidade nem sei de onde, e olhei pela última vez dentro das suas
íris enegrecidas, ensaiando minhas palavras de adeus:
— Sabe o que mais me dói, Richard? Passei anos me policiando para não
deixar que simples mentirinhas bobas afetassem a nossa relação, e a maior de
todas as farsas dormia ao meu lado. Deixei de ser humana porque confiei em
você, porque acreditei cegamente em suas promessas, jamais imaginando que
existia uma cláusula com letrinhas ilegíveis entre nós. Eu poderia conceber
milhares de defeitos seus para vivenciar durante toda a eternidade, exceto a
covardia. Não me procure mais. Não vou perdoá-lo.
Dito isso, saí de cabeça erguida, ciente de que despencaria na primeira
esquina, onde não pudesse mais ser vista.
— Espere um segundo, mãe — pediu Vitória.
Minha filha encarou a ruiva.
— Cadê o meu irmão, sua víbora?
— Acho que ele não ficou muito contente com o que viu e foi embora...
Vitória se virou, então, para Richard.
— Como pôde trocar a minha mãe por um ser desprezível como esse, pai?
Está destruindo a nossa família!
— Ah, desculpa interromper o seu dramalhão — cortou-a Juliet. — É até
comovente, juro, digno de novela mexicana. Das boas. Mas existe uma parte da
lenda que me esqueci de mencionar: quando voltou a me amar, todos os laços
familiares de Richard se desfizeram — frisou —, como se nunca tivessem
existido. Então pode parar com essa história de papaizinho fofinho, porque a
família dele agora sou eu e os meus dois irmãos. Em breve, teremos nossos
sanguessuguinhas, e tudo será como ele sempre sonhou.
Minha filha se agitou, inconformada.
— Pai, diga que isso é mentira, pelo amor de Deus!
— Desculpe... — E, com um meneio de cabeça, ele confirmou, arrancando um
sorriso vitorioso da vampira ruiva.
Vitória ameaçou esbofeteá-la, mas sua revolta foi em vão. Como um membro
da nossa espécie, Juliet tinha a mesma rapidez que a nossa, contendo sua mão no
ar.
— Chega, mocinha! Vá consolar a mamãe e procurar pelo seu irmãozinho.
Eles vão precisar!
Ao som dos xingamentos da minha filha, tive a cabeça escorada sobre o seu
ombro a fim de evitar que os transeuntes notassem a cor rubra das lágrimas que
vertiam à revelia pela minha face. Sem muito êxito, ela procurou às pressas pelo
irmão, bem como pelo carro, que já não se encontrava estacionado no mesmo
local. Se Rico tivesse visto realmente aquela cena, era bem provável que saísse
por aí sem direção. Ser traído pelo pai que tanto idolatrava e pela namorava que
julgava gostar não era algo fácil de ser absorvido por quem quer que fosse.
A solução foi hipnotizar um taxista pelo caminho.
Em algum recôndito perdido no cérebro, a preocupação com o paradeiro de
Rico acendia, porém o torpor que se apossou do meu corpo dominou. Minhas
pernas tremiam e pareciam não mais conseguirem se mover. Eu olhava
ininterruptamente para a minha aliança, dividida entre dois pensamentos: o de
jogar fora o símbolo da promessa de amor eterno com toda fúria pela janela e o
de retê-la, como se nela contivesse uma alguma magia capaz de anular o que
havia visto e ao acordar em breve fosse constatar que tudo não passou de um
pesadelo.
Vitória me arrastou para o quarto, consolando-me por horas a fio. Ouviu
pacientemente o meu choro convulsivo, que oscilou entre berros de raiva e
murmúrios de sofrimento silenciosos, até a hora em que apaguei, não de
cansaço: de desilusão.
Quinze

Meus ombros receberam sacudidelas de mãos tão gélidas e desprovidas de


viço quanto as minhas.
— Mãe, acorda!
Grunhi algo ininteligível, não sentia ânimo para responder.
— Preciso sair com o vovô e com a Vanessa para procurar pelo Rico. Posso
confiar que vai ficar bem? — insistiu Vitória, preocupada.
— Ahã — menti, sem ao menos abrir os olhos.
— Beba esta taça de sangue. — Tentou levantar a minha cabeça para me
alimentar.
— Não quero.
— Por favor, mãe.
— Não.
— Vai me deixar preocupada.
— Com o quê?
— Ouvi as besteiras que falou enquanto dormia.
— Não se preocupe, infelizmente não posso morrer. — Voltei a soluçar. — A
não ser que um de vocês tenha piedade de mim e me ajude a acabar com isso.
Ela se calou, ignorando a proposta. Era um pedido egoísta para se fazer a um
filho, eu sabia, mas não havia como ser diferente.
— Precisa reagir. Sei que é difícil.
Difícil?
— É uma dor que não vai cessar, Vitória. Nunca.
— Tente dar um passo de cada vez. Pelo menos se alimente.
— Já disse que não quero.
— Tá, então... não faça nenhuma bobagem.
Seria cômico se não fosse trágico. Vitória fazia o mesmo papel que o meu
com a minha mãe quando ela perdeu o Otávio. Defendia-me e tomava para si
toda a responsabilidade, demonstrando a mesma perseverança que dispus na
ocasião.
A diferença era que Otávio realmente havia morrido, já Richard continuava
vivo e me rejeitando. A diferença era que a minha mãe teve o descanso merecido
após ter sofrido tantos anos sem o amor do companheiro, e eu jamais poderia
sonhar com isso.
— Que droga de bobagem eu posso fazer? Perfurar o coração, arrancar a
minha própria cabeça e atear fogo no corpo sem ela?
Vitória suspirou.
Sentia-se arrasada também, porém emocionalmente mais forte. Tinha certeza
de que arrumaria um jeito de encontrar o irmão, minha ajuda seria inútil naquele
momento.
— Farei o possível para não demorar. Se o Rico aparecer, por favor, ligue para
o meu celular — solicitou.
— Ok — respondi, virando o rosto de lado no travesseiro.
Eu não sabia o que soava pior: cerrar as pestanas e sonhar o tempo todo com
aquilo que não mais poderia ter ou abri-las e me deparar com a dura realidade.
Qualquer uma das alternativas parecia insuportável. Talvez escolhesse a primeira
opção porque nessa, mesmo que em devaneios, não me sentia tão morta. O
cérebro passou a funcionar como se alimentasse de lembranças, e acordar era
sinônimo de perdê-las...

— Stephanie?
— Hmmm...?
— Stephanie, acorda!
Desprezei o chamado. A voz era conhecida, mas de tão zonza não conseguia
identificá-la.
— Acorda! Não sai desta cama há dias!
Dias? Só podia ser brincadeira, deitei havia pouco tempo, quando Vitória
saiu...
— Stephanie!
— Quem é? — indaguei, sem paciência para abrir os olhos.
— Quem é o quê?
— Quem está falando comigo?
— Como assim “Quem está falando comigo”? Sou eu, Ava!
Soltei um resmungo.
— Que recepção mais calorosa a sua, não? Fiquei até emocionada agora! —
zombou.
Nem me dei ao trabalho de revidar para não perder o sonho. Precisava dele de
uma maneira tão imperativa que já não me importava com mais nada.
— Vamos levantar? — Abriu as cortinas para deixar a claridade indireta entrar
e me incomodar.
Cobri a parte exposta do rosto com o lençol, rejeitando.
— Não.
— Vamos sim. — Puxou-o das minhas mãos.
Tapei a cara, dessa vez com o outro travesseiro.
— Pare de bancar a criança. É hora de reagir!
— Não quero.
— Está de olho fundo. Precisa se alimentar.
— Não quero!
— Parece uma antiga vitrola emperrada. Só sabe falar “não” e “não quero”?
— Dane-se.
— Melhorou o repertório. Dá para abrir os olhos?
— Me deixa em paz.
— Não vai recuperar o seu marido dormindo.
— Dane-se. Ele não me quer mais.
— Custo a acreditar nisso.
— Dane-se.
— Não acredito que a Juliet possa ter voltado.
— Pois devia, o Albert também voltou. Essa é a original versão do filme “A
volta dos mortos vivos”.
Ela se esforçou para rir.
— Vejo que não perdeu a ironia.
— Não enche, Ava. Quero dormir.
— Tem que se levantar. O seu filho não voltou para casa.
— Não?
— Não, Stephanie! Já estou repetindo isso há exatos cinco dias!
— Mentira.
— Não é mentira, sabe muito bem disso.
— Não a vejo desde que fugiu do Albert. Mente como o seu irmão — acusei-
a.
— Nunca menti para você!
— É só o que os dois fazem. Ele disse que me amaria para sempre...
— Estou aqui desde a segunda-feira à noite, e você diz sempre a mesma coisa.
Bah! Segunda-feira! — subestimei em pensamentos.
— Dois falsos. Vá embora!
— Está tão fraca que nem ao menos se lembra de que falou comigo. Beba o
sangue, Stephanie, por favor.
— Beba você!
— Já me alimentei, agora é a sua vez. Anda logo, Stephanie!
— Não quero beber sangue, não quero mais ser vampira.
— Não existe uma forma de deixar de ser o que somos.
Infelizmente. Como humana, seria bem mais fácil acabar com tudo isso...
Ava elevou a voz.
— Reaja! Não me faça erguê-la à força!
— Quer que eu reaja? — Levantei irada. — Então vou reagir!
Chutei a mesinha de cabeceira, depois a cama e tudo mais que viesse pela
frente.
— Isso! Bota para fora! Agora, saia dessa cama!
— Sair dela pra quê? — Quebrei o porta-retrato com a foto de Richard
sorrindo. — Ele me deixou! Preferiu ficar com ela!
— Não posso acreditar nisso. Richard sempre a amou.
— Implorei de joelhos num parque público para que ele não me abandonasse,
Ava. De joelhos! — repeti. — Se me amasse de verdade, não deixaria uma
humilhação como essa acontecer. — Destruí o quadro pendurado na parede.
— Por isso mesmo. Meu irmão não faria uma coisa assim com ninguém,
muito menos com você.
— Ele ficou abalado desde o dia em que falou com a Juliet ao telefone pela
primeira vez — rosnei, arremessando um vaso colorido no chão. — Confessou
ao meu filho que gostava dela e, quando percebeu que eu havia escutado, veio
com uma historinha de que aquilo não significava nada!
— Qualquer um ficaria abalado, pense bem... Se atendesse ao telefone agora e
a pessoa se identificasse como Rachel, como procederia?
— Estaria feliz! — retruquei de imediato. — A minha mãe era uma das
poucas em quem podia confiar, ela me amava de verdade! Só agora me dou
conta disso!
— Não fala coisa com coisa, Stephanie.
— Ele sempre foi dela. Você sabia de tudo e nunca foi capaz de me revelar —
acusei-a.
— Eeeeu? Não faço a menor ideia do que está dizendo!
— Faz sim. E nunca teve ninguém porque já esperava que o Albert fosse
voltar!
— Que o Albert...? Você endoidou?
Lancei o abajur contra a porta.
— Sabia o tempo todo da verdadeira lenda!
— Que lenda?
— A que diz que, se o primeiro amor retornar, anula o atual.
Seu nariz se retorceu.
— Não conheço lenda nenhuma desse tipo, a única que sei aprendi com ele.
Esfacelei o controle da TV.
— Fui apenas o amor provisório, um passatempo até esperar que ela voltasse.
— Sei. E o passatempo conseguiu gerar filhos de um vampiro...
— E que provas tenho de que eu realmente não poderia gerá-los se não me
deitei com outro vampiro? Nunca deixei que macho nenhum me tocasse além
dele! Fui uma idiota romântica! Tudo no que acreditava desmoronou, virou pó.
Caí no conto banal do médico lindo que se apaixona pela enfermeira, do amor
impossível entre seres de espécies diferentes!
— Está julgando Richard, Stephanie. Já parou para pensar que ele pode estar
sendo chantageado, como você foi?
— Chantageado em quê? Como? Se estivesse sendo chantageado por ela, era
só falar e daríamos cabo daquele pescoço em segundos, éramos três contra uma!
— Pode haver outros por aí, vampiros são uma raça esperta demais.
— Não justifica. Fui ameaçada por Demétrius durante meses, Ava. E jamais
aquele monstro conseguiu encostar um dedo em mim, muito menos me beijar.
Morreria, se preciso fosse, para defender o que acreditava que só poderia ser do
meu... ex-marido — ratifiquei.
Ava emudeceu. Sabia que havia esgotado o seu repertório de defesa.
— Dá para ao menos descer deste quarto e andar um pouco pela casa? Ela está
acumulando poeira por todos os lados — persistiu, mudando de tática.
— Por que se importa? Não sofro mais de alergia.
— Porque gosto de você, chérie. Quero que preste atenção ao que acontece à
sua volta. — Conduziu-me pelo braço, abrindo a porta do quarto.
— Não acredito mais em vampiros. Deixei de ser humana por um, e ele me
abandonou.
— Sou diferente.
— Se você gostasse de mim de verdade, teria aliviado de vez o meu
sofrimento.
— É o que estou tentando fazer — continuou, empurrando-me rumo ao
corredor.
— Sabe muito bem qual é a única forma de acabar com essa droga, e não
preciso sair do quarto para isso.
— Não vou matá-la, Stephanie. Só desejo que ande um pouco.
Ela desceu as escadas comigo.
— Sou uma maldita vampira. Meus músculos não vão atrofiar — resmunguei.
— É só um pouquinho. Depois pode voltar a fazer o que quiser — disse,
alcançando o último degrau.
— Quero dormir.
— Olhe, tem um buquê de rosas na mesa para você... — incentivou, fingindo
não ouvir meu comentário.
— Não foi ele quem mandou. Também não quero saber quem foi.
— Fui eu, filha! — Papai veio me abraçar, abafando o meu pranto imediato.
— Até que enfim se levantou! Como conseguiu, Ava?
— Como já disse antes, precisam estimulá-la a ponto de a fúria aparecer —
ensinou. — Não se incomodem se ela quebrar as coisas, faz parte do processo.
Fiz isso com Richard várias vezes.
Balela! — desdenhei em pensamentos, cansada de me sentir enganada.
— Ela está péssima, Ava. Chega a cambalear quando anda — reclamou meu
pai.
— Não consegui fazê-la se alimentar novamente, Allan. Não sei qual dos dois
é mais cabeça-dura nessa parte.
— Por que não me deixam dormir em paz? Será que não enxergam que sofro
mais quando abro os olhos e constato que fiquei sozinha? — indaguei, pedindo
clemência.
— Não ficou sozinha, mãe — Vitória surgiu diante de mim. — Tem pai, filhos
e amigos.
Como dizer a eles, sem magoar, que amo a todos, mas que amor de vampiro é
paranoico? Que dormindo poderia ao menos sonhar com nuances de cor, ao
invés desse negro e cinza esfumaçado que só faziam ressaltar a minha tristeza?
A intenção deles era nobre, porém inútil. De nada adiantava ficar de pé se a
mente jazia colada ao colchão.
— Precisamos da sua ajuda, mãe — solicitou Vitória.
— Atrapalho menos dormindo.
— Pare com isso, já se ausentou demais!
— Peça ao seu avô ou ao seu irmão — sugeri, sentindo-me zonza.
— Ao meu irmão? Se eu soubesse onde ele está, não precisaria pedir o seu
auxílio!
— Cadê Rico? — perguntei.
— Rico anda sumido há dias, mãe. Quantas vezes tenho que repetir?
— Não adianta, Vitória — apaziguou Ava. — Stephanie entrou em delírio
obsessivo. Não pode nos ajudar agora, mal escuta o que dissermos. Se
conseguirmos com que ela sacie a sede dela, já estaremos fazendo muito. Vá por
mim, tenho experiência no assunto.
Ava estava certa... em parte.
Eu não tinha realmente condições de ajudá-los, mas ouvia tudo o que eles
diziam, mesmo que a conversa ao meu redor não fizesse qualquer sentido. Nada
mais na minha vida fazia sentido.
— Não fico tranquilo deixando a Stephanie sozinha para procurar pelo meu
neto. Até quando vai durar isso? — indagou papai.
— Até a hora em que algo que realmente a ameace ou acenda a sua esperança
consiga despertá-la. No mais, a única coisa que vai fazer será dormir ou quebrar
tudo.
— Ah, que tranquilizador! — desdenhou Vitória.
— Vitty, precisamos fazer uma busca na casa de todos os amigos do seu irmão
para procurá-lo, sem exceção. Sabe o que isso significa, não sabe? — disse Ava
com seriedade.
— Tenho que entrar na casa... do... Andrew?
— E eu, no quarto do Albert. Hipnotizaremos a todos eles se preciso for.
Alguém tem que saber de alguma coisa.
— E a mamãe?
— Stephanie? — chamou-me Ava. — Tome um pouco deste sangue, querida.
É a sua tipagem favorita.
— Não. Quero dormir — objetei.
— Mas precisa. Está fraca.
— Quero comer sushi. Voltar a ser humana para morrer em paz, como a minha
mãe.
— Não aguento mais vê-la falando assim, tia. O papai não podia ter feito isso
com ela — rebelou-se Vitória.
— Seu pai não me ama mais. Sempre foi da Juliet — murmurei desconsolada.
— E a sua tia me enganou também. São comparsas. Se não fosse pelos dois, eu
não teria me tornado uma vampira. Teria voltado para o Rio, morrido com uma
doença hereditária e salvado a minha alma. Agora estou condenada a vagar a
eternidade sem ele.
Vitória cobriu o rosto com as duas mãos, desesperançada.
— Não ligue para o que ela diz. Já ouvi coisas bem piores quando seu pai
ficou assim — revelou Ava.
— Se ele sofreu desse jeito pela mamãe, por que a abandonou dessa maneira
cruel, logo na hora em que ela mais precisou?
— Depois tratamos do assunto relacionado ao seu pai, Vitty. Estou mais
preocupada agora com o Rico, que é humano. Allan, existe alguma maneira de
alimentar a Stephanie enquanto ela dorme?
— Posso tentar...
— Ninguém vai me alimentar dormindo! Não quero beber! Não quero nada!
Me deixem em paz! — implorei.
— Ahá! Então você só escuta o que a interessa, não é? — contra-atacou Ava,
elevando a voz. — Vamos deixá-la em paz por algumas horas para procurar pelo
seu filho, ouviu bem? Seu filho!
— Rico não está em casa? — indaguei.
— Senhor, dai-me paciência... — clamou Vitória.
— Vamos embora. Não faremos grandes progressos com a Stephanie hoje.
Pelo menos se levantou da cama, vai dar um passo de cada vez. Deixe sua mãe
pela sala mesmo — ordenou Ava. — Assim ela terá que raciocinar e se
movimentar caso queira voltar para a cama.
Ouvi aquele monte de vozes aflitas diminuindo em volume até que se
esvaíssem e novamente o silêncio me tomasse por completo. Revia naquele
instante um velho conhecido que havia tempos não encontrava: o vazio. Nunca
tive saudade dele, mas parece que ele teve de mim. Bastou a primeira
oportunidade para que me procurasse. Eu nem sabia que ainda existia.
Pelo jeito, não só existia como cresceu tanto que tomou o meu corpo, assim
como a casa inteira. Não havia lugar onde ele não estivesse, parecia um ser
onipresente.
Não quero você de volta! — reclamei em pensamentos.
Sem ser levada em consideração em minhas súplicas, supliquei outra vez em
voz alta:
— Vá embora! Me deixa em paz!
O vazio não me deixou.
Passou o tempo inteiro me escoltando pela casa. Eu queria driblar a sua
presença incômoda, mas ele era insistente, um verdadeiro chato. Não me
permitia dormir, muito menos ficar acordada. Tentei me trancar no quarto, e ele
resolveu me perseguir, dando um jeito de entrar.
Será que existia algum lugar onde ele não pudesse me encontrar?
Vaguei pela casa me sentindo sufocada, procurando uma maneira de fugir sem
deixar vestígios. Ávida por uma solução, foquei na janela. O vazio era escuro e
gelado... Será que resistiria ao sol?
Sorri, pressentindo a vitória.
É claro que não! Nenhuma escuridão resiste à luz!
Abri a porta da cozinha que dava para o quintal e estendi uma toalha de praia
na beira da piscina. Queria ver quem é que iria me impedir de sonhar.
Dezesseis

O ruído das ondas do mar batendo na areia me acalmava.


Onde coloquei a minha máquina fotográfica? Preciso tirar uma foto!
— Vô, ela vai acordar algum dia? Diga que sim, por favor!
— Tem que acordar... Stephanie! Stephanie!
— Não sei mais o que fazer, ela parece morta!
— Ai, meu Deus! Tem certeza de que não morreu?
— Vitty, vampiros não morrem dessa forma, garanto. Sabe muito bem disso...
— Mas o tempo está passando, e a mamãe não mexe um milímetro há nove
dias!
— Ela não está morta, mas quer morrer...
Droga! De onde vêm essas vozes longínquas que atrapalham as minhas
férias?
— Mãe! Mãe!
— Stephanie! Precisa acordar urgente!
Ah, não! Calem a boca, ou o vazio irá me encontrar!
— Stephanie! Não pode mais dormir! Precisamos de você agora!
— Meu Deus! Daqui a pouco aparece outro policial procurando por ela, e a
mamãe não acorda! Não podemos hipnotizar todos eles! Está virando uma bola
de neve!
Porcaria! O vazio me achou... Socorro! Tirem esse monstro de perto de mim!
A imagem nítida de olhos azuis-violeta surgiu gradativamente, assim como o
som produzido pela sua voz, quando sussurrava ao meu ouvido um “eu te amo”.
Mentiroso! Não passei de um produto com prazo de validade para você!
— É impressão minha ou ela murmurou alguma coisa? Stephanie!
— Também ouvi. Parecia mais um grunhido. Não deu para entender nada.
— Então continuem chamando. Vou chegar mais perto para ver se escuto
direito o que ela diz...
Calor.
A efervescência da sua voz tão indevidamente próxima à minha boca me
reduzia a pó. Eu o desejava e ao mesmo tempo sabia que não podia me deixar
sucumbir, ao menos se ainda me restasse um pingo de amor-próprio.
Tudo bem, confesso: que amor-próprio?
Por que você fez isso comigo?
— Murmurou, sim, quase que num suspiro. Creio que está sonhando com
Richard!
Richard? Quem falou esse nome proibido?
Não bastando o desplante de aparecer no meu sonho como se não tivesse
acontecido nada, ele ainda me provocava, escurecendo as íris na minha frente,
buscando-me com aqueles lábios eletrizados.
— Não! — neguei com todas as forças. Não iria mais me humilhar feito um
animal rastejante.
— Ela disse “não” baixinho...
— Reagiu ao nome dele. Provoquem, ou a Stephanie não sairá do transe!
— Richard não gostaria de voltar para casa e vê-la desse jeito, filha.
— É, o papai sofre quando você fica triste!
É alguma piada? As vozes, além de chatas, eram pinéis?
— Calem a boca! — gritei novamente.
— Viram? Insistam no assunto para fazê-la voltar!
— Minha filha, sei que ficou magoada com o que viu, mas tenho certeza de
que existe uma explicação para tudo isso...
— Richard te ama. Acorde, Stephanie!
Não quero acordar. Não quero mais sofrer. Não quero abrir os olhos...
— Não é verdade. Ele me deixou — murmurei sofrida.
— Olhem! Ela começou a chorar!
— Coitada da mamãe!
— Seu pai não ficou melhor quando ela o deixou, pensando que iria salvá-lo.
Esses dois não podem ficar separados.
— Se ele a amava desse jeito, como é que pôde beijar outra pessoa na frente
dela?
— Tem certeza disso? Não confundiram os dois?
— Tenho, tia, eu estava ao lado dela. Não era Rico, era o meu pai!
— Estranho demais, Vitty, mas não é o momento certo para ficar falando
nisso, lembra? Agora vamos! Continuem estimulando! Ou melhor, pode deixar
que eu mesma resolvo isso...
— O que vai fazer?
Silêncio repentino. Providencial.
Cheguei a inspirar fundo com o ínfimo alívio adquirido pela ausência de sons.
Finalmente o meu refúgio acalmava, e as vozes se esvaíam. Quase chegava
novamente àquela praia, pisava na areia fofa... Mas minha alegria durou pouco,
apenas tempo suficiente para que alguma coisa gelada segurasse o meu rosto.
— Richard? O que faz aqui?
Hã?
— Depois de tudo o que fez com ela, como se atreve?
Richard?
— Vá embora! — gritei.
— Ouviu o que ela disse, Richard. Melhor não enfurecê-la. Olhe o estado em
que você a deixou!
— Não vou perdoar! — urrei outra vez, deixando o pranto escorrer
ininterruptamente.
Ouvi um lamurio. A mão que me segurava se desgarrou de repente.
— Ei, espera aí!
— Papai está indo mesmo embora?
— O que você queria que ele fizesse? Deve estar se sentindo culpado pelo que
aconteceu. Conhece bem o seu pai...
Senti uma turbulência excruciante me invadir.
Não!
— Richard! — choraminguei, abrindo os olhos com o pouco da força que me
restava. Levantei cambaleando e fui até a porta do quarto à sua procura. — Cadê
ele?!
— Não acredito! — Vitória agradeceu aos céus.
— Graças a Deus! — exclamou meu pai, abraçando-me.
— Como assim “graças a Deus”, pai? — protestei. — Ele foi embora! E vocês
deixaram!
— Mãe, você precisava acordar de qualquer jeito. A nossa situação complicou
muito! — explicou Vitty, alisando o meu cabelo.
— Que maluquice foi essa de se esturricar ao sol? Tem noção de quantos dias
pelejamos para acordá-la? — Papai me repreendeu.
— Estão falando muitas coisas ao mesmo tempo. Vão acabar deixando a
Stephanie confusa! — alertou Vanessa.
— Cadê ele? — indaguei outra vez, aérea. — Por que não impediram que
Richard fosse embora?
Ava tomou a dianteira.
— Ele não esteve aqui, Stephanie. Sinto muito. Fizemos essa encenação para
forçá-la a acordar.
Custei alguns segundos a assimilar a informação, mas, quando processou na
mente, um enfurecimento súbito me apossou. As presas desceram
automaticamente, reagindo à traição.
— Segurem-na! — berrou Vanessa.
— Grrrrrrrrrrr! — grunhi, lançando-me feito um cão raivoso por cima dela.
— Não, Stephanie! — Separou-nos meu pai.
— Falsa! — vociferei, os olhos esfervilhando de ódio. — Vou arrancar a sua
cabeça!
— A minha também? — rosnou Vitória. — Também ajudei a tia Ava na
encenação! Todos nós ajudamos!
Dei um passo para trás, indignada.
— Mas o que é isso? Fizeram um complô contra mim?
Vitória me sacudiu pelos ombros.
— Mãe! Escuta o que vou dizer: não dá mais para ficar fugindo ou vivendo no
mundo dos sonhos! Acorda! Ou você nos ajuda, ou Rico vai para a prisão!
A minha mente clareou de repente. Foi como se tivesse sido sugada à força de
outra dimensão.
— Se isso for mais uma encenação de vocês, juro que eu...
— Não, não é — garantiu Vitty. — Sente-se um pouco para nos ouvir. Suas
pernas estão tremendo tanto que chegam a fazer barulho.
— O que o meu filho fez? — perguntei, antes mesmo de me sentar.
— Na verdade, tenho certeza de que não foi o Rico, mãe. Só que a culpa vai
recair no meu irmão mesmo assim. Acharam as digitais dele no corpo...
Digitais? Corpo?
— Do que você está falando?
— Acharam o cadáver do William jogado no portão da nossa casa. A polícia
fez a perícia e encontrou marcas de sucção no pescoço dele e as digitais de Rico.
Para complicar ainda mais, existem várias testemunhas que viram quando o meu
irmão o ameaçou naquele maldito baile... — relatou Vitória.
Arriei finalmente na cama para não despencar, mas o chão parecia continuar a
ceder.
— O William? Meu Deus! — exclamei incrédula, as presas começando a
retrair. — O seu irmão sofreu a transformação? Quando isso aconteceu?
— Não sabemos se ele se transformou, ainda não conseguimos achá-lo. E o
corpo do Willian foi encontrado há dois dias.
— Dois dias? Por que não me acordaram quando isso aconteceu?
Papai revirou os olhos.
— É alguma gozação, filha? Estamos há mais de uma semana tentando
acordá-la dessa sua peripécia maluca de se torrar ao sol! Nem se movia... Tem
noção do desespero que nos fez passar? Parecia até que tinha morrido!
— Não posso ter dormido esse tempo todo!
— Eu também duvidava que uma coisa dessas pudesse acontecer, mas pode!
— ruminou Vitória. — Só que agora isso é irrelevante. O que interessa é que
você acordou e parece que voltou a si. Precisamos da sua ajuda.
Entrei em desespero.
— De que maneira posso ajudar? Não tenho a mínima noção de onde possa
estar o seu irmão!
— Calma, mãe! De início, basta conversar com o último oficial encarregado
do caso. Ele ficou de retornar daqui a pouco e exige falar com você. Não
acredita que esteja viva.
— Por que não?
— Quando acharam o corpo do Will, arrombaram a porta da nossa casa e
encontraram você deitada na cama, gelada, sem pulsação e respiração. O vovô
chegou logo depois, hipnotizou os policiais, só que a notícia já havia vazado,
chegando, inclusive, aos jornais. E agora, ficam batendo toda hora aqui, para
saber se a “cunhada” do Rico também foi assassinada por ele. Têm havido
também manifestações por parte da família do William, a situação está ficando
fora de controle. Já ouvi até boatos absurdos de que aqueles outros crimes
hediondos poderiam ter sido cometidos por ele, e por isso a nossa casa passou a
ser apedrejada...
Levei as mãos à testa, incrédula. Estava vivendo um pesadelo.
— Isso é... ridículo! Rico nunca faria uma coisa dessas, mesmo que ficasse
com raiva ou tivesse se transformado!
— É claro que não, mãe. E não se apavore. Rico está bem — garantiu. —
Ouço a voz dele nitidamente. Neste momento, arfa como se estivesse correndo.
Só não sei onde...
Putz! Cada vez que alguém relatava um fato novo, mais minha cabeça girava
em pânico. A história não iria acabar nunca?
— Ouve o seu irmão? Desde quando?
— Desde que me transformei, e não é o tempo inteiro. Eu não disse antes
porque achei que podia ser cisma minha.
Gêmeos. Que ligação extra-sensorial esses dois possuem?
— E ele? Acha que Rico a ouve também?
— Não, mãe. Já tentei de todas as formas me comunicar, mas não obtive
resposta. Talvez não tenha esse poder ou isso aconteça porque ele não se
transformou ainda.
Levantei-me repentinamente, a mente trabalhando a mil por hora.
— Espere aí... Vocês disseram que o corpo do William foi encontrado com
marcas de sucção?
— E bem no pescoço, para evidenciar ainda mais — relatou Vanessa.
— Não pode ter sido o Rico. E se não foi ele, e nenhum de nós faria uma coisa
dessas, só pode ser coisa da tal Juliet! Como se não bastasse tomar o meu
marid... quer dizer, ele, ainda quer destruir a minha família! — explodi.
— É a hipótese mais provável. Também pensamos nisso — concordou Ava.
— Por que não nos deixa em paz? Já tirou o ar que respiro, o que mais ela
quer?
O som da campainha interrompeu as minhas indagações.
— Deve ser a polícia novamente. É melhor você atender a porta, Stephanie —
sugeriu Vanessa.
Tentei me manter ereta, apesar de as pernas estremecerem de fraqueza pela
sede.
— Deixa comigo.
Desci as escadas segurando o corrimão com força para o caso de falhar a
motricidade. Abri a porta calmamente.
— Sra. Hacket? — cumprimentou-me o policial, estreitando os olhos ao me
ver. Pelo visto, devia ter noção da minha fisionomia, ou não seria tão direto. Será
que confiscaram algum porta-retrato?
— Wernyeck — corrigi amarga. — Agora sou apenas Stephanie Wernyeck.
— Sou o oficial Taylor. Posso entrar para conversar um pouco com a senhora?
— Por favor — convidei-o a se sentar.
Fiquei impressionada com a estatura daquele homem moreno. Parecia um
neandertal, de tão alto e forte. Quase precisei de um banquinho para poder falar
tête-à-tête. O tamanho da sua mão daria para cobrir o meu rosto inteiro, e ainda
sobrariam dedos.
— Parece bastante debilitada — analisou-me. — Não sei se a senhora tem
conhecimento, mas recebemos uma denúncia de que teria sido assassinada.
— E o meu... cunhado, o culpado. Soube desse boato ridículo — fingi não dar
importância.
— Não parecia ridículo para aqueles que garantiram tê-la visto. No relatório
escreveram, inclusive, que a senhora estava sem pulso ou movimentos
respiratórios.
Inspirei fundo e encenei:
— Sou um fantasma do além e vim aqui para aterrorizar o senhor. Chame os
“Ghostbusters” para sugar o meu espectro.
— Filme antigo... — retrucou ele, um tanto pasmo. — Brinca com uma
situação séria, Sra. Wernyeck.
Percebi o seu olhar especulativo na cava da minha roupa.
— O que quer que eu diga, oficial Taylor? Não é culpa minha se os seus
companheiros não tiveram competência para diagnosticar uma pessoa que
exagerou nos tranquilizantes.
— E por que fez uso desse tipo de medicamento?
— Tenho todos os motivos do mundo. Passo por um processo de perda
familiar, uma separação muito dolorosa e, agora, para completar, o meu cunhado
está sendo acusado injustamente de assassinato. Um rapaz que sempre foi o
primeiro da turma em notas, nunca usou drogas ou teve passagem pela polícia!
— Ele pode ter tido um surto de raiva, isso não é uma situação incomum.
Muitas pessoas o viram ameaçando William Stanford numa festa após uma briga
— acusou-o, observando atentamente os meus lábios.
— O senhor devia pesquisar o comportamento do Will também, oficial.
Sinceramente, gostava dele, e nem acho justo acusar uma pessoa que não está
mais aqui para se defender. Mas sejamos sinceros: ele forçou um relacionamento
com a minha cunhada de forma brutal. Vitória saiu da festa machucada, e Rico,
claro, como qualquer irmão zeloso faria, o ameaçou para defendê-la. Ficou
revoltado, sim, no dia. Depois não o procurou mais. Quem quer que tenha feito
essa atrocidade resolveu incriminá-lo.
— Mas havia digitais do seu cunhado no corpo dele. Como explica isso? —
inclinou-se na minha direção, parecendo querer inalar o meu perfume.
Ele ficou interessado em mim?
Pensei maquiavelicamente por uma fração de segundos e resolvi devolver o
jogo sujo daquela bandida. Não podia obrigar ninguém a me amar e jamais
gostaria que Richard voltasse para mim por pena ou por falta de opção. Contudo,
se ela pensava que iria destruir a minha família, enganou-se redondamente. A
Stephanie Hacket boazinha e inocente morreu no dia em que foi abandonada. Tal
como Juliet voltou, a Stephanie Wernyeck ressuscitou das cinzas e iria usar as
mesmas armas.
— Se eu tocá-lo assim agora — encostei a mão no seu rosto, usando voz
sensual —, significa que, se o senhor morrer daqui a uma hora, serei eu a
assassina?
— Não necessariamente — respondeu sincero, apreciando o contato a ponto
de fechar os olhos.
Deslizei os dedos suavemente na sua barba por fazer, antes de retirar a mão
por completo. O cheiro do seu sangue fresco invadiu as minhas narinas. Com a
sede que sentia, continuar naquela posição seria o mesmo que avistar um oásis
em pleno deserto de salmoura. Mais um pouco e cravaria nele uma mordida
redentora.
— Não acha um tanto estranho que um assassino jogue a vítima na porta da
própria casa para se incriminar, oficial?
— Não é o comum, embora já tenha visto casos assim. Quando acontece, em
geral o culpado intimamente quer ser punido.
Detive a fala por um breve momento a fim de analisar melhor a minha presa.
— Perdeu o foco, Sra. Wernyeck?
O ego do homem foi às alturas. Pena que nem colocando o dedo na goela iria
me fazer vomitar.
— Tem os olhos expressivos, Sr. Taylor — elogiei. — Posso olhar mais de
perto?
Nem precisava pedir. O cara já estava pronto para avançar o sinal vermelho. E
eu, para hipnotizá-lo.
— O senhor vai fazer um favor para mim, oficial. Quero que me ligue dando
qualquer pista que saiba a respeito do paradeiro do meu cunhado imediatamente.
Volte para o seu trabalho e relate ao comando que não achou indício ou prova
alguma que o incrimine. Quero também que convença a todos os seus
companheiros envolvidos no caso a virem falar comigo ainda hoje, mas
discretamente. Se fizer tudo direitinho... Bem, vou pensar em algo para
compensá-lo. — Balancei o meu nariz no dele, no estilo “beijinho de esquimó”.
— Agora vá. Acorde e faça o que ordenei — encerrei a hipnose.
O oficial se elevou da poltrona um pouco tonto e se despediu em seguida. Já
foi tarde.
— Stephanie? O que foi isso que acabei de ver? — abismou-se Ava.
Ergui uma sobrancelha, dissimulando.
— O quê?
— Praticamente seduziu o policial.
— E daí?
— Tudo bem que a ideia foi brilhante, mas...
— Mas...?
— Entendo que esteja magoada com Richard — Suspirou, aparentando
meditar em como devia me abordar. — Acho apenas que fazer esse tipo de coisa
vai feri-la ainda mais.
Sorri em escárnio.
— Essa é boa. Escondeu de mim uma lenda sórdida com o poder de destruir a
minha vida e agora quer me dar conselhos?
— Eu não fiz isso, Stephanie. Juro que não sabia dessa lenda. E, se quisesse
realmente enganá-la, acha mesmo que estaria hoje aqui, do seu lado, ao invés do
de Richard? É só raciocinar direito e ver que seria totalmente incoerente.
Sim, seria.
Por esse ângulo, ela tinha razão, mas o que teria coerência depois de todas as
coisas que aconteceram? Como ficar segura do que quer que fosse se puxaram o
meu tapete, derrubando-me no chão com revelações sobre a minha espécie que
jamais ouvi falar antes? Como acreditar em outro ser de mesma natureza se
aquele em quem confiei amor eterno esfacelou o meu rochedo, jogando o pó do
sedimento ao vento?
— Stephanie, confie em mim. Gosto de você como uma irmã e quero apenas
evitar que se magoe ainda mais. Você não é assim.
— Eu não fui assim — corrigi. — A Stephanie que você conheceu morreu.
Esta, que está diante de você, é outra pessoa. Amarga, oca e infeliz, mas vai lutar
com as armas que dispuser para que ninguém se atreva a tirar os meus filhos de
mim! — Bati no peito com a mão fechada, enchendo os olhos de lágrimas à
revelia. — Richard pode deixar de ser meu marido, é dotado de livre arbítrio.
Meus filhos não. Nasceram do meu ventre e estarão ligados a mim para sempre,
querendo ou não.
Ava bufou.
— Isso não entra na minha cabeça. Ainda que essa tal lenda seja mesmo
verdadeira, que a quebra dos laços amorosos e familiares seja total para que ele
se una ao primeiro amor, não acho que Richard agiria assim com as pessoas com
quem conviveu por tantos anos...
Cruzei os braços.
— Ah, não? E o que ele fez para impedir aquela mulher de prejudicar a vida
de Rico? — interroguei, enxugando o rosto com a borda da minha blusa.
Ela emudeceu, sem palavras. Fiz questão de continuar:
— Já ouviu falar no ditado “quem cala consente”, Ava? Se ele é capaz de
fechar os olhos para as atitudes inaceitáveis da ex-noivinha por amor,
indiretamente luta contra mim. Agora, se me der licença, preciso tomar um
banho e me alimentar logo. Não posso ficar sedenta quando os outros policiais
vierem ao encontro marcado. Algum deles vai me dar a pista de que preciso.
Ah, se vai!
Dezessete

