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Porto Feliz

Silvana Di Giusto
Porto Feliz
Silvana Di Giusto

Porto Feliz

A água fria do mar envolvia-o por inteiro. A enorme coluna de água acima pressionava todo
seu corpo em um abraço estreito. As braçadas eram longas e vigorosas levando-o cada vez mais ao
fundo. A pressão nos ouvidos era quase dolorosa. Por fim cessou os movimentos. Soltou os braços
e flutuou sem peso observando o universo ao seu redor com a visão turva pela água. Silêncio.
Fechou os olhos e sentiu-se leve e em paz. Os pulmões começaram a queimar com a falta de ar.
Abriu os olhos, olhou acima e viu o céu. Começou a movimentar os braços e pernas vigorosamente
em sua direção, subindo rapidamente enquanto exalava o ar pelas narinas.
Inspirou forte no momento em que o corpo projetou-se para fora da superfície com grande
impulso. A explosão de luz e sons foi imediata. Ouvia o barulho das ondas quebrando e os latidos
insistentes e distantes vindo da praia. Virou o corpo e viu o cão negro que latia repetidamente
enquanto corria de um lado a outro na beira da água. Nadou em direção a ele. Os braços
esforçavam-se em cada braçada, já cansados pela atividade intensa da tarde. Apesar do corpo
exausto sentia a mente clara e limpa. Tocou a areia do fundo do mar com as mãos, ficou em pé e
correu até a praia. O cão ainda parecia agitado, com a respiração acelerada, mas cessou os latidos
com a aproximação do dono.
— Ok, amigão. – disse um pouco ofegante enquanto dava tapinhas nos grandes flancos do
animal — Está tudo bem! Já estou aqui! Agora vamos sentar e descansar um pouco e depois vamos
para casa.
Sentou-se na areia com os braços apoiados sobre os joelhos flexionados. O cão sentou-se
também à sua frente, perpendicularmente. Acariciou-o distraído enquanto admirava o mar, e
tomava grandes baforadas de ar até a respiração voltar ao ritmo normal. Era um dos seus
momentos favoritos e sabia que o cão apreciava também.
Depois de uma vida um pouco atribulada e sem rumo certo, decidira estabelecer-se naquela
pequena cidade litorânea. As tatuagens de seu corpo refletiam as várias etapas de sua vida, desde a
adolescência rebelde até os tempos agressivos da juventude, onde brigar era o único modo de
expressão que conhecia. Lutar tornou-se sua rotina e seu ganha-pão. Era ali, nos ringues de luta,
que descarregava toda sua frustração e ira. Mesmo quando os motivos da ira não existiam mais,
continuava a senti-la, impregnada em sua pele.
Inicialmente as lutas eram de forma amadora. Brigas armadas em rodas nas ruas desertas ou
em pequenos espaços fechados. Verdadeiros matadouros de gente. Mais tarde eram ringues de
boxe. Ganhava dinheiro assim e era suficiente para comprar comida e um lugar quente para dormir.
Era só isso que importava. Não se preocupava com fama ou grandes somas em dinheiro, no
entanto mais tarde os obteve de qualquer forma. Tinha um grande talento, pelo menos era isso que
diziam. As técnicas de luta aprendidas aliadas ao temperamento explosivo o tornaram um grande
campeão. Era invencível. Ganhou muito dinheiro, mas perdeu muito também. Jogos, carros,
bebidas, drogas e mulheres consumiam seus ganhos em velocidade vertiginosa, mas sempre
conseguia mais do que podia gastar. Não se importava. Alguns lutavam por prazer ou dinheiro. Ele
lutava para esquecer a raiva. Só para esquecer...

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Até que um dia a raiva passou. Não via mais graça nem necessidade em lutar. Olhou pela
primeira vez com uma nova percepção para o mundo ao seu redor, com uma visão nítida e
verdadeira. Não gostou do que viu. Era um mundo cru e ácido. Fatalmente levava todos à morte.
Senão à morte física, pelo menos à morte da alma. Sentia-se apodrecer e morrer por dentro.
Decidiu mudar e jogou tudo para os ares. Abandonou tudo. Comprou e pagou por sua liberdade.
Somas aviltantes lhe foram cobradas por quebras de contratos de patrocínios e agenciadores.
Pagou tudo... Cada centavo. Se esse era o preço de sua liberdade, que assim fosse... pagaria com
prazer.
Isso acontecera há cinco anos e não se arrependera um dia sequer. Se necessário faria tudo
outra vez. Agora, aos 32 anos, estava mais velho, mais experiente e seguro do que queria. Tinha seu
próprio negócio, um bar noturno, no centro de uma cidade tranquila e acolhedora. Suas únicas
preocupações agora eram as contas para pagar. E suas únicas lutas eram com os bêbados
inoportunos que eventualmente apareciam.
Podia dizer que era feliz. Considerava até que já havia formado uma pequena família junto
com seu cão, Zeus. Apreciava sua companhia e o levava consigo durante os exercícios e treinos
diários, que ainda faziam parte de sua rotina. Além disso, o cão necessitava descarregar a energia e
vivacidade excessiva que possuía. Se fosse uma criança, Zeus poderia ser chamado de hiperativo.
Possuía uma disposição infinita, sempre pronto a brincar ou fazer qualquer atividade, que
basicamente resumiam-se em correr atrás de qualquer objeto, fosse bolinhas ou pedaços de
madeira, seus prediletos, ou, eventualmente, atrás de gatos e pombos. Apesar de que, em sua
defesa, devia-se salientar que nunca conseguira pegar animal algum. Só corria e latia com seu
rugido poderoso, atrás da pobre vítima, que fatalmente levava um susto de morte, para logo em
seguida virar as costas e trotar todo feliz e bufando, até chegar novamente ao seu posto avançado
de vigia, convencido que havia cumprido sua missão de manter a casa a salvo de invasores
perigosos.
Quando permanecia muito tempo sozinho, ficava ansioso e então passava a morder e roer
tudo que conseguia alcançar. Rob já tivera que jogar fora duas cadeiras, um sofá, alguns pares de
tênis e trocar o pequeno portão de madeira que dava acesso ao quintal, todos submetidos de
forma incisiva ao instinto incontrolável do cão por morder. Já fizera de tudo para tentar retirar o
mau hábito. Certa vez até ofereceu-lhe um pedaço de madeira com pimenta, o que lhe provocou
uma sede incontrolável, no entanto roeu o bastão até o fim, implacavelmente. Por vezes Rob
perdia a paciência e esbravejava, principalmente quando algum par de seus tênis prediletos eram
alvos de sua embocadura. Mas então Zeus fazia sua encenação, que Rob afirmava ser merecedora
de um Oscar, deitava-se no chão, colocava a cabeça entre as patas dianteiras e ficava olhando ao
dono com os olhos arrependidos, emitindo longos gemidos lamuriosos. Era impossível impor limites
assim. Chantagista, chamava-o. Por fim a raiva passava e tudo voltava ao normal.
Apesar de tudo isso, era um bom companheiro. Parecia entender quando seu dono estava
aborrecido. Nestas horas, sentava-se ao seu lado no sofá, colocava a cabeça sobre seu colo e ficava
ali quieto, num apoio silencioso, sem cobranças, sem exigências, sem perguntas. Apenas presente e
solidário.

