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Os conceitos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Barros, José D’Assunção


Os conceitos : seus usos nas ciências humanas /
José D’Assunção Barros. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2016.
Bibliografia
ISBN 978-85-326-5263-8
1. Ciências humanas 2. Conceitos
3. Conhecimento I. Título.

16-03255 CDD-300

Índices para catálogo sistemático:


1. Conceitos : Ciências humanas 300
José D’Assunção Barros

Os conceitos
Seus usos nas ciências humanas
© 2016, Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689-900 Petrópolis, RJ
www.vozes.com.br
Brasil

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Secretário executivo
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Editoração: Gleisse Dias dos Reis Chies


Diagramação: Sheilandre Desenv. Gráfico
Capa: igmais Comunicação Integrada
Ilustração de capa: Noite estrelada (detalhe).
Vincent van Gogh, 1889. Museu de arte moderna de Nova York.

ISBN 978-85-326-5263-8

Editado conforme o novo acordo ortográfico.

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


Sumário

Parte I – Procura do conceito, 7


1 Conceitos, 9
2 A vontade de conceito, 12
3 Conceitos no mundo humano, 20
4 Distinção entre simples palavras e conceitos, 24

Parte II – Conceitos e produção de conhecimento, 33


5 Seis funções dos conceitos no processo de produção do
conhecimento, 35
6 Os conceitos e seu potencial de generalização, 41
7 Constructos, 43
8 Conceitos agrupadores e conceitos transversais, 45
9 Relações diversas entre os conceitos, 48
10 Sobre a polissemia e a historicidade dos conceitos, 52
11 A polissemia conceitual nas ciências humanas, 56
12 A historicidade dos conceitos nas ciências humanas, 61
13 Outros instrumentos teóricos para além dos conceitos, 66
14 Extensão e compreensão de um conceito, 72
15 O conceito como acorde, 83

Parte III – A formulação conceitual, 95


16 Um exemplo específico: o conceito de “revolução” em
Hannah Arendt, 97
17 Revolução ou golpe de Estado? – Um estranho jogo
conceitual no Brasil-ditadura, 102
18 Perversões conceituais – O curioso conceito de
“ditabranda”, 106
19 Redes articuladas de conceitos, 109
20 Buscando a medida adequada entre a compreensão e a
extensão de um conceito, 113
21 A permanente reelaboração dos conceitos e o seu
polissemismo possível, 116
22 Mais um acorde conceitual de revolução, 127

Parte IV – Os conceitos na História, 137


23 Singularidades da História – Um texto desdobrado sobre si
mesmo, 139
24 Dois níveis de conceitos, 144
25 De onde vêm os conceitos da História?, 151
26 Primeira ordem de anacronismos: os conceitos de hoje
aplicados a ontem, 160
27 Potencial generalizador diacrônico, 164
28 Potencial generalizador sincrônico, 172
29 Segunda ordem de anacronismos: de ontem para hoje, 177
30 Um estudo sobre o anacronismo: o Rabelais, de Lucien
Febvre, 180
31 Escravidão e liberdade: variações nas relações entre os dois
conceitos, 183
32 Paralisia conceitual, 187
Referências, 193
Índice onomástico, 201
Índice remissivo, 203
Parte I

Procura do conceito

Chega mais perto e contempla as palavras.


Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
DRUMOND DE ANDRADE, C. Procura da poesia.
1
Conceitos

Conceitos. Todas as ciências os têm. Aquelas que se arvoram


de maior cientificidade os ostentam, por vezes em linguagem obs-
cura ou emplumada, em outros casos através de um discurso claro
e cristalino, que nem por isso deixa de ser conceitual. Ao lado das
ciências mais duras, os campos de conhecimento que aceitam dis-
cutir o seu estatuto – por exemplo: a possibilidade ou não de sua
cientificidade – também demandam conceitos. Mesmo os campos
de saber e de práticas que ainda se debatem acirradamente na luta
por se verem reconhecidos no panteão das ciências, ou os que nun-
ca tiveram tal pretensão, valem-se de conceitos.
O uso dos conceitos derrama-se, de igual maneira, por inúmeras
práticas que não apenas as da ciência. Há conceitos utilizados pelos
praticantes de magia, por aqueles que elaboram saberes místicos,
ou por todos os que professam religiões. Estas últimas costumam
acomodar os seus pecados e virtudes, os seus mandamentos ou as
suas hierarquias sobrenaturais a uma rede conceitual que se aprende
quase sem querer – lendo os livros sagrados, ouvindo sermões, par-
ticipando de rituais – sem que o leitor-praticante nem mesmo se dê
conta de que foram criadas as mais diversas categorias e conceitos
para acomodar a sua fé e organizar os seus anjos e os seus demônios.
Os advogados – particularmente quando não têm a seu favor
as evidências, ou independente disso – podem ganhar e perder suas
causas enredando os adversários em intrincados jogos conceituais,
ou se deixando enredar por inesperados conceitos, e não são raros
os homens e mulheres que já foram presos por causa deles. Os con-
ceitos podem celebrar a paz. Mas muitas guerras, internas ou ex-
ternas, já foram travadas com impressionante crueldade em nome
de conceitos: populações inteiras de hereges foram condenadas à
fogueira por causa desse ou daquele conceito de santidade ou de
Divina Trindade, e soldados de países beligerantes já se entremata-
ram bradando furiosamente o conceito de “democracia”.
Para falar de algo mais ameno, as Artes – que ora parecem
afrontar os saberes científicos, e ora com esses interagem – tam-
bém costumam lidar criativamente com os seus conceitos, embora
nem sempre se ocupem ou manifestem a preocupação de explici-
tá-los. Mas há mesmo uma arte conceitual, é bom lembrar, na qual
o objeto artístico é praticamente reduzido ou desdobrado em puro
conceito1. Enquanto isso, há criações artísticas que se deleitam na
afronta de todo o conceito: “Isto não é um cachimbo”.

René Magritte. Isto não é um cachimbo (1929).


Óleo sobre tela, 63,5x93,98cm
Los Angeles County Museum of Arte2

1. Refiro-me à corrente que se desenvolve nos anos de 1960. Na arte conceitual, o


conceito tem primazia sobre o produto de arte acabado (o qual pode nem mesmo
existir). Neste espírito, Joseph Kosuth (n. 1945) idealizou a obra Uma e três cadei-
ras (1969), na qual são colocadas lado a lado uma cadeira (um objeto), uma foto-
grafia desta, e uma definição de dicionário para “cadeira”, em uma folha de papel.
2. A tela – a mais famosa da série A traição das imagens (1928-1929) – explora
um aparente nonsense ao colocar o expectador ocidental diante de uma imagem
que dificilmente não lhe pareceria um cachimbo, ainda que acompanhada de uma
legenda que afirma o contrário: “Isto não é um cachimbo”. A complexidade da
proposição está em que a afirmação não expressa na verdade um contrassenso,
mas sim uma obviedade. A imagem não é de fato um cachimbo, mas apenas um

10
Voltemos, entrementes, ao âmbito dos saberes científicos, já
com o fito de nos aproximarmos de uma compreensão mais bem
delimitada sobre o que são os conceitos. Os saberes científicos que
se apoiam em uma ossatura matemática podem reduzir os termos
que expressam os seus conceitos a uma fórmula, um algarismo, um
símbolo! Mas, para boa parte das disciplinas – e em especial para
as ciências humanas –, os conceitos são mesmo construídos a partir
de palavras, ou de um grupo mínimo de palavras. “Ideologia” ou
“divisão de trabalho”. “Velocidade” ou “longa duração”. “Estado”
ou “sociedade civil”. “População” ou “densidade demográfica”3.
Vamos considerar, para o nosso caso, que os conceitos são,
via de regra, constituídos por palavras ou expressões verbais. Não
obstante, nem todas as palavras, é preciso deixar claro desde já,
são necessariamente conceitos. O que diferencia então o concei-
to – esta palavra ou grupo de palavras muito singular – da simples
palavra, da palavra que não é um conceito? Antes de responder,
enveredemos por outra questão que nos ajudará a compreender
isso melhor: Para que servem os conceitos?

conjunto de traços e cores dispostas em uma tela que, a muitos, parecerão consti-
tuir a representação de um cachimbo.
3. Ingetraut Dahlberg (1998, p. 101-107), filósofa alemã e cientista da informação,
acrescenta que – para que se possa dizer que estamos mais propriamente diante
de um conceito – é preciso identificar necessariamente em torno da expressão
considerada três dimensões: referente, termo e características. As “característi-
cas” correspondem às propriedades atribuídas ao “referente”, que por sua vez é
uma unidade de pensamento através da qual se torna possível falar (pensar) em
“pássaro”, conceitualmente, para além dos pássaros específicos que existem efe-
tivamente na realidade observável, estes sim singularizados, cada um diferente
do outro. “Termo”, por fim, corresponde à palavra ou grupo de palavras que está
sendo utilizada para designar o conceito (a expressão verbal “pássaro”, p. ex.).

11
2
A vontade de conceito

A narrativa reflexiva que eu elaboro a seguir é francamente


imaginária; não tem valor histórico mais específico, e tampouco
traz consigo qualquer pretensão de dizer que foi exatamente assim
que as coisas aconteceram. Trata-se apenas de um recurso didá-
tico-filosófico para iniciarmos uma reflexão sobre a necessidade
de conceitos, principalmente para as ciências e para a filosofia,
mas também para a vida comum. Queremos nos perguntar, sim-
plesmente, para que servem os conceitos. Por que não podemos
prescindir deles, sobretudo quando buscamos constituir um campo
de saber? O que os conceitos, e a elaboração conceitual das ideias
e palavras, asseguram àqueles que os instrumentalizam? Que ins-
tâncias os conceitos agregam à linguagem mais comum, e o que
eles têm a oferecer às intenções humanas de apreender os diversos
fenômenos com maior precisão, ou pelo menos com maior sensa-
ção de precisão? Por que, enfim, surgiu na humanidade a vontade
ou a necessidade de conceituar, ou, em meus próprios termos, por
que aflorou nos seres humanos essa “vontade de conceito”, essa
compulsão quase tão irresistível quanto a própria vontade de no-
mear? Iniciemos a caminhada4.
Diz-se que a Astronomia é a mais antiga das ciências. Pode-
remos nos servir dela como um patamar de reflexão inicial, antes

4. Podemos definir a “vontade de conceito” como o impulso que, nos seres hu-
manos, agrega-se à simples “vontade de nomear” – levando a examinar, planejar
e instrumentalizar as implicações dos nomes de modo a atender a demanda de
representar, organizar e dar um sentido ao mundo que seja compatível com aquilo
que é apreendido através de meios diversos. Estas duas instâncias – a vontade de
“nomear” e a vontade de, aprofundando-se nas relações internas e externas do
nome, “conceituar” – são aspectos humanos bem característicos.
de abordarmos mais especificamente o caso das ciências humanas.
O interesse, neste momento, é avaliar, mais propriamente, o quão
imprescindível foi o papel dos conceitos na própria formação das
ciências – ou de uma ciência mais específica como a Astronomia5.
Uma indagação, neste momento, será especialmente pertinen-
te. Será possível, sem a intermediação de conceitos, ter-se efeti-
vamente uma “ciência” – no sentido para esta palavra que herda-
mos das mais antigas civilizações através de uma bem-sucedida
sistematização de saberes que, entre outras contribuições históricas
importantes, passa por aquela empreendida pelos antigos filósofos
gregos? Recuemos para um instante na história da humanidade,
certamente imaginário, em que ainda não existiam astrônomos.
Os homens pré-históricos, e mesmo os seres humanos que vi-
veram na alvorada das primeiras civilizações, tinham sobre si um
céu que lhes deve ter parecido demasiado caótico, assombroso, ou
mesmo terrível em certas ocasiões. Dele sobrevinham raios mor-
tíferos precedidos pelo rugido dos relâmpagos. De lá podiam cair
grandes pedras capazes de causar destruição. Mas era também do
céu que vinham a luz do sol e das estrelas, o ar que se respira, a
água fertilizadora da chuva, a possibilidade da vida.
Sentado à noite em um planalto – numa época e lugar no qual
os horizontes eram bem mais vastos do que aqueles que hoje se
oferecem aos habitantes das cidades – um indivíduo podia decerto

5. A possibilidade de utilizar o céu e seus pontos de referência como “mapas” na-


turais de orientação para a própria locomoção no espaço terrestre, como “calendá-
rio” para racionalizar e subdividir grandes períodos de tempo, ou como “relógio”
para as atividades diárias – sem contar o fascínio e assombro que o céu sempre
despertou nos homens como limite incontornável da mobilidade humana e como
instigante espaço de mistérios aparentemente insondáveis – fez da Astronomia o
primeiro campo de saber com motivações científicas. Por outro lado, a Astrono-
mia nasceu no mesmo momento que sua quase gêmea, a Astrologia, por vezes
se confundindo com ela até a separação definitiva. Esses dois campos de saber
tiveram destinos diferenciados, embora lidem com muitos conceitos básicos em
comum. De sua parte, alguns praticantes da Astrologia lutam até hoje para que ela
seja reconhecida como uma forma científica de saber.

13
enxergar uma grande variedade de fenômenos e de acontecimen-
tos. Pedras ou bolas de fogo atravessavam eventualmente o céu
sobre sua cabeça, menos ou mais rapidamente. Pequenos focos
de luz cintilavam na madrugada escura, emitindo luz permanen-
temente. Outros simplesmente não piscavam, como se apenas re-
fletissem a luz recebida. Uma grande esfera branca, misteriosa e
lenta, demarcava com seu paciente e suave arco a sua insistente
presença todas as noites.
Alguns dos objetos cintilantes estavam mais próximos dos
outros, e pareciam formar pequenos conjuntos, agrupamentos –
curiosos desenhos no céu. Certos fenômenos, como a passagem
aparentemente retilínea de pedras ou bolas de fogo na distância
celeste, anunciavam-se como eventos únicos. Enquanto isso, ou-
tros fenômenos pareciam se repetir ciclicamente. O Sol e a Lua,
por exemplo, confirmavam seu ciclo diário, ditando um ritmo que
se repetia sempre. A variedade de fenômenos era imensa. O céu,
para os primeiros homens que o observaram – e particularmente
para os que antes de todos tentaram examiná-lo de modo mais
sistemático –, deve ter parecido um caos.
Foi para organizar o céu – para torná-lo mais familiar e com-
preensível, mais apreensível e assimilável, e, eventualmente, mais
previsível – que surgiram os primeiros conceitos da Astronomia.
Foi, aliás, a intenção de superar efetivamente uma visão caótica
do céu – extraindo daí consequências práticas para a própria vida
humana – o que fez nascer mais propriamente a Astronomia. Os
conceitos referentes aos mais variados fenômenos celestes, dessa
maneira, são inerentes à origem dessa ciência. Eles surgiram por-
que os homens precisaram deles. Não se tratava apenas de nomear
as coisas, hábito já antigo entre os seres humanos quando davam
curso aos seus processos de comunicação, mas de compreender
com maior precisão as características de cada fenômeno ou obje-
to – de forma muito bem-delineada – e, ato contínuo, de agrupar
os casos específicos em categorias maiores, as quais deveriam ser
elaboradas tendo em vista todas as suas implicações e possibilida-
des de relações e contrastes umas com as outras.

14
Uma vez que existiam vários astros que pareciam cintilar per-
manentemente de modo a quebrar a escuridão da noite, e já que
havia outros que pareciam apenas refletir a luz dos primeiros, era
possível pensar em pelo menos dois grupos importantes de objetos
celestes conforme o tipo de luminosidade, ativa ou passiva, que
possuíam. Ao mesmo tempo, já se observava desde a Antiguidade
mais recuada que havia objetos cuja posição variava em relação a
outros, os quais, desta perspectiva, pareciam fixos (precisamente
aqueles que pareciam cintilar na distância sideral).
Surgiram muitos tateamentos filosóficos para tentar com-
preender racionalmente os comportamentos desses dois tipos de
objetos celestes, bem como muitas explicações rudimentares e va-
riadas construções míticas para assimilar a sua presença sobre o
mundo dos seres humanos, e não faltou certamente imaginação
aos pensadores antigos para a elaboração das mais singulares cos-
mologias. Para nossos propósitos, contudo, não precisamos nos
deter nessa variedade de perspectivas, uma vez que nosso objetivo
aqui é apenas o de construir uma base interessante de perguntas
e proposições com vistas a aprofundar uma reflexão sobre o que
leva os seres humanos à criação de conceitos. Voltemos, portanto,
à nossa narrativa sobre a percepção de objetos aparentemente fi-
xos e francamente móveis no céu.
Os gregos antigos passaram a utilizar um termo específico
para designar esses objetos celestes que modificam a sua posi-
ção em relação aos pontos cintilantes e fixos. A palavra “errante”
(planeta) foi por eles adotada para essa classe de objetos. Para
a nossa discussão sobre a utilidade das formulações conceituais,
o que importa é que “estrela”6 e “planeta” surgiram desde cedo
como dois conceitos, já de si bastante operacionais, que permiti-

6. A palavra grega aster, reassimilada depois pelo vocabulário latino, origina-se da


raiz indo-europeia ster, que significava “espalhar”. Os romanos também utiliza-
ram stella e sidum, todas repercutindo em línguas latinas como o português atra-
vés de palavras diversas. “Constelação” (con + stella), astro (derivação de aster) e
sideral (oriunda de siderum), são alguns desses vocábulos. Em “considerar” temos
uma ressonância astrológica da ideia de levar em conta as estrelas cuja influência
interfere em uma situação a ser examinada.

15
ram aos astrônomos das épocas subsequentes agrupar de um lado
os astros que possuíam luz própria e que regiam grandes sistemas
em torno de si, e, de outro lado, situar aqueles que não apenas
careciam de luz, como também giravam em torno dos primeiros7.
Com os conceitos de estrela e de planeta, os astrônomos tanto
se tornaram capazes de comparar os astros que participavam do
mesmo atributo – a emissão ou não de luminosidade própria –
como também se tornaram capazes de confrontar as duas modali-
dades de astros entre si. Com esta simples operação conceitual, os
gestos de “contrastar” e “comparar” – e, portanto, de diferenciar
e de prever comportamentos em comum – tornava-se agora possí-
vel. Com a operação que conceitua estrelas e planetas, anuncia-se
também a possibilidade de examinar as formas de interação possí-
veis entre os dois tipos de objetos celestes8.
De igual maneira, era preciso nomear, para tentar compreendê-
-las, as impressionantes bolas de fogo – as quais depois se verifi-
cou que não eram bem bolas de fogo, mas sim núcleos de poeira e
gelo que, devido aos efeitos da radiação e dos ventos solares sobre
a sua materialidade e o seu movimento, terminavam por exibir
aos observadores humanos vistosas caudas ígneas. “Cometas” foi
o conceito criado pelos primeiros astrônomos para agregar em
um único grupo todos os corpos celestes que partilhassem destas

7. Tal como já mencionei nesta narrativa sobre a “vontade de conceito”, tomei


aqui a liberdade de sintetizar a história, unindo momentos de um grande processo
de produção conceitual. Na verdade, os astrônomos da Antiguidade, como Ptolo-
meu (100-170 d.C.), ainda imaginavam que os planetas [do nosso sistema solar]
giravam em torno da Terra. A ideia de que os planetas giravam talvez em torno do
Sol, ainda que sugerida em diversas oportunidades, somente se tornou evidência
incontornável nos meios europeus com a invenção do telescópio, no século XVII.
De todo modo, já se percebia desde tempos muito antigos que, enquanto as estre-
las pareciam pontos fixos, os planetas desenvolviam um movimento perceptível
em relação ao mapa estelar. Mais tarde, com potentes telescópios, tornou-se possí-
vel estender a observação para muito além, compreendendo-se que o conceito de
planetas é generalizável para outros sistemas estelares.
8. Os conceitos de “sistema solar” ou de “sistema estelar”, p. ex., surgem como
um novo constructo possível no momento em que vinculamos, à delimitação do
conceito de planeta, a característica de girar em torno de uma estrela.

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características9, distinguindo-os em seguida dos “asteroides”, cor-
pos rochosos e metálicos (bem menores do que um planeta) que já
apresentavam órbitas mais definidas em torno do Sol. Da perspec-
tiva humana cotidiana, esses asteroides podiam parecer grandes
pedras que vazavam o céu de um lado a outro, sobretudo quando
comparados com outros fragmentos rochosos bem menores, os
quais logo foram chamados de meteoros e meteoritos.
Os astrônomos criaram ainda outros conceitos, para agrupar
conjuntos de objetos celestes. A constelação, agrupamento de estre-
las, ou a galáxia, vasto agrupamento de constelações, ou os sistemas
solares – agrupamentos sistêmicos de uma estrela com os planetas
que em torno dela orbitam – permitiram organizar ainda mais o an-
tes caótico espaço sideral. As modalidades de movimento que um
astro desenhava em torno de outro ou de si mesmo deram origem a
novos conceitos, como o de rotação e translação. Estes ajudavam
a identificar comportamentos que alguns tipos de astros possuíam
em comum, ou todos eles em alguma escala, ao mesmo tempo em
que inúmeros outros fenômenos foram conceituados, como os raios
cósmicos, buracos negros, nebulosas, e tantos outros.
O céu, enfim, examinado à luz de conceitos diversos, orga-
nizava-se. Podia agora ser criteriosamente estudado, analisado,
compreendido, avaliado em alguns dos seus efeitos sobre a Terra.
A Lua, por exemplo, produzia marés. As relações do Planeta Terra
com o Sol – e a sua interação com os movimentos de rotação ou
translação – regia o ciclo das estações, a sucessão de dias e noites.
Essas e inúmeras outras relações, de menor ou de maior utilida-
de para as atividades mais imediatas da vida, tornavam-se agora
perceptíveis a partir das lentes dos conceitos. E tudo isso tinha o

9. Novamente estamos aqui apenas simplificando, de modo a atender aos nossos


objetivos de exemplificação. A operação de construção dos conceitos – seja para
o caso dos cometas, seja para os outros corpos celestes – não se deu de uma única
vez. Há uma história, por vezes longa, envolvida na construção e aprimoramento
de um conceito. Aristóteles, p. ex., utilizou a palavra kometes – derivada de komé
(cabeleira) – para descrever esses astros que lhe pareceram “estrelas com cabelei-
ras”. Somente mais tarde, com a invenção do telescópio e já na Modernidade, a
composição do núcleo de gelo, pedra e poeira, típica dos cometas, pôde ser escla-
recida – passando esses aspectos a fazerem parte da definição de cometa.

17
seu valor prático, dotava os homens de novos poderes. Dominar
os céus, através dos conceitos, era de certo modo postular algum
domínio sobre a Terra10.
Guardemo-nos, contudo, de aceitar os conceitos como da-
dos11. Estamos aqui diante de criações humanas, de elaborações
e reelaborações teóricas cuja razão de ser reside precisamente na
possibilidade de os colocarmos e os recolocarmos em permanen-
te discussão. Além disso, se alguns conceitos afloram a partir da
atenta observação, outros são mais diretamente produzidos pela
imaginação, sem que haja qualquer primazia hierárquica na dis-
tinção entre estas duas operações – a de inventar a partir de uma
observação sistemática, e a de imaginar a partir de um esforço
puramente criador12. Não obstante, acrescento que a vontade de

10. A observação astronômica, a ciência e as operações conceituais, evidente-


mente não constituíram os únicos modos de organizar o céu e outros aspectos da
realidade. Podemos entender a Mitologia, p. ex., como outra forma de organizar
os fenômenos percebidos, a qual foi igualmente importante para as civilizações
antigas. Em seu estudo sobre a Imagem do mundo desde os tempos antigos, Arkan
Simaan e Joelle Fontaine registram o seguinte comentário: “Para os babilônicos o
mundo é obra dos deuses. A trajetória do Sol? É Shamash, jovem deus barbudo, de
rosto emoldurado por raios ondulados, que se levanta a leste, entre as montanhas;
ele atravessa o céu sobre seu cavalo e prossegue, à noite, uma viagem subterrânea
para voltar a levantar-se a leste, na manhã seguinte. Um eclipse? É o jovem deus-
-Lua, assaltado pelos sete demônios [...]” (SIMAAN & FONTAINE, 2003, p. 20).
11. “Os conceitos não nos esperam inteiramente feitos, como corpos celestes. Não
há céu para os conceitos. Eles devem ser inventados, fabricados, ou antes criados,
e não seriam nada sem a assinatura daqueles que o criam” (DELEUZE & GUAT-
TARI, 1992, p. 11).
12. Uma das mais respeitadas teorias atuais sobre o modo como se constitui o
universo é a Teoria das Cordas. Sua elegância na explicação acerca da estrutura
fundamental do universo, e sua capacidade de conectar partes dispersas do conhe-
cimento sobre o mundo físico, e mesmo campos até então não comunicantes da
Física como a teoria gravitacional e a mecânica quântica, constituem a principal
razão desse sucesso. Contudo, rigorosamente não há quaisquer evidências que
possam comprovar essa teoria, que se organiza em torno do conceito das “cor-
das” – o qual se baseia na ideia de que as partículas fundamentais da matéria e
da energia seriam produzidas por pequenos filamentos (cordas) em sua vibração
específica. O conceito das “cordas”, inspirado na música, foi trazido à Física por
um movimento criativo de inspiração intelectual, e não através de um trabalho de
sistemática observação.

18
conceito, ao menos na ciência, parece sempre visar à realidade,
mesmo que sem assegurar a possibilidade de apreendê-la total ou
parcialmente; ou, em uma metade lógica dos casos, mesmo que
sem ter sequer a pretensão efetiva de apreender a realidade tal
como ela é (o que não impede de visá-la).
Passemos, em seguida, a outra esfera de observação da ciên-
cia: o mundo humano, com seus fenômenos sociais acontecendo
por toda a parte. Consideremos a figura de um historiador que exa-
mina o passado, tentando perceber algo do que foi a vida humana
nos diversos períodos que o precederam, e através de fontes as
mais diversas – os resíduos, indícios e textos que lhe chegam do
fundo das eras como fontes prontas a lhe mostrar fragmentaria-
mente uma ordem inteiramente outra de fenômenos. Isolemos
um tipo de fenômeno a ser estudado para facilitar o nosso traba-
lho: a violência.

19
3
Conceitos no mundo humano

Desde sempre, houve e tem havido muita violência no mundo


humano. Se estendermos um olhar de grave seriedade para a his-
tória até hoje decorrida – e supondo-se que haja a possibilidade
imaginária de um vislumbre de tal magnitude – iremos encontrar
muitas formas de violência ao examinarmos o imenso conjunto de
ações humanas e movimentos sociais, de acontecimentos e pro-
cessos, de relações de dominação e subjugação entre os homens, de
agressões e resistências entre os indivíduos e grupos de indivíduos.
Esse vasto universo de ações violentas, individuais e coletivas
que atravessam a história constituiria também um caos para um
observador humano – tão incompreensível como o céu caótico se-
ria para um observador desavisado de antes da prática da astrono-
mia, ou ao menos do estabelecimento de uma certa sistematização
de um saber sobre os céus.
Ao olhar para o passado histórico, podemos assistir a inúme-
ros confrontos entre grandes massas de populações. Povos lutam
contra povos. Civilizações se confrontam. Impérios investem fu-
riosamente contra os territórios até então conquistados por outros
impérios. Tudo isso não se dá sem que seja praticada uma infini-
dade de atos de violência. Por outro lado, no seio de uma mesma
população, também existem as lutas intestinas. Um coletivo de
trabalhadores se rebela contra o seu patrão. Um grupo de mari-
nheiros se insurge contra o comandante do navio. Uma multi-
dão de homens e mulheres famintos saqueiam um supermercado.
Bandoleiros assaltam uma caravana e encontram resistência dos
guarda-costas contratados para defendê-la. Revoltas locais de vá-
rios tipos afloram em meio a uma inesperada conjunção de crise
econômica e crise política. Em escala bem maior, certos grupos
de indivíduos – “grupos sociais” bem articulados, e com objetivos
bem definidos de transformar a sociedade – confrontam-se contra
outros em processos violentos que se dão no seio de uma mesma
e única sociedade. Mais acolá, são duas sociedades distintas que,
novamente, se defrontam.
Os estudos sobre a violência através da história seriam tão
caóticos como o estudo não sistematizado da infinidade de astros e
de fenômenos celestes, caso os historiadores não tivessem a mes-
ma capacidade que tiveram os astrônomos de criar conceitos. Para
o caso dos marinheiros que se revoltaram contra o comandante dos
navios – e ocorreram inúmeros casos desses ao longo da história –
os homens comuns, os juristas, os militares, os historiadores, cria-
ram o conceito de “motim”. À violência desorganizada praticada
por grupos de arruaceiros, chamaram de “baderna”. Mas já a um
movimento violento mais organizado, o qual visava a objetivos
mais definidos e apresentava uma determinada direção nas suas
ações – e o qual derivava, além de tudo, de uma reação contra
uma situação de crise qualquer – chamaram de revolta. Para os ca-
sos em que uma parte da sociedade se revolta, e disso resulta uma
transformação social bem mais profunda e definitiva – inclusive
dando aos seus agentes a forte impressão de que algo de efetiva-
mente novo se estabeleceu a partir daquele movimento – passou-se
a atribuir a designação de “revolução”.
“Motim”, “revolta”, “revolução” são conceitos, os quais se
referem a confrontos sociais violentos que se estabelecem no seio
de um certo sistema social: um país, uma cidade, ou mesmo uma
pequena e hierárquica comunidade provisoriamente existente no
interior de um navio que singra os mares. Cada um desses tipos de
movimentos violentos, todos designando processos internos a uma
mesma sociedade, diferencia-se dos demais, e por isso demandou
para si uma designação especial. Ou, mais propriamente falando,
essas variadas modalidades de fenômenos sociais precisaram ser
compreendidas na sua especificidade através de um “conceito”.
Por outro lado, todas essas espécies de fenômenos sociais às
quais nos referimos no parágrafo anterior distinguem-se de um

21
outro tipo, por ser externo: aquele que se dá quando duas so-
ciedades diferenciadas confrontam-se violentamente, sob certas
condições. O conceito de “guerra” atende à compreensão desse
tipo de violência coletiva. As “guerras” diferenciam-se bem, por
exemplo, das “revoluções”, movimento que ocorre internamente
a uma mesma sociedade.
Conceitos como os que acima evocamos ajudam a organizar
melhor o vasto painel de violência coletiva de que temos notí-
cia desde os inícios da história, ou mesmo da “pré-história” (se
aceitarmos este último conceito, aliás). Sem conceitos como o de
“guerra”, “revolução”, “revolta”, “golpe de Estado”, “motins”,
“badernas”, os historiadores dificilmente poderiam realizar ade-
quadamente o seu trabalho. Eles estariam tão perdidos na sua prá-
tica de perscrutar o passado e a grande aventura humana quanto
os observadores do céu noturno que não dispusessem de concei-
tos para diferenciar os astros entre si, as suas possibilidades de
agrupamentos, suas semelhanças e diferenças, seus movimentos
e possibilidades de interação. Os historiadores precisam, visce-
ralmente, dos conceitos. O mesmo se pode dizer dos geógrafos,
linguistas, sociólogos, antropólogos, economistas, psicólogos, e
outros cientistas humanos.
Se tomarmos quaisquer outros eixos de análise, poderemos
dobrar ou multiplicar nossa impressão sobre a enorme importância
dos conceitos para as análises sociológicas, antropológicas e his-
tóricas. Consideremos, por exemplo, as formas de governo. Desde
que se instauraram os modos coletivos de vida humana, e antes
mesmo do período histórico iniciado pelas grandes civilizações,
os seres humanos foram muito criativos em estabelecer modos de
dominação e modalidades bem diferenciadas de governo.
Em certa sociedade vemos um governo centrado na figura de
um único homem, o qual recebeu por linhagem e herança o pri-
vilégio de comandar a vida da população de um país. Em outras
sociedades, observamos formas de governo nas quais são renova-
dos periodicamente os governantes que se responsabilizam pelo
comando político, mediante processos de escolha bem regrados
e definidos que envolvem toda a população ou apenas parte dela.

22
Em uma terceira sociedade, percebemos que o governante, talvez
apoiado em um pequeno grupo, apossou-se do poder contra a von-
tade geral.
Mais acolá, o governo dá-se explicitamente a partir de grupos
que detém o poder econômico, e em outro lugar-tempo acrescen-
ta-se a essa forma de domínio a manutenção de pequenos exér-
citos privados que são eficientes em assegurar o controle das co-
munidades por grandes fazendeiros que partilham o poder local.
Estendendo o olhar para mais além, no tempo e no espaço, o histo-
riador encontra o poder tomado e dominado por uma junta militar
que suspende o direito social de escolha dos governantes e outros
direitos políticos. Em alguns casos de governos repressivos assim
impostos, o poder instituído parece invadir efetivamente todas as
esferas da vida privada, conseguindo controlar de fato a vida de
cada indivíduo nos seus mínimos detalhes e estabelecendo uma
cultura do medo, na qual todos devem se vigiar uns aos outros.
Esses e inúmeros outros casos que poderiam ser aventados
exemplificam uma grande diversidade de formas possíveis de go-
verno ou de domínio político do homem sobre o homem. Nova-
mente teríamos o caos se não existissem certos conceitos para or-
ganizar os espaços políticos a serem analisados – como “realeza”,
“tirania”, “democracia”, “oligarquia”, “coronelismo”, “ditadura”.
“totalitarismo”. Os conceitos, enfim, ajudam os historiadores e
cientistas sociais a organizarem o céu (ou o inferno) que preten-
dem examinar.

23
4
Distinção entre simples palavras
e conceitos

Na argumentação até aqui desenvolvida, talvez tenhamos


deixado a impressão de que – nas ciências – procede-se de um
só golpe para organizar conceitualmente a abóbada celeste ou a
vastidão histórica que, de outra maneira, pareceriam caóticos.
Obviamente que a construção de um patrimônio conceitual não
se dá de uma única vez, mas sim ao longo de uma história que
envolve os inúmeros pensadores e praticantes de um determinado
campo de estudos. Ao mesmo tempo, os cientistas nem sempre
criam as palavras, ou expressões verbais, que servirão de termos
para os conceitos dos quais necessitam com vistas a perscrutar
um determinado campo de fenômenos relativos à vasta e caótica
realidade que constitui o campo de observação de sua disciplina.
Em ocasiões diversas é o grande ator coletivo formado pelas
pessoas comuns quem cria o material que servirá de base para os
conceitos, sob a forma de palavras que são utilizadas para o enten-
dimento da própria vida, e os cientistas das várias áreas de estudo
só precisam se apropriar dessas palavras para dotá-las de um senti-
do mais específico em seus campos de saber. Dito de outra forma,
existe uma língua viva da qual os cientistas podem se valer nos
seus esforços de conceituar e de escolher as palavras que funcio-
narão como conceitos-chave para suas disciplinas, de modo mais
geral, ou para suas perspectivas teóricas, de modo mais específico.
Os reis, por exemplo, foram assim denominados muito an-
tes que os filósofos, historiadores e cientistas sociais precisassem
conceituar “realeza” ou “monarquia”, em seus estudos específicos,
como uma forma singular de governo que se pode contrastar com
“tirania”, “ditadura”, “democracia”, e muitas outras formas políti-
cas. As guerras já eram assim denominadas antes que precisassem
ser estudadas. Distingui-las das revoluções não foi apenas uma ne-
cessidade dos cientistas políticos e historiadores, mas também dos
políticos, dos generais, das instituições policiais, dos homens que
se revoltavam contra um poder instituído, daqueles que sofriam os
seus efeitos.
As palavras comuns, da própria vida, podem ser utilizadas
como conceitos – ou serem conclamadas por um campo de estudos
a desempenharem o papel de conceitos mais bem-definidos. Em
diversas ocasiões, por outro lado, os cientistas precisam criar lite-
ralmente os conceitos, ou as expressões que os designam, porque
os termos mais adequados não existem ainda na linguagem co-
mum. “Densidade demográfica”, por exemplo, foi o conceito que
se precisou criar quando surgiu a necessidade de avaliar a quan-
tidade de população que habita determinado espaço. A expressão,
possivelmente, não havia sido empregada ainda fora do universo
dos estudos populacionais. “Quark” – palavra retirada aleatoria-
mente de um livro de James Joyce (1882-1941)13 – foi aprovei-
tada pelo físico estadunidense Murray Gell-Mann (n. 1929) para
nomear um tipo de partícula subatômica descoberta ou deduzida
em 1963.
Evidentemente que, nesse como em outros casos, a descoberta
ou percepção de um fenômeno que não estava previsto no reper-
tório da língua requereu a invenção de uma nova palavra. Nesses
casos, o pensador pode se valer de “neologismos” (a criação de
uma palavra nova) ou de “arcaísmos” (a recuperação de uma pala-
vra antiga, já esquecida), ou ainda recorrer a uma palavra monta-
da etimologicamente. É também possível que a demanda por um
novo conceito – o qual necessite de uma expressão verbal ainda
não utilizada – conclame os praticantes de um campo a designar

13. Finnegans Wake (JOYCE, 1939, livro 2, episódio 4). James Joyce, escritor
irlandês cuja obra máxima foi o romance Ulisses (1922), era um hábil criador e
recriador de palavras.

25
um fenômeno não propriamente novo, mas que não era até então
considerado ou beneficiado por uma maior atenção na vida coti-
diana. Por exemplo, o conceito de “sensação térmica” somente se
popularizou após a Segunda Grande Guerra com a derrota alemã
diante do rigoroso inverno russo, e a partir daí começou a ser ado-
tada pelos serviços meteorológicos. Até então, o simples conceito
de “temperatura” atendia perfeitamente aos níveis de exigên-
cia de medição do tempo e de divulgação nos jornais impressos e
nos noticiários de rádio.
Com esses exemplos, quero ressaltar que os cientistas podem
utilizar como termos para a elaboração de conceitos tanto pala-
vras novas, criadas ou rearranjadas de alguma maneira por eles,
como também expressões que já se encontram em plena circula-
ção na vida habitual14. Nesse ponto, será oportuno abordar mais
diretamente a questão sobre o que distingue o conceito de uma
palavra comum.
O conceito pode ser entendido, de modo mais geral, como
a bem-delineada ideia que é evocada a partir de uma palavra ou
expressão verbal que passa, desde então, a ser operacionalizada
sistematicamente no interior de certo campo de saber ou de práti-
cas específicas. Desse modo, a operacionalidade no interior de um
certo campo de estudos é característica de um conceito, qualquer
que ele seja. Embora o conceito possa se valer de uma palavra
comum, empregada na vida cotidiana para fins corriqueiros e coti-
dianos, é preciso compreender que há uma diferença muito grande
entre o conceito e as palavras comuns, empregadas nas conversas
diárias e sem pretensões científicas ou filosóficas. Os conceitos

14. Assim, na sua monumental obra sobre A filosofia dos gregos em seu desenvol-
vimento histórico (1844-1852), já observava Eduard Zeller (1814-1908) que, nos
primórdios do pensamento filosófico, os conceitos estavam intimamente ligados
a expressões da língua comum. Os primeiros filósofos gregos, e isso con-
tinuou a ocorrer depois, valiam-se com muita frequência da chamada “abstra-
ção metafórica”, a qual consistia no deslocamento de palavras materiais da vida
comum para um contexto abstrato/filosófico. Ao mesmo tempo – agora para a
invenção de novas palavras – também se recorria à justaposição de elementos já
existentes (palavras separadas formando novas palavras).

26
que circulam nos diversos campos de saber sempre implicam dis-
cussões entre os seus praticantes, comportando escolhas deriva-
das de demandas específicas15. Eles movimentam ou possibilitam
perspectivas teóricas, e reaparecem com frequência nos trabalhos
produzidos pelos pesquisadores e pensadores do campo passando
a integrar certo repertório conceitual. Os conceitos são pontos de
apoio sistemáticos para um tipo de conhecimento a ser produzido,
no interior de um campo específico de reflexões.
Não obstante, é impossível asseverar que certa expressão cons-
tituirá sempre um conceito, e uma outra será sempre uma “palavra
comum”, nesse caso tende a ser compreendida como uma mera
unidade de comunicação, e não ainda como uma unidade de conhe-
cimento, como é o caso dos conceitos16. A palavra comum em um
certo texto ou contexto, pode se converter em um conceito impor-
tante ao ser deslocada para um outro universo de observações. E a
palavra conceitual que surpreendemos no seio de uma argumenta-
ção filosófica ou de uma exposição científica, pode se apresentar
como uma palavra comum no contexto da vida cotidiana.
Tomemos a palavra “cadeira”. Esta palavra faz parte do voca-
bulário de toda gente, e a utilizamos inúmeras vezes todos os dias.
Habitualmente, ela não é um conceito. Um historiador, ao descre-
ver uma cena histórica que se passe no interior de um gabinete
político no qual se trama uma conspiração militar, poderá utilizar a

15. “Podemos admitir que cada palavra remete-nos a um sentido, que por sua vez
indica um conteúdo. No entanto, nem todos os sentidos atribuídos às palavras eu
consideraria relevantes do ponto de vista da escrita de uma história dos concei-
tos. Quando do planejamento para a realização da pesquisa empírica visando a
produção do Dicionário dos Conceitos, foram criteriosamente selecionadas as pa-
lavras cujos sentidos interessavam: a saber, conceitos para cuja formulação seria
necessário um certo nível de teorização e cujo entendimento também é reflexivo”
(KOSELLECK, 1992, p. 135).
16. Vale lembrar que não é um consenso, no âmbito dos estudos de metodologia,
esse entendimento do conceito como algo que se apresenta como uma “unidade
de conhecimento produzido”. De fato, o conceito pode, de modo diversificado, ser
alternadamente discutido como unidade de pensamento, unidade de conhecimento
e unidade de comunicação. Para Nicola Abbagnano, p. ex., a função mais essen-
cial do conceito é a mesma da linguagem, isto é, a comunicação (ABBAGNANO,
1999, p. 164).

