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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

GESTÃO PÚBLICA PARA O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL


COMUNICAÇÃO PARA A GESTÃO PÚBLICA
DOCENTE: VITOR IÓRIO
DISCENTE: JAQUELINE ROSA
2015.2 – TURMA: 152
O AVANÇO

No dia 11 de janeiro de 2016, foi sancionado, com vetos, pela presidente


Dilma Rousseff o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei 13.243/16).
Esta nova lei permite uma interação entre as universidades públicas e empresas
privadas, que poderão trabalhar de forma conjunta. Entre muitas novidades, uma
delas é que esta lei permite que professores em regime de dedicação integral
desenvolvam pesquisas dentro de empresas e que laboratórios universitários sejam
usados pela indústria para o desenvolvimento de novas tecnologias, com
remuneração em qualquer um dos casos.
Outra importante novidade trazida por essa lei e muito exaltada por
empresários e pesquisadores, é a desburocratização dos sistemas de licitação,
compra e importação de produtos destinados à pesquisa científica e tecnológica. O
novo marco altera diversas leis, entre elas, a Lei de Licitações 8.666, dispensando a
obrigatoriedade de licitação para “aquisição ou contratação de produto para
pesquisa e desenvolvimento”.
No total, nove leis são modificadas pelo Marco Legal, que foi discutido ao
longo de cinco anos com a comunidade científica e empresarial. Alguns dispositivos
da nova lei são inéditos, outros objetivam esclarecer pontos polêmicos, que
necessitavam de segurança jurídica para serem implementados de forma efetiva. Os
principais destaques são:
 Dispensa da obrigatoriedade de licitação para compra ou contratação de
produtos para fins de pesquisa e desenvolvimento;
 Regras simplificadas e redução de impostos para importação de material de
pesquisa;
 Permite que professores das universidades públicas em regime de dedicação
exclusiva exerçam atividade de pesquisa também no setor privado, com
remuneração;
 Aumenta o número de horas que o professor em dedicação exclusiva pode
dedicar a atividades fora da universidade, de 120 horas para 416 horas
anuais (8 horas/semana);
 Permite que universidades e institutos de pesquisa compartilhem o uso de
seus laboratórios e equipes com empresas, para fins de pesquisa (desde que
isso não interfira ou conflita com as atividades de pesquisa e ensino da
própria instituição);
 Permite que a União financie, faça encomendas diretas e até participe de
forma minoritária do capital social de empresas com o objetivo de fomentar
inovações e resolver demandas tecnológicas específicas do país;
 Permite que as empresas envolvidas nesses projetos mantenham a
propriedade intelectual sobre os resultados das pesquisas.
Para o biólogo Paulo Arruda, da Unicamp, o Marco Legal é “extremamente bem
vindo”. Segundo ele, há uma grande massa crítica de jovens cientistas, “bem
treinados, criativos e competentes”, capazes de aproveitar as oportunidades criadas
pela nova lei para inovar e empreender. Mas é preciso que as instituições acordem
também para esse potencial. “O Brasil gerou um monte de gente com conhecimento
e engaiolou esse pessoal nas universidades públicas”, diz o também biólogo e
geneticista da Unicamp, Gonçalo Pereira. Segundo ele, está na hora de dar
liberdade àqueles que querem empreender.

LEIS QUE FORAM MODIFICADAS PELO MARCO LEGAL DA CIÊNCIA,


TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Lei número 10.973, de 2 de dezembro de 2004 - Estabelece medidas de incentivo