Vitória andava de um lado a outro no meu quarto, impaciente.


— Mãe, não acha que exagerou um pouco? Já devem ter aparecido por aqui
cerca de trinta policiais desde ontem!
— Com quem está preocupada?
Minha filha soltou o ar de uma só vez. Argumentar qualquer coisa com uma
vampira teimosa não seria prudente, e naquele instante não contava com o apoio
do avô, da Vanessa ou da tia; todos à caça de pistas sobre o irmão. Diante disso,
resolveu verificar as correspondências que haviam chegado para saber se alguma
interessava ou dava a pista que necessitava sobre o seu irmão. Instantaneamente
parou, analisando uma delas.
— O que foi?
— Nada. — Escondeu o papel, juntando-o aos demais.
Estendi a mão para que ela me entregasse.
— Vitória! — adverti.
— Não é nada, mãe. É só a fatura do cartão que veio com o valor errado.
Continuei com a mão na mesma posição.
— Quero ver.
Ele xingou algo para si própria, repreendendo-se por ter falado demais. Logo
descobri o motivo: na fatura apareciam diversas compras feitas no cartão de
Richard, e todas em lojas femininas. Grifes de roupas, sapatos e bolsas de alto
padrão que sequer tive vontade de obter modelos algum dia, já que nunca me
importei com marcas ou tinha tamanha vaidade. Deviam estar comprando os
“vestidos” ou as “saias” que a Juliet afirmou com todas as letras que ele
gostava...
— Ugh! — resmunguei.
Amassei o papel até formar uma bolinha e o arremessei longe, sangrando por
dentro.
— Vitty, sinto muito ter me descuidado de você — lamentei, ludibriando a dor
que me abrasava. — Não tive nem tempo de conversar direito sobre o que
aconteceu na sua vida. Fui egoísta demais, pensei somente em mim mesma...
— Discordo. Apenas sofreu além do que podia suportar — defendeu-me.
— Como está se sentindo?
— No íntimo, já esperava por isso. — Seu tom era de conformação.
— Sabe, filha, quando vocês nasceram, fiquei feliz demais, e apavorada
também. Não sabia ainda como lidar com as nossas diferenças, mas tinha certeza
de que, no final, o amor sobressairia e conseguiria criá-los fortes para enfrentar o
mundo. Sei que não é fácil estar na pele de alguém que não pediu para ser assim,
apesar de não ter sido esse o meu caso. Não imagina o quanto desejei que você
tivesse direito de escolher.
— Acredito, mãe.
— Por outro lado, não terá que passar por essa provação sozinha. E mais do
que isso: contará com pessoas que lhe amam para sempre, embora saiba que não
é o bastante para alguém ser totalmente feliz.
— É, isso me conforta — disse ela baixinho.
— Como ficou sua história com o Andrew?
— Não ficou.
— Ele parou de procurá-la?
— Nos últimos dias, sim. Tenho certeza de que desconfia de alguma coisa,
então preferi me afastar.
De minha janela do quarto, avistei-o de relance se aproximar na nossa casa.
— Bem, suspeito que ele não tenha digerido muito bem a sua decisão...
— Ah, não! Só faltava essa! — reclamou, acuada, assim que o viu e percebeu
do que eu estava falando. — O que será que o Andrew quer agora?
— Melhor atender, filha, senão o rapaz vai ficar ainda mais desconfiado.
Vitória cruzou o olhar comigo, o semblante torturado. Enfrentar bravamente
quem se ama e fingir que não sente nada por ele era, sem dúvida alguma, uma
prova difícil demais de ser realizada. Especialmente para uma vampira.
— Oi — saudou ela Andrew timidamente, assim que abriu a porta.
— Oi. Posso entrar para falar com você um instante?
Ela gesticulou educadamente, permitindo sua entrada.
— Não tem atendido os meus telefonemas... — comentou o rapaz.
— Hã... Estamos passando por problemas sérios. Deve saber... O meu irmão
foi acusado pela morte do William.
— Sei disso. E não acredito que ele seja o culpado.
— Ufa! Ao menos alguém acredita! — Ergueu ela as mãos para o alto,
aliviada.
— Vim aqui para dizer que fiz o relato na polícia de tudo o que vi acontecer
no dia do assassinato. Só não posso ter certeza se eles levaram fé no meu
depoimento. Devem pensar que quero proteger o meu amigo, principalmente
depois que a mãe do Will comentou algo sobre a nossa ligação, minha e sua.
Sabe muito bem que ele também gostava de você.
Minha filha contraiu o corpo por segundos. Andrew acabara de proferir, em
outras palavras, seu interesse por ela. Se a voz de Vitória já dava antes sinais de
abalo, naquele instante ficou evidente.
— Em que a polícia não acreditaria? — perguntou ela, mudando o foco da
conversa.
— Que estive com o Rico no dia do assassinato. Ele me procurou. Parecia
transtornado, mas não com o William, e sim com a namorada dele e com mais
alguém que não quis me dizer na hora. Desconfiei depois de que fosse do seu
irmão mais velho.
— Richard? Por quê?
— Eu o vi ao lado da Juliet mais tarde, coincidentemente perto daqui. Os dois
estavam em um carro, e era ele quem dirigia. Como Rico me disse que voltaria
para casa assim que saiu da minha, imaginei na hora que Richard já soubesse do
seu retorno e quisesse apenas ajudá-la a fazer as pazes com o irmão, oferecendo
uma carona, mas...
— Mas...?
— Sinto muito ser justamente eu a ter que dar essa notícia chata — lamentou
Andrew. — O Richard parecia... feliz, íntimo demais dela, se é que me entende...
Eu assistia a tudo da cozinha e fui obrigada a me sentar para não perder o
equilíbrio. Uma facada no peito seria muito pouco para descrever o que senti.
Nunca tive o costume de bisbilhotar a conversa de ninguém, entretanto,
precisava colher o maior número de informações possíveis para chegar até meu
filho e proteger também a Vitória, caso ela solicitasse. Apenas não esperava ter
que escutar uma coisa dessas.
Richard...
Não era possível que ele soubesse o que a Juliet havia feito e a estivesse
acobertando. Isso seria demais para a minha cabeça, além de qualquer escala de
compreensão. Ela só podia ter atacado o William na surdina. Só podia.
Se bem que...
Ai. Meu. Deus.
Nunca levei muito a sério o fato de que antes Richard sempre me considerou
perfeita, mesmo nas ocasiões mais absurdas, uma condição inerente à paixão da
espécie. Ele me protegeria de qualquer coisa, incondicionalmente, ainda que eu
estivesse errada. Agora, colocando-me de expectadora, do lado de fora da sua
vida, essa atitude protecionista dele em relação à Juliet me soava sordidamente
possível, uma prova irrefutável de devoção que só poderia advir em
consequência da maldita lenda.
Juliet foi o grande amor dele, o primeiro. Com o seu retorno, os defeitos dela
seriam escondidos sob o véu do encantamento vampiresco, inclusive os mais
execráveis...
— Droga! O papai vacilou feio! — rosnou Vitória sem querer.
Andrew pescou o deslize no ato.
— Seu pai?
— Hã... Ele nos trata como se fosse — ela desconversou, atônita. — Sempre
foi muito responsável.
A essa altura, não deu mais para ficar observando os dois à média distância.
Avancei um pouco mais a fim de avaliá-los melhor.
— E a sua cunhada tomou posição de mãe — completou Andrew, meditativo.
— Fiquei impressionado com o modo como ela ordenou Rico a ir para o quarto
no dia da briga, o excesso de cuidado...
— Stephanie nos trata assim mesmo, já estou até acostumada.
— Você tem o cabelo igual ao dela, os lábios... Consigo enxergar diversas
semelhanças entre as duas.
Pronto. Ali tive a certeza de que Vitória começaria a surtar.
— Está querendo me zoar, Andrew? Resolveu transformar a minha cunhada,
que tem só 26 anos, na minha mãe verdadeira?
— Ela também tenta hipnotizar as pessoas, como você e a sua prima?
A face da minha filha congelou, aturdida.
— De onde tirou essa maluquice?
— Fingi que você havia conseguido me hipnotizar quando foi a minha casa
me perguntar pelo seu irmão, e ouvi muito bem quando comentaram algo sobre a
possibilidade de Rico ter se “transformado” como você.
Ela arrastou um passo para trás.
— Nunca fui à sua casa. Sonhou com isso, Andrew.
— Ah, sonhei... — sussurrou ele, caminhando adiante. — Quando entrou no
meu quarto, pensei que estivesse tendo alucinações. Sonhei mais ainda quando
pediu para me olhar dentro dos olhos e depois... acordei desolado. Você não veio
por mim. Veio porque queria me hipnotizar, para saber do seu irmão e me fazer
esquecer o que vi quando a beijei.
Vitória entrava em pânico. Ele chegara perto demais da verdade.
— O que você viu foi só uma reação alérgica nos meus olhos.
— Alergia ao meu beijo? — provocou Andrew, chegando mais perto.
— É lógico... que não!
— Posso testar? — Inclinou a cabeça para beijá-la.
— N... Não! — Afastou ela a boca, mantendo os olhos presos aos dele.
— Tem medo de quê? Que eu descubra o seu segredo?
— Andrew, esqueça o que viu! — ordenou, arriscando novamente hipnotizá-
lo. — Esqueça todas as coisas que desconfia de mim e da minha família.
Esqueça que eu existo!
— Não posso ser hipnotizado, Vitória. Ninguém jamais conseguiu — revelou,
alcançando por um breve momento os seus lábios.
— Mãe! — gritou apavorada, implorando por ajuda.
Ele se afastou dela por reflexo.
— Então ela é realmente a sua mãe...
Tentei socorrê-la de súbito e não adiantou. O rapaz realmente não cedia aos
nossos poderes hipnóticos. Nunca nos ocorreu tamanho impasse. Como proceder
agora com ele? Andrew sabia demais, e não podíamos fugir do país como
sempre fazíamos diante da desconfiança das pessoas, ainda mais sem o meu
filho. Machucá-lo, então, nem pensar...
— Andrew, pelo amor de Deus, vá embora! — pediu Vitty, sem saber mais o
que dizer.
— Vitória, confie em mim. Não tenho intenção de denunciá-los — garantiu
ele.
— Denunciar pelo quê? Não fizemos nada!
— Sei o que são e reafirmo que não vou denunciá-los.
— E o que julga que somos? — confrontei-o, cruzando os braços.
— São vampiros.
Minha filha quase enlouqueceu com a descoberta dele. Elevou as mãos ao
rosto, em completo desespero.
Contudo, apesar de não conhecê-lo tão bem, alguma coisa me dizia que
Andrew falava a verdade. Ele não tinha pretensão de prejudicá-la. Seu coração
continuava batendo acelerado, como tambores de escola de samba em plena
Avenida Marquês de Sapucaí.
— Se acha que somos tal coisa, por que não sai correndo daqui? Vampiros
bebem sangue — aticei, traiçoeira.
— Tiveram muitas oportunidades para isso. Não creio que vá acontecer
justamente agora. — Ele não se amedrontou.
— Anda lendo muito romance meloso, rapaz. Vampiros não costumam ser
bonzinhos com os humanos. Viu muito bem o que aconteceu ao William —
insisti. — Foi sugado até a morte!
— Mãe!? — repreendeu-me Vitty, protestando.
— Não foram vocês que fizeram aquilo — disse ele, convicto.
— Gostaria de saber de onde vêm todas essas suas convicções — exigi,
aproximando-me de um jeito felino, a própria intimidação em pessoa. Queria ver
até onde a sua coragem iria.
— Posso contar tudo se abaixarem a guarda.
Relaxei um pouco a postura.
— Não vamos lhe fazer mal.
Andrew abriu um sorriso.
— Se eu não tivesse certeza disso, não estaria aqui agora.
O rapaz era corajoso, precisava admitir. Enfrentava duas vampiras na maior
serenidade do mundo, como quem bate um papo com adolescentes em sua
própria casa. Pediu somente licença para se acomodar no sofá antes iniciar suas
explanações, olhando direto para Vitória:
— Não sei se o Rico comentou alguma coisa sobre a minha vida...
— Não — respondeu Vitty, em defesa do irmão.
— Nem teve curiosidade de perguntar?
Diante da negativa decepcionante, Andrew relatou:
— Passei a infância praticamente inteira sendo criado pela minha avó, já que a
mamãe ficou internada a maior parte do tempo.
Continuamos atentas, esperando que em meio à sua história houvesse uma
justificativa para que ele agisse assim.
— Essa internação dela não aconteceu por doença mental, como toda a família
costumava me dizer. Foi porque ela insistia em contar sempre a mesma história
sobre o meu pai, que ninguém conheceu, além dela... e de mim. Mas eu era
pequeno, mal me lembrava direito da fisionomia dele. — Afastou um cacho do
seu cabelo cor de mel por trás da orelha. — A mamãe dizia que meu pai era um
vampiro...
Meu queixo caiu com a revelação.
— Seu pai? Um vampiro?
— Segundo ela, um vampiro de boa índole, que não atacava as pessoas,
alimentando-se do sangue de animais. Mamãe morou na Califórnia com ele por
quase dez anos, os dois completamente apaixonados, até que, do nada, meu pai
desapareceu, nunca mais voltando para casa. Ela ficou desesperada com o
sumiço e saiu por aí, à procura dele. É lógico que a família pensou que a mamãe
tinha enlouquecido e a internou até bem pouco tempo, quando ela finalmente
resolveu deixar de insistir na história para poder voltar para casa. Perdeu muito
tempo da vida dando murro em ponta de faca, tentando convencer as pessoas.
Paralisei com o relato, impressionada.
— Para a minha avó — ele continuou —, mamãe se fingia de curada; para
mim, falava tudo sobre a espécie dele. No início, confesso que eu não acreditava
em nada, achava aquilo tudo uma loucura, mas calei a boca. Não queria que a
mamãe voltasse para aquele lugar horrível, entendem? Sentia muito a falta dela.
— E o que fez você mudar de ideia? — interroguei.
— Há menos de um mês, quando a levei para dar uma volta num shopping,
ela o viu. Ficou completamente alucinada, gritou feito uma louca. E o cara
jovem que era apontado como meu pai passou direto por nós, andava abraçado a
uma loira. Tive que arrastar a mamãe em meio àquele ambiente lotado até o meu
quarto, escondido, com medo de que a minha avó chegasse da rua e descobrisse
o que aconteceu.
— Que barra... — murmurou Vitória, apiedando-se.
— Foi muito difícil. Ela chorava sem parar e, vendo que eu não levava fé na
sua palavra, resolveu provar, sacando de um diário antigo uma foto dele. Fiquei
completamente pasmo: era o mesmo homem, sem tirar nem pôr. Mamãe
envelheceu por ser humana, e ele não. Comparei uma foto minha com a dele e
me impressionei ainda mais com a semelhança: tirando os olhos escuros que
herdei dela, sou uma cópia do meu pai. Daí por diante, passei a prestar mais
atenção às coisas que ela contava: sobre o escurecimento das íris, a mudança de
temperatura, a hipnose, os hábitos e até o modo como eliminá-los, exatamente
como papai a ensinou. Desconfio até de que não posso ser hipnotizado por ter
alguma herança genética, porque vampiros são imunes.
— Alguém já tentou hipnotizá-lo? — perguntei, curiosa.
— Sim, o seu marid... Quer dizer, o Richard, quando encerrou a nossa reunião
aqui, na sua casa. Todos os meus colegas obedeceram, então resolvi simular o
mesmo.
— Creio que a imunidade é somente sua. Meus filhos já foram hipnotizados
várias vezes — garanti.
Vitória estranhou, virando-se para mim.
— Fomos?
— Ora, vocês não queriam comer verduras, tomar vacinas...
— Mãe! Golpe baixo!
— E você não ficou com medo quando soube o que éramos? — indaguei ao
rapaz, focando no assunto principal.
— Não mesmo. Fiquei até bastante confortável — fez ele menção de riso. —
Afinal, se algum dia viesse a me transformar de verdade, não seria o único a
levar essa sina para sempre. Poderia continuar tendo amigos, talvez até... mais
do que isso...
Ele deliberadamente encarou Vitória.
— O que o seu pai fazia? — indagou minha filha, ainda chocada com a
revelação, tratando de desfazer o climinha instalado no ar.
— Segundo a mamãe, ele era veterinário, daí a facilidade em se alimentar dos
animais. Também dava aulas numa faculdade em Los Angeles, onde ela o
conheceu. Se bem que vinha de uma família de fazendeiros ricos do Texas, não
precisando trabalhar para viver, apenas por prazer.
— E por que acha que ele a largou, se dizia que a amava? — inquiri.
Vitty levantou a cabeça, percebendo a real intenção da minha pergunta. O que
levaria alguém apaixonado a fazer uma coisa dessas?
— Não sei — respondeu Andrew. — Estou me baseando no que ela dizia a
respeito dele. Mas, diante do que aconteceu, só posso supor que o meu pai se
apaixonou por outra pessoa...
Não aguentei. Cobri os olhos com as mãos e comecei a chorar.
No fundo, queria ouvir uma resposta diferente daquela. Queria que ele me
desse outra explicação, mesmo que estapafúrdia, para justificar o abandono. Essa
não. Essa fazia a minha dor aumentar. Confirmava ainda mais aquilo tudo que
acontecera comigo, matando meu último fio de esperança.
Richard não havia sido o único vampiro a largar uma parceira por outra, sendo
assim, tudo o que escutei por tantos anos soou como balela. Eu tinha dado uma
de forte desde que saí do torpor, mas era uma tremenda mentira, assim como
tudo mais o que vivi ao lado dele. Fui estilhaçada de dentro para fora, sem
chance alguma de ser remendada.
— Mãe... — acudiu-me Vitória, pesarosa de me ver tão consternada.
— Foi o mesmo que aconteceu com a minha mãe, não foi? — concluiu
Andrew, talvez um tanto surpreso com as minhas lágrimas rubras, embora nada
perguntasse a respeito.
— Foi — admitiu Vitty, finalmente abrindo a guarda.
— Sinto muito. Entendo o que sente, presencio o sofrimento da minha mãe há
muito tempo — lastimou.
— Ela tem sorte por ser humana, Andrew. Fez a escolha certa — murmurei,
impedida de enxergar pela escuridão que o pranto rubro provocava em meus
olhos. — Não terá que passar a eternidade vagando infeliz, como eu.
— Confesso que a atitude do seu marido me surpreendeu — disse ele. —
Parecia mais um cão de guarda ao seu lado, preocupado com que alguém
encontrasse o osso escondido.
Honestamente, em outra ocasião até acharia graça da comparação, mas não
naquela hora.
— Bem, se essa história de que o amor vampiro é para sempre não for
verdadeira, um dia pode encontrar alguém — incentivou-me o rapaz.
— Não, Andrew. O que pode me curar é o que provoca a minha própria
doença. Estou condenada.
Deixei que o silêncio me invadisse. Teria que me habituar a ele, com a sua
companhia. Daquele momento em diante, minha vida seria exatamente assim:
insípida, inodora, enegrecida e ausente de sons. Voltei a fingir que vivia e nem a
mim mesma convencia.
— Vou deixar os dois conversarem a sós — decidi.
— Tem certeza, mãe? Pelo amor de Deus, não durma novamente assim.
— Não se preocupe, filha — tratei de acalmá-la. — Não volto a dormir
enquanto o meu filho não estiver a salvo. Depois não prometo mais nada.
Dezoito

