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a outra herança

de charles darwin
Há duzentos anos, em 12 de fevereiro de 1809, nascia Charles Robert Darwin.
Sua obra revolucionária A origem das espécies apareceu há 150 anos. A mídia
dedicou grande atenção a esse duplo jubileu. Com o presente artigo, a revista
Pentagrama gostaria de apresentar um aspecto pouco abordado do pensamento
desse biólogo: a correlação entre o saber e a fé

D
arwin acreditava que o trabalho científico
deve ser executado de forma independente
das representações religiosas, e que a cren-
ça em uma divindade dirigente pode muito bem
caminhar junto com a doutrina da evolução, pois
a fé tem uma base totalmente diferente da ciência.
Mas, com certeza, sua vida deixa entrever o quanto
ambas estão mescladas.
Durante o ano de estudo preparatório de teologia
(Cambridge, 1828), Darwin se vê confrontado com
a teologia da natureza. Essa disciplina sustenta que
em todos os fenômenos naturais se nota a ação de
um deus que ama ou pune. Buscar a prova explícita
disso é a principal motivação de sua longa viagem
de cinco anos ao redor do mundo. Por essa razão,
a Bíblia, como autoridade incontestável, fazia parte
de sua bagagem. Contudo, devido ao empenho
em adquirir numerosos conceitos surpreendentes
relativos à história da terra e do desenvolvimento
das plantas e dos animais, sua fé ingênua na Bíblia
começa a vacilar.

UMA Ideia DE DEUS DESAPARECE De volta


à Inglaterra, Charles Darwin põe-se a ava-
liar suas descobertas amplas e tão diferentes.
Progressivamente ele elabora então sua teoria
da evolução e, pouco a pouco, compreende que
sua crença em um deus que intervém de forma
milagrosa nos acontecimentos mundiais torna-se
insustentável. Em sua obra principal, A origem das
espécies, ele revela seu ponto de vista: sem dúvida,
Deus criou o universo e as leis naturais, mas em
seguida deixou que seguissem seu curso. “A ideia
de que o criador infundiu com o germe de vida

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Conrad Martens, Mount Sarmiento, Tierra
del Fuego (Terra do Fogo). O navio no desenho
é o HMS Beagle, o famoso navio de Darwin,
durante sua segunda viagem, 1831-1836

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Página de título da primeira edição da obra O OUTRO DARWIN A tese de Darwin “The
A origem das espécies, de Darwin, Londres, 1859 survival of the fittest”, a sobrevivência do mais
apto, foi logo interpretada como “a sobrevivência
do mais forte”. Na realidade, ele queria dizer que
somente sobrevivem os organismos que prospe-
que nos rodeia somente poucas ou apenas uma ram em seu meio. Dessas observações ele deduziu
única forma (vida) é algo tão sublime quanto o a “luta pela existência”; para ele isso não era uma
fato de que, enquanto nossa terra move-se num ideologia. A cooperação e a simbiose nos reinos
círculo segundo as leis da gravitação, um princí- vegetal e animal não lhe pareciam menos impor-
pio igualmente modesto gerou e continua geran- tantes: 80% das plantas vivem em simbiose com
do um número infinito das mais belas e maravi- um cogumelo. As concepções de Darwin, mais
lhosas formas.”1 que todas as outras, tornaram-se objeto de abu-
Ao envelhecer, Darwin perde a fé em Deus, e so político. A começar pelos sociais-darwinistas,
sua longa enfermidade se deve a isso. E quando que fizeram da “luta pela existência” a “lei do
Annie, sua predileta entre os seis filhos, morre aos mais forte”, apoderando-se assim da “seleção
dez anos de idade, ele já não consegue crer num natural” e fazendo por assim dizer uma distinção
Deus compassivo. A partir desse instante ele passa entre vida humana valiosa e vida sem valor. Mas,
a qualificar-se como agnóstico; mas durante toda segundo Charles, para o desenvolvimento futuro
a vida seu interesse volta-se, de fato, para o “como do homem, a cooperação e a transcendência são
e o porquê” da evolução. De seu ponto de vista, muito mais importantes do que a concorrência e
isso era algo que ia além do entendimento huma- o interesse pessoal. Uma visão verdadeiramente
no. Ele escreve: “O segredo do começo de todas pioneira! Ele considera que o amor, a comuni-
as coisas é inacessível; e, no que se refere a mim, dade, a empatia, a comunicação e a criatividade
decidi permanecer um agnóstico”. são componentes decisivos do desenvolvimento
Sua vida termina de maneira trágica; embora suas humano. Ele escreve: “As aptidões morais de-
ideias tenham destruído completamente sua fé e vem estar em posição mais elevada na escala, em
sua concepção de Deus, nada aparece para subs- relação às aptidões intelectuais. E as características
tituí-los. Em 19 de abril de 1882, ele falece em morais se desenvolvem, direta ou indiretamente,
Downe, Kent, Inglaterra, plenamente convicto de pela influência dos hábitos, da razão e da instru-
que a morte é o fim de tudo. Ora, com sua teoria, ção, muito mais do que pela seleção natural.”2
ele não apenas aplainou o caminho para uma nova Em sua obra A descendência do homem (1871), a
e dinâmica concepção do mundo, mas também, segunda em importância, não se encontra mais
sem qualquer dúvida, lançou a base de uma con- que duas vezes a menção sobre a “sobrevivência
cepção de Deus totalmente nova. do mais apto” enquanto que a noção de amor é

