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GÊNERO: UMA BREVE INTRODUÇÃO

Maria Luíza Heilborn ( artigo extraído de Gênero e desenvolvimento Institucional em ONGs- Núcleo de
estudos da mulher e Políticas Públicas, IBAM, 1995)
Gênero : termo de uso freqüente, comporta : dimensão social (a construção social do sexo / ciências sociais);
dimensão biológica (sexo caracterização anátomo fisiológica dos seres humanos e a atividade sexual propriamente
dita ( jargão sociológico ). Na espécie humana há machos e fêmeas, mas a qualidade de ser homem ou ser mulher é
realizada pela cultura ( Heilborn,1991 ). Mas, por que é possível afirmar que homens e mulheres só existem na
cultura, ou são realidades sociais e não naturais?
A antropologia , ciência que estuda a diversidade cultural das sociedades, é o campo do saber que melhor
responde a esta questão... Através de comparação entre diversas sociedades, pode-se perceber que homens e
mulheres são concebidos e modelados de maneira muito variada, salientando-se assim a fraca indicação que a
natureza desempenha na definição dos comportamentos sociais.
Na cultura ocidental, há convicções muito difundidas, sobre a correlação entre sexo e personalidade. Imagina-
se que o masculino é dotado de maior agressividade e o feminino de maior suavidade e delicadeza, e no senso
comum , imagina-se que estes traços de comportamentos são naturais...
Resultados dos estudos realizados por Margareth Mead, na Nova Guiné, na década de 30, registrados no livro
“ Sexo e Temperamento” ( Mead, 1969), demonstram que uma determinada cultura pode não enfatizar uma relação
entre sexo e personalidade. Já outras, o sistema simbólico em torno da diferença sexual pode eleger o que
chamamos de afetividade como campo privilegiado de diferenciação entre os gêneros. Uma e outra dimensão da
vida social em que se expressam essas representações sobre masculino e feminino, é a dimensão sexual do
trabalho... Portanto , embora certas idéias vigentes em determinados lugares relacionem certos trabalhos a um dos
sexos, em outra sociedade, a coisa se passa de modo distinto. A conclusão é que, a capacitação para uma
determinada tarefa, não é produzida pela natureza dos sexos, mas pela cultura que simboliza as atividades como
masculinas ou femininas.
Há no entanto uma determinada dimensão em que a diferença se instala, é no trabalho reprodutivo, sendo que
várias linhas interpretativas explicam estar na apropriação da fecundidade feminina pelo sexo masculino a origem
da desigualdade entre os gêneros presentes em diversas sociedades ( Barbieri, 1991)... A distribuição das tarefas
entre os sexos é, em muitos sistemas culturais, entendida como uma extensão das diferenças anatômicas
( procriativas ) entre os sexos. Assim parece “ natural, ” que caiba ao sexo feminino uma série de tarefas associadas
ao papel que a mulher ocupa no processo reprodutivo. O cuidado com a prole é sempre destinado às mulheres, mas
este se situa para além do papel reprodutivo. entretanto, ainda assim recebe uma carga simbólica de atributo pré-
social da condição feminina. As mulheres estariam, assim, ideologicamente, representadas como mais presas ou
imersas no plano natural do que os homens. Contudo, a indicação da natureza ou o constrangimento que exerce
sobre a organização social é débil; em sociedades lidamos com formas institucionais e, portanto arbitrárias. É penas
por um efeito da ideologia que ocorre ser freqüente “ conceber instituições estáveis da sociedade antes como formas
“ naturais ” de organização de vida coletiva que como produtos mutáveis da atividade social”. ( Durham, 1983, p.
15). As sociedades que vivemos também estão organizadas por critérios de diferenciação de gênero, que importam
em experiências sociais muito diversificadas para homens e mulheres. Este acondicionamento, acopla-se com
outros de igual importância como o de classe, raça e origem regional, de religião assim por diante.
Estudos da socióloga francesa Anete Langevin (1987) demonstra diferença na experiência social do uso do
tempo por homens e mulheres. O tempo da mulher é o tempo do outro... “O desperdício do tempo” é socialmente
mais aceito para mulheres, assim como quando se move na escala social, os mais pobres são submetidos a maiores
perdas do seu tempo.
Estudos realizados em dois bairros populares cariocas ( Heilborn: no prelo )demonstra também a diferença na
experiência social do uso do tempo por crianças do dois sexos, com o trabalho de dentro de casa... Estrutura-se
dessa maneira uma dinâmica das relações de gênero na família que vai construindo uma percepção diferenciada do
tempo e da experiência entre as crianças. Os meninos gozam de uma relativa “liberdade”, derivada da construção
social da masculinidade nesses grupos sociais. Os meninos tem acesso a um tempo de lazer que decorre fora das
vistas de familiares, que só podem exercer sobre ele um controle menos direto. As meninas e adolescentes, via de
regra, são objeto de restrições relativas aos locais que podem freqüentar e ao tempo que podem passar na “rua”.
Assim o tempo jamais é neutro. A infância é experimentada a partir de indicações sociais que conformam a
trajetória de vida.
A formulação de políticas públicas deve considerar que as experiências sociais de sua população alvo são
diferentes
As sociólogas inglesas Caroline Moser e Caren Levi (1988) desenvolveram distinção muito utilizada entre os
instrumentos que devem orientar a formulação de políticas públicas, considerando-se uma perspectiva de gênero:
necessidades práticas e necessidades estratégicas de gênero... A formulação de política na primeira área, pode
melhorar a qualidade de vida da mulher e daqueles que estão sob os seus cuidados, mas não reverte a distribuição
assimétrica de papéis entre homens e mulheres. Para que isto aconteça é imperativo que as políticas considerem as
necessidades estratégicas de gênero, redefinindo o papel da mulher na sociedade... Idéias acerca do que se espera de
homens e mulheres são produzidas relacionalmente; isto é, quando se fala em identidades socialmente construídas,
o discurso sociológico/antropológico está enfatizando que a atribuição de papéis e identidades para ambos os sexos
forma um sistema simbolícamente concatenado.
Por que gênero? Essa categoria foi tomada de empréstimo à gramática... Em seu sentido original, gênero é o
fenômeno da presença em algumas línguas (indo-européias) de desinências diferenciadas para designar indivíduos
de sexos diferentes ou ainda coisas sexuadas.
Nas ciências sociais, gênero significa a distinção entre atributos culturais alocados a cada um dos sexos e a
dimensão biólogica dos seres humanos (Scott, 1990). O impacto que vem produzindo nas análises sociais funda-se
em ter chamado a atenção para o fato de que parte da humanidade estava na invisibilidade – as mulheres – e o seu
uso assinala que tanto elas quanto os homens são produto do meio social e portanto sua condição é variável.