— Sra. Wernyeck?
— É ela mesma — respondi a alguém do outro lado da linha, invariavelmente
desgostosa por ter que ouvir mais uma vez o meu sobrenome de solteira.
— É o oficial Demétrius quem está falando.
Ugh! Para melhorar ainda mais o meu astral, o infeliz tinha que ter esse
nome, não tinha?
— Pois não — simulei uma voz mais amável.
— Acabei de receber notícias do seu cunhado.
Saltei da cama imediatamente, quase perdendo a estabilidade.
— Diga.
— Pelas informações que recebi, nossos oficiais o cercaram em seu
esconderijo, e a essa altura ele já deve estar sendo conduzido à delegacia de
Miami.
— Não deixe que ninguém o machuque, por favor. Meu cunhado é inocente!
— A senhora já me convenceu disso, mas não comando a polícia. Sou apenas
um peão cumpridor dos meus deveres. Tudo dependerá da reação dele.
— Espero que não esteja entre os seus deveres deixar que façam justiça sem
que haja julgamentos, oficial.
— De maneira alguma. Assim que obtiver mais notícias, volto a ligar.
Manterei a senhora informada. — prometeu.
Daquele momento em diante, recebi uma enxovalhada de telefonemas, todos
relatando a mesma história. Meu celular virou a verdadeira central da polícia, e,
mesmo que fosse entediante ouvir mil vozes masculinas fazendo o que ordenei
— todos empolgados, por sinal —, não havia como evitar atendê-los. Poderia
surgir uma notícia diferente daquela em questão de minutos...
Crash!
Uma pedra vinda de fora da casa atingiu em cheio o vidro da janela do meu
quarto aceso, e os gritos de “Fora, assassinos” de um grupo de jovens revoltosos
denunciaram o quanto viramos indesejáveis ali. Fechei os olhos, clamando por
paciência.
Por que tudo comigo sempre acontecia assim, feito um carrinho de montanha-
russa que somente descia?
Em meio às inúmeras ligações, ouvi o barulho de mais alguma coisa
quebrando na sala e fui obrigada a abrir a porta do quarto para ver o que havia
ocorrido.
Eram os dois.
Vitória e Andrew se beijavam daquele jeito que somente eu sabia ser possível
perder a noção. Derrubaram um enfeite de vidro exposto na mesinha lateral ao
sofá e nem ao menos se deram conta disso...
O acaso era realmente o maior romancista que existia.
Com tão pouca probabilidade de encontrar alguém como ela, Vitória foi se
apaixonar justamente por um ser que possuía a mesma origem genética?!
Que bom!
Deus permita que a minha filha seja feliz!
Recuei instintivamente.
Ela precisava de privacidade, viver cada precioso segundo dessa viagem que,
sinceramente, meu maior desejo era que não acabasse, como aconteceu com a
minha.
Entretanto, seu instante de loucura durou pouco. Mesmo visivelmente
entregue, ela se afastou de supetão e subiu as escadas à minha procura.
— Mãe!
— Oi, filha?
— O Rico... Ouvi a voz dele! — relatou, sem se preocupar em esconder a cor
enegrecida dos seus olhos.
Meu gélido coração apertou.
— Aconteceu alguma coisa? Ele foi ferido?
— Acho que não, mas está chorando... Fala para alguém que não é o culpado
pela morte do William!
— Recebi várias mensagens de policiais, avisando que ele foi cercado e que
está sendo levado para a delegacia de Miami. Assim que o seu irmão puser os
pés nela, serei comunicada. Daí vou poder agir.
— O que pretende fazer? — quis ela saber.
— O que quer que eu faça? Não posso deixar que o seu irmão fique preso por
algo que não fez!
— Rico vai virar fugitivo da polícia? Ficar com o nome dele manchado?
— Uma coisa por vez, querida. Penso nessa questão depois.
Ela não se conformou:
— Não é melhor tentar inocentá-lo antes?
— Como, Vitty? Enlouqueceu? De que maneira provar que quem fez aquele
absurdo foi uma vampira inescrupulosa, monstro que não faço a mínima ideia de
onde achar?
— Rico pode nos ajudar nisso — insistiu.
— Certo, mas não preso. Se conseguirmos inocentá-lo de imediato, muito
bem. Caso contrário, dou o meu jeito e caímos fora deste país, como sempre
fizemos.
— Não é melhor falarmos antes com a tia Ava? Ela é promotora, mais uma
cabeça a pensar...
— Faça como quiser, filha. Querendo ou não, hoje tiro ele de lá.
— Vou ligar agora — prontificou-se, aparentando nervosismo.
No íntimo, eu entendia a sua preocupação.
Se Rico fugisse da prisão, obviamente não voltaria mais para casa, já que seria
o primeiro local a ser procurado. Poderíamos escondê-lo em algum lugar por
mais um ou dois dias, entretanto, a saída do país surgiria como um fator
inevitável. O sistema de informações americano sempre foi muito eficiente, e
somente hipnoses seriam insatisfatórias para impedir que polícia nos
encontrasse.
Em meio a tal caos desordenado, como ficaria o seu romance com o Andrew?
É claro que os dois tinham o direito de se unir, trabalhar e viver onde
quisessem, mas, com certeza, passariam por algumas dificuldades. Nada que um
amor verdadeiro não superasse. Ele ainda não era formado ou tinha um emprego,
tampouco ela, então...
Somado a isso, eu conhecia bem a minha filha. Vitória receava que a
enfermeira aqui enfrentasse e arcasse sozinha com todas as despesas que
viessem pela frente, como se isso nunca tivesse acontecido comigo antes. Do
jeito que a minha personalidade neste ponto era forte, jamais usaria qualquer
facilidade financeira advinda dos bancos em que tinha conta conjunta com
Richard. Cuidei dos meus filhos até que eles fossem capazes de caminhar
sozinhos e, por ter passado vários anos sem trabalhar, não acumulei tantas
economias. Ainda assim, faria com que elas se adequassem à minha nova
realidade; não seria a primeira vez. Como vampira, não tinha muitos gastos
materiais e, em caso de necessidade maior, teria em meu pai um porto seguro.
— Tia Ava falou que está vindo para cá — avisou Vitória, minutos após.
— Perfeito. Agora pare de se preocupar e ofereça alguma coisa para o seu
namorado comer — insinuei. — Não se esqueça de que ele ainda é humano.
— Namorado? — Desviou os olhos, tentando encobrir o embaraço.
— Creio que é isso que ele passou a ser hoje, não?
— Mãe! — reclamou, concluindo que eu havia visto algo.
Pisquei, desculpando-me.
— A culpa não foi minha, quebraram coisas na sala. Só saí do quarto para ver
o que havia acontecido.
— Está me deixando sem graça...
— Não fique. Já passei pela mesma situação quando a sua avó me viu aos
beijos na varanda da casa dela com... — interrompi o que pretendia falar. —
Esqueça, não quero me lembrar mais disso.
Mentira.
Eu queria me lembrar, sim, apenas não daria o braço a torcer. Não conseguia
parar de pensar em como a vida passava rápido e na inversão natural dos papéis.
Naquela época, era eu quem ficava sem graça diante do comentário da minha
mãe...
— Tá, então... vejo o que posso servir — aceitou a sugestão.
Foram exatos quinze minutos até que o cheiro de fumaça aguçasse o meu
apurado olfato.
Vitória colocou algo no fogo para esquentar?
“Ocupada” do jeito que imaginava que estivesse, provavelmente entrara em
alfa vampiresco e se esquecera da vida. Aguardei por mais dois minutos, dando
tempo para que ela mesma tomasse uma atitude. Não deu certo. Seja lá o que
estivesse cozinhando, queimou, e a fumaça se espalhou.
— Vitty, a panela! — gritei do meu quarto.
— Panela?
Desci as escadas rapidamente, evitando bancar a sogra indiscreta, passei pela
sala sem focar nos dois e entrei direto na cozinha. Realmente, não havia panela
alguma no fogão. Também nada no forno.
Seria o ferro de passar?
Não, este continuava intacto. Então, de onde...?
— Mãe, a porta da sala não quer abrir! — resmungou, cortando meus
questionamentos internos.
— Deve estar girando a chave para o lado contrário — supus, entrando na
sala. — De vez em quando, você esquece e faz isso, lembra?
— Não, mãe. Já tentamos dos dois lados. O Andrew precisa pegar o celular
que ficou dentro do carro.
— Deixe-me ver...
Fiz todo o procedimento, e a porta não abria.
Estranho... A droga emperrou? Poderia forçá-la de qualquer maneira, se bem
que, caso o fizesse, arrumaria mais um problema para administrar. E de
problemas estava literalmente fugindo.
— Vamos abrir a porta da cozinha — propus
— Que cheiro de fumaça é esse? — perguntou Andrew, nos acompanhando
até o local.
— Era o que eu tentava descobrir antes de vocês me chamarem. — Girei a
chave na fechadura de novo, sem sucesso. — O que aconteceu com a droga
dessas portas?
— Também não abre? — intrigou-se Vitória. — Essa nunca deu defeito.
— Olhem! — chamou-nos atenção Andrew, apontando para as janelas, tanto
as da sala de exames quanto as do escritório. — A casa está pegando fogo!
Havia vários focos em torno da residência. Não se tratava de um incidente,
mas de um atentado. Talvez tivessem descoberto a casa do suposto “assassino”
em série e resolvido fazer “justiça” com as próprias mãos.
— Vocês não têm extintores? — indagou ele.
— Estão na lavanderia — lamentou Vitty. — E não temos como chegar lá sem
abrir esta porta.
— Também não adiantaria. O fogo vem agora por todos os lados! — concluí,
verificando a destruição ao nosso redor. — Saiam de perto! — gritei. — Vou
arrombar a porta!
Tomei distância e trombei nela, pasma por não tê-la movido míseros
milímetros com a minha força vampiresca. Inconformada, fiz uma nova tentativa
dando uma impulsão maior, mais uma vez em vão.
— Não é possível! — protestei. — Uma porta de madeira, mesmo maciça,
jamais resistiria à minha trombada!
— Vamos nós duas, então! — sugeriu Vitória.
Fizemos o proposto e... nada.
— Como se explica isso? — Andrew quis saber.
— Trancaram a porta com algum material muito forte por fora! — rosnei.
— O que poderia ser tão resistente a ponto de aguentar o nosso impacto, mãe?
— interrogou Vitty, nervosa.
— Não sei... .
— Por que não tentamos as janelas? — recomendou o rapaz.
— Bem lembrado! — concordei.
Alcancei as janelas da sala e instantaneamente desisti. O fogo através delas já
estava muito alto.
— Vamos subir! — ordenei. — Tentamos dos nossos aposentos!
— Que barulho foi esse? — apavorou-se Vitória com um ruído estranho e
intermitente.
— Vem do seu quarto, Vitty!
— Tem alguém trancando a minha janela com alguma coisa?!
Forcei a janela dela de todas as formas e era impossível abrir. Fizemos uma
peregrinação por todos os cômodos da parte de cima da casa e a situação só
piorou: todas as possíveis saídas foram trancadas, provavelmente com barras de
ferro.
— Meu Deus! — desesperou-se minha filha. — Quem teria coragem de fazer
uma coisa horrível dessas?
Ergui as mãos à testa, inconformada.
— Qualquer um. O William tinha marcas de sucção no pescoço, lembra? A
cidade ficou revoltada com esse crime, e as pessoas acreditam que foi Rico o
monstro culpado. Se algum grupo desconfiar do que realmente somos, queimar a
nossa “cripta” — abri aspas com os dedos — surge como uma solução óbvia,
não acha?
— Então morreremos presos aqui dentro, mãe?
— Nós duas não — subentendi a condição humana do seu namorado.
— Isso eu não vou deixar! — grunhiu Vitty. — Socorro! Socorro! — berrou
em alto e bom som.
Em meio aos seus urros, fizemos diversas tentativas frustradas de empurrar as
janelas, as paredes e tudo mais que encontrássemos pela frente. Algumas partes
da casa começaram a despencar, restringindo-nos ao quarto de Rico, que ficava
um pouco mais distante das labaredas. Pela evolução rápida, não demoraria
muito para que o fogo atingisse o local.
Sem mais termos como solucionar o problema, agachamos abraçadas ao rapaz
para protegê-lo. Faltava muito pouco para que aquele minúsculo canto fosse
envolvido pelas chamas quando ouvi uma voz conhecida gritando do lado de
fora:
— Stephanie! Vitória! Tem alguém aí dentro?
— É a tia Ava! — exultou Vitty. — Tia! Socorro!
— Onde vocês estão? — indagou Ava.
— No quarto do Rico! Rápido!
— Ajude-me, Allan! Elas estão lá dentro! — suplicou Ava.
A esperança foi acesa em Vitória.
— Graças a Deus! O vovô também chegou!
Eles precisavam se apressar. Uma das paredes laterais caiu, deixando-nos
quase que encurralados. Dava para ouvir os grunhidos dos dois do lado de fora,
dando a entender que faziam muita força para retirar o que nos trancava ali
dentro.
— Ughhhh! Estamos quase conseguindo! — rosnou meu pai.
Parte da roupa que eu vestia começou a chamuscar. Sacudi–a nervosamente e
nos esprememos ainda mais. O som da janela escancarando foi como uma
música para o ouvido da minha filha. Entregamos Andrew primeiro ao meu pai,
seguido de Vitória. Acabei pulando por último, perdendo um pé de sapato na
fuga. Fui obrigada a jogar fora o restante que sobrou.
— Jesus! Que absurdo, filha! Vocês foram trancadas aí dentro! — exclamou
papai, perplexo.
— Acho que dessa vez os humanos nos descobriram, pai — supus, recordando
a pedra lançada no meu quarto. — Temos que dar o fora o mais rápido possível
daqui.
Fiquei arrasada.
Por mais que não tivesse apego às coisas materiais, enxergar o lar onde morei
por um bom tempo desaparecendo nas chamas foi tão... doloroso. Parecia que
um ciclo da minha vida havia se encerrado naquele instante, como quando as
cortinas vermelhas de um teatro antigo se fecham para determinar o fim do ato
ou de uma peça pela última vez, só que sem os aplausos finais.
As nossas roupas, os objetos, as fotos, a minha máquina fotográfica... Enfim,
todas as lembranças de dias felizes estavam sendo queimadas, e não havia a
mínima chance de recuperação.
Já tinha me conformado em ter que sair dali. Não era a primeira vez e
provavelmente não seria a última, embora jamais imaginasse que aconteceria
daquela maneira, escorraçada.
Para ser sincera, absolutamente nada daquilo me faria falta se Richard
estivesse comigo. A sua presença era a prova viva de que tudo o que sonhei se
realizou e de que o futuro não seria diferente. Naquele instante, cada pedacinho
dele que jazia impregnado na casa evaporava na grande fumaça negra, cor que
representava com nitidez o estado do meu coração.
Entendi aquilo tudo como mais um sinal enviado para anunciar a minha
derrota. Precisava me acostumar a isso. Perder se tornou a palavra de ordem do
momento, a palavra que me faria companhia para sempre. Dali por diante, não
havia mais chance de ganhar guerra alguma, apenas pequenas batalhas ou, quem
sabe, testes de sobrevivência. Nada além de um mero fingir viver.
— Não quero atiçar você ainda mais, Stephanie — interferiu Ava. — Mas
nenhum humano conseguiria trancar a casa com barras de ferro tão pesadas,
seria praticamente impossível. Allan e eu tivemos que fazer muita força para
remover esta da janela. — Mostrou-me uma delas, caída no chão.
— Está querendo me dizer que...? — evitei pronunciar o nome da maldita para
não ter um ataque de fúria.
— Não posso afirmar que foi ela, se bem que não consigo pensar em outra
pessoa que não seja humana e que quisesse enxotar você daqui para fora.
— Isso é ridículo, Ava! O fogo não iria me matar. Ela sabe muito bem disso,
não deve ser tão burra assim!
— Talvez queira somente dar um aviso ou até mesmo provocá-la...
Não tive tempo de extravasar a raiva. Fechei os punhos na intenção de
esmurrar a primeira coisa que aparecesse pela frente, mas fui obrigada a me
conter. O corpo de bombeiros acabara de chegar, seguido da polícia. A
vizinhança havia se aglomerado na minha porta para ver de perto um lar em
chamas.
Como imaginei, nada sobrou. Somente cinzas. O tipo de incêndio foi
confirmado logo depois pelos peritos, que encontraram galões de gasolina
jogados em torno da casa. Foi realmente proposital.
Andrew recebeu atendimento especial por ter inspirado tanta fumaça, fazendo
inalação através de uma máscara de oxigênio. Fizemos também uma encenação
desse tipo, tomando a precaução de não deixar que ninguém se atrevesse a
checar nossos sinais vitais. Lógico que hipnotizamos quem nos atendeu.
— Fico feliz que tenha conseguido sair viva, Sra. Wernyeck. Não há dúvidas
de que a pessoa que arquitetou tal plano queria realmente matá-la — analisou
friamente o oficial Taylor, terminando de fiscalizar o local.
Assumi a condição de vítima.
— Se não contasse com a ajuda de parentes, provavelmente estaria morta
agora.
— Só não entendi ainda como conseguiram fixar aquele material na sua janela
em tão pouco tempo. Seriam necessários muitos homens para levantar o
equivalente à metade daquela barra de ferro — desconfiou, anotando alguma
coisa no seu caderninho.
— Não vai querer que justamente eu tenha a solução deste mistério, vai,
oficial? — revidei. — O investigador aqui é o senhor.
— Tem ideia de quem possa querer assassiná-la ou prejudicá-la de alguma
forma?
— Certamente, a mesma pessoa que resolveu incriminar o meu cunhado. Rico
era um dos melhores amigos do William, jamais o mataria.
A voz de alguém que chegava por trás entrou na conversa.
— Também foi bem difícil acreditar nisso, pode ter certeza.
Ao me virar, percebi que se tratava da mãe do William, que viera ver de perto
o que já estava sendo noticiado pela TV. A mulher amorenada aparentava ter
envelhecido pelo menos dez anos desde a última vez que a vi, e sustentava
olheiras escuras em torno dos olhos.
— Não tive a oportunidade de entrar em contato com a senhora antes porque
entrei em estado de depressão, Sra. Raniery — dirigi-me a ela. — Sinto
realmente pelo que aconteceu com o seu filho. Gostávamos muito do William,
mas não foi Rico quem fez aquilo. Alguém está querendo incriminá-lo.
— Sra. Hacket... — pausou a mulher, como quem ludibria um cansaço
profundo.
— Wernyeck — corrigi.
— Sra. Wernyeck, sabe o que é perder um filho? — lacrimejou. — É a dor
mais forte que alguém pode sofrer na vida.
— Não tenho filhos — menti, mas somente nessa parte — e, apesar disso,
posso imaginar muito bem o que a senhora sente. Perdi de uma tacada só a
minha mãe, o meu marido e, agora, a minha casa. Isso sem falar no fato de que
meu cunhado, que para mim é quase que um filho, está sendo preso por algo que
não fez. Ultimamente, não faço outra coisa, a não ser chorar as perdas
— Confesso que no início acreditei piamente na suspeita da polícia. A senhora
sabe, os dois brigaram feio, e as digitais de Rico foram encontradas no corpo. Só
que agora, depois deste atentado, fiquei realmente em dúvida. A não ser que o
seu cunhado tenha tido um acesso de loucura e quisesse matar a própria família...
— Impossível — interveio o policial Taylor. — O rapaz foi preso longe daqui
e está sendo levado para a delegacia neste momento. Não teria tempo hábil,
muito menos força para fazer algo dessa grandeza sozinho.
— Creio que isso venha reforçar a sua dúvida — rebati. — Não foi o Rico,
Sra. Raniery. Ele foi criado com muito amor, e uma briga não seria um motivo
suficiente para que fizesse tamanha barbaridade. O verdadeiro assassino se
esconde por trás dessa denúncia, desviando a investigação da polícia. E o meu
cunhado está pagando o pato.
— Com licença. — Outro policial atravancou o nosso diálogo. — Taylor, uma
testemunha afirma que viu uma mulher ruiva acompanhada por alguns homens
saindo do quintal, mais ou menos no horário suposto do início do incêndio.
— Não deixe que ela saia do local, quero interrogá-la também — enfatizou
Taylor.
— Ok — acatou ele a ordem, sumindo entre as viaturas policiais.
Taylor virou-se para mim:
— Recebeu alguma visita antes de perceber o fogo, Sra. Wernyeck?
— A única que recebi ficou presa na casa conosco e por pouco não morreu
sufocada também.
— Muito bem. — Afastou-se para investigar a denúncia.
Fiquei atenta ao testemunho de uma jovem que aparentava não ter mais do
que dezoito anos. Ao mesmo tempo que se portava com indignação pelo que
acontecera conosco, temia um troco por parte dos agressores. Para complicar,
não demonstrava ficar muito à vontade por ter que dar seu depoimento aos
policiais usando shortinho e camiseta.
— Era uma ruiva de cabelos longos muito bem vestida e mais dois caras que
pareciam ter vindo de uma agência de modelos — relatou a garota.
— Conhece algum deles? Viu mais alguma característica? — persistiu Taylor.
A jovem se precaveu.
— Hã... O meu nome vai parar nos jornais? Se for, nem conte comigo!
— Manteremos seu depoimento em sigilo, pode confiar.
— Não conheço nenhum deles não. Aliás, nem moro neste bairro. Vim
somente visitar uma colega na quadra oposta e voltava para casa de bicicleta —
informou, meditativa. — E, se tivesse visto aqueles deuses gregos antes, com
certeza nunca teria esquecido.
— Não deu para ver coisas do tipo: cor de cabelo, estatura...?
Ah, meu Deus... Faça com que Richard não esteja entre eles. Por favor, por
favor, por favor!
— O que estava ao lado dela era alto, forte, e tinha cabelos cacheados num
tom meio caramelo. O outro, que saiu pela varanda, parecia mais baixo, magro, e
era loiro, com os fios bem lisinhos, na altura do ombro.
Meus dedos da mão já se contraíam de nervosismo, a ponto de quase
entortarem, quando suspirei, aliviada.
— Mais alguma característica, como roupas ou a cor dos olhos? — induziu o
policial.
— Olha, foi tudo rápido demais. Não consegui reparar muito porque fiquei
hipnotizada pelo terceiro cara que estava recostado no capô de um Golf,
aguardando os outros de braços cruzados em frente à casa. Caramba, que homem
bonito! Quase bati com a bicicleta na árvore quando vi!
Taylor franziu o cenho, advertindo-a para que se refreasse. Ela obviamente
percebeu:
— Tá, esse era alto, tinha olhos claros e o cabelo bem negro, encaracolado.
Devia ser o namorado da ruiva sortuda. Vi os dois discutirem e depois se
beijarem, já quase eu virando a esquina.
A descrição da cena fez meu cérebro formigar como se estivesse sendo
alfinetado em milhares de pontos de uma só vez, uma sensação tão ruim que não
havia meios de descrevê-la.
Richard foi visto... aqui? Com ela?
Pela segunda vez, um ato gravíssimo acontecia, ele esteve presente, e a sua
única reação foi discutir ao invés de nos ajudar? Por quê?
Num milésimo de segundo, várias cenas da nossa vida em comum surgiram no
pensamento. Uma, em especial, sobressaiu. Richard se via em xeque-mate na
época em que exigi que ele retirasse os bebês que eu julgava não serem meus da
barriga. Foi algo do tipo “ou eles, ou eu”. Por mais que a minha proposta fosse
hedionda, suas palavras como resposta nunca me saíram da cabeça:
“Não faça isso comigo. Sabe muito bem que sempre vou escolher você.”
Ou seja, se eu insistisse na loucura, ele realizaria o aborto, sim, por amor a
mim. Graças a Deus não levei a atrocidade adiante, mas quem me garantia que a
Juliet não o estivesse pressionando do mesmo jeito?
Ou ela, ou... nós?
De algum modo, aquilo fazia sentido. Talvez não fizesse para um humano,
uma espécie que muitas vezes desconhecia o quão literal significava a
eternidade. Podíamos conviver com a dor do arrependimento ou com qualquer
outra que existisse, não com a rejeição de quem se ama. Se a louca fincasse o pé,
ele acataria a sua vontade. Richard a amava, e a maldita lenda era verdadeira.
Droga, quero morrer, mas preciso me manter de pé.
Preciso.
Dezenove

A voz grave do policial Taylor cortou minhas reflexões.


— Passa mal, Sra. Wernyeck?
— Perdi tudo, policial. Como quer que me sinta? — arfei, mascarando a
verdadeira razão do meu desconsolo.
— A casa tinha seguro?
— No nome do meu... ex-marido.
— Então será apenas uma questão de tempo. Logo terá a sua parte e um
espaço novo para se restabelecer.
Valeu. Posso soltar fogos de artifício agora?
— Engano seu, policial. Não quero nada. Não dependo de homem algum para
sobreviver! — grunhi, o orgulho deprimente me consumindo de um modo como
nunca imaginei experimentar, como se a cada decepção aflorasse um reativo
sentimento ruim em mim.
Ele me escaneou de cima a baixo.
— Nem todos os homens são iguais. Há aqueles que sabem valorizar a mulher
que têm ao seu lado.
Hora de puxar o gatilho psicológico.
— Resolveu se aproveitar da minha fragilidade, Sr Taylor?
— Absolutamente. Apenas não me conformo de ver uma pessoa distinta e
desiludida passando por um sufoco desses.
— Quer mesmo que eu me sinta melhor? — sussurrei provocativa, os olhos
cravados nos dele. — Então me ajude a inocentar o meu cunhado e a achar o
verdadeiro assassino do William. E me avise assim que eu possa vê-lo.
— Claro.
— Tá, agora acorde e faça logo o que mandei — ordenei.
Ele se afastou. Relaxei um pouco a postura.
A que ponto cheguei...
O retrovisor de um carro estacionado na rua fez o favor de denunciar o meu
estado tétrico: suja de fuligem, descalça, com a roupa e os cabelos chamuscados,
humilhada, e usando de falsidade para convencer os outros daquilo que
almejava. Descer mais baixo do que isso seria praticamente impossível.
A revolta teve seu processo iniciado naquele instante. Sairia dali sim, mas de
cabeça erguida. Por vontade própria, não porque eles queriam.
— Queria agradecer pelo que fizeram por mim. — Tossiu Andrew ao lado de
Vitória.
— Agradeça a ela — indiquei minha filha com a cabeça. — Os gritos da Vitty
devem ter chegado aos ouvidos de Ava a quilômetros de distância.
— Mãe! — protestou Vitória, sem saber onde enfiar a cara.
— Deixa comigo — retrucou o rapaz, satisfeito.
— Senhora! — chamou-me um bombeiro. — Achamos esta caixa de metal
sob os escombros e uma bolsa de mulher. — Entregou-me em mãos.
— Minha bolsa com os documentos...
— É a sua caixa de joias! — vibrou Vitty, aliviada por constatar que alguma
coisa havia sido salva no incêndio.
Olhei com tristeza para aquela caixa adornada com filetes dourados e decidi
que não a queria mais. Dentro dela havia presentes que recebi de Richard por
mais de vinte anos, e para cada peça existia uma história, um momento particular
que naquele instante eu não fazia mais sentido relembrar.
— Fique com ela, filha. Pode ajudar a pagar os seus estudos.
— Mas são as joias que o papai...
— Exatamente — cortei sua fala. — Tinham valor quando a intenção vinha
junto. Agora não passam de meros metais.
Ava surgiu de repente:
— Stephanie, acho melhor levá-las até a minha casa para que tomem banho e
esperem até que possamos falar com Rico.
— Não se desfez da casa quando fugiu do Albert?
Ela me olhou de esgueira, como se eu a fizesse recordar aquilo que não queria.
— Deixei trancada até a hora da mudança definitiva.
— Sou obrigada a aceitar a sua oferta — admiti, avaliando o aspecto
esdrúxulo da minha filha de relance. — Não dá para chegarmos a uma delegacia
desse jeito. Iriam nos enviar a um abrigo de mendigos.
Ava arqueou uma sobrancelha.
— Passou a confiar novamente em mim, chérie?
— Desculpa, Ava. Não fui justa. Você não tem culpa do que aconteceu
comigo.
— Tinha certeza de que uma hora você assentaria a cabeça e cairia em si.
Andrew atravessou o nosso diálogo:
— Também preciso voltar para casa agora. As outras duas mulheres da minha
vida devem estar preocupadas — referia-se obviamente à mãe e à avó.
— Outras? — Vitória tomou coragem de insinuar.
— Exatamente. — Ele gostou do projeto de ciúme. — E a que escolhi como
minha garota precisa ter um pouco de paciência — despediu-se, oferecendo-lhe
um beijinho na testa. — Amanhã voltamos a nos ver. Seu celular ficou no bolso,
não?
— Perdi o carregador no incêndio, mas acho que a bateria aguenta até lá.
Por coincidência, meu celular também ficou no bolso do jeans que eu vestia,
deixando-me mais tranquila no caso de algum policial me ligar informando para
onde Rico fora levado e precisar sair de imediato.
Entrei no carro da Ava e me despedi momentaneamente do velho Allan, que
também solicitou que o avisasse assim que se recebêssemos alguma notícia de
Rico. Dali fomos direto para a casa dela.

— Por que essa demora tão grande? — reclamei, penteando meus cabelos
molhados após tomar banho e me enrolar numa toalha. — Não é possível que o
Rico não tenha chegado ainda à delegacia. Ele estava escondido onde, na China?
— Somente após extraírem as informações que considerarem importantes é
que entrarão em contato. Procedimentos de praxe — elucidou Ava.
— Procedimentos de praxe. Bah! — resmunguei.
— Relaxe, não farão nada de mal a ele.
— Estou ansiosa — confessei. — Não vejo a hora de tirar o meu filho de lá e
zarpar o quanto antes deste país.
— E vai para onde? Sua família está aqui.
— Tenho um irmão no Brasil, se não se recorda.
— Acha que fugindo conseguirá esquecer?
O velho dilema de sempre...
— É lógico que não, sou consciente. Mas não devia me criticar, não foi isso o
que você fez?
— E não adiantou. Se bobear, até piora.
Terminei de desembaraçar os meus longos fios antes de rebatê-la.
— Minha situação é diferente da sua, Ava, sabe muito bem disso. Prefiro fugir
a ter que presenciar novamente cenas que jamais irei esquecer na vida. Seria bem
melhor ter nascido cega.
— Continuo não acreditando nessa história — reagiu. — Tem que haver
algum engano nisso, Richard sempre foi completamente louco por você.
Ninguém mais do que eu presenciou todo o sofrimento que ele passou até
conseguir ser feliz ao seu lado.
Inspirei longamente. Desisti de tentar entender o incompreensível, mudando
de assunto para me preservar.
— Como ficou a sua história com o Albert?
Ava expressou leve insatisfação com o tema, mas respondeu:
— É ele mesmo, Stephanie. Não me resta dúvida alguma.
— Como pode ter essa certeza?
— Quando fui procurar por Rico na casa do amigo onde Albert se hospeda,
conversamos um pouco. Ele me contou sobre fatos em sonhos que realmente
aconteceram conosco e ficou cismado assim que me viu.
Então não havia mais o que duvidar. Foi aberta a temporada de retorno do
além. Senti-me profundamente mesquinha por pensar dessa forma, afinal, Ava
merecia ser feliz.
— E agora estão juntos? — indaguei.
— Ainda não. Vou esperar que essa situação caótica de Rico acabe, colocar a
cabeça no lugar e arrumar uma solução definitiva para este impasse.
— Albert concorda com isso, em ter que aguardar?
Seu semblante murchou.
— Ele não vai se importar com nada agora. Eu o hipnotizei para que não se
lembre de nada ou se envolva com o problema de Rico. Já sofreu demais com a
perda brutal dos pais.
— Bem, essa situação tem prazo curto para terminar, então sua única
preocupação futura será saber se ele aceitará se transformar desta vez ou não.
— E o medo de perdê-lo novamente até lá? Só de pensar, fico alucinada. Se
pudesse, prenderia o Albert numa redoma de vidro — confessou. — Mas preciso
esperar. Não me sinto confortável aparentando trinta anos ao lado de um garoto
de vinte, sou de outra geração...
— O que importa não é a idade, e sim o sentimento que um nutre pelo outro.
Que se dane o mundo, Ava! O que a sociedade tem a ver com isso? — parei e ri
ironicamente de mim mesma. — Olha só quem fala sobre o amor: a vampira
abandonada! Esqueça o que eu disse, não sou a melhor pessoa para lhe dar
conselhos.
— Ah, pare com isso...
Meu celular tocou no meio da conversa. Atendi imediatamente, imaginando
que estivesse na hora de ir à delegacia.
— Stephanie? — Uma voz feminina ressonou do outro lado da linha.
— É ela. Quem fala?
— Juliet. Como vai?
Trinquei os dentes.
— É mais cara de pau do que pensava... Como se atreve a me ligar?
— Queria saber se curtiu bastante a “dança do fogo” — debochou.
— Sei muito bem que foi você a autora, não precisava se dar ao trabalho de
me avisar.
— Que bom que entendeu o recado. Não é tão tapada quanto eu imaginava.
— Se pensa que me intimida fazendo tais ataques, escolheu a pessoa errada
para chantagear. Não me importo nem um pouco com aquela casa — rosnei.
— Uia! Richard tem um valor acima do que eu esperava...
— Isso não tem nada a ver com ele — menti. — Nunca me importei com
coisas materiais.
— Deu para perceber pelo modo tosco como se veste. Mas acabou de me
oferecer a senha para a sua despedida, lindinha.
O que ela quis dizer com isso?
— Ué... Você não é a esperta estrategista? A grande “bruxinha” chantagista da
casa? — alfinetou, lendo o meu pensamento. — Talvez agora ganhe um novo
incentivo para incrementar o seu lado fujão.
Aquele apelido pronunciado por ela desestabilizou o meu ínfimo equilíbrio
emocional.
— Q... Quem lhe disse isso?
— Ora, quem mais? Richard não me esconde nada, querida.
— Não tenho medo de você — enfrentei-a, engolindo o choro à força. Ele
contou tudo a ela sobre mim?
— Pois devia, meu bem. Devia...
— Vá para o inferno! — gritei sozinha. Juliet encerrou a ligação na minha
cara.
De novo despenquei.
E dessa vez decidi que não iria chorar. Meus olhos viraram uma verdadeira
poça de sangue, mas jurei a mim mesma que não deixaria uma gota, por
minúscula que fosse, descer pela face. Se Richard foi capaz de revelar os
pormenores da nossa vida íntima àquela mulher sem escrúpulos, deixando que
ela tripudiasse sobre a dor que eu sentia, não merecia as minhas lágrimas. Ponto-
final.
Não vou chorar. Não vou chorar... — mentalizei.
— Era a Juliet — presumiu Ava, perplexa.
— Bingo.
— E o que ela disse para deixar você assim?
— Confessou a autoria do incêndio, deu um aviso do tipo “vá embora” e falou
detalhes da minha vida pessoal, que o seu irmão contou a ela. Nada de
importante — listei, amarga.
— Ela admitiu a autoria pelo celular? — Estalou Ava os dedos. — Yes!
— Isso ajuda em alguma coisa o meu filho?
— Posso provar que a nossa família está sendo vítima da ameaça de alguém
que nos deseja longe daqui e que, somado aos galões encontrados em torno da
casa e ao testemunho daquela garota que viu a presença de estranhos rondando à
sua porta, irão, no mínimo, facilitar um Habeas Corpus. Além disso, soube que
mais uma pessoa foi encontrada morta nos arredores da cidade com as mesmas
características, e Rico já havia sido detido nesse horário. Digitais num corpo não
são provas irrefutáveis de um crime, somente uma suspeita. Amanhã pela manhã
consigo tirar meu sobrinho de lá.
— Amanhã, Ava? Meu filho terá que dormir na cadeia?
— Já é noite — justificou, notando os meus olhos vermelhos.
— Não sei se quero esperar tanto.
— Vai acabar explodindo, Stephanie. Deixe essas lágrimas rolarem —
aconselhou.
Travei a respiração para ajudar a contê-las.
— De jeito nenhum. A fonte secou.
— Não acha muito esquisito que a tal Juliet continue ameaçando para que
você vá embora? Do que ela tem medo? — desconfiou Ava.
— Talvez de que Richard se arrependa. Só que agora é tarde demais. Por mais
que eu morra de paixão por ele, não conseguiria perdoá-lo.
Meu celular vibrou outra vez, exibindo o mesmo número registrado
anteriormente. O que aquela vampira doente queria? Me infernizar?
— Já não lhe mandei para o inferno? — exclamei raivosa.
— Não... — surpreendeu-se a voz de um homem. — Sra. Wernyeck?
— É ela — rateei, também estranhando.
— Oficial Taylor, da polícia de Miami. Liguei para avisar que o seu cunhado
já está detido aqui, na minha unidade. Se quiser vê-lo, posso arrumar um
jeitinho...
Uma tensão mórbida agitou o meu cérebro repentinamente.
— O número que o senhor está me ligando é da delegacia?
— É da minha unidade sim, por quê?
Se o número era o mesmo... Então a Juliet estava lá!
— Meu Deus! — gritei. — Vigie o meu cunhado, por favor! Não deixe que
ninguém estranho chegue perto dele! — supliquei, como se isso fosse adiantar
alguma coisa contra uma vampira.
— Por que o pânico, Sra. Wernyeck? Rico está detido, não há como alguém
chegar até ele sem a nossa permissão.
— Recebi uma ameaça que veio há poucos minutos desse número de telefone,
oficial. O assassino pode estar aí mesmo, dentro da sua própria unidade! —
esgoelei mais uma vez.
— Impossível! Ninguém diferente esteve aqui agora.
— Chego aí em minutos — desliguei o celular na cara dele.
O desespero atingiu o limite máximo. A “senha para a minha despedida”
subentendida na sua frase significava que ela iria machucar ou matar alguém
importante para mim caso me recusasse a ir embora logo, já que incendiar a casa
não fora um argumento suficientemente forte para tal. Esse era o “incentivo”
para estimular o meu lado “fujão”.
— Maldita! — vociferei cerrando os punhos.
— O que houve? — A indagação veio em o coro.
Vitória tinha acabado de entrar no quarto, também com os cabelos recém-
lavados.
— Meu Deus, ela é muito pior do que eu pensava! — exclamei. — Ligou
antes desse número porque sabia que o oficial telefonaria depois!
— Continuo não entendendo — Ava me avaliava, ostentando um franzido de
preocupação na testa.
— Ava, ela está ou esteve na delegacia onde o meu filho foi preso, ligou do
telefone da unidade para o meu celular e falou que iria estimular o meu lado
fujão se eu resolvesse ficar aqui! Entendeu? E, pelo que percebi, ninguém se
lembra de tê-la visto por lá, ou seja, a louca hipnotizou a todos! Vai matar Rico,
que ainda é humano, se não formos embora logo!
— Quem vai matar o meu irmão? — boiou no assunto Vitória, apavorada.
— Vitty, ligue para o seu avô e peça para que ele vá imediatamente para a
delegacia. Não posso perder tempo com explicações agora. Coloque uma roupa
qualquer da sua tia e corra para o carro. Não quero que fique sozinha em casa —
ordenei.
— Calma, mãe...
— Calma é o escambau! Rápido!
— Este vestido deve caber em você — ofereceu-me Ava uma peça do seu
armário.
Claro, tinha que ser um vestido, pois seus jeans literalmente sambariam no
meu corpo.
— Qualquer um serve — agradeci, encaixando-o de pronto enquanto Vitória
escolhia outro.
Na verdade, a roupa ficou extremamente sensual, o tipo de vestimenta que
jamais compraria ou teria em meu guarda-roupa. Eu não possuía, como Ava,
aquele quadril sexy estilo “Jennifer Lopez”. Em compensação, meus seios eram
maiores e ficaram estufados dentro do modelito.
Fazer o quê? Esse fazia o estilo dela, sempre fez.
Não havia como arrumar outra coisa para usar; tínhamos perdido tudo no
incêndio. Ava era mais alta e corpulenta do que eu, portanto, ficava bem melhor
trajada assim. Para completar, só tinha para nos emprestar sandálias de salto alto,
desses que ela usava com elegância no tribunal.
Que estranho foi pensar nisso em meio a um turbilhão de problemas... Se
Richard me visse vestida assim há apenas alguns dias, teria tido um treco!
Ora, dane-se! Não devia mais satisfações a ninguém.
Ninguém.
Vinte

