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Pré-Modernismo

O período literário conhecido como Pré-Modernismo aconteceu, no Brasil, de 1902 a 1922 e


estabeleceu como limites as obras Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Canaã, de Graça
Aranha. A expressão pré-modernismo foi criada pelo crítico literário Alceu de Amoroso Lima,
mais conhecido por seu pseudônimo Tristão de Athayde, que o usou, pela primeira vez, em sua
obra Contribuição à História do Modernismo, publicada em 1939. Os principais autores do
período foram Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos.

Assim como o Romantismo, o Pré-Modernismo caracterizava-se pela temática nacionalista; o


primeiro, com textos de cunho ufanista e o segundo, com um nacionalismo crítico,
questionador. Euclides da Cunha usou sua obra para apresentar ao leitor o massacre no Arraial
de Canudos, Lobato nacionalizou a literatura infantil, Lima Barreto retratou a realidade dos
subúrbios cariocas, Augusto dos Anjos aliou elementos simbolistas e parnasianos ao
vocabulário científico.

Esta literatura nacionalista era um paradoxo no início do século XX, quando o Brasil estava
ainda influenciado pela Belle Epoque (período que vai de 1885 a 1918, quando Paris serve de
modelo para a cultura e o comportamento). O Rio de Janeiro era a capital da República e o
dinheiro da agricultura de café patrocinava o projeto de urbanização pelo qual passava a
cidade – como a construção do Teatro Municipal e a abertura da Avenida Central, atual
Avenida Rio Branco. A literatura pré-modernista surgia, então, como o oposto ao fausto da
cidade, e trazia um novo “descobrimento do Brasil”, que só se concretizaria anos mais tarde
com a literatura modernista.

Pré-Modernismo – Euclides da Cunha


O Pré-Modernismo aconteceu no período de 1902 a 1922 e seu marco inicial foi a publicação
da obra Os sertões, de Euclides da Cunha. Alceu de Amoroso Lima foi o primeiro a usar a
expressão pré-modernismo às obras publicadas naquele período, fato que só ocorreu em 1939
com a publicação de Contribuição à História do Modernismo. A literatura que antecedeu a
Semana de 22 pouco tinha de inovadora. A crítica rotulava os poucos autores que surgiam de
“neos” – neoparnasianos, neossimbolistas e neorromanticos. Os romances de Lima Barreto e
Graça Aranha e os ensaios sociais de Euclides da Cunha deram o tom da literatura brasileira
nas duas primeiras décadas do século XX.

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo (RJ) em 1866 e faleceu, na capital
fluminense em 1909, após ser baleado por Dilermando de Assis. Como defensor confesso da
República, foi expulso do Exército após ter lançado ao longe o sabre de cadete diante do
Ministro da Guerra, que visitava a Escola Militar no Rio de Janeiro. Escapou de ser julgado
perante o Conselho de Guerra devido ao perdão concedido por D. Pedro II.
Em 1892, formou-se engenheiro militar pela Escola Superior de Guerra. Após a formatura,
passou a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil. Em 1897, passou a contribuir com o
jornal O Estado, para o qual escreveu artigos sobre Anchieta e alguns comentários sobre a
Guerra de Canudos. Alguns meses depois, o jornal mandou-o a Canudos para acompanhar as
campanhas do Exército contra os conselheiristas. Euclides permaneceu na Bahia de agosto a
outubro de 1897 e lá mesmo pôs-se a escrever sua obra-prima, Os sertões, que rendeu ao
escritor uma vaga no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e na Academia Brasileira de
Letras.

Obras

Em Os sertões, Euclides faz uma descrição minuciosa da região do conflito, a vida do homem
sertanejo e da luta ali travada.

A obra-prima de Euclides foi organizada em três partes: A Terra, O Homem e A Luta. Na


primeira, o escritor dedicou-se a detalhar o caminho para Monte Santo, o clima, as hipóteses
sobre a gênese da seca; na segunda, ele expôs o que chamou de “problema etnológico do
Brasil”, a formação das raças, a gênese dos jagunços, a função histórica do rio São Francisco, as
causas favoráveis à mestiçagem nos sertões, o papel de Antônio Conselheiro na Guerra de
Canudos, os agrupamentos religiosos; por fim, na terceira parte, escreveu com detalhes sobre
os confrontos entre conselheiristas e republicanos.

Trecho do Livro:

Quando se tornou urgente pacificar o sertão de Canudos, o governo da Bahia estava a braços
com outras insurreições. A cidade de Lençóis fora investida por atrevida malta de facínoras, e
as suas incursões alastravam-se pelas Lavras Diamantinas; o povoado de Brito Mendes caíra às
mãos de outros turbulentos; e em Jequié se cometiam toda a sorte de atentados. (CUNHA,
1973, p.13)

Pré-Modernismo: Monteiro Lobato

José Bento Renato Monteiro Lobato (Taubaté, 18 de abril de 1882 – São Paulo, 4 de julho de
1948) foi um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX. Foi um importante editor
de livros inéditos e autor de importantes traduções. Seguido a seu precursor Figueiredo
Pimentel ("Contos da Carochinha") da literatura infantil brasileira,
Contista, ensaísta e tradutor, este grande nome da literatura brasileira nasceu na cidade de
Taubaté, interior de São Paulo, no ano de 1882. Formado em Direito, atuou como promotor
público até se tornar fazendeiro, após receber herança deixada pelo avô. Diante de um novo
estilo de vida, Lobato passou a publicar seus primeiros contos em jornais e revistas, sendo que,
posteriormente, reuniu uma série deles em Urupês, obra prima deste famoso escritor.

Em uma época em que os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa, Monteiro
Lobato tornou-se também editor, passando a editar livros também no Brasil. Com isso, ele
implantou uma série de renovações nos livros didáticos e infantis.

Este notável escritor é bastante conhecido entre as crianças, pois se dedicou a um estilo de
escrita com linguagem simples onde realidade e fantasia estão lado a lado. Pode-se dizer que
ele foi o precursor da literatura infantil no Brasil.

Obras

Monteiro Lobato ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra de livros
infantis, que constitui aproximadamente a metade da sua produção literária. A outra metade,
consistindo de contos (geralmente sobre temas brasileiros), artigos, críticas, crônicas,
prefácios, cartas, um livro sobre a importância do petróleo e do ferro, e um único romance, O
Presidente Negro, o qual não alcançou a mesma popularidade que suas obras para crianças,
que entre as mais famosas destacam-se Reinações de Narizinho (1931), Caçadas de Pedrinho
(1933) e O Pica-Pau Amarelo (1939).

Suas personagens mais conhecidas são: Emília, uma boneca de pano com sentimento e ideias
independentes; Pedrinho, personagem que o autor se identifica quando criança; Visconde de
Sabugosa, a sábia espiga de milho que tem atitudes de adulto, Cuca, vilã que aterroriza a todos
do sítio, Saci Pererê e outras personagens que fazem parte da inesquecível obra: O Sítio do
Pica-Pau Amarelo, que até hoje encanta muitas crianças e adultos.

Escreveu ainda outras incríveis obras infantis, como: A Menina do Nariz Arrebitado, O Saci,
Fábulas do Marquês de Rabicó, Aventuras do Príncipe, Noivado de Narizinho, O Pó de
Pirlimpimpim, Reinações de Narizinho, As Caçadas de Pedrinho, Emília no País da Gramática,
Memórias da Emília, O Poço do Visconde, O Pica-Pau Amarelo e A Chave do Tamanho.

Fora os livros infantis, este escritor brasileiro escreveu outras obras literárias, tais como: O
Choque das Raças, Urupês, A Barca de Gleyre e o Escândalo do Petróleo. Neste último livro,
demonstra todo seu nacionalismo, posicionando-se totalmente favorável a exploração do
petróleo apenas por empresas brasileiras.

A carreira

Criado em um sítio, Monteiro Lobato foi alfabetizado pela mãe Olímpia Augusta Lobato e
depois por um professor particular. Aos sete anos, entrou em um colégio. Nessa idade
descobrira os livros de seu avô materno, o Visconde de Tremembé, dono de uma biblioteca
imensa no interior da casa. Leu tudo o que havia para crianças em língua portuguesa. Nos
primeiros anos de estudante já escrevia pequenos contos para os jornaizinhos das escolas que
frequentou.

Aos onze anos, em 1893, foi transferido para o Colégio São João Evangelista. Ao receber como
herança antecipada uma bengala do pai, que trazia gravada no castão as iniciais J.B.M.L.,
mudou seu nome de José Renato para José Bento, a fim de utilizá-la. No ano seguinte, os pais o
presentearam com uma calça comprida, que usou bastante envergonhado. Em dezembro de
1896 foi para São Paulo e, em janeiro de 1897, prestou exames das matérias estudadas na
cidade natal, mas foi reprovado no curso preparatório e retornou a Taubaté.

Quando retornou ao Colégio Paulista, fez as suas primeiras incursões literárias como
colaborador dos jornaizinhos "Pátria", "H2S" e "O Guarany", sob o pseudônimo de Josben e
Nhô Dito. Passou a colecionar avidamente textos e recortes que o interessavam, e lia bastante.
Em dezembro prestou novamente os exames para o curso preparatório e foi aprovado.
Escreveu minuciosas cartas à família, descrevendo a cidade de São Paulo. Colaborou com "O
Patriota" e "A Pátria". Então, se mudou de vez para São Paulo, e tornou-se estudante interno
do Instituto Ciências e Letras.

No ano seguinte, a 13 de junho de 1898, perdeu o pai, José Bento Marcondes Lobato, vítima
de congestão pulmonar. Decidiu, pela primeira vez, participar das sessões do Grêmio Literário
Álvares de Azevedo do Instituto Ciências e Letras. Sua mãe, vítima de uma depressão
profunda, veio a falecer no dia 22 de junho de 1899.

Tendo forte talento para o desenho, pois desde menino retrata a Fazenda Buquira, tornou-se
desenhista e caricaturista nessa época. Em busca de aproveitar as suas duas maiores paixões,
decidiu ir para São Paulo após completar 17 anos.

Seu sonho era a Escola de Belas-Artes, mas, por imposição do avô, que o tinha como um
sucessor na administração de seus negócios, acabou ingressando na Faculdade do Largo de
São Francisco para cursar Direito. Mesmo assim seguiu colaborando em diversas publicações
estudantis e fundou, com os colegas de sua turma, a "Arcádia Acadêmica", em cuja sessão
inaugural fez um discurso intitulado: Ontem e Hoje. Lobato, a essas alturas, já era elogiado por
todos como um comentarista original e dono de um senso fino e sutil, de um "espírito à
francesa" e de um "humor inglês" imbatível, que carregou pela vida afora. Dois anos depois, foi
eleito presidente da Arcádia Acadêmica, e colaborou com o jornal "Onze de Agosto", onde
escreveu artigos sobre teatro. De tais estudos surgiu, em 1903, o grupo O Cenáculo, fundado
junto com Ricardo Gonçalves, Cândido Negreiros, Godofredo Rangel, Raul de Freitas, Tito Lívio
Brasil, Lino Moreira e José Antônio Nogueira.

Era anticonvencional por excelência, dizendo sempre o que pensava, agradasse ou não.
Defendia a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos, quaisquer que fossem as
consequências. Venceu um concurso de contos, sendo que o texto Gens Ennuyeux foi
publicado no jornal "Onze de Agosto". (11/08).

O advogado
Em 1904, diplomou-se bacharel em Direito e regressou a Taubaté. No ano seguinte fez planos
de fundar uma fábrica de geleias, em sociedade com um amigo, mas passou a ocupar
interinamente a promotoria de Taubaté e conheceu Maria Pureza da Natividade de Souza e
Castro ("Purezinha"). Em maio de 1907 foi nomeado promotor público em Areias, e casou-se
com Purezinha, a 28 de março de 1908. Exatamente um ano depois nasceu Marta, a
primogênita do casal. Insatisfeito com a vida bucólica de Areias, planejou abrir um
estabelecimento comercial de secos e molhados.

Em 1910 associou-se a um negócio de estradas de ferro e nasceu o seu segundo filho, Edgar.
Viveu no interior e nas cidades pequenas da região, escrevendo paralelamente para jornais e
revistas, como A Tribuna de Santos, Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro e a revista Fon-Fon,
para onde também mandava caricaturas e desenhos. Passou a traduzir artigos do Weekly
Times para o jornal O Estado de São Paulo, e obras da literatura universal, também enviando
artigos para um jornal de Caçapava. Contudo, era visível a sua insatisfação com a vida que
levava e com os negócios que não prosperavam.

No ano seguinte, aos 29 anos, Lobato recebeu a notícia do falecimento de seu avô, o Visconde
de Tremembé, tornando-se então herdeiro da Fazenda Buquira, para onde se mudou com toda
a família. De promotor a fazendeiro, dedicou-se à modernização da lavoura e à criação. Com o
lucro dos negócios, abriu um externato em Taubaté, que confiou aos cuidados de seu cunhado.
Em 1912 nasceu Guilherme, o seu terceiro filho. Ainda insatisfeito, mas desta vez com a vida
na fazenda, planejou explorar comercialmente o Viaduto do Chá, na cidade de São Paulo, em
parceria com Ricardo Gonçalves.

