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HEINRICH RHEINBOLDT E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES


SECUNDÁRIOS DE QUÍMICA NO INÍCIO DA FFCL

Rodrigo Magalhães Arena – Faculdade de Educação da USP

Ermelinda Moutinho Pataca – Faculdade de Educação da USP

E-mail para contato: rodrigoarena@hotmail.com

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq

Eixo 5: Políticas e práticas no Ensino Superior

Categoria: Comunicação Oral

RESUMO: No alvorecer da década de 1930, a sociedade estava em um


processo de industrialização e tinha uma concentração muito densa nos
principais centros urbanos, o que contribuiu para uma exigência maior em
relação à educação, pois se argumentava que... um povo melhor educado,
geraria uma mão de obra mais distinta. Além de qualificar a mão de obra, os
profissionais que formariam essas pessoas também precisavam ser bem
instruídos. Nesse âmbito, a formação de professores passou a ser de grande
importância. A recém-criada Universidade de São Paulo tinha em sua fundação
um dos objetivos de formar professores para a escola secundária, e o professor
Heinrich Rheinboldt (1891 – 1955), que foi o primeiro professor e idealizador do
curso de Química, desempenhou um papel importante para a formação dos
profissionais da área no período, influenciando também outras universidades
vindouras. Esse trabalho busca através de uma análise documental investigar
quais foram as áreas de atuação dos primeiros químicos formados por
Rheinboldt e como esse aspecto se relaciona com a proposta de formação
universitária. Com esse trabalho foi possível questionar quantos químicos
professores foram formados nos anos iniciais do curso, e colocar em xeque um
dos objetivos da universidade.

Palavras Chave: Rheinboldt, Formação de Professores, Ensino de Química.

1 Introdução: Uma breve história do ensino superior no Brasil e a


criação da Universidade de São Paulo.

No alvorecer da década de 1930, a sociedade estava em um processo


de industrialização e tinha uma concentração muito densa nos principais centros
urbanos, o que contribuiu para uma exigência maior em relação à educação, pois
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um povo melhor educado, geraria uma mão de obra mais qualificada. E foi na
região sudeste, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro, onde essa demanda foi
mais acentuada (CACETE, 2014).

A respeito dos primórdios do ensino superior no país, deu-se inicialmente


sob a forma de cadeiras que foram sucedidas por cursos, posteriormente por
escolas e por faculdades de medicina, direito, engenharia, agronomia, etc., na
qual a formação profissional do aluno era o foco principal, para poder suprir a
necessidade de mão de obra qualificada. Não existiam ainda estudos superiores
de humanidades, ciências ou letras e essa situação só mudaria a partir de uma
série de decretos feitos pelo ministro da Educação e Saúde, Francisco Campos,
chamada Reforma Francisco Campos, que foi um subproduto da revolução de
1930 (CACETE, 2014).

A partir desses decretos, o que era o ensino superior brasileiro, deveria


ser ministrado na universidade a partir de uma Faculdade de Educação, Ciências
e Letras, com o foco de formar professores secundários. Para Francisco
Campos, “O ensino no Brasil é um ensino sem professores, isto é, em que os
professores criam a si mesmos, e toda a nossa cultura é puramente autodidata”
(Exposição de motivos do ministro Francisco Campos sobre a reforma do ensino
superior, Diário Oficial, de 15 de abril de 1932, apud FÁVERO, 2000)

Em 25 de janeiro de 1934, o Decreto 6.284 instituiu a Universidade de


São Paulo, e segundo Cardoso (1982), as vertentes por trás dessa fundação não
são de iniciativas educacionais renovadoras, e sim produto de um projeto político
e ideológico de seus fundadores desde o início. Ao contrário do que deveria ser
o foco principal da universidade, foi estabelecida a principal missão da mesma:
a formação de uma elite intelectual e dirigente em São Paulo.

Nesse âmbito, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) foi


concebida com a intenção de privilegiar a criatividade, ênfase em pesquisas e
como consequência dessas atividades, novos enfoques no ensino. Nota-se que
uma faculdade de educação não foi contemplada no plano inicial.
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Sobre os primeiros cursos oferecidos na FFCL, eram todos de três anos


de duração e aos graduados era conferida a “licença cultural ou científica”, ou
seja, o diploma de Licenciado. A respeito desses anos iniciais e da formação de
professores, Paschoal Senise nos apresenta:

[...] no início das atividades, aos formados era facultado realizar um


curso de um ano no Instituto de Educação para obter o diploma de
professor secundário. Com a extinção desse Instituto e incorporação
dos docentes à FFCL, a complementação pedagógica passou a ser
feita na própria Faculdade no Curso de Didática, vinculado a uma nova
Secção, a de Educação. O curso podia ser realizado simultaneamente
com as disciplinas do terceiro ano (SENISE, 2006, p. 17)

Cabe ressaltar nessa fala de Senise que era permitido aos alunos
fazerem as especializações e disciplinas de didática, e não era algo que estava
ligado diretamente às diretrizes do curso. Um aluno poderia ou não fazer tais
disciplinas complementares.

