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18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Arte urbana, intervenções e cidade:


15 hours ago
apontamentos coletivos em curso.
Estarei retomando hoje o antropologiZZZando sob nova dinâmica e
formato. Após a experiência etnográfica do pós-doutorado em
Lisboa, no retorno à Fortaleza, iniciei uma disciplina para a
Pós-Graduação em Sociologia da UFC denominada, formalmente, de
Sociologia Urbana. A ementa está assim sintetizada (os
objetivos do curso serão destacados no final dessa publicação,
assim como os vários módulos):

"Paisagens urbanas, linguagens e estéticas


artísticas. Narrativas e imagens da arte urbana: a
cidade material e o ambiente digital. Tensões
entre o legal e ilegal da street art:
os graffiters das galerias urbanas. O patrimônio
histórico e as inscrições juvenis na cidade: o que
é público na arte?"

Estão participando dessa disciplina alunos (30)dos cursos de


pós-graduação das áreas de sociologia, comunicação, artes,
história e educação. A idéia que tivemos hoje, em sala de aula,
foi de ampliar essa experiência para outros internautas,
interessados na temática. Publicaremos um texto-base à cada
semana que deverá sofrer intervenções, receber comentários e
propostas de complementos; tanto dos alunos que compõem o
curso, como de pesquisadores e estudiosos da temática que
poderão se integrar ao mesmo por meio do blog.

Tenciona-se findar a disciplina com uma espécie de livro-malta,


tecido de forma a-centrada, des-localizada, fomentado por
saberes e fazeres diversos. Como dizem os portugueses, se
calhar, publicaremos o primeiro livro que é de todo mundo e não
é de ninguém.

O texto dessa semana, apresentado à seguir, foi constituído a


partir do diálogo com Jacques Ranciére, no livro "O Espectador
Emancipado". Que cada um adentre essa sala de reflexão e deixe
sua marca. Criar é construir territórios móveis. O texto é um

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rascunho, ainda impreciso, modulado por vácuos e, por alguns


desacertos, prováveis, de digitação e escrita. Arriscar é o
mote. Vamos?

No espaço dos comentários, você poderá indicar como pretende


dialogar com o texto. Em seguida, veremos uma forma de alinhar
as contribuições.

O teatro e a cidade: aproximações entre palco


e platéia
(aula um)

Glória Diógenes

Iniciaremos essa disciplina tendo como ponto partida a


percepção do lugar do espectador, tanto no que se refere aos
comportamentos públicos como aqueles relacionados à vida ativa.
Até que ponto a ampliação da esfera pública, a movimentação e
ocupação das ruas das grandes cidades, constituiu vias de
fluxo, de passagem, do não encontro? No diálogo com
Baudelaire, Berman (1988, p. 154) ressalta que o homem “na rua
moderna, lançado nesse turbilhão, se vê remetido aos seus
próprios recursos – frequentemente recursos que ignorava
possuir [...] para atravessar o caos ele precisa estar em
sintonia, precisa adaptar-se aos movimentos do caos. A cidade
vai cada vez mais sendo cadenciada pelo lógica incessante dos
movimentos, das passagens, da habilidade que possui cada
indivíduo de driblar os esbarrões, o choque.

A velocidade dos movimentos, a ocupação episódica e instantânea


dos espaços públicos, fomenta um tipo de registro, de percepção
da cidade que efetua-se em nível de lembrança, cujas marcas,
se transmudam e se alteram em operações, também, velozes. Como
afirma Walter Benjamin (2000, p.38), estamos diante de
indivíduos cujas lembranças se constituem como freio a
estímulos:

Acumular zelosamente "marcas duradouras como fundamento


da memória" de processos estimulantes é algo que se acha
reservado, segundo Freud, a "outros sistemas", que é
necessário pensar como diferentes da consciência. Segundo
Freud, a consciência como tal não abrigaria marcas
mnemônicas. Em compensação, a consciência teria uma
função distinta e de importância: a de servir de proteção
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contra os estímulos.

Para o organismo vivo a defesa contra os estímulos é uma


tarefa, talvez, mais importante do que a recepção destes;
o organismo encontra-se dotado de uma quantidade própria
de energia e deve tender, sobretudo, a proteger as forças
particulares de energia que a constituem com referência
ao influxo nivelador,'e portanto destrutivo, das energias
demasiadamente grandes que atuam no exterior A ameaça
proveniente dessas energias é a ameaça de choques. Quanto
mais normal e habitual for o registro de choques por
parte da consciência, menos se deverá temer um efeito
traumático por parte dos mesmos.

A cidade emerge como um organismo vivo, um corpus que abriga,


acolhe e expulsa muitos outros corpos. A ameaça do choque, dos
encontros demorados, dos vínculos mnemônicos poderia, de
principio, “travar” o fluxo das cidades do trabalho, das
cidades cujo ritmo se impõe entre intervalos de esforços do
consumo, do descanso e do lazer. Houve um tempo, fim do século
XVIII, início do século XIX, em que a presença de funâmbulos,
equilibristas, homens/mulheres que cospem fogo,

Antropologizando:
, se divertir nArt
contorcionistas, acrobatas no coração das ruas fazia a plateia
pesquisar
rir
Início uma …
grande festa provocando assim “um gasto
Classic
desmedido de energias” (SOARES, 1998, p. 70). No estudo das
“Imagens de Educação no Corpo”, Soares assinala que de acordo
com Bakhtin[1] [https://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn1] , “a festa é isenta de todo sentido
utilitário (um repouso, uma trégua etc). É a festa que,
libertando de todo o utilitarismo, de toda finalidade prática,
fornece o meio de entrar temporariamente num universo utópico”
(1998, p. 72). A recodificação da ocupação nos espaços públicos
coincide com a reorganização dos corpos e de suas performances
nesse âmbito.

Suprimir a festa, os jogos, suprimir do espaço público, como


diz Duvignaud (1983, p. 36) nossas manifestações mais simples
– comer, caçar, amar, parir e morrer é um modo de potencializar
o urbano como esfera das regulações produtivas, um biopoder[2]
[https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn2] . A
instância da festa “não implica qualquer outra finalidade senão
ela mesma” (p.66), a “festa destrói toda regulamentação [...]
ela não apenas viola mas destrói os códigos e as normas” (p.
67). A festa, assim como os jogos, mobilizam a excitação (ELIAS
e DUNNING, 1992), a intensidade do movimento dos corpos em
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conexão com os lugares em que vivem e atuam. A distância entre


os corpos é o antídoto da festa.

O jogo e a festa (HUIZINGA, 2001, p. 25) implicam numa


eliminação da vida cotidiana, em ambos predominam a alegria e
a liberdade, como uma evasão da vida real. Nessas instâncias os
limites entre palco e plateia se encontram e se misturam. Joga,
também, quem assiste e se encontra no suposto lugar do
espectador. Dança, também, que circunda o espaço da festa. As
separações, as limitações temporais e espaciais dos limites dos
jogos e da festa tornou mais séria a civilização, “ao atribuir
ao jogo apenas um lugar secundário”(p. 84). Surge um homem
público que divide seu tempo entre seriedade e delírio, entre
trabalho e tempo lúdico, entre “ser ele mesmo” e se revestir de
máscaras e papéis.

A proximidade dos corpos nos lugares da cidade, não


necessariamente, implica em encontros. Na discussão de Goffman
(2010, p. 28) sobre “comportamentos em lugares públicos”, “...a
região do espaço onde se pode considerar que a presença mútua
Modelo Dynamic Views. Tecnologia do Blogger. Reportar problem as
prevalece não po de se r de limita da claramente, já que as pessoas
que estão presentes em pontos diferentes da rua podem ser
capazes de observar um conjunto de outros indivíduos levemente
diferente, e de serem observadas por ele”. Para projetar essa
situação ele utiliza o termo ajuntamento. Qual seja, a
proximidade, nem sempre, resulta em conectividade e em
percepção da presença.

Provavelmente, esse comportamento, como menciona Sennett


(1988, p. 115), no “declínio do homem público” “é, antes de
tudo, uma questão de agir a certa distância do eu, de sua
história imediata, de suas circunstâncias e de suas
necessidades”, tal qual a que se operou no teatro entre palco
e plateia, entre ator e espectador. Historicamente, por volta
de 1750, havia no teatro uma visível mistura de atores e
espectadores, e observava-se, também, na plateia uma exibição
de sentimentos, uma interferência direta na ação dos atores.
(SENNETT, 1988, p. 101). Essa separação entre palco e platéia
acaba conduzindo e cadenciando modos singulares de
comportamento dos indivíduos na esfera pública das cidades.
Resta saber o que essa movimentação, essa distância tática
entre corpos, o drible do caos possibilita no agir em público.

Na “Condição Humana”, Arendt (1987, p. 50) ressalta que o

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surgimento da esfera pública moderna exclui a possibilidade da


ação, ao invés dela, “a sociedade espera de cada um dos seus
membros um certo tipo de comportamento, impondo inúmeras e
variadas regras, todas elas tendente a ‘normalizar’ os seus
membros, a fazê-los comportarem-se , a abolir a ação espontânea
ou mesmo inusitada”. Segundo Hannah concentram-se em uma única
atividade necessária para manter a vida – o labor. (p. 56).

De algum modo, estar na cidade, fazer parte dessa mecânica


ondulatória de corpos em público, passa a ser percebida como
uma certa ausência de percepções de pertencimentos, de conexões
corpo-lugar. É exatamente a lógica incessante do movimento,
das passagens que acaba por traduzir um distanciamento, um
recuo das ações espontâneas. Como pontua Sennett (2003, p.
215), o corpo em infindável locomoção desloca-se da sua
história, ao perder conexões com outras pessoas e com os
lugares através dos quais se move. Desse modo, o movimento
autônomo, ou automatizado diminui a experiência sensorial, e
“qualquer forte conexão visceral com o meio ameaça tolher o
indivíduo” (p. 214). Completa Sennett que tudo isso produz uma
espécie de “crise táctil” em que “deslocar-se ajuda a
dessensibilizar o corpo (p. 214).

Talvez, por tal razão, uma das “cidades invisíveis” de Calvino


ganhe corpo em Cloé, “cidade grande em que as pessoas passam
pelas ruas e não se reconhecem. Quando se vêem imaginam mil
coisas umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer com
elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas
ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e
depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam” (
2009, p. 51). Seria esse o temor que se aloca nas cidades,
desviar a energia voltada para o labor e transmudá-la em
desejo, em Eros, pulsão criativa?

Bataille (1988, p. 35) ressalta em “O Erotismo” que “pela sua


atividade o homem edificou o mundo racional, mas subsiste nele
um fundo de violência” e que sempre um nova violência pode
exercer outro domínio, excedendo os limites da razão. A obra
cidade, seu funcionamento, sua dinâmica em muito se
correlaciona ao potencial irruptivo de suas ações, à contenção
ao não das descargas afetivas, de sua propensão à disciplina
dos corpos ou de suas táticas conspiratórias da padronização
dos comportamentos públicos.

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Tudo isso significa dizer que tem predominado nas cidades


modernas um estatuto produtivo (AGAMBEN, 2012, p. 118) o que
significa dizer que o “estatuto de sua habitação na terra é um
estatuto prático”. Despreza-se a ideia da criação e as cidades
e os corpos passam a mover-se numa instância de repetição, do
encolhimento da vontade de potencia. Isso porque a cidade que
se repete na memória, que afirma seus signos urbanos, como diz
Calvino, cria, com a insistência dos signos, uma paisagem de
existência. O que acaba por provocar uma desconexão visceral
com o meio em que se vive, uma interrupção da energia criadora,
instituinte e artística. Como indica Agamben (2012, p. 149)
arte é o nome que Nietzsche confere ao traço essencial da
vontade de potência, entendido como vida e devir. As cidades
que se movem no ritmo alucinante dos movimentos frenéticos, do
tráfego, da dessensibilizacão dos corpos inscrevem-se e
produzem o que Ranciére (2010, p. 8) vai denominar de “o
paradoxo do espectador”.

Diz ele – “olhar é o contrário de conhecer. O espectador


permanece face a uma aparência, ignorando o processo de
produção dessa aparência ou a realidade que a aparência
encobre”. (2010, p. 8-9). E pontua em seguida, olhar é o
contrário de agir. Observa-se que esse desenho que Ranciére
efetua acerca da condição do espectador, está diretamente
relacionado às desconexões corpo-cidade pontuadas pelo autores
acima mencionados. Diz ele “o teatro é o lugar onde uma acção é
conduzida ao seu acabamento por corpos em movimento frente a
corpos vivos que se trata de mobilizar” (2010, p. 10). É na
miragem do movimento, de uma ação desenvolvida na posse de suas
energias vitais que Ranciére destaca a importância de um teatro
sem espectadores.

Rompe-se assim, também, com o espetáculo pautado na


exterioridade, na doença que resume o homem espectador –
“quanto mais contempla, menos é” (p. 14). E o que o homem
contempla é a atividade que lhe foi roubada. E é assim que
aqui pontuaremos a dinâmica, também, da nossa sala de aula.
Seguiremos a rota daquilo que Ranciére denomina de “emancipação
intelectual”, onde “o papel entregue ao mestre é o de suprimir
entre o seu saber e a ignorância do ignorante [...] reduzir
progressivamente o abismo que os separa”. (p. 16). Isso
significa dizer que “o saber não é um conjunto de
conhecimentos, mas uma posição”, um modo de ver e traduzir o
mundo. Então, a distância aludida entre palco
e platéia, entre espectador e drama não necessariamente é um
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“mal a abolir”, isso porque “os animais humanos são animais


distantes que comunicam através da floresta de signos” (p.
19). O desafio passa a ser ‘praticar a arte de traduzir”. (que
também é o ofício constante do antropólogo). Seria efetivar
aquilo que Bruno Latour (2000, p. 178) denomina de tradução,
qual seja, da interpretação dos dados aos construtores de fatos
e aos seus interesses. Isso é muito diferente da busca de um
plano de representações, como a descoberta do que significa, do
que representa o visto, o observado.

O princípio que guardo das pesquisas que realizo, assim como


das experiências em sala de aula, é que o narrador também age,
também constrói a pesquisa, “observa, seleciona, compara,
interpreta”. (Ranciére, 2010, p. 22). Assim como o artista,
produz não uma mensagem, ou uma lição, , mas sim uma
“intensidade de sentimento, uma energia para a acção”(p. 24).
Sendo assim, “a performance do artista não é transmissão do
saber ou do respirar do artista ao espectador. É antes uma
terceira coisa que nenhum deles é proprietário”. (p. 24). E o
saber condensado na relação mestre e alunos redunda em algo
quase nunca imaginado pelo primeiro.

Creio que a experiência mais primordial dessa disciplina volta-


se para o reposicionamento do papel de ser aluno no que tange à
inserção na sala de aula, na cidade e no fluxo próprio de
construção do conhecimento. Implicar-se no processo de produção
do organização da sua lógica própria do saber, do registrar e
do traduzir significa identificar-se dentro da cena a qual
observa, “desmantelar a fronteira entre os que agem e os que
veem, entre os indivíduos e membros de um corpo colectivo” (p.
31).

Aqui, nesse terreno de experiências coletivas singulares,


identificaremos as cidades e as artes contemporâneas como
competências que convergem, misturam-se e divergem. Isso
significa pensar, por meio das vias abertas por Ranciére, em
que “performances heterogêneas se traduzam umas nas outras”.
(p. 34). Atuaremos, conjuntamente, na ambiência de uma
comunidade emancipada, de narradores e tradutores. As palavras
contém imagens que confabulam formas activas de aprender, de
pesquisar e infinitas possibilidades de interferir e estruturar
paisagens urbanas.

Se Benjamim ressalta que o homem da multidão não é o flâneur,


e que pelo contrário
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o efeito narcotizante que a multidão exerce sobre


o flâneur é o mesmo que a mercadoria exerce sobre a
multidão. Só o poeta em sua flânerie consegue penetrar na
alma de um outro, em meio aos sobressaltos da rua. Só ele
tem acesso à privacidade de alguém, em meio ao espaço
público. (D’Angelo, 2006, ).

Não seria a mais precipua tarefa do espectador emancipar-se em


meio ao turbilhão, paralisante, do trafego? Criar e recriar
cidades sacudido pelas correntes elétricas do caos urbano?
Poetizar o espaço, dar vida aos silêncios dos, tantas vezes,
soterrados e engessados patrimônios públicos por meio de
intervenções, profanações, reinvenções?

Referências bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. O Homem sem conteúdo. Belo Horizonte:


Autêntica, 2012.

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense


Universitária, 1987.

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Lisboa: Antígona, 1988.

Benjamin, Walter. A modernidade e os modernos. Rio de Janeiro:


Tempo Social, 2000.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar – a


aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das


Letras, 2009.

D’ANGELO, Martha. A modernidade pelo olhar de Walter Benjamin.


2006. Disponível: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-
40142006000100016&script=sci_arttext

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa:


Memória e Sociedade, 1992.

DUVIGNAUD, Jean. Festas e Civilizações. Fortaleza: Tempo


Brasileiro, 1983.

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FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber.


Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

GOFFMAN, Erving. Comportamento em Lugares Públicos.


Petrópolis: Vozes, 2010.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 2001.

LATOUR, Bruno. Ciência com ação: como seguir cientistas e


engenheiros sociedade afora. São Paulo: UNESP, 2000.

RANCIÉRE, Jacques. O Espectador Emancipado. Lisboa: Orfeu


Negro, 2010.

SOARES, Carmen. Imagens a educação no corpo. Campinas: Autores


Associados, 1998.

SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público – as tiranias da


intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

_____________________. Carne e Pedra – O corpo e a cidade na


civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Objetivos

A arte urbana é uma narrativa imagética da cidade.


O urbano, cada vez mais, tem se constituído por
meio de uma pluralidade de signos, linguagens,
sinais que se descolam de figuras, formas e
suportes materiais. O movimento, a ação do olhar,
a interferência dos usos, a caixa de ressonância
da memória fazem da cidade um mosaico múltiplo,
movediço e pluri-espacial.
Entre o que se enxerga na cidade, entre o que se
apreende nas aventuras da percepção, traduções,
estabelecem-se fios narrativos, apropriações,
subversões, derivações, transmudações. O que se
vê, o que se toca, o que se experimenta no urbano
é quase sempre expropriado de suas formas e
funções, e ao ser recriado, assume não apenas
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novos repertórios simbólicos, como também, outras


materialidades. Um muro com pixo, uma cadeira
improvisada em lugares de fluxo, um banco de praça
utilizado como dormitório, uma faixa sobre a
estátua de Iracema na orla de Fortaleza – não vai
ter copa – imprime à cidade outras indumentárias e
geografias.
Cidades-em-movimento, seja pelas itinerâncias
efetuadas pelos próprios moradores, passantes,
seja pelas dobras entre ambiências digitais e
materiais, se constituem na incessante combinação
entre efemeridade e permanência. Como disse Hazul
Luzah, um artista do Porto, a cidade existe para
ser apagada. As artes urbanas operam nessa
fratura entre o material, o concreto e o que se
encontra em mutação, entre a instância da
figuração, representação e o imaterial da
invenção, da recomposição permanente de paisagens
e usos.
E ainda, se as paredes da cidade migram tantas
vezes para o ciberespaço ativando a imaginação,
traduzindo a possibilidade que ela tem de se
reinventar, a tendência é que as usuais fronteiras
de segregação urbana, de classificação, de
estreitamento da potência das “práticas de cidade”
sejam, também, dilatadas no transitar entre
presencial e virtual.
É dentro desse terreno movediço que ações e
intervenções urbanas movem-se entre o legal e o
ilegal, entre o que é considerado arte e
vandalismo. O acervo das galerias, a arte dos
juízos de gosto, como diz Agamben, mobilizam
curadores e críticos para que acionem sentenças
entre o que tem valor de mercado, o que é
identificado como bem patrimonial e o que pode ser
apenas considerado rasura, depredação, ato de
vandalismo urbano. Como o caso do graffiti
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efetuado no Farol do Mucuripe, em Fortaleza, no


Festival Concreto ocorrido em novembro, tão bem
refletido por Carolina Ruoso[1]
[https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn1] :
“Não existe patrimonialização sem vandalismos. A
fabricação do patrimônio é por si um processo de
seleção, de escolhas e recortes. Toda
patrimonialização forja identidades e inventa
discursos sobre si e sobre o outro”.

Desse modo, a disciplina de Sociologia Urbana


versará não apenas acerca de teorias, conceitos e
discursos da cidade. A ideia é que esse encontro-
em-curso provoque, em cada um de nós, o movimento
de olhar à cidade, de recriá-la e de assim
intervir em sua paisagem tanto na condição de
pesquisador, como na de actuante, como se refere
Bruno Latour. Apreendê-la na categoria de autores
na cidade, intercalando inquietações e debates
acadêmicos com algumas práticas de cidade.
O segmento juventude, por se colocar, quase
sempre, como ator e mobilizador desses
deslocamentos e ações interventivas no urbano,
emergirá no âmbito das discussões, em alguns dos
textos propostos e na troca de experiências e de
ações de observação direta.
Nesse curso, ampliaremos a voz e a participação de
atores para além da sala de aula, para além do
corpo docente e discente. A ideia é transitar, em
algumas circunstâncias, por espaços da cidade.
Atrair sujeitos que pensam e intervêm na cidade
como Hélio Rola, Narcélio Grud, Rafael Limaverde,
Weaver Lima (ainda a serem convidados), o Grupo da
Nigéria (que produziu um vídeo – Com Vandalismo[2]
[https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn2] -
sobre as Manifestações de junho) piXadores,
graffiters e sujeitos emblemáticos que intervêm no
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urbano, para assim integrarem o espaço de


discussão da disciplina.
Dialogaremos também sobre etnografia urbana e os
processos de pesquisa que abordam cidades e
juventudes, tendo a street art como campo e
paisagem. A arte, como bem pontua Jacques
Ranciére, produz ficções, dissensos, agenciamentos
de relações de regimes heterogêneos do sensível. É
nesse terreno que nos moveremos.

Conteúdo Programático

Modulo Introdutório
1. Apresentação do programa
2. Apresentação breve dos temas de pesquisa dos
alunos integrantes da disciplina.
3.Imagem, tradução e aprendizagem: Leitura de
debate do primeiro capítulo do livro de Jacques
Ranciére O Espectador Emancipado. (estará na xerox
dia 10/02).

Módulo I – As cidades e seus fluxos: lugares,


linguagens e subjetividade.

O objetivo desse primeiro módulo é de compreender


a cidade. Partiremos de algumas leituras
clássicas, e outras de natureza mais
contemporânea, sobre o urbano, seus usos,
linguagens, visões e apropriações daquilo que se
denomina, amplamente, de esfera pública.

1. A cidade e as multidões: o modernismo nas


ruas
2. Cidades e subjetividades entre dobras
3. Onde fica o público?

Bibliografia Básica

BERMAN, Marshal. Tudo que é sólido desmancha


no ar – a aventura da modernidade. São Paulo:
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Companhia das Letras, 1986. (Baudelaire: o


modernismo nas ruas)

DE CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano.


Rio de Janeiro: Vozes, 2000. (Práticas de
Espaço).

LEFBVRE, Henri. A vida cotidiana e o mundo


Moderno . São Paulo: Ática, 1991. (Fenômenos
da linguagem).

PARENTE, André. Imagem Máquina. Rio de


Janeiro, Ed. 34, 1999. (Da produção da
subjetividade).

SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público


– as tiranias da intimidade. São Paulo:
Companhia das Letras, 1988 (Capítulo 1).

ZIZEK, Slavo. A subjetividade do Por Vir.


Lisboa: Relógio D’ água, 2006. (Sujeito
Interpassivo).

Módulo II – Continentes e fronteiras da arte na


cidade.
Nesse módulo as cidades, suas visualidades e
práticas são tomadas como lugar de observação e
reflexão. As artes na cidade emergem instaurando
usos, culturas e modos de percepção urbana.

1. Bifurcações arte-cidade
2. Léxicos urbanos
3. Sentidos e narrativas das práticas urbanas

Bibliografia Básica

ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como


história da Cidade. São Paulo: Martins Fontes,
1998.

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BRISSAC, Nélson Peixoto. Paisagens Urbanas.


SENAC: São Paulo, 2003. (Introdução e Luz).

FRESHE, Fraya. “Usos da Rua”, In: FORTUNA.


Carlos e LEITE, Rogério Proença (Ogs). Plural
de Cidade: novos léxicos urbanos.
CES/Almedina: Coimbra, 2009.

LA ROCCA, Fabio, “A cidade visual – A presença


das imagens no espaço urbano”. In: CAMPOS,
Ricardo, SPINELLI, Luciano e BRIGHENTI,
Andrea. Uma Cidade de Imagens. Lisboa: Mundos
Sociais, 2011.

Mendonça, Luciana. “Sonoridade e Cidade”. In:


FORTUNA. Carlos e LEITE, Rogério Proença.
Plural de Cidade: novos léxicos urbanos.
Coimbra: CES/Almedina, 2009.

Módulo III – O lugar das imagens e o imaginário da


arte na contemporaneidade

1. A geometria e o acaso nos desenhos do


urbano.
2. Arte no urbano, arte do urbano: intervir,
marcar, transformar.
3. Luz e sombra: esboços da arte na
contemporaneidade.

AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Lisboa: Relógio D’água,


2010. (O que É o contemporâneo?).

MATOS, Olgária. O direito à paisagem. In:


PECHMAN, Robert Moses (org), Olhares sobre a
Cidade. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994.

PALLAMIN, Vera M. Arte Urbana. São Paulo:


Annablume/FAPESP, 2000.

RANCIERE, Jacques. Política da Arte. (mimeo).

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___________________, O Destino da Imagens.


Lisboa: Orfeu Negro, 2011.

SAMAIN, Etienne. Como pensam as imagens. São


Paulo: Ed. Unicamp, 2012. (As imagens não são
bolas de sinuca. Como pensam as imagens)

VIANA, Hermano. “Ternura e atitude blasé na


Lisboa de Pessoa e na metrópole de Simmel”. In:
VELHO, Gilberto (Org.). Antropologia Urbana:
Cultura e Sociedade no Brasil e em
Portugal,1999.

WENDERS, Wim. “Cinema além das fronteiras”. In:


Pensar a Cultura. Porto Alegre: Arquipélago
editorial, 2013.

Módulo IV- Traduzindo e atuando nas artes urbanas:


ler, pesquisar, pensar, intervir, transmudar –
Nessa etapa do curso iremos refletir e apreciar,
por meio de vídeos e observação direta,
construções de imagens e significados da arte
nos espaços geográficos da cidade e no
ciberespaço.

LOPES DA SILVEIRA, Fabrício. “Outros Grafites.


Outras topografias, outras modalidades. In:
CAMPOS, Ricardo, SPINELLI, Luciano e
BRIGHENTI, Andrea. Uma Cidade de Imagens.
Mundos Sociais; Lisboa, 2011.

BENNETT, Andy. “Virtual subculture? Youth,


Identity, and Internet”. In: After Subcultures
– Critical Studies in Contemporary Youth
Culture. Great Britain, 2004.

CAMPOS, Ricardo. Por que pintamos a cidade?


Uma abordagem Etnográfica do graffiti urbano.
Lisboa: Fim de século, 2010.

DIÓGENES, Glória. Entre cidades materiais e


digitais – esboços de uma etnografia dos
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fluxos da arte urbana em Lisboa. In prelo

DIÓGENES, Glória. “O "bombing" da etnografia: a

desordem das classificações entre Arte Urbana e "Graffiti".