A fama

Em 12 de novembro de 1912, o jornal O Estado de São Paulo, na sua edição vespertina (O


Estadinho), publicou o seu artigo Velha Praga. Era véspera de Natal quando o mesmo jornal
publicou um conto daquele que mais tarde seria o seu primeiro livro, Urupês. Na Vila de
Buquira, hoje município de Monteiro Lobato (São Paulo), nessa mesma época, envolveu-se
com a política e logo a deixou de lado. Sua quarta e última filha, Rute, nasceu em fevereiro de
1916, quando iniciava colaboração na recém fundada Revista do Brasil. Era uma publicação
nacionalista que agradou em cheio o gosto de Lobato.

Somente em 1914, como fazendeiro em Buquira, um fato definiria de vez a sua carreira
literária: durante o inverno seco daquele ano, cansado de enfrentar as constantes queimadas
praticadas pelos caboclos, o fazendeiro escreveu uma "indignação" intitulada Velha Praga, e a
enviou para a seção Queixas e Reclamações do jornal O Estado de S. Paulo, edição da tarde, o
"Estadinho". O jornal, percebendo o valor daquela carta, publicou-a fora da seção que era
destinada aos leitores, no que acertou, pois a carta provocou polêmica e fez com que Lobato
escrevesse outros artigos como, por exemplo, Urupês, dando vida a um de seus mais famosos
personagens, o Jeca Tatu.
Jeca era um grande preguiçoso, totalmente diferente dos caipiras e índios idealizados pela
literatura romântica de então. Seu aparecimento gerou uma enorme polêmica, em todo o país,
pois o personagem era símbolo do atraso e da miséria que representava o campo no Brasil.

Tendo assim caracterizado o caipira caboclo, "um piraquara do Paraíba", (morador ribeirinho
ao Rio Paraíba do Sul), no conto "Urupês":

A Verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade
e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígine de tabuinha em beiço, uma existe a
vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe
de pé. Pobre Jeca Tatu! Como é bonito no romance e feio na realidade! Jeca Tatu é um
Piraquara do Paraíba, maravilhoso epitome de carne onde se resumem todas as características
da espécie. O fato mais importante da vida do Jeca é votar no governo. A modinha, como as
demais manifestações de arte popular existente no país, é obra do mulato, em cujas veias o
sangue recente do europeu, rico de ativismos estéticos, borbulha d´envolta com o sangue
selvagem, alegre e são do negro. O caboclo é soturno. Não canta senão rezas lúgubres. Não
dança senão o cateretê aladainhado. O caboclo é o sombrio Urupê de pau podre a modorrar
silencioso no recesso das grotas. Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo
reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez sem ela se pusesse de pé e andasse.
Mas enquanto dispuser de uma pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre
brasas, Jeca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade
ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda,
essa joia de esforço, é que ali nada o favorecia.!— Monteiro Lobato.

O piraquara do rio Paraíba do Sul ainda existe. Foi estudado e retratado, em 2002, por Camila
Hayashi, Karina Muller e Noêmia Alves, no livro "Nas Márgens do Paraíba, Vida, histórias e
crenças dos habitantes da beira do rio Paraíba do Sul". Mantém ainda a preferência pela
mandioca: "Hoje dá até pra se plantar aqui. Milho, mandioca", diz o piraquara Benedito
Grabriel.

Monteiro Lobato conheceu apenas o caipira caboclo, e generalizou o comportamento destes


para todos os caipiras, causando então muita polêmica. Foi apoiado por Rui Barbosa e
contraditado pelo especialista em caipiras, o folclorista Cornélio Pires, que explicou que Lobato
só conheceu o caipira caboclo:

Coitado do meu patrício! Apesar dos governos os outros caipiras se vão endireitando à custa
do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene... Só ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e
ruim! Ele não tem culpa... Ele nada sabe. Foi um desses indivíduos que Monteiro Lobato
estudou, criando o Jeca Tatu, erradamente dado como representante do caipira em geral!

— Cornélio Pires

Rui Barbosa, em 20 de março de 1919, em uma conferência sobre a Questão Social e Política
no Brasil, durante a útima eleição presidencial que disputou, disse sobre Monteiro Lobato:

Conheceis, por ventura, o Jeca Tatu, dos Urupês, do Monteiro Lobato, o admirável escritor
paulista? Tivestes, algum dia, ocasião de ver surgir, debaixo desse pincel de uma arte rara, na
sua rudeza, aquele tipo de uma raça, que, "entre as formaduras da nossa nacionalidade", se
perpetua, "a vegetar, de cócoras, incapaz de evolução e impenetrável ao progresso"?!

— Rui Barbosa

A partir daí, os fatos se sucederam: a geada, (sobre a qual deixou uma crônica), e as
dificuldades financeiras levaram-no a vender a fazenda Buquira, em 1916, e a partir com a
família para São Paulo, com o intuito de tornar-se um "escritor-jornalista". Fundou, em
Caçapava, a revista "Paraíba", e organizou, para o jornal "O Estado de São Paulo", uma imensa
e acalentada pesquisa sobre o saci. Lobato percorreu o interior de São Paulo, durante a
Grande Geada de 1918, escrevendo um importante crônica a respeito, impressionado que
ficou com a queima dos cafezais paulistas. Ainda em 1918, ano dos 4 G (Geada, Greve, I Guerra
Mundial e Gripe espanhola), Lobato, escrevia no jornal "O Estado de S. Paulo", o mais
importante jornal da capital, e, como todos os editorialistas acabaram pegando a gripe
espanhola, vários editoriais do jornal "O Estado", daqueles dias, foram escritos unicamente por
Lobato.

A Fazenda Buquira, a qual Lobato visitava na infância quando pertencia a seu avô, o Visconde
de Tremembé, e onde Lobato viu a geada, conheceu o caipira caboclo, e teve inspiração para
seus personagens e paisagens de seus livros (como a pequena cachoeira que inspirou o Reino
das Águas Claras), é atualmente centro de visitação, sendo que a casa-sede da fazenda ainda
se encontra em seu estado original, situada à margem da rodovia atualmente denominada
"Estrada do Livro", que liga a cidade de Monteiro Lobato à Caçapava.

Em 20 de dezembro publicou Paranoia ou Mistificação, a famosa crítica desfavorável à


exposição de pintura de Anita Malfatti, que culminaria como o estopim para a criação da
Semana de Arte Moderna de 1922. Muitos passaram a ver Lobato como reacionário, inclusive
os modernistas, mas hoje, após tantos anos, percebe-se que o que Lobato criticava eram os
"ismos" que vinham da Europa: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele achava
que eram "colonialismos", "europeizações", assim como ocorrera com os acadêmicos das
gerações anteriores.

Lobato era a favor de uma arte devidamente brasileira, autóctone, criada aqui. Por isso
criticou Anita Malfatti, embora admitisse que ela fosse talentosa. Isso tudo gerou o
estranhamento entre ele e os modernistas mas, no fundo, todos eles tinham razão, apenas
viam as coisas de ângulos diferentes. Mesmo assim Oswald de Andrade continuou a ser um
profundo admirador de Lobato: quando ocorrera a Semana de Arte Moderna, as provas de
Urupês ficaram dois dias em cima do sofá da garçonière onde Oswald de Andrade se
encontrava com os amigos.

Monteiro Lobato defendia a eugenia por acreditar que a miscigenação era um fator prejudicial
na formação do povo brasileiro. Seu livro, O Presidente Negro, descreve um conflito racial no
futuro, após a eleição de um negro para a presidência dos EUA.

Em carta a Renato Kehl, ele afirma:

A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha." — Monteiro Lobato[8][9]
O editor

Em 1918, Monteiro Lobato comprou a Revista do Brasil e passou a dar espaço para novos
talentos, ao lado de pessoas famosas. Tornou-se, dessa forma, um intelectual engajado na
causa do nacionalismo, a qual dedicou uma preocupação fundamental, tanto na ficção quanto
no ensaio e no panfleto. Crítico de costumes, no qual não faltava a nota do sarcasmo e da
caricatura, de sua obra elevou-se largo sopro de humanidade e brasileirismo. Nas mãos de
Monteiro Lobato, a Revista do Brasil prosperou e ele pode montar uma empresa editorial,
sempre dando espaço para os novatos e divulgando obras de artistas modernistas.

Lobato também foi precursor de algumas ideias muito interessantes no campo editorial. Ele
dizia que "livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês". Com isso em
mente, passou a tratar os livros como produtos de consumo, com capas coloridas e atraentes,
e uma produção gráfica impecável. Criou também uma política de distribuição, novidade na
época: vendedores autônomos e distribuidores espalhados por todo o país.

Primeiro seus livros foram publicados pela Editora da Revista do Brasil. Assim, o livro Urupês,
em sua sexta edição em 1920, está registrado "Ed. da Revista do Brasil, São Paulo, 1920". Na
última capa consta: "Director Monteiro Lobato, Secretario Alarico Caiuby", "A venda em todas
as livrarias e no escriptorio da Revista do Brasil".

Logo fundou a editora Monteiro Lobato & Cia., depois chamada Companhia Editora Nacional,
com a obra O Problema Vital, um conjunto de artigos sobre a saúde pública, seguido pela tese
O Saci Pererê: Resultado de um Inquérito. Privilegiava a edição de autores estreantes como a
senhora Leandro Dupré, com o sucesso "Éramos Seis". Traduziu também muitos livros e editou
obras importantes e polêmicas como "A Luta pelo Petróleo", de Essad Bey, para o qual fez uma
introdução tratando da questão do petróleo no Brasil.

Em julho de 1918, dois meses depois da compra, publicou em forma de livro Urupês, com
retumbante sucesso e alcançando grande repercussão ao dividir o país sobre a veracidade da
figura do caipira, fiel para alguns, exagerada para outros. O livro chamou a atenção de Rui
Barbosa que, num discurso, em 1919, durante a sua campanha eleitoral, reacendeu a polêmica
ao citar Jeca Tatu como um "protótipo do camponês brasileiro, abandonado à miséria pelos
poderes públicos". A popularidade fez com que Lobato publicasse, nesse mesmo ano, Cidades
Mortas e Ideias de Jeca Tatu.

Em 1920, o conto Os Faroleiros serviu de argumento para um filme dirigido pelos cineastas
Antônio Leite e Miguel Milani. Meses depois, publicou Negrinha e A Menina do Narizinho
Arrebitado, sua primeira obra infantil, e que deu origem a Lúcia, mais conhecida como a
Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo. O livro foi lançado em dezembro de 1920 visando
aproveitar a época de Natal. A capa e os desenhos eram de Lemmo Lemmi, um famoso
ilustrador da época.

Em janeiro de 1921, os anúncios na imprensa noticiaram a distribuição de exemplares


gratuitos de A Menina do Narizinho Arrebitado nas escolas, num total de 500 doações,
tornando-se um fato inédito na indústria editorial. Fora atendendo um pedido do presidente
de São Paulo, Dr. Washington Luís, de quem Lobato era admirador, que fizera o livro. O
sucesso entre as crianças gerou continuações: Fábulas de Narizinho (1921), O Saci (1921), O
Marquês de Rabicó (1922), A Caçada da Onça (1924), O Noivado de Narizinho (1924), Jeca
Tatuzinho (1924) e O Garimpeiro do Rio das Garças (1924), entre outros.

Tais novidades repercutiram em altas tiragens dos livros que editava, a ponto de dedicar-se à
editora em tempo integral, entregando a direção da Revista do Brasil a Paulo Prado e Sérgio
Millet. A demanda pelos livros era tão grande que ele importou mais máquinas dos Estados
Unidos e da Europa para aumentar seu parque gráfico. Porém, uma grave seca cortou o
fornecimento de energia elétrica, e a gráfica só podia funcionar dois dias por semana. Por fim,
o presidente Artur Bernardes desvalorizou a moeda e suspendeu o redesconto de títulos pelo
Banco do Brasil, gerando um enorme rombo financeiro e muitas dívidas ao escritor.

Lobato só teve uma escolha: entrou com pedido de falência em julho de 1925. Mesmo assim
não significou o fim de seu projeto editorial. Ele já se preparava para abrir outra empresa, a
Companhia Editora Nacional, em sociedade com Octalles Marcondes e, em vista disso,
transferiu-se para o Rio de Janeiro.

Os "produtos" dessa nova editora abrangiam uma variedade de títulos, inclusive traduções de
Hans Staden e Jean de Léry. Além disso, os livros garantiam o "selo de qualidade" de Monteiro
Lobato, tendo projetos gráficos muito bons e com enorme sucesso de público.

A partir daí, Lobato continuou escrevendo livros infantis de sucesso, especialmente com
Narizinho e outros personagens, como Dona Benta, Pedrinho, Tia Nastácia, o boneco de
sabugo de milho Visconde de Sabugosa e Emília, a boneca de pano.

Além disso, por não gostar muito das traduções dos livros europeus para crianças, e sendo um
nacionalista convicto, criou aventuras com personagens bem ligados à cultura brasileira,
recuperando inclusive costumes da roça e lendas do folclore.

Mas não parou por aí. Monteiro Lobato pegou essa mistura de personagens brasileiros e os
enriqueceu, '"misturando-os" a personagens da literatura universal, da mitologia grega, dos
quadrinhos e do cinema. Também foi pioneiro na literatura paradidática, ensinando história,
geografia e matemática, de forma divertida.

