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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Escola de Belas Artes


Programa de Pós Graduação em Artes Visuais
Linha de pesquisa: Imagem e Cultura
Dissertação de Mestrado

OS CAMINHOS DO PRESÉPIO
Imagem devocional no catolicismo popular

Joana da Costa Lyra


2006
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escola de Belas Artes
Programa de Pós Graduação em Artes Visuais
Linha de pesquisa: Imagem e Cultura

Dissertação de Mestrado
Orientador: Prof. Dr. Rogério Medeiros

OS CAMINHOS DO PRESÉPIO
Imagem devocional no catolicismo popular

Joana da Costa Lyra


2006

II
LYRA, Joana da Costa.
Os Caminhos do Presépio – Imagem Devocional no Catolicismo
Popular. Rio de Janeiro, UFRJ, EBA, 2006.

VIII, 102 p.
Dissertação: Mestre em Artes Visuais
1. Ciclo Natalino 2. Presépios
3. Folia de Reis 4. Religiosidade Popular

I. Universidade federal do Rio de Janeiro


II. Título

III
AGRADECIMENTOS

À CAPES pelo apoio financeiro da bolsa de estudos que viabilizou esta pesquisa.

Ao professor Rogério Medeiros, meu orientador, pela atenção e pelas sugestões pertinentes.

À professora Rosza vel Zoladz e Angela Mascelani, pelo estímulo durante o curso do mestrado.

À Prefeitura Municipal de Duas Barras, pelo apoio técnico durante o trabalho de campo.

Aos amigos Gabriela Ribas e Patrick Nogueira, pela sempre carinhosa e alegre acolhida em Duas
Barras e pelo auxílio durante o trabalho de campo.

Aos amigos do Céu na Terra, companheiros em muitos momentos da pesquisa e à Andréa Falcão,
pela disponibilidade e empenho em trilhar caminhos em Duas Barras.

À Loreto Searle e Pedro Lyra, meu irmão, pelo importante auxílio na finalização deste trabalho,
contribuindo com o tratamento e inserção das imagens

À todos os informantes que me receberam em suas casas, com disponibilidade e paciência,


em especial à seu Newton e sua esposa, dona Nelita, seu Nilo e dona Irene, Seu João e dona
Maria Jurassi e à Lena, pela acolhida afetuosa.

À Angela Neves, por todo apoio afetivo e suporte técnico; à meus pais, José Luiz e Maria
Cristina Lyra, pelo constante estímulo e pelo apoio inestimável em todos os sentidos, à Wagner
Chaves, meu companheiro de todas as horas, do trabalho da campo às estimulantes discussões
sobre folia, contribuindo com sempre pertinentes sugestões; à Maria, minha filha, companheira
no trabalho de campo desde os primeiros meses. A eles dedico este trabalho.

IV
RESUMO

Armados nas casas entre os meses de novembro e janeiro, cumprindo o ciclo do natal,
nas diversas regiões do Brasil, os presépios constituem-se como centro de devoção das famílias.
Para eles são direcionadas orações individuais e coletivas, ladainhas, novenas, e também diante
deles são feitos votos de promessa. Por promessa pode-se, inclusive, assumir a obrigação de
armar presépio por períodos de sete anos, estendendo-se, muitas vezes, pela vida toda e até por
gerações. O objetivo principal desta Dissertação é realizar um estudo etnográfico de um presépio
doméstico específico armado por João Rigoto de Faria, mestre de folia de reis, no município de
Duas Barras, região centro-norte do estado do Rio de Janeiro. Tendo como foco a função ritual
do presépio - considerado no contexto da folia de reis – este trabalho pretende analisar as relações
que se estabelecem entre composição visual e profecias, tanto quanto as relações interpessoais
mediadas por este objeto.

V
ABSTRACT

Set up in homes between November and January, during Christmas time, the Nativity
scenes constitute the families’ centre of devotion, in most Brazilian states. Individual and
collective prayers, litanies and novenas are directed to them, as well as vows of promises. Some
promises may even include the obligation of setting up the Nativity scene every year for seven
years, and in some cases prolong them for the entire life or the life of futures generations. The
main objective of this dissertation is to make an ethnographical study of a specific domestic
Nativity scene, built up by João Rigoto de Faria, master of the folia de reis, at the county of
Duas Barras, in the centre-north region of Rio de Janeiro state. Focusing on the ritual function of
the Nativity scene - considered in the context of the folia de reis – the text intends to analyze the
relationship established between visual composition and profecias, as well as the interpersonal
relations mediated by it.

VI
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .........................................................................................................................1

2. UM OLHAR HISTÓRICO SOBRE OS PRESÉPIOS ...........................................................8


2.1 – O presépio enquanto representação visual ..............................................................................8
2.2 - O auge da produção dos presépios: dos salões às casas populares..........................................9
2.3 – O presépio enquanto espaço de representações dramáticas, cantos e danças........................12
2.4 – Investidas do clero contra representações da natividade.......................................................15
2.5 – Aspectos dos presépios no Brasil..........................................................................................17

3. O MUNICÍPIO DE DUAS BARRAS E OS PRESÉPIOS ...................................................22

4. CONSTRUÇÃO DE IMAGEM DEVOCIONAL..................................................................37


4.1 – Seu João e o aprendizado no presépio e na folia – “Os três reis ensina a pessoa a
aprender”........................................................................................................................................40
4.2 - A casa e o presépio................................................................................................................48
4.3 - Os caminhos...........................................................................................................................55
4.4 - Caminho de São José e caminho dos três reis.......................................................................56
4.5 - Caminho de São Sebastião.....................................................................................................65

5. O ELEMENTO LÚDICO NO PRESÉPIO ...........................................................................70


5.1 - A dimensão do jogo ...............................................................................................................70
5.2 - Uma obra que se renova ao se repetir: presépios de 2002 a 2005 .........................................75
5.3 - Um presépio imaginário.........................................................................................................86

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................89

7. BIBLIOGRAFIA .....................................................................................................................92

VII
8. ANEXOS (registros fotográficos complementares) ..................................................................98

VIII
Introdução

Entre o boi e o burro. Em meio ao feno, numa gruta onde os animais se


recolhem, para abrigar-se da noite. Num espaço de rocha, cavado no coração da
matéria, aí nasceu um menino. Sua mãe é jovem, cheia de graça, e se chama
Maria. O pai é o carpinteiro José. O boi, o burro, o feno, a pedra escavada, a
manjedoura, a estrela com seu rastro de fogo compõem um elenco elementar de
presenças – resumo do Cosmo.

Hélio Pellegrino, 1989.

Armados nas casas entre os meses de novembro e janeiro, cumprindo o ciclo do natal,
nas diversas regiões do Brasil, os presépios constituem-se como centro de devoção das famílias.
Para eles são direcionadas orações individuais e coletivas, ladainhas, novenas, e também diante
deles são feitos votos de promessa. Por promessa pode-se, inclusive, assumir a obrigação de
armar presépio por períodos de sete anos, estendendo-se, muitas vezes, pela vida toda e até por
gerações.

Nos terreiros, terraços, nas salas de visita ou em cômodos exclusivos para sua montagem,
é sempre um local de destaque que vai ser destinado à “casa dos três reis, moradia de Deus” –
como define João Faria, personagem central deste trabalho. Fazem-se evidentes, assim, tanto na
dimensão física quanto simbólica. Por um lado, merecem ser vistos – e admirados – enquanto
objeto estético: quem entra na casa, se vê, freqüentemente, diante de elaboradas composições
visuais que contam com elementos de procedências diversas: materiais naturais e
reaproveitamentos, arranjos de plantas e flores, enfeites de natal, objetos pessoais, imagens de
santos, gravuras de passagens bíblicas, etc. Ao se dedicarem à montagem do presépio, os donos
da casa/devotos entregam-se a um processo de criação, no qual o elemento lúdico é amplamente
expresso e revela-se em uma série de nuances.

IX
X
2. UM OLHAR HISTÓRICO SOBRE OS PRESÉPIOS

Vamos ver a barca nova


Que fizeram os pastores,
Nossa Senhora vai dentro,
Os anjos são remadores.
O’ meu Menino Jesus,
Amar-vos é um regalo:
Nasceste à meia noite,
ao primeiro cantar do galo.

(Romance popular do Norte de Portugal)

2.1 - O presépio enquanto representação visual

O termo presépio, do latim praesepiu, significa curral, estábulo, local onde se recolhe o
gado. Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (2001:532) define o presépio
como “grupo feito de barro ou massa representando a cena de adoração ao Menino Jesus na
manjedoura de Belém”. As representações visuais da natividade têm como principal referência a
narrativa bíblica de Lucas, que transcrevemos em parte:

(...) Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de


Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com
a sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias
dela. E deu à luz seu filho primogênito e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o
num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria. (Lucas, cap. 2, v
4-7).

Encontradas nas catacumbas, as mais antigas representações visuais da natividade


remetem ao século IV, período em que se estabelece o culto ao nascimento de Jesus. É nesta
época que a igreja institui a atual data de Natal:

XI
Para comemorar a natividade de Cristo, o cristianismo selecionou do calendário
pagão as festas relacionadas com a luz e o ressurgimento do sol. O dia 25 de
dezembro, comemoração do nascimento de Mitra, era festa dedicada ao sol
(Natalis Solis Invicti) e o dia 6 de janeiro ao solstício de inverno. A primeira
aparece já na relação do cronógrafo, ou o calendário de Filócalo, no ano de 354
e a segunda, dedicada à Epifania ou a manifestação de Deus aos povos gentis,
começa-se a celebrar anos depois. (Mira, 1993:20).

A devoção ao mistério do nascimento dá origem à consagração de altares nas igrejas,


desde os primórdios da Idade média, com figurações pintadas e esculpidas Para as celebrações
natalinas os altares são adornados com as figuras, flores e plantas e é diante deles que se realizam
cultos que ganham cada vez mais destaque na liturgia cristã .

Registros indicam, segundo José M.Garrut (1963:22), que em meados do século VII
existiu um pequeno oratório com estrutura semelhante à santa gruta de Belém na Basílica de
Santa Maria Maior, em Roma. O autor destaca também a presença de registros, em época mais
avançada, de uma representação da natividade que era colocada no altar maior da Catedral de
Barcelona para as comemorações natalinas na Espanha de 1330.

As figurações, que inicialmente ocupam as paredes dos altares, vão aos poucos ganhando
tridimensionalidade e sendo concebidas separadamente. De acordo com Hector Schenone
(1963:57), é no período barroco do século XVII que já podem ser encontrados presépios de
composição móvel, temporários, armados especialmente para as celebrações natalinas,
contrapondo-se às representações anteriores, de caráter estático, que permaneciam nos altares das
igrejas durante todo o ano.

2.2 - O auge da produção dos presépios: dos salões às casas populares

É no século XVIII que os presépios vão ter, em toda Europa, sua época áurea. Neste
período é crescente o desenvolvimento de renomados artistas especializados em realizar pequenas
esculturas em madeira ou barro adornadas com vestimentas detalhadamente bordadas, jóias e

XII
outros acessórios. Em toda a Europa, o presépio ganha uma intensa liberdade de criação, de
utilização de personagens e cenas, não se restringindo à cena da natividade - que aparece então
diluída em meio à exuberância e variedade de elementos - e tampouco à temática religiosa. O
presépio consolida-se, então, como uma produção artística específica: a arte das miniaturas.

Obtêm grande expressão artística os presépios napolitanos, com influências da ópera


italiana, que se destacam pela composição de elaborada cenografia e pela enorme profusão de
personagens e cenas1. Nestes presépios, viam-se representadas, com extremo realismo,
reproduções da vida cotidiana nas ruas, feiras e ambientes domésticos: trabalhadores em seus
afazeres corriqueiros, mulheres, crianças, animais, fontes e moinhos.

Neste período a produção dos presépios é também efervescente em Portugal. Inicialmente


com influências italianas, a produção dos barristas, que moldavam no barro as figuras de
presépio, aos poucos assume características próprias, expressando aspectos da realidade local.
São retratadas romarias a Belém, tabernas na beira das estradas, tocadores de caixa, pastores
tocando gaita de foles. Como observa Reynaldo dos Santos (1970:366), a repercussão que
obtiveram os presépios portugueses assemelha-se a dos napolitanos, mas enquanto estes últimos
eram influenciados pela teatralidade das óperas, destacando-se pela suntuosidade e cenografia
rebuscada de grandes dimensões, os portugueses “(...) inspiraram-se numa tradição mais
naturalista, reflexo das romarias populares e do pitoresco das suas cavalgadas e costumes”.
Santos continua, observando que, “Embora concebidas para o gosto duma devoção singela,
alcançaram por vezes formas de requinte que hierarquizaram a sua arte...”

Os presépios do século XVIII de grande refinamento, contando com ricos materiais para o
adorno das figuras - como ouro e brilhantes - chegam às mansões reais e à nobreza. São estes os
presépios de salão, que se difundem entre as altas esferas da sociedade européia.

O presépio com sua pompa, o luxo de o ter, o brilho de composições ricas de


cor e de movimento, cheio de figuras que não podiam ser grandes e deviam ser

1
Nápoles dos anos de 1700, sob o reinado de Carlos de Bourbon, tido como grande incentivador das artes,
representou o maior centro de produção de presépios da época (Garrut, op. cit.).

XIII
muitas, aproveitando o espaço e a fantasia, seria reclamado como necessidade
própria do tempo da religião luxuosa (Chaves,1925:6-7).

Além destes presépios luxuosos, são fabricados também conjuntos de figuras menos
rebuscadas que são vendidas nas feiras e tornam-se acessíveis às camadas mais pobres. Vê-se
então uma popularização dos presépios. Atingindo amplamente o domínio das casas, os presépios
consolidam-se como espaço de culto familiar, sendo visitados e adorados nas festividades de
natal. Diante dele os devotos rezam, cantam, comem, bebem e fazem ofertas, como mostra o
padre português Manuel Juvenal Ferreira (1956:136) ao descrever, em época mais avançada, as
lapinhas da Ilha da Madeira, armadas por toda a família no dia de natal.

A armação, segundo ele, é feita da seguinte forma: sobre uma mesa coloca-se uma toalha
vermelha e por cima uma toalha branca rendada, arma-se então na parede um arco com ramos de
flores vivas e também flores de papel colorido. O menino Jesus é colocado sobre uma escadinha
e, em volta, flores vermelhas e brancas são arrumadas. À sua frente, um pires onde se põem
esmolas ao menino Jesus. Ao redor da mesa colocam-se outras variedades de plantas e também
garrafinhas de vinho, frutas, nozes e doces. Como descreve Ferreira, no dia de Santo Amaro,
quando a lapinha é desmontada, visitantes devotos deste santo virão bater à porta da casa com
vassouras, pás e sacos, tocando e cantando trovas, pedindo as bebidas e comidas que restaram na
lapinha: “Vamos varrer a lapinha, /deixai-nos entrar, Senhora, /Trazemos conosco a pá/E também
uma vassoura”.

O padre português descreve ainda as duas “oitavas de Natal”, a de “Jesus” no primeiro dia
do ano e de “Reis”, no dia seis de janeiro. Segundo ele, são dias comemorados com muito fervor,
alegria e devoção na região da Ilha da Madeira de 1950. Dia primeiro de janeiro é costume a
visita às lapinhas das redondezas, os amigos e parentes se visitam oferecendo vinho, doces e
broas. Os visitantes fazem ofertas ao menino Jesus, deixando-as no pires colocado na lapinha
para este fim. Cantam versos que fazem referência às lapinhas: “Quando eu entrei nesta casa,/
Nem sequer olhei para o teto./ A lapinha está bonita, /Que parece um céu aberto./Menino Jesus, /
Que estais na lapinha /Cantando e bailando/ E dando a perninha”... É na noite do dia cinco para o
dia seis de janeiro que grupos de homens e também mulheres visitam as casas tocando e cantando

XIV
em frente aos presépios versos sobre o nascimento do menino-deus e adoração dos três reis
magos: “Bem sabeis que hoje é o dia, Ai./ Que nasceu Nosso Senhor,/Na lapinha de Belém. Ai./
Para nosso Redentor...”

2.3 - O presépio enquanto espaço de representações dramáticas, cantos e danças

Ao longo da Idade Média observa-se uma série de representações envolvendo


dramatização, canto e dança, realizadas durante as celebrações litúrgicas, diante dos altares das
igrejas - em que figuravam pinturas ou esculturas com a temática do nascimento. Percebe-se
assim que tais celebrações religiosas caracterizam-se, entre outros aspectos, pela associação entre
expressões artísticas diversas.. Reportando-se à antiguidade, Brandão (1983:19) nos revela que
celebrações com a presença de canto e dança, realizadas nas igrejas e diante dos altares, são
muito usuais já no cristianismo primitivo. Segundo ele, “Coros de meninos vestidos de anjos
cantavam e dançavam, inclusive diante dos primeiros altares, em cerimônias de que sairiam mais
tarde as primeiras missas católicas”.

Refletindo sobre o desenvolvimento das representações dramáticas, Yara Moreyra


(1982:127) observa que os ciclos do Natal e de Páscoa constituíam os principais eixos temáticos
dos dramas, ou autos, encenados nas igrejas medievais com propósitos catequéticos ou mesmo,
como observa a autora, pela “necessidade de extravasar a dramaticidade natural dos ritos
religiosos” 2.

Os primeiros argumentos dos dramas do Natal eram baseados na visita dos


pastores ao presépio, conforme a narrativa de Lucas. Este drama, denominado
Officium Pastorum, chegou ao século XIII, através de várias versões, bastante
ampliado. De um simples diálogo, quando os pastores eram interrogados sobre
quem buscavam na manjedoura, o drama passa a contar com vários pastores,

2
A função pedagógica e catequética dos dramas é expressa com clareza em textos como o Auto de Mofina Mendes
do dramaturgo português Gil Vicente, de 1534 em que o autor revela: “Senhora não monta mais/ Semear milho nos
rios/ Que queremos por sinais/ Meter cousas divinais/ Nas cabeças dos bugios” (in Duarte, 1937:13).