[http://antropologizzzando.blogspot.com/2
013/05/o-bombing-da-etnografia-desordem-
das.html] Disponível em:
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/05/o-bombing-da-

etnografia-desordem-das.html

[http://antropologizzzando.blogspot.com.br
/2013/05/o-bombing-da-etnografia-
desordem-das.html]

[1] [https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://pesquisamuseu.wordpress.com/2013/11/20/marejaram-os-olhos-do-mar-
dialogos-entre-grafite-e-patrimonio-em-fortaleza/
[http://pesquisamuseu.wordpress.com/2013/11/20/marejaram-os-olhos-do-mar-dialogos-
entre-grafite-e-patrimonio-em-fortaleza/]

[2] [https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
http://www.youtube.com/watch?v=KktR7Xvo09s [http://www.youtube.com/watch?
v=KktR7Xvo09s]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 16/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[1] [https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Mikhail Bakhtin. “A cultura popular na Idade Média e no
Renascimento”: O contexto de François Rabelais. São Paulo:
Hucitec, 1987.
[2] [https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
Michel Foucault.

Postado há 15 hours ago por Glória Diógenes

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7th November 2013 Face to face: Dalaiama e eu.

[http://2.bp.blogspot.com/-
NREDPje5pUE/UnvpidI47hI/AAAAAAAABUs/Gnp4tCGwQ5A/s1600/Dalai+hoje.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 17/172
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“Numa época em que tudo é acessível, em que se sabe tudo de


tudo, em que tudo é exposto pelos media e estamos a perder
privacidade e liberdades pessoais em nome da segurança pública,
ele (Banksy) surge como um fenómeno que consegue escapar a este
escrutínio, algo que ninguém consegue explicar por inteiro, que
ninguém consegue desvendar e expor publicamente. Creio que
grande parte do fascínio do público reside precisamente neste
anonimato, neste mistério que se perpetua em torno da sua
identidade, mas é preciso não esquecer o conteúdo da sua obra,
o seu enquadramento específico no espaço público, o uso
magistral da ironia, o modo como manipula os signos e os
suportes do espaço urbano em proveito próprio e, claro, a sua
simplicidade formal e acessibilidade”.

(Alexandre Farto, o Vhils, sobre o Banksy. Publicado por Vitor


Belanciano[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn1] )

a) Antes de dar à cara: proximidade e distância entre


ambientes.

Aguardei o encontro presencial com Dalaima por mais de seis


meses. E, nem tanto. Como já mencionei na última publicação do
AntropologiZZZando, identifiquei o primeiro estêncil do autor
ainda em meados de 2012, próximo ao miradouro de Santa Luzia.
Ao desembarcar em Lisboa e iniciar o campo propriamente dito,
busquei no Facebook a página de Dalaima e, em seguida, o
adicionei. Passei assim, ao ter “aceito” meu pedido de
“amizade”, a visitar, apreciar intervenções artísticas de
Dalaima postadas em sua página, a ler seu blog, a compartilhar
e comentar suas publicações.

O meu primeiro contato direto ocorreu no dia 03 de maio de


2013:

Olá, sou antropóloga brasileira e estou fazendo uma pesquisa


aqui por um ano sobre Arte Urbana. Tenho conversado com alguns
artistas de Lisboa. Além de ver teu trabalho nas ruas, Eduardo,
o Tinta Crua, me disse que seria imprescindível falar com você.
Criei um blog para registro dessa experiência. Gostaria muito
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 18/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

de poder conversar. Obviamente, respeitarei o sigilo sobre tua


identificação.

No dia 07 de maio, a sua reposta iniciou entre nós um rico


diálogo “invisível” e, talvez por isso, mais livre e
espontâneo. O ciberespaço, além de campo etnográfico pode,
também, estabelecer-se como lugar de aproximação, de fiação do
que Goethe tão bem denominou de “afinidades eletivas”, do
cultivo de empatia, da certificação de um vínculo de confiança.
Assim como passei a acompanhar os movimentos do artista no
Facebook, blog[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn2] , nas buscas do Google, percebi que
ele, também, passou a observar meus passos.

Com o passar do tempo, mesmo ainda sem o encontro frente a


frente, trocamos inúmeras e extensas mensagens diretas. Em
muitas delas permutamos escritos acerca da arte urbana, do
contexto da crise político-econômica em Lisboa e sobre
vivencias dos encontros e desencontros que a vida leva-e-traz.
Durante um dilatado espaço de tempo, comunicamo-nos enquanto
Dalaima e Glória. Até que, aproximadamente, 06 meses depois,
ele decide professar seu nome próprio. Após tomar conhecimento
de quem seria Dalaima, durante dois meses, a comunicação,
então, entre “nomes” suscitou, maior proximidade nas
mensagens diretas efetuadas no Facebook.

Esse relato corrobora com as considerações que tenho esboçado


acerca das conexões entre recintos de sociabilidades
presenciais e não-presenciais. E acrescento, por vezes, essa
experiência de pesquisa, que intermedia e conecta contatos
físicos aos da paisagem do ciberespaço me fez pensar na própria
natureza do que nós antropólogos denominamos de encontro face a
face. Na experiência com Dalaima creio que as mensagens diretas
no Facebook (e que por uma dimensão ética, não serão aqui
publicadas) se reverteram num engate de confiança e proximidade
tão vivaz quanto o encontro efetuado, nas imediações do Rato,
na noite do dia 14 de outubro.

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Penso que um antropólogo, e isso não consta e, provavelmente,


nunca irá incluir-se nos relatos etnográficos, é levado a não
apenas a apreender técnicas de abordagem, da tão propalada
estratégia reiterada por Clifford Geertz – familiarizar-se com
estranho, estranhar o familiar - como também, estar aberto aos
afetos que passam a emergir nos panoramas diversas da pesquisa.
Essa circunstância me evoca a discussão de Gilberto Velho[3]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn3] , acerca
do texto de DaMatta sobre “O ofício do etnólogo”[4]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn4] , ou como

ter “Anthropological Blues” (1978), indagando o que, realmente,


representa a distância entre o o “familiar” e o “exótico” .

Dizia Gilberto Velho que a distância não segue critérios


geográficos, nem sociais e ressalta que nesses processos a
comunicação é vital. Sou levada, por meio dessa experiência
etnográfica em Lisboa, trafegando também o ambiente do
ciberespaço, a dizer que mesmo sob o dilema de uma certa
necessidade de “afastamento”, de diferenças de pontos de vista,
a estabelecer vínculos de “amizades”. Essa metáfora da amizade,
também utilizada pelo Facebook, me ocorreu, principalmente, no
caso de Dalaima Street Arte e Hazul Luzah no Porto, já que os
dois, como se diz por aqui, “não dão a cara”. No meu caso,
creio que os vínculos de confiança de artistas que, no geral,
não concedem entrevistas e não se apresentam em público, foram,
também, mobilizados pelos fluxos de uma relação de “amizade”
estabelecida, inicialmente, por meio das redes sociais na
internet.

Estar na rede, ter um blog como espaço, também, etnográfico é


saber que se permanece, constantemente, sob à mira dos atores
que povoam o ambiente de investigação. Provavelmente, por ter
estampado no AntroplogiZZZando, uma foto de Tinta Crua[5]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn5] , um dos

artistas narradores da pesquisa, quase perdi a possibilidade do


encontro com Dalaiama, tal qual ele me participou no nosso
contato presencial :

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Lá no Facebook, notei que estavas presente. Mas


fiquei sempre com uma idéia positiva e é engraçado
que... há muita gente que tem curiosidade, por
razões diferentes, por coisas diferentes, as
pessoas têm alguns contatos que a gente sente logo
que não vale a pena, que não há sintonia, as
pessoas não vão falar a mesma língua, está a me
entender?... Mas esse negócio, eu ainda lembro que
li a tua comunicação, estava no Brasil até, eu
lembro disso e tive a idéia que, uma coisa que me,
sinceramente sei que me, fez o caranguejo ir um
bocadinho ir para dentro da casca foi quando eu
vi, quando tu falou do Tinta Crua, do Eduardo, uma
fotografia dele, meu Deus, eu fiquei super
assustado com isso assim.

Quase o “caranguejo volta à casca” e a “amizade” ensejada,


passo à passo, poderia prosseguir apenas em nível de contato
direto do Facebook, sem que o artista se colocasse diante de
mim, no diálogo acerca face a face da arte urbana em Lisboa.

b) A arte em camadas: efêmero por sobre o efêmero

Já havia visto o Dalaiama num encontro promovido pela Escola de


Belas Artes de Lisboa. Havia marcado um encontro com o
narrador invisível na semana anterior ao evento sobre “Graffiti
– passado e presente de uma expressão de risco”. Seria como
efetuar a emblemática brincadeira, numa platéia de mais de 300
participantes – onde está Dalaiama? Para todos os efeitos, ele
nem esteve ali. Saber jogar é, também, uma condição da aventura
do antropólogo em campo.

No dia 14 de outubro, com o coração aligeirado, e tentando


manter a boa discrição antropológica, finalmente, encontro
Dalaiama. Senti, após tantas mensagens e trocas, que era como
se nos conhecêssemos há muito tempo. E nem apressei qualquer
tentativa de escuta acerca da Arte em Lisboa e de seus atuais
impasses. Ficamos um diante do outro a comentar sobre o tempo,
as amizades, os amores que vão e vêm, sobre a crise, sobre a

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academia e sobre as armadilhas do tempo.

Pedi para gravar nossa conversa “sem roteiros”. E assim foi.


Tivemos mais de duas horas nos deliciando com pataniscas de
bacalhau, apenas eu tomando um bom vinho, e deixando a conversa
fluir.

Vi que o nome Dalaiama, como quase tudo que produz o artista,


lhe ocorreu num continuum, no movimento de acrescentar, de ir
dando forma e cor às percepções estéticas e identificações
presentes no seu processo criativo.

O Dalaiama, coisa muito simples nem sequer foi premeditado. Eu


sempre fiz assim umas coisinhas e aí numa fase especial eu
tinha acumulado já uns stencilzinhos e fazia aí um ano e
depois um dia a gente combina com uma amiga, “vamos aí
conversar um pouco”, “já agora levo uns stencil”, “tá bom, pode
levar e tal”, olhar na gaveta, olhar o que é que há... ainda
lembro de fazer o Dalaiama, engraçado.

G – Como é que surge o nome Dalaiama?

O nome foi depois, primeiro tinha o bonequinho e uma coisa


engraçada que aconteceu, sabe, é como olhar para o Dalaiama é
assim uma espécie de gato de estimação, aquele gato assim, uma
pessoa que tem 3, 4, 5 gatos em casa, tem um que se aproxima
mais...

Estou-me lembrando da R., da D., do N., quando a gente


conversava, “aquele boneco”, havia sempre dificuldade de falar,
né? “então qual é o nome?”... era um boneco pequenino e um nome
super grande, tinha medo que as letras borrassem e depois não
se percebia. Escolhi aquela letrinha...Eu ia por assim, mais
por respeito ao Dalaiama, mas não que eu seja um grande fã,
tudo tem suas contradições, mas por respeito... depois há
outros indivíduos ligados a essa maneira de ver as coisas, mais
desprendida, não sei se desprendida é o termo certo...
liberdade, não sei, não, liberdade é uma palavra tão gasta,
liberdade, liberdade, liberdade (...) aí ia colocar duas
palavras Dalai-ama..

G – Sim, Dalai-ama.

Tirar lama e ficar só com o ama, é bonito, né? Dalai-ama, é


bonito isso. Depois fiquei vendo as letras que podiam ficar
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legais... que eu nunca dei muito valor a isso, para mim o


importante foi sempre, não é, para mim o importante foi sempre
a mensagem, a atitude, a intenção mais do que nome.

Aí as coisas foram progredindo. A questão é, eu alinhei na


ideia de ter um nome pelo seguinte...o nome, digamos,
materializa a identidade, né. o nome tem essa, tem esse
carácter classificador e sintetizador também. É a ponta do
funil, eu posso alargar em cima né, alargar, alargar, alargar
em cima do funil, aquela boca gigante e botar tudo ali para
desembocar naquele furinho que é o Dalaiama. Então a ideia foi,
o processo foi precisamente esse, tudo muito espontâneo, muito
intuitivo.

O nome materializa a identidade. Dalaiama cria um


codinome-personagem para suas pinturas “de
liberdade”. A intenção de Dalaiama, da
“repetição” de signos pictóricos (o papa-euros
e o pássaro a tentar fugir), pode ser
condensada nessa interpretação de sua obra num
diálogo voltado para crianças[6]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn6] .

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 23/172
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[http://2.bp.blogspot.com/-dFh_1AfiCUU/UnvlkL82MgI/AAAAAAAABUE/1hwqAT4I-
fM/s1600/Dalai+crianc%25CC%25A7a.jpg]

Um Dalaiama explicado a uma criança.


[http://smobile.blogs.sapo.pt/347773.html]

- OLHAAA, o que é isto?


- É um stencil papa-euro do Dalaiama. [http://dalaiama.blogspot.pt/]
- O stencil é um grafitti?
- Pertence ao mesmo grupo dessas pinturas nas paredes.
Percebes ou mais ou menos?
- Sim, percebo. E que é o Dalaiama?
- É um senhor que pinta papa-euros como estes.
- Tipo glutões, mas que comem dinheiro?
- Sim. Tem uma ideia política por detrás. Percebes ou mais ou
menos?
- ... Mais ou menos. Como os senhores na televisão, que tiram
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18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

o dinheiro às pessoas?
- Sim. Vês a pomba? Este glutão aqui, até a Liberdade come.
- Eu na escola aprendi que a pomba também é a Liberdade.
- Óptimo.
- E paz...
- Ok.
- E o Espírito Santo...
- Pois.
- As pombas podem ser muitas coisas.
- Estou a ver que sim. :)

O “papa-euros” do Dalaiama espalha-se por Lisboa e Cascais e


não é por acaso. Em cada uma de suas colagens, pinturas,
aparentemente naifs, há um grito sensível, há um incômodo com o
“destino das imagens” estampadas nas cidades nas quais habita.
Dalaiama se esquiva diante de um discurso dominante acerca do
que é considerado “vandalismo”, e o que deve ser apagado do
cenário urbano:

Aí a gente olha para Lisboa, é uma maravilha mas


Lisboa... tem um problema para mim, que acho que é
um problema sério, que é a censura, uma censura.
Autoriza, mas. E eu não queria entrar em
pormenores mas se a gente politiza muito o
discurso e apresenta à Câmara uma proposta a
Câmara diz que “tudo bem mas muda lá isso aqui e
daqui” e quem já tiver passado por isso pode dizer
que censuram, é censura. Eu acho isso mal. Se é
graffiti, se a Câmara quer ter uma atitude de
liberdade, ela liberta, é um cãozinho, com uma
coleira, a tela, no Porto é 1metro mas em Lisboa
são uns bacanas, dão 10 metros de tela, mas tem
tela. E há censura e depois a censura vem
disfarçada por questões estéticas que é a censura
mais ridícula que existe, “não, não fica bem este
grafiti, A Câmara tem isso. Esses processos aí de
seleção invariavelmente caiem nisso, mesmo naquele
debate que você levantou a questão “quem
seleciona?”

“Quem seleciona” a arte, “quem seleciona” os riscos da


“picotagem das paredes”? Dalaiama diz que leu que, atualmente,
em Portugal inteiro tem por volta de 500 mil edifícios sem
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ninguém. A arte “embeleza” a cidade dos “túmulos” à céu


aberto[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn7] .
Como diz Ranciére[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?

blogID=4042807947703586432#_ftn8] “a arte antecipa o trabalho porque


realiza o princípio dele: a transformação da matéria sensível
em apresentação a si da comunidade”. Não apenas os artistas
pintam as paredes “do abandono” com “cores do sensível”, como
os artistas, em tempo de esquecimento acabam proclamando, na
pintura de murais e vidrões, mediados pela Galeria de Arte
Urbana da Câmara de Lisboa, uma apresentação não apenas de si,
mas da própria cidade de Lisboa, no mapa internacional das
artes.

A quem interessa mapear o “permitido” e o “proibido” no espaço


“público” do urbano? Alexandre Farto, consagrado artista urbano
português, o Vhils, na já mencionada entrevista, refere-se,
também, a atual tentativa de disciplinamento da arte de rua
pela Câmara de Lisboa:

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 26/172
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[http://3.bp.blogspot.com/-
z_z1fHvIbD8/Unvlk72vViI/AAAAAAAABUI/GdOIZ3KablU/s1600/vhils.jpg]

[9][http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn9]

Há um ordenamento restrito para a propriedade privada que se


encontra virada para o espaço público. A lei não permite que eu
pinte a minha parede de branco sem pedir autorização às
autoridades municipais. Por outro lado, o espaço dito
verdadeiramente público tem sido cada vez mais privatizado em
nome da sustentabilidade das autarquias. O espaço é público,
mas é gerido de forma privada, não é livremente acessível a
todos. Isto também coloca uma série de questões. Esse espaço
que vemos todos os dias pertence a todos mas não pode ser usado
por ninguém porque é “público”? Podemos argumentar que o espaço
é propriedade privada, quando aquela camada superficial daquele
muro é vista por 10,000 pessoas por dia? As cidades devem ser
uniformes para que a publicidade seja mais efectiva e deste
modo as autarquias façam mais dinheiro com espaço que alugam
para esse mesmo efeito? Qual a verdadeira natureza e função do
espaço público? São tudo questões pertinentes que interessa
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debater de forma aberta e construtiva.

Qual a verdadeira função do espaço público? Um lugar que pode


ser visto por mais de 10.000 pessoas em um dia é uma tela
“pública” de grande valia para o campo de publicidade das
mercadorias “privadas”. De outro modo, mesmo atingindo um
incalculável público, a arte urbana é confinada, cada vez mais
a dispositivos de controle e à sua própria condição de
efemeridade; condição essa reforçada pelas políticas da Câmara
de Lisboa de restrição e de “apagamento” das obras.

Como diz Dalaiama, em cada parede jaz camadas e


camadas de memória, “em cima do mesmo efêmero tem
outro efêmero Aquela parede já tem um montão
de história. Pintaram por cima, pintaram de
branco, pintaram, pintaram de branco, assim. A
rua, depois, a internet traz isso. Essa
parede, também tenho uma foto dessa parede,
uma espécie de galeria de camadas da memória.

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[http://4.bp.blogspot.com/-a0q3-
yRT2eA/UnvlkdXGRLI/AAAAAAAABT8/0i1zvDG_NQ0/s1600/Dalai+5.jpg]

https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=513397088738370&set=t.100000012718813&type=3&theater
[https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=513397088738370&set=t.100000012718813&type=3&theater]

A arte urbana é uma narrativa imagética da cidade.


Como refere-se Deleuze[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn10] , no livro Francis Bacon
– a lógica da sensação- a narração é o correlato
da ilustração, entre duas figuras introduz-se uma
história. Nesse caso, isolar é o mais
incontestável, o ato mais simples, como ressalta
Deleuze, para romper com a representação, para
anular a ilustração, para libertar a figura..”.
Ora, que imagem da cidade teríamos, tendo sido
“calado” o narrador impertinente, os que picotam
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 29/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

paredes já picotadas de sucessivos abandonos, os


que adornam de cores e figuras a gradual
possibilidade dos “papa-euros” devorarem os voos
de liberdade do povo português?
Dalaiama, diz que os tempos são de dividir, de
isolar a “ordem” e a “desordem” que compõem
paisagens de Portugal:

Os grafiti bons e os grafiti”, os grafiti maus lá


está, são os que transgridem, os bons são aqueles
pitipiti, fazes uma coisa bonitinha, no lugar
certo, autorizado, controlado, condicionado. “O
mau é aquele que transgride, por exemplo” e vem lá
com um exemplozinho de uma determinada parede, de
um determinado edifício de uma determinada
esquina...

A arte que transgride, para Dalaiama, seria quase


uma redundância do fazer arte. Não seria ela, a
arte, como a pomba rumo ao céu, que foge dos
“glutões que papam dinheiro”, uma forma de
sinalizar a potência do resistir? Uma artimanha da
capacidade de não deixar predominar matizes do
“ordenamento restrito da propriedade privada” como
diz Alexandre Farto?

“Aquele que é separado do que pode fazer, pode,


ainda resistir, pode ainda não fazer. Aquele que é
separado da sua impotência perde em contrapartida,
antes de mais, a capacidade de resistir. E como é
somente a calcinante consciência do que não
podemos ser a garantir a verdade que somos, assim
também é somente a visão lúcida do que não podemos
ou podemos fazer a dar consistência ao nosso
agir”.[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn11]

É essa a matéria-prima da arte de Dalaima, o


elogio dos “maus graffiti” como possibilidade
singular da garantia da “verdade que somos”?
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 30/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

c) O futuro do AntrologiZZZando.

Como mencionei na publicação anterior, meu tempo em Lisboa esta


chegando ao fim. Já estamos, eu e o vídeomaker Davi de
Carvalho, com a participação de Paula Vanina, no compasso de
gravação de um documentário sobre o percurso etnográfico em
Lisboa. Provavelmente, essa é penúltima publicação do
AntropologiZZZando. A próxima deverá ser o próprio
documentário. Aguardem.

[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/vbelanciano?hc_location=timeline
[https://www.facebook.com/vbelanciano?hc_location=timeline]

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
http://dalaiama.blogspot.pt/ [http://dalaiama.blogspot.pt/]

[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
Observando o familiar, no livro “Individualismo e Cultura”,
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987.

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4] No
livro “A Aventura Sociológica”, organizando por Edson Nunes,
Rio de Janeiro:Zahar, 1978.

[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
Eduardo, o Tinta Crua, “mostrou a cara” pela primeira vez, me
março, na intervenção promovida pela Galeria de Arte Urbana-
GAU, “Rostos do Muro Azul”, em seguida, entramos em contato e
ele meu primeiro narrador da pesquisa. Obviamente, liberou a
publicação de sua imagem.

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref6]
http://smobile.blogs.sapo.pt/347773.html
[http://smobile.blogs.sapo.pt/347773.html]

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref7] ver


publicação anterior do blog acerca desse assunto.

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref8] “A

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 31/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

partilha do sensível”, São Paulo: Ed. 34, 2009, p. 67.


[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref9]
Imagem disponível em: https://www.google.com.br/search?
q=vhils&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ei=OOR7UpyeGISg7AaNzYHgCA&sqi=2&
ved=0CAcQ_AUoAQ&biw=1266&bih=702#facrc=_&imgdii=_&imgrc=kjG9l_ftDsbX
jM%3A%3Bs8TQKeqkJLes_M%3Bhttp%253A%252F%252Fzarpante.files.wordpr
ess.com%252F2013%252F10%252Fvhils.jpg%3Bhttps%253A%252F%252Fzarp
ante.wordpress.com%252Ftag%252Falexandre-orion%252F%3B650%3B650
[https://www.google.com.br/search?
q=vhils&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ei=OOR7UpyeGISg7AaNzYHgCA&sqi=2&ved=
0CAcQ_AUoAQ&biw=1266&bih=702#facrc=_&imgdii=_&imgrc=kjG9l_ftDsbXjM%3A%3
Bs8TQKeqkJLes_M%3Bhttp%253A%252F%252Fzarpante.files.wordpress.com%252F2
013%252F10%]

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref10]
2001, p. 35

[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref11]
Giorgio Agamben, "Nudez", Lisboa: Relógio D água, 2010, p. 59.

Postado há 7th November 2013 por Glória Diógenes

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En-linhamentos do fazer
26th October 2013
etnográfico ou quando o
manuscrito estranho é o próprio
antropólogo.

“A chave é uma linha que une


o pensamento ao mundo como um espelho”
(Gisela Ramos Rosa, Tradução das Manhãs)

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[http://2.bp.blogspot.com/-Sh7dS0Ko8Cg/UmvYKC462SI/AAAAAAAABTA/a-yQqU-
kEoo/s1600/LISBOA+2O.JPG]

Outubro, quase, se finda. O campo em Lisboa, iniciado em


fevereiro, assume a cadência de um torvelinho. Se na metáfora
de Geertz[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn1] a etnografia pode ser
percebida como “um manuscrito estranho e desbotado, cheio de
elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários
tendenciosos (1978: 20), posso dizer que essa metáfora bem se
aplica, também, à condição do próprio antropólogo. Agora
entendo melhor quando se afirma, em ditos cotidianos, que o
não saber é a melhor condição para a comodidade do não sentir.
Nos meus primeiros passos no terreno o tal do emaranhado
parecia acontecer “lá fora”, na paisagem da cidade, nas linhas
e traços que condensavam estórias, lembranças, marcações,
linguagens e silêncios. Eu e a paisagem éramos, quase, vias
duplas.

É como se o antropólogo estivesse diante de uma terra à


desvendar, de uma aventura marcada pela imprecisão dos mapas,

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 33/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

desconexão com o lugar e desconhecimento dos atores que falam


e fazem o conjunto de sentidos e práticas locais. Creio ser
esse o momento mais profícuo de redação dos diários de campo,
como se eles atuassem ai como oráculos, suportes de perguntas
sem repostas, receptáculos do registro de indícios, de
possíveis pistas para a lenta remoção de tons amorfos que
recobrem cores e formas.

Fui percebendo, cada vez mais, que a fala dos atores que cruzam
o campo etnográfico pouco assumem sentido, coerência se des-
conectadas de fluxos e redes que dinamizam as paisagens pelas
quais se movimentam a pesquisa. Atores, lugares, artefatos
materiais, corpos-em-movimento[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn2] se anexam dentro-e-fora de um mesmo
palco.

Nas minhas andanças em Lisboa fui compreendendo que o


surpreendente número de prédios devolutos, de portas e janelas
cimentadas parece proporcional ao elevado número de moradores
de rua. Trata-se, paradoxalmente, de abandonos recíprocos. O
apelo de alguns escritos urbanos, multiplicados pelas ruas de
Lisboa – aqui devia viver gente – faz com que um graffiti
pintado e/ou riscado sobre esse suporte assuma um tom
diferenciado daquele registrado num muro, ou em um espaço de
destacada visibilidade pública.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 34/172
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[http://1.bp.blogspot.com/-_awbzd7DsuA/UmvWr2jRBaI/AAAAAAAABSU/-
honlfY3bvc/s1600/Lisboa+-+gente.jpg]

Rodrigo Saturnino no blog[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn3] “Espanca-me” traduz tais edificações
na qualidade de “os túmulos de Lisboa”, com um conjunto de
fotografias denominadas “prisões”.

Em Lisboa existem casas sufocadas. Ninguém lá vive nem ninguém lá pode viver. Não servem de abrigo.
Não servem de armazém. Não servem de pouso para os pombos. São túmulos. Aprisionam nossos odores e
nossas vergonhas. São edifícios mortos e esterilizados pela fantasmagórica ideia da propriedade privada.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 35/172
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[http://1.bp.blogspot.com/-fP83kLDSsSU/UmvWsHTvhTI/AAAAAAAABSQ/qCWgILfy-
vo/s1600/Rodrigo+-+priso%CC%83es.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 36/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://3.bp.blogspot.com/-
UhqZb2LCGZA/UmvWtikNYQI/AAAAAAAABSk/pbZrT1ilvfQ/s1600/Rodrigo+prison-9.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 37/172
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[http://1.bp.blogspot.com/-38Jp7O5wIko/UmvWwy_E8LI/AAAAAAAABSs/BS9hLkGFM6
8/s1600/Rodrigo+prison-11.jpg]

De tal forma, os graffiti das “prisões”, por exemplo,


expressam, na relação entre suporte/tela e
traçado/pintura/colagem uma forma singular de intervenção no
urbano. A crise econômica na zona do euro, a qual atravessa a
Europa e especialmente Lisboa, traduz conotações particulares
nos graffiti dos edifícios de prisão.

O lance inicial, de natureza táctil do antropólogo pode


embaraçar, por exemplo, a diferenciação de uma parede mediada
e “oficializada” pela Câmara de Lisboa, por meio da Galeria de
Arte Urbana-GAU, a das Amoreiras[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn4] e de algumas outras intervenções
individuais, como as já destacadas no AntropologiZZZAndo, no
caso de Tinta Crua e Dalaiama em Lisboa e Hazul Luzah[5]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn5] , na
cidade do Porto. No caso de Hazul, um sítio histórico do Porto,

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 38/172
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cognominado São Pedro de Miragaia, adensado de prédios-túmulos,


é usado pelo artista como cenário de uma exposição à céu
aberto, nomeada de “Florescer”, conforme trechos do diário de
campo do dia 22 de agosto de 2013.

