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Rio de Janeiro

2021
Copyright © 2021 DANIELLE VIEGAS MARTINS

Capa: L.A Creative – Larissa Aragão


Revisão: Jéssica Nascimento
Diagramação: Denilia Carneiro – DC Diagramações

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e


acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora.
Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.
___________________________________
A ESPOSA QUE EU NÃO ESCOLHI
1ª Edição - 2021
Brasil
___________________________________
Todos os direitos reservados.

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dessa obra, através de quaisquer meios ─ tangível ou intangível ─ sem
o consentimento escrito da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98


e punido pelo artigo 184 do Código Penal.

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SUMÁRIO
PLAYLIST DO LIVRO
EPÍGRAFE
SINOPSE
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
PARTE I
PARTE II – PERDÃO
PARTE III – NOVO PACTO
EPÍLOGO
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BREVE BIOGRAFIA DA AUTORA
OUTROS LIVROS DA AUTORA
PLAYLIST DO LIVRO: A
ESPOSA QUE EU NÃO
ESCOLHI
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EPÍGRAFE
SINOPSE

Enrico Mancuso, desde muito jovem, já sabia quem

seria sua esposa. Elleanora Van den Berg foi criada e

educada para ser a esposa do herdeiro da maior companhia

siderúrgica do país. A união entre suas famílias o tornaria o

homem à frente de um dos maiores conglomerados do ramo

no mundo. No entanto, tudo muda quando a fútil, porém

obediente futura esposa decide que não quer mais ser nem

fútil, nem obediente e muito menos esposa.

A meia-irmã de Elleanora se torna então a única opção

para que a fusão dos negócios entre a Família Mancuso e

Van den Berg aconteça. Contudo, se casar com uma moça

obtusa, que passou quase toda sua vida em um colégio


interno, nem de longe era o que Enrico planejava. Um homem

que não acredita no amor, machista e extremamente

controlador.

Porém, ao colocar os olhos na linda e silenciosa moça

de sorriso doce e inocente, ele tem uma agradável surpresa e

“adestrá-la” para que se torne a esposa que ele precisa deixa

de ser um desafio inoportuno e se torna uma promessa de

muito prazer e satisfação. Pelo menos, é o que ele acredita.

O que Enrico Mancuso nem desconfia é que de inocente

e silenciosa Jordanna, ou Anna, como prefere ser chamada,

não tem nada. A moça sempre ocultou o amor que cresceu

em seu coração pelo noivo da irmã, mas, diferente de

Elleanora, Anna, na verdade, nunca foi disciplinada,

obediente ou fútil. Enrico Mancuso vai descobrir que a esposa

que ele não escolheu era na verdade tudo que ele precisava.
Mas é possível amar alguém tão diferente de você?
PRÓLOGO

O ano era 1985 e em uma das salas privé no Jockey

Clube do Rio de Janeiro, Mário Mancuso, juntamente com

seu amigo e parceiro de negócios Willy Van den Berg, abria

um Royal Salute para comemorar a chegada do primeiro neto

da família Mancuso. Minha mãe, Vivian Mancuso, tinha dado

à luz a um menino saudável naquele dia, que chamou de

Enrico.

Meu avô e seu amigo – e maior concorrente na indústria

siderúrgica naquele momento – apenas sacramentavam o

que já tinham discutido diversas vezes. Ponderavam,

principalmente, sobre como se daria a fusão de suas

empresas com a união das famílias Mancuso e Van den Berg.


O que afetava diretamente a mim e a mulher que seria a

minha esposa um dia porque, quando eu nasci, meu destino

já estava completamente traçado.

— Querido Willy, trate de acelerar as coisas com Daniel,

para que ele nos traga uma filha mulher, para assim

assinarmos de vez a união de nossos negócios com a benção

deste casamento de meu neto com sua neta. Você sabe

melhor do que ninguém que temos segredos guardados a

sete chaves que precisam permanecer como estão. Contudo,

somente mantendo o controle e a hegemonia das empresas

de nossas famílias, poderemos garantir a supremacia de

nossas corporações pelas gerações que ainda virão. Trata-se

do fruto do nosso trabalho para o qual dedicamos toda nossa

vida. Não podemos permitir que quem virá depois de nós


ponha tudo a perder. Em outras palavras, seu filho Daniel

precisa engravidar logo a esposa.

E o discurso de meu avô continuava:

— Com o casamento de nossos netos, conseguiremos

unir nossas companhias e passaremos a ter o domínio total

da produção do aço no país e ainda, com a expansão da

empresa para o exterior, quando pensarem em aço,

imediatamente, irão associar ao Grupo Mancuso-Van den

Berg. Acredito que o Império já está sendo construído. — Ele

sempre repetia a mesma coisa e foi assim por anos. O

mesmo argumento sempre.

Meu avô, Sr. Mário Mancuso, sempre foi

megalomaníaco e o que o freia é minha avó, a nonna

Geovana, uma italiana sábia que sempre esteve à frente do

seu tempo e até mesmo da sua idade. Realmente, sem ela,


meu avô não seria nada. Mas é aquele velho ditado: por trás

de um grande homem, existe uma mulher maior ainda. E eu

aprendi isso na marra.

Entre um gole e outro de seu whisky caubói, o senhor

Van den Berg já considerava que precisava ter uma conversa

séria com Daniel, já que seu filho não conseguia levar o

casamento a sério e sabia que isso poderia causar

problemas, ainda mais com os casos extraconjugais que ele

colecionava. Daniel não poderia ser o elo fraco nessa

corrente.

Sairia dali imediatamente para a casa do filho, para que

pudessem ter uma conversa definitiva. Ele pensava que era

chegada a hora de dar um basta. Exigiria uma mudança de

atitude de seu herdeiro. Não permitiria mais que as atitudes


impensadas dele afetassem a família e seu legado,

colocando o futuro dos negócios em risco daquela forma.

E a conversa continuava entre os barões da siderúrgica:

— Você tem razão, Mário. Daniel precisa parar com toda

essa gandaia que ele vive e fazer logo uma filha em Glória. —

Eles brincavam de deuses, sabendo que o primeiro filho de

Daniel e Glória, meus futuros sogros, já seriam uma menina.

— Claro, Willy! Ele precisa sossegar em casa. Mas me

conte como andam os negócios? Precisamos começar a

pensar em deixar a papelada pronta para todos. Já estamos

velhos e sabemos para onde a juventude está caminhando.

Então, melhor deixar isso lavrado para, no futuro, não ter

nenhum problema para os meninos. — Meu avô sempre foi

astuto e sabia que, no futuro, eu e minha pretendente


poderíamos acabar com todos estes planos, por isso era

melhor deixar tudo sacramentado mesmo.

Terminaram seu whisky de comemoração e meu avô já

ligou para sua secretária, dizendo que era para deixar uma

reunião agendada com o advogado da empresa no primeiro

horário do dia seguinte, pois tinha uma papelada urgente para

tratar.

Willy Van den Berg dirigia seu carro a caminho da casa

do seu filho, prevendo a discussão que teria pela frente. Não

entendia por que ele levava uma vida tão desregrada e ainda

demonstrava tamanho desinteresse pelos negócios da

empresa da família. Tinha recebido a melhor educação que o

dinheiro poderia pagar e sempre o orientaram quanto aos

valores da família e da igreja. Realmente, ele não entendia o


motivo daquele comportamento de moleque em um homem

adulto com quase quarenta anos.

Ao estacionar o carro, refletiu por mais alguns instantes,

contemplando a bela mansão no Alto da Boa Vista que seu

filho morava com sua esposa Glória, uma mulher

encantadora, temente a Deus e integralmente dedicada ao

marido e à casa. Novamente, não conseguiu compreender

por que seu filho não conseguia dar valor àquilo tudo.

— Senhor Van den Berg! Que prazer tê-lo conosco esta

noite. Ficará para o jantar? A Dona Carmem também virá? —

Glória sempre era muito receptiva, amável e fazia qualquer

um se sentir bem em sua presença e em sua casa.

Carmem Van den Berg era a esposa de Willy e uma

senhora submissa, assim como eram as mulheres de sua

época. Enfrentou a Segunda Guerra e seus efeitos de


maneira firme e obstinada junto de seu marido, ajudando-o a

reerguer a empresa e os negócios. Seu temperamento

equilibrado e perspicaz foi essencial para conduzir o nome da

família à prosperidade.

— Ligue para Carmem e peça para o motorista trazê-la.

Vamos jantar com vocês, sim. Temos alguns assuntos para

conversar. Meu filho está em casa?

— Está, sim. Está no escritório, mas não está

trabalhando. Então, sinta-se à vontade para interrompê-lo.

Glória, apesar de amável, tinha um ar triste, pois sabia

das aventuras do marido e a visita dos sogros sempre trazia

uma esperança de que eles pudessem fazer Daniel mudar.

Willy nem se deu ao trabalho de bater à porta e já

entrou no escritório de Daniel, que estava ao telefone com os

pés sobre a mesa, rindo e com a voz melosa.


Ao ver seu pai já sentado em sua frente, se endireitou

sobressaltado e desligou o telefone, agradecendo o contato

como se estivesse falando com algum cliente, tentando

disfarçar a situação em que foi flagrado.

— Papai, que bela visita! O que o traz aqui? Se

soubesse que você e mamãe viriam jantar, tinha mandado

preparar o cordeiro que vocês tanto gostam. Já falaram com

Glória?

Daniel, mesmo sendo fanfarrão, tinha muito respeito

pelo pai e o admirava, apesar de sempre ter sofrido com a

pressão que ele o impunha para que assumisse os negócios

da família.

Quando Daniel nasceu, a família Van den Berg já estava

se reerguendo e começando a prosperar, fechando inúmeros

contratos milionários e muito vantajosos, passando a dividir o


monopólio do mercado do aço com a Companhia Siderúrgica

Mancuso S.A. e, por essa razão, os dois CEOs concordaram

que seria melhor ter o inimigo perto do que longe.

A união das empresas através de um casamento entre

as famílias foi uma ideia pulverizada sutilmente por Carmem

Van den Berg em um jantar social que todos sabiam se tratar

de uma transação de negócios. Porém, o mundo enfrentava

as consequências e sequelas do período pós-guerra e como

não foi possível unir as famílias através dos filhos, já que

ambos nasceram homens, sabiam que através dos netos

conseguiriam.

Contudo, Daniel cresceu com esse fantasma de ser o

substituto do pai, apesar de nunca gostar disso ou ter

qualquer aptidão. Exercia o cargo de Diretor Geral na


empresa e, mesmo assim, pouco ia ou, de fato, cumpria com

suas funções.

O que gostava era de passar os seus dias no Jockey

Club com amigos bebendo e apostando.

— Daniel, não vim fazer social. Vim conversar sério com

você! Você sabe que estamos perdendo a liderança nos

negócios para o Mancuso e sabe do acordo que temos, de

unir nossas famílias e nossas empresas. Você precisa parar

imediatamente com essa vida de vagabundo rico e começar a

dar atenção à sua família, dando a mim e à sua mãe uma

neta o quanto antes.

— Pai, como vocês sabem que meu primeiro ou

segundo filho será uma menina? Vocês estão começando a

enlouquecer com essa história. Além disso, sei muito bem por
que você está assim hoje. O primeiro neto do velho Mancuso

nasceu. Enrico o nome dele, não é?

— Claro, Daniel!!!! — esbravejou o senhor Van den

Berg, continuando sua explanação quase sem respirar. —

Sua mãe está vindo para cá e durante o jantar

conversaremos também com Glória, vocês precisam ter

filhos. Uma dúzia, se for preciso. Pelo menos um deles há de

ser uma menina. Você precisa cuidar da sua mulher, dar

atenção a ela. Onde já se viu agir dessa forma, como você

age?

— Pai, tenho meus casinhos aqui e ali, mas dou tudo a

Glória. Nada lhe falta. Cumpro com todas as obrigações de

marido.

— Entenda, meu filho... Só quero deixar tudo em seu

devido lugar antes de partir desse mundo. Saber que nossos


negócios e nossa família terão herdeiros competentes para

não deixar que todo o esforço que tivemos vire poeira de aço.

Você sabe que minha nora apoia nossos negócios e o nosso

acordo de união com os Mancuso.

— Eu sei, papai. Eu sei!

Willy Van den Berg sabia que ele e sua esposa tinham

criado Daniel com muitos mimos e vontades. Eles passaram

muitas penúrias durante a vida até chegarem aonde

chegaram e não queriam o mesmo para seu único filho, por

isso acabaram dando tudo que ele desejava.

Naquele momento, Willy refletia arrependido de

inúmeras coisas que fez e que gostaria de mudar tanto na

criação do filho quanto em decisões comerciais. Isso lhe

roubava a paz durante o sono.


Ele sabia que tinha feito coisas horríveis no decorrer de

sua vida, apenas para reerguer sua empresa. E, talvez, agora

estivesse sendo condenado por suas ações vergonhosas. A

justiça divina lhe apresentava a conta de seus pecados,

pensou.

— Com licença, rapazes — brincou Glória —, Dona

Carmem chegou. Vou pedir para servirem o jantar.

Poucos anos depois, a subserviente esposa de Daniel

resolveu dar uma recepção em sua bela mansão com seu

marido para alguns amigos íntimos, entre eles a família

Mancuso. E eu já corria brincando pelos jardins dos Van den

Berg.
Foi em uma bela tarde de domingo primaveril, já

começando o calor do Rio de Janeiro, que Glória, bastante

orgulhosa, fez o anúncio:

— Queridos amigos, reuni aqueles que realmente

importam em minha vida e de meu marido Daniel para

anunciar que estou grávida e, como sabem que sou bastante

ansiosa, já sei que espero uma linda menina!

Neste momento, Willy e Mário se abraçaram e quase

caíram um por cima do outro de tanta felicidade. Sabiam que

ali o grande acordo de casamento estava mais do que

firmado. Todos comemoraram muito naquela tarde e a festa

foi até quase o dia seguinte.

A partir daquele dia, Willy e Carmem visitavam Glória

quase todos os dias, já que ela havia perdido os pais muito

jovem e tinha os sogros e o marido como única família.


Eles a paparicavam de todas as formas e a enchiam de

cuidados para que nada acontecesse a ela e à criança que,

nove meses depois, nasceu com cabelos castanhos e pele

muito branquinha, quase translúcida. Era uma bebezinha

linda, muito amada e desejada por todos e a chamaram de

Elleanora.

Seus padrinhos foram Eduardo e Vivian Mancuso, pais

de Enrico, que, apesar de pequeno ainda, na faixa dos seus

sete anos, já gostava de ajudar a cuidar da menininha.

As famílias Mancuso e Van den Berg estavam cada vez

mais unidas. Tudo parecia bastante promissor e caminhando

para o que os velhos patriarcas tinham decidido no passado.

Elleanora crescia cheia de paparicos por seus pais,

seus avós, padrinhos e todos ao seu redor. Sempre brincava

com Enrico e eles se tornaram grandes companheiros de


brincadeiras. Era tratada como uma princesa e, quando

estava com dez, onze anos, recebeu a notícia que já estava

de casamento marcado.

— Minha querida neta, seu avô e sua avó gostariam de

conversar com você! — dizia Dona Carmem sob os olhares

atentos de Willy, Daniel e Glória.

— O que foi, vovó? Eu fiz algo errado?

— Não, minha querida! Você só nos dá orgulho. O que

gostaríamos de lhe dizer é que você está prometida em

casamento para o Enrico, seu melhor amigo.

— Igual aos príncipes e princesas da Disney? —

perguntou a inocente Elleanora.

— Isso, minha querida! Igualzinho aos filmes que você

adora, de príncipes e princesas. Inclusive, seu vestido e o seu


casamento serão iguais aos dos desenhos que você assiste.

Já estou preparando o seu enxoval de casamento.

E, assim, Elleanora cresceu. Repleta de luxo, vontades

e com o sonho já amadurecido que iria se casar com seu

amigo Enrico.

Tudo parecia ir bem, tanto nos negócios, como na

família, prosperando e caminhando como se devia, quando

Daniel entrou na sala da presidência da Siderúrgica Van den

Berg sem ser anunciado, nervoso, dizendo que precisava

contar algo ao pai.

— O que foi, Daniel? Por que está neste estado? Algo

com Elleanora? — perguntou Willy se preocupando.

— Não, pai. Elleanora está bem. Porém, preciso muito

conversar com o senhor.


— Minha nossa! Que susto! Precisava entrar aqui dessa

maneira? Quase tive um ataque cardíaco. Fale rápido porque

tenho uma reunião com o Conselho em dez minutos. E você

sabe que preciso começar a preparar o terreno para você

assumir o meu lugar. Já estou ficando muito velho para isso.

— Sugiro então cancelar, pois o assunto é sério e talvez

leve mais do que dez minutos.

— Você ficou louco, menino??? Sabe que não posso

simplesmente cancelar uma reunião com o Conselho diretor.

Conversaremos mais tarde — disse Willy, já pegando seus

papéis e saindo apressado da sala, dando as costas para

Daniel.

— VOU SER PAI NOVAMENTE! — gritou Daniel, caindo

na cadeira da presidência do pai, quase que chorando e

suplicando por ajuda.


Willy colocou a mão no peito e abriu um enorme sorriso,

dizendo:

— Essa é uma notícia espetacular, meu filho! Por que

não falou logo de uma vez que era isso que queria conversar

comigo? Depois da reunião, vamos fumar charutos em

comemoração a este novo herdeiro. E agora quero um varão.

Mas por que essa cara triste?

— Pai, você não entendeu? Não é da Glória!

Os papéis caíram da mão de Willy, que sentiu a vista

ficar turva. Seu cérebro precisou de algum tempo para

processar o que tinha acabado de ouvir. Contudo, depois,

quase que imediatamente, recobrou os sentidos e, apesar da

idade avançada, agarrou o filho pelo colarinho, o levantando

da cadeira e começou a esbravejar:


— VOCÊ ENLOUQUECEU DE VEZ, DANIEL? Eu sabia

que você estava de caso por aí novamente, mas não que

seria burro a este ponto.

— Pai, e-eu me apaixonei! Lúcia é uma mulher

deslumbrante e encantadora. Mas eu amo a Glória, sou muito

grato por tudo que ela faz por mim e pela nossa família e não

vou me separar dela.

— QUE SE APAIXONOU O QUÊ, SEU IDIOTA! VOCÊ

ESTÁ COMPLETAMENTE MALUCO! Chame essa mulher

aqui amanhã de manhã que eu quero falar com ela.

— Não posso e não vou dar as costas a uma filha

minha. Já disse que assumirei todas as despesas da criança

e tudo que ela precisar.

— Filha? Então você já sabe que é uma menina? Eu só

vou dizer uma vez, Daniel. Você não vai acabar com sua vida
por conta de uma biscate qualquer que quer o seu dinheiro.

— Pai, Lúcia não é biscate! E, na verdade, ela está na

minha sala. Por isso, falei que deveria cancelar a reunião do

Conselho. Gostaria de apresentá-la ao senhor.

— Deus do Céu! Eu só posso ter morrido e não percebi

que cheguei no inferno... Você está completamente louco,

Daniel? — Aceitando que não havia outra solução no

momento, disse: — Vou me retratar com o Conselho depois e

vou reagendar a reunião para amanhã. Volte aqui com essa

tal de Lúcia em dez minutos. Preciso me recompor dessa

bomba que jogou em cima de mim antes.

— Pai, eu só queria...

— Suma da minha frente agora, Daniel! Vai de uma vez!


— Senhor Van den Berg, muito prazer! Eu sou Lúcia

Argento. — Willy, que estava de costas para a porta, tentando

recuperar o fôlego diante da vista da sua sala, no 33º andar, a

qual dava direto para a Baía de Guanabara, ficou

completamente sem palavras quando se virou.

Deparou-se realmente com uma pintura em forma de

mulher, com curvas estonteantes e um olhar tão naturalmente

sedutor que até o senhor Willy, o mais fiel dos maridos,

balançou. Só havia um detalhe que seu filho esqueceu de

mencionar: ela era negra.

— Senhor Van den Berg, o senhor está bem? Sei que a

notícia foi impactante. O senhor precisa de um copo d’água?

Além de linda, era uma mulher ousada e não tinha

qualquer tipo de constrangimento ou submissão, algo que

aquela família tanto cultuava em suas mulheres.


— Desculpe, senhorita Lúcia, realmente estou muito

impactado com toda a situação. Eu a chamei aqui, pois

precisamos resolver isso, já que você deve saber que meu

filho é casado e já tem uma filha.

— Senhor Willy, não precisa se desculpar. É mais que

compreensível. Porém, não estou entendendo. Daniel me

chamou aqui apenas para que eu conhecesse o pai, e o

senhor já está me sugerindo “resolver isso”. O que chama de

“isso” é minha filha e terá o nome de Jordanna! Logo, se era

somente isso que o senhor gostaria de conversar, passe bem!

— Lúcia rapidamente deu meia-volta e já saía da sala,

quando Daniel a conteve, dizendo que o pai tinha apenas se

expressado mal.

— Não, Daniel. Não me expressei mal. Você é casado

com Glória e já tem uma filha. O que você dirá a elas?


Pensou nas consequências dos seus atos? No que está em

jogo aqui?

— A verdade, senhor, é isso que Daniel deverá dizer!

Não tenho qualquer pretensão de fazê-lo se separar! Nós nos

apaixonamos, mas eu não planejei essa situação. Eu não sou

uma destruidora de lares como deve acreditar e vou criar

minha filha sozinha.

— E o que você faz da vida, moça? — perguntou

ironicamente, para saber como ela pretendia criar aquela

criança.

— Sou cantora, senhor. E minha carreira está

começando a ganhar notoriedade.

— A mídia diz que Lúcia é uma das vozes mais

promissoras no cenário nacional, pai — completou Daniel,


sem esconder a nota de orgulho e como idolatrava aquela

bela mulher.

Naquele momento, Willy perdia todas as esperanças e

sabia que teria que fazer uma grande reunião de família para

tentar contornar com Glória todo este problema, já que, caso

ela se separasse e tivesse a guarda de Elleanora, todo o seu

acordo com os Mancuso estava arruinado. Até que lhe

passou pela cabeça fazer a proposta que viria a seguir:

— Quanto você quer para sumir da vida do meu filho?

Eu darei toda assistência a você e a essa criança até o fim da

vida, mas você precisa sumir da vida deles.

Daniel esbravejou e disse que aquilo era um absurdo,

que ele não tinha que ser tratado como marionete! E que

Lúcia não iria sair da vida dele. Lúcia disse que jamais
concordaria com algo tão torpe, deu as costas e saiu com

Daniel ao seu lado.

Willy precisou aceitar o que não tinha como mudar. E,

assim, a vida seguiu seu curso. Jordanna nasceu e, como a

mãe, já estava previsto que seria uma mulher estonteante,

porém com um estigma cruel: seria sempre a bastarda

preterida da família.

Como já era de se esperar, Glória aceitou aquela

situação, pois preferia ter seu casamento e sua vida de luxos

em uma família influente e milionária a se separar de Daniel,

a quem de fato amava profundamente. Além disso, não

queria que a menina crescesse longe do pai e dos avós, a

quem ela tanto era ligada.

Realmente a carreira de Lúcia estava decolando e ela

começou a receber alguns convites internacionais. Quando


Jordanna tinha aproximadamente cinco anos, sua mãe foi

convidada para uma série de turnês na Europa. Uma

oportunidade que não poderia recusar. E contou com o apoio

de Daniel, que teria a guarda da filha a partir de então.

Foi decidido que Jordanna ficaria com o pai e

novamente uma crise familiar estava prestes a explodir se,

mais uma vez, Glória não fosse complacente e uma

verdadeira santa. Ela aceitou cuidar da menina em sua casa,

junto com Elleanora, porém desde que nunca fosse

considerada sua madrasta. Preferia apenas que a menina a

chamasse de Dona Glória. Seu sofrimento já era suficiente.

Elleanora e Jordanna cresceram como duas irmãs

normais, com seus problemas de adolescência e juventude,

trocando roupas e, em alguns raros momentos, confidências

de rapazes.
No entanto, nunca foi uma relação profunda de amor

fraterno. Elleanora crescia fútil cercada de luxo, roupas, joias

e paparicos do prometido Enrico, enquanto Jordanna se

preparava para ir para o colégio interno e aceitava calada

este destino.

Seus avós tomaram esta decisão, pois preferiam que

sua existência fosse longe de suas vistas e até mesmo de

Glória, para aliviar o sofrimento da esposa traída, assim como

comentários e questionamentos de amigos, pela origem da

menina.

Assim, aos dezesseis anos, Jordanna foi estudar no

exterior, na Escola Trinity, um dos internatos mais famosos

dos Estados Unidos, com uma taxa anual de mais de

quatrocentos mil dólares.


Os avós preferiam dessa forma, Daniel consultou Lúcia

a respeito e ela surpreendentemente concordou, pois teria a

oportunidade de ficar mais perto da filha, agora que havia

reduzido o número de turnês e tinha residência fixa em Nova

York, apesar de ainda viajar com frequência pelas demandas

da carreira. Considerou que a filha já tinha idade para

perceber e entender como seria a relação com a família do

pai e seria bom para ela se afastar de tudo aquilo. As

exigências de sua carreira permitiam que ela passasse muito

pouco tempo com a filha, mas todas as férias escolares,

aniversários e celebrações de Natal passavam juntas. Só elas

duas.

E Daniel, diante de tudo que Glória aceitou em silêncio,

concordou em ficar longe da filha mais nova, a quem amava

na mesma proporção que amava Elleanora. Deixou-se ser


persuadido por sua mãe de que, apesar da distância, tinha

que ver o lado bom dessa mudança de ares para Jordanna.

Dona Carmem enfatizou que a menina teria uma excelente

educação que lhe garantiria a profissão que ela quisesse e

ainda ficaria perto da mãe, que tinha se tornado uma famosa

cantora de jazz e que agora morava no país americano.

Já na adolescência, Enrico e Elleanora firmaram seu

namoro e não se desgrudavam, porém, apesar de muitos

acreditarem no contrário, eles não estavam apaixonados, não

se amavam dessa maneira. Tinham, sim, uma grande

cumplicidade e intimidade, por terem crescido juntos e por

saberem tudo de suas famílias e até mesmo um do outro.

Quando Elleanora se tornou maior de idade, eles

decidiram manter um relacionamento aberto, apesar de se

darem muito bem na cama e parecer que não precisavam


satisfazer suas necessidades sexuais com outros parceiros.

Mas eram dois jovens que gostavam de se divertir e, além

disso, como eles mesmos falavam, ainda tinham a vida toda

pela frente para desperdiçarem a jovialidade, a beleza e tudo

que suas fortunas podiam garantir de diversão.

Até que chegou o dia do noivado e seus avós, que já se

aproximavam dos noventa anos, resolveram fazer uma

grande festa comemorativa naquele ano. Não se lembraram

de convidar uma pessoa, Jordanna, o membro da família que

permanecia esquecido no colégio interno americano, com

quem a Família Van den Berg quis manter pouquíssimo

contato. Apenas o pai a visitava com frequência.

Daniel sempre quis manter uma relação próxima de

suas filhas. Ele viajava para o exterior a cada dois meses, no

mínimo, e desfrutava de todo o tempo possível com


Jordanna. O restante da família a visitava apenas quando

fazia turismo nos Estados Unidos e, mesmo assim, de forma

bem rápida. Sem nem a aceitar como uma legítima Van den

Berg e sem se preocupar em conhecer a mulher que ela se

tornava.

— Gostaria de fazer um brinde aos noivos e à união de

nossas famílias, algo que sonhamos há muito tempo e agora

se concretiza diante de nossos olhos — disse Willy na festa

de noivado, segurando uma taça de champanhe ao lado do

ex-concorrente comercial e agora um de seus amigos mais

próximos, Mário Mancuso.

Todos brindaram, enquanto as mulheres da família,

completamente empolgadas, já decidiam todos os detalhes

do casamento, até mesmo durante a festa.


Os noivos resolveram fazer uma viagem para um

luxuoso resort no Nordeste brasileiro para comemorar e, em

um dia na praia, Elleanora conheceu um grupo que

combinava uma missão para a África para fazer ações

missionárias de caridade. E ela, subitamente, se interessou

por aquela conversa e começou a interagir educadamente

com o grupo.

Elleanora cresceu e se tornou uma linda mulher, com

seus longos cabelos castanhos perfeitamente ondulados e de

um carisma único, mas fútil na mesma medida. Todos sempre

a mimaram, principalmente os avós, repetindo os erros da

criação de seu pai, agora potencializados pela adoração da

família do futuro noivo.

Não havia nada que ela desejasse que estivesse fora do

seu alcance. E como nunca precisou trabalhar, não sabia dar


o verdadeiro valor ao esforço e sacrifício de lutar na vida. Na

verdade, nem sabia o que era isso, o que fazia dela apenas a

futura esposa troféu de Enrico Mancuso, sem outras

ambições. Foi ensinada desde muito cedo que deveria se

casar com ele e ajudá-lo com os negócios de sua família,

assim como foi com sua mãe, apesar de não demonstrar a

mesma submissão de Glória.

— Adorei ouvir as histórias sobre a última missão de

vocês à África. Realmente são experiências inspiradores —

dizia Elleanora, ao se despedir do grupo. — Não gostariam

de jantar comigo e com meu noivo mais tarde? Será um

prazer conhecer um pouco mais do Instituto e das missões.

— Claro, será um prazer! Anote meu número e vamos

combinar ao longo do dia — disse Felipe, o CEO do Instituto


Missionário África e responsável por todas as viagens que

seus integrantes faziam.

Felipe era um rapaz simples. Apesar de ter dinheiro,

parecia destinar muito mais do seu tempo e recursos aos

menos favorecidos, através de suas ações filantrópicas, do

que realmente como acionista à frente dos negócios

corporativos. Era um rapaz atraente, moreno com os olhos

esverdeados e que tinha uma grande paixão pelo mar e o

surfe e, por essa razão, estava naquela praia, onde as ondas

eram perfeitas para a prática do esporte.

Elleanora retornou ao quarto do hotel, encontrou Enrico

voltando da partida de tênis e, entre os relatos da noiva sobre

os novos amigos, foram para o chuveiro juntos.

O sexo entre eles era incrível e atribuíam isso à

intimidade que foram adquirindo durante anos de convivência.


Os dois se desvirginaram juntos e, sozinhos, aprenderam as

melhores técnicas na cama, apesar de terem tido outros

parceiros que os ajudaram a se aprimorar.

Depois do sexo ardente, Enrico comentou sorrindo:

— Você sabe que posso ter qualquer mulher que quiser,

mas nunca tive uma que me desse o prazer que você me dá.

Realmente, nossa química é algo de outro planeta, querida!

Elleanora adorava quando Enrico elogiava sua

performance e o provocava ainda mais, usando lingeries

sexies e levando novidades para o relacionamento, como

brinquedos eróticos. Nunca havia rotina ou mesmice entre

eles.

Por sua vez, Enrico, no auge dos seus trinta e quatro

anos, tinha se tornado um homem sedutor e poderoso,

assumindo os negócios da família no lugar do avô,


juntamente com seu pai, assim que se formou com louvor em

Administração pela Federal do Rio de Janeiro.

Sempre foi dedicado e aplicado no aperfeiçoamento dos

seus estudos. Era criado para ser o melhor em tudo e esse

também se tornou o seu desejo. Empenhava-se para isso.

Assim, era o melhor empresário, melhor filho, melhor amante

e já ansiava por ser o melhor marido e melhor pai.

Sabia que Elleanora seria a esposa perfeita, linda, o

acompanhando em eventos de negócios e cuidando do lar e

da família. Ambos tinham sido criados para isso e gostavam

de seguir à risca o caminho traçado pelos seus avós.

— Querido, vamos! A mesa está reservada para as vinte

horas e não quero deixar nossos convidados no bar do

restaurante esperando. Isso não é elegante. Precisamos

chegar antes.
— Adoro quando você organiza nossa agenda e torna

nosso final de semana interessante, fazendo networking —

Enrico falava isso, enquanto mordia o pescoço da noiva com

malícia.

— Nada disso, bobinho. Já te dei felicidade hoje na

parte da tarde. — Era assim que ela preferia chamar seus

momentos de intimidade juntos, nunca dizia que tinham feito

amor, porque não seria verdade. Enrico parecia não se

importar com isso. — Agora já estou pronta e maquiada e por

nada neste mundo irei me desarrumar, nem que seja para

você me proporcionar mais um orgasmo! Deixe para mais

tarde! Isso se você merecer e me presentear com o

champanhe mais caro daqui.

— Ok! Ok! Você venceu! Vamos para esse tal jantar,

mas você não me escapa mais tarde! — disse Enrico já


abrindo a porta, com um sorriso maroto no rosto, arrancando

de Elleanora a mesma risada.

Chegando ao restaurante, seus convidados já os

aguardavam, e Enrico sentiu um certo desconforto ao

conhecer Felipe. Achou que pudesse ser ciúme, mesmo

sabendo que não existia este tipo de sentimento em seu

relacionamento com Elleanora.

O jantar transcorreu normalmente e até que foi bastante

agradável, com troca de experiências sobre viagens, famílias,

negócios e caridade. No final, terminaram com mais um

encontro na praia no dia seguinte, com a promessa de que

Felipe os ensinaria a pegar algumas ondas.

Ao voltarem de viagem, Elleanora resolveu fazer uma

visita ao Instituto de Felipe e conhecer um pouco mais do

projeto que ele tocava e como funcionavam as missões.


Ela começou a sentir um súbito desejo de viver algo que

não foi programado por sua família para ela, além de uma

vontade de ter experiências e conhecer coisas que estavam

completamente fora da sua bolha social.

Após um ano pesquisando sobre o assunto e entre

muitos encontros no Instituto com a equipe de Felipe,

Elleanora tomou a decisão de se inscrever para participar da

próxima missão que teria na África.

— Elle, você tem certeza disso? — Só Enrico a

chamava assim. — Estamos acostumados com os Estados

Unidos e a Europa, com hotéis confortáveis, concierge dando

dicas para tudo... Como você ficará três meses em uma vila

na África? Você sabe muito bem que lá é totalmente

desprovido de qualquer conforto e boa alimentação. Se você

quiser, posso arranjar alguns projetos sociais pela empresa


para você participar — dizia o incrédulo Enrico, diante da

decisão da noiva.

— Enrico, por favor, você me ofende falando desse jeito.

Não quero ser apenas uma completa dondoca riquinha. Sei

que a convivência por um ano com este grupo me fará bem e

é algo que quero muito fazer. Abrir meus horizontes e ver um

mundo diferente do meu. Estou convencida de que realmente

preciso viver isso.

— Tudo bem, querida, se é o que quer, eu apoio você,

por mais que me preocupe com essa sua decisão tão

inesperada. Vamos falar com seu pai e providenciar tudo.

Mas nada de classe econômica, vou reservar passagens de

primeira classe e garantir que você não passará nenhum tipo

de perrengue sozinha em outro país.


— Rico, por favor, não quero destoar do grupo. Viajarei

nas mesmas condições determinadas pelo Instituto para

todos os voluntários. Não é uma viagem de turismo na

savana africana. Trata-se de pensar menos em nós mesmos

e mais nos outros. Se tiver que ir de classe econômica,

paciência! Mas vou seguir as regras da missão! Prometo que

diariamente te mandarei mensagens e manterei contato.

Sinto que realmente preciso fazer isso!

— Elle, eu apenas me preocupo com seu bem-estar. No

entanto, confio em você e fico feliz se você estiver feliz. Só

quero que tome cuidado.

— Não se preocupe! Tenho certeza de que você se

divertirá nestes três meses sem mim. Eu te compensarei

quando eu voltar! — disse Elleanora, com um sorriso

malicioso.
Enrico não gostava muito da ideia, porém, a princípio,

achou que fosse apenas mais um dos caprichos da noiva, já

que ela sempre gostou de se aventurar, conhecer coisas

novas e viajar.

Ele mal sabia o que vinha pela frente e que, em breve, o

desconforto em conhecer Felipe se confirmaria por diversos

motivos.
CAPÍTULO 1

Durante três meses, Elleanora viveu experiências na

África pouco vistas pela maioria dos brasileiros e ela sabia

que aquilo a tinha mudado por completo. E sabia também

que ela não poderia mais continuar com aquela vida que

tinham escolhido para ela. Sua visão de mundo tinha

mudado totalmente.

Nos primeiros meses após voltar da missão, ela

andava aérea e, em alguns momentos, aparentava estar

um pouco depressiva. Glória, percebendo a mudança de

sua filha, a chamou para conversar e entender o que de

fato estava acontecendo.


— Filha, tenho percebido que anda triste e pensativa

pelos cantos. O que está havendo? Tenho notado também

que nem o Enrico você tem procurado mais para sair. É

sempre ele que liga perguntando por você, que vem te

buscar para saírem juntos. Você antes passava dias no

apartamento dele que eu tinha que te ligar para lembrar

que ainda não tinha se casado e mudado de endereço.

Desde que você voltou dessa sua missão, mês passado,

se você saiu para encontrá-lo duas vezes foi muito. Pode

se abrir comigo. Sempre pode falar com sua mãe. Sabe

disso, não sabe?

Elleanora, que já não aguentava mais esconder seus

sentimentos, resolveu desabafar tudo que guardava em

seu coração e como sua forma de ver o mundo havia

mudado.
— Mãe, na verdade, eu descobri um novo propósito

de vida durante a minha missão na África. Vi que tudo que

vivi até hoje foi frívolo e nada disso é indispensável para

que eu seja realmente feliz. Além disso, sempre ter tido

uma vida de privilégios me impediu de reconhecer o valor

de coisas que, para nós, são tão mínimas, mas que para

outros é um verdadeiro sonho impossível. Ter uma mesa

farta posta para as refeições, por exemplo. Eu no café da

manhã tenho croissants, ovos mexidos e iogurte, sabendo

que no almoço e no jantar terei mais cardápios caros e

variados e tanta gente passa dias e dias sem comer.

Morrem de desnutrição. Morrem de inanição. Ver isso

acontecer na minha frente e com crianças foi muito

doloroso. Eu nunca pensei que alguém hoje em dia


pudesse morrer de fome. Eu nunca nem quis pensar sobre

isso antes dessa viagem.

— Minha filha, seus avós e seu pai batalharam para

que tivéssemos uma vida confortável e pudéssemos nos

dar certos luxos. Você não é culpada pela pobreza mundial.

O que você fez foi lindo e nobre. Levou um pouco de ajuda

aos que precisam. Mas você não pode se sentir culpada

pela sua situação favorável.

— Não, mãe. Não estou me sentindo culpada. Mas

essa é a vida que vocês escolheram. Já parou para pensar

que talvez eu só quisesse um pão na chapa no café da

manhã? O que se faz com a comida que sobra diariamente

aqui?

Neste momento, até Glória, que viveu uma vida

confortável e que eventualmente contribuía em eventos


que beneficiariam instituições de caridade, se sentiu mal e

refletiu sobre o que a filha falava.

— Eu sei, minha querida, é muito nobre ter este tipo

de pensamento e fico feliz que tenha. Consigo ter certeza

de que não errei na sua criação, apesar de temer que seus

avós te estragassem com tantos mimos. — Refletiu Glória

em voz alta, quase como um desabafo para a filha, o que

sempre transitou em seu pensamento e coração.

— E não é só isso, mãe. No dia que cheguei de

viagem, você estava na sala reunida com nonna Geovana,

Vovó Carmem e toda a equipe organizadora do meu

casamento decidindo cores das toalhas de mesa, convite,

bolo, flores, igreja, data e tudo mais que eu deveria estar

decidindo. Você não acha isso no mínimo estranho?


— Claro, minha filha! E você tem toda razão! Eu,

inclusive, me senti bastante constrangida e mal com aquela

situação. Você sabe como a nonna Geovana e a Dona

Carmem são. São mulheres maravilhosas, mas planejam

este casamento há quase cinquenta anos e, faltando

menos de um ano para ele se concretizar, parece que elas

estão surtando de tanta empolgação.

Glória riu de seu próprio comentário, porém um riso

que era um misto de deboche e nervosismo ao mesmo

tempo. Sabia que aquela situação não era a correta,

contudo sabia mais ainda que não haveria nada que

pudessem fazer para mudar.

Até que Glória empalideceu de vez ao ouvir a

continuação da conversa com Elleanora, que lhe

perguntou:
— Mãe, e se eu desistisse do casamento? Você acha

que seria a Terceira Guerra Mundial?

— Desistir do casamento, Elleanora? Você ficou

completamente louca! Nem brinque com uma coisa dessas

e muito menos volte a repetir isso em voz alta.

— Mamãe, a senhora não acha que deveria ser eu a

decidir isso? Eu não tenho segredos com a senhora. Sabe

muito bem como é meu relacionamento com Enrico. Sabe

que não existe amor, e sim uma grande parceria, além de

nos darmos muito bem entre quatro paredes. Mas é só

isso. Não acha que eu tenho direito de amar alguém e me

casar com essa pessoa?

Glória refletiu por um tempo, em silêncio, para

escolher bem as palavras que diria a seguir.


— Minha filha, eu concordo e entendo sua forma de

pensar. Mas isso não se aplica a pessoas que têm o

sobrenome Van den Berg e Mancuso. Seu avô tem

documentos assinados guardados em um cofre, onde ele e

o Sr. Mário selaram o acordo do casamento de vocês, que

vai consolidar a fusão das empresas de nossas famílias.

— Sei que sempre concordei com isso e confesso

que até me sentia feliz em ser um dia a esposa de Enrico.

Eu era invejada por todas as minhas amigas. Na verdade,

eu era invejada por quase todas as mulheres que já tinham

colocado os olhos nele, mas antes isso era suficiente para

mim. E eu era até grata porque não precisava ter que me

preocupar nem com os preparativos nem com nada sobre

como seria a minha vida ao lado de Enrico. No entanto,

hoje essa ideia me parece absurda e insana.


— Filha, esqueça isso. Ligue para seu noivo e

marque com ele um bom jantar amanhã. Agende

cabeleireiro e fique linda para ele! — Glória segurava as

mãos da filha entre as suas para encorajá-la a voltar a

pensar como antes. — Esqueça essas ideias e volte para

sua vida. A vida para a qual você está destinada mesmo

antes de nascer. Tenho certeza de que isso é apenas uma

fase. Você só está impressionada com todas as coisas

tristes que viu durante essa viagem.

Glória queria encerrar aquela conversa, pois sentiu

medo de prolongar e acabar alimentando ainda mais

aqueles pensamentos na cabeça da filha.

Por sua vez, Elleanora estava cada vez mais

convencida que ia mudar aquela situação que estava

vivendo, mesmo que as consequências fossem


desestruturar a vida de toda a sua família e os planos da

Família Mancuso também. O que importava nesse

momento era sua felicidade e o que seu coração mandava.

Ela sabia exatamente o que fazer, principalmente

porque não tinha contado tudo à mãe e tinha certeza de

que não podia fazer isso neste momento. Então, fez as

malas e comprou uma passagem para Nova York para o

dia seguinte.

Iria visitar Jordana!

— Anna, estou em Nova York! Acabei de chegar!

Vamos jantar hoje? Me ligue assim que puder! — falou

Elleanora, deixando recado na caixa postal da irmã,


chamando-a com um apelido carinhoso como se fossem

melhores amigas.

Jordanna tinha terminado o internato e morava com a

mãe nos Estados Unidos. Além disso, finalizava um curso

de Especialização em Negócios e Finanças, em uma

renomada universidade americana.

Tinha se tornado uma bela mulher e chamava muita

atenção no país, pelo seu tom de pele e pelos seus longos

cabelos cacheados. Tinha os olhos amendoados bem

marcantes, iguais aos da mãe, e seu corpo escultural era

capaz de parar toda a quinta avenida.

Diante da família do pai, não esboçava muita opinião

e, nas raríssimas vezes que esteve presente, se manteve

calada, observando mais do que ocupando o papel de uma

Van den Berg legítima.


Devia ter uns quatro anos que Elleanora não via a

irmã e não sabia como, de fato, ela estava, tanto física

como psicologicamente, e isso a deixava completamente

tensa, já que não sabia como Jordanna reagiria à proposta

que ela iria fazer.

Durante todo o voo do Brasil até Nova York, a

primogênita da família foi repassando em sua cabeça como

abordaria tal assunto com sua irmã. Sabia que elas não

eram próximas e começava a se arrepender pelo jeito que

a tratou por tantos anos, com frieza e distância.

Hoje entendia quantos erros cometeu, de forma

inocente ou não, em sua vida, em sua maneira de ser e até

mesmo de lidar com os outros. Não que ela tivesse

destratado sua irmã, mas, de certa forma, não criou um


vínculo ou um laço mais forte por conta da própria pressão

familiar que envolvia o assunto.

Em meio à sua reflexão, Elleanora não entendia como

ela se deixou levar por sua avó e pela família, inclusive

pelo próprio Enrico e como isso moldou sua personalidade.

E, por isso, ela tinha certeza de que tinha chegado a hora

de mudar.

Como de costume, ao chegar em solo americano,

Elleanora foi fazer algumas compras em suas lojas

preferidas. Contudo, seu celular tocou, avisando que havia

chegado nova mensagem.

— Olá, Elle! Que bom que veio nos visitar! Vamos

jantar, sim! Faça a reserva e me mande o endereço e

horário que te encontro! — Jordanna respondeu, no


mesmo tom de amizade e troca de apelidos carinhosos, o

recado deixado por sua irmã.

Elleanora ficou confusa e não tinha entendido se era

deboche ou se a irmã realmente estava contente, mas isso

não poderia preocupá-la agora. Ela tinha que se concentrar

na conversa. Sabia que não seria nada fácil.

Resolveu voltar para o hotel e falar com o concierge

para fazer logo a reserva e descansar um pouco. Seus

nervos não estavam deixando que ela pensasse em nada.

Na hora combinada, Elleanora já esperava Jordanna

no Eleven Madison Garden.

— Elle! Que bom te ver!

Elleanora tomou um susto ao ver a mulher à sua

frente. Realmente, Jordanna tinha se tornado uma mulher


deslumbrante, o que a fez até sentir uma pontinha de

inveja.

— Anna, nossa... você cresceu! Está diferente! Está

linda!

— Que nada!! Não nos encontramos há muito

tempo... por isso seu espanto!

— É verdade! Desculpe por me manter afastada.

Tenho te procurado pouco! Ando ocupada no Brasil, os dias

passam e nem percebemos o que estamos deixando de

fazer.

— Eu sei, irmã! Não se preocupe! Mas me conte, o

que te traz a solo americano? Eu vi suas fotos na África.

Quero saber tudo!

— Ai, Anna, foi realmente uma viagem incrível! Vou

passar alguns dias aqui em Nova York! Podemos combinar


de sair mais vezes e vou te contar tim tim por tim tim!

— Vamos, sim! Estou com o final de semana livre e

vou reservar para ficar todo o tempo contigo.

A intimidade e a conversa amistosa ia acalmando

Elleanora e ela resolveu não postergar mais aquele

sofrimento.

— Você está namorando alguém? Está com algum

compromisso sério?

— Não!! Estou completamente solteira e dedicada ao

meu aperfeiçoamento nos estudos. Tenho um casinho aqui

e outro ali, mas nada sério. Os americanos não são tão

acelerados como os brasileiros — falou a linda mulher,

soltando uma gargalhada, dando um grande alívio à irmã.

O garçom se aproximou trazendo uma garrafa de

vinho e uma cesta de pães. Aquele breve intervalo na


conversa fez Elleanora atacar de vez:

— Então, Anna... Não vou ficar com rodeios com

você! Preciso te falar uma coisa séria e esse é o real

motivo para eu estar aqui.

— O que foi, Elle? Algo com papai? — falou

Jordanna, sabendo que não se tratava do pai, esperando

que a revelação a permitisse cumprir o que planejou por

anos.

— Não. Nosso pai está muito bem, gozando de

saúde! O meu assunto é o Enrico.

— Ah, Enrico. Seu noivo. Vi também as fotos do

noivado. A propósito, parabéns! — disse Jordana, com

certo desapontamento e rancor.

Elleanora percebeu que o tom da conversa tinha

mudado exatamente naquele momento e se sentiu mal e


constrangida por não ter sequer enviado um convite à irmã,

que dirá avisado da festa. Isso a retraiu e novamente fez

seu nervosismo voltar.

— Sim, me desculpe por não te avisar! Imperdoável

você e sua mãe não terem sido convidadas para os

festejos.

— Elle, sei exatamente o meu lugar na família Van

den Berg e não a culpo por este distanciamento. Esperava

apenas que se libertasse das algemas de ouro que

colocaram em você durante toda a sua vida. Desculpe,

irmã, mas, na verdade, sinto pena de você!

Neste momento, Elleanora viu que era a oportunidade

perfeita e que ali realmente estavam as chaves de suas

algemas.
— Você tem toda razão e foi exatamente na minha

viagem para a África que descobri isso. Vi o quanto fui

aprisionada por sonhos e desejos de nossos avós. Vivi

uma vida desenhada para mim e não quero mais isso.

— Que bom, irmã! Fico feliz! Mas ainda não entendi

no que os Estados Unidos ou eu podemos te ajudar.

— Então... Você sabe que eu e Enrico fomos

prometidos em casamento, antes mesmo de eu ser

concebida, não é?

Aquela frase arrancou gargalhadas de Jordanna, que

finalizou com um comentário sarcástico:

— Sim, porque parecia que você e Enrico nasceriam

no século XX! Mas vocês namoram desde pequenos e se

amam, então não deve ser tão ruim assim.


— Exatamente, irmã! O problema é que não amo o

Enrico e nem ele me ama! Temos uma grande amizade e

anos de convivência e, pela conveniência familiar,

acabamos realmente ficando juntos. Não que isso tenha

sido imposto a vida toda, também queríamos, mas não é

isso que quero mais. Você está me entendendo?

— Sim, claro! Eu sempre achei esta história uma

loucura e se você sabe que não o ama, por que ficar com

ele?

— Depois da África, tive esse estalo. Vi que minha

vida não estava certa e tomei a decisão de romper com

Enrico e cancelar o casamento.

— Estou orgulhosa de você, mana!

E, de fato, Jordanna estava sendo sincera. Achava

aquela história uma grande loucura e não sabia como uma


mulher na geração delas aceitava aquilo, como a irmã

sempre aceitou.

— Obrigada, Anna! Também fiquei orgulhosa de mim

por tomar esta decisão. O problema é que não posso

simplesmente cancelar tudo. Há muita coisa em jogo. Além

da questão familiar, há questões empresariais envolvidas

com a união das famílias Mancuso e Van den Berg. Há

documentos assinados com cláusulas de multa

gravíssimas se isso não ocorrer.

— Eu não acredito! Seu avô te vendeu em troca da

fusão das empresas??? — Jordanna aparentava surpresa,

contudo estava gostando do rumo que a conversa estava

tomando.

— Não veja por esse lado. Nosso avô é uma pessoa

boa, sei que vocês têm diferenças e sei o que ele fez com
sua mãe. Mas não foi bem uma venda, e sim um acordo.

Na época de nossos avós, as coisas funcionavam desse

jeito.

— Entendo! E como você irá cancelar o casamento

sem levar um deles para o caixão, com o tamanho susto

que levarão quando você anunciar esta “boa-nova”? —

Jordanna tentava acalmar a irmã com algum tom de

leveza. Percebia que ela estava bastante nervosa.

— É aí que você entra!

— Hã? Não entendi! Como que eu entro nessa

história, Elle?

— Por favor, não me mate com a proposta que vou te

fazer agora! Mas pensei em manter o acordo do nosso avô

com o Sr. Mancuso casando você com Enrico!


Aquela informação fez tudo em volta de Jordanna

parar no tempo. Os sons de pratos, talheres e conversas

nas outras mesas do luxuoso restaurante se calaram por

segundos infinitos e ela parecia ter tomado uma injeção de

paralisante. Nem em seus mais ambiciosos e sombrios

sonhos de voltar ao Brasil por cima e enfrentar a família,

aquilo tinha passado pela sua cabeça.

Ela não podia negar que Enrico era um homem

atraente e, nas pouquíssimas vezes que o viu, quando ela

ainda era uma adolescente bastante inocente e apenas

com algumas ideias na cabeça, sentiu uma leve queda por

todo aquele charme que ele exalava. Para ela mesma, não

guardava segredos e sabia que muitas vezes sentiu uma

ponta de inveja da irmã, quando os via se beijando.


Retomando os sentidos, que pareciam ter sido

expulsos do seu corpo, Jordanna tomou um gole demorado

de vinho, como se tentasse limpar a garganta e a mente,

pensando em todas as hipóteses de como conduziria

aquela situação.

— Anna, Anna, por favor, fale alguma coisa! Você já

está há alguns minutos em silêncio. Eu sei que é muito

para processar, mas me diga algo antes que eu infarte! —

chamava Elleanora, quase em tom de súplica.

— Desculpe a ausência, Elle, eu realmente fui a outro

planeta e voltei. Como assim, eu me casar com Enrico? Ele

já sabe disso? Os Mancuso já sabem disso? Papai já

sabe?

— Não! Ninguém sabe! Vim aqui conversar com você

primeiro, antes de qualquer pessoa. Eu sei que estou


pedindo para você abrir mão da sua vida aqui, voltar para o

Brasil e casar com alguém que você não conhece. Eu sei

que o que estou te pedindo é completamente insano. No

entanto, pense, você voltaria por cima, depois de tudo que

fizeram a você e a sua mãe.

— Elle, nunca quis vingança contra ninguém. Nem eu

e nem minha mãe. Sempre tivemos tudo, inclusive até mais

do que precisávamos, nunca me faltou nada e sempre fui

muito grata a papai por isso.

— Meu Deus, irmã! Desculpe se te ofendi! Eu sei

disso! Não foi isso que quis dizer. Na verdade, foi! Acho

que realmente estou ficando maluca de te propor isso.

— Calma, Elleanora, me explique tudo com calma

para eu entender. Alguém está sabendo que você está

querendo cancelar o casamento? Você e Enrico ainda


estão noivos? Como está tudo isso? — Jordanna começou

a retomar sua frieza em resolver problemas, que já era

habitual diante de qualquer adversidade, acalmando,

assim, a irmã para tentarem resolver aquilo juntas.

— Não. Conversei bem superficialmente com minha

mãe. Mais ninguém sabe!

— E como você acha que vão receber esta notícia?

Que você está substituindo uma Van den Berg por outra?

— Não sei, realmente não sei. Na verdade, sendo

sincera, acho que vão reclamar bastante no começo, mas

vão aceitar, já que o que realmente querem é manter o

acordo comercial e a fusão das empresas.

— Eu aceito, irmã! Aceito me casar com Enrico. Com

apenas uma condição.


Quem paralisava agora era Elleanora, que não

acreditava no que estava ouvindo. Ela parecia ter recebido

uma carga elétrica em seu corpo, que tremia de tanto

nervoso e ansiedade.

— Isso é sério? Você irá aceitar? Qualquer condição

que você quiser! É só me falar que farei e nunca, nunca

nessa vida serei capaz de agradecer o que está fazendo

por mim.

— A minha condição é que até o dia de eu pisar no

altar, somente o Enrico saberá com quem está se casando.

Ninguém mais da família saberá. E quando eu entrar na

igreja, o livro do casamento civil já deve estar assinado por,

pelo menos, oito dias antes.

— Anna, isso será uma verdadeira loucura. Como

você provará vestido, fará as coisas? Os velhos vão todos


infartar durante a cerimônia. Precisarei deixar o auxílio

funerário de sobreaviso para o dia do casamento. — Agora

era Elleanora que fazia piadas para deixar o jantar mais

leve, embora não soubesse se estava realmente tentando

amenizar os efeitos da conversa ou estava contando

piadas de tanto nervoso.

— Elle, entenda bem uma coisa. Eu não sinto rancor

ou mágoa de nada e nem de ninguém, mas sei que não

sou aceita pela família pela condição que nasci, por ser

fruto de um adultério e ainda temos questões raciais, que

você sabe muito bem que existem.

Elleanora sabia que a irmã estava certa e, apesar da

triste realidade, o preconceito era algo que pairava sobre

as famílias.
— Você tem razão. Se anunciarmos antes, ninguém

concordará com esta mudança. E será uma verdadeira

guerra. Precisamos fazer tudo muito bem estruturado.

— Sim. Para quando estava marcado?

— Para exatamente daqui a seis meses, em quinze

de maio.

— Então mantenha e vou me organizar para, em três

meses, fazer minha mudança para o Brasil.

— Está bem. Eu não sei como te agradecer.

— Não se preocupe! Só preciso que você me garanta

que tudo será como nós planejarmos. Além disso, algo

mais que eu precise saber? Não quero ser pega de

surpresa em nada!

— Sim, tem, sim! Mais uma bomba, mas essa é boa.

Vou te atualizando de tudo durante o nosso final de


semana!

— Ok! Cancele a reserva do seu hotel e venha ficar

em minha casa. Iniciaremos agora o planejamento disso

tudo. Até porque, você ainda terá que convencer Enrico e

essa não será uma tarefa fácil.

— Eu sei disso. Mas com Enrico eu me entendo.

Quando terminarmos o jantar, vou passar no hotel e pegar

minhas coisas.

— Está certo. Te espero na minha casa.

As duas terminaram o jantar, com o pensamento

longe, porém a certeza no coração que começariam a viver

a vida que elas tinham planejado e não os outros, por mais

surpreendente que isso possa parecer.


CAPÍTULO 2

De volta ao Brasil, Elleanora trazia na bagagem o

coração mais leve, apesar da ansiedade de conversar com

Enrico sobre tudo que estava decidido. Além disso, embora

tivesse prometido à irmã que cumpriria a condição de que

ninguém soubesse do plano das duas, ela sabia que para

uma pessoa ela teria que contar: sua mãe, de quem nunca

tinha escondido nada.

— Mãe, preciso conversar com você algo sério e

quero que esteja de coração aberto para me ouvir — disse

Elleanora, já entrando no quarto da mãe, sem nem bater à

porta.
— Diga, minha filha. Acabei de falar com Vivian e ela

virá mais tarde para trazer o padre da Paróquia Nossa

Senhora da Conceição. Sabe como os Mancuso são

devotos, não é?

— Sim, mãe, sei, sim. E é sobre isso mesmo que

quero falar com a senhora.

— Claro. O que foi?

Elleanora, sabendo que não seria nada fácil dar esta

notícia, já foi munida de um copo d’água para dar à mãe,

quando lhe despejasse a bomba.

— Não vou me casar com Enrico, mãe, porém o

casamento não será cancelado e quem subirá ao altar será

Jordanna.

Ela viu sua mãe ficar pálida e até um pouco ofegante.

Achou inclusive que ela estava tendo um ataque do


coração.

— Você ficou completamente louca, menina? O que é

isso que você está falando? Você está voltando dessas

viagens cada vez mais insana. Primeiro foi da África e

agora de Nova York. Agora estou entendendo! Você

encontrou com sua irmã? Por isso você foi para os Estados

Unidos tão de repente.

— Sim, mãe, encontrei com Jordanna.

— O que está acontecendo, Elleanora? Explique isso

direito e me dê aqui esse copo d’água porque nem estou

me sentindo bem.

Elleanora, vendo que a mãe se acalmava, tomou

fôlego e começou sua explanação:

— Mãe, já conversamos, eu não amo o Enrico e sei

que ele não me ama. Depois da minha viagem para a


África, meus conceitos de vida mudaram. Eu me apaixonei

e me encantei por outras coisas, que antes eu nem sabia

que existiam. Eu não quero viver uma vida determinada e

planejada por outras pessoas. Eu quero amar e ser amada

de verdade. Mas também sei que cancelar tudo agora

colocaria os negócios do vovô em risco, assim como todo o

nosso patrimônio. O jeito é manter o acordo de pé e isso é

possível, já que existem duas netas Van den Berg.

— E você propôs que Jordanna te substituísse no

casamento?

— Propus, mãe, e não sei como, mas ela aceitou. Na

verdade, eu sempre soube que ela tinha uma quedinha

pelo Enrico, porém não imaginei que seria a ponto de se

casar. Acho que quando a propus foi já em desespero,

porque estou convicta de que não caso mais.


— E Enrico já está sabendo dessa sua troca e da sua

decisão?

— Ainda não. Vou combinar de passar na casa dele

amanhã. Sei que isso não será fácil.

— Meu Deus, isso vai ser uma bomba nas famílias.

Já estou imaginando nonna Geovana e Dona Carmem

programando o casamento de Jordanna e decidindo seu

vestido de noiva.

— Então, mãe, isso é outra coisa que preciso te

contar. Elas não saberão.

— Como é que é?

— Até o dia do casamento, ninguém saberá. Somente

o Enrico, a senhora e a Dona Lúcia.

— Mas por que isso?


— Jordanna não quer que ninguém saiba e eu

concordei com ela. Seria loucura contar agora. Você sabe

que, tirando o papai, todo mundo tem preconceito com

elas, pela origem negra, por ela ser fruto de adultério e

todo o resto que nem preciso citar.

— Eu sei, minha filha. Foi tudo muito doloroso e até

hoje é. Seu pai sempre foi um homem maravilhoso para

vocês, mas, como marido, tive que aguentar muitas coisas.

— Eu sei, mãe! Mais um motivo para você entender

as razões que estão me levando a fazer isso. Você gostaria

que eu passasse por este tipo de situação? Eu não quero

viver uma vida assim. Quero viver ao lado de alguém que

me respeite e me ame.

— Elle, eu sou sua mãe e te apoio

incondicionalmente. Sei que Jordanna não tem culpa de


nada e a apoio também. Inclusive, nunca fui a favor deste

acordo, mas você sabe que aceitei a cultura da família Van

den Berg desde o dia que me casei com Daniel e, quando

vi, já era muito tarde para me rebelar.

— Mãe, você sempre foi uma santa e uma pessoa

maravilhosa. Aceitou coisas inimagináveis. Eu só estou

pedindo que me apoie.

— Filha, não vou apenas te apoiar! Vou te ajudar.

Está na hora dos homens destas famílias verem realmente

quem manda.

As duas riram daquele desfecho e, mais uma vez, o

coração de Elleanora se sentiu aliviado. Enviou uma

mensagem para a irmã contando tudo que tinha

conversado com sua mãe e explicando que elas teriam

uma forte aliada para que todo o plano desse certo.


De começo, Jordanna se mostrou um pouco reticente,

mas, em seguida, aceitou o fato de que Glória sempre foi

uma mulher incrível e sempre a tratou muito bem. Não faria

nada para prejudicá-la e realmente nunca faria.

No dia seguinte, Elleanora se arrumava para ir ao

encontro de Enrico e cada vez se sentia mais forte para

seguir com os seus planos. Sabia que estava no caminho

certo e que nada a faria parar a partir de agora.

ENRICO

Passei o dia trabalhando e, no fim da tarde, resolvi

tomar uma boa chuveirada para esperar por Elle. Tinha


expectativa de termos uma boa noite de amor.

Não sei o que Elle tem, mas hoje preciso fazê-la

voltar para o rumo certo e acabar com essa bobagem de

África e salvar populações carentes. Ela precisa se

concentrar em nosso casamento e me ajudar nos negócios

daqui para frente, pensei.

Meus pensamentos não paravam e estava

preocupado com o comportamento de Elleanora desde que

ela voltou da África.

Eu tinha me tornado o CEO da Siderúrgica Mancuso

e já conduzia a papelada de fusão com a Siderúrgica Van

den Berg antes mesmo do casamento se concretizar.

Sempre soube da importância daquilo tudo. Meu avô

sempre foi transparente comigo em tudo que dizia relação

aos negócios.
Resolvi receber Elleanora em casa com uma garrafa

do espumante rosé que ela tanto adorava e sabia que a

faria voltar aos eixos com minhas segundas intenções.

Nem a deixei entrar pela porta, já fui tratando de beijá-la e

tentando tirar sua roupa, porém ela se afastou. Disse que

não estava ali para transarmos, e sim para conversarmos.

Na verdade, decidirmos sobre nossas vidas.

Não entendi nada!

— Como assim, querida? Nossa vida está decidida

faz bastante tempo. Só temos que aproveitá-la.

— Não é bem assim, Enrico. Você sabe muito bem o

passo que teríamos que dar daqui a seis meses. Tudo

mudará em nossas vidas.

— Como assim “teríamos”? Ainda temos que dar esse

passo. E que papo é esse de mudar nossas vidas? Sempre


planejamos isso, tanto quanto nossos pais e avós.

Percebi que ela não iria hesitar e jogaria uma bomba

na minha cabeça. E não deu outra:

— Enrico, não vou mais me casar com você. No

entanto, para manter o acordo de negócios dos nossos

avôs, Jordanna se casará em meu lugar.

— Você está sugerindo o quê? — Eu não acreditava

que Elleanora estava rompendo nosso noivado e me

oferecendo a irmã como prêmio de consolação.

— Por favor, Enrico, nós dois sabemos que isso não

será nenhuma grande dificuldade para você. Ela é

inteligente, bonita, o maior problema dela é a sua...

inexperiência nos negócios e do papel que ela terá que

desempenhar sendo esposa do presidente da maior

siderúrgica deste país.


— Você está me pedindo para seduzir sua irmã para

que a fusão das empresas aconteça?

— Seduzir, não. Quero que faça com que Anna te

ame, porque meio que apaixonada por você ela é desde a

adolescência. O que te impede de torná-la uma mulher

honesta? Não era assim que nossas avós falavam?

— Elleanora, ouça o que está dizendo. Por acaso,

levou em consideração como a Anna vai se sentir com tudo

isso? Ser a segunda opção de noiva não é o sonho de

nenhuma mulher. E, como todo mundo, ela sabe que

nossas famílias aguardam este casamento.

— Daremos o que eles querem. Um casamento entre

as famílias Mancuso e Van den Berg.

— Eles aguardam pelo nosso casamento, Elleanora!

Como pretende explicar que seu noivo, o herdeiro da


família Mancuso, vai se casar com sua meia-irmã?

— Em primeiro lugar, Anna já sabe e não está se

sentindo inferior de nenhuma forma. Em segundo lugar,

não vou precisar explicar nada. Diremos que vocês se

apaixonaram e isso será dito somente na hora do

casamento. Ninguém saberá que a noiva mudou até ela

entrar linda de branco naquela igreja. Essas coisas

acontecem. Vai levar algum tempo, mas eles vão acabar

aceitando a troca das noivas. O que realmente importa

para nossas famílias é que uma fusão comercial se

concretize.

Saí de trás da enorme mesa de madeira de lei e

caminhei até ela, que permaneceu sentada na cadeira à

minha frente, com uma serenidade que me irritava.

Elleanora tentava aparentar uma calma que não sentia. Eu


a conhecia desde que éramos crianças. Precisava

entender o que a fez mudar de ideia.

— Você só pode estar completamente louca! —

começava a perder a paciência com aquele absurdo. — Eu

vi Jordanna o quê... meia dúzia de vezes em reuniões de

nossas famílias. Eu sou muito mais velho que sua irmã.

Sou um homem de trinta e quatro anos. Garotinhas de

dezoito anos não fazem meu tipo. Preciso de uma mulher

que coloque os interesses de nossas famílias como

prioridade. Ela é jovem demais. Mocinhas com sonhos

românticos jamais seriam a minha escolha para esposa.

Além disso, que história é essa de ninguém saber. Sério,

Elle, estou ficando preocupado com você e essa sua ideia

mirabolante. Deve ser alguma brincadeira.


Elleanora se levantou e me encarou cruzando os

braços, pouco se importando com a inferioridade de seus

1,67m diante de um homem de 1,88m de altura.

— Anna tem vinte e dois anos, não dezoito. E você

não me escolheu para ser sua esposa, Enrico. Esse acordo

de negócios foi feito por nossos avós, e como as famílias

perceberam que prosperariam muito mais unindo forças do

que como concorrentes, decidiram que antes de seu

aniversário de trinta e cinco anos, nós nos casaríamos.

— Há muita coisa em jogo com essa fusão, Elleanora.

Sabe disso.

— Sim, eu sei. Estou sendo egoísta passando esse

fardo para Anna, mas... como disse, ela aceitou e está

disposta a seguir com o plano da família. Coisa que eu não

estou mais disposta.


Eu começava a não acreditar mais naqueles absurdos

de Elleanora.

— Se tornar minha esposa agora se tornou um fardo

para você? Se bem me lembro, há poucos anos você

gostava de me exibir como um troféu para suas amigas.

Quantas vezes você me disse que estava satisfeita com o

arranjo de nossas famílias? O único herdeiro da maior

empresa siderúrgica do país e também bom de cama.

— Eu mudei, Enrico.

— Ninguém muda tanto em apenas seis meses,

Elleanora.

— Eu descobri coisas sobre mim... E quero descobrir

muito mais. Não quero um casamento de fachada. Eu sei

agora que não quero ser apenas mãe e esposa de alguém.

Também sei que provavelmente serei deserdada fazendo


essa escolha, mas se este for o preço que preciso pagar

para ser dona da minha vida, estou disposta a aceitar.

Enrico, eu tenho novos planos para mim.

— E acha que eu não fiz planos, Elleanora?

— Os meus planos não incluem você, Enrico. Não

mais. Eu costumava ver você como o marido perfeito. Rico,

lindo, inteligente, uma boa pessoa e ainda te vejo assim,

mas se um dia eu for me casar tem que ser com alguém

que desperte paixão em mim. Alguém que me faça sentir

melhor só por estar perto dele.

— Isso tudo é fantasia adolescente. Nós dois sempre

fomos muito parecidos. Nosso casamento tem tudo para

funcionar, Elle — argumentei, chamando-a pelo apelido

pelo qual sempre a tratei.


— Sim, nós somos muito parecidos. E isso não te

assusta um pouco? Será que realmente somos tão

parecidos assim? Ou apenas aceitamos e nos adequamos

ao que esperavam dos filhos obedientes que fomos criados

para ser e acabamos deixando de lado nossas vontades,

nossa identidade, Enrico. Eu e você precisamos de alguém

que pense diferente de nós.

— Eu quero um lar pacífico. Já basta as dores de

cabeça que tenho no trabalho. Não quero uma esposa que

me desafie, que me confronte e transforme tudo em

discussão.

— Eu não acredito que esta seja a sua ideia de

esposa, Enrico.

— Essa é minha ideia de companheira. Alguém que

me apoie e que eu saiba que posso confiar.


— Você não é machista assim. Esse é o discurso do

seu pai e do seu avô, não o seu — ela disse, me dando as

costas e parando em frente à porta do quarto,

contemplando a cama que tantas vezes nos divertimos.

Percebi que era somente aquilo nos unia, além de

uma fusão empresarial, e nada mais. Nem mesmo a

amizade que construímos durante anos estava sendo o

suficiente para mudar a irredutibilidade que Elleanora

apresentava agora.

— Eu sei quem eu sou e o que eu quero, Elle. Eu te

dei todo apoio quando apareceu com essa ideia de ser

voluntária por três meses no Sudão. Sua avó foi

categoricamente contra a neta favorita ser enviada para

uma das regiões mais pobres da África. Mas eu, por outro

lado, sempre te considerei um tanto frívola e pensei que


conhecer a realidade de outras pessoas que têm tão pouco

ou quase nada faria com que você valorizasse ainda mais

a vida que tem e percebesse o quanto somos afortunados.

— E foi exatamente o que aconteceu, Enrico. — Ela

se virou para mim e vi tanta certeza em seu olhar que

percebi ali que aquela batalha estava vencida. — Eu vi o

que é não ter nada. Sentia vergonha quando chegava o

meu almoço e a ração que recebíamos nas doações não

era suficiente para matar a fome daquelas centenas de

pessoas que estavam no acampamento para onde me

designaram. Não espero que compreenda como estou me

sentindo hoje. Imagino que você esteja com raiva e

magoado e é natural que se sinta assim agora.

— Com raiva e magoado? Elleanora, eu me sinto

traído. Decepcionado. Se eu tive uma certeza de algo na


vida é de que um dia nos casaríamos e agora você me diz

que escolheu outro destino e me joga para escanteio.

— Nós deixamos que eles escolhessem tudo por nós

a vida inteira. O dia do nosso casamento, o vestido de

noiva apropriado para alguém da minha classe social,

nossas avós escolheram o buffet e até nosso bolo de

casamento, a casa onde passaríamos o resto de nossas

vidas... E que graça tem isso? Eu quero ser surpreendida

pela vida. Quero parar de viver a vida que minha família

escolheu para mim. Eu quero ser livre. Eu quero ser feliz.

Eu quero tudo que eu nem sei que quero ainda. E me

casando com você eu não poderei ser nada disso... ter

nada disso.

— Qual é o nome do cara?

— Não tem cara nenhum.


— Ah! Não me trate como um imbecil. Ao menos diga

quem ele é.

O silêncio dela foi resposta suficiente para mim. Eu

me lembrei do desconforto que senti ao conhecer um certo

surfista filantrópico naquela praia do Nordeste. Ali meu

destino começou a ser mudado. Maldita hora que topei ir

para aquele resort.

— Estou fazendo isso por mim, Enrico. Se houvesse

algum outro homem envolvido, eu não esconderia de você.

Você mesmo disse que sempre existiu respeito entre nós...

— Acho que é hora de as famílias intervirem,

Elleanora. Eu não tenho tempo, nem paciência para lidar

com sua crise.

— Eu decidi que não quero me casar. Nem com você

nem com ninguém. Quero minha liberdade. Eu não vou


voltar atrás. Não adianta a família intervir.

— Elleanora, você sempre soube que nosso

casamento aconteceria. Aceitamos bem quando nossos

pais conversaram sobre a importância de nossa união para

nossas famílias e os negócios. Como agora, faltando

menos de quinze meses para você completar vinte e seis

anos, você muda de ideia? Te dei toda a liberdade que

você me pediu. A nossa união não traria amarras nem para

mim, nem para você. Eu não te amo. Você não me ama.

Nunca acreditamos nessas mentiras que as pessoas dizem

para se iludir. No entanto, já nos conhecemos há muito

tempo, estamos noivos, nos damos bem na cama e o mais

importante: temos respeito um pelo outro. Como pode

agora querer simplesmente que eu troque de noiva com a

facilidade que se troca de roupa? O pouco que eu me


lembro da Jordanna é que era uma adolescente com

aparelho e que usava tranças.

— Você verá que Jordanna mudou. E hoje me

arrependo dela ter ficado tanto tempo longe da família.

Ficou tempo demais em um colégio interno, por vontade da

nossa avó e eu já falei para ela que será você que irá

recebê-la quando ela chegar ao Brasil. Conversei com ela

antes de você. Já expliquei a ela os termos desse

casamento e ela está completamente de acordo. Só tem

uma condição.

Se é que era possível, comecei a me preocupar ainda

mais.

— Ninguém saberá da mudança de esposa até o dia

do casamento religioso, e vocês casarão no civil, pelo

menos, oito dias antes desta data.


Fui categórico e rapidamente lhe respondi.

— Eu não farei isso.

— Fará, sim. Você quer muito essa fusão. Quase

tanto quanto nossos avós quando fizeram esse acordo sem

sentido. — E, dizendo isso, ela saiu do meu apartamento e

da minha vida definitivamente.

E, no fundo, ela tinha completa razão. Eu não poderia

colocar uma arma em sua cabeça e fazê-la entrar na igreja

para se casar comigo e sabia que, por nada neste mundo,

poderia deixar de fazer a fusão acontecer. Só me restava

apenas aceitar aquele destino e da forma que ele estava

sendo desenhado.

Cancelei todos os meus compromissos e agendei

para o dia seguinte minha viagem para Nova York.


Estava na hora de conhecer a esposa que eu não

escolhi.
CAPÍTULO 3

ENRICO

Cheguei a Nova York ainda de madrugada e estava

tão descompensado com toda essa história que, por alguns

momentos no voo, pensava o que estava fazendo ali.

Como pude aceitar tal insanidade? Elleanora

enlouqueceu e levará todos nós em sua própria ruína.

Nossas famílias não aceitarão.

Minha mente não parava pensando nas

consequências disso. Eu sempre fui centrado e nunca tive


problema com o meu emocional, só que realmente, dessa

vez, essa loucura estava me tirando do sério.

Resolvi ir para o hotel responder alguns e-mails e

aguardar dar a hora do almoço já agendado com minha

futura esposa, até meu telefone tocar.

— Querido, bom dia! Vem jantar hoje à noite conosco.

Chame Elle também. Gostaria de mostrar para você a

coisa linda que ficou o convite. As caixas acabaram de

chegar e gostaria de repassar a lista de envio — falava

minha nonna Geovana, totalmente animada com o nosso

casamento.

Tive que disfarçar tal contentamento e agir como se

nada estivesse acontecendo. Eu detesto mentir desta

forma e simular felicidade. Mas o que estava em jogo era


muito maior, e um dia eles iriam compreender minha

atitude.

— Oi, nonna. Bom dia! Não tenho como ir hoje.

Acabei de chegar em Nova York. Tenho algumas reuniões

aqui, mas, no máximo, em três dias estou voltando. Ligue

para Elle e peça para ela ir ver os convites. Confio no gosto

dela.

— Querido, se é para trabalho eu te perdoo! E não se

preocupe. Não é para aprovar os convites. Apenas vê-los

mesmo. Eu e Carmem já aprovamos tudo.

— Está bem, nonna, preciso desligar, pois daqui a

pouco tenho um almoço importante e preciso me preparar.

Beijos no vovô.

Ao desligar, por um momento, as palavras da minha

avó soaram como uma facada em minha mente e tive que


concordar com Elle. Como que os convites estavam

aprovados e já tinham chegado? Que noiva aceitaria isso?

Já tinham decidido o marido e não a deixaram nem decidir

detalhes simples do casamento.

Começava a dar razão à minha amiga de toda uma

vida, apesar de uma parcela desta culpa também ser

nossa. Por que não intervimos antes? Por que deixamos

que eles tomassem conta de tudo?

Em parte, porque gostávamos de ser paparicados e,

em parte, porque era muito cômodo para nós fazerem tudo

e não nos preocuparmos com nada.

Cheguei ao restaurante na hora marcada e fui para a

mesa esperar Jordanna. Solicitei um local bem reservado,

já temendo que ela chorasse ou fizesse alguma cena e eu

passasse alguma vergonha em público.


Não era possível que alguém tivesse aceitado de

forma tão pacífica tal absurdo. De certo, quando me visse,

ela desistiria e ainda teríamos este problema.

Sem falar que Elle era linda, preparada e sabia se

arrumar para qualquer evento, se portar com todas as

pessoas e já era preparada para me acompanhar em

qualquer jantar ou encontro de negócios. Como uma

menina como Jordanna faria isso? Levaríamos anos para

treiná-la e deixá-la como a Elle é.

— Boa tarde, senhor! Posso lhe oferecer uma taça de

champanhe, enquanto espera sua acompanhante? —

perguntava-me o garçom, e eu quase não conseguia

prestar atenção em mais nada.

— Por favor! Aceito, sim.


— Claro. Trarei uns aperitivos para acompanhar e a

carta de vinhos para o senhor.

— Obrigado.

Enquanto tentava me acalmar com o espumante, já

percebia que ela estava atrasada seis minutos, o que é

bastante deselegante. Anotei mentalmente. Teríamos

muitas coisas a corrigir. Elle teria que treiná-la.

Absorvido em meus pensamentos, nem percebi que o

maitre trazia uma mulher na direção da minha mesa. Deve

ter se confundido, apesar de que não me incomodaria de

almoçar com ela. Era uma verdadeira deusa.

— Senhorita Van den Berg, é um prazer. Fiquem à

vontade e bom almoço!

Eu estava sonhando, este mulherão sentado à minha

frente era Jordanna? Não podia ser! Ela era uma menina
quando a vi pela última vez.

— Olá, Enrico! Quanto tempo, não é mesmo?

Ela percebeu o impacto que tinha me causado.

Provavelmente, eu estava de boca aberta e olho

arregalado. Eu me senti um personagem de desenho

animado, paralisado, enquanto o resto das cenas

continuavam a acontecer. Retomei os sentidos. Precisava

controlar aquela situação.

Jordanna usava um vestido preto tubinho, mas com

um decote generoso e saltos bem altos que torneavam

ainda mais suas belas pernas. O penteado, um coque

despojado, deixava alguns fios do seu lindo cabelo negro

cacheado solto, dando um ar de elegância e jovialidade.

Ao atravessar todo o salão do restaurante, todos

olharam. Não havia quem não se impressionasse com


aquele deslumbre em forma de mulher.

— Desculpe, Jordanna. Eu não te vejo há muito

tempo. Não a reconheci — falei, sentindo inclusive que

estava ruborizando.

— Tem razão! Não nos falamos tem bastante tempo.

Infelizmente, não fui muito convidada para eventos de

família, não é mesmo? — Senti que ela começava o

confronto.

Eu que estava pronto para um almoço com uma

menina tímida, com medo de que ela chorasse, estava de

frente para uma mulher que, apesar de linda, ia colocar

anos de mágoa sobre nosso vinho. Eu estava perdido! Até

que ela continuou, sem nem me deixar responder:

— Mas isso são águas passadas e nem quero falar

sobre isso. Vamos falar sobre negócios. Nosso casamento.


Gostaria de discutir todo o planejamento.

Negócios???? Nosso casamento, para ela, era um

negócio. Se bem que ela tinha toda razão. Só que eu e Elle

nunca colocamos dessa forma, e a verdade nua e crua na

minha cara foi um tanto quanto dolorido.

— Sim! Entendo que o primeiro ponto que

deveríamos discutir, Anna, é sobre este lance de

mentirmos até o dia da igreja. — Simulei uma falsa

intimidade a chamando por seu apelido, para tentar

quebrar o gelo do almoço.