Normalmente, o trânsito em Miami àquela hora da noite dava uma colher de


chá aos apressados desesperados, como eu. Por sorte, a delegacia não ficava
distante de onde Ava morava, o que agilizou bastante a nossa chegada.
— Veio rápido, Sra. Wernyeck. Arrumou um lugar para se hospedar perto da
delegacia? — questionou o oficial Taylor, sem tirar os olhos do decote da minha
roupa. Se ele inclinasse um pouco mais a cabeça, cairia por cima de mim.
— Hã... Sim... — Pus o braço na frente instintivamente, tapando sua visão
privilegiada. Meu reflexo de escudeira não havia sido perdido com o tempo.
— Ficou outra pessoa depois que tirou a fuligem — elogiou-me, todo
empolgado.
— Sr. Taylor, gostaria de ver o meu cunhado. É possível? — cortei-o,
perdendo a paciência.
Pelo visto, não era somente eu que me incomodava. Vitória também se sentia
claramente deslocada por notar que a sua potencialidade atrativa aumentou a
níveis alarmantes. Num ambiente de predomínio masculino, três vampiras
vestidas como Bond girls eram um verdadeiro chamariz para os sentidos deles...
e para os nossos. A sede começou a bater, e aquele assédio nos provocava ainda
mais, como se o cérebro e a necessidade fossem pessoas distintas. Resistir ao
sangue in natura continuava sendo um desafio constante para a nossa espécie.
Não sabia como a minha filha conseguia se sair tão bem nesse papel, talvez a
hereditariedade a abrandasse de alguma forma.
— Por aqui, senhora — indicou-me ele o caminho.
Ava ficou no gabinete principal colhendo as informações que precisava para
conseguir um mandato de soltura para o dia seguinte. Já eu, continuava em
dúvida se esperaria ou arrancaria Rico de lá à força naquele instante, evitando
correr riscos desnecessários.
— Rico! — exultei ao ver o meu filho numa sala reservada.
Ele mal se conteve, abraçando-me em seguida.
— Mãezinha!
— Shhhhh! Cunhada... — sibilei, com medo de que alguém o ouvisse.
Rico perdeu peso. Surgiu com a aparência esgotada, provavelmente não se
alimentara direito ou dormira havia vários dias. Esperei que nos deixassem
sozinhos para começar a falar.
— Meu Deus, filho! Onde você esteve esse tempo todo?
— Escondido. Não fui eu quem matou o William, mãe — desabafou num
sussurro.
Encarar Rico de frente me desestabilizou. A semelhança com o pai era tão
impressionante que estava sendo muito difícil focar aquele azul-violáceo e não
associar a sua linda figura à imagem de Richard.
— É claro que não, querido. Nem precisa repetir. — Desviei instantaneamente
os olhos para me poupar da dor.
— Foi a Juliet, mas não tenho como provar — martirizou-se. — Ela me
hipnotizou naquela noite, sugou o William na minha frente e ainda aproveitou
para pôr a culpa em mim!
— Posso bem imaginar o que passou. Já sofri coisa semelhante.
— O pior não é isso. O papai também o sugou. — Sua voz embargou, mal
conseguindo conter as lágrimas.
— Hein?
Pisquei uma, duas, três vezes, tentando assimilar o que ouvi, e ainda assim
não processei direito. Richard sugou sangue humano... in natura?
Não, aí já era demais para acreditar.
— Deve estar enganado, Rico. Seu pai pode ter inúmeros defeitos, mas ajudar
a drenar pessoas até a morte...
Apesar de toda mágoa que sentia dele, precisava ser justa e defendê-lo.
Richard não faria isso.
— Papai não é mais o mesmo — soluçou. — Está completamente cego, louco
por ela. Basta que Juliet faça alguma pirraça para ele ceder aos caprichos
daquela vampira falsa, maquiavélica!
A garganta parecia ter entalado.
— Tem... certeza? Viu realmente o seu pai fazendo isso?
— Foi... horrível!
Senhor! Dê-me forças para superar mais essa!
— Lamento que tenha presenciado esse horror. — Afaguei minha própria testa
em sinal de inconformismo.
— Juliet tinha o direito de fazer qualquer coisa comigo. Eu gostava dela, mas
acho que não era amor de verdade. Já ele... Poxa! É o meu pai! Como ele pôde?
— Já desisti de tentar entender, Rico. Ninguém mais sofre com as atitudes
dele do que eu.
— Traição. Essa é a palavra correta para o que fez — corrigiu.
— Não quero ficar repetindo essa palavra. Tenho tentado a duras penas me
conformar.
Rico rosnou.
— Pode esquecer! Assim que sair daqui, volto lá. Quero que ele me dê um
motivo justo para o que me fez.
— Não deixarei que retorne no antro daquela vampira! — proibi.
— Preciso de um motivo!
Andei em círculos até arrumar ânimo para revelar a história que tanto ansiava
esquecer.
— O motivo é que a Juliet afirma que é a legítima ex-noiva dele que retornou
do além. E, como o coração de um vampiro pertence à primeira a quem amou,
seu pai apagou o que sentia por mim e preferiu se unir a ela.
— Como a história do Albert, parceiro da tia Ava?
— Exatamente.
— Que coisa mais sem sentido! — intrigou-se. — Poucos dias antes, ele me
deu uma lição, demonstrando o que significava o amor. E, no entanto...
— Prefiro não falar mais disso, se não se importa — cortei o assunto pela
metade, não estava mais disposta a discutir o que não tinha explicação.
Pelo visto, a revelação não diminuiu a sua ânsia por justiça.
— Quero voltar lá, mesmo que não seja por isso. Ela está matando humanos, e
não vou admitir que continue! Não dá para fechar os olhos e esquecer uma coisa
dessas!
— Enfrentá-la será o mesmo que atacar o seu pai. E não aceito esse confronto
— adverti.
Ele se indignou.
— Ah, qual é? Resolveu defender a atitude dele? Mudou de concepção
também? Será que não conheço mais as pessoas que me criaram?
— Não estou defendendo ninguém, o que aconteceu foi abominável! Apenas
não posso aceitar que um filho entre numa guerra sangrenta contra o próprio pai,
mesmo que ele esteja errado! — alterei meu tom de voz.
Rico rosnou de volta.
— Sinto muito, mãe. Amo o papai, mas não posso deixar que outras pessoas
sejam assassinadas para sustentar o ego daquela bandida!
— E vai fazer o quê contra uma vampira, Rico? Você ainda não se
transformou, não teria força suficiente para atingi-la. Um soco seu só faria
cócegas nela...
— Não sei ainda, mas sentado e de braços cruzados é que não pretendo ficar!
— É uma acusação, filho? — suspeitei pelo modo inquisitivo como
pronunciou as palavras.
— Entenda como quiser. Somente me responda uma pergunta: consegue pôr a
cabeça no travesseiro e dormir sabendo que algum inocente pode estar morrendo
agora, sendo sugado por eles? Primeiro foram os pais do Albert, depois, o meu
amigo William. Amanhã, quem sabe? Posso ser até eu!
Fui obrigada a admitir que ele tinha razão. Um dos motivos para a minha
pressa em chegar à delegacia fora justamente esse: que Juliet o machucasse de
alguma forma. Fechar os olhos para uma barbaridade dessas soava desumano.
Não estava certo fingir que não sabia que inocentes morriam em detrimento de
um amor que imobilizava o meu cérebro. Os argumentos de Rico eram
totalmente convincentes, ele falava com desenvoltura e com um amadurecimento
tamanho que até me surpreendia. Meu maior problema nisso tudo persistia no
fato de não aceitar ver os dois seres que amava lutando: pai e filho, um contra o
outro. Se é que Richard teria tamanha coragem.
— Tá, discutiremos isso depois, assim que você voltar para casa — prometi.
— E quando acontecerá esse milagre?
— Sua tia tem esperança de que seja amanhã. É justamente por isso que não
arranco você daqui à força hoje mesmo, para que não seja considerado um
fugitivo da polícia.
Porque, claro, isso aconteceria. Vitória tinha razão, eu podia hipnotizar a
unidade policial inteira, mas não havia maneira de saber quantas pessoas foram
envolvidas na história, e obviamente nem todas estavam ali, naquele instante.
— Amanhã não é muito tempo para quem esperou tantos dias — armou-se de
coragem.
— Fique tranquilo. Se Ava não conseguir por bem, hipnotizo a unidade inteira
e, de qualquer maneira, você ficará livre amanhã.
— Nem precisaria tanto. Com essa roupa, convenceria qualquer policial a
abrir a minha cela... — insinuou, irônico.
Credo! Eu chamava tanta atenção assim?
— Que culpa tenho eu se a sua tia não possuía um vestido mais comportado
para me emprestar? Não tenho outra roupa, melhor usar este do que andar
pelada!
— Como assim, “não tenho outra roupa”? — desconfiou. — O que aconteceu
com as suas?
Magnífico. Esqueci completamente que ele não estava lá para ver o grande
circo pegando fogo. Se já ficara revoltado com o que aconteceu a ele, imagine
quando soubesse que a nossa casa virou fuligem de uma hora para outra, e com
tudo dentro.
— É mais um assunto para conversarmos amanhã, quando você estiver mais
calmo — decidi por prudência.
— Não consigo ficar calmo enquanto não me disser a verdade.
— De que vai me adiantar ficar lhe insuflando quando nada pode fazer quanto
a isso agora?
— Mãe, esconder também é uma forma de mentir. Seja sincera comigo, como
sempre me ensinou que fosse — exigiu.
Aaaargh!
— Tudo bem, Rico. Lá vai: a nossa casa incendiou e ficamos provisoriamente
instaladas no apartamento da sua tia.
Resumi do modo mais banal possível, na esperança de que ele não ligasse um
fato ao outro, pelo menos até que estivesse seguro, ao lado da família. E não deu
certo.
— Como assim “incendiou”?
— Incendiando, pegando fogo, coisas do gênero... — dissimulei.
— Mãe, não sou burro. Sabe muito bem o que quero que diga: o motivo do
incêndio.
— Os bombeiros ainda não deram o veredicto.
Bem, isso não era mentira. Embora tivessem achado os galões de gasolina em
torno da casa, o relatório final ainda não fora executado.
— Foi ela, não foi? — deduziu Rico, transtornado. — Aquela bandida não se
contentou em botar a culpa do assassinato em mim e resolveu me enxotar daqui
para não ter onde me apoiar!
— É, foi ela — admiti a contragosto. — E ainda teve a audácia de me ligar
para confirmar.
— Sabia! — grunhiu. — Uma mente insana como aquela não pararia por ali,
tinha que haver mais!
— É por isso que precisamos usar a cautela, Rico. Não estamos lidando com
uma pessoa normal, temos que pesar os prós e os contras antes de fazermos
qualquer incursão.
Ele me segurou pelos ombros, exigindo atenção.
— Só quero me diga uma coisa: o meu pai participou desse absurdo?
— Ela não disse nada sobre isso.
Desconversei para não piorar as coisas, se bem que Juliet realmente não havia
dito mesmo coisa alguma a respeito.
— E o que foi que ela falou?
— Que me queria longe daqui.
— E...? — completou, como se já soubesse que havia mais nas entrelinhas.
— Que, se eu não obedecesse as suas ordens, alguém, que pelo seu jeito de
falar me fez pensar que seria um humano, sofreria as consequências.
— Em outras palavras: eu — concluiu em revolta. — O único fraco que ainda
não se transformou!
— Tenho cá minhas dúvidas se o fato de ser imortal é realmente uma
vantagem, Rico. Devia fazer uma análise melhor depois de tudo o que
presenciou.
— Talvez sacrificasse a minha liberdade e, por outro lado, garantisse a
salvação de outros. Seria uma troca justa.
— Pois, a meu ver, preferia hoje estar do outro lado. Se soubesse que, ao
trocar a minha humanidade ficaria sofrendo como uma condenada agora, com
certeza teria mudado de ideia.
A porta que nos mantinha isolados repentinamente foi aberta. Taylor entrou na
sala.
— Sra. Wernyeck, infelizmente o tempo permitido esgotou.
— Sra. Wernyeck? — cochichou Rico ao meu ouvido.
— Poderia me conceder apenas mais uns minutinhos, oficial? — amaciei a
voz para convencê-lo sem precisar hipnotizá-lo. — Vou somente me despedir do
meu cunhado.
— Cinco minutos — permitiu sem pestanejar, dando meia-volta.
— Não disse? — resmungou meu filho, analisando minha roupa de cima a
baixo. — Se falasse mais um pouquinho, ele a deixaria até dormir na minha cela!
— Guarde o ciúme para as suas namoradas, lindinho. Não precisa mais me
defender para o seu papai.
— Continua sendo minha mãe!
— Tudo bem, agora tente dormir. Amanhã, sem falta, você sai daqui.
Ele me abraçou, esperançoso.
— Promete?
— Palavra de mãe.
Após me despedir, chamei todo o nosso clã para fazer uma pequena reunião à
frente da delegacia. Tínhamos que traçar um plano de vigilância permanente no
local. Nem que eu tivesse que ficar colada naquele oficial, aturando as suas
investidas, bem como as dos demais policiais, protegeria meu filho da loucura da
Juliet. Rico sairia dali de forma legal, são e salvo.
— Pode deixar que eu fico — ofereceu-se meu pai.
— Você não conhece a Juliet. É melhor que eu mesma vigie de perto —
recusei.
— Sozinha? Com esse bando de tarados por metro quadrado? Não mesmo!
— Acha que os policiais vão me prender? Mais fácil eu colocá-los em forma e
mandá-los marchar em torno da unidade.
— Engraçadinha... — Entortou os lábios, desdenhando. — Sei muito bem do
que é capaz de fazer com os humanos. Mas tenho minhas dúvidas quanto ao que
ela está planejando contra você. A testemunha disse que a viu com mais dois,
além de Richard.
— Se a intenção da Juliet fosse me matar, já teria feito. Fiquei muito tempo
fora de mim, a presa mais fácil do mundo.
— Não se pode prever a mente de um psicopata, Stephanie. Vou ficar com
você aqui e não aceito recusa! — sentenciou meu pai, como quem bate o
martelo.
— E quanto à Vanessa?
— Ela pode fazer companhia à Vitória enquanto Ava agita os papéis para a
liberação de Rico.
Aquiesci, agradecendo. Era bom demais saber que podia contar sempre com
ele.
E assim foi...
Passamos o resto da madrugada vigiando o local, atentos a qualquer som ou
movimento suspeito, como dois verdadeiros pitbulls. O mínimo balançar das
árvores virava motivo para uma averiguação. Ninguém me impediria de tirar o
meu filho da delegacia a salvo, custasse o que fosse.
Vinte e um

As estrelas que cintilavam no céu foram cobertas integralmente pelas nuvens,


cedendo lugar a um novo dia cinzento. No período da tarde, o vento formava
redemoinho com as folhas secas caídas das árvores, anunciando uma possível
chegada de chuva.
Melhor para mim.
Tirando algumas ocorrências corriqueiras na delegacia, tudo parecia
absolutamente normal.
— Será que Ava ainda vai demorar muito? — preocupou-se meu pai.
— Quer ir para casa, pai? Pode ir — liberei-o.
— Não é isso, sabe muito bem que não me canso. Fico apenas pensando no
meu neto encarcerado. Deve estar aflito...
— Aflito é pouco. Segundo Vitória, Rico chorou de raiva a noite inteira atrás
das grades — lamentei. — É uma humilhação muito grande ficar preso e ser
acusado do assassinato do próprio amigo sem ter culpa no cartório.
— Não vejo a hora de arrancá-lo daqui.
— Pelo tempo que saiu, Ava já deve estar chegando.
Passados alguns minutos, uma intuição veio à minha cabeça.
— Pai, o que acha de hipnotizar os policiais da mesma forma que fiz com
você em Londres?
— Para obedecerem ao seu comando e a mais ninguém?
— É uma forma de resguardar o meu filho. Não quero que eles digam a
ninguém para onde Rico foi, caso a psicopata ruiva venha atrás dele.
— Boa medida. Posso acrescentar mais um quesito? Por que não fazer com
que digam que Rico continua na cela? — sugeriu. — Assim podemos desviar a
atenção dela.
Meneei a cabeça, aceitando.
— Perfeito. Tem uma porta bem ao fundo da unidade. Podíamos sair por ela e
despistar a louca. É só pedir para a Vanessa não estacionar o carro aqui na frente.
— Vou avisá-la imediatamente — concordou.
O meu celular também deu sinal. Fiquei apreensiva, imaginando que poderia
ser a Juliet, mas, do contrário, era o número da Vitória.
— Oi, filha. Ansiosa? — indaguei, após me dar conta de que já era a quinta
vez que ela ligava.
— Agora o problema é outro...
Mais um? Sério, será que fiz uma plantação de problemas no meu quintal e
agora chegou a época da colheita? Assim não há Cristo que aguente!
Cobri a testa com uma das mãos e abaixei a cabeça, esperando pela próxima
bomba.
— Diga.
— Rico se comunicou comigo — revelou.
— Comunicou como? Ligou para você da delegacia?
— Não, mãe. Telepatia. Conseguiu responder às minhas perguntas...
Arregalei os olhos, compreendendo.
— Então...?
— Isso mesmo, é o novo membro do clã vampiresco! — brincou.
Minha nossa! Ele deve ter desejado tanto isso que acabou conseguindo! O
despertar da espécie finalmente aconteceu para Rico!
— Não é motivo para piada, filha. Tem noção do perigo que os policiais e os
presos podem correr se ele sentir sede? Você não teve dificuldade em lidar com
isso, mas as pessoas não são iguais!
— Fica fria. Ele não está com sede... ainda — garantiu.
— Droga! — resmunguei. — Mais uma preocupação!
— Rico gostou, mãe. Acredita que pode solucionar todos os problemas dele
agora.
— É justamente isso o que me atordoa, Vitty. A questão não é tão simples
assim.
— Bem, pelo menos ele concordou em fazermos uma reunião na casa do vovô
antes de tomar qualquer decisão.
— Amém — agradeci a Deus pela trégua passageira.
Mal desliguei o telefone, reparei num movimento anormal por trás dos
arbusto, levantando a cabeça para apurar. A agitação coincidia com a chegada do
carro de Ava, e o meu faro de vampira me dizia que aquilo não era normal.
Atravessei a rua e fui direto ao local. Ouvi passos rápidos de uma pessoa que
não conseguiu esconder uma mecha de seu cabelo avermelhado por trás de uma
árvore. Mais que isso: veio acompanhada. O cheiro exalado no ar era inebriante,
o mesmo que me levou ao êxtase, dia após dia, durante tantos anos.
Richard esteve ali, disso tive plena certeza. E, só de pensar na possibilidade de
reencontrá-lo, minha respiração disparou, ainda que eu nem precisasse dela para
sobreviver. Mesmo com tudo o que havia acontecido entre nós, o coração gélido
e sem vida dentro do peito sufocava sem o mínimo controle. O meu ponto fraco
soava como uma injustiça atroz.
Fingi não ver o seu rastro e retornei à unidade policial, completamente
amuada.
— Que cara é essa? — indagou Ava, no momento em que me avistou. — Rico
vai sair daqui agora.
Vamos, você devia ficar contente! — Era o que o seu semblante me dizia.
— Ansiedade — respondi, sem admitir a razão do meu descontrole.
Como acertamos, fizemos as hipnoses de cada um dos componentes da
corporação para despistar a ruiva maligna. Papai ficou lá mais algum tempo,
completando a farsa, como se ainda vigiasse a unidade policial enquanto saíamos
pelos fundos com Rico, monitorando seus novos instintos.

— Ao novo membro que acabou de ingressar na eternidade — brindou Ava,


oferecendo uma taça de sangue a todos os presentes, e especialmente a Rico, que
sentiria o gosto do seu alimento pela primeira vez.
— Preferiria que fosse de outra forma, mas enfim... — aceitou ele,
escondendo as suas presas com as mãos, atiçadas pelo cheiro do sangue.
O ato quebrou momentaneamente o clima tenso no ambiente.
— Por que não nos conta tudo o que aconteceu desde o dia em que nos levou
para conhecer a sua... ex-namorada? — sugeriu Vitória, curiosa.
Rico se mostrava pouco confortável ao ter que relatar seus dias, entretanto,
não se negou a falar a verdade. Bebeu antes o conteúdo da taça até o fim, repetiu
a dose para se saciar por completo e iniciou:
— Fui igual a um otário ao encontro marcado para apresentá-la à minha
família e, como já devem saber, encontrei a Juliet e o papai... juntos. — Exibiu
uma ruga na testa, entristecido. — Aliás, preciso pedir perdão à minha mãe por
aquele dia. Ela estava abalada com a morte da vovó, e eu insisti para que
comparecesse a esse absurdo! Não consegui deixar de cumprir o desejo da Juliet.
— Você foi induzido por uma vampira, Rico. Não conseguiria agir diferente
— desculpei-o. — Agora continue...
— Saí de lá alucinado. Fiquei tão decepcionado com a traição que peguei o
carro e dirigi sem direção definida. Não queria falar com ninguém. Passei a
primeira noite deitado no banco do veículo e a segunda, na areia da praia, em
Boca Raton. Depois de dias vagando por aí, resolvi voltar e tirar satisfação.
Afinal de contas, o que ouvi durante toda minha vida foram sempre noções de
honra, amizade, amor... Nunca uma deslealdade como essa!
Contorci meus dedos nervosamente, louca para que ele pulasse logo essa
parte.
— Antes, senti necessidade de conversar com um amigo e procurei pelo
Andrew. Passei a tarde inteira na casa dele e, apesar de ter sido aconselhado a
não sair atrás da Juliet, fui... e me arrependi — lamentou —, porque no meio do
caminho encontrei o William. Ele fez um sinal, pedindo que eu estacionasse o
carro, e acabei aceitando, deixando que se sentasse no banco do carona.
Discutimos um pouco sobre a nossa briga, ele se mostrou arrependido, e depois,
a última coisa que lembro é a imagem do William estendendo a mão para me
pedir desculpas. De uma hora para outra, acordei sozinho num ambiente
completamente diferente.
— Foi hipnotizado — concluí.
— Exato. O lugar era afastado da cidade, o cheiro de sangue impregnava o
ambiente. — Rico fez uma expressão agonizante. — Levantei do sofá onde
fiquei deitado e vim andando com cautela pela casa até entrar numa sala. O
William estava lá... — quase engasgou ao falar, emocionado. — A Juliet sugava
o pescoço dele de um lado, e o... papai, do pulso.
— Richard? — Seu avô se levantou da cadeira, incrédulo.
Ava também se recusou a acreditar:
— Seu pai não faria uma coisa dessas, Rico. Eu o conheço há praticamente
um século. Nunca atacou ninguém.
— Tia, eu não estou louco! Ele fez isso, sim! — garantiu. — E havia mais
dois vampiros em cima do corpo de um afro-descendente! Já disse para a mamãe
que ele está de quatro por aquela mulher, aceitando qualquer chantagenzinha
besta dela por receio de perder o seu amor!
Aí fui eu que me levantei.
Queria fugir dali para longe, procurar um lugar onde não pudesse ouvir mais
aquilo. Sentia-me como uma fera enjaulada, sufocando. Debrucei na primeira
janela que avistei em busca de ar, prendendo o choro a todo custo. Meus olhos
pareciam ferver de tão vermelhos, e as lágrimas contidas borbulhavam, presas de
mágoa incontida. Eu estava a ponto de explodir.
— Desculpa, mãe — lamentou Rico. — Sabia que sofreria quando eu dissesse
a verdade.
— Tudo bem, filho. Pode... continuar... — gaguejei com a voz embargada.
— Está prendendo o choro, Stephanie. Vai aliviar se deixar sair — Ava
aconselhou.
Rangi os dentes.
— Negativo. Já me humilhei o suficiente. Fale, Rico! — ordenei.
Ele se sensibilizou comigo, mas obedeceu:
— Sofri outro tipo de apagão e acordei em frente à nossa casa. Entrei em
pânico quando me vi deitado ao lado do corpo sem vida do William. Toquei a
campainha várias vezes, e ninguém atendeu a porta. Acho que perdi as minhas
chaves.
— A mamãe entrou em depressão profunda, não acordava de jeito algum. Eu,
vovô e tia Ava tínhamos saído para procurar por você — esclareceu Vitória.
Uma bola de neve. Era isso que havia se tornado a minha vida. Cada vez que
essa bola girava para frente, os problemas e desilusões aumentavam. Queria
apenas saber em qual ocasião ela se espatifaria, soterrando a minha própria
cabeça. Por enquanto, em sua louca trajetória, a única coisa que essa gélida
esfera fazia era devastar tudo o que invariavelmente atravessasse o meu
caminho.
— Quando percebi que a intenção dela foi me incriminar, resolvi fugir —
emendou Rico. — Encontrei uma casa abandonada no lado norte da cidade e
resolvi que faria o jogo inverso: iria persegui-la discretamente para ver se
conseguia arrumar a prova da minha inocência.
— Perseguir uma vampira, Rico? Ficou louco? — desdenhou Ava. — Você
corria o risco de morrer!
— Sei disso, mas eu não tinha mais nada a perder. Já que ela destruiu a minha
vida, receberia o troco.
— De que maneira, filho? — perguntei. — Chamando a polícia? Ela
hipnotizaria e sugaria todos eles em dois tempos!
— Antes eu não sabia como. Agora...
— Agora o quê? — instiguei.
— Sei onde ela se esconde. Mudou de local, está sempre migrando.
— E daí?
— Volto lá e arranco o pescoço deles, um por um. Posso até não ser
inocentado, mas tenho o dever de acabar com essa carnificina!
Vitória recuou.
— Está pensando em enfrentar o papai?
— Ele terá que decidir de que lado vai ficar — retrucou o irmão, firme.
Ergui o dedo em riste, alertando-o:
— Contra o seu pai, não, Rico. Já disse que não admito isso!
— Mãe, pessoas estão morrendo!
— Fala como se eu não me importasse com elas! — reclamei. — Ponha-se no
meu lugar, filho. Não posso assistir a um combate entre duas pessoas que amo!
A voz dele se tornou sombria.
— Acha mesmo que quero lutar contra ele? Também amo o meu pai, mãe!
Mas, se ele ficar ao lado dela e contra a vida de humanos que tanto prezou, que
escolha eu tenho? Fui criado e educado para pensar assim! E, se o papai me
amasse de verdade, não teria deixado que aquela desgraçada manchasse o meu
nome!
— Não iremos a lugar algum discutindo desse jeito. Esfrie a sua cabeça e
amanhã conversamos com mais calma — tentei apaziguar.
Eu precisava demovê-lo dessa ideia. Por mais que me afetasse diretamente a
questão humanística, esse embate não poderia acontecer. Não entre os dois. Se
fosse contra qualquer outro vampiro, eu estaria na linha de frente. Contra
Richard, não. Definitivamente.
— Só para constar, mãezinha — retornou Rico ao assunto —, não mudarei de
planos amanhã. Se não quiser me ajudar, entendo perfeitamente
— Rico, caso sinta um pingo de amor por mim, desista de fazer mal ao seu
pai! — grunhi.
— Defende o papai quando ele a largou por outra! E não por uma fêmea
qualquer, mas pela criatura que destruiu a minha vida! — gritou.
Olhei-o bem dentro dos olhos antes de finalizar a discussão:
— Será que não percebe que, se fizer isso, indiretamente estará me matando?
Não compreende que, mesmo que ele me ignore, me odeie, me abandone, me
humilhe, preciso ter certeza de que continua existindo? É claro que não. Nunca
amou de verdade, só vai entender quando sentir na pele!
Dei de ombros e saí de perto para evitar um novo choque, fingindo não notar o
olhar de compaixão que todos me lançaram diante da forte declaração. Desci as
escadas da casa do meu pai à procura de um lugar calmo para aliviar o peso da
angústia. Aquele bate-boca removeu o resquício de equilíbrio que ainda me
mantinha de pé.
Seria muito desejar um pequeno instante de paz? Um ínfimo momento que
fosse?
Eu merecia mesmo ter que passar por isso, ver duas pessoas que amava se
digladiando feito bárbaros? Pai e filho em campos opostos?
Não, tinha que haver uma solução. Tinha que haver.
Vinte e dois

Durou pouco o meu desejo de trégua. Muito pouco.