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Há três anos, quando adotou o filhote, procurava por um cão de guarda que cuidasse da casa
em sua ausência. Escolheu um vira lata em uma feira de adoções, o pequeno tinha o maxilar
inferior um pouco projetado para frente, o que lhe conferia uma constante cara de bravo. Não era
bonitinho como qualquer filhote, mas garantiram que ficaria enorme e imaginou que com aquela
cara e com a cor negra de seus pelos tornar-se-ia assustador ao crescer. Justamente o que
precisava. Batizou-o como Zeus, um nome apropriado e sugestivo para um animal feroz.
Ah!... Como estivera enganado... Realmente, o cão ficou enorme, com uma cara muito
esquisita e assustava as pessoas com seu latido poderoso e sua forma robusta. Na verdade era um
pouco mais que robusto, era um pouco gordo mesmo. Comia tudo o que era posto em sua vasilha e
ainda pedia sempre uma coisinha a mais todas as vezes que Rob entrava na cozinha. Como cão de
guarda era uma lástima, bastava qualquer desconhecido coçar atrás de suas orelhas e já deitava de
costas com a barriga para cima ansiando que lhe coçassem o ventre também. Era o cão mais
carente e bobalhão da face da terra. Mas o queria imensamente, de todo o coração.
Em um certo momento algo chamou a atenção de Zeus, que estremeceu, ameaçando
levantar-se. Rob girou a cabeça para esquerda para ver o que tinha chamado sua atenção. Oh! Era
uma fêmea! Uma muito graciosa e elegante fêmea! Era uma poodle, mas um pouco diferente: era
grande. Pelo menos não era como aqueles seres minúsculos que latiam o tempo todo. Era maior
que a maioria dos poodles que conhecia. Humm... isso era interessante! Aparentava um olhar
sereno e tranquilo. Era somente um pouco menor que Zeus. Bem... pelo menos em altura, porque
no peso... Era magra, com uma cinturinha fina e muito elegante. Tinha um andar suave, um trote
leve, parecia que desfilava em uma passarela, exibindo sua pelagem branca e bem cuidada. Ao seu
lado vinha sua dona. Uma bonita garota, com cabelos castanhos, lisos e longos. Tinha pernas bem
torneadas e um andar elegante também. Pararam a mais ou menos 5 metros deles.
Após montar o guarda sol, a garota estendeu uma esteira que prontamente foi ocupada pela
cachorra, sentando-se lentamente e majestosamente sobre as patas, mas mantendo a cabeça
erguida. Parecia uma rainha esperando seus súditos para servi-la. Ficou com o olhar fixo à frente,
sem nem sequer dar uma olhadinha para os lados, ignorando completamente o bobo da corte que
se encontrava a alguns metros babando, literalmente, agitando-se todo e ansiando por sua
atenção.
— Calmo aí, amigão! – murmurou Rob batendo de leve nas costas de Zeus para acalmá-lo. —
Essas aí são como princesas. Provavelmente nem olham para caras como nós. O cão soltou um
gemido choroso e continuou a olhar fixamente a beldade majestosa.
A jovem batia as palmas das mãos umas nas outras toda vez que tocava a areia, como se
fosse contaminar-se com o contato com os grãos. Tirou da bolsa, que trazia a tiracolo, um tecido e
o estendeu no chão. Tirou mais alguns objetos, sempre limpando as mãos uma e outra vez.
— Puff! — bufou Rob para si mesmo voltando a cabeça à frente desinteressando-se pela cena
completamente. Conhecia aquele tipo de mulheres, eram bonitas e ricas e não se aproximavam de
pessoas como ele, rudes, sem classe e estilo, vindos de famílias pobres. Consideravam sua
aproximação inadequada. Na época em que tinha muito dinheiro, chegou a ter algumas dessas
mulheres. Agitando grandes somas de dinheiro à sua frente, é lógico. Agora não precisava mais

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provar nada a ninguém e não queria mais precisar comprar mulher alguma. Se lhe quisessem seria
do jeito que era.
Rob girou novamente a cabeça para a esquerda quando uma movimentação chamou sua
atenção. Entreabriu involuntariamente os lábios quando a cena começou a rodar quase em câmara
lenta à sua frente. A garota, de costas para ele, pegou as pontas da barra do vestido curto e
começou a retirá-lo. O corpo escultural, meio coberto por um biquíni branco, foi lentamente sendo
revelado. Aos poucos foi vendo o traseiro bonito e as costas lisas. Ao virar de frente reparou nos
seios cheios, mas proporcionais ao corpo pequeno, na cintura estreita, na pele branca e lisa e o
rosto... ah, o rosto... era delicado e simplesmente lindo! Ficou imóvel observando encantado a
imagem. Gemeu internamente e demorou alguns instantes até esboçar uma reação. Então teve
uma ideia.
— Ok amigão, mudança de planos! – disse agitadamente, sentando-se mais ereto para
aproximar-se das orelhas de Zeus que mantinha o olhar fixo na fêmea.
– Ela é uma belezinha, não é?— Zeus olhou rapidamente ao dono e voltou a fixar-se na beleza
canina. Rob passava as mãos pelas costas do animal acariciando-o.
— Você gostaria de conhecê-la? – Zeus agitou-se um pouco e soltou um latido alto em
concordância, sem mudar o rumo de seu olhar.
— Oh, sim! Gostaria! —Falou com um sorriso nos lábios. — Então o plano é o seguinte: vá até
lá e se aproxime dela. Mas pelo amor de Deus, vá devagar e não dê mancada! Só se aproxime e
tente ficar junto a ela. Faça isso por mim, está bem?Devagar! Ela é uma dama e não queremos
assustá-la, não é? – O cachorro latiu novamente.
— Isso mesmo! Bom garoto! – afirmou enfaticamente coçando atrás das orelhas do cão. —
Então vai! Vai! – ordenou-lhe dando uma leve tapinha em seus flancos.
Zeus não vacilou, prontamente levantou-se e foi correndo cumprir sua missão. Aproximou-se
da fêmea rapidamente, derrapando ao aproximar-se e tentar parar o movimento bruscamente,
espalhando areia sobre a esteira. A cachorra sobressaltou-se e se afastou um pouco do macho que
se aproximara tão abruptamente. No entanto, Zeus não esmoreceu diante da reação do oponente e
começou a latir. Latidos fortes e altos. Para expressar toda sua alegria e satisfação em conhecê-la. A
cadela levantou e ficou olhando assustada e sem reação para o enorme macho. Zeus então partiu
para um ataque mais direto, pois parecia que a fêmea não percebia suas tentativas de fazer
amizade. Posicionou-se estrategicamente para alcançar e cheirar o traseiro da donzela. A cachorra
deu um pulo e girou o corpo, com as orelhas meio levantadas e olhar desconfiado, virando o
traseiro para longe do focinho atrevido. Oh, mas Zeus tinha um objetivo a ser cumprido e queria
sinceramente travar amizade. Não se daria por vencido facilmente! Deu a volta pelo outro flanco e
dirigiu-se ao belo traseiro de forma decidida, a cachorra pulou assustada para o outro lado, numa
vã tentativa de impedir a aproximação imprópria.
— Acho que meu cão gostou da sua cachorrinha. – disse Rob à morena passando por trás dela
e sentando-se ao seu lado na areia.
— É.. .a-acho que sim... — gaguejou a garota de forma insegura observando assustada aquele
brutamontes atacar sua doce mascote, penalizada com seus esforços na tentativa de manter-se
longe e inacessível daquele focinho curioso.

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— Não fique assustada. Tentou tranquilizá-la Rob. – Ele tem essa cara de mal e feroz, mas é
manso, não seria capaz de machucar ninguém. Especialmente uma fêmea tão linda e atraente que
lhe desperta o interesse... Sussurrou com voz grave e rouca, aproximando-se da orelha da moça.
Ao ouvir aquilo, a garota virou-se rapidamente para trás em direção à voz. Até aquele
momento estava com a atenção voltada aos animais e não havia olhado ainda ao desconhecido.
“Oh meu Deus!” Pensou assustada. Forçou-se a não dar um pulo para trás, a fim de afastar-se,
assim como fazia sua cachorra com o macho insistente.
— Aaaa... – o som saiu meio estrangulado, como um grasnido desafinado, pois a garganta
estava fechada pelo espanto. Foi a única emissão sonora que conseguiu produzir. Fechou a boca
rapidamente, percebendo que ainda a mantinha aberta. O homem era assustador! Não, não era
feio, isso não! Mas também não se podia dizer que era belo. Tinha os traços faciais fortes, o queixo
quadrado, talvez um pouco grande demais, o nariz parecia que tinha sido quebrado uma vez... ou
várias... e cicatrizado fora de lugar. Os cabelos eram escuros e cortados bem curtos, um pouco ao
estilo militar. Os olhos eram castanhos claros, quase como a cor do mel escuro. Mas o que mais lhe
assustava era seu tamanho. Parecia ser alto. Não sabia ao certo o quanto, pois estava sentado. Mas
era definitivamente muito, muito forte. Parecia ter ocupado todo o espaço ao seu redor. Na orelha
esquerda reluzia uma pequena argola prateada. Que o fazia parecer ainda mais como um homem
perigoso.
Pela educação que recebera, sabia que não deveria ficar olhando e reparando nas pessoas,
mas não resistiu. Desviou o olhar para baixo. Os braços enormes, que provavelmente nem com as
duas mãos conseguiriam envolvê-los, e a parte superior do tórax musculoso eram cobertos com
tatuagens coloridas. Percebeu então uma gota de água que escorria em seu peito coberto de pêlos
negros e foi acompanhando sua trajetória com o olhar. Descendo pelo abdome definido, onde os
pelos se estreitavam, até chegar ao... Oh céus! Voltou a fixar-se em seu rosto, evitando olhar
novamente para baixo, mas percebendo com a visão periférica, que as pernas eram grossas e
musculosas também. Aquele homem era... impressionante!
Rob percebeu que a garota havia ficado assustada, isso era comum de acontecer. As pessoas
receavam sua aparência. Sempre foi um pouco assim, pois já era grande desde os treze anos, mas
com o tempo foi incorporando massa muscular e tatuagens, além de um nariz quebrado e algumas
cicatrizes externas e internas que deixaram sua expressão facial taciturna e amarga. Bem... o seu
comportamento arredio e agressivo da juventude também não colaborava muito em mudar a
opinião das pessoas. Sua aparência era de um homem rude, agressivo e brutal.
Nos ringues aquela aparência jogava a seu favor, mas naquele momento seu aspecto rude o
incomodou um pouco. Não queria assustar a jovem, gostaria apenas de aproximar-se e conhecê-la
melhor. Agora olhando mais de perto podia apreciar melhor seus traços, os lábios grossos e o nariz
fino, os olhos eram esverdeados, como uma mata escura, mas que ficavam mais claros ao sol. Sim,
era muito bonita e de aspecto delicado. E parecia bastante tímida também. Isso era estranho.
Sempre se sentira atraído por mulheres mais experientes, mais... exuberantes, descomplicadas e
atrevidas. Aquelas que existiam aos montes ao redor de todo circuito de pugilismo. Fáceis de serem
lembradas... e de serem esquecidas também. Mas aquela garota era tão distante de tudo isso. Era