— Desculpe, Enrico. Isso realmente não abro mão e

já expus meus motivos para Elle, os quais não gostaria de

repetir. Sem essa pré-condição, não há casamento.

— Entendi. Mas você não acha que isso pode causar

um tumulto muito grande, a ponto de cancelarem a


cerimônia?

— Por isso, sugeri que nos casássemos no civil

antes, para que nada pudesse ser cancelado. Além do

mais, Enrico, se cancelarem, a consequência é de nossos

avós e não minha. Estou apenas fazendo um favor a você

e a Elle. O que está custando minha vida e minha

liberdade.

Ela tinha razão. Ela estava nos fazendo um favor e

salvando o patrimônio das duas famílias. Eu não podia

impor nada e sabia muito bem a consequência caso, além

de Elleanora, ela também desistisse. Estava

completamente nas mãos dela.

— Tudo bem. Vamos manter dessa forma. Mas quais

são seus planos? Quando você irá para o Brasil? —

perguntei, tentando quebrar o clima tenso que se instalou e


chamando o garçom para que o almoço amenizasse

aquele começo desastroso.

— Vou daqui a três meses, já que o casamento é em

seis e sei que nossas avós já cuidaram de todos os

detalhes. É apenas o tempo de eu me organizar com meus

compromissos aqui na cidade.

— Você precisa que eu providencie algo, peça a

contratação de uma secretária para ajudá-la neste

período?

— Não precisa, Enrico. Agradeço sua disponibilidade,

mas consigo dar conta.

Sua independência e firmeza me causavam

estranheza. Não estava acostumado a lidar com mulheres

assim. Na verdade, nunca nem conheci uma mulher assim.


— Elle me falou que ela vai cuidar dos preparativos

do casamento com nossas avós e vai te passando tudo

durante este período.

— Sim. Mas isso é mera formalidade. Se escolherem

rosa ou azul, para mim, não terá diferença — ela falou,

quase que rindo e não sabia se porque realmente tinha

achado engraçado ou se ela estava debochando da

situação.

Pela primeira vez, eu me senti vivendo um verdadeiro

circo, com toda essa história de casamento arranjado. Em

apenas vinte e quatro horas, duas mulheres fizeram toda a

minha vida cair por terra.

— Você tem razão. Ficarei na cidade por alguns dias,

para resolver também alguns assuntos da empresa.

Gostaria de encontrá-la novamente. Poderíamos ver


alguma peça na Broadway e depois jantar. — Mudei meu

tom para amenidades e percebi que precisaria conquistá-

la. Afinal de contas, era um casamento arranjado, eram

negócios, porém eu precisaria de um filho, então nem tudo

seria fake. Será que ela se dava conta disso?

— Seria ótimo! Tem algumas estreias que eu estava

realmente querendo ver — ela respondeu, tão animada que

me deixou confuso.

Nunca precisei conquistar uma mulher. A que seria

minha esposa, já estava escolhida e não tínhamos

qualquer problema quanto a este acordo. Já as demais,

sempre caíram aos meus pés. Não sabia nem como lidar

com a Jordanna e cada vez tinha mais certeza que não

seria fácil.
Decidi manter as coisas desta forma, como bons

amigos fazendo um acordo comercial e não avançar

nenhum sinal. Não sabia ainda como ela iria reagir e

precisava saber o campo que eu estava pisando.

— Perfeito. Olga é a minha secretária e ela entrará

em contato com você, não só para nosso encontro, para

muitas outras coisas. Inclusive, vou colocá-la também à

sua disposição. O que você precisar, pode entrar em

contato com ela.

— Está ótimo. Eu te agradeço.

Eu me enganei quando achei que ela não sabia se

portar, se arrumar ou que não seria uma mulher elegante

para me acompanhar. Ela era tudo isso e ainda algo mais

que eu precisaria descobrir.


Após dois encontros para jantar fora, Jordanna me

ofereceu um jantar em sua casa, na minha última noite na

cidade, antes de retornar para o Brasil.

Comprei meia dúzia de rosas vermelhas e um par de

brincos na Tiffany e estava confiante de que, a partir desse

jantar, poderíamos criar um mínimo de intimidade. A

história toda já era estranha, imagina casar com alguém

sem qualquer vínculo.

Ela morava em um apartamento em West Village,

bairro tradicional e nobre da cidade. Apesar disso, não

havia nada de luxuoso ou que ela ostentasse. Ela era

bastante diferente da família, a qual carregava o nome.

— Olá, Anna. Boa noite. Trouxe para você. —

Entreguei as flores e um vinho. Já a joia deixei para o

momento do jantar.
Nossa! Eu sempre ficava sem ar quando olhava para

aquela mulher.

— Obrigada! Gentileza sua! Preparei uma massa.

Espero que goste! — falou Jordanna, que vestia uma calça

jeans rasgada e uma charmosa blusa que deixava seus

ombros à mostra. Meus pensamentos eram de que, mesmo

com uma roupa despojada, ela parecia elegante.

— Massa é meu prato favorito. Parece que adivinhou.

— Senti que ela gostou desse elogio. — Você quer ajuda

para terminar o jantar? Não que eu saiba preparar, mas

posso ralar o Grana Padano. — Tentei descontrair o

ambiente. Cada vez estava mais convencido que meu

charme era mais para atrair as mulheres do que para

conquistá-las.
— Não precisa, Enrico, já estou finalizando e o queijo

já está ralado. — Jordanna estava leve e usava um tom

maroto. — Abra o vinho. As taças estão sobre o bar, na

sala.

— Claro! Vou colocar uma música. Vou escolher um

jazz, imagino que aprecie.

— Bobinho. Mamãe me criou a base de jazz, mas

gosto de qualquer estilo musical.

Coloquei algo mais romântico para tentar criar um

clima, apesar de me sentir bem pouco confortável com

aquela situação. Não tinha total certeza se aquele seria o

encontro para criar a devida intimidade que deveríamos ter

ou talvez esperar quando ela chegasse ao Brasil.

A verdade é que estava realmente atraído pela beleza

e simplicidade daquela linda mulher.


— O jantar estava delicioso. Você é uma boa

cozinheira. Puxou sua avó! Dona Carmem faz um cordeiro

como ninguém.

— Infelizmente, nunca provei, mas acredito que ela

seja uma verdadeira mestre cuca.

Eu me senti constrangido.

— Desculpe, não quis lhe causar mal-estar. Sei que

você e a família não são próximas.

— Não causou mal-estar nenhum. Não se preocupe.

Comprei alguns doces da Magnólia Bakery. Espero que

goste.
— Sim! Adoro! Mas, antes da sobremesa, gostaria de

lhe dar um presente.

Saquei do paletó a caixinha da Tiffany e senti que ela

ruborizou. Será que pensou que era um anel? Óbvio que a

aliança que dei para Elle não seria repassada junto com tal

acordo.

— É apenas um mimo para deixá-la mais bonita.

Realmente você se tornou uma linda mulher, Anna.

— Obrigada, Enrico — ela falou, com uma voz mansa

que eu ainda não tinha presenciado.

Ela abriu a caixa e me preocupei de ela se

decepcionar, porém não foi o que ocorreu. Na verdade,

senti mais um alívio do que qualquer coisa, contudo algo

me incomodou: ela não me pareceu impressionada.


— É lindo. E são bastante parecidos com meu gosto.

Usarei em breve. Muita gentileza sua.

A caixinha foi colocada sobre uma estante e ela foi

buscar a sobremesa.

Tudo estava correndo bem, com uma boa conversa e

confesso que estava tendo um momento verdadeiro e

simples. Algo bem raro em minha vida. Até que...

— Você quer mais vinho? — perguntei

educadamente.

— Não, obrigada! Já estou satisfeita! — E quando a vi

colocando a taça sobre uma mesinha lateral, parti para o

ataque e tentei beijá-la, porém ela recuou rapidamente.

— Desculpe, não quis ofendê-la. Realmente fui

tomado pelo vinho e pelo clima amistoso.


— Sem problemas, Enrico. Acho apenas que não é o

momento. Não esqueça que nosso casamento é

puramente comercial. No entanto, pode ficar tranquilo, pois

cumprirei com minhas obrigações matrimoniais, dando a

você um herdeiro como imagina. Inclusive, isso é algo que

devemos conversar futuramente. Devemos criar um

contrato para toda esta transação e deixar tudo

documentado. Falarei com a Olga para que um advogado

de sua confiança nos assessore em relação a isso.

— Sim, claro! Como preferir — falei, demonstrando

descontentamento aparente que não pareceu constrangê-

la nem um pouco.

Eu estava constrangido e até com um pouco de raiva.

Nunca havia sido rejeitado e por mais que o casamento

tenha sido arranjado da forma que foi, não o considerava


tão comercial como ela. Ela era segura demais de si e

sabia exatamente o que queria e novamente tudo estava

fora do meu controle. Eu não sabia lidar com isso.

Terminamos a noite com um abraço quase fraterno,

combinando que o próximo encontro já seria no Brasil para

fecharmos os detalhes do contrato de casamento.

Voltei para o hotel bastante perturbado e mexido com

aquela nova situação e decidido a conversar com Elle.

Afinal, antes de qualquer coisa, ela era a minha melhor

amiga. Na verdade, minha única amiga verdadeira e com

quem poderia desabafar? E ela teria que me ajudar com

tudo isso.
CAPÍTULO 4

ENRICO

Elle entrou ansiosa sem sequer ser anunciada. Eu

estava em uma videoconferência com uma empresa da

China e ela passou por mim e se serviu um whisky, ficando

sentada na minha frente pedindo para desligar logo.

— Elle, espere um pouco. Já conversaremos. Estou

finalizando uma transação importante — falei, sabendo que

a ansiedade dela em saber como tinha sido rever Jordanna


era tão grande que poderia preencher quase toda a sala da

presidência que eu ocupava.

— Estou aguardando!! Mas não me peça para sair.

Vou ficar aqui. Não entendo mandarim mesmo — disse ela,

rindo com certo deboche, mesmo que a call estivesse

sendo em inglês.

Ao finalizar, ela já se posicionou à minha frente com

os olhos quase arregalados e as sobrancelhas arqueadas,

como uma criança à espera de ganhar um doce. Percebi

que ela estava perfumada e com um dos vestidos de jantar

que ela apenas vestia para me seduzir.

— E então, como foi? Ela te tratou bem?

Não acreditava que iríamos ter essa conversa. Falar

com minha ex-futura esposa sobre a minha futura esposa

em potencial que, não por acaso, era a irmã dela.


Percebi que Elle tinha muito mais interesse em ouvir

como eu estava impressionado com a mudança física de

Jordanna e saber se eu já tinha me apaixonado por ela,

como nos filmes de romance que ela estava acostumada a

assistir com sua mãe.

— Foi excelente! Acho que terei pouco trabalho para

adequá-la para assumir o papel de minha esposa. Sua irmã

é uma dama de fato. Bastante requintada e elegante. Além

de ter se tornado uma mulher muito bonita. — Não

aguentei e perguntei: — Por que você está tão arrumada?

Você só se vestia assim quando saíamos para algum jantar

especial. Um dos nossos jantares especiais que eu

adorava te saborear como sobremesa.

— Ah, Enrico! Não te devo satisfações da minha vida.

E a conversa aqui é sobre você e Anna. — Notei que ela


desconversava e logo mudou o assunto. Resolvi não

insistir mais. Nós nunca controlamos a vida um do outro.

Sempre foi meio que um acordo velado entre nós por todos

esses anos em nosso relacionamento aberto. Então, a

conversa seguiu com Elle empolgada: — Eu sabia que

você ia se impressionar!! Eu fiquei chocada quando a vi!

Senti até uma pontinha de inveja.

— Não tem por que invejar sua irmã. Você também é

linda. São duas belezas diferentes — falei, consolando-a,

pois sabia que realmente ela deve ter tido ciúmes. — Você

é uma mulher fabulosa, Elle.

— E já rolou algo? Ela não parece ser inexperiente.

— Não. Isso é algo que quero conversar com você.

Ela está tratando tudo como um acordo estritamente

comercial. Inclusive, já entrou em contato com a Olga para


disponibilizar um advogado para fazermos um contrato

nupcial.

— Sério? Fiquei impressionada com a esperteza dela.

Achei que fosse mais ingênua e inocente. Você acha que

ela pode desistir ou nos trair, de chegar na hora e cancelar

tudo?

— Não, duvido! Ela parece ser bem decidida e firme

em suas convicções. O problema é que... não posso casar

e não ter uma esposa de fato, certo, Elle? E ela não me

pareceu que vai ter um relacionamento assim tão

facilmente. Nem sei se ela quer isso. — Eu me surpreendi

com meu próprio sentimento de desapontamento ao falar

esta frase.

— Vocês não ficaram???? Achei que já rolaria algo,

ainda mais quando ela mesmo me ligou perguntando o que


você gostava, pois tinha te convidado para jantar na casa

dela.

— Não sabia que ela tinha te ligado. Achei que tinha

feito massa apenas por coincidência.

Não entendi por que estava tão feliz por ela ter se

preocupado com isso. Eu precisava deixar essas bobagens

de lado e focar no que importava. Continuei a conversa.

— Elle, você precisa conversar com ela. Quero filhos

e não quero apenas uma mulher ao meu lado para

eventos. Quero, na verdade, o pacote completo.

— Nossa, você está me saindo um machista de mão

cheia. Que frase horrível. Você terá que conquistá-la,

bobinho, se realmente quer uma mulher.

— Será que ela aceitará um relacionamento como o

nosso? Não quero também perder minha individualidade e


liberdade.

— Você quer tudo, né? E nós mulheres apenas

ficamos com o fardo. Ainda bem que me livrei desta furada.

— Agora eu sou furada? Você está me ofendendo.

— Você, não, meu lindo. Mas a situação toda é.

Imagine saber que seu marido está com outra na rua. E

não esqueça da história da Jordanna. Trate de conter seus

impulsos masculinos.

— Vou ver como isso ficará no contrato, já que ela

mesma está tratando como acordo comercial.

— Trate de conquistá-la, este é o conselho que te

dou.

O problema é que realmente não sei como conquistar,

nunca precisei fazer isso, nem com nada e nem com


ninguém. No entanto, pelo jeito, estava vendo que teria que

aprender.

Elleanora, naquele momento, começava a perceber

que seu plano estava dando mais certo do que realmente

imaginava e via que de acordo comercial aquilo não tinha

nada e que a irmã era muito mais esperta do que ela

imaginava. Ia ter Enrico nas mãos!

Saiu rindo do escritório e apressada em seu scarpin

preto com uns quinze centímetros de salto, no mínimo.

Tinha um compromisso inadiável para o jantar e não queria

deixar seu acompanhante esperando.

Passados os três meses, o avião de Jordanna

aterrissava no Brasil e minha noiva iniciava sua mudança

definitiva para o Rio de Janeiro. Eu, que já havia deixado

reservado um apart-hotel em Ipanema para ela, de frente


para o mar, fiz questão de esperá-la no local, para

recepcioná-la em sua chegada.

— Enrico, que surpresa! Não precisava vir me

receber! Agradeço a gentileza! — Observei que Jordanna,

mesmo com mais de oito horas de voo entre Estados

Unidos e Brasil, permanecia linda e educada. Mas o que

mais me chamou atenção foi ver que ela usava os brincos

que dei em nosso último encontro.

— Não precisa agradecer, Anna! Fiz questão de estar

aqui e te mostrar tudo para que se sentisse em casa ao

voltar para o Brasil depois de tanto tempo — falei, tentando

passar uma amistosidade e, ao mesmo tempo, um pouco

de indiferença. Não queria que ela pensasse que a estava

pressionando de alguma forma.


— Obrigada! Tenho algumas coisas para resolver nos

próximos dias, mas podemos agendar um almoço ou jantar,

inclusive com a Elle, para que vocês possam me atualizar

do nosso plano. Falei pouco com ela nas últimas semanas.

— Vamos, sim! Também não a vi muito nos últimos

dias. Ela está com algum projeto secreto que a tem

consumido por um longo tempo. — Jordanna deu um leve

sorriso de canto de boca e percebi que ela sabia de algo

que eu não sabia e aquilo me causou um pouco de

ciúmes. Como minha melhor amiga tinha segredos para

mim com uma irmã que ela mal tinha contato? Meus

pensamentos oscilavam entre uma certa inveja da relação

e um pouco de raiva de estar sendo excluído dos segredos.

— Fico contente de você ter escolhido um apart de

frente para o mar. Senti falta das praias brasileiras. Este


com certeza será um dos meus programas para os

próximos dias. — Senti um calor me subindo, já

imaginando aquele corpo dentro de um biquíni. Tomara que

não tenha transparecido.

Nos segundos seguintes, fiquei esperando por um

convite que não veio, então resolvi eu mesmo tomar a

iniciativa.

— Faz bem! É só me avisar que venho desfrutar

deste lazer com você. Tem tempo que não vou a uma praia

no Rio de Janeiro. Além disso, o apart disponibiliza

cadeiras exclusivas e outras vantagens aqui em frente.

Teremos toda a comodidade.

— Combinado. Falo com a sua secretária ou com

você mesmo para agendarmos. — Sentia que ela tentava

ao máximo não estreitar laços e sempre colocava algum


comentário, em nossas conversas, que nos lembrasse que

tudo não passava de negócios.

— Que isso, Anna! É uma praia! Você tem meu

contato direto! Ligue para mim. Esqueça a Olga! — Ela riu

de forma marota e apenas acenou positivamente com a

cabeça, e eu não sabia se era porque quebrei alguma

barreira ou se estava apenas sendo debochada.

Incomodava-me demais não saber decifrá-la.

Encerrei a conversa, lhe fazendo um convite.

— Vou deixá-la descansar e dar um tempo para

arrumar suas coisas. Podemos tomar um drink amanhã

aqui no bar do apart?

— Claro, será ótimo!

— Perfeito, te espero então aqui embaixo, por volta

das vinte horas. Assim que sair da empresa, te aviso.


— Combinado!

Nossa despedida foi com um beijo no rosto apenas e

saí do seu quarto com um desejo reprimido de tomá-la em

meus braços. Contive meus pensamentos e fui para a

empresa. Tinha muitas coisas que me esperavam para

decisões importantes.

Nos dias seguintes à chegada de Jordanna ao Brasil,

nos encontramos algumas vezes e percebia que nossos

encontros eram sempre muito agradáveis, apesar de ela

sempre manter uma certa distância, deixando claro que

nosso relacionamento não passaria daquela situação e isso

me preocupava e, por vezes, inclusive me deixava bastante

desconfortável.

Em um domingo, combinamos um chá da tarde no

Forte de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, com


Elle, já que Anna gostava de que nossos encontros fossem

ao ar livre.

Eu até gostava da ideia e me sentia aliviado, já que

nossas famílias frequentavam apenas o Jockey Clube e

alguns poucos restaurantes tradicionais localizados na

Barra da Tijuca, apesar de saírem pouco e gostarem mais

das reuniões sociais em suas próprias residências, com

seus amigos.

Costumam dizer que sair hoje em dia para algum

restaurante ou local, no Brasil, é o mesmo que passar por

provações divinas, tanto pelo atendimento, como pelos

frequentadores dos locais – novos ricos que não tinham

educação. Em alguns momentos, eu mesmo cheguei a

concordar com este discurso, comparando aos

restaurantes europeus. Hoje vejo como esta fala era


prepotente e arrogante, já que tive momentos bem

agradáveis nos últimos dias, mostrando os locais para

Jordanna.

Combinei de pegá-las em casa e no apart,

respectivamente, para chegarmos juntos ao local. Porém,

quando Elle estava saindo de casa, sua avó, Dona

Carmem, imediatamente saiu pelo portão para me

cumprimentar. Em seguida, vieram seus pais e seu avô. Eu

ainda não os tinha encontrado desde todo o ocorrido com

as duas filhas da família e essa confusão da troca de

esposas, por isso vê-los me causou um grande

desconforto. Eu os evitava, assim como a minha própria

família, já que sempre tinha que mentir quando alguém me

perguntava sobre o casamento.


Deveria ter me tocado que era domingo e eles

sempre almoçam juntos. Meu próprio pensamento me

martirizava e aumentava meu arrependimento de ter

combinado de pegar Elle em casa.

— Querido Enrico, quanto tempo que não te vejo! Já

estava ficando preocupada com esse sumiço! — Dona

Carmem vinha me abraçar, enquanto, em alto e bom tom,

me dava esta bronca e carinhosamente se dirigia à neta: —

Não o deixe trabalhar demais e esquecer da esposa. Eu

sempre lembrei Willy dos deveres matrimoniais quando

percebia que ele estava dando mais atenção à Siderúrgica

do que a mim — continuava ela com seu discurso feminino

meio antiquado e meio impositivo.

Eu sorri bastante constrangido e, antes que eu

pudesse falar qualquer coisa, Elle já deu alfinetadas na


família.

— Vovó, por que está pressionando Enrico, se todos

nós sabemos que você e nonna Geovana estão cuidando

de todos os preparativos do casamento e nós não

podemos opinar em nada? Só resta a ele trabalhar para

manter os luxos de nossas famílias, já que eu fui criada

com a única obrigação de ser esposa.

Antes que Dona Carmem vociferasse contra o

comportamento da neta, que nunca teve aquela postura,

Glória, sua mãe, amenizou a grande confusão que se

formava, praticamente enfiando Elleanora em meu carro,

pedindo para que fôssemos embora e desejando um ótimo

passeio.

— Elle, você está ficando doida?


— Desculpe, Enrico, estou realmente saturada! Não

consigo mais acatar a hipocrisia da minha família e

realmente não vejo a hora de chegar este casamento para

estar completamente livre disso tudo.

— O que está acontecendo? Sei que não é somente

isso. Assim como sei que Jordanna sabe. Somos melhores

amigos e não temos segredo, mas sinto que está me

escondendo algo. — Tentei convencê-la a compartilhar

comigo o que estava escondendo.

— Prefiro que deste meu assunto você realmente

fique fora. Será inclusive melhor para você e para o nosso

plano do casamento.

— Mas por quê? Eu posso ajudá-la a enfrentar o que

deve estar passando.


— Na hora certa, você saberá — Elle falou,

encerrando o assunto, e preferi não insistir mais.

Chegamos ao restaurante e Jordanna nos aguardava.

Nós nos cumprimentamos e ela parecia mais animada do

que de costume. Mas, mesmo durante todo o nosso chá,

não consegui descobrir o motivo.

— Mana, me conte como estão os preparativos do

casamento.

— Anna, trouxe um book que recebi com todos os

itens da festa, desde os preparativos na cerimônia

religiosa, passando pelo bolo, até a recepção final.

— Que ótimo! Estou precisando me inteirar desse

assunto — expressei meu contentamento, já que até

mesmo eu não tinha conhecimento nenhum do que iria

acontecer.
— Vou explicar para você como tudo ocorrerá! O

espaço será o Lago Buriti e são Roberto Cohen e Renata

Paraíso que estão cuidando de tudo, logo, a festa já

promete ser deslumbrante. — Percebi que Anna sorria em

contentamento com estas informações e Elle estava

bastante empolgada. Preferi ficar de ouvinte, já que me

dava calafrios imaginar tudo que ocorreria nesse dia.

E ela continuou com a descrição do plano:

— No espaço, há uma suíte presidencial que servirá

de arrumação para a noiva e depois será arrumada para a

noite de núpcias. No momento que eu me arrumar,

somente minha mãe e você estarão comigo,

automaticamente você que estará se arrumando.

— Continue, Elle! Estou adorando! — falava Anna,

bastante animada.
— Para chegar ao altar montado pela decoradora,

você teria que descer as escadas e de longe todos te

veriam. Então, você sairá da suíte pelos fundos e

caminhará até o altar pela área dos arbustos, já

aparecendo logo onde ficará a entrada do tapete vermelho.

— E onde ficará o Enrico? — Elas conversavam

quase que já excluindo minha existência. Eu apenas me

deliciava com os croissants e o chá que acabavam de

chegar à nossa mesa.

— Ele estará no altar à “nossa” espera, porém

combinarei com a minha mãe que quando ela descer e

entrar na área de pais, ele já deverá caminhar à sua

espera, de maneira que ninguém impeça sua entrada

triunfal.
Apenas acenei com a cabeça concordando com

aquela loucura. Não havia nem mais como discordar. Elas

pareciam duas crianças bolando a próxima aventura que

teríamos para o final de semana. E aquilo me dava cada

vez mais calafrios. Até que resolvi falar.

— Vocês não acham que estão exagerando,

meninas? Poderíamos fazer algo simples e comunicar às

famílias um pouco antes da cerimônia. Falamos que nos

apaixonamos e mantivemos o acordo.

— Não! — A negativa saiu em coro e percebi que

aquilo que Jordanna tinha colocado como condição para

Elleanora, tinha se tornado quase que uma vingança contra

tudo que minha ex-noiva agora detestava.

— Mas por que precisamos armar este circo todo,

Elle? Não consigo compreender. Estamos, inclusive,


colocando a saúde de nossos avós em risco. Um deles

pode ter um treco do coração na hora. Até porque eles não

conhecem a Jordanna e não associarão o acordo comercial

no momento de sua entrada.

— Enrico, já pensei nisso também! — Elle parecia

realmente já ter fechado qualquer lacuna do plano. —

Faremos um jantar pré-casamento na sexta-feira antes do

grande dia, e Jordanna aparecerá ao meu lado. Todos já

saberão quem ela é.

— Tudo bem, mesmo assim, acho uma grande

loucura! — falei, encerrando minha participação.

Elas continuaram vendo os demais detalhes e eu

resolvi responder alguns e-mails pelo celular, já que o

assunto me estressava profundamente, porém estava de


mãos atadas e precisava aceitar a maneira que o cenário

estava se desenhando.

As semanas seguintes seguiram relativamente

tranquilas. Elle e Anna se dedicavam única e

exclusivamente ao casamento. Muito mais ao plano do que

efetivamente à cerimônia.

Até que em um dia normal de trabalho, entre uma

reunião e outra, faltando quase um mês para o casamento,

Olga me procurou para despachar alguns assuntos.

— Senhor Enrico, você precisa assinar estes

contratos e dar autorização em algumas senhas-chave de

diretores que expiraram, além de definir alguns outros

assuntos. Podemos ver agora?

— Sim, Olga! Entre! Vamos acabar com estas

pendências agora — falei, pois tentava ao máximo apenas


focar em meu trabalho.

— Perfeito! Na pauta, além destes documentos,

temos alguns outros assuntos — ela falou, já me

entregando a papelada enquanto eu assinava. — A

joalheria ligou informando que a aliança de casamento está

pronta, assim como o anel que presenteará a senhorita

Elleanora no dia. Além disso, o agente de viagens ligou

querendo saber se já definiu o destino da lua de mel, para

fechar passagem e hospedagem.

Eu tinha esquecido completamente que esses

assuntos, especificamente, seriam tratados por mim. Tinha

sido uma exigência da Elle à família no dia do nosso

noivado e todos concordaram. Confesso que não lembro

dela e Jordanna tratando sobre isso.


— Vou fazer algumas ligações e em seguida defino

isso, mas já diga para o agente reservar um bangalô nas

Maldivas para uma semana e colocar em nome de Sr. e

Sra. Mancuso.

— Perfeito, senhor. A joalheria gostaria de decidir

agora, já entro em contato com eles?

— Sim, peça para gravarem a data na aliança, sem

qualquer nome. E peça também para aumentarem do

número 13 para o 14. Isso é importante.

— Mas a medida da senhorita Elleanora é 13,

recordo, pois estava presente na sala quando o joalheiro

mediu.

— Olga, faça apenas o que estou te pedindo, por

favor. — Elle já tinha tirado as medidas da aliança com

Jordanna, a partir da aliança de noivado, e me passado. E


eu, desde então, ainda não tinha tido coragem de fazer

esta mudança.

— Sim, senhor. Farei isso.

— Obrigado, Olga! Algo mais?

— Sim! Um advogado ligou informando que estava

com o contrato nupcial pronto e gostaria de agendar uma

reunião com o senhor. Posso agendar para os próximos

dias?

— Por favor, Olga! Na verdade, agende para hoje à

tarde. Quero resolver logo isso. Ligue para Jordanna e

agende com ela um jantar para hoje mesmo e diga que é

de extrema importância o aceite.

— Sim, senhor. Precisando é só me chamar.

— Obrigado!
Olga sempre foi uma secretária bastante discreta e,

desde então, vinha cuidando de tudo que Jordanna

precisava. Estava comigo há mais de dez anos e eu sabia

que não precisaria me preocupar, embora ela nem

desconfiasse que algo estava acontecendo, pois devia

achar que eu estava tendo um relacionamento com as

duas irmãs. Ou seja, provavelmente, me achava um

verdadeiro crápula. Bom, mas isso era o menor dos meus

problemas.

No horário combinado, saí da empresa e pedi para o

motorista me levar para o apart-hotel de Jordanna para

discutirmos o contrato nupcial. Eu já tinha enviado a ela,

quando recebi do advogado, para que ela pudesse ler com

calma e acreditava que agora seria mera formalidade.


Poderíamos até ter discutido em videoconferência,

mas gostava de aproveitar as oportunidades que tinha para

encontrar com minha noiva, se é que poderia chamá-la

assim.

O fato de tudo ser tão comercial me incomodava e,

mesmo durante estes dois meses, faltando apenas quatro

semanas para o casamento, não havíamos desenvolvido

qualquer intimidade e isso ia cada vez me deixando mais

preocupado.

Era algo que eu não entendia e me desconcertava

saber que poderia ter alguém pela metade. Tal fato estava

mexendo tanto comigo que não conseguia mais sair com

nenhuma das modelos que estava habituado. Não foi por

falta de oportunidade, porque diariamente pelo menos duas


me ligavam, mas eu não tinha interesse. Meu único foco

era realmente entender a Jordanna.

Resolvi tomar um drink no bar, já que havia chegado

meia hora antes do horário combinado para o jantar, até

que quase tive um infarto em pleno hall do apart-hotel.

— Nonna! O que faz aqui? — Minha avó saía pela

mesma porta que eu entrava.

— Enrico, vim visitar uma amiga que está hospedada

aqui. E você? O que faz aqui? — Estava tão nervoso que

não conseguia distinguir se ela mentia ou falava a verdade

do porquê estar em um apart-hotel em Ipanema em plena

terça-feira, quase vinte horas, quando o hábito dos

Mancuso era estar em casa nas noites de dia de semana.

— Vim para uma reunião, nonna! Tenho um jantar

com uns investidores — falei, quase que tentando disfarçar


o nervosismo.

— Sempre trabalhando, querido! Não sei o que seria

de seu avô e seu pai se não tivessem tido você para cuidar

tão bem de nossos negócios — ela falava em um tom

orgulhoso e animado, e eu me sentia cada vez mais

constrangido de trair sua confiança.

Minha avó era uma mulher altiva e forte e sempre foi

o grande esteio de nossa família. Não sei o que seria de

nossa vida sem seus conselhos sábios e até mesmo à

frente de sua própria geração. Sempre achei que ela não

concordava com o casamento arranjado e nunca

demonstrou tamanha simpatia com Elleanora. Mas sempre

educada, mostrava gentileza e nunca quis interferir em

nosso relacionamento arranjado e construído a base da

convivência.
Já recobrando os sentidos, consegui voltar ao meu

eixo e resolvi investigar o porquê de ela estar ali, já que

sabia que dificilmente ela teria alguma amiga que se

hospedaria em um apart-hotel, mesmo que no Fasano. Ou

ficaria no Copacabana Palace ou até mesmo eu sua

residência, na Barra da Tijuca.

— Sua amiga já chegou para o casamento, nonna?

Quem é ela? — perguntei, tentando sondar e entender o

que estava acontecendo.

— Veio para o casamento, sim, querido, e está

bastante empolgada. Porém chegou antes para resolver

alguns pormenores. Ela mora no exterior e achou melhor

se antecipar.

— Que bom, nonna! Quando puder, me apresente.

Estou preocupado que conhecerei apenas dez por cento


dos convidados — falei, tentando descobrir algo mais.

— Você a conhece, querido. Apenas não se lembra

dela. Mas não seja bobo! Seu casamento será

maravilhoso. Não precisa se preocupar tanto. — Senti que

ela sabia de algo e estava apenas tentando me acalmar

nas entrelinhas.

Ela saiu me dando um beijo e se despedindo

rapidamente. O motorista da nossa família já a esperava na

porta. Eu o cumprimentei com um aceno e com a ideia já

se formando em minha cabeça. Amanhã o procuraria e

saberia se era a primeira vez ou não que minha avó tinha

estado no apart-hotel de Jordanna.

Eu sabia apenas que alguma coisa estava

acontecendo e eu iria descobrir.


Deixei este problema de lado, apesar de manter em

minhas anotações mentais para resolver nos próximos

dias, e segui para o restaurante. Na mesma hora, Jordanna

saía do elevador.

Ela estava deslumbrante em um vestido nude que

deixava seu colo à mostra e salto alto no qual ela parecia

flutuar sem qualquer pudor. Percebi que ela estava

bronzeada e, novamente, imaginá-la se banhando no sol,

apenas de biquíni, me deixava completamente louco. Não

havíamos conseguido ter nosso encontro na praia e não

desenvolvíamos nenhuma intimidade. Ou seja, tudo

permeava apenas em meu pensamento.

Aquilo me causava uma certa fissura e não sabia por

quê. Sabia apenas que queria encontrá-la sempre e estava

inclusive me contentando com jantares superficiais,


regados apenas a uma liberdade provisória de amigos,

sem qualquer espaço para algumas brincadeiras ou

palavras insinuantes.

— Você está linda! Percebi que tem aproveitado a

praia e a piscina do hotel — falei, tentando quebrar o gelo.

— Obrigada! Você sempre muito gentil. Soube que já

fechou nossa viagem de lua de mel.

— Sim! Elle te contou, certo? Desculpe não te

consultar quanto ao destino, mas imaginei que iria gostar

— falei, me arrependendo um pouco de não a ter

consultado. — Caso prefira, podemos mudar.

— Por mim, sem problemas. Eu tinha imaginado de

irmos para Nice, na França. No entanto, podemos ir para

as Maldivas. Teremos bastante tempo para viagens

românticas. — Aquela frase fez meu coração disparar e,


apesar do tom irônico, me deu certa esperança de que

nosso casamento não seria uma verdadeira reunião de

negócios, baseado em agendas.

— Faremos todas as viagens que quiser e é claro que

teremos muitas viagens românticas. Não só viagens, Anna,

como muitos momentos românticos. — Aproveitei a brecha

para tentar ser galanteador e percebi que ela estava

especialmente sedutora e começando a entrar no clima.

— Então vou aproveitar o meu chá de lingerie, que

Elle está organizando, para já montar o enxoval de todas

essas viagens e momentos. — Ela oscilava entre um

sorriso maroto e tímido e eu sentia que, apesar de

pequena, uma certa liberdade para brincadeirinhas se

desenvolvia ali. Não era possível que o tema do jantar seria

um contrato. Eu não podia perder aquela brecha.


— Hum!! Vou adorar ver isso! — falei, já servindo o

espumante em sua taça e usando minha melhor voz de

sedução.

— Não tenho dúvidas, Enrico! Aposto que você

realmente vai adorar e te garanto que valerá cada segundo

de sua espera.

Eu não estava acreditando no que estava

acontecendo. Estávamos finalmente começando a criar

algo mais íntimo. Eu sabia muito bem onde essas

brincadeirinhas iam dar e eu já estava ficando animado

fisicamente.

Até que...

— Querido, mas vamos deixar essas bobagens de

lado e falar do que realmente importa. Já li o contrato e

estou de acordo com as cláusulas. Apenas gostaria que


revisasse a parte da quebra do acordo. Não ficou claro

para mim, não há qualquer sanção?

— Podemos incluir sanção e multa, com a quebra do

acordo nupcial. Vamos ligar agora para o Dr. Roberto e

pedir para ele fazer a alteração. Inclusive, vou pedir para

que ele traga aqui para já assinarmos, terminando com

este assunto.

Meu único pensamento era não ter mais nada

burocrático que atrapalhasse os próximos encontros que

poderíamos ter.

O advogado chegou quando estávamos pedindo a

sobremesa e assinamos o contrato. Brindamos com a

última taça de champagne e tive esperança de que

retornássemos àquele clima que iniciou com o nosso jantar


e eu, pelo menos, recebesse um convite para subir à sua

suíte.

Por fim, a noite não foi totalmente perdida e, apesar

de ter entendido o que tinha acontecido e como Jordanna

era esperta, resolvi entrar no jogo, pois não estava

perdendo em nada. Até onde eu sabia, na verdade.

— Boa noite, Enrico! Adorei nosso jantar. Em breve,

ele não terminará na sobremesa — ela falou, pela primeira

vez me dando um longo abraço, em vez de cumprimentos

frios.

— Estou bastante ansioso para que chegue este

momento — falei, já completamente entorpecido por aquela

mulher.

— Eu também! — ela falou bem próximo a mim,

encostando seus lábios nos meus, quase que simulando


um beijo e sorriu, descendo sua mão pelo meu peito,

dando um leve toque sobre meu terno e dizendo: — Boa

noite, Enrico. Em breve, estaremos casados.

— Boa noite, Anna! — Foi a única coisa que consegui

responder, sabendo que eu estava ficando completamente

louco por aquela mulher.

Eu tomei um banho de água fria e somente depois de

ligar e pedir para o advogado incluir tudo que ela queria

que me dei conta que sou mesmo um otário.

No dia seguinte, um pouco mais sóbrio de minha

consciência e pensando um pouco mais com a razão, e

não com meus instintos sexuais e devaneios que aquela

mulher estava me causando, resolvi visitar a mansão de

minha família no final do dia.


Sabia que encontraria algumas respostas de dúvidas

que ficaram martelando desde o encontro de ontem à noite

com minha avó, antes do meu jantar com Jordanna.

Meus pais e meus avós moravam juntos, em uma

mansão localizada em um condomínio na Barra da Tijuca,

que abrigava apenas pessoas com renda per capita que

girava em milhões. Eu já preferia ter minha cobertura no

alto de um prédio e manter minha individualidade e vista

solitária, sem ter que dar satisfações a ninguém.

Jantamos animadamente e, por alguns instantes,

esqueci do que estava para acontecer alguns dias depois.

Finalizado o jantar, fui tomar um whisky e fumar um charuto

em uma antessala para falar de negócios, como de

costume para os homens da família Mancuso, enquanto as

mulheres permaneciam à mesa para um chá digestivo. Era


quase que uma tradição milenar e deveria ser respeitada.

O que, de certo modo, me causou um certo calafrio pensar

nisso, já que não imaginava Jordanna tomando chá com as

demais mulheres, e sim fumando o charuto com os

homens.

Resolvi deixar o pensamento de lado. Lidaria com

isso após o casamento e explicaria a ela que certas coisas

não seriam mudadas. Eu a faria entender que ela

precisaria se adaptar às tradições das nossas famílias,

querendo ou não.

— Como estão os preparativos para o casamento,

Enrico? Estamos ansiosos para o grande dia — falou meu

pai, enquanto meu avô delicadamente preparava nosso

charuto.
— Estão caminhando bem, papai. Sabe que a Elle, a

nonna, a mamãe e as mulheres da família Van den Berg

que estão arrumando tudo. Eu apenas assino os cheques

— falei, rindo descontraído. Nenhum pensamento iria me

afastar do que eu queria descobrir, então não me abalei

com o assunto.

— É assim mesmo, meu neto! Vai se preparando!

Todos os dias chega alguém aqui em casa para falar com

sua avó sobre a festa. Hoje mesmo chegaram vestidos e

mais vestidos para sua mãe e ela experimentarem. Eu até

saí de perto. — Meu avô nunca gostou de se envolver em

assuntos domésticos, que dirá sobre o casamento. Apenas

interessava para ele saber que lhe favoreceu nos negócios.

— Imagino, vovô. Mas e os convidados, já estão

chegando?
— Ainda não, meu neto! Nossos amigos chegarão

apenas na semana anterior. Já pedi a Olga para fazer

todas as reservas no Copacabana Palace e disponibilizar

os motoristas para cada um.

Sabia que vovó estava mentindo. No entanto, me

restava saber o porquê.

— Que bom, vovô. Mas será que nenhum convidado

já chegou e está hospedado fora do Copa? Gostaria de

marcar uma reunião íntima antes, além do jantar pré-

casamento. Será que nenhuma amiga da vovó ou da

mamãe, que mora no exterior, já está aqui? — falei,

tentando obter a informação que precisava.

— Não, meu filho. Eu e sua mãe que cuidamos da

lista. Foi um pedido do seu avô para que cuidássemos

pessoalmente. Você sabe que seu casamento também é


uma boa oportunidade de estreitarmos alguns laços de

negócios. Então, não há nenhum convidado fora da nossa

lista, que venha antes ou se hospede em algum outro lugar.

Precisávamos que a logística fosse feita dessa forma, para

mantermos o controle de segurança, inclusive. Você sabe

que seu casamento está sendo considerado o evento do

ano e sempre tem penetras querendo participar.

Bingo! Toda a confirmação que eu precisava! Eu ia

descobrir o porquê da mentira da nonna.

— Eu sei, papai! Faremos, então, o jantar no

Belmond, certo?

— Sim, meu filho. Como tradição, faremos no

restaurante do Copacabana Palace mesmo. Sua mãe,

inclusive, já falou com nossos amigos do hotel sobre a


reserva e fechamento do restaurante exclusivamente para

nossas famílias nesse dia.

— Então, está tudo perfeito! — falei, animado e um

pouco desapontado, por mais uma vez ver que eles já

tinham decidido tudo. Cada vez dava mais razão à

Jordanna e Elleanora.

— Sim, meu neto. Mas me conte, como está o acordo

com a exportação para os chineses? — Meu avô

abruptamente encerrou o assunto do casamento, o qual eu

sabia que ele considerava tedioso e passou rapidamente

para o que lhe interessava: negócios.

Encerrei o jantar me despedindo de todos e, quando

já estava me dirigindo ao meu carro, encontrei o motorista

de meus avós.
— Cláudio, como vai? Como está seu filho? Soube

que ele já está um rapaz, prestando vestibular — perguntei,

como de costume.

— Bem, estou bem, Sr. Enrico! Sim, Rafael já está

com dezessete anos. É um menino esforçado e vai prestar

vestibular para Administração — respondeu ele,

educadamente.

— Que ótimo, Cláudio! Fale para ele se dedicar e,

quando estiver na faculdade, fale comigo que ele irá

estagiar lá na Siderúrgica.

Cláudio estava em nossa família há mais de quinze

anos e sempre foi de muita confiança. Eu gostava bastante

dele e o considerava um amigo. Seria bom retribuir sua

dedicação.
— Sr. Enrico, eu nem sei como lhe agradecer. Ele

está se esforçando bastante para entrar na Federal e ficará

muito feliz com um estágio.

— Não precisa me agradecer. Fale apenas para ele

se esforçar e fazer por merecer! — Aproveitei a conversa

amistosa apenas para tentar obter mais informações e

tentar descobrir o mistério de minha avó. — Cláudio, minha

avó tem saído muito para Zona Sul? Estranhei aquele dia e

sabe que me preocupo com ela. Hoje em dia é golpe para

tudo que é lado.

— Sr. Enrico, não tem, não. Ela apenas visita uma

amiga naquele apart-hotel de Ipanema que vocês se

encontraram ontem. É o único lugar que ela vai ou para o

local do casamento, encontrar com a equipe organizadora.

Porém, eles vêm mais aqui, do que ela lá.


— Entendi. Você sabe o nome dessa amiga? Não

precisa se preocupar que não falarei nada com ela sobre

essa nossa conversa. Apenas estou preocupado, pois

todos os nossos amigos ficarão hospedados no Copa. —

Resolvi abrir o jogo, pois sabia que ele seria sincero

comigo também.

— Não sei o nome da amiga, Sr. Enrico. Ela apenas

me pede para levá-la lá. Já foi umas quatro ou cinco vezes.

Ontem, inclusive, foi uma visita inesperada. Ela pediu para

ir de maneira urgente, pois precisava resolver um assunto

que havia surgido.

— Entendi! Obrigado, Cláudio, e conto com sua

discrição sobre esta nossa conversa.

— Pode contar comigo, Sr. Enrico. Mas creio que não

há com o que se preocupar. Além disso, Dona Geovana é


mais esperta do que nós imaginamos.

Eu tinha que concordar com ele, ela era muito esperta

e, por isso, eu sabia que minha avó estava aprontando

alguma coisa. Precisava alertar Elleanora e Jordanna, caso

elas se encontrassem pelos corredores no apart-hotel.


CAPÍTULO 5

ENRICO

Na semana do casamento, estávamos

completamente absorvidos por tarefas, dedicados a todos

os preparativos. Eu estava completamente envolto com os

negócios, de tal modo que deixei por uma semana a

empresa na mão de meu pai e meu diretor financeiro, e

Elleanora e Jordana ajustavam os detalhes finais de nosso

plano.

Na quarta-feira, resolvemos nos encontrar para

combinarmos como seria o jantar de sexta-feira, véspera


do nosso casamento.

Eu estava vivendo um turbilhão de emoções que não

experimentava com frequência. Nem me lembro de ter me

sentido assim antes e sabia que era Jordanna que

despertava tudo isso em mim. Eu me sentia tragado por um

mar de ansiedade, preocupação e euforia, por finalmente

ter Jordanna para mim, após a confusão que seria a

cerimônia de nosso casamento. Eu queria aquela mulher.

Eu precisava que ela me aceitasse como seu marido sem

ressalvas e que ela quisesse ser minha mulher. Jordanna

mexia comigo, com meu coração, com minha cabeça.

Havia algo nela que me afetava profundamente, mas de

um jeito bom e que me fazia querer mais disso. Era uma

sensação nova para mim, porém não quis nomear.


Tudo que eu sabia era como me sentia perto dela.

Nunca uma mulher causou esse efeito em mim antes. Eu

não entendia como Jordanna me atropelou desse jeito. Ela

me fez questionar minhas convicções e agora percebi que

eu não teria nada a ensinar para Jordanna. Usei palavras

como adestrá-la, treiná-la... Meu avô Mário sempre me

dizia que eu não deveria me submeter às paixões e muito

menos permitir que uma mulher comandasse minhas

atitudes e decisões. Eu cresci ouvindo discursos como

esse e era difícil mudar de comportamento do dia para a

noite, mas, por ela, eu tentaria.

Conhecer a força e a determinação de Jordanna me

fez admirá-la e querê-la na minha vida. Ela era linda e foi o

que me deixou fascinado quando a conheci, contudo as

qualidades dela vão muito além de sua aparência. Eu me


peguei várias vezes pensando a respeito. Quantas garotas

e mulheres incríveis eu evitei conhecer por não se

enquadrarem nos padrões de beleza que são tão

cultuados? Quem saiu perdendo fui eu. Deixei de conhecê-

las e de aprender com elas a ser um homem melhor do que

sou hoje.

Eu me senti envergonhado por ter sido tão idiota. A

Jordanna me fez querer entendê-la de verdade. Eu tinha

interesse em conhecer suas ideias e opiniões. Ela não era

um acessório para exibir e atrair olhares de admiração em

eventos sociais. Ela era uma pessoa. E uma pessoa linda

em sua essência, talvez até mais que a beleza que todos

conseguiam enxergar. Finalmente eu percebi disso, como

também compreendi como deveria tratá-la. Deveria ter

respeito por ela, por sua individualidade, por suas opiniões


e nunca pensar em modificá-la para se adequar às minhas

necessidades. Ela não precisava ser domada, adestrada,

treinada, ensinada. Jordanna e todas as mulheres

mereciam ser respeitadas e ouvidas como iguais e era

assim que eu pretendia me comportar daquele momento

em diante. Na verdade, eu que precisava ser ensinado por

ela a ser o marido que ela um dia poderá admirar e querer

bem, o marido que poderá ser capaz de fazê-la feliz.

Nas últimas semanas, tínhamos tido pouquíssimo

contato desde o nosso último jantar, que rendeu uma certa

intimidade, e essa distância me deixava ainda mais

nervoso.

Sua mãe já estava no Brasil para a cerimônia e tanto

ela como Anna foram para o Copacabana Palace, onde

todos os demais convidados se hospedariam. E para


manter as aparências, com elas não poderia ser diferente,

para não levantar qualquer suspeita. Por isso, combinamos

um encontro na própria suíte de Jordanna.

Cheguei um pouco antes do horário combinado.

Elleanora ainda não tinha chegado e ainda iria se atrasar,

então resolvi subir de qualquer forma e iniciar a conversa.

Na verdade, queria aproveitar alguns instantes a sós com

minha noiva.

— Entre, Enrico! Vou pegar uma bebida para nós. —

Percebi que Jordanna estava um pouco nervosa e resolvi

perguntar o que era. Neste instante, senti um perfume

familiar, semelhante ao que minha mãe e minha avó

usavam. Mas deixei de lado e preferi entender por que

Anna estava sobressaltada.


— O que foi, Anna? Está tudo bem? — perguntei,

esperando uma resposta sincera.

— Está, sim, Enrico! Só estou um pouco tensa com a

proximidade do casamento, com tudo que faremos e

principalmente porque acabei de experimentar meu

vestido. Acho que agora que minha ficha caiu. — Senti

que, pela primeira vez, ela deixava aquele ar de mulher

empoderada e se mostrava frágil e humana.

Na verdade, um tempo depois eu descobriria que o

motivo do nervosismo não era por nada daquilo, e sim por

eu ter quase encontrado quem estava naquele quarto

ajudando Jordanna a experimentar o vestido de noiva,

além de Dona Lúcia, que teve que sair apressadamente

com a minha chegada.


— Anna, você será a noiva mais linda e nosso plano

dará certo. No final, todos apenas querem a união da

família. O que importará será nós mesmos — falei com

sinceridade. Eu não estava me reconhecendo. O que

estava acontecendo comigo?

— Sim, não me preocupo com o plano. Sei muito bem

lidar com os chiliques de nossas famílias. É apenas

ansiedade de noiva mesmo — ela falou rindo, bebendo um

longo gole de whisky e me entregando o outro copo.

Quando eu ia abraçá-la e tentar algo mais próximo, o

telefone tocou. Era a recepção avisando que Elleanora

tinha chegado, pedindo autorização para subir.

Fizemos nossa reunião e ajustamos os últimos

detalhes do jantar e do casamento. Agora não dava mais

tempo para voltar atrás e confesso que eu mesmo tinha


mudado alguns conceitos e queria continuar com aquilo

tudo. E o mais importante, queria ter Jordanna como minha

esposa legítima.

Cheguei ao restaurante Belmond acompanhado de

meus pais e, no carro de trás, meus avós também

chegavam, então entramos todos juntos. O salão já estava

cheio e fomos recebidos com uma salva de palmas.

Não pude deixar de reparar na entrada do

restaurante, que exibia um enorme totem ostentando uma

foto minha e de Elleanora, em uma das nossas viagens,

demonstrando toda a felicidade de um casal. Se não

bastasse isso, pude perceber também que na mesa ao

lado havia um livro de assinaturas, com um texto de

agradecimento do casal pela presença dos convidados,

que eu sequer sabia que existia, logo não o fiz.


Aquilo me deu um certo embrulho no estômago. Mas

minha ansiedade era tanta, que tal fato se tornava pequeno

diante da expectativa que eu estava para ver a reação da

família Mancuso quando Jordanna entrasse.

Ela já havia encontrado com seu pai e seus avós,

logo não seria uma surpresa para os Van den Berg, apesar

de saber que sua presença, como a de Lúcia, sempre

causava um certo constrangimento a Glória. Porém, a mãe

de Elleanora era tão elegante, que mal transparecia

desconforto e sempre mostrava uma maturidade invejável

diante da situação, isso rendia a ela grandes elogios.

No entanto, alguns minutos depois, fiquei sabendo

que Lúcia não participaria do jantar, exatamente por causa

de Glória. Ambas se respeitavam bastante e a mãe de

Jordanna preferia não causar nenhum mal-estar. Sabia o


quanto aquela noite era importante para a filha e não

queria tirar sua atenção.

O salão estava disposto com um grande mesão ao

centro, onde nossas famílias estavam, além de alguns

outros parentes e, ao redor, em mesas redondas, havia o

nome de amigos e mais alguns familiares distantes.

Tudo estava perfeitamente organizado e com uma

decoração de extremo bom gosto, já ornando com o

ambiente do casamento que ocorreria no dia seguinte.

Sentamos em nossos lugares e levantamos para os

cumprimentos à medida que os convidados iam chegando.

Eu sabia que ainda faltava um tempo para a minha ex e

atual noiva descerem, então fui tentando relaxar, para

quando elas aparecessem.


Como minha avó estava exatamente ao meu lado,

resolvi tentar descobrir o que armava, já que, desde então,

não havia investigado mais.

— Nonna, e sua amiga que estava hospedada no

apart-hotel? Virá em nosso jantar? Gostaria de conhecê-la.

Soube que todos os nossos amigos estão concentrados

aqui no Copa — falei, de maneira sorrateira para sondá-la.

— Querido, ela infelizmente teve que ir. Porém deixou

um presente para os noivos. Já deve estar lá em casa. —

Senti que ela desconversava, mudando logo de assunto. —

Por falar nisso, já decidiu se, ao voltarem da lua de mel,

irão morar conosco ou em seu apartamento? Seria o sonho

de seu avô se viesse para nossa casa.

— Nonna, já decidimos, sim. Iremos morar em meu

apartamento. Sabe que zelo por minha privacidade.


— Sim, claro. Não está errado, querido. E a noiva já

fez a mudança para a sua casa? É preciso pegar os

presentes que chegaram. Vou pedir para providenciarem

isso durante a semana, quando estiverem fora.

— Toda a mudança dela chegará somente após o

nosso retorno das Maldivas — falei, despretensiosamente,

observando o movimento do salão.

— Como assim chegará? Sua noiva não fará a

mudança da casa dos pais? — Vovó era capciosa e desde

que eu era pequeno me pegava no pulo da mentira.

— Chegará da casa dos pais dela, nonna. Isso que eu

quis dizer. — Tentei contornar, sabendo que não a tinha

convencido.

— Entendi, meu querido. Não se preocupe. É o

nervosismo do casamento. — Ela aceitou tão rápido minha


desculpa esfarrapada que, por alguns segundos, tive a

impressão de que ela sabia de todo o nosso plano.

Rapidamente esqueci o episódio, pois percebi que

todos se levantavam, já que a noiva estava chegando.

Elleanora e Jordanna entraram juntas no salão e

ambas estavam deslumbrantes, mesmo com suas formas

tão distintas de beleza.

Todos pareciam encantados, comentavam como eram

lindas e a reação era exatamente essa que eu queria.

Elas iam cumprimentando a todos. Para alguns, Elle

fazia questão de apresentar Anna; para outros, apenas

recobrava sua lembrança por já terem se conhecido.

Neste ínterim que elas iam caminhando para o centro

do salão, eu reparava na reação de meus avós e meus

pais.
Era um misto de surpresa, já que Jordanna tinha se

tornado uma linda mulher, e de certo temor, pela altivez

que ela passava e eu sabia que esse medo vinha por ela

ser tão herdeira quanto Elle dos negócios da família Van

den Berg.

Mas Anna nunca demonstrou sequer vontade ou

expressou a exigência de receber a participação das ações

da família na Siderúrgica, então com isso eu não me

preocupava.

Elle estava com um vestido preto. Deve ter escolhido

essa cor de propósito. Já Anna estava com um vestido

branco que parecia realçar ainda mais sua beleza, já que

contrastava com seu tom de pele. Ela arrancou olhares até

do staff que atendia no salão.


Não havia quem não tivesse ficado paralisado com

elas entrando no restaurante e eu sabia que a maioria dos

olhares era para Jordanna. Assim como sabia que Elle

tinha feito tudo de caso pensado, desde a roupa escolhida

até a forma que chegariam. Ela queria que a atenção fosse

toda para a irmã.

Ao chegarem, abracei Elleanora e depositei um leve

beijo em seu rosto antes de puxar a cadeira para que se

sentasse ao meu lado. Ela continuava a conversar com

nossas famílias. Seu lugar já estava reservado, enquanto o

de Jordanna estava um pouco mais afastado, porém,

rapidamente, minha avó teve um ato que surpreendeu a

todos.

— Querida, sente aqui ao lado de seu futuro cunhado.

Cederei meu lugar a você. Sentarei do outro lado da mesa,


ao lado de meu marido. — Não era de praxe minha família

quebrar protocolos, principalmente algo que deve ter sido

minimamente organizado com estratégias próprias da

família Mancuso.

— Obrigada, nonna Geovana. A senhora é muito

gentil! — Rapidamente Jordanna aceitou. Algo que também

me surpreendeu.

Percebi que vovô não gostou daquilo, contudo,

apesar de poderoso e impositivo, raramente confrontava ou

questionava as decisões de minha avó.

De certo modo, mentalmente agradeci a minha avó e

fiquei feliz de ter Jordanna ao meu lado, pois o melhor do

jantar estava por vir.

Todos começaram a conversar animadamente e

minha família parecia estar confortável com a situação.


Inicialmente fizeram Anna passar por um leve depoimento,

no qual ela se saiu muito bem e depois a deixaram em paz,

já que apenas sabiam falar dos preparativos do dia

seguinte.

Eu tentava disfarçar ao máximo o frisson que a

presença de Anna ao meu lado me causava, seu perfume,

sua pele próxima a mim sem que eu pudesse fazer nada

estava me deixando louco. Eu já não controlava os

pensamentos e sabia que ela estava me torturando. Até

que comecei a sentir um leve carinho em minha perna, por

debaixo na mesa.

Não é possível, Anna está me acariciando?

Tudo ia ficando mais intenso, e ora ela dava alguns

apertos, ora cravava as unhas em minha perna. Eu já


estava completamente tomado de desejo e o prato principal

longe de ser servido.

Disfarcei e disse a ela:

— Você está brincando com fogo, menina! — Eu já

havia perdido a noção de onde estava.

— Enrico, amanhã a essa hora já seremos marido e

mulher. Nada mais justo do que sair dos bastidores e

começar a brincar com o que é sério, não é? Além disso,

no papel já somos casados. Esqueceu do documento que

assinamos uma semana atrás na sala da presidência da

Siderúrgica.

Como eu poderia esquecer? Nosso casamento civil já

estava oficializado há mais de uma semana. O que

aconteceria no dia seguinte era apenas a formalidade e a

festa para amigos.


Finalmente, entre um prato e outro, falei:

— Eu não estou aguentando mais, Anna! Estou louco

de desejo por você! Queria largar todo mundo aqui e ir para

o quarto agora, arrancar sua roupa e beijá-la por inteiro. —

Ela riu com os olhos baixos e tirou levemente a mão de

minha perna, que já estava tão próxima de meu pênis que

a toalha da mesa não cobria mais.

Senti um olhar sobre nós e, por isso, a rápida reação

de Jordanna de disfarçar. Era nonna Geovana, que

rapidamente pediu um brinde aos noivos. Talvez fosse para

reduzir a temperatura do outro lado da mesa.

Em seguida, o jantar transcorreu normalmente e, vez

ou outra, sentia a perna de Jordanna roçar na minha e eu

sabia que ela estava querendo tanto quanto eu.


Aos poucos, o jantar foi acabando e os convidados se

retirando para seus quartos. Passava das duas horas

quando todos já tinham ido embora e ficamos eu, Jordanna

e Elleanora no salão.

— Queridos, deixarei os pombinhos a sós agora. Vou

para casa descansar minha beleza e tomar um chá de

camomila para conter minha ansiedade para amanhã —

brincou Elle, enquanto se retirava e gritava do fundo do

salão já sob o efeito do espumante e do vinho: — Juízo

vocês dois! Estamos com espiões por todo o hotel.

Nós rimos e já nos levantávamos para ir embora

quando falei.

— Posso te levar até a porta do quarto? Já conferi e

sei que, no andar que você está, somente sua mãe está
hospedada, mais nenhum outro convidado — falei, já

sabendo no que aquilo iria dar.

— Pode, sim, Sr. Mancuso.

Coloquei meu paletó sobre seus ombros e entramos

no elevador privativo que dava direto na suíte presidencial,

na qual a tinha colocado, sem o conhecimento de minha

família e da dela.

Durante todo o trajeto de subida, tive vontade de

tomá-la pelos braços ali mesmo no elevador, mas sabia

que era arriscado. A tensão sexual entre nós estava

enorme e eu já não conseguia mais me segurar.

Assim que saímos no andar, ela procurava na bolsa o

cartão de abertura da porta do quarto e, ali mesmo, segurei

seu pescoço com uma das mãos e seus cabelos com a


outra e lhe dei um beijo demorado, vendo o quanto aquele

momento foi esperado por nós dois.

Minha mão já percorria todo o seu corpo e eu sentia

seu coração disparado, com seu peito colado ao meu. Eu

sabia que aquilo não era apenas sexo e havia algo mais,

só me custava a acreditar, já que era tudo tão novo para

mim.

Eu não me continha apenas em beijar sua boca e já

levemente comecei a morder seu pescoço e seu ombro e

percebia que, a cada mordida, eu arrancava suspiros e

arrepios em sua pele. Sua mão já estava sobre minha

calça e ela me acariciava docemente, apreciando minha

rigidez.

Depois de alguns minutos, quando conseguimos

desgrudar nossos corpos, estávamos ofegantes e


realizados, por termos liberado algo que estava reprimido,

mesmo sendo ainda tão pouco do que estava por vir. Ela

sorriu e me disse:

— Obrigada por me acompanhar, Enrico! Boa noite!

— Abriu a porta do quarto e sumiu diante dela.

Não!!!! Esse era o meu único pensamento!

Ainda bati, pedindo para que continuássemos. Não

importava nem mais minha dignidade.

Ela apenas respondeu:

— Amanhã, a essa hora, já teremos continuado. A

paciência é uma virtude. Boa noite.

Eu apenas sorri e gritei:

— Você me paga, Sra. Mancuso.

Do outro lado da porta, ainda pude ouvir o seu riso e

o barulho de suas roupas sendo tiradas. Eu me contive em


ir embora, apenas com o desejo e o sonho do que

aconteceria no dia seguinte.

Mais nada me importava, nem mesmo a grande

confusão que teria de enfrentar antes para ter Jordanna

somente para mim, em minha cama.


CAPÍTULO 6

ENRICO

Jordanna e Lúcia já ocupavam a suíte nupcial,

equipada antes da cerimônia com toda infraestrutura para

que a noiva pudesse se arrumar. Elas tomavam café,

enquanto o entra e sai de cabeleireiro, maquiador,

massagista, costureira, acontecia com seus equipamentos.

Elas conversavam animadamente e espantavam a

tensão que precedia o evento, quando Elleanora e Glória

chegaram. A princípio, somente as quatro teriam acesso


àquela área, para que a surpresa da troca das noivas não

fosse estragada.

O casamento ocorreria às dezessete horas, então

elas teriam bastante tempo até que suas famílias

chegassem. Com isso, as duas irmãs resolveram

aproveitar o dia para se cuidarem com os tratamentos de

beleza disponíveis, deixando Glória e Lúcia a sós. Isso

acabou gerando uma oportunidade de conversarem e

esclarecerem alguns pontos que estavam adormecidos há

mais de vinte anos.

— Glória, sei que temos nossas diferenças e, por

isso, gostaria de te pedir desculpas por todo sofrimento que

te causei anos atrás. Sei também que, talvez, esta

conversa já deveria ter ocorrido e que você é diferente de

toda a família. Mesmo que eu te fale que quando me


relacionei com Daniel não sabia que ele já tinha uma

família, nada justifica eu ter permanecido com ele quando

descobri. No entanto, já era tarde demais e eu estava

grávida.

— Por favor, Lúcia, isso são águas passadas e já

estamos velhas hoje para essa história. Eu prefiro não

recordar desses fatos, ainda me trazem muito sofrimento.

Sempre soube das puladas de cerca de Daniel, mas sei

que com você foi diferente.

— Sei que não são águas passadas, Glória! Você é

uma mulher extraordinária e, por alguns anos, cuidou da

minha filha como se fosse sua e ela sempre lhe teceu

muitos elogios. Eu sou muito grata por tudo. E até hoje me

constranjo pelo que fiz você passar.


— Lúcia, entenda que quem errou foi Daniel e não

você ou eu. Somos mulheres e devemos parar de achar

que somos as culpadas. Ele, sim, é, que tinha família em

casa e estava na rua fazendo o que não devia. Eu sempre

cumpri com todos os deveres matrimoniais e aceitei tudo

isso em nome de minha filha, pois não queria que ela

crescesse em um lar desfeito. — Glória tinha uma revolta

na voz, algo preso dentro de sua garganta, por aceitar tudo

que teve que aceitar por anos.

— Eu sei! Mesmo assim, hoje gostaria de selar a paz

entre nós e te pedir perdão e gostaria realmente que você

aceitasse. — Lúcia já estava em tom de súplica, com

lágrimas nos olhos.

— Eu te perdoo, Lúcia! De coração, eu te perdoo. —

Glória também tinha os olhos marejados e seu coração


ficava em paz por conceder aquele perdão. É como se ela

desculpasse a si mesma por anos de sofrimento e

aceitação, de uma violência que ela aceitou contra a sua

própria vontade.

— Obrigada, Glória. Você não sabe a importância que

isso tem para mim.

As duas se abraçaram e por algum tempo

permaneceram em silêncio, refletindo sobre aquele

momento. Até que Glória falou:

— Sabe por que aceitei isso tudo e apoio

incondicionalmente minha filha?

— Consigo imaginar alguns motivos — respondeu

Lúcia, sabendo o que viria.

— Porque não queria que ela sofresse o mesmo que

sofri. Ela e Enrico nunca se amaram. Apenas tinham uma


relação carnal e de amizade e isso, um dia, no futuro e na

velhice, talvez não fosse suficiente. Sem falar que nunca

concordei com esse absurdo de casamento arranjado pelos

patriarcas das duas famílias.

— Eu imaginei, e você está certíssima de apoiar

Elleanora.

— Por isso, não entendo como que Anna, uma jovem

tão instruída e linda, assim como você, aceitou este

acordo. Eles irão colocar uma algema de ouro nela, que

não sei se será possível um dia arrancá-la.

— Na verdade, Anna é mais esperta do que muitos

imaginam e acho que ela tem algumas cartas debaixo da

manga que farão com que, em vez dela ser algemada,

outras pessoas fiquem presas a ela. Como o Enrico, por


exemplo — Lúcia disse rindo e arrancando algumas

risadas de Glória, que rapidamente concordou.

— Você tem toda razão. Ele já não estava mais

conseguindo disfarçar os olhares no jantar de ontem. Acho

que finalmente o solteirão invicto mais cobiçado do Rio de

Janeiro será amarrado.

— Não tenho dúvidas. E quanto às famílias, terão que

se dobrar à minha Anna, que vai rapidamente mostrar para

que veio. Como ela mesmo brinca, não veio ao mundo para

passear.

As duas gargalharam e se encheram de esperança, já

que finalmente teria alguém que acabaria com tamanhos

absurdos que as mulheres Van den Berg e Mancuso tinham

que se submeter. Mal sabiam elas que havia uma grande

aliada lhes ajudando nisso.


O dia estava lindo, já que era uma tarde de sábado do

auge da primavera... Não fazia muito calor e nem frio, o

lago começava a refletir os últimos raios de sol e as flores

já realçavam a capela improvisada para a grande

cerimônia.

Os convidados começavam a se acomodar nas

cadeiras muito bem organizadas e conversavam

animadamente. As famílias Mancuso e Van den Berg já

ocupavam as primeiras fileiras em frente ao altar e

cumprimentavam de maneira orgulhosa a todos os

convidados que chegavam. Lúcia, por sua vez, sentava

distante, observando todo o movimento. Todos a evitavam

para fugir de qualquer constrangimento. Mal sabiam a

conversa que ela e Glória haviam tido horas antes.


Eu já estava de pé, diante do padre da nossa

paróquia, e meus sentimentos eram um misto de

ansiedade, medo e felicidade. Eu sabia o que estava

sentindo e apenas gostaria de acabar com aquilo tudo e

ficar a sós com minha esposa.

Havíamos combinado que Anna entraria apenas

quando o sol baixasse por completo e as luzes dos

lampiões de decoração acendessem. Assim Elle foi

orientada e mantivemos todas as orientações dos

cerimonialistas.

Próximo às dezoito horas, já escuro e o Lago Buriti já

completamente cheio de convidados, vejo minha ex-sogra

se aproximando e a música começar a tocar para sua

entrada, junto ao meu pai, enquanto o Sr. Daniel já se

posicionava no início do enorme tapete vermelho para


esperar a filha e a conduzir em matrimonio. Ele só não

sabia que conduziria sua caçula, em vez de sua

primogênita.

Eu estava tendo espasmos de tanto nervoso e

repassando em minha cabeça todas as hipóteses que

poderiam ocorrer e tudo que eu deveria fazer em cada uma

delas. Eu tinha praticamente um roteiro para cada situação.

Até que...

Jordanna surgiu soberana, em um lindo vestido em

tom pérola tomara que caia, justo e modelando seu corpo,

com um tule por cima que a fazia quase flutuar sobre

aquela vegetação. Seus cabelos levemente presos davam

um ar mais elegante ainda. Nas mãos, levava um rosário

enrolado e um buquê de flores de laranjeira. Tudo era de

bom gosto e fino. Parecia uma rainha... e eu, que deveria


prestar atenção na reação da minha família, não conseguia

tirar os olhos dela. Eu estava completamente hipnotizado.

— Anna, mas o que é isso? Onde está sua irmã? Por

que está vestida de noiva? — Sr. Daniel, estarrecido, não

conseguia nem falar direito.

— Papai, por favor, explicaremos depois. Apenas me

conduza até o altar — ela disse calmamente,

demonstrando estar no controle de tudo.

Logo atrás vinha Elle, em um lindo vestido vermelho

que realçava seus cabelos cor de mel, com um enorme

sorriso no rosto e um homem a tiracolo, de braços dados.

Eu o conhecia de algum lugar, mas era tanta informação

para processar que preferi deixar aquilo de lado.

Quando dei por mim, vi que meu avô, Dona Carmem

e Sr. Willy Van den Berg gritavam comigo perguntando o


que estava acontecendo. Meu pai estava sentado com as

mãos na cabeça, tentando se isolar de qualquer conflito

como sempre fez, e minha mãe, junto à Sra. Glória, de

braços dados, com um sorriso de contentamento no rosto.

Senti que algumas mulheres da família estavam

unidas por aquilo e talvez não tivessem participado

diretamente de todo aquele plano, talvez nem soubessem

de nada até aquele momento, mas estavam felizes com

aquele desfecho, simplesmente por ele não ter sido

programado pelos patriarcas da família.

Em segundos, recobrei os meus sentidos e gritei:

— Por favor, acalmem-se todos. O casamento irá

ocorrer e vamos manter a programação. Tivemos apenas

uma mudança, pois irei me casar hoje com a esposa que

eu quero e não com a que foi escolhida — dizia, enquanto


olhava fixo para Jordanna. — Há alguns meses, conheci

essa mulher que pouco tinha convivido e hoje tenho a

certeza absoluta que é quem eu quero.

— Você perdeu completamente o juízo, Enrico. Onde

está Elleanora? Ela deve estar arrasada — gritava meu

avô.

— Não estou, não, Sr. Mancuso! Na verdade, estou

bastante feliz com essa união e vivendo ao lado do homem

que verdadeiramente amo e que também me ama. Eu e

Enrico somos como irmãos, temos uma amizade incrível,

mas não nos amamos.

Ela não iria faltar com o respeito ao meu avô e por

isso não falou tudo que queria.

Então, seu avô, diante daquilo tudo, falou:


— O que é isso, menina, você ficou completamente

doida? Vocês armaram tudo isso bem debaixo de nosso

nariz? — Seu rosto estava vermelho e eu já estava prestes

a chamar a ambulância que estava de sobreaviso. Ele já

estava com quase noventa anos e sofria do coração.

— Não, vovô, nem eu e nem Anna estamos doidas.

Estamos fazendo exatamente aquilo que queremos e não o

que vocês querem. A única coisa aqui que devem se

preocupar é se o acordo do senhor com o Sr. Mário está

sendo cumprido e isso mantivemos. Apenas com a noiva

diferente.

— Garota, você está completamente louca — ele

ainda gritava, até que se dirigiu à sua nora e ao seu filho:

— Eu sempre avisei a vocês que a criação dessa menina


era liberal demais, isso é culpa de vocês que não

colocaram um freio.

— Papai, me desculpe. Mas isso não tem nada a ver

com criação. Eles são jovens e têm todo direito de seguir

com suas vidas da maneira que escolherem. Você e o Sr.

Mancuso fizeram um acordo antes de seus filhos

nascerem, mas como nascemos eu e Eduardo e vocês não

puderam realizar seus desejos sobre nós, transferiram para

os netos das famílias. Hoje todos vemos o quanto isso foi

insano e autoritário. Além disso, tudo que programaram

está sendo cumprido — respondeu Daniel, completamente

seguro de si, como eu nunca tinha visto.

Sr. Willy parecia se dar por vencido, principalmente

porque não queria morrer ali, diante de todos. Apenas se

sentou pedindo um copo d’água.


Foi então a vez de meu avô se levantar e, antes que

ele começasse a vociferar contra o casamento, eu resolvi

reagir. Já estava engasgado há muito tempo com coisas

que já deveria ter conversado com minha família e aquele

era o momento certo de passar tudo a limpo.

— Vovô, com todo o amor e respeito que eu tenho

pelo senhor, tudo nessa vida tem limites. Eu, Elleanora e

Jordanna temos uma vida própria, somos adultos e com

vontades próprias, e não marionetes suscetíveis aos seus

mandos e desmandos, assim como do Sr. Willy. Vivemos

uma vida inteira sem ao menos termos decidido a refeição

de um jantar. Tudo vocês determinaram e programaram,

muito antes do nosso nascimento, como disse o Sr. Daniel.

Até quando vocês acharam que isso duraria? O senhor já

viu uma noiva não saber nada do que está sendo


programado do casamento? Não saber quem estará

presente e seu enxoval ser determinado por outras

pessoas? Até quando, vovô? Até quando, Sr. Willy? Sei o

que este casamento representa para os negócios, com a

união das nossas famílias. Sei que este acordo deverá ser

mantido e ele está sendo, logo, o principal objetivo de

vocês está sendo honrado, não há mais o que se discutir.

Continuei com meu discurso, com algo que estava

entalado por anos, sem que eu me dessa conta,

entendendo tudo que acontecia em minha vida há apenas

três meses.

— Além disso, vovô, não há muito o que fazer,

estamos casados há mais de uma semana já, no civil. Esta

festa é apenas para comemorarmos o casamento. Não há

mais nada que o senhor possa fazer. — Respirei fundo e


me virei para os convidados: — Peço que todos respeitem

a minha decisão, nos abençoe com bons desejos de

felicidades e curtam a festa.

Jordanna permanecia de pé, de braços dados com o

pai. Glória, Lúcia e minha mãe estavam juntas. Os

convidados se entreolhavam e, na verdade, não se

importavam com quem subiria ao altar comigo, não

mudaria nada em suas vidas.

Os segundos após minha fala pareceram ser uma

eternidade, pois meu avô me olhava incrédulo, assim como

o Sr. Willy. Dona Carmem, percebendo que seria um voto

feminino vencido, resolveu apenas falar ao pé do ouvido do

marido, explicando que realmente aquilo não faria

diferença e que o acordo estava mantido, já que Jordanna


era herdeira legítima. Sentaram-se novamente e, apenas

com um aceno positivo de cabeça, deram sua benção.

O único que não parecia concordar era meu avô,

mesmo sabendo que nada mudaria para os negócios.

Porém, o meu enfrentamento e ele saber que algo estava

totalmente fora do seu controle, principalmente do que ele

havia decidido, o fazia perder a cabeça. Era um verdadeiro

coronel. Ele ia se levantando para deixar a cerimônia,

quando minha avó que, até então permanecia quieta, se

levantou, o segurou pelo braço e disse:

— Mário, retome os seus sentidos e aja com

elegância como sempre agimos. Sua atitude ofende nosso

neto e toda família Van den Berg, principalmente essa bela

moça que aguarda você terminar o seu show de menino

mimado, porque não fizeram sua vontade, para poder se


casar. Não ouse mais discutir com Enrico sobre suas

decisões. Nosso papel é apoiá-lo e respeitá-lo. — Neste

momento, percebi que todos ali obedeceram a minha

nonna, que não dirigiu aquela bronca somente a ele, mas a

quem estivesse presente.

Ele se sentou, olhando para baixo, sem me encarar,

enquanto minha avó caminhava até a entrada do jardim. Ao

encontrar Jordanna, que estava com os olhos bastante

marejados, lhe disse:

— Minha querida, você está belíssima! Uma noiva

digna da realeza! Lembre-se sempre: não deixe ninguém

nunca tirar o seu brilho. Eu abençoo esta união e desejo a

vocês toda a felicidade do mundo.

— Obrigada, nonna Geovana! Não teria conseguido

sem a senhora. — Foi então que percebi que todo esse


tempo minha avó já sabia de tudo e todo aquele mistério de

saídas e passeios, além de encontros no apart-hotel, era

porque ela estava ajudando minha noiva.

Em seguida, ela deu um longo abraço no Sr. Daniel e

lhe disse:

— Tenha orgulho dessa sua filha. Ela se tornou uma

mulher linda, forte e que deve ser admirada por todos.

Constatei que ela tinha se afeiçoado a Jordanna e

que a estava ajudando, atitude que talvez jamais teria com

Elleanora, por quem ela não tinha grande empatia. Ela a

considerava uma menina fútil, que se aproveitava do

dinheiro da família para viver de luxo, sem ter qualquer

ambição de ser algo além de uma Van den Berg. Minha avó

era uma mulher forte e sempre foi um exemplo para quem


a rodeava. Tenho certeza que ela esperava que minha

noiva fosse igual a ela, já que Vivian, minha mãe, não foi.

Ao conhecer Jordanna, viu que alguém iria manter

vivo o seu legado quando ela partisse e viu também

alguém para quem pudesse deixar toda a sua força e

patrimônio familiar. Não o material, mas aquilo que ela

queria que a família Mancuso representasse como história.

— Eu tenho, nonna Geovana, eu tenho. — Sr. Daniel

estava bastante emocionado e, no fundo, também

concordava com aquilo tudo.

No final, tudo foi se acalmando, os convidados foram

se acomodando em seus lugares novamente, e o padre

que estava completamente estupefato com toda a situação

se absteve em confirmar comigo quando poderíamos

começar.
Nisso tudo, todos esqueceram também do

acompanhante de Elleanora, que de caso pensado sabia

que apresentá-lo nessa situação era a melhor forma de

desfocar a atenção sobre quem ele era e tudo que ainda

estava por vir.

A marcha nupcial começava a tocar e finalmente

Anna vinha ao meu encontro para sacramentar de vez o

nosso casamento. Apesar de toda a confusão, todos

comentavam que nunca tinham visto uma noiva tão bonita

e como parecíamos um belo casal.

Ao chegar ao altar, cumprimentei o Sr. Daniel que

apenas me disse:

— Espero que você saiba o que está fazendo, porque

tenho certeza absoluta que minha filha sabe. E eu só quero

que ela seja feliz. — Aquelas palavras de certa forma me


causaram um incômodo, pois será que eu estava

realmente certo do que faria? Não tinha dúvidas em

relação ao casamento, mas com Elle eu sabia todos os

termos. Já com Anna, eu pisava em um território ainda

desconhecido e precisaria aprender a agir. Eu me imaginei,

então, em um campo minado por querer tanto aquilo,

porém sem saber onde deveria pisar sem que tudo

explodisse.

— Farei ela feliz, senhor! Pode ter certeza! — falei ao

meu sogro com a convicção que eu tinha naquele

momento, porém com um certo medo que começava a

habitar meu coração.

A cerimônia religiosa seguiu normalmente a partir dali,

e toda a equipe organizadora do casamento parecia

respirar aliviada, já que no final tudo tinha dado certo.


Começavam agora a se preparar para que a festa não

terminasse com nenhuma morte, caso os ânimos

voltassem a se exaltar.

Nossos votos foram breves e o tradicional “prometo

estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na

doença, na riqueza e na pobreza...” foi dito como cláusulas

contratuais. Após isso, trocamos nossas alianças, até que

o padre disse:

— Pode beijar a noiva.

Eu a segurei delicadamente e enxuguei uma lágrima

sua que caía, beijando-a apaixonadamente, segurando sua

cintura. Ela retribuiu o beijo, abraçando-me por baixo do

paletó. Naquele momento, todos pareceram sumir e

ficamos apenas nós dois no altar, diante daquele arco de

flores.
Muitos perceberam que não estavam presenciando

apenas um casamento arranjado, mas duas pessoas que

começavam algo ainda desconhecido e novo para ambos.

Dessa forma, tudo que se iniciou com papéis e acordos,

passaria para algo bem mais sério.

Eu só não sabia ainda que Anna não ocuparia apenas

o cargo de minha esposa. Ela iria querer e ter mais e aí

que teríamos que encarar a verdade, descobrindo se o que

estávamos começando a construir era sólido, baseado em

um sentimento mais profundo, ou apenas palavras soltas

acordadas em um contrato.

Nós nos posicionamos no salão finamente decorado

para receber os cumprimentos e felicitações dos

convidados. Rapidamente percebi que o livro de registro

que exibia a mesma carta de agradecimento do dia


anterior, do jantar, com minha assinatura e da Elle, havia

sido retirado. Inclusive, as fotos que havia em totens pelo

salão também não estavam mais lá. Pelo menos, nossos

avós tinham contratado uma equipe bastante eficiente.