Parecia que quanto mais ansiasse chegar ao fim dessa história, mais ela me
daria uma rasteira e retornaria ao início, feito correnteza em mar revolto. Eu
necessitava daquele tempo para respirar e pensar. Tudo o que pedia eram apenas
alguns minutos de silêncio e de paz. Mas quem disse que as minhas necessidades
ou súplicas valiam alguma coisa? Um problema a mais ou a menos não faria
muita diferença no meu estado, faria?
Oh, sim. Faria, é claro que faria...
— Alô — atendi o celular por impulso, sem avaliar antes o número estampado
no visor.
— Stephanie?
Paralisei ao ouvir aquela voz.
— Perdeu a língua, queridinha? — O risinho debochado da Juliet a denunciou.
— Claro que sim. Mandei você para o inferno, e, pelo visto, nem lá a
aceitaram. Por que será? Não gostam de concorrência?— zombei.
— Vejo que tem senso de humor. Parabéns!
— O que você quer? Não tenho tempo a perder com a “vampirinha de Beverly
Hills”, prezo muito pouco conversar com mentes vazias.
— Vazia é uma palavra pouco verossímil para quem dorme ao lado de um
gato insaciável feito Richard, não?
Engoli mais uma vez o choro.
— Ligou só para me dizer isso? Então tchau!
— Espera! — gritou ela do outro lado da linha. — Ainda não dei o meu
recado.
— Quem disse que me importo?
— Deveria, vai por mim.
— Nossa! Borrei nas calças de medo! — caçoei.
— Ok, falo mesmo assim. Deixei bem claro que queria você longe daqui ou...
— Ou vai morder o meu filho? — simulei apreensão.
— Rico foi muito vigiado, então mudei de alvo.
— Ótimo, acerte primeiro no centro do seu ego, que é bem grande. Assim não
tem como errar.
Ela riu.
— Tão hilária, não? Sua cunhada e a sua filha não vão achar a mínima graça
quando souberem que você ignorou meu aviso...
Petrifiquei instantaneamente.
Ela nos distraiu e pegou Albert e Andrew? Fez com que eu pensasse que a
mira era Rico, apareceu por lá para conferir se o plano havia dado certo e levou
os dois para me chantagear?
— Você está blefando. — Embora em pânico, a minha voz aparentava
compostura.
— Quer que envie o corpo de quem para uma acareação? — debochou. —
Talvez eu seja boazinha com a sua filha e elimine a vovó do namoradinho. Sabe
como é, a velha é chata e resmungona. De repente, Vitória vai me agradecer,
acredito até que esteja fazendo um bem ao namoro dos dois.
Chutei o meio-fio da calçada para extravasar a raiva.
— Por que quer tanto que eu vá embora? Tem medo de quê? — rosnei.
— Para falar a verdade, detesto qualquer tipo de ex me rondando,
especialmente ex-esposas. São todas bichas muito pegajosas, exigentes...
Teme a concorrência, isso sim!
Ora, que se danasse a insegurança da maluca! Quem optou por ficar com ela
foi Richard.
— E que garantia terei de que eles sairão ilesos?
— A minha palavra.
— Ou seja: nenhuma.
— Tem que pagar para ver, bruxinha — zombou do meu apelido. — Dou
como prazo até o raiar do dia para você e a sua trupe zunirem do meu espaço. Do
contrário, as mulheres da casa terão muitos motivos para chorar ad aeternum.
— Se encostar um dedo neles, juro que a mato!
— Tchau, Stephanie. — A víbora não se abalou. — Espero não tornar a vê-la
nunca mais. Ah, e não se esqueça: ao raiar do dia...
Ugh!
Meu filho estava coberto de razão. Tínhamos que eliminar aquele câncer da
sociedade. Nunca fui a favor do estilo “justiça pelas próprias mãos”, mas, nesse
caso, não havia outra saída. Jamais poderia ter certeza de que ela dizia a verdade,
e a perda de qualquer uma daquelas pessoas seria a razão da infelicidade
permanente da Ava e da Vitória.
A desgraçada me colocou em xeque-mate.
Se atacasse Juliet e Richard a defendesse, eu seria obrigada a amargar o
restante da eternidade chorando uma possível morte dele. Se fosse embora sem
dizer nada e algo de mal acontecesse ao Albert ou ao Andrew, minha filha e Ava
seriam as infelizes. Diante disso, precisava ser coerente. Os rapazes não tinham
culpa alguma naquela guerra.
— Onde fica o esconderijo da Juliet? — Entrei na sala onde havíamos nos
reunido anteriormente, decidida.
O olhar desconfiado do meu filho me atingiu.
— Pensei que discutiríamos o assunto somente amanhã.
— Não, Rico. Quero resolver hoje.
— O que foi que a fez mudar de ideia tão rapidamente? — estranhou Ava.
— Não vai querer saber, garanto.
Ava travou minha passagem.
— Stephanie, está me deixando apreensiva.
— Fiz uma pergunta e você não me respondeu, Rico. Onde fica o esconderijo
dela? — repeti.
— Pra quê? Não vai ter coragem de chegar perto dele mesmo! — insinuou,
sombrio.
— Quer pagar para ver? — alterei o timbre de voz, denunciando o
desequilíbrio.
— Quem ela pegou para você ficar assim? — insistiu Ava, pescando o sentido
da coisa.
Calei instintivamente a boca. No íntimo, queria resolver tudo aquilo sozinha.
— Stephanie! — Segurou-me ela pelos ombros, exigindo uma resposta.
— Albert...
Ela se desesperou.
— O quê?
— E... Andrew.
— Não! — gritou minha filha.
— Maldita! — vociferou Rico.
— O nosso prazo para ir embora expira ao amanhecer. Preciso ir urgente até o
esconderijo da Juliet, ou eles vão morrer como o William! — alertei.
— Você não, nós dois! — impôs Rico.
— Três! — corrigiu Ava, indo imediatamente inspecionar se os seus arcos e
flechas ainda permaneciam guardados na mala do carro.
— Todos nós vamos — emendou o meu pai, decidido.
— Tudo bem, mas com uma condição: quero partir eu mesma o pescoço dela
e... — Perdi o fio da meada, pensando na angustiante probabilidade. — Bem, se
Richard... Se ele partir em defesa dela, eu...
— Pode parar, mãe — intercedeu Rico, cáustico. — Você não vai enfrentar os
dois sozinha enquanto cinco de nós ficamos com os outros dois. Não tem
cabimento!
— Tem certeza de que são somente dois? — sondou Ava.
— Foi o que vi — confirmou ele.
— Não podemos contar com a sorte, temos que nos preparar para o caso de
existirem mais — analisou papai, provavelmente se lembrando de como
Demétrius agia.
— Não há mais tempo para nada, pai. A guerra foi declarada, e estou saindo
daqui decidida a ganhar. Só quero saber antes se aceitaram a proposta que fiz —
exigi.
— Tudo dependerá da atitude de Richard. Não deixarei que ninguém faça
algum mal à minha filha — declarou meu pai.
— Também tenho motivos para partir o pescoço da Juliet — lembrou Rico.
— Ok, se eu precisar de ajuda, atraquem-se com ela — propus. — Com
Richard, não!
Vanessa se manifestou:
— Stephanie, sabe que te adoro, mas, se for para proteger alguém daqui, não
prometo não.
— Estou com a Vanessa — disse Ava.
— Concordo plenamente — emendou meu pai.
A fúria me apossou.
— Pois, se algum dos meus filhos se atrever a ir contra a minha ordem, pode
esquecer que possui mãe!
— Não vou avançar no papai, mãe — prometeu Vitória.
Girei os olhos na direção do meu filho, esperando para ouvir sua resposta.
— Prometo, desde que ele não esteja atacando você ou a minha irmã, que é a
sua família direta — impôs Rico.
— Ele não teria coragem de fazer uma coisa dessas — assegurei.
Ava quebrou a discussão:
— Ok, já que estamos acertados, cada um busca um instrumento cortante.
Como bem sabem, temos que atingir o coração e o pescoço, não importa a
ordem. Também precisamos levar álcool ou gasolina para queimar os corpos.
Rico desceu para resolver o problema dos galões de gasolina, e os demais
familiares foram buscar a arma que melhor lhes conviesse. Vitória parecia ainda
duvidar do acontecido, por isso enviou uma mensagem para Andrew, que
costumava a colocar o celular no modo silencioso, usando apenas o vibrador. Já
eu, adaptei um facão num cinto, pelas costas.
— Stephanie, está mesmo preparada para enfrentar essa situação? —
perguntou Vanessa. — Vejo o sofrimento estampado no seu rosto...
— Eu me sinto encurralada, Vanessa — murmurei. — Prefiro suportar a
minha dor eternamente a enxergar o sofrimento dos meus filhos, ou até mesmo o
de Ava, que levou tanto tempo para reencontrar o seu verdadeiro amor.
— Sinto muito que tenha que passar por isso. Se eu estivesse no seu lugar,
acredito que exigiria a mesma coisa.
— Posso não ter sido o primeiro amor dele, a verdadeira escolhida, mas não
quero vê-lo morto, entende? Se a Juliet não estivesse destruindo a minha família,
preferiria mil vezes fugir para o outro lado do mundo e deixar que Richard seja
feliz com ela em paz.
— Renuncia ao que sente para deixá-lo ser feliz com outra? Não é uma atitude
muito vampiresca.
— Nunca fui o modelo padrão da espécie, sabe muito bem disso.
Soltando fogo pelas ventas, Rico surgiu na nossa frente.
— Mãe, é verdade o que o vovô acabou de me dizer? Que aquela desgraçada
trancou você e a Vitty com barras de ferro dentro da nossa casa quando ateou
fogo?
— Pai! — repreendi-o. Não era hora de jogar mais lenha na fogueira.
— Por acaso contei uma mentira? — reclamou papai.
— Aaaaargh! — grunhiu Rico com os punhos fechados, ainda mais revoltado.
— Vamos embora!
— Só falta a sua irmã. Cadê a Vitty? — indaguei.
— Foi pedir à Ava um arco e flecha emprestado — respondeu Vanessa.
— Arco e flecha? Desde quando ela sabe manipular essa coisa?
A voz malcriada da Vitória reverberou pelas minhas costas.
— Não deve ser difícil.
— Vai acabar se atrapalhando... — avisei.
— Garanto que não. Também estou levando este facão. — Mostrou-o na
cintura.
Isso não me deixou menos receosa, mas diante do impasse, do lamento por
não ter como impedir meus filhos de se arriscarem e tomarem suas próprias
decisões, declarei:
— Ok. Independente do que acontecer, queria apenas dizer que amo todos
vocês. Que rogo para que tudo termine bem e que cada um volte inteiro para
casa.
Uma série de espalmar de mãos entre nós selou o desejo unânime.
— Rico dirige na frente, indicando o caminho, e nós seguimos — sugeriu o
avô.
— Certo — concordou meu filho. — Estaciono distante da casa dela e
caminhamos a pé até o local sem dar um pio para não levantar suspeitas. Foi
assim que consegui descobrir o esconderijo.
E assim partimos, divididos em três carros com vidros escuros, em direção a
uma guerra que jamais quis que fosse declarada.
O que me dava medo nisso tudo não era ter que enfrentar o desconhecido ou
morrer em campo, e sim a possibilidade de travar um combate real com alguém
com quem dividi tantas conquistas por anos a fio. Se esse episódio acontecesse,
pela primeira vez na vida já teria perdido uma batalha antes mesmo que ela
sucedesse. Minhas armas não afetariam Richard porque eu não teria coragem de
machucá-lo, tampouco deixaria que alguém o fizesse.
Perder ou vencer o oponente me faria sair arruinada de campo.
Talvez realmente fosse esse o preço justo a pagar para ver os meus filhos
livres: morreria por amor ou de amor, sendo que considerava a segunda opção
pior, pois morrer de amor era um martírio que jamais teria fim.
Jamais.
Vinte e três


Durante todo o percurso, procurei me manter calada enquanto cada um dava a
sua opinião sobre o que deveria ser feito. Na verdade, o bairro nem era tão
distante assim de onde morávamos, apenas a ermo e com pouquíssimas casas na
rua, na sua maioria velhas e abandonadas, lembrando cenários de cidades
fantasmas. Lugar perfeito para fazer atrocidades sem que ninguém os visse.
Rico estacionou o carro em meio a arbustos e plantas, cerca de meio
quilômetro antes. Viemos nos rastejando pelo mato até encontrar, ao longe, a tal
casa onde Juliet se escondia. O ambiente era escuro e desbotado, bem diferente
da paisagem colorida e feliz que havíamos planejado para a nossa vida. Como
poderia Richard preferir um necrotério deprimente desses a um lar sadio,
familiar e repleto de amor por todos os lados?
À primeira vista, dava a impressão de que não havia ninguém pela redondeza,
o que de certa maneira me deixava ainda mais receosa. E se a ruiva maldita
tivesse migrado para outro local? Como iríamos libertar Albert e Andrew?
Um súbito cruzamento de olhar com Rico indicou a presença de alguém,
possivelmente um vampiro, dirigindo-se ao fundo do quintal. Vanessa e meu pai
combinaram de dar a volta por trás do terreno para espioná-los, ao passo que Ava
e Vitória tentariam entrar discretamente por uma janela à procura dos reféns.
Meu filho rumou ao lado oposto ao do avô, e eu tomei a dianteira.
A porta da frente jazia escancarada. Entrei em silêncio. Não usava sapatos
justamente para não fazer barulho. À espreita pelos meus sentidos, dei passos
cautelosos, certificando-me de que na parte de baixo da casa não havia ninguém.
Ava desceu as escadas logo em seguida, ao lado de Vitória. Fez um gesto
negativo com a cabeça, confirmando que não havia presos no andar superior.
Sendo assim, o certo era seguir o caminho do primeiro vampiro avistado,
tomando cuidado para não sermos pegas de surpresa no trajeto.
A passagem para o fundo da casa era tortuosa e repleta de plantas de
diferentes tamanhos, que no breu da noite confundiriam qualquer humano.
Dificilmente uma pessoa que gritasse ali seria ouvida por qualquer transeunte,
até porque vampiros hipnotizariam suas vítimas para que ficassem caladas na
hora do desjejum.
Bem, isso, obviamente, vampiros comuns.
Sendo alguém sádico, como suspeitava que a Juliet fosse, não duvidaria que
ela até gostasse de ouvir uns gritos de horror só para sustentar o seu orgulho de
poderio. Julgava-se imbatível e dominadora. Pessoas assim adoram ser temidas,
e os gemidos ou pedidos de socorro apenas ajudam a comprovar a sua
autoridade, viram uma motivação a mais para uma mente perversa.
Dito e feito.
Não demorou muito para que ouvíssemos um grito de pânico vindo de um
galpão fechado, bem ao fundo do terreno. Apressamos o passo, com medo de
não dar tempo de salvar a vida de quem gemia, um clamor que supostamente
sugeria ser de uma mulher. Vindo por último, acabei escutando outra voz
ressonar por uma passagem transversal, e para lá decidi seguir sozinha.
Caminhei apenas uns cinquenta metros até dar de cara com um largo, onde no
centro havia uma alguma coisa incendiando. Pelo odor fétido, suspeitei que fosse
mais um corpo pronto para ser carbonizado, mascarando as provas.
— Boa noite, Stephanie. Estávamos esperando pela sua visita. — A voz
inescrupulosa da ruiva maldita ecoou pelas minhas costas.
Girei rápido as pernas, mantendo o semblante inexpressivo. Demonstrar
receio só iria fazê-la regozijar.
— Esperava por mim? — indaguei, sem ter muito tempo para formular uma
pergunta decente.
— É lógico que sim. Você é bastante previsível. Sabia que não resistiria e viria
correndo
— De onde tirou essa certeza?
— Fácil demais. Os que amam pensam com o coração, e você simplesmente
não raciocina com o cérebro. Fiquei cronometrando para ver quanto tempo
levaria até você chegar. Levou menos de uma hora, um recorde e tanto.
— Jura? Então ficou tão empolgada com a minha visita que resolveu me
recepcionar? — Fixei os olhar no seu pescoço enquanto uma das minhas mãos se
encaminhava à parte de trás da cintura para alcançar o facão.
— Bingo! Mas, se eu fosse você, não me animaria tanto. Não costumo ser
razoável com quem entra na minha casa sem bater na porta antes.
— Toc, toc, toc... — encenei no ar com sarcasmo. — Sua encomenda chegou,
madame. E... me desculpe por não sentir medo, ok?
— Deveria. Seu papai e a companheira dele não tiveram muita sorte na
empreitada — ironizou, sugerindo que eles haviam sido pegos.
Como saber se ela não blefava? E se estivesse fazendo isso apenas para me
desestabilizar ou colher informações?
— Não acredita? — Juliet parecia que lia os meus pensamentos.
— Não sei do que você está falando.
— Gabriel! — chamou ela alguém.
O tal vampiro loiro surgiu trazendo o meu pai com os braços em torno do seu
pescoço. Vanessa veio travada pelo outro, o de cabelo caramelo.
E agora? Onde estão os outros? — indaguei-me em pânico, observando o
cenário à minha volta.
— Preocupada com o filhinho? A essa altura, já deve ter tido o mesmo
destino. Ou virado lanche.
Ela não sabia que Rico havia se transformado — deduzi. Consequentemente,
havia uma esperança.
Assim mesmo, minha preocupação aumentou quando notei que os dois
vampiros amarravam meu pai e a Vanessa com correntes de ferro, imobilizando-
os por completo, para logo após saírem à caça do restante da família.
— Não achou mesmo que eu cairia naquele disfarce ridículo que fizeram à
frente da delegacia, achou? — provocou Juliet.
Ouvi som de berros vindos de onde Vitória e Ava se dirigiram e fiquei
apreensiva. Seriam delas aqueles gritos?
— Sra. Wernyeck? O que faz num lugar como este? — A voz grave do oficial
Taylor me surpreendeu mais uma vez pelas costas.
— Ora, ora... Que maneiro! O seu novo apaixonado também veio para o
jantar? — Ela gargalhou.
Ah, não! Ele tinha que aparecer para complicar ainda mais a minha vida? Que
droga! Além de lutar, seria também obrigada a protegê-lo?
— Oficial Taylor, o senhor me seguiu? — perguntei, nervosa.
— Fiquei preocupado com a ameaça que recebeu pelo telefone e decidi
investigar.
— Muito obrigada, mas nem precisava — agradeceu Juliet, em escárnio. —
Meu estoque alimentício ainda é suficiente para todos nós.
Três rugas se formaram na testa de Taylor, estranhando:
— O que está acontecendo aqui?
— Policial, vá embora agora! — ordenei, cravando meu olhar no dele.
Levei apenas um segundo para descobrir que havia algo errado nessa história,
o surgimento daquele homem do nada me soava esquisito demais.
O oficial Taylor não obedeceu ao meu comando. Ao contrário disso, tentou
me agarrar pelo cotovelo. Recuei alguns passos por reflexo e, quando clareei
melhor a minha visão pela ausência de luz, descobri a razão da sua
insubordinação: ele não era mais humano. Virou mais um soldadinho dela, um
elemento providencial para completar o seu esquema execrável. E eu havia
acabado de ser sordidamente enganada.
Aquela ligação da delegacia provavelmente já fazia parte do plano para que eu
caísse na cilada, e, do jeito que me entretive com as ameaças da Juliet, sequer
prestei atenção às mudanças que já deviam estar ocorrendo com ele. Talvez ela
até tivesse percebido a minha esquiva em relação às investidas do oficial e
espertamente o convocou, certa de que eu evitaria o contato.
— Sr. Taylor, escolheu o lado errado — quis convencê-lo, recuando. — É
apenas mais uma peça descartável nas mãos da Juliet.
— As promessas dela foram bem mais palpáveis que as suas — contrapôs,
confirmando o que pensei.
Recuei mais um passo, segurando o cabo da faca por trás.
— Nunca prometi nada.
— Mas ela, sim. Prometeu que me deixaria fazer o que quisesse com você
depois que tudo terminasse. — Mirou detidamente no mau posicionamento do
meu vestido, que acabou revelando além do esperado.
— Acredita em vampiros, Sr. Taylor? Não vai conseguir fazer nada do que
pensa se não for apaixonado por mim — alertei, armando-me em defesa.
Ele deu mais um passo à frente.
— E quem disse que não sou?
— Está enganado, policial. Ficou apenas impressionado com uma vampira, só
isso.
Taylor sorriu em ironia, inclinando-se na minha direção.
— Tem razão, fiquei impressionado demais. Fascinado. Tanto que não
consegui tirá-la do pensamento desde que a vi pela primeira vez. Nunca alguém
me despertou tanto desejo.
Quase tropecei numa pedra, desviando-me dele.
— Os vampiros têm esse poder atrativo. Não é por mim que está fascinado,
garanto.
— Subestima-se muito, Sra. Wernyeck. Deveria aprender a se olhar mais no
espelho.
Vou quebrar todos os espelhos do mundo, isso sim!
— Aproxime-se mais um passo e vai se arrepender de ter nascido!
— Relaxa, amor — brincou — Briga de amor não dói.
Taylor se jogou por cima de mim, tentando me imobilizar. Consegui sacar a
faca presa à cintura e atingi-lo no tórax, porém longe do coração. Ele não se
intimidou: segurou a minha mão armada, empunhando-a de volta.
Instintivamente busquei pelo apoio de Richard, na esperança vã de que ele
surgisse para me salvar, da mesma forma como aconteceu na época de
Demétrius... e me decepcionei com tamanha ausência. Tive vontade de desistir
de tudo, e só não o fiz porque pensei nos meus filhos. Precisava ganhar aquela
guerra pela felicidade deles. Juliet não tinha a menor noção da fúria que sentia
uma mãe quando alguém tentava prejudicar a nossa prole. Lembrei da minha
mãe na hora, de como ela no passado entrou na nossa casa para lutar pelo direito
que os meus filhos tinham à vida. Lembrei também da mãe do William, do
sofrimento que passava pela perda.
Não, eu não tinha direito de desistir.
Se existia uma pessoa no mundo capaz de reunir forças para acabar com tudo
aquilo, essa precisava ser eu.
Mesmo amargando a dor de levar um corte na altura do ombro, ergui o joelho
e o atingi em cheio na virilha, aproveitando que o policial se agachou de dor para
pegar a outra faca da parte de trás do meu cinto e cortar a sua garganta, fincando-
a depois no coração. Foi a sensação mais horrível que experimentei em toda a
minha existência: acabara de tirar uma vida.
Acabara de matar alguém.
Doía enxergar aquele escasso sangue gelado escorrendo pelas minhas mãos,
um sangue que não era destinado a me alimentar e vinha acompanhado pela dor
daqueles a quem Taylor faria falta. Ainda assim, não podia abandonar o campo
de batalha. A verdadeira culpada por tudo isso continuava à minha espera.
Cravei os olhos na Juliet com determinação, e, pelo que consegui notar, essa
vitória ela não esperava que eu obtivesse. Com certeza, jamais imaginou que um
exemplar magro e pequeno da espécie pudesse ter força e astúcia suficientes para
enfrentar um policial vampiro grandalhão.
— Agora é a nossa vez, querida. — Avancei um passo na sua direção,
empunhando a faca na mão.
Ao longe, distingui pequenos relances de outra luta acontecendo. Apenas tive
certeza de que não se tratavam do meu pai ou da Vanessa, considerando que os
dois continuavam presos.
— Ah, não. Não quero sujar o meu vestido, custou muito caro — zombou.
Trinquei os dentes.
— Está com medo de quê? Não se garante?
— Sou uma lady, darling. Não saio pelas ruas brigando com facas na mão,
descalça ou andando com roupas baratas e emprestadas.
— Ora, não se preocupe. Ninguém vai reparar nas suas etiquetas no inferno.
— E a caipira veio trajada desta forma por qual razão? Esperava reconquistar
Richard enrolada numa chita?
— Fique tranquila, ameba cintilante. Deixarei o seu noivinho livre até o seu
próximo retorno. Se você possuir uma alma para retornar.
Ela se divertiu.
— Sabia que esperei ansiosamente por este momento?
— Sonhou com a própria morte? — fiz a última preparação para o ataque.
— Não. Ver você morrendo pelas mãos do meu amor. Realmente, se o policial
tivesse conseguido, não teria tanta graça e... Ops! Nem precisou chamar! Aí vem
ele...
Minhas pernas travaram, começando a tremer involuntariamente. Tinha
certeza de que ficaria abalada ao vê-lo, entretanto, não imaginava que me
desestabilizaria antes mesmo, só de imaginá-lo. Richard surgiu do nada e se
postou ao lado dela. Eu queria ser forte o bastante para não levantar os olhos e
suprimir a vontade de encará-lo, mas não deu.
A garganta simplesmente fechou.
Richard continuava lindo, usando roupas de corte impecável, como jamais o
vi trajando algum dia. Aqueles olhos azuis continuavam dominando o meu
coração, mesmo que a mente travasse uma batalha interna contra isso. Por
poucos segundos, nossos olhares se cruzaram, e quase perdi o foco, esquecendo
momentaneamente o motivo pelo qual viera.
— Nervosa? — Ela instigou, inclinando o rosto dele para dar um selinho em
sua boca.
— Pode apostar que não — grunhi, dando um passo à frente.
Ele esticou o braço como num aviso velado de que a defenderia.
Pela enésima vez naquele dia, engoli o choro. A cena era forte demais para
suportar sem derramar uma única lágrima, sobretudo ao perceber que os olhos
dele enegreciam ao simples contato daquela mulher. Todavia, desmoronar na sua
frente seria admitir a derrota e intensificar ainda mais o sentimento de
humilhação.
Não daria esse gostinho a eles. Não mesmo.
— Stephanie, por favor... — suplicou ele para que eu me retirasse.
— Não fui eu quem começou esta guerra, Richard, mas não saio daqui sem
terminá-la.
— Está vendo, amor? — amaciou Juliet a voz. — É o que tenho falado nos
últimos dias: não há como recomeçarmos do zero enquanto a sombra da sua
antiga esposa pairar entre nós. Vai mesmo deixar que ela nos separe outra vez?
Cruzei o olhar com o dele e senti um aperto no peito. Se Richard satisfizesse o
capricho daquela bandida, eu estaria perdida. Não era possível que depois de
tudo o que vivemos ele tivesse tamanha coragem.
— Você decide, querido: ou ela, ou eu — lançou Juliet o ultimato.
Mal acreditei quando vi as pernas dele se movimentando em minha direção.
Ele seria mesmo capaz de me matar? O que mais eu poderia fazer além de fugir?
Não iria enfrentá-lo de jeito algum. Corri entre os arbustos em círculos tentando
driblá-lo, de modo a observar uma verdadeira guerra iniciando naquele ambiente
em que acabara de sair.
Ava surgiu com a minha filha, aparentemente acompanhada por Albert e os
demais reféns, e atingiu com uma flecha um dos vampiros que eu havia visto
antes. Meu pai forçou a corrente e também conseguiu se libertar. A partir daí, só
deu para ver as cenas em relances, tendo a única certeza de que não eram apenas
quatro vampiros no total — incluindo Richard —, como meu filho avaliara,
embora dois deles já tivessem sido abatidos, um pelas minhas próprias mãos.
Provavelmente somavam uns cinco ou seis, o que dificultava o resultado final.
— Rápido, Richard! Está deixando a Stephanie fugir! — estimulou-o mais
Juliet.
Sua velocidade aumentou. As pernas dele eram maiores mais e musculosas,
consequentemente, alcançariam uma nanica como eu em três tempos. Buscando
desviar de mais um arbusto, tropecei num galho de árvore próximo ao local de
maior conflito e caí de costas. Senti as mãos geladas de Richard me agarrarem
pelo ombro, encaixando o braço em torno do meu pescoço, juntamente com o
som de um soluço abafado.
— Não, nele não! — O berro de Andrew interrompeu por uma fração de
segundos o meu último resquício de atenção, como quem quer impedir que
alguém cometa um erro fatal, o que me fez intuir que fosse Ava. — Nela! É ela a
mentora de tudo! — acusou, mirando a flecha que empunhava em mãos direto
no peito de Juliet, finalmente a atingindo no coração.
Algo impediu Richard de promover o meu fim, como se ele tivesse sido
puxado para trás. Quando girei o corpo, no segundo imediato, eram os braços de
Rico que estavam agora encaixados no pescoço do pai.
— Nãooooooo!!! — Ajoelhei em desespero na grama, cedendo às lágrimas.
— Ele ia matar você, mãe! — urrou Rico, descontrolado.
— Pelo amor de Deus, Rico! É o seu pai! É o seu pai! — implorei, tremendo
convulsivamente.
Rico afrouxou o punho com nítida hesitação e gradativamente o soltou,
percebendo que o pai não oferecia mais resistência. Cega pelas lágrimas, ordenei
que o meu filho se afastasse e me ergui do chão, colocando-me cara a cara com
Richard.
— Era isso o que você queria, não era? — indaguei, afastando com as mãos o
cabelo que cobria o meu pescoço. — Pode quebrar, não vai mais me fazer falta
— ofereci em inconsolável decepção, fechando os olhos.
Suas mãos gélidas chegaram rapidamente ao destino, encaixaram-se com
firmeza à superfície do colo, mas, ao invés de ser degolada, ele depositou um
beijo ali.
— Pois, para mim, vai fazer muita falta... — ouvi o seu murmúrio, tentando
me envolver num abraço.
Tentando, coisa que jamais deixaria que acontecesse. O que Richard pensava?
Que depois da morte da titular ficaria com a reserva? Perdeu! Só jogo no time
principal!
Afastei seus braços com violência das minhas costas e o esbofeteei no rosto,
mortificada pela própria atitude que tomava. Sonhei milhares de vezes com
aquele abraço, mas o cérebro e o orgulho falavam mais alto.
— Nunca mais me toque se não for para terminar o que começou! — rosnei
em advertência.
— O... O q? — gaguejou, aparentemente incrédulo, os olhos avermelhados.
— Não é surdo e não vou repetir! Vá chorar o corpo da sua noivinha!
Como quem se dá conta da realidade, Richard me obedeceu. Agachou-se ao
lado dela, pegando em sua mão. Desviei os olhos para não ver aquela cena
torturante e, após me certificar de que todos pareciam bem, desapareci do local
sem me despedir. Mirei numa direção aleatória e corri por quilômetros, até não
enxergar viva alma. Ter passado por tudo aquilo já fora o suficiente para uma
única pessoa. Tinha certeza de que Ava faria o serviço de queimar os corpos com
muita habilidade e satisfação, afinal, conseguiu salvar o Albert daqueles
assassinos. Só lamentei que outras pessoas — em especial, o oficial Taylor —
tivessem sido envolvidas, enganadas e mortas para que pudéssemos triunfar.
Apesar de vencer aquela luta, sentia-me completamente derrotada, não só pelo
fato de ter manchado as mãos de sangue e matado alguém como pela imensa
decepção de ver até onde a coragem de Richard iria por conta daquela mulher.
Por hora, o que precisava era de me isolar do mundo, ficar longe de tudo e de
todos. Carecia de um espaço meu. Talvez nem fosse necessário ir muito além,
um simples tronco seria o suficiente para apoiar o corpo e deixar dissipar o
furacão de emoções que ficara preso nas entranhas nos últimos dias. Não tinha
mais força mental para prosseguir, o cérebro parecia que havia esvaziado.
Distingui a uns duzentos metros adiante o ambiente adequado, encoberto por
dezenas de árvores e vegetação densa. Sentei na folhagem e finalmente me dei o
direito de despencar sem hora definida para terminar.
Vinte e quatro