XV
anjos e parteiras (figuras que ficavam junto ao presépio, perto das imagens do
Menino e sua Mãe), com as quais era realizado o diálogo (Moreyra, op. cit.).

Entretanto, como conclui Moreyra,

(...) os acontecimentos dos doze dias seguintes ao Natal ofereciam uma carga
mais acentuada de possibilidades dramáticas. Assim foi natural a transformação
da Epifania em centro da produção dramática natalina e, conseqüentemente, a
valorização das figuras dos magos (...) A partir daí, com o acréscimo gradual
de detalhes que criavam novas situações e personagens, surgiu o segundo drama
do ciclo do Natal, denominado Officium Stellae.

Gradualmente os temas do Officium Pastorum e do Officium Stellae tendem a se unificar


em um só drama, tornando-se e o primeiro um prelúdio do segundo. São realizadas encenações
simplificadas como a apresentação dos magos ao presépio, no Auto dos Reis Magos de Limoges
por volta do século XI; versões detalhadas com a participação colérica do rei Herodes e o
episódio da matança dos inocentes; a procissão dos profetas anunciando o nascimento de Cristo,
o Ordo Prophetarum - terceiro tema do ciclo natalino. É no século XIII, no Drama de Natal de
Carmina Burana, que se vê uma representação bastante ampla, incluindo desde as profecias até a
fuga para o Egito (Moreyra, op. cit. :127-128).

Inicialmente os autos eram encenados nos templos apenas por representantes do clero.
Com o seu desenvolvimento, a extensão das cenas e a demanda de grande número de figurantes,
passam a ser admitidos amadores, como nobres burgueses e artífices e a encenação ultrapassa o
limite dos altares, passando para os adros e sendo encenados também sobre tablados montados
nas praças.

Luis Chaves (1925:22) faz referência ao Auto de Natal de Vila-do Conde, em Portugal,
cuja encenação se iniciava ao ar livre (“o ramo de fora”) em um tablado de madeira, aonde eram
representados de maneira efusiva episódios bíblicos anteriores à “Anunciação”. Em seqüência,
passava-se para o interior da igreja e era encenada a segunda parte do auto (“o ramo de dentro”)
com cenas que iam desde a “Anunciação” até o “Nascimento do Menino”.

XVI
Em muitas destas representações, revivia-se a cena de natividade com figurantes fazendo
às vezes da Virgem Maria, São José e um recém-nascido no lugar do Menino Jesus. Durante as
matinas, numerosos grupos de pastores e camponeses das redondezas iam adorar o Menino,
cantavam louvores e traziam-lhe ofertas. Com o gradual desenvolvimento dos centros urbanos, a
diminuição do número de pastores e distância em que se encontravam das cidades, tal prática foi
tornando-se menos freqüente, e os pastores são aos poucos substituídos por figurantes que os
representam. É nesta transição que autores como Sampayo Ribeiro (1939:9), situam a gênese dos
autos pastoris - gênero que tem como forte referência o dramaturgo português Gil Vicente.

As representações da natividade são bastante expressivas na Península Ibérica dos séculos


XV e XVI. Provavelmente motivadas pela intensa devoção lusitana ao Menino Jesus e a Virgem
Maria, vão se desenvolver em Portugal diversas formas de representações, envolvendo música,
canto e dança. Entre as principais têm destaque os chamados vilancicos, representações feitas
inicialmente nas igrejas, com ênfase musical, em que pastores e personagens variados cantavam
loas3.

Em Portugal, a estreita relação dos pastores com o presépio é destacada por vários
autores. Lopes Dias (1940:6), em período mais avançado, descreve a Adoração dos pastores,
realizada na região da Beira. Nas noites de Natal, segundo o autor, os pastores vão visitar os
presépios nas igrejas e participar da missa do galo: “Chegada a meia noite as cortinas do presépio
afastam-se deixando à vista o Menino com todo o ingênuo acompanhamento de figurinhas de
barro”. Ao final da missa os pastores dirigem-se ao presépio, um a um, fazendo ofertas de
animais e produtos do campo. Na medida em que se aproximam do altar, movimenta-se junto
com eles uma lanterna de azeite - representando a estrela que guiou os pastores a Belém -

3
O Magnífico Dicionário da Música de Tomas Borba e Fernando Lopes Graça (1958:679 apud Rezende, 1967:50),
refere-se ao vilancico ou vilancete como “Forma de composição, com caráter religioso, muito popular e muito antiga
na Península Ibérica. Ernesto Vieira diz que ‘era uma forma mais artística que os laudes ou loas, mas menos
desenvolvida que os mistérios ou autos sacramentais’. Os vilancicos não constituem propriamente uma representação
como alguns escritores tem afirmado, mas eram simplesmente cantados em concerto, com acompanhamento de
diversos instrumentos. Pedrell, porém, atribui-lhe uma forma de representação teatral, admitida nas catedrais, em
certas festas solenes, já desde a Idade Média. O que é fora de dúvida é que, pelo menos no século XVIII, a invasão
dos vilancicos nas Igrejas de Portugal e Espanha foi total, especialmente nas festividades de Natal.” Autores como o
português Sampayo Ribeiro (1939:11) observam que, com a sua proibição neste período, os barristas passam a
representar nos presépios os personagens dos vilancicos: cegos tocadores de sanfona, pastores, entre outros. As loas
(do port. Arcaico, loar, louvar) provêm dos louvores cantados por pastores nas cenas do teatro litúrgico medieval.
(Chaves, 1925).

XVII
pendurada em uma corda que ia da entrada da igreja ao altar. Os pastores recitavam quadras em
louvor do Menino Jesus: “Oh meu Menino Jesus,/Oh meu Menino adorado,/Aqui tendes a
visita/Dos pobres pastores de gado... A oferta que vos trago/É simples e de pouco valor,/É apenas
um cordeiro / Dos que guarda o pastor”.

O público participava ativamente de tais manifestações, como observa Lopes Dias,


incentivando com aplausos efusivos ou desencorajando os pastores a recitarem seus versos
improvisados sobre assuntos variados. A relação íntima com os padres e sacristãos propiciava,
muitas vezes, gracejos nos versos dos pastores: “Oh meu menino Jesus,/Trago-vos vinho
moscatel,/Bem sei que não é para vós/Mas p’ró Senhor P.e Manuel”. Feita a despedida em versos
e terminada a adoração e os demais rituais da missa, os pastores tocam instrumentos como
pífaros, fora da igreja. É um momento onde são feitas críticas aos patrões, ao pároco, sacristão,
etc. Nos versos, transparecem hábitos e costumes locais (op cit.:14).

Luis Chaves (1942:144), mais recentemente, faz um apanhado das representações que
ocorriam em diferentes cidades portuguesas e que remontam aos autos medievais. São
celebrações populares tais como as entremeses, presépios, autos pastoris e dos reis magos,
colóquios, esterlóquios e representatórios; Ramos e representações; Reisadas e reiseiros; a prática
dos três pastores; espera dos reis magos; dança do menino; dança dos reis magos; cantigas de
reis; loas das lapinhas janeiras ou janeiradas; reis ou reisadas entre outros. Temos assim indícios
de uma vasta gama de representações dos temas da natividade em terras portuguesas,
representações estas que, segundo Chaves, são efervescentes ainda na primeira metade do século
XX.

2.4 - Investidas do clero contra representações da natividade

Os autos dramáticos, os vilancicos, e outras celebrações com canto e dança, assumem,


com o passar do tempo, tons burlescos e vão ser considerados licenciosos pelas autoridades
eclesiásticas. Através dos séculos, estas representações vão passar por freqüentes processos de
repressão e proibições.

XVIII
No século XIII, como nota Garrut, (op. cit.), Inocêncio III reprimiu as representações
teatrais no interior da igreja. Segundo Chaves (1925:23), pelas Constituições do Bispado de
Elvas, “foi proibido que se representassem comédias, autos, colóquios ou outras coisas
semelhantes, em público ou em secreto, sem serem examinados pelo Bispo; depois de aprovados,
não se representariam em lugar sagrado”. E ainda as constituições do Bispado de Évora, de 1534,
“não deixam comer, beber, bailar, cantar nas igrejas”. Chaves sustenta a idéia de que após tais
proibições, houve uma substituição dos autos dramáticos pelos presépios nos quais os atores
teriam dado lugar à imagens permanentes. Outros autores citam ainda as representações
dramáticas como antecedentes dos presépios. Segundo Sampayo Ribeiro (op. cit.), após a
proibição dos vilancicos em Portugal, os personagens destas representações passam a ser
retratados nos presépios.

Brandão (1983:20) reflete sobre as motivações que levam o clero a proibir ritos com
canto e dança nas igrejas: tais atitudes, pergunta ele, seriam movidas pelo caráter profano que tais
práticas assumem ou “(...) teriam os olhos da hierarquia descoberto a semente de uma perigosa
autonomia dos fiéis, nos gestos espontâneos da comunidade cristã?”. Brandão continua, traçando
o desenvolvimento de tais ritos que, da mesma forma que os dramas, vão ser deslocados para
outros espaços, distanciando-se cada vez mais dos perímetros da igreja:

O que acontece a partir de então na Europa Medieval vamos ver acontecer


depois no Brasil. As proibições da hierarquia cristã não extinguem de todo os
rituais com canto-e-dança da massa festiva de fiéis. Elas empurram o seu
cenário para outros recantos de culto popular. Expulsos da nave dos templos os
devotos dançadores refugiam-se nos adros. Expulsos dali vão para as praças, as
ruas, as beiras de cidade, os campos. Alguns ritos de dança voltarão
timidamente incorporados às procissões. Outros irão fazer parte dos festejos
devocionais que, muito mais tarde, veio a ser chamado de catolicismo popular.

Percebemos que a relação entre a Igreja oficial e as práticas populares, já de longa data, se
estabelece de forma tensa e hierarquizada. E ainda, que os constantes movimentos de repressão

XIX
protagonizados pelo clero têm conseqüências no desenvolvimento de uma forma distinta de
expressar a devoção e a fé. Como esclarece Brandão,

Ao condenar o trabalho religioso popular e autônomo, na verdade a igreja


católica contribui substantivamente para a construção do sistema do
Catolicismo Popular. Ao definir como legítimos apenas os seus símbolos, sua
doutrina, nas cerimônias litúrgicas e o ofício dos seus sacerdotes, ela finalmente
constitui juridicamente um outro lado da vida religiosa católica. (Brandão,
1985: 29).

Este “outro lado da vida religiosa católica”, de que nos fala Brandão, caracteriza-se tanto
pela relativa autonomia dos devotos - que realizam práticas religiosas sem a dependência de
autoridades eclesiásticas - quanto pela utilização de representações plásticas e dramáticas nas
celebrações religiosas. Se por um lado, esse “catolicismo popular” foge aos moldes da liturgia
católica, por outro, guarda uma série de características do catolicismo medieval.

2.5 - Aspectos dos presépios no Brasil

Introduzido no Brasil pelos missionários jesuítas e por padres da ordem franciscana, o


presépio é utilizado inicialmente como instrumento de catequização. Em meados do século XVI,
o padre jesuíta José de Anchieta, recém chegado ao Brasil, fazia pequenos presépios de barro
com os índios e encenava também autos com temática natalina. Anchieta, “aportado ao Brasil em
1553, notou desde a Bahia como os índios estimavam a música, o canto e as festas de ritos e
espetáculos (Cafezeiro & Gadelha, 1996). Desde cedo, observa Brandão (1983:20-21), os jesuítas
“compreenderam a utilidade de incorporarem dramas, cantos e danças no ensino e no ritual de
catequese dos indígenas. ‘Façamo-los dançarem como nós para que creiam como nós’” – era
uma das estratégias utilizadas pelos missionários para evangelização dos índios4.

4
É oportuno lembrar que a difusão do catolicismo no Brasil esteve atrelada desde o princípio da colonização à busca
de uma coesão política: o povo unido em torno de uma mesma crença, como observa Azzi (1978). O espírito
medieval das cruzadas, segundo o autor, em que interesses políticos e religiosos estiveram intimamente unidos,
esteve presente na mentalidade dos missionários. Através das guerras santas empreendidas por estes últimos, os
índios são submetidos à conversão ao catolicismo. Percebe-se, assim, que a fé nos preceitos cristãos não se
apresentava como uma opção, mas sim como imposição.

XX
Percebemos, assim, que representações visuais e teatrais, o canto e a dança, são utilizados
no Brasil de maneira semelhante à que já vigorava no período medieval Europeu, como forma de
transmitir ensinamentos do cristianismo, difundindo-o entre aqueles que eram considerados
pagãos ou descrentes.

É através das ordens religiosas que no século XVI o presépio chega em localidades como
Pernambuco e Rio de Janeiro. Como observa Cascudo (op. cit.:533), acredita-se que os presépios
foram introduzidos em Olinda, no convento dos franciscanos, pelo frei Gaspar de Santo
Agostinho. No Rio de Janeiro, segundo o autor, os presépios chegam no Natal de 1584, trazidos
pelos jesuítas. O padre Fernão Cardim (1925:305), cronista do início da colonização, descreve o
fato:

Neste colégio tivemos o Natal com um presépio muito devoto, que fazia
esquecer os de Portugal; e também cá Nosso Senhor dá as mesmas consolações
e avantajadas. O irmão Barnabé Telo fez a lapa, e às noites nos alegrava com
seu berimbau.

Ainda no Rio de Janeiro, na época dos vice-reis, há registros das “cantatas de Reis” que
eram realizadas diante do presépio armado no Largo da Ajuda (atual Cinelândia), pelas freiras do
Convento da Ajuda (Lamas, 1978).

Entre os séculos XVII e XVIII a tradição dos presépios é amplamente difundida e


consolida-se no Brasil. Inicialmente seguindo influência dos artistas estrangeiros, é no período do
chamado barroco brasileiro que os presépios começam a assumir características nacionais nas
mãos de artistas como Aleijadinho, permanecendo anônimos, entretanto, grande parte dos
presépios coloniais.

Os presépios não chegam, contudo, apenas através dos representantes das ordens
religiosas em missões catequéticas. Os colonos portugueses, recém chegados ao Brasil, também
trazem suas tradições religiosas, voltadas em grande parte para o culto doméstico, envolvendo a
família. Azzi (1978:50) observa, nessa direção, a grande importância da família como
XXI
transmissora da fé cristã no período colonial. É freqüentemente na vida familiar, esclarece o
autor, que “o culto assume um calor mais acentuado, através das devoções praticadas nos
oratórios domésticos”. Azevedo, citado por Azzi, reiterando a importância do culto doméstico de
tradição lusitana, observa que:

O catolicismo brasileiro... herdou da cultura portuguesa certa brandura,


tolerância e maleabilidade que a exaltada, turbulenta e dura realidade espanhola
não conheceu. De um modo geral, e sem descer a detalhes e exceções, a vida
religiosa dos católicos brasileiros reduz-se ao culto dos santos, padroeiros de
suas cidades ou freguesias, ou protetores das suas lavouras, de suas profissões
ou de suas pessoas – um culto em grande parte doméstico e que não se
conforma muito estritamente com o calendário oficial da Igreja nem com as
prescrições litúrgicas.

Esse culto doméstico, desempenhado de forma autônoma, pode ser visto como um dos
aspectos de um catolicismo que se estabelece paralelamente ao “catolicismo oficial” imposto
pelas autoridades eclesiásticas. Trazido pelos colonos portugueses, o primeiro constitui um
catolicismo, “mais íntimo, mais impregnado de sentimento religioso: o catolicismo de devoção”
(Azzi,1978:52)5.

Visto por este prisma, o presépio chega em território brasileiro como oratório doméstico,
de caráter temporário, constituindo o núcleo de devoção familiar nas celebrações natalinas. Como
expressão de um catolicismo que vai ser chamado de “catolicismo popular”, os colonos
portugueses trazem ainda uma série de tradições intimamente relacionadas aos presépios
domésticos, como visitações, louvações, cantos, danças e dramaturgia. Mais tarde, acrescidas de
influências das matrizes indígenas e africanas, em diferentes níveis, vão originar inúmeras formas
de celebrações como a folia de reis, pastorinhas, pastoris, reis-de-ciganas, entre outras6.

5
Azzi (op. cit.:52) lembra que “Esse espírito devocional tem suas raízes mais profundas na própria idade média.
Com efeito, ele foi elaborado durante a Idade Média como forma de resistência à imposição do catolicismo romano
oficial. Mediante o culto dos santos, as populações lusitanas da idade média podiam continuar expressando o
sentimento religioso numa forma mais adequada à sua cultura e à sua tradição”.
6
Borba Filho (op. cit:107) acredita que em Pernambuco os presépios precederam duas outras formas de
representação: “...os pastoris com atôres de carne e osso e os mamulengos, com atores de madeira”. Os mamulengos,
observa o autor, inicialmente representavam o nascimento de Jesus e outras cenas bíblicas e posteriormente caíram
nas populares cenas cômicas. Manuel Quirino (1955) descreve os “presépios de fala” da Bahia, uma forma de teatro

XXII
Encontramos, nos estudos de folcloristas, referências aos presépios e celebrações em
diferentes localidades do Brasil. Borba filho (1966:148), referindo-se às pastorinhas no contexto
de Pernambuco, descreve:

Era à noite que se reunia a família e os visitantes, diante desse frondoso e


ameno oratório. As pastorinhas, trajadas uniformemente, à consonância de seus
pandeiros e maracás, enfeitados, talvez de outros instrumentos à parte, com
arcos de flores e fitas, ou sem eles, dançavam modestamente, cantavam hinos e
recitavam, em breve poesia, piedosas jaculatórias e enternecidos adeuses de
inocente simplicidade e graça ao lindo infante... e por fim depunham suas
humildes oferendas no altar da maviosa lapinha.