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A começar pelos sociais-darwinistas, que fizeram da
“luta pela existência” a “lei do mais forte”

encontrada 95 vezes, e quase o mesmo número uma unidade que compreende desde universos até
de vezes expressões como “afeição mútua, ajuda micróbios. A terra, igualmente, é um sistema ao
recíproca e simpatia”.3 mesmo tempo físico, químico e biológico, no qual,
Ao longo da vida, Darwin não foi o defensor em última análise, por meio da evolução, tudo
de uma máquina evolucionista implacável por está ligado a tudo, como num grande organismo.”
efeito da seleção natural e da sobrevivência do Segundo Jörg Zink, um teólogo evangélico ale-
mais forte. Sua mensagem era de que, quanto ao mão, a consciência da unidade essencial de todos
destino superior do ser humano, há esperança com tudo pode ser traduzida como compaixão. Ser
oculta no que há de mais elevado e melhor nele: compassivo significa colocar em segundo plano os
o amor. interesses egocêntricos em benefício da vida.”4
Muitos consideram que Darwin é um pensador “Na física quântica, trata-se de uma coesão geral
que atacou duramente as crenças cristãs. Esse, em que, sem cessar, acontecem mudanças de
contudo, jamais foi seu objetivo, pois ele sempre forma ou de aparência. Na realidade, não existe
respeitou os sentimentos religiosos alheios. Mas “mudança” como tal, mas tão-somente “renova-
não é nosso propósito entrar na controvérsia entre ção” (modificação), ou “elaboração”, ou “vida”. A
evolucionistas e criacionistas. bem dizer, modificação equivaleria aqui a “fluidez
geral”, a nada reter. Para compreender o mun-
EFEITOS TARDIOS Muito tempo após sua morte, do não devemos querer “agarrar”, antes, porém,
desenvolveu-se uma nova e dinâmica visão do estender braços e mãos para “receber”. A partir do
mundo, da humanidade e do divino, fundamen- instante em que desejamos “compreender”, sufo-
tada em sua teoria e no conhecimento das partí- camos o que desejamos capturar pela inteligência,
culas elementares e da física quântica. Cientistas e tateamos no vazio. Porque a essência do mundo
interessados em espiritualidade e teólogos de é intercomunicação entre todas as coisas.5
vanguarda propõem para o homem moderno con-
cepções aceitáveis, nas quais a visão científica do TORNAR-SE AO INVEZ DE SER “Ser humano é
mundo concorda com uma nova e nobre visão do tornar-se humano, manifestar progressivamente
divino, e Deus é visto como eterna possibilidade o Espírito divino no mundo e no homem.” “A
atuando em tudo o que vive, englobando tudo e criação é um processo incessante e não um acon-
todos sem nada excluir. É interessante notar como tecimento no passado longínquo.” (Theodosius
essas novas concepções concordam, ainda que em Dobzhansky, biólogo evolucionista ucraniano, um
parte, com a Doutrina Universal, atemporal. dos pioneiros da genética no Brasil).
“Quanto mais se avança na vida, mais se muda.
UNIVERSALMENTE LIGADOS “O universo é um Quanto mais se muda, mais se morre. Essa é a lei
conjunto originário de uma explosão original. É do devir.”6