Em Nova Iorque

Em 1926, Lobato concorreu a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas acabou
derrotado. Era a segunda vez que isso acontecia. Na primeira vez, em 1921, iria concorrer á
vaga de Pedro Lessa, mas desistiu antes da eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos
acadêmicos para pedir seus votos. Desta vez, estava concorrendo à vaga do renomado jurista
João Luís Alves. Na primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na segunda, dois
votos no quarto. Em artigo à imprensa, Múcio Leão chegou a afirmar que esse "escritor de
talento fora duas vezes repelido". No mesmo ano saíram em folhetim os livros O Presidente
Negro (1926) e "How Henry Ford is Regarded in Brazil (1926).
Depois, enviou uma carta ao recém empossado Washington Luís, onde defendeu os interesses
da indústria editorial. O presidente, reconhecendo nele um representante promissor dos
interesses culturais do país, nomeou-o adido comercial nos Estados Unidos, em 1927. Lobato
escreve confirmando a tese de Washington Luís de que "Governar é abrir Estradas", as quais
Lobato atribui o progresso dos Estados Unidos. Lobato ficara impressionado com a quantidade
e qualidade das estradas norte americanas. Monteiro Lobato mudou-se para Nova York e
deixou a Companhia sob a direção de seu sócio, Octalles Marcondes Ferreira. Entusiasmado
com o progresso material que viu nos Estados Unidos, passou a acompanhar todas as
inovações tecnológicas estadunidenses e fez de tudo para convencer o governo brasileiro a
propiciar a criação de atividades semelhantes no Brasil. Com interesses voltados no que diz
respeito às questões de petróleo e ferro, planejou a fundação da Tupy Publishing Company.

Em Nova York escreveu Mr. Slang e o Brasil (1927), As Aventuras de Hans Staden (1927),
Aventuras do Príncipe (1928), O Gato Félix (1928), A Cara de Coruja (1928), O Circo de
Escavalinho (1929) e A Pena de Papagaio (1930). As obras infantis que datam dessa época
foram publicadas no Brasil e reunidas num único volume, intitulado Reinações de Narizinho
(1931).

Foi para Detroit no ano seguinte e, em visita à Ford e a General Motors, organizou uma
empresa brasileira para produzir aço pelo processo Smith. Com isso, jogou na Bolsa de Valores
de Nova Iorque e perdeu tudo o que tinha com a crise de 1929. Para cobrir suas perdas com a
quebra da Bolsa, Lobato vendeu suas ações da Companhia Editora Nacional em 1930. Voltou
para São Paulo em 1931 e passou a defender que o "tripé" para o progresso brasileiro seria o
ferro, o petróleo e as estradas para escoar os produtos.

Entusiasmado com Washington Luís e com seu candidato a presidente, em 1930, o Dr. Júlio
Prestes, que, como presidente de São Paulo, realizara explorações de petróleo em território
paulista, Lobato dá apoio irrestrito ao candidato Júlio Prestes nas eleições de 1930.

Em 28 de agosto de 1929, em carta ao dr. Júlio Prestes, Monteiro Lobato transmite-lhe votos
pela "vitória na campanha em perspectiva", afirmando que:

Sua política na presidência significará o que de mais precisa o Brasil: continuidade


administrativa!— Monteiro Lobato

Com a deposição de Washington Luís e o impedimento da posse de Júlio Prestes, começa a


antipatia de Lobato por Getúlio Vargas e seu infortúnio.

O petróleo

Após implantar a Companhia Petróleos do Brasil, e graças à grande facilidade com que foram
subscritas suas ações, Monteiro Lobato fundou várias empresas para fazer perfuração de
petróleo, como a Companhia Petróleo Nacional, a Companhia Petrolífera Brasileira e a
Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul, e a maior de todas (fundada em julho de 1938) a
Companhia Mato-grossense de Petróleo, que visava perfurar próximo da fronteira com a
Bolívia, país vizinho que já havia encontrado petróleo em seu território. Com isso Lobato
prejudicou os interesses de gente muito importante na política brasileira, e de grandes
empresas estrangeiras. Começava a luta que o deixou pobre, doente e desgostoso. Havia
interesse oficial em se dizer que no Brasil não havia petróleo. Tendo-os como adversários,
passou a enfrentá-los publicamente.

Por alguns anos, seu tempo foi dedicado integralmente à campanha do petróleo, e a sua
sobrevivência garantiu-se pela publicação de histórias infantis e da tradução magistral de livros
estrangeiros, como O Livro da Selva, de Rudyard Kipling (1933), O Doutor Negro, de Arthur
Conan Doyle (1934), Caninos Brancos (1933) e A Filha da Neve (1934), ambos de Jack London,
entre outros. Teimava em dizer que era preciso explorar o petróleo nacional para dar ao povo
um padrão de vida à altura de suas necessidades. Tentou, sem êxito, organizar uma companhia
petrolífera mediante subscrições populares.

Muitas dificuldades apareceram e, mesmo assim, sua produção literária manteve-se e chegou
ao ápice. Em América (1932) publicou as suas primeiras impressões sobre a luta na qual se
engajara. Em seguida vieram História do Mundo para Crianças (1933), Na Antevéspera e Emília
no País da Gramática (1934), na qual defendia uma gramática normativa revisada. Meses
depois, seu livro História do Mundo Para Crianças sofreu crítica, censura e perseguição da
Igreja Católica. O padre Sales Brasil escreveu um libelo contra Lobato chamado "A literatura
infantil de Monteiro Lobato ou comunismo para crianças".

Aceitou o convite para ingressar na Academia Paulista de Letras e, com isso, apresentou um
dossiê de sua campanha em prol do petróleo, O Escândalo do Petróleo (1936) , no qual
acusava o governo de "não perfurar e não deixar que se perfure". O livro esgotou várias
edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas proibiu e mandou
recolher todas as edições. Em seguida, morreu Heitor de Moraes, seu correspondente e
grande amigo.

Com isso, criou a União Jornalística Brasileira, uma empresa destinada a redigir e distribuir
notícias pelos jornais. Em fevereiro de 1939 morreu Guilherme, seu terceiro filho. Abalado,
Monteiro Lobato enviou uma carta ao ministro de Agricultura, que precipitara a abertura de
um inquérito sobre o petróleo. Recebeu convite de Getúlio Vargas para dirigir um ministério
de Propaganda, mas Lobato recusou. Numa outra carta ao presidente, fez severas críticas à
política brasileira de minérios . O teor da carta foi tido como subversivo e desrespeitoso e isso
fez com que fosse detido pelo Estado Novo, acusado de tentar desmoralizar o Conselho
Nacional do Petróleo, ironicamente presidido à época pelo general Horta Barbosa que foi o
responsável por colocar Lobato atrás das grades do Presídio Tiradentes e que, abraçando as
ideias de Lobato, se tornaria em 1947 um dos maiores líderes da nacionalista Campanha do
Petróleo. Lobato foi condenado a seis meses de prisão, e permaneceu encarcerado de março a
junho de 1941.

Uma campanha promovida por intelectuais e amigos conseguiu fazer com que Getúlio Vargas
concedesse o indulto que o libertaria, reduzindo a pena de seis para três meses na prisão.
Apesar disso, Lobato continuou sendo perseguido e o governo fazia de tudo para abafar suas
ideias. Foi então que passou a denunciar as torturas e maus tratos praticados pela polícia do
Estado Novo.
Curiosamente o petróleo no Brasil seria encontrado, por uma ironia da história, em um local
chamado Lobato (Salvador), em 1939, e, justamente pelo então ministro da agricultura Dr.
Fernando de Souza Costa, que fora justamente o secretário da agricultura do Dr. Júlio Prestes,
que, na década de 1920, procurara petróleo em São Paulo.

O fim

Mesmo em liberdade, Monteiro Lobato não teve mais tranquilidade, e seu filho mais velho,
Edgar, morreu em fevereiro de 1942, exatamente três anos depois do falecimento de
Guilherme.

Em 1943 foi fundada a Editora Brasiliense por Caio Prado Júnior, que negociou com Lobato a
publicação de suas obras completas. Logo em seguida, por ironia do destino, recusou a
indicação para a Academia Brasileira de Letras. Entretanto integrou a delegação paulista do I
Congresso Brasileiro de Escritores reunidos em São Paulo, que divulgou, no encerramento,
uma declaração de princípios exigindo legalidade democrática como garantia da completa
liberdade de expressão do pensamento e redemocratização plena do país.

Suas companhias foram liquidadas e a censura da ditadura faz com que Lobato se aproximasse
dos comunistas, chegando a receber convite do Partido Comunista para integrar a bancada de
candidatos. Foi na prisão, no Estado Novo, que Lobato fez seus primeiros contatos com os
comunistas. Lobato recusou o convite para entrar na vida pública, mas enviou uma nota de
saudação que foi lida por Luís Carlos Prestes num grande comício realizado em 1945, no
estádio do Pacaembu. Meses depois foi publicado Nasino, edição italiana de Narizinho,
ilustrada por Vincenzo Nicoletti. Em maio A Menina do Narizinho Arrebitado foi transformada
em radionovela para crianças pela Rádio Globo no Rio de Janeiro.

Tornou-se diretor do Instituto Cultural Brasil-URSS, mas foi obrigado a se afastar do cargo em
setembro de 1945, quando foi levado para ser operado às pressas de um cisto no pulmão. A
entrevista que concedeu ao Diário de São Paulo causou grande repercussão e, em 1946, muda-
se para Buenos Aires, na Argentina, "atraído pelos belos e gordos bifes, pelo magnífico pão
branco e fugindo da escassez que assolava o Brasil", conforme declarou à imprensa. Antes de
partir, tornou-se sócio da Editora Brasiliense a convite de Caio Prado Júnior que, na sua
editora, preparava as Obras Completas já traduzidas para o espanhol e editadas na Argentina.
Em outubro fundou a Editorial Acteon, com Manuel Barreiro, Miguel Pilato e Ramón Prieto. As
obras de Lobato caem em domínio público em 2018.

Voltou em 1947 por não se ambientar ao clima local e, em entrevista aos repórteres que o
aguardavam no aeroporto, classificou o governo de Eurico Gaspar Dutra de "Estado Novíssimo,
no qual a constituição seria pendurada (suspensa) num ganchinho no quarto dos badulaques".
Dessa indignação surgiu o seu último livro Zé Brasil, publicado pela Editorial Vitória, em que
Lobato mais uma vez reelaborava o seu personagem Jeca Tatu, transformando-o em
trabalhador sem-terra e esmagado pelo latifúndio. Diante da proibição das atividades do
Partido Comunista em todo o país, determinada pelo ministro da Justiça, escreveu A Parábola
do Rei Vesgo para um comício de protesto, lido e aclamado pela multidão reunida no Vale do
Anhangabaú, na noite de 18 de junho. O texto refletia o desencanto de Lobato com a
democracia restritiva do general Dutra. Em dezembro foi a Salvador assistir a opereta
Narizinho Arrebitado. Lobato escreveria novo libreto para o espetáculo, considerado a sua
última criação infantil. Publicou O Problema Econômico de Cuba, também a sua última
tradução.

Em abril de 1948 sofreu um primeiro espasmo vascular que afetou a sua motricidade. Mesmo
assim, afiliou-se à revista Fundamentos e publicou os folhetos De Quem É o Petróleo na Bahia
e Georgismo e Comunismo.

Dois dias após conceder a Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, a sua última entrevista, na
qual defendeu a Campanha de O Petróleo é Nosso, Monteiro Lobato sofreu um segundo
espasmo cerebral e faleceu às 4 horas da madrugada, no dia 4 de julho de 1948, aos 66 anos
de idade. Sob forte comoção nacional, seu corpo foi velado na Biblioteca Municipal de São
Paulo e o sepultamento realizado no Cemitério da Consolação.

O Repórter Esso, na voz de Heron Domingues, assim anunciou sua morte, depois de um
pequeno silêncio:

..E agora uma notícia que entristece a todos: Acaba de falecer o grande escritor patrício
Monteiro Lobato!— Heron Domingues

Sua vida e sua obra ainda hoje servem de inspiração e exemplo para milhares de crianças,
jovens e adultos do Brasil.

Disputa

Em 1996, os herdeiros de Monteiro Lobato tomaram a iniciativa de sugerir à Editora


Brasiliense, até então detentora única das obras (conforme acordo assinado entre Lobato e
Caio Prado Júnior em 1945) a reformulação dos livros e da coleção infantil, a fim de que
apresentassem um aspecto moderno com relação a ilustrações coloridas e nova paginação.

Essas tentativas continuaram em 1997 e fracassaram, simplesmente porque a editora não


efetuou o investimento necessário, continuando a publicar os livros com ilustrações em branco
e preto como fazia há décadas e continuou a fazer. Com isso, desde 1998, a obra de Monteiro
Lobato virou centro de uma polêmica entre a Brasiliense e os herdeiros, que a acusam de
negligenciar a obra. Há o desejo de uma divulgação maior e edições melhores. Entre os
editores há o desejo de reciclar o texto dos livros.

São várias as ações movidas pelos herdeiros contra a Brasiliense, como contrato de cessão a
terceiros (no caso à Editora Saraiva) e a publicação de um livro falsamente atribuído a
Monteiro Lobato, que a editora intitulou Contos Escolhidos, sem autorização da família. Por
outro lado, a Brasiliense alega ter um contrato ad infinitum assinado por Monteiro Lobato
quando vivo.

Em setembro de 2007, por meio de acordo com os herdeiros, o STJ estabeleceu a rescisão
contratual definitiva e concedeu à Editora Globo os direitos exclusivos sobre a obra de
Monteiro Lobato, até 2018, ano em que o legado do autor deverá entrar em domínio público,
pois se passarão 70 anos de sua morte.