A “Florescer” abriu passagens para a Rua São Pedro de Miragaia.


Curiosos, repórteres, moradores, turistas passaram a visitar a
exposição de “tempo indeterminado”. O efêmero da arte urbana,
superpõe-se nas camadas de memória que ali resistem, quando os
sítios são abandonados, as plantas começam a tomar
conta. A brincadeira séria de Hazul, a provocação da
“Florescer” à Câmara do Porto, diante de pinturas apagadas do
artista, traduz a dinâmica da natureza, a multiplicação, sem
controle, da vegetação e da arte.

[http://3.bp.blogspot.com/-60FEsDCnbIw/UmvWrVRWrtI/AAAAAAAABSM/hjhXrnRHjc0/
s1600/Hazul+Florescer+hoje.JPG]

[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432]
A arte que[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432]
medra na paisagem urbana, mais que qualquer outra forma de

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 39/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

fazer artístico, guarda intensa proximidade entre prática e


lugar, traduzindo um tipo de usança, denominação utilizada por
Lucrécia Ferraro[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn6] no livro “Olhar periférico”.

A multiplicidade de agenciamentos efetuados nas paredes, muros


e outros loci de produção do graffiti em Lisboa, que aqui vou
denominar usanças da arte urbana; induziu-me à necessidade de
traçar esferas de discernimento e, consequentemente, de
condução do olhar. O Hall of Fame[7][http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn7] das Amoreiras, as intervenções da
GAU em Lisboa, as “colagens” solitárias de Tinta Crua[8]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn8] , a
irreverência brincante de Dalaiama Sreet Art[9]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn9] , por
exemplo, evidenciam o imperativo da conexão incessante entre
lugar, estilos e contextos da intervenção na esfera da arte
urbana.

Ver a cidade sem distinguir nuances pode ser a forma mais


eficaz de se ser capturado pela invisibilidade da linguagem
pictórica das diferenças. Desse modo, retomando o fio inicial
do texto, ir removendo alguns matizes “desbotados”, pode levar
o antropólogo, de outro modo, a emlinhar-se, como se via nos
rolos de fios de crochê, com o rumor múltiplo da plêiade de
cores e movimentos que possibilitam assim o campo despertar.

Percebi que interagir, mais e mais, com a cidade e seus atores


muda e amplia o foco dos primeiros lastros de visão. Quando
iniciei os passos etnográficos em Lisboa, enxergava como que vê
de fora, como quem assiste um filme. Os ritos da interação[10]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn10] , o
chegar perto dos artistas, o estabelecer vínculos com a cidade,
suas redes de articulação, de dispersão e sua tessitura urbana,
trasmudaram, também, o fazer antropológico. Isso significa
dizer que o ato de ver é parte de um processo de natureza,
também, subjetiva, de acúmulo de signos e, desse modo, faz
parte de um jogo que opera em diferentes escalas de percepção
de mundo.

Isso tudo para dizer que, nesse momento final, sinto-me,


literalmente, em-linhada. Tenho mais de duas horas de conversa
gravada com Dalaima, mais de uma hora e meia com Pedro Soares
Neves [11] [http://www.blogger.com/blogger.g?

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 40/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

blogID=4042807947703586432#_ftn11] , estou iniciando um documentário


sobre a experiência etnográfica (que precisa ser realizado em
apenas um mês), criamos eu, Ricardo Campos da Universidade
Aberta de Lisboa e Sílvia Câmara da GAU, uma Rede de
Pesquisadores Luso-brasileiros em Artes e Intervenções Urbanas
e estamos organizando um seminário denominado Arte Urbana:
continentes e fronteiras para o dia 27 de novembro. O campo
entrelaçou-se ao compasso da vida.

Além de tudo, eu que aprendi a amar Lisboa como se minha casa


fosse, vejo desenhando-se, pouco a pouco, as primeiras
coreografias do adeus. E nisso não há como afastar a
antropologia de uma poética do espaço[12]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn12] . A
poesia é um modo de escrever sentimentos nos muros que margeiam
silêncios. E quando estamos próximos de partir do lugar que
experimentamos, observamos, anotamos toda sua vibração, riscos,
tonalidades, alaridos, canções anúncios do que há de vir,
ressoam como ritos de separação.

Particularmente ontem, no liame das intraduzíveis passagens,


estive no lançamento do livro de Gisela Ramos Rosa, autora da
epígrafe desse texto. Num palco partilhado por palavras
luminosas pude ver o que sigo - o desafio de traçar “numa tela
a matéria do silêncio”(p. 27) que habita os escritos e os
desenhos das ruas.

A delicadeza da poética língua de uma portuguesa andante –


entre Moçambique, França e Portugal - também, antropóloga, me
pôs diante da concha que envolve o pesquisador em deslocamento,
e que perfaz um percurso etnográfico fora do seu lugar.

Sempre que nasceres pergunta


vive o espaço que se prolonga em ti
para além de ti, vai caminha lentamente,
nunca será em vão a indagação
sobre a linguagem dos homens e das mulheres
as construções que a teus olhos se deparam,
acredita nas[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432]
imagens [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432]
primeiras [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432]
os sentidos[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432]
serão a chave reveladora o mapa
intui uma melodia ela levar-te-á

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 41/172
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além da porta.

(Gisela Ramos Rosa[13] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn13] , p. 26)

Olho, para além das portas. É passagem a matéria da


interminável arte da tradução antropológica.

[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] A
Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2] Ver


o livro da autora do blog Itinerário de corpos Juvenis, São
Paulo: AnnaBlume, 2203.

[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
http://espancame.wordpress.com/colecoes/prisoes/

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4] “Em


1991 o writer Jam futuro Wize começa a pintar em Carcavelos
[...] no anos seguinte conhece Kase One com quem começa a
pintar de forma regular. A ação desses dois writers seria
fundamental para a difusão do fenômeno pelo resto do país. A
Wize e Kase vieram se juntar Saxe e Youth e os quatro formaram
a crew que iria levar o graffiti a outro nível: PRM –
inicialmente Pyromaniacs, mas que posteriormente adotaria o
significado de Paint Rockin’ Máfia [...] ocuapram paredes
públicas que converteram em Hall of Fame, como nas Amoreiras,
Campolide e Belém...” (Revista Underdogs – Lisboa, 2010, número
08/09).

[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/08/o-florescer-da-
arte-o-ilegal-pode-ser.html

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref6]
FERRARA, Lucrecia D'Alessio. Olhar periférico:informação,
linguagem, percepção ambiental. São Paulo: Edusp, 1993.

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref7]
Hall-of-fame: É um graffiti geralmente em paredes legais ou
paredes pouco expostas, é mais pensado e mais trabalhado, dando
importância não só ao lettering (arte de escrever letras), mas
também aos fundos e eventuais characters (personagens
encontradas nos graffitis). Quando o hall-of-fame atinge uma

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 42/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

proporção considerável, é muitas vezes também chamado de


produção. Um espaço onde vários graffiteiros de destaque
pintam, e esse muro é renovado é um curto tempo. Disponível em:
http://coresnosmuros.blogspot.pt/2011/05/origem-do-graffiti.html
[http://coresnosmuros.blogspot.pt/2011/05/origem-do-graffiti.html]

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref8]
http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/03/o-minimalismo-intenso-da-arte-
urbana-de.html [http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/03/o-minimalismo-intenso-
da-arte-urbana-de.html]

[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref9]
http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/09/o-que-pensam-as-artes-de-
dalaiama.html [http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/09/o-que-pensam-as-artes-
de-dalaiama.html]

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref10] A
ação social dos indivíduos, através de sua permanente
interação, só é possível a partir de motivações que são
encontradas num jogo entre mundo interior, subjetivo, e
práticas e atividades no cotidiano, envolvendo redes sociais em
níveis materiais e simbólicos, com especificidades e
características próprias. (Ver Gilberto Velho, 2009, p. 15,
Disponível em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/spp/n59/n59a02.pdf
[http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/spp/n59/n59a02.pdf] )

[11][http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref11] um
dos criadores do Projeto Crono, juntamente com a Galeria de
Arte Urbana – “O projecto CRONO propôs-se à autarquia de
Lisboa, como um processo de revitalização de locais da cidade
que estavam esteticamente deprimidos. Com uma calendarização e
conceito em torno da ideia de tempo. Em cada estação do ano
propuseram-se intervenções que pretendiam convocar para Lisboa
uma selecção de artistas que têm na origem do seu trabalho a
apropriação gráfica informal”. Ver texto do referido
entrevistado sobre arte urbana em Lisboa e o Projeto Crono,
disponível em:
http://www.academia.edu/1074321/Plataforma_de_arte_urbana_prenuncio_de_u
ma_mudanca_em_Lisboa
[http://www.academia.edu/1074321/Plataforma_de_arte_urbana_prenuncio_de_uma_mu
danca_em_Lisboa]

[12] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref12]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 43/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008

[13] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref13]
Tradução das Manhãs, Lisboa: Lua de Marfim, 2013.

Postado há 26th October 2013 por Glória Diógenes

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O que pensam as artes de


25th September 2013
Dalaiama Street Art no
ciberespaço, ou o que eu
penso do que elas pensam?

[http://1.bp.blogspot.com/-
d9qtrPDx_i0/UkLwXMIW4GI/AAAAAAAABPQ/9qs4UKljbnw/s1600/+dalaima+pec%25C
C%25A7a+nova.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 44/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

(imagem publicada no blog de Dalaiama em 31 de agosto de 2013,


com o título "Upside Down")

O trabalho poético
da tradução está no cerne de
toda a aprendizagem.
(Jacques Ranciére[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn1] )

Antes de qualquer coisa, algumas palavras

A iniciativa de comunicar alguns dos achados de campo, leituras


e reflexões por meio de um blog me possibilitou aproximações
com potenciais atores do campo, estreitou laços com
pesquisadores, intensificou convites para palestras,
publicações e promoveu trocas profícuas na área de estudo. Se
por um lado o blog atuou como paisagem potencializadora do
tempo, diminuiu distâncias, multiplicou encontros e trocas, por
outro diminuiu o intervalo que se estabelece entre pesquisar,
ler, escrever, redigir e publicar. Experimentei mover-me em um
campo simultâneo, como se ele condensasse, na mesma paisagem
temporal, etapas, usualmente, sucessivas de uma experiência
etnográfica: momento de familiarização com e incursões
exploratórias, inserção no campo, anotações, redação de textos,
publicação, compartilhamentos; tudo acoplado a leituras e
reflexões. Pesquisava, escrevia, lia e, na mesma sincrônia,
estabelecia debates e diálogos presenciais e por meio da
internet acerca dos percursos da pesquisa. O blog criou uma
espécie de vizinhança etonográfica, produziu concomitâncias
entre lugar, tempo e sujeitos.

Experimentei uma certa astúcia[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn2] de me mover entre limites, de
transitar na paisagem material da cidade de Lisboa e cruzar
fluxos, num tempo contíguo, dessa cidade no ambiente digital. É
quase óbvio, assim, que o blog esteja envolto num diálogo de
risco, tal qual o trecho de um dos diários publicados[3]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn3] no dia 11
de abril:

Nesse meio tempo, li um instigante artigo de


Appadurai [4] [http://www.blogger.com/blogger.g?

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 45/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

blogID=4042807947703586432#_ftn4] denominado “Diálogo, risco e


convivialidade”. Logo no início do texto o autor fala, o
que naquele momento pareceu fazer um grande sentido na
esfera de experiência mobilizada pelo
Antropologizzzando: Ninguém pode envolver-se num diálogo
sem correr sérios riscos. Ele é sempre uma transação
arriscada (2009, p. 23). Compreendi que um blog-diário-
de-campo, ao contrário do tempo que um antropólogo
precisa para burilar, interpretar, repensar, estilizar
sua narrativa, flui como um discurso em ato. O
pesquisador se coloca não apenas diante do seu narrador,
como coparticipante oculto do texto, podendo nessa
feita, logo depois dos seus escritos, ter que readequá-
lo, corrigi-lo, ampliá-lo, e até mesmo, refazê-lo. E,
não apenas. Tanto os narradores, como os intercessores
que o visitam, pesquisadores sobre a temática, atores da
cena street art, ou apenas aqueles que comentam e povoam
o blog, passam a tomar parte ativa do ato da escrita. No
inquietante texto de Appadurai, ele ressalta que o
primeiro risco (do diálogo) é o do mal-entendido,
inerente a toda comunicação humana (2009, P. 23). Creio
que um blog dessa natureza, tendo em vista o caráter
quase sincrônico desse feitio de comunicação, ameniza o
acenado primeiro risco.

São essas algumas das incitações que dão vigor a uma


experiência etnográfica entre paisagens, entre sujeitos, entre
signos de um esforço da tradução. Além da riqueza do percurso
etnográfico, que se torna para o antropólogo um acontecimento[5]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn5] , uma
vivencia, também, pessoal, o blog me propiciou outras
experimentações. Pude perceber aquilo que Ranciére denomina de
“praticar a arte de traduzir”:

A arte de pôr as suas experiências em palavras e suas


palavras à prova, de traduzir as suas aventuras
intelectuais para uso dos outros e de voltar a traduzir
as traduções que os outros lhe apresentam de suas
respectivas aventuras”(RANCIERE, 2010, p. 19).

E quem já se lançou numa experiência dessa natureza sabe bem


que a finalização de um ensaio etnográfico não tem um fim
natural, é quase sempre um imperativo, um corte decretado pelo
tempo, um aparente silêncio do autor. Provavelmente, isso
ocorre devido a limitações da quantidade de registros e

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 46/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

narrativas que já se amontoam nos arquivos pesquisador e o


tempo disponível para prosseguir.

Após algumas publicações do blog e um farto material de


pesquisa de campo, decidi findar essa curso de pesquisa em
Lisboa com o artista Dalaiama. A ideia é tentar retornar, até
mesmo para identificar o impacto da publicação do blog, a cada
um dos narradores dessa pesquisa. Já estive algumas vezes com
Tinta Crua, em três momentos com Tamara Alves, incluindo uma de
suas exposições, e duas vezes com Hazul Luzah na cidade do
Porto. A solicitação de artigos para livros e revistas
mobilizou-me a necessidade de focar o tempo que resta em Lisboa
em outros encontros com os artistas aqui já contatados e na
produção de um documentário acerca da Arte Urbana em Lisboa e
no Porto. É apenas um desejo. Restam-me menos de três meses.
Contatei Dalaiama logo que aqui aportei. Como ele segue
anônimo, sem que o público identifique quem é Dalaiama, o
contato com o mesmo tem se estabelecido por meio de graduais
aproximações. O engate da confiança é um fator que demanda do
antropólogo tempo e algumas provas de confiabilidade. O
AntropologiZZZando foi crucial nesse sentido, ele acabou se
projetando como efeito demonstração da postura do pesquisador,
de como usa o que registra em campo.

O blog encerrará suas publicações, pelo menos à curto prazo,


com o, aguardado, contato presencial do último narrador: o
Dalaiama street art. E quem por aqui passa, deixe rastros para
que o diálogo multiplique seus riscos.

Encontros "virtuais com Dalaiama Street Art antes

Nunca soube jogar vídeo games. De todo modo, lembro bem uma
cena que se tornou frequente nos anos 80; meus filhos na
companhia de amigos, frente à televisão a jogar Pac-man [6]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn6] .
Considerava estranho um divertimento que se resumia no
movimento de uma cabeça, quase transmudada em boca que,
ininterruptamente, abria e fechava comendo pastilhas, espécies
de dispositivos eletrônicos. A “grande boca” era atormentada
por ameaçadores fantasmas e não parava de fugir e engolir.
Essa, obviamente, era a visão de quem pouco entendia do
referido jogo.

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Os filhos cresceram, tornei-me professora de antropologia,


outros jogos sucederam o Pac e muitos anos depois desembarco
em Portugal para articular com a Universidade de Lisboa o pós-
doutoramento em torno de uma uma pesquisa sobre arte urbana.
Era 2012 e já traçava o plano de observar expressões da street
art entre a cidade e o ciberespaço. Decido, como passo inicial
de um estudo exploratório, percorrer o entorno do Castelo de
São Jorge, alcanço o Miradouro de Santa Luiza e fotografo a
primeira arte que avistei de Dalaiama:

[http://3.bp.blogspot.com/-
TMO1xomvOeI/UkLr66v1VAI/AAAAAAAABOQ/RFLsj3a4IeI/s1600/dalaiama+Miradoura+
de+Santa+Luiza.JPG]

Assim como na primeira vez em que assisti o referido vídeo


game, fiz registro do estêncil de Dalaima e dali saí tentando
entender de que se tratava, se havia alguma conexão com o monge
budista Dalai Lama[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn7] , quem seriam os pac-men de cartola
a perseguir pássaros. Segui curiosa, e logo que alcancei um

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computador fiz a busca do perfil de Dalaiama no Facebook.


Encontro sua página de imediato e identifico duas informações
que constam no referido perfil:

o Estudou Faculdade de Belas Artes na instituição de ensino Universidade de


Lisboa [https://w w w .facebook.com/pages/Univ ersidade-de-Lisboa/103748326329916?ref=br_rs]
o Mora em Cascais [https://w w w .facebook.com/pages/Cascais/106046156093371?ref=br_rs]

Observo, também, que o artista dispõe de três blogs, tendo


iniciado no blogger em novembro de 2007; sendo que em um
deles[8][http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn8] o
artista faz publicações diárias. Vou percebendo que o signo
pac-men, não necessariamente projetado com a mesma estética,
nada ou pouco está relacionada à primeira associação que fiz
em relação ao vídeo game. Aqui o jogo assume outros
personagens, confrontos e disputas simbólicas.

O transformista Pac de Dalai Ama diz muito do país em que vive,


dos desgovernos , dos que estão a ser abocanhados pelos dentes
afiados dos poderosos.

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[http://1.bp.blogspot.com/-
jLVlPhY1BPc/UkLsIdwnUNI/AAAAAAAABOc/v_tSt_EREpQ/s1600/Dalaiama+5.JPG]

(fotografia da autora, Rossio, abril de 2013)

Há quase sempre um pássaro em rota de fuga de um “cartola” que


tenta engoli-lo, devora-lo. Em um dos sites[9]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn9] de
Dalaiama encontramos os contornos de uma arte que fala alto:

Pescar dinheiro [http://streetart-


crewl.blogspot.pt/2013/01/pescar-dinheiro.html]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 50/172
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[http://4.bp.blogspot.com/-
jAJ7FDZiVNc/UkLsswzizoI/AAAAAAAABOg/V687T2ZGFD4/s1600/dalai+-+pescar.png]

«Vende um peixe a um homem e ele terá com que se alimentar


durante um dia. Ensina-o a pescar e terás arruinado uma
excelente oportunidade de negócio.»

Karl Marx

A maioria das publicações de Dalaiama no referido blog, na sua


página do Facebook seja no compartilhamento de textos, seja
na publicação de suas artes (que quase sempre ocorrem
acoplados aos textos) evidencia a natureza devoradora de uma
dinâmica social local (e global) assentada na produção, no
consumo, na concentração de poderes e riquezas e no lucro. No
dia 08 de setembro de 2013, no blog [10]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn10] sob o
título “missa de domingo” o artista publica uma tríade de fotos
que narram o sagrado poderio do capital.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 51/172
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[http://2.bp.blogspot.com/-
XBW7YbHnbhU/UkLs7evt_mI/AAAAAAAABOo/4GXcvUQDz2g/s1600/Dalaiama-
Blogspot-Post+(1988)++.jpg]

[http://1.bp.blogspot.com/-
q5HQErTtGis/UkLs9oo6WsI/AAAAAAAABOw/0KoDtKuJBdM/s1600/Dalaiama-
Blogspot-Post+(1988)+.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 52/172
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[http://4.bp.blogspot.com/-
mt6QKaS8eJk/UkLtReeU2cI/AAAAAAAABO4/1v7J8U2fDgo/s1600/do+meio.png]

Vós deveis comparecer ao altar do consumo com sublime devoção.


Ide cumprir religiosamente as indicações da máquina
sacerdotisa: passai a hóstia de plástico pelos lábios do
nártex, lembrai-vos de engolir o cartão e carregai para abrir.
Por fim, ajoelhai e entregai confiantes as vossas almas ao
Deus-Capital. Ámen.

A arte de Dalaiama, embora expresse o talento e virtuosismo de


uma obra plástica urbana, condensa a força da intervenção, como
se ali estivesse não apenas como forma de compor o espaço, de
registro de uma tela, colagem, estêncil mas, fundamentalmente,
como um tipo de virtuose da impertinência, da repetição de uma
indignação, do eco dos que não se esquivam temerosos na concha
do silêncio.

Como diz Samain (2012, p. 16) as imagens pensam quando olham


para nós. As imagens da arte de Dalaima insistem na visível
ameaça dos que pretendem alçar voo diante da fome do dinheiro
em gerar mais dinheiro para quem já concentra riquezas.
Dalaima multiplica seus pac-men famintos por euros e dólares
em vários sítios de Lisboa e Cascais, indicada no seu Facebook
como local de residência. Ele parece perceber, como diz Zizek
na sua obra “A subjectividade por vir” (2006, p. 16) que “o
facto de o dinheiro nos dar a possibilidade de comprar objetos
no mercado não é uma propriedade directa do objeto-dinheiro é
uma resultante do lugar que ocupa na estrutura complexa das

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relações sócio económicas”. Os “cartolas” de Dalaiama dirigem


suas naus no oceano das atuais relações sócio–econômicas de
quase toda a Europa. E seus dirigentes, todos os dias, engolem
uma parcela considerável do tempo de voar dos pássaros de
Dalaiama.

São mais que perdas monetárias, ou dimensões quantitativas de


precarização da força do trabalho que parece estar em jogo
nessa nova ordem econômica europeia, no caso, portuguesa, e que
grita com potência na arte de Dalaima. Slordijk no “Se a
Europa Acordar” ( 2008, p. 21) ressalta que “no velho mundo
agora sem projecto e só propulsionado pelo ritmo da inovação da
indústria, o conceito de detrito atingiu a própria célula
vital, o presente. Consequentemente, desde os anos 80,
assistimos ao surgimento de um novo espírito do tempo que
assumia uma forma palpável. É um espírito da aniquilação do
tempo...”. É essa sensação que como diz Seiman já citado no
início dessas notas, que parece fazer pensar as imagens de
Dalaiama. Até porque as imagens atuam como “territórios de
memória”(SAMAIN, 2012, p. 22), paisagens de sentimentos. A
imagem publicada no blog[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn11] no dia 22 de setembro, denominada
‘Writer”, traz como um fragmento um escrito de Bataille em três
línguas.

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[http://3.bp.blogspot.com/-
d0Wslq82rCI/UkLtkNHIsiI/AAAAAAAABPA/XAIB4czKnTg/s1600/Dalaiama-Blogspot-
Post+(2002).jpg]

«J'ecris pour effacer mon nom.»


«Eu escrevo para apagar o meu nome.»
«I write in order to erase my name.»

Escrever para apagar o nome e fazer valer a arte que resiste à


cidade regulada, normatizada. A maestria das telas de Dalaiama
pulsa em tons contemporâneos. E como diz Barthes “o
contemporâneo é o intempestivo” (AGAMBEN[12]
[http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn12] , 2010, p. 19). Por meio de
imagens que assumem um mesmo código, um padrão estético (é
fácil identificar-se nas ruas um Dalaiama) ele consegue
transmitir uma arte irreverentemente atual, que dialoga com o
inatual que habita a obra, o devir[13] [http://www.blogger.com/blogger.g?
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 55/172
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blogID=4042807947703586432#_ftn13] cidade que aspira o pássaro que


tenta escapulir dos “cartolas”. Como diz Agamben, por meio de
asas em rota de fuga das bocas devoradoras do poder, Dalaiama
toca no escuro do seu tempo.

O contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como


qualquer coisa que lhe diz respeito e não para de o interpelar,
qualquer coisa que, mais que toda luz, se endereça directa e
singularmente a ele. (AGAMBEN, 2010, p. 23).

Por isso, eles artistas das ruas são raros, porque é necessário
para essa feita, algo aparentemente simples, coragem. Isso
porque durante o ano de 2013, em Lisboa, foi promulgada uma
Lei, publicada no Jornal Diário de Notícias[14]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn14] , no dia
primeiro de setembro desse ano, que regula a efetivação de
graffiti em locais como monumentos e transportes públicos,
“prevendo coimas para os infratores que pode chegar a 25 mil
euros”. De acordo com a mencionada notícia, como adverte o
artigo 3 da lei n.º 61 de 23 de agosto, "compete às câmaras
municipais licenciar a inscrição de grafitos, a picotagem ou a
afixação, em locais previamente identificados pelo
requerente".

E assim mesmo, Dalaiama continua disseminando sua revoada de


pássaros em compasso de fuga nas paredes lacradas e vigiadas de
Lisboa e Cascais. Como se dissesse, a cidade é pública, e a
arte sua linguagem. Aguardemos à seguir a narrativa do encontro
e da conversa com o Dalaiama. Eu, também, com ansiedade,
aguardo-a.

[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
RANCIÉRE, Jacques. O espectador emancipado. Lisboa: Orfeu
Negro, 2010.

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2] No
sentido empregado por Michel De Certeau ao se referir a uma
certa antidisciplina ligada a certas praticas de cidade, que
muitas vezes aparece como inércia ou resistência à ordem
social. A invenção do cotidiano: 1, Artes de fazer. Petrópolis:
Vozes, 1994.

[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 56/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/04/o-coelho-sem-leme-e-os-riscos-
da.html [http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/04/o-coelho-sem-leme-e-os-riscos-
da.html]

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
APPADURAI, Arjun e outros.Podemos viver sem o outro?

[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
Utilizo a categoria Acontecimento numa perspectiva usada por
Deleuze: "Então não se perguntará qual o sentido de um
acontecimento: o acontecimento é o próprio sentido. O
acontecimento pertence essencialmente à linguagem, mantém uma
relação essencial com a linguagem; mas a linguagem é o que se
diz das coisas." (LS, 34). Disponível em:
http://claudioulpiano.org.br.s87743.gridserver.com/wp-
content/uploads/2010/05/deleuze-vocabulario-francois-zourabichvili1.pdf
[http://claudioulpiano.org.br.s87743.gridserver.com/wp-
content/uploads/2010/05/deleuze-vocabulario-francois-zourabichvili1.pdf] ,
consultado no dia 25 de setembro de 2013.

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref6] Pac-


Man (conhecido em japonês
[http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_Japonesa] com o nome
de Pakkuman ou パックマン) é um jogo eletrônico criado pela Tohru
Iwatani para a empresa Namco [http://pt.wikipedia.org/wiki/Namco] , e
sendo distribuído para o mercado americano pela Midway Games
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Midway_Games] . Produzido originalmente
para Arcade [http://pt.wikipedia.org/wiki/Arcade] no início dos anos 1980,
tornou-se um dos jogos mais populares no momento, tendo versões
para diversos consoles e continuações para tantos outros,
inclusive na atualidade. A mecânica do jogo é simples: o
jogador era uma cabeça redonda com uma boca que se abre e
fecha, posicionado em um labirinto simples repleto de pastilhas
e 4 fantasmas que o perseguiam. O objetivo era comer todas as
pastilhas sem ser alcançado pelos fantasmas, em ritmo
progressivo de dificuldade. http://pt.wikipedia.org/wiki/Pac-Man
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Pac-Man]

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref7] Tenzin


Gyatso, Sua Santidade o 14º Dalai Lama nasceu em 6 de julho de
1935, numa família de camponeses da pequena vila de Taktser, na
provincia de Amdo, situada no nordeste do Tibet. Ver biografia:
http://www.dalailama.org.br/biografia/

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref8]
http://dalaiama.blogspot.pt/2013/09/writer.html?spref=fb
[http://dalaiama.blogspot.pt/2013/09/writer.html?spref=fb]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 57/172
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[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref9]
http://streetart-crewl.blogspot.pt/

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref10]
http://dalaiama.blogspot.pt/2013/09/missa-de-domingo.html?spref=fb
[http://dalaiama.blogspot.pt/2013/09/missa-de-domingo.html?spref=fb]

[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref11]
http://dalaiama.blogspot.pt/2013/09/writer.html?spref=fb
[http://dalaiama.blogspot.pt/2013/09/writer.html?spref=fb]

[12] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref12]
AGAMBEN, Giorgio. Nudez, Lisboa: Relógio D’ água. 2010.