Cinco minutos.
Esse foi o período de privacidade estimado que obtive com as minhas
desilusões até ouvir o barulho de folhas secas crepitarem por passos apressados,
chegando cada vez mais perto. Encolhi os ombros e tapei o som do meu choro
convulso com as mãos, a fim de despistar quem quer que estivesse rondando por
ali.
Foi uma atitude totalmente em vão.
Nem mesmo a escuridão da noite ou a imensa árvore que me apoiava o corpo
foram capazes de esconder a minha presença vazia. Enterrei a cabeça entre os
joelhos disposta a não mais levantá-la. Não queria ver ninguém.
— Stephanie?
Quando afirmei que não queria ver ninguém, nas entrelinhas estava escrito
“principalmente Richard”, mas ultimamente parecia que nada do que eu
desejasse seria levado em consideração.
— Stephanie... — Ajoelhou-se ele diante de mim, falando comigo.
O tom complacente da sua voz e a lembrança de tudo o que aconteceu apenas
fizeram com que aumentasse ainda mais o meu pranto. Não conseguia mais me
impor freios somente pela vontade, isso estava além das minhas forças. O
cérebro e o coração se dissociaram, cada um agindo de um jeito.
— Cai... fora... daqui, Richard. — Mal consegui pronunciar as palavras, de tão
estranguladas que saíram.
— Não.
— Já teve a sua chance de me matar, agora me deixa em paz. — Enxuguei as
lágrimas com uma das mãos, por baixo da longa extensão de cabelo que cobria o
meu rosto.
Ele ignorou o apelo. Continuava estático.
— O que foi? Preferiu me decepar às escuras? Pode fazer, não vou oferecer
resistência — declarei, ainda sem força mental para reerguer a cabeça.
— Não quero matá-la. De onde tirou essa suposição absurda?
— Acho que as ações valem mais do que as palavras. O caminho está livre,
ninguém nos vigia. É até um favor que você me faz.
O silêncio imperou, duro, interrompido pelo ruído de um forte suspiro.
— Olhe para mim — pediu. — Quero apenas conversar.
— Se não veio aqui para isso, me faça uma caridade: vá embora. Quero ficar
sozinha.
— Não saio daqui até que me escute.
— Não tenho absolutamente nada para falar com você. Nada — frisei.
— Engano seu, meu amor. Temos muita coisa para esclarecer.
— Não sou o seu amor — resmunguei, perdendo a paciência. — Essa palavra
perdeu o significado entre nós.
— Stephanie, quer olhar para mim, por favor? — solicitou suavemente.
E eu sou idiota? Se o encarasse, perderia a razão em três tempos. Não era tão
tonta a ponto de cair de novo no conto do vigário.
— Richard, quantas vezes tenho que pedir para você me deixe em paz? —
graduei a voz uma oitava acima.
— Tanto faz. Não atenderei a nenhum deles.
— Ah, claro! — Comecei a me levantar em retirada. — Esqueci que você só
atende aos desejos da sua amada.
Ele arriscou me impedir pelo punho.
— Aonde pensa que vai?
— Procurar um lugar onde não seja perturbada. — Arranquei a sua mão à
força do meu braço, iniciando uma caminhada rápida.
— Quer parar com isso?! — Seguiu-me, inconformado.
Interrompi os passos momentaneamente para fazê-lo entender o recado.
— Richard, pela última vez: vá em-bo-ra! — silabei de costas. — Não tenho
mais nada para falar com você! Entendeu ou preciso desenhar?
— Ah, que bom que repetiu esta frase pela última vez! Pensei que teria que
negá-la indefinidamente, como prometi.
— E nem assim iria adiantar. Não é muito bom em manter promessas.
— Stephanie, eu só preciso que você pare alguns minutos para me ouvir.
Tenho certeza de que irá entender.
— Deve estar me confundindo. Quem tem obrigação de parar para lhe ouvir é
a outra vampira. Aliás... Oh, esqueci que ela morreu... — dramatizei. —
Deposite seu bilhete de desejo na urna mais próxima. Quem sabe ela não receba
e retorne novamente daqui a uns... cem anos?
Richard piscou, meio apalermado.
— É para eu rir da piada?
— No seu caso, para chorar. Você é o viúvo! Se ela tiver deixado alguma
dívida no cartão de crédito, o que é bem provável, o trabalho para desfazer o
nome sujo será todo seu.
Ele parecia realmente ter achado graça da observação, mas não a ponto de rir.
— Como posso ser o viúvo se nem me casei com ela?
— Puxa! Com toda a desburocratização dos serviços hoje em dia, não
conseguiram se casar ainda? E pela segunda vez? — manguei. — Ah, entendi!
Ficar viúvo de verdade agilizaria o processo...
— Não quero ficar viúvo. Quero voltar para a minha esposa.
Fingi que não ouvi.
— Pegou o atalho errado, darling. A tumba da Juliet fica para o outro lado, se
é que vai sobrar alguma coisa com as chamas.
— Minha esposa é você — ratificou.
— Não somos mais casados. Não temos mais nada a ver um com o outro.
— Não me diga! Então, por que a nossa aliança continua contornando o seu
dedo?
— Isto? — desdenhei, arrancando o anel e o lançando imediatamente na
grama. — Nem percebi que ela ainda estava aqui.
A atitude o irritou. Ele se agachou para resgatá-la, soltando um rosnado baixo.
Ganhei míseros segundos na dianteira.
— Tudo bem. Então me explique o que foi aquele grito desesperado que você
lançou quando pensou que eu iria morrer.
Pronto. Richard iniciou sua guerra fria, pensando que o inimigo era suscetível
ou estava desguarnecido de munição. Mas, para seu azar, o meu paiol jazia
plenamente abastecido.
— Aquilo foi um “não mate o seu pai”, nada mais.
— Parecia mais um “não destrua o amor da minha vida” — insinuou, fazendo
pouco caso da resposta.
— Não queria que meu filho se arrependesse no futuro de um ato abominável
desses, só isso.
— Temia que nosso filho me matasse porque você me ama.
— Perdeu seu senso crítico depois que saiu de casa.
— A solução é voltar para o reduto do meu lar, assim regulo todos os meus
sensos.
— Menos o de humor, que parece que está em alta... Esqueceu que a sua casa
incendiou?
— Nossa casa — corrigiu.
— Que seja, ela não existe mais mesmo... — balancei os ombros.
— Aquilo foi horrível, eu...
— Ora, não se preocupe tanto, em breve vai receber uma bolada do seguro —
alfinetei, interrompendo a sua fala.
— Dane-se a porcaria do seguro! Só me preocupo com você! — resmungou.
— Não parecia muito preocupado quando viu sua amada e os irmãozinhos me
trancarem dentro dela com barras de ferro!
— Você estava... dentro da casa? — simulou um ar abismado.
— Richard, fala sério! Sabia muito bem onde eu estava!
— Não, não sabia...
— Onde mais eu estaria? Comprando uma bolsa Prada ou um vestidinho
Versace no shopping? Anda confundindo as bolas? Esse era o hobby da sua
noiva!
Eu galgava no caminho certo para ganhar aquela guerra, notando-o cessar os
passos para meditar.
— É por isso que o seu cabelo queimou deste jeito?
Por pouco, não engasguei com a observação.
— Você é maluco? Deixou que um humano quase morresse nas chamas, que
duas vampiras se expusessem a um bronzeamento artificial forçado, e está
preocupado com o meu cabelo?
— Três pessoas? — perguntou por reflexo, os pensamentos nitidamente
entretidos na primeira informação.
— Tudo bem — freei a minha impaciência. — Se é para me deixar em paz,
raspo a cabeça hoje mesmo e envio esta droga embrulhada para presente ao seu
endereço, ok?
Ele emitiu um rosnado.
— Só passando por cima do meu cadáver!
— Pense muito bem antes de fazer alguma besteira, hein! Foi a última vez que
dei uma de super-heroína e salvei o meu ex-marido de ser decapitado!
— Não sou seu ex-marido! — exclamou, irritado.
— Exato — fingi concordar. — Não é mais nada meu. Apenas o pai dos meus
filhos.
— Negativo. Ainda sou o seu marido e a amo!
Essa me atingiu em cheio.
— Ah, fácil falar isso agora que a sua noiva morreu, não? Se espera encontrar
em mim uma descarga para as suas fantasias eróticas enquanto ela não volta,
pode esquecer! Não me prestarei mais a esse papel!
— Acredita mesmo no que diz? — sua voz rateou. — Que você é para mim
apenas isso? Uma “descarga” para as minhas fantasias?
— Não me interessa nem um pouco saber o que sente, não é mais problema
meu.
— Creio que importa, sim, com os meus sentimentos, ou não continuaria
evitando os meus olhos.
Preferi não mais comentar. Calei a boca porque a única resposta que me vinha
à mente era que, se o olhasse, haveria o risco de fraquejar. O coração já lutava
contra, se o cérebro acompanhasse...
— Acha que um vampiro pode queimar assim, como estou agora, se não a
amasse? — Esticou a mão até o meu ombro para comprovar a temperatura.
Levantei finalmente a cabeça para confrontá-lo.
— Sinto muito desapontá-lo, Richard. Não sou mais a garota inocente que
acreditou no conto do amor vampiro.
— Não sei se entendi direito o que quis dizer com isso — estreitou as
pestanas, cético.
— Então serei mais clara... Não acredito mais em Papai Noel, muito menos no
Coelhinho da Páscoa. Descobri a duras penas que essa história da carochinha era
uma balela, uma tremenda enganação!
— Descobriu... como? — Seu tom de voz, até então suave, mudou
repentinamente para o grave.
— Que foi? O vampiro machista está preocupado em saber se levou um belo
par de chifres, do mesmo jeito que fez comigo? Bem que merecia...
— Descobriu como? — insistiu, fechando ainda mais a cara.
— Digamos que o oficial Taylor estivesse bastante... empolgado quando se
jogou por cima de mim, agora há pouco...
— Arrrrrgh! — grunhiu. — Desgraçado! Ele se apaixonou pela minha
esposa!
— Ex-esposa. E bota apaixonado nisso...
Richard teve um acesso de raiva. Partiu num único murro a primeira árvore
que viu pela frente. O chão chegou a tremer.
— Queria ter esquartejado o infeliz que disse que estava fascinado por você!
— Ah, então você viu, é? Engraçado... Não parecia nem um pouco enciumado
quando deixou que o policial tarado me agarrasse!
— Não me provoque, Stephanie! — advertiu com os dentes trincados. —
Acha que foi fácil para mim? Senti um ódio mortal, se quiser saber!
Ergui o dedo em riste.
— Se sentiu, não fez absolutamente nada! Tive que arrancar a cabeça de um
vampiro de quase dois metros enquanto você estava mais preocupado em
proteger a sua noivinha beijoqueira! Mereço até virar filme de cinema depois
dessa...
— Eu não podia, inferno! Será que não entendeu ainda?
— Ah, claro que não! A coleira de au-au estava presa no seu pescoço! —
ridicularizei-o.
— Chega!
Respirei fundo. Ficar batendo boca daquele jeito não nos levaria a lugar
algum. Precisava encerrar aquele episódio e colocar uma pedra nessa história
para não me ferir ainda mais.
— Richard, vamos parar por aqui. Sou filha de pais separados e sei muito bem
como a coisa funciona. Não há necessidade de briga, cada um vai para o seu lado
e ponto-final.
— Não que-ro me se-pa-rar de vo-cê! — silabou em tom de advertência.
— Mas eu quero!
— Não quer não, você me ama tanto quanto eu.
— O que sinto ou deixo de sentir não vem mais ao caso. Fez a sua escolha,
agora é tarde demais.
— É o que vamos ver.
Richard agarrou o meu rosto de supetão e avançou na minha boca, forçando
um beijo descontrolado com as mãos emaranhadas nos meus cabelos. Estava tão
elétrico e aquecido que por pouco não caí novamente naquela cilada. Não podia
me deixar levar por essa aparência de homem apaixonado. Nem mesmo mil
beijos como aquele conseguiriam me fazer apagar da memória a traição, o
abandono, a humilhação e até mesmo o fato de ele ter corrido atrás de mim para
acabar com a minha vida.
Criei coragem e desgrudei na marra meus lábios dos dele. Não foi fácil,
admito. Levantei a mão de forma agressiva, em direção ao seu rosto, mas dessa
vez ele foi mais veloz. Por reflexo, conteve antes o meu pulso no ar,
imprensando-me contra uma árvore.
— Não me toque mais assim, a menos que queira ser agredido novamente! —
grunhi, furiosa.
— Vai me esbofetear outra vez? — desafiou.
— Duvida?
— Isso, vá em frente. — Elevou a minha mão até o próprio rosto,
acarinhando-se com ela. — Para cada tapa que eu receber, vou beijá-la em
dobro. É a lei da compensação.
Cheguei a sustentar o punho no ar por instantes, porém o recolhi. Que droga!
Ele arrumou uma maneira de me imobilizar. Seria difícil escolher qual tortura
faria com que me sentisse pior: bater nele ou ser beijada por ele. As duas opções
me feriam por dentro.
— Não vai repetir a dose, sabe por quê? — Segurou aquela mesma mão que
ele soltara para beijar meu pulso. — Porque faço parte do seu corpo, e bater em
mim dói mais em você — respondeu, subindo o beijo pelo meu braço. — Porque
sou como uma febre incurável e circulo pelo seu sangue. — Alcançou o pescoço.
— Porque o ar que você respira fica pesado sem o meu cheiro, e a visão perde a
cor se eu não estiver por perto. — Veio deslizando o lábio pelo meu rosto. —
Porque o seu amor é tão doentio e dependente do meu carinho quanto eu sou de
você. — Capturou a minha boca com a sua, envolvendo-me num abraço.
Oh, Deus! Não é justo! Querer me pôr à prova, tudo certo, mas assim já é
extrapolar!
Ele me conhecia tão bem que parecia prever cada passo que eu dava, entrar
nos meus pensamentos...
Consegui, numa atitude quase que heroica, empurrar o seu peito com força e
me desvencilhar daquele abraço, iniciando uma fuga alucinada. Fugir era a única
solução que me ocorreu. Eu havia perdido o poder de ataque, e a defesa
enfraqueceu. Corri numa velocidade jamais atingida, sem direção definida,
esbarrando em tudo o que via pela frente para tentar despistá-lo.
Santa inocência! É lógico que não conseguiria fugir. Ele me alcançou com
facilidade, e acabei presa no chão, imobilizada em seus braços.
— Me larga, Richard!
— Somente depois de você ouvir a minha defesa. — Forçou ainda mais os
bíceps para me deter.
— Teve toda a chance do mundo de se explicar. Aliás, se me recordo bem,
cheguei a suplicar por isso, e tudo o que você fez foi me dispensar! — Pressionei
minha libertação.
— Stephanie, eu não podia falar porque...
— Largue a minha filha agora! — A voz enérgica do meu pai o interrompeu.
Contrariado, Richard soltou devagar a imobilização que fazia em torno de
mim, não sem antes se certificar de que eu não conseguiria fugir.
— Allan, não é o que está pensando. Eu apenas exigia que a minha esposa me
ouvisse — justificou Richard.
O restante da família foi chegando ao local, um por um, provavelmente
atraído pelo tom fervoroso da discussão.
— Que direito pensa que tem de exigir dela o que quer que seja depois do que
fez? — questionou o ex-sogro.
— Eu não tive culpa. Era exatamente isso o que ia explicar quando você
chegou.
— Por acaso tem noção do estado deplorável em que a Stephanie ficou?
— Não estive melhor, acredite — contestou.
— Richard, minha filha ficou desacordada vários dias por tentar, numa atitude
desesperada, uma espécie de suicídio, dormindo o dia inteiro debaixo do sol!
Cheguei a pensar que ela tivesse realmente morrido!
Richard me encarou, transtornado.
— Enlouqueceu?
— Pai! — repreendi-o.
Sim, eu enlouqueci, mas ele não precisava saber disso. Pena era a última coisa
que esperava receber de Richard.
— Não vou esconder o que aconteceu, Stephanie — rebateu papai. — Ele
precisa saber o tamanho do estrago que causou quando optou por aquela
vampira!
— Opt...? — ruminou Richard. — Deus, não sabe o que está dizendo! Pensa
que não sofri a cada segundo que fiquei longe dela? Stephanie é a minha vida!
— Custei a acreditar, mas tenho que concordar com o Allan — intrometeu-se
Ava. — Essa sua obsessão por aquela mulher provocou um abalo na família
inteira!
— Obsessão?
— É, pai — confirmou Rico, amargurado. — Por causa dela, foi capaz até de
deixar que eu levasse a culpa pela morte de uma pessoa. O William era meu
amigo.
— Queimou a nossa casa — emendou Vitória.
— Sugou e prendeu pessoas inocentes, quando sempre pregou o contrário —
acrescentou Vanessa.
Andrew entrou na discussão:
— Não foi culpa dele. A Juliet era a mentora de tudo.
— Que incrível! — lamentou Richard, fazendo expressão de indignação. —
Convivo com pessoas aqui há quase um século, e o único indivíduo que acredita
em mim mal me conhece!
— Juliet o comandava como um robô, escravo, sei lá... — novamente Andrew
o defendeu.
— Disso todos nós sabemos — completou meu pai.
Aproveitei a breve discussão formada para tentar sair de fininho. De tudo o
que havia sido dito até o momento, absolutamente nada era novo, e ficar ouvindo
acusações ou remoendo fatos só me fazia sofrer ainda mais.
Ledo engano pensar que Richard se distrairia...
Bastou que eu movesse os joelhos um pouquinho para trás, e ele captou logo a
intenção, trancando o meu pulso como se suas mãos fossem algemas. Queria a
todo custo me obrigar a ouvi-lo.
— Fui comandado, sim — confirmou Richard. — Era obrigado a dizer e fazer
tudo o que ela queria, até as coisas mais sórdidas e grotescas. Tudo independente
da minha vontade.
— Quer que acreditemos que foi hipnotizado? Sabe muito bem que vampiros
são imunes... — duvidou Ava.
— Não fui hipnotizado, mas subserviente a ela! — gritou ele, enraivecido.
— Subserviente? — Foi a minha vez de duvidar. — Ora, faça-me o favor! Se
quiser arrumar uma desculpa, pelo menos que seja uma mais convincente. Não
pode ser subserviente à sua noiva, não foi ela quem o criou!
— Ela não era a Juliet! — urrou em resposta. — Não se parece com ela e
sequer tinha esse cabelo ruivo, que tingiu só para ser coerente ao seu plano
sórdido! Aproveitou-se da inocência e humanidade do meu filho para tirar todas
as informações que precisava e conseguir o que queria, fazendo com que você
acreditasse em todas as suas mentiras. O nome dela era Ivanka, a minha
criadora!
— Que história é essa de subserviência? — indagou meu pai.
— O vampiro criador pode comandar os movimentos daquele que criou se
assim desejar. Não há como lutar contra, é involuntário — explicou Richard.
O vampiro de cabelo caramelo surgiu do nada, também intervindo na
conversa:
— Tudo o que ele diz é verdade. Também fui subserviente à Juliet por muitos
anos.
Notando que todos de alguma maneira questionavam a sua presença, Andrew
o apresentou:
— Steban é o meu pai.
O vampiro observou Andrew, visivelmente incrédulo. Na certa, não
reconheceu o filho após tê-lo abandonado quando pequeno. Sinceramente, até eu
o estranhei um pouco. Pelo que acabara de constatar, Andrew também se tornara
mais um membro da nossa espécie, solucionando a dúvida que eu tinha por ele
ter conseguido força suficiente para empunhar aquele arco e fincar uma flecha
no coração da vampira.
— An... Andrew? — sussurrou Steban, abalado com o que ouvira. — Meu
filho?
Andrew concordou com a cabeça. Steban não mais se conteve, soltando um
urro rouco. Abraçou-o em seguida.
— Foi por isso que fiz questão de atingir a Juliet, quer dizer... Ivanka, ao invés
dos outros vampiros — justificou Andrew, assim que se desgarrou do pai. — Eu
não podia ser hipnotizado, daí observei cada passo que ela dava, o poder que
tinha, de que modo comandava a todos...
— Isso é muito esquisito — Ava ainda não havia se rendido. — Se essa
história de subserviência é mesmo verdadeira, porque Demétrius não usou esse
artifício comigo ao invés de colocar os capangas dele para me vigiar?
— Provavelmente não devia ter sido ele o seu verdadeiro criador. Por acaso se
lembra de quem a fez beber sangue? — perguntou Richard a ela.
— Sinceramente, não. Fui hipnotizada.
— Espere aí! — cortou Vanessa. — Uma vez isso aconteceu comigo em
Londres! Fui impedida de me movimentar, mas não pelo Demétrius. O vampiro
que fez isso disse que era magia...
— Isso não é magia, é uma condição inerente ao ser criado! — objetou
Richard.
— Ah, chega dessa história! — protestei, criando coragem para enfrentá-lo.
— Nós dois sabemos que a criadora poderia até controlar os seus movimentos,
não a sua fala, Richard!
— Stephanie, não é bem assim...
Eu atingi o seu ponto fraco. Dava para notar pelo modo como abrandou a fala,
quase me pedindo desculpas.
— “Não é bem assim” uma pinoia! Já fui subserviente a você uma vez, e me
lembro muito bem de que maneira é possível ser manipulada!
— Aquilo foi uma situação... diferente!
— Diferente como? Está querendo me dizer que mentiu para mim quando
afirmou na época que não podia me calar?
Richard bufou.
— Eu nunca menti para você, meu amor. Já parou para pensar que esse tipo de
submissão jamais me atraiu? Que nunca cogitei testar uma coisa dessas porque
preferia ter uma fêmea rebelde em meus braços a um ser robotizado? Que tudo o
que diz ou pensa me interessa? Mais do que isso: que eu pudesse não saber de
tudo porque nunca fui manipulado a falar o que não queria?
— Ah, que conveniente...
— Fez a minha filha de robô? — reclamou papai, quebrando minha
argumentação.
— Pode ficar tranquilo, Allan. O que obriguei a sua filha a fazer não foi nada
que ela não gostasse ou não quisesse. Usei esse artifício apenas para forçá-la a
me ouvir. Stephanie às vezes é muito teimosa, sabia?
— Sim, sou — concordei. — Prove o que acabou de dizer, Richard. Me
obrigue a falar o que quiser ou a me calar.
Ele cruzou os braços, reagindo.
— Creio que já fiquei abalado o suficiente para ter coragem de impor a minha
vontade sobre a pessoa que amo.
— Diga a verdade — exigi, cruzando também os braços. — Não pode fazer
nada disso, não é?
Richard mirou o seu azul-violáceo nos meus lábios e inclinou a cabeça para
sussurrar ao meu ouvido:
— Prefiro calar ou arrancar confissões dessa sua boca de outra forma.
Imediatamente após, estufou o peito e discursou entredentes:
— Bem, já que não me resta opção, demonstrarei que honro a minha palavra.
Ele se virou em outra direção.
— Vanessa, além de mim, você é a única criadora presente neste ambiente.
Seria possível me ajudar a comprovar a verdade?
— Como? — quis ela saber.
— Ordene ao Allan que faça algo que deseje, declame uma cena qualquer e
depois se cale. Você só tem que imaginá-lo como sua propriedade.
— Ele vai me obedecer?
— Como um au-au — retrucou Richard, afrontando-me de soslaio.
Vanessa abriu um sorrisinho maquiavélico para o meu pai.
— Allan, quero que você seja o meu Mestre Yoda hoje. Imite a voz dele na
frase: “O medo é o caminho para o lado negro”, e depois me ponha no colo
caladinho, à espera da nova ordem.
Papai obedeceu ao seu comando imediatamente, arrancando risadas da plateia
pela falta de destreza na atuação. No final, ficou agoniado por não conseguir
mais abrir a boca para falar.
— Seu marido ainda consegue gesticular para se fazer entender. Querendo
aperfeiçoar, Vanessa, da próxima vez — ensinou Richard —, ordene que ele
mantenha a musculatura imóvel ou que responda frases predeterminadas ao
comando de palavras-chaves, como fizeram comigo!
— Pai!
Vitória foi a primeira a se dar conta da injustiça que cometeu e abraçou o pai,
seguida pelo irmão e pelos demais familiares. Apesar de inegavelmente
magoado, Richard aceitou a desculpa de cada um dos presentes. Sabia que eles
jamais poderiam supor algo tão absurdo.
Exceto eu.
De todas aquelas pessoas que o cumprimentavam, eu era a única que
teoricamente tinha a obrigação de me lembrar ou, ainda, de duvidar da sua
atitude. Devia ser por isso mesmo que ele parecia não prestar muita atenção ao
que todos diziam, mal disfarçando o olhar interrogativo em minha direção. Eu
também não compreendia o motivo, mas dessa vez não conseguia simplesmente
pular no seu pescoço e lhe pedir perdão como sempre fiz. Alguma coisa dentro
de mim havia mudado, e não sabia dizer exatamente o quê.
Assim que percebi um mínimo sinal de distração por parte dele, resolvi sair da
sua incessante linha de mira. Precisava de um tempo para tentar me entender e
arejar um pouco, era muita informação para assimilar. Ao mesmo tempo que me
cobrava pelo erro imperdoável, pela falta de confiança no seu amor, também
exigia de mim mesma uma resposta para tal atitude irracional.
Eu queria estar ali, entre eles, ter sido a primeira a correr para os seus braços e
aplacar a angústia imensa que me arrebentava por dentro. Queria que ele
acalmasse a minha alma, que me calasse a boca da forma como acabara de
ameaçar...
Então por que eu não me movia do lugar?
Por que não acabava de vez com essa falta de ar, com esse vazio agudo no
peito?
Por que continuava me sentindo presa, como se estivesse acorrentada a uma
bola de ferro, imobilizada pelos pés?
Já devia ter imaginado que, após tudo o que aconteceu, meu momento de
reflexão não duraria mais do que míseros segundos.
— Não deixarei que fuja novamente — advertiu Richard.
— Eu não estava fugindo, apenas... precisando de um... tempo — murmurei.
— Foi a única que não veio falar comigo.
Droga.
O que falar se nem eu mesma me compreendia? Minha única reação foi
desviar o olhar e suspirar.
— Ainda não acredita em mim — concluiu, exibindo ar de desolação.
— Acredito — finalmente dei a resposta que ele tanto queria ouvir.
— E o que está faltando, afinal?
— Francamente? Não sei.
Ele contorceu as dedos, domando a impaciência.
— Tinha certeza de que, quando descobrisse a verdade, você viria correndo
para os meus braços feito uma louca. Que fugiríamos daqui às pressas e
passaríamos o resto do dia matando essa saudade desesperada, e, no entanto,
porta-se como se nada tivesse mudado!
— Tenho consciência de que devo lhe pedir perdão, não sou tão insensível
assim como pensa.
— Não quero suas desculpas, Stephanie. Quero o seu amor.
— Eu sei, mas...
— Mas o quê?
— Não posso.
— Por que não?
— Alguma coisa mudou dentro de mim, eu não estou bem — admiti.
— Está apenas ferida e confusa com tudo o que aconteceu. Precisamos
somente ficar juntos para nos curarmos.
Richard abriu os braços com a intenção clara de me receber e esperava que eu
tomasse a iniciativa. Não me movi do lugar.
— Stephanie, amo os meus filhos e toda a nossa família, mas, se eu não tiver
o seu carinho, é como se nada mais existisse à minha volta.
— Entendo o que quer dizer, só que agora não dá. Simplesmente não consigo.
— Vai conseguir, precisa apenas de um tempo — falou, encaixando os dedos
no meu cabelo.
Afastei-me instintivamente.
— Exatamente. Tempo para pensar... sozinha.
— Isso não será necessário, não vou cobrar ou exigir nada de você.
— Sozinha — ratifiquei.
— Stephanie... — Balançou a cabeça, recusando o argumento.
Sustentei o olhar como quem diz: “sim”.
— Não pode estar falando sério! — resmungou.
— É sério.
— Não admito passar nem mais um segundo longe da minha mulher.
— É necessário, Richard. Gostaria que compreendesse a decisão que tomei.
— Que decisão?
— A de vivermos separados... provisoriamente.
— O quê? Nem brinque com uma coisa dessas!
— Não estou brincando.
— Não! — rosnou alto. — Não aceito!
— Tem que aceitar, isso não depende somente de você.
— Pode me dar um único motivo justo para que não queira ficar do meu lado?
— Não consigo esquecer as cenas que vi — confessei. — Elas estão
impregnadas no meu cérebro. Quando olho para você, é nos braços dela que o
enxergo. É como se você não me pertencesse mais.
— Eu sou seu. Não existe absolutamente nada em mim que não a pertença.
Cobri os olhos com as mãos, agonizando com a lembrança. Nessas horas que
os humanos levam vantagem; os vampiros têm muita dificuldade em esquecer as
coisas, além do imaginável.
— Não foi culpa minha, bruxinha, sabe muito bem disso. Será que não
percebe que tomando essa atitude estará me fazendo sofrer? — tentou me
convencer. — Eu não mereço esse castigo!
— Como se eu não estivesse sofrendo também...
— Não dá para entender, Stephanie! Se nós dois padecemos, por que temos
que ficar separados? Isso não tem lógica!
— Se eu fosse embora agora com você, não estaria sendo verdadeira. É isso
realmente o que quer? Alguém de corpo presente, mas doente por dentro,
fingindo que está tudo bem?
Interrompendo o nosso diálogo, ouvi o meu nome sendo chamado.
Precisávamos dar o fora imediatamente do local. Ainda tínhamos uma
caminhada razoável até o carro, e faltava muito pouco para que o dia
amanhecesse, expondo-nos desnecessariamente ao sol. Além do mais, a presença
de tanta gente num lugar considerado abandonado chamava atenção, ainda mais
pessoas como nós, de aspecto tão diferente.
A despeito da sensação de dever cumprido, por ter conseguido salvar pessoas
imprescindíveis na vida da minha família, eu continuava devastada. O órgão
congelado que existia no peito clamava desesperadamente por Richard, e o que
comandava os pensamentos impedia. Cheguei à triste conclusão de que para
todos a batalha havia terminado, exceto para mim, que enfrentaria a pior guerra
de todas: ajudar o coração a vencer.
Vinte e cinco

— Stephanie, venha comigo, por favor — suplicou Richard pela última vez
assim que chegamos ao local onde estacionamos os veículos.
Suas mãos irredutíveis seguravam o meu rosto na esperança vã de receber
outro tipo de resposta.
— Outra hora conversamos — neguei, sentando-me no banco traseiro do carro
do meu pai.
Ele se debruçou na janela do veículo.
— Sabe que não vou desistir nunca, não sabe?
— Sim, mas gostaria imensamente que respeitasse a minha vontade agora —
finalizei o diálogo.
Richard não mais insistiu.
Afastou-se do carro e cobriu a testa com os dedos, exibindo ar de derrota. Eu
sabia muito bem como ele se sentia. A rejeição, mesmo não sendo definitiva,
doía demais num vampiro. Foi muito difícil constatar que o magoava, mas o que
fazer? Não podia simplesmente ir embora com ele, fingindo uma normalidade
que inexistia. Não seria justo com nenhum de nós dois. Precisava antes juntar os
meus cacos, fechar as feridas, ou melhor, o verdadeiro rombo que se instalou em
mim. E, para isso, seria necessária uma inevitável reclusão.
Ava convidou Richard para passar uns tempos em seu apartamento até que as
coisas se ajeitassem, mas ele recusou. Disse unicamente que precisava buscar
alguma coisa que deixou na casa dela e que preferia se instalar num hotel.
Entendi a atitude dele. Havia diversas razões para que rejeitasse aquele
convite.
Primeiro, era notório que Ava precisava de um tempo com o Albert, que ainda
continuava atônito ao lado dela; o papel de empata-romance jamais faria parte
dos seus planos. Segundo, não se sentiria uma boa companhia. Como membro de
uma espécie obcecada, certamente o nosso afastamento povoaria sua cabeça
feito uma assombração em plena luz do dia. Por último, ele obviamente ansiava
por um lugar recluso, para o caso de uma mudança repentina de planos.
Durante o trajeto de volta, vim recapitulando todas as cenas daquela tragédia,
como quem relembra partes de uma novela. A sensação não fora heroica como
mostravam os filmes na TV ou nas telas do cinema. O sangue coagulado que
impregnou as minhas mãos não me atiçava a sede, pelo contrário. Nada mais era
do que a prova da devastação que acabara de ocorrer. Não dava para olhá-las e
ignorar o fato de que virei uma assassina.
Talvez até devesse ser um pouco mais complacente comigo mesma, pois, se
pensasse bem, não havia outro jeito. Apesar de não ter tanta certeza se o policial
Taylor realmente me mataria, o modo obsessivo como se portou já denunciava o
tipo de pessoa que seria caso continuasse vivo. Julgava-se poderoso e acreditava
que poderia tomar posse de tudo o que lhe conviesse, como se o fato de se tornar
um vampiro conferisse a ele esse direito. Sendo assim, provara ser um
extremamente nocivo aos humanos. A nossa espécie exacerbava ao máximo os
sentimentos, e, se ele já tivesse tamanha predisposição, um poder desses em suas
mãos soaria como um prenúncio de morte em larga escala.
Quem o deteria quando estivesse com sede ou ficasse fissurado em alguma
coisa?
Mesmo assim, a gravidade daquele ato pesava como um saldo negativo na
minha balança. Jamais conseguiria esquecer o que fiz.

