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“PLANEJAMENTO TERRITORIAL” E “ORDENAMENTO

TERRITORIAL”: UMA BUSCA DA COMPREENSÃO USUAL E


EPISTEMOLÓGICA NA GESTÃO DO TERRITÓRIO
“TERRITORIAL PLANNING” AND “TERRITORIAL ORDERING”: A SEARCH OF COMMON AND
EPISTEMOLOGICAL UNDERSTANDING IN MANAGEMENT PLANNING

Augusto Guthiere Fialho Arruda1

ARRUDA, A. G. F. “Planejamento territorial” e “ordenamento ter-


ritorial”: uma busca da compreensão usual e epistemológica na
gestão do território. Akrópolis Umuarama, v. 21, n. 2, p. 125-
132, jul./dez. 2013.

Resumo: Dentro do meio acadêmico, temos várias questões que ain-


da, em pleno século XXI, permeiam questionamentos em estruturas de
base epistemológica, fazendo-nos pensar ou repensar a maneira que
vemos e utilizamos conhecimentos concebidos em anos de pesquisa
e/ou em inovações tecnológicas. Atualmente se percebe que alguns
questionamentos que parecem óbvios, no sentido epistemológico, na
clareza já concebida, se mostram ainda verdadeiros tabus quando se
revelam em meio a textos técnicos e pesquisas acadêmicas. Ao es-
tudar o território, diante de tantos pensamentos, não podemos deixar
de entender todos os processos que balizam o território e por sua vez
fomentam seus conceitos. As ações que levam o planejamento, e por
fim, o seu ordenamento, diferenciam-se, dando subsídios para enten-
der a dinâmica do território no que tange a sua formação sob o ponto
de vista do poder político-administrativo e de seus respectivos gesto-
1
Bacharel em Geografia pela Universidade
Estadual do Ceará – UECE, Mestrando do res. Esse artigo tem como objetivo, levar e elevar o pensamento acer-
Programa de Pós – Graduação em Geo- ca do planejamento dos espaços nos municípios que são os objetos
grafia da Universidade Estadual do Ceará de maior interesse dentro do planejamento para findar num ordena-
– UECE. Bolsista da Fundação Cearense
mento, otimizando os trabalhos e levando diretrizes em termos técni-
de Apoio ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico – FUNCAP. cos. Compõem-se necessário a diferenciação dos termos, conceitos e
E-mail: guthierefialho@gmail.com atores para que se chegue em uma homogeneização do pensamento
findando nos trabalhos e ações concebidas, saindo da subjetividade e
dos vários valores dados a um determinado espaço geográfico.
Palavras-chave: Território; Planejamento; Gestão.

Abstract: In the academic field, there are several issues that still, in
the XXI century, permeate questions in basic epistemological structu-
res, making us think or rethink the way we see and use knowledge con-
ceived to years of research and / or technological innovations. At pre-
sent it is possible to observe that some questions that seem obvious,
in the epistemological sense, in the clarity ever conceived, even if true
show when taboos are revealed amid technical texts and academic
research. By studying the territory, before so many thoughts, we must
understand all the processes that mark the territory and in turn foster
their concepts. The actions that take planning, and ultimately your or-
der, differentiate, giving subsidies to understand the dynamics of the
territory when it comes to their education from the point of view of the
political-administrative and their respective managers. This article aims
to lead and elevate thinking about space planning in municipalities that
are the objects of greatest interest to end on schedule in planning, op-
Recebido em Maio de 2013
timizing and leading the work on technical guidelines. It is necessary to
Aceito em Julho de 2013 point the differentiation of terms, concepts and actors in order to reach
homogenization of thought , concluding the works and actions concei-

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ARRUDA, A. G. F.