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tão pequena e frágil! Parecia uma fada! O contraste era gritante entre a suavidade dela e sua
rudeza. No entanto aquilo tudo o deixou absolutamente encantado.
Tentou ficar imóvel ao perceber seu assombro, evitou fazer qualquer movimento para não
assustá-la mais e permitiu que seu olhar o percorresse. Sentia um calor onde seus olhos se fixavam
e foi percebendo que o olhar transformava-se. O medo foi dando lugar a outro sentimento que não
conseguia definir muito bem no início. Ela o estava examinando e parecia apreciar. Suas feições
ainda demonstravam assombro, mas não mais o medo. Oh! Será que era real o que percebia? Ela
parecia que estava gostando do que via! Não era possível! Oh!... sorriu internamente, mordendo as
bochechas para não rir abertamente e estragar o feitiço. O calor do seu olhar era embriagador.
Após todo o escrutínio a garota voltou a fixar-se em seu rosto. Seus olhos exprimiam um
sentimento genuíno e sincero, estava realmente inibida e ao mesmo tempo curiosa, percebia sua
cabeça ligeiramente inclinada para baixo, querendo olhar mais do que pensava ter o direito.
Deliciou-se com esse comportamento timidamente atrevido.
A jovem não sabia exatamente o que fazer, aquele silêncio estava se tornando constrangedor.
Resolveu então girar a cabeça de volta aos animais e ver se sua cachorra estava se saindo melhor
que ela.
— Seu cachorro tem algum problema? —Perguntou um pouco acanhada.
— Hã?... O quê?... Zeus, não! Levanta já daí! —Rob gritou e levantou-se rapidamente indo em
direção ao cão, que neste momento encontrava-se deitado de barriga para cima, com as quatro
patas no ar, com a língua pendendo para o lado, olhando todo feliz e contente para a poodle, e o
que era pior: com seu membro balançando ao ritmo de sua respiração ofegante. Tudo isso, bem
em frente a duas fêmeas assustadas que pareciam não acreditar que isso estava realmente
acontecendo. Pegou Zeus pela coleira, levantou-o, virou-se para garota e disse:
— Olha, desculpe-me pelo comportamento do Zeus, ele é muito brincalhão e às vezes se
empolga demais.
— Ah! Tudo bem... Não tem problema... Não aconteceu nada... —Balbuciou a garota meio
incerta. — Ele parece ser bem... Simpático!
— Bem... acho que agora devemos ir, mas nem sei seu nome ainda!
— É Bel, quer dizer... na realidade é Isabel, mas todos me chamam por Bel.
— É um lindo nome! O meu é Rob. Na verdade é Roberto, mas minha mãe me chamava de
Rob desde pequeno, então assim ficou.
— Prazer em conhecê-lo, Rob. —Sorriu Bel amigavelmente.
Rob estava um pouco em dúvida do que realmente fazer ou falar para a garota. Ela era
diferente das mulheres que estava acostumado a lidar.
— Tenho um bar no centro da cidade. Chama-se ‘Porto Real’. O ambiente é agradável e
familiar e eu gostaria muito que você fosse lá hoje à noite para que a gente conversasse melhor e
eu pudesse lhe oferecer uma bebida.
— Bem... Não sei... Amanhã tenho que levantar cedo para trabalhar... —Bel sentia uma
mistura de apreensão e desejo. Achou-o interessante, mas tinha muito receio do que poderia
encontrar. Ele era muito diferente de todos os rapazes com quem se relacionara. Não conseguia

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entender e definir seus sentimentos. – Sou nova na cidade e ainda não conheço muitas pessoas...
Não sei se arranjaria companhia assim de última hora. Desculpou-se gentilmente.
— Então é um excelente motivo para ir ao meu bar. É freqüentado por gente jovem e
disposta a fazer amizades. Rola muita paquera por lá! —Disse isso, mas no fundo não gostaria de
ver Bel sendo assediada por nenhum outro homem. Só em pensá-lo já sentia uma pequena fúria e o
desejo de dar um chute em seu próprio traseiro por sugerir isso.
— Conversarei com uma amiga e se ela estiver disposta a me acompanhar, então irei.
— Combinado então, e caso não possa ir lá hoje, venha qualquer outra noite. O convite
continua valendo. Para sua amiga também. Além disso, eu e o Zeus estamos aqui na praia todo final
de tarde, é só aparecer que estamos sempre por aqui mais ou menos neste horário.
— Está certo! Então até qualquer hora!
— Até mais!
Rob virou-se e caminhou até a caminhonete com Zeus trotando ao seu lado. Estava eufórico e
apreensivo. Sensações que não se lembrava de ter sentido antes por uma garota. Ansiava pelo
momento em que iria revê-la, mas apreensivo por não saber quando seria...

************

Zeus estava na cozinha em meio à sua melhor tentativa de interpretação de cão arrependido.
Encontrava-se deitado no chão, com a cabeça entre as patas, olhando para cima ao seu dono com
olhar desconsolado e arrependido. E gemia mais que nunca.
— Não adianta agora vir com essa encenação barata de pobre coitadinho! —Rob gritava e
gesticulava, enquanto preparava algo para comer antes de ir trabalhar – Onde já se viu!? Jamais!
Está me entendendo?! Jamaaais você deve sair por aí sacudindo seu amigo aí de baixo na cara de
uma fêmea! Principalmente no primeiro encontro! Rob continuava gritando enquanto passava
maionese no pão.
Zeus escondia os olhos com as patas e lançava longos gemidos cada vez mais altos.
— E mais ainda com moças iguais a elas! —Falava enfaticamente. — Elas são como princesas,
entende? São elas que decidem se querem olhar ou não para você e quando o fazem, você
simplesmente fica feliz e balança o rabo! Só o rabo, entendeu?
Ora, nem sabia mais o que estava falando. Apertou a ponte do nariz com os dedos e riu de
suas próprias palavras. Tudo isso era pura bobagem. Nem sabia por que dava bronca em Zeus.
Estava irritado sim, mas consigo mesmo por estar tão ansioso por rever a garota. O que uma garota
como ela, delicada e meiga faria com um homem como ele, bruto e rude? Onde estava com a
cabeça em desejá-la? E ainda tinha outro problema! Deixara toda a decisão do próximo encontro
nas mãos dela. Não sabia seu telefone, nem seu nome completo, nem onde trabalhava ou morava.
Enfim, não tinha nada, nenhuma pista que pudesse seguir para localizá-la. Se a garota quisesse
simplesmente sumir e nunca mais vê-lo na vida poderia fazê-lo, e ele só poderia ficar ali, parado e
esperando que um dia ela aparecesse. Se é que o faria... Isso o deixava realmente frustrado.
Resolveu que o melhor a fazer era sufocar suas esperanças e esquecer o assunto a fim de
evitar sofrimentos.

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— Está bem, amigão! —Suspirou resignado olhando para Zeus. – Pode acabar agora seu
teatro, vamos comer que é o melhor que temos a fazer.
Zeus levantou-se rapidamente, saltitando e latindo feliz em direção ao pote de comida que
Rob acabava de colocar no chão. Seus problemas e as broncas daquele dia já prontamente
esquecidas.
************

Rob percebeu o momento em que Bel entrou no Bar.


