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Resumo texto – O Brasil Império: a cidadania limitada (aula 7)

MATTOS, Hebe M. Escravidão e Cidadania no Brasil Monárquico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2004, pp. 14-54.

Escravidão e cidadania

A Constituição outorgada de 1824, que de maneira inédita definiu os direitos próprios à


cidadania brasileira, foi responsável por romper as restrições impostas pelo estatuto da pureza
de sangue em Portugal aos descendentes africanos. O referido estatuto limitava o acesso a
cargos públicos, eclesiásticos e a títulos honoríficos aos chamados cristãos velhos (famílias
tradicionalmente católicas a no mínimo quatro gerações). Contudo, ao passo que a
Constituição de 1824 representava inovação determinando os direitos e deveres dos cidadãos,
ao mesmo tempo esta legitimava a continuidade da escravidão.

Embora a base do estatuto da pureza de sangue fosse constituído por um viés religioso, este
construía uma classificação baseada na ascendência, de caráter proto-racial, mas que não era
utilizada para justificar a escravidão, mas sim para manter os privilégios da nobreza,
constituída por cristãos velhos. Todos os súditos do rei tinham seu lugar social e por este eram
protegidos. Pertencer à sociedade imperial tinha relação direta com a conversão ao
catolicismo através do batismo. Nesse sentido, a escravidão era justificada se este fosse o
caminho para servir ao rei e à verdadeira Fé. Caso os indígenas os africanos se recusassem a
converterem-se à fé católica, este fato os tornavam passíveis a serem escravizados por serem
considerados bárbaros ou ateus.

A construção da noção de raça no Brasil se desenvolveu de forma problemática, pois na visão


dos setores da sociedade interessados na manutenção da escravidão, visão compartilhada por
grande parte da população de pardos livres, esta noção não se configurava como solução, mas
como problema. Esta questão é observada no complexo sistema classificatório/identitário que
surgira na América Portuguesa com a decisão da emancipação política.

A Constituição Imperial de 1824 reconheceu os direitos civis de todos os brasileiros, fazendo


distinção do ponto de vista dos direitos políticos em função de suas posses, adotando o voto
censitário em três diferentes níveis: o cidadão passivo (com renda insuficiente para ter
concedido o direito ao voto), o cidadão ativo votante (com renda adequada para decidir,
mediante o voto, o colégio de eleitores) e o cidadão ativo eleitor e elegível, sendo necessário
neste último nível, além do atendimento ao critério de renda, o eleitor deveria nascer
“ingênuo”, ou seja, que não tivesse nascido escravo.

Desde que possuíssem renda, os descendentes de escravos libertos gozariam de seus direitos
políticos, diferente dos escravos alforriados nascidos no Brasil. Esta restrição aos direitos civis
configurava o que hoje é identificado como “discriminação social”.
Embora a Constituição reconhecesse a igualdade de direitos civis entre os cidadãos, os
brasileiros não-brancos sofriam constantemente com os estigmas raciais caso não pudessem
comprovar sua condição de liberdade, ficando sujeitos constantemente a arbitrariedades.

Diversas lutas ocorreram no sentido de reivindicar o reconhecimento dos seus direitos civis e
igualdade como cidadãos brasileiros, contudo, essa igualdade era reivindicada para os
“cidadãos livres”, sem uma proposta efetiva a favor da abolição total e imediata da escravidão.

A insatisfação dos cidadãos livres advinha da sensação de não pertencimento à sociedade


brasileira, devido às marcas resistentes da escravidão. Atrelado às lutas e reivindicação dos
cidadãos livres, encontra-se o silenciamento de sua cor (processo de branqueamento da
população), visando maior aceitação e possibilidades de ascensão social.

Ainda neste contexto, conservadores e liberais defendiam propostas opostas para legitimar a
continuidade da escravidão, ambas amparadas pela Constituição outorgada de 1824, mas que
impactariam de formas bem distintas sobre as possibilidades de alforria dos cativos e sobre a
estrutura das hierarquias sociais entre a população livre.

O discurso conservador defendia a manutenção da escravidão aos moldes do Antigo Regime,


tendo como premissa o direito de propriedade e as hierarquias sociais tradicionais,
legitimando os privilégios da nobreza.

O discurso liberal defendia que o voto censitário legitimaria as relações entre propriedade e
direitos políticos, sendo assim, a escravidão encontraria respaldo legal no princípio da
absolutização do direito de propriedade, cabendo apenas ao Estado o direito de confiscar,
mediante indenização.

Um certo Conselheiro Rebouças

Conselheiro Antônio Pereira Rebouças é um exemplo de história de vida que se desenvolveu a


partir da perspectiva do liberalismo. Filho de uma liberta e de um alfaiate português, Antônio
Rebouças tornou-se advogado especializado em direito civil no Brasil monárquico, além de
deputado pela província da Bahia, Conselheiro do Imperador e advogado do Conselho de
Estado.

Entre as inúmeras causas defendidas por Conselheiro Rebouças estavam o direito ao exercício
à cidadania política, de forma que se indignava com a falta de direitos políticos e sociais aos
que não fossem “nascidos ingênuos” (nascido escravo, mas que pode conquistar a alforria em
momento posterior), uma vez que os mesmos, se assim não fossem, ficariam impossibilitados
de se qualificarem como eleitores, mesmo que tivessem renda para tal. Para Rebouças essa
exceção era contraditória e injusta, pois acreditava que renda e propriedades podiam ser
adquiridas com “talentos e virtudes”.
Conselheiro Rebouças reforça seu pensamento através de dois argumentos: o de que, uma
vez liberto, o “ex-escravo” tornava-se cidadão brasileiro e, sendo assim, seus direitos civis e
políticos estariam assegurados, considerando que apenas o direito de propriedade poderia
legitimar a escravidão; e através da afirmação da necessidade de uma “desracialização”, ao
ponto que, a distinção seria capaz de atingir inúmeros cidadãos referidos no texto como
“oficiais beneméritos clérigos condecorados”, considerando também a grande quantidade de
serviços que já foram prestados ao Brasil por cidadãos libertos. É importante ressaltar que
Antônio Rebouças não relacionava a escravidão a nenhuma diferença natural, mas sim a
questões históricas e jurídicas desenvolvidas pela e na sociedade.