ved, leaving the subjectivity and multiple data values ou indivíduos para a defesa de um espaço. O
to a certain geographic area. conceito de território pode parecer subjetivo,
KEYWORDS: Territory; Planning; Management. dependendo de qual método é utilizado para
estudá-lo, mas é certo que passa pela ideia de
INTRODUÇÃO apropriação de uma parcela geográfica por um
indivíduo ou uma coletividade com um fim em
Algumas questões sobre o estudo do ter- comum.
ritório são temas ainda hoje abordados em sa- Um dos primeiros estudiosos do conceito
las de debates, dentro das academias ou fora de território foi o geógrafo e etnólogo Friedrich
dela. A dinâmica mundial modifica-se ao passo Ratzel que conceituou o território como o espaço
das necessidades e motivações levantadas pela sobre o qual se exerce a soberania do Estado.
sociedade. Avançar nos estudos sobre a gestão Para Diniz (2009), Ratzel sustenta que o
do território, desvendar seus novos processos Estado surge quando uma sociedade se organi-
de formação e configuração, ou até iniciar uma za para defender seu território, sendo essa sua
avaliação mais profunda sobre o tema, é de es- função primordial. Nesse sentido, ele pode ser
sencial providencia para acompanharmos toda tanto o Estado nacional contemporâneo (cuja
a dinâmica envolvida e sobre tudo, detectar as origem se dá no século XVIII) quantas formas de
ações sociais e qual sua participação ao lon- organização política.
go de todo histórico de implicação científica na Na geografia tradicional, portanto, o con-
abordagem das ciências que subsidiam a anali- ceito de território é usado para estudar as rela-
se do território. ções entre espaço e poder desenvolvidos pelos
Yves Lacoste, numa obra célebre Estados, especialmente os Estados nacionais
dos anos 70, colocava de uma forma cla- que atualmente são os reguladores e maiores
ra a sua reflexão: “a geografia serve para fa- interventores do espaço quando percebemos
zer a guerra”. Tal era o título dessa sua obra. assim suas delimitações.
Ruía assim o ponto de vista das ciências do terri- Para Haesbaert (2009), os estudos atu-
tório, da arquitetura e do planejamento territorial ais utilizam vários conceitos de território, os
como ciências neutras ou puramente técnicas quais se diferenciam por enfatizar mais uma di-
que não tendem a imparcialidade do seu mani- mensão ou outra das relações entre espaço e
pulador. poder. Alguns enfatizam principalmente a dimen-
Percebemos com a leitura de Lacos- são material dessas relações (conformação de
te, uma certa inquietação da academia que se infraestruturais, planejamento urbano, etc.), en-
mostra (ou deve se mostrar) contrária às ideias quanto outros podem enfatizar mais a dimensão
que fomentam a percepção de grupos especula- simbólica (os locais sagrados de Jerusalém, por
dores, condicionadores, formadores do espaço exemplo). Por fim, vale ressaltar que Haesbaert,
quer seja ele urbano ou não. Essa preocupação não há e nem deve haver uma diferenciação rígi-
na gestão do território não é apenas pelo pon- da entre os conceitos de espaço geográfico e de
to de vista da academia ser contrária as ideias território, já que as duas categorias são resultan-
dos condutores de políticas publicas, mas apon- tes das variáveis que as formam. Os vários olha-
tar as limitações e suscetibilidades de cada es- res e percepções atribuídas aos conceitos de
paço, por sua vez concebendo bases para um território é que desperta seu estudo e nos leva
pensamento de valor homogêneo e de interesse a pensá-lo do ponto de vista do planejamento.
mutuo entre os respectivos gestores e os atores Por passar pela definição de posse como um
sociais que compunha o espaço a ser pensado. objeto, uma matéria que pode ou não, depen-
Dentro de sua própria definição, o con- dendo de sua característica levar à denominá-
ceito de território perpassa pela posse, poder, -lo “indestituível”, ou até mesmo material, sen-
apropriação. Toda e qualquer sociedade, seja do mercado que dá margem às especulações,
ela humana ou não, tende a delimitar suas pos- implicando em transformações que influenciam
ses a fim de limitar as ações de seres estranhos e são influenciadoras do modo de vida do pró-
à sociedade a que tal espaço pertence. prio usuário e “proprietários” do espaço. Pensar
Para a ciência biológica, o território é no território como espaço que necessita elencar
definido como área de vivência de uma espécie seus reais interventores e seus reais balizado-
animal. Já na Psicologia, são ações de espécies res para que todas as ações que fundamentam o