Obra

Livros infantis

O livro que lançou Lobato foi "A menina do narizinho arrebitado", em 1920, nunca reeditado,
exceto em uma pequena edição fac simile em 1981, e hoje considerada uma obra rara tanto a
primeira edição quanto a edição fac simile. A maioria das histórias de seus livros infantis se
passavam no Sítio do Pica-pau Amarelo, um sítio no interior do Brasil, tendo como uma das
personagens a senhora dona da fazenda Dona Benta, seus netos Narizinho e Pedrinho e a
empregada Tia Nastácia. Esses personagens foram complementados por entidades criadas ou
animadas pela imaginação das crianças na história: a boneca irreverente Emília e o
aristocrático boneco de sabugo de milho Visconde de Sabugosa, a vaca Mocha, o burro
Conselheiro, o porco Rabicó e o rinoceronte Quindim.

No entanto, as aventuras na maioria se passam em outros lugares: ou num mundo de fantasia


inventados pelas crianças, ou em histórias contadas por Dona Benta no começo da noite. Esses
três universos são interligados para a histórias e lendas contadas pela avó naturalmente se
tornarem cenário para o faz-de-conta, incrementado pelo dia-a-dia dos acontecimentos no
sítio

- "De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro
é todo um mundo." - "É errado pensar que é a ciência que mata uma religião. Só pode com ela
outra religião." - "O livro é uma mercadoria como qualquer outra; não há diferença entre o
livro e um artigo de alimentação. (...) Se o livro não vende é porque ele não presta". - "Tudo
tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos."

Coleção Sítio do Pica-pau Amarelo

1921 - O Saci

1922 - Fábulas

1927 - As aventuras de Hans Staden

1930 - Peter Pan

1931 - Reinações de Narizinho

1932 - Viagem ao céu

1933 - Caçadas de Pedrinho

1933 - História do mundo para as crianças


1934 - Emília no país da gramática

1935 - Aritmética da Emília

1935 - Geografia de Dona Benta

1935 - História das invenções

1936 - Dom Quixote das crianças

1936 - Memórias da Emília

1937 - Serões de Dona Benta

1937 - O poço do Visconde

1937 - Histórias de Tia Nastácia

1939 - O Pica-pau Amarelo

1939 - O minotauro

1941 - A reforma da natureza

1942 - A chave do tamanho

1944 - Os doze trabalhos de Hércules (dois volumes)

1947 - Histórias diversas

Outros livros infantis

Alguns foram incluídos, posteriormente, nos livros da série O Sítio do Pica-pau Amarelo. Os
primeiros foram compilados no volume Reinações de Narizinho, de 1931, em catálogo apenas
como tal até os dias atuais.

1920 - A menina do narizinho arrebitado

1921 - Fábulas de Narizinho

1921 - Narizinho arrebitado (incluído em Reinações de Narizinho)

1922 - O marquês de Rabicó (incluído em Reinações de Narizinho)

1924 - A caçada da onça

1924 - Jeca Tatuzinho

1924 - O noivado de Narizinho (incluído em Reinações de Narizinho, com o nome de O


casamento de Narizinho)

1928 - Aventuras do príncipe (incluído em Reinações de Narizinho)


1928 - O Gato Félix (incluído em Reinações de Narizinho)

1928 - A cara de coruja (incluído em Reinações de Narizinho)

1929 - O irmão de Pinóquio (incluído em Reinações de Narizinho)

1929 - O circo de escavalinho (incluído em "Reinações de Narizinho, com o nome O circo de


cavalinhos)

1930 - A pena de papagaio (incluído em Reinações de Narizinho)

1931 - O pó de pirlimpimpim (incluído em Reinações de Narizinho)

1933 - Novas reinações de Narizinho

1938 - O museu da Emília (peça de teatro, incluída no livro Histórias diversas)

Tradução e adaptação de livros infantis

Lobato também traduziu e adaptou os livros infantis:

Contos de Grimm,

Novos Contos de Grimm,

Contos de Andersen,

Novos Contos de Andersen,

Alice no País das Maravilhas,

Alice no País dos Espelhos,

Robinson Crusoé,

Contos de Fadas e Robin Hood.

Livros para adultos

O Saci Pererê: resultado de um inquérito (1918)

Urupês (1918)

Problema vital (1918)

Cidades mortas (1919)

Ideias de Jeca Tatu (1919)

Negrinha (1920)
A onda verde (1921)

O macaco que se fez homem (1923)

Mundo da lua (1923)

Contos escolhidos (1923)

O garimpeiro do Rio das Garças (1924)

O Presidente Negro/O choque (1926)

Mr. Slang e o Brasil (1927)

Ferro (1931)

América (1932)

Na antevéspera (1933)

Contos leves (1935)

O escândalo do petróleo (1936)

Contos pesados (1940)

O espanto das gentes (1941)

Urupês, outros contos e coisas (1943)

A barca de Gleyre (1944)

Zé Brasil (1947)

Prefácios e entrevistas (1947)

Literatura do minarete (1948)

Conferências, artigos e crônicas (1948)

Cartas escolhidas (1948)

Críticas e outras notas (1948)

Cartas de amor (1948)

Trecho do livro “Reinações de Narizinho”

Numa casinha branca, lá no Sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de 60 anos.
Chama-se Dona Benta.
Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na
ponta do nariz, segue seu caminho pensando:

– Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto…

Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais
encantadora das netas – Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho, como todos
dizem.

Narizinho tem 7 anos, é morena como jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer uns
bolinhos de polvilho bem gostosos. Na casa ainda existem duas pessoas – Tia Nastácia, negra
de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante
desajeitada de corpo. Emília foi feita por Tia Nastácia, com olhos de retrós preto e
sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa. Apesar disso, Narizinho gosta muito dela;
não almoça nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha
entre dois pés de cadeira.

Influências

O Gato Félix, clássico da animação, teve um sósia impostor nas histórias do Sítio, Popeye
apareceu nos livros de Lobato como um mau sujeito, porque em 1930 o personagem era um
marinheiro encrenqueiro e mal-humorado, e só na metade da década de 1930 é que ele
mudou de personalidade.

Lobato ostensivamente revelava, em seus livros, as influências que recebeu diretamente dos
autores de obras infantis, desde os fabulistas clássicos, como Esopo e La Fontaine, aos
personagens dos desenhos animados que então surgiam nas telas do cinema, como Popeye e
sua trupe, o Gato Félix e outros.

As crianças do Sítio visitavam e eram visitados por todas personagens do imaginário literário,
e Peter Pan convivia ao lado de figuras folclóricas, como o Saci, tudo isto permeado pela forte
presença de uma característica então comum no meio rural: a tradição oral de "contar
histórias" - e quase sempre é assim que Tia Nastácia e Dona Benta introduzem aos leitores, os
novos assuntos que dão mote aos livros do autor.

Dentre os clássico explicitamente citados por Lobato, encontram-se Lewis Carroll, Carlo
Collodi (criador do Pinóquio) e J. M. Barrie, além de outros que, presume-se, tenham-no
influenciado diretamente, dadas as semelhanças, como L. Frank Baum (de O Mágico de Oz) e
Wilhelm Busch.

O Sítio na televisão

Os livros infantis de Monteiro Lobato foram transformados em cinco séries de televisão de


bastante sucesso. A primeira delas, na TV Tupi de São Paulo, foi exibida de 3 de junho de 1952
a 1962, ao vivo, pois não havia ainda o videotape. Foi adaptada pela escritora Tatiana Belinky,
sendo a mais fiel ao original de todas as adaptações para a televisão. Nada restando desse
programa, exceto algumas fotos, pois seus episódios não eram gravados.

Em 1957, a TV Tupi do Rio de Janeiro também transmitiu um Programa Sítio do Pica-Pau


Amarelo, diferente do programa paulista, pois não havia, na época, transmissão em rede
nacional, nem transmissão de imagens via tronco de micro-ondas da Embratel. Participaram do
Sítio no Rio de Janeiro: Cláudio Cavalcanti e Daniel Filho.

A segunda série foi ao ar pela TV Cultura de São Paulo, em 1964. A terceira, pela Rede
Bandeirantes, em 12 de dezembro de 1967. A quarta série, exibida na Rede Globo, de 7 de
março de 1977 a 31 de janeiro de 1986, é considerada como a de maior repercussão e sucesso.
Também na Rede Globo, foi ao ar de 12 de outubro de 2001 até 2 de Dezembro de 2007, a
quinta série chamada Sítio do Pica-pau Amarelo.

Ambas as séries da Globo misturam histórias originais de Monteiro Lobato com textos
inspirados em temas atuais.

Lima Barreto: o Pré-Modernismo no Brasil


By Katia Dutra31/10/2014Aulas/Explicações, Dicas

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Afonso Henrique de Lima Barreto, ou simplesmente Lima Barreto, foi um dos grandes
representantes da corrente literária do Pré-Modernismo. Nascido em 13 de maio de 1881,
Lima Barreto era mestiço e, durante a sua vida, sofreu com o preconceito da classe literária
carioca. Apesar da sua condição social, frequentou colégios e cursou Engenharia na Escola
Politécnica. Ainda estudante, publicou seus primeiros textos em revistas e jornais da
comunidade estudantil.z

Órfão de mãe, Lima Barreto foi criado por seu pai, que sofria de alguns distúrbios mentais. Por
conta do agravamento da doença, Lima Barreto abandona os estudos de Engenharia para
cuidar do pai e começa a trabalhar na Secretaria de Guerra, ocupando um cargo bastante
burocrático. Foi este emprego que deu inspiração para algumas de suas crônicas sobre o
cotidiano na capital carioca. Esses textos começaram a ser publicados em revistas literárias da
época como “Careta”, “Fon-Fon” e “O Malho”.

Lima Barreto lutou contra as injustiças sociais e os preconceitos raciais. Sua influência na
imprensa foi crucial nessa jornada. Porém, por conta disso também, teve problemas sérios
com alcoolismo, ficando internado duas vezes no Hospício Nacional, para tratamento do vício.
Lá, descreveu suas experiências no livro Cemitério dos Vivos. Em seu funeral, em 01 de
novembro de 1921, ignorado pelos intelectuais da época, foi homenageado com a presença
dos pobres anônimos e suburbanos sobre quem escreveu. Deixou um legado de 17 volumes
entre contos, ensaios, crônicas, memórias, correspondências e críticas literárias, que, por
conta da sua morte prematura, foram publicadas postumamente.

Contexto histórico e literário

Lima Barreto nasceu em 1881, quando D.Pedro I ainda era o imperador de nosso país. O autor
viveu todo o processo de transição para a República e foi conterrâneo de autores realistas,
como Machado de Assis e Aluízio Azevedo. A proposta realista focava sua temática no modo
de vida e na hipocrisia de uma burguesia emergente nos grandes centros cariocas. Por conta
de sua condição social, Lima Barreto marcou seu nome na história por dar vida e voz aos
personagens dos subúrbios cariocas. Através de seus romances, podemos observar claramente
os mecanismos de relacionamento social típicos da sociedade brasileira no início do século XX,
fortemente marcada pela distinção por raça e classe social.

Lima Barreto

Em seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, publicado em 1909, conta
a história de um mulato que sonha em se tornar jornalista na cidade grande. O jovem Isaías
acreditava no seu valor e queria provar que podia vencer na vida pelos seus esforços,
superando, sobretudo, o preconceito racial pela cor de sua pele. Após diversas dificuldades,
ele consegue um emprego como escrivão de um jornal, mas só consegue promoções por ter
descoberto seu chefe em uma noitada de orgias.

De caráter autobiográfico, o livro defende que o meio massacra as condições de um indivíduo


crescer através de méritos próprios. Assim como Lima Barreto, que por toda sua vida lutou
contra o preconceito, Isaías narrou suas memórias com a convicção de ter vencido em parte os
problemas e as humilhações que o meio social preconceituoso lhe delegava, mas mais
consciente de estar vivendo uma situação falsa ou de exceção.
Lima Barreto acreditava que a literatura devia ajudar a difundir as “grandes e altas emoções
humanas” e a construir a comunhão entre as pessoas de todas as raças e classes. Leitor
apaixonado, usou a voz de diferentes personagens para espalhar essa crença no poder dos
livros.

Em seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, publicado em 1909, conta
a história de um mulato que sonha em se tornar jornalista na cidade grande. O jovem Isaías
acreditava no seu valor e queria provar que podia vencer na vida pelos seus esforços,
superando, sobretudo, o preconceito racial pela cor de sua pele. Após diversas dificuldades,
ele consegue um emprego como escrivão de um jornal, mas só consegue promoções por ter
descoberto seu chefe em uma noitada de orgias.

Triste Fim de Policarpo Quaresma

A obra-prima de Lima Barreto veio com Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915.
A narrativa conta a história do major Policarpo Quaresma, um patriota exacerbado e fanático
pelos assuntos que envolvem o Brasil, desde a fauna e a flora do país, até a cultura e o folclore
do povo. O patriotismo desmedido é criticado por todos a sua volta, que o tarjam de louco.

Com Policarpo Quaresma, Lima Barreto consegue colocar em xeque o duelo entre o que é real
e o que é ideal. Enquanto o patriotismo do major é ideal, a descrença dos que o cercam é real.
Influenciado pelos livros que lê, Policarpo Quaresma traça um projeto para tornar o país uma
grande potência mundial. Inicialmente, Quaresma mergulha no estudo das tradições
brasileiras, aprendendo inclusive a língua tupi e os costumes dos nossos indígenas. Depois
passa a se dedicar ao trabalho agrícola. Compra o Sítio Sossego e resolve pôr em prática as
orientações científicas que encontrava nos livros. Mas as terras não se revelam tão férteis
como diziam os livros, as pragas são terríveis e há muitas dificuldades na comercialização dos
produtos.