[13] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref13] Uso


aqui a expressão de Deleuze e Guattari sobre devir, qual seja,
aquilo que está entre dois pontos, uma zona de
indiscernibilidade, vizinhança, um devir-outro, seja um devir
animal, um devir entre o homem e um lobo, entre o homem e um
inseto. No livro “Mil Platôs”, volume 4, 1997.

[14] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref14]
http://www.dnoticias.pt/actualidade/pais/404063-lei-que-regula-realizacao-de-
graffiti-entra-hoje-em-vigor-lisboa [http://www.dnoticias.pt/actualidade/pais/404063-
lei-que-regula-realizacao-de-graffiti-entra-hoje-em-vigor-lisboa]

Postado há 25th September 2013 por Glória Diógenes

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22nd August 2013 “Florescer” da arte: o ilegal pode


ser legal?
“Na abundância há conhecimento, e com conhecimento há
liberdade” (Hazul Luzah)[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn1]

Segui para o Porto dia 04 de agosto, dias após a abertura da


mostra[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn2]
“Florescer” de Hazul Luzah na Rua São Pedro de Miragaia[3]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn3] . Embora
se trate de uma exposição ilegal, qual seja, realizada sem a
licença e o apoio da Câmara do Porto, o convite para a mesma

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 58/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

percorreu blogs[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn4] , páginas do Facebook e veículos de
comunicação de grande circulação.

[http://4.bp.blogspot.com/-
h3gu8RHLMzU/UhXqF8XZrVI/AAAAAAAABLQ/gZllnWhPl4k/s1600/Convite.jpg]

Vale considerar, que diferentemente das intervenções anteriores


ensejadas por Hazul antes da ocorrência de conflito com a
Câmara, nesse episódio, ele pede uma amiga jornalista para que
elabore um “release” e o distribui para os principais veículos
de comunicação de Portugal.

A Revista Visão número 1065[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn1] , de 1 a 7 de agosto, exibiu página
inteira sobre a exposição, tendo como título “Da natureza da
cidade”, acompanhada do seguinte texto de abertura:

Hazul Luzah transformou os muros abandonados da estreita São


Pedro de Miragaia, numa galeria de Arte Urbana. O “abandono” da

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 59/172
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rua não passou indiferente ao graffiter, um dos mais conhecidos


da cidade, que começou por pintar apenas alguns emparedamentos,
acabando por colorir dez num trabalho realizado ao longo dos
dois últimos meses [...] Esta não é a única obra do conhecido
“writer” do Porto na sua cidade. Mas, tal como outras obras que
acabaram por ser apagadas pela brigada anti-graffiti, Hazul
espera que “as pessoas ajudem a preserva-las”. Se as “brigadas”
não aparecerem, as pinturas poderão, então, ser vistas por
tempo indeterminado.
Curioso perceber que a própria matéria, mesmo enaltecendo a
inciativa de Hazul, em nenhum momento, refere-se ao mesmo com o
predicado de artista. Muito embora o texto sinalize que a
estreita e pequenina São Pedro de Miragaia tornou-se,
eventualmente, uma “galeria de arte urbana”, suas linhas
referem-se a Luzah ou com o atributo de graffiter, ou na
condição de writer. É como se houvesse uma correlação direta de
significados: tem atuação voltada para a rua, mesmo que se
trate de arte, é graffiter. Nas notas finais da Revista sobre a
exposição, são destacadas quatro obras pintadas em Miragaia,
assim como o eixo de produção e fontes de inspiração do autor
dos dez painéis.

As pinturas de Hazul Luzah remetem para a mitologia de culturas


antigas. O “graffiter”, que gosta de apostar “nos elementos
naturais, geométricos e humanos”, identificou para a V7 quatro
das suas dez obras originais patentes nessa rua antiga.

Mesmo em se tratando da terminologia “obra”, quase sempre


interligada ao fazer artístico, a Revista Visão, em quaisquer
de suas linhas, alude à Hazul com o epiteto de artista.

A “Time Out”[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn2] do Porto de agosto de 2013, também,
de forma mais reduzida, comunica a exposição “Florescer”:

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 60/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://3.bp.blogspot.com/-
NZ9uuF7cgQw/UhXraNlKtQI/AAAAAAAABLY/NdwNNLS9hSw/s1600/Hazul+time.jpg]

A matéria ressalta a “invisibilidade” da rua São Pedro de


Miragaia nos “roteiros culturais” da cidade do Porto. Como pude
ver, Miragaia, ruela pontilhada por inúmeras edificações
devolutas, a maior parte tomada por matas e pequenas plantas
que se espalham nas paredes já nuas de cores; retoma o mapa do
Porto com o “Florescer” de Hazul. As notícias sobre essa
germinação artística multiplicam-se nas mídias impressas e nas
redes digitais. O próprio Hazul Luzah[7]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn1] exibe na
sua página do Facebook um “chamado” da sua exposição publicado
no Jornal Diário de Notícias:

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 61/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://3.bp.blogspot.com/-
zw7cKzhW9v4/UhXpjdzQKiI/AAAAAAAABLI/tuEXEWh9H1o/s1600/Dia%25CC%2581rio
+de+noti%25CC%2581cias.jpg]

No fechamento da matéria verifica-se a natureza contraditória


de uma exposição cujo ambiente é a rua: “não tem data de
encerramento”. O efêmero que permeia a arte urbana, fica
subtendido no registro do jornal. Percorrendo-se a página de
“amigos” de Hazul nota-se, também, uma quantidade considerável
de fotografias de visitas à exposição, condensada nessa foto
pelo artista[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn1] :

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 62/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://1.bp.blogspot.com/-3o5omwwKxh0/UhXpjpssZyI/AAAAAAAABKs/9XP_bWaOuN
E/s1600/Amigos+de+Luzah.jpg]

Logo abaixo da foto, identifica-se alguns comentários:

Né lson Pe re ira Soare s [https://www.facebook.com/nelson.p.soares] Esperemos que sirva para


abrir um diálogo saudável acerca do futuro do graffiti na cidade do Porto

Isalinda Santos [https://www.facebook.com/isalinda.santos] tens de promover umas visitas


guiadas

BalBina O live ira [https://www.facebook.com/balbina.oliveira.1] Ficou muito giro! Continua com


o teu belo trabalho a embelezar as ruas da nossa cidade

No nosso primeiro contato, no dia 7 de junho[9]


[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn1] ,
curiosamente, Hazul dizia estar há pouco tempo no Facebook e
demonstrava pouca utilização dessa ferramenta. Com o desdobrar
dos acontecimentos, Hazul Luzah percebeu, após o conflito com a
Câmara, que os sítios que não costumam aparecer nos roteiros,

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 63/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

precisam ser multiplicados por meio de artefatos visuais nas


redes digitais. O número de publicações de Luzah no Facebook
praticamente triplica, os compartilhamentos de páginas e de
“curtições”[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn2] , também.

O artista que revelou na primeira entrevista pintar sem se dar


conta do olhar do público sobre suas obras, vivenciar uma
experiência de autoconhecimento e simbiose das figuras do
formador-artista-espectador-curador passa a “brincar” com esses
papéis. Luzah insiste no uso do termo brincar, como se isso
redundasse numa inversão e mistura dos usuais papéis que
compõem os roteiros da produção artística. Provavelmente,
também, ao confundir enunciados, funções e as dinâmicas
contemporâneas da produção artística (produtor-curador-crítico)
o artista, como diz Ranciére[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn3] , também “emancipa o espectador”.
Hazul acaba criando uma eficácia paradoxal do fazer artístico:
”é a eficácia da própria separação, da descontinuidade entre as
formas sensíveis da produção artística e as formas sensíveis
através das quais essa mesma produção é apropriada pelo
espectadores, leitores, ouvintes” (2010, p. 85). O “brincante”
Hazul no seu Facebook, apresenta o curador de sua exposição, o
gato. Paradoxalmente, silencioso, tem olhar observador mas,
produz uma visão “por dentro”, qual seja, é parte da “natureza”
local.

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[http://3.bp.blogspot.com/-
ykW0Go_pRbU/UhXpjYozHOI/AAAAAAAABKk/Jaan6O9c8a4/s1600/Hazul+-
+o+curador.jpg]

(Legenda: o curador)

O gato é um elemento da paisagem de São Pedro de Miragaia.


Tanto o “curador”, como a própria rua, como o povo que lá
habita, persistem encobertos por camadas de muros misturados,
prosseguidos de abandonos. Hazul, morador do entorno, é
conhecedor das tantas memórias e histórias ali encobertas.
“Florescer”, como veremos à seguir, planta arte nos tijolos e
cimentos de janelas lacradas. No lugar onde germina o
esquecimento.

Na Miragaia com Hazul: Entre uma porta fechada e um quadro, é


muito melhor um quadro.

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[http://3.bp.blogspot.com/-5t40Dxgks2s/UhXssfQMehI/AAAAAAAABLk/Ey8BTurANu
w/s1600/Miragaia.JPG]

Marcamos, eu e Luzah, por volta das 16 horas, em um dos dois


únicos bares que existem próximos da São Pedro. Preferi chegar
bem antes, deambular, ir até à rua da exposição e conversar com
alguns moradores que residem ou transitavam, naquele momento,
no entorno da Miragaia. Difícil descrever o espaço. Contando
apenas com uma descida de escadarias, ocupando um plano abaixo
de uma extensiva via que margeia o Douro, Miragaia é o que se
denomina comumente de bairro popular. Ao lá chegar, num palco
montado bem diante da descida das escadarias, sob um sol nada
convidativo, um grupo musical entoava um forró que parecia
fundir o ritmo brasileiro com o português. Não havia
praticamente ninguém assumindo a qualidade de espectador.
Apenas os transeuntes da calçada superior da via, por vezes
paravam, escutavam por algum momento e seguiam a caminhada.

Ao penetrar em Miragaia, percebi que as ruas são estreitas e,


por ser um dia ensolarado, a população local exibia um varal de
cores entre paredes e janelas. Praticamente, não havia ninguém
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 66/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

nas pequenas ruas, nem mesmo na São Pedro.

[http://1.bp.blogspot.com/-T4ublCQR6Ho/UhXpkYiZ7tI/AAAAAAAABK8/GVZdWglD-
Z8/s1600/Sa%25CC%2583o+Pedro+-+Hazul.JPG]

Após contemplar a exposição e passar a vista no local do


entorno da rua São Pedro de Miragaia, retornei ao ponto
inicial. Havia alguns grupos reunidos na extensiva arcada que
contorna a entrada do local. Era como se estivessem ali juntos,
sentados em cadeiras que pareciam terem sido deslocados de suas
casas, trocando conversa sobre temas esparsos. Decidi, então,
no aguardo da chegada de Hazul, tentar entender qual a visão de
alguns dos moradores acerca da exposição “Florescer”.

Chego em um grupo, mais formado por senhores e, de pronto eles


me indicam serem as mulheres ao lado sentadas, em sua maioria,
moradoras do local: “melhores para falar sobre aquilo”. Um
deles, grita para o grupo das mulheres – conversem com a menina
do Brasil, ela quer saber sobre as pinturas do muro.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 67/172
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Trata-se de senhoras de, no mínimo, sessenta anos. Vestem-se


como se estivessem em casa, no espaço de suas calçadas. De
pronto, todas elas (quatro) decidem falar ao mesmo tempo. Uma
delas, informa: eu moro para aqueles lados, o que tem na
Miragaia é bonito, é bonito. Outra senhora pergunta para mim –
foi autorizado? Digo que ainda não sei, que ali estou
pesquisando sobre o assunto e uma terceira, imediatamente,
participa: acho que foi autorizado, senão tinha sido apagado. A
primeira diz: acho que não foi autorizado, aquilo é velho, a
Câmara não quer saber dessas paredes. Qual o nome da senhora,
pergunto eu? Sou Maria, moro bem na frente das pinturas. Aquilo
era tudo velho, agora está bonito, até gosto de ver aquilo.
Logo em seguida, precisaram se retirar e me desejaram, mesmo
que tivesse esclarecido que se tratava de uma pesquisa, uma boa
reportagem. Uma delas encaminhou-me a um terceiro grupo e
solicitou: Luís, atendam essa senhora.

Era um grupo formado por três senhores, um deles, o Luís, que


já foi de imediato proferindo sua opinião:

É muito mais bonito assim de que como aquilo está. Fica mais
bonito, fica um quadro. Estão sempre lá a tirar fotografias.
Fizeram aquilo de noite, acho que não foi dado autorização.
Mais que tá muito mais bonito, está. Entre uma porta fechada e
um quadro, é muito melhor um quadro. É uma coisa bonita. A
gente sabe diferenciar o bom e o mau. São coisas que se percebe
no graffiti, há inteligência na pessoa que fez aquilo. Ali está
um tipo mesmo da pintura de um quadro. Aqui se aproveitaram as
fachadas de prédios devolutos, as portas fechadas em cimento e
fizeram pinturas. Aquilo devia ter mais de uma pessoa a fazer.
Pode ser um grupo de artistas. Primeiro puseram um branco, para
depois ir fazendo. Não foi em sequência. Pintavam uma noite,
algumas outras não. Ali é uma zona escondida, recatada. Se foi
alguma coisa que teve autorização, teriam feito durante o
dia.

Outro senhor, denominado Pereira, disse que há diferenças entre


essa arte da Miragaia e o vandalismo. Diz ser contra qualquer
tipo de vandalismo nas paredes, os rabiscos que só estragam a
cidade e solta, o que diz se tratar de um ditado popular: cada
qual na sua arte. E continua, há grafitismo por vezes
considerado vandalismo, há outros que até se ganha dinheiro com
isso. Aqui tem vindo muito estrangeiro, visitar agora essas
pinturas. Tiram muitas fotos. Isso aqui é arte.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 68/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Percebo que apesar da natureza impressionista e intuitiva das


considerações dos moradores, a maior parte delas parece
identificar, na exposição de Hazul, um perfil diferenciado, se
utilizando de termos relativos às artes plásticas, quando
mencionam a exposição: são quadros, são pinturas.

Quando já estou com o último grupo, chega Hazul. Obviamente,


até mesmo por manter sua identidade anônima, nenhum dos
moradores reconhece o artista. Eu o apresento como amigo do
Porto que, por minha indicação, veio visitar a exposição. E
seguimos, os dois, para Rua São Pedro de Miragaia.

Algumas das obras pintadas na exposição "Florescer", na São


Pedro de Miragaia:

[http://1.bp.blogspot.com/-4Ql6q4ZboDs/UhXpYJLQWWI/AAAAAAAABKY/GnxrTepfO5
M/s1600/Hazul+Florescer+5.JPG]

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[http://4.bp.blogspot.com/-sKNhbZ2Mov8/UhXpYhL7NPI/AAAAAAAABJs/sDa-
YgBPBYA/s1600/Hazul+Florescer+6.JPG]

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[http://2.bp.blogspot.com/-
_GQqBXddFOc/UhXpY4MFVkI/AAAAAAAABJ0/rmdVWFFf2VM/s1600/Hazul+Florescer
+7.JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 71/172
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[http://3.bp.blogspot.com/-
Lux1pSNIzOs/UhXpZB8sGMI/AAAAAAAABJ8/y882Vo0YiBw/s1600/Hazul+Florescer+8.
JPG]

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[http://2.bp.blogspot.com/-
BlFoUQBrxP4/UhXpZtDJGEI/AAAAAAAABKE/uDjpBIOXznw/s1600/Hazul+Florescer+9.
JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 73/172
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[http://2.bp.blogspot.com/-NK2k3ZkU-
lE/UhXpXbXtTUI/AAAAAAAABJM/h4vdnuKgHCk/s1600/Hazul+Florescer+1.JPG]

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[http://3.bp.blogspot.com/-9YbSvBhJ-
YQ/UhXvjdRp9XI/AAAAAAAABL0/ZgHH1P4fs8Y/s1600/Hazul+90.JPG]

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[http://3.bp.blogspot.com/-
cnaedkAgK7g/UhXvjf7PhCI/AAAAAAAABLw/ZZerKyympxA/s1600/Hazul+91.JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 76/172
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[http://2.bp.blogspot.com/-WcSxbAvBj1U/UhXpXbyWQaI/AAAAAAAABJU/-
LmIQToainQ/s1600/Hazul+Florescer+3.JPG]

Vejo uma senhora na porta de sua casa e, na presença de Hazul,


aproximo-me saudando-a com um boa tarde. Indago seu nome e ela
diz que se chama Zélia. Então pergunto o que acha das pinturas
na sua Rua. Ela apenas diz: é bonito, devia ser em todo lado.
Parecem tapetes. É bonito. Nunca viu ninguém pintar aqui na
rua, mas tá bonito.

Vamos passando por todas as pinturas e ele informa que..

não há uma temática, elas representam uma síntese geral do meu


trabalho. Não têm um tema, porque eu nem sabia que ia fazer
isto. Eu cá estava com uns amigos que fizeram uma reportagem,
um filme e eles queriam um sítio tranquilo para tirar umas
fotos. E eu vim aqui porque achava que era bom pra’ eles. Achei
o lugar bom para pintura. Fiz uma e só depois, comecei a pintar
as outros. De fato, isso não tem uma lógica. É também uma
brincadeira com o que está a se passar, de apagarem minhas
pinturas. Mas não em afronta. Eu vinha nas madrugadas. A maior

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 77/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

parte das vezes sozinho. Nunca passava ninguém.

Aqui tentei não repetir o tema. Não queria fazer sempre a mesma
figura. Florescer porque tinha a ideia de que quando os sítios
são abandonados, as plantas começam a tomar conta. E eu criei
alguma coisa em que as pinturas possam um bocadinho estar mais
semelhantes a isso. E eu no meu caso, ganho um espaço para
colocar as minhas coisas, num espaço que estava um bocado
esquecido. Assim como a natureza, que quando o espaço fica
esquecido, ela acaba por ocupar. E Florescer é uma aproximação
a isso. Como se brotasse ou nascesse, um bocado semelhante a
isso. Nunca pinto edifícios, não pinto patrimônio. Pintei aqui
janelas de tijolos tapadas. Quando chegarem para derrubar isso
aqui, reformar, isso tá a venda, as primeiros coisas que vão
derrubar são as minhas pinturas.

Inusitadamente, um ex-morador que havia me escutado durante a


conversa com um dos grupos, dirigiu-se à Rua São Pedro com a
finalidade de visitar a exposição. Com um boa tarde, de
imediato, inseriu-se na conversa. Sua fala vai descrevendo
acontecimentos que se foram no dia a dia da pequena rua, a
memória que jaz recoberta em cada canto que se ausenta.
Acompanhei aquilo que seria uma dupla e superposta visita
guiada: à arte de Hazul e as imagens da memória lacrada de
Miragaia.

O Sr. Pedro, assim se chamava o visitante, dirige-se a um


terreno grande, tomado por um extenso matagal e diz:

aqui onde estão essas grades era a sede do grupo que jogava
futebol, o Miragaia, e eu fui seu presidente. Agora é lá
embaixo o Miragaia, mas era aqui. Lá embaixo é pequenino, mas
aqui era grande. Isso aqui tinha um salão de festas e um palco
enorme. Já tem quinze a dezesseis anos que isso fechou. Eu
ainda não tinha visto essas pinturas. Tenho 61 anos, sai daqui
com 34, mas todas as semanas venho aqui. Meus amigos estão aqui
e não lá onde eu moro. Moro no Lagarteiro. Isso aqui nunca mais
vai ser recuperado. Aqui era uma vinícola. Aqui era um centro
dos idosos. Aqui era minha casa, está toda fechada. Minha
mulher lavava roupa aqui. Minha sogra e o resto da minha
família moravam ao lado. Fui muito feliz em Miragaia.

Entre as dez pinturas da exposição, a voz de um ex-morador de


Miragaia trouxe, por efeito de animação, a vitalidade do lugar,
calada entre paredes. Ao interrogar o que achou dos muros de

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 78/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Hazul o visitante professa: a pintura dá um pouco de vida nisso


aqui, nem gosto de ver isso tudo abandonado. Quando venho fico
mais lá fora.

A “Florescer” abriu passagens para a Rua São Pedro de Miragaia.


Curiosos, repórteres, moradores, turistas passaram a visitar a
exposição de “tempo indeterminado”. O efêmero da arte urbana,
superpõe-se nas camadas de memória que ali resistem, quando os
sítios são abandonados, as plantas começam a tomar conta. A
brincadeira séria de Hazul, a provocação da “Florescer” à
Câmara do Porto, diante de pinturas apagadas do artista, traduz
a dinâmica da natureza, a multiplicação, sem controle, da
vegetação e da arte.

A arte urbana de Hazul se propaga por meio de uma linguagem


cinética, Como diz Slodedijk, de uma lógica da “mobilização
infinita”, de uma ação que já contém em si a efemeridade e a
passível destruição. “Todo o movimento do mundo deve passar a
ser realização do plano que temos dele” (2002, p. 24). Diante
dos planos que dinamizam as “brigadas anti-grafito”, das
tentativas de classificação e de produção de uma arte pública
legal, na contramão dos indesejados, dos vândalos, cabe ao
antropólogo se perguntar: afinal de contas quais os sentidos da
arte, tanto em Lisboa como no Porto, que germinam na aridez do
abandono? Como se produz uma linguagem da arte que atravessa o
tensionado fio entre o legal e ilegal? É o tema que permeia os
encontros e as narrativas do próximo diário.

( eu também me deixei fotografar ao lado de uma das obras Hazul


Luzah)

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 79/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://1.bp.blogspot.com/-
ogdc41TLgZU/UhXyBu7ezZI/AAAAAAAABMM/7ZyPjkWesx4/s1600/Eu+Luzah+Miragai
s.JPG]

[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Revista Sábado: https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=396798087105867&set=a.129964810455864.24140.100003270388133&ty
pe=1&theater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=396798087105867&set=a.129964810455864.24140.100003270388133&type=1&the
ater]

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2] Ver


diário anterior, do dia 16 de agosto. A abertura ocorreu no
dia 20 de julho.
[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
Defronte ao rio e próxima ao mar a Rua São Pedro é
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 80/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

palco de uma longa história. Formada,


originalmente, por judeus, armênios e populações
do Minho, os moradores de Miragaia relataram-me
que ali, originalmente, era um pequeno povoado de
pescadores. Desenvolviam atividades ligadas,
também, ao transporte e comércio de mercadorias
por meio do rio Douro e do mar. Situava-se fora
das denominadas Muralhas Fernandinas. Atualmente,
congrega uma população de baixa-renda,
visivelmente idosa e que parece viver ainda do
comércio e de pequenos serviços.

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
http://www.dontpaniconline.com.pt/events/2056/florescer-exposio-hazul-na-
cidade-do-porto [http://www.dontpaniconline.com.pt/events/2056/florescer-exposio-
hazul-na-cidade-do-porto]

[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] No
encarte “Visão set”, no tópico “Sair”.

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2] P. 45

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=403779676407708&set=a.129964810455864.24140.100003270388133&ty
pe=1&theater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=403779676407708&set=a.129964810455864.24140.100003270388133&type=1&the
ater]

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=408764699242539&set=a.129964810455864.24140.100003270388133&ty
pe=1&theater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=408764699242539&set=a.129964810455864.24140.100003270388133&type=1&the
ater]

[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] Ver


diário que narra esse
encontro: http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/06/hazul-lazuh-arte-
atemporal-das-sensacoes.html [http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/06/hazul-
lazuh-arte-atemporal-das-sensacoes.html]

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
Ferramenta de interação no Facebook denominada originalmente
de “like” que sinaliza a quantidade de internautas que por ali
passaram e expressam simpatia, aceitação ou se sentem
contemplados com a publicação de “amigos”.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 81/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
“O
Espectador Emancipado”, Jacques Ranciére, Lisboa: Orfeu Negro,
2010.

Postado há 22nd August 2013 por Glória Diógenes

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16th August 2013 É verão em Lisboa: a cidade


aquece, o campo se desloca.

[http://2.bp.blogspot.com/-GD4IO-
Ef5oI/Ug5JIebFwhI/AAAAAAAABIw/v3dDyG5YITs/s1600/O+povo+e%CC%81+quem+ma
is+ordenan.jpg]

(foto: http://sicnoticias.sapo.pt/pais)

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 82/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

É agosto em Lisboa e, obviamente, no resto do planeta. Porém,


aqui particularmente esse período é marcado por curiosas
circunstâncias. A primeira, o calor. No verão, a temperatura
chega a ultrapassar quarenta graus. Nessa temporada, como que
num ritual de celebração aos deus Sol, Rá, quem aqui se
encontra atravessa a porta de moradias, albergues, hotéis e
invade os espaços públicos. Iluminada e aquecida, a cidade
torna-se palco de shows, festas, mostras, festivais, feiras,
exibições, com ocupação intensiva da praias e parques. Vestes
mínimas e coloridas emolduram os corpos, quase sempre, de tez
douradas, alguns, principalmente os turistas, de tons
excessivamente avermelhados.

O calor provoca uma dinâmica singular na cidade. Os lisboetas,


em sua maioria, viajam. Imagens dos 750 hotéis do Algarve,
sites e páginas do Facebook de sedutoras paisagens praianas
atraem deslocamentos nessa direção. O considerado mais
influente portal com opiniões de viajantes do mundo, o
TripAdvisor, indica que as praias portuguesas assumem
preferência na lista específica desse destino turístico.

Enquanto isso, estabelecimentos comerciais, restaurantes,


salões de beleza, lavanderias, farmácias, pastelarias e tantos
outros locais passam a exibir uma placa indicativa:

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 83/172
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[http://3.bp.blogspot.com/-GSeL5-
7v_BE/Ug5C6im4o9I/AAAAAAAABIc/Qn05RPmwGGA/s1600/Hazul+fechado.jpeg]

A maior parte das bibliotecas diminuem seu tempo de expediente.


Observei que na biblioteca a qual freqüento, talvez devido a
perplexidade da funcionária diante de pessoas que insistem em
ler e escrever durante esse período, por volta de duas horas
antes do encerramento, a encarregada providencia o esvaziamento
do espaço, desligando o ar condicionado. Quem teima em ali
permanecer efetua uma disputa entre a atividade intelectual, o
escorrer contínuo do suor e o ato de abanar-se.

Decidi viver e acompanhar as transformações efetuadas na


paisagem pública de Lisboa no verão de 2013. Percebi que a
cidade torna-se dilatado palco e platéia Ruas são limpas,
jardins são re-plantados, árvores são podados e muitos, muitos
graffiti e tags são apagados. No entrada do metro do Largo do
Rato, local de freqüência diária, as paredes tornaram-se alvas
após a atividade de ‘limpeza”. Isso já era esperado. O Jornal
Público[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn1]
havia iniciado em outubro de 2012 rumores dessa ação: “Sá
Fernandes declara guerra aos graffiti em Lisboa em 2013”.
Recentemente, em 24 de junho de 2013, outra matéria[2]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn2] sinaliza
maior pressão na condução da política de repressão à
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 84/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

grafitagem: “Projeto de lei prevê que autores de graffitis


sejam obrigados a ter licença para pintar”. O corpo do texto
informa que o “Governo quer implementar novas regras para a
pintura de grafítis. O projeto de lei, proposto pelo Executivo,
estabelece a obrigatoriedade de existir um requerimento com o
projecto do desenho e uma licença concedida pelas câmaras”. As
ações do governo ressoam nas redes sociais e nas páginas dos
graffiters e artistas urbanos.