27
expressão “golpe de Estado” (um conceito) e se valer, para descre-
ver os acontecimentos que ali se desenrolam, da palavra “cadeira”
e de muitas outras. Fica claro que “golpe de Estado” está sendo
utilizado como conceito – no caso para designar uma modalidade
de tomada do poder político – e que cadeira é apenas uma palavra
comum, que não necessita de maior discussão e a qual não desem-
penha qualquer papel especial na operacionalização da análise a
ser empreendida.
O mesmo não se pode dizer de “golpe de Estado”, pois se o
cientista político que analisa o acontecimento usar esta expressão,
ou se preferir a noção de “revolução”, estará alterando totalmente
a análise a ser empreendida. Uma revolução é algo muito diferente
de um mero golpe de Estado, de uma quartelada, de uma contrarre-
volução, ou de outros fenômenos igualmente específicos. Os con-
ceitos sempre geram discussão. Eles interferem, alteram ou mesmo
constituem as próprias análises empreendidas. Concomitantemen-
te, apresentam um sentido mais definido a ser considerado, ou um
sentido definido diante de outros possíveis, pois mais adiante ve-
remos que os conceitos podem guardar para si certa polissemia17.
Sem maior discussão, compreende-se que “golpe de Estado”,
“revolução” e “contrarrevolução” são conceitos, mas que “cadei-
ra” é apenas uma palavra comum, ao menos no interior dos estu-
dos de história ou sociologia. Contudo, suponhamos que passamos
a outro ambiente de práticas: a marcenaria – um campo que pode
ser definido como aquele que mobiliza o trabalho de transformar
madeira em um objeto útil ou decorativo. Para o marceneiro, ou
para os fabricantes de móveis de modo mais geral, a “cadeira”
desempenhará efetivamente a função de um conceito. Para o fabri-
cante de móveis, no seu diálogo com os outros especialistas atuan-
tes no seu campo, “cadeira” é obviamente um conceito central,

17. A função instrumental dos nomes (incluindo as designações das palavras co-
muns) – seja como unidade de comunicação ou como recurso para favorecer uma
melhor compreensão do mundo – já aparece no diálogo Crátilo, de Platão, onde
Sócrates chega a comparar os nomes a ferramentas ou instrumentos (2011, p. 43)
[388-b]. Por outro lado, logo veremos que os conceitos aprimoram ao limite a
função de favorecer a compreensão do mundo.

28
que deverá ser distinguido dos conceitos de “sofá”, “poltrona”,
“banco”, entre outros. O que traz a uma palavra o status de concei-
to, em muitos casos, é o campo no qual ela se encontra. Mesmo a
temática de estudo específica dentro de um campo pode conclamar
a que uma palavra seja configurada como conceito. Podemos ima-
ginar um arqueólogo ou historiador da cultura material que precise
se valer da palavra “cadeira” como conceito mais específico.
As palavras podem se transformar em conceitos também no
seio de perspectivas teóricas específicas. “Angústia” é uma pa-
lavra que habitualmente empregamos na vida comum, cotidiana.
Quando a pronunciamos em nossa vida diária, não pensamos nela
como “conceito”. Contudo, no interior de alguns dos ambientes
teóricos da filosofia ou da psicologia, “angústia” desempenha efe-
tivamente a função de um conceito central.
O conceito de “angústia” é fundacional, por exemplo, para
um dos paradigmas mais conhecidos da filosofia contemporânea:
o existencialismo. Para esse campo de reflexões filosóficas, o que
caracteriza o homem, acima de todas as coisas, é o fato de que ele
é o único animal cuja vida se baseia fundamentalmente na angús-
tia. Não é possível compreender a especificidade da aventura hu-
mana sem decifrar as suas angústias, ou, mais propriamente, a sua
angústia principal, a que lhe define a vida e que o faz se distinguir
de todos os animais. Para todo e qualquer filósofo existencialista,
“angústia” é o conceito central a ser considerado em uma análise
da vida humana. O conceito de “angústia” ocupa, dessa forma,
uma posição fundadora para esse paradigma. O que pode distin-
guir um filósofo existencialista do outro é o que deve ser conside-
rado como a angústia central do homem, mas todos os filósofos
existencialistas certamente concordarão em situar no centro de
suas análises o conceito de angústia. A angústia não pode ser com-
preendida, senão, como um conceito-chave, sem o qual se desfaz
a perspectiva existencialista.
Kierkegaard (1813-1855) – filósofo dinamarquês que prenun-
cia a perspectiva existencialista – já situava em uma posição cen-
tral de suas preocupações filosóficas a definição de uma angústia
específica, que era a “relação torturante entre a dúvida e a fé”18.

18. Huisman, 2001, p. 42.

29
Em Heidegger (1889-1976), filósofo alemão já situado no seio do
movimento existencialista em si mesmo, a angústia central é trazi-
da pela “consciência de finitude”, à qual não pode escapar nenhum
ser humano19. Já para o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-
1980), por fim, teremos como angústia existencialista a insustentá-
vel “consciência de liberdade” – (“o homem está condenado a ser
livre”)20 – ou o irrenunciável poder (dever) de escolha (“o homem
nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”)21.
O exemplo mostra que uma palavra que desempenha um papel
perfeitamente comum na linguagem cotidiana, ou também em ou-
tros campos de saber, pode ocupar uma posição conceitual impres-
cindível no interior de um determinado paradigma teórico ligado a
outra disciplina. O historiador – a não ser o que esteja examinando
objetos psico-históricos mais específicos como O grande medo de
1789, ou a História do medo no Ocidente22 – tratará habitualmente
a palavra “angústia” como uma palavra comum. Mas para o filó-
sofo existencialista ela será sempre um conceito.
Não existe, enfim, uma linha definitiva separando os conceitos
das palavras comuns. Para que tenhamos um conceito, demanda-
-se que ele seja central em determinada análise ou campo de
estudos, que ele seja necessariamente objeto de discussão entre os
praticantes do campo ou entre os especialistas que trabalham com a
mesma temática, que seja operacional, repertoriado, recorrente no
vocabulário problematizado do campo em questão. Para que uma
palavra ou expressão verbal se torne efetivamente um conceito, é
preciso que ela ultrapasse a mera condição de “unidade de comu-
nicação” e se converta também em “unidade de conhecimento”.

19. Heidegger, 1935.


20. O sentido desta frase, registrada por Sartre em O ser e o nada (1943), é o de
que “ninguém é livre para deixar de ser livre”. A liberdade, portanto, aqui também
se abre como porta de entrada para uma possibilidade de angústia.
21. Dirá Jean-Paul Sartre em O existencialismo é um humanismo (1946): “A es-
colha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher.
Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim
mesmo estarei escolhendo” (SARTRE, 1978, p. 254).
22. Lefebvre, 1932; Delumeau, 1978.

30
Além disso, essa palavra conceptualizante deve possuir outras ca-
racterísticas típicas dos conceitos, entre as quais a de apresentar
um relevante potencial de generalização e a de desempenhar certas
funções específicas na elaboração do saber científico ou filosófico23.
Por fim, conforme veremos a certa altura deste ensaio, os
conceitos também se caracterizam por mobilizar dentro de si uma
certa dinâmica de conteúdos. Nas suas porosidades internas os
conceitos trazem pontes para outros conceitos, além de abrigarem
na sua estrutura interna componentes que também são conceituais
e que estabelecem relações específicas uns com os outros. Pode-
mos compará-los, os conceitos, a acordes complexos que integram
dentro de si notas musicais bem articuladas umas às outras. Dialó-
gicos por dentro – através de uma rede articulada de sentidos que
se interligam – e dialógicos por fora, através de uma grande rique-
za de possibilidades de articulações com outros conceitos vizinhos
ou distantes, os conceitos são os pontos móveis sobre os quais se
apoiam as linguagens científicas24.

23. Há exigências colocadas à palavra conceitual que são ainda mais enfáticas nas
ciências sociais e humanas: “Todo conceito se prende a uma palavra, mas nem
toda palavra é um conceito social e político. Conceitos sociais e políticos contêm
uma exigência concreta de generalização, ao mesmo tempo em que são sempre
polissêmicos” (KOSELLECK, 2006, p. 108).
24. A própria origem etimológica da palavra “conceito” autoriza a possibilidade
de se compreender os conceitos de acordo com a perspectiva complexa que aqui
propomos, uma vez que o vocábulo remete ao verbo latino concipere (conceber),
o qual significa simultaneamente “conter completamente” e “formar dentro de si”
[o mesmo que ocorre com o acorde]. Ao lado disso, a ideia de que o conceito é ne-
cessariamente uma abstração (uma “coisa formada na mente”), autoriza também
outros sentidos para a expressão, tal como o de “juízo sobre algo”. Pode-se ter
um certo conceito sobre a moda; ou duas pessoas podem ter conceitos diferentes
sobre algum assunto ou aspecto. Por fim, conceber também abriga o sentido de
“trazer à luz” (e não apenas no que concerne ao processo biológico do parto). O
conceito (o “concebido”), de acordo com este último feixe de sentidos, é aquilo
que foi “trazido à luz”. Esta última é a acepção na qual investe Hegel, ao dar a
entender que a formação de conceitos insere-se em um processo no qual o Ser
emerge como essência, e a essência emerge como conceito (1817, v. 83) [2012,
p. 169-170]. Destarte, é na primeira acepção que investiremos: o conceito como
palavra complexa dotada de certas singularidades e funções com vistas à produção
do conhecimento científico e filosófico.

31
Parte II

Conceitos e produção de
conhecimento

Tendo pois o Senhor Deus formado da terra


todos os animais terrestres
e todas as aves do céu,
Ele os levou a Adão,
para ver como os haveria de chamar.
E o nome que Adão deu a cada animal,
este se tornou o seu verdadeiro nome.
Gn 2,19-20
5
Seis funções dos conceitos
no processo de produção do
conhecimento

Sabemos já que o conceito não é uma despretensiosa pala-


vra comum, e que tampouco é apenas uma “unidade de comuni-
cação”, ainda que a função de comunicar não seja de modo al-
gum desprezível entre aquelas requeridas aos conceitos. Vimos
também que os conceitos surgiram, antes de tudo o mais, para
organizar realidades que de outra maneira se afigurariam dema-
siado caóticas aos seres humanos. Com os conceitos, tornava-se
possível organizar os céus e os mundos dos homens, a tão bela
quanto confusa exuberância da natureza, o pensamento desgo-
vernado de indivíduos pensantes que finalmente aprenderam a
ser filósofos. A vontade de conceito se afirmou como expressão
do desejo de enfrentar a estonteante velocidade com a qual todas
as coisas se dissipam25.

25. “Define-se o caos menos por sua desordem que pela velocidade infinita com a
qual se dissipa toda forma que nele se esboça” (DELEUZE & GUATTARI, 1992,
p. 139).
2
ORGANIZAR
1
COMUNICAR

GENERALIZAR
SEIS
6
FUNÇÕES
APROFUNDAR DOS CONCEITOS

COMPARAR

5
PROBLEMATIZAR

O quadro acima proposto almeja apresentar, em um único es-


quema visual, as principais funções desempenhadas pelos concei-
tos na produção do conhecimento. Duas delas já vimos: a função
de “comunicar” (o conceito visto como “unidade de comunica-
ção”) [1] e a função de “organizar” – a primeira entre uma série
de outras que redefinem o conceito como uma “unidade de conhe-
cimento” [2].
Através de conceitos, os especialistas de determinado campo
de saber – ou mesmo de qualquer campo de atividades que mo-
bilize seus próprios conceitos para fins diversos – comunicam-se
entre si, falam uma linguagem em comum, nem sempre acessível
aos leigos ou aos não iniciados nas suas ciências e artes. Há diale-
tos científicos quase secretos, os quais ao mesmo tempo comuni-
cam e interditam a comunicação. A linguagem jurídica, com seus
conceitos nem sempre tão acessíveis aos que não estudaram
Direito – seja no que se refere às suas definições, seja no que se
refere aos seus próprios termos – parece nascer do desejo de fazer

36
do saber um poder, disposto a conservar a distância todos aqueles
que não demonstrem possuir a devida competência conceitual.
O caso da História, entre as ciências humanas, é de certo modo
sui generis. Embora nem todos tenham este dom, os historiadores
querem comunicar os resultados de suas pesquisas a todos os lei-
tores possíveis. Não costumam se orgulhar da impenetrabilidade
de um discurso, como pode ocorrer entre os advogados, entre os
médicos ou mesmo entre os economistas. Não escrevem somente
para os especialistas, mas também para o mundo; e uma parte do
seu trabalho, conforme veremos na quarta parte deste livro, é a de
incluir no seu próprio discurso a linguagem deste mesmo mun-
do. A linguagem da “vida viva” de hoje, bem como os discursos
oriundos de vidas já desaparecidas que nos chegam através dos
vestígios deixados por todas as épocas, sempre muito bem-en-
tremeados com uma série de conceitos inventados nos próprios
meios historiográficos ou então importados das demais ciências
humanas, emprestam uma tônica especial a essa ciência social que
não pode prescindir de criar literariamente uma boa narrativa para
alterná-la cientificamente com uma cuidadosa análise, tão sofisti-
cada quanto possível.
Entre a comunicabilidade mais fácil dos historiadores e a obs-
curidade dialetal dos juristas, acomodam-se as diversas ciências
humanas. Em uma e outra de cada uma dessas ciências, os conceitos
desempenham o importante papel de “unidades de comunicação”.
Os conceitos convertem-se, então, em palavras preciosas – diaman-
tes de alto quilate que cortam e recortam com maior precisão; pa-
lavras que, destacando-se das demais, brilham e ajudam a ilumi-
nar situações novas ou corriqueiras. O aprimoramento e ampliação
de um certo repertório conceitual, tal como ressalta Paul Veyne
(n.1930), é visível no decorrer da história da historiografia, e acre-
dito que possamos nos referir dessa mesma maneira ao repertório
conceitual de todas e de cada uma das ciências humanas:
Não se sabia ainda, no último século, falar de classes,
estilo de vida, racionalismo econômico, riqueza es-
tagnada, conspícuos consumption [consumo ostenta-
tório], fascinação pela classe imediatamente superior,

37
mobilidade social, dinâmica de grupo, ascensão por
curto-circuito26.

A percepção organizada de uma realidade que se revela cada


vez mais complexa, aliás, une-se ao desejo de comunicar com vis-
tas à ampliação e aprimoramento do vocabulário conceitual, em
cada uma das ciências humanas. Essas duas funções conceituais,
de certo modo, formam um par: ao mesmo tempo em que se con-
verte em “unidade de pensamento”, capaz de contribuir para a or-
ganização inteligível da realidade examinada, o conceito se apre-
senta aos praticantes do campo (e eventualmente aos leigos que
se interessam pelo campo) como “unidade de comunicação”. Or-
ganizar e comunicar configuram duas atitudes para enfrentamento
do caos, deste “todo confuso” ao qual se referiu Aristóteles em
certa passagem da Física, e, através dele, o historiador Paul Veyne
(n.1930) em seu ensaio “A história conceitual” (1974)27.
As duas funções seguintes, as quais entenderemos melhor no
próximo capítulo, também costumam aparecer perfeitamente in-
terligadas. “Generalizar” [3] e “comparar” [4] são operações que
se entrelaçam: uma favorece a outra. Nos capítulos iniciais deste
livro, vimos que os conceitos da Astronomia surgiram da percep-
ção de que existiam nos céus certos astros que apresentavam um
comportamento comum, e que se distinguiam facilmente de outros
grupos de corpos celestes que apresentavam características distin-
tas. Foi a atenta comparação de alguns corpos celestes com outros
que permitiu que se chegasse a conceitos generalizadores como
os de “planeta” ou de “estrela”. Inversamente, são também con-
ceitos como esses que permitem mais uma vez retornar aos céus
para comparar os corpos celestes uns com os outros, ou retornar
ao passado para agrupar processos históricos similares de modo a

26. Veyne, 1988, p. 68-69 [original: 1974].


27. [A multiplicação de conceitos no decorrer da história da historiografia] consti-
tui “um progresso da análise sobre o imediato confuso. Pois nossa primeira visão
de nós mesmos e do mundo social, como do mundo físico, não nos fornece senão
esse ‘todo confuso’ de que fala, ou mais ou menos, o início da Física” (VEYNE,
1988, p. 69).

38
chamá-los de “guerras”, “revoluções”, “revoltas”, ou o que quer
que seja. As operações de “generalizar” e de “comparar” consti-
tuem uma o efeito da outra.
Chegamos ao derradeiro par. “Problematizar” [5] e “aprofun-
dar” [6] são também funções irmãs. Quero trazer mais uma vez o
exemplo da História, entre as demais ciências humanas, por ser
este o campo de saber que mais se corre o risco da banalidade,
caso os seus praticantes não se façam valer de um adequado apa-
rato conceitual. Já há mais de um século que uma certa prática
historiográfica, ao menos entre os historiadores profissionais – e
principalmente no âmbito da formação dos historiadores nos cur-
sos de graduação –, superou um antigo modo de fazer a História
que se comprazia em se situar meramente ao nível das fontes e
em desenrolar uma história tão somente narrativa, factual ou des-
critiva. Na medida em que os novos historiadores tomaram a seu
cargo a tarefa de construir e atualizar permanentemente uma “his-
tória-problema” – uma história analítica, cuja missão primordial
seria a de fornecer interpretações e análises sobre os mais diversos
processos históricos e configurações sociais – os conceitos adqui-
riram um papel de primeira grandeza no novo modelo historio-
gráfico. Os conceitos, de fato, permitem pensar problemas: eles
conformam caminhos, pontos de junção e pontes através dos quais
o pensamento flui em novas direções.
Problematizar é também aprofundar. A função de “aprofun-
damento” [6] implica ultrapassar os níveis de ingenuidade do
senso comum, alcançar mais sutileza – distanciar-se, para o caso
da História, da escrita em geral não problematizada que é a apre-
sentada livremente pela fluidez literária dos romances históricos
e de outros gêneros que trabalham com materiais e conteúdos his-
tóricos sem um maior compromisso em desenvolver efetivamen-
te uma análise de profundidade. Aprofundar, sobretudo, implica
ultrapassar o sistematicamente nível das fontes, o mero conteúdo
informativo e descritivo da documentação e a película de discur-
sos e leituras que os contemporâneos do problema histórico exa-
minado faziam de si mesmos, com ou sem sinceridade, voluntária
ou involuntariamente.

39
Da mesma forma, também a sociologia ou a antropologia, ao
examinar as realidades sociais e os grupos humanos de seu inte-
resse, precisam ultrapassar com a análise (ainda que consideran-
do-os como um elemento importante e incontornável desta mesma
análise) os pontos de vista daqueles que são examinados. Os con-
ceitos surgem, aqui, como os instrumentos necessários. A pesquisa
de um antropólogo não pode se limitar a coletar depoimentos de
seus entrevistados, bem como a análise do psicólogo não pode se
deter no mero registro do que diz o sujeito analisado, sendo ne-
cessário, neste caso, que o próprio psicólogo motive o analisado a
pensar conceitualmente sobre o seu próprio discurso, seus sonhos,
seus lapsos. Deter-se na superfície de um discurso, para o antropó-
logo ou psicólogo, seria o equivalente ao historiador que se detém
na superfície de suas fontes, e que não se vale adequadamente do
potencial de aprofundamento que os conceitos lhe proporcionam.
Aqui, voltamos ao início: as novas problematizações e níveis
de aprofundamento alcançados gradualmente na história da histo-
riografia, bem como nas histórias de cada ciência humana, tam-
bém implicam buscar novas “unidades de comunicação” (novos
conceitos). Aprofundar e comunicar, fechando um círculo que
logo irá girar mais uma vez, constituem o penúltimo e o último
gesto da ciranda que coloca em movimento as funções básicas
dos conceitos.
Podemos complementar a reflexão sobre as funções dos con-
ceitos com a sua penumbra: ressaltando o que o conceito não é.
Não é função de o conceito resgatar ou capturar a realidade (os
conceitos não são a realidade). Os conceitos favorecem, sim, a
construção de certas “imagens da realidade”: imagens organiza-
das, problematizadas e de profundidade. Imagens que permitem
generalizações e comparações. Imagens comunicáveis, as quais se
tornam objetos de discussão entre especialistas cujo ofício é preci-
samente o de propor imagens da realidade.

40
6
Os conceitos e seu potencial
de generalização

Um conceito pode ser entendido como uma formulação abs-


trata e geral, ou pelo menos uma formulação passível de genera-
lização, que o indivíduo pensante utiliza para tornar alguma coisa
inteligível nos seus aspectos essenciais ou fundamentais, para si
mesmo e para outros. Visto desta forma, o conceito constitui uma
espécie de órgão para a percepção ou para a construção de um
conhecimento sobre a realidade, mas que se dirige não para a sin-
gularidade do objeto ou evento isolado, mas sim para algo que liga
um objeto ou evento a outros da mesma natureza, ao todo no qual
se insere, ou ainda a uma qualidade de que participa.
Em muitos casos, os conceitos correspondem a categorias ge-
rais que definem classes de objetos, fenômenos ou processos, e
o objetivo desses “conceitos agrupadores” é sintetizar o aspecto
essencial ou as características existentes em comum entre esses
objetos ou fenômenos. Dessa maneira, a Revolução Francesa ou
a Revolução Americana não são conceitos, mas “revolução” sim.
Da mesma forma, o conceito marxista de “modo de produção”
pode encontrar um desdobramento no “modo de produção asiáti-
co” ou no “modo de produção feudal”: mas não tem sentido, por
exemplo, dizer que se pretende conceituar o “modo de produção
feudal francês” ou o modo de produção feudal em qualquer outra
região da Europa medieval. O que se está fazendo neste último
caso é descrever uma situação social específica, que pode até se
enquadrar no que habitualmente se define como “modo de produ-
ção feudal”, mas que nesse tipo de operação (a descrição de um
caso isolado) virá misturada com singularidades que não fazem
parte do âmbito conceitual.
De modo análogo, pode-se “explicar” historicamente o que
foi a Revolução Francesa a partir de um certo ponto de vista, mas
não se pode “conceituá-la”, uma vez que a Revolução Francesa
constitui um conjunto singular e único de situações e aspectos.
Uma descrição histórica, ou uma narrativa historiográfica, mesmo
que sintetizada, não pode ser confundida com uma conceituação.
A explicação construída sobre a Revolução Francesa, por outro
lado, poderá se valer dentro dela do uso do conceito de “revolu-
ção”, mediante o qual, se a explicação for levada até este ponto, o
leitor poderá saber o que há de comum entre a Revolução Francesa
e a Revolução Chinesa ou a Revolução Cubana, e o que habilita
chamar a cada um daqueles eventos e situações de “revolução”.
Portanto, este tipo de conceito, quando bem-formulado, representa
somente os elementos que são absolutamente essenciais ao objeto
ou fenômeno considerado na sua generalidade, e desse modo ele
deve trazer para a sua definição aspectos que são comuns a todas
as coisas da mesma espécie, deixando de fora fatores que são so-
mente particularizantes de um objeto ou fenômeno singular.
Exemplos de conceitos que reúnem objetos particulares em
uma única classe podem ser encontrados na própria vida cotidiana.
“Pássaro”, por exemplo, é um conceito construído a partir da abs-
tração das características que todos os pássaros têm em comum.
Trata-se, por outro lado, de um exemplo de conceito muito menos
abstrato que o de “revolução”, uma vez que as características que
todos os pássaros têm em comum, e que constituem o conceito de
“pássaro”, são facilmente observáveis ou mensuráveis. Já a elabo-
ração do conceito de “revolução”, conforme teremos oportunidade
de verificar mais adiante, requer um grau maior de abstração que
transcende a mera observação direta. Alguns autores chamam a
este tipo de conceito construído em um grau de abstração mais
elevado de constructo, uma modalidade que discutiremos a seguir.

42
7
Constructos

Enquanto o conceito de estrutura mais simples tem os seus ele-


mentos mais imediatamente apreensíveis (p. ex., por observação,
por mensuração ou por dedução simplificada), o constructo nunca
permite uma apreensão ou mensuração direta de suas propriedades
ou aspectos essenciais, e muitas vezes tem de ser construído com
o recurso da incorporação de outros conceitos, de menor nível de
abstração, como materiais de base. A Física nos oferece alguns
exemplos clássicos. “Peso” é um conceito de nível mais direto de
apreensão, já que os objetos se apresentam imediatamente à sen-
sibilidade humana como “leves” ou “pesados”. “Volume” remete
a apreensões imediatas que estão relacionadas ao espaço ocupa-
do por um corpo. “Massa” é um conceito mensurável fisicamente
com os instrumentos adequados (a massa de um corpo depende
simultaneamente de quantos átomos ele contém e da massa indi-
vidual desses átomos). “Densidade”, contudo, é um conceito cuja
apreensão requer um nível maior de abstração: pode ser definido
no caso como uma relação entre “massa” e “volume” (massa ÷
volume). Nessa situação, a elaboração do constructo “densidade”
necessitou da utilização dos conceitos de “massa” e “volume”, de
menor nível de abstração28.

28. Poderíamos prosseguir adiante na elaboração de novos constructos, cada


vez mais complexos. O constructo “densidade relativa” refere-se à “densidade
de uma substância particular comparada com a densidade da água”. Portanto,
é um constructo de nível ainda maior de abstração, pois requer a utilização do
constructo “densidade”, que por sua vez já havia relacionado os conceitos de
“massa” e “volume”.
Retornando à ideia de “revolução”, mais adiante veremos que
este conceito necessita da utilização de outros materiais concei-
tuais para a sua elaboração, construindo-se na combinação ou na
relação entre conceitos e noções como os de “violência”, “mu-
dança”, “liberdade”, “movimento social”, que de um modo ge-
ral são conceitos mais imediatamente apreensíveis (todos já estão
familiarizados com a “violência” ou com a ideia de “mudança” a
partir da sua própria vida cotidiana). Assim, mais rigorosamente,
“revolução” seria um constructo. Para simplificar, neste livro cha-
maremos de “conceitos” às diversas elaborações nos vários níveis
de abstração, independentemente de serem constructos ou concei-
tos propriamente ditos.

44
8
Conceitos agrupadores e
conceitos transversais

Vimos mais acima que “revolução” ou “pássaro” são concei-


tos que sintetizam as características essenciais de fenômenos ou
objetos do mesmo tipo. O conceito de “pássaro”, por exemplo,
abrange todos os pássaros do mundo. Podemos chamar, a esta mo-
dalidade conceitual, de “conceitos agrupadores”. Além da possibi-
lidade de abrigar em uma classificação mais ampla objetos ou fe-
nômenos isolados – os “conceitos agrupadores”, em muitos casos,
também podem abrigar outros conceitos, e com eles estabelecer
uma espécie de relação hierárquica.
Pode-se ter mesmo uma pequena cascata de conceitos agru-
padores, até se chegar a objetos específicos que já não são mais
conceitos. O conceito de “revolução social” abrange os concei-
tos de “revolução burguesa” e “revolução socialista”, que devem
ser entendidos como casos particulares daquele primeiro. Para
além disso, o conceito de “revolução socialista” poderia se colo-
car como agrupador de “revolução socialista proletária” e “revo-
lução socialista camponesa”. Depois disso, cairíamos talvez nos
exemplos históricos específicos, como o da Revolução Chinesa.
Aspecto notável é que os conceitos agrupadores mais abrangentes
sempre possuem todas as suas notas (suas características) rigoro-
samente em comum com aqueles conceitos mais particulares que
eles agrupam, mas sendo que estes últimos acrescentam precisa-
mente uma nota característica ou mais a suas próprias compreen-
sões mais específicas (ao seu conjunto de características).
Dessa maneira, a “Revolução Socialista Camponesa” acres-
centa à “Revolução Socialista” seu caráter “camponês”, assim
como a “Revolução Socialista” já havia acrescentado o aspecto
“socialista” à “revolução” na sua formulação mais geral. Confor-
me se vê, todas as características que definem o conceito mais
geral de revolução – por exemplo, a mudança política radical, a
presença de algum tipo de violência, a instituição de uma nova
ordem – aparecem na definição de revolução socialista, mas esta
última agrega à formulação anterior uma nova característica (a
“posse ou propriedade coletiva dos meios de produção”).
Além dos conceitos agrupadores, existem conceitos que não
se referem propriamente a categorias gerais nas quais se enqua-
dram objetos particulares, mas sim a propriedades, a processos ou
situações generalizadas que ajudam a compreender o mundo cir-
cundante. O conceito darwiniano de “seleção natural”, por exem-
plo, foi cunhado para representar um processo natural relativo a
um sistema de mútuas interações do qual participariam todos os
seres vivos na sua luta pela sobrevivência29. O conceito de “centra-
lização política” articula-se a uma certa maneira de ver o processo
através do qual os poderes e atribuições de controlar e organizar a
sociedade passam a se concentrar em torno de um núcleo estatal.
O conceito de “imaginário” busca dar conta da dimensão da vida
humana associada à produção de imagens visuais, mentais e ver-
bais, na qual são elaborados “sistemas simbólicos” diversificados
e na qual se constroem “representações”30.

29. Darwin, 1859, capítulo III.


30. Podemos ilustrar a diversidade de usos que pode se referir ao conceito de imagi-
nário. Fora seu uso na psicologia, o conceito foi apropriado pela primeira vez para
a análise histórico-social por Cornelius Castoriadis (1922-1997) em A instituição
imaginária da sociedade (1975). A partir daí, o conceito tem se mostrado polêmi-
co nos campos da História e da Antropologia, merecendo definições diversas das
quais registraremos algumas. 1) Conjunto de imagens não gratuitas e das relações
de imagens que constituem o capital consciente e pensado do ser humano (DU-
RAND, G. As estruturas antropológicas do imaginário). 2) “Conjunto de imagens
e relações de imagens produzidas pelo homem a partir, por um lado, das formas
tanto quanto possível universais e invariantes e que derivam da sua inserção física
e comportamental no mundo - e, de outro, de formas geradas em contextos parti-
culares historicamente determináveis” (TEIXEIRA COELHO. Dicionário Crítico
de Política Cultural). 3) “Conjunto de representações que exorbitam do limite
colocado pelas constatações da experiência e pelos encadeamentos dedutivos que
essas autorizam” (PATLAGEAN, E. “A história do imaginário” In: LE GOFF.
A história nova).

46
Estes três exemplos – seleção natural, centralização política,
imaginário – referem-se a conceitos que não produzem sistemas
de classificação. Da mesma forma, atributos ou propriedades po-
dem ser conceituados, como “justiça”, “liberdade”, “densidade”.
Vamos chamar a essas modalidades conceituais que atravessam
fenômenos ou objetos diversos – e que realizam o potencial ge-
neralizador dos conceitos de uma outra forma, que não a de gerar
agrupamentos – de “conceitos transversais”.
Imperialismo, aculturação, crise, industrialização, urbaniza-
ção, globalização, bem como incontáveis outros conceitos, atra-
vessam de cima a baixo as diversas análises históricas e socioló-
gicas, interagindo com outros conceitos para formar uma trama
teórica, cruzando-se e entrelaçando-se com eles, cortando os mais
diferenciados contextos. A Revolução Russa vivenciou a indus-
trialização a certo momento, e passou por suas crises políticas
em momentos específicos. Enquanto isso, o Brasil da Era Vargas,
uma realidade histórica bem distinta, também se beneficiou da in-
dustrialização, sofreu suas próprias crises políticas, e assim por
diante. Os conceitos transversais cortam realidades diversas: são
generalizadores porque remetem a experiências e processos que
reaparecem em contextos variados. A globalização não é um con-
ceito referente a uma sociedade específica, mas ao planeta inteiro.

47
9
Relações diversas entre os
conceitos

Além das “relações hierárquicas” (um conceito de maior grau


de generalização abrangendo outro de menor grau de generalização),
ou das “relações de cruzamento” (dois conceitos se atravessando mu-
tuamente), existem inúmeras outras formas possíveis de relações
entre os diversos conceitos que constituem uma determinada tra-
ma teórica ou um certo repertório conceitual científico. A chamada
“relação partitiva”, por exemplo, ocorre quando um conceito se
constitui de partes diversas as quais, elas mesmas, também são
conceitos. Uma “árvore” – digamos que um espécime do filo das
angiospermas, por exemplo – é constituída de raízes, tronco, ga-
lhos, folhas, flores e frutos. Mas cada uma dessas coisas já é de
si um novo conceito. A “flor” pode ser definida como a estrutura
reprodutora das plantas angiospérmicas. O “fruto” pode ser defini-
do como uma estrutura que protege a “semente” (mais um concei-
to), conformando-se, aliás, em uma característica específica desse
tipo de planta (precisamente a que lhe firma uma identidade frente
a outros filos vegetais). Os conceitos, conforme vemos, podem
constituir partes de outros conceitos. Esse aspecto é importante,
pois oportunamente veremos que os conceitos também podem se
converter nas próprias notas características de outros conceitos.
Outra relação possível entre dois conceitos é a de “oposição”
ou confronto. Alguns conceitos podem se contrapor por contrarie-
dade (“guerra e paz”, “masculino e feminino”), e outros podem se
confrontar por contradição (“grande e pequeno”, “rico e pobre”).
Nas oposições por contradição, dois conceitos assumem, um diante
do outro, um valor relativo, além de admitirem graus de separação
entre si. Assim, o homem mais “rico” do mundo separa-se do ho-
mem mais “pobre” do mundo por inúmeros graus de riqueza ou
pobreza, em um espectro no qual podem ser situados os diversos
seres humanos que fazem parte de uma mesma sociedade. Além
disso, um homem “rico” pode se perceber como “pobre” diante
de um outro mais rico. Por fim, um homem rico pode ficar pobre
da noite para o dia, e vice-versa, pois as contradições são sempre
circunstanciais e reversíveis (mesmo que essas circunstâncias se
eternizem no âmbito de uma vida).
Enquanto isso, dois conceitos que se oponham por contrarie-
dade (dois conceitos contrários), não admitem graus de interme-
diação ou de separação (ou há guerra, ou há paz). Ao lado disso,
dois contrários não são relativos. Em uma sociedade estrutura-
da aristocraticamente, ou se é nobre, ou se é plebeu, não sendo
essas categorias colocadas uma diante da outra ou funcionando
dentro de si como relativas (um homem não é mais nobre que
outro, e tampouco um homem pode ser mais plebeu do que ou-
tro). Analogamente, “homem” e “mulher” são gêneros que devem
ser pensados no horizonte da contrariedade, e não na diagonal da
contraditoriedade31.
Embora seja extremamente importante apreender a relação
de eventual oposição entre dois conceitos – e, mais ainda, o tipo de
oposição que está diante de nós, se de contrariedade, se de contra-
ditoriedade – não se deve cair na armadilha de definir um conceito
pelo seu oposto. É inútil conceituar “guerra” como “a situação que

31. Por vezes, um conceito tem simultaneamente o seu contrário e o seu contra-
ditório. O contrário da igualdade é a diferença. Mas o contraditório da igualdade
é a desigualdade. O exame dessas duas relações opositivas nas sociedades huma-
nas foi abordado na primeira parte do livro Igualdade e diferença – Construções
históricas e imaginárias em torno da desigualdade humana (BARROS, 2015).
A aplicação dessa abordagem teórica a um caso específico – o estudo da constru-
ção histórica da identidade negra na sociedade brasileira – foi empreendida em A
construção social da cor (BARROS, 2009). Para uma discussão clássica sobre as
relações de contrariedade e contraditoriedade, ver o texto fundador de Aristóteles:
o capítulo IX de Da interpretação (350 a.C.). Para uma reapropriação semiótica
desses dois tipos de oposições, cf. a metodologia dos quadrados semióticos desen-
volvida por Algirdas Greimas e Joseph Courtés (1979).

49
se opõe à paz”. Igualmente inútil e descabido é incluir na defini-
ção de um conceito, mesmo que disfarçada, a própria palavra ou
conceito que se pretende definir. Isso equivaleria, grosso modo, a
explicar de maneira tautológica uma palavra pela própria palavra.
Por exemplo, é obviamente despropositada e redundante a defini-
ção de que “uma revolução é um movimento social conduzido por
revolucionários”, ou de que “a guerra é a situação caracterizada
pela presença de belicosidade”. Definições como essas não levam
a lugar algum, e não apresentam qualquer conteúdo aproveitável
para um trabalho científico. “O que é a guerra”? “É a ausência de
paz”. “Mas, o que é a paz”? “É a ausência de guerra”. “Um conto
[...] é um conto”32.
Outra relação que pode ocorrer entre dois conceitos, a qual será
importante para nossa argumentação posterior, é a de interseção.
Esta corresponde à propriedade dos conceitos de partilharem certas
notas características uns com os outros. A “violência”, conforme
já foi visto, é nota característica dos conceitos de revolução, golpe
de Estado, guerra, criminalidade, e muitos outros. Certos concei-
tos podem partilhar determinadas características em comum ainda
que correspondam a fenômenos, objetos ou processos radicalmente
distintos uns dos outros, quase à maneira de dois acordes musicais
que partilham de uma ou duas notas em comum embora seus efei-
tos sonoros sejam completamente diferentes em um caso e outro.
Enquanto isso, um conceito pode conservar com outro uma relação
de disjunção, que é aquela em que não existe nenhuma nota em
comum entre os dois. Eventualmente, as dicotomias – construções

32. Em vista do inconveniente lógico de definir a guerra por oposição à paz, e


vice-versa, pensadores diversos começaram a desdobrar o conceito de paz em dois
outros: o de “paz negativa”, conceito ambíguo que segue se apoiando na ideia de
ausência de guerra ou de violência, e o de “paz positiva”, que implicaria a incorpo-
ração de notas características mais assertivas, impondo o horizonte da cooperação
entre as nações. Conforme John Galtung (1995), a “paz positiva” implica ações
específicas: a cooperação internacional, as políticas de desarmamento, a proteção
aos direitos humanos, o olhar na direção de um horizonte de desmilitarização, a
formulação de estratégias com vistas a uma educação para a paz, o diálogo efetivo
entre as diversas culturas. A paz positiva não pode ser confundida como uma “tré-
gua”, o que já pode ocorrer com a paz negativa.

50
teóricas nas quais são desconsideradas todas as demais alternati-
vas e mediações em favor de dois conceitos disjuntivos e polariza-
dos – também podem ser úteis (ou não) em uma análise científica.
A oposição nietzscheniana entre o apolíneo e o dionisíaco é um
exemplo clássico.
Para seguir adiante, e sintetizar o que foi estabelecido até aqui,
o importante é compreender que o conceito é uma abstração ela-
borada a partir da generalização de observações particulares. So-
bretudo, é preciso ter em mente que o conceito é uma construção
lógica que tem o objetivo de organizar a realidade para o sujeito
que busca conhecê-la, mas não se devendo confundir a abstração
conceitual com essa mesma realidade. Assim, os conceitos não
existem como fenômenos reais, mesmo que tentem representar os
fenômenos reais. A não ser, é claro, em teorias idealistas como a
platônica, nas quais as ideias são dotadas de uma existência subs-
tancial para além do universo imaginário criado pelos homens na
sua busca de compreender o mundo.
Não obstante, apesar de não possuir uma existência real, o
conceito é um instrumento imprescindível não apenas para o co-
nhecimento científico, como para a própria vida comum. Se os
objetos e fenômenos não pudessem ser concebidos em termos de
semelhanças e diferenças, com a ajuda dos conceitos, a ciência
e uma série de outras atividades humanas fundamentais simples-
mente não seriam possíveis, tal como já vimos em momento ante-
rior. Nesse sentido, o conceito é um mediador necessário entre o
sujeito pensante e a realidade.

51
10
Sobre a polissemia e a
historicidade dos conceitos

Em capítulo anterior, empreendi certas simplificações para


enfatizar a importância dos conceitos no surgimento das ciências.
Contudo, cometi conscientemente algumas impropriedades histó-
ricas que agora poderão ser corrigidas. Antes de tudo, devemos
sempre considerar que os conceitos são históricos. Eles surgem no
interior de uma história e concomitantemente não cessam de alte-
rar a própria história, uma vez aflorados no campo de discussões
relacionados a uma disciplina ou também nos meios políticos e
sociais no qual eles estabelecem uma praticidade.
Ao trazer o exemplo da Astronomia, mostrei que o conceito
de “planeta”, por contraste com o conceito de “estrela”, tornou-se
útil para ressaltar a intersemelhança de vários corpos celestes que
não emitem luz própria e que, além disso, giram habitualmente
em torno das estrelas. Embora alguns dos corpos celestes que hoje
entendemos como planetas já fossem desde há muito nomeados
desta maneira (como “planetas”), a verdade é que foi necessária
toda uma história de discussões e de percepções sobre o que são
efetivamente os planetas, até que os astrônomos e físicos che-
gassem a uma moderna definição do conceito.
Essa definição, atualmente aceita, é histórica – houve um de-
senvolvimento histórico e múltiplas reelaborações, bem como dis-
putas conceituais, até que se chegasse a ela. Também é histórica
porque poderá se modificar nas próximas décadas, caso se mostre
inadequada para a compreensão desses objetos celestes que são os
planetas, ou se forem descobertos novos elementos pertinentes a
eles. A definição atual de planeta também poderá ser modificada
por decisões de associações científicas ou pela aceitação de su-
gestões advindas de cientistas específicos. A atual definição de
“planeta” também é histórica, ademais, porque os corpos celestes
que se ajustam ou podem se ajustar a elas também poderão ser
reclassificados no decorrer de uma história. Assim, por exemplo,
Plutão era aceito como planeta até pouco tempo, mas a partir de
certo momento foi reclassificado como “planeta anão”, um novo
conceito surgido a partir de certo momento na Astronomia.
Foi a descoberta de alguns corpos celestes de tamanho similar,
ou mesmo maiores do que Plutão, o que levou à reclassificação
desse último como “planeta anão” no Congresso Internacional de
Astronomia de 2006. Ao mesmo tempo, um asteroide de grande
tamanho – Ceres – foi então redefinido como planeta anão, elevan-
do-se à nova categoria conceitual ao lado de outros corpos celestes
recém-descobertos, como Éris (2003), Haumea (2004) e Make-
make (2005). O exemplo nos mostra como as pressões exercidas
no âmbito da “extensão” (campo de aplicação) de um conceito
podem demandar alterações retroativas na sua “compreensão”
(definição do conceito). De fato, foi a emergência de novos atores
celestes passíveis de serem compreendidos como planetas, caso
fosse preservada a definição anterior, o que levou os astrônomos
a empreender novas modificações na “compreensão” do conceito
de planeta. Era isso, ou se optava por uma ampliação numérica do
nosso sistema planetário de modo a incluir doze planetas (propo-
sição, aliás, que também foi colocada em debate no mesmo con-
gresso, terminando por ser preterida em favor da alternativa de
excluir Plutão)33.

33. O problema que precisou ser enfrentado pelos astrônomos relaciona-se a uma
exigência lógica que aparece quando se tem uma definição conceitual em jogo: a
chamada conversibilidade. Conforme esta regra simples que deve ser observada
em toda formulação conceitual, uma definição deve valer para todos os sujeitos
e objetos que se incluem ou se pretende incluir no âmbito de aplicação da coisa
definida (a extensão do conceito), e tão somente para estes sujeitos e objetos. Dito
de outra forma, e utilizando uma linguagem mais filosófica, a definição deve ser
conversível ao definido.

53
Consideremos a definição de planeta que, face aos novos rear-
ranjos, passou desde então a vigorar, sendo hoje a oficialmente
aceita nos meios científicos:
um planeta é um corpo celeste que orbita uma estrela
ou um remanescente de estrela, com massa suficiente
para se tornar esférico pela sua própria gravidade, mas
não a ponto de causar fusão termonuclear, e que tenha
limpado de planetesimais a sua região vizinha (domi-
nância orbital).