Theo Brandão (1976:21) refere-se às lapinhas e às danças dos pastoris e presépios em


Alagoas7:

Nas casas burguesas diante das Lapinhas pacientemente armadas com bijuterias
de celulóide, louça ou barro, com lagos de espelhos ou cascatas em miniaturas,
com renques de arroz recém nascido, com latas e jarros de tinhorões, de
crótons, de avencas, com busos da praia e estrêlas prateadas ou doiradas,
dançavam Pastoris e Presépios.

Maynard de Araújo (1949:161-164), por sua vez, descreve a armação dos presépios
tradicionais de Cunha, no interior de São Paulo, conhecidos como presépios caipiras:

... sobre uma mesa ou estrado, colocam-se blocos de terra com capim.
Fazem uma arcada com quatro ramos de bambu, formando um zimbório
de vegetal. Colocam pedras, fazendo uma pequena gruta, uma pequena
choupana de madeira representando a manjedoura. (...) Do pequeno

de marionetes de fio, que se remetendo ao nascimento de Jesus e outras cenas bíblicas era acompanhado por
instrumentos como flauta, pandeiro e castanholas.
7
O termo presépio, neste sentido, refere-se a um determinado folguedo natalino.

XXIII
cômodo, onde fizeram a gruta e manjedoura, descem caminhos sinuosos
feitos de areia colhida no rio.

O presépio é composto por 21 figuras, como observa Araújo. Entre elas estão o Deus
Menino, José, Maria, Anjos, reis, pastores, camponesa, caçador, profeta Simeão, galo do céu,
carneirinho de São João, vaca, jumenta, gambá, cabrito e mula – cada uma com posição
determinada. Os reis são movidos diariamente em direção à manjedoura até chegarem próximo a
ela no dia 6 de janeiro, quando são postos ajoelhados, depois desse dia sobem novamente em seus
animais e retiram-se por outro caminho. Entre os elementos destes presépios há sempre uma
lamparina, que é acesa depois do pôr do sol, e só é apagada no amanhecer. Ao ser desmontado no
dia 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora da Purificação, toda a vegetação é jogada no rio ou
queimada, pois acredita-se que não se pode jogar no chão ou pisar no que fez parte do oratório
(Araújo, op. cit.).

Armado nas casas por ocasião do Natal, o presépio adquire em cada localidade
características estéticas peculiares e ganha novos significados. Como um representativo espaço
de culto doméstico, é também um espaço agregador que propicia a manutenção de laços sociais.
Podemos dizer que as inúmeras práticas, celebrações e representações que, como vimos,
estiveram desde um passado longínquo associadas ao presépio, atuam como elementos
dinamizadores desta representação visual. Nos capítulos que se seguem, nosso esforço será de
observar e analisar a interação do presépio doméstico com uma representação específica, a folia
de reis, considerando este um momento privilegiado para observar a polissemia de nosso objeto.

XXIV
3. O MUNICÍPIO DE DUAS BARRAS E OS PRESÉPIOS

Situada na região centro-norte fluminense, com cerca de 10.000 habitantes, integrando de


início o município de Cantagalo, as origens de Duas Barras remontam ao princípio do século
XIX. Um pequeno povoado estabeleceu-se paulatinamente ao redor da chamada fazenda Tapera,
que abrigava viajantes,

...desbravadores de Cantagalo, que estabelecendo-se pelas cabeceiras dos


rio Negro, Macuco e Grande, recortando-se por entre vales e montanhas
logo encontraram um atalho para chegar ao Carmo e daí ao rio Paraíba.
Os viajantes que utilizavam este caminho costumavam arranchar com
suas tropas na fazenda Tapera, pertencente ao padre José Dias de
Oliveira que mais tarde doou-a à Irmandade de Nossa Senhora da
Conceição por ele fundada em 1834 (Lisboa, 1998:21).

XXV
Tal região, que abrigou famílias de imigrantes suíços e alemães, obteve grande
prosperidade ainda na primeira metade do século XIX com o desenvolvimento da cafeicultura.
Vê-se então um progressivo crescimento econômico da então Freguesia de Nossa Senhora da
Conceição de Duas Barras - assim como de todo o estado do Rio de Janeiro, que representou
então o maior centro de produção e exportação de café do país. Os antigos lavradores da região
são, em grande parte, elevados à condição de fazendeiros e deixam as casas de pau–a-pique para
habitar suntuosas casas, com cômodos numerosos e confortáveis instalações. A casa da fazenda
era uma das edificações que compunha o complexo das fazendas - constituído ainda pela a
senzala, (onde habitava a principal força de trabalho das lavouras de café, os escravos) os
terreiros e armazéns de café e o engenho (Lisboa, op. cit.).

Após a abolição, grande parte dos escravos, sem perspectivas, permanece nas fazendas.
Tornam-se posteriormente colonos que em troca da terra passam a dividir sua produção com os
fazendeiros e doar, freqüentemente, alguns dias de trabalho durante a semana:

Sustentando a prosperidade do município... dentro das lavouras de café,


vivia uma multidão que não usava terno de linho nem abotoaduras de
ouro, na maioria analfabetos. Eram os colonos. Em sua maioria

XXVI
camponeses pobres e ex-escravos. (...) Depois da abolição os colonos
foram o sustentáculo da lavoura cafeeira (Lisboa, op. cit.:75).

Com a crise do café, que tem início em 1929, inicia-se um movimento de êxodo rural.
Paulatinamente, os colonos deixam as fazendas em busca de trabalho em outras cidades vizinhas
ou rumam para o perímetro urbano de Duas Barras. Estes indivíduos, provenientes do campo, vão
levar suas tradições e rituais religiosos para o âmbito da cidade recriando, em um contexto
diverso, práticas como a folia de reis e a montagem de oratórios e presépios em suas casas.
Através de tais migrações, passa a existir, como observa Carvalho (1998:26), um grande circuito
de cultura rural nas cidades, cultura esta que é reinterpretada, passando os símbolos tradicionais
por um “complexo jogo de deslocamentos”.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição representou um elemento central em torno do


qual a cidade se constituiu espacialmente e, como observa Lisboa (op. cit.), a irmandade de
mesmo nome teve uma presença marcante em toda história de Duas Barras. Em frente à igreja vê-
se uma praça bastante arborizada com um coreto ao centro. Ao redor, diversos estabelecimentos
comerciais como armazéns, bares, pequenas vendas de variedades, além do prédio da prefeitura e
algumas casas residenciais. O casario conserva, nesta área central, as características originais do
século XIX, transmitindo um clima bucólico de cidade do interior com ares históricos.

XXVII
É neste núcleo da cidade de Duas Barras que ocorre há trinta e um anos, no mês de
janeiro, um encontro de folias de reis. Promovido pela prefeitura, o evento envolve grande
número de grupos provenientes da própria cidade, da zona rural do município e das regiões
vizinhas como Cordeiro, Cantagalo, Sumidouro, Bom Jardim, Macuco, Nova Friburgo, Carmo,
Além Paraíba, Teresópolis além de outras um pouco mais distantes, como a cidade do Rio de
Janeiro. Além dos foliões e seus familiares, o encontro atrai um grande público composto por
habitantes da cidade, pesquisadores e admiradores de folia que vêm de fora. Durante os dois dias
da festa - que começa na tarde de sábado e termina na noite de Domingo - a tranqüila cidade de
Duas Barras se vê tomada pela constante batida das caixas e bumbos, pela cantoria dos foliões,
pela exibição dos palhaços em seus espalhafatosos trajes, pela agitação das crianças e pela
vibrante voz do locutor da festa que ecoa por todos os cantos anunciando e convidando os grupos
para se apresentarem diante do presépio. O grande presépio, armado em frente à prefeitura, é o
centro da festa: é para ele que os grupos se dirigem, louvando e fazendo sua cantoria.
XXVIII
Folia se apresenta diante do presépio

Interior do Presépio da Praça

Entre o ano de 2004 e 2006 realizei quatro viagens ao município de Duas Barras. Como
metodologia preliminar da pesquisa de campo, empreendi um levantamento dos presépios
domésticos da cidade, no âmbito popular, entrevistando uma série de pessoas envolvidas nesta
prática. Pude observar e realizar documentação visual, em fotografia e vídeo, do processo de
montagem bem como desmontagem de determinados presépios, além de rezas comunitárias,
ladainhas e rituais desenvolvidos por grupos de folia de reis diante dos presépios.

XXIX
A maior incidência de presépios foi observada no Recanto da Vitória, bairro popular da
cidade, constituído por numerosas casas construídas pela prefeitura. Neste bairro encontrei quatro
presépios armados nas casas de Fernando, D. Eva, João Rigoto de Faria e Manuel Messias dos
Santos.

Presépio de Fernando Presépio de Dona Eva

Presépio de João Faria

XXX
Presépio de Messias dos Santos

Detalhes

No Loteamento Castelo, um dos muitos loteamentos da cidade, observei dois presépios: o


de Juvenil Estute e de D. Gininha. No loteamento do Leio pude ver o presépio de Maria Marlene
Borrel da Silva Santos - armado em parceria com Silvino dos Santos - e no centro, o presépio de
Newton Pereira dos Santos e o de sua irmã, Maria José dos Santos.

XXXI
Presépio de Juvenil Estute

Detalhe

XXXII
Presépio de dona Gininha Detalhe

Presépio de Maria Marlene

XXXIII
Presépio de Newton dos Santos

Detalhe

XXXIV
Presépio de Maria José dos Santos

Percorri também algumas regiões mais afastadas do centro urbano, como o bairro do
Holofote no qual encontrei o presépio de José Josué. Observei também alguns presépios da zona
rural, como o de Anélio Rodrigues em Bom Jardim da Roça. Na localidade do Lajeado observei o
presépio de Seu Ornélio Alves, de grandes dimensões, e ainda os dois presépios armados por D.
Elza, o de sua casa e o da pequena igreja do povoado. Além destes, tive relatos da existência de
dois outros presépios, o de Jair Silva e João Belo que, devido à circunstâncias da pesquisa de
campo, não tive oportunidade de observar.

XXXV
Presépio de José Josué

Presépio de Anélio Rodrigues e esposa Detalhe

XXXVI
Presépio de Ornélio Alves Detalhe

Presépio de Dona Elza

XXXVII
Presépio da Igreja do Lajeado Detalhe

Detalhe

XXXVIII
Após a realização do mapeamento descrito, foram levantados um total de quinze presépios
domésticos e constatou-se que doze deles são armados por pessoas que saem atualmente ou já
saíram em folias de reis.

Dentre os presépios levantados, foram selecionados os de Maria Marlene Borrel da Silva


Santos (conhecida como Lena), Newton Pereira dos Santos, Juvenil Estute (conhecido como seu
Nilo) e João Rigoto de Faria para iniciar a pesquisa – todos estes sendo atualmente, ou tendo sido
no passado, integrantes de folia de reis. Tais informantes, seus depoimentos e presépios
contribuíram, em maior ou menor grau, para a elaboração do presente trabalho. Entretanto o foco
principal do presente trabalho foi direcionado para o presépio de João Faria, cuja análise será
desenvolvida no capítulo seguinte.

XXXIX
4. CONSTRUÇÃO DE IMAGEM DEVOCIONAL

O presépio é casa dos três reis, moradia de Deus.


Seu João

Entre os dias 24 de dezembro e 20 de janeiro, em todo o estado do Rio de Janeiro, as


folias de reis estão fazendo sua jornada. Guiadas pela bandeira8, andam pelas ruas, visitam casas
e louvam os presépios que encontram armados em muitas delas. O dono da casa que arma
presépio, tem sempre um lanche preparado para ofertar às folias - que podem chegar a qualquer
momento - pois sabe que diante do seu presépio, a cantoria vai ser mais longa e os foliões
merecem um agrado. Geralmente ofertam dinheiro ou alimentos para a realização da festa dos
reis que ocorre no final da jornada e, em troca, recebem bênçãos da folia 9.

Na casa do mestre folião, ou em outro local onde se reúna a folia, há sempre um presépio
armado, e é diante dele que à meia noite do dia 24 de dezembro a folia inicia sua jornada, fazendo
a abertura do presépio. A forma de realizar a abertura do presépio e entoar os primeiros cânticos
da folia sofre variações de acordo com cada região e grupo.

Voltemo-nos para a localidade de Duas Barras e vejamos como seu João, mestre de folia
e personagem central dessa Dissertação, descreve a abertura do presépio armado em seu terreiro:

8
A bandeira, símbolo máximo e distintivo da folia, segundo o Guia do folclore fluminense, é uma “espécie de
estandarte que durante as jornadas, vai à frente do grupo de folia de reis, ladeada pelo mestre e pelo contramestre,
carregada por um folião denominado alferes da bandeira, bandeireiro ou bandeirista” (Frade coord, 1985:31,104). A
bandeira é constituída basicamente por uma cruz de madeira na qual é afixado um pedaço de pano com imagem dos
reis adorando o menino Jesus ou viajando em seus camelos. São utilizados também para enfeitar a bandeira
elementos como flores e fitas coloridas. Patrícia Peralta (2000: 98), em seu estudo sobre a Folia Manjedoura de
Mangueira, estabelece relações entre a bandeira e o presépio. Declara não ter encontrado presépios domésticos ao
longo de seu trabalho de campo e observa que neste caso a bandeira assume a função de presépio. Segundo a autora,
o canto dos foliões é sempre realizado de frente para a bandeira e, como esclarece seu informante, mestre da folia,
“cantar para o presépio é cantar para a bandeira, e cantar para a bandeira é cantar para o presépio”.
9
Jornada ou giro é a trajetória desenvolvida pela folia, num determinado período de tempo percorrendo determinado
espaço, cumprindo um ritual de visita às casas. Alguns autores, tais como Da Matta (1979), observam que ocorre
durante o ritual uma suspensão no tempo e espaço cotidianos. Também contribuindo para essa discussão, Brandão
(1981:36) descreve a Folia de Reis como “um espaço camponês simbolicamente estabelecido durante um período de
tempo igualmente ritualizado, para efeitos de circulação de dádivas- bens e serviços- entre um grupo precatório e
moradores do território por onde ele circula”.

XL
A abertura do presépio, você chega aqui você louva o caminho dos três reis magos10, né? Aí canta:

Bateu asas, cantou o galo,

Esse galo aqui, ó (apontando para o galo de seu presépio)

Bateu asas, cantou o galo,


Ele veio anunciar,
Que Jesus é pai querido
Tá com o nome no altar
Era uma hora da noite
Quando o menino nascia
Onde era nós não sabia
Eu fui enviado por uma estrela da guia...

Aí os três reis começam a viajar, aí vai cantando o caminho dos três reis, até chegá ali na frente dele:

Na frente deste presépio


Nós temos que ajoelhar - aí ajoelhou, né? pra benzer o
Menino.
Foi assim que os três reis magos fizeram
Na hora que eles chegaram
Na cabana de Belém disseram amém
Todos três se alevantaram 11

Cada mestre tem seu repertório de versos, que são transmitidos por outros mestres ou de
autoria própria e os grupos de folia diferenciam-se na maneira de tocar as toadas12, na melodia e,

10
Os caminhos, como veremos mais adiante, são eixos centrais na estruturação visual do presépio. O caminho dos
três reis é um dos principais conjuntos estabelecidos no presépio e, como vemos na descrição de seu João, é louvado
através dos cânticos da folia, sendo de suma importância para o ritual.
11
A abertura do presépio de seu João pode ser feita por diferentes grupos de folia, pois atualmente ele não é
integrante fixo de uma folia em especial e canta na folia em que é chamado (normalmente a de Fernando, Silvino ou
seu Newton), podendo sair em mais de um grupo numa mesma jornada.
12
Toadas são as canções interpretadas pelo grupo de folia. São feitas em estilo responsorial: o mestre puxa os versos
e os foliões respondem.

XLI
algumas vezes, na instrumentação. No dia 20 de janeiro, é diante do mesmo presépio que a folia
vai fazer o fechamento de sua jornada.

Nas casas que visita, diante dos presépios ou altares, o mestre canta profecias, constituídas
por versos rimados referentes a eventos como a natividade do Menino Jesus, a epifania e outras
passagens bíblicas. Tais profecias podem ser entendidas como recriações míticas, que tomam por
base os textos bíblicos, os evangelhos apócrifos e uma série de outros textos mais recentes
citados pelos mestres de folia.13

Seu João, embora tenha aprendido as profecias através de transmissão oral, refere-se à
escrita para fundamentar e legitimar seu conhecimento: “Eu só canto dentro do livro”, observa.
Ao ser indagado sobre a origem dos versos que compõem as profecias, afirma:

Mateus escreveu esses versos numa pedra. Dessa pedra, Tomé - que era o
discípulo de cristo, apóstolo de cristo - tirou e passou pro livro. Aí veio pro
livro e o livro reza as profecias. As profecias são bíblicas.

Como lembra Carlos Brandão, referindo-se ao contexto rural das folias de reis, um vasto
fabulário é criado:

Do pequeno parágrafo do Evangelho de Mateus (Mateus 2,1 a 12) os sertanejos


do passado inventaram e ensinaram aos seus descendentes incontáveis
passagens dos Magos, em meio a aventuras, gestos de perseguição e de
sabedoria, grandes milagres (1981:53-54).