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Na proclamação das bem-aventuranças, há uma ruptura
com os comportamentos sócio-darwinistas correntes

RELAÇÃO ENTRE CIÊNCIA E RELIGIÃO “Muitas contínua interação com sua criação, ele participa
pessoas, com lógica, remontam nossa existência do destino de sua criação.”9
à atividade de um misterioso poder transcenden- “Deus não é como um animador imutável que
te. Elas acreditam que nosso cosmo surgiu tendo agiria no mundo do alto ou do exterior; ele age
como base um plano divino. Nesse caso, Deus se- do interior como verdadeira realidade dinâmica
ria o criador potencial da evolução.” Com relação do processo evolutivo deste mundo. Ele torna
a isso, teólogos como H.R. Stadelmann falam de possíveis, permeia e realiza os processos do mun-
um deus evolucionista que está além do bem e do do. Ele é a origem, o centro e o objetivo… em
mal.7 total respeito às leis da natureza, cuja origem é ele
“De fato, não há contradição entre ciência e mesmo.”10
religião, contanto que a ciência se limite a “O “Porque cada um encontra na consciência gnósti-
Quê, Onde, Quando, Como”, e a religião ao ca seu ser completo e todos encontram sua própria
“Porquê.”8 verdade bem como a harmonia de suas diferentes
“Observem que, por trás de tudo o que experi- ações naquilo que os excede e do qual são a ex-
mentamos, existe algo que nosso espírito não pode pressão.” (Sri Aurobindo)
apreender, cuja beleza e sublimidade nos tocam
apenas de forma indireta: o sentimento religioso… O ESPÍRITO DO SERMÃO DA MONTANHA “E assim
A ciência sem religião é paralisia. A religião sem a se revela uma nova interpretação de Jesus Cristo.
ciência é cegueira.” (Albert Einstein) Os acontecimentos históricos passam para segundo
plano. Não é somente Jesus que é o filho de Deus;
SUPREMACIA DO ESPÍRITO “Espírito e matéria todos somos igualmente chamados a tornar-nos fi-
não são contradições, porém agregados distintos lhos e filhas de Deus, a tornar-nos, portanto, novas
(estados compostos complexos): matéria é espí- criaturas. A entrada de Jesus Cristo em cena pode
rito congelado; o espírito é o aspecto primevo, ser considerada como um salto quântico na evolução
pois na época da explosão original não existia humana quando, por exemplo, na proclamação das
matéria no sentido em que hoje a entende- bem-aventuranças, há uma ruptura com os com-
mos.” “O que garante a coesão do cosmo não portamentos sócio-darwinistas correntes. Neste
é a matéria, e sim o espírito.” (P. Teilhard de sentido, Jesus pode ser visto como nosso “salvador”
Chardin) por libertar-nos do peso da seleção biológica (com-
portamento de competição, de autoafirmação), e
DEUS NÃO AGE DO EXTERIOR “O Espírito por mostrar-nos, mediante seu exemplo, o “cami-
cósmico se manifesta através da evolução; ele nho para a cruz”, que seguiu de maneira pacífica e
se encarna ao longo da evolução nas estruturas consequente, e o amor a toda vida como caminho
do mundo. Uma vez que Deus se manifesta em para a cura.”11