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planejamento e leva excelência ao modo de vida dez nos processos que relacionam a formação e
de quem está sob tal plano. Sabe-se que chegar sua respectiva gestão. Em 1969, com a criação
a um denominador comum acerca de padrão de do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
planejamento é algo utópico e inviável frente à (IBGE), um das primeiras atividades do órgão foi
tantas especificidades, variáveis sociais e sobre- promover a divisão territorial regional do País em
tudo, a valoração do espaço no ponto de vista cinco (5) regiões que foram separadas por ca-
dos gestores, contudo organizar o pensamento racterísticas físicas, culturais e econômicas com
e os métodos que trabalham o planejamento do o propósito de ajudar as interpretações estatís-
território é muito oportuno, pois ajudará em ana- ticas, implantar sistemas de gestão de funções
lises futuras sobre conceitos de organização e públicas de interesse comum ou orientar a apli-
formação do espaço geográfico. cação de políticas públicas dos governos fede-
ral e estadual. Não estamos aqui questionando
GESTÃO, PLANOS E ORDEM o trabalho- diagnóstico feito pela equipe oficial
de geografia do país, contudo a indagação fica:
É sabido que quando se fala de planeja- Até onde, e quais as implicações desta divisão
mento territorial se refere tambémà um entendi- a partir dos parâmetros que foram regimentados
mento degestão para que se chegue à eficiência para dar formato atual, tem e/ou teve na “otimi-
e aos objetivos que tal planejamento tem como zação” da gestão do território nacional? Quais
parâmetros. Planejamento Territorial se mostra são os parâmetros que são realmente necessá-
numa escala da gestão, se posicionarem uma rios para se chegar uma matriz de ordenamento
plataforma advinda na estrutura da gestão pro- territorial que seja eficiente perante as tantas es-
priamente dita. Fomenta todas as ações que pecificidades sociais, econômicas de uma nação
implicarãoem um ordenamento territorial e seus de dimensões continentais como o Brasil? Não
agentes envolvidos. queremos aqui nos ater a esse diálogo, mas re-
pensar e formar debates são formas de averi-
guar se realmente a gestão territorial no país é
considerada satisfatória a exigências espaciais
de cada localidade dentro de nosso território.
Ainda na compreensão da hierarquia,
mais ultimamente, as atribuições elencadas
para se chegar a uma gestão excelente, atribui
valor ao agente mais interessado no ordena-
mento: A comunidade local. O termo “Planeja-
mento Participativo” surgiu como uma resposta
aos problemas enfrentados pelas várias escalas
de organização, dando possibilidade aos vários
atores que compunha os níveis de atribuições e
atuações dos mesmos.
Elementos e agentes remodeladores do território, Quando estudamos planejamento, de
2012.
um modo mais específico, como planejamento
territorial, as instituições governamentais, sobre
Facilmente se percebe pelos elementos
tudo no nível Federal, dita as bases para che-
traçados no organograma acima os desdobra-
gar à um plano no nível municipal que atenda
mentos e interações dos vários atores, de vá-
as especificidades locais, e aglutinando em uma
rios níveis e escalas, no fomento de uma gestão
plataforma única em nível nacional.
territorial, havendo uma integralização dos ele-
mentos, coexistindo, dentro do prisma do pla- Contudo, planejar, orçar e gerir a ação públi-
nejamento, contudo para que haja uma gestão ca a partir de uma perspectiva territorial não
em excelência, o enfoque sempre passa pela é uma tarefa simples, requer, dentre outras
escala municipal, pois não se pode afirmar que coisas, um “diagnóstico” compartilhado por
uma gestão que supri as necessidades, no que parte dos atores governamentais acerca dos
tange ao ordenamento, sem perceber as neces- principais problemas enfrentados pelo País,
sidades das cidades atinentes, e abranger a flui- bem como da sua distribuição e configuração
em termos espaciais, e uma estreita articula-