Essa definição – a qual envolve certas complexidades mais


familiares aos físicos e astrônomos – foi resultado de uma grande
discussão entre cientistas – e na verdade acumula, atrás de si, uma
série histórica de muitas outras discussões. Ao mesmo tempo, ela
só pode ser formulada dessa maneira por causa de uma série de
constatações astronômicas. São incluídos na definição outros fe-
nômenos expressos através de outros conceitos (planetesimais34,
fusão termonuclear, dominância orbital). Adota-se a compreensão
de que o planeta não precisa orbitar apenas uma estrela já forma-
da ou que esteja ainda consolidada, uma vez que o planeta pode
orbitar também em torno de um “remanescente de estrela”. Sem
o conhecimento dos processos mais específicos de formação pla-
netária, possibilitado por uma maior capacidade de apuro a partir
de observações mediadas por uma tecnologia de ponta, a definição
não poderia chegar a esse termo.
O empenho da União Internacional de Astronomia em obter con-
cordância dos vários astrônomos em atividade acerca do conceito
de “planeta” – ou de tantos outros que foram discutidos no mesmo
congresso – permite-nos refletir sobre um interessante contraste
entre as ciências exatas e as ciências humanas. Dificilmente seria
possível ou imaginável que um congresso de historiadores ou de
sociólogos se reunisse um dia com intenções de atingir definições
consensuais, ainda que parciais e passíveis de posteriores atua-

34. Corpo rochoso ou de gelo, de no máximo 100km, que remete ao início da


formação de um sistema solar. Supõe-se que muitos planetas se formaram a partir
da acumulação de planetesimais.

54
lizações, com relação a algum conceito importante para o cam-
po. Podemos imaginar reuniões como essas, capazes de chegar a
certas conclusões sobre algumas definições conceituais, entre os
astrônomos, físicos e químicos. Também os médicos reúnem-se
com periodicidade para rediscutir – à luz de conhecimentos re-
cém-adquiridos e do universo global de resultados clínicos em
sua área – a tabela que estabelece uma Classificação Internacional
das Doenças (CID). As decisões classificatórias empreendidas nos
congressos médicos, aliás, não levam em conta apenas o progresso
do conhecimento médico e o conjunto de experiências oriundas do
universo das clínicas, mas também, em alguns casos, até mesmo
as pressões da comunidade extra-acadêmica35. De todo modo, os
médicos, como os físicos, químicos e astrônomos, frequentemen-
te chegam a acordos classificatórios e conceituais. Enquanto isso,
historiadores, geógrafos, antropólogos e sociólogos dificilmente
poderiam acalentar pretensões similares de atingir grandes acor-
dos conceituais.
Tal ocorre por uma razão. Os conceitos elaborados no âmbito
das ciências humanas apresentam um nível bastante elevado de
polissemia possível. A polissemia – ou a possibilidade de uma pa-
lavra ou conceito apresentar uma certa variedade de sentidos bem
aceitos – é de modo geral uma característica dos conceitos em
todas as áreas. Nos campos de saber ligados às ciências humanas,
todavia, a polissemia é ainda maior.

35. As associações de homossexuais, p. ex., exerceram e têm exercido pressões


sob o entendimento oficial da medicina acerca do homossexualismo – um concei-
to que transitou de uma definição que o enquadrava taxativamente como “desvio
sexual” (1948) e “transtorno sexual” (1965), tendendo a partir de 1975 a migrar
para a noção mais socialmente aceitável de “orientação sexual”.

55
11
A polissemia conceitual nas
ciências humanas

Dificilmente dois físicos discordariam muito a respeito da de-


finição de alguns dos conceitos básicos do seu campo de saber. Ve-
locidade é de modo geral compreendido por todos os físicos como
referente ao espaço percorrido durante um certo tempo (v = e / t).
Densidade define-se como o quociente entre a massa e o volume
de um corpo (d = m / v). A aceleração corresponde à taxa de varia-
ção da velocidade, constituindo-se, portanto, de uma relação entre
velocidade e tempo (a = v / t). É muito improvável que dois físicos
dos últimos séculos discordem em relação à possibilidade de definir
dessas maneiras esses conceitos, e muitos outros. Isso não quer dizer
que os físicos não travem grandes discussões conceituais, e que pa-
radigmas teóricos baseados em determinados conceitos não se subs-
tituam a outros. A física relativista de Albert Einstein (1879-1955),
por exemplo, fundou-se em um novo conceito de “espaço-tempo”,
com o que afrontava a separação conceitual entre tempo e espaço
que vinha sendo empregada desde o paradigma newtoniano36.

36. No espaço-tempo relativista, o tempo e o espaço tridimensional são concebi-


dos como partes de uma totalidade maior, de quatro dimensões. Em seu livro de
divulgação sobre a Teoria da Relatividade (1916), Einstein procura mostrar que
o novo conceito não é nada mais do que uma nova maneira de ver as coisas, para
além da perspectiva a que todos estavam acostumados por força do paradigma ne-
wtoniano: “O não estarmos acostumados a perceber o mundo nesse sentido, como
um contínuo quadridimensional, provém do fato de que, na física pré-relativística,
o tempo desempenha um papel diferente – mais independente – do que o das
coordenadas espaciais. É por isso que estamos acostumados a lidar com o tempo
como um contínuo independente. De fato, o tempo da física clássica é absolu-
to: não depende nem da posição nem do estado de movimento do referencial”
(EINSTEIN, 2015, p. 69).
Não obstante este exemplo de substituição radical de concei-
tos, certos conceitos-chave costumam perdurar muito mais na Físi-
ca – assim como em outros campos de saber relacionados às ciên-
cias exatas e naturais – do que ocorre nas diversas áreas das ciências
humanas. Nessas, conceitos como ideologia, cultura, poder, classe
social, estrutura, conjuntura, e tantos outros, apresentam aos cien-
tistas sociais muitas e muitas possibilidades de definições.
Vamos considerar, exemplificativamente, o conceito de “ideo-
logia”, o qual é empregado amplamente em qualquer das ciências
humanas e sociais. O filósofo inglês Terry Eagleton (n. 1943) re-
gistra em seu livro Ideologia (1991) nada mais nada menos do
que dezesseis sentidos de uso mais comum para esse conceito na
atualidade37. Isso pode ser ilustrado rapidamente com o quadro
abaixo, que construímos a partir do comentário de Eagleton sobre
a variedade de sentidos atribuídos ao conceito de “ideologia”.
a) Processo de produção de significados, signos e valores na vida social.
b) Um corpo de ideias característico de um determinado grupo
ou classe social.
c) Ideias que ajudam a legitimar um poder político dominante.
d) Ideias falsas que ajudam a legitimar um poder político dominante.
e) Comunicação sistematicamente distorcida.
f) Aquilo que confere certa posição a um sujeito.
g) Formas de pensamento motivadas por interesses sociais.
h) Pensamento de identidade.
i) Ilusão socialmente necessária.
j) A conjuntura de discurso e poder.
k) O veículo pelo qual atores sociais conscientes entendem o seu mundo.
l) Conjunto de crenças orientadas para a ação.
m) A confusão entre realidade linguística e realidade fenomenal.
n) Oclusão semiótica.
o) O meio pelo qual os indivíduos vivenciam suas relações com uma
estrutura social.
p) O processo pelo qual a vida social é convertida em uma realidade natural.
Fonte: Quadro elaborado pelo autor deste livro a partir do panorama conceitual de ideologia
proposto por Terry Eagleton.

37. Eagleton, 1997, p. 15. Para um panorama crítico sobre as várias possibilidades
de sentido modernamente atribuídos ao conceito de “ideologia”, Eagleton remete
a Naess, 1956.

57
Quando um historiador ou sociólogo utiliza o conceito de
“ideologia”, face a tantas possibilidades de sentido (e apenas para
considerar os atualmente vigentes), torna-se necessário de alguma
maneira esclarecer o sentido mais específico em que o conceito
está sendo empregado. O que o autor entende por “ideologia”?
Trata-se de uma dimensão “falsificadora” da realidade? De uma
autoexpressão simbólica coletiva? Essa autoexpressão simbólica
se estabelece a partir da promoção e legitimação de determinados
interesses sociais em face dos interesses preteridos de grupos so-
ciais opostos? Esses interesses sociais setorializados são restringi-
dos às atividades de um poder social dominante? As ideias e cren-
ças que ajudam a legitimar os interesses de um grupo dominante
são encaminhadas através da distorção e da dissimulação? Ou a
ideologia abrange crenças falsas ou ilusórias oriundas da estrutura
material da sociedade como um todo?
A polissemia mais elevada do repertório conceitual disponível
para as ciências humanas precisa ser compreendida como uma ca-
racterística dessas ciências que, mais do que tudo, são multipara-
digmáticas, abertas a uma grande diversidade possível de posicio-
namentos teóricos, predispostas a produzir um número significa-
tivo de interpretações acerca dos mesmos processos sem que seja
possível dizer que uma interpretação é superior a outra, a não ser
nos casos em que não sejam cumpridos adequados procedimentos
metodológicos ou que haja carência na base empírica trazida pelas
fontes. Enquanto isso, existe um confronto conceitual menos enfá-
tico nas ciências exatas – nas quais frequentemente um paradigma
teórico predomina sobre outros em certos períodos, ou só precisa
partilhar o campo com poucos paradigmas rivais38.

38. Em A estrutura das revoluções científicas (1962), Thomas Kuhn (1922-1996)


define “paradigma” como um “conjunto de crenças, valores e técnicas comuns
a um grupo que pratica um mesmo tipo de conhecimento”. Kuhn priorizava em
sua análise as ciências exatas e naturais, e por vezes se refere ao paradigma como
uma espécie de macroteoria, marco ou perspectiva que se aceita de forma geral
por toda a “comunidade científica” relacionada a determinado campo de saber
(p. ex., a Física, a Química, ou a Astronomia). A análise funciona particularmente
bem para o caso de boa parte da história da Física – que apresentou um grande
paradigma dominante desde Newton e até a emergência de novos paradigmas no

58
Poucos conceitos em uso nas ciências humanas deixam de
ser afetados por uma rica polissemia. Quando há consenso sobre
algum conceito, muito frequentemente é porque ele cumpre uma
função mais técnica, ou mesmo porque foi adaptado precisamen-
te de algum conceito já existente no âmbito das ciências exatas
e naturais.
Por exemplo, os cientistas sociais e historiadores que traba-
lham com estudos sobre a população dificilmente discordariam de
uma definição conceitual de “densidade demográfica” que evoque
de modo muito direto uma relação entre a quantidade de popu-
lação e o espaço por ela ocupado. Uma cidade é tão mais densa-
mente povoada quanto mais apresente um número maior de habi-
tantes por metro quadrado. O conceito de “densidade demográfi-
ca”, afeito a praticamente nenhuma polissemia, é na verdade uma
adaptação de um conceito da Física, a “densidade”. Esta é muito
simplesmente a relação entre a massa e o volume de um corpo.
Analogamente, a densidade demográfica de uma cidade ou de uma
zona rural corresponde a uma relação direta entre a sua quantidade
de população e o espaço extensivo ocupado por essa população.
Não há discussões sobre isso.
Entrementes, uma discussão sobre o conceito de “cultura” – na
História, na Antropologia, na Sociologia, ou na Educação – reque-
riria bibliotecas inteiras. Ao final dessa discussão, não teríamos de
modo nenhum um consenso ou um acordo sobre a definição mais
bem-ajustada, ou sobre os modos mais corretos de utilização para
o conceito de “cultura”, mas sim um grande conjunto significa-
tivo – nesse caso razoavelmente vasto – de possibilidades de uso

século XX – ou para a Astronomia, a Química, e outros campos. Contudo, como


o próprio Kuhn admite em texto posterior (2006, p. 265-273), o conceito precisa
ser redefinido quando aplicável às ciências humanas, as quais tendem a ser mul-
tiparadigmáticas – isto é, partilhadas simultaneamente por diversos paradigmas
teóricos. Por isso, Thomas Kuhn criou depois o conceito de “Matriz Disciplinar”
(1969), que poderia corresponder a esse universo mais amplo de preceitos que é
aceito de maneira geral pelos praticantes de um campo, e os paradigmas podem se
apresentar como alternativas no interior dessa mesma matriz. Essa última propos-
ta se adapta particularmente bem ao âmbito das ciências humanas.

59
deste conceito no âmbito das ciências humanas e de acordo com
cada perspectiva teórica que elas proporcionam.
Pode-se dizer que, de alguma maneira, as ciências humanas
lidam com os seus conceitos a partir de uma atitude flexível que
as coloca simultaneamente equidistante da rigidez científica e da
fluidez filosófica. Entre a rigidez ortogonal dos conceitos típicos
das ciências exatas, com seus contornos regulares e facilmente
encaixáveis uns nos outros de modo a formar um único quebra-
-cabeças, e a volatilidade radical dos conceitos filosóficos – no
limite da qual cada filósofo ou mesmo cada obra tende a criar
conceitos que só servirão para ela própria – estão as formulações
conceituais da História e das demais ciências humanas39. Os con-
ceitos, aqui, vão surgindo sem a ambição gélida da durabilidade
eterna e sem a pressa da evaporação. É nesse entrecaminho que
precisamos nos situar quando forjamos ou retomamos um patri-
mônio conceitual propício para as análises historiográficas, an-
tropológicas, sociológicas. A polissemia deve ser entendida aqui
como uma riqueza, e não como uma fragilidade. Não é algo que
lamentar, mas sim aquilo que permite a especificidade do trabalho
de um historiador, de um antropólogo, de um sociólogo, de um
cientista político. Os contornos irregulares dos conceitos típicos
das ciências humanas, bem como a sua fluidez polissêmica – a
partir da qual devem ser feitas as escolhas – asseguram precisa-
mente o afloramento das diversas interpretações sobre os fenôme-
nos sociais e os processos históricos.

39. Deleuze e Guattari, em O que é a filosofia? (1991, p.12), retomam um co-


mentário de Nietzsche sobre essa que deveria ser uma nova tendência da filosofia
contemporânea: “Os filósofos não devem mais contentar-se em aceitar os con-
ceitos que lhes são dados, para somente limpá-los e fazê-los reluzir; é necessário
que eles comecem por fabricá-los, criá-los, afirmá-los, persuadindo os homens a
utilizá-los. Até o presente momento, tudo somado, cada um tinha confiança em
seus conceitos, como um dote miraculoso vindo de algum mundo igualmente
miraculoso” (NIETZSCHE. “A arte da desconfiança”. Fragmentos póstumos de
1884-1885) [1992, p. 215-216].

60
12
A historicidade dos conceitos
nas ciências humanas

A polissemia dos conceitos apresenta-se em uma mesma época,


como vimos no capítulo anterior, sob a forma de alternativas que
se disponibilizam para os pesquisadores de um campo de estudos.
Por outro lado, a multiplicação de sentidos de um conceito, suas
variações de sentido, estendem-se também no tempo. Os conceitos
estão mergulhados na história. Isso ocorre de diversas maneiras.
Há conceitos que estão na moda, e outros que se desgastam
com o tempo. Por vezes, ocorre que um determinado conceito se
veja muito questionado pela superação de uma determinada pers-
pectiva teórica. Por exemplo, o conceito de “evolução” – herdado
do campo da Biologia e das Ciências Naturais – esteve muito em
voga na Antropologia, na Sociologia e na História até meados do
século XX, sendo aplicado à ideia de “evolução social”. O uso
deste conceito nas ciências sociais permitia que se encarassem
certas sociedades como superiores a outras, como pontos de che-
gada mais evoluído para sociedades primitivas. Uma sociedade
europeia civilizada seria mais evoluída do que uma sociedade
indígena, esta relegada ao rol das “sociedades primitivas”. Hoje,
tal perspectiva não se sustenta. A própria história do século XX –
pontuada de guerras e de utilização de tecnologia de destruição em
massa a favor da barbárie – cuidou para que os intelectuais ques-
tionassem a pretensa “evolução social” das sociedades europeias.
Em vista da ampla rejeição da perspectiva do “evolucionismo
social” e outras formas de etnocentrismo, nos dias de hoje, é re-
comendável evitar o conceito de evolução, ou mesmo o emprego
da palavra “evolução” para situações antropológicas ou processos
históricos. O uso de palavras como “desenvolvimento” [de um
processo] é tendencialmente preferível ao uso da palavra “evolu-
ção” [aplicada a um processo histórico]. O vocabulário conceitual,
como se vê, está longe de ser estático em disciplinas como a His-
tória ou a Antropologia.
“Raça” é outro conceito cujo uso tem-se tornado reduzido, ou
muito questionado, nas ciências sociais – embora ainda habite for-
temente nos textos legislativos e no vocabulário dos movimentos
sociais. A ideia de que a humanidade possa ser adequadamente
dividida em raças, igualmente em voga até meados do século XX,
e sobretudo no século anterior, foi desautorizada tanto por pesqui-
sas antropológicas como por pesquisas biológicas que analisaram
extensamente o DNA humano presente no planeta, permitindo re-
forçar tanto a hipótese de origem única da humanidade como a
constatação de que as combinações genéticas predominam de tal
maneira na população humana do planeta e em sua história, que
não é possível identificar adequadamente para grupos específicos
de indivíduos um conjunto de características que habilitaria en-
xergá-los como raças. O descredenciamento do conceito de “raça”
nas ciências humanas, por outro lado, não implica a rejeição do
conceito de “racismo”. O racismo existe, e deve ser analisado
como tal, porque indivíduos e grupos sociais enxergam a socie-
dade como dividida em raças (mesmo que esta não seja) e passam
a atribuir a determinados grupos privilégios e a outras discrimi-
nações, resultando daí um grande modelo de injustiças sociais. O
exemplo nos mostra que um conceito nascido do desdobramento
de outro, em determinado campo de saber ou certa linha teórica,
pode sobreviver à extinção do conceito que lhe deu origem.
Existe historicidade também nas próprias modas conceituais.
Paul Veyne (1974) lembra-nos o insistente modismo historiográ-
fico do uso indiscriminado do conceito de “burguesia” nos anos
de 1960:
Acontece então, frequentemente, que esse ou aquele
conceito novo conhece um sucesso de voga, e acredi-
ta-se encontrá-lo por toda a parte: houve um tempo em
que se encontrava em todos os lugares uma burguesia

62
ascendente, na França de Luís XVI como na Inglaterra
de Cromwell, na Roma de Cícero e no Japão de Toku-
gawa; descobriu-se em seguida que esta nova chave
não entrava em tantas fechaduras senão forçando-as, e
que ainda seria necessário forjar novos conceitos para
essas outras fechaduras40.

Passada a efêmera moda que distorce o uso de um conceito,


para além de uma razoável capacidade elástica de sua extensão,
ele retorna aos seus limites mais confiáveis, ou menos banalizado-
res. Também pode ocorrer a retração ou desaparecimento de um
conceito por motivos de desgaste decorrente do excesso de uso, ou
ocasionado pela apropriação popular. Às vezes os conceitos que
tinham um lugar de destaque nos trabalhos científicos (referi-
mo-nos mais especificamente, é claro, às ciências humanas) po-
dem se banalizar, cair no gosto popular, ou serem convertidos ao
jargão político, e por isso os pesquisadores preferem substituí-los.
Outras vezes, é precisamente a popularidade de um conceito o que
assegura a sua longa permanência, ou mesmo a sua eternização na
abóbada dos conceitos fixos. Átomo, feudalismo.
Outro aspecto relativo à historicidade dos conceitos – para
além do fato de que alguns deles passam a ser mais evocados em
um período do que em outros, em função de uma história que os
contextualiza – está no fato de que os conceitos se beneficiam de
grandes variações históricas nos seus sentidos. Uns mais, outros
menos, os conceitos têm os seus sentidos aceitos redimensionados
pela própria história. Daí que, no campo das disciplinas históri-
cas, não tardou a surgir uma modalidade historiográfica que é hoje
conhecida como História dos Conceitos41. Esta examina tanto a
história que produz as mudanças conceituais como um todo, como
as variações diacrônicas atinentes a um único conceito em estudo.
São estudadas tanto as variações históricas nos usos, sentidos e
recepções de um conceito, como o fato de os próprios conceitos

40. Veyne, 1988, p. 71 [original: 1974].


41. Para uma introdução à história dos conceitos, cf. Jasmim, 2005.

63
são, eles mesmos, agentes históricos importantes. Os conceitos
transformam a própria história; não são apenas um produto dela42.
O trabalho de apreender mais sistematicamente a historicidade
de um conceito certamente não é simples. Particularmente quan-
do o historiador assume a História dos Conceitos para seu campo
de atuação, deve estar preparado para empreender uma verdadeira
arqueologia dos sentidos que podem estar encobertos por um con-
ceito. Estrato por estrato, qual em uma meticulosa operação de
escavação que se dedica a trazer à tona sucessivas camadas
de tempo, a missão do historiador dos conceitos – a partir do
apoio de sua pesquisa em uma criteriosa busca de fontes e em uma
cuidadosa análise do seu vocabulário – é forçar a que se revelem
nos conceitos e nas palavras os diversos sentidos que se reco-
brem uns aos outros, mas que também se interpenetram, entrela-
çam-se, alternam-se nos diversos usos que uma mesma sociedade
disponibiliza para cada uma de suas expressões verbais. Reinhart
Koselleck (1923-2006), um dos grandes nomes da História dos
Conceitos, ressalta que, de fato, um conceito pode ser portador de
muitas “camadas temporais”43.
Ao lado disso, a história de um determinado conceito envolve
a interpenetração, o cruzamento e o entrelaçamento com a história
de inúmeros outros conceitos, além de existir também uma his-
tória que se esconde no próprio interior de cada conceito, já que
frequentemente um conceito é configurado a partir de outros ou
os toma como componentes. Estes diversos aspectos pertinentes
à historicidade dos conceitos são reconhecidos não apenas na dis-
ciplina História – a qual já gerou o seu subcampo específico para
examinar essas relações (a História Conceitual) – como também
devem ser evocados no próprio âmbito de estudos da Filosofia.
Podemos registrar as palavras, sobre isso, de Gilles Deleuze e Fe-
lix Guattari (1991):

42. “Todo conceito articula-se a um certo contexto sobre o qual também pode
atuar, tornando-o compreensível” (KOSELLECK, 1992, p. 136).
43. Koselleck, 2006, p. 10 [original: 1979]. Ou, ainda: “A história dos conceitos
põe em evidência, portanto, a estratificação dos significados de um mesmo con-
ceito em épocas diferentes” (KOSELLECK, 2006, p. 115).

64
Numa palavra, dizemos de qualquer conceito que ele
sempre tem uma história, embora a história se desdo-
bre em zigue-zague, embora cruze talvez outros pro-
blemas ou outros planos diferentes. Num conceito há,
no mais das vezes, pedaços ou componentes vindos de
outros conceitos, que respondiam a outros problemas
e supunham outros planos. Não pode ser diferente, já
que cada conceito opera um novo corte, assume novos
contornos, deve ser reativado ou cortado44.

44. Deleuze e Guattari, 1992, p. 26 [original: 1991].

65
13
Outros instrumentos teóricos
para além dos conceitos

Voltemos à discussão sobre a operacionalização dos conceitos


no seio das ciências humanas, e em pesquisas específicas ligadas a
esse ou àquele campo. Em se tratando de “conceitos científicos”,
é preciso acrescentar neste momento que o conceito deve possuir
destacada clareza e suficiente precisão quando se trata de delimitá-
-lo formalmente, uma vez que são eles que irão definir a forma e o
conteúdo da teoria a ser construída pelo sujeito de conhecimento45.
O conceito distingue-se, portanto, de outros instrumentos impor-
tantes, mas certamente mais vagos e menos precisos, que existem
na comunicação humana e nos discursos científicos.
Os “termos”, por exemplo – palavra que em outros casos é
utilizada para simplesmente designar a expressão verbal à qual
se atrela o conceito46 –, também podem ser entendidos, em um

45. Nos projetos de pesquisa – textos nos quais os pesquisadores registram o pla-
nejamento da pesquisa através de capítulos que expõem o objeto de estudo, a sua
importância, a teoria empregada e a metodologia a ser utilizada – a definição de
conceitos deve ser discutida no quadro teórico. Em um artigo, pode-se dar que o
conceito que está sendo empregado precise ser apresentado ao leitor em termos
bem claros para que ele compreenda adequadamente a argumentação desenvolvi-
da. De resto, mesmo que não exposto para o leitor, a delimitação de um conceito
pode se conservar como um horizonte teórico para o pesquisador, como um instru-
mento que o auxilia a enxergar a sua realidade de uma certa maneira.
46. Lembremos o alerta de Ingetraut Dahlberg (1998, p.101-107), ao qual nos re-
ferimos na nota n. 3. Para que estejamos diante um conceito, é preciso identificar
em torno da expressão considerada três dimensões: referente, termo e caracterís-
ticas. Nesta linha de raciocínio, o “termo” corresponde à palavra ou grupo de pa-
sentido mais lato, como expressões que habitualmente passam a
fazer parte do vocabulário de um campo disciplinar ou de um uni-
verso temático, mas sem implicar uma maior precisão conceitual.
Pode-se falar ainda das “noções”, que são “quase conceitos”, mas
ainda funcionando mais como imagens de aproximação de um de-
terminado objeto de conhecimento, as quais ainda não se acham
suficientemente delimitadas.
É possível, nesse sentido, que um estudioso crie uma “noção”
e que, ao longo de diversos trabalhos científicos – seus e de outros –,
esta noção vá gradualmente se transformando em “conceito” ao se
adquirir na comunidade científica uma consciência maior dos seus
limites, riquezas e potencialidades, da extensão de objetos à qual
se aplica ou pode vir a se aplicar, e também ao se clarificar melhor
o seu polissemismo interno com as consequentes escolhas dos es-
tudiosos dos temas que podem vir a se beneficiar do novo concei-
to. A noção, desse modo, pode ser em alguns casos vista como um
conceito em seu devir inicial, como um protoconceito em busca de
sua sintonia, na qual se almeja aquele momento em que a noção
abandonará a zona de penumbra para se iluminar com discussões
mais sistematizadas e por vezes tensas entre os praticantes de um
campo. Uma palavra não migra da zona de penumbra das noções
para a região de tensa claridade dos conceitos sem ser fustigada
por todos os lados, sem ser confrontada em sua legitimidade de ter
ultrapassado o limiar. Diante de tantas provas, muitas retornam à
zona mais confortável da penumbra. Outras desaparecem no se-
gredo dos abismos, até serem convocadas novamente.
Diga-se de passagem, os “termos” e “noções” são igualmente
instrumentos imprescindíveis para o estudioso, cumprindo notar
que o conceito pode ser metaforicamente comparado a um “ins-
trumento de alta precisão” – um instrumento, ademais, capaz de
se transformar em seus próprios contornos e de se redefinir nos
seus usos. Não obstante, outros instrumentos teóricos também

lavras que está sendo utilizada para materializar o conceito. É a palavra “pássaro”,
a qual designa o animal “pássaro” (o referente), a partir de certas características
que são percebidas como partilhadas por todos os pássaros.

67
coabitam com os conceitos na dinâmica de produção do saber
científico, como as “categorias” de análise.
Suponhamos que estou examinando, em uma pesquisa socio-
lógica ou histórica, um certo universo de operários e trabalhadores
de fábrica, e sinto a necessidade de compreender melhor esse uni-
verso dividindo o conjunto dos trabalhadores em categorias con-
forme o tipo de tarefas por eles desempenhadas. Essa operação,
embora necessária e imprescindível, não implica propriamente
conceitos. As “categorias” não precisam ser discutidas no mesmo
sentido em que os conceitos devem ser discutidos e debatidos pelas
comunidades científicas. Elas são criadas em função de uma aná-
lise prática que se quer apreender, de um universo que precisa ser
subdividido pelo pesquisador ou que já se encontra subdivido ao
próprio nível das fontes ou da realidade examinada (a lista de tipos
de operários que já aparece nos relatórios da fábrica, ou a configu-
ração que existe na prática). O mercado de trabalho, por exemplo,
já se apresenta habitualmente como dividido em muitas categorias
profissionais (embora outras possam ser propostas no interesse de
uma pesquisa mais específica). Essas categorias podem ser aceitas
pelos analistas sem que se estabeleça uma discussão conceitual ou
algum procedimento desse gênero. De igual maneira, um pensador
ou pesquisador pode apresentar as categorias que organizam o seu
pensamento sem que se imponha a necessidade de discuti-las.
A distinção entre conceitos, categorias e noções, de todo modo,
é por vezes sutil. Ocorre também que está longe de ser consensual
a localização de algumas expressões verbais específicas entre os
conceitos ou no âmbito das meras categorias de análise, particular-
mente quando essas meramente apresentam a função organizativa
de um certo saber. “Pássaro”, expressão que atrás tratamos como
conceito – para nos aproveitarmos de sua clareza didática – pode ser
proposta apenas como uma categoria, ao lado de todas as categorias
classificatórias utilizadas para definir os seres vivos nas taxonomias
elaboradas pelas ciências naturais (mamíferos, répteis etc.).
Ao lado dessa acepção mais simples para “categoria”, entre-
mentes, existe também um uso filosófico que situa algumas catego-
rias fundamentais como fundadoras de toda forma de entendimento

68
e movimentação no mundo, o que situa essas categoriais originais
acima e partícipes da própria elaboração dos conceitos. O filósofo
grego Aristóteles (384-322 a.C.), por exemplo, utiliza a expressão
“categorias” (κατηγορια) – a qual dá o título à obra que abre o Or-
ganum (conjunto de textos de Aristóteles relacionados à lógica) –
para designar os dez predicados ou atributos fundamentais ligados
ao ser, isto é, os aspectos dos quais necessariamente participariam
cada coisa e todas as coisas que existem. Para ele, essas categorias
originais ou predicados seriam a substância, quantidade, qualida-
de, relação, lugar, tempo, estado, hábito, ação e paixão47. O uso da
expressão “categorias” nessa mesma direção – a categoria como
conceito fundante – seguiu adiante, até obras filosóficas bem sofis-
ticadas como a célebre Crítica da razão pura (1781), de Immanuel
Kant (1724-1804)48.
Existem ainda conceitos ou categorias que podem ser elevados
à posição de verdadeiros princípios. Ato contínuo, os princípios
contribuem para a fundação de grandes paradigmas filosóficos ou
científicos, de linhas de investigação inéditas ou de novos padrões
que podem mesmo vir a redefinir o que é a ciência ou a filosofia.
O conceito de dialética, por exemplo, desempenhou a função
de princípio fundamental em diversas contribuições filosóficas
desde a Grécia antiga – da dialética do eterno movimento trans-
formador, de Heráclito (535-475 a.C.), à dialética dos paradoxos,

47. “As palavras sem combinação umas com as outras significam por si mesmas
uma das seguintes coisas: o que (substância), o quanto (quantidade), o como (qua-
lidade), com o que se relaciona (relação), onde está (lugar), quando (tempo), como
está (estado), em que circunstância (hábito), atividade (ação) e passividade (pai-
xão). Simplificando, são exemplos de substância, homem, cavalo; de quantidade,
de dois côvados de largura, ou de três côvados de largura; de qualidade, branco,
gramatical; de relação, dobro, metade, maior; de lugar, no liceu, no mercado;
de tempo, ontem, o ano passado; de estado, deitado, sentado; de hábito, calçado,
armado; de ação, corta, queima; de paixão, é cortado, é queimado” (ARISTÓTE-
LES. Categorias, IV, 1 b).
48. Por outro lado, enquanto as dez categorias de Aristóteles são flexões do Ser
captadas pela mente, já as categorias de Kant – em número de doze – têm origem
na mente, e o processo intelectivo é que ajusta os seres a elas através de um movi-
mento mental que Kant chama de “síntese”.

69
de Zenão (470-430 a.C.), e daí passando à dialética argumentativa
de Sócrates (469-399 a.C.) – para depois seguir, mais adiante, na
história da filosofia49. No período moderno, com Friedrich Hegel
(1770-1831), o princípio da Dialética alça uma posição que o co-
loca como fundador de um novo paradigma para a filosofia idea-
lista. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), por
seu turno, empreendem a sua própria releitura invertida do princí-
pio hegeliano de dialética, e terminam por associá-lo intimamente
a outro princípio – o de materialismo (por oposição a “idealismo”,
e não a “espiritualidade”) – constituindo a partir daí esse novo pa-
radigma para a História e para as Ciências Sociais que seria o do
Materialismo Histórico50. Em cada um desses casos, e em muitos
outros, o conceito elevou-se a um novo patamar, desdobrando a
partir de si todo um novo modo de pensar e de agir sobre o mundo.
Há, por fim, intermináveis discussões sobre se os conceitos
apenas pertencem à Filosofia (posição que, obviamente, é apenas
sustentada por filósofos, embora não todos), ou se também perten-
cem às ciências51. De nossa parte, partiremos do princípio de que

49. Em Heráclito, a concepção de um movimento dialético da natureza já está


proposta no Panta Rei (“tudo flui”) – aforismo fundamental que institui uma “filo-
sofia do devir” por oposição à “filosofia do ser” de Parmênides – e que se associa
concomitantemente à concepção do mundo como uma “guerra entre os opostos”,
o que nada mais é do que a outra face de uma lei secreta da natureza que pode
ser expressa nos termos de uma “unidade harmônica dos contrários”. Em Zenão,
a dialética se converte em um princípio metodológico que conduz o raciocínio
através da elaboração de paradoxos. Em Sócrates, por fim, a dialética se apresenta
sobre a forma do elenchus, um método de argumentação que consiste em partir
daquilo que o outro afirma para identificar as suas contradições, confusões e fra-
gilidades, com vistas a sustentar posteriormente a tese socrática. Em todas essas
distintas concepções de dialética, está presente a ideia de um movimento que se
institui a partir do confronto entre dois polos, sejam duas forças que se relacionam
ou dois interlocutores que investigam uma questão filosófica.
50. Além disso, no ensaio inacabado A dialética da natureza (1883), Engels em-
penha-se em mostrar que a Dialética é também um princípio norteador para as
ciências físicas naturais.
51. Posição defendida por Gilles Deleuze e Félix Guattari em O que é filosofia?:
“A grandeza de uma filosofia avalia-se pela natureza dos acontecimentos aos quais
seus conceitos nos convocam, ou que ela nos torna capazes de depurar em concei-

70
todas as ciências, inclusive as ciências humanas, organizam-se a
partir de conceitos, embora seja tarefa de seus praticantes defini-
rem quais são os seus conceitos e que expressões e instrumentos
de análise são apenas categorias, ou mesmo termos desligados de
uma maior formulação conceitual. De todo modo, reafirmamos
que a inserção em um debate entre os praticantes do campo é con-
dição imprescindível para que passemos a considerar certas pala-
vras como conceitos.
A seguir, ficará claro que, no caso dos conceitos, uma discussão
adequada em torno de sua delimitação é imprescindível. Delimitar
conceitos é como afinar um instrumento musical, antes de se tocar
uma boa música. Ou, ainda, temos aqui um gesto análogo ao do
compositor que busca as notas que trarão identidade ao seu acorde.

tos. Portanto, é necessário experimentar em seus mínimos detalhes o vínculo úni-


co, exclusivo, dos conceitos com a filosofia, como disciplina criadora. O conceito
pertence à filosofia, e só a ela pertence” (1992, p. 43).

71
14
Extensão e compreensão
de um conceito

Do ponto de vista filosófico, todo conceito possui duas dimen-


sões a serem consideradas: a “extensão” e a “compreensão” (às
vezes também chamada de “conteúdo” ou de “intensão”). Cha-
ma-se “extensão” de um conceito precisamente ao grau de sua
abrangência em relação a vários fenômenos e objetos; e chama-se
“compreensão” de um conceito ao esclarecimento das caracterís-
ticas que o constituem. À medida que um conceito adquire maior
“extensão”, perde em “compreensão”. De maneira inversa, à me-
dida que enriquecemos a compreensão de um conceito – fornecen-
do elementos que melhor o delimitam – a extensão diminui, pois o
conceito deixa de se aplicar a muitos casos e passa a corresponder a
um menor número de casos ou objetos que devem corresponder
necessariamente a todos os elementos agregados à compreensão
do conceito. A interação entre a “compreensão” e a “extensão” de
um conceito, portanto, baseia-se em uma relação inversa. Quanto
maior uma dessas duas instâncias, menor a outra.

Compreensão Extensão

Compreensão Extensão

Qualquer alteração na compreensão de um conceito repercu-


te imediatamente na extensão do mesmo. Ou seja, se modifico a
delimitação do conceito – isto é, se à compreensão do conceito
acrescento esse aspecto e não outro – isso possibilita que certos
casos ou objetos, e não outros, caibam no conceito proposto. Di-
gamos que tenho em vista o conceito de “pássaro”, e começo a
buscar uma “compreensão” que lhe seja adequada. Vejamos como
se estabelecem a compreensão e extensão deste conceito52.
Ao observar que os pássaros possuem duas patas, tento deli-
mitar o conceito de “pássaro” conforme uma compreensão de dois
elementos: “animal” e “bípede”. Formular a compreensão concei-
tual de que o pássaro é um “animal bípede”, é ainda muito pobre.
Uma compreensão tão limitada, reduzida a dois elementos que se-
quer são exclusivos dos pássaros, produziria uma extensão muito
grande para este conceito. Seriam pássaros então os primatas, bem
como outros animais que ao andar também se apoiam habitual-
mente em duas patas ou nos dois membros posteriores?53
A compreensão do conceito de pássaro reduzida a uma delimi-
tação que o defina simplesmente como “animal de duas patas”, ou
mais propriamente como “animal bípede”, termina por produzir
uma extensão ampliada na qual caberiam inúmeros outros animais
que sabemos perfeitamente que não são pássaros, inclusive o ho-
mem e diversas espécies de dinossauros, se quisermos, neste últi-
mo caso, estender o olhar para um tempo extinto54.

52. “Pássaro”, em muitas situações pode ser considerado mais uma categoria que
um conceito, em particular quando instrumentalizamos a palavra em conjunto
com as diversas categorias zoológicas que buscam enquadrar os seres vivos. De
todo modo, a palavra presta-se didaticamente ao estudo da interação entre com-
preensão e extensão.
53. Pior ainda seria definir “pássaro” só como “bípede” (excluindo “animal”
da definição), pois nesse caso também os robôs poderiam encontrar abrigo
nesta compreensão.
54. O bipedalismo (ou bipedismo) pode ser definido como uma forma de locomo-
ção terrestre na qual o organismo move-se por meio de seus dois membros poste-
riores (ou pernas). Há animais que utilizam exclusivamente o bipedalismo como
forma de locomoção quando estão em terra firme, e há outros, como os ursos e
algumas espécies de primatas, que os utilizam durante curtos intervalos de tempo.

73
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Compreensão Extensão

Se apenas acrescentássemos à compreensão de “pássaro” a ca-


pacidade de “voo natural” (já que do “voo artificial” em aviões, o
bípede humano também é capaz), ainda assim a compreensão do
conceito não melhoraria muito, embora sem dúvida progredisse
ao deixar de fora os macacos, cangurus, e alguns outros animais55.
Entrementes, se começo a agregar mais elementos, como a pre-
sença de bico, asas e penas, entre outros, a minha compreensão do
conceito de pássaro vai se tornando mais rica e a extensão do mes-
mo deixa de abrigar caoticamente um grande número de animais
para corresponder, efetivamente, apenas às aves56. O toque final é
a distinção entre os pássaros à categoria mais geral das aves (na
qual cabem, além dos passeriformes, aves de maior porte como
as avestruzes, tucanos, galinhas, ou mesmo outros tipos de aves
menores, como as pombas e rolinhas). Dessa maneira, a busca de
aprimoramento na compreensão do conceito zoológico de “pássa-
ro” impõe distinguir, do grupo mais amplo das “aves”, a categoria
bem mais específica dos “pássaros”, que se constitui exclusiva-
mente de aves de pequeno e médio porte nas quais se pode notar,
adicionalmente, a capacidade do canto melodioso (sendo por isso

55. Existem polêmicas acerca da possibilidade de se falar em “bípedes voadores”


para além da maior parte das aves. Em 1993, através da identificação de marcas de
locomoção na terra encontradas no sítio de Crayssac, os paleontólogos reforçaram
a hipótese de que os pterodátilos eram quadrúpedes nos momentos em que cami-
nhavam sobre a terra. Outro exemplo interessante é o dos morcegos atuais, que
teriam evoluído de ancestrais quadrúpedes, ao contrário das aves (descendentes
de dinossauros bípedes).
56. Rigorosamente, a presença de “penas” – pelo menos entre as espécies atuais – já
permite caracterizar um animal como “ave”. No passado, por outro lado, existiram
também “dinossauros plumados”.

74
também conhecidas como “aves canoras”). Os “passeriformes”,
ao final desse processo de aprimoramento da compreensão con-
ceitual de “pássaro”, revelam constituir uma “ordem” inserida na
“classe” das aves, conforme a taxonomia comumente utilizada
na Ornitologia57.

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Compreensão Extensão

Há outro exemplo bem conhecido. Muito se tentou chegar


a uma compreensão do conceito de “homem”. Cada uma dessas
tentativas implica uma determinada leitura do homem. Se defi-
no o homem como homo sapiens – isto é, como o único “animal
racional” – isso implica determinada tábua de leitura dos seres
humanos. Se defino o homem como homo faber – isto é, como o
único animal que é capaz de construir conscientemente, antevendo
o resultado do seu trabalho, e de modificar o mundo que o cerca
com essa capacidade construtora – nesse caso uma outra leitura
do humano se impõe. Poderíamos tomar a definição aristotélica
do homo politicus (“o homem é um animal político”) e outras. Ou
poderíamos aceitar a compreensão existencialista do ser humano,
como o único animal que sofre permanentemente de angústia (seja
essa a “consciência da finitude”, no caso do existencialismo de
Heidegger, ou a “angústia da liberdade”, no caso do existencialis-
mo de Sartre).

57. Na verdade, existem ainda outras características que ajudam a delimitar com
precisão esses autênticos “pássaros” que são os “passeriformes”. Entre elas, po-
dem ser indicadas o bico desprovido de membrana na sua base, os tarsos isentos
de penas, e os pés formados por três dedos dirigidos para frente e um com unha
mais forte voltado para trás. Na língua viva, cotidiana, nota-se não obstante o uso
de um sentido mais estendido para pássaro, e vulgarizou-se chamar de “pássaros”
a aves como os papagaios, araras, e outras.