Como já observaram diversos autores, o evangelho de Mateus menciona os magos de


maneira bastante imprecisa - não revela o seu número, nome, nem tampouco sua qualidade de
reis: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos
vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: ‘Onde está o rei dos judeus, que acaba de

13
Cáscia Frade (1997:139), em seu estudo sobre as folias do Rio de Janeiro, cita alguns textos que servem de
referência aos mestres para a elaboração das profecias. Entre ele estão os pequenos livros de devoção familiar:
“Imitação de Cristo”, “Devoto Josefino”, “Gofiné”, além de outros como “Universo em desencanto”, de Manoel
Jacinto e “O mártir de Gólgota e outros poemas” de Bastos Tigre.

XLII
nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’ ”14. Gomes & Pereira (1993:66), na
mesma direção que Brandão, salientam que foram feitos vários acréscimos ao mito tais como sua
transformação em reis e o estabelecimento de seus nomes pelos próprios teóricos cristãos:

O primeiro a falar de três Magos é ORÍGENES, número este certamente


sugerido pelos três tipos de presentes oferecidos, ao passo que o título de reis só
se encontra em CESÁRIO DE RALES, no século VI. Os nomes de Gaspar,
Melquior e Baltazar são conhecidos desde o século IX (Adam, 1982:145 apud
Gomes & Pereira op. cit.) 15.

4.1 - Seu João e o aprendizado no presépio e na folia – “Os três reis ensina a pessoa a
aprender”

João Rigoto de Faria, mais conhecido como João do Rancho ou, simplesmente, seu João,
tem 55 anos, é casado com Maria Jurassi, pai de seis filhos e trabalha atualmente como vigia de
um horto. Nascido na zona rural do município de Santa Maria Madalena, seu João morou até os
dezesseis anos numa fazenda que pertencia ao seu pai. Sua experiência na folia de reis começou
na adolescência, como ele relata:

Eu tinha treze pra quatorze anos, meu pai falava: - onde é que ocê
vai meu filho? - Ah! Eu vou sair com uma turma aí, batendo
caixa. Eu nem sabia o que era. Aí, ia bater caixa com eles,
cantava... naquela época, né? Andei muito tempo na roça. Eu era
molequinho, eu saía.

14
Bíblia sagrada, 11ed. 1967, p.1307
15
A respeito das recriações que são feitas a partir de um texto são bastante oportunas as reflexões de Roger Chartier
(1992:214) que trata a leitura como “uma prática criativa que inventa significados e conteúdos singulares”.
Refletindo sobre diferentes “modos de ler” um texto, Chartier destaca a leitura “mágica” das sociedades camponesas
tradicionais francesas, que podemos estender também ao nosso contexto de pesquisa em que os textos bíblicos
constituem uma referência para a criação de um universo mítico particular. Sobre a relação entre oralidade, escrita e
a tradição bíblica na cultura oral, ver Steil (1996).

XLIII
Por volta dos dezesseis anos, o pai adoeceu e precisou vender a fazenda para custear
tratamento médico. A família foi, então, morar na cidade de Madalena. Por muitos anos seu João
trabalhou como empregado de uma fazenda, desempenhando várias funções tais como lidar com
animais, trabalhar no plantio e outras. Morou também em Conselheiro Paulino e há oito anos
mora com a família na cidade de Duas Barras, em um bairro popular de nome Recanto da Vitória.

O bairro é composto por inúmeras casas construídas pela prefeitura ao longo de uma
encosta. Uma íngreme ladeira asfaltada dá acesso às ruas do bairro, algumas de chão de terra. A
casa de seu João, cedida pela prefeitura através de sorteio, é a última de sua rua e faz limite com
um terreno desocupado, bastante arborizado.

XLIV
Há mais de vinte anos seu João arma presépio em casa e aprendeu a armar, como ele
expressa em seu depoimento, de maneira informal, através da observação:

Quando eu morava em Conselheiro (Paulino) aí fui ajudar um rapaz, o Jamico,


ajudei ele a armar um presépio. Aí eu vi ele armando o presépio e falei:
Jamico isso aí é difícil de armar? Ele falou: é bem difícil! Eu falei, um dia eu
vou aprender! Aí aquilo veio na minha cabeça... aí logo no ano seguinte, eu
comecei a armar um lá em casa, pequenininho. Aí armei e ficou bonitinho. Aí
dali pra cá eu fui armando, minha mulher foi me ajudando também a armar. Aí
eu armei e armo até hoje. Hoje eu armo presépio grande, se precisar armar um
presépio aí na praça, eu armo um presépio grande... eu aprendi por cabeça,
sozinho.

Aprender por cabeça, aprender vendo, são expressões utilizadas de maneira recorrente
quando investigamos de que maneira se dá o aprendizado no contexto da cultura popular:
aprende-se através da observação e da prática, de maneira informal. Cascia Frade (1991:21),
pensando de forma semelhante a autores como Peter Burke (1989) e Carlos Brandão (1983),
considera inclusive que a forma de transmissão , “absolutamente empírica e à margem dos
sistemas formais de ensino” é que configura a cultura popular. Segundo a autora,

Seu estabelecimento vai se dar através das relações familiares, de vizinhança ou


de compadrio, e a aprendizagem ocorre por meio de uma participação contínua,
rotineira, absolutamente interativa. Não há, conseqüentemente, delimitação de
espaço para sua emergência: sucede no âmbito da casa e da rua, nos clubes e
praças, na igreja e nos bares, nos escritórios e nos quartéis.

Seu João descreve como se deu o processo gradual de aprendizado para chegar a mestre
de folia:

Primeiro eu brinquei de palhaço de reis muito tempo. Aí enjoei de palhaço de


reis...16 Aí depois comecei a cantar, assim como ajudante, né? Aí depois passou

16
Os palhaços na folia de reis são figuras ambíguas. Representam os soldados do Herodes, que perseguiram o
Menino Jesus. Utilizam máscaras feitas normalmente de couro de boi, cabra, etc, e crina de cavalo, dançam com suas

XLV
daquele negócio de ajudante... eu falei assim: - agora eu vou cantar de mestre.
Aí enfiei a cara a cantar de mestre e fui aprendendo cada vez mais... Eu já
canto reis há vinte anos, já cantei com muito mestre que já morreram...
inclusive os que morreram é que me ensinou. E dali eu vim passando aquilo
pra cabeça... os mestres foram me passando profecia e eu fui cada dia
aprendendo mais... que os três reis... ele pede pra pessoa aprender... ele ensina
a pessoa a aprender...

Sua fala aponta para alguns aspectos do aprendizado de mestre, como já salientou Frade
(1997:190-191): aprende-se vendo, ouvindo e fazendo; o aprendizado se dá através de relações
interpessoais (aprendeu com mestres mais velhos, que já morreram); há que se considerar um
esforço individual de memorização dos versos e observação aguçada das práticas rituais que
fazem com que um indivíduo vá desempenhando funções cada vez mais avançadas dentro da
hierarquia da folia até se tornar um mestre. A expressão utilizada por seu João, “passar aquilo
pra cabeça” pode ser entendida como um processo não só de memorização mas, por assim dizer,
de uma internalização mais profunda das profecias.

O processo de aprendizado do mestre, como seu João sinaliza, está relacionado ainda a
uma dimensão sobrenatural. Os três reis magos do Oriente atuam como facilitadores do
aprendizado, eles “ensinam a aprender”. Percebemos que se estabelece uma relação direta e
pessoal com os reis, que vai se dar, dentre outras maneiras, através do sonho. Todo esse vasto
universo que envolve profecias, reis, o som e a festa da folia, o presépio, o sonho, enfim, tudo
isso é vivenciado por seu João de acordo com um tempo cíclico. É no período que antecede a
saída da folia que os três reis se “aproximam” e a relação santo/devoto torna-se mais estreita:

Eu agora, acabando o folclore, dia de São Sebastião, eu não canto mais.17 Aí,
aquilo foge tudo da minha cabeça, eu não vejo verso, não vejo profecia, não
vejo nada, acaba tudo, aquele silêncio... nem sonho com nada. Mas quando já
vem chegando, aproximando o folclore, o natal, o nascimento outra vez, dois

fardas coloridas, fazem acrobacias e recitam versos relativos à mitologia do nascimento ou crônicas do cotidiano
baseadas na literatura de cordel. Alguns mestres não permitem a presença dos palhaços perto do presépio, outros
permitem que eles se aproximem para fazer reverência, desde que retirem a máscara.

XLVI
três meses antes, os três reis já começa a me acordar na cama. Eu já começo a
sonhar com festa, carnaval, baile, eles vem cobrar... eles cobram no sonho da
pessoa. Eles vêm, faz festa, faz a gente andar a cavalo assim no sonho. O
cavalo no sonho é o camelo, né? Aí então a gente ... quando acorda fala: é, os
três reis já começou a cobrar... aí eu já sei que tá na hora deu armar o meu
presépio e começar minha caminhada com os três reis.. é um troço muito
interessante... Mexer com bandeira dos três reis, mexer com os três reis do
oriente é um compromisso muito terrível! Os três reis são vivo... eu tenho
muita fé com os três reis e... muita devoção. Eu gosto dessa época, eu adoro
essa época!

Alguns pontos merecem destaque nesse depoimento: o primeiro é a associação


profecia/visão:“Aí, aquilo foge tudo da minha cabeça, eu não vejo verso, eu não vejo profecia,
não vejo nada..”. Percebemos aí, uma primeira relação que se estabelece entre texto e imagem,
considerando-se imagem enquanto representação mental das profecias (texto). Temos uma relação
de complementaridade entre imagem e texto que se dá em três níveis18:

Texto(profecia) → representação mental(‘visão’) → representação visual (presépio)

Entretanto, essa não é uma relação de mão única. Se consideramos que, durante o ritual da
folia, ao observar os elementos estabelecidos no presépio o mestre seleciona - a partir de seu
repertório - as profecias apropriadas para cantar. Isso nos leva a pensar a relação entre texto e
imagem da seguinte forma:

Texto (profecia) → imagem (presépio) → texto (profecia)

Além disso, o depoimento de seu João dá margem a duas interpretações: de um lado,


podemos pensar as imagens (representações mentais) como fruto de uma livre criação individual
e, de outro, como algo que lhe é revelado, ou seja, transmitido através de uma ligação com o

17
Seu João, assim como outros foliões, refere-se ao “folclore” como período da jornada da folia de reis saem, que
vai do dia 25 de Dezembro ao dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião.

XLVII
sobrenatural – por meio do sonho.19 Percebemos uma grande imersão no universo das profecias, o
que nos chama a atenção para a profundidade do envolvimento do mestre com a mitologia
referente à folia de reis.

Outro ponto é a comunicação com os reis em sonho. É seu João quem faz a relação
observando que em sonho os reis são avisados da vinda do Messias, conforme revela a
profecia:“Os três reis tiveram um sonho/ Mas foi um sonho profundo/ Sonharam que era nascido/
O suplente rei do mundo”. Isso justifica, segundo ele, a aparição dos reis em sonho para os
mestres de folia. Convém salientar também que na mitologia em torno do nascimento, há várias
referências aos sonhos em que ocorre a comunicação de determinados personagens com o
sobrenatural20.

Tanto a armação do presépio quanto a participação na folia possuem o caráter de obrigação


(“eles – os reis – cobram no sonho da pessoa”). Tal obrigação de prestar culto aos santos reis,
saindo na folia e armando o presépio, caracteriza a relação devocional que seu João estabeleceu
com os santos. Como esclarece Ribeiro de Oliveira (1978:29), essa é uma das duas modalidades
básicas de relação fiel/santo. Trata-se de uma relação de aliança que,

...uma vez estabelecida (pela consagração no batismo, por voto, ou por tradição
familiar, geralmente) não deve mais ser rompida. O fiel é devoto de um
determinado santo e pode ter nele um ponto de apoio: o santo desempenha o
papel de um “padrinho celeste”, com todas as obrigações mútuas de padrinho-
afilhado.

Como parte dessa aliança, segundo o autor, considerando-se os costumes dos devotos e as
particularidades de cada santo,

18
Segundo Martine Joly (2003:121), “A complementaridade das imagens e das palavras também reside no fato de
que se alimentam umas das outras. Não há qualquer necessidade de uma co-presença da imagem e do texto para que
o fenômeno exista. As imagens engendram as palavras que engendram as imagens em um movimento sem fim”.
19
Tais aspectos da representação mental podem ser vistos de maneira interligada. Joly (op. cit. :19) nos diz que
“uma representação mental é elaborada de maneira quase alucinatória, e parece tomar emprestadas suas
características da visão.”
20
Um anjo aparece quatro vezes a José em momentos pontuais do evento mítico: assegura–o da fidelidade de Maria,
avisa-o da vingança de Herodes, de sua morte e do reinado de seu filho Arquelau. Também os magos são avisados
em sonho do desejo de vingança do rei Herodes.

XLVIII
O devoto deve prestar um culto ao seu santo de devoção de modo regular (...) O
santo, por sua vez, deve proteger seu devoto nesta vida e facilitar seu acesso à
vida eterna: a aliança entre os dois, uma vez estabelecida, não se rompe nem
depois da morte.

Dessa forma, pode-se dizer que armar o presépio e sair na folia são diferentes maneiras
através das quais seu João expressa a devoção aos santos reis.21

Após considerarmos alguns aspectos da relação de devoção de seu João aos santos reis
assim como aspectos do aprendizado na folia, vamos voltar ao processo de aprendizado
específico da armação do presépio e ver de que maneira eles se relacionam. Pode-se dizer que há
dois níveis de conhecimento relativos ao presépio, o primeiro é o da armação propriamente dita,
ou seja, a estrutura formal, feita de materiais como madeira, bambu, folhagens, etc. É este,
digamos, o suporte do presépio e, como vimos, seu João aprendeu “por cabeça, sozinho”,
observando e ajudando um amigo a armar. Tal prática demanda esforço físico (cortar o bambu no
mato, serrar madeira, pregar, etc) e uma habilidade específica para lidar com materiais e
ferramentas, como relata nosso informante:

Faço a estrutura toda direitinho, sei como é que faz os módulos do presépio
pra não ficar nem grande prum lado nem pro outro... Isso daqui tem que ser
com metro, né? Porque se você fazer um lado maior do que o outro, o presépio
não vai ficar com um cruzeiro certo no meio. Aí vai ficar sempre um lado
pendente. O cruzeiro tem que ficar no meio.

21
Os reis magos, santificados pela tradição popular, vão ser fervorosamente cultuados de maneiras bastante distintas.
São considerados santos muito poderosos e tornam-se, muitas vezes, o foco principal da mitologia referente ao
nascimento. Como lembra Carlos Brandão (1985:138), “Embora camponeses e foliões reconheçam que é um ‘Deus
Menino’ que os três Reis visitam, é a eles que dirigem a sua festa e é a eles que pagam seus ‘votos validos’ ”.

XLIX
A estrutura do presépio consiste numa bancada com 1,20 m de largura e 80 cm de
profundidade que é construída com ripas de madeira e uma chapa de metal, posicionada no
sentido horizontal. Nesta estrutura, é erguida uma armação triangular, em forma de telhado, feita
com bambu e madeira, revestida internamente com papelão. A parte externa, em forma triangular,
é enfeitada com laminados verdes, prateados e dourados, típicos das árvores de natal, e também
com flores cor de rosa, vermelho e amarelo, feitas de tecido e plástico. No topo do presépio, com
1,70 m de altura, há um cruzeiro feito de madeira com enfeites brilhosos. A base frontal do
presépio, abaixo da superfície horizontal, é revestida com feixes de palmeira, colocados na
posição vertical, preenchendo o espaço entre as ripas.

A superfície do telhado, por sua vez, é coberta externamente por folhas de iri, que
possuem, como relata seu João, um significado particular:

Todo ano eu tenho uma palha diferente. Essa que tá aqui eu arrumei lá em
baixo com um rapaz, lá. Essa palha aqui é daquela da turma benzer no dia
de... Nossa Senhora do Ramo, né, que fala? Essa palha aqui é boa, depois que
tira ela, pode guardar pra fazer... às vezes uma devoção, né? dentro de casa.
Pra livrar dum temporal... aí ... pega uma palha dessa e queima, né? aí..
sempre alivia um bocado.

Outro nível de conhecimento, mais difícil, segundo seu João, ou de maior complexidade, é
a construção visual feita no interior da armação descrita. Tal armação pode ser concebida como
um suporte aonde serão estabelecidos uma série de conjuntos visuais, ou seja, os caminhos.
Compreendemos os caminhos do presépio como narrativas – criadas visualmente - de eventos
míticos relacionados direta ou indiretamente ao nascimento do Menino Jesus.

L
Para se compor plasticamente o presépio é necessário deter o conhecimento de um
universo mitológico específico que inclui natividade, epifania, passagens da vida de Jesus e de
outros santos. É neste ponto que a experiência de seu João na folia de reis lhe dá a base para a
construção do presépio, pois são as profecias aprendidas ao longo de sua trajetória como mestre
que lhe dão subsídios para a criação. Neste sentido, é ele mesmo quem revela: “Eu aprendi a
armar o presépio com as profecias”. Em outras palavras, pode-se dizer que tais profecias
fundamentam a criação visual, o que nos leva a compreender o presépio como uma imagem das
profecias.

Os foliões de reis partilham de um rico universo de recriação míticas, riqueza esta que se
expressa também na visualidade dos presépios criados por eles. Vamos observar, a seguir, os
elementos constitutivos do presépio de seu João e analisar seus possíveis significados.

4.2 – A casa e o presépio

Ao chegar na entrada de sua casa, nos deparamos com uma grande escadaria. Descendo
o primeiro lance de escadas, vemos um santuário (como é denominado por seu João) com uma
imagem de Nossa Senhora Aparecida, vasos de flores e plantas em seu interior. Em formato de
capela, com uma cruz de madeira no topo, o santuário foi construído e pintado por seu João como
forma de pagar a promessa que sua esposa fez para a santa, visando conseguir a casa em que
moram atualmente22.