à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo.
Essa é a lei mais impactada pelo Marco Legal, com diversas modificações.
Um dos destaques é o artigo que permite às universidades e outras instituições
públicas de pesquisa científica e tecnológica (chamadas ICTs) “compartilhar seus
laboratórios, equipamentos, instrumentos, materiais e demais instalações” com
empresas e pessoas físicas para atividades de pesquisa, desenvolvimento e
inovação, “desde que tal permissão não interfira diretamente em sua
atividade/finalidade nem com ela conflite”. O mesmo vale para o uso de seu “capital
intelectual”.
Outra novidade nesta lei, é que as ICTs poderão assinar acordos com
empresas para o desenvolvimento de pesquisas conjuntas, “podendo a ICT ceder ao
parceiro privado a totalidade dos direitos de propriedade intelectual mediante
compensação financeira ou não financeira, desde que economicamente
mensurável”. Esse é um ponto crucial, pois até então, a propriedade dos resultados
ficava com a instituição pública, que era obrigada a abrir uma concorrência para
licenciar a tecnologia.
Outros artigos permitem ao poder público (União, Estados e municípios)
fomentar diretamente a inovação tecnológica em empresas e ICTs por meio de
vários mecanismos, incluindo a contratação direta de projetos de pesquisa “que
envolvam risco tecnológico, para solução de problema técnico específico ou
obtenção de produto, serviço ou processo inovador”, sem obrigatoriedade de
licitação. Para ilustrar tal situação, imaginemos que um Estado queira investir na
produção de energia solar. Ele poderá encomendar com empresas e/ou
universidades o desenvolvimento de uma tecnologia específica para isso, sem
precisar abrir uma licitação.
Pesquisadores do serviço público em regime de dedicação exclusiva poderão
“exercer atividade remunerada de pesquisa, desenvolvimento e inovação em ICT ou
empresa (…) desde que assegurada a continuidade de suas atividades de ensino e
pesquisa”. Ou seja: um professor universitário em tempo integral poderá trabalhar
simultaneamente em projetos de pesquisa em empresas, desde que isso não
interfira em seu trabalho como professor e pesquisador dentro da universidade.

Lei número 6.815, de 19 de agosto de 1980 - Define a situação jurídica do


estrangeiro no Brasil.
Inclui uma nova situação em que vistos temporários podem ser concedidos a
estrangeiros, “na condição de beneficiário de bolsa vinculada a projeto de pesquisa,
desenvolvimento e inovação concedida por órgão ou agência de fomento”.

Lei número 8.666, de 21 de junho de 1993 - Institui normas para licitações e


contratos da Administração Pública.
Essa é a “Lei de Licitações”, que obriga instituições e servidores públicos a
abrir concorrência de preços e sempre optar pela oferta mais barata sempre que
precisam comprar alguma coisa. Ela é apontada há décadas como um dos maiores
entraves ao desenvolvimento da ciência nacional, não só pela morosidade e
burocracia excessiva dos processos envolvidos, mas também por não levar em
conta a qualidade e outras especificidades do produto desejado. A novidade
fundamental é que o Marco Legal cria uma exceção nessa lei, dispensando
licitações “para a aquisição ou contratação de produto para pesquisa e
desenvolvimento”.

Lei número 12.462, de 4 de agosto de 2011 - Institui o Regime Diferenciado de


Contratações Públicas (RDC).
O Marco Legal estende os benefícios do RDC às licitações e contratos
necessários à realização “das ações em órgãos e entidades dedicados à ciência, à
tecnologia e à inovação”.

Lei número 8.745, de 9 de dezembro de 1993 - Dispõe sobre a contratação por


tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse
público.
Passa a incluir a admissão de pesquisadores e técnicos “para projeto de
pesquisa com prazo determinado, em instituição destinada à pesquisa, ao
desenvolvimento e à inovação” como uma necessidade de excepcional interesse
público, em que cabem os benefícios da lei.

Lei número 8.958, de 20 de dezembro de 1994 - Dispõe sobre as relações entre as


instituições federais de ensino superior e de pesquisa científica e tecnológica e as
fundações de apoio.
Permite que os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) das instituições
públicas de pesquisa funcionem como fundações, dando mais autonomia e
reduzindo burocracia para sua atuação.

Lei número 8.010, de 29 de março de 1990 - Dispõe sobre importações de bens


destinados à pesquisa científica e tecnológica.
Esclarece que as isenções de impostos previstas para importação de
máquinas e equipamentos aplicam-se “somente às importações realizadas pelo
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por
cientistas, por pesquisadores e por Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação
(ICT) ativos no fomento, na coordenação ou na execução de programas de pesquisa
científica e tecnológica, de inovação ou de ensino e devidamente credenciados pelo
CNPq”.

Lei número 8.032, de 12 de abril de 1990 - Dispõe sobre a isenção ou redução de


impostos de importação.
Esclarece que as isenções e reduções do imposto de importação se aplicam
às importações realizadas por ICTs e por empresas “na execução de projetos de
pesquisa, desenvolvimento e inovação”.

Lei número 12.772, de 28 de dezembro de 2012 - Dispõe sobre a estruturação do


Plano de Carreiras e Cargos de Magistério Federal.
O Marco Legal amplia o número de horas que pesquisadores da rede pública
em regime de dedicação exclusiva podem dedicar a atividades no setor privado, de
120 para 416 horas anuais, ou 8 horas semanais. Também cria mais facilidades
para a importação de bens e insumos para uso em pesquisa científica e tecnológica,
determinando que eles tenham “tratamento prioritário e observem procedimentos
simplificados” nos processos de importação e desembaraço aduaneiro.