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ção intra e inter-governamental nas ações de que findavam na formatação dos grandes cen-
enfrentamento daqueles problemas.(MPOG- tros urbanos.
Brasil,2008). É cada vez mais evidente que não podem
existir território sem uma especulação provinda
O sentimento de planejar um território se de ideais (intenções), e que qualquer território
evidenciou em uma necessidade eminente fren- potencializa conteúdos estratégicos políticos. As
te a tantos problemas formados a partir de uma investigações feitas sobre o modo de apropria-
organização ou uma comunidade a fim de dar ção espacial permitiram uma melhor compreen-
vetores que norteavam as ações administrati- são dos problemas da exclusão social, da “es-
vas. Os planos Nacionais a priori, de forma glo- gotabilidade energética”,obtenção de recursos e
bal, se revelaram ineficazes num dado momento intervenções sociais. Evoluíram as concepções
da história do planejamento. Atendiam, em pri- sobre a paisagem e modificou-se também a per-
mazia, à interesses das classes mais abastadas cepção de natureza e seus elementos. Esta me-
ou do poder local, que muitas das situações não tamorfose levou a abandonar a uma percepção
atendiam a demanda de senso maior, afortunan- mecanicistas do território induzidas pela idéia
do os problemas de ordenamento já existentes, simplória de causalidade, levando em conta
fomentando a existência de outros e implicando também, variáveis que devem ser estudadas na
no social. gestão territorial.

TERRITÓRIO E SUAS VARIÁVEIS DE ESTU-


DO

Muito dos pensamentos que envolvem


o estudo das “territorializações” sempre está in-
trínseco as mobilidades, as políticas de desen-
volvimento e crescimento como também anali-
se das mudanças concebidas em áreas rurais
e urbanas. De fato o conceito mecanicista não
conta mais de tantas variáveis que são revela-
das quando se aborda o território. Sendo assim,
tais variáveis podem apontar a real complexida-
Figura 1: Exemplo de Planta de cidades Feudais de que distingue o planejamento. Chegar a uma
(Idade Média).
matriz de ordenamento territorial, atualmente
parece ser salutar em algumas situações, prin-
Um exemplo bem típico do que está sen-
cipalmente quando se fala de municípios que
do discutido, são as organizações feudais (Fi-
estão próximas áreas de proteção e unidades
gura 1), que historicamente são formadas pelo
de conservação com a finalidade de padronizar
pressuposto de que as classes abastadas fica-
as ações de áreas que são mais vulneráveis às
riam no centro do território, dando origem à ex-
ações antrópicas, levando à eficiência dos tra-
pressão “espaço marginal”,ou à margem do ter-
balhos.
ritório central. O clero (poder máximo da Idade
Os planos diretores, que são documen-
Média), nobres (compostos pelo poder político)
tos oficiais de desenvolvimento, que articulam
e burgueses (poder econômico) no centro, en-
uma eventual expansão urbana, demonstram
quanto que os camponeses residiam de forma
ser eficazes no ponto de vista técnico e ideo-
radial ao centro, símbolo do poder. A questão da
lógico. São feitos dentro de uma estrutura pa-
gestão do território, por muitos anos, dentro da
drão, objetivando a excelência no que tange
ciência se mostrou certo incômodo, pois para
a expansão urbana, todavia ocaso de países
os muitos autores que trabalhavam o tema, a
como Brasil, desloca, mesmo que parcialmente,
conjuntura da formação dos territórios sempre
as veementes intenções do documento que de-
passava pela perspectiva do poder. Em outras
veria ser vetor para o crescimento e articulação
palavras, as ciências que subsidiavam as políti-
de um dado município. Isso põe em cheque sua
cas de formação do território, sempre intitulavam
eficiência. A padronização do pensamento que
neutras e adjacentes as verdadeiras intenções
forma as idéias do documento revela um não

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Planejamento territorial” e “ordenamento...