Quaresma começa a perceber que o problema, na verdade, está na corrupção dos políticos,
que não fazem leis que ajudem esse desenvolvimento. Dedica-se, então, a seu terceiro
projeto: a reforma política. A oportunidade para isso surge por ocasião da Revolta da Armada.
Quaresma vai ao Rio de Janeiro, engaja-se voluntariamente nas tropas do marechal Floriano
Peixoto e luta pelos ideais republicanos. Vê em Floriano o reformador enérgico e patriota que
sonhara e entrega-lhe um documento em que expõe seus planos de salvação do país. Mas o
marechal responde-lhe secamente: “Você, Quaresma, é um visionário…”. Desilude-se mais
uma vez. Compreende então que não há patriotismo, e que os governantes só estão
preocupados com seus interesses pessoais.
Lima Barreto livro

Triste fim de Policarpo Quaresma

Coleção Travessias – Editora Moderna

Autor: Lima Barreto

Faixa etária: A partir de 15 anos

Indicação: 1º Ano (EM), 2º Ano (EM), 3º Ano (EM)

Assunto: Crítica social e política, EJA, Sátira, Violência

Tema transversal: Ética

Número de páginas: 168

A desilusão final de Quaresma faz referência à desilusão que Lima Barreto teve durante toda a
sua vida. O autor morreu acreditando que o dever dos escritores era “deixar de lado todas as
velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros e aproveitar de cada um deles o que puder
e procurar, conforme a inspiração própria para tentar reformar certas usanças”.

Graça Aranha e o pré-modernismo

A época conhecida como Pré-modernismo é vista como um divisor de águas entre os ‘ismos’
do final do século XX e o Modernismo que se inicia no ano de 1922, com a realização da
Semana de Arte Moderna.

Na década de 50, o crítico literário Alceu de Amoroso Lima deu o nome ao período, que até
então, não tinha sequer qualquer denominação. Mas, no entanto, esta época, guarda dentro
dela a produção incomparável de Euclides Da Cunha, de Monteiro Lobato, de Lima Barreto e
de Augusto dos Anjos. Estes, foram pré-modernistas, simplesmente e também os grandes
pioneiros.

Graça Aranha e o pré-modernismo


Euclides possui o tom positivista de uma análise social. Já Monteiro Lobato, lembra a região do
Vale do Paraíba e seus tipos peculiares, como por exemplo os piolhos da terra, os caboclos
jecas-tatus, como ele mesmo gostava de dizer. Lima Barreto foi tardiamente valorizado pelos
modernistas, mas deixou uma obra considerada extremamente mágica. É ‘Triste fim de
Policarpo Quaresma’, adaptada ao seu tipo do início da República no Brasil. Policarpo, tal qual
D. Quixote brasileiro, é o tipo inesquecível desse escritor.

Na poesia, repontam os versos de Augusto dos Anjos, uma espécie de bíblia para os malditos
de todas as idades. Poesia de dessacralização do que é lírico, da podridão da carne, da
desintegração do corpo.

Esta foi, uma época extremamente heterogênea, por isso, considerada tão encantadora. Mas,
é preciso deixar claro, que o pré-modernismo não é propriamente uma escola literária, mas
um determinado período, uma determinada época, ou fase de transição de ‘ismos’ do final do
século passado e início deste século, bem como a Escola Modernista, que teve início no ano de
1922.

O escritor José Pereira da Graça Aranha, conhecido apenas como Graça Aranha, nasceu em São
Luís, no Maranhão, no ano de 1868. De família culta e muito rica, na adolescência foi para o
Recife com o objetivo de estudar Direito e se formou ainda muito jovem.

As suas obras, possuem como tema a imigração, principalmente a alemã. Sua principal obra
recebe o nome de Canaã.

Seguiu carreira como magistrado e atuou no Rio de Janeiro e também no Espírito Santo. Foi
neste último que, em contato com as comunidades de imigrantes alemães, formou-se a
história de Canaã, que foi publicado no ano de 1902.

Em 1900, prestou concurso para o Itamaraty e esteve fora do país por vinte anos. Quando
finalmente retornou para o Brasil, encontrou em São Paulo a efervescência modernista e,
como se já conhecesse as vanguardas fora do país, acabou por se engajar ao movimento
paulistano, tendo estado ao lado de Mário e Oswald de Andrade, no ano de 1922, na Semana
da Arte Moderna.
Em 1924, após a conferência ‘O Espírito Moderno’, no qual condenava o imobilismo da
literatura no Brasil, rompendo definitivamente com aquela instituição, voltando-se para os
problemas sociais e políticos do Brasil, o que lhe rendeu a publicação de Viagem Maravilhosa,
em 1929. Além de Canaã, obra que o consagrou, Graça Aranha escreveu teatro, ensaios e
conferências.

Teatro – Malazarte, em 1911

Ensaios – A Estética da vida, em 1920

Conferências – Espírito Moderno, em 1925, Correspondência de Machado de Assis e Joaquim


Nabuco, em 1923, Futurismo, Manifesto de Marinetti e seus companheiros, em 1926 e O meu
próprio romance, em 1931.

Canaã, um drama sobre a imigração – Um resumo da obra

Publicado no ano de 1902, o romance Canaã, um drama sobre a imigração, acaba seguindo
uma linha de tese e tem sua ambiência localizada em Porto do Cachoeiro, no Espírito Santo. O
enredo gira em torno de Milkau e Lentz, dois imigrantes alemães que imigram para o Brasil,
elegendo-o como uma segunda pátria. Milkau adota o Brasil de maneira verdadeira e o
defende de modo idealista. Já Lentz, que é muito preconceituoso, defende a supremacia dos
povos arianos sobre os outros povos e raças, julgando-os como verdadeiros fracos e também
indolentes.

Milkau se apaixona por Maria, que trabalha como doméstica em casa de uma importante
família alemã. A brasileira, que é extremamente pobre e também desvalida, acaba sendo
seduzida pelo filho de seus patrões e acaba ficando grávida dele. Por este motivo, Maria é
expulsa de casa. Vagueia para a colônia alemã até perto da época de ter o seu filho, que nasce
à beira de um rio. Exausta do parto, sonolenta, Maria acaba adormecendo e nem vê quando a
criança é mordida por suínos. Ela acaba morrendo. A filha dos patrões observa o acontecido e
sugere que Maria matou o bebê. Por isso, ela acaba sendo presa sob a suspeita de ter
assassinado o próprio filho. Milkau a socorre porque acredita nela e também porque vê nela os
olhos febris e alienados. Finalmente, ele a tira da prisão e foge com ela em busca da terra
prometida, chamada de Canaã.
PRÉ-MODERNISMO: AUGUSTO DOS ANJOS

EU E OUTROS POEMAS

1. O autor e sua obra

Paraibano, nascido em 1884, Augusto dos Anjos, apesar de ter se formado em Direito, elegeu
como profissão apenas o magistério.

Transferindo-se para o RJ, sempre enfrentando muitas dificuldades, veio a publicar, com a
ajuda de um irmão, em 1912, 'Eu', seu único livro de poesias.

Passados dois anos, em 1914, adoeceu e morreu de pneumonia, com, então, 30 anos.

Como o próprio poeta reconheceu, seu livro causou um verdadeiro choque aos padrões
literários da época. Entre elogios e impropérios, havia, no entanto, unanimidade quanto à
originalidade da sua obra: com sua linguagem técnica-científica e grotesca, contrariava a
ideologia vigente da 'belle époque' carioca.

Após oito anos do lançamento, seu livro foi reeditado - 'Eu e Outras Poesias' [1920] -
alcançando, assim, a tão esperada popularidade.

2. Comentário da obra

2.1. Estilo

Em linhas gerais, 'Eu e Outras Poesias' representa a soma de todas as tendências e estilos
dominantes desde o final do século XIX até o início do século XX. Em outras palavras, sua obra
recebe influência do Parnasianismo, do decadentismo, do Simbolismo e ainda antecipa uma
série de características modernistas. Em face disso, podemos dizer que, na realidade, Augusto
dos Anjos não se filiou, com exatidão, a nenhuma escola em particular, produzindo, desse
modo, uma obra múltipla e personalíssima [até mesmo com um vocabulário naturalista ].

Entre as suas principais características, temos, além da linguagem científica e extravagante, a


temática do vazio da coisas [ o nada ] e a morte [ finitude da vida ] em seus estágios mais
degradados: a putrefação, a decomposição da matéria.Simultaneamente, reflete em seus
versos a profunda melancolia, a descrença e o pessimismo frente ao ser e à sociedade,
elaborando, assim, uma poesia de negação: nega as falsas ideologias, a corrupção, os amores
fúteis e as paixões transitórias:

'Melancolia! Estende-me a tua asa!

És a árvore em que devo reclinar-me...

Se algum dia o prazer vier procurar-me

Dize a este monstro que eu fugi de casa!'

2.2. Influências estéticas

Mal abrindo o livro, logo percebemos a influência parnasiana, expressa no forte rigor formal:
são sonetos e poemas mais longos, predominando os quartetos, todos com versos isométricos
e rimados, quase todos decassílabos.

Ao mesmo tempo, emergem com força as influências do Simbolismo, explicitadas pela


sonoridade dos versos [ ritmo, rimas, aliterações ], pelo uso de iniciais maiúsculas em certos
substantivos comuns e por alguns aspectos temáticos, como o ideal de transcendentalismo e a
angústia cósmica, entre outros.

Por outro lado, ocorrem na obra índices da modernidade, pois, além da linguagem agressiva,
por vezes coloquial, o poeta incorpora em seus versos tudo o que é podre e sujo, realizando,
em certos momentos, crítica e denúncia social.

Recorrendo com frequência às imagens da larva e do verme, o poeta do hediondo opera a


dessacralização do poema, a desvinculação da palavra poética com o 'belo'.

Concluindo, Augusto dos Anjos caracteriza-se por ser um poeta 'sui-generis', único em nossa
poesia. A sua temática, a dos sofrimentos e angústias do homem, reflete, enfim, algo profundo
e universal: 'Grito, e se grito é para que meu grito / Seja a revelação deste Infinito / Que eu
trago encarcerado na minha alma!

3. Análise de fragmentos e poemas da obra

3.1. Fragmentos de Monólogo de uma Sombra

“Como um pouco de saliva quotidiana

Mostro meu nojo à Natureza humana.

A podridão me serve de Evangelho...


Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques

E o animal inferior que urra nos bosques

É com certeza meu irmão mais velho. Forma: sextilhas, versos decassílabos; rimas paralelas e
interpoladas.

.................................................................

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,

À condição de uma planície alegre,

A aspereza orográfica do mundo!”.

Conteúdo: única fonte de prazer estético: a arte.

3.2. Psicologia de um vencido

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância...

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

Forma: soneto, versos decassílabos, rimas interpoladas.

.................................................................

Já o verme - este operário das ruínas -

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra.


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!. “

Conteúdo: o desconforto no mundo, o azar e a morte.

3.3 - Fragmentos de Budismo Moderno

“Tome, Doutor, esta tesoura, e ....corte

Minha singularíssima pessoa

Que importa a mim que a bicharia roa

Todo o meu coração, depois da morte?!'

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”

Conteúdo: desânimo, sentimento de derrota, masoquismo e azar.

3.4 - Fragmentos de Os Doentes

“E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,

Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,

Esse achincalhamento do progresso

Que o anulava na crítica da História!

Como quem analisa um apostema

De repente, acordando na desgraça,

Viu toda a podridão de sua raça...

Na tumba de Iracema!...
Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone,

Exercia sobre ela ação funesta

Desde o desbravamento da floresta

À ultrajante invenção do telefone.

Conteúdo: denúncia da ruína da raça indígena.

3.5 - Fragmentos de Sonetos [ A meu pai morto ]

“Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos

Roída toda de bichos, como os queijos

Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na anatômica desordem

Entre as bocas necrófagas que o mordem

E a terra infecta que lhe cobre os rins!'

Conteúdo: ápice da dor, transmitida através do grotesco.

3.6 - Versos Íntimos

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão - esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem que, nesta terra miserável,


Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!”

Conteúdo: pessimismo, descrença no ser humano; denúncia às falsas aparências, às hipocrisias


sociais.

3.7- Fragmentos de 'Poema Negro'

“A passagem dos séculos me assombra.

Para onde irá correndo minha sombra

Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:

-Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?

E parece-me um sonho a realidade. Conteúdo: Conteúdo: Estupefação diante da velocidade do


tempo. Indagações universais; como da origem e do destino humano. Melancolia e dor.

.................................................................

Ao terminar este sentido poema

Onde vazei a minha dor suprema

Tenho os olhos em lágrimas imersos...

Rola-me na cabeça o cérebro oco.

Por ventura, meu Deus, estarei louco?!

Daqui por diante não farei mais versos.