75
Poderíamos ficar com a definição biológica, que agregaria à
definição de homem (a sua compreensão) atributos como verte-
brado, mamífero, bípede, entre outros. Mas cedo nos deparare-
mos com a necessidade de definir o homem em contraste com os
macacos. Há quem resolva o problema agregando à compreen-
são biológica do conceito de homem a postura rigorosamente
mais ereta, bem como o chamado “polegar opositor” – um dedo
completamente oponível aos demais dedos, e que teria facilitado
muito aos hominídios a execução de atividades manuais de preci-
são. Não obstante, os chipanzés, gorilas e orangotangos também
possuem o polegar oponível – se bem que, no homem, o polegar
é mais longo, mais distanciado dos outros quatro dedos e benefi-
cia-se de maior capacidade de rotação. Costuma-se citar também,
como outro elemento primordial para a compreensão do conceito
de homem de um ponto de vista zoológico, a presença do telen-
céfalo desenvolvido58.
Poder-se-ia investir, ainda, em uma rigorosa descrição da
composição do DNA humano; mas nesse caso já teríamos uma
descrição tão milimétrica de dados objetivos, que já nos afasta-
ríamos da formulação conceitual, a qual sempre pressupõe uma
constante discussão. De todo modo, para a discussão conceitual
sobre o homem, os itens biológicos objetivos não apresentam tanta
importância quanto os fatores culturais quando trabalhamos mais
especificamente no âmbito das ciências humanas. A presença da
linguagem, por exemplo (“Trata-se de um atributo exclusivamen-
te humano ou existirá uma linguagem entre outras espécies ani-
mais?”), direciona a reflexão sobre o humano para um patamar
certamente muito rico de possibilidades.
Os dois conceitos anteriores – “homem” e “pássaro” – levam-
-nos a um comentário adicional. “Pássaro” e “homem”, como “se-
res vivos” e, mais especificamente, como “animais”, possuem um
certo número de atributos em comum, os quais não mencionamos
nas definições anteriores para estes conceitos. Assim, por exem-

58. O cérebro humano, na média, possui cerca de 1.350cm3, em contraste com o


dos chipanzés, que possuem cérebros com volumes entre 350 e 400cm3.

76
plo, todos os indivíduos pertencentes a qualquer uma das espécies
animais conhecidas apresentam, necessariamente, certos caracte-
res ou aspectos inteligíveis, tais como: “substância”, “corpo vivo”,
“dotado de sensibilidade”. Em nossa discussão sobre os conceitos
de “pássaro” e “homem” resumimos ou sintetizamos essa com-
binação de caracteres mais elementares em uma única palavra:
“animal”. Caso buscássemos uma definição mais milimétrica, à
qual interessaria mais propriamente à filosofia, poderia ser oportu-
na a explicitação dessas características como “notas” pertencentes
à compreensão de cada um dos dois conceitos59. Começaríamos,
nesse caso, por elas – e em primeiro lugar com as notas ou carac-
terísticas que são atributos de todas as coisas materiais, “vivas” ou
“não vivas”, tal como é o caso do aspecto “substância”. Depois
dessa nota passaríamos às características que aparecem mais pro-
priamente nos seres vivos, como “dotado de corpo”, e mais adiante
chegaríamos a características que começam a nos aproximar mais
especificamente dos animais, tais como “dotado de sensibilidade”
e “mobilidade própria”60.
Finalmente, chegaríamos ao ponto em que, já teriam sido enu-
meradas todas essas características que podem, ser antes de tudo,
atribuídas ao conjunto maior “animal” – um âmbito que abarca os
mamíferos (inclusive o homem), as aves, os répteis e inúmeras ou-
tras classes. A partir daí, teríamos de começar a bifurcar caminhos
de modo a chegar a notas características que aprimorariam a com-
preensão de cada animal em especial. Chegaríamos ao homem,
talvez, com o rastreamento de atributos que, controversamente ou
não, dizem respeito a sua racionalidade, tendência a ser dominado

59. Na filosofia, “notas” são os aspectos inteligíveis que caracterizam a compreen-


são de um conceito. Como já ressaltamos antes, quanto mais notas houver na
compreensão de um conceito – ou quanto maior for a amplitude dessa com-
preensão – menor será a extensão (o conjunto de casos aos quais essa amplitude
conceitual se aplica).
60. Esta última nota, p. ex., contribuiria para estabelecer uma distinção mais clara
entre o “animal” e o “vegetal”.

77
pela angústia, potencial construtor ou habilidade de intervenção na
natureza, e assim por diante61.
Conceituar é uma operação complexa, que envolve escolhas.
Devemos selecionar os elementos que fazem parte dessas escolhas
com relação à sua relevância para o campo de estudos em relação
ao qual estamos produzindo um certo saber, e também em rela-
ção ao objeto mais específico de estudo. A compreensão prolixa,
em determinados casos, pode ser inútil, ou mesmo paralisante. A
compreensão desdobrada em muitas notas, em outros casos, pode
ser útil. Tudo depende de conservarmos o horizonte de utilidade
da operação de conceitualização que está sendo empreendida. Em
certa especialidade da filosofia, a conceituação pode ser o fim em
si mesmo (o próprio objeto de estudo ou de reflexão filosófica).
Em outros campos, a conceituação pode ser apenas um caminho,
uma operação necessária, um instrumento para melhor compreen-
der um outro objeto que está mais além, ou um recurso para tor-
nar mais clara a exposição de uma argumentação. Em disciplinas
como História, Antropologia, Ciência Política, Psicologia, a ope-
ração de contextualizar não é um fim em si mesma, mas um cami-
nho para uma reflexão que não seria possível sem a formulação de
conceitos. A operação contextualizadora, nesses campos de saber,
é um meio, e não um fim.
Para deixar mais clara a importância de trabalharmos adequa-
damente a relação entre a compreensão de um conceito e sua ex-
tensão, e já buscando um exemplo pertinente às ciências humanas,
exemplificaremos com um caso específico, agora relativo a um
conceito muito utilizado nas ciências sociais e na História.
Quando se pretende conceituar “revolução” como “qualquer
movimento social que se produz de maneira violenta”, dá-se a este
conceito uma “extensão” muito grande (e certamente inútil), a
qual passa a abranger várias modalidades de movimentos sociais.
Em contrapartida, reduz-se a “compreensão” do conceito a dois ou
três elementos apenas (“movimento social” e “violento”).

61. Voltaremos mais adiante à compreensão do conceito de “homem” (ser hu-


mano).

78
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Compreensão Extensão

Quando definimos “revolução” como um movimento social


bem-sucedido, que produz de modo violento uma ruptura política,
com implicação em mudanças efetivas nas relações sociais entre os
grupos envolvidos, e introduzindo algo de realmente novo que não
a mera troca de poder, acrescentamos à compreensão do concei-
to – em relação às definições de menor amplitude – alguns novos
e significativos elementos. Concomitantemente diminuímos a sua
extensão, já que, proposto desse modo, o conceito de revolução
passa a abranger menos movimentos sociais – excluindo os que
implicam meras trocas de poder, mas sem produzir modificações
reais na estrutura social, e deixando igualmente de fora as meras
agitações sociais de todo tipo, ou mesmo os “movimentos de in-
dependência”, os quais já confluem mais especificamente para o
estabelecimento de um novo estado (no sentido político)62.

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Compreensão Extensão

62. Mais adiante, na terceira parte deste livro, retomaremos o conceito “revolu-
ção” com vistas a verificar, entre outras formulações conceituais, como um autor
específico elaborou sua compreensão deste conceito, com imediatas repercussões
na extensão do mesmo.

79
Do que vimos até aqui – em particular após o adequado en-
tendimento sobre a relação crucial que se estabelece entre a “com-
preensão” e a “extensão” de um conceito – podemos apreender em
todas as suas implicações o alerta de Gilles Deleuze (1925-1995) e
Felix Guattari (1930-1992) em O que é filosofia? (1991):
Não há conceito simples. Todo conceito tem compo-
nentes, e se define por eles. Tem portanto uma cifra. É
uma multiplicidade, embora nem toda multiplicidade
seja conceitual. Não há conceito de um só componente:
mesmo o primeiro conceito, aquele pelo qual uma filo-
sofia começa, possui vários componentes, já que não é
evidente que a filosofia deva ter um começo e que, se
ela determina um, deve acrescentar-lhe um ponto de
vista ou uma razão. Descartes, Hegel, Feuerbach não
somente não começam pelo mesmo conceito, como
também não tem o mesmo conceito de começo63.

Todo conceito é ao menos duplo, ou triplo etc. Também


não há conceito que tenha todos os componentes, já
que seria um puro e simples caos: mesmo os preten-
sos universais, como os conceitos últimos, devem sair
do caos circunscrevendo um universo que os explica
(contemplação, reflexão, comunicação). Todo concei-
to tem um contorno irregular, definido pela cifra dos
seus componentes. É por isso que, de Platão a Berg-
son, encontramos a ideia de que o conceito é questão
de articulação, corte e superposição. É um todo, porque
totaliza seus componentes, mas um todo fragmentário.
É apenas sob essa condição que pode sair do caos men-

63. Descartes (1596-1650) inicia o seu sistema filosófico pelo célebre cogito (Dis-
curso sobre o método, 1637). Hegel parte do conceito de Ser (1807). Em Feuerbach
(1841), cujo ponto de partida é o homem na natureza, o conceito de “alienação”
torna-se o ponto de inflexão para uma nova filosofia de crítica à religiosidade que
inverte a perspectiva de Hegel. Os existencialistas, por seu turno, partem da rela-
ção entre dois conceitos: a essência e a existência, além de situarem a “angústia”
do ser humano no centro de suas reflexões filosóficas. Marx e Engels, por fim,
com vistas a constituir o seu paradigma político-filosófico, encampam o princípio
original do sistema hegeliano – a “dialética” – mas de imediato lhe acrescentam
outro princípio fundamental, o “materialismo”.

80
tal, que não cessa de espreitá-lo, de aderir a ele, para
absorvê-lo64.

O conceito – esta instigante totalidade fragmentária, ou este


fragmento totalizador – torna-se por isso mesmo um duplo instru-
mento para os praticantes de qualquer campo de saber: ao mes-
mo tempo uma “unidade de comunicação”, com a qual pode ser
estabelecido um diálogo e uma possibilidade de interação entre
autores, filosofias e realidades diversas, e uma “unidade de conhe-
cimento”, a partir da qual se torna possível construir coerentemen-
te um sistema de pensamento, uma teoria, uma perspectiva sobre
determinado objeto de estudos.
Com relação à interação entre compreensão e extensão, po-
demos acrescentar que o processo de agregar notas características
à compreensão de um conceito65 é análogo ao procedimento de
afinação de um instrumento musical. O gradual enriquecimento da
compreensão vai delimitando a extensão, reduzindo-a, inserindo-a
em um foco crescentemente mais bem definido. A partir de certo
ponto, contudo, chega-se a uma afinação excessiva que não inte-
ressa mais à filosofia ou a qualquer campo de saber. O conceito
que reunisse em si todas as características de um objeto só serviria
para a descrição desse único objeto, com exclusão de todos os de-
mais, e de imediato, perderia o “potencial comparativo” que todo
conceito deve possuir. Decerto, o conceito de afinação máxima,
aplicável a tão somente um único objeto, seria francamente inútil à
filosofia e às ciências. Perderia irremediavelmente a irregularidade
que poderia lhe dar vida, e que permitiria estabelecer uma compa-
ração entre objetos. Seria perigoso pretender afinar um conceito ao
ponto, correndo-se o risco de atingir aquele limiar no qual a faca
torna-se tão afiada que, ao invés de fazer um rosto, começa a cortar
o que não devia.

64. Deleuze e Guattari, 1992, p. 22.


65. “Todo conceito é ao menos duplo, ou triplo etc.” (DELEUZE & GUATTARI,
1992, p. 22). “Todo conceito tem um contorno irregular, definido pela cifra de seus
componentes” (p. 22).

81
Depois, se quiséssemos ir mesmo além desse ponto de inútil
“afinação absoluta”, e continuássemos a agregar novos elemen-
tos à delimitação da compreensão do conceito, começaríamos por
perder de imediato o objeto e penetrar definitivamente, e cada
vez mais, no mundo do caos66. O conceito que contivesse em sua
compreensão todos atributos, todas as palavras, “todos os compo-
nentes”, todos os elementos possíveis – talvez à maneira de um
infinito deus contraditório –, seria já a própria totalidade caótica, o
próprio caos em si mesmo, o universo ao mesmo tempo indiferen-
ciado e multidiferenciado diante do qual surgiu, no ser humano, a
própria “vontade de conceito”67.

66. “Não há conceito que tenha todos os componentes, já que seria um puro e
simples caos” (DELEUZE & GUATTARI, 1992, p. 21).
67. Decerto que podem ser interpostas nesse ponto muitas releituras sobre a eter-
na busca da impossível precisão na linguagem ou acerca da procura do conceito
perfeito. Ao comentar a perspectiva de Nicolau de Cusa (1401-1464) em A douta
ignorância (1440) e O idiota de mente (1450), Hans-Georg Gadamer assim sin-
tetiza a posição desse filósofo católico renascentista: “Essa imprecisão conceitual
só pode ser superada quando o espírito se elevar ao infinito. No infinito existe uma
única coisa (forma) e uma única palavra (vocabulum), justo a palavra indizível de
Deus (verbum Dei), que se reflete em tudo (relucet)” (GADAMER, 2008, p. 565).

82
15
O conceito como acorde

Encerro esta parte com uma contribuição original, propondo


uma imagem alternativa para pensarmos e sentirmos de modo cria-
tivo o que é a “compreensão” de um conceito. Definir ou mesmo
constituir as notas características que farão parte da compreensão
de um conceito é como criar um acorde. Na música, o “acorde”
constitui-se de uma combinação de notas (sons musicais), o que
também inclui a combinação entre as relações entre essas notas
(de uma nota com cada outra, ou com cada grupo de outras, e tam-
bém uma relação de cada nota com a totalidade acórdica). Mais do
que um simples agregado de notas, o acorde é essa combinação
interativa de notas e de relações entre notas (intervalos). O acorde
é um som constituído por outros sons68:

A pauta musical, conforme nos mostra o exemplo acima, é


o recurso gráfico mais aperfeiçoado para a representação de fe-
nômenos sonoros que os músicos já puderam encontrar até hoje,
em uma história da grafia musical que se inicia desde fins da Ida-

68. A noção de “acorde” não aparece exclusivamente na música, embora aí tenha


a sua origem. Os acordes aparecem na arte da elaboração de perfumes, corres-
pondendo a uma “mistura de cheiros” que, combinados, equivalem à informação
total do perfume. Temos acordes na enologia – campo de saber que lida com os
aspectos envolvidos na produção e consumo do vinho. Além disso, os pintores
impressionistas e pontilhistas também utilizaram acordes cromáticos.
de Média e tem seu maior impulso durante o Renascimento69. O
fato de que, no exemplo acima assinalado, as notas musicais en-
contram-se superpostas umas às outras, ou alinhadas em um úni-
co eixo vertical, é indicativo de que todos os sons ocorrem ali
em um único e mesmo instante, soando juntos para formar uma
sonoridade compósita. Isso é o acorde. Se os pequenos círculos
que representam os sons estivessem dispostos sucessivamente na
pauta, separados uns dos outros ao longo da sua evolução linear
(a qual representa uma progressão temporal da música), teríamos
nesse caso uma melodia na qual as notas ocorrem separadamente
uma depois da outra, em uma relação apenas diacrônica. Como
temos o alinhamento vertical unindo diversas notas, dá-se mais
propriamente o acorde, um fenômeno musical no qual vários sons
ressoam sincronicamente produzindo uma certa profundidade mu-
sical que é chamada de “harmonia”70.
Acredito que essa imagem – a do acorde – seja especialmente
apropriada para dar a entender o que é essencialmente um concei-
to. A “compreensão” de um conceito (ou o seu “conteúdo”) é for-
mada simultaneamente pelas notas características que a definem,
todas ocorrendo ao mesmo tempo e atuando reciprocamente umas
sobre as outras. Na verdade, a compreensão de um conceito não

69. Em uma pauta musical – um recurso que pode ser definido como um conjun-
to de cinco linhas paralelas que, da esquerda para a direita, representa o avanço
progressivo da música no tempo – as diversas alturas dos pequenos círculos (as
notas) correspondem às posições dos diversos sons musicais em um espectro que
começa no mais grave e sobe ao mais agudo. Esse sistema gráfico é muito familiar
a qualquer músico que toque um instrumento, e pode registrar composições musi-
cais inteiras de maneira similar ao uso da escrita comum para representar um texto
constituído por muitas frases formadas por diversificadas palavras.
70. Representar as notas em uma superposição vertical, entrementes, é apenas um
recurso limitado para mostrar o que ocorre com um acorde musical em uma situa-
ção concreta e prática. Quando um pianista pressiona diversas teclas do seu piano
de uma só vez para produzir um acorde – ou quando os músicos de uma orquestra
ou de uma banda tocam cada qual a sua nota de modo a produzirem, todos juntos,
um acorde coletivo – todas as notas soam uma por dentro da outra, no mesmo
instante, e não uma sobre a outra. A grafia musical, todavia, não encontrou até hoje
melhor maneira para representar a simultaneidade de todos os sons de um acorde
do que os representando como uma superposição de notas na pauta.

84
é apenas constituída pelas suas notas características, mas também
pelas relações de uma nota com cada uma das outras, e, por fim,
pela relação de cada uma e de todas as notas com a totalidade que
as constitui.
Se cada acorde musical – ao ser produzido pela simultaneida-
de das notas e das relações intervalares71 que o compõem – possui
a sua cor particular, o mesmo se pode dizer de um conceito72. Além
disso, a metáfora do acorde conceitual é útil para evocarmos a
ideia de que – assim como um mesmo acorde musical pode ser
utilizado em uma infinidade de composições musicais – também
um mesmo conceito pode ser empregado em inúmeros trabalhos
historiográficos, sociológicos, antropológicos, geográficos, ou em
diversificadas argumentações filosóficas. Trata-se, aliás, de uma
condição do conceito que ele possa ser utilizável em situações di-
versas, e inclusive que ele seja generalizável para um certo número
de casos, conforme já vimos (potencial generalizador do concei-
to). O conceito estéril, que se aplica a uma única obra, tem pouca
serventia para a ciência, se é que tem alguma. Esse atributo – a
disponibilidade de seu uso – é comum entre os acordes musicais e
os acordes conceituais.
De igual maneira, o acorde musical, assim como o conceito,
pressupõe sempre uma complexidade mínima. Com uma única

71. O “intervalo”, na música, corresponde à relação recíproca que duas notas es-
tabelecem entre si.
72. Na harmonia musical, cada acorde adquire uma certa cor em função de sua
estrutura interna (o conjunto de notas que o constituem, e também a posição de
cada nota em relação às outras). Isso faz com que alguns acordes adquiram uma
sonoridade aberta (às vezes sentida como alegre ou vigorosa), como é o caso dos
acordes perfeitos-maiores. Ou, então, os acordes podem ter uma sonoridade que o
faz serem sentidos como profundos ou melancólicos (os acordes perfeitos-meno-
res), ou podem ter uma sonoridade que traz a eles tensões várias (como os acordes
de terça maior, quinta justa e sétima menor). Ao lado disso, e sobre esta cor ori-
ginal, os acordes adquirem uma nova cor própria como resultado direto da rela-
ção que estabelecem com outros acordes de uma mesma música, bem como da
função que desempenham em um determinado contexto harmônico. A chamada
harmonia funcional, p. ex., agrupa os acordes tendo em vista as funções (tônica,
subdominante, dominante e outras) que eles desempenham na harmonia tonal.

85
nota, na música, não temos ainda um acorde. Normalmente, os
acordes musicais começam a ser constituídos por tríades (grupos
de três sons), ou ainda por tétrades, por conjuntos de cinco, seis
ou mais notas, e assim por diante. Com duas notas, já se tem um
acorde implícito, embora impregnado da sensação de ainda estar
incompleto (um acorde espreitado por alguma nota oculta, ou por
mais de uma possibilidade de notas ocultas)73. O mesmo se pode
dizer de um conceito.
O conceito de “revolução” definido unicamente como mudan-
ça no poder político, conforme já postulei, seria extremamente po-
bre. Sua tonalidade gélida e cinza se abriria a uma extensão vaga e
inutilmente ampla, além de inadequadamente distorcida. Todavia,
quando agregamos novos elementos ao acorde conceitual “revolu-
ção”, ou concedemos novas notas características à sua compreen-
são, começamos a construir efetivamente um acorde no interior do
qual os diversos elementos passam a interagir uns sobre os outros.
A mudança brusca, a transformação social efetiva, a sensação do
novo, a consciência da liberdade, a participação popular em um
grande esforço de reconstrução coletiva que se mostra colorido
pela espontaneidade, o caráter emblemático que se estende como
motivação para gerações futuras, ou ainda a violência, segundo al-
guns autores – temos aqui alguns elementos que podem ser pensa-
dos, entre outros, como uma rica interação de fatores que poderia
caracterizar efetivamente uma “revolução”, ou o acorde concei-
tual que poderia representar adequadamente essa modalidade de
processos sociais em toda a sua riqueza de possibilidades74.
De acordo com uma certa compreensão possível de “revolução”
(a compreensão acima exposta), esses diversos elementos se conec-
tam para formar o conceito de “revolução”. Se tirarmos um desses
componentes, podemos já não estar mais diante do mesmo concei-
to, e recair em outro conceito vizinho, ou mesmo distante. Ou, ao
menos, recairemos necessariamente em uma outra compreensão do

73. Dó e mi, soando juntos, pressupõem a possibilidade do acorde dó-mi-sol, ou


do acorde lá-dó-mi.
74. Voltarei a esta exemplificação conceitual na terceira parte.

86
mesmo conceito75. O exemplo ilustra bem o que é o conceito: uma
conexão (e não um mero agregado), a qual reúne em si não apenas
os elementos componentes do conceito, como também as relações
entre eles76. Ora! Isso também, conforme já vimos, é precisamente
o que é o acorde: uma combinação de notas e de relações entre as
notas, de tal sorte que, se eliminarmos uma dessas notas que seja,
o acorde já não é o mesmo. Aqui se demonstra como a imagem do
acorde é apropriada para a ideia de conceito.
Mais ainda, é preciso lembrar que os acordes não são de ma-
neira nenhuma construídos ou mobilizados pelos músicos para
existirem sozinhos, e sim para se conectarem com outros acordes,
formando uma “harmonia” (um plano ou uma rede entrelaçada de
acordes). A conexão dos acordes uns com os outros, esse recaindo
sobre aquele, alguns se tencionando e outros produzindo relaxa-
mentos, e todos, enfim, estabelecendo uma certa dinâmica que é a
de uma música específica, corresponde na ciência e na filosofia
a uma argumentação. A imagem dos conceitos como acordes, des-
se modo, também pode retratar não apenas a complexidade verti-
cal de um certo conceito (as notas que o compõem), mas também
a relação deste conceito com outros formando uma harmonia (um
sistema conceitual articulado, p. ex.).
Na harmonia musical, temos também a noção de “vizinhan-
ça”. Há acordes vizinhos a outros (há também tonalidades vizi-
nhas e afastadas, o que é também uma outra discussão interessan-
te). As notas em comum entre os diversos acordes oferecem traços
importantes para o estabelecimento de uma vizinhança, ou tam-
bém entre os conceitos: libertação/liberdade; revolução/rebelião/

75. O conceito de ideologia de um autor pode ser distinto do conceito de ideologia


de um outro autor.
76. Gilles Deleuze e Félix Guattari escreveram uma página interessantíssima, que
sintoniza com o que dizemos: “É bem isso o que significa a criação de conceitos:
conectar componentes interiores inseparáveis até o fechamento ou a saturação, de
modo que não se pode mais acrescentar ou retirar um deles sem mudar o concei-
to”. Criar conceitos, prosseguem os autores, implica ainda “conectar o conceito
com um outro, de tal maneira que outras conexões mudariam a sua natureza”
(DELEUZE & GUATTARI, 1992, p. 109).

87
revolta. Além disso, qualquer música baseada em harmonia esta-
belece necessariamente um jogo de acordes conectados em uma
relação mútua, a qual pode receber um tratamento que a conduz
em uma direção definida (uma progressão harmônica, p. ex.). En-
quanto isso, uma argumentação filosófica ou científica, ou ainda a
edificação de um determinado sistema teórico, pressupõe também
a conexão entre os diversos conceitos77. Mais uma vez, a analogia
entre as duas figuras – o conceito e o acorde – parece-nos evidente.
Voltemos agora à questão da escolha dos componentes que
formam o conceito (ou, é dizer o mesmo, à questão da constitui-
ção da compreensão de um conceito). Construir um bom acorde
conceitual é buscar as notas apropriadas. Com notas insuficientes,
o conceito não funciona. Com as notas adequadas – capazes de
interagir entre si e com o todo – o conceito (o acorde conceitual)
começa a se formar efetivamente. Com demasiadas notas, pode
começar mais uma vez a se tornar inútil para a ciência, para a
filosofia (para a música!). Quando agrega pretensamente todas as
notas que pertenceriam a um único objeto, confundindo-se com
ele, o acorde conceitual atinge aquele ponto em que perde to-
talmente o seu valor científico ou filosófico, pois já vimos que o
conceito que só conseguisse se referir a um único e mesmo objeto
perderia de imediato o seu potencial generalizador, bem como o
seu concomitante potencial comparativo, terminando por se trans-
formar em mero instrumento descritivo (posso descrever a Revo-
lução Francesa, este evento único, mas não conceituá-la).
Podemos levar a metáfora além. O acorde musical que se so-
brecarrega de notas atinge, em certo momento, um ponto de satu-
ração, a partir do qual parece não ter mais utilidade para a música
(ou para um certo tipo de música). Já não se mostra apto a se com-
binar com outros acordes para formar uma rede harmônica, e per-
de sua fluidez. Excessivamente viscoso, o acorde saturado circula
mal no interior de uma obra, e a certa altura pode se transformar

77. “Que conceito é preciso inserir ao lado desse, e que componentes em cada
um? São as questões da criação de conceitos” (DELEUZE & GUATTARI, 1992,
p. 109).

88
em uma pesada âncora. Depois deste ponto, se agregamos mais
e mais notas, penetramos no mundo das distorções (não mais das
dissonâncias, mas das distorções sonoras). Com todas as notas
teríamos o cluster total78.
O acorde conceitual que se sobrecarregasse de notas carac-
terísticas, para além mesmo do ponto em que se confunde com
um só objeto, logo começaria a retornar ao caos. Com todas as
notas possíveis superpostas de maneira desorganizada (pois, se
ainda não disse, um acorde pressupõe uma certa ordenação das
notas, e não a sua mera justaposição desordenada)79, chegaríamos
finalmente ao caos primordial, ao deus indiferenciado e multidi-
ferenciado que une em si todas as coisas, talvez útil para alguma
religião, mas não para a ciência ou para a filosofia.
Podemos pensar nas notas características que compõem a
compreensão de um conceito, enfim, como notas musicais, e no
conceito como um acorde cuja compreensão é estabelecida por
uma adequada combinação de notas e cuja extensão corresponde
às suas possibilidades de aplicação. Um mesmo conceito, na sua
variedade polissêmica, pode ser definido de muitas maneiras (e,
em cada caso, é como se já fosse de fato um novo conceito, ou um
novo acorde-conceitual). Não existe uma só e única combinação
possível, e não há nem mesmo uma única possibilidade de orde-
namento para as mesmas notas. No interior dessa variedade possí-

78. O cluster, na música contemporânea, é o agregado indiferenciado de notas.


Já não é mais propriamente um acorde. Em um piano, p. ex., pode-se obter um
cluster espalmando-se a mão, sem qualquer critério, nas teclas brancas e pretas,
ou mesmo apoiando-se o braço inteiro em uma extensão ainda maior de notas.
O efeito, pelo menos para o ouvido acostumado à harmonia musical, é uma in-
trincada cacofonia. Apesar disso, os músicos contemporâneos souberam utilizar
os cluster esteticamente. Mas, neste caso, já estamos bem distantes da harmonia
musical habitual.
79. É preciso que as notas características da compreensão de um conceito sejam
apresentadas em uma certa ordem para que se tenha um certo sentido, e não outro.
Na música, acordes distintos também podem ser formados pelas mesmas notas,
pois estas podem se apresentar em posições diversas (os acordes na posição fun-
damental ou nas inversões, p. ex., ou ainda os acordes com rearranjos internos das
mesmas notas).

89
vel – das inúmeras possibilidades de pensar conceitos e também
compreensões distintas para os mesmos conceitos – é fatal que
existam bons acordes conceituais, e acordes ruins. Estes últimos
são aqueles que se acham aquém do limiar de complexidade míni-
ma, ou então aqueles que, no outro extremo, acham-se já acima do
limiar que começa a produzir distorções.
Entre estes limiares – a compreensão simplória e o portal dis-
torcido de complexidades além do qual o conceito não mais se
refere a qualquer objeto – devemos fazer nossas escolhas, evitan-
do o ponto de ilusória afinação no qual o conceito se aplica ao
caso único. Devemos encontrar acordes conceituais no ambiente
de uma boa música, dinâmica e expressiva – “boa” para nossos
ouvidos humanos, e correspondente a uma história. Esse ambiente
harmônico, é claro, também muda historicamente; mas essa já é
uma outra discussão, a qual tangenciaremos depois.
Por ora, vamos considerar o esquema visual com o qual, ante-
riormente, havíamos representado uma compreensão possível para
o conceito de “revolução”. Coloquemos aquele esquema em pé,
agora apoiado na extremidade que representa a extensão do con-
ceito. Como em um acorde musical que se ergue sobre a sua nota
fundamental, podemos lê-lo de baixo para cima, embora todas as
notas, na verdade, ressoem simultaneamente.
Colocar uma formulação conceitual em pé sobre a sua exten-
são, como um acorde que se ergue na pauta, já traz de resto os seus
benefícios para uma imaginação mais viva sobre aquilo que se
pretende conceituar. Deixamos de enxergar o conceito meramente
como construção abstrata (que apenas “se forma na mente”) – em-
bora, é claro, o conceito também seja isso – e nos forçamos a lem-
brar que o conceito também se vincula a uma terra, a um horizon-
te bem-definido, a uma extensão concreta de casos. O conceito,
como o acorde, adquire seu sentido no interior de uma música (de
um plano de imanência que o acolhe).
Na verdade, o conceito, visto como acorde, empresta sua cor a
músicas diversas: aplica-se a uma extensão considerável de casos
concretos, e está longe de ficar apenas na mente. Basta lembrar e
se ter em vista que os acordes musicais originaram-se todos de ex-
periências musicais concretas que podem ser localizadas em certo

90
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Extensão

momento na história da música, e que somente a partir daí, e depois


de ter seu uso generalizado através de muitas composições, é que
os diversos acordes um dia criados passaram à Teoria da Música
(aos tratados de “Harmonia”, p. ex., ou ao ensino de Composição
Musical). E não o contrário. O mesmo – a saber, essa demanda
criativa oriunda diretamente das experiências concretas e da pró-
pria vida – poderíamos postular para a construção de conceitos: se
não no seio de todas as correntes filosóficas, ao menos no âmbito
das ciências humanas e de todas as ciências de modo geral80.

80. Depois veremos que uma das críticas que o historiador Eric Hobsbawm (2015,
p. 260-261) faz à cientista política Hanna Arendt – com relação à sua elaboração
de um conceito de “revolução” – é que ela parece proceder de cima para baixo,

91
Por fim, além de oferecer uma imagem visual mais adequa-
da, em vista de sua verticalidade, a metáfora do acorde apresenta
uma eficácia e beleza insuperáveis em outras dimensões inéditas
e inauditas. Acima da visão, e por dentro dela, ergue-se a escuta.
Tal como o acorde musical, o acorde conceitual é menos aquilo
que se pode ver (suas marcas na pauta ou sua linha de prumo), do
que aquilo que se deve escutar. Congregando um som compósito
e profundo, que através de sua combinação específica de notas
revela uma cor singular e única – ao mesmo tempo em que deixa
entrever e entreouvir de uma única vez todos os seus componentes
e suas relações de componentes – o acorde é a mais bela imagem
da simultaneidade81.
Para prosseguir com um dos nossos exemplos no presente en-
saio, eis ali em cima um conceito – o de “revolução”, conforme
uma determinada proposição para a sua compreensão. Apresenta-
mo-lo agora na sua forma imagética e metafórica de acorde con-
ceitual. As notas características que compõem a sua compreen-
são interagem simultaneamente umas sobre as outras. Cada novo
elemento que quiséssemos subtrair ou acrescentar a essa “árvore
conceitual” (uma outra metáfora que também poderia ser perfei-
tamente empregada para capturarmos a ideia de verticalidade), ou
cada substituição nas notas características do conceito, interferi-
ria de imediato na complexidade de sua extensão-raiz, permitindo

como se o conceito mais não fosse que algo construído apenas na mente para de-
pois se ver que casos que se ajustam a ele, com exclusão peremptória dos demais.
81. A concepção acórdica, como já ressaltei, é também extensível aos fenômenos
relativos aos demais sentidos (visão, olfato, paladar etc.). Nessa perspectiva, uma
cor qualquer é também um acorde, uma vez que é produzida pelo imbricamento
das três cores físicas principais em diferentes proporções. Todavia, quando ve-
mos uma cor, somente percebemos o efeito final desse imbricamento. Quando
escutamos um acorde musical, em contrapartida, ouvimos tanto o efeito final do
imbricamento como o próprio imbricamento, de maneira que, se quisermos afinar
os ouvidos em determinada direção, poderemos escutar cada nota em separado,
ou cada relação de duas ou três notas (os intervalos). O limite do ouvido humano
é a nota isolada, da qual não podemos perceber seu “acorde secreto” – a série de
harmônicos que todo som carrega dentro de si –, senão como timbre.

92
uma maior multiplicação dos seus objetos ou, ao contrário, a redu-
ção do seu conjunto de possibilidades82.
Em um acorde conceitual, como também na música, a substi-
tuição de alguma nota característica por outra sempre vem carre-
gada de ressonâncias: pode implicar a expulsão desse ou daquele
planeta ou a aceitação de mais três ou quatro outros corpos ce-
lestes em um sistema solar, ou pode trazer heroicidade ao mais
sinistro dos golpes de Estado, transformando os usurpadores de
direitos políticos em representantes heroicos das vontades e de-
mandas coletivas. Há por isso uma responsabilidade considerável
na construção de todo conceito, ou na aceitação de algum con-
ceito que já existe. Essa operação, assim podemos compreendê-
-la, é simultaneamente estética e científica, por vezes política. Ao
revolvermos um conceito, podemos alterar (imaginariamente) o
universo, assim como podemos interferir concretamente no mun-
do social e político.
A operação de enriquecimento conceitual tem seus limites.
Agregar novos elementos à copa das árvores é esticar o tronco da
árvore em direção ao céu. Mas existe um certo ponto a partir do
qual ela deixa de ser uma árvore, e o conceito começa a ser devol-
vido ao caos, de onde um dia surgira precisamente para desafiá-lo.
Há um ponto a partir do qual já não temos mais ciência, filosofia,
ou arte. A música tornou-se mero emaranhado sonoro. O conceito
deixou de fazer parte de uma harmonia: tornou-se inútil para a
Antropologia, para a Sociologia ou para a História.

82. Aproveito para reforçar mais uma vez outro aspecto interessante da metáfora
do acorde. Como na música, os acordes conceituais podem ter notas em comum
com outros acordes. Se se considera que a “sensação do novo” é um elemento
fundamental para um conceito adequado de “revolução”, devemos lembrar que a
sensação do novo também está presente, p. ex., no conceito de “movimento de inde-
pendência”. A “violência” pode fazer parte de uma certa compreensão do conceito
de “revolução”, mas certamente também faz parte da “guerra” e dos “golpes de Es-
tado”. Uma “crise” também produz mudanças bruscas em uma economia, de modo
que a rapidez de um processo não é apanágio exclusivo das revoluções. Uma “evo-
lução”, como as revoluções, produz transformações irreversíveis na vida humana.
Destarte, é a reunião de todas essas características em uma única totalidade – o
sentimento do novo, a violência, a mudança brusca, a transformação efetiva de uma
realidade, entre outros fatores – o que traz especificidade ao conceito de revolução.

93
Parte III

A formulação conceitual

Do rio que a tudo arrasta


Dizem que é violento
Mas ninguém chama de violentas
As margens que o comprimem.
BRECHT, B. Da violência.
16
Um exemplo específico: o
conceito de “revolução” em
Hannah Arendt

Hannah Arendt (1906-1975), em seu livro Da revolução


(1963), combina alguns elementos essenciais para construir a
“compreensão” do seu acorde conceitual de “revolução”. Para a
autora, em primeiro lugar o conceito moderno de revolução “está
inextricavelmente ligado à noção de que o curso da História co-
meça subitamente de um novo rumo, de que uma História inteira-
mente nova, uma História nunca antes narrada está para se desen-
rolar”83. Atores e espectadores dos movimentos revolucionários a
partir do século XVIII, passariam a ter uma consciência ou uma
convicção muito clara de que algo novo estava acontecendo. É
essa consciência do novo, da ruptura com o anterior, o que a autora
considera essencial no moderno conceito de “revolução”.
Com essa nota característica essencial incorporada à “com-
preensão” do que chama de moderno conceito de revolução, Han-
nah Arendt separa as autênticas revoluções, posteriores aos dois
marcos modernos das revoluções “Francesa” e “Americana”, de
insurreições ou revoluções no sentido antigo, nas quais os homens
pensavam nos seus movimentos políticos como restauradores de
uma ordem natural que havia sido interrompida, e não como algo
que visava à instituição do “novo”84. Percebe-se que, com essa

83. Arendt, 1998, p. 23.


84. Para ilustrar isso, Arendt destaca um exemplo: “a Revolução Gloriosa, o acon-
tecimento em que, muito paradoxalmente, o termo encontrou guarida definitiva
na linguagem histórica e política, não foi entendida, de forma alguma, como re-
volução, mas como uma reintegração do poder monárquico à sua antiga glória e
honradez” (1998, p. 34). Hobsbawm critica esta posição (2015, p. 261).
ampliação do conjunto de notas que fariam parte da “compreen-
são” de “revolução”, produziu-se inversamente uma restrição da
“extensão” deste conceito, com exclusão de diversos movimentos
sociais da designação proposta.
Prosseguindo na ampliação da “compreensão” do seu acor-
de conceitual de “revolução”, Arendt acrescenta que essa sempre
envolve o desejo de obtenção da “liberdade”, noção incorporada
dentro da definição de revolução e que a autora distingue muito
claramente da noção de “libertação”. Enquanto a “liberdade” é
conceituada em torno de uma opção política de vida (implican-
do participação das coisas públicas, ou em admissão ao mundo
político), a “libertação” implica meramente à ideia de ser livre da
opressão. É o que ocorre, por exemplo, quando se livra um povo
de uma tirania intolerável, mas sem modificar-lhe fundamental-
mente as condições sociais e políticas. Assim, embora a “liber-
tação” possa ser condição prévia da “liberdade”, não conduziria
necessariamente a ela. A noção moderna de “liberdade”, pensada
como direito inalienável do homem, diferia inclusive da antiga no-
ção de “liberdade” proposta pelo mundo antigo, relativa “à gama
mais ou menos livre de atividades não políticas que certo corpo
político permite e garante àqueles que o constituem”.
Podemos ver, assim, que o conceito de revolução proposto por
Hannah Arendt combina dois elementos essenciais, para além da
mera mudança política matizada pela violência social, e mesmo
da modificação na estrutura social. Devem estar presentes necessa-
riamente a ideia de “liberdade”, desde que na moderna acepção
já discutida, e a convicção dos próprios atores sociais de que o
ato revolucionário instaura um “novo começo”. Ampliada a “com-
preensão” do conceito para essa combinação de notas caracterís-
ticas (mudança política, violência, transformação social efetiva,
liberdade política, convicção de um “novo começo”), a “extensão”
de revolução passa a se referir exclusivamente a certos movimen-
tos políticos e sociais85:

85. Arendt, 1998, p. 28.

98
Todos esses fenômenos têm em comum com a revolu-
ção o fato de que foram concretizados através da vio-
lência, e essa é a razão pela qual eles são, com tanta
frequência, confundidos com ela. Mas a violência não é
mais adequada para descrever o fenômeno das revolu-
ções do que a mudança; somente onde ocorrer mudança,
no sentido de um novo princípio, onde a violência for
utilizada para constituir uma forma de governo com-
pletamente diferente, para dar origem à formação de
um novo corpo político, onde a libertação da opressão
almeje, pelo menos, a constituição da liberdade, é que
podemos falar de revolução.

Compreensão

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Extensão
Revolução
Francesa outras...

Revolução Revolução
Americana Russa

99
A compreensão do conceito de revolução iniciada pela perspec-
tiva de Hannah Arendt, se quiséssemos lhe acrescentar alguns to-
ques finais, poderia buscar outras notas, para muito além do que foi
diretamente proposto pela autora. Sabe-se, por exemplo, que as re-
voluções – as que serão efetivamente lembradas pela história – tor-
nam-se via de regra emblemáticas. Esse potencial inspirador, essa
notável capacidade de se tornar um emblema e de despertar ou ins-
pirar outras revoluções em outros tempos e lugares, parece também
acompanhar algumas das principais revoluções conhecidas ao longo
da história, senão todas. Por que não acrescentar esse potencial em-
blematizador à compreensão do acorde conceitual de “revolução”?
A Revolução Francesa (1789), por muitos chamada simples-
mente de “a Revolução”, tornou-se modelar para inúmeras ou-
tras, e inspirou de alguma maneira todo o espírito revolucionário
através de diversas revoltas ocorridas no século XIX e além. O
mesmo ocorreria com a Revolução Russa (1917), inspiração fun-
dadora para as revoluções socialistas, e com a Revolução Cubana
(1959), emblema principal evocado por inúmeros revolucionários
latino-americanos. A Revolução Mexicana de 1910 – a despeito
de seus desdobramentos e acomodações políticas posteriores, e da
sua estranha e mesmo destoante institucionalização através de um
Partido Revolucionário Institucional (PRI) que já pouco tem de
revolucionário86 – tornou-se apesar disso um forte modelo para
movimentos revolucionários no México. O neozapatismo, em
1994, levantou-se evocando a inspiração histórica do grande líder
da Revolução Mexicana de 1910, Emiliano Zapata (1879-1919),
cuja figura foi sintomaticamente trazida do fundo da história para
inspirar um inédito e moderno movimento revolucionário, às por-
tas do século XXI87.

86. O Partido da Revolução foi instituído no México a partir de 1929, com o nome
de Partido Nacional Revolucionário – depois mudando para Partido da Revolu-
ção Mexicana (1938) e, por fim, para Partido Revolucionário Institucional
(1946) – terminando por se tornar hegemônico até o ano 2000 através de su-
cessivas vitórias eleitorais.
87. O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que começara a se or-
ganizar desde 1983 no estado mexicano de Chiapas, faz a sua primeira aparição
revolucionária com o levante de primeiro de janeiro de 1994.

100
Esse extraordinário potencial mobilizador, ou essa capacidade
de se espraiar como um emblema e de se converter em um incon-
tornável monumento para as gerações futuras – ao lado da profun-
da sensação produzida nos seus próprios contemporâneos de que
ali não se tinha uma mera revolta, mas sim uma revolução com
todas as suas letras – não seria ainda uma derradeira nota a ser
acrescentada à compreensão do acorde conceitual de revolução?
Podemos lembrar os comentários de Gilles Deleuze e Félix Guattari
(1991) sobre esse impressionante aspecto das revoluções:
Tudo seria vão porque o sofrimento é eterno, e as revo-
luções não sobrevivem à sua vitória? Mas o sucesso de
uma revolução só reside nela mesma, precisamente nas
vibrações, nos enlaces, nas aberturas que deu aos ho-
mens nos momentos em que se fazia, e que compõem
em si um monumento sempre em devir, como esses tú-
mulos aos quais cada novo viajante acrescenta uma pe-
dra. A vitória de uma revolução é imanente, e consiste
nos novos liames que instaura entre os homens, mesmo
se esses não duram mais que sua matéria em fusão e
dão lugar rapidamente à divisão, à traição88.