comprometimento com as especificidades intrín- mento também é recíproco e contrário, pois em


secas e especificas que cada espaço elabora diversos casos, a formação do território é dado
na variação do arranjo dos elementos que são por aspectos já existentes em uma sociedade,
constituintes. rompendo com padrões encontrados em muitas
De acordo com Lei Nº 10.257, do Estatu- gestões, pois trabalha com a pluralidade socioe-
to das cidades, Cap. I Art. 2º, cita: conômica de uma dada comunidade. Por existir
essa pluralidade de condicionantes de formação
A política urbana tem como objetivo ordenar e arranjo do território, tornam as ações comple-
o pleno desenvolvimento das funções sociais xas por tratarem de variáveis múltiplas, poden-
da cidade e da propriedade urbana, median- do acrescentar valores subjetivos a estrutura do
te as seguintes diretrizes [...](MCC - Brasil, planejamento na aplicação da gestão. Ao dis-
2001).
cutir sobre a problemática da gestão territorial,
Jean Tricart (1977) em sua obra “Ecodinâmica”,
Parece bem simplório dar uma definição
fala acerca das dadas limitações e potencialida-
de um documento que é feito com característi-
des do território na percepção de quem condi-
cas e forma de diagnóstico por profissionais bem
ciona os vetores da gestão.O autor destaca a
gabaritados, contudo os objetivos, em linhas ge-
gestão num ponto de vista integral.Os estudos
rais, é realmente subsidiar a gestão do território
que fundamentam a gestão devem-se atinar
urbano.
para as intercessões intermunicipais para que
Foucault (2005), ao fazer uma análise
haja gestão, de forma plena, abrangendo outra
dos textos de Jeremy Benthan, “O Panóptico”,
escala do território. É de verdadeira importância
nota a importância de levar a inserção de alguns
ressaltar que os métodos apontados por Tricart
instrumentos topológicos à discussão da gestão
(1977), são de real valor. Ao elaborar uma anali-
do território. Os vários dispositivos que envol-
se agrológica, o autor não só se deteve as pos-
vem tal assunto, levam os estudos de formação
sibilidades e limitações, contudo percebe-se que
e planejamento do território a patamares mais
o estudo tem uma profundidade de análise dos
elevados. Aliar tal instrumento auxilia na evolu-
sistemas que regem e subsistemas que operam
ção do pensamento de causa e efeito nos es-
dentro do microssistema que é o próprio espaço.
tudos do território e põe as especificidades do
Essa hierarquia de organização consegue abar-
mesmo como ponto de partida que apóia gestão.
car toda a conjuntura sócio-organizacional do
Envolve diversas áreas do conhecimen-
espaço, pois leva ao gestor uma percepção mais
to, promovendo perspectivas, abrindo a possibi-
detalhada, levando a inserção de toda a comple-
lidade de várias abordagens de um sistema com-
xidade atinente à fundamentação e bases para
plexo por ser cheio de variáveis e conjunturas
o planejamento territorial.
múltiplas. A importância da interdisciplinaridade
na gestão é fator que não se pode descartar da Para permitir ao poder decisório desempe-
pauta que envolve o debate sobre a categoria nhar seu papel e chegar à escolha, a equipe
território. A ciência geográfica se mostra pronta de técnicos deve efetuar, ainda, os três pro-
e em certo progresso para estudar as questões cedimentos: 1º Apresentação dos diversos
que envolvem a ciências do território por estar tipos de administração e manejo possíveis,
aberta e por ter abordagem interdisciplinar não mostrando claramente suas vantagens e in-
se fechando à métodos e ideias fechadas. conveniências; 2º Classificação das regiões
Henri Lefebvre (1974), mostra a impor- em função dos problemas da gestão do terri-
tância das decisões tomadas na formatação do tório (Tricat, 1977, p. 69).
território. As estruturas que balizam a análise do
território são condicionantes e efeitos dados de Entender e identificar acertos e equívo-
microssistemas envolvidos na formação e fun- cos da administração do território em questão,
cionamento do território. percebendo se as políticas adotadas estão em
Para Rodrigues (2005), as ações de- intercessão com a legislação específica e se
cisivas do território, do urbanismo e da urbani- consegue abarcar as necessidades em comum
zação territorial, como a substância que molda de todos os atores envolvidos.
percursos e trajetos de comportamentos sociais Quando se estuda um determinado es-
e individuais.É importante atinar que o movi- paço, não se pode trabalhá-lo do ponto de vis-
ta territorial que obedece a limites impostos por