22
Também como parte da promessa, Dona Maria Jurassi e seu João organizam, a cada ano, no dia 12 de outubro,
uma festa para Nossa Senhora Aparecida. A celebração começa quando eles retiram a imagem do santuário e a levam
em procissão até a igreja.

LI
Dona Maria Juraci e o santuário Detalhe

Descendo mais alguns degraus, chegamos em um terreiro que seu João fez recentemente,
cavando o barranco que pertence ao seu terreno. Íngreme e um pouco escorregadio, o novo plano
foi construído especialmente para abrigar o presépio deste ano e receber as folias.

No fundo do terreiro está armado o presépio. À primeira vista, um emaranhado de todo


tipo de objetos: palha, flores de tecido, figuras e quadros de santos, bichos, enfeites de natal,
pedras, medalhas, terços e outros elementos de procedências diversas que constituem a matéria-
prima de seu João. A base de sua criação não são figuras modeladas ou esculpidas por ele mas,
como um “bricoleur”, se utiliza de materiais fragmentários já elaborados para compor sua obra,
entregando-se a um processo criativo que envolve a escolha e reelaboração desses antigos
materiais, dando-lhes nova significação.23

23
Lévi-Strauss em seu importante texto, “O Pensamento Selvagem” (1970, p. 38-42), descreve a prática do
“bricoleur” fazendo uma associação entre o “bricolage” e o pensamento mítico: “uma espécie de ‘bricolage’
intelectual”. Segundo ele, “o bricoleur é o que trabalha com as mãos usando meios indiretos se comparado com os do
artista.” De maneira semelhante, esclarece, “o próprio do pensamento mítico é exprimir-se com o auxílio de um
repertório cuja composição é heteróclita e que, apesar de extenso, permanece não obstante limitado”.

LII
Ao nos depararmos inicialmente com uma variedade e quantidade de objetos, nosso olhar
vagueia irrequieto, sem conseguir deter-se especialmente em nenhum ponto. Há coisas que
chamam à atenção, em primeiro lugar, pelas grandes dimensões e pela desproporção em relação
às outras figuras - como o galo de gesso, o leão de plástico cor-de-rosa e o pinheiro de natal com
estrela dourada no topo. Outras chamam à atenção pela cor. Destaque se dá para a cor vermelha,
com visível concentração no interior do presépio ao centro, com maior ênfase nas capas dos três
reis, nas flores de tecido que os cercam; nos boizinhos de plástico e na roda do carro de boi. O
vermelho é ressaltado também ao longo do telhado nas flores que são distribuídas irregularmente.

LIII
Há ainda, elementos que se destacam pelo brilho: na parte exterior é marcante a presença
de enfeites típicos das árvores de natal (nas cores verde, prateado e dourado), ressaltando a forma
triangular que emoldura o interior do presépio. No vértice do triângulo, há uma estrela prateada e,
no interior, destacam-se objetos como o quadro com imagem de São Sebastião - saltando aos
olhos, em decorrência de seu volume holográfico - um pequeno oratório de Nossa Senhora
Aparecida revestido com purpurina dourada e prateada; enfeites natalinos prateados e um terço de
mesma cor, posicionados no fundo de papelão, além de um pequeno cubo embrulhado com papel
brilhante - o presente dos reis - que está situado ao centro do presépio.
O estímulo visual que os objetos nos provocam (em sua riqueza de forma, cor, brilho e
textura), assim como sua disposição em aparente desordem, contribuem para a dificuldade de se
perceber uma escala hierárquica clara de elementos principais e secundários. Num primeiro olhar,
a estruturação visual nos parece bastante difusa, diferentemente de outros presépios já observados

LIV
em que os elementos e a própria composição conduzem nosso olhar diretamente para o Menino
Jesus, dando claro destaque ao personagem central dessa representação24.

Sob a ótica do “bricolage”, conforme proposto por Lévi-Strauss (op. cit.: 39), o presépio
pode ser tomado como um arranjo de elementos onde cada um deles representa um “conjunto de
relações, ao mesmo tempo concretas e virtuais”. Buscaremos, então, investigar e analisar tais

24
Vide levantamento fotográfico dos presépios da região no capítulo anterior.

LV
relações rumo a uma compreensão da organização interna do presépio e de seus múltiplos
significados.

Na medida em que se estabelece uma relação de complementaridade entre imagem e


texto, como enfatizamos anteriormente, nos valeremos constantemente tanto dos relatos livres de
seu João sobre o presépio, quanto das profecias por ele recitadas, buscando relacioná-los aos
elementos do presépio. É interessante destacar que, durante a pesquisa de campo, na medida em
que ouvia os longos e entusiasmados depoimentos de seu João, novos horizontes de percepção do
presépio foram se revelando ao meu olhar. Tal objeto, que antes me parecia uma fixação da cena
de adoração do Menino-Deus, revelou-se como um objeto extremamente dinâmico, que envolve
simbolicamente uma série ações. Neste sentido, o presépio pode ser compreendido como um
objeto que narra uma série de eventos míticos, ou seja, como um objeto narrativo. Acredito que
este termo expressa a característica dinâmica do presépio e pode ser útil na compreensão do
presépio em sua dimensão de narrativa visual.

Vejamos o seguinte relato de seu João, e observemos como ele esclarece esta idéia:

Os três reis começaram a viajar dia 20 de novembro. Então eles pegaram o


caminho que é de São Sebastião (aponta para o lado direito do presépio onde
há um quadro com imagem do santo), vieram no caminho de Galiléia
(apontando em direção ao lado esquerdo). Quando chegaram no caminho de
Galiléia encontraram a ponte, mas aqui nessa ponte eles encontraram com o
reis Herodes. Aí perguntaram ao reis Herodes se sabia do caminho onde que o
menino era nascido, aí reis Herodes, como queria pegar o menino, ensinou o
caminho errado. Aí eles saíram no caminho errado e foi pro alto da montanha.
Ali é onde que eles ficaram parado (apontando para o fundo do presépio, na
direção esquerda). Aí quando São Domingos voltou, encontrou o caminho
certo.25 O primeiro que chegou foi São Domingos. Aí chegou na cabana, aí já
foram enviados pela estrela da guia, a estrela guiou eles inté na cabana onde
que o menino nasceu.

25
Seu João e outros mestres e foliões entrevistados tratam o rei negro como São Domingos.

LVI
Gráfico dos conjuntos visuais do presépio

Chegaram lá, eles fizeram um laço - que naquela época não existia corda - aí
eles fizeram um laço de cipó, que era pra prender o reis Herodes... Inclusive,
eu deveria ter colocado um laço aqui dentro mas não coloquei porque bem
poucos mestres cantam aquele laço, mas pra quem vê, essa fita que tá aqui com
esse nó significa o laço de cipó que eles puseram pra pegar o reis Herodes.
(aponta para uma fita azul de cetim presa no telhado do presépio). Esse laço
deveria ficar lá (apontando para o fundo), mas eu coloquei ele aqui na frente,
onde que o reis Herodes ensinou o caminho errado.

LVII
Detalhe do Laço de Cipó

Nesta narrativa, que sintetiza a viagem dos reis em busca do Menino-Deus, seu João faz
referência a diferentes conjuntos visuais estabelecidos no presépio, tais como: caminho de São
Sebastião, caminho de Galiléia, alto da montanha, caminho dos três reis (caminho certo) e
cabana – todos estes pontuando o itinerário cumprido pelos reis. Menciona também
personagens, como os três reis, o reis Herodes, o Menino, São Domingos (um dos reis) e a
estrela da guia. Tais personagens desempenham, conforme ele descreve, determinadas ações,
transitando por diferentes espaços e percorrendo caminhos.

Na tentativa de sintetizar os elementos que compõem o presépio, podemos distinguir dois


diferentes planos que se entrecruzam. Em primeiro lugar temos um plano concreto que é
composto pelos diferentes conjuntos visuais estabelecidos no presépio e, em segundo lugar,
temos um plano virtual, do qual fazem parte ações e deslocamentos. Nestes diferentes planos,
transitam os personagens, que protagonizam ações e se inserem em diferentes conjuntos visuais.
Dessa forma, podemos ver o presépio de acordo com o seguinte diagrama:

LVIII
personagens

conjuntos visuais ações/deslocamentos

4.3 - Os caminhos

Podemos distinguir alguns eixos que estruturam o presépio tanto em seu aspecto formal
quanto simbólico: estes eixos são denominados caminhos. Como uma das primeiras etapas da
elaboração do presépio, são definidos utilizando-se pequenas pedras colocadas sobre uma camada
homogênea de areia.

Podem ser vistos como vias de circulação simbólica não só dos personagens como
também da própria folia de reis. É através deles, como nos declara seu João, que o mestre “entra”
no presépio e, na medida em que ele puxa as profecias, a folia percorre simbolicamente os
caminhos. Dessa forma, seriam também vias de acesso que favorecem a interação entre o
presépio e a folia. Na medida em que são motivadores de ações, são também responsáveis por
grande parte do dinamismo do presépio.

Tendo em vista a interação ritual com a folia de reis e a intrínseca relação com as
profecias, analisaremos, a seguir, os principais caminhos do presépio de seu João: caminho de
São José, caminho dos três reis e caminho de São Sebastião, observando de que maneira se
estabelecem as relações entre imagem e texto.

LIX
4.4 - Caminho de São José e caminho dos três reis

Caminho de São José/ três reis

O caminho de São José e o caminho dos três reis são dois caminhos de significados
distintos, associados a diferentes conjuntos de profecias que, no entanto, fundem-se visualmente
em um só. Buscaremos descrever, primeiramente, os elementos comuns deste caminho, que
chamaremos, por ora, de caminho central, para depois nos determos em suas especificidades,
analisando seus múltiplos significados.

Descrevendo-o formalmente de maneira sintética, podemos dizer que ele desenvolve-se


como uma reta perpendicular à base frontal do presépio que, tomando o centro visual, vai desde a
frente até o fundo do presépio, tendo suas margens delimitadas por pequenas pedras.

O caminho central conduz ao núcleo ou ápice simbólico do presépio, local onde figuram
os principais personagens e onde é representada a cena de adoração do Menino Jesus. Tal

LX
caminho é, portanto, um elo que une o espaço exterior ao espaço interior, transpondo distâncias.
Vejamos, a seguir, de que maneira é constituído o núcleo central do presépio.

Como primeira etapa da criação do presépio, seu João coloca “o Menino no berçário”26.
O personagem principal é posicionado no centro e ao fundo (ligeiramente deslocado para a
esquerda), dentro de uma pequena cabana de madeira sobre a qual há um porta-incenso de metal
dourado27. É em torno deste personagem que se organiza o núcleo central do presépio, no qual
vemos representada a cena de adoração do Menino Jesus recém-nascido.

Detalhe do Núcleo Central

Formado por São José, à direita do Menino Jesus, Nossa Senhora, à sua esquerda – ambos
reclinados em atitude de adoração – e também pelos três reis do oriente, que estão à frente e à
esquerda do menino, dispostos como vértices de um triângulo, fazem parte ainda do núcleo,

26
É interessante ressaltar que, diferentemente desta, há uma prática tradicional, já encontrada nos presépios das
igrejas medievais européias, em que o Menino Jesus era reclinado sobre a manjedoura na meia noite do dia vinte e
cinco de dezembro, durante a missa do Galo. De maneira inversa a que citamos, o menino era o último personagem a
compor o presépio. Ouvi relatos também de presepistas que seguem ainda hoje esta prática em suas casas e também
o Sr.Farid Habib, poeta, historiador e compositor de Duas Barras nos relatou que na Igreja de Nossa Senhora da
Conceição procedia-se de maneira semelhante.
27
Seu João acende incensos, colocados em tal suporte, em algumas visitas de folias, fazendo referência um dos reis
magos que ofertou incenso ao menino Jesus.

LXI
animais como, o jumento, o camelo, o galo e diferentes figuras de boi28. O boi de maior dimensão
é a figura que está mais próxima do menino Jesus, posicionado diagonalmente à sua esquerda.
Logo atrás da Virgem Maria e de São José, ao fundo, há duas faces de uma pequena casa de
plástico (o verso e a frente, lado a lado com a manjedoura), decorando o ambiente da cena de
adoração e remetendo a esta um certo ar infantil. As figuras de santos e alguns animais como o
boi e o galo, feitas de gesso, semi-industrializadas, são produzidas e comercializadas
especificamente como conjuntos de presépio. Os outros animais, por sua vez, de plástico, são
comercializados como brinquedos infantis.

Após descrevermos até onde conduz o caminho central do presépio, vejamos, em percurso
inverso, onde ele se inicia e por onde passa, destacando alguns dos inúmeros e variados
elementos que estão posicionados nas suas margens. A entrada de tal caminho é destacada pela
presença de um pequeno objeto de madeira que une uma margem à outra, sem contudo fechá-la.
Confeccionado por seu João, tal objeto, denominado portão de Galiléia, é adornado com
pequenas conchas e uma borboleta de plástico.

Portão de Galiléia Oratório de Nossa Senhora Aparecida e Carro de Boi

Na margem esquerda há flores azuis e vermelhas de tecido e plástico, um pinheiro de


natal, que tem no topo uma estrela (a estrela do oriente), um oratório com imagem de Nossa
Senhora Aparecida, e inúmeros pequenos animais de plástico, como cachorro, pato, avestruz,

28
É interessante destacar a estreita relação que se estabelece entre a disposição visual das imagens no presépio e sua
dimensão virtual ou simbólica. Neste sentido, na medida em que a imagem do Menino Jesus ocupa o centro visual do
presépio é reiterada sua condição de personagem principal da representação. Centro visual e centro simbólico, dessa
forma, são vistos de maneira entrelaçada.

LXII
aranha e vários bois sendo que dois deles estão atrelados a um carro de boi feito de madeira (um
dos poucos elementos confeccionados especialmente para o presépio). Já mais afastados das
delimitações do caminho, à extrema esquerda, há uma candeia, um relógio, marcando a hora em
que Cristo nasceu, e um pilão socando café. Na margem esquerda do caminho há flores e
folhagens artificiais e também uma série de animais como um grande galo de gesso, tatu,
cachorro e cavalos. Este espaço pode ser visto como uma interseção entre o caminho central e o
de São Sebastião.

Como dissemos, os caminhos de São José e dos três reis, sendo um único elemento
visual, levam ambos ao núcleo central que descrevemos acima. Mas então, o que os
diferenciaria? A distinção não está no percurso nem em seu fim, mas nos personagens que por ele
transitam e nos diferentes momentos de suas travessias, que são expressão de diferentes
passagens míticas. Dessa forma, a distinção se revela na medida em que o caminho de São José é
o caminho que percorreram São José e a Virgem Maria, em busca de um lugar que os acolhesse,
até chegarem à estrebaria. Por outro lado, o caminho dos três reis é o caminho que os reis
percorreram, guiados por uma estrela, à procura do Menino-Deus. Assim, ambos podem ser
vistos como narrativas associadas a um mito comum: o nascimento de Jesus.

Desde o início da jornada da folia até o dia de reis, o tema principal entoado nos versos
que o mestre puxa nas casas que possuem ou não presépios armados, é o nascimento de Jesus.
Cantar ou rezar o nascimento neste período é obrigação do mestre e significa basicamente entoar
conjuntos de versos (profecias) que podem ir desde a anunciação do anjo Gabriel à Virgem Maria
até a fuga para o Egito. Nestes temas cantados incluem-se principalmente versos que falam sobre
a travessia de São José e da Virgem, seguindo-se da descrição do nascimento do menino Jesus.
Cantar tais temas significa “cantar o caminho de São José”. Vejamos um exemplo:

Ai, o caminho de São José, ai


é o caminho da virgem Maria

Oi, caminharam seu caminho, ai


Oi, com prazer e alegria, ai

Oi, São José foi buscar luz, ai


Oi, que no mundo não havia, ai
LXIII
Oi, quando são José chegou, ai
Oi, era nascido o Messias, ai

Ai, o boi perguntou aonde, ai


Ai, o carneiro disse em Belém, ai

Ai, não nasceu em cama de ouro, ai


Ai, como ele amerecia, ai

Oi, nasceu numa manjedoura, ai


Aonde o boi bento dormia, ai...29

Por outro lado, cantar versos sobre os reis magos, o sonho em que foi anunciado o
nascimento do Messias, detalhes de sua viagem em busca do menino Jesus, significa cantar o
caminho dos três reis e está incluído também no que se considera como cantar o nascimento.
Vejamos alguns versos citados por seu João:

Os três reis tava dormindo


Tiveram um sonho profundo,
Sonharam que era nascido
O suplente rei do mundo
Levantaram alegremente
Prepararam a montaria
Viagem que era de um ano
Eles fizeram com 13 dias.
Os três reis que viajavam
Chegaram em Belém
Pra visitar o Deus–Menino
E a Virgem Mãe também
Viagem que era de um ano
Fizeram com treze dias
Na porta da cabana do presépio de Belém
Os três reis amanheciam

29
Versos cantados pela Folia Bom Jesus de Matosinho, em uma casa com presépio, em Janeiro de 2006. O mestre e
dono da folia é seu Newton e, na ocasião, seu João estava cantando de contramestre.

LXIV
Profecias como estas que observamos são cantadas diante dos presépios como referência a
conjuntos visuais específicos. Pode-se distinguir uma relação de mão dupla na medida em que as
profecias fundamentam a criação dos elementos constitutivos do presépio da mesma forma que
estes orientam o mestre na escolha das profecias a serem cantadas durante o ritual.