No Facebook, a página de Tinta Crua, estampa um desenho


inspirado no filme “Bonnie and Clyde”[3]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn3] . Logo
abaixo da imagem, o comentário de um “amigo” assume o teor de
advertência:

[http://1.bp.blogspot.com/-kIyQOkTaOaE/Ug5C7bgd-kI/AAAAAAAABIU/tFLa4-
pfbU4/s1600/Tinta+crua+-+Bonnie.jpg]

Migue l Louro [https://www.facebook.com/louro.showbizz] Convenhamos que - a partir de hoje (e


com a nova lei) - vais ter mais problemas para colares os bonecos na rua.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 85/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Os azuis vão começar a não curtir a tua onda.

Dentro da mesma temática, o artista urbano de Cascais,


Dalaiama street art[4] [http:/#_ftn1] , publica no seu blog um
pequeno texto denominado “Desafios na escuridão”:

São incontáveis os desafios colocados pela determinação de proporcionar Arte


gratuita à comunidade. Podemos ver a nossa boa vontade ser acusada de
vandalismo se formos apanhados pelas autoridades. Mas não só: a escassez de
luz também põe à prova a nossa determinação, porquanto à noite as cores são
bastante diferentes das que se vêem de dia. O estudo e os conhecimentos
adquiridos no campo da teoria da cor, associados à experiência, são essenciais.

Há outro traço que torna “indesejável” a arte Dalaima e que


transcende às esferas do legal e do ilegal. Por meio de
mensagem direta, via Facebook, o street artist descreve seu
olhar sobre a Arte Urbana em Lisboa:

Estudei nas Belas-Artes e, por sorte, ao longo dos últimos 20 anos tenho vivido no âmbito das Artes Visuais.
Sempre é bom. Sempre é a minha área. Há quem tenha andado em Belas-Artes e hoje trabalhe noutras áreas.
Portanto a outra identidade, aquela do bilhete de identidade, permanece sob a crosta terrestre enquanto a
matéria cósmica o permitir, os átomos rodam e conversam entre si, confabulam, debatem assuntos
importantes sobre a existência e todos os dias dão o seu veredicto sobre a sua constituição em moléculas Esses
miúdos com 20 anos acham que vão viver para sempre LOL Aos 30 percebe-se que não é bem assim e aos 40
damo-nos conta de que já existe um número considerável de mortos na gaveta das memórias pessoais um dia é
a nossa vez. T odo o tempo é precioso. Ou não. É o que é. É como é. Seja o que for. Somos vento Gloria! Dizia
o professor Agostinho da Silva: «não faças planos para não estragar os planos que a vida tem pra ti.» ehehe
Querida, já deves ter reparado que eu ando numa fase bem reflexiva. Gloria, eu sou dos mais antigos resistentes
nas ruas, senão mesmo o mais antigo. A figura do Dalaiama é recente, começou como uma espécie de
brincadeira em 2005, de repente adquiriu proporções que não imaginei, mas um dia terá de acabar. Da malta
antiga, creio mesmo que tenho conseguido ser o único ainda escondido.
23:08
Depois o pessoal mais cota como eu, tou a pensar no Mar, no Ram, no YouthOne, no Nomen, no Odeith, no
Mr.Dheo e mais alguns outros, esse pessoal é porreiro, todos talentosos, mas o que é que nós temos em
comum?
A questão essencial é que eu politizo o trabalho. Não é melhor nem pior, apenas politizado.

É esse o ponto que parece transpor divisas entre a arte que


recebe a licença da Câmara e tem a anuência da Galeria de Arte
Urbana[5] [http:/#_ftn2] e aquela que se remete à crise econômica, às
fissuras na governabilidade, aos cortes e precarização no campo
do trabalho e ao maciço desemprego da juventude em Portugal.
Uma das últimas publicações de Dalaiama[6] [http:/#_ftn3] , traz o
seguinte título e imagem:

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 86/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://2.bp.blogspot.com/-
oDoLgTjV9SU/Ug5C6uoYR4I/AAAAAAAABII/LihnJqWbUx4/s1600/Dalaiama-Blogspot-
Post+%25281965%2529.jpg]

Tal qual me revelou por mensagem direta, é tempo de esconder-se


quando o embate atinge e isola os considerados dissidentes. Só
muito recentemente, Tinta Crua exibiu, publicamente, sua
identidade oficial . No nosso último encontro, por ocasião da
colagem[7] [http:/#_ftn1] que efetuamos na madrugada do dia 12 de
julho, o Tinta cogitou criar um novo codinome artístico na
tentativa de se proteger do cerco à ação aos graffiters. Sua
arte, já destacada nos primeiros diários do AntropologiZZZando
é, visivelmente, insurreta e underground.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 87/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://1.bp.blogspot.com/-
GAJp9Vp2BQE/Ug5C7vgGmzI/AAAAAAAABIg/9IqevswxOrs/s1600/Tinta.jpg]

Dalaima, que, de acordo com o perfil de sua página no FB,


estudou belas Artes na Universidade de Lisboa, e Hazul Luzah,
da cidade do Porto são invariavelmente afetados pelas tensões
de uma arte que se situa nas minadas fronteiras do ilegal. Um
peculiar higienismo urbano, com “apagamento” de tags,
escritos e graffiti mais notório ainda nesse último mês de
agosto; o processo de “limpeza” e preparação da cidade de
Lisboa para a festa do verão, momento de afluência de turistas,
me trouxe a percepção que era hora de voltar-me, de forma mais
exclusiva, para os artistas urbanos que se situam nas zonas do
interdito. Dificilmente, conseguiria seguir nessa direção no
princípio do esforço etnográfico. Com a difusão do blog e o
processo de confiança construído com alguns dos artistas, havia
chegado o momento de penetrar nos denominados terrenos ilegais.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 88/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

O graffiter do Porto, Hazul Luzah alvo da mencionada “brigada


anti-grafitos”[8] [http:/#_ftn1] da Câmara, ao fotografar o momento em
que seu mural estava sendo apagado e ao divulgar a foto no
Facebook, protagonizou a cena primordial do estopim de um
conflito. A imagem do “apagamento” percorreu páginas de
internautas de partes diversas do mundo e, curiosamente, as
artes de Hazul multiplicaram-se nos “muros digitais” e
ganharam ainda mais visibilidade dentro do próprio espaço da
cidade. Soube pela página do Facebook de Hazul Luzah, de uma
exibição de Arte Pública, realizada sem a anuência e sem apoio
do poder público no dia 20 de julho. Tomei o comboio e fui ao
encontro de Hazul. A exposição “Florescer” e o passeio com
Hazul pelo Porto será o tema da próxima narrativa. Toma-se
assim uma nova direção. O antroplogiZZZando seguirá traços,
compassos e cores ilegais da arte urbana em Lisboa.

[http://1.bp.blogspot.com/-8RYgButFV_w/Ug5C687xrhI/AAAAAAAABIE/3QkQx7j5_Ik/s
1600/Hazul+e+eu%252C+de+costas.JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 89/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

(encontro com Hazul Luzah na Rua São Pedro de Miragaia, no dia


04 de agosto, no Porto)

[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://www.publico.pt/local/noticia/jose-sa-fernandes-vai-declarar-guerra-aos-
graffiti-em-2013-1569499 [http://www.publico.pt/local/noticia/jose-sa-fernandes-vai-
declarar-guerra-aos-graffiti-em-2013-1569499]

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2013/06/24/projeto-de-lei-preve-que-autores-de-
graffitis-sejam-obrigados-a-ter-licenca-para-pintar
[http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2013/06/24/projeto-de-lei-preve-que-autores-de-graffitis-
sejam-obrigados-a-ter-licenca-para-pintar]

[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3] Filme


norte-americano de 1967, produzido e idealizado por Warren
Beatty. Trata-se de um casal que embarca numa trajetória de
roubos, assaltos e mortes.

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Aguardando contato presencial para pesquisa. Trocamos diversas
mensagens diretas pelo Facebook. https://www.facebook.com/dalaiamaa?
fref=ts [https://www.facebook.com/dalaiamaa?fref=ts]

[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
https://www.facebook.com/galeriadearteurbana?fref=ts
[https://www.facebook.com/galeriadearteurbana?fref=ts]

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3] de 13
de agosto de 2013, http://dalaiama.blogspot.pt/2013/08/ladroes-devolvam-o-
que-e-nosso.html?spref=fb [http://dalaiama.blogspot.pt/2013/08/ladroes-devolvam-o-
que-e-nosso.html?spref=fb]

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/07/colando-com-tinta-crua-em-
lx.html [http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/07/colando-com-tinta-crua-em-
lx.html]

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Ver
no AntropologiZZZando os diários de campo dos dias 10 e 16 de
junho, sobre Hazul Luzah.

Postado há 16th August 2013 por Glória Diógenes

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16th July 2013 Colando com Tinta Crua em LX.

[http://2.bp.blogspot.com/-
GBRn3ubkAmg/UeVnqIgAX3I/AAAAAAAABCE/tKqGB1LdhEE/s1600/Tinta+palmela.pn
g]

(Pintura recente no Parque de Palmela[1]


[http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn1] )

Marquei com Eduardo, o Tinta Crua, defronte ao Teatro D. Maria,


no Rossio, às 22.30 horas da sexta-feira, dia 12 de julho de
2013. Combinamos essa ação conjunta por meio de um outro
encontro que tivemos no próprio ICS[2]
[http://www.blogger.com/#_ftn1] no dia 25 de junho.

Apenas há muito pouco tempo Tinta Crua havia “dado a cara”.


http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 91/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Conservara, por alguns anos, sua identidade pessoal apartada do


codinome do artista e, desse modo, como ele já havia me
informado, sempre fez suas intervenções de modo solitário nas
ruas de Lisboa. Tentava então cogitar o que significaria para
ele estar colando sob o olhar de uma companhia tão sui generis,
a antropóloga.

Observei, transcorrido já quatro meses do nosso primeiro


encontro[3] [http://www.blogger.com/#_ftn2] , uma mudança efetiva nas
intervenções urbanas de Tinta Crua. Isso porque, na primeiras
conversas que tivemos, o artista parecia minimizar o impacto de
sua arte e encontrava-se (provavelmente, por estar
desempregado) desestimulado e até mesmo, como ponderou, sem
recursos financeiros para dar continuidade às suas práticas de
rua. Nessa ocasião assim falava ele sobre ele mesmo:

Dizia-se assim “Tinta Crua” na rua, quem era? quem não era.
No jornal? Isso nunca chegou num meio tão grande. Eram coisas
pequenas. Isso nunca teve assim grande impacto.

Após a publicação de nosso encontro no blog,[4]


[http://www.blogger.com/#_ftn3] em março de 2013, passei a
perceber a multiplicação e diversificação das intervenções de
Tinta Crua[5] [http://www.blogger.com/#_ftn4] na região da Baixa-Chiado.
Além disso, a “estatística” do blogger, acerca do
AntropologiZZZando, evidencia que o post publicado sobre Tinta
Crua, hoje, dia 16 de julho, foi o mais visitado em quatro
meses:

Postagens

Visualizações
Entrada de página
O minimalismo intenso da arte de Tinta Crua.
[http://antropologizzzando.blogspot.com/2013/03/o-
minimalismo-intenso-da-arte-urbana-de.html]
23/03/2013 498

Na conversa que tivemos dia 25 de junho no ICS, tentei saber


como havia sido, na percepção dele, o impacto da publicação de
seus trabalhos e de sua trajetória no AntropologiZZZando. Diz
ele: depois que participei da intervenção da Galeria de Arte
Urbana, Rostos do Muro Azul[6] [http://www.blogger.com/#_ftn5] , dessa
sua pesquisa, então pronto, eu senti necessidade de continuar.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 92/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Com o blog senti-me bem, faz bem ao ego, e dá para acreditar um


bocadinho em mim, também (risos). Mas como pessoa, na minha
arte seja mais uma coisa para eu não deixar, para eu continuar.
É um incentivo, me sinto mais na obrigação de continuar a
fazer as coisas. Construir as coisas melhores e tentar evoluir.
As duas participações de Tinta Crua, no “Rostos do Muro azul”[7]
[http://www.blogger.com/#_ftn6] , assim como a pintura que abre esse
post efetuada em Palmela, evidenciam a ampliação, “abertura” e
maior luminosidade nas cores, um diversificação de formas e a
inclusão de outros signos visuais: livros, folhas verdes,
árvores com frutos, dentre outros elementos. Tinta Crua tanto
multiplicou sua “arte de minimalismo intenso”, referida na
publicação de março, como passou a estampar nas paredes, muros
e vitrines (como se diz em Portugal, nas montras) artes que
expressam a complexidade estética e pictórica do autor.

[http://2.bp.blogspot.com/-
aLLGSLu91xY/UeVqwCQcUcI/AAAAAAAABDU/ZbMSSP5f5P0/s1600/tinta+azul.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 93/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://2.bp.blogspot.com/-vzM0jWE0Saw/UeVpHmZp-kI/AAAAAAAABDI/a58X-
7it6kw/s1600/Tinta+muro+2.jpg]

Isso porque, cada vez em que percorria a Baixa-Chiado, o Cais


Sodré, alguns pontos dos Restauradores me deparava com mais e
mais colagens, quase sempre, acompanhadas da inscrição: Tinta
Crua- 2013.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 94/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://3.bp.blogspot.com/-
pDEozSNxAOA/UeVrVRc1UpI/AAAAAAAABDc/VOSbbEm79Y0/s1600/Tinta+2013.JPG
]

[http://3.bp.blogspot.com/-PYm-
jD1S0s4/UeVsWOkH1LI/AAAAAAAABD4/56xoL1G7rPc/s1600/Tinta+2013+6.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 95/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://1.bp.blogspot.com/-
fjRAnWyAWj8/UeVs7wOoRMI/AAAAAAAABEM/rKD2jPxBp5E/s1600/TINTA+2013+7.J
PG]

[http://2.bp.blogspot.com/-
Mbt7xQ9l2Fo/UeVtOatk0GI/AAAAAAAABEU/bXqcgTJNmro/s1600/TINTA+LIB.JPG]

Retomemos a paisagem inicial, o Rossio. Cheguei meia hora antes


no Teatro D. Maria e percebi que meu coração batia acelerado.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 96/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Afinal de contas iria participar de uma cena ilegal e refletia


acerca da condição do etnógrafo. Estar onde as coisas
acontecem, em algumas circunstâncias, pode representar a
ultrapassagem de campos de sociabilidade cindidos entre
fronteiras do permitido e do proibido. Já havia experimentado
essa mesma sensação ao participar de bailes funk[8]
[http://www.blogger.com/#_ftn1] em Fortaleza, no momento em que os
mesmos ensejavam confrontos entre galeras rivais e a polícia,
numa atmosfera de quase invisibilidade urbana.

Observava que diante do Teatro detinham-se turistas de várias


procedências a sacarem fotografias; homens ali passavam
oferecendo haxixe, um morador de rua, de meia-idade esbravejava
contra qualquer coisa e eu, ansiosamente, andava de um lado a
outro na tentativa de avistar Eduardo.

Eis que ele chega, aparentemente, mais tranquilo que um monge


dirigindo-se para uma experiência de transcendência. Pelo menos
foi essa a imagem que me veio diante, obviamente, de meu neutro
alvoroço. Eduardo é um homem alto, magro, de traços finos,
delicados, de voz mansa, de poucas palavras e se movimenta como
se houvesse entre ele e o chão um fluido anteparo.
Cumprimentou-me, perguntei se gostaria de comer, beber algo
antes de iniciarmos a caminhada (porque eu, sim, queria muito)
e ele disse – não, estou tranquilo, já comi antes de sair.
Indaguei-o qual seria o nosso trajeto. Ele parou um pouco e
cartografou, olhando e apontando para algumas direções, o
andamento daquela noite.

Três das obras que trouxera foram pintadas uma à uma; qual seja
não eram impressões, ou muito menos estêncis[9]
[http://www.blogger.com/#_ftn2] eram uma espécie de quadros de papel. A
primeira colagem, disse ele, se calhar pode ser na calçada da
Glória. Esse é um sítio bem contíguo ao Rossio e, de pronto,
nos dirigimos até o limite dessa calçada que se inicia na
Avenida da Liberdade. Ao lá chegarmos, percebemos que havia um
grupo de estrangeiros diante do Elevador (o que no Brasil
denominaríamos de bondinho) e muitas outras pessoas ainda
circulando no entorno da Calçada. Convidei-o então para
sentarmos e tomarmos uma cerveja no quiosque próximo, que
segundo Eduardo, é da revista Time Out[10]
[http://www.blogger.com/#_ftn3] . E ao lá chegar, iniciamos uma conversa
sobre a última “Time Out” que trazia uma ampla matéria sobre
arte urbana em Lisboa[11] [http://www.blogger.com/#_ftn4] e uma foto de

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 97/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

capa do Artista Ivo Smiles[12] [http://www.blogger.com/#_ftn5] .

[http://2.bp.blogspot.com/-
RuSjZmMVG2w/UeVty_BWMKI/AAAAAAAABEg/XyS0vbHgNP8/s1600/Time+out.png]

Havia lido todo o texto da referida revista e estranhei a não


presença, na matéria publicada, de alguns que são considerados
ilegais, mesmo fazendo arte urbana, como, por exemplo, o caso
de Tinta Crua e Dalaima street art[13] [http://www.blogger.com/#_ftn1]
.Inclusive, ao lado da página do Facebook da Revista Time Out
encontra-se um comentário impertinente de Tinta Crua:

Eduardo Oaciecnoc [https://www.facebook.com/tintacrua] So falta saber se é arte


institucional"autorizada" ou a nao autorizada que incomodou tanto o
ministro da admin. interna que criou uma lei para a proibir e perseguir
quem ousa ser livre na palavra e nos actos (nem devem fazer referencia a
isso),mas ou muito me engano ou vão falar do básico pop e indolor!!!! se
me enganei peço desculpa
Curtir [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=10151695873764806&set=a.74148864805.71763.49342614805&type=1&theater] · Responder
[https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=10151695873764806&set=a.74148864805.71763.49342614805&type=1&theater] · 9 de julho às
18:46 [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=10151695873764806&set=a.74148864805.71763.49342614805&type=1&comment_id=9598973&offs
et=0&total_comments=14] · Editado [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=10151695873764806&set=a.74148864805.71763.49342614805&type=1&theater]

Exatamente o que disse Eduardo, o Tinta, falaram da arte “do


básico pop ou indolor”, não se toca nas querelas das proibições
nem, muito menos, nas multas impetradas aos graffiters ilegais.
Conversamos sobre o fato de sua arte inserir-se numa dimensão
fora, qual seja, externa às galerias, aos museus, às
publicidades pops. Além dessa condição off do mercado da arte,
Tinta Crua, faz emergir, nas paredes proibidas, imagens de um
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 98/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

país que sofre, cotidianamente, crises e as mais variadas


vivências de exclusão: desemprego, ampliação crescente do
número de moradores de rua, fechamento de estabelecimentos
comércios, greves e tantos outros impasses e conflitos.

Na arte de Eduardo, as tintas são derramadas em cores vivazes,


em formas nuas e cruas. Como, por exemplo, o homeless que ele
deixou registrado na Rua do Carmo, já tendo sido dali
arrancado.

[http://3.bp.blogspot.com/-LxHKPPP3ISo/UeVonGBSUzI/AAAAAAAABCY/L-
7IisyHdW8/s1600/Tinta+-+Morador+de+rua.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 99/172
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[http://4.bp.blogspot.com/-
uZMHcGjxmRs/UeVom1nqieI/AAAAAAAABCk/gsytPRGue1I/s1600/Tinta+-
+Homelss.JPG]

[http://4.bp.blogspot.com/-1lrMDHr9SI8/UeVoosuJzKI/AAAAAAAABC4/rsBbjteW-
YA/s1600/Tinta+hoje+1.JPG]

Não há concessões nos feitos de Eduardo. Observa-se que, na sua


imagem de um homeless man, ao lado do título da há um breve
escrito: fuck the system. Por isso, ao indagá-lo, ainda

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 100/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

sentados no quiosque, sobre o que pretende com a arte ele diz,


de forma compassada: que a vejam e que eu possa causar qualquer
coisa em quem passa e vê.

Observei que um dia antes de irmos fazer as colagens, Eduardo


publicou no Facebook fotos com as imagens recém produzidas, há
em uma delas texto descritivo e um anúncio do dia seguinte:

Amanha a noite numa rua de Lx[14] [http://www.blogger.com/#_ftn1]

[http://4.bp.blogspot.com/-0vJmHqOk5QY/UeVug8hEd8I/AAAAAAAABEs/DAeKTVFzyp
Y/s1600/Tinta+amnha%CC%83+a+noite.png]

[http://1.bp.blogspot.com/-
goeoQ3Eegsc/UeVuvUQXSAI/AAAAAAAABE4/9mdmyAgG5p0/s1600/tinta+Liberdade+
5.png]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 101/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

The sun is losing its ligth ,he(personafication of nature) is taking it back,before darkness kills all
living beings.....and Im going to put this on the street before this new law kills all free urban art
in Lisboa..........shine your ligth.[15] [http://www.blogger.com/#_ftn1]

Conversamos sobre o seu antigo emprego, já que passamos em


frente ao seu anterior local de trabalho. Uma “revistaria” que
comercializava uma quantidade diversa de revistas importadas e
que, segundo Eduardo, havia ali, também, ótimas revistas de
arte e design. Já por volta das 11.30 horas, percebemos que o
movimento da Liberdade havia abrandado e, para minha surpresa,
ao invés de retornarmos para a calçada da Glória, Eduardo
decidiu colar ao lado de uma outra tela já afixada, ali mesmo
na Avenida, bem próximo do Hard Rock.

Na hora H, ao invés de receio senti-me, como se eu, também,


realizasse uma contravenção em via pública. Sussurrei em voz
baixa, que assim seja. Combinamos que eu ficaria um pouco mais
afastada da cena, para evitar uma concentração de olhares do
que ali estava acontecendo. Havia um bar ao lado, várias
pessoas sentadas, alguns transeuntes e Eduardo agia como se
fora realizar o mais banal dos atos: colar. Resumindo, todo o
processo na Liberdade ocorreu em sete tempos. Como diz Eduardo,
busca-se lugares altos para que a pintura não seja, facilmente,
destacada.

1. Desenrola a maior das pinturas, a do homem que tenta


“salvar” o sol.
2. Abre a mochila e retira um recipiente com uma cola. (Ele
mesmo compra o pó que, segundo o artista, rende muito e
ele mesmo prepara a cola);
3. Em seguida, monta um tipo de vassoura com um cabo
duplicado;
4. Molha a vassoura na cola;
5. Com as cerdas da vassoura besuntadas de cola, prepara
toda a superfície da parede onde se assentará a
colagem;
6. Por fim, equilibra o papel com a ponta do cabo, cola-o
na parede;
7. Embebe com mais cola as cerdas do vassoura e, por fim,
recobre toda a pintura para que ela se mantenha, ainda
mais, na superfície de fixação.

Tudo isso dura no máximo dois minutos. E, como era

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 102/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

de se esperar, tentei me aproximar o mais que pude


e consegui obter os seguintes registros
fotográficos:

[http://3.bp.blogspot.com/-
VSTC9QDMsSk/UeVvVZdRGCI/AAAAAAAABE8/4IMVIpiGyXc/s1600/Tinta+pintando+1.
JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 103/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://4.bp.blogspot.com/-ZOXoSwu3c-4/UeVvwefP-nI/AAAAAAAABFI/1K-
xfGBVzD0/s1600/Tinta+pintando+2.JPG]

Inacreditável. Logo em seguida, passa a viatura da polícia de


forma lenta, a vistoriar o local. A placidez de Tinta Crua me
trouxe a percepção que os atos transgressores se realizam, de
alguma forma, sem ruídos, sem alarde.

Fiquei imaginando, em plena Liberdade, que essa maneira de


fazer pesquisa ultrapassa à condição do mero observador.
Ranciére, no seu ensaio “o espectador emancipado” diz que “ser
espectador é estar separado ao mesmo tempo da capacidade de
conhecer e do poder de agir” (p. 9). Nesse caso, “emancipar o
espectador”, a condição, também, do pesquisador, é deixar que
ele possa “traduzir à sua maneira o que percebe, de ligar o que
percebe à aventura intelectual singular que os torna
semelhantes a todos os outros na medida em que essa aventura
singular não se assemelha a nenhuma outra” (p 27).

Na medida em que estive lá, em parceria com Tinta, espreitando


a possível intervenção policial, identificando lugares-suportes
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 104/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

para melhor afixar os pinturas, anotando, registrando com fotos


e vídeos não estaria, também, efetuando uma atuação da atuação
de Tinta Crua? O antropólogo, que atua no torvelinho dos
acontecimentos das ruas, não estaria assim provocando um efeito
dublê, qual seja, incorporando a ação do outro à sua atividade
narrativa. E o contrário, também, como colaria Tinta Crua
distante do meu olhar?

Seguimos caminhando em direção ao Róssio, novamente. Durante o


trajeto Eduardo mostra-me duas imagens de arte urbana que
considera muito gira.[16] [http://www.blogger.com/#_ftn1]

[http://3.bp.blogspot.com/-7bm0Ukzs_EE/UeVxgujFObI/AAAAAAAABFs/JeQbgb6KrSc/
s1600/tinta+moustrou+2+.JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 105/172
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[http://4.bp.blogspot.com/--
dC9lP2iecc/UeVxLxDeC1I/AAAAAAAABFk/yqVDmxg2kwM/s1600/Tinta+mostrou+1.JP
G]

Em seguida, adentramos os “Restauradores” e percorremos uma via


que, comumente, é lugar de intenso fluxo turístico. Caminhamos
por volta de três quadras e Tinta Crua diz: é aqui. Estávamos
na Rua dos Correeiros Além das fotos, pude fazer, de modo
bastante artesanal, um pequeno vídeo[17] [http://www.blogger.com/#_ftn1]
.

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[http://2.bp.blogspot.com/-kG4-
rODKuFI/UeVyuRXNbhI/AAAAAAAABF8/G0M1OYYdKRM/s1600/Tinta+rossio+1.JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 107/172
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[http://1.bp.blogspot.com/-6alTOVZAge0/UeVyubk_OsI/AAAAAAAABGA/dCxymV2RZa
s/s1600/Tinta+rossio+3.JPG]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 108/172
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[http://1.bp.blogspot.com/-8CkpeNM6df4/UeVyvAELlyI/AAAAAAAABGU/yFavhKAqCgk/
s1600/Tinta+rossio+4.JPG]

Observa-se, por meio do vídeo, que passa ao lado de Eduardo uma


moça a carregar dois cães e que a mesma olha, demoradamente, a
cena. Nada disso muda a dinâmica concentrada e acelerada da
colagem efetuada por Tinta Crua. Nesse momento, afora essa
espectadora, a rua já se encontrava com poucos transeuntes.
Retomamos a Liberdade e subimos em direção ao Marques de
Pombal. Decidimos ir ao Largo da Rato e subimos via Salitre. A
rua já se encontrava bastante escura e as fotografias e
filmagens da segunda e da terceira colagem, não obtiveram a
nitidez dos demais recursos visuais.

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[http://4.bp.blogspot.com/-6fxolKFFjZ0/UeVzacjv8QI/AAAAAAAABGY/qgJzuzRBkyA/s1
600/Tinta+salitre+1+.JPG]

[http://1.bp.blogspot.com/-
BCLsM0xoDMQ/UeVzab9No6I/AAAAAAAABGc/nZ9193tU7vQ/s1600/Tinta+salitre+2.JP
G]

Já chegava perto de uma hora da manhã quando decidimos seguir

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 110/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

nossas rotas da volta para casa. Eduardo deixou-me no Largo do


Rato, já na esquina com São Bento, rua onde moro e prosseguiu
pisando para Alcântara. Eu, por minha vez, continuei pensando e
já escrevendo, mentalmente, o diário de campo. Eduardo, por
mais desvelo estético e virtuosismo artístico que imprima em
suas obras, provavelmente, mais se aproxime do que José Gil no
livro “A arte como Linguagem”[18] [http://www.blogger.com/#_ftn1] vai
denominar de “estética das forças” por oposição a “estética das
formas”. O que existe, mesmo que as metáforas circundem as
criações de Eduardo, é um lance de metonímia, em que mais
interessa ao artista o efeito do que a obra em si, o
apreciador, mesmo que invisível, do que a apropriação material
da obra, o continente de significados que ela possa fazer
abrolhar, do que o invólucro material daquilo que o artista
produz.