Sentiu um calor no centro do peito, na altura do coração. Passou a mão esquerda sobre o
local sem mesmo notar. Sentiu também uma alegria tão grande que seus lábios involuntariamente
contraíram-se em um largo sorriso. Tinha vontade de pular o balcão do Bar, ir em sua direção,
abraçá-la, girá-la e dançar. Após uma semana sem notícias suas já tentava convencer-se de que
nunca mais iria vê-la. Tentara esquecê-la, mas foi impossível, surpreendia-se pensando nela várias
vezes ao dia, chegou até a sonhar com ela uma noite. De manhã, ao lembrar-se do sonho, riu
sozinho pensando que Bel iria se ruborizar se lhe contasse o que sonhou.
Até Zeus encontrava-se cabisbaixo, andava pela casa soltando alguns suspiros lamentosos. Os
pombos e gatos perceberam que havia algo diferente, pois agora podiam frequentar o quintal sem
serem incomodados pelo feroz dragão vigilante. Rob percebeu que algo não ia nada bem quando
um dia, numa tentativa de animá-lo, jogou uma bolinha para que fosse buscá-la, sua diversão
predileta, mas Zeus resignou-se apenas a continuar deitado acompanhando com os olhos a
trajetória do objeto, suspirar e continuar na mesma posição.
A aproximação dela era lenta. Era sábado à noite e a casa estava cheia. Rob permanecia com
o sorriso bobo no rosto e percebeu algo úmido em seus dedos e pernas, olhou para baixo e deu um
pulo para trás com a mão esticada para frente segurando o copo com chope que acabava de
transbordar. Esquecera-se de que estava enchendo o copo, distraído com a surpreendente
aparição. Enxugou rapidamente as mãos e fez sinal para que ela e a amiga sentassem em dois
bancos à sua frente.
Bel apresentava um sorriso receoso e tímido. Não sabia se Rob iria lembrar-se dela. Estivera
trabalhando até tarde durante toda a semana e não conseguira ir à praia nenhum dia. Combinara
com sua amiga Lisa para irem juntas ao ‘Porto Real’ no sábado. Queria muito ver o homem
misterioso novamente, nem que fosse para conferir se realmente era tão espetacular quanto à
imagem que ainda guardava em sua memória. Tentara convencer-se em não criar nenhuma
expectativa. Iria lá só olhar e se, por acaso, ele não se lembrasse mais dela, não haveria o menor
problema. Iria divertir-se mesmo assim, aproveitaria a noite e conheceria novas pessoas. Repetia
esse mantra em sua mente diversas vezes há dois dias, desde que finalmente tomou coragem e
decidira ir ao bar, mas no fundo sabia que se realmente isso acontecesse ficaria muito
decepcionada. A imagem daquele homem não saía de sua mente um minuto sequer e nutria um
desejo secreto de que Rob gostasse dela.
Mas para ser absolutamente franca consigo mesma, agora a coragem lhe faltava e os joelhos
tremiam um pouco. Onde é que estava com a cabeça? Por que um homem como ele iria interessar-
se por uma garota como ela? Não tinha nenhum atrativo especial, era bonita, claro, mas não tinha

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aquele sex apeal que homens vividos iguais a ele apreciavam. Trabalhava em um escritório de
contabilidade como consultora financeira. Gostava de números e cálculos, era organizada ao
extremo e detalhista, quase chata. Era uma pessoa comum. Nem sabia que tipo de assunto abordar
com homens desse tipo. Sempre gostou de estudar e passou a maior parte dos seus 24 anos de vida
com algum livro sob o nariz. Conhecera poucos lugares e envolvera-se com poucos homens. Seu
último namorado era um contabilista com idéias mais rígidas que as suas. Abandonou-o porquê
sentia-se infeliz, pois nada do que fazia era suficientemente certo para o Sr. Perfeito. A comida
poderia ser mais temperada, as roupas poderiam ser de melhor qualidade, o trabalho tinha sempre
que ser aperfeiçoado, geralmente de acordo com as ideias dele. Os filmes e os livros deveriam
conter temas instrutivos, como documentários ou biografias, sendo que estas somente de pessoas
bem sucedidas, que fossem exemplos de sucesso. Ficção e romance eram temas menores
reservados para os ignorantes e os sem cultura. Enfim, cansou de tudo isso! Queria ser feliz, queria
amar e ser amada, encontrar um homem apaixonado igual aos que recheavam os romances que lia.
Era romântica sim, e daí? Não queria mais esconder seus livros por vergonha de descobrirem que
os lia.
O aceno de Rob fez com que desviasse seus pensamentos e voltasse à realidade. Sinalizava
para que se aproximassem. Soltou a respiração em um longo suspiro. “Certo, tudo bem... acalme-se
agora”, pensou tentando sorrir sem tremer os lábios pelo nervosismo. Pelo menos ele se lembrou
dela e a reconheceu. Já era alguma coisa...
— Olá Princesa! Finalmente resolveu visitar os amigos! —Disse Rob de forma alegre e
afetuosa, segurando uma de suas mãos e levando aos lábios para um beijo carinhoso.
— Olá! Desculpe, estive trabalhando muito e não pude vir antes e nem ir à praia.
Rob puxou mais ainda sua mão em sua direção enquanto inclinava-se sobre o balcão a fim de
dar-lhe outro beijo, agora no rosto. Ficou com os lábios encostados em sua face por alguns
instantes, inalou profundamente. Sim, o aroma que desprendia dela era muito bom, exatamente
como ainda se lembrava. Aquilo não havia sido criação de sua mente afinal.
— Querida, todos nós temos que ter um tempo para nos divertir, caso contrário ganhar
dinheiro perde totalmente o sentido!
— Sim, acredito que tem toda a razão. — Disse afastando um pouco e apontando para a
mulher ao seu lado. — Gostaria de apresentar minha amiga. Essa é Lisa Valdez, é veterinária aqui
na cidade.
— Olá, doutora! Acho que não se lembra de mim, mas já nos conhecemos. Eu sou aquele que
levou um cachorro em sua clínica com sintomas de indigestão e depois de uma lavagem estomacal
descobrimos que o motivo era que havia comido um patinho de borracha, duas tampinhas de
caneta e um lápis.
Bel olhou-o assustada, não acreditando no que ouvia. Lisa fitou-o pensativa, inclinando um
pouco a cabeça para o lado.
— Oh, sim! Agora me lembro! — Disse alegremente. — E como está seu cão? Ainda com
hábitos alimentares estranhos?
— Bem, não sei o que você considera estranho como hábito alimentar... Ele ainda é
aficionado por gel de cabelo, espuma de barbear e batatas cruas. Se eu não ficar atento ele come

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tudo a sua frente. Nunca mais tivemos problemas graves com sua digestão como daquela vez, no
entanto o único problema é a tendência que as batatas cruas têm em formar gases, por sinal muito
mal cheirosos.
Todos os três riram juntos. Bel enxugava com os dedos as lágrimas que escorriam debaixo dos
olhos.
— Oh! Ele é um cão muito fofo! —Disse Bel ainda sorrindo – Apesar de tudo, Layla parece ter
sentido falta dele.
— Então Layla é o nome dela? Vou dizer ao Zeus que a princesa que tomou conta de seu
coração tem um lindo nome também. Sorriu olhando fixamente para ela.
— Será que ele sentiu falta dela? — Perguntou Bel.
— Querida, posso dizer com absoluta certeza que sim. Nunca vi aquele gordinho suspirar
tanto pelos cantos como na última semana. A não ser, claro, por comida. Aliás, até para isso ele
parece um pouco desanimado! E olha que diminuir seu apetite é uma façanha! Comentou Rob
sorrindo.
Bel sorriu também e seus olhares se encontraram. Ficaram assim olhando-se e sorrindo
tolamente, até que ela sentiu-se acanhada e abaixou os olhos.
— Bem, o que as garotas desejam beber? —Perguntou alegremente Rob saindo do transe que
o prendia ao seu olhar.
— Para mim pode ser uma cerveja. —Respondeu Lisa
— Bem, como não bebo, para mim poderia ser um suco de abacaxi. —Disse Bel timidamente.
— Sábia escolha. — Retrucou Rob. – Também não bebo e adoro suco de frutas.
— Você não bebe álcool nunca? — Questionou Bel — Nem socialmente?
— Querida, larguei há muito tempo essa vida e não me arrependo em nenhum momento. A
bebida e o boxe quase acabaram comigo. Muitas experiências em minha vida mostraram o mal que
o álcool pode fazer a uma pessoa. —Disse Rob sério.
— Oh! Que interessante!Você era pugilista? Então é por isso...
— É por isso que tenho esse nariz horroroso? Rob completou a frase sorridente.
— Não, seu tolo! —Bel falou rindo. – É por isso que é tão forte? Era isso que ia perguntar. —
Afirmou ao mesmo tempo em que dirigia o olhar para o amplo tórax e os enormes braços de Rob.
Seus olhares encontraram-se novamente, e permaneceram conectados durante um longo
momento, com promessas silenciosas que naquele instante nenhum dos dois conseguiam traduzir
em palavras. Desta vez foi Rob quem desviou o olhar indo em direção a pia preparar as bebidas,
com um sorriso nos lábios.
As amigas permaneceram ali algumas horas, divertindo-se muito. Conheceram Guido, um
grande amigo de Rob que tinha uma agência de carros. Era muito engraçado e ficou francamente
interessado em Lisa, pois trabalhava como voluntário em uma ONG que cuidava da defesa de
animais e já tinha ouvido falar da bela veterinária.
Rob estava muito ocupado com o movimento intenso do Bar, preparando bebidas e
conversando com clientes próximos ao balcão. Por diversas vezes, enquanto estava entretido em
outras tarefas, desviava o olhar em direção a Bel e dava-lhe um sorriso ou uma piscadinha com os
olhos. Bel retribuía o carinho com sorrisos tímidos. Eventualmente Rob aproximava-se deles e