Para compor as cadeiras da recém-inaugurada instituição, Theodoro


Ramos que havia sido nomeado o primeiro diretor da FFCL, foi incumbido de
contratar os primeiros professores. Em uma viagem que passou por Itália, França
e Alemanha, Ramos foi o responsável por entrar em contato com profissionais
das áreas acadêmicas, e um desses professores foi Heinrich Rheinboldt, que
tinha 43 anos quando foi nomeado para a cadeira de química da USP.

Nascido em 11 de agosto de 1891 em Karlsruhe, Alemanha. Estudou na


Escola Superior Técnica de Karlsruhe e completou seus estudos de graduação
na Universidade de Estrasburgo, onde também obteve o doutorado em 1918.
Em 1922 já era professor na Universidade de Bonn. Chegou ao Brasil em 1934
contratado pela USP para a cadeira de Química da FFCL (SENISE, 2006).

O início de suas atividades como professor na FFCL ocorreu no ano de


1935, e o programa inicial do curso era voltado para a formação de professores
e compreendia as disciplinas: Química Física, Inorgânica, Analítica, Química
Orgânica, Biológica e História da Química. Embora não compreenda em sua
grade disciplinas de didática e voltadas para a formação de professores em si
(tais disciplinas deveriam ser feitas sob a escolha do aluno no Instituto de
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Educação de São Paulo e posteriormente no departamento de Educação da


FFCL), nessas aulas dava-se uma ênfase na compreensão do conjunto de ideais
e objetos da química, o que na época era justificado pelo curso ser de formação
de professores (TOGNETTI, 2006). Rheinboldt iniciou suas aulas ministrando a
maioria das disciplinas, mas percebeu que os alunos não estavam interessados
em se formar professores, e sim se formarem e seguir carreira na área da
indústria ou laboratórios (TOGNETTI, 2006). Nesse ponto os interesses dos
alunos e do curso em questão entraram em conflito. Sobre as aulas de
Rheinboldt, Senise diz o seguinte:
[...] Logo na primeira aula a mesa do professor, repleta de
aparelhagem, utilizada com maestria e elegância, causou grande
impacto na platéia. Com o correr do tempo (diria até mesmo dos anos)
a admiração pela extraordinária capacidade didática de Rheinboldt se
refletia em todas as turmas. Os alunos sentiam-se cativados e
assistiam sem arredar pé aquelas “preleções experimentais” (como
eram chamadas pelo mestre) de uma hora e meia de duração e muitas
vezes até de cerca de duas horas (SENISE, 2006, p. 26).

Em suas aulas, Rheinboldt utilizava amplamente seu livro publicado


Chemische Unterrichtsversuche (Imagem 1), que apresentava diversas práticas
para se fazer em laboratório, de forma didática que serviria como manual para
os alunos. Ele retirava as informações do livro e montava um roteiro para os
alunos acompanharem as práticas e formassem seu próprio material de ensino.

Imagem 1:

Capa e exemplo de prática descrita no livro Chemische Unterrichtsversuche,


mostrando uma prática de hidrogenação catalítica – Fonte: RHEINBOLDT,
1934.
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2 Metodologia

Para o levantamento das informações, fora escolhida uma abordagem


quantitativa que segundo Flick (2013), proporciona um melhor entendimento do
que está sendo estudado. Seguindo tal metodologia, fora possível pinçar as
informações sobre o destino dos alunos de Rheinboldt em revistas como a do
Centenário de Heinrich Rheinboldt 1891-1991, Ciência Hoje, Cem anos de
Tecnologia Brasileira, Cem anos de Química no Brasil e nos sites da USP e
Unesp. Essas revistas e sites foram escolhidos por conterem a maior quantidade
de informações sobre esses alunos.

A partir destas fontes, foi feito um levantamento inicial sobre quem foram
esses alunos formados, dados que obtive nos anuários da FFCL encontrados no
Centro de Apoio à Pesquisa em História “Sérgio Buarque de Holanda” –
CAPH/USP. A pesquisa foi concentrada nos alunos formados desde o ano de
1937 (primeira turma) até 1949, ano em que Rheinboldt passou a desempenhar
outros papéis na área acadêmica brasileira, e não apenas como professor
formador. Um problema enfrentado nessa coleta fora a dificuldade de encontrar
todos os alunos graduados por Rheinboldt. Isso pode ser devido a alguns se
afastarem do meio acadêmico ou industrial, não deixando rastros de suas
atividades posteriores.

As informações obtidas foram organizadas em forma de tabela com as


quatro principais formas de atuação do químico na época, o nome e o ano de
graduação do aluno.