O melhor, ou o pior, de um diário de campo on line é saber que


as viagens interpretativas do antropólogo podem ser lidas,
quase no mesmo ato, pelos narradores que compõem a cena de
pesquisa. Não importa. Creio que Tinta Crua sabe que esses
escritos revelam, um tanto, das minhas artes em processo. Ele
sabe desenhar, pintar e colar. A mim, a nós, resta desenhar
palavras que tentem refazer vestígios do visto, rascunhar por
meio narrativas de força visual, imagens do vivido.

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[http://2.bp.blogspot.com/-sXAeUomcg0c/UeVyuVXx-JI/AAAAAAAABGI/0qtE_8f-
mhY/s1600/Tinta+ele.JPG]

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[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=551932974858580&set=a.551932921525252.1073741842.504549479596
930&type=1&theater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=551932974858580&set=a.551932921525252.1073741842.504549479596930&type=
1&theater]

[2] [http://www.blogger.com/#_ftnref1] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftnref1] Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa.

[3] [http://www.blogger.com/#_ftnref2] Em março de 2013.

[4] [http://www.blogger.com/#_ftnref3] “O minimalismo Intenso de Tinta


Crua” - http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/03/o-minimalismo-intenso-
da-arte-urbana-de.html [http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/03/o-
minimalismo-intenso-da-arte-urbana-de.html]

[5] [http://www.blogger.com/#_ftnref4] O Flickr do artista traz um


panorama mais ampliado de suas obras.
[6] https://www.facebook.com/media/set/?
[http://www.blogger.com/#_ftnref5]
set=a.541245502563245.1073741828.221215817899550&type=1
[https://www.facebook.com/media/set/?
set=a.541245502563245.1073741828.221215817899550&type=1]

[7] [http://www.blogger.com/#_ftnref6] A segunda ocorreu de 26 e 30 de


Junho

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Essa
pesquisa está registrada no livro “Itinerários de Corpos
Juvenis: a festa, o jogo e o tatame”, 2003.

[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
Um estêncil (do inglês [http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_inglesa]
stencil) é uma técnica usada para aplicar um desenho
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Desenho] ou ilustração
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilustra%C3%A7%C3%A3o] que pode representar
um número [http://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAmero] , letra
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Letra] , símbolo tipográfico

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 113/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://pt.wikipedia.org/wiki/Tipografia]
ou qualquer outra forma ou imagem
figurativa ou abstrata, através da aplicação de tinta, aerossol
ou não, através do corte ou perfuração em papel
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Papel] ou acetato [http://pt.wikipedia.org/wiki/Acetato] .
Resultando em uma prancha com o preenchimento do desenho vazado
por onde passará a tinta. O estêncil obtido é usado para
imprimir imagens sobre inúmeras superfícies, do cimento ao
tecido de uma roupa. http://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%AAncil
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%AAncil]

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
http://timeout.sapo.pt/ [http://timeout.sapo.pt/]

[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
https://www.facebook.com/photo.php? [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=10151695873764806&set=a.74148864805.71763.49342614805&type=1&theater]
fbid=10151695873764806&set=a.74148864805.71763.49342614805&type=1&t
heater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=10151695873764806&set=a.74148864805.71763.49342614805&type=1&theater]

[12] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
https://www.facebook.com/smile.oneart [https://www.facebook.com/smile.oneart]

[13] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://dalaiama.blogspot.pt/2013/07/wheres-wallyaiama.html?spref=fb
[http://dalaiama.blogspot.pt/2013/07/wheres-wallyaiama.html?spref=fb]

[14] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=562682927116918&set=a.512278898823988.1073741832.504549479596
930&type=1&theater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=562682927116918&set=a.512278898823988.1073741832.504549479596930&type=
1&theater]

[15] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Tradução da autora: O sol está perdendo sua luz, ele
(personificação da natureza) quer trazer a luz de volta, antes
que a escuridão mate todos os seres vivos ..... e eu estou indo
colocar isso na rua antes que a nova lei mate toda a arte
urbana livre em Lisboa. ......... brilhar sua luz.

[16] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Gíria portuguesa que significa dizer legal, belo,
massa, irado.

[17] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.youtube.com/watch?v=sy1WwUnk-j8
[https://www.youtube.com/watch?v=sy1WwUnk-j8]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 114/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[18] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Lisboa: Relógio D’água, 2010. P. 23

Postado há 16th July 2013 por Glória Diógenes

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A arte antropofágica de Narcélio


29th June 2013
Grud

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 115/172
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[http://2.bp.blogspot.com/-
CjVNMsF1AHY/Uc76MDYjeKI/AAAAAAAABAw/iegY2n8U4ds/s720/Grud+antropofa%C
C%81gico.jpg]

Quando o campo é “virtual”

Além do contato presencial, eu e Grud já “nos cruzamos” por


diferentes ensejos em Fortaleza e tivemos, recentemente, por
algumas horas, alongadas conversas via Skype.

Interessante poder, a partir de uma extensiva pesquisa sobre


Arte Urbana em Lisboa (durante cinco meses) ver “de longe” e,
concomitantemente, seguir “de perto”, por meio das redes
sociais, os circuitos artísticos efetuados por Grud. Nesse
momento, isso faz uma perceptível diferença em termos de tática
metodológica.

O esforço da observação do itinerário de um street artist,


http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 116/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

realizado, nesse momento por meio do ciberespaço, suscita uma


outra dinâmica de pesquisa. Basicamente, faz três meses que
“sigo” as “pegadas” de Grud por meio do Facebook, do Google, em
blogs e no âmbito das mídias impressas. Essa é uma forma outra
de deambulação, um modo sui generis de seguir, de estar
próximo. Carlo Ginzburg, no livro “Mitos, emblemas e sinais”,
[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn1] diz que
o caçador teria sido o primeiro a «narrar uma história porque
era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se não
imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de
eventos”.

O pesquisador, na condição de caçador, seria um farejador de


pistas, isso diz respeito à:

“...capacidade de, a partir de dados aparentemente


negligenciáveis, remontar uma realidade complexa não
experimentável diretamente. Pode-se acrescentar que esses dados
são sempre dispostos pelo observador de modo tal a dar lugar a
uma sequência narrativa, cuja formulação mais simples poderia
ser ‘alguém passou por lá”[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn2]

Posso dizer que o pesquisador que tenta etnografar o


ciberespaço, ao invés de, como tradicionalmente se faz,
registrar o que viu e ouvir, cheirou, sentiu por meio de um
diário de campo passa a ser alguém que “coleciona” links,
endereços eletrônicos e que pode visitar cada um,
concomitantemente, por meio de multíplices janelas eletrônicas.
As anotações assumem a forma de um repertório de vestígios que
vão sendo acrescidas por meio de dois movimentos: “control c”,
“control v”. O pesquisador “passa por lá”, registra sinais e os
conduz numa sequência narrativa própria; já que a linearidade
dos eventos, nos sítios visitados, é uma cadeia que escapa à
lógica sequencial do tempo (antes-agora-depois).

Sendo assim, os etnógrafos no ciberespaço, traduzem a versão


digital de um paradigma cujos indícios se conduzem na
confluência de redes. Produz-se, assim, na afluência de links,
imagens e ciber-sinais o que aqui estou denominando de
indiciário digital. Entra em cena um outro tipo de caçador, o
que fareja rastos no ciberespaço.

Onde está Grud?[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn3]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 117/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Hoje é dia 29 de junho do ano de 2013. Poderia ser uma data


como qualquer outra. Mas, não é. O Brasil, como mencionei no
post anterior, atravessa o momento da mais intensa manifestação
popular após o “Fora Collor”[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn4] . Em Fortaleza, antes de ontem,
próximo ao estádio Castelão, onde ocorria o jogo da Copa das
Confederações(Espanha versus Itália), houve uma manifestação
permeada de muitos enfretamentos, agressões e atos de
violência. A página do Facebook de Narcélio Grud[5]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn5] , trazia
ontem, em primeiro plano, uma charge do artista e ilustrador
Rafael Limaverde[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn6] , compartilhada por Grud com as
seguintes palavras: Acunha!!!! De Rafael Limaverde
[https://www.facebook.com/rafael.limaverde?directed_target_id=0] !!! Trata-se da
imagem de uma ação a policial de cavalaria, trazendo na sua
garupa o mascote da Copa do Mundo, o boneco Fuleco.

[http://1.bp.blogspot.com/-9PTtd66_0ts/Uc7w5bU8LDI/AAAAAAAAA-
U/f9eI_BckYd4/s960/Grud+-+Fuleco.jpg]

Na mesma página do Facebook, no dia 19 de junho Grud

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 118/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

compartilha fotos de sua intervenção-protesto[7]


[http://www.blogger.com/#_ftn1] , sob o título de “bolada”[8]
[http://www.blogger.com/#_ftn2] :

[http://4.bp.blogspot.com/-1xV6gGNSyCQ/Uc7zLrX4IdI/AAAAAAAABAI/T_TzQ4YtxIY/s
1339/Grud+-+esta%25CC%2581dio.png]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 119/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://3.bp.blogspot.com/-
m9lH547ypHM/Uc7zK8huFLI/AAAAAAAAA_8/nST3tiwMQCQ/s1340/Grud+-
+esta%CC%81dio+2.png]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 120/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://4.bp.blogspot.com/-lh2kkG2xls0/Uc7ytQ-
xR1I/AAAAAAAAA_w/pHE0QMtmtNw/s960/grud+-+copa+2.jpg]

Brasil sil sil!!! — em Fortaleza


[https://www.facebook.com/pages/Fortaleza/114535871892330?ref=stream] .

Em uma das fotos compartilhadas por Grud havia o registro da


seguinte legenda: "Requiescat in pace" — em Fortaleza
[https://www.facebook.com/pages/Fortaleza/114535871892330?ref=stream] . O
artista se utiliza de uma expressão latina, com a imagem da
bola sangrando, para proferir (à Copa/FIFA) uma mensagem que
significa: repousem em paz. Observa-se que o artista, a partir
da implicação de um lugar – o Ceará -, comunica-se, por meio
dele, para paisagens que extrapolam suas fronteiras físico-
espaciais. Grud, o artista “das ruas”, mais que qualquer outro
dos grandes centros (por exemplo: São Paulo, Rio de Janeiro,
Nova Iorque e cidades dos Europa) move-se pela necessidade de
produzir e difundir signos da arte urbana local em circuitos
globais. Vejamos. Na longa conversa em que tivemos ele dizia:

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 121/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

No grafite todos tem, porém eu acho que como a galera já tem


uma outra realidade, né, que enquanto a gente tá lutando pela
comida, pelo ganha-pão, pra pagar o aluguel e tal, a galera já
tá em outras questões aí (Europa). Isso de lugar pra lugar
também, né, de lugar pra lugar, porque cê vai pra Suíça é
super fechado, cê vai pra Inglaterra já é mais legalize, na
Espanha já é uma coisa mais, mais né, assim de... tem que ser
legal, só dá pra fazer legal... cê tá sempre na surdina, né?!
Então cada lugar tem a sua particularidade assim.
[...]
GRUDE – Tu sabe o que é que eu tô construindo dos países? Uma
rede de amigos.
GLÓRIA – É?
GRUDE – Quando eu vou, tipo, fui pro México, eu fiquei na casa
d'um mexicano, eu fiquei imerso na cultura mexicana, a família
do cara me abraçou, parecia que eu estava na casa da minha vó
de tanto... de tanto cuidado, sabe?! De tanto cuidado.

Reside na fala de Grud um nítido conceito, difundido por


Haroldo de Campos[9] [http://www.blogger.com/#_ftn1] , denominado
transcriação. Uma arte que se movimenta extra-fronteiras,
condensando, no mesmo ator, o outsider, o artista, o ativista
da cena graffiti, e o estudioso. Ele já esteve na linha de
frente da pichação (graffiti ilegal) do Ceará. Um comentário
sobre o Flickr[10] [http://www.blogger.com/#_ftn2] do artista ,
recente[11] [http://www.blogger.com/#_ftn3] resume sua trajetória:

Altieres Ferreira [https://w w w .facebook.com /altyeres]

Narcélio Grud é artista e inventor, graduado em Design de


Interiores e mora em Fortaleza. Iniciou sua carreira com arte
urbana, pichando muros no início dos anos 90. Hoje desenvolve
trabalhos de pinturas, esculturas e sons. Com uma forma
singular em suas pinturas e invenções, Grud vem ganhando cada
vez mais reconhecimento de admiradores e profissionais do
Brasil e do mundo, com intervenções até em outros países.

A ação artística de Grud move-se entre lugares, entre línguas,


entre territórios, entre técnicas. Um vídeo[12]
[http://www.blogger.com/#_ftn4] denominado “tropical hungry” exibe o
processo em que frutas, jogadas fora em uma feira de Fortaleza,
são reutilizadas por Grud na qualidade de tintas de todas as
tonalidades. O bagaço, a borra, o lixo, o “desútil”
transforma-se em arte. O título do vídeo ilustra o híbrido
entre restos de uma cultura e os signos de uma língua
hegemônica, o idioma inglês. O texto explicativo do vídeo
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 122/172
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evidencia a natureza criativa de sua arte:

“O artista Narcélio Grud produziu uma intervenção urbana muito criativa e


incrível. Usando apenas alimentos que já estavam descartados em uma feira na
cidade de Fortaleza. Tropical Hungry é uma critica bem inteligente e criativa,
chamando à atenção para o tamanho desperdício de alimentos em um país
como o Brasil, com milhares de pessoas passando fome diariamente”.

[http://4.bp.blogspot.com/-
hTZ5C99xk6A/Uc70aNR07vI/AAAAAAAABAU/YhV3whSTL5s/s1004/Grud+-+fruta.png]

Para Grud, foi no Brasil, devido a escassez de tintas próprias


para a “grafitagem”, que se recriou técnicas e se inovou à
própria produção industrial nesse campo:

GRUDE – tem pessoas que você consegue ver a sua região, né?!
Mas o Brasil em si foi um responsável por muita coisa que tá
hoje aí, né, que eu acho que o Brasil foi um dos primeiros a

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 123/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

abrir o grafite, porque no grafite mundial, ele tem meio que


uma linha que se segue, seja de letra, seja os bonequinhos e o
Brasil começou a entrar com uma pesquisa individual, com
osGêmeos[13] [http://www.blogger.com/#_ftn1] fazendo um tipo de boneco,
fazendo outro tipo, né, a galera do Speto[14]
[http://www.blogger.com/#_ftn2] fazendo outro tipo, cada um..

GRUDE - … Inovou muito o Brasil. Tem uma técnica, por exemplo


do bico operado, é um bico de spray, deixa te mostrar aqui,
esse aqui é um bico chamado... é um bico chamado Niddle.
GLÓRIA – Niddle?
GRUDE – Niddle, que é o agulha, que tem essa agulha, é um
industrial, esse industrial ele já foi feito em cima do que o
Brasil inventou.
GLÓRIA – Ai, que legal.
GRUDE – É. O que é que o Brasil inventou. O Brasil pegou a
agulha de seringa e ele coloca no spray e fica a agulhazinha de
seringa aqui, então ele consegue tirar um traçozinho bem
fininho com essa agulha de seringa.
GLÓRIA – Hum.
GRUDE – Daí, é uma das técnicas daqui, outra das técnicas
daqui, entre a lata e o bico a gente coloca um plasticozinho
aqui e depois que coloca o bico, esse plástico ele meio que dá
uma entupida, então se eu quisesse tirar um traço mais fino,
tem outra técnica que faz um buraquinho, que tem uma tampinha,
a galera abre um buraco com estilete, faz um buraquinho com o
prego, quando você aperta a tinta sai só o fiapinho do buraco.
GLÓRIA – Com prego?!
GRUDE – Ã?
GLÓRIA – Um prego?!
GRUDE – Não, não, a tampa do spray, que entra, cê abre um
buraco pro dedo entrar e apertar e na frente onde a tinta sai
aqui, né, aqui, cê fura um buraquinho, com uma agulha, com um
prego, só um buraquinho bem fininho, quando você aperta a tinta
bate, mas só sai por aquele buraquinho. Na tampa cê vai (07:14)
no chão, enfim (07:16) guarda num recipiente.

Plasticozinho, prego, estilete, agulha de seringa, frutas,


graxas de sapato ( primeira “tinta” que Grud usou quando apenas
fazia sua assinatura) tudo isso põe em cena formas que
poderíamos nominar de “mixagem plástica”. Lúcia Leão em um
texto apresentado no 9° “Encontro Internacional de Arte e
Tecnologia (#9ART)[15] [http://www.blogger.com/#_ftn3] : sistemas
complexos artificiais, naturais e mistos” apresenta uma
reflexão sobre “Processos de criação em mídias digitais:
passagens do Imaginário na estética de transcriação” e nele
ressalta a recorrência das mesmas artimanhas inventadas ou

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 124/172
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utilizadas por Grud:

Assim, remixagem, mash-ups, releituras são fenômenos frequentes


no ciberespaço. Tais procedimentos são processos criativos que
traduzem questões do imaginário para as mídias digitais e,
nesses processos, apontam para a questão das passagens entre
linguagens. As mídias digitais, por suas características
abstratas, facilitam o processo de tradução entre meios. O que
se observa nessas produções é que os imaginários são
compartilhados e construídos em rede, ao mesmo tempo em que são
vivenciados e re-traduzidos como universais. (p. 311)

A dimensão do imaginário, segundo Lúcia Leão, difundida por


Gilbert Durand [16] [http://www.blogger.com/#_ftn4] atua como
reservatório, museu de imagens de obras de arte, valores,
molduras conceituais na esfera do ciberespaço. E eu
acrescentaria – e as experimentações de um artista geradas em
meio à escassez de instrumentais, emergem, criativamente,
acopladas à sua estética artística. O ciberespaço é um lugar de
re-traduções, de passagens entre linguagens. É possível, como
diz Grud na fala a seguir, para quem espera fazer uma linha de
sucesso, atuar no âmbito das colagens (assimilação da obra do
outro): de um pedaço de cada um, monta-se outra coisa. Uma
fiação de linhas imaginárias retroalimentadas no campo de
afinidades e influências estabelecidas no ambiente da
Internet.

Uma tarefa fácil na esfera das redes digitais, de acordo com a


fala do artista, é a de apreciar obras de artistas de lugares
diversos e, nessa feita, produzir cópias. Emergem daí novas
tensões culturais na dinâmica das globalizações. Como menciona
Appadurai[17] [http://www.blogger.com/#_ftn5] , a “comunicação eletrônica
marca e reconstitui um campo muito mais vasto que a comunicação
escrita e outras formas de comunicação oral”, por meio dos byts
audiovisuais, observa-se uma rápida associação entre
cosmopolitismo, sedução e a novidade:

Se tu for olhar entre os... os pintores, a galera que pinta na


rua, existe uma linha muito fácil, que são elementos que se
repetem em vários artistas, que é casinha... é, casinha, peixe,
olhinho pequeno, narizinho pequeno, é... que mais? Passarinho,
mulher... então são coisas que... roupa com textura, roupa com
estampa, então é uma coisa que se repete assim, tu olha dez
grafiteiros, em oito tu vai encontrar isso, de grafiteiros que
trabalham com personagens, que não trabalham com letra.
GLÓRIA – Hum hum.
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GRUDE – Em oito tu vai encontrar isso, porquê? Porque é uma


linha mastigada assim.
GLÓRIA – Padrões?
GRUDE – Diferente da outra, então é o que eu tô te falando, se
eu quiser, se eu for um pouco mais esperto, dentro do grafite,
um pouco mais esperto que eu digo, assim, a pessoa tiver um
pouco mais de atenção e ele quiser fazer uma linha pra fazer
sucesso, é fácil, é fácil, ele pega um pedaço de um, um pedaço
do outro e ele monta ali o seu.

Na “galáxia mutante” da rede, como assim denomina André


Parente[18] [http://www.blogger.com/#_ftn6] , dimensões subjetivas,
também se agregam, se misturam e se estendem até onde a vista
alcança. A “colagem” faz parte de um processo da criação do que
aqui nomeio de individualidade mestiça, forjada na assimilação
de diferenças. Isso, certamente, traduz um modo sui generis de
fazer arte urbana; que tanto passa a ser produzida para ser
exibida nas cidades digitais, assim como mesmo nos espaços
materiais. O que pode aparecer com conotação negativa – colar,
reproduzir, copiar – pode também operar processos criativos
aquilo que Eugênio (2012)[19] [http://www.blogger.com/#_ftn7] denomina de
modos de “piratear”, traços de “uma nova prescrição capitalista
da contaminação recíproca entre criatividade e produtividade”.
Na medida que em que a obra é criada nas paredes de cimento e,
quase concomitantemente lançada na esfera digital, é apreciada,
consumida e compartilhada por quantidades incontáveis de
internautas.

E Grud, é caso exemplar, de como por meio de suas andanças, o


tráfego de sua arte pela Europa, América Latina fez com que ele
saltasse de rede em rede:

GLÓRIA – Tu disse que foi pela internet, teu trabalho foi


conhecido pela internet.

GRUDE – É... tem vídeos meus que têm quarenta, cinquenta mil
visualizações e o público que vê os vídeos não é um público que
não curte, né, num é assim, o cara que tá vendo, por exemplo,
aquele... coreano lá que faz... é uma galera que tem interesse
em arte urbana, que estuda, que pesquisa, que acompanha, que
gosta, né, é um público seleto.

No Facebook, Grud exibe uma página do Instagram[20]


[http://www.blogger.com/#_ftn8] na qual compartilha a foto de um de seus

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deslocamentos para fora de Fortaleza (Londres), com 4521


“curtições”.

Assim como, também, exibe uma foto mais ampliada no Facebook,


publicada pelo Global Street Art [https://www.facebook.com/globalstreetart]
[21] [http://www.blogger.com/#_ftn1] , uma pagina com 85.589 curtições.
Nela a foto de Grud é compartilhada com a seguinte legenda:
“Welcome to London! Narcelio Grud and Rafael Sliks from Brazil,
2013” (com 333 curtições e 48 compartilhamentos)

[http://4.bp.blogspot.com/-
pmB9dciVI5w/Uc7w5qneqMI/AAAAAAAAA-Y/_EEwAWE58GE/s960/Grud+-
+curtido.jpg]

Assim como, também, exibe uma foto mais ampliada no Facebook,


publicada pelo Global Street Art [https://www.facebook.com/globalstreetart]
[22] [http://www.blogger.com/#_ftn1] , uma pagina com 85.589 curtições.
Nela a foto de Grud é compartilhada com a seguinte legenda:
“Welcome to London! Narcelio Grud and Rafael Sliks from Brazil,
2013” (com 333 curtições e 48 compartilhamentos)

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 127/172
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[http://1.bp.blogspot.com/-_y3xEl-
ITpY/Uc7w7laCTaI/AAAAAAAAA_E/WwdlNIdmVvs/s960/grud+Londres.jpg]

Grud parece operar por rizoma[23] [http://www.blogger.com/#_ftn1] ,


qual seja produzindo novos agenciamentos coletivos da arte
urbana na universal paisagem digital. Produz linhas de fuga por
meio de frutas jogadas fora, plásticozinhos, por pregos,
agulhas, estiletes e traça, entre heterogêneos, conexões
metaforicamente e concretamente em redes.

Na Videoinstalação[24] [http://www.blogger.com/#_ftn2] - For a

Better Hammock – realizada por Grud em

Manchester, no norte da Inglaterra, ele

literalmente arma redes do Ceará no entorno do

Manchester Town Centre e dedica essa exposição no


http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 128/172
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seu Facebook - “em Homenagem às redes da Praça do

Ferreira...”

Produz rupturas e continuidades na dilatada paisagem da arte


urbana em meio digital, promove redes em rede, entre a Praça do
Ferreira e o centro de Manchester. Mesmo que o novo, como diz
Grud logo abaixo, já tenha sido criado a Internet ajuda você a
se desenvolver na street art porquê? Porque você começa a pegar
referências de outros e outros e outros mais fácil:

GRUDE – A internet o que que ela faz? Ela... ela ajuda você a
se desenvolver na street art porquê? Porque você começa a pegar
referências de outros e outros e outros mais fácil. Você
consegue acompanhar a trajetória de outros artistas que
interessam, né, que às vezes, né, uma coisa... tem uma coisa na
internet que às vezes me assusta. Eu faço um desenho aqui,
crente que eu criei alguma coisa nova que inventei a roda,
quando eu vou ver na internet tem lá um negócio parecido, quase
igual, que eu fico triste, que eu digo: “Meu Deus do céu, como
é que pode?” e tal sabe?! E já aconteceu muitas vezes, não só
no grafite, objetos, em coisas que depois eu olhei: “Pô, meu
irmão.” demorou), tem essa coisa, né, de assim, porque ele tá
no ar, né, então, é como a internet, tá no ar, tem essa coisa
de aproximar, a internet me levou, como street artist, me levou
pro México, me levou pra um monte de canto, quando eu cheguei
em Madri, o cara que me hospedou, ele tinha visto um vídeo meu
dois dias antes e ele me reconheceu e me levou pra casa dele,
então isso foi massa, né, já fiz exposições por causa da
internet, fui em outros países por causa da internet, tô indo
agora pra Inglaterra de novo.

A internet intensifica o tráfego e facilita conexões de


artistas urbanos por avenidas digitais. Ela cria mais que mil
platôs[25] [http://www.blogger.com/#_ftn4] , conecta a pluralidade da
arte urbana do lugar em que se vive, com fortes traços
culturais (redes, pregos, plástico, frutas da feira) com o que
está no ar. Grud, cearense, se fez ver fora do seu lugar, no
início, por meio de caixas. Por ocasião de um outro
deslocamento, exposições na Inglaterra e na Espanha, uma
matéria do Jornal O Povo[26] [http://www.blogger.com/#_ftn5] elucida essa
passagem de sua trajetória (07/09/2012):

“Mais conhecido na cidade pelos coloridos personagens que grafitou em caixas de


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energia espalhadas por Fortaleza, Narcélio Grud é um dos mais ativos grafiteiros e
artistas urbanos da cidade”

[http://3.bp.blogspot.com/-OV1LXmryWkg/Uc7w6bdzq9I/AAAAAAAAA-0/d7-
M_AAHHhU/s720/Grud-+Caixas.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 130/172
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[http://2.bp.blogspot.com/-7UaJlMpjzI8/Uc7w5kJBVMI/AAAAAAAAA-
o/ScnwCPwv7n4/s720/Grud+-+caixas2.jpg]

Uma publicação postada pelo artista no FB enunciava, há três


anos atrás, quase, uma profecia:

[https://www.facebook.com/narcelio.grud?hc_location=timeline] [https://www.facebook.com/narcelio.grud?
hc_location=timeline]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 131/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://1.bp.blogspot.com/-
LDP4gSCGf5c/Uc75dXyhxxI/AAAAAAAABAk/7oKKx6UQtII/s160/Grud+cara.jpg]

[https://www.facebook.com/narcelio.grud?hc_location=timeline]

[https://www.facebook.com/narcelio.grud?hc_location=timeline]

Narcélio Grud [https://w w w .facebook.com /narcelio.grud?hc_location=tim eline]


30 de julho de 2010 [https://www.facebook.com/narcelio.grud/posts/141655402520008]
Olhe bem mais longe... e la que vc estará....

Na nossa conversa, com ares de uma intimidade instaurada mesmo


via Skype, Grud, o pintor andante confessa:

Porque eu quero chegar num ser, a minha ideia é tá ali criando


um ser que ele esteja num grau que não precise mais do alimento
matéria e não precise da voz externada, que ele consiga se
comunicar pelo silêncio, pelo pensamento.