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ARRUDA, A. G. F.

seus gestores (divisões administrativas). A dinâ- tratar de uma área de zona costeira com exis-
mica natural é independente. Todos os proces- tência de campo de dunas a Leste, e uma área
sos que envolvem a dinâmica vão estar ativos, e estuarina do rio Curu, à Oeste.
por isso que a gestão deve amparar tais proces- As áreas marginais merecem, depen-
sos embora não estejam em sua área jurisdicio- dendo da situação, um olhar como também re-
nal relatada ainda na Lei Nº 10.257, do Estatuto giões compósitas, mencionadas por Tricart na
das cidades, Cap. I Art. 2º, inciso VIII: sua obra. Existem várias questões levantadas
sobre tais regiões, pois para não auferir desdo-
[...]adoção de padrões de produção e consu- bramentos que causem disparidades, mais do
mo de bens e serviços e de expansão urbana que nunca, os planos de gestão devem discorrer
compatíveis com os limites da sustentabilida- sobre tal ponto, pois caso contrário pode desen-
de ambiental, social e econômica do Muni- rolar empecilhos na ordem de jurisprudência na
cípio e do território sob sua área de influên-
gestão e planejamento das regiões que por não
cia;[...] (MCC - Brasil, 2001).
estarem bem definidas, levando à embates en-
tre gestores adjacentes que por questões políti-
Ainda dentro dos procedimentos que
cas não remetem as devidas responsabilidades
compunha as regiões em função do problema,
na valorização e manutenção do território para
o autor nos leva a perceber o território do pon-
suas atribuições, por ainda termos uma concep-
to de vista dos sistemas produtivos que existem
ção medieval dos regiões marginais e compósi-
no território. Como esses sistemas interferem no
tas. Não queremos aqui refutar as apreciações e
meio? Por sua vez resultam em uma otimização
contribuições do celebre autor, mas sim comple-
da gestão territorial? Essas indagações podem
mentar suas ideias, pois a situação atual difere
revelar a valoração de uma determinada área
das dinâmicas por ele contempladas. Possuem
e essa apreciação pode ser responsável pela
a mesma base, contudo as causas e consequ-
remodelação dos planos de gestão podendo
ências podem ter mudado no decorrer dos tan-
definir outros objetivos que podem ser mais ou
tos processos pelo dado território sofrido.
menos importantes no ponto de vista de todo o
Dentro deste desenrolar de conceitos
sistema e seus integrantes.
que envolvem a temática, que antes de mais
Finalizando os procedimentos de análi-
nada é imprescindível que se note a tipificação
se, Tricart também destaca as regiões marginais
das áreas que vão passar pelos processos que
que do ponto de vista do autor são desmerece-
rebuscam a gestão dos territórios.
doras de uma atenção no que tem haver a ges-
A questão da subjetividade também se
tão. Em alguns casos pode haver certa lógica e
aplica por atribuir valor ao território. Esse valor
racionalidade no descaso dessas regiões, porém
é condicionado pelo convívio, pela história, pela
atualmente vemos que certas cidades que, ante-
devida interpretação dada ao lugar que finda
riormente, não tinham como pauta de discussão
no território por adicionar valor agregado, quer
seus vetores de crescimento, hoje já repensam
seja ele valor econômico ou afetivo. Atribui-se
suas regiões marginais. No caso da cidade de
um maior cuidado na analise do território ao se
Maranguape – Ceará, Brasil - que cresce entre
detectar existência de recursos que adicionam
o rio Maranguape e a serra do Maranguape, ou
valor ao território implicando na elaboração de
seja, disposições de unidades geomorlógicas,
postulados da gestão que iram motivar as ações
por sua vez sendo áreas de proteção ambiental
dos respectivos gestores.
levando os respectivos gestores a pensar para
Podemos exemplificar de forma bem ca-
onde deve redirecionar o crescimento da cidade,
tegórica tal valorização quando falamos de ter-
que é eminente. Outro exemplo é o da cidade
ritórios costeiros. No caso o recurso aqui valo-
de Paracuru – Ceará, Brasil (cidade litorânea),
rizado, é o que está atrelado o da paisagem e
que possui áreas de proteção ambiental marge-
todos seus atributos que agregam valor. Cerca
ando a cidade. Se não houver uma preocupação
de 2/3 da população mundial estão alocados a
antecipada desta questão para tais cidades, po-
menos de 50 km da linha de costa (separação
demos futuramente nos deparar com situações
do continente e oceano) ONU, 2000. Grandes
que concretamente acometeram a sustentabili-
partes dos estudos de impactos ambientais, atu-
dade não somente nos projetos de gestão, mas
almente, estão voltados para investigar as rela-
também nos processos morfodinâmicos por se
ções do homem e suas ações em espaços cos-