Tendo como inspiração as reflexões de alguns teóricos do “catolicismo popular”, como


Pierre Sanchis (1986), Rubem César Fernandes (1990) e Pedro Ribeiro de Oliveira (1978), que
ressaltam a ênfase no significante como um dos principais elementos distintivos desta vertente
Cristã, podemos considerar a relação presépio/profecia da seguinte forma:

profecia (texto) ► plano conceitual ► significado

presépio (imagem) ► plano material ► significante

Como esclarece Sanchis (1986:15), diferentemente da “sensibilidade protestante”, cuja


ênfase é dada ao “significado último e espiritual”, “... a sensibilidade católica perambula
prazerosamente no mundo dos ‘signos’ e das ‘mediações’ com todo o seu peso de visibilidade e
de matéria (cf os santos, a virgem)”.

Na mesma direção, Fernandes (1990:116) afirma que:

A imagem do santo, que todos sabem ser de material perecível, não é reduzida,
por isso, à condição de uma figura simbólica. É de gesso, de barro ou de
madeira, mas é nesses elementos que a santidade efetivamente se manifesta, de
modo a ser vista e tocada.

Tais reflexões nos ajudam a compreender o poder das imagens no contexto do catolicismo
popular e a pensar o presépio como um espaço de manifestação do sagrado em que significado e
significante estão entrelaçados. A relação presépio/profecia é expressa com clareza nos
depoimentos de seu João. Ele usa, por exemplo, expressões como: “Aqui, nesse meio aqui
(apontando para o núcleo do presépio) tem uma profecia que diz assim: (cita profecia do caminho
de São José)”.

LXV
Partindo destas considerações, podemos pensar o presépio como um mapa que contém
potencialmente profecias. A seguir, buscando enfatizar e exemplificar esta idéia de interação
mútua veremos como seu João relaciona determinados elementos do presépio com profecias:

Geada – sobre a areia que recobre o presépio há, em toda a superfície do presépio, uma
camada de cal branco salpicada irregularmente. Seu João afirma:“Esse cal aqui significa a
geada”. E transmite o fundamento: “Aí a profecia diz,

Ó Virgem cheia de graça


O Menino está chorando.
O Menino está chorando,
Pelo frio que sentia
A geada era tanta
Que até o gado tremia.

Relógio – Há dois relógios no presépio: um no fundo, à direita, que marca uma hora e
outro no canto esquerdo, sem ponteiros.

Era uma hora da noite,

- o relógio marca (aponta para o relógio da direita)

Era uma hora da noite


quando o menino nascia
Onde era eu não sabia
Os três reis foram guiados

LXVI
Por uma estrela da guia...30

... Já é a profecia que é cantada lá dentro da manjedoura... É o nascimento.

Presentes dos reis – próximo às imagens dos reis, no chão, à sua esquerda, há três
pequenos cubos embrulhados com papel brilhante e fita dourada. Seu João esclarece: “Esse é o
presente que os três reis ia levando: mirra, incenso e ouro. Aí depois vem outra profecia:

Cada um trouxe um presente


Pro menino-deus dorado
Presente que eles trouxeram
Foi mirra, incenso e ouro
Mirra pra irar,
Incenso pra defumar
E ouro pro menino-deus orar
Todos eles trouxeram oferta
Todos três foram ofertados
Pelo anjo Gabriel

30
À medida que seu João recita a profecia, segue fazendo associações do texto com o que está visualmente
estabelecido. Revela, assim, a relação espacial que se estabelece entre as profecias e os conjuntos do presépio: “Não
nasceu em cama de ouro/Como ele merecia/Nasceu numa manjedoura/Onde o boi bento dormia – o boi bento tá lá
(aponta para o núcleo central) O boi bento abafejava/O menino agradecia/Vinha o carneiro cobre/Vinha a besta
descobria...que é a mula. Ela vem e descobre, ela tá olhando, pra descobrir o menino pra matar... Deus amaldiçoou a
mula/ pra não dar leite nem cria... Já é a profecia que é cantada lá dentro da manjedoura... É o nascimento... é a
profecia dos três reis. É o que tá no livro, na sagrada escritura.”

LXVII
São José foi coroado.

Candeia- na margem esquerda do caminho central há um castiçal de metal, ou candeia,


como descreve seu João,“ A candeia é o lampião. No começo do mundo não existia luz, aí então
eles tinham um azeite, eles acendiam o azeite quente com um pedaço de pano pra poder fazer a
luz. São José, quando o menino tava nascendo, foi buscar luz que no mundo não havia. Quando
são José chegou -por esse caminho- já era nascido o messias. Tem uma profecia que diz,

Na hora da santa ceia


Cristo assim dizia
Que não existia luz na terra
Quando a candeia acindia,

é aquela candeia lá (apontando para o objeto no presépio).

LXVIII
Da mesma forma que os caminhos de São José e dos três reis fundem-se visualmente, o
mesmo também ocorre em relação às profecias, cuja temática é essencialmente a mesma, não
sendo observada uma distinção precisa entre elas. Há uma série de profecias que podem ser
agrupadas de maneiras diferentes, de acordo com a ocasião e com as situações específicas de
cada presépio (podendo ainda variar, em sua forma, de mestre para mestre). Assim, a cada casa a
cantoria se torna diferenciada31. Como nos esclarece Cássia Frade (1997:145),

Na folia de reis, cada profecia feita de palavras de uma canção é um registro


especial de uma circunstância inusual, refletindo um momento único da
tradição. E nas tramas das relações múltiplas da performance, cada performer
se revela um compositor.

4.5 - O caminho São Sebastião

31
Seu Anélio, mestre de folia de Bom Jardim da Roça, denomina por tabelas os grupos de versos. Segundo ele,
antes de cantar numa determinada casa, ele estuda a tabela que vai cantar, organizando previamente a estrutura do
canto para o local específico. Apesar disso, como ele próprio dá a entender, o mestre deve estar preparado para
modificá-la de acordo com os signos que ele identifica nas casas e nos presépios.

LXIX
Após o dia seis de janeiro, os versos que o mestre entoa diante dos presépios não
pertencem mais ao conjunto denominado como nascimento. A partir do dia sete a vinte de janeiro
- dia votivo a São Sebastião – o que a folia canta obrigatoriamente diante do presépio são
profecias que recontam o martírio do santo, como esclarece seu João:32

Agora terminou o nascimento, já não canta mais. Então quando a gente vai cantar no presépio, a gente
canta assim:

Eu não vou cantar o nascimento


Porque já passou da ocasião.
Mas eu vou cantar as profecias
De mártir São Sebastião...
São Sebastião guerreiro,
Foi um guerreiro divino.
Ele foi um guerreiro forte
Da Virgem Santa Maria
Combateu com o reis Herodes
Na defesa do messias - que é o menino,
O botão da sua farda
Eram balas de artilharia
Cada bala que saía
Era um Herodes que caía
Ele deu com a sua espada
Numa pedra cristalina
E essa pedra só se move
Com as três palavras divinas,

Que é o pai, o filho e o espírito santo.

32
Neste período, uma imagem de São Sebastião é acrescentada nas bandeiras das folias de Duas Barras. Em algumas
outras localidades de estado do Rio de Janeiro, como por exemplo na cidade de Rio das Flores, as folias terminam
sua jornada no dia seis de janeiro, não sendo observado, portanto, este prolongamento do reis. Os grupos que saem
durante este período posterior (muitas vezes compostos por outros indivíduos) saem em jornada diferente com a folia
de São Sebastião utilizando, inclusive, uma outra bandeira. Para um estudo etnográfico sobre um grupo de folia de
reis desta região vide Chaves, 2003.

LXX
Como revelam as profecias, este santo, muito cultuado na região, atuou como defensor
do Messias, o que indica que foi, de certa forma, incorporado à mitologia relativa ao nascimento
de Jesus.33 São Sebastião passa a fazer parte do ciclo natalino e sua imagem aparece
freqüentemente nos presépios, que permanecem armados até o seu dia votivo. Seu Nilo, morador
de Duas Barras que arma presépio em sua casa, esclarece:

São Sebastião tem uma parte com a folia de reis. No dia dele (apontando para a
imagem que está sobre uma prateleira no alto da parede) ele desce no presépio.
E se chegá folia aqui no dia 20, ele tá ali no presépio pra eles louvar ele. Dia
20 eu tiro ele de lá e boto cá em baixo no presépio. Ele que é o encerrador das
folias.

São Sebastião no Presépio de Seu Nilo

Cantar profecias que recontam seu martírio é o mesmo que cantar o caminho de São
Sebastião. No presépio de seu João, tal caminho está representado visualmente, à direita do
caminho dos três reis, como um percurso que leva até um grande quadro com imagem do santo.
Nas proximidades do quadro há uma série de folhagens artificiais compondo a mata aonde ele foi
amarrado pelos índios, como nos revela a profecia citada por nosso informante:

33
As reflexões de Roger Chartier (1995:184) sobre as “formas de apropriação” dos textos, códigos e modelos
compartilhados são bastante oportunas, neste sentido, para compreendermos as reinterpretações e recriações no
contexto da religiosidade popular. A noção de “apropriação” torna-se central para a caracterização do “popular” que,
segundo o autor, “...qualifica, antes de mais nada, um modo de utilizar objetos ou normas que circulam na sociedade,
mas que são recebidos, compreendidos e manipulados de diversas maneiras.”

LXXI
Foi no pé de uma árvore,
Que pelos índios ele foi atacado
Com uma flecha na perna
E duas do outro lado
Na travessa da mata
Ele foi morto e amarrado,

Alá, ele tá amarrado, (apontando para o quadro) então eu já coloquei o pinheiro ali onde amarra ele. Essa
profecia vai longe, é muito comprida...

Próximo às folhagens, há uma cruz de madeira pintada de cor de rosa e um pequeno


soldado azul de plástico que “significa os índios que atacaram São Sebastião”, como esclarece
seu João. Ele expressa ainda a vontade de aprimorar este caminho do presépio criando novos
elementos visuais fundamentados nas profecias do mártir: “Ano que vem eu tou com vontade de
fazer as trilhas onde são Sebastião passava...”

Detalhe do caminho de São Sebastião

O caminho de São Sebastião, o caminho dos três reis e de São José são considerados, por
seu João, como os principais do presépio e, como vimos, é obrigação e prova da qualificação do
mestre cantá-los no período oportuno. Há, entretanto, além destes caminhos principais, uma série
de outros conjuntos visuais. Alguns revelam um percurso, outros ocupam determinada área e

LXXII
outros, ainda, se expressam apenas pela utilização de determinados objetos e elementos como
gravuras de santos. Seu João nos aponta, em seu presépio, determinados conjuntos como o
caminho do Faraó, caminho de Galiléia, caminho do Herodes, caminho da candeia e santa
ceia34. São estes, digamos, caminhos secundários e o mestre fica livre para mencioná-los ou não
em sua cantoria, como esclarece nosso informante:

Aí então o camarada pode cantar esses caminhos. Agora se ele não quiser
cantar, ele não precisa cantar. Pode cantar só o caminho de São Sebastião e o
caminho de São José que é o principal de cantar. Os outros não precisa
cantar. Porque também não dá tempo, né? A folia chega aqui pra cantar, se ela
for cantar todos os caminhos ela não consegue sair daqui, é muita coisa pra
ela cantar.

Como vimos, ao visitar casas e cantar diante dos presépios há uma série de “regras”
subentendidas que o mestre de folia deve conhecer e cumprir. Entretanto, dentro deste campo,
mais ou menos definido, o mestre tem a possibilidade também de fazer escolhas e, neste sentido,
a cantoria diante do presépio revela-se como um espaço em que ações e significados são
constantemente redimensionados.

34
O caminho da santa ceia pode ser expresso por uma gravura que retrata este episódio bíblico (freqüentemente uma
reprodução do quadro de Leonardo Da Vinci). Muitas vezes a santa ceia é representada, ainda, por um cálice de
vinho e uma tigela com pão, que são colocados no interior do presépio ou sobre uma mesa que fica diante deste.
Neste caso, é necessário que o mestre louve a santa ceia e cante profecias referentes a ela como a que seu João cita:
“Vou cantar o seu presépio/ Vou louvar no meio e nos quatro cantos/ Onde mora o cálice bento/ O pão do espírito
santo”- tal procedimento é tratado como “cantar a santa ceia”. O mestre pode escolher entre este procedimento ou,
ainda, pode “fazer a santa ceia”, que significa retirar o pão e o vinho do presépio e distribuí-los a cada um de seus
foliões entoando profecias específicas, como descreve seu João: “Aí molha o pão no vinho, aí põe na boca do folião,
porque aquilo é a hósta consagrada. Aí depois que você terminou, você fala assim: Assim que o padre faz quando
caba de celebrar a missa -quer dizer que já é a profecia que o padre faz. Aquilo se chama hosta. Na igreja é a hosta
e nos reis é pão molhado no vinho”.

LXXIII
5. O ELEMENTO LÚDICO NO PRESÉPIO

5.1 - A dimensão do jogo

Ao considerarmos o presépio enquanto objeto estético que possui uma função ritual e cuja
composição visual direciona práticas, ritos e ações diferenciadas podemos identificar o elemento
lúdico expresso amplamente nas relações interpessoais mediadas por este objeto. O historiador
Johan Huizinga (1993: 22) nos chama a atenção para a estreita relação que se estabelece entre
jogo e ritual. Segundo ele, “O ato de culto possui todas as características formais e essenciais do
jogo... sobretudo na medida em que transfere os participantes para um mundo diferente”. Uma
determinada separação espacial em relação à vida cotidiana seria, como observa o autor, a
característica primordial tanto do ritual quanto do jogo. (p.23). Huizinga vai mais além: ao
considerar o jogo, de um lado, como um “intervalo” da vida cotidiana, percebe, por outro lado,
que ele atua como um acompanhamento, um complemento e, assim, parte integrante da vida. Ele
a ornamenta e amplia, constituindo-se como uma necessidade. Dessa forma, pode ser tomado
como função vital, a nível individual, e como função cultural, a nível social – devido, como
expressa o autor, “ao sentido que encerra, à sua significação, ao seu valor expressivo, a suas
associações espirituais e sociais...”. Tais observações levam Huizinga a concluir que o jogo em
suas “formas mais elevadas” pertence ao domínio do ritual e do culto, ao domínio do sagrado
(Huizinga, op cit.:12).

A dimensão lúdica do presépio pode ser observada, de maneira privilegiada, em relações


interpessoais específicas (dono da casa/ mestre) que trataremos como desafio. Proposto pelo
anfitrião da casa, o desafio é expresso visualmente na forma de sinais estabelecidos no interior do
presépio ou em áreas próximas a ele. Tais sinais devem ser identificados e interpretados pelo
mestre da folia, demandando práticas específicas - ações desenvolvidas corporalmente e versos
recitados ou cantados35.

35
Consideramos o sinal, de acordo com Schaff, como um signo cujo propósito é evocar alguma ação (Schaff, 1969,
apud Epstein, 1986).

LXXIV
Há na proposição dos desafios uma determinada intenção provocativa, no sentido de
testar o conhecimento do mestre e observar sua aptidão para criar soluções diante do inesperado.
O mestre da folia responde geralmente de maneira improvisada, considerando também seu
repertório pessoal e experiência. Segundo seu Newton,

Eles (os donos da casa) fazem isso mesmo pra ver a pessoa inventar um verso e
cantar, né? Aí a pessoa vai cantando, vai perguntando quem fez aquilo, aí a
pessoa vai inventando um verso e vai falando pra eles, manda eles desmanchar
com a mão deles...

Este contexto, em que os objetos estabelecidos no presépio suscitam plurívocas


interpretações, revela uma determinada “opacidade” do significante, na medida em que este
“chama atenção sobre si, sobre sua forma e sua própria materialidade” (Epstein, 1986: 34) É o
que caracteriza, como nos diz Epstein, a função estética, em oposição à função semântica, na qual
o significado é transparente e os signos são facilmente enunciáveis e traduzíveis.

Considerando as reflexões de Granger (1974:243), o autor observa que “o estilo da


mensagem estética envolve uma espécie de jogo onde intervém, além do código comum – a
língua - um sobrecódigo”. Segundo Granger,

O tema do jogo para o emissor não é o de transmitir diretamente um conteúdo de


sentido numa mensagem (...) Para o emissor, o jogo seria aqui, por um lado,
criar, em sua própria mensagem, um sobre-código cujas regras ele deve fazer o
receptor ‘adivinhar’ e, por outro, no entanto, maximizar para este último a
surpresa e a incerteza de sua espera dos elementos da mensagem. O tema do
jogo para o receptor seria, compreendendo o sentido ‘literal’ da mensagem,
‘adivinhar’ o sobrecódigo superposto pelo locutor.

Encontramos freqüentemente na prática de ofertar dinheiro para a bandeira (como


contribuição para realização de festa dedicada aos reis) uma série de desafios propostos ao mestre.
A oferta pode ser realizada, por um lado, de maneira direta: muitas vezes, o dono da casa amarra
as notas ofertadas nas fitas da bandeira e, outras vezes, o dinheiro é entregue nas mãos do mestre.

LXXV
Por outro lado, são freqüentes os casos de ofertas feitas indiretamente, condicionadas à astúcia do
mestre ao identificá-las no presépio, e também à sua habilidade em praticar determinados ritos.
Durante o trabalho de campo ouvi relatos de ofertas que são escondidas no presépio criando-se
visualmente determinados sinais para orientar o mestre. Um santo virado de costas pode ser um
indicativo, por exemplo, de que o dinheiro se encontra sob a imagem ou próximo a ela. Seu João
esclarece e exemplifica:

Quando, por exemplo, eu chamo uma folia pra cantar aqui eu posso fazer um
cruzeiro de prata, que é pro folião, o mestre, chegar, cantar, né? E fazer a
retirada do dinheiro. Posso deixar também o dinheiro num canto debaixo do pé
de um santo, isso é tudo pra experimentar mestre... Tem muita gente que faz um
cruzeiro de prata, pra ficar prendendo o mestre pra ele cantar. É, por que aí o
mestre, até ele cantar pra tirar pratinha por pratinha , vai passando o tempo, aí
a folia vai ficando amarrada na casa da pessoa.