Se é esse o lugar onde quer chegar Grud, a cisão entre obra e


matéria vai exigir do artista, como diz Agamben [27]
[http://www.blogger.com/#_ftn1] “ressoletrar e manter no seu espírito
palavras e pedras descarnadas”. Uma obra, ela mesma, com voz
externada. Aberta entre paisagens no silencioso ato contínuo da
transcriação de línguas na matéria da arte.

Não estaria Grud assim instaurando um tipo outro de


antropofagia, que de acordo com Suely Rolnik[28]
[http://www.blogger.com/#_ftn2] :

A inspiração da noção de antropofagia vem da prática dos índios


tupis que consistia em devorar seus inimigos, mas não qualquer
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 132/172
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um, apenas os bravos guerreiros. Ritualizava-se assim uma certa


relação com a alteridade: selecionar seus outros em função da
potência vital que sua proximidade intensificaria; deixar-se
afetar por estes outros desejados a ponto de absorvê-los no
corpo, para que partículas de sua virtude se integrassem à
química da alma e promovessem seu refinamento.

Estaria o artista “devorando” o que de melhor se produz no


campo da street art, misturando tudo a redes, frutas, pregos,
estiletes e criando, dessa boa antropofagia, um tipo de
potencia vital de uma arte universal?

[http://1.bp.blogspot.com/-QxbY9udBv-
8/Uc767e4GO4I/AAAAAAAABA4/2EKO0Z4F3Vc/s960/Grud+for+you.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 133/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://3.bp.blogspot.com/-
LPVKt4iLKtk/Uc77ecC_OEI/AAAAAAAABBA/5Vitip_slcI/s960/grud+-+fim.jpg]

[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] São


Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 152.

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2] P. 152

[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3] Uma


alusão ao “Where's Wally? (Onde Está Wally? no Brasil
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil] ) é uma série de livros
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Livro] de caráter infanto-juvenil criada
pelo ilustrador [http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilustrador] britânico
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_Unido] Martin Handford
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Handford] , baseada em ilustrações e
pequenos textos.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Where's_Wally%3F).

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 134/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
Movimento político ocorrido no ano de 1992, em que milhares de
brasileiros, preponderantemente jovens, denominados de “caras
pintadas”, foram às ruas manifestando-se pelo impeachment do
então presidente da República Fernando Collor de Melo.

[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=587305457958648&set=a.101148409907691.2525.100000375976678&typ
e=1&theater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=587305457958648&set=a.101148409907691.2525.100000375976678&type=1&thea
ter]

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref6]
https://www.facebook.com/rafael.limaverde?fref=ts
[https://www.facebook.com/rafael.limaverde?fref=ts]

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=603647303008622&set=a.532013806838639.122765.100000900723490&t
ype=1&theater [https://www.facebook.com/photo.php?
fbid=603647303008622&set=a.532013806838639.122765.100000900723490&type=1&th
eater]

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
Expressão brasileira que significa receber uma bola contra o
corpo.

[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
CAMPOS, Haroldo de (1974). Da tradução como criação e como
crítica. In: Metalinguagem e outras metas. São Paulo:
Perspectiva, p.31-48.

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
http://www.flickr.com/photos/narceliogrud/
[http://www.flickr.com/photos/narceliogrud/]

[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3] 17
de junho de 2103.

[12] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
http://vimeo.com/65418845 [http://vimeo.com/65418845]

[13] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://en.wikipedia.org/wiki/Os_G%C3%AAmeos

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 135/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://en.wikipedia.org/wiki/Os_G%C3%AAmeos]

[14] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
Sobre Speto: http://www.ilovemega.com/blog/speto-brazilian-street-art/
[http://www.ilovemega.com/blog/speto-brazilian-street-art/]

[15] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
http://projetos.extras.ufg.br/9art/nono_art.pdf#page=374
[http://projetos.extras.ufg.br/9art/nono_art.pdf#page=374]

[16] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
DURAND, G. (2002). As estruturas antropológicas do imaginário.
Tradução: Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes.

[17] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
Dimensões Culturais da globalização, 1Lisboa: Teorema, 1996.
9p. 14.

[18] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref6]
PARENTE, A. Tramas da rede: novas dimensões filosóficas,
estéticas e políticas da comunicação. Porto Alegre: Sulina,
2004. P. 106

[19] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref7]
Criatividade, Juventude e novos horizontes profissionais. In:
Machado Pais e Mendes de Alemida, Isabel (orgs), Criatividade,
juventude e novos horizontes profissionais. Rio de Janeiro:
Cortez. P. 246

[20] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref8]
Instagram é um aplicativo [http://pt.wikipedia.org/wiki/Aplicativo] gratuito
que permite aos usuários tirar fotos, aplicar um filtro
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Filtro] e depois compartilhá-la numa variedade
deredes sociais [http://pt.wikipedia.org/wiki/Redes_sociais] , incluindo o
próprio Instagram. Esse aplicativo foi projetado e desenvolvido
pelo brasileiro [http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasileiro] Mike Krieger
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Mike_Krieger] e pelo norte-americano
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Povo_dos_Estados_Unidos] Kevin Systrom
[http://pt.wikipedia.org/wiki/Kevin_Systrom] . In:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Instagram

[21] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/globalstreetart
[https://www.facebook.com/globalstreetart]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 136/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[22] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/globalstreetart
[https://www.facebook.com/globalstreetart]

[23] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Deleuze e Guattari, Mil Platôs, volume 1, São Paulo: editora
34, 2000

[24] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
Trabalho do artista Narcelio Grud. Redes tradicionais
brasileiras foram criadas em torno de Manchester Town Centre,
ali pessoas podiam entrar e experimentar. Tivemos a
oportunidade de conhecer pessoas de todas as esferas da vida e
a obra de Documentação Grud foi uma experiência
fantástica. http://vimeo.com/24997085
[http://vimeo.com/24997085]

[25] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
Deleuze e Guattari, Mil Platôs, volume 1, São Paulo: editora
34, 2000

[26] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/09/07/noticiasjornalvidaeart
e,2914832/narcelio-grud-expoe-na-europa.shtml?
fb_action_ids=470548826318471&fb_action_types=og.recommends&fb_source
=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582
[http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/09/07/noticiasjornalvidaearte,291483
2/narcelio-grud-expoe-na-europa.shtml?
fb_action_ids=470548826318471&fb_action_types=og.recommends&fb_source=aggrega
tion&fb_aggregation_id=288381481237582]

[27] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Nudez, Lisboa: Relógio D’água, 2010, p. 56.

[28] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/Subjantropof.pdf
[http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/Subjantropof.pdf]

Postado há 29th June 2013 por Glória Diógenes

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24th June 2013 Sardinhas e gás lacrimogênio:


aromas em rede. (enquanto Grud não
chega de vez)

[http://2.bp.blogspot.com/-
LA4QYKZ21z8/UcjQXg1Vd4I/AAAAAAAAA8o/7yxUmSgcPp8/s1600/Grud+1.jpg]

É junho. Enquanto Lisboa embala-se nas festa dos santos


populares e dissemina forte aroma de sardinhas por todos os
lados, o Brasil exala odores de gás lacrimogênio entre “bombas
de efeito moral”. A paisagem brasileira, por meio das redes
sociais e noticiários on-line, invadiu o mundo e,
particularmente, meu cotidiano em Lisboa. A tela do computador,
mais do que em qualquer outra circunstância de minha estadia em
terras lusitanas, tornou-se um território brasileiro. Estranho
quando um repórter de TV pediu-me uma entrevista sobre o
impacto das manifestações brasileiras[1]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn1] em
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 138/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Portugal. Foi então que me dei conta que não detinha


informações locais para tecer qualquer tipo de análise sobre os
tais acontecimentos. Mesmo aqui residindo há cinco meses não
saberia discorrer sobre o que diz Lisboa diante dos protestos
brasileiros.

Com a intensificação das manifestações, muitos periódicos da


Europa[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn2]
estamparam o Brasil nas primeiras páginas. Não apenas em
Lisboa, de modo geral, a turbulência e a irrupção das
manifestações brasileiras ganharam o ciberespaço.
Especificamente eu que pesquiso entre lugares, o presencial e o
“virtual”, passo a observar a dinâmica desses acontecimentos na
confluência dos referidos circuitos.

Observo que as redes sociais, e aqui situo especialmente o


Facebook e o Twitter, parecem dilatar fronteiras geo-espaciais
entre cidades e países na medida em que ecos de acontecimentos
locais envolvem internautas de etnias e nacionalidades
diversas. Parece-me que a proximidade das ideias, o sentido
pactuado de certas causas, e os valores (políticos, religiosos,
culturais e ideológicos) anexam, conflitam e/ou congregam
diferentes atores em territórios comuns. O lugar na rede atua
como bolha, dilata-se e contem-se na correlação direta entre o
impacto dos acontecimentos e a seta veloz do tempo.

Concomitante ao contato com Hazul Luzah, relatado nos últimos


posts, por meio do Skype e de pesquisa na Internet havia,
também, entrado em contato com o artista cearense Narcélio
Grud. Devo aqui pontuar por qual razão, sendo o título do blog
interligado à cena de Lisboa, introduzo atores e contextos da
arte urbana e do graffiti originários de Fortaleza, capital do
estado do Ceará/Brasil. Na condição de investigadora visitante
do Instituto de Ciência Sociais-ICS da Universidade de Lisboa e
tendo, concomitantemente, bolsa de pós-doutorado da CAPES, o
objeto originário da minha proposta de pesquisa incluía o
cotejo de dois cenários: Fortaleza e Lisboa.

Porém, já tentando escapar de uma antropologia de viés


comparativo, no corpo do projeto advertia:

Esta pesquisa não tem como campo de configuração um desenho


social nítido, contornável no tempo e no espaço. Tomo aqui o
social não como uma entidade, seguindo os passos de Latour [3]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn3] , como
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 139/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

paisagem material, ou meramente virtual, mas como um coletivo


de associações, fluxos, combinações e transições entre planos
diversos. Parto do pressuposto de que não existe uma fronteira
entre a esfera pública “real” e a “virtual”, e sim uma
proximidade, uma retroalimentação, constituindo vias tramadas
de trajetos e circuitos (MAGNANI,[4][http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn4] ). O desafio que aqui proponho é o
de construir, tendo por base conexões entre grafiteiros,
artista urbanos e pichadores, uma antropologia dos híbridos:
virtual e real, efêmero e fixo, material e simbólico.

Nas experiências que venho palmilhando, de pesquisar a arte


urbana e o graffiti, qualquer ensaio de comparação entre
produções artísticas, desenhos de writers e paisagens deve
ocorrer na tentativa de transpor dualidades e ambivalências. No
âmbito do ciberespaço, o distante pode ser próximo, o próximo
pode ser estrangeiro, o aqui pode conectar-se de forma mestiça
ao longínquo, ao diferente e ad continuum. Assim como não
parece mais necessário percorrer o mundo todo para que se
perceba como ele flui em determinados ambientes (seja on-line
ou off-line). Relendo a conferência de Howard Becker no Brasil,
reproduzida pela Revista Mana[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn5] , ressalto uma passagem elucidativa:
“Hoje o mundo inteiro ou vive na cidade ou está à caminho da
cidade, então se estudarmos as cidades, poderemos compreender o
que se passa no mundo”. Fortaleza e Lisboa se aproximam,
enquanto sítios antropológicos, também, a partir dos vínculos
da arte urbana que se cerzem entre tais e tantos outros
lugares; e nas rotas que sigo e crio a partir de conexões
geradas no ato contínuo da pesquisa.

Nessa perspectiva, Fortaleza surge como um ambiente em rede


que, a depender das associações e conexões no ciberespaço, pode
ganhar e ampliar proximidades, assim como Lisboa. Interessante,
também, ressaltar que para muitos street artists as redes
sociais atuam como paisagem unificada tendo em vista que
partilham imagens, experiências e descobertas. E de outro modo,
com a criação do blog e seu duplo código – registro e espaço
“virtual” antropológico – a expressão de um graffiter
desterritorializado, qual seja, fora de Lisboa como o caso de
Grud, pode produzir por si um acontecimento e assim a ampliar
a cena do graffiti em diferentes vias e direções.

Antes de publicar o passeio digital sob a arte de Grud[6]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 140/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn6] , termino
essa postagem com notícias acerca da ressonância da obra do
artista. Um Jornal do Ceará, O Povo[7]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn7] , dia
07/09/2012 anuncia (com a foto de uma escultura, também, de
autoria de Narcélio):

Narcélio Grud expõe na Europa

"O artista visual cearense viaja próxima semana para expor em


Barcelona, Madri e Londres. Na bagagem, também leva uma
coletiva com trabalhos de 16 artistas daqui"

[http://2.bp.blogspot.com/-
ZRLj3dTOfuU/UcjQXZRleBI/AAAAAAAAA8w/ElzexGkTrFE/s1600/Grud+-+o+povo.jpg]

México 2011[8] [http://www.blogger.com/#_ftn1]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 141/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://2.bp.blogspot.com/-
WPgAivJDwd0/UcjQYzR7HoI/AAAAAAAAA9Q/cDOy90EDTyw/s1600/Grud+Me%25CC
%2581xico.jpg]

Argentina 2011[9] [http://www.blogger.com/#_ftn1]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 142/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://2.bp.blogspot.com/-EMhUu6mleGk/UcjQY3VrZqI/AAAAAAAAA9U/T-
SKfeDKRYQ/s1600/Grud+_+Argentina.jpg]

Madri – 2011

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 143/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://1.bp.blogspot.com/-
HKTIXhlxnMs/UcjQZu93sLI/AAAAAAAAA9g/v7CODXjbLy4/s1600/Grud+_+madri.jpg]

Londres – 2012[10][http://www.blogger.com/#_ftn1]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 144/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://3.bp.blogspot.com/-wBe2Esm7tPM/UcjQZ-
8UjjI/AAAAAAAAA9k/5CsPWiUmACc/s1600/Grud-+Londres.jpg]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 145/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://4.bp.blogspot.com/-2obiEUTqSko/UcjQYnDm1VI/AAAAAAAAA9o/ZidZCTrmQaY/
s1600/Grud+Londres+2.jpg]

Um blog francês, que se intitula “all city blog” e aparece com


domínio francês[11] [http://www.blogger.com/#_ftn1] , diz sobre o
artista:

Narcélio Gurd est un artiste originaire de Fortaleza au Brésil.


Son travail est assez éclectique puisqu'il fait des graffs, des
collages, des toiles et construit des installations aussi bien
visuelles que sonores[12] [http://www.blogger.com/#_ftn2] .

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 146/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://4.bp.blogspot.com/-
GhN3f1FbmuY/UcjQX7RvszI/AAAAAAAAA9M/xZW1twS3cWA/s1600/Grud+Franc%25C
C%25A7a.jpg]

Narcélio Grud é “amigo” no Facebook, compartilha imagens e é


compartilhado por artistas que extrapolam os circuitos
Fortaleza-Lisboa. Afinal de contas, quais os limites do
campo/terreno de uma pesquisa etnográfica que permeia
geografias físicas e o ciberespaço? Onde começa Lisboa e
termina Fortaleza nas artes urbanas que ocupam paredes e muros
digitais?

No próximo Post, como diz Chico Science[13]


[http://www.blogger.com/#_ftn1] , acompanharemos Grud e assistiremos, do
sertão para as metrópoles, do mangue para o mundo um curioso
encontro entre personagens e lugares.

"Vamo simbora que o mundo arrudiou


Vamo simbora que o mundo arrudiou
E se eu ficar aqui parado eu não vou
E se eu ficar aqui parado eu não vou"

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 147/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[1] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] O
Movimento Passe Livre – MPL - originado no Fórum Social Mundial
de 2005, criou a bandeira da “tarifa zero” para os transportes
públicos. Progressivamente, o movimento foi se intensificando
em várias cidades brasileiras. Uma reação ao aumento de
tarifas acabou deflagrando o maior protesto no país, após o
“Fora Collor”. Em razão de uma medida de aumento de R$ 0,20 na
tarifa de São Paulo, no dia 17 de junho, um protesto de grande
impacto envolveu, inicialmente, a capital paulista, alastrando-
se por todo o Brasil. Outras demandas e pautas de
reivindicações ampliaram a agenda das manifestações e os
protestos que, inicialmente, eram pontuais passaram a fazer
parte do cotidiano brasileiro.

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
http://noticias.terra.com.br/brasil/brasileiros-tem-coragem-que-britanicos-nao-
tiveram-diz-the-
guardian,eaa00e154df5f310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html
[http://noticias.terra.com.br/brasil/brasileiros-tem-coragem-que-britanicos-nao-tiveram-
diz-the-guardian,eaa00e154df5f310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html] ,
http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/,745c9e1b7667f310VgnVCM1000009
8cceb0aRCRD.html
[http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/,745c9e1b7667f310VgnVCM10000098cceb0a
RCRD.html] ,
http://www.publico.pt/mundo/noticia/brasil-esta-a-viver-as-maiores-
manifestacoes-das-ultimas-decadas-1597628
[http://www.publico.pt/mundo/noticia/brasil-esta-a-viver-as-maiores-manifestacoes-das-
ultimas-decadas-1597628]

[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3]
LATOUR, Bruno. Ressemblingthe social: an introduction to Actor-
Network-Theory. Oxford: Oxford University Press, 2007.

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4]
MAGNANI, José Guilherme Cantor. Jovens na metrópole:
etnografias de circuitos de lazer, encontros e sociabilidades.
São Paulo: Terceiro Nome, 2007.

[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
93131996000200008 [http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
93131996000200008]

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref6]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 148/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Facebook criado em 2010: https://www.facebook.com/narcelio.grud?fref=ts


[https://www.facebook.com/narcelio.grud?fref=ts]

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref7]
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/09/07/noticias
jornalvidaearte,2914832/narcelio-grud-expoe-na-europa.shtml?
fb_action_ids=470548826318471&fb_action_types=og.recommends&fb_
source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Imagem compartilhada no Facebook do artista.

[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
Imagem compartilhada no Facebook do artista.

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://www.hookedblog.co.uk/2012/09/narcelio-grud-returns-to-london.html
[http://www.hookedblog.co.uk/2012/09/narcelio-grud-returns-to-london.html]

[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://www.allcityblog.fr/25595-bresil-narcelio-grud/
[http://www.allcityblog.fr/25595-bresil-narcelio-grud/]

[12] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
Narcélio Grud é um artista originário de Fortaleza. Seu
trabalho é muito eclético, inclui graffs, colagens, pinturas e
constrói instalações também com elementos visuais e sonoros.
(tradução da autora).

[13] [http://www.blogger.com/#_ftnref1] “Lixo do Mangue”.

Postado há 24th June 2013 por Glória Diógenes

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18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

16th June 2013 Hazul Luzah: a arte atemporal das


sensações

[http://2.bp.blogspot.com/-
nPyt7WXhkNA/Ub3W8Hkjj2I/AAAAAAAAA6A/nxzNoShXo9s/s1600/Hazul+-+painel.jpg]

Retomando os fios

Tal qual narrei no post anterior, o conflito entre graffiters e


o poder público na cidade do Porto acabou por ampliar o escopo
da observação configurada, inicialmente, nos limites da cidade
de Lisboa e, virtualmente, Fortaleza. Nem sempre torna-se
simples obter acesso aos narradores-chave de uma pesquisa.
Nesse caso, por meio do pesquisador/professor Vitor Sérgio [1]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn1] , que
conhece Capicua[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn2] , amiga próxima de um dos artistas

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 150/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

que protagonizou os efeitos da cena primordial “anti-grafito”


no Porto, consegui estabelecer o contato com Hazul Luzah (ver
post anterior).

O ciberespaço permite a célere visibilidade das linhas


contínuas de “amizade” dentro de um mesmo circuito de
relacionamento on-line. Significa dizer que, ao ser indicada
por Vitor Sérgio, para acessar Capicua na busca de Hazul, ao
adiciona-la à minha rede de amigos, no ato, ela pôde visualizar
“os nomes” das “amizades” que travamos em comum[3]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn3] .
Provavelmente, essa nitidez dos campos de afinidade e de
“amigos” partilhados, em muito, facilita um curso etnográfico
que se movimenta entre esferas on-line e off-line.

Essa estratégia, ao contrário de um campo, estritamente, de


natureza presencial, permite a percepção mais clara do que aqui
vou designar de conectividades on line. Foi desse modo que, ao
ser informada pela amiga de Vitor do número do telemóvel de
Hazul, tendo como “senha” o nome Capicua, fui prontamente
atendida. Tendo sido agendado o encontro, dirigi-me ao Porto.
Antes disso, demoradamente, fiz uma pesquisa na Internet, não
apenas sobre a aludida “brigada anti-grafito” na referida
cidade, como acerca da trajetória do artista Hazul Luzah, que
auferiu destaque nesse episódio.

Percorri, em parte do dia 06 de junho, uma zona do Porto[4]


[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn4] a procura
das pistas deixadas pelo conflito narrado na postagem anterior,
como também dos rastos das obras de Luzah nas ruas da cidade.
Interessante perceber que, logo após a publicação da postagem
envolvendo o nome de Luzah, e do compartilhamento pelo artista
na sua página do Facebook[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?
blogID=4042807947703586432#_ftn5] , novos interlocutores aproximaram-
se do blog e acrescentaram preciosas informações à pesquisa.
Uma delas, inclusive sendo registrada na parte dos comentários
no próprio espaço do blog, de Juliana Reis,[6]
[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn6] traz
elementos adicionais significativos à essa discussão:

Oi, Glória!

Há tempos ensaio um comentário por aqui... gosto muito de seu


olhar/texto/produção e te 'sigo' em redes online.
Essa última postagem potencializou, ainda mais, meu desejo de
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 151/172
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interlocução já que estou a viver no Porto há três meses em


função do estágio sandwich...
Em abril, havia em minha caixa de correio uma edição da revista
“Porto Sempre” da Câmara Municipal do Porto que evidenciava uma
ação de “combate aos grafitos”, considerados vandalismo e
poluição visual. A revista apresenta o tal projeto da Câmara
estimulando a “desgrafitagem” diante a “arte de vandalizar
espaços públicos”, um “flagelo estético e ambiental”. (Caso não
tenha visto a publicação, é possível ter acesso online:
http://www.cm-
porto.pt/users/0/58/Rev36_7108745f5d9d0dfa5a5b78a62dc630fe.pdf
e http://www.cm-porto.pt/gen.pl?
p=stories&op=view&fokey=cmp.stories%2F21481)
Fiquei surpreendida com o tom da matéria e a proposta de uma
cidade “asseada, acolhedora e limpa”. Fiquei curiosa por ver as
tais “placas de sensibilização” que avisa que aquela parede
“foi limpa”, na expectativa de encontrar novas intervenções
artísticas que dialogassem com a proposta do poder público.
Mas, ainda não as encontrei... E também na internet ainda não
havia visto contrapontos sobre a ação da Câmara. Por isso,
adorei ver sua imagem da “parede do Rui – riscar aqui”.
Voltarei mais vezes e ainda na expectativa de ler suas
postagens anteriores, visto que também tenho me aventurado em
uma pesquisa multi.situada, que também tenho chamado de
etnografia on e offline. É uma beleza para uma aprendiz da
etnografia ter um caderno de campo como o seu aqui na web!
Obrigada! =)

Logo na capa de abertura da Revista “Porto”[7]


[http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftn7] , indicada
por Juliana, identifica-se o seguinte destaque:

Combate aos grafitos: População do Porto


simpatiza e apoia

O prólogo da matéria apresenta uma carta do Presidente da


Câmara Municipal Rui Rio como texto de abertura:

É por isso revoltante, saber que há alguns vândalos que


durante a noite se entretêm a grafitar as paredes da nossa
cidade, sem respeito pelo que é de todos [...] Sujar a cidade,
degradar o nosso património, e dar do Porto uma imagem que não
ajuda a estimular os turistas, é, em qualquer circunstância,
mas particularmente no momento que vivemos, moralmente
miserável [...]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 152/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Logo apos a carta, segue uma matéria sobre a “brigada anti-


grafito”:

COMBATE AOS GRAFITOS: UMA "LUTA" PERMANENTE

São sete os colaboradores da Câmara Municipal do Porto que


diariamente trabalham em exclusivo no combate aos grafitos,
sendo que, neste momento, a autarquia conta com mais dez
colaboradores do programa “contrato-Emprego-Inserção +”.
Todavia, a autarquia pretendeu ir mais longe ao mobilizar os
estudantes do Porto, através das suas Associações do Ensino
Superior, designadamente da Universidade Lusófona para uma
cultura de cidadania ativa na preservação do meio ambiente, uma
vez que o objetivo é garantir a sustentabilidade para o futuro.
O pior é que, enquanto uns limpam e zelam pelos espaços
públicos, outros persistem em sujar e vandalizar o que é de
todos.

De forma paradoxal, a matéria relaciona o “combate aos


grafitos” à garantia da “sustentabilidade para o futuro”. Que
relação se presume existir entre o futuro e a profusão de
graffiti no Porto? Verifica-se uma tentativa de barrar
qualquer forma de reação de “outros” que “sujam” e “vandalizam
o que é “de todos”. Diante de uma intensa crise econômico-
social, e proximidade das eleições autárquicas (em setembro de
2013) a Câmara do Porto estaria tentando “calar” muros e
paredes? Essa é apenas uma conjectura que deve ser deixada em
suspenso.

Uma matéria[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?


blogID=4042807947703586432#_ftn8] , acompanhada de muitas imagens, na
página on-line da Câmara Municipal do Porto, datada de 14 de
junho, sinaliza que a “guerra” aos grafitos tem prosseguimento:

Combate sem tréguas aos grafitos continua na cidade

A Câmara Municipal do Porto continua a desenvolver a sua


atividade de combate aos grafitos, através da atuação de uma
equipa expressamente criada para o efeito, que tem contado - e
continuará a contar - com a colaboração, em regime de
voluntariado, de estudantes universitários do Porto, iniciativa,
aliás, que tem sido muito bem acolhida pelos comerciantes e
população em geral da cidade.

As várias fotos evidenciam as localidades “antes” e “depois” do

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 153/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

combate aos grafitos e o texto final da matéria assinala quais


serão os próximos passos:

Nos últimos dias, a campanha envolveu a Praça D. João I, as


ruas D. Pedro V, Fernandes Tomás, Senhora das Verdades,
Sobreiras, Comércio do Porto, Rua do Ouro e ainda as Escadas e
Passagem de Codeçal e Escadas do Recanto.

As imagens aqui expostas ilustram, com clareza, como aqueles


espaços se encontravam antes e depois da intervenção.

Para a semana, a brigada anti-grafitos atuará nas ruas da


Alegria, 5 de Outubro e Passos Manuel.

É em meio a esse litígio que os graffiti de Hazul Luzah, foram


apagados da Rua de Sá Noronha, na mesma zona urbana onde,
ainda, sobrevivem outros traços do artista. Após retornar do
Porto para Lisboa, recebo uma mensagem de Hazul compartilhando
outra matéria jornalística sobre o caso, no “Público” do dia 10
de junho:

Pintura de Hazul resiste às brigadas anti-graffiti da Câmara


do Porto

Cerca de duas semanas depois de terem coberto uma pintura de Hazul Luzah, as brigadas
camarárias anti- graffiti deixaram intacto o desenho do artista que decora desde Janeiro o
n.o 170 da Rua das Flores, na Baixa. A acção de limpeza decorreu na semana passada e a
nova atitude da autarquia voltou a gerar alvoroço nas redes sociais, onde esta entidade foi
muito criticada pela eliminação do outro trabalho de Hazul. […] Já na quarta-feira, o
writer par- tilhou na sua página de Facebook duas imagens da Rua das Flores, do
fotógrafo Egídio Santos, uma antes da intervenção das brigadas de limpeza e outra após,
ilustrando as principais diferenças. A publicação circulou pela rede social e as opi- niões
dividiram-se. Enquanto uns aplaudem a separação de “lixo” e “arte urbana”, outros
questionam o valor desta decisão: “Quem é que vai definir o que é arte ou lixo?” […] A
cobertura de uma pintura de Hazul Luzah no dia 21 de Maio, na Rua Sá de Noronha, pelos
serviços camarários gerou protestos nas re- des sociais e a polémica chegou à última
reunião de câmara pela voz da vereadora socialista Manuela Monteiro. O presidente da
câmara, Rui Rio, admitiu que “há uma diferença” entre “uma pintura e uma parede
simplesmente suja e vandalizada”. Todavia, o autarca garantiu que não vai mudar a
política de limpeza das fachadas e que, no Porto, só serão permitidos graffiti com licença
da câmara.