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Planejamento territorial” e “ordenamento...

teiros. Isso por haver, notoriamente, uma maior a qual é condicionada pela estrutura do capital
intervenção humana nessas áreas sendo dire- em formar demandas de consumo e nortear as
tamente proporcional aos impactos oriundos da necessidades, influenciando verdadeiros im-
relação “intervenção humana” e gestão/planos pactos sociais e também de caráter ambiental.
ineficientes. O processo de “turistificação” tem sido um dos
Por serem áreas valorizadas, os movi- grandes responsáveis pela demanda de ade-
mentos migratórios paras estas áreas são ine- quação das cidades a novos aparelhos que são
vitáveis. Todos esses atrativos, impulsionam tais influência da presença do capital nas atividades
movimentos que por sua vez, levam os indivídu- turísticas, principalmente, de cidades de médio
os a estarem se alocando, implicando em mais e pequeno porte. Com isso, o arranjo desses
demanda de serviços. Toda essa conjuntura municípios tem sido um problema não previsto
leva a necessidade de uma organização que re- e levado como apto a ser remediável e não ao
quer planejamento, principalmente por se tratar, prevenido e discutido com os elementos que são
eventualmente, de um município que dará fun- atuantes no processo de formação, reformação
damento a aparelhos e instrumentos de subven- e arranjos das cidades.
ção à população e suas novas necessidades,
impulsionadas pela valoração dos recursos que CONSIDERAÇÕES FINAIS
deram início ao processo de “turistificação”.
Diantedesta pesquisa foi possível por
meio desta pesquisa bibliográfica foi possivel
analisar os vários conceitos elaborados por di-
ferentes autores que se dedicam a estudar o
território e aprofundar suas bases, e pode-se in-
ferir que dentre as referencias estudadas até o
momento há uma inquietação para levá-la a ser
intercessora da dinâmica ambiental e todos os
atores que ela compõe.
A gestão é eminente nessas áreas por
produzirem mais e atrair mais pessoas pelas
suas atividades e novas demandas. Caso con-
trário, os problemas de ordem sociais e ambien-
tais, que estão presentes em alguns municípios
no Brasil, serão notoriamente nocivos e despedi-
ram mais dos gestores e municípios em questão
com o fim de sanar possíveis resultados inespe-
rados por conta de um planejamento inadequa-
do que não atende as especificidades do objeto.
Todas as variáveis que são contempla-
das e que integram o estudo do território, feitas
de maneira compromissada às necessidades,
Figura 2: Gráfico de Receita e Despesas do muni-
são capazes de alcançar as especificidades que
cípio costeiro de Paracuru, CE – Brasil, IBGE, 2010.
o planejamento intenta impetrar. A distinção e
O setor de serviços e comércio (setor ter- hierarquização contribuem de maneira salutar e
ciário) são os que possuem maior crescimento transcende as bases epistemológicas do plane-
(Figura 2), sendo assim possuem maior deman- jamento do território. Apesar de levar as análises
da de mão de obra. O gráfico acima, confeccio- a uma interdisciplinaridade, por ter tantos con-
nado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Es- ceitos que antes pareciam autônomos, contudo
tatística (IBGE), evidencia esse crescimento no diante o debate, revela que há possibilidade de
município de Paracuru, Ceará, levando a subsí- interação para se chegar ao ordenamento e con-
dio de estratégias que conduzam a formatação ceber formas de viáveis de preservação ambien-
dos territórios costeiros, pois o crescimento de tal, satisfação social e econômica remetendo as
um dado município é dado por uma evolução bases de uma sustentabilidade e graduando as
influenciada pela evolução econômico-social, gestões nas mais diversas escalas.