Os fotógrafos se recheavam de fotos nossas e

aproveitaram aquele momento para capturar a imagem de

toda família reunida. Sabíamos que talvez, na festa, pelo

menos, não haveria mais essa oportunidade, já que meu

avô disse que iria embora em uma ou duas horas no

máximo, mesmo com minha nonna avisando que ficaria

mais tempo.

Em seguida, eu e Jordanna fizemos algumas fotos em

frente ao lago e no jardim e foi uma sensação bastante

agradável. Eu estava realmente feliz pelo casamento e por

Anna ser a minha esposa.


Sempre achei esses álbuns de casamento bastante

cafonas e antigos e, enquanto eles solicitavam que

fizéssemos pose, eu ia me lembrando disso. Contudo,

percebi que minha esposa estava especialmente feliz,

então resolvi me entregar para agradá-la. Assim, ela

perceberia o meu esforço.

Neste momento, me dei conta que sua felicidade era

muito mais pela aceitação e por ter se tornado pela

primeira vez uma protagonista naquela família, e não a

menina que é deixada de lado novamente.

Após o término da sessão de fotos, ficamos um tempo

no grande jardim de flores do Lago Buriti, com uma

iluminação rústica de lampiões sobre o chão da decoração

da festa e ali resolvi aproveitar um pouco.


Eu me sentia aliviado por todo aquele estresse ter

passado. Por meses, desde que Elle havia rompido tudo e

Anna assumido seu lugar, estava vivendo em constante

ansiedade para que chegasse o momento da revelação.

Não tinha a mínima ideia do que poderia acontecer e as

incertezas me consumiam absurdamente por dentro.

Passado todo o susto, sentia o piano sendo tirado de

minhas costas e fiquei com uma enorme vontade de

aproveitar o que o destino tinha me reservado.

Assim, resolvi presentear minha esposa, neste raro

momento do dia que estávamos a sós.

— Anna, tenho uma surpresa para você.

— Enrico, não comece esse casamento me mimando.

Você sabe que não sou mulher disso — ela disse rindo.
— Eu sei, mas quando a joalheira me mostrou, não

tive como não me lembrar de você.

Eu lhe entreguei uma pequena caixinha e, dessa vez,

era realmente um anel cravejado de safira para que ela

pudesse usar junto da sua aliança.

— Ohhh, Enrico! É realmente lindo. Eu amei. — Ela

realmente pareceu gostar, mas, diferentemente das

mulheres que eu conhecia, não parecia se impressionar

com joias e esse tipo de coisa.

Coloquei em seu dedo, como se estivéssemos

revivendo o breve momento de troca de alianças que

tivemos algumas poucas horas antes.

Ela me abraçou carinhosamente e disse em meu

ouvido: — Não vejo a hora da festa acabar!


Aquilo fez meu coração disparar, enquanto já a

beijava apaixonadamente.

Subimos para a festa e nos encontramos com

Elleanora e, naquele momento, me lembrei de onde

conhecia seu acompanhante. Era Felipe, o surfista do

Nordeste, CEO do Instituto que organizava as missões

para a África.

Então, me dei conta que aquilo não era recente e que

certamente começou antes de Elle terminar o nosso

noivado, ou seja, provavelmente eu fui corno. Ri

mentalmente e talvez tenha deixado transparecer este

pensamento. Não que me incomodasse ou me gerasse

qualquer sentimento de ciúme, já que em nosso

relacionamento não havia qualquer exclusividade, mas o tal

Felipe não parecia mais um dos infinitos casos amorosos


que tivemos para nos divertir. Ele, na verdade, era o

grande causador de tudo aquilo e talvez eu devesse

agradecê-lo. Apenas não entendi por que a Elle o

escondia. Havia algo por trás disso.

— Elle, você está linda! Além disso, quero agradecer

suas palavras iniciais em meio a toda confusão com

nossas famílias. Foram importantes para mim.

— Enrico, querido, aquilo foi muito mais por mim do

que por qualquer outra pessoa. Você sabia que no começo

todo mundo ficaria chocado, mas depois eles se

acostumariam e se adaptariam à realidade. É a lei natural

da vida com qualquer situação — ela falou, já nos puxando

para a pista de dança.

— Você tem toda razão! — disse, abraçado a Anna e

acompanhando o casal para comemorarmos.


Nossas famílias estavam reunidas em uma mesa

central e conversavam animadamente, entre uma taça de

champanhe e outra, inclusive com Lúcia ao lado de Glória.

Vendo aquela cena tive mais certeza ainda de que Elle

estava coberta de razão. Eles se acostumariam, eles se

adaptariam!

Jordanna estava com um brilho especial e era nítido

que estava bastante feliz. Dançávamos abraçados o tempo

todo, rindo e fazendo brincadeiras. Parecíamos esquecer

onde estávamos e tudo que nos levou ali. Eu também

estava feliz pelo casamento e pela festa e me sentindo

realizado ao lado da minha esposa.

Todos se voltaram para a pista, para a nossa primeira

dança como marido e mulher. Ao som de Frank Sinatra,

dançamos sem deixar de olhar no fundo dos olhos um do


outro. Nossas testas se encostaram e conseguíamos sentir

nossas respirações se misturando.

Mas logo outros casais se juntaram a nós e eu

também precisei ceder a minha esposa – sim, minha

esposa – para a dança com seu pai.

Ela sorriu prometendo que logo voltaria para mim. O

pai a beijava e riam felizes. Daniel nunca tratou Jordanna

diferente de Elle. Ele sempre amou as duas filhas na

mesma medida e isso não era admirável, era o certo. E por

ele fazer o certo, eu admirava o meu sogro. Dancei com

minha mãe e depois com minha nonna. No entanto, não via

a hora de ter Jordanna em meus braços novamente. Eu a

vi nos braços do avô, encarando-o com aquele jeito firme e

decidido dela, apesar do sorriso no rosto. Ela não era fácil.

Ninguém nunca dobraria a minha Anna. Eu sabia disso.


Por diversas vezes, dançando ao som das músicas

da moda, eu me peguei beijando-a apaixonadamente e

sendo deliciosamente correspondido. Acariciei sua mão,

onde ela já sustentava a aliança e o anel que lhe dei,

fazendo promessas ao pé do seu ouvido, dizendo-lhe que a

faria muito feliz. Ela me retribuía com beijos e dizendo o

mesmo. Éramos verdadeiramente um casal apaixonado

celebrando nossa união. Era tudo meio inacreditável.

Após nos divertirmos na pista de dança e eu

apresentar Anna a alguns amigos, foi anunciado o jantar.

Sentamos todos à mesa, assim como no dia anterior,

porém com a diferença de que agora já éramos casados e

toda tensão já tinha acabado. O clima ainda não era dos

melhores, mas nada que atrapalhasse o andamento da

festa.
Os cerimonialistas nos chamaram para cortarmos o

bolo e fazermos a famosa foto com braços entrelaçados

com taças de champanhe. Brindamos com todos e mais

algumas fotos foram tiradas. Fizemos os trâmites

tradicionais do casamento, quando Anna pediu a palavra.

— Sei que todas as damas presentes estão

esperando ansiosamente o momento de eu jogar o buquê,

porém hoje quebrarei este protocolo de noivas. Irei dividir

cada uma dessas rosas com as grandes mulheres que

contribuíram na construção de quem eu sou hoje e que me

ajudaram a chegar até este momento.

E assim Jordanna fez. Tirou algumas flores e

entregou primeiro para sua mãe, em seguida, para Glória,

logo depois para nonna Geovana e, por fim, para sua irmã.

Neste momento, percebi um certo desconforto, pois sua


avó Carmem não havia sido presenteada, porém é aquele

velho ditado: todos colhem aquilo que plantam. Dona

Carmem nunca foi a favor da neta, que costumava chamar

de bastarda. Inclusive, foi sua a ideia de enviar a menina

para um colégio interno no exterior. Nunca a visitou e fazia

questão de não esconder que considerava apenas

Elleanora como uma filha legítima dos Van den Berg.

Apesar do mal-estar, muito mais por parte dos

patriarcas da família do que por qualquer outra pessoa,

voltamos para a pista de dança para terminar nossa

comemoração.

O movimento no Lago Buriti começou a reduzir e os

convidados já estavam ficando em menor número na festa.

Aos poucos, todos iam embora, com uma caixa com uma

pequena garrafa de champanhe francesa e bem-casados


de lembrança, além de uma foto feita com os noivos logo

na entrada da festa para guardarem de recordação.

Embora eu tivesse certeza que tão cedo aquele casamento

não sairia da lembrança de ninguém.

Naquele momento, só estavam nossas famílias,

inclusive meu avô, que não cumpriu sua promessa de ficar

apenas para os cumprimentos. Tomamos juntos mais uma

taça de champanhe e fumamos um charuto, como

tradicionalmente é feito pelos homens das famílias

Mancuso e Van den Berg. Agora uma só família.

Até que Jordanna, como em seu primeiro ato como

uma Mancuso, falou:

— Querido, por favor, me sirva um também. Não há

por que não comemorarmos todos juntos. —

Imediatamente, meu avô olhou estatelado e eu fiquei


completamente sem reação. Nunca as mulheres da família

participaram da comemoração do charuto, passada por

ancestrais de nossos avôs, sendo quase um ritual de clube

masculino.

No entanto, eu ouvi como resposta:

— A moça está certa! Hoje tivemos uma união

importante. Apesar de eu achar torta, precisamos entender

que foi um passo muito promissor e auspicioso para

nossos negócios e que há muito tempo planejamos —

disse meu avô, surpreendendo a todos e muito mais a mim.

Embora ele tivesse que, mais uma vez, transformar meu

casamento em negócios.

— Sr. Mancuso, o senhor verá que, apesar de torto,

como o senhor mesmo disse, eu não irei decepcioná-lo —


disse Anna, já recebendo o charuto de minhas mãos e

dando sua primeira baforada.

Em seguida, ela continuou:

— Vamos chamar todas as damas da nossa família

para comemorarmos juntos como deve ser — disse,

chamando as mulheres, que tinham ficado em uma mesa

separada, apenas com a garrafa de Veuve Clicquot sobre a

mesa.

Todas elas ficaram bastante surpresas com o convite,

mas foram e logo estávamos conversando animadamente,

enquanto degustávamos nossos charutos. Minha nonna

Geovana tragou e fez longas carreiras de círculos de

fumaça. Rimos muito ao perceber que ela escondia o jogo

esse tempo todo.


Ali vi uma cena que nunca tinha visto. Apesar de

parecer descomplicada e atual, um paradigma foi

quebrado, uma tradição familiar antiga, porém ainda

existente e, naquele momento, foi rompida por Anna e sua

coragem de unir homens e mulheres, demonstrando que

não devemos ter este tipo de segregação. E olhando como

um mero espectador do que acontecia, sorri para a minha

esposa, que me retribuiu o sorriso, demonstrando através

do meu olhar toda a minha admiração por ela.

Eu nunca tinha conhecido uma mulher tão forte e

corajosa. No fundo, isso me causava até uma certa

insegurança, contudo preferi deixar isso de lado e

aproveitar o momento.

Após a nossa comemoração íntima familiar, me

despedi dos meus pais, enquanto Anna se despedia de


minha sogra. Os Van den Berg também começaram a

chamar seus motoristas e todos já estavam prontos para

partir, inclusive Elle com seu novo acompanhante, que

ainda não parecia estar bem entrosado com a família, mas

foi bastante respeitoso e discreto.

Eu e Anna permanecemos no local, já que

passaríamos a noite de núpcias na suíte do Lago Buriti.

Chegamos à suíte, que estava toda decorada para as

núpcias do casal com alguns chocolates e morangos,

acompanhados da tradicional garrafa de champanhe. A

noiva e suas acompanhantes tinham se arrumado ali,

porém tudo já tinha sido retirado e restava apenas dois

robes brancos, com um bordado nas costas escrito Sr.

Mancuso em um e Sra. Mancuso em outro.


Perguntei a Anna se ela precisava de ajuda com seu

vestido e ela sorriu assentindo e me disse que queria ficar

um pouco mais com ele. Sorri para ela dizendo que iria

tomar uma ducha, enquanto ela se despedia de seus

apetrechos de noiva. Ela riu e disse que depois iria.

Quando saí do banho, vestia apenas um calção e ela

estava sentada sobre uma penteadeira, me olhando pelo

espelho. Meu coração já disparou, pois sabia que, em

pouco tempo, a teria em meus braços.

Ela então me pediu para ajudá-la com o zíper na

parte de trás do seu vestido para que pudesse tomar sua

ducha e se arrumar para a nossa noite. Eu fui descendo

delicadamente, enquanto ia beijando suas costas, dando

leves mordidas em seu ombro... naquele momento, eu já


sentia sua pele arrepiar. E eu só pensava: Como esperei

por esta noite.

— Obrigada, Enrico! Espere que volto já — ela disse,

levantando-se e caminhando em direção ao chuveiro,

olhando para trás com um leve sorriso de contentamento

por me deixar daquele jeito. Ela segurava o vestido, que já

começava a mostrar sua nudez e revelar seus seios,

cobertos apenas por seus cabelos soltos caídos sobre os

ombros.

Perguntei se ela tomaria mais uma taça de

champanhe comigo e ela disse que sim. Então fui nos

servir e peguei uns morangos para acompanhar. Até que,

alguns minutos depois, Anna chegou ao quarto em uma

lingerie branca que me deixou completamente

desorientado.
A peça delicada era amarrada nas costas com fitas de

cetim, como um espartilho de cortesãs do século XIX. Era

uma peça inteira, bem cavada na frente, na parte de baixo,

e fio dental atrás, revelando aquela bunda perfeita para

mim. Seu corpo brilhava e mesmo de longe eu podia sentir

o seu perfume. Ela tinha um frescor, uma beleza... eu

estava paralisado naquela imagem e apenas pensava:

Você está linda demais vestida assim, mas eu não

vejo a hora de tirar tudo isso e ter você nua em meus

braços.

Ela tinha um sorriso de satisfação, já que sabia o

impacto que tinha me causado. Ela deu uma voltinha me

provocando. E, enquanto bebia a sua taça de champanhe,

me provocou perguntando:
— O meu marido gostou? Eu me arrumei inteira

somente para você! Aprendi com algumas mulheres da

nossa família que devemos ser “damas na mesa e putas na

cama”. Então, a partir de hoje serei sua esposa, sua dama

e, com muito prazer, serei também a sua puta. Somente

sua.

— Nunca ouvi um ensinamento tão perfeito — eu

respondi, enquanto já a abraçava de maneira mais forte.

Neste momento, colei meu corpo ao da minha mulher,

nos juntando com força e começamos a nos beijar

loucamente ali mesmo, em pé sobre a mesa dos doces. Eu

segurei sua bunda com as duas mãos a suspendendo, de

maneira que ela se encaixasse perfeitamente sobre a

minha rigidez e comecei a colocar o body de lado para

senti-la por inteiro. Ela já estava úmida, e eu levemente


massageava o seu clitóris. Eu a beijava no pescoço e já

sentia sua mão por dentro do meu calção. Ela gemia alto

em meu ouvido e me pedia por mais.

— Eu estou louco por você, minha Jordanna e só

penso em ter você só pra mim. Você não tem ideia de

como estou te querendo.

Nossos corpos se roçavam e ela entrelaçava suas

pernas na minha cintura, deixando que eu a penetrasse

com meus dedos. Eu mamava seus seios fartos com

vontade e brincava com seu biquinho intumescido com

minha língua. Ela retribuía sempre olhando em meus olhos

e começou a me masturbar deliciosamente, até que eu

pedi, após sentir o perfume íntimo dela e lamber sua

essência dos meus dedos:

— Eu preciso chupar sua bocetinha linda.


Ela deu um gritinho de surpresa quando a carreguei

nos braços e a deitei com todo cuidado como se

carregasse um verdadeiro tesouro. Em segundos,

gentilmente afastei suas pernas e me posicionei

observando atentamente cada milímetro daquela obra de

arte que só eu poderia apreciar. Só eu. Nenhum outro

homem. Ela era minha mulher, minha esposa, minha

amante, minha puta. Acho que fiquei hipnotizado por

alguns segundos olhando aquela visão do paraíso. Não

removi a parte debaixo da lingerie de renda branca ainda.

A bocetinha úmida de desejo por mim molhava a peça

delicada e mordi o lábio inferior depois de ver sua

expressão de desejo e algo novo naqueles olhos. Seria um

pouco de receio nos olhos da minha mulher? Contudo, logo

foi substituída por sua expressão sexy e segura.


Eu me aproximei e soprei sobre seu sexo e a vi se

contorcer em expectativa. Brinquei roçando meus dedos

em seu clitóris por cima do body e ela reagiu gemendo,

com a respiração descompassada. Eu me senti o homem

mais poderoso e sortudo desse mundo por ser capaz de

fazer Jordanna perder o fôlego. Para mim, era uma grande

façanha. Não a fiz esperar mais. Retirei completamente a

peça que cobria aquele lindo segredo e a bocetinha rosada

estava lá me chamando, me convidando para experimentá-

la e fazê-la gozar alucinadamente. E foi o que eu fiz.

Minha boca estava cheia d’água do prazer que sabia

que experimentaria. Afundei minha boca naquela boceta

quente e cheirosa e chupei com movimentos constantes,

indo cada vez mais profundamente. Passeando com minha

língua enquanto segurava Anna pelo bumbum. Ela gemia


alto agora. Gritava meu nome. Puxava meus cabelos para

que eu me aproximasse mais ainda e eu obediente atendia

sua vontade, que também era a minha. Houve um

momento que prendi seu clitóris entre meus dentes com

cuidado e depois suguei freneticamente, e foi quando os

espasmos tomaram o corpo de Anna, mas minha

degustação de seu sexo estava longe de acabar e eu era

mestre em chupar uma boceta.

Eu parecia nunca ficar satisfeito de provar o gosto

dela naquele beijo selvagem, mas também cheio de desejo

e veneração. Ela merecia todo o prazer e eu daria isso à

minha Anna. Eu a ouvi implorar que eu parasse, porém não

consegui atender seu pedido dito entre uma arfada de ar e

um gemido excitante ao pronunciar o meu nome. Eu só

queria continuar lambendo, sugando, penetrando Anna


com minha língua. No entanto, quando o segundo orgasmo

veio, meu pau já estava duro como pedra e eu precisava

estar dentro dela mais que tudo no mundo.

Mesmo assim, prossegui. Não conseguia me afastar

daquele botão de flor no meio das pernas de Anna e a

chupei deliciosamente, ora brincando com minha língua

dentro dela, ora lhe dando leves mordidinhas, ora a

chupando forte, sugando sua essência e brincando com

seu clitóris fazendo-a estremecer naquele ponto. Como

uma gata selvagem, Jordanna arranhava minhas costas,

meus braços e eu queria terminar aquela noite todo

marcado por suas unhas. Seria o meu troféu para me

recordar da nossa primeira vez juntos, se bem que eu

sabia que nada jamais apagaria aquela noite da minha

memória. Ela convulsionava de tesão e quando vi que ela


estava prestes a gozar de novo, eu parei e voltei a

estimular sua boceta provocando-a sem introduzir meus

dedos. Só na entradinha molhada e já inchada de Anna.

— Para de brincar comigo. Eu quero que me foda

agora, Enrico! Para, por favor... Para... Não me faça

implorar.

As palavras sôfregas saíram quase num sussurro,

sem forças, mas soaram como uma ordem e eu,

imediatamente, sem tirar minha boca de seu corpo e me

deparei com a nudez estonteante da minha esposa.

— Nunca, minha Anna. Nunca precisará implorar por

seu macho. Eu sou seu. Apenas seu.

Eu estava com um turbilhão de tesão e felicidade.

Duro pra caralho! Estava literalmente conhecendo e

explorando o melhor lugar do mundo.


Tirei meu short e me deitei ansioso na cama ao seu

lado antes de penetrá-la. Ela sorriu, abrindo seu sexo para

mim e eu disse:

— Eu ainda quero que goze de novo na minha boca

esta noite, minha puta.

Anna assentiu com um olhar ardente em resposta ao

meu sorriso safado.

Ela era uma delícia na cama, sem pudores e cheia de

vontades... eu só queria fazê-la explodir de prazer.

Até que, quando eu já não tinha mais forças para

segurar, ela sentou em cima de mim, se encaixando

perfeitamente, unindo os nossos corpos em um só,

penetrando meu pênis em sua vagina molhada, deixando

que apenas o sexo conduzisse aquele momento em sua

única frequência para nos levar ao prazer.


Começamos em movimentos cada vez mais intensos,

até que a virei sobre a cama e enfiei tudo com vontade.

Anna gritou, mas depois olhou para mim sorrindo e pedindo

mais. Eu dei mais. Muito mais estocadas agressivas que

entravam e saíam dela num ritmo alucinante e que fez com

que nos perdêssemos dentro um do outro.

Nossos corpos estavam grudados, molhados de suor

e ela entrelaçava sua perna sobre minha cintura, para que

eu não a soltasse mais. Ela gemia, me apertava e eu cada

vez sentia estar mais dentro dela. Ela estava segurando o

lençol com força, me pedia para não parar. Gozamos.

Juntos. Como um só. Como deveria ser.

Ela estava quase desmaiada sobre meu peito e, ainda

ofegante, disse:
— É minha vez. — Ela recuperou o fôlego mais rápido

do que imaginei ser possível. Nem me deu tempo de

perguntar o que ela queria dizer com aquilo.

Foi então que compreendi que Anna queria me

retribuir e foi bem devagar descendo pelo meu corpo, me

acariciando, arranhando levemente com suas unhas, entre

mordidas e beijos pelo meu peito, barriga, até chegar na

minha virilha.

— Anna, você não precisa fazer iss...

— Precisar? Eu quero muito e vou — disse, jogando

os longos cabelos cacheados para o lado esquerdo do

rosto para não atrapalhar seus movimentos.

Em vez de ir direto ao ponto, ela passou sua língua

pela cabeça do meu pau que já se enrijecia de novo com o


estímulo e liberava líquido branco que ela lambeu

ajoelhada sem desviar os olhos dos meus.

Puta que pariu! Essa mulher vai me matar.

Ela lambeu e chupou a glande, chupou com perícia

minhas bolas, mordeu o interior da minha coxa me fazendo

rir e gemer de prazer ao mesmo tempo, quando uma

corrente elétrica percorreu meu sistema nervoso. Ela me

provocou de um jeito único, do jeito dela. E eu nunca tinha

sido levado ao limite assim antes. Eu queria repetir essa

sensação de dar o controle a ela várias e várias vezes em

nossa lua de mel, em nossa vida juntos. Todos os lugares

do meu corpo que ela tocava com a boca deixava um

rastro de fogo, até chegar ao meu mastro duro, que ela

abocanhou com força e delicadeza ao mesmo tempo, me

fazendo ir à loucura. O urro da liberação ao atingir o ápice


foi incontrolável. E eu gozei como nunca na boca de

Jordanna.

Ela engoliu tudinho, lambeu os lábios e ainda pegou,

com a ponta do dedo, uma gotinha de um jato de gozo que

caiu sobre sua bochecha e lambeu o dedo na minha frente.

— Você vai me matar em nossa noite de núpcias,

Anna!

— Nem pense em morrer agora porque eu quero

mais.

— Mais?

— Sim. Você me prometeu: “eu ainda quero que goze

de novo na minha boca esta noite, minha puta”. Não foram

essas as suas palavras, meu marido?

— Sim, Sra. Mancuso. Traz essa bocetinha para mim.


Ela veio como uma gata e se posicionou, me

mostrando o sabor do paraíso mais uma vez. Ela era só

minha! E foi maravilhoso. Nossa química, nosso calor... eu

sentia o nosso fogo quando chegávamos perto um do

outro. Foi realmente maravilhoso.

Antes de adormecermos, ainda nos amamos três

vezes. Eu a peguei de quatro, no chão, e nunca vou

esquecer a visão da bunda linda e redonda de Jordanna

empinada. Eu a fodi com ela suspensa nos meus braços,

imprensando-a na parede, debaixo do chuveiro, porém a

água não foi capaz de apagar nosso fogo. Ainda a fodi com

força sobre a fina toalha de linho da mesa, derramando

champanhe em sua boceta e bebendo daquela fonte. Anna

comia morangos e gemia meu nome enquanto eu a fazia


gozar mais uma vez na minha boca. Estava viciado em

chupar aquela boceta.

Eu a depositei na cama quando os primeiros raios de

sol despontavam. Ela reclamou quando me afastei para

fechar o blackout e as cortinas para que ela pudesse

dormir sem o incômodo da claridade. Voltando para me

deitar ao lado dela, eu vi uma mancha vermelha que se

destacava no lençol alvíssimo.

Jordanna era virgem. Virgem? Como isso pode ser

possível? Na cama, ela se comportou como uma mulher

experiente e...

Droga! Eu a fodi como um homem que acabou de sair

da cadeia após anos de abstinência! Puta que pariu... Ela

acordaria cheia de dores e eu era o culpado.


— Enrico? Vem... Fica comigo. Não vou conseguir

dormir se não me abraçar — ela me chamou, estendendo a

mão para que me deitasse junto dela.

Eu a atendi com um sorriso por ela sentir minha falta.

— Anna, por que não me disse?

Ela sabia do que eu falava.

— Se eu dissesse, você não teria me fodido assim.

Teria? Seja sincero.

Eu pensei bem e respondi honestamente fazendo que

não com a cabeça.

— Aí está a sua resposta, meu marido lindo e

gostoso.

Ela me fez rir dizendo isso, depositando um beijo no

meu nariz e depois na minha boca, na minha bochecha,


descendo por meu pescoço e mordiscando um dos meus

mamilos e depois o outro.

— Anna, você precisa dormir. Não vai conseguir

andar se nós fizermos amor mais uma vez — eu a alertei,

mas com meu corpo antecipando mais prazer e já ficando

duro com o carinho que ela fazia em meu pau.

— Está tudo bem. Pode me deixar sem andar por

uma semana que eu vou adorar, porque você poderá me

carregar para onde eu quiser ir.

Dessa vez, fizemos com calma, sem pressa. Eu

adorava a forma como seus longos cabelos caíam sobre

seus seios e sua cintura fina, chegando a alcançar os

quadris voluptuosos. Apenas queríamos nos completar e

ficar inteiros de novo dentro um do outro.


Caímos exaustos, contudo já ansiosos pelo sexo do

dia seguinte e eu tinha uma única certeza: Pela primeira

vez, fiz amor com uma mulher em minha vida.


CAPÍTULO 7

ENRICO

Após o almoço, que transcorreu sem qualquer

problema, demonstrando mais ainda que todos já tinham

aceitado a história, Anna resolveu acompanhar a mãe ao

aeroporto, já que Lúcia retornaria para os Estados Unidos.

Nós viajaríamos apenas no dia seguinte, então

aproveitaríamos para abrir os presentes e enviar uma

mensagem para todos que foram ao casamento,

agradecendo pelo carinho.


— Anna, a Olga já deixou a listagem pronta com o

nome de todos que estavam presentes, queria apenas que

revisasse o texto de agradecimento — falei, chamando

minha esposa para ler o e-mail. Queria que tomássemos

decisões juntos, por menores que fossem, já que o

casamento tinha feito com que déssemos um passo

importante em relação à nossa liberdade, incluindo a de

Elle, e não queria quebrar esse efeito.

— Deixa eu ler. — Ela veio animada sentar em meu

colo para poder ver a mensagem no laptop. — Por mim,

está ótimo, Enrico. Apenas acho que, para os amigos

pessoais, deveríamos enviar uma mensagem mais

carinhosa e deixar esta mensagem, mais formal, para

aqueles que são da empresa. Devemos separar, já que


sabemos muito bem que no mundo corporativo temos

aliados, e não amigos.

— Você acha, Anna? Temos bons amigos na

Siderúrgica, pessoas que conhecemos há anos estiveram

presentes... — disse, discordando um pouco de sua astúcia

corporativa.

— Podemos incluí-los nas duas mensagens, deixando

com que eles saibam que fazem parte de um grupo seleto

de amigos verdadeiros e, principalmente, que houve duas

mensagens distintas, que deverá ser direcionada. Eu posso

reescrevê-la para você.

— Sim, faça isso! Se acha que é o correto, vamos

fazer! — falei, enquanto levantava e ia finalizar minha mala

para a viagem, dando-lhe um beijo carinhoso na testa.


Ela permaneceu na mesa de nosso escritório,

fazendo a seleção de pessoas e reescrevendo os e-mails.

Eu a observei de longe e me perguntei qual era sua

experiência profissional, já que era bastante letrada em

Administração e Gestão de Negócios. Novamente afastei

certos pensamentos obscuros de minha mente e preferi

continuar com a felicidade que estava vivendo.

No outro dia, chegamos ao Galeão, o Aeroporto

Internacional do Rio de Janeiro. Quando fomos fazer o

check-in, Anna fitou o seu novo passaporte, antes de

entregar à atendente, observando a mudança de seu

nome. Percebendo que seu pensamento estava longe, quis

saber o que estava acontecendo.

— O que foi, Anna?


— Nada, Enrico! Quando toda essa história começou,

ainda não tinha certeza se assumiria o nome de casada.

No entanto, assinamos a papelada do civil e você

providenciou tão rápido meus documentos e a mudança,

que eu não havia dado conta da importância e o peso

disso.

— Você se incomodou? Sabe que

independentemente do peso da minha família, eu não

abriria mão de que minha esposa assumisse o sobrenome

Mancuso, não é?

— Não! Não fiquei incomodada de jeito nenhum! Eu,

muitas vezes, usei o sobrenome da minha mãe, e não do

meu pai, por tudo que tinha acontecido. Mas não se

preocupe, tenho muito orgulho de carregar o nome de meu


marido e, acredite, irei honrá-lo. — Suas palavras

aqueceram meu coração.

— Eu sei, querida! O pouco que te conheço já me faz

ter certeza disso.

Chegamos na sala vip para esperar nosso voo e,

como já era noite, nos servimos de alguns snacks e vinho

tinto para amenizar algumas horas que ainda tínhamos

antes de embarcar. Conversávamos animadamente sobre

o futuro, até que Anna tomou a iniciativa de falar sobre

algo, ainda não mencionado.

— Enrico, sua cobertura é maravilhosa e muito

confortável para nós dois. Não vejo problema nenhum em

morar lá. Porém você não acha que deveríamos começar a

ver uma casa em um condomínio, principalmente próximo

às nossas famílias? Precisamos começar a pensar nisso, já


que nossos avós já estão idosos demais e precisam

aproveitar mais, quando tivermos nossos filhos. Além

disso, gostaria de conviver mais com nonna Geovana. Hoje

vejo que já vivi muito tempo longe da família.

Eu me surpreendi com a proposta.

— Anna, eu acho a ideia excelente e fico feliz em

termos nossos filhos. Não vejo a hora de ter Enrico Jr.

correndo pelo jardim, enquanto jogamos bola.

Ela acariciou meu cabelo e, brincando, me deu um

puxão de orelha.

— Tudo menos Enrico Jr., por favor! Gosto de Pedro

ou Matheus. E para menina, Júlia ou Isabella.

— Como quiser... qualquer nome para mim está

ótimo! — eu disse rindo, puxando Anna para abraçá-la,

enquanto continuava a dizer: — Vamos providenciar isso.


Assim que retornarmos, vou pedir para que Olga chame

um corretor para nos mostrar algumas casas. Inclusive,

para decorarmos do nosso jeito.

— Vamos, sim! Vamos deixar tudo do nosso jeito —

ela finalizou a conversa sorrindo, e eu senti uma paz por

saber que tudo estava do jeito que eu tinha imaginado.

Pouco tempo depois, a atendente da companhia

aérea nos chamou para embarcar e, de mãos dadas,

seguimos para a nossa lua de mel. Chegamos às Ilhas

Maldivas e fomos diretamente encaminhados para o nosso

bangalô, que tinha todo oceano à nossa volta. O lugar era

paradisíaco e perfeito para passarmos uma semana

relaxando e nos curtindo, sem pensar em mais nada.

Então, nos acomodamos e resolvemos descansar das

longas horas de voo. Apesar de viajarmos


confortavelmente na primeira classe, podendo dormir e

esticar as pernas, o cansaço das semanas anteriores

estava presente. Anna, no entanto, se despiu e, nua, me

beijou apaixonadamente, me pedindo para fazê-la relaxar,

e eu prontamente percorri minhas mãos por todo o seu

corpo, obedecendo ao seu pedido. Ela adormeceu logo em

seguida sobre meu peito e ali dormimos até a noite,

quando despertamos já para o jantar.

Ela foi se arrumar, e eu fui fazer algumas ligações.

Mesmo tirando uma semana de férias, não conseguia

abandonar por completo os negócios. Fui para a área

comum do hotel e disse que a esperaria. Enquanto isso,

fiquei tomando um drink e já acionava o corretor para

separar algumas casas para nos mostrar quando

retornássemos.
Nesse momento, minha linda esposa surgiu, em um

vestido pêssego esvoaçante, com os cabelos soltos,

arrancando olhares de todos que estavam no bar do hotel.

Eu me senti um felizardo e com uma pontada de ciúmes ao

mesmo tempo, pela cobiça dos outros homens.

Imediatamente, levantei e fui abraçá-la, segurando-a pela

cintura para irmos para a nossa mesa, já reservada, do

restaurante.

Jantamos animadamente, combinando a

programação de praia do dia seguinte. Plano esse que

havíamos feito desde que ela tinha pisado no Brasil e não

tínhamos conseguido realizar juntos. Voltamos para o

nosso quarto, levando nossa segunda garrafa de vinho,

sabendo que tão cedo não iríamos dormir.


A semana transcorreu maravilhosamente bem e nos

divertimos bastante em nossa lua de mel. Eu tinha uma

certa convicção de que estava com a parceira perfeita.

Retornamos ao Brasil e já fomos direto para a minha

cobertura, onde recebemos as coisas da Anna e

adaptamos a casa para que ela pudesse se sentir

confortável. Como havia muitos presentes, ela, Olga e

nonna Geovana cuidaram das trocas e dos

agradecimentos.

Minha esposa e minha avó estavam bem próximas e

a todo tempo conversavam. Eu via que ela pedia conselhos

sobre diversos assuntos e isso me enchia de orgulho.

Sabia o quanto ela estava se esforçando para acompanhar

minha rotina, que não era nada fácil. Sempre preferia

deixá-las à vontade para não invadir a amizade tão bonita


que elas tinham. Além disso, sabia que Anna sentia falta da

mãe e minha nonna, de certa forma, supria isso.

Ainda estávamos em lua de mel e cada vez mais

apaixonados. Confesso que cada dia que ia para a

empresa, ficava mais ansioso para retornar para casa e ter

Anna em meus braços. Ela, por sua vez, me perguntava

mais e mais sobre a empresa e se interessava pelos

negócios, e eu prontamente a atualizava. Era importante

ela saber também, até para não estar por fora dos

assuntos nos eventos sociais.

Após um mês de casamento, resolvi atender o

primeiro pedido de minha esposa. Em um domingo

ensolarado do final de maio, peguei Anna e disse a ela que

iriamos dar uma volta de carro, mas, na verdade, ia lhe

mostrar nosso novo lar.


— Enrico, aonde estamos indo? Já conheço muito

bem esse seu olhar e sei que está aprontando alguma

coisa!!! — ela disse, já sorrindo e despenteando o meu

cabelo.

— Anna, vamos dar uma volta e aproveitar esse dia

lindo, semana que vem viajo para Nova York, para uma

reunião com alguns investidores, e quero aproveitar um

pouco minha esposa, pois você sabe o quanto trabalharei

nesses dias.

— Eu sei, meu querido! Vamos então aproveitar o

passeio e relaxar um pouco para que você não se estresse

muito nas próximas semanas com o trabalho — disse ela,

já ligando o som do carro.

Ela adorava cantar e todas as nossas viagens de

carro, mesmo que curtas, para sair para jantar, eram ao


som de sua voz. Seu repertório era vasto e, talvez, por ter

morado tanto tempo fora, o que ela mais gostava era de

cantarolar as músicas brasileiras, não importava o ritmo.

Ela costumava brincar que não tinha ganhado o dom da

mãe, somente a vontade. Eu adorava esse jeito

espontâneo dela, era um frescor inexplicável que ela tinha

trazido para a minha vida.

Chegamos ao condomínio e parei em frente a uma

casa luxuosa, espelhada, com um enorme jardim. Eu

apenas fitava minha esposa, aguardando sua reação, e

ela, já pulando do carro, olhou para mim e falou:

— O que é isso, querido? — questionou, já em pé no

jardim, com um sorriso de orelha a orelha!

— Você não me disse que queria uma casa, até

mesmo para que pudesse ser do nosso estilo e,


principalmente, que fosse perto das nossas famílias? —

respondi, já lhe dando as mãos e tirando a chave do bolso.

— Você é louco!! Por que não me contou? É nossa

mesmo? — Ela parecia ainda estar incrédula.

Anna não era uma menina apegada às coisas

materiais e luxos. Era simples, apesar de sempre estar

elegante. Contudo, eu percebi, no pouco tempo em que

estávamos juntos, que ter um lar importava bastante para

ela. Talvez por ter vivido tanto tempo em um internato e por

não ter esse sentido de casa e família estruturada.

— Sim, é nossa! — eu lhe disse, já colocando as

chaves em sua mão e depositando um beijo em sua boca,

o qual ela retribuiu apaixonadamente.

Aproveitamos para estrear a casa, mesmo sem os

móveis e seus itens, nada impedia de consagrarmos o


nosso amor em nosso lar. Levei Jordanna para o cômodo

que futuramente seria nosso quarto, arranquei sua calcinha

e ali mesmo a chupei até fazê-la gozar deliciosamente em

minha boca. Ela, trêmula, apenas me deu um sorriso de

canto de boca, dizendo:

— À noite te retribuirei, meu amor!


CAPÍTULO 8

JORDANNA

Na semana seguinte, meu marido viajou para Nova

York e eu nem imaginava as surpresas que me

aguardavam. Após meu retorno da lua de mel e toda a

revelação do casamento, meu pai me chamou para uma

longa conversa a sós. Eu aceitei e fui encontrá-lo em sua

casa.

— Jordanna, em primeiro lugar, quero te pedir perdão

por todos esses anos que ficamos afastados. Por mais que

eu te visitasse a cada dois meses, nunca foi o suficiente


para mim e você merecia mais tempo e atenção do seu pai,

minha filha. Eu não fui firme o suficiente com seus avós e

não me posicionei para acompanhar o seu crescimento.

Até mesmo por conta de Glória, não queria magoá-la mais

do que já tinha feito. — Meu pai já começou a conversa

desta forma, bastante emocionado.

— Pai, não se preocupe. Eu sei como a história é

complicada e nunca lhe cobrei nada. Na verdade, nunca

faltou nada para mim ou para minha mãe. — Tentei

consolá-lo vendo o seu estado.

— Não, minha filha. Eu errei muito com você! Não

deveria ter aceitado a decisão da sua avó de te afastar.

Você cresceu isolada da família por anos, morou em um

internato, recebendo apenas o amor e a visita de sua mãe,

que também pouco podia fazer. Eu realmente preciso do


seu perdão. — Ele já me abraçava e chorava muito ao

dizer essas palavras.

— Claro que o perdoo, meu pai. Eu nunca quis nada

além de uma família e é isso que pretendo construir com o

Enrico. Desejo, principalmente, que nossos filhos sejam

aceitos por todos e cresçam ao nosso lado — disse de

coração, e realmente era tudo que eu sempre quis.

— Eu quero te compensar. Na verdade, não é uma

compensação, mas algo que sempre achei que aconteceria

e, quando te vi no casamento, tive a certeza da minha

decisão.

— Do que você está falando, pai?

— Estou largando a empresa. Aquilo nunca foi para

mim e, por isso, quero transferir a totalidade das minhas


ações para você. Sei muito bem que você pode assumir

minhas ações e o meu lugar.

— Sim, pai! Eu tenho a pretensão de trabalhar na

Siderúrgica, sim. Inclusive, venho conversando com a

nonna Geovana sobre isso, ela vem me ensinando muitas

coisas.

— Eu sei, minha querida. Ela foi a primeira pessoa

que procurei para buscar um conselho sobre você. Até

mesmo porque sei que vocês estão próximas. E ela já me

contou de sua pretensão de fazer o mesmo. Assim,

combinamos que, passando as ações dela e as minhas,

você será a sócia majoritária da Siderúrgica, o que te

garantirá uma cadeira nas decisões do Conselho de

Administração e a possibilidade de gestão completa de

toda a organização.
Eu apenas soltei um longo suspiro neste momento, e

meu pai pareceu ler meu pensamento.

— Minha filha, eu sei que isso é o melhor para os

negócios. Tanto o Sr. Mancuso, como seu avô já estão

velhos para ficarem se metendo na administração, mas sei

muito bem que a sua preocupação é com o Enrico agora.

— Sim, papai! A Siderúrgica é a vida dele. Ele já

trabalhava na empresa antes mesmo de entrar para a

faculdade. No entanto, também sei que a gestão dele está

obsoleta, pautada na doutrina de nossos avós e aquele

lugar precisa de uma vida nova.

— E você será esse fôlego, essa renovação. Tanto

eu, como nonna Geovana, Glória e sua irmã concordamos

com isso. Você precisa agora é ter forças para enfrentar o


seu marido e mostrar para ele que é capaz de comandar a

empresa junto com ele.

— Isso não será nada fácil!!! — Esta frase saiu muito

mais para mim do que para o meu próprio pai.

— Não, filha. Não será mesmo. Contudo vejo que

Enrico se tornou um homem apaixonado e ele tem bastante

admiração por você e pela mulher que se tornou. Mais

cedo ou mais tarde, ele verá que isso também é o certo.

— Eu aceito, pai! Só que eu quero manter tudo em

segredo por enquanto, para achar o momento certo de

conversar com meu marido.

— Claro! Nosso advogado já está movimentando a

documentação de transferência de ações, e a nonna

Geovana pediu para que você fosse a guardiã das ações

dela também. Quando se sentir pronta, nos avise, que já


oficializamos para o Conselho Diretor que você assumirá a

empresa.

— Está bem! Combinado! — falei, encerrando a

conversa e imaginando como seriam os dias de guerra

corporativa dentro do meu lar.

Enrico continuava em Nova York, então aproveitei as

duas primeiras semanas de abril para assumir minha

posição na Siderúrgica. Não que eu estivesse fazendo algo

pelas suas costas, porém eu precisava organizar os

problemas e o momento de enfrentá-los. Meu casamento

será sempre minha prioridade, contudo tenho que cuidar

também do nosso patrimônio e, durante esses meses que

acompanhei os negócios, vi que muita coisa precisava

mudar.
Assim, com o conselho de nonna Geovana em mente,

entrei naquela sala lotada.

— Com licença, senhores.

Minha voz foi abafada pelas conversas triviais de,

aproximadamente, trinta executivos que falavam de tudo

naquele momento, menos de trabalho, pelo que percebi. O

grupo era constituído majoritariamente por homens, todos

em seus caros e exclusivos ternos sob medida. Decidi

projetar ainda mais a minha voz para me fazer ouvir

naquele ambiente repleto de testosterona.

— Senhores, boa tarde. Peço um momento da

atenção de todos.

— Lindinha... — Um recém-chegado passou ao meu

lado sem ao menos se dignar a olhar para mim e me

entregou uma garrafa de café. — Traga mais porque já


estamos sem café há mais de quinze minutos. Aproveite e

traga também aqueles croissants amanteigados e não se

distraia com as outras secretárias falando mal de seus

chefes, como costumam fazer. Temos assuntos

importantes a tratar aqui e muitos dos meus caros amigos

só despertam realmente após a terceira xícara de café. —

E seguindo seu caminho entre a multidão de paletós

escuros, me deixou ali. Respirei fundo e caminhei pedindo

licença, indo atrás daquele homem de cabelos totalmente

grisalhos, mas que não deveria ter mais de cinquenta anos

ainda.

Não acreditava na ousadia dele. Em que século este

troglodita vive? Eu poderia, sim, levar o café se esta fosse

a minha função, ou se ele pedisse com educação, o que

não foi o caso. Eu precisava ensinar a ele bons modos. A


todos eles, na verdade, porém com classe. Como uma

dama. Foi assim que aprendi com as mulheres fortes da

nossa família. Damas não fazem escândalos. Damas

apresentam seus argumentos.

Caminhei cruzando todos aqueles homens que

olhavam descaradamente para minhas curvas, eles nem

tentavam disfarçar. Ouvi assobios e piadas machistas em

minha trajetória, mas ignorei. Como eu odiava essa falta de

respeito... Segui meu caminho mentalizando o mantra que

uma professora do internato, muito amiga minha, me

ensinou quando percebia que eu estava prestes a pegar a

faca da cozinha e escalpelar alguém.

Eu estou calma, eu sou calma... Eu estou calma, eu

sou calma...
A minha expressão impassível deve ter funcionado ou

ficaram com medo de que o meu salto agulha de dez

centímetros desse um oi para seus caríssimos sapatos de

couro italiano. Eles abriram caminho para que eu

passasse, contudo sempre com olhares apreciativos para o

meu corpo.

Eu estou calma, eu sou calma... Eu estou calma, eu

sou calma...

Localizei o troglodita e, ainda com a garrafa de café

nas mãos, segui para o grupo onde ele estava.

— Olá, de novo — digo tocando seu ombro e

interrompendo uma piada grosseira, o que fez com que ele

se virasse para mim. Deixando nas mãos dele a garrafa de

café, prossigo: — Acho que isso é seu. Você deve ser novo

aqui na empresa, porém até eu que acabei de chegar, já


sei onde fica a copa, inclusive posso te mostrar. Fica logo

no andar de baixo. Sugiro ir de escadas para economizar a

energia do elevador. Gestão de custos inteligente será uma

nova cultura nesta empresa. Ao descer, vire à esquerda no

segundo corredor. É bem fácil de achar. Lá você encontrará

as máquinas de café.

Acho que aquelas palavras foram suficientes para

atrair a atenção de todos do grupo para mim. Aproveitei a

oportunidade para me apresentar a eles.

— Boa tarde, senhores. Eu me chamo Jordan...

— Sei bem quem você é. — O troglodita, em seu

terno muito alinhado azul petróleo, interrompe minha fala

analisando-me metodicamente. Li na expressão estampada

em seu rosto: “o que essa garota pensa que está fazendo

aqui?”
— Que bom saber disso. Pensei que, com sua idade

avançada, talvez não enxergasse bem e tivesse me

confundido com algum dos copeiros.

— Como é que é? Idade avançada? — Não pareceu

gostar nem um pouco de eu insinuar que ele estava ficando

senil.

— Desculpe, não tive a intenção de ofendê-lo.

— É bom mesmo se desculpar porque...

— Como eu disse, peço que me desculpe. Como é

mesmo o termo politicamente correto? Melhor idade. Isso.

Lembrei. — Fiz questão de interrompê-lo para mostrar a

ele como isso é grosseiro.

— Minotti, essa foi boa! — alguém debochou do fundo

da sala.
— Eu sempre suspeitei que você fosse mesmo uma

múmia, já que vive sempre se hidratando. O que é aquela

loção? Algum tipo de formol para a melhor idade? — o

homem ao lado do troglodita ironizou, e as risadas que

irromperam a sala o fizeram arquear uma das sobrancelhas

e me encarar de frente agora. Eu o vi empurrar a garrafa

para o homem que fez a piada com mais força do que era

necessário.

Mais executivos pareceram se interessar em nossa

conversa e passaram a prestar atenção em mim e no

troglodita.

— Preciso dizer que sua situação é melhor do que a

minha que não faço ideia de quem o senhor é. Como eu

dizia, senhor, me chamo Jordanna Van den Berg Mancuso.

Admito que não imaginava que minha popularidade tivesse


alcançado o 33º andar — digo emoldurando meu sorriso

mais encantador e debochado no rosto, sorriso nº 4, ou não

mexe com quem “tá” quieto.

Ouvi sussurros entre eles e alguns pareceram se

arrepender dos olhares lascivos que lançaram em minha

direção, pois agora evitavam olhar diretamente para mim.

— Não se trata de popularidade, mas, sim, do que

tem circulado pelos corredores... que a jovem esposa-ex-

cunhada do nosso presidente veio conhecer seu local de

trabalho.

— Olha só... e somos nós mulheres que levamos a

fama de apreciar fofocas, não é mesmo? — Os risinhos

dos outros engravatados que o cercavam fizeram com que

ele voltasse toda sua atenção para mim agora. —

Aconselho a não acreditar em tudo que escuta nesses


tempos de fake news, senhor... Como disse se chamar

mesmo?

— Eu não disse, mas vou satisfazer sua curiosidade.

Sou Conrado Minotti, Diretor Executivo de Contas do

Grupo Mancuso-Van den Berg — afirmou sua posição na

empresa com tamanha pompa que mais me pareceu um

pavão exibindo suas penas.

Homens e seus egos inflados...

— É um prazer conhecê-lo, Sr. Minotti. Nesta

semana, quero conhecer todos os altos executivos que

trabalham para mim e minha família. — As risadas

abafadas dos seus colegas o deixaram com o rosto rubro

de raiva.

— Eu não trabalho para a senhora.


— Ah! Claro que sim. Com todos as ações que recebi

do meu pai e as da Sra. Geovana Mancuso, a avó adorável

de meu marido, eu detenho a maioria das ações do Grupo

Mancuso-Van den Berg.

— Que logicamente serão administradas pelo seu

marido, o presidente Enrico. Por isso, afirmo que a senhora

não é minha chefe. Há uma diferença entre ser acionista e

ocupar um cargo nesta companhia, senhora. — A forma

como ele enfatizou essa última palavra me fez querer

arranhar a cara dele. — Agora, se nos dá licença, temos

assuntos para discutir antes da próxima reunião do

Conselho Diretor.

— A reunião já aconteceu há uma hora, Sr. Minotti.

— Está claramente enganada, Sra. Mancuso. A

reunião acontecerá às dez e meia da manhã e...


— Como nova presidente do Conselho Diretor, eu

tenho a prerrogativa de reorganizar a agenda de reuniões,

para que esta se adeque aos meus compromissos. E foi o

que eu fiz. A reunião foi remarcada para as oito horas, pois

eu não gostaria de encerrá-la tardiamente, uma vez que

gostaria de conhecer alguns setores essenciais da

companhia ainda hoje.

— Presidente do Conselho Diretor? Eu não recebi

nenhuma comunicação formal de mudança na estrutura

hierárquica da siderúrgica e...

— Eu mesma telefonei para todos os membros do

Conselho e informei da relevância da pauta a ser discutida

hoje. Consegui falar com todos, exceto com o senhor, pois

sua linha esteve ocupada por quase uma hora, entre as

oito e as nove horas. Enviei então meu assistente pessoal


até seu escritório, e sua secretária gentilmente o interfonou

para comunicar a antecipação da reunião, porém sua

resposta foi... Só um instante. — Rafael tomou nota e me

entregou. — Achei... a resposta que o senhor gritou pelo

interfone para sua secretária foi: “Estou quase ganhando

esse maldito leilão de tacos de golfe! Nem se Sua

Santidade, o Papa, em pessoa, vier falar comigo, não

quero ser incomodado!”

Eu o vi estreitar os olhos e me encarar como um

jaguar prestes a dar o bote.

— Como vê, eu apenas atendi à sua vontade. No

entanto, espero contar com sua presença na próxima

reunião do Conselho, semana que vem.

— Eu posso saber que pauta foi tão prioritária para

antecipar a reunião em duas horas?


— Tentei me inteirar ao máximo nessas últimas

semanas das questões da companhia e achei que o melhor

seria começar com as reinvindicações de nossos

funcionários.

— Ah! A senhora achou que em algumas semanas

conheceria toda a estrutura desta siderúrgica? Entendo

que quando se chega em um terreno desconhecido —

disse ele, aproximando-se com as mãos nos bolsos —,

devemos agir com diplomacia com as pessoas que já o

conhecem. Antes de querer liderar um time, deve-se

conhecer as regras do jogo e vestir a camisa para que a

equipe a aceite. Não adianta adiantar o horário do jogo se

seus melhores jogadores não estão em campo. — O

sorriso cínico dele me encarando não me intimidou.


— Concordo com o senhor. Por isso, quis conhecer

as reinvindicações daqueles que são essenciais para que o

jogo aconteça. Os meus melhores jogadores são meus

funcionários. Sem a força de trabalho deles, não há

siderúrgica. Aproveito para perguntar: o senhor sabe qual é

a temperatura de uma solda mig ou mag, Conrado?

— Não vejo em que isso é relevante.

— Saberia então me dizer quantas horas extras os

operadores de caldeira trabalharam no último trimestre?

— Eu já tenho muitas responsabilidades para ocupar

meu tempo com questões de RH.

— Saberia me dizer qual o percentual de profissionais

do sexo feminino que trabalham nesta companhia?

— Ainda não vejo aonde quer chegar com esse

escrutínio, Jordanna — provocou, referindo-se a mim pelo


meu primeiro nome, sem formalidade, tal como fiz com ele.

— Bem, vestir a camisa do time significa conhecer as

potencialidades e possíveis deficiências do time com o qual

se joga e usar isso a nosso favor. É saber que a

temperatura da solda mig pode oscilar de cinco a trinta mil

graus Celsius e, se tivéssemos tido uma campanha mais

eficiente de uso das máscaras de proteção, o índice de

funcionários com alguma perda visual não teria subido para

7% só no último trimestre. Na mesma época, para atender

a demanda de aço dos investidores chineses, o número de

horas extras mais que dobrou, indo de uma hora e meia

para três horas e meia, mesmo com a contratação de mão

de obra temporária. Além disso, o número de acidentes de

trabalho quadruplicou de quatro para dezesseis, sendo que

um desses acidentes fez com que um operador de caldeira


perdesse três dedos da mão direita e, aos vinte e seis

anos, tivesse que ser aposentado por invalidez.

Eu ainda tinha muito para falar, então prossegui:

— Vestir a camisa também significa saber que 37%

das profissionais desta companhia são mulheres e, delas,

mais da metade são mães. E quando perguntamos tanto a

elas como aos funcionários homens qual é o melhor

benefício, na perspectiva deles, em trabalhar para o Grupo

Mancuso-Van den Berg, 48% dos nossos trabalhadores

afirmaram que é a remuneração, que está acima da média

do mercado privado. No entanto, 52% responderam que é

o plano educacional para os filhos dos funcionários que foi

o que os motivou a trabalhar com excelência em suas

funções. Eles vestiram a camisa da nossa companhia

porque ela se preocupava com o futuro dos filhos deles.


Todo funcionário com mais de cinco anos de casa tem a

educação dos filhos custeada pela empresa, da creche ao

ensino superior.

— Isso tudo é muito bonito, Sra. Mancuso, mas toda

empresa vive de lucros, não de sonhos. Nossos acionistas

querem o retorno de seus investimentos.

— E 200% de lucro desde o ano passado não é um

retorno considerável para o senhor? Qual o seu nome?

— Fragoso. Maurício Fragoso, Sra. Mancuso.

— Não foi esse o lucro líquido das ações da

companhia?

Ele apenas confirmou com a cabeça.

— Eu garanto aos senhores que esse plano

educacional, que permite que os filhos de soldadores e

operadores de caldeira estudem nas mesmas escolas e


universidades que os filhos de homens em cargos

executivos como os senhores, é uma das principais razões

de nossa companhia estar entre as três melhores

empresas para se trabalhar na América do Sul e ser líder

absoluta em nosso segmento. Minha família dedicou a vida

para alcançarmos estas conquistas, sempre tendo em

mente que a companhia são as pessoas que trabalham

nela. A mensagem que quero deixar clara, senhores, é que

cancelar o plano educacional será o mesmo que praticar

autossabotagem. Nossa empresa construiu sua reputação

porque se preocupava com a qualidade de vida de todos

que estão envolvidos no processo de produção.

Desmotivar nossos funcionários será o mesmo que dar um

tiro em nossos pés.

— Então esta foi a pauta?


— Sim, Conrado, esta foi a pauta única desta reunião

extraordinária que eu convoquei para hoje cedo. E imagine

como eles estão se sentindo agora, quando descobriram

que a companhia pretende cancelar o plano que garante a

educação dos filhos deles? A palavra greve foi levantada

na reunião algumas vezes pelos representantes dos

funcionários e do sindicato, mas eu garanti a eles que isso

não vai acontecer e vim aqui compartilhar com você e

todos os respeitáveis senhores presentes que o plano será

mantido. Soube que partiu deste grupo a proposta de

redução de gastos e maximização de lucros. Fiquem à

vontade para voltar a socializar e tomar café. A minha porta

estará sempre aberta para ouvir meus funcionários. Todos

os meus funcionários, inclusive você, Conrado, e todos os


gentis senhores que me cederam esses minutos do seu

tempo.

Comecei a caminhar e vi a mudança nos olhares que

me eram destinados naquele momento. Onde antes havia

admiração pelas minhas curvas, eu via agora respeito por

meus argumentos. E isso não tem preço.

De menina, eu só tenho o rosto, seus tolos.

Estava doida para fazer a minha dancinha da vitória,

porém caminhei com passos de rainha até a metade do

caminho quando ouvi algo que me fez parar.

— Sra. Presidente do Conselho?

— Pois não, Sr. Diretor Executivo de Contas — disse,

virando e deparando-me com o Sr. Conrado segurando a

garrafa de café. Contudo, surpreendentemente, ele

estendeu a mão livre para mim com uma expressão


impassível no rosto. Levei alguns segundos para retribuir o

gesto, considerando a mudança repentina de atitude. Sabia

que não era um homem que se intimidava facilmente, no

entanto, decidi dar um voto de confiança e o cumprimentei

com um aperto de mão firme ao ouvi-lo dizer:

— Quero discutir com a senhora uma possível

alternativa para a manutenção do plano educacional que

poderá agradar também os acionistas. Agora que conheço

o caminho para a copa, posso lhe oferecer uma xícara de

café enquanto apresento as considerações de minha

proposta?

Eu sorri para Conrado ao perceber que, no fim das

contas, ele não era um adversário, mas um potencial

aliado. Ele esteve me testando desde o início.


— O meu café, eu gosto preto e sem açúcar.

Aproveita e arranja uns croissants amanteigados daqueles

que mencionou antes.

Por um instante, ele parou e olhou para mim franzindo

a testa, porém depois o troglodita riu e fez que sim com a

cabeça.

“— Traga o líder para seu lado. Se ele vier, os outros

o seguirão como ovelhas obedientes.

— Como eu vou saber qual deles é o líder?

— Essa será sua prova de fogo. Você precisa

descobrir sozinha.”

O sábio conselho de nonna Geovana me garantiu

vencer aquela batalha.

Eu ri também ao constatar as expressões nos rostos

dos executivos ali. Ao ganhar o respeito do Sr. Conrado


Minotti, os outros se dobrarem foi só uma consequência.

Quem controla o dinheiro, controla os outros. E ele

mesmo me disse que é o Diretor Executivo de Contas.

Agora ele sabe quem está no comando aqui. Eles sabem.

Mas a guerra, eu iria travar com um único homem:

Enrico Mancuso, meu marido. O machismo e a

necessidade de controle dele eram os maiores opositores

para o que realmente importava para mim: o nosso

casamento.

Meu celular tocava insistentemente e, quando

atravessei a minha sala, Olga já veio atrás de mim dizendo

que havia duzentos recados do meu marido, que insistia

em falar comigo a todo custo.

Tinha chegado a hora de enfrentar a fera. E comecei

a duvidar do meu timing de fazer aquilo tudo. Teria que


conversar com ele por telefone e, ainda por cima, a

milhares de quilômetros de distância, e não com nossas

peles se tocando e olhares se cruzando, para que tudo

fosse resolvido rapidamente.

— Olá, Enrico, você me ligou? — falei com a voz mais

doce que tinha, retornando suas chamadas.

— Jordanna! Mas o que é que está acontecendo aí na

empresa? Soube que teve uma reunião do Conselho,

mudança de posição acionária... o que você está fazendo?

— ele gritava ao telefone.

— Enrico, quando você chegar, conversaremos e

acertaremos tudo isso. — Tentei acalmá-lo, mesmo

sabendo que era quase impossível.

— Jordanna, você esperou que eu viajasse para me

dar o bote? Para roubar minha posição na empresa?


— Que isso, Enrico! Você está me confundindo com

alguma pessoa mau-caráter, não é possível! — Estava

arrependida por não ter conversado com ele. Realmente

parecia que eu tinha dado o bote e, na verdade, foi apenas

medo de encarar essa situação.

— Então, me explica como está sendo seu primeiro

dia de estágio... porque o que eu soube era que você

estava como Presidente do Conselho, logo, minha chefe!

— Sim, Enrico, sua chefe! Sou sócia majoritária da

empresa, com as ações da minha família e da sua avó.

Posição essa que é minha por direito. Sou uma Van den

Berg e metade desta empresa é da minha família. Então,

não me venha com mimimi de garoto mimado que perdeu o

brinquedo e comece a se acostumar, pois iremos gerir essa

empresa juntos. Não esqueça que ela é nosso patrimônio e


será dos nossos filhos. Foi exatamente por isso que

casamos.

Ao falar isso, senti que ele se situou e, no fundo,

sabia que eu tinha razão. Por mais que me doesse, sabia

que sua reação era muito mais por ciúme e machismo

estrutural, devido à sua criação, do que realmente por ter

uma mulher que poderia ter tanto controle quanto ele. Era

apenas uma questão dele se acostumar.

— Tudo bem, Jordanna. Eu ainda tenho reunião

amanhã, estarei aí em dois dias e conversaremos para

acertar tudo. Só me diga mais uma coisa — ele falava de

uma maneira mais conformista agora.

— Claro, querido. Não esqueça que estou aqui por

nós e pela nossa família, que está apenas começando —

eu disse, tentando amolecer o coração dele.


— Como não conseguia falar com você, perguntei a

Olga se você já estava com e-mail corporativo e ela me

disse que sim. Enviei mais de cinco mensagens e todas

voltaram. Você ainda não deve estar habilitada. Como você

está fazendo isso tudo sem registrar atas e informações

por e-mail? É isso que me preocupa. Você é inexperiente

no mundo corporativo, meu amor.

Respirei fundo e lhe respondi.

— Enrico, já estou com e-mail, sim, e sei muito bem

que tudo deve ser registrado por mensagem. Anote por

favor, caso precise mandar alguma mensagem. Digo

entregando o meu e-mail.

— Meu amor, você não quis colocar o meu nome? —

Eu me surpreendi com seu tratamento carinhoso.


— Querido, eu preciso ter minha identidade aqui

dentro. Não posso simplesmente ser a esposa do

presidente. Eles precisam saber que sou, sim, uma Van

den Berg, mesmo que a minha própria família não tenha

aceitado isso por muito tempo.

Tinha chegado a hora de todos aceitarem.


CAPÍTULO 9

ENRICO

Retornei de viagem e encontrei uma companhia

diferente de duas semanas atrás. As conversas de

corredores e que circulavam entre as secretárias era que

finalmente a empresa teria um comando humanitário e em

prol dos funcionários. Já na alta diretoria, se temia,

naturalmente, o abalo de toda uma estrutura patriarcal de

velhos conselheiros que vinham desde a época do meu

avô.
A minha esposa ocupava a sala de seu pai que, em

pouco tempo, enquanto eu viajava, tinha sido

completamente modificada e estava de acordo com sua

personalidade. O mobiliário era sóbrio e ela tinha solicitado

um canal direto com todos os representantes e gerentes de

cada área operacional. Inclusive a de campo, ou seja, ela

era acessível, pró-funcionário e ainda levava frescor, ideias

e novas maneiras de gestão para uma empresa que

carregava uma cultura obsoleta de nossos avós. As

estruturas corporativas internas estavam abaladas por algo

que nunca tinha sido visto.

Além disso, contratou rapidamente um assistente

pessoal que, apesar de novo, recém-formado, parecia

admirar e ser fiel a Jordanna. Não me surpreendeu, pois já

tinha percebido que uma das características de minha


mulher era moldar as pessoas a seu modo. Fez isso

porque sabia da fidelidade de Olga e até mesmo para ter

sua própria individualidade dentro da empresa. Eu percebia

que ela queria, na verdade, separar a Sra. Mancuso,

esposa, da Srta. Van den Berg, Diretora Presidente do

Conselho. E eu cada vez tinha mais dúvidas se conseguiria

controlar uma ou outra.

A primeira coisa que fiz ao chegar à empresa, direto

do Galeão, após dez horas de viagem vindo de Nova York,

foi me reunir com os meus advogados. Eu precisava

entender a legalidade daquilo tudo e até que ponto

Jordanna poderia ir, pois temia ter que reportar a ela

qualquer decisão que tomasse na Siderúrgica e isso eu

não iria admitir. Nunca fiz isso ao seu próprio pai, não teria

por que fazer a ela. Nós conversaríamos sério.


— Sr. Mancuso, bom dia! A reunião começará em

trinta minutos. Desculpe o atraso de todos. Mas, como

ainda são sete horas e o senhor solicitou esta reunião

ontem, quase às vinte e duas horas, não deu muito tempo

de todos se organizarem. O senhor quer que eu traga um

café? — Olga se justificava, ainda com o rosto amassado.

Provavelmente, chegou na empresa de madrugada, diante

da quantidade de coisas que pedi a ela antes de embarcar

ontem.

— Quero, sim, Olga! Pegue um café para nós dois e

converse comigo um pouco antes do pessoal do jurídico

chegar. — Eu sabia que não haveria aquilo que ela não

soubesse. Ela não era de fazer fofoca... sempre foi muito

discreta e, por isso, estava comigo há tantos anos. Porém,

nesses dias, com certeza, ela participou do burburinho que


teve com a chegada da Anna, e eu queria saber dessas

impressões.

Ela saiu apressada e disse que já retornaria. Pelo

jeito, ela mesma estava louca para falar.

— Está aqui, Enrico! Trouxe umas torradas com

cream cheese. Imagino que não tenha tomado café direito

no avião.

Aquilo me surpreendeu, não havia torradas com

cream cheese na copa da diretoria, apenas café, frutas e

croissant. Exigência de nossos avós, que adoravam comer

essas coisas durante o trabalho e isso nunca foi

modificado.

— Olga, o que aconteceu com os croissants? O

cardápio da copa foi diversificado com mais itens?


— Não, senhor, continua com as coisas que sempre

tiveram. Isto que eu trouxe para o senhor foi a Sra.

Jordanna que deixou aqui comigo ontem à noite, antes de

ir embora. Ela me disse que eram os seus preferidos e me

alertou que o senhor poderia vir direto do aeroporto e

precisaria tomar café.

Aquilo me causou um misto de felicidade e surpresa

e, por alguns segundos, minha preocupação com a

empresa desapareceu. Saboreei em silêncio meu desjejum

simples e preferido, providenciado pela minha esposa,

quase que incrédulo de como ela conseguia pensar em

tudo. No pouco tempo de casado, eu percebia como ela se

preocupava com estes detalhes. Como ela cuidava de mim

e das nossas coisas sem perder a sua própria

personalidade ou que parecesse submissão. Jordanna


tinha uma incrível capacidade de me surpreender todos os

dias com suas atitudes. Após a última torrada, recobrei

meus sentidos racionais, deixando a emoção de lado e

retomei a conversa que já deveria ter começado.

— Obrigado, Olga! Gentileza sua e da minha esposa.

Mas me conte, como foram esses dias aqui? — falei de

forma direta, pois as torradas desfocaram meu objetivo e

quase não teria tempo agora antes da reunião.

— Foram agitados, Enrico, não vou mentir para você!

A da sua esposa foi muito comentada. — Percebi

o quanto ela enfatizou a palavra “chegada”.

— Mas o que houve? Ela mudou muita coisa com o

pessoal lá de baixo? — Pessoal de baixo eram chamados

todos os nossos funcionários que ficavam nos andares

inferiores ao da diretoria, ou seja, o temido 33º andar. Eram


as nossas áreas operacionais, compostas por gerentes,

analistas, estagiários, staff etc., além de nosso pessoal de

campo que, muitas vezes, estava no prédio.

— Na verdade, pelo que sei, ela ainda não mudou,

mas estava aguardando sua chegada para apresentar

alguns projetos de mudanças para toda a diretoria e acho

que o primeiro virá da área de Recursos Humanos. Além

de um projeto confidencial que circula somente entre ela e

o Rafael.

— Rafael é o novo assistente dela, certo?

— Sim — Olga me respondeu.

— Você sabe o que pode ser esse projeto

confidencial? — perguntei, já parecendo uma senhora “fifi”

na beira de janela fofocando sobre a vizinhança.


— Não sei, Enrico. Nos arquivos da rede da diretoria

tem apenas uma pasta chamada “Projeto Confidencial” e

está protegida por senha. A única coisa que vi foi que

alguns auditores independentes chegaram para uma

reunião com a Sra. Jordanna ontem e passaram quase que

a tarde inteira com ela.

Eu já estava pensando o que minha esposa estava

aprontando.

— Como os funcionários e a diretoria estão reagindo?

— continuava com minha postura de senhora fifi.

— Os funcionários estão adorando a postura da sua

esposa. Ela é bastante acessível e, desde que chegou,

pelo menos duas vezes ao dia, desce os andares e

conversa com todos, tira um tempo para conhecê-los e

ouvi-los. Isso tem causado um grande impacto. Já a


diretoria não reagiu bem em um primeiro momento, mas

parece que estão se acostumando com o fato de ter uma

mulher os comandando.

Percebi que Olga falou com certo orgulho e

admiração e meu único pensamento foi que, na verdade,

Jordanna estava criando, em pouquíssimo tempo, um

exército proletário a seu favor. Seria impossível tirá-la do

controle sem desestruturar a companhia. Eu precisava agir

de uma maneira que essa saída partisse dela. Eu

precisava pensar.

— Obrigado, Olga! A reunião começará em cinco

minutos, então, enquanto isso, prepare os memorandos de

hoje que, quando finalizar aqui, eu já analiso e assino tudo.

— Está ok, Enrico. Você quer alguma reserva de

restaurante para almoço ou jantar hoje? Além disso,


manterá a agenda da tarde, da reunião com o financeiro?

— Não, Olga. Vou almoçar por aqui mesmo. Peça

uma salada para mim e desmarque tudo da parte tarde.

Reagende para amanhã. Preciso organizar algumas coisas

internas minhas e vou utilizar esse tempo. Obrigado!

Ela apenas me respondeu “ok” já saindo, para que os

advogados que me aguardavam entrassem para nossa

reunião.

Após eu ter duas horas de explanação da legalidade

das ações de minha esposa e não entender por que minha

avó tinha dado a ela, perguntei a eles qual seria minha

única solução para não ter que reportar tudo a Jordanna. E

a única resposta foi:

— Somente se ela assinar um documento passando a

representação das ações para o senhor. Ela manteria o


recebimento dos dividendos, mas a gestão da empresa

seria sua, como Diretor Presidente do Conselho — finalizou

o advogado, que parecia ainda mais incrédulo do que eu

que Jordanna aceitaria isso.

Eu teria que pensar em algo e, dessa vez, nem

Elleanora, nem Glória e muito menos nonna Geovana me

ajudariam. E nem poderia contar com o meu pai ou avô

também, pois a primeira coisa que ouviria de cada um

seria: eu te avisei!!

Meu único pensamento era de que deveria mantê-la

ocupada com algo que a fizesse desfocar da empresa.

Pensei em usar a casa e pedir para sua mais nova

arquiteta tomar todo o tempo dela. No entanto, acho muito

difícil que ela não conseguisse contornar isso. Eu não


parava de pensar nessa situação e evitava, inclusive, sair

da minha sala para não cruzar com ela no corredor.

Desde que cheguei de viagem, ainda não tinha

encontrado minha esposa, e ela sequer passou em minha

sala também para me cumprimentar. Muito menos para

oferecer de almoçarmos ou tomarmos um café juntos.

Eu sentia um misto de sentimentos. Queria ir vê-la,

estava com saudade, mas também com raiva daquilo tudo.

Só queria que aquela situação acabasse e tudo voltasse ao

normal, como estava há um mês. De que voltássemos a

curtir o início do casamento, no qual nossos problemas

eram apenas se levantaríamos ou não da cama para

comer, depois de transarmos gostoso. Por que ela resolveu

ser empoderada? Por que ela quer provar que consegue

gerir a empresa? A família já a aceitou. Eu não conseguia


entender e já estava com dor de cabeça de tanto pensar.

Até que veio o estalo: Bingo!!!

Já sei!!!! Jordanna irá engravidar! Hoje

conversaremos que ela precisa me dar um filho logo. Isso a

manterá longe da empresa.

Não conversamos e nem nos vimos o dia todo. Nossa

comunicação se resumiu a uma mensagem de WhatsApp,

com ela perguntando se eu tinha chegado bem e tinha feito

boa viagem, terminando com: “Estou com muitas

saudades. Não vejo a hora de sua boca encontrar a

minha”.

Ela tinha uma enorme capacidade de me bagunçar

por inteiro por dentro. Tinha passado o dia inteiro

esperando que ela entrasse por aquela porta do escritório e

nada. E aposto que ela esperou o mesmo, ou talvez não.


Devia estar ocupada com o seu trabalho. Porém me

mandava mensagens com essa e cuidava do meu café da

manhã. Um dia, Jordanna ainda me colocaria em uma

camisa de força, de tão doido que ela me deixava.

Cheguei em casa, olhei na garagem e seu carro não

estava estacionado e o Jarbas, seu motorista, transitava

por ali. Ela ainda estava trabalhando??? Eu não acreditava,

mesmo tendo enrolado para sair da Siderúrgica após as

dezenove horas para chegar depois dela.

Passados cinco minutos, escutei um barulho de

chave, até que a vi no batente da porta. Linda em uma saia

envelope preta justa e uma blusa social branca

transparente, com uma segunda pele por baixo que

realçava seus peitos por estar com uma lingerie difícil de

não notar. Além dos enormes saltos que ela nunca abria
mão. Seus cabelos estavam em um coque mal feito que

dava aquele ar jovial a ela, que me deixava enlouquecido,

com vontade de já começar a morder aquele pescoço. A

saia marcava ainda mais suas curvas, e eu só a imaginei

circulando entre aqueles velhos babões da diretoria e eles

a desejando. Fui consumido por um ciúme incontrolável.

— Você não acha que está muito sensual para um

ambiente de trabalho? — já perguntei, sem dar conta de

como eu estava sendo ciumento e mal-educado.

— Boa noite, querido! Eu estou bem e você?

Obrigada por perguntar! — ela respondeu de maneira

irônica. — Vejo que fez boa viagem e que retornou com

excelente humor.

Eu admiti imediatamente que estava sendo um

troglodita e, se mantivesse a conversa naquele tom, além


de não poder pedir um filho, era bem capaz de ainda ficar

divorciado.

— Desculpe, Anna! Só acho que você poderia

maneirar nas roupas, porque só trabalhamos com

dinossauros que parecem nunca ter visto uma mulher

bonita! Quero que você seja reconhecida pelo seu trabalho,

e não pela sua beleza — já falei abraçando-a e apertando

sua bunda! — Até porque isso tudo aqui é só meu e não

quero velho babão cobiçando.

— Você é um bobo!!! Eles podem olhar à vontade! Sei

muito bem como provar o meu valor. Além disso, não

mudarei minhas roupas por causa de homem, incluindo

você e aqueles velhos babões. Vocês que se acostumem e

saibam lidar com uma mulher linda e inteligente!


Enquanto falava, ela soltava alguns risinhos e beijava

meu pescoço, ao mesmo tempo em que eu já abria sua

blusa e abocanhava seus seios. Ela começou a gemer de

prazer. Rapidamente o assunto mudou e ela só pedia:

— Me come, Enrico! Eu estava com muita saudade

de você me comendo gostoso, meu marido! Saudade de

você enfiando esse seu pau em mim. — E eu prontamente

obedeci.

Em minutos, estávamos estirados no tapete, nus e

exaustos do amor que tínhamos feito para suprir a primeira

vez que ficávamos afastados desde o casamento.

Após o banho, pedi nosso jantar. Como teríamos que

esperar a entrega, abri um vinho e resolvi conversar com

Jordanna.
— Querida, esse nosso reencontro foi maravilhoso!

Imagina quando ele começar a render os frutos! Já consigo

ver o Enricozinho correndo pelo jardim da nossa casa.

Você está se prevenindo ou não? — Resolvi ser direto e

carinhoso. Na verdade, a ideia de ter um filho me agradava

muito.

— Eu também já imagino essa cena, meu amor! Ver

um filho nosso aqui com a gente é um sonho, mas estou

me prevenindo, sim! Sou muito nova, tenho apenas vinte e

dois anos... Além disso, acabamos de casar. Quero

aproveitar o meu marido...

E, após fazer uma pausa, ela continuou:

— E tem a Siderúrgica também, Enrico. Penso que

devemos ter nosso primeiro filho em três, quatro anos.

Você não acha?


Sua pergunta já me deu a oportunidade de falar.

Apesar de concordar que gostaria bastante de aproveitar

os cantos da casa com minha esposa, somente nós dois.

— Acho que poderíamos antecipar isso, amor! Por

que postergar tanto? Quanto mais jovem você tiver, mais

irá aproveitar com nossos filhos. A empresa não pode ser

um motivo para você adiar esses planos.

— Sabia que esse papo tinha relação com a

Siderúrgica, Enrico! — Ela levantou da mesa já quase que

ventando suas palavras.

— Não é isso, Jordanna! Porém não entendo por que

você quer assumir os negócios! Você pode me passar uma

representação e eu gerencio tudo, como sempre foi em

nossas famílias. Você pode ficar com minha mãe com


questões filantrópicas. É um trabalho lindo de se fazer, com

as ONGs da empresa. Você ia se dar muito bem.

— Enrico, em primeiro lugar, eu já estou ajudando sua

mãe nas ONGs e em outras ações sociais. Se você não

sabe disso, é porque não me pergunta aonde vou e como

foi o meu dia, pois já fui duas vezes com ela, antes de

assumir o meu cargo. Em segundo, consigo administrar as

duas coisas.

Ela já não me olhava mais nos olhos e começou a

mexer no celular. Eu precisava reverter aquela situação. Ao

mesmo tempo que queria ter o controle da empresa, sem

me reportar a Jordanna, não queria ficar brigado com

minha esposa. Era verdadeiramente apaixonado por ela.

— Meu amor, desculpe se fui insensível e não

perguntei como tinha sido seu dia quando cheguei em


casa. Simplesmente estou me habituando e, além disso,

imaginei que você estivesse focada em nossa casa. —

Tentei contornar.

— Não é isso, Enrico. Quero que tenhamos direitos

iguais. Não quero ser uma dondoca, que fica em casa

cozinhando ou no shopping, enquanto o marido fuma

charutos com velhos arcaicos que estão cuidando do que é

meu por direito. Na verdade, nosso! E, principalmente, será

de nossos filhos!

— Eu sei! Não estou pedindo para não participar! Mas

por que você precisa atuar da forma que está atuando?

Mudando tudo... eu nem fui consultado.

— Eu te peço desculpas por isso e pela forma que

agi. Deveria ter conversado sobre as ações. Não fiz porque

tive medo da sua reação. Contudo, mesmo assim, não


abrirei mão dos meus direitos. Não quero sacrificar meu

casamento por isso! Quero conciliar as duas coisas! — ela

disse, com lágrima nos olhos. Neste momento, vi que não

haveria muito o que fazer. Sabia também que a empresa

poderia ser um grande problema em nosso relacionamento.

— Eu sei, Anna! Só quero cuidar de você, da nossa

casa e da nossa família. Não quero você estressada atrás

de uma mesa, cheia de papéis, memorandos e decisões

para tomar.

— Enrico, esse é um posicionamento machista seu. E

sei que você está incomodado porque terá que se reportar

a mim dentro da empresa. Você já parou para pensar por

que sua avó... entenda bem... sua avó fez isso? Por que

ela passou as ações para mim, e não para você? E não é

porque ela te acha incompetente ou que você não sabe


gerir a empresa. Ela confia muito em você e na sua forma

de condução dos negócios. Então, me diga, por que você

acha que ela fez isso?

— Para confrontar meu avô, claro! Ela sempre foi

assim!

— Realmente, vocês homens parecem ter o cérebro

do tamanho de uma ervilha e acham que o mundo gira

apenas em torno de vocês. Por que sua avó confrontaria o

seu avô? O que ela ganharia com isso? Ela está muito

mais preocupada com os exames que ele precisa fazer de

coração do que confrontá-lo.

— Então, não sei! — disse sinceramente, por não

saber a resposta.

— Porque tanto ela, como Elle, Glória e até mesmo

sua mãe, meu querido, acham que chegou a hora desta


família mudar! De nós, mulheres, que sempre

comandamos tudo escondidas e somos as verdadeiras

responsáveis por toda a prosperidade dos Mancuso e dos

Van den Berg, sairmos de trás dos bastidores e

assumirmos nosso protagonismo.

Ela nem respirava ao discursar e aquilo me fazia

refletir cada vez mais.

— Ela apenas confiou em mim, me doando as ações

e, consequentemente, o controle total da empresa para que

eu fizesse exatamente aquilo que ela sempre quis fazer.

Poderia, inclusive, ter feito porque era competente para

isso e não pôde porque o mundo era dos machos alfa.

Você sabia que não houve um problema, uma estratégia ou

uma decisão na Siderúrgica que tivesse sido tomada pelo

seu avô sem que ele consultasse a nonna Geovana?


— Eu sei! Sempre brincamos sobre isso na família!

Que ela sempre teve a última palavra.