No caso relatado, as moedas ofertadas para a bandeira são dispostas no presépio ou no


chão de maneira a compor uma cruz, é o chamado cruzeiro de São Tiago. Tal oferta, como
vimos, só pode ser retirada depois que determinados versos são proferidos, fazendo referência
àquele. São as profecias do cruzeiro, conforme descreve seu João:

O cruzeiro de Santiago é o cruzeiro divino


Cada parte do cruzeiro que diminui
O cruzeiro está sumindo
Se o cruzeiro foi dado pra bandeira
Arretiro as belas moedas
E desmancho o vosso cruzeiro,

Aí então, o mestre ajoelha e põe a mão pra cima e cada folião panha uma moeda e põe na mão do mestre
Aí aquela (quantia) é oferecida pra bandeira.

O jogo neste caso se expressa na forma de um enigma proposto ao mestre. Se este último
não souber identificar o sinal estabelecido pelo dono da casa ou, ainda, se não souber realizar os
ritos necessários, não poderá retirar a oferta. Os sinais visuais são dessa forma estabelecidos,

LXXVI
como observa seu João, no sentido de experimentar o mestre, ou seja, desafiá-lo. E ainda: para
prender ou amarrar a folia na casa fazendo com que o ritual se prolongue demasiadamente
resultando no atraso do grupo para os compromissos com outras casas.

Diferentes situações em que a folia é amarrada são citadas pelos foliões e fazem parte do
universo mágico da folia. Messias dos Santos, integrante da folia da Boa Lembrança, esclarece o
significado do termo traçando uma comparação com os bois carreiros que, acostumados a
trabalhar sempre do mesmo lado do carro, ficam desnorteados se forem trocados de lado. O
resultado é que, ao tentarem se movimentar, não conseguem avançar para frente nem tampouco
retroceder. Assim também, segundo ele, fica a folia diante de uma situação em que o mestre não
mostra traquejo necessário para se desvencilhar36.

Os desafios põem em cheque aspectos como conhecimento, aptidão, capacidade para


interpretar sinais e encontrar soluções. É, de certa maneira, a própria legitimidade e qualificação
do mestre que são postos à prova. Situações em que o mestre é “mal sucedido” são motivos de
comentário geral. Seu Newton descreve uma prática realizada nos antigos oratórios da roça, os
quais deram lugar posteriormente aos presépios.

... Era tudo tapado de mato e flor, aonde eles escondiam... o Menino Jesus, né?
Escondiam o menino Jesus, lá, que é pro dono da folia cantar e encontrar o
Menino Jesus. Naquele tempo falava que escondia o menino Jesus por causa
dos Herodes que tava caçando ele, né? Caçando ele pra matar, né? Aí então os
mestres chegava lá ficava cantando e reparando, cantando e reparando, pra
hora que encontrasse o Menino Jesus. Aí na hora que encontrava falava que
tinha achado o Menino Jesus na cabana de Belém (riso) Se eles não
encontrassem o Menino Jesus, quando fosse embora falava assim: A folia foi
embora e não achou o Menino Jesus! (riso)

36
Messias relatou um caso em que ao entrar em determinada casa, identificou no presépio a imagem de Nossa
Senhora amarrada à imagem de São Jorge e os santos estavam virados de cabeça para baixo. Conforme ele relata,
cantou versos pedindo para o dono da casa desvirar todas as imagens e após longo período de cantoria, segundo
Messias, “o dono da casa terminou chorando na bandeira”.

LXXVII
Para lidar com as situações de desafio o mestre se vale, como já dissemos, da astúcia para
o improviso, da experiência adquirida com outros mestres (e através da própria prática). Como
revela seu Anélio, mestre de folia de Bom Jardim da roça,

O mestre sempre tem as defesa dele, né? Ele inventa lá uns verso... e isso faz
parte do reisado... Então ele fala ali uns verso praquilo ali, depois ele já sai pro
fundamento do reisado. Sempre tem as procura, né? A gente procura se
defender da forma que a gente sabe rezar dentro do fundamento do reisado...37

Há, entretanto, um aspecto de essencial importância nesses casos: a estreita relação


estabelecida com a divindade. É recorrente no relato dos mestres a forma como determinados
versos “vem na cabeça sem saber como”, conforme nos relatou Messias. Alguns mestres revelam
que os três reis os auxiliam a encontrar soluções e destacam a importância da concentração em
Deus e da fé para enfrentar tais situações.

Nos desafios os versos que são proferidos pelo mestre determinam o comportamento dos
foliões, do próprio mestre ou do dono da casa. Observamos que se estabelece uma relação direta
entre sinal visual, palavra e ação. Os verbos são normalmente utilizados no imperativo e
correspondem a uma ação subseqüente ditada pelo mestre. Vejamos o caso descrito por seu João:

Uma vez eu cheguei e um camarada fez um cruzeiro de vela branca na entrada do presépio. Aí eu
cheguei, joelhei os foliões tudo... O cruzeiro na entrada do caminho... Aí eu falei:

Meu senhor dono da casa


Meu honrado cidadão,

já cheguei cantando pra ele,

37
Brandão (1983:52-53) observa que um dos valores importantes do conhecimento da doutrina ou fundamento é que
ele “arma o folião de defesas contra perigos e desafios que o devoto imagina cercando sempre as equipes de trabalho
religioso do catolicismo popular”. E acrescenta: “Dado que ali convivem, entre fronteiras frágeis, a magia e a
religião, pelo menos o mestre e o contra-mestre devem conhecer os fundamentos da fé e os recursos de preceitos que,
quando exercidos de modo correto e ‘poderoso’, são a única defesa da pessoa e do grupo contra os malefícios de

LXXVIII
Quero ver o vosso cruzeiro
Aceso na sua mão,

Aí ele foi lá e acendeu o cruzeiro. Aí cantei mais duas profecias até chegar na cabana de Belém. Aí voltei
no cruzeiro outra vez. Eu falei:

Meu senhor dono da casa


Ouve bem o meu cantar
Só vou sair do seu presépio
Quando o cruzeiro desmanchar

...desmanchar, até queimar todo. Aí eu cantei as profecias. Descansei meus folião. Fomos jantar,
jantamos. Aí , a hora que acabou de queimar todinho eu dei minha despedida, agradeci. Até fiz uma saída
bonita pra ele:

Jesus perguntou os apóstolos


Quem foi que lhe deu o pão
O apóstolo respondeu
Que foi um anjo que lhe deu a benção,

Eu saí cantando pra ele uma profecia muito bonita, na casa dele, louvando ele. E agradeci. Saí da
casa dele era meia noite. Só que ele nunca mais me chamou pra cantar lá. Porque ele pensou que ia me
prender e ele acabou ficando preso (riso). Ele pensou que eu não ia passar no cruzeiro, mas eu
obriguei em cantoria ele ir lá acender o cruzeiro que ele fez... Ah! Se fazer pra mim… ele tem que
aprender. Se ele armar pra mim, ele vai ter que se danar comigo! (riso)

Percebemos que se estabelece uma relação competitiva. O desafio envolve a idéia de


vencer e perder, ou prender e ficar preso. Se por um lado, o dono da casa deseja em alguns casos
subjugar o mestre propondo situações das quais ele não possa se desvencilhar, por outro lado, o
mestre pode, através dos versos, obrigar o dono da casa a realizar determinadas ações,
demonstrando que detém o controle do ritual. Assim, a medida em que é desafiado, o mestre
pode reverter o jogo e intimidar o dono da casa.

agentes supostamente danosos: de outros grupos rituais do catolicismo popular; de outros sistemas de crença; de

LXXIX
A competitividade envolve uma relação dicotômica entre seriedade e brincadeira. No
momento do ritual, a expressão geral é de constrição, concentração, mas quando os foliões
relatam situações de desafio há em seus depoimentos um tom jocoso, ri-se freqüentemente de
determinadas situações. O depoimento de Lena, bandeireira da folia de Silvino da Silva, é um
exemplo do espaço que se abre no ritual da folia para o lúdico, no sentido de brincadeira,
diversão:

Tem vezes que eu fico com pena de judiar deles (riso) Eu fico com pena de judiar
deles (os foliões). Porque aí eles têm que cantar sobre aquilo tudo que tá no
presépio, aí canta muito né? Às vezes tem mais casa pra cantar, né? Mas eu
gosto de botar bastante coisa!

... O ano passado a Marli (contramestre da folia) falou: isso mesmo, judia da sua
própria folia! (riso) Porque eu falei com ela que ia botar as coisas ali no
presépio que ela ia ter que entrar de joelho. Aí ela entrou. Mas ela falou: eu vou
entrar, mas também você vai entrar de costas (riso) Ela falou: judia mesmo! Eu
falei: eu só gosto de ver cantar.

Lena refere se ao caminho de São José, que ela estabelece no chão, desde a entrada do
cômodo onde está montado o presépio até este. Para a composição visual deste caminho, ela
utiliza tiras de tecido - dispostas verticalmente delimitando as margens, pétalas de flores e folhas
- dispostas no centro. Como observa Lena, a presença deste distinto sinal demanda uma
ampliação do ritual, na medida em que o instrumental e o canto devem principiar quando o grupo
alcança fisicamente o princípio do caminho. Em seguida, os foliões vão percorrendo-o em passos
lentos até se encontrarem próximos ao presépio. Além disso, há um outro preceito estabelecido
por ela: a contramestra e os foliões devem entrar de joelhos. Percebe-se, assim, que as regras são
constantemente criadas e recriadas envolvendo uma série de negociações entre dono da casa e
foliões.

agências definidas como feitiçaria”.

LXXX
Detalhe do caminho de São José

5.2 - Uma obra que se renova ao se repetir: presépios de 2002 a 2005

Eu vou fazer meu terreirão aqui e continuar com a minha brincadeira enquanto
vida eu tiver, porque eu não vou viver só de trabalho... eu tenho que ter meu
lado... meu lado criança também, né?

Percebemos que o depoimento de seu João aponta para a associação entre brincadeira,
criança, e o presépio. É ele quem revela a dimensão lúdica presente na criação do presépio,
diferenciando-a do trabalho. Continuar com sua brincadeira significa promover a cada ano a
criação estética do presépio, um exercício de liberdade.

Durante quatro anos consecutivos (entre 2002 e 2005) observei o presépio de seu João e a
sua reelaboração a cada um desses anos, identificando, nesta prática, uma incessante busca de
aprimoramento e inovação. A seguir, analisaremos as variações ocorridas, levando em conta a
localização, estruturação formal e utilização dos objetos na constituição do presépio.

Ao longo de quatro anos o presépio transitou por diferentes espaços da casa. No ano de
2002 e 2003 o presépio foi armado em seu interior, na sala de entrada. Já em 2004 a armação foi

LXXXI
construída no espaço externo ocupando o terreiro localizado em frente à sala de entrada da casa.
No ano seguinte foi armado em um plano acima, no barranco que seu João aplainou
especialmente para o presépio e para acolher as folias com maior comodidade (pela amplitude do
novo espaço). Seu João construiu, ainda, uma cerca de bambu envolvendo toda a área, sendo
recoberta com toldo plástico de maneira a proteger da chuva. Observamos, assim, uma
modificação estrutural no terreno da casa desencadeada pela busca de localização mais adequada
para o presépio e para a acomodação das folias.

Presépio armado em 2002 Presépio armado em 2003

Em 2004, ao ocupar o espaço do terreiro, notadamente mais amplo, o presépio não só é


ampliado estruturalmente, como também se multiplicam os objetos utilizados em sua
composição. Também os caminhos estabelecidos no presépio sofrem modificações não só em

LXXXII
termos de proporção, mas também de sua estruturação. Identificamos, assim, uma relação entre
localização e composição visual 38.

Em 2002 foi delineado um caminho com pequenas pedras levando até a manjedoura (o
caminho de São José) e, à esquerda, um outro distinto (o caminho dos três reis), levando à uma
imagem dos reis desenhada em papel. Em 2003, estes foram delimitados com maior destaque
utilizando-se pequenas ripas de madeira pintadas de cor de rosa, fincadas na areia. Do lado
direito, o caminho de São José levando até a imagem do santo. Ao centro, o caminho dos três reis
(com os presentes ofertados ao menino) conduzindo à manjedoura e à imagem dos reis.

Observamos que enquanto em 2002 e 2003 os caminhos de São José e dos três reis são
representados distintamente, em 2004 e 2005 eles fundem-se em um só. Nestes dois últimos anos,
observamos ainda que a ampliação da superfície horizontal desencadeou a criação de caminhos
mais largos e extensos.

Presépio armado em 2004

38
A proporção do espaço da casa condiciona, freqüentemente, a armação do presépio. Silvino, mestre de folia,
declara, por exemplo, que não arma presépio devido às dimensões reduzidas de sua casa. Lena, por sua vez, teve seu
primeiro presépio armado após a mudança para uma casa mais ampla, com um cômodo utilizado exclusivamente
para abrigá-lo (ver foto em anexo).

LXXXIII
Detalhes

Outro aspecto que chama a atenção em relação aos caminhos é que somente em 2005 o
caminho de São Sebastião foi delimitado formalmente indicando um percurso até a imagem do
santo. Nos anos anteriores, este foi representado apenas pelo quadro com imagem de São
Sebastião. No presépio armado em 2002, nota-se que tal quadro foi posicionado em local de
maior destaque em relação aos outros anos, localizando-se no centro, logo abaixo da estrela e
acima de todas as outras imagens. Em 2003 o quadro é deslocado para a esquerda, em 2004,
assume novamente posição central e em 2005 é deslocado para a direita.

Presépio armado em 2005

LXXXIV
Ao analisarmos os quatro presépios conjuntamente observamos que o quadro de São
Sebastião não só está presente em todos eles como também é o elemento que mais se destaca pela
repetição (devido à sua dimensão e brilho), conferindo uma identidade visual e simbólica ao
presépio.

Ribeiro de Oliveira (1978:31) reflete sobre o relacionamento direto e pessoal que é


estabelecido entre devoto e santo. Segundo o autor,

O santo está ao alcance imediato do fiel: na imagem, na estampa, nos santuários,


num cruzeiro à beira da estrada, numa gruta, ou nos arredores dos cemitérios.
(...) O santo... não é uma entidade abstrata, mas, por assim dizer, é encarnado na
imagem que o representa.

Tal idéia de materialidade do santo nos ajuda a compreender o caráter particular das
imagens. O autor observa ainda que “... em cada imagem do mesmo santo há um santo diferente”
e conseqüentemente, lembra ele, “... não é a mesma coisa prestar culto a qualquer imagem do
mesmo santo, elas não são totalmente equivalentes” (op. cit: 31). Assim, a utilização de uma
mesma imagem de São Sebastião, durante vários anos, é um indício da relação pessoal que é
estabelecida entre devoto, santo e imagem. Parafraseando Ribeiro de Oliveira, o São Sebastião
que está no presépio de seu João não é o mesmo (imagem e santo) que pode ser encontrado em
qualquer outro presépio, na igreja ou em oratórios diversos, mas é “o São Sebastião de seu João”
que está todos os anos em seu presépio.

Observa-se, ainda, que são utilizadas as mesmas imagens de Maria, José e o menino Jesus
ao longo desses anos. Outras reproduções gráficas de santos como Santa Luzia, São João Batista,
São Jorge, São Judas Tadeu e ainda do Papa João Paulo II oscilam no presépio ao longo dos
quatro anos. Tais reproduções não contribuem diretamente para a narrativa visual do mito do
nascimento, mas pode-se dizer que reiteram a dimensão sagrada do presépio. Ao longo dos
quatro anos, diferentes gravuras de Jesus Cristo são utilizadas na composição do presépio:
Sagrado Coração de Jesus39, cena da crucificação, Santa Ceia e outras pequenas estampas. Há

39
Ribeiro de Oliveira (op. cit.:73) destaca que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus insere-se no contexto da
romanização do catolicismo que chega ao Brasil em meados do século XIX. Tal devoção, em crescente

LXXXV
também gravuras de Nossa Senhora de Fátima, Sagrado Coração de Maria e Nossa Senhora
Aparecida. A repetição das imagens de santos, assim como a sua ampla utilização na composição
do presépio, é responsável, de certa forma, por reafirmar ou intensificar sua “presença” no
presépio.

O presépio de 2003 destaca-se dos outros pela utilização da pintura. Observamos que
pinceladas de tinta cor-de-rosa decoram todo o espaço interior. Identificamos o cor-de-rosa
destacando visualmente os caminhos, assim como a cruz abaixo da Bíblia e, ainda, delimitando o
espaço externo triangular. Tal presépio diferencia-se também dos outros pela utilização de uma
série de objetos fabricados artesanalmente em madeira pelo filho de seu João. Do lado direito, ao
fundo, há uma capela com pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida, mais à frente há um
suporte com a Bíblia e, abaixo dela, uma cruz também de madeira. Nota-se que este é o único dos
quatro presépios no qual a Bíblia Sagrada é utilizada como elemento de composição. Além disso,
o presépio se estrutura de maneira mais esquemática que os outros três: os caminhos bem
definidos e os animais dispostos, lado a lado, dão uma impressão de maior “organização” em
relação aos presépios dos anos seguintes nos quais a grande profusão de elementos sobrepostos
imprime um aspecto de aparente desordem.

florescimento na Europa deste período, foi introduzida e incentivada, assim como as diversas denominações
marianas, como forma de substituir as devoções aos santos tradicionais como Santo Antonio, São José, São
Sebastião, Santa Bárbara, São Benedito e as diversas denominações marianas de origem portuguesa. Vemos aqui no
presépio de seu João a coexistência de santos “tradicionais” e os santos “novos” do catolicismo romano, assim como
a própria imagem do papa - autoridade máxima deste catolicismo mais recente no país.