88. Deleuze e Guattari, 1992, p. 209.

101
17
Revolução ou golpe de Estado?
Um estranho jogo conceitual no
Brasil-ditadura

Percebe-se, através do exemplo atrás discutido, que a con-


ceituação científica deve ser muito mais rica e precisa do que a
conceituação cotidiana. O conceito de “revolução” proposto por
Hannah Arendt mostra-se muito mais aprumado, ao propor um
enriquecimento da sua “compreensão” e uma redução da sua “ex-
tensão”, do que o conceito banalizado proposto por um dicioná-
rio comum. Assim, em uma antiga edição de bolso do Dicionário
Aurélio89 – um dicionário muito utilizado no Brasil pelo grande
público – pode-se ler no verbete “revolução” que essa é uma “re-
belião armada; revolta; sublevação”. Um tal conceito, com tama-
nha redução da sua “compreensão”, mostra-se extensivo a um tal
número de movimentos sociais, ou mesmo de golpes de Estado,
ações criminosas e privadas, insurreições espontâneas e badernas,
que muito pouco se poderia fazer com ele em termos de instru-
mentalização sociológica e historiográfica90.

89. Ferreira, 1975.


90. Na versão completa, o Aurélio acrescenta outras definições possíveis, para
além dessa que coincide com a sua segunda definição proposta. A número 4 é
praticamente tão extensa quanto a segunda (“qualquer transformação violenta da
forma de um governo”). Mas pelo menos a 3ª definição aproxima-se do âmbito
sociológico ao mencionar a transformação social para além da mudança política
(“transformação radical e, por via de regra, violenta, de uma estrutura políti-
ca, econômica e social”). [FERREIRA, 1975].
Foi com uma “compreensão” assim reduzida do conceito de
“revolução” que a ditadura militar de 1964, no Brasil, procurou
afastar de si o estigma de que ali se tinha nada mais nada menos do
que um “golpe militar” direcionado para a conservação de antigos
privilégios e para o abortamento de um movimento social e de um
afloramento da consciência política que começava a se fortalecer.
Admitidas essas características, o golpe de 1964 encaixa-se mais
na noção de “contrarrevolução”, ou pelo menos de “golpe de Es-
tado”, do que qualquer outra coisa91.
Um curioso livro intitulado Golpe de Estado: um manual prá-
tico – criticado e ironizado por Eric Hobsbawm em uma resenha
de 1968 – não oculta um traço essencial dos golpes de Estado, que
se refere diretamente àqueles que o perpetram. “Quem são eles”?
Pertencem, obviamente, a um grupo muito restrito, uma vez que
“os golpes são obra das forças armadas e, praticamente, de nin-
guém mais”92.
Não há praticamente discordância, entre historiadores especia-
lizados no tema, com relação ao fato de que esse período da Histó-
ria do Brasil deve ser abrigado sob o signo da ditadura93. O que se
discute muito hoje, para o caso desse longo e sombrio episódio, é o
qualificativo que se deve agregar à palavra ditadura. Se a nomeamos
“ditadura militar”, chamamos atenção para o papel dos militares no

91. Com relação ao conceito de golpe de Estado, observa Gianfranco Pasquino:


“A revolução se distingue do golpe de Estado, porque este se configura apenas
como uma tentativa de substituição das autoridades políticas existentes dentro do
quadro institucional, sem nada ou quase nada mudar dos mecanismos políticos e
socioeconômicos. Além disso, enquanto a rebelião ou a revolta é essencialmente
um movimento popular, o golpe de Estado é tipicamente levado a efeito por es-
casso número de homens já pertencentes à elite, sendo, por conseguinte, de caráter
cimeiro” (PASQUINO, 2000, p. 1.121).
92. Hobsbawm, 2015, p. 250 (sobre LUTTWACK, 1968).
93. Ditadura pode ser definida como um regime governamental no qual todos os
poderes políticos estão concentrados em um indivíduo, grupo ou partido, que não
foram objeto de escolha da população dominada. O conceito, portanto, refere-se
a um regime. Já “golpe de Estado” se refere mais propriamente ao acontecimento
histórico, ao que ocorreu para se levar esta ditadura ao poder.

103
estabelecimento e manutenção desse regime94. De modo geral, de-
pendendo de como é desenvolvida a análise historiográfica que uti-
liza essa designação, a sociedade civil como um todo pode ser nesse
caso retratada a partir de um papel que a vitimiza. Se nomeamos
esse regime ditatorial como uma “ditadura civil militar”, tal como
propõem alguns historiadores em obras mais recentes, chamamos
atenção para a coparticipação de setores da sociedade civil no apoio
a este regime, ou mesmo de amplos setores populares95. Deixa-se de
vitimizar mais enfaticamente a sociedade civil e passa-se a enfatizar
uma parcela de responsabilidade social desta pelos acontecimentos,
ou de parte dela96. Se, por fim, a este regime ditatorial denomina-
mos “ditadura empresarial-militar”, especificamos mais o setor das
elites que teria apoiado a ação militar de instalação do regime, e que
continuou contribuindo para a sua manutenção.
Além disso, considerado um termo ou outro para o conceito
que se adequaria ao período do regime militar, discute-se também
o período de duração da mesma. Do tradicional recorte 1964-1985,
passa-se à possibilidade de discutir extensões do final do regime
para 1989 (já que foi nesse ano que ocorreu efetivamente a primei-
ra eleição direta para presidente), e também há estranhas propostas
de recortar o período ditatorial brasileiro adiando o seu princípio
(deslocando-o para o recrudescimento do regime em 1968, p. ex.),
ou antecipando o seu final (1979).
É interessante observar que o conceito de ditadura também
tem a sua historicidade, beneficiando-se de sentidos distintos em

94. Esta designação apoia-se no fato de que os militares brasileiros ocuparam não
somente a presidência da República, como também os ministérios, cargos centrais
nos órgãos de administração direta e indireta, estatais, e assim por diante, contro-
lando ainda uma grande rede de informações que tinha no topo o SNI.
95. É habitual a menção às marchas da família com Deus e pela liberdade, que
mobilizaram milhões de pessoas no apoio à ação golpista (19 de março de 1964 e
em 2 de abril, esta última já comemorando o triunfo do golpe).
96. Por outro lado, discute-se se, neste caso, concomitantemente à atribuição de
uma responsabilidade política da sociedade civil pelo golpe, também não vê em
parte diminuída a responsabilidade dos militares pelo golpe e pela manutenção
do regime.

104
momentos e sociedades diversas. No antigo Império Romano, por
exemplo, a sociedade em crise – através de manifestações popu-
lares mais expressivas ou de grupos políticos – poderia conclamar
um ditador a assumir o poder por um certo período (seis me-
ses, p. ex.). Percebe-se que, nesse caso, o conceito de “ditador”
aproxima-se um pouco do que hoje entenderíamos como um “in-
terventor”. O dictator, no sentido que lhe atribuíam os romanos,
era o mais alto magistrado extraordinário, habitualmente nomeado
em situações de perigo externo ou interno, como registram os
livros que constituem a obra Desde a fundação da cidade, de
Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.). Além disso, o conceito romano
distingue-se claramente da compreensão conceitual possível nas
modernas sociedades democráticas, uma vez que a ditadura era
então uma magistratura legal, prevista nas leis romanas como ins-
trumento excepcional de governo97.
Para lembrar um caso de confluência entre dois conceitos, a his-
tória das ideias conhece também a formulação conceitual da “Ditadu-
ra do proletariado”, através de certas obras de Marx, Lenin e outros
autores marxistas e não marxistas98 – sendo essa uma ditadura que
deveria ser imposta por uma revolução proletária como forma de
assegurar a transição para a sociedade sem classes. Aqui, os concei-
tos de revolução e ditadura encontram-se, como uma possibilidade.

97. Os séculos II e I a.C. oferecem-nos os exemplos mais típicos, com as ditaduras


de Caio Mario (157 a.C.-86 a.C.) e Sula (138 a.C.-78 a.C.). Finalmente, o poder
ditatorial conquistado por Julio César (100 a.C.-44 a.C.) em 48 a.C. estabelece o
exemplo mais conhecido.
98. O conceito foi originalmente proposto, em 1848, por Louis Auguste Blanqui
(1805-1881). Em 1° de janeiro de 1852, aparece em um artigo de Jospeh Weideme-
yer para o jornal Turn-Zeitung intitulado “Ditadura do proletariado”. Marx men-
ciona o conceito pela primeira vez, nesse mesmo ano, em uma carta em resposta ao
próprio Weidemeyer. Em Engels, o conceito aparece uma primeira vez em A ques-
tão da habitação (1872). Enquanto isso, Marx o utiliza na Crítica ao Programa de
Gotha (1875). No século XX, a partir de Lenin e de outros, o conceito segue sua
história. V.I. Lenin (1870-1924), p. ex., publica em 12 de abril de 1905, no Jornal
Vperiod (n. 14), um artigo intitulado: “A Ditadura democrática revolucionária do
proletariado e do campesinato”. Dessa forma, agora são as noções de “ditadura”
e de “democracia”, além de “revolução”, que confluem para um único conceito.

105
18
Perversões conceituais
O curioso conceito de “ditabranda”

Conforme já mencionamos anteriormente, a criação de con-


ceitos, quando os que já existem não se mostram perfeitamente
adequados para aprofundar certos aspectos de um estudo, apresen-
ta-se como uma possibilidade para o pesquisador ou para aqueles
que refletem sobre determinado problema científico ou social.
A discussão do capítulo anterior sobre as redefinições de “re-
volução” e seu contraste com o conceito de “golpe de Estado” –
bem como a exemplificação sobre o período da ditadura militar no
Brasil (1964-1985) – levam-nos à possibilidade de exemplificar
um curioso caso de criação de conceitos, embora o mesmo não
tenha florescido sob o signo de uma maior responsabilidade cientí-
fica. De passagem, veremos que novos conceitos – e aqui estamos
nos referindo mais especificamente ao o uso de novas palavras
para expressar novas formulações conceituais – podem ocorrer
tanto nos ambientes científicos e acadêmicos, como na vida co-
mum, nos meios políticos e nos ambientes populares. O exem-
plo de criação conceitual que vamos discutir surgiu, nos meios
populares e políticos, na Espanha dos anos de 1930, e depois o
neologismo passou a ser instrumentalizado por grupos políticos da
mesma época, sendo mais tarde exportado para outros contextos
políticos e históricos.
A Espanha já vivia uma ditadura em 1930, sob o governo do
General Primo de Rivera (1870-1930)99. Ao substituí-lo nesse ano

99. O golpe militar liderado por Primo de Rivera ocorreu em 1923, com a sus-
pensão da constituição, dissolução do parlamento e implantação de uma ditadura,
à frente do governo ditatorial, o General Damaso Berenguer y
Fusté (1873-1953) seguiu governando por decretos, sob o contex-
to da queda da bolsa de valores de Nova York em 1929 e de uma
série de revoltas populares que eclodiam na Espanha diante da
crise econômica que se instalara e dos anseios dos espanhóis de
reconquistarem maior liberdade política. Parte das medidas ado-
tadas por Primo de Rivera, o ditador anterior, foram derrogadas
por Damaso Berenguer, sob um governo que almejava trabalhar
melhor uma imagem de governos ditatoriais militares que já vinha
se desgastando com seu antecessor, o que levara à substituição de
Rivera. Berenguer, todavia, só ocupou o posto de presidente entre
1930 e 1931, quando se estabeleceu a efêmera Segunda República
Espanhola, com eleições diretas. Surgiu, na própria época de Be-
renguer, o curioso e paradoxal conceito de “dictablanda” (em por-
tuguês “ditabranda”). O dado mais paradoxal é que a “ditabranda”
de Berenguer terminou por atingir um maior índice de execuções
políticas do que a própria ditadura que a antecedeu.
O conceito de “ditabranda” estendeu seus usos para contex-
tos posteriores, em países diversos. Trata-se de um conceito que
se revelou por vezes oportuno para governos ditatoriais que não
queriam arcar com o peso do conceito de “ditadura”. Não é a
toa que foi o general-ditador do Chile, Augusto Pinochet (1915-
2006), quem o importou pela primeira vez para a América Lati-
na, dez anos depois de já ter consolidado o seu governo ditatorial
em 1973, após derrubar o governo socialista democraticamente
eleito de Salvador Allende (1908-1973)100. A palavra também foi
utilizada por correligionários e apoiantes do general-ditador ar-
gentino Juan Carlos Ongania Carballo (1914-1995), que instala a
ditadura argentina em 1966 e se faz ditador dessa data até junho

que teve a aquiescência do rei espanhol Afonso III, o qual terminaria deposto,
mas só em 1931, com a instalação da Segunda República Espanhola e a eleição
do primeiro presidente, Niceto Zamora (1877-1949). Esta duraria pouco, pois em
1933 instala-se a Guerra Civil Espanhola, que seria mais tarde vencida por Franco
e seus correligionários, levando à ditadura franquista.
100. Em uma entrevista em setembro de 1983, Pinochet teria declarado, sobre o
seu governo: “Esta não é uma ditadura, é uma dictablanda”.

107
de 1970, quando foi deposto por um novo “golpe de Estado” co-
mandado por Alejandro Lanusse (1918-1966), o qual perpetua o
regime ditatorial, apenas com trocas de atores a testa do poder
político. É interessante lembrar ainda que o estranho conceito de
“ditabranda” também foi utilizado pejorativamente para detratar
governos eleitos democraticamente (e não apenas para amenizar
as ditaduras). Tal foi o caso do uso do conceito de dictablanda por
detratores do primeiro governo argentino de Juan Domingo Perón,
entre os anos de 1946 e 1955. A polêmica conceitual foi trazida
para o Brasil em um editorial do jornal Folha de S. Paulo, de 17
de fevereiro de 2009, que mencionou mais uma vez o conceito de
“ditabranda” com o intuito de argumentar que a ditadura brasileira
de 1964 teria sido mais amena do que outras ditaduras sul-ameri-
canas do período101.
À parte o exemplo da criação do conceito de “ditabranda” que
aqui trouxemos apenas a propósito de lembrar a possibilidade das
surpreendentes alterações conceituais que podem emergir de
determinados contextos históricos – por vezes à maneira de inver-
sões e mesmo de perversões inesperadas – seguiremos no próximo
capítulo com a discussão do exemplo do conceito de revolução,
agora com o fito de examinar outra questão que aparece no uso de
conceitos: a da mobilização de uma rede conceitual que ajuda a
lhe constituir os sentidos.

101. O objetivo central do editorial, intitulado “Limites a Chaves”, era na verdade


criticar o que o editor do jornal percebe como um “endurecimento” do Governo
Chaves na Venezuela de 2009. A escolha infeliz da expressão “ditabranda” para
designar comparativamente a ditadura militar brasileira de 1964, todavia, gerou
uma série de respostas e contrarrespostas do público leitor, também expressa em
cartas publicadas ao jornal.

108
19
Redes articuladas de conceitos
Em primeiro lugar, cada conceito remete a outros
conceitos, não somente em sua história, mas
em seu devir ou suas conexões presentes. Cada
conceito tem componentes que podem ser, por sua
vez, tomados como conceitos.
DELEUZE & GUATTARI. O que é filosofia?

O exemplo clássico mais atrás discutido (o conceito de “revo-


lução” conforme proposto por Hannah Arendt), permite-nos per-
ceber que a elaboração de uma definição de conceito pode levar
concomitantemente a uma necessidade de especificação de novos
conceitos, bem como requerer novas definições como desdobra-
mentos102. Assim, uma vez que a autora inclui como elemento
inerente ao conceito de “revolução” a ideia de “liberdade”, preo-
cupa-se em definir com muita precisão o que está entendendo por
“liberdade”, já que não se trata aqui da noção vulgar de liberdade.
Desse modo, opõe este conceito ao de “libertação”, também defi-
nido com precisão, além de apresentá-los dentro de um percurso
histórico onde se examina a passagem da antiga noção de liber-
dade a uma noção já moderna. Também não faltam as referências
teóricas e históricas pontuando um e outro caso.
Para confirmar ainda uma vez a diferença de qualidade entre a
conceituação científica e a conceituação vulgar, basta comparar o
conceito altamente elaborado de “liberdade política” em Hannah

102. Ou, como observam Deleuze e Guattari: “Um conceito não exige somente
um problema sob o qual remaneja ou substitui conceitos precedentes, mas uma
encruzilhada de problemas em que se alia a outros conceitos coexistentes” (1992,
p. 26).
Arendt com a noção de “liberdade” que aparece registrada na ver-
são de bolso de 1975 do Dicionário Aurélio:
Liberdade. 1) Faculdade de cada um se decidir ou agir
segundo a própria determinação. 2) Estado ou condi-
ção do homem livre.

Já nem será necessário lembrar que na definição “2” o dicio-


nário comete a inadequação lógica de definir uma palavra por ela
mesma, dizendo que “liberdade é o estado ou condição do homem
livre” (definição que não acrescenta nada), e que na definição “1”
(“faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a sua própria
determinação”) uma mesma sequência de palavras poderia se
adaptar à ideia de “tirania” enquanto modo de governar (o tirano
também “age e decide segundo a sua própria determinação”, parti-
cularmente sem consultar bases políticas e sociais).
Assim, para tornar mais científica a segunda definição de li-
berdade (já que a primeira não tem salvação), seria necessário
acrescentar mais elementos, ampliando a sua compreensão e dimi-
nuindo a sua extensão. Está bem, “liberdade é a faculdade de cada
um se decidir ou agir segundo a sua própria determinação”; mas
com respeito a que tipo de ações, observando que tipos de limites
no que se refere ao confronto com a liberdade do outro? Fazendo
acompanhar as decisões e ações de que tipo de consciência? Não
seria necessário nuançar também esse último aspecto para distin-
guir o homem livre do homem louco (que por vezes tem a sua li-
berdade encerrada dentro das paredes de um hospício exatamente
porque “decide e age segundo a sua própria determinação”)? Ou
seria o caso de dizer que “a liberdade é a faculdade socialmente
restringida de decidir ou agir segundo a sua própria determina-
ção”?103 Como se vê, para tornar um conceito utilizável em um tra-
balho científico, é preciso lhe dar um tratamento mais elaborado.

103. Na verdade, a versão completa do Dicionário Aurélio acrescenta, para além


da definição proposta pela versão de bolso, pelo menos uma definição mais sofis-
ticada (a de número 2), onde se diz que liberdade é “o poder de agir, no seio de
uma sociedade organizada segundo a própria determinação, dentro dos limites
impostos por normas definidas” (FERREIRA, 1975).

110
Ainda com relação ao esforço de elaborar a “compreensão”
de um conceito, já destacamos que um conceito mais amplo pode
ir sendo desdobrado em sucessivas divisões conceituais. Assim,
retomando o conceito mais amplo de “revolução”, delineado de
acordo com a “compreensão” proposta por Hannah Arendt, po-
deria ser o caso de se construir uma nova divisão conceitual, que
cindisse a classe maior das revoluções em “revoluções burguesas”
e “revoluções socialistas”.
Por um lado todas as revoluções (de acordo com Hannah
Arendt) possuem em comum certas características – como a mu-
dança política brusca e violenta, a consecução ou o projeto de uma
transformação social efetiva, a presença da ideia de “liberdade po-
lítica” para além da mera “libertação”, e a convicção de um “novo
começo” por parte dos atores sociais. Esse conjunto de atributos
independe de essas revoluções serem “revoluções burguesas” ou
“revoluções socialistas”.
Por outro lado, no que se refere à participação ou ao tipo de
participação de determinados atores ou classes sociais no pro-
cesso de luta, e também ao seu resultado ou intenções em termos
da organização social alcançada ou a alcançar, podem começar a
ser entrevistas as diferenças entre as “revoluções burguesas” (con-
duzidas pelas classes enquadradas dentro da burguesia e almejan-
do uma sociedade fundada na propriedade privada individual e na
expansão capitalista) e as “revoluções socialistas”, conduzidas por
lideranças operárias ou camponesas e motivadas pela possibilida-
de da dissolução das formas de propriedade típicas da sociedade
burguesa (isto é, considerando-se a conceituação de “revolução
socialista” habitualmente proposta pelo marxismo).
Seria possível continuar conduzindo desdobramentos concei-
tuais como esses. Cindir, por exemplo, a classificação das “revolu-
ções socialistas” entre aquelas que tiveram uma participação mais
ativa do proletariado (como a Revolução Russa) e as que tiveram
uma participação mais ativa do campesinato (como a Revolução
Chinesa). Estaríamos desse modo elaborando “compreensões”
mais amplas e “extensões” mais restritas que se desdobrariam nos
novos conceitos de “revolução socialista proletária” e “revolução

111
socialista camponesa”. Cada um desses desdobramentos concei-
tuais passa a se restringir a um número menor de casos que, em
contrapartida, seriam compreendidos de maneira mais rica.
Chega um momento, entrementes, em que a operação de am-
pliar a “compreensão” de um conceito e de reduzir a sua “exten-
são”, ou de desdobrar um conceito mais amplo em novas subdi-
visões conceituais, atinge os seus limites. Conforme já assinalei,
nesse momento saímos do plano generalizador de “revolução”,
para entrar no plano particularizador de cada revolução específica.
Se a Revolução Chinesa e a Revolução Albanesa podem ser carac-
terizadas como “revoluções socialistas camponesas”, o evento da
“Grande Marcha” foi uma especificidade histórica da Revolução
Chinesa. Descrever os vários processos e eventos inerentes a esse
acontecimento único e irrepetível que foi a Revolução Chinesa
já não é mais da esfera da conceituação. Não se pode conceituar
a Revolução Chinesa; pode-se enumerar as suas características,
descrever aspectos essenciais do seu desenrolar histórico, e assim
por diante. Descrições e definições não conceituais também são
necessárias aos estudos históricos e sociológicos, mas são de outra
natureza que não a das operações da conceitualização.

112
20
Buscando a medida adequada
entre a compreensão e a
extensão de um conceito

Um ensinamento pode ser extraído dos exemplos anteriores.


Em boa parte dos casos, a definição proposta para um conceito não
deve ser nem excessivamente ampla e complexa, nem demasiado
estreita e simplista, existindo uma medida mais ou menos adequa-
da que o autor deve se esforçar por atingir. Definir “revolução”
de maneira demasiado estreita, incorporando às suas caracterís-
ticas apenas a tomada do poder e fazendo-a significar “qualquer
movimento social armado”, seria tão problemático quanto definir
“revolução” de maneira extremamente carregada de característi-
cas, a tal ponto que dentro dessa designação só coubesse um único
exemplo histórico de revolução. Tais procedimentos são inúteis
do ponto de vista científico. Para que um conceito que se refere a
apenas um objeto ou processo singularizado, que é o que ocorre
nesse último caso, e para que um conceito no qual todos os obje-
tos terminam por caber? Em uma situação, ao se referir a um só
caso, o conceito perde todo o seu potencial de generalização e de
funcionar como um instrumento para comparar objetos distintos.
Na outra situação, ao se aplicar a todos os casos, a generalização
é inócua, e também não há mais objetos a comparar e contrastar
entre si, ou singularidades a identificar. A extensão total derivada
de uma compreensão abaixo do mínimo é uma extensão inútil.
Podemos lembrar um exemplo já proposto anteriormente. “Ho-
mem” (“ser humano”) não pode ser definido simplesmente como
um “mamífero bípede”, já que existem inúmeros outros animais
que são mamíferos bípedes mas que não são homens; também não
pode ser definido como “um animal que habita cidades construídas
por ele mesmo”, já que existem homens que vivem no campo e não
em cidades, sem falar nas sociedades humanas que não investiram
na urbanização (como os povos indígenas brasileiros ou os abo-
rígines australianos). Nesse último caso a “expressão definidora”
redundou em uma extensão demasiado estreita (mais estreita do
que seria adequado), notando-se ainda que a compreensão do con-
ceito incluía uma característica que não é de modo algum essencial
ao gênero humano, mas apenas eventual (a urbanidade). Já no pri-
meiro caso (“o homem é um mamífero bípede”), a “expressão
definidora” resultou em uma extensão mais ampla do que seria
necessário, mencionando apenas uma combinação de duas carac-
terísticas que não pertencem exclusivamente ao gênero “homem”
(mamífero bípede).
Conforme já se disse, quem sabe se a definição do “homem”
como “construtor de cidades” não poderia ser melhorada atribuin-
do-se uma maior amplitude ao aspecto faber (construtor) regis-
trado na “expressão definidora” proposta? O homem seria então
definido como “um animal que constrói” (não apenas cidades, mas
também ocas como os indígenas, e também ferramentas, armas,
utensílios). Ou, na mesma linha, poder-se-ia tentar uma definição
adaptada daquela que foi proposta por Marx e Engels: “O homem
é o único animal capaz de produzir as suas próprias condições
materiais de existência”104. Essa definição, se por um lado registra
a inserção do homem no mundo animal, por outro lado procura
diferenciá-lo como animal capaz de produzir inventivamente as
suas próprias condições de vida, interferindo na natureza. Mas en-
tão sempre surgiria alguém para dizer que o pássaro joão-de-barro
também constrói o seu ninho, ou um castor a sua represa, de modo
que seria preciso acrescentar que o homem produz os seus meios

104. “Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião,
pelo que se queira. Eles mesmos começam a se distinguir dos animais tão logo
começam a produzir os seus meios de vida, um passo condicionado pela sua or-
ganização corporal. Ao produzirem os seus meios de vida, os homens produzem
indiretamente a sua vida material mesma” (MARX & ENGELS, 1989, p. 57).

114
de vida transformando os materiais que a natureza oferece, e não
apenas coletando-os105.
Esses tateamentos em busca de uma definição mais ajustada
mostram as imprecisões que os estudiosos devem enfrentar dian-
te da aventura de conceituar e de definir, bem como de ajustar a
compreensão dos conceitos à extensão formada pelos casos possí-
veis de sua aplicação. Temos ali o conceito de “revolução”, cuja
compreensão vai sendo insistentemente assaltada e torturada pelas
hordas de militares golpistas, para que na extensão dela desdobra-
da caibam em boas letras os mais sinistros movimentos dos quais
secretamente se envergonham, em parte devido às inconvenientes
pressões exercidas por um outro conceito, o de “democracia”. E
acolá temos Plutão, banido de uma confraria de planetas na qual
já se acomodava há cinco milênios, de modo a se evitar que outros
quatro pequenos planetas recém-descobertos – alguns dos quais
com suas órbitas demasiado complexas e perturbadoras – pudes-
sem entrar ruidosamente pelas janelas da extensão de um conceito
no qual já repousava placidamente um modelo bem organizado de
sistema solar.

105. Mesmo quando os homens organizam-se em comunidades de coletores, cos-


tumam utilizar-se, para a coleta, de utensílios por eles mesmos fabricados, e não
simplesmente encontrados na natureza.

115
21
A permanente reelaboração dos
conceitos e o seu polissemismo
possível

Uma lição, ainda, pode ser colhida dos exemplos até aqui
discutidos: nenhum conceito é definitivo, sendo sempre possível
redefini-lo. Se Hannah Arendt definiu “revolução” a partir do seu
caráter originário de movimento social, enriquecendo a compreen-
são dessa formulação conceitual e concomitantemente operando
sucessivos recortes na sua extensão, o mesmo conceito pode
adquirir um enfoque bem diferente, mas igualmente válido, como
aquele proposto por Krzystof Pomian (n. 1934):
Efetivamente, qualquer revolução não é mais que a
perturbação de uma estrutura e o advento de uma nova
estrutura. Considerada neste sentido, a palavra “revo-
lução” perde o seu halo ideológico. Já não designa uma
transformação global da sociedade, uma espécie de
renovação geral que relega para a sua insignificância
toda a história precedente, uma espécie de ano zero a
partir do qual o mundo passa a ser radicalmente dife-
rente do que era. Uma revolução já não é concebida
como uma mutação, se não violenta e espetacular, pelo
menos dramática; ela é, muitas vezes, silenciosa e im-
perceptível, mesmo para aqueles que a fazem; é o caso
da Revolução Agrícola ou da Revolução Demográfica.
Nem sequer é sempre muito rápida, acontece que se
alongue por vários séculos. Assim (como o demons-
tram François Furet e Mona Ozouf), uma estrutura
cultural caracterizada pela alfabetização irrestrita foi
substituída por outra, a da alfabetização generalizada,
no decurso de um processo que, na França, durou cerca
de trezentos anos (POMIAN. História estrutural)106.

“Revolução”, segundo a “compreensão” proposta por Pomian,


já não é necessariamente uma mudança brusca (“acontece que se
alongue por vários séculos”) ou sequer violenta (“ela é muitas ve-
zes silenciosa e imperceptível”). Tampouco é concebida como um
novo começo (“essa espécie de ano zero a partir do qual o mundo
passa a ser radicalmente diferente do que era”). Por outro lado,
implica necessariamente a passagem de uma “estrutura” a outra.
Dessa forma, associada ao conceito de “estrutura” tal como foi
proposto pelos historiadores dos Annales107, “revolução” passa a
ter a sua “extensão” aplicável a uma série de outros fenômenos
para além dos movimentos políticos, como a “Revolução Agríco-
la” ou a “Revolução Demográfica”.
Novas possibilidades surgem com a utilização da palavra “re-
volução”; não mais somente como um “conceito agrupador”, capaz
de reunir em uma única categoria as revoluções político-sociais
específicas (as revoluções Francesa, Russa, Chinesa e outras), mas
também como um “conceito transversal” que – agregado a certos
adjetivos – pode cortar ou tangenciar a realidade humana mais
ampla em fenômenos variados como a Revolução Agrícola, Re-
volução Urbana, Revolução Industrial ou Revolução Digital, cada
um dos quais inaugurando novas épocas ou eras na história da hu-
manidade. Depois disso, surgem ainda as formulações conceituais
que falam em revoluções artísticas, científicas, comportamentais,
entre outras, agora como referência a movimentos que foram bem-
sucedidos em transformar globalmente a arte, ciência, literatura,
costumes, comportamento ou sexualidade108.

106. Pomian, 1990, p. 206 [original: 1978].


107. [1] Braudel, 1958, p. 49-50. [2] Chaunu e Chaunu, 1955-1960.
108. Fala-se conceitualmente, p. ex., em uma “Revolução Sexual”. Com frequên-
cia a expressão é utilizada para se referir à radical mudança nos comportamentos
sexuais e amorosos que aflora em diversos países ocidentais, ao menos em alguns
setores da sociedade, entre as décadas de 1960 e de 1970. Wilhelm Reich (1897-
1957), por outro lado, já havia utilizado a expressão Revolução Sexual como tí-

117
Cada uma dessas aberturas ou redirecionamentos na extensão
do conceito de revolução associa-se, necessariamente, a redefini-
ções no conjunto de notas que devem constituir a sua compreensão
ou o seu acorde conceitual.
A alternativa de associar o conceito de “revolução” a toda e
qualquer substituição radical e mais ou menos rápida de estruturas,
para muito além dos aspectos exclusivamente políticos e sociais,
não foi evidentemente uma novidade introduzida pela perspectiva
dos Annales, uma vez que foi Gordon Childe (1892-1957), um
arqueólogo e historiador marxista nascido na Austrália, o primeiro
pesquisador a se referir mais claramente a uma “revolução agríco-
la” (talvez o primeiro uso transversal do conceito de revolução).
Esta – ou ao menos a primeira das revoluções agrícolas – teria
sido a também chamada “revolução neolítica”, ocorrida em par-
tes diversas do planeta entre 10000 e 8000 a.C.109 A Revolução
Agrícola corresponderia a essa transição crucial que demarcou a
ultrapassagem de um mundo paleolítico estritamente baseado no
nomadismo e atravessado por uma cultura apropriativa em relação
à natureza – uma estrutura que, de resto, havia caracterizado a
vida humana por mais de dois milhões de anos, desde os tempos
do homo habilis – e que subitamente trouxe o surpreendente aflo-
ramento de um novo mundo baseado no sedentarismo e nas possi-
bilidades de planejar o cultivo e domesticar os animais.

tulo de um dos seus livros (1936), referindo-se na segunda parte da obra a uma
revolução na sexualidade que teria acompanhado a Revolução Russa desde seus
primórdios, mas terminando por abortar definitivamente com o desenrolar do to-
talitarismo stalinista, sobretudo a partir do final dos anos de 1920 (REICH, 1969,
p. 102-174).
109. O espraiamento global da Revolução Agrícola, ou a sua eclosão em um
número maior de lugares, teria mesmo abrangido um período mais dilatado, de
10000 a 4000 a.C. Enquanto isso, nem bem a Revolução Agrícola já tinha comple-
tado a afirmação irreversível de seu espalhamento pelo globo terrestre, e mesmo
um pouco antes desse termo, uma nova melodia já se iniciava na grande sinfonia
da história da humanidade. A Revolução Urbana, com transformações ainda mais
surpreendentes, inicia-se no século V a.C. no Crescente Fértil do Oriente Médio,
e depois a vemos na China, Índia e Egito.

118
Podemos nos perguntar, se ainda considerarmos a rapidez do
processo como um elemento fundamental para a compreensão do
conceito de revolução, como poderia merecer esse nome um pro-
cesso que demora cerca de dois mil anos para se alastrar efetiva-
mente por toda a humanidade. Contudo, se estendermos o olhar de
acordo com uma perspectiva mais longa, facilmente perceberemos
que dois mil anos constituem uma duração efetivamente muito cur-
ta diante de um período muito mais largo de dois milhões de anos.
A relatividade das noções de “rapidez” ou “lentidão” seria o
passe para explicar a adequação de chamarmos de “revolução” a
um processo de dois mil anos devidamente enquadrado por uma
pré-história de longuíssima duração, da mesma forma que logo
teríamos uma segunda revolução importante na história da huma-
nidade – a “Revolução Urbana” – demarcadora da igualmente sur-
preendente passagem da última fase da pré-história para o mundo
histórico das cidades, da escrita, da divisão multifuncional do tra-
balho, da metalurgia, da roda e das primeiras civilizações110. De
fato, o tempo é relativo. Uma revolução que, irrefreável como uma
onda, desenrolou-se pelo mundo por dois mil anos até dominar
definitivamente toda a paisagem planetária com suas aldeias agrí-
colas, e outra que levou um tempo não muito menor para instalar
um número significativo de cidades em boa parte das regiões ha-
bitadas, podem ser consideradas tão “rápidas” como a Revolução
Digital que, em tempos recentes, somente precisou de duas déca-
das para revolucionar o mundo da comunicação e da informação,
instituindo a sociedade digital.
Acerca da multiplicação de sentidos possíveis para um mes-
mo conceito – ou da formação de diferentes acordes conceituais
abrigados sob o mesmo termo – pode-se dar que o polissemismo
esteja presente até mesmo em um único autor, mas referindo-se
a situações diversas. Em Marx ou Engels, por exemplo, ocorre
que às vezes – como em A ideologia alemã (1845) – a expres-
são “revolução” apareça relacionada com o salto de um modo de

110. Também o conceito de “revolução urbana” foi proposto pela primeira vez por
Gordon Childe. Cf. Childe, 1950, p. 3-17.

119
produção para o seguinte111. Nesse sentido, portanto, o conceito
também pode incorporar potencialmente fenômenos como a “Re-
volução Agrícola” ou a “Revolução Urbana”, de maneira similar
ao enfoque proposto por Gordon Childe e que aparece de uma
nova maneira em Pomian. Marx e Engels, entrementes, também
empregam a expressão “revolução” no seu sentido mais propria-
mente político, referindo-se a movimentos sociais específicos – o
que implica um enfoque mais próximo do proposto por Hannah
Arendt, embora bem mais flexível (ou “extenso”)112. Por fim, há
ainda momentos em que – ultrapassando o uso da designação
“revolução social” estritamente usada para processos históricos e
políticos mais pontuais e específicos (a Revolução Francesa de
1789, p. ex.) – Marx ou Engels discorrem sobre “revoluções bur-
guesas” de mais longo termo, as quais abarcariam, através de um
encadeamento mais extenso que comporta grandes avanços e pe-
quenos recuos, vários episódios revolucionários mais específicos.
Dessa maneira, deveria ser rebaixada do status conceitual de “re-
volução”, e recompreendida como um “episódio revolucionário”,
a Revolução Francesa propriamente dita – aqui entendida como
aquele acontecimento explosivo que se inicia em 1789 e prosse-
gue até a Primeira República (1791), para mais tarde se dissolver
no diretório (1795) e no período napoleônico (1799). Essa peque-
na década revolucionária mais não seria do que um dos diversos
episódios cruciais que fariam parte de um processo de oitenta anos
correspondente a uma revolução burguesa francesa mais extensa,
a qual somente se consolida em 1870113.

111. A ideia de “revolução” como substituição de um modo de produção por outro,


se tornou típica do marxismo economicista da Segunda Internacional. O texto fun-
damental de Marx que autoriza este uso conceitual é o “Prefácio” da Contribuição
à crítica da economia política, de 1859.
112. Assim, movimentos sociais que não seriam considerados como “revoluções”
por Arendt, como alguns movimentos sociais do século XVI, são referidos como
tais por Marx e Engels, na verdade mais com o sentido de “processos ou movimen-
tos revolucionários” do que como “revoluções” que se estabelecem definitivamente.
113. Em certa passagem de Maquiavel, a política e o Estado moderno (1932-
1934), Antonio Gramsci (1976, p. 46) adota essa mesma perspectiva sobre as re-
voluções burguesas de longo prazo, evocando precisamente o exemplo de uma
revolução francesa estendida.

120
Passando a outro componente conceitual, seria possível ain-
da rediscutir a nota “violência”, bastante presente na maioria dos
acordes conceituais de revolução que têm sido elaborados por au-
tores diversos. Seria a “violência” um aspecto inerente a todo e
qualquer processo revolucionário? Discute-se que, mesmo com
relação às revoluções transversais, como por exemplo a Revolu-
ção Industrial, existe sempre uma certa violência implicada. Para a
instalação generalizada de indústrias, existe expropriação de terras
que deixa atrás de si milhares de despossuídos, bem como migra-
ções de mão de obra que certamente violentam a vida dos traba-
lhadores já adaptados à situação anterior, e mesmo a violência do
desemprego, implicada pela formação de um grande exército de
mão de obra excedente que deve viver à míngua para favorecer o
barateamento da força de trabalho. De maneira análoga, se pensar-
mos nas profundas transformações pertinentes à Revolução Agrí-
cola, pode-se argumentar que a instalação pioneira da agricultura
no período neolítico deve ter deixado atrás de si os seus desajusta-
dos e reprimidos, tanto no que se refere a indivíduos coletores que
não se tenham se adaptado ao novo modo de vida como no que se
refere às possíveis disputas territoriais demandadas pela transfor-
mação do solo em espaços agrícolas.
De acordo com essas perspectivas acerca da Revolução In-
dustrial ou da Revolução Agrícola, a violência poderia ser pen-
sada como um item recorrente, ainda que de maneira encoberta
em muitos casos, mesmo nas revoluções transversais. Podemos
lembrar a sarcástica metáfora de Thomas Morus (1478-1535), em
Utopia (1516)114, ao se referir às radicais mudanças que começa-
vam a se impor com o desenvolvimento da economia da lã na In-
glaterra de sua época – um processo no qual a substituição de áreas
de cultivo por passagens para carneiros desalojava os camponeses
das áreas rurais e os obrigava a mudar para as cidades, violentando
seus modos de vida:

114. Morus, 1980 [original: 1516].

121
[Os carneiros], esses animais tão dóceis e tão sóbrios
em qualquer outra parte, são entre vós de tal sorte vo-
razes e ferozes que devoram mesmo os homens e des-
povoam os campos, as casas, as aldeias.

Sim, as revoluções, mesmo as transversais (e não apenas as


que constituem movimentos sociais ou políticos específicos), com-
portam a possibilidade de muitas formas de violência115. Talvez
apenas com a bela exceção das “revoluções artísticas” – as quais
no máximo hão de violentar os gostos e estéticas tradicionais –
as revoluções transversais não deixam de ser como destruidores
tsunamis. Ao afetar a humanidade como um todo, boa parte das
revoluções transversais não apenas permitem, como na verdade
obrigam a que a maior parte dos diversos grupos humanos atra-
vessem os portais que demarcam o surgimento de novas eras. Se
há ganhos, há sempre uma perda e pequenas ou grandes violências
também nas mais benéficas das revoluções transversais.
As revoluções científicas trazem o melhor exemplo. Não se
passa impune do mundo newtoniano ao universo da relatividade,
dos labirintos quânticos, do desvendamento do átomo. Os extraor-
dinários progressos da física nuclear – que talvez salvem a espécie
humana daqui a muitos anos ao permitir viagens espaciais que nos
permitirão sobreviver à própria vida útil do planeta – carregam na
sua história as suas manchas japonesas. A medicina, coroada com

115. A chamada Revolução Comercial, p. ex., em um período que atravessa a


Idade Média a partir do século XII e se estende através da Idade Moderna até
chegar ao século XVIII, também deixou seus rastros de violência e de escravidão.
O mesmo se pode dizer do período manufatureiro. Sobre o período da acumula-
ção primitiva, que prepara a instalação do modo de produção capitalista, assim
se refere Karl Marx ao discutir a violência que se abate tão intensamente sobre
os grupos sociais que deveriam oferecer seus braços para a futura constituição
de uma força de trabalho de novo tipo: “Os pais da atual classe operária foram
duramente castigados por terem sido reduzidos ao estado de vagabundos e pobres.
A legislação os tratou como criminosos voluntários, supondo que dependia de
seu livre-arbítrio o continuar trabalhando como no passado e como se não tivesse
sobrevindo nenhuma mudança em sua condição de existência” (MARX, 2004,
p. 47) [original: 1867].

122
seus extraordinários benefícios para a vida humana, traz em sua
gloriosa história os filhos da talidomida116.
Reconhecido isso, permanece ainda a pergunta: A violência
será necessariamente uma condição incontornável para todas as
revoluções, e por todo o sempre? Seria possível atingir, ou ao me-
nos imaginar, uma revolução pacífica? Com relação às revoluções
definíveis como “movimentos sociais”, a experiência do Chile – à
qual Peter Winn chamou de Revolução Chilena117 – parece tra-
zer o interessante exemplo de uma revolução socialista alcançada
através da vitória eleitoral. A experiência inaugurada pelo gover-
no socialista de Salvador Allende (1908-1973), como se sabe, foi
depois interrompida pela ditadura militar instaurada por Pinochet
entre 1973 e 1990, no seio da série repetida de golpes militares
promovidos ou estimulados pelos Estados Unidos contra as repú-
blicas latino-americanas.
A experiência chilena, de todo modo, faz hoje parte da his-
tória revolucionária do socialismo. No mesmo âmbito de práti-
cas históricas e de reflexões que têm tateado o mundo político em
busca de uma revolução não violenta, podemos lembrar também
a experiência e as propostas anarco-pacifistas encaminhadas por
Mahatma Gandhi (1869-1948), as quais foram conduzidas através
de um persistente movimento de luta pela independência contra
a Inglaterra. A revolução pacifista de Gandhi, por outro lado, não
deixou em nenhum momento de ser contraponteada por violências
de todos os tipos em embates que envolveram hindus, muçulma-
nos, ingleses e outros atores coletivos118.