Eu e outros Poemas | Resumos Literarios

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A POESIA DECADENTISTA DE AUGUSTO DOS ANJOS

Considerações iniciais

Augusto dos Anjos é um poeta de difícil classificação dentro dos estilos de época. Orris Soares
(1983 p.32), seu crítico mais fiel, declarou, com bastante propriedade, que o poeta não tem
filiação em nenhuma corrente literária. Também Alexei Bueno (1994 pp.21-34) atesta que a
sua poesia tem um caráter de independência extrema, quase de geração espontânea. A
cronologia, entretanto, marca o seu aparecimento entre as últimas produções do
Parnasianismo, quando o estilo sobrevivia ainda, paralelo às últimas notas simbolistas. Por
uma questão didática, convencionou-se estudá-lo como um poeta de transição entre o
Simbolismo e o Modernismo nascente, haja vista a comunhão de um espírito conservador (no
que se refere à forma de seus versos) com um espírito extremamente renovador (o seu léxico
destoa do elitismo lingüístico parnasiano e simbolista).

Por ser uma poesia independente e quase maldita, cujas imagens lembram nuances
naturalistas, lançou-se o desafio de fazer um estudo sobre a predisposição do poeta para o
horrível e a possível influência de Baudelaire; seguidamente, serão mostrados os versos que
demonstram a escatologia, a decomposição, o pessimismo e o gosto do poeta pela dor, para
ilustrar, dessa forma, os temas constantes das poesias do seu único livro: "Eu e outras
poesias".

1. A predisposição para o horrível

Predeterminação imprescritível

Oriunda da infra-astral substância calma

Plasmou, aparelhou, talhou minha alma

Para cantar de preferência o Horrível!

Como revelam os versos do soneto "Minha finalidade", acima transcritos, Augusto dos Anjos
parecia crer em sua predestinação para cantar o horrível. Sua formação determinista é
constantemente reafirmada em seus versos, e a dor parece uma característica inexorável de
sua existência. Em muitos poemas ele deixa entrever passagens de sua história, como se
tivesse encontrado em sua própria vida desgraçada a inspiração para sua poesia singular,
extremamente pessimista. Em Psicologia de um vencido, ele mostra o fatalismo da sua
predestinação para o sofrimento como anterior mesmo à sua gestação: Sofro, desde a
epigênese da infância / A influência má dos signos do zodíaco.

Muitos críticos que se debruçaram sobre sua obra viram traços biográficos insertos em seus
textos e assinalaram sua propensão para o horrífico e o fúnebre, sempre relacionando-a à sua
trajetória sofrida e amargurada. João Ribeiro (1994 p.75) diz que ele fez do seu verso a sua
fantasia, tão negra e triste como a sua realidade. Álvaro Lins (1994 p.117) também afirma que
a estética de sua poesia está diretamente ligada à sua aventura humana e constituição
orgânica. Ainda analisando sua poesia num plano autobiográfico, José Escobar Faria (1994
p.142) afirma que a doença do poeta foi o leitmotif dos seus próprios versos, pois ele era todo
revolta interior. Carlos Burlamaqui Kopke (1994 p.154) revela que sua obra manifesta instinto
e compreensão, não pretende criar mitos nem partir à aventura, mas ser fiel à sua tese íntima,
que é a de espelhar o sentimento trágico da vida. Wilson Castelo Branco (1994 pp.163-4)
percebe grande identificação entre o retrato do poeta e a obra por ele escrita, e Antônio
Houaiss (1994 p.172), a propósito do mesmo assunto, arremata: a vida de cada homem, de
cada poeta, de cada produtor, é também uma obra – e as duas obras é que são a obra.

Não resta dúvida que a vida de Augusto dos Anjos está demais ressaltada em seus versos,
amparados ainda pela cosmovisão de um espírito irrequieto. Partidário dos postulados
Evolucionistas e Deterministas, adepto do Monismo e de todo o cientificismo imperante em
sua época, o poeta era, como nos diz Antônio Torres (1994 p.56), uma materialista por cultura
e idealista por temperamento. Naturalmente, trazia em si o combate travado entre o
idealismo metafísico e o materialismo científico. Sentia-se, ao que nos parece, impotente
diante do incognoscível e não conseguia desvendar o mistério universal pelo qual se debatia.
Daí a morte como um dos seus temas prediletos, o que era uma forma de demonstrar a sua
mais definitiva forma de impotência. As privações vividas e as decepções com as amizades que
julgava sinceras fizeram dele um homem descrente, e isso tudo, aliado à provável influência do
Decadentismo francês, fez a sua obra figurar como um registro ímpar na poesia brasileira do
início do século XX.

2. A provável influência de Baudelaire

Uma das principais características da poesia de Augusto dos Anjos é a poetização do


patológico, do horrível, do repugnante – traços que muito aproximam a sua obra da de
Baudelaire, poeta do Decadentismo francês. Melhor falando, muito identificam os poemas do
Eu (1912) com os de Les Fleurs du mal (1857).

Eudes Barros, no ensaio Aproximações e antinomias entre Baudelaire e Augusto dos Anjos
(1994 pp. 177-8), diz que as aproximações entre a poesia do brasileiro com a do francês
resultam de manifestações análogas de sensibilidade e inspiração efêmeras. Nega uma
possível influência, enfatizando que não se é um poeta extremamente sofrido e angustiado
como Augusto dos Anjos apenas por influência de outros poetas.

Evidentemente, não compreendemos que a angústia que Augusto dos Anjos expressa em seus
versos tenha derivado da poesia de Baudelaire, mas acreditamos ter havido um processo de
identificação desencadeador de uma possível influência. Há fortes indícios de que Augusto dos
Anjos leu Baudelaire, como a repetição de temáticas como a decomposição, a escatologia, o
sangue, entre tantas outras. Além do que se evidencia em seus textos, tem-se um dado
relevante: em 1920, Orris Soares encontrou num sebo da Paraíba um exemplar da obra
francesa citada, em cuja capa estava marcado, a carimbo, o nome de Augusto dos Anjos. Mais:
o poema Une charogne estava assinalado a lápis vermelho, o que é uma demonstração simples
de que a obra em questão foi lida por ele.

É incontestável o fato de se encontrar facilmente, em ambos, o trágico, o fúnebre e o


repulsivo como símbolos de suas estéticas. Mostraremos, a título de exemplificação, algumas
semelhanças. O sangue que aparece como fonte de inspiração em vários poemas de Augusto
dos Anjos, entre eles Guerra – É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo / De subir, na
ordem cósmica, descendo / À irracionalidade primitiva... (p.181) e A obsessão pelo sangue –
Acordou, vendo sangue... Horrível! / Frontal em fogo... Ia talvez morrer (p.204), está nos
versos de A fonte de sangue - Tenho a impressão de que meu sangue em onda escorre, /
Rítmico soluçar de nascente que morre. (p.135), de Baudelaire.

A autofagia, tema presente no poema baudelariano Um fantasma (parte I – As trevas) – Sou o


pintor que de Deus a diversão / Fez na treva mover o seu pincel; Cozinheiro da gula mais
cruel, / Cozinho e como meu coração (p.50), aparece nos versos de Solilóquio de um visionário
– Para desvirginar o labirinto / do velho e metafísico Mistério, / Comi meus olhos crus no
cemitério, Numa antropofagia de faminto! (p.104), na parte VIII de Os doentes – É possível que
o estômago se afoite/ (Muito embora contra isso a alma se irrite) / A cevar o antropófago
apetite, / Comendo carne humana, à meia-noite! (p.117), e em Vozes de um túmulo – Tântalo,
aos reais convivas, num festim, / Serviu as carnes do se próprio filho. (p.126), do nosso poeta.

No poema A uma Madona, Baudelaire faz seu ex-voto ao gosto espanhol, consagrando a musa
e falando da serpente – Este monstro a aumentar de ódio e de cusparadas (p. 71). Essa
inesperada nota escatológica, sempre presente em poemas seus, freqüentemente é vista em
poemas de Augusto dos Anjos, dos quais destacamos Cismas do destino, em que ele fala das
ruas de Recife e interrompe para dizer da população doente do peito que tossia em sua alma,
entre golfadas e cuspes: E o cuspo que essa hereditária tosse / Golfava, à guisa de ácido
resíduo, Não era o cuspo de um só indivíduo / Minado pela tísica precoce (p.88). E continua
falando de expectoração pútrida, saliva, escarro etc. Claro que todas essa palavras têm a ver
com a sua doença, e provêm de sua convivência com os males dela provindos, mas ele não
investiria na poetização desses termos sem antes tê-los visto utilizados, sobretudo porque, em
sua época, predominava uma poesia elitizada, de vocábulo erudito e nobre.

Outra semelhança se encontra na propensão em transformar o que deveria ser lírico em algo
verdadeiramente escabroso. No poema Uma carniça, Baudelaire transforma um passeio com a
mulher amada num encontro fastigioso, ao descrever a carniça que encontrara pelo caminho e
mostrar à mulher que aquele também é o destino dela: Minha beleza, então dirás ao verme
que arruína, / Que há de roer-te o coração, / Que guardei a forma e a essência divina ? Do
amor em decomposição (p.41). Augusto dos Anjos, no soneto III, dos Sonetos escritos para seu
pai, em vez de celebrar saudoso a despedida, mostra um eu lírico mórbido e insensível ante o
corpo sem vida: Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos / Roída toda de bichos, como os
queijos / Sobre a mesa de orgíacos festins!... (p.136) É, sem dúvida, uma forma repugnante de
falar do amor. A emoção da perda se extravia na imaginação do corpo paterno em
decomposição sob a terra.

Estas são apenas algumas semelhanças entre os temas da poesia de Baudelaire e Augusto dos
Anjos, ilustradas também com apenas alguns textos de suas obras. Evidentemente o que
dissemos não esgota o assunto nem fecha questão quanto à certeza da influência da obra As
flores do Mal sobre os poemas do Eu, mas, com certeza, possibilitam a percepção de que o
nosso poeta escreveu uma obra bem parecida com a do francês. Tal exposição, embora nada
prove, mostra que Augusto dos Anjos não foi o precursor da estesia do repugnante. O espanto
causado, na época, pela publicação do Eu não atesta nenhuma originalidade à obra, embora
ela tenha o seu valor próprio.

3. A poesia escatológica

Como já se comentou, Augusto dos Anjos tornou poéticos elementos a-poéticos, criando,
tantas vezes, uma espécie de sublime escatológico. No longo poema As cismas do destino,
texto impregnado de fatos referentes à doença que o acometeu e levou-o à morte, o poeta
toma a missão de ser a consciência e a voz da dor universal, fazendo-se possuidor empático
das misérias sociais, fisiológicas e genéticas, como bem assinalou Bueno (1994 p.26). Vejamos
a forma escatológica como ele transmite sua mensagem:

Era antes uma tosse ubíqua, estranha,

Igual ao ruído de um calhau redondo

Arremessado no apogeu do estrondo,

Pelos fundibulários da montanha!

E a saliva daqueles infelizes

Inchava, em minha boca, de tal arte,

Que eu, para não cuspir por toda parte,

Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!

No soneto "Idealização da humanidade futura", ele concebe a impureza dos ímpetos humanos
como oriunda da hereditariedade. Nos versos acima, a “tosse” dos indivíduos provém do
mesmo fator, mostrando, pois, sua crença na predisposição genética do ser humano. Ele, o
indivíduo minado pela tísica precoce, incorpora ao seu mal o de toda a humanidade,
dimensionando, assim, a gravidade das próprias mazelas e estendendo-as a toda a raça que
violou as leis da Natureza, ou seja, que ultrapassou os próprios limites.

Ainda em As cismas do destino, ele faz um louvor às secreções provenientes da doença. O


vocabulário é contundente e causa repugnância pela alusão aos excrementos pútridos que,
embora humanos, trazem no seu teor o nojo generalizado:

Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,

Sob a forma de mínimas camândulas,

Benditas sejam todas essa glândulas,

Quem quotidianamente, te segregam!

Escarrar de um abismo noutro abismo,

Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,

Há mais filosofia neste escarro

Do que em toda a moral do Cristianismo!

Por que, se no orbe oval que os meus pés tocam

Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,

Jamais exprimiria o acérrimo asco

Que os canalhas do mundo me provocam!

Ele não apenas blasfema, atentando contra a moral do Cristianismo, colocando-a como
inferior a um escarro. Valoriza o seu “cuspo” por encontrar nele um meio para externar o seu
nojo pela espécie humana que julga canalha.

Os bêbados desfilam como personagens do mesmo poema e são o motivo do discurso


escatológico dos próximos versos:

Nas agonias do delírio-tremens,

Os bêbados alvares que me olhavam,

Com os copos cheios esterilizavam


A substância prolífica dos semens!

Enterravam as mãos dentro das goelas,

E sacudidos de um tremor indômito

Expeliam, na dor forte do vômito,

Um conjunto de gosmas amarelas.

Na parte III de "Os doentes", o espetáculo natural da sua vida é a convivência com a
tuberculose. O poeta, espontaneamente, revela o drama dos tísicos:

Oh! desespero das pessoas tísicas,

Advinhando o frio que há nas lousas,

Maior felicidade é a dessas cousas

Submetidas apenas às leis físicas!

..........................................

Falar somente uma língua rouca,

Um português cansado e incompreensível,

Vomitar o pulmão na noite horrível

Em que se deita sangue pela boca!

Expulsar, aos bocados, a existência

Numa bacia autômata de barro,

Alucinado, vendo em cada escarro

O retrato da própria consciência!

A certeza da efemeridade do ser humano, exposto a tantas leis que regem o universo, o faz
invejar as coisas submetidas apenas às leis da física, por serem permanentes e intocadas pelo
sofrimento. A doença é uma inevitável condenação à morte, é a certeza da sua proximidade. O
seu cotidiano era marcado pela imposição de limitações oriundas da sua saúde frágil. Com os
excrementos, ele sentia expelir também a sua existência; mas o que mais o alucinava era
enxergar a consciência na podridão deles.