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participava da conversa. Nessas ocasiões tocava discretamente, com as pontas dos dedos, o braço
ou as mãos de Bel, e trocavam olhares e sorrisos significativos.
Próximo da meia noite Bel e Lisa resolveram ir embora. Sinalizaram para Rob que, por gestos,
pediu para que aguardassem um momento. Logo em seguida aproximou-se delas.
— Nós já vamos embora. —Disse Bel um pouco triste, pois gostaria de ter ficado mais tempo
com Rob.
— Puxa, nem pudemos conversar muito, não é? —Lamentou Rob pegando nas mãos de Bel. –
Escute, amanhã é domingo e, aparentemente, será um lindo dia de sol. O que acha de irmos
passear e fazermos um piquenique? Podemos levar Zeus e Layla, assim eles matam as saudades e
nós podemos conversar e nos conhecermos melhor. Que tal? —Perguntou com voz esperançosa.
— Bom... —Vacilou durante um momento. — acho que seria ótimo! —Exclamou Bel por fim,
um pouco surpresa com o convite inesperado. – Acredito que é uma excelente idéia e os animais
irão desfrutar também!
— Ótimo! Então eu e Zeus passaremos para pegá-las às 10 horas. Tudo bem?
— Sim, este horário seria excelente. —Disse sorrindo. – Aguardamos vocês amanhã.

************
— Tem certeza que Zeus está seguro viajando desta forma?
Bel questionava Rob desconfiada, olhando para trás em direção à caçamba da pick-up que
ocupavam. Transitavam por uma estrada de terra batida, em direção ao local do piquenique no alto
da serra.
— Não tem problema! —Respondeu Rob. – Ele está acostumado a ir ali e adora viajar de
carro com o vento no rosto.
— Mas ele está com metade do corpo para fora!
Zeus encontrava-se em pé sobre as patas traseiras e com as patas dianteiras sobre a parte
lateral da pick-up, logo atrás da janela em que Layla estava, também com a cabeça de fora, só que
instalada na parte interna do automóvel.
De repente, no meio de uma curva acentuada para a direita, escutaram um ruído surdo e
Layla começou a latir.
— O que foi esse barulho? —Perguntou Bel assustada girando o corpo para trás. – Onde está
Zeus? Oh, meu Deus! Acho que ele caiu!
Rob brecou bruscamente, desceu do carro e dirigiu-se rapidamente para trás, pelo caminho
que acabaram de passar. Há uns 100 metros de distância do automóvel visualizou Zeus, vinha
trotando em direção ao carro, com a boca aberta e a língua pendente. Parecia um pouco
desnorteado, mas aparentemente estava bem.
— E aí amigão? Está tudo bem? —Rob perguntou preocupado esfregando a parte de trás das
orelhas de Zeus e apertando as patas e as costas procurando sinais de alguma lesão.
— Oh! Coitadinho... —Bel abraçou Zeus, encostou a cabeça dele em seu peito enquanto
acariciava-o. Zeus soltou um gemido e continuou respirando um pouco ofegante com a língua de
fora. – Não se machucou, não é querido? Agora acho melhor que vá com a gente dentro do carro

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no restante do caminho. Rob revirou os olhos. Achou que a pergunta era direcionada a ele, mas o
‘querido’ foi para Zeus.
Rob confirmou que o cachorro estava bem e deu um olhar carrancudo em direção a Zeus.
Esperou Bel afastar-se e voltou-se para ele.
— Você se acha muito esperto, não é?! Conseguiu o que queria e de quebra ficou entre os
seios de uma mulher bonita! — Zeus latiu e continuou parado olhando para cima em direção ao
dono com a boca aberta e a respiração acelerada. – Que droga! Resmungou. – Meu cachorro já se
deu melhor que eu! Rob girou o corpo e foi em direção ao carro contrariado, mas foi logo
ultrapassado por Zeus que pulou todo animado dentro do carro pela porta que Bel segurava aberta.

************
— Olha! Aquela ali parece um elefante!
— Onde? Não vejo nada!
— Ali Rob! —Disse Bel apontando ao céu. — aperte um pouco os olhos e se concentre que
conseguirá ver.
— Hum... Não sei... Parece mais um rinoceronte.
Bel riu feliz. Neste momento encontravam-se lado a lado deitados na grama procurando
formas nas nuvens. Estavam bem próximos, com as mãos quase se tocando. Rob sentia que
finalmente Bel havia relaxado e uma conexão muito forte aos poucos foi surgindo entre eles
provocando uma proximidade deliciosa, o que facilitou muito a conversa. Custou um pouco quebrar
as resistências de Bel. No início parecia retraída, até um pouco assustada, talvez esperando o
momento em que ele iria pular em cima dela e agarrá-la. Mas agora não, sorria mais solta e
tranquila, e sua risada, aos ouvidos de Rob, tinha o som das harpas do céu.
Passaram uma tarde maravilhosa. Conversaram muito. Contaram sobre suas vidas. Rob
contou da infância humilde, dos anos passados no Boxe, da decisão de mudar para aquela cidade.
Contou até fatos que nunca contara a ninguém, como o alcoolismo do pai, as surras sofridas por ele
e a mãe, que até a levaram à morte, e da perda de um irmão pelas drogas. Bel contou da infância
tranquila no interior, do amor pelos livros, do seu trabalho, dos sonhos e esperanças para o futuro.
Layla e Zeus também se tornaram bons amigos. Agora estavam deitados próximos a eles
exaustos pelas caminhadas ao ar livre. Bem, pelo menos Layla caminhou. Enquanto a fêmea
passeava tranquilamente pelos arredores, Zeus corria de um lado a outro, latindo e pulando,
tentando abocanhar borboletas que se atreviam a voar próximas a eles.
Rob deitou-se de lado e começou a passar levemente os dedos pelo rosto de Bel.
— Você é tão linda! Tão suave e delicada!
Bel virou o rosto para ele e sorriu. Rob foi aproximando-se devagar até seus lábios se
encontrarem. Tocou os lábios de Bel com a ponta da língua que os entreabriu aceitando o convite.
O beijo foi lento e suave no início, tonando-se cada vez mais profundo, despertando o desejo em
ambos. As mãos de Rob deslizaram pelo braço dela chegando até a pequena cintura. Começou a
apertá-la e girá-la em sua direção. Bel obedeceu ao comando enquanto levantava os braços e lhe
envolvia o pescoço, exigindo por sua vez, maior aproximação entre seus corpos. Era um beijo doce,