LXXXVI
A fabricação artesanal de objetos ocorre em pequena escala em 2004 e 2005. Seu João não
torna a utilizar os objetos citados, mas inclui um carro de boi feito em madeira. Em 2005 há
também uma pequena armação de madeira (o portão de Galiléia), que delimita a entrada do
caminho de São José e, no mesmo material, uma cruz inserida no caminho de São Sebastião40.

São utilizados ao longo de todos esses anos, objetos pessoais de significado devocional,
como fitas terços e cordões. Na medida em que são incorporados ao presépio, tais objetos são
responsáveis por intensificar, por um lado, a dimensão sagrada do presépio, e por outro, têm sua
própria dimensão devocional reafirmada. Em 2005 vê-se um cordão com pequenas contas azuis e
uma medalha prateada, o cordão de Nossa Senhora Aparecida e uma fita vermelha amarrada
próximo a uma folhagem - a fita de São Sebastião. Conforme seu João revela, “tem uma
variedade que já me acompanha há muitos anos...”. Tais objetos, pelos quais ele mostra grande
estima, possuem importância similar aos quadros e figuras de santos na medida em que remetem
à presença destes últimos no presépio. 41

40
Observei outros presépios domésticos de Duas Barras, como o de Manoel Messias e seu Nilo compostos por uma
série de objetos, tais como pequenos animais, carros de boi, bonecos que se movimentam e casas iluminadas,
construídos artesanalmente em madeira e outros materiais (ver fotos em anexo).
41
Também nas bandeiras de folia as fitas são freqüentemente utilizadas para representar determinados santos, sendo
a cor o elemento distintivo. Encontra-se neste contexto uma grande variedade de cores e são bastante recorrente fitas
brancas, vermelhas, verdes e amarelas. Como um voto de promessa, é recorrente que se prendam fitas em presépios
domésticos próprios, de familiares e vizinhos ou ainda em presépios das praças. Neste caso as cores das fitas
referem-se ao santo a que a promessa foi dirigida. Nos presépios das praças do município de Conselheiro Paulino e
de Rio Grandina observei não só fitas, mas também vasos de flores e imagens de santos ofertadas ao presépio (ver
foto em anexo).

LXXXVII
O presépio, enquanto um espaço sacralizado, é muitas vezes utilizado para guardar/ expor
objetos utilizados ritualmente nas saídas com a folia. No ano de 2005, seu João pendurou seu
terço de mestre, em local destacado, na parte superior, ao fundo do presépio. Tal objeto é retirado
do presépio e utilizado por ele durante o ritual.42

Além dos objetos que possuem significado devocional, há ainda uma outra classe de
objetos - os enfeites - que são utilizados considerando-se prioritariamente sua qualidade estética,
com o objetivo de decorar ou tornar belo o presépio. São flores de tecido, folhagens, circuitos de
lâmpadas multicores e enfeites laminados de natal, dispostos a cada ano ao longo do espaço
interno e externo, dando colorido e brilho ao presépio.

Pode-se dizer que o presépio é composto por objetos que representam fragmentos da
história de seu João, o que justifica, em parte, a relação afetiva que ele estabelece com sua obra.
Esta vasta gama de objetos utilizados na composição do presépio reafirma a dimensão do
“bricolage”, dando indícios de uma imagem personalizada construída por um autor. Lévi-Strauss
(op. cit.: 42) destaca, neste sentido, o caráter expressivo e revelador dos objetos. Segundo ele,

42
De maneira semelhante, Lena, bandeireira da folia Estrela do Dia, pendura sua coroa de bandeireira no presépio,
em local de destaque. É a este altar que ela recorre quando vai sair com a folia, fazendo suas rezas e retirando a coroa
para colocá-la em si. “Quando eu saio de casa pra ir para a folia”, diz ela, “eu venho aqui sempre no presépio.
Peço que corra tudo bem, que a gente vai e volte tudo bem. Tem vezes que até eu deixo uma velinha acesa, aí a gente
segue a jornada”. Da mesma forma, quando retorna da saída, volta a pendurar tal objeto no presépio, fazendo
agradecimentos pela saída bem sucedida (ver foto em anexo).

LXXXVIII
(...) a poesia do bricolage lhe vem, também e sobretudo, de que não se limita a
cumprir ou executar, ‘fala’, não somente com as coisas... como, também, por
meio das coisas: contando pelas escolhas que faz entre possibilidades limitadas, o
caráter e a vida de seu autor.

Como vemos, os objetos reutilizados a cada ano conferem uma identidade singular ao
presépio e constituem um acervo pessoal de seu autor. Quando o presépio é desmontado, os
objetos são cuidadosamente guardados em caixas ou são permanentemente expostos em locais da
casa, como paredes, prateleiras, ou pequenos altares. Neste sentido, o presépio pode ser visto
como um espaço de “coleção”, na medida em que objetos são adquiridos, acumulados e expostos
nas montagens anuais43.

O presépio, tomado como um espaço de “coleção” e considerando-se sua ocorrência


cíclica, é algo que nunca está pronto, mas revela-se em um contínuo processo de criação que faz
parte intrinsecamente da vida de seu autor. Mesmo no período em que não está armado ele sofre
um constante redimensionamento, na medida em que novos objetos são incorporados ao
conjunto. Ao analisarmos o presépio armado em quatro diferentes anos, vimos que não só a
estrutura externa é refeita com novos materiais, como também a estruturação dos caminhos é
eventualmente alterada. Além disso, novos elementos são acrescentados, outros suprimidos e
alguns são, ainda, mantidos. Assim, pode-se concluir que não há um único presépio de seu João
remontado sucessiva e ciclicamente, mas a cada ano um novo presépio é efetivamente criado.

43
Em 2003, observei na cidade de Pirapora/MG o presépio de dona Maria e seu Valdir, composto por uma
surpreendente variedade de objetos. Conforme relataram, novos elementos são constantemente incorporados à
“coleção” do casal, sendo adquiridos durante romaria realizada anualmente ao santuário de Bom Jesus da Lapa/BA e
ofertados por parentes e amigos (vide fotos em anexo). Este caso nos remete às observações tecidas por James
Clifford (1994:71) sobre as implicações da prática individual do colecionar. Segundo ele, “Nesses pequenos rituais,
observamos as ranhuras da obsessão, o indivíduo se exercitando no sentido de se apropriar do mundo, de reunir
coisas em torno de si próprio, com gosto e adequadamente”. Gonçalves (1999), por sua vez, ao refletir sobre a
relação entre coleções, museus etnográficos e teoria antropológica, considera a coleção em seu aspecto de mediadora
entre o visível e o invisível. E observa, citando Pomian (1987): “Esta função mediadora resultaria de seu
deslocamento do circuito econômico e utilitário, sua separação em lugares especiais, sua exposição ao olhar (seja dos
seres humanos, seja dos mortos, seja dos deuses) e sua conseqüente especialização enquanto objetos cuja vocação é
‘significar’ ”.

LXXXIX
5.3 - Um presépio imaginário

Esse daqui não é um presépio do tipo que eu sempre sonhei armar... esse daqui
é um presépio bonito, mas só que eu quero armar melhor.

Pode-se dizer que há uma relação entre o desejo de inovar, recriando constantemente os
presépios anuais e a busca de um presépio imaginário, que não está no plano concreto, mas sim
no plano das imagens mentais. Em seus depoimentos, seu João refere-se com freqüência a este
presépio que deseja criar, descrevendo-o com detalhes. Vejamos, a seguir, seu projeto:

Eu já arrumei essas rodas aqui (aponta para duas grandes circunferências de


madeira que são parte de um carretel). Eu tou com vontade de fazer um carro de
boi, bem formado, aquela carroça de boi, né?... e armar o presépio em cima da
carroça de boi. Assim... arrumar uns boizinhos assim artificial, né? Colocar na
carroça carregando o santuário.

Eu quero fazer o céu de estrela, eu quero fazer o moinho, eu quero fazer o


pessoal serrando madeira, eu quero fazer as canaletas d´água de nível, pra
água sair num canto, voltar no outro, fazer o córrego do rio Jordão, entendeu?
Eu quero colocar uns peixinhos, que ali também existe os peixinhos, né? Aonde
que Jesus mandou jogar a rede. Uma pequena placa de isopor, aí você faz a
neve e coloca Jesus em cima da neve. Ele fica flutuando em cima da água,
entendeu?

Eu quero fazer um carrinho pro menino ficar lá em cima. Então a pessoa que
ficar aqui desce o carrinho na corda, o menino vem aqui. Aí depois sobe o
carrinho outra vez até na manjedoura lá em cima. Quero botar um sino de
Belém também. E tudo o que os bonecos vai serrando, o sino de Belém vai
batendo, entendeu?

Eu queria fazer uma piscina, pra eu colocar uma sereia, colocar a canoa onde
Nossa Senhora Aparecida foi achada no rio por um pescador... Eu quero fazer

XC
as trilhas por onde São Sebastião passava... Mas eu vou fazer uma coisa
linda! Eu ainda tenho uma invocação pra fazer isso, é um sonho de minha
vida!

Além dessa variedade de elementos visuais, seu João expressa ainda a intenção de inovar
na própria armação do presépio, utilizando cimento e tijolos, ao invés da usual estrutura de
madeira e bambu, de forma que o presépio fique permanentemente armado.

Vou fazer um santuário pra ficar fixo, pra ficar bonito! Quero fazer diferente...
Porque todo o ano a gente monta, desmonta, monta, desmonta. Então eu já
quero fazer um santuário completo... todo mundo que vem quer assistir, quer ver
um presépio bonito. Então eu quero fazer uma carreira de banco aqui em volta.
Tudo de cimento armado, tudo direitinho. Quero fazer um telhado de brasilit que
possa de repente chover... Então a pessoa tá acomodada aqui, né? Tá sentada, tá
chovendo, mas tá acomodada, vendo o presépio.

Seu depoimento revela o desejo de criar algo digno de admiração e também de construir
um espaço que seja propício à contemplação. São utilizadas expressões como bonito e diferente
indicando não só intenção estética como a busca de uma realização que seja distinta (de seus
presépios anteriores e, possivelmente, de outros presépios já vistos).

Por outro lado, a idéia de santuário completo dá a entender que seu João se orienta, de
alguma forma, por um modelo, ou seja, um presépio em que nada falte. Neste ponto, foi notada a
constante referência a presépios de praças não só de Duas Barras, mas também de outras cidades
como Conselheiro Paulino e Rio Grandina. Estes influenciam, por assim dizer, o imaginário de
nosso informante e em seus depoimentos percebeu-se não só sua admiração por eles como
também o desejo manifesto de criar algo semelhante44.

44
Há uma clara referência ao presépio de Conselheiro Paulino, no qual a imagem do Menino Jesus é presa à uma
espécie de carrinho que se movimenta para baixo e para cima com a utilização de uma manivela. Os dois presépios
citados possuem grandes dimensões e contam com peças criadas pelo artesão conhecido como seu Zeca, já falecido.
Em Conselheiro Paulino vê-se uma série de bonecos de madeira que se movem: são trabalhadores socando pilão,
serrando, martelando, etc. Em ambos os presépios há canaletas com água correndo, movimentando moinhos (ver
fotos em anexo).

XCI
Seu Newton, um dos foliões mais antigos de Duas Barras, reafirma, neste sentido, a
importância de tais presépios. Ele lembra que, na época de sua infância na roça, não se armava
presépio e sim oratório, que consistia numa mesa forrada com toalha de renda branca e, sobre
ela, quadros de santos e uma imagem do Menino Jesus. Ao redor, se enfeitava com plantas e
flores. Tal oratório ficava permanentemente armado, durante todo o ano. Segundo ele, os
presépios domésticos, tal como são vistos atualmente, começaram a ser armados, mais tarde,
depois da primeira festa do folclore, tendo sido inspirados no presépio erguido na praça por esta
ocasião.

Contando com tais influências, é preciso destacar, entretanto, que a criação de seu João
não se limita a modelos pré-determinados. Vimos, pelo contrário, ao longo deste trabalho, que
seu presépio constitui-se em um campo aberto e múltiplo. Apropriando-se de objetos, mitos e
narrativas, dá nova vida a antigos materiais e revela-se em um contínuo processo de criação.

XCII
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Cada dia que passa, eu vou botando os três reis pra frente. Quando eles
chegarem lá, na manjedoura, dia vinte, aí eu já trago eles de frente pra cá (em
direção oposta). Porque aí eles já foram e já voltaram, tão indo embora...
Seu João

Depois do dia vinte de janeiro, dia de São Sebastião, é tempo de desarmar o presépio. O
ciclo do natal já foi cumprido, as folias de reis já encerraram sua jornada e voltarão apenas a sair,
ao longo do ano, por ocasião de algum encontro ou festa de reis.

Apesar das saídas das folias em Duas Barras limitarem-se aos finais de semana, o período
entre o dia 25 de dezembro e 20 de janeiro pode ser visto, amplamente, como um tempo “em
suspensão” e o presépio armado na casa contribui, como vimos, para a experiência deste tempo -
e espaço – ritualizados. Depois deste período, vivido de maneira intensa pelos devotos, não só
fica vazio o espaço da casa que abrigou o presépio, mas também, em um plano simbólico, vê-se,
por assim dizer, um esvaziamento, como já nos esclareceu seu João:

... Aí aquilo foge tudo da minha cabeça, eu não vejo verso, não vejo profecia,
não vejo nada, acaba tudo...aquele silêncio... nem sonho com nada...

XCIII
Ao longo deste trabalho, lançamo-nos à investigação de um objeto específico: o presépio
armado por seu João no ano de 2005. O presépio foi, então, observado através de diferentes
prismas que se revelaram, contudo, interdependentes. Foram consideradas suas qualidades
formais, empreendendo-se uma descrição dos elementos constitutivos, bem como composição e
conjuntos visuais, a partir da qual foi possível definir os caminhos como eixos centrais de
composição. Considerando-se sua elaboração visual, o presépio pôde ser visto como um
“bricolage”, tal qual nos elucidou Lévi-Strauss (1970), composto por conjuntos de elementos que
se inter-relacionam em níveis concretos e virtuais. Buscou-se, então, analisar esses vários níveis
de relação.

Observando os presépios do ponto de vista histórico, rumo a uma contextualização mais


ampla do tema, fomos encontrar, na bibliografia referente aos presépios, uma série de menções a
estes enquanto espaço de representações, desde a Idade Média, agregando música, literatura e
dramatização em torno de si. A partir de tal enfoque, pôde-se distinguir determinadas
peculiaridades do catolicismo medieval, tais como a centralidade do culto aos santos, a profusão
de representações/dramatizações e a ampla utilização das imagens. Vimos, ainda, que esse
catolicismo de tradições medievais é trazido ao Brasil pelos os colonos portugueses e,
considerando-se as influências das matrizes indígenas e africanas, vai ser chamado mais tarde de
“catolicismo popular”.

Nos aproximamos de seu João, autor do presépio, conhecendo suas experiências,


aprendizado, buscando subsídios para compreender sua obra. Dessa forma, nos familiarizamos
com um determinado saber específico do folião de reis - que envolve um fabulário peculiar e
profecias baseadas em episódios bíblicos. Fomos, assim, encontrar neste saber de seu João a
fundamentação da composição visual do presépio. Tal enfoque nos permitiu estabelecer a relação
entre os caminhos e as profecias, identificando-a com a relação significante/ significado.

Considerando-se o presépio em sua qualidade de imagem e as profecias na qualidade de


texto, distinguimos a relação de complementaridade que se estabelece entre eles, observando a
amplitude dessa relação imagem/ texto, ou presépio/ profecia. Vimos que, se por um lado, as
profecias fundamentam a composição visual do presépio, por outro, tal composição orienta o

XCIV
mestre da folia na escolha das profecias a serem entoadas durante o ritual. Tal constatação nos
permitiu tomar o presépio não só como centro simbólico da folia de reis, mas como mapa do
ritual.

Analisando, ainda, o presépio como objeto mediador de relações interpessoais,


identificamos a presença do elemento lúdico, considerando, através das reflexões de Huizinga, as
afinidades entre jogo e ritual. Tomamos os desafios como situações privilegiadas para
observarmos as relações entre dono da casa e mestre/foliões e distinguimos nestes aspectos como
competitividade, averiguação de conhecimento e interpretações dos sinais visuais, envolvendo
improviso e negociação.

Ao final deste percurso que empreendemos pelos caminhos do presépio, debruçando-nos


sobre o universo de uma imagem devocional, podemos dizer que não há um desfecho definido
para nossas investigações. Na medida em que este estudo foi se constituindo, novas reflexões
somaram-se as iniciais e outras, ainda, ficaram latentes. O presépio, em seu aspecto dinâmico e
plural mostra-se, assim, amplamente, como um campo aberto para tantas outras abordagens e
investigações.

XCV
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C
ANEXOS

1..Lena em seu cômodo reservado para o presépio

2. Objetos esculpidos em madeira no presépio de Messias

CI
Objetos em madeira no presépio de seu Nilo

CII
3.Presépio de Conselheiro Paulino Detalhe

detalhe

Presépio de Rio Grandina

CIII
4.Coroa no Presépio de Lena

5.Presépio de Dona Maria e Seu Valdir-Pirapora-MG

CIV
Visão geral do presépio

CV
CVI

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