Todo o poema "Os doentes" faz desfilar as mazelas fisiológicas e sociais que seriam a causa da
extinção da humanidade. E Augusto dos Anjos não resiste ao prazer mórbido e imaginário de
tal extinção, para assistir ao advento do grande feto que viria a ser o substituto de sua raça:

Entre as formas decrépitas do povo,

Já batiam por cima dos estragos

A sensação e os movimentos vagos

Da célula inicial de um Cosmos novo!

O letargo larvário da cidade

Crescia. Igual a um parto, numa furna,

Vinha da original treva noturna,

O vagido de uma outra Humanidade!

E eu, com os pés atolados no Nirvana,

Acompanhava, com um prazer secreto,

A gestação daquele grande feto,

Que vinha substituir a Espécie Humana!

O seu ceticismo atinge um grau extremo. A busca do nada, simbolizada pelo nirvana, parece
reproduzir um culto ao budismo e representar a sua salvação. Quando a espécie se
extinguisse, ele não mais estaria incluído nela, já teria atingido a forma etérea do nada e seria
apenas um satisfeito espectador. A morte passa a ser, para ele, um não-ser possivelmente
mais feliz do que o ser, um pulo no nirvana, como afirma Álvaro Lins (1994 p.125).

A propósito, Jamil Haddad (1958 p.58), no prefácio para a sua tradução de As flores do mal,
diz que o termo budista de mais fortuna na poesia simbolista brasileira foi nirvana – uma
evidência do pensamento de Schopenhauer, o primeiro budista oriental, nas obras de uma
geração desalentada.

É, ainda, pertinente salientar que os versos do poema acima transcrito trazem três temas
ressaltados por José Carlos Seabra Pereira (1975) como característicos da poesia decadentista
e simbolista: a morbidez, a estesia do repugnante, e a tematização do fim da raça. O que mais
choca, no entanto, é a naturalidade com que flui o discurso escatológico, a crua realidade
expressa, sem pudores, a morbidez do desejo de assistir à extinção da própria espécie.

4. A poesia da decomposição

A certeza da perecibilidade da carne é conscientemente notificada por Augusto dos Anjos. O


espírito funéreo que motiva a sua imaginação poética transparece uma mórbida
insensibilidade ante a decomposição da matéria. Nos dois tercetos de "Psicologia de um
vencido" ele diz:

Já o verme – este operário das ruínas –

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos

Na frialdade inorgânica da terra!

Pouco lhe importa o corpo que carrega a sua alma, ele é só um invólucro. Não o enjoam os
microorganismos que sob a terra pululam – entende a função deles e até louva o papel que
têm um verme, num soneto a eles dedicado ("Deus-Verme"):

Fator universal de transformismo.

Filho da teleológica matéria,

Na superabundância ou na miséria,

Verme – é o seu nome de batismo.

............................................

Almoça a podridão das drupas agras,

Janta hidrópicos, rói vísceras magras

E dos defuntos novos incha a mão...


O que lhe importa é a transmudação da matéria. Acreditava no Evolucionismo panteísta e na
unidade das espécies e via na morte, ou seja, na desintegração dos corpos, a transformação da
energia. O corpo é que acabava; a alma, não, porque, como cria nos versos do poema Gemidos
da arte, a carne é que é humana. A alma é divina. E o verme é concebido como um fator de
transformismo por alimentar-se da carne podre dos mortos, fazendo-a integrar-se à frialdade
inorgânica da terra, onde se transmuda. A crença no transformismo é plenamente reafirmada
na seguinte estrofe do poema Os doentes:

Não me incomoda esse último abandono.

Se a carne individual hoje apodrece,

Amanhã, como Cristo, reaparece,

Na universalidade do Carbono.

Para ele, as espécies possuíam a homogeneidade postulada por Herbert Spencer. Assim, o ser
humano poderia perfeitamente ressurgir como mineral.

E a morbidez se instaura até onde a natureza lírica deveria prevalecer. A sensibilidade


emanada dos sonetos I e II da seqüência de três, que ele dedica ao pai, converte-se no discurso
horrendo do terceiro, onde o poeta alude, friamente, à putrefação do corpo querido:

Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.

Em seus lábios que os meus lábios osculam

Microorganismo fúnebres pululam

Numa fermentação gorda de cidra

..............................................

Amo meu pai na atômica desordem

Entre as bocas necrófagas que o mordem

E a terra infecta que lhe cobre os rins!

O repugnante e o disforme se irmanam ao fúnebre e aparecem em imagens repulsivas e


lancinantes, longe de qualquer comoção ou apelo sentimental. É a estética do repugnante, a
poesia da decomposição o disfarce de sua alma sensível, transfigurada pelo sofrimento e
impregnada pelo desalento de um mundo frio e demasiado cruel.
Nem o sue próprio corpo é poupado da mosca alegre da putrefação. A imagem que parece
inimaginável para a maioria das pessoas, para ele não tem a menor importância, como se lê
em seu Budismo moderno.

Que importa a mim que a bicharia roa

Todo o meu coração, depois da morte?!

A morte da matéria é fatal, também a sua decomposição, por isso não o incomoda; incomoda-
o não poder eternizar-se através de suas idéias, de suas concepções, de seus versos.

5. O pessimismo exacerbado

Apesar de afeito aos postulados Evolucionistas de Darwin e Spencer e adepto do Monismo,


sistema totalizador místico de Ernest Haeckel, doutrinas que resvalam um mecanismo quase
otimista do caráter evolucionista do universo, Augusto dos Anjos apresenta, em quase todos
os seus versos, um pessimismo exacerbado, que arriscaria até a dizer de origem
schopenheuriana, condutor de um forte elemento de negação da vida enquanto criadora do
sofrimento.

Embora não invistamos normalmente na análise literária baseada em dados biográficos, no


caso de Augusto dos Anjos é inevitável não associar o fato de ele ter experimentado privações
financeiras, sofrimentos e decepções ao espírito desenganado e taciturno que ele transparece
em sue poesia. Ainda menino, viu sua família perder o Engenho Pau D’arco e o status social
promissor de origem. Vivenciou o desequilíbrio emocional da mãe, iniciado na sua gestação, e
cresceu com o rigorismo adotado pelo pai na sua formação intelectual (ALMEIDA, 1987 p.55).
Já adulto, almejou se afastar do cargo de professor do Liceu paraibano para tentar a carreira
literária no Rio de Janeiro; casado e à véspera de ser pai, solicitou a manutenção do vínculo
empregatício ao Presidente do Estado, que se dizia seu amigo; recebeu uma negativa grosseira
e, sem opção, foi obrigado a se demitir. O desencanto com a terra natal impulsionou a sua ida
para a cidade maravilhosa, onde sonhava publicar o seu livro e conquistar as posições
desejadas tanto no magistério como na imprensa. Os sonhos, porém, não se realizaram: ele
não conseguiu emprego, a sua esposa, diante de tantas privações, perdeu o filho, e nenhuma
editora se interessou pela publicação do seu livro. Partiu para uma publicação particular,
dividindo as despesas com o irmão, mas não conseguiu nenhum reconhecimento como poeta,
pois o seu estilo não foi compreendido, nem poderia ser, já que imperava, ainda, o estilo nobre
dos poemas parnasianos e simbolistas. Restou-lhe a pobreza, o agravamento de sua doença e
as próprias convicções.

O poema "Versos íntimos", que transcreveremos na íntegra, demonstra total descrença na


amizade entre os homens, como a refletir as amargura das decepções vivenciadas:
Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

É patente a articulação de um profundo pessimismo e a descrença absoluta no


relacionamento entre as pessoas. Todo ser é só; ninguém é solidário na desgraça. A
humanidade é concebida como um conjunto de seres que de digladiam através da falsidade e
da ingratidão, revelando uma alma amargurada e niilista de quem acreditou, em vão, na
amizade sincera. Contrafeito, o poeta instiga a ferocidade recíproca e a recusa formal a
qualquer manifestação de amor e carinho.

O pessimismo fatalista e o desengano, de acordo com José Carlos Seabra Pereira (1975),
constituem temas peculiares à poesia decadentista e simbolista, bem como a presença das
letras maiúsculas alegorizadoras em palavras chaves do poema: Homem e Ingratidão. Tem-se
ainda a presença do Determinismo de Taine na sugestão de que o homem é obrigado a se
transformar por causa do meio, e do Evolucionismo de Darwin: por uma questão de
sobrevivência, quem mora entre feras tem de se transformar em fera ou sucumbe.
A mesma concepção pessimista da humanidade se repete no soneto "Idealismo", no qual o
poeta concebe o amor como uma grande mentira:

Falas de amor, e eu ouço e calo!

O amor da Humanidade é uma mentira.

É. E é por isso que na minha lira

De amores fúteis poucas vezes falo.

..............................................

Pois é mister que, para o amor sagrado,

O mundo fique imaterializada

- Alavanca desviada do seu fulcro –

E haja só amizade verdadeira

Duma caveira para outra caveira,

Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

Certo de que na vida o que prevalecia era a matéria, a superficialidade, o poeta só acreditava
na possibilidade de amor verdadeiro através da imaterialização. Portanto, só na morte era
possível a revelação do sentimento puro, porque o amor atingia a essência etérea e sagrada,
desprovida de qualquer contaminação mundana. O tema da morte como transcendência,
constantemente evocado em seus textos, mostra sua incontestável origem simbolista.

Constantemente preocupado com as relações humanas, ele nos mostra sua Idealização da
humanidade futura, resvalando uma perspectiva desesperançosa:

Rugia nos meus centros cerebrais

A multidão dos séculos futuros

- Homens que a herança de ímpetos impuros

Tornara etnicamente irracionais!

..............................................

Como quem esmigalha protozoários


Meti todos os dedos mercenários

Na consciência daquela multidão...

E, em vez de achar a luz que os céus inflama,

Somente achei moléculas de lama

E a mosca alegre da putrefação!

Mais uma vez o determinismo: o homem é condenado à impureza por uma questão genética.
Não há esperança de uma humanidade melhor, porque a luz, símbolo das idéias e da
inteligência, vem, na posteridade, substituída pela degeneração espiritual da consciência, o
que está sugerido nas metáforas “mosca alegre da putrefação” e “moléculas de lama”.

A razão da amargura universal provém da incapacidade humana de uma visão totalizadora.


Além de sentenciar a lágrima como o único direito do homem na superfície do planeta, o
poeta o reduz a um ínfimo acidente na cadeia das espécies (BUENO, 1994 p.25) nos duros
versos de "Homo Infimus":

Homem, carne sem luz, criatura cega,

Realidade geográfica infeliz,

O Universo calado te renega

E a tua própria boca te maldiz.

...........................................

Deixa atua alegria aos seres brutos,

Porque na superfície do planeta,

Tu só tens um direito: - o de chorar!

As próximas estrofes, extraídas do poema "As cismas do destino", justificam a sua tenebrosa
sentença:

Homem! por mais que a Idéia desintegres,

Nessas perquirições que não têm pausa,


Jamais, magro homem, saberás a causa

De todos os fenômenos alegres!

..............................................

Porque, para que a dor prescrutes, fora

Mister que, não como és, em síntese, antes,

Fosses, a refletir teus semelhantes,

A própria humanidade sofredora!

Observe-se a incapacidade atribuída ao homem como própria de sua espécie. De nada


adiantam as perquirições sem pausa, a ciência, se não se é capaz de entender a dor e enxergar
os semelhantes. Sem a concepção unificadora dos seres e das coisas, é impossível
compreender os fenômenos alegres, a razão das lágrimas e a complexidade universal. E o
poeta se inclui entre os sentenciados; é o magro homem impotente para apreender a razão
científica de todos os fenômenos. Como bem afirmou Manuel Bandeira (1994 p.114-6), a
grande aspiração de Augusto dos Anjos era dominar todos os contrastes, resolvê-los na
unidade do todo. Mas, o que ele via era o homem grande oprimindo o pequeno (As cismas do
destino), as mazelas sociais sem remédio, a dor e a doença geral resultante da falta de amor,
da ausência de reflexão e solidariedade.

Desta forma, a consciência humana não escapa ao seu severo julgamento no soneto "O
morcego":

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.

Meu Deus! E este Morcego! E, agora, vede:

Na bruta ardência orgânica da sede,

Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

..........................................................

A Consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite, ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!

A consciência está metaforizada da figura do notívago mamífero que tem como característica
a cor preta e a feiura demasiada. Além da aparência horrenda, se destaca a insistência
veemente do quiróptero, que se relativiza à consciência devedora que aterroriza o homem no
momento em que ele se recolhe em si mesmo.

O ceticismo do poeta estende-se, por vezes, até aos postulados a que aderiu (no poema "Os
doentes"):

Que resta das cabeças que pensaram?!

E afundando nos sonhos mais nefastos,

Ao pegar num milhão de miolos gastos,

Todos os meus cabelos se arrepiaram.

Os evolucionismos benfeitores

Que por entre os cadáveres caminham,

Igual a irmãs de caridade, vinham

Com a podridão dar de comer às flores!

Ele sabia que, por mais que pensasse, fracassava ante o incognoscível e que qualquer sistema
perdia a sua eficácia quando confrontado com a morte – senhora absoluta de tudo, como ele
afirma num trecho do poema "As cismas do destino":

O espaço – esta abstração spencereana

Que abrange as relações de coexistência

E só! Não tem nenhuma dependência

Com as vértebras mortais da espécie humana!