— Logo, Enrico, se ela quem decidia tudo, resolvia

tudo... Quem realmente comandou a empresa ao longo dos

anos? — Sabia que nessa hora eu já estava em um beco

sem saída.

— Minha avó! Ela que comandou tudo sempre.

— Então, meu querido, por que ela não pôde sentar

na cadeira da presidência? Por puro machismo social! E,

por isso, hoje, eu tenho a obrigação de representá-la.

Representar todas as mulheres das nossas famílias. Até

mesmo a Dona Carmem que, mesmo sem me apoiar,

porque ela carrega muito ainda da cultura patriarcal, torce

para que nós mulheres sejamos mais valorizadas.


— Eu entendo! Só torço para que isso não atrapalhe

nosso casamento — eu disse isso com bastante

sinceridade.

— E não irá atrapalhar, meu amor! Porém isso

dependerá apenas de nós! Precisamos ser maduros o

suficiente para sermos colegas na Siderúrgica e bons

amantes dentro do nosso lar.

Nessa hora, ela me deu um beijo apaixonado que foi

interrompido apenas pelo interfone, com o aviso de que

nossa comida havia chegado. Nós nos servimos e ela

finalizou a conversa.

— Querido, entenda que não quero ser sua chefe!

Quero apenas o melhor para o nosso patrimônio e quero

melhorá-lo com sua ajuda! Pedirei sua opinião em tudo e


com certeza tenho muito a aprender com você. Então,

faremos isso juntos, ok?

Mulheres e suas manipulações através de nosso ego.

Conhecia essa tática, apesar de que, com a Jordanna eu

parecia sempre cair. No entanto, uma certeza eu tinha: não

seria bem assim dessa vez.

Alguns dias depois, na empresa, percebi que

Jordanna estava há bastante tempo em reunião e resolvi

sondar para entender o que era.

— Olá, Rafael, como vai? Com quem minha esposa

está em reunião? Estou precisando tratar de alguns

assuntos com ela — falei, para já entender o que estava

acontecendo.

— Olá, Sr. Mancuso. Ela está em uma reunião

confidencial, mas, assim que finalizar, aviso que o senhor a


está aguardando — disse, cortando-me rapidamente.

Percebi que aquilo era, com certeza, ordem da minha

esposa.
CAPÍTULO 10

ENRICO

Logo cedo, na segunda-feira, acordei e percebi que

Jordanna já tinha saído para a empresa e aquilo me

incomodava cada vez mais. Já passaram três meses desde

que tinha assumido seu cargo na empresa e não havia

como negar que muita coisa tinha mudado – e para melhor

– dentro da Siderúrgica. Até mesmo nossos avôs estavam

reconhecendo isso.
Contudo, algo dentro de mim, algo incontrolável, não

aceitava dividi-la com mais nada, nem ninguém e também

não entendia como ela poderia preferir viver o estresse e o

esforço corporativo, principalmente de aceitação, a ficar

mais algumas horas comigo na cama.

Ao chegar ao banheiro, vi um bilhete grudado no

espelho, com apenas uma mensagem: “Saudade de seu

corpo junto ao meu! Te amo! Te vejo mais tarde”.

Tínhamos combinado um jantar para decidir nosso

destino no final de semana, no qual comemoraríamos o

aniversário de Jordanna que se aproximava. Eu estava

sem motivação, até mesmo com o provocante bilhete.

Fui para a empresa e, ao chegar lá, observei que

minha esposa estava em mais uma de suas reuniões


secretas. Já estava de saco cheio daquilo, então resolvi

interromper, mesmo com as súplicas de Rafael.

— Jordanna, bom dia. Preciso tratar de um assunto

urgente com você, poderíamos falar em minha sala? —

falei praticamente invadindo a sala de minha esposa e

presidente da Siderúrgica, me deparando com ela

gargalhando com um homem que eu mal sabia quem era.

Fiquei enfurecido.

— Enrico, bom dia. Estou finalizando a avaliação de

um relatório importante e em alguns minutos

conversaremos, ok? — ela disse, demonstrando sequer se

abalar com a situação.

Porém, abalado fiquei eu quando vi minha esposa

sentada de frente para um homem que parecia querer


muito mais do que simplesmente apresentar um relatório

de auditoria.

A cena me perturbou e devo ter demonstrado a raiva,

com os olhos vidrados e estáticos diante daquilo tudo.

Jordanna, usando uma saia preta com uma enorme fenda,

estava de pé, apoiada em sua enorme mesa, junto àquele

auditor que, propositalmente, ignorou a minha presença.

— Desculpe, não me apresentei. Eu me chamo Enrico

Mancuso, sou diretor da Siderúrgica e marido de Jordanna

— falei, fuzilando aquele homem que praticamente despia

e comia minha mulher com os olhos.

— Eu que peço desculpas, Sr. Enrico. Acabei me

estendendo demais. Eu me chamo Ricardo Vieira e sou

auditor da PBC. É um prazer finalmente conhecê-lo.


— Pelo jeito, andaram falando de mim? — debochei,

olhando para ambos.

— Sim, sua esposa comentou sobre o senhor — ele

disse cordialmente, disfarçando.

O ar da sala estava pesado e a situação estava cada

vez mais desconfortável. Eu não queria fazer papel de

ciumento sem motivo, então resolvi aguardar até que

aquela reunião acabasse e ela fosse à minha sala. E foi o

que aconteceu.

— Querido, o que era tão urgente que você não pôde

aguardar o término da minha reunião com a PBC? Estamos

finalizando uma auditoria importante.

— Jordanna, aquilo estava longe de ser uma reunião

de auditoria e apresentação de relatório. Você gargalhava


com o tal Ricardo, que estava prestes a colocar a mão dele

na sua cintura.

— Enrico, o que é isso? Que ataque de ciúme é

esse? Ricardo não estava colocando a mão em minha

cintura e muito menos dando em cima de mim da forma

que você está falando.

No fundo, ela sabia que ele estava e até gostava de

ser cobiçada, mas jamais admitiria para mim.

— Jordanna, você está há três meses com esse

sujeito, trabalhando até tarde, em almoços e jantares, e eu

mal sabia que era com esse auditor. Tente se colocar em

meu lugar. — Eu já estava fora de mim de tão irritado.

— Querido, você só está falando essas coisas porque

ele é atraente. Somente por isso está dando este ataque

de ciúmes.
— Ah, então quer dizer que você acha o Ricardo

atraente?

— Enrico, não vou conversar com você agora. Você

está parecendo um menino de cinco anos de idade. Que

papel ridículo você está fazendo.

Tive que concordar com ela e rapidamente me

recompus.

— Desculpe, querida, mas quando entrei na sala e vi

você com aquele cara, cheia de sorrisinhos, tive vontade

de dar um duplo mortal carpado e atingir um chute direto

naqueles dentes brancos e perfeitos dele.

Caímos na gargalhada, contudo ambos sabíamos que

Ricardo estava dando em cima dela e queria estreitar a

relação profissional para a pessoal. E eu tinha certeza de

que ainda iria me aborrecer muito com aquela história.


— Tudo bem. Aproveitando o assunto, preciso

conversar com você a respeito da auditoria e o que

levantamos. Precisamos agir com cautela, mas com

rapidez.

— O que está havendo? — perguntei desconfiado.

— Identificamos que há uma fraude no Departamento

Financeiro e de Contratos.

— Fraude? Isso não é possível? Como assim?

— Pelo que eu entendi, há um acordo entre o gerente

da área de Compras e o Financeiro, juntamente com os

fornecedores, para emissões de notas fiscais com valores

menores e, consequentemente, recolhermos menores

impostos.

— Entendi. — Apenas desconversei, pois, na

verdade, aquilo não era uma fraude, e sim uma prática que
vinha desde a época de nossos avôs, de maneira a burlar

os altos tributos brasileiros.

— Somente isso, Enrico? “Entendi”? — ela me

cobrou, indignada com minha falta de importância para o

assunto. Tentei disfarçar.

— Estou apenas refletindo. Pode me passar o

relatório do tal Ricardo que irei tomar as providências. —

Tentei ganhar tempo para conversar com meu avô e

resolver essa situação toda.

— De jeito nenhum. Quem irá resolver isso sou eu. —

Percebi que a situação causaria um grande problema na

empresa e na família e eu precisava agir rápido. Jamais

poderia imaginar que, em três meses, minha esposa

entraria tão a fundo nesses assuntos.


— Tudo bem. Mas, de qualquer forma, antes de

qualquer decisão, deixe-me olhar com calma este relatório

e discutiremos juntos que ações tomar. Pode ser? — Tentei

novamente ganhar tempo e evitar um caos na empresa,

junto aos colaboradores que se utilizavam desta prática

sob nossa orientação. Isso poderia gerar problemas fiscais

e jurídicos, de toda a natureza.

— Você está certo. Olhe com calma o relatório e

daqui a três dias retornamos a este assunto — disse ela,

convencendo-se e eu finalmente ganhando o tempo que

precisava.

Voltei para a minha sala e imediatamente agendei um

almoço com meu avô. O Sr. Van den Berg nunca tomou

conhecimento disso, até porque Daniel, pai de Jordanna,


nunca se interessou pelos assuntos da Siderúrgica, nem

mesmo quando trabalhava na empresa.

— Enrico, o que aconteceu de tão grave para me tirar

de casa em plena segunda-feira? Você sabe que sua avó

gosta da disciplina de nossa rotina — disse meu avô, que

já estava senil com a idade avançada. Eu evitava ao

máximo incomodá-lo com qualquer assunto da empresa,

mas esse não teria como. Eram anos de sonegação fiscal e

isso traria um prejuízo enorme para a Siderúrgica, além de

talvez desencadear uma fiscalização tributária seríssima.

— Desculpe, vovô, porém tenho um assunto urgente

a tratar. Como vocês sabem, Jordanna assumiu o controle

da empresa. Em três meses, realizou uma auditoria e

levantou todos os impostos burlados ao longo de todos

esses anos.
Resolvi jogar tudo no ventilador de uma vez.

— Como é???? Eu permiti que essa menina

assumisse a empresa porque achei que ela estivesse

apenas brincando de escritório. No entanto, ela vai acabar

conosco — falou meu avô, já vermelho de raiva. Comecei

até a me preocupar com seu coração. Ele continuou se

alterando, não deixando sequer eu responder: — Como

você não impediu isso, Enrico? Você não controla sua

esposa?

— Vovô, ela é uma menina esperta e não iria apenas

brincar. Ela já fez muitas mudanças boas e já, inclusive,

comentamos sobre isso. Porém, eu não imaginava que ela

verificaria essas coisas.

— Você não sabia que ela estava auditando a

empresa? — perguntou, já sabendo a resposta.


— Não, vovô. Não imaginei que estivesse nesse nível

de verificação — respondi, nitidamente constrangido.

— Você é um banana e se deixou levar pelas curvas

da sua esposa, não pensando mais com a cabeça de cima,

só com a de baixo. — A bronca parecia só estar

começando. — Enrico, a empresa é responsabilidade sua e

da Jordanna, então não quero saber. Resolva isso

imediatamente.

— Vovô, você implantou essa cultura e sabe muito

bem como fui contra quando comecei a trabalhar na

Siderúrgica, mas, infelizmente, fui voto vencido. Além

disso, essa história acabará chegando aos ouvidos do Sr.

Willy — tentei argumentar, ainda buscando uma ajuda

daquele velho lobo corporativo.


— Com o Willy, eu me entendo. Você se vire com sua

esposa e cuide para que esta merda não afunde a empresa

— ele disse, dando um ponto final na conversa,

levantando-se e indo embora sem ao menos pedir a

entrada para o almoço.

Quando retornei à empresa, Olga me informou que

Jordanna tinha me procurado para almoçar, então fui

procurá-la.

— Querida, desculpe, saí para o almoço mais cedo.

Tinha alguns assuntos para resolver — disse, entrando em

sua sala novamente sem bater, pela segunda vez no dia.

Minha intenção era tornar aquilo um hábito.

— Olá, Enrico. Não tem problema. Apenas queria que

almoçássemos juntos. Você almoçou sozinho? — ela disse,


meio despreocupada, o que achei estranho pelo assunto

que nos rondava algumas horas antes.

— Sim, almocei. — Preferi mentir para não levantar

suspeitas e desconversei imediatamente. — Podemos

jantar fora, o que acha? Você pretende sair tarde?

— Claro, querido. Vamos, sim. Não vou sair tarde,

não. À tarde vou apenas fazer uma ronda nos

departamentos lá embaixo.

— Então, ok. Nos encontramos às dezoito horas lá na

garagem.

— Combinado. — Saí da sala aliviado. Era o tempo

necessário para pensar e entender como contornar aquela

situação.

Como de costume, Jordanna fez a ronda e conversou

com diversos funcionários da Siderúrgica, com o objetivo


de avaliar o clima da empresa. Todos gostavam da

presença dela e reconheciam as melhorias que ela

implantava.

Até que ela chegou em frente ao setor de compras e

financeiro e chamou os gerentes para conversar, dizendo

que seu único propósito era conhecer melhor o fluxo de

processos destas áreas. Porém, na verdade, ela queria

apenas confirmar uma suspeita que a rondava há algum

tempo e foi exposta durante a auditoria. Ela só não

entendia por que o marido mentia para ela.

— Vocês já devem me conhecer e as mudanças que

venho implantando. Queria apenas entender quem passou

as orientações e decisões para as áreas de vocês — disse

Jordanna, indo direto ao ponto.


— Foi o Sr. Enrico. E quando chegamos na empresa,

tudo já estava definido desta forma, pela gestão do Sr.

Mário Mancuso. — Eles confirmaram suas suspeitas e,

exatamente por saberem que estavam agindo errado,

livraram suas responsabilidades, culpando quem realmente

deveriam culpar.

Ela precisava apenas confirmar se seu avô e seu pai

sabiam desta enorme fraude ou se os Mancuso agiram

desta forma unilateralmente.

No entanto, o que mais a incomodava nisso tudo era

por que Enrico não havia sido sincero com ela, dizendo que

sabia de tudo e que sempre foram ordens do seu avô. Ele,

inclusive, mentiu sobre seu almoço em família, logo após a

conversa que tiveram. Aquilo a tinha decepcionado muito e


a preocupava quanto às verdadeiras intenções e outras

ações dos Mancuso.

Imediatamente, Jordanna convocou uma reunião de

família com os Van den Berg e preferiu dividir com todos

sua descoberta, pois aquilo era demais para carregar

sozinha.

Falaria apenas com uma pessoa antes: nonna

Geovana.
CAPÍTULO 11

JORDANNA

— Anna, querida, tem tempo que você não aparece.

Já estávamos com saudade — falou Glória, me recebendo

com todo o carinho de sempre.

— Ando ocupada mesmo com a vida de casada e da

empresa. Porém sei que estou em falta e prometo vir mais

aqui para tomarmos um café juntas e colocar o papo em

dia — disse, já lhe abraçando e dando um beijo em sua

testa.
— O que houve? Por que convocou uma reunião de

família? Você sabe que sua irmã viajou dois dias depois do

seu casamento com aquele namorado hippie dela e sabe-

se lá Deus onde mora e quando volta. — Senti uma certa

tristeza pela falta de Elle.

— Eu sei, mas falo com ela sempre. Está tudo bem

com Elleanora. Ela merece ser feliz.

— Você está certa, sinto apenas saudade de minha

filha. Porém não criamos os filhos para nós, e sim para o

mundo. Resta apenas aceitar — disse ela, dando um

sorriso falso de quem não estava feliz com aquilo.

Nisso chegaram meu avô e meu pai e me chamaram

para o escritório. De longe, escutei Glória falar:

— Não demorem, pois já mandarei servir o jantar.


Meu pai parecia desconfortável e normalmente ele

ficava assim quando o assunto era a Siderúrgica. Ele

sempre dizia: “Prefiro falar sobre meus erros do passado a

tratar de assunto da empresa”.

Eu tinha para mim que ele desenvolveu uma aversão,

tamanha foi a pressão colocada sobre ele, para que

assumisse os negócios da família.

Passado este pensamento, fui direto ao assunto:

— Quero que ambos sejam bem sinceros comigo.

Vocês sabem de alguma fraude fiscal dentro da empresa?

Nesse momento, meu celular tocou. Era Enrico.

Quando vi, havia seis ligações. Já passava das dezoito e

trinta. Eu tinha esquecido completamente de nosso

compromisso para o jantar. Ele ainda devia estar na

garagem me esperando.
Meu pai e meu avô não estavam entendendo nada, e

aquela reunião já tinha começado errado com esta

interrupção. Pedi licença a ambos e atendi Enrico.

— Enrico, me desculpe, esqueci completamente de

nosso jantar. Estou na casa do meu avô. Vou jantar aqui.

Peça uma comida e, quando eu chegar, conversamos.

Ele simplesmente desligou o telefone na minha cara,

sem esbravejar ou reclamar. Aquilo era o cúmulo da

infantilidade e da falta de respeito. Porém, eu já não sabia

se era medo de saber que eu estava expondo o esquema

fraudulento que havia na Siderúrgica para os Van den

Berg.

Bom, eu resolveria isso depois. Voltei para o

escritório, onde encontrei meu avô e meu pai ainda

chocados com minha pergunta.


— O que houve, querida? Não estamos entendendo

nada — disse meu pai, realmente perdido naquilo tudo. E

meu avô continuou:

— De que esquema fraudulento você está falando??

Que conversa é essa, Anna? Até o dia em que trabalhei

naquela empresa não havia qualquer sinal de fraude. Eu,

inclusive, conferia todos os livros contábeis e fiscais, um a

um.

— Eu sei, vovô, é por isso mesmo que vim conversar

com vocês, pois as sonegações fiscais começaram um ano

após a sua saída. O Sr. Mancuso ainda permaneceu por

quase sete anos — eu disse, já abrindo o notebook para

mostrar os relatórios para eles.

— Daniel, você não chegou a ver a parte fiscal

durante a sua gestão? — Senti que meu avô estava pronto


para dar uma bronca em meu pai e, por isso, resolvi

interceder.

— Vovô, não tinha como meu pai ver. Só peguei

agora porque contratei uma auditoria especializada,

investiguei e conversei com alguns gerentes.

— Seu marido e o Sr. Mancuso estão por trás disso?

— meu pai perguntou e percebeu que a pergunta me

causou um nó na garganta, principalmente porque ele

sabia o quanto afetaria a família e, consequentemente, o

meu casamento.

— Sim, papai. Acredito que eles sabem deste

problema dentro da empresa — falei, sem esconder minha

decepção.

Fui verdadeira o tempo todo, seguindo o conselho da

nonna Geovana.
— E o que está pretendendo fazer, Jordanna? —

questionou meu avô, após ler o relatório e estar

nitidamente chocado com o que via. — São anos de

sonegação fiscal. Expor isso para os órgãos

governamentais será um tiro no pé, passaremos por

inúmeras fiscalizações, perderemos credibilidade em

licitações, assim como não teremos mais a confiança de

fornecedores. Além disso, perderemos licenças e ainda

teremos um prejuízo de milhões.

— Eu sei, vô. Por isso, vim aqui conversar e dividir

esse peso com vocês. Eu realmente não sei como agir

diante disso tudo. Não posso demitir os gerentes que agem

dessa forma, pois estão sob orientação dos Mancuso. Irei

criar muito risco para a empresa, não só processos


trabalhistas como também escândalos, pois eles podem

querer nos denunciar.

— Sim, com certeza. Foi muita irresponsabilidade

daquele velho colocar a empresa nas mãos de

funcionários. Sempre foi ganancioso. E olha aonde isso

nos levou — disse meu pai, demonstrando toda a

indignação que sempre teve pela forma de gestão da

empresa.

— Minha sugestão é apenas acertar os últimos dois

anos, sem levantar muitas suspeitas. Faça isso junto com o

auditor, se ele for de sua confiança, verificando que, a partir

de agora, tudo será feito da maneira correta — sugeriu

meu avô, o que prontamente concordei.

— Você está certo, vovô. É o que vou fazer.


— Jordanna, mas você deve enfrentar o seu marido e

expor a ele tudo que sabe e que a decisão de resolver é

sua, já que ele mesmo é um dos responsáveis por isso.

Você tem que estar ciente do quanto isso pode afetar a

relação de vocês — aconselhou sabiamente o meu pai.

— Eu sei, pai. E isso tem me preocupado demais

durante todos esses dias. — Minha voz já era de completa

desolação.

Após o jantar, eu me despedi de todos e, enquanto

via o caminho de volta para casa passar, repassava em

minha cabeça toda a conversa que eu teria com Enrico.

Ao chegar em casa, tinha apenas um bilhete no

espelho do banheiro dizendo: “Saí para jantar, como

havíamos combinado”. Enrico agia como um adolescente


mimado quando não atendiam seus caprichos e desejos, e

aquilo me irritava profundamente.

Tomei um banho e fui me deitar, acabei adormecendo

e não percebi a hora passar. Acordei sobressaltada com

um barulho na porta. Olhei o relógio, eram 4h. Percebi que

meu lado da cama ainda estava vazio.

Levantei devagar e chamei pelo meu marido:

— Enrico, é você? — falei, sem qualquer resposta.

Estava tudo escuro e os barulhos na sala continuavam.

Acendi a luz e me deparei com meu marido

completamente bêbado, sendo carregado por uma loira,

em um microvestido de paetê barato, que também mal

conseguia ficar em pé.

Eu não acreditava no que via, diante de tudo que já

tinha descoberto durante o dia, agora aquilo. Era demais


para mim.

— Enrico, o que é isso? — Eu ainda tinha esperança

de que ele tivesse alguma consciência do que estava

fazendo, quando ele caiu na sala do jeito que estava e

começou a dormir.

A mulher que o carregava apenas riu e, pelo menos,

teve a decência de se desculpar.

— Moça, desculpa ae... não aconteceu nada, não.

Seu marido apenas me contratou para jantar com ele e

quando vi ele já estava na segunda garrafa de whisky.

Estou indo embora.

— Como você se chama? Ele está te devendo

alguma coisa? — ainda perguntei.

— Graziella, mas pode me chamar de Grazi. Não...

não, moça. Você é legal... mas sou modelo e apenas saio


com esses ricaços para sair em revista e ficar famosa. Não

me prostituo, não.

— Tudo bem. Obrigada por trazê-lo.

— Até logo, moça. Sorte ae... — ela disse, com seu

português estranho, já dando as costas e desaparecendo

no elevador.

Do jeito que ele estava, eu simplesmente o deixei. Fui

dormir na companhia de meu coração decepcionado e

magoado, chorei bastante, pois não imaginava que aquele

homem apaixonado de dias antes, faria tudo aquilo comigo.

Eu realmente devia ser uma menina inocente que não

sabia nada sobre relacionamentos e talvez nem estivesse

pronta para isso.


ENRICO

Acordei deitado no chão da sala, completamente

amassado e sem entender bem o que tinha feito. Contudo,

algo de bom não foi para estar naquela situação. Minha

única recordação era que tinha agido como uma criança

mimada e minha esposa não merecia aquilo. Eu estava

com ciúmes e tudo que aconteceu me deixou irracional e

um completo imbecil.

Nunca vivi uma situação sem que eu estivesse no

controle e isso me deixava sem saber como agir. Só de


imaginar que Jordanna pudesse se interessar por outro, já

ficava completamente fora de mim.

Apesar do pouco tempo que estávamos juntos, nosso

amor era intenso e me transformou, aflorando o melhor e o

pior de mim. Algo que nem eu mesmo conhecia.

Eu estava envergonhado e não sabia como chegar

até o quarto para conversar e me desculpar. Sentia um

medo por não saber exatamente o que tinha acontecido e

se ela iria me desculpar. Eu estava sem saber como agir.

Além disso, sentia algo estranho, como uma intuição

de que algo não ia bem e iria além do meu vexame da

noite anterior, tornando tudo mais sério e preocupante,

principalmente com os efeitos do que aquilo poderia causar

em meu casamento.
Cheguei ao quarto de cabeça baixa, e Jordanna,

ainda deitada na cama, de camiseta e calcinha, linda e

estonteante como sempre, ouvia um podcast em seu iPad.

Ela tinha o costume de acordar cedo para realizar algum

estudo on-line e não abria mão desta rotina.

Mesmo com toda besteira que eu tinha feito, ela não

parecia o tipo de menina indefesa que ficaria na cama

chorando. Seu amor-próprio era latente e tenho certeza

que ela não abriria mão dele.

Ela mal olhou para mim, mesmo eu tropeçando em

nossa mesa de cabeceira. Eu agia como se ainda

estivesse bêbado e, na verdade, ainda me sentia meio

tonto e enjoado. Desde a minha adolescência que não

tinha um porre desses.


— Querida, podemos conversar? Sei que te devo

desculpas e preciso que você entenda que nada justifica

meu comportamento de ontem, mas estava com ciúmes e

fiquei completamente absorvido por este sentimento

fazendo besteira em cima de besteira.

— Enrico, em primeiro lugar, gostaria que você

tomasse um banho, tirasse esse cheiro de álcool do nosso

quarto e se recompusesse fisicamente para que então

possamos ter uma conversa civilizada de . — Ela,

elegante como sempre, simplesmente agiu dentro de uma

maturidade emocional invejável.

Eu mal sabia que, durante quase toda a madrugada,

ela teve o aconselhamento sábio de minha nonna

Geovana, a quem ela recorria quase que diariamente em


todos os seus dilemas e, principalmente, que a tinha

adotado como uma verdadeira filha.

— Já avisei na empresa que chegaríamos após o

almoço, então teremos toda a parte da manhã para

conversarmos e esclarecermos tudo. — Eu nem imaginava

o que estava por vir.

Obedeci a minha esposa, pois eu realmente precisava

de um bom banho para me recompor e até mesmo

organizar meus pensamentos.

Quando saí do banho, havia duas aspirinas sobre a

cama, com um copo de suco e duas torradas. Da cozinha,

eu ouvia Anna preparar sua vitamina matinal. Eu me senti a

pior das criaturas, não conseguia acreditar no que tinha

feito na noite anterior e o pior de tudo: mal lembrava de

como tinha chegado em casa.


A única coisa que sabia, era que tinha voltado para

casa de Uber, pois havia notificação do dono do

restaurante no meu celular, informando que haviam

guardado meu carro, retirando do valet e passando para a

garagem do estabelecimento.

Mas, afinal de contas, como cheguei em casa?

Enquanto me arrumava e terminava meu café, ouvi

Jordanna terminando tudo na cozinha e tratei de me

recompor e organizar minhas ideias.

— Está melhor, Enrico? — ela disse ao entrar no

quarto. Pensei em tomá-la em meus braços e acabar com

aquela situação. Esperava que ela me perdoasse e

pudéssemos nos amar na cama durante toda a manhã,

esquecendo todos esses problemas que eu causei.

Esquecendo a empresa e aquela merda daquele auditor.


— Estou, querida, bem melhor após o banho.

Obrigado por organizar nossas agendas. — Dei uma pausa

longa para sentir como ela estava reagindo à nossa

conversa e, como não obtive qualquer resposta, resolvi

continuar. — Quero me desculpar por ontem. Eu agi como

um verdadeiro babaca.

Até que veio a bomba sobre mim.

— Enrico, você acha realmente que eu me importo

com o que você faz na rua e com quem você faz? Se você

está gastando o dinheiro que deveria ser nosso com

Graziella ou Maria, pouco me importa. Só é complicado

você achar que deveríamos conversar sobre ter filhos com

este tipo de comportamento.

Eu gelei e, antes mesmo que tivesse reação, já que

ainda processava a lembrança de contratar uma das


modelos do Book Rosa (serviço de acompanhantes) para

jantar comigo, ela continuou com sua explanação.

— O que realmente quero saber é por que você

subestima a minha inteligência em relação aos negócios?

— Eu não entendi do que ela estava falando. Estava

confuso e não processava direito os últimos

acontecimentos.

— Do que você está falando, Anna? — disse

realmente sem entender.

— Não sabe, querido? Vou reavivar sua memória.

Seu almoço ontem com seu avô, logo depois de eu ter

exposto a você sobre a fraude. Sua orientação aos

gerentes para manter a prática de sonegação de impostos,

e todas as mentiras que você conta para mim dentro e fora

da empresa. Você achou mesmo que eu não sabia? Só me


fiz de boba e vi você mentindo descaradamente na minha

cara.

Eu estava completamente atordoado, pois achei que

ainda teria alguns dias para resolver isso e, na verdade,

Jordanna estava muito à frente deste caso.

— Eu posso explicar tudo. Sei que é muita coisa para

você em um dia. Mas eu não sou esse crápula que você

está imaginando — disse, quase suplicando que ela

entendesse.

Senti naquele momento que minha esposa, que tinha

tanto brilho no olhar quando me beijava, estava

decepcionada comigo e isso doía de uma forma que eu

nunca tinha sentido. Nunca me incomodei com a opinião

alheia e, na verdade, sabia que já tinha magoado e

decepcionado algumas mulheres, contudo não me


importava com isso. Só que ver a Jordanna ali na minha

frente, incrédula e não me reconhecendo, era

simplesmente uma dor dilacerante.

— Eu não quero sua explicação, Enrico. Ontem fui

jantar com meu avô para tentar encontrar uma solução

para a empresa e apenas isso. Aposto que, no almoço, o

Sr. Mário Mancuso apenas mandou você resolver a

situação e deixou toda a “batata quente” no seu colo.

Eu não tive qualquer reação, apenas fiquei de cabeça

baixa, ouvindo tudo que ela tinha a dizer, porque ambos

sabíamos que ela estava com razão.

— Enquanto você se divertia em um jantar gastando

rios de dinheiro, em vez de falar a verdade para sua

esposa sobre o problema da empresa, já que é nosso

patrimônio, colocando a mão na consciência, eu estava


arrumando a lambança dos Mancuso. Porque, Enrico, se

você tivesse falado a verdade, estaríamos os dois com

meu avô resolvendo isso, como dois verdadeiros

se comportam. Porém entendi perfeitamente qual a sua

postura diante de um problema.

— Anna, eu sei que errei demais ontem. Deveria ter

falado a verdade sobre a empresa e jamais deveria ter

contratado a modelo. Mas saiba que eu só não falei a

verdade porque fiquei com medo. Eu mesmo, quando

descobri anos atrás, não concordava com esta prática, no

entanto, erroneamente, acabei sucumbindo aos mandos e

desmandos de meu avô. — Eu respirava fundo e tentava

ao máximo escolher as palavras certas. — Em relação ao

jantar, não tenho palavras, apenas te peço perdão. Eu fui

um incompleto imbecil. Estava com ciúmes e, na minha


loucura, achei que fazendo isso te deixaria com ciúmes

também.

— Enrico, em relação à empresa, conversaremos

mais tarde sobre a decisão que tomei, e eu acompanharei

de perto cada etapa da resolução. Já em relação à sua

festinha de ontem à noite com a modelo, sinto muito, mas

não vou te perdoar por isso. Não temos nem seis meses de

casados e você já está agindo dessa forma. Imagina

quando estivermos com dez, quinze anos, com filhos e

maiores responsabilidades. É bem capaz de você colocar

uma amante dentro de casa. A Elle me contou sobre o

relacionamento aberto de vocês, porém eu não consigo

aceitar isso, então manteremos o acordo nupcial de nossa

família e, a partir de hoje, você dormirá no quarto de


hóspedes. Inclusive, quando nos mudarmos, cada um terá

a sua vida.

— O quê???? Não, Jordanna. Não é isso que eu

quero de jeito nenhum. Foi apenas um deslize, um ato

impensado... eu estava tomado pela raiva. Sei que não

justifica, mas não quero relacionamento aberto. —

Comecei a entrar em desespero, imaginando que estava

perdendo minha esposa.

— Enrico, minha decisão está tomada, peço que, por

favor, a respeite. Fique tranquilo que não te cobrarei nada.

Apenas a verdade. Vamos dar tempo ao tempo. Suas

coisas já estão no quarto de hóspedes.

Eu estava desolado e mal podia acreditar no que

estava acontecendo. Saí do quarto e deixei Jordanna


sentada sobre a cama com o olhar triste de

desapontamento.

JORDANNA

Espero que nonna Geovana esteja certa sobre o

conselho que me deu, para eu tomar essa atitude com meu

marido. Eu preferia muito mais esquecer isso tudo e

apenas passar o dia todo com ele, na cama, nos amando

para apagar todos estes problemas.

No entanto, é como ela disse: se demonstrar essa

facilidade para ele, amanhã ele fará pior.


O aprendizado dói em ambos, mas a lição aprendida

ficará para sempre.


CAPÍTULO 12

ENRICO

Praticamente, cinco semanas se passaram desde que

ficamos nessa situação. Eu e Jordanna nos falávamos

apenas na empresa, e ela acompanhava cada passo da

reestrutura da parte fiscal, realocação de função e área dos

gerentes e o acerto dos pagamentos dos impostos.

Ela, cada vez mais, demonstrava uma competência

genuína para os negócios, e eu não passava de um mero

diretor na empresa, com cargo e regalias pelo nome que

carregava.
Tudo aquilo estava mexendo demais comigo e eu

precisava dar um basta e recomeçar meu casamento do

zero. Depois, aceitar o fato que Jordanna realmente tinha

mudado a empresa e, em vez de me afastar, me juntar a

ela para fazer nosso patrimônio continuar a crescer.

Durante esse período, eu refletia e via que fui um

completo idiota em tudo. Eu iria reconquistá-la, sentia que

minha mulher estava cada dia mais triste dentro da nossa

casa.

No final de semana seguinte seria aniversário de

Jordanna, e seria nesta data que eu teria minha mulher de

volta.

Liguei para Olga e pedi para que ela cancelasse

todos os meus compromissos de sexta-feira e os de Anna

também, sem que ela soubesse e, junto com ela, armei


tudo. Chegado o dia, o motorista da empresa, como de

costume, pegou Anna para levar ao trabalho, o que ela não

sabia era que o destino seria outro.

Quando Anna chegou à empresa, Olga rapidamente

pediu que ela se dirigisse à cobertura, onde ficava o

heliporto, para que ela pudesse auxiliá-la na resolução de

um problema. Apesar de minha esposa ter achado aquilo

estranho, ela jamais negava ajuda a alguém e assim

acabou indo.

— Olga, poderia me dizer qual o problema? De

repente, eu já dou alguns telefonemas para a manutenção.

— Sra. Mancuso, mostro assim que chegarmos. —

Minha fiel escudeira já não tinha mais argumentos e

agradecia por ser apenas dois andares de elevador, o que

não daria muita oportunidade para conversas.


Quando o portão se abriu, a primeira visão de Anna

foi exatamente a minha, que a fitava apaixonadamente nos

olhos, segurando um lindo buquê de rosas e duas malas

aos meus pés, em frente ao helicóptero.

Ela caminhou em minha direção, enquanto Olga

sumia na porta, voltando para o andar da presidência. A

cada passo que ela dava, meu coração disparava em um

misto de felicidade e esperança por reconquistar minha

mulher e medo por ela simplesmente dizer NÃO.

— Enrico, o que é isso? — Sua guarda estava baixa e

o alívio começava a tomar conta do meu ser. Senti que ali

eu poderia assumir o controle da situação, no entanto,

resolvi não controlar mais nada.

Simplesmente, abracei loucamente minha esposa e

lhe dei um beijo apaixonado, que foi retribuído


imediatamente, quase que querendo dizer que ambos não

aguentavam mais aquela separação.

O afastamento parecia apenas ter nos deixado com

mais desejo um pelo outro. Eu queria despi-la ali mesmo,

mas resolvi me segurar e deixar para nossa comemoração

de fim de semana.

— Meu amor, eu estava com tanta saudade do seu

beijo, do seu cheiro, da sua pele... de você em meus

braços. Anna, por favor, me perdoa. Eu preciso de você em

minha vida, em minha cama, em tudo. Eu te amo!

Era a primeira vez que falava aquilo em voz alta e

confesso que levei um susto.

— Querido, já estava mesmo na hora de tomar a

iniciativa e fazer algo por nós... — ela disse, sorrindo e

apertando minha nuca, passando a mão em meus cabelos.


Agora me diga, para onde vamos comemorar o meu

aniversário?

— Vamos para uma ilha privativa chamada Princess

Island. Você será minha e de mais ninguém durante três

dias.

— Isso, sim, é comemoração de aniversário. Adorei!!

— ela disse, enquanto já subia no helicóptero. E lá de

dentro gritou: — Sr. Mancuso, o senhor não vem? A

propósito... Eu também te amo!

Quando chegamos à ilha, abri um champanhe para

nós e, antes mesmo de qualquer conversa, arranquei a

roupa da minha mulher e comecei a amá-la na sala de

jantar mesmo, da casa em que estávamos hospedados

naquela maravilhosa ilha.


Sobre a mesa, eu abri suas pernas e a primeira coisa

que eu queria era sentir o seu gosto que eu tanto amava.

Comecei a chupar a sua bocetinha que estava ensopada

por mim, enquanto alternava minha língua e meus dedos

dentro do seu sexo. Ela urrava de prazer e cada vez me

pedia mais. Até que a coloquei de quatro e comecei a

apreciar aquela linda bundinha perfeita me chamando.

Delicadamente, comecei a penetrá-la por trás, em um

vai e vem delicioso, sentindo o meu pênis em seu cuzinho

virgem e apertado. Gozamos juntos e caímos cansados

sobre o tapete da sala, porém ainda não completamente

satisfeitos, ela queria que eu penetrasse sua vagina não

apenas com a língua e os dedos.

Ela me queria por inteiro. Então, ela veio para cima de

mim e me chupou deliciosamente, até que se posicionou


para que eu estivesse dentro dela e ali começou a cavalgar

em mim, gritando:

— Enrico, me come gostoso. Eu não aguento mais de

tanto prazer! Me fode com força!

Aquela visão da minha Jordanna nua, penetrada por

mim, rebolando gostoso, sentindo sua boceta aberta

engolindo meu pau, me enlouquecia de forma que eu

quase não conseguia segurar meu gozo. Rapidamente,

gozamos de novo e caímos exaustos.

Subimos para tomar um banho juntos e, apesar do

cansaço, não conseguíamos manter as mãos afastadas de

nossos corpos. Ficamos horas na banheira relaxando,

enquanto nos beijávamos e nos masturbávamos

mutuamente, acariciando-nos o tempo todo.


Foram três dias incríveis, aproveitamos a praia, a

piscina, a casa e toda a ilha, mas principalmente

aproveitamos um ao outro, fazendo planos e resgatando

deliciosamente o nosso amor.

Até que, ao chegarmos em casa, havia alguns

recados para ligarmos imediatamente para Glória e Daniel.

Durante a viagem, desligamos nossos celulares e a

intenção era exatamente ficar longe de problemas, porém

parecia que eles nos perseguiam. Sendo assim, ligamos

para saber o que tinha acontecido.

— Olá, Glória, é Enrico. Como vai? Desculpe retornar

apenas agora. Viajamos no final de semana para

comemorar o aniversário da Anna. O que houve? Vimos

que havia cinco recados de vocês — falei, enquanto Anna

arrumava as malas.
— Olá, Enrico, preciso que você venha

imediatamente aqui em casa. É realmente um assunto

urgente. — Senti que sua voz estava bastante apreensiva.

— Claro, Glória. Iremos para aí agora. Mas é alguma

coisa séria? Por favor, se alguém não estiver bem ou se

tiver acontecido algo, já me fale para eu preparar a Anna.

— Não, Enrico. Ninguém morreu e nem está doente.

Porém preciso realmente de você aqui. — Achei estranha

aquela forma seca de falar, ainda mais sobre doenças e

morte. Ela nunca foi assim. E, em todo momento, apenas

pedia a minha presença, sequer mandou felicitações à

Anna. Algo de muito sério estava acontecendo.

— Estamos indo agora. Fique tranquila, em alguns

minutos chegaremos aí.


— O que foi, querido? Estou enviando mensagem

para Elle, pois ela chegaria de viagem ontem, mas parece

que o celular está deligado. O que será que aconteceu? —

Anna também começou a se preocupar e começamos a

nos arrumar apressadamente para sair.

Chegando à casa dos Van den Berg, Glória pediu

para que Anna ficasse na sala, enquanto eu e Daniel

conversávamos no escritório. Contudo, óbvio que minha

esposa não aceitou e disse que entre nós não haveria mais

nenhum segredo.

Eu começava literalmente a me preocupar com toda

aquela situação, até que vi Elle descendo as escadas e

meu susto foi tão grande que apenas senti a mão de Anna

apertar a minha.
— Mãe, conversaremos todos na sala. Não tem por

que esconder nada de Anna, sem falar que ainda não tem

nada confirmado — disse Elleanora, descendo com

dificuldade, com um barrigão enorme, parecendo que

entraria em trabalho de parto a qualquer momento.

Anna correu para ajudá-la com os últimos degraus,

enquanto eu, ainda em choque, começava a fazer contas

em minha cabeça.

Não era possível que eu não tivesse um minuto de

sossego com minha esposa e mais uma bomba fosse cair

sobre a minha cabeça.


CAPÍTULO 13

ENRICO

— Elle, o que aconteceu? Você está há praticamente

sete meses viajando e quando retorna, aparece grávida?

Na verdade, bem grávida. Para quando é o seu bebê? —

perguntava Anna, enquanto eu ainda estava em choque.

Na verdade, só havia uma pergunta a ser feita e que todos

estavam com certo medo de fazer: quem é o pai?

Tanto Glória e Daniel como os patriarcas da família

Van den Berg apenas aguardavam que Elleanora contasse

tudo que tinha ocorrido. Eu sentia um certo fuzilamento de


olhares em minha direção. Minha cabeça não parava de

fazer contas e eu sabia que a última vez que estive com

Elle poderia novamente causar uma ruptura em meu

casamento, ainda mais que teria que revelar algo em meu

passado que já havia deixado para trás.

— Minha irmã, na verdade, nós chamamos você e

Enrico aqui porque estou de quase sete meses e, pelas

minhas contas, neste período, eu me relacionei com o

Enrico e com o Felipe. — Enquanto Elle falava, eu sentia

que minha pressão ia caindo, não acreditando que aquele

filho poderia ser meu.

— O quê? Estamos casados há pouco menos de sete

meses e, antes disso, eu e Enrico já estávamos

comprometidos. Faz quase dez meses que você me

procurou para que fizéssemos a troca de noivas. Vocês me


traíram? — Eu sentia que Anna já se exaltava e começava

a ficar de um jeito que eu ainda não tinha visto.

— Calma, meu amor. Tenho certeza de que tudo será

esclarecido. Elle, onde está o Felipe? — perguntei,

tentando manter um resquício de calma que ainda habitava

dentro de mim, enquanto presenciava Anna cair no choro.

— Ele está em sua casa na Gávea. Ele não me

abandonou e estamos juntos ainda, pois ele acha que o

filho é dele. Descobri a gravidez um dia antes do

casamento e fui em nossa médica da família, que

rapidamente constatou o tempo de gestação. Por isso,

viajei e preferi manter tudo em segredo, até que eu

conseguisse gerir tudo isso. Eu não queria atrapalhar a lua

de mel e nem o casamento de vocês.

Jordanna se recuperava e começou a falar.


— Por favor, me contem exatamente como e quando

me traíram. Em seguida, você irá ligar para o seu

namorado e mandá-lo vir para cá agora. Independente do

seu estado, Elleanora, você não irá preservar o seu

relacionamento, enquanto chega aqui e despeja uma

bomba sobre o meu. Você fez tudo que queria, quebrou um

acordo de família, me usou para te substituir porque sabia

do meu interesse por Enrico e agora chega aqui e acha

que pode simplesmente resolver mais um problema entre

nós, sem afetar a sua vida perfeita? A verdade deverá ser

contada para todos os envolvidos, até que tenhamos um

teste de DNA em mãos. E caso este filho ou filha seja do

Enrico, ele assumirá da forma correta. Apenas quero saber

o que aconteceu há sete meses. — Eu admirava muito a

minha esposa pela forma que ela se posicionava, e o medo


de perdê-la novamente e definitivamente começava a me

consumir.

— Eu entendo, Anna, mas coloque-se em meu lugar,

se eu contar isso para Felipe, quem ficará sem pai nenhum

será meu filho. Ele não aceitará uma traição. Eu te suplico

para que deixe ele fora disso. — Elle chorava e Anna

estava evidentemente abalada e eu percebia o quanto

Daniel estava dividido com aquilo tudo.

— Elleanora, você enlouqueceu, só pode. E se o filho

não for de Felipe? Até quando você irá levar essa

situação? Ele não achará estranho Enrico simplesmente

dar todo o suporte? Além disso, ele terá que registrar a

criança, ou você está pensando em manter isso em

segredo na família? — Eu mal conseguia me pronunciar e

percebia que a questão estava muito além da traição,


estava na podridão de segredos e pactos que sempre

recaíam sobre a família Mancuso e Van den Berg.

— Anna, eu já pensei em tudo. Vocês serão os

padrinhos e acredito que não será preciso um teste de

DNA. Todos participaremos da vida desta criança, a

amaremos e cuidaremos dela com todo carinho do mundo.

— Você só pode ter enlouquecido, Elleanora! A

criança irá crescer no meio de uma mentira? Você sabe

muito bem o que vivemos. Vai querer isso para o seu filho?

— As palavras de Anna dilaceravam a todos, contudo era a

verdade e nossa família precisava começar a praticá-la a

qualquer custo.

— Mamãe, papai, meus avós, será que podemos

conversar apenas nós três? Acredito que isso fará muito

mal a vocês, e quando resolvermos o que iremos fazer, nós


o chamamos. — Neste ponto eu tinha que concordar com

Elleanora, a presença deles apenas piorava a situação.

Os Van den Berg saíram da sala, nos deixando

sozinhos para termos uma conversa limpa e verdadeira.

Com isso, Elle continuou.

— Você está certa, minha irmã, é preciso que a

verdade seja dita e eu começarei com a noite de

concepção de meu filho. Um pouco depois de vocês se

encontrarem e acertarem tudo sobre o casamento, eu e

Enrico nos encontramos para tomar um drink. Nós

conversamos sobre os preparativos da festa e sobre todo o

desfecho do acordo. Naquele dia, estávamos animados,

como sempre ficamos algumas vezes, e resolvemos nos

divertir.
— Elle, por favor. Há coisas que estão no passado e

precisam ser deixadas para trás — interrompi antes que ela

arruinasse de vez meu casamento.

— Deixe, Enrico. Vamos até o fim hoje. Quero saber

de tudo. — Anna estava irredutível.

— Ela está certa, Enrico. O casamento de vocês não

é mais de fachada e, para que dê certo, tudo precisa ser

dito — retrucou hipocritamente Elleanora, que não queria

envolver o namorado naquela podridão.

— Ah, então, como bem sugeriu minha esposa,

devemos chamar o Felipe, já que nenhum relacionamento

deve ser baseado em mentiras, certo? — falei, enquanto já

perdia completamente a paciência.

— Enrico, não seja infantil. A questão de não envolver

o Felipe é simplesmente para que meu filho não fique sem


um pai. Por favor. — Mesmo argumentando, não era

possível concordar naquele momento com Elleanora.

— Continue, Elleanora. Diga o que aconteceu

naquela noite — pediu Anna, revirando meu estômago do

avesso, se é que isso ainda era possível.

— Então... eu e Enrico, na época que nos

relacionávamos, éramos sócios de um clube privé.

Gostávamos de ir apenas para ver o amor livre que tinha ali

e nunca fizemos troca de casais. Porém, algumas vezes

fomos separados, porque não tínhamos nenhum pacto de

fidelidade entre nós, apenas gostávamos de estar juntos.

— Eu percebia a mudança de fisionomia de minha esposa

com tal revelação.

— Continue, Elleanora — pediu Anna.


— Naquele dia, não sei por que fomos, pois eu não

tinha intenção nenhuma de te trair e muito menos trair o

Felipe. No entanto, estávamos animados, bebemos e

combinamos que seria nossa despedida, depois de tantos

anos vivendo aquela situação que não sabíamos nem do

que chamar. Lá, você já pode imaginar o que aconteceu. —

Percebi que Elle colocou um fim, diante do nosso

constrangimento perante Jordanna.

— Inacreditável. — Foi a única palavra dita pela

minha esposa, que se levantou e começou a andar pela

sala com a mão na cabeça. — E nesse período, você já

estava com Felipe?

— Sim e não Anna. Não só com ele, mas meses

depois ele foi meu acompanhante no casamento de vocês

e acabei descobrindo ali. Por isso, pedi para viajar com ele,
de forma que na viagem eu contasse que estava grávida.

Minha barriga demorou a aparecer.

— E ele não suspeitou ou perguntou de quantos

meses você está, Elle? — Anna perguntou ainda incrédula,

parecia que algo não fechava para ela.

— Não, porque também estava com ele naquele

período. Jordanna, eu não sei quem é o pai do meu filho.

Essa é a verdade!

— Mas por causa de uma noite apenas, você acha

que pode ser de Enrico? — Anna quase gritava para tentar

entender toda aquela situação.

— Querida, não foi apenas uma noite. Até sua

chegada definitiva no Brasil, eu e Elle saímos e ficamos

algumas vezes.
— É o quê????? Você estava se relacionando com

nós duas ao mesmo tempo? — Eu sentia que estava

perdendo totalmente a confiança de minha esposa.

— Não. Não. Por favor, Anna, me escute. Nós não

tínhamos nada ainda. Eu já estava encantado com você,

mas não tínhamos nada. Depois que você chegou e

começamos a nos relacionar, eu e Elle nunca mais nos

encontramos de maneira afetiva. — Eu tentava explicar o

inexplicável.

— Então quer dizer que eu era a tábua de salvação

de vocês que morava do outro lado do Atlântico, a

marionete que comandavam para resolver o acordo dos

avôs loucos, enquanto se divertiam transando pelas

minhas costas? Para mim, já deu. — Neste momento,


Anna pegou sua bolsa e começou a caminhar em direção à

saída.

— Querida, por favor. Espera. Precisamos conversar

— eu implorava para que ela entendesse o que realmente

não tinha que ser entendido.

— Enrico, eu vou para a minha casa. Conversaremos

depois, quando eu tiver digerido tudo isso — ela disse,

virando-se para trás e dirigindo-se à irmã. — Desculpe,

mas amanhã cedo estaremos nós quatro em uma clínica

para vocês três fazerem o teste de DNA. Se você não

contar para o Felipe, eu conto.

— Anna, por favor! — implorava Elle.

— De jeito nenhum. O seu filho terá o pai verdadeiro.

Sendo um ou outro. — Anna saiu sem nem olhar para trás

e, neste momento, eu tive certeza absoluta de que talvez


tivesse acabado de ganhar um bebê, mas perdido minha

esposa.

Cheguei em casa e a porta do quarto estava fechada.

Anna conversava ao telefone e suspeitei que fosse com

sua mãe ou com nonna Geovana. De longe, era possível

ouvir seu choro de desapontamento e aquilo me corroía por

dentro, principalmente depois do final de semana

maravilhoso que tivemos.

No dia seguinte, levantei, depois de quase não

conseguir pregar o olho, e Anna já estava na sala me

esperando pronta, de óculos escuros, provavelmente para

esconder os olhos inchados. Na verdade, era eu que não

conseguia olhar nos olhos de minha esposa, tamanho o

meu constrangimento.
— Bom dia, Anna. Não tenho palavras, estou muito

chateado com isso. Só quero que você saiba que eu mudei

e não sou mais aquele Enrico. Quando realmente

começamos um relacionamento sério, eu nunca mais fiquei

com a Elle e com mais ninguém. Eu nunca te traí. — Tentei

ao máximo explicar isso a ela.

— Enrico, apenas quero saber se você, alguma vez,

foi naquele clube após o nosso casamento?

— Não. De jeito nenhum. A última vez foi com a

Elleanora.

— E como você acha que posso acreditar em você?

Suas viagens... você é libertino e não sei como poderia

mudar em meses. Será que eu supro suas necessidades

sexuais? Porque você e Elle, pelo jeito, diversificavam

bastante.
— Meu amor... eu só quero você. Você supre tudo

que preciso na cama e na vida. Por favor, entenda isso. —

No fundo, a maior chateação da minha esposa era achar

que, por ser inexperiente, eu não estava satisfeito ou feliz

com suas entregas matrimoniais.

— Tudo bem. Preciso de um tempo para digerir isso.

É muito problema caindo sobre nossas cabeças. Eu

sempre soube que nossa família era complicada, só não

imaginei que seria a este ponto.

— Eu sei e não quero que se torne um hábito o fato

de eu te pedir perdão. Apenas quero que você entenda que

eu te amo e sou um novo homem. Você me transformou...

nosso amor me faz querer ser uma pessoa melhor. Para

você e para o nosso casamento.


— Eu até acredito nisso. Mas, independentemente de

qualquer coisa, vocês me traíram e eu preciso digerir isso

tudo. Além disso, precisamos efetivamente saber o

resultado deste teste, pois, caso você seja o pai dessa

criança, muita coisa mudará e você sabe disso.

— Eu sei, Anna. Eu sei — disse, em total

desolamento e não conseguindo carregar o peso do meu

arrependimento.

— Só tem uma coisa que eu não entendi. Vocês não

se preveniam? Estamos em pleno século XXI. Tanto você,

como Elleanora poderiam ter evitado essa situação.

— Eu ontem me perguntei a mesma coisa e enviei

uma mensagem para Elle questionando isso, pois me

recordava dela estar tomando anticoncepcional. Porém ela

me lembrou que, na época, estava tomando um antibiótico


fortíssimo para conter uma crise alérgica séria que ela teve.

E a médica explicou que isso cortou o efeito contraceptivo

da pílula.

— Entendi. E você não usou camisinha? Inacreditável

os riscos que você se expõe saindo com dois ou sabe-se lá

quantos caras... se arriscando a pegar uma doença. Vocês

são completamente loucos — ela disse, já virando as

costas e pedindo para que o motorista nos buscasse para

irmos à clínica.

— Independentemente de qualquer resultado, mais

tarde quero você e Elleanora aqui em casa, quero ter uma

conversa com os dois. Estou saturada disso tudo. Você ser

o pai ou não desta criança, não inviabiliza o fato de você e

minha irmã terem me traído — Jordanna complementou,

sumindo pelo nosso elevador privativo.


Chegando na clínica, nos deparamos com Elleanora

acompanhada apenas de Glória, o que imediatamente fez

minha esposa reagir de maneira brusca.

— Elleanora, onde está Felipe? — perguntou Anna,

visivelmente revoltada. Quem respondeu foi Glória.

— Anna, querida. Entendo sua chateação e revolta,

mas dê o tempo que sua irmã precisa para conversar com

o namorado. Após este resultado, ela irá conversar. Ontem,

ela ficou lá em casa, nem chegou a ir para a casa dele.

— Glória, em respeito a esta criança, irei considerar o

seu pedido, porém, independentemente do resultado, o

Felipe não deveria ser enganado. Os Mancuso e os Van

den Berg precisam parar com esta prática de mentir. Pelo

menos, foi o que minha mãe me ensinou. Não adianta

defender a verdade apenas quando ela é conveniente para


seus interesses pessoais. — Era nítido o constrangimento

de todos perante o discurso de Anna, que defendia seus

valores.

— Você está certíssima, minha querida. Tudo será

esclarecido — encerrou Glória, enquanto cada um sentava

em uma poltrona para aguardar.

Alguns minutos depois, eu e Elleanora sumimos em

uma sala, acompanhados da Dra. Eliane e voltamos com

um simples protocolo em nossas mãos.

— Eu irei acompanhar todo o teste de vocês e

entrarei em contato assim que o resultado estiver pronto.

Conversaremos em breve — disse a médica, que percebia

o quanto aquilo estava sendo doloroso para a família,

parecendo entender o que todos nós estávamos passando.


Eu refletia sobre aquele minúsculo papel e pensava

em como ele poderia mudar completamente a minha vida.

E ainda teria que esperar dez dias para efetivamente saber

o resultado.

Nós nos despedimos em um clima péssimo e fomos

direto para a empresa. Mesmo sem cabeça nenhuma para

trabalhar, ainda havia resoluções a serem tomadas sobre o

nosso outro problema.

Chegando à noite, nos reunimos eu, Elle e Jordanna

no sofá de nossa sala e acho que a situação só não ficou

pior pela gravidez de Elleanora.

— Anna, me deixe explicar! Em primeiro lugar, me

perdoe. Nós... — iniciou Elle, sendo imediatamente cortada

por minha esposa, que não deixou nem ela terminar a

frase.
— Elleanora, com todo respeito à sua condição, nem

quero que termine suas argumentações. Primeiro ponto,

vocês me usaram. Simplesmente me envolveram no

problema de vocês porque não tiveram a mínima força

durante a vida inteira para avisar aos nossos avós e pais

que essa história de casamento arranjado era uma

insanidade, mesmo vocês querendo coisas diferentes.

Assim, para livrar a cara de vocês e para que pudessem

continuar a usufruir do luxo e riqueza das famílias, a

Elleanora pegou a otária aqui para colocar no seu lugar.

— Não foi bem assim, irmã... — Elle ainda tentava.

Eu, como já conhecia Jordanna, ia esperar ela falar tudo

que estava preso, para depois argumentar.

— Não terminei, Elleanora. Vocês foram levianos

comigo! Nada justifica vocês me traírem. Mesmo que eu e


Enrico não tivéssemos assumido um relacionamento, nós

já éramos noivos. Que cafajestagem foi essa???? Vocês

não conseguiam segurar este ímpeto de sexo ou faziam

apenas por divertimento pelas minhas costas? Depois de

terem conseguido se livrar de um problema!!

Principalmente você, não é, Elleanora?

Ela pausou, colocou a mão na cabeça, e esperamos

ela desabafar tudo. Ela estava coberta de razão e não

tínhamos o que contestar.

— Sabe o que me parece? Vocês são dois riquinhos

mimados, acostumados a usar as pessoas para se livrarem

dos seus problemas. Eu só tenho repulsa pelo que vocês

são e dou graças a Deus pela minha criação ter sido com

minha mãe e não com estes valores que vocês carregam.

Estou bastante decepcionada com vocês e, mais ainda,


com raiva de mim, por simplesmente ter me deixado

envolver nessa história toda, nessa podridão que vocês

vivem e sempre viverão e acham que, para resolver os

problemas, deve-se agir com mentiras e mais armações.

Eu cansei de vocês e suas falsidades! É a última vez que

me verão tocar nesse assunto e, sinceramente, quero

distância de ambos.

— Meu amor, vamos conversar com calma. Não tome

qualquer atitude impensada — falei, já prevendo perder

minha esposa e enfrentar um divórcio, sabendo o quanto

eu estava apaixonado. Eu já entrava em desespero, não

podia perder a Jordanna.

— Eu não sou seu amor, Enrico. Eu sou apenas um

troféu que você ostenta nos seus jantares com amigos

falsos que só querem andar com você pelo que podem


usufruir com sua influência. Sou apenas a tábua de

salvação de vocês dois. Sou apenas uma idiota que topei

entrar nessa cilada. Apenas um “burro de carga” que está

fazendo tudo pela empresa, para manter a vida boa de

vocês. Sou a irmã bastarda da Elleanora, que salvou a pele

dela, para que ela pudesse viver um grande amor e não

essa relação vazia e promíscua de vocês. Eu sou tudo isso

e mais um pouco, menos o seu amor. Se eu fosse

realmente o seu amor, você me respeitaria. Vocês teriam

colocado a mão na consciência e , teriam me

traído. Vocês são sujos e não possuem consideração por

ninguém. Apenas se unem a outras pessoas para obter

vantagem. Você está longe de sentir amor por alguém... —

ela dizia completamente transtornada, sentindo muita raiva

e repulsa por mim e por Elle. Eu estava quase tendo um


surto pela situação estar naquele ponto e eu perceber que

não teria mais como contornar.

— Anna, você é o meu amor, sim. Você me

transformou, mudou quem eu era. E tem toda razão. Eu e

Elle éramos exatamente assim, mas, hoje em dia, por sua

causa, não somos mais... Teve um dia...

— Eu não quero ouvir mais nada — falou Anna,

novamente cortando e não deixando que nos

explicássemos. — Além disso, Elleanora, chega por hoje.

Você está grávida, e eu já falei tudo que precisava. Desta

forma, peço que se retire, por favor. Nosso motorista está

lá embaixo aguardando para levá-la para casa.

— Anna, por favor... não vou insistir por hoje. Estou

realmente cansada e desgastada, e você está coberta de

razão em tudo. No entanto, pense com carinho, para


conversarmos melhor depois. E, novamente, me perdoe

por tudo — disse Elle, chorando bastante e já se

arrumando para ir embora.

— Elleanora, eu não tenho que perdoar nada. Não

sou nenhuma santidade. Só não vou desculpar vocês por

enquanto. Reflita sobre tudo que fizeram. E outra coisa,

novamente digo a você: Felipe precisa saber disso. É

inadmissível você não ter aprendido nada com tudo o que

aconteceu e continuar vivendo sua vida pautada em

mentiras e falsidades. Na verdade, é uma vergonha. Eu

repudio tudo que está fazendo com um cara tão legal

quanto ele. Coloque sua mão na consciência e coloque-se

também no lugar dele. Pense se gostaria de ser enganada

assim. Apenas reflita sobre isso.


Quando Elle saiu, ficamos apenas eu e Anna, e ainda

tentei conversar novamente.

— Anna, me escute, por favor, eu te amo demais e

não quero te perder. O que aconteceu foi um erro, mas

entenda que ainda não tínhamos nada. Eu sei que não

justifica, porém desde a primeira vez que nos beijamos, um

dia antes de nosso casamento... eu nunca mais encostei

em outra mulher. Sei que não mereço que me desculpe,

contudo me dê uma chance para provar que eu mudei, que

eu sou um novo homem graças a você e por você, porque

quero você ao meu lado... — eu suplicava.

— Enrico, não tenho como desculpá-lo e muito menos

dizer a você hoje qual o nosso futuro. Estou bastante

magoada, chateada e com raiva. Tenho muito amor-próprio


para cair no seu papinho meloso e bonito agora.

Conversaremos depois.

— Só quero que saiba que irei reconquistá-la. Não

vou desistir de você nunca. Você é o grande amor da

minha vida.

Não havia como insistir mais. Tinha que deixar Anna

digerir toda aquela história e dar tempo ao tempo. Apenas

tinha a certeza de que não iria perder a minha mulher. Eu

iria lutar pelo perdão da minha esposa até os últimos dias e

iria tê-la de volta.

Durante os dias seguintes, minha relação com

Jordanna cada vez esfriava mais e mal nos falávamos

dentro de casa. Na empresa, era apenas o essencial.

Eu tentava a todo custo conversar, mandava

mensagens, flores, mas acabava me retraindo também, já


que a espera pelo resultado me trazia uma enorme agonia.

Sabia que, dependendo do que ocorresse, tudo na minha

vida poderia mudar, pois, se aquele filho fosse meu,

Jordanna não conseguiria aceitar e conviver com tudo isso.

No dia marcado, eu e Jordanna chegamos à clínica

acompanhados de Elleanora e Glória. Nós e mais um casal

aguardávamos o resultado na recepção. O ar estava

pesado e o clima era pior do que se poderia imaginar.

Eu sabia que dando negativo, teria que reconquistar a

confiança da minha esposa e teríamos que reconstruir toda

a nossa vida conjugal. E se desse positivo, sabia que uma

nova batalha começaria, principalmente com nossas

famílias, que talvez exigissem que as esposas mudassem.

Não respeitariam os nossos sentimentos e nem mesmo os


de uma pessoa que nada tinha a ver com toda aquela

podridão familiar, que era o Felipe.

— Senhorita Van de Berg, poderia me acompanhar?

— chamou a assistente da médica, enquanto eu me

levantava junto com Elleanora para cumprir com meu

destino.

— Enrico, independentemente do resultado, eu

prometo que daremos um jeito. Sempre demos e eu farei

de tudo para que Jordanna não se separe de você. Eu sei

que a situação não está fácil entre vocês. No entanto, o

que estiver ao meu alcance, eu farei — disse Elleanora,

enquanto caminhávamos para a sala da médica.

Eu apenas acenei com a cabeça. Não tinha estrutura

para falar mais nada.


Entramos na sala e nossa médica não estava lá, e

sim um médico barbudo que não conhecíamos.

— Boa tarde! Sou o Dr. Lennon e irei passar para

vocês o resultado — disse ele educadamente, enquanto se

acomodava em sua cadeira, pegando o papel que mudaria

nossas vidas.

— Engraçado, seu nome é holandês? Eu tinha um tio-

avô distante com esse nome, mas nunca tivemos muito

contato — disse Elleanora, despreocupadamente. Acredito

que mais para tentar se acalmar.

— Onde está a Dra. Eliane? — perguntei, pois algo ali

me intrigava e eu não sabia o que era.

— Ela, infelizmente, não trabalha mais conosco, e eu

tive que assumir os seus pacientes — ele disse, sem

responder à pergunta de Elle.


Eu o observava e achava que ele estava se

comportando de maneira desconfortável. Eu só não sabia o

porquê.

— Entendo. Espero que ela esteja bem, pois me

parecia uma boa pessoa. — Eu ia continuar falando sobre

a médica, até que recebi uma cotovelada de Elle para que

eu voltasse para a minha realidade. Era que algo ali me

incomodava e eu não sabia bem o que era.

— Mas vamos ao resultado, pois imagino que vocês

estejam ansiosos — disse o médico, enquanto abria um

envelope.

— Sim, estamos bastante — disse Elleanora, quase

sem voz.

— Então, há uma compatibilidade de 99,99% de

chances de o Sr. Enrico Mancuso ser o pai do seu filho,


Srta. Van den Berg. — Enquanto o médico dizia, eu sentia

que estava começando a ter um teto preto e o chão se

abria bem debaixo dos meus pés.

Minha única reação foi baixar a cabeça e

simplesmente chorar, como um menino de cinco anos.

Enquanto Elle, já chorando bastante também, procurava

minha mão. Antes de qualquer coisa, sempre fomos

melhores amigos para tudo e naquele momento não seria

diferente. Estávamos diante de uma encruzilhada, em que

o risco de perdermos a pessoa que amávamos era

iminente.

— O senhor tem certeza, doutor? O senhor viu se

este teste é meu mesmo? — Um último fio de esperança

ainda rondava Elleanora, porém nada mais poderia ser

feito.
— Sim, senhorita. É o exame de DNA seu e do Sr.

Mancuso — ele disse até com certo constrangimento,

presenciando o nosso desespero.

Agradecemos e deixamos a sala. O corredor que nos

separava do local de espera, onde estava nossa família,

era a única coisa que tínhamos para pensar por alguns

segundos no que iríamos fazer. Caminhamos lentamente e

Elle repetia: — Nós vamos dar um jeito. Nós vamos dar um

jeito! — Eu apenas agia em modo automático.

Quando chegamos, minha mãe e nonna Geovana

também já estavam nos aguardando com Glória e

Jordanna. Minha esposa, que estava sentada de costas,

sequer se levantou, como as demais. Percebi que,

novamente, ela chorava.

— Positivo — foi a única coisa que consegui dizer.


Glória imediatamente correu para consolar Elle,

enquanto minha mãe fazia o mesmo. Já nonna Geovana

pegava minha esposa pelos braços e a tirava dali.

— Nonna, Anna. Por favor — ainda tentei chamá-las,

enquanto as duas sumiam pela porta.

Não podia perder minha esposa. Eu estava devastado

e não acreditava na ironia daquilo tudo. Eu e Elle fizemos

de tudo para não nos unirmos e o destino fez por nós. No

entanto, só pensava que não podia perder Jordanna.


CAPÍTULO 14

ENRICO

Meu telefone tocou e era a Sra. Carmem Van den

Berg. O meu primeiro pensamento foi: Não é possível que

ela não me deixará nem ter um tempo de absorver tudo

isso e já começará a nos cobrar.

Carmem Van den Berg nunca foi uma mulher de fácil

trato. Todos sempre tiveram medo dela, pelo seu porte

austero, quase que maléfico. Nunca teve bom

relacionamento com a nora, Glória, que dirá com Jordanna,

que ela considerava uma bastarda. Nem os próprios


Mancuso tinham apreço por ela. Acho que, na verdade,

sabiam que a única capaz de sujar as mãos para defender

seus próprios interesses era ela.

— Olá, Dona Carmem, boa tarde — falei,

demonstrando todo o meu descontentamento pela falta de

respeito dela com aquele momento.

— Enrico, imagino que ainda esteja absorvendo toda

essa situação, porém precisamos agir depressa. Assim,

estou convocando uma reunião de família para hoje, às

dezenove horas, na mansão Van den Berg. Seus avós e

seus pais já confirmaram presença.

— Senhora Carmem, respeito seu pedido, porém

acredito que antes eu tenha que resolver o que será feito

com Elleanora. Além disso, tenho uma esposa e eu

também preciso conversar com ela. — Sem respirar,


emendei o pedido: — Podemos marcar esta reunião para o

fim de semana? Até lá, eu, Elle e Jordanna já teremos

conversado.

— Não, não podemos. Aguardo você às dezenove

horas. Passar bem. — E, assim, desligou o telefone, sem

ouvir qualquer outro tipo de argumentação que eu pudesse

ter.

Era inacreditável como nossas famílias achavam que

tudo deveria ser resolvido com uma assembleia, não se

importando com as pessoas envolvidas e os sentimentos

alheios. Eu, na verdade, nunca me importei com isso,

contudo, hoje, isso cada vez me trazia mais repulsa. Tentei

ligar para Anna e para nonna Geovana e nenhuma das

duas atendia. Então, resolvi ligar para Elle.


— Oi, como você está? — perguntei, mesmo ouvindo

o choro do outro lado da linha.

— Péssima, Enrico. Essa criança não merecia que

sua mãe sofresse tanto e passasse isso para ela.

— Nesta confusão, eu nem te perguntei: você sabe se

é menino ou menina? — No fundo, eu já tinha amor por

aquela criança, independentemente do resultado,

principalmente pela nossa história juntos, de amizade e

companheirismo.

— Sim, é um menino. Eu não quis falar antes porque

sei que você sempre brincou que seu primeiro filho seria

um varão Mancuso. — Eu já estava chorando neste

momento.

— Eu sei. Precisamos, acima de tudo, preservar

nosso filho agora — eu disse, tentando consolá-la. — E o


resto, nós iremos resolver. Precisamos apenas conversar

com Jordanna e Felipe.

— Eu nem sei como conversar com Felipe, Enrico.

Estou apavorada. — Eu não sabia o que responder para

ela e resolvi perguntar logo da reunião.

— Você está sabendo da reunião de família hoje, que

está sendo convocada pela sua avó?

— Sim. Eu ainda tentei argumentar que não era o

momento, mas não teve jeito.

— Eu também. Ela simplesmente desligou o telefone

na minha cara.

— Nossos avós vivem em outra época. Nós vamos,

ouvimos e faremos tudo diferente amanhã. Não se

preocupe.
— É, pode ser. Vou tentar achar minha esposa para

conversar com ela.

— Está bem. Beijos e até mais tarde.

— Até — eu me despedi desolado, acabando com

minha última esperança de não ter que enfrentar esta

reunião familiar.

Cheguei em casa e vi que algumas coisas estavam

faltando, procurei por Jordanna e suas roupas e itens

pessoais, como malas, tinham sumido. Liguei para ela e só

dava caixa postal. Então, liguei para a minha avó.

— Oi, Enrico! — atendeu minha avó.

— Nonna, a senhora está com a Anna? Ela saiu de

casa e não a acho em lugar nenhum.

— Sim, querido. Estou com ela, sim. Não na casa da

Barra.Ela está em nosso apartamento do Leblon. Dê um


tempo para ela. Depois vocês conversarão.

— Nonna, acredite em mim. Eu mudei. Eu não traí

Jordanna. Eu a amo — eu lhe disse, em súplica.

— Eu sei, Enrico. Sei disso, e Jordanna também

sabe. No entanto, há muitas coisas envolvidas. Você já

deve estar sabendo da convocação de reunião da

Carmem, não é?

— Sim, estou sabendo, nonna.

— Então, ela excluiu sua esposa. Você sabe muito

bem que ela nunca aceitou este casamento.

— Ela não chamou a própria neta??? Mesmo

sabendo que ela está tão envolvida nessa história como

qualquer pessoa e está sofrendo como todos nós.

— Querido, entenda... para Carmem, Jordanna não

passa de uma bastarda. Ela não é neta e essa história


toda, para ela, está sendo um banquete de soluções.

— Nonna, eu não aguento mais a podridão de nossas

famílias. Nos últimos dias, tenho tido inúmeros problemas e

isso tem me afastado demais de Jordanna. Eu não sou

mais aquele Enrico manipulável e filhinho de papai. Meu

amor pela minha esposa me fez mudar.

— Eu sei, meu neto, e será isso mesmo que

fortalecerá vocês. Mas antes, deixe que sua nonna irá

resolver algumas coisas e entender bem os próximos

passos.

— Tudo bem, nonna. Por favor, cuide de Anna. Nós

só temos a senhora neste momento — eu disse, já

bastante emocionado.

— Estou cuidando, meu neto. Fique tranquilo. E hoje

à noite, estarei ao seu lado.


— Obrigado, nonna. Até mais tarde.

Chegamos à mansão dos Van de Berg e a penumbra

do casarão já preparava a cena para o que estava por vir.

Cheguei junto de meus pais e, logo em seguida, chegou o

carro de meus avós, assim foi possível que entrássemos

todos juntos.

Então, a Sra. Carmem começou seu efêmero

discurso:

— Boa noite, querida família! Agradeço a presença de

todos. — Ela iniciou, sendo rapidamente cortada pela

própria neta.

— Não tivemos opção, não é mesmo, vovó?! —

retrucou Elleanora, que mal conseguia sentar na poltrona,

diante da enorme barriga que apontava e parecia quase de

nove meses.
— Seremos breves em virtude do desconforto de

minha neta, e sabemos muito bem como é cansativo para

uma mulher no final da gestação. — Ela parecia ignorar

qualquer falta de concordância sobre aquilo e manteve a

pose que carregava. Porém, foi a minha vez de

interromper.

— Sra. Carmem, antes de iniciarmos, não seria

prudente que Jordanna participasse desta reunião? Até

porque ela é minha esposa legítima e está sofrendo como

todos os envolvidos — eu disse, com bastante tom de

revolta.

— Não, Enrico. Jordanna não está presente,

exatamente, porque ela não será mais parte integrante

desta situação. Peço, inclusive, que vocês não me

interrompam para que possamos concluir nossa decisão.


Por dentro, eu tinha vontade de sair correndo dali.

Como eles poderiam falar “nossa decisão”? O filho não era

deles e eles sequer se importavam com o sentimento de

qualquer pessoa. Mais uma vez, tudo não passava de

interesse.

Até que ela despejou a grande bomba sobre nós:

— Eu, Willy e seu avô Mário consultamos nosso

advogado e vimos que é cabível a anulação do seu

casamento com Jordanna, e esta será a nossa decisão,

visto que este matrimônio apenas ocorreu para que vocês

cumprissem parte do acordo. Por fim, assim que a

anulação ocorrer, você e Elleanora se casarão, mantendo

esta família unida, dando o devido lar para esta criança,

como sempre fizemos. Honramos com todos vocês, então


chegou a hora de vocês honrarem com esse Mancuso/Van

den Berg que está vindo ao mundo.

— O QUÊ? QUE ABSURDO É ESSE QUE ESTÃO

DIZENDO? Como assim anular o meu casamento? Vocês

ficaram completamente loucos? Eu nunca irei concordar

com isso e nem permitirei que tomem decisões por mim. E

eu consumei há muito tempo o meu casamento, o que

arruína qualquer intenção de vocês de anularem meu

matrimônio com Jordanna. E antes que sugiram outro

absurdo, não pretendo me divorciar da mulher que eu amo

— eu já berrava e me descontrolava com todos, até que

nonna veio me segurar pelos braços, fuzilando meu avô

com o olhar.

— Isso não é possível. Vocês não podem tomar essa

decisão por nós. Não têm o direito — falava Elle, enquanto


se levantava e subia as escadas, retirando-se da sala. E

concluiu: — Essa reunião acabou. Na verdade, pode me

tirar dessa família porque vocês me enojam.

Glória ia atrás dela, ajudando-a a subir as escadas, e

eu a ouvi dizer: — Nonna Geovana está resolvendo. Fique

calma que há uma solução, você verá.

Enquanto isso, olhei para nonna, que ainda estava de

braços dados comigo. Ela apenas me fitou e disse bem

baixinho: — Fique quieto. Tenho uma carta na manga.

— Mário, vamos embora. Em casa, conversaremos.

Inclusive, com Enrico. Vamos! — ela disse, já se dirigindo à

porta, sem sequer olhar para trás e se despedir de alguém.

Meus pais seguiram minha nonna, mas, para a minha

decepção, não foram a meu favor, como sempre. Nunca

tomaram partido. Era cômodo viver com o luxo, em cima do


muro. Já Daniel seguia Glória, atrás de Elleanora, apenas

dizendo que apoiaria a filha a qualquer custo.

Chegamos à mansão Mancuso e, no jardim mesmo,

comecei a discussão.

— Vô, como você pôde ter apoiado a Dona Carmem

numa decisão maluca dessa? Como o senhor pode querer

que, simplesmente, joguem Jordanna no lixo, como se não

tivéssemos sentimentos?

— Enrico, há cinco semanas, você veio me procurar

dizendo que ela estava mexendo onde não devia dentro da

empresa. Você sabe muito bem que ela não irá parar em

apenas um formigueiro. Ela só ficará contente quando

mexer no verdadeiro vespeiro e eu não vou permitir.

— Quer dizer, então, que tudo isso foi apenas para

tirar Jordanna da Siderúrgica? Uniu os seus interesses aos


daquela bruxa para preservar o seu mau-caratismo de

anos?

Eu sabia que estava passando dos limites com meu

avô, porém eu não tinha condições de parar. Até que minha

avó intercedeu.

— Mário, de tudo que já passamos nessa vida e sei

que não há segredos entre nós, essa foi a pior coisa que

você já fez.

— Geovana, há muita coisa na Siderúrgica que

aquela menina não precisa ficar se metendo. Se eu não a

parasse agora, quem iria pará-la?

— Acho que você está esquecendo apenas de um

detalhe. Mesmo se separando de Enrico, ela detém a

superioridade de ações, logo, ela vai se manter na


empresa. Inclusive, este sempre foi o meu conselho para

ela.

— Ela não teria por que ficar na empresa com o

casamento anulado. Voltaria para Nova York e nos deixaria

em paz. — Aquele velho lobo não sabia como eram as

mulheres de hoje em dia, definitivamente.

— Mário, você acha mesmo que, com o feminismo

em voga, uma jovem brilhante como Jordanna iria largar o

futuro profissional e seu próprio patrimônio por conta de um

coração partido? Até porque não há apenas Enrico no

mundo. Ela é uma mulher atraente e terá o marido que

quiser aos pés dela, que não venha com essa família

insana que Enrico carrega.

Aquilo me causou um nó na garganta e eu tinha de

concordar que ela estava certa. Jordanna nem merecia


passar por aquilo tudo, qual mulher não optaria por ter uma

vida tranquila, sem todos estes problemas?

— Geovana, vou tomar o meu remédio porque não

estou me sentindo bem — disse meu avô, que já entrava

em casa com a mão no peito, como se estivesse realmente

sentindo dor.

— Mário, sei muito bem que isso é fingimento. Pelo

menos, você já me ouviu. Durma hoje no quarto de

hóspedes, porque meu neto irá dormir comigo.

Na manhã seguinte, depois de apagar com um

calmante que minha avó me deu, acordei com nonna me

dizendo que tinha algo que precisava ser conversado.

— Querido, eu resolvi deixar a poeira baixar e

também ver até onde a Carmem iria com essa história

toda. No entanto, estou com uma certa desconfiança e


acredito que tenhamos que agir o mais breve possível, em

segredo. Inclusive, pedi para Elle não conversar com o

rapaz que ela namora antes de termos certeza de tudo.

— Nonna, do que a senhora está falando? Acho que

esse calmante me deixou um pouco lesado. Eu não estou

entendendo nada — disse, já pensando em tomar uma

xícara de café para tentar colocar meu cérebro para

funcionar.

— Enrico, raciocine comigo. Tanto Carmem, como

seu avô tinham interesses em comum nessa resolução. Na

verdade, a gravidez de Elle foi a oportunidade perfeita para

eles agirem.

— Mas como assim, nonna? Agirem como?

— Então, no dia que você e Elle foram à clínica fazer

o teste de gravidez, Carmem telefonou para o seu avô e


disse que precisava encontrá-lo pessoalmente. Eles

marcaram no restaurante da praia que frequentamos

sempre, e pedi para que o Manoel, o nosso garçom,

ficasse de olho para mim sobre o que conversavam.

— A senhora o quê? Meu Deus... o FBI está

perdendo uma grande detetive. — Eu não tive como não

brincar nessa hora, diante de tudo aquilo.

— Pare de brincar, menino, e me deixe continuar.

Essa pode ser a salvação de vocês — ela ralhou comigo,

como eu se tivesse apenas sete anos.

— Desculpe, nonna.

— Voltando... Manoel me disse que eles falavam

sobre paternidade, casamento e netos. Além disso,

Carmem pedia dinheiro ao seu avô.


— O quê??? — A história estava ficando sinistra

demais. Eu não podia acreditar. — A senhora tem certeza

disso?

— Então, Enrico... Nos dias seguintes, Mário fez um

saque de um milhão de reais de nossa conta do exterior e

fez telefonemas do escritório, sempre de porta fechada,

coisa que não ocorre há anos. Além disso, por duas vezes,

nossos advogados foram consultados sobre a transferência

de ações da Siderúrgica.