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ARRUDA, A. G. F.

REFERÊNCIAS “PLANIFICACIÓN TERRITORIAL” Y


“ORDENAMIENTO TERRITORIAL”: UNA
A PÁGINA da educação. Disponível em: <http:// BÚSQUEDA POR LA COMPRENSIÓN USUAL
www.apagina.pt/?aba=7&cat=146&doc=10901& Y EPISTEMOLÓGICA EN LA GESTIÓN DEL
mid=2>. Acesso em: 15 abr. 2012. TERRITORIO

BRASIL. Lei no 10.257, de 10m julho de 2001. Resumen: Entre el medio académico, tenemos varias
cuestiones que, todavía, en pleno siglo XXI, permean
Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição
cuestionamientos en estructuras de base epistemoló-
Federal, estabelece diretrizes gerais da política gica, haciéndonos pensar o repensar la forma que ve-
urbana e dá outras providências. Disponível mos y utilizamos conocimientos concebidos en años
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ de investigación y/o en innovaciones tecnológicas.
LEIS_2001/L10257.htm>. Acesso em: 10 maio Actualmente se percibe que algunos cuestionamien-
2012. tos que parecen obvios, en el sentido epistemológico,
en la claridad ya concebida, se muestran todavía ver-
DINIZ, L. L. F. Fundamentos epistemológicos daderos tabús cuando se revelan en medio a textos
da geografia. Curitiba: IBPEX, 2009. (Coleção técnicos e investigaciones académicas. Al estudiar el
Metodologia do Ensino de História e Geografia, territorio, delante de tantos pensamientos, no pode-
6), p. 67. mos dejar de entender todos los procesos que bali-
zan el territorio y por su vez fomentan sus conceptos.
______.______. Curitiba: IBPEX, 2009. Las acciones que llevan la planificación, y por fin, el
ordenamiento, se diferencian, dando subsidios para
(Coleção Metodologia do Ensino de História e
entender la dinámica del territorio en lo que tañe su
Geografia, 6), p. 131.
formación bajo el punto de vista del poder político ad-
ministrativo y de sus gestores. Ese artículo ha tenido
FOCALT, M. Surveilleret punir. Paris: como objetivo, llevar y elevar el pensamiento acerca
Gallimard, 1975. de la planificación de los espacios en los municipios
que son los objetos de mayor interés dentro de la pla-
HAESBAERT, R. Território e região numa nificación para terminar en ordenamiento, optimizan-
“constelação” de conceitos. In: MENDONÇA, do los trabajos y llevando directrices en términos téc-
F.; SAHR, C. L. L.; SILVA, M. (Org.). Espaço e nicos. Se componen necesario la diferenciación de
tempo: complexidade e desafios do pensar e los términos, conceptos y actores para que se llegue
do fazer geográfico. Curitiba: Ademadan, 2009. a una homogeneización del pensamiento, terminan-
do en los trabajos y acciones concebidas, saliendo
LACOSTE, Y. La géographieçasert, de la subjetividad y de los varios valores dados a un
dabord, à fairelaguerre, Paris: FM determinado espacio geográfico.
petitecollectionmaspero, 1976. Palabras clave: Territorio; Planificación; Gestión.

LEFEBVRE, H. Le droit a la ville. Ed. Seuil,


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