Antes de voltarmos para casa, presenciei uma das cenas mais tocantes que já
havia visto na vida: o reencontro de Steban, pai de Andrew, com Margie, sua
mãe. Quando ela abriu a porta e se deparou com Steban, houve uma verdadeira
explosão de gritos, choros, abraços e beijos. Eles pareciam nem se dar conta da
plateia que lhes assistia. Agarravam-se como se quisessem fazer parte de um
mundo que só pertencia aos dois.
Eu tinha que bater palmas para aquela mulher.
Margie permaneceu fiel à sua paixão por anos a fio, foi considerada louca pela
família, uma doente tratada à base de remédios, e nem assim desistiu ou
acreditou que Steban realmente a havia abandonado. Cheguei a sentir uma
pontinha de inveja branca dela. Como humana, ela carregava uma certeza a que
não fui capaz de me agarrar, mesmo depois de anos casada com Richard.
Por quê? — indaguei-me.
Será que isso acontecia porque intimamente sempre o julgasse demais para
mim, algo como vivenciar um sonho impossível, e agora eu tivesse despertado?
Às vezes, suspeitava que sim...
Dúvidas à parte, só sei que com os pais do Andrew tive a maior prova de que
o amor verdadeiro não possui idade ou raça e resistia ao tempo e ao preconceito.
As rugas, bem como outros sinais de envelhecimento cobriam o rosto de Margie,
que por pouco não parecia mãe do próprio marido, e nada disso foi levado em
consideração naquele momento.
O que acontecia comigo, que não fazia o mesmo, meu Deus?
Vitória, por insistência de Andrew, aceitou voltar à casa deles no final da
tarde, a fim de ser oficialmente apresentada à família como sua namorada. Supus
que o maior problema que teriam que enfrentar seria com relação à sua avó. A
velha senhora dava visíveis sinais de desnorteio. Não sabia se havia
enlouquecido ou se a filha era quem sempre esteve certa e os “monstros”
invadiram a cidade. Pior: vários sanguessugas estavam ali, bem diante do
próprio nariz, e o seu neto se tornou um deles. Melhor seria avaliar com calma se
valeria a pena insistir na história e exigir uma aceitação ou investir na
possibilidade de hipnotizá-la, fazendo-a esquecer. Naquela idade avançada, tal
mudança poderia causar danos à sua saúde mental.
Quanto a Rico, fiquei mais tranquila. Toda aquela amargura impregnada no
seu semblante havia se esvaído, afinal, seu pai, ídolo de toda uma vida, não o
traíra como tanto ruminou. Só agora se dava conta de que o que sentia pela
“Juliet” nada mais era do que uma mera empolgação hipnótica e a humilhação
passada ao lado dela em nada lhe afetava emocionalmente. Ainda continuava em
liberdade provisória, porém, por ser um exímio hacker e profundo entendedor na
área de informática, planejava entrar nos dados da polícia e ir retirando todas as
provas que o incriminavam, contando com a ajuda de Ava.
Sua tia, por viver emaranhada na justiça, poderia anular qualquer outro indício
que existisse. Nunca fui adepta a esse tipo de coisa e sempre o fiz prometer que
jamais entraria nas informações pessoais de quem quer que fosse. No entanto,
nesse episódio específico, tinha que ser coerente. Rico não era culpado, e ficar
com o seu nome — que tanto dava orgulho ao pai — manchado o prejudicaria
caso precisasse algum dia retornar.
De todos os casais presentes, os menos afetados foram o meu pai e a Vanessa,
a não ser pelo fato de que tiveram, de uma hora para outra, o lar invadido pela
família. Não que eles não gostassem, pelo contrário: adoravam ver a casa
rodeada pelos netos e familiares. Era eu quem ficava preocupada em atrapalhar,
como sempre. Confesso que sou meio eremita e só me sentia à vontade no meu
canto.
Assim que chegamos, tomei imediatamente um banho, não somente para
retirar aquelas marcas sanguinolentas que tanto me incomodavam, como também
pela necessidade de desanuviar. Para variar, precisei pedir emprestado à Vanessa
alguma peça de roupa, já que, além de sujo, o vestido de Ava foi destruído por
um corte que levei na altura da cintura.
Conversamos também pelo resto do dia. Tínhamos que começar a traçar
nossos planos para o futuro. Depois de toda a mídia que ocorreu em torno dos
nossos nomes, não poderíamos voltar aos Estados Unidos por algumas décadas.
Daí a necessidade de entrarmos num acordo, algo que fosse conveniente a todos
e que não prejudicasse ninguém.
O dia fora tão intenso que mal percebi as horas passarem. Estressada com
aquele zunzunzum, pedi licença a todos e decidi me recolher mais cedo. Queria
ficar sozinha, deitar a cabeça no travesseiro. No íntimo, sentia falta da minha
casa. Bem, talvez nem tanto da construção em si, mas da cama ou, melhor ainda,
do perfume que Richard deixava impregnado no lençol, embora com o tempo o
seu aroma tivesse se esvaído.
Para falar a verdade, sentia nostalgia de coisas abstratas, como o som dos
nossos risos, beijos e sussurros ecoando pelo quarto, da correria das crianças
brincando de pique-esconde dentro de casa...
O pequeno cômodo no qual fui instalada em nada se parecia com o meu antigo
aposento. Papai e Vanessa nunca recebiam visitas para dormir, portanto, as
acomodações eram bastante espartanas. Mas, e daí? Quem se importava? Não
precisava de absolutamente nada. O que me fazia feliz fora trancafiado a sete
chaves dentro da minha própria fortaleza. Meu coração se mantinha preso numa
casca dura e resistente, sufocado e doente, pedindo socorro ininterrupto. As
imagens da equívoca traição e do abandono bailavam no pensamento feito uma
dança fúnebre, formando um escudo. Não havia como esquecer. Mesmo ciente
do triste engano, as perdas ainda pesavam mais.
Não era muito tarde quando, enfim, adormeci. Por sorte, o meu sono
ultimamente andava mais pesado do que o costume e, como sempre, eu fugia da
vida. Dentro dos sonhos sofria menos, por vezes até conseguia me esquecer do
que passei e em razão disso fazia mais força ainda para aprofundá-los, na
esperança de receber o alívio prometido.
Demorou mais do que esperava para que o devaneio me levasse ao lugar que
habitualmente me acalmava. O barulho das ondas se fazia tão nítido que quase
podia supor ser real. Também o cheiro da maresia e um balanço típico me
remetiam a pensamentos longínquos, mais especificamente, ao passeio de barco
que fizemos em Ibiza. Recordei, com uma clareza perversa, o momento em que
Richard segurou o meu rosto entre as mãos naquela areia fofa da praia, sob a luz
do luar, e me beijou com toda ternura. Sua boca se encaixava na minha com
perfeição, como se não existisse nada além de nós dois no mundo. Eu o
correspondia pendurando os braços no seu pescoço, buscando arrancar dele o
amor que precisava para me transportar rumo a outra dimensão.
— Ah, Richard... — sussurrei.
— Isso... Beije-me, amor — devolveu ele, a voz rouca de paixão.
O sonho parecia tão autêntico que os meus lábios começaram a registrar uma
febre intensa, repleta de faíscas elétricas. Ergui a cabeça de forma instintiva,
dando acesso para que seus braços deslizassem pelas minhas costas.
Literalmente liberava o desejo reprimido dormindo... até que a imagem
debochada da mulher dos olhos verdes e cabelos cor de fogo sobrepôs à outra,
fazendo-me agonizar:
— Não!
Em revolta, abri as pestanas pesadas e encontrei os olhos enegrecidos de
Richard a centímetros dos meus. Fui realmente beijada por ele, e por uma fração
de segundos a situação não se aprofundou.
— Não! — repeti, ficando de pé.
— Por que não? — indagou, inconformado.
— Porque... não. — Na falta de uma justificativa convincente, foi o máximo
que consegui murmurar. Ainda estava atordoada com o que via.
— Nós nos amamos. Isso já basta por si só...
Ele forçou novamente o beijo.
— Não dá. Simplesmente não dá — neguei, desviando a cabeça.
— Estava dando certo agora, Stephanie. Você sonhava comigo e me retribuía
com paixão. Ouvi muito bem quando chamou pelo meu nome e depois se
agarrou em mim.
Olhei para os lados e me surpreendi.
Não acordara no pequeno quarto do apartamento do meu pai, e sim num
ambiente que mais parecia um barco. Quer dizer, era um barco, pois a janela
tinha a forma de uma escotilha e as luzes da cidade já quase não se distinguiam
mais de tão distantes. A cabine fora toda decorada como se estivesse ocorrendo
uma festa dentro dela.
— Onde estamos? — indaguei.
— Num iate.
— Disso eu sei. Como vim parar aqui?
— Roubei você da casa do seu pai e a carreguei nos braços até aqui, como
sempre faço quando dorme.
Pisquei duas ou três vezes, meditando no absurdo da coisa.
— Me roubou?
— Tem razão, termo incorreto. Roubar o que me pertence é uma
incongruência.
Suspirei forte diante da observação.
— E por que num barco? Por que longe da costa?
— Não é óbvio? — armou um sorriso forçado. — Quero ficar sozinho com
você, e não admito dar margem às suas fugas.
— Pedi a você um tempo, lembra?
— Claro, mas não deu para cumprir. Não estou aguentando mais.
— Preferia que tivesse respeitado o meu pedido, Richard. Eu falei sério.
— Eu também, quando disse que não iria desistir. Sendo assim, não vejo razão
para esperar. — Postou-se um passo à frente na intenção de me cercar, e outra
vez me esquivei.
Livre momentaneamente, notei, impressionada, o modo como nos vestíamos.
Ele, lindo, como sempre, trajava calça preta e camisa social de gola acinzentada
com listras fininhas brancas. Já eu usava um vestido longo azul-marinho de seda
acetinada e o mesmo colar da mãe dele no pescoço, como quando me casei.
— Como achou isto? — referia-me ao colar. A joia deveria estar naquela caixa
de metal salva no incêndio que foi dada à Vitória, e ela não tinha voltado para
casa até o horário que adormeci.
— Estava guardado na casa da Ava, depois que mandei o ourives polir e
confeccionar um par de brincos que combinasse.
Havia realmente algo adornando minhas orelhas, e, ainda assim, não consegui
sentir curiosidade suficiente para buscar um espelho e conferir o resultado.
— Não me lembro deste vestido — analisei friamente.
— Também estava na casa da Ava. Comprei faz algum tempo. Sabia que
ficaria lindo em você, conheço cada milímetro do seu corpo.
— Sei...
Impressionante.
Mesmo após tanto tempo juntos, ainda ficava sem graça ou afetada com uma
observação sutil dessas.
— Posso saber o motivo do traje? — perguntei, fugindo do seu olhar de
caçador no cio.
— Vai me magoar se disser que esqueceu que dia é hoje...
Sua mão esquerda levantou instintivamente para mostrar a nossa aliança
cintilando. Respirei fundo, contendo a emoção. Da última vez que a vi, ela o
adornava o dedo de outra pessoa. Isso me fez relembrar o motivo pelo qual ele se
agachou junto à ruiva maligna assim que o avisei da sua morte.
— Perdi a noção do tempo — justifiquei, reparando que a minha aliança
também voltara ao seu lugar habitual. — Já não é de agora que não me atenho a
datas, muito menos sei se é dia ou noite.
— Pois eu não. Contei cada segundo que fiquei longe de você.
Richard me analisou sem pressa, como quem mede o risco de avançar demais
as peças num tabuleiro e perder o jogo por antecipação.
— Este ambiente não foi planejado de uma hora para outra. Minha intenção
era fazer uma comemoração familiar das nossas bodas aqui, mas, depois do que
aconteceu, resolvi recuperar o tempo perdido. E, para isso, precisaríamos ficar
sozinhos. Pedi desculpas a todos, e eles compreenderam.
— Entendo a sua intenção, mas não estou bem, Richard. Alguma coisa mudou
dentro de mim. Nem sei se sou mais a mesma pessoa.
— É, sim — garantiu. — Apenas encobre o que sente com os ferimentos que
causei, e sabe muito bem que não tive culpa. Aquilo não foi comandado pelo
meu cérebro.
— Tenho consciência disso, só não posso mentir para você: não dá para
esquecer tudo o que vivi num estalo de dedos. As imagens me atormentam dia e
noite. Acho que estou enlouquecendo...
— Já passamos por algo semelhante no passado. Deixe-me passar uma
borracha nessa história.
— Não é semelhante. É bem diferente — afirmei. — Quando o deixei, não foi
por outro. Foi para tentar salvar a sua vida e a do meu irmão. Sofri o pão que o
diabo amassou naquele lugar e em momento algum deixei que aquele monstro
me tocasse. Apanhei, mas resguardei o tempo todo o que julgava que era
somente seu. Não consigo apagar da mente o beijo que presenciei entre os dois,
o carinho explícito, a sua aliança no dedo dela...
Ele rangeu os dentes.
— Só pode estar brincando! Acha que eu queria aquilo? Que não odiei cada
vez que aquela vampira psicopata me obrigava a beijá-la ou a sugar o sangue de
alguém? Que não sofri como um condenado quando vi a humilhação por que
você passou, se ajoelhando pelo meu amor daquele jeito, como se eu não a
amasse mais do que tudo na vida? Que não lamentei a morte da Rachel, uma
pessoa que nunca me tratou como sogra, e sim como uma mãe? Sabe, Stephanie,
rezei cada segundo naquele instante para que você se lembrasse da única coisa
que poderia prender os meus pés no chão ou me fizesse obedecer ao comando de
alguém, mas, ao contrário disso, preferiu acreditar, mesmo depois de tudo o que
vivemos, que eu havia deixado de amá-la! — acusou-me. — Pior: julgou-me um
mentiroso, coisa que nunca fui para você!
A acusação me tirou do sério.
— O que você queria que eu pensasse? Ela se intitulava como Juliet, e não foi
a sua ex-noiva que o transformou! Fiquei arrasada com a morte da minha mãe;
Rico tinha voltado para casa todo arrebentado depois de uma briga com um dos
melhores amigos, jurando vingança; e a Vitória havia acabado de se transformar
numa vampira, necessitando de um apoio que não me sentia apta a dar. Precisei
de você, Richard — desabafei. — Precisei demais. Liguei todos os dias para o
seu celular, deixei inúmeros recados na caixa postal, praticamente implorei por
sua atenção. E, quando finalmente o encontrei, o que vi? A pessoa que amo aos
beijos com outra mulher. A mulher que foi a razão da sua reclusão por mais de
cem anos! Tive a maior decepção da minha vida, não queria mais abrir o olhos
para não ter que lembrar. É por isso que repito que o que passamos antes não foi
semelhante.
— Está enganada — rebateu. — Como é que eu poderia saber na época de
Demétrius se havia sido deixado por outra pessoa ou não? Você disse na minha
cara que não me amava mais! Se o seu amor não fosse vampiro, como o meu,
poderia sim, se apaixonar por outro. E, mesmo destruído e intimamente magoado
no passado por não ter confiado em mim, não me afastei ou fugi. Corri para os
seus braços porque sabia que só você poderia me curar.
— Richard, supor é diferente de ver. O que pensaria se, ao invés de me
encontrar lutando contra Demétrius, eu estivesse aos beijos com ele? — insinuei.
Eca! Que horror! Só de pensar me dá nojo...
— Não dá nem para imaginar!
— “Não dá nem para imaginar”...? Então, some a isso ouvir da pessoa por
quem você foi trocado que eu sou uma “gata insaciável”, que beijo muito bem...
— Gato insaciável? — Sorriu ironicamente. — A subserviência não pode me
obrigar a sentir amor por ninguém, e essa é uma condição sine qua non para um
vampiro realizar um ato amoroso. E quanto aos beijos, foram ações mecânicas,
como as de um robô. Nem um pouco parecido com os que você me deu quando
foi submetida à minha vontade pela subserviência, porque no fundo você queria
mesmo me beijar. Desejava aquilo tanto quanto eu...
— Mas havia indícios que ajudavam a comprovar o que ela dizia. Você não
pode negar que ficou esquisito desde que falou com aquela louca pelo telefone
pela primeira vez. Também ficou disperso e sumiu na arena de basquete, não
revelando para onde tinha ido. E, por último, parecia não querer dizer mais que
me amava no aeroporto... — despejei.
Richard cobriu o rosto com as mãos, como se lutasse arduamente contra
crescente a irritação.
— São somente coincidências que ela tirou de Rico para lhe atormentar! Eu
estava mesmo esquisito de preocupação, principalmente quando percebi que a
namorada dele mudou de planos assim que ele mencionou pelo celular que eu o
acompanhei, inventando uma desculpa estapafúrdia para não comparecer à
arena. Para piorar, durante o jogo recebi uma ligação do dono do outro iate que
aluguei para desfazer o negócio, alegando que a embarcação precisava fazer
reparos. Tive que sair de lá para resolver esse problema com urgência e arrumar
outro iate. Eu já havia contratado os outros serviços para as nossas bodas, e até
vi que você ficou desconfiada, mas não quis falar nada porque era para ser uma
surpresa! — exclamou. — E quanto ao aeroporto... Não sei. Intimamente tinha
me arrependido de viajar, e ficar repetindo o quanto a amo só aumentava o meu
desejo de desistir!
— Não foi só isso — insisti. — Ela me deu detalhes da nossa vida íntima,
falou de apelidos, dos meus defeitos, como se tudo o que vivemos até agora
fosse uma enganação. E para dar um desfecho triunfal, você ia arrancar o meu
pescoço!
— Meu Deus! Não diga uma coisa dessas! Nunca tremi tanto de medo quando
Ivanka começou a falar as palavras-chaves que me dariam o comando para matá-
la com as próprias mãos! Mentalizei com todas as forças para que você corresse
dali ou que alguém me impedisse, como o meu filho fez. E as outras coisas que
acabou de citar... Não fiz nada disso. Ela não poderia arrancar confissões que eu
não quisesse fornecer, deve ter colhido as informações quando hipnotizou Rico!
E, antes que você mencione, aquela lenda que a Ivanka inventou sobre a
anulação do amor não existe.
— Seus olhos escureciam quando você a beijava...
— Escureciam de ódio! Stephanie, pare de procurar uma razão para se afastar
de mim!
— É o que vivenciei, Richard. Não dá para anular tudo assim, num estalo de
dedos.
Assaltado pela impulsividade, ele não mais se conteve, confiscando meu rosto
entre as mãos
— Concordo que o que passou foi horrível, mas só superaremos isso juntos.
Precisa de mim como eu de você, essa é a única verdade. Vamos acabar logo
com isso, deixe-me curá-la com o meu amor...
— Me dê um tempo — pedi, observando a aproximação gradual dos seus
lábios.
— Negativo. Já passou da hora. — Fechou os olhos, preparando-se para se
entregar ao desejo.
— Preciso... me sentir inteira... a-antes — gaguejei.
— Eu a remendo — replicou ofegante, inalando ferozmente o meu pescoço.
Senti meu corpo sendo levantado num abraço para ficar na altura ideal da sua
loucura.
— Por favor, tente me compreender...
Sua boca procurou pela minha.
— Não.
— Richard... — supliquei entre os seus lábios.
— Não...
Richard me beijou com uma urgência insaciável. Nem percebeu que me
espremia contra a parede. Agarrava os meus cabelos desgovernadamente, certo
de que resolveria tudo daquela forma. Foi maravilhoso sentir novamente o
quanto me desejava, que aqueles olhos escurecidos, a eletricidade e a febre
continuavam intactos, talvez até mais fortes.
No entanto, apesar de perder o fôlego e estremecer até a pontinha dos pés,
realmente ainda não estava preparada. A cabeça não se encontrava em sintonia
com o coração. O movimento cálido e sensual da sua boca me fazia associar
cenas traumáticas retidas na memória à voz daquela vampira declarando o
quanto ele beijava bem...
Eu sabia, não era culpa dele. Na verdade, tratava-se de uma condição reflexiva
da minha própria espécie. Como Richard e Ava sempre disseram, todos os
nossos sentimentos exacerbavam, inclusive as lembranças e os sons. Comecei
então a agonizar com a imagem, desvencilhando-me dos lábios que sempre me
fizeram sonhar.
— Não... posso... — Enterrei a cabeça no seu ombro, impotente.
— Não dá mais para esperar, amor. Estou ficando doente sem você!
— Leve-me para casa. Por favor.
Seu olhar agoniado me atingiu em cheio.
— Isso é... inacreditável! Está mesmo me rejeitando por algo que não fiz?
Sabe muito bem que, se pudesse escolher, sequer seria um vampiro!
— Nem queira tentar entender o que se passa na minha cabeça agora. Eu
mesma não me entendo. Só sei que, depois de passar dias depressivos, ausente
do mundo, voltei diferente.
Ele se afastou um pouco, exibindo um semblante soturno.
— Stephanie, seja sincera comigo. O que viu a magoou tanto que foi capaz de
destruir que sente por mim?
Destilei uma risada nervosa.
— Te amar é o que me mantém viva, Richard, independente da espécie.
— Então, se me ama de verdade, renuncie. Abaixe suas armas e me deixe
ganhar esta guerra — suplicou. — Apenas feche os olhos e esqueça tudo.
Concentre-se unicamente em mim.
Concordei, engolindo em seco. Cerrei as pestanas e esperei.
Meu corpo foi erguido do chão e girou no ar colado ao seu peito forte, que
exalava um aroma almiscarado inconfundível. Respirei fundo para me preencher
desse perfume, e em poucos segundos já estava acomodada na horizontal,
totalmente à mercê dos seus carinhos.
Inicialmente, senti mãos aquecidas se emaranharem com delicadeza por entre
os meus finos fios de cabelo, e depois delinearem as feições do meu rosto com
reverência. A intensa inspiração de narinas inquietas veio em seguida, como
quem precisa reconhecer uma senha pessoal para abrir as portas dos demais
sentidos. Seus lábios acompanharam o movimento sensual, iniciando uma
intensa exploração na minha pele, marcando-a a fogo a ponto de culminar num
motim de pelos eriçados pela trajetória... até alcançarem o lóbulo da orelha. Ali
eles estacionaram, provocativos, bombardeando-a com mordidinhas e sussurros
desestabilizadores.
Sem mais se conter de ansiedade, sua boca invadiu a minha, exigindo
rendição, enquanto o peso da compleição máscula me afundou no colchão.
— Céus! Sou tão louco por você... — murmurou rouco, aprofundando o beijo.
— Louco.
Juro que fiz de tudo para que o pensamento amaldiçoado não me traísse, mas
não deu...
Mesmo assim, para não magoá-lo, deixei que continuasse. Inclinei o tronco
para dar acesso ao fecho do vestido nas costas e receber seu toque febril
passeando entre coxas e seios. O ritmo da sua boca acelerou, promoveu um
bailar de línguas em conjunto com uma das mãos, que angulava minha cabeça a
fim de aumentar ainda mais o nosso contato, como quem exige uma resposta
ávida.
Levaram apenas alguns minutos até que o seu corpo tombou para o outro lado
da cama, e ouvi um último suspiro de lamento.
— O que foi? — murmurei, abrindo os olhos.
— Você tem razão. Realmente não dá — concluiu, abalado.
— Fiz o que pediu. Deixei que ganhasse a guerra.
Ele não conseguia esconder na voz a decepção.
— Exatamente. Deixou — frisou bem a palavra. — Mas não ganhei a guerra.
Perdi. Não posso vencer uma batalha quando você não divide a vitória comigo.
— Vamos tentar novamente, então...
— Não, Stephanie. Não quero alguém se anulando ou fingindo ao meu lado só
para realizar o meu desejo. Minha felicidade depende da sua. Estou acostumado
com uma entrega total, com uma esposa que me deseja e me ama todos os dias
como se fosse o último momento da vida dela. Não posso me satisfazer com
menos do que isso.
Refleti no que ele disse e intimamente concordei. Era assim também comigo.
Não me satisfaria se ele apenas estivesse ao meu lado, tinha que ser por inteiro.
O único problema era que ainda me sentia despedaçada. E não sabia o que fazer
para remendar o que havia sobrado.
— Me perdoa — supliquei. — Juro que tentei.
— A culpa não é sua. Você tinha razão quando falou sobre Demétrius. Se a
visse beijando outro homem, também ficaria alucinado. Se para os humanos já é
difícil aceitar algo assim, para nós causa um transtorno obsessivo.
Senti vontade de chorar de raiva, mas as lágrimas não vinham. Pior do que
enfrentar um problema de frente é não ter armas para lutar contra um fantasma.
— É, Richard... Não sou a perfeição que imaginava.
— Foi sincera comigo, disse o que sentia. Eu que me iludi, acreditando que
seria sua cura para tudo — lamentou. — E perfeição é algo questionável. Você é
tudo de que preciso e desejo, portanto, é perfeita para mim.
Permanecemos deitados lado a lado, mudos e olhando para o teto de madeira
envernizado, apenas sentindo o balanço que o barco promovia quando o mar se
agitava.
— Posso lhe fazer um pedido? — A voz de Richard quebrou o silêncio.
— Todos.
— Fica esta noite aqui comigo? Prometo que não toco num fio de cabelo seu,
vou me contentar apenas em olhá-la. Só não queria passar a data sozinho.
Planejei tanto este dia...
— Vou ficar — prometi.
— Deixo você amanhã novamente na casa do seu pai, daí terá o tempo que
quiser para pensar. Por mais que me doa, aguardarei até que se sinta inteira para
receber o meu amor novamente. Quero a minha Stephanie de volta e só vou
aparecer quando você chamar por mim.
— Como posso ter certeza de que você estará lá no momento em que isso
acontecer? — perguntei, deitando a cabeça no seu peito.
— Dou a minha palavra — garantiu.
— Mesmo que demore?
— Mesmo que leve a eternidade.
Vinte e seis

Acordei no dia seguinte na casa do meu pai do mesmo jeito que adormeci
antes de despertar naquele barco. Meus cabelos amanheceram esticados no
travesseiro. Todo santo dia era assim, podia até imaginar Richard fazendo isso...
Bem, ao menos a promessa de não tocar nos meus fios de cabelo ele não
conseguira cumprir, e eu duvidava também de que ele tivesse ido embora sem ao
menos me dar um beijo de despedida. Dava, inclusive, para sentir um resquício
do seu gosto nos meus lábios.
O vestido longo azul-marinho que ganhei dele jazia pendurado numa cadeira.
Olhei por todos os lados e não encontrei qualquer vestígio de sua presença, a não
ser por um bilhete que encontrei acima da mesinha de cabeceira, que dizia:

“Quando estiver pronta, chame pelo meu nome, e


voltarei correndo para os seus braços. Nunca mais duvide
do meu amor... Richard.”

Dei um longo suspiro.
Sabia que o magoava afastando-o daquele jeito. Entretanto, como ele mesmo
deu a entender em suas entrelinhas, uma meia verdade era como viver numa
mentira. E mentiras não eram compatíveis com uma relação como a nossa.
Parei para recordar o que fizemos após o seu pedido. Ao sair daquela cabine,
descobri que ele tinha organizado uma comemoração inesquecível para poucas
pessoas. Havia preparado um cardápio humano para os meninos, minha mãe e a
família da Anne, além de reservar um local especial com o nosso sangue
predileto, bem como diversos outros tipos de bebidas que poderíamos degustar.
As músicas também foram previamente selecionadas, entrando no repertório
somente aquelas de que nós dois gostávamos. Em cada canto do deck principal,
havia muitas rosas vermelhas.
Surpreendentemente, ele tinha conseguido até uma salva de prata contendo
água benta para imergir as nossas alianças e renovar os votos de amor eterno, já
que estar diante de um padre e dizer que fazíamos vinte e cinco anos de casados
enquanto aparentávamos vinte nas fuças era tecnicamente impossível. Soava
meio que a sacrilégio.
Passamos a maior parte do tempo sentados na proa, conversando sobre tudo o
que havia acontecido. Richard me contou que foi abordado por Ivanka no
aeroporto logo que se despediu de mim. A desgraçada arrancou informações
relativas à sua viagem de Rico e o enganou com aquela historinha de visitar a
avó doente em Naples.
Durante o tempo todo, ela usou da subserviência em horário integral, como já
vinha fazendo com Steban por anos a fio. Inclusive com outro vampiro, que
acabou morrendo durante o combate. Era tão obcecada que sequer dormia para
não dar margem de livrá-los da sua influência. Chegou a lhe confessar que
matou o antigo parceiro logo após ter transformado Richard, dizendo-se
apaixonada por ele, algo em que meu marido não acreditou, pois quem ama de
verdade não faz mal ou deseja o sofrimento do outro. Além do mais, Ivanka
também não tinha as reações físicas que nós apresentávamos, como mudança de
temperatura, escurecimento dos olhos, etc...
Enfim, tratava-se de uma obsessão, um capricho que levou mais de um século
para ser realizado.
O fato era que desde então a louca passou a reinar livre por aí, ao seu bel
prazer, desfilando roupas caras à custa dos seus subordinados, manipulando-os
feito bonecos para obter o que desejava.
Por quase todo o período, Richard não fazia a menor ideia dos seus planos.
Como uma psicopata nata, Ivanka o deixava à margem de tudo. Treinava-o em
falas premeditadas — que deveriam ser obedecidas de acordo com a situação,
com requinte de expressões faciais e tudo mais — e exigia obediência apenas no
exato momento em que o fato acontecia. Daí o espanto dele por descobrir que
estávamos dentro da casa, afinal, não havia carros na garagem, já que todos
saíram à procura de Rico. Sendo assim, o incêndio lhe soou à advertência, e,
contraditoriamente, a receio. Ela me temia, certamente por perceber o tamanho
do amor que nos unia. Por ser também uma vampira, eu estava mais próxima de
descobrir o seu segredo — a subserviência — de uma hora para outra, diferente
da esposa de Steban, que, como humana, dificilmente imaginaria algo assim.
De minha parte, pouco pude dizer de diferente do que ele já não soubesse. Ava
já havia feito o relatório completo, principalmente no que tangia ao meu estado
de ausência mórbida.
Mais tarde, ficamos observando as luzes da cidade piscando ao longe e,
quando a madrugada avançou, voltamos para a cabine, onde ele, como
prometido, não me tocou. Deitou-se ao meu lado, esperando que eu
adormecesse.

Desanimada, levantei e fui com a camisola emprestada ao encontro do meu


pai e da Vanessa na sala.
— Pensei que não voltaria mais para cá depois de ontem — supôs ele, assim
que me viu.
— Atrapalho vocês? — indaguei vacilante
— Claro que não, filha! — reclamou. — Minha casa sempre será sua, sabe
muito bem o que quis dizer.
— É, eu sei. Mas não deu.
— Richard é tão vítima quanto você — advogou em sua defesa.
— Também sei disso.
— Você não está feliz deste jeito, nenhum dos dois está.
Tremulei os dedos na mesa, incomodada com a justa pressão.
— Não tem noção do quanto quero voltar a viver com ele, pai.
— Então, o que falta para vocês ficarem juntos? Não entendo...
— Falta descobrir uma maneira de voltar a ser eu mesma — confessei,
cabisbaixa. — Suspeito que me perdi em algum momento quando acordei
daquele sono prolongado e não estou conseguindo me encontrar.
Falando assim, eu parecia até uma doida numa consulta psiquiátrica. Só
faltava aparecer alguma criança — uns dos poucos seres do planeta que, na sua
inocência, falaria o que realmente pensava — para colocar um espelho na minha
frente e dizer: “Olhe, você está aqui” ou até um simples “Achou”! Mas não era
loucura, era exatamente assim que me sentia.
— E o que pretende fazer para se recuperar?
— Pensei em passar uns tempos no Rio. A casa da mamãe ficou fechada.
Tenho certeza de que o Juninho não vai se importar de me emprestar a chave.
— É isso mesmo o que quer? Se for para lá, vai ficar sozinha...
— Essa é a intenção, pai.
Ele ergueu as mãos para o alto em rendição. Eu o conhecia, não me
questionaria mais sobre esse assunto.
— Ao menos necessita de alguma coisa?
— Bem, consegui salvar a minha bolsa com documentos, dinheiro, talões e
cartões. Só não tenho o que vestir. A não ser que deixem alguém mais parecendo
uma mendiga entrar num avião suja de fuligem ou trajada para um baile.
— Leve algumas roupas minhas — ofereceu Vanessa.
— Não muitas, as coisas da mamãe ainda devem estar lá. Visto o que der em
mim e depois, quando me sentir melhor, compro qualquer coisa. Os meninos
também precisam adquirir algumas peças, então deixo com vocês ou com Ava o
dinheiro.
— Rico não pode sair de casa por um bom tempo, ainda está em liberdade
provisória. Não sabemos até que ponto conseguimos apagar a memória dos
policiais e de todas as pessoas envolvidas — lembrou papai. — Mas Ava é boa
nisso, vai saber dar um jeito de trocar os documentos dele para cairmos fora
daqui.
— Tem razão. E não poderemos retornar aos Estados Unidos por muitas
décadas. Tenho pena somente dos pais do William, ninguém merece passar por
essa perda. No fundo, o rapaz parecia um bom garoto — lastimei. — Mesmo
sem terem noção, a morte dele foi vingada com a eliminação da assassina.
— Quando pretende viajar? — perguntou Vanessa.
— Ainda hoje, se der tudo certo. Mas não falem para o Richard. Vai ficar
agoniado se souber que viajei.

Consegui uma passagem no voo noturno e parti para o aeroporto com uma
mochila nas costas. Fiz o check-in e caminhei para a plataforma indicada no
bilhete. Antes de entrar na área reservada, olhei por todos os lados e ri
internamente dos meus próprios pensamentos.
Fiquei irracionalmente triste por ele não vir me impedir de viajar, da mesma
forma que fiz há vinte e cinco anos? Como, se eu mesma pedi discrição?
Seja como fosse, não podia negar que sentia a sua falta vinte e quatro horas
por dia. Richard tinha razão quando dizia que eu seria incapaz de agredi-lo
porque ele fazia parte de mim como uma febre incurável. Na verdade, circulava
pelo meu sangue feito um vírus mutante; sempre encontrava uma maneira de
driblar as minhas defesas e se multiplicar em todas as direções.
Tão logo aterrissei no Rio de Janeiro, peguei um táxi e fui direto para a casa
da minha mãe. Juninho ficou de me encontrar na varanda para me entregar as
chaves. Assim que ele partiu, de imediato uma sensação estranha me apossou.
Pela primeira vez, após tantos anos, voltei a ficar sozinha, como naquele
pequeno quarto de pensão em São Paulo. Eu sabia, era disso mesmo que
precisava, embora não imaginasse que aquele silêncio imperativo fosse me
incomodar tanto.
Bem, melhor silêncio do que vazio, não?
Esse sentimento ruim desapareceu no instante em que descobri que não havia
sido abandonada, e esperava sinceramente que ele não voltasse nunca mais.
A casa continuava do mesmo jeito que a deixei após o enterro. A mesma
manta azul com fios dourados sobre o sofá, o pano de prato com estampa de
pintinhos pendurado na alça do fogão, e o bilhete de compras de mercado semi-
amassado sobre a cômoda do quarto. Sentada na poltrona da sala, as lembranças
vagaram pela minha infância, pela adolescência e por todos os momentos que
passei dentro daquelas velhas paredes. Mamãe parecia estar tão presente e ao
mesmo tempo tão distante...
O mais difícil, porém, foi à noite. Aquela hora era destinada a ele. Deitar
numa cama, por mais estreita que fosse, sem sentir sua presença ao meu lado era
inquietante. Aliás, eu, que sempre gostei de dormir, passei a evitar os sonhos. A
ruiva maldita fazia questão de entrar neles, estragando incondicionalmente toda
a paz que me acalentava.
De tanto recapitular os fatos na horizontal, fiquei perplexa ao me dar conta de
algo que até então não havia percebido...
O sonho do passado! Tudo se encaixava!
As grades da prisão onde Rico chorou e ficou preso; a aliança no dedo da
mulher; a reação estranha de Richard; a loura de costas era Ivanka, que nunca foi
ruiva e somente tingiu os cabelos para completar o seu plano vingativo.
Minha nossa.
Apostaria quanto quisessem que ela era a mesma pessoa que abordou o meu
filho no parque da Califórnia e que, ao notar a semelhança entre Rico e Richard,
provavelmente desconfiou e fez questão de perguntar o seu nome para averiguar.
Lembrava-me bem de que ela chegou a observar ao nosso redor, como se
estivesse procurando por alguém, e logo em seguida desistiu quando se deparou
com o meu olhar felino. De longe não havia como saber mutuamente se éramos
vampiras; existiam muitos humanos circulando com a cor pálida semelhante à
nossa, e a distância somada ao barulho impediam a percepção da falta de
batimentos cardíacos, facilitando a dispersão.
Coincidentemente, na mesma época, Steban morava nos arredores de Los
Angeles e largou a sua família sem um motivo aparente. Também havia a tal
mulher histérica, de quem apanhei ao sol, denunciando que o local estava
“infestado” de vampiros, e que seu filho fora morto por um deles.
O sonho que tive quando as crianças ainda eram pequenas acabou se
confirmando, e nada mais foi do que uma premonição do que realmente iria
acontecer. Aquele instinto ou sensação do perigo eminente que Richard sempre
falou que um dia afloraria em mim enfim se manifestou. Quer dizer, o instinto
que me precavia do perigo eu até já tinha desde humana, mas a sensação de
sufocamento só veio a acontecer quando cheguei ao aeroporto para deixar
Richard viajar com destino à Atlanta e o confundi com saudade ou carência. O
engraçado é que ele também sentiu a mesma coisa, contudo, tal como eu, não
somou dois mais dois.