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adquirem desse modo um significado totalmente
Evolução e involução novo. Por outro lado, é conveniente perguntar-
Do ponto de vista das escolas espirituais, a “evolução” seria a nos se aqui não se trata de uma reconciliação
imersão, a descida do Espírito na matéria. Entretanto, a verda- superficial entre as ciências naturais e a ciência do
deira evolução é a libertação, o desenvolvimento do Espírito espírito; ou muitas vezes de uma tendência a me-
fora da matéria: o processo da transfiguração.14 nosprezar a ideia de espírito, ou deixar tudo sem
explicação. É incontestável, contudo, que muitas
dessas citações são similares aos ensinamentos da
Doutrina Universal. Que elas possam servir de
pontes para a verdade eterna µ
O OBJETIVO DA EVOLUÇÃO Os novos conceitos
1 Darwin, Charles. A origem das espécies. São Paulo: Hemus, 2000.
harmonizam-se com muitas citações da Bíblia. 2 Loye, David. Darwin on Love: The new story of evolution (Darwin
Por exemplo, quando Jesus diz que o reino de sobre o amor: A nova história da evolução). Carmel: Benjamin
Franklin Press, 2007.
Deus começa aqui e agora; ou quando, no Novo 3 Loye, David. Op. cit., p. 150.
Testamento, fala-se de Jesus em termos de um 4 Zink, Jörk. Dornen können Rosen tragen (Rosas podem ter espi-
“novo homem”; ou quando Paulo afirma: “não nhos). Freiburg: Kreuz, 1977.
5 Dürr, Hans-Peter. Auch die Wissenschaft spricht nur in
morreremos, mas seremos transformados”. Afinal, Gleichnissen. Die neue Beziehung zwischen Religion und
o objetivo da evolução é que Deus resida em sua Naturwissenschaften (Também a ciência só fala em parábolas. A nova
relação entre religião e ciências naturais). Freiburg: Herder, 2004,
criação, que se tornou a “nova Jerusalém”. p. 109 e 116; Darms, Louis e Laloup, Jean. Interstances: communiquer
“A ressurreição de Jesus não é um prodígio que à contresens (Interposições: comunicar ao contrasenso). Louvain-la-
Neuve: Cabay, 1983.
transgride as leis da natureza, porém diz respeito a 6 Chardin, Pierre Teilhard de. Frühe Schriften (Primeiros escritos).
uma maneira totalmente diferente de existir numa Freiburg: Alber, 1968, p. 297.
7 Stadelmann, Hans-Rudolf. Im Herzen der Materie. Glaube
dimensão totalmente diferente, a dimensão da im Zeitalter des Naturwissenschaften (No coração da matéria. Fé na
eternidade.”12 época das ciências naturais). Darmstadt: Wissenschaftliche
Buchgesellschaft, 2004, p. 92 e seguintes.
Compreendemos cada vez mais que nós, seres 8 Plüss, Mathias. Wass Darwin wirklich meinte (O que Darwin de fato
humanos, temos uma tarefa particular relativa à tinha em mente). Das Magazin, 2009/1.
9 Stadelmann, Hans-Rudolf. Op. cit., p. 69.
futura constituição do corpo de Deus em sua cria- 10 Küng, Hans. Existiert Gott? (Deus existe?) Munique: Piper, 1978,
ção, o misterioso corpo de Cristo… “Revesti-vos p. 709.
11 Stadelmann, Hans-Rudolf. Op. cit., p. 120 e 133.
com a veste-de-luz! Tornai-vos luz! Sede novas 12 Küng, Hans. Ewiges Leben? (Vida eterna?) Munique: Piper, 1982,
criaturas”!13 p. 138.
13 Gyger, Pia. Hört die Stimme des Herzens. Werdet Priesterinnen
und Priester der kosmischen Wandlung (Escutai a voz do coração.
PONTES PARA VERDADE UNIVERSAL Os pon- Tornai-vos sacerdotisas e sacerdotes da mudança cósmica). Kösel,
2006, p. 54 e 157.
tos essenciais da fé cristã: a criação, Jesus Cristo, 14 Rijckenborgh, J. van. Filosofia elementar da Rosacruz Moderna.
a manifestação, a libertação e a ressurreição, Jarinu: Editora Rosacruz, 2003. 5.a ed.

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