NEM TUDO É O QUE PARECE

Num primeiro instante, ao ler o texto que foi a proposta para o trabalho,
publicado no Boletim da AdUFRJ (21 de janeiro de 2016), a notícia me pareceu um
grande avanço no campo da ciência e tecnologia do país. Através da leitura de
artigos e conversas com os colegas a respeito do tema, pude observar que esta
opinião é quase unânime, com algumas ressalvas para algumas mudanças na lei e
que possíveis consequências negativas elas podem gerar, mas no geral, sempre
engrandecendo o Marco como algo realmente inovador e benéfico à nação.
No entanto, aprendi em minha vida que toda história possui dois lados. E me
peguei me perguntando sobre quais reais interesses poderiam estar escondidos
atrás de um projeto tão inovador assim, capaz solucionar um problema tão complexo
no Brasil, que é a educação.
A partir dessa pesquisa, pude descobrir que o Marco Legal também é
repudiado pelas entidades de classe, pois elas alertam para o risco de
desvirtuamento da função social das universidades e institutos de pesquisa. Para
eles, o projeto privatiza a pesquisa pública, precariza as condições de trabalho dos
docentes e isenta o governo de propor soluções reais, de médio e longo prazo.
“Ao invés de criar linhas de fomento específicas para isso, o governo cria uma
legislação que coloca a infraestrutura pública, que já é insuficiente para fazer
pesquisa básica, trabalhando para projetos de interesse comercial, a fundo perdido,
que vão beneficiar, eventualmente, empresas multinacionais que têm milhões para
fazer pesquisa e desenvolvimento no país e vêm aqui disputar a parca infraestrutura
de ciência e tecnologia que a gente tem”, protestou Circo Correia, ex-presidente do
Andes (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior) e da
Adusp (Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo), professor do
Instituto de Geociências da USP.
Além das críticas ao projeto, o professor traçou um panorama da educação no
Brasil, fez comparações com os países desenvolvidos, explicou a lógica das
fundações privadas de apoio às universidades públicas e questionou as decisões de
uma organização partidária (o Partido dos Trabalhadores) que acolhia as
preocupações sociais de esquerda e que trocou seu discurso por uma prática mais
conservadora, de direita.
“Quando os movimentos sociais tinham o respaldo de um partido, havia
condições de fazer algum controle das propostas do Executivo. Na hora que isso
deixa de existir e você dispersa o movimento social organizado – até porque ele fica
meio perdido, sem saber o que está acontecendo, porque quem aglutinava
politicamente as suas bandeiras passa a fazer a antítese delas – você desconstrói
consciência crítica no país”, afirmou.

O PENSAMENTO CRÍTICO

Quando pensamos em avanços científicos e tecnológicos, consequentemente


imaginamos um avanço no país em várias áreas: na economia, na geração de
empregos, no desenvolvimento de estudos importantes em diversas áreas, entre
outros. O que pude perceber, de um modo geral, é que o Marco Legal de Ciência,
Tecnologia e Inovação foi recebido pelas mídias em geral como algo altamente
positivo para a sociedade, desconsiderando os impactos negativos que este pode
ter, impossibilitando dessa forma que o indivíduo possa de fato avaliar se essa
situação realmente é boa para a sociedade como um todo.
É positivo que se tenha interesse em adotar medidas que de fato promovam o
avanço tecnológico do país, no entanto, é importante analisar criticamente as reais
intenções da nova lei, considerando as mudanças que realmente acrescentarão à
população e, principalmente, observando aquelas que pouco resolveriam a questão
da educação de forma equilibrada e correta, com investimento adequado.
É preciso que se mantenha na universidade o desenvolvimento de ciência básica,
que alimente a sociedade no interesse público e não atividades comerciais
competitivas em termos de mercado.

FONTES DE PESQUISA

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Lei/L13243.htm
http://olicitante.jusbrasil.com.br/artigos/295994702/lei-13243-16-e-seus-reflexos-na-
lei-de-licitacoes-e-no-rdc
http://www.jusbrasil.com.br/topicos/88378383/lei-n-13243-de-11-de-janeiro-de-2016
http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/materias/detalhe.php?id=4805