Nos primeiros dias, procurei me distrair fazendo arrumações, separando


roupas para dar, limpando a casa. Por sorte, com a nossa frequência de visitas às
escondidas, minha mãe manteve um estoque de bolsas de sangue dentro de um
climatizador que Richard comprou para que não precisássemos sair sempre para
buscá-lo nos hemocentros, e ficou guardado num quartinho fechado, onde
nenhuma faxineira teria acesso.
Depois que esgotei os afazeres foi que o problema realmente se agravou. As
horas não passavam, a saudade me corroía, e a solução para a angústia não
vinha. Virava e mexia, sentia o perfume dele pela casa, aumentando ainda mais
minha sensação de delírio.
O que é que eu faço agora?
Será que passaria a vida inteira atormentada por esses fantasmas? Seria
obrigada a viver eternamente longe dele porque jamais conseguiria esquecer?
Não! Isso tinha que acabar...
Mas, como? Como, meu Deus?
A partir daquele instante, tudo passou a me incomodar, até mesmo o tique-
taque do relógio da sala. Impaciente, andava de um lado para outro pela casa,
não fixava mais atenção nas leituras, mudava mil vezes de posição na cama, no
sofá ou em qualquer lugar que estivesse.
Com o cair da noite, a situação conseguia piorar. Os dedos passaram a
tamborilar impacientes, os pés batiam de forma ritmada no chão, e a respiração
ofegante denunciava que já chegara ao meu extremo. Queria que houvesse uma
maneira de levar um choque ou ter uma amnésia parcial para poder voltar para
casa correndo naquele minuto. A agonia foi tanta que me deitei na cama mais
cedo e chorei até o início da madrugada.
Não aguentava mais.
Não muito tempo depois que dormi, abri os olhos e enxerguei um clarão.
Fiquei tão zonza que não soube distinguir se aquilo era sonho ou realidade. O
fato é que não me importei em descobrir: era a minha mãe que estava ali.
— Mãe... — murmurei com a voz embargada.
Ela abriu um sorriso terno e nada falou. Tinha certeza de que estava ali porque
sabia o quanto eu sofria. Nos momentos mais decisivos da minha vida, ela
participou efetivamente, de forma a me fazer enxergar que a felicidade era
possível, sim.
— Mãe, não consigo esquecer! O que é que eu faço?
Mamãe rachou uma espécie de casca dura no próprio joelho. Dizia-me que
deveria quebrar o velho escudo que me protegia.
— Eu sei, mas... como?
A imagem começou a se dissipar. Ela apontou para um crucifixo que jazia
pendurado na parede, acima da estante do meu quarto.
— Confio Nele, mesmo sendo vampira.
Fiquei atônita quando percebi aquele clarão se apagando. Eu tinha tanta coisa
para falar... Mas não deixaria que ela se fosse novamente sem que lhe dissesse
aquelas palavras.
— Eu te amo, mãe.
Por fim, ela jogou um beijo no ar como se dissesse que sabia e desapareceu na
escuridão do quarto. Após o acontecido, realmente acordei. Embora aliviada por
conseguir me declarar, continuava sem saber se aquilo havia sido sonho, delírio
ou realidade. Apenas tive a certeza de que ela me indicou a saída.
Peguei o crucifixo e me concentrei.
Sabia que não era a criatura maligna que relatavam nas histórias de terror,
tudo dependia daquilo que vinha de dentro do coração. Se fizéssemos e
desejássemos o bem, estaríamos próximos de Deus. Do contrário, nos
afastaríamos como qualquer outro ser humano, pelo menos era nisso que
acreditava. Passei as primeiras horas da manhã orando e pensando no modo
como ela apontou para aquela direção. Pendurei o crucifixo novamente no lugar
e notei que logo abaixo havia uma foto da minha amiga Anne ao meu lado.
Intuitivamente, tomei o porta-retrato nas mãos e tive vontade de ligar para ela.
— Será? — indaguei-me. — Será que era isso o que ela quis me dizer? Que a
minha amiga pode me ajudar?
Não vacilei. Liguei imediatamente, ignorando o fato de que mal havia
alvorecido. A urgência de voltar para Richard já tomava uma proporção
descontrolada.
— Anne?
— Stephanie? É você? — estranhou, bocejando de sono.
— Te acordei, não foi? Desculpa...
— Que voz é essa? Aconteceu alguma coisa?
— Preciso da sua ajuda. Dá para vir aqui? — Não deu para esconder a aflição.
— Onde?
— Na casa da minha mãe.
— Chego aí em meia hora, ok? Só vou escovar os dentes, mudar de roupa e
tomar um gole de café.
— Valeu.
Anne foi pontual. Éramos amigas desde a infância, e naquele instante, pela
idade, ela mais parecia a minha mãe. As marcas do envelhecimento já povoavam
o seu rosto, mas a essência da sua amizade permanecia intacta. Nem bem chegou
e despejei, nos mínimos detalhes, tudo o que aconteceu comigo nos últimos dias.
Eu erupcionava feito um vulcão expelindo lavas por todos os lados. Em toda a
minha vida, nunca fui capaz de me abrir de forma tão clara com alguém, a não
ser com o meu próprio marido.
— Nossa! — exclamou. — Desgraça, quando se aproxima de você, dá em
penca!
— Concordo. Devo ser algum tipo de ímã — ironizei, demonstrando agonia.
— É bem pior do que eu pensava. — Notou pela minha expressão.
— Estou desesperada, Anne, e não tenho a quem recorrer. Quero voltar para
Richard, mas não consigo esquecer!
— Tudo bem, vamos por partes: de quem você não esquece? Da vampira
obcecada ou da Juliet?
— Da...?
Não havia parado para pensar dessa forma. Para mim, até agora, era como se
as duas fossem uma só.
— Talvez você não tenha colocado um ponto-final nessa história porque,
mesmo que a tal Ivanka tenha morrido, o medo que sente de perder Richard para
ex-noiva dele ainda persista. Suponho que ficou impressionada com o retorno do
Albert e acabou realmente associando uma à outra, armando o seu velho escudo
outra vez para se proteger de uma dor insuportável futura.
Aproveitando que minha mente buscava por essa resposta, Anne continuou:
— Precisa enterrar as duas, amiga. A Juliet não foi como o Albert, que teve a
vida interrompida no auge do amor dele pela Ava. Ela viveu o suficiente para
escolher o seu destino, e não aceitou Richard porque não era a verdadeira alma
gêmea dele. Portanto, não vai mais voltar. Já quanto à outra vampira, pense pelo
lado positivo da coisa: Richard ficou livre para sempre. Não existe mais
ninguém neste mundo que possa separá-los, Stephanie. Apenas você mesma.
Tapei a boca com as mãos, pasma com a simplicidade da sua lógica.
— Não é que você tem razão?
Às vezes, a resposta está ali, diante do próprio nariz, e não conseguimos
enxergar porque os sentimentos nos cegam. Acredito que seja exatamente por
isso que Deus nos tenha concedido a dádiva de possuir verdadeiros amigos. Para
que eles, através de olhos imparciais, coloquem-nos novamente nos trilhos e não
nos deixem descarrilar no meio do caminho, chegando, assim, ao nosso destino
fortalecidos, prontos para a próxima viagem.
— Você me deu razão? Deu o braço a torcer? Aleluia, irmão! Milagres
acontecem! — brincou.
Senti uma turbulência urgente me invadir, por isso abracei a minha amiga com
força. Ela estava totalmente certa, sempre esteve.
— Ô vampira maluca! — xingou-me às gargalhadas. — Está me esmagando,
sabia? Eu sou humana...
— Obrigada, Anne — agradeci emocionada. — Não sei o que vou fazer
quando não puder mais contar com você na minha vida.
— Sempre estarei com você, sua bobona. Aqui. — Apontou para o meu
coração.
— Eu também. Mas agora preciso correr — afirmei, livrando-a do meu abraço
num lamento.
— Aonde vai com tanta pressa?
— Primeiro, enterrá-las de vez. Depois, remarcar a passagem de volta. Preciso
ver Richard ainda hoje.
Entrei no meu antigo quarto e peguei uma caneta e dois papéis. No primeiro,
escrevi o nome da Juliet e no segundo, Ivanka. Anne veio atrás de mim, sem
entender absolutamente nada. Desci as escadas correndo e abri a porta que dava
para o quintal, procurando a pá de jardinagem da minha mãe. Enrolei cada papel
daquele em uma pedra e cavei um buraco no jardim, num lugar não iluminado
pelo sol, enterrando-os em seguida.
— Pronto. Elas estão enterradas, e eu, livre. — Bati uma mão na outra para
limpar o resquício de terra que ficou nelas. O alívio foi imediato.
— Cada louco no seu hospício. Falei para enterrá-las. Não imaginei que agiria
tão ao pé da letra...
Aos olhos alheios, podia até parecer maluquice minha, mas garanto que não
era. Eu precisava de algo mais concreto que simbolizasse de uma vez por todas o
fim daquele medo. E nada como um enterro, a representação do término de um
ciclo, para que a ficha caísse e nos deparássemos com a realidade. Só que a
minha realidade agora, felizmente, não era mais de perda, e sim de liberdade, de
conquista.
Lavei as mãos e saquei o telefone, ávida para adquirir uma passagem no
mesmo dia de volta, coisa que infelizmente não aconteceu. Os voos estavam
todos lotados.
— Droga! Amanhã?!
— Calma, Stephanie! Por que essa afobação toda? — estranhou Anne. — Tem
a eternidade para matar a saudade.
— O tempo não passa quando fico longe dele — novamente resmunguei.
Ela revirou os olhos como se dissesse “afeee, coisa de vampiros”.
— Preciso sair agora, fazer compras de supermercado, pagar contas no banco,
coisas do tipo. Quer ir comigo? — convidou-me.
— Ficaria chateada se eu não fosse? Meu pensamento fixo mudou, você sabe.
— Sei, voltou a ser de o sempre. — Riu de mim com vontade. — É claro que
não! Só me ligue depois avisando para onde vocês vão se mudar. Planejamento
das próximas férias...
— Isso. E não se atreva a trocar o destino da viagem, ou a esmago de verdade
— ameacei de brincadeira.
Anne se despediu, deixando-me sozinha de novo naquela aflição infinita. A
febre já me tomava de tanto que pensava nele. Eu não podia pôr os pés na rua
por conta do sol forte e também não conseguia mais ficar no interior de cômodo
algum; minha mente não jazia mais ali. Aquela casa se tornou uma página
virada, e eu queria ler logo o próximo capítulo, queria chegar o mais rápido
possível ao epílogo.
Epílogo

Quando o sol desapareceu no horizonte, sentei-me na cadeira da varanda.


Aquela onde ele me beijou no passado com tanto desejo que derrubamos os
vasos de plantas ao nosso redor sem nem percebermos.
Saudade...
Não dava mais para esperar, eu havia chegado ao extremo. Nenhuma posição
que ficasse me satisfaria, somente nos braços dele curaria a minha loucura.
— Richard, cadê você?! — gritei ao infinito, mesmo ciente de que ele não me
ouviria.
— Estou aqui, amor — respondeu uma voz, vinda de dentro da casa.
Saltei da cadeira no susto, incrédula com o que ouvi, deparando-me com
Richard estacionado bem na porta de entrada da casa. Não resisti: abracei o meu
marido com tanta afobação que quase o derrubei no chão da sala.
— Não acredito! Você está aqui! — exultei, descontrolada.
— Sempre estive — revelou, retribuindo o meu abraço. — Tinha que estar
quando você me chamasse, lembra?
— Mas... como? Onde você ficou esse tempo todo?
— Aqui mesmo, no quarto da empregada. Você estava tão introspectiva que
nem reparava nada à sua volta. Observei de longe cada minuto do seu dia.
Escancarei a boca, completamente pasma.
— Quem o avisou que eu viria para cá?
— Informação sigilosa, sinto muito.
— E quando você chegou?
— Minutos antes de você. Peguei o mesmo voo — comentou, pressionando
uma única tecla do celular e desligando em seguida.
— Não pode ser! — duvidei. — Olhei todos no guichê de embarque!
Ele regozijou com o que disse.
— Queria que eu estivesse ali para impedi-la de embarcar, como você fez
comigo?
— Inconscientemente, sim. Mas não era a hora ainda.
— Sei disso, por isso não fiz.
— Mesmo assim, não entendi como foi que entrou na mesma aeronave.
— Já aguardava no avião quando você entrou. Fiquei na última poltrona. Sabe
como é... Tenho meus métodos para convencer os funcionários da companhia
aérea a cederem ao meu apelo.
Claro, hipnotizando até eu!
— Nossa, chorei de saudade nos últimos dias! Por que não apareceu antes?
— Fiz uma promessa, lembra? Você tinha que estar pronta para voltar para
mim.
— Eu estou pronta, amor. Nunca estive tão pronta como agora — Capturei
seus lábios num beijo, afoita.
Ele exultou com o carinho.
— Ah, Deus, como senti falta disso!
— Vou matar a sua saudade... e a minha — prometi, já cumprindo a promessa
de imediato, pulando no seu colo com as pernas enlaçadas à sua cintura. Ele
perdia as estribeiras quando eu o beijava assim.
— Céus! Assim vai ser impossível não ceder... — murmurou agoniado,
incapaz de esconder a vulcanização crescente que emanava da sua boca.
Deu vontade de rir. Parecia até que cometíamos algum pecado.
— Chega de resistências. Acabou a quarentena.
Richard viajou naquele beijo tão aguardado. Gemeu, sibilou frases
desconexas, agarrou meus cabelos com uma ferocidade animal que havia tempos
não o sentia sucumbir e, num esforço quase que hercúleo, desvencilhou-se
subitamente.
— Não me descontrole ainda. Preciso fazer algo antes.
Que piada! Ele já tinha se descontrolado.
— Ah, não! Quero você agora, Richard. Agora — repeti, avançando ainda
mais. Na verdade, desejava levá-lo às pressas para o meu quarto.
— São apenas mais alguns minutos, bruxinha. Depois teremos a eternidade
inteira pela frente. — Empurrou-me na direção contrária, rumo à rua.
Instintivamente freei.
— Para onde pretende me levar? Não estou vestida adequadamente para
passear, são roupas da minha mãe...
— Está maravilhosa, Stephanie — elogiou-me, andando apressado.
Maravilhosa? Usando saia jeans puída e uma camiseta manchada?
— Por que não saímos depois? — protestei, a urgência dos seus carinhos
falando mais alto em mim.
— Quero recomeçar da estaca zero — respondeu, continuando a caminhar
com rapidez pelas ruas, arrastando-me pela mão.
— Estaca zero? Mas...
— Acalme-se, amor. Já vai entender, estamos quase chegando.
Percorremos cerca de quinhentos metros ou mais até que ele parou diante de
uma igreja e ergueu a minha mão para remover a aliança do dedo, fazendo o
mesmo com a dele.
— Por que isso agora? — reclamei.
— A minha aliança esteve nas mãos de quem eu odiava, então quero purificá-
la novamente, renovando os nossos votos antes de colocá-la de volta ao lugar de
onde ela nunca mais sairá.
— Richard, se ainda não percebeu, a igreja a essa hora já fechou — relatei o
óbvio.
— Eu sei, mas as minhas testemunhas trouxeram a água benta que consegui
para as nossas bodas de prata. Tenho certeza de que seremos abençoados.
— Testemunhas?
— Sim, essas que estão atrás de você.
Girei o corpo e avistei os meus filhos. Vibrei de felicidade. Minha família
reunida novamente!
— Rico precisava sair logo do país, e a Vitória também quis vir — explicou
Richard
— Quando chegaram? — indaguei, dando um beijo na testa de cada um.
— Ontem — respondeu Rico.
— Não me diga que eles também ficaram instalados no quartinho da
empregada...
Aí já seria distração demais, não seria?
Richard achou graça da observação.
— Eles estão num hotel aqui perto. Não caberia todo mundo na casa do seu
irmão ou da Anne.
— Todo... mundo?
— Não pude impedir que os outros viessem. Sabe como é, a família cresceu...
Nem precisei perguntar mais nada. A visão que tive a seguir esclarecia por si
só. Papai, Vanessa, Ava, Albert, Andrew, Steban, Margie, Anne, Luciano, seus
filhos e até mesmo o meu irmão — que compareceu sozinho — se aproximavam
numa conversa animada. Deparei-me com um complô familiar e mesmo assim
não conseguia me sentir traída. Ao invés disso, irradiava alegria.
— Como conseguiram chegar tão rápido aqui? — questionei.
— Tecnologias que o seu filho implanta nestes aparelhos. — Sacudiu Richard
o celular. — Apenas apertei uma tecla e... voilá! Todo mundo recebeu a
mensagem. E como estavam próximos...
Minha antena captou um sinal claro de deserção de um componente da tropa.
— Só um minutinho... — interrompi-o, desconfiada. — A Anne já sabia de
tudo isso desde ontem?
— Ahã — confirmou a própria, fazendo cara de paisagem.
— Viu a minha agonia e não me falou coisa alguma, filha da mãe?
— Eu não menti. Você não me perguntou nada...
— Ah, essa é boa! Tudo bem, retiro tudo o que disse hoje pela manhã, ok?
— Deixa de ser chata, Stephanie!
— Hmmm, hmmm... — Pigarreou Richard, roubando minha atenção. —
Podemos começar?
O silêncio imediatamente imperou.
Reconheci de cara a salva de prata que a Vitória carregava em mãos, onde
Rico derramou a água benta — conservada num vidro — e as nossas alianças
foram imersas.
— Stephanie Hacket. Ha-cket — repetiu meu marido, silabando a palavra
propositadamente, feito uma advertência. — Nada desse sobrenome “Wernyeck”
de solteira, ouviu bem? Seu nome de casada é esse!
Era mesmo essa a declaração que ele pretendia fazer na frente de todo
mundo? — indaguei-me, estreitando os olhos em sua direção.
— Acho meu sobrenome muito bonito, para o seu governo — retrucou papai.
Meus filhos desataram a rir.
— Ih! Começou... — caçoou Rico.
— Tava demorando — emendou Vitória, acompanhando o irmão.
— Contaram isso para você também, amor? Essa sua informante anônima está
me saindo melhor do que encomenda — debochei, fuzilando minha filha por
tabela.
— O papai perguntou. Nada de mentiras, lembra? As regras são suas — ela
devolveu, usando minha própria munição.
Revirei os olhos.
— Afinal, veio aqui para me fazer um pedido ou uma cena de ciúme
infundado? — indaguei a Richard, retomando o assunto original.
— Eu tinha que dar esse aviso antes. E não é ciúme infundado, parecia que
todos os policiais de Miami ficaram interessados numa tal de “Stephanie
Wernyeck” — desdenhou, sacudindo a cabeça. — Também pudera! Usando uma
roupa daquela...
— O que tinha demais no meu vestido? — protestei.
— O que tinha de menos! Era de tirar qualquer um do sério! Faria até um
padre convicto jogar a batina fora!
— Eu falei... Eu falei... — ajudou Rico.
— A culpa não foi minha — legislei em defesa própria. — Eu não tinha outra
roupa, então peguei aquela emprestada com a Ava.
— Ava, em que time você joga, afinal? — acusou-a Richard. — Andou sendo
subornada pelo adversário? Assim vai induzir o zagueiro a fazer gol contra em
decisão de Copa do Mundo!
— Essa é boa! Você atrai uma louca que queima o guarda-roupa inteiro dela, e
agora sou eu a culpada? — debochou ela, divertindo-se. — Além do mais, não
vejo nada de errado com os meus vestidos. Em minha opinião, são muito
bonitos. O que você acha, chérie? — passou a bola para Albert.
— São maravilhosos — respondeu seu par, tremulando as sobrancelhas.
— Ele não vale! — criticou Richard. — Tem que ser um vampiro para
responder a essa pergunta.
— Não vai demorar muito para acontecer — garantiu Albert, declaradamente
apaixonado.
— Um pouco — corrigiu Ava. — Não quero parecer tão mais velha.
— Está na idade perfeita, gata — elogiou ele de volta.
— Pense bem, Albert — aconselhou papai. — Se eu soubesse que essa coisa
de subserviência existia, não sei se teria tido essa coragem.
— Alguma reclamação, benzinho? — sugestionou Vanessa.
— Imagine! Adoro ser seu Mestre Yoda vinte e quatro horas por dia! —
Gesticulou papai, como se tivesse empunhando uma arma e atirando no peito de
Richard.
— Podemos voltar ao tema principal? — desconversou meu marido, virando-
se para mim. — O que você fez para que a corporação inteira ficasse
“alvoroçada” daquele jeito?
— Pensei que o tema principal fosse a renovação dos nossos votos —
estranhei.
— E é, mas você sabe muito bem como os vampiros são. Não vou conseguir
tirar isso da cabeça enquanto não me disser a verdade.
— Como é que soube disso?
— Meus movimentos eram controlados, não os meus ouvidos — resmungou.
— A que distância? É impressionante como para determinados assuntos o seu
ouvido capta as coisas por via satélite. Por acaso fez parceria com a AT&T,
Richard?
— Engraçadinha... Nem tente me embromar! — pressionou, cruzando os
braços.
— Eu precisava salvar o meu filho, ué. E você tirou a sua aliança...
— Traduza — rosnou.
— Não beijei nenhum deles, como aquela vampira nojenta que enterrei pela
manhã no quintal da mamãe fez com você, se é o que quer saber! — insinuei. —
Só deixei que eles imaginassem que ganhariam um prêmio em troca de
informação...
Rico arregalou os olhos, chocado.
— Enterrou a Ivanka no quintal da vovó? Pensei que não tivesse sobrado nem
cinzas dela para contar a história!
— Pai, prometeu que não ficaria enciumado, lembra? — frisou Vitória.
Foi a minha vez de gargalhar.
— O seu pai prometeu isso? Essa eu quero ver...
— Não pode falar de mim. Acabou de enterrar duas no quintal por conta do
ciúme — instigou-me Richard.
Por essa eu não esperava.
— Também assistiu a essa cena?
— Duas? Mãe, o que deu em você? Quem foi a outra que você enterrou? —
apavorou-se Rico.
— Devia fazer o mesmo, amor. Nem queira saber o alívio que senti depois...
— sugeri a Richard, ignorando o comentário sem noção do meu filho.
— Boa ideia! Onde fica a pedreira mais próxima? Preciso comprar um
carregamento de pedras para enterrar uma tropa de oficiais! — zombou meu
marido.
— Não estou entendendo mais nada — disse Vitória, confusa. — Vieram à
frente da igreja para purificar as alianças ou para pedir perdão antecipado por
algum assassinato em massa? Se for para isso, nem contem comigo!
— Graças a Deus! — exclamou Margie, aliviada. — Fiquei preocupada,
achando que o Andrew, casando apressado assim, tivesse que participar desse
tipo de coisa.
Margie estava diferente, parecia rejuvenescida e até mais bonita, prova
incontestável de que o amor faz bem às pessoas. Suspeitava de que já tivesse
feito a sua mudança de espécie, considerando a cor empalidecida que exibia.
— Ih, não liga não... — desdenhou Ava. — Esses dois, quando começam a
discutir, só eles mesmo entendem o que estão falando. Não têm coragem de
matar uma mosca! Daqui a pouco, você vai ver, sairão daqui correndo, dizendo
que precisam “matar a saudade”. E olhe que já fazem isso há vinte e cinco anos!
— Espere aí, vamos rebobinar a fita... — interpelou Richard, olhando de
esguelha para Andrew. — Ouvi direito o que ela disse? Por que é que você
precisa casar apressado com a minha filha?
— Porque... estamos apaixonados — respondeu Andrew, divertindo-se. —
Não entendi. Não quer que a gente se case? Podemos morar juntos por um
tempo, então.
— Ah, claro! Se quiser passar o resto da vida procurando pela sua cabeça...
— Aleluia! Sabia que a minha desforra algum dia viria! — exclamou papai,
vingativo.
— Quero ser chamado para todas as reuniões desta família. É bem melhor do
que assistir a uma peça de comédia no teatro! — comentou Luciano, caindo na
gargalhada.
— Não sei se você vai achar muito cômico quando descobrir com quem a
nossa filha resolveu se engraçar... — insinuou Anne, mostrando que Júlia e Rico
piscavam um para o outro.
— Epa! Peraí, ô meu! — Luciano chamou à atenção o meu filho. — Não o
ensinei a conquistar as mulheres para você usar essa arma contra a minha própria
filha! Tira o olho dela!
— Falei que um dia ele seria o seu genro, não falei? — Richard provocou
Luciano.
— Quer dizer que a fama de conquistador dele se deve a você? — repudiou
Anne, dando uma pequena cotovelada no marido, que esbarrou no filho.
— Ai! Meu pé! — reclamou Miguel, esticando a perna engessada para o outro
lado.
— Luciano tem razão — concordou Steban. — É muito melhor do que assistir
a uma comédia no teatro.
Emitindo um som metálico ao bater com uma chave na salva de prata, Richard
solicitou atenção.
— Posso falar sério agora?
Diante do silêncio repentino, ele buscou pelos meus olhos:
— Stephanie Hacket, prometo amá-la e respeitá-la por toda a eternidade.
Aceita renovar os votos de um casamento feliz comigo?
— Ufa! Pensei que não iria perguntar nunca... É lógico que aceito!
Ele retirou a minha aliança da imersão, beijou-a e colocou novamente no meu
dedo. Confesso que fiquei emocionada, tanto quanto quando a descobri
brilhando na minha mão direita pela primeira vez.
Depois que fiz o mesmo, Richard se desculpou:
— Peço perdão a todos. Acabei não trazendo nada para brindar...
— Nem olhem para mim! — brincou Juninho, cobrindo com as mãos o seu
pescoço.
— Palmas para o grande salvador da pátria! — vangloriou-se meu filho,
mostrando que carregava uma sacola com quatro garrafas de champanhe e
algumas taças.
Fixei o olhar naquela cena e me peguei pensando em como a vida era
estranha. Depois de toda a tempestade por que passamos, estávamos todos
reunidos à frente de uma igreja de portas fechadas, no meio da noite, vestidos
nada a caráter para renovar votos de casamento entre vampiros. Se alguém me
dissesse algo assim no passado, juro que diria que o autor dessa história era
louco ou um humorista de primeira. Tanto quanto foi o meu casamento, minhas
bodas também aconteciam de maneira inusitada, e, ainda assim, sentia-me mais
feliz do que se as tivesse comemorado num baile de gala. Richard tinha razão
quando dizia que a felicidade é simples: resume-se a amar e a se sentir amado. O
resto é consequência.
— Vai se interessar por um cara que traz bebida alcoólica para a porta da
igreja? — indagou Luciano à filha.
— Pai! — reclamou Júlia, repreendendo-o pelo mico.
— Fica frio, padrinho — zoou Rico. — Qualquer coisa, caso com ela no
mesmo dia que a minha irmã.
— Então prepare-se para se casar na semana que vem! Não tenho como saber
às quantas anda o namoro desses dois. O olho dele é negro! — resmungou meu
marido, referindo-se a Andrew.
— Fácil, pai. É só olhar a cor dos olhos da Vitória.
Richard proferiu seu eterno bordão ao observar o breu instalado nas íris da
filha.
— Estou perdido mesmo...
— Sério, adorei mesmo esta família — disse Steban à esposa.
— Eu também — devolveu Margie.
— Sou filho único — esclareceu Steban. — Nunca tive a oportunidade de
uma convivência familiar agradável e sadia como esta.
— Então sejam bem-vindos — saudou-lhes Ava. — Também só passei a ter
uma família de verdade quando esses dois se casaram. Tudo começou com eles.
Um murmúrio cálido chegou até meus ouvidos.
— Stephanie? — chamou-me Richard.
— Hmmmm? — respondi distraída.
Ele arrastou sua narina pelo meu pescoço.
— Que tal deixarmos que eles se entendam e sairmos sem fazer alarde?
— Está me propondo uma fuga? — sorri, adorando a ideia.
— Topa? — admitiu, capturando-me silenciosamente pela cintura.
Seus passos aceleraram gradativamente pelas ruas.
— Vamos para a casa da minha mãe?
— Não, aquele lugar guarda agora lembranças tristes. Precisamos de um local
onde possamos apenas nos lembrar do quanto somos felizes.
— Então...?
— Para a nossa casa... provisória. Pedi que a alugassem até que achássemos
outra num bairro mais pacato.
A possibilidade me agradou.
— Quer dizer que voltamos a morar no Brasil?
— Existe lugar melhor para se viver? — perguntou, assim que virou a
esquina.
— Claro que existe.
— Onde?
— Do seu lado. Não importa onde.
Richard sorriu de orelha a orelha, feliz com a resposta.
— Estava louco para ficar sozinho com você...
— Vou compensar cada segundo de saudade que sentiu de mim — prometi.
Paramos diante de uma discreta casa amarelinha, bem próxima ao local onde
reafirmamos nossos votos.
— Então abra a porta e comece agora mesmo a cumprir o que prometeu —
exigiu, entregando na minha mão as chaves.
— Olha que a minha saudade é grande... — ameacei, girando a chave na
fechadura num movimento preciso.
— Creio que posso suportar esse sacrifício enorme.
Ele subiu as escadas de pedra às pressas, praticamente me conduzindo nos
braços. Em seguida, escancarou a porta do quarto, que de mobília possuía apenas
uma cama de casal isenta de lençol ou de travesseiros, e me colocou nela,
deitando-se por cima.
— Ei, não acha que ficou faltando alguma coisa importante naquela cerimônia
maluca? — insinuei.
— O quê, por exemplo? — roçou sua boca na minha, provocativo.
— Não sei... Quem sabe um... beijo? — sugestionei, fechando os olhos para
potencializar a sensação.
— Talvez eu tenha ficado traumatizado após ser recusado tantas vezes. Pensei
que você não gostasse mais... — instigou, mordicando a pinta do meu lábio.
— Até que gosto... um pouquinho — desdenhei.
— Céus! E eu, que pensava em utilizar seus serviços de psicologia para me
livrar do trauma...
— Ainda não sou formada. Não posso garantir o resultado.
Ele afastou o meu cabelo para ter acesso livre ao pescoço.
— Já que é assim... Será que conhece outra psicóloga disposta a me tratar?
Certos casos são difíceis de desfazerem sem uma ajudinha profissional.
— Na verdade, conheço várias. Só não tenho certeza se viveriam até o dia da
consulta.
Ele riu. Sua face era a imagem da satisfação.
— Então, o que me sugere?
— Que enfrente o seu trauma e vença esta guerra.
— Não está pensando em deixar que eu a ganhe, não é?
— De jeito algum. Aliás, devo adverti-lo de que não será fácil. Talvez durem
horas, meses, séculos...
— Ótimo. Gosto de vencer por mérito — declarou, convencido.
— Pretende dividir as conquistas no final?
— Depende. Se me prometer que nunca mais vai duvidar do meu amor ou
fugir de mim...
— Desde que a sua aliança se mantenha no dedo e que me leve a todas as
viagens que fizer, a começar agora, neste quarto...
— Combinado. Só ficou faltando uma coisa para selar o nosso pacto, então.
— E o que é?
— Diga “eu te amo”, bruxinha. É a senha mais importante desta guerra.
— Ficou louco? Acha que vou entregá-la de bandeja para o inimigo? Seria
uma tremenda deserção!
— Não está me dando alternativa... Serei obrigado a torturá-la até conseguir
arrancar a senha na marra — fez posição de ataque.
— Tem todo o direito de tentar...
E essas foram as últimas palavras que pronunciei naquela noite, antes de ser
silenciada de vez pela sua boca.
Quer dizer, minto: ele conseguiu roubar a senha. Várias vezes.
Também consegui: todas as vezes.
Nasci para ser estrategista, o que é que eu posso fazer?
A sorte é que sempre haveria uma nova senha a ser roubada no dia seguinte, e
a nossa guerra duraria... por toda a eternidade
Em breve,
a última sequência da série
Adeus à Humanidade
em
Renascer para
A ETERNIDADE
Não perca!

Copyright
Todos os direitos reservados 2015 Marcia Rubim
Ao final desta história, não se esqueça de pontuar e comentar o que
achou do livro. Até breve!

Table of Contents
Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Seis
Sete
Oito
Nove
Dez
Onze
Doze
Treze
Catorze
Quinze
Dezesseis
Dezessete
Dezoito
Dezenove
Vinte
Vinte e um
Vinte e dois
Vinte e três
Vinte e quatro
Vinte e cinco
Vinte e seis
Epílogo

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