Eu mesma havia passado na Rua dos Flores, no dia 06 de junho, e


http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 154/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

fotografado o trabalho “de limpeza” realizado pela Câmara em


torno da pintura de Hazul. É como se, após a “limpeza” se
houvesse uma moldura invisível na pintura de fundo verde.

[http://4.bp.blogspot.com/-KSIGZSfmS90/Ub3Xc3-
AHAI/AAAAAAAAA6M/aBqB6c6PRq8/s1600/Hazul+-+eu.JPG]

Parte da tensão, mutuamente excludente, reside na definição


entre “arte” e “lixo”, entre o que “suja” e o que “embeleza” a
cidade. É esse “parentesco”, essa proximidade quase
sinestésica, entre o domínio do que pode ser considerado
virtuoso – a arte – e o dispensável, o execrável – o lixo - que
movimenta a esfera intrincada da street art. Pesquisando sobre
o assunto no Google, encontro uma matéria de um jornal
Brasileiro, o “Estadão”[9] [http://www.blogger.com/#_ftn1] de 27 de março
Grafite muda de nome e vira
de 2009 intitulada:

'nova arte pública. No corpo da notícia, identifica-se

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 155/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

passagens que parecem reproduzir a agitação que, atualmente,


dinamiza a vida da cidade do Porto, assim como, novamente, a de
São Paulo:

Aqueles desenhos coloridos que volta e meia aparecem no muro de alguma rua
cinzenta da cidade - para deixá-la (geralmente) mais interessante - não se chamam
mais ‘grafite’. Seu nome agora é ‘nova arte pública’. Não quer dizer que os
grafiteiros passaram a sair por aí dizendo que são ‘novos artistas públicos’, é
verdade. Mas esse foi o jeito que a turma da arte achou para se referir a um
conjunto de trabalhos que incorpora técnicas variadas, tem estilo apurado e se
relaciona tanto com o passado do grafite quanto com a pintura tradicional.

[...]

Este ‘muralismo’ - representado por nomes como Osgemeos, Titi Freak, Zezão,
Speto, Daniel Melim, Stephan Doitschinoff, Nunca, Ramon Martins e Onesto -
vive um de seus melhores momentos, que coincide também com o início do
processo de profissionalização da atividade. É uma mudança de perspectiva: no
ano passado, a Lei Cidade Limpa levou a Prefeitura a cobrir de tinta cinza várias
destas obras - o que reeditou um confronto com os artistas que se repete desde os
anos 70.

A tinta cinza de São Paulo, o amarelo das paredes cobertas por


Rui Rio no Porto, retrata impasses entre o que é considerado
público, e qualquer um pode “tagar” (deixar sua assinatura ao
lado, ou por cima da pintura), “limpar”, remover ou deixar
permanecer; e o que deve ser conservado, também, sob a condição
do público, nos amplificados “museus” urbanos. Essa via de
colisões, por aqui apenas aludida, certamente, conduz para uma
rica querela acerca das escrituras da e na cidade e usos de
seus suportes materiais na ocupação, intervenção e reinvenção
de espaços; tendo a arte como via primordial. Deixemos em
“banho maria” esse canal aqui entreaberto, certamente ele
voltará a emergir nos próximos encontros e paisagens da arte
urbana.

Logo ao retornar do Porto, na madrugada das festas dos santos


populares em Lisboa, entre o dia 11 e 12 de junho, encontro,
subindo a Avenida da Liberdade, um carro com a seguinte
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Pergunto-me - qual a cor da tinta que apagará (apaga), também,


a arte pública de Lisboa?

No Piolho com Hazul

E afinal de contas, quem é o artista do Porto que teve suas


pinturas cobertas, na rua Sá de Noronha e, logo, depois,
preservadas, na rua das Flores? Estive com Hazul Luzah no dia
07 de junho. O artista marcou encontro no Café Piolho[10]
[http://www.blogger.com/#_ftn1] ou Âncora d'Ouro próximo à reitoria da
Universidade do Porto, por volta das 11.30 hs.

Aguardava, por detrás da máscara (ver na publicação anterior)


um indivíduo de porte vigoroso, alto, forte e com uma estética
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18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

mais artística (roupas pouco convencionais, mais coloridas,


adereços de produção de artesões, de aspectos mais alternativos
às mercadorias da moda clássica ou pop). Eis que chega um homem
franzino, de estatura média, de uma aparência que poderia ser
confundida, como disse Tamara Alves (publicação do dia 10 de
maio), ao mais comum dos mortais. Diz ter nascido em 1981 e, em
seguida, corrigi com um largo sorriso – não parece né? Um
homem que tanto já trabalhou em calls centers (e diz que
desenhava entre um e outro atendimento), como uma vez por ano,
passa um mês na França, na região próxima a Limoge, no intuito
de ganhar algum recurso extra colhendo maçãs.

Hazul tem gestos brandos, fala baixo e compassado, diz não ter
pressa e, de quando em vez, ressalta o valor das pequenas e
cotidianas fraternidades. Nesse momento, me pus em cheque,
tendo em vista estar, de algum modo, capturada pelos jogos de
imagens e estereótipos que produzem usuais figurações: o
artista, o intelectual, o operário, o burocrata, dentre tantos
outras.

Desde o início, adverte que “para a gravação eu fico como


Hazul”, tendo em vista nossa conversa inicial ter sido travada
em torno de seu nome de batismo. É que ele havia visitado o
blog e visto fotos minhas com alguns dos narradores graffiters
encontrados no percurso etnográfico. Assim, foi logo elucidando
– “eu não dou a cara”. Hazul prefere deixar anônima a sua
identidade de batismo e dar publicidade apenas ao codinome
artístico – Hazul Luzah. Diz ele, ”eu uso Luzah por ter
associação, também, a alma lusa, lusitana”.

Hazul é o avesso da “cara” do graffiter que já disseminou tags,


que fez bombing (ver publicação do dia 07 de maio) e que segue
anônimo nas paredes do Porto. Uma matéria intitulada: Street
Art: um guia das paredes do Porto pelos desenhos de Hazul[11]
[http://www.blogger.com/#_ftn2] traça as linhas de sua trajetória:

Há sete anos, começou a desenhar formas abstractas, “quase como se


fosse um desconstruir das letras”. Hoje, as suas obras têm
“emaranhadas” a mitologia de culturas antigas, uma evolução que
aconteceu naturalmente. “Sempre me interessei muito por culturas
como a dos egípcios, dos celtas.”

Com esta transição veio o nome Hazul Luzah. “Mas não me perguntes
porquê”, diz o artista, revelando apenas que “tem vários significados”.

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A geometria nos edifícios emparedados

A street art de Hazul é feita de linhas, círculos e outras formas


geométricas que encaixam em qualquer imagem, "uma forma fácil,
rápida e eficaz de preencher o espaço”.

Por meio de sua aproximação com a cultura oriental o nome Hazul


foi talhado e arremeta de pronto a informação: não me perguntas
porquê. Ele parece, propositalmente, se despir de explicações e
teorizações. Sua arte tende a dialogar com o que não se ensina,
com que se aprende por meio da curiosidade e do desejo.

Os traços de Hazul se estreitam entre a velocidade necessária a


uma pintura realizada cladestinamente e o cuidado estético com
formas (quase sempre geométricas) e cores. Ao contrário da
maioria dos artistas já pesquisados, que quando atuam na cena
ilegal do graffiti, no geral “tagam”, fazem estêncis, stickers
(ver diário sobre Tamara Alves, do dia 25 de abril) e quando
pintam murais, mesmo com o uso de sprays, assim o fazem nas
consideradas “paredes legais”.

A trajetória inicial de Hazul na esfera do graffiti inscreve-se


em um tipo de atuação que mais se relaciona ao conviver e
traduzir costumes do lugar em que habita, do que mesmo uma
forma de inserção e escolha de um tipo de moda, de estilo ou
padrão juvenil baseado em uma cultura de natureza global.

Eu nasci e cresci num bairro e quando miúdo, tínhamos muito


hábito de ver o nosso nome na parede, era todo a gente. No
Carvalhido existia muito esse costume, tanto de escrever o nome
do nosso bairro como os nossos nomes. E foi assim que comecei a
sair a noite e percebi que essa cultura do hip-hop e que havia
toda essa linguagem da tag e de desenhar as letras. E daí que
comecei ainteressar-me por escolher um nome[12]
[http://www.blogger.com/#_ftn3] . Meu nome era Ponga. Eu e meu grupo de
amigos, no início nem tínhamos essa noção que podia ser uma
crew, nós só arranjamos um nome para cada um, normal e
escrevíamos, Pegávamos aquela lata de graxa para sapato, não
era sequer tinta, e escrevíamos a nossa tag, na altura. E
depois fui evoluindo, na medida em que ia saindo a noite fui
conhecendo várias pessoas.

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[http://4.bp.blogspot.com/-
FNOTbW5MIy0/Ub3Zb387rYI/AAAAAAAAA6k/Qem6ZeozRLw/s1600/Hazul+-
+assinatura.png]

Arranjar um nome, escolher uma assinatura torna-se assim um


modo de registro social, como diz Hazul, normal, sem o intuito
de entrada em outra ordem, apenas como tipo comum de ritual de
passagem. Nesse escopo de reflexão, como bem sublinha Van
Gennep, [13] [http://www.blogger.com/#_ftn1] “um rito pode agir direta ou
indiretamente. Entendemos como rito direto aquele que possui
uma virtude eficiente imediata, sem a intervenção de um agente
autônomo...” sem que haja um choque inicial. É desse modo que
narra Hazul sua trajetória, para além das nomeações e
ritualizações: não sabíamos o que era “tagar”, o que “crew”, o
que era o graffiti, apenas assinávamos um nome. São quase,
sequências cerimoniais que dinamizavam a vida de um jovem, de
uma cidade pacata, no final dos anos 90, no século XX.

Os ritos iniciais do graffiti, vivenciados por Hazul, quando


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tinha apenas 16 anos (1997) segundo ele, também coincidem com a


emergência dessa própria atividade na cidade do Porto. Segundo
o artista, nessa época o que havia era um, dois, no máximo três
grupos. Saíamos juntos, desenhávamos juntos e os poucos grafos
que haviam toda a gente sabia de quem era. Trocávamos
impressões uns com os outros, nunca fomos rivais, nem nada. Era
assim uma fraternidade. O grupo, como desenhei, se chamava UCA.

Após narrar o tempo em que levou assinando tags, sua passagem


pelo hip-hop ele diz: eu não sabia desenhar, e não sei (fala a
sorrir). Passei por todas as fases; o tag, o bombing, comboios,
fizemos tudo. Até 2005 fiz bombing, não havia no Porto, éramos
poucos. Nessa época, não é como agora. Quando eu comecei a
tagar não havia nada, por mais que eu riscasse as paredes
ninguém ia reparar. Era zero. Quem reparava eram as próprias
pessoas que também faziam.

Observa-se que, por um tempo, esse “manuscrito estranho,


transitório, desbotado”[14] [http://www.blogger.com/#_ftn2] só parecia
legível para os enturmados de um mesmo código de linguagem,
permanecendo invisível para o aglomerado da cidade.
Provavelmente, os termos (tags, crews, graffiti legal e ilegal)
não existiam, não recebiam nomeações, por não fazerem sentido
para outros atores afora aqueles que praticavam nomes.

Acrescenta Hazul: é o que eu sempre achei de quem faz graffiti,


que pinta para quem faz graffiti e não para o conjunto da
cidade. Eu sempre vi o graffiti como uma prova de demonstração
que as pessoas são capazes. Eu vou fazer mais, maior, mais alto
e mais vezes. O graffiti é uma coisa um bocado limitada. São
letras, basicamente, há quem saia um pouco das letras, mas isso
já é experimentação. Para mim o graffiti puro é tag. Eu chamo
graffiti esse movimento das letras, há quem ache que é tudo que
está nas ruas.

Devido a estas consideradas limitações, no que tange à fazer


parte de um restrito “movimento das letras”, em 2004/2005,
Hazul muda a rota de entrada nos registros urbanos e parte para
outras experimentações. Chegou uma época que isso tudo para mim
esgotou e não me apetecia fazer mais. Foi que parei de assinar
por completo, foi que parei de fazer esse Ponga, nunca mais o
fiz. Meus amigos já haviam se afastado, e tenho ideia que o
graffiti é associado a malta jovem.

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Em torno dos 23, 24 anos Hazul continua a pintar na rua, e ao


invés de fazer letras passa a realizar novos experimentos : eu
preferi fazer formas que não tinham muita lógica. Era só uma
junção de cor e linhas.

[http://4.bp.blogspot.com/-CWI63nanpvU/Ub3angqWj3I/AAAAAAAAA64/pgOhUv-
XE0I/s1600/Hazul+-+eu+1.JPG]

(fotografia da autora do blog - Rua das Flores)

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[http://2.bp.blogspot.com/-
zsq7e9haMwk/Ub3ankUitEI/AAAAAAAAA60/DFm_gazPlWE/s1600/Hazul+eu+2.JPG]

(fotografia da autora do blog - Rua João Regras)

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[http://3.bp.blogspot.com/-b-
cuobJHwCM/Ub3bZDwL1fI/AAAAAAAAA7E/gZFDM4K7QFQ/s1600/Hazul+na%CC%83
o+eu.jpg]

(fotografia postada no blog:ruasdoporto.blogspot.pt - Praça


Guilherme Gomes Fernandes).

Hazul torna-se autodidata, passa a ler sobre história da arte.


No campo da prática artística se identifica como alguém que
“aprende fazendo”. Por iniciativa própria, lê filosofia e diz –
Nietzsche é uma dureza. Lia poucas frases e tinha que parar. Em
seguida, Hazul aluga um ateliê, segundo ele, com o intuito de
fazer experiências, treinar outras técnicas, saber mexer com
outras tintas. Aprendi com muitos amigos que faziam curso de
arte, porque eu nunca soube o que se misturava ao quê. Tive que
aprender sozinho. E a medida que fui fazendo novas
experiências, passei a transportar isso para a rua.

Compreende-se, ao longo da narrativa do artista, o gosto pela


experimentação, a arte dos aprendizados espontâneos, efetuados
por escolha e por doses de intuição. Ao interrogar sobre suas

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fontes de inspiração, Hazul revela que gosta de uma linguagem


aplicada e diz eu também, não sei desenhar, eu como nunca
soube desenhar, nunca tive aulas de desenho, tive que,
criativamente, pensar numa forma de me expressar, que eu
gostasse e que soubesse fazer. Foi uma mistura do que eu gosto
com o que estava a ler. Interesso-me bastante por cultura
antiga, oriental. E em qualquer uma deles, a geometria, os
símbolos são coisas muita usadas.

Hazul renuncia a figuração efetuada pelos virtuosos artistas


plásticos e empreende, aquilo que denomina uma arte da
aplicação. É como se Hazul caminhasse no plano das sensações,
do aproveitamento dos saberes ao seu alcance, na invenção de
possíveis, de uma linguagem universal que pode ser compreendida
em qualquer lado: aquilo que fazia no graffiti só era
compreendido por poucos e eu não queria mais estar a me
comunicar com aquelas pessoas eu queria uma coisa mais aberta,
que me permitisse sair daquela estrutura das letras.

É dentro de outra paisagem de significados, construída por


formas “universais”, para além do tempo presente que Hazul
cria, na lacuna do não permitido uma arte extemporânea; não é
graffiti, não é mural, não é legal, não é ilegal, segundo ele,
são apenas experimentos. O artista busca pintar em casas
abandonadas, em lugares esquecidos e inabitados, mesmo que se
situem em sítios de intensa visibilidade pública. Procura
paredes feias que é para melhorar, para não ser destrutivo. Sua
arte, segundo ele, se forma nos pequenos acrescentamentos. Cada
obra que sucede a anterior ele diz acrescentar um bocadinho
mais do que apreendeu, do que exercitou. E complementa: o que
se vê na rua é quase o meu curso, o que vou aprendendo. Assim
Hazul costuma dizer – quem pinta é pintor, quem faz arte é
artista. Às vezes sou pintor, às vezes sou artista, isso se
calhar bem. Nem toda a gente que pinta é artista.

Eu gosto de ver a arte quase como uma utopia, a arte é fazer o


melhor da melhor maneira possível. O sentimento artístico é
quando uma pessoa quer fazer uma coisa bem para ficar bonito,
equilibrado (pode ser pintar, falar ou outra coisa qualquer)
mas considero a arte quase como um sentimento. A pessoa vai
sempre melhorando a ideia, procurando ter o melhor gesto, a
melhor palavra. E essa lógica é uma lógica artística. A arte
vai sempre um bocadinho à frente. Uma pessoa pode desenhar
muito bem e fazer uma cena de terror, isso para mim não é arte,
é técnica, ele tem uma técnica para fazer aquilo. A arte não é

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fazer as coisas bem, tecnicamente, a arte é fazer as coisas do


coração. É uma percepção. A arte é um sentimento de busca pelo
melhor. Eu não considero um artista como hoje é considerado. A
pessoas buscam uma técnica, uma forma de expressão, fica
conhecido e fica preso ali, e reproduz o mesmo estilo, porque
sabe que vai vender. E há muito gente que fica parado nisso e
deixa de surpreender. Eu considero a arte quase como um
sentimento. Se eu olho pra’ aquilo e não sinto nada, nunca vou
considerar aquilo arte.

A arte de Hazul, como se percebe, é um modo de dar expressão ao


inominável que habita o terreno dos sentimentos. Uma
contraposição entre o mundo da técnica e as coisas do coração.
“A lógica da sensação”[15] [http://www.blogger.com/#_ftn1] de que fala
Hazul, em contraposição a uma pintura moderna, a que se refere
Deleuze, que “é invadida, sitiada pelas fotografias e pelos
clichés que se instalam na tela antes ainda de o pintor começar
o seu trabalho”. É dessa lógica que tenta fugir Hazul, tentando
concentrar em suas obras sentimentos “de contracção e vibração
que estão aí, independente de qualquer sujeito” (p. 25).

Desse modo, Hazul antes pintava para os que passavam por suas
artes nas ruas, sem sequer identificar quem eles eram e nem
muito menos o que pensavam sobre o que fazia. Pode-se dizer que
o “pintor”, como assim, por vezes, se autodenomina, passou
quase dez anos anônimo (afora a mãe e os poucos amigos), sem
que houvesse entre ele e suas pinturas, um engate de
percepções, espelhos de reação entre o colorido nas ruas e o
impacto provocado pelas imagens por quem passa e vê. Essa
projeção da recepção de suas artes aconteceu, muito
recentemente, por meio da Internet:

Eu tive a internet muito tarde, toda a fase do graffiti fiquei


sem internet. Tive internet a menos de dez anos. A Internet,
além das minhas viagens, principalmente por Barcelona, me
ajudou a fazer desenhos novos. Eu fiz o Facebook ano passado e
mesmo toda essa coisa dessas notícias terem apagado o meu
graffiti é tudo muito recente. Eu passei dez anos a pintar e as
únicas pessoas que eu tinha opinião eram os meus amigos. Nunca
soube, realmente, o que aa pessoas pensavam, a não ser a minha
mãe. Porque tudo isso era feito numa perspectiva ilegal e nunca
comentei que era eu que fazia. Poucas eram as pessoas que tinha
esse conhecimento. E mesmo quando deixei de fazer a letras e
comecei a fazer todos esses desenhos, continuava a não ter
qualquer noção do que as pessoas pensavam. E com um ano foi que
fiz o Facebook por me convencerem que era importante. Foi

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18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Miguel Januário, o + ou – que me convenceu a fazer Facebook. E


mesmas com essas notícias que saíram agora, eu não percebo
muito bem. Eu realmente quando fiz o Facebook comecei a receber
várias mensagens e as mensagens eram todas muito simpáticas.
Percebi que as pessoas reparavam no que eu fazia e que havia
muitas fotos ao lado das pinturas. E fui tendo alguns convites.

[http://3.bp.blogspot.com/-
WK5365UrofI/Ub3fbWEy9hI/AAAAAAAAA7s/PsNoUtbTyfA/s1600/hazul+-+capicua.jpg]

(página de Capicua no Facebook:


Resumo de um fim de semana intenso.. Depois de um concerto
inesquecível em Coimbra no Festival Santos da Casa, passámos o
Sábado naOLIVA CREATIVE FACTORY
[https://www.facebook.com/OlivaCreativeFactory?
directed_target_id=0] comCanal180 o
[https://www.facebook.com/canal180?directed_target_id=0] a
gravar dois videos neste cenário incrível pintado pelo @Hazul
Luzah (meu amigo de muitos ano).
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18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

A internet, especificamente o Facebook, com a publicação da


foto de um fiscal da Câmara de Lisboa a apagar pintura de
Luzah, mobiliza internautas de diversas partes de Portugal e
fora dele a se insurgirem contra as brigadas camarárias anti-
graffit efetuadas no Porto. Hazul, o artista das
experimentações, quase, solitárias, o “pintor de sentimentos”,
não mais que de repente, se vê em meio a uma multidão de
olhares. Há nas palavras de Hazul Luzah, na sua busca por dar
voz a anseios por meio das formas e cores possíveis, um ímpeto
fora do lugar. No epicentro de um mundo em ebulição, Hazul
insiste, por diversas vezes, em ressaltar a palavra
fraternidade. Diz ele:

O Porto não é Lisboa, o Porto é mais fraterno, mais pequenino,


como se fosse uma família muito grande e é desagradável estar a
pintar na casa das pessoas. Aqui temos que ter a sensibilidade
que o nosso vizinho é nosso companheiro. Nós não podemos cair
no estigma da cidade grande, que ninguém se conhece. Aqui que
temos que, se não tiver azeite, pedir ao vizinho do lado.
Assim, de certa forma acho bom que alguma coisa seja apagada.
As tags são feitas para serem apagadas e a outras pinturas,
embora devam ficar o máximo de tempo possível, vão ser
apagadas, também.

O que é contemporâneo na arte de Hazul é, precisamente, essa


voz que mesmo percebendo a efemeridade da arte se move pelas
pequenas fraternidades. Contemporâneo no sentido delineado por
Agamben, quando indaga no livro “Nudez” – O que É o
contemporâneo[16] [http://www.blogger.com/#_ftn1] – e profere:

O contemporâneo é o alguém que fixa o olhar no seu tempo, para


perceber não suas luzes, mas o seu escuro. Todos os tempos, são
para quem experimenta a sua contemporaneidade, tempos obscuros
[...]

Contemporâneo, como ressalta Agamben, por não se deixar cegar


pelas luzes do século e conseguir nelas apreender a sua
obscuridade íntima (p. 23). Nessa perspectiva o contemporâneo é
alguém, controvertidamente, fora do seu tempo (entre o atual e
o oriental). No registro de cada obra de Hazul, já está
implícito, o seu potencial apagamento, na sua pintura, se
calhar, condensa-se arte e não-arte.

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18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Move-se Luzah na direção de uma arte, como ressalta, sincera.


Alguns muitos que sabem muito mais que eu, diz ele, expressam,
tantas vezes, apenas uma catarse, uma confusão, uma dor, ou, do
contrário, um frio padrão técnico. Algum tempo atrás, o
conhecimento, a razão, a emoção, segundo Hazul era tudo a mesma
coisa.

Com o passar dos tempos se organizou e se dividiu, o místico de


um lado, a ciência do outro lado. A ciência é a matéria, o
material. A arte se situa no meio. Junta a parte da razão, e a
parte mística, não é da religião que falo, é esse sentimento da
arte, do coração. Todo esse conhecimento que eu vou aprendendo
é um se questionar como pessoa. O resto vai acontecendo. Por
isso, eu não imagino o que é um curso de arte. A maior parte
das pessoas que saem de lá, ficam com tantas confusões na
cabeça [...] aprendem a copiar e ficam com a ideia que a
história da arte é aquilo e já foi quase tudo feito. Por isso
que se diz que a arte contemporânea, há vinte, trinta anos, nem
se sabe bem o que é.

Esse não saber onde se situa, essa incessante vontade de fugir


dos padrões, de ir experimentando aos bocadinhos novos
aprendizados, a dissidência de um tipo de arte que já foi feita
acaba propiciando a Hazul Luzah o transitar entre-tempos,
entre-lógicas, entre-lugares. Escutando-o, lendo sobre versões
da arte nos últimos meses, evoco aqui, para findar essa
publicação, a passagem de um instigante diálogo entre José
Gil[17] [http://www.blogger.com/#_ftn2] e Walter Benjamin, quando o
primeiro compara a percepção da aura a ‘um olhar que se
levanta’, “porque há olhares mortos, vazios, ausentes como os
do homem moderno e olhares vivos, auráticos, velados,
vibrantes, porque animados. No azul de Luzah permanece a aragem
dos que, ainda, pintam sentimentos.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 169/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[http://4.bp.blogspot.com/-
y_FVN0WsZz4/Ub3WlCUbzBI/AAAAAAAAA58/6Ltmrfu5h7I/s1600/Hazul+-
+Agulha+inquieta.jpg]

(Agulha Inquieta: https://www.facebook.com/AAgulhaInquieta?


fref=ts)

[1][http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] Do
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

[2] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
https://www.facebook.com/capicuarap?fref=ts
[https://www.facebook.com/capicuarap?fref=ts]

[3] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3] Além


do próprio Vitor, são mais dois “amigos” comuns: Tamara Alves
(artista com destaque no AntropologiZZZando) e Sílvia Ramos,
brasileira, ex-pesquisadora do ICS,.

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 170/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

[4] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref4] A
parte mais histórica e a Baixa, zona onde foram apagados os
graffiters de Hazul.
[5] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref5]
https://www.facebook.com/hazul.luzah?fref=ts
[https://www.facebook.com/hazul.luzah?fref=ts]

[6] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref6]
https://www.facebook.com/juliana.reis.1217?fref=ts
[https://www.facebook.com/juliana.reis.1217?fref=ts]

[7] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref7] do dia


13 de abril , número 36.

[8] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref8]
http://www.cm-porto.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=cmp.stories%2F21481
[http://www.cm-porto.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=cmp.stories%2F21481] )

[9] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,grafite-muda-de-nome-e-vira-
nova-arte-publica-,345880,0.htm
[http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,grafite-muda-de-nome-e-vira-nova-arte-
publica-,345880,0.htm]

[10] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]
https://www.facebook.com/cafepiolho [https://www.facebook.com/cafepiolho]

[11] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
[2] http://p3.publico.pt/cultura/design/5493/street-art-um-guia-das-paredes-
do-porto-pelos-desenhos-de-hazul [http://p3.publico.pt/cultura/design/5493/street-
art-um-guia-das-paredes-do-porto-pelos-desenhos-de-hazul]

[12] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref3] Pedi


para que reproduzisse o nome de sua tag, no meu caderno de
notas.

[13] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] Os
ritos de passagem, Petrópolis: Vozes, 2011, p. 27

[14] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de
Janeiro: Zahar, 1978.

[15] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1] Obra


de Gilles Deleuze, Relógio D’água, Lisboa: 2011, p. 46.

[16] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref1]

http://antropologizzzando.blogspot.com.br/ 171/172
18/2/2014 Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa

Relógio D’água: Lisboa, 2010, p. 22.

[17] [http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4042807947703586432#_ftnref2]
A
imagem e as pequenas percepções – estética e metafenomenologia,
Lisboa: relógio D’água, 2005, P. 63

Postado há 16th June 2013 por Glória Diógenes

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