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mas cheio de necessidade. O pequeno gemido emitido por ela incendiou o desejo de Rob, que
apertou e acariciou todo o corpo feminino com mais força.
Bel flutuava embriagada em um mundo cheio de sensações, o toque de seus lábios, de sua
língua, das mãos lhe acariciando as costas e mais abaixo a fascinavam. Rob tinha as mãos muito
quentes e levavam um calor intenso por onde deslizavam. Seus ouvidos captavam os sons vindos
da respiração acelerada e ruidosa, apesar de que o sopro quente em seu rosto a incomodava um
pouco. Espere... Respiração ruidosa... Sopro quente... Abriu um dos olhos e viu uma massa negra
enorme ao lado. Percebeu logo o que era, ou melhor, quem era: Zeus. Encontrava-se bem próximo
a eles, com a grande boca aberta respirando forte, quase encostando em suas cabeças. Empurrou
Rob ao mesmo tempo em que gritava.
— Zeus! – gritou Rob enfurecido enquanto empurrava o cão para longe. — Cai fora!
Bel tampou os lábios para esconder o riso.
— Não brigue com ele, pobrezinho... deve estar com ciúmes!
— Ciúmes... —Respondeu irado Rob. – Ele tem a namorada dele, não venha mexer com a
minha!
Bel abaixou a cabeça para disfarçar seu acanhamento. Será que Rob tinha se dado conta do
que falou? Pensou. Será que falou aquilo a sério? Já a considerava como sua namorada? Decidiu
controlar a empolgação e não se precipitar, afinal acabaram de se conhecer, no entanto, pensou
consigo mesma, se esse fosse o desejo dele ela estaria mais que pronta em aceitar.
A volta para casa foi tranquila, com os dois cães adormecidos no banco traseiro. Enquanto
Rob dirigia passou o braço sobre os ombros de Bel e a puxou em sua direção. Os dois ficaram assim,
abraçados e bem próximos, com ela encostando a cabeça em seu ombro, enquanto Rob acariciava
seu braço ou seus cabelos. Neste momento Bel fechou os olhos e fez uma pequena prece,
desejando do fundo do coração que aquele homem maravilhoso gostasse dela tanto quanto ela já
estava gostando dele.
Os próximos dias haviam sido maravilhosos. Encontravam-se sempre que os horários
invertidos de trabalho permitiam. Quando não, as ligações telefônicas eram recursos utilizados com
frequência. Rob acostumou-se a ligar para ela todos os dias no horário que sabia que ia para cama
preparando-se para dormir. Ligava somente para dar boa noite e perguntar com que roupa estava,
e então ficava o resto da noite imaginando que era junto dela que gostaria de estar.
Conversavam muito sobre tudo. Seus gostos, suas preferências, seus sonhos. Estavam na
deliciosa fase em que se conheciam e se encantavam um com o outro. Sempre que possível
levavam os animais em seus encontros e eram momentos de absoluta felicidade para ambos. Layla
e Zeus também se sentiam cada vez mais confortáveis juntos. Zeus o demonstrava de forma mais
exuberante. Latia e pulava ao redor de Layla, que aceitava as demonstrações de afeto com
tranquila serenidade.
Por vezes, em dias chuvosos, quando a praia não era uma opção, faziam uma sessão de filme
com pipoca, geralmente na casa de Bel. Era isso o que faziam neste momento. Bem... não
exatamente. O filme continuava a rodar na TV, no entanto estavam beijando-se ardentemente
deitados no sofá. O desejo entre eles era evidente, mas Rob resolveu que iria ter calma e paciência
com Bel e esperaria que ela sinalizasse o momento certo para tornarem-se mais próximos e

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íntimos. Na verdade não estava mais tão certo desta sua decisão. Dormia e acordava pensando em
Bel, de preferência nua e em sua cama. Os sonhos também eram cada vez mais frequentes e
atrevidos. Isso sem contar os devaneios que tinha mesmo estando acordado, ficava com o olhar
perdido, sorrindo sozinho imaginando como seria estar com ela intimamente. Receava até que
pegasse uma pneumonia devido à quantidade de banhos frios que estava sendo obrigado a tomar
ultimamente. Mas enfim, pensava resignado, fizera uma promessa consigo mesmo e iria cumpri-la
até o fim.

************
Trim, trim, triiim... Deus! Que barulho irritante era este? Pensava Rob incomodado enquanto
dormia.
Trim, trim, triiim... Será que não dá para parar com esse barulho? Gritou em pensamento
colocando o travesseiro sobre a cabeça.
Trim, trim, triiim... Oh! Era seu telefone. Tateou cegamente o criado mudo com a cabeça
ainda coberta. Atendeu e falou irritado com a voz grossa e embolada de sono.
— Espero que seja caso de vida ou morte!
— É caso de morte, sim! Porque eu vou matar o seu cachorro! —Uma voz feminina gritou do
outro lado.
— Bel, é você? Perguntou Rob preocupado enquanto jogava o travesseiro longe. – O que
aconteceu?
— Seu cachorro engravidou minha cachorra! — Berrou Bel do outro lado.
— Como? —Falou confuso. — Não estou entendendo... de quem você está falando?
— Daquele tarado do seu cachorro!! Ele engravidou a Layla!! —Gritou Bel quase histérica.
— Espere Bel... —Rob sentou na cama. – Você tem certeza que foi o Zeus?
— É lógico que tenho certeza! —Gritou Bel descontrolada. — O que você está pensando, que
minha cachorra é uma vira lata de rua? Ela tem pedigree, os pais dela tinham pedigree, e os pais
dos pais dela também! Ela não fica na rua com qualquer um!
Rob afastou o aparelho com uma careta de dor quando o grito atingiu seus ouvidos como um
tiro. Ao recolocar o fone ainda ouvia Bel gritando do outro lado.
— ... Rupert tem várias medalhas, já ganhou vários concursos da raça, é elegante e sabe se
comportar. Se pedir para sentar ele senta, se pedirem para ficar ele fica... —Bel falava sem nem
sequer respirar.
— Espera um pouco! Quem é Rupert? —Perguntou confuso.
— Você não ouviu nada do que eu disse? Era o cachorro que estava comprometido com a
Layla, era ele que iria cruzar com ela! Eles são da mesma raça, sabia? E os dois têm pedigree!
Rob revirou os olhos, devia ser aqueles poodles efeminados que já vira em fotos, todos cheios
de pompons coloridos e ridículos pelo corpo. Voltou a prestar atenção ao que Bel dizia.
—... Rupert é adestrado, dócil e muito inteligente, igual à Layla. E os filhotinhos seriam todos
bonitinhos e iguaizinhos a eles! Choramingou ao telefone quase à beira das lágrimas.
— Zeus também é inteligente! —Defendeu prontamente Rob.
— Ah, é? Quais são os truques que ele sabe fazer? — Questionou desafiadoramente.

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— Bom... Ele corre atrás da bolinha e a traz de volta quando jogo. — Falou com orgulho
duvidoso.
— Bah! Esse truque qualquer filhote sabe fazer! — Desdenhou Bel.
— Ele também protege a casa! —Insistiu Rob.
— Oh! Sim. Ele é um excelente cão de guarda! — Ironizou Bel. – É só um estranho se
aproximar para ser violentamente atacado pelas lambidas dele!
— Está bem, querida! — Disse Rob já meio irritado pelo desprezo às habilidades de seu cão –
São oito horas da manhã, fui dormir às três, não dormi nada e esta história está me deixando
maluco! Mais tarde eu e Zeus passamos por aí e vamos tentar resolver essa situação da melhor
maneira possível, ok?
Despediram-se um pouco irritados um com o outro. Rob dirigiu-se à cozinha suspirando e
passando as mãos pelos cabelos. Não podia acreditar! Ele nem tinha dormido com sua namorada e
seu cachorro já tinha engravidado a dele! Acho que preciso de uns conselhos de Zeus, pensou.
Pegou a garrafa de água da geladeira e bebeu um gole e despejou um pouco sobre a cabeça, a fim
de espantar o sono. Estava fazendo o café quando ouviu os passos de Zeus aproximando-se. Virou-
se apontando a colher em sua direção.
— Você nos meteu numa grande encrenca, sabia? —Virou e continuou fazendo o café.
— A garota era comprometida! E era da realeza também! Com pedigree e tudo! Enfatizou
apontando novamente a colher para Zeus, que continuava sentado no meio da cozinha olhando ao
dono.
Rob pensava sobre o assunto enquanto bebia seu café em pé.
— Quer saber? Depositou a xícara na pia. — Bateu no próprio peito e disse: – Vem cá,
garotão! — Zeus ficou em pé sobre as patas traseiras apoiando as dianteiras no peito de Rob. – Me
importa um nada que seus truques são de filhote. E daí? Por fim foi você quem chegou lá e ganhou
a princesa bem debaixo do nariz do príncipe babaca. Esse é meu garoto! — Disse alegremente
enquanto acariciava a cabeça do cão.
Logo em seguida afastou-o de si e foi preparar-se para enfrentar a guilhotina junto com o
futuro noivo.
************

Bel estava em pé na varanda da casa, com os braços cruzados e a cara amarrada enquanto
Rob ajudava Zeus a descer do carro.
— É isso ai, amigão! — Murmurou. – Parece que as coisas estão feias para o nosso lado, mas
fique calmo, ok?
Pararam no caminho que levava a casa, Zeus sentado sobre as patas traseiras olhando para
Bel.
— Você sabe o que seu cachorro fez?
— Bem... estou um pouco sem prática ultimamente, mas acho que ainda me lembro como se
fazem bebês! — Rob tentara brincar para deixar o clima mais ameno e evitar outra discussão entre
eles. Mas parece que Bel não tinha achado graça. Guardou o sorriso.