3 Resultados e discussões

A partir da coleta de dados foi possível montar a seguinte tabela:


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Tabela 1:
Principais áreas de atuação após a formação
Professor Professor
Nome e ano de graduação Indústria Secundário Pesquisador universitário
Simão Mathias 1937 x x
Paschoal Ernest Senise 1937 x x
Jandyra França 1937 x
Luciano Berzaghi 1937 x
Pedro Santini 1938 x
Francisco Mattos Mazzei 1939 x
Francisco Antônio Berti 1939 x x
Blanka Wladislaw 1941 x x
Marcelo de Moura Campos 1942 x x
Luciano Francisco Pacheco
de Amaral 1942 x x
Waldemar Saffioti* 1942 x x x
Carlos Perego 1943 x x
Ernesto Giesbrecht 1943 x x
Adolfo Max Rotschild 1947 x
Remolo Ciola 1948 x
Roberto Moraes Pitombo** 1949 x x x

Nessa tabela, estão organizadas as informações dos alunos formados


com o maior número de informações. Cabe ressaltar que os alunos mencionados
são falecidos e as informações presentes aqui são de ordem pública. Como dito
por Rheinboldt, seus primeiros alunos não estavam interessados em se formar
professores, e sim, seguirem carreira como químicos industriais, porém, com
exceção de Luciano Berzaghi, os outros três alunos da primeira turma seguiram
carreira acadêmica, Senise e Mathias se tornaram assistentes de Rheinboldt na
USP e Jandyra França se tornou pesquisadora. A divisão entre os professores
universitários e pesquisadores se deu principalmente pelo local onde esses
profissionais foram trabalhar. O que foi considerado para a tabela, são os que
foram trabalhar em institutos de pesquisa.

Com relação aos que se tornaram professores de escolas secundárias


temos apenas três que têm documentação a respeito e podemos traçar seus
passos. O que vale destacar a respeito desses professores, é que os três fizeram
carreira na educação, sendo professores secundários e encerrando suas
atividades em universidades de renome no estado. Um destaque para Waldemar
Saffioti que foi diretor do Instituto de Química de Araraquara de 1984 a 1988 e
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para Roberto Moraes Pitombo que ajudou na estruturação do curso de


Licenciatura em Química da FFCL.

4 Considerações finais

Com o desinteresse dos alunos em se formar professores, Rheinboldt


propôs mudanças no curso, alterando sua estrutura, aprofundando em aulas de
química analítica aumentando a carga horária de aulas práticas também. Para
ele, o bom químico era formado dependendo da quantidade de tempo que se
passava no laboratório, ou seja, o curso que inicialmente contava com nenhuma
disciplina obrigatória para a formação didática dos alunos, agora teve sua carga
mais reduzida.

Muitos alunos passaram pela tutela de Rheinboldt e os outros que não


fora possível rastrear podem ter sido professores secundários, mas não foram
encontradas fontes para confirmar essas informações, além de que os registros
deixados por professores secundários podem não ter o mesmo alcance que os
de professores universitários. Não cabe a esse trabalho questionar a importância
desses pesquisadores para o avanço da química no Brasil, nem suas
competências como professores universitários, mas sim observar e questionar
forma como esses professores foram formados, tendo em vista que as aulas de
cunho didáticos eram facultativas. São profissionais altamente capacitados em
suas áreas, porém, no que diz respeito a conhecimentos pedagógicos pode-se
citar novamente a fala de Francisco Campos, que são autodidatas como
professores, o que para ele, era um problema. Embora Rheinboldt apresentasse
aulas de forma muito didática (SENISE, 2006) seus alunos podem não ter tido a
mesma desenvoltura quando se tornaram professores universitários ou
secundários.

Atualmente, o Instituto de Química da USP em São Paulo, conta com


dois cursos de Bacharel e Licenciatura em Química (integral e noturno) onde são
oferecidas 60 vagas para alunos por período e que o aluno escolhe a partir do
segundo semestre, qual área focar na sua formação. Os cursos apresentam 39
créditos de disciplinas com o foco da formação de professores, e as principais
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disciplinas com relação ao ensino, são ministradas na Faculdade de Educação


da USP, algo que foi idealizado por Francisco Campos nos anos iniciais da desta
Universidade.

REFERÊNCIAS

CACETE, Núria Hanglei. Breve história do ensino superior brasileiro e da


formação de professores para a escola secundária. Educ. Pesqui.[online].
2014, vol.40, n.4, pp.1061-1076.
CARDOSO, Irene de Arruda Ribeiro. A universidade da comunhão paulista.
São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1982. (Coleção educação
contemporânea. (Memória da educação).
FÁVERO, Maria de Lourdes de. Universidade e poder: análise crítica/
fundamentos históricos: 1930-1945. Brasília: Plano, 2000
FFCL-USP. Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
Universidade de São Paulo. São Paulo: FFCL/SP, 1935

FLICK, Uwe. Introdução à metodologia da pesquisa: um guia para


iniciantes. Porto Alegre: Penso, 2013

RHEINBOLDT, Heinrich. Chemische Unterrichtsversuche. Journal of


Chemical Education, 1934
SENISE, Paschoal. Origem do Instituto de Química da USP: reminiscências
e comentários. São Paulo: Instituto de Química da Universidade de São
Paulo, 2006.
TOGNETTI, Valdirene Aparecida. A constituição da pesquisa cientifica em
química na universidade de São Paulo: uma análise preliminar. 2006. Pós-
Graduação Stricto Sensu – Universidade São Francisco, Itatiba.

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