— Mas a senhora acha que o dinheiro é para quê? —

Eu me sentia dentro de um filme e não podia acreditar no

que estava ouvindo.

— Eu ainda não consegui amarrar a parte do dinheiro,

meu neto. Até agora não descobri se ele apenas deu para

Carmem, para que ela armasse todo aquele circo ontem,


ou se era para comprar pessoas para anular o casamento

e a transferência de ações.

— Eu não consigo acreditar. Só sei que precisamos

agir rápido — falei, já listando em minha mente tudo que eu

precisava fazer.

— Sim, querido, e, por isso, nós vamos fazer a nossa

própria reunião. Somente eu, você, Jordanna, Glória e Elle.

Assim como foi quando você e Anna estavam para casar.

Nisso, o telefone tocou e era Glória.

— Enrico, a Elle está passando mal. Acho que devido

a todo esse estresse, o bebê vai nascer. Estamos indo para

a Hospital São José — ela disse ofegante, nitidamente

correndo.

— Estou indo para lá — falei, enquanto já me

arrumava e pedia para nonna também se arrumar:


— Nonna, Elle passou mal e está entrando em

trabalho de parto. Vamos correndo para lá.

Eu parecia estava vivendo uma outra realidade e

tinha momentos que me faltava o ar, de tanta coisa que

acontecia ao mesmo tempo.

Quando chegamos, Elle já estava na sala de cirurgia,

sendo preparada para uma cesárea. Ninguém conseguia

contato com Felipe, que estava na África do Sul e voltaria

somente na semana seguinte. Restava-nos apenas

aguardar novamente na sala de um hospital. Até que uma

enfermeira perguntou sobre o pai e eu me apresentei, com

certo constrangimento. Ela perguntou se eu queria

acompanhar, pois o estado de Elle já era estável.

Eles me arrumaram e, em poucos segundos, eu

estava ao lado da minha melhor amiga, que sofria para


trazer nosso filho ao mundo. Eu só pensava em Jordanna

neste momento e imaginava o quanto, nestas últimas

horas, ela tinha ficado jogada em um canto, sem que até

mesmo eu conseguisse falar direito com ela. Isso me doía

o coração. Eu me sentia frustrado, um homem

completamente inútil e de mãos atadas, sem poder lutar

pela mulher que eu amava diante do mar de lama que eu

me encontrava.

Rapidamente, tiraram nosso bebê que ainda

precisava de cuidados. A emoção era enorme e eu não

sabia descrever tudo aquilo por que eu passava nos

últimos dias. Elle foi transferida para o quarto e, após

conhecerem o bebê pelo vidro, todos foram embora,

ficando apenas minha nonna e Glória. E no quarto do


hospital mesmo, horas após a cesárea de Elle, começamos

nossa reunião.

— O que a senhora está me contando, nonna?

Quando me disse que tinha uma carta na manga, eu não

imaginei que seria algo tão inescrupuloso — disse Glória,

atordoada após vovó contar toda a história que ela tinha

me dito logo cedo, pela manhã.

— Sim, minha querida. Há muita podridão debaixo

dos tapetes dos Mancuso e dos Van den Berg. Nós

precisamos apenas descobrir o motivo do dinheiro e, com

isso, desmascarar aquela bruaca da sua sogra. — Nonna

Geovana sempre foi uma mulher à frente do seu tempo, até

mesmo no momento de perder a compostura.

— Precisamos conversar com Jordanna. Eu tentei

ligar para ela agora há pouco, mas acho que ela bloqueou
o número do meu celular — disse, demonstrando todo o

meu desolamento.

— Já falei com ela, meu neto. Mais tarde, nós

passaremos lá. Eu e você. — Como sempre, nonna me

salvando.

Continuamos ainda alguns minutos confabulando e

pensando juntos numa forma de resolver toda aquela

situação. De repente, a enfermeira entrou no quarto,

levando o bebê para que ele fosse amamentado.

Por alguns segundos, tivemos uma leveza no

ambiente ao vermos aquele anjo indefeso nos braços de

Elle, até que a manta que o enrolava caiu, mostrando uma

grande mancha na perna esquerda. Eu chamei a atenção

das mulheres da família.


— Elle, essa ,mancha no corpo do bebê te lembra

alguma coisa?

— O quê? Mamãe, olhe aqui, por favor. Levante ele

para mim — ela pediu, já que mal podia se mexer pelos

pontos da cesárea que estavam recentes.

Na mesma hora, nonna Geovana me mandou tirar a

calça, e eu sem entender nada pensei que ela estivesse

louca.

— Que isso, vovó...

— Tire a calça agora, Enrico. Esta marca na criança

pode ser hereditária — ela já quase gritava, nervosa e em

êxtase ao mesmo tempo.

— Não precisa, Enrico. Nonna, eu sei que marca é

essa e não é de Enrico. O Felipe tem uma igual — disse

Elleanora, enquanto Glória e nonna Geovana ficavam


completamente pálidas, e eu, como sempre, já não tinha

qualquer reação.

Após alguns segundos, minha nonna falou:

— Sabemos, então, qual o destino do dinheiro.

— Claro!!! — eu disse, sem nem verbalizar o que meu

pensamento concluía. — Elle, você lembra que quando

chegamos à clínica, fomos atendidos pela Dra. Eliane e,

quando voltamos para pegar o resultado, já era aquele

médico com nome holandês? Eu sabia que ali tinha algum

problema. Eu sentia isso.

— Sim, Enrico. Eu lembro, sim — disse Elle,

demonstrando exaustão já com aquilo tudo, porém

esperançosa com esse novo desfecho.

Minha avó que acompanhava tudo matou a charada.


— Vejam bem. Carmem, vendo essa oportunidade,

pagou um médico para fazer a troca do teste de

paternidade para que desse positivo. No entanto, ela não

conseguiria subornar qualquer médico. Provavelmente,

arranjou um de sua confiança e, com o dinheiro que Mário

arranjou, pagou pela troca do resultado. Querido, me dê o

telefone da clínica — pediu nonna, já pronta para agir e

fechar todo o cerco.

— Está aqui o cartão deles, vovó.

Imediatamente, estávamos em viva voz com a clínica

do teste.

— Olá, boa tarde. Eu sou uma paciente da Dra.

Eliane e preciso muito conversar com ela sobre o resultado

de um exame — disse minha avó, tentando obter a última

prova que faltava.


— Senhora, vou passar o celular dela, pois ela não

trabalha mais conosco — disse a atendente, a qual em

seguida forneceu o número.

Neste momento, Glória já estava ligando para a

doutora que prontamente nos atendeu.

— Olá, Dra. Eliane, aqui quem está falando é Glória.

A senhora está podendo falar?

— Sim, estou, sim. Mas já nos conhecemos? Você é

minha paciente?

— Na verdade, não eu. Minha filha foi sua paciente há

umas duas semanas, quando estava realizando um teste

na clínica onde a senhora trabalhava.

— Entendo, porém não trabalho mais lá.

— Sim, eu soube e é exatamente por isso que estou

te ligando. Sem querer ser indelicada, o que ocorreu para


se desligar do local?

— Desculpe, são assuntos internos e não posso

passar essa informação.

— Eu que lhe peço desculpas, mas ocorreu algo

muito chato. O teste do meu neto, de paternidade, deu um

resultado e temos quase certeza que o pai é outro. E nossa

certeza parte da genética.

Imediatamente, ouvimos um suspiro e percebemos

que algo estava estranho, quando a Dra. Eliane fez a

seguinte pergunta:

— Como se chama sua filha, Sra. Glória?

— Elleanora Van den Berg.

— Eu preciso desligar. Desculpe. Sinto muito pelo que

ocorreu e por sua família. — O tom era de completo

desespero e sabíamos que tinha algo muito errado.


— Por favor, não desligue. Precisamos saber o que

ocorreu. Isso está afetando a vida de muitas pessoas.

Inclusive do meu neto, que nasceu prematuro diante de

todo o estresse que minha filha passou.

— Por favor, vou confiar na senhora, pois também

sou mãe. Mas será a primeira e última vez que nos

falamos. Além disso, negarei até a morte que essa

conversa ocorreu.

— Pode confiar em mim, Dra. Eliane.

— Alguns dias depois do teste, um homem entrou em

meu consultório dizendo ser da família de vocês, com uma

mala de dinheiro, pedindo para que o resultado fosse

apenas um, positivo para o Sr. Enrico Mancuso. Eu neguei

e o expulsei da sala. Ele, simplesmente, me disse que eu

me arrependeria daquela decisão e saiu. Algumas horas


depois, fui comunicada pelo RH da clínica que estava

sendo desligada por uma reclamação, que já havia,

inclusive, um médico para me substituir. Eu sabia que

aquilo tinha relação com a família de vocês.

Imediatamente, procurei o jurídico da clínica e contei tudo

que aconteceu e parecia que todos estavam comprados,

pois o advogado disse que, se eu repetisse aquela história

novamente, eu seria processada e ainda cassariam meu

CRM. Fui embora sem nem olhar para trás e segui o

conselho de não falar mais daquele fato. Eu sou divorciada

e tenho uma filha para criar. Não posso ter problemas para

mim.

— Eu entendo e lamento demais tudo isso. Tenha

certeza de que tentarei achar um jeito de ajudá-la. Nem

todos da família Mancuso e Van den Berg são iguais.


— Obrigada, mas prefiro ficar longe de pessoas como

essas. São os ricos que acham que compram tudo.

— Eu que agradeço. De qualquer forma, você será

recompensada por tanto mal que lhe fizeram.

Eu estava em completo choque. Na verdade, todos

nós estávamos. Não acreditávamos em quão baixo meu

avô e Dona Carmem tinham ido para conseguir o que

queriam.

Quando vi, minha avó estava no telefone com

Jordanna e contava tudo para ela, que parecia estar tão

perplexa quanto nós do outro lado da linha.

Ali mesmo, contratamos um teste de paternidade em

segredo e, quando tivéssemos a verdadeira e última prova

na mão, daríamos o próximo passo. E o mais importante,

eu teria minha esposa de volta.


CAPÍTULO 15

ENRICO

Durante os dias seguintes, documentamos tudo e

montamos um dossiê, para confrontar nossas famílias da

maneira correta. Em paralelo, víamos Dona Carmem e meu

avô comemorando e gozando de felicidade.

Jordanna simulou um afastamento da empresa,

inclusive falando diretamente com ele, alegando que

estava estressada, dizendo que nos próximos dias passaria

todas as ações para mim, desde que ela ficasse com nossa

casa. E ele, claro, prontamente aceitou.


Até que chegou o dia de nós dois conversarmos,

antes do grande desfecho.

— Anna, sei que errei demais e esses últimos dias

sem você, enfrentando tudo isso, têm sido um verdadeiro

martírio para mim. Sei que você tem toda razão de estar

chateada, mas eu sou e quero ser um novo homem para

você — eu disse para, logo em seguida, fazer algo que

nunca em minha vida tinha feito. — E lhe suplico perdão!

— Enrico, eu já o perdoei. Na verdade, durante todo

esse tempo, tenho conversado com as verdadeiras

mulheres da família, até mesmo com Elle, de quem eu

estava com muita raiva e entendi tudo que aconteceu. Sei

que não estávamos juntos naquele período. O que eu não

consigo entender é por que tanta mentira. Eu sempre fui


verdadeira com você. Por que você não consegue fazer o

mesmo comigo?

— Eu sei e eu quero ser verdadeiro com você. Por

isso, estou lhe entregando um relatório com todas as

práticas erradas que existem na empresa. Em todas elas

eu tive participação e conhecimento e assumo que fui um

verdadeiro fraco por nunca ter enfrentado o meu avô e ter

feito o que realmente era certo.

— Obrigada, Enrico. Isso é muito importante para

mim. Se há algo mais que eu precise saber, por favor, me

diga.

— Não, meu amor. Não há mais nada. Trouxe até as

faturas do cartão de crédito para você ver que, desde que

começamos a nos relacionar, eu nunca mais paguei o

clube privé. Eu nunca traí você, nunca.


— Poderia muito bem ter pago em dinheiro, enfim..

Nos encontraremos quando eu achar que estou pronto

para conversar com você. Por enquanto, prefiro ficar

quietinha no meu canto.

— Tudo bem, meu amor. Concordo em esperar o

tempo que for necessário.

Na verdade, o que eu não sabia era que minha linda

esposa estava armando um grande reencontro para nós, e

isso seria um grande refresco para os dias de tanto

estresse que tivemos nos últimos tempos. Até porque viria

muito mais por aí, quando desmascarássemos toda a

família.

Alguns dias depois, fomos buscar o verdadeiro

resultado de paternidade, conseguindo a última prova da

falcatrua de meu avô e Dona Carmem. Como


esperávamos, o teste deu negativo. A criança era

realmente de Felipe.

Apesar de não termos mais nenhuma dúvida sobre a

paternidade e todas as provas nos levarem a este

desfecho, sabíamos que precisávamos ter tudo em mãos,

pois era bem capaz de ambos alegarem terem sido

enganados também.

Após nascer, o bebê de Elle e Felipe, o pai chegou de

viagem. Acertamos que não havia necessidade de toda

essa história ser levada a ele. Inclusive, foi um momento de

muita alegria, já que teremos um casamento em breve.

Mas esse será o nosso segredo, por enquanto, até que

tudo esteja resolvido.

Quem convocou a reunião dessa vez fui eu, entrando

em contato com cada membro da família e agendando para


as dezenove horas, na mansão Mancuso. Olga fez questão

de frisar com cada um que o motivo da reunião era única e

exclusivamente para falar da nova criança da família, o

novo enlace matrimonial e o comando da Siderúrgica.

No dia combinado, todos chegavam para a reunião e

eu e minha avó aguardávamos na sala, enquanto meu avô

se preparava para descer. Tínhamos preparado alguns

aperitivos e havia também algumas garrafas de Dom

Pérignon, de maneira de que todos comemorassem um

grande noivado.

Todos iam se acomodando na sala da mansão e era

visível que tanto Dona Carmem como meu avô estavam

totalmente satisfeitos e felizes, brindando constantemente.

Até que eu dei início à reunião.


— Bom, em primeiro lugar, quero agradecer a

presença de todos e peço que ergam suas taças, já que

gostaria de brindar a chegada do novo membro da família

Van den Berg: Caio, nosso pequeno que já enfrentou

adversidades em sua vida e, como um guerreiro, saiu

vitorioso.

— Viva!!! Muita saúde para o nosso pequeno Caio! —

todos falavam.

— Em segundo lugar, gostaria de anunciar o

casamento de Elle com seu amado Felipe Torres!! — Dona

Carmem engoliu a seco o champanhe e, antes mesmo que

tivéssemos uma cena, emendei em novo anúncio. — E

para este novo brinde, gostaria de anunciar uma nova era

na Siderúrgica, com a gestão de minha adorável esposa

Jordanna Mancuso. Juntos, começaremos a construir


novos valores para a empresa, com práticas em

conformidade com a legislação e a ética.

Neste momento, Jordanna entrou linda na sala, em

um vestido branco que sempre lhe dava um ar de

superioridade, caminhando pelo salão com dois dossiês na

mão. Um da empresa e outro de nossa família.

Dona Carmem chegou a levantar e, antes que

começasse a esbravejar, Daniel a segurou pelo braço e

disse: — A senhora só irá falar quando Enrico terminar. O

mesmo ocorreu com meu avô, que rapidamente foi contido

pela minha avó. Ambos foram tão firmes, que percebemos

que tudo aquilo levou à mudança de postura de todos os

membros da família, que ansiavam por uma nova cultura e

uma nova forma de viver, sem aquele patriarcado e

autoritarismo. O primeiro baque foi meu casamento com


Jordanna, quebrando alguns paradigmas, e agora estava

sendo exatamente aquele momento.

Em seguida, passei a palavra para a minha esposa.

— Boa noite a todos. Como sabem, estou há quase

sete meses gerindo a companhia e, assim que entrei,

observei que havia alguns itens que não estavam em

conformidade com as boas práticas legais e principalmente

a ética dentro da Siderúrgica e, juntamente com meu

marido que tem uma excelente capacidade de gerir crises,

montamos um time com advogados, contadores,

tributaristas, financistas, entre outras pessoas para realizar

os acertos. Entraremos em uma nova era dentro da

empresa e contamos com a ajuda de todos da família que

queiram contribuir.
— Vocês ficaram completamente loucos. Vocês vão

destruir a empresa — esbravejava meu avô, que devido a

idade avançada não conseguia mais ter força para gritar

tanto. Ele foi completamente ignorado por todos, porém foi

respondido por quem deveria ser.

O Sr. Willy se pronunciou:

— Mário, fomos companheiros de vida, de trabalho e

de convivência familiar por muitos anos, eu o respeito e o

considero meu irmão, mas o que você fez dentro da

empresa, por anos, não se perpetuará. Eu e minha família

sempre deixamos tudo em suas mãos, confiávamos em

você. Sempre fui mais comercial e adorava viajar para

captar nossos grandes clientes, achando que nada do que

você estava fazendo nos bastidores pudesse corromper


com nossos valores. É inadmissível tudo que eu descobri

durante tantos anos e isso acaba agora.

Nonna, ao mesmo tempo, mandava meu avô se

conter e se calar, já que estava errado e tinha muito a

perder, inclusive ir para a cadeia, com tudo que estava

sendo revelado naquele momento. Tal argumento o fez, de

maneira bem contrariada, se acalmar, dizendo apenas

algumas últimas palavras: — Estou velho mesmo, vocês

que acabem com tudo que construí com meu suor até hoje.

— Não havia mais quem o respeitasse.

Neste mesmo instante, Daniel se levantou e abraçou

Jordanna, fazendo o seguinte comunicado:

— Gostaria de comunicar a todos que quero contribuir

com esta nova gestão e principalmente participar deste

grupo que está reformulando a empresa. Nunca tive muito


apreço por fazer parte da Siderúrgica por saber que a

gestão era corrupta e cheia de politicagens com

engravatados. Gestão esta que apenas queria explorar

quem realmente trabalhava, enquanto jogava golfe. Diante

desta nova proposta e com dois gestores competentes

como vocês, nada mais justo do que eu contribuir.

— Ficamos muito felizes, papai! — disse Anna,

bastante emocionada. Glória compartilhava também da

mesma emoção e, pela primeira vez, eu a vi olhar para o

marido orgulhosa.

— Será muito bem-vindo, meu sogro! Sua experiência

será de grande ajuda — eu disse, abraçando-o.

Até que resolvemos dar a cartada final, aquela que

realmente era o motivo da reunião, sendo iniciada pela

própria Dona Carmem:


— Está tudo muito bonito e emocionante, inclusive até

chato, pois nós mulheres nunca gostamos de saber dessa

história de se meter nos negócios. Isso começou com

Jordanna, com suas ideias americanizadas. O que quero

saber realmente é: como ficará a condição de minha neta

Elleanora? Como que ela irá se casar com um homem,

tendo filho de outro?

— Na verdade, não, Dona Carmem, ela irá se casar

exatamente com o pai do Caio. Inclusive, já trouxemos o

registro da criança e seu nome é Caio Van den Berg Torres.

A senhora já deveria imaginar isso.

— Como eu poderia imaginar???? Além disso,

sabemos que o teste de paternidade deu você como pai

deste bebê. Vocês poderiam explicar que afronta é essa


em nossa família agora? Menino insolente! — esbravejava

ela.

— Será mesmo que deu que eu era o pai, Dona

Carmem? Não há nada que gostaria de nos contar e

explicar à família? — Imediatamente, nonna se levantou e

sentou-se ao lado de Glória e Elleanora, que segurava o

bebê em seu colo.

— Eu não tenho que explicar nada, menino. Vocês

são crianças insolentes. Isso, sim. Tudo que fiz sempre foi

para preservar nossas famílias — ela falava, já se

levantando junto com meu próprio avô, quando Glória

simplesmente falou: — Dona Carmem e Sr. Mancuso, com

todo respeito aos senhores, digo que ninguém irá sair

desta sala. Terminaremos esta reunião com todos os


presentes, senão juro por Deus que sou capaz de chamar

a polícia e expor tudo que sabemos.

Willy Van den Berg que não sabia de toda a história,

assim como Daniel, estava estarrecido com tudo que

estava presenciando.

— Então, meu sogro e Sr. Willy, descobrimos que o

primeiro teste de paternidade que fizemos foi alterado para

que desse como positivo em meu nome. Isso foi feito

através do pagamento de propina a um médico e à clínica

que executamos o exame, pela Dona Carmem e pelo meu

avô. — Não fiz rodeios e achei por bem expor

resumidamente tudo de uma vez só.

— Isso é um absurdo. Nós não fizemos nada disso.

Essa acusação é completamente infundada. Só pode ser

coisa dessa bastarda da Jordanna, que desde que chegou


na nossa família só trouxe problemas. Inclusive, desde o

dia que nasceu — dizia Dona Carmem.

— Acho melhor ter muito respeito com a minha

esposa. Ela mudou a família, sim, e graças a ela todos nós

acordamos para este mundo de loucuras que vivíamos, sob

a regência de vocês. Se a não parar com estas

ofensas a ela, eu não só deixarei Glória chamar a polícia,

como entregarei um dossiê de tudo que descobrimos sobre

a senhora e meu avô. Ou vocês acham que descobrimos

apenas um pedido de adulteração de teste de paternidade?

Sabemos de tudo que foi feito. Sobre os judeus escravos

que trabalharam na Siderúrgica durante a Segunda Guerra,

sobre contribuir com os campos de extermínio para poder

ter investimento estrangeiro e sobre os inúmeros subornos

praticados pela senhora e pelo meu avô para construir todo


esse patrimônio. Inclusive, sobre o menino que hoje é um

adulto chamado Marcelo, que mora na Inglaterra e foi

criado por Jéssica Almeida. Ou vocês irão negar tudo?

Meu avô simplesmente baixou a cabeça e, sem olhar

para ninguém, apenas pediu perdão. Então, nonna, que

nunca o abandonaria, nem mesmo neste momento e por

tudo que tinha descoberto, foi sentar ao seu lado e apertou

sua mão. Era uma mulher, acima de tudo, bondosa e

evoluída emocionalmente e não abandonaria o marido no

fim da vida. Já Dona Carmem se manteve com o rosto

rígido, sem reação de remorso ou culpa, apenas de repulsa

por ter sido descoberta.

— Minha família, me perdoe. Realmente fiz tudo junto

com a Carmem e, mesmo ela dizendo que não participou

dos negócios, ela participou, sim, ativamente comigo. Na


verdade, foi o meu grande braço direito, justamente por

causa de Marcelo. Eu peço perdão a todos, principalmente

a Geovana que não merecia passar por um terço disso.

Sendo assim, eu renuncio a qualquer participação na

empresa, passando tudo para o nome de meu neto.

Naquele momento, eu sabia que meu avô falava de

coração, pois um dos seus maiores valores era a honra da

palavra dita. Eu fiquei com pena, mesmo depois de tantas

coisas ruins que ele fez em vida, quase terminando,

inclusive, com meu casamento. Mas todos merecem uma

chance de perdão e eu o perdoei.

Quem quebrou o momento foi o Sr. Willy Van den

Berg, que havia acabado de descobrir que seu casamento

e sua vida profissional tinham sido uma grande farsa:


— Vocês podem me explicar detalhadamente o que

está acontecendo? Carmem, quem é Marcelo??? Eu não

posso acreditar que a suspeita que tive por anos seja

verdadeira. Por favor, Jordanna, poderia me entregar este

dossiê? — ele disse, bastante emocionado e visivelmente

abalado com aquilo tudo.

— Claro, vovô — falou minha esposa, entregando a

grande pasta com fotos e documentos, separados por

assunto com tudo que descobrimos.

— Não precisa ler, Willy. Eu sou uma mulher que

assumo, sim, todos os meus atos, assim como fiz a minha

vida toda e fui ensinada pelo meu próprio pai. Tudo que fiz

foi para preservar a nossa família, então não me arrependo

de nada. — Sua arrogância não ia embora, mesmo com

tudo que acontecia ao seu redor. Era lamentável ver um


coração como o de Dona Carmem e a sua falta de empatia

por pessoas que a amavam e sofreram com isso. — Dois

anos antes de Daniel nascer, eu tive um outro filho. Eu e

você, Willy, éramos casados há pouco tempo e você se

alistou. Com isso, Mário foi o homem que me fez

companhia em todo esse período, e nós tivemos um filho, o

Marcelo. Alguns meses depois de ele nascer, soube do seu

retorno e, para que não houvesse uma separação, já que

Mário tinha acabado de se casar com Geovana, resolvi

mandá-lo para a Inglaterra, sob os cuidados de minha

prima Jéssica, que o criou como um filho. Eu e Mário

sempre o visitamos e ele teve tudo que Daniel e Eduardo

tiveram, sem exceção, porém cresceu longe de seus pais.

Mesmo assim, não me arrependo, pois sei que isso foi o

melhor que fizemos para manter nossa família.


— Carmem... Mário... como vocês puderam fazer isso

com uma criança? Vocês me traíram. Eu sempre suspeitei,

mas a amava muito para perdê-la na época. Além disso,

estávamos iniciando a nossa empresa e tínhamos toda a

vida pela frente. Não seria algo bobo ocorrido em minha

ausência que iria destruir tudo. Porém seu filho cresceu

sem mãe. Como pôde?? — O Sr. Willy estava visivelmente

abalado, e era comovente seu estado.

— Willy, já justifiquei e acredito que foi a melhor coisa

a se fazer. Apenas complementando, acredito que todos

estejam hoje muito bem e nunca reclamaram dos luxos que

usufruíram a vida toda, com as atitudes que tive junto a

Mário. Então, para mim, esse dossiê é uma grande

hipocrisia.
— Morreram pessoas por causa disso, vó! Crianças e

idosos foram explorados em campos de concentração. A

empresa sempre agiu na margem da ilegalidade. Todo o

dinheiro usufruído é sujo e tem sangue. Como a senhora

consegue carregar isso e nos chamar de hipócritas?

Ninguém sabia o que a senhora e o Sr. Mancuso estavam

fazendo — disse Jordanna, nitidamente enojada com

aquilo tudo.

— Este é o mundo, querida. Se você não matar, terá

um outro que irá matar você. Aprenda isso, já que está tão

empenhada em entrar no mundo corporativo de vez. Mais

cedo ou mais tarde, você acabará sujando suas mãos e

acabará seguindo os meus exemplos — aconselhou

erroneamente Dona Carmem.


— Jamais. Pode ter certeza disso. Está aí um

exemplo que nunca seguirei, que é o da senhora. O que a

senhora deveria nos explicar era exatamente o que ocorreu

com o teste de paternidade. Do Sr. Mário, apesar de

absurdo, ainda consigo achar uma razão para justificar tal

atitude, já que ele não me queria na presidência. Agora a

senhora fazer isso por simplesmente não gostar de mim?

Causaria a infelicidade da sua própria neta e ainda daria

uma vida enganada para um bebê que chegou agora? Se

bem que a senhora fez o que fez com seu próprio filho, não

é de se espantar. Mas acho que ainda precisamos ouvir

essa explicação — disse Jordanna, servindo-se de mais

champanhe.

— Fiz e também não me arrependo. Você não é a

esposa ideal para Enrico, e esse forasteiro hippie


espiritualizado muito menos será um bom pai e marido

para Elleanora. Fiz porque deveríamos manter nossa

família unida, sem a entrada de agregados e terceiros.

Tanto na siderúrgica como na nossa linhagem — Dona

Carmem justificou o injustificável.

— Se a senhora não teve amor de seus pais e, por

conta disso, preferiu levar uma vida de mentiras, eu apenas

lamento, porém nunca mais mexerá com minha esposa e

com Elleanora. Nós escolhemos com quem queremos ficar

e esse será o lema dos herdeiros dessa família. Chega de

tudo ser negócios. O novo pacto que proponho é que tudo

seja com amor e livres escolhas — propus, erguendo

minha taça e sendo seguido por todos os presentes,

enquanto Dona Carmem levantava-se resmungando que,

para ela, aquela reunião tinha acabado.


Ficamos por um tempo apenas conversando sobre o

futuro e fazendo planos, principalmente para a empresa e

para o próximo casamento da família, enquanto os grandes

patriarcas, agora derrubados, exceto minha nonna que

sempre ascendia ao nosso lado, se recolheram e foram

embora. O desgaste era enorme, mesmo que não

conseguíssemos sentir pena de alguns, a noite precisava

ser encerrada por toda emoção.

Nas próximas semanas, teríamos alguns eventos

para arrumar e, mesmo após toda essa crise, nossas

famílias adoravam uma festa, então já seria um refresco

para aliviar os dias pesados que tivemos. Como fomos

convidados para sermos os padrinhos de Caio, havia, além

do casamento, uma grande consagração pela chegada


deste pequeno. E também teríamos a posse definitiva de

minha esposa na Siderúrgica.

Por fim, naquela noite, meu pai Eduardo e meu sogro

Daniel combinaram de entrar em contato com Marcelo, o

irmão deles, que cresceu longe da família.

Minha ansiedade após esta reunião de lavação de

roupa suja estava, na verdade, em outro motivo: o

reencontro com minha esposa para começarmos nossa

vida amorosa do zero, sem mentiras e segredos. E isso

seria em nosso lar.

Assim, dois dias depois, cheguei no horário do jantar

em nossa nova casa, conforme combinamos, e me deparei,

já na entrada, com a mesa posta com uma tábua de frios,

frutas e uma deliciosa garrafa de vinho rosé. Sobre a mesa,


havia um pequeno cartão escrito à mão por Jordanna com

os seguintes dizeres:

Para brindarmos e comemorarmos o começo da

vida que , por quem somos e, mais

uma vez, escolhemos ser, como casal e como pessoas.

Jantar: Queijos e Vinhos

Sobremesa: Nós!

Assinado: Sua Jordanna

Nunca senti meu coração disparar tanto e senti tanta

alegria em algo tão simples, verdadeiro e singelo. Eu mal

esperava, depois de tanto tempo separados, para ter minha

esposa novamente nos braços, sentir seu gosto, seu

cheiro. Eu já não conseguia nem mais segurar o desejo e a


saudade. Até que ela apareceu linda, em uma camisola

salmão claro, de cetim, com uma enorme fenda que

mostrava suas pernas torneadas e brilhosas e um decote

quase no umbigo que, propositalmente, revelavam seus

seios para mim.

Eu a beijei com carinho e um leve ímpeto de desejo,

segurando-a forte pela cintura e finalizando com uma

brincadeira em seu seio, onde lentamente fui saboreando

seu perfume e o frescor da sua pele. Não quis me

antecipar, seguindo todo o planejamento do jantar e da

sobremesa, mas minha vontade, na verdade, era de comê-

la naquele instante.

Degustamos o jantar com muitos beijos e

provocações para, então, nos entregarmos ao desejo que

já nos consumia. Resolvemos ali mesmo estrear o tapete


da sala e, sem aguentar mais, puxei o corpo de minha

esposa para junto do meu, arranquei sua camisola e

comecei a beijá-la e chupar o bico de seus seios que

endureciam de tanto tesão que ela já sentia.

Ela, rapidamente, começou a brincar com suas mãos

acariciando meu pênis, implorando para que não

demorasse, já que ela não aguentava mais de saudade. E,

por conta disso mesmo, comecei a provocá-la ainda mais,

massageando seu clitóris por cima da calcinha e a levando

a loucura de vez. Sabia que ela gostava que eu a tocasse

antes da penetração, mas eu ia estimular ao máximo seu

sexo, até que ela praticamente desmaiasse em meus

braços de tesão. Eu a queria entregue a mim.

Então, amarrei seus pulsos para cima, com a minha

gravata, e pedi que ela não mexesse mais as mãos. Ela


gemia e se contorcia querendo me tocar.

— Agora você não irá me tocar, apenas receberá

minhas carícias e vai gozar quantas vezes eu quiser... na

minha mão, na minha boca... no meu pau. Hoje você será

minha escrava sexual e quero ouvir apenas o seu gemido

de prazer... — eu dizia, enquanto deitava ao seu lado,

roçando meu mastro duro em sua perna e continuava

estimulando seu clitóris por cima de sua calcinha

ensopada. Ela apenas gemia.

Então, comecei a beijá-la lentamente, sem tirar

minhas mãos do seu sexo, dando-lhe leves mordidas,

sentindo os arrepios que ela sentia e o prazer que eu

estava lhe dando.

Finalmente, desci um pouco sua calcinha, sem tirá-la,

e comecei apenas a acariciar sua vagina, enquanto ela


implorava por mim. Seu grelo estava inchado e ora eu

estimulava com força, ora fazia devagar. Até que quando vi

que ela ia gozar, enfiei o dedo dentro dela e a estimulei das

duas formas, ela se debatia e tentava agarrar a manta do

sofá enquanto gozava. Eu adorava ver minha esposa

descontrolada de tesão daquela forma, sabendo que era eu

que proporcionava aquilo.

— Agora que você gozou, meu amor, quero sentir o

seu gosto.

— Me chupa, Enrico, eu não aguento mais de tanto

tesão... eu quero você... — ela repetia insistentemente.

Comecei, então, a chupar sua bocetinha inchada,

passando a língua nos seus lábios que pareciam me

chamar. Eu enfiava minha língua em seu buraco quente e

úmido, em um vai e vem que também me deixava


completamente enlouquecido. Ela enroscou suas longas

pernas em meu pescoço, de maneira que pressionava

cada vez mais minha cabeça sobre seu sexo, gozando

deliciosamente pela segunda vez.

Em seguida, eu me posicionei sobre ela e lentamente

fui dando o meu pau para ela chupar, enquanto eu fazia o

mesmo com sua bocetinha, e ali fizemos um delicioso 69.

Eu, que já estava segurando, gozei na sua boca, e ela

engoliu tudo.

Então, ali mesmo começou a me tocar, deixando

rapidamente meu pênis duro novamente, implorando para

que eu a penetrasse.

— Me come, Enrico... me fode, meu amor. Eu quero

sentir você dentro de mim.


Finalmente eu soquei meu pau dentro dela. Eu a

comia com força e cada vez sentíamos mais prazer,

sentindo meu membro sendo engolido e molhado por sua

boceta. Nossos gostos, nosso cheiro, nosso sexo se

misturavam. Gozamos novamente e, por alguns longos

segundos, fiquei dentro dela, sentindo aquela sensação de

gozo e prazer misturada com tanto amor que sentíamos um

pelo outro.

Em seguida, tomamos um banho juntos e, então,

Anna me mostrou a casa que, durante semanas, ela

decorou e arrumou para que vivêssemos lá. Cada vez que

chegávamos em um cômodo, havia um porta-retrato com

uma foto nossa e um bilhete escrito à mão por ela, com

algo que ela gostaria que construíssemos juntos e

cuidássemos. Eram planos para a nossa vida como um


casal e eu me sentia o homem mais sortudo e feliz do

mundo.

Resolvemos nadar um pouco e abrir mais uma

garrafa de vinho, para aproveitarmos a noite.

— Querido, como está seu avô? Falo com a nonna

diariamente, mas sei que ele ficou muito abalado com

aquilo tudo.

— Anna, sei que ele realmente ficou bem abalado,

porém amanhã cedo fará um checkup com o médico

cardiologista.

— Melhor mesmo, Enrico.

— A propósito, querida, estou pensando em esvaziar

de vez nosso apartamento, trazendo o restante de nossas

coisas para cá. Quero deixar a casa livre para que meu tio

Marcelo possa se hospedar. Nossos pais combinaram que


ele virá para cá na próxima semana. Ele sabe muito pouco

sobre a nossa família e acho interessante que pudéssemos

conhecê-lo melhor. Até porque ele tem especialização em

Compliance e Risco, em Oxford, e podemos avaliá-lo para

a Siderúrgica.

— Precisamos apenas ver sua índole, não é?

Desculpe se estou sendo maldosa, querido, mas depois do

que já presenciei de minha própria avó, não me

surpreenderia em nada ter mais membros da família

daquele jeito. Então, todo cuidado é pouco.

— Você tem razão. Ele está pensando em passar

uma temporada de um mês aqui conosco, pois pediu férias

no escritório que trabalha em Londres. Acho que, no final

deste tempo, se acharmos que ele seja bom, o

convidamos. Até porque meu pai me disse que ele tem


interesse de se mudar para o Brasil, já que não teve

oportunidade de viver aqui.

— Perfeito! Vou organizar um jantar para todos aqui

em nossa casa. Já é uma forma de toda a família conhecer

nosso lar e também nos apresentarmos a ele. E cedemos o

apartamento para ele ficar confortável e não ter a

impessoalidade dos hotéis. Ah, já ia me esquecendo.

Mamãe também virá ao Brasil nas próximas semanas para

renovar algumas documentações, no entanto deve ficar

poucos dias. Ficará aqui conosco, ok? Mandarei preparar o

quarto de hóspedes.

— Claro, querida. Não deixaria minha sogrinha

abandonada por aí — eu disse, sorrindo.

Ficamos papeando por um bom tempo e criando

muitos planos para nossa vida que começava a partir de


agora.
CAPÍTULO 16

ENRICO

Na semana seguinte, começamos a organizar o

batizado do nosso afilhado e a nos preparar para conhecer

nosso tio Marcelo. A família estava unida e todos estavam

felizes.

Estávamos trabalhando muito e cada vez sentíamos

mais orgulho de Daniel que estava se destacando no time

de organização e melhorias da empresa.

— Pode entrar! — eu dizia, enquanto alguém batia à

porta. Até achei que fosse Jordanna, já que Olga não tinha
anunciado.

— Meu filho, está ocupado? — falou meu pai, em tom

esfuziante. Meu pai nunca se dedicou aos negócios da

empresa e, assim como Daniel, meu sogro, sentia

completa repulsa por tudo aquilo. Na verdade, era algum

trauma que eles adquiriram. Ele tinha uma loja de vinhos,

algo que era sua verdadeira paixão. Formou-se em

sommelier e não havia nada sobre o assunto que ele não

soubesse. Era convidado pelos mais renomados institutos

de vinho para palestrar e falar sobre o assunto.

— Para você, não, pai. Entre.

— Trouxe alguém para você conhecer. Este é seu tio

Marcelo!

— Meu sobrinho, é um prazer conhecê-lo. Já ouvi

muito falar sobre você e sua esposa. Estou muito feliz de


estar aqui, me reunindo com a família. — Sua fala parecia

sincera e genuína e ainda apresentava um certo sotaque

inglês. Jéssica, prima de Dona Carmem, que ele

gentilmente chamava de mãe, por tê-lo criado com tanto

zelo e amor, fez questão que ele aprendesse português.

— Tio!! Eu que estou lisonjeado por conhecê-lo e

mais ainda por ser um dos primeiros a ser visitado pelo

senhor. Sei que chegou agora do aeroporto. Fez boa

viagem? — falei com sinceridade e felicidade. — Pena que

Jordanna está em uma reunião externa com um grupo de

fornecedores e não deve voltar para a empresa hoje. Mas

não vão faltar oportunidades para vocês se conhecerem.

— Nada de senhor, rapaz. Não sou tão mais velho

assim que você. Fiz boa viagem, sim. Será um prazer

conhecer sua esposa. Já soube que, em breve, teremos


uma reunião de família em sua casa, então lá falarei com

todos com calma.

— Que bom, tio. Tente descansar porque os eventos

em família são intensos. Teremos jantares, batizado,

casamento e mais um pouco... — falei gargalhando,

mostrando que a agenda dos Mancuso e Van den Berg era

cheia.

Ele gargalhou e perguntou: — Eu quero saber para

que time você torce. Para saber se estabeleceremos uma

amizade agora ou não. — Ele já tentava criar laços e

intimidade, o que gostei bastante.

— Pô, tio... sou flamenguista!!!! E não venha me dizer

que lá na Inglaterra torce para o Manchester United...

— Enquanto isso meu pai sorria e brincava dizendo que


não sabíamos nada de futebol, já que ele sempre foi

vascaíno, sofredor roxo.

Mantivemos aquela conversa amistosa e combinamos

o jantar na minha casa para os próximos dias. Não

entramos em nenhum assunto conflituoso sobre sua mãe e

nem falamos sobre os problemas da família. Aquilo seria

tratado por ele com meu pai, meu sogro e meu avô e,

particularmente, eu preferia não me meter.

Passados mais alguns dias, nos reunimos em nossa

casa e todos estavam presentes, exceto Dona Carmem.

— Sejam bem-vindos. É um prazer recebê-los —

recepcionava minha esposa, que tinha contratado um

buffet delicioso, porém ela não deixava de conferir cada

detalhe.
— Querida, está tudo impecável. Eu sabia que você,

além de linda, inteligente, executiva, seria uma ótima

anfitriã e manteria a tradição da família em promover

grandes eventos — elogiava nonna, que tinha um enorme

carinho pela minha esposa.

— Nonna, a senhora sabe muito bem que tudo que

faço e acerto é porque segui os seus conselhos. — Elas se

abraçavam e minha esposa demonstrava o carinho que

também tinha por ela.

Em seguida, meus pais chegaram como meu tio

Marcelo, que gentilmente beijou a mão de meu avô e o

chamou de pai. Aquilo consternou a todos, já que

visivelmente ele estava emocionado.

— Meu filho, lamento muito por ter perdido tanto

tempo de sua vida, mas fico orgulhoso pelo homem que se


tornou. Vejo que se dará muito bem como todos os seus, já

que estamos em uma nova era da família Mancuso e Van

den Berg.

— Meu pai, eu só tenho a agradecer a recepção de

todos e fico muito contente por ter encontrado, mesmo que

somente agora, uma família tão amorosa comigo — disse

Marcelo, também visivelmente emocionado. — Sinto

apenas por minha mãe, mas tenho minha mãe Jéssica que

carrego no coração com todo meu amor e de quem sinto

muita falta. — Ela tinha falecido no ano anterior.

Logo depois, chegou Elle com Felipe e Caio, que

também foi apresentado a Marcelo.

— Como ele cresceu, irmã. Está lindo demais! —

disse Jordanna, já segurando o menino.


— Ele está enorme e me alivia ele estar tão saudável

e realmente ganhando peso, depois de tudo que passamos

— respondeu Elleanora, relembrando o dia fatídico do seu

parto.

— Mamãe, venha conhecer o novo membro da

família. O tio Marcelo — chamou Jordanna por Lúcia.

Imediatamente, Anna percebeu o olhar que ambos

trocaram e ficou nítido que ali naquele encontro surgiria

alguma coisa.

— Nossa! Muito prazer! A senhora, na verdade,

parece irmã de Jordanna — disse meu tio, já em um tom

galanteador.

— Nada de senhora, me chame de você. E obrigada

pelo elogio. Você também é bastante apresentável —


respondeu Lúcia, apertando a mão de meu tio, enquanto

jogava um charme que eu conhecia bem e era de família.

Ele gentilmente lhe ofereceu o braço, o qual Lúcia

aceitou e foram sentar juntos à mesa. Anna estava feliz

com aquela aproximação, já que sempre achou que a mãe

vivia muito sozinha e precisava de um companheiro.

Após um longo jantar e quase dez garrafas de vinho

cedidas pelo meu pai, que garantia ser de uma das

melhores safras dos últimos cinquenta anos, os grupos

ficaram papeando pela casa, até que me peguei admirando

uma cena.

Elle, Jordanna e minha avó conversavam no jardim, e

minha esposa segurava Caio em seu colo, fazendo-o

dormir. Aquilo fez com que eu me apaixonasse mais ainda,


imaginando o dia que esta cena seria com nosso próprio

filho.

Eu não acreditava que tudo estava correndo tão bem

e todos estávamos felizes. Acho que nunca tive uma fase

tão boa e tão livre de amarras, como estava tendo agora.

Nas duas semanas seguintes, resolvemos conviver

bastante com nosso tio Marcelo e o incluímos em todas as

nossas atividades, até mesmo no batizado, que ocorreria

em alguns meses.

Enquanto isso, Dona Carmem jantava sozinha na

mansão Van den Berg, remoendo aquela solidão e outros

sentimentos ruins, achando que era incompreendida e

abandonada por todos. Ela não conseguia entender que

tudo aquilo foi causado por ela mesma e preferia manter

sua posição:
— Eu irei me vingar daquela bastarda! Custe o que

custar! Eu não vou embora desta vida sem que ela pague

por tudo que ela me fez, principalmente por estar

destruindo a empresa que tanto lutei para manter e por ter

me separado de minha família.

De fato, todos passaram a ignorar sua presença.

Carmen Van den Berg era tolerada na mansão de Daniel e

Glória apenas para manter as aparências. Eles a

desprezavam completamente, mas o Sr. Willy dormia no

quarto de hóspedes na casa deles e dizia que não havia

mais como dividir a cama com a esposa. Elleanora, que já

morava com Felipe, visitava os pais e o avô e também

fingia que ela não existia, sequer lhe mostrava o bisneto.

Já Marcelo tentou se aproximar, pois, apesar de tudo,

não sentia raiva da mãe e não tinha vivido tudo que nós
vivemos. Contudo, ela não permitiu que essa aproximação

acontecesse. Apenas o cumprimentou e lhe perguntou se

tinha tido uma boa vida, que era isso que importava para

ela.

Ele, apesar de triste, respeitou a vontade da mãe, até

porque não tinha como ter amor por quem não teve

qualquer convivência e havia também todo o trauma do

abandono que, mesmo ele não aparentando, marca

qualquer ser humano. Então, ele, durante toda a sua

estadia no Brasil, não a visitou sequer uma única vez após

conhecê-la.

E mal sabia eu que o tempo de paz e amor das

famílias Mancuso e Van den Berg estava com os dias

completamente contados.
CAPÍTULO 17

ENRICO

Nossa família e nossos amigos estavam reunidos na

Capela Nossa Senhora da Conceição para o batizado de

Caio. O verão se aproximava e o calor já começava a

incomodar.

Pedimos, então, que fosse uma breve missa, com a

consagração da criança para partirmos para a recepção.

Anna e Elle tinham reservado uma área do Parque Lage

para um almoço com todos os convidados e lá iríamos

comemorar mais este evento.


Como era de se esperar, toda a família foi convidada

e, desta vez, Dona Carmem resolveu comparecer,

principalmente porque envolvia religiosidade e ela era

muito católica. Apesar de sabermos que ela estava longe

de praticar qualquer mandamento religioso.

Ela mal cumprimentou a família e sequer quis

participar das fotos que fizemos. Já na recepção, apenas

cumprimentou alguns amigos e pediu para que o motorista

a levasse embora. Meus avós também foram para casa,

diante do enorme calor de meio-dia que começava a fazer

no Rio de Janeiro.

Lúcia e Marcelo, nesta altura do campeonato, já

tinham saído duas ou três vezes e não escondiam que

estavam se conhecendo melhor e algo sério estava


começando a surgir. Tanto que sua estadia no Brasil, que

era de um mês, já ultrapassava o quarto mês.

Havia algumas pessoas da Siderúrgica, celebridades

amigas de Elle, amigos influentes de Felipe, além de

amigos da família, e todos sempre buscavam cumprimentar

Anna, que estava sendo reconhecida por grandes órgãos

como a executiva do ano, sendo convidada para fazer

palestras e dar entrevistas. Eu tinha aprendido a conviver

com isso e o meu ciúme exagerado dava lugar ao orgulho

pela mulher que eu tinha.

— Olá, Anna, eu me chamo Dennis Godoy e, se tiver

um tempo, gostaria muito de conversar com você. Teria

alguns minutos? Prometo não te ocupar muito — falou um

homem que eu nunca tinha visto em nossos eventos, mas

que rapidamente ligou o meu alerta. Apesar de não ter


mais ataques de ciúme, Anna era uma mulher que

chamava muito a atenção por sua beleza e carisma e

muitos davam em cima dela.

— Claro. Você já conhece meu marido? — Ela

sempre tinha essa postura e era pautado nisso que

semeávamos a confiança em nosso relacionamento.

— Não. Não conheço, mas será um prazer conversar

com ele também.

— Que ótimo — disse ela, me chamando em seguida.

— Enrico, venha aqui, querido.

Nós nos cumprimentamos e dei continuidade à

conversa.

— Então, Dennis, o que gostaria de falar conosco? —

perguntei, indo direto ao assunto, pois já imaginava o que

seria.
— Eu sei que aqui não é o momento, já tentei marcar

uma reunião na empresa algumas vezes, porém não tive

sucesso. Gostaria de apresentar meu currículo e prestar os

meus serviços. O que vocês têm feito na empresa é

admirável e, apesar de ter uma carreira corporativa sólida,

meu objetivo é trabalhar em uma empresa com os valores

que hoje vocês pregam. O mundo empresarial é corrupto e

não quero mais viver nessa podridão.

— Olha, Dennis, eu não posso te prometer nada

porque normalmente minha agenda é lotada, mas vou

deixar o contato do meu assistente e avisá-lo que você

passará por uma entrevista na área de Recursos Humanos.

Sendo aprovado por eles, conversaremos em seguida.

Realmente estamos buscando alguns talentos e quem

sabe não é você? — disse minha esposa que sabia


conduzir muito bem esta parte de pessoal da empresa. Era

um dom nato dela. E como eu imaginava e acontecia

sempre, em todos os eventos, Dennis queria lhe pedir um

emprego.

Em seguida, ela chamou Rafael, que era um dos

convidados, e pediu para que ele conduzisse aquele caso a

partir do aval dela.

Na semana seguinte, encontrei Dennis no elevador da

Siderúrgica, ele havia acabado de sair da reunião com a

área de Recursos Humanos.

— E aí, Dennis, como vai? Soube que já fez a

entrevista com o RH. Como foi? — perguntei

amistosamente.

— Foi show, Sr. Mancuso. Muito boa. Eles me

passaram que tem uma vaga para trabalhar direto com a


Sra. Mancuso, na parte de Sustentabilidade e Meio

Ambiente, que é exatamente a área que atuo. E, para mim,

será um enorme prazer. Disseram que na entrevista com

eles eu fui aprovado e o próximo passo agora é ser

entrevistado pela sua esposa. Estou torcendo muito para

dar certo — ele disse, bastante animado.

— Pode me chamar de Enrico. Que bacana! Essa

área é de muita responsabilidade e, por isso, minha esposa

está tão criteriosa com os candidatos. Para você ter uma

ideia, pelo menos uns cinco foram reprovados por ela.

Então, já te dou a dica para se preparar bastante,

principalmente na parte de licenças e riscos ambientais,

pois algo que ela sempre busca é especialização. Venha,

vamos tomar um café — eu o convidei, pela simpatia e

motivação em fazer parte do time.


— Claro, vamos, sim. E agradeço imensamente pelas

dicas, principalmente com a Sra. Mancuso.

— Mas me diga, você é casado? — perguntei, até

mesmo para entender todos os pontos desse desconhecido

tão animado em fazer parte do nosso universo.

— Não. Ainda não. Mas tenho uma namorada e, por

isso, quero me firmar em um bom lugar para seguir com

minha vida pessoal também. — Ele realmente parecia ser

um cara do bem.

— Isso aí. Você está certo. E você disse que já tinha

uma carreira consolidada. Como foi? Onde você

trabalhava? — perguntei, já fazendo o coitado passar pela

segunda entrevista do dia. No entanto, Anna apreciava

muito essas conversas informais e aprendi com ela que é


através desses momentos que extraímos as melhores

informações dos funcionários.

— Eu estudei bastante para conseguir uma

especialização e aprender línguas. Minha família não tinha

condições, então acabei fazendo muito estágio e

trabalhando desde cedo para poder chegar lá. Trabalhei

em duas empresas, uma como gerente e outra como

superintendente, ambas na área de Meio Ambiente. Estou

me especializando agora em Compliance na área e, por

isso, acredito que posso contribuir com a Siderúrgica, que

está totalmente focada em conformidade — explanou

Dennis, que realmente estava vendendo o seu peixe.

— Muito bacana sua história, Dennis. Admiro muito

quem ralou para conseguir o que quer. Isso é louvável.

Ainda mais no mundo corrupto que vivemos — falei com


sinceridade. — Então já te adianto que você se dará bem

com a presidente do grupo. Ela realmente é bem focada

nesta área. E você está atuando agora em uma dessas

empresas? Precisará de um tempo para sair, né?

— Na verdade, não. Eu já me desliguei e agora estou

apenas dedicado à obra da minha casa e em busca de

uma nova oportunidade.

— Putz, cara! Obra é um saco. Não sei como minha

esposa deu conta de trabalhar e cuidar por meses da obra

da nossa casa. Eu tenho verdadeira aversão. Mas me

conte, onde você está morando? — perguntei

despretensiosamente, já me levantando para encerrar o

café.

— Estou morando no condomínio Malibu, ali na Barra

da Tijuca.
— Nossa! Então você deve ter ganhado uma boa

rescisão da última empresa. Lá só tem mansão — falei,

praticamente me despedindo sem dar muita importância,

pois estava atrasado para reuniões e meu e-mail não

parava de apitar em meu celular.

No final do dia, eu e Jordanna conversamos sobre

Dennis e ela ficou interessada na experiência e

especialização do rapaz e logo pediu a Rafael que

marcasse uma entrevista para os próximos dias.

Naquele dia, resolvi levar minha esposa para jantar e

relaxar um pouco. Já que estávamos trabalhando muito e

normalmente chegávamos cansados em casa, tomávamos

um banho e íamos direto dormir. E longe de mim deixar

nosso casamento cair nessa rotina. Escolhi o Xian Lounge,

para ficarmos no rooftop e apreciarmos a bela vista.


Foi bom para falarmos amenidades, até ela tocar em

um assunto que eu tanto desejava:

— Querido, tenho sentido algo dentro de mim que

gostaria de compartilhar com você. Convivendo tanto com

o Caio, tenho sentido uma grande necessidade de ser mãe.

Acho que, no próximo ano, após nosso aniversário de

casamento, poderíamos começar a pensar nisso e nos

programar.

— Meu amor, era tudo que eu mais queria ouvir. Você

não sabe a felicidade que me traz. Depois da nossa última

conversa sobre este assunto, resolvi deixar você ter o seu

tempo para amadurecer essa ideia. Mas ser pai é algo

latente em mim.

— Eu sei, Enrico, e eu ainda não tinha esse

sentimento. Eu me sentia nova, porém, agora, acho que


realmente está chegando a hora. Quero apenas finalizar

essa reestruturação da empresa. Amadurecer o setor de

Meio Ambiente, para não ficar tão sobrecarregada,

montando um time de gerentes e diretores que possam me

substituir, e de repente passar a trabalhar apenas meio-

período. Assim, poder também me dedicar aos nossos

filhos. Não quero que eles sejam criados por babá.

— Eu sou um cara de muita sorte por ter você. Você

não tem ideia de como me faz feliz por ser tão madura e

ponderada em tudo. Faremos como quiser e tenho certeza

de que, na hora certa, teremos os nossos filhos lindos —

eu disse, não me contendo mais de alegria. — Prepare-se

que hoje iremos comemorar muito essa notícia, como

somente nós sabemos fazer em nossa cama. Até porque


precisamos praticar muito, para quando chegar o momento

de fazermos o nosso bebê estarmos fera!

— Você sempre fala as coisas certas e sabe como me

fazer feliz, querido — disse Anna de maneira maliciosa, já

passando suas pernas sobre as minhas.

Quando chegamos em casa, tiramos nossa roupa na

entrada mesmo e pulamos nus na piscina. Rapidamente,

Anna entrelaçou suas pernas em minha cintura e pediu

para que eu a masturbasse.

Eu a virei de costas para mim, encostando-a na borda

e, enquanto estimulava seu clitóris, eu a mordia nas costas

e no pescoço, seu ponto fraco. Sabia que ali ela já

começaria a passar mal de tesão.

Enquanto a tocava e a dedava, roçava meu pênis em

sua bunda dura e maravilhosa, sem forçar a penetração,


apenas encaixei de uma forma que ela sentisse que eu

estava conectado a ela. Aquele movimento era muito bom

e ela gemia alto de prazer, enquanto eu sussurrava no

ouvido dela, entre uma mordida e outra em sua orelha:

— Como amo te tocar, meu amor... como adoro sentir

sua boceta em minhas mãos. Eu poderia passar toda a

minha vida te tocando...

Ela urrava de tesão e mal conseguia me responder.

Apenas rebolava seu quadril em meu pau, me fazendo

perder completamente o rumo, até que a penetrei por trás,

enquanto a masturbava, e ali mesmo gozamos, entregues

àquele vai e vem insano de nossos corpos.

Tomamos um banho e adormecemos exaustos e

felizes, após mais alguns planos e promessas de sermos

sempre nós mesmos um com o outro.


Alguns dias depois, chegamos na empresa e Dennis

já aguardava na recepção para ser entrevistado por Anna.

Percebia que ele era um rapaz motivado, apesar de um

tanto ansioso pela nossa empresa, até porque não eram

ainda nem oito e meia da manhã e sua entrevista estava

marcada para às nove horas. Mas, em certo ponto, dava

para entender. Emprego no Brasil era algo escasso,

principalmente em um cargo como aquele.

Naquele dia, Anna faria uma sessão de fotos para

uma revista empresarial e ainda teria uma reunião com

uma famosa rede de TV, a CNN, que gostaria de

entrevistá-la para uma matéria sobre mulheres de sucesso

no poder. Por isso, ela estava especialmente bonita e

atraente, em um tubinho de cor lavanda, que deixava seus

ombros à mostra, e sempre com seu salto quinze que


torneava suas lindas pernas. Na empresa, à vezes, ela

usava uma echarpe e eu sempre a admirava pela

elegância e por prezar por sua imagem em todos os

momentos. Era realmente uma mulher deslumbrante.

— Bom dia, Olga e Rafael, como estão? — falamos,

cumprimentando nossos assistentes, enquanto pegávamos

um café para começar o nosso dia. — Rafa, por favor,

avise ao Dennis, o rapaz da entrevista, que o atenderei no

horário marcado. Vou apenas fazer algumas ligações antes

e em seguida irei atendê-lo. Peça para que ele esteja no

33º andar às nove horas em ponto, ok?

— Sim, Jordanna. Pode deixar! Você quer que eu

faça alguma ligação específica? — perguntou Rafael,

sempre muito prestativo, algo que combinava com o perfil

profissional da minha esposa.


— Não precisa. Vou apenas fazer uma videochamada

com a minha mãe.

— Está tudo bem com a minha sogra, amor?

— Está, sim. Na verdade, bem demais. Vou confirmar

agora, mas acho que a teremos definitivamente no Brasil.

Depende também de nós. Vamos para a minha sala e lá

terminamos nosso café e falamos com ela.

Entramos em sua sala e ela continuou:

— O relacionamento dela com Marcelo realmente

ficou sério. E com a possibilidade de ele assumir o cargo

de diretor de Conformidade e Ética dentro da empresa,

ambos irão se mudar de seus países e virão morar aqui no

Brasil.

— A avaliação dele foi muito boa. Muita gente

conversou com o tio Marcelo, além do que vimos na


convivência em família — disse, dando força para aquela

ideia. Até porque já tínhamos certeza de que ele não havia

herdado o caráter de Dona Carmem.

— Sim, querido. Eu também acho. Meu pai e o seu

também me passaram esse feedback, além dele ter se

saído muito bem para o serviço temporário de consultoria

para o qual o contratamos. Acho que dará certo e

precisamos de alguém com a expertise dele.

— Muito bom! Quando finalizar a entrevista do rapaz,

me dê um feedback que já envio a requisição para a área

de recursos humanos preparar a contratação dos dois —

falei, tentando aliviar o peso do dia. Sabia que, apesar de

toda a sua confiança, ela estava ansiosa para a reunião

com a emissora de TV.


— Muito obrigada, querido. Quando finalizar, te

avisarei de imediato. Mas, pelo jeito, por você, o Dennis já

está contratado.

— Eu gostei dele. Bati um papo depois que ele foi

entrevistado pelo RH e ele me pareceu sincero e

esforçado. Acho que está bem motivado e poderá te ajudar

muito com a parte ambiental.

— Sim, estou precisando muito de uma pessoa

assim. Acho bom que vocês já tenham conversado e você

tenha essa avaliação prévia. Minha ideia, inclusive, é

deixar esse cargo de gerente de Meio Ambiente reportando

tudo diretamente para o Marcelo. Precisamos lhe dar um

time robusto.

— Excelente ideia, meu amor. Ficamos conversando

e já são quase nove horas. Atenda o rapaz e ligamos para


a sua mãe à noite — falei, enquanto caminhava em direção

à porta de sua sala.

— Combinado, meu marido. E Enrico... —

Imediatamente virei para trás, pois sabia que sua voz

mudava quando iria falar alguma sacanagem para mim,

ficava lânguida e aveludada. — Amei sua performance

ontem à noite... deveríamos usar mais a piscina... —

Apenas sorri de maneira marota e lhe mandei um beijo no

ar, dizendo sem som: Te amo!

Após algumas reuniões do dia, recebi o aviso de

Rafael que minha esposa tinha ido para a sessão de fotos

e, em seguida, estaria na reunião da emissora. No entanto,

ela pediu para que eu seguisse com a contratação de

Dennis e tio Marcelo e autorizasse tudo. Assim o fiz, feliz


por saber que boas pessoas estavam comandando agora

nossa empresa.

Neste mesmo dia, providenciamos a vinda definitiva

de Lúcia e tio Marcelo para o Brasil. Eles se mudariam de

vez para poderem ficar juntos. A fase de solidão de ambos

tinha acabado.

Era o dia da entrevista e todos da família e da

empresa estavam bem ansiosos. Até porque passaria não

apenas na CNN brasileira, como também na americana,

então ela teve que gravar a mesma coisa duas vezes, uma

falando em português e outra em inglês.

Novamente, todos se reuniram em nossa casa e,

mais uma vez, Anna contratou um delicioso buffet que

serviu um brunch para nossa família e alguns convidados

da Siderúrgica, para assistirmos juntos à entrevista.


Assim como no último evento, todos os Mancuso e

Van den Berg estavam presentes, exceto uma pessoa,

Dona Carmem. Ela cada dia se isolava mais e Glória nos

contava que parecia que ela estava ficando com algum tipo

de doença psicológica. Tentaram inclusive levá-la a um

médico, o que rapidamente ela negou. Fazia pequenas

saídas misteriosas, porque ninguém saía com ela ou a

acompanhava. Todos achavam que ela simplesmente

passeava em algum shopping ou ficava sentada em uma

das casas de chá que ela sempre gostou de frequentar.

Dona Carmem nunca foi uma mulher de muitas

amizades, mesmo sendo famosa como uma dama da

sociedade e, em austeros tempos, estar sempre sendo

convidada para eventos sociais cariocas, eram raros

aqueles que ela aceitava ou se dispunha a ir. Desta forma,


não construiu um círculo grande de amizades, como nonna

Geovana, que tinha amigos e conhecidos por todo o

mundo. Infelizmente, por ela, não havia mais nada que

poderíamos fazer.

Enquanto todos se acomodavam, meu sogro já abria

o champanhe para que comemorássemos assim que

começasse a entrevista. Minha esposa estava nervosa e

ansiosa, apesar de sabermos o quanto ela foi bem e

elogiada por todos da emissora, que já tinham planos e

projetos para ela assumir um horário de debate sobre o

mundo corporativo. Mesmo assim, ela estava tomada pelo

nervosismo.

— Quero fazer um brinde à minha filha inteligente e

maravilhosa. A nossa executiva que está apenas

recebendo os méritos pelos seus esforços. Lembre-se que


você não está sendo convidada e elogiada porque as

pessoas são legais ou querem agradá-la, e sim porque

você merece e batalhou por isso. Parabéns, Anna! Muito

sucesso! — disse Daniel, visivelmente orgulhoso.

— Minha filha querida, você só enche sua mãe de

orgulho. Parabéns!! — disse Lúcia, enquanto abraçava a

filha.

— Meu amor, você é simplesmente maravilhosa e eu

não poderia ser mais sortudo por ter você ao meu lado. Só

tenho orgulho e admiração por você. Por sua causa, sou

um homem muito melhor hoje — falei, olhando

apaixonadamente nos olhos de minha esposa, sem me

importar com a plateia, enquanto ela me jogava de longe

um beijo.
Todos brindavam, ficavam emocionados com nossas

declarações e, além disso, se divertiam.

— Enrico, assim você me quebra! Elleanora vai

começar a exigir declarações de amor como essa, e eu não

sou bom com as palavras assim. Vou começar a ter umas

aulas contigo. — Felipe se aproximou brincando comigo,

enquanto gargalhava ao lado de Elle.

— Você é muito palhaço, Felipão. Acho bom começar

a treinar mesmo, porque já, já seu casamento chega e aí

não tem mais como fugir da raia, a única opção é ser o

marido perfeito para as mulheres da família Van den Berg.

Ríamos e nos divertíamos muito naquela tarde, sem

imaginar que nem todos estavam tão contentes como nós.


Dona Carmem se contorcia de raiva ao ver a

entrevista de Jordanna e todo o sucesso que ela fazia. E os

empregados de sua casa diziam que ela sozinha falava no

quarto e a pedido do filho Daniel gravaram uma das vezes:

— Maldita Jordanna, você está com os dias contados

e não vai demorar muito para cair desse pedestal de ilusão

de mulher perfeita e executiva de sucesso que a

colocaram. Eu batalhei muito mais por essa empresa e

nunca tive esse reconhecimento, por que você em tão

pouco tempo vai ter? Não terá mesmo. Espere para ver... O

seu fim está próximo, e minha família assumirá o comando

de tudo novamente, e não uma bastarda como você. Sua

hora vai chegar.


Sua raiva era tanta, que ela continuava a xingar e

maldizer Anna, enquanto tacava as louças e os jarros

decorativos do seu quarto contra as paredes.

No final, ainda chamou os empregados para que

limpassem tudo e os ameaçou exigindo que guardassem

segredo do que tinha ocorrido, alegando que derrubou sem

querer e, se sua família soubesse, poderia realmente achar

que ela estava louca.

— É isso que eles querem mesmo, me ver pelas

costas. É bem capaz de me internarem para ficarem de vez

longe de mim. É a desculpa que eles precisam, então exijo

que ninguém diga um pio sobre o que aconteceu hoje aqui.

Caso contrário, estarão todos na rua, já que eu não me

darei ao trabalho de saber quem foi o delator.


CAPÍTULO 18

ENRICO

Tinha chegado o dia do casamento de Elleanora e

Felipe, que seria em um resort em Fernando de Noronha,

fechado especialmente para a festividade. Devido às

atividades da empresa, chegamos apenas dois dias antes

do casamento, não dando para explorar muito a ilha. No

entanto, fiz questão de mostrar algumas coisas a Anna, já

que ela nunca tinha visitado o local.

No dia seguinte, como tínhamos apenas o jantar com

os noivos à noite e o dia estava completamente livre, sem


qualquer atividade do casamento, resolvi levar Anna para

conhecer uma praia paradisíaca. Levamos uma cesta com

algumas torradas, frios, frutas e vinho branco.

Como era baixa temporada na ilha e já começava a

esfriar, pois estávamos em pleno outono, a praia estava

completamente deserta para nós. Isso tornava aquela

perfeição da natureza um local excelente para que eu

pudesse aproveitar minha esposa.

— Você está uma delícia salgada, meu amor... com

este gosto de mar... — eu dizia, enquanto a beijava

intensamente, percorrendo sua boca e seu pescoço.

— Enrico, você é louco. Não comece a me atiçar. E

se chegar alguém? Vai nos pegar transando? — ela disse,

já quase sem conseguir resistir.


— Não vai chegar ninguém, Anna. Até porque o

motorista que nos trouxe está bem no início na estrada que

percorremos, avisando que a praia está interditada. Você

acha mesmo que eu não pensei em tudo?

— Você não tem jeito. Tudo isso para me comer!

Estou vendo que minha cotação ainda está em alta — ela

disse, enquanto começava a me acariciar por cima do

calção de banho.

— Você me enlouquece só de respirar, meu amor. Eu

já sentia saudades de você, antes mesmo de te conhecer.

Imagina agora, tendo você só para mim. Eu te quero a todo

instante — eu me declarava, enquanto desamarrava a

parte de cima de seu biquíni.

— Ainnn, Enrico, você me deixa louca. Eu já fico

molhada só de você me beijar. Eu não sei o que você faz


comigo... Como pode me enlouquecer tanto?

Nesta hora, Anna já sentava em cima de mim e

roçava seu sexo ainda coberto sobre o meu, pois sabia que

aquelas brincadeiras me deixavam louco. Eu mamava seus

seios e apertava sua bunda, pressionando-a cada vez mais

sobre meu pênis que já estava completamente duro.

— Como eu te desejo, Anna. Você é gostosa

demais... — eu estava com muito tesão e só pensava em

penetrá-la.

Arranquei sua parte de baixo do biquíni e soquei meu

pau em sua boceta, que estava encharcada e inchada,

apenas esperando que eu a penetrasse. Ela cavalgava em

mim e se masturbava ao mesmo tempo, dizendo que

queria ter todas as sensações naquele momento. Gozamos

juntos e caímos exaustos e abraçados sobre a canga.


Ficamos ali por horas, descansando e nos

acariciando, tomando sol e banho de mar. Intercalávamos

entre o oral e masturbação. Não conseguíamos parar, era

um desejo incontrolável.

Até que chegou a hora de voltarmos para o resort,

pois começaríamos a nos preparar para o jantar.

— Você está com uma pele ótima, minha irmã. Como

foi o dia de vocês? Não achamos os pombinhos o dia todo

— Elle falou com ironia para Anna, brincando sempre em

tons maliciosos. — Depois me ensina a ter esse fôlego

incansável de vocês para o sexo — continuou ela em meio

a gargalhadas.

— Larga de ser boba, Elle. Você está impossível nos

últimos dias. Só vou te perdoar porque você vai casar


amanhã — brincou Anna, enquanto as duas davam o braço

e caminhavam em direção ao salão do jantar.

De longe, admirava as duas. Uma como uma irmã,

uma das melhores amigas que tive na vida e que confio de

olhos fechados, e outra minha esposa que tanto amava.

Anna, como sempre, estava deslumbrante em um

vestido floral longo, com um lindo decote nas costas, e Elle

estava de macacão branco justo que a deixava elegante e

linda. Eu observei Felipe admirando-a apaixonadamente e

me senti feliz por saber que ela tinha encontrado alguém

que cuidaria dela e daria o que ela realmente merecia.

O jantar já ia começar quando Dona Carmem entrou

no salão. Na verdade, fez uma entrada triunfal, andando

com uma bengala, algo novo para nós, que não a víamos

há muito tempo, e disse:


— Acharam que eu ia perder o casamento da minha

neta preferida?

Todos no salão se calaram constrangidos, pois não

havia mais nenhum lugar à mesa, já que ela não havia

confirmado presença ou sequer avisou que iria. Porém, na

mesma hora, Daniel e tio Marcelo se levantaram e pediram

para que o maitre organizasse uma mesa a mais, junto à

deles, e arrumasse para que ela pudesse se sentar.

Comentei com Anna:

— Ela avisou que viria? No fundo, ainda sinto pena

dela, mas é complicado porque ela não perde o ar de

arrogância.

— Não avisou nada, Enrico. Viu como Elle ficou?

Visivelmente perturbada. E ela está apenas colhendo o que


plantou. Eu sinto muito, mas não sou falsa e não irei

cumprimentá-la.

— Anna, não vou obrigá-la a nada, mas neste

momento você tem que ser superior. Sabe disso.

— Não, Enrico. Minha avó fez muita coisa em vida e,

mesmo assim, não aprendeu nada. Diferente do seu avô,

que se arrependeu e está aqui conosco.

— Eu entendo você. Deixe isso para lá. Ela está

sentada bem longe de nós. Vamos aproveitar o jantar.

Nosso dia foi maravilhoso para estragarmos agora.

— Você tem razão, meu amor. Transei deliciosamente

com o amor da minha vida, gozei umas cinco vezes, estou

bronzeada de sol, ainda me energizei em um delicioso

banho de mar hoje e, para completar, estou vestindo um

maravilhoso vestido Versace. O que mais poderia me


aborrecer? Nada!!! — ela falou, rapidamente mudando de

humor.

O jantar começou a ser servido e todos pareciam ter

esquecido a presença de Dona Carmem, que conversava

apenas com Glória, Daniel e tio Marcelo, os únicos que

ainda se penalizavam e justificavam suas atitudes como

senilidade. O fato era que ela não tirava os olhos de

Jordanna que, por estar conversando tão animadamente

com Elle e brincando com Caio, não percebeu a vista

perversa que a acompanhava aonde ia. Eu estava

incomodado com aquilo e, mais uma vez, minha intuição

avisava que algo estava errado. Parecia que ali eu já sabia

que aquela mulher louca estava aprontando mais alguma

para nós.
Tentei afastar imediatamente aqueles pensamentos

negativos da minha mente. Eu devia estar traumatizado por

tudo que tinha vivido durante o teste de paternidade. Quem

estava ficando doido era eu. O que mais essa velha louca

poderia fazer contra nós? Até porque quem financiava seus

absurdos, não contribuía mais com seus planos, que era o

meu avô.

Voltei minha mente para o jantar e resolvi ir brincar

com meu afilhado, não observando mais nada de estranho.

No dia seguinte, todos estavam em polvorosa com o

casamento, e o ritmo de entra e sai de cabelereiros e

maquiadores estava me deixando nervoso. Então chamei

meu pai, meu sogro e meu tio para tomar um whisky até

que as mulheres estivessem prontas.


— Então, meu sogro, como está Dona Carmem? Ela

não me pareceu muito bem ontem — perguntei, porque

havia algo que estava me causando uma sensação ruim.

— Enrico, na verdade, temos pouquíssimo contato.

Ela vive isolada naquela casa enorme e sai apenas para

passeios curtos, como lojas, cafeterias ou apenas para um

passeio no jardim — respondeu ele, visivelmente triste com

aquilo tudo.

— E a bengala? Por que ela está usando? —

perguntei.

— Ela está com uma osteoporose severa e isso

afetou sua perna direita. Então, para se apoiar e andar

melhor, o médico sugeriu a bengala. Sabe, Enrico, após a

nossa reunião, em que falamos a verdade sobre tudo, ela

caiu muito... pouco fala e interage com o mundo externo.


Outro dia, soube que ela quebrou quase todo o quarto.

Ah... foi no dia da entrevista da Anna. Sinto pena de minha

mãe — contava Daniel.

— Quebrou o quarto? Entendi. Tio, nem de você ela

se aproximou, não é? — perguntei, tentando encaixar

algumas peças que se criavam em minha cabeça.

— Não, Enrico. Tentei uma ou duas vezes, mas ela

não quis se aproximar. Então, respeitei sua decisão.

— É uma pena, realmente. Porém hoje não é dia para

assunto pesado. Vamos brindar aos noivos.

Brindamos e continuamos conversando

amistosamente, apesar de algo estar me incomodando

profundamente. E a vida já tinha me provado que, quando

algo começava a alertar dentro de mim, alguma coisa séria

aconteceria.
Voltamos para a recepção e eu já estava posicionado

no meu lugar, aguardando a chegada de Anna, pois

seríamos os primeiros padrinhos a entrar e, logo em

seguida, viriam a irmã e o cunhado de Felipe.

Eis que surge minha esposa, em um lindo vestido

vermelho. Parecia uma miragem de tão linda e eu fiquei

completamente enfeitiçado.

— Meu Deus, meu amor, você está maravilhosa!

Estava com saudades, não te vi o dia inteiro — disse, ainda

perplexo com a visão de Anna vestida daquele jeito.

— Meu amor, o melhor você ainda não sabe. — Ela

começava a me provocar.

— O que você está aprontado, Anna? — disse,

enquanto beijava sua mão.


— Estou sem calcinha, meu amor! Se em

determinado momento da festa quiser me sequestrar para

eu te mostrar como é... Não hesite em fazer isso!

— Você está me deixando duro e o casamento irá

começar. Você quer me matar??? — disse, fingindo

aborrecimento. Ela apenas deu um sorriso de lado e se

posicionou em frente a mim, de forma que eu a abraçasse

pela cintura.

— Comporte-se, meu marido. Mais tarde te

compensarei. — Nós nos beijamos e começamos a nos

organizar para iniciar a cerimônia.

O casamento transcorreu bem e todos estavam muito

felizes. Lúcia e tio Marcelo pareciam estar cada vez mais

apaixonados e faziam planos de viajarem pelo Nordeste

brasileiro. Caio dormia no colo dos avós, madrinhas e tias


como se a música não estivesse alta, e Elle e Felipe

dançavam na pista de dança, demonstrando toda alegria

que estavam sentindo naquele momento. Não havia

ninguém que não estivesse celebrando. A festa durou até a

madrugada, com todos dançando e se divertindo. Exceto

Dona Carmem, que apenas observava tudo de longe,

sentada sozinha em uma mesa.

Durante a festa, eu e Jordanna fugimos para uma

encosta da praia e ali ela resolveu me mostrar o que havia

por baixo do seu vestido.

— Enrico, temos que ser rápidos, não quero que

achem que somos pervertidos ou dois coelhos no cio — ela

dizia, enquanto gargalhava depois de algumas taças de

champanhe.
— Anna, ninguém está se importando conosco.

Venha, eu me comportei e preciso ser recompensado como

você mesma falou.

— Você é um menino muito mal e, por conta disso,

vou levantar só um pouquinho o meu vestido para você ver,

ok?

— Você é muito safada, minha esposa — disse em

seu ouvido, enquanto beijava seu pescoço, já me

enchendo de desejo.

— Vem, Enrico, sente como estou... — ela dizia,

enquanto colocava a minha mão em sua vagina.

— Nossa... como você está molhada. Que delicia de

boceta, meu amor. Eu quero te comer, já não aguento mais

esperar... estou com tesão desde a hora que te vi com esse

vestido vermelho.
— Mete em mim, Enrico, me come gostoso como só

você sabe fazer.

Eu prontamente obedeci e enfiei com força meu pau

naquela gruta ensopada. Tapei sua boca com uma mão,

para que ninguém ouvisse seus gemidos, enquanto

pressionava sua bunda com a outra, para que sentisse sua

boceta engolindo todo o meu mastro enrijecido. Ficamos ali

naquele mesmo ritmo, naquela mesma frequência até

gozarmos gostoso.

Quando finalizamos, nos limpamos com a sua

echarpe, que jogamos na lixeira depois, e voltamos para

aproveitar o resto da festa.

Todos já começavam a se despedir e a grande

maioria já tinha se recolhido, ficando apenas a nossa

família.
Então, Anna resolveu seguir o meu conselho e ir

cumprimentar a avó, que parecia apenas esperar este

momento.

— Olá, vó Carmem, como a senhora está? — falou

Anna gentilmente, tentando ser madura, passando por

cima dos próprios sentimentos para não guardar nenhum

rancor dentro de si.

Eis que sua avó respondeu:

— Estaria bem melhor se você nem tivesse nascido.

Você é uma bastarda, de um caso extraconjugal de Daniel

com uma desqualificada e oportunista como a sua mãe,

que nitidamente queria apenas o dinheiro de nossa família.

Você teve o prazer de tirar o marido da sua irmã, a

empresa de nós e, agora, me tirou a única coisa que eu


tinha e preservava na vida: minha família. Então, sua

fingida insolente, nunca mais dirija uma palavra a mim.

Anna, que não teve qualquer reação diante do ataque

gratuito, apenas falou:

— Eu só tenho pena da senhora — disse, enquanto

eu a puxava junto com Daniel, tirando-a de perto de Dona

Carmem.

— Meu Deus, minha mãe, quanto ódio em seu

coração. Não entendo por que detesta tanto minha filha. A

senhora realmente está ficando louca — ele falava e ao

mesmo tempo demonstrava o quanto estava chocado com

aquilo tudo.

Agradecíamos apenas por Felipe e Elle não estarem

mais presentes, para que tal episódio não estragasse a

noite de núpcias deles. Segui com Anna para o quarto e


novamente vimos a figura daquela velha senhora sentada

sozinha em uma mesa, enquanto todos também subiam

para seus quartos.

Ainda conversei um pouco com meu sogro, meu pai e

meu tio sobre este comportamento, nós nos questionamos

se faríamos alguma coisa ou a deixaríamos no local.

Decidimos subir e deixá-la. Avisamos apenas a recepção e

a segurança, para que pudessem acompanhá-la quando

ela desejasse. Era o máximo que ainda poderíamos fazer

por ela.

— Querida, você está bem? Eu sinto muito pelo que

aconteceu agora. Sinto muito mesmo. Estou me sentindo

culpado, pois te aconselhei a conversar com ela.

— Não se sinta, querido. Já passei por coisas piores,

então não me abalou tanto assim. Só fiquei chocada e sem


reação na hora, pois não esperava aquilo tudo.

— Eu sei, todos, na verdade, ficaram. Eu conversei

com seu pai e o meu, juntamente com o tio Marcelo, e

concluímos que o próximo passo é a internação. Ela

definitivamente não está sã.

— Sim, com toda certeza. Uma coisa é ser má, com

os propósitos que ela tinha. Outra coisa é agir com

insanidade, como ela vem fazendo.

— Quando voltarmos, seu pai irá agendar uma

avaliação psicológica e, juntos, tomaremos a melhor

decisão. Seu avô, o Sr. Willy, está cansado e até hoje

chateado com tudo isso. Precisamos ajudá-lo também. Ele

mal olha para ela e isso pode ter abalado sua avó de tal

forma, que mexeu com seu psicológico.


— Você tem razão, meu amor, porém não quero mais

falar sobre isso. Estou cansada e bebi um pouco além da

conta. Vamos dormir.

— Sim, vamos — eu dizia, já acomodando Anna em

meus braços, com as pernas entrelaçadas.