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— Não brinque! O caso é sério! Você viu o tamanho dele? — Apontou Zeus com o queixo. – É
como se um touro tivesse coberto uma ovelha!
— Ora, querida! Você está exagerando! A diferença não é tanta assim! Zeus tem só uns 50
quilos e pouco! —Não era exatamente verdade, efetivamente estava com 59 quilos, mas achou
desnecessário comentar o pequeno detalhe.
— Ela só tem 23 quilos! —Falou enfática colocando as mãos na cintura. Os filhotes serão
enormes, ela vai sofrer muito no momento do nascimento!
— Veja bem, querida! Se ela aguentou ele na hora do... —Raspou a garganta. – Se ela
aguentou naquele momento, é provável que aguente o parto também!
Neste momento a cabeça de Layla apareceu timidamente no vão da porta. Zeus levantou e
caminhou lentamente em sua direção. Rob prendeu a respiração, esperando sua reação. Bel estava
séria.
Zeus aproximou-se devagar de Layla, cheirou todo o corpo da fêmea, depois delicadamente
começou a afagar e lamber o rosto e o pescoço de Layla. Rob soltou lentamente o ar que prendia.
Nunca havia visto Zeus tão tranquilo. Bel levou as mãos ao rosto para enxugar as lágrimas que
escorriam. Escutou uma voz grave que vinha de suas costas.
— Acho que eles se amam. —Rob estava bem atrás dela e a abraçou, aconchegando seu
corpo junto ao seu. – Vai dar tudo certo, você vai ver. —Murmurou próximo a seu ouvido.
Passaram toda tarde juntos e tranquilos. Zeus permaneceu o tempo todo junto a Layla, neste
momento estavam deitados, com a cabeça dela apoiada no pescoço dele. Na hora de irem embora
Rob e Zeus caminharam juntos pelo caminho, mas ao se aproximarem do portão da frente Zeus
parou abruptamente permanecendo do lado de dentro da casa. Rob olhou o cão não entendendo o
que acontecia.
— Venha Zeus! —Chamou batendo na perna. – Temos que ir para casa agora! Zeus latiu duas
vezes, olhou para trás onde estavam Layla e Bel e continuou imóvel.
— Acho que ele quer ficar aqui com Layla. — Disse Bel. Rob olhou ao seu cão com olhar triste.
Bateu na perna e chamou-o novamente, mas a resposta foi a mesma.
— Rob, pode deixá-lo aqui conosco, não tem problema. —Bel falava amavelmente, percebia
que Rob estava muito ressentido.
Rob não podia compreender, aquele era seu amigo, sua família e agora ele o estava trocando.
Sentiu uma dor profunda no peito, dirigiu-se para o carro olhando para os três juntos naquela casa.
Estava confuso, não conseguia compreender o sentimento que o afetava. Era um desalento, uma
tristeza que lhe doía bem no fundo do peito.
Foi trabalhar, no entanto estava completamente diferente naquela noite. Estava distraído,
sem vontade de sorrir ou conversar. Um pouco mais tarde, quando o movimento do bar já
diminuíra, foi para seu escritório deixando Doni, o gerente, cuidando dos poucos clientes que ainda
havia. Pensou que ver a contabilidade do bar poderia ajudá-lo a esquecer dos acontecimentos do
dia. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Quando Doni bateu na porta avisando que o bar já
estava fechado e que estava indo embora, Rob deu-se conta de que estava sentado olhando imóvel
para a janela há mais de uma hora. Esfregou o rosto com as mãos e resolveu ir embora para casa.
Certamente após uma boa noite de sono suas ideias voltariam ao normal.

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No entanto não conseguiu ir para casa. Ficou dando voltas de carro pela cidade sem rumo
certo. Subiu até a montanha onde tinham feito o piquenique e ficou observando do alto a cidade
adormecida. Relembrou sua trajetória de vida, desde os tempos passados de luta, até o momento
em que chegou àquela cidade e abriu um negócio. Colocou o nome de Porto Real no bar porque
essa era a cidade que havia escolhido como se fosse um porto para atracar e viver uma vida limpa e
real. Sabia que iria ser feliz e realmente considerava-se assim. Mas então o que era aquela confusão
total que sentia agora? Por que esse sentimento de vazio, como se lhe faltasse algo extremamente
importante? A dor era tamanha que quase lhe faltava o ar para respirar.
E então percebeu... queria estar lá e ser parte daquela família também. Precisava daquela
mulher como precisava de ar para viver. Nunca sentira uma necessidade tão grande de fazer parte
de algo, como estava sentido agora. Brotou do fundo de sua alma um desejo enorme que
reverberou por todos seus sentidos, algo novo que nunca sentira antes. Queria uma família,
não...queria aquela família! Tinha encontrado um porto para a sua felicidade, seu Porto Feliz!
Bel acordou com os latidos de Zeus e o som insistente da campainha da porta. Mas quem
seria àquela hora, pensou, nem havia amanhecido ainda. Colocou o roupão e desceu ainda
desnorteada pelo sono. Ao abrir a porta encontrou Rob com os braços apoiados em cada batente
da porta e a cabeça baixa.
— O que aconteceu? — Perguntou assustada.
Rob levantou um pouco a cabeça, com olhar receoso. Toda segurança e certeza que sentira a
caminho haviam desaparecido. Agora estava inseguro, com receio de que Bel o rejeitasse, afinal o
que ele era? Um ex-pugilista com uma cara horrível e sem muito para oferecer. Todas as dúvidas do
mundo agora se abatiam sobre sua cabeça
— Eu não sei... não consegui ir para casa... —Falava um pouco vacilante. – eu estava com
dúvidas... não sabia o que pensar, nem o que fazer...
Bel não entendia nada, mas resolveu ouvir em silêncio. Ficou ali parada com as mãos nos
bolsos do roupão esperando que Rob esclarecesse sua confusão. Rob soltou as mãos dos batentes
da porta e passou os dedos pelo cabelo.
— Sei lá... fiquei dando voltas e pensando na minha vida... eu acho que preciso mudar
algumas coisas... —Rob falava inseguro. – Eu não sei... eu tenho o bar e minha vida é boa, mas acho
que quero algo mais... —Não sabia como abordar o assunto que lhe trouxera ali. – Eu quero... Eu
quero...
— Rob... —Interrompeu Bel. — Por que você está aqui?
Rob calou-se imediatamente, ficou imóvel olhando para ela sem saber mais o que dizer.
— Rob, por que você está aqui? —Repetiu a pergunta olhando diretamente em seus olhos. –
Por favor, diga! Eu preciso ouvir!
Rob ainda olhava em seus olhos e então murmurou:
— Eu quero você!
O silêncio pairou entre eles por um longo momento, então Bel retirou as mãos dos bolsos e
lentamente levantou seus braços em direção a ele. Rob soltou o ar em um sopro. Correu e jogou-se
em seus braços, afundou seu rosto no pescoço dela e inalou seu perfume. Apertaram-se em um
longo abraço, Bel permitiu que as lágrimas que duramente segurava se libertassem. Rob

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murmurava baixinho palavras de amor enquanto a beijava por todos os lados, no rosto, no pescoço,
nos cabelos. Sim, aquele era seu lugar. Era ali que pertencia. Agora estava em casa, estava em seu
lar.
Enlaçou Bel pelos joelhos e subiu as escadas em direção ao quarto. Deitaram-se na cama e
prontamente entrelaçaram-se extravasando todo desejo e necessidade que abrigavam há tanto
tempo. O entendimento de seus corpos foi imediato. O sentimento de proximidade e afeto que
sentiam foi muito mais além. Suas almas se tocaram e se reconheceram, uniram-se em uma única
energia pulsante, repleta de carinho, afeição e felicidade. Eram como música, letra e canção soando
separadamente, mas que sempre estiveram ali, esperando serem unidas para soarem numa
melodia harmoniosa. Rob sentia que finalmente tinha encontrado seu lugar, era como se a vida
inteira estivesse esperando por esse momento. Agora pertencia a algum lugar... Pertencia de corpo
e alma à essa mulher.
***********
Alguns meses depois...
Apesar da noite quente o movimento no bar era tranquilo. Rob secava alguns copos enquanto
ficava absorto em seus pensamentos. Estava ansioso para ir para a casa de Bel, aliás, todos os dias
contava os minutos para ir para lá após o fechamento do bar. Dormiam juntos agora todas as noites
e acordar com ela em seus braços era maravilhoso.
Rob foi retirado de seus pensamentos pelo toque de chegada de uma mensagem pelo celular.
Secou as mãos, pegou o aparelho e leu:
Os bebês estão chegando! Venha rápido! Corra,corra,corra....
— Ei, Doni! Cuide das coisas aqui por mim... —disse Rob agitadamente enquanto retirava o
avental e o jogava sobre o balcão. – Preciso ir para casa correndo, os bebês estão chegando!
Gritava olhando para trás enquanto já saía indo em direção ao carro.
Chegou à casa de Bel em 10 minutos. Zeus estava próximo ao portão e começou a latir e pular
de um lado ao outro quando viu o dono chegar. Assim que Rob atravessou o portão Zeus correu
para a porta insistindo para que a abrisse. Rob a abriu e Zeus entrou correndo, latindo e voltando-
se para trás como que pedindo para que seu dono o acompanhasse.
— Ok, amigão! Já estou indo! Vá com calma! —Dizia Rob tentando inutilmente controlar a
ansiedade do cão que chegou a tropeçar em uma cadeira, mas prontamente levantando-se.
Foram até o quintal dos fundos onde havia um pequeno quarto. Rob pegou na maçaneta,
abriu lentamente a porta e esticou a cabeça para dentro. Não teve tempo de segurar Zeus que
entrou correndo por entre suas pernas. Lá dentro estavam Bel e Lisa ajudando no trabalho de parto
de Layla, que tentou se levantar assim que viu Zeus entrando agitadamente.
— Rob, acho melhor esperar com Zeus lá fora. — Disse Lisa. – E, por favor, tente acalmá-lo,
ele está muito agitado e isso incomodará Layla. Ela precisa de tranquilidade neste momento.
— Está certo. Venha amigão, vamos esperar lá fora. — Disse Rob enquanto empurrava Zeus
para fora do quarto. – Está tudo correndo bem?
— Os filhotes são um pouco grandes e irão começar a sair a qualquer momento. —Afirmou
Lisa. –mas Layla está indo muito bem, acredito que dará tudo certo.