Incomodava-o a fragilidade humana diante do enigma da existência. Vejamos o último terceto


do soneto O sarcófago:

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível,

Essa fatalidade de ser grande


Para guardar unicamente poeira!

A insistente preocupação metafísica com os mistérios do universo e a necessidade de


apreender o inapreensível fizeram com que o poeta, insatisfeito com a incompletude dos
postulados filosóficos vigentes, mergulhasse nos próprios questionamentos para compreender
o que nem Spencer nem Haeckel compreenderam:

Tentava compreender com as conceptivas

Funções do encéfalo as substancias vivas

Que nem Spencer, nem Haekel compreenderam....

Tendo concebido tais enigmas como uma esfinge (que se não decifrada, devora) e convivido
como uma humanidade incapaz de entender a irmandade cósmica dos seres e das coisas,
Augusto dos Anjos alcançou um pessimismo extremo, que abalou a concepção humanística de
sua alma sensível. Só lhe restou reduzir o homem a uma engrenagem de vísceras vulgares
("Monólogo de uma sombra") perecível e aleatória.

Nos seus Poemas esquecidos (publicação póstuma) aparecem versos menos desalentadores,
entre eles A esperança, que ainda traz a morte como possibilidade de transcendência do
sofrimento, e Amor e crença, cujo título já parece mostrar um homem redimido de sua dor e
de sua revolta, ou pelo menos mais aliviado, com a fé restaurada; vejamos os últimos versos:

Deus é o templo do Bem. Na altura imensa,

O amor é a hóstia que bendiz a crença,

Ama, pois, crê em Deus e... sê bendita!

Mais uma vez ele afirma que só o amor é capaz de salvar a humanidade.

6. O gosto pela dor

A dor, parece-nos, quando constante, anestesia o organismo que acomete, e este, numa
espécie de autodefesa, reage se tornando insensível. É como se, ao ultrapassar os limites de
tolerância humana, ela deixasse de ser sentida ou se tornasse normal. Uma forma, pois, de
transcendê-la é permiti-la e suportá-la, porque inevitável, até ajustar a sobrevivência ao seu
impositivo comando. A dor física, a dor moral, a dor de existir tudo é sintoma de transgressão
da normalidade; mas, no texto literário, sobretudo nas correntes espiritualistas, como o
Simbolismo ou de extrema negação da vida, como o Decadentismo, a dor é só mais um tema
poético e o ajustamento desse sujeito a ela parece fácil. Assim, a algolagnia constitui um dos
temas marcantes da poesia simbolista e decadentista, de acordo com José Carlos Seabra
Pereira (1975). A poética de Augusto dos Anjos se ajusta perfeitamente a essa tendência ao
desengano e à banalização do sofrimento. O poema "Budismo moderno", por exemplo, é um
verdadeiro desafio à dor:

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte

Minha singularíssima pessoa.

Que importa a mim que a bicharia roa

Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

Também, das diatomáceas da lagoa

A criptógma cápsula se esbroa

Ao contato da bronca destra forte!

O eu lírico se mostra insensível à própria morte, pouco se importando com a decomposição do


seu corpo. A nota fatalista, constante em sua poesia, está simbolizada no urubu – a ave negra
que se alimenta de carne putrefada, aqui simbolizando a má sorte que o persegue. A dor passa
a ser fator de libertação já que implicará a dissolução da vida. Causa ainda mais estranheza a
inclusão nos versos da espécie aquática das diatomáceas. Alexei Bueno, no ensaio Augusto dos
Anjos: origens de uma poética (1994 p.22), nos dá uma contribuição cabal para a compreensão
da metáfora, quando assinala que a incorporação desses seres ínfimos, desses
microorganismos que nos são tão estranhos quanto o próprio nome que os designam, está
perfeitamente no plano do poeta, porta-voz da essência de todos os seres, e não apenas do
homem. /..../ quando o poeta se refere às “diatomáceas da lagoa”, cuja cápsula é bruscamente
desfeita pelo contato involuntário da mão humana na superfície da água, cria uma
originalíssima metáfora de sua própria fragilidade, que um golpe qualquer de uma força
superior pode destruir, ao mesmo tempo que se identifica, na solidariedade dos condenados à
morte, a essa vidas mínimas que também o são.

Sabendo de sua fragilidade e perecibilidade, o poeta se insensibiliza com a morte. Importa-lhe


apenas a permanência dos seus versos, quando, no final do mesmo soneto, revela querer a
eternidade, ainda que apenas através de suas idéias:
Mas o agregado abstrato das saudades

Fique batendo nas perpétuas grades

Do último verso que eu fizer no mundo!

Leiamos o seu "Hino à dor", o mais perfeito exemplo de algolagnia em sua poética de
desespero:

Dor, saúde dos seres que se fanam,

Riqueza da alma, psíquico tesouro,

Alegria das glândulas do choro

De onde todas as lágrimas emanam...

És suprema! Os meus átomos se ufanam

De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro

Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro

De que as próprias desgraças se engalanam!

Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.

Com os corpúsculos mágicos do tato

Prendo a orquestra de chamas que executas...

E, assim, sem convulsão que me alvorece,

Minha maior ventura é está de posse

De tuas claridades absolutas!

A contingência da dor está em todas as coisas e é a causa da maior ventura do poeta que a
concebe como claridade absoluta, em vez de escuridão; dá-lhe, assim, uma dimensão positiva
e não negativa. Ela é cantada como saúde dos seres, riqueza da alma e psíquico tesouro. Os
versos transmitem o prazer (mazoquista(?)) de louvar a abstrata amante e atribuí-la
qualidades apenas positivas, até organicamente falando, como está no primeiro quarteto -
Alegria das glândulas do choro. Um provérbio poderia justificar tal apologia: Não pode vencê-
lo, junte-se a ele; ou um verso de uma canção da Música popular brasileira, composta no final
do século XX: a liberdade está na dor (Fogueira – Ângela RôRô);. Ou seja, a celebração da dor
dá-se pela aceitação de sua inevitabilidade e converte-se em transcendência espiritual (o que
era a grande aspiração dos simbolistas).

Sânzio de Azevedo (1970 p.57), no ensaio Augusto dos Anjos ontem e hoje, expõe este soneto
como exemplo de simbolismo na poesia do paraíbano, ressaltando a semelhança com a poesia
de Cruz e Souza, notadamente no último terceto. O mesmo texto também chamou a atenção
de Raul Machado (1994 p.108) que, falando da técnica literária, salienta, entre outras virtudes,
os versos escorreitos e rigorosamente escandidos, com reboante ondulação rítmica e a
imponência plástica que convinha à grandeza do plano arquitetal das estrofes. Assim, vê-se a
face conservadora do nosso poeta de transição (como falei no início deste trabalho): ele não
apenas externa o seu melancólico mundo, mas mostra uma arraigada convicção de filosofia
estética.

A angústia de não encontrar uma explicação científica para todos os fenômenos, como já se
disse, e a certeza da existência transitória, minada pela doença, fizeram do poeta um homem
desencantado. A tristeza e a melancolia substituíram a alegria e o prazer, como atestam estas
duas estrofes de "Queixa noturna":

Bati nas pedras dum tormento rude

E a minha mágoa de hoje é tão intensa

Que eu penso que a Alegria é uma doença

E a tristeza é minha única saúde.

.....................................

Melancolia! Estende-me a tu’asa!

És a árvore em que devo reclinar-me...

Se algum dia o Prazer vier procurar-me

Dize a este monstro que fugi de casa.

Observe-se as antíteses: A alegria é uma doença / a tristeza é a saúde. O sofrimento inverte os


valores: a melancolia é a árvore que o acolhe / o prazer é um monstro. Assim, o sujeito poético
resvala o seu estado de espírito constantemente mergulhado na amargura e descrente dos
regozijos; a ventura passa a ser, por imposição das suas próprias limitações, a dor, a tristeza, a
melancolia. Note-se, ainda, em meio à doença espiritual que o torna um legítimo decadentista,
um traço marcadamente simbolista: a presença das letras maiúsculas alegorizadoras que
particularizam a grafia e dão ênfase às palavras chaves do poema: Alegria, Tristeza, Melancolia
e Prazer – os pares antitéticos.

Assim, a mágoa faz naturalmente parte da sua existência e, no soneto Eterna mágoa, é
colocada como uma condenação do homem sentenciado ao sofrimento. Nem a morte é capaz
de libertá-lo, o que é outro traço demasiado decadentista, já que para o simbolista a morte
liberta (mors liberatrix). Confiramos:

O homem por sobre quem caiu a praga

Da tristeza do Mundo, o homem que é triste

Para todos os séculos existe

E nunca mais o seu pesar se apaga!

................................................

Sabe que sofre, mas o que não sabe

É que essa mágoa infinda assim, não cabe

Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;

E quando esse homem se transforma em verme

É essa mágoa que o acompanha ainda.

Estes versos sugerem que o poeta cultua a dor e o sofrimento por julgá-los inerentes aos seres
humanos, como uma predestinação da qual não se pode fugir. Se resistir em aceitar o carma,
só conseguirá aumentar e aprofundar a própria chaga. E, como esses sentimentos foram os
seus companheiros inseparáveis, ele os poetiza, ora concebendo-os como positivos, raramente
lamentando-os e, na maioria das vezes, atribuindo-os ao determinismo. Optou por cultivá-los
como uma riqueza de sua alma, como uma marca inevitável de sua personalidade poética.

Descrevendo o biótipo de Augusto dos Anjos, Orris Soares (1983 p.30) faz uma perfeita
correspondência entre os traços físicos e a sua vida interior:

Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos,
olheiras violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por
contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado /.../ os
cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme. A clavícula, arqueada. No
omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para diante. Os braços pendentes,
movimentados pela dança dos dedos, semelhavem duas rebecas tocando a alegoria dos seus
versos. O andar tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens que
lhe agitavam o cérebro.

Embora diga que essa fisionomia por onde erravam tons de catástrofe traía-lhe a psique, por
ser a sua alma uma água profunda, onde luminosas, se refletiam as violetas da mágoa (Idem
p.31), não nega que, para o poeta, a única força criadora e redentora era a dor. A sua figura,
assim talhada, reproduz a própria encarnação do sofrimento e, não obstante, da resignação.

Considerações finais

Como vimos, a poesia de Augusto dos Anjos nos possibilita uma experiência estética, no
mínimo, inusitada. O vocabulário contundente, tomado por empréstimo, ora à ciência, ora às
coisas mais simples do nosso dia-a-dia, mostra a criatividade de um poeta imperativo, capaz de
versificar até os seus dramas de homem doente, preocupado com as mazelas de toda a
humanidade.

Impregnado pelas idéias de Darwin, Spencer e Haeckel, acreditava no Evolucionismo panteísta


e na unidade de todas as espécies, mas não conseguiu desvendar os labirintos dos mistérios do
universo e acabou por crer que nem a ciência nem a filosofia tinham poder quando
confrontadas com a morte – a única certeza absoluta do ser vivo. Frustrado com a impotência
humana perante o desconhecido, desenvolveu um espírito pessimista, não raro niilista, e
encontrou respaldo no pensamento shopenhauriano que, penetrado pelo budismo, apontava
o nirvana como uma possibilidade de fuga.

Ora simbolista, ora parnasiano, ora moderno, ele erigiu sua criação poética em temas como o
pessimismo fatalista, o culto à dor, a morbidez, o horrífico e o fúnebre, bem ao modelo dos
poetas malditos do Decadentismo francês. A estranheza que emana de seus versos não se
deve apenas ao excesso de termos científicos; emerge, principalmente, da sua propensão para
o horrível, a podridão, a desgraça. Álvaro Lins (1994 p.125) diz que essa tendência vinha da sua
constituição de homem doente, desorganizado, devastado pelo desequilíbrio dos
hipocondríacos. Acreditamos que não apenas disso, mas, também, da influência do
Decadentismo, sobretudo de Baudelaire – o que somente foi possível graças à sua
predisposição natural, orgânica que se revela no conteúdo da sua própria história (e se realiza
em sua poesia).

Independente das razões que o levaram a compor sua opulenta obra, ela tem o seu valor
assegurado tanto pela beleza de seu exercício estético, como por fazer jus ao grande anseio do
poeta, que era eternizar-se através de suas idéias, como nos revela no soneto O meu nirvana.
Referências

Andréa Motta

Pré-Modernismo

26 de abril de 2011

http://conversadeportugues.com.br/2011/04/pre-modernismo/

&

_____ Euclides da CunhaPré-Modernismo

IARA PEIXOTO

PRÉ-MODERNISMO: MONTEIRO LOBATO

Local:

Santiago, RS, Brazil

22 DE OUTUBRO DE 2012

PRÉ-MODERNISMO: MONTEIRO LOBATO

http://soslportuguesa.blogspot.com/2012/10/pre-modernismo-monteiro-lobato.html

Lima Barreto: o Pré-Modernismo no Brasil

By Katia Dutra31/10/2014Aulas/Explicações, Dicas

https://redes.moderna.com.br/2014/10/31/lima-barreto-o-pre-modernismo-brasil/
Resumo Escolar

Resumo do pré-modernismo: Graça Aranha e o pré-modernismo

https://www.resumoescolar.com.br/historia-do-brasil/resumo-do-pre-modernismo-graca-
aranha-e-o-pre-modernismo/