No dia seguinte, soubemos que Dona Carmem já

tinha ido para o aeroporto, acompanhada de um assistente,

que não sabíamos que ela tinha. No entanto, foi buscá-la e

já se dirigia para o Rio de Janeiro. Enquanto isso, nós

aproveitávamos o último dia na Ilha e cuidávamos de nosso

afilhado, que passaria duas semanas com a avó Glória,

para que os noivos curtissem sua lua de mel.


CAPÍTULO 19

ENRICO

De volta à nossa realidade empresarial, começamos a

semana com uma reunião de apresentação dos novos

membros do time.

— Gostaria de apresentar a todos os presentes nosso

novo diretor de Compliance e Ética e nosso gerente de

Meio Ambiente e Segurança Operacional, que estão

integrando hoje o nosso time. Peço que os recepcione e os

integre o mais rápido possível às nossas equipes — Anna

os apresentava ao grupo de trabalho deles.


— Obrigado, Anna, será um prazer contribuir com a

nossa empresa — agradeceu tio Marcelo.

— Também gostaria de agradecer a oportunidade e a

confiança em meu trabalho e por me deixarem fazer parte

desta companhia — disse o orgulhoso e jovem Dennis, que

parecia estar ansioso pelo seu começo na função.

Após o breve discurso de ambos, começamos a

trabalhar. Nas semanas seguintes, começávamos a ver a

empresa completamente reestruturada e com novos

valores sendo construídos.

Todas as áreas estavam agindo dentro da legalidade

e moralidade e a Siderúrgica estava concorrendo para

entrar no ranking das cem melhores empresas para se

trabalhar no Brasil. Os funcionários estavam motivados e o

faturamento da companhia crescia cada vez mais. Nunca


tivemos um período tão promissor como aquele que

estávamos vivendo.

Anna participava semanalmente de debates com

outros executivos, sempre ao vivo e transmitidos pela CNN.

Ela estava se tornando muito influente no meio. Aparecia

em capas de revistas, dava entrevistas com frequência

desde que recebeu o Prêmio de Executiva do Ano.

Ela se dedicava cada dia mais a uma consolidação

pessoal de sua imagem do que da empresa, o que

aumentava, na mesma proporção, o meu tempo gerindo a

companhia em sua ausência.

— Querido, estou feliz com a gestão que você vem

fazendo e acho que, aos poucos, vou começar a me

afastar. Acho que está chegando a hora de pôr em prática

alguns planos do passado...


— Meu amor, você está cansada. Está fazendo muita

coisa e precisa de um tempo para você. Para termos um

filho, você precisa realmente começar a delegar funções.

Eu assumo o seu posto sem problemas, ainda mais agora

com tantas pessoas da família nos ajudando.

— Eu estou preocupada apenas com um detalhe.

— Que detalhe, Anna? Você tem percebido algo que

esteja fora do nosso planejamento? Está tudo tão

amarrado...

— Na verdade, não. Tenho estranhado algumas

licenças ambientais. Seus prazos de validade estão mais

longos do que de praxe. Quando questionei Dennis, ele me

disse que isso fazia parte do seu jeitinho especial com os

órgãos. Confesso que não entendi bem o que ele quis


dizer, porém estava atrasada para uma reunião. Pedi que

seu tio Marcelo cuidasse disso.

— Não é possível que esteja rolando propina para

liberação de licença. Depois de tudo que fizemos para

limpar a sujeira debaixo do tapete... Realmente, não é

possível.

— Querido, dê uma olhada nisso para mim. Estou

achando que tem algo errado ali. E me preocupa porque é

exatamente na renovação das licenças, e todos estes

documentos já foram enviados para concorrer nas

centenas de licitações que nos habilitamos este ano.

— Vou checar isso amanhã cedo, sem falta. E se eu

tiver qualquer dúvida sobre a procedência, pedirei uma

averiguação e auditoria imediatamente. Agora vá tomar


uma ducha, farei uma massagem nos seus pés antes de

jantarmos.

— Você me mima demais, sabia? — Anna falou, já se

despindo sensualmente para entrar no banho.

— Você acha que não pedirei nada em troca? — falei

enquanto também tirava minha roupa e ia atrás dela.

— Eu quero você todinha, nua desse jeito! — falei, já

salivando e cheio de tesão.

— Isso é um pedido, meu amor? — ela já estava

lânguida e cheia de desejo.

— Não! É uma ordem!

Eu a agarrei pela cintura e aproveitamos muito bem o

banho.

Eram oito horas e eu chegava na empresa. Anna

havia ficado em casa para ir mais tarde para a emissora,


pois era o dia do debate empresarial.

— Olga, bom dia. Como vai? Poderia verificar se

Dennis já chegou? Caso tenha chegado, peça para ele vir

em minha sala imediatamente.

— Bom dia. Estou bem. Claro, Enrico, entrarei em

contato com o Departamento de Meio Ambiente agora.

Passados alguns minutos, Olga entra em minha sala.

— Enrico, ele ainda não chegou. Um analista da área

me atendeu e me disse que ele tem saído bem tarde,

praticamente depois de todos no prédio e, por isso, chega

somente às nove horas.

— Nossa, que estranho. E por que ele faz isso? Se

estamos trabalhando normalmente e a política da empresa

é exatamente evitar horas extras? — Algo realmente


estava errado e as desconfianças de Anna provavelmente

estavam certas.

— Sendo bem sincera, eu também achei. E o analista

que me passou a informação falou de um jeito como se

tampouco entendesse o que ele está fazendo.

— Está certo, Olga. Deixe apenas o recado de que

preciso falar com ele urgente, ok?

Nisso, meu celular tocou e era minha avó, chorando

muito ao telefone.

— Enrico, Enrico, seu avô passou mal. Acho que

infartou. A ambulância acabou de levá-lo. Eduardo e Vivian

foram com ele e eu fiquei em casa. Por favor, poderia vir

me buscar? Eu mandei o motorista com eles.

— Claro, nonna. Meu Deus... estou indo agora.


— Eu não quero que Mário morra sem que eu me

despeça dele. Quero segurar a mão dele na hora de sua

partida.

— Calma, nonna, isso não acontecerá. Estou indo

para aí agora. Pegue um copo d’água e fique sentada na

sala que daqui a pouco estou chegando.

— Está bem, meu neto. Obrigada.

Sabíamos que isso poderia acontecer a qualquer

momento, mas quando realmente acontece, parece que

não conseguimos mensurar ou raciocinar. E minha

preocupação também era com minha nonna. Perder o

marido, depois de tantos anos, seria uma queda brusca em

seu emocional.

Chegamos ao hospital e meus pais estavam na

antessala, aguardando por notícias.


— Mamãe, eu falei para a senhora ficar em casa. A

senhora aqui vai ficar se emocionando e não pode pela sua

idade — disse meu pai, ralhando com a teimosia de

sempre de nonna Geovana.

— Meu filho, não vou deixar o seu avô neste

momento. Estarei com ele até o último suspiro. Ele já

passou dos noventa, então já estamos no lucro aqui nesta

terra. Não o abandonarei, assim como não fiz nos nossos

piores momentos.

— Está certo. Eu vou ver se o médico já tem alguma

notícia. Ele foi levado para fazer um eletrocardiograma.

Vivian, por favor, fique aqui com a mamãe. Enrico, vamos

comigo.

Seguimos pelo luxuoso hospital Copa Star, buscando

notícias e ligando para a cardiologista da família vir


acompanhar a situação, até que o médico plantonista

apareceu.

— Olá, sou o Dr. João e estou acompanhando o Sr.

Mancuso. A Dra. Thais, a cardiologista de vocês, já entrou

em contato conosco e informou que está vindo para cá.

Vocês são da família?

— Sim, somos. Eu sou filho e ele é o neto. Prazer, eu

me chamo Eduardo — disse meu pai, que estava bastante

nervoso.

— Então, o caso do seu pai é bastante grave e, por

isso, estamos transferindo o Sr. Mancuso para a Unidade

de Terapia Intensiva, para que ele seja monitorado. Ele

teve uma isquemia cardíaca de moderada a grave mais

cedo e ainda não sabemos as consequências disso.


— Doutor, mas ele está correndo risco de vida? —

perguntei, já também bastante apreensivo. Sabia que a

situação era grave.

— Sim, está. Ele teve um infarto e seu coração não

voltou ao ritmo normal. Pode ter uma parada cardíaca a

qualquer momento, ocasionando uma morte súbita e, por

isso, precisamos monitorá-lo — explicou o médico, de uma

forma até mesmo insensível, mas era de se esperar, já que

lidava com aquilo diariamente em centenas de paciente.

— Entendemos, doutor. Pedimos apenas que

qualquer boletim médico seja passado apenas para mim ou

meu filho. Minha mãe está aguardando lá fora e não

queremos que ela se emocione demais antecipadamente,

até porque não sabemos o que vem por aí — pediu meu

pai, já desacreditado de qualquer melhora.


— É uma decisão sensata, Sr. Mancuso. Eu os

manterei avisados. — O médico mal se despediu e sumiu

no longo corredor do hospital.

Na correria, esqueci de avisar a Olga que sairia e

principalmente a Jordanna que, a esta hora, já deveria ter

saído da emissora e estar a caminho da Siderúrgica.

— Olga, meu avô está no hospital em uma condição

bem grave. Poderia cancelar todo o meu dia de hoje e

avisar a Jordanna? Tentei falar com o celular dela agora e

não consegui.

— Claro, Enrico. O Dennis veio aqui procurá-lo, como

tinha pedido.

— Eu falarei com ele depois. Estou completamente

sem cabeça para nada.


Passamos mais algumas horas no hospital, sem

qualquer notícia de melhora. Havia já uma equipe médica

tratando do caso do meu avô, coordenada pelos médicos

da família, mas a situação dele era bem grave.

— Querido, eu soube agora. Como estão as coisas?

Desculpe, meu celular descarregou. Só fiquei sabendo

quando cheguei na Siderúrgica e Olga me deu o recado. —

Jordanna chegava ao hospital, ainda sem entender bem o

que tinha acontecido.

— Não tem problema, Anna. Ele infartou de manhã. O

médico disse que foi algo grave e está monitorado agora

na UTI. Não podemos vê-lo, mas só saberemos se houve

sequela e se haverá melhora em quarenta e oito horas.

— Sinto muito, meu amor. Onde está nonna

Geovana?
— Foi para casa agora há pouco. Ela estava aqui

desde cedo, sem almoço e sem nada. Falamos para ela

que ele ficaria monitorado e não poderia receber visitas,

então mamãe foi com ela para casa e daremos notícias.

— Fizeram bem. Ela é forte, porém esse tipo de

emoção não é bom para ela.

Apesar de lúcido e entendendo tudo que estava

acontecendo, meu avô estava bem fraco. Nas vinte e

quatro horas posteriores ao seu mal súbito, nenhuma

melhora foi vista e seu coração cada vez batia mais fraco.

Sua oxigenação caía cada vez mais e, por conta disso,

resolvemos comunicar à família o que estava realmente

ocorrendo, abrir para todos a real situação e prepará-los

para uma despedida.


O médico mesmo já o desenganava e avisava que

era uma questão de horas.

Primeiramente, os filhos se despediram, ou seja, meu

pai e meu tio. Logo em seguida, eu e Jordanna entramos.

Depois, um a um dos Mancuso e dos Van den Berg. Ele

mal respondia e havia momentos que ele não entendia

bem o que estava acontecendo.

Sabíamos que sua morte representava o fim de um

legado, que terminava com erros e acertos, muita coisa de

nós também morria naquele hospital. E algumas pessoas

demonstravam uma tristeza imensurável.

Por fim, ficaram o Sr. Willy Van den Berg e minha

nonna Geovana. Poupamos as forças de meu avô, para

que restasse nele um mínimo de energia para falar com as

principais pessoas de sua vida.


— Oh, meu amigo... sempre o avisei que você iria na

frente e eu tomaria todo o seu whisky, não é mesmo? Eu

cuidarei de nossas mulheres e de nossa empresa. Vá em

paz, que estarei aqui honrando nossos nomes — brincou o

Sr. Willy, reforçando a grande amizade que havia entre

eles.

— Eu... eu... eu te peço perdão... eu preciso morrer

com você me perdoando. Sei que meu tempo acabou, mas

não quero partir sem saber que juntos começamos e juntos

terminamos. — Meu avô se esforçava para fazer sua

passagem sem qualquer dívida terrena.

— Não precisa pedir perdão, acertamos e erramos

muito nessa vida. No entanto, se for para você se sentir

melhor, eu o perdoo, meu amigo. Siga o seu caminho em

paz.
Pouco tempo depois, entrou minha nonna.

— Querido, poupe suas energias... Eu estarei aqui

com você — falou minha nonna, bastante emocionada.

— Minha adorada! Eu te amo tanto e sempre amei em

toda a minha vida. Sei que errei muitas vezes com você,

mas saiba que meu amor sempre foi genuíno e verdadeiro.

Nunca quis magoá-la, muito menos lhe causar mal. Vivi

durante esses quase noventa e dois anos, única e

exclusivamente para você, para nossa família. Perdoe esse

seu velho por todos esses erros que eu cometi.

— Eu o perdoo, Mário, mas, por favor, descanse.

Você não pode se emocionar e se exaltar tanto. Você foi o

grande amor da minha vida e eu só posso agradecê-lo por

tudo que me deu... carinho, amor, cuidado... No entanto, eu

repito: por favor, não se exalte. — Na verdade, nonna ainda


tinha um fio de esperança de que seu quadro se reverteria,

apesar de termos conversado com ela, mostrado que a

situação era gravíssima e ela precisava aceitar.

Alguns minutos depois, o médico chegou e pediu,

gentilmente, que ela se retirasse, para também poupá-la de

grandes emoções, já que a respiração de meu avô dava

sinais de que pararia a qualquer momento.

Estávamos todos reunidos no hall do hospital,

bastante abalados e já providenciando todos os trâmites

funerários, quando Dona Carmem entrou, apoiada pelo

motorista da família, dizendo:

— Eu tenho direito de me despedir de Mário. Ele, na

verdade, foi o meu maior companheiro de vida e tenho

tanto direito quanto Geovana.


Minha avó, assim como o Sr. Willy Van den Berg,

simplesmente sentaram no sofá com as mãos nos olhos.

Já não tinham mais forças para discutir ou pedir um mínimo

de respeito. Quem intercedeu foi Daniel e tio Marcelo.

— Mamãe, por favor. Que cena é esta? Respeite os

Mancuso. Não vê o quanto nonna Geovana está

completamente consternada? — ponderava meu sogro,

tentando fazê-la ver como estava agindo de forma absurda.

— Saia da minha frente, Daniel. Eu irei me despedir

de Mário, assim como todos vocês fizeram, e ninguém vai

me impedir disso — ela praticamente gritava e o hospital

inteiro já olhava para nós. Principalmente porque

estávamos em uma ala reservada da Unidade de Terapia

Intensiva, onde normalmente os familiares aguardavam por

notícias tristes, ou seja, era falta de respeito até com as


demais pessoas que estavam ali. — Doutor, doutor... por

favor, me leve até Mário Mancuso.

— Senhora, as visitas foram encerradas. O Sr. Mário

está bastante debilitado e estamos poupando suas

energias para que ele não sofra mais dos pulmões e

coração em suas últimas horas — explicou o médico, de

maneira paciente e educada, vendo que a situação de

nossas famílias estava completamente fora do controle.

— Eu quero vê-lo agora e o senhor não irá me

impedir — disse Dona Carmem, empurrando o médico e

praticamente invadindo a ala fechada da UTI.

A cardiologista da família, vendo que a argumentação

seria inútil, levou Dona Carmem para se despedir de meu

avô. Logo em seguida, retornou para falar conosco,

avisando:
— Daniel, acredito que sua mãe esteja com sérios

distúrbios psicológicos. Você precisa pedir uma avaliação

psiquiátrica urgentemente. O caso dela está se agravando

e ela pode começar a se tornar um perigo para ela mesma

e para terceiros.

— Com certeza. Nós da família já havíamos

conversado sobre isso. Vamos resolver isso

imediatamente, não há mais como aguardar.

Na mesma hora, meu sogro acionou a psiquiatria do

hospital e chamou um renomado profissional da área para

fazer uma avaliação nela. Ele ficou aguardando que ela

saísse da ala da UTI, de sua despedida de meu avô.

— Carmem, estou morrendo. Realmente cheguei ao

fim — falou meu avô, pensando que o destino era tão


irônico que ela seria a última pessoa que ele veria, em vez

de minha avó.

— Eu sei, Mário. As crianças não são mais como

antes, e nós ficamos para trás, jogados para escanteio. Vim

apenas para lhe dar um último beijo e agradecer pelo seu

companheirismo a minha vida toda.

— Pondere as coisas, Carmem, tire o ódio do seu

coração. Os tempos são outros e nossa família está feliz...

é isso que importa. Todo esse seu rancor está fazendo mal

a você — ele ainda tentava argumentar, falando com muita

dificuldade e tossindo bastante.

— Eu ainda tenho força e, antes de partir, consertarei

algumas coisas que saíram dos trilhos lá atrás, Mário.

Preciso fazer isso pela nossa família.


— Deixe de bobagem, Carmem. Vá aproveitar o que

resta da sua vida. Isso tudo ficará para trás quando você

estiver no meu lugar... — Meu avô estava praticamente em

suas últimas palavras.

— Mário, não se preocupe... eu resolverei tudo, como

sempre foi. Descanse e, onde você estiver, nunca esqueça

que você foi e sempre será o grande amor da minha vida.

Nunca amei outro homem como amo você. — Ali Dona

Carmem se despediu de seu maior segredo. Aquele que

nunca entraria em um dossiê ou descobriríamos. Toda

aquela amargura sempre foi porque ela não pôde viver

aquilo que mais desejava: um romance de verdade com o

Sr. Mário Mancuso, o melhor amigo de seu marido.

Ela deu um último beijo em seus lábios, ao mesmo

tempo que ele dava o último suspiro e fechava os olhos.


Enquanto ela saía, sem nem olhar para trás, os

médicos começavam os preparativos do óbito. Ela se

enchia ainda mais de ódio e atribuía a morte de seu grande

amor às atitudes de Jordanna.

— A culpa é sua! Se você não tivesse mexido em

coisas do passado, em nossa empresa, em nossa família...

Mário não ficaria tão debilitado e sofreria um infarto tão

rápido em pouco tempo. Você me paga, Jordanna! Você

me paga! Saiba que você terá que carregar a culpa da

morte de Mário para o resto da vida — ela esbravejava,

enquanto seguranças da ala psiquiátrica a seguravam e lhe

aplicavam uma injeção com calmante.

Todos choravam muito e estavam completamente

estarrecidos com toda aquela situação.


— Querida, você está bem? — eu perguntei a Anna,

que estava completamente em estado de choque.

— Sim, Enrico, não se preocupe — ela respondeu

meio aérea, como se estivesse fora de si. Ela estava

abraçada a nonna Geovana e, em vez de consolá-la, foi

minha avó quem a confortou.

— Minha querida, ela é só uma velha louca. Mário já

estava doente do coração há anos e, com o passar da

idade, o problema apenas se agravou. Não se abale com o

que ela disse. Temos que ter pena e orar por ela, é mais

sofredora do que todos nós — disse minha nonna, que

sempre sabia ponderar todas as situações,

independentemente do momento que estivesse vivendo.

Resolvemos todos os trâmites funerários e eu fiquei

com meu pai no hospital para resolver os últimos detalhes.


Meu sogro e meu tio foram resolver o tratamento

psiquiátrico da mãe e os demais foram para casa,

acompanhar nonna Geovana e lhe dar apoio naquele

momento.

Após o funeral, a família ficou alguns dias de luto,

como era tradição, e Dona Carmem ficou internada com

visitas restritas. Avaliaram que ela estava com problemas

psiquiátricos seríssimos e talvez desenvolvendo sintomas

já críticos de Alzheimer. Por isso, ela apresentava aquele

sentimento de ódio voraz contra Jordanna.

— Doutor, mas é alguma situação reversível? —

perguntou meu sogro ao médico chefe que cuidava de

Dona Carmem.

— Infelizmente não, Sr. Daniel Van den Berg. Ela já

apresenta um quadro avançado de Alzheimer e a tendência


é que seu comportamento agressivo se torne cada vez pior.

As características estão bem presentes. O paciente, nesta

condição, escolhe uma única pessoa da família para odiar

e lhe atacar a todo instante, parece viver apenas de

lembranças do passado e ter comportamentos fora da

realidade. O próximo passo é ela não reconhecer mais

vocês e isso é muito duro para os familiares. Meu conselho

é levá-la para uma clínica de repouso especializada nesta

patologia, que tenha um tratamento completamente

direcionado para isso. Normalmente, eles fazem exercícios

de memória, banho de sol, além de todo acompanhamento

geriátrico. Na maioria das vezes, o investimento não é

barato, porém, no caso de sua mãe, é realmente a melhor

coisa a se fazer.
— Doutor, dinheiro não é problema. Vamos seguir o

seu conselho, antes que uma tragédia pior aconteça. O

senhor poderia me indicar algumas dessas clínicas?

— Sim, claro. Vou pedir para a secretária enviar a

relação que já é conveniada ao hospital. Caso ocorra

algum problema com qualquer paciente internado nestas

casas de repouso, eles serão atendidos prioritariamente e

temos também um sistema direcionado de emergência.

— Que ótimo! Vou avisar meu irmão e vamos

transferi-la, sim. Muito obrigado.

— Disponha, Sr. Van de Berg. Lembre-se apenas que

poucos poderão visitá-la, mas não a abandonar neste

momento é de extrema importância — aconselhou o

médico.

— Certo. Mais uma vez, obrigado.


Durante as quatro/cinco semanas seguintes, nossa

família enfrentou um turbilhão de problemas para resolver.

Eu e meu pai, junto de nosso advogado, tivemos que

ir à Itália resolver alguns assuntos burocráticos de contas

bancárias, certidões e imóveis que estavam em nome de

meu avô. Tivemos que percorrer algumas cidades e

cartórios, para que tudo estivesse resolvido. Evitávamos ao

máximo realizar qualquer trâmite de inventário, então

estávamos com uma procuração de nonna para dar baixa

em tudo e transferir para o Brasil. A viagem que deveria ser

apenas de uma semana, levou quase dois meses.

Anna também precisou viajar, pois a Siderúrgica

estava com uma grande oportunidade para entrar no

mercado asiático, e somente ela poderia conduzir como

ninguém todo esse processo.


Diante disso, nomeamos meu sogro e meu tio como

presidente e vice-presidente interinos, respectivamente, e

demos alçadas de aprovação para os gerentes abaixo

deles, já que estávamos certos de que todo o trabalho de

um ano garantia a confiança em nossos gestores. Assim,

até mesmo o Dennis, que era o mais novo funcionário,

ficou com uma boa alçada para agir de maneira mais

independente dentro da empresa.

Durante quase dois meses, não vi minha esposa e,

antes de eu retornar ao Brasil, ela pegou uma severa

virose.

— Meu amor, como você está? Já pedi a Olga que

agilizasse minha passagem para estar aí com você — eu

disse, direto de Roma, através de chamada de vídeo.


— Enrico, que bobagem. É apenas uma inflamação

estomacal. Você sabe que, desde o falecimento do seu

avô, tudo virou de cabeça para baixo. Não tenho comido

direito e só trabalho. De longe, tento monitorar a empresa,

assino documentos sem ler, confiando em nosso time,

porém isso tem me consumido. Quando você retornar,

iremos tirar alguns dias de férias e descanso. Além disso,

mamãe está aqui e amanhã irá comigo ao laboratório, fazer

os exames que o médico pediu. — Pelo vídeo, eu notava

que ela estava visivelmente abatida.

— O que o médico falou? — perguntei, bastante

preocupado por estar longe de Jordanna.

— Disse que eu provavelmente estou com uma

severa gastrite causada por intoxicação alimentar e


estresse. — Percebia que ela tentava amenizar o que

sentia, exatamente para eu não me preocupar.

— Tudo bem, meu amor. Vá descansar e amanhã me

dê notícias. Já estamos acabando aqui e, em alguns dias,

estaremos juntos novamente. Estou morrendo de

saudades.

— Eu também, meu marido! Juízo com essas

modelos italianas aí — ela disse brincando, tentando

amenizar a distância, a saudade e a preocupação.

Alguns dias depois, chegamos ao Brasil e fui para

casa imediatamente ver como estava Jordanna. Ela ainda

estava de repouso e, naquele dia, o laboratório iria liberar o

resultado dos exames.

Quando cheguei em casa, ela ainda dormia, então fui

tomar um banho, desfazer as malas e conferir algumas


coisas da empresa. Estávamos muito tempo fora e

precisava me colocar a par dos assuntos, antes mesmo de

encontrar Daniel e meu tio Marcelo. Até que abri alguns e-

mails e observei que havíamos sido desabilitados de duas

grandes licitações importantes para a Siderúrgica. Até aí

era normal, porém eram fornecedores que concorríamos há

anos. Perdemos algumas vezes, ganhamos outras, mas

nunca havíamos sido desabilitados.

— Oi, Daniel, é Enrico, tudo bem por aí?

— Sim, meu genro. Fez boa viagem? Como está

Jordanna? Ela precisa descansar. — Ele parecia

apressado.

— Ela está descansando agora, nem quis acordá-la

quando cheguei. E fiz boa viagem, sim, obrigado. — Fiz

uma pausa respirando profundamente e fui direto ao


assunto. — Daniel, você sabe o que aconteceu com estas

duas licitações que fomos desabilitados? Isso nunca

ocorreu conosco.

— Exatamente por isso o atendi correndo. Na mesma

hora que recebi o e-mail, entrei em contato com nosso

jurídico e o departamento de envio de documentos para

licitação. Agendei uma reunião para agora — explicou

Daniel, que aparentava ter ficado tão preocupado quanto

eu.

— Fez bem, meu sogro. Quando souber de algo, me

mande notícias. Vou atender à porta, acho que é o médico

particular que chamamos para avaliar o resultado dos

exames de Jordanna.

— Está certo, meu genro. Por favor, me avise o que

deu aí também.
Parecia que nosso ciclo de paz e calmaria tinha

acabado. Era um problema em cima do outro e todos

estavam sobrecarregados com a resolução. Segui para a

sala com todos os exames de Anna, para mostrar ao

médico.

— Como vai, doutor? Obrigado por ter vindo com

urgência. Eu recebi hoje os exames de Anna e gostaria que

o senhor desse uma avaliada. Ela está descansando

agora, porém nossa secretária já foi acordá-la para sua

consulta — falei, enquanto já repassava todos os papéis do

resultado para ele analisar.

— Bem, Sr. Mancuso. Eu havia pedido para o

laboratório me enviar também os resultados e ficaram

faltando apenas alguns complementares. No entanto, algo

me soou estranho.
— O quê, doutor? — perguntei já bastante

preocupado.

— Sua esposa está com gastrite nervosa, o que é

bastante normal na condição que ela estava vivendo, de

extrema sobrecarga profissional. Porém, tem um

componente que apareceu em seu organismo que está

contribuindo e agravando toda essa situação. — Tentava

explicar o médico, de maneira bem cautelosa, diante da

responsabilidade que aquela informação envolvia.

— Doutor, eu não estou entendendo bem. Que

substância é essa?

— Foi detectado em seu organismo, através do

exame de sangue, uma substância semelhante a um

remédio veterinário, muito utilizado para dopar cavalos e

animais de grande porte. Em pequenas doses, ele apenas


intoxica a pessoa, causando um mal-estar constante; já em

larga escala, ele pode até matar.

— Doutor, o que senhor está dizendo? Jordanna está

sendo envenenada? — eu perguntei, ainda perplexo e sem

querer acreditar, já desconfiando até da minha própria

sombra.

— Sim, é exatamente isso que estou dizendo, Sr.

Mancuso. É algo sutil que, provavelmente, ela come

diariamente e este alimento contém pequenas doses dessa

substância.

— Mas a minha esposa está correndo algum risco de

vida?

— Não, senhor, exceto se continuar consumindo a

substância. É preciso identificar a origem e passar por uma

desintoxicação alimentar severa, além de muito repouso,


até que o organismo dela entenda que tudo está limpo. Vou

analisar a paciente e receitar alguns remédios que irão

ajudá-la a se recuperar mais rápido. No entanto, já adianto

que, neste momento, não precisa se preocupar com o

estado de saúde de Jordanna. O que o senhor deve focar é

em descobrir o que e quem está causando isso a ela —

disse o médico, mostrando que eu deveria canalizar minha

energia para outra coisa. — Sr. Mancuso, a grande maioria

de meus pacientes são executivos, então, lhe digo: essa

não é a primeira vez que presencio uma situação

semelhante. Isso, infelizmente, é algo comum neste meio.

Eu ainda estava atordoado e ficava pensando em

quem poderia querer tão mal a minha esposa, a ponto de

tentar matá-la. Nós sabíamos que Dona Carmem tinha

motivos suficientes para isso e, mais ainda, seria capaz de


algo assim. Contudo, ela estava enclausurada em uma

clínica de repouso para idosos e quase ninguém a visitava.

Não teria como ela armar isso.

— Doutor, uma última pergunta. Como essa

substância pode ser consumida? É igual como vemos em

filme? Pode ser colocada no café da pessoa? — perguntei

sem ter receio de parecer ignorante, exatamente por não

saber nada sobre isso.

— Não, Sr. Mancuso. Esta substância precisa ser

diluída em algo líquido e gelado. Em algo quente, ela perde

as propriedades primárias. Por exemplo, em uma garrafa

de água da geladeira, é um líquido incolor e que não irá

variar de cor, mesmo misturando-se com o veneno. Além

disso, ela também pode ser injetada, em pequenas doses,


em algum alimento sólido — explicou detalhadamente o

médico.

No passar dos dias, Jordanna começava a apresentar

melhora com os remédios que o médico havia receitado e,

em vez de alarmar, resolvi investigar essa situação por

conta própria. Conversei apenas com nonna Geovana, que

era a pessoa que eu mais confiava na vida e sabia que

poderia contar com ela. Até que ela me aconselhou a

começar pela empresa e ir por eliminação na lista de

pessoas próximas.

— Enrico, como vai? Você tem feito falta aqui. O seu

sogro tentou falar com o covê algumas vezes, mas não

conseguiu. Pediu para avisá-lo que precisava agendar

algumas reuniões — falou Olga, atropelando as palavras,


pois, provavelmente, estava lotada de recados para me

dar.

— Olga... eu sei. Não consegui atendê-lo e pedi que

minha sogra desse notícias sobre a melhora de Anna.

Pode deixar todos os recados e assuntos pendentes

anotados, que amanhã irei retornar à empresa e

despachamos tudo, ok?

— Claro, Enrico. Fico feliz que Anna esteja

melhorando. Todos perguntam muito por ela,

principalmente o gerente do Meio Ambiente, aquele mais

novo, o Dennis. Ele vem todos os dias aqui no 33º andar

saber notícias dela. — Não era de se estranhar, já que ele

era tão motivado e admirava tanto a empresa. Vez ou

outra, parecia até meio puxa-saco. Ao falar dele, lembrei


que precisava retomar os assuntos das licenças e das

licitações, que estavam completamente abandonados.

— Olga, me tire uma dúvida. O que Anna costumava

comer aí na empresa, café da manhã, lanches? Alguém

mandava entregar algo? — Disfarcei, não demonstrando

que era uma investigação, e sim uma preocupação normal

com a alimentação da minha esposa. — Você sabe que ela

está com gastrite e pode ser pelo que ela anda comendo.

— Enrico, ela bebe o leite de soja dela, que somente

ela bebe, e que fica na copa aqui do andar da presidência.

Além disso, normalmente ela toma iogurte, que também

fica separado e, ultimamente, ela vinha recebendo alguns

chocolates de um fornecedor específico, que ela sempre

devorava mais para o fim da noite. No dia seguinte, a caixa

estava sempre vazia na lixeira. Tirando isso, apenas eu e


Rafael cuidamos dos pedidos de almoço, e ela sempre

pede as saladas do Gula Gula, então nada que saia do

padrão.

— Entendi, Olga. E quem está com acesso a nossa

copa da presidência? — Por mais que eu tentasse, não

havia jeito de não parecer algo suspeito.

— Neste momento, apenas nós. Durante o período da

reestruturação, todos que estavam envolvidos no projeto, já

que todos os participantes foram alocados na sala de

reunião do andar. No entanto, não transitavam muito pela

copa. Quando precisavam de algo, pediam para mim, para

o Rafael ou para a copeira, que já está conosco há mais de

dez anos e conhece o gosto de todos.

— Ok. Preciso que me passe, por favor, o contato da

segurança e peço que essa conversa fique só entre nós,


está certo? Estamos juntos há anos, exatamente porque só

você sabe ser discreta.

— Pode deixar, Enrico. Daqui a pouco te envio uma

mensagem.

Enquanto falava ao telefone, coloquei no viva-voz

para que Jordanna, que já sabia de tudo, e nonna Geovana

ouvissem as informações que eu estava obtendo. Naquele

instante, elas sugeriram olhar as câmeras de segurança e

ver quem poderia estar entrando e saindo da copa

diariamente.

— Senhor Enrico, estou enviando, por e-mail, todo o

material de vídeo gravado dos últimos seis meses do andar

da presidência.

— Muito obrigado, Matias. Vou olhar tudo com calma

e qualquer coisa te chamo — respondi ao chefe de


segurança do prédio, já ansioso para entender o que

estava acontecendo.

Em paralelo, pedi que Rafael levantasse, com a

recepção, de qual fornecedor estavam sendo entregues os

chocolates e quem havia fechado o contrato ou tinha

qualquer relação com ele.

Começamos a ver fita por fita, mas não vimos

ninguém com comportamento suspeito entrando e saindo

da copa. Na verdade, a pessoa que apareceu mais vezes

nas filmagens era a própria Jordanna, por ter o hábito de

comer de três em três horas e ter um enorme vício de

iogurte e leite de soja

Verificamos o fornecedor e quem fechou o contrato foi

o meu sogro, que sabemos que jamais atentaria contra a

vida da própria filha. Aquilo tudo estava muito estranho e


não tínhamos qualquer noção do que poderia estar

acontecendo.

Rastreamos tudo e como, através das câmeras de

segurança, não conseguimos obter nada, nos reunimos

com este fornecedor e garantimos que nada mais seria

entregue à minha esposa. Nem dele e nem de ninguém.

A segurança já estava em alerta e, mais uma vez, nos

víamos diante de alguma podridão que rondava a empresa.

Infelizmente, a desconfiança recaiu sobre a única pessoa

que tinha chegado recentemente na família: tio Marcelo.

Jordanna estava arrasada, principalmente pela mãe,

que chegou a brigar com ela pelo que estava sendo

levantado. Tio Marcelo, por sua vez, resolveu entregar o

próprio cargo e disponibilizou todos os seus documentos


físicos, digitais e rotas de transporte durante esse período

para que investigássemos.

— Enrico, não estou rompendo com a família. Apenas

estou me afastando e deixando tudo que eu tenho à

disposição para que vocês investiguem. É normal que o

primeiro suspeito seja eu, mas te garanto, meu sobrinho,

mesmo conhecendo vocês há pouco tempo, já que não

sabíamos da existência um do outro, amo todos da mesma

forma. — Tio Marcelo estava também bastante abalado e,

apesar de tudo, não demonstrava rancor e raiva de nós,

apenas decepção e tristeza. Lúcia o apoiou

incondicionalmente, sempre falando que acreditava na sua

inocência e que a responsável por isso tudo, na verdade,

era Dona Carmem.


— Eu sei, tio, estou profundamente chateado com

tudo isso.

A história já tinha vindo à tona, e não conseguíamos

mais nem segurar as conversas na empresa. Como tudo

que Jordanna comia vinha apenas de nossa casa, ela teve

uma melhora de cem por cento, contudo seu psicológico

estava bem abalado. Eu e meu sogro tocávamos a

empresa e Anna ficou apenas com as atividades da

emissora. Estava visivelmente abatida e chateada.

Era tanto assunto que precisávamos tratar, que

esquecemos completamente as licitações, licenças e

demais temas importantes.

Passados alguns dias, estávamos todos reunidos em

casa, exatamente para agregar tio Marcelo novamente à

nossa família, pois nada foi encontrado contra ele, além de


ser uma pessoa da qual todos nós gostávamos muito.

Entendemos que tínhamos sido injustos e queríamos

reparar isso. Foi quando a campainha tocou.

— Sra. Jordanna Van Den Berg Mancuso está?

— Sim, é minha esposa. Quem são os senhores? —

respondi, mas já sabendo a resposta pelo emblema

estampado nos uniformes e no carro policial.

— Polícia Federal. Recebemos uma denúncia e, após

averiguação, constatamos que houve autorização para

circulação de propina assinada pela Sra. Mancuso com

alguns fornecedores. Precisamos interrogá-la para maiores

esclarecimentos.

— Isso é apenas uma intimação ou vocês irão levá-

la? — perguntei, aparentando estar controlado, porém


querendo dar um soco em alguém. Primeiro foi o veneno e

agora armaram essa para Jordanna.

— Apenas a convocação, mas deve ser entregue

direto a ela.

Nisso, minha esposa chegou na porta e se

apresentou, sem baixar sua cabeça.

— Pois não, senhores, sou Jordanna Mancuso — ela

disse, em uma voz altiva e sem medo. — Onde devo

assinar? — Neste mesmo momento, meu sogro, que

estava na sala, já entrava em contato com nosso

advogado. Imediatamente, ao perceberem a postura firme

de minha esposa, não mostraram agressividade. De

qualquer forma, meu sogro e Felipe foram para o meu lado,

como se ela estivesse cercada de guarda-costas.


— Aqui, senhora. Por favor, compareça na data e

local indicado.

— Sim. Estarei presente com meu advogado e, desde

já, me coloco à disposição para o que for necessário.

Obrigada, senhores, e passar bem — ela disse,

imediatamente fechando a porta e me abraçando aos

prantos.

Eu sabia que ela estava apenas se fazendo de

durona.

— Meu amor, nada vai acontecer com você. Fique

tranquila. Isso é algum mal-entendido e vamos resolver

tudo — eu disse, tentando confortá-la. Ela apenas chorava

e mal conseguia falar.

— Minha filha, você não é a primeira executiva da

Siderúrgica a prestar esclarecimentos. Sei que é uma


situação chata, porém eu, seu avô e o Sr. Mário já

passamos por isso. É normal no mundo corporativo e

sempre há aqueles velhos lobos da concorrência que

tentam puxar nosso tapete. Além disso, Dr. Roberto e Dr.

Agnaldo estão chegando e eles irão auxiliá-la. Inclusive, já

estão em contato com a Polícia Federal para saber qual

processo e denúncia existem contra você.

— Eu sei, papai. Obrigada pelo apoio de vocês. É

porque me matei de trabalhar, por mais de um ano, para

transformar a Siderúrgica em uma empresa ética e dentro

dos padrões legais. Como, em tão pouco tempo, estou

sendo acusada de propina com fornecedores? — ela disse,

ainda bem chorosa.

Logo em seguida, chegaram os advogados e

começamos a traçar um plano.


— Sra. Mancuso, não é nada grave, que a levará para

a cadeia, contudo precisamos elaborar uma boa estratégia.

Há muitas licitações com órgãos públicos que vocês

ganharam e estavam com licenças vencidas. Algumas até

achamos estranhas, pareciam falsificadas, mas iremos

verificar com calma as evidências anexadas na denúncia

ao Ministério Público. O que querem saber é como a

Siderúrgica ganhou essas licitações, estando com

documentos irregulares. É uma das evidências de propina.

No entanto, não tem nada provado e eles estão apenas

chamando a senhora para prestar esclarecimentos.

Neste momento, eu e meu sogro nos olhávamos, pois

já sabíamos que o negócio estava esquisito com as

licitações e as licenças, mas, com a confusão que sucedeu

exatamente o dia que olharíamos, acabamos esquecendo.


Foi o falecimento do meu avô, a internação de Dona

Carmem, a doença de Jordanna e acabamos deixando

para lá.

Algo estava muito estranho e sabíamos que estava

partindo de dentro da empresa. Alguém que queria

prejudicar a Jordanna e até mesmo nossa família. Minha

esposa começou a vasculhar todos os seus e-mails,

enquanto Rafael chegava em nossa casa com o backup

externo que ele criava diariamente com tudo que ela tinha

aprovado, assinado etc.

Os advogados começaram a trabalhar naquele

instante. Rapidamente, minha esposa se recuperou do

susto e estava batalhando para provar sua inocência. Eu

tinha certeza de que não seria isso a derrubá-la.


Montamos uma verdadeira sala de guerra dentro de

nossa casa, e todos estavam ajudando de alguma forma.

Até que, por volta das vinte e duas horas, a campainha

tocou.

— Tio, tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — eu

falei, espantado pela hora, já que ele nunca foi uma pessoa

invasiva e não sabia o que estava acontecendo. Anna

preferiu poupar a mãe das notícias alarmantes até que

algumas coisas estivessem resolvidas.

— Não, Enrico! Precisava muito falar com vocês e

precisava ser hoje! — ele falou ofegante, como se tivesse

ido correndo de sua casa até a nossa.

Neste mesmo instante, Lúcia entrava e abraçava

Anna, que perguntou o que estava havendo para eles irem

a nossa casa àquela hora. Eu não estava entendendo mais


nada. Se eles não estavam sabendo de nossa situação,

qual era a nova bomba?

— O que aconteceu com vocês? — perguntou Anna

nervosa.

— Já sei quem atentou contra você e, provavelmente,

tem atrapalhado nossos negócios por meses! — disse tio

Marcelo, bastante nervoso.

— Como assim, meu irmão? Além de tentar matar

Jordanna, esta mesma pessoa estava boicotando a

empresa?

— Sim. Eu fui atrás porque estava sendo muito

injustiçado e queria provar para vocês que não tinha

qualquer culpa sobre o que estava acontecendo. Precisava

provar minha inocência. Ainda não tenho provas concretas,


mas não resta mais qualquer dúvida sobre o verdadeiro

culpado.

— E quem é, tio? Fala logo! Hoje tivemos até polícia

batendo aqui procurando minha esposa. — Já estava

bastante nervoso e alterado.

— Nossa mãe Carmem e seu neto, nosso sobrinho,

meu irmão Daniel! Sangue do nosso sangue. Filho de um

terceiro irmão. Eu sempre ouvi as histórias que vocês

contavam, porém eu custava a acreditar que era tudo isso

— disse ele, sentando no sofá e pedindo para que lhe

trouxessem um copo d’água.

— Como é???? — gritou nonna e toda a família.

Todos falavam um em cima do outro, não acreditando que

Dona Carmem poderia ter armado mais coisas contra todos

nós, enquanto Jordanna permanecia paralisada.


— Ela tinha alguém infiltrado na empresa causando

todos estes problemas a vocês e atentou contra a vida da

Sra. Mancuso? — perguntou nosso advogado.

— Sim, tinha. E o nome deste neto é Dennis! —

respondeu Jordanna!

— É ele mesmo, minha querida! Eu sinto muito! —

respondeu tio Marcelo, enquanto todos estavam em

verdadeiro choque.
CAPÍTULO 20

PARTE I

ENRICO

— Tio Marcelo, Anna, não estou entendendo mais

nada, vocês podem me explicar? — falei para eles, apesar

de algumas partes desta história já estarem começando a

fazer sentido para mim. Eu já aceitava que Dennis era o

responsável por tentar envenenar a minha esposa, além de

ele ter condições suficientes de boicotar a empresa na área

de licenças e licitações. No entanto, o que não fechava em


minha mente era o fato de ele ser mais um neto da Dona

Carmem.

— Meu sobrinho, vamos por partes. Vou relatar tudo

para vocês, desde o começo. — Neste momento, todos se

posicionaram ao seu redor. Lúcia permanecia ao seu lado,

de mãos dadas com ele, dando-lhe força silenciosamente,

para que tudo fosse esclarecido.

E, assim, entre um gole em seu copo d’água e outro,

ele continuou.

— No dia em que entreguei o cargo e me afastei pela

acusação de que eu tinha atentado contra a vida de

Jordanna e tinha boicotado a Siderúrgica... — nesta hora,

eu o interrompi, sendo rapidamente cortado por todos.

— Desculpe por isso, tio — falei, bastante

arrependido de minhas atitudes.


— Continuando... eu resolvi investigar por conta

própria, com a ajuda de Lúcia, mesmo contra a minha

vontade, pois sabia o quanto aquilo estava afetando o

relacionamento dela com a filha.

Lúcia, então, deu a mão também a Jordanna, que

retribuiu o gesto com um olhar afetuoso, sem interromper a

fala de meu tio Marcelo.

— Iniciei a investigação, averiguando por onde eram

entregues os alimentos e quem solicitava. A partir do

momento que Anna solicitava para Rafael e ele seguia com

o pedido, até chegar à copa do 33º andar. Percebi que

passava, inicialmente, pela expedição, através de um

pedido do analista da área administrativa e aprovação do

gerente, que apenas dava baixa quando era confirmado o

recebimento. Assim, ele despachava a nota fiscal de


serviço e, somente depois, subia para reposição do que

precisávamos para lanchar, almoçar ou até mesmo jantar,

como muitas vezes fizemos. Ou seja, percorri todo o

processo.

Todos estavam atentos ao que ele contava, e ele

continuou:

— Até que identifiquei que a grande maioria dos

produtos chegava em nosso centro de distribuição no final

do dia e era entregue somente pela manhã nos andares.

Exceto os pães, croissants e derivados que chegavam

direto de padarias e confeitarias de manhã. Então, fui na

área de segurança e pedi as câmeras dessas áreas de

armazenamento. Observei que Dennis frequentava aquela

área sempre após as vinte horas e parecia que ele entrava

em um ponto cego, portanto não havia como eu provar que


ele estava envenenando os produtos, apesar de mais

ninguém transitar por aquela área além dele.

— Inacreditável... — todos comentaram, enquanto

meu tio tomava mais um gole de água e respirava.

— Depois disso, fui apenas atrás deste rastro. O

passo seguinte foi averiguar os presentes que Anna

recebia e observei que um dos fornecedores enviava

semanalmente uma caixa de bombom para ela. O ponto

focal deles era apenas o Dennis, o que me levou a

consultar o contrato e vi que, por dentro do sistema, após a

aprovação, havia uma modificação de faturamento e dados

de contato. Ou seja, algum tipo de conluio que ele tinha

feito para receber os presentes diretamente. Assim, ele os

envenenava e colocava de volta na distribuição de

entregas para a presidência. Ele estava muito bem armado,


pois tinha conseguido entender todos os fluxos da

empresa, além de conseguir o acesso a todos os setores,

departamentos, pessoas e sistemas. Tudo se tornou muito

fácil para ele.

— A sorte foi que me afastei para viajar, caso

contrário, a esta hora já estaria morta — disse Anna, em

choque.

— Sim, minha sobrinha. Mas eu não parei por aí e fui

investigar também o seu trabalho. Solicitei ao Ricardo

Vieira, auditor da PBC, nossa parceira, para fazer um

levantamento sigiloso do trabalho do Dennis e tudo que ele

tinha acessado na empresa, tanto via notebook, como

através do celular corporativo, bem como onde havia usado

o acesso de portas com o crachá. Foi então que peguei as

fraudes nas licenças, onde ele falsificou as certidões,


fazendo com que caíssemos em exigência ou fôssemos

desabilitados em algumas licitações. Em casos piores,

subornou órgãos públicos para que a nossa participação

fosse realizada com a certidão falsa e falsificou a

assinatura da Jordanna. Para isso, ele emitiu um enorme

dossiê e diversos relatórios de auditoria, comprovando

essas informações. Eu trouxe tudo, justamente para que o

nosso time jurídico comece a agir, tanto para legalizar as

licenças, como regularizar nossa situação junto a estes

órgãos.

Neste momento, quem resolveu se manifestar foi o

Dr. Roberto, nosso advogado:

— Bingo!!!! Sra. Mancuso, já vou solicitar uma

contraprova de assinatura dentro do processo e nossa

defesa será baseada em todo esse relato. Inclusive,


utilizaremos este relatório do auditor, bem como, se

necessário, o testemunho dos envolvidos.

— Com certeza! Se precisar que eu vá, pode contar

com meu testemunho. Como eu disse, são fatos e indícios,

acredito que somente uma investigação policial poderia

dizer se o que temos em mãos são provas. Mas, pelo

menos, já corrobora com o que estou contando para vocês

— disse meu tio.

— Muito obrigada!! — disse Anna, ainda de mãos

dadas com a mãe.

Eu ainda tinha uma dúvida e já não aguentava mais

de curiosidade.

— Tio, parabéns e muito obrigado por todo o seu

empenho e por ter conseguido descobrir tantas coisas em

tão pouco tempo. A única coisa que ainda não estou


entendendo é o seguinte: como a Dona Carmem é avó do

Dennis? Porque lembrei de um fato, enquanto você nos

contava tudo isso — eu disse, enquanto recordava do dia

que tomei café com Dennis, após a sua entrevista com a

área de Recursos Humanos.

— O quê, querido? — perguntou Anna.

— Dennis me disse que estava com sua casa em

obra e era em um suntuoso condomínio aqui no Rio de

Janeiro. Além disso, outro dia, eu o vi pegando o seu carro

na garagem do prédio da empresa e me espantei, já que

era uma BMW. No entanto, não dei muita importância.

Agora já vejo que ele poderia estar recebendo dinheiro de

Dona Carmem, mas o que não entendi é ele ser neto dela.

Sr. Willy, que acompanhava tudo até então quieto e

de cabeça baixa, aparentando bastante tristeza, começou a


fazer ligações para bancos, passando códigos e obtendo

informações sobre transferências autorizadas pela esposa.

Por outro lado, meu tio continuou sua explicação.

— Então, Enrico, esta parte é a que menos tenho

provas e acredito que somente minha mãe poderá dar

maiores explicações. Mas descobri o vínculo entre eles da

seguinte forma: durante as auditorias, observamos que

havia em seu celular corporativo muitas ligações para o

telefone da clínica onde ela está fazendo tratamento. Foi aí

que, imediatamente, comprovei a conexão entre eles. Com

isso, resolvi visitá-la e, ao assinar o caderno de visitas,

observei que Dennis tinha assinado também, com uma

frequência de, pelo menos, três vezes por semana. Para a

minha surpresa, perguntei ao médico quem era aquele

rapaz que visitava a minha mãe sem o nosso


consentimento, e foi então que o médico me respondeu:

“— Ele é neto da Sra. Carmem Van den Berg. O senhor

não o conhece de sua família? Ele, inclusive, passou a ser

o nosso primeiro contato em casos de emergência, a

pedido da própria senhora Carmem. Quando ela sofreu a

queda e o corte frontal na cabeça e acabou precisando de

uma transfusão de sangue, ele que doou, pela

compatibilidade congênita”.

— O quê??? Como assim? — repetiam todos.

Incrédulos, inclusive, pelo acidente que Dona Carmem

havia sofrido e ninguém sabia.

— Como assim, Marcelo? Temos que processar esse

hospital. Não sabíamos que nossa mãe sequer tinha se

machucado, quanto mais precisado de reposição de

sangue. Isso é uma verdadeira loucura — gritava Daniel.


— Calma, meu irmão. No momento que o médico me

falou isso, eu criei uma confusão no hospital e fui parar na

sala da diretoria, onde exigia explicações. E o diretor me

explicou que Dennis apresentou um documento assinado

pela minha mãe, com firma reconhecida, avisando que ele

era o representante legal dela a partir da internação e que

era parente direto. E, por isso, ele foi o primeiro a ser

contatado no dia do acidente que ela sofreu... Então,

questionei como ela havia se acidentado, e ele disse que

ela estava tentando fugir pela janela e teve uma queda de

quase quinhentos metros, batendo direto com a cabeça em

uma grade da janela inferior, perdendo muito sangue. Foi

necessário fazer uma drenagem, devido ao coágulo que

causou um traumatismo craniano leve, e ela levou quase

trinta pontos. Após isso, eles tiveram que lacrar suas portas
e janelas e restringir bastante os utensílios que ela

utilizava. Hoje, tudo é de plástico, como talheres, pratos e

copos.

— Isso é totalmente inacreditável. Não é possível que

eu tenha vivido com essa mulher por tanto tempo e

praticamente não a conheço. E como ela está hoje? Como

que a clínica não nos informou deste ocorrido? — disse o

Sr. Willy Van den Berg.

— Na verdade, Sr. Willy, eles informaram para o

responsável principal, o Dennis. Não havia por que eles

entrarem em contato conosco — respondeu meu tio.

— Você chegou a ver a mamãe neste dia? Nenhum

de nós quis visitá-la depois do episódio que ela causou no

hospital, no dia do falecimento do Sr. Mário. Eu ligava

também, uma vez por semana, e depois parei de ligar —


disse Daniel, demonstrando arrependimento e espanto

diante de tudo aquilo.

— Eu resisti em vê-la, mas resolvi ir mesmo assim,

até para comprovar a história do médico. Naquela altura do

campeonato, eu não estava acreditando em mais ninguém

— continuou meu tio Marcelo. — Ao chegar no quarto, ela

estava dormindo, já que os analgésicos que vem tomando

para diminuir a dor do pós-operatório são fortes e causam

enorme sonolência. Ela estava com a cabeça toda

enfaixada e com o rosto e braços com bastante arranhões

e inchaços. Sinceramente, meus queridos, não sei como

ela sobreviveu.

— Vaso ruim não quebra! — disse nonna Geovana,

para logo em seguida pedir perdão aos Van den Berg pelo
desabafo. Contudo, arrancando algumas concordâncias de

membros da família Mancuso.

— Mas, tio, eu ainda não entendi. E você tem certeza

de que Dennis é neto de Dona Carmem? Há algum teste

de parentesco ou algo semelhante? — perguntei, ainda

indignado com aquela história de filme.

— Não, Enrico. Infelizmente, a única prova que tenho

é o relato do hospital e o fato de ele poder doar sangue

para ela, alegando este laço familiar. Não tenho realmente

nenhuma prova. Neste caso, somente perguntando para

ele ou para ela.

Após mais algumas confabulações e montagem de

estratégias de defesa, nossos familiares e amigos foram

indo embora, ficando apenas eu e Jordanna em casa.

Estávamos tentando descansar, e então perguntei a ela:


— Amor, como você suspeitava de Dennis e não me

falou nada?

— Por que está me perguntando isso, Enrico? Eu não

suspeitava dele.

— Porque na hora que o tio Marcelo informou que

havia uma pessoa ligada à Dona Carmem e que era o neto

dela, imediatamente você falou que era ele.

— Ah, sim. Porque, um dia, na empresa, à noite, ele

levou alguns documentos para que eu assinasse e

começamos a conversar. Perguntei sobre sua família e ele

desconversou, até que, em um descuido, ele falou que sua

avó estava internada e ele faria de tudo para ajudá-la. Quis

saber o que ela tinha e ele disse que tinham cismado que

era Alzheimer, mas que ele sabia que não era. Aí, aquilo de

alguma forma, me chamou atenção e indaguei:


“Cismaram? Quem?” e ele, simplesmente, respondeu:

“minha família”. Talvez, se tocando do deslize que havia

cometido. Deixei passar algum tempo, perguntei como

estava a avó dele e, entre uma conversa e outra, qual era a

origem da família dele. E, novamente, como um lapso, ele

respondeu que era holandesa. Ainda tentei tirar mais

algumas informações, porém ele se retraía. Depois disso,

fiquei com aquilo na cabeça, mas tantas coisas

aconteceram e resolvi deixar para lá. No entanto, quando

seu tio Marcelo começou a contar a história, eu logo juntei

uma coisa à outra.

— Por que não me contou tudo isso, Anna? —

perguntei, indignado por ela não dividir algo desta

magnitude comigo.
— Meu amor, desculpe. Na época, apenas me

pareceu uma desconfiança boba. Hoje eu vejo que eu

deveria ter escutado meu sexto sentido — ela disse,

enquanto me abraçava.

— Precisamos dar um jeito de provar este parentesco

— eu disse, matutando com meus próprios botões.

— Acho que eu sei como podemos fazer isso — disse

Anna, iluminando-se.

— Como??

— Amanhã, todos os gerentes terão que ser

submetidos a exames periódicos. Dennis ainda está na

empresa e não sabe de nada que está acontecendo, ele

terá que passar pelo exame. Ligue para Olga, querido, e

mande emitir um comunicado na empresa e agendar com

um laboratório de nossa confiança a coleta de sangue de


todos os gerentes, porém utilizaremos apenas o de uma

única pessoa. Vou avisar também ao Rafael.

— Você é uma gênia, meu amor!!! — falei, enquanto

já ligava para Olga. Neste momento, apitou uma

mensagem nos nossos celulares.

— Mensagem do meu avô, Enrico — ela falou, lendo

rapidamente.

“Queridos, acabei de receber o retorno do banco. Foi

retirado da nossa conta bancária da Suíça, um total de dez

milhões de euros, com autorização de Carmem Van den

Berg, sendo transferidos para Dennis Vries Boer. Este é o

verdadeiro nome do canalha, que ainda desonra nossa

origem holandesa. Toda a documentação apresentada na

empresa, provavelmente, é falsa. Além disso, estou


tentando saber como eles fizeram isso sem minha

assinatura, já que o procedimento é que os dois cônjuges

autorizem. Eu confesso que não sei mais o que pensar.”

Nós apenas nos olhamos, chocados. Imediatamente,

corremos para agendar o exame de DNA.

Além de executar nosso plano na empresa para

coleta de material genético dos gerentes, ainda pedimos

para que o auditor Ricardo verificasse se não havia

nenhum problema no financeiro, pois diante de tudo que

estávamos encontrando, nada mais nos surpreenderia.

Em paralelo, Anna prestou depoimento e nossos

advogados entraram com todas as provas de defesa,

sendo a grande maioria relatórios da auditoria, câmeras de

segurança da empresa e informações que obtivemos em


sistemas da Siderúrgica. Junto a isso, entramos com uma

denúncia sobre o atentado de morte por envenenamento.

Até que saiu o resultado de exame de DNA e em

nada nos surpreendeu ter dado positivo, confirmando que

Dennis era efetivamente de nossa família, em laços

genéticos de primeiro grau. Só nos restava uma dúvida:

como Dona Carmem tinha tido ainda um outro filho e neto

sem que ninguém soubesse?

Enquanto tudo isso ocorria, Dennis continuava na

empresa, porém tendo todos os seus passos monitorados

pelo jurídico, pelo pessoal de TI e vigiado também pela

nossa equipe de segurança. Para conseguir colher mais

provas, instalamos novas câmeras de segurança pelo

prédio, principalmente nos pontos cegos, para que

tivéssemos uma abrangência de tudo e simulássemos que


a Anna vez ou outra, ela ainda passava mal e tinha que ir

para o hospital.

Quando saiu o resultado da investigação e soubemos

que Anna estava completamente livre de tudo, resolvi tirar

uns dias de descanso daquela loucura toda somente com

ela. Precisávamos disso, então resolvemos viajar no final

de semana. Aluguei um delicioso chalé na região serrana

do Rio de Janeiro para relaxarmos e namorarmos um

pouco.

O piloto do helicóptero já estava à nossa espera no

heliporto da empresa e partimos para nosso merecido

descanso.

Chegando ao local, tomamos um demorado banho,

entre muitos beijos, que tanto tempo não dava em minha

esposa, e descemos para o jantar, que havia sido


preparado especialmente para nós. Era um risoto de funghi

com paletas de cordeiro ao molho de hortelã,

acompanhado por um delicioso vinho tinto que

harmonizava muito bem com tudo.

Bastante satisfeitos por conseguirmos comer com

calma, degustando a saborosa comida e o vinho, além de

finalmente conversarmos sem interrupções, subimos

novamente para o nosso bangalô para aproveitar a noite.

Apesar do frio, Anna colocou uma provocante lingerie

em tom lilás claro e uma camisola transparente sobre os

seios, que mal tapava seu umbigo, na mesma tonalidade

da calcinha. Como sempre, ela estava deslumbrante e

muito sexy.

Sua calcinha era bem fio dental, e ela ficou debruçada

na janela do quarto, empinando sua linda bunda para me


provocar, enquanto eu me despia. Vez ou outra, ela me

olhava sobre o ombro e mordia os lábios, como se

estivesse me chamando. Eu já estava morrendo de tesão e

ali mesmo a agarrei por trás, no parapeito da janela,

colocando sua calcinha de lado e acariciando seu sexo,

que já estava úmido, com uma de minhas mãos. Com a

outra, puxava seu cabelo para trás para beijar seu pescoço

e sentir seu perfume, seu cheiro me enlouquecia mais

ainda.

Começamos a roçar nossos corpos e, quando ela viu

que eu estava já completamente entregue de tesão, disse:

— Eu comando dessa vez, meu amor. — Neste

momento, ela chupou os próprios dedos e levou à sua

vagina.
Ali ela começou um showzinho particular. Roçando

em meu pau, ela se masturbava, estimulando-se e

dedando-se ao mesmo tempo. Eu queria tocá-la

desesperadamente e ela não deixava. Então, ela sugeriu:

— Faz o mesmo, meu amor. Eu adoraria ficar de

voyeur do meu marido. — Sua voz lânguida e aveludada

durante o sexo parecia um elixir de tesão para mim.

Portanto, como pedido, ali comecei a me tocar.

Nós nos exibíamos um para o outro, até que ela,

sabendo que eu ia gozar, puxou minha cintura para o seu

quadril e se penetrou, engolindo com toda a sua boceta

ensopada o meu mastro enrijecido e dolorido, de tanto que

eu estava segurando para explodir. Ela cavalgava sobre

mim e sabia o quanto eu amava aquela posição. Ela

acariciava os próprios peitos e puxou minha mão para


chupar os meus dedos e colocar sobre seu clitóris, para

que eu lhe desse prazer por todos os lados.

Depois de gozarmos juntos e cairmos completamente

cansados, ela começou a me chupar e pediu para que eu

fizesse o mesmo, terminando a rodada com um delicioso

69 e o gosto de prazer da minha esposa em minha boca.

Dormimos exaustos, com as pernas entrelaçadas e

felizes com aquele primeiro dia do nosso relaxamento.

Precisávamos muito daqueles momentos. Em tão pouco

tempo de casados, havíamos passado por muita coisa, que

apesar de fortalecer nosso amor, nos desgastava como

pessoas. Por isso, sempre que eu pudesse, faria isso por

Anna e pelo nosso casamento, para que pudéssemos nos

conectar e lembrar que, acima de tudo, nos amávamos.


Nos outros dias, nos curtimos e relaxamos muito,

aproveitando o clima da serra. Fizemos algumas compras

nos mercados locais e, enquanto arrumávamos a mala

para ir embora, recebemos uma ligação do meu sogro.

— Queridos, desculpe atrapalhar o descanso de

vocês. É apenas para avisar que Dennis foi preso.

— Finalmente, isso está tendo um fim, papai! — falou

Jordanna, demonstrando bastante alívio.

— Filha, também estou bastante aliviado. Há apenas

um único problema — ele disse, apreensivo.

— O que foi, meu sogro? — já perguntei nervoso,

sentia que estava traumatizado com tantas informações

ruins.

— Eles querem ouvir a minha mãe! E sabemos muito

bem que ela não irá entregar assim, de mão beijada, o seu
cúmplice e ainda poderá tentar acusar Anna. Então, já

acionei os advogados e vamos quebrar qualquer acusação

que ela possa vir a fazer.

— Fez muito bem, Daniel. Já iremos fazer o checkout

e voltar para o Rio de Janeiro para resolver isso — falei,

decidido a proteger a minha esposa a qualquer custo.

Quando chegamos em casa, soubemos que os

advogados de Dennis haviam conseguido habeas corpus e

ele havia sido solto. Entramos em contato com a empresa,

providenciando a proibição de sua entrada e sua demissão

por justa causa. Ao mesmo tempo, nossos advogados

pediram que fosse emitida uma medida protetiva para

minha esposa, para que nosso mais novo parente não

chegasse perto de nós.


Porém, alguns dias depois, Anna estava saindo da

emissora, onde tinha seu programa firmado e, na porta,

Dennis a aguardava. Ele foi em sua direção, chamando-a,

pedindo para que eles conversassem.

— Jordanna, por favor, me dê dez, quinze minutos

apenas. Podemos conversar? — dizia ele.

Imediatamente, três seguranças se aglomeraram ao

seu redor, impedindo que ele sequer conseguisse se

aproximar de minha esposa. No entanto, ela, corajosa

como sempre foi e ainda ansiosa por respostas, resolveu

ceder, com algumas condições, pedindo para que os

seguranças o soltassem imediatamente.

— Tudo bem, Dennis! Com a condição de que a

explicação ocorra para toda a família e não apenas para

mim. Meus advogados entrarão em contato.


— Jordanna, por favor, gostaria de explicar a você —

ele tentava argumentar.

— Não, Dennis. Isso é um assunto de família, e não

apenas entre mim e você. Ou você aceita ou não teremos

conversa.

— Eu sei que errei, mas eu não queria matá-la. Por

favor, você precisa me entender, me perdoar, e eu preciso

que você me ajude. Tire a queixa de tentativa de

assassinato contra mim.

— Ah, então isso tudo é apenas para eu livrar a sua

barra? — disse Anna, completamente perdendo a

paciência.

— Não, Jordanna. Por favor, não. Eu gostava de você

e foi muito difícil fazer tudo que minha avó estava pedindo.
O dinheiro falou mais alto. Por favor, me escute — ele

suplicava.

— Dennis, é pegar ou largar. Meus advogados

entrarão em contato com você. Passar bem. — Minha

esposa entrou no carro, seguida dos seguranças e partiram

para casa.

Passados alguns dias, nossos advogados recebiam a

confirmação da reunião entre nossa família e Dennis, que

pediu apenas para levar o seu advogado e para que nada

fosse gravado. E também que todos os celulares fossem

desligados e deixados sobre a mesa do escritório. Porém,

como já estávamos completamente calejados de tanta

maldade, deixamos algumas escutas espalhadas pela sala.

Apesar de termos sido avisados que tal gravação não


serviria de nada, já que não tinha sido autorizada

judicialmente.

No dia marcado, todos na sala aguardavam a

chegada de Dennis, exceto os Mancuso, os quais

preferimos poupar de um novo desgaste. Eles tinham

grande interesse em entender o que aconteceu, já que

aquilo influenciou diretamente para que tivéssemos

problemas na empresa, mas, mesmo assim, evitamos e

contaríamos tudo depois. Apenas eu participaria, junto com

os Van den Berg e meu tio Marcelo.

— Boa noite a todos — falou Dennis, bastante

constrangido. E recebeu de todos, educadamente, o boa

noite de volta.

— Então, meu caro, sem enrolações, queremos que

você explique tudo, sem mentiras. Quem é você, o que fez


e por que fez? — eu disse, iniciando aquela conversa, que

eu considerava um verdadeiro circo, já que não concordava

com aquela “oportunidade”. Para mim, era mais um ato

oportunista daquele moleque, tentando sensibilizar a

família para aliviar a denúncia contra ele.

— Enrico, em primeiro lugar, acredito que o que fiz

não seja surpresa para ninguém. Além disso, não sou um

simples ex-colaborador da Siderúrgica, sou parente de

vocês, já que sou neto de Carmem Van den Berg — ele

começou. E realmente não causou nenhuma surpresa, ele

que talvez tenha ficado surpreso por todos saberem sua

origem.

— Dennis, não precisa ficar espantado. Antes mesmo

de tudo ocorrer, já tínhamos desconfianças em relação a

você e, no dia da coleta de sangue laboratorial, na


empresa, fizemos o teste de DNA — falou minha esposa,

enquanto o observava boquiaberto. Porém, ele,

rapidamente, tentou não demonstrar estar abalado. Ele,

analisando friamente, era apenas um menino influenciado

pelas maldades da avó, com muita ambição por, talvez,

não ter tido a riqueza da família e por ser ingênuo a ponto

de não mensurar os crimes que estava cometendo a

pedido de Dona Carmem.

— Então, tem uns seis meses que eu e minha avó

nos encontramos e nos aproximamos. Ela foi um dia no

escritório que eu trabalhava e me contou que teve que

viver longe de meu pai, que isso era uma longa história que

ela me contaria depois e me ofereceu mudar

completamente de vida. Disse que precisava muito da

minha ajuda, pois toda a família estava contra ela,


ameaçando de interná-la em uma clínica psiquiátrica e até

mesmo matá-la. E ela me convenceu que quem armava

tudo isso era você, Jordanna — contava Dennis, e minha

teoria de que ele era apenas um imbecil facilmente

manipulado cada vez mais se confirmava.

— Eu??? Eu ameaçava a vida de minha própria avó?

Na verdade, era o contrário, não é? Eu nunca fiz nada

contra ela. Apenas acabei com os absurdos que ela

impunha a essa família e ela simplesmente não aceitou —

Anna se defendeu, revoltada.

— Eu sei, Jordanna. Hoje, eu vejo isso. Na época, eu

fui completamente convencido do contrário. E no dia do

batizado de Caio, quando a vi sentada isolada, sem

ninguém da família por perto, aquilo corroborou a história

que ela me contava. Nem mesmo na hora das fotos com os


avós, ela foi chamada. Eu realmente achava que vocês

queriam interná-la para tirar o seu poder e mais um monte

de coisas. E, então, quando ela realmente foi internada, eu

confirmei toda a verdade dela. Fiquei completamente cego.

— Mas você não foi criado com princípios mínimos de

legalidade, civilidade e moralidade, meu camarada? Você

não sabe o que é certo ou errado? Você tentou matar

minha filha! — meu sogro se exaltava, sendo contido por

meu tio.

— Eu sei, Daniel! Só que na minha visão, eu não

estava tentando matá-la, minha avó dizia que era apenas

para afastá-la da empresa. Não imaginei que estava

envenenando a Jordanna. Além disso, eu achava que

estava vingando minha avó — argumentava Dennis.


— Foi você que ajudou na tentativa de fuga dela? —

perguntou meu tio.

— Sim, fui eu. No entanto, acabou não dando certo e

ela se machucou muito — respondeu Dennis,

demonstrando consternação.

— E os dez milhões de euros, Dennis? Porque até

agora só ouvi seus argumentos emocionais. Mas e o bem

material, não te comoveu em nada? Não foi ele que o

cegou a ponto de achar que, colocando veneno na comida

da minha esposa, não iria matá-la? — Neste momento, era

eu que perdia as estribeiras e qualquer paciência que ainda

existia dentro de mim.

— Na verdade, esse dinheiro não foi para mim.

Apenas dez por cento e para eu construir minha casa. O

resto era para pagarmos alguns parceiros que


precisávamos que nos ajudasse, e praticamente todo o

valor ficou com minha avó, que planejava sua fuga para a

Holanda. Ela abriu uma conta na Suíça e é ela que detém

todo controle. Inclusive, esta conta foi aberta com o nome

do meu pai, que se chama Janssen. Eu carrego o Godoy,

que é de minha mãe. Não uso nenhuma documentação

falsa e isso já foi provado para a polícia.

Foi então que o Sr. Willy nos deixou na sala e pediu

licença, dando boa noite a todos, dizendo que ia se

recolher, pois não passava bem. Imediatamente, foi

acompanhado por Daniel e Elle, sempre preocupados com

sua saúde, que já começava a se abalar diante de tantas

atrocidades que estavam acontecendo e vinham de sua

esposa.

— E onde está seu pai hoje? — perguntei.


— Ele mora na Holanda e eu falo pouco com ele. Sei

que ele também se corresponde com minha avó. Acho que

até com mais frequência — respondeu ele, visivelmente

cansado de ter que assumir aquilo tudo. E, imediatamente,

seu advogado falou que havia chegado a hora de parar, o

que foi prontamente seguido pelos nossos advogados.

Ele apenas suplicou uma última vez:

— Jordanna, eu sei que não mereço, mas, por favor,

retire a queixa contra mim por tentativa de assassinato.

Isso vai acabar com minha vida. Eu não sabia o que estava

fazendo. Por favor, preciso que você me perdoe — ele

implorava, e eu estava vendo a hora que ele iria se

ajoelhar.

— Dennis, há coisas que já estão fora do meu

alcance, mas vou pensar sobre isso tudo e meus


advogados entrarão em contato com o seu, ok?

Eu olhava incrédulo para minha esposa. Não era

possível que ela aliviaria a barra dele. Eu não deixaria. Ele

era tão maluco quanto Dona Carmem e precisava estar

internado junto com ela em uma camisa de força.

— Rapaz, veja bem. Não é porque o aceitamos aqui,

no seio da família Van den Berg, que estamos o acolhendo

ou passando por cima de tudo que você fez. Tudo precisa

ser averiguado e provado. Não somos juízes de ninguém.

Apenas digo uma coisa: fique longe da minha esposa. Não

a siga em seus compromissos, na empresa, em nossa

casa, em nenhum lugar. Ela já está com seguranças e não

quero que a vida dela se transforme em um verdadeiro

inferno com perseguição e medo. Nós já passamos por

muita coisa, principalmente Anna, por causa de suas


atitudes. Não tem cabimento nenhum você continuar com

isso. E se eu souber que você está seguindo minha esposa

e importunando-a, eu chamarei imediatamente a polícia.

Não pensarei duas vezes. — Não podia deixá-lo ir embora

sem dar este recado. Anna não precisava mais viver isso

tudo.

Imediatamente, fui apoiado por meu sogro.

— É isso mesmo, Dennis. Faço das palavras de

Enrico as minhas e não admitirei que minha filha sofra mais

nada, mesmo que isso signifique colocar minha própria

mãe na cadeia. Então, fique bem longe, enquanto pode, de

toda essa sujeirada. Você já está encrencado demais.

Ele apenas acenou com a cabeça. O que me pareceu

era que ele sentia um certo arrependimento pelo que fez,

contudo muito mais aborrecimento por ter sido pego. Ele


percebeu que suas palavras não tinham surtido o efeito

desejado, que era fazer com que Anna retirasse a queixa

contra ele.

E eu mesmo não deixaria. A vida e a segurança de

minha esposa estava acima de tudo, e eu daria minha vida

por ela. Não havia nada nesse mundo que eu não fizesse

para protegê-la. Então, mesmo que ela amolecesse o

coração, eu manteria os pés firmes e iria com essa história

até o final.

Nos dias seguintes, continuamos reestruturando a

empresa e apagando os inúmeros incêndios que Dennis

havia deixado. Tínhamos tido um prejuízo de quase trinta

milhões de reais e ainda estávamos tendo que corrigir

nossa imagem no mercado.


As investigações e os processos judiciais seguiam

seu curso, e Jordanna bravamente lutava pela nossa

empresa, juntamente comigo, meu tio Marcelo e meu

sogro. Éramos incansáveis, mas havia, além da empresa,

algumas histórias que precisavam ser reveladas e

estávamos apenas aguardando a liberação médica para

visitar a avó de minha esposa e definitivamente esclarecer

tudo.

Após praticamente um mês, isso ocorreu e, na clínica

de cuidados e reabilitação, eu, Anna, meu tio Marcelo e

Daniel comparecemos no horário marcado com Dona

Carmem. O Sr. Willy Van den Berg não quis estar presente,

pois sua saúde emocional estava cada vez mais abalada e

já afetava a física. Ele vinha constantemente realizando

exames para tentar se cuidar. Achávamos, inclusive, que


ele estava começando a apresentar sintomas críticos de

depressão.

— Bom dia, mãe. Como vai? — iniciou meu sogro, ao

entrarmos no espaçoso e luxuoso quarto da clínica onde

Dona Carmem se encontrava.

Eu ainda não a tinha visitado e me impressionou a

suntuosidade do local. Até no final da vida, ela ostentava

algo, o que era totalmente desnecessário, pois, pelos

relatos médicos, ela mal saía da cama ou da poltrona em

frente à janela. Pouco descia para o jardim, apesar de tão

belo, para o banho de sol ou tinha vontade de socializar

com os outros pacientes, como era comum, até mesmo

para aqueles que tinham o mesmo diagnóstico.

Até que descobri que, na verdade, não eram todos os

quartos que ostentavam aquele tamanho e tantos luxos.


Apenas cinco, dentro da clínica, tinham aquelas

características, inclusive com frigobar e água mineral San

Pellegrino disponível para o “hóspede”. E somente quem

tinha muito “cacife” poderia pagar por tudo isso

mensalmente, o que na verdade era um verdadeiro

desperdício.

— Olá, Daniel. Estou bem, como pode ver. Apesar de

vocês não me visitarem nunca — esbravejou Dona

Carmem, não fazendo qualquer esforço para disfarçar o

descontentamento com a nossa presença.

Imediatamente, ela revirou os olhos quando viu todos

entrando e suspirou. — Não sabia que era uma reunião de

família! — Fechou ainda mais a expressão quando viu

Anna entrar por último no enorme quarto.


— O que vocês querem aqui??? Nunca vieram me

visitar e agora vêm me perturbar? Isso não é possível! —

continuou ela.

— Sabe muito bem o motivo de estarmos aqui, mãe.

Até porque já vimos o nome do Dennis no caderno de

visitas recentemente, depois de tudo que aconteceu. Logo,

sabemos que a senhora já sabe de tudo — falou tio

Marcelo, que não parecia nem um pouco contente e já

estava sem paciência com a mãe recém-adquirida.

— Eu não sei de nada. Isso foi tudo sandice desse

menino. Ele alucinou essas histórias dele. — Ela teve a

capacidade de ainda continuar mentindo.

— Que sandice, mãe! Já sabemos muito bem de

todas as coisas que a senhora e seu fizeram e

viemos aqui para esclarecer tudo. Todos os contra


a minha filha, contra a empresa e sobre este aumento

repentino na família — falou meu sogro, já bastante

transtornado.

— Falando em filha, não quero essa garota no meu

quarto. Então, só conversaremos quando Anna sair —

Dona Carmem já quase gritava.

— E por quê??? O que a senhora tem contra a sua

neta, mamãe??? O que ela fez para você ter todo esse

ódio a ponto de armar seu próprio assassinato — gritava

Daniel.

Eu percebia que não tínhamos começado bem e

aquilo ia acabar dando problema.

— Você está me chamando de assassina? Mais

respeito comigo, menino. Você saiu aqui de dentro e eu

não te dou esse direito. Tenho meus motivos para não


gostar dessa menina — falava ela, tentando sair por cima.

— Ela destruiu minha família, a empresa e chegou

querendo mudar tudo. Inclusive, armou para enganar a

todos nós e se casar com Enrico, quebrando um pacto de

anos de tradição familiar.

Foi a minha vez de não aguentar mais ficar quieto.

— Dona Carmem, com todo respeito à família Van

den Berg e à sua idade, a senhora cometeu crimes. A

senhora que destruiu sua família, seu marido hoje está

doente, quase levou a empresa à falência e vem culpar a

minha esposa? Não tem um pingo de consideração e amor

por ninguém e, mesmo aqui, vivendo em todo esse luxo, foi

capaz de jogar o próprio neto, que fez tudo pela senhora,

na cadeia para se manter de pé. É uma vergonha. Eu

tenho verdadeiro asco da senhora. E não sairei daqui hoje


sem ouvir as verdades que merecemos — esbravejei, sem

pensar em mais nada. Era inadmissível ainda ter que ouvir

tanto absurdo depois de tudo que ela tinha feito contra

Anna.

— Enrico está certo, mãe. Como a senhora pôde

tentar matar a sua própria neta? Por favor, queremos

esclarecer tudo e precisa ser hoje — meu sogro corroborou

com a minha indignação.

— Eu não tentei matá-la. Apenas pedi ao Dennis para

tirá-la da presidência da empresa. Se ele exagerou, não

posso ser responsabilizada por isso. Além do mais, Anna

cavou sua própria cova. Ela foi em minha casa com um

dossiê nas mãos e jogou todos da família contra mim. Ela

começou essa guerra e eu nunca fugi de uma briga.

Sempre defendi essa família.


— A senhora tinha adulterado um exame de

paternidade, que mexeu com a vida de todos nós. Só pode

estar completamente louca de dizer que foi Anna que

começou tudo isso. Nunca aceitou que vivêssemos nossas

vidas. A senhora é uma criminosa. — Eu já estava

completamente descontrolado.

Dona Carmem começou a sorrir como uma vilã de

filme de terror, e eu mal acreditava no que via.

— Vá comer feijão com arroz, garoto! Saia dos

cueiros antes de vir falar assim comigo. Vocês não sabem

tudo que tive que abrir mão na vida para vocês terem tudo

que têm hoje. Façam-me o favor — ela ainda falava, de

maneira inacreditável.

Meu tio me segurou porque via que eu estava fora de

mim e pediu um pouco de paciência. Tanto eu, como Anna,


ficaríamos no quarto apenas como ouvintes.

— Vamos começar de novo, mãe — falou tio Marcelo,

tentando apaziguar os ânimos e mantendo o equilíbrio

emocional diante daquela situação.

— Tudo bem. O que vocês querem saber para

terminarmos logo com isso? Já estou no fim da vida e não

tenho mais nada a perder. Além disso, sei muito bem que,

mesmo se vocês gravarem essa conversa, não terá

qualquer valor para a justiça... então que se dane todos

vocês. — Ela estava, inclusive, ficando deselegante.

— Vamos iniciar por partes, então, mãe. Quem é

Dennis? — conduzia meu tio, já que tanto eu, como Anna e

meu sogro estávamos completamente transtornados com

tudo.
— Ok. Vou contar, mas, por favor, sem críticas e

julgamentos.

— Mãe, não viemos julgá-la ou criticá-la, queremos

apenas entender isso tudo — continuava meu tio,

mantendo um enorme sangue de barata.