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Rob sentou-se nos degraus de fora do quarto e Zeus sentou ao seu lado. Rob acariciava o cão
para tentar acalmá-lo. Estava emocionado pela forma como seu cão estava empolgado com o
nascimento dos filhotes e pelo sentimento de proteção que desenvolveu em relação à sua fêmea.
Era um verdadeiro cão de guarda agora. Lembrou-se de como permanecia sempre caminhando ao
lado de Layla e das vezes em que teve que conter o cão quando pessoas, principalmente estranhas,
aproximavam-se dela. Zeus também protegia a casa e não permitia que animais e pessoas sequer
chegassem à calçada. Rob sorriu sozinho ao se lembrar de um domingo que estava na cozinha
ajudando Bel a fazer o almoço. Percebeu Zeus entrando sorrateiramente para roubar uma maçã da
fruteira e sair em direção ao quintal.
— Mas que diabo está acontecendo aqui? — Perguntou Rob intrigado. – Já dei uma maçã
para Zeus de manhã, e agora já o vi entrando e roubando duas batatas e mais outra maçã. Esse
cachorro virou um saco sem fundo?
— Ele está dando presentes para Layla. — Disse calmamente Bel.
Rob a olhou com cara de quem não estava entendendo. Então Bel o pegou pela mão e o levou
para fora em direção ao quartinho nos fundos onde os cães dormiam. Entraram sorrateiramente no
quarto e encontraram Zeus ao lado de Layla e em frente a ela, enfileiradas, havia três batatas cruas,
duas maçãs, uma bolinha e um ursinho de pelúcia.
— Todos os dias ele traz presentes e comida para Layla. —Sussurrou Bel. – Eu venho aqui de
vez em quando para retirar algumas coisas, principalmente as batatas, para que ele pense que ela
as comeu. —Continuava explicando. — Já tirei duas vezes o ursinho de pelúcia, mas ele sempre
encontra e traz de volta, então resolvi deixar com eles.
Rob ainda ficava emocionado ao lembrar-se destes pequenos gestos de amor e carinho que
Zeus dedicava à sua fêmea. Desejou isso para si também, queria ter esse tipo de relacionamento
com uma mulher. Queria cuidar, proteger, mimar sua mulher e seus filhos. Filhos... nunca pensara
nisso antes, pois não se achava capaz de cuidar de outra pessoa, mas agora que encontrara Bel
queria filhos, muitos filhos.
Voltou à realidade quando Bel gritou lá de dentro que já haviam nascido dois filhotes.
— Ei! Parabéns, amigão! —Falava Rob enquanto abraçava Zeus. – Você é papai! Sabe... agora
você tem que dar bom exemplo, viu? — Falava enquanto balançava a mão com um dedo
apontando em direção ao cão. — E vê se para de beber água do vaso sanitário, isso não é uma boa
coisa para ensinar aos filhos.
Bel ouvia com um sorriso nos lábios essas e outras frases que Rob dizia a Zeus a título de
conselho para criação de filhotes. Ficou imaginando como seria Rob como pai. Apesar de seu jeito
durão acreditava que seria um pai carinhoso, pois a forma como lhe tratava e aos animais
confirmavam isso. Não sabia se Rob queria filhos. Eles nunca conversaram sobre isso. Mas se um
dia fosse mãe, gostaria que ele fosse o pai de seus filhos, pois já o amava profundamente e sabia
que não conseguiria ser feliz com outra pessoa.
A noite foi longa. Zeus e Rob cochilavam do lado de fora do quarto. A madrugada já ia alta
quando Lisa abriu a porta e disse:
— Está tudo bem! Já acabou. Agora vocês podem entrar. Vou embora, pois tenho que
trabalhar daqui a pouco.

20
Porto Feliz
Silvana Di Giusto

Zeus rapidamente deslizou para dentro do quarto, dirigiu-se para junto de Layla, cheirou os
filhotes, lambeu por longos momentos o rosto da fêmea, que se encontrava deitada e exausta,
depois pulou o cercado onde se encontravam mãe e bebês e, atropelando tudo, conseguiu se
instalar ao lado dela. Em seus olhos, se é que isso poderia existir, podiam perceber todo o orgulho
que sentia ao lado de sua família.
Rob e Bel começaram a rir ao ver como o enorme cão se espremia todo para caber em um
pequeno cercado e ao mesmo tempo se emocionaram ao ver seu gesto amoroso perante sua
fêmea.
-Acho melhor os deixarmos sozinhos agora. Murmurou Bel enquanto saía com Rob. — acho
que todos nós merecemos um descanso agora. No total foram oito filhotes.
— Puxa! Ela deve ter sofrido um bocado! —Exclamou Rob arregalando os olhos admirado.
— Um pouco, mas no final deu tudo certo. Lisa ajudou muito também.
Rob puxou Bel para seus braços e afagou seus cabelos. Ela estava com aspecto cansado, mas
feliz. Ali, sob um céu sem nuvens e a luz brilhante de uma lua cheia, ficaram abraçados por um
longo momento.
— Sabe... —disse por fim Rob. – Fiquei aqui fora pensando a noite toda e percebi que sou
igual ao Zeus.
— O quê?! Não vai me dizer que você também ama Layla!? —Perguntou Bel em tom de
brincadeira, enquanto levantava a cabeça e olhava Rob.
— Não tolinha! — Disse Rob sorrindo, olhando em seus olhos. – Eu amo você!
Bel imediatamente parou de rir e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Você tem certeza? Quer dizer... — gaguejou. — Você nunca falou essas palavras... —parou
sem saber o que dizer.
Rob segurou o rosto de Bel entre suas mãos e olhando diretamente em seus olhos, disse:
— Nunca tive tanta certeza de algo em minha vida, como a certeza que tenho que te amo.
Bel não conseguiu conter as lágrimas e não foi capaz de articular palavra alguma.
— Quero uma família e uma mulher maravilhosa como você ao meu lado... —Falava
suavemente enquanto secava as lágrimas do rosto dela com os dedos. — E quero filhos também.
Quero que você seja a mãe dos meus filhos. —Rob parou de falar. Sentia a garganta queimando
pela emoção.
— Eu não sei o que você viu em mim. Você me vê como uma pessoa boa, que nem sei se sou
realmente. Sorriu e afastou uma mecha de cabelos do rosto dela. — Mas sei que me sinto uma
pessoa melhor quando estou ao seu lado e vou me empenhar ao máximo para ser assim sempre. —
Respirou fundo e tentou acalmar-se para que a voz saísse firme. — Quer se casar comigo?
Bel jogou-se em seus braços e chorou copiosamente.
— Espero que isso seja um sim, mocinha, pois você já tomou conta do meu coração e da
minha vida e agora não há como escapar! —Murmurava nos ouvidos de Bel enquanto ria e a
abraçava fortemente, acariciando seus cabelos e suas costas.
Bel afastou-se dele um pouco, enquanto ria e chorava ao mesmo tempo, enxugando as
lágrimas com as palmas das mãos, tentando recompor-se um pouco.
— Sim! —Afirmou com a voz rouca pela emoção. – A resposta sempre foi sim e sempre será!

21
Porto Feliz
Silvana Di Giusto

Afastou-se dele e estendeu a mão direita em sua direção.


— Venha! Acenou com a cabeça em direção a casa. – Vamos ser felizes juntos!
Rob pegou sua mão aceitando seu convite.
— Sim, querida! Agora e sempre.

FIM

22