116. A talidomida foi um medicamento sedativo desenvolvido na Alemanha em


1954, e cuja comercialização, a partir de 1957, terminou por provocar efeitos ines-
perados em muitos processos de gravidez, gerando milhares de casos de focomelia
(aproximação ou encurtamento dos membros junto ao tronco do feto). O efeito
só foi identificado em 1961, provocando a retirada imediata do medicamento no
mercado mundial.
117. Ou, ainda, “a via chilena para o socialismo” (1986).
118. Ademais, em diversas oportunidades Gandhi utilizou a greve de fome como
recurso para converter a violência – seja a violência dos ingleses contra os india-
nos, seja a violência dos indianos de diferentes religiões e castas uns contra os
outros. Ironicamente, a greve de fome também não deixa de ser uma violência
contra o próprio corpo.

123
Ainda sobre a variedade de possíveis elaborações conceituais,
lembro que dois autores podem chegar a uma “compreensão” mais
ou menos próxima e, no entanto, diferirem significativamente na
sua concepção concernente à “extensão” do conceito, uma vez que
discordem em relação a quais casos observáveis se enquadrariam
no conceito proposto. Assim, o cientista político italiano Gianfran-
co Pasquino (n. 1942), ao ser encarregado de elaborar o verbete
“revolução” para o Dicionário de Política coordenado por Norbert
Bobbio (1909-2004)119, terminou por chegar a uma compreensão
deste conceito bastante compatível com a de Hannah Arendt, uma
vez que nela combina os aspectos do movimento social, violência,
intenção de promover efetivamente mudanças profundas nas rela-
ções sociais, além do sentimento do novo120. No entanto, no exame
dos casos empíricos – isto é, na avaliação de que processos histó-
ricos daí se enquadrariam na categoria “revolução” – discorda da
afirmação de que a Revolução Americana tenha sido efetivamente
uma revolução, preferindo enxergá-la como uma “subespécie da
guerra de libertação nacional”121. Por outro lado, já admite que
a Revolução Francesa teria de fato introduzido uma mudança no
conceito de “revolução”, passando-se à fé na possibilidade da cria-
ção de uma ordem nova. Assim, apesar de uma “compreensão”
relativamente próxima ou compatível de um mesmo conceito, os
dois autores divergem no que se refere ao ajuste dos casos concre-
tos à “extensão” atribuída a este conceito.
Pode-se criticar, em muitas formulações conceituais, a arbitra-
riedade proposta por um autor para a “extensão” de um conceito,
depois de ele mesmo ter empreendido uma determinada delimita-
ção da sua compreensão. Já mencionei anteriormente a regra da

119. Pasquino, 2000, p. 1.121.


120. Além disso, incorpora implicitamente o fator da “liberdade” no mesmo sen-
tido compreendido por Arendt ao distinguir a revolução da mera luta de liberta-
ção (PASQUINO, 2000, p. 1.125). Por outro lado, Pasquino distende um pouco
mais a “compreensão” do seu acorde conceitual ao se referir à revolução como
uma “tentativa” de mudanças, e não como movimentos sociais necessariamente
bem-sucedidos. A esse respeito, menciona o subconceito de “revolução frus-
trada”. Já Arendt refere-se exclusivamente a movimentos sociais bem-sucedidos
quando busca exemplos de revoluções.
121. Pasquino, 2000, p. 1.125.

124
conversibilidade: a definição deve ser conversível ao definido122.
Também podem ser criticados os casos em que a compreensão do
conceito é construída de cima para baixo, como mero constructo
ideal, sem considerar a experiência da vida e as situações concre-
tas que deveriam inspirá-la, ou uma análise honesta da totalidade
de casos que podem dar ou não sustentação à formulação concei-
tual proposta. Em muitos casos, o conceito é construído apenas na
mente, e depois se tenta forçar os casos concretos a caberem
na sua compreensão forjada idealmente. Ou então são deixados
de fora alguns casos em detrimento de outros, sem muito critério
(novamente uma desatenção à regra da conversibilidade). É essa a
crítica que o historiador Eric Hobsbawm, em sua obra Revolucio-
nários (1973), dirige contra a formulação de Hannah Arendt para
o conceito de “revolução”:
A primeira dificuldade encontrada em Hannah Arendt
pelo historiador ou sociólogo dedicado ao estudo das
revoluções é um certo matiz metafísico e normativo do
seu pensamento, que se combina com um antiquado
idealismo filosófico, às vezes plenamente explícito. Ela
não considera suas revoluções tal qual ocorrem, mas
constrói ela própria um tipo ideal, definindo seu tema
de estudo em função deste e excluindo o que não se coa-
duna com suas especificações. Podemos observar, de
passagem, que ela exclui tudo que não esteja situado na
zona clássica da Europa Ocidental ou do Atlântico Nor-
te, pois seu livro não contém nem mesmo uma referên-
cia superficial – os exemplos surgem à mente – à China
ou a Cuba; nem poderia ter feito certas afirmações se
não tivesse refletido o mínimo sobre aqueles casos123.

122. Uma definição deve valer para todos os sujeitos e objetos que se incluem
ou se pretende incluir no âmbito de aplicação da coisa definida (a extensão do
conceito), e tão somente para esses sujeitos e objetos. Vale dizer, não pode haver
distoância entre a compreensão e a extensão de um conceito, pois esses polos de-
vem ser ajustáveis, afinados um ao outro. Mutuamente conversíveis.
123. Neste ponto, Hobsbawm insere uma nota de pé de página citando uma
passagem de Hannah Arendt: “P. ex.: ‘as revoluções sempre parecem triunfar
com surpreendente facilidade em uma etapa inicial’”. [depois disso, prossegue
Hobsbawm] “Na China? Em Cuba? No Vietnã? Na Iugoslávia do tempo da
Guerra?” (HOBSBAWM, 2015, p. 261).

125
A afinação entre compreensão e extensão, bem como a har-
monização das notas que constituem a compreensão com os traços
que podem de fato ser encontrados para o fenômeno analisado nos
casos que emergem da experiência e da vida – sem exclusões in-
justificadas – é uma questão de primeiro plano para uma adequada
formulação conceitual.
Esses exemplos, entre tantos outros que poderiam ser referi-
dos, são suficientes para mostrar que, ao procurar precisar os con-
ceitos que irá utilizar, o estudioso ou pesquisador pode ter diante
de si uma gama relativamente ampla de alternativas. É essa va-
riedade de possibilidades – verdadeira luta de sentidos diversos
que se estabelece no interior de uma única palavra – o que torna
desejável uma delimitação bastante clara do uso ou dos usos que
o autor pretende atribuir a uma determinada expressão-chave de
seu trabalho.

126
22
Mais um acorde conceitual
de revolução

Quero finalizar esta parte com a elaboração de mais um acor-


de conceitual de revolução, ou com algumas adaptações nas com-
preensões anteriores com vistas a um escopo mais amplo. Penso
na possibilidade de encontrar uma compreensão para esse con-
ceito que implique uma extensão que abarque tanto aos exemplos
conhecidos de “revoluções político-sociais” (movimentos sociais
como a Revolução Francesa, Revolução Russa, Revolução Cuba-
na, e muitas outras), como também os exemplos de “revoluções
transversais” – sendo estas últimas definíveis como aquelas que
se referem à humanidade como um todo, e não apenas a socieda-
des específicas enquadradas no âmbito territorial de certos paí-
ses. Dentre as revoluções transversais, conforme já foi pontuado
anteriormente, destacam-se em primeiro plano aquelas grandes
revoluções transversais cuja eclosão e consolidação demarcaram
novas eras na história da humanidade: a Revolução Agrícola, Re-
volução Urbana, Revolução Industrial, Revolução Digital. O que
virá ainda? A “Revolução Estrelar”, que lançará a humanidade na
aventura cósmica, a partir da possibilidade técnica da viagem a
outros mundos, e que nesse movimento instituirá um modelo ra-
dicalmente novo para a vida humana? A Revolução Recriadora,
uma espécie de “revolução revolutiva” através da qual os seres
humanos não mais apenas interferirão na natureza, mas mesmo
a recriarão através da manipulação genética? Que novos eventos
nos alçarão a novos patamares revolucionários? A robótica avan-
çada, as viagens através do tempo, o teletransporte?
Entrementes, não de menos importância e de resto também
incluíveis entre as revoluções transversais, teríamos ainda as re-
voluções que se referem mais propriamente a campos específicos
da atividade humana: a arte, a ciência, o comportamento (o sexo,
p. ex., ou a relação entre os gêneros). Poderíamos falar, assim, nas
revoluções artísticas, nas revoluções científicas, na Revolução Se-
xual, como também se fala por vezes em uma revolução comercial
ocorrida no entremeado da fase final da Idade Média e da primeira
fase da Idade Moderna.
Pensemos em todo esse grande conjunto de revoluções, à prin-
cípio cindido em duas metades: o eixo agrupador das revoluções
relacionadas aos movimentos sociais, e o eixo correspondente às
revoluções transversais. O que une, em termos de notas que possam
compor uma compreensão conceitual, a todas essas revoluções?
Que acorde podemos propor, com base no que vimos até aqui?
Em primeiro lugar as revoluções apresentam, em todos os
casos, uma grande e surpreendente “rapidez processual” [1]. As
revoluções correspondem a processos que se desenvolvem muito
rapidamente em relação a um certo padrão ou ritmo preexisten-
te. Conforme já vimos, a rapidez precisa ser compreendida como
um componente relativo ao enquadramento que se tem em vista.
A década que, em um piscar de olhos da história, estabeleceu a
Revolução Digital (anos de 1990) foi de certa forma tão rápida na
sua capacidade transformadora como os quatro ágeis milênios de
Revolução Agrícola que mudaram a face de um modelo de mundo
pré-histórico que já perdurava há dois milhões de anos de existên-
cia humana ou proto-humana. A “rapidez processual” é típica tan-
to dos movimentos sociais que podem efetivamente ser chamados
de revolucionários, como das revoluções transversais que têm mu-
dado em diversas oportunidade, a face de todo o mundo humano.
Sobre a extraordinária rapidez com que ocorrem as revolu-
ções, pode-se acrescentar ainda que ela faz com que os movimen-
tos e processos revolucionários pareçam verdadeiros “saltos” aos
olhos dos seus contemporâneos, ou mesmo aos historiadores que
as examinam retroativamente. Nesse aspecto em particular, as re-
voluções contrapõem-se às evoluções, pois essas últimas, ainda

128
Compreensão

Poten
terno cial
e n to in em
ble
lo ram Exten má
Af sivi ti c
o da d o
do nov
ncia Inten e
nsciê sida
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Destruição
R
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ca
R tiv

a
Revolução Revolução
Francesa Agrícola
Extensão
Revolução
Mexicana
Revolução
Revolução Urbana
Russa
Revolução
Revolução Outras... Industrial
Chinesa
Revoluções Revolução
Revolução Digital
Cubana artísticas

Revoluções
científicas

Revoluções
comportamentais

129
que igualmente transformadoras, em geral parecem lentas, gra-
duais, progressivas (ou regressivas, se estivermos diante das in-
voluções). Exemplo clássico é a evolução das espécies animais e
vegetais, ou a própria evolução do corpo humano.
Além da rapidez processual, para que se tenha uma revolução
é preciso que seja identificável uma “persistência significativa”
[2]. Uma revolução político-social que é logo debelada, não era
uma revolução – ou não chegou a se converter em uma revo-
lução – mas constituiu, sim, uma revolta, rebelião, conjuração ou
inconfidência. Vamos supor, para já nos referirmos a um exemplo
de revolução transversal, que a Revolução Industrial pudesse ter
sido interrompida pelo efêmero movimento luddista, que foi uma
rebelião contra a mecanização do trabalho proporcionada pelo pro-
cesso de industrialização124. Caso tal situação possa ser imaginada,
a Revolução Industrial teria sido efêmera e logo retroagido, e hoje
não passaria de um caminho não percorrido na história. Não nos
referiríamos a ela, hoje, como uma “revolução”. Uma revolução,
já consolidada, precisa se estabelecer durante um período signi-
ficativo para ser digna desse nome. Se esse período significativo
deve ser o de alguns anos ou décadas, para o caso dos movimen-
tos sociais, ou de décadas ou séculos, para o caso das revoluções
transversais, essa é uma questão a ser meditada para cada caso.
Geralmente esse período significativo no qual persiste uma re-
volução (ou os seus resultados) torna-se um fator importante para
que a revolução deixe suas marcas para a posteridade. A Revolu-
ção Russa (1917) a deixou, assim como a Revolução Mexicana
(1910), para não falar da Revolução Francesa (1879), marco inicial
das revoluções modernas125. Quanto às revoluções transversais que

124. O luddismo eclode na Inglaterra em 1811, e tem seu nome derivado de Nedd
Ludd, um personagem que passa a ser evocado como símbolo do movimento de des-
truição das máquinas e cujo nome costumava aparecer nos manifestos dos luddistas.
125. Infelizmente, a revolução anarquista, ou a quase-revolução anarquista que
recobriu grandes regiões da Espanha durante a Guerra Civil Espanhola (1936-
1939), não apresentou essa persistência significativa, de modo que não é lembrada
habitualmente como uma revolução, apesar das mudanças radicais que persistiram
por algum tempo em termos de coletivização, autogestão.

130
abrem novas eras na história humana em geral, essas parecem per-
durar sequencialmente e entram umas por dentro das outras, como
se estivéssemos diante de uma grande polifonia de processos his-
tóricos. Nesses casos, uma revolução não parece cancelar a outra
(não se substitui à outra) e sim a incorpora. Assim, pelo menos, pa-
rece ter acontecido com relação às grandes revoluções transversais
até hoje conhecidas.
A melodia iniciada pela Revolução Agrícola seguiu adiante
quando começou a ressoar a melodia da Revolução Urbana, e as
duas prosseguem quando a elas se junta a ruidosa melodia inau-
gurada pela Revolução Industrial. Mais recentemente, assoma-se
à história humana esse novo contracanto que é o da Revolução
Digital. Essas melodias podem se interromper um dia. Uma guerra
atômica poderia acabar com elas e devolver a humanidade à Idade
da Pedra. Ou seria possível imaginar o silenciamento de uma ou
outra das melodias que hoje caminham juntas. O homem poderia
deixar de viver em cidades, encerrando a melodia iniciada com a
Revolução Urbana, ou um novo luddismo poderia impor o aban-
dono radical do industrialismo. De todo modo, cada uma dessas
grandes revoluções transversais já está na história.
As revoluções – sejam os movimentos sociais revolucioná-
rios, sejam as revoluções transversais, também produzem ne-
cessariamente “rupturas” [3]. Com elas, uma certa sociedade, ou
o mundo inteiro, assume uma nova face. Uma ruptura, por outro
lado, pode ser decomposta em dois movimentos – duas notas que
mantém uma íntima relação intervalar. Poderíamos dizer que as
revoluções comportam necessariamente “destruição” e “constru-
ção do novo”126.
Com relação ao primeiro gesto – o que se dirige à destruição
ou dissolução de uma situação preexistente – já discutimos a re-
corrência da “violência” nas revoluções mais conhecidas, sejam os
movimentos sociais ou as revoluções transversais. Mas também já

126. E não a “reconstrução”, o que implicaria construir de novo o que foi des-
truído, ou tampouco a “renovação”, que equivaleria a fazer com que algo fique
novamente novo.

131
nos perguntamos se a violência sempre seria necessária às revo-
luções, ou se seria possível conceber uma revolução que descons-
truísse o mundo anterior pacificamente ou sem provocar maiores
lesões ou situações traumáticas.
Gostaria de encontrar uma expressão mais abrangente que
abarcasse três possibilidades distintas, as quais costumam apare-
cer nas revoluções de modo combinado ou não necessariamente
todas juntas: a presença de violência, a destruição, e a descons-
trução (que é uma destruição mais sutil, sem violência). Como
não encontro tal palavra, e considerando que todos os exemplos
históricos até hoje conhecidos de revolução comportaram algum
índice e manifestações de “violência”, vou considerar que esse é
um componente de acorde conceitual de “revolução” [4]. Isso po-
derá mudar um dia.
Podemos considerar que as revoluções geram violência por
duas vias. Uma vez que as revoluções são momentos em que se
defrontam radicalmente o antigo e o novo, ocorre violência tanto
por parte das forças conservadoras ou reacionárias que se empe-
nham em conservar a todo o custo as coisas como já estavam,
como por parte daqueles que se esforçam para empurrar a linha do
horizonte em direção ao novo mundo que se enuncia. Em um belo
poema sobre a violência, já dizia Bertold Brecht, referindo-se me-
taforicamente ao movimento revolucionário em direção ao novo:
Do rio que a tudo arrasta
Dizem que é violento
Mas ninguém chama de violentas
As margens que o comprimem
BRECHT, B. Da violência.

A recorrência de violência nas revoluções pode ser entendi-


da, em sua complexidade dual, se considerarmos que há violência
tanto das margens que desejam conter o rio como das águas que,
impetuosas, impulsionam-se para frente de modo a realizar o seu
destino. Como já se discutiu, a violência não aparece apenas nas
revoluções que se referem a movimentos sociais, mas também
nas revoluções transversais que mudam radicalmente os modos
de vida, a ponto de se impor, nos casos clássicos, a impressão de

132
que toda uma era está se substituindo à outra. Como já foi aventa-
do, uma sociedade não passa impunemente do mundo coletor ao
planeta agrícola, ou daí para o mundo das civilizações anco-
radas nas cidades. Quando as máquinas irrompem na Europa
do novo regime com o cenário da sociedade industrial, há inú-
meros desadaptados, cooptados e violentados, há insatisfeitos
à esquerda e à direita, acima e abaixo. Há desapropriação e
fome. Há carneiros devorando homens. A Revolução Digital,
se admitirmos o conceito, deixa atrás de si gerações de analfa-
betos virtuais. Para muitos, cada um desses processos é doloroso,
incômodo, às vezes aterrorizante.
Desse modo, pode-se perceber que a violência é recorrente
tanto nas revoluções transversais como nos movimentos sociais,
e parece se articular a um movimento em direção ao novo. Esse
aspecto estabelece uma ligação (um intervalo) entre a violência
e a instituição do novo. Existe, por outro lado, uma violência ne-
gativa, que oprime o já oprimido, sem contar as violências que se
abatem desnecessariamente sobre as vidas individuais de muitos.
A violência das revoluções (ou que emerge nas revoluções) só
adquire seu sentido positivo quando é necessária e faz uma me-
diação entre o velho a ser destruído e o novo a ser construído.
Musicalmente falando, temos aqui uma tríade: destruição, violên-
cia, construção. A violência, ao se ver mergulhada nessa tríade, e
ao adquirir um novo sentido através dela, é a violência das águas
do rio que corre para realizar o seu destino. Mas há também a
violência petrificada das margens e a violência circunstancial dos
galhos que se entrechocam ao serem carregados pela impetuosi-
dade dos acontecimentos. Entretanto, essas não fazem parte do
nosso acorde.
O passo seguinte – mas na verdade simultâneo – é a com-
preensão de que, ao estabelecer uma construção nova, as revo-
luções implicam necessariamente mudanças radicais [5]. A des-
truição (ou desconstrução) e a construção do novo (a mudança
radical) dão-se as mãos para produzir uma ruptura. A mera des-
truição, sem a concomitante construção do novo, não permitiria
que se falasse em revolução. A mudança radical, ademais, vem

133
acompanhada nas revoluções de uma “consciência do novo” [6] e
de um ato coletivo de liberdade [7] que institui esse novo. Já fala-
mos desses dois fatores, e também do coroamento final do acorde,
que é aquele “potencial emblemático” [8] que transforma todas as
revoluções em inspirações para as gerações posteriores e para os
tempos futuros.
As revoluções, ademais, são sempre intensas, e têm a capaci-
dade de cindir as sociedades em relação a elas, de modo que em
alguns indivíduos provocam o entusiasmo, e em outros o pânico ou
a rejeição extremada [9]. Mesmo o filósofo alemão Immanuel Kant
(1724-1804), que de maneira geral sustentava uma posição conser-
vadora em relação a um “direito de resistência” do povo aos gover-
nos instituídos, não deixou de se dobrar a um forte entusiasmo em
relação à Revolução Francesa127. Há algo nas revoluções que pro-
voca adesões (em maior quantidade) ou rejeições, tanto nos atores
internos quanto nos observadores externos. Diante dos autênticos
processos revolucionários, as posições neutras parecem se redu-
zir significativamente. Mais tarde, as mesmas revoluções que um
dia provocaram entusiasmo ou repulsa nos seus contemporâneos,
continuará a dividir os olhares que a examinam de algum lugar no
seu futuro histórico. As revoluções, definitivamente, são intensas e
produzem recepções intensas. Essa nota articula-se, no acorde, ao
potencial emblemático de toda revolução que um dia será lembrada
como tal. A “intensidade” e o “potencial emblemático” constituem
juntos um expressivo “intervalo” do acorde conceitual de “revolu-
ção”, de acordo com a perspectiva que aqui proponho.
Uma nota adicional faz aqui a sua entrada em cena, ao lado
da já discutida intensidade revolucionária. O intensivo, nas revo-
luções, interage sempre com o extensivo. Dito de outro modo, as

127. “[Esta revolução] encontra no espírito de todos os espectadores (que não


estão eles mesmos envolvidos no jogo) uma simpatia de aspirações que beira o en-
tusiasmo – cuja manifestação seria mesmo perigosa – a qual não poderia ter outra
causa que não uma disposição moral do gênero humano” (KANT, 1963, p. 101)
[original: 1798]. De modo geral, a Revolução Francesa despertou entusiasmo nos
intelectuais alemães que foram seus contemporâneos, embora também tenha ocorrido
um certo recuo dessa posição diante dos acontecimentos relativos ao terror.

134
revoluções sempre apresentam uma expressiva “extensividade”
[10]. Com isso, quero dizer que as revoluções – sejam os movi-
mentos sociais, sejam as revoluções transversais – precisam apre-
sentar um impacto e um fazer-se extensivos, relativos a uma par-
cela realmente ampla da população, para que de fato possam ser
chamadas legitimamente de revoluções.
Nas revoluções, o sujeito – aquele que as encaminha e que
as assimila efetivamente – é necessariamente um extenso sujeito
coletivo. Daí se diz que as revoluções são efetivamente populares.
Isso diferencia as revoluções sociais, mais uma vez, dos “golpes
de Estado”. As ações realmente decisórias e decisivas relacionadas
à instituição e montagem dos golpes de Estado costumam circular
apenas no seio de um grupo relativamente reduzido de pessoas,
as quais controlam as forças armadas e certas posições políticas e
econômicas. Um ator coletivo nada extenso, ou uma pequena con-
figuração de atores, está sempre por trás dos golpes de Estado –
ainda que, para muito além desse pequeno grupo que se impõe pela
força, seja inevitável que o nefasto efeito do tal golpe termine por
afetar generalizadamente a vida de uma sociedade. Nos processos
realmente revolucionários, ao contrário, não se vai além do mero
golpe ou da tomada de poder circunstancial a não ser que o ator
coletivo extenso esteja realmente atuando.
Quero dar o exemplo das revoluções transversais, com relação
às quais essa extensividade nem sempre é imediatamente evidente.
A recente Revolução Digital não se iniciou propriamente quan-
do a tecnologia digital avançou extraordinariamente nem quando
foram criados os sistemas que preconizaram a internet, mas que
então se mantiveram circunscritos aos usos militares e científicos
mais restritos (fins dos anos de 1960). A verdadeira Revolução
Digital se iniciou nos anos de 1990, quando a rede mundial de
computadores foi apropriada pelo grande ator coletivo: quando a
população mais ampla passou a se beneficiar dos novos meios de
comunicação, das novas linguagens e dos novos usos da tecnolo-
gia. A Revolução Digital ocorreu quando a sociedade se tornou di-
gital, assim como a Revolução Agrícola se instituiu efetivamente
quando a agricultura se espalhou generalizadamente pelo mundo,

135
quando se estabeleceu um movimento impetuoso e irreversível
nessa direção inédita.
Pode-se acrescentar, por fim, que as revoluções são sempre
processos internos [11], desenvolvidos no seio das sociedades es-
pecíficas como resposta a determinadas demandas (no caso das
revoluções nacionais), ou que afloram no âmbito mais amplo da
vida humana (para o caso das revoluções transversais). As revo-
luções não podem ser trazidas de fora. Elas são sempre internas,
vêm do âmago do mundo que subitamente se vê revolucionado.
Esse, para tomar de empréstimo mais uma metáfora musical, é o
seu “harmônico” oculto: a nota secreta que se esconde sutilmente
no coração de toda revolução128.
As revoluções não podem ser concedidas, devem ser conquis-
tadas. O grau e a modalidade de envolvimento de cada um dos di-
versos grupos sociais em relação às revoluções que eles vivenciam
ou vivenciaram (neste último caso através de uma memória que
não cessa de ser reconstruída) parece conferir a cada revolução
uma cor própria. A revolução não pode ser imposta, ela não cai
sobre uma sociedade ou sobre o mundo humano como um raio
vindo de qualquer céu, ou oferecido por algum deus. Pode uma
revolução inspirar uma outra ou muitas outras, mas elas necessa-
riamente devem aflorar mais uma vez no seio das sociedades que
as engendrarão.

128. Os harmônicos podem ser entendidos como sons que se escondem dentro
dos sons. Acusticamente falando, qualquer som emitido isoladamente por um ins-
trumento, como uma nota musical da escala de dó maior, p. ex., corresponde na
verdade a um complexo emaranhado de ondas sonoras, embora o ouvinte humano
só perceba como “altura” a onda mais grave (de frequência mais baixa). Embora
não possam ser percebidos pelo ouvido comum sob a forma de notas musicais,
os harmônicos contribuem decisivamente para a definição do timbre de um ins-
trumento. O mesmo dó-3 pode ser tocado por um piano, por um clarinete, ou por
um violino, mas serão percebidos como sons de qualidades (timbres) diferentes.

136
Parte IV

Os conceitos na História

É impossível entrar em um rio duas vezes


porque tu mesmo já serás outro
e outras serão as águas que nele corre.
HERÁCLITO DE ÉFESO. Fragmento.
23
Singularidades da História
Um texto desdobrado sobre si mesmo

A História, entre todas as ciências humanas – e na verdade


entre todas as ciências – constitui um caso realmente particular no
que se refere ao seu uso dos conceitos. Somente ela, por tratar com
duas temporalidades distintas – a época do próprio historiador, e a
época diferenciada à qual se refere o objeto de estudo ou processo
examinado – apresenta uma complexa questão a ser examinada: a
concomitância de dois níveis distintos de conceitos que devem ser
considerados pelo historiador. Vejamos esse problema de perto.
Vamos entender, antes de mais nada, a especificidade do texto
de história frente a todos os demais gêneros de texto – e, de certo
modo, a especificidade dessa disciplina que é a História frente às
outras, inclusive no âmbito das ciências humanas. Suponhamos
que temos em uma das mãos o texto de um filósofo, e na outra
o texto de um historiador. Melhor dizendo, imaginemos que está
em uma das minhas mãos um texto filosófico (mesmo que não
necessariamente escrito por um filósofo de formação); e, na outra,
um texto historiográfico (ainda que não obrigatoriamente escrito
por um historiador de formação). Seria possível reconhecer, sem
nos ser revelada a autoria de cada texto, qual é o texto filosófico?
(Escrito por um filósofo, ou por alguém que, naquele momento,
está escrevendo filosofia.) Seria possível reconhecer qual é o texto
do historiador? Oportunamente, poderemos fazer também o exer-
cício de comparar o texto de um antropólogo, de um psicólogo ou
de um sociólogo com o texto de um historiador. Por ora, fiquemos
por aqui. A tarefa já é suficientemente densa.
Um filósofo típico, ao menos na maioria dos seus textos, cos-
tuma estabelecer um longo diálogo consigo mesmo. Seus textos,
inclusive, podem ser autorreferentes. Eventualmente, o filósofo
pode citar outros filósofos, ou ainda pensadores ligados a outros
campos de estudos. Pode também ser mesmo parte do seu estilo
o constante diálogo com outros autores. Não obstante, isso costu-
ma ser raro, e de maneira nenhuma é a regra sine qua non entre
os autores de filosofia129. O filósofo pode citar outros autores, ou
dialogar com eles, mas não tem efetivamente nenhuma obrigação
disso. Os seus companheiros de ofício, os outros filósofos, jamais
o repreenderiam por não estabelecer explicitamente diálogos in-
tertextuais com outros autores. O leitor comum de filosofia – o
leigo ou o mais especializado – também não espera isso dele.
Podemos percorrer as setecentas páginas de O ser e o nada
(1943), de Jean-Paul Sartre (1905-1980), e apenas encontrar um
instigante e fascinante monólogo direto no qual esse filósofo fran-
cês discute uma ou mais questões principais consigo mesmo, even-
tualmente entremeando na sua trama textual perguntas às quais ele
mesmo responde. Não são citados, de modo geral, outros autores,
e tampouco são transcritos ou parafraseados outros discursos ou
fragmentos de discursos (passagens de outros textos). Raramente
nos deparamos com uma nota de pé de página. O texto é extraor-
dinariamente rico de reflexões e temáticas, e dá-se ao direito de
dar voltas.
Quando lemos o texto de um filósofo típico, somos impacta-
dos por um impressionante exercício de livre-pensar – embora,
em muitos desses filósofos, um livre-pensar sistemático, pesando
cada palavra ou expressão, perseguindo a fundo o objeto de sua
reflexão. O filósofo não parece de modo nenhum se constranger
diante das regras de um ofício; não persegue obsessivamente um
conjunto de procedimentos e trâmites que o obrigam a determina-
do estilo formal (ele deve encontrar o seu próprio, talvez um estilo
único e inconfundível).

129. Encontra-se nesse caso mais excepcional o estilo do filósofo francês Paul
Ricoeur (1913-2005), muito familiar aos historiadores.

140
Quão distantes estamos, quando temos à mão o texto de um
filósofo, dos textos mais típicos dos historiadores. O historiador
jamais parece realizar um monólogo, em todos os sentidos que
possa ter a palavra. Seu texto se mostra sempre desdobrado sobre
si mesmo. O historiador costuma frequentemente dialogar com os
outros historiadores, e também com cientistas sociais e humanos,
de modo geral. Seu texto, aliás, é frequentemente atravessado por
notas de pé de página, através das quais faz remissões de diversos
tipos a outros autores, presta esclarecimentos adicionais, e, sobre-
tudo, indica as referências rigorosas de suas fontes. Principalmen-
te, o texto do historiador desdobra-se sobre textos de uma outra
época (aquela que inscreve o seu objeto de estudo).
O historiador não se vê apenas tentado, mas instado, ou mes-
mo obrigado, a trazer para diante dos olhos do leitor os discursos
de um outro tempo, seja sob a forma de discurso direto entre aspas,
seja reorganizado-o em forma de paráfrases130. O que ocorre é que
o historiador precisa dar voz efetiva aos personagens históricos
que constituem a sua trama. Ele os analisa, mas concomitante-
mente permite que eles falem, às vezes nos seus próprios termos.
É isso o que queremos dizer quando ressaltamos que o texto do
historiador “desdobra-se sobre si mesmo”, para tomar de emprés-
timo essa expressão de Michel de Certeau (1925-1986) sobre A
operação historiográfica (1974).
Se abro o texto de um historiador e não encontro citações de
fontes, bem como remissões a outros autores que se convoca em
apoio das teses historiográficas propostas (ou contra elas), des-
confio. Se não encontro notas, estranho. Se não acho indicados,
rigorosamente, os caminhos que levam às fontes – as referências
do arquivo se for o caso, as edições das fontes que estão publi-
cadas, ou a indicação rigorosa das dimensões, técnicas empre-
gadas e localização das fontes iconográficas, para o caso desse

130. Estaremos aqui entendendo a paráfrase como a prática de reapresentar as


ideias de um texto de novas maneiras, ao contrário da transcrição, que reproduz
diretamente passagens do texto apropriado. Tanto um processo como o outro, para
o caso dos textos científicos, envolvem a citação da autoria ou as referências do
texto abordado.

141
tipo de documentação – passo a suspeitar de que não estou diante
do texto de um historiador, ou pelo menos de que não tenho nas
mãos um texto propriamente historiográfico, mesmo que ele trate
diretamente de história. Sobretudo, quero encontrar nesse texto as
marcas do tempo. Após um nome próprio, costuma vir entre parên-
teses uma data de nascimento, e outra de morte (se houver). Não
por prazer mórbido de alguma espécie, mas simplesmente porque,
através dessas operações e de muitas outras, um ser humano é en-
quadrado em seu tempo, em um contexto histórico bem-definido,
em uma época ou lugar-tempo que o singulariza. Também os li-
vros dificilmente são citados por um historiador sem a aposição da
data do seu original entre parênteses. Para o historiador, toda obra
tem um lugar e um tempo que deve ser anunciado ao leitor, o que
não ocorre necessariamente nos textos dos filósofos.
O principal, para a questão de que tratamos, é que espero ver
o discurso do “outro” no discurso do historiador. Imbricado nele,
isolado entre aspas, parafraseado, em estrutura dialógica – ou pre-
sente através de mil outras operações possíveis – espero encontrar
incontornavelmente o “discurso do outro”. O historiador – por
analisar um objeto ou um processo que se encontra em outra épo-
ca, apartada da sua – precisa trazer em seu texto aquilo que torna
viva essa época, que permite reapresentá-la quando ela não está
mais presente (representá-la, literalmente).
O discurso do outro precisa estar contido ou referido no pró-
prio texto do historiador, já que ele irá analisá-lo sistematicamen-
te. Importa certamente o que o historiador pensa. Mas também
importa o que pensa o “outro” (o “outro histórico”, multipartido
em seus vários personagens). Importa, ainda, o que o historiador
pensa a respeito do que o outro pensa. O texto do historiador é
explicitamente dialógico.
Pode-se dizer que o historiador, distintamente do filósofo, está
como que suspenso entre duas épocas. Ele alternadamente sobe a
uma e desce à outra, com a rapidez da escrita. Essas duas épo-
cas – a sua própria, de historiador, e a do processo histórico exa-
minado, nomeadamente a das fontes e do objeto em estudo – têm
cada qual a sua linguagem, o seu conjunto de feixes discursivos. É

142
aqui que chegamos ao nosso ponto. Podem as duas serem a mes-
ma linguagem na aparência mais imediata, se considerarmos que
o idioma do historiador é o mesmo idioma das fontes escritas, e
que as palavras empregadas pelo historiador e pelas fontes sejam
literalmente as mesmas. Mas, sim, são duas linguagens. Essa é a
raiz da questão a ser abordada.

143
24
Dois níveis de conceitos

A dupla natureza do texto historiográfico – um tipo de texto


que é construído a partir do entremeado de dois feixes de discur-
sos, e que se desdobra a todo o momento sobre si mesmo – será o
fator primordial para abordarmos o uso dos conceitos em História
e compreendermos a sua especificidade frente ao uso de conceitos
em outros campos de saber.
Conforme vimos no último capítulo, a História é a única ciên-
cia cujo objeto se acha diretamente mergulhado em um outro tem-
po, o qual já desapareceu e apenas deixou sinais visíveis de sua
passagem através das fontes históricas, dos vestígios e discursos
que nos chegam do passado131. Por isso o historiador, que tem a
tarefa de analisar e trazer ao leitor esse feixe de discursos diversos
que lhe chegam mediadamente do passado, precisa incorporá-los
de alguma maneira, torná-los visíveis ou perceptíveis para o leitor
como uma alteridade discursiva que é sua missão analisar. Esses
textos das fontes históricas, os quais se apresentam ao historiador
de várias maneiras, são escritos em uma outra linguagem ou diale-
to discursivo que não os do historiador. Ou, pelo menos, são textos
que apresentam um outro lugar-momento da mesma linguagem
que ele, historiador, utiliza.

131. É evidente que, no interior de campos de saber como a Sociologia, Antro-


pologia, Linguística e outras ciências humanas, teremos também subcampos que
também estão mergulhados na intertextualidade com a História e seus procedi-
mentos. A sociologia histórica, a antropologia histórica, a linguística histórica,
a história da Educação, a história do Direito devem ser, para a nossa discussão,
considerados a parte, como História, mesmo.
A linguagem das fontes é por vezes traiçoeira: ela se utiliza
amplamente das mesmas palavras das quais hoje o historiador uti-
liza. Mas essas palavras, ancoradas em uma outra época, podiam
ter então outros significados, outros usos, outras entonações, ou-
tros modos de terem sido um dia percebidas pelos seus ouvintes e
leitores. É preciso decifrar a linguagem da fonte quase como essa
se fosse, metaforicamente, uma língua estrangeira.
Anteciparei aqui uma questão. As palavras (e também os con-
ceitos) têm uma história. Com a passagem do tempo, elas podem
mudar de sentidos, adquirir novas nuanças ou mesmo receber
significados totalmente distintos. É claro que, na sua maior parte,
as palavras não mudarão tanto assim no interior de uma mesma
língua, de modo que é possível a qualquer indivíduo ler um tex-
to de outra época em sua língua e compreendê-lo sem grandes
tropeços e de modo mais geral. Mas é significativo e relevante o
potencial de mudança de algumas palavras.
Um exemplo clássico é o da palavra “papa”. Nos dias de hoje,
qualquer indivíduo do planeta familiarizado com o mundo ociden-
tal, com a história mundial, ou com os noticiários internacionais –
mesmo que não seja cristão e que viva na China ou na Índia – não
terá dificuldades em responder a uma pergunta sobre o significado
dessa palavra. Todos dirão que o papa é o “líder máximo da Igreja
Católica”, o representante institucional maior do catolicismo, o lí-
der espiritual dos que professam a religião católica, ou algo assim.
No entanto, a palavra “papa” só passou a ser atribuída ao sumo
pontífice da Igreja Católica a partir de certo momento. Data do sé-
culo IX d.C. a tendência a utilizar tal palavra exclusivamente para
designar o chefe maior da Igreja Católica em Roma. No século X,
radicalizando-se esse processo, a designação “papa” já passara a
ser utilizada exclusivamente para esse fim.
Suponhamos, entrementes, que estou abordando como fonte
histórica um texto do século VI d.C., e que lá encontro, em certa
passagem, a palavra “papa”. Ao tomar essa palavra pelo sentido que
tem hoje, cometo o que os historiadores chamam de “anacronismo”.
A expressão “anacronismo”, ou “anacrônico” (“fora do tem-
po”), é empregada quando ocorre a utilização estranha ou inade-

145
quada de algo – em nosso caso de uma palavra – quando importa-
da de um para o outro tempo. Essa inadequação anacrônica pode
ocorrer de duas maneiras inversas. Em um caso, pode ocorrer o
anacronismo “de ontem para hoje”. É o que ocorre quando lemos
um texto de outra época e, de modo inaceitável, atribuímos a certa
palavra um sentido que ela não tem hoje, comprometendo toda a
interpretação do texto. Em outro caso, pode ocorrer o anacronismo
“de hoje para ontem”. É o que se verifica quando, ao tentar anali-
sar um texto ou processo histórico do passado, ou ao tentar descre-
ver cenas e acontecimentos históricos, utilizo uma palavra de hoje
(que não existia naquela época) e o resultado é catastrófico, pro-
duzindo incontornáveis estranhamentos e drásticas deformações.
É importante já antecipar que frequentemente encontramos
palavras de hoje (e que não existiam em outra época) e que fun-
cionam perfeitamente bem para descrever uma situação em um
passado histórico. Ou seja, o uso de uma palavra de hoje para ana-
lisar o passado não produz necessariamente anacronismo. Pode
produzir, mas pode também não produzir. Mais adiante, darei al-
guns exemplos de conceitos ou de usos inadequados de palavras
que produzem anacronismo, e outros que não produzem. Por ora,
não quero ainda abordar o problema dos conceitos, mas apenas o
das palavras comuns.
Por exemplo, o personagem histórico que é conhecido como
Papa Gregório I (540-604 d.C.), ou ainda pela alcunha de Gregó-
rio Magno132, não era na verdade chamado de papa na época, uma
vez que, conforme vimos, a palavra “papa” não era então usada
exclusivamente para designar os pontífices romanos. No entanto, é
perfeitamente admissível utilizar a palavra “papa”, com o sentido
de hoje, para designar os líderes da Igreja Católica em uma época
em que a palavra papa ainda não tinha esse sentido. Essa opera-
ção, por alguma razão, não provoca anacronismo. Ou melhor, tan-
to não é produzido nenhum desconforto ou estranhamento quando
se houve um antigo bispo de Roma ser chamado de “papa” nos

132. Papa entre 590 e 604 d.C.

146
livros de História, como não parece haver nenhuma deformação
da história nesse uso.
Entretanto, soa bem estranho usar a palavra “guerrilheiro” –
muito familiar nos dias de hoje – para designar indivíduos perten-
centes a seitas beligerantes do passado distante que praticavam
a tocaia, a sabotagem e outras formas de luta contra um poder
estabelecido. Não há muita explicação sobre por que algumas pa-
lavras dão certo e outras não; isto é, sobre porque algumas das
palavras de hoje – ao serem usadas para nos referirmos a outras
sociedades históricas – parecem produzir de imediato a inadequa-
ção anacrônica, e outras não. O historiador precisa desenvolver
um feeling para o correto uso de palavras de um tempo em outro.
Não há uma receita para isso.
Por ora, quero retornar à questão dos conceitos. O historiador
alemão Reinhart Koselleck (1923-2006), especialista em História
dos Conceitos (e, na verdade, um dos fundadores desse campo
historiográfico), dizia que o historiador trabalha com dois níveis de
conceitos. O primeiro nível – que aqui chamaremos de “nível 1” – é
o nível no qual se encontram os conceitos oriundos da própria co-
munidade científica na qual se inscreve o próprio historiador. Va-
mos entender esse nível como a época conceitual do historiador,
mas deve ficar claro que aqui estarão todos os conceitos que são
utilizados atualmente como um repertório vivo de possibilidades
pelos historiadores e cientistas sociais, mesmo que esses conceitos
venham eventualmente de outros séculos mais recentes (ou mes-
mo mais distantes).
Por exemplo, “modo de produção” é um conceito que remon-
ta a Karl Marx e Friedrich Engels em meados do século XIX, e
o mesmo se pode dizer do conceito de “ideologia”, que não foi
propriamente um conceito cunhado pelos dois fundadores do ma-
terialismo histórico, mas que com eles adquire sentidos especiais.
Passados 170 anos da publicação da célebre obra A ideologia
alemã (1946), escrita conjuntamente por Marx e Engels – bem
como de outras obras nas quais esses autores propuseram um certo
número de sentidos para os conceitos de “modo de produção” e
de “ideologia” – estes conceitos seguem sendo amplamente uti-

147
lizados por cientistas sociais e humanos de hoje. Se utilizam-nos
como conceitos atuais, é porque os nossos autores contemporâ-
neos consideram que esses conceitos funcionam bem nas análises
em geral, ao menos no interior de uma certa perspectiva teórica
que é a do materialismo histórico. Modo de produção e ideologia,
embora conceitos cunhados no século XIX, podem ser por isso
considerados conceitos atuais, sendo muito utilizados em pleno
século XXI. A compreensão desses conceitos pode variar um pou-
co, ou mesmo mais significativamente de autor a autor, e autores
diversos podem ter proposto novas discussões em torno dessas
formulações conceituais, mas essas expressões verbais – e ainda
mais especificamente os conceitos que elas encaminham – seguem
vigorosas como parte do repertório de possibilidades expressivas
dos cientistas sociais e humanos.
Também não é raro que um cientista político utilize em suas
digressões teóricas conceitos de Nicolau Maquiavel (1469-1527),
não necessariamente todos, que funcionem bem como instrumen-
tos de análise nos dias de hoje. Esses conceitos, para nossa presen-
te discussão – conceitos que estão em pleno uso pelos historiadores
e cientistas sociais de hoje, mesmo que originários de outras épocas
ou que sejam da lavra de autores já falecidos – devem ser compreen-
didos como conceitos produzidos pela grande comunidade contem-
porânea de historiadores e cientistas sociais. Para nossa discussão,
também esses conceitos devem ser considerados atuais.
Um dos níveis de conceitos ao qual se refere o historiador
alemão Reinhart Koselleck, desse modo, é o dos conceitos que
nos dias de hoje são instrumentalizados pelos historiadores. Entre-
mentes, existe o outro nível. Esse é o que está ancorado no univer-
so das fontes e do processo histórico examinado (os conceitos de
época, p. ex., os quais eram pensados de certa maneira pelos con-
temporâneos desse ou daquele processo histórico do passado)133.
Esquematizemos esta curiosa dicotomia:

133. A obra de referência para essa discussão, desenvolvida por Koselleck, é o


conjunto de ensaios Futuro passado – Contribuição à semântica dos tempos his-

148
Nível 1. [Conceitos instrumentalizados pela
comunidade atual de historiadores e cientistas sociais;
criados hoje, ou que ainda hoje fazem parte do
repertório historiográfico.]