— Está ok. Vamos lá. Dennis é meu outro neto,

tirando Elle e essazinha aí. Quando chegamos ao Brasil,

como Willy viajava muito e eu ficava muito tempo sozinha,

acabei me envolvendo com nosso motorista Janssen Boer,

um holandês que veio conosco quando Willy decidiu abrir a

empresa neste país. Até que, depois de um ano de

relacionamento, engravidei. Não tinha como eu falar que

era de meu marido, já que ele mal parava aqui, então me

enclausurei em casa e arrumei alguns importantes

contratos da Siderúrgica para Willy tratar na Europa. Ele


morou lá por dezoito meses, sem qualquer visita ao Brasil,

dando tempo suficiente para que eu arranjasse alguém

para cuidar de meus filhos gêmeos que tinham acabado de

nascer, sendo que um deles era o pai de Dennis.

Ela pausava para um longo gole de água, enquanto

tentávamos disfarçar o espanto até ela retornar.

— A esposa do motorista, na época, aceitou cuidar de

meus filhos, recebendo uma boa quantia de dinheiro e,

com isso, eu sabia que eles cresceriam perto do pai. Mas,

ainda bebê, a menina não resistiu à falta de leite, sem se

adaptar aos outros alimentos, vindo a falecer aos nove

meses. Eu a amamentei até o dia do Willy voltar, porém,

quando ele chegou, não pude mais vê-la e recebi a notícia

que ela não tinha resistido. Ela realmente era mais fraca.

Já o menino resistiu, cresceu saudável e dali surgiu


Dennis. — Ela novamente pausou e, quando ela falou da

menina, percebemos uma ponta de tristeza em seu

coração gélido.

— Se precisar de um tempo, mãe... — falou meu tio,

consternado.

— Deixe de bobagem, menino. Eu sou forte e sempre

fui. Apesar de perder a única menininha que Deus tinha me

agraciado, eu precisava fazer aquilo pela minha família e

pelo nosso legado. Vocês entendem tudo que abri mão???

Naquela época, o desquite não era aceito e eu nunca tive

um marido presente, então acabava achando amor e

carinho na rua. Meu casamento com Willy foi armado pelo

meu pai... eu me casei aos quinze anos, enquanto ele tinha

vinte e um e sempre foi uma conveniência para os

negócios de Willy, já que, em troca de se casar comigo,


minha família lhe deu os recursos suficientes para ele

começar a parte dele da Siderúrgica. Nós tínhamos

chegado na Holanda há pouquíssimo tempo, vindos da

Espanha. Eu não conhecia nada, não tinha amigos, não

sabia como era o mundo. Fui moldada no sofrimento e nos

ensinamentos que meus pais me passavam.

Mais alguns minutos de pausa e nós nos mantivemos

em silêncio, e percebi que até mesmo Anna estava

penalizada. Realmente não sabemos tudo que nossos avós

tinham vivido para estarmos aqui.

Ela então continuou, sem dar chance de externarmos

o que estávamos sentindo, já que ela via os nossos olhares

penalizados com a história.

— Sei que Willy também teve outras mulheres no

mundo, só que, para ele, não havia problema nenhum, já


que sempre vivemos em uma sociedade machista e

somente hoje que há luta contra isso. — Neste momento,

ela lançou um olhar para a minha esposa, como se, lá no

fundo, sentisse uma pontada de inveja do que ela era.

E seu relato continuou:

— Eu ainda era menina na Holanda e ia conversar

com meus pais sobre tudo que eu estava vivendo. Tinha

sonhos, queria ter um amor, e o único conselho que

recebia era honrar meu marido, minha família e seus

negócios. Foi assim que me tornei o que sou hoje,

seguindo esse conselho.

Pela primeira vez, uma lágrima começava a rolar em

seu rosto.

— Eu abri mão de filhos, apesar de, mesmo de longe,

acompanhar o crescimento deles, abri mão de viver uma


vida com dignidade e amor por um verdadeiro

companheiro, abri mão de ser feliz, abri mão de ser amada,

abri mão de minha capacidade como profissional que eu

sei que tenho e sempre tomei decisões escondidas. Abri

mão de toda uma vida por vocês e para vocês serem e

terem o que têm hoje. Enquanto isso, eu via todos vivendo

as suas vidas, inclusive o Daniel, que sempre teve tudo

que seus irmãos não tiveram e, mesmo assim, não honrou

a própria família, trazendo uma bastarda para o seio de

nosso lar, coisa que eu nunca pude fazer.

Neste instante, entendemos que, na verdade, ela não

odiava Anna, ela apenas odiava o que minha esposa

representava. Ela nunca pôde viver com seus outros filhos,

porém quando o filho fez o mesmo, ele viveu com uma filha
fora do casamento, ou quase, já que a própria Dona

Carmem a mandou para um internato no exterior.

— Sinto muito por tudo que passou, mamãe. Eu sei

que lhe devo desculpas pelo meu comportamento por tanto

tempo. Não há justificativa — falou meu sogro, visivelmente

consternado.

— Não preciso disso agora, Daniel. E acho que vocês

já entenderam todos os meus motivos. Além disso, quando

achei Dennis, vi o quanto ele era um menino frágil e

malsucedido na vida. Eu precisava mudar aquilo. Ele

precisava ter as mesmas chances que vocês tiveram —

falou ela, apontando para mim e Anna. — Assim, eu o

instruí para tomar seu lugar na empresa, só não imaginei

que ele iria tão fundo e seguiria tudo que conversávamos

aqui.
— A senhora o manipulou, não é mesmo, mãe? —

falou meu tio.

— Sim, o manipulei. Ele precisava achar algo de bom.

Dei dinheiro a ele e o forcei a ser forte e batalhar pelo seu

lugar. Mas ele não recebeu a criação de um Van den Berg,

como você, Marcelo, e acabou metendo os pés pelas

mãos.

Ela já apresentava um visível cansaço e sua fala

começava a ficar embolada. Ela havia gastado o pouco de

sanidade, consciência e lembrança, naquele momento, ali

conosco. Precisávamos ir embora, até mesmo para nos

recuperarmos emocionalmente daquilo tudo, e assim o

fizemos.

Não olhamos para trás e eu mentalmente prometia

nunca mais encontrá-la. Diferentemente de minha esposa,


que tinha planos completamente diferentes, pois, de

alguma forma, tinha achado algo que ligava as duas a

partir daquele relato. Mal sabiam que, na verdade, o

destino ainda as uniria de uma forma surpreendente.

Chegamos em casa e preparei a jacuzzi para nós dois

tentarmos relaxar um pouco. Enchi duas taças com vinho e

relembramos a conversa com Dona Carmem.

— Alguma coisa me tocou ali, Enrico. Sei que você

acha que já estou louca, mas não estou. Sei que tem algo

que preciso fazer, apenas não sei o que é. No entanto,

minha intuição feminina diz que ainda vou descobrir —

falava minha esposa, demonstrando até um pouco de

euforia.

— Eu sei, querida. Esqueça um pouco isso tudo e

relaxe — falei, posicionando-a para deitar sobre meu peito,


enquanto sentíamos a água quente sobre nós.

— Tudo bem. Não vamos mais falar sobre isso hoje.

Vamos apenas ficar aqui quietinhos relaxando e

descansando. Estou precisando mesmo — ela falou,

enquanto já colocava a cabeça em meu ombro e suas

costas em meu peito.

— Vou cuidar de você! Vou fazer uma massagem.

Hoje não faremos nada, ficaremos apenas deitados

relaxando, e você me deixará mimá-la como merece.

— Eu te amo tanto, Enrico. Você me trata como uma

rainha e eu amo isso.

— Eu também, meu amor. Você é a minha vida! Você

mudou tudo dentro de mim e me fez uma pessoa melhor,

sempre vou te amar por isso — falei, enquanto

massageava seu corpo.


Nós nos beijamos e ficamos horas ali, apenas

namorando e cuidando um do outro com amor, depois de

tanta mágoa e dor que tínhamos visto naquele dia.

Os dias foram passando e continuamos seguindo

normalmente com nossas vidas, tocando a empresa e os

assuntos familiares, e mais uma grande festa iria ser

celebrada. Após quase um ano de todos os

acontecimentos, minha sogra e meu tio iriam se casar.

Seria uma cerimônia simples, apenas com um juiz de paz e

uma recepção para alguns amigos, a qual cedemos nossa

casa para que ocorresse. Contudo, mesmo assim, os Van

den Berg e os Mancuso estavam animados novamente.

O Sr. Willy, bastante debilitado de saúde, assim como

a Dona Carmem que ainda permanecia internada na clínica

seriam os únicos que não participariam, ao contrário de


toda a família que já se aglomerava em nossa sala,

naquela manhã ensolarada primaveril do Rio de Janeiro.

Novamente parecia que a felicidade e a paz

começavam a tomar conta de nós e uma nova era estava

chegando para nossas famílias. Estávamos com saúde,

fortes e vivendo sem todas as mentiras que sempre nos

rondaram.

Durante a cerimônia, um fato particular me intrigava:

Anna não saía do celular.

— Meu amor, está tudo bem? — perguntei, tentando

não demonstrar preocupação, porém bastante intrigado

com aquilo, já que, normalmente, em final de semana, ela

não fazia isso. Era uma de nossas regras. — Algum

problema com a empresa ou com a emissora? Você não

largou o celular durante toda a cerimônia.


— Desculpe, Enrico. Na verdade, não é um problema,

e sim a solução e não pude esperar para responder e

passar algumas orientações — ela explicou de forma rasa,

e fiquei sem entender praticamente nada.

— Não entendi, Anna. Tem alguma relação com o

trabalho, com nossa família, com você? Por que você está

tão misteriosa? Não temos segredos entre nós — cobrei

dela uma explicação.

— Querido, eu vou te contar tudo, mas não aqui e

agora. Pode ficar despreocupado porque não há problema

nenhum. Inclusive, é uma notícia muito boa. No entanto,

não é conosco, então nem se empolgue porque ainda não

é o Enrico Jr. — ela disse, sorrindo e me abraçando,

enquanto encostava a cabeça em meu ombro.


— Tudo bem. Vou respeitar seu segredo, mas você

sabe que prometemos não esconder nada um do outro,

principalmente depois de tudo que passamos — briguei de

forma carinhosa com ela.

— Não se preocupe, assim que acabar a cerimônia e

todos forem embora, você saberá. Receberemos uma

visita.

— Ok. Anna. Ainda vou infartar por sua causa... —

falei rindo, percebendo que não era algo ruim.

Todos brindavam e comemoravam, e eu de longe,

com minha taça de champagne na mão, observava a

felicidade genuína que pairava sobre a família. Caio já

ensaiava dar seus primeiros passos e ria feliz com um

simples copo de plástico na mão, enquanto Elle e Felipe

conversavam com Daniel e Glória sobre uma viagem de lua


de mel que eles fariam e deixariam o filho sob os cuidados

dos pais. Lúcia e meu tio dividiam um pedaço de bolo e

demonstravam que nunca era tarde para ser feliz. Minha

nonna Geovana, apesar de tudo, gozava de saúde e

conversava animada com meus pais, dizendo que estava

preparando uma grande recepção com as amigas, afinal

seus noventa anos estavam chegando. Sobre isso, ela

apenas me disse: “— Meu neto, quero passar na Itália...

então, providencia isso para mim”. — Ela ainda tinha

alguns parentes lá e tudo estava acertado para que seu

aniversário fosse do jeitinho que ela estava esperando.

Por fim, eu admirava minha esposa, que, sempre

linda, em um vestido floral esvoaçante, com seu cabelo

solto e o frescor de sua pele que precisa de pouco para

parecer maravilhosa, de longe buscava o meu olhar.


Sempre que saíamos do raio de visão um do outro, ela

parecia perder o chão, sem perder a altivez e a segurança

que ela carregava. Constantemente, nos olhávamos e ali,

com uma transmissão de pensamento, dizíamos que nos

amávamos, e ela terminava baixando o rosto com um

sorriso tímido que arrebatava meu coração.

Parecia que eu via um final dessas novelas que

minha avó adorava ver, e eu pequeno, como sempre queria

ficar perto dela, acabava deitado em seu colo, no quarto,

vendo uma cena ou outra. No fundo, eu sabia que ainda

não tinha chegado o “Felizes para sempre”, mas

estávamos bem próximos disso.

Ainda era entardecer de sábado e, após me despedir

do último convidado, fui ao quarto para procurar minha


esposa, que já trocava de roupa, tirando o vestido de festa

e colocando uma calça jeans. Imediatamente, perguntei:

— Agora que saberei o que está acontecendo?

— Sim, meu amor. Mude de roupa, pois teremos visita

em meia hora — ela disse, de forma incisiva.

— Posso ao menos saber o que está acontecendo,

para não ficar com cara de surpresa na frente de nossas

visitas misteriosas? — eu disse, ficando realmente

aborrecido com aquele mistério todo.

— Sim, claro, meu amor. É um detetive que está

chegando com uma mulher, que acredito ser o último

membro da família que faltava para nós conhecermos.

Antes mesmo de eu reagir, tocou o interfone,

solicitando a nossa liberação de entrada de visitantes no


condomínio. Quando vi, minha esposa já estava na escada,

não me dando tempo de perguntar mais nada.

Ao chegar na sala, com a roupa mudada, Anna já

abria a porta e vi um homem relativamente conhecido, pois

havia nos ajudado a desvendar alguns mistérios da nossa

família, e uma senhora, de aproximadamente cinquenta

anos, portando-se de maneira simples, sem luxos,

entrando em nossa casa. Dava para ver que a senhora

havia sido criada de forma humilde e sem muitos recursos.

Não entendi como e quem ela era e como era da nossa

família.

— Sr. Enrico, como vai? É um prazer atendê-los mais

uma vez — disse o detetive Simas, mostrando nitidamente

saber bem mais do que eu. Eu apenas acenei com a

cabeça e apertei sua mão, sem lhe dizer nada.


Sentamos e Anna foi quem começou a desvendar

todo o mistério envolvendo aquela mulher, de forma que eu

pudesse me situar naquilo tudo.

— Fique tranquila, Helena. Queremos apenas

entender a sua história. Somos pessoas do bem e estamos

em busca de justiça e também querendo ajudá-la.

— Moça, eu só tenho a agradecer por tudo que tem

feito por mim. Sempre soube que tinha algo errado com

minha história. Minha mãe adotiva mal falava sobre meus

pais e sobre quem eu realmente era. Sempre tive que lutar

muito para sobreviver, até que, há quase um ano, no leito

de sua morte, ela me contou um pouco de quem eu era.

Não quis procurar vocês porque não tenho olho em riqueza

de ninguém. Eu só queria conhecer mesmo minhas

origens, mas aí esse senhor foi me procurar uns dias atrás.


— Desculpe, eu não estou entendendo nada — eu

disse, simplesmente perdido em tudo aquilo.

— Helena, este é meu marido Enrico. Enrico, essa é

minha tia Helena, filha de minha avó Carmem com o

senhor Janssen, motorista da família Van den Berg na

época. Apesar de minha avó achar que ela morreu ainda

bebezinha, ela está vivinha da silva, aqui na nossa frente.

Eu, estarrecido, olhava aquela senhora simples, que

me dava um sorriso bastante humilde e constrangedor e

me estendia a mão.

— Muito prazer, Sr. Enrico. Sua esposa é uma mulher

de fibra. O senhor tem muita sorte.

Eu ainda sem reação nenhuma disse:

— Sim, eu sei. Ela é realmente surpreendente. Muito

prazer. Mas, por favor, estou curioso com toda essa


história. Como chegamos até aqui?

Minha esposa foi quem começou com os

esclarecimentos:

— Querido, no dia que saímos da clínica, naquele dia,

algo na minha intuição acendeu. Eu achei estranho minha

avó ter amamentado a menina por algum tempo e, logo em

seguida, ela falecer pela falta de adaptação a alimentos, se

minha avó estava dando do bom e do melhor para eles,

principalmente a parte de alimentação. Não sei por que

isso me intrigou e, ao sair de lá, procurei o Simas, pedindo

para que ele investigasse a vida de Dennis e toda a sua

origem, já que seria exatamente a de seu avô verdadeiro,

com quem foi criado.

Eu, espantado, olhava minha mulher continuar a

história.
— Então, após um ano de muita investigação,

descobrimos que minha avó nunca se aproximou da

família, apesar de falar com meu pai, essa foi uma

condição da esposa do motorista para criar os filhos dela

com todo amor e educação que pudesse. Apenas receberia

notícias de longe, porém, apesar de Dona Carmem achar

que sua menina não tinha sobrevivido, na verdade, ela

estava sendo criada pela irmã daquela mulher, que

escondeu a menina como uma vingança à amante de seu

marido, por quem ela nutria um enorme ódio.

Ela pausou e segurou a mão de Helena.

— E hoje estamos diante dela aqui, tentando fazer

justiça porque, na verdade, ela é uma Van den Berg, assim

como seu irmão, assim como Dennis.

— Meu Deus... e a Dona Carmem já sabe disso?


— Não, Enrico, ainda não. Precisávamos entender

tudo e eu precisava conhecer a Helena, além de esperar

sair o resultado do exame de DNA, para levarmos para

minha avó.

— E a senhora viveu esses anos todos com a irmã de

sua mãe, sem saber realmente de quem era filha? —

perguntei, ainda impressionado.

— Sim. Fui criada pela irmã de minha mãe adotiva,

em Paquetá. Recebia visitas de todos, mas sempre fui

apresentada como sendo filha de minha tia adotiva. Convivi

com meu irmão, como se ele fosse meu primo. Não vou

mentir para os senhores, apesar de dificuldades financeiras

e muita luta, recebemos muito amor, educação, princípios e

caráter, e foi isso que ficou para mim. Todos já faleceram,


pois não tínhamos infraestrutura para grandes tratamentos

médicos.

— Você conhece o Dennis? — perguntei.

— Sim, conheço, é o meu sobrinho. Eu já sei de toda

a história e tudo que aconteceu. Sua esposa já me contou

por telefone as atrocidades que ele cometeu. Eu, em nome

de minha família, peço desculpas.

— Não se preocupe, Helena. Na verdade, todos nós

somos vítimas de conceitos que minha avó trouxe da vida

dela. Dos seus erros, que hoje consigo entender, apesar de

não concordar. Contudo entendo por que ela fez tanta

coisa, exatamente pelo que ela teve que viver.

— Obrigada. A senhora realmente é uma mulher

extraordinária e eu jamais conseguiria fazer isso que está

fazendo, principalmente depois do que te fizeram.


— Não se preocupe. Estou fazendo algo que precisa

ser feito, até mesmo quando as pessoas não merecem. —

Minha esposa estava bastante emocionada, e eu sabia que

aquilo seria um golpe de misericórdia em Dona Carmem.

— E, por favor, nada de senhora, sou sua sobrinha...

— Está certo! — disse Helena, ainda desconfortável

com toda a situação. Era nítido que ela não tinha interesse

em dinheiro ou herança. Apenas queria descobrir a sua

verdadeira história.

— Bom, os próximos passos, entendo que será reunir

seu irmão, Dennis e a senhora para agendarmos um

encontro com Dona Carmem, certo?

— Sim, claro. Vou avisar a todos, e você me avisa

quando for melhor para vocês — disse Helena, já se

levantando para se despedir.


Eu ainda estava incrédulo com aquilo tudo. Após nos

despedirmos, eu fiquei um bom tempo sentado no sofá,

ainda refletindo.

— Ainda chocado, meu amor? — Anna veio me

perguntar, já de camisola, com uma taça de vinho na mão e

uma tábua de frios e torradas.

— Estou aqui pensando, Anna... Como pode? Tantos

segredos por tantos anos e como a Dona Carmem

aguentou tudo isso? Hoje eu consigo entendê-la e,

principalmente, até certo ponto, compreender seu jeito

meio mau, meio odioso com todos. Ela nunca recebeu

amor, sempre foi cobrada e buscava na rua aquilo que ela

queria. Levou uma vida muito vazia — eu refletia, com

bastante pena do que ela tinha vivido.


— Sim. E sabe o que é mais irônico? Essa é uma

família que, durante três gerações, não nasceu nenhuma

mulher. Apenas homens. Imagina quando minha avó

descobriu que estava esperando gêmeos, sendo um deles

uma menina. Deve ter sido uma enorme felicidade, que ela

não pôde viver, que ela não pôde sentir como era. Deve ter

sido muito triste. E ainda por cima achar que ela morreu.

— É verdade, ainda não tinha parado para pensar

nisso. Os Mancuso e os Van den Berg têm um legado de

filhos homens. — Havia um machismo estrutural tão

latente, que achávamos normal e ficávamos felizes pelos

varões da família.

— Eu fico imaginando, Enrico, como será o

reencontro delas.
— Graças a você, né, meu amor. A mulher que Dona

Carmem mais odiou, que ela, inclusive, tentou matar, será

a que vai lhe dar o maior presente em vida — eu refleti.

— É... mas não sei por que fiz isso. Vai ver minha avó

tem razão. Eu vim ao mundo para bagunçar esta família

mesmo... — Ela ria, enquanto deitava em meu colo e eu já

começava a lhe fazer um cafuné.

— Você bagunçou mesmo. Mudou tudo, mudou todos

e, ainda por cima, levou o melhor partido da família —

brinquei, enquanto já começava a beijar seu pescoço.

— Você é muito convencido. — Ela já amolecia em

meus braços, enquanto eu sentia sua pele arrepiar.

Rapidamente, tirei sua camisola. Já estava com meu

mastro duro demais a essa altura e mal tive tempo pra

colocar o preservativo, descendo minha boca pelo seu


pescoço, pelo seu colo e, logo em seguida, parei em seus

seios, que já estavam com o biquinho durinho e se

arrepiavam mais ainda enquanto eu os mordia e passava

minha língua. Ela já gemia baixinho e suspirava, e não

demorou muito para que sentasse em cima de mim, no

sofá. Ela roçava sua calcinha já molhada em meu calção e,

maliciosamente, se esfregava em mim, sorrindo com

satisfação.

— Como eu te desejo, meu amor... Como você pode

me enlouquecer tanto assim, hein? Sua pele, seu cheiro...

você é deliciosa demais... eu fico no céu... eu te amo

demais... — eu dizia, já entorpecido de tesão por Anna.

Sem esperar muito, comecei a acariciar sua boceta,

que já estava inchada me esperando, e a dedei para sentir

seu melzinho escorrendo. Ela continuava a dançar sobre o


meu pênis que já doía de tão duro. Eu apertava seu

bumbum e a estimulava por cima da calcinha, tanto na

frente como atrás, pressionando meus dedos sobre seus

buraquinhos. Não demorei mais, coloquei sua calcinha de

lado e tirei meu short, penetrando-a com força, sem tirá-la

de cima de mim. Eu adorava vê-la cavalgando sobre meu

pau, com seus olhos fechados e mordendo os lábios de

tanto tesão, gemendo e chamando meu nome.

Ela apertou a almofada ao lado, me abraçou com

mais força, grudou seu corpo ao meu e ali gozamos juntos.

Então, eu a joguei no sofá e abri suas pernas. Eu me

ajoelhei no tapete felpudo da sala e comecei a chupá-la

com força, sugando seu clitóris, enquanto enfiava um dedo

em sua vagina. Ela gemia e se contorcia de prazer.


— Amor... isso é muito bom... como você me chupa

gostoso... não para... não para... por favor... não para —

ela pedia insistentemente.

Eu alternava meu dedo e minha língua em seu

buraquinho e lhe acariciava as pernas com a outra mão.

Ela puxava meus cabelos e apertava o forro do sofá, cada

vez que seu ápice se aproximava.

— Goza pra mim, goza, meu amor... eu quero sentir

todo o seu gosto.

— Não, Enrico. Enfia em mim de novo. Vem... coloca

seu pau dentro de mim.

Imediatamente, obedeci ao pedido de minha esposa.

Eu a deitei no tapete, abri mais ainda suas pernas – ainda

estava em ponto de bala, cheio de tesão – e, na mesma


hora, a penetrei com força, para novamente gozarmos

juntos.

Após um tempo ali deitados juntos, enquanto

acariciava o cabelo dela, ainda sentindo o seu cheiro, um

dentro do outro, exaustos e ofegantes, escutei as seguintes

palavras de minha esposa, fazendo meu coração

simplesmente parar:

— Eu parei a pílula, meu amor!


CAPÍTULO 20

PARTE II– PERDÃO

ENRICO

Estávamos reunidos em nossa casa, apenas

aguardando a chegada de todos, enquanto os carros já

esperavam para nos levar à clínica. Anna havia retirado as

queixas contra Dennis e, apesar de não ter lhe dado o

emprego de volta na Siderúrgica, entregou o seu currículo

para uma vaga disponível na emissora. Ela sabia que ele


não faria mais nenhum mal a ela e aquela fase já tinha

passado.

Nossa família estava bem ansiosa para conhecer

Janssen Boer, pai de Dennis, e Helena Almeida, que não

havia recebido o nome de seu pai verdadeiro, por ter sido

criado pela tia adotiva. Ela nunca se casou e ainda levava

uma vida simples em Paquetá. Fazia costura e, com o

pouco de sua renda, ajudava quem precisava. Era uma

pessoa boa e sempre humilde quando estava próximo a

nós, o que me causava uma certa consternação, já que era

completamente o oposto de sua mãe e, provavelmente, o

oposto também que ela desejava para sua única filha.

Ao chegarem, todos se cumprimentaram e

continuaram com as apresentações. Havia muita

curiosidade sobre aqueles novos membros e ainda muitas


ressalvas contra Dennis, que aos poucos tentava o perdão

de cada um ali.

Todos se organizaram e fomos para a clínica em três

carros, onde os responsáveis, já cientes do que

aconteceria, reservaram uma área do jardim com cadeiras

e deixaram uma equipe médica de sobreaviso caso alguém

passasse mal com a emoção.

Era uma manhã ensolarada de domingo, porém um

leve frio de agosto começava a apontar no caloroso Rio de

Janeiro. Eu até preferia desta forma. O clima estava ameno

e eu olhava ao redor, enquanto estávamos ali sentados

esperando o enfermeiro levar Dona Carmem.

Em minha observação, percebi uma coisa: nós

ostentávamos roupas, acessórios e bolsas caras, ao passo

que Helena, seu marido e até mesmo Dennis, que havia


devolvido para nossa família todo dinheiro que recebeu,

vestiam-se de maneira simples e mostravam-se ainda

constrangidos em nossa presença.

No entanto, éramos todos iguais, independentemente

da maneira como fomos criados, com luxo ou não, éramos

todos da mesma família. O que nos diferenciava era

apenas o caráter e os princípios passados e, graças à

minha esposa, unimos pessoas do mesmo sangue, tão

distantes em valores e que precisavam tanto nos ensinar a

dar valor ao que importava de verdade.

Era realmente incrível as voltas que a vida dava e

como a cada segundo poderíamos nos surpreender. Eu

não sabia o que aconteceria nos próximos segundos

naquele jardim, mas sabia que a mulher que Dona Carmem

mais odiava, exatamente por representar tudo que ela


queria ter sido em vida, seria responsável, talvez, por uma

das maiores felicidades de sua vida sofrida e cheia de

mentiras.

— Mais um encontro de família? Esse deve ser para

anunciar que alguém morreu. Para a clínica arrumar essa

presepada toda no jardim... pelo jeito foi o meu Willy, já que

é o único que não está presente — falou Dona Carmem,

visivelmente acabada e magra, já sem a suntuosidade que

sempre carregou.

— Você está enganada, minha querida. Estou bem

aqui, vivo, apesar de capenga — falou o Sr. Willy Van den

Berg, que vinha caminhando logo atrás, de bengala, com

uma enfermeira ao lado, bastante abatido também. Ele

tinha avisado que não iria comparecer, porém decidiu, de

última hora, estar presente.


— Se ninguém morreu, qual o motivo de todo esse

circo? — continuava Dona Carmem, no auge de sua

arrogância.

— Não é circo, minha mãe. Precisávamos conversar

com a senhora, pois acreditamos que a senhora não tenha

conhecimento sobre uma parte da sua história — falou

Daniel.

Neste momento, o enfermeiro que vinha trazendo sua

cadeira de rodas posicionou-a de frente para nós, foi

quando ela viu Dennis e as pessoas que o acompanhavam.

— Dennis, e-eu nem sei o que dizer... Eu — disse ela

consternada, enquanto Janssen Boer se aproximava para

cumprimentá-la.

— Me perdoe, meu filho. Assim como fiz com seu

irmão Marcelo, abri mão de viver ao seu lado em prol de


algo que hoje vejo que foi em vão. Só peço que me perdoe

por ter entregado você e sua irmã gêmea — ela disse, em

meio a muitas lágrimas.

Nós parecíamos não conhecer aquela senhora

naquele instante. Na verdade, aquela era a verdadeira

Carmem, e não a personagem que ela tinha inventado para

se proteger de todas as maldades que a vida se

encarregou de fazer com ela.

— Claro que eu te perdoo, mãe. Nós sabemos que a

senhora não viveu uma vida fácil e que teve seus motivos

para fazer o que fez — ele disse, enquanto se ajoelhava

em frente à sua cadeira de rodas.

— Então, me dê um abraço... Venha aqui, meu neto.

Abrace sua avó também, junto com seu pai. Filho, me


perdoe pelo que eu fiz com ele. Eu o influenciei, não há

justificativa para o que eu fiz...

Todos choravam, ainda mais por saberem o que

estava por vir.

— Vó, não se preocupe. Anna tirou todas as queixas

contra mim e os processos judiciais foram encerrados. Eu

devolvi o seu dinheiro, quero levar uma vida honesta, como

meu pai me ensinou.

— Está certo, meu neto. Mas você tem direitos,

metade disso tudo é meu, e você tem tanto direito quando

Jordanna e Elleanora — dizia ela, ainda olhando para

minha esposa, como sempre fez.

— Eu não estou tirando nada de seu outro neto, vovó.

Pelo contrário, ele está no testamento da família como

todos nós. Não se preocupe, estamos aqui exatamente


para fazer justiça para todos que carregam nosso sangue

— Anna se defendeu, pois, apesar de toda a consternação,

não iria deixar barato ouvir mais ofensas ou indiretas da

avó. Ainda mais depois de tudo que ela tinha feito.

— Bom saber disso — ela não perdia a pose nem um

minuto e não baixava a guarda com Jordanna. — E essa

moça, é sua mãe, Dennis? Anda, me apresente a minha

nora. — Por incrível que pareça, ela se afeiçoou

rapidamente a Helena, mesmo achando que era apenas

mais uma de suas noras, mulheres que ela sempre tratou

com desprezo, ainda mais depois que soube que Lúcia

definitivamente se tornou da família, juntamente com

Glória, após se casar com meu tio Marcelo.

— Não, eu não sou sua nora — Helena falava,

enquanto caminhava em direção a cadeira de rodas de


Dona Carmem. — Eu me chamo Helena Almeida... e com

menos de dois anos de vida, me separaram de meu irmão

gêmeo Dennis e me esconderam da senhora, alegando

que eu tinha morrido, pois minha mãe adotiva queria se

vingar, pelo marido ter tido um caso com a patroa. Então,

fui criada por minha tia adotiva e, durante todos esses

anos, não sabia nada da minha história e nem quem era

verdadeiramente a minha mãe.

— Vo-você disse que é irmã do meu filho? Você...

você está dizendo que é a menina que me falaram que

morreu? Você é minha filha??? A minha menininha... a

única menina que carreguei no ventre? — Rapidamente os

médicos se aproximaram, vendo o estado emocional que

Dona Carmem estava.


— Sim, minha mãe. Sou sua filha! — Helena se

ajoelhou e, em um gesto genuíno, repousou sua cabeça no

colo de Dona Carmem, como uma menina que sempre quis

o colo de sua verdadeira mãe. Ela, ainda sem entender e

quase em transe, passou a mão nos cabelos da filha e

falou uma única palavra:

— Perdão!

Ninguém se mexeu, falou algo ou se manifestou de

alguma forma. Apenas observávamos consternados a

ressignificação de toda uma vida acontecer ali diante dos

nossos olhos.

Todos estávamos bastante emocionados, inclusive o

Sr. Willy, que se sentia culpado por tanto mal que também

tinha feito a esposa, levando-a a cometer tantas

atrocidades em vida, contra filhos, netos e familiares.


Após alguns longos minutos ali, naquela mesma

cena, estáticos, elas se abraçaram, ainda em silêncio. Os

médicos, que já tinham se aproximado de Dona Carmem

com um copo d’água, foram aferir sua pressão e verificar

seus batimentos cardíacos.

A emoção foi baixando e, aos poucos, voltamos a

conversar, agora com uma nova senhora que estava

nascendo bem ali diante de nós. Carinhosa e amorosa,

inclusive com os outros membros da família, exceto uma

pessoa, minha esposa, que não se aproximava e deixava

todo o protagonismo da situação para os novos membros.

— Minha filha, me conte a sua história, como você

viveu? O que faz hoje? Você se casou? Eu quero saber de

tudo. Sua presença aqui é um sopro de vida para mim,


você não tem ideia, minha menina — falava Dona Carmem,

admirada com Helena.

— Minha mãe, eu vou te contar tudo, assim como

quero também saber tudo de sua vida, quero estar sempre

com a senhora a partir de hoje. Procure repousar agora,

que teremos bastante tempo para isso.

Elas faziam planos, inclusive, de tirar Dona Carmem

da clínica, e Helena, que era sozinha, cuidaria da mãe,

para que passassem juntas o que lhe restava de vida,

aproveitando o tempo perdido. Era realmente

surpreendente ver toda aquela transformação.

Quando estávamos próximos de ir embora e todos já

começavam a se despedir, veio a fatídica pergunta:

— Eu não entendi apenas uma coisa. Como vocês

descobriram que Helena era minha filha, se nem Dennis e


Janssen sabiam, achavam que ela era apenas uma prima?

— indagou Dona Carmem.

— Foi Jordanna, minha mãe. Ela que suspeitou que

eu poderia estar viva, quando a senhora contou sua

história aqui na clínica para eles. E revirou o passado atrás

de mim, até me encontrar. Desde então, ela vem cuidando

de nossa família, pagou algumas dívidas que tínhamos e

me trouxe para morar no Rio de Janeiro, além de fazer

questão de que todos nós entrássemos no testamento da

família, apesar de termos sido contra. Eu já sabia quem era

a senhora, mas não conhecia a história e, por saber que

eram ricos, não quis me aproximar. Até Jordanna me

encontrar e me convencer de que realmente precisávamos

viver juntos.
— Quer dizer que Jordanna é a responsável por tudo

isso? — continuava Dona Carmem, em um tom de voz que

não conseguíamos decifrar se era de surpresa ou

arrependimento por tudo que tinha feito contra a minha

esposa.

— Sim, mamãe. Jordanna é uma mulher incrível, justa

e com um enorme coração. Tudo que ela faz é em prol,

única e exclusivamente, de nossa família, porém, usando

as ações corretas, enfrentando o que é preciso, sempre

com verdade e amor no coração.

Dona Carmem ouvia sua filha falar, sem tirar os olhos

de Jordanna, que estava em pé ao meu lado, segurando

minha mão com força, não querendo transparecer o

nervosismo que sentia.

— Venha cá, Jordanna — pediu sua avó.


— Não se preocupe, vó. Eu não fiz nada demais.

Apenas achei a história estranha quando a senhora nos

contou e fui atrás dos fatos. Imaginei que poderia haver

mais coisa, não fiz mais do que minha obrigação — ela

disse, enquanto movia seu corpo para ir embora. Estava

visivelmente nervosa e não queria enfrentar aquela

situação com a avó. O acerto de contas não seria fácil.

— Venha aqui, menina. Não vou lhe fazer mal, já fiz o

suficiente — insistia Dona Carmem, enquanto todos

olhavam.

Jordanna se aproximou e puxou uma cadeira para se

sentar também, ficando de igual para igual, como deveria

ser, já que ela jamais se ajoelharia.

— Não precisa falar nada, vó... eu já disse, não fiz

mais do que minha obrigação. Eles merecem estar na


família tanto quanto eu — dizia Jordanna, em um tom

apressado para terminar a conversa. Ela estava

visivelmente desconfortável com aquilo.

— Eu sei disso... sei muito bem o que eles merecem,

sei que eles são “bastardos” como você e não pense que

estou falando de maneira pejorativa. Apenas não sei dar

outro nome. E tudo de ruim que canalizei toda a minha

vida, desde o dia que você nasceu, foi exatamente porque

eu não entendia, dentro de mim, por que você tinha o

direito que meus próprios filhos não tiveram. E por uma

ironia do destino foi exatamente através de você que tive

Marcelo, Janssen e Helena novamente ao meu lado.

Simplesmente porque você, diferentemente de todos da

família, não aceitou viver na mentira, nos dogmas dos

Mancuso e dos Van den Berg e, no fundo, menina, eu


sempre te invejei por isso. Porque você dava o grito de

liberdade que eu tanto sonhei em dar a minha vida toda —

ela dizia, de maneira sincera e firme. Não havia lágrimas

ou emoções afloradas. Eram duas gigantes, duas leoas

acertando suas divergências naquele momento, que por

tanto tempo travaram uma longa batalha em prol do

mesmo objetivo: a família, mas, por usarem armas

distintas, acabaram ficando em lados opostos.

— Eu sei, vó. — Minha esposa mal conseguia falar,

não por emoção latente, e sim porque sabia que

diferentemente da nonna, que ela tinha como uma segunda

mãe que a aconselhava, ela sabia que receberia a coroa

da família naquele momento, para ser a grande matriarca

que assumiria as rédeas de tudo, como sempre foi com a

Dona Carmem.
— Eu lhe peço perdão, do fundo do meu coração, por

tudo que fiz você passar e sei que o terei, porque, apesar

de você não saber, sei muito bem quem você se tornou.

Descobri exatamente no dia que você entrou naquela

cerimônia de casamento substituindo sua irmã, linda, altiva,

lutando exatamente pelo que você queria.

— É claro que eu a perdoo, vó. Jamais negaria isso

— respondeu minha esposa, ainda firme e intacta,

recebendo ali o posto que era devidamente seu e que ela

sempre batalhou para receber.

— Saiba, menina, que você é uma verdadeira Van

den Berg e não há pessoa melhor e mais bem preparada

para assumir todo o legado de nossa família.

— Vó, esse sempre foi o único reconhecimento que

busquei.
— Eu sei disso, minha neta, e, por isso, eu lhe dou

ele agora. — Pela primeira vez, Jordanna escutava Dona

Carmem chamá-la de neta.

Diante disso, elas se abraçaram, coisa que nunca

ocorreu, e Jordanna ouviu uma última frase antes de irmos.

Apenas ela ouviu, já que sua avó falou baixinho em seu

ouvido:

— Eu tenho muito orgulho de você!

Após algumas semanas, as mansões Mancuso e Van

den Berg foram postas à venda, já que meus sogros não

pretendiam manter a propriedade e meus pais seguiram às

ordens da minha nonna que resolveu passar uma

temporada na Itália.

Compramos um apartamento para Helena próximo ao

dos meus pais, e ela levou sua mãe para morar com ela,
enquanto Sr. Willy morava próximo também, com uma

equipe médica que o acompanhava.

Todos começavam a ter suas vidas, sem tanta

dependência daqueles dogmas que sempre carregamos,

vivendo de maneira mais leve e independente.

Novamente, nossa família voltou a se reunir e, em um

desses encontros, Dona Carmem, estendeu seu pedido de

perdão a todos, inclusive às suas noras, Glória e Lúcia, por

tudo que as fez sofrer por todos esses anos.

A vida de Dona Carmem era outra ao lado de sua

filha, que lhe dava aquilo que ela mais quis na vida: amor.

E como em um final de novela, tudo corria bem. No

entanto, um dia cheguei em casa e estava tudo apagado.

Estranhei, pois, alguns minutos antes, havia falado com

Jordanna, que disse que me esperava para o jantar.


— Amor, você está em casa? Por que esse breu? —

eu gritava, enquanto já pegava o celular e deixava o

número do segurança do condomínio no ponto de ligação.

Sem resposta.

— Anna, meu amor, onde você está? — eu chamava

insistentemente.

Até que vi uma luz vindo da parte de trás da casa, na

piscina.

— Querido, estou aqui... aqui atrás.

Quando cheguei na área do jardim da piscina, havia

alguns queijos sobre a mesa, uma garrafa de champanhe e

uma garrafa de água.

Anna vestia apenas um vestido floral, estava descalça

e com os cabelos soltos. Ela estava visivelmente radiante,

parecia diferente, mas eu não sabia o que era.


Ela, então, se desculpou pelas luzes apagadas e

disse que apenas queria me fazer uma surpresa.

— Eu amei, meu amor. Você sabe que adoro quando

ficamos na piscina apenas petiscando, namorado, nos

curtindo e conversando.

— Mas, dessa vez, será diferente, meu amor. Tenho

uma surpresa para você!

— Obaaa! Eu adoro suas surpresas — falei, enquanto

já a abraçava e beijava seu pescoço.

— Toma, abre. — Ela me entregou uma pequena

caixinha dourada.

Era um simples fone de ouvido e eu não entendi

nada.

— O que é isso, meu amor? Eu tenho fone de ouvido

do celular — disse brincando.


— Seu bobo, eu acabei de enviar uma mensagem de

voz para você pelo celular. Feche os olhos e escute sem

pensar em mais nada — Anna me instruiu.

Assim fiz, ouvindo o seguinte barulho: — Tum-tum,

tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum,

tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum...

— É o que eu estou pensando? — perguntei, já

completamente emocionado.

— Sim, meu amor, estou grávida. Estou esperando

um filho ou uma filhinha sua. — Ela não continha as

lágrimas e pulava no meu colo, enquanto me beijava o

rosto e dizia: — Eu sou a mulher mais feliz do mundo!

— Meu amor... Anna... Meu Deus... eu não estou

conseguindo nem raciocinar direito. É felicidade demais...

— Eu não tinha ar e parecia que tinha sido teletransportado


para uma lembrança de mim bem pequeno correndo pelos

jardins da mansão Mancuso, imaginando que, em breve,

seria um filho meu ou filha naquela idade fazendo o

mesmo.

— Eu não aguentava mais segurar essa notícia e,

hoje, quando fui na médica, confirmei tudo e já deu para

ouvir o coraçãozinho.

— Você já sabe desde quando? — perguntei, ainda

completamente extasiado.

— Eu desconfiei há umas duas semanas quando

minha menstruação atrasou, então fiz o teste de farmácia e

deu positivo. Imediatamente, marquei uma consulta com

minha médica e hoje tudo se confirmou.

— Bem que eu percebi que seus seios estavam

maiores. Eu estava adorando... — Não contive a


brincadeira, eu estava feliz demais para me conter com

qualquer coisa.

— Você é um bobo, Enrico!!! — Ela fingia que me

batia, enquanto gargalhava.

— Você está linda, meu amor, você vai ser a

gravidinha, barrigudinha mais linda do mundo. Eu já estou

ansioso para ver o rostinho do nosso bebê. Qual o nome

que daremos? Já temos que comprar o enxoval, montar o

quartinho. Anna, temos que comprar a cadeirinha para pôr

no carro — eu falava completamente agitado, atropelando

todas as palavras e assuntos.

— Calma, meu amor. Ainda tem muito tempo para

vermos isso. — Ela ria já da minha agitação.

— Alguém mais sabe? Sua mãe, Elle, nonna?


— Não. Você é o primeiro e não podia deixar de ser.

Amanhã contaremos para todo mundo. Hoje, a noite é só

nossa. Só nós aproveitaremos a notícia do começo da

nossa família e celebraremos a chegada do novo membro

Van den Berg Mancuso.

No dia seguinte, contamos para todos da família e,

como sempre, já estava sendo agendado festas e mais

reuniões para comemoração.

Algumas semanas se passaram e Anna resolveu

colocar em prática seu plano de reduzir a carga horária da

empresa, podendo se dedicar mais aos cuidados de nosso

bebê quando ele nascesse. Praticamente toda a nossa

família geria a Siderúrgica e não havia mais motivos para

se preocupar com a empresa. Minha esposa tinha


conseguido fazer com que todos seguissem suas regras e

fazer tudo prosperar.

Até que, entre uma consulta e outra, fomos saber o

sexo do nosso bebê. Era o que faltava para começarmos a

comprar as coisas de seu quartinho.

E, então, a médica falou:

— Minha amiga querida Anna, parabéns, você terá

uma linda menininha!!

Começava assim o novo legado das famílias

Mancuso e Van den Berg, liderado por mulheres fortes e

valentes!

E Anna apenas respondeu:

— Ela se chamará Eva, a primeira de muitas de nós!


CAPÍTULO 20

PARTE III– NOVO PACTO

ENRICO

— Vamos, querida, estamos atrasados! — dizia eu,

enquanto Anna procurava por uma bolsa.

— Calma, Enrico. Eu estou quase com oito meses,

tudo pesa e fico cansada.

— Senta aqui, meu amor, eu procuro para você! O

que você está procurando? — disse, carinhosamente.


— A bolsa com fotos antigas impressas, com álbuns,

que tem fotografias de nossas famílias na mansão. A Elle

me deu para guardar e quero levar para a tia Helena ver.

Durante duas vezes, Anna teve um sangramento e a

sua obstetra não a impediu de sair ou até fazer essa

viagem. No entanto, seu estado requeria cuidados,

principalmente não se emocionar ou se submeter a

qualquer tipo de estresse, já que isso estava ligado a altas

taxas de cortisol em seus exames hormonais.

Era uma grande reunião de família, onde

comemorávamos os noventa anos de minha nonna,

mesmo que atrasado, já que ela tinha passado uma boa

temporada na Itália. Apesar da idade avançada, ela gozava

de ótima saúde física e mental e tinha mais disposição que

os “novinhos” da família, como ela gostava de chamar.


Como sempre, os eventos da família se tornavam

uma grande festa e esse seria em nossa chácara em

Petrópolis, onde passaríamos o final de semana.

Chegando à chácara, nos acomodamos e Anna

resolveu descansar um pouco, enquanto fui socializar. Até

que, sentado no jardim, em frente à piscina, com

praticamente todos os Mancuso e Van den Berg, Felipe me

chamou de uma maneira estranha:

— E aí, cara, podemos trocar uma ideia em

particular? — falou ele, batendo nas minhas costas. — O

tom estava mais agressivo que o normal, principalmente

porque ele sempre foi um homem brincalhão e carinhoso

com todos de nossa família.

— Claro, Felipe! Vamos lá para a área de jogos,

conseguimos conversar mais reservado. — Enquanto


caminhávamos, tentei entender o que estava acontecendo.

— Está tudo bem? Estou te achando tenso — perguntei.

— É... o assunto é meio chato e, antes de conversar

com a Elleanora, preferi conversar com você para entender

bem o que rolou e o que pode estar rolando — ele

respondeu, e eu não queria acreditar que toda a história do

passado viria à tona.

Quando chegamos no salão de jogos, não havia mais

ninguém ao meu redor. De longe, eu via Glória e Elle com o

Caio no colo, enquanto tentavam tirar sua atenção de um

brinquedo para fazê-lo comer uma salada de frutas. Aquilo

já apertou meu coração, pensando que ela nem imaginava

que o casamento dela passaria por uma crise, algo que

estava completamente resolvido.


— Então, cara, recebi uma carta, com um relato

enorme, contando que você e Elleanora continuaram se

relacionando, mesmo depois de estarmos juntos. Dizendo,

inclusive, que o Caio poderia nem ser meu filho e rolou até

exame de DNA, não entendi nada. Isso é verdade, cara???

Vocês mentiram para mim esse tempo todo? — Ele foi

nitidamente perdendo a calma, enquanto falava e

provavelmente relembrava a história.

— Que carta é essa? Como assim você recebeu uma

carta? — perguntei, sem pensar que estava fazendo a

pergunta errada e sem confirmar nada que o Felipe

merecia, mas fiquei tão nervoso que mal conseguia

raciocinar.

— Enrico, não interessa a carta. Eu só quero saber

dessa merda de traição que estava rolando e eu não


estava sabendo. Vocês mentiram para mim ou não? Teve

teste de DNA ou não? E outra, Caio é meu filho???? — Ele

já começava a atropelar as palavras e não raciocinava

mais.

— Sim, cara. Claro que Caio é seu filho. Vocês dois

têm a mesma marca de nascença, não entra nessa neura.

— Tentei ir contornando e o trazendo de volta para a

realidade.

— Ok. Mas e a traição? E o teste de DNA? Isso tudo

é verdade?

— Melhor chamarmos a Elle aqui, cara.

Conversaremos os três juntos e vamos esclarecer tudo. Ela

te ama e é isso que importa. — Novamente, tomando as

decisões erradas.
— Nem precisa, né, Enrico! Eu já sei que tudo é

verdade, para você estar agindo dessa forma. Eu só queria

ouvir de você, com Elle eu me acerto. Só queria ver se

você ia se acovardar e, mais uma vez, se esconder nas

mentiras da sua família. Eu, muitas vezes, tenho pena da

Anna, por tantas falcatruas e mentiras que você e Elle

cresceram envoltos e aceitaram como valor de vida.

— Isso é coisa do passado, Felipe. Vocês estavam

começando o namoro. Esquece isso... a Elle te ama. E eu

não estou me acovardando com nada, apenas acho que

essa é uma conversa que deveria envolver sua esposa, até

mesmo para vocês se acertarem. — Ia tentando apaziguar

e descer a adrenalina de toda a situação.

— Então, Elle me traiu com você? Você já afirmou

isso, independentemente se foi no começo do


relacionamento ou agora. Ela me traiu — ele afirmava e

apenas aguardava eu confirmar.

— Sim, cara! Infelizmente, na época ainda estávamos

ligados e não rompemos definitivamente. — Eu nem

consegui terminar. Felipe saiu andando apressadamente e

percebi que ele fez isso apenas para não esmurrar minha

cara, já que seu punho estava fechado e ele estava

vermelho de raiva.

Dali em diante, foram segundos de desespero e

definitivamente não haveria mais festa de noventa anos de

minha nonna.

— Elleanora, você é uma mentirosa! Traidora! —

gritava Felipe em direção à esposa que, imediatamente,

entregou Caio para a mãe e, de longe, olhou para ele e


depois para mim, tentando entender o que estava

acontecendo.

Rapidamente, Daniel apareceu, junto com meu pai e

meu tio, pois temeram a reação de Felipe, mesmo sem

saber o que estava acontecendo.

— O que é isso, Felipe?? — gritava Elleanora.

— Você e Enrico me traíram. E pelos olhares de todos

da sua família, já conhecem bem essa história, exceto eu,

que fui enganado esse tempo todo. Não me admira pela

podridão de todas as histórias que você sempre me contou.

E eu achando que você não tinha absorvido este valor...

— Cama aí, rapaz!! — disse Daniel, já indo de

encontro a Felipe, antes que ele chegasse perto de

Elleanora. — Se você tem algum problema com a minha

filha, você a chame lá para dentro, no quarto, e vá


conversar com ela como duas pessoas civilizadas. Não

pense que você vai ofender minha família toda e vai gritar

com minha filha na frente de todo mundo, não. Mantenha a

compostura e o respeito, principalmente pelos mais velhos

que estão aqui presentes.

— Desculpe, meu sogro. O senhor tem razão, eu me

exaltei, perdi a cabeça. — Ele olhou para ela com bastante

raiva, mas depois virou-se para todos se desculpando. —

Peço desculpas a todos, vocês já me conhecem e sabem

que detesto esse tipo de situação. Aproveitem a festa. —

Ele saiu em direção ao chalé onde eles estavam alojados

na chácara, demonstrando nitidamente que iria embora.

— Calma, Felipe. Vamos conversar — Elle gritava,

enquanto ia atrás dele no chalé.


Daniel e Glória acompanharam a filha e

aconselharam:

— Vá conversar com ele, vamos resolver isso.

Eles sumiram dentro do quarto e apenas se ouviu Elle

chorando. Enquanto isso, meu sogro veio conversar

comigo.

— O que aconteceu, Enrico? Você contou algo para

ele? Eu vi quando vocês saíram para o salão de jogos,

achei que tinham ido apenas jogar sinuca ou sei lá,

conversar.

— Daniel, aconteceu algo muito estranho. Felipe veio

me questionar sobre a traição, sobre o teste de

paternidade... Eu ainda pedi para conversarmos com

calma, que chamássemos Elle para o salão e ele ficava


cada vez mais transtornado — fui contando, ainda também

tentando entender.

— Mas como ele ficou sabendo disso tudo? Tem mais

de um ano que tudo isso aconteceu, os devidos acertos de

contas já tinham sido feitos. Que falta de paz que nossa

família tem — questionava e desabafa Daniel,

completamente preocupado com a filha.

— Ele me disse que recebeu uma carta. Não entendi

muito bem que carta foi essa, quem mandou e quando

mandou. Pelo que entendi da história é algo recente, mas

quem mais poderia prejudicá-los? Se Dona Carmem está

sentada no jardim com tia Helena na mais perfeita paz,

inclusive acariciou a barriga de Jordanna quando ela

chegou.
— Mamãe não foi. Ela não tem nada contra a Elle e

não ganharia nada com essa história agora. Dennis

também não. Nem ninguém da nossa família. Precisamos,

além de contornar essa situação, entender o que

aconteceu. Assim que eles saírem do chalé, vou chamá-lo

para conversar — disse meu sogro, tão confuso quanto eu.

Ainda bem que Anna estava dormindo, não queria

que nada a aborrecesse, ainda mais nesta reta final da

gravidez. Ela andava cansada e com bastante inchaço nos

pés, eu precisava garantir que nada chegaria nela, até

porque ela já tinha sofrido demais com essa história e, na

época, ela pediu para que Elle contasse para o marido,

então não era justo ela sofrer novamente por algo que a

irmã decidiu levar como mentira.


Quando saíram do chalé, foi a vez de Daniel chamar

o genro para tentar esclarecer o que tinha ocorrido e saber

por que essa história do passado estava retornando.

— Felipe, tenha um pouco de calma. Deixe essa mala

aí e vamos conversar. — Daniel ainda tentou apaziguar.

— Conversamos depois, meu sogro. Vou voltar para o

Rio de Janeiro, esfriar um pouco minha cabeça e depois a

gente vê no que vai dar — dizia ele, praticamente

irredutível.

— Tudo bem. Vou deixar você ir, mas posso apenas,

antes de mais nada, tentar entender com você o que de

fato ocorreu? Vou pegar um suco e conversamos,

enquanto todos descansam, antes de servirem o almoço.

— Está certo. — Cedeu Felipe.


Eles se sentaram próximos ao jardim, e eu fiquei de

longe, na área externa do meu chalé, observando, pois,

caso o clima esquentasse, eu correria para lá.

— Felipe, me explique o que aconteceu. Que carta foi

essa que você recebeu? — perguntou meu sogro.

— Então, Daniel... esta semana toda estive em São

Paulo e toda a correspondência que chega em casa, a

secretária deixa no escritório, já que tudo que é referente à

conta está em débito automático. Quando fui ver tudo que

tinha chegado, ontem à noite, tinha o habitual, uma série

de convites desses eventos de moda que Elle é convidada,

algumas propagandas e uma carta em branco com um selo

de postagem de um ano atrás, destinada a mim. Eu achei

estranho e resolvi abrir. Era uma carta normal, contando

tudo que ocorreu. Vou te mostrar. — Felipe, então,


entregou a fatídica carta para Daniel, porém o que mais o

espantou foi a assinatura.

— Quem assina a carta é a Jordanna???? Por que

ela faria isso com você e a irmã agora? — falou Daniel,

completamente chocado.

— Então, meu sogro, acho que não foi Jordanna. Isso

pode ser mais uma das armações de sei lá quem. Ela não

seria capaz disso, além do mais, ela está gravida, bem com

Enrico, não teria por que causar uma confusão dessa.

— Você tem razão, tem algo estranho. Além disso, na

empresa, tinha a assinatura digital da Anna, seria fácil

pegar ou falsificar. Tanto que, depois do problema todo, ela

deixou sua assinatura em sigilo, mudando inclusive

documentos pessoais — falou Daniel.


— O que acabou comigo foi a mentira toda. Não pela

traição, porque quando conheci sua filha, ela não me

escondeu a história toda e, no fundo, eu sabia que ela e

Enrico ainda estavam se encontrando, mas me esconder

que o Caio poderia não ser meu filho, que houve teste de

DNA, que todos sabiam, menos eu, que eles ainda se

encontravam escondidos... foi demais — desabafava

Felipe, nitidamente tentando fazer com que a mente o

encorajasse a ir embora, sem que o coração deixasse.

— Eu sei, meu genro, não deveriam ter mentido para

você. Você está coberto de razão e certo de estar

chateado.

— É inadmissível que Elle tenha feito isso comigo. Eu

amo muito sua filha, Daniel, ela é a mãe do meu filho, a

mulher que eu realmente quero ter para o resto da minha


vida, porém hoje, agora, não consigo perdoá-la —

continuava Felipe em seu desabafo.

— Eu te entendo, mas por que você não fica aqui

conosco? Aproveite o fim de semana com seu filho, você

viaja bastante, não desperdice esses momentos. Ainda tem

dois quartos na chácara que não estão ocupados, você

pode ficar em um deles, assim terá um espaço e poderá

refletir. — Daniel tentava convencê-lo a permanecer

conosco.

— Pode ser, meu sogro. O senhor tem razão, tenho

ficado pouco tempo com Caio, ia tirar a próxima semana de

férias, inclusive, para ver se conseguia levá-los para o

Nordeste para aproveitarmos um pouco juntos. Vou aceitar

o seu convite para ficar em um dos quartos de hóspedes e

aproveito e fico com meu filho.


— Isso. Vou pedir para a governanta ver se está tudo

certo para você se acomodar.

Enquanto eles caminhavam para dentro da casa, Elle

ia saindo do seu chalé em direção ao nosso, com uma

enorme cara de fúria. Parecia ter acabado de se recuperar,

mas ainda estava com o olho inchado de chorar. Ainda do

gramado, ela apenas falou:

— Enrico, chama a Anna agora! Eu quero falar com a

minha irmã.

Anna, que estava no banho, se arrumando para o

almoço, não a ouviu chamar, e eu precisava contê-la antes

que um caos se espalhasse, com minha esposa grávida.

— Você ficou louca, Elle? O que Anna tem a ver com

isso tudo? — perguntei, segurando-a para que ela não

entrasse em nosso chalé.


— Você não está sabendo quem assinou esta maldita

carta para o Felipe???? — ela gritava, completamente

descontrolada.

— Não, eu não vi a carta — falei, ainda perdido e sem

entender o que acontecia.

— Foi Jordanna. Ela, provavelmente, guardou a

vingança dela para servir em um prato frio. Eu não vou

perdoá-la nunca pelo que ela fez. Chama ela agora!

— Você enlouqueceu, Elleanora? A Jordanna jamais

faria uma coisa dessa. Além disso, ela está grávida,

condição que ela respeitou quando foi a sua vez. Então,

pare de gritar igual uma louca e deixe minha mulher em

paz. Você sabe muito bem que a escolha de manter essa

mentira para o Felipe foi sua, apesar de todo mundo ter

aconselhado do contrário, então vá resolver o seu


problema e pare de culpar os outros. Se você não

aprendeu com tudo que aconteceu, eu não posso fazer

nada.

— Não venha me dar lição de moral, não. Eu não fui

para cama sozinha naquela época, e você sabia muito bem

como me seduzir.

— Deixa de ser louca que o problema aqui não é a

gente ter transado quando já estávamos comprometidos

com outras pessoas, é você ter escondido isso todo esse

tempo do Felipe, quando teve várias oportunidades para

contar tudo o que aconteceu para ele — falei, tentando

trazê-la para a realidade. — Pare e reflita um pouco, se a

Jordanna não contou para o Felipe na época que ela

estava com raiva de nós dois, me explica por que ela faria

isso agora, quase tendo filho e quando toda a família está


bem? É só parar para pensar. Você simplesmente está

tentando achar um culpado para algo que só você tem

responsabilidade e mais ninguém. Você optou por levar

uma vida de mentiras com seu marido. Então, só lamento.

Com a minha esposa, você não vai se meter.

Nisso, Jordanna ouviu a gritaria e logo foi saber o que

era. Elle permanecia em nossa varanda, agora um pouco

menos histérica, dizendo que apenas queria perguntar a

Anna se ela tinha feito algo.

— O que está havendo, amor? — perguntou Anna.

E quem respondeu, atropelando tudo, foi Elleanora.

— Jordanna, você em algum momento escreveu uma

carta para o Felipe contando tudo que ocorreu? — disparou

ela, sem qualquer pudor, apesar de Anna nem sequer

saber o que estava acontecendo.


— Hã?? Do que vocês estão falando? Que carta,

gente? Por que você está falando assim, Elle? O que

aconteceu? — questionou, obviamente, minha esposa,

sem entender nada. E, imediatamente, ela já foi sentando

na cadeira da varanda, com seu enorme barrigão.

— Ontem o Felipe recebeu uma carta, assinada por

você, com um relato de tudo que aconteceu entre mim e

Enrico, quando já estávamos com vocês, sobre o teste de

paternidade e todo o problema — Elle novamente disparou,

sem qualquer tipo de sensibilidade pela condição da minha

esposa.

— Assinada por mim?? Você não acha que eu tenho

mais o que fazer do que ficar perdendo meu tempo

destruindo seu casamento?? Além disso, querida irmã,

sabemos que algo assinado por mim não necessariamente


significa que fui que assinei. Não esqueça que foi você que

optou por mentir para o seu marido, então, sabia o risco

que estava correndo, caso ele descobrisse — falou minha

esposa, já bem nervosa e segurando a barriga.

Elle saiu disparada, sem nem responder a irmã, e

Anna já começava a respirar de maneira mais rápida.

— Vou pegar um copo d’água para você! — falei já

me levantando, preocupado com seu estado.

— O que foi isso, Enrico? O que aconteceu aqui nas

duas horas que eu estava descansando?? Meu Deus, não

temos um segundo de paz! — ela falava, chorando. Em um

estado emocional bem mais sensível do que normalmente

ela era.

— Eu não sei, meu amor. Mais cedo, Felipe me

chamou e veio tirar satisfação comigo, dizendo que ontem


recebeu uma carta e que nela continha toda a verdade —

tentava explicar, sem também saber muito da história.

Nisso, Daniel se aproximava.

— Minha filha, você está bem? Conseguiu

descansar? — perguntou ele a Jordanna.

— Sim, pai. Consegui. Agora, bem não estou. O que

houve? Que maldita carta é essa que a Elle já veio aqui me

acusar? — perguntava Anna, ainda chorando e

visivelmente chateada.

— Fica calma, isso é algum mal-entendido. Não se

emocione ou se aborreça tanto. Principalmente, na

condição que você está e que você sabe que não deve.

Na mesma hora, chegou Lúcia, que havia acabado de

estacionar com meu tio Marcelo e ficou sabendo por Glória

o que estava ocorrendo.


— Pai, me deixe ver a carta? Sei que o senhor está

com ela — pediu Anna.

— Para quê, minha filha? Vai te trazer memórias que

não devem ser mexidas, ainda mais no seu estado. — Meu

sogro tentava contê-la.

— Amor, escuta o seu pai, vamos curtir nosso final de

semana. Não temos nada a ver com este problema. — Eu

também tentava contê-la.

— Eu sei que vocês só querem meu bem, mas, por

favor, me deixem ver a carta. — Anna estava irredutível.

Daniel entregou-lhe o maldito papel e, nitidamente,

quando ela começou a ler, ela foi ficando branca, como se

perdesse literalmente sua cor, seus lábios ficaram roxos e

ela rapidamente apagou.


— Anna, Anna, Anna... — eu gritava, com ela

praticamente no meu colo, enquanto Daniel já ligava para

uma ambulância para socorrê-la.

Lúcia na hora segurava o pulso da filha e pedia para

que colocássemos sal debaixo de sua língua.

Passados alguns infernais e longos minutos, Anna foi

recobrando os sentidos e, nisso, todos já estavam ao

nosso redor, falando ao mesmo tempo, inclusive Elleanora

e Felipe, a quem eu estava com vontade de matar.

— Satisfeitos com a briguinha de casal de vocês??!!!

Depois de tudo que foi feito, Elleanora, você fazer isso com

sua irmã? Se acontecer algo com ela ou com minha filha,

não vou te perdoar nunca — eu gritava, desesperado.

— Eu estou melhor. Calma, Enrico. Só estou um

pouco tonta. Acho que minha pressão caiu — ela dizia,


ainda com a voz embolada.

— Descansa, meu amor. — Eu a carregava para

colocar na cama.

— Enrico, o teor da carta é o mesmo que está no

dossiê que fizemos na época que estávamos desvendando

tudo. Alguém o copiou e enviou para o Felipe. Só não sei

quem poderia ter feito isso hoje em dia e, mais uma vez,

por que colocaram a minha assinatura. Eu não fiz nada, eu

não enviei esta carta.

Elle, visivelmente constrangida, saía de nosso chalé,

acompanhada de Glória e sob o olhar de Daniel, que

estava decepcionado com a outra filha. E Felipe pedia

milhões de desculpas por ter deixado para causar todo este

problema aqui e na presença de Anna.


Tentamos entender o que estava acontecendo,

inclusive, perguntando a Dona Carmem e ela pareceu

sincera ao alegar que não estava fazendo nada com os

netos. E Helena garantiu que aquilo não tinha sido obra da

mãe.

Passadas algumas horas, os ânimos foram se

acalmando e o resto da família foi chegando, como o

Dennis, sua noiva e seus pais. O clima estava péssimo,

assim não havia como eles não perceberem e perguntarem

o que estava havendo.

— O que aconteceu, Enrico? — perguntou Dennis, ao

ver Daniel, Glória e Elle conversando de maneira calorosa

no canto da chácara.

— Surgiu uma carta, enviada para o Felipe, contando

tudo sobre o episódio do exame de DNA, o lance da


paternidade etc. e o negócio explodiu aqui hoje. Além

disso, esta carta estava assinada pela Anna, o que acabou

piorando ainda mais as coisas, ela passou mal e está

deitada com Lúcia no quarto — eu expliquei, de maneira

mais resumida.

— Oh, meu Deus, Enrico. Eu sei sobre esta carta, só

não imaginei... Oh, meu Deus... — repetia Dennis.

— O que você fez, garoto??? — Eu já estava

começando a ficar nervoso e não podia acreditar no que

estava prestes a acontecer.

— Enrico, na época da confusão, eu realmente fiz

uma carta para o Felipe, pegando trechos do dossiê que

vocês criaram e assinei com a assinatura digital da Anna,

mas acabei não enviando. Quando fui resgatá-la do nosso

correio, exatamente para não causar mais confusão, ela


havia sido extraviada e o atendente me disse que

provavelmente ela voltaria para o centro de distribuição e,

depois de um tempo, seria descartada. Eu me

despreocupei com isso e tantas coisas foram acontecendo

depois, que o fato apagou da minha mente. Não poderia

imaginar que ela chegaria para o Felipe mais de um ano

depois — explicou Dennis, nervoso e demonstrando

arrependimento. Eu não poderia brigar novamente com ele,

era o mesmo que começar a viver todo um ciclo que eu

não queria e muito menos poderia mais, já que afetaria a

Anna.

— Você deveria ter nos avisado sobre isso, Dennis.

Pelo menos, avisar a Elle. Até para ela se preparar. De

qualquer forma, ela é a errada nesta história toda, já que

deveria ter contado para o marido tudo que aconteceu —


tentei apaziguar, até porque não adiantaria mais nada

colocá-lo contra a parede e tirar a responsabilidade de

Elleanora.

— De qualquer forma, vou avisar a ela e ao Felipe. É

o mínimo que posso fazer pela Anna.

— Está certo, Dennis — finalizei ali a conversa, indo

ver como estava minha esposa.

Após o grande sermão dos pais, Elle ainda teve que

lidar com a culpa de levar este problema para a irmã

grávida, quando Dennis assumiu toda a culpa do que tinha

ocorrido. Ela estava péssima, ainda mais com a falta de

perdão do Felipe, que não olhava para ela, por tanto tempo

de mentira.

Chegamos até a entrar em contato com o correio,

para entender o que havia ocorrido com aquela carta que


eles, por uma infeliz obra do universo, resolveram não

descartar a entrega e ainda fizeram três tentativas, sendo a

última com sucesso, chegando um ano depois do seu

envio.

Levei uma sopa para Anna e, quando cheguei no

quarto, Lúcia cochilava na cadeira e ela ainda dormia. Sua

médica havia receitado um floral calmante, que a fazia

apagar imediatamente.

— Anna, meu amor. Você precisa comer alguma

coisa. Venha... — eu a chamei, acordando-a com um beijo

no rosto.

— Enrico, estou sentindo muita dor. Acho que nossa

bebê vai nascer, não estou conseguindo me manter

acordada de tanta dor. — Nisso, rapidamente, tirei o

edredom que a cobria e a cama estava completamente


ensanguentada. Gritei por Lúcia e por todos, e a

ambulância que já estava de sobreaviso no condomínio

entrou em segundos na chácara.

Eu liguei para o heliporto e pedi uma ambulância

móvel imediatamente, para que a levasse para o hospital

no Rio de Janeiro, apesar de todo o trajeto não levar nem

meia hora, eu mal conseguia respirar de medo do que

estava acontecendo. Tanto de perder minha mulher, como

minha filha. Eu nutria um ódio sem tamanho por Elleanora

e Felipe, pela irresponsabilidade daquilo tudo e,

principalmente, pela falta de respeito. Eu já não conseguia

raciocinar de tanto pavor que sentia.

A maioria da nossa família também veio de

helicóptero, ficando só alguns na chácara. A festa,


obviamente, foi cancelada e todos já se reuniam no hall do

Copa Star.

— Dra., Anna teve um sangramento enorme, por

favor, veja o que ocorreu. Veja se minha filha está bem —

falei para a obstetra que chegava e começava a se arrumar

para ver minha esposa.

— Calma, Enrico. Vou ver o estado dela e já te aviso.

— Por favor, Dra., não deixe que nada aconteça a

elas. Por favor, salve as duas.

Eu olhava para o lado e só via os maqueiros levarem

Anna, que estava completamente desmaiada sobre a

maca, parecendo, inclusive, que estava morta. Seu pulso

estava fraco e, pelo que entendi, seus batimentos

cardíacos também estavam.


Eu e Lúcia praticamente desabamos e todos estavam

bastante nervosos. As horas passavam e não tínhamos

qualquer notícia. Pelo que nos falaram, ela entrou em

cesárea. Como ainda era muito prematura, estavam

tomando todos os cuidados. Pensei por um segundo em

Elle não teve coragem de aparecer no hospital.

Eu estava uma pilha de nervos e cada vez que um

médico se aproximava, meu coração parava e saía pela

boca com medo de que ele estivesse levando uma notícia

ruim, até que a obstetra apareceu, e eu já a interpelei na

saída do centro cirúrgico.

— E aí, Dra.? Pelo amor de Deus, me dê notícias.

— Enrico, tenha calma. Sua filha está bem, mas ainda

é muito pequena e está fora do peso, então teremos que


deixá-la pelo menos por uma semana na incubadora. Ela é

uma menininha forte e irá resistir.

Eu já estava em prantos e sentia que ela estava

reticente de dar a notícia toda. Ela se tornou uma grande

amiga de Anna e frequentava a nossa casa, sabia como

éramos um com o outro.

— E Anna? Como está?

— Enrico, mais uma vez, tenha calma. Anna perdeu

sangue demais, teve uma hemorragia seríssima e

precisamos estabelecê-la, então a levamos para a Unidade

de Terapia Intensiva e tivemos que colocá-la em coma

induzido. Faremos algumas transfusões de sangue e

acompanharemos os seus rins, para que nem precise

chegar a fazer uma diálise. A situação é grave, porém

conseguiremos reverter, ela é jovem, com hábitos


saudáveis e quer viver — falou ela, tentando me consolar,

quando, na verdade, eu já tinha caído sobre uma cadeira

com as mãos no rosto.

Lúcia, ao ouvir aquilo tudo, também se desesperou e

apenas pedia para ver a filha, sendo contida por Marcelo e

Daniel, que estava em choque.

Eu não conseguia pensar em nada a não ser que

Anna tinha que reagir. Não poderia perder minha esposa,

com tanto que a gente ainda tinha para viver.

— Eu posso vê-la? — perguntei.

— Faremos os procedimentos de transfusão de

sangue agora e vou pedir para quem for da família doar

para o banco, apenas para repor o que estamos utilizando.

Caso possam, será muito bem-vindo. Após isso, deixarei

você e Lúcia entrarem, um de cada vez — ela disse,


enquanto rapidamente se despediu e sumiu novamente

pelos corredores que ainda não tínhamos acesso.

Tio Marcelo desceu para a administração do hospital

para se responsabilizar por toda a papelada e o restante

ficou para ter uma chance de ver Anna. Meus pais levaram

minha nonna para casa, que estava bastante abalada e

parecia ter caído mais com isso tudo do que com o próprio

falecimento do meu avô. Ela tinha muito amor pela Anna,

como se ela realmente fosse uma filha e apenas falava: —

Minha menina irá sobreviver, ela irá sobreviver.

Enquanto aguardávamos, eu, meu sogro e minha

sogra, na recepção da UTI, vi Elle com Felipe, de mãos

dadas, saírem do elevador. Se Daniel não me segura, eu

tinha voado neles e cometido uma sandice, perdendo ali o

meu réu primário.


— Quer dizer que o casalzinho se acertou, depois da

merda que fizeram? Não conseguiram resolver dentro da

porra do lar de vocês, colocaram minha esposa nessa

situação e agora aparecem aqui de mãos dadas? — eu

tentava, inclusive, não gritar, em respeito às demais

famílias que ali também aguardavam, mas estava

completamente transtornado.

— Calma, cara. Viemos exatamente nos desculpar e

ver no que podemos ajudar. Sei que eu agi na hora errada

e o que Elle fez com Anna foi imperdoável. Inclusive, ela

está muito mal com isso tudo e, por isso, quis vir aqui —

justificava Felipe.

— Enrico, eu vim pedir perdão. Sei pelo que você

está passando, o Caio também ficou na incubadora.

Entenda que viemos apenas nos desculpar e tentar ajudar


de alguma forma. Então, por favor, tenha calma —

atropelou Elle, enquanto Felipe ainda falava.

— Calma???? Você está me pedindo calma?? É isso

mesmo? — Eu já não controlava mais o tom de voz. — Sua

irmã está correndo risco de vida por sua causa. Por sua

causa. Você está me ouvindo, se algo acontecer com ela,

eu nem sei... prefiro nem imaginar. Agora que vocês já se

acertaram, eu que fique com o prejuízo porque você é uma

mimadinha e todos precisam estar aos seus pés

resolvendo seus problemas.

— Enrico, senta aqui. Elle, Felipe, vão embora, aqui

não é lugar e vocês não deveriam ter vindo. A situação não

está fácil. Depois conversamos todos — falou meu sogro,

visivelmente abalado também e demonstrando não

concordar com a visita inesperada.


— Tudo bem, papai. Nós vamos embora, mas, por

favor, quando Anna acordar, me avisem. Eu tenho direito

de pedir perdão a ela — disse Elle, ainda se achando com

algum direito.

Passamos alguns dias no hospital, praticamente uma

semana, sem que eu fosse em casa apenas para tomar um

banho e voltasse. Lúcia sugeriu que fizéssemos um

revezamento, porém eu não queria sair do lado de minha

filha e nem de minha esposa.

Eva se recuperava bem e estava ganhando peso,

apesar da falta do leite materno, em alguns dias ela

poderia ir para casa. Já Anna se estabilizou e precisava

ainda que os rins se recuperassem, pois se

sobrecarregaram demais.
No dia que nossa filha teve alta, pedi uma quebra de

protocolo do hospital e a levei para que conhecesse sua

mãe, que estava em semi-indução de sono.

— Meu amor, olha quem eu trouxe para conhecer

você, sua pequena Eva. — Sob o olhar e ajuda da obstetra,

coloquei Eva no peito de Anna, para que uma pudesse

sentir o calor da outra e seus batimentos cardíacos.

— Olha a mamãe, minha princesinha. Ela já, já vai

acordar para cuidar de você comigo. Não se preocupe —

falei muito emocionado, sem conseguir conter as minhas

lágrimas.

Após ajeitar, de forma segura, minha filha sobre o

corpo de Anna, a médica saiu, nos deixando a sós. Resolvi,

então, conversar com minha esposa, a quem eu já


abraçava o corpo, sem me importar com aparelhos e mais

nada, só queria senti-la.

— Anna, meu amor, volta para mim, para nossa

filhinha. Reage... eu sei que você está cansada disso tudo,

mas acabou de verdade. Foi tudo um mal entendido, você

não tem responsabilidade de nada e está tudo bem.

Acorda, volta para mim, para o seu Enrico, para a sua Eva.

Vamos viver aquilo que sonhamos por quase nove meses,

liberte-se desse medo de que sua filha iria viver sem um

dos pais, como você viveu por conta da maldade humana.

Ela tem um pai e uma mãe que já a ama muito, e estamos

sentindo sua falta, precisando muito de você.

Enxuguei as lágrimas para poder continuar, quando

senti a mão de Anna apertar a minha. Isso foi o que me


deu mais força ainda, pois ali tive certeza de que ela

voltaria para mim.

— Meu amor, Eva precisa do seu leite, da sua vida,

do seu calor. Volta para nós, eu quero cuidar de você na

nossa casa, no nosso lar. Estou com saudade do seu olhar,

tem tempo que não o vejo, sinto falta do seu sorriso nos

meus momentos de medo e estresse. Só você me acalma,

preciso muito de você. Volta para mim, reage... Você

sempre foi forte e precisa ser mais ainda agora, por mim e

pela nossa filhinha.

Lúcia, que estava do lado de fora, chorava bastante e

apenas acenou com a cabeça. Nisso, eu falei:

— Chame a médica, ela está apertando muito forte

minha mão.
Minha sogra correu chamando a doutora, que mediu

os batimentos cardíacos e falou:

— Ela quer acordar, Enrico. Vou diminuir a dose da

indução e, em algumas horas, vocês poderão se falar. Vou

pedir mais alguns exames de sangue para acompanhar

também os rins e ver se os antibióticos fizeram efeito.

— Obrigado, doutora.

— Agora, levem Eva para casa e vamos tentar sugar

um pouco de leite materno. Nos próximos dias, saberemos

como será a evolução de Anna.

Eu fiquei esperando Anna acordar, queria ser o

primeiro que ela visse.

— Enrico... — ela falou, ainda bem grogue.

— Meu amor, estou aqui — eu disse, enquanto

apertava sua mão.


— Como está Eva? Nossa filha... ela é perfeita? Tem

saúde? Por favor... alivia meu coração. Sei muito pouco de

nossa bebezinha — ela suplicava.

— Ela é, sim. Ela é linda e forte como você. Ela está

bem e saudável e já teve alta. Está sendo cuidada por sua

mãe.

— Preciso amamentá-la, eu quero passar para ela

minha força. Mostrar que eu estou aqui por ela e por você,

meu amor. Eu estou aqui por vocês — ela disse,

emocionada.

— Eu sei, amor. Procure descansar, não se emocione

tanto, nós vamos sair daqui juntos, eu prometo. — Eu

tentava acalmá-la. — Não se preocupe porque estão

tirando o seu leite.


Até que ela adormeceu novamente. Ela acordava e

dormia e, nesse intervalo, perguntava sobre Eva. Eu não

saía de seu lado.

Durante mais alguns dias, ela ficou assim, até que foi

se recuperando e foi possível sair da UTI, indo para o

quarto do hospital, o que era bem mais tranquilo, podendo

receber a Eva para poder amamentar.

Após quase duas semanas, ela foi se recuperando

bem e seus rins voltavam a funcionar perfeitamente. Nós

levávamos Eva para ela amamentar e, com isso, nossa

filha foi ganhando peso. Até o dia que ela recebeu alta.

Chegamos em nossa casa e, apesar da insistência de

todos, as únicas pessoas que nos aguardavam era Lúcia e

nonna Geovana. Eu queria um ambiente de paz para a

minha esposa, sem tumulto e muita gente falando.


— Seja bem-vinda, minha querida. — Minha nonna

abraçava minha esposa, que andava com dificuldade pelos

pontos da cesárea.

— Muito bom ter a senhora aqui, nonna. É muito bom

estar em casa. Achei que ia morrer sem ouvir suas

histórias da Itália — falou Anna, emocionada.

— Eu sabia que você era uma mulher forte e não nos

deixaria, ainda mais com um maridão desse do lado. Ia

deixar para as outras? Jamais! — Minha nonna, como

sempre, brincalhona.

— E eu não sei, Nona... quando estava chegando lá

em cima, falei para Deus: “me desce de volta senão as

piriguetes vão para cima do Enrico e não vou deixar meu

marido solto lá, não — ela falou rindo, segurando ainda o

local dos pontos.


Eu apenas respirava aliviado de ver aquela cena e

beijei minha esposa dizendo:

— Vá descansar, sua boba, e nem se preocupe

porque se você tivesse ficado lá no céu, com Deus, eu

viraria padre — eu brinquei.

— Sei, sei... quem te conhece que te compre, Enrico

Mancuso — falou Anna, se acomodando para amamentar

nossa filha.

Ficamos algum tempo ali, conversando e

aproveitando aquele momento, algo que eu passaria a dar

muito mais valor agora. Lúcia ficou em nossa casa por

quase um mês ajudando Anna e, somente após esse

período, que começamos a receber visitas, para que todos

efetivamente conhecessem Eva.


Após esse tempo, Anna me falou que Elle ligava para

ela insistentemente e que iria recebê-la em casa,

juntamente com Felipe. Além disso, Caio perguntava quem

era a priminha e gostaria também que ele visse Eva.

Apesar de ainda não ter conseguido perdoá-los, não

iria contra a minha esposa naquele momento e resolvi

aceitar essa trégua com eles, apenas disse:

— Eles virão com uma única condição. Um novo

pacto será selado nesta família. Assim como aquele que

ocorreu há quase cinquenta anos entre nossos avôs.

— Enrico, você ficou completamente doido? Eu não

vou prometer minha filha em casamento para o Caio. São

duas crianças, nem pensar vou fazer isso com eles — dizia

Anna, já assustada.
— Não é nada disso. Eu jamais faria minha filha e

meu afilhado passarem por isso. Vou te explicar.

Após explicar para Anna e ela concordar, marcamos

com Elleanora e Felipe a tão aguardada visita e o último

acerto de contas.

Depois de alguns dias, aguardávamos Elle chegar em

nossa casa, juntamente com Felipe e Caio. Preparamos

um lanche e Lúcia e meu tio Marcelo corujavam Eva,

enquanto Anna se arrumava.

No horário marcado, eles chegaram. Nós nos

cumprimentamos formalmente e, entre conversas

informais, fomos nos acomodando. Imediatamente, Caio foi

conhecer a priminha e queria brincar com ela, apesar de

ela ainda ser bebezinha. Minha sogra, com toda a sua

experiência, pediu que ele a ajudasse a cuidar dela e


ficaram sentados lendo um livrinho, com meu tio ao lado

aproveitando aqueles momentos de tio-avô.

Enquanto isso, sentamos nós quatro na sala, assim

como há cinquenta anos sentaram nossos avós.

— Anna, minha irmã, antes de qualquer coisa, eu

quero te pedir perdão por tudo que eu fiz, falei e por não

ter, na hora da raiva, respeitado você, o Enrico e muito

menos a sua condição. Fiz com você exatamente o que eu

mais temia que fizessem comigo, então me perdoe. Sei

que já te pedi muitas desculpas na vida, mas sei que,

dessa vez, as consequências dos meus atos colocaram a

vida da sua filha e a sua em risco e, talvez, mesmo que

você me perdoe, eu nunca me perdoarei — ela dizia, sem

conter as lágrimas.
— Elleanora, não vou te dizer que está sendo fácil,

nem para mim e nem para Enrico e, muito menos, que hoje

tudo se apagará com uma borracha. Eu te perdoo, sim,

apesar de sempre falar que não sou santa para conceder

perdão, mas te desculpo por tudo que aconteceu. Isso não

significa que a mágoa simplesmente tenha sumido, assim

como foi quando descobri a traição, tudo leva um tempo.

Está tudo muito recente e precisamos novamente

estabelecer nossos laços e dar um passo de cada vez para

que nossa amizade possa voltar — falou Anna, de maneira

firme e sensata, como sempre foi, e então resolvi falar:

— Elle, entenda que o problema foi somente você

querer culpar uma terceira pessoa pelos seus erros. Você

não pode continuar a viver assim, isso são valores que

você aprendeu com sua avó. Livre-se deles, assuma seus


atos, tenha responsabilidade, tem uma criança que

depende de você hoje, não somos mais dois adolescentes

riquinhos inconsequentes.

Felipe apenas ouvia, estava visivelmente

constrangido com aquela situação e não tinha muito o que

falar.

— Eu sei. Vocês dois estão certos e eu e Felipe

temos conversado muito. Eu, inclusive, comecei a fazer

terapia para tentar entender o que acontece comigo e

mudar alguns conceitos dentro de mim. Vivi tantas mentiras

a vida toda que aprendi a viver bem com elas, porém isso

não é certo e eu quero mudar e melhorar, principalmente

para dar uma boa educação para o meu filho. Não é justo

que ele tenha esse mesmo exemplo que eu tive dentro de


nossa casa — ela falava, enquanto chorava bastante e

nitidamente tinha o apoio do marido.

— Fico feliz que esteja fazendo terapia. Quando eu e

Anna nos separamos e toda a história da paternidade

estava acontecendo, a terapeuta da nonna me ajudou

bastante. Isso irá te ajudar também — falei dando força,

não adiantava mais massacrá-la com essa história e este

não era o nosso objetivo. Além disso, ela já estava

penalizada o suficiente com toda a situação.

— Eu gostaria de me desculpar também, agi por

impulso, não medi meus atos e não deveria ter levado este

problema para toda a família. Deveria ter resolvido com a

Elle dentro de casa e acabei causando isso tudo — falou

Felipe, bastante envergonhado.


— Não se preocupe, Felipe. Eu, no seu lugar, talvez,

tivesse feito o mesmo, então não temos nem como julgá-lo

— falei, tentando apaziguar a situação.

— Minha irmã, por tudo que lhe causei, sei que você

não vai me perdoar hoje e nem digerir tudo rápido assim.

Até porque você saiu agora do hospital e está tudo muito

recente. No entanto, eu prometo que tudo que eu puder

fazer para que possa melhorar e levar uma vida de

valores melhores, eu vou fazer. Desta forma, ninguém mais

sairá machucado.

— Minha irmã, dê tempo ao tempo e tudo voltará ao

normal — disse Anna, que puxava a mão da irmã de

maneira a finalmente selar a paz.

Após mais alguns esclarecimentos, resolvi fazer a

minha proposta:
— Então, eu gostaria de propor um pacto a vocês.

— Ah, não, Enrico. Essa história não. Deus me livre

fazer algo semelhante com o Caio — falou Elle, enxugando

suas lágrimas, arrancando uma risada de Anna.

— Calma, você nem ouviu minha proposta. O que eu

quero propor é que nossos filhos, sobrinhos, inclusive

aqueles que são da linhagem da Dona Carmem, ou seja,

todos da nova geração Mancuso e Van den Berg viverão

tendo livre-arbítrio, até mesmo com relação à Siderúrgica.

Aquilo é puramente parede e o que precisamos deixar para

eles são valores concretos como caráter, verdade e, acima

de tudo, viver com amor e sem preconceitos. Então, caso

algum deles queira dar continuidade na gestão da

empresa, será muito bem-vindo, porém aqueles que não

quiserem, não serão penalizados ou cobrados por tal


escolha. Para isso, precisamos ensinar estes valores agora

e não quando estiverem nos seus momentos de escolha.

Se nenhum deles quiser assumir a Siderúrgica, que

vendam, dividam a herança e vão trabalhar, como nossos

avôs trabalharam, para construir algo na vida.

— Apoio incondicionalmente. Não há pacto melhor a

se fazer — falou Elle.

— Se hoje estamos sentados nesta sala, tendo esta

conversa e já passamos por tudo que passamos, foi

exatamente porque nossos avós preservaram uma

empresa, um patrimônio, acima das nossas escolhas, dos

nossos sentimentos e, principalmente, da nossa própria

vida. Eles preferiram sacrificar a nossa felicidade do que

sacrificar os seus próprios negócios, e não faremos isso

com a próxima geração. Então, por isso, sugiro um pacto


aqui, de criarmos toda uma geração de nossas famílias

pautada em pilares como verdade e livre-arbítrio, para eles

serem quem eles quiserem, com erros e acertos por suas

escolhas.

— Eu te amo, meu amor. Não espero nada diferente

para nossa filha, afilhado e todas as outras crianças e

tenho muito orgulho de você — falou Anna, abraçando-me

ainda com dificuldade e dando-me um beijo no rosto.

De cima da escada, vi que Lúcia nos observava e,

bastante emocionada, sorria para a nossa resolução.

Obviamente, ela foi uma das mais afetadas, junto com

Anna, com todas as confusões de nossa família e aquilo

era como uma redenção para elas.

Brindamos e ali, novamente, começamos a

estabelecer nossos laços de família.


Passadas algumas semanas, Anna estava

completamente recuperada e Eva já tinha ganhado peso

suficiente, se tornando uma linda bebezinha saudável,

perfeitinha e bastante forte, assim como a mãe. Eu tinha

cada dia mais certeza de que ela seria uma mulher notável

quando crescesse.

Convidamos Lúcia e meu tio para serem os

padrinhos, até porque, se não fosse ele, muita coisa não

teria sido descoberta e, além disso, eles eram as pessoas

que Anna mais confiava nesta vida. Então, mesmo que sua

mãe já tivesse o cargo de avó de Eva, ela brincava que

queria também dar o de fada madrinha para a neta, e

assim o fizemos.

Batizamos nossa filha em um domingo, quando ela já

estava quase completando seis meses e foi uma grande


festa, novamente com a família reunida. Finalmente, tudo

parecia agora entrar nos eixos e ficaríamos em paz.

No dia do batizado, algo surpreendente aconteceu.

Nonna Geovana seria a madrinha de consagração,

porém não estaria sozinha no altar. Anna pediu para que

sua avó, Dona Carmem, também consagrasse sua primeira

filha e, prontamente, o pedido foi aceito.

Aquela que tanto renegou a neta, por considerá-la

uma bastarda, havia realmente mudado sua vida após

encontrar Helena, que a segurava em frente ao padre para

benzer sua bisneta.

— Obrigada por este momento, Anna! É muito

especial para mim segurar uma Van den Berg, depois de

tantos varões nesta família. Uma filha legítima não poderia

vir de outra pessoa, a não ser de você! Ela será uma


grande e linda mulher, assim como a mãe — disse Dona

Carmem emocionada, sendo suportada por Helena, que

ainda a segurava pelos braços com muito amor e carinho.

— Vovó, eu estou muito feliz pelo fato de a senhora

estar aqui. Sua benção significa muito para mim — disse

Anna, muito emocionada.

Da igreja, seguimos para um almoço em nossa casa e

lá comemoramos mais uma vez.

Passados três anos de tudo isso, eu me via com

quase quatro quilos a mais por conta de tantas festinhas de

criança que eu ia dos amiguinhos da creche de Eva, uma

barba e, principalmente, cada vez mais apaixonado por


minha esposa, que diferentemente de mim, se mantinha

linda, com um corpo estonteante e me enlouquecendo

como sempre.

Então, resolvi reparar um erro que cometi há quase

cinco.

Preparei tudo e levei Anna para jantar na cobertura de

um hotel do Rio de Janeiro e lá fiz o que ela realmente

merecia.

Enquanto entrávamos, havia uma única mesa,

apenas para nós, com uma linda vista da praia de

Copacabana. A lua estava cheia e iluminava o mar, parecia

que até os anjos tinham pintado aquela vista para me

ajudar.

— Nossa, Enrico. Adorei a surpresa! Qual o motivo

desta comemoração toda?


Quando ela se virou, na sacada do hotel, eu estava

de joelhos segurando uma caixinha com um solitário de

diamante.

— Anna, eu sei que você é a minha esposa. No

entanto, hoje, com todo amor que eu sinto no meu coração,

quero fazer este pedido de maneira correta e decente, e

não como um acordo, como foi há alguns anos.

— Enrico... — ela disse, já emocionada.

— Você quer se casar comigo? — perguntei, também

bastante emocionado.

— É claro que eu quero. Se tivermos que casar mil

vezes, eu casarei!!!

Coloquei a aliança e brindamos com champanhe.

Tivemos uma noite incrível, jantamos e comemoramos

bastante.
Naquele dia, estávamos sozinhos em casa. Nossa

filha tinha ido para a chácara de Petrópolis com seus avós,

que me ajudaram a armar tudo, e poderíamos aproveitar

muito, como sempre fizemos.

— Meu amor, você está muito sexy com essa

barbicha — brincava Anna, enquanto eu a servia com uma

taça de vinho.

— Eu sabia que você tinha gostado — falei, enquanto

a beijava no ombro. — Eu adoro ver sua pele marcada

assim, sua boca vermelha por conta da minha barba.

Ela sorria e dizia já de maneira lânguida:

— Você reparou?

— O quê?? — falei sorrateiro, enquanto ela pegava a

minha mão e colocava por baixo de sua camisola, entre

suas pernas.
— Estou sem calcinha, não achei nenhuma para

vestir esta noite — ela falou, pressionando minha mão em

seu sexo e, maliciosamente, também se acariciava, como

se guiasse o meu dedo.

Começamos a nos beijar rapidamente e de maneira

intensa. Mesmo depois dos primeiros anos de casados,

parecia que estávamos nos conhecendo agora, tínhamos

muito fogo e química e nos desejávamos o tempo todo.

Eu a virei e comecei a beijar suas costas, sentindo

sua pele se arrepiar, então tirei sua camisola, eu a queria

totalmente nua para mim, sobre a cama. Eu segurava os

seus cabelos e beijava sua nuca, seus ombros e seu

pescoço, e ela gemia e chamava pelo meu nome.

Sua mão já me acariciava e, em um vai e vem

delicioso, ela me masturbava. Eu enrijecia roçando em sua


perna. Ficamos um tempo nos tocando e eu sentia sua

boceta inchar de tanto desejo. Então, eu a puxei para a

beirada da cama e ali me ajoelhei, começando a chupá-la e

dedá-la ao mesmo tempo, ela se contorcia de tanto tesão e

seu melzinho escorria pelas pernas. Eu lambia sua coxa e

virilha, e ela cada vez mais empurrava minha cabeça para

dentro do seu sexo. Eu enfiava a língua e alternava com o

dedo entre seus lábios e sua grutinha ensopada, até que

ela falou:

— Vem, Enrico, me come gostoso como só você faz.

Eu quero gozar com você dentro de mim. Vem, estou com

muito tesão, não estou conseguindo mais segurar.

Eu, rapidamente, levantei e meti meu pau com força

dentro de sua boceta, uni minha frequência com a dela e,

quando vi que ela entrelaçava suas pernas em volta de


minha cintura, eu a soquei mais ainda, enquanto apertava

suas nádegas contraídas.

— Eu sou só sua, meu amor. Eu vou ser só sua para

sempre. Você foi e sempre vai ser o único a me ter.

Saber que eu tinha sido o único a percorrer todo o

seu corpo me enlouquecia cada vez mais, pensar que eu

fui o único homem da vida da minha esposa me deixava

cada vez mais apaixonado. Ela era minha e ninguém mais

a teria.

Gozamos juntos e ali ficamos um tempo deitados. Um

dentro do outro, sem nos movermos, até que ela finalmente

me olhou e falou:

— Eu parei a pílula, meu amor!

E começaria tudo de novo.


EPÍLOGO

ENRICO

Estávamos sentados, eu e Jordanna, no jardim,

enquanto observávamos Pedro e Maria correndo em volta

da piscina, brincando com nosso cachorro. Eles riam e

pulavam, e ali lembrei novamente da minha infância,

quando eu e Elle brincávamos na mansão de nossos avós.

Pedro tinha apenas seis anos e era nosso caçula, já

Maria, sua prima de sete anos, era a caçula de Elle e

Felipe.

Na piscina, brincavam Eva com oito anos de idade e

Caio, já com quase dez anos. Não se desgrudavam,


pareciam unha e carne e tudo queriam fazer juntos. Eles

tinham outros amiguinhos do colégio, mas Eva e Caio eram

inseparáveis.

Nós criávamos nossos filhos sem luxos,

principalmente em questão de consumo. Tudo que vivemos

e achávamos errado nos ensinamentos de nossos pais e

avós ou considerávamos que poderia causar algum dano

como nos causou, nós evitávamos, por isso todos eram

ensinados a ter humildade e dar valor às coisas.

Durante os anos, passamos por momentos bons

demais e outros bem ruins. Perdemos Dona Carmem e Sr.

Willy Van den Berg e, principalmente, minha nonna, que

quase chegou aos cem anos. Foi doloroso demais e Anna

passou por um longo período de luto, até se recuperar

totalmente. Até hoje ainda a pego, muitas vezes, com


lembranças e emocionada, e ela sempre fala como sente

saudades. Foi um dos momentos de maior tristeza em

nossa família.

Entre as coisas muito boas, tivemos a segunda

gravidez de Anna e Elle, assim como o nosso segundo

casamento. Sim, nos casamos novamente por mais três

vezes e, em todas elas, fizemos uma cerimônia íntima, sem

muita pompa e com nossos filhos nos acompanhando.

Adotamos cachorros e nosso divertimento era apenas estar

junto com toda a família. Víamos séries, filmes, jogávamos

bola e fazíamos piquenique, não havia nada de luxo ou

demonstração de riqueza, apenas gostávamos de fazer as

coisas juntos.

Com o dinheiro da venda das mansões dos patriarcas

das famílias, decidimos comprar um imóvel para cada um


de nossos filhos e, enquanto eles não tinham idade para

usufruir, os mantínhamos alugados.

Toda a renda ia para um fundo de reserva em nome

deles, que poderiam usar somente quando chegassem ao

vinte e um anos. O nosso combinado era que seria apenas

aquilo e mais nada. De resto, começariam como

estagiários na empresa, se quisessem; se não, iriam à luta

pelo que escolhessem.

Os casais da família permaneciam juntos, e eu e

Anna ficávamos cada vez mais unidos, nos fortalecendo

como casal. E pensar que tudo começou naquela mesa de

restaurante, quando vi aquela linda menina pela primeira

vez...

No nosso aniversário de dez anos de casamento,

viajamos para Paris e lá renovamos nossos votos. Dessa


vez, somente nós e nos amamos muito, nada apagava

nosso fogo. Nunca. Levamos as crianças para a Disney em

uma enorme viagem de família, em que brigamos, rimos e

voltamos mais cansados do que nunca.

Felipe e Elle viviam bem e com mais verdade e

companheirismo em seu casamento. Lúcia e meu tio

Marcelo também eram bastante companheiros um do

outro, meu sogro e Glória envelheciam bem e,

principalmente, tinham a companhia dos netos, que

estavam sempre em sua casa. Já meus pais foram morar

na chácara, em Petrópolis, pois queriam levar uma vida

mais tranquila, além de sempre receberem as crianças e as

famílias para passarem as festas.

Tia Helena e todos da família da Dona Carmem

estavam sempre conosco também, até mesmo Dennis, que


já tinha um casal de filhos e eles estavam sempre em

nossa casa, brincando com os demais. Ele hoje trabalhava

em uma empresa de consultoria de Meio Ambiente, tinha

sido promovido por duas vezes e era considerado um dos

melhores funcionários por sua ética.

Continuei a observar a cena da piscina e parecia que

passava um filme em minha cabeça. Anna, que estava

sentada ao meu lado, com as pernas sobre mim, apenas

falou:

— Está pensando em quê, meu amor?

— Estou aqui pensando em como você fica gostosa

nesse maiô... — brinquei, falando baixinho em seu ouvido.

— Mais alguns anos e você vai ficar um velhinho

pervertido. — Ela sempre dava corda para as minhas

brincadeiras.
— Você sabe que é o grande amor da minha vida,

não sabe? Eu hoje, pensando e olhando para trás, não

consigo imaginar o que teria sido da minha vida, se eu não

tivesse entrado naquele avião para ir conversar com você

em Nova York daquele jeito tão torto.

— Mas por causa disso, nos casamos três vezes, não

é mesmo? — brincou Anna.

— Casaria mais mil. Você me transformou, me deixou

entrar na sua vida e entrou na minha trazendo valores que

eu desconhecia, me ensinou a ser um homem íntegro e,

mais ainda, me ensinou a ser um pai que ensina coisas

certas para seus filhos. Eu tenho muito orgulho de ser seu

marido e, principalmente, pelo relacionamento que

construímos. Sem você, sem nossas crianças, sem nossa


vida, eu seria um nada, um homem vazio que nunca

conheceu a verdadeira felicidade.

— Eu te amo, meu amor. Tenho muito orgulho de

você e sou muito feliz pela história que construímos.

Ela deitou a cabeça em meu ombro e ali ainda

permanecemos um tempo apreciando a brincadeira das

crianças. Olhei para Elle e, apesar de tudo que tínhamos

passado até ali, ela era a minha irmã e sempre foi uma

grande amiga.

Ela nos olhava e, acredito, que em sua cabeça

passava que, no final das contas, tudo que fizemos,

quando envolvemos Anna em toda a nossa história, foi a

decisão mais acertada que tomamos juntos.

Ela ergueu a sua taça de vinho branco em minha

direção, como se estivesse lendo o meu pensamento e


brindou aquele momento.

Éramos felizes e, principalmente, tínhamos paz por

sabermos que vivíamos com base em nossas próprias

escolhas e seria assim para sempre, até porque nossos

filhos não tinham mais nenhuma obrigação de continuarem

perpetuando a união de nossas famílias.

No entanto, de repente:

— Papai, papai... — Eva corria em minha direção, me

gritando.

— Oi, minha linda. O que foi?

— Eu e Caio estamos namorando e decidimos que

vamos nos casar quando completarmos dezoito anos.

Eu apenas olhei para Anna e para Elle e disse para a

minha filha:

— É o que você quer, meu amor?


— É, sim, papai. Eu e ele queremos! — disse Eva.

— Que bom, minha filha, fico feliz. Sabe por quê? —

perguntei olhando para aquele rostinho lindo que tanto

parecia com a mãe.

— Por quê, papai? — respondeu Eva, no auge da sua

inocência.

— Porque ele será o !

JORDANNA

Estávamos sentados, eu e Enrico, no jardim,

enquanto observávamos nossos filhos brincando na


piscina. Eles aguardavam os primos chegarem para

comemorar o início das férias escolares.

Dez anos tinham se passado. Tínhamos perdido

pessoas queridas, como minha segunda mãe, nonna

Geovana, mas também tínhamos recebido alguns anjinhos

e a nova geração de nossas famílias crescia. Com novos

valores, novos princípios e pautados no livre-arbítrio.

Eu olhava meu marido, enquanto ele brincava de

jogar bola para Pedro e Eva dentro da piscina. Ela, já se

achando uma pré-adolescente, com apenas oito anos,

pedia para que ele colocasse músicas de uma banda

famosa no celular para animar aquela manhã de sábado.

Apesar dos anos, eu e Enrico nos olhávamos e

sentíamos a mesma coisa de quando tudo começou.

Nossos olhos se buscavam, apenas para sentirmos o


conforto de ter a presença um do outro e, assim, nos

comunicávamos através do sorriso.

Enrico, durante esse tempo, ganhou alguns quilinhos

extras, mas nada que lhe tirasse o charme e resolveu

também deixar a barba crescer, o que servia apenas para

me arranhar toda quando ele beijava meu corpo. Ah, como

eu gosto dos seus beijos... Meu marido se tornou um

excelente pai. Dedicado, amoroso e, além disso, colocou

os filhos como sua prioridade máxima, criando as crianças

com liberdade e respeito acima de tudo, era bonito de se

ver.

Eu nem tinha terminado meu suco e meu croissant,

muito menos meus pensamentos, quando ouvi a

campainha tocar. Já imaginava que era Dennis com seus

filhos ou minha irmã com os dela. Antes mesmo que me


levantasse, vi que eram os dois e mais quatro crianças

corriam pela sala, já se despindo, ficando com roupas de

banho para cair na piscina com os primos. Como eu

adorava ver esta cena...

— Maria, espera um pouco. Você precisa colocar a

boia — gritava Elle, ao ver a filha sumir pela área do jardim.

— Deixe, irmã. Enrico está lá atrás — falei, enquanto

cumprimentava ela e Dennis, que saiu apressadamente,

dizendo que ia aproveitar que as crianças estariam

conosco este fim de semana e viajaria para a serra com

sua esposa. — Todos nós precisamos de uma folguinha,

não é mesmo? — eu disse, já imaginando o dia que

também escaparia com Enrico.

Convidei Elle para ficar mais um pouco e almoçar

conosco, já que Felipe estava apresentando um projeto


social e viria apenas no final da tarde.

Eu me troquei, colocando um maiô e emprestando

outro para Elleanora, e fomos pegar um sol para colocar o

papo em dia.

— Anna, é muito engraçado pensar em tudo que

passamos para chegar até aqui, não é? Passamos por

tantas coisas em dez anos, mas, no final, tudo compensa

só de ver estes pequenos brincando juntos — falou Elle,

meio nostálgica.

— Nem me fale, irmã. Até mesmo ver os filhos de

Dennis aqui conosco, ver tudo que passamos com ele e

como ele se transformou — eu disse, entrando na

nostalgia.

— Você lembra quando tudo começou? Quando eu te

mandei aquela mensagem no celular, dizendo que estava


indo para Nova York? — ela me perguntou, e eu sabia que

entraríamos em um momento de recordações e, mais

ainda, de revelações.

— Lembro, sim. Eu mal podia imaginar o que você iria

me propor, mas eu quase não conseguia conter minha

ansiedade e curiosidade. Até o dia da sua chegada, eu

nem conseguia dormir direito — falei, entre risadas.

— E quando eu te falei do Enrico? Você sempre teve

uma quedinha por ele, não é? Lembro de quando você fez

quinze anos e papai fez aquela festa para você. Assim que

ele chegou, você não olhava para mais ninguém. — Ela já

começava a tentar arrancar os segredos.

Enquanto colocava um vinho rosé para gelar,

respondi sua pergunta.


— Elle, você sabe que eu sempre achei Enrico uma

delícia — disse, entre risadas —, mas era complicado

alimentar este sentimento, principalmente porque eu sabia

do acordo e do relacionamento de vocês.

— Ai, nem me lembre disso, Anna. Mas me conte,

como foi quando você o viu pela primeira vez, depois de

tantos anos, sentado naquela mesa do restaurante? Ele me

contou que quase caiu para trás quando viu você

chegando.

— Irmã, naquele dia, eu fiz toda uma preparação, fui

para o salão cedo, experimentei cinquenta vestidos e

treinei minha entrada no restaurante umas mil vezes. No

fim, decidi atrasar alguns minutos para deixá-lo irritado e,

um detalhe que somente nonna sabia: um dia antes, pedi

que o maitre o colocasse em uma mesa no fundo, para que


ele pudesse me ver atravessando todo o salão. Fiz a minha

melhor “poker face” e só fui, o coração disparado e

demonstrando toda a segurança do mundo, apesar de

estar com a perna bamba — contei, relembrando depois de

tantos anos.

— Mentiraaaaa! Anna, não acredito. Você já era

danada naquela época.

— Elle... e você não tem ideia. Quando vi Enrico ali

sentado, lindo, sedutor, com aquela taça de champanhe na

mão, eu só queria me jogar em seus braços. Foi quando eu

percebi que já sentia uma enorme paixão por ele.

— Adoro relembrar essas coisas. O casamento de

vocês foi lindo, você o transformou. Quem olha para o

Enrico hoje, depois de todos esses anos com você, não

reconhece aquele bon-vivant que ele era quando novinho.


Ele era um dos solteiros mais cobiçados do Rio de Janeiro

e hoje não há quem duvide do amor que ele sente por você

— falava Elle, orgulhosa por ter contribuído com toda a

nossa história.

— E eu não sei, Elle? Nosso primeiro ano não foi

fácil. O celular dele vivia tocando. Eram modelos atrás

dele, porém com o tempo fui cortando tudo.

Ríamos entre uma taça de vinho e outra.

— E quando você assumiu a empresa, parecia que o

falecido Sr. Mário ia comer você viva, com caviar e

champanhe, como ele gostava. E você, sorrateira, foi

conquistando todo mundo.

— Ai, Elle, acho que ali foi um dos momentos mais

difíceis, sabia? Eu ainda era insegura e tinha que me fazer

de forte. Se não fosse a nonna Geovana, não sei como


seria. Na verdade, não seria nada, eu não teria

conseguido. E eu só queria preservar meu casamento,

irmã, não queria nada daquilo, queria uma carreira, mas

nada que prejudicasse meu relacionamento com Enrico.

Contudo, quando cheguei na Siderúrgica e vi aquela

podridão, tanta coisa errada, aquele ranço de empresa

familiar com seus jeitinhos e tantos funcionários sendo

prejudicados, eu tirei uma força que eu nem sabia que

tinha. Naquele momento, eu achei que seria a empresa ou

o Enrico, chorei muitas noites, tive muito medo de perder

meu marido, pedi força a Deus e deu tudo certo, mas não

foi fácil. Eu me fazia de forte na frente de todos aqueles

engravatados e, ao mesmo tempo, queria estrangular cada

um deles por dentro, que apenas sabiam olhar para o meu


bumbum — falei relembrando um dos momentos mais

difíceis que enfrentei durante estes anos.

— Eu lembro. Você sabe que quando eu “te convenci”

a assumir o meu lugar no casamento, não sabíamos como

seria. Nunca convivemos com você e ele tinha medo de

você não saber como acompanhá-lo nas reuniões de

negócios, eventos sociais, essas coisas. No final, o papel

se inverteu e ele que teve que fazer isso. — Eu estava

adorando aquele momento de recordações e revelações.

— Irmã, vou te dar mais vinho porque a bebida está

entrando e a verdade está saindo. Mas foi exatamente isso.

Enrico teve que desconstruir aquele padrão dele de criação

machista e, muitas vezes, ele era apenas o marido da

presidente da Siderúrgica, da executiva que faz o programa

da emissora. Depois conseguimos ir ajustando isso. Você


acredita que tivemos uma terapeuta nos ajudando nesse

período? Isso é segredo, hein, mas contratei e foi ótimo,

nos ajudou muito. No entanto, fiz isso porque tinha medo

dele brochar, por estar afetando a masculinidade dele —

contei, enquanto gargalhava.

— Anna, para, não consigo parar de rir!!! Quero mais

vinho.

— Mas não vou negar que ele foi maravilhoso. Ele era

comprometido, disciplinado e estava disposto a mudar para

que nosso casamento desse certo. Olhando para trás,

lembrando de tudo que ele já fez, que ele mesmo já abriu

mão de conceitos, pessoas, ensinamentos e se modificou

por nós, não é qualquer um que faria isso, ele foi e é um

marido maravilhoso. E olha... melhor ainda, que nunca

brochou.
— Isso que importa. Vamos brindar aos nossos

maridos que nunca brocharam com a gente!!! — E

brindamos.

Maria e Pedro vieram pegar salgadinhos e sucos e

aproveitamos para retocar o protetor solar. De dentro da

piscina, Enrico falou:

— Vocês estão apenas fofocando ou falando mal de

maridos aí? Já estão acabando com essa garrafa de vinho

e eu não recebi nem um gole?

— É seu dia de tomar conta da creche Mancuso e

Van den Berg, nada de álcool para você hoje. Além disso,

só estamos falando mal de vocês, maridos — falou Elle,

brincando.

— Vocês me pagam, viu?? — respondeu meu marido,

voltando para o esporte preferido dele: brincar com as


crianças na piscina.

Fui pegar mais um aperitivo e o balde de gelo com

mais um vinho.

— Mas irmã, até hoje vocês mantêm o mesmo apetite

sexual? Porque o meu e o do Felipe reduziu drasticamente,

com dois filhos, quase que precisamos agendar no outlook

dele, entre uma reunião de trabalho e outra.

— Elle, claro que com duas crianças em casa, não dá

mais para rolar pelo tapete da sala, mas a nossa química e

nossa paixão não diminuiu, apenas temos que esperar as

luzes apagarem e o falatório da casa acabar. Confesso que

fazíamos em uma frequência maior... Ele foi o único

homem que tive na vida, irmã, e, desde a nossa primeira

vez juntos, não tenho palavras para descrever o momento

quando estamos nos amando, a energia que trocamos, o


que ele me faz sentir. É como se eu, realmente, fosse ao

paraíso e voltasse, é algo inexplicável.

— Anna, meu coração enche de alegria por ouvir isso.

Eu sempre tive medo desta parte, principalmente no

começo. Eu não sabia se você era inexperiente ou não,

mas eu sabia que era Enrico. Admito que quando vi que

vocês estavam bem me deu um enorme alívio. Até hoje,

todos na família falam que não conseguimos ver Enrico

sem Jordanna, nem Jordanna sem Enrico e isso é só um

reflexo do amor que vocês passam.

— Eu sei. Ele mesmo já tinha me falado que você

tinha essa preocupação. Você sabe que, na nossa primeira

vez, em nossa noite de núpcias, eu não disse nada sobre

minha virgindade, para que ele me desse todo o prazer do


mundo. Eu caprichei na lingerie, você lembra quando

fomos escolher???

— Lembro, sim.

— Eu me perfumei, fiz carão, porém, por dentro, eu

estava em verdadeiro pânico. Já tinha tido alguns

namorados, mas os americanos não são atirados iguais

aos brasileiros e com nenhum tive vontade de me entregar.

Com Enrico era diferente, eu já estava apaixonada, já tinha

trocado um único beijo muito ardente e estávamos com

aquele tesão reprimido. Foi uma verdadeira explosão,

parecia que o mundo tinha sumido e só tinha nós dois. Foi

uma loucura e eu fico sem ar sempre que lembro. O mais

engraçado é que tivemos momentos inesquecíveis, mas

nada irá superar a lembrança que tenho de nossa primeira

vez realmente juntos, ali estabelecemos um vínculo


inexplicável, foi uma conexão que parecia até de outra

vida.

— Eu sei bem o que é. Quando conheci Felipe, eu

perdi completamente o ar. Eu já tinha tido alguns amantes

na vida e o próprio Enrico, com quem tinha apenas uma

amizade colorida, porém nunca tinha amado realmente

alguém. Na verdade, Anna, eu nem sabia o que era amar.

Tudo foi tão automático em minha vida, tão coordenado por

todos, que parecia que eu apenas vivia sem essas

escolhas. Eu era a única mulher, todas as atenções

estavam sobre mim, para que eu fosse a filha perfeita, a

herdeira perfeita, a esposa perfeita e aí, quando eu

comecei a me relacionar com meu marido, achei que era

apenas mais uma paixonite. Quando eu vi, estava

completamente apaixonada, eu nunca tinha sentido aquilo


e foi exatamente isso que me deu força para tomar todas

as decisões que eu tomei.

— Ainda bem que o Felipe chegou. Ele, sim, é o

responsável por tudo, senão você teria casado com Enrico,

hoje não estaríamos aqui e nem teríamos nossos filhos

lindos — falei, refletindo sobre aquilo.

— É verdade, Anna, um brinde ao Felipe! — ela falou

já reerguendo a taça!

— Ao Felipe! — Brindei junto com ela.

Nisso, novamente, meu marido foi brincar conosco.

— Ei, quero um brinde em meu nome também — ele

falou, enquanto já corria com a bola com as crianças pelo

jardim.

— Você está me saindo um verdadeiro fifi de olho

aqui em nossa conversa, meu amor!!


— Isso, porque não consigo tirar meus olhos de você

— gritou ele, enquanto me mandava um beijo no ar e nós

caíamos na gargalhada. Nossos filhos o imitavam

mandando beijo, muito mais brincando com ele do que

realmente fazendo um gesto carinhoso e nós

continuávamos gargalhando.

— Mas, Anna, me conte, como foi com nossa avó?

Você nunca me contou como foi naquela época que

descobrimos tudo — perguntou Elle, me fazendo reviver

algo que, no fundo, apesar de superado, ainda me causava

um mal-estar.

— Não foi fácil, Elle. Sinceramente, não foi fácil. Eu

tinha medo de que aquilo afetasse meu casamento, que eu

entrasse em depressão e Enrico não aguentasse. Tanta

coisa que nós mulheres nos cobramos e, muitas vezes,


apenas carregamos uma cruz muito maior do que

realmente precisamos, mas foi um momento difícil. Depois

que nos acertamos, ainda levou um tempo para que a

aproximação leve e familiar realmente acontecesse. Até o

dia de seu falecimento, eu nunca tive um relacionamento

com nossa avó, igual eu tive com a nonna Geovana.

— Ela adorava você. Ela praticamente te adotou,

acho que não tinha ninguém da família que ela tivesse

tanto carinho como você. Quando Eva nasceu, ela ficava

horas segurando a bebezinha, com aquele olhar dela, tão

carinhoso e amoroso, como se estivesse passando a força

que ela tinha.

Neste momento, meu coração se encheu de saudade

e uma lágrima começava a brotar.


— Ainda não perdi minha mãe, graças a Deus, mas

nada neste mundo eu colocaria como um momento pior na

minha vida do que a perda de minha nonna, Elle. Nada.

Parecia que tinham arrancado um pedaço de mim, de

quem eu era e quem me tornei e ela me faz uma falta

imensurável. O que me consola é que ela não sofreu, teve

uma passagem dessa vida de maneira tranquila e sem

qualquer sofrimento ou dor — falei, já bem nostálgica.

— Anna, até hoje me pergunto se até isso ela não

programou. Ela tomava os remedinhos dela, já estava

fraquinha, mas ainda era aquela mulher memorável no

auge de seus noventa e oito anos. Deitou, naquele dia,

mandando uma mensagem amorosa para todos os netos,

como fazia todos os dias, como se pudesse ser o último e

faleceu dormindo.
— Foi mesmo, minha irmã. Eu e Enrico fomos os

primeiros a chegar, quando meu sogro nos ligou e sua

expressão era serena, inclusive com um leve sorriso no

rosto. Havia uma caixinha para cada neto, com uma

lembrancinha da Itália e um carta escrita à mão em que ela

declarava todo o seu amor. Ela era um ser humano lindo,

que até hoje vive nos ensinamentos que ela deixou.

— Ela faleceu de parada cardíaca, não foi?

— Foi, seu coração parou de velhice mesmo. Os

médicos disseram que ela não sentiu nada. Apenas partiu.

— Lembrei, com saudade demais de uma das minhas

melhores amigas.

Fomos interrompidas por minha mãe e tio Marcelo

que chegavam, dizendo que tinham levado estrogonofe


para todos. Era o prato preferido das crianças e todas

saíram correndo.

Arrumamos a mesa do jardim, com sucos, pratos e

talheres, além do almoço feito por minha mãe, que amava

ficar o dia cozinhando para os netos e os sobrinhos. Ela

ainda tinha levado uma bandeja de cachorro quente e bolo

para o lanche da tarde. Era sempre muita comida quando

as crianças estavam reunidas.

— Ebaaaaaaaa! Eu adoro a comida da tia Lúcia —

falava Maria, enquanto ríamos, e Elle sempre brincava

como a filha ficava gulosa nessa situação.

— Vó, vó, coloca bastante batata palha para mim e

caldinho de estrogonofe em cima — falava meu caçula,

Pedro, que tinha verdadeira adoração pela comida da avó.


— Pode deixar, meu lindo, eu já sei que você adora

batata e como montar seu prato. E ainda tem surpresa para

depois. Mas precisa comer um pouco de arroz também —

falava minha mãe, carinhosamente, com seu neto. Ela

mimava demais todos eles.

— Eu já sei, eu já sei! Tem bolo de chocolate. Nós

queremos — gritavam Eva e Caio, que eram apaixonados

por doce, ainda mais o bolo de minha mãe.

— Não, não. Almoço primeiro — eu e Elle falamos

praticamente em coro. Sabíamos que, se deixássemos,

nossos primogênitos comeriam apenas doce.

Enquanto isso, via minha mãe piscar o olho para eles.

Ela sempre fazia tudo, quando eu era criança tinha um

monte de regras. Ah... as avós.


— Mãe, se comermos tudo, podemos fazer sessão de

cinema com pipoca, com a sequência do Jurassic Park, na

sala de tv? — perguntou Eva, apesar de eles já terem visto

todos os filmes de dinossauros mil vezes.

— Podem, vamos forrar os sofás e os pufes com

toalhas. Mas só se comerem tudo — respondeu Enrico,

que voltava já de bermuda e blusa, após tomar uma ducha,

abraçando-me pela cintura, enquanto pegava um prato

para almoçar com as crianças.

— Além disso, ainda tem cachorro-quente e suco de

uva para todos, enquanto vemos o filme — falava tio

Marcelo, e as crianças comemoravam a chegada das

guloseimas.

Maria sentava no colo de minha mãe, para que ela lhe

desse comida. Era a mais novinha deles e ainda estava na


fase da dependência. Apesar de minha mãe não ser sua

avó direta, elas tinham uma ligação bonita e diferente. E

isso sempre me lembrava minha nonna.

Fiz uma salada para mim e para Elle, já que minha

mãe e tio Marcelo já tinham almoçado. Ficaram apenas

para curtir as crianças. Programa que eles mais gostavam.

Foram todos para a sala de TV, enquanto Enrico foi

tirar um cochilo, e eu e Elle voltamos para o jardim, para

continuar nosso papo e bronzeamento.

— Elle, passados todos esses anos, e eu já tendo te

perdoado pelo que aconteceu, você nunca me contou

como foi o seu acerto de contas com Felipe, quando ele

descobriu tudo. Com aquela história da carta. Ai, só de

lembrar, já me dá até arrepios — perguntei, porque sempre


quis saber e nunca tivemos uma oportunidade de

conversarmos sobre isso.

— É verdade, irmã. Nunca te contei. Então... após

toda a confusão com você, seu parto prematuro, sua

hemorragia e tudo que te aconteceu por minha causa, eu

parecia que ia morrer. Não era só o remorso, eu tinha raiva

de mim mesma, do que eu era e do que eu tinha feito.

Eu a interrompi, pegando em sua mão.

— Ficou no passado, Elle. Esses anos todos você me

provou que mudou. Esse episódio já foi superado — falei

acalentando-a, pois sabia que até hoje ela carregava essa

culpa.

— Eu sei, Anna. Só que foi algo muito, mas muito

doloroso mesmo para mim. Em contrapartida, serviu para

me mudar, eu me transformei por dentro, de uma forma


inexplicável. Eu percebi o quanto você tinha mudado todos

nós, como um furacão, tudo ia se transformando e

mudando para melhor E tinha chegado a minha hora de

aproveitar essa ressignificação que você trazia.

Nós nos abraçamos e ela continuou seu relato. Eu

não falei nada, preferi manter o meu silencio e deixá-la à

vontade para abrir seu coração.

— E sentindo isso, esse turbilhão de emoções e

vontade de mudar, chamei Felipe para conversar. Contei

tudo para ele. Pedi para que ele não me interrompesse,

não me cortasse, apenas me deixasse falar. Eu precisava

daquilo. No fundo, Anna, eu falava e contava para mim

mesma, revelava toda uma vida de mentira, para ali me

perdoar e poder me tornar uma outra pessoa. E Felipe, no


auge da sua sensibilidade, do seu amor por mim e pela

nossa família, serviu de muleta para este meu momento.

— Que lindo, minha irmã.

— Então, eu contei tudo. Todos os homens, como foi

com Enrico, como foi a transição de casamento com a sua

chegada...

— Ele não sabia?

— Muito pouco. Sempre tive medo de ele se assustar

com a nossa história e me abandonar. Ele é meu porto

seguro, ele é a realidade que eu quero, o chão, o meu solo.

Tenho muito medo de perdê-lo. E ele mesmo nunca quis se

meter muito. No dia do seu casamento, ele presenciou o

barraco todo, mas se limitou apenas a perguntar se estava

tudo bem.
— Eu entendo. — Eu estava completamente

consternada. Não sabia daquilo tudo. Na verdade, nunca

sabemos as batalhas internas que as pessoas enfrentam.

Era a realidade da pobre menina rica.

— Voltando... no dia que comecei a contar tudo,

expliquei para ele que realmente o traí, mas que, quando

me peguei apaixonada, eu não conseguia ficar com mais

ninguém. Eu o queria em minha vida, mais do que tudo. Foi

tanta sinceridade exposta ali, tanto livramento de um peso

que carreguei por mais de vinte anos, que foi como se

estivesse nua diante dele, começando tudo de novo,

apresentando uma nova Elleanora para ele. Ele

gentilmente me deu uma segunda chance e nunca, nunca

mais ele tocou neste assunto.


— Ele é um homem maravilhoso, Elle. Ele

naturalmente transmite uma paz, uma serenidade

inexplicável. Ele realmente é um homem muito evoluído —

disse, sendo sincera, pois sempre admirei o jeito de Felipe.

— Ele é, sim, minha irmã. Eu me sinto uma mulher

muito sortuda por tê-lo em minha vida.

— Nesse ponto, não podemos reclamar de nossas

vidas, não é mesmo? Somos muito sortudas e,

principalmente, somos amadas. Às vezes, me pego

pensando em nossa avó, o quanto ela sofreu,

simplesmente porque não pôde viver os principais tipos de

amor, como o de um homem, o de seus filhos e até mesmo

o de entes que não a apoiavam, apenas exigiam que ela

fosse perfeita.
— É verdade. Esse foi um dos perdões que pedi. Um

dia, fui na casa da tia Helena, visitar a vovó, e me

desculpei por tantos anos que eu a considerei a megera da

família. Adolescente, eu mal lhe dirigia a palavra e, quando

cresci, apenas buscava seus ensinamentos de uma boa

dama da sociedade carioca. Nunca procurei saber os

sentimentos dela ou de qualquer pessoa de nossa família e

você nos ensinou isso. Sabe, até você chegar, pouco nos

importávamos com que um ou outro sentia ou já tinha

vivido para ser daquela forma. Nosso pai mesmo viveu

muitas frustações e pressões, e só se libertou realmente

com as suas ações.

— Que isso, irmã... Isso aconteceu porque cheguei

com novos valores.


— Não, Jordanna. Todo mundo ignorava a sua

existência, mas, na verdade, você foi a salvação de todos

nós.

Conversamos mais um pouco e quando vimos o dia já

escurecia. A maioria das crianças tinha dormido durante o

filme e começamos a chamá-las para lanchar, enquanto eu

via minha mãe preparar os lanches. Todos conversavam

animados e, assim, passamos o nosso final de semana.

Quando nos despedimos, nosso afilhado apenas

falou:

— Dinda, não esquece que, na festa junina da família,

lá na chácara, eu vou ser o noivo e a Eva a noiva. Então,

tem que levar a roupa dela diferente.

Eu olhei para Enrico e não deu tempo nem de

responder, enquanto eu o via sumir com sua irmã, entrando


no carro de seus pais, que tinham ido buscar as crianças.

— Vamos, crianças, seu pai já está com as malas no

carro, nos esperando. Seus primos já estão chegando na

chácara e seus avós, Eduardo e Vivian, já estão com a

festa junina toda pronta.

— Já estamos indo, mãe, estou pegando fitas que

quero colocar no cabelo — gritava Eva, enquanto eu

ajudava Pedro a descer as escadas, que ele acabava

sempre tropeçando porque vivia correndo.

Partimos em direção a Petrópolis, para a festa e para

mais uma reunião de família, como adorávamos fazer. Eu e

Enrico tínhamos tido uma semana pesada de trabalho.


Tivemos que alternar nossas agendas, fazendo ponte

aérea e ainda driblando o período de férias das crianças.

Estávamos cansados e realmente precisávamos de uma

pausa na nossa rotina.

Quando chegamos na chácara, que era onde meus

sogros moravam atualmente, vimos que a área externa já

estava toda enfeitada e uma equipe de buffet e de eventos

finalizava os últimos detalhes.

Minha mãe já havia chegado e se acomodava no

interior da casa principal, junto com tio Marcelo e meu pai

com Glória. Os avós se acomodariam nos quartos

menores, já que o maior deixamos para todas as crianças

dormirem juntas, com seis beliches, brinquedos e um

enorme telão, pois sempre acabavam fazendo sessão de

cinema, uma das coisas que eles mais gostavam de fazer.


Meus sogros tinham caprichado na decoração e o quarto

estava cheio de pôster de filmes que eles gostavam, além

de lugar para pipoca e bebida. Eles estavam maravilhados.

Já os casais mais novos e pais enlouquecidos teriam

os chalés para descansarem, enquanto os filhotes estavam

sob a supervisão de todos os avós que tinham.

Alguns amigos e vizinhos foram convidados para a

festa e todos se divertiam entre as barracas de comidas e

brincadeiras. O evento estava perfeito, como só os

Mancuso e Van den Berg sabiam fazer.

As crianças corriam e se aglomeravam na pescaria e

na barraquinha de salsichão e batatas fritas. Até que o

pessoal começou a se juntar para iniciar a quadrilha. Eva e

Caio correram e cada um foi se trocar em nossos chalés,


meu e de Elle, já que eles estavam de caipira, mas seriam

os noivos da festa.

Todos dançavam e se divertiam, até que, embaixo de

um arco de braços humanos que era formado por nós,

entravam nossos filhos, de braços dados, vestidos de

noivinho e noivinha. Eles estavam radiantes e realmente

pareciam querer aquilo. O destino se repetia. Eu, Elle e

Enrico nos olhamos e nossos olhos se encheram d’água,

ao mesmo tempo que eu pensava: Minha filha precisa

conhecer outras pessoas, outras coisas. Mas também não

podia cortar uma ligação tão bonita. Se assim o destino

quisesse, assim seria. Meu coração de mãe ficava

apertado e só queria o bem dos meus pequenos.

Ao chegarem na outra ponta, meu sogro que estava

fingindo ser o padre selou o casamento e, para nossa


surpresa, Caio se ajoelhou e sacou uma caixinha de dentro

do bolso do terno que vestia e entregou um anel todo

colorido de brinquedo para Eva.

Minha filha estendeu a mão como via nos filmes de

princesa da Disney e, no auto do seu empoderamento, não

pareceu se abalar e muito menos fingiu que estava vivendo

um conto de fadas. Apenas demonstrou receber o que

merecia, então percebi que ela seria a minha versão

melhorada e aquilo já me enchia de orgulho.

— Uhuuullll! Viva os noivos! — gritou Enrico,

enquanto eles davam os braços para dançar e riam, no

auge de sua inocência, levando algo sério de uma forma

tão leve.

Continuamos brincando e, quando vimos, o vestido

branco, de noiva, de Eva já estava todo manchado de suco


de uva e molho de sanduíche, assim como a roupa das

outras crianças, e ela continuava a brincar. Aquilo encheu

meu coração de esperança no futuro, sabendo que ela

ainda teria uma vida inteira de escolha pela frente e eu

lutaria sempre pela sua independência, pelo seu livre-

arbítrio e pela sua felicidade.

Colocamos as crianças para dormir, eles estavam

mortos e simplesmente apagaram. Já a sessão de cinema

ficou para o dia seguinte. Os casais foram se recolhendo

em seus chalés e assim foi comigo e com Enrico. Eu, na

verdade, não via a hora de ter um momento a sós com meu

marido. Precisava disso e estava sedenta por um momento

de intimidade mais caloroso.

— A festa foi boa, não foi, meu amor? Meus pais

capricharam — falou Enrico, enquanto se trocava.


— Meu amor, ela foi muito boa, mas acho que

podemos melhorá-la agora, não é? — falei, já me

insinuando e rezando para que ele não estivesse cansado.

— Seu convite é uma ordem, minha esposa. Vou

preparar um banho quente para nós! — ele falou, enquanto

eu guardava a camisola e a lingerie que tinha trazido para

o dia seguinte. Sabia que esta noite eu não precisaria

delas.

O chalé estava somente com uma penumbra de luz

do abajur, ouvíamos apenas o som das cigarras lá fora e,

no universo, só existia nós dois.

Demos um beijo apaixonado e depois começamos a

ensaboar as costas um do outro. Brincávamos com nossas

mãos e nos acariciávamos deliciosamente, nos

masturbando. Apesar de todo esse tempo juntos, nossos


beijos e o carinho de meu marido ainda me davam frio na

barriga e me arrepiavam a espinha. Enrico me provocava

sensações indescritíveis, seu toque me levava à lua e seu

abraço, com nossos corpos nus, era morada da minha

alma.

Neste dia, ele estava especialmente gentil. Saiu do

banho primeiro e disse que cuidaria de mim, que me faria

relaxar pela semana que tivemos, então pegou uma das

toalhas e me estendeu a mão.

— Venha, meu amor. Vou secar seu corpo e depois

vou fazer uma massagem em você — disse meu marido, já

me acariciando as pernas, subindo lentamente com a

toalha, sabendo o quanto aquilo me enlouquecia.

— Ainnn, Enrico. Você sabe que me deixa louca

assim. — Eu já estava completamente entregue.


Meu marido pegou um dos óleos essenciais corporais

que sua mãe normalmente comprava na cidade para deixar

para os hóspedes e me deitou na cama, de bruços, e ali

começou a me acariciar. Iniciou pelos pés, apertando todos

os meus pontos sensíveis, passou pelas minhas pernas,

até se concentrar em minhas nádegas. Ele me apalpava,

apertava e acariciava, até que de leve abriu minhas pernas

e deixou o óleo escorrer por elas, sem me tocar. Ele sentou

sobre mim, massageando minhas costas e, vez ou outra,

tocando a lateral de meus seios. Eu tinha verdadeiro

fetiche por iniciarmos as preliminares como se

estivéssemos nos descobrindo. Aquilo me matava e meu

marido sabia disso.

Então, ele me virou e começou a massagear meus

seios com suas mãos lambuzadas de óleo. Ele apertava e


acariciava meus bicos e eles se enrijeciam para ele,

enquanto eu já me contorcia de desejo. Ele me beijava a

boca e suas mãos, que antes estavam leves, começavam a

ficar pesadas e, em vez de carinho, começavam a me

apertar com mais força, me puxando ao seu encontro.

Admirei seu membro teso, que já me procurava. Tratei logo

de acariciá-lo e sentir sua rigidez em minha mão.

Eu sentia meu sexo se umedecer e gritar pelo meu

marido. Já estava enlouquecida, porque ele percorria todo

o meu corpo e resistia em me tocar, ele me maltratava e eu

adorava.

Até que, abraçados, com nossos corpos colados, ele

começou a me dedilhar, tocando em meu botãozinho com

força e me fazendo delirar. Eu mordia seu ombro de tanto

prazer e suplicava para que ele me tomasse de vez.


— Meu amor, não me torture mais. Eu quero você!

Vamos, eu não aguento mais!

Sabendo que nem ele mesmo estava aguentando,

Enrico me penetrou e ali grudamos nossos corpos, para

que ele ficasse todo dentro de mim. Eu lambia seu pescoço

e dava leves mordidas em seu queixo. Minha vontade era

paralisar o tempo naquele momento.

Gozamos juntos e ali caímos exaustos e felizes.

Quando acordei no dia seguinte, vi o corpo do meu

marido nu ali do meu lado e resolvi despertá-lo de um jeito

especial. Fui para cima dele com todo cuidado e, quando já

estava posicionada estrategicamente, comecei a chupá-lo,

dando leves mordidinhas em seu membro, que

rapidamente respondeu ao meu carinho matinal.

Enrico despertava já com um sorriso e dizia:


— O que eu faço com uma esposa tão tarada? Eu

não resisto a isso, meu amor.

— Eu só queria agradar meu maridinho pela

massagem de ontem — eu falei, enquanto alternava minha

mão com a minha boca.

Vi que ele fechou os olhos e estava completamente

absorvido pelo meu carinho, então continuei até que ele

não aguentasse mais e, ao mesmo tempo, mostrava para

ele que me tocava, enquanto o chupava. Ele enlouquecia

quando eu me masturbava para ele e fazia de propósito.

Quando vi que ele já começava a apertar o travesseiro,

deitei sobre o seu corpo e me pus a cavalgar em seu

mastro duro, encaixado perfeitamente em minha vagina,

que já estava molhada e inchada de tanto desejo. Eu

adorava ficar sentada em cima de meu marido e ver seu


olhar para mim, era como ter a vista de nosso ato de cima

e apreciar as suas expressões de prazer.

Ele agarrava meus seios e escorregava suas mãos

pela minha cintura, como se orquestrasse meus

movimentos de vai e vem. Novamente, gozamos juntos e

ainda ficamos alguns minutos deitados abraçados.

Enrico acariciava meus cabelos e dizia:

— Você é o amor da minha vida, Anna, é tudo para

mim, eu te amo demais, meu amor. Amo nossa família e

tudo que temos. Amo tudo que você deu, amo, inclusive,

tudo que você me tirou, que eu achava que era essencial.

Amo tudo que você fez por todos nós.

— Eu também, meu marido. Eu te amo demais e,

mais ainda, amo estar em seus braços.


Tomamos uma ducha e nos arrumamos para

tomarmos café da manhã junto de nossas famílias. Fomos

arrumar nossos filhos e todos já começavam a levantar.

As crianças foram brincar no salão de jogos e tio

Marcelo, que adorava ficar com eles, coordenou as

brincadeiras. Enquanto isso, minha mãe, junto com minha

sogra e Glória, foram cuidar do almoço, já que as crianças

pediram a famosa macarronada da nonna, receita que já

víamos que passaria de geração em geração. Na cozinha,

elas colocavam o papo em dia e ainda bebericavam um

vinhozinho.

Os demais descansavam nas espreguiçadeiras e eu e

Enrico resolvemos dar uma caminhada pelo bosque do

condomínio onde ficava a chácara.


Enquanto caminhávamos, fomos conversando sobre

tudo que já havíamos vivido, sobre a festa do dia anterior,

sobre aqueles que já se foram e planos que ainda fazíamos

sobre nós. Quando voltamos, almoçamos em um enorme

mesão, colocado no jardim, brindamos aos nossos e assim

transcorreu o fim de semana, cheio de alegria, paz e

alguns pactos selados.

Era um entardecer laranja. A noite já queria mostrar

que seria linda e estrelada. As arandelas iluminavam o

mesmo jardim que eu tinha pisado há vinte e sete anos e

eu conferia para saber se tudo estava como Eva tinha

desejado.
Subi para o quarto, onde estava minha filha com sua

prima e melhor amiga, Maria, e minha mãe, que apesar da

idade, ainda era linda e conservada. Todas estavam

prontas e, apesar de vestir o branco, Eva queria dar um

toque de cor e seu cabelo estava preso com um ramo de

flores. Era chique e simples, bem do jeito dela, nunca

gostou da suntuosidade e muito menos da ostentação. Seu

vestido era apenas em renda e sem qualquer detalhe

chamativo, assim como a própria roupa do noivo.

Enrico andava de um lado para o outro e, da janela,

eu o via lá embaixo aguardando para levar a filha ao altar.

De longe, eu sentia o seu nervosismo e me divertia com

aquilo.

Todas desceram e nossa família se acomodava já nas

mesmas cadeiras que há alguns anos presenciaram um


enorme divisor de águas nas famílias Mancuso e Van den

Berg. Passava um filme em minha cabeça e, por saber de

toda a história, Eva escolheu se casar no mesmo lugar.

Seus primos e seu irmão com seus namorados e

namoradas seriam os padrinhos e já se acomodavam

também no altar, um deles segurava a aliança.

Descemos até o local da cerimônia e, como ela pediu,

entramos nós três de braços dados. Caminhávamos para o

altar, enquanto o noivo e ela olhavam um para o outro, era

como se mais ninguém existisse ali. Eu já tinha visto

aquela história acontecer e aquilo enchia meu coração de

felicidade mais ainda.

Após alguns segundos andando, eu olhei para Enrico

do outro lado e nossos olhos também se encontraram.


Depois de quase trinta anos, nosso amor permanecia o

mesmo, intocável e cada vez mais forte.

Quando chegamos ao altar, apenas cumprimentei o

noivo com um sorriso e um aceno com a cabeça e peguei o

buquê de Eva, enquanto Enrico beijava a mão da filha e lhe

desejava felicidades.

A cerimônia começou e os noivos não largavam a

mão um do outro. Era um casal jovem e apaixonado, com a

vida inteira pela frente e a esperança da nova geração de

nossa família começar.

Após a troca de aliança, o padre declarou:

— Eva e Luís, eu vos declaro marido e mulher!

Todos comemoravam e ela olhou para nós e para

Caio que, ao lado da esposa grávida, lhe mandava um

beijo no ar, emocionado com a felicidade da grande e


melhor amiga, que casava com o seu namorado de

faculdade, Luís, por quem se apaixonou à primeira vista e

rapidamente foi correspondida.

E, assim, todos os Mancuso e Van den Berg viveram

com suas felicidades, tristezas, arrependimentos, paz,

amor, mas, acima de tudo, com suas próprias escolhas.

FIM
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are
BREVE BIOGRAFIA DA

AUTORA
Danielle Viegas Martins nasceu em São Luís - MA,

mas mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro em 2001.

Tem formação em Letras, Português - Inglês e Mestrado

em Educação. Desde 2010, Danielle é funcionária pública

da UFRRJ.

A autora começou a escrever, publicando capítulos

semanais do livro “Estarei ao seu lado” na plataforma

Wattpad em 2017, onde escrevia sob o pseudônimo Tess91

para se preservar caso os leitores não se interessassem

por seus livros. Contudo, suas histórias já ultrapassaram

oito milhões de leituras online.

A autora sempre foi apaixonada por livros e entre os

escritores favoritos estão Aluísio de Azevedo, Ganymédes

José e Charlotte Brontë. Todos os livros da autora possuem

um personagem Gustavo em homenagem ao seu filho.


OUTROS LIVROS DA

AUTORA
O vestido de noiva de Gabriella era para ser usado no

dia seguinte.

Murillo reformava a casa dos sonhos que eles

conseguiram comprar e onde um dia criariam sua família.

Mas foi na véspera do casamento que a notícia do

descarrilamento do trem chegou.

Um dia antes da data marcada para ser o início de

uma vida juntos, Murillo morre em uma terrível tragédia que

vitimou apenas ele.

Quatro anos se passaram.

Quatro anos desde o fim de um sonho.

Quatro anos sem Murillo, o único homem que aquela

linda jovem amou em toda sua vida.

Mas Gabriella tinha duas melhores amigas. E sem o

carinho e a força de Lenora e Tilda, Ella duvidava que teria


conseguido seguir em frente.

Toda mulher deveria ter amigas assim. Amigas que

também sabem dar presentes capazes de alterar o nosso

destino para muito melhor.

E é assim que Gabriella ganha um presente muito

precioso: Diogo Solinski, o marido dos sonhos de qualquer

mulher.

O seu Marido de Aluguel a servirá por seis meses

como Gabriella bem entender e a moça que teve seu

coração partido se descobrirá gostando mais do que

deveria daquele gigante loiro desconhecido e vai

redescobrir um sentimento que pensou que jamais

experimentaria novamente em sua vida.


ATENÇÃO! Contém cenas impróprias para menores

de 18 anos. Contém gatilhos, palavras de baixo calão e

cenas de sexo.
"O mundo está à sua frente. Vá e tome o que quiser."

Cameron Spencer Lamarck III cresceu ouvindo o pai

lhe dizendo tais palavras. O príncipe herdeiro nasceu com

o dever de liderar uma nação e mantê-la próspera. Cresceu

sabendo que estava destinado a ser o líder uma das


maiores potências da Europa, mas nunca se importou com

isso. Se tornou famoso pelos escândalos de suas noitadas

no castelo real ou nos bordéis do reino, que sempre

envolviam muita bebida e belas mulheres.

Até que um dia, ele acorda e descobre que seu pai o

deserdou e que terá que trabalhar para garantir seu próprio

sustento. A condição para voltar a desfrutar das

prerrogativas reais é trabalhar por um ano em um condado

a milhares de quilômetros da capital do reino, ganhando

apenas o suficiente para sobreviver.

O príncipe herdeiro enfim conhece o significado de

liberdade, mas também descobre da pior forma possível o

que é passar fome e frio pela primeira vez na vida. Até que

uma linda e rica jovem lhe faz uma proposta após ele ser
roubado, espancado e se ver sem documentos e sem um

centavo no bolso.

— Eu te ofereço uma escolha — diz ela — Seja meu

marido por um ano e terá tudo que precisa para viver. Será

um casamento de fachada. Sem intimidades. Depois, cada

um seguirá seu próprio caminho.

O fato dela não se importar com sua identidade e ele não

poder revelar que tem sangue real, leva Spencer a ver

naquela proposta a oportunidade perfeita de ter conforto e

regalias novamente. Mas ele só pensou dessa maneira,

porque não compreendeu o que Brianna Nespoli quis dizer

com "terá tudo que precisa para viver".

O príncipe ganha calos nas mãos e bolhas nos pés.

Trabalho braçal do alvorecer ao anoitecer, porém o mais

extraordinário é que ele se surpreende gostando do modo


de vida simples e das pessoas daquele condado. E,

principalmente, da linda mulher que era sua esposa apenas

no papel.

ATENÇÃO: CONTÉM CENAS DE SEXO E

LINGUAJAR INAPROPRIADO PARA MENORES DE 18

ANOS.

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Angus Trajano.

No Mato Grosso do Sul, não há quem nunca tenha

ouvido falar neste nome.O ex-militar construiu sozinho sua

fortuna e reputação. Dono da maior jazida de diamantes já

encontrada em terras brasileiras é considerado por todos


que o conhecem como um homem sem coração. E estão

certos. Angus não tem amigos e nem quer ter. Não dá a

ninguém o direito de interferir na forma como conduz sua

vida.

Mas Angus tem uma alma sombria. O homem mais

rico do Centro-Oeste do país, esconde um segredo. Um ato

vergonhoso de seu passado, que revive de forma

recorrente em seus pesadelos, como uma ferida que nunca

cicatriza. Mas o que ele não esperava era que o passado

viesse bater à sua porta depois de tantos anos e na forma

da silenciosa e inocente Vitória, uma doce jovem de 19

anos recém-saída de um internato, que aparece com uma

carta nas mãos que o obrigará a abrir as portas de sua

casa pela primeira vez para uma hóspede.


Definitivamente, Angus não pode simplesmente

mandá-la embora. Uma dívida de sangue precisa ser paga.

Então, deixa clara a mensagem de que Vitória não é bem-

vinda em sua casa, embora a jovem não tenha mais

ninguém no mundo e nem lugar para aonde ir.

Mas isso não é um problema para Angus.

Manter Vitória o mais longe possível dele e dos

sentimentos que ela começa a despertar no coração que

nem Angus se lembrava que ainda tinha, esse passa a ser

o grande problema dele.

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Joaquim Guerra.

Um homem corrupto diziam os jornais.

Um homem ardiloso e controlador diziam todos que

faziam negócios com ele.


Um homem ateu, como ele declarava: "Deus nunca

respondeu quando precisei de ajuda. Se acredito em um

ser superior? Não. Acredito em mentes superiores, como a

minha." Um homem com muito ódio e rancor dentro de si e

é só isso que ele permite que os outros vejam.

Um homem despedaçado. Foi o que todos viram no

sepultamento de sua esposa. Um homem que tinha o

mundo nas mãos, mas que perdeu o seu mundo quando

Marina foi tirada dele da maneira mais brutal e súbita.

O CEO da maior indústria farmacêutica do país

retorna para a pequena cidade rural onde nasceu: Vale dos

Pinheiros.

Todos naquela cidade achavam que sabiam qual seria

o seu fim. Um delinquente sem futuro era como o


chamavam, o filho da drogada que vivia bêbada pelas ruas

da cidade. Devia lhe trazer alguma satisfação poder calar a

boca de todos, mas não. Aquelas pessoas nunca

significaram nada para ele e os trataria como o nada que

elas sempre foram. Tudo que sua alma atormentada clama

desesperadamente é a chance de se isolar de tudo e de

todos. Seu maior desejo, seu único desejo é ficar sozinho.

E é o que ele faz por anos a fio. Até Joaquim atender

ao pedido da irmã apenas para que ela parasse de

atormentá-lo com suas armadilhas de casamenteira. Foi

assim, através de uma simples carta, que algo inesperado

aconteceu. Nunca foi tão fácil se abrir com alguém, mas se

havia alguém no mundo que entendia de dor e perda esse

alguém era Anelise. Joaquim não pensava em se envolver.

Ele não queria se importar com alguém novamente. E, por


isso, nunca trocaram fotos. Nunca quis dar um rosto àquela

mulher com quem se correspondia.

Mas uma noite, uma noite como outra qualquer, Joaquim

abre a porta de sua cabana no meio do mato e quem

estava lá parada de diante dele?

A mais linda jovem que ele já viu em toda sua vida.

Lá estava Anelise.

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O reino de Nagrebar era conhecido do Ocidente ao

Oriente pela opulência de sua riqueza, pela prosperidade

oriundas dos poços de petróleo e pela vastidão de suas

terras férteis no meio do deserto. Após a morte do

soberano que governou por mais de quarenta anos, o


príncipe Farid assumiu o trono como legítimo sucessor e foi

coroado o novo sheik. Seu primeiro ano de reinado o

tornou conhecido por inspirar o temor e usar de violência

para conseguir o que queria. Ser temido é melhor que ser

amado. Foi no que ele sempre acreditou.

Layla Karim nunca imaginou que seria negociada por

seu pai em troca de um cargo político, o que a fez se tornar

a 22ª concubina do Sheik Farid. Antes, Layla sonhava em

estudar e se tornar professora de Braille para ajudar as

crianças do Lar de Cegos de Nagrebar, mas não fazia ideia

de que sua vida seria objeto de barganha. Uma barganha

motivada por uma rivalidade antiga entre dois irmãos.

Os irmãos mais poderosos de toda Nagrebar.

Farid a tornou sua concubina pela simples satisfação

de usurpar a felicidade seu irmão Youssef que nutria


secretamente sentimentos profundos pela jovem, contudo

uma reviravolta do destino, após uma tragédia, Youssef se

torna o novo sheik daquele reino e sua primeira ação como

soberano é por um fim a exploração sexual extinguindo o

harém do palácio e tornando a mais jovem concubina, a

soberana de todo reino ao seu lado.

Porém, os oito meses de convivência de Layla com o

cruel Sheik Farid apagaram a identidade e vontade própria

da jovem, além de deixar cicatrizes em seu corpo e em seu

espírito.

Tudo que Youssef mais anseia agora é ajudar o amor

de sua vida a se reencontrar e só depois, talvez, ela possa

olhar para ele sem o medo constante presente em seus

olhos.
ATENÇÃO: Este livro contém cenas de sexo e

linguajar inapropriado para menores de 18 anos, além de

retratar situações de abuso sexual extremas que podem

ser consideradas gatilhos.

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Como uma faxineira e o presidente de uma empresa

de construção civil entrariam no mundo um do outro? A

vida é imprevisível. Tudo muda quando Carla e Dante são

soterrados pelos escombros de um desabamento. Antes

disso, para Dante, Carla Faustino era invisível. Para Carla,


Dante Albertine era apenas o nome que aparece em seu

contracheque.

Carla sempre foi ridicularizada na escola por ser filha

de um carroceiro; dois meses após ser diagnosticada com

lúpus, sua mãe morreu e a festa de seu aniversário de

catorze anos acabou se transformando em um velório; seu

irmão Miguel foi preso ao ser confundido com um

assaltante e coube a ela criar o sobrinho. Por isso, precisou

abandonar a faculdade de Serviço Social e começou a

trabalhar. Carla vive na contramão dessas circunstâncias.

É extremamente otimista. E, apesar da vida não lhe dar

motivos, Carla é feliz.

Dante Albertine é conhecido como "o homem nunca

sorri". Dono de uma das maiores construtoras do país, ele

é um homem de ação e suas ordens nunca são


contestadas. Conhecido por cumprir rigorosamente os

prazos de seus projetos tal como pela rigidez com que

comanda sua empresa, a presença dele intimida tanto os

filhos, quanto seus subordinados.

Sua ex-mulher pediu o divórcio, alegando não

suportar mais conviver com um estranho, contudo decidiu

se divorciar também dos filhos Aquiles e Hélio a quem faz

uma única visita anual na véspera de Natal. A vida de

Dante se resume ao trabalho. É o primeiro a chegar na

empresa e sempre o último a sair. Para ele, demonstrar

amor é assegurar uma boa educação aos filhos. Assim, os

três habituaram-se a conviver, sem proximidade afetiva.

Carla e Dante. Mundos opostos. Vidas opostas.

Quando tudo que mais importa está em risco e nada mais

faz sentido, essas diferenças se apagam. O simples fato de


sentir que não está só pode unir dois destinos que a ordem

natural da vida jamais aproximaria.

Atenção: este livro retrata situações de transtornos

obsessivo-compulsivos (TOC's), bullying e discriminação

que podem ser considerados gatilhos.

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Obedecer a Bruno Lins de Carvalho e satisfazê-lo de

todas as formas que ele desejasse era o que o contrato

determinava e um homem implacável como ele não

aceitaria menos que isso.


Milena se vê em cárcere privado e refém de

circunstâncias infelizes que a condenaram a abdicar do

controle de sua vida e de seu corpo. Ela seria sua

propriedade e só faria a vontade dele por um ano. Quando

aquele desconhecido se ofereceu para pagar a dívida de

jogo de seu irmão, Milena aceitou a proposta pensando se

tratar de um empréstimo, mas os termos eram de um

contrato de compra: ele a estava comprando por um ano.

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Me chamo Natália e essa é a minha história.

Com oito anos, presenciei o assassinato brutal dos meus

pais e, depois disso, eu tive que me mudar para começar

uma nova vida no sul do país. Deixando para trás São


Paulo e toda a dor e tristeza que nenhuma criança deveria

experimentar.

Assim, cresci na cidade de Gramado e descobri

que gentileza e amor têm nome e sobrenome: Henrique

Mallmann. À medida em que fui amadurecendo, foi

impossível não nutrir por ele um amor platônico, apesar da

nossa diferença de idade.

Contudo, Henrique tem um irmão gêmeo idêntico

e, para minha surpresa, com a mesma face do amor e da

gentileza também conheci o desprezo. Conheci Heitor. Não

pensem que ele me maltratava ou que era cruel comigo.

Pior. Heitor era indiferente. Quase como se eu fosse

invisível. Mas com o passar do tempo eu aprendi que

prefiro o silêncio de Heitor à sua ira.


Agora prestes a fazer dezoito anos, decidi me

declarar para Henrique.

_"Vinte segundos de coragem...é tudo que eu

preciso".

Nunca fui de beber. Por que fui aceitar a primeira

( e depois, a segunda e a terceira) taça de champanhe?

Tenho certeza que finalmente beijei o Henrique. Então, por

que o braço que enlaça minha cintura é do "gêmeo mau"

Heitor?

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Danielle é professora de literatura em uma

universidade no Rio de Janeiro. Em suas férias no interior

do Maranhão, sofre um acidente na estrada, após uma

colisão com outro veículo. Ela se vê sozinha naquele local

ermo com apenas mato dos dois lados da estrada.


Enquanto caminha em busca de ajuda, encontra um

homem gravemente ferido e abandonado à própria sorte.

É assim que Danielle conhece John Hauser.

John percebendo que a moça não representava ameaça,

em seus poucos momentos de consciência, revela o que

lhe aconteceu: havia sido sequestrado e, em seu cativeiro,

foi torturado de forma atroz. Os sequestradores deixaram

claro que ele estava ali para ser morto, contudo John

consegue fugir e Danielle salva sua vida, mesmo sem

saber quem ele era. Após serem resgatados pela polícia,

gradativamente, a afeição recíproca que nasceu entre

Danielle e John se transforma em amor, mas eles logo

saberiam que o mandante do sequestro tinha olhos e

ouvidos em todo lugar e que agora os dois se tornaram

alvos.
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Imagine um ser humano capaz de tudo por aqueles

que ama. Um homem íntegro. Um amigo fiel. Alguém que

se importa com seus semelhantes, porque, de fato, os vê

como iguais e dedica sua existência a salvar vidas. Um

homem apaixonado pela mulher de seu melhor amigo e


que faz de tudo para assegurar a felicidade da mulher que

ama, mesmo que não seja ao seu lado. É como voluntário

no Programa Médicos sem Fronteiras, no coração da

África, que o médico brasileiro vai encontrar o amor que

mudaria sua vida para sempre. Peter encontra o amor ao

conhecer o menino Zaimo e o torna seu filho, porque não

consegue imaginar sua vida sem aquela criança.

O garotinho, apesar de ter enfrentado severas

privações impostas pela vida, ainda preserva a inocência e

a pureza em seu coração. Capaz de compartilhar o pouco

que tinha com outras crianças que tinham menos ainda.

Contudo, ao contrário do que todos pensavam, Zaimo

ainda tinha uma parente viva e sua tia Aisha estava

disposta a tudo para ter o direito criar o menino. Ela aceita

a proposta do Dr. Peter e embarca com eles para o Brasil.


Aisha precisará enfrentar muitos fantasmas e traumas

guardados em sua alma. Exceto por Zaimo, qualquer

contato físico lhe causa pavor. Ela logo entenderia que ao

aprender a confiar, aprenderia também a amar.

Essa é a história do Dr. Peter Hass e de como ele

encontra o amor.

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CONTO:

AFONSO - E se os homens fossem o sexo frágil?

Livro I

Já pensou em como seria viver em uma

sociedade onde são os homens que precisam se proteger


do assédio das mulheres? Uma sociedade onde eles não

ganham os salários mais altos e não ocupam os cargos de

chefia, mas são eles que ouvem cantadas ofensivas e

recebem investidas indesejadas, mesmo após terem dito

que não estão interessados.

Esse primeiro conto da série, nos traz o Afonso.

Um jovem bonito, de 24 anos e que foi educado para ser

um “moço de família”. Junto com seu melhor amigo Lucca

e seu irmão Dimitri, Afonso decide comemorar a conquista

da tão sonhada formatura em uma boate badalada do Rio

de Janeiro. E é assim que entramos nessa realidade

paralela ao inverter os papéis da construção social que

conhecemos. Agora, o homem é o sexo frágil e, ao invés

de Lei Maria da Penha, temos a Lei José da Silva, que de

igual modo não é garantia de proteção para eles.


A sociedade aceita uma mulher que sai com

vários caras e ela ainda leva a fama de “pegadora”, mas se

eles tomarem essa mesma liberdade são chamados do

termo mais ofensivo aos seus ouvidos: “putos”.

A série de contos Afonso, Dimitri e Lucca vai nos

fazer refletir, ao mesmo tempo que nos fará dar boas

risadas e é claro que o romance de plano de fundo também

vai aquecer nossos corações.

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CONTO

LUCCA - E se os homens fossem o sexo frágil?

Livro II

Lucca Fernandes é empregado doméstico. —

Isso mesmo. Você leu direito! — O belo jovem de 27 anos


lava, passa, cozinha e ainda faz uma faxina como ninguém.

Dorme no trabalho para melhor atender às necessidades

de sua patroa.

Ele é a materialização do sonho de qualquer

mulher, porém recusa todas as inúmeras propostas de

emprego que recebe com frequência. Mas cá pra nós, que

mulher não gostaria de ter um homem tão prendado e ao

mesmo tempo tão arrebatadoramente lindo e charmoso

como Lucca, cuidando delas, quer dizer, cuidando das

casas delas?

Sorte da Drª Larissa, que nem precisa de

despertador, pois é a voz máscula de Lucca que a desperta

todas as manhãs antes dela enfrentar mais um dia de

trabalho em seu consultório. O que seria da oftalmologista

sem o seu fiel ajudante do lar? Contudo, o que ninguém


entende é como uma médica que cuida da visão das

outros, não enxerga que dentro de sua própria casa há

alguém completamente apaixonado por ela.

Mas se engana quem pensa que Lucca é um

homem dócil. Ele tem um temperamento forte quando o

assunto é Larissa. Sempre dá um jeito de afastar

pretendentes que se aproximam dela atraídos pela imensa

fortuna de sua patroa. Ele também não tolera nenhuma

forma de assédio. Se esquiva das investidas da suposta

melhor amiga da Drª Larissa e de outras mulheres que o

vêm apenas como um belo espécime masculino que não

foi agraciado com inteligência ou ambição por conta da

carreira profissional que escolheu.

Neste segundo conto da Série “E se os homens

fossem o sexo frágil?”, veremos que inverter o papel social


de homens e mulheres nunca foi tão divertido.

CONTO II, EM BREVE NA AMAZON.


CONTO

DIMITRI - E se os homens fossem o sexo frágil?

Livro III
No terceiro conto da Série “E se os homens

fossem o sexo frágil?”, vamos conhecer melhor, Dimitri.

Dimitri é o único homem que trabalha na

redação do Jornal Correio de Afrodite. É um jovem

introspectivo que não é de falar muito, mas que é dono de

um sorriso de tirar o fôlego e de fazer qualquer mulher

esquecer do próprio nome, literalmente. E é justamente

essa aura de mistério, associada ao cavalheirismo de

Dimitri que torna o loiro de olhos azuis, um verdadeiro

chamariz para as mulheres de todas as idades que

trabalham com ele na redação. Sua postura reservada

desperta à atenção delas e faz com que pensem que ele

esconde algum segredo.

Quando o estudante do sétimo período de

Comunicação Social descobriu que foi aceito como


estagiário daquele grande jornal apenas porque suas

colegas gostavam de “ter algo bonito para apreciar”, ele

decidiu provar seu valor, até que um dia o reconhecessem

como um profissional tão qualificado quanto qualquer uma

delas. Mas por ora, ele apenas revisava os textos das

jornalistas; entregava suas correspondências e até servia

de telefonista para elas quando era preciso.

Dimitri ignorava todas as cantadas e devolvia

todos os presentes que apareciam em sua mesa de

trabalho. Aprendeu com seu irmão, Afonso, e seu amigo,

Lucca, a preservar sua reputação, pois foi essa a criação

que eles receberam. Não seria o brinquedo de nenhuma

delas. Mas a pior parte do seu dia era quando era obrigado

a lidar com Hilda, a editora – chefe do jornal. Uma senhora

sexagenária, que passou a atormentá-lo depois que Dimitri


foi categórico ao afirmar que não estava interessado em

nenhuma promoção na qual seu corpo fosse a moeda de

troca para consegui-la.

Mas fora do jornal, Dimitri se dedicava à sua

grande paixão: escrever. Ele possui uma coleção invejável.

Não colecionava camisas de times de futebol, muito menos

miniaturas de carros ou selos. Dimitri colecionava

romances de banca. Era fascinado por eles. E quando,

enfim concluiu seu primeiro romance histórico, enviou para

várias editoras e foi assim que conheceu Aline e passou a

acreditar em amor à primeira vista. O que ele não fazia

ideia era de quem Aline era neta.

CONTO III, EM BREVE NA AMAZON.


Um grande beijo e até breve, meus

amores.

Danielle Viegas Martins

Tess Hauser/Tess91