Nível 2. Conceitos que aparecem nas fontes e


nos discursos da época.]

O que produz essa singular dicotomia entre dois níveis de


conceitos a serem enfrentados pelos historiadores é o problema
que começamos a discutir no penúltimo capítulo: a História é uma
ciência humana que trabalha com uma outra época. O historiador
está suspenso entre duas temporalidades, e o texto que ele produz
é um texto desdobrado sobre si mesmo: um gênero textual que
precisa trazer, aos olhos do leitor, o discurso do “outro histórico”

tóricos (1979). Ali, o historiador alemão, ao ressaltar que a historiografia se mo-


vimenta nos dois níveis, frisa bem a distinção entre os dois patamares conceituais
com os quais o historiador precisa lidar em qualquer pesquisa específica; ou, mais
propriamente, entre um “núcleo conceitual do passado” e um “núcleo conceitual
contemporâneo”: “No primeiro caso, os conceitos recebidos da tradição servem
de acesso heurístico para compreender a realidade passada. No segundo caso, a
história se serve ex post de categorias acabadas e definidas, que são aplicadas sem
que possam ser identificadas nas fontes” (KOSELLECK, 2006, p. 116).

149
(seja através de transcrições das fontes entre aspas, seja através
de paráfrases delas). Esse último aspecto – trazer o discurso das
fontes – não visa simplesmente reproduzi-lo, mas sim analisá-lo,
problematizá-lo, construir um conhecimento sobre esses discursos
de uma outra época e, através desse conhecimento, compreender
os processos históricos que a atravessavam, bem como a especifi-
cidade das sociedades que nela viveram.
É porque o texto do historiador desdobra-se sobre si mesmo –
oscilando entre as análises do historiador e o dar a ler das fontes,
ou entre a linguagem do historiador e a linguagem das fontes – que
esses dois níveis de conceitos aparecem com tanta clareza no texto
especificamente historiográfico. Entrementes, essa dupla natureza
do texto historiográfico acarreta problemas específicos, sendo o
principal deles a armadilha dos “anacronismos”, questão que reto-
maremos mais adiante. Por ora, será oportuno nos perguntarmos
pela própria origem dos conceitos utilizados na História. De onde
os historiadores os tiram? A partir de que materiais os constroem?

150
25
De onde vêm os conceitos da
História?

Os conceitos historiográficos, tal como já começamos a en-


trever, são oriundos de ambientes diversos. Acabamos de ver que,
em uma primeira medida, eles podem vir de épocas e momentos
históricos distintos – aspecto que, se em outras ciências tem res-
sonâncias importantes, mas mais laterais, já na historiografia en-
seja uma questão crucial. A historicidade dos conceitos – ou mais
propriamente a consciência acerca dessa historicidade – é de fato
uma dimensão de primeiro plano para qualquer historiador, con-
forme teremos oportunidade de verificar mais adiante, por ocasião
de uma reflexão mais sistemática sobre os problemas pertinentes
aos chamados “anacronismos”.
Nesse momento, antes de passar à análise das relações entre
os dois níveis da operação historiográfica, gostaria de esboçar uma
resposta para uma questão mais simples: De onde vêm os con-
ceitos históricos? Os diversos ambientes de origens dos conceitos
históricos estão representados no esquema a seguir.
Há conceitos, conforme já vimos, que se impõem ao historia-
dor a partir do universo das fontes examinadas e da linguagem por
elas mobilizada. Não nos deteremos muito, por ora, nesse primeiro
ambiente de origens conceituais, pois o discutiremos em um dos
capítulos que tratam das questões pertinentes ao anacronismo. Por
ora, apenas direi que as fontes frequentemente oferecem ao histo-
riador um material conceitual bem importante, seja para proble-
matizá-lo, conservando-o sob controle e a distância sem assumi-lo
2
Do patrimônio
1 conceitual
consolidado pela
Das fontes e das historiografia.
realidades históricas
examinadas. 3

Da criação pessoal
DE ONDE VÊM OS de historiadores, em
6
CONCEITOS DA obras específicas.
Da vida comum HISTÓRIA
de hoje.

4
De migrações Do patrimônio
oriundas de outros conceitual consolidado
campos de saber. nas demais
5 ciências humanas.

como instrumental de análise, seja para incorporá-lo ao próprio


repertório conceitual historiográfico. Os gregos antigos – os ate-
nienses, por exemplo – chamavam suas cidades e comunidades
políticas de polis. Os historiadores que tomam por objeto de estu-
do a antiguidade grega costumam se apropriar instrumentalmente
da conceituação de polis desenvolvida pelos próprios gregos. Esse
exemplo, ao qual voltaremos oportunamente, remete-nos a um pri-
meiro ambiente do qual provém os conceitos historiográficos: as
próprias fontes históricas (1).
Em seguida, devemos considerar que a comunidade historio-
gráfica – aqui compreendida como o grande conjunto formado
pelos historiadores de todas as épocas e por toda a sua rede de pes-
quisas e obras – vai consolidando ao longo da própria história da
historiografia um vocabulário conceitual muito próprio e específi-
co da História. Esse vasto repertório conceitual também é formado
a partir de extratos de origens diversas; mas uma vez que alguns
conceitos se consolidam no repertório historiográfico devido ao
seu uso bem-sucedido, tendemos a nos esquecer das diferentes ori-
gens dos conceitos que o constituem e passamos a utilizá-los como

152
um repertório autorizado pela própria comunidade historiadora.
Muitos desses conceitos não possuem autoria discernível, embora
em muitos casos possam ser historiados se houver um interesse
de pesquisa nesse sentido. “Antigo Regime”, por exemplo, foi um
conceito criado nos meios literários, jurídicos e políticos do século
iluminista para se referir ao modelo social, econômico e político
da Europa no período anterior. Posto isso, os historiadores das ge-
rações seguintes passaram a utilizar o conceito em suas análises
e esse uso segue até hoje, obviamente com direito a críticas de
alguns setores internos à própria comunidade historiadora.
O mesmo pode ser dito do conceito de “populismo”, noção de
autoria desconhecida cujo uso se generalizou para variadas rea-
lidades políticas, até adquirir um sentido especial em alguns dos
estudos sobre os governos latino-americanos que se estabelecem
a partir dos anos de 1930. O uso do conceito para o regime de Ge-
túlio Vargas, no Brasil, estendendo-se em algumas análises até o
período que precede o golpe militar, em 1964, tem suscitado polê-
micas na historiografia brasileira, com partidários a favor ou con-
tra sua operacionalização para o estudo desses diversos períodos.
Em outras palavras, está em discussão o próprio uso do conceito
de “populismo” (da expressão em si), a sua compreensão (as notas
que o definem), e os limites do seu potencial generalizador (as
possibilidades de uso em uma extensão mais ampla, para o caso de
períodos diversos da História do Brasil, sem contar o universo ain-
da mais vasto de possíveis utilizações do conceito para realidades
históricas que vão da Rússia de fins do século XIX às modernas
repúblicas latino-americanas).
A discussão sobre um conceito, seja qual for a origem de seus
materiais, é sempre histórica, e deve se atualizar permanentemente.
Nos anos de 1960, começam a aflorar na historiografia brasileira
os estudos históricos mais consistentes sobre o populismo e, so-
bretudo, as obras teóricas de reflexão sobre essa formulação con-
ceitual134. As disputas em torno do conceito, e também em favor

134. A presença de uma massa trabalhadora sem consciência de classe, a inse-


gurança de uma classe dirigente sem representatividade e a projeção de um líder

153
do seu abandono, têm se mostrado particularmente acirradas, e
por vezes evolvem confrontos entre instituições e centros de pes-
quisa135. De todo modo, o conceito já faz certamente parte de um
repertório historiográfico possível, nos dias de hoje. Uma rica dis-
cussão sobre as definições possíveis e “populismo” perpassa uma
historiografia que tem no Brasil apenas um dos seus muitos lugares
de produção136.
Populismo, Antigo Regime, bem como inúmeros outros con-
ceitos, fazem parte de um extrato conceitual que se disponibiliza
aos pesquisadores como um patrimônio produzido no seio da co-
munidade historiadora (2).
Podemos seguir adiante em nosso quadro sobre as instân-
cias e ambientes que costumam fornecer conceitos aos histo-
riadores. Há conceitos que surgiram como criações pessoais de
um historiador, diante do desafio de analisar um certo problema
histórico. São aqueles conceitos que, nos seus primórdios, tive-

carismático são elementos recorrentes nas compreensões clássicas do conceito de


populismo. De sua parte, Francisco Weffort, em O populismo na política brasi-
leira (1978), agrega alguns elementos à sua definição do conceito. Por um lado, o
sistema mobilizaria simultaneamente a “repressão estatal”, a “manipulação políti-
ca”, e a “satisfação” de algumas demandas das massas. Nesse quadro bem ajusta-
do, o populismo teria emergido simultaneamente como estilo de governo e como
política para as massas.
135. Ângela de Castro Gomes, p. ex., em seu estudo A invenção do trabalhismo
(2005, p. 48), procurou substituir a noção do “pacto populista” pela de “pacto
trabalhista”. Ao lado dela, outros pesquisadores ligados à Universidade Federal
Fluminense investiram no abandono do conceito. Enquanto isso, o conceito vai
sendo resgatado por historiadores que incorporam, ao estudo do tema, uma pers-
pectiva inspirada em Edward P. Thompson: Silva e Costa, 2001. • Fortes, 2010.
136. Obras teóricas como a de Ernesto Laclau (1935-2014) – teórico político
argentino que escreveu sobre o tema em A razão populista (2005) – oferecem
outras contribuições importantes para possíveis redefinições da compreensão do
conceito de populismo. Este poderia ser visto não mais como um movimento, um
sistema ou um modelo de governo, e sim como uma “lógica política” que poderia
se estabelecer sobre bases sociais variadas e se articular a orientações ideológicas
diversas. Com a redefinição das notas constituintes de sua compreensão, o con-
ceito expande-se: sua extensão altera-se para abarcar outras possibilidades políti-
cas não contidas nas definições anteriores. O conceito de populismo adquire um
sentido lato, como o uso ampliado do conceito de fascismo. Cf. tb. Laclau, 1979.

154
ram uma assinatura, e que em muitos casos ainda a carregam como
uma referência quase obrigatória. A adequação de uma propos-
ta conceitual, em muitos desses casos, permite que o conceito
se expanda em suas possibilidades de uso e se popularize ou se
generalize mais na comunidade historiadora, tornando-se parte
efetiva do seu repertório.
Podemos exemplificar com o conceito de “coronelismo”, de-
senvolvido pelo jurista-historiador Vitor Nunes Leal (1914-1985)
na sua tese Coronelismo, enxada e votos (1948)137. O conceito re-
fere-se ao sistema social e político específico que surge no Brasil
da Primeira República (1889-1930), com a implantação do federa-
lismo republicano em substituição ao antigo centralismo imperial.
O coronelismo é aquele sistema no qual o poder se vê parti-
lhado verticalmente na figura do “coronel” (um fazendeiro com
grande poder local) até outras instâncias como a dos governado-
res, de lá culminando em um presidente da República, cujo poder,
na verdade, termina por se resignar a uma política determinada
principalmente ao nível dos governos dos estados. O significativo
poder conferido pelos governadores aos “coronéis” – que passam
a deter poderes de vida e de morte sobre a comunidade em que
atuam – e a articulação da rede de “coronéis” em torno de cada
governador, a verdadeira fonte do poder a eles delegado, dá a tô-
nica desse novo sistema, que vive particularmente da dinâmica de
barganhas estabelecida entre os governadores e os coronéis138.

137. A tese original, defendida em 1947 e publicada no ano seguinte, tinha por
título O municipalismo e o regime representativo no Brasil – Uma contribuição
para o estudo do coronelismo.
138. Em um artigo sobre os conceitos de “Mandonismo, coronelismo e cliente-
lismo”, assim se expressa José Murilo de Carvalho acerca do sistema estudado
e batizado por Vitor Nunes Leal: “o coronelismo é, então, um sistema político
nacional, baseado em barganhas entre o governo e os coronéis. O governo esta-
dual garante, para baixo, o poder do coronel sobre seus dependentes e seus rivais,
sobretudo cedendo-lhe o controle dos cargos públicos, desde o delegado de polícia
até a professora primária. O coronel hipoteca seu apoio ao governo, sobretudo
na forma de votos. Para cima, os governadores dão seu apoio ao presidente da
República em troca do reconhecimento desse de seu domínio no Estado” (CAR-
VALHO, 1997).

155
Muito se estudou e se escreveu sobre o mundo político con-
cernente ao Brasil da Primeira República – sendo a própria de-
signação desse período objeto de intensa discussão conceitual
(“República Velha”, “Primeira República”, “Brasil República”?).
A começar pela própria oscilação de designações concernentes a
esse período histórico, um variado vocabulário historiográfico tem
sido empregado nas análises desenvolvidas pelos pesquisadores.
O conceito de “coronelismo”, entrementes, é um desses que fo-
ram muito bem-sucedidos, e graças a isso obteve longa vida na
história da historiografia. No Brasil, a comunidade historiadora o
assumiu – ao lado de outras noções como a de mandonismo e de
clientelismo – no interior do repertório conceitual mais utilizado
para a discussão dos problemas sociais típicos da Primeira Repú-
blica. Há uma viva discussão sobre a mais adequada compreensão
do conceito (o que ele significa, as notas que o caracterizam), bem
como sobre a sua extensão aceitável (os casos que a ele podem
se referir), e também sobre as relações desse conceito com outros
como o de mandonismo e o de clientelismo139. Há de fato uma
viva polêmica em torno do conceito, e há muitos historiadores que
preferem rejeitá-lo criticamente, ao lado de outros que o instru-
mentalizam140. Mas ninguém discorda que, optando-se ou não o
seu uso, a expressão tornou-se parte de um vocabulário que pode
ser mobilizado pelos historiadores do tema. Trata-se de um bom
exemplo de como um conceito criado pessoalmente – um conceito

139. Para Vitor Nunes Leal, o coronelismo, na sua forma específica, configura um
momento específico na história do mandonismo, aqui entendido sob a perspectiva
do poder local exercido na política tradicional. Já o clientelismo, tal como observa
José Murilo de Carvalho, guarda relações com os outros dois conceitos, mas deve
ser utilizado para dar ênfase em uma “perspectiva bilateral”. Além disso, embora
o coronelismo implique necessariamente em relações de clientelismo, diversas
formas de clientelismo dispensam a figura do coronel, e inclusive envolvem outras
possibilidades de ambientes e temporalidades, como os meios urbanos e as “fases
mais recentes da história do país” (CARVALHO, 1997, p. 229-250).
140. Para um panorama sobre essa polêmica, cf. o artigo de José Murilo de Carva-
lho (1997, p. 229-250), que examina, entre outras, a polêmica sobre o coronelismo
que se estabelece entre Paul Cammack (1979) e Amílcar Martins Filho (1984).

156
batizado e de nascimento datado em uma obra específica – passou
daí a um repertório conceitual mais amplo (3).
Não é nada raro que a História extraia seus materiais concei-
tuais das demais ciências humanas. A Antropologia, a Sociologia,
a Ciência Política, a Geografia, a Linguística, a Psicologia, e ou-
tras áreas de estudo em formação como a da memória social, têm
fornecido aos historiadores um rico manancial de conceitos. An-
toine Prost, na seção sobre “Conceitos” de suas Doze lições sobre
a História (1996), chega a dizer que a História “passa o tempo
chocando os ovos alheios”141. Disciplinas como a Economia lhe
oferecem diversos exemplos. “Basta que estes [os economistas]
imaginem um novo conceito – a exemplo de Rostow, que forjou
o de take off (decolagem) e em seguida, os historiadores logo co-
meçam a se assenhorear dele para saberem se, no século XVIII,
teria havido um take off na Catalunha ou quando teria ocorrido
essa situação na França”142. As conclusões que Prost daí extrai são
particularmente importantes.
Compreende-se melhor, nessas condições, a relação
ambígua da História com as outras ciências sociais: o
empréstimo de conceitos e seu uso determinado, con-
textualizado, permite que a História retome por sua
conta todas as questões das outras disciplinas, subme-
tendo-as ao questionamento diacrônico que é a sua
única especificidade, sua única dimensão própria. Daí
o papel de junção das ciências sociais desempenhado
pela História em determinadas configurações sociais e
científicas do mundo erudito. Daí também, às vezes,
sua pretensão obsessiva de assumir certa hegemonia no
universo dessas disciplinas: a troca de conceitos faz-se
em mão única, a História promove sua importação sem
exportá-los e pode se posicionar no terreno das outras
ciências sem perder sua identidade, ao passo que a recí-
proca não é verdadeira (PROST, 1996, p. 127).

141. Prost, 2006, p. 126.


142. Ibid.

157
É bem verdade que as demais ciências humanas também se
valem de empréstimos conceituais feitos às outras disciplinas. Um
autor muito utilizado pela história, e inspirador de inúmeras obras
historiográficas, é Norbert Elias (1897-1990) – um médico e so-
ciólogo que não se furtou a lançar mão de vários conceitos origi-
nários da Psicologia, como o de pulsões, noção freudiana utilizado
instrumentalmente na famosa obra O processo civilizador (1939).
Exemplos como esses mostram um certo universo comum que se
estabelece entre todas as ciências humanas, e através do qual umas
se comunicam com as outras através de uma outra (a História se
comunicando com a Psicologia através da Sociologia de Norbert
Elias, no exemplo aqui oferecido). Elias, de sua parte, vale-se na
mesma obra – O processo civilizador – dos resultados de uma
vasta pesquisa historiográfica empreendida por historiadores di-
versos, que lhes oferecem dados concretos acerca dos processos
históricos de centralização política. Dessa maneira, a História
alimenta a Sociologia e dela se realimenta, dando ensejo a uma
circularidade a cada instante renovada [4].
É oportuno evocar, por fim, uma derradeira fonte de materiais
conceituais que beneficia a História, e que tem beneficiado con-
comitantemente as demais ciências humanas. Refiro-me, agora, à
possibilidade de migrações oriundas de outros campos de saber
[5]. O aproveitamento de materiais conceituais vindos de outros
campos de saber, que não os campos mais vizinhos das ciências
humanas com os quais o diálogo é quase evidente, não é de modo
algum estranho à História, e tampouco às demais ciências sociais
e humanas. Pode ocorrer tanto a migração direta de um concei-
to já utilizado em outros campos do saber, como a migração de
um componente para formar um conceito maior. Para esse último
caso, já mencionamos o caso do conceito de “densidade demo-
gráfica”, que extrai a sua componente “densidade” do campo da
Física. Nesse, a densidade corresponde a uma relação entre massa
e volume, da mesma forma que na Sociologia, na Geografia ou na
História demográfica a “densidade demográfica” irá corresponder
a uma relação entre a população e o espaço por ela ocupado.
Pode-se lembrar ainda a importação do conceito de “crise”
para áreas diversas dos estudos históricos e sociais. “Crise econô-
mica”, “crise social” ou “crise política” apresentam como com-

158
ponente inicial uma noção que já era, há muito, utilizada na me-
dicina. “Crise reumática”, “crise hepática”, “crise vascular”, ou
qualquer outra, constituíam desde há muito vocábulos correntes
na medicina, utilizados para indicar a disfunção de um sistema,
de um órgão, de um organismo. O uso do conceito, migrado da
medicina e readaptado a novos usos, é mais recente na História e
na Economia, embora nos dias de hoje o vocabulário da “crise”
esteja tão difundido como referência aos problemas sociais, que
tendemos a nos esquecer que esse uso tem uma história, e que o
conceito de “crise” em certo momento era restrito ao estudo dos
organismos vivos (voltaremos a isso mais adiante). Muitos outros
exemplos podem ser dados, como o do conceito de “segregação”,
derivado de áreas como a genética e a botânica, o qual encontrou
acolhida definitiva em estudos sobre a sociedade, gerando novos
conceitos compostos, como o de “segregação urbana”. Este, como
outros conceitos, também entraram para a linguagem comum, co-
tidiana, para a língua viva utilizada por todos.
Esse aspecto, aliás, permite que possamos dar uma volta
completa em nosso quadro (6). Os cientistas estão sempre mergu-
lhados na vida (ou deveriam estar). Tanto ajudam a criar a língua
viva com que todos nos comunicamos, como extraem da lín-
gua viva materiais já existentes para as suas formulações concei-
tuais. Com os historiadores não é diferente. Se alguns conceitos
podem ou puderam ser extraídos das próprias fontes (ou da língua
viva do passado), também a própria língua viva de hoje pode ser-
vir de inspiração para a criação de conceitos a serem utilizados
pelos historiadores atuais. O mundo das fontes – constituído de
vestígios, discursos e fragmentos de discursos – chega-nos, aliás,
de uma realidade que um dia já foi a própria vida viva, pulsante,
diversificada e cotidiana.
No futuro, da mesma forma, este mesmo universo que cons-
titui a realidade de hoje terá passado ao campo da experiência –
ao passado histórico – e continuará a inspirar os historiadores a
utilizarem certas expressões como conceitos úteis para as futuras
análises historiográficas. O sexto ponto retorna ao primeiro. Esse
é o trabalho dos historiadores – esses cientistas cujo discurso, ele
mesmo, passará um dia ao mundo das fontes, ensejando um cír-
culo perfeito.

159
26
Primeira ordem de
anacronismos: os conceitos de
hoje aplicados a ontem

Os problemas relacionados a anacronismos conceituais nos


textos historiográficos podem surgir, como já ressaltamos, de
dois sentidos diferentes: do mundo das fontes para o mundo do
historiador, e do mundo do historiador para o mundo das fontes.
Consideremos, por ora, apenas o primeiro caso. O historiador está
tentando compreender uma outra época, e encontra-se envolvido
na análise de suas fontes e de seu tema histórico. De repente, ele
lança mão de uma palavra ou expressão de sua época para se referir
a certos processos e situações de uma outra época em que essa pa-
lavra não existia ainda como conceito143. Ou, também pode ocorrer,
utilizar-se de uma palavra que existe hoje, mas que não tinha exata-
mente o mesmo sentido na época examinada historiograficamente.
Nossa preocupação especial, neste momento, é com a opera-
ção de escolher conceitos de hoje para analisar uma situação his-
tórica. “Ideologia”, por exemplo – um conceito que foi cunhado
pela primeira vez por Destutt de Tracy em 1801, e que logo seria
reapropriado por Marx e Engels com novos sentidos144 – é muito

143. “É assim, p. ex., que se recorre a dados da teoria econômica para analisar o
capitalismo nascente com categorias que, na época, eram desconhecidas” (KO-
SELLECK, 1979).
144. No seu livro Elementos de ideologia (1801), Destutt de Tracy (1754-1836)
utiliza o termo “ideologia” como uma expressão genérica, relativa a um novo
campo de conhecimentos que desejava fundar sob a designação de “ciência das
habitualmente empregado para se referir a períodos para os quais
essa palavra não fazia parte nem do vocabulário dos escritores de
época, nem do linguajar da gente comum. Medievalistas recentes
como Georges Duby (1919-1996) e Jacques Le Goff (1924-2014),
por exemplo, utilizam a expressão para se referir à “ideologia das
três ordens” – aquela que levava os homens medievais a enxerga-
rem a sua sociedade como tripartida em três ordens específicas: os
bellatore, os laboratore e os oratore145. De modo geral, ninguém
estranha esse uso do conceito de ideologia para o estudo de visões
de mundo ou de formações discursivas de períodos que vão da
Antiguidade ao período moderno.
Também nunca encontrei ninguém, até hoje, que se oponha ao
uso, para épocas recuadas como a do Império Romano e outras, do
conceito de “crise” – um conceito que somente entra para o voca-
bulário das obras historiográficas na terceira década do século XX,
quando Ernst Labrousse (1895-1988) publicou seu estudo A crise
da economia francesa no limiar da Revolução (1943)146.
Por outro lado, jamais encontrei um historiador de formação
que não estranhasse a expressão “feminismo na Grécia antiga” –
isto é, que não rejeitasse quase de imediato o uso do conceito de
“feminismo” para categorizar algum modo de comportamento fe-
minino da Grécia antiga. Podem ser considerados como pertencen-
tes ao contexto contemporâneo o uso mais consolidado do conceito

ideias”. O sentido inicial que Marx e Engels logo lhe emprestariam seria outro,
e o mesmo abre concomitantemente um feixe de significados novos relacionados
ao embate entre as classes sociais – sentidos que são precisamente aqueles que
perduram nos dias de hoje.
145. “Os que guerreiam, os que trabalham, os que oram.” Em As três ordens ou o
imaginário do feudalismo (1978), Georges Duby (1994, p. 17) retoma a expressão
“ideologia tripartida” que já havia sido introduzida para o estudo desse imaginário
por Georges Dumezil (1986, p. 15). Antes disso, também incorpora ao seu traba-
lho a discussão sobre definição de ideologia desenvolvida por G. Baecller (1976),
para também acrescentar algumas de suas próprias formulações.
146. La crise de l’économie française à la fin de l’Ancien Régime et au début de
la Révolution, 1943.

161
de “feminismo”147 e uso do conceito de “crise”, nas ciências huma-
nas, para se referir a aspectos econômicos, políticos e sociais – e
não mais para designar somente os distúrbios de organismo na área
médica, na qual o conceito já era utilizado há muito. Entrementes,
o primeiro conceito – feminismo – produz anacronismos quando
transportado para contextos históricos anteriores à sua criação, e o
último, “crise econômica”, não.
O que explica que alguns conceitos, construídos no mundo
atual, provoquem estranhamento anacrônico ao serem direciona-
dos para o vocabulário de análise com vistas a sociedades mais
antigas? E por que outros conceitos, cunhados na mesma época,
já não provocam esses mesmos estranhamentos? Não existe uma
explicação – uma fórmula – que permita entender por que alguns
conceitos contemporâneos funcionam bem para análises de socie-
dades do passado, e outros não funcionam.
Por enquanto, como já ressaltamos, tudo é uma questão de fee-
ling historiográfico. Mas podemos perceber que, em muitos casos,
os conceitos de hoje que produzem anacronismo são aqueles que,
quando são utilizados, pressupõem que os agentes históricos da
época examinada pensavam como um homem moderno. Ou seja,
muito habitualmente, os conceitos de hoje que provocam anacro-
nismo ao serem aplicados a objetos ligados a sociedades antigas
são aqueles que não levam em conta o anacronismo inverso de
pressupor que um homem antigo já pensava literalmente como um
homem moderno. Também há casos em que o conceito utilizado
provoca anacronismo por se referir a um movimento muito data-
do, como é o caso do feminismo, ou seria o caso do “nazismo”
se aplicado para eventos anteriores à organização institucional do
próprio nazismo.
Já conceitos como o de “crise” não pressupõem, da parte da-
queles que sofreram o que hoje chamamos de crise, uma certa

147. O conceito de “feminismo” na verdade começa a ser empregado, esporadica-


mente, nas últimas décadas do século XIX. Mas é somente nas primeiras décadas
do século XX que o conceito consolida-se como designativo de um movimento
específico. O Dicionário Oxford data de 1895 a primeira aparição do conceito.

162
maneira de pensar. Os homens do Império Romano podiam dar
outro nome às perturbações, distúrbios e disfunções pelas quais a
sua sociedade estava passando à época da sua fragmentação polí-
tica e do surgimento de novos padrões sociais, que talvez tenham
parecido perturbadores e dolorosos para os indivíduos pertencen-
tes a determinados grupos sociais. Para alguns, era como se o
seu mundo estivesse desmoronando. De todo modo, certamente
os habitantes das sociedades agrupadas politicamente pelo Im-
pério não utilizavam o conceito de “crise”, que já vimos ser uma
construção recente. Mas o uso deste conceito não deturpa o seu
pensamento. Ademais, alguém pode viver uma crise sem nomear
assim o que está vivendo, da mesma forma que pode ter um “mal
súbito” sem que precise conceituá-lo, modernamente, como um
“ataque cardíaco”. Morria-se de pneumonia antes que os médicos
conceituassem essa doença.
Se usarmos outro conceito bem moderno, o de “crescimento
demográfico”, para nos referirmos a determinadas transformações
na população da China antiga, também não estaremos produzin-
do deformações, mesmo que o antigo chinês, como é o caso, não
utilizasse essa palavra – ou mesmo, poderíamos acrescentar, que
ele não tivesse consciência de que estava vivendo um fenômeno
social de crescimento da população. Ele podia até mesmo viver
isso sem perceber esse aumento.
Não há um modelo único de explicações que deem conta de
esclarecer por que alguns conceitos de hoje funcionam bem quan-
do aplicados ao passado, e outros não. O que podemos é reunir
alguns exemplos, e a partir daí identificar algumas tendências.

163
27
Potencial generalizador
diacrônico

Não se trata de tentar resolver ou decifrar, de uma vez por


todas, o instigante enigma dos anacronismos conceituais na Histó-
ria. Não obstante, proporei um meio de nos aproximarmos do pro-
blema, cada vez mais. A ideia é considerar em maior profundidade
um daqueles atributos que atrás identificamos como elemento sine
qua non de todo conceito – o “potencial generalizador” – e a partir
daí desdobrá-lo em duas instâncias distintas, de certo modo com-
plementares. Trabalharemos com duas facetas distintas do poten-
cial generalizador: a diacronia e a sincronia.
Dizíamos atrás que todo conceito, necessariamente, deve possuir
um “potencial generalizador”. Se não o tiver, não é de fato um
conceito. Dentro do conjunto maior de conceitos que apresentam
potencial generalizador, e que por isso têm o direito de serem cha-
mados de conceitos, há por exemplo os “conceitos agrupadores”,
que são aqueles nos quais esse potencial generalizador se mani-
festa sob a forma de uma capacidade de enquadrar ou de agrupar
outros conceitos ou um certo número de casos. O conceito de “ser
vivo”, por exemplo, é suficientemente generalizador para agru-
par as categorias “animal” e “vegetal”148. De sua parte, o conceito

148. Uma definição simples e aceitável considera “ser vivo” (por oposição aos
“seres inanimados”) a qualquer coisa que possua a capacidade combinada de se
reproduzir (autoduplicação), evoluir e manter um metabolismo. Podem-se consi-
derar ainda, como notas características a serem incluídas na compreensão deste
conceito, a “capacidade de crescimento”, “o potencial de transmissão hereditária”,
a “irritabilidade” (capacidade de responder a estímulos), a “mutabilidade” (capa-
“animal” partilha-se através de diversas classes, como a das aves,
mamíferos, répteis, peixes, insetos, vermes etc. Estes últimos con-
ceitos, os quais também são agrupadores, desdobram-se em or-
dens diversas, e assim por diante. Também temos conceitos agru-
padores nas ciências humanas. Assim, o conceito de “revolução”
pode ser entendido como capaz de agrupar pelo menos dois tipos
de revoluções sociais – as revoluções burguesas e as revoluções
socialistas (este é só um exemplo, não necessariamente aceito por
todos). As “revoluções socialistas” (ou o conceito de revolução
socialista) permitem que sejam agrupados, por fim, certo número
de casos. Não mais conceitos, mas agora casos específicos: a Re-
volução Russa, a Revolução Cubana, a Revolução Chinesa. Esses
não são mais conceitos, pois são casos históricos únicos, como já
discutimos anteriormente.
Há também conceitos que possuem o potencial de generaliza-
ção porque são capazes de se referir transversalmente a diversos
casos. O conceito de “colonialismo” permite que nos refiramos
a inúmeros processos históricos, pertinentes à história de vários
países hoje independentes, os quais passaram cada qual pelo fenô-
meno da colonização. O conceito de “crescimento demográfico”
permite compreendermos processos de aumento de população que
já aconteceram inúmeras vezes em diversas sociedades, nas suas
diversas épocas. Esses conceitos são transversais, não agrupam
diversos casos como ramificações (como os “conceitos agrupado-
res”), mas atravessam diversos casos (são transversais a eles, por
assim dizer). Entrementes, a abordagem nova que irei propor re-
fere-se a outros aspectos relacionados ao potencial generalizador
dos conceitos. Vamos considerar um desdobramento possível do
“potencial generalizador”, típico dos conceitos, com relação a dois
aspectos complementares: o tempo e o espaço.
Falemos inicialmente do tempo. Quando pensamos no po-
tencial generalizador de um conceito, podemos nos perguntar de

cidade de alterar seus próprios materiais para melhoramento do organismo), e,


sobretudo, a “organização celular” – neste último caso devendo-se destacar a ex-
ceção feita aos vírus, um fenômeno biológico que divide os cientistas com relação
à possibilidade de ser incluído ou não na extensão dos “seres vivos”.

165
saída se esse conceito apresenta um “potencial generalizador dia-
crônico”149. Isto é particularmente importante para os conceitos
aplicáveis instrumentalmente à História, e também para aqueles
que podem ser objeto de estudo da História. Proponho que nos
indaguemos, através da noção de “potencial generalizador diacrô-
nico”, se um certo conceito em análise possui menos ou mais ca-
pacidade de ser extensível para situações históricas diferenciadas
(situações que se sucederam no tempo).
Por outro lado, também posso perguntar pelo “potencial gene-
ralizador sincrônico”150 – a capacidade de um conceito ser aplicá-
vel a sociedades distintas no mesmo tempo (espaços diferenciados
de análise em uma mesma época, p. ex.). Vamos a alguns exem-
plos, que tudo ficará mais claro.
O conceito de “revolução” apresenta um alto potencial ge-
neralizador diacrônico, uma vez que várias revoluções já ocorre-
ram ao longo da história – ou, melhor dizendo, uma vez que no
decorrer da história já ocorreram inúmeros casos que podem ser
bem compreendidos através do conceito de revolução (p. ex., de
acordo com uma das compreensões do conceito que já esclarece-
mos em um dos capítulos anteriores). Ao lado disso, o conceito de
“revolução” também apresenta um bom “potencial generalizador
sincrônico”. Na primeira metade do século XX151, diversas socie-
dades experimentaram processos históricos que podem ser avalia-
dos como “revoluções” de acordo com algumas das compreensões
bem aceitas para este conceito. Tivemos a Revolução Mexicana
(1910), a Revolução Russa (1917), a Revolução Chinesa (1949),
por exemplo. Quase tivemos uma revolução socialista bem-suce-
dida na Alemanha (1918-1919). Espaços diferenciados, portanto,
conheceram processos históricos importantes que podem ser con-
siderados revolucionários.

149. Diacrônico: que atravessa tempos distintos.


150. Sincrônico: no mesmo tempo, mas que engloba diversos espaços, diversas
sociedades etc.
151. Portanto, no interior de uma mesma unidade de tempo considerada, se tomar-
mos a liberdade de considerar estes cinquenta anos.

166
Vamos nos concentrar, por ora, na reflexão sobre o “potencial
generalizador diacrônico” de um conceito. O conceito de “crise”,
já exemplificado, apresenta um altíssimo “potencial generalizador
diacrônico”152. Se tomarmos uma definição proposta por Antoine
Prost, ou ao menos um certo feixe de notas características sugerido
por esse historiador francês para o conceito, “o termo crise designa
um fenômeno relativamente violento e súbito, uma mudança repen-
tina, um momento decisivo, mas sempre penoso ou doloroso”153.
A área médica também contribuiu para o delineamento do
conceito, na verdade pioneiramente, indicando notas característi-
cas da compreensão deste conceito que também foram mais tarde
trazidas para a área sócio-histórica. A crise é uma “disfunção”, o
“mau funcionamento” [súbito] de um órgão, [de uma sociedade,
de uma instituição]. A crise, ainda seguindo a perspectiva médica,
é uma situação de mudança que exige da pessoa, do grupo, do
corpo em crise, um esforço suplementar para manter ou recupe-
rar o equilíbrio (ou para sucumbir ao colapso, caso o equilíbrio
não possa ser retomado)154. A crise envolve ainda “perdas”, ou a
necessidade de substituições e readaptações rápidas. Envolve tam-
bém um momento decisivo, inclusive no sentido de que, diante
da crise, invariavelmente é preciso tomar alguma decisão que
poderá – ou deverá – mudar os destinos do corpo, do indivíduo,
do grupo ou da sociedade em crise.
A Teoria Sistêmica também sugere, para a sua compreensão
do conceito de “crise” em geral [crise de um sistema qualquer],
algumas notas características que podem ser incorporadas ao con-
ceito mais específico de “crise social”. A crise sistêmica é uma
“perturbação temporária dos mecanismos de regulação de um sis-
tema, de um indivíduo ou de um grupo”155.

152. E também sincrônico. Mas, por hora, deixemos de lado este aspecto, ao qual
voltaremos oportunamente.
153. Prost, 2006, p.119.
154. A crise de um organismo vivo busca a recuperação da estabilidade: ou sob a
forma dinâmica de um novo equilíbrio metabólico, ou sob a forma da estabilidade
da morte, quando o organismo desaparece.
155. A definição é muito evocada, e já quase virou lugar-comum. Mas é bem
esclarecedora.

167
Essas notas nos bastam, por enquanto. O conceito de crise im-
plica uma compreensão que pode envolver combinadamente as
seguintes características: perturbação, disfunção súbita, interrup-
ção em um processo autorregulado, risco de colapso, momento
decisivo, duração provisória (tendente à recuperação do equilíbrio
com mudança, ou à extinção através do colapso), sensação de per-
da, processo vivido de maneira penosa ou dolorosa, oportunidade
de mudança.
Todas as sociedades conhecidas, bem como todos os corpos
vivos, ou todas as vidas pessoais, podem ou devem vivenciar cri-
ses algumas vezes. De fato, para ficar apenas no âmbito dos estu-
dos de História, todas as sociedades que já existiram, em diversos
momentos de sua história, viveram crises (ou para superá-las, ou
para sucumbir a elas). “Crise”, por isso, é um conceito altamen-
te generalizável. O conjunto das notas características que a este
conceito se referem na maior parte das compreensões propostas,
e a vasta extensão de casos aplicáveis de processos históricos já
acontecidos que podem ser pensados como crises, autorizam-nos
a dizer, no que se refere a “crise”, que estamos aqui diante de um
conceito com altíssimo “potencial generalizador diacrônico”.
“Feminismo”, em contrapartida, é um conceito de baixo “po-
tencial generalizador diacrônico”. É daqueles conceitos que, uma
vez cunhado, parece só ser aplicável ao próprio período para o
qual foi imaginado originalmente. O feminismo é um fenômeno
social que tem a sua origem datada (do fim, ainda nada sabemos,
mas supõe-se que ocorrerá quando desaparecer o par antagônico
que o gerou como resistência, o “machismo”). O conceito de fe-
minismo, surgido nas últimas décadas do século XIX, mas con-
solidado e intensificado em sua aplicação a partir do século XX,
não parece ser aplicado a outros momentos históricos (anteriores
ao momento em que este conceito surgiu). Pode ser aplicável para
tempos futuros, desde que as sociedades vindouras o atualizem
com suas práticas.
Para casos como esse, proponho que nos expressemos nos
termos de um baixo “potencial generalizador diacrônico”. Temos
aqui conceitos cuja extensão só se aplica a um certo período de

168
tempo. O “nazismo” corresponde a outro conceito que se aplica a
este caso. O conceito surgiu, datado, com a instalação e atuação
do partido nazista alemão (um acontecimento que, destarte, pode
ser colocado sob a égide de fenômenos mais amplos, neste caso
demarcado por conceitos mais generalizadores, como o de “tota-
litarismo”). Não há qualquer sentido falar em nazismo para pe-
ríodos anteriores à fundação do partido nazista. Quando fazemos
isso, produzimos um gritante anacronismo da espécie “de ontem
para hoje”. O nazismo também teve o seu fim datado (o que não
ocorreu para o caso do feminismo). No momento em que a Alema-
nha nazista foi derrotada, em 1945, o nazismo se extinguiu como
fenômeno histórico e estatal mais específico, embora possamos
falar nos dias de hoje de “neonazismos”156.
É verdade que não é raro que se utilize o conceito de nazis-
mo para fenômenos atuais, mas de modo um pouco inapropria-
do, sendo preferível mesmo a designação “neonazismo”. De todo
modo, uma parte significativa dos estudiosos do tema concordarão
em dizer que o nazismo foi um fenômeno histórico datado na sua
origem e no seu final – sobretudo se considerarmos o fenôme-
no mais específico do “estado nazista” hitlerista. Neste sentido,
o nazismo é um conceito de baixíssimo “potencial generalizador
diacrônico”. Cometemos anacronismos que saltam à vista quando
o exportamos para outros momentos da história – por exemplo,
quando procuramos no passado longínquo, ou mesmo menos dis-
tante, precursores do nazismo.
Situação curiosa acontece com o seu conceito irmão, o “fas-
cismo”. O “fascismo italiano” surgiu como a primeira experiência
que confluiria para um estado totalitário. Mesmo Hitler (1889-
1945) reconheceu essa primazia em relação a Mussolini (1883-
1945), a quem admirava. Um pouco por isso, aconteceu à ex-
pressão “fascismo” uma dupla história. Há um conceito mais res-
trito de fascismo, que se refere ao caso específico do “fascismo
italiano” – e que, nesses momentos, se equipara em nível lógico

156. Este novo conceito pode ser associado a fenômenos que se movem no inte-
resse de um “resgate do nazismo”.

169
ao “nazismo alemão” – e há um uso ampliado do conceito de “fas-
cismo”, no qual a palavra fascismo tendeu a se transformar, alter-
nativamente, em uma categoria mais abrangente na qual cabem
os diversos casos históricos de fascismos específicos, inclusive o
nazismo alemão, o fascismo italiano, e outros movimentos que
incluem, para o caso brasileiro, o movimento do “integralismo”.
Ou seja, em uma de suas acepções, o fascismo se transformou em
um “conceito agrupador”.
Nessa segunda acepção, mais ampla, o fascismo se tornou um
conceito com razoável “potencial generalizador diacrônico” para
fenômenos contemporâneos similares, aplicando-se a casos pos-
teriores à dissolução do fascismo italiano de Mussolini. De todo
modo, para momentos históricos anteriores ao surgimento dos
movimentos pró-totalitários de direita, o “fascismo” não apresen-
ta qualquer potencial generalizador diacrônico (tal como vimos
ocorrer para o conceito de “feminismo”). Quando utilizamos o
conceito de fascismo visando momentos anteriores ao século XX,
caímos na armadilha da inadequação conceitual anacrônica.
Acredito que se possa dizer que existe uma forte tendência
à produção de anacronismos quando tentamos exportar para pe-
ríodos anteriores (ou mesmo posteriores) aqueles conceitos que
possuem um baixo ou nulo “potencial generalizador diacrônico”.
“Nazismo”, “fascismo” no sentido restrito, feminismo, globaliza-
ção. Inversamente, com relação aos conceitos que possuem um ra-
zoável “potencial generalizador diacrônico”, esses podem ser per-
feitamente pensados como possibilidades para o entendimento de
períodos diversificados. Alguns conceitos apresentam, na verdade,
um potencial muito elevado para generalização diacrônica, e por
isso dificilmente provocam anacronismos com o seu uso. “Crise”.
Por vezes a especificidade, implicada no termo no qual se
apoia o conceito, também favorece um menor ou maior potencial
de generalização – diacrônico ou sincrônico. No capítulo anterior
discutimos, a modo de exemplo, os conceitos de coronelismo e de
clientelismo. Coronelismo, conceito cunhado para o entendimento
da realidade política do Brasil na época da Primeira República, é
construído em torno de uma figura sociopolítica datada, espacial-

170
mente circunscrita, e socialmente ambientada em um meio especí-
fico, que é o rural. O “coronel”, de fato, condiciona o potencial ge-
neralizador do conceito, que é certamente mais baixo do que o que
ocorre com o conceito de “clientelismo”. Este conceito, que traz
para o cerne de sua compreensão a troca de favores, envolvendo a
proteção e sujeição do cliente pelo patrono, remete a realidades his-
tóricas muito díspares e dispostas em um longo espectro diacrônico
que remonta a sociedades antigas, como a do Império Romano,
e estende-se até tempos atuais, incluindo sociedades como as que
estavam sujeitas ao coronelismo. Assim, o “coronelismo” envolve
de fato situações de “clientelismo” – um conceito que apresenta um
potencial generalizador muito mais amplo, seja o diacrônico, seja
o sincrônico – considerando-se que a recíproca não é obviamente
verdadeira. Tem-se inúmeras sociedades nas quais se desenvolve-
ram relações clientelistas para além de sociedades como as que co-
nheceram o “coronelismo” no Brasil República.

171
28
Potencial generalizador
sincrônico

O potencial generalizador de um conceito também se desdo-


bra em uma faceta sincrônica, ou seja, no interior de um mesmo
tempo, mas aplicando-se a espaços – físicos ou sociais – diferen-
ciados. Pode ocorrer a um conceito com razoável potencial gene-
ralizador que, a certo momento, ele encontre o seu limite: no inte-
rior de um mesmo tempo (ou seja, em uma referência sincrônica),
aplica-se a diversas sociedades ou espaços sociais, mas não a esta
ou àquela sociedade mais específica. A argumentação é similar à
que foi desenvolvida para a discussão do “potencial generalizador
diacrônico”, só que agora voltada não para sociedades dispostas
em momentos diferentes do tempo, mas sim para sociedades dis-
postas em espaços distintos no interior de um mesmo horizonte
temporal. Limitar-nos-emos a dar um exemplo, pois toda a argu-
mentação seria similar à que foi desenvolvida no capítulo anterior.
Um exemplo clássico de empenho em aplicar um determinado
modelo conceitual a diversas sociedades, diferenciadas em maior
ou menor medida, é o que temos com o conceito de “feudalismo”.
Vamos considerar a compreensão do conceito proposta por Marc
Bloch (1886-1944) em A sociedade feudal (1939)157. Um esquema
que elaboramos pode resumi-la:

157. Uma passagem de A sociedade feudal, a qual resume o conceito de feuda-


lismo proposto por Bloch, é reproduzida a seguir. Nela, vemos o cuidado inicial
de considerar como extensão as sociedades europeias. Mais adiante, Marc Bloch
irá propor a eventual ampliação da extensão para outras sociedades, como a ja-
ponesa. “Sujeição camponesa; em lugar do salário, geralmente impossível, largo
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Compreensão Extensão

(O conceito de “Feudalismo” em Marc Bloch)

Os limites do “potencial generalizador sincrônico” do concei-


to de feudalismo começam a ser especialmente testados quando
o situamos diante de sociedades que se afastam do núcleo mais
clássico da feudalidade europeia (França, regiões de língua ger-
mânica, e outras). Um primeiro teste surge diante das tentativas
de aplicação do conceito de feudalismo às sociedades ibéricas do
período medieval, para ainda ficarmos, por enquanto, meramente
no âmbito das sociedades europeias.
O que traz um contexto bem diferenciado às sociedades ibé-
ricas é o movimento histórico que ficou conhecido como Recon-
quista, presente durante toda a Idade Média. São consideráveis as
implicações sociais e políticas do fato de que coube aos monarcas
de Portugal, Leão e Castela capitalizar os esforços bélicos na luta
contra os árabes instalados desde fins do século VIII em Al-Anda-
luz. A necessidade do concurso de todos os segmentos sociais na

uso do tenure-serviço, que, no sentido exato, é o feudo; supremacia de uma classe


de guerreiros especializados; vínculos de obediência e de proteção que unem o
homem ao homem e que, nessa classe guerreira, revestem a forma particularmente
pura da vassalagem; fracionamento dos poderes, gerador de desordem; no meio
de tudo isso, no entanto, a sobrevivência de outros modelos de agrupamento, pa-
rentela e Estado, devendo este, durante a segunda idade feudal, retomar um vigor
novo: parecem então ser esses os traços fundamentais da feudalidade europeia”
(BLOCH, 1979, p. 485).

173
luta contra os mouros, e a maneira como esses diversos segmentos
se aglutinaram em torno de um monarca encarregado de centrali-
zar os esforços de guerra, permitiu que se desenvolvesse em Por-
tugal e Castela um modelo bem distinto do feudalismo tradicional.
Aqui, o rei não hesitava em utilizar “esquemas feudais para es-
tabelecer laços pessoais com alguns nobres”, mas procurava des-
privilegiar a possibilidade de se formar algo como uma “pirâmide
feudal” a partir dos escalões inferiores158. Em última instância, to-
dos eram vassalos do rei. Em Portugal, “ricos-homens, cavaleiros
e até escudeiros recebiam uma quantia (ou contia), também deno-
minada maravedis do rei”, que era inscrita em um livro especial
e os vinculava diretamente ao monarca159. Essa especificidade das
sociedades ibéricas, pode-se argumentar, recolocam na compreen-
são do conceito, mas de uma outra maneira, a nota característica
“laços de vassalagem”. A rede de dependências feudais é interferi-
da por um outro alinhamento concorrente de relações diretas entre
a nobreza e o rei.
Outro elemento que introduz alguma dificuldade à possibili-
dade de estender a generalização do conceito de feudalismo para
as sociedades ibéricas – Portugal e Castela da Idade Média central,
principalmente – é o fato de que essas sociedades são perturbadas
pela emergência de um tipo especial de cavalheiro de origem vilã,
isto é, não aristocrata. Essa figura, típica das sociedades ibéricas da
Reconquista, parece embaralhar muito o tradicional imaginário feu-
dal das três ordens que era típico de países como a França, no qual
os nobres tendiam a se identificar com a ordem dos que guerreiam,
e demarcar melhor o espaço social dos bellatore perante as ordens
dos laboratore e oratore.
No esforço histórico da Reconquista, no qual os reis ibéricos,
precocemente centralizadores, precisaram comandar um exército
mais unificado contra o inimigo islâmico instalado no Andaluz, o
cavalheiro-vilão, não nobre, assumiu um papel especial. Ao mes-
mo tempo, associado por vezes a atividades produtivas e mercantis

158. Mattoso, 1985, v. II, p. 145.


159. Marques, 1987, p. 249.

174
em franca ascensão, e sem os entraves imaginários que parecem
encerrar a nobreza dentro de um repertório feudo-vassálico de alter-
nativas para o seu sustento, o cavalheiro-vilão é muitas vezes mais
resolvido economicamente que diversos nobres. A presença do ca-
valheiro-vilão nas sociedades ibéricas e nas lides da Reconquista
cria um elemento complicador para a extensão, para os espaços so-
ciais português e castelhano, do conceito de feudalismo – o qual, em
contrapartida, apresenta um bom potencial generalizador sincrônico
para as sociedades europeias de além-Pirineus.
Além disso, no que se refere à base econômica, material e jurí-
dica que foi o suporte dessas sociedades muito específicas que são
as ibérico-medievais, há uma extensa polêmica sobre a validade
ou não de se falar em um feudalismo português ou em um feuda-
lismo castelhano, a qual depende dos critérios com que se define
a feudalidade. Mais polêmica ainda é a possibilidade de aplicação
do conceito para outras sociedades, agora não europeias.
A construção do conceito de feudalismo com ênfase nos laços
de dependência horizontais – as relações feudo-vassálicas entre
suseranos e vassalos, todos pertencentes à nobreza – ou nos laços
de dependência verticais (relação entre o senhorio e a servidão),
pode levar a rediscutir a sua compreensão, com implicações na
extensão do mesmo160. Ou pode-se levar, com ressalvas even-
tuais, ao esforço de estender uma certa compreensão do conceito
com vistas a conciliar com ele outras realidades históricas e so-
ciais. De todo modo, a indagação sobre os limites de “potencial
generalizador” sincrônico do conceito deve ser sempre coloca-
da. Quando, ao usar o conceito de “feudalismo” para determi-
nadas sociedades, estamos já diante de uma inadequação concei-

160. Maurice Dobb (1900-1976), p. ex., tendia a identificar o feudalismo com a


servidão, que dessa forma torna-se o traço mais saliente da sua compreensão do
conceito de feudalismo. Foi criticado nesse aspecto por Paul Sweezy (1910-2004).
Cf. o debate em A transição do feudalismo para o capitalismo (HILTON; DOBB;
SWEEZY et al., 1976). Nessa mesma coletânea, Eric Hobsbawm também aponta
para os riscos de utilização do conceito de “modo de produção feudal” como uma
categoria útil para acomodar em sua extensão todas as sociedades “pré-capitalistas
ou não capitalistas” (1977, p. 10).

175
tual? Existem certamente os casos mais polêmicos. Terá existido
um “feudalismo japonês”? Marc Bloch, em A sociedade feudal
(1939), discute com seriedade esta possibilidade161. As reações à
proposta, obviamente, não são poucas.
Esse é apenas um exemplo a partir do qual podemos ilustrar o
fato de que o “potencial generalizador sincrônico” de um concei-
to, diante da possibilidade de expansão da sua extensão, a partir
de certo momento começa a encontrar os seus limites: espaços
sociais nos quais o conceito já não parece mais aplicável. O tema,
aqui utilizado apenas como exemplo introdutório, precisaria ser
evidentemente abordado em maior profundidade.

161. Marc Bloch, que a certa altura de A sociedade feudal (1939) acata a aproxi-
mação entre o feudalismo europeu e o sistema que aflora no Japão de a partir do
século VII, pergunta-se, logo ao princípio da obra: “Trata-se de uma grave questão
saber se outras sociedades, em outros tempos ou baixo outros céus, não terão apre-
sentado uma estrutura assaz semelhante, nos seus traços fundamentais, à da nossa
feudalidade ocidental, a ponto de merecerem, por seu lado, serem denominadas
feudais” (BLOCH, 1979, p. 13).

176
29
Segunda ordem de
anacronismos: de ontem
para hoje

Anacronismo, conforme destaquei anteriormente, não ocorre


apenas quando utilizamos conceitos de hoje que se mostram inade-
quados para analisar problemas históricos e sociedades de ontem.
Existe também o movimento inverso: a importação ingênua dos
conceitos e palavras de ontem para hoje, sem considerar as even-
tuais possibilidades de variações históricas nos seus significados.
Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), em um artigo simul-
taneamente mordaz e saboroso intitulado “Sobre uma doença in-
fantil da historiografia” (1973)162, cita o caso de um anacronismo
desse tipo em uma análise histórica. Determinado historiador, que
Sérgio Buarque de Holanda prefere não nomear163, deparou-se em
suas pesquisas com uma passagem contida nas fontes, na qual se
diz que “a cidade de Salvador era, das colônias do Brasil [no início
do século XIX], a mais frequentada de gente policiada”. Segue o
comentário de Sérgio Buarque de Holanda sobre o deslize cometi-
do por seu colega de ofício:
Acontece que, ao ler “gente policiada”, o comentador
[o historiador criticado por Sérgio Buarque de Holan-
da] não teve dúvidas: Vilhena [personagem histórico,

162. Artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 17/06/1973.


163. Trata-se, na verdade, de Carlos Guilherme Mota, e da obra Atitudes de ino-
vação no Brasil, 1789-1901. O artigo gerou depois polêmicas, incluindo réplicas
do próprio historiador criticado.
autor da fonte analisada] queria falar em polícia, por-
tanto, em gente armada; portanto, em militar. O estra-
nho é que não lhe passou pela cabeça [do historiador]
que a palavra “policiada” pudesse ter, e no caso tinha,
com certeza, o sentido de “cultivada”, “refinada”, e, em
suma, “civilizada”, ou seja, quase o oposto daquilo que
a palavra “polícia” costuma evocar atualmente. O que
o cegou, provavelmente, foi a convicção inabalável de
que uma só e mesma palavra só pode ter um só e mes-
mo significado164.

O caso refere-se não propriamente ao uso equivocado de um


conceito trazido do passado para a época do historiador, porém
mais propriamente à atribuição anacrônica de um falso sentido a
uma palavra simples. Mas problemas como esse ocorrem frequen-
temente quando avaliamos inadvertidamente a linguagem do mun-
do das fontes e a relemos com os sentidos literais que teriam hoje
algumas das suas palavras.
Historiadores ligados ao campo da História antiga costumam
se prevenir, habitualmente, contra o uso traduzido da palavra
polis, que poderia ser reescrita, com perdas importantes, como
“cidade”. Embora a polis grega possa, em algum momento, ser
traduzida como cidade, nesta operação perdem-se alguns aspec-
tos essenciais que o conceito de polis teria para os gregos – no-
tadamente aspectos relacionados à política – e por isso tem-se
adotado a incorporação de um novo conceito, polis, para evitar
problemas maiores.
A historiografia sobre a Antiguidade greco-romana tem adota-
do, comumente, recursos como estes: prefere-se não traduzir o ter-
mo, para evitar o anacronismo, e incorporá-lo, em sua forma grega
mesmo, como novo conceito. É caso também de meteco, palavra
que aparece nos textos da Atenas clássica e que poderia ser tradu-
zida como “estrangeiro”, mas com perdas importantes relativas ao
estatuto desse grupo social que frequentemente exercia funções
como a de comerciante ou artesão. Os metecos, por exemplo, não

164. Holanda, 2011, p. 425.

178
possuíam nenhum direito político e estavam impossibilitados pela
legislação grega de contraírem matrimônio com mulheres atenien-
ses, além de serem obrigados a pagar um imposto de residência.
Por outro lado, eram considerados homens livres, um aspecto im-
portante naquela sociedade escravista.

179
30
Um estudo sobre o anacronismo:
o Rabelais, de Lucien Febvre

O problema do anacronismo – seja aquele que é produzido


ao impormos ao material histórico das fontes conceitos que não
funcionam, seja aquele que é produzido por não compreender-
mos os verdadeiros sentidos de palavras e conceitos que emergem
do mundo das fontes – é um dos grandes desafios para os his-
toriadores de todas as épocas. Talvez uma das mais impactantes
contribuições clássicas para o problema, a partir do exame de um
problema histórico específico, seja um famoso estudo de Lucien
Febvre (1878-1956) intitulado O problema da descrença no sécu-
lo XVI: a religião de Rabelais (1942).
O interesse de escrever esse estudo sobre Rabelais e a des-
crença no século XVI surge em Febvre a partir de uma crítica his-
toriográfica bem definida. Abel Lefranc (1863-1952) havia sugeri-
do em uma edição de Pantagruel – uma das mais famosas obras de
François Rabelais (1494-1553) – que este intelectual renascentista
era um ateu que buscava, através de suas mordazes sátiras e paró-
dias, abalar o cristianismo. Lucien Febvre irá se propor a demons-
trar, sistematicamente, que esse era um erro de “anacronismo” –
isto é, de projeção injustificada de categorias do presente no passa-
do –, uma vez que o ateísmo na verdade não poderia ser postulado
para os homens do século XVI, já que esses sequer possuíam a
“utensilhagem mental” que os possibilitaria serem ateus.
Daí que o ponto de partida em Rabelais é a análise filológi-
ca – uma rigorosa análise não apenas da expressão “ateu”, que
aparece em textos da época e que, de acordo com a demonstração
de Febvre, não teria o mesmo significado de hoje – como também
uma análise da ausência de inúmeras outras palavras ou concei-
tos que seriam fundamentais para que se possa falar no ateísmo
como um modo de pensar, tal como ocorre hoje. Empreendida essa
análise, Febvre intentou demonstrar que as piadas blasfemas, ou
aparentemente blasfemas, que apareciam largamente nos textos
de Rabelais, não eram de modo algum recursos em apoio de um
racionalismo ateu, mas sim heranças de uma antiga tradição paro-
dística medieval. A “impossibilidade do ateísmo no século XVI”
era para Lucien Febvre o resultado de um “instrumental mental”
específico (hoje se diria, de uma determinada mentalidade que fi-
xava aos homens os limites do que eles poderiam pensar). Dessa
maneira, o seu empenho foi examinar em detalhe o que faltaria
à utensilhagem mental da época para que pudesse surgir efetiva-
mente um ateísmo filosófico e racionalista, sendo o seu ponto de
partida identificar todo um vocabulário ausente que conformaria
um claro índice de que o problema do ateísmo não estava de modo
algum colocado para os intelectuais renascentistas. Mais do que
isso, certos limites foram percebidos por Febvre nos homens re-
nascentistas, como a sua imprecisão no trato com o tempo.
Hoje, passados mais de setenta anos da publicação do Rabe-
lais de Febvre (1942), a obra é mais valorizada pelas perguntas
que colocou, pelas demandas interdisciplinares que apontou, e
pelos desafios que enfrentou no contexto de renovação historio-
gráfica de sua própria época. Uma crítica eficiente do livro de
Febvre, acompanhada de uma rigorosa investigação histórica so-
bre o mesmo tema, pode ser encontrada na obra de Jean Wirth
intitulada Libertinos e epicuristas: aspectos da irreligiosidade
no século XVI165. Wirth chega à conclusão que havia de fato in-
telectuais irreligiosos no século XVI, qualificáveis como ateus, e
também aponta um certo exagero de Febvre no reducionismo de
Rabelais aos limites de sua época, desconsiderando seus poten-

165. Wirth, 1977, p. 601-627.

181
ciais de criatividade e de ultrapassagem de forças de inércia166.
Posto isso, as novas perguntas propostas por Febvre, e as novas
demandas interdisciplinares por ele reivindicadas, enriqueceram
consideravelmente os caminhos historiográficos de sua geração e
das que lhe seguiram.
A importância da análise filológica e conceitual em O proble-
ma da descrença em Rabelais (1942), de fato, recolocou a questão
da demanda por um campo fundamental de interdisciplinaridades
para a História, sem o qual os novos historiadores não poderiam
avançar para enfrentar um dos seus mais antigos desafios: o ana-
cronismo. O valor do diálogo com disciplinas como a Filologia, a
Linguística, e também as ciências da comunicação, foi desde cedo
percebido pelos historiadores dos Annales. Marc Bloch, em sua
Apologia da História (1941-1942), escrito na mesma época em
que Lucien Febvre elaborava seu ensaio sobre Rabelais (1942), já
fazia notar que “para desespero [dos historiadores], os homens não
costumam mudar de vocabulário a cada vez que mudam de hábi-
tos”167. A perenidade de uma palavra pode oferecer ao historiador
a armadilha do anacronismo. Os conceitos têm uma história, assim
como cada palavra, e a permanência de certas palavras no vocabu-
lário, por vezes, ocultam uma extensa história que é preciso deci-
frar. Ainda seriam necessárias algumas décadas para que, com Ko-
selleck (1979) e outros historiadores contemporâneos, surgisse um
novo campo histórico – a História dos conceitos –, mas na quarta
década do século XX tanto Febvre como Bloch já se mostravam
particularmente atentos à urgência do desenvolvimento deste cam-
po de estudos no interior da historiografia.

166. Na biografia febvriana, de fato, “é a exemplaridade, e não a excepcionalida-


de, que é buscada” (REVEL, 1993, p. 531). Rabelais é tratado como um exemplar
da cultura renascentista. Mas podemos também nos perguntar pela excepciona-
lidade de Rabelais. A biografia micro-histórica, nos anos de 1970, contornará
este dilema. A “história de vida” escolhida é com alguma frequência a de uma
pessoa comum, realmente “não excepcional”. Nesse caso, pode-se dizer que há
mais coerência no tratamento de um anônimo como “exemplar” do que no trata-
mento exemplar de um indivíduo que, a olhos visíveis, atingiu a excepcionalidade.
167. Bloch, 2001, p. 24.

182
31
Escravidão e liberdade: variações
nas relações entre os dois
conceitos

Quero utilizar um último exemplo para finalizar minhas obser-


vações sobre o anacronismo e sobre a necessidade historiográfica
de considerar o potencial generalizador dos conceitos, seja na sua
faceta diacrônica como na sua instância sincrônica. Gostaria de
discorrer, a seguir, sobre o conceito de “escravidão”. Ou melhor,
minha intenção é discutir a relação entre dois conceitos: liberdade
e escravidão.
“Escravidão”, pode-se dizer, corresponde a um dos concei-
tos conhecidos com maior potencial generalizador diacrônico, e
também sincrônico. Inúmeras sociedades e ambientes sociais, em
diversas épocas e em diversos espaços (países diversos, socieda-
des várias e ambientes sociais diversificados) conheceram desde
a Antiguidade a escravidão, e há ainda hoje formas modernas de
escravidão. Contudo, uma certa “compreensão” do conceito de es-
cravidão, aplicável a inúmeros casos, encontra a certo momento o
seu limite espacial. Examinarei mais especificamente o conceito
de escravidão na sua relação com a liberdade, ou com a ausên-
cia de liberdade.
O conceito de “liberdade”, de sua parte, é também dos que apre-
sentam as maiores extensões. Nenhum ser vivo, inclusive o homem,
deixou de experimentar, pelo menos algumas vezes, a sensação de
liberdade, e de sua perda. Cecília Meirelles (1901-1964), em Ro-
manceiro da inconfidência (1953), registra estas palavras:
[...] Liberdade, essa palavra que o sonho humano ali-
menta, que não há ninguém que explique, e ninguém
que não entenda [...] (MEIRELLES, C. Romanceiro da
inconfidência).

“Liberdade”, já dizia a nossa maior poeta, é essa palavra “que


não há ninguém que explique”, mas cujo sentido não há “ninguém
que não entenda”. Em seu aspecto mais irredutível, entende-se a
liberdade a partir do exercício do próprio gesto de ser livre, de
dispor livremente de si diante das limitações naturais e das condi-
ções que o mundo nos oferece, de ser responsável pelas próprias
escolhas. É difícil tentar explicar a liberdade sem o recurso às
próprias palavras que já compartilham do seu significado: “livre”,
capacidade de dispor “livremente” de si, “liberdade” de escolha.
Melhor, talvez, é o recurso às imagens: o pássaro que alça voo sem
que seus movimentos sejam impedidos ou ameaçados, tendo à sua
frente o céu infinito e limpo, é com frequência uma das imagens
preferidas para transmitir de imediato a ideia de liberdade.
Em contrapartida, não é possível explicar um dos seus opos-
tos – a escravidão – senão por referência direta à ideia de liber-
dade. Ser escravo, como estar prisioneiro, é um estado que implica
a privação da liberdade. A escravidão, contudo, mais do que a si-
tuação de alguém que esteja prisioneiro em um calabouço estreito
e escuro, representa efetivamente a privação absoluta de liber-
dade – pelo simples fato de que o prisioneiro, formalmente, ainda
detém a posse de si mesmo nos limites da prisão que lhe restringe
os movimentos. O escravo, ao contrário, ainda que circulando pe-
las ruas de uma cidade sem visíveis restrições de movimentos e
sem aparente controle sobre seus atos, será necessariamente defi-
nível como aquele que já não pertence a si mesmo: a privação de
liberdade atingiu-o no âmago mais irredutível da sua humanidade
mínima, que passa a ser controlada em todas as instâncias por um
outro homem. O escravo – por decisão de um outro que se coloca
como o seu senhor – poderá ser transformado em instrumento de
trabalho, poderá ser doado ou vendido, poderá ser objeto de he-
rança e de inventário, poderá ser castigado à vontade, e há mesmo
regimes que permitirão que lhe retirem a vida em função de uma

184
simples decisão daquele que detém a posse do escravo. Ao contrá-
rio do prisioneiro, o escravo torna-se aos olhos da justiça, da elite
senhorial ou da estrutura política que o envolve, um instrumento
animado, um objeto, uma mercadoria. Sobretudo, na perspectiva
do sistema escravista que o define, sua vida perde a autorreferên-
cia e passa a estar diretamente associada a um outro ser humano,
que formalmente o possui.
Quero refletir mais especificamente sobre a dicotomia entre es-
cravidão e liberdade, particularmente com vistas a examinar um
caso interessante de variação em uma relação conceitual em dois
espaços diferenciados. Será esta uma relação dada, ou também se
trata de uma forma de interação histórica? Generalizá-la é válido?
Postularei que a dicotomia que opõe escravidão a liberdade adquire
sentidos diversos nos vários contextos histórico-sociais e civiliza-
cionais a serem considerados.
Para o Ocidente moderno, demonstram Miers e Kopytoff (1977),
“liberdade” costuma implicar um caminho simbólico em direção à
autonomia e à ausência de restrições sociais. Essa visão da liberdade
como busca da autonomia seria uma visão particularmente ociden-
tal da noção de liberdade e, consequentemente, da dicotomia “escra-
vidão x liberdade”.
Não obstante, no âmbito do circuito civilizacional africano, ou
ao menos na maior parte das sociedades africanas que precedem
a chegada dos europeus, a ideia de liberdade não estaria de modo
algum ligada a esse “desligar-se” de restrições sociais, no sentido
da autonomia individual. Ao contrário, a liberdade estaria referida
a outro tipo de “pertencer”. O escravo (ou o cativo, designação
que muitos preferem utilizar para o caso dessas sociedades africa-
nas) podia ser entendido em alguns desses povos como aquele que
perdera o seu “pertencimento”, os seus vínculos pessoais – enfim,
como aquele que sofrera uma espécie de “morte social”, para agora
utilizar um conceito cunhado por Orlando Patterson (1982).
Daí decorre que, em sociedades africanas desse tipo, o gesto
de recuperar a liberdade ou de caminhar para ela deveria apontar
para a possibilidade de o escravo (o cativo) encontrar um novo per-
tencimento – ou seja, uma nova rede de parentesco, um patrono, a

185
proteção de um poder social. Era em torno dessa busca de um novo
pertencimento que o escravo podia se movimentar no eixo da desi-
gualdade escrava168.
Para o período africano que precede a chegada dos portugueses,
parece confirmar-se em diversas regiões africanas uma forma de es-
cravidão de estilo patriarcal, para a qual seria talvez mais adequado
falar em “cativos” do que em “escravos”. Nessa, o tráfico estava
excluído, já que o cativo integrava-se à família sem possibilidade
de ser vendido, e em certas regiões como o Daomé pré-colonial, por
exemplo, os filhos de escravos nasciam livres para serem imediata-
mente integrados à família do senhor169.
Com o exemplo quero mostrar que o conceito de escravidão –
ou pelo menos a compreensão mais habitual do conceito de escra-
vidão voltada para os estudos do escravismo no novo mundo, na
Antiguidade, e em inúmeros outros espaço-tempos – pode encon-
trar seu limite em algumas das sociedades africanas, para as quais
precisa ser proposta uma outra compreensão do conceito de escra-
vidão. Defrontamo-nos aqui com mais um caso a observar sobre
os limites no “potencial generalizador sincrônico” de um conceito.
Quando aplicamos a determinadas sociedades africanas a
compreensão do conceito de escravidão que é válida para as socie-
dades europeias e coloniais do período moderno, podemos estar
cometendo também alguma forma de inadequação conceitual. Não
é propriamente um anacronismo, pois não envolve sociedades em
tempos diferenciados (e sim sociedades em espaços diferencia-
dos), mas trata-se de todo modo de uma inadequação conceitual.
Exemplos como esse, e tantos outros, colocam-nos diante dessa
instigante aventura que consiste da busca do conceito adequado,
da formulação correta para o trabalho em vista.

168. Suzanne Miers e Igor Kopytoff chamam a atenção para o fato de que, neste
caso, “escravidão” não se opõe a “liberdade” no sentido de autonomia, mas sim a
“pertencer”, “fazer parte” (MIERS & KOPYTOFF, 1977, p. 17).
169. Mattoso, 1982, p. 25.

186
32
Paralisia conceitual

A utilização dos conceitos com consciência de sua historici-


dade, conforme vimos neste ensaio, é crucial para o historiador.
Compreender os dois níveis de conceitos com os quais devemos
lidar em nosso ofício de historiadores e de cientistas humanos, ao
menos quando lidamos com objetos históricos, que é o caso de
todas as obras historiográficas e também de algumas submodalida-
des das demais ciências humanas, é de fato uma operação crucial.
A sociologia histórica, antropologia histórica, linguística históri-
ca, história do Direito, e outros campos igualmente específicos do
saber, necessitam tanto da consciência da historicidade quanto os
próprios historiadores.
Os conceitos são instrumentos fundamentais para a teoria –
são meios que favorecem a produção de saberes. Eles não são,
entretanto, os fins em si mesmos. São caminhos. Podemos en-
cerrar alertando contra os riscos opostos. A paralisia conceitual
pode ocorrer quando nos perdemos nessa tentativa de assegurar a
consciência histórica através de uma busca obsessiva do conceito
perfeito. Além de “unidades de conhecimento”, conforme vimos
anteriormente, os conceitos também não deixam de ser “unidades
de comunicação”. Eles constituem um vocabulário problematiza-
do através do qual podem se comunicar os praticantes de um cam-
po de saber. Existe um ponto em que a busca obsessiva de precisão
pode ser tão exagerada que pode comprometer a comunicação, e
contra isso devemos nos precaver. Sérgio Buarque de Holanda
identifica o problema em um artigo importante, intitulado “Sobre
uma doença infantil da historiografia” (1973).
Trata-se, sim, de curioso aspecto de uma tendência
incipiente de alguns poucos autores nossos para uma
historiografia purgativa, dado que seu principal traço
consiste no querer levar o vocabulário histórico a
absorver a força os usos e costumes que possa parecer
a mais rigorosa linguagem científica, e purgá-lo depois
de qualquer expressão ambígua, imprecisa ou suspei-
ta de inexatidão170.

O problema apontado é importante. O excesso de precisão


conceitual não poderá também, em alguns casos, levar à paralisia
conceitual? Lembro-me do caso de um professor, com o qual tra-
balhei em uma universidade, que sempre voltava insistentemente
à discussão sobre a necessidade de mudar o nome da disciplina
“Brasil Colônia” (ou “História do Brasil I”) para “América Por-
tuguesa”, sob a argumentação de que, na época, ainda não exis-
tia propriamente o Brasil. Algumas vezes, temos de ter também
consciência de que o uso de determinada expressão já se tornou
por demais familiar, e que abrir mão dela não é a melhor solução.
Em A sociedade feudal (1939), depois de discutir os desdobra-
mentos vários do conceito de “feudalismo”, Marc Bloch reconhe-
ce seus limites e imprecisões, mas também observa que o conceito
de “feudalismo” já se tornara muito familiar aos historiadores e
leitores de História. Conservá-lo, mesmo que indicando os seus li-
mites, pareceu-lhe a melhor solução. Diz-nos o historiador francês
que prefere prosseguir com a utilização do conceito, “sem mais
remorsos que os que sente o físico quando, com desprezo pelo
grego, persiste em denominar ‘átomo’ uma realidade que ele passa
o seu tempo a decompor”171.
Essa capacidade de perceber e dar a perceber quando convém
mergulhar mais a fundo na busca da precisão conceitual, de modo
a enfatizar o papel do conceito como “unidade de conhecimento”,

170. Holanda, 2011, p. 419.


171. Bloch, 1987, p. 13. Bloch foi algumas vezes criticado por esta frase genial,
até com certa razão nos momentos mais específicos em que o objeto de pesquisa
exigiria uma precisão do conceito de “feudalidade”. Cf., p. ex., o estudo O feuda-
lismo – Um horizonte teórico, de Alain Guerreau (1980, p. 90-91).

188
e quando convém utilizá-lo com maior flexibilidade, valorizando
o seu papel como “unidade de comunicação”, faz parte dos atribu-
tos do historiador – ou do seu feeling, por assim dizer.
Conforme vimos no capítulo anterior, o conceito de escravi-
dão – experiência histórica que permite a comparação de inúmeras
formas de dominação escravista já conhecidas pela História – po-
deria requerer, por obra de um historiador obcecado pela busca de
conceitos perfeitos, termos bem-específicos para cada caso. Seria
interessante chamar por uma outra designação ao “escravo” in-
serido no mercado atlântico moderno e no sistema específico de
trabalho e de sujeição social imposto nas colônias europeias, e
por outra ao “cativo” africano do mesmo período, ao reconhecer-
mos que temos noções distintas de escravidão? A possibilidade
coloca-se como alternativa para os historiadores que abordam os
sistemas escravistas. Não obstante, também sabemos que na Áfri-
ca do período existem inúmeras sociedades, muitas delas com o
seu modelo próprio de escravidão. Deveremos incorporar uma
expressão própria para cada uma dessas experiências?
A certa altura de seu ensaio Como se escreve a História (1971),
Paul Veyne chama atenção para o problema dos chamados “con-
ceitos sublunares” (os conceitos relativos ao mundo humano):
Quando se pronunciam as palavras classe social, o que
é ingênuo, desperta-se no leitor a ideia de que essa
classe devia ter uma política de classe, o que não é ver-
dadeiro para todas as épocas. Quando se pronuncia as
palavras “a família romana”, sem qualquer precisão, o
leitor é induzido a pensar que essa família era eterna,
isto é, a nossa, enquanto que com seus escravos, seus
protegidos, seus adolescentes eunucoides, seu concu-
binato e a prática de abandonar recém-nascidos, era tão
diferente quanto a família islâmica ou a chinesa. Em
uma palavra: a História não se escreve sobre uma pá-
gina em branco: lá onde nada vemos, supomos que há
o homem eterno; a historiografia é uma luta incessan-
te contra nossa tendência ao contrassenso anacrônico
(VEYNE. Assim se escreve a História)172.

172. Veyne, 1982, p. 71 [original: 1971]. Três anos mais tarde, no artigo “A His-
tória conceitual” (1974), Paul Veyne faz uma discreta e moderada crítica à sua
antiga posição (VEYNE, 1988, p. 71).

189
O problema do anacronismo é real; o desafio de enfrentá-lo no
dia a dia da prática historiográfica não pode ser contornado. Tam-
pouco devemos deixar que a fobia do anacronismo nos conduza a
uma paralisia conceitual. Há um ponto em que, ao buscar a ilusão
da precisão, ou ao nos entregarmos à perseguição do conceito per-
feito para cada caso, começamos a prejudicar o processo possível
de comunicação, a leveza do texto, a possibilidade de instrumenta-
lizar os conceitos como recursos de comparação. Há um momento
em que nos deixamos nos aprisionar pela paralisia conceitual, ou
que, para o caso dos historiadores, sucumbimos de alguma manei-
ra a uma “doença infantil da historiografia”.
Há que ser considerada, por fim, a questão da leveza artística
dos conceitos, para além de sua gravidade científica. Em um mundo
calculista, quantitativo, propaladamente sério, por vezes demasiado
duro, tendemos a esquecer muito facilmente que os conceitos nas-
ceram de inspiradoras imagens, de audaciosas metáforas, de deslo-
camentos criativos de palavras, de contornos irregulares através dos
quais nos empenhamos em mapear o caos. Muitas vezes, conforme
nos mostra o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), os
conceitos não deixam de ser “ilusões, das quais se esqueceu o que
são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas
que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como
metal, não mais como moedas”173. Aprisionado sob o seu “céu con-
ceitual matematicamente repartido”174, os historiadores e cientistas
humanos obcecados com a objetividade estão sob o risco permanen-
te de deixar escapar essa necessária leveza.
Quero finalizar dizendo que conceituar não é apenas uma ope-
ração científica, mas também uma arte. A invenção ou descober-
ta das notas características que farão parte da composição de um
acorde conceitual, assim como a adoção de conceitos já existentes
ou inéditos que serão utilizados para entretecer a tessitura teórica

173. Nietzsche, 1974, p. 56 [original: 1873].


174. Ibid., p. 57.

190
na qual se apoiará a obra historiográfica, constituem atos criadores
que não ficam a dever às diversas formas artísticas de expressão.
Não apenas escrevemos obras historiográficas, de um ponto de
vista meramente técnico. Devemos compô-las, como fazem os
músicos. Os textos de História, bem como os textos relacionados
a outros campos de saber que fazem parte da palheta das ciên-
cias humanas, podem se tornar pontos de confluência entre a
ciência e a arte.

191
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200
Índice onomástico

Allende, S. 107, 123 Gadamer, H.-G. 82


Arendt, H. 97-100, 116, 124 Gandhi, M. 123
Aristóteles 38, 69 Gell-Mann, M. 25
Guattari, F. 18, 35, 60, 64, 80,
Blanqui, A. 105 101, 109
Bloch, M. 172, 176, 182, 188
Bobbio, N. 124 Hegel 31, 70, 80
Brecht, B. 95, 132 Heidegger, M. 30, 75
Heráclito 69, 137
Childe, G. 118, 120 Holanda, S.B. 177, 188
Cusa, N. 82
Joyce, J. 25
Dahlberg, I. 11, 66
Darwin, C. 46
Kant, I. 69, 134
Deleuze, G. 18, 35, 60, 65, 80,
Kierkegaard, S. 29
101, 109
Koselleck, R. 27, 31, 64,
Delumeau 30
147s., 182
Descartes 80
Dobb, M. 175 Kosuth, J. 10
Duby, G. 161 Kuhn, T. 58

Eagleton, T. 57 Labrousse, E. 161


Einstein, A. 56 Leal, V.N. 155s.
Elias, N. 158 Lefebvre, G. 30
Engels, F. 70, 80, 114, 119, Le Goff, J. 161
147, 160 Lenin V.I. 105

Febvre, L. 180-182 Magritte, R. 10


Feuerbach, L. 80 Maquiavel, N. 148
Marx, K. 70, 80, 105, 114, 119s., Sartre, J.-P. 30, 75, 140
122, 147, 160 Sócrates 28, 70
Meirelles, C. 183 Sweezy, P. 175

Nietzsche, F. 190 Thompson, E.P. 154


Tracy, D. 160
Pasquino, G. 124
Platão 28 Veyne, P.-M. 37s., 62, 189
Pomian, K. 116s., 120
Prost, A. 157, 167 Zenão 70
Ptolomeu 16

202
Índice remissivo

Acorde 31, 71, 83-93 Evolução 61, 130


Anacronismo 145-147, 151, Extensão 53, 63, 72-82
160-163, 170, 177-180
Angústia 29s., 75, 78 Fascismo 169s.
Annales 117s., 182 Feminismo 161s., 168
Antropologia 40, 59, 157 Feudalismo 172-176
Arte 10 Filosofia 29, 70, 77s., 80
Astrologia 13
Astronomia 12-17, 38, 52 Generalização 31, 41s.
Ateísmo 180s. Golpe de Estado 28, 102s.
Governo 22s.
Caos 14, 19, 23, 38, 80 Guerra 22, 25, 50
Categoria 68s.
História conceitual 39, 64
Clientelismo 170
Historicidade 55, 61-64
Compreensão 72-82, 100
Homem 29, 75s., 113-115
Constructo 43s.
Conversibilidade 53, 125
Ideologia 57s., 147s.
Coronelismo 155s., 171 Imaginário 46
Crise 158, 161s., 167
Cultura 59 Liberdade 74, 98, 109, 183

Densidade demográfica 25, 59 Medicina 122, 159


Diacrônico 164-171 Mitologia 18
Dialética 69s.
Ditabranda 106-108 Nazismo 162, 169s.
Ditadura 102-105 Neonazismo 169
do Proletariado 105 Noção 67
Militar 102-104 Notas 31, 81, 83-85
Paradigma 29, 56, 58 Seleção natural 46
Planeta 15, 52-54 Sincrônico 172-176
Polissemia 28, 52-60
Populismo 153-155 Termo 11, 24, 66
Primeira República 155s. Transversalidade 45-47
Trifuncionalidade 161
Raça 62
Realeza 24 Violência 20-22, 121-124
Redes (de conceitos) 109-112
Revolução 21, 28, 41, 97-101,
109-112, 127

204